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O autor deste livro e a editora empenharam seus melhores esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram atualizados pelo autor até a data de fechamento do livro. Entretanto, tendo em conta a evolução das ciências, as atualizações legislativas, as mudanças regulamentares governamentais e o constante fluxo de novas informações sobre os temas que constam do livro, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas no texto estão corretas e de que não houve alterações nas recomendações ou na legislação regulamentadora. Fechamento desta edição: 15.02.2023 Atendimento ao cliente: (11) 5080-0751 | faleconosco@grupogen.com.br © 2023 by Editora Forense Ltda. Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Travessa do Ouvidor, 11 – Térreo e 6º andar Rio de Janeiro – RJ – 20040-040 grupogen.com.br Capa: Fabricio Vale Produção digital: Ozone CIP – BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. V45m Vasconcelos, Carlos Eduardo de Mediação de conflitos e práticas restaurativas / Carlos Eduardo de Vasconcelos. – 8. ed. – Rio de Janeiro: Método, 2023. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5964-803-0 1. Justiça restaurativa – Brasil. 2. Mediação – Brasil. 3. Administração de conflitos - Brasil. 4. Resolução de disputa (Direito) – Brasil. I. Título. mailto:faleconosco@grupogen.com.br http://www.grupogen.com.br/ 23-82759 CDU: 343.848:347.925(81) Meri Gleice Rodrigues de Souza – Bibliotecária – CRB-7/6439 À minha esposa Júlia Rocha e aos meus filhos Luciana, Daniel e Tiago Roffé de Vasconcelos, com muito amor. Ao meu saudoso pai, magistrado, José Sironi de Vasconcelos. Agradecimentos a Adolfo Braga, André Gomma, Dayse de Vasconcelos Mayer, João Maurício Adeodato, Jones Figueiredo Alves, José Souto Maior Borges (in memoriam), Misael Montenegro, Petrônio Muniz (in memoriam), Regina Michelon e Selma Lemes pela sabedoria compartilhada, pela amizade e pelo carinho. Agradecimentos, também, ao Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem (CONIMA), ao Conselho Nacional de Justiça, à Ordem dos Advogados do Brasil e ao Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, pela inestimável cooperação. SOBRE O AUTOR Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC/SP (2004). Diplomado pelas Universidades de Harvard/EUA, da Georgia/EUA e pela FGV. Membro do Instituto dos Advogados de Pernambuco. Como advogado, especializou-se em Direito Tributário. Em suas atuações como mediador e árbitro, foi presidente do Centro de Mediação e Arbitragem de Pernambuco – CEMAPE (2000/2004), vice-presidente e diretor de Mediação do Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem – CONIMA (2001/2018) e Coordenador de Prevenção e Mediação de Conflitos da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, quando implantou o Programa Estadual de Mediação Comunitária (2005/2007), capacitando mais de 2.000 facilitadores e realizando cerca de 7.200 atendimentos e 719 mediações, com práticas restaurativas. Ministrou (2003/2005), em programa da ONU, cursos de negociação e mediação para Magistrados e membros do Ministério Público, no Centro de Formação Jurídica e Judiciária de Moçambique. Foi Diretor do Curso de Direito e Coordenador da Prática Jurídica e das Práticas Restaurativas da UNIFG/PE. Foi um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Justiça Restaurativa – IBJR, e membro do seu Conselho Científico. Foi Presidente da Comissão de Conciliação, Mediação e Arbitragem da OAB/PE (2007/2015). Instrutor do CNJ. É membro dos Conselhos Consultivos do CONIMA e do ICFML. Atua como mediador ad hoc. Integra os quadros de mediadores do CAM/CCBC, da CAMARB e outras. É membro do Conselho Seccional da OAB/PE (2016/2021) e da Comissão Especial de Mediação e Conciliação do CFOAB. Professor honorário da Escola Superior da Advocacia/PE. Professor Honoris Causa da FOCCA – Faculdade de Olinda. Autor e coautor de várias obras individuais e coletivas e artigos científicos. Palestrante e professor de Mediação, Negociação, Arbitragem e Hermenêutica Jurídica. Integrou a Comissão de Juristas e Especialistas, no âmbito do Ministério da Justiça, que subsidiou o anteprojeto da atual Lei de Mediação (Lei 13.140/15). NOTA À 8.ª EDIÇÃO Buscamos cuidar de uma obra jurídica e interdisciplinar, em abordagem sistêmica, estruturando a complementaridade de vários temas? Como distinguir esses conteúdos sem confundi-los e, ao mesmo tempo, sintonizar o liame sutil e necessário? Como conectar as diferenças? Esta é uma obra em que o direito se faz presente com o melhor do que ele nos promete? Esta é uma obra inspirada no método de negociação da Escola de Harvard, e em outros aportes teóricos e práticos nele inspirados? Está orientada por uma pedagogia de comunicação pelo desenvolvimento pacífico? Contempla o novo Constitucionalismo? Questiona e aponta os novos papéis dos operadores do direito? Tem densidade no trato da subjetividade e da intersubjetividade da linguagem humana, em seus aportes contemporâneos e ancestrais? Leva em consideração que a nossa linguagem é um padrão histórico de identificação e designação dos fenômenos da realidade, em cujos horizontes percebemos o nosso mundo, e por onde transitamos e reinventamos nos limites do pensar, sentir e agir? Enfim, esta obra é compatível com as habilidades comunicativas, metodologias e princípios de tolerância, de responsabilidade e de cuidado, capazes de contribuir para um diálogo de boa-fé? Ela trata sobre como as nossas inteligências emocionais devem alimentar as inteligências genéticas e as artificiais; de modo que o processamento dos dados desse novo desenvolvimento venha a contemplar a dignidade e a sustentabilidade da vida humana? Estaremos aqui englobando os conteúdos interdisciplinares para a formação de bons negociadores, mediadores de conflitos e demais facilitadores das inúmeras práticas colaborativas e restaurativas? As edições anteriores foram construídas como em ondas sucessivas. É chegado o momento de focar, ainda mais consistentemente, na qualidade da pedagogia da negociação baseada em interesses e princípios e na administração dos métodos mais adequados de solução das controvérsias; nos âmbitos extrajudicial, judicial (pré-processual e processual) e no âmbito da administração pública. É tempo de acolher as novas práticas e saberes oriundos de profissionais aptos a negociar, mediar, conciliar, atuar como avaliadores neutros, como membros de comitês de resolução de disputas (DRBs), como facilitadores de diálogos apreciativos, como árbitros, como facilitadores de práticas restaurativas etc. Do ponto de vista estratégico, alguns dos mais significativos acontecimentos recentes, no Brasil, ocorreram no plano da normatização, destacando-se a Resolução nº 125/2010 do CNJ, o Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015) e a Lei de Mediação (Lei nº 13.140/2015). Para tanto, têm sido brilhantes as contribuições de entidades do nível do CONIMA, do FONAME, do IBDFAM, do CBAr, da ENAM, da ENFAM e, mais recentemente, do ICFML, entre outras. Entidades essas voltadas para uma cultura de pacificação social, mediante a qualificação do diálogo e dos processos de construção de consensos. Nos últimos tempos, a pandemia da Covid-19, com suas variantes, acelerou a já acentuada utilização daqueles métodos de solução de disputas pelo meio virtual. Nesse sentido, as plataformas para atuação on-line têm sido permanentemente aperfeiçoadas, de modo a otimizar suas vantagens, com o mínimo de perda do mérito das práticas presenciais. Nesta obra, exploraremos o paradigma sistêmico e procuraremos compreender que somos capazes de uma comunicação construtiva quando desenvolvemos práticas inspiradas na percepção de que nossos interesses, mesmo quando percebidos como antagônicos e/ou contraditórios, também são complementares. Cuidaremos para que a éticaaqui manifestada atue para o desenvolvimento sustentável, na ambiência de uma sociedade pacífica e inclusiva que, nos planos interpessoal, social e institucional, reforce o respeito à diferença, o cuidado solidário e a responsabilidade pelos nossos feitos e malfeitos. Sim. Procuraremos entender porque a sociedade global entrou em transe. Por que a nossa geopolítica desesperou? Por acaso as mutações na geopolítica mundial não eram previsíveis? Como lidar com essa nova onda maniqueísta, tradicionalista, em que o passado entra em guerra contra o presente e o futuro? Com efeito, a vida é agora, e deve ser vivida, observada, experimentada, compartilhada, debatida, dialogada e descrita em suas contradições e disputas, antes de prescrita em meio à raiva do narcisismo perverso. Buscaremos compreender isso. Portanto, não escrevemos esta obra com ânimo intelectual, para intelectuais. Esta é uma obra do amor. O amor que a faz existir e se reinventar tem o nome de cidadania. Cidadania planetária. Enfim, este é o nosso velho-novo mundo, agora bem mais acelerado. Quem sabe não reverteremos essa febre de ansiedades quando – pela via da educação inclusiva e da comunicação construtiva; não violenta – formos exitosos na jornada pelo prevalecimento do diálogo de boa-fé? Quem sabe não nos habilitemos a escutar, a indagar e a agir colaborativamente, resgatando a inteligência emocional das nossas mentes meditativas, assessorados por inteligências artificiais a nosso serviço? Quem sabe seremos capazes de criar as novas condições para a superação dos subdesenvolvimentos, das desigualdades cruéis, do maniqueísmo e do anátema? Pois o acesso à justiça, caríssimos leitores, é, sobretudo, um empreendimento ecológico, uma pedagogia dos métodos, das técnicas e das artes do entendimento, na solução das nossas controvérsias. PREFÁCIO O ESTADO DA ARTE NA TÉCNICA DE PONDERAR INTERESSES EM CONFLITO: UMA OBRA DE ESTUDOS AVANÇADOS A mediação como função facilitadora do diálogo, em seu objetivo de construção de acordo, deve servir à comunicação das partes em que a eficácia de resultados exige a devida negociação e, sobretudo, privilegie o bom senso. Essa foi a proposta do seu primeiro modelo clássico (tradicional linear) desenvolvido pelo antropólogo americano William Ury, na Harvard Law School, da Universidade de Harvard (EUA). Desde quando surgida nos Estados Unidos há quarenta anos, a mediação como técnica de solução de litígios tem sido dinamizada por outros modelos, valendo-se referir os de Robert A. Baruch Bush e Joseph F. Folger (o da mediação transformativa) e o de Sara Cobb (o modelo circular- narrativo). Importa dizer que teóricos da negociação e da comunicação buscaram e buscam construir novas viabilidades de uma decisão consensual do conflito, preponderando: (i) a superação do conflito, em sua integralidade; (ii) a recomposição dos significantes psicológicos e emocionais, legais e financeiros dos conflitantes; (iii) a reconstrução dos liames afetivos; (iv) o chamado empoderamento (empowerment) das partes em conflito, a significar que elas próprias decidam o conflito, com as soluções adequadas. Ora bem. Agora, eis o estado da arte que a presente obra reflete em suas técnicas de mediação. Um estudo contributivo do melhor nível de eficiência oferecido para o emprego do instituto, em todas as suas áreas de atuação. Uma obra definitiva. Carlos Eduardo de Vasconcelos demonstra, em sua pesquisa, acendrada de análises e boas reflexões, com a notável experiência entusiasta e profícua de jurista e de mediador, importante e necessária visão sistêmica em consecução dos elevados fins da mediação como um eficiente instrumento pacificador. Mais precisamente: a exata dimensionalidade de sua obra, em nova edição, incide na capacidade construtiva de trabalhar o instituto da mediação, em uma moldura interdisciplinar psicojurídica, com arte e técnica indispensáveis ao processo de ponderação de interesses em conflito. De efeito, surge o mediador, como um terceiro neutral, experiente e dialogal, indutor de entendimentos não prejudiciais, capaz, por força da sua intermediação, de solucionar, sem litígios, os termos de confronto, com a adequada formação de consensos. É certo dizer, como afirma o autor, “a solução transformadora do conflito depende do reconhecimento das diferenças e da identificação dos interesses comuns e contraditórios, subjacentes, pois a relação interpessoal funda-se em alguma expectativa, valor ou interesse comum”. De fato, esse reconhecimento opera a dissolução do conflito interpessoal por interconexões qualificadas entre os próprios mediandos, exercitando as compreensões suficientes de suas pretensões sem o viés das colidências desnecessárias. Não há por que negar a atual importância fenomenológica da mediação como estado da arte e de técnica por ensejar, como acertadamente pontua o autor, “processos construtivos de solução de disputas – graças à validação de sentimentos e à linguagem ordinária dos participantes – sendo, pois, método; e integra, por outro lado, uma metodologia interdisciplinar que engloba o direito positivo, na medida em que se buscam, mediante procedimentos colaborativos, soluções jurídicas com pretensão de validade”. Em outras palavras, a mediação tem servido de significativo avanço metodológico, diante das atuais relações interpessoais conflituosas, para dirimir os dissensos. Lado outro, é significante igualmente, no contexto atual, que a mediação também se apresenta como instituto jurídico. A institucionalização da mediação como prática de resolução não adversarial e adequada de conflitos, nas esferas da prevenção de litígios judiciais ou de solução processual das demandas, surge com as Leis 13.105/2015 (Código de Processo Civil) e 13.140/2015 (Lei de Mediação), evidenciando o quanto a mediação tem relevo como instrumento científico, cooperativo e psicorrelacional, para além do jurídico, no seu espaço próprio de tratamento das questões conflitivas. Carlos Eduardo de Vasconcelos é um permanente construtor de mudanças paradigmáticas, quando, desde há muito, se colocou entusiasta das técnicas de mediação, sob a então égide normativa de ser “lícito aos interessados prevenirem ou terminarem o litígio mediante concessões mútuas”, tal como preconizava o art. 1.025 do Código Civil de 1916 (atual art. 840 do CC/2002). Assim, presidiu o Centro de Mediação e Arbitragem de Pernambuco – CEMAPE (2000-2004), integra o Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem – CONIMA, realizou programas de mediação comunitária, desenvolvendo políticas públicas de pacificação social mediante práticas restaurativas (2005-2006) e, sobretudo, tem ele a cátedra do ensino da mediação em instituições universitárias e na sua vida profissional. Podemos afirmar que a sua expertise, por habilidades e conhecimentos no tema, não apenas o credencia como um reconhecido especialista em matéria de mediação mas também importa sobretudo no aperfeiçoamento da própria mediação como instituto e prática. A sua obra é o testemunho desse aprimoramento valorativo que ele consagra ao tempo que seus estudos aqui desenvolvidos trespassam a teorização jurídica e interdisciplinar da mediação para o âmbito de sua operacionalidade com a indicação de diversos métodos de soluções consensuais perante a observação casuística de conflitos. Mais ainda, o autor faz primoroso estudo analítico diante de um novo paradigma do sistema multiportas (multidoor courthouse), de resolução de conflitos (Frank Sander, 1979) quando, com minudência científica, oferece observações pontuais às disposições do novo Código de Processo Civil e da Lei de Mediação, bem como apresenta o quadro comparativo entre os referidos dispositivos. Assinalamos, nesse enfoque, o percuciente cenário que a obra descortina em face da edição das recentes leis, para efeito de uma melhor dimensão experienciada das inovações legais. Mas não é só, estabelecer um inafastável diálogo entre uma justiça conciliativa, cujos fundamentos estão nos primeiros estudos, no país, deAda Pellegrini Grinover (2007), e uma advocacia colaborativa, instituto recente, de origem americana, é outro dos méritos da obra aqui apresentada. A metodologia colaborativa também evoca o princípio de cooperação, oriundo do direito europeu e constante do novo CPC (art. 6º), tudo conforme mudanças de paradigmas que convergem como meios de interesse social e público a formar soluções pacificadoras para uma justa aplicação de direitos, dentro ou fora dos processos judiciais. A mediação é, indubitavelmente, forma condizente de tratar posições antagônicas, com o elevado espírito de definir a solução final, preponderando a ética, a lealdade, a boa-fé objetiva, como gestora dos consensos. De fato, o autor sinaliza a postura urgente de, “ao lidarmos construtivamente com os conflitos sociais, abrimos a porta para um diálogo apreciativo de alternativas importantes ao processo de mudança”. Com efetividade, aprendemos, então, com a sua obra, os ferramentais de uma cultura de paz, para uma gestão mediadora dissuasória de conflitos e interacional de resultados úteis à “construção de consensos”. Podemos afirmar, sem exagero, que as relações multiplexas de uma sociedade agudizada por inúmeros conflitos, notadamente na pós- modernidade, exigem que a mediação seja adotada como a melhor alternativa e mais imediata de recontextualizá-los e superá-los. Em bom rigor, tem sido assim: os diversos modelos de mediação contribuem, por seus métodos e escolas, a superar divergências, enfrentar emoções e resolver os conflitos e as pessoas. A mediação consagrada pelos artigos 165 e 694 do Código de Processo Civil tem a sua aplicação dinâmica e conforme, merecendo o instituto essa valiosa obra oferecida à inteligência jurídica nacional. Carlos Eduardo é um culto artesão de técnicas, modelos e especificidades do emprego da mediação, porquanto seus estudos são extremamente necessários à elevada importância que a mediação vem emprestando à resolução adequada dos conflitos. Vale a pena sublinhar os conflitos de relacionamentos, cujos interesses são imateriais, a saber, ocorridos nos âmbitos tratados pelas Leis 11.340/2006 (Violência de Gênero) e 12.138/2010 (Alienação Parental), em que a mediação assume, em todas as vertentes, uma função libertadora/transformadora, dissipando os conflitos ali exacerbados por nocividade de condutas. No mais, quando estruturada uma política judiciária nacional para o tratamento adequado e satisfatório de conflitos, a partir da Resolução 125/2010 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), sobretudo em garantia do legítimo direito à ordem jurídica justa, retenhamos, por aviso ético, que a mediação se apresenta como mecanismo indutor de pacificação social, objetivo maior da jurisdição ótima. Diremos, portanto, que, tratando-se a mediação de metassíntese de uma jurisdição de resultados, esta obra é um tratado pleno de sua efetivação. Afinal, a negociação dos interesses em disputa não apenas importa aos figurantes do composto litigioso, mas atende, antes e relevantemente, aos reclamos de uma sociedade mais harmônica. O autor traz, assim, a sua importante contribuição, quando produz uma obra indispensável a servir como elemento decisivo para a melhor gestão de conflitos e a recomposição do equilíbrio nas relações interpessoais. Entendida a mediação como um eficaz método dialogado, em alternativa de solução adequada ao conflito, contempla-se aqui, também, um eficaz diálogo do autor com o seu leitor, ministrando ensinanças à eficiência da mediação para a obtenção de seus resultados. Com esta obra de estudos avançados, uma excelente transação. Jones Figueirêdo Alves Desembargador do Tribunal de Justiça de Pernambuco (1999-) e magistrado de carreira (1975-). Mestre em Direito Civil pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), com a qualificação de Excelente. É o atual diretor-geral da Escola Judicial do TJPE (gestão 2018-2020). Membro da Academia Brasileira de Direito Civil (ABDC). Foi assessor convocado da Comissão Especial de Reforma do Código Civil na Câmara Federal (2000/2001) e coautor da primeira obra doutrinária no tema: Novo Código Civil Comentado (Editora Saraiva, 10. ed.). Integrou missão humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU) em Moçambique, na África, sobre Administração da Justiça (2003), em companhia do autor da presente obra. Presidiu o TJPE (2008-2010). É autor de diversas obras jurídicas sobre processo Civil e Direito Civil. 1. 2. 3. 4. 5. 1. 2. 2.1. 2.2. 3. SUMÁRIO CAPÍTULO 1 – TEORIA E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONFLITO Caracterização do conflito Evolução histórica do conflito Conflito na era dos conhecimentos Necessária migração da cultura de dominação à cultura de paz Uso protetor e uso punitivo da força nos confrontos CAPÍTULO 2 – O CPC (LEI 13.105/2015) E A LEI DE MEDIAÇÃO (13.140/2015) NO SISTEMA MULTIPORTAS DE ACESSO À JUSTIÇA O novo paradigma de um sistema multiportas Advocacia resolutiva, design de sistemas de disputas, pactos pelas soluções extrajudiciais e práticas colaborativas Advocacia resolutiva, com design de sistemas de disputas Pactos pelas soluções extrajudiciais e práticas colaborativas Comentários sobre mediação e conciliação no sistema multiportas do CPC (Lei 13.105/2015) 4. 5. 6. 7. 1. 2. 3. 4. 1. 1.1. 1.2. 1.3. Mediação entre particulares e autocomposição no âmbito da administração pública, consoante a Lei 13.140/2015 Sobre o Centro de Soluções Alternativas de Litígios no âmbito do Supremo Tribunal Federal Quadro comparativo entre dispositivos do CPC e da Lei da Mediação Como legitimar a importância dos advogados na mediação CAPÍTULO 3 – RESOLUÇÃO ADEQUADA DE DISPUTAS (RAD): INTRODUÇÃO AOS MÉTODOS. CLÁUSULAS MED-ARB E ARB-MED. CAPACITAÇÕES DE MEDIADORES EXTRAJUDICIAIS, NO PROGRAMA DO CONIMA, E JUDICIAIS, NA RESOLUÇÃO 125/2010 DO CNJ Negociação, mediação, conciliação e arbitragem Avaliação neutra, facilitação de diálogos apreciativos e Comitê de Resolução de Disputas (DRB) Capacitação dos mediadores privados, consoante programa do CONIMA Capacitação de mediadores judiciais, consoante a Resolução 125/2010 do CNJ CAPÍTULO 4 – NEGOCIAÇÃO NA METODOLOGIA DE HARVARD. PRINCIPAIS MODELOS DE MEDIAÇÃO Negociação conforme a escola de Harvard Dados introdutórios O método A análise dos sete elementos da negociação: relacionamento, comunicação, interesses, opções, 1.4. 1.5. 2. 2.1. 2.2. 3. 3.1. 3.2. 1. 2. 3. 3.1 3.2 3.3 3.4 legitimidade, alternativas e compromisso As cinco fases do procedimento de negociação: preparação, criação, distribuição, fechamento e reconstrução Aspectos da Teoria dos Jogos Modelos de mediação direcionados aos interesses Mediação facilitativa (ou tradicional de Harvard) Conciliação ou mediação avaliativa Modelos de mediação direcionados à relação Mediação circular-narrativa Mediação transformativa CAPÍTULO 5 – O PROCEDIMENTO DE MEDIAÇÃO: PRÉ- MEDIAÇÃO E ETAPAS Introdução Pré-mediação Etapas do procedimento Consideram-se primeira etapa as apresentações, os esclarecimentos de abertura e o Termo Inicial de Mediação Consideram-se segunda etapa a fase de narrativas iniciais dos mediandos Consideram-se terceira etapa o compartilhamento de um resumo do acontecido e a elaboração de uma agenda Consideram-se quarta etapa a busca das reais necessidades e a criação de opções para a tomada de decisão 3.5 3.6 4. 4.1. 4.2. 4.3. 4.4. 4.5. 1. 2. 2.1. 2.2. 2.3. 2.4. 3. 3.1. 3.2. 4. 4.1. Considera-se quinta etapa a exploração das opções e de eventuais alternativas, para tomada de decisões com base em critérios objetivos Considera-se sexta etapa a elaboração do Termo Final de Mediação, com ou sem acordo Procedimento conforme o modelo circular-narrativo Pré-reuniões Primeira etapa da reunião conjunta Segunda etapa na forma de reuniões individuais Terceira etapa como reunião da equipe reflexiva Quarta etapa como reunião conjunta de fechamento CAPÍTULO 6 – SETE HABILIDADES COMUNICATIVAS E SUAS TÉCNICAS PARA FACILITAR DIÁLOGOSIntrodução Atitude de acolhimento Afago Linguagem apreciativa (conotação positiva) Silêncio Normalização (com enfoque prospectivo) Escuta ativa Escutas corporais e verbais A escuta ativa é proativa Perguntas sem julgamento Perguntas quanto à substância 4.2. 4.3. 4.4. 5. 5.1. 5.2. 5.3. 6. 6.1. 6.2. 7. 7.1. 7.2. 8. 8.1. 8.2. 1. 2. 3. 3.1 Perguntas quanto à forma Perguntas quanto ao seu modo circular O poder e a arte das perguntas Reciprocidade escuta-fala Conexões estruturais e pessoais Mensagem do ponto de vista pessoal Assertividade sem imposição Prioridade à questão relacional Desembaralhe a questão relacional Assegure a autonomia compartilhada Validação de sentimentos com empatia Reconhecimento da diferença A validação substitui a reação Reformulação de mensagens agressivas Paráfrase ou pergunta Ameaça é jogo de poder CAPÍTULO 7 – ÉTICA NORMATIVA, PRINCÍPIOS JURÍDICO- NORMATIVOS, MORALIDADE E POSTURAS NA MEDIAÇÃO Variáveis históricas da ética normativa Ética neocontratualista das novas constituições democráticas Ética neocontratualista na Declaração Universal da ONU, de 1948 Direitos fundamentais à igualdade de oportunidades: DUDH: arts. 1º e 2º (direitos econômicos e sociais à 3.2. 3.3. 3.4. 4. 5. 5.1 5.2 5.3 5.4 6. educação, à saúde, à cultura, ao trabalho, à livre-iniciativa) Direitos fundamentais à existência digna: DUDH: arts. 3º, 5º, 12, 16, 22, 25, 26 e 27 (direitos à vida, à integridade, à privacidade, à honra, à família, à previdência social, à diferença, à proteção do meio ambiente, à cultura) Direitos fundamentais à liberdade igual: DUDH: arts. 4º, 17, 18, 19, 20 e final do art. 23 (não escravidão, não servidão, propriedade, liberdades de pensamento, consciência, religião, opinião, expressão, reunião e associação) Direitos fundamentais à estabilidade democrática: DUDH: arts. 6º, 7º, 8º, 9º, 10, 11, 13, 14, 15, 21, 23, 24, 28, 29 e 30 (direitos à moralidade na administração pública, à legalidade, à impessoalidade, à publicidade, à eficiência, à segurança, ao acesso à justiça) Um conflito moral para mediar Princípios da mediação e princípios dos mediadores Nossa visão a respeito Código de Ética para Mediadores Extrajudiciais – CONIMA Código de Ética de Conciliadores e Mediadores Judiciais – CNJ Código de Ética para Instituições de Mediação e arbitragem – CONIMA Posturas em mediação 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 7.1 7.2 7.3 8. CAPÍTULO 8 – JUSTIÇA RESTAURATIVA. PROGRAMAS E RESOLUÇÃO 225/16 DO CNJ. PRÁTICAS RESTAURATIVAS, ESPECIALMENTE NA ESCOLA Por uma Justiça Restaurativa Programas iniciais de Justiça Restaurativa Quadro comparativo da complementaridade entre o enfoque restaurativo e o enfoque retributivo no direito criminal Como conduzir o círculo e a mediação vítima-ofensor Justiça restaurativa na Resolução 225/16 do CNJ Práticas restaurativas na escola Aplicações de círculos e encontros de diálogo no ambiente escolar, em três níveis Exemplos de Círculos e de Mediações Restaurativas de 1º Nível (reafirmação de relações) Exemplos de Círculos e de Mediações Restaurativas de 2º Nível (reconexão de relações) Exemplos de Círculos e de Mediações Restaurativas de 3º Nível (direcionados à reconstrução de relações, com pré- círculos ou encontros de pré-mediação) Considerações finais CAPÍTULO 9 – CASOS PARA MEDIAÇÃO SIMULADA 1.º caso – Da demarcação do terreno 2.º caso – Do conflito familiar 3.º caso – O cirurgião e o anestesiologista 4.º caso – Do conflito de funções 1. 1.1 1.2 1.3 2. 3. 4. 5.º caso – Pedro, o filho 6.º caso – Do móvel 7.º caso – Do muro 8.º caso – Do som 9.º caso – Dos gatos 10.º caso – Partilha de bens 11.º caso – Da crença religiosa 12.º caso – Da fazenda de camarões arrendada 13.º caso – Queda provocada em sala de aula 14.º caso – Conflito de gênero CAPÍTULO 10 – O PARADIGMA SISTÊMICO DA CIÊNCIA E A LINGUAGEM DO DIREITO: O LUGAR DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS Pensamento sistêmico como novo paradigma Dimensão da complexidade Dimensão da instabilidade Dimensão da intersubjetividade O novo paradigma sistêmico na linguagem do direito: texto, evento e aplicação do sistema jurídico Dificuldades do paradigma sistêmico no constitucionalismo brasileiro A função dos postulados normativos (metanormas) na aplicação concretizadora do sistema jurídico 5. O lugar da mediação de conflitos na ressignificação dos contraditórios processuais CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Table of Contents Capa Rosto Créditos Dedicatória SOBRE O AUTOR NOTA À 8.ª EDIÇÃO PREFÁCIO SUMÁRIO 1 – TEORIA E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONFLITO 1. Caracterização do conflito 2. Evolução histórica do conflito 3. Conflito na era dos conhecimentos 4. Necessária migração da cultura de dominação à cultura de paz 5. Uso protetor e uso punitivo da força nos confrontos 2 – O CPC (LEI 13.105/2015) E A LEI DE MEDIAÇÃO (13.140/2015) NO SISTEMA MULTIPORTAS DE ACESSO À JUSTIÇA 1. O novo paradigma de um sistema multiportas 2. Advocacia resolutiva, design de sistemas de disputas, pactos pelas soluções extrajudiciais e práticas colaborativas 2.1. Advocacia resolutiva, com design de sistemas de disputas 2.2. Pactos pelas soluções extrajudiciais e práticas colaborativas 3. Comentários sobre mediação e conciliação no sistema multiportas do CPC (Lei 13.105/2015) 4. Mediação entre particulares e autocomposição no âmbito da administração pública, consoante a Lei 13.140/2015 5. Sobre o Centro de Soluções Alternativas de Litígios no âmbito do Supremo Tribunal Federal 6. Quadro comparativo entre dispositivos do CPC e da Lei da Mediação 7. Como legitimar a importância dos advogados na mediação 3 – RESOLUÇÃO ADEQUADA DE DISPUTAS (RAD): INTRODUÇÃO AOS MÉTODOS. CLÁUSULAS MED-ARB E ARB-MED. CAPACITAÇÕES DE MEDIADORES EXTRAJUDICIAIS, NO PROGRAMA DO CONIMA, E JUDICIAIS, NA RESOLUÇÃO 125/2010 DO CNJ 1. Negociação, mediação, conciliação e arbitragem 2. Avaliação neutra, facilitação de diálogos apreciativos e Comitê de Resolução de Disputas (DRB) 3. Capacitação dos mediadores privados, consoante programa do CONIMA 4. Capacitação de mediadores judiciais, consoante a Resolução 125/2010 do CNJ 4 – NEGOCIAÇÃO NA METODOLOGIA DE HARVARD. PRINCIPAIS MODELOS DE MEDIAÇÃO 1. Negociação conforme a escola de Harvard 1.1. Dados introdutórios 1.2. O método 1.3. A análise dos sete elementos da negociação: relacionamento, comunicação, interesses, opções, legitimidade, alternativas e compromisso 1.4. As cinco fases do procedimento de negociação: preparação, criação, distribuição, fechamento e reconstrução 1.5. Aspectos da Teoria dos Jogos 2. Modelos de mediação direcionados aos interesses 2.1. Mediação facilitativa (ou tradicional de Harvard) 2.2. Conciliação ou mediação avaliativa 3. Modelos de mediação direcionados à relação 3.1. Mediação circular-narrativa 3.2. Mediação transformativa 5 – O PROCEDIMENTO DE MEDIAÇÃO: PRÉ- MEDIAÇÃO E ETAPAS 1. Introdução 2. Pré-mediação 3. Etapas do procedimento 3.1 Consideram-se primeira etapa as apresentações, os esclarecimentos de abertura e o Termo Inicial de Mediação 3.2 Consideram-se segunda etapa a fase de narrativas iniciais dos mediandos 3.3 Consideram-se terceira etapa o compartilhamento de um resumo do acontecido e a elaboração de uma agenda 3.4 Consideram-se quarta etapa a busca das reais necessidades e a criação de opções para a tomada de decisão 3.5 Considera-se quinta etapa a exploração das opções e de eventuais alternativas, para tomada de decisões com base em critérios objetivos 3.6 Considera-se sexta etapa a elaboração do Termo Final de Mediação, com ou sem acordo 4. Procedimento conforme o modelo circular-narrativo 4.1. Pré-reuniões 4.2. Primeira etapa da reunião conjunta 4.3. Segunda etapa na forma de reuniões individuais 4.4. Terceira etapa como reunião da equipe reflexiva 4.5. Quarta etapa como reunião conjunta de fechamento 6 – SETE HABILIDADES COMUNICATIVAS E SUAS TÉCNICAS PARA FACILITAR DIÁLOGOS 1. Introdução 2. Atitude de acolhimento 2.1. Afago 2.2. Linguagemapreciativa (conotação positiva) 2.3. Silêncio 2.4. Normalização (com enfoque prospectivo) 3. Escuta ativa 3.1. Escutas corporais e verbais 3.2. A escuta ativa é proativa 4. Perguntas sem julgamento 4.1. Perguntas quanto à substância 4.2. Perguntas quanto à forma 4.3. Perguntas quanto ao seu modo circular 4.4. O poder e a arte das perguntas 5. Reciprocidade escuta-fala 5.1. Conexões estruturais e pessoais 5.2. Mensagem do ponto de vista pessoal 5.3. Assertividade sem imposição 6. Prioridade à questão relacional 6.1. Desembaralhe a questão relacional 6.2. Assegure a autonomia compartilhada 7. Validação de sentimentos com empatia 7.1. Reconhecimento da diferença 7.2. A validação substitui a reação 8. Reformulação de mensagens agressivas 8.1. Paráfrase ou pergunta 8.2. Ameaça é jogo de poder 7 – ÉTICA NORMATIVA, PRINCÍPIOS JURÍDICO- NORMATIVOS, MORALIDADE E POSTURAS NA MEDIAÇÃO 1. Variáveis históricas da ética normativa 2. Ética neocontratualista das novas constituições democráticas 3. Ética neocontratualista na Declaração Universal da ONU, de 1948 3.1 Direitos fundamentais à igualdade de oportunidades: DUDH: arts. 1º e 2º (direitos econômicos e sociais à educação, à saúde, à cultura, ao trabalho, à livre-iniciativa) 3.2. Direitos fundamentais à existência digna: DUDH: arts. 3º, 5º, 12, 16, 22, 25, 26 e 27 (direitos à vida, à integridade, à privacidade, à honra, à família, à previdência social, à diferença, à proteção do meio ambiente, à cultura) 3.3. Direitos fundamentais à liberdade igual: DUDH: arts. 4º, 17, 18, 19, 20 e final do art. 23 (não escravidão, não servidão, propriedade, liberdades de pensamento, consciência, religião, opinião, expressão, reunião e associação) 3.4. Direitos fundamentais à estabilidade democrática: DUDH: arts. 6º, 7º, 8º, 9º, 10, 11, 13, 14, 15, 21, 23, 24, 28, 29 e 30 (direitos à moralidade na administração pública, à legalidade, à impessoalidade, à publicidade, à eficiência, à segurança, ao acesso à justiça) 4. Um conflito moral para mediar 5. Princípios da mediação e princípios dos mediadores 5.1 Nossa visão a respeito 5.2 Código de Ética para Mediadores Extrajudiciais – CONIMA 5.3 Código de Ética de Conciliadores e Mediadores Judiciais – CNJ 5.4 Código de Ética para Instituições de Mediação e arbitragem – CONIMA 6. Posturas em mediação 8 – JUSTIÇA RESTAURATIVA. PROGRAMAS E RESOLUÇÃO 225/16 DO CNJ. PRÁTICAS RESTAURATIVAS, ESPECIALMENTE NA ESCOLA 1. Por uma Justiça Restaurativa 2. Programas iniciais de Justiça Restaurativa 3. Quadro comparativo da complementaridade entre o enfoque restaurativo e o enfoque retributivo no direito criminal 4. Como conduzir o círculo e a mediação vítima-ofensor 5. Justiça restaurativa na Resolução 225/16 do CNJ 6. Práticas restaurativas na escola 7. Aplicações de círculos e encontros de diálogo no ambiente escolar, em três níveis 7.1 Exemplos de Círculos e de Mediações Restaurativas de 1º Nível (reafirmação de relações) 7.2 Exemplos de Círculos e de Mediações Restaurativas de 2º Nível (reconexão de relações) 7.3 Exemplos de Círculos e de Mediações Restaurativas de 3º Nível (direcionados à reconstrução de relações, com pré-círculos ou encontros de pré-mediação) 8. Considerações finais 9 – CASOS PARA MEDIAÇÃO SIMULADA 1.º caso – Da demarcação do terreno 2.º caso – Do conflito familiar 3.º caso – O cirurgião e o anestesiologista 4.º caso – Do conflito de funções 5.º caso – Pedro, o filho 6.º caso – Do móvel 7.º caso – Do muro 8.º caso – Do som 9.º caso – Dos gatos 10.º caso – Partilha de bens 11.º caso – Da crença religiosa 12.º caso – Da fazenda de camarões arrendada 13.º caso – Queda provocada em sala de aula 14.º caso – Conflito de gênero 10 – O PARADIGMA SISTÊMICO DA CIÊNCIA E A LINGUAGEM DO DIREITO: O LUGAR DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS 1. Pensamento sistêmico como novo paradigma 1.1 Dimensão da complexidade 1.2 Dimensão da instabilidade 1.3 Dimensão da intersubjetividade 2. O novo paradigma sistêmico na linguagem do direito: texto, evento e aplicação do sistema jurídico 3. Dificuldades do paradigma sistêmico no constitucionalismo brasileiro 4. A função dos postulados normativos (metanormas) na aplicação concretizadora do sistema jurídico 5. O lugar da mediação de conflitos na ressignificação dos contraditórios processuais CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Capítulo 1 TEORIA E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONFLITO CARACTERIZAÇÃO DO CONFLITO Conflito é o dissenso latente, que se manifesta numa disputa. Decorre de expectativas, valores e interesses contrariados. Embora seja contingência da condição humana portanto, algo natural – numa disputa conflituosa costuma-se tratar a outra parte como adversária, infiel ou inimiga. Cada uma das partes da disputa tende a concentrar todo o raciocínio e elementos de prova na busca de novos fundamentos para reforçar a sua posição unilateral, na tentativa de enfraquecer ou destruir os argumentos da outra parte. Esse estado emocional estimula as polaridades e dificulta a percepção do interesse comum. Portanto, o conflito ou dissenso é fenômeno inerente às relações humanas. É fruto de percepções e posições divergentes quanto a fatos e condutas que envolvem expectativas, valores ou interesses contraditórios. O conflito não é algo que deva ser encarado negativamente. É impossível uma relação interpessoal plenamente consensual. Cada pessoa é dotada de uma originalidade única, com experiências e circunstâncias existenciais personalíssimas. Por mais afinidade e afeto que exista em determinada relação interpessoal, algum dissenso, algum conflito, estará presente. A consciência do conflito como fenômeno inerente à condição humana é muito importante. Sem essa consciência tendemos a demonizá-lo ou a fazer de conta que não existe. Quando compreendemos a inevitabilidade do conflito, somos capazes de desenvolver soluções autocompositivas. Quando o demonizamos ou não o encaramos com responsabilidade, a tendência é que ele se converta em confronto e violência. O que geralmente ocorre no conflito processado com enfoque adversarial é a hipertrofia do argumento unilateral, quase não importando o que o outro fala ou escreve. Por isso mesmo, enquanto um se expressa, o outro já prepara nova argumentação. Ao identificarem que não estão sendo entendidas, escutadas, lidas, as partes se exaltam e dramatizam, polarizando ainda mais as posições. A solução transformadora do conflito depende do reconhecimento das diferenças e da identificação dos interesses comuns e contraditórios, subjacentes, pois a relação interpessoal funda-se em alguma expectativa, valor ou interesse comum. As relações interpessoais, com sua pluralidade e liberdade de expressão de percepções, sentimentos, crenças, direitos e interesses, ampliam as vivências de conflito. A negociação desses conflitos é um labor comunicativo quotidiano em nossas vidas. Nesse sentido, o conflito não tem solução. O que se podem solucionar são disputas pontuais, mas os nossos conflitos podem sempre ser transformados pelo modo como lidamos com eles. Indo mais adiante na busca do compreender a condição humana, é necessário que nos reconheçamos como seres vivos, constituídos de forças cósmicas, biológicas, sociais, psíquicas, emocionais, que nos impulsionam em direções contraditórias, embora fundamentalmente complementares. Em cada um de nós atuam impulsos aparentemente fragmentadores, de autoafirmação, e impulsos potencialmente integrativos, de religação, que, em suas expressões equifinais, se concertam e se excluem, num contínuo dinamismo. Vivemos, pois, em meio ao desafio de administrar, de afinar, de compreender e de integrar essas polaridades, entre nós e em cada um, para que os nossos conflitos interpessoais, que podem ser construtivos, não descambem para a destrutividade. Estados emocionais de raiva, de indignação ou de medo exercem grande poder sobre pessoas infelizes, decepcionadas, deprimidas, revoltadas, que são as mais prováveis vítimas de reatividades irrefletidas, a ponto de, muito de repente, se perceberem acusadas da práticade crime. Prevenir a violência equivale a compreender a nossa intersubjetividade/interdependência, e praticar, construtivamente, em situação de violência manifesta, a arte da guerra (uso protetivo da força) e a arte da paz (resistência pacífica), na construção de consensos razoáveis. Recentemente, numa fila de banco, escutei a voz de um senhor à minha frente, que se voltava em minha direção. “Não tem jeito! Este é um mundo cão! Aquela mulher na cama com outro homem. E não é de hoje. Sempre dei do melhor para ela. Meus filhos estão muito revoltados. Estou desmoralizado”. E estendeu o braço acionando o dedo como num gatilho. Parece que as pessoas percebem quando alguém é observador e receptivo. Escutei, escutei. Validei com a minha atenção e o meu silêncio os sentimentos daquele homem. Quando senti que ele desejava escutar a minha opinião, procurei a empatia, expressando como deve ser um desafio viver isto sem cair na tentação de tornar-se um assassino e amargar anos de penitenciária. E perguntei: essa mulher é tão importante para você? Ele respondeu: ela foi a maior decepção da minha vida. Aquela mulher é uma peste. Por nada no mundo eu a quero de volta. Então perguntei. O que você gostaria que acontecesse agora? “Que ela morresse!” E quanto a você, o que você está sentindo em relação ao seu futuro? Eu sinto que preciso de uma outra companheira que me ajude a cuidar dos meus filhos. Os seus filhos são menores? Respondeu que sim e que eram dois filhos homens. Eles gostam da mãe? Fomos deixando outras pessoas passarem à frente na fila. Ele, então, falou que, quanto a isto, não tem o que reclamar e que a mãe cuida bem dos filhos, que são muito apegados a ela. Após esse diálogo em que as perguntas eram respondidas de coração, fui percebendo que aquele homem estava diferente. Estava empoderado, como que se expressando por meio de outra “persona”, que, no entanto, era uma outra expressão dele próprio, após o desabafo e a reflexão. Era possível perceber que a necessidade implícita dele era de reconhecimento, de afago e de aceitação da ideia de dar um tempo ao tempo e a si próprio para reconstruir uma ambiência familiar. E como tínhamos outras coisas a fazer, dirigimo-nos ao caixa, não sem antes ele colocar, sobre o meu ombro esquerdo, aquele mesmo braço do “dedo no gatilho”, agradecendo, emocionado, o que chamou de “orientação”. As pessoas matariam menos se fossem reconhecidas em seu sofrimento e escutadas na sua dor. A maldade existe, sim, mas ela tem a cara do sofrimento, seja o de hoje, seja o da infância. A não escuta desse sofrimento é o alimento dos processos destrutivos que ocasionam a escalada do conflito na direção do confronto e da violência, numa sociedade ainda dominada pela cultura da culpa, do julgamento e do castigo. A partir da segunda metade do século passado, autores como Rudolph Rummel, William Uri, Morton Deutsch e outros inovaram em suas pesquisas e abordagens sobre o conflito. É interessante observar em Rummel1 o que ele denomina fases ou níveis do conflito, distinguindo a) o conflito latente, b) o conflito manifesto, real ou atual (disputa), bem como c) o modo como se dá a exteriorização desse conflito manifesto (o processo). Conflito latente é aquele observado no contexto das diferenças políticas, psicológicas e sociais que compõem o quadro conflituoso da convivência, enquanto permanecem latentes no indivíduo ou no grupo, sem produzir qualquer efeito aparente. Nessa circunstância contextual, as posições ou disposições opostas formam a estrutura tensionada que, a depender da validação dos sentimentos e necessidades recíprocas, pode prevenir o conflito manifesto. Conflito manifesto é aquela oposição de interesses, atitudes e poderes já ativada mediante demonstrações sintomáticas ou explícitas. São manifestações típicas da busca de soluções. O que comumente se destaca nessa busca são as ameaças, demandas, terrorismos, assassinatos, agressões e guerras. Portanto, é o complexo de atitudes que compõem o conflito manifesto, na sua expressão mais definida: a disputa ou o embate (violência). Exteriorização do conflito (drama) é o modo como o conflito manifesto (confronto ou embate) vai revelar o balanceamento do poder resultante da decisão de manifestar um comportamento de disputa ou agressão. Como desdobramento dessa abordagem, Rummel2 formula o que ele denomina Espiral do Conflito, que vai além daquelas três fases ou níveis antes referidos. Eis como aquele autor descreve as fases de espiral do conflito: Primeira fase: Latente – potencialidades e estruturas do conflito. Onde quer que exista mais de um homem, um grupo, uma sociedade, uma cultura, estará presente o conflito (latente) nos papéis, iminências, e sentimentos, envolvendo religiões, economias, políticas, interesses, autoestima, superego etc. Segunda fase: Início – manifestação do conflito (disputa ou confronto). Envolve a decisão de manifestar o conflito de posições e interesses opostos e a consequente situação de instabilidade e incerteza. Terceira fase: Balanceamento de poder – administração de forças. Confrontação de poder resultante da decisão de manifestar um comportamento de disputa. a) b) Quarta fase: Equilíbrio de poder – estrutura de expectativas. A busca do equilíbrio, por meio de estruturas ou processos institucionalizados ou não (resolução). Quinta fase: Interrupção do equilíbrio – acomodação de forças. É a fase intermediária entre o conflito resolvido e o latente, que potencialmente dará origem a novas disputas. Portanto, é o fim e o início da espiral de Rummel. Conforme verificamos nesta perspectiva de Rummel, o conflito evolui numa espiral, de latente a manifesto (disputa), seguindo-se a fase do balanceamento de poder (a confrontação), sequenciada pela fase da busca do equilíbrio (institucionalizado ou não), chegando à acomodação (conflito latente), que potencialmente dará origem a novas disputas; assim ocorrendo como fenômeno inerente às relações humanas. Em realidade, o conflito interpessoal compreende esse aspecto relacional (expectativas e crenças desencontradas, sentimentos e ressentimentos intercambiados), compreende o aspecto objetivo (interesse objetivo ou material envolvido) e compreende a trama (o seu processo, o seu desdobramento). Daí entender-se que o conflito interpessoal se compõe de três elementos: relação interpessoal, problema objetivo e trama ou processo. Relação interpessoal: conflito interpessoal pressupõe, pelo menos, duas pessoas em relacionamento, com suas respectivas percepções, valores, sentimentos, crenças e expectativas. Ao lidar com o conflito é necessário que se permita espaço para a compreensão desse elemento interpessoal. Problema objetivo: o conflito interpessoal tem sua razão objetiva, concreta, material. Essa materialidade pode expressar condições estruturais, interesses ou necessidades contrariadas. Portanto, o aspecto material, concreto e objetivo do conflito é um dos seus c) a) b) c) d) e) elementos. A adequada identificação do problema objetivo, muitas vezes, supõe prévia abordagem da respectiva relação interpessoal. Trama ou processo: a trama ou o processo expressa as contradições entre o dissenso na relação interpessoal e as estruturas, os interesses ou as necessidades contrariados. Como foi, por que, onde, quando, as circunstâncias, as responsabilidades, as possibilidades e os processos, com suas implicações. Enfim, conforme Jandt, o conflito ainda pode exercer as seguintes funções:3 Estabelece os limites dos grupos na medida em que fortalece a coesão e a separatividade; Reduz a tensão e permite a manutenção da interação social sob pressão; Clareia objetivos; Resulta no estabelecimento de normas; Sem ele, as relações se acomodam e resultam em subordinação em vez de entendimento. Tradicionalmente, concebia-se o conflito como algo a ser suprimido, eliminado da vida social; e que a paz seria fruto da ausência de conflito. Não é assim que se concebe atualmente, a partir de uma visão sistêmica. A paz é um bem precariamente conquistado porpessoas ou sociedades que aprendem a lidar com o conflito. O conflito, quando bem conduzido, evita a violência e pode resultar em mudanças positivas e novas oportunidades de ganho mútuo. Durkheim4 refere que certo nível de criminalidade seria benéfico, funcional e necessário socialmente, sendo, inclusive, traço normal e inevitável de toda sociedade. Essa ideia estaria fundada em três a) b) c) pressupostos: “a) crime provoca punição que, por sua vez, reforça solidariedade nas comunidades; b) a repressão de crimes auxilia a estabelecer e manter limites comportamentais no interior de comunidades (em níveis não anômicos); c) incrementos excepcionais nas taxas de criminalidade podem alertar ou advertir autoridades para problemas existentes nos sistemas sociais onde ocorrem tais taxas de criminalidade”. Que o conflito é inerente à relação humana, isso é pacífico. Também não se discute que do conflito pode nascer o crime e que essa evolução do conflito para o crime tem sido uma constante na história. No entanto, a nossa hipótese é no sentido de que o crime só se converte em necessidade social quando as condições de vida e as políticas públicas são excludentes, injustas e corruptas. Com efeito, não apenas as causas da violência são sistêmicas (uma sociedade baseada na injustiça, na desigualdade econômica e exclusão do pobre, etc.), mas os efeitos também o são, ou seja, há uma mútua reverberação entre causas e efeitos, assim como entre criminosos e não criminosos. A resultante são efeitos de violência e instabilidade, manifestados em depressões, medos, neuroses, repressões e efeitos sociais deletérios, os quais reverberam, indo além, do humano aos seres não humanos, numa rede comum, a rede ecológica.5 Em suma, conflitos decorrem da convivência social do homem com suas contradições. Eles podem ser divididos em quatro espécies que, de regra, incidem cumulativamente, a saber: conflitos estruturais (diferenças nas circunstâncias sociais, políticas e econômicas dos envolvidos); conflitos de informação (informação incompleta, distorcida, conotação negativa); conflitos de valores (diferenças na moral, na ideologia, na religião); d) conflitos de interesses (reivindicação de bens e direitos de interesse comum e contraditório). Conforme Morton Deutsch,6 o modo de lidar com o conflito, o meio de resolver o conflito, pode ser construtivo ou destrutivo. Para esse autor, os processos destrutivos caracterizam-se pelo enfraquecimento ou rompimento da relação social preexistente à disputa, em virtude da feição competitiva de como essa é conduzida. Nesses processos destrutivos o conflito tende a expandir-se em espiral, frequentemente tornando-se independente de suas causas iniciais. Já os processos construtivos, segundo Deutsch, são aqueles em que as partes vão fortalecendo a relação social preexistente à disputa, consoante valores, técnicas e habilidades que veremos mais adiante, ao cuidarmos da mediação e da comunicação construtiva. Essa importante contribuição de Morton Deustch contrariou a ontologização do conflito, em que ele era visto como um mal em si mesmo. Morton Deustch aproximou a teoria do conflito da filosofia da linguagem e da psicanálise junguiana, ao reconhecer o alcance afetivo da intersubjetividade cambiante pelo diálogo construtivo; que enseja o potencial transformador do conflito. Segundo Morin,7 “A compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas alegrias. Permite-nos reconhecer no outro os mecanismos egocêntricos da autojustificação, que estão em nós, bem como as retroações positivas (no sentido cibernético do termo) que fazem degenerar em conflitos inexplicáveis as menores querelas”. E os grandes conflitos? De onde vem o campo mental que os pode fomentar? Rupert Sheldreke, citado por Bert Hellinger,8 observou que a comunicação existente entre seres vivos somente se explica quando admitimos a presença de um campo mental em cujo interior esses seres se mantêm e se movem. No interior desse campo, cada um está em ressonância com todos. Ocorre que grupos humanos, com diferentes histórias e narrativas excludentes, movem-se por campos opostos, em diferenciados estados de consciência. Os admitidos no grupo são os bons, tidos como de boa consciência; mas bons no sentido dessa boa consciência, são apenas os que rejeitam e excluem o diferente. Essa consciência que exclui é a mesma que atribui ao outro uma má consciência. Segundo Hellinger, “Sob o influxo da boa consciência e da irresistível necessidade de pertencer, nasce um movimento dotado de um zelo cego. Ele desperta, de um lado, um sentimento exaltado de inocência, boa consciência e vinculação ao próprio grupo, e volta-se cegamente contra outros. Esse movimento provoca uma disposição de morrer, associada a uma vontade de extermínio contra outros, que não são considerados pessoas. Eles são sacrificados anonimamente ao paroxismo dessa exaltação, como alimento para um ídolo cego, e são assassinados em sua homenagem. É esse delírio que dá força ao grande conflito insensato.” No entanto, também para este grande conflito, há abordagens e energias mobilizáveis no sentido da grande paz, num campo mental ampliado; na curiosidade e no desejo de melhor conhecimento mútuo e na necessidade mútua de reparação, de cura e de sobrevivência. Concluímos esta parte com o seguinte resumo: a) os conflitos não podem ser eliminados porque são inerentes às relações humanas, tendo eles um potencial gerador de problemas e de oportunidades; b) eles podem ser processados de modo construtivo ou destrutivo; c) sociedade em que se pratica cultura de paz é aquela que lida construtivamente com os conflitos; d) lidar destrutivamente com o conflito é transformá-lo, pela polaridade, em espiral de confronto e violência; e) lidar construtivamente é obter, pela via da validação de sentimentos e necessidades, novas compreensões, com estreitamento dos vínculos interpessoais e do tecido social; f) são elementos do conflito a relação interpessoal, o problema objetivo e sua trama ou 2. processo; g) grosso modo, há conflitos de estrutura, de valores, de informação, e de interesses; h) o conflito evolui numa espiral, de latente a manifesto (disputa), seguindo-se a fase do balanceamento de poder (a confrontação), sequenciada pela fase da busca do equilíbrio (institucionalizado ou não), chegando à acomodação (conflito latente), que dará origem a novas possíveis disputas. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONFLITO A evolução do conflito e suas manifestações degeneradas pela violência variam consoante a circunstância intersubjetiva, histórica, social, cultural e econômica. Mais de noventa e nove por cento da história da humanidade foi vivenciada por nossos ancestrais nômades. Eles viviam da caça, da pesca e da coleta de mantimentos. O espaço era teoricamente ilimitado, os recursos eram maleáveis. Inexistiam castas, classes sociais, estados ou hierarquias formais. Os conflitos eram mediados pela comunidade, coordenada em torno das lideranças comunitárias. A ordem tinha um caráter sacro, sendo as penas, sacrifícios realizados em rituais, não se apresentando como imposição de uma autoridade social, mas como forma de proteger a comunidade do perigo que a ameaçasse. Vigorava um tipo de direito pré- convencional, revelado, indiferenciado da religião e da moral. As relações humanas eram pouco complexas e fortemente horizontalizadas. Pesquisas recentes, referidas pelo antropólogo e mediador William Ury, cofundador do Harvard’s Program on Negociation, vêm demonstrando que eram raros os atos de violência entre os nossos ancestrais nômades.9 O surgimento de novas formas de pensar e de se comunicar, entre 70 mil e 30 mil anos atrás, constitui o que se convencionou chamar de Revolução Cognitiva. O que a teria causado? Segundo uma teoria referida por Yuval Noah Harari,10 nossa linguagem foi-se mostrando incrivelmente versátil. Evoluiu como uma forma de fofoca (gastronomia e papos em torno da fogueira?). De acordocom essa teoria, o homo sapiens é, antes de mais nada, um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e a reprodução. Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é traiçoeiro. A domesticação do fogo, acontecida milênios antes, ensejou maior proteção das tribos, inclusive mediante manipulação de ferramentas forjadas do ferro, do bronze e de outros metais, ampliando o poder dos grupamentos contra animais ferozes, estimulando “banquetes” ao redor das fogueiras, onde floresciam os papos, as fofocas, a imaginação criativa. Quantos bodes e coelhos grelhados não inspiraram as festas, os mitos e os ritos desses povos conversadores? Com efeito, ainda conforme Harari, lendas, mitos, deuses e religiões aparecem pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. Antes disso, muitas espécies animais e humanas foram capazes de dizer: “Cuidado! Um leão!”, mas foi graças à Revolução Cognitiva que o homo sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens. Desde então podemos tecer mitos partilhados, tais como a história bíblica da criação, os mitos do tempo do sonho dos aborígenes australianos e os mitos nacionalistas dos Estados modernos. Acrescenta Harari que, após a Revolução Cognitiva, a fofoca ajudou o homo sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. Mas até mesmo a fofoca tem seus limites. Pesquisas sociológicas demonstraram que o tamanho máximo “natural” de um grupo unido por fofoca é de cerca de 150 indivíduos. A maioria das pessoas não consegue nem conhecer intimamente, nem fofocar efetivamente sobre mais de 150 seres humanos. Como o homo sapiens conseguiu ultrapassar esse limite crítico, fundando cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios que governam centenas de milhões? O segredo foi, provavelmente, o surgimento da ficção. Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos, conclui. Outro salto na história dos conflitos humanos começou a acontecer há cerca de dez mil anos, quando algumas comunidades tornaram viável a sobrevivência por meio da agricultura e da domesticação de animais. Deu- se início à chamada Revolução Agrícola. As comunidades foram passando de nômades a sedentárias. A partir de então, os mais fortes, hábeis e ousados se apossaram das terras produtivas e dos animais domesticáveis, acumulando riquezas e poderes, criando reinados e costumeiramente escravizando os povos derrotados em guerras de conquista. Esse fenômeno ocorreu e se desenvolveu em épocas diferentes, mas os seus efeitos de variável intensidade foram e são similares em toda parte. A violência foi convertida em instrumento de poder, para proteção ou perseguição, a serviço, quase sempre, de grandes proprietários de terras, com apoio em suas milícias privadas, com atenuações ou ampliações, consoante as crenças, mitos e temores religiosos vigorantes. Multidões eram recrutadas à força para servir às milícias do poderoso mais próximo. Lavradores, intelectuais, filósofos, artistas, artesãos sob a dependência e à mercê do humor e conveniências dos que detinham esses poderes. À plebe, subintegrada socialmente, apenas cabiam os deveres e obrigações, inclusive os de guerrear em defesa de interesses alheios. Aos nobres e protegidos, sobreintegrados socialmente, eram destinados os direitos e privilégios. A coercitividade difusa das sociedades primitivas foi sendo substituída por um direito tradicional, convencional, em que a norma, elaborada por um poder central, vai constituindo uma “ética da lei”, enquanto outorga de expectativa generalizada de comportamento. Há milênios o patrimonialismo, com suas variantes circunstanciais de natureza política, econômica, jurídica, religiosa e ecológica, promove modelos fortemente hierarquizados e uma acumulação excludente de capital, sob rígida divisão do trabalho. Sua natureza patrimonialista propagou a cultura de dominação e suas atenuações circunstanciais, inclusive após o advento da agricultura irrigada e da escrita. A despeito dessas estruturas verticalizadas, as práticas da mediação/ conciliação mantiveram-se. Eram conduzidas por chefes ou líderes oficiais ou não, que exerciam alguma ascendência hierárquica no processo. Notícias dessas práticas milenares vêm das culturas confucionistas, budistas, hinduístas, judaicas, cristãs, islâmicas e indígenas. Na China, há cerca de 3.000 anos, na dinastia Zhou de Oeste, já existiam postos oficiais designados como “Tiao Rien” (mediador).11 Especialmente a partir do século XVI, com o desenvolvimento do comércio – graças às novas técnicas de navegação e estocagem –, o poder foi-se deslocando dos senhores territoriais, feudais, para os senhores dos mares e cidades, capitalistas mercantis (burguesia). As esferas do ético, do moral, do jurídico e do religioso ainda se confundem, mas já começam a ser distinguidas. No entanto, a validade dos comandos normativos ainda é deduzida de postulados que reproduzem valores hierarquizados, em que prevalecem os códigos de referência políticos (poder/não poder) e econômicos (ter/não ter) sobre os códigos de referência técnicos (verdade/falsidade), morais (certo/ errado) e jurídicos (lícito/ilícito). Essas mudanças estão associadas ao fenômeno cultural da escrita impressa. Boaventura de Sousa Santos12 comenta a relação entre a cultura escrita, que se desenvolvia na Europa a partir do século XV, o processo de mudança e a inovação. O desenvolvimento da escrita e seus efeitos sobre a cultura teriam alterado as relações entre o que ele considera os três componentes estruturais do direito, ou três formas de comunicação: “a retórica, assente na persuasão; a burocracia, baseada em imposições autoritárias por meio de padrões normativos; a violência, assente na ameaça da força física”. Ao examinar a interpenetração estrutural entre retórica, burocracia e violência, Santos destaca distinções entre a cultura oral e a cultura escrita. “A cultura oral está centrada na conservação do conhecimento, enquanto que a cultura escrita está centrada na inovação. A cultura oral é totalmente coletivizada, ao passo que a cultura escrita permite a individualização. A cultura oral tem como unidade básica a fórmula, enquanto que a cultura escrita tem como unidade básica a palavra”. Se observarmos a história da cultura europeia à luz destas distinções, torna-se evidente que, até o século XV, a cultura – e, portanto, também a cultura jurídica europeia – foi predominantemente uma cultura oral. A partir daí a cultura escrita expandiu-se gradualmente e a cultura oral retraiu-se. No entanto, é patente que, entre os séculos XV e XVIII, a estrutura da cultura escrita, ainda em processo de consolidação, esteve impregnada da lógica interna da cultura oral. Por outras palavras, nessa época escrevia-se como se falava e isso é observável na escrita jurídica de então. Na segunda fase, entre o século XVIII e as primeiras décadas do século XX, a palavra escrita dominou a cultura. Logo a seguir, porém, a rádio e os meios audiovisuais de comunicação social redescobriram o som da palavra, dando assim início à terceira fase: uma fase de oralidade secundária”. Não foi por mera coincidência que a população foi deixando de ser vista como aquilo que nos textos do século XVI se chamava de “paciência do soberano”, algo tido como administração de uma massa coletiva de fenômenos. A ideia de poder, na ambiência crescentemente urbana de todas aquelas expansões tecnológicas, mercantis e culturais, foi-se paulatinamente deslocando da díade soberano/território para a variável governo/população/território/riqueza. Foucault13 comenta que a rede de relações contínuas e múltiplas entre a população, o território, a riqueza etc., passou a constituir uma ciência, que se chamaria economia política, e, ao mesmo tempo,um tipo de intervenção característico do governo: a intervenção no campo da economia e da população. Tal mudança ocorre na passagem de uma arte de governo para uma ciência política, de um regime dominado pela estrutura da soberania para um regime dominado pelas técnicas de governo. Quem desconhece as contribuições teóricas de Montesquieu, Hobbes, Locke, Hume, Rousseau, Maquiavel, Kant e tantos outros, que fundamentam a modernidade? Tais mudanças vão se consolidando a partir do século XVIII, em torno da população e, por conseguinte, do nascimento da economia política. Evolui-se da ideia da soberania territorial (do príncipe) para a ideia da soberania da instituição (ou constituição político-jurídica). Acentua Foucault que, a partir do século XVIII, “São as táticas de governo que permitem definir a cada instante o que deve ou não competir ao Estado, o que é público ou privado, o que é ou não estatal etc.; portanto, o Estado, em sua sobrevivência e em seus limites, deve ser compreendido a partir das táticas gerais da governabilidade”. Também conforme Foucault,14 fortalecia-se, então, na esfera penal, uma intolerância diante do suplício físico a que eram submetidos os infratores. A despeito daqueles importantes avanços institucionais impulsionados pelas revoluções francesa e americana, a cultura de dominação hierárquica e patrimonialista prevaleceu, mas agora sob um processo crítico de superação. A difusão de conhecimento inovador resultou nas condições para a institucionalização da tripartição do poder em executivo, legislativo e judiciário, sob a inspiração dos conceitos sistêmicos de Montesquieu. Tais avanços vão atenuando a dominância do código de referência poder/não poder sobre o código lícito/ilícito e gerando as condições suficientes e necessárias ao surgimento dos modernos Estados Democráticos de Direito. Nos últimos duzentos anos, com a Revolução Industrial, o comércio se ampliou, a cultura escrita se expandiu por intermédio da imprensa, ao lado de atividades terciárias que fomentaram uma crescente concentração das populações em cidades cada vez maiores, numerosas e complexas. As 3. expressões do patrimonialismo em sua vertente capitalista passaram a se verificar em ambientes de maior mobilidade cultural, sujeitas a processos dramáticos de resistência e superação institucional. Ampliaram-se, substancialmente, a complexidade e a conflituosidade das relações interpessoais e interinstitucionais. CONFLITO NA ERA DOS CONHECIMENTOS O processo civilizatório avança e já se pode afirmar que, sob os mais novos modelos institucionais dos Estados Democráticos de Direito, as políticas econômicas e sociais estão perdendo aquela conformação rigidamente hierarquizada, até porque as elites tradicionais já não dispõem do monopólio da inovação e do poder. A metodologia quantitativa da “Pesquisa Social Brasileira” compartilhada por Alberto Carlos Almeida,15 no livro “A Cabeça do Brasileiro”, demonstra, por exemplo, que o ícone da nossa formação social foi o senhor de engenho com grandes propriedades e muitos escravos. Formava-se ali uma sociedade bastante assimétrica, em que poucos eram proprietários de grandes extensões territoriais e muitos (escravos e trabalhadores livres) não tinham nenhum pedaço de terra. Essa é a principal matriz social e econômica da formação do Brasil, mas não a única. Eis algumas questões sobre como tudo isto repercute hoje, consoante demonstrado na pesquisa: “Quem mora nas capitais tende a ser menos patrimonialista do que quem mora fora das capitais”; “Os habitantes do Nordeste são mais patrimonialistas do que as pessoas que moram nas demais regiões do Brasil”; “Os homens tendem a ser mais patrimonialistas do que as mulheres”; “Os mais velhos tendem a ser mais patrimonialistas do que os mais jovens”; “As pessoas que fazem parte da população economicamente ativa tendem a ser menos patrimonialistas do que as que não fazem parte”; “A relação entre escolaridade e visão de mundo hierárquica é muito forte”; “O Brasil é uma sociedade regida por uma lógica predominantemente hierárquica”; “Os dados da Pesquisa Social Brasileira mostram que hierarquia e autoritarismo estão positivamente relacionados”; “Patrimonialismo e corrupção são ideias afins”. A tolerância à corrupção “é realmente maior entre aqueles de escolaridade mais baixa...”. Tudo isso confirma, conforme a lição de Raymundo Faoro, a persistência da nossa cultura patrimonialista – centralizadora, burocrática e corrupta – originária de uma tradição que remonta ao passado lusitano, ibérico, colonial.16 O aspecto positivo da pesquisa é que ela nos indica que, num movimento inverso, a intensificação dos investimentos na qualidade e intensidade da educação formal e informal e a democratização das informações, sob o influxo da revolução virtual dos conhecimentos, em meio a esse “nomadismo” do mundo contemporâneo, podem estar desconstruindo o padrão hierárquico e patrimonialista dessa velha cultura lusitana. Com efeito, as sociedades modernas, centrais, ou mesmo as periféricas, foram incorporando a consciência de uma complexidade crescente e atenuando os códigos do poder hierárquico, na medida em que se afirmam diferenciações funcionais. Em substituição ao modelo hierárquico unilateral, em sentido único “do poder para o direito” e “do soberano para o súdito”, passou-se progressivamente a construir uma circularidade instável entre poder, direito, estado e cidadania, sob a dinâmica de uma moral pós-convencional. Isto, a nosso ver, em decorrência das novas tecnologias da informação, que possibilitaram o acesso ao conhecimento pela grande massa populacional, pois, a exemplo da tripartição do poder formal em executivo, legislativo e judiciário, consolida-se uma tripartição do poder material entre Estado, Mercado e Sociedade Civil Organizada/ pluralista. Especialmente a partir das últimas décadas do século XX, uma “Revolução dos Conhecimentos” vem contribuindo para mudanças substanciais. As pessoas, sociologicamente urbanizadas, vão se tornando avessas às hierarquias tradicionais, pois o amplo acesso ao conhecimento não é compatível com posturas de imposição unilateral. Ao atenuar as hierarquias patrimonialistas, a “Revolução dos Conhecimentos” deflagra ondas emancipatórias. Paralelamente à emancipação feminina, avança, na consciência moral e política do povo, um sentimento-ideia de igualdade, que se expressa na forma de um movimento emancipatório, insurrecional. A democratização dos conhecimentos e das instituições, acionada pela expansão das tecnologias da informação, instiga e, ao mesmo tempo, constrange milhões de cidadãos limitados econômica, social e ecologicamente. Uma explosão de criatividade se dá ao lado de um vulcão de frustrações. Multidões excluídas de fato se sentem, entretanto, incluídas de direito. Daquela combinação surge a matéria-prima de uma inusitada emancipação social. Relações piramidais, fundadas em hierarquia e imposição, vão sendo substituídas por relações prevalentemente horizontais, estruturadas mediante consensos instrumentais. Vivencia-se algo que se poderia denominar neonomadismo virtual, pois é como se estivéssemos convivendo numa pluralidade de mundos; não apenas em um lugar definido. Retorna-se à prevalência de recursos maleáveis, de provimento incerto. Acontecimentos em todos os rincões da terra chegam e afetam nossos valores e sentimentos, quotidianamente. Somos emocionalmente desestabilizados por notícias que vêm de longe, mas que entram em nossas casas como se os respectivos acontecimentos estivessem ocorrendo ali nas vizinhanças. Em sua maioria são tragédias do quotidiano, transformadas em espetáculo por uma mídia que nelas encontra substância para grandes audiências e visualizações. São as grandes misérias do mundo a conformar cada um em suas misérias pessoais. No Brasil, milhões de jovens e suas famílias suburbanas, carentes da figura paterna, de educação, de saúde e de sustentabilidade econômica, são induzidos ao uso da força e à prática do ilícito, tentados a um atalhoem direção aos confortos da modernidade. Talvez aí a principal razão de tanta violência em sociedades abertas, de feição liberal democrática, em que os direitos humanos ainda não foram efetivados. Em meio a todas essas mudanças, os cidadãos – ressalvados os funcionários públicos estáveis – não mais se sentem ocupando um lugar seguro. Cada um se percebe sem lugar, num lugar incerto ou, quando muito, num certo lugar. Nessas circunstâncias, a desigualdade de oportunidades assume feições dramáticas, trágicas, insustentáveis. Sob esta globalização comunicativa, a cidadania vai-se universalizando e passa a ostentar uma consciência mais clara do seu direito a uma vida digna, com aspiração de acesso a igual liberdade, inclusive para divergir, e a uma igualdade de oportunidades, inclusive, eventualmente, para a prática do ilícito. Tudo isso faz combinar a continuidade de velhos conflitos com o desenvolvimento de novos dissensos, numa inusitada metamorfose social. Velhos conflitos, assim entendidos aqueles vinculados à posse e controle de bens materiais. Novos conflitos, aqueles relativos ao acesso e ao compartilhamento dos bens e oportunidades do conhecimento, à oralidade persuasiva, à consciência da intersubjetividade e, mais recentemente, à internet das coisas, à expansão da inteligência da vida biológica, às aplicações da inteligência artificial. Velhos conflitos, aqueles que têm como paradigmas a hierarquia, a coação, a discriminação, a competição excludente, o fundamentalismo, o absolutismo. Novos conflitos, aqueles que têm como paradigmas a horizontalidade, a persuasão, a igualdade de 4. oportunidades, a competição cooperativa, o pluralismo, o universalismo interdependente e suas dissipações. Acentua William Uri17 (2000:108) que “A revolução dos conhecimentos nos oferece a oportunidade mais promissora em dez mil anos de criar uma cocultura de coexistência, cooperação e conflitos construtivos”. Fábio Konder Comparato18 afirma que “Após séculos de interpretação unilateral do fenômeno societário, o pensamento contemporâneo parece encaminhar-se hoje, convergentemente, para uma visão integradora das sociedades e das civilizações”. Mas essa visão integradora enfrenta uma contemporaneidade desafiada a lidar com o artificialismo da vida urbana. Bilhões de pessoas amontoam- se, crescentemente, em grandes cidades, sem condições ecológicas para a convivência humana. As pessoas embrutecem-se, tornam-se rudes, cínicas e socialmente alienadas em suas multidões solitárias. Com isto, muito daquele aspecto positivo e libertário da era dos conhecimentos é convertido em tédio, impaciência, revolta e criminalidade. Até porque, conforme Cláudio Souto, a modernidade não eliminou os valores de grupos sociais vingativos, presos a uma moral do “olho por olho”, ancorada no Velho Testamento. A despeito de tantas mudanças, persevera uma antinomia entre a moral legal e determinadas expressões de moral social.19 NECESSÁRIA MIGRAÇÃO DA CULTURA DE DOMINAÇÃO À CULTURA DE PAZ Embora a globalização haja destruído, em seu trajeto, diques ou trincheiras que até então se interpunham à comunicação entre os homens, cidades, regiões e Estados, é preciso reconhecer que ela também trouxe consigo a ideologia do mercado em sua face mais predatória: os cartéis internacionais de interesses pouco visíveis, o crime organizado, as máfias, o terrorismo, etc., operando à escala mundial.20 Ademais, como que para anestesiar as misérias e solidões individuais de leitores e expectadores, amplos setores da mídia e da indústria do espetáculo priorizam a dramatização dos escândalos e catástrofes do quotidiano, tendo como foco a provocação de fortes emoções em meio ao estresse, à depressão ou ao hiperativismo das populações. Essa ambiência fortemente emocional e frenética concorre para os descontroles de consumo, de violência e de corrupção, em especial entre povos com baixos níveis de desenvolvimento humano. Segundo Bauman,21 a incerteza em relação ao futuro, a fragilidade da posição social e a insegurança existencial aguçam dois impulsos ubíquos na “líquida modernidade” da miscelânea ético-cultural dos tempos atuais. Um, de mixofobia (medo de se misturar, de participar, de se confundir em meio aos outros), impulso este que conduz ao esconderijo em ilhas de semelhança e mesmidade. Outro, de mixofilia (desejo frenético de participação na aventura do conhecimento e do lazer), ao lado de multidões de homens e mulheres cansados da antiga monotonia e dos controles da vida nas pequenas cidades. Essas polaridades estão a demandar cuidados. Bauman ainda destaca que essa diversidade demanda o desenvolvimento de novas habilidades comunicativas, pois a diversidade dos convívios, em ambientes de grande complexidade, supõe novas competências, habilidades e esforços para compreender e comprometer-se com a diferença, e em meio a ela. A convivência na diversidade é, pois, a inevitável resultante da era dos conhecimentos, sendo necessário que aprendamos a lidar com isso, tanto nas relações de vizinhança quanto nas relações planetárias, a partir de uma educação que nos ajude a avançar, em cada decisão, do conhecimento à sapiência e desta à compreensão, consoante éticas de tolerância e de responsabilidade. Essa tolerância enfrenta a armadilha da reatividade imediatista, nas polêmicas pelas redes sociais. Já nos apontava David Reybrouck, historiador belga, em entrevista nas páginas amarelas da revista Veja do dia 28 de setembro de 2016, que, com a ascensão da mídia de massa e, mais recentemente, das redes sociais, a campanha política tornou-se permanente. Isso trouxe consequência para o bom funcionamento da democracia. As notícias que, no começo do século XXI, eram acompanhadas minuto a minuto, nos últimos anos passaram a ser seguidas segundo a segundo. Essa cultura das ações instantâneas resultou em uma cacofonia que sufocou o verdadeiro debate. Nessa cacofonia, sobressaem as posições extremas, radicalizadas. O estresse que cria no ambiente político tornou-se tão grande que não temos sido capazes de encontrar espaço para manter discussões razoáveis, ponderadas, racionais, com base em informações confiáveis. A propósito, Bert Hellinger22, já citado, refere que, no interior de um campo (mental) é limitada a visão dos seus integrantes, e os padrões se repetem, inclusive os padrões humanos de comportamento. Segundo ele, isto acontece, sobretudo, porque os rejeitados também rejeitam, com boa consciência, aqueles que os rejeitam. O conflito entre os dois lados reduz-se a um conflito entre duas boas consciências que se opõem. Ambos os lados são limitados, e cada um deles imagina que vencerá o outro e se livrará dele. Isso faz girar a roda do conflito de uma maneira em que, alternadamente, os “bons” são vistos como “maus” e vice versa. O psicoterapeuta Hellinger identifica um outro nível de consciência, para além dessas consciências do bem e do mal. Segundo ele, no nível dos movimentos da alma atua uma outra consciência. À semelhança de nossa consciência habitual que percebemos em termos de culpa e inocência; essa outra consciência que nos faz transpor os limites de nosso grupo e sintonizar com algo maior, congregando numa unidade e num patamar superior os lados opostos, também se deixa perceber por meio do sentimento. Isto só ocorre, porém, quando já progredimos um pouco no caminho que vai além da consciência habitual. Essa outra consciência se torna perceptível por meio da paz ou da intranquilidade; da serenidade alerta ou da desorientação, precipitação e recusa de saber. De resto, continua Hellinger, quando perdemos a concentração interior recaímos no domínio da boa e da má consciência. Estar em sintonia significa harmonizado com muitos – com todos, em definitivo – e não ser inimigo de ninguém. Na esfera da boa consciência, pelo contrário, uno-me a um dos lados e estou em conflito com o outro – até a vontade de extermínio. Ingressar na esfera dessa outra consciência significa, conforme Hellinger, abandonar as imagens de inimizade. Nesse nível continuahavendo conflitos, pois são inerentes ao crescimento e ao desenvolvimento. Mas eles já não estão associados a imagens de inimizade, à vontade de extermínio e, sobretudo, à exaltação e ao zelo. Acresce Hellinger que quando sabemos e reconhecemos isso, quando sabemos que a nossa consciência tolhe a nossa liberdade, podemos nos aproximar uns aos outros sem arrogância. Respeitando os limites que nos são impostos, podemos olhar mais de longe e ultrapassar nossa consciência anterior, para nos encontrarmos mutuamente em algo maior. Segundo ele, aí começa a grande paz. As constelações sistêmicas e familiares são metodologias por ele desenvolvidas no sentido de facilitar a transposição dos limites da nossa consciência habitual. Sobre essas habilidades devemos ter em conta as variadas circunstâncias em que ocorre o conflito, sendo necessária a prévia identificação – em cada situação objetiva que se nos apresente – dos diferentes sentimentos, valores, expectativas e interesses envolvidos. Os sentimentos, valores, expectativas e interesses expressam a prevalência de uma cultura de dominação ou de uma cultura de paz, num movimento pendular de variação de culturas, a depender de circunstâncias estruturais e do nível de habilitação das pessoas no trato concreto dos seus conflitos. Como identificar, então, os sentimentos, valores, expectativas e interesses que caracterizam essas culturas? Para facilitar a compreensão dessas diferenças, segue, adiante, o que entendemos como elementos caracterizadores de cada uma dessas culturas. Sob uma cultura de dominação prevalecem a desigualdade, a hierarquia, a verticalidade de um elitismo hereditário ou simplesmente discriminatório, enquanto sob uma cultura de paz e direitos humanos prevalece o sentimento de igualdade, em relações fundadas na autonomia da vontade e tendencialmente horizontalizadas. Sob uma cultura de dominação prevalecem a litigiosidade, a coatividade, o decisionismo, enquanto sob uma cultura de paz e direitos humanos destacam-se a persuasão, a negociação e a mediação. Sob uma cultura de dominação prevalece o patrimonialismo, consubstanciado na apropriação privativa e excludente dos recursos disponíveis, enquanto sob uma cultura de paz e direitos humanos destacam- se o compartilhamento dos saberes e o emparceiramento na exploração dos recursos. Sob uma cultura de dominação prevalece a competição predatória, enquanto sob uma cultura de paz e direitos humanos pratica-se uma negociação cooperativa, com vistas aos interesses comuns, aos princípios, aos ganhos mútuos. Sob uma cultura de dominação tende-se ao absolutismo, ao fundamentalismo, às crenças abrangentes, enquanto, sob uma cultura de paz e direitos humanos, princípios gerais são acolhidos como hipóteses na orientação de comportamentos e instituições democráticas, inspiradas em doutrinas razoáveis, com respeito às diferenças. Sob uma cultura de dominação, as pessoas são prestigiadas e distinguidas por seus sinais exteriores de poder e riqueza, sendo discriminadas aquelas que não se enquadram nesse padrão, enquanto, sob uma cultura de paz e direitos humanos, busca-se premiar e reconhecer o ser 5. humano em si e o meio ambiente saudável, afastando-se os preconceitos, rótulos e estereótipos. Os mediadores experientes sabem que, em situações de disputa, a atitude dominadora, em cada um dos mediandos, tende, inicialmente, a se destacar e que, na dinâmica do entendimento facilitado pelo mediador – quando vão sendo saciados desejos e impulsos básicos e evidenciados os interesses e necessidades comuns – a atitude colaborativa vai sendo construída. Com efeito, vamos observando que as atitudes de imposição e de colaboração expressam, acima de tudo, estados emocionais e padrões relacionais, que podem ser alterados no processo de transformação do conflito, pela mediação. Enfim, na contemporaneidade, em que a violência – apesar de mais difusa – tem-se mostrado menos intensa do que nos últimos milênios da história humana, a predominância de relações horizontais coloca-nos o desafio de promover mudanças e resolver disputas, especialmente por meio da negociação, da mediação e do diálogo restaurativo, haja vista a desconformidade e a perda relativa da eficácia dos instrumentos de força. USO PROTETOR E USO PUNITIVO DA FORÇA NOS CONFRONTOS Vejamos algumas situações práticas. Grandes cidades são especialmente vulneráveis, pois a sua pujança e fraqueza vêm justamente da massa crítica e da interconexão das suas redes. Rede elétrica sujeita a sabotagens, desastres naturais, falhas. Rede de água e esgoto, rede de galerias pluviais, rede de gás, gasodutos, oleodutos, redes de telefonia fixa e celular, redes de TV e dados a cabo e fibra, rede de ruas e avenidas, redes de transporte público, ônibus, metrô, trens, etc. Soma-se a isso essa mudança cultural que se converte num “protestantismo” de massas. Eis um caso real: por nada ou por tudo, 50 pessoas incendeiam pneus, param avenidas ou ferrovias críticas e sequestram as interconexões. Em São Paulo, um menor (16 anos) pega uma moto, corre pela Marginal do Rio Tietê, perde o controle, choca-se com um poste e morre. A família e os vizinhos resolveram protestar contra a morte do adolescente. A pista local da Marginal do Rio Tietê foi fechada duas vezes, pela manhã e à noite. Na manhã, o grupo colocou fogo em pedaços de madeira e pneus, bloqueando toda a pista local. Motoristas tiverem de voltar na contramão para pegar a pista expressa. O Corpo de Bombeiros foi acionado e conteve as chamas. Já no fim do dia, de dentro do conjunto habitacional Cingapura, os manifestantes atiraram pedras e restos de entulho na pista, atingindo carros. A Polícia Militar invadiu o conjunto habitacional para parar os manifestantes, atirando bombas de gás e balas de borracha. Parece haver uma raiva difusa no ar, uma raiva que vai além do sofrimento pela morte desse jovem de 16 anos, ou mesmo pelo trânsito de São Paulo. Uma raiva que incendeia. Esses problemas localizados são motivações, mas a causa dessas explosões emocionais pode estar na frustração dos sentimentos-ideias de igualdade em choque contra antigas e profundas injustiças, pode estar na sonegação do cuidado afetivo na infância, pode estar na falta de uma educação fundamental eficaz e inclusiva; tudo isso agravado pela nossa ignorância comunicativa no trato construtivo dos conflitos. Quais seriam, então, os pensamentos por trás do uso da força? Mais do que simplesmente associadas à mediação de conflitos, estas questões estão relacionadas às condições para desenvolvimento de uma cultura de paz. Os pensamentos por trás do uso da força seriam: a) evitar danos e injustiça (força protetora) e/ou b) fazer as pessoas sofrerem pelo mal que praticaram (força punitiva). Quando praticamos o uso protetor da força a nossa intenção é assegurar a vida e os direitos que desejamos proteger. Por exemplo, a força utilizada pelo pai que impede a criança de atravessar a rua sozinha; a força utilizada pela polícia que aparta a briga física entre dois homens; a força que você utiliza para se proteger de quem lhe ameaça com uma arma de fogo. Quem usa a força protetora entende que as pessoas são capazes de se prejudicarem, pessoalmente e reciprocamente, devido a algum tipo de ignorância como, por exemplo, a) a crença de que nós temos o direito de punir os outros pelo que eles possam ter feito erradamente; b) a falta de consciência dos problemas que serão deflagrados pelas nossas violências; e, especialmente, c) o desconhecimento de que as nossas necessidades podem ser atendidas sem prejudicar os outros. Outra hipótese de ignorância está nos comportamentos patológicos ou delirantes, de alguém. Assim, em face de qualquer dessas hipóteses de ignorância, a força protetiva é voltada para educar, prevenir, vigiar, dissuadir; não para punir. Quem usa a força punitiva baseia-se na crença de que as pessoas fazem coisas erradas porque são más, e de que, para corrigir a maldade, é preciso puni-las para a) sofrerem o suficiente e perceberem como as suasações foram erradas; b) arrependerem-se; c) mudarem o seu comportamento. “Ocorre que, na prática, é mais provável que, em vez de gerarem arrependimento, ações punitivas produzam ressentimento e hostilidade, e que alimentem a resistência ao próprio comportamento que estamos buscando.”23 O castigo físico, como bater nos filhos, nas pessoas, é um exemplo do uso punitivo da força. Outros adotam a punição psicológica, rotulando o filho de “imaturo”, “problemático”, “egoísta” etc., quando ele não se comporta convenientemente. Pais alegam que este é o modo de estabelecer limites. Que, no futuro, esses mesmos filhos irão reconhecer como isto foi importante. Como pai de três filhos não vi a necessidade do castigo punitivo. Quando falhou o diálogo, usei a “cadeira” enquanto lugar de reflexão, sem acesso a outros contatos, por alguns minutos; isto ocorreu didaticamente, construindo o consenso possível e utilizando aquela força 1 2 3 4 como protetora da noção de limites necessários a uma consciência de responsabilidade social. O sentido desejável não pode ser o de punição, ou de uso da força até mesmo para proteger, mas o de consolidação de uma consciência de responsabilidade social, quando o consenso não bastar. Rosenberg, com sua experiência de terapeuta, questiona o seguinte: quando os pais escolhem usar a força, podem ganhar a batalha de obrigar as crianças a fazer o que eles querem, mas, nesse processo, não estarão perpetuando uma norma social que justifica a violência como meio de resolver as diferenças? Diante desses conceitos, costumamos convidar os estudantes a um círculo de diálogo, com enfoque restaurativo, em torno de questões como estas a seguir: O que constitui o uso punitivo da força? É inevitável a força punitiva em situações de corrupção e violência? O que seria o uso protetor da força? A quem cabe a iniciativa pelo uso protetor da força? Os grupos que, tomados de raiva ou de crença sectária, quebram bens públicos e particulares estão usando a força como punição ou como proteção? É possível evoluirmos para uma prática social de uso protetor (não punitivo) da força e apenas quando o diálogo for inviável? Você tem ideia do poder da resistência pacífica? RUMMEL, Rudolf J. Understanding conflict and war. New York: John Wiley and Sons, 1976, v. II, p 235-239, apud SERPA, Maria de Nazareth. Mediação, uma solução judiciosa para conflitos. Belo Horizonte: Del Rey, 2017. RUMMEL, Rudolf J. op. cit. v. II, p. 62 e v. III, p. 63, apud SERPA, Maria de Nazareth. Mediação, uma solução judiciosa para conflitos. Belo Horizonte: Del Rey, 2017. JANDT, F.E. Conflict resolution through communication. New York, 1984, apud SERPA, Maria de Nazareth. 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Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. Tradução Mário Vilela. São Paulo: Ágora, 2006. p. 223-229. 1. Capítulo 2 O CPC (LEI 13.105/2015) E A LEI DE MEDIAÇÃO (13.140/2015) NO SISTEMA MULTIPORTAS DE ACESSO À JUSTIÇA O NOVO PARADIGMA DE UM SISTEMA MULTIPORTAS A ideia de uma Corte de múltiplas portas (multidoor courthouse), qual seja, um Tribunal comprometido em apoiar e induzir a adoção de métodos mais adequados de resolução de disputas, tais como a mediação, a conciliação, a negociação, a avaliação neutra, a arbitragem e outros, é atribuída ao prof. Frank Sander, de Harvard, em palestra de 1976. Tal conceito e práticas tiveram, inicialmente, maior difusão entre os países da common Law e vêm paulatinamente ganhando expressiva dimensão em outros sistemas de justiça. Percebe-se que esses múltiplos métodos, além de serem vistos como modos que concorrem para a redução da sobrecarga dos mecanismos adjudicativos, contribuem para o empoderamento e a satisfação dos vários protagonistas. Enfim, a administração cooperativa do conflito, inclusive no ambiente judicial, passa a ser a questão central, num processo em que o juiz e demais operadores da justiça contribuem para que as partes e os advogados dialoguem, no campo das suas contradições, contando com o apoio de mediadores, com vistas ao atendimento das reais necessidades a serem contempladas pela decisão, que deve ser, sempre que possível, consensuada.1 Há décadas, autores como Cappelletti e Garth2 vinham considerando que o acesso à justiça pode “ser encarado como o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar, os direitos de todos. (...) O acesso à justiça não é apenas um direito social fundamental, crescentemente reconhecido; ele é, também, necessariamente, o ponto central da moderna processualística. Seu estudo pressupõe um alargamento e aprofundamento dos objetivos e métodos da moderna ciência jurídica”. No âmbito daquelas preocupações, desde o século passado, três ondas foram vistas como as mais básicas no sentido da efetividade do acesso à justiça: a primeira intentando frustrar o obstáculo econômico na fruição dos direitos humanos, o que se viabiliza pela assistência judiciária gratuita para as pessoas de baixa renda. A segunda tendo por finalidade combater o obstáculo organizacional,possibilitando a defesa de interesses de grupo, difusos ou coletivos, por meio das ações populares ou coletivas. Já a terceira onda, objetivando combater o obstáculo processual de acesso à justiça, mediante a expansão e o reconhecimento dos direitos humanos, por todos os meios que reduzam o congestionamento crônico dos sistemas judiciários internos da maioria dos Estados. A assunção, pela sociedade, do papel de protagonista na solução amigável ou arbitral de questões, inclusive, no campo penal, as mediações vítima-ofensor e os círculos restaurativos, é o aspecto desse movimento de acesso à justiça que melhor reflete o desenvolvimento de uma consciência de cidadania ativa no jogo democrático, conflituoso e pluralista. Ada Pellegrini Grinover3 vinha propondo, no processo civil, o desenvolvimento de uma “justiça conciliativa”, a partir de três fundamentos: o fundamento funcional, para enfrentar a inacessibilidade, a morosidade e o custo do Judiciário, demandando a adoção de uma política judiciária de mediação e conciliação; o fundamento social, consistente na função de pacificação social, que, via de regra, não é alcançada pela sentença, que se limita a ditar, autoritariamente, a regra para o caso concreto, resumindo-se a solucionar a parcela de lide levada a juízo, sem possibilidade de pacificar a lide sociológica; e o fundamento político, consistente na participação popular na administração da justiça, representando ela, ao mesmo tempo, instrumento de controle, configurando meio de intervenção popular direta pelos canais institucionais de conciliação e mediação. Já Kazuo Watanabe4, reportando-se a experiências nos direitos da República Federal da Alemanha e dos Estados Unidos da América, destacava a necessidade de prevalência dos princípios fundamentais da oralidade e da imediatidade, que somente ocorrem quando o juiz, saindo da sua zona de conforto, prioriza esses princípios fundamentais, valorizando a atuação dos mediadores e conciliadores, a quem são atribuídas as atividades de conciliação e mediação. Mediadores e conciliadores com capacitação e treinamentos específicos, que podem dedicar mais tempo às atividades de facilitadores das partes, na busca do caminho para a solução amigável do conflito. O referido autor acrescenta que a ideia de juiz ativo na condução do processo está à base do case management do sistema processual norte- americano (Rule 16, Federal Rules of Civil Procedure), instituto que é responsável pela maior celeridade dos processos e, principalmente, pela grande utilização, pelas partes, por indução do próprio Judiciário, de outros meios de resolução adequada de disputas (ADR). De fato, em vários Estados norte-americanos, como a Califórnia, menos de 5% das causas ajuizadas vão até o julgamento final. 