Prévia do material em texto
Reações dos cátions Apresentação O atual desenvolvimento tecnológico fez da química analítica uma área muito mais voltada para a mensuração de analitos (química analítica quantitativa) em relação à identificação (química analítica qualitativa). No entanto, antes de utilizar um equipamento caro, capaz de analisar microquantidades de um analito, é necessário verificar a presença dele em uma amostra, o que pode ser feito com experimentos relativamente simples. De grande importância, os cátions estão presentes em todas as atividades humanas. Seus usos abrangem a indústria de construção civil (ligas de ferro), a indústria farmacêutica (estabilizadores de humor como o lítio), a indústria de alimentos (suplementos alimentares como cálcio e magnésio) ou como agentes tóxicos (chumbo e seu efeito sobre a hematopoiese). Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai entender como distinguir e dar nome aos diferentes cátions, bem como reconhecer e exemplificar as diferentes reações que têm cátions como elemento central. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar e nomear cátions.• Identificar reações envolvendo cátions.• Exemplificar reações dos cátions.• Desafio Os íons são elementos importantes da saúde humana: o sódio é essencial para a condução nervosa, o cálcio, para formação óssea, e o magnésio, para a estabilidade do DNA e do ATP. No entanto, apesar de benéficos, alguns íons podem ser tóxicos ao homem. Com isso em mente, você deve ler o caso clínico a seguir e relacioná-lo com o efeito dos cátions no organismo. Um homem de 47 anos, nefropata e em diálise, é internado na emergência de um hospital com fratura de fêmur. Além da fratura, o médico percebe, durante a anamnese, que o paciente possui leve disfunção motora, dificuldade para falar e confusão mental. Diante do exposto acima, explique: Qual cátion pode estar envolvido no quadro do paciente? Qual mecanismo levou à patologia? Como é feita a análise desse elemento? Infográfico Os metais como ferro, chumbo e alumínio são essenciais ao processo de industrialização. Com eles são desenvolvidos diversos produtos comuns do nosso dia a dia, como aço inoxidável para produção de bisturis, alumínio para latas de refrigerante, entre outros. Esses metais não estão presentes na natureza em sua forma bruta, ou seja, seu estado de oxidação não é zero. Em sua maioria, formam ligas com outros elementos, como é o caso dos óxidos de ferro, que apresentam estado de oxidação diferente de zero e podem, portanto, ser lixiviados e contaminar o meio ambiente. Os efeitos do chumbo no organismo podem ser de longo prazo. Os elementos liberados, como no caso que ocorreu em Mariana/MG, têm efeito cumulativo no ambiente e consequentemente ao homem. No Infográfico você vai visualizar como ocorre a cadeia de contaminação ambiental pelo chumbo. Você vai perceber que os efeitos fisiológicos no corpo humano são diretamente proporcionais ao consumo, isto é, quanto mais um alimento contaminado é consumido, maiores serão seu acúmulo e efeito tóxico no organismo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/1004a76f-3034-4c49-87c3-7abe6c0028fe/c0e75d52-f0d9-40b5-bbe7-d056db4328fe.png Conteúdo do livro Os princípios básicos do estudo dos cátions são apresentados por meio de gráficos e reações. Estes se aplicam a auxiliar no reconhecimento dos cátions, da sua identificação e da importância desse processo. No capítulo Reações dos cátions, da obra Química analítica qualitativa, você vai aprender como são diferenciados e nomeados os cátions de relevância nas análises qualitativas. Também vai aprender a identificar as reações que envolvem os cátions, juntamente com exemplos de reações onde esses íons de carga positiva participam do processo. Boa leitura. QUÍMICA ANALÍTICA QUALITATIVA Christian Boller Reações dos cátions Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Diferenciar e nomear cátions. � Identificar