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Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 1 Complicações Pós- Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO SEROMA O QUE É? Complicação pós-operatória mais benigna caracterizada por uma coleção de gordura liquefeita, de soro e de linfa sob a incisão, no tecido subcutâneo QUAL A SUA CAUSA? Consequência da presença de um espaço morto na ferida, que ocorre pela dissecção excessiva do subcutâneo, resultando em acúmulo da linfa, do soro e da gordura liquefeita no subcutâneo, originando o seroma Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 2 FATORES DE RISCO Correção de hérnia incisional Retalho grande de pele Retirada precoce do dreno de sucção QUAIS SÃO AS SUAS CARACTERÍSTICAS? 1. Os pacientes se queixam de um aumento de volume abaixo da incisão, em que há uma sensação de pressão ou desconforto localizado 2. Sem sinais flogísticos (calor, edema ou rubor) 3. Líquido claro levemente amarelado e viscoso PREVENÇÃO Drenos de sucção locados no tecido subcutâneo, com atenção para retirar apenas com a drenagem baixa, entre 100 e 200mL em 24 horas CONDUTA Aspiração estéril quando sintomático HEMATOMA Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 3 O QUE É? Complicação pós-operatória preocupante, caracterizada por uma coleção anormal de sangue no tecido subcutâneo ou dentro da cavidade abdominal POR QUE É PREOCUPANTE? Apresenta um potencial bem maior que o seroma de levar a uma infecção de sítio cirúrgico FATORES DE RISCO Hemostasia inadequada Distúrbios de coagulação QUAIS SÃO AS SUAS CARACTERÍSTICAS? 1. O paciente se queixa de abaulamento na ferida, dor à palpação localizada e coloração de “sangue pisado” 2. Arroxeamento da pele ao redor da ferida 3. Coloração vermelho escuro PREVENÇÃO 1. Suspender medicações que alterem a coagulação, como os antiagregantes plaquetários e anticoagulantes 2. Realizar uma boa história clínica em busca de relato de sangramentos importantes 3. Avaliação laboratorial do coagulograma CONDUTA 1. Correção dos distúrbios da hemostasia 2. Hematomas retroperitoneais: manejo clínico Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 4 3. Hematoma intra-abdominal: manejo cirúrgico ou drenagem percutânea 4. Hematomas cervicais secundários à ressecção de tireoide: manejo cirúrgico INFECÇÃO DE SÍTIO CIRÚRGICO (ISC) O QUE É? Infecção relacionada a um procedimento cirúrgico que ocorre na incisão ou perto dela, dentro de 30 dias após o procedimento OU dentro de 90 dias, se houver implante de próteses na cirurgia (na infecção de sítio cirúrgico profunda ou órgão-cavidade) Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 5 QUANDO O SÍTIO CIRÚRGICO É CONSIDERADO INFECTADO? 1. Há drenagem de secreção francamente purulenta 2. A secreção drenada tem cultura positiva 3. O local abre espontaneamente e drena secreção purulenta 4. A incisão é aberta pelo médico CLASSIFICAÇÃO PELO LOCAL DE ACOMETIMENTO 1. Superficial: pele e subcutâneo 2. Profundo: fáscia e músculo 3. Órgão/cavidade: órgãos e cavidade, como cavidade torácica ou abdominal EPIDEMIOLOGIA Uma das principais complicações pós-operatórias, com uma taxa estimada em 11% de todos os procedimentos cirúrgicos no Brasil FATORES DE RISCO ASSOCIADOS AO PACIENTE LOCAIS Idoso (> 60 anos) Antibioticoprofilaxia inadequada Processo inflamatório crônico Hemotransfusão Doença de pele crônica Hipóxia Imunossupressão Tempo operatório prolongado Desnutrição Má preparação da pele Colonização pelo S. aureus Hipotermia Obesidade Necrose tecidual local Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 6 