2. ADVOCACIA RESOLUTIVA, DESIGN DE SISTEMAS DE DISPUTAS, PACTOS PELAS SOLUÇÕES EXTRAJUDICIAIS E PRÁTICAS COLABORATIVAS O desenvolvimento das práticas discursivas e narrativas da mediação de conflitos vem ao encontro do pensamento de Habermas,5 para quem “sob as condições de uma compreensão pós-metafísica do mundo, só tem legitimidade o direito que surge da formação discursiva da opinião e da vontade de cidadãos que possuem os mesmos direitos”. Estes, por seu turno, só podem perceber de maneira adequada sua autonomia pública, garantida por meio de direitos de participação democrática, na medida em que sua autonomia privada for assegurada. E mais: “Uma autonomia privada assegurada serve como garantia para a emergência da autonomia pública, do mesmo modo que uma percepção adequada da autonomia pública serve como garantia para a emergência da (autonomia) privada”. O mundo da vida, abrangendo a atuação social nos planos da ciência, educação, família, arte, religião e economia, converge para a esfera pública, formadora da Constituição político-jurídica e para os seus sistemas político e jurídico, que, por sua vez, devem contemplar, mediar e estabilizar as demandas de acesso e mudança. No dizer de Habermas, “o direito legítimo se reproduz no fluxo do poder regulado pelo Estado de direito, que se alimenta das comunicações de uma esfera pública política não transmitida por herança e enraizada nos núcleos privados do mundo da vida através das instituições da sociedade”. Tal concepção de sociedade faz com que o fardo das expectativas normativas se desloque do nível das qualidades, competências e espaços da ação de atores, para o nível das formas de comunicação, no qual se desenrola o jogo da formação informal e não institucionalizada da opinião e da vontade. E acrescenta: “O jogo de gangorra entre os sujeitos de ação privados e estatais é substituído pelas formas de comunicação mais ou 2.1 menos intactas das esferas privadas e públicas do mundo da vida, de um lado, e pelo sistema político, de outro lado”. Assim, a dimensão dialogal do direito, fundada no discurso persuasivo e compreensivo da mediação e da negociação entre cidadãos dotados de igual liberdade para assumir responsabilidades, antecede, suplementa e legitima a possível emergência de uma atuação estatal, positivo-coercitiva. Desse modo, não é legítima qualquer iniciativa tendente a inibir o desenvolvimento dessa justiça dialogal, dessa mediação transformadora do conflito pela própria cidadania, como movimento complementar e independente. Consoante o preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil, o Estado Democrático é destinado a assegurar o exercício dos direitos, numa sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias. Esse protagonismo, enquanto racionalidade moral procedimental, deve dialeticamente integrar/suplementar/legitimar o sistema autônomo do direito, na perspectiva do atendimento dos direitos humanos que fundamentam a solução de conflitos mediante a restauração de relações intersubjetivas, com vistas à promoção da paz e à dignidade da pessoa humana. Advocacia resolutiva, com design de sistemas de disputas Com vistas ao pleno desenvolvimento das novas estratégias compatíveis com um sistema multiportas de acesso à justiça, vem-se desenvolvendo, no Brasil, a gestão sistêmica de conflitos, englobando métodos autocompositivos e heterocompositivos, sem renúncia à alternativa de judicialização, praticada por escritórios de advocacia que vão percebendo a necessidade de submeter as suas atividades contenciosas a avaliações prévias, para sujeitá-las ao que se denominou de advocacia resolutiva que, no dizer de Arnold Wald e André Gomma6, é aquela baseada em análises objetivas de probabilidade de êxito, identificação apropriada de interesses reais das partes, criação de valor em razão de abordagens integrativas, auxílio com a escolha procedimental adequada baseada em critérios objetivos referentes aos diversos processos de resolução de disputas e apoio às partes no desenvolvimento de competências emocionais que permitam o distanciamento de escolhas baseadas em paixões ou posições irracionais. No referido artigo – em que é examinada a expansão dessa nova estratégia de atuação consoante experiência internacional –, percebe-se que cabe ao advogado resolutivo consultar seu cliente acerca de a possibilidade de sua relação com a outra parte ser reestruturada de forma a se criar (ou gerar) valor e com isso buscar-se um acordo acima do patamar sugerido pela análise probabilística de resultados esperados da demanda. Assim, o papel do advogado resolutivo consiste em apresentar ao seu cliente, objetivamente, o benefício econômico que a resolução da disputa não litigiosa pode lhe trazer, e o risco inerente à utilização de formas judicatórias para, ao final, decidirem em conjunto quanto às melhores alternativas. Com isso vai-se estabelecendo uma interlocução mais acentuada desses escritórios de advocacia com colegas de outros escritórios e com profissionais ad hoc, especializados nessas práticas, ou com instituições organizadas para a administração extrajudicial de métodos e metodologias de solução de disputas, dentreessas até mesmo cartórios extrajudiciais que se tenham habilitado à prestação de serviços de conciliação e mediação, consoante o Provimento 67, de 26 de março de 2018, editado pelo Corregedor Nacional da Justiça, ministro João Otávio de Noronha, dispondo sobre os procedimentos de conciliação e mediação nos serviços notariais e de registro do Brasil. Ainda no século passado, autores norte-americanos desenvolveram o conceito de “lawyer-statesmen” ou “problem-solving lawer”, com foco não apenas em ganhar os seus casos, mas em satisfazer as necessidades da diversidade de partes e terceiros afetados pela disputa e em procurar novas soluções.7 O Código de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil enaltece o advogado que atua nessa mesma perspectiva. Em seu art 2º, dispõe que o advogado, indispensável à administração da justiça, é defensor do Estado democrático de Direito, da cidadania, da moralidade pública, da Justiça e da paz social, subordinando a atividade do seu Ministério Privado à elevada função pública que exerce. No parágrafo único inclui entre os deveres do advogado, “VI – estimular a conciliação e a mediação entre litigantes, prevenindo, sempre que possível, a instauração de litígios. Para atuar como advogado resolutivo em seu escritório ou sociedade de advogados, o desenho do sistema de disputas deverá estar assentado, inicialmente, em conhecimentos e habilidades em Negociação. Os princípios, os elementos e as etapas dos procedimentos, conforme a Escola de Negociação de Harvard, são altamente recomendados. O diagnóstico para o DSD pressupõe que se irá explorar os interesses envolvidos, as opções, os critérios objetivos que poderão dar legitimidade às decisões, as habilidades comunicativas e de relacionamento apropriados e outros conteúdos de grande relevância ao desempenho da sua atividade resolutiva, que pressupõe atitude colaborativa, abordagem integrativa e prática colaborativa, com vistas a, sempre que possível, não havendo melhor alternativa sem acordo (MASA), serem desenhadas e concretizadas soluções de ganha-ganha; que estudaremos no Cap IV. Conforme Diego Faleck, “A autopercepção do processualista como partícipe de um design de arranjos procedimentais e sistemas consensuais adequados e customizados, a adoção da visão sistêmica, o desenvolvimento das habilidades elencadas neste trabalho, o respeito e lucidez quanto ao processo de concepção, 2.2 construção e implementação de um arranjo procedimental consensual são os fatores que construirão a ponte entre a promessa dos mecanismos consensuais e a entrega que a sociedade espera. Sem isso, a construção de respostas processuais será mais difícil e o risco da inadequação será agravado”.8 Pactos pelas soluções extrajudiciais e práticas colaborativas Por iniciativa de Kazuo Watanabe e de um crescente número de brasileiros que pugnam pelas práticas colaborativas, foram firmados pactos pelas soluções extrajudiciais por empresas e escritórios, com destaque para o pacto no âmbito da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIEPE. Em outros estados esse movimento também vem ganhando força. A propósito, a OAB vem considerando a necessidade de maior envolvimento da advocacia com essas novas abordagens. Em Olinda, no mês de dezembro de 2013, numa reunião do Colégio de Presidentes de Comissões de Mediação, Conciliação e Arbitragem das várias Seccionais, em conjunto com a Comissão Especial de Mediação, Conciliação e Arbitragem do Conselho Federal da OAB, aprovado um pacto pelas soluções extrajudiciais. A ideia é que os advogados, em seus escritórios e departamentos jurídicos, estejam preparados para lidar com práticas colaborativas de acesso à justiça. Nessas práticas, os escritórios comunicam-se consoante o estabelecido em seus específicos pactos pela não judicialização. São pactos de colaboração relacionados a casos trazidos pelos clientes, de modo que as respectivas questões, interesses e necessidades somente serão trabalhados sob os parâmetros das soluções consensuais, diretamente negociadas e, quando necessário, com o apoio de terceiros contratados, tais como mediadores, coaches, peritos, avaliadores neutros, suporte psicológico e outros procedimentos interdisciplinares que melhor venham ao encontro das 55. necessidades dos clientes. Em sua origem, esse método de trabalho foi adotado em conflitos de família, mas tem-se ampliado para aplicações em conflitos empresariais e em outros campos do direito. Sob os parâmetros dessa advocacia colaborativa, quando a solução amigável, consensual, não é obtida, os advogados que firmaram o pacto pela não judicialização ficam impedidos de atuar como representantes dessas mesmas partes em processos arbitrais ou judiciais. Nessas atuações colaborativas os advogados podem ser remunerados por hora de trabalho ou com base na tabela de honorários mínimos da OAB, tomando-se como referência o patrimônio envolvido no caso. Sugerimos acessar o site do Instituto Brasileiro de Práticas Colaborativas (IBPC), onde constam dados históricos sobre o início dessas práticas e referências bibliográficas. Com isso vai-se estabelecendo uma interlocução mais acentuada desses escritórios de advocacia com colegas de outros escritórios e com profissionais ad hoc, especializados nessas práticas, ou com instituições organizadas para a administração extrajudicial de métodos e metodologias de solução de disputas, dentre essas até mesmo cartórios extrajudiciais que se tenham habilitado à prestação de serviços de conciliação e mediação, consoante o Provimento 67, de 26 de março de 2018, editado pelo Corregedor Nacional da Justiça, ministro João Otávio de Noronha, onde constam disposições sobre os procedimentos de conciliação e mediação nos serviços notariais e de registro do Brasil. Sobre esses temas destacamos o Enunciado 55, aprovado na I Jornada “Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios”, realizada em Brasília, nos dias 22 e 23 de agosto de 2016, pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: O Poder Judiciário e a sociedade civil deverão fomentar a adoção da advocacia colaborativa como prática pública de resolução de conflitos na área do direito de família, de modo a que os advogados 3. das partes busquem sempre a atuação conjunta voltada para encontrar um ajuste viável, criativo e que beneficie a todos os envolvidos. COMENTÁRIOS SOBRE MEDIAÇÃO E CONCILIAÇÃO NO SISTEMA MULTIPORTAS DO CPC (LEI 13.105/2015) No ambiente do CPC/2015, a litigiosidade desenfreada terá, necessariamente, que se converter numa litigiosidade responsável. Presume- se que os advogados, as partes e os operadores do direito em geral passam efetivamente a responder pelo cumprimento dos princípios da razoável duração do processo, da boa-fé e da cooperação (arts. 4º, 5º e 6º). O alcance desses princípios abrange o CPC/2015 como um todo, em consonância com os fundamentos constitucionais. Eis alguns exemplos de como isso ocorre. Sob o regime do atual Código ficou evidenciado que, “para postular em juízo é necessário ter interesse e legitimidade” (art. 17). Além disso, uma das hipóteses para a extinção do processo sem resolução do mérito é a “ausência de legitimidade ou de interesse processual” (art. 485, VI). Os métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por todos os operadores do direito, “inclusive no curso do processo judicial” (art. 3º, § 3º). Para desestimular a litigiosidade desenfreada, os honorários advocatícios vão-se somando em cada fase do processo. Estes serão fixados em desfavor daquele que deu causa à proposição de demanda em que não haja vencido e vencedor, ou movida sem justo motivo, ainda que de boa-fé (art. 85, §§ 6º, 6º-A e 10). Pedidos de indenização excessiva acarretam sucumbência recíproca. Quem propõe indenização e apenas obtém 20% do pedido, arcará com 80% dos honorários de sucumbência. (art. 85, § 14). No campo das provas cíveis, deu-se a consagração da teoria da distribuição dinâmica do ônus da prova (art. 373, § 1º). Segundo essa teoria, o ônus daprova incumbe a quem tem melhores condições de produzi-la, diante das circunstâncias fáticas presentes no caso concreto. Uma das situações de aplicação do princípio da cooperação no atual Código está na possibilidade de o magistrado, dependendo da complexidade da demanda, designar audiência para que “o saneamento seja feito em cooperação com as partes, oportunidade em que o juiz, se for o caso, convidará as partes a integrar ou esclarecer suas alegações” (art. 357, § 3º). Nessa audiência de saneamento compartilhado (cooperativo), objetivando uma litigância responsável, devem as partes, inclusive, levar os respectivos róis de testemunhas (art. 357, § 5º), a fim de que já sejam apresentadas eventuais objeções e aclarados os pontos que, de certa forma, obscurecem a compreensão do mérito da demanda. Outras situações de desestímulo à litigância desenfreada são os enunciados de súmula, em que os tribunais devem se ater às circunstâncias fáticas dos precedentes que motivaram sua criação (art. 926, § 2º). A jurisprudência, tal como elencada no art. 927, passa a comportar grau mais elevado de obrigatoriedade; o que exige do advogado efetivamente examinar o relatório que anuncia as circunstâncias fáticas dos precedentes jurisprudenciais, inclusive nas situações de demandas repetitivas. Impõe-se, pois, comentar o que o CPC/2015 dispõe a respeito de soluções consensuais. Em consonância com pesquisas e estudos que temos compartilhado com colegas do Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem – CONIMA, do Comitê Brasileiro de Arbitragem – CBAr, do Colégio de Presidentes de Comissões de Conciliação, Mediação e Arbitragem da OAB e de vários processualistas, mediadores e conciliadores, iremos transcrever e comentar os artigos do CPC/2015 que versam sobre as soluções consensuais, reunindo-os por conjuntos de disposições assemelhadas, de “A” a “L”. Com isto pretendemos sistematizar o estudo, com vistas à prática, inclusive negritando aqueles dispositivos do CPC/2015 que diretamente disponham sobre conciliação e mediação. A – Disposições sobre normas fundamentais do processo e sobre o protagonismo das partes (arts. 1º ao 6º, 190 e 471): “Art. 1º O processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código”. O texto menciona que o processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e normas fundamentais. Ora, os valores e normas fundamentais estão insculpidos nos princípios constitucionais da CF/88. Tais princípios, que fundamentam o modo como a sociedade brasileira instituiu o seu Estado Democrático, estão enunciados desde o Preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil, onde consta que os representantes do povo brasileiro, reuniram-se em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais; a liberdade, a segurança, o bem- estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como os valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias. Com efeito, os incisos II, III e IV do art. 1º da CF/1988 elencam, dentre os fundamentos da República Federativa do Brasil, a cidadania, a dignidade da pessoa humana e também os valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa. Ali também constando os direitos e as garantias fundamentais dos arts. 5º a 17. Extraímos daí que precisaremos ter como critérios para relações pacíficas e construtivas entre todos a liberdade igual, a igualdade de oportunidades e o asseguramento de existência digna, na ambiência de uma estabilidade democrática. Em tal contexto, os processos judiciais, inclusive em sede adjudicatória, deverão, conforme o CPC/2015, priorizar os procedimentos cooperativos que promovam, na medida do possível, a solução pacífica e consensual das controvérsias. É de conhecimento público que dificilmente a pacificação social é obtida por meio de sentença, que se resume, via de regra, à imposição de textos normativos para solucionar aquela parcela de lide levada a juízo, sem compreender a concretude do conflito, qual seja, as necessidades humanas e sociais a serem reconhecidas e pacificadas. Daí porque emana desses princípios fundamentais a necessidade do fortalecimento, no âmbito processual, do papel da cidadania democrática, comprometida com a solução pacífica das controvérsias. Essa atuação deve justamente acontecer em ambientes de transparência, de cooperação e de controle social da administração da justiça, e pelos procedimentos institucionais de mediação e conciliação. O CPC/2015, em sua característica de texto inspirado no constitucionalismo contemporâneo, prioriza a cooperação, a boa-fé, a prevalência do campo material sobre o formal, o diálogo processual, a não surpresa, a duração razoável do processo, reconhecendo as suas disposições normativas como instrumentos para a concretização dos princípios constitucionais. As atuais inovações do CPC/2015 resgatam, portanto, uma dívida histórica do direito processual civil para com a Constituição da República. Estávamos reféns da supervalorização de processos de ganha-perde, com ênfase para as particularidades formais, que hipertrofiavam os mecanismos adjudicatórios e aviltavam as possibilidades dos métodos autocompositivos. Conforme veremos adiante, acolhe-se, agora, no processo civil brasileiro, a estratégia de algum modo anunciada pela Resolução 125/2010 do CNJ, conhecida como sistema multiportas de acesso à justiça. Ou seja, o Poder Judiciário não é mais um local apenas para o julgamento, mas para encaminhamentos vários e para o tratamento adequado de conflitos.9 “Art. 2º O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei. Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito. § 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei. § 2º O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. § 3º A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial.” O caput deste artigo 3º enuncia, ao seu modo, um princípio insculpido no art. 5º, XXXV, da Lei Maior, que tem a seguinte redação: “A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito”. E o faz aprimorando o significado, ao substituir “apreciação do Poder Judiciário” por “apreciação jurisdicional”. No âmbito deste princípio, e consoante já pacificado pelo STF, as pessoas capazes podem optar, nos limites constitucionais e legais, pela jurisdição arbitral, evitando a via única de judicialização de ameaças ou lesões de direito. O § 1º parece desnecessário, à primeira vista. A lei de arbitragem é reconhecida pelo STF como em conformidade com a Constituição/88. No entanto, considerando o acolhimento de um sistema multiportas de acesso à justiça, essa referência é adequada, especialmente quando cotejada com a do art. 359, em que se percebe que o Juiz deverá buscar a conciliação, podendo recomendar a mediação ou conciliação, também lhe sendo permitido sugerir a opção pela arbitragem, o que implicaria na assinatura de compromisso arbitral, com a consequente extinção do processo judicial. Os §§ 2º e 3º consubstanciam o cerne da mudança de paradigma do processo civil brasileiro. Os métodos consensuais saíram daquela situação subalterna, aviltada, intuitiva, estigmatizada, como eram praticados sob o paradigma formalista do CPC anterior, para a condição de instrumentos do princípio da promoção da paz, ou da pacificação, tal como lhes reservara, implicitamente, a Constituição Federal de 1988. Sempre que possível, a solução será consensual. Esse é um compromissoda cidadania e um dever dos operadores do direito e do Estado. Pode-se perceber nisso um princípio da preferência pelas soluções consensuais. Mas, para que os efeitos práticos sejam alcançados, será necessária uma mudança profunda no senso comum teórico e nas práticas dos juristas brasileiros. Os operadores do direito precisarão assumir atitudes mais colaborativas no sentido de uma boa gestão dos conflitos, defendendo as suas teses sem apegos narcísicos e arrogância, tendo em conta que elas não passam de pré-compreensões em face das possibilidades múltiplas. As soluções mais apropriadas serão aquelas que satisfaçam as pessoas envolvidas, ao se sentirem atendidas em suas necessidades reais de concretização do direito. “Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa. Art. 5º Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé. Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. Cada um desses três artigos destaca um princípio: no art. 4º, o princípio da razoável duração do processo associado à objetividade, em busca da solução do mérito, nisto incluída a atividade satisfativa; o cumprimento espontâneo ou forçado. No art. 5º, o princípio da boa-fé, que supõe comportamento objetivamente colaborativo e ético. No art. 6º, o princípio da cooperação, que pressupõe conduta comprometida com o objetivo processual da efetividade de uma decisão de mérito em tempo razoável, justa e efetiva. Percebe-se que o CPC/2015 reconhece a necessidade da cooperação para que se obtenha, em tempo razoável, a decisão de mérito justa e efetiva. Implicitamente proclama que não há cooperação sem o primado da boa-fé. Assim, superado, como é de se esperar, o velho padrão da litigiosidade, do engodo e da violência verbal de uma cultura maniqueísta, poderemos construir o caminho da razoável duração do processo. “Art. 7º É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório.” O art. 7º busca esclarecer o significado do efetivo contraditório, que engloba as garantias que devem ser asseguradas às partes, as sanções aplicáveis pelo juiz no processo, em paridade de tratamento. Com efeito, contraditório efetivo é necessariamente colaborativo, deve priorizar soluções consensuais, não permite a má-fé, manipulações, barganhas e procrastinações, de modo a ensejar solução de mérito justa e efetiva, em tempo razoável, incluindo a atividade satisfativa. “Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.” O art. 8º, que, de algum modo, reproduz dispositivos da LINDB (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro), traz como novidade o intento de orientar e exigir o manejo, no microuniverso processual, de metanormas estruturantes de hermenêutica jurídica, ao destacar os critérios analíticos (postulados) da proporcionalidade e da razoabilidade, na aplicação do ordenamento jurídico. Quem sabe, em face da necessidade de proibição de excessos. Cabe-nos enunciar a distinção entre proporcionalidade e razoabilidade, que, no nosso entender, está bem didática e precisa na lição de Humberto Ávila10. Segundo Ávila, o postulado (regra sobre aplicação de normas) da proporcionalidade exige que o Poder Legislativo e o Poder Executivo escolham, para a realização dos seus fins, meios adequados, necessários e proporcionais, em sentido estrito. “Um meio é adequado se promove o fim. Um meio é necessário se, dentre todos aqueles meios igualmente adequados para promover o fim, for o menos restritivo relativamente aos direitos fundamentais. E um meio é proporcional, em sentido estrito, se as vantagens que promove superam as desvantagens que provoca”11. A aplicação da proporcionalidade exige, portanto, a relação de causalidade entre meio e fim, de tal sorte que, adotando-se o meio, promove-se o fim. Diferentemente da proporcionalidade, o postulado da razoabilidade, conforme a lição de Ávila, não diz respeito a uma relação de causalidade entre um meio e um fim positivado, mas à relação que decorre do dever de harmonização do geral com o individual (dever de equidade), como instrumento para determinar se as circunstâncias do fato levam à presunção de estarem dentro da normalidade, ou para expressar em que medida se dará a aplicabilidade da regra geral quando do enquadramento do caso concreto (dever de congruência). “Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de inserção abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade.” “Art. 471. As partes podem, de comum acordo, escolher o perito, indicando-o mediante requerimento, desde que: I – sejam plenamente capazes; II – a causa possa ser resolvida por autocomposição. § 1º As partes, ao escolher o perito, já devem indicar os respectivos assistentes técnicos para acompanhar a realização da perícia, que se realizará em data e local previamente anunciados. § 2º O perito e os assistentes técnicos devem entregar, respectivamente, laudo e pareceres em prazo fixado pelo juiz. § 3º A perícia consensual substitui, para todos os efeitos, a que seria realizada por perito nomeado pelo juiz.” O que temos a comentar sobre os artigos acima é o fato de que, em face daqueles princípios da duração razoável do processo, da boa-fé e da 14. cooperação, as partes e seus advogados ganham em poder e maior autonomia, especialmente nas causas que podem ser resolvidas por autocomposição. Esse empoderamento abrange a tomada consensual de iniciativas como a estipulação de mudanças no procedimento com vistas a ajustá-lo às especificidades da causa, inclusive convencionando a respeito de ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo (art. 190), assim como também podem (art. 471), de comum acordo, escolher o perito e assistentes técnicos, indicando-os mediante requerimento. Essa ampliação das possibilidades de se convencionar o andamento do processo, mediante os chamados negócios processuais, estimula e assegura o protagonismo responsável e cooperativo, flexibilizando a condução do processo civil e aproximando-o da praticidade contratual-jurisdicional do processo arbitral. Esperamos que muito cedo possamos tirar proveito dessas mudanças alvissareiras. E que os magistrados, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público ajustem suas atitudes e promovam as necessárias mudanças na logística, no redimensionamento, na reestruturação dos espaços, na realocação dos recursos, nas capacitações e reciclagens, consoante práticas cooperativas. A jornada é desafiadora. Como o CNJ irá reger toda essa mudança de paradigma? Com quais critérios os presidentes de Tribunais e suas equipes irão redirecionar os esforços e recursos no sentido de mudanças eficazes? Sobre esses temas destacamos o enunciado 14:12 A mediação é método de tratamento adequado de controvérsias que deve ser incentivado pelo Estado, com ativa participação da sociedade, como forma de acesso à Justiça e à ordem jurídica justa. B – Disposições sobre incentivos econômicos para a mediação e conciliação (art. 90): “Art. 90. Proferida sentença com fundamento em desistência, em renúnciaou em reconhecimento do pedido, as despesas e os honorários serão pagos pela parte que desistiu, renunciou ou reconheceu. § 1º Sendo parcial a desistência, a renúncia ou o reconhecimento, a responsabilidade pelas despesas e pelos honorários será proporcional à parcela reconhecida, à qual se renunciou ou da qual se desistiu. § 2º Havendo transação e nada tendo as partes disposto quanto às despesas, estas serão divididas igualmente. § 3º Se a transação ocorrer antes da sentença, as partes ficam dispensadas do pagamento das custas processuais remanescentes, se houver. § 4º Se o réu reconhecer a procedência do pedido e, simultaneamente, cumprir integralmente a prestação reconhecida, os honorários serão reduzidos pela metade”. Destacamos o § 3º que dispõe sobre incentivo à autocomposição. Observe-se que, enquanto mais cedo ela venha a ocorrer, mais benefício poderá acarretar, inclusive quanto à dispensa do pagamento das custas processuais remanescentes. C – Disposições sobre o novo papel do juiz (arts. 139, V e VIII, 359, 932) “Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incum-bindo-lhe: ..................................................................................................... V – promover, a qualquer tempo, a autocomposição, preferencialmente com auxílio de conciliadores e mediadores judiciais”; O paradigma da cooperação processual estará presente, quer na fase dos tratos de consensualização, quer na fase dos tratos adjudicatórios, que se instala com a citação da parte ré para contestar a ação. Assim, em qualquer tempo, todos os interessados estarão no dever de colaborar no sentido da promoção de soluções consensuais. Ocorre que o juiz, quer em virtude da sua autoridade judicante, quer em razão da sua eventual sobrecarga ou desconhecimento das habilidades comunicativas do mediador capacitado, deverá, preferencialmente, valer-se do auxílio dos conciliadores e mediadores judiciais. Com efeito, como não se recomendam conduções meramente intuitivas desses procedimentos e como os juízes, no Brasil, cuidam de milhares de processos, é de se esperar que essa preferência pelo encaminhamento para conciliadores e mediadores devidamente capacitados se transforme em prática comum. Portanto, é muito apropriada a disposição contida do item V. Não veda a composição diretamente conduzida pelo Juiz, mas recomenda que ela seja facilitada por conciliadores ou mediadores cadastrados, mais afeitos e dedicados a essas atividades. Ocorre que, por vezes, as condições são tão favoráveis, que o estímulo do Juiz pode levar as partes a firmarem, em negociação direta, a transação que ele próprio homologará. “VIII – determinar, a qualquer tempo, o comparecimento pessoal das partes, para inquiri-las sobre os fatos da causa, hipótese em que não incidirá a pena de confesso (...).” Conforme este inciso VIII do art. 139, ao determinar, a qualquer tempo, o comparecimento pessoal das partes, para ouvi-las sobre os fatos da causa, sem que sobre elas possa incidir a pena de confesso, está-se fortalecendo essas mesmas partes, que, nestas condições, passam a gozar de maior liberdade. Constata-se, pois, que coexistem, no CPC/2015, as duas modalidades de oitiva das partes; interrogatório (sob pena de confesso) e depoimento pessoal (sem incidência de pena de confesso), com implicações absolutamente distintas. Na audiência de instrução e julgamento: “Art. 359. Instalada a audiência, o juiz tentará conciliar as partes, independentemente do emprego anterior de outros métodos de solução consensual de conflitos, como a mediação e a arbitragem”. Os princípios da cooperação e do consensualismo estarão norteando um diálogo colaborativo tendente a favorecer a boa-fé e a razoável duração do processo; daí a necessidade de um juiz que efetivamente se disponibilize a observar as pessoas e as necessidades reais a serem concretizadas, a ponto de efetivamente apoiar as partes em busca das melhores opções, a qualquer tempo; mesmo que, anteriormente, tenha havido alguma mediação sem autocomposição. Uma dessas opções poderá ser a arbitragem. Caso as partes percebam que a arbitragem poderá ser o método mais adequado, firmam o compromisso arbitral e extinguem o processo judicial. Consolida- se, dessarte, um sistema multiportas de acesso à justiça, em que magistrados, advogados, defensores públicos e as partes interessadas avaliam, sem preconceitos, outros métodos eventualmente mais adequados à solução daquela controvérsia. Os operadores do direito sabem que há questões muito especializadas que os magistrados não têm o costume de conduzir. Em situações assim, notadamente quando as partes necessitam de soluções rápidas e precisas, pode ser vantajosa a opção pela arbitragem. Não podemos, no entanto, 16. 20. omitir o equívoco de redação do art. 359, que associou a arbitragem aos métodos consensuais ou autocompositivos. A arbitragem é um método heterocompositivo. Da ordem do processo no Tribunal: “Art. 932. Incumbe ao relator: I – dirigir e ordenar o processo no tribunal, inclusive em relação à produção de prova, bem como, quando for o caso, homologar autocomposição das partes (...).”; Este inciso I não é claro quanto à possibilidade da mediação em instâncias superiores. Ocorre que, ao admitir que cabe ao relator homologar a autocomposição das partes, entendemos como implícita a possibilidade da utilização de mediadores em qualquer instância, haja vista os princípios da razoável duração, da boa-fé e da cooperação, que norteiam todas as fases do processo. Sobre esses temas destacamos os enunciados13 16, 20, 21 e 67: O magistrado pode, a qualquer momento do processo judicial, convidar as partes para tentativa de composição da lide pela mediação extrajudicial, quando entender que o conflito será adequadamente solucionado por essa forma. Enquanto não for instalado o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), as sessões de mediação e conciliação processuais e pré-processuais poderão ser realizadas por meio audiovisual, em módulo itinerante do Poder Judiciário ou em entidades credenciadas pelo Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec), no foro em que tramitar o processo ou no foro competente para o conhecimento da causa, no caso de mediação e conciliação pré-processuais. 21. 67. É facultado ao magistrado, em colaboração com as partes, suspender o processo judicial enquanto é realizada a mediação, conforme o art. 313, II, do Código de Processo Civil, salvo se houver previsão contratual de cláusula de mediação com termo ou condição, situação em que o processo deverá permanecer suspenso pelo prazo previamente acordado ou até o implemento da condição, nos termos do art. 23 da Lei 13.140/2015. Nos colégios recursais, o relator poderá, monocraticamente, encaminhar os litígios aos Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania. D – Disposições sobre impedimento e suspeição (arts. 144 e 170 a 172): Art. 144. Há impedimento do juiz, sendo-lhe vedado exercer suas funções no processo: I – em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha; II – de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão; III – quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; IV – quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; V – quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no processo; VI – quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes; VII – em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços; VIII – em que figure comoparte cliente do escritório de advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório; IX – quando promover ação contra a parte ou seu advogado. ..................................................................................................... Art. 145. Há suspeição do juiz: I – amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus advogados; II – que receber presentes de pessoas que tiverem interesse na causa antes ou depois de iniciado o processo, que aconselhar alguma das partes acerca do objeto da causa ou que subministrar meios para atender às despesas do litígio; III – quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu cônjuge ou companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive; IV – interessado no julgamento do processo em favor de qualquer das partes. ..................................................................................................... Art. 148. Aplicam-se os motivos de impedimento e de suspeição: I – ao membro do Ministério Público; II – aos auxiliares da justiça; III – aos demais sujeitos imparciais do processo. ..................................................................................................... “Art. 149. São auxiliares da Justiça, além de outros cujas atribuições sejam determinadas pelas normas de organização judiciária, o escrivão, o chefe de secretaria, o oficial de justiça, o perito, o depositário, o administrador, o intérprete, o tradutor, o mediador, o conciliador judicial, o partidor, o distribuidor, o contabilista e o regulador de avarias”. Transcrevemos os artigos citados, pois ali estão os motivos de impedimento e de suspeição do juiz e dos auxiliares da justiça. Com efeito, enquanto auxiliares da justiça, o mediador e o conciliador judicial estarão sujeitos a iguais limitações, com a diferença de que a sua revelação ou alguma alegação acarreta a não atuação ou a interrupção da atuação do mediador ou conciliador, consoante o art. 170 e seu parágrafo único. “Art. 170. No caso de impedimento, o conciliador ou mediador o comunicará imediatamente, de preferência por meio eletrônico, e devolverá os autos ao juiz do processo ou ao coordenador do centro judiciário de solução de conflitos, devendo este realizar nova distribuição. Parágrafo único. Se a causa de impedimento for apurada quando já iniciado o procedimento, a atividade será interrompida, lavrando-se ata com relatório do ocorrido e solicitação de distribuição para novo conciliador ou mediador.” “Art. 171. No caso de impossibilidade temporária do exercício da função, o conciliador ou mediador informará o fato ao centro, preferencialmente por meio eletrônico, para que, durante o período em que perdurar a impossibilidade, não haja novas distribuições”. 43. Embora sujeito aos motivos de impedimento e de suspeição dos juízes, é importante notar que os artigos acima dão tratamento específico e expedito à superação desses incidentes no âmbito da mediação e da conciliação. Compreende-se que a revelação ou alegação de impedimento ou suspeição deve produzir efeito imediato, substituindo-se o mediador ou conciliador. “Art. 172. O conciliador e o mediador ficam impedidos, pelo prazo de 1 (um) ano, contado do término da última audiência em que atuaram, de assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes”. Este art. 172 estabelece um impedimento específico para conciliadores e mediadores. Quem tenha atuado numa mediação judicial estará impedido, pelo prazo de 1 (um) ano contado da última audiência de mediação, de assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes. Entendemos esta quarentena como adequada, em consonância com os imperativos de independência e imparcialidade do mediador ou do conciliador. Entendemos que tal limitação não atinge a hipótese de ambas as partes, ao término de mediação ou conciliação que resulte em acordo extrajudicial, contratarem aquele mediador, caso seja ele advogado, para requerer a respectiva homologação judicial. Sobre esses temas destacamos o enunciado14 43: O membro do Ministério Público com atribuição para o procedimento consensual, devidamente capacitado nos métodos negociais e autocompositivos, quando atuar como mediador, ficará impedido de exercer atribuições típicas de seu órgão de execução, cabendo tal intervenção, naquele feito, a seu substituto legal. E – Disposições sobre diferenças entre conciliador e mediador e os centros judiciários de solução consensual de conflitos (arts. 165 e 175): “Art. 165. Os tribunais criarão centros judiciários de solução consensual de conflitos, responsáveis pela realização de sessões e audiências de conciliação e mediação e pelo desenvolvimento de programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição. § 1º A composição e a organização dos centros serão definidas pelo respectivo tribunal, observadas as normas do Conselho Nacional de Justiça. § 2º O conciliador, que atuará preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes, poderá sugerir soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem. § 3º O mediador, que atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará aos interessados a compreender as questões e os interesses em conflito, de modo que eles possam, pelo restabelecimento da comunicação, identificar, por si próprios, soluções consensuais que gerem benefícios mútuos.” É fundamental a atuação desses centros judiciários de solução consensual de conflitos (CEJUCs), inclusive para o desenvolvimento de programas destinados a orientar e estimular a autocomposição. Normas do Conselho Nacional de Justiça e demais instituições responsáveis irão nortear os padrões de estrutura e de qualidade. Em boa técnica, os §§ 2º e 3º não definem o que é conciliação e o que é mediação. Apenas indicam critérios a serem considerados na distribuição de casos para conciliador ou para mediador, bem como características básicas de atuação de um e de outro. Vemos, porém, aí, uma limitação inadequada à atuação do conciliador. Também é inerente ao ofício do conciliador facilitar a identificação das questões e interesses das partes, com vistas a uma autocomposição baseada nos princípios a ela aplicáveis. Conciliação não é acomodação de pessoas; não é jogo de “deixa disso”, em que se tolhe a dialética das narrativas, das escutas e das manifestações e construções que podem conduzir à identificação das reais necessidades e interesses comuns. A propósito, a Lei da Mediação não distingue mediador de conciliador. Todos são mediadores, pois a conciliação não deve ser encarada como método estranho à mediação. A conciliação é um modelo de mediação, também conhecida como mediação avaliativa, tal como esclarecemos no Capítulo 4. Com efeito, em outras culturas o conciliador é designado como mediador avaliativo; aquele que, sendo um especialista, está autorizado a sugerir, mas não no início do procedimento. A circunstância que leva esse modelo de mediação a ser geralmente aplicado nas situações referidas § 2º do artigo ora comentado não justifica a prática incorreta das suas técnicas e habilidades. Assim, para conciliadores (mediadores avaliativos) deveriam ser distribuídos, preferencialmente, os casos pontuais, em que não haja vínculo anterior entre as partes, quando as questões e interesses estiverem prevalentemente relacionados com os aspectos jurídicos, técnicos e/ou econômicos do respectivo conflito. Com efeito, consoante o § 2º, o conciliador será aquele que, além de conduzir o procedimento com prévia capacitação, estará autorizado a sugerir, no momento próprio, alternativas de soluções para as questões objeto da controvérsia. Supõe-se que a pessoa a quem cabe sugerir disponha de algum conhecimento específico sobre a questão controversa. Embora não se tenha especificado que o conciliadortambém deve auxiliar as partes interessadas a compreender as questões e os interesses envolvidos no conflito, não se pode desconsiderar que ele também é, necessariamente, um facilitador de diálogos; portanto, um terceiro que medeia. “Art. 175. As disposições desta Seção não excluem outras formas de conciliação e mediação extrajudiciais vinculadas a órgãos institucionais ou realizadas por intermédio de profissionais independentes, que poderão ser regulamentadas por lei específica. Parágrafo único. Os dispositivos desta Seção aplicam-se, no que couber, às câmaras privadas de conciliação e mediação.” O art. 175 esclarece que as disposições do CPC/2015 sobre conciliação e mediação judicial não se confundem com as mediações extrajudiciais em geral, que podem ser reguladas consoante lei específica. É reconhecida a existência de métodos autocompositivos no plano das relações privadas, independentes. As normas do CPC/2015 não excluem a possibilidade de criação e atuação de câmaras de conciliação e mediação extrajudiciais.15 A propósito, a matéria é objeto da Lei da Mediação. Convém refletir a respeito do sentido e alcance do parágrafo único transcrito anteriormente. Em que sentido essas disposições se aplicam às câmaras privadas de conciliação e mediação? Entendemos que tais câmaras estarão vinculadas aos dispositivos em comento apenas na hipótese em que se comprometam a atuar consoante exigências específicas, quando credenciadas pelo tribunal para capacitar mediadores judiciais e/ou administrar mediações e conciliações judiciais. F – Disposições sobre Princípios (art. 166): “Art. 166. A conciliação e a mediação são informadas pelos princípios da independência, da imparcialidade, da autonomia da vontade, da confidencialidade, da oralidade, da informalidade e da decisão informada. § 1º A confidencialidade estende-se a todas as informações produzidas no curso do procedimento, cujo teor não poderá ser utilizado para fim diverso daquele previsto por expressa deliberação das partes. § 2º Em razão do dever de sigilo, inerente às suas funções, o conciliador e o mediador, assim como os membros de suas equipes, não poderão divulgar ou depor acerca de fatos ou elementos oriundos da conciliação ou da mediação. § 3º Admite-se a aplicação de técnicas negociais, com o objetivo de proporcionar ambiente favorável à autocomposição. § 4º A mediação e a conciliação serão regidas conforme a livre autonomia dos interessados, inclusive no que diz respeito à definição das regras procedimentais.” Tem havido consenso quanto aos princípios da autonomia da vontade, da confidencialidade, da oralidade e da informalidade. Entendemos que os princípios da independência e da imparcialidade não se referem à mediação, mas ao estado e à atuação do mediador. Ademais, seria a normalização um princípio ou uma habilidade comunicativa do mediador, com vistas construir ambiente desprovido de prejulgamentos? Também pensamos que a decisão informada não seria propriamente um princípio, mas a consequência da boa aplicação do princípio do consensualismo. A disposição do § 4º é muito interessante, pois denota a preocupação com a qualidade do procedimento. Como a mediação e a conciliação serão regidas conforme a livre autonomia dos interessados, as regras procedimentais não poderão ser impostas. Assim, no início e, portanto, por ocasião dos esclarecimentos e compromissos que se ajustam na abertura da mediação ou conciliação (instante anterior ao início das narrativas), os mediadores e conciliadores procurarão combinar ou construir com as partes e advogados as regras procedimentais que irão praticar. G – Disposições sobre cadastro de mediadores e câmaras (arts. 167 a 169, 173 e 174): “Art. 167. Os conciliadores, os mediadores e as câmaras privadas de conciliação e mediação serão inscritos em cadastro nacional e em cadastro de tribunal de justiça ou de tribunal regional federal, que manterá registro de profissionais habilitados, com indicação de sua área profissional”. Deve-se entender que o cadastramento de mediador/conciliador pessoa física e a inscrição cadastral de câmara privada obedecem a duas razões distintas. O cadastramento do mediador/conciliador no Tribunal dependerá do atendimento aos requisitos de capacitação e idoneidade, e tem por objetivo a sua habilitação para atuar como mediador judicial. A inscrição em cadastro da câmara privada está associada ao reconhecimento, pelo CNJ e tribunais, da sua competência e idoneidade para ministrar os cursos de capacitação de mediadores judiciais, consoante parâmetros curriculares estabelecidos, bem como para administrar procedimentos de mediação judicial. “§ 1º Preenchendo o requisito da capacitação mínima, por meio de curso realizado por entidade credenciada, conforme parâmetro curricular definido pelo Conselho Nacional de Justiça em conjunto com o Ministério da Justiça, o conciliador ou o mediador, com o respectivo certificado, poderá requerer sua inscrição no cadastro nacional e no cadastro de tribunal de justiça ou de tribunal regional federal. § 2º Efetivado o registro, que poderá ser precedido de concurso público, o tribunal remeterá ao diretor do foro da comarca, seção ou subseção judiciária onde atuará o conciliador ou o mediador os dados necessários para que seu nome passe a constar da respectiva lista, a ser observada na distribuição alternada e aleatória, respeitado o princípio da igualdade dentro da mesma área de atuação profissional. § 3º Do credenciamento das câmaras e do cadastro de conciliadores e mediadores constarão todos os dados relevantes para a sua atuação, tais como o número de processos de