reações envolvendo cátions. � Exemplificar reações dos cátions. Introdução Tradicionalmente, a química é dividida em dois grupos distintos (ALBERTS et al., 2017): � a química orgânica, focada em compostos à base de carbono (C), hidrogênio (H), nitrogênio (N) e oxigênio; � a química inorgânica, que trata dos os outros elementos da tabela periódica. Entre os elementos inorgânicos, os cátions desempenham papel central na química. Alguns são classificados como essenciais à vida, a exemplo do sódio (Na), do potássio (K) ou mesmo do ferro (Fe), pois sem eles muitos processos biológicos não ocorreriam (WELLER et al., 2018). Outros, como o arsênio (As), o chumbo (Pb) e o mercúrio (Hg), são considerados tóxicos ao meio ambiente e aos seres vivos (KLAASSEN; WATKINS III, 2012). Um terceiro grupo, apesar de possuir potencial para toxicidade, é empregado como agente terapêutico, como é o caso do lítio (Li) e do bismuto (Bi) (HILAL-HANDAL; BRUNTON, 2016). Neste capítulo, você vai entender como distinguir e dar nome aos diferentes cátions e também reconhecer e exemplificar as diferentes reações que têm os cátions como elementos centrais. Diferenciando e nomeando os cátions O que são elementos e como estes se transformam em cátions? Quais elementos se transformam em cátions? Os elementos são estruturas básicas que formam as diferentes substâncias que conhecemos. Você já deve conhecer alguns deles: sódio, potássio, ferro, chumbo. Alguns são mais comuns na natureza; outros mais raros. Veja, a seguir, na Figura 1, a tabela periódica que apresenta os elementos mais comuns existentes na natureza. Figura 1. Representação da tabela periódica e os elementos mais comuns na natureza. Fonte: Alberts et al. (2017, p. 43). Número atômico Massa atômica Cada elemento representado na tabela é composto por átomos e possui características químicas e físicas distintas. O átomo é caracterizado pelo número de prótons em seu núcleo. Para um mesmo elemento, esse número é sempre constante. Já o número de nêutrons pode variar, originando os diferentes isótopos do mesmo elemento (CHANG; GOLDSBY, 2013). Reações dos cátions2 A busca pela origem das coisas remonta as primeiras civilizações. Os filósofos pré- -socráticos já buscavam pela origem do mundo na química. Dá-se crédito a Leucipo e Demócrito pelo desenvolvimento da teoria atomista (REZENDE, 1986). Não confunda elemento e átomo. Elementos são formados a partir de átomos. Aqui você precisa tomar cuidado: um átomo tende sempre a ser neutro. Isto é, o número de prótons no núcleo e o número de elétrons da eletrosfera tendem sempre a ser iguais. Mas nem sempre é assim. Observe que, na Figura 2, o número de elétrons da última camada não é 8 ou 2 (regra do octeto/dupleto) (ATKINS; JONES, 2012). Figura 2. Diferença entre átomo, elemento e substância. Fonte: Adaptada de oorka/Shutterstock.com, Chang e Goldsby (2013, p. 39) e Andraž Cerar/Shutterstock. com. 11 Prótons 12 Nêutrons 11 Elétrons Átomo Elemento Substância 3Reações dos cátions Quando isto acontece, existe uma chance do átomo receber um elétron de outro átomo menos eletronegativo (ou mais eletropositivo). Inversamente, também pode doar seu elétron a outro átomo mais eletronegativo (ou menos eletropositivo). Quando isto acontece, formam-se os íons, em um processo chamado de ionização. Lembre-se que quanto mais eletronegativo (menos eletropositivo) for um elemento, maior a probabilidade de este receber elétrons (será um ânion). Ao contrário, quanto menos eletronegativo for um elemento (mais eletropositivo), maior a chance em perder o elétron (será um cátion). Você deve ter verificado que, pelo fato de ganhar ou perder elétrons, os íons tem nomes diferentes. Quando um átomo perde elétrons, o número de cargas positivas é maior que as negativas, portanto vocêterá um cátion. Em caso contrário, ao ganhar elétrons, o número de cargas negativas é maior, logo a estrutura formada tem o nome de ânion. Observe, no