Tabagismo Contaminação do instrumental cirúrgico Diabetes mellitus Cirurgia aberta comparada com cirurgia laparoscópica Insuficiência renal Anemia Doença vascular periférica QUAIS SÃO AS SUAS CARACTERÍSTICAS? ISCs SUPERFICIAIS Dor, endurecimento, edema ou calor junto à ferida ISCs PROFUNDAS Dor, endurecimento, edema ou calor junto à ferida, febre > 38ºC ISCs DE ÓRGÃO/CAVIDADE 1. Quadro clínico variável, sendo que muitos pacientes apresentam poucos sintomas 2. Deiscência da ferida operatória 3. Sinais de sepse, como febre, hipotensão, dor abdominal, elevação das transaminases e icterícia CONDUTA ISCs SUPERFICIAIS E PROFUNDAS 1. Abertura dos pontos da pele 2. Lavagem da ferida com solução salina 3. Desbridamento, caso necessário 4. Manter a ferida aberta para cicatrização por segunda intenção ISCs DE ÓRGÃO/CAVIDADE Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 7 Antibioticoterapia direcionada considerando as bactérias mais prevalentes na pele e no local operado Se houver sinais importantes de celulite (calor local, hiperemia, edema) ou sinais de infecção sistêmica (febre, taquicardia, por exemplo), está indicado o início de antibioticoterapia DEISCÊNCIA DA FERIDA OPERATÓRIA O QUE É? Falha na cicatrização da camada músculo-aponeurótica abdominal, que restringe os órgãos à cavidade abdominal Aspecto normal da camada músculo- aponeurótica Aspecto na deiscência da camada músculo-aponeurótica Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 8 EPIDEMIOLOGIA Ocorre em aproximadamente 1% a 3% dos pacientes submetidos a uma cirurgia abdominal FATORES DE RISCO ASSOCIADOS AO PACIENTE ASSOCIADOS AO PROCEDIMENTO Idade avançada (> 65 anos) Infecção de sítio cirúrgico (principal fator de risco) Obesidade (IMC > 30 kg/m²) Cirurgia de emergência Uso prolongado de corticoides Infecção intra-abdominal Deiscência prévia da ferida Erro técnico no fechamento da fáscia Desnutrição (albumina < 3,5 mg/dL) Seroma Radioterapia Hematoma Quimioterapia Pressão intra-abdominal elevada Uremia Diabetes Neoplasia Sexo masculino Icterícia DPOC Tosse crônica Ascite PREVENÇÃO 1. Uso de sutura contínua simples 2. Optar por fio cirúrgico de absorção lenta (por exemplo, a polidioxanona – PDS®) 3. Uso de fechamento incorporando todas as camadas da parede abdominal Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 9 4. Distância de aproximadamente 1 cm da borda da aponeurose 5. Distância de 1 cm entre cada ponto 6. Proporção do comprimento do fio de sutura X comprimento da ferida de 4:1 (o fio deve ser quatro vezes maior que a ferida) 7. Medidas que evitem a tensão excessiva na linha de sutura QUAIS SÃO AS SUAS CARACTERÍSTICAS? 1. Início súbito de drenagem de líquido serossanguinolento, também descrito como cor de salmão ou “água de carne” 2. Alguns pacientes descrevem uma sensação de rasgo 3. Eventração: separação da camada músculo-aponeurótica, mas temos PELE ÍNTEGRA, sem exposição do conteúdo intra-abdominal 4. Evisceração: ruptura total das camadas da parede abdominal, com exposição do conteúdo abdominal (mais comumente, epíplon ou alças intestinais) CONDUTA EVENTRAÇÃO Exploração digital da ferida operatória 1. Se for pequena: curativo e repouso no leito 2. Se for grande: ressutura da parede abdominal EVISCERAÇÃO Ressutura da parede abdominal FEBRE PÓS-OPERATÓRIA O QUE É FEBRE? Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 10 Elevação da temperatura corporal que ultrapassa a variação diária normal e ocorre associada ao aumento do ponto de ajuste hipotalâmico EPIDEMIOLOGIA Evento comum que ocorre em 2/3 dos pacientes CAUSAS ATÉ 72 HORAS Atelectasia pulmonar: principal causa de febre nas primeiras 48 horas Resposta inflamatória sistêmica (SIRS) causada pelas citocinas pró-inflamatórias: interleucinas (IL)-1, IL-6, fator de necrose tumoral (FNT ou TNF) e interferon gama (IFN- γ) 3 A 5 DIAS Pneumonia ITU 5 A 7 DIAS Infecção de ferida operatória Deiscência de anastomose/fístula > 7 DIAS Abscesso intra-abdominal COMPLICAÇÕES PULMONARES EPIDEMIOLOGIA Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 11 De todos os óbitos pós-operatórios, 25% são causados por complicações pulmonares FATORES DE RISCO DEFINIDOS PROVÁVEIS Cirurgia em andarsuperior do abdome, torácica (aberta), aórtica, cabeça e pescoço, neurocirurgia e cirurgia de aneurisma de aorta abdominal Anestesia geral (em comparação com outras técnicas anestésicas) Cirurgia de emergência Pressão arterial de gás carbônico (PaCO2) > 45 mmHg Idade > 60 anos Alteração na radiografia de tórax ASA > 2 Infecção ativa no trato respiratório superior Insuficiência cardíaca Uso de sonda nasogástrica no pós- operatório Albumina sérica < 3 g/dL DPOC Tabagismo ativo nas últimas 8 (oito) semanas Bloqueio neuromuscular de longa ação intraoperatório Dependência funcional Cirurgia com duração > 3 horas Obesidade (IMC > 30 kg/m²) COMO PREVENIR COMPLICAÇÕES PULMONARES? PRÉ-OPERATÓRIO 1. Cessação do tabagismo: no mínimo, 8 semanas Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 12 2. Otimização da função pulmonar: exercício aeróbico, exercícios de inspiração e expiração profunda INTRAOPERATÓRIO Ventilação pulmonar protetora: utilizar baixo volume corrente (6 a 8 mL/kg de peso corporal), associado a uma pressão positiva expiratória final (PEEP) de 6 a 8 cmH2O e realizar manobras de recrutamento a cada 30 minutos PÓS-OPERATÓRIO 1. Manobras de expansão pulmonar: fisioterapia respiratória, exercícios de respiração – inspiração e expiração – profunda, ventilação não invasiva intermitente e ventilação por pressão positiva (CPAP) 2. Deambulação precoce: aumenta o volume pulmonar logo após a cirurgia 3. Controle álgico: a dor dificulta a mobilização precoce, impede a inspiração profunda e a higiene pulmonar adequada ATELECTASIA PULMONAR O QUE É? Colapso total ou parcial de todo o pulmão ou de área (lobo) do pulmão, que ocorre quando os alvéolos dentro do pulmão ficam desinflados (esvaziados) ou possivelmente cheios de fluido EPIDEMIOLOGIA Principal causa de febre nas primeiras 72 horas de pós- operatório QUAIS SÃO AS SUAS CARACTERÍSTICAS? Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 13 APRESENTAÇÃO CLÍNICA Dispneia Hipóxia Diminuição da ausculta em bases pulmonares Presença de pouca secreção de aspecto claro EXAMES COMPLEMENTARES 1. Rx de tórax: redução de volume pulmonar e pelo desvio da traqueia homolateral, além da hipotransparência 2. TC de tórax: exame com maior acurácia, que perite ver precisamente o segmento pulmonar colapsado CONDUTA 1. Paciente pouco secretivo e sem hipóxia: fisioterapia respiratória 2. Paciente com hipóxia: ventilação por pressão positiva (CPAP) Atelectasia total Atelectasia do lobo inferior direito Tomografia de tórax mostrando atelectasias lineares (setas vermelhas) Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 14 3. Paciente muito secretivo: fisioterapia respiratória + aspiração de secreção COMPLICAÇÃO A permanência do alvéolo colapsado, juntando secreção em seu interior, predispõe à pneumonia ÍLEO PÓS-OPERATÓRIO O QUE É? Obstipação e intolerância à ingestão oral devido a fatores não mecânicos, ou seja, fatores funcionais que interrompem a atividade motora normal coordenada do trato gastrointestinal após