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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Educação e Humanidades Instituto de Psicologia Denise Pereira de Alcantara Ferraz Memórias e Histórias do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena/SP: Uma contribuição para a historiografia da Psicologia no Brasil Rio de Janeiro 2014 Denise Pereira de Alcantara Ferraz Memórias e Histórias do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena/SP: Uma contribuição para a historiografia da Psicologia no Brasil Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutora, ao Programa de Pós- Graduação em Psicologia Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: História, Imaginário Social, Cultura. Orientadora: Prof.a Dra. Ana Maria Jacó-Vilela Rio de Janeiro 2014 CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ / REDE SIRIUS / BIBLIOTECA CEH/A Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese. ___________________________________ _______________ Assinatura Data F381 Ferraz, Denise Pereira de Alcantara. Memórias e Histórias do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena/SP: uma contribuição para a historiografia da Psicologia no Brasil / Denise Pereira de Alcantara Ferraz. – 2014. 194 f. Orientadora: Ana Maria Jacó-Vilela. Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Psicologia. 1. Psicologia – Estudo e Ensino – Brasil – Teses. 2. Psicologia – História – Brasil – Teses. 3. Faculdade Salesiana de Lorena – Teses. I. Leite, Siomara Borba. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Psicologia. III. Título. es CDU 159.9(81)(091) Denise Pereira de Alcantara Ferraz Memórias e Histórias do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena/SP: Uma contribuição para a historiografia da Psicologia no Brasil Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutora, ao Programa de Pós- Graduação em Psicologia Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: História, Imaginário Social, Cultura. Aprovada em 18 de março de 2014. Banca Examinadora: _____________________________________________ Ana Maria Jacó-Vilela (Orientadora) Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) _____________________________________________ Francisco Teixeira Portugal Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) _____________________________________________ Alexandre de Carvalho Castro Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET/RJ) _____________________________________________ Ronald Clay dos Santos Ericeira Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) _____________________________________________ Wilma Lucia Castro Diniz Cardoso Universidade de São Paulo (USP-EEL) Rio de Janeiro 2014 DEDICATÓRIA Ao Ricardo Ferraz, meu marido, companheiro e cúmplice, pelo apoio incondicional em todos os momentos, principalmente nos mais difíceis, muito comuns para quem está sempre em processo de crescimento. Sem você nenhuma conquista valeria a pena. AGRADECIMENTOS Como já dizia Fernando Pessoa: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Alguns destes sonhos tornam-se realidade, como é o caso da que estou vivendo hoje. Realidade concretizada com muito esforço, determinação, flexibilidade, paciência e colaboração de muitas pessoas que sonharam comigo. Esta não é uma caminhada para se fazer sozinha. Agradeço a todos que direta ou indiretamente fizeram parte dessa conquista. Ao Programa de Pós Graduação em Psicologia Social da UERJ pela acolhida, idoneidade e disponibilidade demonstradas, bem como por se constituir em um espaço de debates e amadurecimento profissional. À professora Ana Maria Jacó-Vilela agradeço, de forma muito especial, pelas possibilidades de reflexões que me abriram novos horizontes com outras perspectivas. Também pela disposição, dedicação e afeto demonstrados em todo o processo. Aos membros do Clio, pelas criteriosas discussões e sugestões efetuadas durante o desenvolvimento deste trabalho. Aos professores Francisco Portugal, Ronald Clay, Wilma Lucia, Fábio Reis, Alexandre Castro e Renata Valentim pela prontidão em participar da banca de defesa desta tese possibilitando meu crescimento e aprimoramento acadêmico. Agradeço aos meus familiares. Primeiramente aos meus pais e irmãos, fundamentais na construção da pessoa que sou. Igualmente, ao meu esposo Ricardo, por acreditar no meu potencial, nas minhas ideias, nos meus devaneios, principalmente por sua participação ativa em quase todas as vindas ao Rio de Janeiro. À minha filha Ana Carolina, que inspira meus sonhos. Agradeço também ao centro UNISAL pela facilidade que tive para acessar documentos históricos, fotografias, especialmente à Ana Lucia Correa Pinto, responsável pela Biblioteca, por sua disponibilidade e dedicação. A todos os funcionários da secretaria que me atenderam tão prontamente. À Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) pelo incentivo e reconhecimento. Também por ser o espaço que me provocou, e me provoca a todo o momento desejo de busca e melhora. Por último, agradeço aos amigos, colegas professores e amados alunos pelo apoio. Obrigada também a todos que, mesmo não estando citados aqui, contribuíram para a conclusão dessa etapa. RESUMO FERRAZ, Denise Pereira de Alcantara. Memórias e Histórias do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena/SP: Uma contribuição para a historiografia da Psicologia no Brasil. 2014. 194 f. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Programa de Pós Graduação em Psicologia Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. O presente estudo objetivou construir uma história do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciência e Letras de Lorena, com a perspectiva de compreender as relações sociais, culturais, as práticas cotidianas e os modos de fazer que caracterizaram a constituição do curso, tendo como recorte histórico o período de 1952 a 1974. A meta final foi contribuir para a historiografia da Psicologia no Brasil. Apresentamos, inicialmente, de forma concisa, a história dos salesianos, desde sua criação e de sua inserção no Brasil. Detemo-nos mais em sua chegada à Lorena, com a fundação do Colégio São Joaquim e, muito mais especialmente, do Laboratório de Psicologia Experimental. Exploramos seu significado para os salesianos e sua missão educativa, bem como para a emergência do curso de Psicologia. Foram utilizados, como fontes documentais, documentos escritos e iconográficos, além disso, foram realizadas Entrevistas Narrativas, que nos possibilitaram apontar algumas características do começo do curso, como, por exemplo, as questões de gênero. Assinalamos como a abordagem experimental, dominante no primeiro momento do curso, em que os principais professores eram oriundos da USP e da PUC-SP, muda aos poucos para a abordagem humanista, ruptura causada pela presença de um professor, Franz Victor Rudio. Concluímos que o curso de Psicologia de Lorena emergiu não por um documento ou por uma ação intencional e isolada de um sujeito individual, mas por ação de muitos personagens que, durante um longo período, construíram práticas ligadas à Psicologia que levaram à constituiçãodo curso. No entanto, pode-se afirmar que estas práticas foram fundamentadas na missão salesiana de formar educadores qualificados para o exercício do magistério, apoiada no tripé razão, religião e amorevolezza. Palavras-chave: História da Psicologia no Brasil. Curso de Psicologia. Salesianos. Lorena. ABSTRACT FERRAZ, Denise Pereira de Alcantara. Memories and History of the Psychology's Course of the Faculdade Salesiana de Lorena/SP: a contribution to the historiography of the Psychology in Brazil. 2014. 194 f. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Programa de Pós Graduação em Psicologia Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. The former study aimed to build a history of the Psychology Course of the Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciência e Letras de Lorena, with the perspective of comprehending the social and cultural relations, the daily practices and the ways of doing which characterize the course formation, having as a historic record the period from 1952 to 1974. The final aim was to contribute to the Psychology historiography in Brazil. We based more in its arrival in Lorena, with the foundation of the Colégio São Joaquim and, more especially, the Experimental Psychology Laboratory. We explored its meaning to the Salesianos and its educational mission, as well as to the emergence of the Psychology course. There were used as documentary sources written and iconographic documents, moreover, there were performed Narrative Interviews which enabled us to point out some characteristics of the beginning of the course, such as, for example, the gender issues. We pointed how the experimental approach, dominant at the first moment of the course, in which the main professors were arising from USP and PUC-SP, changes bit by bit to the humanist approach, rupture caused by the presence of one professor, Franz Victor Rudio. We concluded that the Psychology course from Lorena has emerged not by a document or by an intentional and isolated action of one single individual, but by the action of many characters that, for a long period, built practices linked with Psychology that led to the foundation of the course. However, it can be stated that these practices were grounded on the mission of the salesianos to create qualified educators for the mastership exercise, supported on the tripod reason, religion and amorevolezza. Key-words: Psychology History in Brasil. Psychology Course. Salesianos. Lorena. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABP Associação Brasileira de Psicotécnica ABRAPSO Associação Brasileira de Psicologia Social AC Análise de Conteúdo ACP Abordagem Centrada na Pessoa APAE Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais CADES Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário CEDOC Centro de Documentação e Memória CEPSI Centro de Estudos Psicológicos CPMCS Confederação portuguesa dos Meios de Comunicação Social CSEPE Centro Salesiano de Estudos e Pesquisas Educacionais EMBRAER Empresa Brasileira de Aeronáutica FATEA Faculdades Integradas Teresa D’Ávila FMA Filhas de Maria Auxiliadora FSFCLL Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena GM General Motors IBGE Instituto Brasileiro de Geografia Estatística IEV Instituto de Estudos Valeparaibanos IPPUCSP Instituto de Psicologia e Pedagogia da PUC-SP ISOP Instituto de Seleção e Orientação Profissional ISPF Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia ITA Instituto Tecnológico de Aeronáutica IUS Instituições Salesianas de Ensino Superior LASM Laboratori Apparecchi Scientifici Médici MEC Ministério da Educação e Cultura PUC Pontifícia Universidade Católica SDB Salesianos de Dom Bosco UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro UNISAL Centro Universitário Salesiano de São Paulo USP Universidade de São Paulo LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Dom Bosco...................................................................................... 29 Figura 2 - Madre Maria Mazzarello.................................................................. 43 Figura 3 - Inspetorias Salesianas.................................................................... 45 Figura 4 - Em destaque a cidade de Lorena................................................... 69 Figura 5 - Mapa do Vale do Paraíba................................................................ 69 Figura 6 - Artigo 28 do Regimento de 1952..................................................... 90 Figura 7 - Convite para inauguração do Auditório da FSFCLL........................ 92 Figura 8 - Convite de inauguração do Laboratório de Biologia e Psicologia Experimental.................................................................................... 117 Figura 9 - Programa da inauguração do Laboratório de Biologia e Psicologia Experimental.................................................................. 118 Figura 10- Programa da disciplina Psicologia Educacional do curso de Orientação Educacional em 1959................................................... 135 Figura 11 - Programa da disciplina Psicologia Educacional do curso de Orientação Educacional em 1959................................................... 135 Figura 12 - Quantitativo de títulos, por obra, existentes na Biblioteca da Faculdade Salesiana de Lorena em 1968....................................... 144 LISTA DE FOTOGRAFIAS Fotografia 1 - Panorama de Castelnuovo e seus vinhedos........................ 28 Fotografia 2 - Dom Bosco na Velhice......................................................... 29 Fotografia 3 - Dom Bosco e a Banda do Oratório Festivo.......................... 38 Fotografia 4 - Dom Luis Lasagna................................................................ 44 Fotografia 5 - Primeiros missionários com destino à Argentina.................. 46 Fotografia 6 - Navio Orenoque.................................................................... 49 Fotografia 7 - Primeira sede do Colégio Santa Rosa de Niterói................. 53 Fotografia 8 - Liceu Coração de Jesus....................................................... 61 Fotografia 9 - Conde de Moreira Lima........................................................ 71 Fotografia 10- Chalé, berço do Colégio São Joaquim................................. 74 Fotografia 11 - Salesianos e alunos do Colégio São Joaquim em 1891..... 74 Fotografia 12 - Fachada do Gymnasio São Joaquim.................................... 76 Fotografia 13 - Arquitetura em H do Gymnasio São Joaquim...................... 76 Fotografia 14 - Batalhão Gymnasial do Colégio São Joaquim..................... 79 Fotografia 15 - Construção do prédio em 1950............................................ 83 Fotografia 16 - Construção do prédio em 1950............................................ 84 Fotografia 17 - Sala de aula em 1952........................................................... 85 Fotografia 18 - Biblioteca.............................................................................. 86 Fotografia 19 - Padres salesianos de Lorena estudando no Pontifício Ateneu de Turim................................................................... 115 Fotografia 20 - Inauguração do Laboratório de Psicologia Experimental da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena em 1954.................................................................... 119 Fotografia 21 - Inauguração do Laboratório de Psicologia Experimental da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena em 1954................................................................... 119 Fotografia 22 - Realização de experimentos e avaliações de alunos dos colégios atendidos pelo laboratório...................................... 120 Fotografia 23 - Instalações do Laboratório de Psicologia Experimental em 1954......................................................................................121 Fotografia 24 - Teste de Atenção Distribuída de Bedini............................... 122 Fotografia 25 - Experimentos realizados no Laboratório.............................. 123 Fotografia 26 - Salão do Laboratório............................................................ 124 Fotografia 27 - Caixa de Skinner.................................................................. 125 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Sistema Repressivo e Sistema Preventivo.......................... 35 Quadro 2 - Atividades dos Salesianos................................................... 45 Quadro 3 - Quadro estatístico dos alunos internos do Liceu Coração de Jesus.............................................................................. 62 Quadro 4 - Colégios salesianos fundados no Brasil até 1920............... 67 Quadro 5 - Faculdades de Filosofias, Ciências e Letras....................... 87 Quadro 6 - Fases principais da Entrevista Narrativa............................. 130 Quadro 7 - Disciplinas do curso de Orientação Educacional em 1958.. 133 Quadro 8 - Currículos Seriados da FSFCLL.......................................... 141 Quadro 9 - Lista do corpo docente enviada em relatório para solicitação de autorização do curso de Psicologia em 1957..................................................................................... 146 Quadro 10- Lista do corpo docente enviada em relatório para solicitação de reconhecimento da Licenciatura e Bacharelado e autorização para Formação de Psicólogos. 147 Quadro 11 - Divisão do Vale do Paraíba Paulista em microrregiões....... 167 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Procedência do corpo docente da Faculdade em 1953.................. 91 SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................... 13 1 OS SALESIANOS..................................................................................... 28 1.1 Os Salesianos no Mundo........................................................................ 28 1.2 Os Salesianos no Brasil.......................................................................... 46 2 OS SALESIANOS EM LORENA............................................................... 69 2.1 O Colégio São Joaquim........................................................................... 69 2.2 A Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena..... 80 3 O LABORATÓRIO DE PSICOLOGIA EXPERIMENTAL.......................... 106 4 O CURSO DE PSICOLOGIA DA FACULDADE SALESIANA DE FILOSOFIA, CIÊNCIA E LETRAS DE LORENA...................................... 128 4.1 Escritos..................................................................................................... 131 4.2 Ditos.......................................................................................................... 149 4.2.1 Masculino e Feminino: atravessamentos de gênero na Faculdade Salesiana de Lorena.................................................................................. 149 4.2.2 Que Psicologia? Uma Psicologia conciliada à Visão Cristã...................... 153 4.2.3 A Hegemonia da Psicologia Comportamental........................................... 159 4.2.4 Uma Ruptura: Franz Victor Rudio e a Formação Humanista.................... 162 CONCLUSÃO............................................................................................ 172 REFERÊNCIAS......................................................................................... 175 APÊNDICE A – Artigos publicados entre 1952 e 1974 pelos periódicos: Folhas Pedagógicas e Revista da Faculdade Salesiana........................... 185 ANEXO A - Relação dos Formandos de 1973.......................................... 189 ANEXO B – Ofício n. 7535 - XV................................................................ 190 ANEXO C – Disciplinas do currículo dos cursos de Orientação Educacional............................................................................................... 191 ANEXO D – Ementas das disciplinas de Psicologia oferecidas em 1968. 192 13 INTRODUÇÃO É evidentemente impossível narrar a totalidade do futuro e é preciso fazer uma escolha; também não existe uma categoria particular de acontecimentos (a história política, por exemplo) que seria a História e se imporia a nossa escolha. É, pois, literalmente verdadeiro afirmar, com Marrou, que toda historiografia é subjetiva: a escolha de um assunto de história é livre, e todos os assuntos são iguais em direito Veyne, 2008, p.44-45. Muitas são as inquietações de quem tem como tarefa fazer uma pesquisa e escrever sobre ela: Serei capaz de fazer a pesquisa? Que caminhos metodológicos percorrerei? O assunto escolhido é importante no contexto atual? Alguém vai se interessar pelo tema? Escrever sobre a história de um curso de Psicologia tem alguma relevância? Poderei contribuir, de alguma forma, para a história da Psicologia no Brasil? Tais inquietações, somadas às viagens de 230 km ao Rio de Janeiro, à jornada de trabalho e às demandas familiares já seriam suficientes para certo desânimo, se não fosse o meu imenso interesse e envolvimento com o tema escolhido. O meu percurso como ex-aluna, professora e coordenadora do curso que investiguei me conduziu à presente pesquisa. Este trabalho foi também um retorno às minhas raízes e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de olhar alguns aspectos da história do curso. Por isso, incluí, aqui, um breve histórico pessoal sobre o meu envolvimento com o curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, como parte da justificativa sobre a escolha do tema. Nasci em Volta Redonda – RJ, em 22 de janeiro de 1969. Em 1985, aos 16 anos, fui morar em Lorena, interior do Estado de São Paulo, para estudar Psicologia na Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, como era chamada na época. Os anos de faculdade foram vividos de forma muito intensa. Participei dos eventos oferecidos pelo curso, fui monitora responsável pelo Laboratório de Testes, monitora de várias disciplinas e responsável pelo Centro de Estudos Psicológicos (CEPSI) no ano de 1987. Terminei a Licenciatura em 1988 e a Formação de Psicólogos em 1989 e, já no ano seguinte, fui contratada para ministrar a disciplina Psicologia no ensino médio do Colégio São Joaquim, que funciona 14 durante o dia no mesmo prédio da faculdade e que tem a mesma mantenedora. Em 1998, fui convidada a ministrar a disciplina Aspectos psicomotores das aprendizagens escolares nos cursos de pós-graduação oferecidos pelo então chamado Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL) e, em 2002, fui contratada pela graduação em Psicologia para ministrar as disciplinas Psicomotricidade e Educação Social. Em janeiro de 2008, assumi a função de supervisora dos cursos de pós-graduação na área da Psicologia e, em janeiro de 2009, assumi a coordenação do curso de graduação em Psicologia. Como coordenadora e responsável pela organização dos eventos comemorativos dos quarenta anos do Curso de Psicologia, comecei a fazer um levantamento histórico sobre o curso e deparei-me com uma grande riqueza de fontes documentais, entre elas, as solicitações para a abertura do curso, os relatórios de atividades realizadas no Laboratório de Psicologia Experimental adquirido em 1954, as fotos dos eventos realizados durante estes anos e os relatos de alunos que se formaram na primeira turma e que são, atualmente, professores do curso. Deixei a coordenação do curso em agosto de 2010, não sem antes ter construído questões que me levaram ao doutorado. O pequeno levantamento histórico que fiz para os eventos de comemoração dos quarenta anos do curso, ao invés de responder às minhas questões sobre a história do curso, trouxe-me muitosoutros questionamentos e curiosidades a respeito de sua constituição: Com que objetivo os salesianos trouxeram, da Itália, um Laboratório de Psicologia Experimental, em 1954? Como ele era usado? Por que os salesianos se interessaram em criar um curso de Psicologia em uma cidade do interior do Estado de São Paulo, ainda na década de 1960? Como ele foi constituído? Como era formado o corpo docente? Que importância teve este curso para a região? O fato da minha história pessoal e profissional atravessar a história do curso tornou-se a potência maior do meu trabalho, pois falo de um lugar real, de pessoas reais, que têm concretude para mim. Falo de um curso que foi constituindo-se, no dia a dia, desde a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, em 1952 e a criação das cadeiras de Psicologia e Psicologia da Educação, no mesmo ano; a aquisição do Laboratório de Psicologia Experimental, em 1954; a criação do curso de Orientação Educacional, em 1957; a criação do Instituto de Psicologia, em 1965, que oferecia um curso de especialização em Psicologia 15 Educacional e estágio para os alunos do curso de Pedagogia; até a proposta de oferta de vagas para um curso de Psicologia, em 1967. Desta forma, o foco do trabalho é mostrar como ocorreu este “constituir-se” do curso, com todas as suas singularidades e atravessamentos. Pesquisar a história deste Curso de Psicologia foi uma forma de contribuir para a historiografia da Psicologia no Brasil. Mais do que um resgate histórico, feito por meio de documentos escritos, iconográficos e pela memória dos participantes desta pesquisa, tratou-se de uma proposta de compreensão da formação de psicólogos e das práticas “psi”, vinculadas a este curso, realizadas e produzidas em um momento e em um contexto determinado. Para isso, foi necessário buscar suas determinações históricas: contextos econômicos, sociais e políticos do país; o mercado de trabalho; a função social do psicólogo, entre outras. Há várias razões para que o recente interesse pela história da Psicologia no Brasil seja pertinente. Ainda é possível fazer uma recuperação histórica por meio do acesso às pessoas que foram pioneiras na Psicologia; há muitos dados da história da psicologia que não se encontram registrados, organizados e disponíveis, a não ser como experiência ou como memória; e a disponibilização desse conhecimento às novas gerações pode proporcionar avanços para a psicologia, enquanto ciência e profissão (BARAÚNA, 1999). O fato de ser um curso vinculado a uma instituição católica também corrobora a relevância desta pesquisa, visto que a relação entre a formação em Psicologia e as instituições católicas carece de uma investigação mais aprofundada no Brasil. Estas instituições se diferenciam pelas estratégias, focos de interesse e de preocupações, e, ainda, com relação a alguns pressupostos morais e filosóficos. No entanto, todas se aproximam quanto ao objetivo de evangelizar, propagar e legitimar o cristianismo e a Igreja Apostólica Romana. No caso específico dos salesianos, identifica-se uma importante missão de formar educadores baseada na Religião, na Razão e na Amorevollezza1. A história da psicologia no Brasil faz muito pouca referência aos trabalhos realizados por estes padres, em especial aos salesianos, às suas pesquisas e aos 1 A Amorevollezza é uma expressão italiana que pode ser traduzida como carinho, amabilidade, amor, cordialidade, bondade. Ela foi descrita por Dom Bosco como o princípio primeiro do seu Sistema Preventivo e que deveria permear todas as práticas salesianas. Consiste em um amor assistencial e educativo. (CABRINO, 2009, p. 295). 16 investimentos que fizeram em instituições e cursos de Psicologia. Um dos poucos exemplos é a referência feita por Lourenço Filho: [...] No campo filosófico, é a sacerdotes que se devem, no Brasil, os primeiros trabalhos de psicologia; também lhes cabe a primazia nas discussões em variados temas de filosofia social; com relação à introdução dos métodos experimentais mantiveram-se, porém, em atitude de reserva, por muito tempo, após o que passaram a apresentar valiosa contribuição. Todas as reservas deviam realmente desaparecer com a constituição “Deus societiarum Dominus”, pela qual o papa Pio XI estabeleceu nova legislação e programas para as faculdades pontifícias em todo o mundo; e, sobretudo, depois da legislação jesuítica de ensino, expedida em 1941, a qual prescreve o ensino obrigatório da psicologia experimental no curso de filosofia, como suplemento aos estudos metafísicos e como base da pedagogia (LOURENÇO FILHO, 1960, p. 282-283). Lourenço Filho (1960) é ainda mais específico ao citar os padres salesianos Carlos Leôncio e João Modesti, destacando os trabalhos por eles realizados no Laboratório de Psicologia Experimental da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena: [...] Ao Pe. Carlos Leôncio da Silva, que por muitos anos dirigiu o Instituto Superior de Pedagogia, anexo à Faculdade de Filosofia do Ateneu Salesiano de Turim (Itália), e hoje dirige a Faculdade de Filosofia de Lorena (São Paulo), devem-se trabalhos pedagógicos baseados em modernos fundamentos da psicologia, e, bem assim, a animação de estudos experimentais [onde], em 1954, inaugurou um Laboratório de Psicologia Experimental, sob a direção do Padre João Modesto (sic). (LOURENÇO FILHO, 1960, p. 282-283). Esta pesquisa é também uma maneira de se reconhecer as contribuições destas pessoas para a psicologia brasileira, mesmo que, conforme as informações coletadas, o interesse deles na psicologia estivesse voltado para uma formação mais ampla de seus educadores. Wertheimer (1998) justifica a pesquisa em história da Psicologia também pelo fato de que este tipo de pesquisa evita a repetição inadequada, pois a familiaridade com os erros cometidos no passado pode interferir na redução dos erros atuais. Além disso, escreve o autor, “saber que [...] outros no passado já alimentaram ideias semelhantes às minhas [...] pode me ajudar a desenvolver minhas ideias sem muito autismo” (WERTHEIMER, 1998, p. 29). Isto é, proporciona uma saudável dose de humildade. E, por fim, há uma razão hedonista, mas não necessariamente trivial: estudar história dá prazer, é agradável, por si só já vale a pena! Tenho que admitir que o meu interesse pelo tema, somado ao prazer que tive ao encontrar 17 documentos, escutar pessoas que construíram esta história e, por fim, organizar todas estas informações neste trabalho, foram meus companheiros nestes quatro anos. Após leituras iniciais sobre os salesianos e seu envolvimento com a psicologia no Brasil, optei por centrar o objetivo da pesquisa na busca de construir uma história do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, com a perspectiva de compreender as relações sociais, culturais, as práticas cotidianas e os modos de fazer que caracterizaram a constituição do curso. Portanto, meu interesse foi pesquisar o período compreendido entre 1952 e 1974. Limitar a pesquisa a este período foi uma escolha que pode ser justificada pelos seguintes acontecimentos nele situados: a) o ano de 1952 é aquele em que os salesianos iniciam suas atividades no ensino superior em Lorena, com a criação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena que teve como objetivo a formação de educadores nos cursos de Pedagogia, Filosofia, Ciências e Letras; e de uma seção especial, Didática; b) Nos anos de 1952 e 1953 são trazidos de Turim para a Faculdade Salesiana de Lorena os equipamentos para montar o Laboratório de Psicologia Experimental, inaugurado em 1954. A incorporação e a criação dos laboratórios experimentais constituíram-se em vias trilhadas para a profissionalização da Psicologiano Brasil (BRANDÃO, 2006; PEREIRA e NETO, 2003). Além disso, a Pedagogia utilizou a Psicologia, mais precisamente a Psicologia Experimental, para adquirir seu status científico (PEREIRA e NETO, 2003); c) No dia 27 de agosto de 1962, foi aprovada a Lei nº 4.119 que regulamentou a profissão de psicólogo. Também foi emitido, no mesmo ano, o Parecer 403 do Conselho Federal de Educação que estabeleceu o currículo mínimo e a duração do curso universitário de Psicologia; d) Em 1969, o Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena obteve autorização para as habilitações de Bacharelado e Licenciatura, pelo Decreto nº 18 65.043/69 e reconhecimento pelo Decreto nº 71.608/72, do Ministério da Educação e Cultura; e) No ano de 1973, ocorreu a formatura da turma que iniciou, em 1968, o curso de Filosofia e que, em 1970, foi transferida para o curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Estes alunos cursaram dois anos de Filosofia e mais quatro de Psicologia; f) Em 1974, ocorreu a formatura da primeira turma que iniciou o curso de Psicologia em 1970. Esta foi a primeira turma a se formar pelo currículo completo proposto para o curso. Posso afirmar que este foi o “onde quero ir”. No entanto, para chegar lá, novas perguntas surgiram: Como fazê-lo? Que caminho ou caminhos seguir? Febvre (apud Le Goff, 1990, p. 107) abriu alguns caminhos: A história fez-se, sem dúvida, com documentos escritos. Quando há. Mas pode e deve fazer-se sem documentos escritos, se não existirem... Faz-se com tudo o que a engenhosidade do historiador permite utilizar para fabricar o seu mel, quando faltam as flores habituais: com palavras, sinais, paisagens e telhas; com formas de campo e com más ervas; com eclipses da lua e arreios; com peritagens de pedras, feitas por geólogos e análises de espadas de metal, feitas por químicos. Em suma, com tudo o que, sendo próprio do homem, dele depende, lhe serve, o exprime, torna significante a sua presença, atividade, gostos e maneiras de ser do homem. Construí este caminho lançando mão de: Levantamento de fontes documentais escritas e iconográficas. Os documentos usados foram: fotografias, recortes de revistas, jornais da época, documentos oficiais e não oficiais. Um acervo considerável destas fontes foi encontrado em seis locais: a) Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV); b) Arquivos da secretaria do Centro UNISAL – Lorena; 19 c) Biblioteca do Centro UNISAL – Unidade de Ensino de Lorena, com mais de 139 mil exemplares; d) Centro de Documentação e Memória (CEDOC) – do UNISAL de Lorena. e) Biblioteca de História da Educação Salesiana no Brasil, e; f) Sala Euclides da Cunha. Burke (2005), Bauer e Gaskell (2002), Kossoy (2001) e Le Goff (1990) contribuíram para o tratamento metodológico das imagens iconográficas como fontes históricas. Uma fotografia, apesar de ser o registro de um momento único da realidade, não pode ser considerada um espelho ou um retrato fiel dos fatos. Isto acontece porque, estando descontextualizada, permite interpretações não condizentes ao momento histórico no qual foi gerada. Trata-se de um fragmento do real, registrado em um suporte papel (fotografia analógica) ou digital (fotografia digital). É considerada uma fonte e um objeto de pesquisa, meio de comunicação e expressão das atividades humanas. No entanto, é possível que cada usuário da informação imagética interprete-a de forma diferente. Já o pesquisador deve promover intensa investigação para inferir significados consistentes da imagem e, por isso, o levantamento do conteúdo informacional da imagem fotográfica é tão relevante. Segundo Kossoy (2001, p. 37), são três os elementos essenciais para a realização de uma fotografia: “o assunto, o fotógrafo e a tecnologia. São estes os elementos constitutivos que lhe deram origem através de um processo, [...] num preciso e definido espaço e tempo”. Em função disso, a utilização da fotografia como fonte de pesquisa requer do pesquisador conhecimento da história da fotografia, dos métodos e técnicas utilizados pelos fotógrafos em determinada época, além do conhecimento a respeito da estrutura dos materiais fotográficos conforme sua evolução. Bauer e Gaskell (2002), a respeito do emprego da imagem fotográfica, destacam que esta pode ser usada como documentação referente à mudança histórica, ou seja, quando o pesquisador está interessado em mostrar mudanças de natureza específica. Fotografias feitas em intervalos regulares, dos mesmos lugares, podem ser ilustrativas. As fotografias podem servir, também, para evocar memórias 20 de pessoas, o que não seria possível em uma entrevista. Além disso, podem ser usadas para se conseguir uma informação cultural/histórica implícita. A respeito da informação cultural/histórica implícita, os autores escrevem que “ler tanto os registros visuais presentes, como ausentes, é uma tarefa de pesquisa possível. Quem falta na fotografia ou na pintura, e por quê? Os jovens? Os velhos? Os pobres? Os ricos? Os brancos? Os negros? E o que estas ausências implicam?” (BAUER; GASKELL, 2002, p. 144). As imagens iconográficas, portanto, também podem ser utilizadas para que as lacunas deixadas pelos documentos escritos possam ser analisadas por meio delas. Estas fontes podem revelar informações não ditas no texto escrito. Elas serão tomadas como registros históricos que, segundo Burke (2005, p. 17) abrem diferentes possibilidades de olhar e interpretar o passado: “as imagens assim como os textos e testemunhos orais, constituem-se numa forma importante de evidência histórica. Elas registram atos de testemunho ocular”. Mauad (1996) corrobora esta ideia quando escreve o seguinte a respeito da fotografia: Entre o sujeito que olha e a imagem que elabora, há muito mais que os olhos podem ver. A fotografia – para além de sua gênese automática, ultrapassando a ideia de analogon da realidade – é uma elaboração do vivido, o resultado de um ato de investimento de sentido, ou ainda uma leitura do real realizada mediante o recurso a uma série de regras que envolvem, inclusive, o controle de um determinado saber de ordem técnica (MAUAD, 1996, p. 75). Pode-se afirmar, portanto, que a fotografia é uma fonte histórica que demanda, por parte do historiador, um novo tipo de crítica. O testemunho é válido, não importando se o registro fotográfico foi feito para documentar um fato ou representar um estilo de vida. Le Goff (1990) diferencia a “Fotografia como Imagem/Documento” e a “Fotografia como Imagem/Monumento”. A primeira é vista como índice, como marca de uma materialidade passada, que nos informa sobre determinados aspectos do passado como condições de vida, moda, infraestrutura, condições de trabalho etc. A segunda, como símbolo, aquilo que, no passado, a sociedade estabeleceu como a única imagem a ser perenizada para o futuro. Isto nos mostra que a imagem fotográfica pode ser compreendida pelo leitor/destinatário em dois níveis, a saber: um nível interno à superfície do texto visual, originado a partir das estruturas espaciais que constituem tal texto, de caráter não verbal; e, um 21 nível externo à superfície do texto visual, originado a partir de aproximações e inferências com outros textos da mesma época, inclusive de natureza verbal (MAUAD, 1996). Passando agora para as fontes documentais que foram usadas nesta pesquisa, pode-se afirmar que a grande quantidade de papéis que se acumulam nas bibliotecas e nos centros de documentação, categorizados como novas fontes pela corrente da “Nova História” não são, em si mesmos, fontes. Os mencionados objetos só adquirem o estatuto de fonte diante do historiador que, ao formular o seu problema de pesquisa, delimitará os elementos a partir dos quais serão buscadas as respostasàs questões levantadas. Em consequência, aqueles objetos em que, real ou potencialmente, estariam inscritas as respostas buscadas erigir-se-ão em fontes a partir das quais o conhecimento histórico referido poderá ser produzido (SAVIANI, 2006). Para a realização destas aproximações e inferências, foram usados, nesta pesquisa, documentos escritos dos acervos vinculados aos salesianos já citados anteriormente. Dentre os documentos que foram pesquisados, destacam-se os localizados no Centro de Documentação e nos arquivos da secretaria do Centro UNISAL - Lorena: Anais da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena 1952-1964 Anuário do Colégio São Joaquim; Revista O Grêmio; Livro de Atas das Assembleias da Sociedade Civil da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1958-1987); Livro de Atas da Congregação da Faculdade I (1952-1970); Livro de Atas da Faculdade II (1971-1972); Livro de Atas do Departamento de Filosofia e Pedagogia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1960- 1970); Livro de Registro de Atas dos Concursos de Habilitação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1952-1971); 22 Livro de Atas das Reuniões de Estudos sobre a Reestruturação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1968); Livro de Atas das Reuniões do Conselho Técnico Administrativo da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1952- 1970); Livros de Registros de Matrículas (1952-1971); Regimentos Internos; Relatório da Faculdade Salesiana de 1953; Relatório da Faculdade Salesiana de 1968; Relatório para solicitação de autorização do curso de Psicologia em 1967; Relatório do Curso de Orientação Educacional de 1959. Estes documentos foram escolhidos como fonte de pesquisa porque trazem informações a respeito de datas, relatos de discussões em reuniões, fotografias de diferentes épocas e locais relacionadas à Faculdade Salesiana e ao Colégio São Joaquim, fotografias de eventos, dados sobre número de alunos matriculados em diferentes anos, além de relatos do cotidiano escolar. A revista O Grêmio foi fundada em 1910 e era redigida por alunos do curso secundário que faziam parte do Grêmio Joaquim Nabuco. Todos os números publicados da revista estão no CEDOC da Faculdade Salesiana. História Oral por meio de Entrevistas Narrativas com pessoas que participaram da constituição deste curso de Psicologia. É crescente a consciência do papel que o contar histórias desempenha na conformação dos fenômenos sociais, considerando-se que a narrativa não é apenas uma listagem de acontecimentos, mas uma tentativa de associá-los ao tempo e ao sentido. Para Bauer e Gaskell (2002), a Entrevista Narrativa tem como objetivo encorajar um entrevistado a contar a história sobre algum acontecimento importante que fez parte de sua vida e de seu contexto social. “Sua ideia básica é reconstruir 23 acontecimentos sociais a partir da perspectiva dos informantes, tão diretamente quanto possível” (BAUER e GASKELL, 2002, p. 93). Em Alberti (2004), Prins (1992), Ferreira e Amado (1998) e Penna (2005) buscou-se elementos para o uso da História Oral como metodologia e constituição de fonte para o estudo da história do curso por meio das pessoas que fizeram parte da constituição desta história. A Entrevista Narrativa foi usada, nesta pesquisa, como instrumento (ou técnica) do método de História Oral. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, considerada uma forma de entrevista não estruturada, de profundidade, com características específicas. Já houve muitas classificações para a expressão História Oral: método, técnica e teoria (PENNA, 2005). No entanto, há um consenso no meio acadêmico em classificá-la como uma metodologia de pesquisa. Segundo Alberti (2004, p. 155), A História Oral é uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes para o estudo da história contemporânea surgida em meados do século XX, após a invenção do gravador a fita. Ela consiste na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram de, ou testemunharam acontecimentos e conjunturas do passado e do presente. Foram adotados os procedimentos de História Oral para a coleta de dados, pois, para Jovchelovitch e Bauer (2002), por meio da narrativa, as pessoas lembram- se do que aconteceu, são capazes de colocar a experiência em uma sequência, encontrar possíveis explicações para isso, e jogar com a cadeia de acontecimentos que constroem a vida individual e social. Contar histórias implica estados intencionais que aliviam, ou ao menos tornam familiares, acontecimentos e sentimentos que confrontam a vida cotidiana normal. A adoção da História Oral como fonte de pesquisa justifica-se pelo fato de esta se ocupar em conhecer e aprofundar conhecimentos em determinada realidade – os padrões culturais – estruturas sociais e processos históricos, obtidos através de conversas com pessoas, relatos orais, que, ao focalizarem suas lembranças pessoais, constroem também uma visão mais concreta da dinâmica de funcionamento e das várias etapas da trajetória de grupo social ao qual pertencem, ponderando esses fatos pela sua importância em suas vidas (CASSAB, 2003, p. 1). 