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■ ■ ■ ■ ■ ■ O autor deste livro e a EDITORA GUANABARA KOOGAN empenharam seus melhores esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram atualizados pelo autor até a data da entrega dos originais à editora. Entretanto, tendo em conta a evolução das ciências da saúde, as mudanças regulamentares governamentais e o constante fluxo de novas informações sobre terapêutica medicamentosa e reações adversas a fármacos, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas neste livro estão corretas e de que não houve alterações nas dosagens recomendadas ou na legislação regulamentadora. 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Capa: Ricardo Lima Produção digital: Geethik Ficha catalográfica C43s Chanes, Marcelo SAE descomplicada / Marcelo Chanes. – 1. ed. – São Paulo : Guanabara Koogan, 2018. 158 p. : il. ; 21 cm. http://www.grupogen.com.br/ mailto:editorial.saude@grupogen.com.br http://www.geethik.com/ Inclui bibliografia ISBN 978-85-277-3277-2 1. Enfermagem. 2. Diagnóstico de enfermagem. 3. Enfermagem - Prática. I. Título. 17-44495 CDD: 610.73 CDU: 616-083 Dedico este livro a todos os enfermeiros por vocação, que, diante de um cenário de extremas mudanças tecnológicas na saúde, buscam ressignificar sua identidade e, assim, empoderar-se em seus papéis. Marcelo Chanes Colaboradores Alison Guimarães Gomes Enfermeiro. Especialista em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF). Professor-assistente da disciplina Práticas de Enfermagem do Laboratório do Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (UNIPLAN). Ana Cristina de Sá Especialista em Toque Terapêutico pelo Método Krieger-Kunz pela TT International Org., EUA e Canadá; em Aprimoramento Modalidade Residência em UTI pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP); e em Administração Hospitalar e em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo. Mestre e Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da USP (EEUSP). Professora Doutora das disciplinas Práticas Clínicas, Semiologia e Semiotécnica, Prática e Processo de Enfermagem do departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Centro Universitário São Camilo e da Universidade Anhembi-Morumbi Laureate International. Membro da Society of Rogerian Scholars e do Grupo de Trabalho de Práticas Integrativas do COFEN. Lucio Henrique D’avila Moreira Graduando em Enfermagem e Integrante do Programa Iniciação Científica da Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA). Lynda Juall Carpenito Enfermeira pela Seton Hall University Clinical, EUA. Especialista em Processo de Enfermagem pelo Wilmington Medical Center, EUA. Mestre em Licenciatura em Enfermagem com Componentes em Enfermagem Médico-cirúrgica e Ensino pela University of Pennsylvania, EUA. Pósgraduada pelo Programa de Enfermeiros Familiares da Thomas Jefferson University, EUA. Presidente da LJC Consultants Inc., EUA. Marcos Alves Pessanha Enfermeiro pelo UNIPLAN. Especialista em Centro Cirúrgico pela Faculdade APOGEU. Professor-assistente da disciplina Centro Cirúrgico do Centro de Treinamento Consultar (CTCON). Rosângela Gonçalves da Silva Especialista em Formação Didático-pedagógica em Enfermagem pelo Instituto de Estudos Avançados e Pós-graduação (ESAP). Mestre em Biociências pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Doutoranda em Biotecnologia da Unesp, campus Araraquara. Professora Titular das disciplinas Introdução à Enfermagem, Técnicas Fundamentais de Enfermagem, Ética e Legislação Profissional e Análise Crítica da Evolução Histórica da Enfermagem do departamento de Enfermagem da FEMA/Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis (IMESA). T. Heather Herdman Mestre em Ciências e Doutora em Enfermagem pela Boston College. Professora-associada da University of Wisconsin-Green Bay, EUA. Diretora Executiva da NANDA International Inc. Apresentação Esta obra discute a SAE sob uma perspectiva cognitiva, desmistificando-a como atividade burocrática, e apresenta a diferenciação e interseção da SAE com o Processo de Enfermagem, explicando passo a passo como realizá-los com foco em metas e resultados positivos. De maneira didática, os capítulos abordam cada fase da SAE e do Processo de Enfermagem à luz da literatura e, sobretudo, da prática reflexiva do enfermeiro. Além disso, contam com novidades como uma nova teoria de Enfermagem, a Teoria da Enfermagem Reflexiva, o novo Processo de Enfermagem e as mudanças na compreensão dos diagnósticos como base para os cuidados. Breve e prática, esta obra fornece subsídios para a melhor compreensão da SAE e dos conceitos que a cercam, descomplicando-a e favorecendo seu uso de maneira eficaz, dando rosto e identidade à Enfermagem de sua instituição. Revolucione o cuidar, descomplique a SAE, leia e reflita sobre esta obra. Marcelo Chanes Material Suplementar Este livro conta com o seguinte material suplementar: Vídeos que complementam os temas abordados na obra. O acesso ao material suplementar é gratuito. Basta que o leitor se cadastre em nosso site (www.grupogen.com.br), faça seu login e clique em GEN-IO, no menu superior do lado direito. Em seguida, clique no menu retrátil ( ) e insira o PIN de acesso localizado na primeira orelha deste livro. É rápido e fácil! Caso haja alguma mudança no sistema ou dificuldade de acesso, entre em contato conosco (gendigital@grupogen.com.br). http://www.grupogen.com.br/ mailto:sac@grupogen.com.br Grande diferencial da obra, o material suplementar conta com vídeos que apresentam um conteúdo de qualidade por meio de aulas, entrevistas e bate- papos, enriquecidos com a utilização de diversas tecnologias, como lousa digital, tablet interativo e lousa virtual. Tudo isso contribui para que enfermeiros e estudantes de graduação em Enfermagem compreendam, de maneira simples e didática, a Sistematização da Assistência de Enfermagem. Para cada capítulo, foi elaborado um vídeo que explica com detalhes um ponto importante de reflexão sobre o assunto abordado. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. Sumário Identidade e Autonomia do Enfermeiro Alison Guimarães Gomes • Marcos Alves Pessanha • Marcelo Chanes SAE Descomplicada Marcelo Chanes Teorias de Enfermagem e SAE Ana Cristina de Sá • Lucio Henrique D’avila Moreira • Rosângela Gonçalves da Silva Teoria da Empatia Reflexiva Marcelo Chanes Coleta de Dados Marcelo Chanes Diagnose e Diagnósticos de Enfermagem Marcelo Chanes Planejamento de Metas e Resultados Marcelo Chanes Planejamento de Intervenções e Prescrições Marcelo Chanes 9. 10. 11. 12. Implementação da SAE Marcelo Chanes Avaliação Contínua do Cuidado Marcelo Chanes Acurácia no Diagnóstico T. Heather Herdman • Marcelo Chanes SAE como Base para a Atuação Interdisciplinar do Enfermeiro Lynda Juall Carpenito • • • Objetivos deste capítulo Conceituar Enfermagem como disciplina, profissão e papel Conceituar identidade e autonomiaCorrelacionar a Sistematização da Assistência de Enfermagem como ferramenta de identidade e autonomia do enfermeiro. Palavras-chave: Enfermagem, identidade, disciplina, profissão, papel. O que é Enfermagem A definição de “Enfermagem” pode parecer simples, por ser geralmente feita com a descrição do que os enfermeiros fazem, e não de quem realmente são. O componente do “fazer” é tão explícito e tangível que parece resumir a própria Enfermagem. Entretanto, cabe olhar para a Enfermagem de uma maneira mais profunda. Burresh e Gordon 1 recomendam que o profissional, em qualquer situação na qual diga quem é, não se restrinja a dizer “sou enfermeiro”, sendo mais explícito; por exemplo: “Sou enfermeiro, trabalho em uma unidade de oncopediatria e asseguro a humanização no atendimento à criança por meio da brinquedoteca, espaço no qual, de maneira lúdica, dramatizo os procedimentos aos quais a criança será submetida no dia seguinte. Isso facilita a adesão ao tratamento. Ainda, com orientações simples, mas objetivas e claras, oriento e educo os pais para que estejam seguros de que os procedimentos são necessários para a criança e de que a equipe está capacitada para realizá-los”. Para analisar “Sou enfermeiro (não parou aqui, pois apenas essa informação não explica a Enfermagem), trabalho em uma unidade de Oncopediatria (situou a unidade e o contexto de trabalho) e asseguro a humanização no atendimento à criança (compromisso) por meio da brinquedoteca (recurso), espaço no qual, de maneira lúdica (método de trabalho), dramatizo os procedimentos aos quais a criança será sub-metida no dia seguinte. Isso facilita a adesão ao tratamento (meta). Ainda, com orientações simples, mas objetivas e claras (recursos), oriento e educo os pais (método de trabalho e expressão de que atende além da criança) para que estejam seguros de que os procedimentos são necessários para a criança e de que a equipe está capacitada para realizá- los (meta).” A demonstração de confiança e a clarificação melhor do papel do enfermeiro conferem uma definição de Enfermagem que ultrapassa o mero “fazer”, dando um sentido de uso de recursos e métodos para o alcance de metas. Com isso, pode-se avançar um pouco mais e, considerando os itens destacados no quadro, perceber que Enfermagem é definida como um tripé, apresentado na Figura 1.1. Por ser uma disciplina, a Enfermagem exige e produz saberes e conhecimentos. Segundo Parker 2 , em sua prática, a Enfermagem apropria- se de fatos, dados, conceitos, investigações e abordagens ímpares que a diferenciam das outras disciplinas e rascunham suas fronteiras do conhecimento. Os saberes da Enfermagem são os valores e conceitos que guiam o pensamento e o trabalho do enfermeiro (Figura 1.2). Figura 1.1 Conceito de Enfermagem como um tripé. Garret 3 remete a uma visão de Enfermagem que define que a esta cabe fazer duas grandes perguntas: “como” e “por que”. Essas perguntas trazem os fatos, dados e conceitos, sendo um processo de investigação e de abordagem único. Figura 1.2 Variantes do tripé da Enfermagem: saberes e conhecimentos. Para re�etir Enfermeira Júlia recebe a Sra. J.G., de 68 anos, acompanhada do �lho, no prontosocorro de um hospital geral. Ao observá-la, Júlia percebe que a paciente está abatida, com demonstrações de emagrecimento e expressões de fadiga. Então, Júlia faz sua primeira pergunta: — Sra. J.G., como se sente? A paciente relata que está febril e com diarreia há 1 semana, perdendo peso e sentindo forte cansaço. Júlia continua sua busca de fatos e dados e pergunta: — Sra. J.G., como se cuidou nessa semana? A paciente relata que tomou chás e um medicamento para a febre, porém sem efeito. Ao exame físico, Júlia percebe linfadenopatia e manchas vermelho-escuras pelo corpo da paciente, bem como turgor da pele diminuí do e boca seca. Em sua busca de fatos, Júlia pergunta: — Sra. J.G., desde quando essas manchas e ínguas estão presentes? A paciente desconversa e diz que o que precisa é de um anti bió tico para sarar. Júlia prontamente pergunta: — Por que a senhora acredita que um antibió tico resolverá sua condição? A paciente, com o dedo em riste e lágrimas nos olhos, responde: — Porque sou mulher de um homem só, não sou promíscua. O que tenho é uma infecção, e não AIDS, como a minha vizinha. Júlia, empaticamente, diz: — Sra. J.G., precisamos fazer alguns exames antes de a�rmar o que a senhora tem e qual anti bió tico é a melhor opção. Mas preciso que colabore comigo na realização desses exames. Posso contar com a senhora? A paciente aceita e é encaminhada à consulta médica e aos exames sorológicos. Ao usar as perguntas “como” e “por que”, a enfermeira foi capaz de acessar dados do mundo subjetivo e objetivo da paciente, sem minimizar os valores e conceitos do papel complementar*. A Enfermagem compreendida como profissão, por sua vez, remete aos métodos e recursos de seu trabalho. McEwen e Wills 4 afirmam que, na sociedade, há profissões e ocupações, e que a Enfermagem surgiu como uma ocupação, ou seja, como trabalho. A Enfermagem, em seus primórdios, era executada por pessoas leigas e marginalizadas. Florence Nightingale elaborou um modelo de escola de Enfermagem, ensinando, entre outras funções, o raciocínio crítico, a atenção às necessidades individuais e o respeito aos direitos do paciente. Nightingale, assim, transformou a Enfermagem em uma das ocupações mais importantes do hospital em sua época. À sua concepção de formação de enfermeiras, deu-se o nome de Treinamento. Enfermagem como profissão Uma profissão, por sua vez, é uma vocação, tem um status de superioridade em função dos saberes que domina. Esses saberes favorecem o estabelecimento, a educação, o treinamento, a implementação e a avaliação de métodos e recursos (Figura 1.3). Outra característica marcante de uma profissão é que esta possui metas bem definidas para que o uso de métodos e recursos seja justificado. A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e o Processo de Enfermagem (PE) configuram-se como sistemas e instrumentos. Ambos são ferramentas de uso exclusivo da profissão e auxiliam no alcance de metas. O uso de sistemas e instrumentos configura a tecnologia de uma profissão, e a aplicação dessas tecnologias visa à solução de problemas (metas). Contudo, considerando-se o berço da palavra tecnologia, chega-se ao grego technologia, que significa arte. Potter e Perry 5 descrevem: Enfermagem é tanto uma arte como uma ciência. Sua prática exige uma mistura dos mais atualizados padrões de conhecimento e prática associados a uma abordagem do cuidado do cliente de forma humana e cheia de discernimento. Assim, o olhar para Enfermagem como profissão e disciplina se consolida em um único conceito que abarca a tecnologia atual (SAE e PE). Figura 1.3 Variantes do tripé da Enfermagem: métodos e recursos. Teorias de Enfermagem Para que a Enfermagem pudesse se definir como ciência, foi necessária a produção de Teorias de Enfermagem e, para a formulação de uma teoria, é necessário definir quatro elementos, conhecidos como metaparadigmas: enfermagem, indivíduo, ambiente e saúde. A primeira teorista foi Florence Nightingale, que descreveu o papel do enfermeiro como alguém que deveria colocar o paciente na melhor condição possível para a natureza restaurar ou preservar sua saúde. A partir de Nightingale, a ideia de cuidado passou a ser discutida como objeto de estudo da Enfermagem, pois este é o objeto da disciplina. 1. 2. • • • • • • As Teorias de Enfermagem procuram definir o cuidado e o processo de cuidar, bem como os recursos e métodos mais adequados para tanto. Elas surgiram por uma necessidade de busca de identidade própria, como resultado de uma reflexão feita por algumas enfermeiras norteamericanas que tentavam entender suas próprias práticas. Isso as fez buscar um campo de conhecimento específico, encontrando, assim, um significado para a Enfermagem e, consequentemente, um papel social para si mesmas. Para re�etir Você decidiu construir a casa dos seussonhos. Para tanto, contratou um arquiteto, e este buscou conhecer sua personalidade e seu estilo de vida, para, assim, desenhar a casa que melhor correspondesse às suas expectativas. Após diversas reuniões, ele lhe entregou o projeto pronto. E você contratou um engenheiro para fazer a análise do solo e supervisionar a construção, bem como contratou pedreiros, marceneiros, encanadores, entre outros pro�ssionais, para a execução da obra. Depois de alguns meses, você recebeu a casa dos seus sonhos. Agora responda: Quem participou da entrega do seu sonho? Quem realizou ações técnicas na construção de sua casa? Se observar bem, você perceberá que as pro�ssões realizam uma entrega de valor social, isto é, baseada na vocação, a qual está apoiada em algumas premissas: 4 Base de conhecimento especí�ca Empoderamento para treinar e desenvolver a aprendizagem Empoderamento para documentar e registrar a atividade Entrega de valor à sociedade Código de ética Socialização prolongada • • • • Autonomia. Uma ocupação não possui essas premissas, portanto, segue as decisões das pro�ssões, tendo, assim, uma autonomia decisória menor. A partir desse exemplo, percebe-se que uma profissão tem (e desenvolve) conhecimento como norteador de sua prática. Já uma ocupação segue as indicações, muitas vezes, de uma profissão. Sendo um trabalho vocacional e que deve ter uma entrega clara à sociedade, a Enfermagem esbarra com a falta de (re)conhecimento e valorização. Burresh e Gordon 1 fazem uma reflexão sobre um estudo que comprovou que a Enfermagem é sub-representada na mídia em reportagens sobre saúde. O estudo, feito em jornais e websites do mundo todo, apontou que o médico é o profissional de saúde mais reconhecido e demonstrou, ainda, que outras 11 profissões de saúde tinham um percentual maior de representatividade que os enfermeiros. Um olhar mais crítico leva a compreender que, no atual cenário da saúde, a Enfermagem está enfraquecida e merece resgatar seu valor e reconhecimento. Para “re-evolucionar” a Enfermagem, esse estudo apresenta três importantes dicas: Os enfermeiros devem estar disponíveis para falar sobre seu trabalho (ser mais específicos) Os enfermeiros devem falar menos de sua vocação e mais de seu conhecimento Os enfermeiros devem dar mais ênfase à enfermagem assistencial e menos ênfase às outras áreas, valorizando a assistência como a Enfermagem pura. Cabe ainda reforçar que a construção da imagem profissional da Enfermagem tem de lidar com um ponto sério que pode denegrir a profissão: os enfermeiros precisam entender que sua imagem profissional, ao trabalhar o ser holístico, não é uma sobreposição nem tampouco a realização do trabalho de outros profissionais, como assistentes sociais, médicos e psicólogos. O cenário de falta de (re)conhecimento da Enfermagem só mudará quando os enfermeiros mudarem sua fala sobre quão virtuoso é esse trabalho, ou quando evitarem comentários negativos sobre a profissão e passarem a falar sobre seu conhecimento e valor. A premissa é acabar com o silêncio. No caso da Enfermagem, utilizando o exemplo da casa, a entrega social é o alcance dos melhores resultados possíveis em saúde, o que só é possível por meio da SAE. Para tornar essa entrega social visível, necessita-se de um trabalho de comunicação de cada enfermeiro com seu papel complementar. Atenção Enfermagem é pro�ssão. É tecnologia (arte) e uma abordagem com discernimento adequado para que os métodos e recursos sejam realizados e usados de maneira correta e direcionada às metas. Enfermagem também é identidade. Gutierrez e Morais 6 afirmam que identidade é uma fonte de significados construídos a partir de um processo de significação do passado, avaliação do presente e prospecção do futuro. E, segundo Angel et al. 6 , o enfermeiro com um autoconceito adequado alcança melhores resultados. Gil 7 afirma que a identidade é positiva, ou seja, sempre será uma expressão como: “Sou enfermeiro”, “Sou torcedor do time da minha cidade”, “Sou voluntário em uma ONG”. Assim, a identidade é enxergar-se, reconhecer-se e aceitar-se plenamente com a possibilidade de afirmação como um sujeito de saberes, conceitos e espaços. Isso remete ao tripé da identidade, por meio da qual se cria o autoconceito e pode-se assumir papéis na sociedade (filho, pai, profissional, cliente, servidor, consumidor, eleitor etc.). Significar-se, portanto, é fundamental para o preenchimento completo e a atuação do que é ser enfermeiro. Para Gutierrez e Morais 8 , a formação da identidade profissional é complexa, é um produto de mecanismos sociais nos quais o indivíduo se insere para significar-se como determinada profissão (p. ex., a graduação ou seus estágios). Os autores afirmam ainda que características pessoais, o contexto da empresa e o decurso da existência (carreira) afetam a consolidação da identidade profissional. Isso significa que um enfermeiro que atuou sua carreira toda em um hospital hierarquizado encontrará dificuldades para forjar sua identidade em um hospital dinâmico e centrado no paciente, uma vez que ambiente afeta a maneira como cada um é formado ou autoconceituado. Assim, com um autoconceito bem definido, o enfermeiro consegue atuar em seu papel social de maneira consciente e preditiva, não se esquecendo de sua importância e relevância social. Atenção Enfermagem é identidade. É um autoconceito de quem você é como pro�ssional, de suas habilidades e possibilidades. Pode-se, então, visualizar a Enfermagem em seu tripé disciplina, profissão e identidade, mas, ao aprofundar o olhar, nota-se que ela é formada por saberes, conhecimentos, métodos, recursos, autoconceito e papel (Figura 1.4). Atenção O saber da Enfermagem é formado na medida em que vários conhecimentos são considerados constituintes da pro�ssão. Ao mesmo tempo, para a autonomia pro�ssional, é importante a elaboração de um saber especí�co, que tem como signi�cado a delimitação da essência da pro�ssão (o cuidado) e a constituição de um espaço próprio de poder. Figura 1.4 Variantes do tripé da Enfermagem: saberes, conhecimentos, métodos, recursos, autoconceito e papel. SAE no contexto da identidade e autonomia profissional A SAE é uma metodologia de organização, planejamento e execução de ações coerentes, pensadas e significadas pelo enfermeiro no período em que o papel complementar se encontra sob os cuidados de Enfermagem. Constitui, portanto, um modelo de gestão de processo de trabalho (método) que sistematiza a assistência e direciona o cuidado integral e individualizado, garantindo segurança ao papel complementar e aos profissionais envolvidos com na assistência. Em face da constante busca pela qualidade da assistência, com trocas de informações e demandas das instituições de saúde para maximizar recursos e diminuir custos, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), em 2002, tornou obrigatória a implementação da SAE em todos os Estabelecimentos de Atenção em Saúde (EAS), determinando as etapas para a sua operacionalização. Sete anos depois, em nova resolução, determinou a obrigatoriedade e a necessidade de sua aplicação na prática, preconizando-a como atividade privativa do enfermeiro e subsidiando, assim, as ações que possam contribuir para a efetiva implantação do PE. O PE é um instrumento que orienta o cuidado de enfermagem, caracterizando uma afirmação da prática profissional, e deve ser baseado em uma teoria que oriente suas etapas – daí a importância da escolha de uma Teoria de Enfermagem. Cabe, portanto, ressaltar que a SAE e o PE são inter-relacionados, apesar de suas especificidades conceituais e operacionais, e que, quando incorporados no processo de trabalho, permitem organizar e avaliar a prática de Enfermagem de forma a melhorá- la e garantir a continuidade das informações sobre o cuidado. Para analisar A SAE é a principal estratégia para melhorar a qualidade da assistência e fortalecer a Enfermagem como pro�ssão, uma vez que proporciona ao enfermeiro a de�nição do seu papel. Ela se faz necessária para aavaliação crítica da pertinência e relevância do trabalho de Enfermagem frente ao atendimento das necessidades do papel complementar, pois possibilita o uso dos saberes e conhecimentos, sobretudo os de gestão do cuidado. A SAE oferece benefícios para o paciente, para a profissão e para a instituição. O benefício para o papel complementar é o cuidado de qualidade, uma vez que levará em conta sua individualidade e suas necessidades. Para a profissão, os benefícios são a autonomia profissional e o reconhecimento pela qualidade da assistência prestada ao papel complementar, refletindo na importância social e na responsabilidade profissional do enfermeiro. Por fim, o benefício para a instituição é a organização do cotidiano da equipe, a maneira como geralmente o cuidado é registrado no prontuário, facilitando o controle de metas. A autonomia do enfermeiro, possibilitada pela SAE, pode ser definida como habilidade de autodeterminação, de ser independente, isto é, o indivíduo tem o poder e a habilidade de decidir ou agir sobre si mesmo. Assim, é importante que o papel complementar na SAE seja considerado sujeito do cuidado, e não objeto. A luta pela identidade e autonomia profissional do enfermeiro é histórica e incessante. Apesar de muitas conquistas profissionais, essas questões ainda são muito discutidas no meio acadêmico, profissional e político, pois perpassam por diversos fatores, como imagem profissional, salário, reconhecimento, espaço de trabalho, papel e saber/fazer próprios. Entende-se por autonomia profissional a capacidade que o enfermeiro tem de se autodeterminar dentro da equipe de saúde, no exercício legal de suas atribuições profissionais, de acordo com o sistema de saúde vigente de um país, uma região ou uma comunidade. A arte de cuidar é o foco central da profissão, fundamentando-a e justificando as ações da equipe de Enfermagem. Entretanto, para que o cuidado seja elemento presente nas ações, precisa estar inserido inicialmente nas relações entre os próprios profissionais, a fim de que não haja empecilhos para os processos cuidativos. O enfermeiro deve desenvolver constantemente seu pensamento crítico e manter ativas, em sua atuação como líder, as motivações como cuidador e a empatia reflexiva. Considerações finais Diante dessa descrição conceitual, pode-se afirmar que os enfermeiros e seu papel complementar são seres humanos reativos e que interagem em situações específicas para alcançar propósitos particulares. Os enfermeiros cuidam do papel complementar como um todo (desde sua saúde até sua condição de adoecimento, cura ou morte), procurando capacitá-lo a utilizar sua habilidade potencial para funcionar como ser humano, desenvolvendo- se ao máximo no desempenho de seus papéis cotidianos. O tripé da Enfermagem (disciplina, profissão e identidade) é importante para resguardar sua autonomia, seu caráter, sua competência e seu reconhecimento social como a realização de um cuidado organizado e voltado às metas. Essa análise é necessária para a compreensão da importância que a SAE exerce na construção da autonomia profissional do enfermeiro, o que representa uma questão de destaque quando se busca compreender a profissão, tanto ao expressar os desafios e objetivos quanto na maneira como os enfermeiros se relacionam e se apresentam para equipes multiprofissionais e para a sociedade em geral. Apesar de a SAE oferecer ao enfermeiro uma possibilidade de organizar seu trabalho com base em uma filosofia e em um método que prioriza a individualidade do cuidado, com consequente melhora da qualidade, visibilidade e credibilidade, os profissionais preferem manter o antigo modelo assistencial de prestação de serviços e continuam utilizando apenas duas etapas: exame físico e evolução de Enfermagem, descontextualizadas dos verdadeiros princípios e da necessidade da SAE. Para re�etir Qual é o seu papel no futuro da Enfermagem? 