Quadro 1, a seguir, o esquema representativo entre a ionização dos átomos de sódio e cloro a seguir (ATKINS; JONES, 2012). Átomo de Na Íon Na+ Átomo de Cl Íon Cl- 11 prótons 11 prótons 17 prótons 17 prótons 11 elétrons 10 elétrons 17 elétrons 18 elétrons Quadro 1. Átomos e íons de sódio (Na) e de cloro (Cl) Nessa fase da sua leitura, você irá focar apenas no estudo dos cátions. De modo geral, podemos dizer que os cátions são estruturas monoatômicas, isto é, formados por um único átomo ionizado. Como exceção a esta regra, encontramos o íon amônio (NH4+) e o íon mercuroso (Hg2 2+). Observe, agora, a Figura 3. Nela, você encontra os principais cátions que precisa conhecer. Reações dos cátions4 Figura 3. Exemplos de cátions encontrados na natureza. Fonte: Adaptada de Chang e Goldsby (2013). Você percebeu que existem diferentes números nesta tabela? Estude-os com cuidado, pois são essenciais para entender as reações que envolvem cátions. Observe atentamente o mercúrio (Hg). Ele possui elementos acima (sobrescrito) e abaixo (subscrito). O mesmo vale para outros elementos. Você deve ter percebido que todos eles têm o sinal positivo, que determina a valência do íon. Um único sinal positivo significa que o átomo perdeu um elétron e tornou-se um íon monovalente, o sinal 2+ significa que perdeu dois elétrons e tornou-se um íon divalente, e assim por diante. Agora observe que o mercúrio, além da valência, possui o algarismo 2 subscrito. Isso significa que, para apresentar-se como elemento, são necessários dois átomos de mercúrio. Diz-se, então, que ele é diatômico. A isso se dá o nome de atomicidade. Os outros elementos não possuem numeração; logo são monoatômicos. Atomicidade e valência são conceitos diferentes. Seus valores não precisam ser iguais. 5Reações dos cátions Para finalizar o primeiro aprendizado proposto, veja o nome de alguns cátions, no Quadro 2. Atente para a valência de alguns íons, como aqueles das famílias 1, 2 ou 3 da tabela periódica. Eles só possuem um nome. Já os íons das famílias 6–12 possuem valência variável e, portanto, podem ter mais de um nome. Fonte: Adaptado de Chang e Goldsby (2013). Elemento Nome do cátion Sódio (Na) íon sódio (Na+) Magnésio (Mg) íon magnésio (Mg+2) Alumínio (Al) íon alumínio (Al+3) Ferro (Fe) íon ferroso (Fe+2) ou ferro II íon férrico (Fe+3) ou ferro III Cobre (Cu) íon cuproso (Cu+) ou cobre I íon cúprico (Cu+2) ou cobre II Quadro 2. Elementos, cátions e seus respectivos nomes Você deve ter percebido que quando um elemento possui duas valências, a menor tem a terminação oso no nome e a maior tem a terminação ico. É importante identificar cada um deles, pois suas reações são diferentes. Esta nomenclatura, embora usual, foi substituída pelo uso da numeração da valência. Assim, por exemplo, você irá utilizar a expressão “ferro II” (que se pronuncia ferro dois), em vez de se referir a íon ferroso. Reações envolvendo cátions As reações que envolvem cátions estão classificadas em dois grupos principais. A diferença entre as duas está na forma como os íons se apresentam: em pó (via seca) (ROSA; GAUTO; GONÇALVES, 2013); ou em solução (via úmida) (DIAS et al., 2016). Reações dos cátions6 Conheça os elementos que podem ser analisados em laboratório, quando em sua forma catiônica. Prata (Ag), Chumbo (Pb), Mercúrio (Hg), Cobre (Cu), Cádmio (Cd), Bismuto (Bi), Arsênio (As), Antimônio (Sb), Estanho (Sn), Cromo (Cr), Alumínio (Al), Zinco (Zn), Ferro (Fe), Manganês (Mn), Cobalto (Co), Níquel (Ni), Magnésio (Mg), Bário (Ba), Cálcio (Ca), Estrôncio (Sr), Sódio (Na), Potássio (K), Amônio(NH4) Fonte: Dias et al. (2016). Em geral, alguns cátions (em especial na forma de cloretos) podem ser avaliados diretamente por via seca, sem necessidade de reações especiais. Isto ocorre porque os cátions sofrem volatilização na chama não luminosa de Bun- sen, cuja temperatura atinge níveis superiores a 2000 K (VOGEL et al., 2002). Veja a Figura 4 para entender o