24 Para a História Oral, a narrativa constitui sua matéria prima. O narrador que conta a sua história não se constitui, ele próprio, como objeto de estudo. Os seus relatos de vida e sua realidade vivida é que o são. As fontes orais podem apresentar-se como histórias, relatos e depoimentos. As duas primeiras referem-se às situações em que o próprio narrador referencia a sua vida e experiência. Já através do depoimento, o narrador informa fatos ou informações que detêm, presenciados por ele. Parte-se da ideia de que uma pessoa conserva lembranças ou reminiscências, compostas por imagens que constituem a sua memória individual. Também se deduz que, como as lembranças dos mesmos acontecimentos estão presentes nas memórias de outras pessoas, seus relatos também pertencem à memória coletiva de uma comunidade, que por sua vez pode ligar fatos da história de um povo ou de uma nação, revelando aspectos de um período de sua existência. Enquanto muitos trabalhos sobre a história da psicologia no Brasil apresentam-se, em geral, na forma de análises informativas e descritivas, disponibilizando um grande número de dados, há uma nova forma de escrever história que vem sendo valorizada. Esta nova forma leva em consideração o contexto em que o fato foi produzido e levanta novas abordagens, objetos, temas e problemas para o debate historiográfico. O historiador que trabalha dentro desta nova perspectiva assume uma postura crítica em relação ao passado e enfatiza a necessidade de contextualizar o fato histórico, ou seja, relacioná-lo a fatores econômicos, políticos, culturais e sociais em que se encontra inserido (PEREIRA NETO, 2003). Para Jacó-Vilela (2004, p. 156) Entende-se a História, ou seja, a tentativa de reconstrução da gênese de acontecimentos e, principalmente, de nossas ideias, hábitos e costumes, como a grande ferramenta virtualmente apta a nos permitir desnaturalizar as ideias que expressamos, bem como os costumes que compartilhamos com aqueles outros que nos constituem e com quem, juntos, construímos o mundo que vivemos. Considera-se a história como uma construção coletiva e aponta-se para a necessidade de se conhecer o contexto em que as relações sociais se inserem e se desenvolvem. Alberti (2004) ainda enfatiza que trata-se de um equívoco muito comum pensar que a entrevista já é a própria história. Ao contrário, o pesquisador deve interpretar e analisar a entrevista, pois esta é sua fonte, uma fonte oral. Para isso, após a coleta, as narrativas orais devem ser transcritas e, em seguida,deve-se fazer 25 um fichamento detalhado dos relatos obtidos com as entrevistas. Estando na forma de texto, deve-se analisar a fonte oral como qualquer outro documento, fazendo perguntas e verificando como se pode usufruir desta fonte, tirando dela as evidências e os elementos que contribuirão para resolver o problema de pesquisa, relacionando-a com outro tipo de material com os quais se trabalha, como, por exemplo, imagens, textos escritos, documentos, entre outros. A escrita de uma história, por meio da História Oral, não é uma representação exata do que existiu, mas um esforço em propor uma inteligibilidade e uma compreensão de como o passado chega até o presente. Trata-se, pois, de uma produção discursiva. Veyne (2008, p. 18) enfatiza esta ideia no seguinte parágrafo: A história é uma narrativa de eventos: todo o resto resulta disso. Já que é, de fato, uma narrativa, ela não faz reviver esses eventos, assim como tampouco o faz o romance; o vivido, tal como ressai das mãos do historiador, não é dos atores; é uma narração. (...) Como o romance, a história seleciona, simplifica, organiza. O autor ainda escreve que, em nenhum caso, o que os historiadores chamam “um evento” é apreendido de uma maneira direta e completa, mas, sempre, incompleta e lateralmente. Nesta etapa da pesquisa, contou-se com a colaboração, por meio de narrativas da história do curso, do Padre Antônio da Silva Ferreira, falecido no dia 06 de outubro de 2013, três meses após me receber para uma entrevista na casa salesiana de “Santa Terezinha”, onde residia. Também foi entrevistado o Padre Vicente de Paulo Moretti Guedes, salesiano, que ocupou o cargo de professor das disciplinas Psicologia Geral, Psicologia do Desenvolvimento e Caracteriologia na Faculdade Salesiana desde 1960 e que, anos depois, substituiu o Padre Ferreira na direção do Instituto de Psicologia da mesma faculdade. Também contou-se com as histórias e memórias das alunas da primeira turma Alda Patrícia Fernandes Nunes Rangel, Antônia Cristina Peluso de Azevedo, Maria José Urioste Rosso (professoras do curso até os dias de hoje, doutoras em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo, Psicologia Escolar pela PUC/Campinas e Ciências Sociais pela PUC/SP, respectivamente), além das contribuições de Antônio de Andrade, também aluno da primeira turma. Algumas histórias, tão importantes quanto as narradas pelos demais entrevistados, foram contadas pela Irmã Olga de 26 Sá, uma das primeiras mulheres a ir para Lorena para colaborar com a formação de educadores salesianos, através do ensino de psicologia em 1954. Levantamento bibliográfico Levantamento bibliográfico a respeito do qual considerou-se que, em especial, as obras de Azzi (1982, 2000), Brandão (2006) e Marcigaglia (1955) auxiliaram no entendimento com relação à Congregação Salesiana no mundo e no Brasil, e o seu envolvimento com a Psicologia, pois na busca do conhecimento da história do Curso de Psicologia do Centro UNISAL de Lorena, tornou-se importante a compreensão de fatos anteriores a 1952. Em função disso, o primeiro capítulo da tese foi destinado à descrição da Obra Salesiana no mundo e no Brasil. Ele discorre, portanto, sobre a vida de Dom Bosco; a criação da Congregação Salesiana na Itália; a vinda dos salesianos para a América do Sul e, em especial, para o Brasil em 1883; a fundação das primeiras casas salesianas, inclusive a da terceira casa salesiana: o Colégio São Joaquim em Lorena/SP, em 1890, de onde se originou a Faculdade Salesiana de Lorena. O segundo capítulo tratou da história do Colégio São Joaquim, fundado em 1890, assim como do contexto econômico, social e educacional no qual ele esteve inserido até a criação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras, em 1952. Destaca-se, neste capítulo, a relevância desta instituição educacional para o desenvolvimento regional, principalmente na primeira metade do século XX. A inserção dos salesianos de Lorena no ensino superior ocorreu por meio dos cursos de Filosofia e de Pedagogia oferecidos, na época, no Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia que foi criado pelo interesse especial dos salesianos na formação de padres e educadores, visto haver a exigência legal de habilitar candidatos religiosos ao exercício do magistério. A Faculdade Salesiana foi a primeira faculdade a ser criada no Vale do Paraíba e segunda Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do interior do Estado de São Paulo. O terceiro capítulo tratou da relação entre os salesianos e a Psicologia na Itália e no Brasil, apoiando-se na importância da aquisição dos Laboratórios de Psicologia Experimental trazidos ao Brasil por estes sacerdotes para a formação de 27 educadores. O Laboratório Experimental de Psicologia foi adquirido na Europa, entre 1951 e 1953, pelo Padre Carlos Leôncio da Silva, e seus aparelhos eram iguais aos utilizados no Instituto de Psicologia do Instituto Superior de Pedagogia do Pontifício Ateneu Salesiano na Itália. Na época, existia idêntico material no Brasil somente na Universidade Católica de São Paulo e na Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei, Minas Gerais. Para a compreensão maior da relação entre os salesianos e a Psicologia e da importância do laboratório experimental, atenção especial é dada à criação do Pontifício Ateneu Salesiano, pois, para lá partiram os primeiros padres a irem a Turim para estudar Psicologia, em especial, a Psicologia Experimental. O quarto capítulo foi destinado à história do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. O capítulo estruturou-se através de fontes documentais escritas e iconográficas, além de entrevistas com pessoas que fizeram parte da constituição do curso. Neste capítulo, são apresentadas as atividades relacionadas à Psicologia desenvolvidas na instituição e que serviram de base para a constituição do curso de Psicologia em 1969. Dentre as atividades citadas estão o curso de Orientação Educacional, os cursos de extensão, as conferências e serviços prestados à comunidade. Além disso, o capítulo apresenta uma análise das entrevistas que evidenciaram as principais características deste curso durante seus anos iniciais, até 1974. Tendo em vista os aspectos observados durante a pesquisa, conclui-se que o curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena não emergiu de um documento ou de uma ação intencional e isolada de um sujeito individual, mas da ação de muitos personagens que, durante um longo período, construíram práticas ligadas à Psicologia que levaram à constituição de um curso, com todas as suas singularidades e práticas cotidianas. Este curso foi constituindo-se aos poucos. Iniciou-se com a missão salesiana de formar educadores, passou pela formação de padres no Pontifício Ateneu Salesiano de Turim, onde tiveram contato com a Psicologia Experimental e estruturou-se, ainda mais, com as práticas relacionadas à Psicologia que foram desenvolvidas durante quase duas décadas anteriores à aprovação de funcionamento do curso. Procuramos apresentar estas práticas no percurso desta tese. 28 1 OS SALESIANOS 1.1 Os Salesianos no Mundo Os salesianos fazem parte de uma comunidade cristã, fundada em 1859, em Turim (Itália), pelo padre italiano João Bosco (Dom2 Bosco), nascido em 16 de agosto de 1815 no Colle dos Becchi, no Piemonte, Itália, uma localidade junto de Castelnuovo de Asti (atualmente denominada Castelnuovo Dom Bosco3). Fotografia 1 - Panorama de Castelnuovo e seus vinhedos. Ao longe, casas de Becchi Fonte: MATT; BOSCO, 1965 Sua vida e obra compreendem os anos de 1815 a 1888, período marcado por importantes mudanças no cenário mundial que provocaram uma nova configuraçãopolítica, social, econômica e religiosa. 2 Dom é o tratamento usado na Itália para os sacerdotes. 3 A partir de 14/02/1930 passou a receber este nome em homenagem a Dom Bosco (LEMOYNE, 1952, p. 13). 29 Figura 1 - Dom Bosco Fonte: www.salesianos.com.br Acima, a imagem mais conhecida de Dom Bosco. Em todas as casas salesianas é possível encontrar esta foto exposta na entrada, com o objetivo de transmitir a ideia de acolhimento e a mensagem de que se trata de uma instituição que se fundamenta nas ideias de Dom Bosco. Abaixo, uma das últimas fotografias de Dom Bosco. Estava em Barcelona, cansado e enfraquecido pela doença e pela viagem. Fotografia 2 - Dom Bosco na velhice Fonte: MATT; BOSCO, 1965 Filho de Margherita Occhiena, segunda esposa de Francesco Bosco, João Bosco tinha dois irmãos mais velhos: Antônio, fruto do primeiro casamento do pai, e José, primeiro filho do casamento com Margherita. Tratava-se de uma família de http://www.salesianos.com.br/ 30 humildes camponeses (meeiros4), que teve uma vida de muitos sacrifícios para conseguir se manter. A perda do pai, ainda na infância, foi um fator marcante em sua obra: Dom Bosco era tido por seus meninos como um verdadeiro pai, um pai que ele mesmo não tivera. Ele mesmo pregava a “paternidade educativa” nos colégios e obras salesianas que mais tarde foram criadas, ressaltando que os educadores deveriam ser como verdadeiros “pais” que acolhem, ensinam, orientam e disciplinam (BRANDÃO, 2006). Dom Bosco nasceu em um período conturbado da história italiana. A península italiana vivia sob forte influência francesa, culminada com a invasão, por parte do exército de Napoleão Bonaparte, em 1796, que causou um movimento peculiar de destruição e reconstrução da ordem política e econômica da Itália (BRANDÃO, 2006). Com a queda de Napoleão, em Waterloo5, em 18 de junho de 1815, a Itália voltou a ser uma simples “expressão geográfica”, agrupando oito estados, sob o controle da Áustria6 (SCARAMUSSA, 1977, p. 16). O ano de 1815 é considerado o fim de uma época e início de um regime que tinha como meta a restauração da ordem anterior à Revolução Francesa. A figura do rei, Victor Emanuel I, primeiro rei da Itália unificada e independente, aliado da Igreja, era vista como ponto de referência nesta obra de reconstrução tão urgente. O clero colaborava com o regime, pois estas primeiras medidas de reconstrução eram consideradas motivos de satisfação: “Restabelecimento das festas religiosas, punição da blasfêmia, recomposição do patrimônio da Igreja, restabelecimento das ordens religiosas, restrição da liberdade de pensamento e de imprensa” (WIRTH, 1968, p. 19). De acordo com Bosco (1997), aos quatro anos de idade João Bosco já ajudava nas tarefas da casa, buscando lenha, acendendo fogo, varrendo os quartos e limpando o estábulo. Aos seis anos, aprendeu a capinar, foiçar e ordenhar. Ainda 4 Meeiro é o agricultor que planta em terra alheia e divide os resultados com o dono da terra. 5 Batalha de Waterloo – batalha travada entre as tropas de Napoleão Bonaparte e as tropas inglesas e prussianas. Essa batalha marca a derrota definitiva de Napoléão, que passou o trono ao príncipe Bourbon Luis XVIII. O Império Napoleônico durou de 1789 a 1814 (LARROYO, 1974, p. 560). 6 Em 1796, Napoleão Bonaparte invadiu o norte da Itália e expulsou os governantes austríacos. Temendo perder sua independência sob o domínio dos franceses, algumas cidades italianas ainda tentaram oferecer resistência, mas não foram bem-sucedidas. Muitos italianos queriam um país unido e livre do domínio estrangeiro, mas este objetivo foi frustrado quando, após a derrota de Napoleão em Waterloo, o Congresso de Viena, em 1815, repôs a maioria dos antigos soberanos austríacos no comando da Itália. 31 criança, manifestou o desejo de ser padre. Assim, em sua infância, alternava o trabalho doméstico e os estudos com a prática do catecismo e de brincadeiras com os meninos do lugarejo onde morava. Não recusava qualquer emprego que aparecesse para ajudar em casa. Desta forma, aprendeu vários ofícios: sapateiro, ferreiro, carpinteiro e confeiteiro. Queria vivamente ser sacerdote. Dizia: "Quando crescer quero ser sacerdote para tomar conta dos meninos. Os meninos são bons; se há meninos maus é porque não há quem cuide deles" (DOM BOSCO apud BOSCO, 1997, p. 5). João Bosco fez sua primeira comunhão no ano de 1826 e foi, nesta época, que manifestou à mãe o desejo de ser sacerdote. Aos quatorze anos, mudou-se para a aldeia de Mancucco e foi viver com uma família de camponeses, os Moglia. Como era hábito da época, trabalhou como empregado da família para poder se sustentar e estudar em seu tempo livre. No ano seguinte, seu tio Miguel Occhiena o levou a Murialdo, onde iniciou seus estudos de latim com o novo capelão do lugar, Giuseppe Calosso, falecido em 1830. Em 1831, mudou-se novamente. Desta vez para Chieri, situada entre a região denominada Colle dos Becchi e Turim. Em Chieri, hospedou-se na casa de uma conterrânea, Luzia Matta, pagando por sua estadia como empregado da casa. Ainda em Chieri, morou com um amigo de sua família e na casa de um alfaiate (WIRTH, 1968). Em 1835, entrou para o Seminário de Chieri e, em 5 de junho de 1841, foi ordenado sacerdote pelo arcebispo de Turim, Luigi Fransoni, dando início aos seus trabalhos como educador. Durante estes seis anos passados no seminário (nos quais cursou dois anos de Filosofia, de 1835 a 1837, e quatro de Teologia, de 1837 a 1841), manteve o desejo de realizar algo em prol da juventude, pois tinha motivos de sobra para se sentir infeliz com o que vivia. Considerava os professores pouco acessíveis, a doutrina severa e o ensino obscuro e sem alma (WIRTH, 1968). O comportamento grosseiro e indiferente com que os jovens seminaristas eram tratados, no seminário, por seus superiores, o fez perceber a necessidade de os jovens terem alguém que os orientasse como um amigo, um guia. Resolveu, então, colocar suas ideias em prática através do que hoje é conhecido como a marca de seu trabalho com a juventude: o amor educativo. Em 1842, inaugurou o primeiro internato, em Valdocco, e começou a escrever, em 1852, os primeiros regulamentos do que, futuramente, foi denominado de “Sistema Preventivo Salesiano” ou “Sistema Educativo Salesiano”. Doze anos depois, fundou a Congregação Salesiana, cujo 32 nome oficial é Pia Sociedade de São Francisco de Sales, popularmente conhecida por Salesianos de Dom Bosco (SDB). Um sonho que Dom Bosco teve, aos nove anos, é considerado de grande importância para o início de sua obra e a base para o seu sistema educativo. Tal sonho foi relatado ao papa Pio IX, em 1858, quando Dom Bosco esteve em Roma para expor o seu projeto de criação da Congregação Salesiana. Por ordem do papa, escreveu, literalmente, este sonho e o deixou como estímulo aos filhos da congregação: Na idade de 9 anos tive um sonho, que me ficou profundamente impresso na mente por toda a vida. Pareceu-me estar perto de casa. Numa área bastante espaçosa onde uma multidão de meninos estava a brincar. Alguns riam, outros divertiam-se, não poucos blasfemavam. Ao ouvir as blasfêmias, lancei-me de pronto no meio deles, tentando, com socos e palavras, fazê- los calar. Neste momento apareceu um homem venerando, de aspecto varonil, nobremente vestido. Um manto branco cobria-lhe o corpo; seu rosto, porém, era tão luminoso que eu não conseguia fitá-lo. Chamou-me pelo nome e mandou que me pusesse à frente daqueles meninos, acrescentando estas palavras: Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude (DOM BOSCO apudBOSCO, 1997, p. 10). É importante destacar que o Sistema Preventivo de Dom Bosco refere-se aos acontecimentos da época. A Itália passava por profundas mudanças em diversas esferas. No plano ideológico, a chegada do liberalismo fez emergir uma nova concepção de homem: racional, livre das opressões do clero e da nobreza, detentores do poder e da riqueza. No plano econômico, houve a ruptura gradual do feudalismo, baseado na propriedade de terra, para o capitalismo, baseado na posse do dinheiro. Este sistema, impulsionado pela burguesia, foi responsável pelo surgimento de uma nova classe social, o proletariado, e pelo favorecimento do comércio. No campo educacional, reivindicou-se a educação para o povo, laica e preparatória para o trabalho, assumida como dever do Estado. No campo político- religioso, a proposta política de fazer da Itália uma única nação levou ao desaparecimento dos Estados Pontifícios, o que fez surgir um clima de hostilidade contra a Igreja. No campo social, houve um grande inchaço das cidades que possuíam um contingente humano muito maior do que a demanda de vagas no setor industrial emergente. Isto ocasionou a propagação da fome, da miséria e da exploração do trabalhador. Com a intenção de reverter este quadro, a Igreja tomou medidas preventivas, dando maior atenção aos campos social, político e 33 educacional. Nesta época, a educação, como forma de instrução, passou a ser vista também como medida preventiva (CABRINO, 2009). A ideia de prevenção, que foi inspirada nos preceitos do Congresso de Viena7 (1814-1815), caracterizava-se pelo combate às ideias liberais, um movimento de reação ao novo regime que buscava restaurar o regime anterior à invasão de Napoleão Bonaparte, além de reorganizar e fortalecer a monarquia, favorecendo as quatro grandes potências: Áustria, Rússia, Prússia e Reino Unido. No entanto, Santos (2000, p. 122), discorrendo a respeito do surgimento das fórmulas do Sistema Preventivo e Sistema Repressivo, escreve que “era a França, entre os séculos XVII e XVIII, o berço das fórmulas do sistema preventivo e sistema repressivo, destacando-se o jansenismo pedagógico de Port-Royal (1637-1657) e a pedagogia preventiva lassaliana”. O autor relata, ainda, que, após a experiência da Revolução Francesa8, a Europa parecia quase obcecada pela ideia de prevenção. Existiam, ainda, vastos estratos conservadores que se caracterizavam por tendências repressivas (medo de novos revolucionários, das seitas, das sociedades secretas, do liberalismo) que insistiam na vigilância rigorosa, na censura preventiva e “nas missões populares para reconquistar as massas e moralizá-las, mediante a religião, a prevenção do ócio e da libertinagem” (SANTOS, 2000, p. 123). No aspecto educacional, o sistema preventivo nasceu em um momento no qual surgiam as discussões sobre a liberdade na escola. A Igreja se colocava contra o ensino laico e via, na educação, particularmente na educação da pequena burguesia e das classes emergentes, um espaço privilegiado para construir uma nova identidade no mundo moderno e para a formação de elites dirigentes, de preferência devotadas aos seus objetivos (PRATTA, 2002). 7 Congresso de Viena – Conferência entre embaixadores das grandes potências europeias, teve lugar na capital austríaca, entre 1 de outubro de 1814 e 9 de junho de 1815. Suas intenções eram a de redesenhar o mapa político do continente europeu após a derrota da França napoleônica, iniciar a recolonização, restaurar nos respectivos tronos as famílias reais derrotadas pelas tropas de Napoleão Bonaparte (como a restauração dos Bourbon), restabelecer a ordem na França e equilibrar suas forças, no sentido de garantir a paz na Europa. O Ato Final do Congresso foi assinado a 9 de junho de 1815, nove dias antes da derrota final de Napoleão na Batalha de Waterloo (LARROYO, 1974, p. 559). 8 A Revolução Francesa foi uma revolução da burguesia, que reivindicava mais prestígio social para a burguesia e redução do poder do clero e da nobreza. Aboliu a servidão e os direitos feudais e proclamou os direitos universais: Fraternidade, Igualdade e Justiça (LARROYO, 1974, p. 508). 34 Pode-se dizer que, no campo político, o “princípio preventivo” inspirou os participantes do Congresso de Viena que se reuniram para redesenhar o mapa político da Europa após a tempestade napoleônica, com o fim de restaurar o Ancien Regimen, conservando o pouco de positivo que haviam trazido as novas ideias e os novos tempos. No campo social, a ideia preventiva, antecipada em alguns setores nos séculos XVII e XVIII, se afirma com novo vigor, sobretudo na Espanha, na França e na Inglaterra, com particular interesse pelos fenômenos da pobreza e da mendicância, da criminalidade, e, consequentemente, na defesa da assistência à infância e da educação. No campo penal, a prevenção assumiu duplo significado: em primeiro lugar, prevenir completamente os crimes; se isto fosse impossível, uma vez cometidos, agir “corretivamente” com reeducação e recuperação, de modo a preveni-los no futuro (BRAIDO, 2004). Dom Bosco utilizava-se da expressão “formar bons cristãos e honestos cidadãos”, ao mencionar o objetivo de seu Sistema Preventivo de Educação, que pretendia se concretizar sem imposição de força ou autoritarismo. Optou pela educação preventiva, em detrimento da repressiva, por acreditar que esta não educava e nem moralizava. Ele mesmo escreveu a respeito: São dois os sistemas até hoje usados na educação da juventude: O Preventivo e o Repressivo. O Sistema repressivo consiste em fazer que os súditos conheçam a lei, e depois vigiar para saber os seus transgressores e infligir-lhes, quando necessário, o merecido castigo. Nesse sistema, as palavras e o semblante do superior devem constantemente ser severos e até ameaçadores, e ele próprio deve evitar toda a familiaridade com os dependentes. [...] Diferente e, eu diria, oposto é o Sistema Preventivo. Consiste em tornar conhecidas as prescrições e as regras de uma instituição, e depois vigiar de modo que os alunos estejam sempre sob os olhares atentos do diretor ou dos assistentes. Estes, como pais carinhosos, falem, sirvam de guia em todas as circunstâncias, dêem conselhos e corrijam com bondade. Consiste, pois, em colocar os alunos na impossibilidade de cometerem faltas (DOM BOSCO apud CORTES, 1983, p. 11 e 12). Braido (2004) destaca que, assim como Dom Bosco, outros educadores, atentos às necessidades da época, pensaram em uma educação de cunho preventivo, como Dupanloup, Lacordaine, Poullet, Champagnat, Aporti e Rosmini9. 9 Félix Dupanloup (1802-1878), com sua pedagogia do internato, acreditava que, na educação intencionada, o respeito pela criança e a autoridade (que provém de Deus) eram fatores determinantes. Henri Lacordaire (1802-1861) fundou a Terceira Ordem Dominicana para a educação, mostrando um profundo amor pela juventude. Considerava o cultivo do caráter como algo primordial na educação. Pierre-Antonie Poullet (1810-1846) trouxe traços de um Sistema Preventivo por meio de uma assídua assistência e presença constante entre os alunos com a finalidade de 35 Nesta perspectiva, Dom Bosco conheceu e refletiu sobre as propostas e experiências presentes em sua época e, muito conscientemente, adotou métodos, princípios e instituições que lhe permitiram, em seu modo de ver, dar aos jovens uma formação humana e cristã bastante completa, e indicar aos seus colaboradores uma proposta educativa orgânica e unitária. Para Dom Bosco, o Sistema Preventivo era vantajoso por diversos motivos: a) O aluno, previamente avisado, não fica humilhado pelas faltas cometidas, como ocorre quando estas são levadas ao superior; b) A razão mais essencial é a mobilidade juvenil que esquece as regras disciplinarese os castigos que ameaçam; c) O Sistema Repressivo pode impedir uma desordem, mas dificilmente melhora os delinquentes; d) O Sistema Preventivo torna avisado o aluno de modo que o educador sempre possa falar com a linguagem do coração, seja na fase educativa, seja depois dela (SANTOS, 2000). O quadro 1 apresenta alguns aspectos centrais do paralelo estabelecido por Dom Bosco. Quadro 1 - Sistema Repressivo e Sistema Preventivo SISTEMA REPRESSIVO SISTEMA PREVENTIVO É necessário conhecer as leis (regras) de uma instituição para cumpri-las com rigor. É necessário conhecer com o sentido de “tomar consciência” das regras. Por meio da Razão o aluno “reconhece a necessidade e quase a deseja” (p. 12) e sob os olhares atentos do diretor ou dos assistentes é constantemente “vigiado com carinho”. A concepção de VIGIAR está associada à ideia de “controlar” para punir. A concepção de VIGIAR está associada à ideia de “vigilância”, para evitar que se cometa o pecado. O Superior possui semblante severo e até ameaçador. O diretor, para dar mais prestígio à sua autoridade, apenas apresenta-se fisicamente quando é necessário ameaçar ou A presença do diretor é constante. “Deve, pois, o diretor consagrar-se totalmente aos seus educandos: jamais assuma compromissos que o afastem de suas proteger sua inocência. Marcelino Champagnat (1789-1840) e os irmãos Maristas desenvolveram uma educação voltada para as crianças indigentes, baseada no catecismo, na oração, na leitura e na escrita. Os educadores deviam ser como pais e não como patrões. Ferrante Aporti (1791-1858) adotou o Sistema Preventivo na educação, tendo o amor como fundamento da educação. Os elementos constitutivos da sua pedagogia eram: a assistência, a afeição, a caridade, a amorevollezza, o bom senso, a alegria, o canto, a recreação, o movimento. Antonio Rosmini Serbati (1797-1855), com sua pedagogia preventiva positiva, dizia que o objeto central da educação era formar o coração do homem (CABRINO, 2009). 36 punir (p. 12). Incentiva a impessoalidade das relações entre educadores e alunos. funções. Pelo contrário, permaneça sempre com seus alunos, todas as vezes que não estiverem regularmente ocupados, salvo estejam por outros devidamente assistidos” (p. 14). “O Sistema repressivo pode impedir uma desordem, mas dificilmente melhorará os culpados. Diz a experiência que os jovens não esquecem os castigos recebidos, e geralmente conservam ressentimento acompanhado do desejo de sacudir o jugo e até de tirar vingança” (p. 13). “O Sistema Preventivo, pelo contrário, granjeia a amizade do menino, que vê no assistente um benfeitor que o adverte, quer fazê-lo bom, livrá-lo de dissabores, castigos e desonras” (p. 13). São aplicados castigos físicos que envolvem o uso de palmatórias, bofetões, puxões de orelha, banco dos ignorantes, mordaça sobre a boca para os tagarelas, entre outras formas de castigos. Estes são tidos como corretivos e penitência como expressão da autoridade por parte de quem castiga. “Por quanto possível, jamais se faça uso de castigos, quando, porém, a necessidade o exige, observa-se...” (p. 18). Entre os meninos é castigo o que se faz passar por castigo. Salvo raríssimos casos, as correções, os castigos, nunca se deem em público, e empregue-se a máxima prudência e paciência para que o aluno compreenda a sua falta, à luz da Razão e da Religião. Bater, de qualquer modo que seja, por de joelhos em posição dolorosa, puxar orelhas, e outros castigos semelhantes, deve-se absolutamente banir, porque são proibidos pelas leis civis, irritam sobremaneira os jovens e desmoralizam o educador. Fonte: DALCIN, 2008, p. 121-122. O Sistema Preventivo de Dom Bosco está fundamentado em três dimensões que, correlacionadas, formam o tripé Amorevolezza, Razão e Religião, sendo a Amorevolezza a marca de todo o seu trabalho com os jovens. Como dito na nota 1, a Amorevolezza é uma expressão italiana que pode ser traduzida como atitudes de acolhida, bondade, alegria e fraternidade, que criam um clima de família. Consiste em um amor assistencial e educativo. De acordo com Braido (2004), por Amorevolezza entende-se o amor sobrenatural, misto de racionalidade e 37 compreensão humana, paterna e fraterna e que transforma o ambiente educacional em uma família. Ela é expressa nas palavras, nos atos e nas expressões dos olhos e do rosto. Em uma Circular sobre os castigos, a doutrina de Dom Bosco sobre o assunto reza: Lembrai-vos de que a educação é a coisa de coração, do qual só Deus é o dono, e não podemos ter poder algum sobre ele, se Deus não for o nosso mestre e não puser ao nosso dispor as chaves de acesso. Procuremos, pois, de todos os modos, incluindo a humilde e inteira dependência a que podemos aludir, assenhorear-nos dessa cidade cujas portas jamais se abrem à força do rigor e aspereza. Tornemo-nos amáveis, insinuemos o sentimento do dever e da intimidade de Deus, e veremos como que por encanto franquearem-se as portas de tantos corações para cantar os louvores daquele que quis tornar-se nosso modelo, nossa vida, nosso exemplo em tudo, mas, especialmente, na educação da juventude (CORTES, 1983, p. 50). Assim, a Amorevolezza é considerada o centro do sistema educativo de Dom Bosco, pois se transforma em presença afetuosa e contínua do educador entre seus alunos. O próprio Dom Bosco afirmava que “é preciso que os jovens saibam que são amados”. A Razão refere-se aos processos de compreensão de si mesmo e do mundo. Seu princípio está voltado para o desenvolvimento das capacidades de compreender, confrontar, raciocinar, adaptar-se, inventar, escolher, decidir. Razão significa, ainda, bom senso, simplicidade, normalidade, naturalidade. Para Santos (2000), a razão é, também, isenção de formalismos e distanciamentos. A racionalidade da ordem é o princípio fundamental para justificar a autoridade e a disciplina nas casas salesianas. A Religião, na prática do Sistema Preventivo, se apresenta como uma proposta de valores que transparece em todo momento e em toda parte. Todo ambiente expressa um clima religioso, nas atitudes dos educadores e também dos jovens (CABRINO, 2009). A educação deve tornar o jovem capaz de assumir séria e responsavelmente a vida de “honesto cidadão e bom cristão” – que se tornou o slogan favorito de Dom Bosco – e, ao mesmo tempo, “equivalente ao trinômio por ele, muitas vezes, recordado e recomendado aos jovens, como programa de vida: saúde, sabedoria e santidade” (SANTOS, 2000). 38 Fundamentada, então, neste tripé, a obra salesiana teve seu início com as atividades dos Oratórios Festivos10 que consistiam em reunir, aos domingos e dias festivos, os meninos pobres e abandonados em um lugar adequado, onde pudessem se ocupar com jogos e diversões, ao mesmo tempo em que lhes era ensinada, oportunamente, a fé cristã. Visando atender aos jovens mais pobres e abandonados, como escola de instrução religiosa cristã e de prática religiosa, em um ambiente de alegria e liberdade, cujo principal vínculo era a Amorevolezza, a criação do Oratório tinha o objetivo [...] de entreter a juventude nos domingos e dias de festa, propiciar-lhes ambiente sadio e alegre, formação evangélica, diversões, esportes, noções de higiene, moralidade, refeições comunitárias, encenações, cinema, declamação, música, canto, devoção à Maria Auxiliadora, a São Domingos Sávio, tudo em espírito de família, para tornarem-se ótimos cidadãos e cristãos, colocados na impossibilidade de cometer faltas (NEGRÃO, 1999, p. 203). Fotografia 3 - Dom Bosco e a banda do Oratório Festivo Fonte: www.salesianos.com.br Na imagem acima vemos DomBosco entre os músicos de Valdocco. Dizia ele que “uma casa sem música é como um corpo sem alma” (MATT; BOSCO, 1965, p. 162). É possível observar na imagem alunos jovens, com idades variadas, desde os mais novos até homens mais velhos. Todos dispostos ao redor de Dom Bosco, figura central. Ocupar-se com a música era uma estratégia de prevenção. 10 Até hoje muitos grupos da família Salesiana mantêm os Oratórios, um espaço de recreação (manhã, tarde e noite), em que são oferecidas atividades de lazer, reflexão e lanche. Os oratórios se estabelecem sobre quatro dimensões: casa, escola, igreja e pátio. 39 Era época da Revolução Industrial, muitos jovens estavam desocupados, pois as indústrias não absorviam toda a mão de obra disponível, deixando muitos expostos à delinquência. Foi na tentativa de resolver, em parte, esta situação que Dom Bosco começou a visitar prisões e passou a trabalhar, preventivamente, para que outros não praticassem pequenos delitos. Foi assim que criou o primeiro oratório em um bairro de Turim, chamado Valdocco, que ficou conhecido como Oratório de Valdocco. O colégio interno, por sua vez, nasceu de uma necessidade do Oratório Festivo de acolher quem não tinha lar ou lugar par hospedar-se. Assim, a fórmula internato liga-se à inspiração básica da obra de Dom Bosco, a prevenção. O Internato São Luis para rapazes sem teto e sem recursos foi criado em 1847. Esta função protetora do colégio está relacionada a uma clara separação do mundo externo. As normas disciplinares, descritas no Regulamento das Casas Salesianas, nasceram com o objetivo de evitar desordens e, assim, foram restringindo a liberdade. Neste sentido, fazem parte do projeto educacional da época. Ariès (1981, p. 191), analisando a instituição escolar, diz que “A instituição ideal do século XIX seria o internato, quer fosse o liceu, ou um pequeno seminário, ou um colégio religioso ou uma escola normal”. Os Salesianos consideraram o internato como o modelo mais completo de educação por mais de cem anos. Segundo Santos (2000. p. 206-207), era um regime em que os alunos ficavam reclusos, separados dos pais, pois assim poderiam receber instrução e educação por meio de pessoas que se dedicavam a eles, em tempo integral. Caracteriza-se esta comunidade por ser: a) Isolada do mundo porque o ambiente externo em nada, ou dificilmente, influía, o que se conseguia pelo controle das saídas, do tempo de férias, entrada de jornais, correspondência, controle dos livros e revistas, do cinema (censurado) e da intervenção de pessoas estranhas. b) Significativa, porque os regulamentos só a ela se referiam e porque a Congregação Salesiana nela empenhou a maior parte de seu pessoal religioso. O pessoal externo (professores, funcionários e auxiliares) entrou apenas para suprir a sua carência, mas era considerado uma anomalia, uma excrescência que deveria ser eliminada, porquanto a educação salesiana, assim se pensava, só poderia ser ministrada por religiosos salesianos. O externato era apenas um anexo. c) Dedicada à formação integral dos alunos pela utilização de: 1) uma organização temporal: horário, calendário escolar, férias e tempos especiais de formação (companhias religiosas) e 2) organização espacial: todo o ambiente espacial era de uso exclusivo seu. Os externos não tinham acesso a ele. Os alunos internos eram separados em grupos, chamados Divisões, por idade, tamanho, seriação, etc. [...] Os ambientes de uso comum eram a igreja, o refeitório e as salas de aulas. 40 d) Pelas suas práticas próprias, como desportos, festas, desfiles, passeios, coral, teatro, cinema, etc (SANTOS, 2000, p. 206-207). Os horários para as atividades no internato eram divididos em tempos, que tinham não mais que uma hora e meia, para que se evitasse o tédio nos alunos, aborrecimento ou cansaço. Baseado no modelo da Casa Geral de Turim (Valdocco), as atividades iniciavam às 5h30min, com o sino, e terminavam às 20h15min com orações de descanso. Durante o dia, os internos estudavam, assistiam às aulas de música e datilografia, passeavam, almoçavam, além de terem as aulas de educação formal (SANTOS, 2000). Com relação à estrutura espacial e predial dos internatos, são característicos os grandes espaços, além de não poderem ter aparência de ambientes fechados como se fossem casas correcionais. Estes espaços deveriam atender à construção de uma igreja, das salas de aulas, de um grande salão de atos (teatro) e pátio, isto é, deveriam atender às necessidades religiosas, acadêmicas, técnicas, culturais e de lazer. Santos (2000, p. 227) escreve, também, a respeito dos regulamentos sobre o tipo de aluno interno a ser aceito: Exigia cautela para não aceitar senão meninos sadios e de boa constituição, evitando-se os que tinham doenças repugnantes e contagiosas, ou defeitos físicos que os inibissem ao trabalho e ao cumprimento das normas regulamentares; ou ainda os de mau comportamento e máximas perversas [...]. Para aceitação gratuita, exigia-se atestado de orfandade de pai e mãe, de pobreza e de abandono. Os admitidos deveriam considerar os colegas como irmãos e os superiores como fazendo as vezes dos pais e exigia-se sujeitarem-se aos regulamentos e às ordens do Superiores. Nota-se que, assim como nos dias atuais em algumas instituições, o mau comportamento era considerado um critério de exclusão, demonstrando que o objetivo primeiro dos internatos era acolher jovens pobres, órfãos, mas que tivessem um comportamento considerado adequado, para uma formação religiosa, educativa e profissional. As casas salesianas obedeciam, basicamente, ao Regulamento11 escrito pelo próprio Dom Bosco entre os anos de 1852 e 1854, e visavam à homogeneidade de formação pedagógica, de ação missionária, de postura moral por parte de padre e 11 O objetivo do Regulamento era facilitar a consulta de cada salesiano sobre a melhor forma de viver segundo o espírito de Dom Bosco. Neste documento estava regulamentada toda a prática da vida religiosa dos salesianos (SANTOS, 2000, p. 246-247). 41 alunos e à organização social, política e econômica interna das casas. De acordo com o regulamento, era necessário um corpo de funcionários para que se criasse um ambiente salesiano de educação. No caso, padres salesianos, com funções preestabelecidas e hierarquicamente aceitas. Eram os seguintes cargos: - Diretor: responsável por todo o andamento espiritual, escolar e material da casa; - Prefeito: responsável pela vigilância da pontualidade dos professores e dos assistentes nos diversos lugares, pela observância da higiene do estabelecimento, das roupas e dos alunos; - Catequista: responsável pela aproximação dos alunos aos sacramentos e pela garantia de que os clérigos ajudariam os celebrantes nas missas; - Assistentes e Chefes de dormitórios: correção de alunos infratores por meio de ameaças, impedindo todo o tipo de conversa má, observando a ordem e o silêncio nos dormitórios, refeitórios e em outras atividades. O Regulamento ainda definia que as pessoas de serviço, além dos devidos atestados de idoneidade, deviam ser pessoas que não tivessem pouca idade. Apesar das colocações anteriores sobre a adoção do Sistema Preventivo ao invés do Repressivo, observa-se que as punições, por meio de ameaças e pelo controle do comportamento, eram permitidas nos internatos salesianos. O contexto cultural e religioso não se mantinha imutável. Com a expansão do protestantismo, no século XIX, a Igreja Católica enfrentava grande perda de prestígio político e social, o que acarretou, também, o fechamento de muitos seminários por falta de adeptos. Dom Bosco, através da abertura, no oratório, de uma seção para acolher “adolescentes e jovens de boa índole, boa inteligência e de famílias cristãs”,a maioria por meio do sistema de internato, vislumbrou a possibilidade de cultivar novas vocações para o clero, para o ingresso na vida sacerdotal. Quando percebia a vocação religiosa em algum deles, já o encaminhava para os estudos eclesiásticos. Quando o diretor percebesse uma vocação ao sacerdócio, imediatamente deveria enviar o candidato ao seminário, impedindo-o de visitar a família, mesmo nas férias escolares, para que não comprometesse o desejo de entrar pra a carreira eclesiástica (NEGRÃO, 1999, p. 222). 42 Em 1859, nasceu, oficialmente, a Congregação Salesiana, com a escolha de São Francisco de Sales12, bispo de Genebra no Séc. XVII, como patrono desta comunidade, dando origem ao nome Salesianos. De acordo com Borges (2010), São Francisco de Sales foi escolhido por Dom Bosco por ser um exemplo de paciência e caridade. Os primeiros salesianos fizeram seus votos públicos em 1862 e, em 1872, foi instituído o ramo feminino da Congregação Salesiana, conhecido como As Filhas de Maria Auxiliadora. Como naquela época não eram admitidas escolas mistas católicas, Dom Bosco, com Maria Domingas Mazzarello, fundou o ramo feminino salesiano. Maria Domingas nasceu em Mornese, uma região próxima a Turim, na Itália, em 1837. Era uma camponesa, de forte formação cristã, que viu o rumo de sua vida mudar ao ser vitimada pelo tifo, contraído após cuidar de parentes que já estavam com a doença. Não podendo mais trabalhar no campo, decidiu aprender a costurar com o objetivo de ajudar as jovens da sua pequena cidade. Com suas amigas, montou uma sala de costura e começou a ensinar o ofício. Quando Dom Bosco passou por Mornese, empolgou-se com o trabalho de Maria Mazzarello e lhe propôs a fundação de um instituto feminino, com o mesmo objetivo dos salesianos. Mazzarello anteviu a concretização de um sonho: fazer pelas meninas o que Dom Bosco vinha fazendo pelos meninos. Em 5 de agosto de 1872, em Mornese, quinze jovens, entre elas Maria Mazzarello, consagraram-se a Deus para serem auxiliadoras entre as jovens, sobretudo as mais necessitadas. Sob a orientação de Dom Bosco, fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), uma casa para meninas. 12 Missionário jesuíta ítalo-francês nascido no castelo de Sales, na Savóia, antiga região do norte de Itália passada à França, São Francisco de Sales formou-se em direito na Universidade de Pádua, Itália em 1591 e exerceu o cargo de advogado no Senado de Chambéry, na França. Sua carreira já parecia definida quando, contrariando a vontade dos pais, optou pelo sacerdócio a fim de advogar espiritualmente a causa dos mais desprotegidos. Ordenou-se em 1593. Após sua morte em Lyon, França, com 55 anos de idade, foi beatificado na basílica de São Pedro, em Roma (1661), canonizado (1665) e nomeado doutor da igreja (1877). Foi titular e patrono da Família Salesiana, fundada por São João Bosco, e também declarado pelo papa Pio XI padroeiro dos escritores e dos jornalistas (1923). 43 Figura 2 - Madre Maria Mazzarello Fonte: http://mazzarelloentrenos.com.br Mas a expansão da obra salesiana não para por aí. Brandão (2006, p. 28) relata que tem início um novo ciclo de atividades salesianas, agora fora da Itália, com a abertura da primeira obra salesiana em outro país, na cidade de Nice na França em 9 de novembro de 1875. Nesse mesmo ano, partem da Itália missionários salesianos para a América Latina e depois de 8 anos chegam os primeiros salesianos ao Brasil. Em 1875, com a congregação aprovada há um ano, já com 300 membros e gozando de prestígio crescente, os salesianos estendem, consideravelmente, o seu campo de ação na Itália e em vários países da Europa: França, a partir de 1875; Espanha, a partir de 1881 e Inglaterra, a partir de 1887 (WIRTH, 1968). As primeiras missões na América do Sul iniciaram-se após um pedido da Argentina, enviado a Dom Bosco. Assim, os salesianos desembarcaram em Buenos Aires, em 14 de dezembro de 1875. Depois de passarem alguns dias em um alojamento provisório, foram divididos em três grupos: o primeiro, composto por Cagliero e dois outros missionários, encarregaram-se de uma paróquia italiana que congregava quase trinta mil compatriotas em Buenos Aires; o segundo grupo, formado por Fagnano e seis outros religiosos, dirigiu-se a San Nicolás de los Arroyos para cuidarem de um colégio de meninos. Um terceiro grupo estava destinado à primeira fundação uruguaia, tendo à frente Luis Lasagna13. Iniciaram a 13 Dom Luis Lasagna foi Bispo titular de Tripoli na Itália nomeado em 1893 e Inspetor Salesiano no Uruguai em 1881. Enviado ao Brasil por Dom Bosco para estudar a possibilidade de expansão da 44 obra com a fundação de um colégio, dedicado a Pio IX, em Villa Colón, perto de Montevideo (WIRTH, 1968). Fotografia 4 - Dom Luis Lasagna Fonte: A OBRA SALESIANA NO BRASIL NO SEU CINCOENTENÁRIO: 1883-1933. s/d, p. 34. Ainda durante a vida de Dom Bosco, três países da América do Sul receberam a obra salesiana: o Brasil, o Chile e o Equador. De acordo com o Anuário 2013 dos Salesianos de Dom Bosco, os dados estatísticos de 31/12/2012 mostravam que os salesianos estavam em 5 continentes, 132 países, com 90 inspetorias e 1816 casas instituídas14. obra salesiana em território brasileiro e a viabilidade de instalação de um instituto de artes e ofícios na diocese do Rio de Janeiro. 14 As inspetorias salesianas são unidades administrativas regionais que coordenam as atividades de um conjunto de obras salesianas; casas são as unidades de atividade prática podendo conduzir escolas, paróquias, entidades assistenciais e obras sociais. São também o espaço de convivência dos salesianos. 45 Figura 3 - Inspetorias Salesianas Fonte: http://www.sdb.org Na data de publicação, eram 14.893 salesianos e 480 noviços, totalizando 15.373 membros, distribuídos em diferentes atividades, conforme quadro 2: Quadro 2 – Atividades dos Salesianos Atividades Salesianos em tempo total Salesianos em tempo parcial* Oratórios - Centros Juvenis 875 1890 Escolas 2286 1364 Escolas profissionais e agrícolas 748 484 Internatos e Pensionatos 502 505 Orientação vocacional 436 451 Paróquias 2374 2186 Obras de promoção social 557 390 Comunicação social 149 254 Serviços inspetoriais 365 402 Formação 562 360 Total 8854 8286 *Alguns salesianos encontram-se em mais de uma atividade, estando em tempo parcial em cada uma delas. Fonte: http://www.sdb.org O Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora contava, em dezembro de 2011, com 13.653 irmãs, distribuídas em 1.414 comunidades, em 93 nações, nos cinco continentes. Seu trabalho, ao redor do mundo, situa-se em escolas, centros de formação profissional, casas-lares, obras para meninas de rua, associações para o 46 tempo livre, voluntariado, catequese, obras de primeira evangelização, trabalho com indígenas, obras de promoção da mulher, atividades de microcrédito e microeconomia (DADOS ESTATÍSTICOS FMA, 2013). 