cirurgia abdominal ou não abdominal RETORNO DA ATIVIDADE INTESTINAL 1. Intestino delgado → 0 - 24 horas 2. Estômago → 24 - 48 horas 3. Cólon → 48 - 72 horas Como o intestino delgado retorna antes do estômago e do cólon, a ausculta dos ruídos hidroaéreos ou a evacuação NÃO são indicadores confiáveis de que o íleo pós-operatório está resolvido. Por isso, deve-se utilizar a presença de flatos ou a peristalse das alças intestinais como parâmetros CAUSAS Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 15 Cirurgia abdominal Infecção: sepse, abscesso intra-abdominal, peritonite, pneumonia Alterações eletrolíticas: hipocalemia, hipomagnesemia, hipermagnesemia, hiponatremia Medicações: anticolinérgicos, opioides, fenotiazinas, bloqueadores dos canais de cálcio, antidepressivos tricíclicos Hipotireoidismo Cólica ureteral Hemorragia retroperitoneal Lesão na medula espinhal Infarto do miocárdio Isquemia mesentérica QUAIS SÃO OS MECANISMOS ENVOLVIDOS? INFLAMATÓRIO Ocorre pela manipulação intestinal, que ativa uma rede local de macrófagos, levando a uma resposta que gera disfunção da camada muscular gastrointestinal REFLEXO INIBITÓRIO NEURAL Por meio de sinais aferentes da medula, há um aumento da atividade simpática inibitória, contribuindo para a diminuição da motilidade gastrointestinal PEPTÍDEOS NEURO-HORMONAIS Acredita-se que o óxido nítrico e o polipeptídeo intestinal vasoativo (VIP) atuam como neurotransmissores inibitórios no intestino, reduzindo a motilidade intestinal Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 16 QUAIS SÃO AS SUAS CARACTERÍSTICAS? APRESENTAÇÃO CLÍNICA Intolerância à dieta oral (líquida ou sólida) Náuseas e/ou vômitos (geralmente biliosos) Diminuição na eliminação de flatos e de ruídos hidroaéreos Distensão abdominal RX DE ABDOME 1. Distensão abdominal: principalmente de alças de intestino delgado, elas não apresentam haustrações (que dão ao cólon um aspecto sacular) e têm posição mais central 2. Ar no reto: fala a favor de obstrução funcional 3. Ponto evidente de obstrução: local em que você observa uma alça muito distendida e, logo depois, a alça está fina CONDUTA SUPORTE Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 17 Retirada de fatores que aumentam o íleo, hidratação venosa, monitorização de eletrólitos, repouso intestinal e, caso necessário, a descompressão do trato gastrointestinal com sonda DIETA Limitar ou suspender a dieta por via oral, sendo indicada a passagem de sonda nasogástrica com a intenção de descomprimir o estômago se o paciente apresentar distensão abdominal e vômitos SUPORTE NUTRICIONAL Nutrição parenteral total é recomendada DISTÚRBIOS HIDROELETROLÍTICOS Corrigir distúrbios hidroeletrolíticos: potássio e magnésio, principalmente MEDICAÇÕES PROCINÉTICAS 1. Benzamidas: a. Antagonistas dos receptores D2 da dopamina b. Metoclopramida, bromoprida 2. Benzimidazólicos a. Antagonistas periféricos do receptor D2 da dopamina b. Domperidona 3. Eritromicina: a. Antibiótico macrolídeo com atividade prócinética que pode ser utilizado como adjuvante no tratamento do íleo pós- operatório PREVENÇÃO INTRAOPERATÓRIO 1. Minimizar a manipulação intestinal Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 18 2. Preferir via laparoscópica 3. Evitar hiper-hidratação PÓS-OPERATÓRIO 1. Nutrição enteral precoce 2. Anestesia peridural para analgesia, se indicada 3. Evitar hiper-hidratação 4. Corrigir eletrólitos 5. Evitar o uso de opioides DEISCÊNCIA DE ANASTOMOSE O QUE É? “Vazamento” do conteúdo luminal por uma falha na cicatrização da anastomose FATORES DE RISCO DEFINITIVOS ASPECTOS TÉCNICOS Suprimento