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. Será um enfermeiro centrado no modelo médico ou um enfermeiro centrado na compreensão do conceito do tripé de Enfermagem? A vida é feita de escolhas. Referências bibliográficas Burresh B, Gordon S. Do silêncio à voz. 2. ed. Loures: Lusociência; 2006. Parker M. Nursing theories and nursing practice. Philadelphia: FA Davis Co; 2001. Garret B. Science and modern thoughts in nursing. Hampshire: Nothern Lights Media; 2014 McEwen M, Wills EM. Bases teóricas para enfermagem. 2. ed. Porto Alegre: Artmed; 2009. Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2009. Angel E, Cravem RA, Denson N. The Nurses self-concept instrument: assessment of psychometric properties for Australian domestic and international students. Int Journal of Nursing Studies. 2012;(49):880-6. Gil J. Em busca da identidade – O desnorte. Lisboa: Relógio D’Água; 2009. Gutiérrez MG, Morais SCRV. Sistematização da assistência de enfermagem e a formação profissional da identidade profissional. Rev Bras Enf. 2017;70(2):445-60. * ____________ O termo “papel complementar” foi escolhido nesta obra para referir-se ao indivíduo, à família e/ou à comunidade atendida pelo enfermeiro. • • • Objetivos deste capítulo Conceituar e diferenciar Processo de Enfermagem e Sistematização da Assistência de Enfermagem Descrever as fases do Processo de Enfermagem e da Sistematização da Assistência de Enfermagem Descrever as fases do Novo Processo de Enfermagem. Palavras-chave: Processo de Enfermagem, Sistematização da Assistência de Enfermagem, Novo Processo de Enfermagem. Sistematização da Assistência de Enfermagem Entender a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é, atualmente, um desafio para os enfermeiros. Diversos fatores levam a esse paradoxo, pois, se a SAE sistematiza, ela descomplica. Sistematização deriva da palavra “sistema”, que é um conjunto de processos gerenciáveis com o objetivo de manter uma prática sem obstáculos. A SAE organiza, ou seja, favorece a lógica do saber aplicada ao fazer em Enfermagem. Esse fazer é realizado por meio do Processo de Enfermagem (PE), havendo, então, dois conceitos irmãos: SAE e PE. Por serem conceitos irmãos, muitos enfermeiros não compreendem exatamente cada um deles e os afastam. Com base em estudos na literatura, esta obra apresenta um PE mais minucioso na explicação e demonstração de seus passos, facilitando, assim, sua compreensão. PE e SAE A SAE surge dentro do processo de regulamentação da atuação do enfermeiro pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) 1 e tem como objetivo favorecer a implantação do PE, um sistema de raciocínio lógico do profissional sobre seu papel para cada paciente, família ou comunidade no momento de decidir os Diagnósticos de Enfermagem (DE) mais relevantes e escolher resultados de impacto e intervenções eficazes. O PE não é recente na história da Enfermagem, tendo sua base nos relatos de Florence Nightingale sobre a necessidade de julgar as observações acerca do papel complementar. Hoje, essas observações não são o PE em si, mas é possível perceber que elas o subsidiam. O PE foi estudado amplamente entre as décadas de 1950 a 1970, e muitos pesquisadores dedicaram tempo a publicações sobre esse tema. No Brasil, a grande referência é Wanda de Aguiar Horta, hoje considerada um “estado da arte” sobre o assunto. Atenção Em 1986, a Lei nº 7.498 sobre o Exercício Pro�ssional de Enfermagem determinou que o PE é privativo do enfermeiro. Em outras palavras, determinar como será o plano de cuidados é exercício legal dos bacharéis em Enfermagem. • • As etapas do PE descritas pela autora e apresentadas na Figura 2.1 tornam-se o fazer do enfermeiro. Cada etapa do PE possui um objetivo bem delimitado. Em uma estrutura conjunta com as explicações de Horta 2 e Doenges et al. 3 , o PE tem a configuração apresentada na Tabela 2.1. Figura 2.1 Etapas do PE. Fonte: Horta, 2011. 2 Tabela 2.1 Configuração do PE. Conceito Recomendações Premissa Histórico de Enfermagem ou investigação Roteiro sistematizado, dinâmico e organizado de coleta, organização e documentaçãode dados objetivos e subjetivos que possibilitem a identi�cação dos DE Ser objetivo, claro e individual Não conter duplicações de dados Conhecer sua identidade e seu papel para saber exatamente quais dados são relevantes para coleta • • • • • • • no histórico de Enfermagem Diagnóstico de Enfermagem Análise ponderada dos dados coletados para identi�car e estabelecer os fenômenos pelos quais o enfermeiro é responsável, de maneira que a assistência e�caz possa ser planejada Promover re�exão e pensamento clínico sobre a totalidade do papel complementar Ter visão holística Reconhecer a necessidade de priorização Correlacionar os achados para determinar a dependência da Enfermagem e encontrar os fenômenos prioritários que deverão guiar o plano de cuidados para o papel complementar, encontrando, assim, a lista de diagnósticos Plano assistencial Determinação global da assistência de Enferma-gem para atender ao DE por meio do estabeleci-mento de prioridades, metas e resultados Ser estrati�cado por cuidados prioritários Pontuar metas De�nir maneira de avaliar Propor ações para o estado clínico do papel complementar e do grau de dependência apresentado Plano de cuidados Roteiro diário de cuidados que Ser objetivo (verbo Priorizar os cuidados que • • • • descreve as atividades a serem realizadas para resolver o DE; da avaliação diária do enfermeiro sobre os cuidados que atendam e�cazmente cada DE encontrado no in�nitivo + foco de atenção + meios e instrumentos para o cuidado + periodicidade) sustentem a qualidade de vida e de sobrevivência Evolução de Enfermagem Relato diário sobre as mudanças de estado clínico do papel complementar causadas pela intervenção de Enfermagem Avaliar a condição dos resultados de Enfermagem Justi�car a mudança ou não de estado Relatar criticamente as mudanças na condição clínica, visando a identi�car melhorias ou continuidades nos planos assistenciais ou de cuidados Avaliação de Enfermagem Previsão do seguimento do caso clínico com vistas à melhoria ou não. É um processo ininterrupto Analisar a dependência Analisar as possibilidades de restabelecimento das capacidades perdidas Avaliar criticamente se houve mudança na condição clínica do papel complementar a partir da implementação do plano de cuidados • Mensurar a conclusão ou não do caso clínico As seis etapas do PE são inter-relacionadas, o que leva à compreensão de que cada uma pode levar a outra que não seja subsequente. Por exemplo, um enfermeiro pode estar no posto de Enfermagem registrando a evolução de um papel complementar quando, de repente, o vê caminhando pelo corredor da unidade e, assim, deve saltar da evolução para o histórico de Enfermagem, coletando dados sobre a deambulação. Para Almeida et al. 4 , o PE é um instrumento metodológico para que o enfermeiro descreva e oferte os cuidados necessários para seu papel complementar buscando favorecer o restabelecimento de sua condição de saúde. Wilkinson 5 , autora americana referência sobre o tema, descreve o PE como uma maneira especial de pensar e agir, uma abordagem estruturada e lógica para o enfermeiro expressar seu saber no cuidado. Horta 2 , por sua vez, o enxerga como um processo dinâmico, uma inter-relação de ações focada no cuidado do ser humano. Cabe ressaltar que, para Wilkinson 5 , o PE é composto por seis passos (Figura 2.2). O plano assistencial e o plano de cuidados são substituídos por planejamento de resultados e de intervenções e a evolução e avaliação de Enfermagem fundem-se em uma única etapa, que dá origem à implementação, ou seja, a realização efetiva do cuidado. Atenção O conceito de PE evoluiu de tal modo que permitiu que o Cofen elaborasse a Resolução nº 272/2002, revogada pela atual Resolução nº 358/2009, que dispõe sobre a SAE e a implementação do PE na Enfermagem brasileira. No Brasil, desde 2002, o Cofen publica Resoluções que organizam uma maneira sistemática de gestão do cuidado pelo enfermeiro, a fim de garantir uma efetiva implementação deste por meio do PE. Nota-se, assim, que a SAE pauta-se mais no polo de gestão do cuidado, e o PE, na prestação do cuidado em si (Figura 2.3). SAE é a forma pela qual o enfermeiro compreende a pessoa complementar e tem base de raciocínio para elaborar um plano de intervenções que alcance resultados, ou seja, é um sistema para coletar dados, correlacioná-los, refletir sobre eles e decidir o que será feito para que a pessoa complementar melhore ou não piore. Inclui-se aqui a gestão sistêmica de processos para que o PE aconteça: gestão da capacitação de pessoas, da manutenção preventiva, do recrutamento interno, entre outras. Figura 2.2 Passos do PE. Adaptada de Wilkinson, 2007. 5 • • • Figura 2.3 Áreas de SAE e PE. Para re�etir SAE é pensar em como você quer encontrar a pessoa complementar no futuro e organizar pessoas e recursos para esse �m. Em perspectiva mais prática, SAE é um método de trabalho e um sistema de raciocínio (Tabela 2.2). Para Alfaro-LeFevre 6 , a SAE deve ser proativa. É, portanto, um sistema deliberado, consciente. Isso requer que o enfermeiro enxergue o mundo por meio da SAE, como se ela fosse uma lente que possibilita uma visão mais clara e ampla sobre: O contexto em que o enfermeiro deve agir As condições da pessoa complementar O conhecimento exigido para o cuidado • • • Os recursos existentes para o cuidar A perspectiva cultural Os resultados esperados. Muitos enfermeiros que aderiram à SAE como meio de compreender o mundo conseguem realizar todas as etapas dela simultaneamente. Isso significa que rapidamente o enfermeiro consegue explorar as etapas da SAE em um único episódio de pensamento crítico. Tabela 2.2 Método e sistema da SAE. Método de trabalho Sistema de raciocínio Coletar dados Re�etir sobre os dados coletados Identi�car o problema e o melhor plano de ação Correlacionar os dados coletados com o plano elaborado Determinar como favorecer a melhora ou impedir a piora Decidir o que fazer De�nir metas Criar correlação entre estado atual e metas a serem alcançadas De�nir pessoas e recursos Avaliar se há pessoas em número su�ciente e com capacitação necessária ao cuidado, bem como se existem recursos (instrumentos, métodos de cuidado, equipamentos etc.) para garantir o alcance dos resultados Enxergando a SAE como método de trabalho, tem-se sua perspectiva circular e em corrente (etapa seguida de etapa). Essa perspectiva, segundo Chanes 7 , deve ser usada somente para fins didáticos, devendo o enfermeiro alcançar a compreensão de mundo com as etapas acontecendo simultaneamente (Figura 2.4). Figura 2.4 Etapas da SAE. Novo Processo de Enfermagem Para um sistema como a SAE funcionar, não pode haver cisão entre as etapas do PE ou da SAE, uma vez que são interdependentes e inter- relacionadas. Assim, um estudo conjunto de todas as etapas passa a fazer sentido. Esta obra, com base na literatura atual, propõe um Novo Processo de Enfermagem (NPE), que não começa com a coleta de dados, como em geral é o PE, visto que não se podem coletar dados sem um paradigma de como avaliar a realidade. Nesta obra, o NPE foi aplicado da maneira mais compreensível para a realidade brasileira. Assim, o primeiro passo do NPE tornou-se a Teoria e os conhecimentos e adjacentes* de Enfermagem. Ter uma Teoria de Enfermagem como base do olhar do enfermeiro para seu papel complementar é imprescindível, pois fornece um arcabouço conceitual para que os dados sejam significativos e para a Enfermagem ser ciência, e não meramente técnica. Outra mudança é a divisão em duas fases: diagnose e diagnóstico. A diferença entre esses conceitos é apresentada na Tabela 2.3. Percebe-se, assim, que a diagnose ocorre no momento do PE, quando o enfermeiro está com os impressos de avaliação do papel complementar. Significa discernir se os focos de atenção do enfermeiro estão ou não nos padrões de normalidade. Caso contrário, configura-se um possível DE aser cuidado. Contudo, o diagnóstico acontece em seguida, quando o enfermeiro considera diversas variáveis para priorizar o de maior relevância ou se o tempo com o papel complementar permitirá que a meta seja alcançada. Tabela 2.3 Diferenças entre diagnose e diagnóstico. Diagnose Diagnóstico Discernimento Saber, conhecer Descrição detalhada Processo analítico de escolha de melhor descrição detalhada Identi�cação de problemas Identi�cação de prioridades, considerando condição do papel complementar, gravidade do caso, recursos existentes, talentos na equipe e suportes que garantam cuidado livre de dano Essa divisão, não apenas didática, mas também reflexiva, auxilia a compreender que diagnose é PE e diagnóstico é SAE. Todavia, no NPE, ambas as etapas estão incluídas em um contexto integrado. Diagnóstico é SAE porque, nesse processo de raciocínio, o enfermeiro considera insumos, pessoas e métodos disponíveis para alcançar resultados efetivos. Outra divisão possível é a separação dos conceitos de planejamento de resultados e intervenções, que ocorrem sequencialmente. Isso se dá pelo fato de somente ser possível determinar as intervenções necessárias após a definição de resultados. Ainda nessa perspectiva, houve a divisão de metas e resultados. Em português, o sentido é simples: meta é algo que se projeta no futuro diante de um diagnóstico atual, e uma vez alcançados os resultados, tem-se a meta. Assim, no NPE, meta é a descrição abstrata de um estado futuro que se espera, sendo SAE também, já que é a perspectiva maior do processo de internação ou atendimento primário. No caso dos DE, segundo a NANDA-I, existem dois grandes tipos de metas: solução do problema ou aceitação pelo papel complementar de que ele tem uma determinada vulnerabilidade (diagnóstico de risco) ou um diagnóstico cuja recuperação não será completa. Já os resultados se referem ao alcance de metas estabelecidas no momento do plano, que comprovam que o papel complementar teve melhora a partir das intervenções de Enfermagem. A Figura 2.5 apresenta o NPE completo. Cabe ressaltar que, no centro da imagem, estão as competências de raciocínio crítico e julgamento clínico, as quais possibilitam que o enfermeiro interprete, sob a luz da teoria ou dos conhecimentos adjacentes, o papel complementar e o melhor cuidado que pode ser oferecido. Dessa maneira, o NPE torna-se claro e didático, o que deixa sua execução menos abstrata. 1. 2. 3. 4. 5. 6. Figura 2.5 NPE completo. Junção do PE com a SAE Inicialmente, cabe considerar que PE e SAE são faces da mesma moeda. O PE refere-se ao momento em que o enfermeiro está à beira do leito realizando o PE, já a SAE remete à reflexão sobre a qualidade que o enfermeiro poderá imputar no PE para o papel complementar, considerando as questões administrativas e gerenciais do cuidado. A Figura 2.6 apresenta os passos da SAE e do PE juntos, pois é impossível dissociá-los. Pela adaptação proposta neste livro, o NPE teria nove passos na simbiose SAE e PE: Teoria e conhecimentos de Enfermagem Coleta de dados Diagnose Diagnóstico de Enfermagem Planejamento de metas Planejamento de resultados 7. 8. 9. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. Planejamento de intervenções Prescrição Avaliação contínua. Em um olhar mais profundo, porém, são detectados 13 passos: Teoria e conhecimentos de Enfermagem Coleta de dados Histórico Exame físico Agrupamento e correlação de dados Diagnose Diagnóstico de Enfermagem Planejamento de metas Planejamento de resultados Planejamento de intervenções Prescrição Implementação Avaliação contínua. No entanto são comuns à SAE e ao PE os passos: 1, 2, 4, 5 e 9. Figura 2.6 Passos da SAE e do PE juntos. PE, SAE e documentação Existem três momentos para a realização do PE, da SAE e de sua documentação (Figura 2.7), e o uso correto dos verbos para cada etapa pode minimizar incompreensões sobre o papel do enfermeiro, impressões negativas de sua atuação e até mesmo minimizar o repúdio de muitos enfermeiros com a SAE, que erroneamente a consideram mais uma burocracia. Frases ou verbos mal colocados podem pôr fim a uma visão positiva de algo. O que se vê hoje são os enfermeiros em computadores ou diante de prontuários para fazer a SAE. Com isso, os próprios enfermeiros criaram a 1. 2. 3. realidade de que a SAE é burocrática e não precisa do PE. A profissão perdeu muito com essa realidade. Primeiro porque o computador ou prontuário não precisam de SAE, uma vez que não são pessoas; e segundo porque, no momento da documentação, os dados já devem estar coletados. Então, fazer a SAE em um computador ou pelo prontuário é impossível. Figura 2.7 Diferença entre PE, SAE e documentação. Considerações finais O enfermeiro precisa aprender que primeiro se realiza o processo, depois se reflete e propõe-se a SAE e, por último, documenta-se o PE e a SAE. Cabe ainda ressaltar que, nos hospitais, o cuidado pode ser centrado no paciente, na instituição ou no médico. O ideal é que os profissionais prestem um cuidado centrado no paciente. Referências bibliográficas Conselho Federal de Enfermagem. Resolução nº 358 de 15 de outubro de 2009. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, e dá outras providências. Brasília; 2009. Horta W. Processo de Enfermagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2011. Doenges ME, Moorhouse MF, Murr AC. Diagnósticos de Enfermagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2009. 4. 5. 6. 7. Almeida M et al. Processo de Enfermagem na prática cínica. Porto Alegre: Artmed; 2011. Wilkinson JM. Nursing process and critical thinking. New Jersey: Prentice Hall; 2007. Alfaro-LeFevre R. Critical thinking and clinical judgment: A Practical Approach. Florida: Saunders; 2004. Chanes M. Gerenciando o processo de enfermagem com o uso e a integração das taxonomias NANDA-I, NOC e NIC. In: Malagutti W, Miranda SMRC. Os caminhos da Enfermagem. São Paulo: Phorte; 2010. Bibliografia Herdman TH, Kamitsuru S. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA 2015-2017. Porto Alegre: Artmed; 2015. * ____________ Conhecimentos adjacentes são conhecimentos de disciplinas próximas à Enfermagem que também respaldam a prática do enfermeiro. Por exemplo, ao atuar com um papel complementar com dor, o enfermeiro deve interpretar os achados e escolher o melhor cuidado, com base não somente na Teoria de Enfermagem implantada em sua instituição, mas também na Teoria da Dor. • • Objetivos deste capítulo Conceituar Teoria de Enfermagem e seus constructos Compreender a escolha e a aplicação de uma Teoria de Enfermagem como base para a Sistematização da Assistência de Enfermagem. Palavras-chave: Teoria de Enfermagem, holismo e sistemas, significado da profissão, visão de mundo. Etapa da SAE: 1. Etapa do PE: 1. Teoria de Enfermagem e aplicação da SAE Deve-se utilizar uma Teoria de Enfermagem como embasamento para aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) porque não há método científico que não tenha sido teorizado anteriormente para ser colocado em prática. Portanto, a SAE, como método científico de trabalho na Enfermagem, precisa ter como sustentação uma Teoria de Enfermagem. A teorização é necessária para construir um corpo de saberes próprios para todas as áreas do conhecimento humano, e isso não é diferente na Enfermagem. Somente é possível afirmar que a Enfermagem é uma área científica do conhecimento humano se ela for sustentada por teorias que possam ser testadas de forma controlada e experimental e evidenciadas a partir de sua aplicação prática (prática baseada em evidência). A Teoria de Enfermagem confere ao enfermeiro, quando da aplicação da SAE, uma visão de mundo que orientará seu raciocínio e suas escolhas quanto ao exame clínico, ao Diagnóstico de Enfermagem (DE) e às ações que irá planejar e implementar para a efetivação do cuidado. Uma teoria é composta por constructos, isto é, grandes conceitosque foram construídos a partir de inúmeros outros, das mais diversas áreas do conhecimento. Esses constructos orientam a visão de mundo do enfermeiro no momento de colocar a SAE em prática. Para re�etir O constructo autocuidado, proposto por Dorothea Orem, foi construído a partir de conceitos das ciências humanas e da saúde. O enfermeiro que adotar essa teoria para aplicar a SAE deverá conhecer profundamente o constructo da teorista e ter como regra de conduta trabalhar juntamente ao ser humano sob seus cuidados, conduzindo-o à independência e à otimização de seu potencial para se autocuidar. Não poderá, portanto, ter uma conduta absolutamente intervencionista, que determina por conta própria o que o indivíduo deve ou não fazer, a não ser que este apresente um dé�cit para promover seu autocuidado, isto é, se no momento da atuação do enfermeiro o indivíduo estiver absolutamente incapaz de autocuidar-se. Mesmo diante da necessidade de intervenção, o enfermeiro que utiliza a visão de mundo de Orem deve negociar com o indivíduo qual é o melhor cuidado a ser prestado, respeitando as crenças e verdades do paciente, e, mesmo intervindo, deve estar atento à restauração do potencial para o autocuidado, estimulando-o a essa retomada. É importante conhecer os constructos dos teoristas antes de aplicálos, porque as más interpretações podem retirar da aplicação o sentido exato da técnica. Não se pode, por exemplo, criar uma cartilha de orientação para uma determinada prática voltada ao paciente e dizer que se aplica a “Teoria do Autocuidado”, pois, caso o indivíduo não aceite os passos nela descritos, não saiba ler ou até mesmo não tenha um bom potencial para o autocuidado, ele não irá aderir ao tratamento. Praticamente todas as teorias de Enfermagem tiveram como sustentação teórica em sua construção de visão de mundo a Teoria de Sistemas de Bertalanffy 1 , com exceção das mais recentes, que surgiram a partir da década de 1990. Essa teoria foi importante para a elaboração de outras entre os anos 1950 e 1960, por ter uma visão de mundo que se adequa muito ao olhar da Enfermagem, já descrita por Florence Nightingale. 2 Apresenta o conceito de holismo traduzido em sistemas e que surgiu como uma reação oposta ao reducionismo científico ou modelo cartesiano de Descartes, denominado modelo biomédico na área da saúde. Para os reducionistas, o corpo humano é uma máquina em que cada parte possui uma função independente do todo e deve ser tratada como tal. Esse modo de pensar é compatível com o olhar da Medicina e da Biologia em geral, mas oposto à forma de enxergar o ser humano proposta pelo holismo e pela Teoria de Sistemas de Bertalanffy, que agregam o olhar da ciência da Enfermagem. O modelo reducionista não é errado nem certo; ele é aplicado nas áreas do conhecimento que enfocam a queixa, a doença e o sintoma isolados do todo. Para os que enxergam o mundo a partir da Teoria de Sistemas, que é compatível com o olhar da Enfermagem, o todo é mais importante que a soma das partes. Para Bertalanffy 1 , sistema pode ser definido como um conjunto de elementos interdependentes que, conjuntamente, formam um todo unitário que interage e cujo resultado é maior que o de unidades separadas. Ao aplicar a SAE com o olhar holístico, que é o olhar das teorias de Enfermagem, o enfermeiro enfoca o todo, ou seja, o ser humano não é somente um fígado, um coração, um trauma no membro inferior, uma úlcera; ele é um todo que reage emocional, espiritual, social e fisicamente à sua condição de saúde. Para re�etir Um camelô com úlcera no membro inferior refere que está sob estresse pela internação porque não poderá trabalhar por 1 semana e, além de ter de conseguir dinheiro diariamente para o sustento da família, cuida de três crianças nas horas vagas. Pelo modelo holístico, não será tratada apenas a úlcera, pois, se o estresse social, psicológico, mental e físico não for tratado, a úlcera não responderá ao tratamento. O enfermeiro, então, deve inserir em seu planejamento de cuidados a visão conjunta dessas variáveis para alcançar um estado de melhor saúde possível para aquele indivíduo, que, se fosse reduzido apenas à úlcera, provavelmente não alcançaria o melhor resultado. Escolha da Teoria de Enfermagem Há diversas fontes de escolha quanto à visão de mundo que o enfermeiro pretende ter ao realizar suas reflexões, seu raciocínio clínico e sua prática quando da elaboração da SAE. A escolha e o estudo profundo da teoria que o guiará em sua prática trarão segurança na compreensão do fenômeno da Enfermagem e dos conceitos de ser humano, ambiente, relação saúde/doença e da própria Enfermagem. A SAE e sua articulação, portanto, necessitam das teorias de Enfermagem para facilitar a condução do raciocínio clínico na busca por diagnósticos, evolução, prognóstico e ações a serem implementadas, uma vez que são um guia para o olhar do enfermeiro sobre o papel complementar, suas respostas ao ambiente, sua condição de saúde e sobre a maneira como organizar as ações visando à melhor qualidade de vida possível ao final do processo de atendimento. As teorias de Enfermagem colaboraram na elaboração dos diagnósticos da NANDA International (NANDA-I) e, posteriormente, da Nursing Outcomes Classification (NOC; Classificação de Resultados de Enfermagem) e Nursing Interventions Classification (NIC; Classificação de Intervenções de Enfermagem). Muitas palavras encontradas na NANDA-I referem-se às teorias de Enfermagem, como padrões (padrão respiratório, padrão de sono etc.) e autocuidado, por exemplo. Essas denominações não surgiram espontaneamente, mas foram elaboradas a partir das teorias de Enfermagem justamente pelo fato de representarem importante fundamentação científica para o Processo de Enfermagem (PE) e a SAE. Vale ressaltar que as teorias de Enfermagem são maiores que qualquer outra prática, ainda que, às vezes, seja comum ouvir que para determinado tipo de cliente, aplica-se determinada teoria. Na realidade, o importante é que o enfermeiro seja capaz de escolher a teoria que melhor represente sua visão de mundo e de atuação frente ao fenômeno humano e, assim, implemente a SAE para toda e qualquer situação. Para re�etir Jean Watson coloca em sua Teoria do Cuidado Transpessoal que o indivíduo que escolhe a Enfermagem como pro�ssão já possui dentro de si algo que é inerente àqueles que abraçam o ser enfermeiro. Amam cuidar e, ao fazê-lo, tocam o “centro de cura” do ser humano, ou seja, sua alma, o que é terapêutico para ambos, enfermeiro e cliente. Assim, o enfermeiro que adota a Teoria de Watson provavelmente aplicará a Enfermagem de forma espiritualizada, sempre visando ao bem, considerando que o outro é mais importante que o pro�ssional, que, como ser humano, merece dignidade e respeito, sempre