Prévia do material em texto
Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Atena Editora 2019 Christiane Trevisan Slivinski (Organizadora) 2019 by Atena Editora Copyright da Atena Editora Editora Chefe: Profª Drª Antonella Carvalho de Oliveira Diagramação e Edição de Arte: Lorena Prestes e Karine de Lima Revisão: Os autores Conselho Editorial Prof. Dr. Alan Mario Zuffo – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Prof. Dr. Álvaro Augusto de Borba Barreto – Universidade Federal de Pelotas Prof. Dr. Antonio Carlos Frasson – Universidade Tecnológica Federal do Paraná Prof. Dr. Antonio Isidro-Filho – Universidade de Brasília Profª Drª Cristina Gaio – Universidade de Lisboa Prof. Dr. Constantino Ribeiro de Oliveira Junior – Universidade Estadual de Ponta Grossa Profª Drª Daiane Garabeli Trojan – Universidade Norte do Paraná Prof. Dr. Darllan Collins da Cunha e Silva – Universidade Estadual Paulista Profª Drª Deusilene Souza Vieira Dall’Acqua – Universidade Federal de Rondônia Prof. Dr. Eloi Rufato Junior – Universidade Tecnológica Federal do Paraná Prof. Dr. Fábio Steiner – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Prof. Dr. Gianfábio Pimentel Franco – Universidade Federal de Santa Maria Prof. Dr. Gilmei Fleck – Universidade Estadual do Oeste do Paraná Profª Drª Girlene Santos de Souza – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Profª Drª Ivone Goulart Lopes – Istituto Internazionele delle Figlie de Maria Ausiliatrice Profª Drª Juliane Sant’Ana Bento – Universidade Federal do Rio Grande do Sul Prof. Dr. Julio Candido de Meirelles Junior – Universidade Federal Fluminense Prof. Dr. Jorge González Aguilera – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Profª Drª Lina Maria Gonçalves – Universidade Federal do Tocantins Profª Drª Natiéli Piovesan – Instituto Federal do Rio Grande do Norte Profª Drª Paola Andressa Scortegagna – Universidade Estadual de Ponta Grossa Profª Drª Raissa Rachel Salustriano da Silva Matos – Universidade Federal do Maranhão Prof. Dr. Ronilson Freitas de Souza – Universidade do Estado do Pará Prof. Dr. Takeshy Tachizawa – Faculdade de Campo Limpo Paulista Prof. Dr. Urandi João Rodrigues Junior – Universidade Federal do Oeste do Pará Prof. Dr. Valdemar Antonio Paffaro Junior – Universidade Federal de Alfenas Profª Drª Vanessa Bordin Viera – Universidade Federal de Campina Grande Profª Drª Vanessa Lima Gonçalves – Universidade Estadual de Ponta Grossa Prof. Dr. Willian Douglas Guilherme – Universidade Federal do Tocantins Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG) S255 Saúde pública e saúde coletiva 3 [recurso eletrônico] / Organizadora Christiane Trevisan Slivinski. – Ponta Grossa (PR): Atena Editora, 2019. – (Saúde Pública e Saúde Coletiva; v. 3) Formato: PDF Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web Inclui bibliografia ISBN 978-85-7247-162-6 DOI 10.22533/at.ed.626191103 1. Política de saúde. 2. Saúde pública. I. Slivinsk, Christiane Trevisan. CDD 362.1 Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422 O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores. 2019 Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. www.atenaeditora.com.br APRESENTAÇÃO Todo indivíduo tem o direito de segurança a saúde, as ações prestadas pela saúde pública são relacionadas ao diagnóstico e tratamento de doenças que lhes permita a manutenção da saúde. No entanto, quando se considera a comunidade, a coletividade, se faz necessário que o profissional ultrapasse as barreiras da observação, diagnóstico e prescrição de tratamento ao paciente como um indivíduo isolado. O processo saúde-doença deve ser analisado dentro de um contexto social, onde o indivíduo encontra-se inserido para que se tenha subsídios suficientes para interferir na realidade e promover as mudanças necessárias. As modificações de ações necessárias para promoção da saúde dentro da saúde pública devem respeitar as possibilidades e programas fornecidos pelo Estado, enquanto que dentro da saúde coletiva a ação é mais radical de acordo com a necessidade da comunidade. Os profissionais envolvidos tanto com saúde pública quanto coletiva abrangem todas as grandes áreas da saúde, tais como enfermagem, medicina, odontologia, nutrição e fisioterapia, além dos demais colaboradores que atuam neste setor. Neste ebook é possível identificar a visão bem detalhada de como andam alguns dos aspectos da saúde pública e coletiva no Brasil na ótica de renomados pesquisadores. O volume 1 apresenta uma abordagem nutricional da saúde do indivíduo. Aqui são analisados tanto aspectos da absorção e função de determinados nutrientes no organismo quanto a atenção nutricional e a garantia de saúde. Ainda podem ser observados aspectos que envolvem a educação em saúde, onde se trabalha o conhecimento e a formação dos profissionais que atuam em saúde. No volume 2 encontram-se artigos relacionados as questões da estratégia da saúde da família e atenção básica que norteiam todo o processo de saúde pública, além da importância da atuação multiprofissional durante o processo de manutenção da saúde. Também são apresentados aqui algumas discussão acerca das implicações da terapia medicamentosa. Finalmente no volume 3 encontram-se as discussões relacionadas aos aspectos epidemiológicos de doenças tais como hepatite, hanseníase, dengue, sífilis, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis. Como não basta apenas garantir a saúde do cidadão mas também do profissional que o atende, são analisados alguns aspectos relacionados ao riscoocupacional e ao estresse causado pela atividade profissional. Este volume traz ainda a análise da atuação de profissionais dentro da unidade de terapia intensiva, os cuidados de enfermagem necessários ao restabelecimento da saúde do indivíduo e alguns aspectos da saúde da mulher. SUMÁRIO CAPÍTULO 1 ................................................................................................................ 1 EPIDEMIOLOGIA, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO: UMA REVISÃO ATUALIZADA SOBRE A DENGUE NO BRASIL Cinara Alves Primo Pessôa Luanna Soares de Melo Evangelista Antônio Rosa de Sousa Neto Alexandre Maslinkiewicz Lissandra Chaves de Sousa Santos Daniela Reis Joaquim de Freitas DOI 10.22533/at.ed.6261911031 CAPÍTULO 2 .............................................................................................................. 12 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA HEPATITE B EM UM MUNICÍPIO DO NORDESTE BRASILEIRO Kelvya Fernanda Almeida Lago Lopes Raynner Sousa Chaves Frazão Natália Pereira Marinelli Maraisa Pereira Sena Tarciso Marinelli Filho Alana Ilmara Pereira da Costa Josiane Rocha Silva Ferraz DOI 10.22533/at.ed.6261911032 CAPÍTULO 3 .............................................................................................................. 22 SITUAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA DA TUBERCULOSE MULTIRRESISTENTE NO ESTADO DO PIAUÍ, 2001 – 2012 Marcos Ramon Ribeiro Dos Santos Mendes Danieli Maria Matias Coêlho Jaqueline Carvalho E Silva Ivone venâncio de melo DOI 10.22533/at.ed.6261911033 CAPÍTULO 4 .............................................................................................................. 39 AVALIAÇÃO DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES DIAGNÓSTICADOS COM HANSENÍASE EM UMA CIDADE NO INTERIOR DO CEARÁ Renan Rhonalty Rocha Maria Vitória Laurindo Camilla Rodrigues Pinho Jessika Cruz Linhares Frota Francisca Aila De Farias Francisca Valéria Bezerra Sampaio Marques Alana Cavalcante Dos Santos Letícia Bandeira Mascarenhas Lopes Sara De Araújo Do Nascimento Antônia Crissya Ximenes Farias DOI 10.22533/at.ed.6261911034 CAPÍTULO 5 .............................................................................................................. 52 ANÁLISE DAS NOTIFICAÇÕES DA SÍFILIS CONGÊNITANO MUNICÍPIO DE NOVA IGUAÇU-RJ, NO PERÍODO DE 2013 A 2017 Hellen de Souza Neves Emanuel Inocêncio Ribeiro da Silva Paula Guidone Pereira Sobreira Adalgiza Mafra Moreno DOI 10.22533/at.ed.6261911035 CAPÍTULO 6 .............................................................................................................. 54 ANÁLISE DAS PRINCIPAIS DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS NO BRASIL NO PERÍODO DE 2011 A 2015 Antônio Zenon Antunes Teixeira DOI 10.22533/at.ed.6261911036 CAPÍTULO 7 .............................................................................................................. 62 CONTRIBUIÇÃO DA REDE SOCIAL PARA ADOLESCENTES E JOVENS ACOMETIDOS PELA HANSENÍASE Leidiane Aparecida Da Silva Danty Ribeiro Nunes Leonardo Nikolas Ribeiro Marilene Rivany Nunes DOI 10.22533/at.ed.6261911037 CAPÍTULO 8 .............................................................................................................. 72 USO DE CUIDADOS DE ENFERMAGEM NO BRASIL: UMA PESQUISA DE BASE POPULACIONAL Tatiane de Souza Mançú Enilda Rosendo do Nascimento DOI 10.22533/at.ed.6261911038 CAPÍTULO 9 .............................................................................................................. 82 UTILIZAÇÃO DO PROTOCOLO PÓS-EXPOSIÇÃO A MATERIAIS BIOLÓGICOS EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE Bruna Furtado Sena De Queiroz Maycon Teyllon Rodrigues De Carvalho Eronice Ribeiro De Morais Araujo Yanca Ytala Gonçalves Roza Jayris Lopes Vieira Maria Francinete Do Nascimento Silva Naya Thays Tavares De Santana Matheus Henrique Da Silva Lemos DOI 10.22533/at.ed.6261911039 CAPÍTULO 10 ............................................................................................................ 95 MONITORAMENTO DE INCIDENTES NO AMBIENTE HOSPITALAR: ESTRATÉGIA PARA A PROMOÇÃO DE UMA ASSISTÊNCIA SEGURA AO USUÁRIO Ana Claudia de Brito Passos Francemarie Teodósio de Oliveira Viviane Nascimento Cavalcante DOI 10.22533/at.ed.62619110310 CAPÍTULO 11 .......................................................................................................... 101 AVALIAÇÃO DA SOBRECARGA DOS CUIDADORES DE PACIENTES DO SERVIÇO ESCOLA DE FISIOTERAPIA – UFPI Gláucia Vanessa Santos Alves Jeferson Souza Silva Rebeca Barbosa da Rocha Kamila Santos da Silva Iago Santos Verás Cerliane Camapum Brandão Dionis de Castro Dutra Machado DOI 10.22533/at.ed.62619110311 CAPÍTULO 12 .......................................................................................................... 114 RISCOS OCUPACIONAIS AOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM QUE ATUAM EM SALA DE VACINA Márcia de Morais Sousa Maria Francinete do Nascimento Silva Naldiana Cerqueira Silva Bruna Furtado Sena de Queiroz Flávia de Sousa Holanda Laísa Ribeiro Rocha Gisele Lopes Cavalcante DOI 10.22533/at.ed.62619110312 CAPÍTULO 13 .......................................................................................................... 129 AVALIAÇÃO DO ABSENTEÍSMO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM – REVISÃO INTEGRATIVA Anny Caroline dos Santos Olímpio João Breno Cavalcante Costa Ana Íris Mota Ponte Maria Gleiciane Cordeiro Benedita Beatriz Bezerra Frota Carlos Henrique do Nascimento Morais DOI 10.22533/at.ed.62619110313 CAPÍTULO 14 .......................................................................................................... 143 CUIDADO AO CUIDADOR: AMENIZANDO O ESTRESSE DOS AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE Luma Ravena Soares Monte Vilkiane Natercia Malherme Barbosa Gleyde Raiane de Araújo Thiego Ramon Soares Anderson da Silva Sousa DOI 10.22533/at.ed.62619110314 CAPÍTULO 15 .......................................................................................................... 152 REFLEXÕES SOBRE O NÍVEL DE SOBRECARGA DO CUIDADOR A PARTIR DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA Vitória Ferreira do Amaral Quitéria Larissa Teodoro Farias Florência Gamileira Nascimento Maria Girlane Sousa Albuquerque Brandão Camila Paiva Martins Luiza Jocymara Lima Freire Dias Ana Suelen Pedroza Cavalcante Thaís Rodrigues Ferreira DOI 10.22533/at.ed.62619110315 CAPÍTULO 16 .......................................................................................................... 163 SEGURANÇA DO PACIENTE: A EQUIPE DE ENFERMAGEM COM ÊNFASE NO PROTOCOLO DE QUEDAS E AS ORIENTAÇÕES AO AUTOCUIDADO Francisca Fernanda Dourado de Oliveira Roselene Pacheco da Silva Jéssica Costa Brito Pacheco Gardênia Sampaio Leitão Ana Suzane Pereira Martins Jean Carlos Fonseca de Sousa DOI 10.22533/at.ed.62619110316 CAPÍTULO 17 .......................................................................................................... 173 CUIDADOS DE ENFERMAGEM À PESSOA COM ESQUIZOFRENIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA Lorena Gomes de Abreu Lima Leila Mariane Machado Torres Bezerra Nájila Aguiar Freitas Lemos Tatiane Barbosa de Lira Kamila Cristiane de Oliveira Silva Taciany Alves Batista Lemos DOI 10.22533/at.ed.62619110317 CAPÍTULO 18 .......................................................................................................... 184 RELATO DE EXPERIÊNCIA FRENTE AO HOSPITAL PSIQUIATRIACO DE TERESINA-PIAUI Yanca Ítala Gonçalves Roza Bruna Furtado Sena de Queiroz Evelynne de Souza Macêdo Miranda Manuella Bastiany Silva Kamila Cristiane de Oliveira Silva DOI 10.22533/at.ed.62619110318 CAPÍTULO 19 .......................................................................................................... 191 RELEVÂNCIA DE GRUPOS TERAPÊUTICOS NO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA Márcia de Morais Sousa Kamila Cristiane de Oliveira Silva Andreza Moita Morais Maria Francinete do Nascimento Silva Bruna Furtado Sena de Queiroz Thalita Carvalho Cipriano Valeria Correia Lima tupinambá Lustosa DOI 10.22533/at.ed.62619110319 CAPÍTULO 20 .......................................................................................................... 197 A PREVALÊNCIA DE TRANSTORNOS MENTAIS EM USUÁRIOS DE TABACO: UM ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO Gabriela de Queiroz Cerqueira Leite Yanna Cristina Moraes Lira Nascimento Jorgina Sales Jorge Valfrido Leão de Melo Neto Maria Cicera dos Santos de Albuquerque DOI 10.22533/at.ed.62619110320 CAPÍTULO 21 .......................................................................................................... 213 MODELO CALGARY DE AVALIAÇÃO FAMILIAR APLICADO A UM ADOLESCENTE USUÁRIO DE DROGAS: UM ESTUDO DE CASO João Breno Cavalcante Costa Anny Caroline dos Santos Olímpio Ana Íris Mota Ponte Maria Gleiciane Cordeiro Benedita Beatriz Bezerra Frota Carlos Henrique do Nascimento Morais DOI 10.22533/at.ed.62619110321 CAPÍTULO 22 .......................................................................................................... 219 FATORES ASSOCIADOS À SÍNDROME DE BURNOUT NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Laércio Bruno Ferreira Martins Bárbara Carvalho dos Santos Edilene Rocha de Sousa Caroline Rodrigues de Barros Moura Geísa de Morais Santana Jordano Leite Cavalcante de Macêdo David Reis Moura Marcelino Martins DOI 10.22533/at.ed.62619110322 CAPÍTULO 23 .......................................................................................................... 231 FATORES INVIABILIZADORES DA MOBILIZAÇÃO PRECOCE EM PACIENTES INTERNADOS NA UTI: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Laércio Bruno Ferreira Martins Bárbara Carvalho dos Santos Caroline Rodrigues de Barros Moura Suellen Aparecida Patricio Pereira Edilene Rocha de Sousa David Reis Moura Marcelino Martins DOI 10.22533/at.ed.62619110323 CAPÍTULO 24 .......................................................................................................... 239 IMPORTÂNCIA DO ENFERMEIRO NA ASSISTÊNCIA HUMANIZADA NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA Ellizama Belem de Sousa Mesquita Brisa Cristina Rodrigues Cardoso Magalhães Elliady Belem de Sousa Mesquita Edson Belem de Sousa Mesquita Elanea Brito dos Santos Michelly Gomes da Silva Marcos Vinicius de Sousa Fonseca Larissa Bezerra Maciel Pereira Avilnete Belem de Souza Mesquita Alexsandra Leandro Viana Rosa da Paz Firmino Ferreira DOI 10.22533/at.ed.62619110324CAPÍTULO 25 .......................................................................................................... 255 A SAÚDE DOS MORADORES DE RUA :TORNAR VISÍVEL O INVISÍVEL Maria Yaná Guimarães Silva Freitas Guilherme de Jesus Santos Alessandra de Almeida Pereira Caroline Andrade Araújo Fernanda Aiume Carvalho Machado Brenda Fadigas Carvalho DOI 10.22533/at.ed.62619110325 CAPÍTULO 26 .......................................................................................................... 264 ANÁLISE DE RISCOS OCUPACIONAIS NA PRODUÇÃO DE MAÇÃ: UM ESTUDO DE UM SISTEMA PRODUTIVO DA SERRA CATARINESE Fauser Batista Rolim Rosa Renata dos Santos Magnus Willians Cassiano Longen DOI 10.22533/at.ed.62619110326 CAPÍTULO 27 .......................................................................................................... 284 INCIDÊNCIA DE ACIDENTES DE MOTOCICLETA NAS CIDADES SATÉLITES DO RECANTO DAS EMAS, SAMAMBAIA E RIACHO FUNDO II NO DISTRITO FEDERAL Juliana de Sousa Muniz Marcos André Gonçalves Silvia Emanoella Silva Martins de Souza Dylliany Cristina da Silva Sales Leila de Assis Oliveira Ornellas Jônatas de França Barros André Ribeiro da Silva DOI 10.22533/at.ed.62619110327 CAPÍTULO 28 .......................................................................................................... 294 CARACTERIZAÇÃO DO PERFIL DE IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS DE ACORDO COM AS ESCALAS DE KATZ E LAWTON Maria Iara Socorro Martins Tatiane Gomes Alberto Emanuela Pinto Vieira Welber Hugo da Silva Pinheiro Jamille Soares Moreira Alves DOI 10.22533/at.ed.62619110328 CAPÍTULO 29 .......................................................................................................... 303 PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO E TEMPO MÉDIO DE PERMANÊNCIA DE PACIENTES ONCOLÓGICOS EM UMA ENFERMARIA DE CLÍNICA CIRÚRGICA Rodrigo Costa Soares Savin Tatiana de Araujo Lima Dayse Carvalho do Nascimento Priscila Francisca Almeida Mercedes Neto Andressa de Souza Tavares DOI 10.22533/at.ed.62619110329 CAPÍTULO 30 .......................................................................................................... 316 MELHORA DA AUTOESTIMA EM MULHERES INTERNADAS EM AMBIENTE HOSPITALAR COMO ESTRATÉGIAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE; RELATO DE EXPERIÊNCIA Lígia Maria Gomes da Silva Ilraiany de Araújo Lima Luana Ferreira Nunes Jéssica Vanessa Sousa Araújo Gyselle Carolyne de Almeida Alves Ana Jéssica Ferreira Alencar Danyel Pinheiro Castelo Branco DOI 10.22533/at.ed.62619110330 CAPÍTULO 31 .......................................................................................................... 321 CÂNCER DE MAMA: TIPOS DE TRATAMENTO E MUNICÍPIOS DE ORIGEM DE MULHERES ATENDIDAS EM HOSPITAL NA CIDADE DE SOBRAL- CEARÁ Michele Maria Martins Vasconcelos Marília Dias Costa Matheus Magno da Silva Néo Ananda Milena Martins Vasconcelos Milla Christie Martins Vasconcelos Pinheiro Danielle Rocha do Val DOI 10.22533/at.ed.62619110331 CAPÍTULO 32 .......................................................................................................... 323 CAPACITAÇÃO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE PARA O ACOMPANHAMENTO DE GESTANTES: UMA ESTRATÉGIA PARA QUALIFICAÇÃO DA ATENÇÃO EM SAÚDE DA MULHER Tatiana de Araujo Lima Monique Silva dos Santos DOI 10.22533/at.ed.62619110332 CAPÍTULO 33 .......................................................................................................... 339 TRANSPORTE NEONATAL SEGURO: VAMOS GARANTIR UMA VIDA Antonia Rodrigues Santana Aline Vasconcelos Alves Frota Ariano Wagner Alves de Oliveira Heliandra Linhares Aragão Karla Daniella Almeida Oliveira Letícia Kessia Souza Albuquerque DOI 10.22533/at.ed.62619110333 CAPÍTULO 34 .......................................................................................................... 341 FATORES DE RISCO DO CÂNCER DE COLO UTERINO AVALIADOS EM UMA COMUNIDADE DO INTERIOR MARANHENSE Kelvya Fernanda Almeida Lago Lopes Naiara Coelho Lopes Alana Ilmara Pereira da Costa Larissa de Andrade Silva Ramos Maraisa Pereira Sena Marcelo Xavier da Silva Sousa Natália Pereira Marinelli DOI 10.22533/at.ed.62619110334 CAPÍTULO 35 .......................................................................................................... 356 O PARTO HUMANIZADO: UMA REALIDADE PRÓXIMA OU UM FUTURO DISTANTE? Bárbara Carvalho dos Santos Francelly Carvalho dos Santos Matilde Nascimento Rabelo Laércio Bruno Ferreira Martins Kledson Amaro de Moura Fé Daccione Ramos da Conceição Claudia de Oliveira Silva Luiz Filipe Ximenes da Silva Vanessa Inglid Araujo Campelo Jéssica Nascimento Almeida Marcelino Martins DOI 10.22533/at.ed.62619110335 CAPÍTULO 36 .......................................................................................................... 371 VISITA PUERPERAL E ORIENTAÇÕES AO AUTOCUIDADO NO BINÔMIO MÃE-FILHO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA Francisca Fernanda Dourado de Oliveira Roselene Pacheco da Silva Jéssica Costa Brito Pacheco Gardênia Sampaio Leitão Ana Suzane Pereira Martins Jean Carlos Fonseca de Sousa DOI 10.22533/at.ed.62619110336 SOBRE A ORGANIZADORA ................................................................................... 378 Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 1 CAPÍTULO 1 EPIDEMIOLOGIA, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO: UMA REVISÃO ATUALIZADA SOBRE A DENGUE NO BRASIL Cinara Alves Primo Pessôa Universidade Federal do Piauí, Curso de Especialização em Microbiologia Aplicada à Ciências da Saúde, Teresina - Piauí Luanna Soares de Melo Evangelista Universidade Federal do Piauí, Departamento de Parasitologia e Microbiologia, Teresina - Piauí Antônio Rosa de Sousa Neto Universidade Federal do Piauí, Departamento de Enfermagem, Teresina - Piauí Alexandre Maslinkiewicz Universidade Federal do Piauí, Rede Nordeste de Biotecnologia, Teresina - Piauí Lissandra Chaves de Sousa Santos Universidade Federal do Piauí, Departamento de Enfermagem, Teresina - Piauí Daniela Reis Joaquim de Freitas Universidade Federal do Piauí, Departamento de Parasitologia e Microbiologia, Teresina - Piauí RESUMO: A Dengue é uma infecção de etiologia viral, cujo vetor principal relacionado com a transmissão da doença é o mosquito Aedes aegypti. Essa patologia apresenta sintomatologia diversificada, com sinais que variam de manifestações leves a graves, com ou sem comprometimento hemorrágico, que neste último caso, pode ocasionar a morte do paciente. O objetivo do presente trabalho é promover uma discussão atualizada sobre a situação da Dengue no Brasil, abordando para tal, tópicos como histórico da doença, diagnóstico, tratamento e epidemiologia nos dias atuais. O grande número de casos nos últimos anos e os sorotipos virais distintos e passíveis de sofrer mutações genéticas representa uma grande preocupação no cenário mundial, visto que grandes epidemias causadas pela Dengue além de representarem danos diretos ao homem implicam também em elevadas perdas econômicas relacionadas ao manejo desses pacientes pela saúde pública. As medidas preventivas ainda são unicamente relacionadas ao controle do vetor, pois as vacinas ainda estão em desenvolvimento. PALAVRAS-CHAVE: Dengue; epidemiologia; diagnóstico e tratamento; doença negligenciada. ABSTRACT: Dengue is a viral infection, and the main vector related to the transmission of the disease is the mosquito Aedes aegypti. This disease presents several symptoms, with signs ranging from severe to mild forms, with or without bleeding impairment, and in the latter case it may result in death of the patient. The aim of this work is to promote an updated discussion about the situation of Dengue in Brazil by topics as history of the disease, diagnosis, treatment and epidemiology today. The great number of cases in recent years and the different serotypes and likely to suffer genetic mutations represent a major concern on the world stage, as major Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 2 epidemics caused by Dengue besides representing direct harmto humans also imply high economic losses related to the management these patients for public health. Preventive measures are still only related to vector control because the vaccines are still under development. KEYWORDS: Dengue; epidemiology; diagnosis and treatment; disease neglected. 1 | INTRODUÇÃO A Dengue é uma doença causada por um vírus de RNA (DENV), um arbovírus, pertencente ao gênero Flavivírus e à família Flaviviridae, do qual são conhecidos clinicamente quatro sorotipos denominados como DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV- 4, respectivamente. Uma vez infectado por qualquer um dos sorotipos, o paciente pode ir a óbito mesmo que esta seja a sua primeira infecção pelo vírus (BRASIL, 2015). A Dengue têm se mostrado nos últimos anos como uma das doenças mais prevalentes no Brasil e no mundo, afetando principalmente as zonas tropicais e subtropicais (VIANA; IGNOTTI, 2013). Dados da Organização Mundial de Saúde dão conta de que, somente em 2015 foram registrados no Brasil mais de 1,5 milhão de casos da doença, número três vezes maior que o registrado no ano de 2014. No mundo, a cada ano, 500.000 pessoas apresentam a forma grave da doença, na maioria crianças. Dessas, 2,5% vão a óbito (WHO, 2016). A transmissão da doença é feita através da picada dos mosquitos do gênero Aedes (Aedes aegypti e Aedes albopictus), que servem de vetores para os quatro sorotipos do vírus. O indivíduo acometido por esta infecção pode evoluir para cura sem grandes complicações ou, apresentar as formas mais graves da doença, que em geral, inclui extravasamento plasmático, dando origem a quadros hemorrágicos graves que podem levar ao óbito (PERIAGO; GUZMAN, 2007). As epidemias de Dengue ocorridas nos últimos anos estão diretamente relacionadas à sobrevida do vetor artrópode, ou seja, o número de casos é maior, por exemplo, principalmente durante o verão; isso porque neste período há as condições necessárias para procriação e disseminação do mosquito (TAIRA, 2008). Assim sendo, as mudanças climáticas aliadas a fatores desfavoráveis nos âmbitos sócio-demográfico, biológico, médico-social e histórico da doença em determinados locais têm influenciado diretamente na dispersão de diversas patologias, incluindo as infecções transmitidas por estes vetores (BARCELLOS et al, 2009). As infecções atuais e recorrentes demonstram a necessidade de avaliar estratégias mais eficazes de controle do mosquito, uma vez que o mesmo se dissemina de forma acentuada até mesmo em áreas em que antes não havia relatos desta infecção. A co-circulação dos diversos sorotipos de Dengue também é um grande problema, pois pode levar a alterações antigênicas dos sorotipos pré-existentes, aumentando ainda mais a virulência desse vírus, elevando assim as taxas de morbidade e mortalidade, Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 3 fazendo-se necessário com isso, um investimento na área preventiva, com a pesquisa e elaboração de vacinas que sejam de fato eficientes para esta infecção (NUNES, 2015). 2 | UM POUCO DE HISTÓRIA DA DENGUE Os primeiros relatos de uma doença com características semelhantes a Dengue são chineses e datam de 992 d.C. Já se supunha nesta época que a doença estaria relacionada a transmissão por insetos (GUBLER, 2006). Porém, somente em 1907 Ashuburn e Craig puderam estabelecer a etiologia do vírus, e em 1926 foi demonstrado o papel do mosquito Aedes aegypti na transmissão do vírus da Dengue ao homem (STROTTMANN, 2008). Na ilha de Java no ano de 1779 ocorreu a primeira epidemia de Dengue de grandes proporções e em 1780 na Filadélfia, Estados Unidos (BOTELL; BERMÚDEZ, 2012). Após isto, mais oito grandes epidemias ainda afetaram todo o mundo até o ano de 1916 (HOWE, 1977). Até então, a Dengue era considerada uma doença benigna, porém, após a Segunda Guerra Mundial ocorreram os primeiros surtos de Dengue com comprometimento hemorrágico. O primeiro surto desta forma aconteceu nas Filipinas e em Bancoc, em meados dos anos 1950 (GUBLER, 1977). Nas décadas de 1960 e 1970, países como Singapura, Malásia e Indonésia também apresentaram essa forma grave de Dengue e na década de 1980 Índia e China também foram acometidas de surtos. Em 1964 ocorreu um surto do sorotipo DEN-3 e nos anos posteriores os sorotipos DEN-1 e DEN-2 também foram identificados nessa mesma região (DOMINGOS, 2005). Nas Américas, também a partir da década de 1960 ocorreram grandes epidemias e algumas inclusive relacionadas ao tipo mais grave da doença (TEIXEIRA; BARRETO; GUERRA, 1999; ASSAD, 2016). No Brasil, os primeiros relatos de Dengue ocorreram no fim do século XIX e foram descritos no estado do Paraná. Nesse período o mosquito já representava um grande perigo a população, mas porque estava associado à transmissão da Febre Amarela, que compartilha o mesmo vetor. Com a intensificação das medidas de controle implementadas para combate da Febre Amarela, o Brasil conseguiu erradicar o Aedes aegypti, porém, em 1976 com as falhas de vigilância epidemiológica e o relaxamento das medidas de controle adotadas anteriormente, o mosquito foi reintroduzido em terras brasileiras. Em 1986 ocorreu uma epidemia causada pelo sorotipo DENV-1 no estado do Rio de Janeiro, que se disseminou pela região nordeste, atingindo em 1990, os estados de Pernambuco, Ceará e Bahia. Ainda neste ano foi detectada a presença do sorotipo DENV-2 também no Rio de Janeiro. O vírus então se espalhou por todo o território nacional e em 1997 ocorreu mais uma epidemia. Em 2001 o sorotipo DEN-3 foi introduzido no país e em 2002 ocorreu um surto grave de Dengue hemorrágica, que chegou a marca 1 milhão de casos (BOTELL, 2012). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 4 3 | O VÍRUS O vírus da Dengue é um vírus de RNA fita simples e polaridade positiva, cuja partícula viral apresenta cerca de 50 nm de diâmetro, possui simetria icosaédrica e o nucleocapsídeo é revestido por um envelope lipoproteico, responsável por envolver o material genético viral16. Pertence ao gênero Flavivirus e família Flaviviridae, o sorogrupo é denominado DENV. Atualmente são descritos quatro sorotipos, que variam quanto aos seus antígenos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV- 4 (HOLMES; BURCH, 2000). Por diversos fatores, como mutações no vírus, estado imunológico do hospedeiro, etc pode ocorrer diversidade tanto nos sorotipos quanto nos genótipos, o que significa dizer que, até mesmo vírus com genótipos pertencentes ao mesmo sorogrupo apresentam diferenças e isso pode definir a forma coma doença se apresenta clinicamente, se de maneira mais branda ou severa (BICHAUD, 2014). Por ser uma arbovirose, ou seja, uma virose transmitida por artrópodes (carrapato, mosquito etc) a manutenção viral só se dá quando os ciclos epidemiológicos são mantidos e para isso, é necessário o hospedeiro invertebrado hematófago e o hospedeiro vertebrado, sendo o homem o hospedeiro definitivo e reservatório do vírus (RUEDA, 2009; MURRAY; PFALLER; ROSENTHAL, 2000). A replicação do sorogrupo DENV, assim como todo vírus, é intracelular e intracitoplasmática. Os locais em que ocorre a replicação viral podem ser as células mononucleares do sangue periférico, monócitos e macrófagos (MURRAY; PFALLER; ROSENTHAL, 2000). 4 | PATOGENIA E IMUNIDADE O vírus da Dengue pode ser responsável por causar infecções únicas ou em alguns casos persistentes em seus hospedeiros (tanto vertebrado quanto invertebrado). Como mecanismo de ação, o vírus causa no hospedeiro uma alta produção de RNA, que se torna responsável por bloquear a ligação do mRNA celular do hospedeiro aos seus ribossomos. Associado a este fator, ocorre aumento da permeabilidade celular nas células tomadas pelo vírus e ocorrem alterações iônicas, o que acarreta uma série de alterações enzimáticas. Isto faz com que haja favorecimento na produção de mRNA do vírus em relação ao mRNA da célula hospedeira. Com a alteração da produção de mRNA do hospedeiro ocorre também alteração na síntese proteica da célula, o que tornaa célula inviável, levando à morte celular (MCBRIDE; BIELEFELDT-OHMANN, 2000). DENV não afeta diretamente o vetor invertebrado. Depois que a fêmea de Aedes aegypti ingere sangue de um hospedeiro vertebrado virêmico, ocorre uma infecção das células epiteliais do intestino do mosquito, que se estende pela lâmina basal até o sistema circulatório, infectando as suas glândulas salivares. Durante 8 a 12 dias o Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 5 vírus permanece incubado e após esse prazo o mosquito estará apto a infectar outros vertebrados. A infecção no vertebrado ocorre quando o mosquito pica o homem, a saliva contendo substâncias anticoagulantes é regurgitada pelo mosquito durante a alimentação hematofágica, liberando também o vírus na corrente sanguínea do hospedeiro. No homem, o período de incubação é de 5 a 7 dias (viremia primária) e só depois desta fase é que se torna possível a observação da sintomatologia clínica. As fêmeas infectadas apresentam os ovários também infectados, transmitindo assim o vírus para os ovos em deposição, e uma vez contaminados, esses mosquitos estarão infectados por todo o seu ciclo de vida (MURRAY; PFALLER; ROSENTHAL, 2006). Com relação ao processo imune, o RNA de dupla fita que gera a replicação de DENV é antigênico, induzindo a produção de interferons alfa e beta, que por sua vez, tentam limitar a replicação do vírus e estimular o sistema imunológico do hospedeiro, o que vai ocasionar uma sintomatologia semelhante à da gripe. Nos seis primeiros dias da infecção é possível observar a presença de IgM e logo depois, serão detectados níveis de IgG, que agem impedindo a replicação viral, evitando que a mesma se espalhe por outros tecidos. Porém, a imunidade conferida não abrange todos os sorotipos, mas somente o sorotipo que o indivíduo foi exposto anteriormente (MCBRIDE; BIELEFELDT-OHMANN, 2000). A imunidade celular também é importante no processo de limitação da infecção. As células T tem o papel de reconhecer o DENV e enviar as respostas que incluem: proliferação, morte de células infectadas e a produção de citocinas (ROTHMAN, 2011). Estas citocinas irão propiciar a formação de uma cascata inflamatória, causando uma mudança quanto à permeabilidade vascular, originando as manifestações hemorrágicas do DENV (ATKINS et al, 2001). 5 | TRANSMISSÃO DA DENGUE PELO VETOR A Dengue pode ser transmitida por dois mosquitos: o Aedes aegypti (Linnaeus, 1762) e o Aedes albopictus (Skuse, 1894), que pertencem ao filo Arthropoda, classe Hexapoda, ordem Diptera, família Culicidae e gênero Aedes (BRASIL, 2001). O A. albopictus adapta-se bem ao ambiente residencial, pois tem comportamento altamente antropofílico, mas também é encontrado em áreas silvestres, no ambiente rural, em locais como o tronco oco das árvores, ou entre folhas que acumulam algum volume de água, por exemplo. Sua fonte de alimentação pode ser sangue humano ou de outros vertebrados (BRASIL, 2001). Os adultos de A. albopictus possuem a coloração bem escura e depositam os ovos em ocos de árvores ou recipientes que acumulem água (BRASIL, 2001). O mosquito presenta como características distintivas uma faixa longitudinal de cor branco-prateada, da cabeça até o escutelo; seu abdome apresenta faixas basais brancas; e suas pleuras possuem manchas prateadas e pernas demarcadas de Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 6 branco e preto (LEANDRO, 2012). Esse mosquito possui uma grande capacidade de se adaptar em ambiente de temperaturas distintas, resistindo de forma satisfatória em climas de temperatura baixa, o que indica uma disseminação maior deste vetor nos diversos biomas (WHO, 2016). O A. aegypti por sua vez, está mais relacionado com o interior das residências, nas zonas mais urbanizadas, por isso é considerado antropofílico. As fêmeas alimentam-se preferencialmente de sangue humano. Os habitats das larvas são, frequentemente, qualquer recipiente que acumule água, como: vasos, pneus, caixas d´água e etc (BRASIL, 2001). Fisicamente, o A. aegypti apresenta características peculiares, como cor escura e pernas e abdome dotados de manchas branco-prateadas. O tórax é escamoso e apresenta duas linhas laterais26. Os hábitos alimentares do A. aegypti são diurnos e a cada período de alimentação, várias pessoas podem ser picadas pelo mesmo mosquito (WHO, 2016). DENV será transmitido picada da fêmea dos mosquitos infectados pelo vírus, que após 12 dias da infecção, já apresenta a capacidade de transmissão da doença. Esses mosquitos apresentam um ciclo biológico que dura em média de 8-12 dias e apresenta os seguintes estágios: ovo, quatro estádios larvais (L1, L2, L3 e L4), pupa e adulto. As fêmeas depositam seus ovos em locais variados, onde as larvas permanecem viáveis por até um ano (NEVES, 2016; SANTOS et al, 2015). 6 | ASPECTOS CLÍNICOS O DENV apresenta um período de incubação que pode variar de 2 a 14 dias no homem e quando este está em período de viremia, infectará o inseto durante o processo de alimentação hematófaga. O período de viremia no homem começa um dia antes da febre e perdura até o sexto dia da doença. A infecção por DENV pode ser assintomática ou sintomática. Quando apresenta sintomas, estes podem ser brandos e inespecíficos, podendo ser confundidos com uma gripe ou os sintomas evoluir para casos mais graves, que podem levar o indivíduo à morte. O ministério da Saúde apresentou no ano de 2015 as novas diretrizes que devem nortear o manejo clínico do paciente com DENV, além de trazer a nova classificação da doença que foi definida em fases: fase febril, crítica e de recuperação (BRASIL, 2015; BRASIL, 2010). A fase febril se dá como o próprio nome diz pela presença de febre, que pode perdurar por dois a sete dias, podendo ser acompanhada de outros sintomas, como a dor de cabeça, dor nos músculos e nas articulações30. Alguns pacientes ainda apresentam o exantema papular, vômito, diarreia e anorexia. Na maioria dos casos, a doença evolui de forma benigna e o paciente se recupera sem mais complicações, o que não acontece na fase crítica, que já requer um cuidado e atenção maior ao paciente acometido. Nessa fase, a febre diminui entre o terceiro e o sétimo dias do início da patologia e associados a esta redução febril, vêm os sinais de alarme (dor persistente no abdome, vômitos frequentes, acúmulo de líquidos, sangramento de Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 7 mucosa). Geralmente estes sintomas são resultados da fragilidade vascular seguida de extravasamento do plasma, aumento do fígado e hematócrito alterado, demonstrando aumentos sucessivos nos seus valores (BRASIL, 2018). Na Dengue grave, ocorre uma complicação ocasionada pelo extravasamento do plasma, que pode tanto levar ao choque quanto ao acúmulo de líquidos no corpo do paciente. Esta fase é sistêmica, podendo acometer diversos órgãos, como o fígado, os rins, o sistema nervoso central etc. O choque acontece quando uma quantidade considerável de plasma é perdida durante o extravasamento. Entre o choque e o extravasamento, o período é de mais ou menos 24 a 48 horas, e como esta evolução pode ser rápida e brusca, os hematócritos devem ser acompanhados com constância. Disfunções graves dos órgãos podem ocorrer e sem necessariamente o paciente passar pela fase de choque ou extravasamento. Inflamações no encéfalo, miocárdio e fígado são relatadas como complicações da Dengue. Baseado em tais fatos, o recomendado é acompanhar a dosagem das enzimas hepáticas e verificar se há ou não alterações neurológicas que podem apresentar uma variedade de formas clínicas, como: encefalite, Síndrome de Reye e Síndrome de Guillain-Barré (BRASIL, 2018). Na fase de Recuperação o líquido extravasado é reabsorvido pelo organismo do paciente, o que vai possibilitar sua melhora gradativa. Pode ocorrer nessa fase o rush cutâneo com ou sem prurido. As infecções por bactérias podem ocorrer e devem ser acompanhadas e tratadas corretamente, sob o risco de mortedo paciente (BRASIL, 2010; BRASIL, 2018). 7 | DIAGNÓSTICO LABORATORIAL A Dengue pode ser detectada através de diversos exames, utilizando para esta finalidade métodos diretos (para detectar a presença do vírus, através de transcrição reversa com reação em cadeia da polimerase (RT-PCR), ou indiretos (aqueles responsáveis por detectar anticorpos contra o vírus, como testes sorológicos tais como ELISA, teste de fixação de complemento, teste de neutralização, dentre outros) (SINGUI; KISSOON; BANSAL, 2007; GOUVEIA et al, 2013). O Teste de RT-PCR mostra uma sensibilidade considerada muito refinada (80- 100%), sendo considerada uma técnica, portanto, padrão para diagnóstico (SHIH et al, 2016). O Teste Imunocromatográfico rápido para detecção de IgM e IgG também vem sendo utilizado, com relativo sucesso, junto com os testes de RT-PCR, aumentando a fidelidade do diagnóstico (SHIH et al, 2016). Porém, no último ano tem-se testado o método de qPCR (PCR quantitativo) e o Teste Rápido Diagnóstico de NS1 (Proteína Não-Estrutural 1) em tira como testes confiáveis para diagnóstico (TEOH et al, 2016). Desde 2013 pesquisadores no mundo todo tem se dedicado a estabelecer novas técnicas de diagnóstico que sejam utilizáveis para identificação de todos os sorotipos de Dengue e que sejam sensíveis. O diagnóstico pelo método de LAMP (Loop-mediated Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 8 Isothermal Amplification) apresenta alta sensibilidade, boa especificidade e resultado rápido, o que imprescindível em se tratando de diagnóstico (TEOH et al, 2013). 8 | TRATAMENTO O tratamento indicado aos indivíduos acometidos de Dengue deve ser de suporte, com a utilização de analgésicos e antipiréticos que vão agir sobre os sintomas; é indicada hidratação oral ou parenteral, de acordo com a caracterização do paciente, ou seja, em qual fase ele se encaixa fase febril, crítica ou de recuperação). Portanto, há uma necessidade de acompanhamento contínuo das manifestações clínicas desse indivíduo (BRASIL, 2010). 9 | EPIDEMIOLOGIA ATUAL DA DENGUE Segundo a OMS, o número de casos de infecção por DENV aumentou trinta vezes se comparado ao registrado há cinquenta anos atrás (BHATT et al 2013). Estimativas recentes demonstram que, em média, 390 milhões de novos casos são registrados por ano em todo o mundo; destes, cerca 96 milhões apresentam sintomatologia clínica (nos diversos graus de gravidade da doença). Cerca de 128 países já apresentam novos casos de Dengue, incluindo 36 países que antes eram declarados livres desta infecção. Também é válido lembrar que antes dos anos 1970, eram apenas nove os países que registravam a infecção pelo DENV 3 (BRASIL, 2018). Epidemiologicamente falando, o caráter hiperendêmico da Dengue é motivo de preocupação, juntamente com a diversidade sorológica do vírus, visto que esta morbidade além das implicações na saúde humana representa também grandes perdas econômicas em nível mundial. Países europeus já estão sob a ameaça de surtos epidêmicos, como o que ocorreu em Portugal em 2012, onde 2.000 casos foram detectados. Em 2013, em países da Ásia, como no Japão, a doença ressurgiu após 70 anos sem notificações da mesma. O continente americano também foi golpeado: em 2013 foram notificados casos nos Estados Unidos e o número de casos se manteve elevado nos países da América Latina. Em 2015, somente no Brasil foram identificados mais de um milhão e meio de casos, o que corresponde a três vezes o número de casos detectados em 2014 (WHO, 2016). Dados atualizados do ministério da Saúde do Brasil, já registraram em 2016, a marca de 396.582 casos prováveis de Dengue no país até a Oitava Semana Epidemiológica, que ocorreu entre 03/01/2016 a 27/02/2016. A maior incidência foi observada na região Sudeste do país, com 222.947 casos (56,2%) em relação ao total do país; logo após, surgiram as regiões Nordeste (com 71.375 casos - 18%), Centro-Oeste (52.162 casos - 13,2%), Sul (30.746 casos - 8%) e Norte (19.352 casos - 4,9%). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 9 10 | PREVENÇÃO E CONTROLE A Dengue é considerada um problema de saúde pública no Brasil e no mundo (NEVES, 2016) e as medidas preventivas ainda são limitadas ao controle do vetor. Ações permanentes de inspeções domiciliares, erradicação de focos do mosquito, além da implementação de políticas de caráter educativo, que visem promover a saúde e reduzir os riscos da doença são necessárias em todo o país, de forma conjunta entre Governo Federal, estados e municípios (BRASIL, 2010). O desenvolvimento e a produção de vacinas ainda são deficientes, isso por que alguns fatores têm dificultado a produção dessas vacinas. Um exemplo disto é o aumento da gravidade da doença quando o indivíduo já foi em algum momento exposto a sorotipos virais diferentes, seja por transmissão horizontal ou infecção pregressa. Outro impedimento é quanto ao modelo animal adequado para que sejam feitos os testes das vacinas. Atualmente, têm-se buscado, apesar destes empecilhos, o desenvolvimento de vacinas tetravalentes atenuadas ou inativadas, que venham a suprir a necessidade endêmica, dadas as proporções da Dengue nas últimas décadas (HOLMES E BURCH 2000, GOUVEIA et al, 2013). 11 | CONSIDERAÇÕES FINAIS A Dengue está muito longe de ser erradicada seja no Brasil ou no mundo. Isto ocorre por razões que envolvem desde a fácil dispersão do vírus e de seus vetores até condições climáticas, socioeconômicas das populações afetadas até as tentativas falhas de se obter uma vacina até o momento. A melhor chance de combate à doença ainda reside na educação em saúde, através de práticas educativas com a população que ensinem à mesma como eliminar o mosquito, como evitar sua propagação, como e quando procurar hospitais e postos de saúde em caso de suspeita de Dengue. Embora o avanço nas técnicas diagnósticas para identificação do vírus e seus sorotipos seja muito importante, trabalhar com o desenvolvimento de ações educativas ainda é a melhor arma contra a doença. REFERÊNCIAS ASSAD, L. Relações perigosas: aumento de temperatura e doenças negligenciadas. Revista Ciência e Cultura, v.68, n.1, p.14-16, jan/mar 2016. ATKINS, M.B.; et al. Kidney cancer: The cytokine working group experience (1986–2001). Medical Oncology, v.18, n.3, p.197-207, set 2001. BARCELLOS, C.; et al. Climatic and environmental changes and their effect on infectious diseases: scenarios and uncertainties for Brazil. Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, v.18, n.3, p. 285-304, 2009. BHATT, S.; et.al. The global distribution and burden of Dengue. Nature, v.496, p.504-507, abr 2013. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 10 BICHAUD, L.; et al. Arthropods as a source of new RNA viruses. Patogênese Microbiana, v.77, n.136-141, dez 2014. BOTELL, M.L.; BERMÚDEZ, M.R. Dengue. Revista Cubana de Medicina Geral Integral, v.28, n.01, p.123-126, 2012. BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico Monitoramento dos casos de Dengue, febre de chikungunya e febre pelo vírus Zika até a Semana Epidemiológica 8. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico: adulto e criança. Brasília: Ministério da Saúde. 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Dengue: Instruções para pessoal de combate ao vetor: Manual de normas técnicas. Brasília: Ministério da Saúde. 2001. BRASIL. Ministério da Saúde. Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. BRASIL. Plano de Contingência Nacional para Epidemias de Dengue. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. DOMINGOS, M.F. Aspectos da ecologia de Aedes aegypti (Linnaeus) em Santos, São Paulo, Brasil. Tese (Doutorado em Saúde Pública) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. GOUVEIA, F.L. et al. Production of intravenous human Dengue immunoglobulin from Brazilian-blood donors. Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences v. 49, n.4, p.821-29, dez 2013. GUBLER, D.J. Dengue/Dengue haemorrhagicfever: history and current status. Novartis Foundation symposium, v.277, n. 3- 16, 2006. GUBLER, D.J. Epidemic Dengue/Dengue Haemorrhagic Fever: A Global Public Health Problem in the 21 st Century. Dengue Bulletin, v.21, p.1-13, 1977. HOLMES, E.C.; BURCH, S.S. The causes and consequences of genetic variation in Dengue virus. Trends in Microbiology, v.8, p.74-77, fev 2000. HOWE, G.M. A world geography of human diseases. New York: Academic Press. 1977. LEANDRO, R.D.S. Competição e dispersão de Aedes (Stegomyia) aegypti (Linnaeus, 1762) e Aedes (Stegomyia) albopictus (Skuse, 1894) (diptera: culicidae) em áreas de ocorrência no município de João Pessoa - PB. [Dissertação]. Paraíba: Universidade Estadual da Paraíba, 2012. MCBRIDE, W.J.H.; BIELEFELDT-OHMANN, H. Dengue viral infections; pathogenesis and epidemiology. Microbes and infection. v.2, n.9, p.1041-50, jul 2000. MURRAY, P.R.; PFALLER, M.A.; ROSENTHAL, K.S. Microbiologia médica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2000. MURRAY, P.R.; PFALLER, M.A.; ROSENTHAL, K.S. Microbiologia Médica. 7ª ed. Elsevier, 2006. NEVES, D.P. Parasitologia Humana. 13ª ed. São Paulo: Atheneu; 2016. NUNES, J.G. Chikungunya e Dengue: desafios para a saúde pública no Brasil.[monografia] Anápolis: Universidade Estadual de Goiás, 2015. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 1 11 PERIAGO, M. R.; GUZMAN, M.G. Dengue and hemorrhagic Dengue in the Americas. Revista Panamericana de Salud Pública, v. 21, n.4, p.187-91, mai 2007. ROTHMAN, A.L. Immunity to Dengue virus: a tale of original antigenic sin and tropical cytokine storms. Nature Reviews Immunology, v.11, n.8, p.532-543, jul 2011. RUEDA, B.Z. Comparação da eficácia dos métodos “índice de Breteau” e armadilha de oviposição (OVITRAMPA) na obtenção dos índices de infestação de Aedes (Stegomyia) aegypti e Aedes (Stegomyia) albopictus no município de Botucatu, SP. [dissertação]. Botucatu: Universidade Estadual Paulista; 2009. SANTOS, S.L. et al. Percepção sobre o controle da Dengue: uma análise a partir do discurso coletivo. Revista Movimentos Sociais e Dinâmicas Espaciais, v.4, n.2, p.115-130, 2015. SHIH, H.I.; et al. Applications of a Rapid and Sensitive Dengue DUO Rapid Immunochromatographic Test Kit as a Diagnostic Strategy during a Dengue Type 2 Epidemic in an Urban City. PLoS One, v.11, n.7, jul 2016. SINGUI, S.; KISSOON, N.; BANSAL, A. Dengue e Dengue hemorrágico: aspectos do manejo na unidade de terapia intensiva. Jornal de Pediatria (Rio J.) v.83, n.2, S22-S35, mai 2007. STROTTMANN, D.M. Neuroadaptação de vírus Dengue em modelo murino: Identificação de marcadores moleculares. [Dissertação]. Curitiba: Universidade Federal do Paraná-UFPR, 2008. SWEET, B.H.; SABIN, A.B. Propierties and antigenic relationships of hemagglutinins associated with the Dengue viruses. The Journal of Immunology v.73, n.5, p.363-373, nov 1954. TAIRA, M.A.K. Dengue: o desafio da Saúde Pública [monografia]. São Paulo: Universidade São Judas Tadeu, 2008. TEIXEIRA, M.G.; BARRETO, L.; GUERRA, Z. Epidemiologia e medidas de prevenção do Dengue. Informe epidemiológico do SUS, n.8, p.5-33. 1999. TEOH, B.T.; et al. Detection of dengue viruses using reverse transcription-loop-mediated isothermal amplification. BMC Infectious Diseases, v.13, n.387, ago 2013. TEOH, B.T.; et al. The Use of NS1 Rapid Diagnostic Test and qRT-PCR to Complement IgM ELISA for Improved Dengue Diagnosis from Single Specimen. Scientific Reports, v.6. n.27663, jun 2016. VIANA, D. V.; IGNOTTI E. Ocorrência da Dengue e variações meteorológicas no Brasil: revisão sistemática. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 16, n.2, p. 240-58, 2013. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Dengue and severe Dengue; 2016. Disponível em: <http:// www.who.int/mediacentre/factsheets/fs117/en/> Acesso em 27 de março de 2018 Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 12 CAPÍTULO 2 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA HEPATITE B EM UM MUNICÍPIO DO NORDESTE BRASILEIRO Kelvya Fernanda Almeida Lago Lopes UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO. Departamento de Ciências da Saúde. Caxias- MA. Raynner Sousa Chaves Frazão UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO. Departamento de Ciências da Saúde. Caxias- MA. Natália Pereira Marinelli UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ. Colégio Técnico de Teresina. Teresina- PI Maraisa Pereira Sena UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ. Mestrado Profissional em Saúde da Mulher. Teresina- PI Tarciso Marinelli Filho CENTRO UNIVERSITÁRIO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA DO MARANHÃO UniFacema. Coordenação de Enfermagem. Caxias- MA Alana Ilmara Pereira da Costa UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ. Departamento de Ciências da Saúde. Belém- PA. Josiane Rocha Silva Ferraz CENTRO UNIVERSITÁRIO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA DO MARANHÃO- UniFacema. Coordenação de Nutrição. Caxias- MA RESUMO: O objetivo deste estudo é caracterizar o perfil epidemiológico dos casos confirmados de hepatite B em Grajaú, Maranhão, entre os anos de 2010 a 2014. Foi realizada uma análise documental, com abordagem quantitativa transversal, exploratória descritiva, dos casos notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN. A partir da análise dos documentos, obteve-se 11 casos. Depreendeu- se que há predominância em indivíduos acima dos 30 anos de idade 45,4% (5); sexual feminino 72,7% (8); cor/raça preeminente é a etnia parda com 81,8% (9); maior prevalência em trabalhadores agropecuários 54,5% (6); situação vacinal evidenciou 63,6% (7) não imunizados; classificados com Hepatite Crônica 63,6% (7) e a transmissão deu-se por via sexual 7 (63,6%). Os dados revelaram que há predominância da doença em indivíduos acima dos 30 anos de idade, evidenciando a faixa etária de maior propensão à infecção. Com relação ao gênero, o sexo feminino possui uma maior vulnerabilidade à doença. Os resultados ainda sugerem eventuais subnotificações quanto à doença. PALAVRAS-CHAVE: Hepatite B; Perfil epidemiológico; Notificação. ABSTRACT: The objective to characterize the epidemiological profile of hepatitis B confirmed cases in Grajaú, Maranhão, between 2010 and 2014. A documental analysis was carried out, with a descriptive and descriptive exploratory approach, of the cases reported in the Aggravated Information System Of Notification - SINAN. From the analysis of the documents, we obtained 11 cases. It was observed that there is predominance in individuals over 30 years of Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 13 age 45.4% (5); Female sexuality 72.7% (8); Pre-eminent color / race is the ethnic group with 81.8% (9); Higher prevalence in agricultural workers 54.5% (6); Vaccine situation showed 63.6% (7) non-immunized; Classified as Chronic Hepatitis 63.6% (7) and transmission occurred sexually 7 (63.6%).The data revealed that there is a predominance of the disease in individuals over 30 years of age, evidencing the age group with the highest propensity to infection. Regarding gender, females are more vulnerable to disease. The results still suggest possible underreporting of the disease. KEYWORDS: Hepatitis B; Epidemiological profile; Notification. 1 | INTRODUÇÃO Hepatite é uma patologia disseminada por vírus que se configura por alterações degenerativas ou necróticas das células encontradas no fígado, podendo ser difundindo de maneira diferenciada de acordo com a etiologia viral. (MENDES, 2005) As maneiras de transmissão das hepatites, estende-se a dois agrupamentos: inicialmente ao conjunto de transmissão oral fecal relacionada à má higiene pessoal, saneamento básico insuficiente, ingestão de água contaminada, bem como os alimentos, estando associado à infecção pelos vírus HAV e HEV. Sucessivamente, o segundo grupo: HBV, HCV e HDV, apresentando mecanismos de contaminação, como: sexo, compartilhamento de objetos perfurocortantes contaminados (Ex.: agulhas, seringas, alicates de manicure, laminas de barbear, utensílios para tatuagens, piercing, drogas injetáveis) e via parenteral. (BRASIL, 2007) Em virtude das informações,para o acompanhamento dos aspectos epidemiológicos das doenças consideradas de notificação compulsória, dispõe-se de uma ferramenta de controle importante para a vigilância em saúde, o Sistema de Informações de Agravos de Notificação – SINAN. O SINAN é utilizado para informar os casos, de Doenças Sexualmente Transmissíveis – DST e outras doenças compulsórias (Dengue, febre amarela, hanseníase, hepatites virais, etc.) com a importância de controlar o registro e o processamento desses dados, fornecendo informações para análise do perfil situacional, da morbidade e agravos de notificação, com ênfase a hepatite B, colaborando, consequentemente, para iniciativas preventivas e de promoção da saúde da população brasileira em todas as classes, através da vigilância epidemiológica buscando esclarecimento aos fatores contribuintes de propagação das doenças de notificações. (BRASIL, 2010) No período de 1999 a 2011, foram notificados 120.343 casos confirmados no Brasil. No maranhão em 2011 houve 168 óbitos relacionados à Hepatite B, 58 associados a complicações, como: a cronificação da infecção, cirrose hepática e suas complicações e carcinoma hepatocelular. (BRASIL, 2012) O problema que sustentou este estudo considera: qual a situação epidemiológica dos casos de hepatite B confirmados no município de Barão de Grajaú- MA? O estudo Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 14 da situação epidemiológica da Hepatite B proporciona ampla visão da situação da doença na comunidade, ajudando a estabelecer o impacto das medidas de controle adotadas. 2 | MÉTODO A presente pesquisa é uma série temporal e estudo transversal da situação epidemiológica dos casos de hepatite B registrados no SINAN, de residentes do município de Grajaú- MA, no período de 2010 a 2014. A coleta dos dados deu-se por análise documental das fichas de investigação para hepatites virais individuais, sob a guarda do Departamento de Epidemiologia do município. Esses documentos foram analisados quanto às características sociodemográficas e epidemiológicas dos casos, incluindo o comportamento de risco para a infecção. Utilizou-se o Epi Info versão 3.5.2 para análise de dados. A pesquisa seguiu as recomendações da Resolução nº 466 de 12 de dezembro de 2012 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012). A norma dispensou o uso de TCLE dos sujeitos, porém foi providenciado o TCLE institucional, junto à Secretaria de Saúde do município de Barão de Grajaú- MA. Como parte das exigências éticas, o projeto foi submetido à Plataforma Brasil, para análise pelo Comitê de Ética do Hospital São Domingos/HSD, e após sua aprovação com o parecer número 1.351.580, realizou-se a coleta dos dados. 3 | RESULTADOS O Gráfico 1 evidencia que há maior prevalência entre os indivíduos de 30 ou mais anos de idade, com o total de 45,4% (5) das notificações, enquanto 36,4% (4) possuem entre 20 a 29 anos de idade. Também, identificou-se que houve maior número de notificações em 2013, com igualdade dos casos registrados para pessoas de 20 a 29 anos e 30 ou mais, representando cada faixa etária 27,3% (3) dos casos confirmados naquele ano. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 15 Gráfico 1- Distribuição dos casos de Hepatite B por ano de notificação e faixa etária. Grajaú, MA, 2010-2014. Fonte: SINAN/2015. Vigilância Epidemiológica de Saúde, Grajaú, MA De acordo com os dados do Gráfico 2, verificou-se maior incidência de hepatite B em pessoas do sexo feminino (72,7%), sendo o ano de 2013 aquele com maior número de casos (45,4%) dentre os anos avaliados. Gráfico 2- Distribuição dos casos de Hepatite B segundo ano de notificação e sexo. Grajaú, MA, 2010-2014. Fonte: SINAN/2015. Vigilância Epidemiológica de Saúde, Grajaú, MA, 2015. Em observância ao Gráfico 3 a maior prevalência de infectados com 54,5% (6) foram os Trabalhadores Agropecuários, distribuídos em 9,1% (1) notificado em 2010, 9,1% (1) caso em 2012 e em 2013 36,3% (4) fichas notificadas, além disso Motoristas apresentaram 18.2% (2) casos em 2012 e 2013 respectivamente. Notificou-se também 9,1% (1) Serviços Gerais em 2012, acompanhado por registro de 9,1% (1) Aposentado/ Pensionista e 9,1% (1) estudante informado em 2014. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 16 Gráfico 3- Distribuição dos casos de Hepatite B por ano de notificação e ocupação profissional. Grajaú, MA, 2010-2014. Fonte: SINAN/2015. Vigilância Epidemiológica de Saúde, Grajaú, MA, 2015. Para uma caracterização da situação vacinal, torna-se necessário abordá-la uma vez que é a principal maneira de prevenção contra a doença. Diante disso, o Gráfico 4 demonstra a prevalência de infectados e sua situação vacinal, onde se apresentaram 63,6% (7) casos de Hepatite B não vacinados, destacando-se o ano de 2013 com 45,6% (5) casos e apenas 27,3% (3) com calendário vacinal completo nos anos de 2012 a 2014. E ainda 9,1% (1) caso ignorado/branco em 2012. Gráfico 4- Distribuição dos casos de Hepatite B por ano de notificação e situação vacinal para Hepatite B. Grajaú, MA, 2010-2014. Fonte: SINAN/2015. Vigilância Epidemiológica de Saúde, Grajaú, MA, 2015. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 17 Gráfico 5- Distribuição dos casos de Hepatite B por ano e mecanismo de infecção. Grajaú, MA, 2010-2014. Fonte: SINAN/2015. Vigilância Epidemiológica de Saúde, Grajaú, MA, 2015. A respeito da transmissão do HBV, o Gráfico 5 demonstra que a via de maior exposição, é a sexual com 63,6% (7) casos. 4 | DISCUSSÃO Os dados do Gráfico 2 revelaram maior incidência no sexo feminino no município de Grajaú, enquanto o sexo masculino foram 27,3% (3) dos casos encontrados. Nesse sentido, Zatti et al. (2013) evidenciaram que 55.307 notificações, relativo ao sexo masculino como o maior infectado pela doença 52,62% do total das notificações encontradas, e no sexo feminino 47,35% (26.189) casos registrados. A menor ocorrência de notificação do sexo masculino pode estar associada à procura com menor regularidade a assistência de saúde para se prevenirem ou tratarem de seus adoecimentos, ou quando os horários de funcionamento dos serviços de saúde, rotineiramente, confrontam com o período de exercício profissional do usuário, ou se não, por imparcialidade pelo resultado dos exames ofertados pela rede de saúde, hábitos que proporcionam gravidades ao quadro clínico. (DIAS et al.,2014) Outro estudo faz referência à ocupação profissional e demonstra informações a respeito do perfil soroepidemiológico e molecular da infecção pelo HBV em caminhoneiros brasileiros no estado de Goiás, mostrando a prevalência de marcadores da Hepatite B em 121 motoristas do total de investigados. (MATOS, 2007) Demonstrando que os profissionais que mais tiveram contato com o vírus da Hepatite B foram trabalhadores agropecuários, enfatiza-se o exercício de atividades econômicas envolvidas com setor primário de produção (agricultura, mineração, pesca, pecuária, extrativismo vegetal e caça.), visto que a economia local é baseada nestas áreas desde sua fundação. Em contraposição, no estudo de Zatti et al. (2013) evidenciou-se que a maior Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 18 forma de transmissão é por drogas injetáveis, de acordo com o SINAN de Chapecó- SC, onde expuseram 28,66% (15.853) casos de hepatite B, seguido por transmissão vertical e posteriormente, transmissão sexual correspondente a 16,23% (8.981). O Boletim Epidemiológico Nacional evidenciou os casos de hepatite B quanto à provável fonte/mecanismo de infecção, destacando a via sexual como a forma predominante de transmissão, onde a mesma correspondeu a 21,4% e 23,3% dos casos nos anos de 2009 e 2010, respectivamente. (BRASIL, 2010) Quando avaliadas as possíveis fontes de transmissão, as fichas do SINAN na cidade de Palhoça - SC apontam que na hepatite B, a transmissão está relacionada primeiramente ao tratamento cirúrgico e logo depois é mencionada via sexual e em terceiro o uso de drogas. (MARGREITER et al.,2015) Observa-se a existência de outros mecanismos de contágio, o que também podem estar relacionados aos processos de esterilização dos materiais hospitalares, como campos e ferramentas cirúrgicas e/ou exposição de pacientes na fase intra-operatória, outro motivo que deve ser considerado faz referência à transmissão domiciliar tendo o compartilhamento de objetos de uso pessoal como: escova de dente, lâmina de barbear e/ou depilar, alicates de unha ou agulhas, cachimbos e canudos no uso de drogas. Em virtude da situação vacinal contra Hepatite B, Margreiter et al. (2015) evidenciam que no município de Palhoça - SC o predomínio de casos notificados também se destacou entre os não vacinados contra hepatite B, enquanto uma minoria apresentava o esquema incompleto. Da mesma forma, o Gráfico 8 apresenta uma superioridade significativa dos ausentes de imunização contra o HBV, acerca dos vacinados com esquema completo. Certamente aos acometidos com vacinação completa, houve exposição aos fatores de transmissão antes de adquirir imunidade ao vírus, o que para o MS essa efetivação dar-se-á completando-se com a terceira dose da vacina. É importante destacar o esquema vacinal contra Hepatite B, o volume a ser aplicado é de 1ml em adultos e 0,5, em menores de 11 anos, a depender do laboratório produtor, deve-se administrar no músculo deltoide, evitar a aplicação na região glútea, por resultar em menor imunogenicidade, obedecendo o seguinte esquema: três doses com intervalo de um mês, entre a primeira e a segunda dose, e de seis meses entre a primeira e a e terceira dose, em observância aos intervalos entre as doses que devem ser obedecidos, após o esquema completo, induz imunidade em 90% a 95% dos casos. (BRASIL, 2010) Quanto à história vacinal, Neto et al. (2013) também esclarecem em um estudo no município de Quixadá-CE, que a situação vacinal contra a Hepatite B é insatisfatória, uma vez que apenas uma minoria completa o esquema profilático. Sabe-se que muitos casos podem ser evitados se a vacina for realizada antes da exposição. É valido considerar que existe uma probabilidade de modificação relevante nas características vacinais, pois a federação governamental brasileira ampliou em 2014 Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 19 a cobertura da vacina, antes limitada até os 29 anos ampliando posteriormente para toda população (BRASIL, 2014). Com essa atitude, se aguarda que a proliferação do vírus decaia em todo o território com o passar do tempo e que, a quantidade de infectados com registro de vacinação aumente. Diante dos dados percebe-se que a maior distribuição da doença entre o sexo feminino, está relacionada à prática sexual sem proteção, por pressão psicológica ocasionada pelo parceiro, à utilização de materiais não esterilizados, como alicates de unha usados por manicures e pedicures, ou por exercício profissional que tenha contato com fatores para infecção, dentre outros. 5 | CONCLUSÃO A análise dos resultados do estudo possibilitou a caracterização do perfil epidemiológico dos casos de Hepatite B confirmados no município de Grajaú, estado do Maranhão do ano de 2010 a 2014. Dentre os 11 casos notificados, depreendeu-se que há predominância da doença em indivíduos acima dos 30 anos de idade 45,4% (5), evidenciando a faixa etária de maior propensão à infecção. Com relação ao gênero, o sexo feminino 72,7% (8) define a maior vulnerabilidade a infecção e entre elas houve 18,2% (2) gestantes no 3ª trimestre, estabelecendo que haja possibilidade de transmissão vertical e/ou problemas ao recém-nascido. Quanto a cor/raça prevalece a etnia parda com 81,8% (9), levando à indagação sobre os indígenas, presentes na formação da população local. A título de escolaridade, a doença se estende aos de ensino fundamental incompleto e ensino médio completo 36,4% (4) respectivamente e residentes exclusivamente em zona urbana 100% (11). Além disso, observou-se que são trabalhadores agropecuários 54,5% (6) dos casos, os maiores contaminados, incluídos entre os não imunizados 63,6% (7) contra a Hepatite B. No tocante ao perfil clínico houve quantidade significativa de cronicidade da doença com 63,6% (7). No entanto, o mecanismo de maior predominância deu-se por via sexual 63,6% (7). Contudo, os resultados sugerem eventuais subnotificações quanto à doença, fica claro, a necessidade de trabalhos científicos de características epidemiológicas, objetivando auxiliar e tornar realista o abastecimento do sistema (SINAN) por todo o Brasil. Cabe ressaltar, a conscientização de trabalhadores da saúde em especial, o enfermeiro, fiador das informações de vigilância em saúde. Nessa perspectiva, alvitra-se a intensificação das ações educativas (panfletos, faixas, cartazes, anúncios, palestras, etc.), preventivas (práticas de testes rápidos para Hepatite B, solicitação de sorologia, vacinação, etc.), assistenciais, visando à notificação e reconhecimento de suspeitos e diagnosticados pelas equipes de saúde junto a Vigilância Epidemiológica, preconizando-se uma fiscalização das ações propostas, dos casos notificados e suspeitos existentes na população, através do Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 20 conhecimento das implicações da doença baseadas nas informações. É recomendável que seja elaborada capacitação de profissionais da saúde a respeito do teste rápido, evitando o surgimento de dúvidas e erros, na conduta do suspeito clínico da Hepatite B. Visualizando holisticamente os pacientes crônicos, implicamos a necessidade da criação de grupo de apoio a essa população, uma vez que há uma dificuldade sobre a compreensão da doença e dinâmica de tratamento: consultas, exames de rotina e biopsia hepática, entrega de medicamentos pelo SUS, instalação de polos de aplicação municipal e/ou regional, a fim de melhorar o acompanhamento e manejo dos pacientes infectados. Contribuindo para o enfrentamento da hepatite B, preconizar a prevenção por meio da vacinação, do incentivo ao sexo seguro com uso do preservativo nas relações sexuais, atividades específicas direcionadas às populações de risco e suas possíveis complicações, bem como os gastos pertencentes a esta patologia por intermédio das políticas de prevenção aos desprotegidos das áreas rurais. Os resultados averiguados neste estudo permitiram inferir que no município ocorre uma detecção tardia, provavelmente relacionada às buscas passivas, ou seja, demandas espontâneas e a descentralização das ações de controle da doença recomendadas para toda a rede assistencial de saúde, que ainda é restrita, pois as taxas de detecção de casos oscilam muito no período estudado e manifestam-se significativas. O processo de integração das ações de controle da Hepatite B com as unidades de saúde pode produzir melhores resultados e solidificar o controle da doença. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de Vigilância epidemiológica. 6 ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para o tratamento da hepatite viral crônica B e coinfecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em:<http://funed.mg.gov. br/wpcontent/uploads/2011/07/prot_clinico_diretrizes_terapeuticas_hep_B.pdf>. Acessado em: 16 out. 2014. BRASIL, Ministério da Saúde. Hepatites virais: desafios para o período de 2011 a 2012. Informe epidemiológico do SUS, 2010. Disponível em:< http://www.aids.gov.br/sites/default/files/Metas_ hepatites.pdf>. Acessado em: 08 nov. 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Boletim Epidemiológico Hepatites Virais. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em:< http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2012/51820/boletim_ epidemiol_gico_hepatites_virais_2012_ve_12026.pdf>.Acessado em: 09 nov. 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância em saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em:< http://www.hc.ufpr.br/arquivos/guia_vigilancia_ saude_completo.pdf>. Acessado em: 07 maio. 2015. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 2 21 DIAS, Jerusa Araújo. et al. Fatores associados à infecção pelo vírus da hepatite B: um estudo caso- controle no município de São Mateus, Espírito Santo. Epidemiol. Serv. Saúde, v.23, n.4, 2014. Disponível em: < http://www.scielosp.org/pdf/ress/v23n4/2237-9622-ress-23-04-00683.pdf>. Acessado em: 29 dez. 2015. MARGREITER, Sissiane. et al. Estudo de Prevalência das Hepatites Virais B E C No Município de Palhoça-SC. Rev. Saúde Públ. Santa Cat., v. 8, n. 2, 2015. Disponível em:< http://esp.saude.sc.gov. br/sistemas/revista/index.php/inicio/article/viewFile/297/308>. Acessado em: 14 jan. 2016. MATOS, Marcos André de. Estudo da infecção pelo vírus da hepatite B em caminhoneiros de rota longa do Brasil: Soroepidemiologia e Genótipos. 2007. 26f. Dissertação (Mestrado em Cuidados em Enfermagem) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás. Disponível em:< https:// repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tde/691/1/dissertacao-marcos-andrematos.pdf>. Acessado em: 08 jan. 2016. MENDES, René. Patologia do Trabalho. 2 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2005. NETO, Epitácio Pessoa de Andrade. et al. Prevalência de acidentes ocupacionais e perfil de vacinação contra Hepatite B entre estudantes e profissionais da odontologia: um estudo piloto. Arq Odontol, Belo Horizonte, v.49, n.1, 2013. Disponívelem:<http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/ riufc/6867/1/2013_art_pgpinheiro.pdf>. Acessado em: 14 de Jan de 2016. ZATTI, Cassio Adriano. et al. HEPATITE B: CONHECENDO A REALIDADE BRASILEIRA. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research – BJSCR, Vol.4,n.1, 2013. Disponível em: <http://www. mastereditora.com.br/periodico/20130731_225833.pdf>. Acessado em: 24 jun. 2015. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 22 CAPÍTULO 3 SITUAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA DA TUBERCULOSE MULTIRRESISTENTE NO ESTADO DO PIAUÍ, 2001 – 2012 Marcos Ramon Ribeiro Dos Santos Mendes Enfermeiro do Hospital Universitário da Universidade Federal do Vale do São Francisco Danieli Maria Matias Coêlho Docente da faculdade CEUT, Fundação Municipal de Saúde de Teresina - PI Jaqueline Carvalho E Silva Docente do Centro Universitário UNINOVAFAPI, Fundação Municipal de Saúde de Teresina Ivone venâncio de melo Secretaria de Saúde do Estado do Piauí RESUMO: O trabalho teve como objetivo descrever a situação epidemiológica dos casos de TBMR notificados no Estado do Piauí, de 2001 a 2012. É um estudo epidemiológico quantitativo, descritivo, de série histórica, com dados coletados através do Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas. Foram encontrados 29 casos no período, sendo 55,2% sexo masculino, com idade média de 40,2 anos, de cor parda (65,5%) e tinham até 7 anos de estudo (79,2%). O teste de HIV foi positivo em 3,4% dos casos e o tratamento diretamente observado foi alcançado em 10,3%. A maioria dos pacientes realizou três ou mais tratamentos anteriores para TB (62,1%) e 24,1% foram a óbito em consequência da doença. Dessa forma, faz-se necessária uma melhor sensibilização dos profissionais de saúde tanto para o preenchimento correto da ficha de notificação como para a realização do TDO. PALAVRAS-CHAVE: Tuberculose, Epidemiologia, Resistência a drogas. ABSTRACT: The study aimed to describe the epidemiological situation of MDR-TB cases reported in the state of Piaui, 2001-2012. It is an epidemiological study quantitative, descriptive, historical series, with data collected through the Information System Special Treatments Tuberculosis Clinic of Pneumology Hospital Getúlio Vargas. Found 29 cases in the period, while 55.2% male, mean age 40.2 years, mulatto (65.5%) and had up to 7 years of education (79.2%). The HIV test was positive in 3.4% of cases and directly observed treatment was achieved in 10.3%. The majority of patients had three or more prior treatments for TB (62.1%) and 24.1% died from the disease. Thus, it is necessary to better awareness of health professionals for both the correct completion of the notification form to the achievement of the TDO. KEYWORDS: Tuberculosis. Epidemiology. Drug Resistance. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 23 1 | INTRODUÇÃO A tuberculose (TB), doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium tuberculosis, também chamado bacilo de Koch, é uma doença milenar, tão antiga quando a história da humanidade, que persiste até os dias atuais como um problema de saúde pública. A doença é transmitida por uma pessoa com tuberculose pulmonar ativa por meio de gotículas contendo os bacilos expelidos ao tossir, espirrar ou falar. As gotículas contendo o bacilo no seu interior são de vários tamanhos, sendo que as mais pesadas depositam-se rapidamente no solo, porém as mais leves podem permanecer suspensas no ar por várias horas. Quando essas gotículas em suspensão são inaladas por um indivíduo sadio, podem provocar, independentemente da idade, a infecção tuberculosa (BRASIL, 2008; BRASIL, 2009). Nem sempre as pessoas expostas ao Mycobacterium tuberculosis se tornam infectadas, contudo a infecção pelo bacilo da TB pode ocorrer em qualquer idade. A tuberculose pulmonar é a forma mais frequente da doença, porém o bacilo pode infectar outros órgãos através da corrente sanguínea e dos vasos linfáticos, gerando a chamada TB extrapulmonar (SMELTZER et al., 2009). A tuberculose assume perfis diferentes dependendo da região observada. Nos países desenvolvidos os mais acometidos são as pessoas idosas, as minorias étnicas e a população de imigrantes. Já nos países em desenvolvimento, a maior parte dos acometidos está nos grandes centros urbanos, em decorrência do crescimento desordenado da população, ou seja, são vítimas da pobreza, baixa escolaridade, desnutrição, das drogas e da marginalização (PILLER, 2012). Nos países mais desenvolvidos, o impacto da doença sobre a população foi reduzido através da implantação do saneamento básico, pelas melhorias radicais nas condições de vida que ocorreram em meados do século XIX, assim como pela implementação da quimioterapia efetiva nos últimos 50 anos. Nos países ainda em desenvolvimento, ao contrário, a tuberculose mantém-se como um sério problema de saúde pública. As possíveis razões para o recrudescimento desse terrível flagelo incluem a epidemia da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), os níveis crescentes de pauperização, abandono do tratamento, uso de drogas ilícitas, desnutrição, aglomeração, alojamentos em condições deficientes, e cuidados de saúde inadequados (ROCHA et al,. 2008; SMELTZER et al., 2009). No Brasil, o Programa Nacional de Controle da Tuberculose (PNCT) tem como metas diagnosticar e tratar os casos de TB o mais rapidamente possível a fim de evitar a difusão da doença. O tratamento (quimioterápico) consiste na associação de fármacos padronizados: isoniazida, rifampicina, pirazinamida e etambutol durante dois meses, e isoniazida e rifampicina durante mais quatro meses, totalizando 6 meses. A monoterapia, prescrições impróprias e a falta de colaboração do paciente, podem levar ao surgimento de linhagens de M. tuberculosis resistentes a um ou mais Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 24 fármacos, ocorrendo recidivas da doença e contribuindo para aumentar a proporção de óbitos por TB, estando frequentemente ligada a outras infecções. A presença de multirresistência denuncia as deficiências no controle da TB e dificulta o tratamento e a prevenção (BRASIL, 2011). O maior número de infectados pela TB está nos países em desenvolvimento, com 95% dos casos, e são também onde ocorrem 98% das mortes decorrentes da TB no mundo. Cerca de 22 países concentram80% dos casos. As regiões mais afetadas são a Ásia sudoriental, a Europa oriental e a áfrica sub-Sahariana. O Brasil ocupa atualmente, o 19° lugar entre esses 22 países. No mundo, em geral, estima-se que um terço da população esteja infectada pelo M. tuberculosis; que existam 8,8 milhões de casos novos e 2 milhões de mortes por TB no mundo, entretanto, foram notificados à Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2003, apenas 4,4 milhões, indicando que existe aproximadamente 50% de subnotificação (BRASIL, 2011; LUCCA, 2008). No Brasil, é provável que existam aproximadamente 57 milhões de infectados, com 85 mil notificações anuais e cerca de 71 mil casos novos, correspondendo a um coeficiente de incidência de 37,2/100.000 habitantes, com aproximadamente 6 mil mortes por ano. No Estado do Piauí, em 2004, ocorreram 1.162 casos novos da doença, com um coeficiente de incidência de 39,03/100.000 (LUCCA, 2008; PILLER, 2012). A TB é uma doença que está intimamente ligada a fatores sociais, econômicos e ambientais. Neste sentido, existem várias doenças que contribuem para o agravamento da mesma, entre elas estão: a AIDS, pois os pacientes imunocomprometidos, apresentam mais reações adversas aos medicamentos e tem maiores taxas de mortalidade agravadas pelo diagnóstico tardio destas formas; o tabagismo, porque a inalação da fumaça do tabaco, passiva ou ativamente, altera todos os mecanismos de defesa da árvore respiratória e reduz a concentração de oxigênio no sangue, colaborando assim para a gravidade das lesões necrotizantes, além de prejudicar e tornar mais lenta a cicatrização, o que pode gerar sequelas mais extensas; o alcoolismo, pois o consumo de álcool diminui a imunidade do indivíduo, que o deixa susceptível à infecção por organismos oportunistas e está diretamente ligado a um estilo de vida que pode potencializar a capacidade de contaminação pela micobactéria (BRASIL, 2010; BRASIL, 2011). A tuberculose multirresistente (TBMR) é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como qualquer forma clínica da doença na qual o exame bacteriológico detecta resistência “in vitro” à, pelo menos, rifampicina, isoniazida. Esta forma de TB vem ganhando importância nos últimos anos, pela potencialidade que tem de levar a tuberculose a se tornar uma doença praticamente incurável. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número estimado de casos de TBMR no mundo em 2006, é de 489.139 e uma prevalência de 4,8% entre os casos de TB. O Brasil, a partir do ano 2000, vem notificando, em média, 340 casos de TBMR ao ano (ROCHA et al,. 2008). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 25 1.1 OBJETO DO ESTUDO A situação epidemiológica da tuberculose multirresistente no Estado do Piauí, 2001 - 2012. 1.2 PROBLEMA DO ESTUDO A TB é uma doença que acompanha a humanidade desde os seus primórdios e um fato que vem preocupando as autoridades de saúde é o aumento da resistência bacilar aos dois fármacos mais importantes no combate a essa doença (rifampicina e isoniasida), em consequência do aprimorado mecanismo de mutação bacilar do Mycobacterium tuberculosis, resultando na chamada tuberculose multirresistente (TBMR). Essa situação predispõe a vítima a uma doença praticamente incurável, a tuberculose extensivamente resistente (TB-XDR), presente em aproximadamente 10% dos casos de TBMR (BRASIL, 2011). Diante destes fatos, surgiu o questionamento para nortear a pesquisa: Qual a situação epidemiológica da tuberculose multirresistente no estado do Piauí? Na perspectiva de responder à questão norteadora, foram elaborados os seguintes objetivos. 1.3 OBJETIVO GERAL Analisar a situação epidemiológica dos casos de tuberculose multirresistente (TBMR) ocorridos no estado do Piauí no período entre 2001 e 2012. 1.4 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Descrever o perfil epidemiológico dos casos de TBMR no Piauí; Identificar as drogas as quais o bacilo da TB teve resistência; 2 | METODOLOGIA 2.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA O método adotado para esta pesquisa é o quantitativo, retrospectivo, descritivo. Para Marconi e Lakatos (2010), o método quantitativo consiste em investigações de pesquisa empírica, onde a principal finalidade é o delineamento ou análise das características de fatos ou fenômenos, a avaliação de programas ou o isolamento de variáveis principais ou chave. A tipologia do tipo descritiva consiste em uma pesquisa onde não há interferência do pesquisador, cabendo ao mesmo apenas descrever o objeto da pesquisa, tentar Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 26 descobrir a frequência com que o fenômeno ocorre, suas relações e conexões com outros eventos, as características, causas, bem como a sua natureza (BARROS; LEHFELD, 2006). De acordo com Richardson (2007), a natureza retrospectiva busca informações em documentos e registros de celebrações de eventos já acontecidos no passado, de forma sistematizada a fim de resgatar dados fidedignos num período, local e amostra determinada. 2.2 CENÁRIO DA PESQUISA O estudo foi realizado na Clínica Pneumológica do Hospital Getúlio Vargas (HGV), local de referência terciária do Estado do Piauí, que possui especialistas (pneumologistas) para atender os pacientes que são referenciados pela atenção básica e demais hospitais da capital e cidades do Estado, bem como fazer o diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos pacientes com TBMR. 2.3 POPULAÇÃO DO ESTUDO 2.3.1 Critérios de inclusão Foram incluídos na pesquisa todos os casos de tuberculose multirresistente do Estado do Piauí notificados na Clínica Pneumológica do HGV, no período de 2001 a 2012, perfazendo um total de 29 pacientes. 2.3.2 Critérios de exclusão Foram excluídos da pesquisa os demais casos de tuberculose multirresistente notificados na clínica Pneumológica do Hospital Getúlio Vargas fora do período de 2001 a 2012 ou os casos que não foram notificados ao referido serviço. 2.4 COLETA DE DADOS Os dados foram coletados no período de março a abril de 2013, através do Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose (SITE-TB) da clínica pneumológica do HGV, sistema esse sob a gestão da Coordenação do Programa da Tuberculose do Estado do Piauí, a partir da ficha de notificação/investigação de casos de TB multirresistente (ANEXO A), pesquisaram-se as seguintes variáveis: ano de notificação, município, sexo, etnia, escolaridade, idade, tratamento anterior para TB (número de tratamentos anteriores), tipo de resistência (primária ou adquirida), HIV, comorbidades, situação de encerramento dos casos e padrão de resistência (drogas que foram identificadas a resistência) e se realizaram tratamento supervisionado. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 27 2.5 ANÁLISE DOS DADOS Os dados foram analisados de acordo com a proposta quantitativa do estudo. A priori criou-se um bando de dados no software Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 20.0, em seguida realizaram-se as análises estatísticas neste software. Para as análises descritivas construíram-se tabelas e gráficos com valores absolutos e relativos. Para associar as variáveis do estudo utilizou-se o teste Qui- quadrado (X2) ou teste de Fisher, quando aquele não pôde ser utilizado. Para todos os testes adotou-se 5% (p < 0,05) como nível de significância estatística (BOLFARINE; BUSSAB, 2005; BUSSAB; MORETTIN, 2004). 2.6 ASPECTOS ÉTICOS E LEGAIS Foram respeitados todos os preceitos éticos contidos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Dessa forma, o projeto foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa do Hospital Getúlio Vargas através do protocolo de número 6180/12 (BRASIL, 1996). Em respeito a essas diretrizes e normas estabelecidas pela Resolução 196/96 do CNS, para garantir a confidencialidade e o anonimato dos sujeitos pesquisados na base de dados do HGV, foi assinado o Termo de Confidencialidade (ANEXO C), documento no qualo pesquisador responsável assume a responsabilidade sobre o sigilo das informações obtidas no referido banco de dados. 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO No período de 2001 a 2012 foram notificados 29 casos de tuberculose multirresistente (TBMR) no estado do Piauí, com uma média de 2,6 casos ao ano. Conforme mostra a Figura 1, observou-se uma distribuição irregular dos casos ao longo dos anos, pois ocorreram picos nos anos de 2005 e 2011 (5 casos) e não foi notificado nenhum caso nos anos de 2003 e 2004. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 28 Figura 1: Distribuição dos casos de tuberculose multirresistente notificados na clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI, segundo o ano de notificação. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. Neste estudo observou-se que o maior número de casos de TBMR ocorreu na capital do Estado, Teresina (75,9%). A maior frequência dos 29 casos incidiu no sexo masculino (55,2%) e a idade média da população afetada foi de 40,2 anos. Os dados encontrados foram próximos aos apresentados em estudos realizados no período entre 2002 e 2007 no Estado de Pernambuco e no Estado do Espírito Santo no período entre 2000 e 2004, onde os dados mostraram que 63,6% e 70,2% dos casos eram referentes ao sexo masculino e a faixa etária média mais afetada foi a de 39,5 e 39,8 anos respectivamente (MEDEIROS, 2008; VIEIRA et al., 2007). Para Piller (2012), o predomínio da TB em grandes centros urbanos de países em desenvolvimento, justifica-se pelo fato destes apresentarem determinantes sociais como: pobreza, baixa escolaridade, situações de confinamento, pessoas vivendo em situação de rua, abuso de drogas, e indivíduos marginalizados. Essa parcela da população forma um grande grupo de indivíduos com difícil acesso à saúde, sendo assim, vulneráveis à tuberculose. Verificou-se que o maior número de notificações (22) ocorreu na capital do Estado, Teresina, correspondendo a 75,9% dos casos encontrados e que os outros 24,1% (7) ocorreram em outros municípios do Piauí. Com relação ao sexo, o mais acometido foi o masculino, apresentando 16 casos, o que corresponde a 55,2% das notificações de TBMR. Observou-se ainda que houve uma maior prevalência em pessoas que tinham de 4 a 7 anos de estudo (37,9%), seguida das que possuíam de 1 a 3 anos de estudo (31,0%) (TABELA 1). Variáveis N % Município de Residência Teresina 22 75,9 Outros municípios do Piauí 7 24,1 Total 29 100,0 Sexo Feminino 13 44,8 Masculino 16 55,2 Total 29 100,0 Escolaridade Nenhuma 3 10,3 De 1 a 3 anos 9 31,0 De 4 a 7 anos 11 37,9 De 8 a 11 anos 4 13,8 De 12 anos ou mais 2 7,0 Total 29 100,0 Tabela 1: Distribuição dos casos de tuberculose multirresistente notificados na clínica Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 29 pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI, segundo o município de residência, sexo, etnia e escolaridade. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. Essa faixa etária média acompanha também os dados referentes à tuberculose no Brasil que, segundo Piller (2012), 63% dos casos de TB incidem em indivíduos com idade entre 20 e 49 anos. Com relação ao sexo, no Brasil, o número de casos de TBMR nos homens corresponde ao dobro nas mulheres, acima do encontrado no estudo, onde observou-se 55,2% dos casos no sexo masculino. A idade média dos pacientes notificados com tuberculose multirresistente é de 40,21 anos, com desvio padrão de 12,9 anos. Percebe-se ainda que apenas um paciente tinha mais de 60 anos e que o mais novo deles tinha 24 anos de idade. Possivelmente, o fato de o sexo masculino ser mais acometido pela TBMR pode ocorrer em razão de uma maior possibilidade de exposição dos homens ao bacilo. As próprias condições de trabalho vividas por eles geralmente contribuem para que não se engajem adequadamente ao ritmo e às particularidades do tratamento para TB. De acordo com uma pesquisa realizada em Fortaleza-CE, os homens são os mais propensos a abandonar o tratamento, devido aos maus hábitos de saúde, como fumo, álcool e drogas ilícitas, que também favorece o agravamento do quadro clínico da doença (LIMA et al., 2001; MEDEIROS, 2008). Observou-se também que a maioria dos pacientes tinha baixa escolaridade, 37,9% com 4 a 7 anos e 31,0% com 1 a 3 anos de estudo, corroborando com os dados achados em Santa Catarina, onde 44,9% dos indivíduos apresentavam de 4 a 7 anos de estudo e 24,5% de 1 a 3 anos. Outra pesquisa brasileira, realizada no ano de 2000 em Campinas-SP, mostrou que 56,5% dos indivíduos que abandonaram o tratamento para TB eram analfabetos ou tinham até quatro anos de estudo. Esses dados mostram que devido a uma menor compreensão e aceitação da doença e do tratamento, indivíduos que abandonam o tratamento são geralmente os que possuem menos acesso à escola e à informação. A escolaridade, assim como outros determinantes sociais, interfere diretamente na situação de saúde dos indivíduos, e ultimamente vem sendo amplamente discutida no meio científico (JUNCKS, 2008; OLIVEIRA; MOREIRA FILHO, 2000). Etnia Número de Casos P-valorObservados Esperados N % N % Branca 3 10,4 9,7 33,3 0,00* Negra 7 24,1 9,7 33,3 Parda 19 65,5 9,7 33,3 Total 29 100,0 29,0 100,0 *Teste de Fisher – significativo (p-valor <0,05). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 30 Tabela 2: Relação do número de casos de tuberculose multirresistente por etnia, notificados na clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. De acordo com a Tabela 2, houve uma associação entre o número de casos de tuberculose multirresistente com a etnia dos pacientes, uma vez que o Teste de Fisher revelou um p-valor menor que 0,05, sendo que 19 (65,5%) casos possuíam a cor parda e 7 pacientes possuíam a cor negra (24,1%) . Com relação à etnia, a parda apresentou 65,5% dos casos no Piauí, e a branca apenas 10,4%, no entanto, quando comparados com outros estudos realizados em Estados do Sul e Sudeste brasileiros, nota-se que não ha uma relação da TBMR com a etnia do paciente. No Estado do Espírito Santo, 35% dos doentes eram da etnia branca e 69,4% dos pacientes em Santa Catarina também eram brancos. Sugere- se, portanto, que os casos de TBMR são distribuídos de acordo com a miscigenação étnica da população da área em que se realiza o estudo (JUNCKS, 2008; VIEIRA et al., 2007). Observou-se, com relação aos dados clínicos, que o teste HIV foi realizado em 25 casos, todavia, nos outros 4 o teste não foi realizado ou estava com registro em branco. O resultado foi negativo em 24 (82,8%) pacientes e apenas um positivo (3,4%). Em nove casos foram identificadas outras comorbidades, sendo o alcoolismo a mais frequente (13,8%), seguida pelo tabagismo (6,8%) (TABELA 3). O tratamento supervisionado, atualmente chamado de tratamento diretamente observado (TDO), foi realizado somente em 3 casos (10,3%), sendo que 5 notificações estavam sem o devido preenchimento e que em 21 casos (72,4%) este não foi realizado. A Tabela 3 mostra ainda que a forma clínica mais frequente foi a pulmonar com 28 casos (96,6%) e apenas um caso era de TB extrapulmonar (3,4%). Variáveis N % Teste HIV Negativo 24 82,8 Positivo Não realizado ou em branco 1 4 3,4 13,8 Total 29 100,0 Outras comorbidades Alcoolismo 4 13,8 Tabagismo 2 6,8 Outras Não registrado ou em branco 3 20 10,3 69,1 Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 31 Total Tratamento supervisionado Sim Não Não registrado ou em branco Total Forma clínica Pulmonar Extrapulmonar 29 3 21 5 29 28 1 100,0 10,3 72,4 17,3 100,0 96,6 3,4 Total 29 100,0 Tabela 3: Aspectos clínicos dos casos de tuberculose multirresistentenotificados na clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. Apesar do MS mostrar 7% de coinfecção entre TBMR e HIV no Brasil, no Piauí esse parâmetro se mostrou menos expressivo, uma vez que foi observado somente em um caso de TBMR (3,4%). No estado do Espírito Santo, essa associação foi verificada em 11,1% dos casos, Santa Catarina mostrou coinfecção de 14,3%. O Ministério da Saúde indica a realização do exame de HIV para todos os casos de TB, o que não foi observado no Estado do Piauí, pois em 13,8% dos casos não foi realizado o exame, o que pode ter interferido diretamente na relação de co-infecção encontrada nesta pesquisa. Outro estudo que também mostrou contraposição ao que prioriza o MS foi o do Estado do Espírito Santo, onde em 21,0% dos casos de TBMR o exame não foi realizado. Em uma pesquisa sobre a incidência de tuberculose e a taxa de cura no Brasil, no período de 2000 a 2004, a realização do exame HIV em 2004 foi diferente nas regiões do País, de forma que mais de 75% dos casos nas regiões Norte e Nordeste não realizaram o exame (BIERRENBACH et al., 2007; BRASIL, 2011; JUNCKS, 2008; MEDEIROS, 2008). Para Barroso et al. (2003) , indivíduos imunodeprimidos, tanto por desnutrição quanto devido à doença específica ao sistema imunológico, podem desenvolver tuberculose e possibilitar o aumento da multirresistência do bacilo. E dentre essas doenças imunodepressivas se encontram o alcoolismo, Aids, silicose, diabetes mellitus, câncer, entre outras. A comorbidade mais encontrada no Estado foi o alcoolismo, presente em 13,8% dos casos. Esta mesma também mostra-se como a comorbidade mais frequente nos casos de TBMR analisados em outros estudos pelo Brasil. Em Santa Catarina esteve presente em 16,3% dos casos, Pernambuco apresentou 27,3% dos pacientes com alcoolismo e mais acentuadamente no Estado do Espírito Santo, onde incidiu em 59,5% do total de casos registrados (JUNCKS, 2008; MEDEIROS, 2008; VIEIRA et al., 2007). Num estudo realizado por Giroti et al., (2010), em 2006, o alcoolismo foi uma variável que estava presente em 13,3% dos casos de abandono no tratamento para TB. Este abandono pode ser explicado pelo estilo de vida do alcoólatra, que frequentemente faz uso de álcool e se alimenta irregularmente, fatores estes que Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 32 podem contribuir para a interrupção do tratamento e consequentemente, para o desenvolvimento da resistência bacilar. Embora o TDO seja indicado para todos os casos de TB, o grupo dos alcoólatras deve receber atenção especial, pois representam uma parcela importante, tanto no que se diz respeito ao abandono do tratamento como no desenvolvimento da multirresistência. O MS, seguindo orientações da OMS, indica que TDO ocorra em 100% dos casos de TB, no entanto, esta orientação não foi devidamente acatada nos casos de TBMR no Estado do Piauí. Os dados mostram que o TDO não foi realizado em 72,4% dos casos, o que colabora expressivamente para o abandono e para a realização indevida do tratamento. Estes resultados também estão bem deficientes se comparados aos do Estado do Espírito Santo, onde 68,4% dos casos de TBMR tiveram seu tratamento supervisionado. Vale lembrar ainda que o TDO começou a ser desenvolvido no estado do Piauí somente no ano de 2003, no entanto, nota-se que o maior número de casos analisados na pesquisa ocorreram a partir do ano de 2005. (BOTELHO, 2005; COÊLHO et al., 2005; BRASIL, 2011; VIEIRA et al., 2007). De acordo com um estudo realizado na cidade de Cuiabá - MT nos anos de 1998 a 2000, a incidência do abandono é menor nos grupos supervisionados, sendo que nos grupos não supervisionados a chance de abandono é até 2,4 vezes maior. Isso deixa evidente a importância do acompanhamento dos casos para a prevenção do abandono e consequente diminuição do desenvolvimento da multirresistência (FERREIRA; SILVA 2005). A forma clínica da tuberculose verificada na maioria dos casos de TBMR foi a pulmonar (96,6%, n=28), seguindo o padrão da tuberculose no Brasil, sendo a média nacional de 85,6% de casos pulmonares. A predominância da tuberculose pulmonar sobre a extrapulmonar pode ser explicada devido à forma de contágio, uma vez que os bacilos são absorvidos ao serem aspirados com o ar e se alojarem nos pulmões ou nos gânglios linfáticos brônquicos, deixando suas marcas nas cavidades pulmonares e se proliferando de forma expressiva (HIJJAR; MELO, 2002; SIQUEIRA; RAFFUL, 2000). Dentre os casos analisados, observou-se que 10,3% dos pacientes (3) realizaram apenas um tratamento anterior, 27,6% (8) concluíram 2 tratamentos e que a maioria dos pacientes (62,1%) realizou três ou mais tratamentos anteriores. Ao aplicar-se o Teste de Fisher, notou-se que este é significativo, mostrando que realmente há uma relação entre o número de tratamentos anteriores com o desenvolvimento da multirresistência (TABELA 4). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 33 Número de Tratamentos anteriores Número de Casos Observados Esperados P-valorN % N % Um 3 10,3 9,7 33,3 0,002*Dois 8 27,6 9,7 33,3 Três ou mais 18 62,1 9,7 33,3 Total 29 100,0 29,0 33,3 *Teste de Fisher – significativo (p-valor<0,05). Tabela 4: Relação entre o número de casos de tuberculose multirresistente com o número de tratamentos anteriores, notificados na clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. No Brasil, cerca de 95,6% dos casos de TBMR realizaram tratamento prévio para TB, o Estado de Santa Catarina registrou que 83,7% dos seus pacientes fizeram tratamento prévio para TB, já no Piauí, em 100,0% dos casos, os pacientes realizaram tratamento anterior. No Piauí, a maior prevalência (62,1%) foi encontrada em pacientes que realizaram três ou mais tratamentos, seguidos pelos que realizaram 2 (27,6%) e por último, os pacientes que realizaram apenas 1 tratamento (10,3%). Nota-se que aumenta proporcionalmente a possibilidade do indivíduo se tornar multirresistente de acordo com o número de tratamentos anteriores realizados por ele (JUNCKS, 2008). Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que as chances de um indivíduo se tornar resistente às drogas aumentam de acordo com os tratamentos prévios realizados por ele. Uma pesquisa realizada em 116 países mostrou que a resistência aos fármacos utilizados para o tratamento de TB aumenta nos casos em que houve tratamento prévio. Cerca de 17% dos casos incidentes (casos novos) de TB são resistentes a qualquer medicamento, 10,3% à isoniazida e com multirresistência de 2,9%. Para os casos já tratados anteriormente, a resistência é de 35% a qualquer medicamento, 27,7% à isoniazida e multirresistência de 15,3% (WHO, 2007). De acordo com o I Inquérito de Resistência aos Medicamentos Anti-tuberculose, realizado no Brasil no ano de 1996, existia uma proporção de 8,5% resistência a qualquer medicamento para os casos novos de TB e de 21% para os casos com tratamento prévio. A resistência à isoniazida foi de 4,4 e 11,3% para casos novos e já tratados antes, respectivamente. Para a multirresistência, as magnitudes para casos novos foram de 1,1% e 7,9% para episódios com tratamento prévio (BRAGA; WERNECK; HIJJAR, 2003). No mundo, a maioria dos casos de TBMR se desenvolve devido a tratamentos irregulares e ao abandono. No Brasil, 96% dos casos de resistência notificados são adquiridos dessa forma, sendo que mais da metade tem de três ou mais tratamentos prévios para tuberculose e 7% possuem coinfecção com HIV (BRASIL, 2007). Na Tabela 5 observa-se que 72,4% (21) dos casos eram do tipo adquirido da Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 34 TBMR e que 27,6% (8) correspondiam à resistênciaprimária. Ao aplicar-se o teste qui- quadrado, o resultado do p-valor foi de 0,015, mostrando significância entre o número de casos de TBMR com o tipo adquirido da doença. Tipo de Resistência Número de Casos Observados Esperados P-valorN % N % Adquirida 21 72,4 14,5 50,0 0,015*Primária 8 27,6 14,5 50,0 Total 29 100,0 29,0 33,3 *Teste de qui-quadrado – significativo (p-valor<0,05). Tabela 5: Relação entre o número de casos de tuberculose multirresistente com o tipo de resistência, notificados na clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. O tipo adquirido da doença, ou seja, aquela detectada nos indivíduos em uso de medicamentos anti-tuberculose, prevaleceu dentre os casos analisados (72,4%), com valor do teste qui-quadrado significativo (0,015). No entanto, destaca-se um elevado número de casos de resistência primária no Estado do Piauí (27,6%) se comparado aos Estados do Espírito Santo e Pernambuco, que apresentaram 19,3% e 3,0%, respectivamente. Desse modo, destaca-se a eficiência dos serviços de saúde do Piauí, por meio da Coordenação de Controle da Tuberculose através de suas ações descentralizadas na Estratégia Saúde da Família e na referência (clínica pneumológica do HGV), na detecção precoce da TBMR (BRASIL, 2011; MEDEIROS, 2008; VIEIRA et al., 2007). Conforme mostra a Tabela 6, todos os 29 casos (100%) de TBMR eram resistentes aos antibióticos rifampicina e isoniazida, 28 pacientes (96,6%) apresentavam resistência à pirazinamida, 17 (58,6%) ao etambutol, 25 (86,2%) à etionamida, e 12 (41,4%) à estreptomicina. Padrão de Resistência N % Rifampicina Resistente 29 100,0 Isoniazida Resistente 29 100,0 Pirazinamida Sensível 1 3,4 Resistente 28 96,6 Total 29 100,0 Etambutol Sensível 12 41,4 Resistente 17 58,6 Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 35 Total 29 100,0 Etionamida Sensível 4 13,8 Resistente 25 86,2 Total 29 100,0 Estreptomicina Sensível 17 58,6 Resistente 12 41,4 Total 29 100,0 Tabela 6: Padrão de resistência dos casos de tuberculose multirresistente notificados na clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas em Teresina-PI. Piauí, 2001 a 2012. Fonte: Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose da clínica pneumológica do Hospital Getúlio Vargas, 2013. No estudo, verificou-se que 24,1% (7) dos casos analisados foram a óbito em consequência da doença, 6,9% (2 casos) apresentaram óbito por outra causa, 27,6% (8 casos) tiveram alta por cura, 13,8% (4 casos) continuavam em tratamento por falência, 6,9% (2 casos) abandonaram o tratamento e que 20,7% (6 casos) estavam em tratamento favorável. A resistência à rifampicina e isoniazida foi observada em 100% dos casos, o que já era esperado dada as suas condições de classificação como multirresistência. A pirazinamida obteve resistência em 96,6% dos casos, bem acima dos valores encontrados no Estado de Pernambuco (26,9%). O antibiótico que teve menos resistência entre os analisados foi a estreptomicina, com 41,4% dos casos resistentes. Em Pernambuco, o antibiótico menos resistente foi a etionamida (19,2%) (MEDEIROS, 2008). O Estado do Piauí alcançou a cura como resultado em apenas 27,6% dos casos, ficando bem atrás de outros estados como o Espírito Santo e Pernambuco, que obtiveram cura em 71,7% e 56,7% dos casos respectivamente. No Brasil, a taxa de cura alcançada para TBMR é de 60,0% e no nordeste é de 52,4%. No entanto, vale ressaltar que ainda existiam 34,5% (10) dos casos em tratamento (favorável e por falência) no Piauí, portanto, é provável que essa taxa de cura seja aumentada. A taxa de óbito por TBMR mostrou-se elevada no Estado (24,1%, n=7) se comparada com o Espírito Santo, que teve apenas 10,8% (BRASIL, 2011; MEDEIROS, 2008; VIEIRA et al., 2007). 4 | CONCLUSÃO A pesquisa permitiu observar o perfil epidemiológico dos casos de tuberculose multirresistente notificados no Estado do Piauí, observando-se que a maioria residia na capital, Teresina, era do sexo masculino, de cor parda, com idade média de 40,2 anos e com baixa escolaridade. Com relação aos dados clínicos, houve um predomínio de Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 36 casos com 3 ou mais tratamentos prévios, na forma clínica pulmonar, tipo adquirido da doença e que na grande maioria dos casos o tratamento supervisionado não foi realizado, corroborando para a baixa taxa de cura alcançada. A presença de co-morbidades associadas como o alcoolismo, apesar de não se confirmarem como preditivas de um desfecho desfavorável para a TBMR, deve ser pensada como possíveis focos de intervenção para evitar o surgimento de novos casos de resistência bacilar, já que estas comorbidades, embora consistam em um pequeno número, condizem com as descritas na literatura como associadas à TBMR. Os serviços de saúde no Estado do Piauí devem ater-se mais a esta patologia, tanto com relação à notificação como ao seu combate, principalmente com a ampliação do Tratamento Diretamente Observado, pois esta assistência foi precária nos casos de resistência encontrados nesse estudo. Faz-se então necessária a sensibilização dos profissionais de saúde tanto no preenchimento correto das notificações para que os dados no sistema de informação sejam mais fidedignos, como em relação ao TDO, para garantir a adesão do paciente ao tratamento. Sugere-se ainda que seja implantada no Estado, uma equipe multiprofissional, formada por médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos para trabalhar no acolhimento e na orientação dos pacientes com TBMR ou outros casos de TB que necessitem de tratamento diferenciado, facilitando a adesão e a conclusão do tratamento desses pacientes. Destaca-se o enfermeiro como profissional com desempenho nas ações de educação em saúde, através de um atendimento humanizado, individualizado e integral, baseando-se nas necessidades e singularidades do indivíduo/família. REFERÊNCIAS BARROS, A. J. P.; LEHFELD, N. A. S. Projeto de pesquisa: propostas metodológicas. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2006. BARROSO, E. C. et al. Fatores de risco para tuberculose multirresistente adquirida. Jornal de Pneumologia. Publicação Oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Brasília-DF, v. 29. n. 2, p. 89-97, mar./abr. 2003. BIERRENBACH A. L.; GOMES A. B. F.; NORONHA E. F.; SOUZA, M. D. F. M. Incidência de tuberculose e taxa de cura, Brasil, 2000 a 2004. Revista de Saúde Publica, São Paulo, n.41, p. 24- 33, set. 2007. (Supl. 01). BRAGA, J. U.; WERNECK BARRETO, A.; HIJJAR, M. A. Inquérito epidemiológico de resistência as drogas usadas no tratamento da tuberculose no Brasil. Boletim de Pneumologia Sanitária, Rio de Janeiro, v. 11, n. 1, p. 76-81, 2003. BRASIL. Ministério da saúde. Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 OUT. 1996. Seção 1, p. 21082 – 21085. ______. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância epidemiológica. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. p. 458-479. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 37 ______. Ministério da Saúde. Manual de recomendações para o controle da tuberculose no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2011. BOLFARINE, H.; BUSSAB, W. Elementos de amostragem. São Paulo: Edgard Blucher, 2005. BUSSAB W. O.; MORETTIN, P. A. Estatística básica. São Paulo: Saraiva, 2004. COÊLHO, D.M.M. et al. Perfil epidemiológico da tuberculose no Município de Teresina-PI, no período de 1999 a 2005. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília,v. 1, n. 19, p. 33-42, jan./mar. 2010. FERREIRA, S. M. B.; SILVA, A. M. C.; BOTELHO, C. Abandono do tratamento da tuberculose pulmonar em Cuiabá - MT – Brasil, J Bras Pneumol, Cuiabá, v. 31, n. 5, p. 427-435,2005. GIROTI, S. K. O. et al. Perfil dos pacientes com tuberculose e os fatores associados ao abandono do tratamento, Cogitare Enferm, Londrina, PR, v. 15, n.2, p.271-277, abr./jun. 2010. HIJJAR, M. A.; MELO, F. A. F. Epidemiologia da tuberculose no Brasil. In: VERONESI, R.; FOCACIA, R.; Tratado de infectologia. São Paulo: Ateneu, 2002. Cap. 74. V. 1. JUNCKS, N. M.; D’ORSI E. Perfil epidemiológico e fatores associados à tuberculose multirresistente (TBMR) em Santa Catarina, período de 2001 a 2007. Monografia. (Aperfeiçoamento/Especialização em Epidemiologia aplicada aos serviços de saúde) - Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, Florianópolis, 2008. LIMA, M. B. et al. Estudo de casos sobre abandono do tratamento da tuberculose: avaliação do atendimento, percepção e conhecimentos sobre a doença na perspectiva dos clientes (Fortaleza, Ceará, Brasil) Cad. Saúde Pública. Rio de Janeiro, v.17, n.4, p. 877-885, jul./ago. 2001. LUCCA, M. E. S. Análise epidemiológica da tuberculose e co-infecção HIV/TB em Ribeirão Preto-SP, de 1998-2006. 134 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Médicas) – Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo - USP. Ribeirão Preto, 2008. MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Metodologia do trabalho científico. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 35. MEDEIROS, J. C. M. Perfil epidemiológico dos clientes portadores de Tuberculose Multirresistente do Hospital Geral Otávio de Freitas: uma análise de janeiro de 2002 a janeiro de 2007. Monografia. (Aperfeiçoamento/Especialização em Saúde Pública) - Associação Caruaruense de Ensino Superior – ACES, Recife. 2008. OLIVEIRA, H. B.; MOREIRA FILHO, D. C. Abandono de tratamento e recidiva da tuberculose: aspectos de episódios prévios, Campinas, SP, Brasil, 1993-1994, Rev. Saúde Pública. São Paulo. v. 34, n. 5, p. 437-443, out. 2000. PILLER R.V. B. Epidemiologia da tuberculose. Revista Pulmão, Rio de Janeiro, v. 21 n. 1, p. 4-9, 2012. RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2007. ROCHA, J. L. R. et al. Tuberculose multirresistente. Revista Pulmão, Rio de Janeiro, v. 17 n. 1, p. 27- 32, 2008. SIQUEIRA H. R. D.; RAFFUL M. Tuberculose pulmonar. In: SILVEIRA, Ismar C. O pulmão na prática médica, sintoma, diagnóstico e tratamento, 4. ed. Rio de Janeiro: EPUB – 2000. p. 331-352. SMELTZER, S.C. et al. Brunner e Suddath: Tratado de enfermagem Médico-cirúrgica. 11 ed. Rio Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 3 38 de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009. VIEIRA et al. Perfil epidemiológico dos casos de tuberculose multirresistente do Espírito Santo. Rev Bras Epidemiol. São Paulo, v. 10, n. 1, p. 56 – 65, 2007. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). The Global MDR-TB and XDR-TB Response Plan 2007- 2008. Geneva, 2007. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 39 CAPÍTULO 4 AVALIAÇÃO DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES DIAGNÓSTICADOS COM HANSENÍASE EM UMA CIDADE NO INTERIOR DO CEARÁ Renan Rhonalty Rocha Universidade Federal Do Ceará – Ufc Sobral-Ceará Maria Vitória Laurindo Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará Camilla Rodrigues Pinho Santa Casa De Misericórdia De Sobral Sobral-Ceará Jessika Cruz Linhares Frota Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará Francisca Aila De Farias Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará Francisca Valéria Bezerra Sampaio Marques Universidade Federal Do Ceará – Ufc Sobral-Ceará Alana Cavalcante Dos Santos Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará Letícia Bandeira Mascarenhas Lopes Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará Sara De Araújo Do Nascimento Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará Antônia Crissya Ximenes Farias Centro Universitário Uninta Sobral-Ceará RESUMO: A hanseníase é uma doença infecciosa causada por um bacilo intracelular obrigatório, Mycobacterium leprae, tendo o ser humano como hospedeiro. O objetivo desse estudo foi avaliar por meio do site do Sistema de Informação de Agravos e Notificação, o perfil epidemiológico dos pacientes diagnosticados com hanseníase na cidade de Cariré - CE, de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. Trata- se de um estudo do tipo epidemiológico, retrospectivo, documental de abordagem quantitativa. O estudo foi realizado utilizando dados de notificação relacionados à hanseníase, disponíveis no SINAN, para a microrregião de Cariré. Foram registrados 67 casos no período de 2011 a 2015. A análise de distribuição por idade revela que a minoria dos pacientes infectados estão abaixo dos 25 anos e acima de 78 anos e que 53,8% estão entre 26 e 51 anos. Em relação aos dados sóciodemográficos, no que se refere ao gênero, zona de habitação, raça, escolaridade e ocupação, a frequência foi de: 53,7% (masculino); 59,7% (urbana); 68,6% (pardos); fundamental incompleto (36%); desempregados/ignorado (49%), respectivamente. Quanto a baciloscopia, em 47,7% dos casos, o exame não foi realizado. A classificação Multibacilar foi a mais frequente Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 40 (51%), a forma clínica Indeterminada apresentou o maior índice (33%). O grau zero de incapacidade foi o que mais ocorreu (33,5%) e 100% dos pacientes obtiveram alta por cura. Este estudo reforça a necessidade de realização de pesquisas regionais, a fim de se conhecer melhor a distribuição desta patologia em nível local, buscando levantar aspectos que contribuam para ações de prevenção, diagnóstico e tratamento precoce. PALAVRAS-CHAVE: Mycobacterium leprae. Epidemiologia. Saúde Pública. Abstract: Leprosy is an infectious disease caused by an obligate intracellular bacillus, Mycobacterium leprae, with the human being as host. The objective of this study was to evaluate, through the SINAN website, the epidemiological profile of patients diagnosed with leprosy in the city of Cariré-Ce, from January 2011 to December 2015. This is an epidemiological, retrospective and documental study of a quantitative approach. The study was conducted using leprosy-related notification data, available on the SINAN website, for the Cariré microregion. Sixty-seven cases were recorded in the period 2011 to 2015. The analysis of age distribution reveals that the minority of infected patients are below 25 years and over 78 years and 53.8% are between 26 and 51 years. With regard to socio-demographic data, related to gender, housing area, race, education and occupation, the frequency was: 53.7% (male), 59.7% (urban); 68.6% (brown people); incomplete elementary school (36%); unemployed / ignored (49%), respectively. In terms of smear microscopy, the examination was not performed in 47.7% of the cases. The multibacillary classification was the most frequent (51%) and the indeterminate clinical form presented the highest index (33%). The zero degree of disability was the one that occurred the most (33.5%) and 100% of the patients were discharged for cure. This study reinforces the need for regional research in order to better understand the distribution of this pathology at the local level, seeking to raise aspects that contribute to prevention, diagnosis and early treatment. KEYWORDS: Mycobacterium leprae. Epidemiology. Public health. 1 | INTRODUÇÃO A Hanseníase é uma doença infecciosa causada por um bacilo intracelular obrigatório, o Mycobacterium leprae, um dos primeiros agentes etiológicos identificados que tem o ser humano como hospedeiro (PENELUPPI et al., 2015). É uma das doenças mais antigas, além de ter sido a primeira doença infecciosa em que o agente etiológico foi identificado. Em meados do século XX, quando o tratamento específico foi descoberto, as pessoas deixaram de viver isoladas em colônias e foram tratadas em ambulatórios (PEREIRA et al., 2011). A hanseníase é um importante problema de saúde pública, não só no Brasil, mas em vários países, e é definida pela Organização de Mundial de Saúde (OMS) como um problema de Saúde Pública, principalmente nos países que ultrapassam um caso a cada 10.000 mil habitantes (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE,Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 41 2010). Em 1991, a OMS propôs a eliminação da doença até o ano 2000. Passando a ser considerada erradicada quando fosse notificado um novo caso a cada dez mil habitantes (BARBOSA et al., 2014). A OMS fixou metas para diminuir a prevalência e até erradicar a doença através de medidas como diagnóstico precoce e utilização de tratamento poliquimioterápico (PQT) (PENELUPPI et al., 2015). Entre os anos de 1991 a 2006, ocorreu um elevado número de casos novos anuais na região das Américas, sendo diagnosticados 47.612 casos, destes 93% foram no Brasil. Em 2008, foram registrados 218.605 casos da doença em todo mundo (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2010), sendo que grande parte se concentra em cinco países: Madagascar, Moçambique, Mianmar, Nepal e a República Unida da Tanzânia (LOBO et al., 2011). Em 2011, a OMS apontou que o Brasil apresentou 33.955 casos notificados de hanseníase, sendo o segundo maior país com número de casos, ficando abaixo somente da Índia que apresentou 127.295 casos no mesmo ano. Entres os anos de 2009 a 2012, o Brasil apresentou cerca de 47.000 casos, sendo que a região Norte e Centro-oeste foram as que apresentaram as maiores taxas de detecção, seguida das regiões Nordeste, Sudeste, respectivamente (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2010). A transmissão ocorre por meio do contato direto ou indireto com pacientes infectados, com alta carga bacilar (PENELUPPI et al., 2015). O ser humano é considerado a única fonte efetiva de infecção, no entanto, há registros de animais como o chimpanzé e o tatu infectados, que poderiam atuar como reservatórios (ROMÃO; MAZZONI, 2013). Os pacientes com a forma paucibacilar não são considerados importantes agentes transmissores da doença, pois apresentam baixa carga bacilar, no entanto, os que apresentam a forma multibacilar são altamente infecciosos (BRASIL, 2014), desta forma é importante o diagnóstico precoce, para encaminhamento do paciente para tratamento correto, por que a partir do inicio do mesmo, o paciente deixa de transmitir os bacilos (PEREIRA et al., 2011). A hanseníase constitui-se uma doença de grande impacto para o paciente não tratado devido seu alto poder incapacitante e deformidades que podem vir a causar (BATISTA et al., 2010). É uma doença de evolução crônica e podem ocorrer várias complicações no sistema imunológico que se caracterizam por inflamações agudas e subagudas, ocorrendo com maior frequência nas formas multibacilares, tanto durante o tratamento como após o seu término (BRASIL, 2014). O tratamento é gratuito, feito em Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Sistema Único de Saúde (SUS) e indicado pelo Ministério da Saúde (MS). O tratamento específico é feito com PQT e padronizado pela OMS. Os poliquimioterápicos são: clofazimina, dapsona e rifampicina, que utilizados em associação, evitam a resistência do bacilo, o que ocorre comumente se usados sozinhos. O esquema é padrão de acordo com o tipo de classificação operacional em paucibacilar (PB) e multibacilar (MB) (BRASIL, 2007). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 42 Portanto, este estudo reforça a necessidade de realização de pesquisas regionais, a fim de se conhecer de melhor a distribuição desta patologia em nível local, buscando levantar aspectos que contribuem para ações de prevenção, diagnóstico e tratamento precoce, assim conseguindo evitar as deformidades e incapacidades da hanseníase. Para tanto, tem como objetivo avaliar por meio Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) o perfil epidemiológico dos pacientes diagnosticados com hanseníase na cidade de Cariré de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. 2 | METODOLOGIA O presente trabalho trata-se de um estudo do tipo epidemiológico, retrospectivo, documental e dentro de uma abordagem quantitativa, realizado na cidade de Cariré - CE, a região abriga segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010 uma população de 18.347 habitantes. Foi realizado utilizando dados de notificações relacionadas à hanseníase, disponíveis no Sistema Nacional de Notificações e Agravos (SINAN) do Ministério da Saúde, para a microrregião de Cariré no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. O SINAN é um sistema que possui como função a coleta e transmissão de dados epidemiológicos de doenças de notificação compulsória, como é o caso da hanseníase e é alimentado pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica. Foram incluídos no estudo todos os pacientes diagnosticados e notificados com hanseníase no município de Cariré no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. Foram excluídas as infecções ocorridas antes de 2011 e depois de 2015 e casos ocorridos em outros municípios. As informações obtidas a partir do SINAN foram organizadas por meio de figuras e tabelas formulados no programa Microsoft® Excel Office 2010 e analisados de forma quantitativa. Os resultados foram expressos em valores absolutos e percentuais. A discussão e a análise foram fundamentadas de acordo com a literatura pertinente. O estudo não apresenta nenhum risco aos participantes, pois não há envolvimento direto com os pacientes, visto que é um estudo de pesquisa com dados secundários. O estudo trouxe como benefício, a criação de dados que poderão servir parar traçar um perfil epidemiológico da população acometida para que medidas preventivas sejam realizadas no município. Portanto, por se tratar de um estudo em que os dados são secundários, ou seja, de domínio público e não há envolvimento direto de pacientes, não se faz necessária a submissão e consequentemente aprovação por comitê de ética ou comitê de pesquisa local. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 43 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram registrados 67 casos de hanseníase entre janeiro de 2011 a dezembro de 2015 (TABELA 1), pela secretaria municipal de saúde de Cariré, com uma média anual de 13,4 casos. Sendo que em 2012, ano com o maior número de notificações (32,8% do total), registrou-se 22 novos casos. PERÍODO N° % 2011 14 20,9% 2012 22 32,8% 2013 15 22,4% 2014 10 14,9% 2015 6 9% TOTAL 67 100% Tabela 1 - Número de casos de hanseníase notificados na cidade de Cariré em cada ano. Por se tratar de um município de pequeno porte no interior do Estado, esses dados coincidem com o estudo de Oliveira, Leão e Britto (2014) e Melão et al. (2011) realizado no interior de do Rio de janeiro na cidade de Maricá, registrando o seu recorde em 2012 com 14 casos e no extremo sul de Santa Catarina, registrando um total de 54 casos em sete anos respectivamente, divergindo com estudos de Miranzi, Pereira e Nunes (2010) e Júnior, Vieira e Caldeira (2012) por se tratarem de áreas conhecidas anteriormente como endêmicas. Contudo, o número encontrado nesta pesquisa é bastante limitado, tanto pela quantidade de habitantes no município estudado como pela distribuição. A análise de distribuição por idade revela que a minoria dos pacientes infectados estão abaixo dos 25 anos e acima de 78 anos e que 53,8% estão entre 26 e 51 anos conforme a tabela 2: Faixa Etária (anos) ≤ 12 13-25 26-38 39-51 52-64 65-77 >78 Nº 3 3 12 24 11 13 1 % 4,5% 4,5% 18% 35,8% 16,3% 19,4% 1,5% Tabela 2 – Percentagem de casos confirmados referente à faixa etária no município de Cariré no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. Estes resultados se assemelham com outras pesquisas, inclusive uma realizada Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 44 em Montes Claros/MG por Santo et al. (2012), onde quase 50% das pessoas acometidas estavam na faixa etária entre 20 e 49 anos e são economicamente ativos, prejudicando a economia do município, uma vez que essa faixa da população pode desenvolver estados reacionais, lesões e incapacidades, podendo afastar-se das atividades produtivas e gerando um custo social elevado e evitável. Além disso, com a progressão da idade, estes pacientes tendem a se relacionar mais,seja de forma afetiva ou sexual, propagando ainda mais a doença e limitando-a a esta faixa etária (DUARTE; AYRES; SIMONETT, 2007; BATISTA, 2010; CORRÊA, et al., 2012). Quanto à análise do sexo, os números foram relativamente próximos, sendo que o sexo masculino apresentou mais casos que o feminino, conforme tabela 3. Este fato vai de encontro com diversos estudos realizados em várias cidades como Londrina/ PA, Montes Claros/MG, Maricá/RJ e no estado do Maranhão. Muitos autores afirmam que uma maior interação social entre homens e sua habitual exposição a lugares de risco contribui para aumentar o número de casos, além disso, a falta de políticas específicas para esse grupo e um menor cuidado com a estética corpórea pode ajudar na deficiência do diagnóstico (KROL; MATTOS, 2009; SILVA et al., 2010; MELÃO et al., 2011; SANTO et al., 2012; CORRÊA et al., 2012; OLIVEIRA; LEÃO; BRITTO, 2014). N° % Sexo Feminino 31 46% Masculino 36 54% Zona Habitada Urbana 40 60% Rural 27 40% Grupo étnico Parda 46 69% Branca 14 21% Negra 7 10% Escolaridade Ignorado 14 21% Analfabeto 11 17% Fundamental Incompleto 24 36% Fundamental Completo 8 12% Médio Incompleto 4 6% Médio Completo 5 8% Ocupação Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 45 N° % Desempregado/Ignorado 32 49% Aposentado 7 11% Trabalhador Rural 11 16% Dona de Casa 9 13% Estudante 5 8% Servente de Obras 1 1% Gari 1 1% Motorista 1 1% Tabela 3 – Dados sóciodemográficos referente à: idade, zona habitada e grupo étnico, escolaridade e ocupação dos pacientes cadastrados no SINAN no período de janeiro de 2011 à dezembro de 2015. No que tange à zona de moradia dos pacientes, houve um número superior de pacientes que moravam em habitações urbanas sobre os da zona rural (TABELA 3). Estudos de perfis epidemiológicos realizados em Uberaba/MG (2010) e em Salvador/ BA (2011) confirmam que a zona urbana concentra o maior número de casos, o que pode ser, provavelmente, pelo aglomerado de pessoas e o maior contato físico entre elas (MIRANZI; PEREIRA; NUNES, 2010; PINTO et al., 2011). Em relação variante grupo étnico, este estudo obteve um maior percentual de pacientes pardos divergindo de um estudo realizado por Pinto et al. (2011), que encontraram um número bem superior de casos em negros. Contudo, diversos outros estudos apontam que os movimentos migratórios, miscigenação, o processo histórico de colonização, organização espacial e dinâmica de ocupação territorial são responsáveis por uma elevação do número de pacientes pardos (BRASIL, 2012; LANZA et al., 2012; SARMENTO et al., 2015). Quanto à escolaridade, apesar de haver um grande número de dados ignorados (21%), a quantidade de pacientes com o fundamental incompleto (36%) supera em muito esse número, seguidos dos analfabetos (17%) como podem ser observados na tabela 3. Estudos semelhantes foram realizados em Fortaleza/CE e Jaguaré/ES onde a maioria dos pacientes estudados possuía apenas o ensino fundamental incompleto ou eram analfabetos. Doenças endêmicas, como a hanseníase, são geralmente influenciadas pelo nível de escolaridade e as condições de vida da população, onde se observa que o nível educacional de uma nação é responsável pela dificuldade no acesso aos serviços de saúde e no conhecimento que influência na busca desses serviços de saúde (SANTOS; CASTRO; FALQUETO, 2008; SOUZA et al., 2013). Dos pacientes estudados, a maioria é desempregado (49%), seguidos de trabalhadores rurais (16%) e donas de casas (11%). Essa elevada parcela de desempregados pode ser um reflexo da baixa escolaridade informada antes, ou Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 46 mesmo das poucas perspectivas profissionais oferecidas no município, pois se trata de um local cujas atividades principais são destinadas à subsistência, como a agricultura familiar e cuidados do lar, fato que contribui para a baixa renda família, além de favorecer a probabilidade de patologias como o mal de Hansen. Este achado é afirmado por um estudo realizado em Igarapé-Açu, interior do Pará, onde os autores avaliaram que a grande maioria dos pacientes estudados estavam desempregados (74%), trabalhadores rurais (12%) e empregadas domésticas (5%) (LOBATO; NEVES; XAVIER, 2016). De todos os pacientes estudados, a maioria não realizou a avaliação da baciloscopia (74%). Dos avaliados, houve uma maior porcentagem de positivos (20%) em relação aos negativos (6%). Gráfico 1 – Classificação quanto à baciloscopia dos pacientes avaliados no município de Cariré- Ceará. A baciloscopia é um exame que faz parte do arsenal utilizado no diagnóstico da doença (TEXEIRA et al., 2010), e por mais que seja acessível, a alta taxa de pacientes não avaliados neste estudo, deve-se ao fato do município estudado se localizar no interior do estado e não prover de recursos para efetuar a baciloscopia de todos os pacientes, além da demora para a entrega nos resultados, como foi encontrado em outros estudos (ROMÃO; MAZZONI, 2013; SOUZA et al., 2013; SARMENTO et al., 2015). Em se tratando da classificação operacional, os resultados deste estudo foram bem próximos com uma diferença de apenas 2% entre as formas paucibacilar e multibacilar. A forma multibacilar foi superior com 51%, enquanto que a forma paucibacilar apresentou-se em 49%. Este achado difere um pouco dos estudos encontrados na literatura, uma vez que a forma multibacilar é a mais prevalente e mais agressiva (MELÃO et al., 2011; PINTO et al., 2011; SARMENTO et al., 2015), sendo responsável por aumentar em até nove vezes as chances de o paciente desenvolver um grau de incapacidades físicas, Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 47 sendo uma provável causa de pacientes mal informados ou um precário sistema de saúde (SANTO et al., 2012). O esquema terapêutico mais utilizado foi o multibacilar com 12 doses na mesma proporção da classificação operacional, onde foi notado uma relação bastante significativa entre os dois. Esta relação vem se tornando comum e, sua utilização é corroborada por estudos realizados em por Santo et al., (2012) em Montes Claros/MG e por Pinto et al., (2011) em Salvador/BA. Já com relação à forma clínica, a maior prevalência dos pacientes estudados foi indeterminada, seguida da tuberculoide, virchowiana, dimorfa e não classificada. Gráfico 2 – Percentual de casos referente às formas clínicas dos pacientes portadores do bacilo de Hans em Cariré/CE. O grande número de pacientes com forma clínica indeterminada se dá, provavelmente, pelos baixos recursos do município, uma vez que o local se encontra no interior do Estado. Estudos realizados no nordeste, nas cidades São Luís/MA (2010), Salvador/BA (2011) e Fortaleza/CE (2013), coincidem quando apresentam a forma dimorfa como sendo a mais frequente, contudo divergem desta pesquisa já que as formas determinadas a tuberculóide apresentaram maior prevalência, podendo os números indeterminados ser formas dimorfas que não foram identificadas (LIMA et al., 2010; PINTO et al., 2011; SOUZA et al., 2013). No que tange o grau de incapacidade física no momento do diagnóstico, o de maior prevalência nos pacientes estudados foi o grau zero. Os graus I e II apresentaram apenas 3% e 2% respectivamente, o que seria um resultado benéfico, contudo foi encontrado um grande número de casos não avaliados (43%) como mostra a gráfico 3: Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 48 Gráfico 3 - Grau de Incapacidade física do paciente no momento do diagnóstico no período de janeiro de 2011 à dezembro 2015. Com o grau zero sendo o mais, o percentual encontrado nesta análise (52%), foi bem próximo do relato de outros autores (LIMA et al., 2010; FINEZ; SALOTTI, 2011; PINTO et al., 2011; OLIVEIRA; LEÃO; BRITTO, 2014). Estudo realizado em Montes Claros/MG por Santo e colaboradores (2012), evidenciaram um alto índice de pacientes não avaliados, concordando com esta pesquisa, contudo, não foi discutida a razão. Outro estudo executado em 11 municípiosdo Paraná responsabiliza os profissionais a não avaliação, pelos mesmos não possuírem a qualificação necessária para executar corretamente, concordando diretamente com este levantamento (PACHECO; AIRES; SEIXAS, 2014). Quanto ao tipo de alta dos pacientes estudados, 100% dos pacientes receberam alta por cura. Este resultado concorda com um estudo realizado também no Ceará, neste caso em Fortaleza (2013) e em Uberaba/MG (2010), em que a ocorrência dos pacientes estudados evoluiu para a cura. Isso demonstra que houve um grande comprometimento com o tratamento poliquimioterápico e que o mesmo ainda possui eficácia frente ao bacilo de Hans (MIRANZI; PEREIRA; NUNES, 2010; SOUZA et al., 2013). 4 | CONCLUSÃO Diante dos resultados apresentados verifica-se que as características epidemiológicas e clínicas dos pacientes com hanseníase cadastrados no SINAN Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 49 na cidade de Cariré/CE no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2015 são de pacientes com idades entre 39 A 51 anos, do sexo masculino, pardos, que moram na zona urbana, desempregados, apresentando uma infecção multibacilar, mas com nenhum grau de incapacidade e que evoluíram para cura. Salienta-se, que a compreensão da epidemiologia da doença e dos atributos clínicos dos pacientes com diagnóstico de hanseníase é essencial e de grande importância para se construir estratégias direcionadas para este grupo, desenvolvidas pelo governo e profissionais de saúde, em conjunto com a população, por meio do controle social, buscando, assim, políticas públicas para redimensionar o atendimento nas unidades de saúde municipais aos portadores do bacilo de Hans, dando uma especial atenção ao efetivo diagnóstico o mais precocemente e assimilação do panorama desta doença na atualidade; assim como criar discussões e estratégias para apoiar as práticas de serviços de saúde, com ênfase no controle da doença e promoção da saúde, em um sentido amplo, para toda população. O presente estudo visa contribuir para a identificação dos dados epidemiológicos encontrados e notificados no município de Cariré - CE, e, assim, servir como ferramenta de informação, para que medidas possam ser tomadas no que se refere ao controle da doença no município. Além disso, este estudo torna-se relevante por trazer informações adicionais à comunidade acadêmica, aos farmacêuticos e aos futuros profissionais da área, uma vez que este profissional também deve estar inserido na equipe multiprofissional responsável pelo cuidado e atenção ao pacientes com hanseníase, assim como o farmacêutico deve participar ativamente na supervisão da administração do esquema de tratamento desta patologia, a fim de assegurar a eficácia e a segurança dos medicamentos em relação ao paciente. REFERÊNCIAS BATISTA, A. M. N. Avaliação da incapacidade e limitação de atividades em Pacientes afetados pela hanseníase: uma análise do escore Salsa [monografia]. Bauru (SP): Secretaria de Estado da Saúde; 2010. BARBOSA, D. R. M. et al. Perfil epidemiológico da hanseníase em cidade hiperendêmica do maranhão, 2005-2012. Revista Rede de Cuidados em Saúde, n. 8, v.1, p. 1-13, 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia para o Controle da Hanseníase - Cadernos da Atenção Básica. Secretaria de Políticas de Saúde, Departamento de Atenção Básica. Brasília - DF, 2007. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_de_hanseniase.pdf.> Acesso em: 04 mar. 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Vigilância em Saúde: Situação epidemiológica da hanseníase no Brasil. 2014. Disponível em: <[http:/www.portal.saude.gov.br/ portal/arquivos/ boletim_novembro.pdf>. acesso em: 25 de maio de 2018]. BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Integrado de Ações Estratégicas de eliminação da Hanseníase, Filariose, Esquistossomose e Oncocercose como problema de saúde pública, Tracoma como causa de cegueira e controle das Geohelmintíases: plano de ação 2011- 2015. 2 ed. Brasília: Ministério da Saúde. 2012. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 50 CORRÊA, R. G. C. F. et al. Epidemiologi cal, clinical, and operational aspects of leprosy patients assisted at a referral service inthe state of Maranhão, Brazil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 45, n. 1, p. 89-94. 2012. DUARTE, M. T. C.; AYRES, J. A.; SIMONETT, I. J. P. Perfil socio econômico e demográfico de portadores de hanseníase atendidos em consulta de enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem [online], v. 15, n. spe, p. 774-779, 2007. FINEZ, M. A.; SALOTTI, S. R. A. Identificação do grau de incapacidades em pacientes portadores de hanseníase através da avaliação neurológica simplificada. Journal of the Health Sciences Institute, v. 29, n. 3, p. 171-175, 2011. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Contagem da população 2010. Disponível em: http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=2303105. Acesso em: 04 mar. 2018. JUNIOR, A. F. R.; VIEIRA, M. A.; CALDEIRA, A. P. Perfil Epidemiológico da Hanseníase em uma cidade endêmica no Norte de Minas Gerais. Revista Sociedade Brasileira de Clinica Médica, São Paulo, v.10, n.4, p. 272-277, 2012. KROL S. S.; MATTOS, E. D. Perfil Epidemiológico dos Pacientes com Hanseníase no Município de Londrina/PR. Unopar Científica Ciências Biológicas e da Saúde, v. 11, n. 4, p. 9-14, 2009. LANZA, F. M. et al. Perfil epidemiológico da hanseníase no município de Divinópolis, Minas Gerais. Revista de Enfermagem da UFSM [online], v. 2, n. 2, p. 365-374, 2012. LIMA, H. M. N. L. et al. Perfil epidemiológico dos pacientes com hanseníase atendidos em Centro de Saúde em São Luís, MA. Revista Brasileira de Clínicas Médicas, v. 8, n. 4, p. 323-327, 2010. LOBATO, D. C.; NEVES, D. C. O.; XAVIER, M. B. Avaliação das ações da vigilância de contatos domiciliares de pacientes com hanseníase no Município de Igarapé- Açu, Estado do Pará, Brasil. Revista Pan-Amazônica de Saúde, v.7, n. 1, p. 45-53, 2016. LOBO, J. R. et al. Perfil epidemiológico dos pacientes diagnosticados com hanseníase através de exame de contato no município de Campos dos Goytacazes, RJ. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, v. 9, n. 4, p. 283-7, 2011. MELÃO, S. et al. Perfil epidemiológico dos pacientes com hanseníase no extremo sul de Santa Catarina, no período de 2001 a 2007. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 44, n. 1, p. 79-84. 2011. MIRANZI,S. S. C.; PEREIRA, L. H. M.; NUNES,A. A. Perfil epidemiológico da hanseníase em um município brasileiro, no período de 2000 a 2006. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 43, n. 1, 62-67, 2010. OLIVEIRA, J. C.; LEÃO, A. M. M.; BRITTO, F. V. S. Análise do perfil epidemiológico da hanseníase em Maricá, Rio de Janeiro: uma contribuição da enfermagem. Revista enfermagem UERJ, v. 22, n. 6, p. 815-821, 2014. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Situação mundial da hanseníase. 2010. Disponível em: <new.paho.org/bra/index.php?option=com_content&task=view&id=1477&Itemid=52> Acesso em: 04 mar. 2018. PACHECO, M. A. B.; AIRES, M. L. L.; SEIXAS, E. S. Prevalência e controle de hanseníase: pesquisa em uma ocupação urbana de São Luís, Maranhão, Brasil. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 9, n. 30, p. 23-30, 2014. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 4 51 PENELUPPI, L. S et al. Perfil Epidemiológico da Hanseníase em uma Cidade do Sul de Minas Gerais no Período de Nove Anos: Estudo Retrospectivo. Revista Ciências em Saúde, v. 5, n. 4, p. 28-34, 2015. PEREIRA, E. V. E. et al. Perfil epidemiológico da hanseníase no município de Teresina, no período de 2001-2008. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 2, n. 86, p. 235-240, 2011. PINTO, R. A. et al. Perfil epidemiológico da hanseníase em um município brasileiro, no período de 2000 a 2006. Revista Baiana de Saúde Pública, v 34, n 4, p. 906-918, 2011. ROMÃO, E. R.; MAZZONI, A. M. Perfil epidemiológico da hanseníase no município de Guarulhos, SP. Revistade Epidemiologia e Controle de Infecção, v. 3, n. 1, p. 22-27, 2013. SANTO, L. R. E. et al. Perfil epidemiológico da hanseníase no município de brasileiro no período de 2005 a 2009. Motricidade, v. 8, n. S2, p. 212-219, 2012. SANTOS, A. S.; CASTRO, D. S.; FALQUETO, A. Fatores de risco para transmissão da Hanseníase. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 61, n. esp, p. 738-43, 2008. SARMENTO, A. P. A. et al. Perfil epidemiológico da hanseníase no período de 2009 a 2013 no município de Montes Claros (MG). Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, v.13, n. 3, p. 180-184, 2015. SILVA, A. R. et al. Hanseníase no município de Buriticupu, estado do Maranhão: busca ativa de casos na população adulta. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 43, n. 6, p. 691- 694, 2010. SOUZA, V. B. et al. Perfil Epidemiológico dos Casos deHanseníase de um Centro de Saúde da Família. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, v. 26, n.1, p. 110-116, 2013. TEIXEIRA, M. A. et al. Características epidemiológicas e clinicas das reações hansênicas em indivíduos paucibacilares e multibacilares, atendidos em dois centros de referencia para hanseníase, na cidade de Recife, estado de Pernambuco. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 43, n. 3, p. 287-92, 2010. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 5 52 CAPÍTULO 5 ANÁLISE DAS NOTIFICAÇÕES DA SÍFILIS CONGÊNITA NO MUNICÍPIO DE NOVA IGUAÇU-RJ, NO PERÍODO DE 2013 A 2017 Hellen de Souza Neves Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Iguaçu (UNIG) Emanuel Inocêncio Ribeiro da Silva Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Iguaçu (UNIG) Paula Guidone Pereira Sobreira Mestre em Saúde Pública – ENSP/FIOCRUZ. Docente do Curso de Fisioterapia e Medicina Veterinária da UNIG. Adalgiza Mafra Moreno Doutora em Ciências Cardiovasculares - UFF. Docente do Curso de Fisioterapia da UNIG Introdução: a sífilis congênita é uma doença com alta taxa de incidência e de notificação compulsória. Tornando necessário que as fichas sejam preenchidas de forma completa, auxiliando no monitoramento e no perfil para tomada de decisões. Objetivo: realizar a análise da completude das fichas de notificação referente a Sífilis Congênita em Nova Iguaçu-RJ, entre 2013 a 2017 e identificar as dificuldades para o preenchimento adequado. Desenho do Estudo: trata-se de um estudo transversal e descritivo, utilizando fichas de notificação compulsória de Sífilis Congênita com 1243 registros de casos no SINAN. Metodologia: A análise da completude das fichas baseou-se na classificação do Ministério da Saúde: ruim menor que 70%, regular entre 70 e 89%, categorizando também como excelente o preenchimento acima de 90% dos campos. Os campos “em branco” foram considerados dados ignorados e erros em relação ao preenchimento. Posteriormente foi aplicado questionário com os responsáveis pelo preenchimento da notificação compulsória e realizado palestra. Os dados foram tabulados no Programa Excel for Windows 2013. O estudo foi submetido e aprovado no CEP, CAAE 597666616.0.0000.8044. Resultados: Os campos com maior taxa de incompletude foram tratamento da gestante com sífilis 34,9%, tratamento do parceiro com sífilis 52,8% e escolaridade da gestante 50% . Sendo categorizados como ruim em relação ao critério de preenchimento. Identificamos através do questionário os principais fatores que norteiam a incompletude, em 62,5% das fichas preenchidas são dados captados no prontuário do paciente e 37,5% são informações coletadas diretamente com o paciente. Apontando também o não comparecimento do parceiro na Unidade de Saúde. Discussão: Os campos das fichas de notificação compulsória são preenchidos com informações registradas no prontuário do paciente, sendo os campos considerados Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 5 53 incompletos os de grande relevância em relação ao tratamento da doença. Conclusão a análise dos dados permitiu identificar e compreender os fatores que interferem no processo de notificação compulsória, evidenciando que a incompletude dos elementos interfere diretamente na qualidade do serviço prestado a população, dificultando a busca ativa do indivíduo pelo serviço de saúde e também interferindo na estratégia de elaboração de medidas preventivas da doença. Palavras chave: Monitoramento Epidemiológico; Sífilis Congênita, SINAN. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 54 CAPÍTULO 6 ANÁLISE DAS PRINCIPAIS DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS NO BRASIL NO PERÍODO DE 2011 A 2015 Antônio Zenon Antunes Teixeira Universidade Cândido Mendes Pró-Reitoria De Pós-Graduação E Pesquisa Pós-Graduação Em Análises Clínicas E Microbiologia Aparecida De Goiânia, Goiás 2017 Artigo Científico apresentada à Universidade Cândido Mendes UCAM como requisito parcial para a conclusão do curso de pós-graduação lato sensu especialização em Análises Clínicas e Microbiologia RESUMO: Os meios de comunicação no Brasil constantemente estão realizando comentários sobre o aumento de doenças sexualmente transmissíveis. O aumento dos casos de Sífilis, HIV, Hepatites são preocupantes e muitas vezes se discute o descaso do governo federal em não decretar epidemia de Sífilis, uma vez que as estatísticas chamam a atenção das organizações internacionais de saúde. Portanto, esse trabalho tem como o objetivo analisar os dados estatísticos apresentados pelo Ministério da Saúde de HIV/Aids, Sífilis e Hepatites entre os anos de 2011 e 2015. Os dados apresentados neste artigo foram obtidos de Boletins Epidemiológicos das epidemias HIV/Aids, Sífilis e Hepatites Virais. Foram realizadas análises das taxas de incidência das doenças no período de cinco anos. Os casos foram analisados de acordo com o sexo, idade e região dos infectados. Os dados obtidos foram compilados e calculados utilizando software Excel 2010. Os resultados demonstram que as doenças possuem a tendência de apresentar aumentos significativos como no caso da Sífilis principalmente no grupo feminino. As maiores concentrações de DST/HIV estão entre a população jovem em idade reprodutiva. A região mais preocupante para Sífilis é o Rio Grande do Sul com uma taxa de mais de 100 em 100 mil habitantes seguidos pelo Espirito Santo e São Paulo. Concluiu-se que os problemas devem ser enfrentados através da educação sexual no lar e na escola. No caso das hepatites há necessidade imediata de prover o sistema de saúde com meios tecnológicos avançados para detectar os diversos tipos de vírus causadores de hepatites. PALAVRAS-CHAVE: DST, Sífilis, HIV, AIDS, Hepatites. INTRODUÇÃO A urbanização é um fenômeno mundial e estima-se que em 2050 a população urbana será de 67% no planeta. A população urbana no Brasil em 2010 atingiu 84,3% da população. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 55 Entretanto, não se observa ações consistentes voltadas ao enfrentamento de epidemias de agentes infecciosos de relevância para a saúde pública (SEGURADO et al., 2016). Em 2010 a população brasileira era estimada em 190.755.799 indivíduos e destes cerca de 51 milhões eram jovens entre 15 a 29 anos (IBGE, 2010). A baixa escolaridade associada ao menor conhecimento de doenças sexualmente transmissíveis como Aids, HIV, Hepatites e Sífilis apontam para uma necessidade de ações educativas destinadas a população mais jovem no Brasil (MIRANDA et al., 2013). Esses jovens estão vulneráveis à transmissão de DSTs/HIV Aids e existe a necessidade de políticas públicas para um engajamento de pais e professores em assuntos sobre sexualidade (FONTES et al., 2017). A AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrome) surgiu no início dos anos 80 na Califórnia entre as populações de homossexuais que apresentaram “sarcoma de Kaposi”, pneumonia por Pneumocystis carinii e comprometimento do sistema imune e o HIV que é o vírus relacionado com essa síndrome de acordo com o Programa Nacional de Aids, a qual começou a ser relatada na ÁfricaCentral na metade do século XX em primatas (Apud PINTO et al., 2007). Apesar de haver uma melhoria nas condições sanitárias no Brasil, as hepatites virais, as quais são causadas por diferentes agentes etiológicos são ainda uma grande preocupação em saúde pública especialmente as hepatites B e C. Foram desenvolvidas vacinas para hepatite B e novas técnicas moleculares tem auxiliado na detecção do vírus da hepatite C. O real número de casos de hepatites no Brasil é incerto, pois a identificação requer técnicas complexas de biologia molecular e é realizado de maneira insuficiente. A metade dos ambulatórios públicos das diferentes regiões do Brasil não possui acesso ao kit DNA-VHB para identificar hepatite B e 40% dos mesmos ambulatórios não possuem exames de biologia molecular para hepatite C (FERREIRA & SILVEIRA, 2004). Os fatores ligados aos altos índices de transmissão do Treponema pallidum no Brasil estão associados à falta de informação, acesso limitado aos cuidados da saúde, baixo nível socioeconômico, falta de tratamento do parceiro infectado, o não uso de preservativos e como consequência temos cerca de 12 mil recém-nascidos infectados com sífilis no Brasil a cada ano (PIRES et al.; 2014). Tudo isso nos leva a abordar os dados estatísticos da Secretária de Vigilância em Saúde e observar as tendências dessas doenças sexualmente transmissíveis apresentados nos boletins epidemiológicos dos últimos anos. O objetivo desse artigo foi analisar os dados estatísticos do Boletim Epidemiológico das epidemias de HIV/Aids, Sífilis e Hepatites entre os anos de 2011 e 2015; contribuindo para um melhor entendimento das tendências dessas doenças transmissíveis sexualmente no território brasileiro. Os dados apresentados neste artigo foram obtidos de Boletins Epidemiológicos das epidemias HIV/Aids, Sífilis e Hepatites Virais produzidas pela Secretária de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde (BRASIL, 2017; 2016a, 2016b, 2015a, 2015b). Foram analisadas as taxas de incidência das doenças no período de 2011 a Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 56 2015. As ocorrências das epidemias foram analisadas de acordo com o sexo, idade e região dos pacientes. Os dados foram compilados e analisados utilizando software Excel 2010. RESULTADOS E DISCUSSÃO Na Figura 1, podemos observar que houve a elevação dos casos de sífilis e HIV que aumentaram de 182 e 145% respectivamente em cinco anos. O aumento da sífilis foi causado pela elevação da taxa de incidência de sífilis adquirida que é transmitido através da relação sexual sem camisinha e resultou em 18.000 casos em 2011; e 65.000 ocorrências em 2015, um aumento de 265% dos casos. Enquanto a sífilis em gestante aumentou 131% e a sífilis congênita a qual há infeção fetal via placenta expandiu 103%, em um período de cinco anos. Já os casos de HIV subiram no mesmo período. Registrou-se um aumento de 145% em cinco anos de 16 mil casos em 2011 a 40 mil casos em 2015. Enquanto isso, o número de casos de Aids registrados diminuiu em 7% em 2015 em comparação com o período de 2011. A produção de medicamentos genéricos e o início do tratamento dos pacientes prematuramente contribuíram com a queda dos casos novos. Figura 1 – Casos confirmados de principais doenças transmissíveis no Brasil por ano de diagnóstico, 2011 – 2015. Fonte: BRASIL, 2017, 2016a, 2016b, 2015ª, 2015b. As hepatites virais (hepatite A, B, C e D) são aquelas doenças causadas pelos vírus que atacam preferencialmente o fígado (FERREIRA & SILVEIRA, 2004). Apesar da diminuição de novos casos de detecção de hepatites A, B e D, os casos de hepatite C dobraram, em 2011 de aproximadamente 13.000 ocorrências a 25.000 casos em 2015. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 57 A elevação de taxa de detecção de hepatite C ocorreu principalmente em 2015. Em 2015 foram considerados casos confirmados de hepatite C aqueles que apresentaram os testes anti-HCV ou HCV-RNA reagentes, enquanto em anos anteriores foram considerados casos confirmados de hepatite C aqueles que apresentaram os testes anti-HCV e HCV-RNA. Entre os vírus hepatites, a hepatite B é transmitida em geral pelo contato sexual, houve a diminuição dos casos confirmados em 2015 em comparação com os quatro anos anteriores (Figura 2). Figura 2 – Casos confirmados de hepatites virais no Brasil por ano de diagnóstico, 2011 – 2015. Fonte: BRASIL, 2017, 2016a, 2016b, 2015ª, 2015b. Durante desse período, os maiores percentuais de casos sífilis ocorreram em mulheres. Em 2015, quase 80% dos casos são em gestante. Gestantes nas idades entre 20 a 29 anos são mais vulneráveis. Enquanto em sífilis adquirida, os casos entre homens são maiores com a razão de 1,5 em 2015 (Figura 3). O número de homens infectados pela Aids é o dobro em comparação com as mulheres. Citando a pesquisa (BRASIL, 2016b), os portadores de aids dos sexos masculinos são homossexuais (35%), heterossexuais (50%), bissexuais (10%) e 5% foram transmitidos via sanguínea. Enquanto nas mulheres, mais de 90% dos portadores de aids são heterossexuais. Igualmente como em portadores de Aids, menos de 5% dos casos confirmados do HIV em mulheres e homens foram infectados pela via sanguínea. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 58 Figura 3 – Casos confirmados de principais doenças transmissíveis (sífilis, HIV Aids e Hepatites virais) no Brasil por sexo, 2011 – 2015. Fonte: BRASIL, 2017, 2016a, 2016b, 2015ª, 2015b. Segundo dados obtidos do Boletim Epidemiológico da epidemia Sífilis, produzido pela Secretária de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde (BRASIL, 2016a) observou-se que no ano de 2011 tivemos 1269 casos de sífilis entre adolescente de 13 a 19 anos, 4878 casos na faixa de idade 20 a 29 anos, 4095 casos na faixa de 30 a 39 anos, 3432 casos na faixa de 40 a 49 anos, 4384 casos acima de 50 anos e 2 casos ignorados totalizando 18056 casos positivos de sífilis. Em 2012 houve um total de 27693 casos com aumento em todas as faixas de idade. No ano de 2013 foram 38942 casos positivos de sífilis e a incidência de sífilis em todas as faixas etárias tiveram aumento significativo. Em 2014 o número total de sífilis foi de 49606 e finalmente no ano de 2015 tivemos um número de 65858 casos. Comparando com o ano de 2011 a 2015, tivemos um aumento de 265% dos casos num período de cinco anos. No mesmo período o aumento na faixa dos 13 a 19 anos foram 425%, na faixa etária dos 20 a 29 anos tivemos um aumento de 346%, entre os 30 a 39 anos o aumento foi de 262%. Na faixa de idade entre os 40 a 49 anos, o aumento foi de 181% e acima dos 50 anos, o aumento da sífilis foi de 196% entre os anos de 2011 e 2015. No mesmo período para os casos de HIV notificados (BRASIL, 2017) tivemos um aumento de 228%. Na faixa de idade entre 10 a 19 anos o aumento entre os anos de 2011 e 2015 foi de 267%. Entre as idades de 20 a 29 anos o aumento foi de 247%. Na faixa etária entre 30 e 39 anos tivemos um aumento de 214%. Entre as idades de 40 a 49 anos a incidência de HIV aumentou 200% e acima dos 50 anos o aumento foi de 244%. Os casos de Aids (BRASIL, 2017) foram notificados um total de 41845 casos em 2011 e 39113 casos em 2015. No mesmo período na faixa etária de 10 a 19 anos tivemos um aumento de 23%. Entre as idades de 20 a 29 anos o aumento foi Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 59 de 7%. Na faixa etária entre 30 e 39 anos tivemos um decréscimo de -7%. Entre as idades de 40 a 49 anos a incidência de Aids diminuiu -13% e acima dos 50 anos o aumento foi de 13%. Tais resultados ocorrem devido a distribuição de medicamentos genéricos gratuitamente a população de HIV positivo. Somente entre os mais jovens e provavelmente menos esclarecidos e idosos que o aumento de Aids foi significativo. Os casos confirmados de hepatites no Brasil são subestimados, pois há necessidade de técnicas mais sofisticadas de biologia molecular às quais grande parte dos ambulatórios públicos não possuem acesso (FERREIRA& SILVEIRA, 2004). Segundo dados do boletim epidemiológico para hepatites virais (BRASIL, 2016b) entre os anos 2011 os casos confirmados de hepatite B em gestantes foi de 1844; em 2012 tivemos 1734 casos; em 2013 foram registrados 1743 casos; em 2014 tivemos 1767 casos e em 2015 os casos foram 1617. Esses números podem estar conectados com a crise econômica e política que estamos passando que acabam por subestimar os casos de hepatites virais no país. Tabela 1 mostra que sífilis aumentou mais do que 100% em todas as regiões do Brasil, enquanto na região Sul, a doença subiu mais do que cinco vezes nos últimos cinco anos. Em 2015, as cidades do Rio Grande do Sul, Espirito Santo e São Paulo apresentaram as maiores taxas de detecção dos casos de sífilis adquiridos com 111, 85 e 75 casos por cem mil habitantes respectivamente (BRASIL, 2017). Na região Sul, os casos confirmados crescem mais de 50% anualmente. Na mesma tabela observamos que o HIV aumentou significativamente em todas as regiões sendo que no período de cinco anos analisados, a região Norte apresentou a maior percentagem de aumento (311%). A região Sudeste apresentou a menor taxa de aumento (81%). A região Nordestina aumentou 270%, o Centro-Oeste 218% e a região Sul teve uma percentagem no aumento de HIV de 159%. A Aids apresentou diminuição nas análises dos percentuais nos últimos 5 anos como observado na tabela 1. Nas regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste com os seguintes percentuais negativos de -16%, -11% e -4% respectivamente. A região Norte teve um aumento de 22% seguido da região Nordeste com 7% no aumento dos casos de Aids. Os dados obtidos da tabela 1 para os casos de hepatites são bastante controversos, pois já foram discutidos aqui, os dados de hepatites são subestimados em decorrência da crise política e econômica que atravessa o País. A região Norte apresentou nos últimos cinco anos um aumento de 9% e já a região Nordeste apresentou um decréscimo de -26%. A região Sudeste que apresentou melhores índices para Sífilis, HIV e Aids; no caso de hepatites teve um aumento de 19% dos casos e perfil semelhante apresentou a região Sul com um aumento de 49% nos casos de hepatites virais. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 60 Ano Doenças Regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- Oeste 2011 Sífilis 3025 8684 23811 3948 2529 HIV 952 2184 8609 3712 952 Aids 3452 8097 18295 9210 2791 Hepatites virais 6021 5090 16439 9517 2747 2012 Sífilis 3485 10107 32763 7098 3210 HIV 1169 2312 9393 4242 1120 Aids 3527 8494 17429 9022 2957 Hepatites virais 5704 4581 16527 9284 2543 2013 Sífilis 4679 12345 42716 10518 4427 HIV 1433 3164 10761 6348 1680 Aids 4318 9033 16933 8935 3046 Hepatites virais 6407 5270 14725 9705 2444 2014 Sífilis 5583 14699 51845 15960 5301 HIV 2790 5906 14310 8444 2528 Aids 4486 8809 16310 8476 2926 Hepatites virais 6605 4778 12804 10252 2672 2015 Sífilis 7031 18344 60198 25792 7106 HIV 3917 8083 15583 9605 3032 Aids 4205 8670 15402 8157 2679 Hepatites virais 6578 3744 19695 14147 2343 Tabela 1 – Casos confirmados de doenças transmissíveis de acordo com região por período de 2011-2015 Fonte: BRASIL, 2017, 2016a, 2016b, 2015ª, 2015b. A categoria sífilis inclui sífilis adquiridos, sífilis em gestantes e sífilis congênitas. HIV inclui HIV e HIV gestantes. Hepatite virais (hepatite A, B, C e D). Hepatite B inclui hepatite B e hepatite B em gestantes). CONCLUSÃO Perante os fatos apresentados se comprova que o estado da saúde pública no Brasil está num estado de abandono total. Faltam políticas públicas de educação básica sobre doenças sexualmente transmissíveis e HIV nos lares e escolas uma vez que os dados apresentados apontam como os jovens os maiores portadores de doenças transmitidas via sexual e HIV. Há uma necessidade urgente de se esclarecer toda essa população jovem que enquanto houver medicamentos vendidos como genéricos para impedir a manifestação do vírus HIV, não teremos que nos preocupar com a AIDS, entretanto se por ventura tais drogas não forem fornecidas a população contaminada, o Estado entrará em um colapso total devido as enfermidades infectocontagiosas que podem advir desse problema. Os casos de Sífilis entre as mulheres, principalmente as grávidas devem ser Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 6 61 sobrepujadas de imediato através de políticas de orientação, esclarecimento e fornecer um amplo acesso aos exames de pré-natal, pois são eles que vão formar as próximas gerações da nação. As hepatites no Brasil estão de longe subestimadas e se conclui que há necessidade de imediata de se dar acesso à tecnologia avançada para diagnóstico sofisticado dos diferentes tipos de hepatites encontrados no Brasil. Desta maneira podemos iniciar um processo coletivo com o objetivo de se frear a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis e HIV no Brasil através do diagnóstico, da educação e da prevenção. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde. HIV/AIDS. Boletim Epidemiológico, v. 48, n. 1, p. 1-52, 2017. _______. Ministério da Saúde. Sífilis Ano V. Boletim Epidemiológico, v.47, n. 35, p. 1-29, 2016a. _______. Ministério da Saúde. Sífilis Ano IV. Boletim Epidemiológico, n. 1, p. 1-32, 2015a. _______. Ministério da Saúde. Hepatites Virais Ano V. Boletim Epidemiológico, n. 1, p. 1-72, 2016b. _______. Ministério da Saúde. Hepatites Virais Ano IV. Boletim Epidemiológico, n. 1, p. 1-29, 2015b. FERREIRA, Cristina Targa.; SILVEIRA, Themis Reverbel. Hepatites virais: aspectos da epidemiologia e da prevenção. Revista Brasileira de Epidemiologia. São Paulo, v. 7, n. 4. p. 473-487, abr., 2004. FONTES, Miguel Barbosa et al. Fatores determinantes de conhecimentos, atitudes e práticas DST/ Aids e hepatites virais, entre jovens de 18 a 29 anos no Brasil. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, p. 489-497, abr., 2017. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. CENSO DEMOGRÁFICO 2010. Características da população e dos domicílios: resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em < http://www.brasileirosnomundo .itamaraty.gov.br/a-comunidade/estimativas-populacionais-das- comunidades/estimativas -do-ibge/censo-demografico-ibge-2010.pdf> acesso em: 21 maio, 2017. MIRANDA, Angelica Espinosa et al. Associação de conhecimento sobre DST e grau de escolaridade entre conscritos em alistamento ao Exército Brasileiro. Brasil, 2007. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 18, n. 2, p. 489-497, fev., 2013. PINTO, Agnes Caroline S. et al. Compreensão da pandemia da aids nos últimos 25 anos. Jornal Brasileiro de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, p. 45-50, abr., 2007. PIRES, Ana Célia Scari et al. Ocorrência de sífilis congênita e os principais fatores relacionados aos índices de transmissão da doença no Brasil da atualidade. Maringá, v. 19, n.1, p. 58-64, jul – set, 2014. SEGURADO, Aluisio.Cotrim.; CASSENOTE, Alex Jones.; LUNA, Expedito Albuquerque. Saúde nas metrópoles – Doenças infecciosas. Estudos Avançados, São Paulo, v. 30, n. 86, p. 29-49, jan/abr, 2016. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 62 CAPÍTULO 7 CONTRIBUIÇÃO DA REDE SOCIAL PARA ADOLESCENTES E JOVENS ACOMETIDOS PELA HANSENÍASE Leidiane Aparecida Da Silva Centro Universitário de Patos de Minas Três Marias-MG Danty Ribeiro Nunes Centro Universitário de Patos de Minas Patos Minas-MG Leonardo Nikolas Ribeiro Centro Universitário de Patos de Minas Patos Minas-MG Marilene Rivany Nunes Centro Universitário de Patos de Minas Patos de Minas –MG RESUMO: A hanseníase é uma doença infectocontagiosa, considerada um problema de saúde. Percebe-se o preconceito em relação à doença, causam fragilização das relações sociais. A rede social pode ser definida como a soma de todas as relações que um indivíduo possui. O objetivo deste estudo é identificar os adolescentes e jovens, com hanseníase, e avaliar e a composição da rede social e os sentidos atribuídos à doença. Trata-sede uma pesquisa descritiva, que teve como amostra adolescentes e jovens acometidos pela hanseníase, identificados na Ficha do Sistema de Informação dos Agravos Nacional (SINAN), no período de Janeiro de 2011 a dezembro de 2015 no Centro de Saúde Raimundo Gonçalves dos Reis em Três Marias-MG. Foram adotados dois instrumentos com vista conhecer a composição da rede social e os sentidos atribuídos à hanseníase. Identificamos 03 adolescentes que apresentaram idade em 10 a 19 anos, o tempo de escolaridade variou entre o ensino fundamental e médio, é todos os adolescentes apresentaram a forma multibacilar (MB) da doença, com predomínio da rede social pequena. Na análise dos mapas da rede social percebeu-se a importância do diagnóstico precoce, dos vínculos significativos com os membros da família e profissionais de saúde do Centro de Saúde referido acima, vínculo fragilizado com a Unidade Atenção Primaria de Saúde (UAPS). Conclui se que o enfermeiro, juntamente com outros membros da Equipe de Saúde da Família (ESF) e do Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF), devem utilizar- se do Projeto Terapêutico Singular (PTS) e do Projeto Território Saúde (PST) para assistir integralmente os adolescentes e a comunidade. PALAVRAS-CHAVE: Hanseníase. Rede social. Promoção de saúde. Enfermagem. ABSTRACT : Leprosy is an infectious disease, considered a health problem. It is perceived the prejudice in relation to the disease, they cause the weakening of social relations. The social network can be defined as the sum of all the relationships that an individual possesses. The Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 63 objective of this study is to identify adolescents and young people with leprosy, and to evaluate and the composition of the social network and the meanings attributed to the disease. This was a descriptive study, which had as a sample adolescents and young people affected by leprosy, identified in the National Information System of the National Aggravation System (SINAN), from January 2011 to December 2015 at the Raimundo Gonçalves Health Center Kings in Três Marias-MG. Two instruments were adopted in order to know the composition of the social network and the meanings attributed to leprosy. We identified 03 adolescents who presented age in 10 to 19 years, the time of schooling varied between elementary and middle school, it is all the adolescents presented the multibacillary form (MB) of the disease, with predominance of the small social network. In the analysis of social network maps, the importance of early diagnosis, significant relationships with the family members and health professionals of the Health Center referred to above was identified, a weak link with the Primary Health Care Unit (UAPS). It is concluded that the nurse, together with other members of the Family Health Team (ESF) and the Family Health Support Center (NASF), should use the Unique Therapeutic Project (PTS) and the Territorial Health Project (PST) ) to fully assist adolescents and the community. KEYWORDS: Leprosy. Social network. Health promotion. Nursing. INTRODUÇÃO E OBJETIVOS A hanseníase é considerada um grave problema de saúde pública principalmente porque afeta a faixa etária economicamente ativa. É uma doença crônica, infecciosa causada pelo Mycobacterium leprae, parasita intracelular obrigatório, que tem afinidade por células cutâneas e nervos periféricos (OLIVEIRA; ASSIS; SILVA, 2013). Esta possui evolução lenta, normalmente de 11 a 16 dias, podendo ficar incubada de 2 a 7 anos (ALVES; FERREIRA; FERREIRA, 2014, BRASIL, 2010). Assim a hanseníase tem característica de alta infectividade e baixa patogenicidade. Ela acomete principalmente a pele e os nervos podendo se manifestar de forma sistêmica lesando articulações, olhos, testículos, gânglios e outros órgãos causando incapacidade funcional (ALVES; FERREIRA; FERREIRA, 2014, BRASIL, 2010). O diagnóstico da hanseníase é realizado pela avaliação dermatoneurológica e confirmado pela baciloscopia da pele. A hanseníase é classificada de acordo com o número de lesões de pele, sendo a forma paucibacilar (PB), com até cinco lesões, e a multibacilar (MB) com mais de cinco lesões (BRASIL, 2016). A escolha do tratamento é realizada de acordo com a classificação utilizando a poliquimioterapia (PQT) durante 6 meses até 1 ano (BRASIL, 2016). Percebe-se que tanto em adultos quanto em adolescentes, as manifestações clínicas da hanseníase, os efeitos adversos dos fármacos, as incapacidades funcionais e até o estigma e o preconceito em relação à doença, causam fragilização das relações sociais, o que dificulta a adesão ao tratamento. Assim, percebe-se a necessidade destes pacientes receberem apoio dos membros da família, amigos, colega de escola Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 64 e do trabalho, profissionais de saúde, enfim, da rede social (MARINHO et al. 2015; ALVES; FERREIRA; FERREIRA, 2014). A Rede social conforme Sluzki (2010) é a soma de todas as relações que um indivíduo possui. A rede social é importante, pois tem a função de auxiliar, dar apoio as pessoas frente as suas dificuldades/ problemas e doença. Ela pode também identificar formas para a prevenção e tratamento (SLUZKI, 2010). Os membros da rede social são capazes de propor ações para minimizar os danos causados pela hanseníase (SILVA, 2012; RIBEIRO et al. 2014). A partir desse pressuposto o apoio da enfermagem é essencial, para aprimorar a assistência oferecida ao paciente e sua família desenvolvendo estratégias junto ao paciente como o objetivo de assegurar o tratamento, fornecendo informações como a de que a hanseníase tem cura, e que o envolvimento do paciente e da família traz benefícios para todos (CARRIJO; SILVA, 2014). Assim, Sluzki (2010) enfatiza a necessidade de identificar os membros da rede social, por meio do Mapa de rede social, com o objetivo de identificar os recursos ou mesmo lacunas existentes na rede dos adolescentes e jovens acometidos pela hanseníase. Portanto este estudo tem como objetivos identificar os adolescentes e jovens, com hanseníase, e avaliar a composição da rede social e os sentidos atribuídos à doença. MATERIAL E METÓDOS Trata-se de uma pesquisa documental seguida de uma pesquisa de campo descritiva com os adolescentes e jovens na faixa etária de 10 a 24 anos, acometidos pela hanseníase, identificados na Ficha do Sistema de Informação dos Agravos Nacional (SINAN) no período de Janeiro de 2011 a dezembro de 2015, no Centro de Saúde Raimundo Gonçalves dos Reis, no município de Três Marias-MG, no ano de 2016. Foram utilizados dois instrumentos para coleta de dados, um questionário semiestruturado constituído de 5 questões objetivas sobre idade, sexo, escolaridade, esquema terapêutico, idade que teve a doença e 3 perguntas norteadoras discursivas, com o objetivo de buscar os sentidos sobre o que é hanseníase, diagnóstico de hanseníase e como foi vivenciar a hanseníase no dia a dia e o mapa de rede social proposto por Sluzki (2010) para coletar dados sobre a composição da rede social dos pacientes adolescentes e jovens acometidos pela hanseníase. Os dados objetivos foram avaliados pela análise descritiva e as questões discursivas pelo método de Interpretação de sentidos. Já os dados do mapa foram avaliados de acordo coma proposta de SluzKi (2010) considerando sua composição, tamanho e tipo de vínculo. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética de Pesquisa do Centro Universitário de Patos de Minas Parecer nº 1.470.590/2016. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 65 RESULTADOS Após realizara a pesquisa documental nas Fichas do SINAN constatou-se que no ano de 2016, no Centro de Saúde Centro de Saúde Raimundo Gonçalves dos Reis, no município de Três Marias, a presença de 03 adolescentes e jovens, acometidos por hanseníase no período de Janeiro de 2011 a dezembro de 2015. Os adolescentes foram descritos com nomes fictícios de sua preferênciapara manter o anonimato e sigilo das informações, conforme Tabela1. Nome Fictício Sexo Idade Escolaridade 01 Beatriz Feminino 12 Ensino Fundamental 02 Davi Masculino 13 Ensino Fundamental 03 Carol Feminino 19 Ensino Médio Incompleto Tabela 1 - Caracterização dos adolescentes e jovens acometidos por hanseníase Fonte: Coleta de dados dos adolescentes e jovens acometidos por hanseníase, 2016. Os 03 adolescentes identificados apresentaram idade em 10 a 19 anos o tempo de escolaridade entre eles variou entre o ensino fundamental e médio, sendo que todos os adolescentes apresentaram a forma multibacilar (MB) da doença, conforme Tabela2. Adolescente Esquema terapêutico 01 Beatriz MB 02 Davi MB 03 Carol MB Tabela 2- Caracterização do esquema terapêutico dos adolescentes e jovens acometidos por hanseníase Fonte: Coleta de dados dos adolescentes e jovens acometidos por hanseníase, 2016. Na análise dos mapas de rede social as adolescentes Carol e Beatriz apresentaram a rede social pequena, e apenas o adolescente Davi possui uma rede social media. Na Figura 1 observa-se que a adolescente Carol possui uma rede social pequena com vínculos significativos com os membros da família, um vínculo significativo entre a adolescente e o serviço do Centro de Saúde Raimundo Gonçalves dos Reis e um vínculo fragilizado com os profissionais da Unidade Básica de Saúde. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 66 Figura 1- Mapa de rede social da Carol, 19 anos. Fonte: Entrevista com os adolescentes e jovens acometidos por hanseníase, 2016. Carol ao ser perguntada sobre o que é hanseníase declara que a “hanseníase é uma doença com manchas clara com perda de sensibilidade e pega através dos outros que já tem a doença depois de alguns anos”, e que o diagnóstico foi realizado “pelo médico que viu uma mancha branca”. Para ela vivenciar a hanseníase no dia a dia foi “normal, bem tranquilo por ter tratamento”. Davi relata que para ele a hanseníase é: “uma doença antigamente chamada de Lebra e tem tratamento”. O diagnóstico foi realizado através do “aparecimento manchas brancas nas pernas” e ele citou que na vivencia “percebeu as pernas fracas e quando andava sentia dor”. Ao questionar a adolescente Beatriz sobre o que é hanseníase a mesma relatou que: “Hanseníase é uma doença que dá uns carocinhos vermelhos e são dolorosos, tem que ser controlado com remédios talidomida e talvez prednisona o tratamento é um pouco longo”. Percebeu-se que a adolescente tem uma rede social reduzida, e pouco conhecimento sobre a doença. DISCUSSÃO Todos os três adolescentes apresentaram a forma MB da doença, que infere diagnóstico tardio, corroborando com o estudo Ribeiro et al., (2014). Para os autores o diagnóstico da hanseníase é primordialmente clínico, através da anamnese e do exame físico, e os critérios para definir a classificação operacional, ocorre através da análise do número de lesões cutâneas sendo as forma PB e MB. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 67 O tratamento para a forma MB é constituído por quimioterápicos durante um período mínimo de 1 ano, estes causam inúmeros efeitos colaterais como as reações hansênicas. Esta advém das alterações do sistema imunológico causadas pela própria doença e podem surgir mesmo antes do diagnóstico da doença, durante e após a cura. As reações são caracterizadas por manifestações inflamatórias agudas nas lesões e nos nervos o que pode ocasionar incapacidades funcionais, se não detectadas e tratadas precocemente (BRASIL, 2010). Assim, o diagnóstico das reações devem ser realizado rapidamente para evitar a presença de incapacidades. O diagnóstico e realizado através do exame físico geral e dermatoneurológico, essa ações são primordiais no monitoramento de comprometimento dos nervos periféricos e também para avaliar a efetividade da terapêutica anti-reacional para evitar as incapacidades (BRASIL, 2010). Alves, Ferreira e Ferreira (2014) pontuam a importância de orientar os pacientes acometidos pela hanseníase sobre os eventos adversos esperados e reacionais. Assim, as medidas preventivas são essenciais para detectar casos precocemente, evitando alterações físicas e incapacidades, detectando casos na fase inicial PB, sendo que o tratamento é realizado em um tempo menor, e com menores chances de complicações reacionais. Outra medida importante é o controle dos contatos através da avaliação dermatoneurológica e a vacinação com BCG, segundo o Ministério da Saúde (MINAS GERAIS, 2007). A vacina BCG está indicada para todos os contatos domiciliares, mesmo que eles não apresentem nenhum sinal ou sintoma de hanseníase, deve ser administrada no instante da avaliação, em contatos de casos PB ou MB. Deve ser realizada de acordo com o estado vacinal, para aqueles que não possuem cicatriz fazer uma dose de BCG, aqueles que apresentarem uma cicatriz fazer nova dose, e para os casos de duas cicatrizes considerar vacinado não sendo necessária outra dose (BRASIL, 2010). Fonseca, et al., (2015), afirma que a hanseníase é considerada um grave problema de saúde pública, necessitando de ações de controle a serem realizadas por uma equipe multidisciplinar, dando ênfase ao profissional enfermeiro que desempenha papel fundamental no programa de controle dessa doença. Assim é sabido que a hanseníase em crianças e adolescentes causa grandes alterações físicas, emocionais e sociais, além de várias mudanças no cotidiano, desde atividades diárias até no laser, provocadas pelas manifestações clinicas da doença, efeitos adversos dos fármacos e pelo preconceito (MARINHO et al., 2015). Percebe- se que este necessitam ser amparados por uma rede social composta por familiares, amigos e profissionais de saúde. As redes se caracterizam por propriedades estruturais como tamanho, densidade, composição. Ela possui as funções de companhia social, acompanhando a pessoa para que não se sinta só; apoio emocional, consolando; guia cognitivo e conselhos, informando; regulação social, relembrando as normas sociais; ajuda material e de serviços; oferecendo bens materiais e acesso a novos contatos, introduzindo a pessoa Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 68 em outras redes de convívio (GUTIERREZ; MINAYO, 2008, SLUZKI, 2010, RIBEIRO; BASTOS, 2011). Dessa forma Sluzki (2010) propõe a utilização do Mapa da Rede Social para a compreensão da estrutura e funcionamento das redes sociais. As redes sociais é uma abordagem dinâmica de representação das relações sociais e serviços que acolhem um determinado individuo (DUTRA et al., 2013). Ao analisar os Mapa da Rede Social dos adolescentes, percebe-se que apenas Carol refere vínculo fragilizado com os profissionais de saúde da Unidade Atenção Primaria de Saúde (UAPS), o que evidencia a falta de apoio oferecida pelo serviço. O que contradiz o estudo de Fonseca, et al., (2015), que afirma que os profissionais da Atenção Básica de Saúde (ABS), no cenário das Unidades Atenção Primaria de Saúde, são uma potente estratégia para detectar casos precocemente e realizar campanhas voltadas para a prevenção e controle da hanseníase oferecendo apoio e informação. Na ABS funciona a estratégia de saúde da família que possui equipes qualificadas como a Equipe de Saúde da Família (ESF), constituída por médico, enfermeiro, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde e o Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF) composta por assistente social, psicólogo, educador físico, fisioterapeuta, e demais profissionais com o objetivo de discutir os casos, e propor soluções através de intervenções para resolver os problemas identificados. (MIRANDA; COELHO; MORÉ, 2012). Para Fonseca et al (2015) o enfermeiro recebe destaque no atendimento dos pacientes acometidos pela hanseníase, estes atuam na comunidade com um agente essencial na promoção de qualidade de vida assegurando o tratamento específico e a prevenção de incapacidades, além de desenvolver ações de promoção à saúde. Dessa forma Marinhoet al (2015) declara que a enfermagem possui papel fundamental na assistência a pacientes acometidos pela hanseníase estabelecendo um vínculo de confiança entre o paciente e os serviços de saúde. Neste estudo percebe-se que os adolescentes que receberam apoio dos profissionais de saúde apresentaram maior conhecimento sobre a doença e consequentemente melhor adesão ao tratamento. O diagnóstico da hanseníase na adolescência, fase de mudanças e de adaptações, necessita de apoio da rede social. No estudo houve predomínio da rede social pequena, este resultado evidencia o processo de isolamento social provocado pelo diagnóstico da doença. Sendo assim para Sluzki (2010), a rede social de tamanho médio composta por (oito a dez pessoas) é mais eficaz, capaz de promover uma melhor qualidade de vida, o que não corrobora com os dados encontrados neste estudo. O relato da adolescente Carol infere que o conhecimento sobre a hanseníase é primordial para que seja realizado diagnóstico precoce da doença. O vínculo forte entre a adolescente e o Centro de Saúde de tratamento da hanseníase foi importante para esclarecer as dúvidas e assegurar o tratamento adequado, já o vínculo fragilizado com a UAPS ou UBS, evidencia a falta de apoio por parte deste serviço. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 69 Percebe-se que a adolescente Carol não referência a presença de nenhum membro no campo de amizades o que não era esperado, visto que, esta fase da vida estimula a vivencia em grupos. Então podemos pensar que talvez ela viveu um processo de exclusão e isolamento social por medo do preconceito. O apoio da equipe de enfermagem é essencial, para aprimorar a assistência oferecida aos usuários (CARRIJO; SILVA, 2014). Existe uma necessidade de alerta toda a sociedade para a identificação de presença de machas e áreas com perda de sensibilidade com vista a realizar diagnóstico precoce da doença. Este processo pode ser realizado através de palestras, e campanhas educativas, mostrando o que é a doença e que tem cura, para mudar o estima em relação à doença (MINAS GERAIS, 2007). Uma possibilidade de gestão do cuidado destes adolescentes acometidos pela hanseníase e a utilização de ferramentas da ABS como a elaboração do Projeto Terapêutico Singular (PTS) e o Projeto Território Saúde (PST). O PTS é um instrumento que possibilita o acompanhamento dos usuários da ABS de forma longitudinal, envolvendo os saberes de todos os profissionais da ESF e do Núcleo de Apoio a Saúde da Família NASF, para avaliar e discutir os casos, e propor soluções através de intervenções singulares pautadas no atendimento integral e na clínica ampliada (MIRANDA; COELHO; MORÉ, 2012). Já o PST é um projeto de intervenção na comunidade, elaborado pela ESF e o NASF, com o objetivo de desenvolver ações efetivas na produção da saúde em um território com foco na articulação dos serviços de saúde com outros serviços e políticas sociais de forma a investir na qualidade de vida e na autonomia dos usuários e comunidades (VERDI; FREITAS; SOUZA, 2012). Assim Hori e Nascimento (2014), pontuam que os profissionais da ESF e do NASF vivenciam condições sociais duras e violentas, tendo que lidar com situações de adoecimento, devendo esses profissionais trabalhar de acordo com os princípios do SUS, para estruturar ações e transformar os acompanhamentos dos usuários em atendimento integral e longitudinal, através de ações e estratégias, visando prevenir agravos, e promover a saúde da família e da comunidade. Assim, é efetivo elaborar PST voltado para prevenir e mesmo realizar diagnóstico de hanseníase na comunidade utilizando de parcerias com os membros da família, a escola, a comunidade e associações de bairros. O enfermeiro possui capacidades e habilidades específicas que proporciona competência para construir PST voltado para aspectos da hanseníase (CARRIJO; SILVA, 2014). CONCLUSÃO Na análise dos mapas de rede social dos adolescentes e jovens, com hanseníase, foi possível concluir que o enfermeiro deve utilizar o Projeto saúde no território e o Projeto terapêutico singular como ferramentas para assistir os adolescentes integralmente, Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 70 buscando compreender suas fragilidades para propor um plano assistencial singular e resolutivo. Sendo assim o enfermeiro tem papel fundamental no controle da hanseníase, através de ações de saúde capazes de oferecer informação, e apoio, promovendo o cuidado integral a estes usuários durante o tratamento. Portanto os serviços de saúde são responsáveis por diminuir ou mesmo erradicar o estigma da doença. Assim de certa forma a composição da rede social contribui para um maior conhecimento dos adolescentes sobre a hanseníase além de proporcionar auxilio no enfrentamento da doença e adversidades causadas por ela. REFERÊNCIAS ALVES, E. D.; FERREIRA, I. N.; FERREIRA, T. L. Hanseníase Avanços e Desafios. Brasília: NESPROM, 2014.492 p.(Coleção PROEXT; 1). BRASIL. Ministério da saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das doenças Transmissíveis. Diretrizes para vigilância, atenção e eliminação da Hanseníase como problema de saúde pública: manual técnico – operacional [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. _____. Ministério da Saúde. Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso. 8. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. CARRIJO, F. L; SILVA, M. A. Percepções do paciente portador de hanseníase no cotidiano familiar. estudos, Goiânia, v. 41, especial, p. 59-71, out., 2014. Disponível em<file:///C:/Users/ Meus%20Documentos/Downloads/3808-11000-1-PB.pdf>. Acesso em: 18 jan.2016. DUTRA, M. L. et al. A configuração da rede social de mulheres em situação de violência doméstica. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v.18, n.5, p. 1293-1304, Maio, 2013. Disponível em<http://www. scielo.br/scielo. php?pid=S1413-81232013000500014&script=sci _arttext>. Acesso em: 25 jan.2016. FONSECA, I. F. et al. Importância do enfermeiro no controle do tratamento da hanseníase: revisão integrativa. Revista e- ciência. v.3, n.2, dezembro, 2015, p.97-106. Disponível em<http://www.fjn.edu. br/revista/index. php/eciencia/article/view/88/pdf_19>. Acesso em: 22 fev.2017. GUTIERREZ, D. M. D; MINAYO, M. C. S. Família, redes sociais e saúde: O imbricamento necessário. Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder. Florianópolis, 25 a 28 de agosto de 2008. HORI, Alice Ayako; NASCIMENTO, Andréia de Fátima. O Projeto Terapêutico Singular e as práticas de saúde mental nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) em Guarulhos (SP), Brasil. Ciênc. Saúde Coletiva, [s.l.], v. 19, n. 8, p.3561-3571, ago. 2014. MINAS GERAES. Secretária de Estado de Saúde. Atenção a Saúde do adulto: hanseníase. Belo Horizonte: SAS/MG, 2007. 62 P. MARINHO, D. M. et al. Hanseníase em menores de 15 anos: uma revisão bibliográfica. REFACS- Revista Família, Ciclos de vida e saúde no contexto social, V.3, n.2, p. 95-105, 2015. Disponível em: <http://www.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/refacs/article /vieW/ 1087/953>. Acesso em: 29 dez.2015. MIRANDA, F. A. C; COELHO, E. B. S; MORÉ, C. L. O. O. Projeto Terapêutico Singular: A Assistência na Atenção Básica. Florianópolis. Editora: Universidade Federal de Santa Catarina. Curso Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 7 71 de Especialização Multidisciplinar em Saúde da Família. 60p. 2012 OLIVEIRA, V. M. ASSIS, R. D. SILVA, C.C. Levantamento epidemiológico da hanseníase no nordeste brasileiro durante o período de 2001-2010. Scire Salitus, Aquidabã, v.3, n.1, p. 16-27, 2013. Disponível em < http://dx.doi.org/10.6008/ESS2236-9600.2013.001.0002. Acesso em: 29 dez.2015. RIBEIRO, E. M. B. A.; BASTOS, A. V. B. Redes sociais interorganizacionais na efetivação de projetos sociais. Psicologia &Sociedade, v. 23, n. 2, p. 282-292, 2011. RIBEIRO, G. C. et al. Estimativa da prevalência oculta da hanseníase na microrregião de Diamantina - Minas Gerais. Revista Eletrônicade Enfermagem [Internet]. v. 16, n4, p. 728-35, out/dez, 2014. Disponível em:<https://www.fen.ufg.br/fen_revista/v16/n4/pdf/v16n 4a04.pdf>- doi: 10.5216/ree. v16i4.22371. Acesso 26 mai.2016. SILVA, P. L. N. Perfil de conhecimentos sobre hanseníase entre moradores de uma Estratégia Saúde da Família. Hansen Int. v.37, n. 2, p. 31-39, 2012. Disponível em: <www.ilsl.br/revista/ download. php?id=imageBank/v37n2a04.pdf> Acesso 26 mai.2016. SLUZKI, Carlos E. Redes pessoais sociais e saúde: Implicações conceituais e clínicas de seu impacto recíproco. Famílias, Sistemas e Saúde, [s.l.], v. 28, n. 1, p.1-18, 2010. VERDI, M. I. M; FREITAS, T. G; SOUZA, T. T. Projeto de saúde no território [Recurso eletrônico] / Universidade Federal de Santa Catarina;. 1. ed. – Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2012. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 72 CAPÍTULO 8 USO DE CUIDADOS DE ENFERMAGEM NO BRASIL: UMA PESQUISA DE BASE POPULACIONAL Tatiane de Souza Mançú Universidade Federal da Bahia Salvador, Bahia Enilda Rosendo do Nascimento Universidade Federal da Bahia Salvador, Bahia RESUMO: Os cuidados de enfermagem são fundamentais para o funcionamento de qualquer instituição de saúde. Sendo assim, estudar o uso do cuidado de enfermagem é importante para valorização da categoria profissional e para mostrar o impacto que esta causa na qualidade de vida das populações. Sendo assim, analisar o uso de cuidados de enfermagem em âmbito nacional foi o objetivo deste estudo. Método: estudo de corte transversal, base populacional a partir de dados secundários da Pesquisa Nacional de Saúde 2013. Na análise, foi utilizado teste estatístico de associação de variáveis e de aderência considerando p<0,05. Resultados: os cuidados de enfermagem apareceram pela primeira vez em uma pesquisa de saúde em âmbito nacional e foram referidos apenas: vacinação, consulta pré-natal, injeção, curativo, medição de pressão arterial, parto natural, atendimento por parteira, apareceu também a atuação da agente comunitária de saúde mas este como serviço supervisionado pela enfermeira. Foi observado que apesar de ter sido relatado poucos dos cuidados que a enfermagem realiza, dos cuidados referidos a população autoreferiu positivamente a sua saúde, principalmente nos cuidados reprodutivos e de vacinação. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem. Saúde e Gênero. Desigualdade Racial em Saúde. Saúde. ABSTRACT: Nursing care is fundamental to the functioning of health institution. Thus, studying the use of nursing care is important for valuing the Professional category and to show the impact that this cause in the quality of life of the populations. Thus, analyzing the use of nursing care nationwide was the objective of this study. Method: Cross-sectional study, population base based on secondary data from the National Health Survey 2013. In the analysis, a statistical test of association of variables and adherence was used, considering p < 0.05. Results: Nursing care first appeared in a nationwide health survey and were referred to: vaccination, prenatal consultation, injection, dressing, blood pressure measurement, natural childbirth, attendance by midwife, appeared Also the action of the Community health agent but this as a Vaccination, prenatal consultation, injection, dressing, measurement of blood pressure, natural childbirth, attendance by Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 73 midwife, also appeared the performance of the Community health agent but this as a service supervised by the nurse. it was observed that, of the care referred to the population, it positively injured their health, especially in reproductive and vaccination care. KEYWORDS: Nursing. Health and gender. Racial inequality in health. Health. 1 | INTRODUÇÃO A enfermagem é considerada como uma profissão histórica da saúde, voltada para o cuidado das pessoas. E, contribui, permanentemente, com a produção de conhecimentos capazes de preservar a vida em sua plenitude (PIRES, 2009, p. 743- 744). Quanto à atuação das enfermeiras no Brasil, o seu papel se tornou mais visibilizado, valorizado e sua autonomia consolidada a partir da criação do SUS com a Estratégia de Saúde da Família (ESF). As principais atribuições dessas profissionais, nesse nível da atenção, estão o planejamento e execução das ações no âmbito da saúde coletiva, supervisão da assistência direta à população, realização de ações de promoção, prevenção, cura e reabilitação, mediação de ações intersetoriais, gerenciamento dos serviços de saúde, desenvolvimento de educação em saúde e educação permanente. Ressalta-se ainda que a atuação da enfermeira no contexto da atenção primária à saúde e da ESF vai além do modelo biomédico e medicalizante antes centrado apenas no médico e na doença (REGIS et al, 2015). O Ministério da Saúde preconiza papeis para a enfermeira na ESF como: acompanhar e promover a capacitação das agentes e auxiliares, ser co-responsáveis pela administração da unidade, e ainda desempenhar um papel fundamental nas ESF’s, acompanhar e supervisionar o trabalho, realizar capacitações e educação continuada das Agentes Comunitárias de Saúde e auxiliares de enfermagem (BRASIL, 2001). Mas também, atuam na assistência com ênfase na promoção da saúde realizando cuidados diretos de enfermagem, como indicação para a continuidade da assistência prestada; realização de consultas de enfermagem, solicitação de exames complementares, prescrição/transcrição de medicações (GARCIA et al, 2010). Todo esse amparo legal do exercício da enfermagem brasileira se encontra na lei n° 7498 de 25 de junho de 1986, que dentre os direitos garantidos para a enfermagem, destaca-se a consulta de enfermagem, a prescrição de medicamentos estabelecidos em programas de Saúde Pública, contidos no art. 11 desta lei, e o papel de profissionais de nível técnico e elementar, supervisionado pela enfermeira, referidos no art. 15 desta lei. A implementação do cuidado em enfermagem mediado pelas relações interpessoais de diálogo, escuta, humanização e respeito é um desafio. Esse cuidado na atenção básica de saúde é relevante já que representa a porta de entrada para o Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 74 acesso ao SUS (ACIOLI et al, 2014). Vale salientar que a utilização dos cuidados em saúde por meio de serviços é o centro do funcionamento do sistema de saúde. E, “uso” se refere ao contato direto das pessoas com profissionais de saúde, seja por consultas médicas ou com outras profissionais, mas também se refere às hospitalizações ou ao contato indireto a partir da realização de exames preventivos e diagnósticos (TRAVASSOS et al, 2004). Há alguns determinantes para a procura por cuidados de saúde, são elas: interação entre a disponibilidade de serviços, fatores demográficos, socioeconômicos, psicológicos, e dos perfis de morbidade (MENDOZA-SASSI et al, 2003). No quesito sociodemográfico, há desigualdades na utilização dos serviços médicos no que se refere a: ser mulher, ter baixa escolaridade e baixa renda (BASTOS, 2011). A discriminação objetiva limitar diferentes oportunidades sociais englobando diversos campos que envolvem padrões sociais como o poder aquisitivo, a ascendência racial e pertencimento étnico, por exemplo (ABREU et al, 2011). Nesse contexto, vale ressaltar para as atuações das mulheres organizadas ao logo do tempo, sempre engajadas em busca de mudanças sociais com ativa participação em movimentos feministas, sindicais e outros. Assim, com “a ampliação da democratização da sociedade e a universalização de direitos e políticas da Constituição de 1988, as mulheres desafiaram a forte desigualdade que caracterizava sua inserção social e produtiva” (BRASIL, 2016). A ESF é fruto das lutas da sociedade civil organizada e após a sua implantação foi capaz de materializar e garantir a equidade, princípio fundamental do SUS, e assim garantir o alcance da saúde para todos aqueles quemais necessitam de cuidados (ANDRADE et al, 2015). Entretanto, mesmo com diversos movimentos sociais negros desde a década de 80, que preconizavam o fim das desigualdades raciais, melhores condições para essa população e mesmo com as diversas políticas, leis e decretos existentes para o fim do racismo na sociedade, ainda hoje a existência das desigualdades sociais relacionadas ao quesito raça e cor é gritante (BRASIL, 2011). Sobre essas questões de discriminação racial, políticas de caráter afirmativo a favor da igualdade racial no Brasil (TRAVASSOS et al, 2011) vem sendo monitoradas pela sociedade civil organizada. Há também alguns autores que estudam a relação do serviço de saúde com autoavaliação do estado de saúde na literatura nacional e internacional. A utilização de serviços de saúde bucal/odontológica, por exemplo aparece em vários estudos, englobando diversas desigualdades ao avaliar o estado de saúde (PETARLI et al, 2015). Na União Europeia em 2013 foi identificado avaliação positiva da saúde relacionada aos homens e que em todos os 28 Estados - Membros da União Europeia, exceto o Reino Unido, não mostrou diferenças entre os sexos (EUROSTAT, 2015). Contudo, na população brasileira não houve realização de estudos que Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 75 analisassem a autopercepção do estado de saúde com o uso dos cuidados de enfermagem em âmbito nacional que tivesse um olhar com perspectiva de diferenciais raciais, de sexo e/ou de autopercepção do estado de saúde com o uso de cuidados de enfermagem. Sendo assim, o estudo objetiva analisar o uso de cuidados de enfermagem no Brasil, segundo diferenciais raciais, de sexo, e de autopercepção do estado de saúde. 