processo. Ao colocar uma pequena quanti- dade de material próximo à chama do Bico de Bunsen, o sal sofre evaporação seguida de vaporização e dissociação. Os elétrons dos átomos oriundos do cátion sofrem excitação térmica, aumentando seu nível de energia. Ao retor- narem ao estado fundamental, liberam a energia absorvida na forma de luz (OKUMURA; CAVALHEIRO; NÓBREGA, 2004). Figura 4. Esquema da formação do espectro de emissão de um cátion. Fonte: Okumura, Cavalheiro e Nóbrega (2004). M+X– (aq) M+X– (aerossol) Evaporação Vaporação Dissociação MX(s) MX(g) M(g) + X(g) Excitação térmica Emissão na chama M*(g) M*(g) hv Absorção de energia radiante (hv) Remissão (�uorescência) hv ou hv’ 7Reações dos cátions A frequência da luz emitida possui relação direta com o átomo excitado. Assim, a cor obtida indica o átomo analisado, conforme vemos na Figura 5. Figura 5. Coloração característica de cada cátion presente em uma amostra. Fonte: Zern Liew/Shutterstock.com. Zinco Potássio Estrôncio Sódio Cobre Esta análise é considerada preliminar e capaz de detectar quantidades mínimas de analito (3–4 mg), sendo apenas qualitativa. Para resolver este problema, foi desenvolvido um aparelho capaz de detectar e quantificar os cátions, chamado fotômetro de chama. Este aparelho identifica a intensidade da chama produzida pelo cátion em uma amostra e a relaciona com uma solução padrão, determinando, assim, a concentração do elemento estudado (VOGEL et al., 2002). Como citado, outra forma de analisar cátions é por reações químicas em meios aquosos. Estas reações envolvem a formação de precipitados devido ao baixo Kps do produto formado (ROSA; GAUTO; GONÇALVES, 2013). Veja como isto acontece. Quando colocamos um sal (o cloreto de cálcio, por exemplo) em água, este rapidamente de solubiliza. Isso acontece porque, nesta forma, tanto o íon cálcio (cátion: Ca+2) quando o íon cloro (Cl-2) são solvatados pela água. Nesse momento, o cálcio fica separado quimicamente do cloreto. Você pode estar pensando: “Mas o positivo não atrai o negativo?” A resposta é sim, mas a água tem energia suficiente para mantê-los separados. Reações dos cátions8 O verbo solvatar é de uso comum em química. Ele indica que um elemento ou substância é envolvido por outro elemento ou substância. O processo de solvatação mais comum é quando um íon (cátion ou ânion) é envolvido por uma camada de água. Apesar de a água ser considerada “o solvente universal”, não tem poderes ilimitados. Nem sempre consegue manter os íons separados. Quando a sol- vatação não tem força de manter cátions e ânions separados, eles mantêm-se unidos e insolúveis no meio. Matematicamente, pode-se dizer que, quando a força de solvatação é maior que a força de atração, o sal é solúvel; quando a força de atração é maior que a força de solvatação, o sal é insolúvel. Como esse conceito se aplica à identificação de cátions? Você viu ante- riormente que o cloreto de cálcio é solúvel em água. No entanto, se o ânion mudar para, por exemplo, carbonato? A resposta será: o cálcio irá precipitar. Isso ocorre porque a força de atração entre o cálcio e o carbonato é superior à força de solvatação. Logo, eles irão se unir. Assim, se quisermos identificar se existe cálcio em uma amostra, basta adicionar alguma substância que contém carbonato como ânion, como o carbonato de sódio. Este processo de induzir a precipitação do cálcio é conhecido como reação de precipitação. Observe que no exemplo citado, também forma-se cloreto de sódio, que não irá precipitar, pois é solvatado completamente pela água. Aqui fica evidente uma condição importante da reação de precipitação: deve-se escolher com cuidado o agente precipitante (aquele que induz a precipitação) para que apenas uma substância precipite, permitindo sua identificação. Sabendo escolher o agente precipitante,qualquer cátion poderá ser pre- cipitado, inclusive o sódio e o potássio (considerados os mais solúveis da tabela periódica). Para