1.2 Os Salesianos no Brasil A vinda dos salesianos para o Brasil ocorreu em 1883 e foi resultado de amplos e longos entendimentos entre o bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, e os superiores da congregação, em Turim. Foram feitas algumas visitas e acordos antes da vinda definitiva. O primeiro contato ocorreu em 8 de dezembro de 1875, quando o navio Savoie, proveniente de Gênova, trouxe os primeiros missionários salesianos à América do Sul e aportou na Baía da Guanabara. Os salesianos fizeram rápida visita ao bispo do Rio de Janeiroa pedido de Dom Bosco, mas antes disso, ciceroneados por um antigo aluno do Padre Cagliero, conheceram o Palácio Imperial, as igrejas da Candelária, de São Francisco de Paula, de Santo Antônio, de Santa Teresa, a Catedral, o Mosteiro de São Bento, o Imperial Observatório do Rio de Janeiro, a Casa dos Jesuítas e o Jardim Botânico. Só então seguiram rumo à Argentina, aportando lá no dia 14 de dezembro. Fotografia 5 - Primeiros missionários com destino à Argentina em 1875 Fonte: www.salesianoniteroi.com.br 47 Em 1877, Dom Lacerda foi a Roma, encontrou com Dom Bosco e formalizou seu pedido sobre a presença dos Salesianos em sua diocese. Em 14 de maio de 1882, Dom Lasagna, então superior dos salesianos no Uruguai, atendeu ao pedido de Dom Bosco e não só visitou Dom Lacerda no Rio de Janeiro, como também visitou o norte do Brasil. Segundo Azzi (1982), o jornal O Apóstolo deu destaque à sua chegada: Acha-se hospedado no Seminário de São José, o distinto e sábio Dom Luis Lasagna, diretor do Colégio Pio de Villa Colón perto de Montevidéu. O bispo veio com outro aluno salesiano a convite do bispo do Rio de Janeiro, Dom Lacerda, que em 1877 foi hóspede de Dom Bosco, em Turim, e veio ver se segundo os seus relatos pode-se abrir no Rio de Janeiro ou em suas proximidades um estabelecimento semelhante a tantos outros existentes na Itália, com grande vantagem para a religião e para a sociedade (O APÓSTOLO apud AZZI, 1982, p. 125). Finalmente, no dia 10 de julho de 1883, embarcaram em Montevidéu, no vapor Orenoque, sete salesianos destinados a trabalhar em Niterói. Fotografia 6 - Navio Orenoque Fonte: www.salesianoniteroi.com.br A presença salesiana no Brasil foi solicitada por diversos membros do episcopado brasileiro que estavam empenhados no movimento de reforma católica do Brasil. Na época colonial, a Igreja era umbilicalmente vinculada à Coroa Portuguesa, situação esta conservada, em termos de relacionamento com o Estado, durante a época imperial, pelo Padroado15. Este movimento iniciou-se em meados 15 É a designação do conjunto de privilégios concedidos pela Santa Sé aos reis de Portugal e de Espanha, também estendidos aos imperadores do Brasil. Tratava-se de um instrumento jurídico tipicamente medieval que possibilitava um domínio direto da Coroa nos negócios religiosos, especialmente nos aspectos administrativos, jurídicos e financeiros, em que os aspectos religiosos http://www.salesianoniteroi.com.br/ 48 do séc. XIX e tinha como objetivo a substituição do modelo eclesial da Cristandade, implantado no período colonial, pelo modelo de Igreja considerado como sociedade hierárquica, preconizado pelo Concílio Tridentino (AZZI, 1982). O Concílio tinha como meta estabelecer a força da fé, sustentada nos seguintes dogmas católicos: reafirmação da crença da salvação por meio da fé e das boas ações; fortalecimento do poder do papa; manutenção do celibato clerical; presença dos sete sacramentos. Para tanto, estabeleceram-se as seguintes decisões: fundação de seminários para a formação sacerdotal; acentuação da importância da missa; proibição do lucro em consequência da venda de indulgências e, por fim, organização do Index – índice dos livros que, por determinação do Papa, eram proibidos aos católicos (BRANDÃO, 2006, p. 87). Toledo (2003) relata que, na época, a Igreja Católica no Brasil possuía por volta doze milhões de fiéis, mas estava demasiadamente debilitada, com bispos idosos, contando, em 1889, com apenas onze dioceses, nove Seminários Maiores e setecentos padres. Os bispos que lutavam pela efetivação da reforma no Brasil acreditavam que a presença de congregações e ordens religiosas provenientes da Europa, em especial da Itália, berço de sua Igreja maior, fortaleceria o movimento. De acordo com Azzi (1982), foi a partir destas condições que, no Segundo Reinado, o bispo de Mariana, D. Antônio Ferreira Viçoso, direcionou esforços para vincular a Igreja do Brasil à Santa Sé, numa tentativa de desatá-la do padroado imperial. Com o fortalecimento do movimento, os bispos brasileiros decidiram procurar, na Europa, novos institutos religiosos que pudessem colaborar com a reforma católica no país. Uma das características principais da reforma implantada pelos bispos do Brasil em meados do século XIX foi o seu nítido caráter romano. Daí poder- se falar desse período como uma verdadeira fase de romanização da Igreja do Brasil (AZZI, 1982, p. 27). Os católicos da Europa estavam separados em dois grupos durante os séculos XVIII e XIX: os chamados católicos regalistas, galicanos ou janseinistas, que defendiam os interesses de uma Igreja mais ligada à sua Nação, dependente do poder civil e com um cunho de ação marcadamente político; e os designados como eram afetados. Padres, religiosos e bispos eram funcionários da Coroa portuguesa no Brasil colonial e assim continuaram no Brasil monárquico. Isto decorria, em grande parte, porque religião e religiosidade eram também assuntos de Estado. 49 católicos romanos ou ultramontanos16, que defendiam uma adesão total e incondicional ao papa, dentro de uma Igreja de caráter universal, mas sob a orientação exclusiva da Santa Sé (AZZI, 1982). A reforma, para o clero brasileiro, tinha como ponto chave a instituição dos seminários eclesiásticos, sob a orientação das ordens religiosas europeias. Em relação aos efeitos para o povo, significava melhorar a instrução catequética, afastá-lo da ignorância religiosa, das práticas supersticiosas e das manifestações de fanatismo no culto. O bispo do Rio de Janeiro, Dom Lacerda, que era formado na escola de Dom Viçoso, assim que foi nomeado já encontrou no Rio de Janeiro os capuchinhos italianos, instalados no Morro do Castelo. Em 1877, quando esteve em Roma para as comemorações do cinquentenário do episcopado de Pio IX, aproveitou a oportunidade para encontrar-se pela primeira vez com Dom Bosco, quando oficializou o pedido para que os salesianos viessem fundar uma obra em sua diocese. Um importante personagem deste período é o grupo maçom. A maçonaria esteve enraizada no governo imperial brasileiro, participando do processo de independência de Portugal, o que lhe garantiu acesso ao poder. Mantinha uma posição favorável às ideias liberais e defendia a separação entre Igreja e Estado, o que suscitou uma reação dura por parte da Santa Sé (BRANDÃO, 2006). A Carta Encíclica do Papa Leão XIII, de 20 de abril de 1884, Humanum Genus, versava radicalmente contra a “seita maçônica”, argumentando que “é publicamente, a céu aberto, que empreendem arruinar a Santa Igreja” (PAPA LEÃO XIII, 1884, não paginado). A Questão Religiosa, movimento no qual bispos brasileiros proclamavam a liberdade da Igreja frente ao Estado, foi, sem dúvida, um marco histórico para a Igreja Católica no Brasil. As ideias liberais e a maçonaria estavam muito presentes na sociedade brasileira, assim como a Igreja Católica que gozava da oficialidade do Estado. Os bispos brasileiros reformadores protestavam contra a infiltração maçom dentro da Igreja e acabavam presos, pois não podiam contrariar as ações do Estado. O fim não poderia ser outro, a não ser a separação entre Igreja e Estado. 16 Do latim ultramontanus. Foi um movimento de reforma ou renovação católica, que pode ser caracterizado como um movimento tridentino, romanista, episcopal e clerical. Tridentino porque o espírito da reforma do Concílio de Trento não havia ainda sido introduzido no Brasil. Romanista porque defendia a obediência ao Papa, restaurando-se o caráter universal da Igreja e sua unidade doutrinal e disciplinar. Defendiao fim do Padroado Régio e a consequente autonomia espiritual da Igreja frente ao governo. Episcopal e clerical porque são bispos e padres que a projetam e a implantam (CASALI, 1995, p. 60). 50 A Igreja, ao mesmo tempo em que procurava atender aos imigrantes que chegavam em grande número ao Brasil, quanto à sua prática religiosa católica, procurou atender, também, às suas reivindicações pela abertura de escolas que proporcionassem a educação de seus filhos. As ordens religiosas realizavam, então, uma dupla missão: a de evangelizar e a de formar, nas escolas, as novas gerações de católicos. A este respeito, Casali (1995, p. 74) descreve que, ao final do século XIX numerosas ordens e religiosos estrangeiros começaram a chegar ao Brasil. Para se ter melhor ideia do significado deste movimento, basta registrar que no período de 1549 a 1640 chegaram ao Brasil 7 Ordens Religiosas masculinas. Até 1880 apenas mais uma Ordem aportou. De 1880 a 1930, porém, chegaram 37 diferentes Ordens masculinas, das quais 12 italianas e 10 francesas. Dentre as Congregações Femininas o afluxo é surpreendente: entre 1880 e 1930 chegaram nada menos que 97 diferentes Ordens religiosas ao Brasil. Voltando, então, especificamente aos salesianos, foi atendendo à solicitação de Dom Lacerda que Dom Bosco enviou instruções ao superior dos salesianos do Uruguai, Dom Lasagna, para que fundasse a primeira casa salesiana no Brasil. O Papa Pio IX orientou Dom Bosco, pessoalmente, sobre a missão que os salesianos deveriam desenvolver na América Latina: “Conversão e civilização dos indígenas e, ao mesmo tempo, assistência religiosa aos imigrantes italianos” (AZZI, 1983, p. 47). Tanto o Imperador Pedro II como, posteriormente, o governo republicano demonstraram interesse pelo trabalho dos salesianos com os índios. No entanto, este trabalho específico só foi iniciado em 1895, na Colônia Tereza Cristina, no Mato Grosso. Colônia militar, criada em 1887 durante o processo de “pacificação” dos Bororo, recebeu o nome da esposa de D. Pedro II, o que simboliza a presença do poder imperial sobre aqueles índios (ALMEIDA, 2004). Depois de oito anos dirigida pelos militares e com a constatação do fracasso desta e de outras colônias militares, o governo do Mato Grosso ofereceu a obra aos salesianos que iniciavam como missionários no estado. O grupo que assumiu a colônia era integrado por três irmãs Filhas de Maria Auxiliadora e contava, também, com um destacamento militar com cinquenta soldados. A situação era delicada, pois equacionar militares e missionários, com objetivos diferentes, não era tarefa fácil, o que contribuiu para o afastamento dos salesianos, em novembro de 1898. Este trabalho com os Bororo só foi retomado, em 1902, quando os salesianos já haviam decidido por seu 51 estabelecimento autônomo, independente da política do estado, com a ainda hoje existente missão Sagrado Coração. Dom Lasagna considerou conveniente fazer uma viagem ao Brasil para conhecer o terreno e o ambiente, antes de criar uma casa. Vindos de navio da Itália para o Uruguai, Dom Lasagna e outros salesianos, antes de aportarem em Niterói, tiveram que passar por um período de quarentena, pois havia uma suspeita de que, pelos navios, chegavam as epidemias ao Brasil. Nesta época, segunda metade do século XIX, especificamente no ano de 1882, o Brasil era vítima frequente de surtos epidêmicos de varíola, peste bubônica e febre amarela, principalmente no verão. Embora haja evidências de febre amarela no Brasil, já em 1694, foi somente a partir de meados do século XIX que esta se tornou a grande questão sanitária nacional. As epidemias de varíola aconteciam, em geral, no inverno. A cólera atingiu o país nos anos de 1855, 1856 e nos anos 1890, pouco tempo antes de o Brasil ser alcançado por outra pandemia, a da peste bubônica. A tuberculose, as disenterias, a malária e febres chamadas por dezenas de nomes crepitavam como flagelos crônicos na capital e nas províncias. Foi exatamente a epidemia de febre amarela que obrigou o navio que trazia os salesianos a cumprir a quarentena. Em cartas trocadas com seus pares na Itália, os salesianos enviavam suas primeiras impressões sobre o Brasil. Segundo Santos (2000, p. 39), uma das correspondências relatava a surpresa dos salesianos em relação às características físicas dos habitantes do Rio de Janeiro: “Pálidos e magros, muito inferiores aos europeus! Os escravos numerosíssimos, descalços e rasgados, teciam juncos e fazem esteiras”. E, completando sua avaliação sobre a cidade: “Rio de Janeiro é uma cidade mais do diabo que de qualquer quem seja”. Diante desta situação, uma das medidas emergenciais para proteger a família imperial desses possíveis contágios, foi isolá-la em um lugar seguro. É nesse momento que Petrópolis aparece como uma boa rota de fuga contra tais epidemias que assolavam a cidade do Rio de Janeiro. No verão de 1849-50, a família voltou novamente para Santa Cruz, mas a morte do filho de d. Pedro empurrou de vez os moradores de São Cristóvão para os verões serra acima. Ademais, nesse mesmo ano a febre amarela vitimou para valer os habitantes da cidade-corte, levando aqueles que tinham meios a seguir a mesma rota do imperador. Além de oferecer os prazeres da convivência com a Coroa, Petrópolis convertia-se em rota de fuga da febre amarela, em uma política sanitária da corte. (SCHWARCZ, 1998, p. 235). 52 Dom Lasagna e seus acompanhantes desembarcaram no Rio de Janeiro, em 14 de maio de 1882, e foram recebidos por Dom Lacerda, no Seminário do Rio Comprido. Em companhia do clérigo Teodoro Massano, Dom Lasagna viajou do Rio ao Pará, visitando diversas dioceses e analisando a realidade brasileira, antes de solicitar a compra do imóvel em Niterói, que seria o futuro Colégio Santa Rosa, nome escolhido em função do nome do bairro em que seria fundado o colégio. Azzi (1982, p. 39-40) transcreve carta de Dom Lasagna (apud AZZI, 1982, p. 39-40) enviada a Cagliero: De fato apenas cheguei, corri a vê-los, e me conduziram a Niterói, cidade capital da província do Rio de Janeiro, situada em frente ao porto, a um quarto de hora de vapor, e lá, um pouco fora, aos pés dos montes, num lugar imenso chamado Santa Rosa, com um bonde que passa à porta, fizeram-me visitar uma bela propriedade, com grandíssimo terreno ao redor, o mais belo, o mais saudável que se possa encontrar em toda a província; e, por meio de amizade e recomendação, tinham-no conseguido por 50.000 liras. Aprovei-o e solicitei a compra A primeira ideia foi se instalarem em Jurujuba, onde havia uma chácara que funcionava como local de descanso para os seminaristas de Dom Lacerda. Esta proposta foi rejeitada por Dom Lasagna que a considerou inviável e propôs o estudo de outras possibilidades, pois, como dizem as cartas de maio de 1882: “Aqui é necessário caminhar com os pés no chão. Jurujuba é malsã, fora de mão, próxima de um lazareto para os empestados... Basta. O bispo não fala mais nela” (DOM LASAGNA apud AZZI, 1983, p. 39). Logo em seguida, surgiu a opção pela chácara situada no bairro de Santa Rosa, em Niterói, cidade conhecida, na época, como Vila Real da Praia Grande. Tinha relativa importância por ser capital da província, mas estava sempre à sombra do Rio de Janeiro pela proximidade e por ser esta cidade a sede da Corte Imperial, onde aconteciam as grandes solenidades cívicas e religiosas, assim como as manifestações culturais e recreativas. 53 Fotografia 7 - Primeira sede do Colégio Santa Rosa de Niterói Fonte: http://www.faculdadesalesiana.edu.br Depois de registrada a escritura, escreve novamente a Cagliero (apud AZZI, 1982, p. 39-40): Niterói é uma cidade de 20.000 habitantes, e ao redor de nossa casa há muitíssima população, sem uma capela, sem uma escola, pois toda a cidade não tem senãouma só paróquia e duas capelas com três padres ao todo. Portanto, a missão salesiana será grande sobre todos os aspectos. Marcigaglia (1955, p. 18) transcreve pequenos trechos de cartas enviadas a Dom Bosco, após a visita de Dom Lasagna: - Aqui tudo é grande, maravilhoso, tudo é novo para nós. - É o imenso Império do Brasil, que hoje a Providência aponta como campo glorioso de trabalho aos filhos de S. Francisco de Sales. - O próprio Imperador D. Pedro IIº, monarca sábio e activíssimo como nenhum, dignou-se admitir-me em audiência particular no seu palácio de Petrópolis, no dia de Pentecostes, e se entreteve comigo por muito tempo em familiar conversação, a informar-se minuciosamente sobre os salesianos (....). Depois de bem informado (...) sumamente satisfeito, exprimiu o desejo de ver brevemente transplantada a nossa Instituição, prometendo-nos a sua augusta proteção e despedindo-me com a maior benevolência e cortesia (sic). (DOM LASAGNA apud MARCIGAGLIA, 1955, p. 18). Segundo Azzi (1983), Dom Pedro II não tinha a mesma receptividade com relação às outras ordens religiosas que estavam no Brasil há mais tempo, a exemplo das Carmelitas e dos Beneditinos, Mercedários e Franciscanos. Para Dom Pedro II, 54 elas não eram úteis à sociedade, visto que frades e monges viviam de seus patrimônios e dedicavam-se, especialmente, à vida contemplativa. Comparados aos outros institutos religiosos já atuantes no Brasil, os salesianos eram considerados vanguardistas devido à sua maior inserção no mundo do trabalho, por meio das escolas de artes e ofícios, e pela maior facilidade em assimilar os valores da cultura moderna. Entre as características que se destacavam nos salesianos, acentua-se a jovialidade. Dom Bosco não queria que seus discípulos se identificassem com o clero tradicional, em geral tido como sério e circunspecto, mas que, ao invés disso, cultivassem uma expansiva cordialidade, ao se relacionarem com as pessoas. Apesar disto, continuavam marcados por um rigorismo moral, típico da Igreja do século XIX, o que explicava as restrições com relação à educação mista adotada pelos protestantes, considerada como fonte de perversão moral. Dom Lasagna estava maravilhado em ver todos os bispos disputarem-no, oferecendo seminários, pensionatos, colégios, dispostos a qualquer sacrifício, contanto que fossem colaboradores em suas dioceses. Pode-se dizer que muitos interesses estavam em jogo e facilitaram a instalação da congregação salesiana no Brasil. Entre eles, Brandão (2006, p. 44) descreve: A Cúria Romana interessada em conter a expansão protestante e promover a reforma católica; a Coroa Brasileira e, posteriormente, os republicanos, envoltos com o processo ‘civilizatório’ e com a manutenção de uma classe dirigente; os bispos romanizados brasileiros buscando impor o projeto da santa Sé. Para Dom Bosco e seus seguidores, a vinda para o Brasil representava a expansão de suas obras pela América Latina, e a implantação do projeto da Santa Sé. Santos (2012) salienta que, nesta época, operava-se uma profunda, embora lenta, transformação na vida da nação brasileira, já presente na década de 1870. Esta transformação intensificou-se nos anos de 1880, devido à ação da propaganda republicana, aos movimentos pela extinção legal da escravidão, à chegada de milhares de imigrantes do hemisfério norte, ao início da industrialização e da urbanização e à entrada, no país, de novas congregações religiosas. Observando a realidade brasileira, Dom Lasagna percebeu que os salesianos tinham imenso trabalho a fazer, principalmente voltado para a educação dos jovens mais necessitados. Assim, até os primeiros anos da segunda década do século XX, a ênfase foi dada ao ensino profissional, apesar das dificuldades que encontraram 55 em função do preconceito com relação ao trabalho manual, resquício do regime escravocrata (SANTOS, 2012). Em julho de 1883, desembarcaram, no Brasil, os sete salesianos que fundaram o Colégio Santa Rosa de Niterói, além de Dom Lasagna que os chefiava: Padre Miguel Borghino (1855-1929), no cargo de diretor; Padre Carlos Peretto (1860-1923), vice-diretor e prefeito, encarregado das finanças da Congregação; Miguel Foglino (1858-1938), seminarista ordenado sacerdote mais tarde, encarregado de organizar os estudos, o ensino profissionalizante e a disciplina de modo geral. Na mesma condição de seminarista, veio, ainda, Bernardino Monti, encarregado de auxiliar na disciplina. Irmão Domingos Delpiano (1844-1920) veio incumbido da função de dirigente técnico das obras arquitetônicas a serem executadas e, mais tarde, atuou como dirigente técnico do Liceu Coração de Jesus, em São Paulo. Irmão José Daneri (1849-1907), americano, veio encarregado da cozinha e o Irmão João Batista Cornélio (1852-1921) veio para auxiliar nos serviços gerais (MARCIGAGLIA, 1955). No dia 6 de agosto, cerca de vinte dias após a chegada dos salesianos em Niterói, Dom Lasagna faz o seguinte comunicado a Dom Bosco: “O dia 14 de julho de 1883 sem dúvida há de ser para todos nós um dia de feliz recordação, porque assinala a fundação de nossa primeira casa no Brasil, em Niterói: graças a Deus do mais íntimo da alma” (DOM LASAGNA apud AZZI, 1982, p. 224). Apesar da boa receptividade ao estabelecerem-se em Niterói, os salesianos tiveram a nítida impressão de que estavam em um campo inimigo. Depararam-se com a presença dos protestantes, que já atuavam nas redondezas, e com o clima anticlerical dominante naquela época. Os liberais brasileiros, por meio de seus periódicos, denunciavam que os religiosos desenvolviam a sua ação educacional de acordo com o método jesuítico, afastando os alunos das novas ideias e discussões. A imprensa trazia o debate entre ensino clerical e ensino leigo, recheado de denúncias contra os colégios dirigidos pelos religiosos. Em 1886, a Gazeta de Notícias divulgava o sistema de punição praticado no colégio Santa Rosa por meio da exposição do caso de um aluno preso numa escura masmorra, na qual se encontrava havia quinze dias a pão e água. A notícia foi desconsiderada após a visita da Inspetoria Geral de Instrução do Governo, mas serviu para aquecer ainda mais o debate (AZZI, 1983). Também os liberais passaram a denunciar a presença 56 salesiana no Brasil como uma invasão do ultramontanismo (AZZI, 1982), ao qual já nos referimos anteriormente. Este processo de romanização estendeu-se de 1870 a 1920, aproximadamente e, no Brasil, partia dos seguintes pontos fundamentais: - Igreja brasileira inserida num movimento internacional de unificação e restauração em torno da hierarquia do Papa e da Cúria Romana; - Igreja como Societas Perfecta, auto-consciente, com funcionamento independente, que se realiza paralelamente ao Estado, colocando-se na ofensiva contra os vícios e ignorância popular e na defensiva contra os seus inimigos: liberais, maçons, positivistas e membros de novas correntes religiosas que se desenvolveram no Brasil, especialmente os protestantes e os espíritas; - Clero secular com melhor formação nos seminários, voltado para o desenvolvimento da espiritualidade, e o clero regular, pertencente a ordens religiosas, colocado dentro da maior disciplina moral, sob maior rigor intelectual em sua formação e a total afinidade com Roma; - Evangelização do povo católico, por meio da espiritualidade centrada na prática dos sacramentos e no respeito à hierarquia eclesiástica, introduzindo novas práticas religiosas e novas normas éticas, sendo que os leigos são enquadrados em associações religiosas paroquiais sob a tutela clerical (CASALLI, 1995, p. 28 e 29). Em meio a este processo de romanização, Marcigaglia (1955) relata que os salesianos adaptaram o pequeno edifício que receberam para sede e começaram, ali, o Oratório Festivo e um pequeno internato. Tinham por finalidade auxiliar os jovens dasclasses média e pobre, preferivelmente os órfãos, oferecendo-lhes educação a fim de torná-los cidadãos honestos e laboriosos, operários hábeis e inteligentes. Como dito, Padre Borghino foi o primeiro diretor. No Oratório Festivo, anexo ao Colégio Santa Rosa, em todos os domingos e dias santos, eram dadas aulas de catecismo e, para os alunos de boa voz, aulas de canto, compreendendo os repertórios religioso, recreativo e patriótico. O Oratório Festivo não se manteve por muito tempo, em função dos choques entre os salesianos e os protestantes e da presença daqueles que desencadeavam o movimento liberal. O jornal católico O Apóstolo atacava, respondia e revidava pronunciamentos oriundos do jornal Imprensa Liberal que considerava os salesianos jesuítas camuflados. Tiveram muitas perseguições e aborrecimentos, principalmente por parte dos protestantes. Ali perto, num belo edifício, funcionava o colégio deles, intitulado ‘Colégio de ambos os sexos’, que era o foco e a origem das calúnias e perseguições contra os Salesianos. A imprensa amarela espalhava invencionices e ataques, que tiveram eco na assembleia provincial (MARCIGAGLIA, 1955, p. 23). 57 Nesse contexto, o ensino católico, que ainda dividia o espaço educacional com o ensino laico do governo, passa a concorrer com o ensino protestante, implantado, no Brasil, por missionários americanos, particularmente os metodistas. Assim como os demais representantes do protestantismo missionário norte- americano, os metodistas chegaram ao Brasil totalmente identificados com a política liberal dos Estados Unidos, recebendo apoio irrestrito da elite liberal da região sudeste. Além disso, as escolas e os colégios protestantes trouxeram inovações como o princípio coeducativo, colocando meninos e meninas, rapazes e moças nas mesmas salas de aula. Esta mistura de sexo, algo comum nos Estados Unidos, não era bem vista por famílias tradicionais e despertou forte oposição nos círculos católicos. A principal razão levantada como obstáculo à adoção do ensino misto era o perigo moral a rondar e espreitar as moças, perigo do qual elas deveriam ser guardadas, conforme determinava a Igreja Católica que combateu por muitos anos a coeducação no Brasil17. Calvani (2009, p. 66) diz que O protestantismo brasileiro encontrou na classe média emergente e, sobretudo na maçonaria, um interlocutor co-beligerante com o qual partilhava ideais políticos (sistema republicano com estado laico), filosóficos (positivismo), econômicos (liberalismo) e religiosos (anti-clericais e anti- catolicismo). Cordeiro (2005, p. 120), enfatiza que “o choque entre os dois projetos educacionais [de católicos e protestantes] decorre, a meu ver, de uma contenda mais ampla entre dois grupos religiosos: a disputa pela hegemonia ideológico- cultural da sociedade brasileira”. Talvez por isso mesmo houvesse tanto empenho para que os salesianos viessem para o Brasil a fim de dar maior força a um dos lados da contenda. Foi neste ambiente de disputas que os salesianos abriram o colégio com apenas dez alunos matriculados. Ao final de um ano, já havia trinta e seis alunos. Em julho de 1885, abriram-se as escolas profissionais de tipografia, encadernação, alfaiataria, sapataria e carpintaria. As dificuldades eram encontradas em alguns campos; por outro lado, os salesianos relacionavam-se bem com as autoridades civis e religiosas e, dessa forma, a obra foi adquirindo prestígio. Em 1886, a obra em 17 Ainda hoje o Colégio São Bento, no Rio de Janeiro, é só masculino. 58 Niterói conseguiu do governo seis contos de réis em favor do colégio que, em troca, obrigava-se a receber doze meninos pobres. Em 1889, estavam matriculados 380 meninos. A tipografia desenvolveu-se de tal maneira que, em 1890, pode assumir o lançamento das “Leituras Católicas” em português, uma publicação periódico- mensal que abrangia, além da matéria religiosa, história, biografia, leitura dramática e recreativa (SANTOS, 2012). Santos relata que o reconhecimento do colégio e de seu ensino profissional recebeu destaque nos grandes jornais do Rio de Janeiro: Na última década do século XIX, já recebia elogios dos grandes jornais do Rio de Janeiro, como Jornal do Brasil (9/12/1891), Jornal do Comércio (30/09/1896 e 2/12/1897). Em agosto de 1897, recebia o Presidente eleito de Estado do Rio de Janeiro, Dr. Alberto Torres, que visitou toda a escola. O colégio tornou-se popular (Fluminense, 19/10/1898) e o Jornal do Commercio (8 de dez de 1900) considerava uma “honra ao município” e “um padrão de glórias” para o Estado do Rio (SANTOS, 2012, p.14). Os alunos recebiam, ainda, aulas de ginástica, desenho, música vocal e instrumental e declamação, sendo facultativas as aulas de piano e de violino. Os alunos do curso profissional recebiam, além da instrução profissional, aulas de português, aritmética, religião, história do Brasil, francês (5º e 6º anos), geografia, música e saúde. Os diretores do Colégio atribuíam o desenvolvimento da instituição à caridade pública e aos Governos Estadual e Municipal. Considera-se muito significativa a participação dos salesianos do Santa Rosa no episódio da Revolta da Armada18, em 1893, quando, durante o conflito, atendendo às solicitações do governo, os salesianos adaptaram o colégio para servir de hospital de sangue. Esta colaboração rendeu o apoio explícito do poder público nos anos seguintes. Exemplo disso foi o anúncio, em 2 de maio daquele ano, de um auxílio de dez contos de réis aos salesianos, por ordem do marechal Floriano Peixoto, presidente em exercício, em nome da gratidão nacional. Após a Revolta da 18 A Revolta da Armada eclodiu em setembro de 1893, no Rio de Janeiro, liderada pelo almirante Custódio José de Melo, cujo sonho de candidatar-se à presidente da República fora frustrado por Floriano, ao não convocar eleições. Além dessa contenda política imediata, concorreu para o movimento rebelde o descontentamento da oficialidade da Marinha que, após a proclamação da República, perdera, em favor do Exército, a situação privilegiada que detinha no Brasil Imperial. Assim, considerada como uma força militar ligada ao antigo regime, a Marinha era vista com desconfiança por Floriano Peixoto. As hostilidades se desencadearam quando o vice-almirante Eduardo Wandenkolk, presidente do Clube Naval, foi preso em Santa Catarina, sob a acusação de prestar ajuda ao movimento federalista gaúcho. Em resposta, o almirante Custódio de Melo, que fizera parte do ministério de Floriano, junto com outros oficiais, apoderou-se do couraçado Aquidabã, iniciando a revolta. Ela teria como objetivo “restaurar o império da Constituição”. Durante vários dias os tiros de canhão disparados pelas forças em luta semearam o terror entre a população do Rio de Janeiro (KUPPER, 2009, p. 109). 59 Armada, as atividades desenvolvidas pelos salesianos passaram a ser prestigiadas pelo governo do Estado do Rio de Janeiro e, em setembro de 1894, o presidente do estado, João Tomás Porciúncula, solicitou que fosse aumentada a subvenção provincial destinada ao Colégio Santa Rosa, com um elogio à atuação dos religiosos durante a revolta. Em 1895, após algumas reformas, o colégio foi reaberto com 230 alunos matriculados, sob a direção do Padre Luis Zanchetta. No dia 15 de agosto deste mesmo ano, o novo presidente do Estado, Joaquim Mauricio de Abreu, visitou o Colégio Santa Rosa e deixou a doação de cem mil réis, manifestando sua satisfação pela educação salesiana. Estabelecia-se, assim, uma sintonia entre a ação educativa salesiana e o governo. A matrícula dos aprendizes das escolas profissionais triplicou entre 1886 e 1898, chegando a 145, enquanto a dos alunos em geral chegava a 340. Os salesianos tornaram-se ainda mais conhecidos quandoo diretor da escola começou a peregrinar pelo interior do Estado, munido da Carta Pastoral do Bispo do Rio de Janeiro, solicitando auxílio e atraindo alunos. Até 1890, foram educados no instituto 4.000 alunos. A maior parte, porém, preparava-se para as profissões liberais, enquanto outros ocupavam posições no comércio. O predomínio dos estudantes secundários era bem significativo, especialmente quando o curso secundário foi equiparado ao Colégio Pedro II, com 263 estudantes e 99 aprendizes. A segunda fundação salesiana no Brasil foi o Liceu Coração de Jesus19, em São Paulo. Dias depois de se instalar em Niterói, Dom Lasagna escreveu o seguinte em uma carta dirigida a Dom Bosco (MARCIGAGLIA, 1955, p. 37): Também de S. Paulo, rica e próspera província do interior, mandam-me convites e ardentemente me suplicam que vá quanto antes ver com meus próprios olhos o que já fizeram para os salesianos. Na verdade, desde o fim do ano passado, o Exmo. Sr, Bispo, vários sacerdotes e zelosos seculares, com vistas em nós, fizeram quanto possível para que lá fôssemos. O bispo paulista Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, seguidor da política reformista e adepto do catolicismo ultramontano, em circular de 10 de agosto 19 Em pesquisa realizada por Dalcin (2008) no Centro de Documentação Histórica de Barbacena, foram encontradas variadas denominações para o Liceu, entre as quais: Liceu Sagrado Coração de Jesus; Liceu Coração de Jesus; Internato do Sagrado Coração de Jesus; Colégio do Sagrado Coração de Jesus; Colégio Interno de Artes e Ofícios do Sagrado Coração; Liceu de Artes e Ofícios do Coração de Jesus; Escola Profissional e Comercial do Sagrado Coração. 60 de 1882, expôs a intenção de instalar uma instituição escolar e uma proposta de educação: Preocupava legitimamente o coração de todo patriota ver que enquanto nossas cidades e capitães crescem em importância corpulência, na mesma proporção se abate o brasileiro por sua ignorância profissional. [...] vieram confirmar a necessidade de se levar a efeito a ereção do Lyceu de Commercio, Artes e Officios. [...] Quanto ao pessoal docente tem se dado passos no intuito de obte-lo da importantíssima Sociedade Salesiana de Turim, que tem derramado incalculáveis benefícios nas repúblicas da América. Inapreciáveis resultados tem alcançado a Sociedade Salesiana não só em relação às Artes e Officios, como relativamente ao ensino do Commercio e das Industrias, fabricando nas oficinas de seus estabelecimentos o papel, fundindo tipos, imprimindo obras importantes, encadernando-as. A marcenaria, a sapataria, a architectura, a pintura, a musica, enfim, a todas as artes e officios vivem nesses estabelecimentos em companhia da literatura e das ciências. São esses os nossos desejos, são essas as nossas aspirações (DEODATO, 1882). Esta visita ocorreu, finalmente, em setembro de 1883, quando Dom Lasagna foi a São Paulo escolher o local onde seria construído o futuro Liceu Coração de Jesus. Após a escolha, deu indicações gerais sobre o edifício a ser construído e parece que lhes deixou uma fotografia do colégio de Lanzo, na Itália, como modelo a ser seguido. A viabilidade do projeto pareceu aceitável aos salesianos pelas seguintes razões: a posição estratégica de São Paulo, cidade emergente na época, de clima mais ameno e mais agradável, comparado ao clima do Rio de Janeiro; a proximidade à primeira casa salesiana do Rio de Janeiro, quebrando-lhe o isolamento e o assédio da imprensa liberal; e o apoio unânime encontrado em São Paulo à obra salesiana. Os primeiros salesianos da nova fundação foram o Padre Lourenço Giordano e o coadjutor João Bologna, que chegaram a São Paulo, vindos do Rio de Janeiro, no dia 5 de junho de 1885 e abriram, então, o Oratório Festivo. Nos primeiros anos, construíram os Salesianos um grande edifício, que atravessava o pátio central, em direcção paralela à fachada. Nesse edifício ficaram còmodamente instaladas, no rés do chão, as escolas profissionais (tipografia, encadernação, marcenaria, alfaiataria, sapataria, às quais, posteriormente, foram acrescidas a fundição de tipos, a marmoraria etc.) e no 1º andar, os salões de estudo e as diversas salas de aula (MARCIGAGLIA, 1955, p. 41). 61 Fotografia 8 - Liceu Coração de Jesus Fonte: www.salesianos.com.br Bem ao estilo salesiano, a instituição oferecia educação, lazer e ensino religioso à população mais pobre, marcadamente os filhos de escravos libertos e de imigrantes italianos. O trabalho de cunho formador e assistencialista vinha ao encontro dos interesses do governo monárquico que viu crescer, consideravelmente, a quantidade de desvalidos20 e ingênuos21. Ofereciam-lhes instrução catequética aos domingos, dias santos e quintas-feiras. Também eram ministrados cursos de cantos sacros e profanos, com a ajuda de um pequeno harmônio, ainda hoje existente no Conservatório Musical do Liceu Coração de Jesus. Vale ressaltar que isso ocorreu antes da Lei Áurea, sendo o Liceu, portanto, uma das primeiras instituições de ensino acessíveis à população negra. Logo depois, o colégio inaugurou o internato, e passou a acolher também os filhos de cafeicultores e de comerciantes que buscavam a qualidade da educação salesiana. De acordo com Santos (2012), em 1886, o internato começou a funcionar e, no mesmo ano, foram instaladas as oficinas de encadernação, alfaiataria, sapataria 20 Eram considerados “desvalidos” os meninos com idade entre 6 e 12 anos que fossem encontrados em tal estado de pobreza que, além da falta de roupa adequada para frequentar as escolas comuns, viviam na mendicância (DALCIN, 2008, p. 53). 21 “Ingênuos” era a denominação atribuída aos filhos livres de mulher escrava, ou seja, os meninos e meninas que passaram a nascer após a Lei do Ventre Livre (DALCIN, 2008, p. 53). 62 e carpintaria na instituição. Em 1888, conseguiram as máquinas para montar a tipografia, doadas por um padre proprietário do jornal católico Thabor. O crescimento do Liceu foi rápido e, em 1889, já era um dos maiores colégios de São Paulo, contando com quase 200 alunos, em sua maioria pobres. O Liceu Coração de Jesus apresentou um crescimento mais ou menos rápido até 1909, especialmente com a criação do curso comercial em 1894. Na primeira década do século XX, mostrava instabilidade, porquanto sempre lutava para manter o grande número de alunos gratuitos, com pensões reduzidas (SANTOS, 2000, p. 228). O ensino de uma arte ou ofício subentendia trabalhos manuais ou funções em uma cadeia produtiva, não compreendendo cargos administrativos e burocráticos. A partir desta ideia, o ensino salesiano propunha-se a formar mão de obra para o sistema produtivo do século XIX. Contemplava, assim, a demanda de uma cidade como São Paulo, que crescia e se configurava como um centro de economia cafeeira e propulsor de uma futura economia industrial. O quadro 3 apresenta o número de alunos internos do Liceu que frequentavam o curso primário, os cursos profissionais e o curso comercial. Quadro 3 - Quadro estatístico dos alunos internos do Liceu Coração de Jesus Ano Número de alunos matriculados 1886 24 1887 1888 112 1889 172 1890 200 1891 240 1892 319 1893 344 1894 369 1895 295 1896 291 1897 304 1898 260 1899 374 1900 340 63 1901 368 1902 330 1903 354 1904 300 1905 309 1906 286 1907 303 1908 300 1909 268 Fonte: SANTOS, 2000, p. 230-231 Além do Liceu de Artes e Ofícios, a cidade de São Paulo contava com iniciativas protestantes norte-americanas que também ofereciam ensino noturno e popular. Nesse quadro, os salesianos encaixam-se, perfeitamente, na necessidade urgente da Igreja Católica de oferecer educação à camada da sociedade que necessitavade formação profissional e que deveria ser prevenida de iniciativas protestantes (QUERIDO, 2011). Em São Paulo estas iniciativas tomam corpo de grandes colégios a partir de 1870 com a abertura do Colégio Americano sob a liderança dos presbiterianos do norte dos Estados Unidos. Posteriormente em 1886, sob a gestão de Horace Lane (1885-1912), a denominação deste passou a ser Mackenzie College. Fora da capital, os presbiterianos do sul abriram em Campinas o Colégio Internacional em 1873. E, no ano seguinte, em Sorocaba, o Colégio Americano. Posteriormente, em 1881, os metodistas se instalaram em Piracicaba onde gozavam de proteção política para abrir o Colégio Piracicabano (QUERIDO, 2011, p. 55). Os Salesianos também contavam com a ajuda financeira de cooperadores e benfeitores. Em 1918, o colégio foi a primeira escola paulista a oferecer um curso de ensino médio noturno. Abriu, também, cursos profissionalizantes de segundo grau e cursos superiores, em 1939, quando inaugurou a Faculdade de Administração e Finanças, com os primeiros cursos universitários salesianos, devidamente reconhecidos pelo governo. Mantida pelos salesianos, a Faculdade funcionou no Liceu até 1964, quando foi transferida para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Importante ressaltar que, em 1890, o Brasil estava com uma população de 14,3 milhões de habitantes – crescimento acelerado que vinha sendo observado desde a década de 1870 devido à entrada maciça de imigrantes. Nos cinquenta 64 anos iniciais do Império, o número de brasileiros passou de 3 milhões, em 1822, para 10 milhões, em 1872. Este crescimento ocorreu, principalmente, nas vilas dependentes da agricultura e no campo. Apenas 6% dos brasileiros viviam em cidades com mais de 50 mil habitantes (CALDEIRA et al, 1997). A mudança do regime político, de império para república, ocorreu por obra de um movimento militar que contou com o apoio variado de setores sociais responsáveis pela economia cafeeira que estavam, até então, infelizes com a política econômica do imperador e com a abolição da escravidão. Ghiraldelli Junior (2009, p. 15) relata que as décadas derradeiras do Império ensejaram profundas mudanças na sociedade brasileira. A expansão da lavoura cafeeira, a remodelação material do país (redes telegráficas, instalações portuárias, ferrovias, melhoramentos urbanos), um inicial surto de crescimento industrial e, principalmente, uma urbanização significativa acoplada ao fim do regime de escravidão e a adoção do trabalho assalariado completaram um conjunto de processos e situações que colocavam o país no rumo da modernidade. Todas estas mudanças foram fatores decisivos para o surgimento de diferentes necessidades por parte da população, entre elas, a escolarização. As famílias passaram a ter como meta as carreiras burocráticas e intelectuais como possibilidades profissionais promissoras para seus filhos, surgindo, assim, uma nova classe social. No entanto, dependendo da situação e do lugar, prevalecia ou a interferência dos “coronéis” ou o interesse dos cafeicultores e de criadores de gado. Aranha (2006) explica que ainda não existia uma “pedagogia brasileira” no século XIX, mas que alguns intelectuais, influenciados pelas ideias norte-americanas e europeias, trabalhavam na busca de novos rumos para a educação brasileira, apresentando projetos de leis, criando escolas, além de promoverem um debate sobre o tema com a sociedade civil. As dificuldades encontradas eram significativas, pois as forças conservadoras que tinham uma tradição agrária sustentada por escravos resistiam às ideias liberais. Ao lado destas mudanças, surge um movimento dos intelectuais das classes dominantes do país, denominado por Nagle (1974) de “Entusiasmo pela Educação”. Seu foco era quantitativo, resumindo-se na ideia de expansão da rede escolar e na tarefa de desanalfabetização do povo. Este movimento, cuja ideia central era a transformação, pela escola, dos indivíduos ignorantes em cidadãos esclarecidos, foi 65 forte nos anos de transição do Império para a República. Ele atingiu o ponto de culminância na efervescente década de 1920, defendendo a ideia de que seria pela educação que a civilização urbano-industrial se contraporia à civilização agrário- comercial, sendo a escolarização o motor da história: Uma das maneiras mais diretas de situar a questão consiste em afirmar que o mais manifesto resultado das transformações sociais mencionadas foi o aparecimento de inusitado entusiasmo pela escolarização e de marcante otimismo pedagógico: de um lado existe a crença de que, pela multiplicidade de instituições escolares, da disseminação da educação escolar, será possível incorporar grande camada da população na senda do progresso nacional, e colocar o Brasil na senda dos grandes países do mundo; de outro lado existe a crença de que determinadas formulações doutrinárias e a escolarização indicam o caminho para a verdadeira formação do homem brasileiro (escolanovismo) (NAGLE, 1974. p. 134). Este projeto republicano visava oferecer uma educação escolarizada para todos. Ainda neste momento, tratava-se de uma escola dualista, pois O ensino secundário, privilégio das elites, permanecia acadêmico e propedêutico – voltado para a preparação ao curso superior – e humanístico, apesar dos esforços dos positivistas para reverter este quadro. Persistia, portanto, o sistema dualista e tradicional de ensino (ARANHA, 2006, p. 298 e 299). Ghiraldelli Junior (2009) escreve que, para a modernização pretendida, grandes temas nacionais surgiram às elites, entre eles, a possibilidade da democracia (vista como sinônimo de República); a implantação da Federação (maior poder para os Estados); o incentivo à industrialização; e, a educação popular, que se resumia à desanalfabetização da população. Moura (2000) destaca que, com a proclamação da República, ocorreram muitas mudanças no que diz respeito às relações entre o Estado e a Igreja, inclusive no que concerne à atuação da Igreja na educação, no decorrer deste período. A Igreja Católica reagia, negativamente, às novidades positivistas atribuídas ao governo republicano que, na Constituição, estabelecera a separação da Igreja e do Estado e a laicização do ensino nos estabelecimentos públicos. As ideias pedagógicas que predominaram no final do Império e que fizeram parte do projeto de Proclamação da República também influenciaram o ensino religioso. Até o final do Império, por influência do padroado, as ideias pedagógicas e aquilo que se procurava incutir na população, continuavam impregnadas da visão católica. Com o 66 avanço das ideias laicas, ao final do Império, houve uma crise da hegemonia cuja expressão mais ruidosa foi a denominada Questão Religiosa. A solução para o conflito encaminhou-se na direção da dissolução do regime do padroado, consumada pela separação entre Igreja e Estado ao ser implantado o regime republicano em 1889, cuja consequência foi a exclusão do ensino religioso das escolas públicas (SAVIANI, 2011, p. 179). Por um lado, a Igreja se sentiu derrotada, pois perdeu as benesses de sua relação próxima com o Estado; por outro, fortaleceu sua unidade de doutrina e ganhou autonomia diante do poder político. No entanto, a Igreja jamais aceitou a exclusão do ensino religioso das escolas e reagiu a isso. A mobilização da Igreja expressou-se na forma de resistência ativa articulando dois aspectos: a pressão para o restabelecimento do ensino religioso nas escolas públicas e a difusão de seu ideário pedagógico mediante a publicação de livros e artigos em revistas e jornais e, em especial, na forma de livros didáticos para uso nas próprias escolas públicas assim como na formação de professores, para o que ela dispunha de suas próprias Escolas Normais (SAVIANI, 2011, p. 179). A Pastoral dos bispos de 1890criticou as medidas laicizantes como a precedência do casamento civil sobre o religioso, a laicização dos cemitérios, a inelegibilidade dos clérigos, a exclusão do direito de voto por parte dos religiosos nas eleições, e a proibição do ensino religioso nas escolas públicas. Todas estas medidas estimularam os católicos a criarem o Partido Católico para garantir a sua participação na política. Por outro lado, com a abertura para a participação popular na Assembleia Constituinte de 1891 e com a criação do partido Socialista Brasileiro, em 1902, os vários partidos operários, partidos socialistas e centros socialistas assumiram a defesa do ensino popular gratuito, laico e técnico-profissional, embora ainda não explicitando, claramente, a concepção pedagógica que deveria orientar os procedimentos de ensino (SAVIANI, 2011). A Constituição republicana de 1891, ao reafirmar a descentralização do ensino, atribuiu a responsabilidade pelo ensino superior e secundário à União, reservando aos estados o ensino fundamental e profissional. Apesar disso, as reformas não foram de fato implementadas neste momento, devido à ausência de infraestrutura e de verdadeiro empenho político. Também não se deve pensar que a democratização do ensino estava efetivando-se, visto que havia poucas vagas nas 67 escolas, que eram disputadas pela classe média – e não pelos mais pobres - enquanto a elite permanecia sendo educada por preceptores, em casa. Além disso, de acordo com Aranha (2006), a qualidade da rede escolar do país variava conforme o estado, sendo melhor no estado de São Paulo, que era economicamente mais bem situado. É neste contexto político e educacional que, ainda na primeira república e até 1920, os salesianos criaram os colégios presentes no quadro 4: Quadro 4 - Colégios salesianos fundados no Brasil até 1920 Ano Local Colégio 1890 Lorena - SP Colégio São Joaquim 1894 Cuiabá – MT Recife - PE Liceu Salesiano São Gonçalo Colégio Sagrado Coração de Jesus 1895 Colônia Teresa Cristina – MT Um colégio de ensino fundamental que dava atendimento ao povo Bororo 1896 Cachoeira do Campo - MG Escolas Dom Bosco 1897 Campinas – SP Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora 1898 Caxipó da Ponte – MT Colégio Maria Auxiliadora 1899 Corumbá – MS Guaratinguetá - SP Colégio Salesiano Santa Teresa Colégio São José (fechado em 1908) 1900 Jaboatão – PE Salvador - BA Escola Profissional Agrícola São Sebastião Liceu Salesiano de Salvador 1901 Rio Grande – RS Liceu Salesiano Leão XIII 1902 Colônia – PE Colégio Orfanológico São Joaquim (encerrado em 1961) 1904 Bagé – RS Colégio Nossa Senhora Auxiliadora 1905 Batatais – SP Escola Agrícola São José 1906 Sangradouro – MT Escola indígena, onde se dava atendimento ao povo Bororo 1907 Palmeiras – MT Uma colônia agrícola industrial (encerrada em 1920) 1908 Lorena – SP Escola Agrícola Coronel José Vicente 1909 Campinas – SP Externato São João 1910 Aracajú – SE Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora 1914 São Paulo – SP Lavrinhas – SP Instituto Dom Bosco Ginásio São Manoel (para os aspirantes 68 da Congregação) 1917 Ascurra – SC Colégio São Paulo (para os aspirantes da Congregação) 1919 Cruzeiro - SP Instituto Salesiano Fonte: MOURA, 2000, p. 103 e 104 Passos Junior (2011) indica que os salesianos eram estrategistas e estudavam, detalhadamente, as ofertas apresentadas a eles, levando em consideração a região, a cidade, a população, a previsão de crescimento, a população jovem pobre, a doação de terrenos e os possíveis recursos para a construção e manutenção das fundações. Suas construções e projetos nasciam grandiosos e eram pensados para se ampliarem e se expandirem. Pensavam as coisas de Deus com a mentalidade da indústria: crescer, ampliar e multiplicar. As fundações se sucedem umas às outras com rapidez (PASSOS JUNIOR, 2011, p. 126). Quando os salesianos escolhiam uma cidade, suas fundações seguiam um roteiro preestabelecido que iniciava-se com a criação de um oratório festivo, uma obra social e uma escola, e, na sequência ou concomitantemente, e, eventualmente, uma escola profissional. Veremos isto a seguir, em suas experiências em Lorena, aproximando-nos do foco de nosso trabalho. 