buscando a humanização em suas ações, bem como nas de seus colaboradores. Martha Elizabeth Rogers, em sua Teoria da Ciência do Ser Humano Unitário, descreve ser humano e ambiente como campos energéticos, únicos em seu padrão próprio de energia, em constante interação e com uma ressonância que pode afetar o outro campo simultaneamente. Rogers ainda a�rma que esses campos são pandimensionais, isto é, que abrangem dimensões múltiplas e in�nitas, o que confere à teoria e ao enfermeiro que a utiliza como visão de mundo um caráter amplamente holístico. Assim, o enfermeiro rogeriano enxergará inúmeras dimensões quando da anamnese e do exame clínico do paciente, abrangendo as dimensões sociopsicoespirituais e físicas a ponto de isolar diversos diagnósticos de Enfermagem para um só cliente. E escolherá entre estes os que melhor representam o todo, planejando suas ações com consideração à in�uência energética do ambiente sobre o campo humano, inclusive na escolha do melhor colaborador para tratar aquele indivíduo, do quarto/ambiente mais adequado para permanecer, das modi�cações necessárias para obter melhores resultados e até na prescrição de uma terapia complementar (p. ex., toque terapêutico, cromoterapia etc.) para harmonizar o padrãoenergético do campo humano do paciente e a ressonância deste e assim por diante. Esse enfermeiro, provavelmente, será uma pessoa curiosa e criativa, interessada em ciência, física quântica e fenômenos energéticos, que acredita em potencialidades in�nitas nos campos humano e ambiental. A Tabela 3.1 apresenta as teorias de Enfermagem mais utilizadas e completas, com um breve parágrafo sobre a visão de mundo de seus respectivos teoristas, que descrevem, relacionam, predizem e controlam o fenômeno estudado. Tabela 3.1 Teorias de Enfermagem mais utilizadas. Ano Teorista Teoria de Enfermagem * Visão de mundo 1860 Florence Nightingale Teoria Ambientalista O ambiente in�uencia a recuperação do ser humano em desequilíbrio. Modi�cações no ambiente, no que se refere a iluminação, limpeza, arejamento e até mesmo estética, colaboram para a melhoria da saúde 1952 Hildegard Peplau Teoria do Processo Interpessoal A Enfermagem é entendida como um processo interpessoal e terapêutico. O enfermeiro deve procurar interagir com o paciente, o que con�gura uma relação terapêutica e saudável que resulta em melhor saúde mental 1955 Virginia Avenel Henderson Teoria das Necessidades de Enfermagem O enfermeiro deve trabalhar de forma independente e multidisciplinar visando à independência do paciente o mais rápido possível. Descreve 14 necessidades básicas de atuação do enfermeiro 1960 Faye Glenn Teoria dos 21 Identi�ca 21 problemas que o Abdellah Problemas de Enfermagem enfermeiro deve investigar com o objetivo de abranger as dimensões biopsicossocioespirituais do indivíduo sob seus cuidados e da sua família 1962 Ida Jean Orlando Relação Dinâmica Enfermeiro- Paciente Os enfermeiros devem assistir o paciente com rapidez para que suas necessidades sejam satisfeitas, embora nem sempre ele demonstre exatamente o que está sentindo ou que necessita, exigindo do enfermeiro o uso de sua percepção e perspicácia para ajudar o indivíduo a alcançar o bem-estar e evitar o estresse 1970 Martha Elizabeth Rogers Ciência do Ser Humano Unitário O enfermeiro deve conhecer todo o ciclo vital humano e utilizar sua capacidade intelectual, sua criatividade e seu conhecimento com o intuito de buscar a harmonização da interação dos campos energético humano e ambiental em prol da melhor qualidade de vida possível do paciente de forma holística 1971 Dorothea Elizabeth Orem Teoria do Autocuidado Todo indivíduo possui potencial para autocuidar-se. Assim, o enfermeiro é o pro�ssional adequado para utilizar e potencializar essa característica humana, para que o próprio indivíduo busque sua saúde, conferindo-lhe poder e respeito em suas decisões 1971 Imogene King Teoria do Alcance dos Objetivos A interação/comunicação entre enfermeiro e paciente é fundamental para estabelecer metas a serem alcançadas ao �nal do processo assistencial a ser prestado, visando a restabelecer a adaptação desse indivíduo ao ambiente 1972 Callista Roy Teoria da Adaptação O modelo de adaptação de Roy postula que o ser humano é capaz de se adaptar a condições biopsicossociais diversas, pois tem potencial para criar modos adaptados de dependência- independência; nesse caso, a atuação do enfermeiro visa a facilitar a descoberta desse processo adaptativo 1979 Jean Watson Teoria do Cuidado Humano O “querer cuidar” nasce com o cuidador, o qual tem um olhar humanista ao fazê-lo, aliado à espiritualidade e ao bem 1979 Wanda de Aguiar Horta Teoria das Necessidades Humanas Básicas Horta coloca a Enfermagem como uma arte e uma ciência voltadas ao cuidar do ser humano em todas as suas dimensões, e o enfermeiro, com visão holística, deverá atender suas necessidades humanas básicas afetadas, conservar as que estão intactas e com criatividade e raciocínio clínico procurar alcançar a homeostase do indivíduo sob seus cuidados de forma planejada e metodológica * O nome das teorias re�ete o mais próximo da proposição dos teoristas. É importante refletir sobre a falta do uso das teorias, pois isso pode causar dados críticos, como no estudo sobre o uso das teorias de Enfermagem nos diversos níveis de atenção em um município do Estado de São Paulo, que apresentou resultados preocupantes (Figura 3.1). São informações relevantes a respeito desse estudo: • • • • • • Tipo: exploratória Método: de campo Caráter: qualitativa Amostra: 18 enfermeiros dos três níveis de atenção em saúde Instrumento: questionário estruturado aplicado Coleta de dados: entrevista direta. Dos 18 (100%) enfermeiros entrevistados, 6 (33,33%) afirmaram ter conhecimento sobre as teorias de Enfermagem e desenvolver seu trabalho pautado em alguma delas. Os outros 12 (66,67%) relataram que o principal motivo da não utilização é a falta de tempo e de domínio do assunto. A Resolução n o 358/2009, que dispõe sobre a SAE, deixa publicamente claro que a implementação do PE deve ser executada em ambientes públicos ou privados nos quais ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, esclarecendo, por meio de suas providências, que toda sistematização de cuidado deve ser legalmente pautada e fundamentada em ciência específica, ou seja, desenvolvida a partir de um referencial teórico conhecido. 3 Nessa linha de pensamento, a Figura 3.2 demonstra a existência de interesse apresentada pelos sujeitos entrevistados nesse estudo. A pesquisa também demonstrou que dos 18 (100%) enfermeiros, 17 (94,44%) mostraram ter interesse em entender melhor as teorias e, consequentemente, conhecer as maneiras de utilizá-las nas práticas de Enfermagem. Figura 3.1 Uso das teorias de Enfermagem na prática. Figura 3.2 Distribuição de participantes que mostraram interesse nas teorias. As teorias de Enfermagem oferecem aos profissionais o domínio e a reflexão sobre seus trabalhos, mas deixam claro que sua aplicação nem sempre é fácil, uma vez que precisam atender as necessidades de acordo com cada situação. 4 A Enfermagem é uma ciência que lida com seres humanos, não podendo, portanto, estar embasada apenas em conhecimentos relativos a ciências naturais. Os enfermeiros entrevistados foram questionados sobre a exigência das teorias de Enfermagem pelos órgãos de classe sistema do Conselho Federal de Enfermagem/Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Cofen/Coren), sendo que 10 (55,56%) afirmaram ter conhecimento dessa exigência e 8 (44,44%) relataram não ter nenhum conhecimento, e destes apenas 1 (5,56%) participante já recebeu uma visita fiscalizatória (Figura 3.3). Figura 3.3 Conhecimento diante a exigência e fiscalização Coren/Cofen. A pesquisa identificou as principais teorias utilizadas pelos enfermeiros e dos 6 (33,%) que pautam suas atividades nas teorias de Enfermagem, 4 (60%) utilizam a teoria ambientalista, de Florence Nightingale, e 2 (40%) a Teoria NHB, de Wanda Horta (Figura 3.4). A colaboração das teorias de Enfermagem para a elaboração do conhecimento da área remete quase diretamente a Florence Nightingale, cujas ações e publicações lhe renderam o reconhecimento como instituidora da Enfermagem moderna. 4 1. 2. 3. 4. 5. 6. Figura 3.4 Identificação das principais teorias utilizadas. Considerações finais É importante que o enfermeiro pesquise e descubra qual visão de mundo melhor se adequa ao que ele acredita ser próximo de sua filosofia de trabalho, pois a SAE sem fundamentação das teorias de Enfermagem é rasa e superficial. Referências bibliográficas Bertalanffy LV. Teoria Geral dos Sistemas. Rio de Janeiro: Vozes; 2015. Nightingale F. Notas sobre a enfermagem. São Paulo: Cortez; 1989. Brasil. Resolução Cofen n. 358, de 15 de outubro de 2009, Brasília, DF. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-3582009_4384.html. Garcia TR, Nóbrega MML. Contribuição das teorias de enfermagem para a construção do conhecimento da área. Rev Bras Enferm. 2004;57(2):228-32. Matos JC, Luz GS, Marcolino JS, Carvalho MDB, Pelloso SM. Ensino de teorias de enfermagem em cursos de graduaçãoem Enfermagem do Estado do Paraná – Brasil. Acta Paul Enferm. 2011;24(1):23-8. Padilha MICS, Borenstein MS. História da Enfermagem: ensino, pesquisa e interdisciplinaridade. Esc Anna Nery. 2006;10(3):532-8. http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-3582009_4384.html Bibliografia Chinn P, Maeona K. Integrated theory & knowledge development in nursing. 8. ed. St. Louis: Mosby; 2010. George JB. Teorias de enfermagem. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997. Meleis AI. Theoretical Nursing: development and progress. 3. ed. Philadelphia: Lippincot; 1997. Oliveira DPR. Sistemas, organização & métodos: uma abordagem gerencial. 13. ed. São Paulo: Atlas; 2002. Potter P, Perry AG, Hall A, Stockert PA. Fundamentos de enfermagem. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2015. • • Objetivos deste capítulo Conhecer a teoria da Empatia Reflexiva Conceituar os metaparadigmas de Enfermagem na perspectiva da teoria. Palavras-chave: Teoria da Empatia Reflexiva, Eu interno, Eu existencial, Eu relacional, espaço de convergência, ser humano, plataforma antropológica, saúde, Enfermagem. Empatia Reflexiva | Contexto Neste livro, propõe-se uma nova teoria de Enfermagem, considerando a prática do autor, seus estudos e seus conhecimentos sobre a sociedade atual, que afeta diretamente os metaparadigmas (ou constructos) de uma teoria. Esta teoria parte da palavra “empatia”, que vem do grego empatheia e significa “paixão”, o ato de tentar compreender sentimentos e emoções alheios. Contudo, tal explicação não explora profundamente a palavra para um conceito aplicável na saúde. Então, na ótica psicológica, que classifica empatia como uma inteligência, ela envolve três componentes: afetivo, cognitivo e regulador de emoção. O componente afetivo consiste na compreensão dos estados emocionais alheios, os quais, uma vez compreendidos (analisados sobre por que ocorrem ou foram desencadeados), levam ao componente cognitivo. Por fim, o componente regulador de emoção é a capacidade daquele que busca ser empático com o outro, usando suas habilidades afetivas e cognitivas para compreender e viver a realidade alheia, mas sem se perder no contexto das emoções causadas por ela. Esse fenômeno pode ser denominado “realidade em 2D”, pois quem exerce a empatia deve viver sua dimensão de realidade, bem como a dimensão de realidade do outro sem perder-se no caminho das emoções deste ou de suas próprias. Nota-se, assim, que a empatia é a qualidade de compreender a situação, o mundo, a vida, a doença etc. pela perspectiva do outro com os referenciais dele. Em Enfermagem, ser empático implica sentir a dificuldade do papel complementar em aderir ao tratamento pelo fato de estar sofrendo com diversos efeitos colaterais. É não minimizar o peso dos efeitos colaterais, não julgar o paciente como não resiliente ou fraco, reconhecer as emoções dele (ansiedade, sofrimento, irritação ou desesperança) e conseguir manter uma conversa com base nessas informações, demonstrando que se vivencia o que ele está sentindo. A teoria também parte da palavra reflexão; não da pura reflexão, mas da reflexão crítica, da capacidade de investigar e conhecer um fenômeno ou conceito para, então, posicionar-se sobre as informações coletadas em cada situação. E o meio para coleta de informações, nesta teoria, é a empatia. A empatia ainda serve de base para o enfermeiro coletar dados sobre o mundo interno do papel complementar e sobre como ele está lidando com a situação, isto é, se tem apoios, se tem forças, se suas crenças são saudáveis, entre outras possibilidades. Assim, o enfermeiro pode refletir e escolher a melhor forma de agir, estabelecendo uma relação interpessoal empática com o paciente. Nesta teoria, concebe-se a pessoa complementar do enfermeiro como integrada consigo e com o todo, em três perspectivas: eu interno, eu existencial e eu relacional (Figura 4.1). A redução das dimensões de abordagem do ser humano deve ser uma tendência nas teorias de Enfermagem, visto estas serem o eixo estruturante da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e de seus impressos, bem como a base para a compreensão de mundo e do pensamento clínico, que leva à SAE efetiva. Figura 4.1 Perspectivas da pessoa complementar. Esta teoria é centrada na pessoa complementar do enfermeiro e no estabelecimento de relações, com o objetivo de que novas relações sejam estabelecidas e mediadas pelo enfermeiro, com a interação da pessoa complementar com seu contexto de vida dentro de um processo de autoconhecimento, para, assim, habilitar-se ao autocuidado. A nova sociedade favoreceu a emersão de uma nova cultura, denominada, por Lèvy 1 , cibercultura. Uma nova cultura traz um grande arcabouço de ressignificações de identidades, papéis e relações – do ser humano consigo mesmo, com o outro e com o ambiente. Ser humano Uma Teoria de Enfermagem apresenta quatro metaparadigmas: o paciente, o ambiente, a saúde e a Enfermagem. Para explicar o paciente, primeiro metaparadigma, utiliza-se a perspectiva do ser humano, visto que “paciente” é uma condição do ser humano, não expressando a totalidade da pessoa complementar do enfermeiro. Ser humano parte da premissa sociológica de ter-se a consciência segura de si e saber tanto o que se faz quanto por que o faz, ou seja, é ter consciência de seu papel na sociedade, de sua contribuição e das possibilidades de protagonismo. Assim, concebe-se ser humano como alguém que não está alienado da realidade. 2 Sob outra ótica, o ser humano é constituído por uma rede de relacionamentos que definem seu lugar, sua identidade e seu papel no espaço em que habita. Nessa perspectiva, o ser humano tem como elemento central o território ou espaço vital próprio, sendo uma identidade territorial que o define em papéis, ordens, fronteiras de ações e níveis hierárquicos dentro de um grupo maior. 1 Uma visão mais ampla mostra o ser humano como um ser em mutação contínua em razão das mudanças sociais, econômicas e culturais que afetam sua consciência de gênero, papel, sentido de vida, esperança, entre outros aspectos filosóficos. Assim, a identidade é mutável, desloca-se em espaços filosóficos e é afetada pelas tendências de moda, de cultura local ou global e de intenções e valores sociais. A condição de ser humano passa pela positividade, pois exige do indivíduo a afirmação do que ele é de fato. Por exemplo, um indivíduo pode dizer que é brasileiro, professor, idoso e casado, sendo todas afirmações sobre ele mesmo. Dessa maneira, a condição de ser humano perpassa pela aceitação de si próprio, podendo as negações afetar o indivíduo em sua • • • • • condição de ser saudável. Isso se dá pelo fato de que, nessa compreensão, pode ocorrer, em vez de aceitação, um desejo, fazendo o indivíduo descrever-se como deseja ser, e não como é de fato. Atenção O conceito de aceitação de si próprio não signi�ca passividade às condições sociais, econômicas e culturais, mas uma compreensão exata de sua realidade para que o indivíduo possa, assim, encontrar caminhos para melhorar suas condições. Sociólogos da atualidade descrevem o ser humano como “tecno- humano”, não dissociando mais a tecnologia do biológico, uma vez que essa interação e integração estão tão arraigadas que o uso da tecnologia se confunde com o uso das habilidades biológicas naturais (p. ex., a comunicação, que hoje pode ocorrer de diversas maneiras, não exigindo mais a presença física no mesmo tempo e espaço). Pressupostos do ser humano Indivíduo com consciência e aceitação de sua identidade e papel determinado pelas condições sociais, econômicas e culturais Condições sociais, econômicas e culturais afetam as condições biológicas, mentais e existenciais do ser humano O ser humano é um composto de múltiplas condições: biotecnológicas, mentais, existenciais, sociais, econômicas e culturais A consciência e a aceitação de identidade e papéis é mutável em virtude de mudanças nas múltiplas condições Não se isola o fato de o ser humano ser também biológico, apresentando respostas internas não voluntárias(p. ex., termorregulação) e voluntárias (p. ex., sentar-se ao sentir tontura). Cabe ressaltar que essa teoria parte do princípio de que o ser humano possui sete dimensões que compõem seu arcabouço holístico: tecnobiológica, mental, existencial, social, econômica, cultural e de segurança. Plataforma antropológica O ser humano precisa de um espaço relacional, isto é, de um contexto maior no qual consegue identificar que está inserido. Esse espaço é chamado de ambiente, mas, nesta teoria, denomina-se plataforma antropológica. O termo plataforma remete aos espaços virtuais e reais, hoje inerentes ao contexto ou ambiente no qual o ser humano está inserido. Assim, trata-se da somatória de espaços para o estabelecimento, vivência e troca de cultura. A antropologia, diferente de outras ciências que estudam o ser humano, busca compreendê-lo como um todo, sendo a cultura um elemento importante para essa ciência. Cultura, por sua vez, é um espaço para desenvolver nas pessoas a capacidade de criar significados e interagir a partir de símbolos. Em seu caráter antropológico, é um conceito multiaxial, sendo um fenômeno natural do ser humano e que o diferencia dos outros animais, uma vez que seu comportamento é determinado mais pelo seu componente cultural do que por instinto. O ser humano não é completamente alheio aos seus instintos e à sua genética, mas, dentro de seu cenário cultural, aprende a neutralizá-los, dominá-los, suprimi-los ou potencializá-los. Isso remete ao uso racional de seus potenciais e traços de personalidade por meio da significação feita pelo indivíduo sobre si mesmo em seu contexto. Por ser culturizado, o ser humano age de acordo com seus padrões culturais apreendidos, isto é, percebidos no cenário, apreendidos e significados. O comportamento humano, assim, é mais fortemente determinado pela cultura do que pela • • herança genética, sendo a pessoa complementar da Enfermagem um ser resultante do meio cultural em que foi socializado. Pressupostos da plataforma antropológica A relação do ser humano consigo mesmo é causada pelo signi�cado que este tem de si próprio O ser humano age de acordo com padrões culturais apreendidos dentro de sua plataforma antropológica. Cabe ressaltar que a cultura é uma das principais fontes de construção de identidade, pois o cenário molda a compreensão que o ser humano possui de si mesmo. Assim, descrevem-se os eixos do conceito de cultura no prisma antropológico, como mostra a Figura 4.2. A cultura, por sua vez, em seu caráter epistemológico, pode ser compreendida como um processo de produção de sentidos e valores que auxiliam na reprodução de relações interpessoais e na transformação da própria sociedade. Isso se dá pelo fato de a informação recebida por meio da cultura auxiliar na transformação daquilo que é comum ao ser humano. Esse fato remete aos estudos de Bettelheim 3 , que afirma que o ser humano, por ser de significação, utiliza esse processo para encontrar um significado profundo para a vida – e não somente na vida. Desde o nascer, o ser humano aprende a interpretar a plataforma antropológica em que vive e apreende dela seus valores e, consequentemente, sua identidade e seus papéis. Com isso, ele aprende a dialogar com a plataforma antropológica na busca de adequar-se a ela. O ser humano, então, relaciona-se com a plataforma para encontrar explicativas em seu mundo interno sobre o mundo externo. Essa capacidade de se relacionar com a plataforma antropológica é uma tomada de consciência, o ponto exato no qual o ser humano começa a pensar. A plataforma antropológica é um grande espaço de relações, as quais auxiliam no processo de significação – e cabe ressaltar que esse processo só é possível por meio das relações. A significação é um meio de o ser humano estabelecer-se no contexto e é inerente à natureza humana, não física, mas cultural, de perceber-se parte do externo. As relações para estabelecimento de vínculos se dão por meio do engajamento do indivíduo nas interações sociais, pois o ser humano necessita estar vinculado a outro dentro de um processo transacional e interativo para permitir que suas experiências com a plataforma antropológica sejam significadas. Assim, a partir de sua relação com essa plataforma, o indivíduo passa a desenvolver seus próprios conceitos sobre vida, sucesso, saúde, doença etc. (Figura 4.3). Figura 4.2 Prisma antropológico. Figura 4.3 Conceitos importantes para a vida. Saúde O terceiro elemento de uma teoria é a descrição do conceito de saúde. Segundo Daily 4 , a maioria das teorias de Enfermagem descreveu o conceito de saúde na perspectiva da doença, o que remete a um grande paradoxo: saúde é tida como a sensação de bem-estar nas múltiplas condições do ser humano; assim, cabe considerar, em cada dimensão dessa teoria, apresentada nos pressupostos do ser humano, como a saúde acontece conceitualmente, como pode ser visto na Tabela 4.1. Tabela 4.1 Pressupostos da saúde. Dimensão Saúde Tecnobiológica Equilíbrio �siológico dos sistemas gerais do organismo Capacidade de funcionar de modo independente na busca do equilíbrio �siológico Por exemplo: ao sentir-se fraco por estar um longo período sem comer, a pessoa complementar tem a capacidade de alimentar-se sem auxílio Mental Equilíbrio da �siologia do sistema nervoso e capacidade para lidar com agentes estressores da plataforma antropológica Por exemplo: ao sentir-se desgastado pela alta carga de trabalho, a pessoa complementar busca atividades de relaxamento ou interação social para a redução do estresse Existencial Equilíbrio na unidade corpo, mente e alma com tranquilidade existencial e aceitação de si próprio com comportamento de busca do potencial total de saúde Por exemplo: a pessoa complementar sente-se rebaixada diante de outros por ser obesa e, com isso, aceita sua condição e busca modos de vida para reduzir essa condição (modi�cações na dieta e atividade física), bem como procura por apoios espirituais para conquistar forças Social Existência de relações positivas com vínculo afetivo e de con�ança Por exemplo: a pessoa complementar tem pessoas em sua vida com as quais obtém apoio para fortalecer-se quando necessita de auxílio em qualquer dimensão de sua existência Econômica Condição �nanceira conquistada, sem a permissão da perda de uma adequada condição de higiene Por exemplo: a pessoa complementar busca a melhoria de sua condição econômica, mas apresenta adequados hábitos de higiene, independentemente de sua condição �nanceira Cultural Sensação e vivência de pertencimento e engajamento com a plataforma antropológica Exemplo: a pessoa complementar convive com a plataforma antropológica na busca de atividades de lazer, de atividades culturais, de momentos de relaxamento e sente-se (e busca) o bem-estar Segurança Capacidade de reduzir e controlar vulnerabilidades Exemplo: a pessoa complementar tem um mapa genético que a torna vulnerável para determinada doença crônica não transmissível (p. ex., diabetes) e adota comportamentos saudáveis Na dimensão tecnobiológica, saúde é o equilíbrio fisiológico, sendo muitos processos fisiológicos completamente involuntários. Assim, essa dimensão é a mais dependente da plataforma antropológica e dos equilíbrios nas outras dimensões, visto ser necessária uma capacidade de funcionar de modo independente para alcançar a melhor resposta fisiológica para o equilíbrio biológico, não excedendo a tênue linha que divide fisiologia e patologia. Na dimensão mental, saúde é determinada pelo equilíbrio da fisiologia do sistema nervoso, bem como das adaptações aos agentes estressores da plataforma antropológica. Na dimensão existencial, é determinada pela unidade mente, corpo e alma, bem como pela aceitação das múltiplas condições reais (e não de desejo) do ser humano. Essa percepção de saúde passa pela busca e aquisição do potencial total de bem-estar que o ser humano considere adequado a si próprio e pelos apoios espirituais que ele concebe a si mesmo. Nadimensão social, saúde é a existência de relações saudáveis e com forte vínculo afetivo e de confiança entre os seres humanos, bem como entre estes e a plataforma antropológica. Na dimensão econômica, é a condição financeira que o ser humano conquista, mas sobretudo sua compreensão de que não existe relação direta entre falta de higiene (elemento-chave para boa saúde) e condição financeira. Por fim, na dimensão cultural, saúde é a sensação de pertencimento e engajamento à plataforma antropológica para a significação efetiva de si mesmo e de seu contexto. Metas de Enfermagem O último metaparadigma de uma teoria de Enfermagem é a descrição das metas. Na teoria da Enfermagem Reflexiva, a meta da Enfermagem é projetar-se no mundo interno do papel complementar e coletar dados para a reflexão empática, estabelecer metas alcançáveis de saúde e mediar as relações da pessoa complementar (a interna, a existencial e relacional) para • • • • o alcance das metas. O estabelecimento de uma relação eficaz entre enfermeiro e pessoa complementar é fundamental para que as três relações possam ser adequadas quando se identifica uma condição de falta de saúde em alguma delas. Nesta teoria, as relações são a base do papel da Enfermagem, pois concebe-se que somente por meio delas é que o enfermeiro conseguirá entrar no processo de empatia e manter um diálogo efetivo com o triplo eu da pessoa complementar: interno, existencial e relacional. A Enfermagem tem como foco, então, encontrar os pontos fortalecidos e de melhoria na qualidade das relações da pessoa complementar. Para