precipitar estes elementos, são utilizados ânions muito incomuns da prática laboratorial, como o acetato de zinco e uranila para o sódio e a dipricilamina para o potássio (DIAS et al., 2016). Além da precipitação, a identificação de cátions envolve a análise da cor. Devido a propriedades intrínsecas de cada cátion, os precipitados obtidos apresentam cores características. No exemplo anterior, para saber se um líquido contem sódio ou potássio, deve-se observar a cor do precipitado. Ao realizar a reação indicada, o sódio terá cor amarelo-esverdeado; já o potássio terá cor vermelho-alaranjado (DIAS et al., 2016). 9Reações dos cátions Além das reações de precipitação, também podem ser utilizadas reações que envolvem a formação de produtos voláteis. O exemplo característico deste tipo de reação é a identificação de amônia. Em sua forma salina, o cloreto de amônio é muito solúvel em água (CUIDADO: Amonia (NH3) é um gás e não é cátion. Já o amônio (NH4 +) é um cátion e existe em solução). Ao adicionar uma base em um líquido contendo cloreto de amônio, esse se converte em amônia e volatiliza-se. Assim como o sódio pode ser identificado pela cor, a amônia pode ser identificada pelo odor tóxico característico. Exemplo de reações Você verá agora, reações envolvendo análises de alguns cátions importantes na área farmacêutica e nutricional. O cálcio é um elemento abundante na crosta terrestre, sendo o quinto em ordem de quantidade relativa. É o principal componente de ossos, dentes e também age como um segundo mensageiro celular. Apesar de sua importância, pode precipitar no trato urinário, formando cristais de oxalato de cálcio com relativa facilidade (WELLER et al., 2018). O cálcio é muito solúvel na forma de cloreto, mas pouco solúvel na forma de oxalato. Essa característica é utilizada em sua identificação (BRASIL, 2010). CaCO3(s) + 2 HCl (aq) → CaCl2 (aq) + H2O + CO2 carbonato de cálcio ácido clorídrico cloreto de cálcio água gás carbônico CaCl2 (aq) + NH4C2O4(aq) → CaC2O4 (s) + NH4Cl2 (aq) cloreto de cálcio oxalato de amônio oxalato de cálcio cloreto de amônio Quadro 3. Exemplos de reações de análise (superior) e dupla troca (inferior) Reações dos cátions10 Você deve ter percebido que é muito simples identificar um cátion: basta ter uma suspeita (qual cátion se imagina estar presente em uma amostra) e escolher um agente precipitante ou que induza sua volatilização. Além disso, se a amostra estiver no estado sólido, pode-se optar pela técnica da chama e a cor resultante revelará qual é o íon. Resta uma pergunta: dentro do universo de substâncias existentes na natureza, qual escolher para fazer as reações?” Levando em consideração as reações em meio aquoso, você deve lembrar do termo Kps, também chamado de constante de produto de solubilidade. Este termo tem ligação direta com o processo de solvatação discutido anteriormente. É a partir dele que você escolhe qual agente precipitante irá utilizar (ATKINS; JONES, 2012) Na prática, quanto menor o valor de Kps, maior a probabilidade de ocorrer a formação de um precipitado. Assim, você deve escolher o agente precipitante cujo Kps do produto formado seja o menor possível, preferencialmente aquele que gere uma coloração característica (ATKINS; JONES, 2012). Usando os exemplos já citados, o cálcio pode ser identificado utilizando carbonato de sódio ou oxalato de amônio. Com o primeiro, irá se formar o carbonato de cálcio cujo Kps é de 8,7 10-9. Já com o segundo, será obtido o oxalato de cálcio com Kps de 2,6 10-9. Logo, o resultado experimental utilizando o oxalato é preferido, pois o Kps é menor (ATKINS; JONES, 2012). Calma! você não precisará testar todos os agentes precipitantes para saber qual é o melhor. Isso já foi feito. As reações que envolvem precipitação de cátions já foram categorizadas e chamam-se reações de identificações de cátions. Para compreender melhor, observe o Quadro 4, que relaciona alguns cátions e o respectivo