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Vyv Simson e Andrew Jennings 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
OS SENHORES DOS ANÉIS 
Poder, dinheiro e drogas nas Olimpíadas Modernas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tradução de Celso Nogueira 
 
 
EDITORA BEST SELLER 
CÍRCULO DO LIVRO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Título original: The Lords of the Rings 
Copyright © Ceres Productions, Ltda, 1992 
Publicado sob licença de Simon & Schuster, Londres 
Licença editorial para o Círculo do Livro 
por acordo com a Editora Nova Cultural Ltda. 
e o detentor dos direitos autorais. 
Todos os direitos reservados. 
 
Direitos exclusivos da edição em língua portuguesa no Brasil 
adquiridos por EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., 
que se reserva a propriedade desta tradução. 
 
EDITORA BEST SELLER 
uma divisão da Editora Nova Cultural Ltda. 
Al. Ministro Rocha Azevedo, 346 - CEP 01410 - Caixa Postal 9442 
São Paulo, SP 
CÍRCULO DO LIVRO 
Caixa postal 7413 
01051 São Paulo, Brasil 
Fotocomposto na Editora Nova Cultural Ltda. 
Impressão e Acabamento: Gráfica Círculo 
 
 
 
 
 
Sumário 
 
 
Introdução 
Será que o Esporte é Isso? 
1 Bem-vindos a Barcelona 
2 O Sistema 
3 Dassler Toma Coca-Cola 
4 De Montreal a Monte Carlo 
5 Com o Braço Erguido Eu o Saúdo 
6 O Camaleão Manhoso 
7 A Jóia da Coroa 
8 O ISL Dita as Regras 
9 O Peso Morto 
10 O Ouro Negro de Olímpia 
11 As Pedras na Bota 
12 Vinte Milhões de Dólares 
13 As Trapaças 
14 Escândalo 
15 Bem Na Cara de Todos 
16 Um Advogado de Des Moines 
17 Sinais de Alarme 
18 O Ditador Benevolente 
19 O Número do Sapato da Filha Mais Nova 
20 Destruindo as Olimpíadas 
 
Apêndice A: Calendário das Olimpíadas Modernas 
 
Apêndice B: Membros do Comité Olímpico Internacional 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
SERÁ QUE O ESPORTE É ISSO? 
 
Este livro revela os fatos que a televisão e os jornais não contam a respeito 
das Olimpíadas e do esporte internacional. Durante quatro anos procuramos 
descobrir quem controla o esporte, para onde vai ,o dinheiro e porque um mundo 
considerado belo e puro há dez anos, tornou-se antidemocrático, obscuro, cheio 
de drogas e acabou leiloado para servir ao marketing das companhias 
multinacionais. 
Para nossa surpresa, nos deparamos com a investigação mais difícil de 
nossas vidas. Nos últimos anos escrevemos e fizemos documentários para a 
televisão sobre a Máfia, o caso Irã-Contras, o terrorismo, a corrupção na Scotland 
Yard e outras áreas sombrias da vida pública. 
O mundo do esporte amador olímpico provou ser o mais difícil de penetrar. 
Jamais encontramos tantas dificuldades em conseguir entrevistas autorizadas, 
documentos e fontes primárias. Um dirigente olímpico respeitado chegou ao ponto 
de contratar advogados, para tentar impedir a publicação das críticas às lideran-
ças olímpicas, feitas durante uma longa entrevista gravada! 
Esta foi nossa grande descoberta sobre o mundo do moderno esporte 
olímpico. Trata-se de um domínio secreto, elitista, onde as decisões sobre o 
esporte, o nosso esporte, são tomadas a portas fechadas, onde se gasta rios de 
dinheiro para criar um estilo de vida fabuloso para um círculo restrito de dirigentes 
em vez de providenciar melhores condições para os atletas, onde o dinheiro 
destinado ao esporte acaba desviado para contas bancárias no exterior e onde os 
dirigentes se perpetuam no poder, sem se perturbar com eleições. 
Este livro, portanto, não fala dos competidores que lutam pelas medalhas 
de ouro. Trata do mundo oculto dos homens engravatados, dos homens que 
manipulam o esporte segundo seus próprios objetivos. 
Não somos jornalistas esportivos. Não fazemos parte do círculo onde 
muitos repórteres preferiram concentrar a atenção nos eventos esportivos, 
ignorando o modo como o esporte vem sendo destruído pela cobiça e pela 
ambição. Como resultado, um dos momentos mais reveladores para nós foi 
quando sofremos críticas veementes do diretor de informação do Comité Olímpico 
Internacional (COI), na Suíça, só porque fizemos perguntas diretas a um alto 
dirigente olímpico. Agimos como um repórter age, em qualquer matéria. Tal 
comportamento não é aceitável no mundo clandestino e egoísta do COI. Se o 
esporte pretende sobreviver, necessitará da atenção de muitos outros jornalistas 
sem vínculos ou compromissos com os Senhores de Lausanne. 
Ao avançar além da pompa e da hipocrisia das Olimpíadas modernas e de 
seu líder, recordamos repetidamente do comentário de uma criança no dia em 
que o imperador desfilou com seu novo traje: "O rei estava nu". Isso deveria ser 
óbvio para qualquer pessoa a quem a propaganda não conseguiu cegar. 
Como no restante de nosso trabalho de muitos anos, não podemos 
agradecer em público às fontes que mais nos ajudaram. Depois de muito esforço, 
os documentos chegaram às nossas mãos, e pessoas gentis, preocupadas com o 
esporte, deram sugestões e apontaram áreas que exigiam investigações e 
denúncias. Esperamos que este livro as ajude em suas batalhas para tirar o 
esporte das mãos de um pequeno grupo. 
Assumimos a responsabilidade final pelo conteúdo deste livro, é claro. 
Gostaríamos de agradecer a Pat Butcher, Mark Dowie, Jock Ferguson, Pierlunghi 
Ficoneri, sir Arthur Gold, Nick Ha-yes, Fred Holder, Dennis Howell, Arquivo de 
Segurança Nacional de Washington, Susan O'Keefe3 Ron Pickering (já falecido), 
Claire Powell, John Rodda, Claire Sambrook, Montse Trivino e Giovanni Ulleri por 
sua ajuda e participação de várias formas. 
Temos um grande débito para com nossos tradutores, Sabas-tian Balfour, 
Franco Bossari, Patrick Buckley, Lucy Davies e Nic-ki DiCiolla, pêlos conselhos 
esplêndidos, que foram muito além do significado das palavras. Recomendamos 
aos leitores que desejam saber mais a respeito da história de Juan António Sara-
manch a consulta ao livro El Deporte dei Poder, de Jaume Boix e Arcadio Espada, 
publicado em 1991 pelas Ediciones Temab -ie Hoy, em Madri. 
Agradecemos também aos dirigentes da Associação Olímpica Britânica, 
por permitir a consulta de sua biblioteca. 
Finalmente, e como sempre, somos gratos pelo apoio das pessoas mais 
próximas a nós, sem o qual este projeto não teria sido realizado. 
 Vyv 
Simson 
 Andrew 
Jennings 
 Janeiro 
de 1992 
1 
BEM-VINDOS A BARCELONA 
 
Bem-vindos à Espanha. Bem-vindos a Barcelona, a antiga cidade romana de 
Barcino, a "Cidade dos Condes" medieval, rodeada de muralhas. 
Bem-vindos a Barcelona. Capital da Catalunha orgulhosa e independente, 
segunda cidade da Espanha, e por séculos rival ferrenha de Madri, a capital. 
Bem-vindos a Barcelona. Cidade para onde Cristóvão Colombo retornou 
após a descoberta do Novo Mundo, em 1492. 
Bem-vindos a Barcelona. Cidade de Salvador Dali e Pablo Picasso, de 
Pablo Casais e José Careiras e de Cobi, o cão surrealista. 
Cobi, o cão surrealista? Certamente. Pois Barcelona também é a sede dos 
Jogos Olímpicos de 1992, e Cobi, um cachorro de gibi, é o mascote olímpico da 
cidade. 
Estamos às vésperas da estréia das Olimpíadas. A capital da Catalunha, 
abarrotada de gente. Quatrocentos mil espectadores são esperados em 
Barcelona. Eles incharão a cidade, a ponto de explodi-la. O maior espetáculo da 
terra vai começar. Bem-vindos a Barcelona. 
o comité organizador dos Jogos Olímpicos, para os responsáveis pelo 
planejamento e financiamento das duas semanas fantásticas, aproxima-se a hora 
da verdade. O comité, como acontece com quase tudo no mundo do esporte 
internacional, tem uma sigla: COOB'92 (Comité Organizador das Olimpíadas de 
Barcelona). Seu presidente é o prefeito socialista de Barcelona, Pasqual Maragall. 
Ele fala com entusiasmo sobre o "caso de amor" entre sua cidade e as 
Olimpíadas. A paixão de Barcelona custoua Maragall e sua diretoria executiva 
mais de l bilhão de libras, apenas para sediar um evento de duas semanas. 
Mais 2 bilhões de libras do dinheiro público foi gasto pela cidade, para 
comprar e desapropriar terrenos, construir a Vila Olímpica e 43 quilômetros do 
novo anel viário, reformar ou erguer do zero quarenta e três locais exigidos pelo 
extenso programa esportivo das Olimpíadas e, finalmente, para ampliar o 
aeroporto de Barcelona. 
Seis anos antes, em outubro de 1986, Barcelona derrotou Brisbane, Paris, 
Amsterdã, Belgrado e Birmingham na corrida para sediar os Jogos Olímpicos de 
1992. Os bate-estacas, guindastes e máquinas de terraplenagem tomaram conta 
da cidade. Desde então, os moradores de Barcelona vivem em um gigantesco 
canteiro de obras. Mas o prefeito Maragall e sua equipe podem dormir 
sossegados, sabendo que tudo está pronto para as Olimpíadas. 
No dia 2 de outubro de 1988, na cerimônia de encerramento dos Jogos de 
Seul, a bandeira olímpica criada pelo fundador dos jogos modernos, barão Pierre 
de Coubertin, foi entregue a Maragall. No sábado, 25 de julho de 1992, a bandeira 
branca com os cinco anéis entrelaçados representando os cinco continentes, que 
se tornou o símbolo mais conhecido no mundo depois da cruz cristã, será içada 
no estádio Montjuic de Barcelona. Tudo estará pronto para a cerimônia de 
abertura da 25? Olimpíada. 
O estádio de Montjuic é a peça central na orgia de esportes de duas 
semanas e na orgia de gastos de seis anos. Nesta cerimônia, 70 mil espectadores 
rodearão reis e rainhas, príncipes e princesas, xeques e rajás, primeiros-ministros 
e presidentes acomodados na Tribuna de Honra. Os ingressos valerão US$ 500. 
O estádio se destaca no "Anel Olímpico", nome dado pelo comité 
organizador para a área de Montjuic de onde se pode avistar a cidade, a oeste, e 
o Mediterrâneo, a leste. 
O estádio tem uma longa história olímpica. A pedra fundamental foi 
colocada há 64 anos, pelo conde Henri Ballet-Latour, então presidente do comité 
olímpico. Montjuic fora construído na tentativa anterior feita por Barcelona para 
sediar os jogos. Em 1931 a 30? sessão — ou reunião anual — do Comité 
Olímpico Internacional, detentor dos direitos dos Jogos Olímpicos, realizou-se no 
Hotel Ritz, em Barcelona. 
Dez dias antes da abertura, o novo governo esquerdista da Espanha 
proclamou a república no país. Um marquês e cinco condes encontravam-se 
entre o grupo refinado que se reuniu no Ritz de Barcelona, mnco condes 
encontravam-se entre o grupo refinado que se reuniu no Ritz de Barcelona, mas a 
maioria de seus pares se manteve a distância. Eles resolveram promover pelo 
correio a votação que escolheria a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 1936. 
Quando os votos retornaram, Barcelona descobriu que perdera a indicação para a 
Berlim de Adolf Hitler. 
Desapontados e revoltados, os cidadãos radicais de Barcelona 
promoveram uma competição alternativa no novo estádio de Montjuic. Balizaram 
o evento de "Olimpíada Popular de Barcelona", caracterizando seu desafio. Em 
julho de 1936, 5 mil atletas e 20 mil espectadores foram recebidos em Barcelona 
pelo prefeito da cidade e participaram da Olimpíada Popular. 
Os jogos de Barcelona terminaram pouco depois do início. O dia seguinte 
foi marcado pelo início do levante militar que deu origem à Guerra Civil 
Espanhola. A Olimpíada Popular foi cancelada, e muitos atletas e espectadores 
juntaram-se às forças republicanas concentradas na capital catalã. Barcelona 
tornou-se um pólo de oposição ao general Franco e seus seguidores fascistas. O 
ditador jamais perdoou esta oposição, e fez com que os cidadãos de Barcelona 
pagassem um alto preço por ela, nos quarenta anos seguintes. Milhares de 
opositores de Franco morreram, e muitos outros milhares foram presos, mas os 
catalães que se dispuseram a erguer os braços na saudação tradicional do 
Movimento fascista do ditador prosperaram. 
A vingança do Generalíssimo sobre Barcelona incluiu até as ambições 
olímpicas da cidade. Em dezembro de 1965 Barcelona competiu contra Madri 
pela indicação como candidata da Espanha à sede dos Jogos de 1972. A reunião 
para decidir entre as duas cidades foi marcada para a véspera do Natal. Poucos 
dias antes, o representante de Barcelona recebeu um telefonema e foi avisado 
que não precisava se dar ao trabalho de comparecer à reunião. "Não será 
importante. Apenas uma prestação de contas", disse o autor da chamada. 
Barcelona fora lograda. Três dias antes do Natal, a sede do movimento 
olímpico na Suíça recebeu a informação de que Madri era a cidade espanhola 
escolhida como candidata para sediar o evento em 1972. 
— Naquele tempo o homem de El Pardo ainda vivia — lembra um catalão, 
referindo-se ao poder absoluto do general Franco. Mas agora o líder está morto. A 
Espanha tornou-se novamente uma democracia, e os fascistas companheiros de 
Franco trocaram os uniformes por ternos. Em 1992, o estádio de Montjuic 
realizará finalmente seu destino olímpico. 
Nos últimos seis anos o local passou por uma reforma completa. 
Reconstruído, manteve a aparência de 1930, preservada como "um tributo ao 
esporte e ao espírito olímpico das pessoas da cidade, das gerações que lutaram 
desde o início do século para sediar os Jogos." 
Quatro escadas rolantes gigantescas levarão 14 mil pessoas por hora para 
o Anel Olímpico, onde acompanharão os lances das estrelas do atletismo contra 
os recordes mundiais; assistirão os embates entre as estrelas da ginástica, vôlei e 
basquetebol no ginásio esportivo futurista de Palau Saint Jordi; acompanharão os 
esforços dos nadadores nas magníficas piscinas de Picornell. 
Em Poblenou, à beira-mar, encontra-se o Pare de Mar. Um terreno de 640 
mil metros quadrados abriga prédios de seis andares, com vista para o mar. Pare 
de Mar é a Vila Olímpica, recebendo por duas semanas 15 mil atletas de mais de 
160 países. Toda a área foi rodeada de uma cerca de segurança alta. A segu-
rança dos atletas ganhou prioridade desde que onze competidores israelenses 
foram assassinados por terroristas em Munique, em 1972. 
Por trás da cerca, o complexo possui restaurante, agência dos correios, 
banco, agência de viagens, aluguel de carros, supermercado, livraria, farmácia, 
bar, salões de descanso e leitura. O restaurante servirá aos atletas mais de 900 
mil refeições durante as Olimpíadas. 
Próximo ao estádio Montjuic, na borda do Anel Olímpico, situa-se o Centro 
de Imprensa Principal. Liga-se a centros de imprensa satélites instalados nos 
locais de competição, na Vila Olímpica ,e nas duas "vilas de imprensa" 
especialmente construídas em Badalona e Vai d'Hebron, nos subúrbios de 
Barcelona. O Centro de Imprensa receberá 10 mil profissionais credenciados, re-
presentando jornais e emissoras de rádio e televisão de todo o mundo que se 
encaminharão para Barcelona. 
Finalmente, na famosa Diagonal, a rua mais comprida de Barcelona, fica o 
luxuoso Hotel Princesa Sofia. Nos últimos dois anos, os proprietários espanhóis 
investiram US$ 10 milhões em reformas. Ò hotel foi redecorado luxuosamente, 
para receber os hóspedes mais importantes dos jogos. Não haverá ali estrelas do 
atletismo, natação ou ginástica. O Princesa Sofia será, nas duas semanas dos 
Jogos Olímpicos, sede do Clube. 
O "Clube" é uma das sociedades fechadas mais poderosas, lucrativas e 
secretas do mundo. Por intermédio do Clube, um punhado de "presidentes" 
nomeados comanda o esporte mundial. 
A suíte presidencial do Princesa Sofia receberá o membro mais importante 
do Clube, o supremo pontífice olímpico, o rei inconteste do esporte mundial, o 
espanhol Juan António Samaranch. 
Ele preside o COI, o discrepante grupo de indivíduos "proprietários" das 
Olimpíadas. No comando há uma década, Samaranch considera as Olimpíadas "o 
movimento social mais importante e de maior prestígio no mundo 
contemporâneo". Isso pode surpreender os milhões de telespectadores que 
consideravam as Olimpíadas somente um evento esportivo quadrienal. 
"Ele é igual a um rei, o meuchefe", confidencia um membro do COI. Ao 
que parece, os líderes políticos do mundo concordam. Tratam aquele senhor de 
72 anos, baixo, com cabelos prateados, que disputou apenas uma eleição em 
doze anos de presidência, como um verdadeiro chefe-de-estado. Quando não 
está visitando a Casa Branca, o Vaticano, o Kremlin ou o Palácio do Povo em 
Pequim, Juan António Samaranch concede audiências exclusivas para os 
primeiros-ministros e presidentes do mundo, em sua residência olímpica de 
Lausanne. Recebe homenagens por toda a parte. Universidades e chefes-de-
estado o cobrem de comendas e medalhas, prêmios e títulos honoríficos. 
Samaranch afirma que o Comité Olímpico Internacional constitui a "maior 
autoridade moral em esportes competitivos do mundo". Esta afirmação parte do 
líder de uma organização humilhada em Seul, quando precisou tomar a medalha 
de ouro nos 100 metros de Ben Johnson, que correu entupido de esteróides. 
Samaranch compara o movimento olímpico a uma pirâmide. Naturalmente, 
ele e seus noventa e poucos companheiros do COI, escolhidos aleatoriamente em 
apenas 75 países, ocupam o topo. Durante os Jogos Olímpicos de 1992, os 
membros do COI, acompanhados de familiares e convidados, chegarão de todas 
as partes do mundo, em vôos de primeira classe, para lotar centenas de 
apartamentos no Princesa Sofia. O hotel inteiro foi reservado, há alguns anos, 
para servir de quartel-general para o Clube. 
Nas Olimpíadas de Barcelona, Samaranch será um presidente realizado, 
ao comandar sua corte no Princesa Sofia, Barcelona é a cidade natal de 
Samaranch. Levar os Jogos Olímpicos para casa constitui a suprema glória para 
o líder. 
Em uma suíte ligeiramente mais discreta no Hotel Princesa Sofia, como 
dita o protocolo olímpico, hospeda-se outro poderoso membro do Clube: o 
brasileiro Dr. João Havelange. Membro do COI desde 1963, dois anos a mais do 
que Samaranch, ele reina sobre o esporte mais popular do mundo — o futebol. 
Em 1974, Havelange elegeu-se presidente da Federação Internacional de Futebol 
Association, mais conhecida por sua sigla, FIFA. Assim como o presidente 
olímpico, Havelange não enfrentou mais nenhuma eleição depois de assumir o 
comando do esporte mais popular do mundo. Há quase vinte anos o presidente 
Havelange tem sido um dos dirigentes esportivos mais influentes. 
Quando Barcelona lançou sua campanha para sediar as Olimpíadas, no 
início da década de 1980, o presidente Samaranch, sendo espanhol e catalão, 
declarou que se manteria neutro na disputa. Podia se dar a este luxo. Todos 
conheciam a posição do presidente, e não faltou quem se dispusesse a defender 
sua cidade natal. O mais poderoso, seu amigo brasileiro, João Havelange, 
organizou os membros do COI de fala espanhola para apoiar a campanha de 
Barcelona. 
O processo foi pouco edificante, segundo uma descrição: "Revelou-se o 
lado inaceitável do Movimento Olímpico, com suas recepções suntuosas, convites 
aos membros de todo o mundo para visitar os locais das provas e distribuição de 
presentes, um quadro que se completou com o envolvimento de reis e primeiros-
ministros no processo final de escolha." 
Em 1985, na reunião do COI em Berlim, Jacques Chirac, ex-premiê 
francês, líder do grupo que lutava pela escolha de Paris, atacou as manobras 
políticas de Havelange, que pretendia levar os Jogos para Barcelona. Chirac, 
acostumado aos corredores do poder, percebeu que Paris estava perdendo 
terreno. Segundo um comentarista, Chirac "ameaçou usar sua influência na África 
para impedir que Havelange se reelegesse para a presidência da FIFA. Não resta 
dúvida que Havelange, com seu poder sobre a América do Sul e Central, pode 
gerar uma maioria dentro do COI." 
Mais adiante, na Rua Diagonal de Barcelona, fica o Hotel Hilton, reservado 
para um dos esteios da pirâmide olímpica de Samaranch, as federações 
esportivas internacionais, conhecidas como IFs. As federações controlam, a nível 
mundial, os vinte e cinco esportes presentes nos Jogos Olímpicos de Barcelona. 
Elas determinam as regras e regulamentos para as competições olímpicas. 
Em um carro com chofer, seguindo do aeroporto para sua suíte, encontra-
se um membro do Clube, o presidente Primo Nebiolo. Uma série de escândalos 
reduziu temporariamente seu poder no mundo esportivo, mas quando se trata dos 
Jogos, ele ainda dá as cartas. Nebiolo comanda o atletismo, o esporte-chave das 
Olimpíadas, o que o torna o terceiro membro do Clube em importância. 
Esse italiano é vital para Samaranch. O presidente olímpico teme o poder 
de Nebiolo, porque sem o atletismo os Jogos Olímpicos deixariam de ser o 
espetáculo esportivo número um do mundo. Os eventos de Nebiolo são as jóias 
da coroa olímpica. Fornecem brilho e dólares. As companhias de televisão de 
todo o mundo soltam seu dinheiro para registrar as imagens das estrelas que-
brando recordes. 
Não se lucra com atletas convictos de que o importante é apenas competir. 
Na Federação Internacional de Atletismo Amador, um nome curioso para a 
entidade que controla o suprimento de estrelas olímpicas, dirigida por Nebiolo, os 
atletas "amadores" passeiam em Ferraris e Porsches. 
Primo Nebiolo, peça fundamental para a continuidade do sucesso dos 
Jogos Olímpicos, vem sendo mantido fora do Comité Olímpico Internacional. 
Muitos membros do COI desconfiam de Nebiolo. Sua ambição é palpável, 
transpira por cada poro de seu rosto permanentemente bronzeado. Ele não 
possui os modos suaves e diplomáticos de Samaranch, presidente do COI, nem a 
elegância mundana e sofisticada de Havelange. Nebiolo é um bataIhador, um 
sobrevivente, um encrenqueiro, e isso ofende a sensibilidade de muitos dos 
seletos membros do Comité Olímpico Internacional. 
Nebiolo não perdeu as esperanças. No ano passado, um u>i-gente 
esportivo igualmente controvertido tornou-se membro do comité. Chegando a 
Barcelona em seu jatinho particular, o multimilionário Mário Vasquez Rabina, 
magnata da mídia mexicana, ocupará outra suíte presidencial, Rabina também 
ocupa posição de destaque no Clube. Ele preside a Associação dos Comitês 
Olímpicos Nacionais, conhecida pela sigla ANOC. 
Os comitês olímpicos nacionais formam o terceiro ponto de apoio da 
pirâmide olímpica de Samaranch. Cada país possui o seu, mas eles pouco 
aparecem, a não ser no ano da Olimpíada, quando levantam fundos para enviar 
equipes aos Jogos. 
As tarefas dos NOCs, os Comitês Olímpicos Nacionais, são detalhadas em 
um dos documentos menos lidos do mundo, apesar de sua importância: a Carta 
Olímpica. No passado, a Carta era apenas uma declaração de ética, objetivos e 
ideais. Com o crescimento dos Jogos, cresceu também a pomposidade da Carta. 
A função dos NOCs é "divulgar os princípios fundamentais das olimpíadas a nível 
nacional... e contribuir também para a difusão dos ideais olímpicos nos programas 
pedagógicos escolares". Os NOCs decidem qual a cidade, entre as maiores do 
país, será candidata à sede dos Jogos. Apenas uma cidade de cada país con-
corre, mas em função dos custos poucos países se inscrevem. 
Existem atualmente mais de 160 comitês olímpicos nacionais, 
representando países como a República Popular da China, com mais de l bilhão 
de habitantes, até Mônaco, com cerca de 25 mil. A Carta Olímpica estabelece que 
eles devem "resistir a todas as pressões, de qualquer tipo, inclusive aquelas de 
natureza política ou econômica." Trata-se de uma regra ignorada nos anos em 
que os partidos comunistas comandaram o Bloco Oriental, quando os dirigentes 
esportivos eram nomeados somente em função de sua devoção a Marx e Lênin. 
Muitas nações do Terceiro Mundo integram seus NOCs aos Ministérios do 
Esporte controlados pelo governo. Vários membros do COI e presidentes dos 
NOCs são oficiais de alta patente, originários de países governados por juntas 
militares. A independência política e econômica é tão remota, em países assim, 
quanto à urna eleitoral. 
No restante dos 2.300 quartos de hotel reservados exclusivamente para a 
Família Olímpica, irão hospedar-seoutros membros do Clube. Entre eles, o 
presidente Un Yong Kim, da Coréia do Sul. O Dr. Kim preside a Federação 
Mundial de Taek-wondo, uma arte marcial coreana. Segundo Samaranch, "Kim é 
um consultor em quem confio plenamente." 
Kim é um veterano do mundo olímpico. Destacou-se como o membro mais 
importante do comité encarregado de organizar os Jogos Olímpicos em Seul. O 
Dr. Kim, tendo feito carreira em uma das ditaduras militares mais brutais do 
mundo, foi recompensado com o cargo de conselheiro especial do presidente da 
Coréia. Alguns membros do COI apontam Kim como sucessor de Samaranch. 
Outro nome lembrado para o mais alto cargo olímpico é o de um membro 
canadense do Clube, um advogado de Montreal, Dick Pound, conhecido por ser 
direto — às vezes até demais. Em 1991 Pound deixou o cargo de vice-presidente 
do COI, quando seu mandato de quatro anos chegou ao fim. Mas ele continua 
sendo uma das figuras mais influentes do mundo olímpico, pois Pound é o 
negociador de direitos para a televisão mais experiente do COI. Este canadense 
de aparência complacente representa o COI quando as Olimpíadas vão a leilão. 
Um membro do Clube, ausência notável da festança de Barcelona, antigo 
colega norte-americano de Pound, é o advogado Robert H. Helmick, de Dês 
Moines, lowa. Até o final de 1991, Helmick presidia o poderoso Comité Olímpico 
dos Estados Unidos — conhecido como USOC. Ele assinava os contratos 
multimilionários de suporte financeiro, em dólares. Ao mesmo tempo, era membro 
da diretoria executiva do COI. Helmick se posicionava para suceder Samaranch, 
mas no ano passado foi acusado de receber dinheiro de organizações esportivas 
e empresas de marketing e televisão interessadas em contratos com o movimento 
olímpico. Foi forçado a renunciar ao USOC, e depois ao próprio COI. 
Desfrutam também de todos os luxos os membros do Clube que 
representam o outrora poderoso Bloco Oriental: Vital Smirnov e Marat Gramov, da 
Rússia; Alexandru Siperco, da Romênia; Vladimir Cernusak, da Tchecoslováquia; 
Shagdarjav Mag-van, líder sindical da Mongólia; Wlodzimierz Reczek, da Polônia; 
Ivan Slavkov, da Bulgária; e, claro, o veterano Gunther Heinze, vindo de Berlim 
Oriental, agora representando a nova Alemanha unificada. 
Com o inesperado triunfo da democracia em seus países, muitos deles 
foram demitidos de seus cargos e poderes no esporte — mas permanecem no 
COI até o final da vida, viajando pelo mundo e representando apenas a si 
mesmos. 
Nos vinte e sete anos passados desde a entrada de Juan António 
Samaranch para o COI, a organização passou da miséria à riqueza. No início dos 
anos 1960, a situação financeira do Comité Olímpico era catastrófica. Os Jogos 
de Roma, em 1960, deram um prejuízo de 300 milhões de liras. Mas ainda havia 
uma esperança. As empresas de televisão vieram em seu socorro. Contudo, a 
sobrevivência se dava precariamente. Reggie Alexander, na época representando 
o Quênia no COI, ofereceu-se para arranjar um contador disposto a cuidar dos 
livros do COI de graça. Desde então, as coisas melhoraram bastante. Atualmente 
a renomada empresa internacional Price Waterhouse cuida da auditoria das 
contas. 
A contabilidade do COI é mantida em segredo. Descobrimos que em 
dezembro de 1990, o presidente Samaranch cuidava de uma organização com 
US$ 20 milhões de orçamento anual e bens no valor de US$ 118 milhões. Possui 