69 2 OS SALESIANOS EM LORENA A história dos salesianos no Brasil não pode ser escrita sem se fazer referência à cidade de Lorena. Assim como a história desta cidade vale paraibana, notadamente nos campos da educação e da cultura, neste último século, deve, necessariamente, considerar a presença e a atuação dos salesianos Toledo, 2003, p. 31 2.1 O Colégio São Joaquim Guaypacaré, “Terra das Palmeiras Imperiais” ou Lorena, como hoje é conhecida, é uma cidade situada na Zona do Alto Vale Paraíba paulista. Figuras 4 e 5 - Em destaque a cidade de Lorena e Mapa do Vale do Paraíba Fontes: www.limgs.com e www.cidadeaparecida.com.br O arraial do porto do Hepacaré, em território da freguesia de Guaratinguetá, foi fundado por Bento Rodrigues Caldeira, João de Almeida Pereira e Pedro da Costa Collaço, proprietários ali residentes. Foi elevado à Freguesia em 1718 e, em 14 de novembro de 1788, à Vila, sob o nome de Lorena, por decreto do então governador de São Paulo, Bernardo José de Lorena (CESAR, 2000). Em 1856, foi, finalmente, elevada à condição de cidade. O povoado nasceu como ponto de apoio às expedições dos bandeirantes que iam a Minas Gerais à procura de ouro. Passado o ciclo da exploração do ouro nesta província, Lorena e outras cidades vizinhas viveram um período de abandono, mas o Ciclo do Café do século XIX 70 proporcionou a oportunidade de recuperação da região, que durou até os últimos anos daquele século. Neste último período, de acordo com Evangelista (1991), Lorena, como todo o Vale do Paraíba, estava vivendo uma situação difícil em virtude da decadência da lavoura do café e da libertação dos escravos sem indenização dos senhores. A história anterior da cidade mostra que, em 1805-1806, Lorena só era suplantada por Taubaté, mas atingiu a primeira posição, isto é, a de maior centro comercial do Vale, em 1828-1830, com quase quarenta casas comerciais, enquanto Taubaté tinha pouco mais de vinte. Decaiu, todavia, brutalmente, no final do século, ficando abaixo da média regional. A chegada da estrada de ferro agravou a situação porque Lorena perdeu o caráter de encruzilhada e parada dos viajantes entre o Rio de Janeiro e São Paulo e entre o litoral norte paulista e a Serra da Mantiqueira (caminho para as Minas Gerais). O trem acelerou as viagens. Desta forma, os pousos e as paradas de comerciantes, tropeiros e população em geral, em Lorena, não eram mais necessários. A crise do café vinha desde o final da década de 1870, com a grande queda dos preços, que, no caso do Vale do Paraíba, era agravada pelo envelhecimento da lavoura, com a produtividade cada vez menor, consequência também da técnica errônea do plantio. Sobre isso, Evangelista (1991, p. 25) escreve: Como o café era plantado nos morros de meia-laranja, nos solos de salmourão, que são pouco férteis, devia ter havido uma preocupação com o seu rápido esgotamento. Ao contrário, o grande orgulho dos fazendeiros era o seu rigoroso alinhamento, subindo e descendo morros, nenhum destoando da formação militar, sem perceber que estavam favorecendo o trabalho das enxurradas, que arrastavam as camadas superficiais e os detritos resultantes das duas carpições anuais. Com o esgotamento dos cafezais do Vale do Paraíba, as áreas foram transformadas em pastagens para o gado leiteiro. Os fazendeiros não conseguiram manter a mão de obra dos ex-escravos e dos imigrantes e, uma vez arruinados, venderam grande parte de suas propriedades. Com a falta de mão-de-obra e o perecimento dos velhos cafezais, a pecuária ocupa o seu lugar,nas fazendas. As antigas famílias locais instalam-se na capital ou mudam-se para as novas regiões. O mineiros, pecuaristas de leite e de gado de corte, vão comprando as velhas propriedades rurais decadentes, no vale paulista, a preço vil (MOTTA SOBRINHO, 1978, p. 103). 71 Segundo o censo de 1890, a população da cidade era de 13.532 habitantes, sendo que 40% moravam na cidade e 60% na zona rural (EVANGELISTA, 1991). Apesar das dificuldades pelas quais a cidade passava, ela seria recompensada por um de seus filhos, o Conde de Moreira Lima, que iria derramar sobre ela boa parte das rendas acumuladas na atividade comercial de seu pai e nas suas próprias atividades. Foi ele o grande responsável pelo estabelecimento, na cidade, dos padres salesianos e pela fundação do Colégio São Joaquim. Fotografia 9 - Conde de Moreira Lima Fonte: http://nospassosdoimperador.wordpress.com Filho de uma família liberal, dedicou-se à vida comercial como auxiliar de seu pai, Joaquim José Moreira Lima, comerciante de renome em todo o Vale do Paraíba. Além de herdar uma grande fortuna, duplicou-a pela aquisição de um grande número de propriedades rurais. Casou-se com sua sobrinha Risoleta Leitão de Moreira Lima, com a qual não teve filhos. O Conde espalhou pela cidade várias obras de benemerência e atos de caridade. Instituiu a distribuição de uma cesta básica aos pobres da cidade, entregue toda segunda-feira, à porta de seu solar; fundou a Santa Casa de Misericórdia e foi seu provedor até sua morte; fundou e patrocinou o Asilo e Casa dos Pobres de São José; construiu o Santuário São Benedito, com a ajuda da mãe; e, por fim, iniciou a obra da Igreja Matriz, em 1886, que tornou-se uma das maiores igrejas do Vale do Paraíba, atual Catedral de Lorena. Morreu em 1926, depois de nove meses de sofrimento. http://nospassosdoimperador.wordpress.com/ 72 Seu falecimento ocorreu a 2 de julho de 1926, em consequência dos ferimentos recebidos quando do estúpido atropelamento de sua carruagem, pelo trem rápido paulista, na passagem de nível, entre a Igreja de São Benedito e a Santa Casa de Misericórdia, a 1º de outubro de 1925 (EVANGELISTA, 1991, p. 38). A preocupação do Conde com a juventude de Lorena que não tinha uma escola de nível médio na cidade, fez com que ele oferecesse ao Padre Lasagna um grande edifício para a fundação da terceira casa salesiana no Brasil, além de terrenos, mobílias e reformas necessárias. A localização da cidade, situada entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, também foi um importante atrativo. Como visto, desde 1883 os padres salesianos estavam estabelecidos em Niterói, no Colégio Santa Rosa e, desde 1885, em São Paulo, com o Liceu Coração de Jesus. Ambos estavam subordinados à Inspetoria Salesiana Uruguaio-Brasileira, com sede em Vila Colón, em Montevidéu, no Uruguai, sendo seu superior o Padre Luis Lasagna. Havia muitos pedidos para a abertura de novas casas no Brasil, os quais eram avaliados, positivamente, por Padre Lasagna que via na abertura de uma terceira casa brasileira a possibilidade do desdobramento da Inspetoria, já que Vila Colón ficava muito distante. Evangelista (1991, p.42 e 43) relata que Padre Lasagna visitou a cidade e, em 6 de setembro de 1887, enviou uma carta ao Padre Miguel Rua, respondendo pela congregação, mostrando-se favorável ao interesse do Conde, dizendo: A cidade encontra-se no centro, entre três províncias: São Paulo, Minas e Rio. A casa, dando para a praça principal, com quinze hectares de pomar, dista duzentos metros da estação da estrada de ferro. Tem condução na porta... Que lhe parece? Comunique-o ao Capítulo e responda-me. Chamar- se-ia São Joaquim: tal é o nome do doador, Conde de Moreira Lima, e do pontífice Leão XIII... É provável que o doador ceda também a igreja e uma casa contígua para as irmãs (DOM LASAGNA apud EVANGELISTA, 1991, p. 42-43). O Conselho Superior, em Turim, concordou com as ponderações de Padre Lasagna, como ele conta, em carta de Niterói, de 30 de julho de 1888, dirigida ao Padre Bonetti, membro do Conselho: Caríssimo Padre Bonetti: já faz 21 dias que parti de Vila Colón e 17 que estou no Rio de Janeiro. No dia 3 viajo a São Paulo passando por Lorena, onde tratarei de estabelecer condições da nova casa, aceita já desde o ano passado e que se abrirá no ano que vem. Também aqui no Brasil, sente-se enormemente a necessidade da presença de nossas irmãs. Em São Paulo, cooperadores se prontificam a comprar a 73 casa para elas. Aqui em Niterói, o bispo e pessoas piedosas já estão em tratativas para conseguir terreno e construir casa. Em Lorena, estou certo, se eu abrisse a boca, elas teriam logo um palacete, com estupenda igreja anexa, propriedade do mesmo Conde de Moreira Lima, que está oferecendo casa e terreno para o Colégio São Joaquim. Esse colégio tem anexo um terreno grande e eu tenho grande desejo de fundar lá uma pequena escola agrícola para pobres escravozinhos. Assim, com os ofícios mais simples se ensina também agricultura, introduzindo-se o cultivo da videira, que em Colón e em São Paulo dá excelente resultado (DOM LASAGNA apud EVANGELISTA, 1991, p. 43). Aceito o prédio, estavam os salesianos em Lorena, na Casa do Largo do Rosário. O Colégio São Joaquim começou a funcionar, efetivamente, no dia 3 de março de 1890. O nome São Joaquim foi uma dupla homenagem: ao Conde Moreira Lima, que se chamava Joaquim José, e ao Papa de então, Leão XIII, cujo nome era Joaquim Pecci. Nos primeiros anos, o colégio funcionou no chalé doado pelo Conde, até que o prédio, cujo projeto foi feito pelo arquiteto salesiano Domingos Delpiano, fosse construído. Fotografia 10 - Chalé, berço do Colégio São Joaquim, demolido em 1961 Fonte: MAGALHÃES, 1990, p. 27 Marcigaglia (1955, p. 25) apresenta partes do programa do novo estabelecimento, elaborado pelo Padre Peretto, com aprovação do Padre Lasagna e que abria com a seguinte apresentação: A Pia Congregação de São Francisco de Sales, que há muitos anos dedica- se à educação de um grandíssimo número de meninos pobres nos Estados da Europa e nas Repúblicas Argentina, Uruguai, Chile, Equador e Colômbia, e que já fundou no Brasil dois colégios, um em Santa Rosa de Niteroi e outro nos Campos Elísios da Capital de São Paulo, contando unicamente com os recursos inesgotáveis da caridade pública, abriu no mês de fevereiro de 1890, em Lorena, um Colégio com a denominação de – São 74 Joaquim – para estudos primários e secundários e ensino também de artes e ofícios, com o fim de dar aos meninos, juntamente com a educação moral e religiosa, uma instrução proporcionada à sua condição e formá-los assim virtuosos cidadãos e bons operários. A nova casa de Lorena foi entregue à direção de Padre Carlos Peretto, então com trinta anos de idade, que era auxiliado por Padre Domingos Albanello, Padre Nicolau Badariotti, os clérigos José Fausone, João Solari, Paulo Torti, Bernardo Vilaamil, Pedro Luso, Emanuel Gomes de Oliveira e João Nogueira. Com uma estrutura diferente dos dois outros colégios salesianos – o Santa Rosa e o Liceu Coração de Jesus – o Colégio São Joaquim atendia, também, aos seminaristas. Neste primeiro ano, foram matriculados 90 alunos, sendo 20 internos e 70 externos. Fotografia 11 - Salesianos e alunos do Colégio São Joaquim em 1891 Fonte: MAGALHÃES, 1990, p. 24. Verifica-se na fotografia a ausência de alunos negros; os padres dispostos nas extremidades do grupo, provavelmente para facilitar o controle; alunos formalmente vestidos e com postura comportada. O rigor e a disciplina nas instituições salesianas são evidenciados nas fotografias. Em março de 1894, Padre Peretto informou ao inspetor Literário de Lorena que a escola tinha 90 alunos internos e 37 externos, sendo todos gratuitos. As classes que funcionavam naquele ano eram uma inferior eoutra superior, ambas de alfabetização, mais uma de 2ª, uma de 3ª e uma de 4ª série do Curso Elementar e o 1º e o 2º anos do curso de Preparatórios 75 (equivalente ao ginasial). Todos estes alunos fizeram os exames finais de ano, em novembro. Os de Preparatórios e os de 4ª série elementar prestaram exames de Português, Aritmética, Ginástica, Latim, Francês, Geografia, Religião e História Sagrada. Os de Preparatórios fariam exames na Academia de São Paulo, como em 1893 (EVANGELISTA, 1991, p. 71- 72). Em 1898, o edifício central e a parte da ala esquerda foram construídos por ordem do Padre Tomé Barele, então diretor, pois, além de já comportar o dobro de alunos, esta ampliação serviria, também, para demonstrar a força, moral, grandeza, ordem e qualidade da educação católica (BORGES, 2008). Naquele contexto, esta demonstração era importante porque a educação de qualidade deveria ser oferecida em um ambiente especialmente construído para este fim, e não adaptado. Teria que obedecer às prescrições de higiene e salubridade exigidas pelas autoridades, além de possuir uma pedagogia intuitiva22, com seus variados objetos lúdicos, com salas próprias e arejadas, iluminação adequada, vidros e ventilação suficientes. Sobre estas transformações ocorridas, Monarcha (1999, p. 77) escreve que O pensamento médico-sanitarista associa estreitamente à aglomeração inóspita a proliferação de doenças; recomenda a circulação de ar e a iluminação, para vencer a insalubridade existente. [...] Em torno desses temas se organiza a idéia de reforma urbana, segundo a qual se concebe a cidade – tal como a sala – como um lugar de estar, lugar público. Pode-se perceber, nas fotografias 12 e 13, que a imponente construção do Ginásio São Joaquim obedeceu às regras de iluminação e ventilação cobradas pela propaganda médico-sanitarista da época, com um significativo número de janelas de tamanho grande e de vidros, uso de telhas e tijolos, propiciando maior salubridade ao espaço interno. 22 O método de ensino intuitivo generalizou-se, na segunda metade do século XIX, nos países da Europa e das Américas, como principal elemento de renovação do ensino, juntamente com a formação de professores. Ficou conhecido como o método do ensino popular por ser considerado, entre os educadores, como o mais adequado à educação das classes populares. As raízes históricas do ensino intuitivo vinculam-se ao declínio do ensino escolástico e à ascensão dos preceitos da pedagogia moderna, preconizados por Bacon, Comenius, Rabelais, Locke, Condilac, Rousseau, Pestalozzi, Basedow, Campe e Froebel, entre outros. Em contraposição ao ensino livresco, o ensino intuitivo parte da premissa de que toda a educação deve começar pela educação dos sentidos (SCHELBAUER, 2013). Intuitivo, portanto, refere-se às suas ações, à empiria. 76 Fotografia 12 - Fachada do Gymnasio São Joaquim Fonte: BORGES, 2008, p. 40 Fotografia 13 - Arquitetura em H do Gymnasio São Joaquim Fonte: RODRIGUES, 2006, p. 93 Na primeira década do Colégio São Joaquim, há registros de 960 internos, sendo 115 da cidade de Lorena. Os demais internos revelavam a importância regional do colégio, pois provinham do Vale do Paraíba Paulista, do Estado do Rio de Janeiro, do Estado de São Paulo, do Estado de Minas Gerais e, em número mais 77 reduzido, dos estados do Paraná, Espírito Santo, Bahia e Pernambuco. Historiadores não têm dúvida da importância regional do Colégio São Joaquim, principalmente na primeira metade do século XX. Toledo (2011) relata que Euclides da Cunha escolheu morar em Lorena, nos anos de 1902 e 1903, em função da possibilidade de seus filhos estudarem no colégio: “Ao chegar ao Vale Euclydes decide, no entanto, fixar-se em Lorena, ao invés de Guaratinguetá, sede do distrito, devido ao já afamado Colégio São Joaquim, onde seus filhos poderiam encontrar boa educação e ensino” (TOLEDO, 2011, p. 24). Do exterior, havia alunos da Venezuela, da Ilha de Sumatra, da França, da Itália e de Portugal, que seriam, provavelmente, noviços (EVANGELISTA, 1991). A partir de 1896, Lorena tornou-se a cidade sede da Inspetoria Salesiana do Brasil. A escolha foi feita em função de dois fatores: “sua posição central que teve peso forte na decisão e a escassez de pessoal” (AZZI, 1982, p. 45). O colégio funcionou como internato e externato, além de contar com a presença de seminaristas até 1906, quando houve a separação entre estes e os internos. Revitalizou suas atividades quando passou a ser equiparado ao Colégio Pedro II (Ginásio Nacional), de 1906 a 1911, graças à reforma Epitácio Pessoa23 (Decreto nº 3.914, de 26 de janeiro de 1901), aumentando, significativamente, o número de alunos matriculados. As mudanças decorrentes deste novo cenário levaram o Conselho Inspetorial dos Salesianos de São Paulo a solicitarem ao Conselho Superior, em Turim, que o ensino profissional fosse colocado em um plano inferior. Estas mudanças não afetaram, significativamente, o Colégio São Joaquim que já vinha apresentando uma mudança de rota quando seus matriculados, em sua maioria, passaram a ser jovens de classe média, filhos de pequenos e médios proprietários agrícolas do Vale do Paraíba e do Sul de Minas Gerais. Não há informações disponíveis sobre como se relacionavam alunos mais carentes e jovens de classe média no cotidiano do ginásio. Entre 1911 e 1915, o Ginásio São Joaquim tornou-se mais independente quanto aos programas oficiais do Ginásio Nacional, em função da nova lei proposta pelo Ministro Rivadávia Correa (Decreto nº 8.659, de 5 de abril de 1911), que aplicou “ao ensino secundário um regime de ‘amplas autonomias [...] diversificado e flexível, a realizar-se em estabelecimentos autônomos” (NAGLE, 1974, p. 144 e 145). Antes 23 Reforma republicana que consolidou o regime de equiparação, aplicando-o indiscriminadamente aos estabelecimentos estaduais, municipais e particulares (NAGLE, 1974, P. 144). 78 disso, em 1909, o Colégio São Joaquim criou o Batalhão Escolar, introduzindo uma verdadeira linha de tiro para a formação de reservistas do Exército, muito antes da obrigatoriedade do serviço militar. De acordo com Santos (2000, p. 397), os salesianos foram pioneiros no processo de incorporação do serviço militar em seus colégios: “Cuiabá (1907), Lorena e Niterói (1909), Bagé (1910), na Capital Paulista (Liceu Coração de Jesus – 1916) e em Campinas (Liceu Nossa Senhora Auxiliadora – 1916)”. Já ao final da primeira década do século XX, novos objetivos surgiram. Segundo Nagle (1974, p. 44), “as primeiras manifestações nacionalistas apareceram, de maneira mais sistemática e mais influenciadora, no campo da educação escolar, com a ampla divulgação de livros didáticos de conteúdo moral e cívico [...]”. Além disso, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a ideia de defesa nacional potencializou ainda mais as campanhas nacionalistas, depositando no Exército e na escola a tarefa de regeneração cívica do brasileiro. Exemplo disso foi a campanha civilista do poeta Olavo Bilac24, defensor da ideia de um exército que funcionasse como escola de civismo; e a consequente criação da Liga de Defesa Nacional25 que levou à criação de um novo decreto que sistematizou e colocou em prática a obrigatoriedade do serviço militar nas escolas. Em novembro de 1917, um novo decreto sobre o serviço militar mantém a obrigatoriedade da instrução militar nas escolas, tal como fora estabelecido em 1908, e acrescenta um dispositivo segundo o qual os alunos aprovados nos exames, ao final da instrução, seriam considerados reservistas de 2ª categoria (HORTA, 1994, p. 53). Para Borges (2008), a incorporação destes batalhões no interior dos colégios salesianos obedecia a dois pressupostosbásicos: o da propaganda e o do controle disciplinar dos alunos, o que podia ser visto no fardamento dos alunos, em seus desfiles e em suas atividades. De acordo com o autor, a fotografia 14 é um exemplo 24 Filho de militar, Olavo Bilac (1865-1918) foi um poeta plenamente aceito entre as elites civis. E será justamente aos jovens das famílias das elites civis que ele dirigirá sua campanha, iniciada com uma Conferência na Faculdade de Direito de São Paulo, e que se estenderá por diferentes faculdades do centro e do sul do país (HORTA, 1994, p. 8). 25 A Liga de Defesa Nacional durou até 1924 e pregou temas como: ideia de pátria, de justiça, educação nacional, instrução profissional, importância do esporte na vida nacional, problema econômico nas suas relações com a Defesa Nacional, defesa da língua nacional, economia individual como base da prosperidade econômica, coesão nacional, culto ao heroísmo militar e cívico, Nação e o Exército, serviço militar obrigatório como benefício físico e moral para o indivíduo, força, segurança e grandeza para a comunidade (CARONE, 1974, p. 168). 79 de síntese da ambivalência do Batalhão Gymnasial, pois apresenta a imagem de Dom Bosco e a Bandeira Nacional, a presença de um oficial do Exército e de um padre salesiano, o que nos leva a observar o amálgama de religiosidade e civismo impregnados na formação destes jovens. Fotografia 14 - Batalhão Gymnasial do Colégio São Joaquim Fonte: O Grêmio, 1922, p. 7. Em 1916, o São Joaquim recebeu, pela primeira vez, as Bancas Oficiais de Exame, segundo a chamada Reforma Maximiliano26 (Decreto nº 11.530, de 18 de março de 1915). Os examinadores foram especialmente trazidos do Rio de Janeiro e eram, em sua maioria, professores do Colégio Pedro II. Os resultados foram excelentes, pois, dos 235 alunos que se submeteram às provas, 193 foram aprovados. Este resultado foi bastante propagado e aumentou, significativamente, o número de matrículas no colégio (EVANGELISTA, 1991). Em 1921, diante de todo o contexto de exibicionismo, de preparo físico, de ordem, de civismo e cultura militar, o Superior Geral dos Salesianos, por meio de uma carta aos Provinciais, expressou suas preocupações com as práticas militares nas escolas salesianas: 26 A determinação de um nível mínimo de conhecimento só ocorreu com a Reforma Maximiliano (1915) que tornou obrigatória a seriação dos estudos na medida em que impedia a realização de outras provas que não as constantes no currículo da série que o aluno estivesse cursando. A Reforma Maximiliano buscou dar uma ordem ao ensino brasileiro, ordem estabelecida nos moldes do ensino europeu. Retomou vários pontos de políticas educacionais anteriores, incluindo a proposta da seriação escolar da Reforma Benjamin Constant (1890), a estruturação proposta na Reforma Epitácio Pessoa (1901) e, da Reforma Rivadávia (1911). Retomou o exame vestibular, tornando-o extremamente rigoroso (CORRÊA, 2013). 80 Os Inspetores [...], conscientes como são daquele espírito de família que Dom Bosco quis sempre ver nas suas casas, impeçam, com toda a sua autoridade, que nela se infiltre o espírito militarista, um triste fruto da guerra que, infelizmente, possui talvez algum prosélito também em nós. Onde penetrou, dêem ordens explícitas para que a ginástica seja limitada apenas aos exercícios preliminares e o desporto seja usado somente com muita prudência e parcimônia. As nossas Casas não devem ser transformadas nem em casernas nem em praças de armas, nem em ginásios ou campo de jogos, um tal abuso é uma das casas principais da diminuição dolorosa das vocações. É portanto precisa vontade não só minha, mas de todos os Superiores do Capítulo que isso seja o mais breve possível eliminado (SANTOS, 2000, p. 409). Apesar das exortações, ainda era muito difícil encontrar uma justa medida entre a militarização escolar e o incentivo à vocação sacerdotal, pois a ostentação militar, além de ser uma propaganda excelente, isentava os alunos do serviço militar obrigatório, favorecendo, inclusive, os seminaristas. Em síntese, o Colégio São Joaquim, nas primeiras décadas do século XX, era reconhecido como um importante estabelecimento de ensino no Estado de São Paulo. Era uma obra salesiana tão importante para a época que um membro do Conselho Superior dos Salesianos, Padre Trione, em 1913, escreveu: “O Colégio de Lorena obedece às prescrições higiênicas e tem todas as aulas do Liceu até a Universidade e demais cursos superiores. Conta com 300 internos, mas tem também oratório festivo e igreja pública” (PADRE TRIONE apud AZZI, 1982, p. 117). O Padre Trione refere-se aos cursos superiores porque, junto ao São Joaquim, foi fundado, em 1895, o Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia (ISPF), em função da preocupação em formar professores para os colégios salesianos no Brasil. A este respeito, iremos nos dedicar a seguir. 2.2 A Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena Lorena sediou uma das primeiras faculdades salesianas do mundo, rompendo com o paradigma salesiano de educação para adolescentes. No entanto, de acordo com Passos Junior (2011), a evolução para escola de nível superior foi um processo cheio de equívocos, visto que seus fundadores não tinham ideia da dimensão que significava legalizar os estudos oferecidos por um seminário para uma faculdade legalmente constituída. Os equívocos foram resultado da inexistência de um projeto 81 da inspetoria salesiana e, também, de um projeto local para o trabalho com o ensino superior para leigos. Além disso, o autor avalia a história da instituição como um profundo conflito de identidade, pois O seu nascimento atípico e inesperado impede-lhe o amadurecimento como instituição educacional a serviço da sociedade brasileira, já que existia há 57 anos como Instituto de Filosofia de um seminário de religiosos fechado, não só às realidades políticas do Brasil, como também às grandes lutas da própria Igreja na sua busca por um lugar de prestígio dentro da sociedade republicana (PASSOS JUNIOR, 2011, p. 132). Foi a necessidade de preparar clérigos para serem sacerdotes e professores nas escolas salesianas que levou à fundação do Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia, em 1895. Por um lado, fazia-se necessária a preparação de sacerdotes para atender à expansão da obra salesiana no Brasil que dependia, apenas, de mais salesianos disponíveis. Por outro, a preparação de clérigos satisfaria a sociedade da época cuja mentalidade defendia que a presença de leigos como professores, ou em qualquer outra atividade escolar, deveria ser apenas exceção (PASSOS JUNIOR, 2011). Este instituto funcionou, em Lorena, por vinte anos, até mudar-se para a cidade de Lavrinhas, também localizada no Vale do Paraíba. Em 1943, foi transferido, novamente, para a cidade de Lorena. É importante ressaltar que este instituto funcionava sem o reconhecimento oficial (TOLEDO, 2003). Até este momento, a formação recebida no Instituto Salesiano era suficiente e legitimada, o que demonstrava que o Estado reconhecia o título dos professores-padres adquirido numa “faculdade” não reconhecida oficialmente. Esta legitimidade era resultado de uma tradição educacional da Igreja, que passou por jesuítas e diversas ordens religiosas que se dedicavam a este fim. Exemplo deste reconhecimento era o fato de o Colégio São Joaquim ser equiparado ao Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, na década de 1910, tendo professores-padres formados neste instituto. Ou seja, não existia, na época, uma centralização administrativa (não havia Ministério da Educação, por exemplo). O que havia era um reconhecimento social da formação oferecida nos seminários e instituições religiosas. Não havia, pois, as exigências legaiscomo as atuais. A população urbana da cidade de Lorena havia aumentado, significativamente, entre os anos de 1940 e 1950. Foi um salto de 10.040 para 82 16.033 habitantes, levando a cidade, da sexta para a quarta colocação entre as cidades mais populosas do Vale do Paraíba. Dentre os fatores que contribuíram para este crescimento, destacam-se: [...] a transferência do ISPF dos salesianos de Lavrinhas para Lorena (1943); a fundação e o desenvolvimento da Cooperativa de Laticínios de Lorena e Piquete (1944); a instalação da Indústria Química Mantiqueira (1944), provocando o aumento do número de operários, que passou de 285 em 1940, para 654 em 1950; a instalação do Banco Mercantil de São Paulo (1949); e a conclusão da pavimentação da rodovia Presidente Dutra em 1951. Ao final deste período, Lorena possuía: cinco grupos escolares, três ginásios, uma escola normal, um colégio com os cursos clássico e científico, e o Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia (TOLEDO, 2003, p. 54, grifos nossos). Foi somente em 1946, com a quarta Constituição da República e com a volta da exigência de concursos de títulos para os cargos de magistério, que os salesianos mobilizaram-se para solicitar ao Ministro de Estado da Educação e Saúde a autorização para o funcionamento da então Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (FSFCLL). Esta exigência constitucional foi decorrente das reflexões iniciadas a partir de 1920, na efervescência das ideias liberais e positivistas que defendiam uma educação laica, separada dos braços da Igreja, considerada arcaica e identificada com o passado. Em 1932, a questão da educação teve maior visibilidade com o Manifesto dos Pioneiros27 e, além disso, de acordo com Iglésias (1981), a educação católica não foi eficiente para criar uma intelectualidade significativa para a nação. Dominando o ensino através dos colégios, os padres nacionais e estrangeiros, marcam a instrução com o sinal acadêmico, retórico, formalizado. A grande prova do relativo malogro da Igreja está na sua completa perda de terreno em matéria de direção intelectual. Basta que se lembre que as camadas mais expressivas da intelectualidade brasileira são positivistas, evolucionistas ou apenas indiferentes (IGLÉSIAS, 1981, p. 132). Esta nova exigência de títulos desestabilizou as escolas salesianas que já funcionavam em várias cidades brasileiras e tinham como professores padres formados no Instituto de Pedagogia e Filosofia Salesiano, não regulamentado pelo 27 Documento que defendia a educação obrigatória, pública, gratuita e leiga como dever do Estado, a ser implantada em programas de âmbito nacional. Um dos objetivos fundamentais expressos no Manifesto era a superação do caráter discriminatório e antidemocrático do ensino brasileiro (ARANHA, 2006, P. 304). 83 governo. Passos Junior (2011) escreve que, na tentativa de resolver a situação, no dia 2 de setembro de 1950, o Padre José Stringari solicitou ao ministro da Educação e Saúde, Dr. Pedro Calmon, que os padres salesianos fossem declarados idôneos, ao menos para lecionarem nas escolas salesianas. Ao invés de aceitar o pedido, que caracterizava uma inconstitucionalidade, o ministro fez a contraproposta ao padre: “Por que não resolve o caso dos seus seminaristas fundando uma faculdade?” (PASSOS JUNIOR, 2011, p. 132). Em consequência, o presidente da Inspetoria Sul do Brasil e, portanto, padre inspetor na época, encaminhou relatório datado de 24 de julho de 1951 ao Ministro de Estado da Educação e Saúde, solicitando a autorização para a criação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, com os cursos de Filosofia, Pedagogia, Geografia e História, Letras Clássicas, Letras Neolatinas e Letras Anglo-Germânicas (TOLEDO, 2003). Fotografia 15 - Construção do prédio em 1950 Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena 84 Fotografia 16 - Construção do prédio em 1950 Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena A faculdade funcionaria nas dependências do Colégio São Joaquim, onde poderia contar com 24 salas “com perfeito equipamento de carteiras individuais, feitas de pinho de viga” (TOLEDO, 2003, p. 55). A fotografia 17 mostra a configuração das salas de aula no início do funcionamento da faculdade, quando ainda utilizava as dependências do Colégio São Joaquim. As carteiras individuais e enfileiradas, além de caracterizarem uma prática pedagógica tradicional, também estavam em harmonia com as normas disciplinares das casas salesianas. Nestas instituições, a disciplina era exercida e praticada fortemente, por meio da rigidez de horários, pela presença assídua do assistente, pelo programa rígido a ser cumprido e pelo controle nas salas de aula. 85 Fotografia 17 - Sala de aula em 1952 Fonte: CEDOC-UNISAL/Lorena A biblioteca possuía cerca de onze mil volumes, separados nas seções de Filosofia, Letras, Artes e Religião. Segundo Passos Junior (2011, p. 135), os clérigos não podiam ter acesso às revistas e aos jornais. A leitura destes só poderia ser feita posteriormente a censura pelos seus superiores e, ademais, “não era permitida a leitura de muitos autores vetados pelo Index Librorum Prohibitorum28 da igreja e da congregação. Era a opção de não permitir, aos clérigos, o acesso a um conhecimento diferente da ortodoxia católica”. 28 Índice dos livros proibidos. 86 Fotografia 18 - Biblioteca Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena O processo de solicitação da criação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena foi analisado pela Comissão do Ensino Superior, lido em plenário, em 8 de outubro de 1951, e aprovado, por unanimidade, pelos membros do Conselho Nacional de Educação, em 24 de outubro deste mesmo ano. No dia 14 de fevereiro de 1952, pelo Decreto 30.552, o presidente Getúlio Vargas autorizou o seu funcionamento. Da primeira metade do século XX até a década de 1960, os liberais e os católicos travavam sua disputa em torno dos poderes públicos, mais vivaz nas Constituintes de 1933-1934 e de 1945-1946. Manteve-se evidente no processo que, de 1948 a 1961, o foco era a elaboração, a discussão e a votação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1961 (Lei 4024/61), que separou essas forças antagônicas também no que dizia respeito à formação de professores do ensino básico e secundário. De acordo com Cunha (1989), nos anos 1950 e 1960, a demanda por ensino superior ocorria nas grandes cidades e, somente nas duas décadas seguintes é que se espalhou pelas cidades médias e pequenas. Contrariando esta tendência, Lorena se tornou a segunda cidade do interior do Estado de São Paulo a ter uma faculdade. Segundo Vaidegorn (2003), as políticas públicas predominantes neste contexto visavam à modernização do Brasil e uma das medidas para alcançar tal objetivo era a interiorização do desenvolvimento e a industrialização pesada. A educação era 87 considerada, então, uma estratégia para essa modernização. Desde as leis de 1931 até a promulgação da Lei 4024/61, a criação de Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras ocorreu em número significativo (cerca de 84), sendo o número de instituições particulares superior ao das públicas: Quadro 5 - Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras – Data de criação e tipo Fonte: ALBUQUERQUE, 1969 A relação das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, com início de funcionamento até 1961, publicada nos Anais da 4ª Conferência Nacional de Educação de 1969 (ALBUQUERQUE, 1969), mostra que, antes da aprovação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, só havia a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Pontifícia UniversidadeCatólica (PUC) de Campinas no interior do estado de São Paulo, pois as demais faculdades 88 funcionavam na capital. Em 1952, foi autorizado o funcionamento das faculdades de Lorena e de Sorocaba. Segue, abaixo, a Ata da Sessão Inaugural: No ano da graça de mil novecentos e cinquenta e dois, na tradicional cidade de Lorena, Estado de São Paulo, aos doze dias do mês de março, aniversário da coroação de S. S. o Papa Pio VII, gloriosamente reinante, presentes os Exmo. e Revmo. Sr, D. Luís Gonzaga Peluso, DD. Bispo Diocesano de Lorena; o Exmo. Sr. Com. Jurandyr Lodi, DD. Diretor de Ensino Superior do Brasil; o Exmo. Sr. José Roberto Airosa Rangel, DD. Prefeito Municipal da cidade de Lorena; o Exmo. Sr. Cel. Enedino de Carvalho, DD. Comandante do 5º R.I.; o Revmo. Sr. Dr. João Rezende Costa, DD. Inspetor Salesiano e diretor da Faculdade Salesiana; o Revmo. Sr, Pe. Dr. Carlos Leôncio da Silva, DD. Fundador do Instituto de Pedagogia e Filosofia de Turim; o Revmo. Sr. Pe. Alcides Lanna, DD. Inspetor Salesiano da Inspetoria de S. João Bosco; o Revmo. Sr. Pe. José Fernandes Stringari, DD. Diretor do Colégio São Joaquim e Vice-Diretor da Faculdade Salesiana; presentes autoridades eclesiásticas, civis e militares, presentes ainda membros do Corpo Docente e Discente da Faculdade, foi solenemente instalada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que se destinará à nobre missão de formar professores pra a instrução da mocidade brasileira. Da solenidade lavrou-se a presente ata, que vai assinada pelas autoridades presentes e demais convidados. Lorena, 12 de março de 1952 (ATA DA SESSÃO INAUGURAL, 1952). Não havia uma demanda local que justificasse a criação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Isto pode ser comprovado pelo fato do corpo discente desta instituição, nos primeiros anos, ser composto, predominantemente, por candidatos religiosos, vindos das casas de formação salesiana de vários estados brasileiros. Dos 104 alunos matriculados nos anos de 1952 e 1953, 101 eram seminaristas. Para Toledo (2003, p. 63), “nascia mais uma instituição de nível superior de caráter privado e católica. [...] Um projeto que pretendia, [...] formar uma elite capaz de conduzir as massas dentro dos princípios católicos”. Parte do Regimento de 1952 destaca as finalidades da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras e mostra o interesse, já naquela época, com relação à possibilidade de intercâmbio com outras instituições do país e do exterior. Art. 2 – São as seguintes as finalidades da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras: a) habilitar candidatos ao exercício do magistério de ensino secundário e normal e assistentes para os cursos da faculdade de filosofia; b) preparar trabalhadores intelectuais para o exercício das altas atividades culturais da ordem desinteressada ou técnica; 89 c) facilitar e promover trabalhos de pesquisas nos vários domínios da cultura que constituem objeto de seu ensino, proporcionando aos alunos ensejo de se especializarem conforme as aptidões individuais. § único – No intento de alcançar mais facilmente os seus objetivos, a Faculdade Salesiana de Filosofia manterá, por todas as formas aconselháveis, livre intercâmbio cultural com os Institutos congêneres do país e do estrangeiro (REGIMENTO, 1952, p. 1). Para Toledo (2003), a Faculdade foi organizada a partir dos três objetivos - habilitar candidatos ao exercício do magistério, preparar trabalhadores intelectuais e facilitar e promover trabalhos científicos. Através do primeiro objetivo, seria possível atender a uma necessidade da congregação com relação à carência de professores padres para suas escolas e garantir a continuidade da obra salesiana. O segundo objetivo estava relacionado à necessidade de se formar uma liderança intelectual católica, capaz de atuar na sociedade, disseminando a doutrina católica. Por meio do último objetivo, observa-se a demonstração de preocupação com o rigor e a seriedade da formação intelectual, através da promoção de trabalhos científicos. A Faculdade Salesiana foi constituída, inicialmente, por quatro seções fundamentais: 1) Seção de Filosofia, com o curso ordinário29 de Filosofia; 2) Seção de Ciências, com os cursos ordinários de Geografia e História; 3) Seção de Letras, com os cursos ordinários de Letras Clássicas, Letras Neolatinas Neolatinas e Letras Anglo-germânicas; 4) Seção de Pedagogia, com o curso ordinário de Pedagogia. E por uma seção especial de Didática, constituída de um curso denominado curso de Didática. No Capítulo V do Regimento, denominado “Das cadeiras”, em seu artigo 28, são apresentadas as cadeiras que se dividiam em disciplinas ensinadas nos cursos ordinários. É importante destacar, aqui, as Cadeiras III – Psicologia e a Cadeira XXVIII – Psicologia Educacional. Não foram encontrados documentos que especificassem as disciplinas oferecidas em cada cadeira, nem registros em diários de classe do conteúdo que era oferecido. No entanto, as fichas com o histórico de alunos que estudaram neste período mostram que eles cursaram: Psicologia, 29 De acordo com o Regimento de 1952, os cursos ordinários eram os constituídos por um conjunto harmônico de disciplinas, cujo estudo era necessário à obtenção de um diploma. 90 Psicologia da Educação, Psicologia Geral Experimental, Psicologia Evolutiva e Psicologia Filosófica. A Figura 6 ilustra a presença destas cadeiras. Figura 6 - Artigo 28 do Regimento de 1952 Fonte: REGIMENTO INTERNO DA FACULDADE SALESIANA DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS, p. 8,1952. O corpo docente, nos anos iniciais, era composto, prioritariamente, por padres, especialmente aqueles que haviam estudado no exterior ou eram oriundos de outros continentes. O importante era que os professores tivessem as seguintes características básicas: “predicados morais, mérito científico e a capacidade 91 didática” (REGIMENTO DE 1952, art. 79, p. 19). Analisando a tabela I, verifica-se que, dentre os professores religiosos estrangeiros, a maioria era italiana. Já dentre os professores brasileiros, os paulistas estavam presentes em maior quantidade. Entre os professores leigos, a maioria era, também, do Estado de São Paulo, mais especificamente do Vale do Paraíba. Tabela 1 – Procedência do corpo docente da Faculdade em 1953 Brasil Religiosos Leigos Total Porcentagem Capital Paulista 4 2 6 Vale do Paraíba 1 5 6 Outras regiões 7 1 8 São Paulo 12 8 20 42,5 Minas Gerais 4 1 5 10,7 Santa Catarina 3 0 3 6,4 Pernambuco 2 0 2 4,3 Rio Grande do Sul 1 0 1 2,1 Espírito Santo 1 0 1 2,1 Amazonas 1 0 1 2,1 Distrito Federal 1 0 1 2,1 Subtotal 25 9 34 72,3 Estrangeiros Itália 5 0 5 10,7 Espanha 2 0 2 4,3 Áustria 2 0 2 4,3 França 1 0 1 2,1 Polônia 1 0 1 2,1 EUA 1 0 1 2,1 Alemanha 0 1 1 2,1 Subtotal 12 1 13 27,7 Total 37 (78,7%) 10 (21,3%) 47 100 Fonte: TOLEDO, 2003, p. 74 No dia 1 de junho de 1954, um importante evento foi realizado para a inauguração do Auditório da Faculdade, com conferência do sociólogo Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que dissertou sobre o tema “O espírito universitário”. 