sanguíneo inadequado Tensão na anastomose Anastomose mal fechada (permite entrada de ar e/ou líquidos) LOCALIZAÇÃO NO TGI (Anastomoses de maior risco) Esofágica Pancreatojejunal Colorretal abaixo da reflexão peritoneal FATORES LOCAIS Presença de coleções Ambiente contaminado FATORES RELACIONADOS AO INTESTINO Radioterapia Luz distal comprometida Doença de Crohn Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 19 IMPLICADOS Presença de drenos Presença de drenos Tabagismo Choque e coagulopatia Cirurgia de emergência Terapia neoadjuvante (ex.: uso do bevacizumab – inibidor da angiogênese) Transfusão sanguínea Desnutrição Deficiência de vitamina C, ferro, zinco e cisteína Obesidade Sexo masculino Relacionados ao uso dos grampeadores QUANDO OCORRE? A deiscência ocorre mais comumente entre o 5º e o 7º dia de pós- operatório, devido a uma COLAGENÓLISE PRECOCE E ACENTUADA, que gera uma diminuição da força marginal da anastomose QUAIS SÃO OS SEUS SINAIS E SINTOMAS? SINAL PRECOCE Taquicardia inexplicada SINAIS E SINTOMAS GERAIS Queda do estado geral Mal-estar Febre Dor abdominal intensa Sinal de peritoniteSINAIS GRAVES Drenagem de secreção entérica ou fecaloide Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 20 QUAIS SÃO OS SEUS ACHADOS? Leucocitose no hemograma Descompressão brusca abdominal QUAL EXAME SOLICITAR? O exame mais indicado para avaliar uma suspeita de deiscência de anastomose é a tomografia computadorizada de abdome com contraste CONDUTA VOLUME Ressuscitação volêmica com a infusão de cristaloides ANTIBIOTICOTERAPIA Antibioticoterapia de amplo espectro é mandatório DIETA Suspensão da dieta VO REOPERAR 1. Peritonite difusa 2. Hemorragia intra-abdominal 3. Suspeita de isquemia intestinal 4. Deiscência importante de ferida operatória ou evisceração PREVENÇÃO 1. Exposição adequada, manuseio gentil dos tecidos, respeito à técnica e dissecção cuidadosa 2. Mobilização adequada Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 21 3. Posicionamento correto das suturas e/ou dos grampos cirúrgicos 4. Suprimento sanguíneo adequado nas bordas 5. Correspondência de tamanho das bocas FÍSTULA INTESTINAL O QUE É? Comunicação anormal entre duas superfícies epitelizadas, uma das quais é um órgão oco CLASSIFICAÇÃO FÍSTULAS INTERNAS Formada entre 2 órgãos digestivos (como fístulas do intestino delgado para o próprio intestino delgado, como ocorre em pacientes com doença de Crohn) ou entre órgãos de sistemas diferentes (como a fístula entre o cólon e a bexiga em pacientes com diverticulite) FÍSTULAS EXTERNAS Desenvolvem-se entre o trato gastrointestinal e a pele ou uma outra superfície epitelizada FATORES DE RISCO Doença intestinal intrínseca Obstrução distal ao fluxo gastrointestinal Desnutrição calórico-proteica Cirurgia de emergência Enterite actínica Presença de ambiente hostil (peritonite ou Paciente imunossuprimido Tabagismo Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 22 presença de abscesso) FÍSTULAS ENTEROCUTÂNEAS Fístulas entéricas mais comuns, caracterizadas pelo conteúdo entérico que drena por uma falha na pele FÍSTULAS ENTEROATMOSFÉRICAS Fístulas entéricas raras, que podem ser conhecidas como fístulas labiadas, em que o o conteúdo entérico drena por uma ferida abdominal aberta, podendo ser complicação de uma peritoneostomia FÍSTULA PANCREÁTICA Drenagem de qualquer volume mensurável após o 3º dia de pós- operatório, com nível de amilase do dreno três vezes maior do que o valor sérico normal, associado a alterações clínicas DÉBITO DA FÍSTULA ALTO DÉBITO Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 23 > 500 mL