isso, deve estabelecer vínculos afetivos e de confiança que consigam encontrar indicativos de como está a saúde em cada um dessas relações. Um vínculo relacional afetivo e de confiança precisa de tempo, o que comprova a necessidade de a teoria ser realizada no contexto do enfermeiro clínico, uma vez que sua aplicação não é possível se não houver contato direto do enfermeiro com o indivíduo, sua família e sua comunidade. Pressupostos da Enfermagem Coletar informações por meio da empatia re�exiva Estabelecer e mediar relações afetivas e de con�ança com a pessoa complementar Buscar os indicativos da qualidade das relações no triplo eu Por meio dos vínculos afetivos e de con�ança, mediar o aprendizado de relações mais saudáveis pelo triplo eu. Assim, pode-se compreender cada relação do triplo eu, descritas a seguir. Eu interno • • • O eu interno corresponde aos processos e sistemas que ocorrem dentro da estrutura biológica do ser humano, como a fisiopatologia ou a fisiologia de sistemas. Uma bioquímica do sangue alterada, bem como um funcionamento alterado do sistema nervoso, causa mudanças no eu interno, que, segundo Krietzer 5 , engloba: partículas subatômicas, átomos, moléculas, organelas, células, tecidos, sistemas e órgãos, e sistema nervoso. O eu interno é tido como um equilíbrio nas múltiplas dimensões da pessoa complementar, especialmente naquelas que afetam respostas fisiológicas tornando-as patológicas. O foco da Enfermagem é favorecer o equilíbrio de convívio da pessoa complementar com sua condição fisiológica, para que ela não seja alterada, isto é, para que não se torne patológica e estabeleça, assim, uma doença. A promoção da saúde é base dessa teoria, especialmente a educação em saúde, pois explica a formulação dos pressupostos de Enfermagem. Uma vez que o enfermeiro deve mediar o aprendizado de relações positivas pelo triplo eu, a educação em saúde torna-se instrumento básico para a implementação dessa teoria. Sob essa perspectiva, o enfermeiro pode ter diversas ações para a pessoa complementar em seu eu interno, como: Mediar a aceitação de uma condição fisiopatológica para estabelecer relações de convivência com ela (p. ex., diabetes melito) Realizar cuidados diretos para o equilíbrio fisiológico da pessoa complementar (p. ex., elevar decúbito da cama para um paciente com dificuldade respiratória) Educar a pessoa complementar para o autocuidado frente às condições fisiopatológicas (p. ex., cuidados para gerenciar e manter a saúde). Eu existencial • • O eu existencial engloba as experiências prévias e os comportamentos apreendidos pela pessoa complementar em sua história até o momento em que define, em sua concepção, quem é, tornando-se um conjunto de comportamentos e autossignificados apreendidos em sua trajetória de vida. A condição existencial do ser humano significa a percepção de como e quanto esse ser humano existe, protagoniza sua vida, interfere na sua plataforma antropológica e escolhe as intenções que nortearam suas ações consigo e com a plataforma antropológica. As questões de estima e imagem, ou seja, de conceito e identidade, são a base do eu existencial. A identidade e sua aceitação positiva são a base para o efetivo desempenho de papéis na plataforma antropológica (Figura 4.4). Figura 4.4 Bases para o efetivo desempenho de papéis na plataforma antropológica. Nessa perspectiva, o enfermeiro pode ter diversas ações para a pessoa complementar em seu eu existencial, como: Mediar a aceitação de uma condição que afeta a estima ou imagem para estabelecer relações de convivência com essa condição (p. ex., genótipo) Realizar cuidados relacionais diretos para o equilíbrio existencial da pessoa complementar (p. ex., escutar ativamente quando o paciente se • abre e dialoga sobre alguma crise existencial) Educar a pessoa complementar para o autocuidado diante das condições existenciais (p. ex., estimular o diálogo interno, ou seja, a autorreflexão e a autocrítica, para encontrar pontos de melhorias mediante as crises existenciais). Eu relacional Por fim, o eu relacional engloba a quantidade e a qualidade das relações da pessoa complementar com o outro, com sua família, sua comunidade, sua cultura, sua nação e a bioesfera. O ser humano não se concebe isolado de um todo; assim, sua inserção em contextos externos a si próprio e dentro da plataforma antropológica é uma condição necessária ao contexto de potencial total de saúde. Por outro lado, a plataforma antropológica não se concebe sem o conjunto de seres humanos. A sociedade é composta por partes, necessidades e processos inter-relacionados, assim como um organismo humano; por isso, papéis precisam ser desempenhados dentro da plataforma antropológica para que uma nação se forme. Por exemplo, o profissional da limpeza de um hospital pode ter um papel de baixo reconhecimento na plataforma antropológica, o que pode abalar sua autoestima e seu desempenho. Todavia, o impacto desse profissional no controle de infecção hospitalar é de amplo espectro, tornando seu papel-chave no processo, visto que atende a uma necessidade importante e tem relação com os processos de antibioticoterapia, farmacovigilância e segurança do paciente. A plataforma antropológica ainda é altamente determinada pelas questões econômicas como compreensão de questões sociais e culturais. A sociedade, presa na desumanização causada pelo advento do capitalismo, vê-se presa às supervisões de uma burocracia inflexível. Esse fato é explicado por Marx 6 como uma tentativa da elite de manter-se no poder, • • negando que o proletariado detém a real força. Assim, tornar a grande massa de seres humanos alienados na plataforma antropológica reforçaria o controle da elite. Outra questão a ser considerada é que uma plataforma antropológica deve conceber tanto as muitas questões individuais quanto as coletivas, por também ser responsável por estas (p. ex., a depressão e a ansiedade são condições tecnobiológicas e existenciais causadas, muitas vezes, por desequilíbrio do eu relacional na plataforma antropológica). Nesse sentido, o enfermeiro pode ter diversas ações para a pessoa complementar em seu eu relacional, como: Mediar o empoderamento do ser humano para seu protagonismo na plataforma antropológica (p. ex., dialogar com uma comunidade sem saneamento básico para que ela possa exigir de seus representantes políticos o direito ao saneamento) Realizar cuidados para adequaçãoda plataforma antropológica para o potencial máximo de saúde do ser humano (p. ex., orientar uma comunidade a autorregular-se em ações de prevenção de doenças). Considerações finais Existe um espaço de convergência entre os três elementos do triplo eu, e esse espaço é denominado totalidade humana. É exatamente o espaço no qual o enfermeiro deve adentrar para coletar informações por meio da empatia reflexiva, isto é, da compreensão da totalidade humana, pois é com o equilíbrio do triplo eu que a saúde do ser humano pode ser alcançada. Cabe ao enfermeiro compreender cada elemento do triplo eu, não dissociando-o do todo, mas interferindo e sendo interferido por ele. Com a visão da totalidade do ser humano, a figura inicial da compreensão do triplo eu redesenha-se como mostra a Figura 4.5. 1. 2. 3. 4. 5. 6. Figura 4.5 Triplo eu. Com o uso da empatia reflexiva, o enfermeiro pode contribuir largamente na correção dos dilemas nos três “eus internos” de cada papel complementar que atende, realizando uma entrega social que explode os grilhões do contexto biomédico e permite que o enfermeiro adentre no espaço de sua identidade. Referências bibliográficas Lèvy P. A inteligência coletiva. São Paulo: Folha São Paulo; 2015. Giddens A. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Zahar; 2002. Bettelheim B. A psicanálise dos contos de fadas. 16. ed. São Paulo: Paz e Terra; 2002. Daily J. Contexts of Nursing. 4. ed. Sidney: Elsevier; 2014. Krietzer MJ. Integrative nursing. Arizona: Oxford Press; 2014. Marx K. 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Definição A coleta de dados é composta pelo histórico e pelo exame físico (passos 2 e 3 do Processo de Enfermagem – PE), sendo um processo sistemático e intencional para obter dados relevantes das condições do paciente e de sua família ou comunidade. A partir desses dados, o enfermeiro pode avaliar, correlacionar e agrupar informações, às quais, com base em seu • • • • • • conhecimento, atribuirá uma importância. Assim, os dados se transformarão em informação e darão respaldo ao enfermeiro para as fases seguintes. Historicamente, a Enfermagem consolida-se como uma Ciência pautada em duas grandes perguntas: “como?” e “por quê?”. Essas perguntas auxiliam o enfermeiro a compreender aspectos importantes para conhecer melhor seu papel complementar, a saber: Como a situação chegou ao estado atual Como a situação foi tratada previamente Por que não foi solicitada ajuda profissional previamente Como o papel complementar se sente após o tratamento Como o papel complementar planeja mudar seu comportamento frente às exigências da condição Por que o papel complementar diz ser difícil aderir ao tratamento. Atenção A coleta de dados é contínua dentro da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e do PE, pois em todas as outras etapas, quando o enfermeiro tem contato com a pessoa complementar, ele deve coletar dados, seja para validar os dados coletados anteriormente, diagnosticar, escolher as melhores intervenções ou avaliar se os resultados esperados foram alcançados. Os enfermeiros coletam dados da Ciência da Enfermagem, o que é muito mais que o mero diagnóstico de uma doença. Trata-se de diagnosticar a resposta humana do papel complementar e, sendo os seres humanos diferentes, as respostas também serão, exigindo do enfermeiro capacidade diagnóstica apurada e coleta de dados muito bem feita. A Tabela 5.1 apresenta o que deve ser avaliado nessa fase. Assim, uma resposta humana de autonomia do enfermeiro é toda e qualquer atitude frente aos dilemas da • • • • vida e processos de saúde que afetem o holismo do indivíduo em uma perspectiva cuja solução seja livre de terapia medicamentosa ou cirúrgica. Tabela 5.1 Visão geral da coleta de dados. Subetapa Ferramenta Coletar dados Entrevista*, observação e exame físico Analisar os dados Comparar dados objetivos e subjetivos Detectar lacunas e inconsistências Validar dados con�ituosos Identi�car necessidades de novos dados Pensamento crítico Organizar dados Mapa mental Fechar lacunas Julgamento clínico * Dados de identi�cação e da história de saúde; condição clínica e queixas atuais; estado emocional sobre a atual condição; conhecimento sobre a atual condição; adesão ao tratamento (se for o caso). A coleta de dados deve ser compreendida como uma atividade que vai além do preenchimento de um formulário. Nessa fase, é necessário ter: Flexibilidade: para permitir que a pessoa complementar guie a entrevista Pensamento crítico: para formular perguntas que aprofundem um dado observado ou informado Conhecimento: para escolher quais subetapas e componentes da coleta de dados serão utilizados e em que sequência Prática reflexiva: buscar dados para responder à pergunta “De qual informação eu preciso para cuidar dessa pessoa?”. Respostas humanas O foco do enfermeiro é coletar dados que o levem a compreender as respostas humanas de seu papel complementar diante dos dilemas da vida, os quais podem ser: processos naturais (adolescer, gestar, partejar, envelhecer etc.); mudanças no estado de saúde; dilemas existenciais, emocionais ou espirituais; expectativas, frustrações ou falta de propósitos; condições ambientais, sociais, políticas e econômicas; e cotidiano do trabalho, da família e da relação individual. Ter a clareza do que é uma resposta humana de autonomia da Enfermagem auxilia o enfermeiro a entender no que deve focar e sobre o que refletir durante a coleta de dados. Tipos de coleta de dados Existem dois tipos de dados coletados nessa fase, os objetivos e os subjetivos, e as fontes destes podem ser primárias ou secundárias, como mostram as Tabelas 5.2 e 5.3. Ainda sobre a coleta de dados, existem quatro tipos que variam conforme o tempo e a necessidade da pessoa complementar (Tabela 5.4). A coleta de dados é, então, uma etapa contínua, pois, a cada contato com a pessoa complementar, o enfermeiro pode detectar dados importantes para o plano de cuidados. Cabe ressaltar que a coleta de dados inicial nem sempre pode ser completa. Em uma situação de emergência, por exemplo, os dados mais relevantes serão coletados para que a assistência tenha início. Contudo, assim que possível, ainda que a pessoa complementar esteja em outro espaço ou unidade, os dados adicionais para uma visão geral da condição da pessoa complementar devem ser coletados. Tabela 5.2 Diferenças entre dados objetivos e subjetivos. Dados objetivos Dados subjetivos São sinais e/ou sintomas* São verbalizações São mensuráveis e/ou observáveis Não são mensuráveis ou observáveis Exemplos: pulso, urina, coloração da pele, hemograma, respiração e temperatura Exemplos: pensamentos, crenças, sentimentos, sensações, autopercepção e percepção de saúde Resumo: o que o enfermeiro detecta e comprova por meio da observação, uso de instrumentos de medida e exames Resumo: o que a pessoa complementar informa * A diferença entre sinal, sintoma e verbalização é que sinal é aferido por algum instrumento (p. ex., temperatura), sintoma é observado pelos sentidos (p. ex., coloração da pele) e verbalização é algo dito pelo paciente (p. ex., “sinto calor”). Tabela 5.3 Fontes dos dados. Fontes primárias Fontes secundárias Usuário Equipe de saúde Família (se for esta o foco de abordagem, e não o acompanhante)Prontuários do paciente Comunidade (se for esta o foco da abordagem) Evidências na literatura Experiência clínica do enfermeiro Obs.: Ambas as fontes trazem dados objetivos e subjetivos. Por exemplo, o paciente pode verbalizar que não sente dor, mas o familiar que o acompanha percebe que ele demonstra expressões faciais de dor e, no prontuário, há a prescrição de analgésicos pelo médico. Na análise global dos dados, o enfermeiro pode perceber que o paciente sente dor, mas há algo que o impede de admitir isso – este será o ponto da nova abordagem na coleta de dados pelo enfermeiro. É consenso na Enfermagem o uso de um impresso para a coleta de dados, pois isso pode auxiliar o enfermeiro a não esquecer nenhum dado relevante. No entanto, é importante reafirmar que a pessoa complementar é quem deve guiar a entrevista, pois, dessa maneira, se mantém uma sensação de conversa, e não de perguntas e respostas. A pessoa complementar se vê como participante da SAE, e não como expectadora, e o impresso de coleta de dados deve ser espelhado nas dimensões do ser humano propostas pela Teoria de Enfermagem escolhida na primeira fase do NPE. Ao encontrar uma pessoa complementar em um espaço comunitário insalubre, por exemplo, podem-se fazer as perguntas apresentadas na Tabela 5.5. Já no caso de encontrar uma pessoa complementar em um espaço hospitalar, as perguntas podem ser induzidas conforme apresentado na Tabela 5.6. Nota-se, assim, que as perguntas auxiliam o enfermeiro a transformar dados em informações (Figura 5.1). Uma vez correlacionadas, essas informações formarão a possível lista de Diagnósticos de Enfermagem (DE) para seu papel complementar. O que se propõe neste livro não é um impresso padrão de coleta de dados, mas uma concepção reflexiva pelo enfermeiro sobre quais perguntas deverá fazer à pessoa complementar. Somente assim a flexibilidade na coleta de dados será assegurada. Tabela 5.4 Tipos de coleta de dados. Tipo de coleta Característica Coleta de dados completa Inclui o histórico de saúde completo (atual e anterior) e forma uma linha de comparação entre a condição atual, a anterior e, possivelmente, a futura. Consiste em uma oportunidade de construir uma base relacional de con�ança com a pessoa complementar e tem as respostas a cada condição de vida, saúde ou doença do papel complementar Coleta de dados focada em condição a curto prazo De abrangência limitada e mais focada, inclui os dados referentes aos agravos à saúde causados por uma condição a curto prazo. Tem como foco um comportamento, estado, sistema ou órgão especí�co. A coleta de dados, então, permeia primeiramente a queixa existente (p. ex., indivíduo com tosse no período pós-operatório) Coleta de dados de acompanhamento Realizada em intervalos regulares, inferiores a 24 h, visa a reavaliar os dados obtidos na coleta completa e, assim, favorecer condições para um esquema comparativo entre o momento inicial de contato com a pessoa complementar e sua condição após as intervenções de Enfermagem Coleta de dados de emergência Realizada de maneira rápida e voltada às medidas necessárias para salvamento e restabelecimento da vida Tabela 5.5 Perguntas feitas e dados buscados em situação de insalubridade. Perguntas Dados buscados Há quanto tempo convive neste ambiente? Tempo de exposição a patógenos Por que convive neste ambiente? Autopercepção de empoderamento para mudança de realidade e de correlação entre higiene e condição econômica Como convive neste ambiente? Cuidados de saúde consolidados na prática diária de vida para amenizar os agravos à saúde causados pelo ambiente Tabela 5.6 Perguntas feitas e dados buscados em espaço hospitalar. Perguntas Dados buscados Há quanto tempo convive com este sintoma? Tempo de exposição ao sofrimento Por que convive com esta condição? Compreensão de direitos e deveres em saúde e de aceitação da condição �siopatológica para, então, buscar auxílio Como convive com esta condição? Cuidados de saúde pessoal Figura 5.1 Transformação de dados em informações. A proposta é que o enfermeiro possa desenhar mapas mentais com focos de atenção para cada pessoa complementar, de acordo com o contexto de sua prática e seu nível de atenção e seguir da coleta de dados para o próximo passo (Figura 5.2). Figura 5.2 Processo de diagnose a priorização. Foco de atenção Foco de atenção é um problema de saúde, um estado de risco, vulnerabilidade ou uma disposição para a promoção da saúde. Trata-se de um grande conceito de abordagem da pessoa complementar pelo enfermeiro, tido como fundamental para a compreensão da condição e do potencial de saúde do paciente. Para compreender um foco de atenção essencial à prática de cada enfermeiro, o que pode mudar de acordo com a população atendida, a plataforma antropológica e o nível de atenção no qual se atua, é necessário pensar criticamente sobre o que precisa ser avaliado. Atenção Foco é um aspecto do ser humano ao qual o enfermeiro deverá prestar atenção, comparando as condições normais com as condições apresentadas pelo paciente. O foco prioritário para cada pessoa complementar depende da gravidade do caso, podendo ser apenas um ou vários. É importante que o enfermeiro tenha clareza a respeito dos focos de atenção de sua prática, conforme a unidade em que atua, a condição epidemiológica de sua população e o contexto em que o estabelecimento de atenção em saúde no qual atua está inserido. Um exemplo de foco de atenção é a amamentação. Para esta, cabe ao enfermeiro elaborar um mapa mental das perguntas que deve fazer para acessar a ocorrência e eficácia da amamentação, como pode ser visto na Figura 5.3. Neste exemplo, o enfermeiro refletiu sobre as perguntas que auxiliam na identificação do foco de atenção e em sua avaliação. Uma vez que encontra respostas positivas, o diagnóstico será positivo – ou negativo, em caso de respostas negativas. Figura 5.3 Exemplo de mapa mental para foco de atenção (amamentação). Fica claro que, para acessar os dados da coleta, o enfermeiro utiliza o raciocínio crítico e, para encontrar o diagnóstico, o julgamento clínico. Portanto, por meio da reflexão dos dados coletados, o enfermeiro pode julgar o foco de atenção (p. ex., amamentação) atribuindo a ele uma métrica base para um julgamento (p. ex., eficaz). E isso leva à próxima fase da SAE: o DE. Atenção No PE, as fases que possibilitam a coleta de dados na SAE são o histórico de Enfermagem e o exame físico. Habilidades necessárias para a coleta de dados O momento de coleta de dados é um encontro entre o enfermeiro e o papel complementar, na busca da compreensão sobre como e por que o paciente está nas condições em que se encontra. Para tanto, algumas habilidades devem ser asseguradas pelo enfermeiro no momento da coleta, a fim de que o foco seja, de fato, conhecer o papel complementar e sua condição, e não simplesmente preencher os impressos do PE que fazem parte da coleta de dados da SAE, isto é, histórico de enfermagem e exame físico. Essas habilidades estão descritas na Figura 5.4. Existem quatro grandes eixos de habilidades para a entrevista: postura profissional, anotações, toque e comunicação. Figura 5.4 Habilidades esperadas do enfermeiro no momento da coleta de dados. Postura profissional O enfermeiro deve posicionar-se, sempre que possível, na altura do papel complementar e evitar gestos de poder, como mão no bolso, braços cruzados ou dedo em riste. A expressão facial também precisa ser alvo de atenção, pois julgamentos são feitos mentalmente de maneira rápida e, se não controlados, ficam explícitos na expressão facial. O ideal é deixar o papel complementar falar sem se sentir julgado, para que não omita nem mude dados fundamentais para a elaboração do plano de cuidados. Anotações As anotações devem ser concisas e centradas nos problemas apresentados pelo papel complementar; evitar preencher dados que não contemplem o problema pode auxiliar na rapidez e fluidez da SAE. Para re�etir Um paciente,em quarta internação por hipertensão arterial em 1 mês, é atendido pelo mesmo enfermeiro na consulta de Enfermagem e, quando questionado sobre a dieta, a�rma segui-la corretamente, dizendo, ainda, que a macarronada de domingo é sem sal, mas que o queijo ralado ajuda no gosto da comida. Neste momento, se o enfermeiro �zer um julgamento e verbalizar um “não”, seu papel complementar perceberá que disse algo errado e será cerceado a aprofundar e contar sem receios como cuida de sua dieta, visto estar na quarta descompensação da pressão arterial em período tão curto. O enfermeiro deve, então, compreender muito bem o caso clínico e identi�car por que o plano de cuidados não foi e�caz nas 3 vezes anteriores, a �m de evitar reinternação. Uma dica é manter o contato visual com o paciente, mas sem emitir sinais nem sons de julgamentos. Contudo, a anotação deve ser feita junto com ao papel complementar, com perguntas de validação para que ele possa compreender que foi interpretado e que está sendo validado antes do registro. Assim, fica clara a importância de suas falas para o enfermeiro. Toque O toque é um cuidado muito expressivo da Enfermagem; se bem usado, coaduna com o conceito de cuidado livre de danos, indo além das questões técnicas e processuais de segurança do paciente. Cuidado livre de danos engloba o conceito atual de segurança do paciente e o coloca junto de cuidados que evitem dados morais, sociais, culturais e existenciais. Assim, a Enfermagem demonstra que domina o mais puro conceito da palavra “cuidar”, cujo toque é sua mais relevante expressão. Nem todas as culturas são abertas ao toque, ao passo que, em outras, a falta dele pode passar uma impressão de ausência de cuidado. Então, a alfabetização cultural passa a ser uma premissa do enfermeiro. Diversos estudos tratam sobre a importância dos aspectos culturais, e cabe a cada profissional, ao reconhecer seu papel complementar, buscar conhecimentos para compor sua prática de coleta de dados. Comunicação A comunicação é formada por outras cinco habilidades: silêncio, empatia, perguntas diretas, perguntas de validação e escuta ativa. O silêncio é uma habilidade difícil de conquistar e fortalecer na Enfermagem. Por vezes, é mais fácil dizer o que se espera ouvir do que deixar que o outro fale. Todavia, há perguntas ou momentos na coleta de dados em que o silêncio do paciente deve ser respeitado, pois ele pode estar reorganizando seu mundo interno, organizando as emoções, pode não ter compreendido alguma pergunta ou simplesmente ainda não quer falar sobre o assunto, o que leva o enfermeiro, após um período de respeito de silêncio, mudar a perspectiva da conversa, muitas vezes para coletar os mesmos dados, mas com perguntas e caminhos internos diferentes. Atrelada ao silêncio está a escuta ativa. Ao questionar o paciente sobre qualquer sinal, sintoma ou verbalização, deve-se dar tempo para que ele responda com suas próprias palavras; completar as frases no lugar dele pode induzi-lo nas respostas e levar a uma coleta irreal. Ainda neste contexto de escuta ativa, inclui-se a escuta de sinais não verbais e paraverbais de linguagem. Um papel complementar que afirma não estar ansioso, mas que fala alto e sem pausas, denota que há algo parecido com ansiedade em suas respostas. As perguntas, parte da habilidade de comunicação, podem ser diretas, abertas ou não; por exemplo, “Você sente dor?” é uma pergunta fechada, para a qual só há duas respostas: sim ou não. Se o paciente responder que sim, deve-se perguntar como é essa dor e deixar que ele use seu próprio vocabulário para descrevê-la, como “pontada”, “facada”, “puxão”, “insuportável” etc. Nas perguntas, o silêncio por parte do entrevistador e a escuta ativa são extremamente importantes. Considerações finais A coleta de dados é fase imprescindível para o devido trabalho da Enfermagem. Sem conhecer adequadamente as alterações nas condições de saúde e de vida do papel complementar, o enfermeiro não tem base para elaborar o plano de cuidados e definir suas metas. Assim, esse momento, ainda que tome algum tempo do enfermeiro, deve, impreterivelmente, ser priorizado para que o cuidado seja efetivamente estruturado e a ciência da Enfermagem aplicada corretamente. Bibliografia Lunney M. Pensamento crítico para o alcance de resultados positivos de saúde. Porto Alegre: Artmed; 2009 Potter PA, Perry AGP. Fundamentos de Enfermagem. Rio de Janeiro: Elsevier; 2009. • • • Objetivos deste capítulo Conceituar Diagnóstico de Enfermagem Conhecer os elementos que compõem os Diagnósticos de Enfermagem e seu uso Compreender como o Diagnóstico de Enfermagem serve de base para o plano de cuidados. Palavras-chave: diagnose, agrupamento de dados, Diagnóstico de Enfermagem, características definidoras, fatores relacionados, fatores de risco, população de risco, condições associadas, plano de cuidado. Diagnose, etapa do PE: 3. Diagnósticos de Enfermagem, etapa do PE: 4. Diagnósticos de Enfermagem, etapa da SAE: 3. Definição A coleta de dados é um processo sistemático para obter dados relevantes das condições do papel complementar. Após