2 | METODOLOGIA 2.1 Desenho de estudo Estudo de corte transversal, de base populacional. 2.2 Fonte dos dados Foram utilizados dados secundários provenientes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada no ano de 2013, pelo IBGE, em convênio com o Ministério da Saúde e divulgada a partir de outubro de 2014 (IBGE, 2014). 2.3 Informações da Pesquisa Nacional de Saúde 2013 Desde a sua concepção, a PNS tem como um dos principais objetivos fornecer informações para a formulação, acompanhamento e avaliação das políticas públicas nas áreas de promoção, vigilância e atenção à saúde do SUS, alinhadas às estratégias do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas não Transmissíveis no Brasil, 2011-2022 (BRASIL, 2011). Investigou-se, particularmente, na PNS, a autopercepção de saúde, indicador que tem sido utilizado, nacional e internacionalmente, para estabelecer diferenças de morbidade em subgrupos populacionais, comparar necessidades de serviços e recursos de saúde por área geográfica, bem como para calcular outros indicadores de morbi-mortalidade, como a esperança de vida saudável. A população dessa pesquisa é constituída por residentes em domicílios particulares permanentes do território nacional, dividido nos setores censitários da Base Operacional Geográfica de 2010, excluídas áreas com características especiais e com pouca população. 2.4 Acesso aos dados Os dados deste estudo foram obtidos por meio de acesso aos arquivos de microdados da PNS, disponíveis de modo gratuito e livre na página do IBGE na internet, de acordo com o seguinte caminho: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 76 populacao/pns/2013/default.shtm - microdados - arquivos de microdados. 2.5 População do estudo A amostra é constituída pela população brasileira moradora de domicílios particulares permanentes pertencentes a todo o território nacional que utilizou cuidados de enfermagem, identificados como: consulta pré-natal realizada pela Enfermeira; vacinação; injeção, medição da pressão arterial, curativo, que não estão incluídos nas consultas de enfermagem, médicas e de demais profissionais. Inclui-se, ainda, o parto realizado pela Enfermagem, atendimento com agente comunitária de saúde e atendimento com parteira, entendendo-se que as atividades das últimas são planejadas, supervisionadas e avaliadas pela enfermeira. 2.6 Variáveis do estudo Dentre as variáveis, foi definida como variável dependente/de desfecho: utilização de cuidados de enfermagem. Como variáveis independentes foram definidas: sexo, raça/cor e estado de saúde; para verificar se existe associação com os cuidados de enfermagem. 2.7 Análise dos dados Para análise dos dados, foi utilizado o programa estatístico SPSS. O teste estatístico utilizado foi o chi-quadrado de Pearson nas versões aderência e independência. O teste de aderência foi calculado para analisar somente a utilização dos seguintes cuidados de enfermagem: consulta pré-natal e de parto natural. Mas também foi utilizado para analisar as variáveis sexo, cor/raça e autopercepção do estado de saúde. O teste chi-quadrado de independência, para analisar a associação entre as “variáveis sociodemográficas (sexo e raça/cor)” e a “variável percepção do estado de saúde” com a variável “utilização dos cuidados de enfermagem” que engloba os seguintes cuidados: “vacinação em crianças menores de dois anos; injeção, curativo, medição de pressão arterial; atendimento com parteira; atendimento com agente comunitário de saúde e vacinação para maiores de 2 (dois) anos”. Foi considerado p< 0,05. 2.8 Aspectos éticos Estudo de dados secundários da PNS 2013, disponíveis na internet e acesso público. Desse modo, não foi necessário submetê-la a um Comitê de Ética em Pesquisa. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 77 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO Um total de 6917 pessoas utilizaram os cuidados de enfermagem no Brasil em 2013. Sendo que foi um total de 6 intervenções de enfermagem assim como o atendimento com agente comunitária. Dentre as intervenções consideradas nesse estudo, a vacinação apareceu como a mais frequente com percentual de 74,2% (n=5142) para crianças menores de 2 anos e 6,1% (n=421) para a população maior de 2 anos. A consulta pré-natal com 8,5% (n=575) foi o segundo cuidado mais usado pela população brasileira, seguido da Injeção, curativo e medição de pressão arterial 6,1% (n=421), Parto Natural realizado pela Enfermagem 3,3% (n=230), Atendimento com Agente Comunitária de Saúde 1,6% (n= 109) e por ultimo 0,2% atendimento com parteira (n=19), respectivamente. O Programa Nacional de Imunização tem alta cobertura no Brasil, e se concretiza no ato da vacinação, atribuição da enfermagem, o que justifica o cuidado vacinação ser mais frequente. De fato, em 2013, segundo dados divulgados pela PNS, era esperada cobertura de 80% para essa população (Pesquisa Nacional de Saúde, 2014). Nos últimos tempos, o Brasil tem investido na redução de doenças preveníveis por meio de vacinação (BARRETO et al, 2011). No ano de 2011, as crianças brasileiras menores de 1 ano foram também as mais vacinadas (DOMINGUES et al, 2013). Vale ressaltar que conhecer a cobertura vacinal em crianças menores de 1 ano é fundamental para a vigilância epidemiológica. Esta que monitora e verifica o número de indivíduos suscetíveis a doenças, mas também, fiscaliza a possibilidade de interrupção da transmissão das doenças imunopreviníveis (MORAES et al, 2000). Quanto a variável sexo, e considerando a população geral que utilizou os cuidados de enfermagem, foi observado que do total de cuidados dispensados à população, 56,3% (3893), foram utilizados pela população feminina, e 43,7% pelas pessoas do sexo masculino. Quanto ao sexo, a vacinação em menores de 2 anos foi mais prevalente no sexo masculino atendidas em um centro de saúde no município de Raposa no Estado do Maranhão (RODRIGUES et al, 2014). De 2011 a 2014, a taxa de mortalidade infantil caiu 5,2% no Brasil devido a um conjunto de medidas adotadas como o aumento do acesso ao pré-natal. No total, 334 crianças a menos morreram antes de completar 1 ano de idade nesse período (UNICEF, 2016). Analisando separadamentecada cuidado, o uso de injeção, curativo e medição da pressão arterial foi maior pelas pessoas do sexo masculino (48,6%) quando comparado com o sexo feminino (38,8%). No quesito raça/cor, 59,7% é o percentual da população negra (parda/preta) que usou os cuidados de enfermagem em âmbito nacional sendo mais prevalente em todos os cuidados. Vale ressaltar que os cuidados mais utilizados pela população negra foram a consulta pré-natal (69,4%) e o parto natural (68,7%). Nos demais cuidados a associação com raça/cor não foi significante (apresentaram p>0,05). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 78 A preponderância de pessoas negras, receptoras de cuidados de enfermagem converte essa prática em fenômeno que deve nos deixar alertas às possibilidades de identificarmos o racismo institucional e o combate, pois, há evidências da existência de discriminação racial em situações de atendimento em saúde. Nos Estados Unidos, estudo realizado em 2016, refere que quanto maior a frequência de visitas aos cuidados em saúde maior a pontuação de discriminação (FAZELI DEHKORDY, 2016). E na avaliação do estado de saúde foi evidenciado uma autopercepção positiva de saúde, para a vacinação de crianças menores de 2 (dois) anos, a consulta pré-natal e o parto natural. As pessoas mais velhas tendem a avaliar a sua saúde como pior, sendo essa uma condição importante no fenômeno, havendo evidências que a autoavaliação de saúde piora com o avanço da idade (MEIRELES, 2014). O perfil dos indivíduos que avaliam ruim a saúde pode indicar um perfil das pessoas mais prováveis de procurar pelos cuidados em saúde (PAVÃO et al, 2013). Isso significa que a Enfermagem atende majoritariamente a população de maior vulnerabilidade, que depende unicamente do SUS, atendendo por meio da Estratégia de saúde da família, atenção básica e cumprindo a política e programa de atenção básica, promoção da saúde, saúde sexual e reprodutiva bem como os objetivos do desenvolvimento do milênio 2011-2022 que é redução da mortalidade materna e infantil. Desse modo, demonstramos o quanto a Enfermagem beneficia o país, atendendo de forma universal e também equânime, destacando a população negra a que mais utiliza esse cuidado, e isso pode justificar a autopercepção positiva do estado de saúde dessas gestantes atendidas pela Enfermeira. A utilização do atendimento com agente comunitária de saúde no Brasil, segundo resultados deste estudo, foi maior na população negra, sexo feminino. Conforme a Política de Atenção Básica – PNAB, as ACS’s devem acompanhar as famílias com problemas de saúde, mas também checar as condicionalidades dos programas de transferência de renda e enfrentamento de vulnerabilidades que como já dito anteriormente, exigem calendário vacinal preenchido deforma completa e correta bem como consulta pré-natal para as gestantes (BRASIL, 2012). Desse modo, sendo um intermediador entre o serviço de saúde e a comunidade, função de grande destaque (BARBOSA; DANTAS, 2013). 4 | CONCLUSÃO Agir no combate às disparidades na utilização de serviços de saúde é crucial para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Sendo assim, a enfermagem como categoria profissional com mais sensibilidade as questões de gênero e raça, e por estar em contato direto com as populações precisa Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 79 ser olhada de forma mais valorizada, e receber mais investimentos governamentais a fim de promover uma melhor qualidade de vida para as pessoas. REFERENCIAS ABREU, Maria Aparecida A.; BONETTI, Alinne de Lima. Faces da desigualdade de gênero e raça no Brasil / organizadoras: Alinne de Lima Bonetti, Maria Aparecida A. Abreu. – Brasília: Ipea, 2011. 160 p. : gráfs. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_ facesdadesigualdade.pdf>. Acesso em: 10 jul 2015. ACIOLI, Sonia; KEBIAN, Luciana Valadão Alves; FARIA, Magda Guimarães de Araujo; FERRACCIOLI, Patrícia Ferraccioli; CORREA, Vanessa de Almeida Ferreira. Práticas de cuidado: o papel do enfermeiro na atenção básica. Rev enferm UERJ, Rio de Janeiro, v. 22, n. 5, p. 637-42, set./out. 2014. Disponível em: http://www.facenf.uerj.br/v22n5/v22n5a09.pdf. Acesso em: 10 jul 2015. ALMEIDA, Lígia Moreira; CALDAS, José Peixoto; AYRES_DE_CAMPOS, Diogo; DIAS, Sónia. Assessing maternal healthcare inequities among migrants: a qualitative study. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 30, n. 2, p.333-340, fev. 2014. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/csp/ v30n2/0102-311X-csp-30-2-0333.pdf>. Acesso em: 25 mar 2015. ANDRADE, Mônica Viegas; NORONHA, Kenya; BARBOSA, Allan Claudius Queiroz; ROCHA, Thiago Augusto Hernandes; SILVA, Núbia Cristina da; CALAZANS, Júlia Almeida; SOUZA, Michelle Nepomuceno; CARVALHO, Lucas Resende de; SOUZA, Aline. A equidade na cobertura da Estratégia Saúde da Família em Minas Gerais, Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 31, n. 6, p. 1175- 1187, jun. 2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v31n6/0102-311X-csp-31-6-1175.pdf>. Acesso em: 12 abr 2015. BARBOSA, Loeste de Arruda; DANTAS, Ticiano Magalhães. Percepção dos agentes comunitários de saúde sobre saúde da família, saúde, promoção da saúde e seu papel social. Sau. & Transf. Soc., Florianópolis, v. 4, n. 1, p. 73-81, 2013. Disponível em: http://incubadora.periodicos.ufsc.br/index.php/ saudeetransformacao/article/view/1829/2481. Acesso em: 20 mar 2017. BARRETO, Mauricio L.; TEIXEIRA, M. Gloria; BASTOS, Francisco I.; XIMENES, Ricardo A. A.; BARATA, Rita B.; RODRIGUES, Laura C. Sucessos e fracassos no controle de doenças infecciosas no Brasil: o contexto social e ambiental, políticas, intervenções e necessidades de pesquisa. Saúde no Brasil 3. The Lancet [periódico na internet]. v. 9, p. 47-60. mai. 2011. Disponível em: http://bvsms. saude .gov.br/bvs/artigos/artigo_saude_brasil_3.pdf . Acesso em: 20 mar 2017. BARROS, Marilisa Berti de Azevedo; ZANCHETTA, Luane Margarete; MOURA, Erly Catarina de; MALTA, Deborah Carvalho. Autoavaliação da saúde e fatores associados, Brasil, 2006. Rev. Saúde Pública [online]. 2009, v. 43, suppl.2, p. 27-37. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102009000900005. Acesso em: 19 ago 2015. BASTOS, Gisele Alsina Nader; DUCA, Giovâni Firpo Del; HALLAL, Pedro Curi; SANTOS, Iná S Santos. Utilização de serviços médicos no sistema público de saúde no Sul do Brasil. Rev Saúde Pública, v. 45, n. 3, p. 475-84, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v45n3/2332.pdf. Acesso em: 20 ago 2015. BORGEAUD-GARCIANDÍA, Natacha. Aproximaciones a la teoria del care. Debates passados. Propuestas recientes em torno al care como trabajo. Revista Latinoamericana de Estudios del trabajo, Buenos Aires, v. 2, n. 22., p.137-156. 2009. Disponível em: http://relet.iesp.uerj.br/Relet_22/ art7.pdf. Acesso em: 06 abr 2016. BRASIL. Ministério da Saúde (BR). Guia prático do Programa de Saúde da Família. Brasília(DF): 2001.128p. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 80 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022 / Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. – Brasília : Ministério da Saúde, 2011. 160 p. : il. BRASIL. Mais igualdade para as mulheres brasileiras: caminhos de transformação econômica e social – Brasília: ONU Mulheres- Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, 2016. Disponivel em: https://issuu.com/onumulheresbrasil/docs/mais- igualdade-para-as-mulheres-bra_50278a175c9324. Acesso em: 04 Mai 2017. BRASIL, Sandra Assis. A política de saúde da população negra do Brasil: atores políticos, aspectos étnicos-raciais e principais tensões do campo. Dissertação. Universidade Federal da Bahia – Salvador, 2011. Disponível em:<http://pt.slideshare.net/pesquisaracaesaude/dissertao sanbrasilpoliticaspnversofinalentregaposficha-130901224701phpapp01>. Acesso em: 09 set 2015. DOMINGUES, Patrícia Mallú Lima; NASCIMENTO, Enilda Rosendo do; OLIVEIRA, Jeane Freitas de; BARRAL, Fanny Eichenberger; RODRIGUES, Quessia Paz; SANTOS, Carla Cristina Carmo dos; ARAÚJO, Edna Maria de. Racial discrimination in reproductive health care from women’s perspective. Text Context Nursing, Florianopolis, v. 22, n. 2, p. 285-92, abr./jun 2013. Disponível em: <https:// repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/16719/1/Patr%C3%ADcia %20Mall%C3%BA%20Lima%20Domingues.pdf>. Acesso em: 12 set 2015. EUROSTAT - Statistical Office of the European Union. Situated main statistical findings: Self- perceived health, in Apr. 2015. Disponível em: <http://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index. php?title=Self-perceived_health_statistics&oldid=241773>. Acesso em: 23 out 2015. FAZELI DEHKORDY, Soudabeh; HALL, Kelli S.; DALTON, Vanessa K.; CARLOS, Ruth C. The Link Between Everyday Discrimination, Healthcare Utilization, and Health Status Among a National Sample of Women. J Womens Health (Larchmt), v. 25, n. 10, p.1044-1051, Oct. 2016. GARCIA, Selma Aparecida Lagrosa; GARCIA, Sidney Antonio Lagrosa; LIPPI, Umberto Gazi. A necessidade de inserção do enfermeiro obstetra na realização de consultas de pré-natal na rede pública. Einstein. v. 8, n. 2, p. 241-7, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br /pdf/eins/v8n2/pt1679-4508-eins-8-2-0241.pdf. Acesso em 25 abr 2017. GOES, Emanuelle Freitas; NASCIMENTO, Enilda Rosendo do. Mulheres negras e brancas e os níveis de acesso aos serviços preventivos de saúde: uma análise sobre as desigualdades. Saúde em Debate. Rio de Janeiro, v. 37, n. 99, p. 571-579, out./dez. 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/ pdf/sdeb/v37n99/a04v37n99.pdf. Acesso em: 06 abr 2016. MEIRELES, Adriana Lúcia. Autoavaliação da saúde em adolescentes e adultos, estudo saúde em Beagá. Universidade Federal de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública. Belo Horizonte – MG. 2014 (Tese). MENDOZA-SASSI, Raúl; BERIA, Jorge U.; BARROS, Aluísio J.. Outpatient health service utilization and associated factors: a population-based study. Rev Saude Publica. v. 37, n. 3, p. 372-8, 2003. Disponivel em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102003000300017. Acesso em: 09 set 2015. MORAES, José Cássio de; BARATA, Rita de Cássia Barradas; RIBEIRO, Manoel Carlos de Sampaio de Almeida; CASTRO, Paulo Carrara de. Cobertura vacinal no primeiro ano de vida em quatro cidades do Estado de São Paulo, Brasil. Rev Panam Salud Publica/Pan Am J Public Health, v. 8, n. 5, 2000. Disponível em: http://www.scielosp.org/pdf/rpsp/v8n5/3626. Acesso em: 10 jun 2017. MOHAMMAD, Ali; VU, Dinh Thiem; JIN-KYUNG, Park; RION, Leon Ochiai; DO GIA, Canh; M. Carolina Danovaro-Holliday, Linda M. Kaljee, John D. Clemens, Camilo J. Acosta Geographic analysis of vaccine uptake in a cluster-randomized controlled trial in Hue, Vietnam Original Research. Article Health & Place, v. 13, issue 3, p. 577-587, Sep. 2007. Disponível em: http://www. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 8 81 sciencedirect.com/science/article/pii/S1353829206000517. Acesso em: 10 mai 2017. PAVÃO, Ana Luiza Braz, WERNECK, Guilherme Loureiro, CAMPOS, Mônica Rodrigues. Autoavaliação do estado de saúde e a associação com fatores sociodemográficos, hábitos de vida e morbidade na população: um inquérito nacional. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 29, n.4, p. 723-734, abr. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 311X2013000400010>. Acesso em: 13 out 2015. PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Percepção do estado de saúde, estilos de vida e doenças crônicas: Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação 2013. Rio de Janeiro: IBGE, 2014. 181 p. PETARLI, Glenda Blaser; SALAROLI, Luciane Bresciani; BISSOLI, Nazaré Souza; ZANDONADE, Eliana. Autoavaliação do estado de saúde e fatores associados: um estudo em trabalhadores bancários. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 31, n. 4, p. 787-799, abr. 2015. Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2015000400787>. Acesso em: 16 out 2015. PIRES, Denise. A enfermagem enquanto disciplina, profissão e trabalho. Rev Bras Enferm, Brasília 2009 set-out; 62 (5):-44 739-44. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/reben/v62n5/15.pdf>. Acesso em: 03 abr 2016. RODRIGUES, Taciana Sá Oliveira; COSTA, Diego Raí de Azevedo; RAMOS, Aline Sharlon Maciel Batista; FERRO, Thiago Azevedo Feitosa. Situação vacinal de crianças menores de dois anos atendidas em um centro de saúde do município de Raposa – Maranhão, Brasil. Rev. Investig. Bioméd., São Luís, v. 6, p. 60-70, 2014. TABB, Karen M., LARRISON, Christopher R., CHOI, Shinwoo; HUANG, Hsiang. Disparities in Health Services Use Among Multiracial American Young Adults. Journal of Immigrant and Minority Health, v. 18, n. 6, p. 1462-1469, 2016. Disponível em: https://experts.illinois.edu/en/publications/disparities-in- health-services-use-among-multiracial-american-you. Acesso em: 13 mai 2017. TRAD, Leny Alves Bomfim; CASTELLANOS, Marcelo Eduardo Pfeiffer; GUIMARÃES, Maria Clara da Silva. Acessibilidade à atenção básica a famílias negras em bairro popular de Salvador, Brasil. Rev Saúde Pública, v. 46, n. 6, p. 1007-13, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v46n6/10. pdf>. Acesso em: 12 mar 2015. TRAVASSOS, Claudia; VIACAVA, Francisco; PINHEIRO, Rejane; BRITO, Alexandre. Utilização dos serviços de saúde no Brasil. Rev Panam Salud Publica/Pan Am J Public Health, v. 11, n. 5/6, 2002. Disponível em: http://www.scielosp.org/pdf/rpsp/v11n5-6/10721.pdf. Acesso em: 10 mar 2017. TRAVASSOS, Claudia; BAHIA, Ligia. Qual é a agenda para o combate à discriminação no SUS? Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 27, n. 2, p. 204-205, fev. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/ pdf/csp/v27n2/01.pdf>. Acesso em: 19 out 2015. TRAVASSOS, Claudia; MARTINS, Mônica. Uma revisão sobre os conceitos de acesso e utilização de serviços de saúde. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 20, Sup 2:S190-S198, 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v20s2/14.pdf. Acesso em: 12 mar 2015. UNICEF. Relatório Anual UNI. UNI – Relatório anual do unicef Brasil. O que fizemos em 2016. Ano 13 • nº 36 • Janeiro de 2017. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/pt/UNI2016.pdf . Acesso em 26 Abr 2017. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 82 CAPÍTULO 9 UTILIZAÇÃO DO PROTOCOLO PÓS-EXPOSIÇÃO A MATERIAIS BIOLÓGICOS EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE Bruna Furtado Sena De Queiroz Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI Maycon Teyllon Rodrigues De Carvalho Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI Eronice Ribeiro De Morais Araujo Docente da Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – MESTRE EM ENFERMAGEM PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ UFPI TERESINA- PIAUI Yanca Ytala Gonçalves Roza Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI Jayris Lopes Vieira Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI Maria Francinete Do Nascimento Silva Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI Naya Thays Tavares De Santana Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI Matheus henrique da silva lemos Faculdade integral diferencial FACID WYDEN – TERESINA- PIAUI RESUMO: Os profissionais da saúde manuseiam e utilizam diariamente materiais perfurocortantes que entram em contato diretamente com sangue e outros fluídos corporais que podem estar contaminados. O protocolo de condutas pós- exposição ocupacional estabelece medidas de atendimento inicial aos profissionais que sofram exposição a material biológico com risco de soroconversão. Este estudo teve como objetivo geral analisar a utilização do protocolo pós- exposiçãoa materiais biológicos em um hospital de urgência de Teresina-PI. O mesmo possui caráter retrospectivo, analítico, documental e abordagem quantitativa. Foi desenvolvida em um hospital de urgência de Teresina-PI, onde foram utilizadas as fichas de notificação do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), referentes aos acidentes com exposição a material biológico, para a coleta dos dados, pertinentes à pesquisa, que foi realizada entre os meses de janeiro e fevereiro de 2016. O estudo possibilitou analisar o perfil dos acidentes. Em relação ao seguimento do protocolo pós-exposição observou-se que 28 casos (27, 8%) foram apenas notificados, configura a taxa de abandono, 1 caso (1, 0%) foi acompanhado por 6 semanas, 1 caso (1, 0%) foi acompanhado por 3 meses e 67 casos (69, 1%) foram acompanhados por 6 meses. Espera-se que a pesquisa possa contribuir na sensibilização dos profissionais de saúde em relação à comunicação de acidentes de trabalho, ao uso de EPIs e ao seguimento do protocolo de condutas pós-exposição, e ainda Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 83 na divulgação do conhecimento produzido sobre a referida temática. PALAVRAS-CHAVE: Saúde. Exposição ocupacional. Material biológico. ABSTRACT: Healthcare workers use sharps tools daily that come into contact directly with blood and other body fluids that may be contaminated. The occupational post- exposure protocol establishes initial care measures to professionals who have biological material exposure with seroconversion risk. This study had as general objective to analyze the use of post-exposure biological materials protocol in an emergency hospital from Teresina-PI. It was a retrospective, analytical, documentary study with quantitative approach. It was carried out in an emergency hospital in Teresina-PI, where the DISN (Diseases Information System Notification) notification files regarding accidents involving biological material exposure, were used to collect the data. It was carried out January and February 2016. The study made it possible to analyze the characteristics of accidents. regarding the follow-up of post-exposure protocol , 28 cases (27, 8% ) were only notified sets the dropout rate, 1 case (1, 0%) was followed for 6 weeks, 1 case (1, 0%) was followed for 3 months and 67 cases ( 69, 1 % ) were followed for 6 months. It is expected this survey can contribute to the awareness of health professionals in relation to the statement of work accidents, to the use of PPE and the post-exposure protocol use in the institution, and still, to the knowledge dissemination produced about the survey thematic. KEYWORDS: Health. Occupational exposure. Biological material. 1 | INTRODUÇÃO O Centers for DiseaseControlandPrevention (CDC) divulga em média a ocorrência anual de 384.325 casos de exposição percutâneas a material biológico envolvendo trabalhadores da área de saúde em hospitais norte-americanos.No Brasil, os dados sobre esse agravo ainda são muito escassos em decorrência da subnotificação. Para se ter uma ideia, no período compreendido entre 2007 e 2009, o Ministério da Saúde (MS) quantificou apenas 50.897 notificações. Esses dados mostram que é imperativa a necessidade de se investir em pesquisas nesta área (OLIVEIRA; GONCALVES, 2010). Na área da saúde, os profissionais com os maiores riscos à infecção por acidente com perfurocortantes são aqueles diretamente envolvidos na assistência ao paciente. Enquadram-se nesse perfil os trabalhadores de serviços de saúde, como hospitais, unidades básicas de saúde, clínicas e consultórios médicos e odontológicos, banco de sangue, centro de hemodiálise, laboratório de análises clínicas, centros de pesquisa e serviços de emergência, incluindo-se o pessoal das equipes de limpeza e lavanderia (SANTOS et al., 2013). Além dessas medidas de prevenção à exposição de material biológico, também foi instituído o protocolo de condutas pós-exposição ocupacional, que estabelece Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 84 medidas de atendimento inicial aos profissionais que foram expostos à material biológico com risco de soroconversão, orientação e seguimento dos mesmos, uso de quimioprofilaxia e notificação de casos. Ele ainda aponta alguns parâmetros que devem ser considerados pelos serviços de saúde, como a capacidade de atender e seguir os acidentados com risco de soroconversão por, no mínimo, seis meses (BRASIL, 2009). Assim, embora nos últimos anos a sociedade brasileira tenha avançado significativamente neste aspecto, observa-se, ainda, que eventualmente os profissionais de saúde não incorporam regularmente medidas preventivas na sua prática clínica, por não reconhecerem a vulnerabilidade à infecção e os riscos ocupacionais os quais estão expostos. Portanto, surgiu o seguinte questionamento: os profissionais de saúde do Hospital de Urgência de Teresina - PI (HUT) utilizam corretamente o protocolo pós- exposição a materiais biológicos? Para responder a tal questionamento, esta pesquisa traçou como objetivo geral: analisar a utilização pelos profissionais de saúde do protocolo pós-exposição a materiais biológicos no Hospital de Urgência de Teresina-PI; e como objetivos específicos: caracterizar os acidentes com perfurocortantes com material biológico;avaliar o seguimento dos casos notificados; calcular a taxa de abandono do protocolo. A motivação para a realização deste estudo surgiu da observação empírica da atuação destes profissionais de saúde, principalmente no setor de emergência desse hospital, no qual se pôde observar que muitos trabalhadores usam inadequadamente os equipamentos de proteção individual, se expondo indevidamente a acidentes com material biológico, e que muitas vezes não notificam o evento aos setores responsáveis, não sendo aberto, assim, o protocolo de pós-exposição a material biológico. Nesse sentido, espera-se que esse estudo possa contribuir na sensibilização dos profissionais de saúde em relação à comunicação de acidentes de trabalho, ao uso de EPIs e ao seguimento do protocolo de condutas pós-exposição existente na instituição, e ainda na divulgação do conhecimento produzido sobre a referida temática. 2 | MATERIAIS E MÉTODOS 2.1 Procedimentos Éticos A pesquisa se tratou de um estudo que envolveu indiretamente seres humanos, então a mesma obedeceu aos aspectos da Resolução Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012. O projeto foi encaminhado à instituição que foicenário do mesmo para aprovação. Logo, após autorização foi enviado para aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Plataforma Brasil e da Faculdade Integral Diferencial-FACID/Devry sob o protocolo Nº 493919155000005211. Sendo assim, foram utilizados termos que possibilitem a realização desse estudo como o Termo de Consentimento da Instituição (TCI) e o Termo de Consentimento para Uso de Dados (TCUD). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 85 2.2 Tipo de Pesquisa O estudo é do tipo retrospectivo, analítico, documental e com abordagem quantitativa. 2.3 Cenário e Amostra do Estudo A pesquisa foi realizada em um hospital de urgência localizado na zona Sul do município de Teresina-PI. Os critérios de escolha do cenário foram: o tipo de atendimento prestado; a grande quantidade de profissionais de saúde e de pacientes e a complexidade dos cuidados necessários. Todos esses critérios são fatores que aumentam o risco de ocorrência de acidentes com exposição a materiais biológicos. Foram utilizadas neste estudo as fichas de notificação do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), referentes aos acidentes ocupacionais com exposição a material biológico, para o cálculo da amostra. Foram incluídas nesta pesquisa somente as fichas referentes ao período compreendido entre 2014 a 2015. Foram excluídas aquelas que não contemplaram as informações necessárias para o preenchimento do instrumento de coleta de dados da pesquisa. 2.4 Coleta de Dados A coleta dos dados aconteceunos meses de janeiro e fevereiro de 2016, na qual se utilizou como instrumento de coleta um questionário com perguntas fechadas (Apêndice G) que atende aos objetivos da pesquisa. 2.5 Organização e Análise dos Dados Os dados foram organizados em planilhas do programa Microsoft Office Excel 2010, onde os mesmos foram submetidos à avaliação conforme o preconizado pelos métodos da estatística descritiva. Para a avaliação da correlação das frequências com as variáveis estabelecidas, os mesmo foram submetidos ao Teste Qui-Quadrado, com Intervalo de Confiança de 95%, sendo estabelecida a significância em p<0,05* e para tanto os mesmos foram transferidos para o programa estatístico R i386 3.2.2, sendo os mesmos apresentados em tabelas e gráficos frequentistas. 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesquisa foi realizada através da coleta dos dados de 97 fichas do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), referentes à notificação de acidentes Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 86 ocupacionais por exposição a material biológico ocorridos no biênio 2014 a 2015, arquivadas no setor da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) do Hospital de Urgência de Teresina (HUT). De acordo com os dados observados no Gráfico1, houve uma maior incidência da ocorrência de acidentes com perfurocortantes nos meses de setembro (22, 45%), no ano de 2014, e agosto (20, 83%) em 2015. 10,42% 2,08% 10,42% 4,17% 14,58% 8,33% 2,08% 20,83% 12,50% 10,42% 2,08% 2,08% 4,08% 12,24% 8,16% 4,08% 4,08% 0,00% 8,16% 16,33% 22,45% 8,16% 8,16% 4,08% 0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 2015 2014 Gráfico 1 - Avaliação da frequência da incidência de acidente com perfurocortantes em profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015. Legenda: p= 0,9456 para p teste Qui-quadrado com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. Provavelmente, a incidência de acidentes aumenta em períodos que predominam os números de internações hospitalares, devido ao maior número procedimentos a serem realizados e, consequentemente, maiores riscos de ocorrência dos mesmos. Cavalcante et al. (2013) afirmam que a frequência de manuseio de materiais perfurocortantes pelos profissionais de saúde tem influência direta sobre o risco de acidentes e a consequente exposição. De acordo com os dados do Gráfico 2, referente à frequência de acidentes com perfurocortantes relacionados ao gênero dos profissionais acidentados, percebe-se que há prevalência no gênero feminino, correspondendo a 81, 4% (79) do total dos casos. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 87 0% 20% 40% 60% 80% 100% Masculino Feminino Total 18,6%(18) 81,4%(79) 100,0%(97) Gráfico 2 - Frequência dos gêneros dos profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Legenda: p<0,001*** para p teste Qui-quadrado com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. Certamente, o maior contingente de profissionais expostos ao risco de acidentes envolvendo material biológico está na enfermagem, especialmente nos técnicos de enfermagem, devido ao grande número de profissionais da categoria no ambiente hospitalar, à grande carga horária exercida pelos mesmos e à realização frequente de procedimentos com materiais perfurocortantes. A prevalência de acidentes no sexo feminino é justificada pela prevalência do gênero nessa categoria profissional que, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), corresponde a 87,24% dos profissionais do Brasil. Oliveira et al. (2015) afirma no seu estudo que a maioria dos profissionais de saúde vítimas de exposição ocupacional são mulheres, profissionais de enfermagem, trabalhadores dos serviços gerais e da lavanderia. Já o estudo de Linet al. (2008), realizado com profissionais de saúde de algumas províncias da China, demonstra o contrário, visto que 60% dos acidentados eram do sexo masculino. Paiva e Oliveira (2011) também evidenciaram no seu estudo o predomínio do sexo masculino entre os profissionais acidentados estudados (56%). De acordo com o Gráfico 3, referente às idades correlacionadas aos gêneros, nota-se que a média da idade dos profissionais acidentados nos gêneros masculino e feminino foram 32 e 34 anos, respectivamente Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 88 Masculino Feminino 0 10 20 30 40 32,22±8,92 34,22±9,40 p=0,4131 Id ad e (a no s) Gráfico 3 - Avaliação das idades dos gêneros dos profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Legenda: p=0,4131 para p teste T de Student, não paramétrico, com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. A idade é uma variável bastante relativa, considerando que existem profissionais, incluindo estagiários, de diferentes faixas etárias, desde acadêmicos, adultos jovens, a profissionais que trabalham há muito tempo. No estudo de Junior et al. (2014),a faixa etária das vítimas expostas a material biológico foi entre 30 e 42 anos; já no estudo de Araújo e Silva (2014), os acidentados estavam na faixa etária entre 41 e 50 anos com média de 43,5 anos. Oliveira et al. (2015) mostram no seu estudo que os acidentados estudados tiveram faixa etária entre 20 e 40 anos. Já Souza-Borges (2014) estudou um grupo de acadêmicos de medicina e enfermagem de uma universidade de Minas Gerais, vítimas de exposição ocupacional, e observou que os mesmos possuíam médias de idade 23,4 e 22,1 anos, respectivamente. De acordo com os dados da Tabela 1, a maioria dos acidentes com perfurocortantes ocorreram em profissionais que apenas concluíram o ensino médio, 39 casos (40,21%); em segundo lugar estão os profissionais que concluíram o ensino superior, 29 casos (29, 90%); e em terceiro, os profissionais com o ensino superior incompleto, 22 casos (22, 68%). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 89 Escolaridade N % P Analfabeto 0 0,00% 0,001*** 1ª a 4ª série incompleta 0 0,00% 4ª série completa 1 1,03% 5ª a 8ª série incompleta 3 3,09% Ensino fundamental completo 0 0,00% Ensino médio incompleto 3 3,09% Ensino médio completo 39 40,21% Educação superior incompleta 22 22,68% Educação superior completa 29 29,90% Legenda: n, frequência absoluto; %, frequência absoluta; p para qui-quadrado, IC95% e significância em p<0,05. Fonte: dados originais. Tabela 1 - Avaliação das escolaridades dos profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Teresina, 2016. De fato, o predomínio do número de profissionais com apenas o ensino médio concluído é justificado pelo grande número de técnicos de enfermagem acidentados, já que as competências dessa categoria exigem somente o nível médio completo. Pimenta et al. (2013) realizaram uma pesquisa com profissionais de enfermagem que sofreram exposição a materiais biológicos e evidenciou que dos 454 casos que procuraram atendimento, 258 (56,8%) possuíam o ensino médio completo. De acordo com o Gráfico 4, que diz respeito às ocupações profissionais dos acidentados, percebe-se que houve maior incidência na categoria técnico de enfermagem, correspondendo a 63,9%(62) do total de casos, em segundo lugar os profissionais dos serviços gerais, 14,4%(14), em terceiro lugar os estagiários, 9,3%(9), em quarto lugar os médicos, 5,2%(5), em quinto lugar os enfermeiros, 4,1%(4), e em último lugar os demais profissionais da saúde, 3,1/%(3). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 90 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% Técnicos em enfermagem Serviços gerais Estagiário Médicos Enfermeiros Outros proficionais da área da saúde 63,9%(62) 14,4%(14) 9,3%(9) 5,2%(5) 4,1%(4) 3,1%(3) Gráfico 4 - Frequência das ocupações dos profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina,no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Legenda: p<0,001*** para p teste Qui-quadrado com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. A predominância dos acidentes entre os técnicos de enfermagem tem justificativa no fato desses profissionais estarem em constante contato com os pacientes e realizando diversos procedimentos envolvendo materiais perfurocortantes. Junior et al. (2014) explicam que os profissionais de enfermagem estão expostos em maior número e com grande carga horária, executando vários procedimentos invasivos que potencializam os riscos de ocorrência de acidentes. A análise do Gráfico 5 permite constatar que os EPIs mais utilizados pelos profissionais no momento do acidente foram as luvas de procedimento (92, 78%), em segundo lugar a máscara (78, 35%) e em terceiro o avental (57, 73%). 0% 20% 40% 60% 80% 100% Luva Máscara Avental Óculos Bota Proteção facial E P I's 92,78%(90) 78,35%(76) 57,73%(56) 10,31%(10) 9,28%(9) 2,06%(2) Gráfico 5 - Avaliação do uso de EPI’s pelos profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Legenda: p<0,001*** para p Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 91 Qui-quadrado, com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. O não uso de alguns EPIs durante a realização de procedimentos com riscos de exposição pode ser devido à escassez dos mesmos nas instituições de saúde. Reis et al. (2013) afirmam que a pouca utilização de alguns EPIs, como óculos e máscaras, é devido provavelmente a não disponibilidade e ao não incentivo ao uso dos mesmos pelos profissionais de saúde. A pesquisa qualitativa de Gomes et al. (2015) sobre o uso de EPIs por acadêmicos mostra que a insuficiência e a ausência desses equipamentos nos serviços hospitalares se constituem as principais limitações que justificam o não uso dos mesmos. Ao avaliar o Gráfico 6 observa-se que a grande maioria dos profissionais acidentados, 84 (86, 6%), são vacinados contra a hepatite B, e que somente 12, 4% (12) não lembraram, e 1 % (1) declarou-se não vacinado. 12,4%(12) 86,6%(84) 1,0%(1) Não declarado Vacinado Não vacinado Gráfico 6 - Avaliação da situação vacinal contra a hepatite B dos profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Legenda: p<0,001*** para p Qui-quadrado, com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. A existência de casos onde a vacinação foi ignorada provavelmente deve-se ao esquecimento de alguns profissionais sobre seu estado vacinal durante a notificação do acidente. Na pesquisa de Cavalcante et al. (2013) mostrou que, em relação a situação vacinal contra hepatite B, entre os 259 profissionais acidentados, 131 (50,6%) eram vacinados, 65 (25%) não eram vacinados e 63 (24,3%) foram ignorados. Na pesquisa de Guilardeet al. (2010), dos 46 profissionais acidentados, 13 (28%) não tinham vacinação completa contra hepatite B. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 92 80,4%(78) 19,6%(19) Paciente fonte conhecida Paciente fonte não conhecida Gráfico 7 - Avaliação da identificação do paciente-fonte envolvido no acidentes com material biológico por profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Legenda: p<0,001*** para p Qui-quadrado, com IC de 95% e significância em p<0,05. Teresina, 2016. Fonte: dados da pesquisa. Acidentes que envolvam descarte inadequado de perfurocortantes podem ser de difícil ou até mesmo impossível reconhecimento do paciente-fonte devido ao fato de após serem descartados não poderem ser mais reconhecidos entre os demais. Santos, Costa e Mascarenhas (2013) evidenciaram na sua pesquisa que das 268 notificações houve identificação do paciente-fonte em 195 (72,8%) delas. Conforme a Tabela 6 mostra, 67 casos (69,1%) foram acompanhados até os 6 meses e concluíram todas as etapas do acompanhamento, previstas no protocolo pós- exposição a materiais biológicos; 1 caso (1,0%) foi acompanhado até 3 meses; 1 caso (1,0%) foi acompanhado até 6 semanas e 28 casos (27,8%) foram apenas notificados. Acompanhamento do caso n % p Caso apenas notificado 28 27,8% <0,001*** Caso acompanhado até 6 semanas 1 1,0% Caso acompanhado até 3 meses 1 1,0% Caso acompanhado até 6 meses 67 69,1% Legenda: n, frequência absoluto; %, frequência absoluta; p para qui-quadrado, IC95% e significância em p<0,05. Fonte: dados originais. Tabela 6 - Acompanhamento após o acidente acometido com os profissionais da área de saúde em um hospital de urgência de Teresina, no período dos anos 2014 e 2015, avaliados. Teresina, 2016. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 93 O acompanhamento dos casos deve ser feito até 6 meses após a exposição ocupacional e certamente os acidentados precisam assumir um compromisso que evolve o tratamento quimioprofilático e a realização de exames sorológicos em datas previstas. O número significativo de casos apenas notificados reflete o abandono do seguimento clínico e causam preocupação. Provavelmente, o abandono do acompanhamento deve-se a fatores psicológicos advindos do impacto causado pela possível infecção. Sailer (2004) constatou no seu estudo que dos 35 casos estudados, 12 (34, 30%) realizaram todas as etapas do acompanhamento indicado, 15 (42, 85%) tiveram o acompanhamento incompleto e 8 (22, 85%) foram apenas notificados. A mesma autora afirma que os efeitos colaterais e a exigência de regularidade de horários influenciam os acidentados a abandonarem o tratamento quimioprofilático e o mesmo também pode ter relação com a melhora dos sintomas, pois se o paciente não se sente doente não percebe a importância de continuar o tratamento. 4 | CONCLUSÃO O estudo caracterizou o perfil dos acidentes com exposição a material biológico em um hospital de urgência de Teresina-PI no período 2014-2015, no qual observou- se uma maior incidência da ocorrência dos acidentes nos meses de setembro (22, 45%), em 2014, e agosto (20, 83%) em 2015. O sexo feminino prevaleceu entre os profissionais acidentados (81, 4%); a média de idade dos profissionais acidentados foi de 32 anos para o sexo masculino e 34 anos para o feminino; a maioria dos acidentes ocorreram em profissionais que apenas concluíram o ensino médio (40, 21%); os acidentes prevaleceram entre os técnicos de enfermagem (63, 9%); o tipo de exposição mais frequente foi a percutânea (78, 4%), predominaram as circunstâncias acidentais que envolveram outros procedimentos, que não eram especificados nas fichas de notificação, (27, 8%); o sangue foi o material orgânico mais envolvido (78, 4%) e o principal agente causador foi a agulha com lúmen (46, 4%); os EPIs mais utilizados durante os acidentes foram as luvas (92, 78%); 84 (86, 6%) profissionais acidentados eram vacinados contra hepatite B; a maioria (80, 4 %) dos pacientes- fontes foram identificados; a maioria dos acidentados (89, 69%) receberam indicação de quimioprofilaxia; em relação ao seguimento clínico do protocolo, 28 casos (27, 8%) foram apenas notificados, que se configura como a taxa de abandono, 1 caso (1,0%) foi acompanhado por 6 semanas, 1 caso (1,0%) foi acompanhado por 3 meses e 67 casos (69, 1%) foram acompanhados por 6 meses. Com o estudo conclui-se que o protocolo de pós-exposição a materiais biológicos existe e é utilizado no hospital local do estudo, mas que depende da conscientização dos profissionais acidentados da importância à adesão ao mesmo para que sejam completadas todas suas etapas. Com base no exposto, sugere-se que sejam Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 9 94 desenvolvidas atividades de educação em saúde a fim de sensibilizar os profissionais quanto ao desenvolvimento de uma assistência segura, não só para o paciente, mas também para si mesmos, quanto aos potenciais riscos de contaminaçãodos acidentes e a importância da comunicação dos mesmos e, ainda, quanto a importância do seguimento do protocolo pós-exposição, abordando e esclarecendo todas as dúvidas sobre o mesmo. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para profilaxia antirretroviral pós-exposição de risco à infecção pelo HIV. Brasília, 2015. Disponível em: <http:// pesquisa.bvsalud.org/portal/resorce/pt/lil-773840>. Acesso em: 31 de maio de 2016. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Comissão de Business Intelligence: análise de dados dos profissionais de enfermagem existentes nos conselhos regionais. Disponível em: <http://www. cofen.gov.br/wp-content/uploads/2012/03/pesquisaprofissionais.pdf.>Acesso em: 19 de maio de 2016. LIN, C. et al. Occupational exposure to HIV among health care providers: a qualitative study in yunnan, China.Journalof the International Association of Physicians in AIDS Care, Chicago, v. 7, n. 1, p. 35-41, mar. 2008.Avaliable from: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17641135>Access on: 23 May 2016. http://doi.org/10.1177/1545109707302089 LIMA, L. M.; OLIVEIRA, C. C.; RODRIGUES, K. M. Exposição ocupacional por material biológico no Hospital Santa Casa de Pelotas - 2004 a 2008. Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro , v. 15, n. 1, p. 96-102, mar. 2011. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S1414- 81452011000100014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 28 de fevereiro de 2015. http://dx.doi. org/10.1590/S1414-81452011000100014. MARTINS, A. M. E. B. L.; PEREIRA, R. D.; FERREIRA, R. C. Adesão a protocolo pós-exposição ocupacional de acidentes entre cirurgiões dentistas. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 44, n. 3, p. 528-540, jun. 2010. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 89102010000300017&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 28 de fevereiro de 2015. http://dx.doi. org/10.1590/S0034-89102010005000018. PAIVA, M. H. R. S.; OLIVEIRA, C. O. Fatores determinantes e condutas pós-acidente com material biológico entre profissionais do atendimento pré-hospitalar. Rev. Bras. Enferm. Minas Gerais, v. 62, n. 2, p. 268-273, abr. 2011. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/reben/v64n2/a08v64n2.pdf>. Acesso em: 31 de maio de 2016. PIMENTA, F. R. et al. Atendimento e seguimento clínico especializado de profissionais de enfermagem acidentados com material biológico. Rev. Esc. Enferm. USP, São Paulo, v. 47, n. 1, p. 198- 204, fev. 2013. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080- 62342013000100025&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 28 de fevereiro de 2015. http://dx.doi. org/10.1590/S0080-62342013000100025. SAILER, G. C. Adesão de trabalhadores de enfermagem ao tratamento com anti-retrovirais pós-exposição ocupacional a material biológico. 2004. 130 f. Dissertação (Mestrado) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2004. VILLARINHO, M. V; PADILHA, M. I. Conduta pós-acidente de trabalho no cuidado às pessoas com HIV/Aids. Rev. Bras. Enferm. Santa Catarina, v.68, n.4, p, 656-651, ago. 2015. Disponível em: <http:// www.scielo.br/pdf/reben/v68n4/0034-7167-reben-68-04-0656.pdf>. Acesso em: 01 de junho de 2016. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 10 95 CAPÍTULO 10 MONITORAMENTO DE INCIDENTES NO AMBIENTE HOSPITALAR: ESTRATÉGIA PARA A PROMOÇÃO DE UMA ASSISTÊNCIA SEGURA AO USUÁRIO Ana Claudia de Brito Passos Hospital Municipal Dr. João Elísio de Holanda - HMJEH Universidade Federal do Ceará - UFC Fortaleza-Ceará Francemarie Teodósio de Oliveira Hospital Municipal Dr. João Elísio de Holanda - HMJEH Fortaleza-Ceará Viviane Nascimento Cavalcante Hospital Municipal Dr. João Elísio de Holanda - HMJEH Fortaleza-Ceará RESUMO: O Gerenciamento de Riscos visa à aplicação de medidas para prever, identificar e minimizar a ocorrência de eventos inesperados e indesejáveis, que podem causar dano aos pacientes. O objetivo desse estudo é apresentar os resultados de um monitoramento de incidentes em um hospital da região metropolitana do estado do Ceará. A coleta de dados foi feita a partir dos registros de eventos relacionados a incidentes assistenciais e problemas com os produtos hospitalares (suspeita de desvio de qualidade) utilizados no hospital, identificados pela Gerência de Risco no período de 01 de Janeiro a 31 de dezembro de 2015. No período em estudo foram registradas 139 notificações, sendo 69% (n=96) relacionadas a problemas com produtos hospitalares e 31% (n=43) relacionadas aos incidentes no processo assistencial. Quanto ao tipo de produto com suspeita de problemas, 15% (n=14) foram com medicamentos, e 85% (n=82) foram com material médico-hospitalar. Quanto à gravidade dos incidentes assistenciais, 16% (n=7) foram sem dano, 79% (n=34) leve, 2,5% (n=1) moderado e 2,5% (n=1) grave. A análise dos eventos notificados permitiu a estratificação dos mesmos e proporciona a possibilidade de investigação de suas causas e elaboração de planos de ações necessários. Desta forma, conclui-se que o monitoramento de eventos no processo assistencial hospitalar propicia a melhoria contínua dos processos de cuidado e do uso de tecnologias da saúde, a articulação e a integração dos processos de gestão de risco, e a garantia das boas práticas de funcionamento do hospital, impactando assim diretamente na promoção de uma assistência segura ao usuário. PALAVRAS-CHAVE: Gestão de risco, segurança do paciente, hospital ABSTRACT: Risk Management aims at applying measures to predict, identify and minimize the occurrence of unexpected and undesirable events, which can cause harm to patients. The objective of this study is to present the results of an incident monitoring in a hospital Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 10 96 in the metropolitan region of the state of Ceará. The data collection was done from the records of events related to care incidents and problems with hospital products (suspected of quality deviation) used in the hospital, identified by the Risk Management from January 1 to December 31, 2015 In the study period, 139 reports were registered, of which 69% (n = 96) related to problems with hospital products and 31% (n = 43) related to incidents in the care process. Regarding the type of product with suspected problems, 15% (n = 14) were with medication, and 85% (n = 82) were with medical- hospital material. Regarding the severity of care incidents, 16% (n = 7) were without damage, 79% (n = 34) mild, 2.5% (n = 1) moderate and 2.5% (n = 1) severe. The analysis of the notified events allowed the stratification of the same and provides the possibility of investigation of its causes and elaboration of necessary action plans. Thus, it is concluded that the monitoring of events in the hospital care process leads to the continuous improvement of care processes and the use of health technologies, the articulation and integration of risk management processes, and the assurance of good health practices. functioning of the hospital, thus directly impacting the promotion of safe patient care. KEYWORDS: Risk Management, Patient Safety, Hospitals 1 | INTRODUÇÃO Um dos problemas centrais dos sistemas de atenção à saúde é que eles podem causar danos às pessoas usuárias e às equipes de saúde. A segurança do paciente é fundamental para que os hospitais cumpram seu papel social, oferecendo uma assistência à saúde de qualidade com o mínimo de riscos ao paciente. Neste sentido, atenção especial tem sido dada à ocorrência de incidentes, indicadores de qualidade em saúde, definidos como eventos indesejáveis, decorrentes do cuidado, que comprometem a segurança do paciente (PADILHA, 2004). O Gerenciamento de Riscos visa à aplicação de um conjunto de medidas para prever, identificar e minimizar a ocorrência de eventos inesperados e indesejáveis, que podem causar dano físico ou psicológico aos pacientes. O processo de gestão de riscos pode aplicar-se a qualquer situaçãoque possa gerar conseqüência ou um resultado não mapeado ou não esperado; e é parte integrante de toda boa gestão. No Brasil, a Vigilância Sanitária pós-uso/comercialização dos produtos - Vigipós - foi uma das estratégias para acompanhamento e melhoria da qualidade dos produtos de saúde. A Vigipós está voltada para a prevenção de riscos associados à comercialização e consumo de produtos regulados. Para a sua concretização, criou-se a Rede Sentinela que funciona como observatório no âmbito dos serviços e gerenciamento de riscos em saúde. Esta rede consiste em um conjunto de hospitais que buscam notificar, monitorar eventos adversos e queixas técnicas de produtos sob vigilância sanitária (ANVISA, 2016). As queixas técnicas abrangem as suspeitas de alteração ou irregularidade de um Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 10 97 produto/empresa relacionadas a aspectos técnicos ou legais que até o momento da notificação não causaram dano à saúde individual ou coletiva (ANVISA, 2012). De modo a diminuir os incidentes com os pacientes, atualmente, as instituições hospitalares estão se reorganizando para a implantação do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP), que conforme portaria de n° 529/ 2013 do Ministério da Saúde, torna- se obrigatória a sua constituição (BRASIL, 2013). Alguns dos objetivos do NSP são identificar os incidentes, entender o porquê eles acontecem e implantar ações para a redução de incidentes e prevenção de eventos futuros (BRASIL, 2013). A identificação dos incidentes é imprescindível para a melhoria da segurança dos pacientes, pois o seu conhecimento leva à avaliação dos processos de trabalho a fim de torná-los mais seguros. Ela pode ser realizada pela busca ativa ou notificação espontânea dos profissionais envolvidos e, se realizada imediatamente após o incidente, permite a rápida tomada de decisão por parte dos gerentes (BELELA et al., 2010). Estima-se que em torno de 60% dos incidentes relacionados à assistência à saúde são considerados passíveis de prevenção (GALLOTTI, 2004). Considerando que o incidente está relacionado a uma falha humana, sua ocorrência está associada, frequentemente, à vergonha, punições e perda de prestígio por parte dos profissionais e devido à falta de orientação sobre a conduta a ser tomada frente ao evento a tendência é escondê-lo, especialmente, nos casos que resultam dano, perdendo-se importante oportunidade de aprendizado (REASON, 2009; BOHOMOL; RAMOS, 2005). Para que a notificação aconteça, as instituições precisam adotar uma postura diferente diante da ocorrência dos incidentes, com abordagem sistemática e educativa, visando ao aprendizado para prevenção de outros eventos de forma a incentivar a notificação de novos incidentes (BRASIL, 2013). Assim, o objetivo desse estudo é apresentar os resultados de um monitoramento de incidentes em um hospital da região metropolitana do estado do Ceará. 2 | MÉTODOLOGIA Trata-se de um estudo de caráter descritivo e abordagem quantitativa. A coleta de dados foi feita a partir dos registros de eventos relacionados a incidentes assistenciais e problemas (suspeita de desvio de qualidade) com os produtos hospitalares utilizados no hospital, identificados pela Gerência de Risco no período de 01 de Janeiro a 31 de dezembro de 2015. O hospital pertence a um município do Ceará, e está em posição estratégica no cenário da assistência à saúde no âmbito municipal, pois configura-se como uma referência para a sua região de saúde. O hospital dispõe atualmente de 150 leitos, a escolha da instituição foi motivada por possuir Gerenciamento de Risco desde o ano de 2011 e existir a notificação de incidentes. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 10 98 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO No período analisado foram registradas 139 notificações, sendo 69% (n=96) relacionadas a problemas com os produtos hospitalares utilizados no hospital e 31% (n=43) relacionadas aos incidentes no processo assistencial. Quanto ao tipo de produto com suspeita de problemas, 15% (n=14) foram com medicamentos, e 85% (n=82) foram com material médico-hospitalar. A investigação de ocorrências relacionadas aos produtos de saúde, na fase pós- comercialização, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) depende da obtenção de informações de qualidade acerca do que acontece com estes produtos nas instituições de saúde. Assim, as informações obtidas pelos hospitais, uma vez analisadas e investigadas, são transmitidas à ANVISA, integrando o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária Pós-Comercialização, o qual inicialmente subsidia as ações deste órgão federal. Na análise dos incidentes assistenciais, quanto à gravidade, 16% (n=7) foram: sem dano, 79% (n=34) leve, 2,5% (n=1) moderado e 2,5% (n=1) grave. A análise dos eventos notificados permitiu a estratificação dos mesmos e proporciona a possibilidade de investigação de suas causas e elaboração de planos de ações necessários. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 10 99 O método do estudo apresenta limitações quanto à frequência e consequências dos incidentes, pois se trata de situações em que os profissionais ficam sujeitos ao medo de punição, omitindo o registro do evento. Portanto, conhecer a real prevalência dos incidentes se torna difícil, considerando que nem todos são registrados. Contudo, a análise dos eventos notificados permitiu a estratificação dos mesmos e proporciona a possibilidade de investigação de suas causas e elaboração de planos de ações necessários. 4 | CONCLUSÃO Este estudo possibilitou identificar os incidentes e a gravidade desses eventos. Esforços conjuntos de profissionais devem ser direcionados com o objetivo de diminuir os incidentes e melhorar a cultura de segurança na instituição. Assim, estes resultados podem apontar ações educativas no hospital. O monitoramento de eventos no processo assistencial hospitalar oportuniza a melhoria contínua dos cuidados ofertados e do uso de tecnologias da saúde, a articulação e a integração dos processos de gestão de risco, e a garantia das boas práticas de funcionamento do hospital, impactando assim diretamente na promoção de uma assistência segura ao usuário. O desenvolvimento de uma cultura de segurança, a prática dos registros, a discussão das circunstâncias em que os incidentes ocorreram, assim como das condutas profissionais e organizacionais frente aos incidentes são um caminho a ser seguido para a transformação da realidade nas instituições de saúde. REFERÊNCIAS Agência Nacional de Vigilância ANVISA – Rede Sentinela. Brasil. Disponível em: http://portal.anvisa. gov.br/wps/content/Anvisa+Portal/Anvisa/Pos+-+Comercializacao+-+Pos+ +Uso/Rede+Sentinela/ Assunto+de+Interesse/Apresentacao. Acesso em: 23 fev. 2016. Agência Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA. Brasil. Farmacovigilância. Bol. Farm. 2012; jul(1):1-5. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/fac881804bed0acd9451ddbc0f Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 10 100 9d5b29/Farmaco+1.pdf?MOD=AJPERES. Acesso em: 23 fev. 2016. BELELA, A.S.C.; PETERLINE, M.A.S.; PEDREIRA, M.L.G. Revelação da ocorrência de erro de medicação em unidade de cuidados intensivos pediátricos. Rev Bras Ter Intensiva. 2010; 22(3):257-263. BOHOMOL, E.; RAMOS, L.H. Erro de medicação: importância da notificação no gerenciamento da segurança do paciente. Rev Bras Enferm. 2005; 60(1):32-6. ______. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Gabinete do Ministro. Portaria n. 529, de 1º de Abril de 2013. Institui o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP). Disponível em: http:// bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2013/prt0529_01_04_2013. html. Acesso em: 08 mar. 2016. GALLOTTI, R.M.D. Eventos adversos: o que são? Rev. Assoc. Med. Bras. 2004; 50(2):109-26. PADILHA, K.G. Ocorrências iatrogênicas na prática de enfermagem. In: Cassiane SHB, Ueta J. A segurança dos pacientes na utilização da medicação. São Paulo: Artes Médicas; 2004. p. 111-21. REASON, J.El error humano. Madrid: Modus Laborandi; 2009. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 101 CAPÍTULO 11 AVALIAÇÃO DA SOBRECARGA DOS CUIDADORES DE PACIENTES DO SERVIÇO ESCOLA DE FISIOTERAPIA – UFPI Gláucia Vanessa Santos Alves Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Parnaíba-Piauí. Jeferson Souza Silva Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Parnaíba-Piauí. Rebeca Barbosa da Rocha Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Parnaíba-Piauí. Kamila Santos da Silva Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Parnaíba-Piauí. Iago Santos Verás Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Parnaíba-Piauí. Cerliane Camapum Brandão Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Parnaíba-Piauí. Dionis de Castro Dutra Machado Fisioterapeuta, Universidade Federal do Piauí Teresina-Piauí. RESUMO: O cuidador é o indivíduo membro da família ou não, que geralmente vive na mesma casa assumindo o papel de oferecer cuidados a pessoa doente, podendo este cuidador adquirir a Síndrome de Burnout, caracterizada por esgotamento físico e emocional, gerada em pessoas que mantém contato direto e contínuo com outros indivíduos. O objetivo do estudo foi verificar a sobrecarga dos cuidadores de pacientes atendidos no Serviço Escola de Fisioterapia da Universidade Federal do Piauí (SEF-UFPI) e relacionar com a funcionalidade do paciente, bem como caracterizar o perfil sócio demográfico desses cuidadores. A pesquisa caracteriza-se como do tipo transversal e descritivo, constituindo uma amostra de 17 cuidadores. Os instrumentos utilizados foram: Mini Exame do Estado Mental (MEEM), para avaliar a função cognitiva; questionário sócio demográfico; Medida de Independência Funcional (MIF), para avaliar a funcionalidade e Zarit Burden Interview, para avaliar a sobrecarga dos cuidadores. Na escala de Zarit os cuidadores obtiveram pontuaram de 0-21, pouca ou nenhuma sobrecarga, em contrapartida com valor médio da MIF (94,29 pontos) que indica uma dependência moderada do paciente comprovando assim correlação fraca entre a funcionalidade do paciente e a sobrecarga do cuidador (p= -0,214), sugerindo mais investigações semelhantes com amostra maior e em outros serviços. PALAVRAS-CHAVE: Cuidadores; Sobrecarga dos cuidadores; Dependência; Saúde da família; Fisioterapia. ABSTRACT: The caregiver is the individual family member or not, who usually lives in the Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 102 same house assuming the role of providing care to the sick person, which may acquire the caregiver burnout syndrome, characterized by physical and emotional exhaustion, generated in people who maintain direct contact and continuing with other individuals. The aim of the study was to verify the burden on caregivers of patients seen in the Service School of Physical Therapy, Federal University of Piauí (SEF-UFPI) and relate to the patient’s functionality as well as characterize the demographic profile of these caregivers partner. The research is characterized as the transversal and descriptive, constituting a sample of 17 caregivers. The instruments used were Mini-Mental State Examination (MMSE) to assess cognitive function; demographic questionnaire; Functional Independence Measure (FIM) to evaluate the functionality and Zarit Burden Interview to assess the burden on caregivers. In Zarit scale caregivers obtained they scored from 0-21, little or no overhead, in contrast with an average value of MIF (94.29 points) indicating a moderate dependence on patient thus proving weak correlation between the patient’s functionality and overload caregiver (p= -0.214), suggesting more research with larger samples and similar other services. KEYWORDS: Caregivers; Caregiver burden; Dependency; Family health; Physiotherapy. 1 | INTRODUÇÃO Concomitante ao aumento da expectativa de vida populacional, o aparecimento de doenças crônicas incapacitantes incuráveis vem crescendo consideravelmente, exigindo uma readequação dos modos de vida do indivíduo e das pessoas que o cercam (INOUYE; PEDRAZZANI; PAVARINI, 2010; FERREIRA et al., 2012). O enfretamento dessas doenças causa uma ruptura no processo de organização familiar atingindo todos os membros da família, de forma que há consequências invisíveis e pouco valorizadas como: isolamento social, interrupção dos planos de vidas de seus membros e em especial a doença do cuidador (BRITO; RABINOVICH, 2008). O cuidador é o indivíduo membro da família ou não, que geralmente vive na mesma casa assumindo o papel de oferecer cuidados com ou sem remuneração, auxiliando a pessoa doente ou dependente a realizar suas atividades como higiene pessoal, medicação de rotina, acompanhamento aos serviços de saúde e a outros serviços requerido (CARDOSO et al., 2012). Classificam-se em cuidador informal e formal, sendo o primeiro representado pelo membro da família ou adjacente a ela, que se responsabiliza na execução de tarefas domiciliares a quem recebe o cuidado. Já o cuidador formal substitui o informal em suas funções, podendo ou não ser um profissional capacitado (SCHNAIDER; SILVA; MARIA, 2009). Quanto maior o grau de comprometimento do indivíduo, maior será a sobrecarga dos cuidadores, principalmente os informais, pois eles não possuem orientação adequada, nem preparo para lidar com vários aspectos da condição clínica do doente em tarefas que exigem dedicação exclusiva, esforço físico e apoio psicológico, Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 103 fazendo-o sentir-se sobrecarregado e esquecer o autocuidado (MENDES; MIRANDA; BORGES, 2010). Neste contexto, os cuidadores ficam vulneráveis a Síndrome de Burnout, conceituada por estresse laboral crônico e caracterizada por esgotamento físico e emocional, gerada em pessoas que mantém contato direto e contínuo com outros indivíduos (TRINDADE; LAUTERT, 2010; COSTA et al., 2013). 2 | OBJETIVO O presente estudo teve como objetivo verificar a sobrecarga dos cuidadores dos pacientes atendidos no Serviço Escola de Fisioterapia (SEF) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), relacionando-a ao grau de funcionalidade do paciente; bem como caracterizar o perfil sócio demográfico desses cuidadores. 3 | MATERIAL E MÉTODO 3.1 Delineamento do estudo O estudo caracteriza-se como do tipo transversal e descritivo. O estudo foi conduzido obedecendo-se os princípios éticos inerentes à pesquisa envolvendo humanos, para tal considerou a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, bem como a Declaração de Helsinque. O estudo foi aprovado pelo CEP da UFPI parecer nº 935.464 (ANEXO 1). Cada voluntário foi devidamente esclarecido quanto aos objetivos do estudo e os procedimentos envolvidos no mesmo, expressando concordância em participar da pesquisa por meio da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). 3.2 Amostra A amostra considerou os pacientes atendidos no SEF-UFPI e seus cuidadores. Constituiu-se de 17 cuidadores de pacientes que recebiam atendimento SEF-UFPI. 3.3 Critérios de inclusão e exclusão Como critérios de inclusão foram considerados os cuidadores de pacientes que compareceram a no mínimo cinco atendimentos consecutivos e que apresentavam a capacidade cognitiva preservada. Indivíduos com idade inferior a 18 anos foram excluídos. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 104 3.4 Instrumentos e procedimentos de coleta A aplicação do questionário ocorreu na sala de avaliação na clínica, pois a mesma conferia privacidade ao sujeito para responder aos questionamentos que eram feitos, apresentava ambiente com temperatura termoneutra, isolado acusticamente e mobiliário adequado para a realização do estudo, antes, durante ou após o atendimento do paciente. Os questionários foram padronizados, com o objetivo de uniformizar a coleta de dados e foram aplicados na forma de entrevista. O Mini Exame do Estado Mental (MEEM) foi aplicado com a finalidade de rastreio cognitivo. O voluntário foi solicitadoa responder um questionário de capacidade funcional do paciente mediante a aplicação da Medida de Independência Funcional (MIF), questionário sócio demográfico e questionário de sobrecarga do cuidador (Zarit Burden Interview). O questionário sócio demográfico voltado para o cuidador foi composto dos itens: idade, etnia, escolaridade, renda familiar, estado civil, número de moradores na residência, número de filhos, profissão, tempo de profissão, se houve ocorrência de afastamento do trabalho por doença, vinculação a plano de saúde e área da fisioterapia que o paciente recebia atendimento no serviço. O Mini Exame do Estado Mental – MEEM é um teste de avaliação cognitiva, utilizado para investigação de possíveis perdas cognitivas em indivíduos no seu segmento evolutivo correspondente. Este teste é composto por diversas questões, agrupadas em sete categorias, cada uma delas desenhadas para avaliar funções cognitivas específicas: orientação para o tempo (5 pontos), memória imediata (3 pontos), atenção e cálculo (5 pontos), evocação (5 pontos), lembrança de palavras (3 pontos), linguagem (8 pontos) e capacidade construtiva visual (1 ponto). O escore do MEEM varia de um mínimo (0) até o total máximo (30) (BERTOLUCCI et al., 1994; BRUCKI et al., 2003; TALMELLI et al. 2010). Segundo Lourenço e Veras, 2006 deve ser utilizada a pontuação de corte até 18/19 pontos para ausência de instrução escolar e até 24/25 pontos para a presença da mesma (LOURENÇO; VERAS, 2006). A MIF foi desenvolvida pela Academia Americana de Medicina Física e Reabilitação e pelo Congresso Americano de Medicina de Reabilitação, foi validada e adaptada para o Brasil por Riberto et al em 2004 (RIBEIRO et al. 2004). A MIF é uma escala ordinal com 18 itens, cada item possui um escore com 7 níveis que avalia a necessidade de auxílio para realização das atividades de vida diária (AVD). Os 18 itens da MIF são classificados em 6 dimensões e 2 subdivisões: motor e cognitivo. A MIF consiste em autocuidado (alimentação, higiene pessoal, banho, vestir-se acima da cintura, vestir- se abaixo da cintura e uso do vaso sanitário); controle de esfíncteres (controle de urina e fezes); mobilidade (transferência para cama/ cadeira de rodas, transferência para o vaso sanitário e transferência para o chuveiro) e locomoção (marcha/ cadeira de rodas e escadas). A MIF cognitiva consiste em comunicação (compreensão (Auditiva/ Visual) e expressão (Verbal/Não verbal)) e cognição social (interação social, resolução de problemas e memória). Para cada um dos 18 itens da MIF, uma escala descritiva Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 105 é utilizada para classificar o nível de auxílio nas AVD sendo: 1 correspondente à dependência total; 2 dependência máxima; 3 dependência moderada; 4 dependência mínima; 5 supervisão; 6 independência modificada (ajuda técnica) e 7 independência completa. Os escores são de 18 a 140 e quanto mais elevado o escore, maior o nível de independência e melhor o desempenho funcional dos indivíduos (TALMELLI et al. 2010; GRATÃO et al. 2013). Para avaliação da sobrecarga dos cuidadores foi utilizado o questionário de Zarit Burden Interview que é um escala composta por 22 itens que avalia aspectos como: saúde, vida social e pessoal, situação financeira, emocional, bem-estar e as relações interpessoais. Todas as perguntas devem ser respondidas com pontuação de 0 a 4, sendo: 0 = nunca; 1 = raramente; 2 = às vezes; 3 = muito frequentemente; 4 = quase sempre. No final são somadas as pontuações que variam no total de 0 a 88, quanto maior a pontuação, maior será a sobrecarga do cuidador (SCAZUFCA, 2002). 3.5 Análise estatística Uma estatística descritiva foi estabelecida com a finalidade de apresentar medidas de tendência central e de variabilidade da amostra estudada. O teste Shapiro- Wilk foi utilizado para verificar a distribuição dos dados referentes à variável nível de sobrecarga (pontuação no questionário de Zarit) e MIF. Por meio dessa análise foi observada distribuição gaussiana dos dados. A correlação de Pearson foi empregada para medir o grau de relacionamento linear entre as duas variáveis quantitativas (Zarit x MIF) (FILHO; JUNIOR, 2009). Foi utilizado o pacote estatístico SPSS 21.0 e para todos os casos foi considerado valor p ≤ 0,05. 4 | RESULTADOS E DISCUSSÕES O estudo contou com 17 cuidadores, abordados na recepção do SEF-UFPI pelos pesquisadores e levados à sala de avaliação para aplicação dos instrumentos de coleta de dados, a saber: MEEM, questionário sociodemográfico, MIF e Zarit. A idade variou de 22 a 71 anos, média 46,29 (s±15,987) anos. Quanto ao gênero a amostra conteve em sua totalidade o sexo feminino. Os voluntários da pesquisa classificavam-se como negro/pardo 9 (52,9%), branco com 5 (29,4%) e mulato com 3 (17,6%). O grau de escolaridade da amostra estudada era fundamental completo 1 (5,9%), fundamental incompleto 6 (35,3%), ensino médio completo 6 (35,3%), universitário completo 3 (17,6%) e analfabeto 1 (5,9%). Apresentavam renda familiar de 1 a 3 salários 12 voluntários (70,6%), 4 a 6 salários 3 cuidadores (17,6%) e 7 a 10 salários 2 participantes (11,8%). Em relação ao estado civil 4 eram solteiros (23,5%), 9 casados (52,9%), 1 divorciado (5,9%) e 3 em união estável (17,6%). O número de residentes teve como mínimo de 2 e máximo de 7, média 3,41(s±1,583) moradores. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 106 Os filhos variavam de no mínimo 1 e máximo de 2, média 1,18 (s±0,393). A profissão predominante dos cuidadores foi dona de casa com 8 (47,1%). O setor com maior números de pacientes foi o de fisioterapia neurofuncional adulto com 13 (76,5%) seguido de fisioterapia aquática com 3 (17,6%) e fisioterapia traumato-ortopédico- funcional com 1 (5,9%). Figura 1 – Pontuação média dos cuidadores avaliada por meio do Zarit Burden Interview A média de pontuação do MEEM foi 25,35 (s± 2,149) com pontuação mínima de 22 e máxima de 30 pontos. A sobrecarga do cuidador foi avaliada pela escala de Zarit cuja pontuação variou entre 0 e 52, com média de 27,47 (s±16,310) como mostra na figura 1. A figura 2 mostra os valores obtidos no questionário de Zarit, onde 7 cuidadores (41,17%) obtiveram escores entre 0-20 pontos (pouca ou nenhuma sobrecarga), 4 (23,52%) obtiveram escores entre 21-40 (sobrecarga leve e moderada), 6 (35,29%) obtiveram escores entre 41-60 (sobrecarga moderada à grave). A MIF do paciente foi respondida de acordo com a visão do cuidador sobre a funcionalidade apresentada. A pontuação variou entre 33 e 137 pontos, apresentando média de 94,29 (s±30,696) sendo mostrada na figura 3. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 107 Figura 2 – Sobrecarga em cuidadores avaliada por meio do Zarit Burden Interview Figura 3 - Pontuação média dos pacientes avaliada por meio da MIF segundo informações dos cuidadores. A avaliação de normalidade dos dados foi realizada pelo teste de normalidade de Shapiro-Wilk, pois a amostra era pequena (inferior a 50). O resultado do teste indicou distribuição normal dos dados referentes à MIF (0,70) e ao Zarit (0,24) como mostra a figura 4 e 5. Diante da normalidade dos dados de MIF e Zarit, empregou-se o coeficiente de correlação de Pearson para analisar o grau de relação entre os escores dessas variáveis, indicando fraca associação entre as mesmas (p= -0,214). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 108 Figura 4 – Distribuição dos dados referentes à MIF da amostra estudada Figura 5 – Distribuição dos dados referentes aos escores da Zarit Burden Interview da amostra estudada Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 109 O trabalho avaliou a sobrecarga dos cuidadores de pacientes que utilizam o SEF-UFPI, caracterizando o seu perfil sócio demográfico e correlacionando a sobrecarga do cuidador com a funcionalidade do paciente. Assim como na literatura em geral, o estudo confirma o predomínio de mulheres como cuidadoras (CASSIS, 2007; MORAES; SILVA, 2009;GONÇALVES et al. 2013). Estes achados confirmam a influência do papel histórico cultural da mulher em ter disponibilidade em ficar em casa e cuidar da família (GONÇALVES et al., 2006). A escolha do cuidador pode ocorrer de modo inesperado para o familiar por expressão do desejo do paciente, mesmo que o familiar não esteja preparado para assumir este compromisso. O espaço designado ao cuidado ocorre no âmbito familiar, lugar no qual a mulher exerce maior propriedade (PIMENTA; RODRIGUES; GREGUOL, 2010). Em relação à faixa etária dos cuidadores, a média de idade encontrada na pesquisa (46,29 anos) corrobora com os achados de outros estudos que demonstram que a maioria dos cuidadores é de meia-idade (GONÇALVES et al., 2006; SOUSA et al., 2008). Assim como na literatura, a maioria das cuidadoras do presente estudo era casada (52,9%), seguidas por solteiras (23,5%), esse papel geralmente é assumido pela companheira ou pela filha que não conseguiu casar, por dependerem emocionalmente e financeiramente do paciente (MORAES; SILVA, 2009; VALENTE et al., 2011). A renda familiar predominante neste estudo esteve entre 1-3 salários para 70,6% da amostra estudada. Estudos apontam que esta variável pode afetar a vida do cuidador, uma vez que com uma renda maior o mesmo poderia ter uma ajuda adicional para aliviar sua carga de trabalho, impedindo assim seu isolamento social (MORAES; SILVA, 2009). Quanto mais descansado estiver o cuidador, maior será seu desempenho ao cuidar do paciente, por isso é extremamente necessário que o cuidador tenha seus momentos de lazer para repor as energias, como caminhadas ou apenas uma conversa com amigos, isso deve ser considerado como tratamento (SCHNAIDER; SILVA; MARIA, 2009). A ajuda de outras pessoas promove benefícios para o cuidador, e compartilhar os cuidados representa um fator redutor de estresse, tanto no aspecto físico como emocional (OLIVEIRA; GARANHANI; GUARANHANI, 2011). O presente estudo apresentou predomínio o trabalho de donas de casa com 47,1%, este achado pode indicar o motivo pelos quais muitas se tornaram cuidadoras, aliado à baixa escolaridade que reduzem a inserção no mercado de trabalho enquanto os outros membros da família talvez trabalhem fora do lar, ou ainda pode indicar o afastamento de suas atividades anteriores para se dedicar em prestar maior assistência ao familiar que necessite de sua ajuda (AMENDOLA; OLIVEIRA; ALVARENGA, 2008). De acordo com a escolaridade dos cuidadores, destaca-se o ensino fundamental incompleto e ensino médio completo com 35,3% cada, podendo este fator contribuir para o despreparo em lidar com a comorbidade do familiar, agindo de forma afetiva, não contribuindo de maneira adequada para a reabilitação do paciente (EUZÉBIO; RABINOVICH, 2006). Embora o fator escolaridade não seja um indício imprescindível Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 110 que indique o grau de comprometimento do cuidador, este é muito importante, já que os mesmos receberão as orientações diretamente dos profissionais da saúde, bem como proceder com as demandas que vão surgindo fora do espaço de saúde em que o paciente recebe determinado atendimento (PEREIRA et al., 2013). Familiares que mantém contato direto com os pacientes muitas vezes prestam os cuidados de forma intuitiva. Isto significa que podem existir falhas neste cuidado, decorrentes tanto da ausência de orientações, como pelo pouco tempo para apropriação das mesmas (OLIVEIRA; GARANHANI; GARANHANI, 2011). Quanto ao setor de atendimento dos pacientes cuidados pelos entrevistados, observou-se que, da amostra estudada, o setor de fisioterapia neurofuncional adulto foi o que apresentou maior número de cuidadores com 76,5%, indicando que os acometimentos neurológicos geralmente são os que trazem os maiores prejuízos na funcionalidade, e por isso necessitam de maior assistência para realização de suas (AVD), contribuindo assim para a figura do cuidador (FERNANDES et al., 2012). Considerando que essas atividades foram avaliadas pela MIF, que é o mais amplo instrumento para mensurar a capacidade funcional, a média encontrada neste estudo foi de 94,29 pontos. Em geral, pode-se dizer que os pacientes apresentaram dependência funcional moderada (BENVEGNu, 2008). O teste de correlação indicou fraca associação entre as variáveis MIF e Zarit. Embora estudos apontem uma maior sobrecarga do cuidador quanto maior a dependência do paciente, nesta amostra isso não foi comprovado, já que na escala de Zarit foi observado que 41,7% pontuaram de 0-21, pouca ou nenhuma sobrecarga, em contrapartida com valor médio da MIF (94,29 pontos) que indica uma dependência moderada do paciente (STACKFLETH et al., 2012; PEREIRA et al., 2013). Embora seja considerada a subjetividade do questionário, deve-se avaliar se os motivos para a baixa pontuação de Zarit seriam realmente correspondentes à verdadeira sobrecarga do cuidador. O sentimento de retribuição e compaixão pelo paciente, provenientes da cultura familiar na qual cuidar é uma obrigação moral, poderia influenciar nas respostas obtidas que levaram a uma baixa pontuação desse questionário (FONSECA; PENNA, 2008). O fisioterapeuta é o profissional que pode ajudar os cuidadores quanto às orientações e como proceder com as AVD do familiar. Ao passo que este profissional atua na reabilitação do paciente, é importante atentar também em relação aos cuidadores, pois dependendo do comprometimento funcional do paciente, existe uma dificuldade para o seu manejo correto. A utilização da biomecânica, quando bem orientada por um profissional, oralmente ou por meio de cartilhas explicativas ajudam a diminuir a sobrecarga física desses cuidadores. Essas orientações são fundamentais para os pacientes e cuidadores, pois irão auxiliar no processo de recuperação e na prevenção de futuras complicações (NONIMO; KREULICH; BENEDITI, 2008; LIMA; PINTO; TORQUATO, 2014). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 111 5 | CONCLUSÃO Ainda que o estudo apresente limitações como o pequeno tamanho da amostra, o mesmo contribuiu para caracterizar o perfil do cuidador familiar e sua visão em relação ao paciente. O fisioterapeuta deve estar atento às necessidades dos cuidadores, pois é vital conhecer as expectativas da família para oferecer uma assistência adequada com condutas e orientações para os mesmos. A amostra estudada apresentou fraca correlação entre MIF e Zarit indicando pouca ou nenhuma sobrecarga, embora a MIF tenha indicado dependência moderada do paciente, sugere-se que sejam feitas investigações semelhantes com amostra maior e em outros serviços. REFERÊNCIAS AMENDOLA, F.; OLIVEIRA, M.A.C.; ALVARENGA, M.R.M. Qualidade de vida dos cuidadores de pacientes dependentes no programa de saúde da família. Texto Contexto Enferm, v. 17, n.2, p. 266-72, 2008. BENVEGNU, A.B. Avaliação da medida de independência funcional de indivíduos com sequelas de acidente vascular encefálico (AVE). Revista Ciência & Saúde, v. 1, n. 2, p. 71-77, 2008. BERTOLUCCI, P.H. et al. O mini exame do estado geral em uma população geral: impacto da escolaridade. Arq Neuropsiquiatria, n. 52, p. 1-7, 1994. BRITO, E.S.; RABINOVICH, E.P. A família também adoece!: Mudanças secundárias à ocorrência de um acidente vascular encefálico na família. Comunicação saúde educação, v.12, n.27, p.783- 94, 2008. BRUCKI, S.M.D. et al. Sugestões para o uso do mini-exame do estado mental no Brasil. Arq Neuropsiquiatr, v. 61, n. 3, p. 777-8, 2003. CARDOSO, L et al. Perspectivas atuais sobre a sobrecarga do cuidador em saúde mental. Rev Esc Enferm, v.46, n.2, p. 513-7, 2012. CASSIS, S.V.A. Correlação entre o estresse do cuidador e as características clínicas do paciente portador de demência. Rev Assoc Med Bras, v. 53, n. 6, p. 497-501, 2007. COSTA, E.C.S. et al. Sobrecarga física e mental dos cuidadores de pacientes em atendimento fisioterapêutico domiciliar das Estratégias de Saúde da Família de Diamantina (MG). Revista Baianade Saúde Pública, v.37, n.1, p.133-150, 2013. EUZÉBIO, C.J.V.; RABINOVICH, E.P. Compreendendo o cuidador familiar do paciente com sequela de acidente vascular encefálico. Temas em psicologia, v. 14, n. 1, p. 63-79, 2006. FERNANDES, M.B. et al. Independência funcional de indivíduos hemiparéticos crônicos e sua relação com a fisioterapia. Fisioter. Mov, v. 25, n. 2, p. 333-341, 2012. FERREIRA, H.P.; MARTINS, L.C.; BRAGA, A.L.F.; GARCIA, M.L.B. O impacto da doença crônica no cuidador. Rev Bras Clin Med, v. 10, n. 4, p. 278- 84, 2012. FILHO, D.B.F.; JÚNIOR, J.A.S. Desvendando os mistérios do coeficiente de correlação de Pearson (r). Revista Política Hoje, v. 18, n. 1, 2009. FONSECA, N.R.; PENNA, A.F.G. Perfil do cuidador familiar do paciente com sequela de acidente Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 112 vascular encefálico. Ciência & Saúde Coletiva, v.13, n.4, p.1175-1180, 2008. GRATÃO, A.C.M. et al. Functional dependency of older individuals and caregiver burden. Rev Esc Enferm USP, v.47, n.1, p. 134-41, 2013. GONÇALVES, L.H.T. et al. Perfil da família cuidadora de idoso doente/fragilizado do contexto sociocultural de Florianópolis, SC. Texto Contexto Enferm, v. 15, n. 4, p. 570-7, 2006. GONÇALVES, L.T.H. et al. Convívio e cuidado familiar na quarta idade: qualidade de vida de idosos e seus cuidadores. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol, v.16, n.2, p. 315-325, 2013. INOUYE, K.; PEDRAZZANI, E.S.; PAVARINI, S.C.I. Implicações da doença de Alzheimer na qualidade de vida do cuidador: um estudo comparativo. Cad. Saúde Pública, v. 26, n.5, p. 891- 899, 2010. LIMA, C.L.; PINTO, F.C.G.; TORQUATO, J.A. avaliação de um programa de orientação fisioterapêutica ao cuidador do paciente com acidente vascular encefálico. Rev enferm UFPE on line, v. 8, supl. 1, n.2324-32, 2014. LOURENÇO, R.A.; VERAS, R.P. Mini-exame do estado mental: características psicométricas em idosos ambulatoriais. Rev Saúde Pública, v. 40, n. 4, p. 712-9, 2006. MENDES, G.D.; MIRANDA, S.M.; BORGES, M.M.M.C. Saúde do cuidador de idosos: Um desafio para o cuidado. Revista Enfermagem Integrada, v.3, n.1, 2010. MORAES, S.R.P.; SILVA, L.S.T. An evaluation of the burden of Alzheimer patients on family caregivers. Cad. Saúde Pública, v.25, n.8, p.1807-15, 2009. MORAIS, H.C.C. et al. Sobrecarga e modificações de vida na perspectiva dos cuidadores de pacientes com acidente vascular cerebral. Rev. Latino-Am. Enfermagem, v. 20, n.5, 2012. NONINO, F.; KREULICH, E.; BENEDETI, M.R. Orientações a cuidadores de pacientes hemiplégicos em fase aguda pós-episódio de acidente vascular encefálico (AVE). Revista Saúde e Pesquisa, v. 1, n. 3, p. 287-293, 2008. OLIVEIRA, B.C.; GARANHANI, M.L.; GARANHANI, M.R. Cuidador de pessoa com acidente vascular encefálico – necessidades, sentimentos e orientações recebidas. Acta Paul Enferm, v. 24, n. 1, p. 43-9, 2011. PEREIRA, R.A. et al. Burden on caregivers of elderly victims of cerebro vascular accident. Rev Esc Enferm USP, v. 47, n.1, p. 182-8, 2013. PIMENTA, R.A.; RODRIGUES, L.A.; GREGUOL, M. Avaliação da Qualidade de Vida e Sobrecarga de Cuidadores de Pessoas com Deficiência Intelectual. R bras ci Saúde, v. 14, n.3, p. 69-76, 2010. RIBEIRO, M. et al. Validação da versão brasileira da medida de independência funcional. Acta Fisiatr, v. 11, n. 2, p. 72-76, 2004. SCAZUFCA, M. Brazilian version of the Burden Interview scale for the assessment of burden of care in carers of people with mental illnesses. Rev Bras Psiquiatr, v. 24, n.1, p.12-7, 2002. SCHNAIDER, T.B.; SILVA, J.V.; MARIA, P.A.R. Cuidador familiar de paciente com afecção neurológica. Saúde Soc, v.18, n.2, p.284-292, 2009. SOUSA, A.G. et al. Avaliação da qualidade de vida de cuidadores de pacientes com sequelas neurológicos. ConScientiae Saúde, v.7, n. 4, p. 497-502, 2008. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 11 113 STACKFLETH, R. et al. Burden of work in caregivers of frail elders living at home. Acta Paul Enferm, v.25, n. 5, p. 768-74, 2012. TALMELLI, L.F.S. et al. Nível de independência funcional e déficit cognitivo em idosos com doença de alzheimer. Rev Esc Enferm USP, v.44, n.4, p. 933-9, 2010. TRINDADE, L.L. LAUTERT, L. Síndrome de Burnout entre os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família. Rev Esc Enferm USP, v. 44, n. 2, p. 274-9, 2010. VALENTE, L.E. et al. Health self-perception by dementia family caregivers. Arq Neuropsiquiatr, v. 69, n. 5, p. 739- 744, 2011. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 114 CAPÍTULO 12 RISCOS OCUPACIONAIS AOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM QUE ATUAM EM SALA DE VACINA Márcia de Morais Sousa Enfermeira, Pós-Graduanda em Urgência e Emergência pela Faculdade Integral Diferencial-WYDEN FACID-PI Teresina-PI Maria Francinete do Nascimento Silva Enfermeira, Pós-Graduanda em Urgência e Emergência pela Faculdade Integral Diferencial-WYDEN FACID-PI Teresina-PI Naldiana Cerqueira Silva Enfermeira, Doutoranda do programa de doutorado em engenharia biomédica da Universidade Brasil. Professora da Faculdade Integral Diferencial- WYDEN FACID-PI Teresina-PI Bruna Furtado Sena de Queiroz Acadêmica do X bloco de Enfermagem pela Faculdade Integral Diferencial –WYDEN FACID-PI Teresina-PI Flávia de Sousa Holanda Acadêmica do IX bloco de Enfermagem pela Faculdade Integral Diferencial –WYDEN FACID-PI Teresina-PI Laísa Ribeiro Rocha Acadêmica do VIII bloco de Enfermagem pela Faculdade Integral Diferencial –WYDEN FACID-PI Teresina-PI Gisele Lopes Cavalcante Farmacêutica, Mestranda em ciências farmacêuticas pela Universidade Federal do Piauí Teresina-Pi RESUMO: Durante a sua jornada de trabalho, os profissionais de enfermagem estão expostos a diferentes riscos ocupacionais. Estes riscos são responsáveis pelo surgimento dos acidentes ocupacionais, os quais têm grande impacto econômico devido à perda de mão-de-obra qualificada. Um risco aos quais os profissionais de enfermagem estão expostos durante sua atividade laboral é o biológico, envolvendo acidente com perfuro cortante. Este estudo tem como objetivo geral identificar a exposição dos profissionais de enfermagem quanto aos riscos ocupacionais presentes nas salas de vacina. Trata-se de um estudo exploratório e descritivo com abordagem qualitativa. Foi realizado em 21 salas de vacina de Unidades Básicas de Saúde (UBS), localizadas na regional norte do município de Teresina, estado do Piauí. Participaram do estudo 19 técnicos de enfermagem A coleta de dados ocorreu nos meses de março á maio de 2016 e, utilizou como instrumento norteador um questionário semi estruturado com perguntas referentes à exposição aos riscos ocupacionais durante Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 115 suas atividades laborais. Os dados foram organizados e analisados por meio de categorias de acordo com os objetivos da pesquisa sendo, posteriormente avaliados e discutidos com base na literatura existente. Após acidentes com material perfuro cortante, os profissionais de enfermagem não realizam a notificação de acidentes, o que aumenta a sub notificação. Quanto aos equipamentos de proteção individual (EPI’s), os profissionais têm conhecimento sobre os tipos de EPI’s, porém referiram não fazerem uso destes equipamentos no desenvolvimento de sua atividade. PALAVRAS-CHAVE: Biossegurança. Saúde do trabalhador. Acidente do trabalho. ABSTRACT: During their workday, nursing professionals are exposed to different occupational hazards. These risks are responsible for the emergence of occupational accidents, which have great economic impact due to the loss of skilled labor. One risk to which nursing professionals are exposed during their work activity is the biological, involving accident with shear puncture. This study aims to identify the exposure of nursing professionals to the occupational risks present in vaccine rooms. This is an exploratory and descriptive study with a qualitative approach. It was performed in 21 vaccine rooms of Basic Health Units (UBS), located in the northernregion of the municipality of Teresina, state of Piauí. Nineteen nursing technicians participated in the study Data collection took place from March to May 2016 and used as a guiding instrument a semi-structured questionnaire with questions regarding exposure to occupational risks during their work activities. The data were organized and analyzed by means of categories according to the objectives of the research, being later evaluated and discussed based on the existing literature. After accidents with sharp puncture material, the nursing professionals do not perform the accident notification, which increases the sub notification. Regarding personal protective equipment (PPE), professionals are aware of the types of PPE, but they did not use these equipments in the development of their activity. KEYWORDS: biosecurity, worker’s health, work accident. 1 | INTRODUÇÃO Acidente de trabalho é aquele que acontece no exercício das atividades relacionadas ao serviço da empresa, provocando lesão corporal ou perturbação funcional podendo causar morte, perda ou redução permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho (LEI n° 8.213/91). Segundo RIBEIRO & SHIMISU (2007), os acidentes do trabalho são agravos freqüentes no exercício da enfermagem. GALLAS & FONTANA (2010), afirmam que a diversidade e a simultaneidade de cargas de trabalho contribuem para a ocorrência dos mesmos em qualquer unidade de cuidado direto ou indireto ao paciente. Os acidentes ocupacionais que envolvem os profissionais de enfermagem têm grande impacto econômico acarretado pelaperda de mão-de-obra qualificada Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 116 proveniente destes acidentes (BAKKE & ARAÚJO, 2010). Em seu relatório anual, a Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2013), indicou custos que estas doenças acarretam aos profissionais, devido, a redução da capacidade de trabalho, bem como, no aumento dos gastos em cuidados de saúde. A Lei Orgânica da Saúde n.º 8080, de 19/09/1990, regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, e as ações em saúde do trabalhador, definidas, como um conjunto de atividades que se destinam, através das ações de vigilância epidemiológica e sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. As diferentes condições de trabalho as quais, os profissionais estão expostos podem surgir às doenças profissionais e/ou do trabalho. De acordo com TAVARES (2013), as doenças profissionais constituem apenas um dos aspectos das conseqüências negativas das más condições de trabalho sobre a saúde dos trabalhadores. Visando a prevenção da saúde e integridade dos trabalhadores de saúde durante a sua atividade laboral, o ministério do trabalho, por meio da norma regulamentadora número 32 (NR-32), estabelece medidas para proteger a saúde e a segurança dos profissionais de saúde, objetivando a prevenção dos acidentes quanto à exposição aos riscos físicos, químicos biológicos, psicossociais e ergonômicos. Desse modo exercendo atividades de promoção e assistência à saúde em geral desses profissionais. Então, a escolha do tema decorre da existência dos riscos ocupacionais nos locais de trabalho, que podem afetar a saúde e a integridade física do trabalhador, uma vez que ao prestar assistência de saúde direta e indiretamente, preocupa-se muito com o cuidado do paciente e pouco com os riscos a que está exposto ao prestar este cuidado. Desse modo é de extrema relevância caracterizar os riscos ocupacionais expostos aos profissionais de enfermagem que atuam em unidades de estratégia de saúde da família, com ênfase em sala de vacina, tendo em vista a escassez de estudos que abordem essa temática fora do ambiente hospitalar. Elegemos como hipóteses que o ambiente da sala de vacina apresenta riscos ocupacionais aos quais os profissionais de enfermagem estão expostos durante sua atividade laboral como também, o uso correto de EPI’s protege a saúde e a integridade física do trabalhador. O objetivo geral da pesquisa foi identificar a exposição dos profissionais de enfermagem quanto aos riscos ocupacionais presentes nas salas de vacina. Tendo como objetivos específicos: avaliar a postura adotada dos profissionais durante a sua atividade laboral; verificar a ocorrência de acidentes com perfuro cortantes; verificar o uso correto de EPI’s na sala de vacina. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 117 2 | METODOLOGIA 2.1 Procedimentos Éticos A pesquisa foi realizada obedecendo aos aspectos legais da resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde que dispõe sob a ótica do indivíduo e das coletividades, referenciais da bioética, tais como, autonomia, não maleficência, beneficência, justiça e equidade, dentre outros, e visa a assegurar os direitos e deveres que dizem respeito aos participantes da pesquisa, à comunidade científica e ao Estado. O projeto foi submetido á Plataforma Brasil e ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Integral Diferencial-FACID/Wyden o qual foi aprovado no dia 05.11.2015 com o número de protocolo 46123015.9.0000.5211. Após a autorização da Fundação Municipal de Saúde (FMS) de Teresina, assim como do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Integral Diferencial- FACID/Wyden, foi iniciada a coleta de dados. Os sujeitos foram convidados a participarem voluntariamente da pesquisa, após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias ficando com uma copia para si e outra para o pesquisador, sendo explicado o tema da pesquisa, metodologia, os objetivos, benefícios, riscos, duração e a disponibilidade dos pesquisadores sobre os esclarecimentos acerca do estudo. 2.2 Tipo de Pesquisa De acordo com os objetivos propostos, a pesquisa foi do tipo exploratória, descritiva com abordagem qualitativa. Segundo GIL (2010), a pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses e, tendo como principal foco o aprimoramento de idéias a descobertas de intuições. Para DYNIEWICZ (2009), a pesquisa descritiva tem como propósito observar, descrever, explorar, classificar e interpretar aspectos de fatos ou fenômenos. Buscam-se freqüência, característica, relação e associação entre variáveis. A pesquisa qualitativa segundo MINAYO (2006) busca compreender as questões com o nível de realidade que não podem ser quantificados, isto é, trabalhar com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. MARCONI & LAKATOS (2007), comentam também que a pesquisa qualitativa preocupa-se em analisar e interpretar aspectos profundos, descrevendo a complexidade do comportamento humano, fornecendo análise detalhada sobre as investigações, hábitos, atitudes, tendências de comportamento entre outros. Assim, preocupa-se com a compreensão dos significados. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 118 2.3 Local da Pesquisa A pesquisa foi realizada em 21 salas de vacina de Unidades Básicas de Saúde (UBS), localizadas na regional norte do município de Teresina, estado do Piauí (figura 1), as quais são vinculadas a Fundação Municipal de Saúde (FMS). Figura 1- Mapa das cinco regiões metropolitanas de Teresina e local de estudo. 2.4 Participantes do estudo Foram concedidas 19 entrevistas de técnicos de enfermagem que trabalham em salas de vacina de Unidades Básicas de Saúde, localizadas na regional norte do município de Teresina, estado do Piauí. Ocorrendo 2 recusas de participação da pequisa das 21 salas de vacina. A pesquisa teve como critérios de inclusão os profissionais de enfermagem que trabalham em sala de vacina há pelo menos um ano e, estabelecidos comocritérios de exclusão os profissionais de enfermagem que trabalham em sala de vacina e estejam de licença e/ou férias. 2.5 Coleta de dados A coleta de dados foi realizada por meio de uma entrevista semi estruturada, composta por questões abertas e fechadas (APÊNDICE D) referentes à exposição aos riscos ocupacionais durante a atividade laboral desses profissionais na sala de vacina, que aconteceu com agendamento prévio de três dias em cada sala de vacina, durante os meses de março a maio de 2016. Para a entrevista, foi estabelecido um tempo de 30 a 50 minutos com cada profissional de enfermagem, onde foi realizada a aplicação de um questionário (APÊNDICE D), o qual possui perguntas referentes aos riscos Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 119 ocupacionais e principalmente aos acidentes com perfuro cortantes. Conforme as respostas do entrevistado foram sendo realizadas perguntas para maiores informações. A abordagem das perguntas foi sobre o conhecimento dos riscos ocupacionais, como também a ocorrência, freqüência e, local de acidente com perfuro cortantes e a conduta a ser seguida em caso de acidentes. Quanto à avaliação do uso de EPI’s, os dados foram coletados por meio da aplicação do questionário (APÊNDICED) onde o profissional de enfermagem indicou o seu conhecimento referente aos equipamentos de proteção individual (máscaras, luvas, jaleco, óculos etc.), utilizados durante a sua atividade laboral e a correta utilização destes. Como também, foi realizada no mesmo questionário uma avaliação da postura do profissional de enfermagem por meio de perguntas, as quais abordaram a presença/ausência de dores ou formigamento em alguma parte do corpo, devido à atividade exercida nas salas de vacinas nos últimos 12 meses e, que possam estar ocasionando problemas que impeçam o desenvolvimento das atividades domésticas ou no trabalho. Para DYNIEWICZ (2009), a entrevista é o tipo mais comum de técnica de coleta de dados em pesquisa. Ela tem por finalidade obter informações verbais de uma parcela representativa de uma população. Seus objetivos são: atender aos propósitos da pesquisa; auxiliar, como, roteiro na coleta de dados; e ajudar a motivar o entrevistado. MINAYO (2006), afirma que a entrevista semi-estruturada permite que o informante exponha livremente suas ideias, apoiando-se numa pergunta previamente formulado pelo entrevistador. 2.6 Organização e Análise dos Dados Para a organização e apresentação dos resultados foram construídas categorias, de acordo com as temáticas que surgiram da fala dos participantes durante as entrevistas realizadas. A análise dos dados qualitativos foi realizada por meio da entrevista semi estruturada, onde os dados foram organizados em categorias de acordo os objetivos da pesquisa, para subjetivamente serem avaliados e posteriormente discutidos com base na literatura existente. Para MINAYO (2006),as categorizações são empregadas para estabelecer classificações, ou seja, agrupar elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger de um modo geral qualquer tipo de análise em pesquisa qualitativa. A análise temática compreende a pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 120 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO É importante salientar que dos entrevistados, a maioria não sabiam responder inicialmente o que era risco ocupacional, mesmo fazendo uma correlação das perguntas subseqüentes no decorrer da entrevista não conseguiam formar uma definição precisa sobre tais riscos. Quanto à exposição aos riscos ocupacionais A maioria achava que estava exposta apenas aos riscos biológicos e perfuro cortantes, não tendo conhecimento preciso sobre outros riscos ocupacionais como ergonômicos, pois, muitas vezes era necessário questionar o profissional de saúde para atingir o objetivo da pergunta, desse modo, quando questionado sobre os períodos de campanhas de vacinação relatavam que as várias funções atribuídas a um único profissional como solicitar o cartão, cadastramento/anotação no sistema para controle de vacinas, manuseio e administração da vacina, atendimento e organização da fila de espera, aliado as atividades repetitivas como sentar, levantar, digitar, anotar e baixar (para administração em crianças), desconforto devido a cadeiras inadequadas e falta de apoio nas mesas para os pés durante as atividades geram estresses e torna-os expostos aos riscos ergonômicos, podendo comprometer as atividades laborais. Caracterização da amostra Parâmetros avaliados Descrição Total Salas de vacinas Total 21 Entrevistas concedidas 19 Recusa de entrevista 2 Sexo dos entrevistados Feminino 17 Masculino 2 Tempo de atividade nas salas de vacinas < 2 anos 1 2-5 anos 9 > 5 anos 9 Faixa etária 25-35 anos 8 35-45 anos 5 > 45 anos 6 Locais de trabalho 1 Local 9 Em 2 locais 10 Tabela 1. Caracterização dos sujeitos envolvidos na pesquisa Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 121 As respostas dos entrevistados foram analisadas de modo que proporcionassem ao pesquisador abstrair as informações significativas que possibilitassem uma análise dos riscos e exposição dos profissionais relacionados ao seu laboro, levando em consideração os acidentes com materiais perfuro cortantes. Agruparam-se as falas de acordo com as diferenças e semelhanças percebidas nas respostas em categorias, a saber: exposição aos riscos ocupacionais, ocorrência de acidentes com perfuro cortantes nas salas de vacinas, avaliação da biossegurança aos profissionais de saúde na sala de vacina e problemas relacionados á ausência de ergonomia no ambiente laboral. 3.1 Exposições aos riscos ocupacionais Na análise das questões subjetivas com relação aos conhecimentos que o grupo estudado mostrou por meio das entrevistas, pode-se observar que uma pequena parte dos sujeitos da pesquisa possuíam algum conhecimento acerca dos riscos ocupacionais existentes no seu ambiente de trabalho, citando os riscos biológicos, físicos (radiações ionizantes)e perfurocortantes. Sendo seus depoimentos transcritos nos abaixo: “Risco que o profissional tem ao manusear materiais biológicos, radioativos, dentre outros no ambiente de trabalho”. “É tudo que pode ter risco a saúde. Por ex. perfuro-cortantes, imunobiológicos, contato com pacientes e posições ergonômicas”. “São riscos decorrentes das atividades exercidas no ambiente de trabalho”. Assim, o risco biológico foi o de maior evidência para os profissionais das salas de vacinas em estudo. Neste sentido, conforme o desenvolver da entrevista, tornou- se perceptível, na maioria dos relatos dos sujeitos, que os mesmos relacionavam o referido risco aos materiais perfuro cortantes. Citam também, que as atividades que envolvem contato físico direto com as pessoas, podem acarretar exposições às doenças infectocontagiosas durante a sua atividade laboral, conforme os relatos que seguem: “Exposição à doenças pelo fluxo de pessoas e perfuro cortante”. “Exposição à doenças aspiratórias pelo fluxo de pessoas” Exposição à doenças pelo fluxo de pessoas; contaminação por meio do manuseio da vacina; e perfuro cortante” No entanto, a maioria dos entrevistados pensavam que estavam expostos apenas aos riscos biológicos e perfuro cortantes, não tinham conhecimentos preciso em relação a outros riscos como os ergonômicos e químicos pois, muitas vezes era necessário outros questionamentos ao profissional de saúde para atingir o objetivo da pergunta, desse modo, quando questionado sobre os períodos de campanhas de Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 122 vacinação, os profissionais relatavam que as várias funções atribuídas a um único profissional como solicitar o cartão, cadastramento/anotação no sistema para controle de vacinas, anotação da vacina no cartão, manuseio e administração da vacina,atendimento e organização da fila de espera, todas estas atribuições geravam vários estresses durante esse período. As diversas atribuições durante as campanhas de vacinação relatadas pelos profissionais nas salas de vacinas, durante sua atividade laboral, condiz com as condições elencadas por MAURO et al. (2004), onde as condições precárias a que são expostos estes profissionais, principalmente pelo excesso de atividade laboral física e mental, acúmulo de horas trabalhadas, são fatores determinantes para ocorrência das doenças ocupacionais e acidentes do trabalho. Tais condições podem ser observadas na transcrição dos relatos dos entrevistados sobre os incômodos das salas de vacinas: “A carga excessiva de trabalho em período de campanha. Tanto na saúde mental (pelo estresse e cobrança), saúde física (esforço de trabalho na questão de sentar, levantar, se agachar)”. “As inúmeras vezes que sento e levanto para realizar anotações e vacinas” Constata-se também por meio de uma análise correlativa das diversas atribuições relatadas pelos profissionais durante as campanhas de vacinação que, somando- se as atividades repetitivas como sentar, levantar, digitar anotar e baixar (para administração em crianças), cadeiras sem conforto, falta de suporte para apoio dos pés durante o cadastramento/anotação no sistema, torna o profissional exposto aos riscos ergonômicos, o que pode comprometer futuramente suas atividades laborais. Pois, de acordo com Freitas et al. (2009), os profissionais de enfermagem são os mais afetados pelas lesões por esforço repetitivo (LER) tornando-os um grupo com probabilidade de desenvolver a LER, mesmo eles não tendo o conhecimento do risco que os acometem. 3.2 Ocorrência de acidentes com perfuro cortantes nas salas de vacinas A maior parte dos profissionais relataram que, durante suas atividades nas salas de vacina, já sofreram alguns acidentes com perfuro cortante. O relato da freqüência de acidente em um dos profissionais chegou à ocorrência de cinco vezes durante o tempo de sua atividade em sala de vacina. Em todos os relatos de acidentes com perfuro cortante, a agulha e a ampola de diluente foram os principais materiais geradores deste acidente. Tais relatos podem ser observados na transcrição da fala dos entrevistados conforme apresentado abaixo: “Sim, mais ou menos uns três anos com agulha” “Sim, há mais ou menos cinco anos com agulha e ampola de diluente” “Sim, freqüentemente ao abrir ampola de diluente” “Sim, várias vezes com agulha e ao abrir ampola de diluente” Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 123 A identificação da agulha como um dos principais materiais geradores de acidentes perfuro cortantes ao profissional de enfermagem está de acordo com os resultados encontrados por Marziale et al. (2004) onde os autores identificaram este objeto como causadores do maior número de acidentes com perfuro cortantes ao profissional de enfermagem. Em seu estudo Alves et al. (2009) identificaram que o potencial de risco para acidentes biológicos com material perfuro cortante aos profissionais de enfermagem está associado a inúmeros fatores combinados ou não. Entre esses fatores destacam- se: ausência ou uso inadequado dos EPIs, além da sobrecarga de atividades pelo número reduzido de profissionais. Tais fatores encontrados pelos autores podem estar relacionados também com os dados obtidos no presente estudo. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que anualmente ocorrem cerca de três milhões de acidentes percutâneos com agulhas contaminadas no mundo (Verçosa, et. al 2013). Porém, esta projeção pode ser subestimada, sobretudo pela ausência de sistemas de vigilância e pela sub notificação de acidentes (Salier et al., 2012). Segundo Oliveira et al. (2010), a escassez de estudos referentes à ocorrência de acidentes com perfuro cortantes em profissionais de enfermagem e, sua real freqüência são desconhecidas, devido à muitos profissionais não notificarem tais ocorrências conforme as orientações padrões. 3.3 Avaliação da biossegurança aos profissionais de saúde na sala de vacina Analisando os dados coletados na entrevista, pode-se constatar que o grupo estudado conhece os equipamentos de proteção individual (EPI’s) para a realização das atividades, porém, quando questionados quanto a utilização dos equipamentos de proteção, uma parte relatou que fazem uso isolado de luvas (principalmente), máscara, avental, touca e propés. Outra parte do grupo relatou que, mesmo os EPI’s estando à disposição (conforme constatado durante as entrevistas), eles não fazem uso corriqueiro durante o desenvolvimento da sua atividade laboral nas salas de vacinas e, seus usos ficam restrito apenas à luvas e máscaras durante as campanhas de vacinação e/ou suspeita de alguma doença infectocontagiosa.Sendo seus relatos transcritos abaixo: “Avental e, faço uso da máscara apenas em período de campanha”. “Uso a máscara só se estiver gripada”. “Só faço o uso da luva quando faço vacinação fora da sala de vacina (presídios) e em períodos de campanha”. Isto é um grave problema, pois, segundo Moura & Moura (2011), a conduta inadequada dos profissionais de saúde na não execução das normas de segurança por meio do uso dos equipamentos de proteção individual, aumentam consideravelmente Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 124 o risco de acidentes no ambiente de trabalho, uma vez que, estes profissionais estão expostos à vários riscos ocupacionais durante as suas atividades. Desse modo, estes os profissionais do estudo deveriam ser conscientes em relação à necessidade de conhecer e empregar adequadamente as normas de biossegurança e exigir segurança durante a sua atividade laboral. Isto é de fundamental importância, uma vez que estes profissionais est subestimando o risco de se infectarem por Anti-HIV, Ag Hbs, Anti- HBS, Anti-HCV. Estes profissionais que relataram os acidentes com perfuro cortantes, informaram que o único procedimento adotado após o acidente, foi a lavagem das mãos/dedos com sabão e água corrente. Como também, não realizaram nenhum procedimento de notificação destes acidentes e acompanhamento sorológico tanto do profissional quanto do paciente. Amaral et al. (2005) chama atenção que, após o acidente com materiais perfuro cortante, o profissional de enfermagem é o responsável em tomar a iniciativa da notificação, como também investigar as condições do paciente. Devendo ser realizado acompanhamento sorológico do profissional que se acidentou, com acompanhamento após 2 e 6 meses da ocorrência do acidente. Contudo, Oliveira et al. (2010) comentam que a sub notificação da ocorrência destes acidentes juntos aos setores responsáveis sãos as maiores dificuldades em adotar medidas preventivas e novas estratégias que reduzam o risco destes acidentes aos profissionais de enfermagem. Com isso, o profissional de saúde deve desenvolver um sentido de responsabilidade com relação à sua própria segurança. Para tal, é necessário obter conhecimentos específicos acerca de como podem ocorrer os acidentes de trabalho, bem como ser responsável pela manutenção da segurança do ambiente por meio das ações educativas. Neste contexto, a Norma Regulamentadora (NR) 32 objetiva o estabelecimento das diretrizes básicas para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral, preconiza o uso de EPI, a higienização das mãos, a vacinação contra hepatite B, tétano e difteria, entre outras disposições (BRASIL, 2005). 3.4 Problemas relacionados à ausência de ergonomia no ambiente laboral Para a Ergonomia, as condições de trabalho são representadas por um conjunto de fatores interdependentes, que atuam direta ou indiretamente na qualidade de vida das pessoas e nos resultados do próprio trabalho. Os profissionais entrevistados relataram que as dores na coluna e lombares, foram osprincipais problemas ocorridos nos últimos 12 meses acarretando na procura por médicos ortopedistas para avaliação do problema. Conforme em alguns dos relatos transcritos abaixo: “Sim, tenho procurado um ortopedista devido às dores lombares.” Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 125 “As dores na coluna fizeram procurar um ortopedista.” “Sim, dentro desse prazo, procurei um ortopedista e neurologista.” “Umas dores na coluna que surgiu na coluna me fez ir ao ortopedista.” Em vista disto, acredita-se que tais problemas possam está relacionado às condições físicas inadequadas no ambiente laboral, que aliado a atividades repetitivas relatadas pelos entrevistados acarreta no comprometimento da atividade laboral nas salas de vacina.Vale a pena ressaltar que dos 19 entrevistados 1 tinha mais de 60 anos, nos remetendo para profissionais adultos jovens que não deveriam, via de regra, desenvolver problemas na coluna pois tal patologia está mais ligado aos profissionais idosos.Segundo Altoé et al., (2013), algumas organizações e grupos de pesquisa destacam os trabalhadores de enfermagem como sendo os profissionais que têm maior risco a desenvolver problemas relacionados a coluna dorsal. Os fatores extra laborais como problemas posturais aliados aos fatores laborais como observados no presente estudo, podem interferir no desenvolvimento do trabalho destes profissionais.Seguindo neste contexto, estudos de Barbosa et al;(2008) e Alencar et al; (2010)demonstram que aproximadamente 80% dos trabalhadores de enfermagem estão propensos a adquirir os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) devido a constante exposição a condições inadequadas de trabalho. 4 | CONCLUSÃO Pode-se constatar que nas Unidades Básicas de Saúde pesquisadas não se constatou a presença de notificação dos casos de acidentes com perfuro cortantese outros acidentes relacionados ao desenvolvimento das atividades laborais dos profissionais de enfermagem. Os profissionais que trabalham nas salas de vacinas estão expostos aos riscos ocupacionais, principalmente os biológicos, perfuro cortantes e ergonômicos. Aliado as atribuições impostas aos profissionais nas salas de vacinas durante as campanhas de vacinação geram um grande estresse (risco psicossocial) ao profissional, podendo futuramente repercutir em sua saúde; A não notificação dos acidentes com perfuro cortantes que ocorre nas salas de vacinas repercute numa sub notificação, o que dificulta a obtenção de dados sobre a real incidência destes acidentes nestes ambientes laborais. Desse modo recomendam- se outros estudos nas demais unidades das salas de vacinas nas outras regionais para que sejam levantados tais problemas. A não utilização dos equipamentos de proteção individual por uma parte dos entrevistados aumenta a exposição aos riscos ocupacionais e de acidentes com perfuro cortantes. Diante da realidade conferida na presente pesquisa, faz-se necessário investir Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 126 no processo educativo, implementar treinamentos, cursos e palestras voltadas para a conscientização dos profissionais de saúde, visando reduzir a exposição aos riscos e a prevenção de riscos ocupacionais. Este estudo representou um ganho de informações para a comunidade acadêmica e profissional acerca da identificação dos riscos ocupacionais para adoção de medidas preventivas dentro das salas de vacinas. Trouxe dados que pode fomentar mudanças de postura, como também levantamento de informações para possível tomada de decisões por parte de gestores visando a saúde e integridade física do trabalhador durante sua atividade laboral. REFERÊNCIAS ALEXANDRE, N.M.C. Ergonomics and the occupacional activities of the nursing staff. Rev Esc Enferm USP, n.32(1), p:84-90. 2012 ALTOÉ, A.A., ESCUDEIRO, C.L., SILVINO, Z.R. Condições ergonômicas laborais para os trabalhadores de enfermagem: revisão integrativa da literatura. Rev enferm UFPE on line, v.7, p:857-61, 2013. ALVES, S.S.M., PASSOS, J.P., TOCANTINS, F.R. Acidentes com perfurocortantes em trabalhadores de enfermagem: uma questão de biossegurança. Rev. enferm. UERJ, v.17(3), p:373-377, 2009. AMARAL, S.A; SOUSA, A.F.S; RIBEIRO, S.O; OLIVEIRA, M.A.N. Acidentes com material perfurocortante entre profissionais de saúde em Hospital Privado de Vitória da Conquista – BA. Sitientibus. v.33, p:101-14, 2005. ANDRADE, A.C.; SANNA, M.C. Ensino de Biossegurança na Graduação em Enfermagem: uma revisão da literatura. Rev. Bras. Enferm., v.60, n.5, p:569-72, 2007. ARAÚJO, T.M.E; SILVA, N.C. Acidentes perfurocortantes e medidas preventivas para hepatite B adotadas por profissionais de Enfermagem nos serviços de urgência e emergência de Teresina, Piauí. Rev. bras. Saúde ocup. v.39, n:130, p:175-183, 2014. BAKKER, H. A.; ARAÚJO, N.M.C. Acidentes de trabalho com profissionais de saúde de um hospital universitário. Produção, v. 20, n. 4, out./dez, p:669-676, 2010. BARBOZA, M.C.N, MILBRATH, V.M., BIELEMANN, V.M., SIQUEIRA, H.C.H. Doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT) e a sua associação com a enfermagem ocupacional. Rev Gaúcha Enferm, 2008 BISETTO, L.H.L.; CUBAS, M.R.; MALUCELLI, A. A prática da enfermagem frente aos eventos adversos pós-vacinação. Rev Esc Enferm. v.45, n.5, p:1128-1134, 2011. BRASIL Portaria nº 2.728, de 11 de novembro de 2009: Dispõe sobre a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) e dá outras providências 8p. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Portaria n° 1.125, de 6 de julho de 2005: dispõe sobre os propósitos da política de saúde do trabalhador para o SUS [Internet]. Brasília (DF); 2005. Disponível em: http://dtr2001.saude.gov.br/sas/PORTARIAS/Port2005/GM/GM-1125.htm. Acessado em: 18 de maio de 2015. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. DEPARTAMENTO DE VIGILÂNCIA DAS DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS. Manual de Normas e Procedimentos para Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 127 Vacinação. Ministério da Saúde- Brasília, 2014, 176p. BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Norma Regulamentadora Nº 32: Segurança e saúde no Trabalho em serviços de saúde. Diário oficial da União. 16 de novembro de 2005, 35p. BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Norma Regulamentadora Nº 6: Equipamento de Proteção Individual - EPI. Diário oficial da União. 13 de novembro de 2009, 7p CARVALHO, C.M.R.S; MADEIRA, M.Z.A; TAPETY, F. I; ALVES, E.L.M; MATINS, M. C.C.C; BRITO, J.N.P.O. Aspectos de biossegurança relacionados ao uso de jalecos pelos profissionais de saúde: uma revisão da Literatura. Texto Contexto Enfermagem, v.2, n.18, p.355-60, 2009. DIAS E.C.; HOEFEL M.G. O desafio de implementar as ações de saúde do trabalhador no SUS: a estratégia da RENAST. Ciência Saúde Coletiva, v.10, p:817-827, 2005. ESPINDOLA, M.C.G.; FONTANA, R. T. Riscos ocupacionais e mecanismos de autocuidado do trabalhador de um centro de material e esterilização. Rev Gaúcha Enferm. v.33, n.1, p:116-23, 2012. FARIAS, G. S.; OLIVEIRA, C. S. Riscos Ocupacionais Relacionados aos Profissionais de Enfermagem na UTI: Uma Revisão. Braz. J. Health, v.3, n.1, p:1-12, 2012. GALLAS, S.R.; FONTANA, R.T. Biossegurança e a enfermagem nos cuidados clínicos: contribuições para a saúde do trabalhador. Rev Bras Enferm. v.63, n.5, p:786-92, 2010. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 5ª edição. Atlas, 2010. MARCONI, M.A; LAKATOS, E.V. Metodologia do trabalho científico. 7ªedição. Atlas. 2007. 244p. MARZIALE, M.H.P, RODRIGUES, C.M. A produção científica sobre os acidentes de trabalho com material perfuro cortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem, v.10(4), p:571-577,2002. MARZIALE, M.H.P, NISHIMURA, K.Y.N., FERREIRA, M.M. Riscos de contaminação ocasionados por acidentes de trabalho com material perfurocortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem, v.12(1), p:36-42, 2004 MINAYO, M.C.S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 32ª edição. Vozes.2006. 108p. MOURA, L.K.B., MOURA, M.E.B. O conhecimento cotidiano do risco ocupacional. Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, v.4 (3), p:31-38, 2011. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). A prevenção das doenças profissionais. 1ª edição. Bureau. 2003. 20p RAPPARINI, C. Manual de implementação: programa de prevenção de acidentes com perfurocortantes em serviços de saúde. FUNDACENTRO. São Paulo, 2010. 161p. RIBEIRO, E.J.G.; SHIMISU, H.E. Acidentes de trabalho com trabalhadores de enfermagem. Rev Bras Enferm. v.60, n.5, p:535-40, 2007. SAILER, G.C & MARZIALE M.H.P. Vivência dos trabalhadores de enfermagem frente ao uso de antirretrovirais após exposição ocupacional a material biológico. Texto Contexto Enferm, v.16(1), p. 55-62, 2007. SARQUIS, L.M.M.; FELLI, V.E.A. Os sentimentos vivenciados após exposição ocupacional entre Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 12 128 trabalhadores de saúde: fulcro para repensar o trabalho em instituições de saúde. Rev. bras. Enferm. v.6, n.5, p 701-704, 2010. TAVARES, A. Saúde ocupacional: Acidentes do trabalho e Doenças profissionais. Orientações técnicas. Arsavit. 2013. 69p. VEIRA, M.; PADILHA, M.I.; PINHEIRO, R.D.C.Análise dos acidentes com material biológico em trabalhadores da saúde.Rev. Latino-Am. Enfermagem. v.19, n.2, p:01-08, 2011. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 129 CAPÍTULO 13 AVALIAÇÃO DO ABSENTEÍSMO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM – REVISÃO INTEGRATIVA Anny Caroline dos Santos Olímpio Graduada em Enfermagem no Instituto Superior de Teologia Aplicada (INTA), Sobral – Ce. João Breno Cavalcante Costa Graduado em Enfermagem no Instituto Superior de Teologia Aplicada (INTA), Sobral – Ce. Ana Íris Mota Ponte Centro Universitário-UNINTA Santana do Acaraú-Ceará Maria Gleiciane Cordeiro Centro Universitário-UNINTA Santana do Acaraú-Ceará; Benedita Beatriz Bezerra Frota Centro Universitário-UNINTA Sobral-Ceará; Carlos Henrique do Nascimento Morais Centro Universitário-UNINTA Acaraú-Ceará; RESUMO: A enfermagem se expandiu enquanto ciência e classe profissional, em virtude da rotina de trabalho muitas vezes duplicada devido à falta de profissionais em algumas regiões e a baixa remuneração, o profissional de enfermagem se torna vulnerável a desgaste físico e/ou emocional, ao longo de sua vida laboral. Nessa perspectiva, as exigências institucionais estão cada vez maiores, favorecendo a insatisfação, ao adoecimento físico e psicológico, e por consequência ao absenteísmo de profissionais da enfermagem. Deste modo, o absenteísmo se refere às ausências de trabalho devido a licenças, férias, faltas justificativas e inclui também as suspensões ou as ausências por faltas injustificadas. Este estudo é o resultado de uma revisão integrativa, que visou conhecer produções científicas nacionais publicadas no período de 2010 a 2014. Dentre os estudos disponibilizados, sintetizou 12 trabalhos científicos. Emergiram as categorias: Características dos artigos, principais causas e doenças que acarretavam o absenteísmo nos profissionais de enfermagem, consequências geradas no serviço de enfermagem e as estratégias utilizadas para reduzir o absenteísmo no serviço de enfermagem hospitalar. Permitiu- se identificar que a avaliação do absenteísmo na equipe de enfermagem além de fornecer informações a respeito do estado de saúde dos trabalhadores e riscos ocupacionais, pode favorecer a identificação das condições de trabalho que levam ao adoecimento da equipe de enfermagem, por isso torna-se tão importante o reconhecimento das circunstâncias que o envolvem, servindo de ferramenta para avaliação da saúde do trabalhador e adoção de medidas preventivas em benefício da qualidade da assistência ao paciente. PALAVRAS-CHAVE: Absenteísmo; Enfermagem; Trabalho. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 130 1 | INTRODUÇÃO Nos dias atuais sabemos que a segurança do trabalho e saúde são indispensáveis quando a finalidade é conservar um ambiente de trabalho saudável e produtivo na organização. A importância da segurança deve ser valorizada todos os dias pelas empresas e seus colaboradores devido sua relevância e deve ser ainda ser praticada por todos que se preocupam com sua própria saúde (SELL, 2012). De acordo com, as mudanças nos processos de trabalho, em que as novas tecnologias acentuam a utilização da informatização e da automação, trouxeram importantes modificações na organização dos serviços de saúde, especialmente no contexto hospitalar (UMANN et al., 2011). No contexto hospitalar, a enfermagem constitui-se na maior força de trabalho, sendo exercida pelas categorias profissionais: enfermeiro, técnico e auxiliar de enfermagem (OLIVEIRA et al., 2011). Lorenzetti et al. (2014) diz que as atividades de gestão são constitutivas da prática da enfermagem, em especial do enfermeiro, desde a institucionalização da profissão, em meados do século XIX. Destaca-se nesse contexto a atuação dos enfermeiros em cargos de direção nos diversos níveis das instituições de saúde, desde a direção de unidades básicas de saúde, funções em nível central das esferas municipal, estadual e federal, bem como direção de órgãos de enfermagem em instituições hospitalares e coordenação de unidades assistenciais neste nível de atenção. A enfermagem se expandiu enquanto ciência e classe profissional, mantendo sua essência que é o cuidar, estando presente ao lado de quem necessita de sua assistência 24 horas por dia. Em virtude da rotina de trabalho muitas vezes duplicada devido à falta de profissionais em algumas regiões e a baixa remuneração, o profissional de enfermagem torna-se vulnerável a desgastes físicos e/ou emocional, ao longo de sua vida laboral. Por ser uma profissão cuja mão de obra é basicamente feminina, estas trabalhadoras, por vezes são as mantenedoras financeiras de suas famílias e acumulam a jornada de trabalho duplas ou até triplas, somando as atividades do lar, condições que favorecem ao estresse e o aparecimento de doenças que geralmente desencadeiam possíveis ausências no local de trabalho, comprometendo, portanto a gestão e a prestação do cuidado (OLIVEIRA et al., 2011). Nessa perspectiva, as exigências institucionais estão cada vez maiores, a carga horária excessiva, a dupla jornada de trabalho, a necessidade de manter mais de um emprego, aliado ao desgaste físico e mental, as condições impostas de trabalho muitas vezes desfavoráveis, favorece a insatisfação do trabalhador, ao adoecimento físico e psicológico, e por consequência ao absenteísmo destes trabalhadores. O absenteísmo diz respeito à falta de assiduidade ao trabalho e a outras obrigações sociais. As causas para essas faltas podem variar, desde situações planejadas (folgas, férias e feriados), e situações que são imprevisíveis, as quais Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 131 caracterizam, de fato, o absenteísmo, sendo essas as faltas não justificadas, acidente de trabalho, licenças médicas, licença maternidade e paternidade, período de gala, nojo e demais circunstâncias que impeçam o trabalhador de cumprir com o seu papel (FEIX et al., 2018) Segundo Flores et al. (2016), as acentuadas transformações no mundo do trabalho têm suscitado uma crescente preocupação com relação à saúde do trabalhador como ação preventiva do absenteísmo. A presença do absenteísmo excessivo traz consequências desastrosas às organizações, refletindo sobremaneira na queda da produtividade e no consequente aumento dos custos da produção. Por outro lado, o fenômeno do absenteísmo, numa perspectiva sistêmica de análise das relações homem trabalho organização, pode ser tomado como sinal, e porque não dizer ‘sintoma’, de que também o trabalho, tal como se encontra em desenvolvimento no seio da organização, afeta o trabalhador de forma prejudicial, ou seja, a existência do absenteísmo em grau significativo denuncia a atuação negativa e destrutiva de um mal estar e, portanto, prejuízos que ocorrerãonuma via de mão dupla: atingindo primeiramente o corpo e o psiquismo do trabalhador e a já citada produtividade organizacional secundariamente. No entanto, deve-se considerar que o trabalho também pode significar sofrimento psíquico, alienação, comprometimento da saúde física e mental do trabalhador. O absenteísmo na enfermagem implica diretamente: Queda na qualidade da assistência, sobrecarga de atividades, falta de motivação do profissional ativo, risco na saúde do trabalhador comprometido e aumento dos custos financeiros despendidos com horas extras para a instituição. A remuneração das profissionais de enfermagem também pode estar associada ao absenteísmo, pois os salários baixos podem implicar na necessidade de dois ou até mais empregos causando sobrecarga, que podem levar a faltas injustificadas (ARAUJO, 2015). Diante do exposto, estudos sobre a temática são importantes para ampliar o entendimento a respeito do assunto, conhecer o perfil dos profissionais de enfermagem, as principais causas e doenças que geram o afastamento, identificar as consequências que resultam estas ausências para a equipe de enfermagem e as estratégias utilizadas para reduzir este índice no serviço de enfermagem. 2 | OBJETIVOS 2.1 Geral Conhecer as produções científicas nacionais, resumos de artigos, publicados no período de 2010 a 2014, abrangendo o tema absenteísmo dos profissionais de enfermagem. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 132 2.2 Específicos • Descrever as causas e principais doenças nos profissionais de enfermagem que geram o absenteísmo; • Apresentar as consequências que o absenteísmo na equipe de enfermagem acarreta; • Elencar as estratégias para reduzir o absenteísmo dentro do serviço de en- fermagem. 3 | METODOLOGIA 3.1 Tipo de estudo A revisão integrativa se desenvolve em seis etapas: definição do problema e formulação da questão de pesquisa, critérios de inclusão e exclusão de estudos, categorização dos estudos, interpretação dos resultados, apresentação da revisão e resultados/síntese do conhecimento. (MENDES et al., 2008) 3.2 Definição do problema/ Questões Norteadoras A produção científica a respeito sobre o absenteísmo na enfermagem apresenta muitas variáveis envolvidas, portanto é relevante aprofundar-se na temática. O que tem sido produzido na literatura científica sobre absenteísmo na equipe de enfermagem no contexto hospitalar? 3.3 Coleta de dados A coleta de dados foi realizada em setembro de 2015 através da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), onde contém Base de Dados de Enfermagem (BDENF), a Literatura LatinoAmericana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) e entre outras, por serem amplas e apresentarem rigor científico para indexação dos periódicos. Foram utilizados os descritores em ciências da saúde (DECs): Absenteísmo e Equipe de enfermagem. Estes foram utilizados associados através do operador boleano and, a fim de tornar a busca de dados mais objetiva. Os critérios de inclusão: trabalhos científicos sobre absenteísmo completos, de acesso online, de acesso livre, em idioma português, publicados no período de 2010 a 2014. Os critérios de exclusão: Publicações que não respondem as perguntas norteadoras proposta nesta revisão. Artigos duplicados na mesma base de dados, ou encontrados em mais de uma base, foram considerados uma única vez. A busca de trabalhos científicos se deu conforme descrito: capturados 111 trabalhos científicos, selecionados somente os textos completos, com títulos a respeito Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 133 do absenteísmo, em idioma português e publicado nos últimos cincos anos (2010, 2011, 2012, 2013 e 2014), totalizaram 25 trabalhos, entre estes, 14 estavam duplicados em outras bases de dados ou não atendiam a pergunta norteadora desta pesquisa. Sintetizando 12 trabalhos científicos para serem analisados. E estão divididos da seguinte forma: 04 na Base de Dados de Enfermagem (BDENF), 09 em Literatura LatinoAmericana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e 01 na (MEDLINE). 3.4 Instrumento para coleta de dados Utilizou-se uma ficha na qual foram registrados os dados de identificação e demais informações extraídas dos 12 trabalhos científicos, a fim de facilitar a análise e interpretação dos dados para respectiva síntese e comparação. Após o preenchimento da ficha de cada artigo, estes foram numerados de acordo com o ano e mês de publicação dos trabalhos, iniciando do antigo ao mais recente. Dessa forma cada artigo foi relacionado a um algarismo numérico de 1 a 12. 4 | APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS Na tabela 1 apresenta-se a caracterização dos artigos de acordo com os títulos e autores das pesquisas, ordenados de acordo com o ano de publicação, iniciando do mais antigo ao mais recente. Nº Título Autores 1 Absenteísmo na enfermagem: Uma revisão integrativa. Martinato, M.C.N.B. et al. 2 Absenteísmo na equipe de enfermagem no contexto hospitalar. Umann, Juliane. et al. 3 Taxa de absenteísmo da equipe de enfermagem como um indicador de gestão de pessoas. Sancinetti, T.R. et al. 4 Absenteísmo dos trabalhadores de enfermagem em um Hospital Universitário do estado do Pernambuco. Ferreira, E.V. et al. 5 Absenteísmo na equipe de enfermagem: Uma revisão de literatura. Lemos, M.C. et al. 6 Preditores de absenteísmo na enfermagem de um Hospital Universitário: Estudo de coorte. Souza, L.M de 7 Impacto econômico do absenteísmo de enfermagem por doença em um Hospital Universitário do Rio de Janeiro–RJ. Pinheiro, M.A.S 8 Absenteísmo entre trabalhadoras de enfermagem em UTI de Hospital Universitário. Carneiro. T.M.; Fagundes, N.C 9 Abordagem multifatorial do absenteísmo por doença em trabalhadores de enfermagem. Ferreira, R.C. et al. 10 Absenteísmo – Doença na equipe de enfermagem em um Hospital Público. Oliveira, L.B.M de 11 Absenteísmo por doença na equipe de enfermagem de uma operadora de plano de saúde. Formenton, A. et a. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 134 12 Motivos atribuídos por profissionais de uma UTI para ausência ao trabalho. Abreu, R.M.D de et. al. Tabela 1 – Descrição dos números, título e autores dos artigos selecionados para Revisão Integrativa. Sobral, 2015. Fonte: OLÍMPIO, A.C. Avaliação do absenteísmo dos profissionais da enfermagem, 2015. Na tabela 2 apresenta-se o ano de publicação, o estado de origem, o tipo de estudo, o local onde foram realizadas as pesquisas e a população/amostra escolhida. Nº Ano Estado Tipo de estudo Campo População/Amostra 1 2010 RS Rev. Integrat. Prod. Científicas Prof. enfermagem 2 2011 RS Rev. Integrat. Prod. Científicas Prof. enfermagem 3 2011 SP Explor. Quantit. H. Universitário Enf° (148)Téc/Aux (465) 4 2011 PE Explor. Quantit. H. Público (349) Prof. enfermagem 5 2012 RJ Rev. Literat. Prod. Científicas Prof. enfermagem 6 2012 RS Coorte Quantit. H. Universitário (254) Prof. enfermagem 7 2012 RJ Doc. Retrosp. H. Universitário Prontuários de prof. enf 8 2012 BA Descrit. Quantit. H. Universitário Enf° (23)Téc/Aux (41) 9 2012 RJ Seccional Transv. H. Público (1509) Prof. enfermagem 10 2014 MG Doc. Quantit. H. Público Enf° (157)Téc/Aux (899) 11 2014 SP Descrit. Retrosp. UPA (202) Prof. enfermagem 12 2014 MG Explor. Qualit. UTI (41) Prof. enfermagem Tabela 2 – Descrição do ano de publicação, local de estudo (Estado), tipo e campo, população e amostra da pesquisa. Sobral, 2015. Fonte: OLÍMPIO, A.C. Avaliação do absenteísmo dos profissionais da enfermagem, 2015. Na tabela 3 consta origem dos autores (local de trabalho), periódico de publicação e objetivos das pesquisas. N° Origem do autor Periódico Objetivos Gerais 1 Univ. Rev Gaúcha Enferm. Conhecer as produções científicas nacionais que abordam o absenteísmo dos profissionais de enfermagem, publicadas no período de 2003 a 2008. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 135 2 Univ. Rev Cienc. cuidado,saúde Identificar na literatura científica as produções existentes acerca do absenteísmo na enfermagem no contexto hospitalar. 3 Univ/Serv. Rev Escola Enferm. USP Analisar a taxa de absenteísmo dos profissionais de enfermagem de um hospital público de ensino. 4 Univ/Serv. Rev Rene Identificar e analisar as causas de absenteísmo dos trabalhadores de enfermagem do serviço de internação através de auditoria em fichas de afastamentos não programados. 5 Univ. Rev Cuidado é fundamental online Identificar as causas do absenteísmo na equipe de enfermagem, mediante revisão de literatura e analisar suas implicações para a enfermagem. 6 Univ. Tese Analisar as características individuais, o estresse laboral e os dist. psiquiátricos menores como preditores de absenteísmo em trabalhadores de enfermagem. 7 Univ. Dissertação Identificar as causas prevalentes de afastamento no hospital universitário de acordo CID10; Estimar os custos diretos mínimos das doenças que afastam o trabalhador de enfermagem. 8 Univ. Rev de enferm. UERJ Levantar as taxas de absenteísmo entre trabalhadoras em enfermagem e definir índice de segurança (IST) que melhor se ajusta à realidade pesquisada. 9 Univ. Rev Saúde Pública Analisar fatores associados ao absenteísmo por doenças autorreferido em trabalhadores de enfermagem. 10 Univ. Dissertação Analisar os índices absenteísmo-doença da equipe de enfermagem de um hospital público de Belo Horizonte referente ao ano de 2013. 11 Univ. Rev de enferm. UERJ Analisar o absenteísmo-doença da equipe de enfermagem de uma operadora de plano de saúde do interior de São Paulo. 12 Univ. Rev Brasileira de Enferm. Identificar os motivos atribuídos pelos profissionais de enfermagem para as faltas no trabalho. Descrever as alternativas propostas pelos profissionais para redução do absenteísmo. Tabela 3 – Descrição de origem dos autores (universidade/serviço), períodico de publicação e objetivos do estudo. Sobral, 2015. Fonte: OLÍMPIO, A.C. Avaliação do absenteísmo dos profissionais da enfermagem, 2015. Na tabela 4 estão descritas as causas e principais doenças que acarretam para o absenteísmo nos profissionais de enfermagem. Resultados apresentados nas pesquisas selecionadas: Causas do absenteísmo Artigos Doenças que geram absenteísmo Artigos Doença 1,2,3,7,8,9,10 Problemas de saúde mental 1,2,3,4,6,79 Pressões psicológicas 1,3,5,12 Doenças Ósteomusculares 1,2,4,6,7,9 Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 136 Condições de trabalho desfavoráveis 1,4,5,9,12 Doenças respiratórias 1,2,4,8,11 Acidentes de trabalho 1,2,5 Doenças do aparelho geniturinário 1,4,8 Acompanhamento familiar 2,4 Doenças oftaolmológicas 4 Categoria profissional 2,3,6,8,9,10,11 Cirurgias 4 Unidades com maior complexidade 2,3,6,8,1011,12 Vínculo empregatício 2,9,12 Ausência não programada 3,4,5,8,10 Gênero 4,6,9,10, 11,12 Sobrecarga de trabalho 5,6,9,12 Insatisfação com o trabalho 5,6,12 Tabela 4 – Descrição referente aos principais resultados apresentados nas pesquisas, como: Causas e principais doenças que geram o absenteísmo nos profissionais de enfermagem. Sobral, 2015. Fonte: OLÍMPIO, A.C. Avaliação do absenteísmo dos profissionais da enfermagem, 2015. Na tabela 5 estão descritas as consequências geradas no serviço de enfermagem devido ao absenteísmo dos profissionais de enfermagem. N° Consequências do absenteísmo no serviço de enfermagem 1 Sobrecarga de trabalho para os trabalhadores presentes, podendo prejudicar sua saúde, ocasionando desgaste físico, psicológico, social e espiritual; e, como consequência, o adoecimento. 2 Queda na qualidade da assistência, sobrecarga de atividades, falta de motivação do profissional ativo, risco na saúde do trabalhador comprometido e aumento dos custos financeiros despendidos com horas extras. 3 Não cita. 4 Interfere no cuidado ao cliente, sobrecarrega os demais integrantes da equipe podendo levar ao adoecimento. Afeta a qualidade de trabalho em equipe e principalmente, reflete na qualidade da assistência ao cliente que usufrui do serviço de saúde, impulsionando negativamente o empenho dos profissionais em manter o cuidado ao cliente. 5 Sobrecarga de trabalho, exigindo um ritmo mais acelerado de trabalho para que a demanda seja atendida. Além do adoecimento, há também a redução na qualidade da assistência, prejuízo para os usuários do serviço e a tensão e insatisfação dos profissionais da mesma equipe, favorecendo as condições inseguras de trabalho, podendo culminar em acidentes. 6 Sobrecarga de trabalho, diminuição da capacidade de trabalho e desgaste físico e psicológico. Ritmo acelerado e volume excessivo de trabalho. 7 Problemas organizacionais. Gasto financeiro das instituições. 8 Interfere negativamente na qualidade da assistência prestada por desorganizar o serviço, gerar insatisfação e sobrecarga entre as trabalhadoras presentes, principalmente quando não previsto ou sem tempo hábil para a tentativa de cobertura do plantão. 9 Não cita. 10 Queda na qualidade da assistência ao paciente e elevação dos custos institucionais. 11 Não cita. 12 Desestruturação do serviço, sobrecarga de trabalho e consequentemente, insatisfação dos trabalhadores presentes. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 137 Tabela 5 – Descrição das consequências geradas devido ao absenteísmo no serviço de enfermagem. Sobral, 2015. Fonte: OLÍMPIO, A.C. Avaliação do absenteísmo dos profissionais da enfermagem, 2015 Na tabela 6 estão descritas as estratégias para reduzir o absenteísmo entre os profissionais de enfermagem. N° Estratégias para reduzir o absenteísmo 1 Utilização de instrumentos de dimensionamento de pessoal de enfermagem. Uso de ações preventivas, para tornar as condições de trabalho mais adequadas. 2 Investigações com foco na percepção dos profissionais acerca de sua saúde e das condições de trabalho que estão expostos. Investigações sobre perda de produtividade dos indivíduos causada por situações de desgaste no trabalho. 