que participou, o sucesso ou insucesso da atividade, a matéria sobre a qual versou a controvérsia, bem como outros dados que o tribunal julgar relevantes. § 4º Os dados colhidos na forma do § 3º serão classificados sistematicamente pelo tribunal, que os publicará, ao menos anualmente, para conhecimento da população e para fins estatísticos e de avaliação da conciliação, da mediação, das câmaras privadas de conciliação e de mediação, dos conciliadores e dos mediadores. § 5º Os conciliadores e mediadores judiciais cadastrados na forma do caput, se advogados, estarão impedidos de exercer a advocacia nos juízos em que desempenhem suas funções.” Destacamos este § 5º. Entendemos que, estando cadastrados como mediadores judiciais perante tribunais estaduais, os advogados ficam impedidos de exercer a advocacia em varas onde também atuem como mediadores. Na hipótese de estarem cadastrados como mediadores para atuar em varas da Justiça Federal, ficam impedidos de exercer a advocacia no âmbito das respectivas varas. Não nos parece que o impedimento deva atingir a atuação do advogado que apenas opera como mediador no âmbito do CEJUSC da respectiva comarca ou seção, pois apenas ali ele estaria privado do exercício da advocacia. O impedimento em apreço não atinge o advogado não cadastrado como mediador no tribunal, que pode livremente atuar como mediador judicial, quando indicado pelas partes, inclusive na mesma comarca, seção ou subseção judiciária onde advoga. É que prevalece a autonomia das partes, consoante o art. 168 e seu § 1º. Com efeito, no parágrafo em referência consta que o mediador escolhido consensualmente pelas partes para atuar em determinada mediação judicial não precisa estar cadastrado no tribunal. Afinal, somente os cadastrados no tribunal gozarão das vantagens da distribuição de casos para conciliar ou mediar. “§ 6º O tribunal poderá optar pela criação de quadro próprio de conciliadores e mediadores, a ser preenchido por concurso público de provas e títulos, observadas as disposições deste Capítulo.” Quanto ao § 6º, entendemos que a opção por quadro próprio, provido mediante concurso público, pode e deve coexistir com o cadastramento de mediadores judiciais sem vínculo funcional. Vislumbramos um crescimento geométrico das demandas pela mediação, tal como vem ocorrendo em outros países e imaginamos, em especial para as demandas beneficiadas pela gratuidade da justiça,a estruturação de quadro de conciliadores e mediadores providos mediante concurso público, que atuarão nas próprias instalações dos Centros Judiciários de Soluções Consensuais de Conflitos, sem custos para as partes; mas não vemos como isto poderá acontecer sem a coexistência com os conciliadores e mediadores privados cadastrados e remunerados consoante parâmetros razoáveis. É esse cadastro que viabilizará a expansão de um novo campo de atuação de conciliadores e mediadores judiciais, com a necessária elasticidade. “Art. 168. As partes podem escolher, de comum acordo, o conciliador, o mediador ou a câmara privada de conciliação e de mediação. § 1º O conciliador ou mediador escolhido pelas partes poderá ou não estar cadastrado no tribunal. § 2º Inexistindo acordo quanto à escolha do mediador ou conciliador, haverá distribuição entre aqueles cadastrados no registro do tribunal, observada a respectiva formação.” Quando houver consenso, a autonomia da vontade das partes prevalece na possibilidade de escolha de mediador ou de câmara privada de livre escolha, mesmo que o mediador não seja cadastrado e a câmara não seja credenciada. Não tendo ocorrido prévia e consensual escolha de mediador ou de câmara, haverá distribuição entre os conciliadores e mediadores cadastrados, “observada a respectiva formação”. O que seria essa diferença de formação? A formação dos mediadores/conciliadores é a mesma, pois todos eles serão capacitados consoante os mesmos programas de formação. A diferença estaria na especialização profissional? Haverá algum modo ou sentido em separar a distribuição por formação profissional? Seria razoável tal separação, considerando que as habilidades e técnicas do mediador/ conciliador são necessariamente interdisciplinares? Acreditamos que a distribuição será aleatória, a menos que haja cadastros separados em função das especificidades dos casos; o que nos parece remoto e inexequível. Acreditamos que a possibilidade de escolha de mediadores/conciliadores em função dessas particularidades irá depender de alguma prévia e consensual opção das partes. “§ 3º Sempre que recomendável, haverá a designação de mais de um mediador ou conciliador. Art. 169. Ressalvada a hipótese do art. 167, § 6º, o conciliador e o mediador receberão pelo seu trabalho remuneração prevista em tabela fixada pelo tribunal, conforme parâmetros estabelecidos pelo Conselho Nacional de Justiça. § 1º A mediação e a conciliação podem ser realizadas como trabalho voluntário, observada a legislação pertinente e a regulamentação do tribunal.” A remuneração dos mediadores/conciliadores judiciais deve ser adequada. Conforme a Lei da Mediação, estes serão profissionais com mais de dois anos de formação superior. A atuação dos mesmos irá acarretar redução significativa e crescente das necessidades de novos investimentos em atividades adjudicatórias, com implicações em todos os níveis da estrutura do Poder Judiciário. Mas não nos iludamos: bons mediadores deverão ser bem remunerados. Eles são auxiliares da justiça em atividade complexa, humanizadora e redutora de custos. As tabelas de honorários devem contemplar vários níveis de remuneração. As partes e advogados não respeitam profissionais que trabalham precariamente. Para que a promessa do CPC/2015 frutifique, é preciso que se pague o justo preço deste ofício. Entendemos que o trabalho voluntário de conciliação ou mediação deve ser visto como algo residual, para contemplar situações especiais. A experiência já comprovou a alta rotatividade e precariedade dos serviços voluntários de conciliação/mediação; atividades que demandam capacitação, maturidade, educação continuada, empenho e muita motivação. Admitimos que os tribunais sempre possam dispor – especialmente em mutirões de conciliação e em câmaras universitárias conveniadas – de voluntários que tenham interesse em participar de tais dinâmicas, quer para aprender outros saberes e/ou colaborar com a cidadania, quer para vivenciar a prática e obter horas de atividade complementar, no cumprimento de obrigações acadêmicas. “§ 2º Os tribunais determinarão o percentual de audiências não remuneradas que deverão ser suportadas pelas câmaras privadas de conciliação e mediação, com o fim de atender aos processos em que é deferida gratuidade da justiça, como contrapartida de seu credenciamento.” Aqui no § 2º encontramos outra hipótese de viabilização de atividade voluntária, com vistas a atender aos processos em que é deferida a gratuidade da justiça. Ao serem credenciadas, as câmaras privadas deverão, com o consentimento dos conciliadores e mediadores a elas filiados, comprometer-se a disponibilizar determinado percentual de serviço voluntário de conciliação e de mediação. “Art. 173. Será excluído do cadastro de conciliadores e mediadores aquele que: I – agir com dolo ou culpa na condução da conciliação ou da mediação sob sua responsabilidade ou violar qualquer dos deveres decorrentes do art. 166, §§ 1º e 2º; II – atuar em procedimento de mediação ou conciliação, apesar de impedido ou suspeito. § 1º Os casos previstos neste artigo serão apurados em processo administrativo. § 2º O juiz do processo ou o juiz coordenador do centro de conciliação e mediação, se houver, verificando atuação inadequada do mediador ou conciliador, poderá afastá-lo de suas atividades por até 180 (cento e oitenta) dias, por decisão fundamentada, informando o fato imediatamente ao tribunal para instauração do respectivo processo administrativo.” Ficou adequada a redação deste artigo em que se prevê a possibilidade de afastamento temporário e a apuração administrativa de comportamento ilícito, com a possibilidade de exclusão do conciliador ou mediador do respectivo cadastro, assegurando-se o direito de defesa em processo administrativo. “Art. 174. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios criarão câmaras de mediação e conciliação, com atribuições relacionadas à solução consensual de conflitos no âmbito administrativo, tais como: I – dirimir conflitos envolvendo órgãos e entidades da administração pública; II – avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de conciliação, no âmbito da administração pública; III – promover, quando couber, a celebração de termo de ajustamento de conduta.” Muito relevante a disposição contida neste art. 174 e incisos. A matéria é objeto de lei especial, na qual são estabelecidas as condições de atuação dessas câmaras. H – Disposições sobre petição inicial, tutela, defesa e audiência (arts. 154, 303 a 308, 334 e 335): “Art. 154. Incumbe ao oficial de justiça: ..................................................................................................... VI – certificar, em mandado, proposta de autocomposição apresentada por qualquer das partes, na ocasião de realização de ato de comunicação que lhe couber. Parágrafo único. Certificada a proposta de autocomposição prevista no inciso VI, o juiz ordenará a intimação da parte contrária para manifestar-se, no prazo de 5 (cinco) dias, sem prejuízo do andamento regular do processo, entendendo-se o silêncio como recusa”. Mais uma vez aqui, no inciso VI e parágrafo único, constatamos o apoio à autocomposição. O desejável seria que os advogados tivessem a prática de discutir e combinar entre eles e com seus clientes, previamente, os termos de uma transação e seu encaminhamento ao juiz competente, com pedido de homologação. Tutela Antecipada em Caráter Antecedente: “Art. 303. Nos casos em que a urgência for contemporânea à propositura da ação, a petição inicial pode limitar-se ao requerimento da tutela antecipada e à indicação do pedido de tutela final, com a exposição da lide, do direito que se busca realizar e do perigo de dano ou do risco ao resultado útil do processo. § 1º Concedida a tutela antecipada a que se refere o caput deste artigo: ..................................................................................................... II – o réu será citado e intimado para a audiência de conciliação ou de mediaçãona forma do art. 334”; Prestação de Tutela Cautelar e pedido principal: “Art. 305. A petição inicial da ação que visa à prestação de tutela cautelar em caráter antecedente indicará a lide e seu fundamento, a exposição sumária do direito que se objetiva assegurar e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.” ..................................................................................................... “Art. 308. Efetivada a tutela cautelar, o pedido principal terá de ser formulado pelo autor no prazo de 30 (trinta) dias, caso em que será apresentado nos mesmos autos em que deduzido o pedido de tutela cautelar, não dependendo do adiantamento de novas custas processuais. ..................................................................................................... § 3º Apresentado o pedido principal, as partes serão intimadas para a audiência de conciliação ou de mediação, na forma do art. 334, por seus advogados ou pessoalmente, sem necessidade de nova citação do réu. § 4º Não havendo autocomposição, o prazo para contestação será contado na forma do art. 335.” Observe-se que, em todas essas situações previstas nos artigos 303, 305 e 308, a busca do consenso está expressamente contemplada. Na hipótese do 308, § 3º, apresentado o pedido principal, as partes serão intimadas para a audiência de conciliação ou de mediação, por seus advogados ou pessoalmente, sem necessidade de nova citação do réu. Audiência de Conciliação ou Mediação: “Art. 334. Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação com antecedência mínima de 30 (trinta) dias, devendo ser citado o réu com pelo menos 20 (vinte) dias de antecedência. § 1º O conciliador ou mediador, onde houver, atuará necessariamente na audiência de conciliação ou de mediação, observando o disposto neste Código, bem como as disposições da lei de organização judiciária. § 2º Poderá haver mais de uma sessão destinada à conciliação e à mediação, não podendo exceder a 2 (dois) meses da data de realização da primeira sessão, desde que necessárias à composição das partes. § 3º A intimação do autor para a audiência será feita na pessoa de seu advogado. § 4º A audiência não será realizada: I – se ambas as partes manifestarem, expressamente, desinteresse na composição consensual; II – quando não se admitir a autocomposição. § 5º O autor deverá indicar, na petição inicial, seu desinteresse na autocomposição, e o réu deverá fazê-lo, por petição, apresentada com 10 (dez) dias de antecedência, contados da data da audiência. § 6º Havendo litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência deve ser manifestado por todos os litisconsortes.” Não se optou pela incondicional obrigatoriedade de comparecimento e participação efetiva em audiência de conciliação ou da mediação prévia. Neste momento de mudança de paradigma, o nosso entendimento é no sentido de que a plena obrigatoriedade teria sido melhor. A obrigatoriedade do comparecimento das partes à audiência inicial de mediação nos casos judicializados tem surtido surpreendentes resultados nos países que ousaram nesse sentido. Na Itália, o Decreto Legislativo nº 28, de 2010, reformado em 2013, além de estimular a composição extrajudicial, estabelece a obrigatoriedade de comparecimento das partes à audiência inicial de mediação. Mesmo que não se chegue ao acordo, porque a autonomia da vontade para compor ou não é assegurada, essa mediação tem início com os necessários esclarecimentos sobre o andamento da mediação; iniciando-se, em seguida as narrativas e reforçando um diálogo que tem favorecido o entendimento e a consensualização. Querendo, qualquer das partes pode desistir do procedimento e isto será levado em conta na audiência subsequente, perante o juiz. Detalhes sobre o modo, custos e surpreendentes resultados desse modo de ampliar o alcance da consensualização podem ser encontrados em artigo de Leonardo D’Urso.16 Optou-se, no entanto, em nosso CPC/2015, por uma quase obrigatoriedade, na medida em que, para não se realizarem as audiências de conciliação ou mediação, será necessário que ambas as partes manifestem, expressamente, o desinteresse na autocomposição. Desse modo, se o autor afirma que tem interesse na autocomposição, na petição inicial, mas se o réu não protocolar a petição indicada no § 5º, a audiência será realizada. “Do mesmo modo, se o autor afirmar na petição inicial que tem interesse na autocomposição, mas se o réu protocolar a petição pelo menos 10 dias antes da audiência, afirmando que não tem interesse na autocomposição, a audiência será realizada, ao que tudo indica, exclusivamente com uma das partes.”17 Forçoso destacar que, em caso de litisconsórcio, o eventual desinteresse tem que ser manifestado por todos os litisconsortes. Basta que um deles tenha interesse para que todos os demais fiquem obrigados a participar da audiência. “§ 7º A audiência de conciliação ou de mediação pode realizar- se por meio eletrônico, nos termos da lei.18 § 8º O não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado. § 9º As partes devem estar acompanhadas por seus advogados ou defensores públicos. § 10. A parte poderá constituir representante, por meio de procuração específica, com poderes para negociar e transigir. § 11. A autocomposição obtida será reduzida a termo e homologada por sentença. § 12. A pauta das audiências de conciliação ou de mediação será organizada de modo a respeitar o intervalo mínimo de 20 (vinte) minutos entre o início de uma e o início da seguinte”. Cremos que o intervalo mínimo de vinte minutos referido no § 12 tem o escopo de assegurar a ordem formal da pauta, evitando-se que várias audiências sejam marcadas para o mesmo horário. Sempre haverá a possibilidade do não comparecimento de uma ou de ambas as partes. Não se deve confundir a pauta com o tempo e condições de realização das audiências de conciliação ou de mediação que, conforme o § 2º, poderão ocorrer em mais de uma sessão sem prévio limite de tempo, num prazo de até 2 (dois) meses. O limite estabelecido é, em verdade, de 2 (dois) meses da data de realização da primeira sessão de conciliação ou mediação. Contestação: “Art. 335. O réu poderá oferecer contestação, por petição, no prazo de 15 (quinze) dias, cujo termo inicial será a data: I – da audiência de conciliação ou de mediação, ou da última sessão de conciliação, quando qualquer parte não comparecer ou, comparecendo, não houver autocomposição; II – do protocolo do pedido de cancelamento da audiência de conciliação ou de mediação apresentado pelo réu, quando ocorrer a hipótese do art. 334, § 4º, inciso I; III – prevista no art. 231, de acordo com o modo como foi feita a citação, nos demais casos”. Não havendo autocomposição, conta-se o prazo de 15 dias para a contestação a partir do evento que a inviabilize no momento inicial. As hipóteses são: expressa manifestação do desinteresse de ambas as partes; não comparecimento de uma ou de ambas as partes às sessões; conclusão da(s) sessão(ões) sem que se tenha obtido a autocomposição. I – Disposições sobre título executivo (arts. 487, 515, 725, VIII, 784, IV): “Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz: ....................................................................................................... III – homologar: a) o reconhecimento da procedência do pedido formulado na ação ou na reconvenção; b) a transação; c) a renúncia à pretensão formulada na ação ou na reconvenção”. Cumprimento de Sentença: “Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos neste Título: ....................................................................................................... II –a decisão homologatória de autocomposição judicial; III – a decisão homologatória de autocomposição extrajudicial de qualquer natureza; ....................................................................................................... VII – a sentença arbitral; ....................................................................................................... § 2º A autocomposição judicial pode envolver sujeito estranho ao processo e versar sobre relação jurídica que não tenha sido deduzida em juízo.” Os incisos II e III deste art. 515 realçam a qualidade de título executivo judicial da autocomposição judicial; ou da autocomposição extrajudicial de qualquer natureza, após homologada. Em consonância com o sentido e alcance deste CPC/2015, o § 2º assinala que a autocomposição judicial pode envolver sujeito estranho ao processo e versar sobre relação jurídica que não tenha sido deduzida em juízo. Essa flexibilidade ou essa abertura para o mundo da vida representa inestimável avanço sobre o formalismo, com vistas à pacificação social. Com efeito, mais importante do que aspectos formais deduzidos em juízo é o acolhimento das necessidades identificadas e consensuadas na autocomposição. Procedimentos de Jurisdição Voluntária: “Art. 725. Processar-se-á na forma estabelecida nesta Seção o pedido de: ..................................................................................................... VIII – homologação de autocomposição extrajudicial, de qualquer natureza ou valor. Art. 784. São títulos executivos extrajudiciais: ..................................................................................................... IV – o instrumento de transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela Advocacia Pública, pelos advogados dos transatores ou por conciliador ou mediador credenciado por tribunal; (...).” Para que possa valer como título executivo extrajudicial, a transação acordada extrajudicialmente precisará de ser referendada, conforme o caso, pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela Advocacia Pública, pelos advogados dos transatores ou por conciliador ou mediador credenciado pelo tribunal. Mediador credenciado é mediador cadastrado? As autocomposições realizadas por cidadãos capazes, em suas negociações diretas ou com o apoio de mediadores extrajudiciais (comunitários, escolares, empresariais, familiares etc.) não valerão como título executivo extrajudicial, salvo se assinadas pelos advogados de ambas as partes ou referendados conforme o inciso IV deste artigo 784? Esta exigência seria um retrocesso, pois vai no sentido oposto de uma cultura de promoção da paz. Em boa hora, a Lei (especial) da Mediação tornou-a sem efeito, consoante a redação do parágrafo único do seu art. 21. De positivo, são dispensadas formalidades como as assinaturas de testemunhas e a não obrigatoriedade de se requerer a homologação judicial. J – Disposições sobre litígio coletivo pela posse de imóvel (art. 565): “Art. 565. No litígio coletivo pela posse de imóvel, quando o esbulho ou a turbação afirmado na petição inicial houver ocorrido há mais de ano e dia, o juiz, antes de apreciar o pedido de concessão da medida liminar, deverá designar audiência de mediação, a realizar-se em até 30 (trinta) dias, que observará o disposto nos §§ 2º e 4º. § 1º Concedida a liminar, se essa não for executada no prazo de 1 (um) ano, a contar da data de distribuição, caberá ao juiz designar audiência de mediação, nos termos dos §§ 2º a 4º deste artigo. § 2º O Ministério Público será intimado para comparecer à audiência, e a Defensoria Pública será intimada sempre que houver parte beneficiária de gratuidade da justiça. § 3º O juiz poderá comparecer à área objeto do litígio quando sua presença se fizer necessária à efetivação da tutela jurisdicional. § 4º Os órgãos responsáveis pela política agrária e pela política urbana da União, de Estado ou do Distrito Federal e de Município onde se situe a área objeto do litígio poderão ser intimados para a audiência, a fim de se manifestarem sobre seu interesse no processo e sobre a existência de possibilidade de solução para o conflito possessório. § 5º Aplica-se o disposto neste artigo ao litígio sobre propriedade de imóvel”. Aqui há duas hipóteses para a prática da mediação. A primeira, antes de concedida a liminar, quando a audiência de mediação é designada para realizar-se no prazo de trinta dias. A segunda hipótese, quando a liminar não é executada no prazo de 1 (um) ano. Em ambas as hipóteses, caracteriza-se a obrigatoriedade do procedimento. K – Disposições sobre família (arts. 694 a 696) “Art. 694. Nas ações de família, todos os esforços serão empreendidos para a solução consensual da controvérsia, devendo o juiz dispor do auxílio de profissionais de outras áreas de conhecimento para a mediação e conciliação. Parágrafo único. A requerimento das partes, o juiz pode determinar a suspensão do processo enquanto os litigantes se submetem a mediação extrajudicial ou a atendimento multidisciplinar”. Compreender que a conjugalidade pode haver terminado, mas não a parentalidade; perceber que a alienação parental pode acarretar a “morte inventada” de um pai ou de uma mãe, com sérias consequências para os filhos; assegurar o apoio que empodere esses pais na superação dos sofrimentos e maus-tratos recíprocos, é o que se espera de um Estado que compreende a importância da família e da educação. De nada importam as regras jurídicas sem a compreensão de que ali, para muito além dos belos arrazoados, há dramas humanos, há sofrimentos, há dificuldades em lidar com mudanças e perdas. As próprias partes poderão requerer a suspensão do processo para fins de mediação extrajudicial, com mediadores de livre escolha, ou atendimento multidisciplinar, que pode englobar, por exemplo, vários modelos ou alternativas de terapia familiar. “Art. 695. Recebida a petição inicial e, se for o caso, tomadas as providências referentes à tutela provisória, o juiz ordenará a citação do réu para comparecer à audiência de mediação e conciliação, observado o disposto no art. 694. § 1º O mandado de citação conterá apenas os dados necessários à audiência e deverá estar desacompanhado de cópia da petição inicial, assegurado ao réu o direito de examinar seu conteúdo a qualquer tempo. § 2º A citação ocorrerá com antecedência mínima de 15 (quinze) dias da data designada para a audiência. § 3º A citação será feita na pessoa do réu. § 4º Na audiência, as partes deverão estar acompanhadas de seus advogados ou de defensores públicos. “Art. 696. A audiência de mediação e conciliação poderá dividir-se em tantas sessões quantas sejam necessárias para viabilizar a solução consensual, sem prejuízo de providências jurisdicionais para evitar o perecimento do direito”. Consoante o art. 695, nas ações de família a mediação é obrigatória.19 No campo dos conflitos familiares é onde mais sentimos a necessidade do diálogo bem construído; haja vista, especialmente, as repercussões sobre filhos e outros parentes próximos. Profissionais de outras áreas do conhecimento deverão estar disponíveis para mediar; daí porque este é um campo em que se prevê a comediação. A mediação ou conciliação – nesta hipótese obrigatória – poderão ser judiciais ou extrajudiciais, consoante a preferência das partes. Sem prejuízo de providências jurisdicionais para evitar o perecimento do direito, o juiz suspenderá o processo enquanto as partes estiverem participando das mediações ou de algum outro atendimento multidisciplinar, sem estabelecimento prévio de prazos, pois as mediações e outros tratos poderão necessitar de várias sessões. Especialmente em questões de família, inúmeras legislações, como a francesa, a canadense, a chilena, legislações da Argentina e dos EUA20, por exemplo, adotam a obrigatoriedade de prévio comparecimento e participação em mediações. Identificou-se, naqueles e em inúmeros outros países que, em virtude da cultura da litigiosidade, os operadores do direito, quando ainda desconhecemas vantagens das dinâmicas consensuadas, tendem a desencorajar os respectivos clientes, inviabilizando, assim, o trato mediador. Portanto, pelo menos até que se consolide o novo paradigma, tem sido pedagogicamente recomendada a obrigatoriedade de comparecimento e participação. A experiência Argentina nos é revelada, em detalhes, por Sérgio Abrevaya.21 Sobre esses temas destacamos o enunciado 55:22 55. O Poder Judiciário e a sociedade civil deverão fomentar a adoção da advocacia colaborativa como prática pública de resolução de conflitos na área do direito de família, de modo a que os advogados das partes busquem sempre a atuação conjunta voltada para encontrar um ajuste viável, criativo e que beneficie a todos os envolvidos. L – Disposições sobre prescrição (arts. 221 e 313) “Art. 221. Suspende-se o curso do prazo por obstáculo criado em detrimento da parte ou ocorrendo qualquer das hipóteses do art. 313, devendo o prazo ser restituído por tempo igual ao que faltava para sua complementação. Parágrafo único. Suspendem-se os prazos durante a execução de programa instituído pelo Poder Judiciário para promover a autocomposição, incumbindo aos tribunais especificar, com antecedência, a duração dos trabalhos”. “Art. 313. Suspende-se o processo: ..................................................................................................... VIII – Nos demais casos que este Código regula”. Os prazos processuais ficam suspensos durante a execução de programa instituído para promover a autocomposição. Assim, conforme o art. 221, combinado com o art. 313, enquanto estiver em andamento a mediação ou a conciliação judicial, nos limites de duração especificados pelo tribunal, estará suspensa a contagem do prazo prescricional. Aqui não se cogita de interrupção de prescrição, pois a petição inicial antecedentemente ajuizada já terá produzido esse efeito. 22. 29. 39. 44. 58. 63. Sobre esses temas destacamos os enunciados 22, 29, 39, 44, 58, 63, 71, 78 e 79:23 A expressão “sucesso ou insucesso” do art. 167, § 3º, do Código de Processo Civil não deve ser interpretada como quantidade de acordos realizados, mas a partir de uma avaliação qualitativa da satisfação das partes com o resultado e com o procedimento, fomentando a escolha da câmara, do conciliador ou do mediador com base nas suas qualificações e não nos resultados meramente quantitativos. Caso qualquer das partes comprove a realização de mediação ou conciliação antecedente à propositura da demanda, o magistrado poderá dispensar a audiência inicial de mediação ou conciliação, desde que tenha tratado da questão objeto da ação e tenha sido conduzida por mediador ou conciliador capacitado. A previsão de suspensão do processo para que as partes se submetam à mediação extrajudicial deverá atender ao disposto no § 2º do art. 334 da Lei Processual, podendo o prazo ser prorrogado no caso de consenso das partes. Havendo processo judicial em curso, a escolha de mediador ou câmara privada ou pública de conciliação e mediação deve observar o peticionamento individual ou conjunto das partes, em qualquer tempo ou grau de jurisdição, respeitado o contraditório. A conciliação/mediação, em meio eletrônico, poderá ser utilizada no procedimento comum e em outros ritos, em qualquer tempo e grau de jurisdição. A perspectiva da conciliação judicial, inclusive por adesão, em razão ou no bojo de Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, é compatível com o Código de Processo Civil (Lei 71. 78. 79. 4. 13.105, de 16 de março de 2015) e com a Lei da Mediação (Lei 13.140, de 26 de junho de 2015). Tendo havido prévio e comprovado requerimento administrativo, incumbe à Administração Pública o dever de comprovar em juízo que adotou as providências legais e regulamentares para a aferição do direito da parte. Recomenda-se aos juízes das varas de família dos tribunais onde já tenham sido implantadas as oficinas de parentalidade que as partes sejam convidadas a participar das referidas oficinas, antes da citação nos processos de guarda, visitação e alienação parental, como forma de fomentar o diálogo e prevenir litígios. O Judiciário estimulará o planejamento sucessório, com ações na área de comunicação que esclareçam os benefícios da autonomia privada, com o fim de prevenir litígios e desestimular a via judiciária. MEDIAÇÃO ENTRE PARTICULARES E AUTOCOMPOSIÇÃO NO ÂMBITO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, CONSOANTE A LEI 13.140/2015 Desde o final dos anos noventa temos acompanhado os esforços por uma legislação sobre a mediação de conflitos, com vistas a incluir o Brasil no rumo das inovações significativas da cultura do diálogo de países mais avançados. Em edições anteriores comentamos antigos projetos. Em 2013 o Senado, mantendo a base do PLS nº 517/11, de autoria do senador Ricardo Ferraço, acrescentou vários pontos de dois novos projetos, o PLS nº 405/13 e o PLS nº 434/13, originários de propostas de duas comissões de juristas e especialistas: a comissão especial constituída no Senado, presidida pelo Ministro Luis Felipe Salomão, inicialmente direcionada a elaborar proposta de alterações na Lei de Arbitragem, e a • comissão especial instituída no Ministério da Justiça, da qual fizemos parte, coordenada pelo Secretário de Reforma do Judiciário, Flávio Crocce Caetano, direcionada à elaboração de um anteprojeto de lei especial da mediação de conflitos. Desse conjunto de esforços resultou o PLS nº 517/11 (cf. substitutivo de 2013), que seguiu para a Câmara dos Deputados no final de 2013 e que ali tramitou como Projeto de Lei nº 7.169/2014. Após a aprovação de um conjunto de emendas (cf. substitutivo 9 de 2014), retornou ao Senado em 2015. Houve consenso no sentido de que o substitutivo da Câmara havia aprimorado o texto do PLS nº 517. Após aprovado em regime de urgência no Senado e sanção presidencial, converteu-se na atual Lei da Mediação. Durante a sua elaboração e tramitação, houve o cuidado de evitarem-se incompatibilidades entre as suas disposições e as do CPC/2015, uma vez que a Lei de Mediação também inclui dispositivos sobre mediação judicial. Com efeito, as antinomias iriam acarretar a invalidade de regras do CPC/2015, haja vista que lei especial prevalece sobre lei geral. Tal objetivo foi alcançado quase que plenamente. De plano, observamos complementaridades no enunciado dos princípios da mediação, conforme diferenças encontradas no art. 166 do CPC/2015 em comparação com o art. 2º da Lei de Mediação (LM). A Lei de Mediação abrange dispositivos sobre a mediação entre particulares, de conflitos judicializados ou não, e sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública. Eis alguns aspectos marcantes da Lei da Mediação: Não é feita distinção entre conciliação e mediação, pois caberá ao mediador praticar as suas técnicas e habilidades, e, portanto, o(s) modelo(s) mais apropriado(s), consoante as características do conflito e as necessidades desveladas durante o procedimento. • • • • • • A mediação – extrajudicial ou judicial – pode ser aplicada para solucionar quaisquer controvérsias que admitam transação; podendo versar sobre todo o litígio ou parte dele. Na hipótese de existir previsão contratual de cláusula de mediação, as partes deverão obrigatoriamente comparecer pelo menos à primeira reunião de mediação. Os mediadores extrajudiciais não dependem de registro em cadastro de mediadores ou de graduação em nível superior, mas devem ser capacitados e merecer a confiança das partes. Os mediadores judiciais, para obterem o cadastramento no Tribunal, deverão comprovar habilitação através de escola credenciada de formação de mediadores e necessitarão estar graduados há pelo menos dois anos em curso de nível superior. A mediação considera-se instituída na data da reunião em que é firmado o termo inicial de mediação – momento em que se dá a suspensão do prazo prescricional –, e considera-se encerrada com a lavratura de seu termo final. Em virtude da confidencialidade, nenhuma informação revelada durante o procedimento de mediaçãoserá admitida perante terceiros como prova em processo arbitral ou judicial. Quanto a esta questão, convém comentar a redação do art. 7º da LM. Ali consta, literalmente, que o mediador não poderá atuar como árbitro, nem funcionar como testemunha em processos judiciais ou arbitrais pertinentes a conflito em que tenha atuado como mediador. Deve-se entender que este dispositivo não veda a utilização das técnicas e habilidades da mediação pelos árbitros que estão buscando facilitar uma conciliação durante processo arbitral, sem prejuízo da autonomia das partes em acordarem noutro sentido. • • • 5. É estimulada e regulada a autocomposição de conflitos envolvendo órgãos da Administração Pública direta e indireta de todos os entes federados; sendo essas práticas indispensáveis à razoável duração dos processos e à redução dos altos custos da litigiosidade envolvendo entes públicos. A lei aplica-se, no que couber, a outros meios consensuais de resolução de disputas, como as mediações comunitárias, escolares e penais. É viável a realização de mediação via internet ou por qualquer outro meio que permita a transação à distância. Para facilitar o exame da almejada complementaridade entre os dispositivos do CPC que diretamente se relacionam com mediação e as disposições da Lei de Mediação, segue, adiante, um quadro comparativo. SOBRE O CENTRO DE SOLUÇÕES ALTERNATIVAS DE LITÍGIOS NO ÂMBITO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL O Centro de Soluções Alternativas de Litígios (Cesal), foi criado no âmbito do Supremo Tribunal Federal, consoante a Resolução 790/2022. A medida leva em conta que as demandas estruturais e os litígios complexos exigem técnicas e intervenções diferenciadas, como flexibilidade de procedimento, consensualidade, negociações e atipicidade dos meios de provas, das medidas executivas e das formas de cooperação judiciária. O Cesal funcionará no âmbito da Presidência do STJ e será integrado por três unidades. A primeira é o Centro de Mediação e Conciliação (CMC), criado em 2020, visando à solução de questões jurídicas sujeitas à competência do STF que, por sua natureza, possam ser objeto de composição. A segunda é o Centro de Cooperação Judiciária (CCJ), disciplinado pela Resolução 775/2022, que prevê a cooperação recíproca do STF com os demais órgãos do Poder Judiciário para a prática de atos 6. judiciais ou administrativos. A terceira unidade é o Centro de Coordenação e Apoio às Demandas Estruturais e Litígios Complexos (Cadec), disciplinado na nova resolução. O objetivo do Cadec é auxiliar o STF na resolução de processos voltados a reestruturar determinado estado de coisas em desconformidade com a Constituição Federal e que exijam, para a concretização de direitos, técnicas especiais de efetivação processual e intervenções jurisdicionais diferenciadas. De acordo com a resolução, cabe ao relator ou à relatora indicar o processo a ser submetido ao Cadec. Com a remessa, a unidade adotará providências para detalhar o problema estrutural e delinear as medidas necessárias para enfrentá-lo, propondo metas e prazos. QUADRO COMPARATIVO ENTRE DISPOSITIVOS DO CPC E DA LEI DA MEDIAÇÃO24 CPC (Lei 13.105/2015) Lei de Mediação (Lei 13.140/2015) Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito. § 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei. § 2º O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. § 3º A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a mediação como meio de solução de controvérsias entre particulares e sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da Administração Pública. conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial. Art. 165 (...) § 2º O conciliador, que atuará preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes, poderá sugerir soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem. § 3º O mediador, que atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará aos interessados a compreender as questões e os interesses em conflito, de modo que eles possam, pelo restabelecimento da comunicação, identificar, por Parágrafo único. Considera-se mediação a atividade técnica exercida por terceiro imparcial sem poder decisório, que, escolhido ou aceito pelas partes, as auxilia e estimula a identificar ou desenvolver soluções consensuais para a controvérsia. si próprios, soluções consensuais que gerem benefícios mútuos. Princípios: Art. 166. A conciliação e a mediação são informadas pelos princípios da independência, da imparcialidade, da autonomia da vontade, da confidencialidade, da oralidade, da informalidade e da decisão informada. (…) § 3º Admite-se a aplicação de técnicas negociais, com o objetivo de proporcionar ambiente favorável à autocomposição. § 4º A mediação e a conciliação serão regidas conforme a livre autonomia dos interessados, inclusive no que diz respeito à definição das regras procedimentais. Princípios: Art. 2º A mediação será orientada pelos seguintes princípios: I – imparcialidade do mediador; II – isonomia entre as partes; III – oralidade; IV – informalidade; V – autonomia da vontade das partes; VI – busca do consenso; VII – confidencialidade; VIII – boa-fé. (…) Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional Art. 3º Pode ser objeto de mediação o conflito que verse sobre direitos disponíveis ou sobre ameaça ou lesão a direito. (…) § 2º O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. direitos indisponíveis que admitam transação. § 1º A mediação pode versar sobre todo o conflito ou parte dele. § 2º O consenso das partes envolvendo direitos indisponíveis, mas transigíveis, deve ser homologado em juízo, exigida a oitiva do Ministério Público. Confidencialidade: Art. 166. (...) § 1º A confidencialidade estende-se a todas as informações produzidas no curso do procedimento, cujo teor não poderá ser utilizado para fim diverso daquele previsto por expressa deliberação das partes. § 2º Em razão do dever de sigilo, inerente às suas funções, o conciliador e o mediador, assim como os membros de suas equipes, não poderão divulgar ou depor acerca de fatos ou elementos oriundos da conciliação ou da mediação. Confidencialidade: Art. 30. Toda e qualquer informação relativa ao procedimento de mediação será confidencial em relação a terceiros, não podendo ser revelada sequer em processo arbitral ou judicial salvo se as partes expressamente decidirem de forma diversa ou quando sua divulgação for exigida por lei ou necessária para cumprimento de acordo obtido pela mediação. § 1º O dever de confidencialidade aplica-se ao mediador, às partes, a seus prepostos, advogados, assessores técnicos e a outras pessoas de sua confiança que tenham, direta ou indiretamente participado do procedimento de mediação alcançando: I – declaração, opinião, sugestão, promessa ou proposta formulada por uma parte à outra na busca de entendimento para o conflito; II – reconhecimento de fato por qualquer das partes no curso do procedimento de mediação III – manifestação de aceitação de proposta de acordo apresentada pelo mediador; IV – documento preparado unicamente para os fins do procedimento de mediação. § 2º A prova apresentada em desacordo com o disposto neste artigo não será admitida em processo arbitral ou judicial. § 3º Não está abrigada pela regra de confidencialidade a informação relativa à ocorrência de crime de ação pública. § 4º A regra da confidencialidade não afasta o dever das pessoas discriminadas no caput de prestar informações à Administração Tributária após o termo final da mediação, aplicando-se aos seus servidores a obrigação de manter sigilo das informações compartilhadas nos termos do art. 198 da Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966 – CTN. Art. 31. Será confidencial a informaçãoprestada por uma parte em sessão privada, não podendo o mediador revelá-la às demais, exceto se expressamente autorizado. Previsão de Mediação: Art. 319. A petição inicial indicará: (…) VII – a opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação ou de mediação. Disposições gerais: Art. 2º (...) § 1º Na hipótese de existir previsão contratual de clausula de mediação, as partes deverão comparecer à primeira reunião de mediação. § 2º Ninguém será obrigado a permanecer em procedimento de mediação. Audiência Obrigatória: Art. 334. Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação com antecedência mínima de 30 (trinta) dias, devendo ser citado o réu com pelo menos Audiência Obrigatória – Medidas Judiciais: Art. 27. Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do pedido, o juiz designará audiência de mediação. 20 (vinte) dias de antecedência. § 1º O conciliador ou mediador, onde houver, atuará necessariamente na audiência de conciliação ou de mediação, observando o disposto neste Código, bem como as disposições da lei de organização judiciária. § 2º Poderá haver mais de uma sessão destinada à conciliação e à mediação, não podendo exceder a 2 (dois) meses da data de realização da primeira sessão, desde que necessárias à composição das partes. § 3º A intimação do autor para a audiência será feita na pessoa de seu advogado. § 4º A audiência não será realizada: I – se ambas as partes manifestarem, expressamente, desinteresse na composição consensual; II – quando não se admitir a autocomposição. § 5º O autor deverá indicar, na petição inicial, seu desinteresse na autocomposição, e o réu deverá fazê-lo, por petição, apresentada com 10 (dez) dias de antecedência, contados da data da audiência. § 6º Havendo litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência deve ser manifestado por todos os litisconsortes. § 7º A audiência de conciliação ou de mediação pode realizar-se por meio eletrônico, nos termos da lei. § 8º O não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado. Medidas Extrajudiciais: Art. 23. Se, em previsão contratual de cláusula de mediação, as partes se comprometerem a não iniciar procedimento arbitral ou processo judicial durante certo prazo ou até o implemento de determinada condição, o árbitro ou o juiz suspenderá o curso da arbitragem ou da ação pelo prazo previamente acordado ou até o implemento dessa condição. § 9º As partes devem estar acompanhadas por seus advogados ou defensores públicos. § 10. A parte poderá constituir representante, por meio de procuração específica, com poderes para negociar e transigir. § 11. A autocomposição obtida será reduzida a termo e homologada por sentença. § 12. A pauta das audiências de conciliação ou de mediação será organizada de modo a respeitar o intervalo mínimo de 20 (vinte) minutos entre o início de uma e o início da seguinte. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica às medidas de urgência em que o acesso ao Poder Judiciário seja necessário para evitar o perecimento de direito. Audiência Obrigatória: DA CONTESTAÇÃO Art. 335. O réu poderá oferecer contestação, por petição, no prazo de 15 (quinze) dias, cujo termo inicial será a data: I – da audiência de conciliação ou de mediação, ou da última sessão de conciliação, quando qualquer parte não comparecer ou, comparecendo, não houver autocomposição; II – do protocolo do pedido de cancelamento da audiência de conciliação ou de mediação apresentado pelo réu, quando ocorrer a hipótese do art. 334, § 4º, inciso I; (…) § 1º No caso de litisconsórcio passivo, ocorrendo a hipótese do art. 334, § 6º, o termo inicial previsto no inciso II será, para cada um dos réus, a data de apresentação de seu respectivo pedido de cancelamento da audiência. Casos de Família – Audiência Obrigatória: Art. 694. Nas ações de família, todos os esforços serão empreendidos para a solução consensual da controvérsia, devendo o juiz dispor do auxílio de profissionais de outras áreas de conhecimento para a mediação e conciliação. Parágrafo único. A requerimento das partes, o juiz pode determinar a suspensão do processo enquanto os litigantes se submetem a mediação extrajudicial ou a atendimento multidisciplinar. Art. 695. Recebida a petição inicial e, se for o caso, tomadas as providências referentes à tutela provisória, o juiz ordenará a citação do réu para comparecer à audiência de mediação e conciliação, observado o disposto no art. 694. § 1º O mandado de citação conterá apenas os dados necessários à audiência e deverá estar desacompanhado de cópia da petição inicial, assegurado ao réu o direito de examinar seu conteúdo a qualquer tempo. § 2º A citação ocorrerá com antecedência mínima de 15 (quinze) dias da data designada para a audiência. § 3º A citação será feita na pessoa do réu. § 4º Na audiência, as partes deverão estar acompanhadas de seus advogados ou de defensores públicos. Não Comparecimento à Audiência de Conciliação/Mediação Art. 334. (…) § 8º O não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado. Não Comparecimento à Audiência de Mediação Judicial ou Extrajudicial: Nas Mediações Extrajudiciais: Art. 22. A previsão contratual de mediação deverá conter, no mínimo: I – Prazo mínimo e máximo para a realização da primeira reunião de mediação, contado a partir da data de recebimento do convite; II – Local da primeira reunião de mediação; III – Critérios de escolha do mediador ou equipe de mediação; IV – Penalidade em caso de não comparecimento da parte convidada à primeira reunião de mediação. § 1º A previsão contratual pode substituir a especificação dos itens acima enumerados pela indicação de regulamento, publicado por instituição idônea prestadora de serviços de mediação, no qual constem critérios claros para a escolha do mediador e realização da primeira reunião de mediação. Art. 22. (…) § 2º (…) IV – o não comparecimento da parte convidada à primeira reunião de mediação acarretará a assunção, por parte desta, de 50% (cinquenta por cento) das custas e honorários sucumbenciais caso venha a ser vencedora em procedimento arbitral ou judicial posterior, que envolva o escopo da mediação para a qual foi convidada. Conciliadores e Mediadores Judiciais: Dos Auxiliares da Justiça Art. 149. São auxiliares da Justiça, além de outros cujas atribuições sejam Dos Mediadores Judiciais: Art. 11. Poderá atuar como mediador judicial a pessoa capaz, graduada há pelo menos 2 (dois) anos em curso de ensino superior de instituição reconhecida pelo determinadas pelas normas de organização judiciária, o escrivão, o chefe de secretaria, o oficial de justiça, o perito o depositário, o administrador, o intérprete, o tradutor, o mediador, o conciliador judicial o partidor, o distribuidor, o contabilista e o regulador de avarias. (...) Art. 167. Os conciliadores, os mediadores e as câmaras privadas de conciliação e mediação serão inscritos em cadastro nacional e em cadastro de tribunal de justiça ou de tribunal regional federal que manterá registro de profissionais habilitados com indicação de sua área profissional. § 1º Preenchendo o requisito da capacitação mínima, por meio de curso realizado por entidade credenciada, conforme parâmetro curricular definido pelo Conselho Nacional de Ministério da Educação e que tenha obtido capacitação em escola ou instituição de formação de mediadores, reconhecida pela Escola Nacional de Formação de Magistrados – ENFAM ou pelos tribunais,observados os requisitos mínimos estabelecidos pelo Conselho Nacional de Justiça em conjunto com o Ministério da Justiça. Justiça em conjunto com o Ministério da Justiça, o conciliador ou o mediador, com o respectivo certificado, poderá requerer sua inscrição no cadastro nacional e no cadastro de tribunal de justiça ou de tribunal regional federal. § 2º Efetivado o registro, que poderá ser precedido de concurso público, o tribunal remeterá ao diretor do foro da comarca, seção ou subseção judiciária onde atuará o conciliador ou o mediador os dados necessários para que seu nome passe a constar da respectiva lista, a ser observada na distribuição alternada e aleatória respeitado o princípio da igualdade dentro da mesma área de atuação profissional. § 3º Do credenciamento das câmaras e do cadastro de conciliadores e mediadores constarão todos os dados relevantes para a sua atuação, tais como o número de processos de que participou o sucesso ou insucesso da atividade, a matéria sobre a qual versou a controvérsia, bem como outros dados que o tribunal julgar relevantes. § 4º Os dados colhidos na forma do § 3º serão classificados sistematicamente pelo tribunal que os publicará, ao menos anualmente, para conhecimento da população e para fins estatísticos e de avaliação da conciliação, da mediação, das câmaras privadas de conciliação e de mediação dos conciliadores e dos mediadores. § 5º Os conciliadores e mediadores judiciais cadastrados na forma do caput, se advogados, estarão impedidos de exercer a advocacia nos juízos em que desempenhem suas funções. Art. 12. Os tribunais criarão e manterão cadastrados atualizados dos mediadores habilitados e autorizados a atuar em mediação judicial. § 1º A inscrição no cadastro de mediadores judiciais será requerida pelo interessado ao § 6º O tribunal poderá optar pela criação de quadro próprio de conciliadores e mediadores, a ser preenchido por concurso público de provas e títulos, observadas as disposições deste Capítulo. tribunal com jurisdição na área em que pretenda exercer a mediação. § 2º Os tribunais regulamentarão o processo de inscrição e desligamento de seus mediadores. Art. 168. As partes podem escolher, de comum acordo, o conciliador, o mediador ou a câmara privada de conciliação e de mediação. § 1º O conciliador ou mediador escolhido pelas partes poderá ou não estar cadastrado no tribunal. § 2º Inexistindo acordo quanto à escolha do mediador ou conciliador, haverá distribuição entre aqueles cadastrados no registro do tribunal, observada a respectiva formação. § 3º Sempre que recomendável, haverá a designação de mais de um mediador ou conciliador. Disposições comuns: Art. 4º O mediador será designado pelo tribunal ou escolhido pelas partes. § 1º O mediador conduzirá o procedimento de comunicação entre as partes, buscando o entendimento e o consenso e facilitando a resolução do conflito. § 2º Aos necessitados, será assegurada a gratuidade da mediação. Art. 8º O mediador e todos aqueles que o assessoram no procedimento de mediação, quando no exercício de suas funções ou em razão delas, são equiparados a servidor público, para os efeitos da legislação penal. Art. 25. Na mediação judicial, os mediadores não estarão sujeitos à prévia aceitação das partes, observado o disposto no artigo 5º desta Lei. *O art. 5º refere-se às hipóteses legais de impedimento e suspeição. Atuação do Mediador Extrajudicial: Art. 9º Poderá funcionar como mediador extrajudicial qualquer pessoa capaz, que tenha a confiança das partes e seja capacitada para fazer mediação, independentemente de integrar qualquer tipo de conselho, entidade de classe ou associação, ou nele inscrever-se. Art. 10. As partes poderão ser assistidas por advogados ou defensores públicos. Parágrafo único. Comparecendo uma das partes acompanhada de advogado ou defensor público, o mediador suspenderá o procedimento, até que todas estejam devidamente assistidas. Remuneração do Conciliador e Mediador Judicial: Remuneração do Mediador judicial: Art. 13. A remuneração devida aos mediadores judiciais será fixada Art. 169. Ressalvada a hipótese do art. 167, § 6º, o conciliador e o mediador receberão pelo seu trabalho remuneração prevista em tabela fixada pelo tribunal, conforme parâmetros estabelecidos pelo Conselho Nacional de Justiça. § 1º A mediação e a conciliação podem ser realizadas como trabalho voluntário, observada a legislação pertinente e a regulamentação do tribunal. § 2º Os tribunais determinarão o percentual de audiências não remuneradas que deverão ser suportadas pelas câmaras privadas de conciliação e mediação, com o fim de atender aos processos em que deferida gratuidade da justiça, como contrapartida de seu credenciamento. pelos tribunais e custeada pelas partes, observado o disposto no § 2º do artigo 4º desta Lei. Impedimento ou Suspeição: Impedimento ou Suspeição e Dever de Revelação: Disposições comuns Art. 148. Aplicam-se os motivos de impedimento e de suspeição: (…) II – aos auxiliares da justiça; III – aos demais sujeitos imparciais do processo. Art. 170. No caso de impedimento, o conciliador ou mediador o comunicará imediatamente, de preferência por meio eletrônico, e devolverá os autos ao juiz do processo ou ao coordenador do centro judiciário de solução de conflitos, devendo este realizar nova distribuição. Parágrafo único. Se a causa de impedimento for apurada quando já iniciado o procedimento, a atividade será interrompida, lavrando- se ata com relatório do ocorrido e solicitação de distribuição para novo conciliador ou mediador. Art. 171. No caso de impossibilidade temporária do exercício da função, o Art. 5º Aplicam-se ao mediador as mesmas hipóteses legais de impedimento e suspeição do juiz. Parágrafo único. A pessoa designada para atuar como mediador tem o dever de revelar às partes, antes da aceitação da função, qualquer fato ou circunstância que possa suscitar dúvida justificada em relação à sua imparcialidade para mediar o conflito, oportunidade em que poderá ser recusado por qualquer delas. conciliador ou mediador informará o fato ao centro, preferencialmente por meio eletrônico, para que, durante o período em que perdurar a impossibilidade, não haja novas distribuições. Quarentena Art. 172. O conciliador e o mediador ficam impedidos, pelo prazo de 1 (um) ano, contado do término da última audiência em que atuaram, de assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes. Quarentena – Disposições comuns: Art. 6º O mediador fica impedido, pelo prazo de 1 (um) ano, contado do término da última audiência em que atuou, de assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes. Impedimento do Advogado-Conciliador/ Mediador: Art. 167. (...) § 5º Os conciliadores e mediadores judiciais cadastrados na forma do caput, se advogados, estarão impedidos de exercer a advocacia nos juízos em que Incompatibilidade do Mediador – Disposições comuns: Art. 7° O mediador não poderá atuar como árbitro, nem funcionar como testemunha em processos judiciais ou arbitrais pertinentes a conflito em que tenha atuado como mediador desempenhem suas funções. Penalidades: Art. 173. Será excluído do cadastro de conciliadores e mediadores aquele que: I – agir com dolo ou culpa na condução da conciliação ou da mediação sob sua responsabilidade ou violar qualquer dos deveres decorrentes do art. 166, §§ 1º e 2º; II – atuar em procedimento de mediação ou conciliação, apesar de impedido ou suspeito. § 1º Os casos previstos neste artigo serão apurados em processo administrativo. § 2º O juiz do processo ou o juiz coordenador do centro de conciliação e mediação, se houver, verificando atuação inadequada do mediador ou conciliador, poderá afastá-lo de suas atividades por até 180 (cento e oitenta) dias, por decisão fundamentada, Mediadores judiciais: Art. 12 (…) § 2º Os tribunais regulamentarão o processo de inscrição e desligamento de seus mediadores. informando o fato imediatamente ao tribunal para instauração do respectivo processo administrativo. (...) Assistência de Advogadosou Defensores: Art. 334. (...) § 9º As partes devem estar acompanhadas por seus advogados ou defensores públicos. § 10. A parte poderá constituir representante, por meio de procuração específica, com poderes para negociar e transigir. § 11. A autocomposição obtida será reduzida a termo e homologada por sentença. Assistência de Advogados ou Defensores na mediação extrajudicial: Art. 10. As partes poderão ser assistidas por advogados ou defensores públicos. Parágrafo único. Comparecendo uma das partes acompanhada de advogado ou defensor público o mediador suspenderá o procedimento, até que todas estejam devidamente assistidas. Na mediação judicial: Assistência de Advogados ou Defensores. Art. 26. As partes deverão ser assistidas por advogados ou defensores públicos, ressalvadas as hipóteses previstas na Lei nº 9.099 de 26 de setembro de 1995 e na Lei nº 10.259 de 12 de julho de 2001. Parágrafo único. Aos que comprovarem insuficiência de recursos será assegurada assistência pela Defensoria Pública. Solução de Conflitos no âmbito Administrativo: Art. 174. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios criarão câmaras de mediação e conciliação, com atribuições relacionadas à solução consensual de conflitos no âmbito administrativo, tais como: I – dirimir conflitos envolvendo órgãos e entidades da administração pública; II – avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de conciliação, no âmbito da administração pública; III – promover, quando couber, a celebração de termo de ajustamento de conduta. Art. 175. As disposições desta Seção não excluem outras formas de conciliação Conflitos envolvendo a Administração Pública: Art. 32. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão criar câmaras de prevenção e resolução administrativa de conflitos, no âmbito dos respectivos órgãos da Advocacia Pública, onde houver, com competência para: I – dirimir conflitos entre órgãos e entidades da Administração Pública; II – avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de composição, no caso de controvérsia entre particular e pessoa jurídica de direito público; III – promover, quando couber a celebração de termo de ajustamento de conduta. § 1º O modo de composição e funcionamento das câmaras de que trata o caput será estabelecido em regulamento de cada ente federado. e mediação extrajudiciais vinculadas a órgãos institucionais ou realizadas por intermédio de profissionais independentes, que poderão ser regulamentadas por lei específica. Parágrafo único. Os dispositivos desta Seção aplicam-se, no que couber, às câmaras privadas de conciliação e mediação. § 2º A submissão do conflito às câmaras de que trata o caput é facultativa e será cabível apenas nos casos previstos no regulamento do respectivo ente federado. § 3º Se houver consenso entre as partes, o acordo será reduzido a termo e constituirá título executivo extrajudicial. § 4º Não se incluem na competência dos órgãos mencionados no caput deste artigo as controvérsias que somente possam ser resolvidas por atos ou concessão de direitos sujeitos a autorização do Poder Legislativo. § 5º Compreende-se na competência das câmaras de que trata o caput, a prevenção e resolução de conflitos que envolvam equilíbrio econômico- financeiro de contratos celebrados pela Administração com particulares. Art. 33. Enquanto não forem criadas as Câmaras de Mediação, os conflitos poderão ser dirimidos nos termos do procedimento de mediação previsto no Capítulo 1, Seção III, Subseção 1, desta Lei. Parágrafo único. A Advocacia Pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, onde houver, poderá instaurar, de ofício ou mediante provocação, procedimento de mediação coletiva de conflitos relacionados à prestação de serviços públicos. Art. 34. A instauração de procedimento administrativo para a resolução consensual de conflito no âmbito da Administração Pública suspende a prescrição. § 1º Considera-se instaurado o procedimento quando o órgão ou entidade pública emitir juízo de admissibilidade, retroagindo a suspensão da prescrição à data de formalização do pedido de resolução consensual do conflito. § 2º Em se tratando de matéria tributária, a suspensão da prescrição deverá observar o disposto na Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1996 (Código Tributário Nacional). Conflitos envolvendo a Administração Direta, Autarquias e Fundações. Art. 35. As controvérsias jurídicas que envolvam a Administração Pública Federal direta, suas autarquias e fundações poderão ser objeto de transação por adesão, com fundamento em: I – autorização do Advogado-Geral da União, com base na jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal ou de tribunais superiores; ou II – parecer do Advogado-Geral da União, aprovado pelo Presidente da República. § 1º Os requisitos e as condições da transação por adesão serão definidos em resolução administrativa própria. § 2º Ao fazer o pedido de adesão, o interessado deverá juntar prova de atendimento aos requisitos e às condições estabelecidos na resolução administrativa. § 3º A resolução administrativa terá efeitos gerais e será aplicada aos casos idênticos, tempestivamente habilitados mediante pedido de adesão, ainda que solucione apenas parte da controvérsia. § 4º A adesão implicará renúncia do interessado ao direito sobre o qual se fundamenta a ação ou o recurso, eventualmente pendentes, de natureza administrativa ou judicial, no que tange aos pontos compreendidos pelo objeto da resolução administrativa. § 5º Se o interessado for parte em processo judicial inaugurado por ação coletiva, a renúncia ao direito sobre o qual se fundamenta a ação deverá ser expressa, mediante petição dirigida ao juiz da causa. § 6º A formalização de resolução administrativa destinada à transação por adesão não implica na renúncia tácita à prescrição, nem sua interrupção ou suspensão. Art. 36. No caso de conflitos que envolvam controvérsia jurídica entre órgãos ou entidades de direito público que integram a Administração Pública Federal, a Advocacia-Geral da União deverá realizar composição extrajudicial do conflito, observados os procedimentos previstos em ato do Advogado-Geral da União. § 1º Na hipótese do caput, se não houver acordo quanto à controvérsia jurídica, caberá ao Advogado-Geral da União dirimi-la, com fundamento na legislação afeta. § 2º Nos casos em que a resolução da controvérsia implicar o reconhecimento da existência de créditos da União, de suas autarquias e fundações em face de pessoas jurídicas de direito público federais, a Advocacia-Geral da União poderá solicitar ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão a adequação orçamentária para quitação das dívidas reconhecidas como legítimas. § 3º A composição extrajudicial do conflito não afasta a apuração de responsabilidade do agente público que deu causa à dívida, sempre que se verificar que sua ação ou omissão constitui, em tese, infração disciplinar. § 4º Nas hipóteses em que a matéria objeto do litígio esteja sendo discutida em ação de improbidade administrativa ou sobre ela haja decisão do Tribunal de Contas da União, a conciliação de que trata o caput dependerá da anuência expressa do juiz da causa ou do Ministro relator. Art. 37. É facultado aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, suas autarquias e fundações públicas, bem como às empresas públicas e sociedades de economia mista federais, submeter seus litígios com órgãos ou entidades da Administração Pública Federal à Advocacia-Geral da União, para fins de composição extrajudicial do conflito. Art. 38. Nos casos em que a controvérsia jurídica seja relativa a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil ou a créditos inscritos em dívida ativa da União. I – não se aplicam as disposições dos incisos II e III do caput do art. 32; II – as empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias que explorem atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviçosem regime de concorrência não poderão exercer a faculdade prevista no art. 37; III – quando forem partes as pessoas a que alude o caput do art. 36: a) a submissão do conflito à composição extrajudicial pela Advocacia-Geral da União implica renúncia do direito de recorrer ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais; b) a redução ou o cancelamento do crédito dependerá de manifestação conjunta do Advogado-Geral da União e do Ministro de Estado da Fazenda. Parágrafo único: O disposto neste artigo não afasta a competência do Advogado-Geral da União, prevista nos incisos VI, X e XI do art. 4º da Lei Complementar nº 73, de 1º de fevereiro de 1993, e na Lei nº 9.469, de 10 de julho de 1997. Art. 39. A propositura de ação judicial em que figurem concomitantemente nos polos ativo e passivo órgãos ou entidades de direito público que integrem a Administração Públicas Federal deverá ser previamente autorizada pelo Advogado-Geral da União. Art. 40. Os servidores e empregados públicos que participarem do processo de composição extrajudicial do conflito, somente poderão ser responsabilizados civil, administrativa ou criminalmente quando, mediante dolo ou fraude, receberem qualquer vantagem patrimonial indevida, permitirem ou facilitarem sua recepção por terceiro, ou para tal concorrerem. Da audiência de conciliação ou de mediação: Art. 334. Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação com antecedência mínima de 30 (trinta) dias, devendo ser citado o réu com pelo menos Procedimento de mediação – Disposições comuns: Art. 14. No início da primeira reunião de mediação, e sempre que julgar necessário, o mediador deverá alertar as partes acerca das regras de confidencialidade aplicáveis ao procedimento. 20 (vinte) dias de antecedência. § 1º O conciliador ou mediador, onde houver, atuará necessariamente na audiência de conciliação ou de mediação, observando o disposto neste Código, bem como as disposições da lei de organização judiciária. § 2º Poderá haver mais de uma sessão destinada à conciliação e à mediação, não podendo exceder a 2 (dois) meses da data de realização da primeira sessão, desde que necessárias à composição das partes. § 3º A intimação do autor para a audiência será feita na pessoa de seu advogado. § 4º A audiência não será realizada: I – se ambas as partes manifestarem, expressamente, desinteresse na composição consensual; Art. 15. A requerimento das partes ou do mediador, e com anuência daquelas, poderão ser admitidos outros mediadores para funcionarem no mesmo procedimento, quando isso for recomendável em razão da natureza e da complexidade do conflito. Art. 16. Ainda que haja processo arbitral ou judicial em curso, as partes poderão submeter-se à mediação, hipótese em que requererão ao juiz ou árbitro a suspensão do processo por prazo suficiente para a solução consensual do litígio. § 1º É irrecorrível a decisão que suspende o processo nos termos II – quando não se admitir a autocomposição. § 5º O autor deverá indicar, na petição inicial, seu desinteresse na autocomposição, e o réu deverá fazê-lo, por petição, apresentada com 10 (dez) dias de antecedência, contados da data da audiência. § 6º Havendo litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência deve ser manifestado por todos os litisconsortes. § 7º A audiência de conciliação ou de mediação pode realizar-se por meio eletrônico, nos termos da lei. § 8º O não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em requeridos de comum acordo pelas partes. § 2º A suspensão do processo não obsta a concessão de medidas de urgência pelo juiz ou pelo árbitro. Art. 17. Considera-se instituída a mediação na data para a qual for marcada a primeira reunião de mediação. Parágrafo único. Enquanto transcorrer o procedimento de mediação, ficará suspenso o prazo prescricional. Art. 18. Iniciada a mediação, as reuniões posteriores com a presença das partes somente poderão ser marcadas com a sua anuência. Art. 19. No desempenho de sua função, o mediador poderá reunir- se com as partes, em conjunto ou separadamente, bem como solicitar das partes as informações que entender necessárias para facilitar o entendimento entre aquelas. Art. 20. O procedimento de mediação será encerrado com a lavratura do seu termo final, quando for celebrado acordo ou favor da União ou do Estado. § 9º As partes devem estar acompanhadas por seus advogados ou defensores públicos. § 10. A parte poderá constituir representante, por meio de procuração específica, com poderes para negociar e transigir. § 11. A autocomposição obtida será reduzida a termo e homologada por sentença. § 12. A pauta das audiências de conciliação ou de mediação será organizada de modo a respeitar o intervalo mínimo de 20 (vinte) minutos entre o início de uma e o início da seguinte. quando não se justificarem novos esforços para a obtenção de consenso, seja por declaração do mediador nesse sentido ou por manifestação de qualquer das partes. CEJUSCS Art. 165. Os tribunais criarão centros judiciários de solução consensual de conflitos, responsáveis pela realização de sessões e audiências de conciliação e mediação e pelo CEJUSCS Art. 24. Os tribunais criarão centros judiciários de solução consensual de conflitos, responsáveis pela realização de sessões e audiências de conciliação e mediação, pré- processuais e processuais, e pelo desenvolvimento de programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição. § 1º A composição e a organização dos centros serão definidas pelo respectivo tribunal, observadas as normas do Conselho Nacional de Justiça. § 2º O conciliador, que atuará preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes, poderá sugerir soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem. § 3º O mediador, que atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará aos interessados a compreender as questões e os interesses em conflito, de modo que eles possam, pelo desenvolvimento de programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição. Parágrafo único. A composição e a organização do centro serão definidas pelo respectivo tribunal, observadas as normas do Conselho Nacional de Justiça. restabelecimento da comunicação, identificar, por si próprios, soluções consensuais que gerem benefícios mútuos. DURAÇÃO DO PROCEDIMENTO Art. 334. (…) § 2º Poderá haver mais de uma sessão destinada à conciliação e à mediação, não podendo exceder a 2 (dois) meses da data de realização da primeira sessão, desde que necessárias à composição das partes. DURAÇÃO DO PROCEDIMENTO Mediação Judicial: Art. 28. O procedimento de mediação judicial deverá ser concluído em até 60 (sessenta) dias, contados da primeira sessão, salvo quando as partes, de comum acordo, requerem sua prorrogação. Parágrafo único. Se houver acordo, os autos serão encaminhados ao juiz, que determinará o arquivamento do processo e, desde que requerido pelas partes, homologará o acordo, por sentença, o termo final da mediação e determinará o arquivamento do processo. Art. 29. Solucionado o conflito pela mediação antes da citação do réu, não serão devidas custas judiciais finais. Mediação Extrajudicial – Procedimento: Art. 21. O Convite para iniciar o procedimento de mediação extrajudicial poderá ser feito por qualquer meio de comunicação e deverá estipular o escopo proposto para a negociação, a data e o local da primeira reunião. Parágrafo único. O convite formulado por uma parte à outra considerar-se-á rejeitado se não for respondido em até 30 (trinta) dias da data de seu recebimento. Art. 22. A previsão contratual de mediação deverá conter, no mínimo:I – Prazo mínimo e máximo para a realização da primeira reunião de mediação, contado a partir da data de recebimento do convite; II – Local da primeira reunião de mediação; III – Critérios de escolha do mediador ou equipe de mediação; IV – Penalidade em caso de não comparecimento da parte convidada à primeira reunião de mediação. § 1º A previsão contratual pode substituir a especificação dos itens acima enumerados pela indicação de regulamento, publicado por instituição idônea prestadora de serviços de mediação, no qual constem critérios claros para a escolha do mediador e realização da primeira reunião de mediação. § 2º Não havendo previsão contratual completa deverão ser observados os seguintes critérios para a realização da primeira reunião de mediação: I – Prazo mínimo de 10 (dez) dias úteis e prazo máximo de 3 (três) meses, contados a partir do recebimento do convite; Disposições Finais: Art. 41. A Escola Nacional de Mediação e Conciliação, no âmbito do Ministério da Justiça poderá criar banco de dados sobre boas práticas em mediação, bem como manter relação de mediadores e de instituições de mediação. Art. 42. Aplica-se a esta Lei, no que couber às outras formas consensuais de resolução de conflitos, tais como mediações comunitárias e escolares e àquelas levadas a efeito nas serventias 7. extrajudiciais, desde que no âmbito das suas competências. Parágrafo único. A mediação nas relações de trabalho será regulada por lei própria. Art. 43. Os órgãos entidades da administração pública poderão criar câmaras para a resolução de conflitos entre particulares, que versem sobre atividades por eles reguladas ou supervisionadas COMO LEGITIMAR A IMPORTÂNCIA DOS ADVOGADOS NA MEDIAÇÃO A advocacia resolutiva e as práticas colaborativas na advocacia atraem os clientes para os escritórios de advocacia, que se tornam protagonistas de um contraditório responsável, consoante a recomendação do nosso Código de Ética. Impressiona o crescente interesse dos advogados pelos meios consensuais de solução de controvérsias. As novas experiências da advocacia na mediação – a despeito de nem sempre satisfatórias, em face de estarmos num grande esforço pela adequada qualificação de mediadores – têm gerado significativa demanda por cursos de mediação, conciliação e negociação para advogados, e de capacitações sobre as melhores práticas para advogados na assistência aos seus clientes. Quer em cursos de pós- graduação, quer em cursos de extensão, este crescente interesse é um fato que vem sendo observado em todo o país. Com um detalhe. Eles já chegam para os cursos trazendo conhecimentos básicos. Não apenas os advogados. As novas levas de estudantes dos cursos de Direito vêm para as salas de aula com experiências e informações básicas, inclusive porque os seus professores de processo civil têm, quase unanimemente, percebido e enaltecido o alcance desses métodos nos processos judiciais. Os advogados que ainda não tiveram a oportunidade de estudar e conviver com o novo paradigma cooperativo podem estar inseguros neste período de transição. Sabemos, após décadas de militância na advocacia, como somos pressionados por atitudes beligerantes, na lógica dogmática do ganha-perde. Este é o senso comum teórico que ainda prevalece no mundo do direito. Os clientes costumam desconhecer o poder transformador dos métodos de consensualização e as alternativas de ganha-ganha. Assim, para que possamos superar o senso comum teórico e trocar o chip do litígio pelo chip da colaboração em busca das soluções de ganha- ganha, devemos contribuir para que o novo processo cooperativo seja justo e bem conduzido. Precisamos do acolhimento que deixe os advogados tranquilos quanto às suas responsabilidades e à sua fundamental importância na mediação. Precisamos estar convencidos de que o cliente tomou a decisão de participar da mediação, conscientemente. E precisamos estar bem informados do papel que bons advogados desempenham em apoio aos seus clientes, nas negociações que se dão e na prestação de informações jurídicas necessárias ao esclarecimento de opções possíveis e adequadas. Assim, considerando a contribuição que os advogados podem trazer à mesa de mediação, é importante que os mediadores sejam orientados a reconhecer e a expressamente destacar a importância fundamental dos advogados na assistência aos seus clientes durante a mediação. Caso percebam ser recomendável, neste ou naquele caso, um diálogo prévio, que possam adequadamente conversar com os advogados, antes de iniciada a mediação, verificando a eventual necessidade de prestar esclarecimentos sobre o procedimento e sobre o modo como eles poderão melhor contribuir no exercício de assessoria ao cliente. É importante que os advogados saibam que, na mediação, em face da oralidade, da informalidade e da confidencialidade, fundadas na boa-fé e no protagonismo direto, a voz, a escuta e a vez cabem, de regra, aos mediandos, pois está neles o sentir e o poder decisório. A propósito, quando o advogado e o seu cliente vão ganhando experiência no trato dos conflitos com o apoio de mediadores, a inquietação vai diminuindo, ao tempo em que vai aumentando a gratidão do mediando para com o advogado que lhe orientou e apoiou nessa experiência de empoderamento. Em determinadas situações, o advogado pode preferir deixar o cliente à vontade e retornar à sala na ocasião em que devam ser examinadas opções que necessitem de apreciação jurídica. Em face da atual mudança paradigmática e do novo Código de Ética da advocacia, é recomendável que os advogados sejam estimulados pela OAB a elaborarem contratos de honorários que contemplem o sistema multiportas, com vistas a assegurar a disponibilização, para o cliente, do(s) meio(s) de solução mais adequado(s) à satisfação das suas necessidades e interesses. O objeto do contrato de honorários poderá ser mais amplo e múltiplo em seu objeto, com a previsão dos vários meios procedimentais a serem disponibilizados, tais como a negociação, a mediação, a avaliação neutra, a arbitragem, a judicialização ou algum outro igualmente idôneo, de modo que a remuneração do trabalho seja compatível com os valores e tempos ganhos na solução daquele problema. Com efeito, o valor econômico e o ganho emocional da rápida e satisfatória solução de uma controvérsia tem sido objeto de estudos científicos, sendo hoje inquestionável que o prejuízo das pessoas, empresas e nações com processos adjudicatórios demorados e agressivos tem sido de grande monta, com danosas implicações. Há custos financeiros, custos afetivos, emocionais e custos de oportunidade a serem considerados e ponderados nessas situações. Nas mediações judiciais a assistência dos advogados é obrigatória, pois houve uma judicialização do conflito. Nas mediações pré-processuais, que também ocorrem no âmbito dos Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSCS) dos respectivos Tribunais, as mediações, quando as partes não têm direito à gratuidade da justiça também devem contar com a assistência dos advogados. Nas mediações extrajudiciais, tal como nas arbitragens objeto da Lei 9.307/96, a assistência de advogados não é obrigatória. O art. 10 da Lei de Mediação destaca, porém, em seu parágrafo único, que, comparecendo uma das partes acompanhada de advogado ou defensor público, o mediador suspenderá o procedimento, até que todas estejam devidamente assistidas. Experiências com as arbitragens e com as mediações empresariais e familiares em geral – realizadas no âmbito da liberdade de negociação e de contratação extrajudicial – comprovam que tal obrigatoriedade não seria razoável. Ademais, quem iria participar de arbitragem ou mediação, para decidir questões de importância significativa, sem o acompanhamento do seu advogado? Iniciativas objetivando essa obrigatoriedade, no ambiente das mediações extrajudiciais, poderão inibir as milhares de mediações comunitárias e escolares, bem como outras práticas de consensualização que se dão, diuturnamente, aliviando as tensões de uma sociedade ainda presaa padrões comunicativos eivados de reatividades e de ameaças, bem como vítima de elevados índices de violência. Já comentamos neste Capítulo que as novas tendências vão no sentido da advocacia resolutiva, baseada em desenho de sistema de disputas, mediante escutas ativas e análises objetivas de probabilidade de êxito, identificação apropriada de interesses reais das partes, criação de valor em razão de abordagens integrativas, auxílio com a escolha procedimental adequada baseada em critérios objetivos referentes aos diversos processos de resolução de disputas e apoio às partes no desenvolvimento de competências emocionais que permitam o distanciamento de escolhas baseadas em paixões ou posições irracionais. Neste sentido, esse advogado resolutivo já estará oferecendo possibilidades variadas ao seu cliente desde o seu escritório, de modo que a participação desse cliente em qualquer dos métodos que se venha a reconhecer como mais adequado necessariamente ocorrerá com a assessoria do seu advogado. O caminho adequado é, portanto, prepararmos a advocacia para assistir, assessorar, ou, quando for o caso, substituir os seus clientes durante as mediações, utilizando-se das habilidades, técnicas e valores compartilhados nesta obra. Estudantes de mediação costumam perguntar o que o advogado faz na mediação, haja vista que, de regra, o seu cliente deverá narrar a história do conflito existente e expressar os seus sentimentos e razões. E se o cliente começar a dizer “bobagens” que possam comprometer as estratégias que o advogado adotaria em processo adversarial? Tais preocupações vão sendo diluídas quando o mediador esclarece que, na mediação, qualquer que seja a decisão será tomada pelas partes, com o apoio dos seus advogados. Será amainada quando o mediando (parte) escutar os esclarecimentos do mediador sobre a importância do advogado, em face da sua experiência na solução de conflitos e porque a ele caberá o esclarecimento e equacionamento de questões jurídicas que venham a surgir durante a mediação. Nas centenas de mediações que já tivemos a oportunidade de coordenar – embora cada situação tenha suas peculiaridades –, podemos asseverar que os mediandos ficam satisfeitos ao poderem trocar ideias com seus respectivos advogados, contar com aquele apoio moral e técnico, perceber que o advogado não está querendo tomar a sua palavra sem razoabilidade, observar que o seu advogado se importa com as questões, os sentimentos e as necessidades que desejou revelar, porque estão tranquilos e levam a sério os desejos e as aspirações personalíssimas dos clientes mediandos. Os advogados devem e podem estar conscientes e tranquilos porque, na implausível hipótese de o mediador agir autoritariamente, tomar para si a solução da disputa e demonstrar manifesto despreparo na condução dessa dinâmica colaborativa e igualitária, não precisarão entrar em desgastantes discussões, pois os seus clientes gozam de plena autonomia para desistirem de participar da mediação, devendo tal decisão constar de um Termo Final de Mediação. Outra particularidade que deixa advogados experientes muito à vontade nas mediações é a circunstância de que declarações, reconhecimentos de fato, manifestações de aceitação de proposta e documentos especificamente preparados para a mediação, mesmo que não se chegue a um acordo, não valerão como provas caso sejam apresentados em qualquer outro processo arbitral ou judicial que venha a acontecer, haja vista o princípio da confidencialidade, conforme o disposto no § 2º do art. 30 da LM. Tal confidencialidade evita a preocupação dos advogados em controlar o conteúdo das falas dos seus clientes. Eventos surpreendentes podem acontecer em mediações quando o advogado não está confortável em seu papel de colaborar durante o procedimento. Numa mediação por nós coordenada, um dos advogados, antes mesmo de sentar, declarou, em alto e bom som, que não tinha sentido aquilo, porque a questão já estava envolvendo queixa-crime e representação disciplinar contra o seu cliente na OAB. Validei essa preocupação, indiquei os lugares onde deveriam sentar, fiz o acolhimento com os afagos próprios e as apresentações e fomos conversando sobre o sentido da mediação, o papel do mediador, a importância dos advogados etc., e as soluções criativas que a mediação pode ensejar. Concluídos os esclarecimentos iniciais, todos manifestaram o desejo de dar início às narrativas. Estando estas bem esclarecidas, fiz o resumo das questões, interesses e sentimentos revelados, que foi confirmado como satisfatório. Em sequência, indaguei à parte solicitante da mediação há quanto tempo aqueles mediandos se conheciam. Ora, tratava-se de uma suposta invasão de terras, seguida de queixa- crime, ação de reintegração de posse e representação disciplinar contra o advogado que teria promovido tal invasão. Respondeu que o conhecia há mais de 20 anos. Fez silêncio, que respeitamos. Em seguida acrescentou que as duas famílias, inclusive parentes já falecidos, sempre compartilharam de uma convivência sadia e agradável, organizando juntos churrascos nos finais de semana e que não se conformava com esse comportamento da outra parte, que destruiu aquela história. Fez mais algumas observações e findou. Perguntei se havia algo mais a acrescentar e disse que não. Pedi, então, à outra parte que ficasse à vontade para comentar esta longa convivência das famílias. Para surpresa dos respectivos advogados ali presentes, essa outra parte, advogado, que havia invadido as terras da outra família, de algum modo tocado pela maneira como a outra parte trouxe essa questão esquecida, também lamentou o que estava acontecendo e, depois de tentar justificar alguma coisa, voltou-se em nossa direção para indagar se ele e a outra parte poderiam sair para conversar na sala ao lado. Olhei para a outra parte e esta confirmou num movimento com a cabeça. Claro que não me caberia desestimular ou impedir. Deixei-os na sala ao lado e voltei. Passamos a conversar com os advogados comentando como a mediação pode ser surpreendente e comentei que isto não era comum, mas era algo que podia perfeitamente ocorrer nesse procedimento informal e voluntário. Justamente por se tratar de uma dinâmica que se comporta como se fora um “ser vivo”, a mediação vai ganhando as mais variadas expressões, consoante as características das pessoas, as questões trazidas, as habilidades do mediador, as posturas dos advogados e as histórias contadas e recriadas. Com efeito, as partes imaginaram, neste caso, que os seus advogados não estavam preparados para escutar o que eles iriam conversar. Um deles era considerado o advogado mais brabo e litigioso da região. Durante vinte minutos fomos trocando ideias com os advogados e 72. 75. preparando-os para os possíveis desdobramentos desse processo cooperativo. Resultado: As partes chegaram de volta à sala aliviadas e com um resumo do acordo que fecharam ali na outra sala. Parabenizamos-os pela iniciativa que tomaram. Os advogados nos ajudaram na formalização do Termo Final de Mediação. Dali mesmo eles saíram juntos para a Delegacia, onde foi cancelada a queixa-crime. Os termos do acordo foram encaminhados para o Tribunal de Ética da OAB, tendo sido arquivado o processo disciplinar. Foi fácil a construção deste consenso? Não sei. Eles poderiam passar anos litigando e não encontrariam solução tão adequada e satisfatória. Os advogados ficaram muito satisfeitos com o novo aprendizado e com o nível de satisfação dos seus clientes. Claro, nem sempre a mediação é concluída assim tão rapidamente. Podem ser necessárias várias sessões. Nem a solução será necessariamente consensual. Há casos complexos, bem mais demorados, e pessoas mais rígidas do que o normal. Enfim, quando os advogados estão preparados para agir colaborativamente, com uma boa capacidade de escuta e conhecimento das técnicas e habilidades da negociação baseada em princípios, os clientes fazem questão de contar com eles em todas as circunstâncias. Sobre mediação extrajudicial, destacamos os enunciados72 e 75:25 As instituições privadas que lidarem com mediação, conciliação e arbitragem, bem como com demais métodos adequados de solução de conflitos, não deverão conter, tanto no título de estabelecimento, marca ou nome, dentre outros, nomenclaturas e figuras que se assimilem à ideia de Poder Judiciário. As empresas e organizações devem ser incentivadas a implementar, em suas estruturas organizacionais, um plano estratégico consolidado para prevenção, gerenciamento e resolução de 15. 18. 25. 31. disputas, com o uso de métodos adequados de solução de controvérsias. Tal plano deverá prever métricas de sucesso e diagnóstico periódico, com vistas ao constante aprimoramento. O Poder Judiciário, as faculdades de direito e as instituições observadoras ou reguladoras das atividades empresariais devem promover, medir e premiar anualmente tais iniciativas. Sobre autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública, destacamos os enunciados 15, 18, 25, 31, 32, 36, 37, 40, 50, 51, 53, 54, 56, 60, 61, 62, 65, 68, 69, 74, 84, 85, 86 e 87:26 Recomenda-se aos órgãos do sistema de Justiça firmar acordos de cooperação técnica entre si e com Universidades, para incentivo às práticas dos métodos consensuais de solução de conflitos, bem assim com empresas geradoras de grande volume de demandas, para incentivo à prevenção e à solução extrajudicial de litígios. Os conflitos entre a administração pública federal direta e indireta e/ou entes da federação poderão ser solucionados pela Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Pública Federal – CCAF – órgão integrante da Advocacia-Geral da União, via provocação do interessado ou comunicação do Poder Judiciário. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios têm o dever de criar Câmaras de Prevenção e Resolução Administrativa de Conflitos com atribuição específica para autocomposição do litígio. É recomendável a existência de uma advocacia pública colaborativa entre os entes da federação e seus respectivos órgãos públicos, nos casos em que haja interesses públicos conflitantes/divergentes. Nessas hipóteses, União, Estados, Distrito Federal e Municípios poderão celebrar pacto de não propositura de 32. 36. 37. 40. demanda judicial e de solicitação de suspensão das que estiverem propostas com estes, integrando o polo passivo da demanda, para que sejam submetidos à oportunidade de diálogo produtivo e consenso sem interferência jurisdicional. A ausência da regulamentação prevista no art. 1º da Lei n. 9.469/1997 não obsta a autocomposição por parte de integrante da Advocacia-Geral da União e dirigentes máximos das empresas públicas federais nem, por si só, torna-a inadmissível para efeito do inc. II do § 4º do art. 334 do CPC/2015. Para estimular soluções administrativas em ações previdenciárias, quando existir matéria de fato a ser comprovada, as partes poderão firmar acordo para a reabertura do processo administrativo com o objetivo de realizar, por servidor do INSS em conjunto com a Procuradoria, procedimento de justificação administrativa, pesquisa externa e/ou vistoria técnica, com possibilidade de revisão da decisão original. Recomenda-se a criação de câmaras previdenciárias de mediação ou implantação de procedimentos de mediação para solucionar conflitos advindos de indeferimentos, suspensões e cancelamentos de benefícios previdenciários, ampliando o acesso à justiça e permitindo à administração melhor gerenciamento de seu processo de trabalho. Nas mediações de conflitos coletivos envolvendo políticas públicas, judicializados ou não, deverá ser permitida a participação de todos os potencialmente interessados, dentre eles: (i) entes públicos (Poder Executivo ou Legislativo) com competências relativas à matéria envolvida no conflito; (ii) entes privados e grupos sociais diretamente afetados; (iii) Ministério Público; (iv) Defensoria Pública, quando houver interesse de vulneráveis; e (v) 50. 51. 53. 54. 56. 60. entidades do terceiro setor representativas que atuem na matéria afeta ao conflito. O Poder Público, os fornecedores e a sociedade deverão estimular a utilização de mecanismos como a plataforma consumidor.gov.br, política pública criada pela Secretaria Nacional do Consumidor – Senacon e pelos Procons, com vistas a possibilitar o acesso, bem como a solução dos conflitos de consumo de forma extrajudicial, de maneira rápida e eficiente. O Estado e a sociedade deverão estimular as soluções consensuais nos casos de superendividamento27 ou insolvência do consumidor pessoa física, a fim de assegurar a sua inclusão social, o mínimo existencial e a dignidade da pessoa humana. Estimula-se a transação como alternativa válida do ponto de vista jurídico para tornar efetiva a justiça tributária, no âmbito administrativo e judicial, aprimorando a sistemática de prevenção e solução consensual dos conflitos tributários entre Administração Pública e administrados, ampliando, assim, a recuperação de receitas com maior brevidade e eficiência. A Administração Pública deverá oportunizar a transação por adesão nas hipóteses em que houver precedente judicial de observância obrigatória. As ouvidorias servem como um importante instrumento de solução extrajudicial de conflitos, devendo ser estimulada a sua implantação, tanto no âmbito das empresas, como da Administração Pública. As vias adequadas de solução de conflitos previstas em lei, como a conciliação, a arbitragem e a mediação, são plenamente aplicáveis à Administração Pública e não se incompatibilizam com a indisponibilidade do interesse público, diante do Novo Código de 61. 62. 65. 68. 69. Processo Civil e das autorizações legislativas pertinentes aos entes públicos. Os gestores, defensores e advogados públicos que, nesta qualidade, venham a celebrar transações judiciais ou extrajudiciais, no âmbito de procedimento de conciliação, mediação ou arbitragem, não responderão civil, administrativa ou criminalmente, exceto se agirem mediante dolo ou fraude. Os representantes judiciais da União, autarquias, fundações e empresas públicas federais têm autorização legal, decorrente da Lei n. 10.259, de 12 de julho de 2001 para, diretamente, conciliar, transigir ou desistir de recursos em quaisquer processos, judiciais ou extrajudiciais, cujo valor da causa esteja dentro da alçada equivalente à dos juizados especiais federais. O emprego dos meios consensuais de solução de conflito deve ser estimulado nacionalmente como política pública, podendo ser utilizados nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), cujos profissionais, predominantemente psicólogos e assistentes sociais, lotados em áreas de vulnerabilidade social, estão voltados à atenção básica e preventiva. O atendimento interdisciplinar realizado por psicólogos e assistentes sociais, no âmbito da Defensoria Pública e do Ministério Público, promove a solução extrajudicial dos litígios, constituindo-se forma de composição e administração de conflitos complementar à mediação, conciliação e arbitragem. A Administração Pública, sobretudo na área tributária e previdenciária, deve adotar, ex officio, a interpretação pacificada de normas legais e constitucionais, respectivamente, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, independentemente de julgamento em caso de recursos repetitivos ou repercussão geral ou de edição de súmula vinculante. 