a obtenção desses dados, é possível iniciar a diagnose, que permite uma visão ampla dos Diagnósticos de Enfermagem (DE), para, então, seguir para a priorização do DE. DE são julgamentos clínicos feitos pelo enfermeiro acerca das respostas da pessoa complementar sobre seus problemas de saúde atuais ou de risco, bem como sobre os processos do ciclo vital, uma vez que o enfermeiro é responsável por detectar, planejar e executar o cuidado, alcançando o resultado esperado. Entre os vários DE encontrados na coleta de dados (refletidos na diagnose), o enfermeiro deve escolher aqueles que contarão com pessoas, tempo, métodos e insumos para atingir as metas. Atenção Uma pessoa complementar pode ter mais de um DE, e cabe ao enfermeiro determinar os DE prioritários. Um DE emerge de um foco de atenção, ou seja, de um conceito diagnóstico da pessoa complementar que necessita de atenção detalhada da Enfermagem, cuja atuação pode melhorar ou evitar uma piora na condição clínica. Sua expressão se dá por meio do que se chama de “resposta humana”. Cabe ainda ao enfermeiro determinar o período durante o qual um DE será abordado. Por exemplo, no caso de um paciente que utilizará bolsa de colostomia para sempre, o enfermeiro pode encontrar DE relacionados ao enfrentamento da cirurgia nas 24 h anteriores e nas 24 h subsequentes. A principal linguagem e taxonomia dos DE é a NANDA-International (NANDA-I), que criou uma maneira de classificar e categorizar o conhecimento de Enfermagem por meio de evidências científicas. Quanto maior o nível de evidência, mais consistente é o DE e mais comprovado como inerente à Enfermagem é o foco do qual emerge. Os níveis de evidência auxiliam a compreender se um DE está bem consolidado ou não. A Figura 6.1 apresenta o processo pelo qual um DE é validado por sua evidência em pesquisa. Vale ressaltar que quanto mais se tiver DE com altos níveis de evidência, mais a prática da Enfermagem estará respaldada por pesquisa, consolidando a profissão cientificamente. Diagnóstico de Enfermagem Um diagnóstico é, por definição, um julgamento a partir de uma análise profunda sobre um foco de resposta humana, a fim de compreender como os elementos da realidade se relacionam, especialmente causa e efeito, o que auxilia o enfermeiro a elaborar o plano de cuidados. O conceito de diagnóstico afirma que este é um julgamento. Julgar significa emitir um juízo, opinião ou parecer por meio da capacidade de discernimento a respeito dos elementos apresentados. Assim, percebe-se a ponte que liga a coleta de dados com os DE (Figura 6.2). No conceito de DE, tem-se duas questões: o que é (um julgamento clínico de respostas humanas) e por que (para elaborar o plano de cuidados). Isto é, diagnosticar é imprescindível ao enfermeiro. Figura 6.1 Processo de validação do DE por sua evidência em pesquisa. Figura 6.2 Ligação entre coleta de dados e DE. Após a coletadas informações sobre um determinado foco de atuação do enfermeiro, parte-se para a análise efetiva dos dados, verificando se é necessário buscar novos dados ou validar os atuais. Com isso, é possível que o enfermeiro realize um processo de reflexão que culmine no julgamento do estado atual do foco, compreendendo se este está dentro ou fora do padrão de normalidade. Nota-se, assim, que as fases de diagnose e DE dependem da coleta de dados, uma vez que a qualidade destes afeta a compreensão efetiva do comportamento analisado pelo enfermeiro para a efetiva formulação de um juízo sobre o caso. O DE, por sua vez, afeta o plano de cuidados, visto que corresponde à base dele. A eficácia da Enfermagem, portanto, está pautada na capacidade de uma adequada coleta de dados e na reflexão apurada entre a coleta de dados e DE, denominada diagnose. O DE pode ser considerado o pivô da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), pois é a base para uma estrutura equilibrada de assistência de Enfermagem, permitindo a mudança da condição clínica atual da pessoa complementar (Figura 6.3). Atenção O DE deve ser escolhido somente após uma visão clara e consistente do enfermeiro sobre a condição atual do foco analisado na pessoa complementar, visto que erros de interpretação, julgamento de valores e interferências culturais podem afetar o processo diagnóstico. Figura 6.3 DE como pivô da SAE. Eficácia diagnóstica Após coletar os dados, o enfermeiro deve analisá-los, dando sentido a eles, isto é, transformando-os em informação. Dados são fatos brutos, elementos isolados, ao passo que informações têm significado, estão interligadas e passam por um julgamento clínico. A Tabela 6.1 apresenta a diferença entre dados e informações. No exemplo apresentado na tabela, percebe-se que a transformação dos dados em informações só foi possível por meio do uso de conhecimentos de Enfermagem: necessidades nutricionais, função do sistema nervoso, teorias sociais, teorias de estresse e enfrentamento. O conhecimento é o que faz do enfermeiro um diagnosticador diferenciado. O processo de conversão de dados em informações clínicas é representado nas Figuras 6.4 e 6.5. Com as informações é possível realizar a diagnose e, com a análise de pessoas, os métodos e os insumos disponíveis, é possível encontrar o DE prioritário para a elaboração do plano de cuidados, como mostram as Figuras 6.6 e 6.7. Existem quatro tipos de DE, demonstrados na Tabela 6.2. Estrutura de um DE Em primeira instância, um DE tem dois elementos: foco e modificador. Isso significa que a lista de focos de autonomia, quando julgada pelo enfermeiro, recebe um modificador (ou adjetivo que expressa a condição do foco). O enfermeiro, ao acessar os dados (raciocinar criticamente), transformá-los em informação e tomar uma decisão (julgamento clínico), determina o estado do foco, bem como se este configura um DE a ser considerado no plano ou não (Figura 6.8). Tabela 6.1 Exemplo de dados versus informações. Dados objetivos Correlação e signi�cação dos dados 90 anos 1,75 m 45 kg Idade elevada e peso corporal abaixo do normal Confusão Cuidador necessitando de auxílio Dados subjetivos Julgamento clínico Verbaliza não reconhecer sua acompanhante Acompanhante relata que o paciente não aceita a dieta e que está confuso já há 6 meses Confusão crônica Desnutrição Risco de tensão no papel do cuidador Em segundo lugar, um diagnóstico é formado por dois elementos: as causas e os efeitos. Por exemplo, uma mãe pode não posicionar o recémnascido adequadamente no peito para a amamentação por ser primípara, não ter recebido orientação e estar sem autoconfiança (Figura 6.9). Figura 6.4 Método de conversão de dados em informações clínicas. Figura 6.5 Exemplo de conversão de dados em informações clínicas. Figura 6.6 Método de diagnose para elaboração de plano de cuidados. As causas são as características definidoras (sinais, sintomas e verbalizações) e os efeitos são os fatores relacionados (no caso de diagnósticos relacionados com problemas e síndromes) ou de condições risco (no caso de diagnósticos de risco), bem como as populações de vulnerabilidade e as condições associadas. A Tabela 6.3 traz a definição de cada um desses conceitos. Para entender como se relacionam os conceitos acima, são apresentados alguns DE na Tabela 6.4. Figura 6.7 Exemplo de diagnose para elaboração de plano de cuidados. Tabela 6.2 Tipos de DE. DE Julgamento clínico Exemplo Diagnóstico baseado em problema* Resposta humana indesejada para condições de saúde ou processos de vida Ansiedade Diagnóstico de risco Vulnerabilidade de uma resposta humana indesejada Risco de dignidade humana comprometida Diagnóstico de promoção de saúde Motivação ou desejo para aumentar o bem-estar e o potencial de saúde atual Disposição para controle da saúde melhorada Síndrome Coexistência de dois ou mais DE Síndrome do idoso frágil * Antes denominado diagnóstico atual, teve seu nome alterado porque um diagnóstico de risco também pode ser um diagnóstico atual. Figura 6.8 Foco diagnóstico e modificador no DE. Figura 6.9 Exemplo de causa e efeito em DE. Tabela 6.3 Definição dos conceitos em DE. Termo Tipo De�nição Característica de�nidora Efeito Sinais, sintomas, verbalizações (dados objetivos e subjetivos) Fator relacionado Causa Causa ou fator contribuinte ou determinante do efeito Fator de risco Possível efeito Vulnerabilidade que pode instalar-se como fator contribuinte ou determinante População de risco Efeito Grupos que possuem características semelhantes que aumentam ou diminuem a suscetibilidade para cada resposta humana Condições associadas Efeito Diagnósticos médicos, procedimentos, fármacos, insumos médicos Obs.: Os dois últimos elementos da tabela não são alterados de maneira independente pelo enfermeiro, mas devem ser considerados no plano assistencial. Tabela 6.4 Exemplos de DE. Tipo de DE DE somente com características de�nidoras e fatores relacionados DE com características de�nidoras, fatores de risco, população de risco e condições associadas DE de risco Síndrome com características de�nidoras, fatores de risco, população de risco e condições associadas Diagnóstico Estilo de vida sedentário Insônia Risco de síndrome do estresse por mudança Síndrome do idoso frágil Características de�nidoras* Atividade física diária inferior ao recomendado para sexo e idade, falta de condicionamento físico, preferência por atividades de pouco exercício físico Acordar cedo, alteração no humor e afeto, insatisfação com o sono, di�culdade pra iniciar e/ou manter o sono, energia insu�ciente, entre outros – Deambulação prejudicada, dé�cit no autocuidado, desesperança, intolerância à atividade, desnutrição, isolamento social, entre outros Fatores relacionados Conhecimento de�ciente sobre os benefícios que a atividade física traz à saúde; interesse insu�ciente pela atividade física; motivação insu�ciente para a atividade física; recursos insu�cientes para a atividade física; treinamento insu�ciente para fazer exercício físico Ansiedade, atividade física diária média inferior ao recomendado para idade e sexo – Estilo de vida sedentário, hospitalização prolongada, morar sozinho, história de queda, entre outros Fatores de risco – – Estado de saúde comprometido, história de perda, – impotência, entre outros Populações de risco – Estressores, barreira ambiental (ruído, exposição à luz do dia, temperatura e/ou umidade inadequada)** – Idade avançada Condições associadas – Depressão*** – Doenças crônicas, transtorno psiquiátrico * As características de�nidoras são DE que coexistem nesta condição. ** Geralmente condições de moradia, fruto da condição e do grupo social do qual o indivíduo faz parte. *** Patologia médica. Adaptada de Herdman e Kamitsuru, 2015.1 As características definidoras são efeito dos fatores relacionados,das populações de risco e de condições associadas (não sendo estas duas últimas de resolução com autonomia pelo enfermeiro). A Tabela 6.5 traz um exemplo de DE de conflito no papel de pai e mãe. A definição desse DE diz que o pai ou a mãe experimentam uma confusão no desempenho de seu papel e sofrem conflito na resposta a crises. Tabela 6.5 DE de conflito no papel de pai e mãe. Características de�nidoras (efeitos) Ansiedade, culpa, frustração, inadequação para atender às necessidades do �lho, medo, perda de controle sobre decisões relacionadas com o �lho, preocupação em relação à família e a mudanças no papel paterno ou materno, relutância em participar de atividades usuais do cuidado, rupturas nas rotinas do cuidado Nem todas essas características estarão presentes, pois dependem dos fatores relacionados, populações de risco e/ou condições associadas. Portanto, cabe perguntar-se para cada característica de�nidora: “por quê?”. Assim será possível compreender sua causa Fatores relacionados (causas que o enfermeiro tem autonomia) Intimidação com relação a modalidades de tratamento restritivas (p. ex., isolamento), intimidação com relação a modalidades invasivas (p. ex., intubação) Neste fator o enfermeiro pode atuar com orientação e auxiliar os pais a compreenderem a situação. No entanto, isso diz respeito à redução de ansiedade, culpa ou frustração dos pais, e não ao tratamento da criança. Isso signi�ca que, para a criança, fatores são condições associadas, e para o DE, são fatores relacionados, pois há intervenções de autonomia do enfermeiro para os pais Populações de risco (causas que o enfermeiro não tem autonomia) Mudança na situação conjugal Este fator não é de autonomia do enfermeiro. Existem intervenções, mas elas não resolverão o fator, embora possam minimizar e auxiliar os pais separados a aprenderem a conviver de maneira positiva com a criança Condições associadas (causas que o enfermeiro não tem autonomia) Cuidado domiciliar de criança com necessidades especiais, interrupções da vida familiar em virtude do regime de cuidados familiares Este é um fator que o enfermeiro não cuida sozinho e não alcança metas sem colaboração interdisciplinar Como priorizar um DE após a diagnose Durante a diagnose, o enfermeiro mapeia todos os DE identificados por meio da interpretação dos dados coletados. Assim, com o julgamento clínico, o enfermeiro interpreta e conclui os DE que remetem às respostas humanas mais preocupantes, isto é, aquelas que afetam drasticamente a tomada de decisão do papel complementar, sua condição de saúde, suas 1. necessidades mais prementes e suas preocupações, incluindo-o na decisão de seu plano de cuidados. Compreende-se assim que, com o afastamento do enfermeiro da beira do leito, ocorreu um vácuo do seu papel, ocupado pelos técnicos. 2 Segundo Burresh e Gordon 3 , o enfermeiro tornou-se invisível por dois motivos: não usar os DE ou pautar sua prática nos diagnósticos médicos. O foco da enfermagem deve estar claro: médico trata, enfermeiro cuida. Enfermeiro foca na saúde, não na doença. Fenômenos de atuação do enfermeiro, como sono, conforto e nutrição, por exemplo, segundo Lunney 4 , são complexos porque envolvem experiências humanas. No processo de coleta de dados para diagnose, o enfermeiro encontra diversos indícios para explicar de maneira consistente as respostas humanas do papel complementar. É nesse ponto que o raciocínio crítico é mais exigido do enfermeiro: ele deve considerar os riscos envolvidos no caso clínico (vulnerabilidades), os aspectos de manutenção da vida em estados anormais, os desejos do papel complementar e suas atitudes negativas para o processo de recuperação. Considerações finais A priorização passou a ser um aspecto importante da SAE, uma vez que não há tempo para que todos os DE sejam cuidados em um único estabelecimento de atenção em saúde. Priorizar é primordial, pois auxilia o enfermeiro a elaborar um plano de cuidados focado e passível de alcançar metas. Referência bibliográfica Herdman TH, Kamitsuru S (eds.). Diagnósticos de Enfermagem da NANDA – definições e classificação 2015-2017. Porto Alegre: Artmed; 2015. Bibliografia Burresh B, Gordon S. Do silêncio à voz. 2. ed. Loures: Lusociência; 2006. Chanes M. Qualidade assistencial em Enfermagem. In: Malagutti W, Caetano K (orgs.). Gestão do Serviço de Enfermagem no mundo globalizado. Rio de Janeiro: Rubio; 2009. Lunney M. Coleta de dados, julgamento clínico e diagnósticos de enfermagem precisos. In: Herdman TH (ed.). Diagnósticos de Enfermagem da NANDA – definições e classificação 2012-2014. Porto Alegre: Artmed; 2012. • • • • Objetivos deste capítulo Conceituar metas de Enfermagem Conceituar resultados de Enfermagem Conhecer a relação das metas e resultados com os Diagnósticos de Enfermagem (DE) Compreender como o Diagnóstico de Enfermagem serve de base para o planejamento de metas e resultados. Palavras-chave: planejamento de resultados, planejamento de metas, métricas, critérios de avaliação. Planejamento de Metas, etapa da SAE: 4. Planejamento de Metas, etapa do PE: 5. Planejamento de Resultados, etapa do PE: 6. Metas e Resultados de Enfermagem Os últimos conceitos de Processo de Enfermagem (PE) e Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) considerados mundialmente foram as metas e os resultados de Enfermagem. Os diagnósticos e as intervenções ganharam espaço antes mesmo dos resultados, fato que não tem fundamento principalmente na questão gerencial do cuidado. Como afirma Weir- Hughes 1 , os gerentes e coordenadores de Enfermagem são os menos engajados e ativos na implantação efetiva do PE e SAE nos estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS). A inclusão ou a absorção das metas e resultados em momento tardio reflete um erro gerencial mundial da Enfermagem, uma vez que a concepção administrativa da melhoria contínua, por meio da ferramenta PDCA (plan, planejar; do, fazer; check, verificar; act, agir)*, é de conhecimento dos gestores de Enfermagem. No entanto, afastados da linha assistencial e com uma interpretação burocrática ou cartorial da SAE, muitos gerentes exigiram a implantação da SAE em seus EAS; sem embasamento, porém, ela se transformou em uma ferramenta que o enfermeiro reluta em aderir. Ciampone e Melleiro 2 apontam que, para planejar, é necessário, logo após o momento de diagnóstico, a determinação dos objetivos. Tais objetivos assemelham-se ao momento de planejar metas e resultados do PE e SAE. Assim, cometeu-se um erro ao não se implantar essa fase de maneira correta desde que a SAE se tornou uma regulamentação em 2002. 3 Diferença entre metas e resultados de Enfermagem Metas e resultados são conceitos diferentes, mas que constituíam uma mesma fase tanto no PE quando na SAE. No novo PE, porém, há uma definição mais clara do que, de fato, são cada um deles e que os torna conceitos diferentes. Metas Meta é um desejo ou uma finalidade, geralmente intencional e abstrata. Na SAE, consiste em definir um problema ou a aceitação de um problema pelo papel complementar, de acordo com Kamitsuru. 4 As metas servem para descrever algo amplo e abrangente, mas com sentido voltado para as necessidades do paciente [ou seja, com a diagnose ou o Diagnóstico de Enfermagem (DE) priorizado]. Metas geralmente são vagas e idealistas, utilizadas para definir uma intenção generalista (um propósito, o que se deseja alcançar). Por exemplo: “Minha meta é educar o paciente sobre diabetes até o momento de sua alta”. No geral, as metas são dividas em dois grandes grupos: aceitação e solução. Para Kamitsuru 4 , metas são a solução do DE; todavia, para algumas condições crônicas, a solução pode ser algo irreal, de maneira que o foco se torna a aceitação do problema pelo papel complementar, o que pode facilitar a aderência ao tratamento ou mudanças comportamentais. A Tabela 7.1 apresenta os dois subtipos de metas de acordo com a análise clínica e reflexiva do enfermeiro. Tabela7.1 Meta de solução e meta de aceitação. Diagnóstico de Enfermagem Meta Intenção pautada no conhecimento Enfrentamento ine�caz Meta de solução: enfrentamento e�caz A ine�cácia no enfrentamento é decorrente da incapacidade do papel complementar em avaliar, escolher e agir diante de sua necessidade de saúde. Assim, o enfermeiro pode, por meio de intervenções educacionais, torná-lo e�caz, ou seja, capacitá-lo a avaliar a situação, tomar decisões e agir em prol de sua saúde. Dessa maneira, a solução da ine�cácia é possível Síndrome de dor crônica Meta de aceitação: síndrome de dor crônica A síndrome da dor crônica é uma dor recorrente e persistente por período acima de 3 meses e que afeta signi�cativamente a rotina e o cotidiano do papel complementar. Contudo, é causada, em sua maioria, por condições associadas que podem não ser tratáveis, mas sim amenizadas (paliação). Assim, o papel complementar aceitar a síndrome pode auxiliar em sua aderência ao tratamento e na sua conscientização em evitar os fatores precipitantes da dor Resultados Por serem objetivos e mensuráveis, os resultados são mais tangíveis que as metas. A habilidade do enfermeiro em formular os resultados é o que determinará o sucesso ou o fracasso do plano de cuidados. Resultados são baseados em dados observáveis e realistas, utilizados para descrever resultados específicos que podem ser observados quando a meta for atingida. Por exemplo: “Até o momento da alta, o paciente será capaz de dizer como gerenciar sua dieta e a administração de insulina para manter a glicemia dentro dos padrões normais”. Os resultados devem ser sensíveis à Intervenção de Enfermagem (IE) e elaborados visando à construção de uma trilha de resultados que levem ao alcance da meta. O resultado é exatamente o oposto da característica definidora. Em um caso de padrão respiratório ineficaz, por exemplo, uma das características definidoras é o batimento de asa nasal; o resultado, nessa situação, será exatamente seu oposto, a não ocorrência de batimento de asa nasal. Esse olhar lógico auxilia o enfermeiro, já no momento da clínica, a predizer os resultados e suas métricas. Atenção O resultado é sempre o oposto da característica de�nidora. Tomando como exemplo um DE de enfrentamento defensivo (Tabela 7.2), que se refere a uma projeção repetida de uma autoavaliação falsamente positiva da realidade, baseada no instinto de autoproteção e que faz o papel complementar defender-se de modo hostil e ameaçador, tem-se um DE passível de solução; então, a meta é a mesma do enfrentamento ineficaz, ou seja, o enfrentamento eficaz. Contudo, os resultados só podem ser definidos com base nos achados no momento da coleta de dados, ou seja, por meio das características definidoras, visto que o oposto delas caracteriza o resultado. Enfrentamento, porém, é um foco que necessita de um tempo longo para ter a meta atingida, e nem sempre isso é possível na maioria dos EAS. Então, outro exemplo é o DE de déficit no autocuidado para banho, demonstrado na Tabela 7.3. Tabela 7.2 DE de enfrentamento defensivo. Características de�nidoras Resultados esperados Atitude superior aos outros Verbaliza necessidade de ajuda Di�culdade em estabelecer relacionamentos Realidade distorcida Verbaliza aceitação da realidade Falta de participação no tratamento e na terapêutica Busca informação con�ável sobre o diagnóstico e a terapêutica Hipersensibilidade à crítica Verbaliza redução de sentimentos negativos Hostilidade instalada Relata redução de sintomas de estresse Essas características definidoras podem ter sido causadas (fator relacionado) por dor cirúrgica. Então, o enfermeiro consegue atribuir um tempo determinado para o alcance de cada resultado, como na Tabela 7.4. Pelo julgamento clínico, o enfermeiro consegue estabelecer como espera encontrar o papel complementar nos dias subsequentes ao primeiro contato e, assim cria uma prática pautada em resultados. Ao estabelecer resultados, ele estabelece, ao mesmo tempo, as métricas de sua eficácia e do impacto de seu papel, pois quanto mais resultados forem alcançados, mais o enfermeiro pode afirmar que sua atuação é eficaz, isto é, que atinge metas. Tabela 7.3 DE de déficit no autocuidado para banho. Características de�nidoras* Resultados esperados Capacidade prejudicada de lavar o corpo Lavar o corpo Capacidade prejudicada de pegar artigos de banho Alcançar artigos de banho * Não estão elencadas todas as características de�nidoras do DE, somente as que criam hipoteticamente o caso clínico. Tabela 7.4 Metas em caso de DE de déficit no autocuidado para banho. Características de�nidoras* Resultados esperados Capacidade prejudicada de lavar o corpo O cliente irá lavar o corpo até 2 dias após a cirurgia Capacidade prejudicada de pegar artigos de banho O cliente irá alcançar artigos de banho até 1 dia antes da alta * Não estão elencadas todas as características de�nidoras do DE, somente as que criam hipoteticamente o caso clínico. Potter e Perry 5 apresentam as características para a descrição de um resultado adequado, como pode ser visto a seguir. Centrado no cliente. Os resultados devem refletir respostas do que se espera que o papel complementar apresente como consequência das intervenções de Enfermagem. Então, o resultado nunca é a ação do enfermeiro (pois isso remete à intervenção), mas sim a ação do papel complementar. Errado Correto Caminhar com o cliente no dia após a cirurgia O cliente irá caminhar no dia após a cirurgia* * Cabe avaliar se a frase do resultado terminaria com “com auxílio” ou não, dependendo de diversas variáveis, como porte e local da cirurgia. Resultado singular. Cada objetivo trata de uma ou, no máximo, duas características definidoras, pois a singularidade permite a avaliação precisa do caso clínico. Errado Correto Tosse produtiva Tosse produtiva com expectoração contínua sem uso de musculatura acessória na respiração Tosse produtiva Tosse produtiva com expectoração contínua Uso de musculatura acessória para respirar Uso de musculatura acessória para respirar Não utiliza musculatura acessória na respiração Observável. O resultado deve ser uma alteração observável entre a característica definidora e o resultado previsto. Errado Correto Cliente deixa de demonstrar tristeza Paciente verbaliza sentir-se bem em poder abraçar seus familiares na visita Mensurável. Os resultados (geralmente sinais) devem ser descritos com métricas. Errado Correto Pulso normal Pulso apical entre 65 e 95 bpm Temporal. Os resultados podem ser divididos na linha do tempo, para que seja possível, mesmo que sutilmente, detectar se o plano de intervenções está adequado. Errado Correto Expectativa de evacuação no mesmo horário todos os dias O cliente compreenderá no 2 o dia de internação o re�exo gastroduodenointestinal e os fatores que afetam a regularidade da evacuação Realista. Os resultados devem ser realistas para não haver frustração do enfermeiro nem de seu papel complementar – por isso a meta de aceitação deve ser considerada, e não somente a de solução. Resultados realistas são mais passíveis de serem alcançados e, a cada resultado alcançado, tanto o enfermeiro quanto o papel complementar podem visualizar a eficácia do plano e a melhora na resposta humana. As metas e os resultados guiam o planejamento de IE e servem de base para a avaliação contínua de sua eficácia. Atenção O conceito de Diagnóstico de Enfermagem deixa claro que este serve de base para a formulação de um plano de cuidados que possibilite o alcance de resultados pelos quais o enfermeiro tem autonomia e responsabilidade. Isso signi�ca que determinar o resultado, e não somente a meta (por ser abstrata), o auxilia a mensurar seu próprio trabalho e compreender o impacto de seu papel como enfermeiro. Não se isola o fato de o ser humano ser, também, biológico, tendo, assim, respostas internas não voluntárias (p. ex., termorregulação) e voluntárias (p. ex., sentar-seao sentir tontura). Trilha de resultados para alcance de metas Para cada meta, resultados devem ser elencados. Como visto, a meta é a solução ou aceitação do problema e os resultados são o oposto das características definidoras do DE. Assim, a Tabela 7.5 traz um exemplo de como formular um PE com resultados que contemplem a meta escolhida na SAE. Observa-se que a lista de resultados torna a meta possível. Além disso, a divisão no tempo (antes ou no momento da alta) permite que o enfermeiro perceba quais serão suas intervenções naquele dia ou plantão para que o resultado seja alcançado (Figura 7.1). Tabela 7.5 Exemplo de PE com resultados coerentes com a meta. Diagnóstico de Enfermagem Automutilação: comportamento autolesivo deliberado que causa dano tissular com objetivo de criar lesões para alívio de tensão ou estresse Meta: aceitação Controle de impulso: comportamento que, diante dos fatores precipitantes da vontade de automutilar-se, faz com que o papel complementar mantenha o controle e desvie sua atenção Características de�nidoras * Esfolar-se Morder-se Fazer arranhões no corpo Resultados Tratar as lesões até o momento da alta Fazer o papel complementar abster-se de autolesões até o momento da alta Fornecer meios, antes da alta, para o papel complementar lidar com tensão e estresse antes, sem utomutilar-se, da alta Ajudar o papel complementar a expressar seus sentimentos antes da alta * Não estão elencadas todas as características de�nidoras do DE, somente as que criam hipoteticamente o caso clínico. Figura 7.1 Divisão do tempo antes e até a alta. Considerações finais Com uma trilha de resultados que abarquem as características definidoras e possibilitem o alcance passo a passo da meta (mas de modo tangível), é possível que o enfermeiro realize uma prática centrada em resultados no 1. 