agente precipitante: Fonte: Adaptado de Dias et al. (2016). Íon Agente precipitante Precipitado Sódio (Na+) Acetato de zinco e Uranila [Zn(UO2)(AcO)4] Branco Potássio (K+) Dipicrilamina [[(NO2)3C6H2]2NH] Vermelho-alaranjado Cálcio (Ca+2) Oxalato de amônio [NH4C2O4] Branco Prata (Ag+) Ácido clorídrico (HCl) Branco Ferro Tiocianato de amônio [NH4CNS] Vermelho Quadro 4. Cátions, agentes precipitantes e características dos precipitados 11Reações dos cátions Perceba que, quando apenas um elemento está presente no meio (em geral as reações são realizadas em tubo de ensaio ou tubo de Nessler, que é um tipo especial de tubo de ensaio), a presença de precipitado indica o cátion. No entanto esta situação é rara. Normalmente, mais de um cátion está presente no meio. Assim muito cuidado é exigido nas reações de identificação de cátion e deve ser seguida uma ordem precisa. Para que essa ordem não seja alterada, foram criadas fluxogramas de análise sistemática de cátions. Esses fluxogramas indicam a ordem exata em que as reações devem ser feitas para que o produto obtido possa ser caracterizado sem o uso de equipamentos especiais (DIAS et al., 2016). Ainda assim, em certos casos em que é exigida maior precisão, pode ser necessário o uso de equipamento e técnica específicos, como a cromatografia de íons, que não depende de uma reação química. Este equipamento, embora tenha custo elevado, oferece vantagens relevantes quando a amostra é total- mente desconhecida, pois evita a realização da análise sistemática completa para todos os cátions. Veja, agora, outro exemplo de reações de identificação de cátions: o chumbo, muito encontrado como contaminante de alimentos e medicamentos. Compostos à base de chumbo foram, durante muito tempo, utilizados como antidetonante de combustíveis. Sua presença no meio ambiente é considerada nociva à saúde, e portanto, deve ter seus níveis controlados (WELLER et al., 2018). No organismo humano, seu acúmulo pode levar a problemas neuro- lógicos (especialmente em crianças) e alterações no metabolismo do heme (KLAASSEN; WATKINS III, 2012). O chumbo é pouco solúvel em meio aquoso (ATKINS; JONES, 2012) e, mesmo em micro quantidade, pode ser identificado a partir da reação com ácido sulfúrico (precipitado insolúvel) e da confirmação com hidróxido de sódio (composto solúvel) (BRASIL, 2010). Pb+2 (aq) + H2SO4(aq) → PbSO4 (s) + 2 H+ (aq) cloreto de chumbo II ácido sulfúrico sulfato de chumbo II água PbSO4 (s) + NH4CH3CO2(aq) → Pb(CH3CO2)2 (aq) + (NH4)2SO4 (aq) sulfato de chumbo II acetato de amônio acetato de chumbo II sulfato de amônio Quadro 5. Exempos de reações de deslocamento (superior) e de dupla troca (inferior) Reações dos cátions12 Para conhecer mais reações, você está convidado a estudar a farmacopéia brasileira, disponível no link a seguir. Lá, você encontrará a descrição da análise de outros cátions, como o ferro (Fe), cobre (Cu), mercúrio (Hg), magnésio (Mg). O link abaixo leva a um artigo publicado na revista Química Nova, tradicional no meio científico, e aborda a importância da química analítica qualitativa e a identificação de cátions em um contexto histórico. https://goo.gl/bRdbVu Também é importante verificar o site da Farmacopéia Brasileira, disponibilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que, em sua quinta edição, apresenta a análise de diversos cátions importantes para saúde. https://goo.gl/y45bBP ALBERTS, B. et al. Biologia molecular da célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. 1464 p. ATKINS, P., JONES, L. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012. 922 p. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Farmacopeia brasileira: volume 1. 5. ed. Brasília: Anvisa, 2010. 545 p. Disponível em: <http://por- tal.anvisa.gov.br/documents/33832/260079/5%C2%AA+edi%C3%A7%C3%A3o+-+Volume+1/4c530f86-fe83-4c4a-b907-6a96b5c2d2fc>. Acesso em: 2 nov. 2018. CHANG, R.; GOLDSBY, K. A. Química. 