74. 84. 85. 86. 87. 1 Havendo autorização legal para a utilização de métodos adequados de solução de controvérsias envolvendo órgãos, entidades ou pessoas jurídicas da Administração Pública, o agente público deverá: (i) analisar a admissibilidade de eventual pedido de resolução consensual do conflito; e (ii) justificar por escrito, com base em critérios objetivos, a decisão de rejeitar a proposta de acordo. O Poder Público – inclusive o Poder Judiciário – e a sociedade civil deverão estimular a criação, no âmbito das procuradorias municipais e estaduais, de centros de solução de conflitos, voltados à solução de litígios entre a Administração Pública e os cidadãos,como, por exemplo, a Central de Negociação da Procuradoria- Geral da União. O Poder Público – inclusive o Poder Judiciário – e a sociedade civil deverão estimular a criação, no âmbito das entidades de classe, de conselhos de autorregulamentação, voltados para a solução de conflitos setoriais. O Poder Público promoverá a capacitação massiva em técnicas de gestão de conflitos comunitários para policiais militares e guardas municipais. O Poder Público e a sociedade civil estimularão a expansão e o fortalecimento de ouvidorias dos órgãos do sistema de justiça, optando por um modelo inovador e ativo, com a figura essencial de ouvidor/ouvidora independente das corporações a que estão vinculados(as). VASCONCELOS, Carlos Eduardo de. Dialética nos contraditórios judicial e arbitral: a arte do direito e sua regulação. Revista Brasileira de Arbitragem, Porto Alegre: Síntese; Curitiba: Comitê Brasileiro de Arbitragem, n. 28, 2011, p. 7-29. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 12 13 11 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Porto Alegre: Fabris, 1988. p. 11-13. GRINOVER, Ada Pellegrini. Os fundamentos da justiça conciliativa. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; LAGRASTA NETO, Caetano (Coords.). Mediação e gerenciamento do processo. São Paulo: Atlas, 2007. p. 1-5. WATANABE, Kazuo. A mentalidade e os meios alternativos de solução de conflitos no Brasil. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; LAGRASTA NETO, Caetano (Coords.). Mediação e gerenciamento do processo. São Paulo: Atlas, 2007. p. 6-10. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. 2. ed. Tradução de Flávio B, Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. vol. II, p. 146. 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Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- https://www.conjur.com.br/2018-mai-13/opiniao-escritorios-aposentar-grupos-contenciosos https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de- litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. 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A Lei 13.994, de 24 de abril de 2020 estendeu também aos Juizados Especiais a possibilidade de realização de conciliação por meio eletrônico, não presencial, consoante alterações nos arts. 22 e 23 da Lei 9.099/1995. CUNHA, Leonardo Carneiro da. Procedimento especial para as ações de família no Projeto do Novo Código de Processo Civil. In: FREIRE, Alexandre; DANTAS, Bruno; NUNES, Dierle; DIDIER JR., Fredie; MEDINA, José Miguel Garcia; FUX, Luiz; CAMARGO, Luiz Henrique Volpe de; OLIVEIRA, Pedro Miranda de. Novas Tendências do Processo Civil: estudos sobre o Projeto de Novo Código de Processo Civil. Salvador: Juspodivm, 2013, p. 31-32. GABBAY, Daniela Monteiro. Mediação e Judiciário no Brasil e nos EUA. Condições, Desafios e Limites para a institucionalização da Mediação no Judiciário. Coord.: Ada Pellegrini Grinover e Kazuo Watanabe. Brasília, DF: Gazeta Jurídica, 2013. ABREVAYA, Sérgio. Mediación prejudicial. Una mirada sobre el sistema prejudicial en la Argentina. 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Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 http://www.outnewletter.com/ https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c666924 25 26 27 justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de- litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. Esse quadro comparativo foi elaborado em colaboração com colegas da Comissão Especial de Conciliação, Mediação e Arbitragem do CFOAB, na montagem de Asdrubal Junior. Referência: Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, I Jornada “Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios”, 22 e 23 de agosto de 2016, Brasília – DF. Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de- litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. Referência: Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, I Jornada “Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios”, 22 e 23 de agosto de 2016, Brasília – DF. Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de- litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. Vide Lei 14.181/2021, que trata do superendividamento e Recomendação 125, de 24.12.2021, do CNJ. https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 1. Capítulo 3 RESOLUÇÃO ADEQUADA DE DISPUTAS (RAD): INTRODUÇÃO AOS MÉTODOS. CLÁUSULAS MED-ARB E ARB-MED. CAPACITAÇÕES DE MEDIADORES EXTRAJUDICIAIS, NO PROGRAMA DO CONIMA, E JUDICIAIS, NA RESOLUÇÃO 125/2010 DO CNJ NEGOCIAÇÃO, MEDIAÇÃO, CONCILIAÇÃO E ARBITRAGEM Negociação, mediação, conciliação, arbitragem e outros métodos tais como a avaliação neutra (neutral evaluation), a facilitação de diálogos apreciativos e os comitês de resolução de disputas (disputes resolution board – DRB), eram tradicionalmente designadas como métodos ou meios de resolução alternativa de disputas (ADRs – Alternative Dispute Resolutions). Eram também conhecidas como Meios Alternativos de Resolução de Controvérsias (MASCs) ou Meios Extrajudiciais de Resolução de Controvérsias (MESCs). No entanto, o lugar de aplicação desses meios – ambiente judicial ou não – vem deixando de ocupar a centralidade, daí a tendência em designá-los como meios ou métodos de Resolução Adequada de Disputas (RAD), ao lado da própria opção pelo judiciário, adequado para inúmeros casos. Com efeito, todos esses meios judiciais ou extrajudiciais de acesso à justiça compõem o hoje denominado sistema multiportas, que também engloba as práticas restaurativas estudadas em Capítulo específico, consoante as necessidades e circunstâncias pessoais e materiais de cada situação. Com efeito, a consagrada expressão multi- door courthouse (corte de múltiplas portas) foi originalmente utilizada pelo Prof. Frank Sander (Harvard), em 1976, numa conferência que veio a ser publicada em 19791. O que é negociação baseada em princípios? Consoante o método desenvolvido no Projeto de Negociação de Harvard, a barganha de posições, tradicionalmente praticada em várias culturas, não é eficaz, porque está baseada nas vontades subjetivas e poderes dos envolvidos, que manipulam com vistas a ganhos unilaterais, produzindo soluções de ganha-perde. A negociação baseada em princípios supõe um diálogo em busca de critérios objetivos, a partir da identificação dos reais interesses de cada uma das partes, para o que são exploradas, conjuntamente, as várias opções possíveis, que possam contemplar os interesses comuns e contraditórios, produzindo soluções de ganha-ganha. Consoante este método, os negociadores devem ser rigorosos quanto aos méritos e gentis entre si. Nem sempre é possível resolver uma disputa negociando diretamente com a outra pessoa envolvida. Nesses casos, para retomar o diálogo, será preciso contar com a colaboração de uma terceira pessoa, que atuará como mediadora. O que é mediação? Mediação é método dialogal e voluntário de solução/transformação de conflitos interpessoais, em que os mediandos escolhem ou aceitam terceiro(s) mediador(es), com aptidão para conduzir o processo de modo confidencial e imparcial, e facilitar o diálogo, a começar pelas apresentações, explicações e compromissos iniciais, sequenciando com narrativas e escutas alternadas dos mediandos, recontextualizações e resumos do(s) mediador(es), com vistas a se construir a compreensão das vivências afetivas e materiais da disputa, migrar, em uma ou várias sessões, conjuntas ou em separado, das posições antagônicas para a identificação dos sentimentos e necessidades comuns ou contraditórios, e, colaborativamente, para o entendimento sobre opções fundamentadas em critérios objetivos, de modo que, havendo consenso, seja concretizado o acordo. Cabe, portanto, ao mediador, com ou sem a ajuda de comediador, colaborar com os mediandos para que eles pratiquem uma comunicação construtiva e identifiquem seus interesses e necessidades comuns. Há vários modelos ou escolas de mediação, tais como a mediação facilitativa (satisfativa, linear ou tradicional de Harvard), a mediação avaliativa (ou conciliação), a mediação transformativa e a mediação circular-narrativa (ou narrativa). De regra, recomenda-se, independentemente do modelo adotado, a realização de encontros preparatórios ou entrevistas de pré-mediação. Em qualquer desses modelos, os princípios da Escola de Harvard são considerados, variando as ênfases maiores ou menores em determinadas abordagens, levando em conta as características dos relacionamentos envolvidos, os eventos e os estilos dos mediadores. A mediação é tida como um método dialogal e autocompositivo, no campo da retórica material e, também, como uma metodologia, em virtude de constituir um procedimento baseado num complexo interdisciplinar de conhecimentos científicos extraídos especialmente da comunicação, da psicologia, da sociologia, da antropologia, do direito e da teoria dos sistemas. E é, também, como tal, uma arte, em face das habilidades e sensibilidades próprias do mediador. Os mediandos são adversários? Não. Na mediação os mediandos não atuam como adversários, mas como corresponsáveis pela solução da disputa, mediante autocomposição, contando com a colaboração do mediador. Daí por que se dizer que a mediação/conciliação é procedimento não adversarial de solução de disputas, diferentemente dos processos adversariais, que são aqueles em que um terceiro decide quem está certo, a exemplo dos processos judiciais ou arbitrais. Por que há modelos diferentes de mediação? Conforme o capítulo específico deste livro sobre a negociação e os modelos ou estilos de mediação mais praticados na modernidade ocidental, verificaremos que a mediação facilitativa é a mais tradicional, diretamente resultante dos conceitos da negociação baseada em interesses, desenvolvidos na Universidade de Harvard. Com efeito, a partir daqueles estudos e práticas, deu-se início, nas décadas de 1960 e 1970 do século XX, a uma mudança de paradigma no lidar com os conflitos e litígios. Na atualidade, a depender da natureza do conflito, das características socioculturais dos mediandos e dashabilidades do mediador, modelos ou estilos de mediação podem ser diferentes. Ademais, esses modelos não são estanques, pois, a depender das circunstâncias e da vontade dos mediandos, a condução pode ser alterada. Há modelos direcionados ao acordo e modelos direcionados à relação. Os modelos direcionados aos interesses (mediação facilitativa e conciliação ou mediação avaliativa) priorizam os interesses, o problema concreto e buscam o acordo. Os modelos preferencialmente direcionados à relação (circular-narrativo e transformativo) priorizam a transformação do padrão relacional, por meio da comunicação, da apropriação, do reconhecimento e/ou da recontextualização, sem abrir mão de critérios ou princípios. Embora os vários modelos de mediação acolham os princípios da autonomia da vontade, da confidencialidade e da inexistência de hierarquia, a conciliação (espécie de mediação avaliativa), tal como tradicionalmente praticada no Judiciário, implica uma leve ascendência hierárquica do mediador, limitando, dessarte, a autonomia da vontade das partes, pois as respectivas abordagens supõem autoridade funcional para sugerir, recomendar, orientar. Quando melhor se aplicam os modelos de mediação direcionados à relação? As mediações direcionadas à relação obtêm melhores resultados nos conflitos entre pessoas que mantêm relações permanentes ou continuadas. A sua natureza transformadora supõe uma mudança de atitude em relação ao conflito. Para além da exploração dos interesses e opções para a obtenção de um acordo, busca-se capacitar, reciprocamente, os mediandos em suas narrativas, a identificar as expectativas, os sentimentos, as necessidades, a construção do reconhecimento das alteridades legítimas, a verificação dos dados de realidade, com vistas, primeiramente, à transformação do conflito ou restauração da relação e, só depois, à construção do consenso. Quais os conflitos que melhor se prestam aos modelos de mediação direcionados à relação? Conflitos familiares,2 societários, comunitários, escolares, com ou sem implicações criminais, entre pessoas que habitam, convivem, estudam ou trabalham nas mesmas residências, empresas, ruas, praças, clubes, associações, igrejas, universidades, escolas etc. Daí por que se costuma designar como mediação familiar aquela que lida com os conflitos domésticos ou no âmbito da família;3 mediação empresarial, a que se pratica nos conflitos entres empresas ou entre dirigentes, trabalhadores ou sócios de empresas; mediação comunitária, a que lida com os conflitos de vizinhança; mediação escolar, a que lida com os conflitos no ambiente das instituições de educação, inclusive quando praticada pelos próprios alunos em relação aos seus conflitos recíprocos; mediação restaurativa (vítima- ofensor), aquela que lida com situações que podem configurar crime ou contravenção penal. A mediação vítima-ofensor, direcionada à relação, aplicada como prática restaurativa, costuma ser adotada para prevenir a criminalização, em comunidades, escolas e em varas de infância e juventude. Nessas práticas, o suposto ofensor e a suposta vítima, voluntariamente, na companhia de pessoas da comunidade vinculadas ao conflito, participam dos círculos restaurativos ou encontros de mediação vítima-ofensor, com a colaboração de facilitador que as escuta e contribui para o restabelecimento do diálogo, objetivando a reparação dos danos e a restauração das respectivas relações interpessoais. Há uma tendência universal pela adoção das mediações vítima-ofensor e dos círculos restaurativos, direcionadas à relação, enquanto práticas restaurativas, para prevenir a criminalização, inclusive na fase inicial dos processos perante Juizados Criminais. E, nessas aplicações formais, como atividade complementar e voluntária, objetivando a reparação civil e moral do dano, como antecedente da transação penal conduzida pelo Ministério Público. Nas atuais circunstâncias, a mediação, no campo criminal, tem sido especialmente eficaz nos casos em que cabe transação penal, antes do julgamento de infrações de menor potencial ofensivo, quando seja possível evitar a criminalização ou quando, em vez da reclusão, podem ser convencionadas/vivenciadas alternativas civis e morais de reparação, ou medidas/penas alternativas à prisão (Lei 9.099/1995). Vêm-se recomendando essas práticas restaurativas nos casos, por exemplo, de abuso de autoridade, lesão corporal leve, ameaça, injúria, calúnia, difamação e outras infrações, notadamente aquelas tidas como de ação privada ou de ação pública condicionada à representação. Mas crescentemente observa-se a sua prática inclusive em presídios, em programas coordenados pela autoridade judiciária competente, com a prévia anuência e preparação das vítimas e ofensores, com fundamento no princípio da pacificação social, programas estes que podem acarretar as antes referidas reparações restaurativas e o reexame da individualização da pena. Esses temas são o objeto do Capítulo 8. Por que os modelos de mediação direcionados à relação podem contribuir para o empoderamento e integração dos mediandos? É muito comum que os mediandos não tenham clareza sobre os seus próprios interesses, preferências e necessidades. Enquanto estiverem apegados a essas posições iniciais, eles tendem à polêmica simplista e ao jogo emocional. O terceiro, que esteja legitimado para facilitar a comunicação entre pessoas nesse estado, não deve tentar dirigir a polêmica no sentido da contemporização ou do conformismo. Deve, sim, estimular cada um dos mediandos a narrar a sua respectiva percepção do conflito. A repetição das narrativas e desabafos, inclusive sobre fatos anteriores relacionados ao conflito, ajuda os mediandos na estruturação dos seus próprios argumentos. Isto vai naturalmente acontecendo na medida em que, mediante recontextualizações e outras técnicas, eles vão tomando consciência dos seus interesses e necessidades comuns. A atitude de acolhimento, a escuta ativa e as perguntas circulares (aquelas que são extraídas das falas e gestos dos mediandos) são instrumentos de comunicação muito utilizados pelo mediador. As perguntas devem estar focadas no que vai sendo escutado, pois devem, sempre que possível, pegar carona nas afirmações dos mediandos. E desde que sejam perguntas bem focadas, vão ajudando os mediandos a esclarecer suas falas e a reduzir as ambiguidades das suas respectivas percepções. Nos instantes iniciais de uma mediação direcionada à relação interpessoal – quando o diálogo evolui e involui, dialeticamente, no fluxo e refluxo das abordagens – ocorre a apropriação dos disputantes; pressuposto necessário ao desenvolvimento de uma possível integração de necessidades, desejos e objetivos comuns. Essa possível integração é fruto do desenvolvimento de uma relação dialética entre autoafirmação (de ambos) e reconhecimento (entre ambos). Pela dinâmica comunicativa conduzida na mediação transformativa, o comportamento pode evoluir e circular, dialeticamente, entre a apropriação (autodeterminação) e a empatia (reconhecimento). Nessas abordagens são vivenciadas situações que concorrem para que as pessoas assumam posturas realmente cooperativas, no equilíbrio entre apropriação e empatia, uma vez que passam a estar atentas aos seus valores, desejos, necessidades e interesses, sem se descuidarem do reconhecimento dos valores, desejos, necessidades e interesses do outro. Em verdade, só quando estamos apropriados da nossa autodeterminação, vamo-nos acostumando a lidar, de modo saudável, com a empatia e o reconhecimento do outro. O que caracteriza a conciliação ou mediação avaliativa? A conciliação – variante de mediação avaliativa – é prevalentemente direcionada ao acordo. É apropriada para lidar com relações eventuais de consumo e outras situações em que prevalece o objetivo de equacionar interesses materiais ou questões jurídicas. Muito utilizada, tradicionalmente, junto ao Poder Judiciário. A mediação avaliativa (modalidade de conciliação com âmbito ampliado de aplicação) também vem sendo utilizada emconflitos corporativos, em que esse terceiro mediador poderá sugerir soluções, em especial na fase do procedimento em que se está explorando as possíveis opções, em virtude de ser ele um especialista na espécie de conflito que está sendo equacionado. Portanto, a conciliação é uma atividade mediadora direcionada ao acordo, qual seja, tem por objetivo central a obtenção de um acordo, com a particularidade de que o conciliador exerce leve ascendência hierárquica, pois toma iniciativas e apresenta sugestões, com vistas à conciliação. Os que entendem que conciliação não é espécie de mediação alegam que o conciliador faz um atendimento monodisciplinar, baseado em posições, pois este é um especialista que age linearmente. Cometem, os que assim pensam, a nosso ver, o equívoco de confundirem os arremedos de conciliação do nosso passado recente com as conciliações ou mediações avaliativas, direcionadas aos interesses, conduzidas com as técnicas, habilidades interdisciplinares e princípios dos conciliadores devidamente capacitados, em condições adequadas de trabalho. Com efeito, também na conciliação ou na mediação avaliativa o conciliador é, ou deveria ser, antes de tudo, um facilitador de diálogos apreciativos, baseado em princípios. No âmbito judicial, consoante o § 2º do artigo 165 do CPC, “O conciliador, que atuará preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes, poderá sugerir soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem”. A prática preferencial da Conciliação, “nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes”, não deve ser interpretada literalmente. A Conciliação não será o método preferencial apenas quando o vínculo é de convivência ou de associação continuada; até porque a Conciliação é e continua sendo aplicada nas relações de consumo, em que pode haver algum vínculo anterior entre as partes. O que é arbitragem? A arbitragem é um instituto do Direito, prevista em leis e convenções internacionais, com destaque para a Convenção de Nova York, de 1958. Aqui no Brasil a norma básica sobre arbitragem é a Lei 9.307/1996 (“Lei Marco Maciel”), com as alterações introduzidas pela Lei 13.129/2015. As pessoas podem optar pela solução das suas disputas por intermédio da arbitragem. Nesse caso, o papel do terceiro é diferente do que ocorre na mediação, pois a ele especialmente cabe decidir, ao término de processo em que deverá colher provas e avaliar arrazoados jurídicos. Mas é preciso destacar que, na dinâmica do processo arbitral, é dever do árbitro ou do painel de árbitros atuar de modo colaborativo e buscar a conciliação desde o início. Trata-se de instituto com duas naturezas jurídicas que se completam: a contratual e a jurisdicional. Pelo contrato as pessoas optam por se vincular a uma jurisdição privada, sujeita, no entanto, a princípios de ordem pública, como os da independência, da imparcialidade, do “livre” convencimento do árbitro, do contraditório e da igualdade. Assim, a arbitragem pressupõe a livre opção das partes (autonomia da vontade) por meio de uma convenção de arbitragem – cláusula contratual denominada “compromissória”, firmada antes do surgimento de qualquer conflito, ou “compromisso arbitral”, quando já há conflito e as partes, de comum acordo, decidem solucioná-lo por intermédio de arbitragem. Firmada a convenção de arbitragem, as partes ficam irrevogavelmente vinculadas à jurisdição arbitral, consoante regulamento previamente aceito, podendo contar com o apoio de instituição arbitral especializada na administração desse procedimento. A convenção de arbitragem confere efeitos negativos e positivos. Negativos no sentido de subtrair poder jurisdicional ao juiz estatal que seria competente para apreciar a matéria. Positivos no sentido de que esse poder jurisdicional passa a ser do árbitro, após a sua aceitação e confirmação das partes. A propósito, as partes podem escolher um número ímpar de árbitros, sendo costumeira a escolha de um ou três. Honorários e custas são suportados por igual pelas partes, salvo acordo noutro sentido. As matérias que podem ser objeto de processo arbitral são as que dizem respeito a direitos patrimoniais disponíveis; aqueles relativos a bens que têm valor econômico e podem ser objeto de operações de compra e 1. 2. 3. 4. venda, doação, permuta, transação, etc. A lei estabelece prazo máximo de seis meses para a conclusão de uma arbitragem, podendo as partes, de comum acordo, reduzir ou ampliar esse prazo. É considerada privada a arbitragem entre particulares. É chamada de mista a arbitragem entre particulares e entidades da Administração Pública. É conhecida como pública a arbitragem entre entes públicos, inclusive entre estados nacionais. Portanto, trata-se de alternativa processual à disposição das pessoas capazes, com a vantagem de que as partes, ad hoc ou com apoio de instituição especializada, podem escolher árbitros especialistas na matéria em discussão. Esse aspecto, aliado ao estímulo aos negócios processuais, à consensualização e à rapidez de um procedimento que não comporta recursos para outras instâncias, possibilita soluções rápidas, que contemplam o dinamismo da vida moderna. E como o poder de impor o cumprimento de decisões é privativo do Estado (coercio ou estrito poder de império), o não cumprimento espontâneo de medida ou de sentença arbitral poderá ensejar constrição ou execução judicial. A comunicação entre o árbitro e o Poder Judiciário dá-se por meio de Carta Arbitral. Eventual nulidade do procedimento ou da sentença arbitral poderá ser objeto de “ação de nulidade”.4 O Supremo Tribunal Federal já se pronunciou pela constitucionalidade desse instituto. Sobre esses temas destacamos os Enunciados5 1 a 13: A sentença arbitral não está sujeita à ação rescisória. Ainda que não haja cláusula compromissória, a Administração Pública poderá celebrar compromisso arbitral. A carta arbitral poderá ser processada diretamente pelo órgão do Poder Judiciário do foro onde se dará a efetivação da medida ou decisão. Na arbitragem, cabe à Administração Pública promover a publicidade prevista no art. 2º, § 3º, da Lei 9.307/1996, observado 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. o disposto na Lei 12.527/2011, podendo ser mitigada nos casos de sigilo previstos em lei, a juízo do árbitro. A arguição de convenção de arbitragem pode ser promovida por petição simples, a qualquer momento antes do término do prazo da contestação, sem caracterizar preclusão das matérias de defesa, permitido ao magistrado suspender o processo até a resolução da questão. O processamento da recuperação judicial ou a decretação da falência não autorizam o administrador judicial a recusar a eficácia da convenção de arbitragem, não impedem a instauração do procedimento arbitral nem o suspendem. Os árbitros ou instituições arbitrais não possuem legitimidade para figurar no polo passivo da ação prevista no art. 33, caput, e § 4º, da Lei 9.307/1996, no cumprimento de sentença arbitral e em tutelas de urgência. São vedadas às instituições de arbitragem e mediação a utilização de expressões, símbolos ou afins típicos ou privativos dos Poderes da República, bem como a emissão de carteiras de identificação para árbitros e mediadores. A sentença arbitral é hábil para inscrição, arquivamento, anotação, averbação ou registro em órgãos de registros públicos, independentemente de manifestação do Poder Judiciário. O pedido de declaração de nulidade da sentença arbitral formulado em impugnação ao cumprimento da sentença deve ser apresentado no prazo do art. 33 da Lei 9.307/1996. Nas arbitragens envolvendo a Administração Pública, é permitida a adoção das regras internacionais de comércio e/ou usos e costumes aplicáveis às respectivas áreas técnicas. 12. 13. A existência de cláusula compromissória não obsta a execução de título executivo extrajudicial, reservando-se à arbitragem o julgamento das matérias previstas no art. 917, incs. I e VI, do CPC/2015. Podem ser objetode arbitragem relacionada à Administração Pública, dentre outros, litígios relativos: I – ao inadimplemento de obrigações contratuais por qualquer das partes; II – à recomposição do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, cláusulas financeiras e econômicas. O que é cláusula de mediação e cláusula escalonada med-arb? Com o advento da Lei de Mediação 13.140/2015, ficou regulada a hipótese de adoção de cláusula de mediação e seus efeitos. Dentre os efeitos destacamos que o não comparecimento da parte convidada à primeira reunião de mediação acarretará a assunção por parte desta de cinquenta por cento das custas e honorários sucumbenciais caso venha a ser vencedora em procedimento arbitral ou judicial posterior, que envolva o escopo da mediação para a qual foi convidada. Costuma-se recomendar a adoção de cláusulas escalonadas do tipo “med-arb”, qual seja, cláusulas que integram convenções de mediação e de arbitragem, prevendo que, em face de disputa e como requisito para a instituição da arbitragem, as partes previamente se submetam ao procedimento de mediação. No entanto, como o acordo não pode ser imposto, aquele que a ele se opuser poderá comparecer à primeira sessão de mediação e ali mesmo, em momento oportuno, declarar que não pretende dar continuidade ao procedimento. Conhecemos situações em que esta era a intenção, mas que, durante a sessão, mudaram de opinião, continuaram participando do procedimento e ficaram muito satisfeitos com os resultados. Com efeito, pacta sunt servanda (pactos devem ser cumpridos). Nesse sentido Fernanda Levy6 já referia com propriedade, ainda antes de promulgada a Lei de Mediação/15 que a convenção de mediação prévia (mediante cláusula med-arb), possui efeito vinculativo positivo, dirigido às partes que devem levar a controvérsia à mediação, honrando o previamente pactuado, e efeito negativo, dirigido ao Estado, incluindo-se na mesma lógica a esfera arbitral, impedindo, portanto, o árbitro de instaurar a arbitragem, sem que antes as partes tenham ao menos participado da reunião inicial de mediação. Em verdade, a nova Lei de Mediação estabelece consequências para o não cumprimento da convenção de mediação, sendo de se destacar que os custos da mediação costumam ser bem menores do que os de uma arbitragem; daí uma das razões para a crescente procura pela mediação. Chamamos, inicialmente, atenção para o fato de que a Lei de Mediação nº 13.140/15 estabelece, em seu art. 22, incisos I, II, III e IV, critérios mínimos que devem constar de uma cláusula compromissória de mediação, inclusive previsão de multa para a hipótese de não comparecimento da parte convidada à primeira reunião de mediação. Mas o respectivo parágrafo 1º assegura que tais critérios não precisam integrar a cláusula de mediação, caso o Regulamento de Mediação indicado, publicado por instituição idônea, prestadora de serviços de mediação, estabeleça “critérios claros para a escolha do mediador e realização da primeira reunião de mediação”. Como redigir cláusula de mediação e de med-arb? Feita aquela observação inicial, advertimos que os três modelos de cláusula de mediação adiante exemplificados partem do pressuposto de que os advogados já conhecem e consideram adequado o texto do Regulamento de Mediação e, em caso de med-arb, também o texto do Regulamento de Arbitragem da instituição indicada para administrar o procedimento. Ressaltamos que os modelos adiante propostos dizem respeito a mediações institucionais – porquanto as instituições escolhidas irão administrar o procedimento. Cláusulas de mediação também podem ser adotadas quando se prevê mediação ad hoc, aquela em que o próprio mediador estará autorizado a dispensar a administração de alguma instituição especializada na administração de procedimentos de mediação. O que não impede que se adote, no que couber, o texto de algum regulamento já existente. Eis três modelos básicos: Primeiro: cláusula padrão de mediação (isolada), em que se deixa em aberto a alternativa que poderá ser adotada caso não se obtenha solução consensuada. Segundo: cláusula escalonada mediação e arbitragem (Med-Arb). Terceiro: cláusula escalonada Med-Arb mais detalhada, para situações que podem envolver pessoas de países e línguas diferentes. 3.1 – Cláusula Padrão de Mediação: Qualquer conflito originário do presente contrato, inclusive quanto à sua interpretação ou execução, será submetido obrigatoriamente à mediação, administrada pela [nome da instituição], de acordo com o seu regulamento de mediação, a ser coordenada por mediador(es) participante(es) da respectiva lista de mediadores. 3.2 – Cláusula Padrão Escalonada Med-Arb: Qualquer conflito originário do presente contrato, inclusive quanto à sua interpretação ou execução, será submetido obrigatoriamente à mediação, administrada pela [nome da instituição], de acordo com o seu regulamento de mediação, a ser coordenada por mediador(es) participante(es) da respectiva lista de mediadores. O conflito que porventura não seja consensualmente resolvido no prazo de 60 (sessenta) dias, prorrogável por vontade das partes, conforme a cláusula de mediação acima, será definitivamente solucionado por arbitragem, administrada por [nome da instituição], de acordo com o seu regulamento, e conduzida por tribunal arbitral de três árbitros [ou árbitro único], indicado(s) na forma do citado regulamento. Terá sede em [cidade, Estado]. 3.3 – Cláusula Detalhada Escalonada Med-Arb: Qualquer conflito originário do presente contrato, inclusive quanto à sua interpretação ou execução, será submetido obrigatoriamente à mediação, administrada pela [nome da instituição], de acordo com o seu regulamento de mediação, a ser coordenada por mediador(es) participante(s) da lista de mediadores da referida instituição. O conflito que porventura não seja consensualmente resolvido no prazo de 60 (sessenta) dias, prorrogável por vontade das partes, conforme a cláusula de mediação acima, será definitivamente resolvido por arbitragem. A arbitragem será administrada por [nome da instituição] e obedecerá às normas estabelecidas no seu regulamento, cujas disposições integram o presente contrato. Será conduzida por tribunal arbitral de três árbitros [ou árbitro único], indicado(s) e constituído(s) na forma do citado regulamento. Terá sede em [cidade, Estado]. O procedimento arbitral será conduzido em [idioma]; segundo [leis e convenções internacionais aplicáveis]. Quais são as hipóteses de cláusulas escalonadas de arbitragem arb- med? Vemos três hipóteses: 1 – Arb-med sob o primado da consensualização; 2 – Arb-med com suspensão da Arbitragem e 3 – Arb- med pré-sentença.Primeira hipótese: Arb-med sob o primado da consensualização. Esta primeira hipótese de Arb-med está implícita no dever de o árbitro ou tribunal arbitral facilitar a consensualização, em colaboração com as partes e seus advogados, em seguida às arguições iniciais e assinatura do termo de arbitragem, em obediência às Normas Fundamentais do Processo Civil (cf o CPC/15, arts 1º a 10) e em apoio à regra do art. 21, § 2º, da LA. Essa modalidade de Arb-med está implícita no referido art. 21, § 4º, da LA, que assim dispõe: “Competirá ao árbitro ou ao tribunal arbitral, no início do procedimento, tentar a conciliação das partes, aplicando-se, no que couber, o art. 28 desta Lei”. Segundo o art. 28: “Se, no decurso da arbitragem, as partes chegarem a um acordo quanto ao litígio, o árbitro ou tribunal arbitral poderá, a pedido das partes, declarar tal fato mediante sentença arbitral, que conterá os requisitos do art. 26 desta Lei”. Ao competir ao árbitro tentar a conciliação, tal atuação não deve ser confundida com aquela vetusta e despropositada pergunta: tem acordo? É óbvio que isto não é tentativa de Conciliação. Chamamos atenção para o art. 3º, caput, do CPC/15, onde consta que não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão de direito. Nesse mesmo artigo, em seus §§ 1º, 2º e 3º, constam disposições nos seguintes sentidos: É permitida a arbitragem na forma da lei; O Estadopromoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos; A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, “inclusive no curso do processo judicial”; deixando implícito que também em qualquer outro procedimento extrajudicial. Com efeito, o processo arbitral, enquanto norma especial de processo civil, está sujeito às normas fundamentais do processo civil, dentre elas as contidas nos arts. 4º, 5º e 6º que, em sequência, dispõem: As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa; Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé; Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, a decisão de mérito justa e efetiva. Alguém, por acaso, discorda que normas como estas sempre nortearam, ou deveriam nortear o processo arbitral, notadamente em arbitragens nacionais? Em não havendo prévia cláusula Arb-med na modalidade ora referida, a tentativa de conciliação poderá ser consensuada por iniciativa do árbitro ou das partes e seus advogados, logo que instituída a arbitragem, mediante termo de arbitragem que acrescente ao adendo a que alude o art. 19, § 1º, da Lei 9.307/1996 (Lei de Arbitragem), os limites e características dos esforços comuns com vistas à conciliação; qual seja, à solução consensual desejada. Embora essa mediação deva, de preferência, ser conduzida por mediadores, é preciso reconhecer que, assim como um juiz pode mediar, também o árbitro poderá. Os resultados positivos dessa mediação prévia serão inquestionáveis, notadamente em face das reuniões conjuntas, iniciais, e das possíveis reuniões em separado e alternadas, hipótese em que as partes e seus representantes, sem a presença da outra e protegidas pela confidencialidade, podem cuidar de questões que não seriam consideradas nas discussões exclusivamente probatórias ou voltadas para a interpretação de textos de lei, tão comuns nos processos heterocompositivos. As reuniões em separado da mediação podem ensejar a compreensão, pelos participantes, de aspectos factuais e relacionais do conflito até então não cogitados, levando-os a migrar para atitudes colaborativas, ao perceberem que os seus sentimentos, necessidades e questões estão sendo cuidados com base em critérios objetivos, de modo imparcial e confidencial. Caso haja árbitro apto para atuar como mediador, ainda melhor, em face da praticidade. Como árbitro – naquele instante atuando como um facilitador de negociação – aquele árbitro não deverá sugerir opções, pois apenas lhe cabe facilitar o diálogo. Assim, não teria qualquer sentido imaginar que ele estaria, em algum momento, antecipando a sua futura decisão arbitral, ou que iria perder a sua imparcialidade. Ali, ele facilita as condições de possibilidade do consenso, na condição de árbitro, em nada comprometendo a sua imparcialidade e a integridade do processo arbitral. Foram muito positivas as nossas experiências em arbitragens conduzidas com essa abertura à priorização da busca pela solução consensual. Quanto ao argumento segundo o qual – sabedores de que o árbitro, ao final, poderá julgar – as partes não iriam revelar fatos que lhes parecessem enfraquecedores das suas teses jurídicas e provas, encontro aí algumas questões a refletir. Essa Arb-med prévia, sob o primado da consensualização, ocorrerá apenas quando as partes, no exercício das suas 2. autonomias e da boa-fé, concordarem em cooperar no sentido de uma solução consensual. Para evitar natural desestímulo, o sucesso da solução consensual não deve prejudicar a remuneração dos árbitros contratados. Para tanto, ao concordarem com essa Arb-med, as partes podem fazer constar, no Termo de Arbitragem, que a solução autocompositiva, no âmbito da arbitragem – que será homologada por sentença arbitral – não afetará os honorários dos árbitros, para mais ou para menos, por evitar outros custos, viabilizar a efetiva solução de mérito, reduzir o desgaste emocional, fortalecer o vínculo negocial e melhor atender à razoável duração do processo. Segunda hipótese: Arb-med com suspensão da Arbitragem. A autocomposição pode ser conduzida por mediadores não participantes do painel de árbitros. Nessa hipótese, será suspenso o processo arbitral, podendo ser prevista uma redução dos honorários dos árbitros, caso essa mediação, conduzida por terceiros, resulte em autocomposição homologada pelo(s) árbitro(s) na conclusão do processo arbitral. Terceira hipótese: Arb-med pré-sentença. Esta terceira hipótese de Arb-Med é concretizada em face de cláusula ou compromisso prevendo atuação do árbitro como facilitador de diálogo, ao final do processo arbitral, quando a sentença já foi minutada, mas antes da sua emissão, no sentido de oportunizar às partes uma solução consensual, a ser posteriormente homologada por Sentença Arbitral. Os positivistas mais tradicionais entendem que, desse modo, a busca da consensualização seria praticada sem ferir a integridade do processo arbitral. AVALIAÇÃO NEUTRA, FACILITAÇÃO DE DIÁLOGOS APRECIATIVOS E COMITÊ DE RESOLUÇÃO DE DISPUTAS (DRB) O que é Avaliação Neutra? Tem sido crescentemente adotada, especialmente no meio empresarial, a Avaliação Neutra (Neutral Evaluation), que é uma perícia ou arbitragem não vinculativa, contratada pelos interessados, em que o avaliador, que examinará a matéria e elaborará o laudo, é consensualmente escolhido entre profissionais merecedores da confiança recíproca dos contratantes. Por meio dessa modalidade de prevenção de litígios, inúmeras disputas judiciais ou arbitrais são evitadas, pois é comum as partes acatarem, voluntariamente, as conclusões contidas no laudo do perito avaliador. A Avaliação Neutra (Neutral Evaluation) pode representar importante ganho de tempo, afastamento do desgaste litigioso, menor custo e continuidade das relações entre os interessados. Entre os advogados que praticam a advocacia colaborativa, a avaliação neutra, realizada por coaches contratados para elaborar o laudo, tem a vantagem de esclarecer questões técnicas e quantificar valores, facilitando as possibilidades de soluções negociadas extrajudicialmente. O que é Facilitação de Diálogos Apreciativos? Também vem crescendo, especialmente no meio empresarial, a utilização de métodos, tais como a Facilitação de Diálogos Apreciativos. São métodos em que o procedimento não aborda o conflito, buscando a mudança mediante a criação ou construção de um futuro desejado e identificado pelos interessados. Tal abordagem deixa de lado o conflito e direciona os diálogos no sentido das questões que representam novos caminhos no trato intersubjetivo.7 O trabalho e o esforço estão centrados na conotação positiva aplicada na recordação dos momentos de êxito, com vistas à sua recriação e elaboração do desenho de condições apropriadas para o futuro coletivamente desejado, estimulando o protagonismo dos participantes do processo. Em sua metodologia de trabalho, a Facilitação de Diálogos Apreciativos – que deve contar com o apoio de facilitador capacitado, independente e livremente aceito – adota a centralidade desse diálogo apreciativo, em substituição aos modelos de mediação centrados no conflito. Na Facilitação de Diálogos Apreciativos, pratica-se a investigação apreciativa, definida como uma abordagem construcionista, baseada nas imagens partilhadas dos momentos altos e gratificantes das pessoas, equipes e organizações, voltadas para a eficácia das ações e das relações, para a mudança estruturada e para o desenvolvimento integrado. Conforme Valença, na Investigação Apreciativa, o foco processual não é a resolução coletiva de uma “situação problema”, mas a construção de um “futuro desejado” com base no que se tem de fortalezas e de méritos concretos. Não é uma abordagem deficitária, de recuperação de um status quo, e sim uma abordagem normativa, de querer-ser, de modo que oprocesso deixa de ser percebido como diagnóstico de um problema a ser solucionado e passa a ser a deliberação de reconstruir as boas soluções já experimentadas.8 O que é Comitê de Resolução de Disputas (Disputes Resolution Board – DRB)? Trata-se de método utilizado durante a execução de obras mais complexas e demoradas. Esses comitês são constituídos usualmente por três especialistas escolhidos consensualmente pelas partes contratantes, antes de iniciada a obra. Eles ficam com a incumbência de acompanhar o andamento da obra, com vistas à solução das questões incidentais, na medida em que vão surgindo. Há três modalidades de contratação de Comitês, com atribuição prévia e consensual de competências, consoante as finalidades pretendidas: 1 – Comitês de revisão, cuja finalidade é emitir recomendações que não são necessariamente atendidas; 2 – Comitês de Sentença, em que os especialistas proferem decisões que as partes estão obrigadas a cumprir; e 3 – Comitês de Disputa Mista, em que esses especialistas oferecem 49. 76. 80. 3. recomendações e, caso uma das partes contratantes solicite, irão proferir decisões específicas, que ambas as partes estão obrigadas a cumprir. Sobre esses temas destacamos os enunciados9 49, 76 e 80: Os Comitês de Resolução de Disputas (Dispute Boards) são método de solução consensual de conflito, na forma prevista no § 3° do art. 3º do Código de Processo Civil Brasileiro. As decisões proferidas por um Comitê de Resolução de Disputas (Dispute Board), quando os contratantes tiverem acordado pela sua adoção obrigatória, vinculam as partes ao seu cumprimento até que o Poder Judiciário ou o juízo arbitral competente emitam nova decisão ou a confirmem, caso venham a ser provocados pela parte inconformada. A utilização dos Comitês de Resolução de Disputas (Dispute Boards), com a inserção da respectiva cláusula contratual, é recomendável para os contratos de construção ou de obras de infraestrutura, como mecanismo voltado para a prevenção de litígios e redução dos custos correlatos, permitindo a imediata resolução de conflitos surgidos no curso da execução dos contratos. CAPACITAÇÃO DOS MEDIADORES PRIVADOS, CONSOANTE PROGRAMA DO CONIMA A prática da mediação de conflitos pressupõe capacitação para lidar com as dinâmicas do conflito e da comunicação. A capacitação em mediação de conflitos inclui, necessariamente, conhecimentos metodológicos de caráter interdisciplinar e as habilidades da sua arte. São muitas, atualmente, as propostas metodológicas de cursos de mediação. A propósito, recomendamos a obra Mediação de Conflitos para iniciantes, praticantes e docentes, em que vários docentes, inclusive este, apresentaram as suas propostas pedagógicas10. Esses conhecimentos e habilidades vêm sendo desenvolvidos, no Brasil, desde os anos 1990, sob a liderança do Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem (CONIMA). O CONIMA é uma entidade que tem como objetivo principal congregar e representar as entidades de mediação e arbitragem, visando a excelência de sua atuação, assim como o desenvolvimento e credibilidade dos MESCs (Métodos Extrajudiciais de Solução de Controvérsias), sempre observando as normas técnicas e, sobretudo, a ética. Entre outras atribuições, cabe também ao CONIMA estimular a criação de novas instituições de mediação e arbitragem, orientando-as nas mais diversas áreas, sempre observando a qualidade, indispensável ao desempenho de suas atividades. O CONIMA foi fundado em 24 de novembro de 1997 – data do primeiro aniversário de vigência da Lei 9.307/1996, a Lei de Arbitragem –, durante seminário realizado no Superior Tribunal de Justiça. Na ata de fundação constam as assinaturas das 20 mais representativas entidades voltadas à mediação e arbitragem no país. Em 2011, para resguardar a credibilidade e a qualidade do exercício da Mediação no Brasil, o CONIMA, representado pelas Instituições a ele associadas, elaborou um modelo-padrão de capacitação básica em Mediação. Idealizou-se um formato e um escopo teórico para o curso de capacitação básica, de modo que o ensino e o aprendizado da Mediação ficaram diversificados em diferentes espaços, ampliando-se, assim, a possibilidade de acesso ao instrumento. Eis como foram concebidos os cursos e espaços de teoria e de prática a serem ministrados e coordenados pelas instituições afins: 1. 