quase US$ 60 milhões em dinheiro — sabiamente divididos em francos suíços (75 
por cento) e dólares (25 por cento), para tirar proveito das taxas de juros mais 
altas. 
O COI de Samaranch, com base na Suíça, passou de um grupo de onze 
pessoas amontoadas em três salas no segundo andar de uma casa chamada 
Mon Repôs para uma equipe de 61, instalada em um luxuoso complexo de 
prédios revestidos de mármore rodeados por jardins bem-cuidados, em volta do 
castelo de Vidy, em Lausanne. Apenas a folha de pagamento anual atinge hoje a 
soma de 8 milhões de francos suíços. Em breve haverá mais escritórios. Uma 
ampliação e salas subterrâneas ligarão o castelo de Vidy com a Casa Olímpica 
vizinha. 
E o império continua a crescer. Quando o COI se reunir em Lausanne, para 
sua 100? sessão, em junho de 1993, o presidente Samaranch inaugurará seu 
projeto mais ambicioso: um museu olímpico no valor de 40 milhões de dólares. A 
idéia foi custeada por conglomerados internacionais agradecidos, felizes pela 
oportunidade de formar fila para doar um mínimo de US$ l milhão cada para o 
presidente. Samaranch, confiante no toque de Midas das Olimpíadas, não hesitou 
em arrematar o Atleta Americano, uma estátua em bronze de Auguste Rodin. O 
presidente Samaranch tinha certeza de que um patrocinador apareceria para 
bancar seu custo. Não se pode chamar seu otimismo de exagerado. As doações 
para o museu superaram a casa dos US$ 20 milhões. 
Os comitês olímpicos auto-nomeados, responsáveis pelas finanças, 
doping, medicina esportiva e organização dos jogos olímpicos de inverno e verão, 
cresceram de sete, quando Samaranch entrou em cena em 1966, para os 
dezessete atuais. Apenas estes comitês consomem anualmente 4,5 milhões de 
francos suíços. 
Passagens de primeira classe em vôos de carreira ou aviões fretados e 
hospedagens em hotéis luxuosos para membros do COI custa mais 2 milhões de 
francos suíços por ano. Outros 3 milhões de francos suíços vão para a assessoria 
de imprensa, material de divulgação e atividades de relações públicas. 
Manipular profissionalmente a cobertura da mídia é algo crucial -para 
Samaranch. O COI contratou uma das maiores agências de relações públicas do 
mundo. Samaranch declarou: "O mundo do esporte está mudando rapidamente, e 
a complexidade das questões e a amplitude dos interesses comerciais cresce 
constantemente. Para lidar com estas circunstâncias, decidimos aumentar o 
alcance e a profissionalização de nossas comunicações." 
A agência de publicidade Grey, contratada para "aumentar o alcance e a 
profissionalização" das comunicações coloca a questão de forma mais clara: "Em 
nossa opinião", insiste o diretor Ed Meyer, "o movimento olímpico internacional é 
como uma marca', e precisa de um guardião para preservá-la e desenvolver seu 
potencial futuro. A Grey se orgulha de seu rol de sucessos em termos de 
assistência aos clientes na implementação de marcas mundiais importantes, e 
pretendemos ajudar o COI neste sentido." 
A Olimpíada como uma "marca mundial": O movimento olímpico de 
Samaranch encontra-se num mundo diferente daquele descrito por um ex-
presidente olímpico, que declarou: "As Olimpíadas não são um negócio, e aqueles 
que almejam ganhar dinheiro com o esporte não são bem-vindos. É isso e 
pronto!" Aqueles que desejam ganhar dinheiro com o esporte, hoje em dia, são 
recebidos de braços abertos. O preço que o Comité Olímpico Internacional de 
Samaranch cobra das companhias de televisão e conglomerados comerciais 
multinacionais é assombroso. 
Para os Jogos Olímpicos em Barcelona só as companhias de televisão de 
todo o mundo concordaram em pagar um total de US$ 663 milhões. A rede norte-
americana NBC entrou com US$ 416 milhões. A União Européia de Emissoras 
pagou US$ 90 milhões. A NHK lidera um grupo de emissoras de televisão japo-
nesas, bancando US$ 62,5 milhões. O Canal 7 australiano pagou quase US$ 34 
milhões. Mesmo com o caixa baixo, o Leste Europeu contribuiu com US$ 4 
milhões. Todo este dinheiro se soma aos US$ 289 milhões que as companhias de 
televisão mundiais já pagaram este ano pêlos direitos de transmitir as Olimpíadas 
de Inverno, realizadas em fevereiro em Albertville. Na Olimpíada de Roma, em 
1960, a televisão pagou apenas US$ l milhão. 
E isso é só o começo da avalanche de dólares. Graças à televisão, uma 
audiência global de quase 3,5 bilhões de consumidores está disponível. Uma 
dúzia de multinacionais — entre elas a Coca-Cola, Visa e Mars — pagaram até 
US$ 30 milhões cada para garantir os direitos mundiais de vincular seus produtos 
aos Jogos Olímpicos, com exclusividade. Outras dez companhias, incluindonomes como Seiko, Danone e Asics, cujos produtos não podem concorrer com as 
marcas dos patrocinadores principais, pagaram um mínimo de US$ 6 milhões 
pelo direito de incorporar o logotipo dos Jogos em seus anúncios. 
A Rank Xerox, Philips, IBM, Seat e outras quatro companhias, cuja 
contribuição foi considerada "essencial para a organização dos jogos", e que se 
dispuseram a pagar um mínimo de US$ 23 milhões cada, foram aceitas como 
colaboradoras dos organizadores do evento de Barcelona. Outras dezoito 
companhias, dispostas a fornecer serviços e produtos no valor mínimo de US$ 2 
milhões, como equipamentos de escritório, cabos de força e sinais, completam o 
quadro, como fornecedores oficiais das Olimpíadas de Barcelona. 
Ancorados no porto de Barcelona estarão dezesseis transatlânticos de 
luxo. Foram alugados para atender às necessidades destas corporações 
patrocinadoras, colaboradoras e fornecedoras. Elas contam com 2,5 mil 
apartamentos flutuantes para uso de seus executivos e convidados. 
Na cabines e decks do Royal Viking Sun passearão 740 magnatas, 
convidados e celebridades da rede norte-americana NBC. Ao lado dos homens de 
televisão e seus convidados estarão os navios Danae e Seabourn Spirit. Estes 
hotéis flutuantes, igualmente luxuosos, hospedarão os diretores, amigos e clientes 
da IBM espanhola e da companhia norte-americana 3M — mais dois dos doze 
patrocinadores mundiais das Olimpíadas. 
O estilo de vida dos patrocinadores olímpicos nos transatlânticos 
ancorados em Barcelona deverá espelhar o tipo de vida desfrutado pêlos 
membros do Clube, em terra. Todo evento social olímpico é um carrossel 
constante de viagens de primeira classe, hotéis cinco estrelas, recepções regadas 
a champanhe, banquetes nababescos, montanhas de presentes e programas 
requintados. E, frequentemente, não há um único atleta à vista. 
O hotel cinco estrelas Hyatt Regency situa-se em frente ao novo Centro 
Internacional de Convenções de 160 milhões de libras, na parte nobre da 
segunda cidade britânica. O Hyatt é o hotel mais novo e caro de Birmingham. 
Grande, imponente, pintado de azul, foi classificado, para desespero de seus 
proprietários, como o mais pavoroso dos novos prédios ingleses. A torre de 
concreto e vidro repete o estilo arquitetônico "insosso" internacional moderno. 
Poderia ter sido construído em qualquer lugar do mundo onde os executivos das 
grandes empresas resolvessem torrar dinheiro. 
Na frente do hotel tremula a bandeira olímpica. Em junho de 1991, o 
Birmingham Hyatt Regency serviu de quartel-general temporário do Clube, que se 
reunia pela última vez antes do ano olímpico. O grosso da conta foi pago pêlos 
anfitriões, ou seja, a prefeitura de Birmingham. 
— Lamento, senhor, mas é proibido circular nesta área —, informou um 
dos muitos policiais da região de West Midlands, parado na entrada do Hyatt. 
Bem, ele não estava realmente na entrada, e sim a uns seis metros da porta. 
Ninguém pode se aproximar do acesso ao hotel. Há um grupo numeroso de 
policiais operando um sistema de segurança imenso, do tipo existente em 
aeroportos, montado na calçada. O sistema inclui raios-X para examinar a 
bagagem e detetor de metais. Tanto o Hyatt quanto o Centro Internacional de 
Convenções se transformaram em uma "ilha se segurança total", no jargão dos 
especialistas. Na prática, isso significa que os meros mortais não podem entrar. 
— Mas somos jornalistas credenciados — protestamos. 
— Sinto muito, senhor, mas não permitem a entrada de ninguém — foi à 
resposta. Uma frota de limusines brancas, todas ostentando os cinco anéis 
olímpicos e a placa "carro oficial", entram e saem do Hyatt. Ao volante sempre há 
moças louras idênticas, de pernas longas. As limusines conduzem uma fila de 
pessoas bem-vestidas, homens em sua maioria, na entrada do hotel. Trata-se dos 
noventa e poucos membros do Comité Olímpico Internacional, recém chegados 
na primeira classe dos jatos que pousam no aeroporto internacional de 
Birmingham. 
A polícia cuida da bagagem daquela gente tão importante, e escolta os 
grupos pêlos controles de segurança. Uma limusine, maior do que as outras, 
chega escoltada por batedores de motocicleta. A prefeitura de Birmingham 
poderia hospedar uma família sem teto num carro daqueles, e ainda sobraria 
espaço para alguns parentes. Oculto na barriga do monstro, um Rover Regency 
cinza-metálico de vinte e quatro cilindros, encontra-se o membro mais importante 
do Clube: o presidente olímpico Juan António Samaranch. 
Como no caso do Princesa Sofia de Barcelona, o Hyatt foi inteiramente 
reservado para o uso do movimento olímpico. Teve as portas fechadas ao público 
três dias antes do início da 97a. sessão, a reunião anual do COI. Patrocinar a 
burocracia esportiva do presidente Samaranch, e a publicidade decorrente, é tão 
desejável que hoje em dia as cidades disputam vigorosamente o privilégio de 
sediar até as meras reuniões do COI. Imaginem o que não fariam para ter as 
Olimpíadas! 
Os rivais de Birmingham no privilégio de sediar a reunião eram Moscou, 
Belgrado, Nairobi, Riad, Monte Cario e Budapeste. Como acontece na disputa 
pelas Olimpíadas, foram realizadas várias sessões de votação, onde se 
descartava a cidade na última colocação, até que a vencedora conseguisse 
maioria absoluta. Na última rodada restaram apenas Budapeste e Birmingham. 
Um dos membros favoráveis a Budapeste, representante do Kuwait, resolveu sair 
da sala para fumar um cigarro. Enquanto estava fora, Birmingham ganhou a 
parada — por um voto. Respondendo a uma pergunta do presidente Samaranch, 
Mary Glan-Haig, um dos dois membros britânicos do COI, disse que o resultado 
foi "decisão de Alá". 
Os organizadores do evento em Birmingham concordaram em pagar as 
diárias dos 319 apartamentos do Hyatt durante uma semana — independente de 
sua ocupação ou não. Só as despesas de hospedagem neste hotel chegam a 
34.689 libras por dia, ou 277.512 libras por semana. Na suíte presidencial de 
cobertura, onde a diária chega a 595 libras, está Juan António Samaranch. O 
presidente pode receber seus convidados para jantar numa mesa com doze 
lugares; descansar nos sofás perto da lareira da sala de estar; fazer 
hidromassagem na imensa banheira Jacuzzi; tocar piano de cauda ou 
simplesmente tirar uma soneca na cama com dossel. 
A suíte já foi ocupada anteriormente por estrelas do show business, como 
Gloria Estefan, Paul Simon, Rod Stewart e Billy Idol. Tina Turner queria ficar ali, 
mas Cher chegou primeiro. 
— A suíte costuma ser usada às vezes por empresas privadas — disse a 
gerente de relações públicas do Hyatt, Catriona McFad-den. — Mas isso era mais 
comum no ano passado. Este ano tivemos muitos cancelamentos, por causa da 
recessão. Falta dinheiro, na verdade. Por isso esta reserva foi ótima para nós. 
Temos uma semana garantida, em vez de ficarmos às moscas. 
As suítes executivas do Hyatt, um pouco menos luxuosas, com diárias de 
295 libras, foram reservadas para os três membros mais antigos do mundo 
olímpico. O restante da corte olímpica, seus parentes e convidados, precisam se 
contentar com 8 suítes júnior, 35 apartamentos Regency Club e 242 
apartamentos de luxo. 
— O COI cuidou da distribuição das acomodações — disse McFadden. — 
São muito cuidadosos com o protocolo. Visitaram o hotel pela primeira vez há um 
ano, para ver se as instalações estavam à altura. Levaram uma planta do hotel, 
com os quartos e seus tamanhos, e organizaram a distribuição. Depois nos visi-
taram mensalmente, para manter contato e conferir as providências tomadas. 
"Lausanne informava a distribuição dos quartos por fax. Havia mudanças a 
todo momento. A certa altura, mandavam fax com tanta freqüência que nem 
registrávamos as alterações no computador! Nunca vi algo assim, e duvido que 
um dia isso aconteça novamente. O mais próximo que vi foi uma reunião do Parti-
do Conservador — mas não chegava nem aos pés. Estas pessoas agem como se 
fossem chefes-de-estado. 
"Mas sem dúvida trata-se de um bom negócio parao hotel, A situação do 
mercado não é das melhores no momento, e o evento nos dá muita publicidade. 
Aparecemos na televisão todas as noites, esta semana!" 
Lá dentro do Hyatt, o circo olímpico completo está montado. Membros do 
COI, patrocinadores das grandes empresas, pessoal de marketing, dirigentes dos 
comitês olímpicos nacionais e presidentes de federações internacionais 
encontram-se e conversam num local que mais parece uma gigantesca estufa. Há 
palmeiras nos vasos, árvores em jardineiras de terracota e fontes iluminadas. Sob 
a luz discreta do teto de vidro, um violinista toca clássicos populares. Uma 
pianista se instala no piano de cauda. Surge um conjunto de cordas. Eles tocam 
Take a Good Care of Yourself (Cuide Bem de Si Mesmo). Não precisam se 
preocupar com este aspecto. 
Os grupos se distribuem pelo saguão. Rodeiam a piscina como piranhas, 
esperando por uma oportunidade de dar sua mordidinha. Por trás das colunas 
neo-clássicas no setor da recepção principal, formam-se as rodinhas de agentes e 
pessoal da mídia, cheios de idéias para vender e negócios para fechar. Os funcio-
nários do hotel circulam discretamente, nas áreas públicas, polindo 
constantemente os tampos das mesas de mármore e vidro. 
A televisão do Kuwait, num canto, filma o jovem xeque Ah-mad. Seu traje 
bordado em ouro combina com a bengala de ouro em sua mão. O pai do xeque, 
já falecido, representava o Kuwait no COI, e foi morto a tiros pelas tropas do 
Iraque na invasão de agosto de 1990. O jovem xeque assumiu o lugar do pai, 
como titular do comité olímpico nacional do Kuwait. Espera substituir o pai no 
COI, também. Cada gesto seu é filmado. O xeque se levanta. A câmera começa a 
funcionar. O xeque senta. A câmera começa a filmar. O xeque pede chá. A 
câmera, pelo jeito, não pára nunca. 
Nos quartos do Hyatt encontram-se flores, vinhos e frutas de boas-vindas. 
Outra maneira de recepcionar os hóspedes é enviar caixas de chocolates de uma 
fábrica local, Cadbury's. Repentinamente, os corredores se agitam. Os chocolates 
são arrancados das mãos dos hóspedes! A empresa Mars pagou dezenas de mi-
lhões de dólares para patrocinar, em escala mundial e oficialmente, as 
guloseimas olímpicas, e não podem ter seu território invadido pela concorrência. 
"Boas-vindas especiais ao departamento de marketing do COI", diz uma nota 
impressa no cardápio da brasserie do hotel. Muito especiais, sem dúvida. 
Um dos membros destacados do Clube, o italiano Primo Nebiolo, senhor 
supremo do atletismo mundial, desce as escadarias do hotel. Ele se move pelo 
saguão como se usasse patins. Abraça Charles Mukora, antigo representante da 
Coca-Cola no Quênia, agora membro do COI. Mukora também participa do 
conselho da federação de atletismo de Nebiolo. A um passo atrás do presidente 
segue um de seus assessores de imprensa. As pessoas se cumprimentam com 
beijos e abraços exagerados. 
Esposas e filhos acompanham os hóspedes. O programa de atividades 
cobre a semana inteira, preenchendo as horas disponíveis, nos períodos em que 
os membros do COI se reúnem. A "programação social" inclui uma visita à fábrica 
real de porcelana de Worcester e uma excursão a Stratford-upon-Avon, local de 
nascimento de Shakespeare. Isso sem falar no passeio pelas antiguidades de 
Shropshire, com direito a almoço em Stanley Hall, residência de um dos diretores 
da Christies, a famosa firma internacional de leilões. Para terminar, uma exclusiva 
visita a Willey Park, em companhia dos proprietários da famosa mansão, lorde e 
lady Forester. 
Essas saídas se somam às atividades sociais já previstas para os 
membros da família olímpica. Uma companhia de bale apresenta o Lago dos 
Cisnes. A orquestra sinfônica da cidade de Birmingham dá um concerto, na outra 
noite. Há também os banquetes. Um jantar formal, oferecido pelo próprio 
presidente Samaranch; um almoço com a presença de Sua Majestade a rainha e 
o jantar promovido pela Associação Olímpica Britânica, em homenagem ao 
Comité Olímpico Internacional. 
Este último evento glamouroso teve como anfitriã a Princesa Real Arme, no 
castelo de Warwick, um dos mais belos castelos medievais da Inglaterra. A 
princesa Anne faz parte do COI, onde a Grã-Bretanha tem dois representantes, e 
preside a BOA, Associação Olímpica Britânica. A bem da verdade, ela também 
preside a Federação Eqüestre Internacional, um cargo herdado do pai, o príncipe 
Philip. Para realizar este evento, a BOA reservou uma noite no castelo, e recebeu 
cerca de 300 convidados com champanhe, no salão principal. Em seguida, numa 
tenda erguida nos gramados do castelo, aconteceu o banquete, com sopa gelada 
de agrião, salmão e morangos com biscoitos ao brandy e creme. 
O presidente Samaranch e esposa compareceram ao banquete como 
convidados de honra. A esposa do presidente desceu graciosamente pela porta 
traseira da limusine com chofer, e, num reflexo condicionado, ergueu a mão e 
acenou para a multidão — embora não houvesse multidão alguma. A festa era 
particular. 
Um cavaleiro de armadura e uma banda de gaita de foles saudou os 
membros do Clube que chegavam. Um gaiteiro solitário tocava nas ameias 
iluminadas da Torre Guys, quando os convidados partiram, cerca de três horas 
depois. Ao receber os agradecimentos, no dia seguinte, um dirigente graduado do 
BOA retrucou: "Não foi nada. Preferimos as coisas simples." 
A abertura da sessão, por si só, já foi um grande espetáculo. A cerimônia 
começou às 15 horas, no dia 12 de junho de 1991, no salão principal do Centro 
Internacional de Convenções. Acompanhado de uma fanfarra, com os 
trombeteiros dos Life Guards, o presidente e a Sra. Samaranch entraram na 
tribuna real, com Sua Majestade a Rainha e o duque de Edimburgo. Atrás deles 
sentaram-se os membros do COI. Na tribuna real, quebrando o protocolo do COI, 
instalou-se também Primo Nebiolo. Ele entrou graças a um pedido do presidente 
Samaranch. Alguns membros do COI ficaram contrariados com a presença do 
italiano, mas como confidenciaram mais tarde a nós, "como alguém poderia dizer 
ao presidente do COI quem ele deveria pôr ou não na tribuna real, na abertura da 
sessão do COI?" 
Após as referências obrigatórias à visão do barão Pierre de Coubertin, 
fundador das Olimpíadas modernas, Samaranch disse à platéia: "O esporte 
olímpico não pode se transformar em mero show business." Ele sugeriu que o 
modo de se evitar isso seria "convencer os meios de comunicação de massa a 
nos ajudar a dar mais importância aos valores éticos do esporte." 
Ele devotou um parágrafo aos problemas éticos do doping, e depois bem 
mais tempo atualizando os presentes sobre os progressos de seu museu 
olímpico. Afirmou que "as soluções podem ser encontradas para tudo." Em 
seguida Sua Majestade a Rainha discursou. Ela disse ao presidente Samaranch 
que "os olhos do mundo estarão voltados para os resultados das deliberações. 
Confio que o movimento olímpico continuará a prosperar, sob a direção de 
pessoas que, como o senhor, servem à causa com tanta devoção." Depois disso, 
a rainha declarou aberta a 97a. sessão do Comité Olímpico Internacional. 
A platéia foi brindada, em seguida, com uma apresentação de uma hora da 
Royal Variety Performance de Birmingham. Em um espetáculo intitulado "Uma 
Amostra da Grã-Bretanha", membros da Escola de Dança Contemporânea do 
Norte, Guarda dos Granadeiros, gaitistas e percussionistas da Guarda Escocesa 
e cantores dos Corais Masculinos dos Midlands apresentaram uma cansativa 
história das olimpíadas antigas, e depois uma explicação do desenho da bandeira 
britânica, o Union Jack, com música e da dança. 
Os membros do COI adoraram tudo. Quando o segundo batalhão da 
Guarda Escocesa entrou pêlos fundos do auditório e marchou pelo meio da 
platéia, subindo ao palco de saiote, tocando gaita de foles, os membros do COI 
acompanharam o ritmo com os pés e as mãos. Depois de ouvirem Amazing 
Grace em silêncio, embevecidos, começaram a aplaudir com entusiasmo. 
As estrelas do show foram as crianças fantasiadas de lepre-chauns,uma 
espécie de duende irlandês. "Elas são sensacionais!" exclamou um membro do 
COI ao voltar para o Hyatt, onde descansaria um pouco. "Uma das melhores 
festas de abertura já realizadas." Certos membros do COI, mais idosos, 
precisavam mesmo de uma soneca, para enfrentar o restante das atividades 
previstas para aquele dia. Dentro de duas horas, os membros do COI e seus 
hóspedes deveriam comparecer a um concerto, seguido de ceia no final da noite. 
Em meio a tanta badalação, cerimônias e programas, fica difícil lembrar 
que a sessão do COI é o parlamento anual e órgão supremo do movimento 
olímpico. Na teoria, este encontro anual debate e depois vota a política a ser 
implementada em nome das Olimpíadas. Apesar do comparecimento maciço da 
imprensa — 500 repórteres, fotógrafos e equipes de televisão credenciados com-
pareceram a Birmingham —, quase nada do que se debate realmente no COI é 
revelado. As reuniões se realizam a portas fechadas. Representantes da 
imprensa não podem entrar. Em geral, as informações sobre os temas discutidos 
e decisões tomadas sofre o controle rígido da assessoria de imprensa do COI. 
Esta operação é controlada por Madame Michele Verdier. Segundo o COI, trata-
se de "uma pessoa bem-informada, que os jornalistas adoram questionar." A 
imprensa britânica, contudo, a chama de "o Bernard Ingham do COI", em uma 
comparação ferina com o famigerado responsável pelo controle das informações 
de Margaret Thatcher. 
Madame Verdier controla tudo. Aquela mulher espevitada, pálida, de 
cabelos escuros cacheados, sempre imaculadamente vestida com trajes escuros, 
calçando sapatos confortáveis e pesados, desempenha suas tarefas olímpicas 
como um dobermann. Ela serve de filtro oficial ao COI. De acordo com o sistema 
de Madame Verdier, a agenda olímpica não muda nunca. Pela manhã, exata-
mente às 8h45, no início de cada reunião do COI, ela escolta fotógrafos e 
cinegrafistas até o saguão, para uma "chance de registrar imagens". Ali eles 
podem fotografar e filmar o Clube, que se prepara para discutir os grandes temas 
do dia. Sobre o tablado instalam-se os membros do círculo íntimo de Samaranch, 
a diretoria executiva. Entre eles, Dick Pound, do Canadá, Un Yong Kim, da Coréia 
do Sul, Kevan Gosper da Austrália e Zhenialing He, da China. Esta "chance" dura 
exatos quinze minutos. Madame Verdier, depois de sobrevoar a cena 
ansiosamente, escolta fotógrafos e cinegrafistas para fora, e tranca a porta atrás 
deles. Os representantes da imprensa mundial sentam-se para tomar café, 
cortesia da casa. Alguns querem beber algo mais forte. 
— Uma cerveja, por favor. 
— Certamente, senhor. Mas infelizmente precisará pagar por ela. 
O centro de imprensa ostenta os logotipos e produtos dos financiadores 
das Olimpíadas. O local é inundado por Coca-Cola e chocolates Mars grátis. As 
máquinas de escrever eletrônicas são fornecidas pela Brother, e o fax pela Ricoh, 
patrocinadores mundiais dos Jogos Olímpicos. Os jornalistas aceitam, 
deslumbrados, as sacolas Adidas, tudo faz parte do esquema de relações públi-
cas. A imprensa entra para a família olímpica, para o time olímpico. 
No fim da reunião matinal realiza-se a entrevista coletiva, sob o comando 
de Madame Verdier. Atrás dela, duas gigantescas bandeiras olímpicas são 
desfraldadas. Os jornalistas presentes ouve*:1 seu relato resumido dos 
acontecimentos. Se pedem esclarecimentos sobre pontos obscuros, ela se vale 
de desculpas como "Isso não foi discutido em profundidade", ou "não creio que tal 
tema estivesse em pauta". 
Alguns jornalistas mais ousados reclamam. Não tiveram acesso ao hotel 
Hyatt. Não permitem que entrem e conversem a sós com membros do COI, para 
tentar descobrir o que realmente aconteceu na sessão secreta. Mas Madame 
Verdier vê o problema de um outro ângulo. Dois jornalistas japoneses ousaram 
aproximar-se de um membro graduado do COI, no final de uma sessão, antes que 
escapassem para seu santuário no Hyatt. Em função disso, a segurança foi 
reforçada no lado de fora do salão de reuniões, para impedir a repetição do fato. 
Depois de dois dias de negociações, Madame Verdier anuncia um acordo. 
Receberemos passes especiais. Mas haverá apenas quarenta passes para o 
contingente de quinhentos e tantos jornalistas. No dia seguinte apareceu um aviso 
no centro de imprensa: "Por favor, não abusem do sistema de passes, ou este 
privilégio será cancelado." Foi posto ali por ordem de Madame Verdier. 
O sistema de fotos posadas e entrevistas coletivas prossegue. Somente no 
último dia o presidente Samaranch comparece em pessoa, para falar à imprensa 
mundial. A última coletiva acontece no salão recém-ocupado pêlos membros do 
COI. Mesmo no final das deliberações, o serviço de segurança não permite que 
os jornalistas entrem no local de conferência antes do sinal verde de Madame 
Verdier. 
Samaranch chega. Ele inicia sua fala ressaltando: "Encontramos aqui 
excelentes condições de trabalho." Usa o inglês, idioma oficial do COI, ao lado do 
francês. Nos fundos do salão, os tradutores vertem as declarações para seis 
línguas. Samaranch permite perguntas. Querem saber como ficam os casos da 
Catalunha e Gibraltar, que pressionam por um representante independente no 
COI. Samaranch responde que acabou de formar mais uma comissão para 
estudar a questão. Será comandada pelo juiz Mbaye, do Senegal. "Pedirei a ele 
que comente este tema", diz Samaranch. 
O juiz, sentado ao lado do presidente, parece perplexo. Diz ao jornalista 
que fez a pergunta: "Ainda não posso adiantar nada. Fui nomeado para a tarefa 
hoje de manhã." Os problemas de um recente escândalo de doping são 
levantados. Samaranch vai abrir inquérito? "Não. Trata-se de um assunto para a 
Federação Atlética Amadora Internacional", diz o presidente, que encerra o 
assunto. 
Conseguir informações específicas vai se tornando difícil, abundam as 
generalidades. Mas poucos jornalistas o apertam para valer. Depois de 45 
minutos, Samaranch declara que a entrevista está encerrada. Quando sai, boa 
parte dos jornalistas se ergue para aplaudi-lo. 
O aplauso entusiástico será indubitavelmente ouvido novamente em 
Barcelona, saudando o líder do Clube. O moto desta Olimpíada é "Amigos para 
Sempre". Os membros do Clube já são amigos para sempre. E levam uma boa 
vida, num circo constante de reuniões, negócios e acordos no agora lucrativo, 
poderoso e badalado mundo do esporte internacional. A ironia é que, em 
Barcelona, as duas únicas pessoas ausentes desta última reunião do Clube foram 
os homens que tornaram tudo possível. 
 