92 Figura 7 - Convite para inauguração do Auditório da FSFCL Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena O tema da conferência de inauguração “O Espírito Universitário” provavelmente tratava da importância do ensino superior para o acelerado ritmo de desenvolvimento no país, provocado pela industrialização e pelo crescimento econômico. No entanto, naquele momento, os debates apontavam para a situação precária em que se encontravam as universidades no Brasil, e iniciavam-se as discussões sobre o ensino superior público e privado. Em relação ao perfil dos alunos, o relatório destinado ao reconhecimentodos cursos, em 1953, já demonstrava a necessidade de atendimento à demanda feminina da época: A faculdade iniciou seus cursos com alunos internos pertencentes todos à Sociedade Salesiana, bem depressa, já no primeiro ano, admitiu alunos também externos, o que mais se verificou neste segundo ano. Desejando ceder às múltiplas insistências, a direção da Faculdade deseja estender, para breve, sua ação cultural e formativa ao elemento feminino, desdobrando os seus cursos num Departamento especial (RELATÓRIO, 1953, p. 8). Assim, em 1953, atendendo às solicitações das estudantes de Lorena e arredores, foram agregadas ao corpo docente da Faculdade as professoras Irmã Maria Amélia de Andrade Simões, para a cadeira de Psicologia Educacional, e Irmã Olga de Sá, para a cadeira de História da Filosofia. Esta aquisição propiciou a 93 criação da seção feminina que iniciou a primeira turma do curso de Pedagogia, no ano seguinte, 1954, com 28 alunas. A solicitação para a abertura de uma seção feminina fora feita por uma comissão de pais, residentes na cidade, que gostariam que suas filhas cursassem o ensino superior sem a necessidade de elas terem de se mudar para o Rio de Janeiro ou São Paulo, os locais mais próximos onde havia ensino superior, até aquele momento. O então diretor da faculdade salesiana, Padre Carlos Leôncio, encaminhou a proposta aos seus superiores em Turim e, depois de aprovada, a presença feminina – inconcebível, até então, dentro dos rígidos padrões de uma igreja romanizada – foi, no entanto, aceita com a criação da faculdade feminina, mantendo-se uma administração unificada sob a direção dos padres. Falando a este respeito, Padre Ferreira enfatizou que esta não era apenas uma questão religiosa, mas também das famílias lorenenses que não permitiam que as moças estudassem à noite, juntamente com os rapazes (FERREIRA, 2013). Foi somente a partir de 1960, devido ao aumento de alunos na faculdade, à dificuldade em aumentar o número do efetivo de salesianos, às transformações e à criação de novas demandas no interior da faculdade, que se iniciaram as primeiras conversas sobre a possibilidade de se criar turmas mistas. A primeira solicitação foi feita pelo então Departamento de Filosofia e Pedagogia, com a intenção de diminuir a carga horária de aulas dos professores. A proposta era a de que rapazes (somente os externos) e moças tivessem, em comum, a aula das dezenove horas para as seguintes disciplinas: Complementos de Matemática, Administração Escolar, Pedagogia, Educação Comparada, Didática Geral e Especial (TOLEDO, 2003). No dia 15 de novembro de 1960, na reunião da Congregação dos Professores30, tal proposta foi negada. Apesar de ser considerada tecnicamente viável, a justificativa para a negativa foi que aulas mistas não eram compatíveis com a estrutura fundamental da Faculdade Salesiana, tendo em vista as finalidades a que se destinava. Apesar desta primeira negativa, em 1961, Padre Ferreira, então professor de Didática, admitiu algumas moças para cursarem, junto aos alunos externos, a cadeira de Didática. Uma dessas alunas, Marília Nunes, ao participar, anos depois 30 A Congregação era o órgão superior da direção didática e pedagógica da Faculdade. Era constituída pelos professores catedráticos em exercício; por um representante dos docentes livres, eleitos pelos seus pares; pelos docentes livres, em exercício de cátedra; eventualmente pelos professores contratados ou interinamente em regência de cadeira; presidida pelo diretor. De 1952 a 1962 ocorreram 20 reuniões (TOLEDO, 2003, p. 71). 94 de uma pesquisa realizada pelo historiador Francisco Sodero Toledo, assim descreveu esta experiência: “Fizemos Didática Especial à noite, numa sala do andar de baixo, sem qualquer contato com os seminaristas. Éramos aproximadamente seis moças cursando junto com os rapazes” (TOLEDO, 2003, p. 122). Este funcionamento dividido em duas seções perdurou até o final da década de 1960 quando, em março de 1968, no auge das reivindicações estudantis, o presidente do Diretório Acadêmico, Ivo Malerba, propôs que as moças pudessem fazer o vestibular, tanto para o noturno quanto para o diurno, assim como os rapazes já podiam fazer (TOLEDO, 2003). No entanto, somente em 1969, com as discussões sobre o funcionamento do curso de Psicologia, é que esta questão foi resolvida. Apesar de as irmãs desejarem que o curso continuasse a funcionar na seção feminina, os padres, por meio de votação, conseguiram levar o curso para a seção masculina. Esta foi a primeira experiência de cursos mistos na sede. Para Toledo (2003, p. 190 e 191) Neste episódio, é preciso considerar a questão da importância do local de funcionamento do curso de Psicologia, pois dada a elevada procura por este, ele determinaria qual das duas seções teria a maior quantidade de alunos. [...] As divergências entre os salesianos, que dirigiam a Faculdade, e as salesianas pertencentes ao Instituto Santa Teresa, foram se ampliando. Divergiram sobre o local de funcionamento dos cursos, sobre a atuação frente à situação política do país, sobre o movimento estudantil (TOLEDO, 2003, p. 190 e 191). As divergências eram antigas e intensificadas por alguns fatores. A seção feminina tinha uma subsecretaria, onde ficavam os documentos dos alunos até que fossem enviados à secretaria geral para serem arquivados. Também a contratação dos professores da seção feminina, embora gerida pelas irmãs, devia ter a aprovação da administração central, sediada na seção masculina. Começavam, por aí, as desavenças entre padres e freiras. Outro motivo de discórdia era o fato de que somente os salesianos ou os leigos, por eles contratados, ocupavam as cátedras. As irmãs eram assistentes das cadeiras, embora fossem muito bem preparadas e capacitadas. Excepcionalmente, Irmã Olga de Sá lecionou filosofia para os pré- noviços em um ano de especial dificuldade de se contratar professores. 95 Segundo Passos Junior (2011, p. 137-138), “a ala feminina, sobretudo sob a liderança da Irmã Iracema31, partia para uma linha mais progressista e engajada, dividindo ideologicamente a faculdade entre padres conservadores e irmãs progressistas”. Um exemplo disso foi a criação do Cine Clube, em 1964, onde eram apresentados e discutidos filmes do momento, de autores relevantes, o que escandalizava os padres conservadores, visto que as irmãs pregavam o engajamento, a inserção nas periferias e a discussão sobre a realidade brasileira. Anos mais tarde, o Cine Clube foi um dos motivos da ruptura entre os padres e as irmãs, já que estas foram consideradas modernas e progressistas demais para os padrões da época. O relato do historiador José Luiz Pasin (1939-2008), que fez parte do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), narra tal situação: Elas eram progressistas e sempre estavam à frente em todos os sentidos - desde o espaço físico da faculdade -, lá havia um campus universitário, uma liberdade de ideias e filmes no Cineclube fundado pela irmã Iracema. Hoje a FATEA tem uma ótima videoteca e lá você encontra todos os filmes, inclusive "Je Vous Salue Marie" proibido pela CNBB. Se você quiser assistir ou projetar o filme vai lá e retire a cópia seja aluno, professor ou consulente.... Isto significa que, embora elas sendo religiosas têm uma visão moderna e científica do que seja uma universidade e fazem uma leitura correta dos filmes. O Cine Clube funciona há mais de 25 anos e todas as sextas feiras à noite projetando um filme de um bom diretor com temas polêmicos e, depois da projeção, é feito um debate com a participação de todos os cinéfilos presentes. Você vai à biblioteca Conde Moreira Lima e consulta todos os livros, jornais e revistas. Nunca houve nada censurado ou interditado. Isso explica o choque ocorrido na década de 70, entrepadres e as freiras. Elas estavam sempre à frente, com uma mentalidade aberta e progressista para época. Eu participei, como representante dos professores, da reunião que resultou no rompimento das duas seções da faculdade. Nesta reunião presidida pelo padre Anderson Paes da Silva, estavam presentes entre outros, o padre Antônio Lages de Magalhães e o padre José Pereira Neto, que assistiam às sessões do Cine Clube e professor Francisco Sodero Toledo, como representante dos alunos. No calor das discussões padre Anderson, referindo-se ao Cine Clube disse às irmãs: "As senhoras com o Cine clube comprometem a moral da faculdade porque para mim filme de arte é pornografia". Eu saí em defesa das irmãs e apelei para o padre Pereira pedindo que ele desse sua opinião, e ele respondeu: "arte para mim é algo subjetivo” e não disse mais nada. O motivo fundamental da ruptura foi, entre outros, o Cine Clube. Os 31 Iracema Noemia Farina (1920-2011) era graduada em Filosofia, Pedagogia, Teologia e Ciências Religiosas, e Orientação Educacional, pós-graduada em Filosofia, Psicologia Educacional, Educação Moral e Cívica, Monitoria, Comunicação e Educação Cinematográfica, Mestre e Doutora em Ciências pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Cursou inúmeras extensões universitárias nos campos da Psicologia, Sociopolítico e Econômico, Cultura Brasileira, Filosofia, Comunicação e Artes, todos em renomadas instituições como USP, PUC de São Paulo, Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, Faculdade Católica de Belo Horizonte, Faculdade Jesuíta São Luiz/SP, Faculdades Metropolitanas Unidas. Em 1969, fez um curso sobre Cultura Cinematográfica promovido pela Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social (CPMCS), em Roma. Entre 1959 até 1974, desenvolveu suas atividades docentes na Faculdade Salesiana de Filosofia Ciências e Letras de Lorena – seção feminina. 96 padres achavam que as irmãs estavam fora do espírito das faculdades. Elas eram modernas e progressistas e modernas demais para os padrões e conceitos da época. Em 1970 houve a prisão de vários professores e alunos da faculdade pelo quinto Batalhão de Infantaria Leve de Lorena. Eu, o Ivo Malerba, o João Bastos, o Carlos Chagas, o Nelson Pesciota, irmã Iracema e penso que Irmã Olga, também. Este fato, na época abalou toda a sociedade lorenense e vale paraibana e repercutiu de maneira chocante dentro da faculdade, contribuindo no desdobramento da crise que resultou na ruptura entre as duas secções. Acredito, que naquele momento o padre Anderson estivesse tentando deter a onda revolucionária que tomara conta da faculdade salesiana (PASSOS JUNIOR, 2011, p. 138-139). O resultado final foi a separação das duas seções, passando a subsede (seção feminina) a se constituir em faculdade autônoma, em 1975. Atualmente, Faculdades Integradas Teresa D’Avila (FATEA), oferece onze cursos de graduação e doze cursos de pós-graduação lato sensu. Voltando ao histórico da Faculdade, foi também por iniciativa do Padre Ferreira que, em 1957, foi criado o Centro Salesiano de Estudos e Pesquisas Educacionais (CSEPE), cujo principal interesse de pesquisa era o fenômeno educativo, em seus diferentes matizes. O Regimento do CSEPE, aprovado em 1957, traz as seguintes finalidades em seu artigo 2: I- Pesquisa das condições culturais e escolares do Vale do Paraíba; II- Elaboração de planos, recomendações e sugestões para o desenvolvimento e melhoria da rêde escolar do Vale do Paraíba; III- Elaboração de livros fontes e de textos, preparo de material de ensino, estudos especiais sobre a administração escolar, currículos, psicologia, educacional, filosofia da educação, medidas escolares, formação de mestres e sobre quaisquer outros temas que concorram para o aperfeiçoamento do magistério da região; IV- treinamento e aperfeiçoamento de administradores escolares, orientadores educacionais, especialistas em educação e professores de escolas de nível médio e elementar (REGIMENTO DO CSEPE, 1957). O artigo 13 do mesmo Regimento trata do uso do Laboratório de Psicologia Experimental em seus programas de formação: “A Faculdade Salesiana colocará seu Laboratório de Psicologia Experimental à disposição do CSEPE, para a realização dos programas deste” (REGIMENTO DE CSEPE, 1957). Os termos do regimento acima descritos demonstram que, já naquele momento, o Laboratório de Psicologia Experimental era muito importante na formação de educadores e que as pesquisas ali realizadas tinham como objetivo qualificar a formação de professores e buscar alternativas para a melhoria da qualidade da educação regional. É importante destacar aqui que, nas quatro 97 finalidades do CSEPE, está clara a preocupação com a educação em todo o Vale do Paraíba regional, e não só na cidade de Lorena. Isto pode ser uma evidência da importância regional que a Faculdade Salesiana já possuía na época. Toledo (2003) mostra que, além do apoio da direção da faculdade, o CSEPE contava com a participação de seis professores: Padre Dr. João Modesti, Padre Sebastião Romano Machado, Padre José Derntl, Irmã Maria Amélia Simões e Irmã Olga de Sá. Mais tarde, passou a contar, também, com a colaboração do Padre Dr. Walter Bini, da Irmã Iracema Noêmia Farina e de José Dulcídio de Oliveira. Grande parte dos trabalhos de pesquisas realizados pelo CSEPE foi publicado em um periódico criado em 1959 pela faculdade, denominado Folhas Pedagógicas, até este ser substituído, em 1972, por outro periódico denominado Revista da Faculdade Salesiana. Estes periódicos foram objeto de nossa investigação. Desta forma, a lista de artigos publicados, entre 1952 e 1974, encontra-se no Apêndice A. Serão utilizados, para comentário, alguns daqueles que se referem, especificamente, aos temas de psicologia. Os debates sobre educação e pedagogia foram muito férteis nas décadas de 1920 e 1930, opondo os interesses dos liberais e dos conservadores, estes últimos representados pelos católicos defensores da pedagogia tradicional. Os liberais democráticos eram os simpatizantes da Escola Nova e partiam do pressuposto de que era necessário estimular a atividade dos alunos para que eles aprendessem através da prática. Além disso, eles estimulavam o processo de socialização da criança pelo empenho em desenvolver a individualidade e a autonomia, o que só seria possível em uma escola não autoritária, que permitisse ao educando aprender por si mesmo, e aprender fazendo (ARANHA, 2006). Destaco, aqui, a publicação nº 2, de 08/12/1959, totalmente dedicada ao centenário de John Dewey, de autoria da Irmã Iracema Noemia Farina, recém- chegada à faculdade feminina. Chama atenção o fato de um autor, cujo pensamento foi um dos responsáveis pelo desencadeamento, na educação, do movimento de renovação das ideias e das práticas pedagógicas conhecido como Escola Nova, ser o tema de uma publicação de uma instituição conservadora e com uma educação ainda embasada “no pensamento tomista e com abordagens a partir de uma ótica apologética da igreja e da religião” (PASSOS JUNIOR, 2011, p. 135). No artigo, a autora faz um relato minucioso sobre a vida de Dewey, tais como, nascimento, 98 formação acadêmica, casamento, filhos e vida profissional. Ao fazer as apreciações sobre Dewey, escreve: 1º- Merece ser apontado entre os filósofos e pedagogos de nossa época. 2º- Sua obra resulta interessantíssimo, pois constitui a forma pedagógica do pragmatismo. 3º- É principal representante da pedagogia social radical e da pedagogia reformadora contemporânea. 4º- É o filósofo da escola ativa. Por outro lado notamos lacunas e graves limitações 1º- Pedagogo social unilateral – considera o indivíduo completamente absorvido pelo meio social. 2º- Todos os fundamentos ideias pelo meio social da Sociedade passam em silêncio. 3º-Representa o ‘americanismo’ na educação. 4º- Pedagogo naturalista, unilateral até o exagero. Anota certo número de verdades, além delas, não vê nada mais; termina a realidade onde terminam suas ideias; dai ser escravo de sua opinião, exagerado, fora de suas concepções nada existe. Em suma, tem todas as disposições comuns de reformadores radicais. 5º- Defeito capital é a falta completa de todo o sentido religioso, único que o poderia preservar de seu unilateralismo. Teria visto que apesar de todas as resoluções radicais há muitos pensamentos íntimos que permanecem imperecíveis no coração do Homem e por conseguinte na sua Educação (sic)( p. 6). A publicação nº 7, de 12/03/1964, trouxe como tema único “A Ficha Antropométrica e a Educação”, de autoria de Benedito Luiz da Costa, padre salesiano, ingressante no curso de Pedagogia da Faculdade Salesiana, em 1960. O artigo tinha o objetivo de estabelecer uma relação de importância entre o estudo da caracteriologia e a prática pedagógica. Dentre as razões para as observações somáticas, foram apresentadas as seguintes: a) Os fatos somáticos condicionam os fatos psíquicos: eis por exemplo, que um anêmico terá uma amente lânguida, uma relativa incapacidade de atenção, etc. b) O educador deve cuidar que no jovem haja um equilibrado e normal desenvolvimento físico. c) Deve atender a uma racional educação física, de modo que se tenha um homem bem temperado fisicamente para a vida, que se tenha verdadeiramente uma “mente sã num corpo são”. d) Além disso, a observação das condições somáticas do educando dará ao educador um maior espírito de compreensão (p. 2). A ficha antropométrica utilizada nas avaliações realizadas no CSEPE teve sua origem em Turim, no Instituto de Psicologia Experimental do Pontifício Ateneu Salesiano (trataremos da importância deste Instituto no próximo capítulo). A ficha fora adquirida pelo Serviço de Orientação Educacional e Profissional da Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del-Rei, onde foi traduzida 99 com algumas modificações e, posteriormente, adquirida pela Faculdade de Lorena. A versão definitiva é descrita no artigo. Em 1964, a publicação nº 8 traz um artigo intitulado “A personalidade como objeto da Psicologia da Idade Evolutiva”, de autoria do Padre Vicente de Paulo Moretti Guedes32, salesiano e professor da Faculdade Salesiana de Lorena, desde 1957, e que tinha a Psicologia como seu principal interesse acadêmico. Na introdução, Padre Guedes diz: A psicologia da idade evolutiva tem assumido nestes últimos anos uma orientação mais unitária, sendo não simplesmente um estudo das diversas fases da vida humana em desenvolvimento, mas sim o estudo da personalidade em sua organização e integração em síntese vital, formando então uma unidade vivente, ou como preferem dizer, uma estrutura unitária (p. 2). No desenvolvimento do artigo, apresenta definições de personalidade de Allport, de Watson e a definição adotada no Symposium on Personality realizado em Londres, em 1945, que, de acordo com suas análises, é uma definição mais global: “sistema total das tendências relativamente permanentes quer físicas quer mentais, que distinguem um indivíduo e determinam as suas reações características ao seu ambiente material e social” (BRITISH JOURNAL OF EDUCATIONAL PSYCHOLOGY, XV, 1945, p. 107). Na edição de 21 de novembro de 1964, nº 9, Padre Antônio da Silva Ferreira33 publica o artigo intitulado “O índice de robustez Lorena”. Padre Ferreira havia se doutorado, em 1955, no Pontifício Ateneu Salesiano e apresenta, no conteúdo do trabalho, a influência que trazia em sua formação do Laboratório de Psicologia Experimental de Turim. O “Índice de Robustez Lorena” era uma adaptação do índice de Pignet34 usado na Ficha Antropométrica trazida de Turim. Os 32 Padre salesiano. Foi aluno do Colégio São Joaquim e da primeira turma de pedagogia da Faculdade Salesiana de Lorena. Seu principal interesse acadêmico era a Psicologia. Como docente da Faculdade Salesiana desde 1957, atuou no curso de especialização em Orientação Educacional. Mestre em Psicologia pela PUC de Campinas em 1978. 33 Padre salesiano. Graduado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia (1945), em Teologia pelo Instituto Teológico Pio XI (1952), em Licenciatura em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei (1971), em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cruzeiro (1977) e doutorado em Pedagogia pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma (1955). 34 Os índices de Pignet, Koby e Ruffier são métodos para caracterizar o índice de robustez ou o ‘valor numérico do homem’. Tais índices, muito usados pela biometria, consistiam em diferentes fórmulas 100 membros do CSEPE, ao encontrarem dificuldades (não esclarecidas no artigo) na construção de uma escala provisória para este índice, decidiram procurar algo novo: propuseram uma nova fórmula Peso/Altura + Perímetro Torácico/ Altura e verificaram que as dificuldades desapareceram. Foi então adotada a nova fórmula. O autor apresenta, ao final do artigo, uma tabela com os Índices de Robustez Lorena, obtidos em medições dos alunos do Colégio São Joaquim e da Faculdade Salesiana de Lorena feitas nos anos de 1963 e 1964. A adaptação da escala deve ter sido feita em função do padrão adotado por Pignet ser o padrão europeu, de militares grandes e fortes que poderiam compor as forças armadas francesas. O uso da medição do coeficiente de robustez na escola estava associado à necessidade de vigiar o crescimento dos estudantes, de avaliar se o desenvolvimento estaria acelerado ou devagar e de analisar estes dados, juntamente com o processo de aprendizagem. A ideia de medida de robustez já existia em um período muito anterior à publicação da revista. Há uma influência direta do discurso médico-sanitarista do século XIX, que impôs a ideologia do amor materno, plenamente apoiado pela Igreja católica, que representava as mulheres como as guardiãs do lar cristão, depositárias das esperanças da raça e responsáveis em formar o corpo e a alma dos futuros cidadãos (ALMEIDA, 2007). Este discurso sanitarista apostava na força propulsora da ordem e do progresso, tendo na saúde um aliado à educação. Exemplo marcante desta prática ocorreu na cidade de São Paulo, em 1928, com o Grande Concurso de Robustez Infantil. Os participantes do concurso seriam avaliados a partir dos seguintes critérios: [..] exame médico da criança, desde o período pré-natal aos atuais anos de vida, incluindo amamentação materna ou por ama alugada, o desmame, estigmas hereditários, testes de moléstias, etc. A criança não deveria ser gorda, mas robusta, não importava seu sexo ou sua cor, eram todas consideradas brasileiras, filhas legítimas de uma terra fértil e produtiva, que tinha um destino grandioso e um porvir para o qual estavam voltados os olhos das demais nações (ALMEIDA, 2007, p. 166). O artigo publicado por Padre Ferreira mostra a expectativa da época: pois, “mais que uma medida exata de robustez de uma pessoa, o índice Lorena quer servir como uma orientação para os educadores e os médicos, no tocante a seus matemáticas visando à quantificação e qualificação dos corpos a partir de medidas antropométricas de altura, peso e perímetro (Boigey, 1939). 101 alunos e clientes” (p. 9). Ou seja, mais precisamente servia de norma, no sentido foucaultiano, que impõe uma conformidade, uma homogeneização, separando o permitido do proibido, traçando, assim, a fronteira do dito normal e anormal: A norma não se define como uma lei natural, mas pelo papel de exigênciae de coerção que é capaz de exercer em relação aos domínios nos quais se aplica. A norma é portadora, consequentemente, de uma pretensão de poder. A norma não é, sequer ou simplesmente, um princípio de inteligibilidade; ela é um elemento a partir do qual determinado exercício de poder encontra-se fundado e legitimado (FOUCAULT, 2001, p.46). A escola como espaço fixo permite que todos ali sejam controlados, cada indivíduo pode ser localizado e examinado. A publicação nº 10, de 24 de maio de 1965, foi totalmente dedicada ao ensino de geografia e o único autor foi o Padre Ferreira. Destacou-se, neste número, o “Capítulo VII – A Escola Nova”, em que o autor usa como referências Lourenço Filho e Dewey para defender que a escola deveria tornar mais verdadeiramente um lugar de efetivas experiências, porque unicamente com tais experiências a criança poderá receber aquela espécie de educação estreitamente ligada à vida que antes era dada em casa e na comunidade (p. 26). O texto discute sobre como usar os princípios defendidos pelos escolanovistas no ensino de geografia, sugerindo como criar situações práticas, laboratórios de ensino, e experiências efetivas para que o aluno aprenda melhor. É importante lembrar, aqui, que, já em 1959, a publicação nº 2 das Folhas Pedagógicas fora totalmente dedicada a John Dewey, escrita pela Irmã Iracema Farina. E agora, em 1965, Padre Ferreira retoma o tema de uma educação relacionada ao pragmatismo no ensino de geografia. O que parece uma incoerência, já que a história da instituição está sempre vinculada ao ensino tradicional, de influência aristotélico-tomista. Apesar disso, tal atitude pode ser vista como resultado de uma influência dos estudos de psicologia que muitos deles fizeram na década de 1950, na Itália. Um número especial foi publicado, em 1970, com o tema geral “Escola Promoção Humana”, de autoria do Padre Ferreira. O autor inicia o Capítulo I esclarecendo o que se entende por promoção humana: 102 Após gastar recursos e esforços sem conta para promover a ciência e a tecnologia, o homem começa a compreender cada vez mais que só isso não basta. É necessário que tudo seja feito dentro de um contexto: o da promoção do homem Promover o homem é torna-lo senhor de suas ações, juiz do valor destas; conseguimos tal coisa potenciando sua liberdade (p. 1). Definindo o que é a promoção humana, o texto apresentará as possibilidades da escola como obra de promoção, discutindo algumas técnicas de individualização. No Capítulo IV, são apresentadas as seguintes causas de reprovação de um aluno: problemas familiares, inteligência não adequada àquele tipo de estudo, falta de base nos estudos anteriores, deficiências orgânicas, timidez excessiva, agressividade incontrolada, nervosismo e outras características do caráter do aluno. A respeito de problemas familiares, o autor relata uma pesquisa realizada em Lorena e Cachoeira Paulista, pelo CSEPE, que revelou que a quase totalidade dos reprovados pertenciam à classe pobre. Além da pobreza, a pesquisa apresentou correlação entre mau desempenho escolar e desentendimento entre os pais, separação dos mesmos e maus tratos, destacando que tais situações geram indecisão, insegurança e nervosismo nos filhos. Observa-se, aqui, a tendência da época de compreensão das dificuldades escolares e problemas de aprendizagem como decorrentes do comportamento do aluno ou da sua situação familiar. As hipóteses revelavam a influência das tradicionais explicações sobre o fracasso escolar descritas por Patto (1996) como as teorias da carência cultural, da aptidão natural, ambientalistas ou organicistas. Desse modo, apresentavam-se argumentos para afirmar que o indivíduo não aprende porque a família é desestruturada, os pais não incentivam, é pobre, carente, não é inteligente ou tem algum problema na cabeça (PATTO, 1996). Os salesianos não fugiam à regra, interpretavam o fracasso escolar de acordo com a ideologia dominante naquele momento. A publicação nº 20, de 1972, já denominada Revista da Faculdade Salesiana, trouxe um artigo de autoria do Padre Vicente de Paulo Guedes intitulado “Contribuições ao estudo do excepcional no Vale do Paraíba”, resultado de uma pesquisa realizada no Vale do Paraíba, com o objetivo de fazer um levantamento das instituições de atendimento ao excepcional, bem como um mapeamento dos trabalhos realizados por elas. O conceito de excepcional usado para embasar, teoricamente, o texto foi o elaborado por Dunn (1971, p. 10), autor do livro Crianças Excepcionais – seus 103 problemas, sua educação: “o indivíduo portador de condições pessoais, quer físicas quer psíquicas, que o distanciam daquilo que se designa em geral por média ou norma ou faixa de normalidade, incluindo-se assim tanto os infradotados como os superdotados”. Na conclusão do artigo, fica evidente a urgente necessidade de se ampliar a pesquisa no setor da educação dos excepcionais na região do Vale do Paraíba. Ela sugere uma verdadeira reviravolta na política educacional, com maiores recursos e dotações para ampliar o estudo e o atendimento do problema em todos os seus aspectos. A necessidade de uma reviravolta na política educacional é justificada pelo autor com base no fato de que todas as instituições visitadas apresentavam limite de idade para o aluno frequentar a instituição, entre 22 e 29 anos, variando de uma cidade para outra. O autor também considerava que a seleção dos alunos era muito empírica, sem uma avaliação de um psicólogo, sendo o número de reprovações no ensino regular o parâmetro para a seleção dos alunos. Além disso, as professoras não estavam uniformemente preparadas para a função que desempenhavam, pois fizeram diferentes cursos de Educação Especial, com duração de dois a três meses ou cursos oferecidos pelas Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs), com duração de quinze dias. O artigo relatou, ainda, a carência de profissionais especializados, das diferentes áreas, entre os quais, médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e fisioterapeutas. Em 1974, a publicação nº 22 continha três artigos relacionados à Psicologia: O primeiro artigo intitulado “Psicologia Social: Facilitação Social”, de Antônio de Andrade35, descreve os resultados de um experimento realizado com equipamentos do Laboratório de Psicologia Experimental: o ergógrafo de Mosso e o metrômetro. O experimento tinha como objetivo avaliar o comportamento do sujeito na presença de outras pessoas, partindo do pressuposto que, diante de espectadores, o sujeito tem o seu desempenho aumentado. A conclusão do artigo enfatiza que é possível encontrar, na vida prática, a confirmação desse experimento, e não encontrá-la apenas em situação criada, artificialmente, em pesquisas de laboratório de Psicologia Experimental. 35 Aluno da primeira turma do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Durante o curso, foi funcionário do Laboratório de Psicologia Experimental, trabalhando com Orientação Vocacional e como Psicometrista. 104 O artigo de José Gonçalves da Silva36, “A Psicologia Social de George H. Mead” é uma apresentação da obra de George H. Mead, intitulada “Mind, Self and Society”. Apresenta, inicialmente, algumas premissas, visando facilitar a compreensão do leitor daquilo que ele chama de “Notas de Síntese” da obra apresentada. Após uma análise do que Mead caracteriza como Sociedade, Self e Consciência, o autor faz uma crítica, apresentando pontos positivos e pontos negativos do que foi apresentado. Dentre os aspectos negativos pontuados por ele, destaco aqui o seguinte: Muitos dos conceitos de Mead são “vagos”, necessitando de uma maior explicitação; o que traz uma certa confusão ao leitor. Exemplifiquemos: A natureza exata dos“impulsos” nãoé claramente especificada. São os impulsos de caráter biológico ou podem também ser socialmente derivados? Isto não está claro na posição de Mead (p. 129). Dentro os aspectos positivos, destaco aqui os seguintes: O “evolucionismo” de Mead não está na linha de um materialismo crasso mecanicista, mas sim de um materialismo científico, pois os graus de evolução: de social para o “self”, deste para a consciência são saltos qualitativamente diversos. [...] O conceito de interação social foi muito bem analisado enquanto: os seres humanos compartilham o comportamento um do outro não no sentido de se dirigirem para o outro, mas no sentido de incorporar o outro, conhecer a sua intenção (p. 130). O terceiro artigo, de autoria de Alberto Abib Andery37, intitulado “Comportamento Violento e a Psicologia”, é resultado de uma comunicação apresentada na Semana de Comemoração dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, realizada em Lorena, em outubro de 1974. O autor analisa a contribuição da Psicologia e de outras Ciências Humanas ao estudar a conduta violenta nas suas causas ou fatores desencadeantes e ao propor modificações desses comportamentos antissociais e anti-humanos. Usa como base teórica o livro de Storr (1968) intitulado “A Agressão Humana”. Em 1974, a publicação nº 23 trouxe um artigo de José Gonçalves da Silva, intitulado “O psicólogo social e o seu campo de trabalho”. O trabalho teve como 36 Padre salesiano e professor de Sociologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. 37 Psicólogo. Professor do Departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) nos anos de 1970 a 1987 e um dos criadores da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO). 105 objetivo delimitar uma área de atuação para o psicólogo social, a quem caberia uma atividade de assessoria às organizações de todos os tipos, em termos de um diagnóstico da situação da organização como um sistema de comportamentos sociais interdependentes, e em termos de planejamento de mudanças organizacionais, também do ponto de vista comportamental. Embora os artigos dos últimos anos da revista que apresentamos pareçam versar mais sobre “Psicologia Social”, os das primeiras décadas, claramente, tratam de resultados de pesquisas realizadas no Laboratório de Psicologia Experimental. Este laboratório foi adquirido em Turim, Itália, entre os anos de 1952 e 1953 e inaugurado, em 1954, na Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Funcionou de 1954 a 1964 e, depois, passou a fazer parte do Instituto de Psicologia da mesma faculdade. É sobre a importância deste laboratório para a criação do curso de Psicologia, em 1969, que trataremos no próximo capítulo. 106 3 O LABORATÓRIO DE PSICOLOGIA EXPERIMENTAL Dom Bosco sempre demonstrou muita preocupação com a formação e aperfeiçoamento educacionais de seus sacerdotes. Já em 1930, na Itália, havia movimentos para que estes se formassem, prioritariamente, em cursos de Pedagogia, pois sua função era serem bons professores. Neste sentido, tal orientação foi encaminhada aos salesianos brasileiros, neste mesmo ano: “O Conselheiro Escolar geral a firmar a orientação de enviar os salesianos a frequentar os cursos universitários nas universidades de maior renome, principalmente pedagógico” (FACULDADE DOM BOSCO, s/d, p. 5-6). Em 1940, os salesianos obtiveram a aprovação para o funcionamento do Ateneu Eclesiástico Salesiano, em Turim, onde eram oferecidos os cursos de Filosofia, Teologia e Direito Canônico. A partir do investimento nos cursos de pedagogia, foi criado, em 1941, o Instituto Superior de Pedagogia que tinha como meta divulgar os princípios da pedagogia cristã, as propostas psicológicas e formativas de Francisco de Sales e o Sistema Pedagógico de Dom Bosco. Com o crescimento deste Instituto e com os diferentes trabalhos que incluíam pesquisas na área da Psicologia Experimental, foram também criados o Instituto de Psicologia Experimental, de Biologia, de Física e de Química, de Antropologia e Etnografia e de Ciências Sociais, gerando, na Itália de 1956, o Instituto Superior de Ciências Pedagógicas. Em 1966, o Ateneu Salesiano foi transferido para Roma e passou a ser designado Pontifício Ateneu Salesiano e, em 1973, Universitá Pontifícia Salesiana. O impulso para a psicologia experimental, na Itália, surgiu, principalmente, nas últimas décadas do século XIX através do interesse, dos Estados Unidos e de vários países europeus, de fazer da pedagogia uma ciência, a chamada Pedagogia Científica. O paradigma científico da época era o das ciências exatas, baseado na experimentação, observação, quantificação (SANTOS, 2006). Portanto, ao se pensar em uma Pedagogia Científica, o modelo é outro das Ciências Humanas, a Psicologia, que, desde o século XIX, vinha, sob algumas de suas facetas (como a psicologia alemã, de Wundt e a psicologia estadunidense, de Titchner) sendo marcadamente experimental. O primeiro estudioso a falar de uma pedagogia científica na Itália foi Andrea Angiulli. De formação filosófica e introdutor do 107 positivismo no país, adotou a teoria de Comte e Spencer na educação, em oposição ao ensino religioso. Defendia a criação de uma pedagogia dentro de um escopo liberal- democrático e anticlerical, e sustentava a ideia de a educação fundar-se sobre uma filosofia científica, cujos pilares foram construídos por homens da ciência, como foi o caso de Giuseppe Sergi (1841-1936), e cujas operacionalidades estiveram a cargo de homens de espírito prático, como foi o caso de Hugo Pizzoli (CENTOFANTI, 2006, p. 33). Em 1899, em Crevalcore, Ugo Pizzoli, alicerçado na Psicologia Experimental, na Antropologia Geral e na Fisiologia do Sistema Nervoso, inaugurou um laboratório de pedagogia científica e iniciou a oferta de cursos na área que se tornaram uma referência para os educadores italianos. Brandão (2006, p. 133) também destaca que A história da Psicologia na Itália se confunde com a própria história da unificação desse país. Por um lado, a unificação italiana passou a ser uma das principais preocupações de muitos intelectuais italianos, por outro lado, a própria constituição da base do pensamento e das ideias e das pesquisas e ações dos diversos campos da ciência estavam alicerçados em um novo modelo de ver e compreender o mundo, ou seja, o positivismo. Do ponto de vista prático, a pedagogia científica era a esperança de resolver, pelo menos em parte, os problemas sociais da época de unificação da Itália38, tais como fome, analfabetismo, prostituição, alcoolismo, roubo, assassinato, doença, entre outros. Isto porque a educação era vista como possibilidade de promoção de melhoria de vida e base para a regeneração da raça (CENTOFANTI, 2006). Influenciada por este contexto, a Psicologia na Itália do século XIX e da primeira metade do século XX foi marcada pelas ideias de diversos intelectuais. Baudin (1943) escreveu que, na época, havia muitas dificuldades a serem superadas antes que a Psicologia pudesse se estabelecer como uma ciência independente e apontou, como referência de nascimento da Psicologia na Itália, a publicação de “Princípios de Psicologia” de Giuseppe Sergi, em 1873. Para o autor, 38 Também conhecida como Risorgimento, a unificação da Itália foi um movimento que buscou unificar o país entre 1815 e 1870, pois era uma coleção de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras. Após o Congresso de Viena, a Áustria dominava a Lombardia, Vêneto (Venécia) e Istria; os ducados de Parma e Piacenza, Módena e Toscana eram regidos pelos arquiduques austríacos; o Piemonte, que integrava o Reino de Sardenha junto com o Ducado de Saboia e Gênova, era governadopela casa de Saboia; o Papa governava os Estados Pontifícios, estendendo sua autoridade às províncias do Adriático, e os Bourbons voltavam ao Reino das Duas Sicílias. 108 a Psicologia italiana evoluiu a partir da psicologia patológica, da psicologia coletiva e, principalmente, da psicologia criminal. Foi construída por antropólogos, psiquiatras, fisiologistas, tendo como pioneiros os seguintes estudiosos: Giuseppe Sergi (1841-1936): Desenvolveu ampla atividade como antropólogo e psicólogo. Era positivista e inclinado à interpretação dos fenômenos psíquicos em função dos processos fisiológicos. Formado na mesma escola que Saffiotti e Ugo Pizzoli, publicou “Elementi di Psicologia” (1879), “Teoria fisiológica dela Percezione” (1881), “L’origine dei fenomeni psichici” (1885), “Psiche” (1930), entre outros. Paolo Mantegazza (1831-1910): Foi neurologista, fisiologista e antropólogo. Tornou-se notável por ter isolado a cocaína da coca, que utilizou em experimentos, investigando seus efeitos anestésicos em humanos. Fecundo escritor sobre luto, prazer, ódio e amor. Cesare Lombroso (1836-1909): Psiquiatra e criminologista, deu um forte impulso à Psicologia ligada à criminologia. As ideias defendidas por ele acerca do “criminoso nato” preconizavam que, pela análise de determinadas características somáticas, seria possível antever aqueles indivíduos que se envolveriam com o crime. Angelo Mosso (1846-1910): Nasceu em Turim, estudou medicina e foi professor de farmacologia e fisiologia em Turim. Inventou vários instrumentos, entre eles, o Ergógrafo (aparelho usado para estudar fadigabilidade), posteriormente utilizado nos Laboratórios de Psicologia Experimental, inclusive na Faculdade de Filosofia de Lorena. Scipione Sighele (1868-1913): Foi sociólogo e criminólogo positivista. Gabriele Buccola (1854-1885): Psicólogo e pesquisador, depois de se formar em medicina em Palermo, mudou-se para Reggio Emilia para estudar psiquiatria sob a orientação de Augusto Tamburini. Iniciou seus estudos em Psicologia Experimental por meio dos recursos teóricos e técnicos oferecidos pelo hospício de Reggio Emilia. No Brasil, Henrique Roxo utilizou, em suas pesquisas, o Psicômetro de Buccola, aparelho existente no gabinete de clínica psiquiátrica e de moléstias nervosas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, o qual se encontrava adaptado apenas para a experiência com as sensações visuais. 109 Aplicou-o em 200 pacientes internados no Hospício Nacional de Alienados (VENANCIO, 2012). Sante de Sanctis (1862-1935): Formou-se em medicina em Roma com tese sobre afasia. Seus estudos sobre sono e sonhos foram citados por Freud (1980) em “A interpretação dos sonhos”, bem como por Ribot (1919) e Jung (1986). Foi, juntamente com Ferruccio Giuseppe Montesano e Maria Montessori, fundador da psiquiatria infantil italiana. Entre 1906 e 1930, dirigiu o Instituto de Psicologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Roma e, em 1930, publicou um tratado de dois volumes de “Psicologia Experimental”, uma obra de grande esforço científico e sistemático que resumiu seus 25 anos de ensino. Federico Kiesow (1858-1941): Formado pela escola de Wundt, foi para a Itália atendendo a um chamado de Angelo Mosso, em 1894. Foi para Turim com o objetivo de aprender as técnicas usadas na avaliação muscular realizadas por Angelo Mosso, Zaccaria Treves e Mariano Luigi Patrizi. Em 1906, assumiu uma cátedra de Psicologia na Universidade de Turim e, de seu Laboratório de Psicologia Experimental, espalhou para a Itália conceitos teóricos e metodológicos de Wundt. Francesco de Sarlo (1864-1937): Fundador da escola de Florença, apresentava-se como filósofo, psicólogo e sociólogo. Participou de seminários apresentados por Franz Brentano e fundou, em 1903, o Laboratório de Psicologia Experimental, inicialmente ligado à Faculdade de Ciências Humanas do Instituto Real de Ensino Superior. Cesare Colucci (1865-1942): Formado em Medicina em Nápoles em 1890, teve um trabalho científico marcado por um acentuado interesse nos aspectos clínicos da pesquisa neurológica e psicológica. Acreditava firmemente na teoria da localização cerebral. Giulio Cesare Ferrari (1868-1932): Graduado em medicina em 1892, foi logo em seguida contratado como assistente no Instituto de Psiquiatria Reggio Emilia, na época o mais famoso manicômio italiano. Foi fundador da Rivista Italiana di Psicologia (1905). 110 Vittorio Benussi (1878-1927): Filósofo, formado pela Escola de Graz39, fundou o Instituto de Psicologia Experimental de Pádua (1920) no qual foi instituída a cátedra de Psicologia, em 1922. Dedicou-se, especialmente, à pesquisa experimental sobre sugestão e hipnose. Mario Ponzo (1882-1960): Nasceu em Roma e estudou com Federico Kiesow, em Turim, onde, em 1911, publicou um artigo na revista Arquivos Italiennes de Biologie, apresentando a ilusão de ótica conhecida como a Ilusão de Ponzo. Padre Agostino Gemelli (1878-1959): É considerado a figura mais proeminente entre os psicólogos italianos e teve grande prestígio também fora da Itália. Nascido em Milão, em 1878, graduou-se em medicina e cirurgia em Pádua. Começou o seu trabalho científico como assistente de Camillo Golgi (médico italiano, prêmio Nobel da Fisiologia e da Medicina em 1906) nos anos de 1898-1903. De 1903 a 1907, Gemelli completou seus estudos teológicos, tornou-se sacerdote e religioso franciscano. Em seguida, retomou a sua atividade científica, trabalhando na Alemanha, em Bonn e Berlim, em escolas de distúrbios fisiológicos e neurológicos. Graduou-se em Filosofia, em 1912, e iniciou suas atividades psicológicas com Federico Kiesow, em Turim. Trabalhou no Laboratório de Külpe40 e Kraepelin41 e, em 1914, obteve a licenciatura em Psicologia. Durante a Primeira Guerra Mundial, dedicou-se ao serviço de seleção de aviador para o exército e, em 1919, em Milão, Gemelli organizou o primeiro laboratório de psicologia no Instituto de St. Vicenzo para crianças deficientes. Em 1920, em colaboração com Federico Kiezow, fundou a “Archivio Italiano di Psicologia”. Em 1921, foi um dos fundadores da Universitá Cattolica del Sacro Cuore, em Milão, e organizou um Laboratório de Psicologia bem 39 Nome dado ao conjunto de filósofos e psicólogos que girou em torno da figura de Alexius Meinong (1853-1920) e de seus experimentos sobre ontologia formal, semântica e análise de percepções, na Universidade de Graz, Áustria. 