em 24 horas BAIXO DÉBITO < 200 mL em 24 horas Algumas referências colocam como baixo débito toda fístula que tenha débito < 500 mL Fístulas proximais, por exemplo no jejuno, costumam ter alto débito (> 500 mL/24h) Fístulas mais distais, por exemplo no cólon, costumam apresentar débito mais baixo QUAL A SUA APRESENTAÇÃO CLÍNICA? No pós-operatório de cirurgia abdominal, a apresentação clássica da fístula intestinal é o paciente evoluir com piora clínica normalmente entre os 5º e 10º dias de pós-operatório, podendo apresentar: Febre Taquicardia Taquipneia Dor abdominal Sinais de peritonite, como descompressão brusca dolorosa Íleo funcional Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 24 Drenagem de secreção entérica pela ferida ou por dreno abdominal Leucocitose Distúrbio eletrolítico A perda do conteúdo entérico pode levar à hipovolemia, à desidratação, ao distúrbio ácido-básico, à perda de proteínas e, eventualmente, à desnutrição CONDUTA ESTABILIZAÇÃO 1. Ressuscitação volêmica 2. Antibioticoterapia de amplo espectro 3. Avaliar necessidade de reabordagem para lavagem da cavidade e drenagem 4. Correção dos distúrbios hidroeletrolíticos 5. Cuidados com a pele 6. Suporte nutricional a. Em primeiro momento, devemos suspender a dieta por via enteral e iniciar nutrição parenteral total b. Débito da fístula baixo (< 200 mL/24h): reiniciar dieta oral e observar se há aumento do débito c. Débito moderado a alto (> 200 mL/24h): manter dieta parenteral total + instituir anticatártico, como codeína INVESTIGAÇÃO Exames de imagem são úteis para identificar o trajeto e outros fatores prognósticos para o fechamento da fístula 1. Fistulografia: injeção de contraste pelo orifício fistuloso 2. TC com contraste venoso e oral e/ou retal Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 25 DECISÃO Avaliar os fatores prognósticos para o fechamento espontâneo da fístula A maioria das fístulas fecha espontaneamente (60-90%) Fatores de mau prognóstico da cicatrização das fístulas externas T: trajeto epitelizado e curto (<2 cm) R: radiação/enterite actínica E: estranho/corpo estranho I: infecçõa/inflamação N: neoplasia junto à fístula O: obstrução distal Fatores de mau prognóstico da cicatrização das fístulas pancreáticas Pâncreas mole Ductos < ou = 3mm Coto pancreático desvascularizado Tomografia mostrando fístula na linha de grampeamento de uma gastrectomia vertical Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 26 Tumor de cabeça de pâncreas Coagulopatia Anorexia Obesidade Perda sanguínea Tempo cirúrgico elevado Pancreatite crônica é um fator PROTETOR TRATAMENTO DEFINITIVO 1. Aguardar o melhor momento para realização do tratamento cirúrgico definitivo 2. NUNCA tente rafiar a fístula 3. O tratamento definitivo da fístula requer a ressecção do segmento intestinal, junto com o trajeto fistuloso e anastomose REABILITAÇÃO 1. Suporte nutricional 2. Reabilitação física 3. Reabilitação psicológica COMPLICAÇÕES ASSOCIADAS ÀS OSTOMIAS INTESTINAIS O QUE É OSTOMIA? Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 27 Intervenções cirúrgicas que visam à criação de uma comunicação do intestino, seja ele o intestino grosso, seja ele o intestino delgado, com o meio externo, criando uma abertura artificial que permita a saída do conteúdo fecal ILEOSTOMIA Abertura no intestino grosso para saída de fezes ou urina e fezes INDICAÇÕES Doença inflamatória intestinal, como retocolite ulcerativa inespecífica Polipose adenomatosa familiar Tumores malignos ou pré-malignos múltiplos do intestino grosso ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS Fluxo