2 
O SISTEMA 
 
Naquela manhã de abril o Clube se reuniu em um cenário diferente do 
carrossel costumeiro de hotéis cinco estrelas, banquetes e espetáculos esportivos 
internacionais. A reunião ocorreu em 1987, um ano antes da Olimpíada de Seul. 
O Clube compareceu a um serviço fúnebre, na igreja de Notre-Dame de 
Lausanne, na Suíça. 
Os dirigentes do esporte mundial representavam os três ramos da família 
olímpica — O Comité Olímpico Internacional, as federações esportivas 
internacionais e os comitês olímpicos de cada país. Sentaram-se em silêncio, 
chocados, enquanto o presidente Juan António Samaranch lembrava a todos o 
motivo de sua presença. "Estamos aqui reunidos para prestar uma tributo a um 
grande homem, e rezar por ele." O grande homem, razão do comparecimento dos 
presidentes e secretários-gerais do vasto mundo do esporte, normalmente tão 
festeiros, não era nenhum grande atleta olímpico, e muito menos um membro 
importante do COI. Tratava-se de um empresário. Os altos dirigentes do esporte 
mundial, atentos e compenetrados nos bancos da igreja de Notre-Dame naquela 
manhã, estavam ali para honrar a memória de Horst Dassler, diretor da Adidas 
alemã, a maior companhia fabricante de artigos esportivos do mundo. 
"Horst Dassler dedicou a vida ao esporte", entoou Samaranch. "Não há 
necessidade de repetir aqui o que realizou durante sua carreira, pois todos os 
presentes estão bem-informados." Samaranch não exagerava. HorstDassler não 
era a penas o homem que vendia os tênis mais conhecidos do mundo, com as 
famosas três listas. Horst Dassler criou o Clube. 
"Ele tinha muitos amigos entre nós", prosseguiu o dirigente olímpico. "E 
será lembrado e respeitado, durante muito tempo, por todos nós. Lamentamos 
sinceramente a perda de seu conhecimento, visão e profunda compreensão da 
complexa realidade esportiva do esporte mundial." 
Sob a orientação de Dassler no trato da "complexa realidade" esportiva, os 
dirigentes internacionais ganharam um poder e um prestígio jamais sonhados. 
"Falo por mim, e com certeza por muitos outros", prosseguiu Samaranch, 
"ao afirmar que a qualidade mais notável de Horst Dassler foi sua contribuição 
pessoal a todos os necessitados de assistência no mundo esportivo." 
Manipulando com astúcia os "necessitados de assistência no mundo 
esportivo", Dassler criou a estrutura atual do esporte internacional, dominado 
pêlos empresários. Durante o processo, ele também transformou a Adidas, 
fabricante de equipamentos esportivos e a empresa de marketing ISL em duas 
instituições esportivas de grande influência internacional. 
Cinco anos se passaram desde a morte de Dassler, e a marca Adidas não 
é mais controlada por sua família. Mas a companhia de marketing ISL sim. Possui 
exclusividade mundial na venda dos direitos da Copa do Mundo de futebol, do 
Campeonato Mundial de atletismo, do Campeonato Mundial de basquete e, final-
mente, dos Jogos Olímpicos. Além disso, os direitos da ISL sobre alguns destes 
contratos avançam até o próximo século. 
"Orgulhamo-nos por fazer parte de seu círculo de amizades. Estou seguro 
que cada um de nós guarda lembranças muito especiais deste homem 
extraordinário, a quem o esporte tanto deve. Obrigado, Horst, por tudo que 
realizou. Adeus, velho amigo. Sentiremos sua falta!" 
Os louvores de Samaranch ainda ecoavam nos ouvidos dos mais 
poderosos dirigentes esportivos mundiais quando estes saíram da igreja de Notre-
Dame e voltaram imediatamente para seus negócios. 
Horst Dassler morreu de câncer no dia 10 de abril de 1987. Com apenas 
51 anos, encontrava-se no auge de seu poder. Na época de sua morte, o império 
Adidas faturava mundialmente US$ 2,2 bilhões. Ele empregava mais de 12 mil 
pessoas, e fabricava 400 produtos esportivos, de bolas a sacolas, de jaquetas a 
raquetes. As fábricas, espalhadas da Europa até o Extremo Oriente, despejavam 
no mercado mais de 250 mil pares de tênis por semana. 
Grande pane dos clientes da Adidas não pratica esportes. Segundo um 
obituário, "milhões de pessoas usam os calçados da companhia para tarefas 
pouco cansativas, como apanhar o controle remoto da televisão". Mas, para 
manter os entusiastas da poltrona como compradores de seus produtos, Dassler 
fazia questão de que os vencedores também usassem Adidas. Nas Olimpíadas 
de Los Angeles, as últimas antes da morte de Dassler, ele se gabou de que 80 
por cento dos atletas, na corrida, natação, futebol, basquete ou boxe usavam 
seus produtos, levando as três listas e o trevo da Adidas a uma platéia de bilhões, 
via televisão. 
Uma pessoa não compareceu à reunião de membros do Clube no serviço 
fúnebre de Lausanne, em homenagem ao colosso do mundo dos negócios. O 
ausente era Patrick Nally, antigo sócio nos negócios e braço direito de Horst 
Dassler. Nally também guarda "lembranças muito especiais" de Horst Dassler, 
para usar as palavras do presidente Samaranch. E até agora Patrick Nally con-
servou estas lembranças só para si. 
"Quando o presidente Samaranch conferiu a Horst a medalha da Ordem 
Olímpica, três anos antes de sua morte", declarou Nally, "ele anunciou que Horst 
a recebia por sua fidelidade aos ideais olímpicos do fundador das Olimpíadas 
modernas, Pierre de Coubertin. Sei que os dirigentes esportivos mundiais balan-
çaram a cabeça em sinal de aprovação, mas o pobre Coubertin deve ter se 
revirado na cova." 
Patrick Nally foi o homem que trabalhou ao lado de Horst Dassler para 
desenvolver o Clube. Juntos, eles lançaram as bases dos campeonatos mundiais 
esportivos: montanhas de dólares, cobertura maciça da televisão, federações 
fabulosamente milionárias e presidentes badalados. 
"Horst tornou-se o dono das marionetes do mundo esportivo", afirmou 
Nally. "Mexeu os pauzinhos para criar mudanças significativas, sendo a maior 
delas seu legado de controle dos Jogos Olímpicos modernos. Horst adorava 
controlar e manipular. Era realmente excelente, comandar as marionetes o 
entusiasmava. Agindo nos bastidores, sabia muito bem que as coisas acabavam 
acontecendo inteiramente de acordo com seu plano." 
Quando Nally associou-se a Dassler, no começo acreditava que agiam em 
benefício do esporte. Mas no início da década de 1980 ele começou a ter 
algumas dúvidas. "Cheguei a um ponto onde se tornou difícil descobrir de que 
lado eu estava. Do lado dos patrocinadores, que despejavam dinheiro para 
melhorar sua imagem? Do lado das federações esportivas, que gastavam o 
dinheiro? Ou do lado de Horst Dassler, que explorava tudo em função da Adidas? 
A história das origens da Sportschuhfabriken Adidas é bem conhecida. 
Parece um conto de fadas de Hans Christian Andersen ou uma história dos 
irmãos Grimm. Era uma vez um rapaz chamado Adolf Dassler, que vivia com o 
irmão Rudolph na pequena cidade alemã de Herzogenaurach. Os dois 
trabalhavam como sapateiros. Certo dia, os irmãos brigaram seriamente. A 
discussão foi tão pesada que Adolph e Rudolph resolveram nunca mais se falar. 
Separaram-se, e passaram a trabalhar como concorrentes no ramo da sapataria, 
em margens opostas do rio Aurach. Rudolph batizou sua oficina de Puma. A 
empresa fundada por Adolph e sua esposa recebeu o nome de Adidas, uma 
'combinação não muito criativa de Adolph, mais conhecido como Adi, e Dassler. 
Mas, ao contrário do que ocorre nos contos de fadas, eles não viveram felizes 
para sempre. 
"Mesmo depois do famoso rompimento que gerou a Adidas e a Puma as 
brigas na família Dassler continuaram freqüentes", recorda-se Nally. "Horst tinha 
quatro irmãs, e vivia com medo que estas disputas familiares terminassem com 
outra separação completa, igual à ocorrida entre seu pai e o tio Rudolph. Este 
medo constante, que um dia coincidiu com mais um dos intermináveis confrontos 
dentro da família, finalmente levou Horst a deixar a Adidas da Alemanha. Ele 
mudou para a França, e iniciou sua própria Adidas, em Landersheim. Implantar a 
Adidas francesa foi a solução de Horst para se afastar dos problemas familiares." 
Embora a Adidas alemã e ele ainda mantivessem vínculos, por intermédio 
da companhia holding familiar, havia uma atitude muito competitiva entre as duas. 
"Todos os choques se deviam, basicamente, a um conflito de personalidades", 
disse Nally. "Mas, ironicamente, de certo modo os constantes atritos eram muito 
bons, porque todos ficaram mais competitivos. Horst e a família eram em geral 
agressivos e bem-sucedidos." 
Dassler usou a Adidas francesa para erguer seu próprio império dentro do 
esporte. Secretamente, através da companhia, ele conseguiu monopolizar o 
mercado de equipamentos esportivos. Adquiriu sub-repticiamente outras 
empresas fabricantes de material esportivo, e comprou quotas de concorrentes do 
ramo de calçados, como a Pony. 
"Horst não tinha apenas a marca Adidas", declarou Nally. "Ele estava 
criando um segundo grupo para fabricar equipamentos esportivos, desvinculado 
do nome Adidas, caso outro racha fundamental acontecesse. Neste caso, deixaria 
a Adidas de lado, reforçaria sua base na França e levaria o que pudesse consigo." 
Dassler amava os esportes genuinamente. Era um esportista en-
tusiasmado. Na juventude jogou hóquei e ganhou campeonatos de arremesso de 
dardo. Mas, acima de tudo, adorava o atletismo. 
"Ele se considerava um velocista, de certo modo", disse Nally. "De vez em 
quando me desafiava para uma corrida. Mesmo dez anos mais velho, ele me 
deixava para trás. 
"Também viva fascinado com os ídolos do esporte, com os melhores 
atletas. Comoum eterno garoto, ficava maravilhado com as estrelas. Eu achava 
extraordinária a maneira como aquele homem se emocionava ao conhecer a nata 
do esporte. Quando os encontrava, invariavelmente os adulava. Era realmente 
muito estranho, levando-se em conta o quanto ele se tornaria poderoso. 
"Horst sempre empregou muitos atletas. Gente como Robbie Brightwell e 
John Boulter, o corredor dos 800 metros nas Olimpíadas, constavam de sua folha 
de pagamentos. Conhecia profundamente o atletismo. Estava profundamente 
envolvido com as Olimpíadas, onde o atletismo reinava. O atletismo é uma das 
chaves para o mundo olímpico. A Adidas construiu seu nome e reputação graças 
a este esporte. Jesse Owens, na Olimpíada de 1936 em Berlim, ganhou quatro 
medalhas de ouro calçando Adidas. É só olhar para as fotografias dos campeões 
olímpicos. Os anos passam, mas a imagem das três listas nos calçados se repete 
regularmente. 
"O pai de Horst, o velho Adolph, compreendeu a importância de fixar a 
marca, e a importância das Olimpíadas. As pessoas se esquecem, hoje em dia, 
de que este era o único evento realmente internacional em atletismo, na época. 
Adolph Dassler percebeu que se tornava cada vez mais importante criar o mito de 
que só a Adidas fazia tênis para campeões. 'O vencedores usam Adidas.' Em 
outras palavras, se alguém ia ganhar a medalha de ouro, a ganharia usando 
Adidas." 
A estratégia de Horst Dassler, herdada do pai, se baseava em contatar os 
atletas e pagá-los. A meta era garantir que todos os esportistas de destaque 
usassem equipamento Adidas. Ele se encarregaria, então, de associar o "mito" 
dos grandes atletas com a marca Adidas. Havia um problema nisso, pois os 
atletas eram teoricamente amadores. As tentativas de Dassler para garantir que 
todos os esportistas de destaque usassem Adidas provocou atritos tanto com o 
Comité Olímpico Internacional, na época presidido por um norte-americano 
austero, Avery Brundage, quanto com a Federação Internacional de Atletismo 
Amador, dirigida pelo britânico lorde Exeter. 
Como resultado da "guerra do tênis" entre as companhias rivais, que se 
estendeu aos vestiários e pistas dos Jogos Olímpicos de 1968 no México, as 
federações atléticas decidiram que nos eventos internacionais futuros, apenas 
tênis sem marcas seriam permitidos. 
"Resolvemos introduzir esta regra em função dos acontecimentos no 
México", disse lorde Exeter. "Na próxima reunião do conselho, na Inglaterra, 
discutiremos a abrangência da proibição. A regra deve ser aplicada apenas a 
provas internacionais, ou também a campeonatos nacionais, regionais e locais?" 
Dassler disse que sentia muito, prometeu se comportar e continuou agindo como 
antes. 
Em uma entrevista coletiva olímpica, o presidente Brundage queixou-se: 
"Este é o preço que pagamos pelo sucesso dos Jogos Olímpicos. Todos querem 
tirar proveito comercial e político." E ninguém desejava isso mais do que Horst 
Dassler. 
"Horst era adepto da manipulação de pessoas", disse Nally. "Ele 
costumava me explicar os incentivos e formas de persuasão utilizados para ter 
certeza de que os atletas usariam Adidas. Uma das histórias mais vívidas de que 
me lembro envolvia a derrota de seu primo Armin, na época trabalhando com o tio 
Rudolph, na Puma. 
"Horst foi enviado pelo pai a Melbourne, nas Olimpíadas de 1956. Não 
passava de um adolescente. Melbourne foi provavelmente o primeiro contato de 
Horst com o mundo olímpico. As Olimpíadas ainda eram muito modestas, 
Melbourne teria recebido, pêlos direitos televisivos, a principesca soma de 80 
libras! Adidas disputava o terreno com a Purna, palmo a palmo. Horst deu um jeito 
de subornar algumas pessoas no porto australiano, para impedir o desembarque 
do equipamento da Puma. Ficou muito orgulhoso por ter derrotado o primo com 
tanta facilidade.'' 
O sucesso de Horst Dassler contrastava profundamente com os resultados 
obtidos por empresários mais diretos. Em Melbourne, o Comité Olímpico 
Internacional foi abordado por um fabricante que pretendia doar relógios de pulso 
aos atletas ganhadores de medalhas. A oferta foi recusada, com agradecimentos: 
"u COI não pretende alterar a condição de amadores dos participantes, nem 
permitir a comercialização dos Jogos." O infeliz fabricante de relógios deveria ter 
tentado a sorte com Dassler, no porto. 
Mas a atenção de Horst Dassler não se concentrava apenas nas estrelas 
do atletismo. Vinte e cinco anos depois das Olimpíadas de Melbourne, Horst 
Dassler permanecia ativo. Em 1982 um escândalo do "calçado pago" estourou no 
rúgbi britânico, ainda um esporte considerado amador. Os vilões do caso? Adidas 
e Puma. 
Dirigentes da União de Rúgbi da Inglaterra ameaçaram expulsar dos 
campeonatos qualquer pessoa considerada culpada por aceitar dinheiro para usar 
produtos de qualquer dos dois fabricantes alemães. Os times ingleses, dos 
juvenis em diante, recebiam kits gratuitos há anos. Um diretor da Adidas foi 
forçado a fornecer os nomes dos esportistas pagos para usar calçados Adidas 
aos fiscais do imposto de renda britânico. "Os fiscais não revelarão os nomes dos 
envolvidos à União do Rúgbi", disse um relatório. "Esperam, portanto, que o 
responsável pela Adidas, Horst Dassler, esclareça tudo em uma reunião com os 
dirigentes." 
A União do Rúgbi ficou desapontada. Dassler recusou-se a dar nomes. 
Preferiu afirmar: "Somos vítimas de uma situação criada por nossos rivais. Não 
fomos os primeiros a pagar aos jogadores de rúgbi." Ele foi mais longe, admitindo 
que a Adidas entregara a jogadores "amadores" cerca de 50 envelopes recheados 
de dinheiro, nos últimos dois anos. A circunstância atenuante, declarou, era que 
"ninguém recebeu mais do que uma cifra de quatro dígitos." 
Os jogadores de rúgbi do País de Gales foram menos acanhados. O ex-
capitão de Gales, Mervyn Davies, confessou que recebia até 50 libras por jogo da 
Adidas, e justificou-se: "Eu não era o único". Arthur Young, servindo de 
representante para a Adidas, declarou à BBC que era encarregado dos 
pagamentos aos atletas do Welsh International desde o início da década de 1970. 
Segundo Young, os jogadores recebiam dele até 75 libras por jogo. Um ex-
jogador do Welsh International, confirmou a história de Young: "Arthur era como 
um Papai Noel para num, quando me pagava 50 libras!" 
A reação de Horst Dassler às revelações de Young foi dizer: "Revelar 
nomes é antiético!" Sua postura trouxe muitos benefícios. 
"Os anunciantes ingleses, e o setor de promoções se encheram de 
admiração pela maneira como Horst Dassler, da Adidas, tratou o envolvimento de 
sua companhia no grande escândalo do calçado pago", afirmou um jornal 
empresarial. "Ele conseguiu realizar uma obra-prima de promoção de sua 
companhia, praticamente sem gastar nada", disse um executivo de relações pú-
blicas de Londres. "Dassler se comportou bem do início ao fim. Quando tudo 
terminar provavelmente usaremos a campanha como um exemplo clássico para 
nossos estagiários, mostrando como alguém transforma uma publicidade 
potencialmente desastrosa em dividendos promocionais gratuitos." 
"Achamos tudo aquilo muito engraçado", disse seu antigo sócio Patrick 
Nally. "Era só um negócio, não considerávamos tais atitudes imorais, de modo 
algum. Horst faria o que fosse preciso para desbancar a concorrência. Creio que 
as batalhas familiares geraram esta paranóia do sucesso. Horst sempre acreditou 
que havia alguém esperando na virada da esquina, pronto para passar a perna 
nele. 
"Sua vida inteira foi marcada pelo segredo. Vivia olhando por cima do 
ombro, espionava a oposição e pagava para passar os outros para trás. No 
relacionamento com Horst, tudo era intriga, tudo era suspeita. Ele mantinha um 
arquivo com informações sobre as pessoas e detalhes de suas atividades. 
Treinava seu pessoal como se fossem espiões! Toda a equipe envolvida com es-
portes cujo trabalho era acompanhar atletas, recebia ordens de espionar a 
concorrência. Eram treinados para vasculhar as pastas alheias. Sei que parece 
ridículo,mas aprendiam até a grampear telefones. Horst se mostrava disposto a 
fazer qualquer coisa ao inimigo. E não lhe faltava competência para tanto." 
Do outro lado do canal da Mancha, Patrick Nally aprimorava os vínculos 
entre comércio e esporte de um modo bem diferente de Horst Dassler. Nally é um 
relações-públicas e especialista em marketing. Na adolescência trabalhara na 
Littlewood Pools, estimulando as pessoas a acreditar no desenvolvimento do 
futebol inglês. Ele se envolveu com as promoções de uma grande cervejaria, mas 
durante todo esse tempo o germe de uma idéia crescia na mente de Nally. 
"Milhões de pessoas assistiam jogos, milhões de pessoas acompanhavam 
o esporte. Se eu pudesse de alguma maneira vincular este interesse esportivo a 
uma mensagem comercial, faria um bom negócio. Procurava uma forma de usar o 
esporte como instrumento de comunicação." 
No final da década de 1960, Nally conheceu Peter West, uma celebridade, 
conhecido como comentarista esportivo da televisão inglesa. West trabalhara na 
BBC por muitos anos, comentando vários esportes, do críquete ao rugbi. Chegou 
a apresentar o tradicional programa da BBC Come Dancing (Venha Dançar), um 
concurso de danças de salão. 
"Quando conheci Peter", declarou Nally, "ele pensava que sua carreira na 
televisão estava em decadência. Mas sua imagem ainda era das melhores. 
Entendia de esporte, mas não de negócios. Ficamos sócios, fundando a Peter 
West e Associados, mais tarde chamada de West Nally Ltd. A idéia era usar o 
esporte para veicular uma mensagem comercial, e o jeito de se conseguir isso era 
convencendo as empresas a investir dinheiro no apoio ao esporte. 
"Em uma de nossas primeiras tentativas abordamos a Green Shield, uma 
empresa de cupons de desconto e brindes. Convencemos a Green Shield a 
patrocinar um programa que ensinava as crianças inglesas a jogar tênis. Muita 
gente considerava o jogo coisa de rico, mas nós, graças ao dinheiro da Green 
Shield, percorremos o país dando às crianças a oportunidade de pegar numa 
raquete de tênis e aprender a jogar. Chegamos ao auge quando a Green Shield 
patrocinou o campeonato juvenil de Wimbledon. 
"Não existia nenhuma empresa especializada em patrocínio esportivo na 
época. Peter e eu fomos os primeiros. Havia sujeitos como Mark McCormack, nos 
Estados Unidos, cuidando das estrelas esportivas — mas ele só entrou no ramo 
de patrocínio muito mais tarde. Peter e eu mostramos que existia uma 
oportunidade de atrair as companhias para o patrocínio esportivo, algo que nin-
guém havia conseguido fazer antes. 
"Se voltarmos a mente para aquela época, final da década de 1960 e início 
da década de 1970, é difícil lembrar o quanto o conceito de patrocínio 
representava uma novidade, e quanta resistência enfrentava por parte do esporte 
estabelecido. Os jornalistas, por exemplo, recusavam-se a usar os nomes dos 
patrocinadores. Não admitiam chamar um evento de Copa Benson & Hedges, ou 
Copa Gillette. 
"Peter não poderia imaginar, nem em um milhão de anos, que teríamos 
mensagens comerciais nos sagrados domínios de Twickenham — achava que 
morreria antes deste dia. Mas provamos que dava certo. Conseguimos atrair a 
Ford e a Kraft também, além da Green Shield, e nossa pequena empresa 
transformou-se em um negócio de tamanho razoável." 
John Boulter, ex-corredor olímpico britânico, compareceu um belo dia ao 
escritório da West Nally. Em 1974, ele trabalhava para Horst Dassler. Boulter 
continua na Adidas até hoje. Compareceu à sessão do Comité Olímpico 
Internacional do ano passado em Birmingham, reforçando seus laços com os 
membros mais importante do Clube. Ele agora lidera a divisão de relações in-
ternacionais da Adidas. 
Boulter sabia que Nally se dava bem no ramo do patrocínio esportivo no 
Reino Unido, e acompanhara o processo no qual a empresa abrira os cofres das 
grandes companhias e aplicara o dinheiro no esporte. "Nally era um jovem 
ambicioso, e queria conhecer Horst Dassler", declarou Boulter. "Horst disse que 
nunca tinha ouvido falar no inglês. E pediu que eu checasse Nally." 
O primeiro encontro entre Patrick Nally e Horst Dassler ocorreu no refúgio 
do fabricante de tênis em Landersheim, sede da Adidas francesa. O moderno 
edifício se situa no alto de um morro, na Alsácia, com vista para a planície 
cultivada, típica da região. Na frente do prédio, confirmando o amor de Dassler 
pêlos esportes, há uma quadra de tênis e um campo de futebol de grama 
sintética. 
Já na primeira conversa ficou claro que Dassler estava intrigado com as 
atividades do jovem inglês, e animado com a possibilidade de obter dinheiro para 
o esporte nas grandes companhias. 
"Ele falou sobre as guerras comerciais nos esportes, que ocorriam nos 
bastidores das Olimpíadas, e das táticas implacáveis usadas pelas empresas de 
calçados rivais, na tentativa de convencer os atletas a usarem seus produtos", 
recorda-se Nally. "Ele me disse que a briga ia até o início da corrida. Os atletas 
haviam aprendido a negociar tão bem que trocavam de tênis até no momento de 
entrar na pista! 
"Ele travava batalhas enormes contra o COI e algumas federações 
esportivas, por causa dos pagamentos a atletas 'amadores'. Horst sofria pressões 
para pôr um fim àquilo. Quem não se lembra de Lassie Viren, o grande atleta 
finlandês, ganhador de medalhas de ouro, tanto em Munique quanto em Montreal, 
erguendo seus calçados Tiger na frente das câmeras? Ficou óbvia demais o 
desenrolar de uma guerra enorme e pouco edificante para levar atletas 
supostamente amadores a usar determinados produtos. 
"Devo admitir que o primeiro contato com Horst foi um tanto confuso. Lá 
estava eu, sentado na frente de um sujeito muito dinâmico — dava para sentir 
isso imediatamente. Havia um hotel e restaurante particulares, ao lado da sede 
francesa. A gente chegava lá, para falar com ele, e recebia um tratamento de pri-
meira, com comida e vinhos fantásticos. Olhando para trás, percebo o quanto 
tudo era modesto, naquela época pioneira. A extravagância aumentou conforme o 
poder de Horst e o restaurante de Landersheim cresciam simultaneamente. 
"Ele era o tipo de pessoa que fazia questão de deixar a gente à vontade, 
antes de mais nada. Não costumava ir direto ao assunto, pular no pescoço da 
vítima, tratar de negócios logo de cara. Bater papo combinava melhor com seu 
estilo, preferia conversar com calma, conhecer melhor o interlocutor. E, daquela 
primeira conversa, emergiu uma pessoa muito decidida, resoluta, que definira 
realisticamente sua situação atual, e queria falar comigo sobre sua visão do 
futuro." 
Cada esporte olímpico é controlado, em última análise, por sua federação 
internacional respectiva. Na passagem da década de 1960 para a de 1970, muitas 
ainda eram organizações bem amadoras. Poucas possuíam uma equipe fixa, a 
maioria se valia de voluntários que amavam o esporte em questão, normalmente 
haviam competido na juventude e se dispunham a arcar com o ônus de ad-
ministrar uma federação. Muitos presidentes das federações trabalhavam em 
casa. Muitas federações esportivas poderosas, como de futebol e atletismo, ainda 
eram organizações bem pequenas. AIAAF (International Amateur Athletic 
Association), Associação Internacional de Atletismo Amador, possuía um escri-
tório modesto, no subúrbio londrino de Putney. O quartel-general da FIFA era uma 
casa em Zurique. Somente o Comité Olímpico Internacional começava a exibir 
sua importância, graças à entrada do dinheiro da televisão. 
"Horst fora criado dentro do esporte e das Olimpíadas, e tinha plena 
consciência da importância das federações esportivas", declarou Nally. "As 
federações eram a base para o futuro que sonhava. Ele foi suficientemente 
esperto para ver que as federações passavam por uma rápida transformação. 
Teriam sua importância e recursos financeiros aumentados, graças aos valores 
cada vez maiores pagos pela televisão para transmitir as Olimpíadas. 
"Horst pretendia ocupar uma posição na qual pudesse controlar essas 
mudanças em benefíciopróprio. Conhecia bem a estrutura das federações, e a 
necessidade de eleger pessoas para dirigi-las. Sua nova estratégia era deixar de 
lado o pagamento a atletas individuais, e trabalhar com federações e equipes 
nacionais. Viu que o futuro pertencia às federações, que elas decidiriam o que os 
atletas usariam, e que, se conseguisse controlá-las, todo mundo usaria seus 
produtos. 
"O dinheiro deu o impulso para este desenvolvimento. De repente, a 
televisão tornou-se importante, e parte integral do quadro. A cobertura ao vivo 
praticamente não existia antes. O dinheiro injetado pela televisão forçou o 
crescimento das federações, e atraiu o .interesse de Horst e outros, que 
começaram a manipulá-las e a se envolver com elas. 
"Dassler acreditava que poderia tornar realidade sua visão. Era um sujeito 
esperto, e já estudava diversos idiomas. Além de alemão, falava francês, italiano, 
inglês, espanhol e possuía noções de japonês. Também acreditava em viajar e 
conhecer pessoas. Sabia como negociar e lidar com as pessoas. 
"Mesmo no início, não era sempre dinheiro que a Adidas oferecia", disse 
Nally. "Horst sabia quem deveria atrair oferecendo dinheiro, e quem preferia outro 
tipo de atrativo." 
Quando Nally conheceu Dassler em Landersheim, em 1974, o industrial 
alemão já lançara os fundamentos de seu ataque às federações internacionais. 
As operações de Dassler tinham duas bases: Landersheim e Paris. "Havia uma 
loja Adidas muito sofisticada, na Rue de Louvre, mas não passava de fachada", 
disse Nally. "No andar de cima, trabalhava a equipe de promoção da Adidas. Os 
negócios de verdade aconteciam no subsolo." 
No porão havia um restaurante fechado. Ali Dassler recebia os dirigentes 
das federações que o visitavam, e os políticos do esporte. Também mantinha 
apartamentos no Hotel Terrasse, de Montmartre, disponíveis para pessoas que o 
interessavam. Havia um barman cujo serviço era arranjar moças para os convida-
dos importantes de Dassler. 
Dassler começou a montar sua "equipe política". O grupo assumiu a 
responsabilidade pelo levantamento internacional de informações, pela 
aproximação com as federações e políticos ligados ao esporte e eventos de 
destaque. Cada um dos membros da equipe de Dassler cuidava de uma parte 
diferente do mundo. 
Dassler cuidava pessoalmente da América Central e do Sul. John Boulter 
respondia pela Europa. 
A Ásia era uma responsabilidade do professor Anwar Chowdhry. Ele 
trabalhou bem; atualmente Chowdhry preside a Federação Internacional de Boxe 
Amador. 
A África de fala inglesa e o controle dos meios de comunicação ficavam por 
conta de um jornalista, Bobby Naidoo. Ele dirigia a Associação Internacional de 
Cronistas Esportivos, que possui estreitos laços com o Comité Olímpico 
Internacional. 
A África de fala francesa era controlada pelo coronel Hassine Hamouda, da 
Tunísia, uma antiga colónia francesa. O coronel fora membro da equipe francesa 
nas Olimpíadas hitleristas de Munique, em 1936. A partir de seu escritório em 
Paris, um centro importante para os africanos de fala francesa, ele editava uma 
revista bilíngüe, chamada Champion D'Afrique. Hamouda também servia de 
técnico em atletismo para a Tunísia, além de ser vice-presidente da Federação de 
Boxe da Tunísia. 
"O senhor Hamouda pretende ajudar atletas africanos, para que cresçam e 
se aprimorem, por intermédio do Champion D'Afríque", dizia um texto da IOC 
Review, uma publicação do COI. 
Horst Dassler providenciou o escritório para Hamouda, além de contribuir 
para a edição da revista. Também criou prêmios sem expressão — como das 
medalhas de ouro Champion D'Afrique, pagando as contas dos banquetes em 
que eram distribuídos. 
"Poucas companhias se interessam pela África enquanto mercado", disse 
Nally. "Mas, politicamente, a região era importante para Horst, porque ali havia 
muitos votos de federações. Não são os dirigentes esportivos que decidem sobre 
os votos, e sim os políticos. A idéia de Horst era usar o coronel Hamouda e a 
Champion D'Afrique para ganhar influência junto aos políticos africanos 
importantes, e ajudá-los a crescer dentro das federações. O coronel Hamouda 
dedicava muito tempo e energia à África. 
"Os africanos eram muito pobres, e Horst tinha uma oportunidade extra de 
ajudá-los. Fornecia produtos esportivos para a África. Isso também era importante 
politicamente. Em termos comerciais não fazia diferença, porque não haveria uma 
avalanche de pedidos no atacado, nem encomendas enormes de tênis Adidas por 
parte dos africanos. Horst direcionava seu apoio para os esportes mais populares 
da África, o que lhe garantia o apoio das federações mais importantes. O boxe 
desfrutava de grande popularidade no continente, além do futebol e do atletismo, 
o esporte olímpico por excelência. Horst fornecia bastante equipamento para a 
África. Se olharmos para estes esportes hoje, veremos uma grande influência 
africana nas federações internacionais." 
A Rússia e o Leste da Europa pertenciam a um francês chamado Christian 
Jannette. Era o tipo de pessoa que Horst considerava útil: Jannette era ligado e 
influenciava os Jogos Olímpicos há muito tempo. Foi o principal encarregado do 
protocolo nas Olimpíadas de Munique em 1972, e recebeu a medalha de Mérito 
Nacional francesa, por sua "gentileza e competência durante sua estada de 
quatro anos em Munique." 
Depois das Olimpíadas de 1972, Jannette tinha dois empregos: trabalhava 
como adido francês no comité olímpico da França, e constava na folha de 
pagamentos da Adidas. Esteve em Montreal nas Olimpíadas seguintes, e depois 
mudou-se para Moscou, nos anos anteriores aos Jogos de 1980, quando era, ao 
mesmo tempo, "Chef de Mission" da equipe francesa e funcionário de Dassler. 
"Os contatos pessoais permitem aos organizadores preparar uma recepção muito 
mais calorosa", foi a lição aprendida por Jannette em Munique. "Meu conselho é 
tentar conhecer os dirigentes da melhor forma possível." 
"Estive na Rússia 62 duas vezes, entre 1974 e 1980, a serviço da Adidas", 
declarou Jannette. "Já na metade da década de 1960, Dassler cultivava um bom 
relacionamento com os países da Europa Oriental. Eu me lembro de ter assinado 
um contrato com a Polônia em 1974, para fornecer equipamentos a todas as fede-
rações do país. E já havíamos assinado contratos com algumas federações na 
União Soviética." 
Segundo Nally, "Christian era o contato permanente de Horst com os 
russos. Vivia voando para Moscou, levando presentes. Potencialmente, havia um 
imenso mercado comercial para a Adidas. Em termos olímpicos, o Bloco Leste 
estava em primeiro lugar nos resultados. Os russos e alemães orientais lideravam 
em medalhas de ouro. Para Dassler, era importante mostrar aos europeus 
orientais que ele poderia funcionar como o canal para a obtenção de auxílio do 
Ocidente. 
"Assim como na África, o fornecimento de material da Adidas era a chave 
de tudo. Eles não fabricavam tênis ou roupas de primeira, e faltavam recursos 
para comprar o equipamento no Ocidente. Horst mantinha uma posição de 
destaque distribuindo kits da Adidas. Outra coisa importante era financiar viagens 
internacionais atraentes, que tirava as pessoas da melancólica Europa Oriental. 
"Horst não chegava distribuindo dinheiro. Seu modo de agir era primeiro 
conhecer os dirigentes. Ganhava a confiança deles e colocava seus produtos à 
disposição das várias federações: tênis de alta qualidade e roupas. 
"Tratar com a maioria das federações da Europa Oriental não era o mesmo 
que lidar com as equivalentes do Ocidente. No Leste era preciso tratar com um 
ministério dos esportes, que desempenhava um papel fundamental em tudo que 
dizia respeito ao esporte e portanto às Olimpíadas. O sistema de comando centra-
lizado tornou tudo mais fácil para a penetração de Horst na infra-estrutura. Dentro 
do sistema, ele conversava a respeito de quais dirigentes e administradores 
esportivos participariam das federações internacionais, e garantia que houvesse 
um russo e um europeu oriental nosconselhos de todas as federações 
importantes. "Assim, os russos e os alemães orientais, como os africanos, 
pensavam que Horst era um amigo. Eles eram importantes, tratava-se de um 
grupo influente, com muitos votos. Menor do que o grupo africano, mas ainda 
assim pesavam na balança. Garantindo que seu prestígio sempre fosse levado 
em conta — colocando-os em posições de destaque — Horst podia controlar seu 
apoio, quando precisasse dele. Era urna grande barganha. Os europeus orientais 
são grandes negociantes. Se recebiam uma coisa, davam outra em troca." 
Nally seria a chave para o sonho de Horst de ter bilhões de 
telespectadores assistindo os maiores atletas do mundo em sua subida ao pódio, 
usando as três listas da Adidas. 
"O fato de que eu estava conseguindo que as grandes companhias 
investissem no esporte era um achado. Horst disse: Vamos juntas as duas coisas, 
e aí poderemos realmente começar a avançar.' Horst desejava encontrar um meio 
de unir o patrocínio esportivo e o esporte, para beneficiar a Adidas. Em sua 
perspectiva, isso lhe daria poder. Horst ficaria com o crédito pelo que faria para as 
federações, e isso o deixaria numa posição de força. Ele queria arranjar alguém 
para pagar a conta." 
Dassler precisava de Nally para arranjar quem pagasse a conta com 
urgência. Quando se conheceram em Landersheim, em 1974, Dassler já havia 
assumido um compromisso com um homem que, no decorrer dos vinte anos 
seguintes, se tornaria um dos mais importantes nomes no mundo do esporte. 
 