2. 3. 4. 5. papel complementar e enxergue (junto ao seu papel complementar) a entrega social, isto é, o valor do Enfermeiro. Referências bibliográficas Weir-Hughes D. Diagnóstico de enfermagem na administração. In: North American Nursing Diagnose Association. Definições e classificações da NANDA 2007-2008. Porto Alegre; 2008. Ciampone MHT, Melleiro MM. O planejamento e o processo decisório como instrumento gerencial do enfermeiro. In: Kurcgant P (coord.). Gerenciamento em enfermagem. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan; 2005. Horta W. Processo de Enfermagem. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan; 2011. Kamitsuru S. Enseñanza de diagnósticos enfermeros avanzado. Pre Conferencia. Conferencia Bianual da NANDA International. Cancún; 2016. Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2009. * ____________ Hoje reformulado como PDSA (plan, planejar; do, fazer; study, testar; act, agir), sendo mais adequado ao contexto mundial de melhoria contínua por meio de pequenos testes na realidade, chamados de protótipos pelos idealizadores do Design Thinking. • • • • Objetivos deste capítulo Conceituar Intervenções de Enfermagem Conceituar Prescrições de Enfermagem Conhecer a relação das intervenções e prescrições com os diagnósticos de Enfermagem Compreender como o Diagnóstico de Enfermagem serve de base para o planejamento de intervenções e prescrições. Palavras-chave: planejamento de intervenções, prescrição, insumos, pessoas, métodos, tempo, identidade. Planejamento de Intervenções, etapa do PE: 7. Prescrições, etapa do PE: 8. Intervenções de Enfermagem • • • • • • • A execução do cuidado é a grande premissa da Enfermagem, pois reflete o planejamento daquilo que será feito ao papel complementar, evidenciando, assim, a autonomia, a responsabilidade e, portanto, a identidade do enfermeiro. Uma Intervenção de Enfermagem (IE) é definida como qualquer tratamento com base clínica que pode ser realizado pela Enfermagem para melhorar ou alcançar metas e resultados. Existem três grandes tipos de Intervenções de Enfermagem: independente, interdependente e dependente. Essa classificação se dá pelo momento e pelo contexto assistencial do qual o enfermeiro participa, como mostra a Tabela 8.1. Tabela 8.1 Tipos de IE. Intervenção independente Intervenção interdependente Toda e qualquer intervenção sobre a qual o enfermeiro tem conhecimento e habilidade para: Avaliar Diagnosticar Planejar Implementar Avaliar Toda e qualquer intervenção com a qual o enfermeiro colabora com outro membro da equipe interdisciplinar. Essas intervenções, também denominadas colaborativas, re�etem uma sobreposição de papéis entre o enfermeiro e outro pro�ssional de saúde. A ação conjunta de ambos conquistará melhores resultados do que a ação isolada Por exemplo: DE: tristeza crônica Meta: solução • • • • • • • • • • Também denominadas intervenções autônomas, são geralmente aquelas que o enfermeiro sabe o porquê, quando e como fazer e possui a perícia para realizar Por exemplo: DE: mucosa oral prejudicada Meta: solução RE: mucosa oral normal IE: restauração da saúde oral RE: melhora de enfrentamento com esperança IE: promoção de esperança* Intervenção dependente Toda e qualquer intervenção prescrita, que é avaliada, diagnosticada e planejada pelo médico, mas implementada somente pela Enfermagem. Os enfermeiros, nesses casos, são responsáveis por: Explicar o tratamento Coletar dados relevantes da intervenção Observar e avaliar a necessidade da intervenção Por exemplo: DE: dor crônica • • • • • Meta: aceitação RE: dor crontrolada IE: gerenciamento da dor** * Esta IE pode ser realizada por um enfermeiro, mas, quando em conjunto com um psicólogo, terá força estratégica maior e poderá alcançar mais rápido os resultados desejados. Vale ressaltar que nas intervenções interdependentes, ou colaborativas, não há hierarquia, pois ambos os membros da equipe estão em patamar igual no processo de alcance de resultados. **As intervenções para controle da dor terão itens como analgesia na prescrição médica. Há uma ligação direta entre as metas e os resultados, isto é, aonde se quer chegar com intervenções e interdisciplinaridade. Assim, o cuidado, essência da Enfermagem, soma-se à assistência, essência da atuação da equipe interdisciplinar. Como usar uma Intervenção de Enfermagem As IE são claras para descrever os fenômenos de interesse para a atuação e, muitas vezes, vertem sobre observações ou uso de conhecimentos específicos para a efetiva intervenção. Por remeterem ao momento de encontro do enfermeiro e seu papel complementar, fortalecem o marketing e a identidade profissional, tornando a profissão visível. Além disso, remetem aos domínios da prática da disciplina, respaldando-se pelos saberes da profissão. A importância das IE se dá pelo fato de: Auxiliarem na demonstração do impacto que a Enfermagem tem no sistema de saúde Padronizarem e definirem o conhecimento prático de Enfermagem • • • • • • • • • • • • Auxiliarem na comunicação do tratamento entre enfermeiro de plantões, setores ou estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS) diferentes Possibilitarem pesquisas Auxiliarem os gestores de Enfermagem a planejarem mais efetivamente seus insumos, métodos e equipes, de acordo com a demanda de seus papéis complementares Facilitarem a anotação eficaz e a redução de glosas. Partindo do princípio que planejar Intervenções é uma fase que impacta na Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), esta tem um contexto gerencial. Os fatores a serem considerados antes da escolha de uma intervenção são: Concordância do paciente com o resultado a ser obtido Características específicas do Diagnóstico de Enfermagem (DE) Enfermagem baseada na prática Aceitação do papel complementar (conceito de cuidado livre de danos) Capacidade técnica do enfermeiro Existência de recursos Capacidade de tempo da Enfermagem dimensionada Existência de métodos que possibilitem a execução. Um cuidado livre de danos, para a Enfermagem, extrapola o mero componente técnico de grades elevadas e fitas de identificações, pois inclui as consideraçõesdos componentes culturais e de testamento vital do papel complementar. Atenção A intervenção deve anular ou enfraquecer o fator relacionado ou de risco. • • • Prescrições de Enfermagem Pelas intervenções, o enfermeiro pode, finalmente, elaborar sua Prescrição de Enfermagem, que representa o conjunto de atividades a serem realizadas para o papel complementar em busca de um resultado. Cabe ressaltar, porém, que uma intervenção é mais ampla do que uma prescrição (ou atividade). Intervenções compreendem o tratamento a ser realizado pelo enfermeiro para melhorar os resultados do papel complementar e são utilizadas como uma ação que leva ao alcance de um propósito (p. ex., preparar o paciente para seguir corretamente a dieta prescrita). Já as prescrições (ou atividades) são mais específicas, esclarecendo uma trilha de ações que levam ao alcance da intervenção. Pautadas na ação do enfermeiro, as prescrições descrevem qual deve ser o seu comportamento para implementar uma intervenção, sendo utilizadas para descrever uma ação específica (p. ex., avaliar o conhecimento atual do paciente sobre sua dieta). Assim, a visão das intervenções previamente discutidas ganha a profundidade com as prescrições ou atividades complementares (Tabela 8.2). A importância das Prescrições de Enfermagem se dá pelo fato de: Especificarem o comportamento ou a ação da Enfermagem para implementar uma intervenção Expressarem um cuidado mínimo que pode alcançar o resultado Estimularem a comunicação enfermeiro-papel complementar, por serem mais tangíveis que metas e intervenções. Pelo julgamento clínico, o enfermeiro consegue estabelecer as prescrições que podem auxiliar o papel complementar diariamente. A • • • • • • • • • • • • • • • Tabela 8.3 traz um exemplo de resultado de Enfermagem em um caso de dificuldade no autocuidado para o banho. Merece destaque um dado da tabela sobre colocar os artigos de banho em locais nos quais o papel complementar conseguirá alcançá-los; isso fará com que ele recupere a autoestima e auxilie no tratamento nos banhos subsequentes. Tabela 8.2 Exemplo de cada tipo de intervenção somado à prescrição. Intervenção independente Intervenção interdependente DE: mucosa oral prejudicada Meta: solução RE: mucosa oral normal IE: restauração da saúde oral Prescrição: Monitorar condição da mucosa oral Perguntar ao paciente sobre mudanças no paladar Observar mudanças na qualidade da voz Higienizar a mucosa oral sempre que necessário DE: tristeza crônica Meta: solução RE: melhora de enfrentamento com esperança IE: promoção de esperança Prescrição: Auxiliar papel complementar a encontrar áreas de esperança na vida Auxiliar papel complementar a expandir experiências espirituais Estimular comunicação familiar Intervenção dependente • • • • • • • • DE: dor crônica Meta: aceitação RE: dor crontrolada IE: gerenciamento da dor* Prescrição: Assegurar analgesia ao papel complementar Determinar o impacto da dor antes e após a analgesia * As intervenções para o controle da dor terão itens como analgesia na prescrição médica. Cuidado de Enfermagem Partindo dos estudos de Souza et al. 1 , há duas esferas distintas do cuidado: uma objetiva, que se refere ao desenvolvimento de técnicas e procedimentos, e outra subjetiva, que se baseia na sensibilidade, criatividade e intuição para cuidar de outro ser. Portanto, o cuidado, essência da Enfermagem, utiliza, com essas duas perspectivas, a arte e a ciência. Assim, prescrições subjetivas para uma sobrevivente de estupro, por exemplo, justificam-se como: Escutar ativamente desabafos ou crises existenciais do papel complementar, acolhendo com o não verbal do corpo, demonstrando interesse e respeito Evitar tocar o papel complementar sem avisar ou sem autorização prévia, para não reavivar a cena do estupro. Tabela 8.3 Diagnóstico, meta e intervenções em caso de dificuldade no autocuidado para o banho. DE: dé�cit no autocuidado para banho Meta: autocuidado para banho * DE: dé�cit no autocuidado para banho IE: banhar-se Características de�nidoras encontradas no papel complementar** Resultados esperados Fatores relacionados Prescrição Capacidade prejudicada de lavar o corpo O cliente irá lavar o corpo Laparotomia exploratória Observar e assistir papel complementar no banho Capacidade prejudicada de pegar artigos de banho O cliente irá alcançar artigos de banho Realocar artigos de banho em locais que o papel complementar já alcance * Considerou-se um caso clínico no qual seria possível solucionar o dé�cit do autocuidado para banho, pois essa meta também pode ser de aceitação. ** Não estão elencadas todas as características de�nidoras do DE, somente as que criam hipoteticamente o caso clínico. Pequenos cuidados na prescrição, que extrapolam o biológico, têm grande impacto no cuidado de Enfermagem, fazendo desta a profissão que 1. cuida da essência completa do papel complementar, e não apenas de sua queixa, patologia ou ferida biológica. Considerações finais O enfermeiro é o responsável por elaborar um plano de cuidados de Enfermagem ou interdisciplinar ao papel complementar. A função do plano é identificar rapidamente o que realizar e por que, além de possibilitar a coordenação e a continuidade do cuidado, uma vez que o enfermeiro deve correlacionar os estados prévio e atual do papel complementar e determinar se houve melhora. Se houver melhora, basta manter o plano. Se não houver, deve-se fazer nova coleta e agrupamento de dados e elaborar um novo plano de intervenção. Referência bibliográfica Souza ML, Sartor VVB, Padilha MICS, Prado ML. O Cuidado em Enfermagem – Uma aproximação teórica. Texto Contexto Enferm. 2005;14(2):266-70. Bibliografia Bulecheck GM, Butcher HK, Dochterman JM. Classificação das intervenções de enfermagem. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2010. Waldow VR. Cuidar: uma expressão humanizadora da enfermgem. Rio de Janeiro: Vozes; 2012. • • • Objetivos deste capítulo Correlacionar as fases da Sistematização da Assistência de Enfermagem com a implementação eficaz Descrever a abordagem do enfermeiro no processo de implementação Descrever as abordagens documentais da fase de implementação. Palavras-chave: implementação, cuidado, documentação. Implementação de Enfermagem A implementação é a fase na qual o enfermeiro realiza ou delega os cuidados necessários para alcançar os resultados dos pacientes, formada por um tripé, como mostra a Figura 9.1. Figura 9.1 Tripé da implementação do cuidado. Etapas centrais A implementação do cuidado perpassa a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) de maneira clara, pois a SAE decide se o estabelecimento assistencial de saúde (EAS) possui pessoas, métodos e insumos, incluindo tempo para a realização do cuidado. Uma vez que se opta por realizar o cuidado pautado no diagnóstico priorizado, o enfermeiro deve assegurar o seguimento das premissas da segurança do paciente e do cuidado livre de danos. Assim, além de uma equipe capacitada, devem-se ter insumos em quantidade e qualidade adequadas e estrutura para adaptações em consideração às condições culturais, fisiológicas e familiares. Em alguns casos, é importante que o papel complementar não seja atendido sozinho (p. ex., quando em delírio, pois pode confundir o exame físico com assédio ou estupro) ou que alguém do sexo oposto faça parte do cuidado (p. ex., em caso de idosas ou adolescentes abusadas sexualmente, escalar um técnico de enfermagem ou enfermeiro desrespeita o pudor e pode causar temor). A imagem apresentada na Figura 9.1 deixa claro que o cuidado realizado pelo enfermeiro ou delegado a alguém de sua equipe somente estará finalizado no momento da documentação. Documentação e prontuário Um grande problema na Enfermagem é a realização de diversas atividades sem a devida documentação. Alguns erros comuns são apresentados nas Figuras 9.2 a 9.5. Em uma perspectiva positiva, as anotações de Enfermagem poderiam ser feitas comomostram as Figuras 9.6 a 9.9. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Realização de curativo José Silva, COREn XXX Figura 9.2 Anotação que documenta apenas a realização do procedimento, sem elementos para a análise de resultados. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Paciente poliqueixoso José Silva, COREn XXX Figura 9.3 Anotação que documenta apenas que o papel complementar apresentou diversas queixas, mas não as explicita. Sem saber a queixa, é impossível determinar o que pode ser feito para minimizá-las. Prontuários sem anotação devem ser proibidos no cuidado de Enfermagem, pois é impossível que o papel complementar não tenha demonstrado nenhum sinal, sintoma ou verbalização durante um plantão. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Paciente sem queixas José Silva, COREn XXX Figura 9.4 Anotação que documenta apenas que o papel complementar não se queixou. Esse tipo de anotação pode levar a crer que os resultados foram alcançados, mas não se tem base científica para afirmar que a queixa principal do papel complementar foi resolvida. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Paciente sem alterações José Silva, COREn XXX Figura 9.5 Anotação que dá margem a diversas interpretações. Por exemplo, pode não ter havido mudança entre o estado inicial e atual do papel complementar ou pode ser que ele não alterou nem sequer sua posição no leito, o que representa uma Enfermagem de baixa qualidade, entre outras inferências. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Realização de curativo em membro inferior e tecido de cicatrização presente, relato de dor local pelo paciente em nível 3 (escala verbal de dor) Curativo permanece sem exsudato ou outras complicações que indiquem sinais �ogísticos José Silva, COREn XXX Figura 9.6 Anotação que documenta que o tecido de cicatrização está presente e que não há sinais flogísticos, o que traz elementos para a análise de resultados. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Paciente demonstrou irritabilidade verbal com quantidade de medicação que necessita tomar e queixou-se das inúmeras vezes em que é acordado à noite para tomá-las. Solicitou que os horários de suas medicações sejam revistos José Silva, COREn XXX Figura 9.7 Anotação que explicita as queixas do papel complementar e permite englobá- las na questão de número de medicações prescritas e no aprazamento. Ao saber a queixa, é possível determinar o que se pode fazer para minimizá-las. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Paciente questionou a razão dos procedimentos, mas, ao serem esclarecidos, colaborou com a sua realização mantendo-se calmo José Silva, COREn XXX Figura 9.8 Anotação que documenta que o papel complementar não se queixou, mas explicita que houve tranquilidade e participação nos procedimentos. Essa anotação serve de base para a avaliação de resultados pelo enfermeiro. Data e hora Anotação Responsável 15/07, 19 h Paciente permanece com José Silva, COREn XXX • • • condição semelhante à de sua entrada na unidade Uso de asas nasais e de musculatura acessória Assimetria na expansão torácica Figura 9.9 Anotação com dados concretos, que permite ao enfermeiro a decisão de manter ou alterar o plano de cuidados ou, ainda, de encaminhar o papel complementar para uma avaliação específica do médico ou fisioterapeuta. Abordagem Um fator é imprescindível a ser destacado na implementação do cuidado é a abordagem do enfermeiro e da equipe no momento de prestar o cuidado. Segundo Waldow 1 , o cuidado não é meramente técnico, mas expresso por atitudes, sendo, portanto, relacional. Dessa maneira, é, então, um processo de encontro do enfermeiro e seu papel complementar e envolve trocas, crescimentos, experiências, sentimentos, forças, fraquezas e mudanças. O cuidado deve ser assumido pelo enfermeiro como um valor, ou seja, como sua entrega social. Cuidar é a essência da profissão, e quanto mais os enfermeiros se apropriarem dela, mais irão se empoderar no contexto assistencial. Para Aranha e Silva 2 , o “fazer” da Enfermagem (implementação) se pauta em premissas como: Gostar de gente Deixar-se de lado pelo outro Ser responsável • • • • • • • • • • Ter caráter Ter o propósito de reconstruir vidas. Atenção A prática de Enfermagem envolve vários domínios, mas todos seguem as necessidades do papel complementar como centro de suas aplicabilidades. A implementação, para Potter e Perry 3 , inicia-se logo após o planejamento e compreende os seguintes domínios da prática de Enfermagem: Ajudar Ensinar/orientar Monitorar Manejar situações inesperadas Assegurar qualidade. Nesse processo, é preciso que alguns padrões de prática sejam assegurados, conforme mostra a Tabela 9.1. Tabela 9.1 Padrões a serem assegurados na SAE. Equipamento Ao terminar o planejamento, decidir os insumos necessários e: Torná-los disponíveis Dispô-los em local visível e de fácil acesso Comunicar a equipe sobre a disponibilidade dos insumos Pessoal Ao avaliar o papel complementar, decidir a quem delegar o cuidado, • • • • • • • • • • • considerando os seguintes aspectos: Expertise Experiência de vida Maturidade técnica Maturidade emocional Ambiente Avaliar se mudanças no local padrão de cuidados serão necessárias, como: Disponibilizar andadores Identi�car saídas, número do leito e banheiros com letras maiores Alterar a disposição do mobiliário para a entrada de cadeiras de rodas (às vezes, dos visitantes) Previsão e prevenção de complicações Estar atento aos diversos riscos a que seu papel complementar está exposto. Ao perceber vulnerabilidade de um papel complementar, deve-se: Detectar precocemente o risco Adaptar suas opções de cuidado Avaliar os benefícios versus riscos novos Iniciar medidas de controle de riscos 1. 2. 3. Considerações finais É na fase de implementação que o enfermeiro, de fato, exerce seu papel. Então, cabe questionar-se: ao terminar de preencher papéis, por que esconder-se atrás deles em vez de mostrar seu papel ao paciente por meio da realização relacional de cuidados? Referências bibliográficas Waldow VR. Cuidar: expressão humanizadora da enfermagem. Petrópolis: Vozes; 2006. Aranha MF, Silva MJP. Cuidar em enfermagem. São Caetano do Sul: Difusão; 2006. Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2009. • • Objetivos deste capítulo Correlacionar as fases da Sistematização da Assistência de Enfermagem com a avaliação contínua do cuidado Descrever a abordagem do enfermeiro no processo de avaliação contínua. Palavras-chave: avaliação, resultados alcançados, tomada de decisão, passagem de plantão com base na Sistematização da Assistência de Enfermagem. Etapa do SAE: 5. Etapa do PE: 9. Avaliação de Enfermagem A avaliação de Enfermagem é um processo deliberado e sistemático. Por ser deliberado, indica que o enfermeiro está aberto a ele e procura realizá-lo a cada contato com o papel complementar. E, por ser sistemático, envolve aspectos de qualidade, econômicos e culturais que, se comparados com a história anterior, podem dar indícios tangíveis da melhora ou não do caso clínico. Vale ressaltar que a avaliação de Enfermagem é sempre contínua, isto é, independentemente fase da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) ou do Processo de Enfermagem (PE), sua atenção deve estar voltada ao papel complementar, a fim de validar os achados ou encontrar novos dados relevantes. A eficácia da SAE, em sua fase final, está diretamente relacionada com a qualidade das anotações realizadas durante o período que a avaliação abarca. Cuidado contínuo A avaliação é planejada, contínua e aborda o papel complementar com uma comparação das condições em que ele chegou ao enfermeiro e de como se encontra agora. É nesse momento que os resultados e critérios vistos no Capítulo 7 | Planejamento Metas e Resultados passam a ter sentido, pois servirão de base para uma reflexão e conclusão precisa pelo enfermeiro sobre as mudanças das condiçõesdo papel complementar causadas pelas intervenções e prescrições de Enfermagem. Uma visão geral sobre as semelhanças das etapas de coleta de dados e avaliação contínua é apresentada na Tabela 10.1. Mesmo sendo o último passo da SAE e do PE, a avaliação não encerra o processo ou sistema, uma vez que serve de base para o planejamento do próximo período. Havendo indícios de melhora, o enfermeiro toma a decisão de manter o plano; ou, se não houver, uma nova diagnose deve ser feita para a elaboração de um plano de ação mais centrado no real problema do papel complementar. As Tabelas 10.2 a 10.4 apresentam as diferenças entre mobilidade normal e prejudicada, dor controlada e crônica e enfrentamento comum e defensivo. O próximo passo do enfermeiro é priorizar o DE, devendo considerar que a mobilidade física prejudicada se deve a uma condição associada que ele não pode reverter. O risco de quedas é inerente, mas trata-se de um protocolo institucional. A dor será tratada por medicamentos e pode piorar se o paciente não utilizar apoios para caminhar. Dessa maneira, deve-se priorizar o enfrentamento defensivo, pois, se o paciente utilizar o apoio para caminhar, não terá fator precipitante para a dor e o risco de quedas estará controlado. Tabela 10.1 Semelhanças das etapas de coleta de dados e avaliação contínua. Coleta de dados Avaliação contínua Quando Antes das intervenções Após as intervenções Propósito Elaborar o plano de intervenções por meio da priorização do DE Avaliar o alcance dos DE Determinar condição atual Comparar a nova condição com a anterior DE: Diagnóstico de Enfermagem. Para re�etir Sr. J.C., 80 anos, fazendo acompanhamento médico por doença articular degenerativa no joelho esquerdo, consciente, pouco comunicativo e demonstrando certa timidez ou incômodo, informou sentir dores no joelho há 6 anos, tendo contado aos familiares somente há 3 anos. Ao ser questionado sobre o motivo de não ter contado, relatou que não queria parecer fraco, por ter de ser o provedor – sua família é composta por V., 73 anos, sem problemas crônicos de saúde; F., 46 anos, casado, criador de pássaros e morador em local próximo de J.C.; e, M., 43, empresário, solteiro, que vive com J.C. e V. Sr. J.C., 80 anos, fazendo acompanhamento médico por doença ar ticular degenerativa no joelho esquerdo, consciente, pouco comunicativo e demonstrando certa timidez ou incômodo, informou sentir dores no joelho há 6 anos, tendo contado aos familiares somente há 3 anos. Ao ser questionado sobre o motivo de não ter contado, relatou que não queria parecer fraco, por ter de ser o provedor – sua família é composta por V., 73 anos, sem problemas crônicos de saúde; F., 46 anos, casado, criador de pássaros e morador em local próximo de J.C.; e, M., 43, empresário, solteiro, que vive com J.C. e V. O paciente deambula com di�culdade, pois falta produção do liquido sinovial no joelho e ele não dobra mais a perna. Recusa-se a usar qualquer tipo apoio (p. ex., bengala), alegando dor não tão forte e que, se caminhar devagar, chega aonde quiser. Demonstra irritabilidade quando ouve