11. ed. Porto Alegre: AMGH; Bookman, 2013. 1135 p. DIAS, S. L. P. et al. Química analítica: teoria e práticas essenciais. Porto Alegre: Bookman, 2016. 392 p. HILAL-HANDAL, R., BRUNTON, L. L. Manual de farmacologia e terapêutica de Goodman & Gilman. 2. ed. Porto Alegre: AMGH; Artmed, 2016. 1216 p. KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, J. B. Fundamentos em toxicologia de Casarett e Doull. 2. ed. Porto Alegre: AMGH; Bookman, 2012. 472 p. 13Reações dos cátions OKUMURA, F.; CAVALHEIRO, E. T. G.; NÓBREGA, J. A. Experimentos simples usando fotometria de chama para ensino de princípios de espectrometria atômica em cursos de química analítica. Química Nova, São Paulo, v. 27, n. 5, p. 832-836, set.-out. 2004. Disponível em: <http://quimicanova.sbq.org.br/detalhe_artigo.asp?id=4037>. Acesso em: 2 nov. 2018. REZENDE, A. (Org.). Curso de filosofia: para professores e alunos do ensino médio e de graduação. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. 312 p. ROSA, G.; GAUTO, M.; GONÇALVES, F. Química analítica: práticas de laboratório. Porto Alegre: Bookman, 2013. 128 p. (Série Tékne). VOGEL, A. I. et al. Análise química quantitativa. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002. 488 p. WELLER, M. et al. Química inorgânica. 6. ed. Porto Alegre: Bookman, 2018. 900 p. Leituras recomendadas ABREU, D. G. et al. Uma proposta para o ensino da Química Analítica Qualitativa. Quí- mica Nova, São Paulo, v. 29, n. 6, p. 1381-1386, nov.-dez. 2006. Disponível em: <http:// quimicanova.sbq.org.br/detalhe_artigo.asp?id=2555>. Acesso em: 2 nov. 2018. ALLEN JR., L. V. Química farmacêutica. In: ALLEN JR., L. V. Introdução à farmácia de Remington. Porto Alegre: Artmed; Pharmaceutical Press, 2016. p. 67-79. MILLER, D. D. Minerais. In: DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L; FENNEMA, O. R. Química de alimentos de Fennema. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. p. 410-444. WELLER, M. et al. Química inorgânica na medicina. In: WELLER, M. et al. Química inor- gânica. 6. ed. Porto Alegre: Bookman, 2018. p. 820-833. Reações dos cátions14 Conteúdo: Dica do professor Reações químicas que identificam cátions podem aparecer de duas formas: equação completa e simplificada. Nesta Dica do Professor, você vai poder observar como acontece uma reação de precipitação capaz de provar a presença de chumbo em uma amostra. Também vai notar que não importa a forma de escrita da equação, as duas representam a mesma situação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/8598726600a019dcc2f177df31e058ed Exercícios 1) A análise de cátions é fundamental na determinação qualitativa de um determinado analito. Sobre os cátions, assinale a alternativa correta: A) São elementos químicos que, após receberem elétrons, têm um número maior de prótons em relação aos elétrons. B) São elementos químicos que, após doarem elétrons, têm um número maior de prótons em relação aos elétrons. C) São elementos que têm tendência a receber elétrons, pois apresentam baixa eletronegatividade. D) São elementos que têm tendência a receber elétrons, pois apresentam alta eletronegatividade. E) São elementos que recebem um elétron e são representados com um sinal de +. 2) Sobre os cátions formados a partir dos elementos cálcio, estrôncio e ferro (forma férrica), assinale a alternativa que apresenta a forma correta de representá-los: A) Ca+2, Sn+2, F+2. B) Ca+, Sr+2, Fe+4. C) Ca+2, Sn+2, Fe+2. D) C+2, Sr+2, Fe+3. E) Ca+2, Sr+2, Fe+3. 3) Sobre os compostos BaSO4, Al(OH)3, NH4Cl, K3PO4 e Zn(NO3)2, indique a alternativa que apresenta de forma correta o cátion, sua valência e sua atomicidade respectivamente: A) Bário, monovalente, monoatômico. B) Bario, trivalente, monoatômico. C) Amônio, divalente, tetratômico. D) Potássio, monovalente, triatômico. E) Zinco, divalente, diatômico. 