3 
DASSLER TOMA COCA-COLA 
 
Quando Diego Maradona liderou a entrada dos jogadores argentinos para 
a final da Copa do Mundo de 1990 no Estádio Olímpico de Roma, seu time tinha 
algo em comum com os oponentes da Alemanha Ocidental. As duas equipes 
usavam Adidas. Assim como o juiz. E os bandeirinhas. Quinze das vinte e quatro 
seleções presentes à Itália exibiam o trevo e as três listas em suas camisas, 
shorts, meias e chuteiras. 
O jogo teve início com uma bola Adidas branca e preta. Todos os jogos 
foram disputados com bolas Adidas. Era a bola oficial. A empresa fornecia as 
chuteiras oficiais. 
Do lado de fora do campo, Horst Dassler tinha tudo arranjado. Sua 
empresa de marketing, a ISL, detinha os direitos exclusivos de venda da Copa do 
Mundo. Uma das poucas coisas não fornecidas pela Adidas na final da Copa de 
1990 foi o apito do árbitro. 
Oito anos antes, no estádio de Barcelona, o quadro fora o mesmo. Na 
cerimônia de abertura da Copa do Mundo, Victor Puente, um menino de doze 
anos, soltou a pomba da paz de dentro de uma bola de futebol. A bola de futebol 
havia sido fornecida pela Adidas. Victor usava um uniforme Adidas. Até mesmo o 
sorteio para as finais daquela Copa foi realizado com miniaturas da bola oficial 
preta e branca da Adidas. 
"Não temos vínculos estreitos com a Adidas", insistiu Harry Cavan, vice-
presidente da FIFA. "A companhia Adidas, pelo que sei, é uma empresa muito 
generosa para com o esporte em geral, e para com o futebol em particular. Se 
eles desejam fornecer o equipamento, não vejo nada de errado nisso." 
A final da Copa do Mundo de 1974, em Munique, entre a Alemanha e a 
Holanda, foi disputada por dois times europeus, com um juiz europeu apitando em 
um campo europeu. Do lado de fora do campo, aquele ano marcava o fim da 
dominação européia do futebol internacional. 
O troféu reluzente erguido por Franz Beckenbauer levou os torcedores 
alemães ao delírio. Era novo em folha. O homem que comandava o campeonato 
também estreava em sua função. Três semanas antes, o Dr. João Havelange fora 
eleito presidente da Federação Internacional de Futebol Association, tornando-se 
o dirigente mais poderoso do futebol mundial. 
Foi preciso providenciar um novo troféu, porque o antigo havia sido levado 
para casa pêlos brasileiros, em 1970. Qualquer time ganhador de três Copas 
ficava para sempre com o troféu. A Copa Jules Rimet original foi levada para 
sempre para o Brasil, depois que seus incríveis jogadores chegaram ao 
tricampeonato. 
Jean Marie Faustin Godefroid Havelange, mais conhecido como João, 
também era brasileiro. Agora, aos 76 anos, Havelange tornou-se um fazedor de 
reis. Possui mais de cinqüenta medalhas e comendas: Cavaleiro da Legião de 
Honra da França; Comandante dos Cavaleiros da Ordem do Infante Dom 
Henrique de Portugal; agraciado com a Grã-Cruz de Isabel, a Católica, da 
Espanha; Cavaleiro da Vasa-Orden da Suécia e Comandante da Ordem do Leão 
do Senegal. 
Havelange reuniu os votos necessários para que Barcelona sediasse as 
Olimpíadas de 1992. Havelange uniu-se a Horst Dassler para fazer de Juan 
António Samaranch presidente do Comité Olímpico Internacional. 
Alguns dirão que ele ficou muito velho, que seu poder declina, que 
Havelange já passou por seus dias de glória. Este brasileiro, contudo, continua 
sendo a única figura no mundo do esporte capaz de ditar seus próprios termos ao 
todo-poderoso presidente das Olimpíadas. A capacidade de Havelange em fazer 
isso deriva diretamente de sua aliança com Horst Dassler. 
João Havelange é membro fundador do Clube. Sua eleição para a 
presidência da FIFA, poucas semanas antes do início da Copa do Mundo de 
1974, marcou o início de um novo domínio, o latino, na direção do esporte 
internacional. Houve uma virada dramática, com o afastamento do antigo controle 
anglo-saxônico e sua tão proclamada valorização do esporte amador. Esta é só 
uma parte da história. Nunca foi contado que a eleição de Havelange também 
marcou o início da campanha de Horst Dassler para controlar o desenvolvimento 
do esporte mundial. 
"A eleição de Havelange deu a Horst a noção da importância das 
federações", declarou Patrick Nally. "Para Horst, a eleição de Havelange foi o 
divisor de águas." 
Havelange enfrentou um obstáculo principal em seu desejo de se tornar o 
comandante do futebol mundial. A FIFA já tinha alguém. O presidente em 
exercício da FIFA era um inglês, sir Stanley Rous, que não pretendia deixar o 
cargo. Rous, sexto presidente da FIFA, era europeu, como os outros cinco. 
Apaixonado pelo futebol, considerava o esporte uma das coisas mais importantes 
em sua vida. Havia abandonado sua profissão, professor, para se tornar juiz de 
futebol. Em 1933, Rous já podia ser encontrado nos grandes centros do futebol 
mundial, com seus sapatos imensos e calças largas, apitando jogos 
internacionais. Grandalhão, dava grande importância ao conceito de jogo limpo. 
Rous possuía um conhecimento enciclopédico das regras do futebol. 
Escreveu a História das Regras do Jogo. Foi sagrado cavaleiro pelo rei George 
VI, por seu trabalho durante os Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Tornou-se 
presidente da FIFA em 1961. 
Sob o comando de sir Stanley Rous, a FIFA era "muito conservadora e 
discreta em suas decisões", afirma o livro que narra a história oficial da entidade. 
"Os fundos provinham exclusivamente da Copa do Mundo, e todos precisavam 
viver e trabalhar com esta verba por quatro anos. Seria impossível fazer mais sem 
correr riscos." 
"Naquele tempo", disse Nally, "a FIFA trabalhava com recursos limitados. 
Sua sede era uma casa antiga, a Villa Derwald, em Zurique. Ali ficava o veterano 
secretário-geral, Dr. Kaser, muito querido por todos, com dois cachorros sempre 
deitados no chão, a seu lado. As pessoas eram recebidas por uma recepcionista 
de voz esganiçada, com quem o Dr. Kaser acabou se casando. Creio que havia 
mais um funcionário, pau para toda obra. Fora ele, eram só os dois cachorros e 
uma mesa com livros empilhados. Estranho, antiquado, o ambiente parecia 
pertencer a um romance de Dickens." 
Havelange possuía um estilo completamente diferente. Seu passado 
esportivo estava mais ligado ao pólo aquático do que ao futebol. Nos anos 1930, 
quando Stanley Rous apitava jogos internacionais, Havelange nadava para o 
Brasil, nas Olimpíadas de Hitler, em Berlim. Ele fez parte do time de pólo aquático 
brasileiro, nas Olimpíadas de Helsinque, dezoito anos depois. Comandou a 
delegação brasileira nasOlimpíadas de 1956 em Melbourne; enquanto Havelange 
ocupava a tribuna de honra, o jovem Horst Dassler subornava os estivadores no 
porto australiano, para manter os equipamentos esportivos da concorrência nos 
caixotes. 
Havelange declarou: "Sou um homem de negócios, tenho muito dinheiro e 
não preciso ganhar mais com o futebol." Isso pode ser verdade, mas Havelange 
percebeu, segundo um observador, "que o esporte representa um dos veículos 
mais magníficos do mundo moderno para o exercício do poder puro, absoluto, 
direto e incontestável." 
Havelange iniciou sua carreira no mundo dos negócios. Cuidou de 
importação e exportação de aço, mineração, produtos químicos e transporte. 
Comanda hoje uma empresa de ônibus no Brasil. Mas ganhou dinheiro com 
seguros. Dirigia uma empresa em São Paulo e outra no Rio. 
Graças a seu passado no pólo aquático, ele se tornou presidente da 
federação de natação de São Paulo, e em 1955 conseguiu entrar para o Comité 
Olímpico brasileiro. Em 1963 passou a participar do grupo de elite do Comité 
Olímpico Internacional. Três anos depois, ganhou a companhia do futuro líder 
olímpico, Juan António Samaranch. 
Seu cargo mais importante foi a presidência da abrangente Confederação 
Brasileira de Desportes. O material promocional do próprio Havelange afirma que 
ele, na condição de chefe supremo do esporte brasileiro, tornou-se o "dirigente 
mais bem-sucedido do futebol brasileiro", tendo sido "o arquiteto das vitórias 
brasileiras nas Copas de 1958, 1962 e 1970." 
Embora alguns pensem que o sucesso do futebol brasileiro tenha mais a 
ver com a habilidade de Pele e Garrincha do que com Havelange, poucos 
poderiam negar um fato: ele usou sua posição como alavanca para se lançar na 
campanha pelo controle da FIFA. 
"Havelange viu o futuro", disse Nally. "Ele sabia que, ao se tornar o 
próximo presidente da única federação já possuidora de um campeonato mundial 
de grande popularidade, desfrutaria de um imenso poder político e econômico." 
Havelange lançou sua campanha para a presidência em 1970. Escorado 
nas três vitórias brasileiras na Copa do Mundo, ele percorreu o mundo, 
angariando eleitores potenciais. 
"Jamais houve uma campanha assim para a presidência de uma 
organização esportiva", afirmou Nally, "Sir Stanley Rous nunca chegou a 
conhecer todos os países da África e da Ásia, e seguramente jamais esteve nas 
pequenas ilhas espalhadas pelo mundo. 
A mudança foi radical. De repente aquele sul-americano dinâmico, 
charmoso e boa praça viajava pelo mundo, acompanhado da mulher, encontrando 
pessoas, apertando as mãos, acompanhado do time brasileiro, viajando ao lado 
de gente como Pele. Foi a hora do Carnaval brasileiro." 
Havelange desafiou a antiga supremacia européia na FIFA, e agiu com 
sagacidade. Percebera que os países recém-convertidos ao futebol, na Ásia e na 
África, ficavam de fora do campeonato mais importante. Em troca de seus votos, 
Havelange prometeu aumentar o número de times na Copa do Mundo, de 16 para 
24. Prometeu criar um Campeonato Mundial de Juniores. Prometeu dinheiro para 
os países construírem estádios, promoverem cursos para árbitros, médicos e 
técnicos, além de mais campeonatos interclubes no Terceiro Mundo. 
"Sir Stanley de repente se deu conta de que ele estava a ponto de ser 
derrotado por um brasileiro", contou Nally. "E seus amigos alemães sugeriram, no 
último minuto, que ele falasse com Horst, para ver se conseguia algum apoio." 
Dassler não o decepcionou. Colocou o time em campo, e começou a fazer 
lobby, pressionando os delegados que compareciam a Frankfurt para o 39o. 
congresso da FIFA. Ele quase mudou o resultado da eleição. Até o último 
momento, parecia que Havelange ia perder. A eleição foi para o segundo turno, e 
Havelange ganhou por uma margem apertada: dezesseis votos. 
"Havelange gastou uma fortuna viajando pelo mundo com o time brasileiro, 
e angariou o voto de cada um dos membros da FIFA", disse Nally. "Foi algo 
inédito. Nenhum presidente de federação esportiva percorrera o mundo antes, 
distribuindo abraços e fazendo campanha. 
"Horst socorreu sir Stanley no último minuto, e quase o elegeu. Isso 
assustou Havelange. E os aproximou. Horst impressionou Havelange com sua 
capacidade de quase derrubá-lo antes que ele começasse, e Havelange pensou: 
'Meu Deus, se este sujeito pode fazer isso comigo, e quase me derrubar antes 
que eu pudesse começar, é melhor tê-lo do meu lado.' "Horst, por sua vez, viu um 
homem que, vindo do nada, derrubou Sir Stanley, apesar de suas tentativas de 
impedi-lo. E Horst sempre gostou de ficar do lado dos vencedores. Se a pessoa 
não fosse mais útil para ele, seria cuspida sem pudores. O vínculo entre os dois 
foi criado pelo respeito ao que o outro podia fazer.'' 
Uma vez eleito, Havelange se deparou com o fato de não ter o dinheiro 
necessário para colocar suas promessas em prática. Ele se voltou, então, para 
Horst Dassler. Chegaram a um acordo. Se o dono da Adidas queria os benefícios 
do relacionamento com a FIFA, e os contratos com as federações nacionais, para 
que os atletas usassem uniformes Adidas, então o preço a ser pago por Dassler 
seria financiar o projeto de Havelange. 
"Horst tampouco dispunha do dinheiro. Foi por isso que se ligou a mim", 
explicou Nally. 
"Em Landersheim, falamos sobre a FIFA. Ele perguntou se eu ajudaria a 
levantar o necessário para ajudar Havelange a cumprir suas promessas eleitorais. 
"Eu era um instrumento para seus objetivos. Como profissional de 
marketing, poderia conseguir as verbas, e ele os benefícios decorrentes. 
"Isso era fundamental para seu plano de penetrar e controlar as federações 
esportivas. Desejava estimular seu crescimento, algo bom para elas, que 
desejavam crescer. Mas Horst queria desenvolvê-las de modo a se tornar o pivô 
do processo. Assim, Horst elegeria um presidente adequado, estabeleceria as 
promessas a fazer e realizaria os acordos que tornaria seu cumprimento possível. 
"Uma vez dentro das federações, ele estaria com um pé no Comité 
Olímpico Internacional, o que representava o controle das Olimpíadas, o maior 
evento do mundo. Horst queria ser a peça chave de todo o processo. Tornar-se 
indispensável. Quando as decisões fossem tomadas, quando alguém precisasse 
de alguma coisa, ele pretendia ser o único a quem fosse possível recorrer." 
Mesmo após a morte de Dassler, o envolvimento da Adidas com o futebol 
mundial continuou sendo total. As estrelas da música pop recebiam o Grammy, as 
estrelas do cinema, o Oscar. Jogadores de futebol ficavam com o Troféu Adidas. 
E usavam chuteiras Adidas, bolas Adidas e o logotipo da Adidas, com o trevo e as 
três listas em ouro, prata e bronze. 
No festa de gala que marcou o encerramento da Copa do Mundo de 1990, 
todas as estrelas estava presentes. Lothar Matthaus, capitão do time vitorioso da 
Alemanha Ocidental (mora na mesma cidade que serve de sede para a Adidas 
alemã, Herzogenaurach), recebeu a "mais alta comenda do futebol". É assim que 
a Adidas chama o "Trevo de Ouro Adidas", dado ao melhor jogador do ano de 
1990. 
Para receber o Prêmio Adidas Franz Beckenbauer das mãos do homem 
que ergueu a Copa do Mundo há vinte anos, para delírio da torcida de Munique, o 
centroavante fã de lambada do Camarões, Roger Mula, deu um passo à frente. 
O agradecido ganhador da Chuteira de Ouro Adidas, para o artilheiro da 
Copa do Mundo, foi Salvatore Schillaci, da Itália. "Ele chegou à Copa do Mundo 
como reserva, e saiu como superstar", publicou a revista de divulgação da Adidas, 
Adidas News. "Como prêmio adicional", segue a reportagem, "Totó recebeu a 
Bola de Ouro Adidas como melhor jogador do campeonato." Quanta sorte, né, 
Totó? 
As Chuteiras de Ouro Adidas também foram conferidas a Hugo Sanchez e 
Quisto Stoichkov, artilheiros europeus. Na mesma festa em que a Adidas mostrou 
toda sua generosidade com as estrelas do futebol, a FIFA entregou a Gary 
Lineker, capitão da Inglaterra, o Prêmio Jogo Limpo, pelo desempenho leal do 
time na Itália. Linekerganhou também o Prêmio Jogo Limpo da FIFA como 
jogador individual, no valor de 50 mil francos suíços. 
Apesar destes vínculos ostensivos entre a Adidas e a FIFA, o presidente 
João Havelange afirmou com firmeza que "o senhor Dassler não interfere na 
política da FIFA." E depois demonstrou seu espanto com a possibilidade de 
alguém sugerir uma coisa dessas. "Por que tanto ódio contra mim, se trabalhei 
duro para o desenvolvimento do futebol?" Ele pergunta. "O futebol serve para 
vender produtos no mundo inteiro. E isso se deve ao meu trabalho." Sem dúvida, 
e muitos destes produtos são fabricados pela Adidas. 
Mesmo o próprio presidente da FIFA, ao comparecer a um amistoso que 
comemorou a inauguração da nova sede da entidade em Zurique, foi visto 
calçando sapatos com as três listas inevitáveis. 
Uma história edulcorada da FIFA, editada para comemorar o octogésimo 
aniversário da entidade, diz que a "principal preocupação" de Havelange, depois 
de sua eleição em 1974, era um programa abrangente, mundial, de 
desenvolvimento do futebol. "Como a FIFA não possuía os recursos financeiros 
necessários, o presidente se valeu de sua vasta experiência e visão como homem 
de negócios, de modo a materializar seus planos ambiciosos." O que a história 
oficial deixa de informar é que a "vasta experiência e visão como homem de 
negócios" de Havelange era na realidade a parceria entre Horst Dassler e Patrick 
Nally. 
"Politicamente, para Havelange, era importante cumprir as promessas 
feitas aos africanos e asiáticos", declarou Nally. "Ele prometeu que o Terceiro 
Mundo teria mais países africanos e asiáticos na Copa do Mundo; prometeu criar 
um campeonato mundial juvenil; prometeu um programa de aprimoramento que 
levaria o melhor do futebol europeu e sul-americano para a África e Ásia; fora 
eleito com esta plataforma. Se Horst pretendia ajudar Havelange a colocar em 
prática tudo isso, precisava de muito dinheiro para implantar os eventos." 
"Horst se comprometera a levantar o dinheiro para Havelange. Eu me 
perguntava: Como vou conseguir isso?' Fui encarregado de criar um projeto de 
marketing, capaz de justificar a aplicação de verbas imensas no futebol, ajudando 
Horst a honrar seus compromissos. Para fazer isso, precisaria de uma 
multinacional das grandes como patrocinadora." 
A revista Time publicou certa vez uma capa mostrando a Terra como um 
homem com uma garrafa de Coca-Cola nos lábios. O título dizia: "O Mundo Bebe 
Nesta Garrafa". O mundo do esporte internacional também toma Coca-Cola. 
A Coca-Cola é o maior e mais conhecido patrocinador das Olimpíadas em 
todo o mundo. A venda do produto se baseia na pureza, juventude, energia e 
estímulo associados ao refrigerante. A bebida mais apreciada do mundo e o 
admirável novo mundo do esporte internacional foram feitos um para o outro. 
A Coca-Cola tem um longo histórico de envolvimento com os Jogos 
Olímpicos. Esteve em Roma (1960) e na cidade do México (1968), quando 
"astronautas" em trajes espaciais vermelhos e brancos bombeavam o mágico 
elixir dos cilindros instalados em suas costas. 
Não faltou Coca-Cola em Munique (1972) e Montreal (1976), e nem mesmo 
em Moscou (1980). Os atletas americanos boicotaram os Jogos na Rússia, mas a 
Coca-Cola compareceu, promovendo seu refrigerante Fanta laranja. 
Em Los Angeles (1984), a Coca-Cola tornou-se "o refrigerante oficial das 
Olimpíadas". Isso se repetiu em Seul (1988) e Barcelona. 
Nos últimos 65 anos a empresa sediada em Atlanta despejou mais de um 
bilhão de dólares no esporte mundial. O primeiro esporte a receber verbas da 
Coca-Cola em escala mundial foi o futebol. 
"A Coca-Cola é uma das maiores companhias do mundo", disse Nally. 
"Qualquer coisa feita pela Coca-Cola se transforma em sucesso. E todos seguem 
a Coca-Cola. Se for possível convencer a Coca-Cola a fazer algo, tem o caminho 
aberto. Ao entrar na Coca-Cola, penetra-se no mundo da maior e mais segura 
empresa do planeta. 
"Horst sempre sustentou que nossa parte era arranjar dinheiro para que as 
pessoas realizassem seus sonhos, o que não deixava de ser verdade, e todos 
agradeciam profusamente, despejando honrarias em cima dele. Mas, na 
realidade, isso o colocava numa posição de incrível força para manipular e 
organizar as federações e os patrocinadores. 
"Não havia, na época, nenhuma companhia no mundo que tivesse um 
orçamento global de marketing. Nossa abordagem era totalmente inédita. Não 
dava para simplesmente chegar dizendo 'queremos que tomem uma decisão em 
escala mundial'. A maioria das companhias, por maiores que fossem, mantinham 
seus orçamentos promocionais a nível local. 
"Por este motivo, as companhias japonesas se tornaram tão importantes na 
expansão dos negócios, mais tarde. Os japoneses tinham duas vantagens. Em 
primeiro lugar, normalmente usavam uma marca padrão no mundo inteiro. A 
Toyota era Toyota em qualquer pane, enquanto muitas empresas norte-
americanas e européias adotavam nomes diferentes conforme o país. Em segun-
do lugar, os japoneses costumam centralizar o processo de decisão. Quando 
possuem diretores locais, preferem nomear japoneses, e eles sempre recorrem a 
Tóquio para tomar decisões. 
"Eu sabia que tentar fechar um contrato com a Coca-Cola daria um 
trabalho enorme, mas não havia percebido a tarefa gigantesca que teria pela 
frente. Levei cerca de um ano e meio, viajando pelo mundo inteiro, e enfrentei 
rodadas intermináveis de negociação, achando frequentemente que não dariam 
em nada." 
A Coca-Cola, tida por todos como um conglomerado internacional 
gigantesco, estava estruturada em uma série de feudos. Os alemães controlavam 
a Alemanha, os ingleses a Inglaterra. No nome a empresa era multinacional, mas 
suas operações se realizavam nacionalmente. A administração se estruturava de 
modo a manter o poder de decisão dentro do país, e a responsabilidade pelo 
orçamento nas mãos da diretoria local. 
"Quando eu disse que pretendia casar os interesses da companhia com um 
único esporte, em escala global, foi um Deus nos acuda", contou Nally. "Todos 
diziam, 'nada disso, tenho meus próprios esportes. Estou mais interessado em 
cuspe a distância do que em futebol'. Entrei numa guerra. O sangue correu pêlos 
carpetes. Ninguém queria abrir mão do privilégio de controlar suas próprias 
decisões." 
"Finalmente, numa reunião extremamente confusa em Atlanta, a decisão 
foi tomada", contou Nally. "A Coca-Cola participaria de um projeto mundial de 
patrocínio e todos os mercados regionais contribuiriam para isso. Não pediram a 
eles que participassem, foram obrigados. Teriam de reservar uma porcentagem 
de seu orçamento promocional para um caixa central em Atlanta, e a verba seria 
investida no futebol." 
A decisão da Coca-Cola deu a Havelange um poder de fogo de vários 
milhões de dólares. Ele agora poderia cumprir as promessas feitas para se eleger. 
Não havia uma organização capaz de levar adiante as idéias grandiosas de 
Havelange. Nally ficou encarregado de transformar as promessas do novo 
presidente em realidade. O que era o tal programa de aprimoramento? Como 
organizar um campeonato mundial de juniores? A FIFA não sabia responder a 
estas perguntas, a federação não possuía uma equipe em tempo integral. Dassler 
e Nally não conseguiram o dinheiro, apenas, eles precisaram montar os novos 
eventos e implementar os programas. Estavam assumindo o futebol mundial. 
Tudo foi feito fora da federação, Dassler e Nally passaram a determinar as regras. 
Horst procurou Klaus Willing, que trabalhava para a federação alemã de 
natação. Klaus era uma pessoa adorável. Falava inglês fluentemente, era 
eloqüente e sabia escrever muito bem. Ele montou o plano que acabou se 
transformando no programa de aprimoramento da FIFA. Klaus ficou encarregado 
de pôr no papel toda a estratégia de transferência dos conhecimentos sobre fute-
bol dos países da América do Sul e Europa para cerca de cem países, levando 
técnicos, administradores esportivos e especialistas em medicina esportiva para a 
Áfricae Ásia, para os locais onde os votos foram importantes para Havelange. 
Infelizmente Klaus morreu em um acidente de carro, depois de sair de um jantar 
político da Adidas em Landersheim. 
Nally e Dassler criaram o campeonato mundial de juniores. Junto com a 
Coca-Cola, começaram a dar forma ao contrato de patrocínio esportivo 
multimilionário. Decidiram que o novo campeonato seria restrito a jogadores com 
menos de vinte anos, e se realizaria a cada dois anos, com o nome de Copa 
FIFA/Coca-Cola. O primeiro campeonato aconteceu em Tunis, em 1977. 
Quando a terceira copa de juniores foi disputada na Austrália, em 1981, 
dinheiro não era mais problema para a FIFA. Os executivos de Atlanta, que 
haviam dito "Sim!" para Nally entraram com mais de US$ 600 mil, pelo privilégio 
de ver seu nome no troféu. Eles também bancaram a conta de transporte dos 
quinze times até a Austrália, bem como as despesas com a arbitragem. Quarenta 
dirigentes da FIFA, do mundo inteiro, também participaram da festança. A Coca-
Cola também garantiu uma reserva de US$ 250 mil, para o caso da Copa dar 
prejuízo. 
"Além de tudo isso, criamos um programa mundial de aprimoramento do 
futebol", contou Nally. "Isso ficou por conta dos fabricantes locais de Coca-Cola. 
Tiveram boas oportunidades promocionais com este programa. Depois, 
lentamente, atraímos a Coca-Cola para a Copa do Mundo da Argentina, em 
1978." A Coca-Cola investiu uma soma inédita, US$ 8 milhões, para participar do 
evento. 
Nally e Dassler também criaram as novas regras comerciais para as 
competições da FIFA. Havia muita coisa em jogo, bem mais do que simplesmente 
colocar o logotipo da Coca-Cola no estádio. "Era preciso controlar as licenças 
para os bares de cada estádio, de modo que a Coca-Cola fosse o único 
refrigerante à venda", explicou Nally. "Tivemos uma briga enorme no estádio de 
Madri, na Espanha, em 1982. A Pepsi já possuía a licença para explorar os bares, 
mas a Coca-Cola entrou como patrocinador único. A Pepsi precisou sair." 
"O estádio também precisava ficar limpo', deixando todo o espaço em volta 
do campo para nossos patrocinadores", disse Nally. "Precisamos colocar isso no 
regulamento. Antes de sediar um evento da FIFA, o estádio precisava dar 
garantias de que estaria limpo. Estas idéias eram novas. Determinávamos as 
regras para o marketing, o modo de organizar os eventos, a forma de implementar 
os programas de aprimoramento e desenvolvimento. Nosso relacionamento com 
a federação era completo." 
Sem dúvida, tratava-se de um relacionamento "completo". Dassler assumiu 
a direção da FIFA, chegando a escolher o novo secretário-geral. "Horst percebeu 
que a FIFA, com o Dr. Kaser, dois cachorros e uma secretária esganiçada, não 
teria condições de administrar a nova postura da federação'', contou Nally. "Sendo 
assim, Horst encaixou Joseph Blatter, que trabalhava para a Swiss Timing na 
época. Blatter foi treinado na sede da Adidas, em Landersheim, antes de ir para a 
FIFA. Passava boa parte do tempo trabalhando ao lado de Horst, conhecendo o 
sistema da Adidas. Horst e Blatter se aproximaram muito, nos meses em que ele 
morou em Landersheim." 
A forma com que Nally e Dassler atraíram a Coca-Cola para que 
patrocinasse o futebol tornou-se um modelo para o desenvolvimento das outras 
federações esportivas. Havelange pertencia a uma nova geração de presidentes 
esportivos. Tinha classe, e o mundo empresarial lhe dera uma gigantesca conta 
corrente para administrar. 
Em 1979, as despesas de Havelange chegavam a 100 mil libras anuais. 
Em 1986, o custo de manutenção de seu escritório particular no Rio atingiu a 
soma de 250 mil libras. Quando os dirigentes da FIFA voaram para a Copa do 
Mundo da Espanha, em 1982, suas despesas se aproximavam dos 2 milhões de 
libras — quase o valor gasto para transportar e hospedar os vinte e quatro times 
participantes. A nova riqueza do esporte era estonteante. Nos dois anos seguintes 
a FIFA consumiu 650 mil libras em presentes e viagens internacionais. Como a 
torneira do dinheiro da Coca-Cola continuava aberta, Havelange continuou sendo 
o presidente indiscutível da FIFA. 
"Mas foi Horst quem ficou, em última análise, com os benefícios políticos e 
comerciais do investimento da Coca-Cola", lembrou Nally. 
"Ele trabalhou como unha e carne com a nova federação criada por nós, e 
se manteve muito próximo a Havelange. Os contratos voltavam para a Adidas. 
"Horst precisava da imagem e do nome da Coca-cola. Outras companhias 
ficariam felizes em seguir o exemplo da Coca-Cola, e outras federações 
adorariam repetir a atitude da FIFA. É só pensar na imagem limpa da Coca-Cola, 
e no feto de que, ao mesmo tempo, o dinheiro da empresa era usado por Horst 
em benefício próprio. A Coca-Cola deu legitimidade ao sistema, mas nunca se 
deram conta da importância de sua associação, e como esta foi abusada, 
permitindo ao Clube, esta máfia dentro do esporte, se manter. A Coca-Cola deu o 
pontapé inicial de tudo isso." 
 
4 
DE MONTREAL A MONTE CARLO 
 
Quando Dennis Howell, ex-ministro dos esportes da Grã-Bretanha, 
perguntou a Horst Dassler: "Por que um fabricante de sapatos precisa se envolver 
com a administração dos esportes?", recebeu uma resposta bem direta: 
"Fabricamos sapatos e camisas, e precisamos estar onde as coisas acontecem, 
seja onde for." Howell, um político de Birmingham com os pés no chão, aprecia 
uma resposta sincera. 
"O que me perturbou", declarou Howell, cerca de dez anos depois de seu 
encontro com o diretor da Adidas, "foi a insistência dele, em seguida, em me dizer 
que possuía uma visão de conjunto do esporte melhor do que qualquer outro. Ele 
possuía um departamento' encarregado de reunir e classificar informações sobre 
os comitês olímpicos nacionais e federações internacionais." 
Dassler insistiu que os arquivos continham apenas informações de 
"publicações oficiais", e afirmou que se sentiria muito feliz em compartilhar de seu 
banco de dados com qualquer interessado. "O ponto central", prosseguiu Howell, 
"era que ninguém, em sua posição de industrial, deveria tentar controlar o mundo 
das organizações esportivas. Considero tal concentração de poderes pouco 
saudável." 
O ex-ministro dos esportes teria ficado mais perturbado ainda se o alemão 
fabricante de sapatos revelasse toda a extensão de seu poder, as ligações com 
os principais dirigentes esportivos mundiais, a equipe dedicada de pessoas 
encarregadas de reunir informações e suas operações a nível mundial. 
Na metade dos anos 1970, a campanha política de Dassler começava a 
decolar. A equipe política montava um arquivo abrangente dos dirigentes 
esportivos consagrados e promissores do mundo. Eles faziam relatórios de todas 
as partes do mundo, sobre as federações internacionais, os diversos comitês 
olímpicos nacionais e o COI. 
"Estar onde as coisas acontecem, seja onde for", Dassler disse a Dennis 
Howell, e Dassler agia assim mesmo. Não havia lugar no mundo onde um 
representante das famosas três listas não comparecesse aos campos, adulando e 
cultivando a amizade dos homens que comandam o esporte mundial. 
"Sempre que uma federação esportiva internacional, um comité olímpico 
nacional, ou o próprio COI se reuniam, acontecia sempre o jantar compulsório da 
Adidas", contou Nally. "Sempre que acontecia um congresso anual, ou algo 
assim, a única companhia sempre presente era a Adidas." 
Dassler desempenhava o papel da boa fada madrinha. A Adidas aparecia e 
todos entravam na dança. "Horst foi o único a dar tanta atenção a eles", relatou 
Nally; "com freqüência oferecia suas próprias instalações para que realizassem as 
reuniões, e depois aparecia convidando todo mundo para jantar. Lá estava a 
Adidas, afável, generosa, agradável e cordial. Não havia pressões. Horst era um 
amigo. A relação era quase natural, e Horst começou a montar um grande 
esquema de alianças." 
Dassler e sua equipe política não precisavam sair sempre à cata de 
informações, muitas vezes estas chegavam a eles. Seu banco de dados 
transbordavade informações vindas de uma procissão de visitantes do mundo 
esportivo, contentes por poder contar com a hospitalidade de Dassler em seu 
hotel e restaurante, vizinhos da sede da Adidas em Landersheim. "Lá se 
realizavam reuniões e encontros constantes, entre Horst e dirigentes esportivos, 
com a equipe política distribuída em torno da imensa mesa de jantar em 
Landersheim", contou Nally. 
Houve festejos monumentais quando a cidade canadense de Montreal 
ganhou o direito de sediar os Jogos de 1976. O grande sonho do prefeito Jean 
Drapeau tornara-se realidade. A vinda das Olimpíadas para sua cidade era um 
fato. Seis anos depois, o sonho virou pesadelo. As Olimpíadas de 1976 deu um 
prejuízo de US$ l bilhão, e os contribuintes de Montreal ainda estarão pagando a 
conta quando o Clube descer dos jatos em Atlanta para celebrar o centenário das 
Olimpíadas em 1996. 
O prefeito Drapeau dizia que seria impossível ter prejuízo com os Jogos 
Olímpicos, tanto quanto um homem ter um bebê. Depois de examinar as páginas 
de um relatório de quatro volumes produzido por Albert Malouf, o juiz mais 
importante de Montreal, Drapeau tornou-se o primeiro homem a experimentar 
algo parecido com as dores do parto. O juiz disse que Drapeau "se autonomeara 
capataz e gerente do projeto" das novas instalações olímpicas de Montreal, sem 
ter "a aptidão e os conhecimentos" necessários para a tarefa. O prefeito 
encomendou "instalações luxuosas e impressionantes", ditadas por 
"considerações estéticas e de grandeza", sem realizar estudos sérios sobre os 
custos envolvidos. 
As coisas pioraram quando Sua Majestade a Rainha abriu os Jogos, e 
faltavam 22 países africanos na cerimônia inaugural. Dois dias antes eles 
abandonaram as Olimpíadas, em protesto pela excursão realizada pelo time de 
rúgbi da Nova Zelândia à África do Sul. 
Duas grandes estrelas dominaram os Jogos de Montreal: o finlandês 
Lassie Viren e o cubano Alberto Juantorena. Viren, um policial do interior, com 
sua barba rala, defendeu com sucesso seus títulos olímpicos, tanto nos 5 mil 
quanto nos 10 mil metros rasos. Juantorena, com suas passadas largas, foi o 
primeiro homem a ganhar as medalhas de ouro nos 400 e 800 metros numa 
mesma Olimpíada. 
Os Jogos de Montreal provavelmente ficarão na história pelas conquistas 
destes dois grandes atletas. Mesmo a investigação severa do juiz Malouf registrou 
que, para os canadenses, os Jogos foram "motivo de alegria e orgulho nacional". 
Patrick Nally se recorda das Olimpíadas de Montreal por outras razões: 
"Montreal serviu como catalisador. A equipe política de Horst estava 
montada. Os arquivos com quem é quem transbordavam. Diziam quais os 
indivíduos certos para agradar, quais os candidatos com chances de sucesso. Ele 
discutia com os Samaranches daquele mundo, preparando-se para as eleições 
futuras. 
"O terceiro estágio do projeto de Horst nasceu em 1976. O primeiro estágio 
foi pagar aos competidores para que usassem Adidas. O segundo estágio, o 
período em que se deu conta de que precisaria controlar as federações. O 
terceiro era o lançamento de uma estratégia completa. Fomos a Montreal com um 
plano estruturado, pela primeira vez. Ali começamos a espalhar as sementes de 
nosso trabalho com as federações e o COI. Montreal funcionou como plataforma 
de lançamento da era Dassler e Nally." 
O quartel-general para o lançamento da "era Dassler e Nally" funcionava 
em uma mansão requintada, no bairro mais chique de Montreal. Os dois sócios 
importaram um chef 'inglês para preparar uma série de delícias culinárias para 
uma interminável sucessão de jantares e almoços, nos quais Dassler e Nally 
faziam contatos e completavam arquivos. 
"Muito antes do início dos Jogos, já estávamos instalados em Montreal", 
lembrou Nally. "Escolhemos uma casa magnífica, onde poderíamos criar um bom 
ambiente, para receber pessoas que não viam a hora de fugir dos hotéis. 
Esperava-se muita animação em torno dos Jogos Olímpicos, mas pelo jeito isso 
faltou em Montreal — talvez porque os canadenses já estivessem fartos de tudo, 
naquela altura. Era muito difícil encontrar animação nas Olimpíadas de Montreal." 
A mansão alugada pêlos dois empresários logo preencheu o vácuo. 
Tornou-se o centro da política esportiva nas Olimpíadas de Montreal, fornecendo 
idéias e estratégias para as rodadas de reuniões, encontros e discussões que se 
seguiriam. 
Nestes encontros, os sócios possuíam uma isca especialmente apetitosa 
para balançar na frente das federações esportivas: o contrato multimilionário 
fechado por Nally com a Coca-Cola, para a FIFA de Havelange. O dirigente 
máximo do futebol mundial logo iria anunciar, para os outros presidentes, que 
conseguira milhões de dólares da Coca. 
"Poderíamos conseguir companhias interessadas em investir nas 
federações internacionais", disse Nally. "E também mostrar as maneiras de ajudar 
os interessados em presidir federações em seus objetivos de campanha. 
"Em Montreal, fomos capazes de usar o crescimento da FIFA e a 
consolidação de Havelange como um presidente esportivo poderoso para mostrar 
o que se poderia fazer com uma federação internacional. O dinheiro injetado na 
FIFA pela Coca-Cola mudou claramente a cara da organização. Havelange 
estava construindo uma nova sede internacional em Zurique, contratando uma 
equipe profissional em tempo integral, além de relações-públicas e pessoal da 
área financeira. A FIFA indicava o caminho. As outras federações importantes, 
como a de atletismo, acompanhavam tudo de perto. Muitas outras se mostravam 
ansiosas para seguir no mesmo rumo, e caíram logo nas mãos de Horst, e nas 
minhas." 
Conforme Havelange se mostrava mais rico e poderoso, todos queriam 
chegar lá. Ganhariam viagens, passeios, melhorariam sua imagem, ganhariam 
medalhas e status. 
"Voar na primeira classe para eventos internacionais importantes pelo 
mundo era sem dúvida muito melhor do que varrer o quintal no final de semana", 
disse Nally. "Assim que as pessoas mostravam interesse em chegar à presidência 
das federações internacionais, Horst começava a negociar, para garantir que os 
sujeitos certos fossem eleitos." 
Dassler dedicava especial atenção ao estabelecimento de contatos 
valiosos dentro das organizações olímpicas propriamente ditas. Muitas das 
pessoas que ocupavam postos-chave nos Jogos de Montreal eram funcionários 
da Adidas, ou serviam de consultores não remunerados da empresa. "Estávamos 
todos no mesmo time", explicou Nally. "Sua carreira futura estaria ligada a Horst, 
e portanto, durante o período em que se realizavam os jogos, eles mantinham 
Horst atualizado, passando as informações mais recentes, contatos, forneciam 
passes para entrada nas áreas reservadas aos atletas ou qualquer outra coisa 
que se fizesse necessária. 
"Em Montreal, estávamos totalmente integrados com os atletas mais 
importantes, como Artur Takac, que servia e ainda serve como conselheiro 
técnico das Olimpíadas. Artur foi praticamente a primeira pessoa que encontrei 
em Landersheim. Ele costumava jogar tênis com Horst, na quadra da Adidas. 
Takac era iugoslavo, e precisava de apoio do Ocidente. Horst cuidou disso, e 
Takac ajudava nos contatos com a Europa Oriental e o COI." 
Dassler também cultivava contatos mais difíceis, durante sua estada em 
Montreal. "Eu me lembro de ter saído com Horst", contou Nally, "e onde ele fosse, 
claro, os presentes o acompanhavam. Levávamos sempre caros relógios Omega. 
Conversávamos um pouco com a pessoa, sobre a vida em geral, como era tudo 
maravilhoso, e como procurávamos oportunidades comerciais no esporte. E de 
repente Horst dizia: 'Ah, por falar nisso, trouxe um presentinho, sinal de amizade 
da Adidas', ou algo no gênero, e os sofisticados relógios apareciam. 
"Conforme circulávamos, dava para perceber que isso já era esperado. A 
quantidade de presentes e brindes que as pessoas recebem no mundo dos 
esportes é extraordinária. Alguns críticos dizem que não passa de suborno, mas 
acho a palavra muito dura. Isso é feitoapenas para que as pessoas se sintam 
bem em sua presença. Havia a necessidade de distribuir brindes e presentes para 
que as pessoas se mostrassem receptivas e amigáveis. 
Circular por Montreal com Horst foi muito educativo, porque ele sabia tratar 
cada indivíduo como se fosse seu amigo. Cada um era tratado de modo distinto, 
dava para perceber que ele avaliava a personalidade e o caráter de cada um com 
perfeição, porque conseguia se aproximar de todo mundo." 
Tommy Keller, conhecido por sua sinceridade, era diretor da Swiss Timing 
e presidente da Federação Internacional de Remo. Há anos dirigia seus cáusticos 
ataques contra os líderes do esporte mundial que considerava de segunda classe. 
"As carreiras na administração do esporte servem frequentemente como 
substitutos para ambições não realizadas em outros campos, como por exemplo o 
meio empresarial, a vida militar ou a política", escreveu Keller, com a virulência 
habitual. "As funções dos dirigentes esportivos, portanto, são com freqüência 
meios de preencher seu orgulho pessoal, antes de mais nada." 
Nos anos anteriores à sua morte, ocorrida em 1989, Keller manifestou-se 
com mais veemência ainda, castigando o Clube construído por Dassler. Ele 
reclamava amargamente que o novo mundo esportivo fora "dominado por uma 
máfia latina, da Europa e América do Sul", e tentava lembrar aos colegas o que 
realmente importava no esporte internacional, em sua opinião. "Hoje os fatores 
dominantes são a busca do dinheiro e a satisfação das ambições pessoais", disse 
Keller. "Para mim, a função do esporte é ensinar aos jovens, através da 
competição, a se submeterem às regras das sociedades humanas, e não a servir 
aos interesses dos dirigentes esportivos que não tiveram muito sucesso em suas 
vidas profissionais ou políticas. Eles encontraram um refúgio. Os interesses 
pessoais tornaram-se mais importantes do que os interesses esportivos." 
Os partidários do Clube hostilizaram Keller, comparando-o a Dom Quixote 
lutando contra os moinhos de vento. Seu obituário olímpico oficial ressalta 
maliciosamente que ele "empreendeu uma cruzada contra as pressões comerciais 
e empresariais, exigindo que os membros de sua federação mantivessem o status 
de amadores, e que os dirigentes trabalhassem de graça." 
Mas em Montreal, durante os Jogos de 1976, o relacionamento de Keller 
com Dassler era bom. Keller era há muito uma figura poderosa no esporte 
internacional. Lutara muito pêlos interesses das federações, contra o poder do 
COI, excessivo em sua opinião. Já em 1967, Keller fora um dos primeiros a tentar 
que as federações formassem uma frente única nos contatos com o comité 
olímpico. Ao lado das federações de natação e luta, ele fundou a Assembléia 
Geral das Federações Esportivas Internacionais, conhecida pela sigla GAISF 
(General Assembly of International Sporting Federations). 
Desde o início a idéia gerou problemas com o COI. Avery Brundage, 
presidente do Comité Olímpico Internacional na época, recusou-se a reconhecer o 
GAISF, por não incluir alguns esportes mais importantes. Um dos membros 
italianos do COI disse que o GAISF seria uma ameaça tanto para o COI quanto 
para o movimento olímpico, exigindo "competência e dinheiro" que pertenciam ao 
COI. 
Na origem desta disputa inusitadamente calorosa no mundo normalmente 
pacato do COI estava o dinheiro. Os direitos para televisionar os Jogos Olímpicos 
seriam uma fonte cada vez mais importante de recursos. As companhias de 
televisão pagaram quase US$ 10 milhões para transmitir os Jogos Olímpicos do 
México, e isso era só o começo. 
O bolo da televisão chega a US$ 633 milhões nos Jogos de Barcelona, 
mas na época o total arrecadado no México era inédito. Nos anos seguintes, as 
empresas de televisão continuaram aumentando suas ofertas. Quatro anos 
depois, em Munique, pagaram US$ 17,8 milhões. No momento em que Dassler e 
Nally lançavam a terceira etapa de seu projeto em Montreal, a verba das te-
levisões totalizava US$ 34,8 milhões. A ABC (American Broadcasting Company) 
pagou sozinha US$ 25 milhões. 
"Tommy Keller era o que se poderia chamar de um dos poucos', pertencia 
à honrada velha escola de dirigentes esportivos", 
segundo Nally. "Tommy via que os Jogos se tornaram repentinamente 
valiosos. No passado, as Olimpíadas não passavam de um divertimento 
simpático, feito por amigos alegres, onde todos se reuniam por causa do esporte. 
Ninguém precisava pensar no dinheiro, porque não havia dinheiro. De repente, 
surgiu o dinheiro da televisão. 
"As redes norte-americanas decidiram que as Olimpíadas eram um bom 
negócio. Aumentavam os índices de audiência, atraindo anunciantes, pela 
primeira vez havia a possibilidade de se lucrar para valer com os Jogos. E o que 
isso causa? Como as federações levam sua pane no bolo? Quem fica com 
quanto? Vai haver uma divisão em panes iguais? Como uma federação interna-
cional se relaciona com um organismo como o COI, que está ficando rico?" 
Keller foi um dos primeiros a ver que seria necessário um novo fórum para 
responder a tantas perguntas. Ele também queria que as federações se 
tornassem um contrapeso para a crescente influência do COI, e por isso fundou o 
GAISF. Dassler e Nally também perceberam as vantagens de uma organização 
que servisse de anteparo, embora por motivos completamente diferentes. 
"Naquele estágio", disse Nally, "o GAISF era um órgão informal, que se 
reunia uma vez por ano. Não possuía uma administração central, nem sede. Horst 
e eu pensamos que, se conseguíssemos capturar o GAISF, providenciar uma 
sede e torná-lo um centro de informações e dados, isso nos daria a condição de 
conversar com muitas federações de uma vez só." 
Um príncipe e uma estrela do cinema norte-americano providenciaram a 
solução. Rainier, soberano de Mônaco, reina em um país miniatura, onde alguns 
quilômetros quadrados da costa mediterrânea se estendem entre as garras da 
França e da Itália. A Casa Grimaldi encara um problema perpétuo: como 
sustentar seu pequeno principado. O clima da Cote d'Azur, mais a fama da 
esposa do príncipe Rainier, a falecida estrela de cinema Grace Kelly, já ajudavam. 
Aviões lotados de turistas americanos, encantados com a história da "deusa de 
Hollywood que se apaixonou por um príncipe" voavam para Nice, "corriam a 
Europa" e depois cruzavam a fronteira de Monte Cario, onde podiam falar inglês 
novamente. 
O jogo também colaborava. A lenda do homem que quebrou a banca em 
Monte Cario era cuidadosamente cultivada há anos. Mas seria preciso mais do 
que o brilho decadente do Grand Cassino e de Grace Kelly para sustentar as 
atrações turísticas de Mônaco na década de 1980. O príncipe Rainier se dedicava 
com afinco à busca de novas atividades, que pudessem injetar moeda forte em 
Monte Cario. 
"Horst se entusiasmava com algumas coisas, como uma criança", disse 
Nally. "Ele viva deslumbrado com os heróis do esporte, por exemplo. Acontecia o 
mesmo com Monte Cario, só o nome do lugar já exercia uma atração enorme. 
Horst ficou terrivelmente lisonjeado e impressionado quando soube que o príncipe 
Rainier desejava conhecê-lo. 
"Ele ficou incrivelmente excitado. Rainier disse que tentava melhorar a 
imagem do principado, associando-o a eventos internacionais de prestígio. Já 
contavam com uma corrida de automóveis de sucesso, o Grand Prix, além de um 
campeonato de tênis, e queria conversar sobre as possibilidades de tornar seu 
país um centro esportivo internacional, com a ajuda de Horst. 
"Como parte da aproximação com Rainier, Horst e eu abrimos um escritório 
em Monte Cario. Resolvemos que a área de marketing de nosso trabalho com as 
federações, como as atividades desenvolvidas junto a Havelange, na FIFA, 
seriam realizadas através de uma sociedade que Horst e eu chamamos de SMPI 
— Societé Monegasque de Promotion International. 
"Eu ganhei um apartamento sensacional à beira-mar, com vista para o 
Mediterrâneo, além de um visto de residente. Personalidades do mundo esportivo 
começaram a mudar para lá namesma época, e costumávamos nos reunir 
regularmente na 'Cidade de Brinquedo', como a chamávamos. Quando todos se 
encontravam era ótimo, mas depois que iam embora e ficávamos sozinhos, o 
lugar era deprimente, cheio de velhos ricos aposentados e mais nada. 
"Na época em que inauguramos o escritório de Monte Cario, Horst 
conversava regularmente com a Madame Monique Berlioux. Ela era a diretora 
executiva e 'grande dame' do COI. Monique tinha um problema, o governo suíço 
relutava em fornecer vistos para estrangeiros que precisavam morar lá para 
trabalhar na sede de Lausanne. Por algum tempo discutiu-se a possibilidade de 
resolver a questão transferindo a sede do COI para Monte Cario. Horst encorajou 
esta solução, pensando que assim agradaria Rainier. 
"Num almoço com Monique, em Montreal, ficou claro que o plano não 
funcionaria. Por isso, Horst conversou comigo sobre uma alternativa para Monte 
Cario. Falamos muito sobre levar as maiores estrelas do esporte para morar e 
cuidar de seus negócios lá, como Franz Beckenbauer e Bjorn Borg. 
"Mas tivemos uma grande idéia: levar o GAISF. Conversamos com Tommy 
Keller, e ele acabou concordando em montar uma sede permanente para o 
GAISF em Monte Cario. O príncipe Rainier deu a Keller a base de sua 
organização, e em maio de 1977 a elegante Villa Henri, tendo até limoeiro no 
quintal, foi inaugurada, com Keller na presidência." 
"As reuniões do pessoal das federações internacionais eram muito 
divertidas", recordou Nally. "Eles erguiam as mangas da camisa e riam muito, ao 
contrário do que acontecia nas sessões do COI, sempre muito pomposas e 
formais." 
As redes norte-americanas de televisão compareceram em peso. A ABC, 
NBC e CBS brigavam pêlos direitos das Olimpíadas, e o dinheiro que se 
dispunham a gastar crescia. Os gigantes televisivos americanos também 
tentavam negociar os direitos de vários esportes, em separado. Os programas da 
ABC, Wide World of Sports, da NBC, Sports World e da CBS, Sports Spetacular 
ganhavam muita audiência. Em Monte Cario, o dinheiro não era problema. 
Custasse o que custasse, as redes norte-americanas pagariam, e as federações 
começaram a se amontoar para pegar o trem da alegria. 
"Cada uma das redes deu uma festa", contou Nally. "Ótimo, parecia um 
campeonato de badalação. Comíamos muito bem, bebíamos muito bem, nos 
divertíamos muito, enquanto cada uma tentava suplantar a concorrência. Ali se 
reuniam os dirigentes esportivos que no passado se esforçavam muito para 
aparecer. De repente um mundo de riquezas se descortinou para eles. Se o novo 
mundo era assim, melhor correr para garantir um bom lugar." 
Monte Cario era um pote de mel para Dassler e Nally. Ali tinham liberdade 
para circular nas federações, modificando-as conforme seus interesses. Eles 
enfatizavam a importância de manter o controle sobre todos os direitos de venda 
dos. esportes, separadamente. Nally realizava palestras, explicando como 
organizar programas de desenvolvimento como o do futebol e a necessidade de 
sair à luta pelo dinheiro. Ele conversava sobre a necessidade de reestruturar o 
calendário esportivo, destacando a perda inevitável das receitas de televisão, 
caso todos realizassem competições nas mesmas datas e ao mesmo tempo. 
"O GAISF se tornou um fórum de debates positivo, não apenas para as 
federações como também para nós, que pudemos desenvolver um sólido 
relacionamento com elas", declarou Nally. "Os rudimentos básicos da educação 
empresarial foram transmitidos em Monte Cario. O impulso para a realização de 
campeonatos mundiais e competições de natação, atletismo e ginástica nasceu 
ali. Nós modificamos a atitude das federações." 
Cada esporte seguiu o exemplo do futebol, criando novos eventos. Nally 
apresentou a eles o conceito de "pacote", por intermédio do qual se reunia um 
grupo de companhias para patrocinar um evento específico. 
"Não poderia haver mais um único patrocinador, como no caso da Coca-
Cola", explicou Nally. "Porque nenhum patrocinador se comportaria como a Coca-
Cola, injetando tanto dinheiro. Organizamos campeonatos de remo com Tommy 
Keller, com apoio de meia dúzia de companhias, como Canon e Metaxa. 
Participamos da Copa Mundial de Ginástica e Campeonatos Mundiais de Ciclismo 
da Holanda. Neste último deu uma confusão incrível. O estádio detinha os direitos 
de venda das placas em volta da pista. Quando chegamos, tendo a Heineken 
como principal patrocinador, não havia espaço para colocar as placas em torno da 
pista. Precisei mostrar às federações como conseguir estádios livres para seus 
eventos. Nenhum deles tinha a menor noção dos procedimentos comerciais. 
Nenhum deles conhecia nada sobre televisão. Não passavam de um grupo 
inocente e esforçado de amadores. "Mas, conforme o dinheiro ia entrando, e a 
importância das Olimpíadas crescendo, Deus do céu, tudo mudou. De repente 
havia gente da política, que não desperdiçava oportunidades. Alguns eram 
manipuladores muito astutos, espertos, e perceberam o potencial da coisa. 
Empresários e políticos começaram a fazer acordos, batalhar votos, ganhar 
eleições. Uma nova espécie de administrador esportivo surgiu, repentinamente, 
no momento em que a área se tornou lucrativa." 
 