40 Laboratório dirigido pelo filósofo e psicólogo alemão Oswald Külpe, na Universidade de Würsburg, na Alemanha. Foi aluno de Wundt e fez pesquisas importantes sobre o estado mental e a preparação para a ação. 41 Laboratório criado por Emil Kraepelin na Universidade de Heidelberg; médico alemão e ex-aluno de Wundt. Nessa Universidade, teve como assistente, entre outros, Aloïs Alzheimer que viria a descrever o quadro demencial que ainda hoje leva seu nome. 111 equipado que se tornou um dos melhores centros, não só da Itália, mas de toda a Europa. Brandão (2006, p. 144-145) apresenta as principais atividades e publicações de Gemelli na área de Psicologia: 1912 - Gemelli é um dos autores a publicar em “La Rivista Psiche” [...] 1919 - Gemelli e Kiesow fundam em Turim “L’Archivio Italiano di Psicologia” 1921 – Funda a Universitá Cattolica del Sacro Cuore, sendo seu primeiro reitor 1924 – Cria o Laboratório de Psicologia e inicia as publicações do Contributi del Laboratório di Psicologia e Biologia del Universitá Cattolica del Sacro Cuore, que vai dirigir até sua morte em 1959 1935 – Gemelli insere a Psicologia como disciplina obrigatória para conclusão do Curso de Filosofia e disciplina complementar nos cursos de medicina, pedagogia e giurisprudenza 1938 – Gemelli e Levi Bianchini fundam o “Archivio di Psicologia,neurologia e psicoterapia [...] 1939 – É constituída no Conselho Nacional de Pesquisa uma comissão permanente de estudos e aplicações da psicologia, criando-se o Instituto Nazionale di Psicologia [...] 1947 – Publica Introduzione allá Psicologia [...] e L’Orientamento Professionale dei Giovani nelle scuele [...] Até 1959 – Dirige e realiza pesquisas no Instituto de Psicologia da Universitá do sacro Cuore (BRANDÃO, 2006, P. 144-145). O Laboratório de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia do Ateneu Salesiano foi criado nos moldes do que existia na Universitá Cattolica del Sacro Cuore, sob a direção do Padre Agostinho Gemelli. O padre salesiano Giacomo Lorenzini cursou a especialização em Psicologia naquela universidade, sob a orientação do Padre Agostinho Gemelli que vinha desenvolvendo pesquisas na área da Psicologia, desde 1921. É sob esta influência do Padre Gemelli que o Padre Giacomo Lorenzini vai dirigir o Instituto de Psicologia e o Laboratório de Psicologia Experimental lá instalados, com a necessidade de dar conotação científica às investigações que fazia, aproximando a Pedagogia da Psicologia, principalmente da Psicologia Experimental. Brandão (2006) relata que Lorenzini direcionou seus trabalhos para pesquisas científicas concentradas no campo da caracteriologia e psicopatologias, fez atendimento psicológico e criou o Centro de Orientação Vocacional. A influência de Padre Gemelli se estendeu na Psicologia para além dos salesianos. Assim, no Boletim do Instituto de Psicologia Experimental e Educacional, os números publicados entre os anos de 1952 e 1954, que estavam sob a 112 organização de Enzo Azzi, mostram a influência do Padre Gemelli em alguns psicólogos no Brasil. Em publicação do Boletim, Ano II, março de 1953, nº 2, de autoria de Aniela Meyer Ginsberg (diretora do centro de Orientação psicológica do Instituto de Psicologia Experimental da PUC-SP), sob o título “Impressões de uma viagem de estudo”, a autora relata sua viagem a diversos países, com o objetivo de visitar centros de orientação psicológica para crianças e jovens (centros de orientação educacional e profissional), ver clínicas psicológicas ou centros de psicoterapia para jovens, conhecer novas técnicas usadas nestas instituições e se informar sobre pesquisas realizadas, particularmente, nos campos da Psicologia Social, Psicologia Infantil e estudo da personalidade. Em seu relato sobre a visita na Itália, diz: Em Milão visitei o laboratório de psicologia da Universidade Católica do Sagrado Coração dirigido pelo Pe. Gemelli. Este instituto se ocupa principalmente de pesquizas no campo de psicologia experimental e de seleção profissional. Assisti, por exemplo, a uma seleção de candidatos para o cargo de telefonista. Quanto às provas coletivas, de papel e lápis, era interessante apenas a apresentação das instruções gravadas num disco. [...] No mesmo laboratório assisti a uma reunião mensal de psicólogos e psiquiatras sob a presidência do padre Gemelli (sic) (GINSBERG, 1953, p. 3-4). Sobre as disciplinas de Psicologia oferecidas por Enzo Azzi, no Instituto de Psicologia da PUC-SP, a publicação do Boletim, Ano II, setembro de 1953, Nº 4, sob o título “Programas e bibliografia dos cursos a serem ministrados pelo Dr. Enzo Azzi no ano de 1954” também mostra a influência do Padre Gemelli. Uma das disciplinas oferecidas é Psicologia Experimental Geral e, dentre os livros da bibliografia, está a indicação do livro de Agostino Gemelli - Introduzione alla Psicologia (1952); a disciplina Psicologia Educacional indica o livro de Agostino Gemelli - La Psicologia dell’Etá Evolutiva (1947); e a disciplina Psicologia Aplicada à Orientação Educacional e Vocacional indica o livro do mesmo autor - L’orientamento professionale dei Giovani nelle scuole (1947). Na publicação, encontra-se a seguinte observação: “Todos os livros indicados para este e os outros cursos podem ser encontrados na Biblioteca do Instituto de Psicologia” (AZZI, 1953, p. 39), o que mostra a atualidade da biblioteca ao ter em seu acervo livros publicados tão recentemente na Itália. Além disso, muitos artigos publicados por Enzo Azzi trazem, nas referências, os livros de Agostino Gemelli. 113 Em 1959, Lourenço Filho, por ocasião da morte de Agostino Gemelli, publica o “Necrológio – Fr. Agostinho Gemelli O. F. M. 1878-1959”, no Boletim do Instituto de Psicologia da então Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Escreveu o seguinte a respeito de Padre Gemelli: [...] desempenhou notável papel no desenvolvimento dos estudos experimentais da especialidade e nos da psicologia aplicada. [...] Ocupando a reitoria dessa Universidade e, bem assim, a cátedra de psicologia experimental, faz instalar e funcionar um dos mais perfeitos laboratórios da especialidade em tôda a Europa. [...] Durante muitos anos, realmente, apenas dois centros de estudos experimentais da matéria tiveram maiores atividades na Itália: o da Universidade de Milão, e o do pontifício Ateneu de Turim, e este último, deve-se registrar, também por ação destemida e valor científico de um sacerdote brasileiro, o Pe. Dr. Carlos Leôncio, atualmente diretor da Faculdade Salesiana de Filosofia, na cidade de Lorena, Estado de São Paulo (LOURENÇO FILHO, 1959, p. 36-37). Vemos, pois, que sob a influência e as benesses do Padre Gemelli, o padre salesiano Giacomo Lorenzini, contribuiu para estruturar e organizar um modelo de ensino superior que se tornou referência para que outros salesianos, de obras espalhadas em outros países, também partilhassem (BONFIM e ALBERGARIA, 2004). Desde a década de 1940, o Padre Lorenzini recebeu e orientou vários alunos, vindo de diversas cidades e países, com a finalidade de se especializarem na área da Psicologia. Estes alunos eram padres salesianos encaminhados por seus superiores para darem continuidade aos seus estudos de forma que voltassem, assim, qualificados para atuarem em suas congregações. Os padres salesianos brasileiros, partilhando desta preocupação com a formação e o aperfeiçoamento pedagógico de seus sacerdotes, viajavam a Turim especialmente para estudar no Instituto Superior de Ciências Pedagógicas do Pontifício Ateneu Salesiano. No entanto, cabe destacar a figura de Padre Carlos Leôncio da Silva42como grande responsável pela ida dos salesianos brasileiros a Turim. O grande mentor da ida dos salesianos para Turim será sem dúvida Pe. Carlos Leôncio da Silva, uma das principais figuras na fundação e consolidação do Ateneu Salesiano. Presente em Turim desde 1938, Pe. Leôncio reconhece o Ateneu, pelos próprios trabalhos e pesquisas que lá 42 Pedagogo e teólogo, nasceu no Recife, em 1887. Foi professor e diretor do Colégio Salesiano do Recife; professor do Instituto Teológico Pio XI, na cidade de São Paulo. Fundador do Instituto Superior de Pedagogia do Ateneu Pontifício Salesiano de Turim; diretor da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, SP. 114 desenvolveu, como lugar adequado para a qualificação de alguns salesianos interessados em dar continuidade em sua formação acadêmica (BRANDÃO, 2006, p. 152). No segundo semestre do ano de 1952, Padre Leôncio já havia retornado ao Brasil para desenvolver as suas atividades na Faculdade Salesiana de Lorena, inicialmente como professor e, em seguida, como diretor. Isto facilitou a ida dos padres lorenenses que se interessavam por uma melhor qualificação na Itália. Lourenço Filho reconhecia a importância de Padre Leôncio e dos trabalhos realizados por ele: [...] Ao Pe. Carlos Leôncio da Silva, que por muitos anos dirigiu o Instituto Superior de Pedagogia, anexo à Faculdade de Filosofia do Ateneu Salesiano de Turim (Itália), e hoje dirige a Faculdade de Filosofia de Lorena (São Paulo), devem-se trabalhos pedagógicosbaseados em modernos fundamentos da psicologia, e, bem assim, a animação de estudos experimentais [onde], em 1954, inaugurou um Laboratório de Psicologia Experimental, sob a direção do Padre João Modesto (sic). (LOURENÇO FILHO, 1960, p. 282-283). Foi assim que os salesianos do Brasil viajaram a Turim, foram recebidos por Padre Lorenzini e tiveram formação docente, principalmente nas áreas de Didática, Administração e Psicologia. Além de receber os alunos, Padre Lorenzini também viajava a outros países para orientar os trabalhos de implantação dos laboratórios. Um exemplo disto foi a viagem que fez ao Brasil, em 1950, a convite do Monsenhor Salim, então vice-reitor da PUC-SP, para orientar os trabalhos de implantação do Laboratório de Psicologia no Instituto de Psicologia, mais tarde dirigido por Enzo Azzi (BRANDÃO, 2006). O professor Enzo Azzi fez um curso de especialização em Psicologia e Pedagogia no Ateneu Salesiano de Turim, local onde deu início à pesquisa experimental com crianças sobre percepção estereoscópica. Em 1949, Azzi veio para o Brasil, após ser indicado pelo diretor do Instituto de Psicologia Experimental de Turim, Padre Giacomo Lorenzini, para instalar o laboratório do Instituto de Psicologia e Pedagogia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (IPPUC-SP), inaugurado oficialmente em 1952 (GUEDES, 2010). Alguns padres que se sobressaíram em seus estudos no Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia, em Lorena, foram escolhidos para darem continuidade à sua formação, na Itália. Em 1951, foram para o Ateneu Salesiano de Turim os Padres Antônio da Silva Ferreira, que cursou as especializações em Didática e 115 Psicologia; Halph Mendes, que cursou especialização em Pedagogia; Walter Bini, que cursou especialização em Psicologia; e João Modesti, que cursou especialização em Psicologia. Entre 1953 e 1954, foram enviados os Padres Geraldo Servo, que cursou especialização em Pedagogia e Psicologia, e Antônio Carvalho, que cursou especialização em Psicologia. Fotografia 19 - Padres Salesianos de Lorena estudando no Pontifício Ateneu Salesiano de Turim Fonte: CEDOC/ UNISAL-Lorena Foi a partir de uma destas viagens que o Padre João Modesti, após estudar e se formar em Turim, trouxe os equipamentos e montou, em Lorena, o Laboratório de Psicologia Experimental, com a supervisão do Padre Giácomo Lorenzini. Nos anos seguintes, laboratórios semelhantes provindos de Turim foram montados em outras instituições brasileiras: Faculdade Dom Bosco de São João del-Rei, em 1955; Universidade Católica de Porto Alegre, em 1960; Universidade Católica de Campinas, em 1965; e Faculdade Sagrado Coração de Bauru, em 1976. Em carta resposta ao Padre Irineu Leopoldino de Souza, da Faculdade Dom Bosco de São João del-Rei, que havia solicitado a compra do laboratório para a instituição a que pertencia, Giácomo Lorenzini esclareceu que estava trabalhando na aquisição do laboratório da Faculdade de Lorena. Afirmou, ainda, na carta, que o laboratório que estava sendo comprado para Lorena seria melhor do que o da Universidade de São Paulo e que esperava fazer ainda mais pelo laboratório de São João del-Rei (BONFIM; ALBGARIA, 2004). 116 O Laboratório Experimental de Psicologia da Faculdade de Lorena que foi adquirido na Europa, entre os anos de 1951 a 1953, pelo padre João Modesti, continha aparelhos iguais aos utilizados no Instituto de Psicologia do Pontifício Ateneu Salesiano de Turim, na Itália. Os aparelhos, em sua maioria, foram construídos, sob encomenda, pelo Laboratori Apparecchi Scientifici Médici (LASM) de Turim e pelo Instituto Conte Rebaudengo, da mesma cidade ou pelas oficinas do Laboratório de Psicologia da Universidade Católica de Milão. A montagem do Laboratório junto à Faculdade Salesiana de Lorena, em espaço especialmente preparado para isto, foi iniciada em 15 de agosto de 1954. O laboratório foi inaugurado aos 17 de outubro do mesmo ano, com uma conferência do Prof. Lourenço Filho. Seu primeiro diretor foi o Padre João Modesti, seguido pela direção do Padre Antonio da Silva Ferreira. As figuras abaixo mostram o convite para a inauguração do Laboratório de Biologia e Psicologia Experimental. Na programação, consta uma lição prática a ser realizada pelo Dr. Enzo Azzi, professor de Psicologia Experimental da Universidade Católica de São Paulo, uma apresentação dos aparelhos a ser feita pelo Padre João Modesti, professor de Psicologia Experimental da Faculdade Salesiana e uma conferência de Lourenço Filho que, na época, pertencia ao Conselho Nacional de Educação e à Universidade do Distrito Federal, hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 117 Figura 8 - Convite de inauguração do Laboratório de Biologia e Psicologia Experimental Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena 118 Figura 9 - Programação da inauguração do Laboratório de Biologia e Psicologia Experimental Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena 119 Fotografia 20 - Inauguração do Laboratório de Psicologia Experimental da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena em 1954. Da esquerda para direita estão marcados Padre Guedes, Padre Pereira e Padre Carlos Leôncio. Fonte: CEDOC/UNISAl – Lorena Fotografia 21 - Inauguração do Laboratório de Psicologia Experimental da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena em 1954, com a presença de Lourenço Filho à esquerda da foto, seguido de Padre Modesti, Padre Carlos Leôncio e Dom Luis Peluso (Bispo de Lorena à época). Fonte: CEDOC/UNISAl - Lorena O Laboratório Experimental de Psicologia tinha como objetivos a formação científica dos alunos e estagiários no método da observação sistemática e da experimentação psicológica, a fim de adquirirem objetividade, precisão e senso científico; a pesquisa no campo da Psicologia Pura e Aplicada que possibilitaria aos professores e aos alunos interessados diversos trabalhos e estudos; demonstrações didáticas, feitas para os alunos ou estudiosos de outros institutos científicos para que pudessem constatar, na prática, a veracidade de certas leis ou o valor de suas 120 aplicações; o atendimento para aqueles que desejassem orientação profissional, educacional, diagnose e terapia de desajustamentos (ANDRADE, 2013). Fotografia 22 - Realização de experimentos e avaliações de alunos dos colégios atendidos pelo laboratório Fonte: CEDOC/UNISAL - Lorena A partir da análise do material que fazia parte do laboratório, é possível identificar aparelhos, testes e equipamentos para a realização de medidas biométricas, sensoriais, de aptidões específicas, de personalidade e de interesses. Outros aparelhos eram de uso geral, como é o caso do amplificador, máquina calculadora e projetor, e dos medidores e registradores. Segue, abaixo, uma lista detalhada do material adquirido na Itália, conforme descrição feita no relatório de solicitação de reconhecimento do curso de Formação de Psicólogo (PARECER nº 196/76). 121 Fotografia 23 - Instalações do Laboratório de Psicologia Experimental em 1954 Fonte: CEDOC/UNISAL - Lorena Aparelhos do Laboratório Experimental: 01. Metrônomo elétrico, modelo LASM; 02. Aparelho de controle por queda para contatos elétricos; 03. Contador de erro LASM corrente contínua de 10 volts; 04. Cronômetro elétrico de jaqueta; 05. Aparelhamento para fixação de gráficos, com gamalaca; 06. Quimógrafo elétrico (Detector de Mentiras) modelo LASM; 07. Cardiógrafo de Marey-Jaquet; 08. Pneumógrafo de Cusmann; 09. Altímetro – para medidas de altura; 10. Balança marca Filizola – para apuração de peso; 11. Espirômetro de Pini – para avaliação de capacidade pulmonar; 12. Dinamômetro,modelo LASM – para medir a força muscular, manual e dorsal; 13. Compasso antropométrico; 14. Escola de Performance de W. P. Alexander – teste de inteligência prática; 15. Arco de Christianes; 16. Teste de Atenção Distribuída de Bedini – modelo italiano; 122 Fotografia 24 - Teste de Atenção Distribuída de Bedini Fonte: Arquivo pessoal de Antônio de Andrade 17. Teste de Atenção de Toulouse-Pieron – Modelo elétrico do Instituto Jean Jacques Rousseau – com computador automático de erros e acertos; 18. Bloco de Wiggly (O Connor Wiggly Boch) – teste de inteligência prática – alemão; 19. Aparelho desmontável de Moede - mede capacidade de intuição e golpe de vista do examinando; 20. Mecanismo de Fritz-Heider – explora habilidade de construções mecânicas; 21. Caixa de Decroly – teste de inteligência prática; 22. Aparelho de G. Richter – exame psicológico de inteligência técnica; 23. Teste “A Cidade” de Henri Arthus; 24. “Souricière” de Moede (A Ratoeira) – teste psicocaracteriológico de habilidade manual motora. Modelo francês; 25. Cinestesiômetro ou “Reglette de Carard” – indicações sobre memória motriz; 26. Ambidestrímetro de Carro Duplo-Falso torno do PAS – de Moede; 27. Tapping – com contragolpes eletromagnéticos; 28. Discos reativos Leon Walter – mede precisão de movimentos, firmeza da mão, capacidade de preensão e índice de desteridade; 29. Termômetro de Moede (destrímetro) – mede a firmeza da mão e sua motricidade e capacidade de autodomínio; 123 30. Traquitoscópio duplo, com comando elétrico à distância, do Laboratório de Psicologia de Milão; 31. Ototipo de Shellen para exame rápido de miopia; 32. Tabela Pseudoisocromática de Stilling – 18 pranchas para daltonismo; 33. Lãs de Holgrem para confirmação de daltonismo; 34. Campímetro ou Perímetro para avaliação de campo de visão para diversas cores e diversas situações emocionais; 35. Fotoestesiômetro, modelo PAS – para examinar limiar de percepção das diversas luminosidades; 36. Estereômetro Batoscópio – mede percepção de profundidade, modelo Michette; 37. Ortômetro – mede percepção de profundidade, acuidade visual, limiar de percepções visuais, visão próxima e visão de longe; 38. Audiômetro – modelo italiano 801 – mede acuidade auditiva; 39. Ergógrafo de Mosso-Treves – aparelho clássico, que isola um dedo da mão e estuda fadigabilidade; 40. Dinamômetro de Zimmermann ou Dinamógrafo – estuda o esforço máximo, duração do esforço e trabalho realizado e fadiga; 41. Estesiômetro – Modelo PAS – estuda percepção tátil. Fotografia 25 - Experimentos realizados no laboratório Fonte: Arquivo pessoal de Antônio de Andrade As fotos dos testes e experimentos realizados no Laboratório mostram a forte ligação com a chamada “Psicologia Sensorial” estudada pelos padres, na Itália, nas décadas de 1950 e 1960. 124 De acordo com o relato de Antônio de Andrade, aluno do Curso de Psicologia e funcionário da faculdade, com o cargo de Psicometrista, a partir de 1970, com a criação do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena, o Laboratório de Psicologia teve um grande aumento em seu trabalho, o que levou a instituição a investir em sua expansão. As novas instalações do Laboratório eram assim divididas: Duas salas para a aplicação do teste PMK, com mesas especiais, apropriadas para aplicação deste teste; Sala de Ortômetro; Sala do Psicólogo, com instalações especiais para entrevistas; Sala de Tempo de Reação e de Audiômetro, sala especial, subdividida em duas: uma sala contendo os aparelhos medidores e a outra, acústica, onde se realizava o exame, com intercomunicadores elétricos, fone e microfone; Sala de secretaria: sala do expediente e arquivo de consulta; Sala de arquivo, contendo estantes de arquivar os testes já usados ou realizados. Além dessas salas especiais, havia um salão de 25 metros por 8 metros e um salão menor de 6 por 8 metros. Fotografia 26 - Salão do Laboratório de Psicologia Experimental Fonte: Arquivo pessoal de Antônio de Andrade Posteriormente, com a transformação na Psicologia Experimental, as atividades de ensino e pesquisa passaram a ter um novo núcleo - O Laboratório Animal - que por sua vez, era assim constituído: 125 1- 200 ratos brancos, adquiridos no biotério da Universidade de São Paulo (USP) – para os experimentos; 2- seis viveiros de metal para alojar ratos; 3- dez caixas experimentais (tipo Skinner), confeccionadas em metal com tampas e portas de acrílico, com uma caixa de comando externo em plástico para cada unidade; Fotografia 27 - Caixa de Skinner Fonte: Arquivo pessoal de Antônio de Andrade 4- cinco caixas confeccionadas em madeira, com porta e tampa de acrílico, com comando externo de plástico; 5- uma caixa com os equipamentos necessários para a realização de experimentos com choque elétrico; 6- quinze cronômetros; 7- dois termômetros; 8- um tanque de metal; 9- dez trapézios em metal dourado; 10- dezesseis argolas em metal dourado para experimentos junto à caixa de Skinner. Este laboratório animal era usado nas aulas de Psicologia Experimental para que os alunos aprendessem e praticassem os condicionamentos propostos pela 126 Psicologia Comportamental. Cada dupla de alunos era responsável pelo condicionamento de uma cobaia durante o ano letivo. A implantação do Laboratório de Psicologia Experimental e as atividades nele desenvolvidas como pesquisas, atendimento à comunidade, avaliação de alunos, seleção de pessoal para empresas da região, capacitação de pedagogos e outros licenciados foram muito importantes para a viabilização do curso de Psicologia. Em documento enviado ao Ministério de Educação e Cultura (MEC), em 1967, solicitando a autorização para o funcionamento do curso, estão os seguintes argumentos: A criação do Curso de Psicologia não é uma improvisação fazendo-o surgir do nada, mas é o término de um processo evolutivo, que se inicia em 1954 com a instalação do Laboratório de Psicologia, continua em 1962 com a criação da especificidade de Psicologia da Educação no Curso de Pedagogia, evolui ainda em 1965 com a criação de uma especificidade de Psicologia no Curso de Filosofia, sendo essa evolução acompanhada por um desenvolvimento progressivo dos serviços de Psicologia, e pela criação do Instituto de Psicologia, anexo a esta Faculdade (Processo 24.487/67 – Solicitação de autorização para instalação do Curso de Psicologia). Este percurso feito pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, desde a implantação do laboratório até a criação do curso de Psicologia, não foi uma exceção. No início do século XX, muitos laboratórios que contaram com a colaboração de psicólogos internacionalmente conhecidos, também foram implantados em diferentes locais no Brasil. Estes laboratórios fomentaram a pesquisa, a formação de pesquisadores e ofereceram serviços de psicologia. Alguns deles são apresentados por Gomes (2003, p. 9): Alfred Binet (1857-1911) colaborou com o médico brasileiro Manoel Bomfim (1868-1932) no planejamento do laboratório para o Pedagogium, uma instituição dedicada à exposição de novos métodos de educação, localizada no antigo Distrito Federal. O laboratório foi instalado em 1906. George Dumas (1866-1946), médico e psicólogo francês, colaborou com Maurício de Medeiros (1885-1966) na instalação de um laboratório em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro em 1907. Ugo Pizzolli (1863-1934), um psicólogo italiano, veio à São Paulo para instalar um laboratório pedagógico na Escola Normal. Waclaw Radecki (1887-1953), um psicólogo polonês com doutorado na Universidade de Genebra, chegou ao Brasil em tempo de ser convidado, em 1923, para dirigir um laboratório que estava sendo montado com equipamentos vindos de Paris ede Leipzig em um ambiente hospitalar no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro. Theodore Simon (1873- 1961) que havia trabalhado com Binet em Paris, e Léon Walther (1889- 1963) que havia sido assistente de Édouard Claparède (1873-1940) na Universidade de Genebra, organizaram um laboratório na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico em Belo Horizonte no ano de 1928 127 O laboratório de São Paulo, reativado, posteriormente, por Lourenço Filho, tornou-se base para as cadeiras de Psicologia Educacional e de Psicologia Geral da futura Universidade de São Paulo. O laboratório organizado por Radecki, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, tornou-se base para a criação do Instituto de Psicologia, vinculado atualmente à Universidade Federal do Rio de Janeiro. E, por fim, o laboratório de Belo Horizonte constituiu uma contribuição fundamental para a formação de professores que passaram a lecionar na Universidade Federal de Minas Gerais (GOMES, 2003). O Laboratório de Psicologia Experimental de Lorena foi ampliado, modificado, acrescido de testes e outras práticas, pois, aquele modelo de psicologia alemã (sensorial) foi abandonado pelas próprias transformações da Psicologia, que foi se voltando mais para a análise experimental do comportamento. Diante disso, os equipamentos trazidos de Turim foram sendo, aos poucos, substituídos, guardados ou usados nos laboratórios de física e química, tornando-se obsoletos. Sobre o fim deste laboratório, Guedes (2010) relatou: Depois que eu saí, o padre Mariano ficou cuidando um pouco daqui. Depois de um tempo, abandonou. O padre Modesti recuperou e levou para Araras vários aparelhos. E depois disso a minha irmã da PUC (Maria do Carmo Guedes) teve contato com o padre Modesti e valorizou o laboratório da PUC de São Paulo que estava encostado também. Atualmente, estes equipamentos fazem parte de um museu itinerante sob a coordenação da Professora Maria do Carmo Guedes (PUC-SP), também interessada na história da Psicologia no Brasil Assim como no Laboratório de Psicologia Experimental de Lorena, os demais laboratórios, já implantados em anos anteriores, investiam em pesquisas que apoiavam a prática de grupos voltados aos problemas educacionais e de aprendizagem, ao oferecimento de atendimento clínico, ao campo da indústria, do trabalho, da organização e da seleção de pessoal. Em função das atividades desenvolvidas nestes laboratórios, surgiram muitos cursos de Psicologia. Vamos falar agora do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. 128 4 O CURSO DE PSICOLOGIA DA FACULDADE SALESIANA DE FILOSOFIA, CIÊNCIA E LETRAS DE LORENA Iniciando a escrita deste capítulo da tese e observando que o meu material decorria de documentos e entrevistas, recordei-me de um artigo43 lido durante o doutorado que me inspirou a intitular as subdivisões do capítulo em Escritos e Ditos. Assim, o primeiro item, denominado “Escritos”, foi organizado tendo como base documentos, atas de reunião, anais e anotações encontradas no CEDOC, na secretaria da Faculdade e nos arquivos da coordenação do Curso de Psicologia. Neste item, as informações sobre eventos, cursos, disciplinas foram apresentadas com o objetivo de compreender como as práticas “psi” relacionadas à Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena foram constituintes do Curso de Psicologia. Os documentos consultados foram os seguintes: Livro de Atas das Assembleias da Sociedade Civil da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1958-1987); Livro de Atas da Congregação da Faculdade I (1952-1970); Livro de Atas da Faculdade II (1971-1972); Livro de Atas do Departamento de Filosofia e Pedagogia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1960-1970); Livro de Registro de Atas dos Concursos de Habilitação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1952-1971); Livro de Atas das Reuniões de Estudos sobre a Reestruturação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1968); Livro de Atas das Reuniões do Conselho Técnico Administrativo da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (1952-1970); Livros de Registros de Matrículas (1952-1971); Regimentos Internos; Relatório da Faculdade Salesiana de 1953; Relatório da faculdade Salesiana de 1968; 43 O artigo em questão assim é apresentado: "Tomando por mote o título Ditos e Escritos sob o qual Defert e Ewald (1994) reuniram a quase totalidade da produção foucaultiana extra-livresca, apresentaremos primeiramente os registros em papel e tinta de que dispomos sobre as vicissitudes da estada do filósofo em Belo Horizonte. Em seguida, mediante entrevistas realizadas com alguns daqueles que com ele conviveram, a oralidade virá à cena" (RODRIGUES e PENZIM, 2011, p. 18). 129 Relatório para solicitação de autorização do curso de Psicologia em 1967; Relatório do Curso de Orientação Educacional de 1959. O segundo item, denominado “Ditos”, foi estruturado tendo como referências as entrevistas realizadas com sete pessoas que fizeram parte da constituição do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, de uma forma ou de outra, em momentos e contextos diferentes: Participante 1: Padre Antônio da Silva Ferreira: Primeiro diretor do curso de Psicologia na instituição. Estudou em Turim e defendeu ativamente a criação do curso. Participante 2: Padre Vicente Moreti Guedes: Primeiro coordenador do curso de Psicologia na instituição. Estudou em Turim, foi responsável pelo Laboratório de Psicologia Experimental e atuou como docente nos primeiros anos do curso. Participante 3: Irmã Olga de Sá: Professora da seção feminina. Psicóloga, licenciada em Filosofia e Pedagogia. Compunha o corpo docente no documento de solicitação de autorização de funcionamento do curso de Psicologia. Participante 4: Alda Patrícia Fernandes Nunes Rangel: Psicóloga formada na turma de 1973 (ANEXO A), foi professora da instituição desde 1972, quando ainda era aluna. Participante 5: Antônio de Andrade (ANEXO A): Psicólogo formado na turma de 1973. Participante 6: Antônia Cristina Peluso de Azevedo (ANEXO A): Psicóloga formada na turma de 1973, atuou como professora da instituição desde 1973, quando ainda era aluna. Participante 7: Maria José Urioste Rosso (ANEXO A): Psicóloga formada na turma de 1973. Foi professora do curso de Psicologia durante 25 anos. Os participantes foram primeiramente identificados e, após esclarecimentos sobre os objetivos da pesquisa e os procedimentos que seriam utilizados para a sua realização, foi agendada uma data para a entrevista. Todos aqueles que aceitaram o convite assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Devido à idade avançada do Padre Antônio Ferreira na época, a sua entrevista foi realizada com a colaboração do Padre Vicente Guedes, que o ajudou nas lembranças, na locomoção 130 até o local marcado e nas explicações. O participante Antônio de Andrade, por sua vez, após o agendamento da entrevista, informou não ter nada a acrescentar além do que estava publicado na página web de sua propriedade – www.editora- opcao.com.br – e autorizou o uso do material como fonte de pesquisa. As demais entrevistas foram feitas individualmente, após agendamento prévio. Com exceção da entrevista feita com a Irmã Olga de Sá, em que não houve gravação, as demais foram gravadas com a autorização dos participantes e, posteriormente, transcritas para a análise dos dados. Trata-se de uma técnica de investigação qualitativa, considerada uma forma de entrevista não estruturada, de profundidade, com características específicas. A Entrevista Narrativa foi usada nesta pesquisacomo instrumento (ou técnica) do método de História Oral. A entrevista processou-se por meio de quatro fases: começou com a iniciação, moveu-se por meio da narração e da fase do questionamento e terminou com a fase da fala conclusiva. O quadro abaixo sintetiza o conceito básico de Entrevista Narrativa e suas regras de procedimento: Quadro 6 – Fases principais da Entrevista Narrativa Fases Regras Preparação Exploração do campo; Formulação de questões exmanentes. 1. Iniciação Formulação do tópico inicial para narração; Emprego de auxílios visuais. 2. Narração central Não interromper; Somente encorajamento não verbal para a continuação da narração; Esperar pelos sinais de finalização. 3. Fase de perguntas Somente “Que aconteceu então?”; Não dar opiniões ou fazer perguntas sobre atitudes; Não discutir sobre contradições; Não fazer perguntas do tipo “por quê?”; Ir de perguntas exmanentes para imanentes. 4. Fase conclusiva Parar de gravar; São permitidas perguntas do tipo “por quê?”; Fazer anotações imediatamente depois da entrevista. Fonte: BAUER; GASKELL (2002, p. 97) Para a organização dos dados, utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo (AC) para a busca de sentido ou sentidos para as narrativas orais colhidas e transcritas. Para tanto, três pressupostos sugeridos por Franco (1986, p. 13) serviram de suporte à análise: (1) toda mensagem falada, escrita ou sensorial contém, potencialmente, uma grande quantidade de informações sobre seu autor; http://www.editora-opcao.com.br/ http://www.editora-opcao.com.br/ 131 (2) o produtor/autor é antes de tudo um selecionador, e essa seleção não é arbitrária; e (3) a “teoria” da qual o autor é expositor determina a sua concepção da realidade. Seguindo as orientações de Bardin (1977), as fases da AC organizaram- se em torno de três polos: a pré-análise, quando o material foi organizado, com o objetivo de operacionalizar e sistematizar as ideias, através de leituras das transcrições, organização do material e codificação; a exploração do material, quando o texto foi analisado, sistematicamente, a partir dos temas encontrados anteriormente; e, o tratamento dos resultados: a inferência e a interpretação, quando as unidades de análise foram trabalhadas com o objetivo de ressaltar as informações obtidas. O uso dos dois tipos de documentos, o escrito e o falado, permitiu-nos organizar este item em cinco temas centrais: 1) Masculino e Feminino: atravessamentos de gênero na Faculdade Salesiana de Lorena; 2) Que Psicologia? Uma psicologia conciliada à visão cristã; 3) A hegemonia da Psicologia Comportamental; 4) Uma ruptura: Franz Victor Rudio e a Formação Humanista; 5) Psicologia e Desenvolvimento Regional. 4.1 Escritos Consideramos que qualquer história do Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena deve iniciar-se muito antes da aprovação do funcionamento dos cursos de licenciatura e bacharelado em 1969, pois, no momento de sua criação, entre os argumentos e critérios considerados no processo de solicitação do curso ao MEC, destaca-se que o Curso de Psicologia era o término de um processo evolutivo, iniciado com o Laboratório, com as cadeiras de Psicologia e Psicologia da Educação, além dos serviços de psicologia já prestados pela instituição. A importância do Laboratório de Psicologia Experimental já foi apresentada no capítulo anterior. Em relação ao ensino de Psicologia nos cursos que existiam desde 1952, documentos mostram que as cadeiras Psicologia e Psicologia da Educação já existiam na formação de filósofos e em outros cursos oferecidos na Faculdade de 132 Filosofia de Ciências e Letras de Lorena. Os Anais da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras (1952-1964) destacam que, entre os cursos especiais e de extensão oferecidos neste período, foram realizados, em 1955 e 1956, um curso sobre a prática dos Testes Mentais e outro sobre Caracteriologia, cursos que se repetiram nos anos seguintes, com maior extensão e melhor resultado. De 15 a 28 de outubro de 1958 foi oferecido um curso sobre A Formação da Personalidade, com um número significativo de participantes: Pulicado o programa nos jornais de Lorena, Guará, Piquête, Taubaté e no Correio Paulistano da Capital, foi grande e inesperado o número de candidatos inscritos, sobretudo entre os professôres. Encerradas as inscrições, a lista acusava o total de 307. Entre estes notavam-se: Alunos universitários 102; Professôres primários 61; professores secundários 40; Militares 17; Funcionários 14; Seminaristas 32; várias profissões 15. Esta enumeração e o número de inscrições dão bem a entender o interêsse que despertou o curso, interêsse que prova que não andaram errados os Salesianos quando criaram a Faculdade para ser o centro de cultura para a região (sic, ANAIS 1952-1964, p. 44). Foram realizadas três conferências por dia sob a responsabilidade de professores da Faculdade. Padre Carlos Leôncio falou sobre “Conceitos de Personalidade” e “Educação da Personalidade”; Padre João Modesti expôs os métodos de “Investigação da Personalidade sob o ponto de vista biológico e psicológico”; Padre Antônio da Silva Ferreira deu lições teórico-práticas sobre aplicação de vários testes, aproveitando a aparelhagem do Laboratório de Psicologia; Irmã Maria Amélia Simões tratou da estruturação da dinâmica da personalidade e dos desvios nos vários setores da atividade humana. Outro fator importante na constituição do curso de Psicologia foi a criação, em 1957, do Curso de Orientação Educacional, que foi instituído pelo Conselho Técnico- Administrativo daquela Faculdade, ministrado pela cadeira de Psicologia Educacional. No ano seguinte, 1958, com o apoio do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais, e após a publicação da Portaria 105 pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), o Curso de Orientação Educacional estendeu-se, atendendo aos diversos profissionais da região nos anos posteriores, uma vez que aumentou o número de vagas. O Ofício de 08 de setembro de 1958, do Ministério da Educação e Cultura, assinado pelo Diretor do Ensino Secundário, Sr. Gildásio Amado, e endereçado ao diretor da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, solicitou à 133 Faculdade que se organizasse para oferecer, a partir de 1959, o curso de Orientação Educacional na região. Ofereceu, para isso, colaboração por meio de bolsas para professores que pudessem ministrar as disciplinas (ANEXO B). Junto a este ofício, estava a sugestão de disciplinas que já eram oferecidas em outros cursos de Orientação Educacionais em funcionamento nas Faculdades de Filosofia, entre as quais, Psicologia Geral Experimental, Psicologia Diferencial, Psicologia Evolutiva, Psicologia Educacional, Psicologia Social, Psicologia da Personalidade e Psicopatologia (ANEXO C). Em resposta ao Ofício, Padre Ferreira enviou o seguinte esclarecimento: [...] Em nossa Faculdade o curso de formação de Orientadores Educacionais, ou mais simplesmente o Curso de Orientação Educacional foi instituído pelo Conselho Técnico Administrativo no ano de 1957. A cadeira de Psicologia Educacional, a cargo do Revmo. Sr. Pe. Dr. João Modesti, ministrou então um curso sobre Orientação educacional dos Adolescentes e um curso sobre Orientação Profissional, da duração de um semestre cada um. Após este período preliminar de organização, após ter consultado por várias vezes a Diretoria do Ensino Superior sobre as modalidades do curso, entrou o mesmo em funcionamento regular no ano de 1958, tendo a matrícula atingido inicialmente o nível máximo de quarenta alunos, que é o limite estabelecido para esta Faculdade pelo Conselho Nacional de Educação (RESPOSTA AO OFÍCIO N º 7535). Enviou, ainda, informações sobre como o curso estava estruturado naquele momento, conforme quadro7: Quadro 7 - Disciplinas do Curso de Orientação Educacional em 1958 Disciplina Número de aulas anuais Docentes Teoria e Prática de Orientação Educacional e Profissional 96 Padre Antônio da Silva Ferreira. Doutor em Pedagogia – Especialização em Didática. Didática Geral 101 Padre Antônio da Silva Ferreira. Administração Escolar 76 Padre Walter Bini. Doutor em Filosofia – Especialização em Pedagogia. Estatística Educacional 51 Padre José Derntl. Licenciado em Matemática. Licenciado em Filosofia. Padre João Modesti. Doutor em Pedagogia – 134 Psicologia Educacional 151 Especialização em Psicologia. Ir. Maria Amélia Simões. Licenciada em Pedagogia e assistente da cadeira. Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena A oferta de cursos de Orientação Educacional pelas Faculdades de Filosofia nas décadas de 1950 e 1960 era resultado de um movimento para elevar o nível do ensino secundário, bem como difundi-lo. O aumento da demanda na educação média, considerada na época como uma via privilegiada para o ensino superior, era resultado do contexto político-econômico brasileiro naquele momento – nacionalismo econômico, ideologia desenvolvimentista, incremento da função econômica do Estado – associado à pressa de se modernizar, tudo com o objetivo de emancipação do Brasil. No entanto, o crescimento explosivo do ensino secundário levou à improvisação de professores e à queda da qualidade do ensino. Pinto (2013) diz que o corpo docente do ensino secundário era basicamente constituído por profissionais liberais (advogados, farmacêuticos, médicos, engenheiros), padres e normalistas. Foi nesta conjuntura sócio-econômica-educacional que o Presidente Getúlio Vargas criou, pelo decreto nº 34.638, de 17 de novembro de 1953, a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CADES), com a tarefa de qualificar o ensino secundário. Foi dentro deste contexto que a Faculdade de Filosofia de Lorena ofereceu, de 1957 até o início da década de 1970, o curso de Orientação Educacional. Tendo como base a cadeira de Psicologia da Educação, oferecia o seguinte programa de Psicologia Educacional em 1959: 135 Figuras 10 e 11 -Programa da disciplina Psicologia Educacional do curso de Orientação Educacional em 1959 136 Fonte: CEDOC – UNISAL/Lorena A Psicologia Educacional oferecida no curso de Orientação Educacional, em 1959, era ministrada com uma carga horária teórica de 151 aulas anuais pelo Padre João Modesti e pela Irmã Maria Amélia Simões. Pode-se perceber em seu conteúdo um enfoque importante na caracteriologia e nas técnicas de exames psicopedagógicos. Além das aulas teóricas, os alunos deviam aperfeiçoar o seu conhecimento em aulas práticas no Laboratório de Psicologia Experimental, cuja carga horária não é especificada no documento. Também em 1957, fez-se uma primeira tentativa de oferta de um curso de extensão universitária mais amplo, às quintas-feiras, durante dois meses entre os dias 14 de março e 23 de maio. O tema foi “A aprendizagem e seus problemas”, promovido em parceria com o Departamento de Educação do Estado. Foram inscritos alunos residentes em Lorena, Piquete, Cruzeiro, Guaratinguetá e Pindamonhangaba, entre eles, padres, diretores de grupos escolares, professores de curso médio, de curso primário e de curso pré-primário, universitários e outros profissionais. As aulas foram ministradas por Padre Antônio da Silva Ferreira e Irmã Olga de Sá. 137 O programa em suas linhas gerais: I- A Aprendizagem e seus problemas. II- Natureza da Aprendizagem. III- Leis da Aprendizagem. IV- Causas e fatôres da Aprendizagem. Mais: uma dissertação de natureza filosófica sôbre o problema da Natureza e do valor do conhecimento; a Existência da realidade exterior como algo distinto de nós (sic) (ANAIS 1952-1964, p. 46- 47). Entre 17 de março e 17 de junho de 1958, em colaboração com o CSEPE, um curso sobre a “Escola Nova” foi oferecido pelo Padre Antônio da Silva Ferreira. No ano seguinte, 1959, de 1 a 13 de junho, também em colaboração com o CSEPE, foi realizado um curso sobre a “Pedagogia de John Dewey”, tendo como docentes o Padre Antônio da Silva Ferreira, a Irmã Iracema Noemia Farina, a Irmã Maria José Salles Duarte e o Padre Ralph Mendes de Oliveira (da Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei – MG). O ensino de Psicologia na Faculdade de Filosofia de Lorena foi também discutido no Encontro de Professores de Psicologia, promovido pela Associação Brasileira de Escolas Superiores Católicas ocorrido em São Paulo, de 3 a 6 de julho de 1961. Este encontro teve como objetivo debater o ensino de Psicologia nas Escolas Superiores Católicas, bem como a identidade dos cursos de Psicologia a partir da discussão do Projeto nº 3852/58 que dispunha sobre os cursos de formação em Psicologia, e estava em tramitação na Câmara dos Deputados. A organização científica do evento selecionou os seguintes trabalhos, os quais foram apresentados e publicados, posteriormente, na Revista de Psicologia Normal e Patológica: 1- Psicologia moderna e Concepção Espiritualista do Homem (Relator: Padre Antônio Benkö – Correlatores: Madre Christina Maria e Newton Sucupira). 2- O Conceito de Normal em Psicologia e a Psicoterapia (Relator: Frei Walfredo Tepe – Correlatores: Enzo Azzi e Madre Christina Maria). 3- Aspectos Psicológicos da Vocação Religiosa e Sacerdotal (Relator: Theo Van Kolck – Correlatores: Padre Antônio Benkö e Frei Luis Maria Braga de Souza). 4- Leis do Comportamento, Inconsciente Psíquico e Liberdade (Relator: Monsenhor Luiz G. Sanches Santamaria – Correlatores: Leonardo Van Acker e Newton Sucupira). 5- Repercussão Psicológica da Culpa Moral (Relator: Padre José de Aragão Araújo – Correlatores: Monsenhor Benedito de Ulhôa Vieira e Bachir Aidar Jorge). 