4) Durante a formação de cátions pelo teste de chama, formam-se cores características. Essas cores são o resultado de quê? A) Da passagem de elétrons de camadas muito energéticas para camadas menos energéticas e absorvem a energia luminosa fornecida pela chama. B) Da excitação de prótons que, ao saírem do núcleo, vão absorver energia térmica fornecida pela chama, cuja temperatura média é de 2000K. C) Da reação química que existe entre o oxigênio do ar e do elemento químico, que em altas temperaturas formam óxidos de cor característica. D) Da excitação de elétrons de camadas pouco energéticas para camadas mais energéticas e liberam a energia absorvida na forma de luz. E) De um processo físico no qual o cátion passa do estado sólido ao gasoso e os elétrons passam de um átomo para outro presente na amostra. 5) O bário é um elemento muito utilizado em contrastes radiológicos por ser radiopaco. Identifique corretamente o cátion, sua cor na prova de chama e a reação de identificação: A) Ba+2, verde, Ba+2(aq) + CrO4+2(aq) → BaCrO4(s). B) Ba+1, azul, Ba+1(aq) + CrO4+2(aq) → Ba2CrO4(s). C) Ba+2, amarelo, Ba+2(aq) + CrO4+2(aq) → BaCrO4(s). D) Ba+3, verde, Ba+3(aq) + CrO4+2(aq) → Ba2(CrO4)3(s). E) Ba+2, violeta, Ba+2(aq) + CrO4+(aq) → Ba(CrO4)2(s). Na prática As pessoas podem falecer por diversos motivos: infarto, AVC, câncer, entre outros. No entanto, existem casos em que o óbito não é facilmente identificado, em especial quando não ocorre em um ambiente hospitalar. O Instituto Médico Legal avalia diariamente a causa mortis (necropsia) dos óbitos que ocorreram sem causa aparente, sem laudo médico ou com suspeita de assassinato, por exemplo. Entre as análises, incluem-se: * presença de abuso de drogas como maconha, cocaína, etc.; * intoxicação por monóxido de carbono; * uso de medicamentos como antidepressivos; * presença de metais pesados, incluindo os cátions. Confira Na Prática as etapas de uma necropsia. Assim você pode entender que a identificação de cátions não é uma "simples" prática de laboratório, ela é importante em outros segmentos da sociedade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/b20b8c79-3d8e-4fce-b2e1-19986448bf1a/19e4d509-7d5c-4eab-8b12-1043c7679427.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Efeitos tóxicos dos metais Metais podem ser utilizados em terapias medicamentosas, mas também podem ser tóxicos ao homem. A seção Desafio propõe a resolução de um caso clínico envolvendo metais. Para tanto, sugiro ler o capítulo 23 do livro a seguir. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Química inorgânica na medicina Os cátions são muito utilizados para tratamento de diversas patologias, desde úlceras gástricas até depressão e câncer. Aprofunde seus conhecimentos sobre o assunto no capítulo 27. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Determinação da composição mineral de diferentes formulações de multimistura Multimisturas são formulações, em geral, em pó que são adicionadas a outros alimentos para enriquecê-los nutricionalmente. O artigo a seguir demostra a importância da análise de cátions nesse tipo de alimento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Avaliação de contaminação por metais pesados em amostras de siris azuis Siris são crustáceos muito utilizados na alimentação, mas, por viverem em ambiente marinho, estão sujeitos à contaminação ambiental. O artigo a seguir apresenta de forma clara o impacto de rejeitos ambientais nesse tipo de alimento. http://www.scielo.br/pdf/cta/v25n2/25020.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Valor do enema de bário com duplo contraste no diagnóstico da endometriose do reto e sigmoide Minerais podem ser nutritivos ou tóxicos.O artigo a seguir aponta para o uso de medicamentos de cátions. O caso demonstra a utilização de bário como forma de avaliar exames de imagem de tecidos moles, que de outra forma não seriam visíveis em um raio X. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://www.scielo.br/pdf/cta/v27n4/17.pdf http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v30n8/05.pdf