5 
COM O BRAÇO ERGUIDO EU O SAÚDO 
 
Bem-vindo a Barcelona, mais uma vez. A cerimônia de abertura dos Jogos 
Olímpicos aproxima-se de seu clímax. As equipes esportivas desfilaram em torno 
da pista, e logo um corredor solitário entrará no estádio Montjuic carregando a 
tocha Olímpica. Juan António Samaranch, presidente olímpico, dá um passo à 
frente para falar aos 70 mil espectadores e bilhões de telespectadores de todo o 
mundo. 
"Tenho a honra de convidar o rei Juan Carlos a abrir oficialmente os Jogos 
da 25a. Olimpíada". Observem o braço direito do presidente, não estaria inquieto, 
tentando assumir vida própria, impelido por uma força visceral que o força a 
erguer-se num ângulo de quarenta e cinco graus em relação ao ombro? 
Não? Bem, muitas vezes ele fez isso. Durante quase quarenta gloriosos 
anos, Juan António Samaranch foi um defensor ativo do mais longo regime 
ditatorial da Europa. Olhando para a Espanha moderna, é fácil esquecer que por 
dezessete anos o país foi um estado policial totalitário, chefiado pelo general 
Francisco Franco. Muitos espanhóis emigraram, ou deram as costas para a 
política, esperando que um dia a democracia retornasse a seu país. 
Samaranch não; ele vestiu a camisa azul do fascismo e desfilou pelas ruas, 
fazendo a saudação fascista. Fez carreira, tornando-se parlamentar, membro 
fascista do Conselho da Cidade de Barcelona, presidente do Conselho Regional 
Catalão e, por algum tempo, ministro dos esportes fascista. Em suas próprias 
palavras, Samaranch era "cem por cento franquista". Ele saudou e apoiou o líder 
de um sistema político renegado e boicotado pelas democracias ocidentais. 
Samaranch não encara a história de sua vida desta forma. Ele se 
apresenta como um amante do esporte, que se envolveu com a periferia da 
política. "Considero correto a prática da política para a melhoria do esporte", 
declarou. "Mas creio que seja errado usar o esporte a serviço da política." Os 
fetos mostram o oposto. Apenas quatro dos vinte anos de sua carreira na política 
totalitária na Espanha foram dedicados à administração do esporte em tempo 
integral. No resto do tempo, o esporte foi um veículo para sua ascensão ao alto 
da hierarquia do ditador. Quando o regime repressivo de Franco encerrou-se 
abruptamente na Espanha, Samaranch não teve futuro na política real. A única 
carreira possível era a política esportiva. 
Como Samaranch conseguiu abraçar duas filosofias aparentemente tão 
contraditórias? Como uma visão de mundo fascista, por ele proclamada até ter 
mais de cinqüenta anos, pode se compatibilizar com a Carta Olímpica, que prega 
a luta contra a discriminação e a manutenção da política fora do esporte? A res-
posta de Samaranch foi ter dois pesos e duas medidas. 
Mesmo depois de se tornar vice-presidente do COI e percorrero mundo 
como guardião do ideal olímpico, Samaranch continuou a erguer o braço direito 
para fazer a saudação fascista em manifestações políticas na Espanha. 
Agora, na década de 1990, ocupando o centro da tribuna olímpica, sua 
conquista é única. Todos os velhos fascistas daquela era da história do século 20 
na Europa há muito desapareceram ou caíram em desgraça. Samaranch é a 
última lembrança da Europa dos ditadores que ainda se destaca no palco do 
cenário mundial. 
Nas próximas duas semanas o centro deste palco será a arena olímpica. 
Os Jogos serão o primeiro grande espetáculo público espanhol onde Samaranch 
comparecerá com destaque desde a morte do generalíssimo Franco em 1975. 
Pouco depois dela, Samaranch fez as malas e deixou a Espanha, com a 
condenação de seus compatriotas ainda ecoando nos ouvidos. Desde então vive 
fora do país. 
O material distribuído pelo COI, referente a seu querido presidente, omite 
tais informações. A verdadeira história de Juan António Samaranch, o grande 
líder do esporte, é a história de um homem que se reinventou. 
Samaranch reconstruiu meticulosamente sua imagem pública. "Ele devotou 
a vida inteira ao ideal olímpico, sendo um homem de grande cultura", afirma um 
texto divulgado em Lausanne. "Nenhum dirigente olímpico, desde Pierre de 
Coubertin, possuiu tal variedade de talentos, como no caso do atual presidente do 
COI", declarou o ex-membro suíço do COI, Raymond Gafner. "Juan António 
Samaranch conseguiu ser ao mesmo tempo original e muito bem-sucedido em 
sua liderança do movimento olímpico", disse Dick Pound, do Canadá. A palavra 
"fascista" se mantém ausente das homenagens, claro. 
Samaranch é retratado como um senhor idoso, benevolente, ligeiramente 
imperial, que devotou generosamente seus anos de maturidade à juventude 
mundial e à preservação do ideal olímpico, protegendo-o dos ataques do 
comércio e da política. Isso impressiona terrivelmente, e é aceito sem 
questionamento nos perfis publicados a cada ano olímpico. Há um problema, pois 
pouco ou nada disso é verdade. 
Samaranch ficou mais bonito com o passar do tempo. Fotos do jovem 
empresário, há quarenta anos, em companhia dos generais que tomaram o poder 
na Espanha, mostram o rosto agressivo de um oportunista voraz. 
Seus traços, hoje, revelam suavidade. Ele tem a aparência de um senhor 
simpático. Enquanto se prepara para fazer seu pequeno discurso na abertura dos 
Jogos, Samaranch pode olhar para trás, e ver sua vida de riqueza e sucesso na 
Espanha com orgulho. Mas sua experiência foi inusitada. Dezenas de milhares de 
seus compatriotas espanhóis foram mortos com tiros, torturados ou encarcerados 
pêlos tribunais militares. Por quê? Inicialmente porque lutaram no lado derrotado 
na guerra civil, e mais tarde por oposição à vida miserável num regime de partido 
único. Não havia liberdades civis na Espanha, nem eleições livres, até 1977. Os 
partidos políticos viviam na ilegalidade. 
Samaranch entrou para o movimento fascista na adolescência. 
Permaneceu leal a ele, até sua dissolução, às vésperas das primeiras eleições 
democráticas, cerca de quarenta anos depois. Samaranch jamais rasgou 
voluntariamente a carteirinha do partido. Ele permaneceu leal até a morte do 
fascismo. 
O Movimiento, nome dado ao agrupamento fascista espanhol, controlava 
cada aspecto da vida do país, da justiça à política, dos salários à administração 
esportiva. A ditadura do general Franco reproduzia o despotismo do Leste 
europeu, e isso também valia para o esporte. Atividades de recreação saudáveis 
não se destinavam a beneficiar os jovens, a divertir os velhos e a promover a 
decência e a harmonia. O esporte não passava de uma propaganda vigorosa da 
credibilidade do regime ditatorial. Com o braço direito erguido em saudação, 
vestindo o uniforme do Movimiento, camisa azul e jaqueta militar branca, 
Samaranch usou o esporte para obter sucesso para si e para o movimento. 
Ele fez a mesma coisa com as Olimpíadas. No decorrer da última década, 
Samaranch transformou o cargo de presidente olímpico, tradicionalmente de meio 
período, honorífico, em uma função executiva de comando em tempo integral. 
Despediu o diretor remunerado anterior, criando uma corte e uma burocracia im-
periais. Apesar de todos os discursos pregando o "esporte para todos", 
Samaranch conseguiu elevar a presidência olímpica a um status estratosférico, 
olímpico. Como um monarca — ou um ditador — ele ocasionalmente desce para 
tirar fotos com atletas selecionados e outros mortais. Mas, como político astuto, 
com 25 anos de prática, Samaranch não apenas se reinventou, ele remodelou o 
movimento olímpico de acordo com seu estilo de fazer política: o líder concede e 
aceita audiências com chefes de estado; o líder dá as ordens; o líder escolhe os 
novos membros do COI e os impõe ao movimento; o líder sabe de tudo; a 
vontade do líder deve ser executada; o líder comparece a entrevistas coletivas 
ladeado pelas bandeiras do movimento. 
Um dos momentos mais significativos na vida do jovem Juan António 
Samaranch foi o dia 17 de julho de 1936, data de seu 16o. aniversário. Naquele 
dia o general Franco ergueu a bandeira da rebelião. No início do ano o povo 
espanhol elegera um governo de centro-esquerda, da Frente Popular. Os ricos 
conservadores e os militares se recusaram a aceitar o veredito das urnas. A 
rebelião de Franco foi recebida com alívio no lar dos Samaranch. 
Franco contava com o apoio de Hitler e Mussolini, que já haviam 
estabelecido as duas outras grandes ditaduras européias. Guarnições militares 
por toda a Espanha se revoltaram, apoiando Franco. Os orgulhosos catalães 
resistiram aos exércitos de Franco por três anos, e Barcelona foi uma das últimas 
cidades importantes a cair. A resistência entrou em colapso depois que a cidade 
foi bombardeada pêlos alemães e italianos, num ensaio da guerra mundial que 
começaria em um ano. 
Samaranch pertencia a uma rica família de fabricantes de tecidos de 
Barcelona. Sua inclinação natural era seguir o estandarte fascista, mas isso era 
impossível. A Catalunha permaneceu leal ao governo eleito, e o exército 
"nacionalista" de Franco estava a centenas de quilômetros, no sul. 
Sendo assim, Samaranch entrou para uma organização fascista de 
juventude. Suas atividades chamaram a atenção da polícia. Foi chamado para 
interrogatório, e sua mãe o vestiu com shorts de tênis, para que aparentasse 
menos idade. A polícia o liberou. Pouco antes de seu 18o. aniversário, 
Samaranch foi convocado para o exército republicano. 
"Desde o início ele se manteve muito distante dos outros soldados", 
declarou Juan Llarch, convocado no mesmo dia. "Sua tática era ficar sempre 
próximo do capitão e dos outros oficiais. Curiosamente, ele sempre tinha tabaco e 
chocolate — naquele tempo raros — e quando o capitão ficava sem cigarros, ele 
costumava oferecê-los." 
Juan Llarch identificara o estilo de Samaranch: "Ele agiu assim a vida 
inteira, oferecendo algo para conseguir coisas muito maiores." 
Samaranch não tinha intenção de continuar servindo no exército 
republicano nem um único dia além do necessário. Llarch se recorda do modo 
como terminou a breve passagem de Samaranch pelo exército democrático. "Seu 
objetivo era conseguir permissão para sair, e quando a conseguiu, disse que não 
voltaria, ficando em Barcelona, na Cruz Vermelha. Depois eu soube que, ao 
chegar em Barcelona, ele desertou e se escondeu." 
Llarch tornou-se um escritor destacado depois da guerra. Ele não viu mais 
seu colega refratário, a não ser muitos anos depois, quando Samaranch já se 
tornara uma importante figura pública. Llarch disse que os modos de Samaranch 
eram frios, e que não gostava de ser visto a seu lado. 
"Samaranch agora grita 'Viva a Catalunha', e tenta parecer mais 
democrático que todo mundo", declarou Llarch no final dos anos 1970. "Mas 
sabemos que foi franquista a vida inteira." 
Franco fez poucos prisioneiros na sua vitória, em 1939. Executou por volta 
de 200 mil oponentes, segundo as estimativas,e mais de l milhão de refugiados 
deixou o país. Sua vingança contra a Catalunha e Barcelona, que se opuseram a 
ele energicamente, foi severa. No mês em que Samaranch comemorava seu 19? 
aniversário, os fascistas executavam cerca de 500 pessoas por semana na 
cidade. Os visitantes do estádio Montjuic, para os Jogos Olímpicos, estarão a 
poucos minutos a pé da antiga guarnição de mesmo nome, onde os inimigos do 
homem que se tornou presidente do COI eram abatidos como cães. 
Os atos do movimento político de Samaranch na Catalunha, depois da 
Guerra Civil, contrastam ostensivamente com os ideais olímpicos que ele hoje 
proclama. A cidade sede dos Jogos se compromete a realizar também um festival 
cultural; ele deve "simbolizar a universalidade e a diversidade da cultura humana". 
Barcelona mostrará a diversidade da cultura catalã. 
Há cinqüenta anos Franco e seu Movimiento tentaram esmagar aquela 
cultura. Em cenas similares às queimas de livros nazistas na Alemanha, a língua 
catalã foi banida, e as bibliotecas particulares e museus atacados. Até mesmo os 
passes de ônibus impressos em catalão acabaram queimados em praça pública. 
O banimento da cultura catalã prosseguiu, mesmo depois que os 
esquadrões da morte foram desativados. Na década de 1960, quando Samaranch 
era um político fascista em ascensão, uma cantora catalã, cantando em 
castelhano, ganhou o primeiro prêmio no Festival da Canção do Mediterrâneo. A 
canção foi inscrita para o Festival Eurosong, e a corajosa cantora avisou que a 
interpretaria em catalão. O governo imediatamente recusou permissão para que a 
artista participasse do festival. 
O idioma do conquistador, o castelhano, foi imposto na região onde 
Samaranch nascera. Embora falasse catalão desde a infância, Samaranch 
renegou sua herança cultural sem problemas. Depois da morte de Franco, ele 
repentinamente acrescentou à sua biografia do COI um detalhe. Além de 
castelhano, francês, inglês e russo, Samaranch admitia que falava também 
catalão. 
Depois da Guerra Civil, Samaranch entrou para o ramo da família, a 
indústria têxtil. Tornou-se diretor da empresa, e graças aos lucros consideráveis 
obtidos com trabalhadores não-sindicalizados, estava livre para se dedicar a sua 
prioridade real: manipular o esporte para atender a suas ambições políticas. Ele 
usou a riqueza familiar para comprar favores e levar urna vida de playboy. 
Aos vinte e poucos anos, Samaranch freqüentava as boates de Barcelona 
preferidas pêlos ricos da elite. Moças atraentes conseguiam escapar da miséria 
da época trabalhando como recepcionistas destes clubes. Eram conhecidas como 
"cortesanas", e podiam ser "alugadas" pêlos fregueses masculinos. De acordo 
com seus companheiros, Samaranch contratava mais mulheres do que todos os 
outros. Ao que parece, poucas se destinavam a seu uso particular. Ele reservava 
mesas, e também garotas, em meia dúzia de clubes, todas as noites, como 
gentileza para os amigos. Através desta generosidade interminável, Samaranch 
tornou-se um dos líderes do jovem jet-set de Barcelona. 
Samaranch tornou-se alvo de mexericos. Seus amigos diziam que ele 
mantinha agendas com detalhes sobre as moças, e ao longo dos anos reuniu 
uma coleção de quarenta agendas. Seus conhecidos comentavam que ele 
marcava o aniversário das moças, e os presentes comprados para elas. Desde a 
juventude, mantinha fidelidade a um hábito que conservaria por toda a vida: dar 
presentes e esperar o momento de pedir favores. 
Na década de 1940 passou a praticar boxe, e competiu, como peso pena, 
no campeonato catalão. Entrou uma vez no ringue com roupão de seda e o 
emblema "Kid Samaranch" nas costas. Ganhou a luta no segundo assalto. Alguns 
comentários maldosos davam conta de que, sem seu conhecimento, amigos seus 
pagaram ao adversário para que este caísse! 
Seu período de boxeador foi breve. Samaranch logo deixou de lado a 
competição a sério para iniciar sua vida de dirigente. Procurou uma oportunidade, 
algo que ninguém tivesse notado ainda. Considerou que o hóquei sobre patins 
tinha um potencial razoável, por sua popularidade na Espanha e em outros 
países. Faltavam recursos, e o esporte se beneficiaria, a longo prazo, com um 
rico patrocinador. 
Em 1943 ele contatou o clube esportivo Espanhol, e fundou um time de 
hóquei. Dois anos depois persuadiu o ministro dos esportes da Espanha, general 
Moscardo, a permitir que ele entrasse para a federação internacional de hóquei 
sobre patins. Em 1946, compareceu ao congresso de Montreux. Era o primeiro 
passo de Samaranch no cenário do esporte mundial. 
Samaranch conseguiu o sucesso, em seu país e no exterior. Montou uma 
seleção espanhola, financiando o projeto com seus próprios recursos. 
Instintivamente, seguiu o mesmo caminho que produziu muitos dos atuais 
dirigentes do Clube: usou seu dinheiro para comprar o sucesso no esporte — e 
portanto na política esportiva. 
Outra fatia dos lucros de Samaranch na indústria têxtil serviu para financiar 
o campeonato mundial de hóquei sobre patins em junho de 1951, realizado em 
Barcelona. Não foi puro altruísmo, e sim um investimento cuidadosamente 
planejado e rentável. A Espanha amargava o ostracismo da comunidade 
internacional desde 1945. A maioria dos governos ocidentais se recusava a reco-
nhecer o regime que enviara tropas para lutar ao lado dos nazistas. As Nações 
Unidas bateram a porta na cara de Franco. A iniciativa de Samaranch, 
organizando um evento internacional em Barcelona, marcou o início da lenta volta 
do país à comunidade internacional. Para completar, o time espanhol venceu o 
campeonato. 
Para a maioria das pessoas, a vida em Barcelona era feita de migalhas de 
pão e circo, ou seja, o hóquei sobre patins. Enquanto Samaranch desfrutava da 
companhia paga das garotas, carros e sucesso com o tique de hóquei, o grosso 
da população vivia no limite da fome. "A década de 1940, e o começo dos anos 
1950 foram uma época de intenso sofrimento para o povo espanhol", escreveu o 
historiador Raymond Carr, de Oxford. "Canetas-tinteiro eram compradas a 
prestações, escovas de dente recuperadas. A pobreza gerava a prostituição, e 
havia tantos mendigos que a polícia multava quem desse esmolas." 
Samaranch podia ficar tranqüilo, que suas fábricas de tecidos dariam lucro. 
Na Espanha de Franco as greves estavam proibidas, e os salários eram mantidos 
baixos, à força. O desespero gerava a raiva. O campeonato de hóquei sobre 
patins realizou-se num cenário horripilante. Os sindicatos proscritos convocaram 
uma greve geral. Trezentos mil trabalhadores aderiram. Os reforços policiais 
chegaram de trem, e navios de guerra desembarcaram tropas no porto. A polícia 
abriu fogo contra os grevistas, dois trabalhadores morreram e 25 ficaram feridos. 
Os operários voltaram à força para as fábricas. Milhares deles foram presos. Para 
muitos, a greve fora um desastre. Para Samaranch, ela representou um grande 
sucesso. 
A vitória suspeita da seleção espanhola no campeonato de hóquei 
aumentou a importância de Samaranch dentro da estrutura do partido único 
espanhol, o Movimiento, que incorporara o partido fascista, a Falange. Na década 
anterior ele aderira à ala jovem, a Frente de Juventudes. Apoiado em seu sucesso 
esportivo, Samaranch tentou realizar sua ambição real, a carreira política. 
No dia 22 de outubro Samaranch escreveu ao chefe regional do partido, 
pedindo para ser selecionado como candidato nas eleições para o Conselho 
Municipal de Barcelona. Não se tratava de uma eleição do tipo ao qual os 
cidadãos de qualquer país democrático se acostumaram a reconhecer. O povo de 
Barcelona não tinha voz ativa no resultado. O partido "elegia" sozinho o Conselho, 
em uma reunião fechada, e as pessoas sabiam do resultado pêlos meios de 
comunicação controlados pelo Estado, descobrindo quem seriam seus novos 
governantes. 
Nos arquivos do antigo governador civil de Barcelona, falangista, há dois 
documentos fascinantes, datados de 1951. O primeiro — número 994 — está 
cheio de elogios a Samaranch.Ao que parece, durante a greve geral, o partido 
sentiu falta de seus ativistas, e o documento afirma que "Samaranch foi um dos 
poucos falangistas presentes durante o período de greve". Havia falta de fura-
greves, e Samaranch realizou um trabalho notável na prefeitura local. Mas sua 
vida particular constituía um problema. 
A polícia secreta da Falange espionava todo mundo, e se sentiu 
incomodada pela imagem de playboy de Samaranch. Consideraram tal 
comportamento inaceitável em um líder político. O segundo relatório — 
documento número 884 — 0 critica por dar carros de presente a "suas muitas 
namoradas sucessivas". E concluía: "não acreditamos que ele possua a 
maturidade necessária para assumir uma função pública." 
Sem se abalar com a rejeição, Samaranch dedicou-se a granjear mais 
prestígio esportivo para a Espanha. Tornou-se vice-presidente do comité 
organizador do segundo Jogos do Mediterrâneo, que graças a sua imensa sorte 
seriam realizados em Barcelona, em 1955. Mais um evento de porte, capaz de 
desviar a atenção internacional da repressão contínua. Também daria a Sa-
maranch a oportunidade política que buscava. Um dos fatores de seu sucesso na 
década de 1950 estava na falta de crítica por parte dos meios de comunicação, 
algo que o acompanhou em sua carreira olímpica. 
O comité dos Jogos Mediterrâneos buscava cobertura favorável e intensiva 
da imprensa. Para atingir seu objetivo, simplesmente subornaram jornalistas. 
Como eram bons burocratas falangistas, registraram todo o esquema, por escrito. 
O documento encontra-se hoje nos arquivos do Governador Civil. 
"Em cada publicação existe um homem chave, que ao se colocar a favor 
da Organização — ou fechar os olhos — pode, sem escrever uma única linha, 
influenciar o tratamento da Organização", diz o texto. "Precisamos conversar 
pessoalmente com estes homens, antes que a campanha de propaganda na 
imprensa se inicie, e oferecer dinheiro por sua colaboração." 
Este tipo de suborno rotineiro servia como lubrificante das engrenagens da 
Espanha franquista. A política corrupta gera uma sociedade corrupta. Os mesmos 
empresários que elogiavam ostensivamente o generalíssimo com freqüência não 
pagavam impostos, lesavam o Estado e praticavam fraudes escandalosas. Para 
Franco, esta era uma forma aceitável de recompensar alguns partidários e 
comprar outros que pudessem causar problemas. 
Samaranch recebeu uma cobertura da imprensa mais favorável do que 
muitos de seus companheiros do Movimiento. Um grupo de jornalistas em 
Barcelona que despejava uma torrente interminável de elogios a seu respeito. Ele 
era famoso por dar presentes aos jornalistas, com a mesma facilidade com que 
alugava moças nas boates. Contam até que jornalistas receberam salvas de prata 
como presente de casamento, sem nunca terem sido apresentados a ele. 
De acordo com um texto publicado na IOC Review, os Jogos 
Mediterrâneos de 1955 foram um tremendo sucesso. "Eles mostraram o triunfo do 
ideal olímpico nos países banhados pelo 'Maré Nostrum', onde se originou nossa 
civilização", dizia a reportagem. "O prestígio daqueles dias memoráveis em 
Barcelona foi aumentado pela presença de oito membros do COI." 
Os Jogos eram uma "manifestação educativa, lotados de história, arte, 
filosofia e beleza. O mais importante não era vencer, e sim ter a honra de 
participar." O autor esqueceu de dizer que a honra de participar fora negada a um 
país banhado pelo Mediterrâneo — Israel. O responsável: Juan António 
Samaranch. 
Com o impulso extra da cobertura elogiosa da imprensa, Samaranch tentou 
mais uma vez ser "eleito" para o Conselho da Cidade de Barcelona. Apelou 
novamente ao Movimiento. Novamente a polícia secreta investigou sua vida 
particular. O relatório subseqüente, datado de 6 de novembro de 1954, mostrou 
que a vida privada de Samaranch não se alterara. O relatório foi escrito com muito 
cuidado, deixando as farpas para o final. 
"Este homem desfruta de grande prestígio no esporte. Trata-se de um 
perfeito cavalheiro. Politicamente, identifica-se com o regime, quanto à sua 
conduta moral, levando-se em conta a fortuna que dispõe, sua idade e círculo de 
amizades, não se caracteriza nem pela ostentação nem pêlos escândalos nos 
relacionamentos com as mulheres e casos amorosos. Estes são muitos, e corre o 
boato de que ele mantém um apartamento para tais necessidades. Ele é solteiro." 
Apesar de tudo, sua nomeação saiu. Samaranch, naquela altura, era muito 
poderoso para ser ignorado politicamente. Pelo menos conseguiu abrir caminho 
na política fascista, participando da administração da segunda cidade espanhola. 
Ficou responsável por um rico subúrbio e pelo esporte na cidade. Havia apenas 
uma condição. Até aquele momento ele era simpatizante do partido, mas não 
membro oficial. Agora, se quisesse o cargo, precisaria da carteirinha do partido. 
Samaranch assinou a ficha. 
Faltava ainda mais um pequeno ajuste para garantir sua ascensão. O 
Governador Civil o chamou para uma conversa em particular. "Samaranch", ele 
disse, "creio que todos os conselheiros devem ser casados." 
O sinal era claro. Se Samaranch queria subir politicamente dentro do 
partido, precisaria arranjar uma noiva. Em pouco tempo seu casamento com 
Maria Teresa Salisachs foi anunciado. Universalmente conhecida como "Bibis", 
ela pertencia a uma família de posses. Casaram-se em um ano. Salvador Dali 
criou o convite para as bodas. 
Samaranch havia fixado os olhos na política nacional. Perdera quatro anos 
desde a primeira tentativa de ocupar um cargo no Conselho da cidade, e 
pretendia recuperar o atraso. Também desejava ser um político com assento no 
conselho regional, que governava toda a Catalunha. 
O processo eleitoral, como sempre, não teve nenhuma relação com as 
urnas. Ele contatou um médico de Barcelona, figura influente no Movimiento, 
coincidentemente apoiado pelo pai de Samaranch. O doutor deu um telefonema. 
No dia seguinte a imprensa anunciou que Juan António Samaranch era agora 
Conselheiro Regional, além de responsável pelo esporte na Catalunha. 
O sucesso dos Jogos Mediterrâneos, realizado sem a presença israelense, 
agradou ao governo. Novos telefonemas foram dados, e em 1956 o Conselho 
Regional nomeou Samaranch para ocupar um cargo no comité nacional do 
esporte, em Madri. Havia um preço a ser pago, mas para um homem com as 
opiniões de Samaranch, este preço estava longe de ser odioso. Ele precisaria 
continuar mostrando sua lealdade inabalável ao Movimiento. Coerente com tal 
atitude, suas cartas aos dirigentes esportivos mais graduados se encerravam com 
uma frase reveladora: "Sempre às suas ordens, com o braço erguido eu o saúdo." 
Quando a Samaranch propriamente dito, isso elimina qualquer dúvida de 
que, para ele, o esporte era a rota privilegiada para o sucesso na política. Na 
Espanha franquista não havia diferença entre esporte t política. O esporte não 
passava de mais um instrumento de governo, num estado totalitário abrangente. 
E Samaranch poderia usar este instrumento à vontade. A geração de generais 
que vencera a Guerra Civil e assumira o governo tinha raízes no século anterior. 
Pouco entendiam do esporte moderno. Samaranch era esperto, enérgico, leal e 
politicamente ambicioso. Buscava a ascensão política, e ao mesmo tempo 
melhorar a imagem esportiva da Espanha, mantendo o esporte sob controle do 
fascismo. Os generais gostaram da idéia, e progressivamente abriram-lhe as 
portas do Clube. 
Samaranch pulou da vida política periférica da Catalunha para o centro do 
poder, em Madri. Mas depois se seguiu uma década de frustrações. Ele não foi 
bem-recebido em todos os setores do sistema político de Madri. A riqueza de 
Samaranch, e sua ambição flagrante o tornaram impopular e lhe valeram o 
apelido de "senorito" — o rapaz mimado. 
Mas Samaranch, o magnata do setor têxtil da Catalunha, usou o tempo 
para fazer os contatos que lhe dariam sua segunda fortuna. Em Madri ele 
conheceu o financista Jaime Castell, de quem se tornou sócio e amigo íntimo.Eles se lançaram em uma série de empreendimentos imobiliários especulativos, 
para atender ao movimento turístico na costa catalã. Samaranch também entrou 
para a diretoria de várias companhias: bancos, indústrias e empresas de 
construção civil. Castell possuía bons contatos em Madri. Através dele, 
Samaranch conheceu a família de Franco. Ele e Bibis aproximaram-se bastante 
da filha de Franco, Carmen. 
Uma década de paciência e astuta distribuição de presentes foi finalmente 
recompensada em dezembro de 1966, quando o ministro do esporte deixou o 
posto. Samaranch foi escolhido por Franco para sucedê-lo. 
Os jornais e noticiários de cinema desempenharam um papel fundamental 
na ascensão de Samaranch. Ele aprendera antes que uma combinação de 
censura, suborno e favores a jornalistas era essencial para promover sua carreira 
política. Estava na hora de se aventurar como dono de um jornal. Entrou para a 
diretoria do Tele-Exprés de Barcelona. Um jornalista que trabalhava lá descreveu 
sua função: "inspetor político". Quando saiu uma notícia a respeito da demissão 
de operários numa indústria têxtil, Samaranch recortou a matéria e a enviou ao 
editor, com um bilhete: "Como sempre, escrevendo para quem não lê jornal. 
Deste jeito não chegaremos a lugar nenhum." 
Mas Samaranch chegaria. Entrou para o Comité Olímpico Espanhol, 
controlado pêlos fascistas, em 1956. Um dos fatores decisivos em sua ascensão 
política na Espanha era a influência que conseguira — para si e para a Espanha 
— no movimento olímpico. Já em 1961, cinco anos antes de entrar para o COI, 
Samaranch convidou a esposa de Avery Brundage, presidente do COI, para 
passar o verão em sua vila na Costa Brava. A cortesia valeu a pena. Em 1965, o 
COI realizou sua sessão anual em Madri. O Chefe do Estado abriu a conferência. 
O general Franco podia se considerar um patrono do ideal olímpico de decência e 
jogo leal. 
Quando vagou um lugar na representação espanhola do COI, no ano 
seguinte, poucos duvidavam que Samaranch seria o escolhido. Na reunião 
seguinte do COI, Samaranch entrou para a elite olímpica. 
 