6- Psicoterapia e Educação (Relator: Dom Cândido Padin – Correlator: Yone Galeotti). 138 7- Psicoterapia de Grupo e Respeito à Personalidade (Relator: Padre Malomar L. Edelweis – Correlator: Monsenhor Benedito Ulhôa Vieira). 8- Vivência Religiosa e Estrutura da Personalidade (Relator: Bachir Aidar Jorge – Correlatores: Padre Alberto A. Andery e Dom Cândido Padin). 9- Posição da Psicologia nos Cursos da Faculdade de Filosofia (Relator: Padre Antônio da Silva Ferreira – Correlatores: Newton Sucupira e Irmão Henrique Fausto). A par destes textos, optamos por nos dedicar ao texto de Ferreira pelo fato de ele se referir à situação da Psicologia na Faculdade de Filosofia. Assim, Ferreira (1961, p. 748) escreve que “a situação de fato” é: [...] a Psicologia objeto de estudo de duas cadeiras distintas: a cadeira de Psicologia e a cadeira de Psicologia Educacional. A disciplina é estudada por todos os alunos da Faculdade de Filosofia no curso de Didática, como disciplina complementar da formação de professores. Os alunos do curso de Filosofia têm três anos de Psicologia no curso de Bacharelado, mais um ano de Psicologia Educacional no curso de Didática. Os alunos da seção de Pedagogia têm três ou quatro anos de Psicologia Educacional. Igualmente é exigido o estudo da Psicologia por parte de todos os alunos do curso de Orientação Educacional. [...] A quase totalidade das Faculdades carece de Laboratórios e de recursos para um ensino mais objetivo e prático da matéria. Isso leva o ensino da Psicologia a ser prevalentemente livresco. [...] Apenas cá e acolá se encontra a preocupação de formar técnicos em Psicologia (FERREIRA, 1961, p. 749). Ao apresentar “a situação ideal”, Ferreira (1961) sugere a criação de Institutos de Psicologia e propõe que estes institutos contribuam com os trabalhos da Faculdade de Filosofia. Além disso, reitera a necessidade do emprego de laboratórios, questionários, entrevistas e outros meiospara que os cursos de Psicologia se tornassem mais práticos. Finalmente, destaca que seria uma situação ideal se as cadeiras de Psicologia auxiliassem os candidatos a vestibulares quanto ao problema da escolha de um curso, instituindo, assim, um eficiente Serviço de Orientação Vocacional. Sobre a importância da formação de técnicos em Psicologia ser confiada a um curso de Psicologia, a ser criado nas Faculdades de Filosofia, escreve: Nem se poderia pedir ao Curso de Filosofia que formasse técnicos em psicologia experimental. Do contrário o curso de Filosofia ficaria desequilibrado e fora de seu eixo que é a finalidade principal: formar filósofos e professores de filosofia, dar a seus alunos uma visão racional em profundidade da realidade toda (FERREIRA, 1961, p. 750-751). 139 Discutem, a seguir, o Projeto nº 3852/58 que estava em tramitação na Câmara dos Deputados, e que, como dissemos, dispunha sobre os cursos de formação em Psicologia. Após fazer uma crítica à proposta de formação nos níveis de Bacharelado, Licenciatura e Curso de Psicólogo apresentada no Projeto, Ferreira (1961) expôs, para discussão do plenário, uma mudança na organização dos cursos de Psicologia. O artigo não apresentou as discussões e encaminhamentos sugeridos a partir da proposta apresentada por ele, no entanto, percebe-se uma semelhança muito grande entre a sua proposta e a organização do curso de Psicologia que, anos mais tarde, foi aprovado em Lorena, na Instituição que ele representou neste evento. Bernardes (2004), analisando documentos relacionados à regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil, entende que, até 1962, os principais documentos foram os seguintes: a) em primeiro lugar, o documento mais antigo encontrado foi a formulação de um curso de Psicologia no Brasil elaborado por Waclaw Radecki, em 1932. Alguns autores, entre eles Centofanti (1982), consideram este documento a principal matriz da formação dos psicólogos no país; b) em 1953, a Associação Brasileira de Psicotécnica (ABP) que congregava a maioria dos psicologistas do país, apresentou um anteprojeto de lei que dispunha sobre o curso de Psicologia e cursos de psicotécnica, solicitando, assim, um exame do problema da regulamentação da profissão de psicologista, assim como a formação regular de profissionais nesse gênero; c) o documento seguinte foi o Projeto de Lei nº 3.825-A, de 1958. Para Bernardes (2004) “esse documento pode ser considerado um incidente crítico, à medida que consegue reunir várias entidades profissionais, transformando lutas internas da Psicologia em lutas externas corporativas” (p. 126-127). Este projeto de lei dispunha sobre os cursos de formação em psicologia e a regulamentação da profissão; d) no entanto, somente em 1962 que a Lei nº 4.119 foi promulgada, regulamentando os cursos de Psicologia nas Faculdades de Filosofia, em cursos de Bacharelado, Licenciatura e Psicólogo. O artigo 21 da Lei nº 4.119 abriu brechas importantes para que muitas pessoas solicitassem o registro profissional de Psicólogo: 140 Art 21 – As pessoas que, na data da publicação desta lei, já venham exercendo ou tenham exercido, por mais de cinco anos, atividades profissionais de Psicologia Aplicada, deverão requerer no prazo de 180 dias, após a publicação desta lei, registro profissional de Psicólogo. Profissionais que haviam se formado em cursos de Orientação Educacional e Psicologia Educacional e que trabalhavam nestas áreas solicitaram e obtiveram o registro profissional. Em Lorena, onde já se oferecia o curso de Orientação Educacional desde 1957 e, posteriormente, a especialização em Psicologia Educacional, alguns profissionais tiveram suas solicitações aceitas e o registro profissional concedido, como é o caso do Padre Vicente Moreti Guedes e de outros padres da Faculdade de Lorena. O decreto n. 53.464 de 21/01/64, que regulamenta a lei 4119, confirmou esta possibilidade no artigo 2º, sobre quem poderia exercer a profissão de Psicólogo: “as pessoas que, até o dia 5 de setembro de 1962, já tenham exercido por mais de cinco anos, atividades profissionais de Psicologia Aplicada”. Além da prática, Padre Guedes também tinha publicação, tinha experiência docente em Psicologia e fez cursos de especialização na área em São João del Rei e na PUC-SP. Nem todos os cursos oferecidos eram estritamente relacionados à Psicologia. Por exemplo, em 1964, entre 21 e 25 de setembro, foi realizado um curso de Parapsicologia, com conferências diárias do Padre Oscar Gonzales Quevedo44. Na época, Padre Quevedo era membro de honra do Instituto de Investigações Parapsicológicas de Córdoba, na Espanha; do Instituto de Parapsicologia do Rio de Janeiro e da Sociedade de Ilusionismo. O curso fartamente anunciado recolheu uma grande multidão de aderentes não só de Lorena mas das localidades circunvizinhas, com inscrição prévia a pagamento e com direito ao certificado de frequência. O grande número de ouvintes, mais de 500, superando a capacidade do Auditório da Faculdade, foi acolhido no grande Auditório do contíguo Colégio S. Joaquim. As conferências, algumas das quais com experiências concretas, eram feitas a começar das 19 horas e versavam sôbre fenômenos de hiperestesia, de pantonésia, xenoglossia – sôbre os fenômenos de conhecimento denominados psigamma e psicappa – fenômenos de precognição, de visão a distância. Tratou também de fenômenos de bruxarias e feitiços, adivinhações, sonhos e pressupostas mensagens do Além (sic) (ANAIS 1952-1964, p. 49). 44 Padre jesuíta espanhol radicado no Brasil desde a década de 1950. Professor universitário de parapsicologia e membro do Centro Latino-Americano de Parapsicologia (CLAP), formado na Faculdade de Comillas, na Espanha, doutor em Teologia formado na Faculdade de Nossa Senhora de Assunção, em São Paulo. http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Padre http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Brasil http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Decada-de-1950 http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Parapsicologia http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Centro-Latino-Americano-de-Parapsicologia http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Faculdade-de-Comillas http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Teologia 141 Ainda em 1964, de 3 de outubro a 14 de novembro, foram oferecidas conferências, aos sábados sobre a Criança Excepcional e o Adolescente Problema, proferidas pela professora Jessy Gomes Reis45, professora Emília de Melo Ribeiro46, senhora Consuelo Pinheiro47, Olivia Pereira48, Lucia Bentes49, professor Pedro Ferreira50, e, Daniel Antipoff51. É possível perceber a preocupação dos padres em convidar pessoas reconhecidas na época por sua prática e que estavam inseridas em importantes instituições ligadas ao tema das conferências. Já com a profissão regulamentada, verificamos que, em 1965, diversas disciplinas relacionadas ao ensino de Psicologia eram oferecidas nos diversos cursos da Faculdade de Filosofia de Lorena, conforme apresentado no quadro 8: Quadro 8: Currículos Seriados da FSFCLL Curso Disciplinas Filosofia – Currículo Eclético 52 1ª série – Psicologia Experimental Geral 2ª série – Psicologia Metafísica e Psicologia Experimental Geral 4ª série – Psicologia da educação Filosofia – Especialidade em Ciências Sociais 1ª série – Psicologia Experimental Geral 2ª série – Psicologia Metafísica 3ª série – Psicologia Social 4ª série – Psicologia da Educação Filosofia – Especialidade em Ciências Naturais 2ª série – Psicologia Metafísica 3ª série - Psicologia Experimental Geral 4ª série – Psicologia da Educação Geografia 4ª série – Psicologia da Educação 45 Assistente da cadeira de Neurologia e Higiene Mental da Faculdade Paulista de Medicina. 46 Professora e psicóloga do ISOP. 47 Diretora das APAES do Brasil. 48 Chefedas Oficinas Dirigidas da Pestalozzi. 49 Professora de Psicoterapia e Foniatria da Pestalozzi. 50 Professor do Instituto de Educação da Guanabara. 51 Chefe da Divisão de Alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) onde exercia funções de psicólogo no atendimento terapêutico aos alunos dos cursos de engenharia ali ministrados. Filho da educadora e psicóloga russa Helena Antipoff e do jornalista e escritor russo Viktor Iretzky. 52 Currículo voltado para uma Filosofia mais preocupada em dar respostas de caráter espiritualista à problemática do homem. 142 História 3ª série – Psicologia da Educação Letras 3ª série – Psicologia da Educação Pedagogia – Especialidade em Psicologia da Educação 1ª série - Psicologia Experimental Geral e Técnicas de Exames Psicopedagógicos 2ª série – Psicologia da Educação e Técnicas de Exames Psicopedagógicos 3ª série – Psicologia da Educação, Técnicas de Exames Psicopedagógicos e Dinâmica de Personalidade 4ª série – Psicologia da Educação e Técnicas de Exames Psicopedagógicos Pedagogia – Especialidade em Sociologia da Educação 1ª série - Psicologia Experimental Geral e Técnicas de Exames Psicopedagógicos 2ª série – Psicologia da Educação 3ª série – Psicologia da Educação e Psicologia Social 4ª série – Psicologia da Educação Fonte: Folhas Pedagógicas, nº 12, 12/10/1965 A criação do Instituto de Psicologia em 1965 foi mais um passo importante para a futura autorização de funcionamento do curso de Psicologia. O Laboratório de Psicologia Experimental já oferecia oportunidade de estágio aos alunos de Pedagogia e de especialização em Psicologia da Educação e, a partir de 1965, com a criação do Instituto, os serviços psicológicos à comunidade, nas áreas de orientação educacional e vocacional, de clínica (em casos esporádicos orientados por especialistas de São Paulo) e de seleção de pessoal, especialmente para as Indústrias Químicas Mantiqueira, foram intensificados. Ferraz (2011, p. 303), destaca que “apenas para confirmação estatística, em 1965 foram atendidos 54 casos pelo Laboratório de Psicologia. Em 1966, o Instituto de Psicologia atendeu 59 casos, e no ano de 1967 já haviam passado pelo Instituto 158 casos”. O Instituto de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena era uma referência no Vale do Paraíba, pois, além dos cursos de Psicologia mais próximos estarem localizados apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, este instituto oferecia variados atendimentos em toda a região, de Resende, no Estado do Rio de Janeiro, a São José dos Campos, no Vale do Paraíba Paulista. Como já foi dito anteriormente, além das Indústrias Químicas Mantiqueira, serviços de seleção eram oferecidos à GM, EMBRAER e outras 143 empresas da região. Também eram feitas atividades de orientação educacional em diversas escolas da região: Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Aparecida e Taubaté. Em 1968, o Relatório da Faculdade Salesiana apresentou as disciplinas de Psicologia que eram oferecidas nos diversos cursos, assim como suas ementas (ANEXO D). Dentre elas, Psicologia da Aprendizagem, Psicologia Evolutiva, Psicologia Filosófica, Psicologia da Educação, Psicologia, Psicologia Geral, Medidas e Testes, Psicologia da Educação e do Desenvolvimento, Psicologia da Personalidade e Testes. Estas disciplinas eram oferecidas neste ano nos cursos de licenciatura e, em especial, no curso de Filosofia – especialidade em Psicologia. A grande carga horária de Psicologia neste curso estava relacionada à possibilidade de autorização de funcionamento do Curso de Psicologia solicitada em 1967. Em agosto de 1968, o Relatório da Biblioteca apresentou uma relação das obras existentes em seu acervo, apresentando o número de 600 títulos de Psicologia. Este número era maior do que os apresentados na área de Didática, Pedagogia e História da Educação, o que mostra a importância do tema na faculdade e indica o interesse dos salesianos na aprovação do funcionamento do curso solicitada no ano anterior. Em 1971, em relatório para solicitação de reconhecimento dos cursos de licenciatura e bacharelado e autorização do curso de formação de Psicólogo, os dados mostram que já havia 1.026 títulos de Psicologia na biblioteca. Um crescimento considerável em apenas três anos, conforme figura 12: 144 Figura 12 - Quantitativo de títulos, por obra, existentes na Biblioteca da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, 1968. Fonte: Relatório da Biblioteca de 1968. De acordo com o Parecer nº 124/69, aprovado em 14 de fevereiro de 1969, a autorização para o funcionamento do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana foi solicitada em 05 de maio de 1967. A comissão verificadora designada apresentou dois relatórios distintos com pareceres favoráveis: um do perito Professor Antônio Gomes Penna, psicólogo, titular de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e então diretor do Instituto de Psicologia daquela universidade; e, outro, 145 assinado pelos outros dois membros da comissão, os Inspetores de Ensino Eugênio Marcondes Rocha e Renato Ferreira. Os dados do relatório apresentado pela instituição solicitando a autorização do curso, e analisado pelos pareceristas em 1969, mostram a seguinte condição regional como justificativa para a instalação do curso na cidade de Lorena: I- Condições Regionais – O município de Lorena contava, em 1967, com 34.488 habitantes, dos quais 30.000 localizados na área urbana. Nêsse ano, havia 62 unidades escolares de nível primário, com matrícula superior a 7.000 alunos, 4 estabelecimentos de nível médio com 2.600 matrículas, além de 80 alunos no curso agrícola. O único estabelecimento de ensino superior, aí existente até agora, é a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, que é a requerente. Em São Paulo, só há Curso de Psicologia na Capital, em Campinas e Ribeirão Prêto, não obstante haver, no Estado, 28 faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. A região merece, assim, mais cursos de Psicologia (PARECER nº 124/69). Sobre a conveniência do curso, pode-se ler: IV- Conveniência do Curso – Cada vez mais a Administração Escolar apela para serviços psicológicos, para bem organizar o sistema e escolas. O processo de seleção de alunos, a sua classificação, as bases para avaliação do rendimento do ensino, são fundamentadas nos serviços de Psicologia. Isso sem falar nos demais aspectos da aplicação da Psicologia no ordenamento da vida em geral (PARECER nº 124/69). Lourenço Filho, um dos pareceristas do documento de 1969, além de concordar com o relatório da comissão verificadora nomeada em 1967, destacou que a Faculdade de Lorena possuía “um dos melhores laboratórios de Psicologia do Brasil, criado em 1954 e continuamente aperfeiçoado”. Segundo ele, naquele laboratório já haviam sido atendidos mais de mil casos, todos fichados, constituindo- se, realmente, numa Clínica Psicológica. A organização do curso previa 1.200 horas de estágio no Laboratório de Psicologia. O Laboratório de Psicologia foi assim descrito no Parecer: O Laboratório de Psicologia está instalado numa sala de 72 m², e provido de 105 elementos, que vêm relacionados no processo. É de notar-se o cuidado da faculdade requerente quanto ao seu Laboratório de Psicologia, condição indispensável a um ensino atualizado da ciência em questão. Além dos numerosos aparelhos para estudo da Psicologia Experimental, o Laboratório também dispõe de numerosos testes e baterias de testes, para estudos de campos determinados da Psicologia. [...] Aliás, é de notar-se que a criação, agora, do Curso de Psicologia, solicitado pela requerente, foi precedida pela instalação do laboratório de Psicologia na mesma Faculdade, em 1954, e 146 pela posterior criação do instituto dePsicologia, anexo à Faculdade (PARECER nº 491/69. O grifo é nosso). O relator acrescentou, ainda, que vários cursos de extensão sobre Psicologia já haviam sido organizados na Faculdade e que já era ministrado, regularmente, o ensino de Psicologia em seus cursos de Filosofia e Pedagogia. Naquele ano, a biblioteca já possuía um acervo de 20.000 obras, além de numerosas revistas e boletins. Destes livros, mais de 1.000 tratavam, exclusivamente, de Psicologia. O corpo docente53 titular encaminhado para avaliação era assim composto: Quadro 9 - Lista do corpo docente enviada em Relatório para solicitação de autorização do Curso de Psicologia, 1967 Docente Disciplinas Antônio de Tolosa Biologia e Fisiologia Ewerton Rocha Creado Estatística José Pinto Antunes 54 Psicologia Geral e Experimental João Modesti Psicologia do Desenvolvimento Vicente de Paulo Moretti Guedes Psicologia da Personalidade e Psicopatologia Faduca Sayeg Sebe 55 Psicopatologia Geral Olga de Sá Psicologia do Desenvolvimento Fausto Santa Catarina Psicologia Social José Gonçalves da Silva 56 Psicologia Social Benedito Eliseu Leite Cintra 57 Filosofia Walter Bini Administração escolar Fonte: Parecer 124/69 53 Conseguimos informações biográficas sobre alguns membros deste corpo docente inicial, no entanto, informações sobre outros não foram encontradas em nenhum registro da Secretaria ou do Departamento de Recursos Humanos. 54 Nasceu em Lorena em 1906. Bacharel em Direito em 1928 pela Faculdade de Direito de São Paulo. Cursou simultaneamente a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, agregada, à época, à Universidade de Louvain, tendo se graduado em Filosofia em 1926. Foi professor titular da Cadeira de Psicologia Racional, na seção de Filosofia a partir de 1956, na Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. 55 Psicóloga Profissional registrada sob o nº 06/946. Licenciada em Pedagogia. Curso prático de Laboratório de Psicologia, na Faculdade requerente (Faculdade Salesiana de Lorena), de 1954 a 1956. Cursos sobre “Psicodiagnóstico Miocinético” e “Teste de Zulliger”, no Instituto de Psicologia Clínica, Educacional e Profissional do Rio de Janeiro, em 1967. Curso de Aperfeiçoamento em “Teoria e Técnicas Psicoterápicas”, na PUC do Rio de Janeiro, em 1965. Curso de Aperfeiçoamento, idem, em “Pedagogia Terapêutica”, em 1965 (PARECER Nº 491/69, C. E. Su., APROVADO EM 10/06/1969). 56 Doutor em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia do Pontifício Ateneu Salesiano de Turim, Itália, em 1952. Licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma (PARECER Nº 491/69, C. E. Su., APROVADO EM 10/06/1969). 57 Bacharel e licenciado em Filosofia pelo Pontifício Ateneu Salesiano de Turim, Itália. 147 Em 1971, após dois anos de funcionamento do curso, o diretor da Faculdade Salesiana requereu o reconhecimento do Curso de Psicologia (bacharelado e licenciatura) e a autorização para o funcionamento do Curso de Psicologia (Formação de Psicólogo). O MEC designou como peritas as professoras Creusa Capalbo e Yolanda Maia Lisbona para verificarem as condições do Curso de Psicologia em funcionamento na instituição. Naquela ocasião, o curso possuía, para a parte experimental e de estágio, a Clínica Psicológica que era destinada à análise experimental do comportamento; o Biotério, com capacidade para oitenta cobaias; e o Laboratório de Psicologia. Para a prática de ensino, a Faculdade mantinha um convênio com o Instituto N. S. Auxiliadora, na cidade de Cruzeiro – SP; para o estágio supervisionado, além da Clínica Psicológica, também havia convênio com o Instituto de Orientação e Psicologia de Taubaté – SP. O corpo docente era assim composto: Quadro 10 - Lista do corpo docente enviada em Relatório para solicitação de reconhecimento da licenciatura e bacharelado e autorização para Formação de Psicólogos Docente Disciplinas Benedito Eliseu Leite Cintra Filosofia Fausto Santa Catarina Psicologia Educacional e Psicologia Social Ewerton Rocha Creado Estatística Carlos Reinaldo Nolharanzeli 58 Educação Física José Gonçalves da Silva Metodologia Científica, Psicologia Social, Sociologia Geral e Especial Vicente de Paulo Moretti Guedes Técnicas de Exame e Aconselhamento Pedagógico e Psicologia da Personalidade Dayse Maria Motta Borges 59 Psicologia Geral e Experimental Benedito Jorge Filho 60 Psicologia Industrial, Seleção e Orientação Profissional Maria Beatriz Simões Rouco da Costa 61 Psicologia do Excepcional e Psicopatologia Antônio de Tolosa Biologia e Fisiologia 58 Licenciado em Educação Física. 59 Licenciada em Psicologia e Psicóloga pela Universidade Católica de Campinas. 60 Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mogi das Cruzes. Foi professor de Psicologia Geral, Psicologia Educacional e Psicologia Social no Centro Técnico Aeroespacial (CTA) de São José dos Campos – SP. 61 Psicóloga, Licenciada em Psicologia e pós-graduada em Psicologia (área de concentração: Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo. 148 Mariano Stacieski 62 Psicologia Geral e Psicologia Educacional Hugo Veronese 63 Técnicas de Exame e Aconselhamento Psicológico e Teorias e Técnicas Psicoterápicas Jayra da Cruz Paixão Psicologia Geral Leandro Rossa 64 Psicologia e Cultura Religiosa Walter Bini 65 Ética profissional, Filosofia e Antropologia Filosófica Alberto Abib Anderyo Técnicas de Exame e Aconselhamento Psicológico, Psicologia e Cultura religiosa João Modesti Psicologia geral e Experimental, Pedagogia terapêutica e Psicologia do Excepcional Olga de Sá Psicologia do Desenvolvimento Manoel Isaú 66 Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º grau, Estrutura e Funcionamento do Ensino do 2º grau e Estrutura e Funcionamento do Ensino Superior Faduca Sayeg Sebe Psicopatologia Maria Luiza Urban de Castro 67 Pedagogia Terapêutica e Psicologia do Excepcional Luiz Geraldo Toledo Machado 68 Estudo de Problemas Brasileiros Antônio da Silva Ferreira Didática e Prática de Ensino Mário Bonatti 69 Antropologia Cultural Fonte: Parecer nº 280/1972 62 Bacharel e Licenciado em Pedagogia e Licenciado em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Pós-graduação em Orientação Educacional. 63 Licenciado em Pedagogia pela PUC do Rio de Janeiro. Fez Formação Psiquiátrica na Clínica Psicológica da PUC de São Paulo e especialização em Psicologia Clínica na mesma instituição. 64 Bacharel em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Licenciado em Filosofia e Pedagogia pelo Pontifício Ateneu Salesiano de Roma. 65 Bacharel em Filosofia, especialista em Pedagogia e Psicologia Experimental pelo Pontifício Ateneu Salesiano de Turim – Itália. Licenciado em Teologia pela PUC de São Paulo. Cursou Pedagogia e Filosofia no Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia de Lorena. 66 Licenciado em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia do Crato – CE. Licenciado em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. 67 Psicóloga e Licenciada em Psicologia pela Universidade Católica de Campinas. 68 Licenciado e Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. 69 Bacharel e licenciado em Letras pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Bacharel em Filosofia pelo Pontifício Ateneu Salesiano de Roma. 149 4.2 Ditos As entrevistas também confirmam que a constituição do curso iniciou-se muito antes de 1969, conforme relata Guedes: O curso de Psicologia da faculdade foi uma iniciativa do Padre Antônio Carlos Ferreiraque aqui já trabalhava há anos na área de Pedagogia e Psicologia. É, porém, consequência de um longo trabalho iniciado pelo Padre João Modesti, também psicólogo, que trouxe para o Brasil, após formar-se na Europa, o Laboratório de Psicologia Experimental. A seguir, com o desenvolvimento da Faculdade Salesiana, que já possuía vários cursos desde 1952 [...] iniciou com os cursos de Pedagogia, Letras, Geografia e História e, com isso, desenvolveu muito o lado pedagógico e psicopedagógico (GUEDES, 2013). O resultado da análise das entrevistas, como dito antes, foi a organização deste item em cinco temas que permearam “os ditos” de todos os participantes desta pesquisa e que serão apresentados a seguir. 4.2.1 Masculino e Feminino: atravessamentos de gênero na Faculdade Salesiana de Lorena Pois o homem não deve ter a cabeça coberta, visto ser imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não procede da mulher, mas a mulher do homem; e, ainda mais, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem I Corintios 11: 7-9. Toledo (2003) afirma que a Faculdade Salesiana de Lorena nasceu como uma instituição de caráter privado e católico, a partir de um projeto formulado no bojo do processo de romanização. Além disso, seus esforços tendiam a acompanhar o processo conservador, seletivo e excludente que caracterizava o sistema educacional brasileiro: “os salesianos, em seu movimento educacional, buscavam a disciplina moral, o rigor intelectual e total afinidade com os superiores da ordem e com o Vaticano” (TOLEDO, 2003, p. 63). Atestando esta ideia, Passos Junior (2011) assim descreve a criação da faculdade: 150 A faculdade nasce como um seminário reconhecido, como atesta o artigo 153 que reza: os alunos eram ‘do sexo masculino e em regime de internato, cabendo somente ao diretor abrir exceção a este dispositivo’. Tinha-se o paradoxo da existência de um curso de ensino superior interno e masculino com 80% dos professores sendo padres e mantendo-se a estrutura de seminário. A sociedade local começa desde o início a exigir vagas, sendo os superiores obrigados a admitir leigos denominados externos e que devem se submeter ao estilo seminarístico da faculdade. Exige-se também a presença feminina – inconcebível então dentro dos rígidos padrões de uma igreja romanizada – o que é solucionado com a criação da faculdade feminina (PASSOS JUNIOR, 2011, p. 135). Este modelo de funcionamento perdurou por muitos anos, com poucas experiências de aulas mistas, até o ano de 1969, com a autorização de funcionamento do curso de Psicologia. Não é de se admirar que, após tantos anos de uma formação completamente isolada do mundo, apesar da presença dos alunos externos (não seminaristas), a presença feminina causasse incômodo na instituição. As alunas da primeira turma do curso relataram este estranhamento inicial: Eles tiveram que se adaptar a nós e nós a eles. Porque, por exemplo, coisas simples que em qualquer lugar você encontra, aqui não tinha. [...] aqui não tinha espelho nos banheiros. Um negócio que para a mulher é importante, né? [...] O banheiro era masculino, tinha mictórios. [...] Tinham uns padres que estranhavam a gente, pelo menos os mais velhinhos. Tinha um padre, que era francês, se não me engano, ele via a gente e saía batendo o pé, e virava, bravo, como se pensasse: “O que vocês estão fazendo aqui?” (ROSSO, 2013). Outras alunas que vinham da “seção feminina” também se referem às acomodações inadequadas: Então nós descemos lá para a faculdade e as acomodações, tirando as salas de aula, como por exemplo os sanitários, pela primeira vez na vida nós vimos o tal mictório que é um banheiro para homens e eles começaram a fazer as adaptações.[...] E nós fomos muito revoltadas. Porque o Santa Teresa era um brinco, uma limpeza, uma organização. Você vai para um prédio que foi usado a vida inteira como internato, sala adaptada, entra no banheiro e tem mictório! Nós ficamos chocadíssimas. Tinha um padre que não podia ver mulher lá que batia o pé, que dizia que mulher era o diabo, a gente morria de medo dele. [...] Mulher era satanás vestido de saia. (RANGEL, 2013). A forma como os padres mais antigos lidavam com a presença feminina também é destacada pelas entrevistadas, quando eram relacionadas ao “satanás vestido de saia”. 151 Nós sofríamos uma certa pressão, tipo, que espaços nós podemos ocupar, lugares que a gente não podia entrar. Nós tínhamos padres na época, com aquelas vestes até o chão, padres antigos, lá pela faixa dos 80, 85 anos de idade. E quando a gente entrava em uma biblioteca para pesquisar, eles saíam correndo atrás da gente, tocavam a gente de lá. Eles tiveram que ser retirados de Lorena e colocados em outra casa salesiana, porque na cabeça deles não cabiam mulheres aqui dentro. (PELUSO, 2010). Esta reação é compreensível se levarmos em consideração a história da instituição, que funcionava, desde 1895, baseada no modelo tridentino de seminário. Desde o Concílio de Trento, realizado no século XVI, o seminário foi o modelo mais utilizado pela igreja na formação de seus agentes. Essas casas de formação recebiam meninos de 10 a 11 anos de idade, mantendo-os em regime de internato, afastados da família e do mundo, sob a supervisão de superiores, responsáveis por sua formação intelectual, moral e espiritual. A disciplina era extremamente rígida para garantir a boa formação do caráter destes meninos. Todas as horas do dia eram preenchidas com atividades de oração, meditação, missa, refeições, aulas, recreios, esportes, estudos, trabalhos, todas realizadas em conjunto, sem ultrapassar os muros do seminário (PASSOS JUNIOR, 2011). Este modelo de seminário vigorou até o início da década de 1960, quando se realizou o Concílio Vaticano II. Foi neste período de mudanças que a Faculdade Salesiana de Lorena foi criada, aberta aos alunos externos do sexo masculino e, no final da década, recebendo as primeiras mulheres do curso de Psicologia. A presença feminina era, até então, inconcebível dentro dos rígidos padrões adotados por esta instituição católica. No entanto, vale ressaltar que, a partir dos anos 1960, anos de efervescência cultural em todo o mundo, a reivindicação feminina por igualdade política e econômica estava presente nos discursos feministas. O desejo de construir uma nova sociedade, sem tabus e preconceitos, juntamente com o direito à liberdade sexual foram as tônicas da época. A pílula anticoncepcional e a possibilidade de poder optar por ter ou não filhos, de planejar a maternidade, teve um importante significado para as mulheres. Um dos seus reflexos é a maior participação feminina no mercado de trabalho, bem como o aumento de sua presença em universidades, na política e no cenário cultural. Lorena, apesar de ser uma cidade do interior e com um perfil mais agrícola do que industrial, também foi sede deste debate, o que pode ter viabilizado a maior inserção destas mulheres no ensino superior. 152 Mas não foi somente com a criação do curso de Psicologia que este confronto foi estabelecido. Como já visto anteriormente nesta pesquisa, os embates foram iniciados em 1954 quando, atendendo às solicitações da sociedade, os padres trouxeram irmãs para cuidarem de uma seção feminina que pudesse acolher a demanda de mulheres interessadas em cursar o ensino superior. Ferreira (2013) contou que Depois a sociedade queria aproveitar a faculdade também, então, à noite, se abriu uma seção para os rapazes. E as meninas, ficavam de fora? Não. Aí começou a pressão em cima do Padre Leôncio para que abrisse uma seção feminina. Então havia a seção masculina que era orientada pelo pessoal do seminário, e havia a seção feminina que as nossas irmãs, que queriam fazer uma faculdade, mas não podiam porque havia resistência,e elas não conseguiram ter uma faculdade delas, então aderiram e cuidaram da seção feminina da faculdade. Ferreira (2013) ainda justifica esta separação dizendo que “havia a imposição da instituição, mas a sociedade também exigia que houvesse essa separação. Daí vocês podem imaginar a que tipo de sociedade nós servíamos, não é?”. Muitas destas alunas pertenciam às famílias tradicionais da região que não permitiam que suas filhas estudassem em outras cidades e morassem longe de casa. Peluso (2010) fala sobre isso: “Eu venho de uma família mineira meio rígida, daquela época em que as meninas não estudavam fora, sempre do lado dos pais. Então eu estava aguardando a chance de aparecer um curso na região para eu poder fazer”. Esta fala nos apresenta uma contradição entre a tradição e o desejo da modernidade quando se trata da permanência da mulher sob a proteção familiar e, ao mesmo tempo, o desejo de inserção no ensino superior. Mesmo com a criação das duas seções, masculina e feminina, os confrontos continuaram, pois as irmãs deveriam submeter-se à administração dos padres, sendo assistentes das disciplinas ainda que tivessem uma formação mais adequada que a dos padres ou dos professores leigos. Além disso, eram consideradas progressistas demais. Exemplos já mencionados anteriormente demonstram essa característica das irmãs: o posicionamento político, os debates no cine clube, a criação de cursos mistos na seção feminina muito antes da criação do curso de Psicologia. A aprovação do curso de Psicologia e a decisão a respeito do local onde ele funcionaria intensificou o estranhamento entre padres e freiras. As freiras já ofereciam, na seção feminina, os seguintes cursos: Filosofia, Filosofia com Sociologia, Filosofia com Ciências e, quando a administração da Faculdade, sob a 153 responsabilidade da seção masculina, fez a solicitação de funcionamento do curso de Psicologia em 1967, ofereceram Filosofia com Psicologia enquanto aguardavam a resposta, que demorou dois anos. Rangel (2013) relata que [...] houve nessa época um estranhamento muito grande entre as freiras salesianas e os padres salesianos. Nós não participamos a fundo da questão, nunca assistimos nenhuma reunião e nada, mas sabemos que foi algo traumático, que até hoje essa é uma história ressentida nas pessoas que estavam aqui na época. As freiras até hoje se sentem roubadas desse curso. Com freiras e padres querendo abrigar o curso, os padres decidiram que o curso funcionaria na seção masculina, pois, naquele momento, não fazia sentido ter um curso de Psicologia masculino e outro feminino ou misto. Em documento enviado à Faculdade Salesiana, o MEC questionou como seria possível um curso de Psicologia feminino e outro masculino, complementando que esta divisão não fazia sentido. Ferreira (2013) considerava que “o curso de Psicologia era uma espécie de bandeira avançada dentro da faculdade. E apresentava toda uma linha de pensamento e de conduta que não era das outras coisas. Então, o curso de Psicologia era o oposto do de ciências”. Ser uma bandeira avançada dentro da instituição significava, em primeiro lugar, inserir as mulheres naquele espaço unicamente masculino e, em segundo lugar, enfrentar preconceitos já que a criação de um curso de Psicologia em uma cidade do interior não era uma coisa bem vista por muitas pessoas, afinal, ainda havia muito preconceito relacionado a esta área de saber. O curso era, portanto, muito mais da seção feminina que da masculina. Além do mais, em entrevista, Sá (2013) disse que, apesar de seu nome constar em vários documentos, entre eles o pedido de autorização de funcionamento do curso, nunca foi convidada para lecionar no curso de Psicologia depois de este ter sido autorizado e transferido para a seção masculina, o que aumentou ainda mais o ressentimento das irmãs. 154 4.2.2 Que Psicologia? Uma Psicologia conciliada à Visão Cristã De acordo com o documento Identidade das Instituições Salesianas de Ensino Superior (IUS) (2003), a Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (atual UNISAL) constitui-se a partir das seguintes características: de inspiração cristã: sua visão do mundo e da pessoa humana tem raízes no Evangelho de Jesus e é demonstrada por sua comunidade acadêmica; caráter católico: assume que sua origem e permanência se dão no coração da Igreja, por meio de expressões de comunhão e partilhamento com a comunidade; índole salesiana: opção prioritária pelos jovens, especialmente os desprestigiados socialmente; relação integral entre cultura, ciência, técnica, educação e evangelização, profissionalismo e integridade de vida; experiência comunitária baseada na ‘presença’, com espírito de família, dos docentes e o pessoal de gestão entre e para os estudantes; estilo acadêmico e educativo de relacionamento baseado em amor manifestado aos alunos e por eles percebido. Enfim, um apreço pela pessoa fundado na confiança, no cuidado, no amor demonstrado. É também comum ouvir falar, entre os salesianos, que a Psicologia, principalmente a Psicologia Humanista, é muito compatível com o Sistema Preventivo de Dom Bosco. Dom Bosco tinha no sistema preventivo uma base psicológica muito forte, a partir de três princípios: razão, a pessoa humana não pode ser tratada como bicho, ela tem sentimentos; depois a religião, a abertura para o transcendente; e, depois, a amorevolezza, isto é, cuidar das emoções dos educandos. Então ele dizia que para educar é preciso amar. E não basta amar, é preciso que o amado perceba que é amado. Olha a intuição a de Dom Bosco. [...] Porque foi pela Pedagogia que os salesianos foram percebendo a importância da Psicologia (GUEDES, 2013). É interessante notar que, não só os religiosos, mas também os alunos do curso fazem essa ligação entre Psicologia e o chamado “tripé salesiano”: [...] o curso de Psicologia, enquanto ciência, ela não foge dos parâmetros de Dom Bosco: razão, religião e a questão da convivência, do amor fraterno. Então eu acho que a Psicologia enquanto ciência, e enquanto curso também, respondia muito aos padrões da educação salesiana. O psicólogo cuida do outro (PELUSO, 2010). 155 Além da relação entre as propostas de educação salesiana com as ideias de uma Psicologia Humanista, havia ainda uma preocupação em oferecer um curso de Psicologia que defendesse a visão cristã e não afastasse os alunos católicos de sua religiosidade: “Nós falávamos que nós queríamos um curso de Psicologia que permitisse às pessoas católicas não virarem ateias. É conciliável a ciência psicológica com uma visão cristã da vida” (GUEDES, 2013). Havia um controle muito grande com relação ao que era dito, ao que era ensinado e aos convites que eram feitos aos conferencistas, principalmente àqueles que vinham das capitais. A fala, a seguir, exemplifica esta preocupação com o controle: “Porque a gente exigia de quem fosse fazer uma conferência em Lorena, a gente exigia umas certas coisas. A pessoa, em primeiro lugar, fosse um testemunho como pessoa, nós exigíamos isso” (FERREIRA, 2013). E, confirmando este controle: “Padre Ferreira convidava, mas se a pessoa dissesse alguma coisa que contrariasse uma visão cristã, ela ouvia objeção” (GUEDES, 2013). Os exemplos a seguir podem ilustrar este fato: Por exemplo, foi um professor de uns 60 anos que foi fazer uma palestra em Lorena e foi de camiseta e short numa motocicleta com uma amante. Se fosse uma amante equilibrada, mas a amante dele era uma mocinha, de vinte e poucos anos. Quer dizer, chocou. Que exemplo nós damos para nossos alunos? (FERREIRA, 2013). Teve uma professora que nós acabamos cortando. A professora vinha namorar na faculdade, e nós queríamos uma professora que viesse ser professora. Pra namorar tem muito lugar, não precisava vir namorar na faculdade.E como a professora não se convenceu de que ela devia mudar, então o resultado foi mudar a professora. Nós tínhamos muito cuidado com o aspecto moral dentro do curso de Psicologia. [...] que houvesse uma linha a qual se pudesse dizer: “Aqui a gente se sente bem e não se sente constrangido” (FERREIRA, 2013). Os ditos anteriores trazem algumas incoerências que nos levam às seguintes questões: se a amante fosse equilibrada, haveria algum problema? E se fosse uma amante mais velha, chocaria menos ou não chocaria tanto? Namorar na faculdade é imoralidade? Na continuidade da entrevista ficou claro que o conferencista fez a palestra, mas, não foi mais convidado. Percebe-se, aqui, um tipo de moral sexual, bem própria de uma Igreja que continua vinculada aos princípios religiosos de repressão e controle sexual que, até hoje, reprova a maioria dos métodos contraceptivos e defende a ideia de que a prática sexual só é realmente aceitável 156 para se procriar. Nota-se a visão desta Igreja que condena as relações pré-maritais e extraconjugais, o divórcio, a homossexualidade e o aborto. O controle moral não estava presente somente na conduta dos professores. Eles tinham que ter cuidado também com o conteúdo das disciplinas ministradas. Os conteúdos e a organização curricular do curso eram submetidos à autorização dos padres. Há uns trinta anos atrás, eu dei um livro sobre sexualidade dos deficientes mentais. E um dos padres leu o livro e questionou, porque este livro preconizava a masturbação para as pessoas com deficiência, então foi um escândalo. Então, para não dar mais problema, no ano seguinte eu tirei o livro das obras que eu mandava ler (RANGEL, 2013). [...] havia um outro controle por parte da direção salesiana sobre os nossos currículos, sobre os nossos conteúdos, sobre as nossas disciplinas. Os cargos de direção só eram ocupados pelos padres. Até os anos, sei lá, 2001, 2002, quando eles decidiram dividir com os leigos essas funções de chefia. [...] eles controlavam muito: o que nós dizíamos, os textos que nós usávamos, quais eram as disciplinas, as cargas horárias, tudo estava no controle. [...] Os padres, pela própria formação, eles eram muito rígidos. [...] Quando eles entregaram, principalmente a direção acadêmica aos leigos, [...] então a gente respirou um pouco mais de oxigênio (PELUSO, 2010). Outra forma de manter sob controle as questões que afetassem a moral religiosa era a obrigatoriedade de cursar as disciplinas Cultura Religiosa I, II, III e IV, oferecidas nos dois primeiros anos do curso. Era, também, oferecida a disciplina Psicologia Religiosa, pelo professor Alberto Abib Andery, padre, que deveria caracterizar uma Psicologia que tinha uma abertura para o transcendente. A religião significa uma abertura para uma entidade superior a nível sensorial. Deus não é visível, mas existe também coisa que não se vê. [...] A partir daí, o Padre Abib foi convidado para a Psicologia Religiosa, exatamente porque ele tinha uma credencial para se apresentar como professor dessa matéria. [...] Como já tinha publicação sobre Psicologia Religiosa, isso ajudou (GUEDES, 2014). Estas disciplinas foram obrigatórias até o final da década de 1980. Apesar da obrigatoriedade, alunos e professores de outras organizações religiosas destacam a forma ecumênica como a questão era tratada. Falando a respeito do ensino religioso obrigatório: [..] eles nunca fizeram cerimônia em se autodenominar confessionais católicos romanos. Mas tem um detalhe que eu devo ressaltar. Eu sou evangélica, nascida e criada evangélica, me autodenomino evangélica, e eu nunca, em nenhum 157 momento, tive alguma dificuldade com isso na faculdade. Eles são muito ecumênicos nessa parte (RANGEL, 2013). As ementas das disciplinas Cultura Religiosa apresentavam temas relativos à vida de Dom Bosco, o Sistema Preventivo de Dom Bosco e os lemas das campanhas anuais da fraternidade. [...] nosso trabalho na Psicologia, é um trabalho que pode parecer um trabalho meramente científico, mas na verdade a nossa perspectiva é fazer com que a Psicologia não seja podada, que ela se feche. A Psicologia que tem preconceito contra a alma, contra os valores espirituais, ela está destinada ao fracasso. Ela impede que a pessoa cresça. [...] a faculdade de Lorena não era uma faculdade a mais que entrou para competir com outras, mas era um grupo de pessoas iluminadas pela fé, que perceberam que a ciência leva a Deus, não cria problemas. A tranquilidade pessoal que a gente trabalhando com a Psicologia diante de Deus, é uma síntese que faz bem para gente (GUEDES, 2013). Além da missão salesiana de formar bons educadores e honestos cidadãos, havia naquele momento um debate sobre a missão das universidades católicas na América do Sul. As Atas das reuniões da Congregação no primeiro semestre de 1968 mostram a preocupação em discutir e colocar em prática as orientações do Documento de Buga, suscitada pela Irmã Iracema: “[...] e a Irmã Iracema voltou a insistir sôbre a necessidade de se fazer uma reflexão sobre o documento de Buga a respeito do papel da universidade católica, na América Latina” (sic) (ATA DA REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO de 08/03/1968). As Atas de 01/04/1968, 07/05/1968, 24/06/1968 e 05/07/1968 trazem o relato das discussões a respeito do tema, com a apresentação do Documento de Buga feita por Dom Cândido Padin, então bispo da Diocese de Lorena e recém-admitido como professor da Faculdade, e posterior discussão sobre como a instituição poderia colocar em prática as orientações ali contidas. Este documento foi resultado de um seminário realizado em Buga70, Colômbia, entre 12 e 18 de fevereiro de 1967, organizado pelo Departamento de Educação das Conferências do Episcopado Latino-Americano (CELAM). O texto final produzido neste seminário intitulado Missão da Universidade Católica na América Latina foi de fundamental importância, do ponto de vista estratégico e 70 Este evento fazia parte de uma série de encontros organizados pelo Conselho Episcopal Latino- americano (CELAM): Baños, Equador, em 1966; Mar del Plata, Argentina, em 1966; Melgar, Colômbia, 1968; Salvador, Brasil, 1968. Encontros que, na prática, foram se constituindo uma preparação para a Conferência de Medellin. 