do enfermeiro que, em seu caso, a bengala é imprescindível, e não mais uma opção. No exame físico, deambulou com di�culdade e lentamente, necessitando apoiarse no mobiliário para caminhar em razão de um certo tremor. Aparentou apresentar dor e colocou a mão no joelho no mesmo momento. Observando-se profundamente o caso, pode-se construir a seguinte diagnose para o paciente: mobilidade física prejudicada, risco de quedas, dor crônica e enfrentamento defensivo. Tabela 10.2 Características da mobilidade. Mobilidade normal Mobilidade prejudicada Marcha coordenada Alteração na marcha Postura estável Instabilidade postural Caminha com facilidade Movimentos lentos Equilíbrio no movimento Tremor induzido pelo movimento Queda controlada Risco de quedas Nesse caso, o enfermeiro deve formular as intervenções e prescrições para enfrentamento defensivo e implementar o protocolo de queda e analgesia, como demonstrado na Tabela 10.5. Quanto mais essas condições estiverem presentes, mais perto o paciente estará da meta e dos resultados e mais distante estará do DE. Para mensurar a eficácia da intervenção, a avaliação deve ser feita a cada contato com o papel complementar. Um PE bem feito, com tempo e recursos propícios, permite que sejam identificados DE consistentes, que sirvam de base para o planejamento de um cuidado eficaz. No momento da avaliação, certamente o enfermeiro encontrará o papel complementar em condições melhores que as de anteriormente. Tabela 10.3 Características da dor. Dor controlada Dor crônica Reconhece os fatores precipitantes da dor Alteração na capacidade de continuar atividades prévias (p. ex., deambular) Utiliza medidas preventivas Evidências de dor Verbaliza dor controlada Verbalização de dor Tabela 10.4 Características do enfrentamento. Enfrentamento comum Enfrentamento defensivo Verbaliza necessidade de ajuda Atitude de superioridade Aceitação da realidade Realidade distorcida Redução de sentimentos negativos Hipersensibilidade à crítica Redução de sintomas de estresse Hostilidade instalada Tabela 10.5 Intervenções e prescrições para enfrentamento defensivo. Fatores Intervenções e prescrições Expectativas não realizadas sobre si mesmo Encorajar relações com pessoas que possuem os mesmos interesses e metas Con�ito entre autopercepção e valores Encorajar o paciente a identi�car uma descrição realista da situação Medo de humilhação Expor o paciente a situações nas quais receberá feedbacks positivos de outras pessoas Medo do fracasso Compreender o que o paciente de�ne como situações de estresse A Enfermagem pode relatar e demonstrar seu valor agregado à sociedade: melhoria nas condições de saúde e respostas aos dilemas de vida. Considerações finais A avaliação deve ser um ato consciente do enfermeiro em todo contato com seu papel complementar. É importante que as características definidoras sejam avaliadas a cada vez em que se entra no leito ou se vai até a comunidade para que seja possível mensurar eventuais mudanças em sua condição. Essas avaliações auxiliam na definição e na tomada de decisão de continuidade em um mesmo plano de cuidados ou na reformulação de um novo plano. Bibliografia Alfaro-LeFevre. Critical thinking and clinical judgment – a practial approach. Florida: Saunders; 2001. Wilkinson JM. Nursing process and critical thinking. New Jersey: Pearson Education; 2007. • • Objetivos deste capítulo Conceituar o Processo de Enfermagem Descrever o raciocínio clínico e a condução das Avaliações de Enfermagem. Palavras-chave: processo de Enfermagem, raciocínio clínico, condução das Avaliações de Enfermagem. Diagnóstico de Enfermagem Apesar da crença de que o Processo de Enfermagem (PE) é uma questão de raciocínio clínico, deve-se esclarecer que não se trata de um processo linear. O raciocínio clínico é uma habilidade que o enfermeiro desenvolve com o tempo, conforme aprende mais sobre os focos e conceitos de importância na Enfermagem e torna-se mais preparado para a avaliação, entrevistando o papel complementar e reunindo informações para formar um “quadro mental” do que está acontecendo. Uma das maiores dificuldades com a qual enfermeiros e estudantes de Enfermagem se deparam é a necessidade de “filtrar” grandes quantidades de informações a fim de obter aquelas que sejam úteis para proporcionar o melhor cuidado ao papel complementar. Os enfermeiros são instruídos a reunir informações e, a partir delas, reconhecer indícios importantes e aproveitá-los para a elaboração de um Diagnóstico de Enfermagem. Infelizmente, porém, há a crença de que um livro ensinará um plano de cuidados que sirva a todo papel complementar com uma determinada condição clínica. Se um médico diagnosticasse todos os pacientes com dor torácica como tendo um infarto agudo do miocárdio (IAM) e imediatamente os encaminhasse para um cateterismo cardíaco, sem coletar quaisquer dados adicionais, provavelmenteteria sua conduta questionada. Embora um papel complementar com dor no tórax possa ter um IAM, ele também pode estar com indigestão grave ou dor muscular por levantar muito peso, por exemplo. Portanto, exatamente como se espera dos médicos, o enfermeiro deve considerar um conjunto de dados antes determinar padrões que indiquem um diagnóstico. No âmbito médico, diz-se que é raro encontrar um “bom diagnosticador”, embora seja fácil encontrar grandes médicos intervencionistas. Isso significa que muitos médicos estão bastante habilitados para tratar condições depois que elas forem identificadas, mas poucos conseguem identificar o problema – especialmente quando se trata de uma condição comum. Isso acontece porque o raciocínio clínico requer excelentes habilidades interpessoais (para que o paciente fique confiante e se abra com o profissional) e de avaliação (para coletar os dados físicos e psicossociais necessários), bem como um conhecimento significativo dos fenômenos concernentes à disciplina do profissional. Assim como um médico precisa entender a diferença entre IAM e angina instável, o enfermeiro precisa entender a diferença entre fadiga e intolerância à atividade. De fato, é impossível aplicar verdadeiramente o PE antes de se compreender os conceitos centrais da disciplina de Enfermagem. Como saber o que é anormal quando não se tem uma base das respostas humanas normais? Como saber identificar intolerância à atividade quando se não sabe o que é, por que é importante e como identificá-la? Quando não se conhece as respostas humanas normais e os métodos para avaliá-las e confirmá-las, é muito difícil – se não impossível – saber o que procurar entre as informações para encontrar o que é anormal (diagnóstico focado no problema), o que é uma vulnerabilidade do papel complementar (diagnóstico focado no risco) e o que é uma oportunidade para promover bem-estar (diagnóstico para promoção da saúde). A condução de uma avaliação do papel complementar requer habilidades intelectuais e interpessoais. O enfermeiro deve trabalhar constantemente para melhorar as habilidades de avaliação, a fim de se tornar capaz de diagnosticar com acurácia e eficiência e de desenvolver um plano para proporcionar cuidado de Enfermagem excelente. Quando não se conhece a maioria das respostas normais, pode-se proporcionar muitos cuidados sem, no entanto, tratar aquilo que o papel complementar mais precisa e, consequentemente, sem alcançar os melhores resultados. Apenas coletando dados suficientes e convertendo-os em informação pode-se fazer um DE acurado e um plano realista de cuidados centrado no paciente. Os enfermeiros diagnosticam respostas humanas em condições de saúde/processos vitais ou uma vulnerabilidade para aquela resposta, e o diagnóstico fornece a base para a escolha das Intervenções de Enfermagem de modo a obter resultados sobre os quais o enfermeiro tem responsabilidade. 1 É importante ressaltar que os enfermeiros não diagnosticam doença, lesão física ou psicológica, nem sintomas. Eles veem como indivíduos, famílias e comunidades respondem a ameaças e riscos, problemas reais de saúde ou mudanças de vida e utilizam seu potencial para expandir o bem-estar mediante a promoção da saúde. Cada ser humano é único, cada família responde de maneira diferente a situações semelhantes e cada comunidade tem pontos fortes e fracos e está sujeita a riscos diversos. Assim, os enfermeiros diagnosticam observando os pacientes de acordo com a visão da Enfermagem, com um entendimento sólido dos fenômenos condizentes com ela e aplicando seu conhecimento no cuidado. Não se diagnosticam pacientes puramente com base em condições clínicas, procedimentos ou informação. Em vez disso, observa-se a maneira como eles respondem a esses aspectos e diagnostica-se com base nas informações obtidas durante as avaliações e entrevistas feitas com o paciente, sua a família ou a comunidade, por exemplo. Avaliações de Enfermagem Em qualquer tipo de avaliação, há dois tipos de dados que devem ser obtidos: subjetivos e objetivos. Os dados subjetivos são descritos em relatos verbais do papel complementar e incluem suas percepções sobre sua saúde, seu conforto, suas crenças, seus valores etc. Os enfermeiros coletam os dados subjetivos em entrevistas ou a partir do que se sabe de acordo com a obtenção da história (a anamnese); por isso, a capacidade de ouvir e compreender é um pré-requisito para os enfermeiros obterem dados subjetivos. Questões abertas também são críticas, em particular para completar uma avaliação mais profunda quando são identificados dados potencialmente anormais. Dados objetivos são aqueles que os enfermeiros observam no papel complementar durante o exame físico e a revisão dos resultados dos exames diagnósticos. Para obter dados objetivos confiáveis e acurados, os enfermeiros precisam estar aptos a realizar o exame físico e administrar recursos e dispositivos biotecnológicos para obter dados fisiológicos. Além de conhecer esses dados, é importante entender duas formas diferentes de avaliação: triagem e avaliação profunda. Ambas são críticas, mas têm propósitos e aplicações diferentes na Enfermagem. Inicia-se a avaliação do papel complementar com uma triagem e, então, faz-se uma avaliação mais profunda com base em conhecimentos prévios. As avaliações de triagem costumam ser feitas a partir de formulários (em papel ou gráficos eletrônicos) nos quais são coletados dados pré- especificados sobre todos os papéis complementares que entram no sistema de saúde por meio de um ponto de acesso particular (p. ex., clínica comunitária, setor de emergência, ambulatório cirúrgico, atendimento domiciliar). Essa avaliação inicial pode incluir recursos padronizados de triagem ou escalas, como o Miniexame do Estado Mental (MEEM), para a triagem de demência e outros distúrbios cognitivos 2 , ou a Escala John Hopkins de Risco de Avaliação de Queda (Johns Hopkins Fall Risk Assessment – JH-FRAT), para avaliar tanto o risco de queda quanto o de lesão relacionada com queda em idosos hospitalizados. 3 Algumas avaliações de triagem podem ser baseadas em uma teoria ou modelo de enfermagem, como a de Wanda Horta 4 , e, em outras, pode-se usar um sistema de revisão corporal. Além disso, podem ser feitas perguntas direitas, como: “Você se sente seguro em sua casa?”. Nessas avaliações, o enfermeiro utiliza um recurso de avaliação padronizado, completando com uma avaliação geral do papel complementar e de seu estado psicossocial, espiritual, fisiológico e cultural. No entanto, mesmo após a finalização dessa etapa, a avaliação ainda não está completa – ela está apenas começando. A revisão dos dados coletados durante essa avaliação de triagem deve levar o enfermeiro a fazer mais perguntas, o que requer um acompanhamento, um olhar mais crítico. Dependendo da sua familiaridade com as respostas humanas, ele poderá formular algumas hipóteses sobre diagnósticos potenciais com base nos dados coletados até esse momento. Essas hipóteses, somadas ao conhecimento do enfermeiro sobre os fenômenos que dizem respeito à Enfermagem, devem direcionar o segundo tipo de avaliação, a avaliação em profundidade. Para tanto, é fundamental que os enfermeiros realmente entendam os conceitos condizentes a disciplina – quando se compreende de fato o equilíbrio energético, começa- se a ter um entendimento das consequências da fadiga. Saber que o papel complementar não tem um nível normal de tolerância à atividade, por exemplo, ajuda a explorar outras questões com ele. Além de coletar dados para identificar o DE, o enfermeiro também deve eliminar ou confirmar suas hipóteses atuais. Não basta identificar sinais/sintomas ou definir características dos diagnósticos, deve-se conhecer a etiologia para lidar melhor com eles. Quando as intervenções são baseadas nas causas ou nos fatores contribuintes dos DE, geralmente são mais efetivas que simplesmente o controle dos sintomas. Quando se tem um conhecimento sólido dos conceitos de Enfermagem, enxergam-se os dados de maneiradiferente, transformando-os em informações e observando como se juntam para formar padrões que identificam o que o papel complementar está sentindo. Considerações finais O PE e o raciocínio clínico não são processos lineares; ambos são interativos, dinâmicos e, à medida que mais dados são identificados ou a condição do paciente se altera, os diagnósticos também podem mudar, e igualmente a prioridade de cuidados. A avaliação e o diagnóstico acurado têm enorme importância para a qualidade dos resultados do paciente; eles são componentes do papel 1. 2. 3. 4. profissional da Enfermagem e requerem um profundo entendimento dos conceitos em que se baseiam os DE. O cuidado centrado no papel complementar requer que ele e também seus familiares sejam tratados como únicos, reconhecendo a complexidade das respostas humanas. Quando se coletam dados para obter informações importantes, devem-se considerar os DE potenciais e, então, validar e priorizar o cuidado mediante a aplicação da avaliação, o que demonstra o significado de ser um enfermeiro profissional. Referências bibliográficas Herdman TH, Kamitsuru S (eds.). NANDA International nursing diagnoses: definitions and classification, 2015-2017. Oxford: Wiley; 2014. Laks J, Baptista EMR, Contino ALB, Paula EOD, Engelhardt E. Mini-Mental State Examination norms in a community-dwelling sample of elderly with low schooling in Brazil. Cadernos de Saúde Pública. 2007;23(2):315-19. Martinez MC, Iwamoto VE, Latorre MDRDD, Noronha AM, Oliveira APDS, Cardoso CEA et al. Transcultural adaptation of the Johns Hopkins Fall Risk Assessment Tool. Revista Latino- Americana de Enfermagem. 2016;24:e2783-e2783. Gimenes FRE, Reis RK, da Silva PCDS, de Camargo Silva AEB, Atila E. Nursing assessment tool for people with liver cirrhosis. Gastroenterology Nursing. 2016;39(4):264. • • Introdução Em 1973, foi realizada em St. Louis, Missoury, EUA, a primeira conferência sobre Diagnóstico de Enfermagem (DE), a fim de identificar o novo conhecimento da área e estabelecer um sistema de classificação adequado para os meios eletrônicos. A partir dessa conferência, foi criado o Grupo Nacional para a Classificação dos Diagnósticos de Enfermagem. A autora começou uma relação com o DE na conferência seguinte, em 1975. Na quinta conferência nacional nos EUA, a organização mudou o nome para North American Nursing Diagnostic Association; depois, ela foi denominada North American Nursing Diagnostic Association – International (NANDA-I). A classificação das atividades na NANDA-I foi instrumental ao definir o conjunto exclusivo de conhecimento de Enfermagem. Sem uma terminologia padrão, é difícil: Definir as responsabilidades da profissão Definir o arcabouço do ensino da Enfermagem • • • • • • • • • Avaliar os dados clínicos quanto à melhoria da qualidade Avaliar os dados clínicos para pesquisa Diferenciar a Enfermagem de outras profissões da área de saúde. Então, esse sistema unificado de terminologia: Fornece uma linguagem consistente para a comunicação oral, escrita e eletrônica Estimula os profissionais de Enfermagem a examinarem o novo conhecimento Estabelece um sistema para automação e reembolso Permite a recuperação eficiente de informação para pesquisa e garantia de qualidade Mostra com clareza a Enfermagem como uma arte e uma ciência para seus membros e para a sociedade Estabelece padrões pelos quais os profissionais de Enfermagem são responsáveis. Para analisar A medicina usou um sistema de classi�cação para ensinar sua ciência, fazer pesquisa e comunicar problemas individuais a outras disciplinas. Então, a Enfermagem também precisa ter uma linguagem padronizada. Em “Condições que requerem cuidados de Enfermagem”, no Apêndice, há uma lista de DE agrupados por padrão de saúde funcional. Barreiras ao uso do Diagnóstico de Enfermagem O DE é definido pela NANDA-I como um julgamento clínico relativo à resposta humana a condições de saúde/processos vitais ou vulnerabilidade • • • • • • • • • • • • • • • • • por um indivíduo, família, grupo ou comunidade. A seguir, são exemplificadas algumas opiniões de enfermeiros a respeito do DE: Gasto de tempo maior do que planos de cuidados não lidos Inespecífico para aspectos individuais Desnecessário para enfermeiros experientes Descreve cuidados de rotina Prioriza “problemas fisiológicos” Menos importante que o diagnóstico médico Profissionais de Enfermagem podem ver-se como assistentes do médico, e não como profissionais independentes. Linguagem dos enfermeiros (antes do DE) Antes do DE, a linguagem dos enfermeiros para descrever indivíduos doentes era seu diagnóstico clínico, por exemplo: Diabetes melito Pneumonia Fibrose cística Hipertensão Uso abusivo de substâncias Placenta prévia Débito bipolar Câncer pulmonar. Ou seu procedimento/tratamento, como: Diálise renal Cateterismo cardíaco • • • • • • • • • Corte em C Mastectomia Quimioterapia Colostomia. O conhecimento da fisiopatologia, dos diagnósticos clínicos, procedimentos e tratamentos é fundamental para o fornecimento de cuidados de Enfermagem competentes e de excelência. Os enfermeiros precisam saber que as intervenções são indicadas por causa de um diagnóstico clínico, tratamento ou procedimento e também precisam ser experts na monitoração e detecção de alterações precoces na estabilidade fisiológica ou psicológica do paciente. A detecção precoce pode, inclusive, prevenir morbidade ou mortalidade. Atenção O conhecimento da �siopatologia e dos diagnósticos clínicos, procedimentos e tratamentos não é su�ciente para proporcionar cuidados de Enfermagem competentes e de alta qualidade. Classificam-se os comportamentos problemáticos como: Difícil Deprimido Irado Não cooperativo Triste. Para analisar • • • • • • Comportamentos ou respostas problemáticas podem representar ansiedade e medo mal compreendidos. Esses sintomas não podem direcionar as intervenções até serem vinculados a uma resposta real e à situação que contribuiu para o seu surgimento. Antes de identificar os DE, os enfermeiros descreviam os comportamentos como: Incapacidade de vestir-se Propensão à infecção Dificuldade para escolher as opções terapêuticas Problemas com a amamentação ao seio Disfunção familiar Estresse para cuidar de uma pessoa idosa da família. Dilemas de estudantes ao usarem DE Embora as referências ao DE tenham aumentado desde o primeiro encontro em 1973 (que acabou se tornando a NANDA e, depois, a NANDA-I), os profissionais de Enfermagem não têm visto aplicações eficientes e úteis. Os estudantes lidam com planos de cuidados e têm os DE rejeitados pelos enfermeiros. Os planos de cuidados de estudantes têm um propósito diferente dos planos de diagnóstico clínico, como mostra a Tabela 12.1. Tabela 12.1 Diferença dos planos de cuidados de estudantes e dos planos de diagnóstico clínico. Planos de cuidados de estudantes Planos de diagnóstico clínico Criados para uso do estudante Criados para o próximo enfermeiro cuidar do paciente Podem ser manuscritos ou impressos eletronicamente Farão parte de um sistema de documentação eletrônica Têm justi�cativa para intervenções Não têm justi�cativa Atividade de aprendizado geralmente focada na necessidade esperada de cuidados Recurso clínico que pode indicar intervenções adicionais indicadas para um indivíduo Atenção Os planos de cuidados clínicos (impressos ou eletrônicos) devem ser compostos pelas intervenções esperadas necessárias para o enfermeiro diagnosticar os problemas relacionados com a condição, o procedimento ou o tratamento e colaborar para sua solução; este é o plano de cuidados previsto. Na prática, enfermeiros não devem fazer este tipo de plano, o qual deve ser impresso previamente. O cuidado previsto é a predição cientí�ca da assistência de Enfermagem, necessária por causa de uma condição, um procedimento ou um tratamento. É possível acrescentar DE adicionais ou colaborar para a solução de um problema ao plano previsto, se outras intervenções estiverem indicadas. Dilemas dos enfermeirosde apoio para o uso dos DE Até enfermeiros que apoiam com veemência o DE podem ficar frustrados quando tentam utilizá-lo para descrever todos os problemas do indivíduo. Algumas dificuldades que resultam de sua aplicação são descritas a seguir. Uso de DE sem validação Quando o enfermeiro faz um diagnóstico, pode usar apenas frases rotuladas ou diagnósticas, sendo estimulado a “mudar os dados para se adaptar ao rótulo”. Por exemplo, utilizar a categoria “nutrição não balanceada” para todos os indivíduos que não podem receber alimentação oral ou “risco de lesão”, porque abrange todas as situações particularmente lesivas, como sangramento, dificuldade respiratória etc. Renomear diagnósticos clínicos Um componente importante da prática do enfermeiro é a monitoração do início e do estado das complicações fisiológicas, além de colaborar com o médico nas intervenções. A morbidade e a mortalidade são reduzidas e prevenidas graças à habilidade e à experiência dos profissionais de Enfermagem. Quando um DE é usado para descrever todos os problemas existentes ou potenciais que um enfermeira pode encontrar na prática clínica, cria-se uma terminologia vaga para renomear diagnósticos clínicos ou complicações clínicas de diagnósticos, tratamentos ou procedimentos clínicos. A Tabela 12.2 apresenta exemplos representativos de mau uso de diagnósticos clínicos e de sua renomeação. Tabela 12.2 Erros diagnósticos: renomear diagnósticos médicos com a terminologia de Enfermagem. Diagnóstico médico Diagnóstico de Enfermagem Infarto do miocárdio Débito cardíaco diminuído Choque Débito cardíaco diminuído Di�culdade respiratória do adulto Comprometimento da troca de gases Doença pulmonar obstrutiva crônica Comprometimento da troca de gases • • • Asma Comprometimento da troca de gases Doença de Alzheimer Comprometimento da perfusão tecidual cerebral Aumento da pressão intracraniana Comprometimento da perfusão tecidual cerebral Descolamento da retina Alteração da percepção sensorial (visual) Queimaduras térmicas Comprometimento da integridade tecidual Incisões, lacerações Comprometimento da integridade cutânea Hemorragia De�ciência do volume de líquido Insu�ciência cardíaca congestiva Excesso do volume de líquido Distúrbio bipolar Di�culdade para enfrentar problemas Placenta prévia Risco de distúrbio ou morte materno-fetal O exame da substituição da terminologia do DE por diagnósticos clínicos ou pela fisiopatologia dá origem a alguns questionamentos: Os DE descrevem todas as situações em que os enfermeiros intervêm? Se uma situação não é denominada um DE, ela é menos importante ou menos científica? De que maneira será útil para a profissão renomear diagnósticos clínicos como DE? • • • • • • • • • Usar os exemplos da tabela melhora a comunicação e esclarece a Enfermagem? Atenção Os DE não devem substituir a seguinte terminologia: Sangramento Insu�ciência renal Fraturas Úlceras gástricas Concussão Complicações da gravidez Depressão Distúrbios de personalidade. Omissão de situações problemáticas na documentação Se um sistema de documentação requer o uso exclusivamente de DE e o enfermeiro não optou por “mudar os dados para adaptar uma categoria” ou “renomear diagnósticos clínicos”, então não há terminologia para descrever um componente crítico da prática de Enfermagem. A falha em descrever essas situações pode prejudicar seriamente o esforço da Enfermagem para justificar e afirmar a necessidade de enfermeiros profissionais em todos os contextos da assistência à saúde (Carpenito, 1986). Planos de cuidados clínicos não utilizados Se um sistema de documentação eletrônica requer que os enfermeiros escolham sempre uma “rotina” ou um “padrão esperado de cuidados”, haverá frustrações. Enfermeiros experientes, que leem os planos de • • • • • • cuidados e veem aqueles que realmente já sabem estar indicados, vão considerá-los um desperdício de tempo. Os sistemas eletrônicos devem conter os cuidados previstos necessários em função da situação clínica que pode ser lida por um enfermeiro. Quando ele determina que são necessários itens adicionais no plano de cuidados, além dos já esperados, deve fornecer essa informação para o colega que irá substituí-lo. Para re�etir Um indivíduo é hospitalizado com síndrome coronariana aguda, mas o enfermeiro já sabe antes de encontrá-lo que os seguintes problemas ou riscos são prioridades: Arritmias Ansiedade Choque cardiogênico Instalação à atividade Dor Risco de tratamento inefetivo (domiciliar). Portanto, esses problemas já estariam em um plano de cuidados (manuscrito ou eletrônico) e, assim, o enfermeiro poderia acrescentar outros aspectos que necessitassem de intervenção. Por exemplo, se o indivíduo tem diabetes melito, deve-se acrescentar hipo/hiperglicemia à lista de problemas; se um irmão do paciente morreu com síndrome coronariana aguda, essa informação também deve ser acrescentada ao plano com um DE de ansiedade. Modelo de Prática Clínica Bifocal • • • • • • Trata-se do foco duplo do conhecimento e dos cuidados de Enfermagem, de entendimento da fisiopatologia das complicações clínicas e associadas e de tratamentos de enfermagem para: Monitorar as respostas do indivíduo aos tratamentos Detectar alterações precoces no estado fisiológico Consultar profissionais médicos para o tratamento apropriado e/ou iniciar os protocolos. O entendimento da arte e da ciência da Enfermagem pode: Reduzir os fatores de risco e, consequentemente, evitar problemas Promover estilos de vida saudáveis Ajudar ativamente indivíduos/famílias/comunidades a reduzir ou eliminar problemas. O conhecimento teórico de Enfermagem deriva das ciências naturais, físicas e do comportamento, bem como das ciências humanas e da pesquisa em Enfermagem. Enfermeiros podem usar várias teorias na prática, como sistemas familiares, perdas, crescimento e desenvolvimento, intervenção em crises e