 
6 
O CAMALEÃO MANHOSO 
 
A pira olímpica pega fogo. Começam os Jogos Olímpicos de Barcelona. 
Finalmente o estádio Montjuic cumpre seu destino. O prefeito Pascal Maragall 
tornou isso possível. Ele passou os últimos seis anos comandando a equipe que 
organizou os Jogos da 25a. Olimpíada. Pode-se perdoar Maragall se ele não 
cumprimentar o presidente do COI com muito entusiasmo. Trata-se do prefeito 
socialista de Barcelona, e sua família sofreu nas mãos do Movimiento de 
Samaranch, e isso não foi há tanto tempo assim. Seus irmãos foram presos, e a 
irmã condenada por imprimir literatura anti-franquista. 
Os dois homens simbolizam posturas contrastantes, dentro da política 
espanhola. O socialista se elegeu através de um processo democrático justo. O 
fascista chegou ao poder, inicialmente, por meio de contatos influentes, e se 
manteve devido a um processo eleitoral falsificado. Eis aí mais uma história 
verdadeira que não se encontra nas biografias de Samaranch divulgadas pelo 
COI. 
Na metade da década de 1960, a economia espanhola cambaleava. As 
democracias ocidentais haviam batido a porta na cara de Franco. Recusavam-se 
a permitir que a ditadura negociasse com a Comunidade Européia. Para 
sobreviver, a Espanha necessitava do comércio com a França, Alemanha, Itália e 
outros vizinhos além dos Pirineus. Franco procurava um modo de suavizar a 
imagem de um regime repressor. Em 1967 teve uma nova idéia: realizar eleições. 
O povo espanhol teria finalmente uma democracia, embora somente nas 
condições estipuladas pelo Movimiento. Todos poderiam votar nas eleições para 
o parlamento espanhol, as Cortes. O conceito de "eleição" democrática de Franco 
permitiria que ele nomeasse 83 por cento dos deputados. O povo votaria para 
eleger os 17 por cento restantes. 
Dois tipos de candidatos seriam permitidos: os de direita e os de extrema 
direita. Antes da campanha, os candidatos precisavam jurar fidelidade ao general. 
Isso deixou de fora muitos candidatos centristas, liberais ou esquerdistas. Por via 
das dúvidas, todos os partidos políticos continuavam proibidos — exceto o Mo-
vimiento oficial. 
Um dos dois candidatos oficiais do Movimiento para a eleição de 1967 em 
Barcelona foi Juan António Samaranch. Ele foi eleito com mais de meio milhão de 
votos. Em segundo, com uma pequena diferença, ficou o direitista independente 
Eduardo Tarragona. Desiludidos pela falta de escolha, apenas 53 por cento do 
eleitorado se deu ao trabalho de ir votar. 
Tarragona assustava o Movimiento. Ele deu a Barcelona a chance de 
registrar seu voto contra o franquismo. Era preciso abalar sua campanha. "Eles 
usaram todos os recursos possíveis para prejudicá-lo", escreveu um historiador. 
"Impediram que realizasse comícios em Barcelona até que faltassem cinco dias 
para a eleição. Para um de seus comícios, o governo reservou uma sala de aula, 
com capacidade para trinta pessoas, em outro, um salão sem cadeiras. Em 
contraste, Samaranch teve todos os recursos do Movimiento à disposição." 
Muitos catalães preferiram votar de outro modo. Quando Samaranch se 
elegeu para as Cortes, os operários entraram em greve, exigindo salários 
decentes. O Estado de Emergência foi declarado, e os manifestantes presos. Este 
era o cenário do triunfo "democrático" de Samaranch. 
Samaranch podia ficar satisfeito com suas conquistas políticas. Em 1967 
era membro do parlamento, ministro do governo e amigo íntimo da família de 
Franco. Além de multimilionário e menina dos olhos da imprensa. Viajava pela 
Espanha, promovendo a si mesmo e ao esporte. Ele e Bibis passaram o Ano 
Novo em um palácio no campo, na companhia do ditador. Mas Samaranch estava 
voando alto demais. 
Em 1970 ele aterrissou. Foi demitido. Perdeu o cargo de ministro do 
esporte. Sua ambição descontrolada o derrubou. O estilo de Samaranch 
conflitava com os velhos cinzentos do regime de Madri. Os reacionários veteranos 
da Guerra Civil concluíram que o senorito era ousado demais. 
Seu erro fatal foi irritar os burocratas do Movimiento, extremamente 
dedicados ao protocolo. Para começar, ele os atropelou, convidando o príncipe 
Juan Carlos para viajar à Tunísia e assistir os Jogos Mediterrâneos. Sua segunda 
gafe: convidar Franco para inaugurar um novo centro esportivo. 
O secretário-geral do Movimiento espumou de raiva. Fora informado da 
inauguração pêlos jornais! Samaranch passara dos limites. A velha guarda se 
livrou daquele jovem arrivista e nomeou um novo ministro do esporte, Samaranch 
não perdeu o cargo por ter abandonado o fascismo. Houve apenas um choque de 
personalidades. Não o expulsaram, nem ele se afastou do Movimiento. Manteve 
seus cargos no partido e na política espanhola. Sofrera apenas um pequeno 
tropeço. 
As "eleições" para as Cortes controladas pelo regime realizaram-se 
novamente em 1971. Mais uma vez, havia por trás um cenário de 
descontentamento da população civil. Trabalhadores e estudantes, apoiados 
também pela classe média, se mostravam cansados da ditadura e da pobreza, 
enquanto os amigos de Franco viviam no luxo. Para proteger seus privilégios, o 
Movimiento deu carta branca à polícia. Que atirassem. 
Três operários foram mortos com tiros em Granada. Em Barcelona, 300 
intelectuais se reuniram para protestar, no convento de Montserrat, lar espiritual 
do nacionalismo catalão. Era ilegal. A polícia cercou o convento durante três dias, 
e ameaçou invadir o prédio. Quando os manifestantes saíram, muitos acabaram 
presos e processados. 
Nestas eleições, Samaranch foi novamente o candidato oficial, e mais uma 
vez enfrentou o direitista independente Eduardo Tarragona. Após a eleição de 
1977, Tarragona iniciara contatos semanais com os eleitores. Este perigoso 
precedente sugeria que um representante deveria se relacionar com os eleitores. 
Tarragona criou associações de moradores, para protestar contra a falta de 
escolas, iluminação e saneamento. Denuncioua evasão de impostos da classe 
média, e exigiu melhorias nos cortiços, moradia barata e mais escolas. Fez 
campanha por apoio da previdência às crianças deficientes. Nas Cortes, ele votou 
contra o orçamento, que considerou "inaceitável para qualquer contador compe-
tente." 
Apesar das vantagens de ser um candidato oficial, a eleição de 1971 quase 
representou um desastre para Samaranch. Ele fez sua campanha baseado em 
dois slogans políticos: "Ninguém fez tanto pelo esporte" e "Queremos a semana 
de quarenta horas". O eleitorado deu as costas para as urnas. O comparecimento 
caiu para 35 por cento. Pior ainda, Tarragona vencia Samaranch, cuja votação 
despencou. Samaranch conseguiu voltar às Cortes por pouco. Logo depois da 
"eleição", um operário levou um tiro e morreu durante a greve da fábrica SEAT em 
Barcelona. Ele não chegou a ver a semana de quarenta horas. 
O fato de Samaranch ter desempenhado um papel destacado no sistema 
totalitário espanhol nunca foi divulgado pelo COI. Em 1974, quando ele se tornou 
vice-presidente do COI, a Revieiu olímpica publicou que Samaranch detinha "o 
recorde de número de votos no parlamento espanhol". Isso ocorreu em 1967. A 
Reviezu deu a informação muito tempo depois da queda da votação na segunda 
eleição para as Cortes. 
O movimento olímpico era vital para Samaranch, o político. Se o fascismo 
entrasse em colapso na Espanha, o mundo olímpico poderia ser usado para 
lançar uma carreira alternativa no exterior. O COI, guardião dos nobres ideais 
coríntios dos Jogos Olímpicos, forneceria o disfarce ideal para que Samaranch 
promovesse sua própria reinvenção. 
O COI ainda era um clube de cavalheiros. Um oportunista batalhador 
poderia ir longe. E foi. Nas Olimpíadas do México, em 1968, só dois anos depois 
de sua entrada no COI, Samaranch ficou encarregado do protocolo olímpico. Uma 
posição ideal para alguém apaixonado pelas regras, regulamentos e pela ordem. 
Um posto-chave para um homem ambicioso. Agora o membro secundário teria 
sua oportunidade de melhorar a imagem perante os membros do COI do mundo 
inteiro. 
O novo chefe do protocolo discursou para os titulares das delegações 
durante os Jogos de Inverno de Sapporo, em 1972. O dever de todos era, disse 
Samaranch, convencer os atletas da importância da cerimônia de abertura. 
Qualquer atleta ausente do desfile seria culpado de "descortesia, violação das 
normas e de prejudicar o valor moral dos Jogos". 
Samaranch também insistiu na cerimônia de encerramento. Ele determinou 
que "uma disciplina rígida, porém voluntária, deve ser observada por todos. Os 
atletas não terão permissão para acenar com lenços nem carregar câmeras. Será 
proibido abandonar a formação." Um reflexo da vida autoritária de Samaranch na 
Espanha, onde se enfatizava o desfile militar, a ordem e a disciplina. 
Os membros menos ambiciosos do COI raramente participavam dos 
comitês olímpicos importantes. Samaranch subiu depressa. Em pouco tempo 
entrou para a comissão de imprensa, e se tornou membro da diretoria executiva 
— o comando central do COI. Samaranch parecia estar no caminho certo para o 
topo. Mas isso, por si só, não bastava para garantir o posto máximo no esporte 
mundial, a presidência do COI. Como Samaranch poderia ganhar mais destaque? 
Só havia uma resposta: precisava fazer uma aliança com o homem que dava as 
cartas em Landersheim. 
Como Samaranch feria o contato com Horst Dassler? Desde o final dos 
anos 1960 ele conhecia Christian Jannette, o francês encarregado do protocolo 
nos Jogos de Munique. Jannette fora ; descoberto por Dassler, e levado para 
trabalhar com a equipe política da Adidas. 
"Em Munique, Samaranch chefiava o protocolo do COI, e eu precisava 
trabalhar bastante com ele. Ficamos amigos", declarou Jannette. "Em 1974, 
Samaranch ficou sabendo que eu trabalhava com Horst, e me disse que gostaria 
de conhecê-lo. Ele nos convidou para ir a sua casa, em Barcelona, onde 
passamos dois ou três dias. 
* *; "Horst queria manter contato com qualquer pessoa envolvida com a 
organização dos esportes, e Samaranch era um dos sujeitos mais importantes, 
mesmo naquele tempo. Chefiava o protocolo do COI, e as pessoas costumam 
dizer que o chefe do protocolo se torna o presidente seguinte. Eu disse a Horst 
que ele era um bom sujeito, ambicioso e esforçado. Horst gostou dele. Mais tarde 
ficaram muito amigos." 
Patrick Nally logo encontrou Dassler e Samaranch, no circuito de 
entretenimento da Adidas. Eles estavam juntos. "Horst falava com ele de modo a 
indicar claramente que a conversa fazia parte de um esquema para conquistar o 
COI", disse Nally. "Horst sabia que ele pretendia a presidência do COI, muito 
antes do início da campanha declarada. Havelange chegou ao topo por conta pró-
pria, e depois se apoiou em Horst. Creio que Samaranch foi o primeiro dirigente 
importante a sair em campanha em tempo integral, tendo sempre Horst a seu 
lado. 
"Samaranch era o início de uma nova espécie de dirigente, capaz de 
identificar uma boa oportunidade. Eles iam à luta, dedicavam-se à campanha 
política para conseguirem se eleger. Naquela época, qualquer um que 
pretendesse fazer isso ia primeiro a Landersheim, falava com Horst e acertava um 
acordo com ele. Quem se aliasse a Horst antes garantia sua ajuda na eleição." 
Numa das tribunas de honra da cerimônia de abertura em Barcelona 
encontra-se Jordi Pujol, o presidente democraticamente eleito da região da 
Catalunha. Como Samaranch, é um conservador, além de banqueiro. As 
semelhanças terminam aí. Samaranch ligou-se a Franco, ao Movimiento e ao 
esmagamento da identidade catalã. Pujol lutou pelo idioma, cultura e liberdade 
política de sua terra. 
Franco realizou uma visita oficial a Barcelona em 1960. No concerto 
especial várias pessoas da platéia começaram a entoar corajosamente o hino 
nacional da Catalunha, que fora proibido. As autoridades ficaram furiosas. 
Trancaram as portas e chamaram a polícia. Os manifestantes foram presos e 
espancados. A polícia secreta de Franco entrou em ação e identificou Jordi Pujol 
como organizador do protesto. Ele foi condenado a sete anos de prisão. Como 
recompensa, recebeu do povo catalão, quando a democracia finalmente chegou, 
o alto cargo que exerce. Seu antecessor, Juan António Samaranch, não se 
elegeu: o Movimiento o nomeou em Madri. 
A presidência do conselho regional títere de Franco na Catalunha, no início 
da década de 1970, era um cargo político importante. E não tinha nada a ver com 
o esporte. Em 1973, quando a vida de Franco se aproximava do final, um vento 
de mudança soprou no país. O general moribundo reagiu, nomeando o almirante 
Carrero Blanco, Unha dura e reacionário, para primeiro-ministro. Ele fora 
companheiro de Franco na Guerra Civil. Um mês depois Carrero Blanco escolheu 
o homem que, na opinião do regime, poderia manter a rebelde Catalunha sob 
controle. Seu nome: Juan António Samaranch. 
Samaranch mostrou, mais uma vez, sua oposição à democracia. Em sua 
posse declarou: "Proclamo, de modo inequívoco, a lealdade e fidelidade que une 
meu coração ao regime, fidelidade aos princípios do Movimiento, submissão ao 
príncipe da Espanha e lealdade absoluta a Franco." 
Cinco dias antes do Natal de 1973, uma bomba estraçalhou Carrero 
Blanco. O grupo terrorista basco ETA realizou sua vingança nas ruas de Madri. 
"Ele foi um dos maiores nomes da Espanha neste século", declarou o líder da 
Catalunha. "Simboliza tudo que um bom espanhol deve ser." Samaranch conferiu 
a medalha de ouro do conselho regional a Carrero Blanco, postumamente. 
O assassinado detonou uma nova onda de terror. A tarefa de Samaranch 
era supervisionar o esmagamento da Catalunha. "Durante 1974 e 1975, a 
repressão, na forma de prisões generalizadas, tortura e execuções, bem como 
através do uso constante de armas de fogo pela polícia e guarda civil, atingiu um 
nível nunca visto desde o final dos anos 1940", escreveu um historiador. 
Samaranch parecia incapaz de se distanciar do Movimiento. Um incidente 
ocorridono início de 1974 mostra sua lealdade interminável, no momento em que 
os coveiros se preparavam para o maior funeral oficial da Espanha em quarenta 
anos. Os opositores do regime tentaram atacar um monumento de Barcelona que 
homenageava os franquistas mortos na guerra civil. Dezenas de milhares de 
partidários do fascismo foram levados de ônibus para Barcelona, realizando uma 
marcha de protesto pela cidade. Samaranch, usando a camisa azul, fez a 
saudação fascista e participou da manifestação. 
Até o final amargo Samaranch se manteve leal ao ditador. A saúde de 
Franco piorou muito em 1975, mas Samaranch não abandonou o navio do regime 
que afundava. Em 26 de janeiro, já vice-presidente do COI, Samaranch vestiu a 
camisa azul e liderou a comemoração anual da "libertação" de Barcelona 
empreendida pêlos fascistas. Como sempre, ele ergueu o braço na saudação 
fascista. 
Na Páscoa, quando o Movimiento celebrava a missa, ele usou seu 
uniforme mais uma vez. Ainda naquele ano, também de camisa azul, ele 
compareceu à missa pêlos fascistas mortos na guerra civil. 
No fim do outono de 1975 Franco estava às portas da morte. A família e os 
velhos generais da Guerra Civil observavam impotentes o velho moribundo, 
deitado em seu leito, agarrado ao braço mumificado de Santa Tereza, ligado a 
todas as máquinas capazes de prolongar sua vida disponíveis na medicina 
moderna. Diziam no hospital que ele estava morto há vários dias. Seu círculo 
íntimo se recusava a permitir que os médicos desligassem os plugues. 
No dia 20 de novembro Samaranch, de camisa azul, participou da 
cerimônia anual em Barcelona, comemorando a fundação da Falange. Trinta anos 
depois da derrota do nazismo, o vice presidente do COI desfilava na rua com 
seus companheiros uniformizados, desafiador, fazendo a saudação que é a 
antítese absoluta do ideal olímpico. 
Mais tarde, naquela mesma noite, ele recebeu o telefonema que tanto 
receava. Franco estava morto. Samaranch dirigiu-se para o quartel regional da 
Catalunha, e exortou a tropa a defender o prédio. Samaranch depois enviou 
telegramas de condolências para a família de Franco, de lealdade ao rei e de 
apoio ao governo. 
No dia seguinte Samaranch falou no conselho regional: "A Espanha e a 
Catalunha experimentam a amarga sensação da orfandade. Mas não há motivo 
para o desespero, porque somos uma nação que possui uma fé e um rei. Este é o 
legado de Franco." 
Ele encerrou seu discurso com a seguinte frase: "O exemplo de Franco 
estará sempre conosco, na luta por uma Espanha melhor." Não apenas o 
sentimento era odioso. Samaranch falou em catalão, a língua que repudiara 
durante quarenta anos e que seu líder tentara esmagar de todas as maneiras. 
Seis semanas depois Samaranch compareceu à cerimônia que 
comemorava, em 1976, a "libertação" de Barcelona, a primeira desde a morte de 
Franco. Pela primeira vez Samaranch deixou a camisa azul no guarda-roupa. 
Preferiu usar uma branca. 
Samaranch procurava desesperadamente um novo espaço para exercer 
seu estilo de política. Uma revista em catalão, chamada Arreu, publicou um texto 
longo e arrasador sobre seus anos de serviço ao velho regime. Era a primeira 
vez, em quarenta anos, que alguém criticava Samaranch publicamente. 
A manchete do artigo anunciava: "Samaranch, não fazemos parte de sua 
turma". Uma equipe de três jornalistas pesquisara a carreira política dele. 
Concluíram que não dava para acreditar no que Samaranch sempre dizia: 
"Considero legítimo exercer a política para aprimorar o esporte, mas creio que é 
errado colocar o esporte a serviço da política." eles não tinham a menor dúvida de 
que Samaranch usara o esporte para progredir na política. 
"Estamos lidando com um camaleão manhoso", escreveram, "porque ele 
soube dosar suas mudanças com esperteza — mas não foi capaz de iludir a 
opinião pública." 
Felizmente, para Samaranch, o espírito da nova Espanha era de 
reconciliação. Não haveria julgamentos por crimes de guerra. Mas a carreira 
política de Samaranch estava encerrada. Seu passado de cumplicidade com a 
ditadura destruía qualquer futuro para ele, em seu país. 
O final de Samaranch na Espanha aconteceu no dia 23 de abril de 1977: 
Cem mil pessoas fizeram uma manifestação na frente da sede do conselho 
regional da Catalunha em Barcelona. Enquanto o presidente se trancava lá 
dentro, o povo gritava palavras de ordem como: "Samaranch, vá embora!" 
"Tomei uma das decisões mais importantes de minha vida", admitiu 
Samaranch alguns anos depois, "quando percebi que minha vida pública na 
Espanha se encerrara. Não apenas política, como também socialmente." Mas 
Samaranch não estava liquidado. Decidiu se reinventar. Isso não seria difícil para 
o "camaleão manhoso". 
O dilema para a Espanha, e para Samaranch, era como se livrar dele. 
Ambos os lados precisavam manter as aparências. Ele continuava no cargo de 
presidente do conselho regional, e o governo interino não desejava um confronto 
enquanto planejava o retorno à democracia. A solução encontrada por Madri foi 
um cargo diplomático. Com sua experiência internacional no COI, e sua 
habilidade para sobreviver às reviravoltas dentro do Movimiento durante três 
décadas, Samaranch poderia ser útil à Espanha — se estivesse no exterior. 
A história que corre no ministério do exterior, em Madri, diz que ele 
recebeu um convite para assumir uma função tranqüila e confortável em Viena, 
mas recusou-se. Samaranch mostrou interesse em ser enviado para a austera 
capital da União Soviética. O serviço público se surpreendeu, mas Samaranch 
tinha lá suas razões. O camaleão pretendia iniciar uma nova campanha política. 
A perda da Espanha representou um ganho para o COI. Com grande alívio 
o país em que nascera assistiu à partida de um de seus fascistas mais 
destacados. No dia 18 de julho de 1977 Samaranch seguiu para Moscou, no 
reatamento das relações diplomáticas rompidas há quarenta anos. Em Moscou, 
sua prioridade seria representar a si mesmo. 
Aos russos só restavam três anos para completar os preparativos para as 
Olimpíadas de 1980. Os Jogos seriam uma vitrine da excelência de seu sistema 
político. Mas a burocracia soviética hesitava, e os dirigentes encontravam muita 
dificuldade em atender às necessidades tanto das federações esportivas 
internacionais quanto do COI. Agora, para imenso alívio, tinham Samaranch 
batendo à sua porta. Ele era o principal vice-presidente do COI, o número dois da 
hierarquia olímpica. 
Todos os envolvidos na política esportiva podiam ver que um acordo se 
delineava. Em 1980 lorde Killanin se aposentaria da presidência do COI. 
Samaranch desejava ocupar a vaga. Andava ocupado, procurando obter todos os 
votos europeus para o COI. Os russos controlavam um bloco de votos 
considerável, da Europa Oriental e de outros países do mundo inteiro. 
"Samaranch sempre quis ser presidente do COI, muito antes de sua 
passagem por Moscou", disse Christian Jannette. "Os russos ficariam gratos por 
qualquer ajuda recebida. E ele passava grande parte do tempo prestando 
assistência a eles. Não era fácil, para a URSS, organizar os Jogos. 
"Uma coisa precisa ser dita: os russos não esquecem o que se faz para 
eles. Horst Dassler fez muito pelo país, e eles jamais se esqueceram disso. Antes 
até de 1970, eu me lembro que a família Dassler era generosa, fornecendo 
equipamento, mesmo que os russos não tivessem dinheiro." 
O cenário estava montado. Dassler pretendia acionar todos seus contatos 
para ajudar Samaranch — e esperar pelo troco. 
A chegada do diplomata amador a Moscou deixou os profissionais 
ressabiados. Todos haviam sido indicados para a capital de um dos superpoderes 
porque representavam a nata da diplomacia de seus respectivos países. Como 
poderia aquele cinqüentão, sobra de uma ditadura falida, se adaptar a uma 
atmosfera tão rarefeita? Mas ele se revelou surpreendentemente eficaz. Por 
vários motivos, o posto não apresentava muitas dificuldades para um camaleão 
manhoso. A Espanha não tinha um papel preponderante emMoscou. Samaranch 
poderia devotar seu tempo à sua própria imagem. Seu trabalho foi excelente. 
O dedicado franquista, que durante quarenta anos apoiou a campanha de 
extermínio dos comunistas espanhóis, que foram presos, torturados e 
executados, realizou uma façanha. Ele se insinuava em todas as rodas. Era uma 
suprema ironia. Samaranch combateu os "comunas" a vida inteira, e agora 
precisava adulá-los para conseguir o prêmio máximo do esporte. Na data nacional 
espanhola mais importante Samaranch apareceu na televisão e fez um discurso 
de três minutos, sobre o congraçamento entre os dois povos — em russo. Ele 
batalhou muito para aprender o idioma e decorar o texto. O sujeito não tinha 
vergonha; em russo ou em catalão, o camaleão diria o que as pessoas desejavam 
ouvir. 
A nova embaixada espanhola na Rua Paliashvili abriu suas portas para 
todos; requintadas "noites espanholas" agitaram Moscou, uma cidade 
normalmente maçante. Mais uma ironia na vida de Samaranch. Sua verba não 
era muito grande, e ele bancava as festas para os camaradas com o dinheiro 
amealhado na Espanha, quando os baixos salários e impostos mínimos faziam a 
alegria dos amigos do governo. A imprensa informava que Juan e Bibis davam as 
melhores festas da cidade. Sua adega de vinhos reinava suprema. 
Naquele período, como parte do processo de reinvenção de si mesmo, 
Samaranch, o diplomata amador, adotou o título de embaixador — Sua 
Excelência — geralmente abreviado para "S. Excia". Doze anos depois de sua 
breve passagem pelo posto diplomático em Moscou, muita gente ainda se refere 
a ele com reverência, no mundo olímpico, usando "S. Excia." 
Os votos que deram a Samaranch a presidência do COI foram garantidos 
em Moscou e nos bastidores do comité organizador da Copa do Mundo de 1982 
em Madri. Embora ainda faltassem cinco anos para o maior torneio futebolístico 
do mundo, o presidente da FIFA, João Havelange, encontrava-se em dificuldades. 
Ele fora eleito com a promessa de aumentar os times da Copa de 16 para 24. Os 
espanhóis aceitaram sediar a competição com 16 países. O orçamento não previa 
dinheiro para os times restantes. 
Havelange poderia perder a liderança da FIFA se não honrasse sua 
promessa eleitoral. Socorreu-se com os dois homens que poderiam ajudá-lo: 
Horst Dassler e Juan António Samaranch. Dassler arranjaria o dinheiro. 
Samaranch, intimamente ligado ao comité organizador, conseguiria a mudança 
nos planos iniciais. 
Dassler e Nally detinham os contratos de marketing para a Espanha em 82. 
Dassler, em seu estilo típico, prometeu ajudar Havelange —• e mandou que Nally 
arrumasse o dinheiro extra. "Numa reunião em Madri" contou Nally, "no Palácio 
de Congressos, enquanto estávamos no banheiro dos homens, Dassler men-
cionou que o valor necessário para cobrir o aumento dos times seria de 36 
milhões de marcos alemães — cerca de 12 milhões de libras. Desnecessário 
dizer, este dinheiro não sairia da Adidas. Eu teria de levantar os recursos com as 
empresas patrocinadoras." 
Obtido o dinheiro, era hora de Samaranch entrar em campo, os espanhóis 
anunciaram, em maio de 1979, que o campeonato contaria com 24 times. 
Havelange ficou tranqüilo. Ele reconheceu sua dívida para com Samaranch ao ser 
reeleito para a presidência da FIFA em julho de 1982, em Madri: "Esta nova rota 
só se tornou possível graças à Real Federação Espanhola de Futebol." 
Em troca, Havelange despejaria em Samaranch os votos latinos, africanos 
e asiáticos. Samaranch precisava deles para se eleger presidente olímpico. 
Dassler confirmava sua posição de fazedor de reis. Apoiara Nebiolo, sustentara 
Havelange e agora poria Samaranch no trono. 
A vitória de Samaranch no COI parecia garantida. Aí, no Natal de 1979, o 
Exército Vermelho invadiu o Afeganistão. Os norte-americanos não puderam 
impedir isso, e o presidente Jimmy Cárter ordenou um boicote às Olimpíadas de 
Moscou. Os diplomatas norte-americanos, no mundo inteiro, começaram a 
pressionar seus aliados. O novo governo espanhol alinhou-se com os americanos 
e anunciou que a Espanha não compareceria a Moscou. Samaranch ficou 
desolado. Os russos, furiosos, poderiam desviar seus votos para outro candidato 
à presidência do COI. Outros membros do COI também repensariam votar em um 
candidato cujo país abandonara os Jogos. 
Segundo fontes da chancelaria espanhola, Samaranch ficou atônito. "Como 
podem fazer isso comigo, na reta final da corrida para a presidência do COI?" A 
resposta de Madri foi clara: se comparecesse às Olimpíadas estava despedido. 
Como representante oficial da Espanha em Moscou, não poderia comparecer às 
Olimpíadas. Consta que Samaranch solicitou dispensa ao governo, sem êxito. A 
renuncia ao posto garantiria a simpatia do COI, e diminuiria o constrangimento 
pela ausência espanhola. 
Samaranch voltou correndo para Madri. Nos bastidores do comité olímpico 
espanhol, que Samaranch liderara por tantos anos, todos os velhos favores foram 
lembrados. Seu lobby trabalhou duro, e o NOC decidiu ignorar o governo e 
competir em Moscou. A máquina eleitoral de Samaranch pôs-se em movimento 
outra vez. 
No primeiro número da IOC Review saiu um profético artigo de Horst 
Dassler. Seu título, "Esporte e Indústria". Dassler sabia qual seria o resultado da 
eleição do COI, e já começava a cuidar de seus negócios futuros nas Olimpíadas. 
Dassler colocou uma questão: "Como poderemos evitar uma situação na qual o 
esporte seja controlado pela indústria?" O problema era "excesso de publicidade a 
curto prazo". Seria muito melhor implantar projetos de marketing mais discretos, a 
longo prazo. Dassler os batizou de "pacotes". O COI mediaria os contatos. Seu 
papel não ficou claro. Como nunca perdia uma oportunidade, Dassler garantiu 
que a foto ilustrando o artigo mostrasse jogadores de futebol usando produtos 
Adidas. 
Na manhã de 16 de julho de 1980, os membros do COI entraram no 
Palácio dos Sindicatos da União Soviética para a sessão crucial. A portas 
fechadas, eles escolheram um dos quatro candidatos à presidência do COI. O 
advogado canadense James Worrall era o principal rival de Samaranch. Em um 
encontro particular com Dassler ele foi informado, diplomaticamente, que contava 
com um apoio restrito. Worrall jamais poderia pertencer ao Clube diligentemente 
montado por Dassler. 
Os outros candidatos eram Lence Cross, da Nova Zelândia e o dirigente 
suíço do esqui internacional, Marc Hodler. Além do alemão ocidental Willi Daume, 
que chegou a constituir uma ameaça a Samaranch, antes que seu país 
boicotasse Moscou. 
A eficiência do trabalho de Dassler nos anos anteriores se revelou na hora 
da votação. Houve apenas um turno: Samaranch esmagou os rivais. 
A machadinha está sendo enterrada. Samaranch, que saíra de Barcelona 
sob os insultos de seus compatriotas, é agora saudado como o responsável por 
levar as Olimpíadas para a Espanha. Ei-lo na tribuna. O líder do esporte mundial. 
O camaleão trocou a pele pela última vez. Talvez a generosidade deva prevalecer 
neste grande dia para Barcelona. Talvez Samaranch mereça respeito por seu 
feito memorável. Em Moscou, há doze anos, ele rompeu as amarras que o 
ligavam a seu passado fascista, ao assumir a presidência do movimento olímpico. 
Mas basta um momento de pausa, pensando no preço que o mundo pagou 
pelo legado de Dassler. A forma como Samaranch dirige o Clube, com seus 
segredos, falta de democracia, uma elite perpétua, cerimônias, protocolos e 
medalhas, não parece muito diferente do Movimiento que tanto amava. Melhor 
lembrar a forma como ele erguia o braço, saudando o maior sobrevivente de 
nossa era. 
 