3 As gerências de enfermagem adotarem e monitorarem o indicador taxa de absenteísmo, a fim de possibilitar melhorias contínuas no processo de gestão das pessoas, revisar os processos e as condições de trabalho, bem como contribuir para a obtenção de argumentos a favor da reformulação das políticas públicas de contratação dos profissionais de enfermagem, principalmente no que se refere à substituição daqueles afastados em licença pelo INSS. 4 Utilização de programas de prevenção à saúde do trabalhador. Um investimento na área de recursos para motivação e elevação da autoestima dos profissionais. 5 Promover a organização do trabalho e o planejamento de recursos humanos na enfermagem, como dimensionamento de profissionais, para fornecer subsídios e enriquecer o poder de argumentação frente a administração da instituição, para melhorar as condições de trabalho. 6 Utilização de programas de prevenção e promoção da saúde e da qualidade de vida dos trabalhadores 7 Avaliar o absenteísmo dos profissionais regularmente para identificar as causas reais do absenteísmo por doença, a fim de definir metas para os programas de intervenção à saúde dos trabalhadores e promover uma Gestão participativa que favoreça uma análise do processo de trabalho. 8 Análise periódica das condições de trabalho na UTI. Promoção de uma pausa para descanso durante cada plantão, criação de canais de escuta da opinião e sugestões das trabalhadoras sobre as condições para execução da assistência na unidade, bem como de um programa de ginástica laboral durante o horário de trabalho. Criação de grupos para estudar formas de melhorar as condições de trabalho, promoção de educação permanente in loco sobre os riscos ocupacionais e criação de um canal de comunicação entre a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), o serviço de saúde ocupacional e a UTI. 9 O fenômeno deve ser analisado sob a perspectiva do processo de trabalho, da cultura organizacionale de aspectos diretamente relacionados à saúde de trabalhadores de enfermagem. 10 Monitorizar e avaliar sistematicamente por meio de indicadores e em associação com uma Política de Gestão de Pessoas que vise à melhora da qualidade de vida no trabalho. 11 Reconhecer as causas que geram o absenteísmo entre os profissionais de enfermagem para priorização de estratégias de intervenção no ambiente de trabalho e as instituições investirem na criação de banco de dados com informações consistentes sobre os trabalhadores, de modo a permitir o monitoramento sistematizado das ocorrências. 12 Chefias adotem estratégias gerenciais que valorizem o trabalhador. Adequações e remanejamentos na elaboração da escala de enfermagem. Incentivo da chefia quanto a realização de cursos de aperfeiçoamento em horários compatíveis dos trabalhadores. Realizar reuniões periódicas envolvendo todos da equipe. Readequação do numero de profissionais da equipe, o que eles consideram como apoio para reduzir a sobrecarga de trabalho na unidade. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 138 Tabela 6 – Descrição das estratégias para reduzir o absenteísmo dos profissionais de enfermagem. Sobral, 2015. Fonte: OLÍMPIO, A.C. Avaliação do absenteísmo dos profissionais da enfermagem, 2015. O absenteísmo por doença dos profissionais de enfermagem é um problema importante e descrito como um fenômeno multifatorial e complexo, e que, portanto, necessita ser analisado sob a perspectiva do processo de trabalho, da cultura organizacional e de aspectos diretamente relacionados à saúde de trabalhadores de enfermagem. Embora ele não seja a única questão que interfere na qualidade do cuidado de enfermagem, tem sido apontado como uma das variáveis que necessita ser analisada pela instituição de saúde. Partindo-se dos resultados analisados, visualizaram-se pesquisas mais nos anos de 2011 e 2012. No qual 90% foram realizadas nas regiões sul e sudeste do País. Apresentando o artigo científico como modalidade mais predominante, sendo realizadas pesquisas no próprio serviço, especificamente nos hospitais, o que torna mais próximo da realidade enfrentada por estas instituições, a respeito desta problemática para o serviço, o absenteísmo. Abreu et al. (2012) cita que o absenteísmo entre os profissionais de enfermagem tem sido uma preocupação constante dos gestores hospitalares, sendo comprovado pela literatura científica como uma questão de relevância significativa, que merece um aprofundamento no conhecimento de suas causas e na proposta de ações para redução dos índices de ocorrência no âmbito hospitalar. Percebe-se que os autores atuam nas universidades, sendo à maioria docente destas instituições e tem como predominância a pós-graduação e doutorado como títulos, fato que pode estar associado ao número de programas de pós-graduação existentes nestas regiões, o que se confirma com os dados da Tabela 3. A revista de enfermagem predomina como meio de veiculação das pesquisas científicas selecionadas, o que torna importante para promover o desenvolvimento científico e respectivo consumo e aplicação dos conhecimentos publicados na prática profissional da enfermagem. Quanto aos objetivos propostos também apresentados na Tabela 3, estão coerentes com os resultados encontrados nas pesquisas, tendo como foco as causas do absenteísmo na equipe de enfermagem, o que representa que os autores se preocupam em aproximar-se das dificuldades enfrentadas pelos profissionais, assim intervindo na causa, que tem como característica e complexidade, sua multifatoriedade. Como afirma Sancinetti et al. (2011), a etiologia do absenteísmo é reconhecida, por diferentes autores, por seu caráter multifatorial, que contribui para aumentar a sua complexidade. Apontam-no como decorrente de uma ou mais causas tais como: fatores de trabalho, sociais, culturais, de personalidade e doença, geográficos, organizacionais e individuais, físicos, psíquicos, doenças ocupacionais e fatores ambientais. Dentre as principais causas do absenteísmo na equipe de enfermagem Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 139 apresentadas foram doenças, dentre estas as osteomusculares e problemas de saúde mental (depressão, insegurança de manter-se no emprego exigente, estresse e tensão), as condições desfavoráveis de trabalho (carga horária excessiva, ambientes insalubres, ritmo acelerado de trabalho, indisponibilidade das chefias de conversar, baixos salários). Unidades de alta complexidade interferem neste índice por exigirem mais dos profissionais, não havendo profissionais para substituí-los, realizando horas extras, ultrapassando carga horária, tarefas mais complexas, uma maior demanda na assistência ao paciente. O processo de trabalho em enfermagem na UTI é caracterizado por tarefas complexas, que exigem habilidades e conhecimentos tecnocientíficos atualizados para garantir a tomada de decisão imediata e segura voltada para a recuperação do usuário. Essas tarefas costumam exigir esforço físico das trabalhadoras, posições incômodas e ritmo acelerado. Assim, as condições de trabalho nessa unidade muitas vezes implicam em jornadas longas, exaustivas e estressantes, rotinas repetitivas e às vezes monótonas, podendo ser a causa de absenteísmos (CARNEIRO; FAGUNDES, 2012). Um dado muito interessante sobre a categoria profissional (enfermeiros e aux/ téc. de enfermagem) revelou-se uma disparidade entre as categorias na relação quantidade de profissionais e frequência de faltas. Mostrando que a categoria dos aux/téc. de enfermagem com maior índice de absenteísmo que os enfermeiros. Isso fica claro e justificado, pelo fato da primeira categoria ter uma maior quantidade de profissionais nos serviços, proporcionalmente faltando mais, e também se explica a falta de compromisso e interesse com o serviço que trabalha. Sabendo o enfermeiro das suas atribuições mais complexas e sendo este em menor quantidade. Considerando o absenteísmo entre técnicos e auxiliares de enfermagem, este representa um grande desafio para o enfermeiro, coordenador da equipe de enfermagem, visto que este precisa assegurar que o cliente seja atendido em todas as suas necessidades. Neste sentido, faz-se necessário que o quadro de funcionários esteja completo e com o devido dimensionamento de pessoal (FIEX et al., 2018). Os elevados índices de absenteísmo entre técnicos e auxiliares de enfermagem têm sido relatados em vários estudos que atribuem esses achados ao número reduzido de enfermeiros, o que poderia determinar maior obrigatoriedade de permanência no trabalho. Ademais, enfermeiros tendem a assumir papéis de liderança na equipe, que exigem maior assiduidade, além da menor exposição aos riscos de contaminação e doenças, em razão de exercerem tarefas mais administrativas no contexto hospitalar. A ocorrência de maior número de afastamentos do trabalho entre os profissionais de nível médio tem sido relatada por vários autores e relacionada por alguns com a posição hierárquica ocupada (responsabilidade do cargo exige presença mais constante) e com a natureza do trabalho desenvolvido (tarefas que exigem maior esforço físico, execução de atividades repetitivas e monótonas (FORMENTON et al., 2014). A classificação dos profissionais ausentes segundo sexo evidenciou uma Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 140 predominância de mulheres, perfil semelhante à realidade brasileira de enfermagem. No estudo realizado por Formenton et al. (2014) revelou que um dos fatores associados ao absenteísmo por doença entre trabalhadores de enfermagem mostrou que a situação conjugal, principalmente quando o trabalhador possui filhos e maiores responsabilidades domésticas, foi um fator de grande influência nos níveis de absenteísmo verificado entre as mulheres. Relatou-se maior sobrecarga de trabalho dos profissionais presentes no serviço quando colaborador falta, ou quando a instituição não dimensiona adequadamente ou coloca umprofissional extra no serviço. Com isso a qualidade da assistência prestada ao paciente, fica prejudicada, pois os profissionais se sentem sobrecarregados, pressionados e mais atarefados. Gera-se uma insatisfação, insegurança, cansaço físico e mental dos demais trabalhadores que estão no serviço. Na perspectiva da instituição de saúde, demonstra-se fragilizada na comunicação e/ou nas sanções disciplinares, aumentando os custos financeiros (LEMOS et al., 2012). As empresas utilizam-se de estratégias para reduzir os reflexos negativos do absenteísmo, dentre estas citadas pelas pesquisas, a utilização de softwares com dados do profissional, causa do absenteísmo, quantidade de dias perdidos, realizando relatórios mensais da unidade, dos profissionais que mais faltam. Também utilizou esta ferramenta para realizar o dimensionamento de profissionais. A realização de reuniões com a equipe de enfermagem, para apontar novas ideias sobre o assunto, identificar as fragilidades ou reprovações da equipe diante do absenteísmo, com ouvidoria, propostas em pauta, necessidade de rodízios ou sanções disciplinares para os profissionais com falta injustiçada. Como Carneiro e Fagundes (2012) mostra em seu estudo, que é necessário realizar uma análise periódica das condições de trabalho na UTI. Promoção de uma pausa para descanso durante cada plantão, criação de canais de escuta da opinião e sugestões das trabalhadoras sobre as condições para execução da assistência na unidade, bem como de um programa de ginástica laboral durante o horário de trabalho. Criação de grupos para estudar formas de melhorar as condições de trabalho, promoção de educação permanente in loco sobre os riscos ocupacionais e criação de um canal de comunicação entre a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), o serviço de saúde ocupacional e a UTI. As chefias precisam adotar estratégias gerenciais que valorizem o trabalhador. Adequações e remanejamentos na elaboração da escala de enfermagem. Incentivo da chefia quanto a realização de cursos de aperfeiçoamento em horários compatíveis dos trabalhadores. Realizar reuniões periódicas envolvendo todos da equipe. Readequação do numero de profissionais da equipe, o que eles consideram como apoio para reduzir a sobrecarga de trabalho na unidade (ABREU et al., 2014). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 141 5 | CONSIDERAÇÕES FINAIS Evidencia-se que o absenteísmo por doença pode comprometer a qualidade de vida do trabalhador de enfermagem e, consequentemente, interferir na qualidade da assistência prestada aos usuários. Desse modo, presume-se que a qualidade de vida, as condições de saúde dos trabalhadores de enfermagem e a satisfação no trabalho são essenciais para a qualidade da assistência oferecida. Entre os diversos indicadores utilizados pelos serviços de saúde, a monitorização da taxa de absenteísmo constitui-se um importante instrumento na área de gestão. Esta temática merece investigação, se considerada que a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores, sobretudo de enfermagem, estão intimamente relacionadas à qualidade dispensada pelos serviços de saúde aos seus usuários. Sugere-se que novas investigações sejam realizadas com foco na percepção dos profissionais acerca de sua saúde ou sua condição de trabalho. Sugerem-se também estudos sobre perdas de produtividade dos indivíduos causadas por situações de desgaste no trabalho, pois tais estudos podem levar à redução ou à prevenção do absenteísmo. As produções científicas a respeito do absenteísmo na enfermagem subsidiam a área gerencial, assistencial e de ensino. Entretanto, é necessário sensibilizar a própria instituição para compreender a importância do dimensionamento de enfermagem. Essa sensibilização pode beneficiar o cliente/ usuário, pois facilitará uma enfermagem mais presente no processo de cuidar, a qualidade do serviço prestado à comunidade e, principalmente, favoreceria a saúde dos trabalhadores contribuindo para prevenir a sobrecarga de atividades, e a diminuição de patologias desnecessárias, e consequentemente o absenteísmo. REFERÊNCIAS ABREU, Renata Maria Dias; DE ABREU GONÇALVESI, Rejane Maria Dias; DE ASSIS SIMÕESI, Ana Lúcia. Motivos atribuídos por profissionais de uma Unidade de Terapia Intensiva para ausência ao trabalho. Rev Bras Enferm, v. 67, n. 3, p. 386-93, 2014. ARAÚJO, Lilianny Pereira De Pinho. Estudo do absenteísmo de trabalhadores de Unidade de Saúde de Brasília-DF, 2015. CARNEIRO, Taize Muritiba; FAGUNDES, Norma Carapiá. Absenteísmo entre trabalhadoras de enfermagem em unidade de terapia intensiva de hospital universitário. Revista Enfermagem UERJ, v. 20, n. 1, p. 84-89, 2012. FEIX, J. et al. Equipe de enfermagem e absenteísmo: Estudo em um hospital de médio porte no oeste catarinense. Revista Uningá Review, [S.l.], v. 26, n. 3, jan. 2018. ISSN 2178-2571. Disponível em: <http://revista.uninga.br/index.php/uningareviews/article/view/1807>. Acesso em: 14 out. 2018. FLORES, Laís Israel et al. O absenteísmo enquanto indicador para o processo de gestão de pessoas nas organizações e de atenção à saúde do trabalhador. Revista Laborativa, v. 5, n. 2, p. 47-65, 2016. FORMENTON, Alessandro; MININEL, Vivian Aline; LAUS, Ana Maria. Absenteísmo por doença na Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 13 142 equipe de enfermagem de uma operadora de plano de saúde [Sickness absenteeism of nursing team in a health insurance company]. Revista Enfermagem UERJ, v. 22, n. 1, p. 42-49, 2014. LEMOS, Maithê Carvalho; RENNÓ, Clara de Oliveira; PASSOS, Joanir Pereira. Absenteísmo na equipe de enfermagem: uma revisão de literatura. Rev. pesqui. cuid. fundam.(Online), v. 4, n. supl. 1, p. 13-16, 2012. LORENZETTI, Jorge et al. Gestão em saúde no Brasil: diálogo com gestores públicos e privados. Texto Contexto Enferm [online], v. 23, n. 2, p. 417-25, 2014. MENDES, K.D.S et al. Revisão integrativa: Método de pesquisa para incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto Contexto Enfermagem, Florianópolis. v 17, n. 04, p. 758-64, 2008. OLIVEIRA, Carolina S.,SIQUEIRA, Lia Carla C., ALVES, Elioenai D. Avaliação do absenteísmo dos profissionais de enfermagem em uma unidade de terapia intensiva neonatal. Revista Tempus – actas de saúde coletiva. UNB. 2011. SANCINETTI, Tânia Regina et al. Taxa de absenteísmo da equipe de enfermagem como indicador de gestão de pessoas. Rev. esc. enferm. USP [online]. 2011, vol.45, n.4, pp. 1007-1012. ISSN 0080- 6234. http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000400031. SELL, Carlos Eduardo. Rationality and rationalization in Max Weber. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 27, n. 79, p. 153-172, 2012. UMANN, J., GUIDO, L. D. A., LEAL, K. P., & FREITAS, E. D. O. (2011). Absenteísmo na equipe de enfermagem no contexto hospitalar. Ciênc. cuid. saúde, 10(1), 184-190. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 143 CAPÍTULO 14 CUIDADO AO CUIDADOR: AMENIZANDO O ESTRESSE DOS AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE Luma Ravena Soares Monte Enfermeira Especialista em Saúde da Família/ Atenção Básica, Coordenação da Atenção Básica- Castelo do Piauí Vilkiane Natercia Malherme Barbosa Universidade Federal do Ceará, Mestrado em Psicologia Fortaleza - Ceará- Tiago da Rocha Oliveira, Residente Multiprofissional em Saúde da Família - EFSFVS/UVA Sobral - Ceará Gleyde Raiane de Araújo Residente Multiprofissional em Saúde da Família - EFSFVS/UVA Sobral- Ceará Thiego Ramon Soares Especialista em Cardiologia em Enfermagem, Enfermeiro Assistencial- EBSERH, HU-UFGD Dourados-MS Anderson da Silva Sousa Especialista em Terapia Intensiva, Enfermeiro Assistencial - EBSERH, HU- UFSC Florianópolis- SC RESUMO: O programa de agentes comunitários de Saúde- PACS configura uma importante estratégia na consolidação do Sistema Único de Saúde sendo parte da equipe multiprofissional da estratégia saúde da família . A cobrança dos usuários frente às dificuldades do sistema acarreta em constantes desgastenas relações de trabalho enquanto equipes, principalmente um sofrimento adicional aos ACS, devido à relação de proximidade que se estabelece, e ao vínculo que se constrói, fazendo com que se sintam responsáveis pelas famílias. Com isso o presente estudo objetiva relatar a experiência, desenvolvida pela primeira turma da residência, composta por quatro categorias profissionais, sendo estas: enfermagem psicologia, fisioterapia e farmácia e visando refletir acerca do cuidado holístico ao profissional agente comunitário de saúde. Este estudo se ancora na abordagem qualitativa e no referencial teórico da pesquisa-ação, a pesquisa qualitativa vai permitir uma visão mais amplas dos fenômenos sociais, buscando entender, acerca das experiências de cuidados vivenciadas por residentes e um grupo de agentes comunitários de saúde. Os profissionais passaram a perceber a necessidade de cuidar de si antes do outro, se vendo como peça importante para o bom funcionamento do sistema de saúde, e que o cuidado com eles mesmos deve ser equivalente ao cuidado e atenção dispensados aos outros. Portanto destacamos a importância de implementar um cuidado humanizado ao cuidador (profissional de saúde) e assim tornar a assistência a quem necessita qualificada e que o cuidado prestado ao outro será realizado melhor e mais eficaz se o cuidador estiver bem fisicamente e espiritualmente. PALAVRAS-CHAVE: Cuidado, Agente Comunitário de Saúde, Atenção Básica,Cuidador. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 144 ABSTRACT The program of community health agents - PACS is an important strategy in the consolidation of the Unified Health System and is part of the multiprofessional team of the family health strategy. The collection of the users in the face of the difficulties of the system causes constant wear and tear in the work relations as teams, mainly an additional suffering to the ACS, due to the relation of proximity that is established, and to the bond that is constructed, making them feel responsible for the families. This study aims to report the experience developed by the first group of the residence, composed of four professional categories: nursing, psychology, physiotherapy and pharmacy and aiming to reflect on the holistic care of the professional community health agent. This study is anchored in the qualitative approach and theoretical framework of action research, qualitative research will allow a broader view of social phenomena, seeking to understand about the experiences of care experienced by residents and a group of community health agents. Professionals began to perceive the need to take care of themselves before the other, seeing themselves as an important part for the proper functioning of the health system, and that care for themselves should be equivalent to the care and attention given to others. Therefore, we emphasize the importance of implementing a humanized care to the caregiver (health care professional) and thus rendering care to those who need qualified and that the care provided to the other will be better and more effective if the caregiver is physically and spiritually well. KEYWORDS: Care, Community Health Agent, Primary Care, Caregiver. 1 | INTRODUÇÃO Na década de 90, especificamente no ano de 1991, surgiu na região nordeste por intermédio do Agente Comunitário de Saúde (ACS) o Programa de Agente Comunitário de Saúde (PACS), visando melhorar a capacidade da população de cuidar de sua saúde. Posteriormente esse modelo de programa isolado foi saindo de cena, passando a fazer parte de uma nova estratégia que foi adotada em 1994, o Programa Saúde da Família (PSF) que incorporou recursos humanos e tecnológicos à proposta anterior representando maior grau de resolutividade às demandas em saúde (BAPTISTINI, 2014). O PSF é uma estratégia criada para fortalecimento do SUS, visando reorganizar e reorientar o modelo assistencial em saúde, que estava centrado no modelo biomédico. E com isso passa para o modelo de vigilância em saúde, além de servir aos pressupostos básicos de universalização de acesso e integralidade da assistência. Mais tarde em 2006, esse programa assume a função de estratégia, justificado por ser uma ação permanente e contínua, entendendo que programa possui tempo determinado para as ações (DALPIAZ, 2011). A Estratégia e Saúde da Família (ESF) têm os mesmos princípios que norteiam o SUS e a Atenção Básica, além dos seus próprios, constituindo um conjunto que visam à garantia da saúde como direito de todo cidadão e dever do Estado. Para, além disso, Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 145 a ESF visa que as ações e serviços de saúde sejam resolutivos, necessitando assim de uma equipe multiprofissional, composta por no mínimo um médico, generalista ou de família, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e Agentes Comunitários de Saúde (ACS) habilitados a desenvolver a promoção, proteção e recuperação à saúde (DALPIAZ, 2011). O trabalho da ESF é um trabalho realizado em equipe, ferramenta essa necessária para desenvolver um serviço de qualidade, unindo grupos de trabalhadores com diversas profissões e objetivos comuns. Onde são estabelecidas necessidades prioritárias, e esses integrantes criam condições indispensáveis para o crescimento em nível individual e coletivo com a intenção de ofertar um cuidado centrado no usuário e na comunidade. O trabalho em equipe devem favorecer a integralidade das ações de saúde e contribuir para um serviço organizado, além de favorecer o melhor conhecimento das necessidades de saúde da população adscrita (FIGUEIREDO, 2012). O processo de trabalho em equipe acaba proporcionando cuidados mais completos, e aumenta as competições entre os profissionais. Além disso, os diversos modelos de gestão de trabalho, como o taylorismo, muito comum na Atenção Primária em Saúde, baseado na normatização de processos e procedimentos e na não cooperação entre indivíduos relaciona-se diretamente com processo saúde-doença do ser humano, influenciando o estado de saúde dos trabalhadores (SHIMIZU, JUNIOR,2011). Os profissionais da estratégia saúde da família encontram-se no seu processo de trabalho esmagado, de um lado as cobranças da gestão, e do outro lado, os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), que devido às dificuldades do sistema, fazem cobranças nas condições de cuidado. Com isso ocorre desgaste nas relações de trabalho enquanto equipes. As fragilidades no serviço de saúde tendem a repercutir na falta de resolutividade dos problemas da comunidade, o que causa um sofrimento adicional aos ACS, devido à relação de proximidade que se estabelece, ininterruptamente, e ao vínculo que se constrói, fazendo com que se sintam responsáveis pelas famílias (JARDIM, 2009). Quando se fala em cuidar de alguém o cuidado de si tem que vir em primeiro lugar, visto que quando se cuida do outro se desenvolve o conhecimento de si. Silva et al. (2014) destaca no seu estudo que cuidar de si significa uma interação do ser humano com a realidade, e cuidando de si cuidando do outro, solicita a busca do desenvolvimento do conhecimento de si e assim desperta a arte do ser. Com isso o ser humano se torna mais emotivo, perceptivo e racional, aliando o passado, o presente e futuro, alicerçado na auto superação. Pensando na situação de adoecimento e esgotamento em que se encontravam os profissionais de saúde e principalmente os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) das unidades básicas das áreas de inserção da equipe de Residência Multiprofissional em Saúde da Família de Parnaíba/PI. Foi proporcionado a esses profissionais ACS momentos de cuidado, escuta e acolhimento visando o bem estar do mesmo, Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 146 compreendendo que o ser cuidado produz melhores resultados na sua vida pessoal e no seu ambiente de trabalho. Com isso o presente estudo objetiva relatar a experiência, desenvolvida pela primeira turma da residência,composta por quatro categorias profissionais, sendo estas: enfermagem psicologia, fisioterapia e farmácia. Visando refletir acerca do cuidado holístico ao profissional agente comunitário de saúde. 2 | METODOLOGIA Este estudo se ancora na abordagem qualitativa e no referencial teórico da pesquisa-ação (BARBIER, 2002). A abordagem qualitativa permite ao ator/pesquisador uma maior abrangência da realidade social na qual a comunidade está inserida, visto que essa dimensão tem fatores que não podem ser mensurados e/ou quantificados exclusivamente (MINAYO, 2007). Esse tipo de pesquisa visa a abordar o mundo “lá fora” (e não contextos especializados de pesquisa, com os laboratórios) e entender, descrever e, às vezes, explicar os fenômenos sociais “de dentro’’ de diversas maneiras (FLICK, 2009). Deste modo, segundo Flick (2009), a pesquisa qualitativa vai permitir uma visão mais amplas dos fenômenos sociais, buscando entender, acerca das experiências de cuidados vivenciadas por residentes e um grupo de agentes comunitários de saúde. Sendo a metodologia utilizada a de pesquisa-ação, escolhida em função de seu duplo objetivo (Barbier, 2002): modificar a realidade e produzir conhecimentos relativos a essas transformações. Os pesquisadores e participantes se envolvem de modo cooperativo e participativo e são representantes da pesquisa realizada (THIOLLENT, 1996). O contágio com a realidade concreta, permite a criação de vínculos, e é propiciado a entrega à diversas práticas de cuidado que reinventa o modo de ser e agir dos trabalhadores em saúde no cuidado com o outro e consigo mesmo. O estudo foi desenvolvido em unidades básicas de saúde do município de Parnaíba/ PI. O universo deste estudo foi o conjunto formado pelos ACS que integram as equipes de saúde, tendo como critérios de inclusão estar de acordo em participar do mesmo e se encontrar em pleno serviço de suas atividades. Os encontros aconteceram com periodicidade quinzenal, durante o período de março de 2016 à agosto de 2016, totalizando 12 encontros com duração de 60 minutos cada. Participavam da pesquisa um total de 20 ACSs, mas vale ressaltar que nem todos estavam presentes em todos os encontros. As atividades aconteciam baseadas na troca de experiências e percepções trazidas pelos profissionais agentes comunitários de saúde. Esses encontros eram mediados em rodas com ressignificação de valores e conceitos, empoderamento dos atores envolvidos no processo, foi utilizado de recursos expressivos, como vídeo, práticas corporais, arteterapia, além de ações que aconteceram com destaque para atividades de passeios realizados fora Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 147 do ambiente de trabalho, oficinas de dança, oficinas de músicas, vivências de auto- cuidado e autoconhecimento. Ao final de cada encontro os temas para as próximas ações foram escolhidos através da discussão das maiores necessidades e anseios dos mesmos. A avaliação do encontro foi feita através de confecções de cartazes, dinâmicas, mandalas e outras técnicas para tornar esse processo avaliativo menos enrijecido. Os temas dos encontros foram escolhidos na roda de atividades pelos próprios agentes comunitários e residentes, que participam como facilitadoras do processo. 3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO Os Agentes Comunitários de Saúde desenvolvem um papel fundamental no atual modelo de atenção básica à saúde no Brasil, em contextos de trabalho complexos, com particularidades e diversidade de situações, o que justifica a realização de estudos que abordem questões relativas à saúde destes trabalhadores (LOPES, 2012). Visto que, essa categoria está permeada pela complexidade e pelo desgaste emocional, que é mais evidente que nas demais classes profissionais do SUS, justamente pelo fato de ter uma inserção diferente: a de compartilhar uma rotina de vida com as pessoas e ao mesmo tempo ser trabalhador da saúde no local onde vive (MENEGUSSI, OGATA E ROSALINI, 2014). Jardim e Lancman apontam, ainda, que o fato de o ACS residir na comunidade onde trabalha gera uma fonte adicional de sofrimento, na medida em que aumenta o contato e a exposição do profissional, misturando a vivência pública/privada e impossibilitando um possível distanciamento das situações de trabalho. Martinez e Chaves e Mendes e Ceotto ressaltam a sobrecarga emocional desse trabalhador, provinda de inúmeros complicadores existentes no dia a dia da profissão; percebe-se, ainda, que não há, na maioria das equipes de ESF, suporte e apoio suficientes a esse profissional para a realização do seu trabalho. Para Merhy o trabalho em saúde é um processo relacional, produzido através do trabalho vivo em ato. Utiliza para sua realização as tecnologias de saúde tipificadas como: tecnologias duras; leve-duras; e leves. Assim, no presente estudo a criação de espaços onde foram proporcionados os momentos de cuidado, usando de tecnologias leves, com a utilização de recursos expressivos para tal, revelou grande impacto sobre a saúde dos profissionais inseridos, além de fortalecer o vínculo entre os outros profissionais, contribuiu para uma relação de respeito do profissional com ele mesmo, com os usuários e demais membros da equipe. Os encontros como momentos de cuidado produziram falas positivas à respeito do prazer em trabalhar, mas ao mesmo tempo a preocupação contínua de fazer parte da comunidade, o que causa uma dificuldade de separação da vida pessoal da profissional, assim como pode se observar no estudo feito por Lopes, 2012 que apesar de trabalhar em um ambiente complexo, com múltiplas funções e com situações Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 148 de saúde e sociais adversas, os sujeitos da pesquisa relataram que sentem prazer em muitas situações. Porém, são preocupantes os relatos de intenso sofrimento e adoecimento dos ACS relacionados à atividade laboral. O prazer no trabalho ocorre, quando é permitido ao trabalhador desenvolver as potencialidades individuais, por meio da liberdade de criação e de expressão, favorecendo os laços cognitivo-técnicos, com o resultado de suas atividades, o que promove a satisfação do trabalhador (GOMES, 2006). Assim, durante as oficinas trabalhou-se as potencialidades de cada ACS de forma coletiva, dando-os a devida liberdade de expressão, que posteriormente refletiu no processo de trabalho. Corroborando com a premissa dejouriana de que o prazer é uma consequência da organização do trabalho desenvolvido coletivamente, com respeito a cada ser humano, com as características que lhe são particulares (DEJOURS, 2004). Assim, o ACS, sofre uma perda de identidade, visto que se posiciona em espaço de indeterminações e incertezas, sem definição clara de competências, habilidades e saberes, apesar de estar sempre na linha de frente do sistema de saúde público, nem sempre está capacitado para atender as diferentes demandas cotidianas (GALAVOTE, 2011). Em um trabalho realizado em Campinas (SP) foi identificado que o ACS desempenha outras atividades no serviço, não relacionadas ao seu núcleo de conhecimento. Isso ocorre devido à deficiência de recursos humanos e por desconhecimento da função desse profissional por parte dos outros profissionais da equipe, resultando e adoecimento desses profissionais (NASCIMENTO, 2008). Para Vezina et al. e Dejours, embora os transtornos psíquicos graves ligados ao trabalho possam ocorrer, o que se vem observando mais frequentemente são fenômenos que não se configuram como distúrbios mentais clássicos, mas como situações de elevado sofrimento psíquico, cuja origem é atribuída à conjuntura vivida pelos trabalhadores em função da organização do trabalho. Assim, os momentos de grupos realizados no presente estudo serviram como espaço para apropriação e representatividade do ser ACS, alívio de angústias e cuidado integral. Os profissionais passaram a perceber a necessidade de cuidar de si antes do outro, se vendo como peça importante para o bom funcionamentodo sistema de saúde, e que o cuidado com eles mesmos deve ser equivalente ao cuidado e atenção dispensados aos outros. Pode-se cumprir nesses espaços um dos princípios da política nacional de humanização: Protagonismo, corresponsabilidade e autonomia dos sujeitos e coletivos, que traz a mudança na gestão e atenção como mais concreta se construída com a ampliação da autonomia e vontade das pessoas envolvidas, que compartilham responsabilidades. Os usuários não são só pacientes, os trabalhadores não só cumprem ordens: as mudanças acontecem com o reconhecimento do papel de cada um (BRASIL, 2013). A ESF pode se ampliar para além de um trabalho técnico hierarquizado, para um trabalho com interação social entre os trabalhadores, com maior horizontalidade e flexibilidade dos distintos poderes, o que possibilita maior autonomia e criatividade dos Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 149 agentes e maior integração da equipe (ALMEIDA, 2001). Fato esse observado durante os encontros, a partir das declarações de sentimento de afastamento da equipe rotineiramente, sobretudo por diferenças de saberes técnicos. Corroborando com Peres, 2010. que concluiu em seu estudo com ACS que as facilidades para trabalhar em equipe dependem da construção de relações interpessoais, com a possibilidade de discussão dos problemas, comunicação e diálogo, respeito, linguagem comum e união. 4 | CONCLUSÃO Concluímos que pelo fato de sermos cuidadores por natureza, muitas vezes, faz com que pensemos que o ato de cuidar não é um ato que deve, também, ser realizado por e com os próprios profissionais. Sendo assim destacamos a importância de implementar um cuidado humanizado ao cuidador (profissional de saúde) e assim tornar a assistência a quem necessita qualificada. Dessa forma, percebemos que o cuidado prestado ao outro será realizado melhor e mais eficaz se o cuidador estiver bem fisicamente e espiritualmente. Para que a humanização do cuidado seja possível, é necessária novas atuações relacionadas à prática de cuidados, priorizando mudanças na maneira de ser e agir, proporcionando aos profissionais de saúde caminhos que também possibilitem um viver mais saudável. Os profissionais ACS demonstraram estar emocionalmente esgotados. Esse esgotamento se justifica devido ao contato diário com inúmeros problemas das famílias atendidas, condições de trabalho inadequadas, ausência de reconhecimento pelo trabalho prestado e cobranças da equipe e gestão. Essa situação pode levar a uma avaliação negativa de si mesmo e, com isso, ocorrer uma desmotivação pessoal e profissional. Com esse trabalho, observamos como é importante espaços de escuta e acolhimento pelos demais membros da equipe, atividades que saiam de suas rotinas, momentos de lazer, meditação, que os levem a se ressignificarem enquanto cuidadores-de si e profissionais implicados com o cuidado do outro. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria Cecília Puntel de; MISHIMA,Silvana Martins. O desafio do trabalho em equipe na atenção à Saúde da Família: construindo “novas autonomias” no trabalho. Interface Comun Saúde Educ, n. 1, v. 5, p.150-153, 2001. BARBIER, René. A pesquisa-ação. Brasília: Plano Editora, 2002. BAPTISTINI, Renan almeida; Figueiredo, Túlio Alberto Martins. Agente Comunitário de Saúde: Desafios do Trabalho na Zona Rural. Ambiente & Sociedade. v.17, n.2, p.53-70. 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política Nacional de Humanização da Saúde. 1ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. DALPIAZ. Ana Kelen; STEDILE, Nilva Lúcia Rech. ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA: reflexões Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 150 sobre algumas de suas premissas. V Jornal internacional de Políticas Públicas.2011. DAMA, Keyti Cristine Alves; MUNARI, Denize Bouttelet; SIQUEIRA, Karina Machado – Cuidando do cuidador: reflexões sobre o aprendizado dessa habilidade. Revista Eletrônica de Enfermagem, n. 2, v. 6, p.272-278, 2004. DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Rev Produção. v.14, n.3, p.27-34, 2004. DEJOURS, Christophe. Conjurer la violence, travail, violence et santé. Paris: Ed Payot; 2007. FIGUEIREDO, Verônica Leite. TRABALHO EM EQUIPE: um desafio para a equipe de saúde da família. 2012. 28 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização)- Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2012. FLICK, Uwe. Desenho da pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009. GALAVOTE, Heletícia Scabelo. PRADO, Thiago Nascimento, MACIEL, Ethel Leonor Noia. LIMA Rita de Cássia Duarte. Desvendando os processos de trabalho do agente comunitário de saúde nos cenários revelados na Estratégia Saúde da Família no município de Vitória (ES, Brasil). Cien Saude Colet, v. 1, n. 16, p. 231-240, 2011. GOMES, Giovana Calcagno; LUNARDI FILHO, Wilson Danilo; ERDMANN, Alacoque Lorenzini. O sofrimento psíquico dos trabalhadores de UTI interferindo no seu modo de viver a enfermagem. Rev Enferm UERJ. v.14, n.1, p.93-9, 2006. JARDIM, Tatiana de Andrade; LANCMAN, Selma. Aspectos subjetivos do morar e trabalhar na mesma comunidade: a realidade vivenciada pelo agente comunitário de saúde. Interface Comunic Saúde Educ. v.13, n.28, p.123-35, 2009. LOPES, Denise Maria Quatrin et al. Agentes Comunitários de Saúde e as vivências de prazer - sofrimento no trabalho: estudo qualitativo. Rev. esc. enferm. USP [online]. v. 46, n.3, p.633-640, 2012. MARTINEZ, Wânia Regina Veiga; CHAVES, Eliane Corrêa. Vulnerabilidade e sofrimento no trabalho do Agente Comunitário de Saúde no Programa de Saúde da Família. Rev. Esc. Enferm. USP, v.41, n.3 p.426-33, 2007. MENDES, Flávio Martins de Sousa; CEOTTO, Eduardo Coelho. Relato de Intervenção em Psicologia: identidade social do agente comunitário de saúde. Rev. Saúde e Soc. São Paulo, v.20, n.2, p.496-506, 2011. MENEGUSSI, Juliana Morais; OGATA, Márcia Niituma; ROSALINI, Maria Helena Pereira. O agente comunitário de saúde como morador, trabalhador e usuário em São Carlos, São Paulo. Trab. educ. saúde, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 87-106, 2014. MERHY,Emerson Elias. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo em saúde. In: MERHY EE, ONOCKO R, organizadores. Agir em saúde: um desafio para o público. São Paulo: Editora Hucitec; 1997. p.71-112. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde. 10. ed. São Paulo: HUCITEC, 2007. 406 p. NASCIMENTO, Elisabet Pereira Lelo. Correa, Carlos Roberto da Silveira. O agente comunitário de saúde: formação, inserção e práticas. Cad Saude Publica, v. 6, n. 24, p. 1304-1313, 2008. SHIMIZU. Helena Eri; JUNIOR. Daniel Alvão de Carvalho Junior. O processo de trabalho na Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 14 151 Estratégia Saúde da Família e suas repercussões no processo saúde-doença. Ciêcias & Saúde Coletiva v.17,n.9, p. 2405-2414. 2012. SILVA, Adão Ademir da; TERRA, Marlene Gomes; GONÇALVES, Mariam Oliveira; SOUTO, Valquíria Toledo. O cuidado de si entre Profissionais de Enfermagem: Revisão das Dissertações e Teses Brasileiras. Revista Brasileira de Ciências da Saúde. v.18, n.4, p.345-352, 2014. THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 7. ed. São Paulo: Cortez, 1996. VEZINA M, Derriennic C, Monfort C. Tension au travail et atteintes à la santé mentale: l’éclairage de l’ênquete ESTEV. In : Ayral S, Laville A, Molinié AF, Volkoff S, coordenadores. Travail, Santé, Viellissement, Relatins et évolution. Paris: Octares Editions; p.176-87, 2001. Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 15 152 CAPÍTULO 15 REFLEXÕES SOBRE O NÍVEL DE SOBRECARGA DO CUIDADOR A PARTIR DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA Vitória Ferreira do Amaral Enfermeira. Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Sobral-Ceará. Quitéria Larissa Teodoro Farias Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Sobral-Ceará. Florência Gamileira Nascimento Enfermeira. Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Sobral-Ceará. Maria Girlane Sousa Albuquerque Brandão Enfermeira.Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Sobral-Ceará. Camila Paiva Martins Enfermeira. Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Sobral-Ceará. Luiza Jocymara Lima Freire Dias Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Sobral-Ceará. Ana Suelen Pedroza Cavalcante Enfermeira- Mestre em Saúde da Família. Universidade Federal do Ceará (UFC). Sobral- Ceará. Thaís Rodrigues Ferreira Faculdade Mauricio de Nassau. Parnaíba- Piauí. RESUMO: O processo de envelhecimento populacional de modo crescente no Brasil é resultado de mudanças no perfil demográfico e populacional. O cuidador surge nesse cenário como a pessoa de suporte ao desenvolvimento e execução nas atividades básicas e diárias do idoso. Compreendo o crescente processo de envelhecimento populacional e da longevidade, que resulta na maior necessidade de cuidadores, seja informal como formal, o presente estudo tem por objetivo conhecer a produção científica acerca do ser cuidador e o nível de sobrecarga do mesmo, por meio da Escala Zarit Burden Interview (ZBI). Trata-se de uma revisão integrativa, método análise de uma gama de estudos. A busca foi realizada na base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) no período de outubro de 2018 a partir da associação dos termos “escala de Zarit” e “sobrecarga” e do descritor “cuidador”. Foram identificados 147 estudos, a partir dos critérios de inclusão e exclusão 17 artigos contemplaram o objetivo da produção. Em relação ao perfil dos cuidados dos 17 estudos, 16 os cuidadores são do sexo feminino. Acerca do nível sobrecarga um estudo do estado de São Paulo em 2017 apresentou predominância de sobrecarga leve, e um estudo no país do Chile em 2015 teve maior concentração de ausência de sobrecarga (76,8%). PALAVRAS-CHAVE: Escala de Zarit; Sobrecarga; Cuidador. ABSTRACT: Population aging process increasingly in Brazil is the result of changes in the demographic and population profile. The Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 15 153 caregiver arises in this scenario as a support person to the development and execution in the basic and daily activities of the elderly. Understand the growing process of population aging and longevity, resulting in a greater need for caregivers, is informal and formal, this study aims to understand the scientific production about being caregiver and the overload level of the same, through the Scale Zarit Burden Interview (ZBI). It is an integrative review, analysis method of a variety of studies. The search was conducted in the Virtual Library database in Health (BVS) from October 2018 from the association of the terms “scale of Zarit” and “overload” and the descriptor “caregiver”. They identified 147 studies, from the criteria for inclusion and exclusion 17 articles contemplated the purpose of production. Regarding the profile of the care of the 17 studies, 16 caregivers are female. About overload level a study of the state of São Paulo in 2017 showed a predominance of light overhead, and a study in the country of Chile in 2015 had the highest concentration of lack of overload (76.8%). KEYWORDS: Scale of Zarit; Overload; Caregiver. 1 | INTRODUÇÃO O processo de envelhecimento populacional de modo crescente no Brasil é resultado de mudanças no perfil demográfico e populacional. Em 2025, o país será o sexto com a maior população idosa (OMS, 2005). Essa realidade se coloca em um paradoxo, à medida que se configura como um dos maiores triunfos da humanidade é um grande desafio para os gestores da saúde (GRATÃO, et al. 2013). Concomitante ao aumento da longevidade, existe uma realidade crescente das enfermidades crônicas não transmissíveis e incapacitantes nos idosos, responsáveis por um significativo aumento no número de idosos com limitações funcionais, o que gera uma maior necessidade de cuidados permanentes por parte do cuidador (ANJOS; BOERY; PEREIRA, 2014). O cuidador surge nesse cenário como a pessoa de suporte ao desenvolvimento e execução nas atividades básicas e diárias do idoso, o que exige ser uma pessoa que transmita confiança, logo a tarefa é atribuída a uma pessoa que pode ser membro ou não da família, bem como amigos, vizinhos ou outros grupos de pessoas não remunerados economicamente (CAMARGO, 2010; FUHRMANN et al., 2015; CRUZ; LOUREIRO; SILVA, 2010). A assistência realizada, varia desde cuidados simples, até os mais intensos e específicos. Derivando das particularidades do cuidador, necessidades essenciais dos cuidados, circunstâncias para uma adequada oferta de cuidado, bem como os fatores sócio culturais e especificidades do doente, podem se desencadear uma fonte estressora, e gerar sobrecarga ao cuidador (MAZZA, et al. 2013). A carga de atividades desenvolvidas relacionada ao processo de cuidado aos idosos remete atenção ao cuidador, tendo em vista o impacto dessas atividades na vida diária, na saúde, no bem-estar e na qualidade de vida do cuidador (FERNANDES; GARCIA, 2009). Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 15 154 Existem numerosos instrumentos de avaliação da sobrecarga do cuidador específicos, a escala de sobrecarga Zarit Burden Interview (ZBI), utilizada em nível mundial, é um instrumento permite avaliar o nível de sobrecarga dos cuidadores informais, tanto em âmbito objetivo (financeiro), como subjetivo desde a vida pessoal e social. Assim, compõem não somente como um instrumento diagnóstico, mas também como fonte de estudos de investigação para equipes que prestam cuidados domiciliares (RIVAS; CRESPO,2015; FONSECA, et al. 2010). Na escala de ZBI são avaliados 22 itens, que fazem a descrição como cada item avaliado da escala afeta a pessoa. A pontuação obtida, revela o nível de sobrecarga do cuidador. Existe escalas de pontuação que varia de 0 a 4, como de 0 a 5 em que o score geral pode variar de 22 a 110. De acordo com cortes do escore da pontuação é definido o nível de sobrecarga assim se for: < 46 = sem sobrecarga, 46 a 56 = sobrecarga moderada e >56 = sobrecarga intensa (RODRIGUES, et al. 2013). Compreendo o crescente processo de envelhecimento populacional e da longevidade, que resulta na maior necessidade de cuidadores, seja informal como formal, o presente estudo tem por objetivo conhecer a produção científica acerca do ser cuidador e o nível de sobrecarga do mesmo, por meio da Escala Zarit Burden Interview (ZBI). 2 | METODOLOGIA Trata-se de uma revisão integrativa, método de pesquisa selecionado por permitir a inserção de estudos de métodos diversos, desde experimentais e não-experimentais, o que propicia uma vasta visão (SOUSA; SILVA; CARVALHO, 2010). Para alcance da metodologia estabelecida, foi necessário seguir seis etapas, sendo estas: a definição da hipótese ou tema da pesquisa, definição dos critérios de inclusão e exclusão, delimitação das informações extraídas dos estudos analisados os dados e resultados, síntese das evidências e apresentação dos resultados (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008). O levantamento da pesquisa foi realizado na base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) no período de outubro de 2018 a partir da associação dos termos “escala de Zarit” e “sobrecarga” e do descritor “cuidador”, mediado pelo operador booleano AND. As publicações na BVS contemplaram os periódicos indexados nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Base de Dados de Enfermagem (BDENF), IBECS (Índice Bibliográfico Espanhol em Ciências da Saúde), Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MEDLINE) e o Centro Nacional de Informação de Ciências Médicas de Cuba (CUMED). Foram identificados 147 estudos a partir dos termos e descritores na BVS, com a inserção dos critérios de inclusão na base de dados, a busca resultou em 42 artigos. Os critérios de inclusão estabelecidos são artigos disponíveis, do período de 2013 a Saúde Pública e Saúde Coletiva 3 Capítulo 15 155 2018, tendo como assunto principal os cuidadores. Após leitura do resumo foi