teorias gerais de sistemas. A diferença entre a Enfermagem e as outras disciplinas da área de saúde está na profundidade e na amplitude do foco da profissão. Certamente, o nutricionista tem mais conhecimento no campo da nutrição e, o farmacêutico no da farmacologia terapêutica, do que qualquer enfermeiro. No entanto, todo profissional de Enfermagem tem conhecimento de nutrição e farmacologia em suas interações, e a profundidade desse conhecimento é suficiente para muitas situações clínicas; quando é insuficiente, faz-se necessária uma consulta. Nenhuma outra disciplina tem esse conhecimento variado, explicando por que a tentativa de substituir outras disciplinas pela Enfermagem provaram ser onerosas e, por fim, mal sucedidas. A Figura 12.1 ilustra essa expertise variada. O Modelo de Prática Clínica Bifocal (Carpenito, 1986) representa situações relacionadas a indivíduos, grupos e comunidades, bem como a classificação de suas respostas na perspectiva da Enfermagem. As situações estão classificadas em cinco amplas categorias (fisiopatológica, relacionadas com o tratamento, pessoais, ambientais e da maturidade), como mostra a Figura 12.2. Sem um entendimento dessas situações, o enfermeiro não será capaz de diagnosticar respostas e intervir da maneira apropriada. Clinicamente, essas situações são muito importantes para enfermeiros. Portanto, à medida que o DE evolui, os profissionais tentam substituir a terminologia da Enfermagem em algumas situações clínicas (p. ex., integridade tecidual comprometida em vez de queimaduras e risco de lesão em vez de diálise). Enfermeiros não prescrevem tratamento para essas condições (queimaduras e diálise), quem faz isso é o médico, mas é a Enfermagem que prescreve e institui o tratamento para as respostas a essas situações. Figura 12.1 Conhecimento multidisciplinar de tópicos selecionados. Figura 12.2 Exemplos das cinco categorias amplas: fisiopatológicas, relacionadas com o tratamento, pessoais, ambientais e da maturidade. O foco da prática da Enfermagem clínica é o nível da resposta, não da situação. Por exemplo, um indivíduocom queimaduras pode exibir uma ampla variedade de respostas a elas e aos tratamentos. Algumas podem ser previstas, como o risco de infecção, e outras, como o medo de perder o emprego, podem ser imprevisíveis. No passado, enfermeiros tinham como foco as intervenções associadas ao tratamento das queimaduras, não às respostas individuais do indivíduo. Para re�etir Isso resultou na descrição de enfermeiros como “fazedores”, e não como “conhecedores”; como técnicos, em vez de cientistas. • Diagnósticos de Enfermagem e problemas colaborativos O Modelo de Prática Clínica Bifocal descreve os dois focos da Enfermagem clínica: DE e problemas colaborativos. Um diagnóstico de Enfermagem é um julgamento clínico sobre respostas individuais, familiares ou da comunidade a problemas de saúde reais ou potenciais/processos vitais. O diagnóstico de Enfermagem fornece a base para a escolha de intervenções de Enfermagem no intuito de obter resultados que são da responsabilidade da Enfermagem. (NANDA, 2009) Problemas colaborativos são certas complicações fisiológicas que os enfermeiros monitoram para detectar seu início ou alterações nas condições. Os enfermeiros tratam os problemas colaborativos usando intervenções prescritas pelo médico ou pela Enfermagem para minimizar as complicações dos eventos. (Carpenito, 1986) A Figura 12.3 ilustra o Modelo de Prática Clínica Bifocal. O enfermeiro toma decisões independentes quanto aos problemas colaborativos e aos DE. A diferença é que, nos DE, ele prescreve e implementa o tratamento definitivo para atingir o objetivo esperado, enquanto nos problemas colaborativos os tratamentos são prescritos por médicos* e implementados por enfermeiros. Algumas complicações fisiológicas (p. ex., risco de infecção ou de aspiração e úlcera de pressão) são DE porque enfermeiros podem designar o tratamento definitivo. Já no caso dos problemas colaborativos, o enfermeiro: Aplica o plano prescrito pelo médico • • Utiliza a vigilância para monitorar o início e a alteração no estado das complicações fisiológicas Implementa intervenções (de enfermagem e médicas) para essas alterações, de modo a prevenir morbidade e mortalidade. Essas complicações fisiológicas, em geral, estão relacionadas com doença, traumatismo, procedimentos (p. ex., cirurgia), tratamentos, medicações ou exames diagnósticos. Portanto, os problemas colaborativos podem ser rotulados como risco de complicações** (p. ex., risco de complicações hemorrágicas ou de insuficiência renal). Figura 12.3 Modelo de prática clínica bifocal. (©1985, Lynda Juall Carpenito) No entanto, a monitoração não é a única responsabilidade da Enfermagem nos problemas colaborativos. Além de monitorar um indivíduo com aumento da pressão intracraniana, por exemplo, o enfermeiro também restringe certas atividades, mantém a cabeça do paciente elevada, implementa o esquema terapêutico e avalia continuamente as necessidades psicossociais e educacionais do indivíduo. A Tabela 12.3 apresenta alguns problemas colaborativos que comumente se aplicam a certas situações. Tabela 12.3 Situações e problemas colaborativos correspondentes. Situações Problemas colaborativos Infarto do miocárdio RC de arritmias Craniotomia RC de aumento da pressão intracraniana Hemodiálise RC de desequilíbrio hidreletrolítico Cirurgia RC de hemorragia Cateterismo cardíaco RC de reação alérgica Diabetes melito RC de hipo/hiperglicemia Terapia anticoagulante RC de sangramento RC: risco de complicações. No Apêndice, há uma lista de problemas colaborativos comuns agrupados no item “Condições que requerem cuidados de Enfermagem”. Contudo, nem todas as complicações fisiológicas são problemas colaborativos. Os próprios enfermeiros podem prevenir algumas complicações fisiológicas, como infecções provenientes de fontes externas (p. ex., ferimentos e cateteres), contraturas, incontinência e úlceras de pressão. Portanto, tais complicações se enquadram na categoria de DE. Intervenções de Enfermagem São tratamentos ou ações que beneficiam um indivíduo, família ou comunidade, prevenindo, reduzindo ou eliminando um problema ou promovendo uma resposta saudável. As intervenções de Enfermagem podem ser classificadas em dois tipos: prescritas pelo enfermeiro e prescritas pelo médico ou pelo chefe de Enfermagem.* Intervenções independentes são as prescritas pelo enfermeiro e intervenções delegadas são as prescritas pelo médico ou pelo chefe de Enfermagem. Entretanto, ambos os tipos requerem julgamento independente do enfermeiro. Por lei, o enfermeiro deve determinar se é apropriado iniciar uma intervenção, seja independente, seja delegada (Carpenito, 1986). Carpenito (1986) afirma que a relação do diagnóstico com as intervenções é um elemento crítico para definir os DE. Muitas intervenções de DE têm como foco as relações de intervenções selecionadas com os diagnósticos. Um certo tipo de intervenção parece distinguir um DE ou outros problemas que o enfermeiro trata. O tipo de intervenção distingue um DE a partir de um problema colaborativo e também diferencia risco real/alto risco e DE possíveis. A Tabela 12.4 delineia definições de cada tipo e o foco da intervenção correspondente. Por exemplo, para um DE de úlcera de pressão relacionada com imobilidade, manifestada por uma lesão epidérmica de 2 cm no calcanhar esquerdo de um indivíduo, o enfermeiro deve instituir intervenções para monitorar a lesão e cicatrizá-la. Em outro indivíduo com uma ferida cirúrgica, o enfermeiro deve ter como foco a prevenção de infecção e a promoção da cicatrização. Tabela 12.4 Diferenciação entre os tipos de diagnósticos e problemas colaborativos. A�rmação diagnóstica Resultado correspondente ou objetivos colaborativos Foco da intervenção DE do problema A�rmação em três partes, incluindo o DE, a etiologia e os sinais e sintomas Alteração na condição de saúde ou no comportamento no sentido da resolução Diminuir ou eliminar o problema Diagnóstico de risco/alto risco A�rmação em duas partes, incluindo o DE e os fatores de risco Manutenção das condições atuais Diminuir os fatores de risco para prevenir um problema real Diagnóstico possível A�rmação em duas partes, incluindo o DE e a etiologia não con�rmada ou as características de�nidoras Indeterminados até o problema ser validado Obter dados adicionais para con�rmar ou excluir sinais/sintomas ou fatores de risco Problemas colaborativos Complicação �siológica potencial ou real Objetivos colaborativos Determinar o início ou o estado do problema Tratar alteração no estado com os médicos No caso de risco de infecção, seria melhor descrever a situação, em vez de considerar integridade tecidual comprometida. Atenção Os DE não são mais importantes que os problemas colaborativos e vice-versa. As prioridades são determinadas pela situação do indivíduo. Um diagnóstico agrupado representa aqueles DE e problemas colaborativos que têm alta probabilidade de ocorrer em uma situação clínica, como pós-síndrome coronariana aguda. A Figura 12.4 representa o diagnóstico agrupado de uma pessoa após cirurgia abdominal. Figura 12.4 Diagnóstico agrupado para a recuperação individual de cirurgia abdominal. Objetivos/critérios para resultados Em um plano de cuidados de Enfermagem, os objetivos (critérios para resultados) são “afirmações que descrevem um comportamento mensurável • ■ – – de um indivíduo, uma família ou comunidade que denotem um estado favorável (alterado ou mantido) após os cuidados de Enfermagem terem sido instituídos” (Alfaro-Lefevre, 2014). Os critérios para resultados ajudam a determinar o sucesso ou a propriedade do plano de cuidados de Enfermagem. Se o plano não alcançou um estado favorável, mesmo o diagnóstico estando correto, o enfermeiro deve rever o objetivo ou modificar o plano. Se nenhuma opção estiver indicada, o enfermeiro confere com o médico ou o chefe de Enfermagem as ordens delegadas. Os DE não representam situações que requerem ordens médicas para tratamento. Do contrário,como os enfermeiros poderiam assumir a responsabilidade pelo diagnóstico e pelo tratamento? Por exemplo, considerar o descrito a seguir de um indivíduo com um DE: Risco de comprometimento da perfusão tecidual cerebral relacionado com os efeitos de traumatismo craniano recente: O indivíduo demonstrará pressão cerebral contínua ótima, conforme evidenciado por: Pupilas igualmente reativas à luz e à acomodação Nenhuma alteração na orientação e na consciência. Se esse indivíduo exibisse aumento da pressão intracraniana, seria apropriado o enfermeiro modificar os objetivos? Que alterações no plano de cuidados de Enfermagem o enfermeiro faria para impedir que a pressão intracraniana aumentasse? Nenhuma ação é garantida. O enfermeiro deve checar com o médico ou o chefe de Enfermagem as ordens delegadas para tratar o aumento da pressão intracraniana. Quando o enfermeiro formula os objetivos ou resultados para o paciente que requerem ordens médicas delegadas para alcançar o objetivo, a situação não é um DE, e sim um problema colaborativo. Nesse caso, o ideal é descrever o problema do indivíduo dessa • • • • • • • • • • maneira (p. ex., risco de complicações de aumento da pressão intracraniana). Resultados colaborativos O indivíduo será monitorado quanto a sinais e sintomas precoces de aumento da pressão intracraniana e receberá intervenções para conseguir estabilidade fisiológica. São indicadores de estabilidade fisiológica: Alerta, orientado, calmo Pupilas iguais, reativas à luz e à acomodação Pulso de 60 a 100 bpm Respirações de 16 a 20 mrm Pressão arterial > 90/60 e < 140/90 mmHg Sem náusea nem vômito Cefaleia leve a nenhuma. Os objetivos colaborativos representam a responsabilidade da Enfermagem pela monitoração da instabilidade fisiológica e por providenciar intervenções (de Enfermagem e médicas) para manter ou restabelecer a estabilidade. Resumo | DE e problemas colaborativos (Modelo de Prática Clínica Bifocal) Providenciar uma linguagem padronizada para os profissionais de Enfermagem de todo o mundo Descrever o âmbito da prática para estudantes e enfermeiros Possibilitar a descrição de problemas individuais em detalhes suficientes para proporcionar cuidados contínuos, de modo a obter • resultados positivos Providenciar um arcabouço para o desenvolvimento de pesquisa e do conhecimento. O Modelo de Prática Clínica Bifocal proporciona aos enfermeiros uma base sólida para diagnosticar as respostas de um indivíduo e outros aspectos significativos em diversas situações. A definição clara das duas dimensões da Enfermagem estimula o uso e minimiza a má utilização dos DE. Para re�etir Diagnósticos médicos não são opcionais para médicos. Diagnósticos de Enfermagem não são opcionais para enfermeiros. Referências bibliográficas Alfaro-Lefevre R. Applying nursing process: the foundation for clinical reasoning. 8.ed. Filadélfia: LWW; 2014. Carpenito L J. Nursing diagnosis: application to clinical practice. Filadélfia: Lippincott Williams & Wilkins; 1985. North American Nursing Diagnosis Association. Nursing diagnosis: definitions and classification 2008-2009. Filadélfia: North American Nursing Diagnosis Association; 2009. Apêndice Condições que requerem cuidados de Enfermagem | Diagnósticos de Enfermagem agrupados por padrão de saúde funcional* • ■ • • ■ ■ • ■ • ■ • • • • ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ • • ■ ■ • Percepção da saúde | Manutenção da saúde Contaminação: comunidade Risco de contaminação: comunidade Campo de energia perturbado Crescimento e desenvolvimento atrasados Falha no desenvolvimento do adulto Risco de atraso no desenvolvimento *Engajamento, comprometimento** Engajamento, risco de comprometimento Síndrome do idoso frágil Risco de fragilidade na síndrome do idoso Manutenção deficiente da saúde na comunidade Comportamento de saúde, propensão ao risco Manuenção ineficaz da saúde Risco de lesão Risco de aspiração Risco de queda Risco de lesão do trato urinário Risco de lesão de posicionamento pré-operatório Risco de envenenamento Risco de sufocamento Risco de lesão térmica Risco de trauma Recusa Obesidade Sobrepeso Risco de sobrepeso Manutenção ineficaz da saúde • • • • ■ • • • • ■ ■ ■ • • • • • ■ ■ ■ ■ • • • • ■ • Manutenção ineficaz da saúde da comunidade Manutenção ineficaz da saúde familiar Aceitação para melhorar a manutenção da saúde Recuperação cirúrgica atrasada Risco de recuperação cirúrgica atrasada Nutricional/metabólico Risco de reação adversa ao meio de contraste iodado Risco de resposta alérgica Risco de nível de glicose sanguínea instável Risco de desequilíbrio da temperatura corporal Hipertermia Hipotermina Termorregulação ineficaz Amamentação ineficaz Amamentação interrompida Aceitação para melhorar a amamentação Leite materno insuficiente Risco de balanço eletrolítico Aceitação para melhorar o balanço hídrico Volume de líquidos deficiente Volume de líquidos excessivo Risco de volume de líquidos prejudicado Risco de infecção Risco de transmissão de infecção Capacidade adaptativa intracraniana diminuída Icterícia neonatal Risco de icterícia neonatal Resposta alérgica ao látex ■ • • ■ ■ ■ • • ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ • • ■ • • ■ • ■ ■ ■ Risco de resposta alérgica ao látex Risco de função do fígado prejudicada Nutrição desequilibrada Dentição comprometida Padrão ineficaz de alimentação infantil Deglutição prejudicada Aceitação para melhorar a nutrição Proteção ineficaz *Risco de lesão de córnea Risco de olho seco Mucosa bucal prejudicada Risco de mucosa bucal prejudicada Risco de úlcera de pressão Integridade da pele prejudicada Risco de integridade da pele prejudicada Integridade tecidual prejudicada Risco de integridade tecidual prejudicada Eliminação Incontinência intestinal Constipação funcional crônica Constipação percebida Diarreia Motilidade gastrointestinal disfuncional Risco de motilidade gastrintestinal disfuncional Eliminação urinária prejudicada Incontinência urinária constante Incontinência urinária funcional *Enurese maturacional ■ ■ ■ ■ • • • ■ • • • • • • ■ • • • • • ■ ■ ■ ■ ■ ■ Incontinência urinária por transbordamento Incontinência urinária por reflexo Incontinência urinária de estresse Incontinência urinária de urgência Aceitação para melhorar a eliminação urinária Atividades/exercícios Intolerância à atividade Planejamento ineficaz de atividades Risco de planejamento de atividades ineficaz Risco de sangramento Débito cardíaco diminuído Risco de síndrome de desuso Atividades recreacionais deficientes Manutenção do lar prejudicada Comportamento infantil desorganizado Risco de comportamento infantil desorganizado Comportamento infantil, Aceitação para melhorar o comportamento infantil desorganizado Capacidade adaptativa intracraniana diminuída Estilo de vida sedentário Risco de função do fígado comprometida Mobilidade física reduzida Mobilidade reduzida na cama Mobilidade reduzida ao sentar Mobilidade reduzida ao ficar em pé Capacidade de transferência reduzida Mobilidade reduzida ao andar Mobilidade reduzida na cadeira de rodas • ■ ■ ■ ■ ■ ■ • • ■ ■ ■ ■ ■ • • • ■ ■ ■ ■ ■ ■ • • • • Risco de função respiratória ineficaz Liberação de vias aéreas, ineficaz Padrão respiratório, ineficaz Troca gasosa, prejudicada Ventilação espontânea, prejudicada Resposta ao desmame ventilatório disfuncional Risco de resposta disfuncional ao desmame ventilatório Aceitação para melhorar o autocuidado Síndrome de déficit de autocuidado Déficit de autocuidado, alimentação Déficit de autocuidado, banho Déficit de autocuidado, vestir-se *Déficit de autocuidado instrumental Déficit de autocuidado, limpeza Risco de choque Risco de síndrome de morte súbita infantil Perfusão tissular ineficaz Risco de diminuição da perfusão de tecido cardíaco Risco de perfusão ineficaz de tecido cerebral Risco de perfusão ineficaz de tecido gastrintestinal Risco de disfunção neurovascular periférica Perfusão ineficaz de tecido periférico Risco de perfusão ineficaz de tecido periférico Risco de perfusão renal ineficazRisco de trauma vascular Deambulação Sono/descanso Aceitação para melhorar o sono • ■ ■ • • ■ ■ ■ ■ • • • • ■ ■ ■ ■ • ■ • • • • • • Padrão de sono perturbado Insônia Privação de sono Percepção cognitiva Risco de aspiração Conforto prejudicado Náusea Dor aguda Síndrome da dor crônica Dor, parto Aceitação para melhorar o conforto Confusão aguda Confusão crônica Conflito decisional Tomada de decisão emancipada prejudicada Risco de tomada de decisão emancipada prejudicada Aceitação para melhorar a tomada de decisão emancipada Aceitação para melhorar a tomada de decisão Disreflexia autonômica Risco de disreflexia autonômica Síndrome de interpretação ambiental prejudicada Deficiência de conhecimento Aceitação para melhorar o conhecimento (especificar) Memória prejudicada Negligência unilateral Autopercepção Ansiedade ■ • • • • • • • • • ■ • ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ • • ■ • ■ • • Ansiedade pela morte Fadiga Medo Aceitação para melhorar a esperança Desesperança Risco de comprometimento da dignidade Controle da labilidade emocional Autonegligência Aceitação para melhorar o poder Impotência Risco de impotência Autoconceito perturbado Imagem corporal perturbada Identidade pessoal perturbada Risco de identidade pessoal pertubada Autoestima baixa crônica Risco de autoestima baixa crônica Autoestima perturbada Autoestima situacional baixa Risco de autoestima situacional baixa Aceitação para melhorar o autoconceito Relação de papéis Processo de gravidez ineficaz Risco de processo de gravidez ineficaz Comunicação prejudicada Comunicação verbal prejudicada Aceitação para melhorar a comunicação Processos familires disfuncionais • • • ■ ■ • • • ■ • • ■ ■ • • • • • • ■ • ■ • • • Processos familiares interrompidos Aceitação para melhorar os processos familiares Luto Luto antecipatório Luto complicado Risco de solidão Conflito de papel parental Parentalidade prejudicada Risco de prejuízo da ligação entre pais e filhos Aceitação para melhorar a parentalidade Relacionamento ineficaz Risco de relacionamento ineficaz Aceitação para melhorar o relacionamento ineficaz Desempenho ineficaz do papel Interação social prejudicada Isolamento social Tristeza crônica Sexualidade/reprodução Processo de gravidez prontidão Padrões de sexualidade ineficazes Disfunção sexual Tolerância ao esforço Coeficiente do papel de cuidador Risco de coeficiente do papel de cuidador Enfrentamento do comprometimento familiar Enfrentamento da deficiência familiar Enfrentamento inefetivo • ■ ■ ■ ■ • • • • ■ ■ • ■ • • • • ■ ■ • • • • ■ • • ■ Regulação do humor prejudicada Enfrentamento defensivo Aceitação para melhorar o enfrentamento Negação ineficaz Controle de impulso, controle da labilidade emocional Enfrentamento comunitário ineficaz Aceitação para melhorar o enfrentamento comunitário Aceitação para melhorar o enfrentamento familiar Síndrome pós-traumática Risco de síndrome pós-traumática Síndrome do trauma de estupro Estresse por relocação (síndrome) Risco de estresse por relocação (síndrome) Diminuição da capacidade de resiliência individual Aceitação para melhorar a resiliência Risco de comprometimento da resiliência Automutilação Risco de automutilação Risco de suicídio Sobrecarga de estresse Risco de direcionar violência ao outro Risco de violência autodirecionada Valores/crenças Distúrbios morais Risco de distúrbios morais Aceitação para melhorar a religiosidade Distúrbios espirituais Religiosidade prejudicada ■ ■ • Risco de prejuízo da religiosidade Risco de distúrbios espirituais Aceitação para melhorar o bem-estar espiritual Problemas colaborativos Risco de complicações da disfunção cardíaca/vascular* RC de débito cardíaco diminuído RC de disritmias RC de edema pulmonar RC de choque cardiogênico RC de trombose venosa profunda RC de hipovolemia RC de insu�ciência vascular periférica RC de hipertensão RC de doença cardíaca congênita RC de angina RC de endocardite RC de embolismo pulmonar RC de choque espinhal RC de úlceras isquêmicas Risco de complicações da disfunção respiratória RC de hipoxemia RC de atelectasia/pneumonia RC de constrição traquebraquial RC de derrame pleural RC de necrose traqueal RC de dependência ventilatória RC de pneumotórax RC de edema laríngeo RC da disfunção renal/urinária RC de retenção urinária aguda RC de insu�ciência renal RC de perfuração da bexiga RC de cálculo renal Risco de complicações da disfunção gastrintestinal/hepática/biliar RC de íleo paralítico/pequena obstrução intestinal RC de insu�ciência hepática RC de hiperbilirrubinemia RC de evisceração RC de hepatoesplenomegalia RC de úlcera de Curling RC de ascite RC de sangramento gastrintestinal Risco de complicações da disfunção metabólica/imunológica/hematopoiética RC de hipo/hiperglicemia RC de balanço nitrogenado negativo RC de desequilíbrios eletrolíticos RC de disfunção da tireoide RC de hipotermia (severa) RC de hipertermia (severa) RC de sepse RC de acidose (metabólica, respiratória) RC de alcalose (metabólica, respiratória) RC de hipo/hipertireoidismo RC de reação alérgica RC de doação do tecido doador RC de insu�ciência adrenal RC de anemia RC de trombocitopenia RC de infecção oportunista RC de policitemia RC de crise falciforme RC de coagulação intravascular disseminada Risco de complicações da disfunção neurológica/sensorial RC de aumento da pressão intracraniana RC de acidente vascular cerebral RC de convulsão RC de compressão da medula espinhal RC de meningite RC de insu�ciência do nervo craniano (especi�car) RC de paralisia RC de deterioração do nervo periférico RC de pressão intraocular aumentada RC de ulceração da córnea RC de neuropatias Risco de complicações da disfunção muscular/esquelética RC de osteoporose RC de deslocação articular RC de síndrome compartimental RC de fraturas patológicas Risco de complicações da disfunção reprodutiva RC de distúrbios fetais RC de sangramento pós-parto RC de hipertensão gestacional RC de polimenorreia RC de sí�lis RC de sangramento pré-natal RC de parto prematuro Risco de complicações dos efeitos adversos da terapia medicamentosa RC dos efeitos adversos da terapia adrenocorticosteroide RC dos efeitos adversos da terapia antiansiolítica RC dos efeitos adversos da terapia antiarrítmica RC dos efeitos adversos da terapia anticoagulante RC dos efeitos adversos da terapia anticonvulsiva RC dos efeitos adversos da terapia antidepressiva RC dos efeitos adversos da terapia anti-hipertensiva RC dos efeitos adversos da terapia com bloqueadores beta-adrenérgicos RC dos efeitos adversos da terapia bloqueadora do canal de cálcio RC dos efeitos adversos da terapia com enzima conversora da angiotensina RC dos efeitos adversos da terapia antineoplásica RC dos efeitos adversos da terapia antipsicótica RC dos efeitos adversos da terapia diurética * Os problemas colaborativos mais utilizados estão representados nessa lista. Outras situações não listadas aqui também podem ser consideradas problemas colaborativos. * * ** * * ** ____________ Copyright© Lynda Juall Carpenito, 1985, usado com permissão. Nos EUA, enfermeiros graduados são instruídos e autorizados a fazer intervenções de acordo com diagnósticos clínicos e problemas colaborativos. Antigamente denominadas complicações potenciais. Nos EUA, enfermeiros graduados têm autoridade legal para prescrever intervenções médicas, podendo diagnosticar e tratar problemas colaborativos. Os padrões de saúde functional foram identificados em: Gordon M. Nursing diagnosis: process and application. New York: McGraw-Hill, 1994 (com pequenas mudanças pela autora). Os diagnósticos sinalizados com asterisco não estão atualmente na lista da NANDA-I, mas foram acrescentados pelo autor para maior clareza e utilidade. Your gateway to knowledge and culture. Accessible for everyone. z-library.se singlelogin.re go-to-zlibrary.se single-login.ru Official Telegram channelZ-Access https://wikipedia.org/wiki/Z-Library This file was downloaded from Z-Library project https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://singlelogin.re https://go-to-zlibrary.se https://single-login.ru https://t.me/zlibrary_official https://go-to-zlibrary.se https://wikipedia.org/wiki/Z-Library Frontispício GEN Página de rosto Créditos Colaboradores Apresentação Material Suplementar Sumário 1. Identidade e Autonomia do Enfermeiro 2. SAE Descomplicada 3. Teorias de Enfermagem e SAE 4. Teoria da Empatia Reflexiva 5. Coleta de Dados 6. Diagnose e Diagnósticos de Enfermagem 7. Planejamento de Metas e Resultados 8. Planejamento de Intervenções e Prescrições 9. Implementação da SAE 10. Avaliação Contínua do Cuidado 11. Acurácia no Diagnóstico 12. SAE como Base para a Atuação Interdisciplinar do Enfermeiro