158 político, para as propostas de reforma universitária das instituições católicas de ensino superior no Brasil. Apresentava cinco partes: visão cristã da cultura, missão da Igreja na universidade, responsabilidades da universidade católica nos dias de hoje, universidade católica e sugestões práticas. Na primeira parte, havia uma defesa contundente para que se fortalecesse o diálogo entre a teologia e as outras ciências, além da apresentação das missões de uma universidade católica: Como universidade, deve ser centro de elaboração e irradiação de cultura autêntica, procurando ser consciência viva da comunidade humana à qual pertence. Incidirá na cultura através do cultivo de um diálogo das ciências, artes, filosofia e religiões (CELAM, n. 17-19). Como católica, seguindo o que o Concílio Vaticano II entendeu da presença da Igreja na educação, preocupar-se-á em criar um ambiente animado pelo espírito evangélico de liberdade e caridade e orientar toda a cultura humana para a mensagem da salvação, iluminando pela fé o conhecimento que os alunos vão adquirindo do mundo, da vida e do homem. O ‘católico’ deverá ser inspiração e a alma da própria universidade aproximando, dialogicamente, o cristianismo da cultura. [...] Somente assim ela permitirá que o ser humano encontre respostas às perguntas mais inerentes à condição humana: que lugar o ser humano ocupa nesse mundo? Qual o sentido último do trabalho? Qual seu sentido em relação ao Reino de Deus? (CELAM, n. 23). Foi em meio aos debates desencadeados pelo Concílio VaticanoII, aos encontros promovidos pelo CELAM e à Conferência de Medellín, cujo título expressou a sua íntima ligação com aquele evento: “A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”, todos ocorridos na década de 1960, que o curso de Psicologia foi sendo gestado em Lorena. Este contexto é importante para se pensar em um curso de Psicologia que rompesse com o modelo “meio tomista, meio experimental”, herança da Psicologia Italiana, e abraçasse uma psicologia mais voltada para as questões sociais, preocupada com os pobres e com a consciência de classe. Isto, ao que parece, era uma prática muito mais próxima das irmãs progressistas que cuidavam da seção feminina. Não foi ao acaso que a Irmã Iracema insistiu, nas reuniões da Congregação, que o debate sobre o Documento de Buga fosse colocado em pauta. No entanto, como já dito anteriormente, as irmãs não foram convidadas a lecionar no curso de Psicologia após a sua autorização de funcionamento e, o que as entrevistas e os documentos mostraram é que demorou ainda algum tempo para que a ruptura com a Psicologia “meio tomista, meio experimental” acontecesse, como veremos a seguir. 159 4.2.3 A Hegemonia da Psicologia Comportamental Antes mesmo do início do Curso de Psicologia, o papel do Laboratório de Psicologia Experimental já havia sido muito importante para o curso de Orientação Educacional. Ferreira (2013) assim se refere ao uso do laboratório: [...] era uma grande novidade e uma grande aparência. Depois, nós estávamos num projeto de aplicação e de expansão do Serviço de Orientação Educacional em nossos colégios e em outros colégios que quisessem. Então a faculdade fornecia um período de aplicação de testes, de orientação de professores. Dentro da orientação educacional a Psicologia tinha a posição de rainha. De forma que o laboratório de Psicologia foi muito importante. Com a aprovação de funcionamento do curso, em 1969, a Psicologia Comportamental marcou fortemente a formação inicial dos psicólogos que se formaram na Faculdade Salesiana de Lorena, não só pelas práticas já tradicionais no Laboratório de Psicologia Experimental, mas também pela formação dos professores que apoiaram o início do curso, vindos da USP e da PUC de São Paulo. Conforme Mello (1989), Os primeiros cursos da USP e da PUC-SP foram criados sob influência norte-americana que implica uma determinada visão de homem. Esses cursos foram hegemônicos, durante muito tempo, e criaram através dos seus cursos de pós-graduação, uma espécie de rede de professores formados por esses cursos pelo País afora (MELLO, 1989, p. 3). As pesquisas realizadas na época foram dirigidas neste enfoque positivista, e, durante muito tempo, somente se fez pesquisa em Psicologia com animais (em especial, as cobaias). Mesmo as pesquisas realizadas com seres humanos estavam calcadas no modelo positivista norte-americano (MELLO, 1989). Conforme Rangel (2013), as práticas fundamentadas neste modelo refletiram no curso de Lorena: Estes professores tinham um viés muito direcionado para a linha comportamental. E o nosso curso passou a ser um curso que tinha esse colorido. Era comportamental, tinha laboratório, biotério dos ratos, nós fazíamos aqueles condicionamentos, tinha terapia comportamental, e aí muitos professores da USP de São Paulo vieram dar aulas (RANGEL, 2013). Eles eram extremamente comportamentalistas, porque era uma cópia da Psicologia norte americana. Ela (a Psicologia em São Paulo) foi fortemente 160 influenciada pela Psicologia norte americana e menos pela Psicologia europeia. Que já tinha um outro perfil, que na década de sessenta tinha um perfil mais filosófico (PELUSO, 2010). Também se nota esta influência americana no currículo adotado na Faculdade que fora construído tendo como base o Currículo Mínimo estabelecido pelo Parecer nº 403, do Conselho Federal de Educação, que passou a vigorar a partir de 1963 e que estipulava que os cursos de Psicologia para o Bacharelado e Licenciatura compreendiam sete matérias: Fisiologia, Estatística, Psicologia Geral e Experimental, Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia da Personalidade, Psicologia Social e Psicopatologia Geral. No entanto, em Lorena havia uma carga horária muito alta de Psicologia Experimental: Nós tínhamos Psicologia Experimental I, II, III, IV, V e VI, então eram seis disciplinas de Psicologia Experimental. Tinha uma visão skinneriana, os usos e os conceitos básicos de acessar um reforço, punição [...]. E, ao mesmo tempo, uma visão de que só era ciência o que podia ser comprovado. (PELUSO, 2010). Além da influência dos professores que vinham de fora e das práticas anteriores relacionadas ao Laboratório de Psicologia Experimental, isto ocorreu também porque a resolução que criou este Currículo Mínimo não previa os conteúdos a serem desenvolvidos, nem suas respectivas ementas. Da mesma forma que não estipulava a carga horária de cada uma delas. Para aprenderem a usar os aparelhos que faziam parte do Laboratório de Psicologia Experimental, os alunos tinham que cursar uma disciplina específica que os capacitava para isso. Este laboratório tinha uma importância muito grande no curso, conforme relata Rangel (2013): Sobre o Laboratório de Psicologia Experimental, funcionava e tinha um curso especial para nos ensinar a mexer naqueles aparelhos, que depois foram abandonados, o bicho comeu e muitas coisas eles jogaram fora. E uma parte eles colocaram no laboratório de física e química da faculdade. O laboratório de testes ocupava um espaço muito grande no curso. Os testes de inteligência e de personalidade, além de fazerem parte do conteúdo oferecido nas disciplinas voltadas a este conhecimento, também eram aplicados na seleção de alunos: “faziam teste psicológico, não entrava qualquer um não, não entrava doido desesperado lá não. [...] Mas olha, a demanda era muito 161 grande” (RANGEL, 2013). Os testes psicológicos já eram usados para a seleção de candidatos aos cursos oferecidos na Faculdade Salesiana de Lorena anteriormente à criação do curso de Psicologia. A Ata da reunião da Congregação de 01/04/1968 relata a discussão feita sobre o uso de testes na seleção destes candidatos: Pediu-se também que se esclarecesse a respeito da aplicação de testes na seleção dos candidatos. Como foi escrito na ata se tinha a impressão de que não se aplicasse testes para a seleção dos candidatos ao passo que só se queria dizer que os testes deveriam ser usados em mais larga escala (ATA DA REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO, 01/04/1968). Guedes (2014) complementou: “A ideia era não selecionar a partir dos testes, mas poder reorientar. [...] Nunca usamos o teste para excluir ninguém. Era uma coisa sigilosa, claro”. Segundo Weber (1985), o Currículo Mínimo, contendo as disciplinas Psicologia Experimental e a Estatística, criava a falsa impressão de que pesquisa em Psicologia se reduzia à realização de experimentos e ao tratamento estatístico dos dados. Postura esta compreensível para a década de 1960 devido à grande força do positivismo e da necessidade da Psicologia de apresentar-se como uma disciplina científica e autônoma, pois, até então, as práticas e as preocupações teóricas na área “psi” eram partilhadas com a medicina, o direito, a pedagogia e a filosofia, além de outros campos disciplinares. Não só os conteúdos eram voltados para uma psicologia comportamental, como também as metodologias utilizadas para ensinar, o que pode ser observado no relato abaixo: A USP tinha um grande laboratório, como o biotério de ratos, lá em Psicologia Experimental, e durante muitos anos nós fomos influenciados por este modo de pensar e conceber a realidade e de responder às questões do mundo trabalhando, sempre, experimentalmente. [...] Além disso, as técnicas, as metodologias utilizadasem aula eram extremamente ligadas ao modelo comportamentalista, positivista, a questão do uso das chamadas máquinas de ensinar (PELUSO, 2010). Nós fazíamos uma primeira prova, que a média era 8,34 [...]. Se você não atingisse, você voltava para uma sala ao lado, fazia nova leitura, depois de meia hora você se submetia a uma outra prova, se você não atingisse, você podia fazer até oito, nove por dia (PELUSO, 2010). Peluso (2010) ressaltou que esta visão comportamental durou até o início da década de 1980 e que, embora existisse lá a visão rogeriana e a psicanalítica, a 162 comportamental era a que fortemente influenciava a formação dos profissionais de Psicologia. A este respeito, é importante ressaltar as incoerências que existiam entre o desejo dos padres de oferecerem um curso mais humanista (ou com uma formação generalista) e as práticas comportamentais que de fato eram oferecidas: O Padre Guedes sempre dizia para a gente que ele queria um curso generalista. Era o termo que ele usava. Queria que nós conhecêssemos as teorias todas, para ter uma visão geral, e daí você escolheria aquela com a qual você mais se identificasse para depois ir trabalhar. Mas como a maioria dos professores vinha de fora, de São Paulo, da PUC e da USP, [...] e esse pessoal era mais da comportamental, acho que o nosso curso ficou com essa marca mais comportamental (ROSSO, 2013). Padre Ferreira (2013) via vantagens nessa formação comportamental, pois acreditava que a observação do comportamento era muito importante e servia de base para todas as outras linhas da Psicologia. A preocupação com a precisão e o rigor científico, provavelmente ainda por influência da psicologia italiana de Agostinho Gemelli e de Giácomo Lorenzini, continuou influenciando muitas práticas posteriores no curso, conforme afirma Guedes (2013): A administração da faculdade fez questão de dar continuidade àquela tradição de pesquisas muito rigorosas feitas pelo Laboratório de Psicologia Experimental, através dos equipamentos, a precisão e rigor científico, seja na parte dos exames psicotécnicos, na parte de psicodiagnóstico, na parte do aprimoramento nas consultas ou de acompanhamento psicológico (GUEDES, 2013). Este perfil comportamental muito marcado durante os anos iniciais do curso foi alterado em 1972, com a contratação do professor Franz Victor Rudio, que vinha de uma formação humanista, não diretiva, provocando questionamentos e mudanças na formação dos psicólogos da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. 4.2.4 Uma Ruptura: Franz Victor Rudio e a Formação Humanista Em 1972, a contratação de um professor que vinha de uma formação na PUC-RJ mudou os rumos do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de 163 Lorena. Franz Victor Rudio tinha formação humanista, especificamente não diretiva, fundamentada nas ideias de Carl Rogers. Foi o responsável por introduzir uma psicologia voltada para a pessoa, valorizando o interno e o humano e fazendo o contraponto com a Psicologia Comportamental que, até então, era soberana na formação dos alunos da Faculdade Salesiana de Lorena. Nós tivemos a bênção de receber um grande presente chamado Franz Victor Rudio, que vinha da PUC e era um professor rogeriano. Então, Carl Rogers nos Estados Unidos, após essa invasão da visão de Skinner, ele começa a se contrapor no campo da Psicologia, trabalhando com a questão da não diretividade (PELUSO, 2010). O Franz veio – eu estava no quarto ano – foi em 1972. Em 1972 ele chegou aqui com a proposta de uma Psicologia Clínica não diretiva. E se opunha totalmente a essa bagagem de três anos de se olhar o mundo de uma forma padronizada, aquilo que não pode ser definido dentro do campo da Psicologia positivista, comportamentalista, não é da Psicologia, enfim, ele entra no interno do sujeito (PELUSO, 2010). As ideias rogerianas começaram a fazer parte do cenário brasileiro em um momento político-social e cultural bastante conturbado. A década de 1960 foi marcada pela ditadura militar e os movimentos políticos e culturais brasileiros respondiam questionando a desumanização e os poderes em geral (CAMPOS, 2005). “As psicoterapias, provavelmente, foram ganhando força nesse momento específico do país, principalmente, por serem entendidas como uma espécie de refúgio psíquico para aqueles descontentes com o sistema” (CAMPOS, 2005, p. 11). Franz Victor nasceu em 1925, no Espírito Santo, e faleceu em 1993, na cidade do Rio de Janeiro. Há poucas informações biográficas sobre ele, no entanto, sabe-se, através de comentários de pessoas que conviveram com ele, infelizmente sem condições de referenciação, que era padre diocesano até o final da década de 1960, quando abandonou os votos e casou-se com Lucia Rudio, que também havia abandonado seus votos. Consoante ao pensamento de Silva (2008), a desilusão de parte do Clero com os ditames do Vaticano II em especial no que concerne ao celibato possibilitou uma grande evasão da Igreja Católica, influenciando inclusive a criação do Movimento de Padres Casados no Brasil. Os anos de 1960 e 1970, época em que Franz Victor e Lucia abandonaram os votos, refletem a crise de identidade que assolou o clero brasileiro. A frustração das expectativas de mudança provocadas pelo Concílio Vaticano II – em especial, que as regras a respeito do 164 celibato fossem afrouxadas - fez com que padres de todo o país questionassem sua vocação e muitos abandonaram o sacerdócio. Ainda no final da década de 1960, Franz Victor foi professor do Curso de Bacharelado em Teologia nos anos de 1968 e 1969, na PUC-RJ. Mudou-se para Lorena em 1972, quando iniciou sua atividade docente na Faculdade Salesiana, no curso de Psicologia. Sob a orientação de Padre Benko, que também o indicou para lecionar em Lorena, defendeu sua dissertação de mestrado na PUC – RJ, no Departamento de Educação, em 1972, intitulada Ensaio experimental: mudança de autenticidade em dois grupos de encontro, que teve como objetivo verificar se houve, nos indivíduos que participaram dos Grupos de Encontro, mudança no sentido de maior realismo da imagem de si. Publicou os seguintes livros e artigos: 1) Livros com reedições: a) Orientação não diretiva: na educação, no aconselhamento e na psicoterapia (1ª edição, em 1975 e 14ª edição, em 2003 - Editora Vozes); b) Introdução ao projeto de pesquisa cientifica (1ª edição, em 1978 e 40ª edição, em 2011- Editora Vozes); c) Compreensão humana e ajuda ao outro (1ª edição, em 1991 e 3ª edição, em 1999 -Editora Vozes). 2) Livros com edição única: a) Esquemas básicos de psicologia social (1979, Editora da Universidade de Taubaté); b) Em busca de uma educação para a fraternidade (1983, Editora Dom Bosco); c) Características dos oratorianos das cidades de Lorena e de Piquete no Estado de São Paulo (1986, Editora das Faculdades Salesianas); d) Diálogo maiêutico e psicoterapia (1986, Editora das Faculdades Salesianas); e) Diálogo maiêutico e psicoterapia existencial (1998, Editora Novos Horizontes). 3) Artigos: a) O experenciar de si mesmo como meio de libertação. Revista da Faculdade Salesiana, 1978; b) O significado da solidão humana. Revista Antropos Psicologia e Vida, 1988; 165 c) Como ajudar o outro a resolver problemas existenciais? Revista da Faculdade Salesiana, 1992; d) O diálogo de ajuda em sala de aula. Revista da Faculdade Salesiana, 1994. Verifica-se que suas publicações variaram em torno de temas relacionados ao humanismo, metodologia científica e educação. Seu mestrado na PUC-RJ mostra o interesse pelos estudos de Rogers, pois trata de tema da autenticidade em diferentes grupos. Isto não é de se estranhar, visto que seu orientador no mestrado foi Padre Antonius Benkö, que, segundo Féres-Carneiro e Lo Bianco (2003) introduziu o aconselhamentopsicológico de orientação rogeriana no curso de Psicologia da PUC-RJ. Para Guedes (2014), Franz Victor “tinha uma boa preparação, era interessado em pesquisa e se identificava com a Psicologia. [...] E nesse dia eu achei que ele era um bom apoio para a Faculdade. E foi”. Além disso, como tinha muitos contatos na cidade do Rio de Janeiro, Franz sempre convidava conferencistas de lá para a Faculdade de Lorena. A psicoterapia rogeriana estava presente no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte na década de 1960. No entanto, segundo Tassinari e Portela (1996), o aparecimento das ideias de Carl Rogers ocorreu primeiramente no Rio de Janeiro, através de Mariana Alvim, que o conheceu em 1945 quando foi estudar instituições americanas que trabalhavam com delinquentes desvalidos. Mariana Alvim passou a usar efetivamente a técnica não diretiva quando foi convidada a trabalhar no Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP)/RJ, a partir de 1947. Uma das razões do forte impacto das ideias de Rogers no Brasil foi o fato de elas se colocarem como contraponto às propostas da psicanálise e do behaviorismo, fato também notado e relatado pelos alunos da primeira turma do curso de Psicologia de Lorena, com a chegada de Franz Victor: “era muito comportamental, muito skinneriano, e aí foi que eles (padres) resolveram dar a volta. E um dos pilares para eles darem essa volta foi o Franz Victor. Franz Victor foi nosso professor” (RANGEL, 2013). Foi para mudar. O Franz foi uma pessoa que foi chamada para isso. Mas ó, foi um bom tempo. Acho que hoje a gente jamais faria um curso com aquela qualidade. [...] Nós saímos como psicólogos inteiros, que teríamos condição para ir para um lugar e saber fazer alguma coisa em qualquer lugar 166 Também foi uma influência importante para a mudança na forma de olhar para a Psicologia, pois “ele foi uma luz brilhante no curso. [...] Ele abriu a cabeça desses jovens em formação para uma nova maneira de olhar para a Psicologia” (PELUSO, 2010). O fato também de ser uma faculdade católica, de cunho humanístico, fazia com que conflitos surgissem com relação à formação comportamental que era oferecida. Assim, Era uma faculdade católica, de cunho humanístico que dava uma formação comportamental. E nisto eles começaram a entrar em conflito, e começaram a contratar professores mais da área não diretiva, que também depois abriu mais para a Psicanálise (RANGEL, 2013). A formação mais generalista, desejada por Padre Guedes e iniciada em 1972, com a presença do professor Franz Victor, levou também à contratação de professores com formação em psicanálise, mesmo havendo certa prevenção em relação à psicanálise freudiana, pois para Guedes (2014): “havia uma certa prevenção contra a Psicanálise. [...] A Psicanálise de Freud é muito libidinosa. O impulso sexual que era a fonte da atividade humana para Freud”. Por isso, a psicanálise de Jung era mais bem vinda ao curso. Assim, o curso atendia às principais áreas da formação do psicólogo da época: a experimental/comportamental, a humanista/rogeriana e a psicanalítica. 4.2.5 Psicologia e Desenvolvimento Regional A região do Vale do Paraíba Paulista é formada por 39 municípios, considerados os povoamentos mais antigos do Estado de São Paulo e também um dos principais eixos de seu desenvolvimento. O documento intitulado Divisão Regional do Brasil em Mesorregiões e Microrregiões Geográficas, publicado pelo IBGE, em 1990, define a Mesorregião Vale do Paraíba Paulista em seis Microrregiões: Quadro 11 - Divisão do Vale do Paraíba Paulista em microrregiões 167 Microrregião Municípios São José dos Campos Caçapava, Igaratá, Jacareí, Pindamonhangaba, São José dos Campos, Santa Branca, Taubaté, Tremembé. Paraibuna Cunha, Jambeiro, Lagoinha, Natividade da Serra, Paraibuna, Redenção da Serra, São Luiz do Paraitinga. Campos do Jordão Campos do Jordão, Monteiro Lobato, Santo Antônio do Pinhal, São Bento do Sapucaí. Caraguatatuba Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião, Ubatuba. Guaratinguetá Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas, Cruzeiro, Guaratinguetá, Lavrinhas, Lorena, Piquete, Potim, Queluz, Roseira. Bananal Arapeí, Areias, Bananal, São José do Barreiro, Silveiras. Fonte: IBGE, 1990 No Vale do Paraíba, as primeiras décadas do século XX foram marcadas por uma crescente consciência dos problemas regionais, principalmente os ligados às questões da “decadência da cafeicultura, o empobrecimento generalizado, o êxodo rural, o subemprego, a degeneração das cidades” (TOLEDO, 2013, p. 1). Tais problemas foram agravados, na segunda metade do século XX, com a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda – RJ e o aumento do crescimento industrial, principalmente mais próximo da capital paulista. Como afirma Toledo (2013), Estas questões chegavam ao ambiente universitário, em especial na antiga Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, dirigida pelos religiosos salesianos e na sub-sede, pelas religiosas salesianas. Nos anos 60 floresceu um clima contagiante face aos ares de mudança na sociedade e na Igreja Católica diante das orientações emanadas do Concílio Vaticano II (1962-1965) e posteriormente do documento de Buga em 1967, relativo às Universidades Católicas. Era tempo de reflexão da Igreja Católica sobre si e sobre suas relações com o mundo que atingiu o interior da Faculdade, apontando para a necessidade de transformações sociais (TOLEDO, 2013, p. 2). A Ata da Reunião da Congregação, de 07/05/1968, que continuava com a discussão sobre o Documento de Buga (já tratado em tema anterior), descreve uma discussão sobre a questão regional. Depois de apresentado que um dos temas fundamentais da missão de uma Universidade Católica era o diálogo em seu interior e o diálogo com a sociedade, a pergunta que suscitou o debate foi: “nós estamos realmente dialogando com a realidade que nos circunda?” Concluiu-se que este diálogo era feito por meio dos ex-alunos que ocupavam cargos de destaque no setor educacional em todo o Vale do Paraíba e por meio dos cursos de extensão 168 universitária que eram oferecidos com frequência na instituição. Porém, havia o consenso de que este diálogo deveria ser ampliado, conforme o registro abaixo: E então surgiram várias propostas: Fundação de uma escola de pais; formar outros profissionais necessários na região, além dos professores; instituir cursos que servissem mais à nossa região; [...] procurar um diálogo com os políticos da região sôbre os quais pesa boa parte da responsabilidade na transformação desta realidade do Vale do Paraíba, através por exemplo de um debate com todos os prefeitos futuros de nossa região (sic) (ATA DA REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO DE 07/05/1968). A Ata de Reunião da Congregação de 05/06/1968 registrou, na continuidade do debate sobre o Documento de Buga, que houve quem objetasse que “mais que cursos nós deveríamos realmente preocupar na promoção do homem de nossa região. Objetava que há uma série de serviços que a faculdade poderia prestar à região e que na realidade não está prestando” (ATA DE REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO DE 05/06/1968). Nesta época, ocorreram vários eventos significativos para a industrialização da região do Vale do Paraíba, como por exemplo, a construção da Rodovia Presidente Dutra que ligou a então capital da República com a capital do estado de São Paulo, em 1950, e a consolidação do complexo tecnológico-industrial- aeroespacial na cidade de São José dos Campos (RODRIGUES, SANTOS e OLIVEIRA, 1992). Estes eventos facilitaram, significativamente, a industrialização e a circulação motorizada, intensificando, assim, as relações no espaço regional e para além dele. O curso de Pedagogia, criado muito antes do curso de Psicologia já era reconhecido regionalmente em função da cargahorária de psicologia que era oferecida no curso. Sobre isso, relatou Guedes (2014): “No Vale do Paraíba, estudantes de Taubaté vinham fazer pedagogia em Lorena porque sabiam que a psicologia era forte. Havia pedagogia em Taubaté, mas o pessoal vinha fazer em Lorena, com o Padre Modesti e com o Padre Ferreira”. Desde a época da vinda do Laboratório de Psicologia Experimental em 1954, da oferta do Curso de Orientação Educacional, a partir de 1957, e da criação do Instituto de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena em 1965, muitos serviços de psicologia já eram prestados para todo o Vale do Paraíba. Andrade (2013) fala da relevância destes serviços, pois 169 como psicometrista, atuando no Laboratório Experimental de Psicologia, realizando psicotécnicos para motoristas e exames vocacionais, com testes psicológicos, atendia a caravanas de estudantes de Psicologia de outras regiões que iam a Lorena conhecer o grande laboratório de Psicologia que existia (ANDRADE, 2013). Como pode ser notado, além dos serviços prestados, o Laboratório era, também, uma referência e recebia visitas de estudantes de outras regiões. A criação do curso de Psicologia possibilitou a ampliação deste Laboratório para melhor atender às novas demandas, favorecendo o estágio de alunos. Em uma lista das atividades desenvolvidas pelo curso e que, certamente, tiveram repercussão regional, podemos citar: 1) O Serviço de Orientação Vocacional e Escolar, tendo sob seus cuidados a orientação do Colégio São Joaquim de Lorena, o Instituto Estadual de Educação Oswaldo Cruz de Cruzeiro, o Instituto Santa Teresa e o Liceu Coração de Jesus em São Paulo. Em janeiro de 1971, o Laboratório mudou-se para novas e amplas instalações, incluindo Biotério, no prédio do Colégio São Joaquim. Em sua nova sede, pôde atender melhor aos seus objetivos, acrescidos, na época, da Análise Experimental do Comportamento com o uso de Caixas de Skinner, para experimentos com cobaias e da realização de exame psicotécnico para motoristas profissionais e amadores. 2) Com o Código Nacional de Trânsito, de 1966, ocorreu uma reorganização do Sistema Nacional de Trânsito (SNT) e, dentre outras coisas, foram criados os Departamentos de Trânsito (DETRANs) como parte desse sistema. Cada Estado brasileiro deveria implantar o seu próprio DETRAN, o que ocorreu, principalmente, entre as décadas de 60 e 70. Foi dentro dessa estrutura que o exame psicotécnico tornou-se obrigatório e, com a regulamentação da profissão, os psicólogos inseriram-se, efetivamente, no processo de habilitação dos motoristas. Em Lorena, era a Faculdade Salesiana a responsável por prestar este serviço ao DETRAN. 3) Seleção de pessoal em empresas das cidades da região, entre elas, GM, EMBRAER, Fábrica de Vidros de Caçapava (atual Pilkington), além da avaliação de candidatos de concursos públicos para o Banco do Brasil (GUEDES, 2014). 170 Esta era a única instituição de ensino superior a prestar serviços desta área na região, pois, de acordo com Peluso (2010), “foi o primeiro curso na região do Vale do Paraíba. Eu diria até que de São Paulo ao Rio ele foi o primeiro curso a ser instalado”. Estas práticas culminaram com a autorização de funcionamento do curso de Psicologia, em 1969. Guedes (2013) e Ferreira (2013) também atestam a importância do curso para a região: O Vale do Paraíba se tornou realmente um novo polo de estudos psicológicos com ressonância em muitas outras atividades. Seja como assistência psicopedagógica às escolas, seja como pesquisas com a Psicologia Experimental, seja como proposta de pesquisas na área de Psicologia. Quer com alunos das escolas particulares, como o Colégio São Joaquim, quer com alunos de escolas estaduais. Inclusive, muitas escolas de Lorena foram trabalhadas pela ação dos psicólogos que aqui estavam. Além disso, na hora que surgiu a Lei de Exame Psicotécnico para motorista, a nossa faculdade foi solicitada a realizar os primeiros exames psicotécnicos no Vale do Paraíba. Não só para o Estado de São Paulo, como até para outros estados, como Minas Gerais (GUEDES, 2013) No laboratório, como eu disse, nós estávamos abertos para os colégios, claro que os nossos colégios estavam em primeiro lugar. E a gente aplicava... Nós tínhamos dois funcionários que trabalhavam na correção dos testes, era a correção material dos testes. E depois aí que os psicólogos davam os resultados. E também começamos a atender indústrias (FERREIRA, 2013). Com a criação do curso, os serviços prestados à região deixaram de ser somente os relacionados aos atendimentos do Instituto de Psicologia e passaram, também, a formar profissionais que vinham das várias cidades localizadas no Vale Paulista, no Vale Fluminense e no sul de Minas Gerais. No começo, tinha uma demanda acumulada, estado do Rio, fundo do Vale, sul de Minas, de São José dos Campos para cá, todo mundo que queria fazer Psicologia e não tinha condições de ir para São Paulo veio para Lorena. Então nós tivemos épocas de ter mais de 700 alunos de Psicologia (RANGEL, 2013). 4) Os alunos que frequentavam o Curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Lorena realizavam seus estágios em instituições de toda a região, entre elas, EMBRAER, GM, Indústrias Químicas Mantiqueira e Johnson; hospitais psiquiátricos em Cruzeiro, Volta Redonda e Resende; instituições de educação especial em Taubaté e Guaratinguetá. Isto pode ser confirmado nos trechos de entrevistas abaixo descritos: 171 A gente fez estágio na EMBRAER, na GM, eu fiz estágio em um hospital psiquiátrico aqui em uma cidade do Rio (RANGEL, 2013). Eu já trabalhava em indústria. [...] desde o segundo ou terceiro ano [...] naquele tempo era Indústria Química Mantiqueira. [...] Então você tinha que aplicar o teste em um monte de operários e selecionar aqueles que eram bons, que tinham um desempenho bom, ou seja, para gente que tinha perfil para aquele cargo (ROSSO, 2013). Algumas empresas vinham aqui para solicitar aplicação de testes [...]. Se eu não me engano, a Johnson foi uma, a GM, empresas grandes (ROSSO, 2013). De acordo com Guedes (2014) o Instituto de Psicologia participou também da seleção de funcionários para o Banco do Brasil, aplicando testes e traçando o perfil dos candidatos. É possível, a partir da análise das entrevistas e dos registros de serviços psicológicos prestados pelo Laboratório de Psicologia Experimental e, posteriormente, pelo Instituto de Psicologia e pelo Curso de Psicologia, considerar a importância regional das práticas “psi” desempenhadas no período delimitado, neste trabalho, entre 1952 e 1974. Além das seleções de pessoal realizadas nas diversas indústrias da região, dos serviços de orientação psicopedagógica às escolas, a instituição também qualificou profissionais para o Ensino Secundário, desde 1957, e formou psicólogos no início da década de 1970. Muitos dos profissionais formados no curso de Orientação Educacional eram diretores de escolas da região e, quando retornavam para as escolas que dirigiam, convidavam os psicólogos de Lorena para prestarem serviços de orientação educacional e vocacional em seus alunos. 172 CONCLUSÃO Este trabalho teve como objetivo narrar uma história do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Não foi tarefa fácil acolher a ideia de que se trata de “uma história”, e não “da história” deste curso; afinal, quando tomamos posse de um tema e nos dedicamos exaustivamente a ele, nos sentimos empoderados e donos deste saber. Por outro lado, este mesmo investimento de energia na busca de documentos, fotografias, identificação de pessoas que fizeram parte desta história, me trouxe a clareza de que estou falando aqui de uma micro história, de uma história escrita desde o mundo das empiricidades da vida, daquelas práticascotidianas, quase anônimas, e suas infinitas repetições. Uma história contada a partir das percepções pessoais, vivências cercadas de emoções muito particulares, o que faz deste trabalho “uma história” em sua incompletude. Busco no poema de Ana Lucia Cortegoso, intitulado “História da Psicologia”, inspiração para estas considerações finais: Tempo bem aproveitado este que faz a costura entre amanhã e passado. Acertos e erros devidamente notados são degrau seguro onde apoiar o futuro. É do chão e das raízes que se projetam os galhos é do caminho trilhado que nascem novos rumos. É no reconhecimento de rostos e gestos humanos por trás das tentativas que se descobre a coragem de abrir novas estradas. O tempo que se projeta nasceu bem antes de hoje e passa muito ligeiro acumulando esforços de antigos, às vezes desconhecidos, sempre bravos companheiros. 170 Quando pensei, pela primeira vez, em escrever sobre este curso, fiz alguns questionamentos, já apresentados na introdução desta tese: Com que objetivo os salesianos trouxeram da Itália um Laboratório de Psicologia Experimental em 1954? Como ele era usado? Por que os salesianos se interessaram em criar um curso de Psicologia em uma cidade do interior do Estado de São Paulo ainda na década de 1960? Como ele foi constituído? Como era formado o corpo docente? Que importância teve este curso para a região? Buscar a resposta a estas questões, isto é, fazer a costura entre amanhã e passado, me fez despender muito tempo. No entanto, foi um tempo bem aproveitado. Tive enorme prazer ao ouvir pessoas que fizeram parte desta trajetória, ao ler textos que faziam as conexões com as histórias narradas, ao encontrar documentos e fotos que corroboravam histórias. A tarefa de buscar estas conexões foi árdua, pois foi caracterizada por muitas repetições, mas, também, ambiguidades e conflitos: ler um texto várias vezes, buscar incessantemente as conexões entre as informações coletadas, ouvir entrevistas, anotar ideias, buscar respostas nos diferentes autores que li para me embasar para esta tese: em Riolando Azzi busquei a história dos salesianos no Brasil; em Peter Burke e Michel de Certeau pude entender a escrita da micro história e da história oral viabilizadas pela História Cultural; Iolanda Brandão abriu os caminhos para minha compreensão da relação dos salesianos e com a psicologia que se desenvolvia no Brasil; para entender o contexto educacional brasileiro no período estudado, procurei me instrumentar em Jorge Nagle e Demerval Saviani; e, finalmente, de forma específica, muito importante para o meu trabalho foi a leitura do material de Francisco Sodero Toledo sobre as Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena e seus trabalhos sobre Euclides da Cunha e o Vale do Paraíba Paulista. Estes autores, de maneira muito especial, me acompanharam mais de perto nesta empreitada. Neste momento, consigo responder aos questionamentos anteriormente levantados: o curso de Psicologia de Lorena não emergiu por um documento ou por uma ação intencional e isolada de um sujeito individual, mas por ação de muitos personagens que, durante um longo período, construíram práticas ligadas à Psicologia que levaram à constituição de um curso, com todas as suas singularidades e práticas cotidianas. Entendo que, entre este conjunto de pessoas, a presença dos salesianos se destaca. 171 A missão salesiana de formar educadores qualificados para o exercício do magistério, apoiada no tripé razão, religião e amorevolezza, foi o que possibilitou, em primeiro lugar, a meu ver, a emergência deste curso. Além disso, outros fatores – o momento em que o Brasil vivia, a recém-regulamentação dos cursos, a falta de cursos de psicologia no interior de São Paulo – foram fundamentais para a criação do curso em Lorena. Com a fundação da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, visando que seus seminaristas obtivessem a titulação necessária para o concurso de títulos para o magistério, e a forte influência do Pontifício Ateneu Salesiano, de Turim, na formação dos padres brasileiros, o caminho se sedimentou para a entrada da psicologia no meio salesiano. Fez parte da formação dos padres que foram para o Pontifício Ateneu Salesiano, os conhecimentos em Psicologia Experimental, já que a Itália naquela época buscava um status científico para a Pedagogia e encontrava esta possibilidade nas práticas realizadas nos laboratórios de Psicologia Experimental. Assim, a Faculdade Salesiana e o curso de Pedagogia que lá se cria ficam desde cedo embebidos de Psicologia Experimental, como auxiliar da “Pedagogia Científica”. O Laboratório de Psicologia Experimental trazido de Turim para Lorena foi, pois, de fundamental importância para a constituição do curso e para as pesquisas na área, além de um local privilegiado para o ensino de psicologia aos alunos das diferentes licenciaturas oferecidas naquela instituição. Atendendo às necessidades dos diferentes momentos, este laboratório se modificou, foi acrescido de biotério, testes, alguns aparelhos foram deixados em desuso e as práticas foram transformadas ao longo do tempo, desde sua criação em 1954 até sua incorporação ao curso de Psicologia em 1969. O Laboratório se tornou um ambiente pequeno para o volume de pesquisas e atividades que ali se desenvolviam, levando à criação do Instituto de Psicologia e ao aumento de serviços prestados à região, que iam desde atendimento às escolas, psicotécnico para motoristas até seleção de pessoal para empresas. Por sua vez, as Cadeiras de Psicologia e Psicologia da Educação, além de oferecerem matérias aos licenciandos, contribuíam para a formação de orientadores educacionais da região, por meio do curso de Orientação Educacional. Além deste curso, outros cursos de extensão e formação foram oferecidos aos profissionais da região durante as duas décadas anteriores à autorização de funcionamento do curso de Psicologia, em 172 1969. Isto se transformou num processo circular: a Faculdade formava orientadores educacionais para o sistema educacional da região; estes, atuando em suas cidades, muitas vezes ocupando cargos de direção, recorriam ao instituto de Psicologia para atividades, como por exemplo, orientação educacional e orientação vocacional dos alunos das escolas que dirigiam. As entrevistas e a análise dos documentos evidenciaram algumas características dos anos iniciais do curso, que foram analisadas em cinco temas: 1) Masculino e Feminino: atravessamentos de gênero na Faculdade Salesiana de Lorena, que mostrou as dificuldades em receber as primeiras mulheres em uma instituição historicamente masculina, além das relações conflituosas entre os padres e as freiras salesianas intensificadas com a criação do curso de Psicologia; 2) Que Psicologia? Uma Psicologia conciliada à vida cristã, que evidenciou a preocupação de que o ensino de psicologia fosse compatível com o que se professa em uma instituição confessional católica, salesiana, que discutia naquela época a identidade das Universidades Católicas por meio do Documento de Buga. No entanto, as entrevistas mostraram mais uma prática relacionada à moral sexual e ao controle de conteúdos do que uma formação da consciência religiosa dos alunos; 3) A hegemonia da Psicologia Comportamental, que marcou o período inicial do curso sob a influência da Psicologia Experimental, resquício das práticas de ensino e pesquisa vinculados ao Laboratório de Psicologia Experimental, além da força do positivismo em decorrência da formação dos professores da PUC de São Paulo e da USP que foram docentes neste período; 4) Uma ruptura: Franz Victor Rudio e a formação humanista, apontando a transformação em decorrência do ingresso do professor Franz Victor, contratado para trazer aocurso outra possibilidade de compreensão do comportamento humano; e, finalmente, 5) A Psicologia e o desenvolvimento regional, apresentando a importância deste curso para o desenvolvimento das cidades próximas a Lorena, o que se evidenciou pela abrangência dos atendimentos realizados na instituição, pelos serviços prestados às empresas, além da formação de profissionais de várias cidades do Vale do Paraíba paulista e fluminense, sul de Minas Gerais e litoral norte de São Paulo. Atualmente, após 44 anos, são quase cinco mil psicólogos formados neste curso de Psicologia, muitos deles trabalhando nas diversas áreas da Psicologia no Vale do Paraíba Paulista e Fluminense, além do litoral norte de São Paulo e sul de Minas Gerais. 173 O percurso dos salesianos na psicologia brasileira parece ter sido pontual, ligado a uma época em que a Pedagogia se consolidava como ciência. Pedagogos por vocação, buscaram na Psicologia Experimental e na Psicometria um método, uma base para enriquecer suas práticas pedagógicas, o que levou alguns dos salesianos a dedicarem sua carreira à Psicologia. São pessoas pouco reconhecidas pela historiografia da psicologia no Brasil, no entanto, estudar a influência destes padres na compreensão do comportamento humano, nos mostra como se instala e se desenvolve um determinado pensamento científico em certo espaço e tempo. Atualmente o investimento dos salesianos na formação de psicólogos e em pesquisas relacionadas ao comportamento humano nem de longe se aproxima daqueles praticados nas décadas de 1950 e 1960. Os salesianos são hoje mantenedores de treze instituições universitárias (IUS, Instituições Universitárias Salesianas) no Brasil: Universidade Católica de Brasília, DF; Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande, MS; Centro Universitário do Leste de Minas Gerais, Coronel Fabriciano e Ipatinga, MG; Centro Universitário Salesiano de Lins e Araçatuba, SP; Centro Universitário Salesiano de São Paulo, SP; Faculdade Católica Salesiana de Vitória, ES; Faculdade Salesiana de Santa Teresa, Corumbá, MS; Faculdade Salesiana do Nordeste, Recife, PE; Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS; Faculdade Salesiana Dom Bosco de Manaus, AM; Faculdade Salesiana Dom Bosco de Piracicaba, SP; Instituto Salesiano de Filosofia, Recife, PE. Destas IUS, apenas cinco oferecem Cursos de Psicologia: Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL) – Unidade de Lorena desde 1969 e Unidade de Americana desde 2006. Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande – licenciatura desde 1975 e formação de psicólogo desde 1979. Universidade Católica de Brasília – desde 1998. Centro Universitário Salesiano de Lins e Araçatuba – desde 2001. Faculdade Católica Salesiana de Vitória – desde 2005. Minha conclusão é que os salesianos, em busca de uma formação mais qualificada para seus padres docentes, encontraram na Psicologia Experimental e na Psicometria uma forma de garantir a base científica para sua prática pedagógica. Alguns destes padres, juntamente com outros profissionais da região, se 174 interessaram pela Psicologia e dedicaram suas vidas a ela, fazendo pesquisas, ensinando, debatendo, formando novos profissionais e prestando serviço à região. Este conjunto de práticas levou à constituição do curso de Psicologia da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, com todas as singularidades. Singularidades que fazem com que ocupe um lugar único no Vale do Paraíba. 175 REFERÊNCIAS ALBERTI, V. Manual de História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2004. ALBUQUERQUE, F. F. L. Cronologia da criação dos estabelecimentos de ensino superior no Brasil: um levantamento preliminar. São Paulo: MEC/DESU – 4ª Conferência Nacional de Educação, junho de 1969. Mimeo. ALMEIDA, J. S. Imagem feminina e maternidade: o concurso de robustez infantil em São Paulo (1928). Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 88, n. 218, p.157- 170, jan-abril de 2007. ALMEIDA, M. A. Os Bororo Coroado e a Política Indigenista na Província de Mato Grosso (1845-1887). In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA: O LUGAR DA HISTÓRIA, 17., 2008, São Paulo. Anais... São Paulo: Associação Nacional de História, 2004. ALMEIDA, P. R. de. 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