7 
A JÓIA DA COROA 
 
O presidente de Atletismo dava um pequeno jantar em seu apartamento de 
Turim, localizado na frente da casa de Gianni Agnelli, o Todo-Poderoso da Fiat. 
Ele sempre se orgulhou desta tênue ligação com a família mais poderosa da 
Itália. Patrocinador do clube de futebol Juventus, considera-se, como muitos 
industriais, um dos cidadãos mais importantes da província do Piemonte.Um dos convidados daquela noite lembra: "Jantamos, a comida era ótima, 
feita por um bufe, claro. Ele sorriu e disse, 'acham isso fabuloso? Esperem até ver 
minha casa em Roma!'" 
O Dr. Primo Nebiolo preside a Federação Internacional de Atletismo 
Amador, a IAAF. Impressionado com um cenário tão magnífico, um convidado 
perguntou qual era o segredo de tanto sucesso. Com sua voz grave, o presidente 
confidenciou: "Todas as manhãs, quando acordo, fico na cama por cinco minutos, 
e não penso em mais nada, a não ser na maneira de melhorar minha situação 
naquele dia." 
O Dr. Nebiolo sem dúvida melhorou sua situação no esporte mundial, na 
última década. No final dos anos 1970 era praticamente desconhecido fora da 
Itália. Quando se aventurou no palco internacional, muitos riram de Nebiolo, pelas 
costas. Com suas longas costeletas e habilidade para conseguir acordos, foi 
considerado um aventureiro vulgar. Sua ambição ostensiva não combinava com o 
mundo do esporte, requintado e essencialmente amador. O sistema ligou a 
ambição ao nome, comentando: "Primo só quer ser o primo'' 
Dez anos depois Nebiolo raspou as costeletas, construiu um labirinto de 
alianças e favores no mundo promissor da política esportiva e abriu caminho até o 
topo do Clube. Na travessia, ele esfaqueou pelas costas um dos dirigentes mais 
decentes do esporte internacional, foi presidente durante o pior exemplo de fraude 
já visto no esporte mundial, ignorou as seringas deixadas nos vestiários de 
grandes atletas e passou a controlar um fundo de US$ 20 milhões, conseguido 
nos Jogos Olímpicos. 
A entourage de Nebiolo, em movimento, rivaliza-se até com o cortejo 
imperial de Samaranch. Seu modo preferido de viajar é o jatinho particular, 
trocado em terra por uma limusine escoltada por motocicletas da polícia. Gosta de 
ficar na melhor suíte do hotel mais badalado. Sua astuta esposa Giovanna 
costuma participar da corte, como secretária e assessora de imprensa particular. 
Nebiolo não pode se arriscar demais com a imprensa. Sua assessora tem 
a tarefa de divulgar os press releases e tentar impedir jornalistas curiosos de 
perguntar sobre os freqüentes escândalos nas pistas de atletismo. 
Para os corredores diletantes, esportistas dos clubes e estrelas mundiais 
do atletismo, a organização liderada por Nebiolo não passa de uma burocracia 
distante. A federação atlética organiza competições importantes e fornece juizes e 
dirigentes para estabelecer regras. Fora isso, trata-se só de um nome pomposo. 
O atletismo é a jóia da coroa olímpica, e sua federação tornou-se um 
negócio extremamente lucrativo. AIAAF ganhou US$ 80 milhões com patrocínios 
da televisão, nos últimos quatro anos, desde as Olimpíadas de Ben Johnson, em 
Seul. Somas enormes são investidas nos países em desenvolvimento, para 
melhorar as condições para a prática do esporte. Ainda assim, sobra muito 
dinheiro para ser torrado com despesas excessivas e a extravagante promoção 
de Nebiolo. 
Ele pode ignorar calmamente as freqüentes críticas dos jornalistas bem-
informados. Nebiolo não precisa prestar contas a um eleitorado "local". Se de 
tempos em tempos os críticos batem com muita força na porta da IAAF, Nebiolo 
pode ter certeza de que acabará sobrevivendo ao escândalo. No mundo das 
pistas de corrida, Nebiolo exerce um poder absoluto. Seu predecessor, Adriaan 
Paulen, era um homem muito diferente. 
A Holanda é um país pequeno, com uma grande tradição esportiva. 
Adriaan Paulen serve de exemplo. Finalista nos 800 metros, na Olimpíada de 
1920, conseguiu derrotar o ganhador da medalha de ouro de 1924, Eríc Liddell, 
nas quartas de finais dos 400 metros em Paris. Quebrou o recorde mundial dos 
500 metros nos Jogos de Bislet, em Oslo, e quase no fim de sua carreira 
apresentou-se para seus compatriotas, nas Olimpíadas de 1928, em Amsterdam. 
Adriaan Paulen gostava de diversos esportes. Quando encerrou a carreira 
no atletismo, disputou oito ralies em Monte Cario, pilotou uma motocicleta no 
Grand Prix da Holanda e jogou futebol em um time de Haarlam, onde morava. 
Mas o atletismo era sua grande paixão, e ele compatibilizou sua carreira como en-
genheiro de minas com o trabalho de dirigente da federação holandesa. 
Paulen era corajoso e patriota. Quando o exército alemão invadiu a 
Holanda, entrou para uma célula do movimento de resistência, formada por 
amigos e companheiros do clube de corridas local. Quando os mineiros 
recusaram-se a trabalhar, ele foi um dos diretores da mina que se recusaram a 
entregar uma lista com os nomes dos operários aos nazistas. Por causa disso 
acabou na cadeia, sendo ameaçado de execução. 
"Os alemães o prenderam, junto com os colegas", contou sua filha let 
Nieuwenhuys-Paulen. "Todas as manhãs eles tocavam gravações de 
fuzilamentos nos alto-falantes. Só mais tarde os prisioneiros descobriram que era 
uma farsa cruel. Pura tortura mental. Quando finalmente os alemães libertaram 
meu pai, porque precisavam desesperadamente de carvão, ele seguiu lutando. 
"Ele participava dos grupos clandestinos de sabotagem que explodiam os 
trilhos de trem durante a noite. Na manhã seguinte ele se encontrava com os 
oficiais alemães, para explicar que o carvão não podia ser transportado." 
Seus companheiros da resistência promoveram uma campanha de 
assassinato de oficiais alemães de alta patente. Paulen, membro destacado da 
classe média, corria risco constante de prisão arbitrária, como represália. 
"Costumava dormir no telhado, caso os alemães viessem buscá-lo", contou a 
filha. "Poderia ter rugido, mas escolheu ficar e lutar." 
Outra das atividades de guerra de Paulen era controlar um trecho de 20 
quilômetros da rota de fuga clandestina, para pilotos aliados abatidos. Um 
relatório secreto seu foi levado à rainha, exilada em Londres. Quando os exército 
aliados desembarcaram para libertar a Europa, Paulen lutou ao lado da Segunda 
Divisão Blindada norte-americana, tornou-se coronel honorário e mais tarde 
recebeu a Medalha da Liberdade dos Estados Unidos. A Holanda, agradecida, 
deu-lhe sua mais alta honraria, a Ordem do Rei Guilherme. 
Três anos após a guerra Paulen foi eleito para o conselho da federação 
atlética. O mundo do atletismo internacional estava a anos-luz do que é hoje. As 
pistas para qualquer tempo não haviam sido inventadas, não havia cobertura 
televisiva e o patrocínio inexistia. Pouco mudou na década seguinte. 
"Trabalhávamos em duas salas, perto da estação de trem de Victoria", contou 
Fred Holder, ex-tesoureiro da IAAF. "Os recursos escassos nos permitiam ter 
apenas uma secretária. E ela precisou pagar parte de sua própria passagem para 
comparecer à Olimpíada de Melbourne, em 1956, além de hospedar-se com uma 
família local para economizar dinheiro." 
Apesar destas dificuldades, o atletismo progredia. Mesmo com a demora 
na remessa dos rolos de filme por via aérea para partes distantes do globo, os fãs 
do esporte se emocionavam ao ver os duelos entre Kuts e Pirie nas provas de 
longa distância, o lançamento do disco de Al Oerter, que lhe valeu a primeira de 
quatro l medalhas de ouro e as duas medalhas de ouro conseguidas por l Tâmara 
Press no lançamento feminino — que desapareceu das competições quando os 
testes de sexo foram introduzidos. 
Como membro do conselho das federações de atletismo, Adriaan Paulen 
encorajava os atletas e garantia a lisura das competições. "Meu pai sempre 
acompanhou atletas em viagem", contou a filha. "Adorava estar com eles e 
organizar eventos." 
As Olimpíadas começaram a gerar grandes quantias em dinheiro por causa 
da televisão. Conforme o lado empresarial do esporte se expandia, vozes novas e 
desagradáveis se fizeram ouvir nas pistas. "Ele ficou horrorizado em Munique, 
antes dos Jogos de 1972, ao receber a oferta de suborno por parte de uma 
companhia interessada num contrato para a nova pista de corrida. Ele recusou 
uma fortuna, dizendo que o melhor venceria", disse a filha. 
A televisão mudou definitivamente o mundo de Paulen e dos atletas. 
Quando os Jogosforam transmitidos via satélite no México, em 1968, o mundo 
começou a pedir mais esporte ao vivo. Dassler ainda se concentrava nos 
vestiários, fechando acordos para calçar os atletas famosos com a marca das três 
listas, mas já vislumbrava a forma do futuro. O atletismo precisaria de verbas para 
organizar novos eventos, e os atletas exigiriam sua parte. Se a televisão e os 
promotores desejavam sua presença, teriam de pagar. 
Depois de providenciar o casamento entre a Coca-Cola e o futebol, Horst 
Dassler e Patrick Nally rapidamente se voltaram para as outras federações 
importantes. O atletismo, fundamental para o êxito das Olimpíadas, estava no 
topo da lista.' 'Conheci Adriaan no congresso europeu de atletismo, na metade 
dos anos 1970", contou Nally. "Ele estava a aponto de se tornar presidente do 
IAAF. Era o melhor nome para o cargo de dirigente do atletismo: subira por mérito 
próprio, corria, todos o respeitavam e ele entendia, como no caso de Havelange 
no futebol, que haveria uma mudança radical no esporte. 
"É preciso tentar entender um homem que vive segundo seus princípios. 
Embora fosse muito rígido, aceitava sentar e discutir. Ao contrário de gente como 
Nebiolo, ele escutava. Adriaan mostrava muito entusiasmo pelas coisas. Achava 
normal dirigir durante dez horas para comparecer a uma reunião. E, mais extraor-
dinário, ele parava quando se cansava, largava o carro no acostamento, deitava-
se no chão e dormia. Era duro como pedra. Um contraste notável entre o militar 
experiente, forte, condecorado, que jamais se rendia, e uma exuberância quase 
adolescente. 
"Levava uma vida modesta. Não procurava as armadilhas da riqueza, 
jamais pedia hotéis de luxo. Nunca esquecerei dos sapatos pesados que usava, 
pareciam botas militares. Adriaan se vestia discretamente, e não gostava de se 
enfeitar." 
Fred Holder tem recordações semelhantes: "Adriaan chegava em 
Heathrow, num vôo com desconto, seguia para o centro de metro e ficava em um 
pequeno hotel. Ele não via necessidade de gastar o dinheiro da federação 
desnecessariamente." 
Quando Paulen conheceu Dassler, foi introduzido na boa vida da Riviera. 
Discutiam contratos nos ambientes mais agradáveis. "Adriaan adorava passear no 
avião ou no iate particular de Dassler. Um dos associados de Horst nos negócios 
era dono do barco mais veloz do Mediterrâneo, segundo comentários", contou 
Nally. "Eu me lembro de ir a Monte Cario no barco, com Adriaan, e sair a l milhão 
de quilômetros por hora para St. Tropez. 
"Era muito vantajoso para Horst entreter pessoas desta forma, e Adriaan se 
divertia a valer. Parecia uma criança com um brinquedo novo, sentado na popa, 
conversando." 
Sua filha, em Haarlem, fizera dele um avô. "Meu pai ganhou certa vez uma 
bola de futebol Adidas. Ele se recusou a dar a bola para o neto, preferiu mandá-la 
para um clube local, onde havia jogado. E nunca aceitou um tênis sequer de 
brinde. Ele dizia, 'se eu fizer isso, nunca mais confiarão em mim. Quem se vende 
uma vez perde a liberdade para sempre.'" 
A televisão exigia mais espetáculos esportivos, e graças à habilidade de 
Dassler e Nally no marketing, haveria mais dinheiro ainda para investir. 
Um dos últimos atos do antecessor de Paulen, lorde Exeter, foi concordar 
com a realização da Primeira Copa Mundial de Atletismo em Dusseldorf, no 
outono de 1977. A história recente do atletismo foi reescrita pêlos partidários de 
Nebiolo, sugerindo que ele foi o grande arquiteto da explosão de eventos e do 
fluxo interminável de verbas dos patrocinadores. Na verdade, a criação de novos 
eventos fora das Olimpíadas teve apoio de Exeter, e decolou graças a Paulen. 
Eles construíram a montanha russa, e Nebiolo deu o passeio. Enquanto Nally 
arranjava o dinheiro. 
"Adriaan comandou o campeonato mundial, um tremendo sucesso", contou 
Nally. "No final, deu a volta da vitória com o time vencedor, que levava a taça. 
Ficamos muito orgulhosos, porque o evento, em 1977, foi o primeiro grande 
acontecimento do atletismo mundial fora das Olimpíadas. 
"Ele sabia que não dava para voltar no tempo. O esporte crescia como 
forma de entretenimento, e as rendas aumentavam. Também sabia que atletas 
amadores recebiam dinheiro há anos, e que precisava regularizar a situação. 
Lutava constantemente com sua consciência, para manter isso sob controle sem 
destruir o esporte. Em suas próprias palavras, o atletismo precisava de uma lim-
peza." 
Paulen e seus conselheiros precisavam agir rápido. Algumas estrelas 
norte-americanas queriam receber dinheiro abertamente dos promotores, e já 
falavam em seguir os passos dos tenistas, criando um circuito profissional. Um 
grupo de Dubai oferecia dinheiro, para promover a imagem do país. Nally 
encontrou-se com eles, sugeriu uma união, e o atletismo deu um salto qualitativo. 
"Junto com Adriaan, criamos as Séries de Ouro. O primeiro evento foi a 
Milha de Ouro, disputada em 1978 no Japão. As estrelas foram Steve Ovett, 
Henry Rono e o norte-americano Steve Scott. O troféu era uma taça de ouro 
imensa, custara quase US$ 40 mil. Atualmente acumula poeira num cofre de 
banco, em Londres. 
"Depois da primeira Milha de Ouro, criamos uma série de eventos — O 
Dardo de Ouro, O Salto com Vara de Ouro e as Corridas de Ouro, além dos 10 
mil metros de Ouro. Todos estes espetáculos foram incluídos nos eventos 
existentes, principalmente na Europa. Entrou muito dinheiro novo." 
Depois de Dusseldorf e das Séries de Ouro não havia mais volta. O 
próximo passou foi criar o campeonato mundial de atletismo. Tradicionalmente, as 
Olimpíadas eram o campeonato das federações atléticas. 
"A Copa do Mundo era o pináculo do futebol", recorda Nally, "e Adriaan 
criou algo equivalente no atletismo, o Campeonato Mundial. Começamos a redigir 
as regras juntos, voando do Japão para Los Angeles. Fred Holder e Adriaan 
estavam no avião, e, como de hábito, Adriaan se recusava a dormir na poltrona. 
Deitou-se no chão. 
"Quando não estávamos dormindo, sentávamos no chão do avião para 
redigir o regulamento. Para mim foi um desafio. Se a idéia era comercial, como 
fazer um regulamento para o campeonato mundial, de modo a proteger os 
interesses de todos? 
"E lá estava um senhor, na casa dos setenta, sentado no chão de um jato 
jumbo, planejando o campeonato mundial, que tomou forma definitiva em 
Helsinque em 1983. Obviamente Nebiolo levou a fama, porque na época ele 
ocupava a presidência, e Adriaan era um homem alquebrado. 
"Adriaan tomou as medidas necessárias para desenvolver o esporte. Com 
o dinheiro novo que entrava iniciou o programa de aprimoramento, promoveu as 
Séries de Ouro, organizou a Copa Mundial e criou o Campeonato Mundial." 
Observando tudo em Roma, Nebiolo seguia planejando. Obviamente, 
Paulen era muito velho. Não seguraria as rédeas do poder por muito tempo. 
AIAAF, cada vez mais rica e influente, podia ser conquistada. Mas se Primo 
queria ser o primo no atletismo mundial, precisaria fazer acordos. £ nisso Nebiolo 
era excelente. 
Nebiolo sentiu o gosto do poder pela primeira vez no mundo do esporte 
estudantil. Um de seus colegas, que trabalhou com ele na década de 1950, 
contou: "Ele procurava o poder no esporte estudantil porque era a única área 
disponível." Mas havia outra razão. Nebiolo percebera o potencial de um mundo 
dividido pela Cortina de Ferro, mas ocasionalmente unido através do contato 
esportivo. 
Uma das biografias oficiais de Nebiolo relata sua ascensão no esporte 
estudantil: "Em 1961 o Dr. Nebiolo foi eleito presidente da Federação 
Internacional do Esporte Universitário. Neste cargo, tomou medidas dramáticas, 
que aumentaram a importância e o papel do esporte universitário mundial, 
tornando-se, entre outras coisas, o fundador da Universíada — que só perde em 
importância para os Jogos Olímpicos. 
"Como presidente, Primo Nebiolo entrou em contato com políticos e 
representantes das universidades do mundo inteiro, tornando a organização 
importante no mundo do esporte, e contribuiu como poucos para o esporte 
mundial."Este texto foi publicado em 1980, junto com uma fotografia de Nebiolo ao 
lado do "carniceiro de Bucareste", o ditador romeno Nicolae Ceausescu. Os dois 
presidentes conversavam animadamente durante um evento esportivo na capital 
romena. 
Sem o apoio do bloco oriental, os Jogos Estudantis bienais teriam 
afundado há anos. Os comunistas aceitaram financiar o evento para divulgar o 
comunismo. Enquanto o resto do mundo bocejava, eles levavam os jogos a sério. 
Negócio fechado: Nebiolo' entraria com os Jogos que tanto queriam, e em troca 
teria seu votos, quando alçasse vôos mais ambiciosos. Significativamente, 
Nebiolo foi eleito para comandar o esporte estudantil durante os Jogos de 
1961, na cidade comunista de Sofia. 
Nebiolo afirma que, graças ao esporte estudantil, "contribuiu como poucos 
para o esporte mundial." O fato é que a televisão e os patrocinadores davam 
pouca importância aos Jogos Estudantis, porque deixavam a desejar. Alguns 
atletas de destaque se revelaram ali, mas a maioria dos jovens competidores 
jamais alcançou fama internacional. Recentemente, Patrick Nally tentou con-
vencer várias cidades a sediar os jogos estudantis. "É impossível criar um 
entusiasmo real e despertar o interesse da televisão e dos patrocinadores quando 
os atletas não são conhecidos." 
Sob a liderança de Nebiolo, os Jogos Estudantis realizaram-se em Tóquio, 
em 1967, mas dois anos depois foram cancelados por falta de fundos, em Lisboa. 
Em 1975 Belgrado também desistiu. Mas, em 1973, Nebiolo os levou para o 
estádio Lênin de Moscou. Quatro mil participantes os disputaram, e Primo era o 
primo novamente. Leonid Brejnev tinha bons motivos para investir nos jogos 
estudantis. Moscou desejava sediar a Olimpíada de 1980, e precisava de um 
teste para provar a capacidade de fazer um grande evento. 
Os jogos estudantis cambalearam durante a década de 1980. Foram 
cancelados em São Paulo, em 1989. Em 1991 aconteceram na cidade de 
Sheffield, no norte da Inglaterra. A cidade se preparou para uma perda de l milhão 
de libras, mas acabou com um prejuízo de quase 14 milhões de libras. Houve 
uma perda pessoal para Nebiolo, também. Uma longa carta anônima exigindo sua 
saída circulou entre as delegações presentes aos jogos. Seu texto denunciava 
Nebiolo, dizendo: 
"Trata-se de um diretor totalitário, que usou a política da 'guerra fria'. 
Enquanto atuou como diretor, por tantos anos, acumulou poder pessoal, ao qual 
adicionou certas características pessoais que não deveriam fazer pane do esporte 
universitário. Seu comportamento era extravagante e megalomaníaco. 
"Os gastos em hotéis de luxo, restaurantes, viagens, carros e outros 
detalhes pessoais são escandalosos. Seu comportamento, quando participa de 
eventos estudantis, é autoritário, inadequado a uma pessoa que representa os 
estudantes do mundo. Ele exerce seu poder deturpando as decisões do esporte 
estudantil. 
"Acreditamos que este não é o tipo de líder compatível com as 
necessidades de uma entidade esportiva internacional. Não precisamos de um 
dirigente pomposo e dominador, que representa o esporte estudantil de modo tão 
horroroso.0; nem precisamos de um dirigente totalitário em um mundo cada vez 
mais democrático e menos envolvido na política suja do Leste contra o Oeste. 
Depois de tantos anos no poder, o Dr. Nebiolo deveria entender que está na hora 
de renunciar a seu cargo." 
Desnecessário dizer que Nebiolo, aos 68 anos, foi reeleito sem muita 
oposição, e continua a comandar o esporte estudantil. 
O autor da carta anônima entendia bem a estratégia de Nebiolo: "No início, 
Nebiolo entendeu que nos países comunistas o ministro da educação podia ser 
tão importante quanto o ministro do esporte", explicou um veterano líder 
estudantil. "O ministro da educação controlava os estudantes, e organizar os 
jogos combinava com a política do bloco Leste. Sendo assim, instruía os 
dirigentes do atletismo local a dar seu apoio a Nebiolo a nível internacional." O 
apoio de Moscou era essencial, e a partir da década de 1970 Nebiolo podia contar 
com ele. 
O papel importante desempenhado por Nebiolo durante a guerra fria foi 
demonstrado na Romênia, em 1981, durante os Jogos Estudantis. Quando 
Nebiolo chegou ao aeroporto de Bucareste havia um carro do governo esperando 
por ele. Adriaan Paulen, ainda presidente da IAAF, precisou esperar pelo ônibus 
para chegar ao centro da cidade. 
O líder estudantil de meia idade, já calvo, conseguiu progredir 
erraticamente, subindo alguns degraus na federação atlética italiana. A partir da 
base modesta no esporte universitário de Turim, foi eleito para o conselho diretor 
da FIDAL, a federação atlética nacional italiana. Mas na década de 1960 ele se 
afastou dela. 
Voltou por cima em 1969, quando chegou à presidência da FI-DAL. Fora 
eleito por um grupo de jovens dirigentes ansiosos por uma troca na liderança. Os 
mais jovens não tinham um candidato, até que alguém se lembrou de Primo, um 
sujeito enérgico e ambicioso. Nebiolo se manteria no cargo por vinte anos, até 
que uma sucessão de escândalos o afastasse. 
A primeira década de Nebiolo à frente da FIDAL foi um sucesso. Fez um 
bom trabalho de promoção do atletismo italiano. Em um de seus maiores triunfos, 
levou o primeiro grupo de atletas estrangeiros à China, e depois recebeu a equipe 
chinesa em Roma. Com isso ganhou prestígio no Ocidente e o apoio do Bloco 
Comunista não controlado por Moscou. Em 1976 a Itália o agraciou com a Grã 
Cruz da República. 
O primeiro passo do ambicioso plano de Nebiolo para controlar o atletismo 
mundial era se eleger para o conselho diretor da IAAF. Fechou acordos com o 
Terceiro Mundo e o Bloco Socialista, sendo eleito no congresso de atletismo 
realizado durante as Olimpíadas de Munique, em 1972. 
Quatro anos depois, durante o congresso seguinte, em Montreal, Nebiolo 
tentou a vice-presidência, mas teve sorte em manter seu posto no conselho. 
Muitos desejavam a eleição de uma mulher, e duas foram indicadas. Mas o voto 
feminista ficou dividido, e Nebiolo entrou, mesmo no final da lista. Se houvesse 
apenas uma candidata, ele provavelmente teria sobrado — e isso representaria o 
fim de suas ambições. 
No mesmo congresso, Adriaan Paulen elegeu-se presidente do atletismo 
mundial. Ganhou o cargo aos 73 anos, e anunciou que cumpriria seu mandato e 
se aposentaria, durante os Jogos de Moscou, em 1980. Mas ao se envolver no 
planejamento do primeiro campeonato mundial de atletismo, marcado para 1983, 
em Helsinque, preferiu ficar para acompanhar o evento. 
Dassler começava a se inquietar. Apesar do progresso feito desde 1976, 
desejava assumir o controle total. Isso jamais seria possível com Paulen no 
comando, e Dassler tinha bons motivos para se preocupar com o futuro. Lorde 
Exeter, antecessor de Paulen, se recusava a tratar com ele depois dos 
escândalos nos Jogos do México em 1968. No ano seguinte o conselho das 
federações de atletismo aprovou uma resolução drástica: "nas competições futu-
ras, apenas calçados sem marcas de identificação seriam permitidos." 
Mais tarde realizou-se uma reunião em Londres, convocada por Fred 
Holder, com representantes da Adidas e da Puma. Eles prometeram parar de 
pagar para que usassem seus produtos. Em seu discurso de despedida em 
Montreal, lorde Exeter alertou os atletas que usavam logotipos de fabricantes de 
equipamentos esportivos. Estavam virando manequins de vitrina. Foi seu último 
ataque a Dassler. Mas o industrial atingiria suas metas na década de 1980. 
"Horst queria garantir que a Adidas fornecesse equipamentos para a IAAF 
com exclusividade, e também controlar o lucrativo comércio dos direitos de 
marketing. Nosso contrato ia até 1983, mas um novo presidente desconhecido 
poderia favorecer outro grupo", disse Patrick Nally. 
"Horst preocupava-se por não saber se controlava Adriaan na medida 
desejada. Adriaan o ouvia, mas assumia uma atitude muito independente. Nos 
jantares em Landersheim, a equipe política de Dassler costumava discutir o que 
fazer. Desnecessáriodizer que, no caso de uma reviravolta no atletismo, Horst 
deveria estar envolvido. 
"Debatíamos se Adriaan era mesmo o nome certo, e quem mais poderia 
concorrer. Horst tinha interesse em garantir a escolha de um presidente que lhe 
fosse eternamente grato. Horst conversou com o advogado de Nebiolo, Mino 
Auletta. Ele diria a Horst exatamente o que poderia ser feito em seu benefício. 
Este seria o fator decisivo na escolha de Nebiolo, ou outro qualquer. Claro, Primo 
garantiu que tudo seria feito do jeito de Horst." 
"Primo, sendo como era, facilitou o acordo com Horst. Nebiolo sabia 
negociar. Mas restava um problema: como torná-lo presidente da federação de 
atletismo sem que precisasse enfrentar candidatos melhores do que ele?" 
O primeiro estágio da guerra para impor Nebiolo à IAAF foi a escolha do 
campo de batalha. As eleições ocorreriam em Moscou, em 1980, e Dassler sabia 
que Paulen derrotaria facilmente o ambicioso italiano. O secretário-geral Brejnev e 
o presidente Cárter salvaram o dia. A invasão russa do Afeganistão teve como 
contrapartida o boicote norte-americano às Olimpíadas. Imediatamente surgiram 
dúvidas sobre a realização de uma votação tão importante com a ausência de 
tantos delegados. Nebiolo aproveitou a chance e, graças à influência de Dassler 
na África, América Latina e no bloco comunista, conseguiu adiar a eleição. 
"O boicote a Moscou foi obra de Deus", disse Nally. "Horst percebeu seu 
potencial imediatamente. No ano seguinte Roma sediaria a terceira copa mundial 
de atletismo, oferecendo a oportunidade para realizar um congresso 
extraordinário na terra natal de Nebiolo. E preferiu deixar que Paulen 
permanecesse por mais um ano. Nada mais justo, ele andava profundamente en-
volvido com a organização do primeiro campeonato mundial de atletismo em 
1983. Neste meio tempo, Horst organizaria o golpe." 
Fred Holder tem lembranças semelhantes: "Nebiolo manobrou em 1980, 
para adiar as eleições. Mas não era preciso esperar. Mesmo com a ausência dos 
atletas norte-americanos em Moscou, os dirigentes compareceram. Nebiolo viu 
'cair do céu' a chance de transferir a eleição para seu território, Roma, em 1981." 
Nebiolo não deixou nada por conta do acaso. Em campanha, visitou Berlim 
Oriental, jogando com os temores do bloco comunista: "Somos contra a 
comercialização do esporte. Se desejamos o progresso esportivo, é essencial 
desenvolver o esporte amador de todas as formas." O comandante de sua 
campanha deve ter dado risada, em Landersheim. 
O Segundo Estágio, segundo Nally, era garantir que não haveria eleição 
alguma. "Dassler planejou o esquema. Queria apenas dois candidatos. Quando 
fosse tarde demais para que outros candidatos entrassem na disputa, Paulen 
seria convencido a desistir. 
"Adriaan estava no atletismo apenas por amor ao esporte", contou Nally. 
"Sua tragédia foi não ter tido a chance de fazer um sucessor. O plano de Horst 
prosseguiu nos meses seguintes. Em primeiro lugar, precisava ter certeza de que 
ninguém concorreria contra Nebiolo e Adriaan, porque isso poderia estragar tudo. 
Qualquer um teria chances de ganhar, literalmente, arruinando os planos de 
Horst. 
"Era uma campanha militar. A própria importância de Adriaan foi usada 
para impedir o avanço de outros possíveis candidatos. Quando anunciou 
publicamente que Adriaan disputaria o cargo, todos os outros desistiram, em sinal 
de respeito. As chances de Nebiolo contra Adriaan eram risíveis. 
"O próximo estágio, decisivo, era fazer com que Adriaan desistisse. Horst 
precisava convencê-lo de que iria perder, mas eu considerava isso impossível. 
Horst persuadiu Adriaan de que conhecia melhor os africanos e asiáticos, e que 
eles apoiariam Nebiolo. Horst convenceu Adriaan de que seria derrotado. 
"Conforme os meses iam passando, os avisos se tornaram mais e mais 
convincentes, até que Adriaan começou a acreditar que corria o risco de ser 
completamente expulso do atletismo internacional, a não ser que fizesse um 
acordo com Nebiolo e se retirasse da eleição. 
"Horst lhe disse: 'Adriaan, não vai ser bom para o esporte, nem para você, 
sair desta maneira. Vamos pensar um modo de trabalharmos juntos em benefício 
do esporte.' Foi muito triste, apresentar a coisa de modo tão sincero, invocando os 
interesses do atletismo e os de Adriaan. 
"O golpe de misericórdia foi desferido no começo da primavera de 1981, 
em um encontro num hotel parisiense. Ali ele foi posto cara a cara com Nebiolo, 
por Horst, para fechar um acordo. 
"Depois que todos se cumprimentaram, Adriaan disse: 'Muito bem, eu 
desisto. Desde que vocês concordem com o seguinte'. As condições lhe davam 
uma posição mais que simbólica. Depois foi feito um esforço enorme para 
convencer Adriaan Paulen que seria melhor para ele desistir, garantindo que seu 
papel no atletismo estaria seguro." 
Paulen pedira um favor a Fred Holder: "Ele solicitou meu comparecimento 
ao encontro com Nebiolo. Paulen já se decidira a abrir mão de sua candidatura, e 
na reunião Nebiolo repetiria as garantias quanto ao futuro de Paulen na IAAF. 
Paulen estava um tanto nervoso, temendo que Nebiolo renegasse seus 
compromissos depois, e me queria como testemunha." 
Traído e enganado por seu amigo Dassler, Adriaan Paulen escreveu uma 
carta curta para a IAAF, retirando-se da disputa. Mencionava discussões, opiniões 
emitidas. Segundo a carta, as federações, em sua maioria, apoiavam o Dr. Primo 
Nebiolo, um sucessor perfeito... 
"Meu pai era inocente, sempre via o lado bom das pessoas. Embora fosse 
inteligente, não tinha malícia", disse a filha de Paulen. Quando contamos a ela a 
verdadeira história do alijamento de seu pai da presidência da IAAF, não 
acreditou em nada, inicialmente. 
"Dassler fez isso? Ele conspirou contra meu pai? Eu sabia que havia algo 
contra meu pai, para garantir a eleição de Nebiolo. Mas eu nunca pensei que 
fosse Dassler, porque sempre foram amigos. 
"Mesmo depois de desistir, meu pai se hospedou na casa de Dassler. 
Nunca suspeitou de nada. Ele disse a minha mãe que desistiu porque havia muita 
gente contra ele — mas nunca mencionou Dassler. 
"Ele acreditava que havia algo por trás dos votos de Nebiolo. Meu pai não 
queria passar pela indignidade de ser derrotado. Por isso desistiu. Ele se dedicou 
de corpo e alma ao atletismo." 
 