2. A. Espaços Informativos; Cursos de Capacitação Básica; Cursos de Capacitação em Áreas Específicas; Estudos Avançados; Capacitação em Supervisão; Capacitação em Docência. Eis, a seguir, os conteúdos de cada um desses cursos e espaços de teoria e de prática em Mediação de Conflitos: ESPAÇOS INFORMATIVOS São considerados espaços informativos (cursos, palestras, seminários, workshops) todos aqueles que se dediquem a divulgar e informar sobre os instrumentos de resolução alternativa de disputas (RAD), suas aplicações e benefícios. Certificados Poderão ser conferidos certificados de participação que citarão a qualidade do espaço frequentado (cursos, palestras, seminários, workshops) e sua carga horária. CURSO DE CAPACITAÇÃO BÁSICA EM MEDIAÇÃO Este curso visa a oferecer informações globais sobre a Mediação e sua prática, constituindo-se base mínima de conhecimento para o exercício da Mediação. Sua estrutura compreende duas etapas, a saber: A. Módulo Teórico-Prático; B. Estágio Supervisionado. MÓDULO TEÓRICO-PRÁTICO 1.1) 1.1.a) 1.1.b) 1.1.c) 1.1.d) 1.1.e) 1.1.f) 1.1.g) 1.1.h) 1.1.i) 1.1.j) Este módulo compõe-se de aulas teóricas e simulações da prática. Conteúdo programático Paradigmas contemporâneos: Conhecimento dos paradigmas que regem a percepção e a atuação do homem na atualidade. Aspectos sociológicos contemporâneos: Contexto e aspectos ideológicos dos diferentes grupos sociais. Aspectos psicológicos: Comportamento humano; estudo das necessidades e sua satisfação; entrevistas e sua especificidade na Mediação. Comunicação: Escuta; axiomas; teoria das narrativas; estudo do inter-relacionamento humano. Direito: Conceitos; noções do direito nas diferentes áreas de atuação; conhecimento e articulação dos conceitos de justiça e satisfação. Conflitos: Conceito e estrutura; aspectos subjetivos e objetivos; construção dos conflitos e causalidade circular. Instrumentos de resolução alternativa de disputas RAD: Histórico; panorama nacional e internacional; Negociação, Conciliação e Arbitragem. Mediação: Conceito e filosofia; etapas do processo; modelos em Mediação; regulamento-modelo. Mediador: Função; postura; qualificação; código de ética. Áreas de atuação: Familiar; comercial; trabalhista; organizacional; comunitária; escolar; penal; 1.2) 1.2.a) 1.3) 1.4) B. 2.1) internacional; meio ambiente. Carga horária O conteúdo programático deve ser ministrado em um mínimo de 60 (sessenta) horas. Frequência A participação entendida como necessária inclui um mínimo de 90% de frequência. OBSERVAÇÃO: A frequência apenas no módulo teórico- prático permitirá que seja expedido certificado de participação – salientando-se o aprendizado de noções básicas de Mediação. Avaliação Ao término desta etapa ou no curso da seguinte, faz-se necessária uma avaliação de conhecimento, ficando a critério da Instituição ou do docente responsável a sua forma (trabalhos sobre os temas apresentados, estudos de casos, resenhas de livros, paper sobre o conteúdo) e aplicação. ESTÁGIO SUPERVISIONADO Este estágio compreende a prática supervisionada de casos reais. Ele é imprescindível e não pode ser substituído pela prática simulada. Durante o seu curso, o estagiário deverá passar por três diferentes posições no exercício da Mediação – Mediador, comediador e observador –, apresentando relatório do trabalho realizado/da experiência vivida. Carga horária 2.2) 3. 4. Esta etapa exige um mínimo de 50 horas, sabendo, as Instituições, que devem procurar alcançar a carga horária ótima de 100 horas. Certificação Somente serão conferidos certificados de capacitação básica em Mediação, habilitando para atuarcomo mediador aqueles que cumprirem suas duas etapas (módulo teórico- prático e estágio supervisionado), em conformidade com o que elas exigem. A prontidão para o exercício da Mediação será definida entre o estagiário e o supervisor, não ficando exclusivamente norteada pelo número de horas exigidas. CURSOS DE CAPACITAÇÃO EM ÁREAS ESPECÍFICAS Como são distintas as áreas de atuação da Mediação (familiar; comercial; trabalhista; organizacional; comunitária; escolar; penal; internacional; meio ambiente) e distintos os conhecimentos particulares para a sua prática, cursos de capacitação em áreas específicas poderão dar sequência à capacitação básica em Mediação. Carga horária Para os cursos de capacitação em áreas específicas sugere- se que sejam ministrados em um mínimo de 20 (vinte) horas. OBSERVAÇÃO: Como cada Instituição possui suas áreas de prioridade de atuação, fica, aqui, sugerido que divulguem seus campos de especificidade prática a fim de possibilitar o intercâmbio de conhecimento e docência entre instituições. ESTUDOS AVANÇADOS – CURSOS E SEMINÁRIOS 5. 6. Conforme recomendação do Código de Ética e regulamento- modelo da Mediação, a reciclagem e atualização permanente de Mediadores atuantes é mister. Estes espaços de troca e aprendizagem visam atender essa premissa e ocorrerão com a frequência e o número de horas a serem estabelecidos em futuro próximo. OBSERVAÇÃO: Tanto os cursos de capacitação em áreas específicas quanto os estudos avançados ficam, aqui, recomendados como instrumentos que possibilitam a excelência da prática e a atualização permanente de Mediadores. CAPACITAÇÃO EM SUPERVISÃO As Instituições capacitadoras, com a intenção de multiplicar sua tarefa de ensino, mantendo a qualidade e excelência, poderão oferecer aos profissionais por ela capacitados a oportunidade de ascender à função de supervisores. Para tal, deverão construir requisitos e programar atividades e cursos que os qualifiquem para o desempenho da função. CAPACITAÇÃO EM DOCÊNCIA As Instituições capacitadoras, com a intenção de multiplicar sua tarefa de ensino mantendo a qualidade e excelência, poderão oferecer aos profissionais por ela capacitados a oportunidade de ascender à docência. Para tal, deverão construir requisitos e programar atividades e cursos que os qualifiquem para o desempenho da função. OBSERVAÇÃO: Com a intenção de divulgar o instrumento da Mediação, mantendo a qualidade das informações a serem compartilhadas, recomenda-se que as Instituições associadas ao 4. CONIMA busquem parcerias não tão somente entre si, mas também com as universidades locais. A divulgação dos recursos de RAD é instrumento promotor de uma cultura de resolução pacífica de controvérsias e constitui tarefa de amplo alcance social. CAPACITAÇÃO DE MEDIADORES JUDICIAIS, CONSOANTE A RESOLUÇÃO 125/2010 DO CNJ O programa de capacitação de mediadores judiciais consta do Anexo I (Diretrizes Curriculares), da Resolução 125 do CNJ, com o seguinte texto: “ANEXO I (Anexo alterado pela Emenda nº 02/2016 – DJe 11/03/2016) DIRETRIZES CURRICULARES (Aprovadas pelo Grupo de Trabalho estabelecido nos termos do art. 167, § 1º, do Novo Código de Processo Civil por intermédio da Portaria CNJ 64/2015) O curso de capacitação básica dos terceiros facilitadores (conciliadores e mediadores) tem por objetivo transmitir informações teóricas gerais sobre a conciliação e a mediação, bem como vivência prática para aquisição do mínimo de conhecimento que torne o corpo discente apto ao exercício da conciliação e da mediação judicial. Esse curso, dividido em 2 (duas) etapas (teórica e prática), tem como parte essencial os exercícios simulados e o estágio supervisionado de 60 (sessenta) e 100 (cem) horas. I – Desenvolvimento do curso a) b) c) O curso é dividido em duas etapas: 1) Módulo Teórico e 2) Módulo Prático (Estágio Supervisionado). 1. Módulo Teórico No módulo teórico, serão desenvolvidos determinados temas (a seguir elencados) pelos professores e indicada a leitura obrigatória de obras de natureza introdutória (livros-texto) ligados às principais linhas técnico-metodológicas para a conciliação e mediação, com a realização de simulações pelos alunos. 1.1 Conteúdo Programático No módulo teórico deverão ser desenvolvidos os seguintes temas: Panorama histórico dos métodos consensuais de solução de conflitos. Legislação brasileira. Projetos de lei. Lei dos Juizados Especiais. Resolução CNJ 125/2010. Novo Código de Processo Civil, Lei de Mediação. A Política Judiciária Nacional de tratamento adequado de conflitos Objetivos: acesso à justiça, mudança de mentalidade, qualidade do serviço de conciliadores e mediadores. Estruturação – CNJ, Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos e Cejusc. A audiência de conciliação e mediação do novo Código de Processo Civil. Capacitação e remuneração de conciliadores e mediadores. Cultura da Paz e Métodos de Solução de Conflitos Panorama nacional e internacional. Autocomposição e Heterocomposição. Prisma (ou espectro) de processos de d) e) f) g) resolução de disputas: negociação, conciliação, mediação, arbitragem, processo judicial, processos híbridos. Teoria da Comunicação/Teoria dos Jogos Axiomas da comunicação. Comunicação verbal e não verbal. Escuta ativa. Comunicação nas pautas de interação e no estudo do inter-relacionamento humano: aspectos sociológicos e aspectos psicológicos. Premissas conceituais da autocomposição. Moderna Teoria do Conflito Conceito e estrutura. Aspectos objetivos e subjetivos. Negociação Conceito: Integração e distribuição do valor das negociações. Técnicas básicas de negociação (a barganha de posições; a separação de pessoas de problemas; concentração em interesses; desenvolvimento de opções de ganho mútuo; critérios objetivos; melhor alternativa para acordos negociados). Técnicas intermediárias de negociação (estratégias de estabelecimento de rapport; transformação de adversários em parceiros; comunicação efetiva). Conciliação Conceito e filosofia. Conciliação judicial e extrajudicial. Técnicas (recontextualização, identificação das propostas implícitas, afago, escuta ativa, espelhamento, produção de opção, acondicionamento das questões e interesses das partes, teste de realidade). Finalização da conciliação. Formalização do acordo. Dados essenciais do termo de conciliação (qualificação das partes, número de identificação, natureza do conflito...). h) i) j) k) Redação do acordo: requisitos mínimos e exequibilidade. Encaminhamentos e estatística. Etapas (planejamento da sessão, apresentação ou abertura, esclarecimentos ou investigação das propostas das partes, criação de opções, escolha da opção, lavratura do acordo). Mediação Definição e conceitualização. Conceito e filosofia. Mediação judicial e extrajudicial, prévia e incidental; Etapas – Pré- mediação e Mediação propriamente dita (acolhida, declaração inicial das partes, planejamento, esclarecimentos dos interesses ocultos e negociação do acordo). Técnicas ou ferramentas (comediação, recontextualização, identificação das propostas implícitas, formas de perguntas, escuta ativa, produção de opção, acondicionamento das questões e interesses das partes, teste de realidade ou reflexão). Áreas de utilização da conciliação/mediação Empresarial, familiar, civil (consumeirista, trabalhista, previdenciária, etc.), penal e justiça restaurativa; o envolvimento com outras áreas do conhecimento. Interdisciplinaridade da mediação Conceitos das diferentes áreas do conhecimento que sustentam a prática: sociologia, psicologia, antropologia e direito. O papel do conciliador/mediador e sua relação com os envolvidos (ou agentes) na conciliação e na mediação Os operadores do direito (o magistrado, o promotor, o advogado, o defensor público etc.) e a conciliação/mediação. Técnicas para estimular advogados a atuarem de forma eficiente l) na conciliação/mediação. Contornando as dificuldades: situações de desequilíbrio, descontrole emocional, embriaguez, desrespeito. Éticade conciliadores e mediadores O terceiro facilitador: funções, postura, atribuições, limites de atuação. Código de Ética - Resolução CNJ 125/2010 (anexo). 1.2 Material didático do Módulo Teórico O material utilizado será composto por apostilas, obras de natureza introdutória (manuais, livros-textos etc.) e obras ligadas às abordagens de mediação adotadas. 1.3 Carga Horária do Módulo Teórico A carga horária deve ser de, no mínimo, 40 (quarenta) horas/aula e, necessariamente, complementada pelo Módulo Prático (estágio supervisionado) de 60 (sessenta) a 100 (cem) horas. 1.4 Frequência e Certificação A frequência mínima exigida para a aprovação no Módulo Teórico é de 100% (cem por cento) e, para a avaliação do aproveitamento, o aluno entregará relatório ao final do módulo. Assim, cumpridos os 2 (dois) requisitos – frequência mínima e apresentação de relatório – será emitida declaração de conclusão do Módulo Teórico, que habilitará o aluno a iniciar o Módulo Prático (estágio supervisionado). 2. Módulo Prático – Estágio Supervisionado Nesse módulo, o aluno aplicará o aprendizado teórico em casos reais, acompanhado por 1 (um) membro da equipe docente (supervisor), desempenhando, necessariamente, 3 (três) funções: a) observador, b) coconciliador ou comediador, e c) conciliador ou mediador. Ao final de cada sessão, apresentará relatório do trabalho realizado, nele lançando suas impressões e comentários relativos à utilização das técnicas aprendidas e aplicadas, de modo que esse relatório não deve limitar-se a descrever o caso atendido, como em um estágio de Faculdade de Direito, mas haverá de observar as técnicas utilizadas e a facilidade ou dificuldade de lidar com o caso real. Permite-se, a critério do Nupemec, estágio autossupervisionado quando não houver equipe docente suficiente para acompanhar todas as etapas do Módulo Prático. Essa etapa é imprescindível para a obtenção do certificado de conclusão do curso, que habilita o mediador ou conciliador a atuar perante o Poder Judiciário. 2.1 Carga Horária O mínimo exigido para esse módulo é de 60 (sessenta) horas de atendimento de casos reais, podendo a periodicidade ser definida pelos coordenadores dos cursos. 2.2 Certificação Após a entrega dos relatórios referentes a todas as sessões das quais o aluno participou e, cumprido o número mínimo de horas estabelecido no item 2.1, acima, será emitido certificado de conclusão do curso básico de capacitação, que é o necessário para o cadastramento como mediador junto ao tribunal no qual pretende atuar. 2.3 Flexibilidade dos treinamentos Os treinamentos de quaisquer práticas consensuais serão conduzidos de modo a respeitar as linhas distintas de atuação em mediação e conciliação (e.g. transformativa, narrativa, facilitadora, entre outras). Dessa forma, o conteúdo programático apresentado poderá ser livremente flexibilizado para atender às especificidades da mediação adotada pelo instrutor, inclusive quanto à ordem dos temas. Quaisquer materiais pedagógicos disponibilizados pelo CNJ (vídeos, exercícios simulados, manuais) são meramente exemplificativos. De acordo com as especificidades locais ou regionais, poderá ser dada ênfase a uma ou mais áreas de utilização de conciliação/mediação. II – Facultativo 1. Instrutores Os conciliadores/mediadores capacitados nos termos dos parâmetros indicados poderão se inscrever no curso de capacitação de instrutores, desde que preencham, cumulativamente, os seguintes requisitos: • Experiência de atendimento em conciliação ou mediação por 2 (dois) anos. • Idade mínima de 21 anos e comprovação de conclusão de curso superior”. A ENFAM (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira), em cumprimento ao previsto no art. 11 da Lei 13.140/2015 (Lei de Mediação) e na Resolução 125/2010 do CNJ, e, para os fins de proceder ao reconhecimento de escolas e instituições de capacitação de mediadores judiciais, editou, até o ano de 2018, 23. 42. 66. 1 2 as Resoluções nº 1, de 19 de maio de 2016, nº 6, de 21 de novembro de 2016 (revogada), e a Resolução nº 3, de 07 de junho de 2017. Sobre a capacitação de mediadores destacamos os enunciados11 23, 42 e 66: Recomenda-se que as faculdades de direito mantenham estágios supervisionados nos escritórios de prática jurídica para formação em mediação e conciliação e promovam parcerias com entidades formadoras de conciliadores e mediadores, inclusive tribunais, Ministério Público, OAB, defensoria e advocacia pública. O membro do Ministério Público designado para exercer as funções junto aos centros, câmaras públicas de mediação e qualquer outro espaço em que se faça uso das técnicas de autocomposição, para o tratamento adequado de conflitos, deverá ser capacitado em técnicas de mediação e negociação, bem como de construção de consenso. É fundamental a atualização das matrizes curriculares dos cursos de direito, bem como a criação de programas de formação continuada aos docentes do ensino superior jurídico, com ênfase na temática da prevenção e solução extrajudicial de litígios e na busca pelo consenso. SANDER, Frank. Varieties of dispute processing. Minnesota: West Publishing, 1979, p. 65/87. CEZAR FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação: uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2007. 270 p. 4 5 6 7 8 9 10 11 3 CACHAPUZ, Rozane da Rocha. Mediação nos conflitos e direito de família. Curitiba: Juruá, 2011. 171 p. Em 10.12.2022 (REsp1862147) a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou o entendimento de que não é cabível a impugnação ao cumprimento da sentença arbitral, com base nas hipóteses de nulidades previstas no art. 32 da Lei 9.307/1996, após o prazo decadencial de 90 dias – o período é contado a partir do recebimento da notificação sobre o julgamento arbitral. Referência: Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, I Jornada “Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios”, 22 e 23 de agosto de 2016, Brasília – DF. Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de- litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. LEVY, Fernanda Rocha Lourenço. Cláusula escalonada: a mediação comercial no contexto da arbitragem. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 328. CONFORTI, Franco. Facilitación de diálogos apreciativos. In: BRAGA NETO, Adolfo; SALES, Lilia Maia de Morais (Org.). Aspectos atuais sobre a mediação e outros métodos extra e judiciais de resolução de conflitos. Rio de Janeiro: GZ Ed, 2012. p. 143-265. VALENÇA, Antônio Carlos. Fundamentos teóricos da mediação: Método da investigação apreciativa da ação-na-ação. Caderno de Campo – Mediação: Método da Investigação Apreciativa da Ação-na-ação. Antônio Carlos Valença (org.). Recife: Bagaço, 2009. p. 51-132. Referência: Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, I Jornada “Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios”, 22 e 23 de agosto de 2016, Brasília – DF. Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de- litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. ALMEIDA, Tânia. Mediação de Conflitos para iniciantes, praticantes e docentes/Coordenadoras Tânia Almeida, Samantha Pelajo e Eva Jonathan. 2. ed. Salvador: JusPodivm, 2019. 944 p. Referência: Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, I Jornada “Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios”, 22 e 23 de agosto de 2016, Brasília – DF. Sobre os Enunciados da II Jornada, vide: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da- justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669. https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/?_authenticator=60c7f30ef0d8002d17dbe298563b6fa2849c6669 1. 1.1 Capítulo 4 NEGOCIAÇÃO NA METODOLOGIA DE HARVARD. PRINCIPAIS MODELOS DE MEDIAÇÃO NEGOCIAÇÃO CONFORME A ESCOLA DE HARVARD Dados Introdutórios No final dos anos setenta Roger Fisher, William Ury e Bruce Patton escreveram a primeira edição inglesa da obra “Como Chegar ao Sim”, que se constitui, até hoje, na principal referência sobre o método de negociação da Escola de Harvard.1 Esses valores, habilidades e técnicas – que já vinham sendo desenvolvidos desde os anos cinquenta do século passado – destinaram-se, inicialmente, a contribuir para a superação dos constantes impasses nas negociações da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.2 Para a melhor compreensão do manifesto e do subjacente, foram utilizados conceitos de psicanálise e linguística, comunicação e construção do discurso. A negociação sempre foi o modo humano de resolver problemas pacificamente. A prática tradicional da barganha posicional costuma adotar dois modos de negociar. Com empatia, em que o negociador age de modo benevolente, aceitando ceder a fim de evitar conflito, desconsiderando critérios objetivos; ou com rigor, o que pode acarretar comportamentos ásperos de negociadores, com o objetivo de fazer prevalecer a sua posição; prejudicando o entendimento e o relacionamento. Essas práticas, sem fundamento em critérios objetivos, são chamadas de “barganha posicional”. As pesquisas da Escola de Negociação de Harvard buscaram desenvolver critérios que viessem a agregar valor a essas duas maneiras tradicionais de negociar. O novo método consiste em decidir as questões a partir dos seus próprios méritos, e não através de um processo de regateio, centrado nas posições subjetivas de qualquer dos lados. O novo método sugere que os negociadores busquem benefícios mútuos sempre que possível e que, quando seus interesses entrarem em conflito, insistam no sentido de que o resultado se baseie em padrões justos, independente da vontade de qualquer dos lados. Esse método de Harvard é baseado em princípios, porque pressupõe rigor quanto aos méritos (critérios objetivos), mantendo-se, sempre, o devido respeito e gentileza no tratamento entre as pessoas. Isto significa que o método supõe que, em qualquer circunstância, os negociadores devem construir legítimas soluções de ganha-ganha, conforme interesses comuns devidamente explorados e princípios ou critérios objetivos de referência, para lidar com interesses contraditórios. Isto não exclui a possibilidade de se identificar a existência de uma melhor alternativa sem acordo (MASA), conforme veremos adiante. Conforme os autores, “Qualquer um pode usar este método. Todas as negociações são diferentes, mas os elementos básicos não se alteram. A negociação baseada em princípios pode ser usada quando há uma ou várias questões em jogo; duas ou muitas partes; quando há algum ritual predeterminado, como nas negociações coletivas, ou uma situação imprevista de conflito. O método se aplica independentemente de a outra parte ser mais ou menos experiente e de ser um negociador difícil ou amistoso. A negociação baseada em princípios é uma estratégia para todos 1.2 a) b) c) d) os fins. Diversamente de quase todas as outras estratégias, esta não se torna mais difícil de usar quando o outro lado a aprende”.3 O método O método da negociação da Escola de Harvard está fundamentado nestes quatro pontos básicos; cada ponto relacionando-se a um elemento da negociação: Separe as pessoas do problema: a importância de separar o conflito subjetivo (relação interpessoal) do conflito objetivo (questões concretas); Concentre-se nos interesses não nas posições: “posição” (atitude polarizada e explícita dos disputantes) e “interesses” (subjacentes e comuns, opostos ou contraditórios, a serem identificados); Invente opções de ganhos mútuos: técnicas de criação de opções para a satisfação dos interesses identificados; Insista em critérios objetivos: a necessidade de observação dos dados de realidade ou padrões técnicos, éticos, jurídicos ou econômicos. Em adição a esses quatro pontos, o negociador deverá planejar alguma alternativa ao acordo pretendido na negociação a ser realizada. A Melhor Alternativa sem Acordo (MASA) é um daqueles sete elementos desdobrados do método, que o negociador deve analisar no planejamento da negociação, conforme o Program on Negotiation (PON) de Harvard. No prefácio à terceira edição, os autores fizeram referência a importantes obras publicadas nos últimos trinta anos, dentre as quais Além da Razão, escrita em conjunto por Fisher e Shapiro, onde os quatro pontos iniciais são estudados no âmbito de uma abordagem mais ampla, englobando os sete elementos da negociação. A partir de então, a 1.3 negociação baseada em princípios passou a ser mais conhecida como negociação baseada em interesses. A análise dos sete elementos da negociação: relacionamento, comunicação, interesses, opções, legitimidade, alternativas e compromisso Os sete elementos da negociação, comentados mais adiante, são inicialmente sintetizados num quadro denominado Anatomia da Negociação, como segue4: ELEMENTO PERGUNTAS DE DIAGNÓSTICO RECOMENDAÇÕES Relacionamento Como os negociadores percebem uns aos outros? Construa uma ligação e um bom relacionamento profissional com os demais negociadores. Colabore. Comunicação A comunicação é ineficiente, dissimulada, unilateral? Os negociadores estão dando ordens uns aos outros? Estabeleça uma comunicação bidirecional e acessível. Informe, escute, seja confiável. Não faça promessas confusas. Interesses Os negociadores estão fazendo exigências e Respeite os interesses das outras pessoas. Analise e afirmando suas posições enquanto mantêm seus interesses reais em segredo? informe os seus interesses. (Você não precisa revelar o valor que atribui aos seus objetivos). Opções A negociação parece um jogo de soma zero em que cada lado precisa escolher entre ganhar ou perder? Sem assumir compromissos, promova debates criativos para definir formas de atender aos interesses legítimos de todos os envolvidos. Legitimidade Ninguém liga para a justiça no processo? Os negociadores estão barganhando com base no que estão dispostos ou não a fazer? Pesquise e aplique padrões externos de equidade que sejam persuasivos para todos os envolvidos. MAAN (Melhor Alternativa a um Acordo Negociado) Os negociadores estão trocando ameaças sem saber o que farão se não chegarem a nenhum acordo? Analise sua alternativa de evasão e a dos outros negociadores. Admita que qualquer acordo é melhor para todos do que sair da negociação de mãos abanando. 1.3.1 Compromissos Os negociadores exigiram compromissos inviáveis uns dos outros? Nenhum deles elaborou versões preliminares dos compromissos que estava disposto a assumir? Formule compromissos justos e realistas de cada lado. Relacionamento Como podemos facilitar a relação entre negociadores? Trocando experiências comuns, que possam gerar aproximações. Criando um ambiente informal, propício à negociação em que não há lados, mas colaboradores. Colocando mesas redondas, que fortalecem o sentido da igualdade, e os negociadores lado a lado,colaborando. Desenvolvendo atividades sempre compartilhadas. Combinando regras de convivência durante o procedimento de negociação, sempre valorizando a importância do relacionamento negocial e pessoal entre os interessados. Ajustando regras de convivência, como estabelecer duração dos encontros, tempo de fala de cada um, possibilidade de interrupção ou não das falas, definição de cronograma de trabalho e respeito ao que foi combinado, dentre outros acertos sobre relacionamento. Ao destacar o relacionamento, realçamos a importância de uma atitude de acolhimento, insistimos na construção de ambiente propício à troca de informações, exaltamos o reconhecimento recíproco na identificação dos interesses e na busca de opções e de critérios objetivos para nortear as 1.3.2 decisões conjuntas, e, enfim, acentuamos a integridade (compliance) e a necessidade da construção de compromissos efetivamente concretizáveis. Comunicação Conhecer as habilidades necessárias ao manejo do elemento comunicação é uma das condições fundamentais ao desenvolvimento da negociação baseada em princípios. Até pessoas que atuam há muito tempo podem enfrentar mal-entendidos e falhas de comunicação. A atividade negociadora pode ser definida como um processo de negociação bilateral ou multilateral, com o objetivo de se chegar a uma solução conjunta. A Escola de Harvard recomenda que se converse sobre generalidades antes de se começar a negociação, criando-se um ambiente mais descontraído. Essa comunicação poderá ensejar um acerto sobre tempo, não interrupção das falas, respeito mútuo para que se evitem xingamentos e acusações, etc. Em qualquer das fases da negociação uma comunicação construtiva e respeitosa faz muita diferença. Comunicação que também se pratica por meio de ação, reação, de atos, de omissões, pela emoção, pelo tom de voz, pelos gestos, movimentos, pausas, silêncios, pelo olhar, pelo franzimento da testa, pelos braços cruzados, em enorme riqueza comportamental. A comunicação deve estar apropriada ao modo de entendimento e comunicação da outra parte. Caso ela fale baixo e devagar, diminua seu ritmo e busque entrar em sintonia. Utilize as falas do outro para elaborar as suas, mostrando-se atento ao que você escutou. Pratique, pois, uma escuta ativa, que, mais do que um simples ouvir, atrai confiança e empatia. Outra recomendação é falar na primeira pessoa. Em vez de acusar o outro com expressões do tipo “você não pode fazer isso”, ou “você faltou com a verdade”, diga, por exemplo, que se sente desapontado em face de determinado acontecimento. Não seja reativo e não ameace. William Ury sugere “subir à galeria”, como metáfora para distanciar-se de seus impulsos e emoções naturais.5 1.3.3 Fazer perguntas é uma prática estimulada pela Escola de Harvard. Não devemos ter receio de perguntar em caso de dúvidas, informações variadas sobre os interesses, inclusive para combinar pausas estratégicas, ou para tentar “acalmar”. Agir com empatia, que não significa concordar com o que o outro está afirmando e ser assertivo, para aproximar a firmeza a clareza, sem que isto deva caracterizar beligerância. Empatia e assertividade podem conviver e equilíbrio numa comunicação construtiva. Com efeito, as pessoas são dotadas de energias, estilos e comportamentos de influência, que variam em função das suas personalidades e circunstâncias emocionais; daí a importância do desenvolvimento das habilidades próprias aos que se comunicam construtivamente durante a negociação. Interesses A questão central da negociação não é o conflito de posições, mas as necessidades, desejos, preocupações e temores.6 O “iceberg” é uma boa metáfora para distinguir posições de interesses. As posições seriam aquela parte que flutua acima da água. Os interesses, por sua vez, estão subjacentes, inicialmente ocultos, como a parte submersa do “iceberg”. A doutrina de Harvard os distingue em interesses comuns, opostos e diferentes. O recomendado será tratar dos interesses comuns primeiro, de modo a fortalecer a empatia entre os negociadores, para depois tratar dos opostos. Ao tratar os interesses diferentes, observa-se que as diferenças podem ter valores diferenciados para cada uma das partes, o que possibilita trocas criativas. Eis o exemplo das duas crianças que brigam por uma laranja. A posição da mãe foi cortar a laranja ao meio e entregar a metade para cada uma. Mas ela não havia identificado o interesse de cada uma das crianças. Os interesses das crianças eram distintos, embora complementares. Uma queria o sumo para fazer um suco, a outra queria a casca para fazer um 1.3.4 1.3.5 doce. Em situações mais complexas sempre haverá interesses múltiplos, contraditórios e complementares, a serem identificados e consensuados. Opções Lembremos que a geração de opções deve ter como foco os interesses já identificados de ambas as partes, com vistas a uma solução de ganha- ganha. Nesse sentido, é importante que se atue criativamente, sem restrições ou pré-julgamentos, porque, nesse momento, ainda não se busca solução definitiva, mas se explora as opções possíveis. Pois o foco inicial está na atividade criativa de fazer crescer o bolo; com agregação de cada vez mais ampliadas opções. Fisher e Ury recomendam que esse momento de criação seja efetuado sem posturas críticas, para não inibir o ato de apresentação de sugestões, sem compromisso. Recomenda-se que cada uma das partes já adiante um seu “brainstorm”, antes da reunião para que seja compartilhado um “brainstorm” comum. É mais produtivo assim. Portanto, separando o ato de criação do ato de decisão, deve-se evitar decisões prematuras. Isto tudo no sentido de evitar a ideia de resposta única. É mais adequado construir consensos em face de diferentes opções exploradas. Pelo olhar de vários especialistas será mais produtivo e enriquecedor o encontro de boas opções. As opções não devem ser encaradas como um pacote imutável. Na busca de ganhos mútuos mude de lado, adote a troca de papéis para fortalecer a empatia e abrir novas compreensões. Na busca de opções, o problema não são eles e não é deles. A negociação, com suas variáveis, é uma questão de interesse comum. É um problema comum. É um equívoco não pedir sugestões ao colega da outra parte. Por que não? As opções criadas pelo colega podem descortinar interesses ainda desconhecidos. Legitimidade 1.3.6 As opções criadas a partir de interesses mútuos ou divergentes precisam ser legítimas e justas, para que sejam acolhidas pela outra parte. Portanto, é fundamental a adoção de padrões objetivos, com referências identificáveis pelas partes, para que a tomada de decisões fique confortável para ambas. Já verificamos que a adoção de critérios subjetivos, que se baseiam em posições voluntaristas – que em verdade são tentativas de imposição de argumentos contra os interesses da outra parte – termina por produzir mal-estar e recusas. Padrões justos (objetivos) com procedimentos justos. Eis um exemplo de procedimento justo: um corta o bolo e o outro escolhe o pedaço. Isto facilita o processo de escolha, que deve ser visto como uma colaboração compartilhada. Portanto, para a legitimidade de uma negociação baseada em princípios, devem as partes 1) buscar conjuntamente os critérios objetivos; 2) argumentar e estar abertas a contra-argumentações, na hipótese de serem propostos padrões diferentes; 3) jamais ceder a pressões (não à ameaça, ao suborno, à arbitrariedade). Alternativas Entre os critérios objetivos a serem considerados numa negociação baseada em princípios está incluído o da melhor alternativa a um acordo negociado (MAAN), também chamada de melhor alternativa sem acordo (MASA). A razão de se estar negociando é fruto da expectativa de se obter um resultado que não se conseguiria sem negociação. Para a identificação inicial da sua Melhor Alternativa sem Acordo (MASA) é recomendável considerar a criação de uma lista de alternativas, transformar ideias promissoras em alternativas reais e selecionar a melhor alternativa dentre as disponíveis. Isto pressupõea obtenção das informações técnicas. O conhecimento de sua MASA e da do outro negociador traz o benefício de compelir as partes a negociarem com mais afinco, no intuito de obter um resultado melhor do que as alternativas sem acordo (MASA). 1.3.7 1.4 Portanto, quanto melhor for a sua MASA maior será o seu poder de negociação. Adotar um valor final (limite de valor para fechamento de acordo), embora possa eventualmente evitar que você aceite um acordo muito ruim, pode, no entanto, limitar sua capacidade de inventar soluções criativas e de chegar a um entendimento mais vantajoso. Compromisso A concretização e formalização do acordo – quando a negociação é baseada em interesses comuns, opções livres e critérios objetivos – fica bastante facilitada. De qualquer sorte, sugere-se que o termo de acordo seja redigido em linguagem clara, concisa, de modo que a compreensão seja menos complexa, evitando-se dúvidas em excesso. Para evitar eventuais dúvidas ou desconfianças, o termo de acordo deve ser redigido com a colaboração de todos os interessados. Quando qualquer das partes sentir necessidade, consultas podem ser efetuadas a especialistas de confiança. Precipitações devem ser evitadas. Ademais, o termo de acordo deve conter prazos específicos de cumprimento de obrigações, penalidades para as hipóteses de descumprimento, e eventuais garantias, de modo a garantir a sua exigibilidade e exequibilidade. Negociações bem conduzidas consolidam relacionamentos e abrem oportunidades para o futuro. O bom negociador é, acima de tudo, aquele que implementa condições favoráveis à manutenção e consolidação de relacionamentos. Nestas condições, todos terão a oportunidade de confraternizar e de desfrutar os resultados obtidos. As cinco fases do procedimento de negociação: preparação, criação, distribuição, fechamento e reconstrução A prática da negociação baseada em princípios consiste na aplicação do método e seus elementos numa situação concreta, consoante a estratégia 1.4.1 ou metodologia do seu encadeamento processual. Trata-se de encadeamento informal, dividido em cinco fases, para maior facilidade didática.7 Preparação É nessa fase que o negociador desenvolverá o planejamento. Buscará obter informações e discutir, internamente, quais seriam os seus interesses e os interesses da outra parte naquela negociação. Feita essa pesquisa inicial, podem ser buscadas referências sobre hipóteses de melhor alternativa sem acordo (MASA) e zona de possível acordo (ZOPA). Os resultados previsíveis para o acordo devem ser melhores do que alternativas identificadas de não acordo. Daí a importância de dispormos de referenciais seguros sobre MASA. Avaliados os interesses e a MASA, incluindo os possíveis interesses e a MASA da outra parte, o negociador disporá de elementos para estimar a sua zona de possível acordo (ZOPA). Esse referencial, que deve fazer parte da preparação, pode evitar que fatores emocionais prejudiquem a justa avaliação de ofertas e contrapropostas apresentadas no curso da negociação. As informações sempre podem ser aprimoradas em contatos preliminares com a outra parte. Esconder em demasia as informações disponíveis pode comprometer a colaboração, gerando desconfianças e prejudicando o desenvolvimento de opções criativas. Com efeito, uma boa preparação também envolve planejar as opções que possam satisfazer os interesses da outra parte, dispondo de elementos sobre a legitimidade dessas possíveis opções. Especialmente em negociações internacionais será importante conhecer a cultura, os costumes negociais, sempre buscando uma comunicação construtiva, que gere confiança. Simulações prévias da negociação ou role playing (interpretação de papéis) é uma ferramenta interessante na preparação. Também deve fazer parte da preparação uma negociação sobre como o processo será conduzido, incluindo o ambiente e estruturas confortáveis, igualitárias e colaborativas. Perguntas sobre as 1.4.2 sugestões recíprocas facilitam esses ajustes iniciais. Acordos sobre duração das sessões, liberdade, tempo e reciprocidade das falas, escuta ativa das falas alternadas e confidencialidade podem ser importantes. E como a desconsideração dos principais interesses das pessoas que irão negociar pode provocar emoções negativas, devem os negociadores estar conscientes e preparados para acolher estes cinco principais interesses8: Apreço (que os pensamentos, sentimentos e ações recíprocas sejam reconhecidos e valorizados); Associação (conexão): que as pessoas sejam reciprocamente tratadas como colegas; Autonomia: que as pessoas respeitem a liberdade delas e entre elas, para decidirem questões importantes; Status: que a posição de cada uma esteja devidamente conceituada e respeitada; Função: que as pessoas sintam-se gratificadas por terem suas funções (papéis) reconhecidas e bem definidas. Criação É especialmente nessa fase, já na mesa de negociação, que o negociador experiente evitará que se precipite uma fase distributiva, em que já vão sendo apresentadas propostas e planilhas, como num jogo de soma zero, em que cada um dos lados tentará levar a maior parte para si. Essa precipitação pode comprometer a criatividade de uma negociação integrativa, em que interesses comuns, opções e critérios podem ampliar o bolo, o universo negociado. A inexperiência pode precipitar a divisão de um bolo que ainda não está grande o suficiente. O método de Harvard supõe uma negociação integrativa, que se vai ampliando colaborativa e criativamente. Negociação distributiva é barganha posicional, apenas admitida enquanto fase final, quando se vai distribuir os ganhos mútuos obtidos pela mediação integrativa, baseada e princípios, consoante interesses, opções e critérios objetivos, prévia e adequadamente explorados. Nessa fase da negociação o negociador deve estar atento para buscar e explorar oportunidades de cooperação, identificar opções criativas, a partir 1.4.3 do conhecimento dos interesses comuns, opções de ganhos mútuos, trocas de baixo custo (ease trade-offs) e preferências distintas e intercambiáveis. Como exemplos de trocas de baixo custo podemos citar o caso da padaria que pagou uma dívida fornecendo grande quantidade de pães, durante certo período, ao invés de desembolsar dinheiro, pois o custo do seu pão é menor do que respectivo valor de mercado. Ou o caso da empresa que fez um acordo para quitar dívida ambiental perante o órgão competente, graças ao estímulo de receber um “selo ambiental” cujo valor simbólico significa, perante a comunidade, o seu compromisso para com o meio ambiente. Portanto, há inúmeros modos de criar valor numa negociação. Diferentes perspectivas e preferências também podem oferecer oportunidades de benefícios mútuos, sempre que uma das partes perceba que pode abrir mão de algo que não valoriza tanto, em troca de um outro interesse que tem grande importância para si e que não é tão apreciada pela outra parte. Para que a criação flua é fundamental uma boa comunicação. As oportunidades de criação de valor somente poderão ser identificadas se as duas partes se dispuserem a dividir informações e explorar opções. Uma boa comunicação e técnicas de separação do ato de criação do ato de decisão podem ser decisivos para a criação de opções apoiadas em critérios legítimos. Negociações integrativas, baseadas em princípios não têm dono ou autoria individual. Serão sempre resultados de uma criação colaborativa. Distribuição Após a fase de criação, quando os negociadores, com abordagem integrativa e boa comunicação, colaboraram na criação de valor, pela exploração conjunta de interesses comuns e opções legitimadas por padrões objetivos, estando em condições de obter ganhos mútuos, chegamos à fase em que esse “bolo” aumentado será “dividido”. É nela, por exemplo, que se recomenda reexaminar os limites da MASA (melhor alternativa sem acordo). O resultado poderá estar sendo menos vantajoso do que alguma alternativa externa. É também nessa fase que se testará se a ZOPA (zona de possível acordo) foi alcançada. É chegado,enfim, o momento de distribuir os resultados obtidos e de decidir como isto poderia ocorrer. É, portanto, o momento de apresentar sugestões e propostas. A teoria da negociação trata da ideia de ancorar o procedimento a alguma proposta inicial. Ao ancorar a negociação a um determinado parâmetro, a primeira proposta pode exercer importante influência sobre a percepção e expectativa dos negociadores quanto a um possível acordo e, consequentemente, sobre o resultado final. Ela delimita aquilo que se está conseguindo obter na mesa de negociação e eventuais alternativas mais vantajosas de solução sem acordo. Embora haja quem prefira ou recomende deixar para a outra pessoa apresentar a primeira proposta, há experiências que resultaram na conclusão de que propostas ambiciosas tendem a puxar para perto de si a contraproposta, afetando, pois, a âncora da outra parte. Ocorre que seria um erro ancorar ou reagir à âncora, desconsiderando os interesses e necessidades do outro negociador, ou os critérios de legitimidade já discutidos. Conforme preleciona William Ury, as reações de revide, concessão e ruptura, embora possam eventualmente ocasionar algum efeito positivo, são costumeiramente danosas. Pelo revide, retrocede-se à lei de talião. Ao reagir cedendo, pode-se estar desconectado de critérios objetivos. Ao romper, pode-se estar tendo uma má compreensão ou agindo de modo açodado sobre o comportamento alheio. Qualquer que seja a reação, tal comportamento tende a retirar do negociador a sua objetividade, afastando- o, portanto, de seus interesses.9 É importante, para o bom andamento da negociação – e, especialmente, do relacionamento que nela se busca fortalecer – que as propostas sejam apresentadas com base em critérios legítimos, calcadas em raciocínios razoáveis e compreensíveis pelos participantes.10 1.4.4 1.4.5 1.5 Fechamento O fechamento da negociação é o conjunto de ações por onde se busca concretizar e formalizar os resultados obtidos em decorrência das fases de preparação, de criação com identificação de interesses, opções e critérios legítimos, e na distribuição daquilo que se obteve, em um compromisso. Os advogados necessitarão de especial atenção nessa fase, para que a ansiedade pela formalização do compromisso não comprometa a sua precisão e exequibilidade. Perguntas podem servir de norteadores de um compromisso bem formalizado. O quê? Por quê? Quanto? Quem? Como? Onde? Quando? O objetivo de tais perguntas é o de assegurar-se de que o compromisso está bem estruturado, ou seja, se mostra ao mesmo tempo “exequível, exigível, prático e duradouro”.11 Reconstrução Negociadores possivelmente se reencontrarão e corporações provavelmente voltarão a negociar entre si. Relacionamentos interpessoais, interempresariais e internacionais estreitam-se em negociações continuadas. Um acordo não é apenas um negócio. O processo não se encerra com a assinatura de um compromisso. Relacionamentos podem estar sendo restaurados, reconstruídos. Reputações podem ter sido resgatadas. Atitudes simples podem contribuir para a consolidação de bons relacionamentos, traçando caminhos para negociações futuras: elogiar o desempenho e a integridade dos outros negociadores, reconhecer seus méritos quanto ao resultado obtido, afirmar a legitimidade do acordo, e propor um brinde, confirmam os avanços na qualidade da comunicação e do relacionamento interpessoal. O que se busca, numa negociação baseada em princípios, é a satisfação de todos os envolvidos. Aspectos da Teoria dos Jogos Aqui pudemos verificar que a negociação baseada em princípios contempla jogos de ganha-ganha. Qualquer negociação, conciliação ou mediação pode fracassar, 12 dentre outros motivos, quando as partes e os advogados considerarem uma vitória sobre a outra como a única opção adequada. Consoante a matemática da teoria dos jogos, há jogos ou relações de soma “zero” e jogos ou relações de soma “não zero”. Jogos ou relações de soma “zero” ocorrem quando o antagonismo é supostamente absoluto, como num jogo de xadrez, em que os dois lados não podem igualmente vencer. São jogos não cooperativos, porque um jogador não agregará valor algum de utilidade se cooperar com o outro. Essa lógica é, em tese, aplicável a conflitos entre pessoas que não têm vínculos de convivência e não se veem como interdependentes. Pessoas que não se sentem no dever ou inclinadas a colaborar. Esta é uma meia verdade. Ponderamos que, a rigor – salvo situações cruéis de violência –, não há antagonismos absolutos nas relações humanas. De modo geral e em certo nível costumam-se observar limites éticos, condicionamentos culturais, intuições antropológicas, em face de algum sentimento-ideia de relativa interdependência. Nesse sentido, estará presente algum nível de cooperação na competição. O resultado de ganho ou de perda de uma decisão necessariamente depende da movimentação de dois negociadores concorrentes, o que torna a tomada de decisão bem mais complexa. Isso porque cada um precisará saber quais são os ganhos ou as perdas na combinação de tomadas de decisões e identificar quais seriam os incentivos mais atraentes para o seu adversário, sabendo que ele também está imaginando quais seriam os seus ganhos para também tomar uma decisão. Por isso, a melhor alternativa seria: antes de tomar uma decisão, colocar-se no lugar do outro e imaginar qual seria a reação dele diante de ações e incentivos existentes. Planeje. Tenha em conta que ele fará o mesmo. Procurará entender quais são suas motivações e ações para que ele tome a melhor decisão. Este é o ciclo sistêmico, sem fim, que poderia ser assim enunciado: você pensa que ele pensa que você pensa que ele pensa que... Teoria dos Jogos é isso: entender que sua decisão não é independente e ambos os ganhos dependem da combinação de muitas ações em cadeia até chegar em um equilíbrio. Este equilíbrio é o chamado Equilíbrio de Nash, em homenagem a John Nash Jr., prêmio Nobel de 1994 e que foi interpretado por Russell Crowe no filme Uma Mente Brilhante, ganhador do Oscar de 2002. Por isso que a Teoria dos Jogos é o estudo formal das expectativas racionais e consistentes de que os participantes têm sobre as escolhas dos outros. É, porém, uma demonstração matemática, abstrata e dedutiva sobre as condições em que a sua decisão é considerada racional, consistente ou não contraditória, e não um estudo empírico de como as pessoas tomam decisões em um caso concreto. Jogos considerados competitivos, a exemplo do futebol, do vôlei, do basquete, supõem a competição pela vitória e a cooperação pela criação de condições à existência de um espetáculo de qualidade, instigante, a partir da interdependência em relação aos benefícios técnicos e econômicos que viabilizem o surgimento de uma plateia, a notoriedade dos atletas e a viabilidade financeira das instituições organizadoras. Onde está aí a “soma zero”? Estas não seriam hipóteses de competição cooperativa, em que se têm competição pelo resultado do jogo e cooperação pelo sucesso do empreendimento? Não conseguimos imaginar, salvo situações extremas, jogos de soma absolutamente zero; com zero de cooperação. Daí por que a negociação de conflitos, mesmo quando episódica, “entre estranhos”, pode ser, de algum modo, competitivo/cooperativa. Como num ganha-perde hipotético, que concretamente comporta alguma cooperação. Os jogos deontologicamente tidos como de soma “não zero” envolvem situações em que os oponentes convivem e persistem na convivência, pois 2. 