aquoso nos primeiros dias Volume de 500mL Trânsito aumentado Distúrbios hidroeletrolíticos COLOSTOMIA Abertura no intestino delgado para saída de fezes INDICAÇÕES Ressecções colônicas Operações anais, como fístulas complexas ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS Fezes formadas Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 28 Volume de 100 a 200mL/dia Trânsito normal TIPOS DE OSTOMIAS OSTOMIAS TERMINAIS São aquelas em que a “boca” da alça é exteriorizada, com fechamento do coto distal, como a colostomia na cirurgia de Hartmann OSTOMIAS DERIVATIVAS OU TEMPORÁRIAS Ostomia que objetiva evitar que o conteúdo fecal chegue a um segmento distal do intestino, podendo ser indicada em alguns casos, como 1. Proteção de anastomoses distais, predominantemente bolsa ileal com anastomose ileoanal ou coloanal 2. Diverticulite complicada 3. Tratamento da fístula de anastomose 4. Obstrução intestinal 5. Trauma 6. Incontinência fecal A ileostomia em alça é preferível em relação à transversostomia em alça, porém é a ostomia com maior risco de complicação FATORES DE MAU PROGNÓSTICO Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 29 1. Obesidade 2. Cirurgia de emergência 3. Doença de Crohn 4. Colite isquêmica COMPLICAÇÕES DERMATITE Principal complicação relacionada à ileostomia devido ao alto fluxo alcalino e à ação enzimática NECROSE Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 30 Pode ocorrer devido à congestão venosa ou ao suprimento arterial insuficiente RETRAÇÃO Pode ser resultado de mobilização inadequada, com tensão excessiva DESCOLAMENTO MUCOCUTÂNEO Refere-se à separação da ostomia da pele circundante PROLAPSO Complicações Pós-Operatórias- BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 31 Complicação mais associada à transversostomia em alça HÉRNIA PARAESTOMAL Complicação comum – mais associada às colostomias terminais PREVENÇÃO Boa fixação da bolsa coletora SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL O QUE É? Disfunção orgânica causada pela hipertensão intra-abdominal Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 32 PRESSÃO INTRA-ABDOMINAL Pressão estática da cavidade abdominal, ou seja, é a pressão fisiológica dela VALOR FISIOLÓGICO Varia de 5 a 7 mmHg e é diretamente afetado pelo índice de massa corporal (IMC) PACIENTES OBESOS E GESTANTES Apresentam valores de pressão intra-abdominal mais elevados, podendo chegar de 10 a 15 mmHg PRESSÃO DE PERFUSÃO ABDOMINAL É a diferença entre a pressão arterial média e a pressão intra- abdominal VALOR IDEAL > 60 mmHg HIPERTENSÃO INTRA-ABDOMINAL Pressão intra-abdominal sustentada ≥ 12 mmHg SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL Pressão intra-abdominal sustentada > 20 mmHg (com ou sem uma pressão de perfusão abdominal < 60 mmHg) associado à disfunção orgânica nova SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL PRIMÁRIA Resultado de uma hipertensão intra-abdominal causada por uma patologia intra-abdominal Press odePerfus oAbdominal(PPA) =a~ a~ PAM − PIA Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 33 CAUSAS Íleo pós-operatório Sangramento Coagulopatia Empacotamento abdominal Ressuscitação volêmica agressiva Hemotransfusão maciça FATORES DE RISCO Cirurgia de controle de danos, com empacotamento abdominal Pancreatite Ascite volumosa Pneumoperitônio Hematoma retroperitoneal Pacientes submetidos à correção cirúrgica de hérnias abdominais volumosas SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL SECUNDÁRIA Desenvolve-se na ausência de patologia intra-abdominal e é, em parte, iatrogênica CAUSA Ressuscitação volêmica agressiva em pacientes em choque SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL: TRÍADE CLÁSSICA 1. Oligúria 2. Aumento da pressão de pico das vias aéreas 3. Aumento da pressão intra-abdominal COMO MEDIR A PRESSÃO INTRA-ABDOMINAL? Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 34 PRESSÃO INTRAVESICAL - TÉCNICA DE KRON 1. Paciente em decúbito dorsal horizontal, cabeceira à 0º, braços estendidos ao longo do corpo 2. Passagem do cateter vesical de demora (sonda de Foley) com 3 vias. A bexiga deve estar vazia 3. Em uma das vias, é instilado 25 mL de solução salina conectada a um tubo transdutor de pressão 4. O tubo transdutor de pressão deve estar devidamente alinhado com o PONTO ZERO, definido pelo ponto de cruzamento da linha axilar média com a crista ilíaca 5. A pressão intravesical é registrada em mmHg no monitor após atingido o relaxamento do músculo detrusor da bexiga, ou seja, ao final da expiração, quando não há contração abdominal, o que ocorre cerca de 30 a 60 segundos após a instilação do líquido 6. Pode ser necessário o uso de bloqueadores neuromusculares para garantir que não haja contração abdominal, que pode interferir o valor CLASSIFICAÇÃO WSACS Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 35 GRAU PRESSÃO (mmHg) PRESSÃO (cmH2O) I 12 – 15 10 – 15 II 16 – 20 16- 25 III 21 – 25 26 – 35 IV > 25 > 35 Caso a pressão seja dada em cmH2O, para conversão de cmH2O em mmHg, basta dividir o valor fornecido por 1,36 CONDUTA SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL PRIMÁRIA Descompressão da cavidade por meio da peritoneostomia SÍNDROME COMPARTIMENTAL ABDOMINAL SECUNDÁRIA Graus I a III: Descompressão gástrica com sonda nasogástrica Posicionamento adequado no leito Evacuação de lesões que estejam ocupando espaço na cavidade intraabdominal Otimização da complacência abdominal, com sedação e analgesia adequadas (o uso de bloqueadores neuromusculares pode ser necessário) Otimização do balanço hídrico, evitando a hiper-hidratação e objetivando um balanço hídrico negativo (pode ser necessária a utilização de hemodiálise) Otimização hemodinâmica Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 36 Grau IV: Descompressão cirúrgica, realizando laparotomia e mantendo o paciente em peritoneostomia CLASSIFICAÇÃO DE CLAVIEN-DINDO O QUE É? Escala que gradua as complicações pós-operatórias, permitindo: Uniformizar a linguagem Comparar resultados em períodos distintos no mesmo centro Comparar resultados de diferentes centros médicos Comparar medidas cirúrgicas versus conservadoras Permitir uma adequada metanálise dos dados Identificar objetivamente riscos pré-operatórios Estabelecer escores prognósticos GRAUS I As complicações são leves, não ameaçadoras à vida, que não levam a nenhuma incapacidade, sendo permitido alguns regimes terapêuticos, como Antieméticas Antipiréticos Analgésicos Diuréticos Eletrólitos Fisioterapia Complicações Pós-Operatórias - BEATRIZ TIANEZE DE CASTRO 37 Essa categoria também inclui feridas operatórias drenadas à beira do leito II As complicações são leves, porém mais graves do que as complicações grau I, demandando mais medicações ou terapia adicionais, como hemotransfusão ou nutrição parenteral III As complicações são graves e ameaçadoras à vida, necessitando de intervenção cirúrgica, endoscópica ou percutânea. Nesse grau, o que diferencia a gravidade (A ou B) é a necessidade ou não de anestesia geral para sua realização IV Há risco elevado de evolução ao óbito, com complicações que levam à disfunção de um órgão (IV A) ou de mais de um órgão — disfunção de múltiplos órgãos (IV B)