2.1 aí fica mais evidenciada a compreensão da interdependência e da necessidade comum a ser atendida numa perspectiva de “ganha-ganha”. Com efeito, a consequência matemática de tal teoria é a demonstração de que, em face de um jogo ou relação de soma “não zero”, as soluções de ganhos mútuos são mais exitosas e, portanto, lucrativas. O frescobol é um jogo em que fica evidenciada a prevalência da colaboração sobre a competição, sendo isto o que caracteriza a dinâmica dos jogos/relações de soma “não zero”. Pais e filhos, em sua família, preferencialmentepraticam, em sua convivência conflituosa, jogos de ganha-ganha, ou de soma não zero. MODELOS DE MEDIAÇÃO DIRECIONADOS AOS INTERESSES Mediação facilitativa (ou tradicional de Harvard) A mediação facilitativa – definida como uma negociação com apoio de terceiro imparcial, denominado mediador – adotou, enfim, todas essas técnicas desenvolvidas pela Escola de Harvard. Esse modelo direcionado aos interesses e baseado em princípios inspira o andamento processual de outros modelos, inclusive modelos direcionados à relação. Assim, a mediação facilitativa, em seu andamento processual, é referência para os demais modelos de mediação. O procedimento inicia-se com a apresentação das partes e do mediador; seguem-se as explicações sobre o que é e como se processa a mediação; em sucessivo, os mediandos narram o problema e são questionados equitativamente; procura-se fortalecer a colaboração para que eles evoluam das posições iniciais para a identificação dos interesses comuns subjacentes, colaborem as opções e cheguem, quando possível, a um acordo fundado em dados de realidade. As entrevistas de pré-mediação são recomendadas, embora eventualmente dispensáveis, sendo admitidas as reuniões em separado (cáucus) do mediador com cada um dos mediandos, com o objetivo de facilitar o desbloqueio de impasses. Na realidade, seja qual for a escola ou modelo de mediação, o mediador deve atuar, antes de tudo, como facilitador. E, enquanto tal, não cabe a ele indicar a solução do problema, que deve ser buscada pelas partes ou mediandos, com a colaboração, a facilitação, que um bom mediador propicia. O mediador, portanto, não deve tomar dos mediandos a iniciativa, o protagonismo. As eventuais orientações do mediador devem estar voltadas para a facilitação do processo e não para a solução da disputa em si. O mediador facilitativo sabe da importância da imparcialidade e está consciente do risco de incompreensão, por qualquer das partes, na hipótese de expressar opinião pessoal sobre como a controvérsia deveria ser equacionada. Daí por que o mediador, de modo geral, desenvolve habilidades e técnicas de acolhimento, escuta ativa e perguntas circulares, justamente no sentido de criar um ambiente em que os próprios mediandos possam avançar nas reflexões decorrentes dessas dinâmicas. Nesse papel de facilitador, o mediador vai propiciando o esclarecimento e/ou contextualização do problema, contribuindo, assim, para que os mediandos possam assumir as atitudes e escolher as opções que melhor se apliquem à solução do problema que os trouxe à mediação. Tratando-se, portanto, de uma dialética, não nos filiamos aos que costumam denominar esse modelo de mediação linear. Temos percebido, contudo, que não são raras as situações em que mediandos e até mesmo advogados solicitam do mediador que este os oriente, de algum modo, sobre alternativas, principalmente quando o mediador é um especialista no conhecimento jurídico, psicológico ou em outra profissão. Quando tais solicitações são efetuadas, deve o mediador checar se esta é uma solicitação de todos – notadamente quando percebe que elas decorrem de um processo bem conduzido até então. Nestas 2.2 condições, nada obsta que haja essa mudança para uma abordagem avaliativa. Um dos teóricos que mais estudam as circunstâncias que justificam uma eventual comutação de conduções facilitadoras (provocativas) em avaliadoras (orientadoras), e vice-versa, é Leonard Riskin.13 As experiências e pesquisas daquele autor, no ambiente dos Estados Unidos da América, levaram-no a afirmar que: “O processo de tomada de decisão em uma mediação detém – ou pode deter – oportunidades infinitas de aprendizagem, mudança de metas e procedimentos e mudança de métodos para alcançar objetivos. O resultado depende, em parte, das intenções, da consciência e da flexibilidade de todos os participantes”. Conciliação ou mediação avaliativa A exemplo do que ocorre em qualquer negociação mediada por um terceiro imparcial, na Conciliação o conciliador é esse terceiro que medeia, procurando obter o entendimento entre as partes. Portanto, conciliação é mediação. Com efeito, não é o nome que se dá a um instituto o que caracteriza a sua natureza, mas é a sua natureza aquilo que o caracteriza. A natureza da conciliação é a da mediação de conflitos. O conciliador é o terceiro que apoia a negociação entre os mediandos. O que a distingue de outros modelos de mediação não é a sua natureza, mas as suas particularidades, ou algumas das suas particularidades procedimentais. Ainda a propósito do nome conciliação, trata-se de uma opção vocabular tradicional, que designa a natureza do procedimento pelo nome do resultado pretendido. Em verdade, toda mediação tem, mediata ou imediatamente, o sentido de criar condições para o entendimento entre as partes, com vistas a uma conciliação. Nessa perspectiva finalística, toda mediação poderia também ser nomeada como conciliação. Tenhamos, portanto, muito claro que o modelo de mediação focado no acordo, denominado conciliação, é fruto de uma tradição do direito, especialmente nos ambientes judiciais, que ficou agregada ao sistema oficial de administração da justiça, com seus procedimentos específicos, que o fazem distinto de outros modelos de mediação. Ademais, é cediço que as disputas podem ser conduzidas por métodos heterocompositivos, em que o terceiro decide (decisão judicial, decisão arbitral, decisão administrativa), ou por métodos autocompositivos, em que o terceiro apenas contribui para que os envolvidos cheguem a um entendimento (vários modelos de mediação, dentre os quais a conciliação). Portanto, a conciliação é, indiscutivelmente, uma espécie do gênero mediação. Esse modelo é praticado em outros países, sendo também conhecida como mediação avaliativa. Integra o campo da condução autocompositiva de disputas mediadas por um terceiro. Todos os modelos de mediação estão situados no plano da concretização transdisciplinar e, portanto, num plano que acolhe o sentimento, não se confundindo, pois, com operações quase lógicas de balizamento dos dados da realidade jurídica (interpretação). Conforme Warat, “quando as pessoas interpretam (interpretar é redefinir), escondem- se ou tentam dominar (ou ambas as coisas). Quando as pessoas sentem sem interpretar, crescem”.14 Quais seriam, então, as particularidades procedimentais desse modelo? A primeira é a de que se trata de procedimento tradicionalmente adotado em complemento ao processo judicial, pelo próprio julgador ou por pessoa autorizada, a serviço daquele juízo. A segunda particularidade está no fato de que se trata de modelo direcionado ao acordo, aproximando-se, nesse aspecto, da mediação facilitativa. A terceira está na circunstância de que, geralmente, os conciliadores não são escolhidos ou submetidos a um juízo de aceitação pelas partes envolvidas, pois já estão predeterminados naquela função. A quarta está em exercerem ativismo que redunda em certa ascendência hierárquica durante as sessões, reduzindo as possibilidades do protagonismo. A quinta particularidade é que a conciliação, conforme praticada, tradicionalmente, no Brasil, não previa entrevistas prévias ou incidentais, em separado. Finalmente, porque os conciliadores – naquela situação de ascendência hierárquica do ambiente judicial – costumavam induzir as partes ao acordo. Para reduzir esses aspectos limitantes e qualificar a condução do conflito, pensamos que os conciliadores deveriam ser previamente capacitados e testados em técnicas e habilidades de mediação facilitativa. Com efeito, a qualidade de uma mediação avaliadora (conciliação) depende da maestria com que o mediador atua como facilitador, nas primeiras etapas do procedimento, deixando eventual orientação para momento posterior, quando se está a buscar opções, tendo em conta as circunstâncias que vão sendo reveladas no processo e, especialmente, a vontade dos mediandos e a influência dos seus advogados. A orientação (avaliação) prestada nessas circunstâncias pode inclusive estimular o surgimento de novasopções de iniciativa dos mediandos. Nem mesmo eventual obrigatoriedade compromete a conciliação. No Canadá, por exemplo, a mediação prévia é condição para acesso ao Judiciário. As partes e seus advogados precisam comprovar que participaram do processo de mediação, independentemente do modelo adotado. As práticas facilitativas, avaliativas e transformativas são adotadas, conforme a necessidade de cada caso. Quando se busca o conhecimento especializado do mediador, o interesse das partes é no sentido de que este atue de modo avaliativo, tal como um conciliador. A colaboração entre mediadores e advogados é mais estreita; até porque, em ambientes judiciais, ou em ambientes empresariais, são comumente esperados mediadores especialistas, com formação jurídica ou em outro campo do conhecimento, conforme as necessidades do caso. Em função dos resultados obtidos, prevalece o entendimento de que as pessoas podem preferir, em certas circunstâncias, um mediador avaliativo ou conciliador.15 Tecnicamente, na conciliação, tal como nos demais modelos de mediação, são aplicados os princípios do diálogo regrado, sendo o conciliador, antes de tudo, um facilitador, em ambiente relacional e equitativo, intercambiando fatos, sentimentos e ideias do mundo da vida, não sendo ele, ali, precipuamente, um intérprete de leis, pois apenas lhe cabe participar do esforço coletivo em busca de solução consensual. Com esse inquestionável caráter dialético, a conciliação trabalha nos planos do conteúdo e da forma, interdisciplinarmente, mesmo quando está mais presente a disciplina jurídica. Não concordamos, pois, com os respeitáveis argumentos daqueles que entendem ser a conciliação um atendimento caracterizado pela monodisciplinaridade.16 Essas preocupações teóricas são menos acentuadas entre os europeus, que destacam a capacitação, a ética, a maturidade e as condições de trabalho do conciliador como a questão central a ser cuidada. Portanto, entendemos que já é tempo de superarmos aquela ideia de que a conciliação seria, necessariamente, um modelo impróprio de autocomposição de conflitos. Imprópria é sua fama de ilegitimidade, em função da pressa (que “aniquila o verso”) e do antigo despreparo dos conciliadores, em ambiente judicial de litigiosidade, quando inexistente a consciência do papel pedagógico das soluções consensuais para o desenvolvimento da cidadania. Esta visão mais aberta norteia as novas tendências da mediação judicial no Brasil, conforme o excelente trabalho conduzido por André Gomma, Roberto Bacelar e Marcelo Girade, dentre outros, com os apoios do Conselho Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça e das Nações Unidas.17 Deve-se destacar, enfim, que a conciliação – modelo direcionado ao acordo –, desde que bem conduzida, tem grande praticidade e oportuniza soluções rápidas e efetivas para disputas pontuais e divergências jurídicas especialmente entre pessoas sem vínculos continuados de convivência. 3. 3.1 Como refere Eliana Riberti Nazareth,18 os juizados especiais estão repletos de conflitos com essas características, a exemplo dos conflitos de trânsito e de consumo. Nestes, a questão relacional não é prioritária, pois o interesse em reparações materiais é o foco natural e imediato da disputa. Daí por que não se deve afirmar que a conciliação – modelo direcionado ao acordo – que prioriza as questões materiais, objetivas, seja menos adequada do que uma mediação transformativa – modelo direcionado à relação. Tudo vai depender das circunstâncias da disputa. Conforme o art. 165, § 3º, do CPC, sob os princípios da boa-fé, da cooperação e da duração razoável do processo, o conciliador atuará preferencialmente nos casos em que não tenha havido vínculo anterior entre as partes e poderá sugerir soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem. Convém, finalmente, destacar que a mediação avaliativa – embora uma variável da conciliação – é praticada em perspectiva mais ampla em outros países; notadamente nos conflitos empresariais, haja vista que os empresários costumam escolher mediadores especializados no tema do conflito que será mediado, porque estes, em função dos seus conhecimentos especializados, poderão, no momento oportuno, oferecer boas sugestões, facilitando a criação de opções mais adequadas à solução do caso. MODELOS DE MEDIAÇÃO DIRECIONADOS À RELAÇÃO Mediação circular-narrativa Foi Sara Cobb quem primeiro desenvolveu este modelo de mediação. Em artigos como “A pragmática do protagonismo em mediação: uma perspectiva narrativa” e “Uma perspectiva narrativa em mediação: para a materialização da metáfora narrar histórias”, distribuídos aos alunos nos cursos de capacitação de mediadores em vários países, inclusive no Brasil, e por meio de inúmeros outros artigos de ampla divulgação, tornou-se conhecida a mediação circular-narrativa. Trata-se de todo um processo criativo decorrente da agregação ao modelo facilitativo, tradicional, de Harvard, de aportes da teoria geral dos sistemas, muito especialmente da terapia familiar sistêmica, da cibernética de primeira e segunda ordem, da teoria do observador, da teoria da comunicação, da teoria da narrativa etc. Nesse modelo, a obtenção do acordo deixa de ser o objetivo prioritário para se tornar uma possível consequência do processo circular-narrativo. Parte-se do reconhecimento da importância da arte da conversa – vista como talvez o aprendizado mais transcendental que praticamos. Essa troca nos permite adquirir outros aprendizados. Aprendemos e desenvolvemos a nossa própria arte de conversar com outros seres humanos. Assim, sentir, pensar e fazer se completam em narrações ou histórias. E a mediação é concebida, então, como um processo conversacional, que se dá na comunicação. Nessa perspectiva, o único material com que contamos nas mediações é o nosso processo conversacional. Comunicação analógica (não verbal) e comunicação digital (verbal) integram-se no processo de conversar. Assim, conforme refere Marinés Suares,19 nossa tarefa como mediadores é: 1) desestabilizar as histórias; 2) possibilitar que se construam novas histórias. É nesse sentido que devem ser aplicadas as técnicas, sempre com a perspectiva de que é mais importante a sua assimilação pelos mediandos do que a sua mera aplicação. De que adianta uma reformulação, uma conotação positiva etc., se estas forem rechaçadas pelos mediandos? Eis, adiante, o conjunto (enunciativo e, portanto, não taxativo) de técnicas utilizadas no modelo circular-narrativo, englobando as denominadas microtécnicas (aplicadas sobre o aspecto inicial das narrativas), as minitécnicas (aplicadas sobre desdobramentos mais amplos das narrativas, mas ainda não sobre a sua totalidade), as técnicas 3.1.1 propriamente ditas (que permitem a construção da história alternativa desestabilizadora das histórias prévias) e as macrotécnicas (confluência de todas as técnicas no encontro de mediação), na classificação adotada por Marinés Suares.20 Microtécnicas (fase inicial das narrativas) As microtécnicas são aplicadas de dois modos: interrogativo e afirmativo. O modo interrogativo diz respeito às perguntas informativas (para obter esclarecimento) e às perguntas desestabilizantes e/ou modificadoras (para estimular a recontextualização). As perguntas informativas: 1) viabilizam um melhor conhecimento dos saberes dos mediandos e 2) ajudam a esclarecer aspectos das informações recebidas. As perguntas desestabilizantes e/ou modificadoras objetivam contribuir para que os mediandos: 1) reflitam sobre o conteúdo da disputa; 2) reflitam sobre a relação; 3) produzam novos questionamentos; 4) assumam o protagonismo; e 5) compreendam a interdependência entre os elementos que compõem a mútua influência (causalidade circular) dos elementos entre si e sobre a totalidade do sistema/conflito. O modo afirmativo dessas microtécnicas pode ter os seguintes significados: 1) Reformulação: consiste em afirmar com outras palavras o que foi dito por algum dosmediandos, com vistas a facilitar o encaminhamento do diálogo; 2) Conotação positiva: é uma espécie de reformulação centrada em ressaltar as características e qualidades positivas de determinada fala. Trata-se de uma linguagem apreciativa; 3) Legitimação: trata-se de uma conotação positiva das posições da partes, no sentido de facilitar a compreensão do padrão relacional circular, para além das posições (rígidas) como vítima/ofensor, virtuoso/vicioso; 4) Recontextualização: embora seja a contextualização um efeito de todo o processo, é possível o desenvolvimento de afirmações enquanto 3.1.2 a) microtécnica que contribuam para recontextualizar o problema de modo mais abrangente, menos abrangente ou apenas diferente. Minitécnicas (desdobramentos, resumos, equipe reflexiva) As chamadas minitécnicas, normalmente aplicadas no processo de mediação, abrangem a externalização, os resumos e a equipe reflexiva. Externalização: é uma das técnicas extraídas do campo da terapia familiar sistêmica, desenvolvida por Michael White e David Epston, criadores da chamada terapia narrativa, que vê a terapia como um processo que se dá “nas narrativas e através delas”. Esse processo foi dividido em várias etapas sucessivas ou simultâneas, como segue: a) Condensação do problema: especificação do problema como algo externo ao self individual, da família, da instituição ou da comunidade; b) Nominalização do problema: é importante que os mediandos coconstruam um nome para o problema, que permita a ambos se sentirem legitimados, que não gere culpa e que conote o problema de forma negativa; c) Separação do problema objetivo das questões das pessoas ou das relações: é uma continuidade da nominalização do problema, no sentido da externalização, passo a passo, de cada uma das suas características; d) Conotação negativa do problema: o problema deve transformar-se na ameaça a ser enfrentada pelas partes. Os dois ou mais mediandos devem enfrentar o problema e não se enfrentar entre eles. Nesta etapa, devem ser feitas perguntas circulares que contribuam para que se perceba que essa ameaça não é estática e que os mediandos podem realimentar essa “coisa”, fazendo-a sobreviver e se desenvolver. Tal abordagem ajuda a alertar os mediandos para as suas responsabilidades e protagonismo; e) Internalização do protagonismo: uma das b) c) maneiras mais efetivas de lograr a internalização é ajudando as partes a buscar os chamados “acontecimentos extraordinários”, por intermédio de perguntas estimuladoras de histórias que permitam aos mediandos vislumbrar outras possibilidades que eles próprios dispõem, dispuseram ou que podem dispor na luta contra o problema. Os elementos dessas narrativas devem concorrer para a internalização do protagonismo. Resumo: em vários momentos das reuniões conjuntas (públicas), ou mesmo das reuniões individuais (privadas), os mediadores devem aplicar essa “minitécnica”, como resultante das “microtécnicas” precedentemente adotadas. Qualquer resumo deve: a) utilizar a fala das partes; b) utilizar reformulações com suas conotações positivas; c) cuidar para que todos os mediandos fiquem legitimados ou positivamente posicionados; d) produzir ou tentar produzir uma recontextualização. Equipe reflexiva: trata-se da possibilidade de se contar com uma equipe para acompanhar, na própria sala ou em uma retrocâmara, o trabalho dos mediandos e do mediador acompanhado ou não de comediador. Essa técnica foi criada pelo terapeuta norueguês Tom Andersen e consta do seu livro El equipo reflexivo (Barcelona, Gedisa, 1994). Num primeiro momento, conforme destaca Marinés Suares, a equipe reflexiva apenas escuta as histórias que são contadas pelos mediandos e observa a comunicação não verbal (analógica) entre as partes e entre elas e/ou os mediadores. Neste momento, não devem falar entre si, mas refletir sobre outras possíveis formas de descrever ou explicar o que os mediandos estão descrevendo ou explicando, limitando-se ao que estão presenciando, evitando reflexões sobre a pessoa do mediando. Num segundo momento – a pedido da equipe reflexiva ou do mediador, mas sempre com prévia anuência deste – dá-se início a 3.1.3 uma conversação entre a equipe reflexiva e o(s) mediador(es). Os mediandos são convidados a escutar o que a equipe reflexiva diz. Os integrantes da equipe conversam entre si e com o mediador, mas nunca se dirigem aos mediandos. Não podem sequer olhar para eles, pois toda a atenção deverá estar voltada para o mediador. Em não havendo uma equipe reflexiva, o próprio mediador, neste caso, sozinho, num monólogo em voz alta, consoante perguntas que ele se faça e responda, ou em conjunto com o comediador, pode fazer as vezes de uma equipe reflexiva. Essa minitécnica deve estar apoiada numa epistemologia baseada na teoria do observador, que contempla a possibilidade de diferentes versões para os fatos, descrições e explicações apresentadas. Tais reflexões nunca devem ter por objeto as pessoas, mas apenas o material das conversações. Podem ser feitas associações com situações semelhantes, deve-se adotar conotação positiva, que contribua para a legitimação dos mediandos em suas posições, evitando-se resumos que fechem a questão. O mediador, responsável pelo processo, pode, a qualquer momento, solicitar à equipe reflexiva que suspenda as suas reflexões. O mediador também pode solicitar aos mediandos que comentem o que escutaram, salvo quando o próprio mediador, com ou sem comediador, tenha desempenhado o papel da equipe reflexiva. Deve-se destacar que essa técnica é menos praticada, haja vista o seu custo e suas dificuldades na formação de uma boa equipe reflexiva. Técnica (contextualização da nova história) Quanto à técnica propriamente dita, ou técnica da história alternativa (que busca a construção da história alternativa desestabilizadora das histórias prévias), trata-se esta da questão central do modelo circular- narrativo de mediação. É fundamental que o mediador entenda a sua razão de ser, a fundamentação teórica em que se apoia e o objetivo que pretende 3.1.4 alcançar com a sua aplicação. Quanto mais fechadas ou extremadamente coerentes estiverem as histórias dos mediandos, ou há pouca interação entre eles ou estão demasiadamente expandidos em histórias arquetípicas das culturas a que pertencem, aumentando as dificuldades do mediador. Essa técnica é praticada na terceira etapa do encontro de mediação, conforme o modelo circular-narrativo (mais adiante resumiremos essas etapas). Todas as técnicas anteriormente comentadas devem ser utilizadas na construção da história alternativa e desconstrução das histórias de origem. Segundo Marinés Suares, a melhor história alternativa não é a que seja mais real, porém aquela que permita maiores aberturas, desenhe mais saídas, abra mais caminhos para que os mediandos possam dar início à negociação, recuperando a capacidade perdida, encarcerada nas histórias prévias. Tal como em todo o processo de mediação, devem buscar os mediadores que os mediandos compreendam e não apenas entendam o outro, ainda quando não concordem com os seus argumentos. Macrotécnica (o conjunto circular-recursivo das abordagens) Finalmente, quanto à chamada macrotécnica do encontro de mediação (ou confluência de todas as técnicas no encontro de mediação), deve-se dizer que se trata do próprio processo de mediação. Esse encontro de mediação, em que as reuniões individuais têm presença privilegiada, consoante o modelo circular-narrativo, foi sendo aperfeiçoado por Sara Cobb. Um dos motivos foi a constatação da influência da primeira narrativa sobre a subsequente e sucessivamente, fenômeno este por ela denominado “colonização das narrativas”. O encontro de mediação compõe-se de pré-reunião, primeira etapa da reunião conjunta, segunda etapa na forma de reuniões individuais, terceira etapa como reunião da equipe e quarta etapa como reunião conjunta de fechamento. Mas, como veremos adiante, sem apegos a formas, pois os sentimentos e circunstâncias narrativas vão ditando o encontro de mediação.3.1.5 3.2 Particularidade do modelo circular-narrativo A mais destacada particularidade do modelo circular-narrativo, a nosso ver, está na condução dos mediandos no sentido da desconstrução ou desestabilização das narrativas iniciais, priorizando, desde o início, reuniões individuais, com vistas a evitar, nesse momento, a colonização das narrativas. A escuta das narrativas alterna-se com as perguntas de esclarecimento e de recontextualização e/ou afirmações com objetivos semelhantes. Desde a primeira reunião conjunta, logo após os esclarecimentos e recomendações iniciais, o mediador solicita a apresentação de alternativas, já trabalhando a circularidade e a interdependência. Outra particularidade é a conotação negativa do problema: o problema deve transformar-se na ameaça a ser enfrentada pelas partes. Os dois ou mais mediandos devem enfrentar o problema em vez de enfrentarem-se. A meta inicial do mediador e as suas primeiras frases devem estar voltadas para definir a questão como um problema compartilhado, na perspectiva de que a mediação é uma oportunidade para trabalhar sobre os problemas. A equipe reflexiva é uma característica deste modelo de mediação. Outra particularidade é que as reuniões privadas ou individuais constituem etapas e não meras possibilidades ditadas pelas circunstâncias do caso, como ocorre em outros modelos. Mediação transformativa É inquestionável a contribuição da Escola de Harvard para o subsequente desenvolvimento de novos modelos mais ajustados à compreensão da complexidade, da instabilidade e da intersubjetividade, consideradas como dimensões do novo paradigma da ciência. A mediação transformativa foi buscar nas experiências anteriores alguns dos seus procedimentos. Na transição para a mediação transformativa deve ser considerada, também, a importante contribuição da mediação sistêmica, que teve seu maior desenvolvimento na área dos conflitos familiares, a partir da 3.2.1 terapia sistêmica de família ou de casais, conforme refere Vezzulla.21 A contribuição mais notável desse modelo deu-se em matéria de comunicação, com a adoção de técnicas para aperfeiçoar a escuta do mediador, a verificação mediante perguntas, o espelhamento e a adoção de resumos que auxiliam o aprimoramento da comunicação. A mediação transformativa acolhe, portanto, técnicas da mediação facilitativa, aspectos da terapia sistêmica de família e os elementos do paradigma da ciência contemporânea, tais como a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade, que comentaremos no Capítulo 10. Reforça a importância da pré-mediação e dos conceitos e procedimentos em torno de posições, escutas, questionamentos, espelhamentos, apropriações, prevalência do aspecto intersubjetivo do conflito, resumos, integrações, interesses, opções, dados de realidade e acordos subjacentes. Capacitação e empatia Na mediação transformativa o foco inicial está na apropriação (“capacitação”, “autoafirmação”, fortalecimento, “empoderamento”) dos mediandos, de modo que esses atores – pessoas, grupos, comunidades – recuperem reflexivamente seu próprio poder restaurativo, afastando-se de modelos em que um “expert” decide “conceder” poder às pessoas “objeto”. Ela também pode ser conceituada como um método/processo coevolutivo de afirmação e transformação, com a colaboração de mediador, sem hierarquia, da apropriação à integração, recursivamente, para viabilizar o reconhecimento das diferenças, a identificação dos interesses e necessidades comuns, opções, dados de realidade e o entendimento (acordo). Joseph Folger e Barush Bush22 lembram que, nos anos setenta, estudiosos de vários campos do conhecimento, incluindo as ciências políticas e o direito, foram percebendo que a visão individualista do mundo, que definiu e circunscreveu o papel das nossas instituições, estava sendo substituída por uma visão relacional, que sugere a importância de se desenvolver instituições com papéis ampliados, social, cultural e ecologicamente. Instituições enquanto instrumentos não apenas para a proteção dos direitos e liberdades individuais, mas também para o desenvolvimento da comunidade cívica e interconexão humana. Os referidos autores, a partir do livro A Promessa da Mediação, de 1994 (revista e ampliada em 2005, com enfoques sobre teoria e espiral do conflito), passaram a focar nos padrões intersubjetivos de relações continuadas, rompendo com certa ideologia individualista presente nas práticas da mediação nos Estados Unidos. Passaram a mostrar como os mediadores podem seguir, conscientemente, uma abordagem que permite e ajuda as partes a aproveitarem as oportunidades que o conflito apresenta para a capacitação (autodeterminação) e construção da empatia (reconhecimento). Tais autores, que trabalham e desenvolvem a mediação transformativa, argumentam que um enfoque na capacitação (autodeterminação) caracteriza que o mediador observa pontos do procedimento em que os mediandos, ainda autocentrados em função do conflito, têm a oportunidade de se apropriarem de uma maior clareza em relação a seus objetivos, recursos, opções e preferências. Então, o mediador vai trabalhando com essas oportunidades, por intermédio do apoio aos processos mentais e emocionais dos próprios mediandos em direção ao esclarecimento e à tomada de decisões. Alegam que um enfoque na empatia (reconhecimento) caracteriza que o mediador observa em que medida os mediandos enfrentam a consideração da perspectiva, pontos de vista e experiências do outro. E o mediador vai trabalhando para o estímulo dos esforços dos mediandos em busca de uma compreensão compartilhada. É nesse sentido que a mediação é potencialmente transformadora; por oferecer aos mediandos a oportunidade de desenvolver e integrar, pela interação, suas capacidades de autodeterminação e de reconhecimento. 3.2.2 Contudo, é preciso ter em conta que autodeterminação e reconhecimento não compõem uma dualidade. Integram, sim, uma circularidade, que passa por seu necessário pressuposto: a interação. Vimos que a interação é conflituosa e que essa conflituosidade se manifesta de modo explícito, especialmente quando as acomodações hierárquicas não são opressivas. Qual seja, quando não se está sob “a paz dos cemitérios”. Assim, as interações são o pano de fundo das autodeterminações e dos reconhecimentos, ou dos seus contrários. Portanto, ao escutar e questionar os mediandos, o mediador deve focar a interação, o padrão de interação, enfim, o modo como o conflito é construído e o seu potencial de conversão em confronto e violência; pois a abordagem não é individualista, mas relacional. Cada um de nós é alguém diferente em função daquele com quem nos relacionamos. A mediação transformativa pode constituir a oportunidade de romper padrões relacionais e transformar a natureza destrutiva daquele determinado conflito. Identificar a natureza da interação é o caminho para a identificação dos interesses, expectativas e valores comuns subjacentes. Assim, as perguntas a serem formuladas pelo mediador devem ser apenas relacionais. Ao explorar a relação, estará sendo reforçada a autoafirmação dos mediandos e abrindo-se a porta do reconhecimento. A mediação opera uma ética de alteridade, enquanto acolhimento da diferença que o outro é na relação e no mundo da vida. Essa ética de alteridade incide sobre um fenômeno circular e dialético, que nasce da relação, substancializa-se pela autodeterminação e se integra, construtivamente, pelo reconhecimento. Esse foco na interação e em suas mudanças é o chamado “microfoco” a ser praticado pelo mediador, pois a mediação transformativa justamente enseja a transformação dessa interação. Padrões de interação Stephen Littlejohn e Kathy L. Domenici23 recomendam que, a fim de colaborar para a obtenção de resultados transformativos, os mediadores devem aprender a pensar na disputa em termos sistêmicos e consoante abordagens múltiplas. Em primeiro lugar, os mediadores precisam procurar conexões. Os eventos na disputa devem ser vistos como parte de algum padrão maior. E nunca há apenasum padrão. O que está ocorrendo entre pessoas e não é criação de apenas uma delas. Portanto, o argumento de um mediando é parte de um episódio; é parte de uma relação ou de uma série de interações que, juntas, definem o self da relação, produto inacabado de muitos padrões. Em segundo lugar, os mediadores devem observar as regras implícitas em cada um desses padrões. Como em gramática, as afirmativas que fazem parte de um sistema de interações que incluem um vocabulário de direitos, deveres, obrigações, proibições, possibilidades etc. Essas regras, esses códigos de conduta, dão forma e estrutura à realidade que vai sendo criada e, ao mesmo tempo, constituem um indicativo de como se comportar em cada situação. Em terceiro lugar, o mediador deve, ainda, perceber que esses padrões, regras e códigos de conduta estão situados num contexto ou conjunto de contextos. O conjunto de regras pode variar de um contexto para outro, que podem estar relacionados a outros contextos. É importante observar de que forma esses contextos se relacionam, se reforçam ou se repelem. Em quarto lugar, o mediador deve perceber que um sistema de interações constitui ações interligadas, e deve observar como uma ação se liga à outra. Em quinto e último lugar, deve o mediador ter em conta que os eventos de um sistema são cíclicos e refletem uns aos outros. Não se deve assumir determinado ponto de vista a respeito de um sistema com base em padrões causais simples. Será necessário compreender os circuitos causais complexos em sua causalidade mútua. Ao perceber esses eventos e adotando questionamentos, resumos e espelhamentos, com instantes em que pratica o apoio e instantes em que pratica um afastamento, o mediador pode ajudar os mediandos a ultrapassarem padrões de interação repetitivos e insalubres. Para todas essas conduções, também são adotadas as seguintes técnicas: a) Verificação: este é o modo como o mediador pode obter a opinião dos mediandos a respeito de como devem atuar no procedimento ou de como estão se sentindo em cada momento. Esse modelo de mediação não é compatível com regras preestabelecidas. Nos esclarecimentos de abertura da mediação, as diretrizes serão construídas com os mediandos. A atitude diretiva do mediador, comum em outros modelos, não é acolhida neste. No entanto, quando os mediandos estiverem confusos e pedirem, o mediador poderá comentar sobre como tem sido produtiva a prática da colaboração durante o procedimento. Essa verificação poderá ser praticada em qualquer instante do procedimento. Exemplo: uma das partes faz afirmações que podem ter causado mal-estar à outra. O mediando pode perguntar à outra parte se ela está confortável com essa situação, ou o que ela gostaria que acontecesse para se sentir mais motivada e tranquila. Como o processamento da conversa deve ser o mais autêntico e natural, o mediador não deve reformular ou reenquadrar as afirmações de quem quer que seja. Que fluam livremente os sentimentos, pois este é o caminho necessário à transformação, que se dá na interação. b) Espelhamento: é quando o mediador olha nos olhos e fala de volta ao mediando o que ele acaba de dizer, usando palavras próximas às que ele expressou. O bom espelhamento capta o tom tanto das palavras quanto do emocional do mediando que acaba de falar, com o máximo de naturalidade. A frase espelhada pode iniciar do seguinte modo: 3.2.3 “Então, para você, o que está acontecendo é que…” “...você está se sentindo...”. O espelhamento é útil para o mediador, pois reforça o seu entendimento. Também é útil para o espelhado, porque reflete de volta a sua manifestação. E é útil para o outro mediando, pois permite a ele mais tempo para a escuta. c) Resumo: os resumos são oportunidades para clarear as conversas que vão acontecendo. No enfoque transformativo, os resumos não tentam induzir no sentido de um acordo. Eles devem expressar o que cada um narrou e abrir caminho para a continuidade ou a troca de enfoque, conforme a vontade dos mediandos. Eles também servem para ajudar os mediandos quando, eventualmente enfraquecidos ou autocentrados, perdem o rumo. Como nas demais habilidades deste enfoque transformativo, o resumo não tem fins diretivos. Não deve suavizar ou diluir diferenças ou discordância. Deve ressaltar diferenças pontuais. Enfim, o resumo é frequentemente seguido da “verificação”. Particularidade do modelo transformativo O modelo transformativo, diferentemente do circular-narrativo – que se baseia na ideia da desestabilização ou desconstrução das narrativas iniciais –, tem como meta a transformação da interação entre os mediandos e o respectivo padrão relacional, mediante empoderamento e reconhecimento. Assim, as escutas e perguntas de esclarecimento ou de contextualização estão voltadas para o “empoderamento”, e não, diretamente, para a desestabilização. Nessa perspectiva, o protagonismo dos mediandos vai se ampliando à medida que vai sendo reconstruída a sua autoestima. O mediador se legitima não como um técnico, mas como um colaborador desse processo em que os mediandos constroem o debate e o diálogo. A capacitação e o consequente protagonismo responsável dos mediandos vão reforçando as possibilidades de contextualização e empatia. 1 4 5 2 3 O problema relacional e o problema material são considerados em seu conjunto, mas sujeitos a abordagens distintas, com prioridade para a superação dos bloqueios emocionais que estejam a comprometer a comunicação. Esse processo evolui com autonomia e sem amarra a etapas, pois se trata de processo informal, em que a oralidade vai construindo as suas regras e os seus resultados. Na mediação transformativa, o mediador não é diretivo, adotando, inclusive, o afastamento ou o silêncio, quando percebe que os mediandos estão discutindo ou dialogando em sua linguagem natural. A aplicação dessas abordagens transformativas tem sido muito útil ao desenvolvimento da mediação vítima-ofensor e respectivas práticas restaurativas entre vítimas, ofensores e comunidades, nos encontros e círculos restaurativos em que, como protagonistas e com o apoio de facilitadores ou mediadores, as pessoas envolvidas no conflito assumem responsabilidades, inclusive pela reparação civil, reconciliam-se pelo perdão e evitam os estigmas de uma criminalização punitiva, descompromissada com o tecido social. As práticas restaurativas em comunidades, na escola, e a Mediação vítima-ofensor são o objeto do Capítulo 8. FISHER, Roger; URY, William; PATTON, Bruce. Como chegar ao sim. A negociação de acordos sem concessões (Projeto de Negociação da Harvard Law School). Rio de Janeiro: Solomon, 3ª ed, 2014. p. 33-113. URI, William. Op. cit., p. 86-108. Op. cit, p. 15-16. FISHER, Roger e SHAPIRO, Daniel. Além da Razão. Trad. Igor Farias. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019. p. 214-215. 226p. URY, William. Supera o não: negociando com pessoas difíceis. Como fechar grandes negócios transformando seu oponente em parceiro. Trad. Regina Amarante. Rio de 6 7 10 11 12 13 15 16 17 18 19 21 22 8 9 14 20 Janeiro: Best Seller, 2012. FISHER, Roger; URY, William. Como chegar ao sim: como negociar acordos sem fazer concessões. Rio de Janeiro: Solomon, 2014. p. 60. Manual de Negociação Baseado na Teoria de Harvard. Escola da Advocacia-Geral da União – Ministro Victor Nunes Leal – Brasília: EAGU, 2017. FISHER, Roger; SHAPIRO, Daniel. Op. cit. p. 19-138. URY, William. Op.cit. p 24. N. SILVA, Alessandra Gomes; COSTA, Sergio de Freitas; H. LIMA, José Guilherme; BURBRIDGE, Richard Marc. Gestão de Negociação. Como conseguir o que se quer sem ceder o que não se deve. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 57. MOURÃO, Alessandra Nascimento Silva Figueiredo. Técnicas de Negociação para advogados. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 75. AZEVEDO, André Gomma. Fatores de efetividade de processos de resolução de disputas: uma análise sob a perspectiva construtivista. In: CASELLA, Paulo Borba; SOUZA, Luciane Moessa de (Org.). Mediação de conflitos. Novo paradigma de acesso à justiça. Belo Horizonte: Fórum,2009. RISKIN, Leonard L. Tomada de decisão em mediação: O novo “gráfico antigo” e o sistema do “novo gráfico novo”. Estudos em arbitragem, mediação e negociação. v. 4. André Gomma de Azevedo e Ivan Machado Barbosa (orgs.). Brasília: Grupos de Pesquisa, 2007. p. 129-170. WARAT, L.A. O ofício do mediador. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004. p. 26. STITT, Allan J. Mediação empresarial: aspectos jurídicos relevantes. Mediação empresarial no Canadá. 2. ed. Coordenação de Carla Zamith Boin Aguiar. São Paulo: Quartier Latin, 2010. p. 108-128. ALMEIDA, Tania. Mediação e conciliação: dois paradigmas distintos, duas práticas diversas. Mediação de conflitos. Novo paradigma de acesso à justiça. Belo Horizonte: Fórum, 2009. p. 93-102. 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Quando o procedimento de mediação é institucional, os regulamentos das Câmaras costumam determinar que, na ausência de consenso prévio das partes em relação à escolha de mediador, tal escolha fica a cargo do Centro ou Câmara de Mediação. Conforme números levantados por Daniela Gabbay, antes dessa indicação, é bem comum haver a troca de listas de mediadores para que as partes tentem chegar a um nome de consenso, sendo que, na maioria dos casos, as partes escolhem o mediador consensualmente; não sendo praxe contratarem comediador.1 O procedimento pode variar em função do modelo de mediação utilizado e, também, das circunstâncias do caso ou do estilo do mediador. Aqui procuraremos expor, inicialmente, um procedimento alinhado com os princípios da Escola de Harvard, que contempla ou serve de referência para os vários modelos. Com efeito, em todos os modelos buscam-se soluções de ganha-ganha, direcionadas à identificação de necessidades ou interesses comuns e contraditórios, em atuação colaborativa na busca de opções legítimas, baseadas em princípios ou critérios objetivos, com variações metodológicas, a depender da maior ou menor ênfase nas questões normativas, comportamentais ou psicológicas. Ocorre que, em face da sua informalidade e oralidade, a rigor, não há etapas, mas um roteiro que ajuda o mediador a seguir uma sequência de técnicas e habilidades, para a evolução do processo, num encadeamento que vai das atitudes e providências iniciais até o final da mediação, com ou sem formalização de um acordo. Esta observação é especialmente aplicável à mediação transformativa, pois nela, mais do que nas demais abordagens, o mediador evita atitudes diretivas, não propõe regras prévias, deixa que os comportamentos fluam e construam os seus próprios caminhos. Daí por que nenhuma lei de mediação ou regulamento pode traçar um detalhamento passo a passo da mediação. Como já examinamos no Capítulo 2, os marcos legais ou regulamentares da mediação estabelecem regras garantidoras da segurança jurídica do procedimento e dos participantes, hipóteses judiciais e extrajudiciais da sua aplicação, princípios, deveres do mediador e exigências para capacitação e cadastramento de mediadores judiciais. A mediação propriamente dita não está na lei, mas no método da linguagem ordinária das pessoas, na transdisciplinariedade, nas expressões espontâneas de sentimentos, interesses e necessidades dos mediandos, e na metodologia das estratégias procedimentais, tendo como fundamentos iniciais a cooperação e a boa-fé. A qualidade da mediação, especialmente no tocante ao desempenho do mediador, está na aplicação e vivências das habilidades (competências) e técnicas comunicativas comentadas no Capítulo 6 deste livro, aplicadas apropriadamente nas “etapas” da mediação, englobando método e metodologia. Ocorre que cada mediação, informal e oral como deve ser, independentemente da matéria cuidada, comporta particularidades, a depender das aptidões, modelos adotados e estilos do mediador, do comportamento dos mediandos, das posturas dos advogados, dos estados emocionais manifestados durante o processo e, especialmente, das questões que eles venham a abordar. Imaginemos que estamos em uma mediação familiar. Embora o mediador não seja, necessariamente, especialista na questão objetiva em discussão, mediação familiar difere da mediação empresarial, como difere da mediação trabalhista, da mediação empresarial- familiar, ou da mediação comunitária, escolar, ambiental, internacional etc., sendo necessário que o mediador ao menos compreenda o linguajar utilizado. Sabemos como as relações familiares e o Direito de Famílias evoluíram nas últimas décadas. Atualmente prevalece uma flexibilização do sistema familiar, em face do reconhecimento do valor jurídico do afeto como fator preponderante da composição familiar, fundamentando relação de parentesco. Nesse sentido e em função dos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana, já não se admite que se trate de modo distinto filhos que nascem dentro ou fora do casamento.2 Assim como ocorreu quanto às entidades familiares em geral, a família deixou de ser uma unidade de caráter econômico, social e religioso, para se consolidar como grupo de afetividade e companheirismo, de soma e divisão de cumplicidade, respeito e solidariedade, reduzindo a importância da paternidade apenas biológica. É necessário, também, que o mediador familiar esteja consciente de que guarda compartilhada, atualmente obrigatória, não significa divisão salomônica do tempo e do lugar, mas o compartilhamento das responsabilidades solidárias e cuidados entre os pais, assegurando-se ao filho o sentimento de que desfruta de seu endereço e identidade familiar e da compreensão de que os seus pais se entendem no exercício dessa guarda compartilhada.3 Do mesmo modo, também exemplificativamente, como mediar um conflito empresarial envolvendo questões de cisão, fusão, incorporação de empresas, falências, concordatas, direitos de acionistas etc., sem alguma noção do direito empresarial? É verdade que será fundamental a assistência de advogados, pois a eles caberá o esclarecimento de dúvidas jurídicas e o apoio negocial aos respectivos clientes e ao próprio processo cooperativo da mediação de conflitos. No entanto, mesmo estando presentes os advogados, o mediador que não compreenda o significado do vocabulário utilizado pelas partes e seus advogados durante a mediação precisará reconhecer que não