8 
O ISL DITA AS REGRAS 
 
Era uma vez um homem que montou uma pequena empresa para vender 
anúncios de eventos esportivos, em 1980. Logo em seguida obteve os direitos 
multimilionários para a copa do mundo de futebol. No ano seguinte, recebeu um 
privilégio semelhante, para as Olimpíadas. Mais um ano e foi a vez do atletismo 
mundial. 
Uma pequena companhia sem história, sem experiência e sem currículo 
monopolizou os contratos de marketing dos esportes mais importantes e 
lucrativos do mundo. Foi uma das maiores jogadas comerciais do planeta. 
Os contratos invariavelmente são renovados. Alguns avançam até o 
próximo século. Ninguém disputa os contratos. Os concorrentes sabem que não 
adianta perder tempo com lances. Os patrocinadores fazem fila para investir 
centenas de milhões de dólares nesta companhia, pelo direito de ligar suas 
marcas com o que restou de beleza e pureza no esporte. Cada vez que um fã do 
esporte liga a televisão para assistir um evento do COI, FIFA ou IAAF, torna esta 
pequena companhia um pouco mais rica. Cada vez que um rolo de fume ou um 
refrigerante específico é adquirido, as porcentagens pingam. O fundador da 
companhia e dono dos contatos que permitiram tal triunfo foi, claro, Horst Dassler. 
Tendo criado o Clube, Horst Dassler tornou-se seu banqueiro. 
A ISL Marketing ocupa um conjunto de escritórios em cima da estação 
ferroviária de Lucerne. Possui filiais em meia dúzia de cidades do planeta. 
Emprega pouco mais de cem pessoas. A receita anual, segundo estimativas, 
passa de US$ 200 milhões. A ISL retém até 25 por cento do total como comissão 
por seus serviços. Os valores exatos não podem ser divulgados porque a ISL não 
é uma companhia aberta. Osesportes que vendem são públicos, mas poucos 
conhecem a ISL fora do ambiente restrito do marketing esportivo internacional. A 
empresa se mostra compreensivelmente constrangida em discutir os milhões que 
passam por suas mãos. Fala uma linguagem diferente da maioria dos entusiastas 
do esporte. 
ser o "consumidor' 
Para um fã ou um atleta, o maior prêmio ainda é ver ou ganhar uma 
medalha de ouro olímpica, na pista de atletismo, ou a taça na copa do mundo de 
futebol. Para a ISL, o valor destes eventos reside nas "oportunidades globais" dos 
"segmentos de mercado" que tornam disponível em "pacotes" para os fabricantes 
divididos por "categoria de produto". O alvo final pode 
Qual- 
ou ficar restrito aos "empresários". 
quer que seja a atividade de uma empresa, se esta for muito rica, pode 
comprar uma fatia da final da Copa, das Olimpíadas ou do Campeonato Mundial. 
Quando os eventos se realizam em cidades históricas ou de destacada 
beleza, o "máximo em hospitalidade empresarial" pode ser providenciado para os 
preciosos clientes dos patrocinadores multinacionais. Ou seja, ninguém precisa 
assistir as competições, se não quiser. 
Um ano depois do final dos Jogos de Barcelona, o orçamento anual de 
patrocínio ultrapassará os US$ 5 bilhões, em todo o mundo. Em troca, os 
patrocinadores exigirão o direito de "adequar" os maiores eventos esportivos para 
torná-los mais eficientes na televisão, cumprindo a função decisiva de melhorar a 
"imagem do patrocinador". O que a maioria chama inocentemente de Olimpíadas 
já leva o nome de "ferramentas de marketing" no mundo pseudo-científico da 
pesquisa de mercado. Não há uma única palavra sobre o assunto na carta 
olímpica. 
Os cinco anéis interligados são hoje uma das mercadorias mais valiosas do 
mundo — em termos financeiros. Há menos de 25 anos tinham um valor bem 
menor. Não estavam à venda. O presidente do COI, Avery Brundage, emitia 
circulares periódicas em Lausanne, recusando a competidores e federações o 
direito de usar logotipos em seus uniformes. Ele chegou a formar uma Comissão 
para Proteção dos Emblemas Olímpicos, impedindo que os anéis fossem 
explorados pêlos anunciantes. A Comissão foi substituída, na gestão Samaranch, 
pela Comissão de Novas Fontes de Financiamento, encarregada de vender o 
emblema no mercado, pelo melhor preço possível. 
A nova espécie de membros-empresários do COI adquiriram a consciência 
de que dependem das verbas da televisão. A prudência, insistiram, exigia que se 
levantasse dinheiro de outras fontes. O resultado, na opinião de um comentarista 
olímpico, foi "a violentação sistemática da imagem do COI pelo mundo dos ne-
gócios." 
"Horst sempre disse que teve a idéia básica para o marketing esportivo 
assistindo a final de Wimbledon no início da década de 1970. Os jogadores, 
Nastase e Smith, ambos contratados da Adidas, usavam uniformes brancos, com 
discretos logotipos da companhia. O jogo recebeu uma cobertura tão grande da 
televisão que Horst começou a pensar nos jogadores como anúncios ambulantes, 
esperando a veiculação das mensagens", segundo o vice-presidente da ISL, Paul 
Smith. Pela cartilha de Dassler, as roupas brancas eram um pecado contra a 
natureza. A parceria com Patrick Nally nascia. Durante os oito anos seguintes os 
dois homens transformaram as fontes de recursos e a aparência do futebol, do 
atletismo e das Olimpíadas. As federações foram viradas de cabeça para baixo, e 
uma nova leva de presidentes assumiu o timão do esporte mundial. 
Em 1982, Dassler e Naüy se separaram. "Eu vivia em conflito", explicou 
Naüy. "Não sabia mais se fazia aquilo para ajudar Horst e a Adidas, ou para 
representar os interesses da Coca-Cola, da Canon e de outros clientes. As 
federações ficavam com os benefícios financeiros, mas a pessoa que colhia os 
dividendos políticos e manipulava a situação para proveito de suas próprias em-
presas era Horst." 
Quando a sociedade se desfez, Dassler fundou apressadamente a ISL. 
Levou os direitos do futebol internacional consigo, e os manteve desde então na 
ISL. A FIFA mais tarde o recompensou com a opção de esticar os contratos até o 
próximo século. 
As garrafas borbulhantes estariam presentes durante todo o percurso. Por 
vezes em garrafas pequenas, de 300 ml, e mais frequentemente em latas 
vermelhas. A Coca-Cola, depois de fornecer o dinheiro e a imagem que manteve 
Havelange no poder, iria agora fornecer o combustível para os planos de controlar 
o marketing esportivo mundial de Dassler. A ISL ditaria as regras deste jogo, 
todas as gentilezas do passado seriam lembradas, e a Coca-Cola pagaria a 
conta. 
A corporação de Atlanta era crucial para a nova empresa de Dassler. Nally 
observa, quase deslumbrado: "Quando nos separamos, Horst precisava controlar 
a conta da Coca-Cola, porque precisava de credibilidade, de imagem. Levou um 
bom tempo para colocar a Coca-Cola a seu lado, e poder usar a força e o dinheiro 
da companhia." 
Paul Smith, da ISL, admite que o nome Coca-Cola possui uma "aura 
mágica". Esta aura foi emprestada ao novo programa de marketing do futebol. O 
nome "Inter-Soccer" foi mantido, e os eventos à venda incluíam as finais do 
Campeonato Europeu de 1984 em Paris, as finais da Copa Européia e 
culminavam com a Copa do Mundo do México em 1986. 
Aos patrocinadores oferecia-se "um pacote completo de comunicação, 
baseado na exclusividade por categoria de produto durante um período de quatro 
anos. O programa para cada um dos 75 jogos inclui propaganda nos estádios, 
título de fornecedor oficial, uso de mascotes e emblemas e oportunidades de 
franquia." Se estivessem dispostos a pagar quase 7 milhões de libras cada um, os 
patrocinadores poderiam, em 1986, ter sua quota do "maior evento televisivo do 
mundo", com "alcance inédito, muito superior ao dos outros esportes." 
Mas o preço era justo? Nally acha que não: "Quando criamos o Inter-
Soccer, incluímos no orçamento os valores a pagar para a Espanha, necessários 
para aumentar o número de times de 16 para 24. Havelange precisava cumprir 
suas promessas eleitorais, e Samaranch encontrava-se na beira das eleições 
para o COI, em Moscou, necessitando do apoio de Havelange. Sendo assim, ha-
via uma margem maior 1982 do que seria preciso em 1986. 
"Mas depois da Espanha, Horst não baixou os preços, na verdade eles 
foram aumentados. A participação da Coca-Cola no projeto Inter-Soccer, ao preço 
pedido por Horst, legitimou sua política de preços altos." 
Em seguida, caiu na rede da ISL o que Dassler descreveu certa vez como 
"a propriedade menos explorada": Os Jogos Olímpicos. A imagem deles era 
perfeita para o marketing. Cada comité olímpico nacional detinha os direitos de 
licenciar os cinco anéis em seu país. O plano de Dassler pretendia passar da 
venda local para a mundial. 
Conversas privadas foram mantidas com o COI, e em março de 1983 
Samaranch anunciou que a ISL fora contratada para administrar o novo programa 
de obtenção de fundos. A concorrência nem teve chance de vê-lo. 
A reportagem do New York Times sobre esta jogada empresarial incluiu as 
mais diversas opiniões. O Mark McCormack's International Management Group 
declarou ter manifestado interesse, mas nunca foi convidado a apresentar sua 
proposta. Patrick Nally declarou, segundo o jornal: "O fato da ISL, vinda do nada, 
ter obtido um dos maiores contratos esportivos do mundo mostra claramente que 
Dassler encontra-se na posição de conseguir qualquer contrato que queira." Dick 
Pound, membro canadense do COI, disse: "A ISL foi escolhida por osmose." 
Samaranch comentou: "Dassler está próximo do COI, mas não vejo nenhum 
problema nisso". Dassler, sem dúvida com um enorme sorriso estampado no 
rosto, disse: "Eu faço o que é melhor para o movimento olímpico. Não há nenhum 
conflito de interesses." 
"Não é estranho que nenhuma das grandes companhias de marketing, no 
ramo há anos, não tenha conseguido ver projeto, nem conversar, nem mesmo ser 
convidada para apresentar um pacote alternativo ao da ISL?" Perguntou Nally.Mais dois anos se passaram antes que o contrato entre a ISL e o COI 
fosse assinado. Dassler conseguira sua brecha. Ele agora possuía os direitos 
para o esquema global de marketing dos Jogos em Seul. Mas, para que 
funcionasse, precisava persuadir os mais de 150 NOCs a abrir mão de parte de 
seus direitos de comercialização dos cinco anéis em seus países. Mesmo Sama-
ranch mostrou-se cético, e disse a Dassler, em particular: "Tente me convencer 
de que você consegue a aprovação de todos eles." 
Dassler encontrava-se numa posição única para atingir sua meta. Ele era a 
pessoa mais bem-informada do meio, tinha os melhores contatos e muitos lhe 
deviam favores. Agora usaria tudo. Cinco meses depois de receber a aprovação 
de Samaranch, um grupo de executivos da ISL reuniu-se com o mexicano Mário 
Vazquez Rafia em Caracas, durante os Jogos Panamericanos. Rana era uma 
peça fundamental. Ele comandava a ANOC, a organização mundial dos comitês 
olímpicos nacionais. Juntos, fizeram um lobby bem-sucedido, convencendo os 
NOCs latino-americanos a assinar com a companhia de marketing de Dassler. Foi 
um bom começo. Mas o novo plano de marketing olímpico não decolaria sem o 
aval das grandes potências econômicas: Estados Unidos, Alemanha, Grã-
Bretanha, França, Japão e Austrália. Dassler prometeu dinheiro para todos, até 
conseguir apoio suficiente para voltar a Samaranch, O contrato foi finalmente 
assinado em março de 1985, e pela primeira vez o TOP — sigla do Programa 
Olímpico — foi revelado. 
O TOP conseguiu levantar US$ 100 milhões para os Jogos de 1988, mas 
há dúvidas se a ISL teve algum lucro. Comprar os direitos de cada NOC, 
garantindo mais dinheiro do que conseguiriam isoladamente, custou uma fortuna. 
A maior agência de propaganda do mundo veio em socorro de Dassler. "A 
Dentsu é enorme", disse Nally. "Uma companhia monstruosa, infiltrada 
praticamente em todos os setores da vida comercial japonesa: televisão, 
imprensa, editoras e publicidade. 
"Quando eu trabalhava com Horst, vendi pacotes de futebol para a JVC, 
fabricante japonês de produtos eletrônicos, e também para a Fuji Film. No Japão, 
o sistema exige que se passe por uma agência. Escolhi a Hukuhodo, a agência 
número dois do Japão, rival ferrenha da Dentsu, para se associar a nós nas 
contas da JVC e Fuji. 
"Eu não me dei conta de que, ao fazer isso, despertara o gigante 
adormecido, o Rip Van Winkle chamado Dentsu. Tanto a JVC quanto a Fuji são 
companhias de grande importância, e nenhuma das duas jamais trabalhara com a 
Hukuhodo antes. As cabeças rolaram na Dentsu, por permitir que uma coisa tão 
terrível acontecesse. 
"Quando Horst e eu nos separamos, descobri que a Dentsu enviou uma 
série de telexes para Horst, na Adidas francesa, tentando comprar uma 
participação no ISL. Ofereciam uma fortuna, pois queriam a JVC e a Fuji fora do 
alcance da Hukuhodo, e de volta aos braços da Dentsu. 
"De repente Horst se animou, porque viu nisso a resposta para seus 
problemas financeiros. Uma companhia japonesa de grande porte desejava 
comprar uma parte de seu esquema, e se mostrava disposta a pagar qualquer 
preço para conseguir seu intento. Ofereceram uma vasta soma a Horst, e 
adquiriram metade da ISL. 
"Os eventos no Japão foram a salvação de Horst. Eu arranjei o sócio ideal 
para ele. Dassler, claro, tirou o máximo proveito. Ele disse para o pessoal da 
Dentsu: 'Tudo bem, posso resolver o problema que Nally criou para vocês. 
Precisam agir imediatamente, eis o número de minha conta bancária na Suíça, 
por favor mandem milhões.' E foi o que ocorreu." 
Tendo o dinheiro da Dentsu por trás, A energia e a inteligência de Dassler 
triunfaram. "Nenhum executivo da ISL teria condições de levar os comitês 
olímpicos nacionais a devolver ao COI seus direitos, para a implantação de um 
projeto global de marketing. Só Dassler, pessoalmente, teria sucesso", declarou 
Nally. "Samaranch poderia ter conseguido isso — mas não tinha o dinheiro para 
distribuir — de modo que Horst deixou Samaranch mais uma vez em débito com 
ele." 
Nove companhias multinacionais — Coca-Cola, Visa, Brother, Federal 
Express, 3M, Time Life, National Panasonic, Kodak e Philips participaram do 
projeto TOP para a Olimpíada de 1988, contribuindo com mais de US$ 100 
milhões — menos a comissão da ISL. Mas isso era só a semente. A única coisa 
que conseguiram com este investimento foi usar os cinco anéis em qualquer parte 
do mundo. 
As Olimpíadas são um evento único no mundo esportivo. Placas de 
propaganda não podem desfigurar os estádios. O COI alardeia isso 
estridentemente. Dizem que as mensagens comerciais são proibidas nos estádios 
para manter a pureza do ideal olímpico. 
"Isso é enganoso", afirmou Nally. "A razão real para a ausência da 
propaganda nos estádios é a alta soma paga pelas redes norte-americanas pêlos 
direitos televisivos. Eles querem imagens limpas, para que possam vender seus 
comerciais. Se pensarmos na NBC, que pagou cerca de US$ 400 milhões pêlos 
direitos de Barcelona, veremos que a rede precisa vender de mais de US$ 600 
milhões em publicidade para empatar, ou ter um pequeno lucro. A NBC não 
conseguiria tanto se houvesse propaganda nos estádios." 
Tendo pago milhões para entrar na elite olímpica, os nove patrocinadores 
do TOP gastaram ainda mais procurando formas de incorporar os anéis e os 
logos de Calgary, sede dos Jogos de Inverno de 1988 e Seul a seus pacotes, 
comprando espaço na imprensa e na televisão. Visa colocou os anéis em seus 
cartões de crédito, e produziu anúncios agressivos, de alto impacto, ressaltando 
que os locais dos Jogos eram o único lugar do mundo onde "não aceitam 
American Express." 
O cartão verde rival patrocinou os Jogos de Los Angeles em 1984, mas 
recuou quando soube que precisaria pagar um preço quatro vezes maior. A 
American Express comentou: "Recusamos pagar US$ 15,5 milhões em Seul. O 
preço estava muito além do que poderíamos ganhar com quaisquer benefícios 
comerciais." A Sopa Campbell gastou US$ 500 mil para patrocinar os jogos de 
inverno em Saravejo, em 1984, e quase perdeu a fala quando a ISL convidou a 
empresa para entrar no TOP e patrocinar os jogos de Calgary. Um diretor, George 
Mahrlig, disse: "Nunca vou me esquecer do preço pedido. O vendedor da ISL, 
com a maior caradura, queria um valor 14 vezes maior: US$ 7,2 milhões." 
Campbell caiu fora. 
A revista Time e a Sports Illustrated ganharam o direito de produzir os 
números especiais das Olimpíadas, vendidos como lembranças. A situação era 
estranha. Teria um grande grupo editorial criado um vínculo tão forte com o 
movimento olímpico, a ponto de abandonar sua condição de fazer um jornalismo 
crítico? 
As máquinas de escrever Brother concentraram-se mais na exploração dos 
anéis olímpicos para impressionar seus revendedores. Levaram clientes 
preferenciais para Seul, pagando pelo privilégio de apresentar seus convidados 
aos ganhadores de medalhas de ouro, diariamente. Não se sabe o que os 
campeões olímpicos acharam de desfilar e apertar as mãos dos convidados da 
Brother. Cerca de 17 mil convidados dos patrocinadores conseguiram privilégios 
em 1988. 
Dassler ainda precisava de um grande favor. Depois do Campeonato 
Mundial de Atletismo em Helsinque, o contrato de marketing com a IAAF era de 
quem chegasse primeiro. As negociações seriam feitas durante os Jogos 
Olímpicos de Los Angeles. Haveria um preço a ser pago pelo final do reinado de 
Adriaan Paulen e a implantação do regime de Nebiolo? 
Tentar o contrato com a IAAF representava um novo tipo de experiência 
para a ISL, em ambiente diverso do encontrado na FIFA e no COI. Haveria 
concorrência de verdade, entre dois candidatos. Patrick Nally continuou lutando 
pelo contrato, depois do rompimento com Dassler. Queria dar seguimento ao 
esquema que levantara tanto dinheiro para o primeiro campeonato em Helsinque, 
em 1983. Dassler pretendia obter o contrato para si. Os dois rivais apresentaram 
suas propostas para o comité de marketing da IAAF, recentemente fundado. Ummembro do comité recordou a cena: "Nally fez uma apresentação muito pro-
fissional, e depois veio a ISL. Eles disseram que poderiam oferecer uma garantia 
enorme, talvez US$ 20 milhões para os quatro anos seguintes, se 
concordássemos em entregar o contrato. Mas, por algum motivo, passaram-se 
mais dois anos até a assinatura." 
Nally declarou: "A ISL ficou com o contrato com a IAAF. De repente, 
parecia que tinham feito um acordo melhor do que nós, responsáveis pelo 
marketing há tantos anos e criadores de todos os projetos. Foi uma farsa." Com 
isso, a ISL ficou com os três grandes. 
A ISL descobriu que era muito mais difícil negociar com Nebiolo do que 
com Samaranch. O presidente desperdiçava o dinheiro da IAAF, às vezes. 
Durante os preparativos para o Campeonato de Atletismo de Roma, em 1987, 
Nebiolo insistiu para que a marca do evento fosse produzida por um membro de 
sua corte. "O logotipo era horrível", contou um membro da IAAF. "Muito feio. Não 
significava nada. Odiamos, mas ele não quis saber, insistindo que o logo da IAAF 
deveria ser divulgado antes do logo da FIFA para a Copa do Mundo de 1990 em 
Roma. O logotipo acabou com a festa. A receita foi zero." 
O relacionamento de Dassler com o atletismo florescia. Em 1986, Nebiolo 
fechou um acordo com a Adidas, para o fornecimento de material para a IAAF. A 
revista da federação publicou uma página de propaganda disfarçada de 
reportagem sobre a tecnologia por trás da fabricação dos produtos Adidas. O 
contrato do atletismo com a Adidas foi renovado em 1988, e novamente em 1991. 
Paul Smith admite que a ISL se envolvia profundamente na política esportiva, 
quando Dassler ainda vivia, "Desde a morte de Horst", disse, "a ISL tornou-se 
apenas mais uma .companhia de marketing." 
A ISL ganharia mais um contrato de peso. Em 1989 fechou um acordo com 
a federação internacional de basquete. O contrato é limitado, porque o território 
mais importante, os Estados Unidos, já está comprometido com outros acordos, 
mas as possibilidades do marketing global devem explodir em 1994, quando as 
maiores estrelas norte-americanas competirem na frente das câmeras, no 
campeonato mundial de basquete. 
O basquete é o que os publicitários chamam de um esporte "bom de 
anúncio", na televisão. A quadra é pequena, o jogo confinado a ela, e a ISL pode 
garantir aos clientes que somente dois cartazes de publicidade serão vistos, 
durante até 30 por cento do "tempo de transmissão". Há outros benefícios a 
oferecer. Os anunciantes poderão comprar o direito de ter seu nome incluído no 
título de jogos específicos. A prática leva o nome de "reforço de mensagem", e dá 
aos comentaristas da televisão um nome mais longo para dizer. 
Na primavera de 1988 Roberto G. Goizueta, diretor da Coca-Cola, viajou 
para Lausanne, onde recebeu de Samaranch a Ordem Olímpica. O presidente do 
COI informou que tal honra se devia à "profunda visão positiva da vida" 
demonstrada pela companhia. A Coca-Cola foi a primeira a entrar no TOP 
seguinte, que atingirá seu apogeu em Barcelona. Samaranch em pessoa voou 
para Atlanta, onde assinou o contrato. Com toda a transparência e honestidade 
que hoje caracterizam as Olimpíadas, nenhuma das partes revelou o quanto foi 
pago pela companhia. Estimativas confiáveis calculam algo em torno de US$ 30 
milhões. A Coca-Cola pagará mais do que os outros patrocinadores porque o 
mercado de refrigerantes é um dos mais competitivos do mundo. 
As outras companhias que completam os "TOP 12" em Barcelona são 
previsíveis. Kodak pagou uma fortuna, outra vez, no mínimo para deixar de fora 
um rival, a Fuji Film. Igualmente decididas a participar encontram-se grandes 
empresas japonesas, como Brother, National Panasonic e Ricoh. A Philips 
holandesa também entrou, mas não pode promover produtos concorrentes da 
Panasonic. Os outros patrocinadores de Barcelona são a revista Time, os 
chocolates Mars, a Bausch & Lomb (fabricante dos óculos Rayban), a Visa, a 
empresa entregadora EMS e a 3M. Em 1989 o Comité Olímpico dos Estados 
Unidos de Bob Helmick premiou o presidente da 3M com o título de "Empresário 
do Ano". 
As Olimpíadas teriam sido "violentadas" pelas grandes corporações? Paul 
Smith, da ISL, acha que não: "O público não pensa que as Olimpíadas estão 
muito comerciais. O elemento marketing sofre controle eficaz. As companhias do 
TOP investiram a longo prazo, e seu interesse é garantir que a imagem dos Jogos 
não se degrade." Longo prazo tornou-se agora curto prazo. O COI introduziu uma 
modificação decisiva no tradicional ciclo de quatro anos dos Jogos. A partir de 
1994 os eventos de verão e inverno se alternarão a cada dois anos. As redes 
norte-americanas pressionaram neste sentido, pois arcam com uma conta de 
quase US$ l bilhão pêlos dois eventos, num ano olímpico. Os céticos acreditam 
que os patrocinadores acreditam que seus investimentos dêem um retorno melhor 
distribuídos a cada dois anos, ao invés de concentrados a cada quatro. 
Em seu material de divulgação, a ISL aparece como um ponto de 
confluência entre o conteúdo ético do esporte e as exigências benevolentes e 
razoáveis dos empresários. Dentro da companhia trava-se há dois anos uma 
guerra, desde que a Adidas da família Dassler foi vendida para o investidor 
francês Bernard Tapie, em 1990. 
As quatro irmãs de Dassler — Inge, Karen, Brigitte e Sigrid — foram 
criticadas na imprensa alemã pela venda de 80 por cento das ações da Adidas a 
um preço muito baixo. A filha Suzanne e o filho Adi conservaram uma pane da 
holding Adidas. A família também possui 51 por cento da ISL, e a Dentsu o 
restante. Embora pareçam interessados em evitar que a companhia decaia, como 
ocorreu com a Adidas depois da morte de Dassler, as duas gerações da família 
atualmente só se relacionam através de advogados. Perdida a Adidas, a ISL 
tornou-se sua galinha dos ovos de ouro. 
Seis meses depois da venda das ações da Adidas, pouco antes do Natal 
de 1990, as quatro irmãs atacaram a ISL. Christoph Malms, marido de Sigrid, foi 
nomeado presidente da companhia holding Sporis AG, e em seguida diretor da 
ISL. Logo ficou claro que ele não conseguia trabalhar ao lado de Klaus Hempel e 
Jürgen Lens, os dois administradores que Dassler escolhera para tocar o negócio. 
Hempel, principal executivo, acostumara-se a dirigir a companhia sem 
interferências, comunicando suas decisões à diretoria dominada pela família 
depois de toma-las. Malms queria autonomia como diretor. 
Em janeiro de 1991, Hempel e Lens deixaram seus cargos. A saída deles 
foi anunciada no estilo dos comunicados corporativos, sugerindo harmonia para 
normalmente mascarar as cenas de executivos lutando na diretoria. O press 
release divulgado pelo escritório em Lucerne mencionava "mudanças 
significativas na estrutura executiva da empresa". Hempel e Lens, claro, 
demitiram-se "por acordo mútuo, para cuidar de outros negócios e assuntos 
pessoais". A ISL estava em boas mãos, porque os principais executivos 
continuavam nos postos. 
No dia seguinte uma carta discreta, assinada por Hempel e Lens, seguiu 
para seus melhores contatos nas federações. Deixava claro que ambos 
continuavam ativos no ramo. Informava aos antigos clientes: "Pretendemos 
capitalizar nossa experiência acumulada no marketing de eventos." A carta 
terminava com uma nota diplomática: "Enquanto isso, agradecemos pelo apoio à 
ISL." Os especialistas em conflitos administrativos sentiram o cheiro de um acordo 
milionário. 
Resta saber se Malms, ou Adi, filho de Dassler, possuem as habilidades 
políticas do grande homem. Contudo, eles não possuem o profundo 
conhecimento sobre tudo e todos que contam no esporte mundial. Dassler, 
brilhante e intuitivo, explorava seus conhecimentos em benefício da Adidas e da 
ISL. Hempel e Lens trabalharam a seu lado durante muitos anos, e mesmo que 
não tivessem a mesma visão, conheciam intimamente a política esportiva. Dassler 
tirou muito proveito, mas antes precisou investir pesado. A pergunta é se os 
sucessores dele na ISL manterãoo mesmo desempenho. 
Patrick Nally mostra-se cético quanto ao futuro da ISL: "O relacionamento 
com a FIFA, o COI, a IAAF e o basquete provinha de Horst. A infra-estrutura foi 
solidamente preparada. Ele acompanhou as pessoas que hoje comandam o 
esporte desde o começo. Colocou muitos deles em seus cargos atuais. 
"Quando largarem os cargos de direção, o legado de Horst desabará. Aí a 
necessidade da ISL poderá ser questionada. Quando começamos, as federações 
não tinham equipes de especialistas. Hoje possuem estrutura própria de 
marketing, com muita gente boa. Dispensarão intermediários. As federações 
precisavam da ISL porque precisavam da política, do dinheiro e da credibilidade 
de Horst, para chegar onde estão. Agora, claro, já podem cuidar de tudo 
sozinhas." 
Não surpreende que Paul Smith, da ISL, discorde: "Somos especialistas. 
Compreendemos as sutilezas e as nuances do marketing esportivo. Assim como 
as grandes empresas chamam agências de propaganda, ao invés de usar o 
pessoal da casa, acreditamos que as federações continuarão a precisar de 
nossos serviços." 
Neste verão, os convidados das corporações desfrutarão as delícias dos 
transatlânticos ancorados no porto de Barcelona. Consumidores do mundo inteiro 
serão encorajados a beber Coca-Cola, e não Pepsi; a fotografar com Kodak, e 
não Fuji; a ver as Olimpíadas numa televisão Panasonic e não Sony; a usar o 
cartão Visa, e não o American Express. Estes são alguns dos patrocinadores 
TOP. As pesquisas de mercado da ISL indicam que vale a pena: "Qualquer 
companhia patrocinadora das Olimpíadas adquire qualidades olímpicas." 
"O público não é mais tão inocente como antes", acredita Nally. "Eles 
sabem que o motivo para promover uma companhia através das Olimpíadas não 
tem nada a ver com uma missão olímpica. Ninguém é selecionado pela qualidade 
ou imagem. Entra quem pagar mais do que os outros." 
 
 
9 
O PESO MORTO 
 
O Samaranch que entrou para o COI em 1966 deve ter se sentido à 
vontade entre tantos outros membros de passado autoritário ou antidemocrático. 
Afinal, durante toda sua vida adulta apoiara ativamente um estado policial 
baseado em um sistema ideológico que dizia agir no interesse da maioria. 
Mudar para Moscou após o colapso da ditadura de Franco e do triunfo da 
democracia na Espanha parecia ser um conveniente passo atrás na história. Era 
tão fácil lidar com os russos quanto com os donos do poder em Madri. Ambos 
exerciam um poder absoluto e recompensavam quem os ajudasse. 
Iludido por sua falta de experiência em democracia, Samaranch avaliou 
mal a força e a longevidade de seus novos aliados comunistas. Desde sua 
ascensão ao poder no COI, recrutou e apoiou muitos membros do Leste, 
verdadeiros dinossauros de uma outra era política. 
Hoje o COI encontra-se lotado de delegados dos falidos regimes do antigo 
Bloco Oriental. Eles não representam nada, fora seu próprio desejo de sobreviver 
em um mundo novo e hostil, sem os privilégios antigos. Se Samaranch não pedir 
sua renúncia, ofenderá os novos comitês olímpicos nacionais democraticamente 
eleitos dos países do Leste, que não aceitam "jogadas" com seus representantes 
no COI. 
O contraste com as mudanças no restante do mundo é gritante. Quando 
regimes corruptos caem, seus embaixadores e delegados nas Nações Unidas 
voltam para casa em desgraça. Nada disso ocorre no COI. Um punhado de 
membros desacreditados pode permanecer no poder até a morte. 
Transformaram-se em apêndices do líder do COI. Sem reconhecimento ou 
recompensas em seus próprios países, viajarão no eterno trem da alegria, 
inspecionando cidades, comparecendo a sessões do COI e acompanhando os 
Jogos e outros eventos esportivos de destaque. 
Os países do Bloco Leste sempre mantiveram um relacionamento delicado 
com o movimento olímpico. Quatro anos depois dos Jogos de Estocolmo os 
russos boicotaram as Olimpíadas. Retornaram em 1952, em Helsinque, ganhando 
as primeiras medalhas de ouro. Faturaram 22, ficando em segundo no total de 
medalhas, atrás dos norte-americanos. Desde então o esporte tornou-se uma 
atividade política prioritária. Os russos, alemães orientais, tchecos, romenos e 
búlgaros ignoraram a escassez de recursos, criaram condições para a prática 
esportiva de competição, treinaram equipes de ponta e tentaram derrotar o 
Ocidente. Em 1956 os russos venceram no total de medalhas. E ficaram na frente 
dos norte-americanos em três das cinco Olimpíadas seguintes. 
Enquanto isso, a União Soviética continuava fechada. Os únicos 
estrangeiros realmente bem-vindos eram os adeptos do regime e capitalistas 
selvagens como Horst Dassler. "Sempre me impressionei com Dassler em 
Moscou. Ele nunca falava em política", declarou Christian Jannette. "Sua única 
política era a Adidas. Mesmo quando jantava com gente do Comité Central, nunca 
ouvi Dassler tocar em política, nem por um minuto. Falava de negócios, de 
organização esportiva, mas nunca de política." 
O cabeça da Adidas levava dois presentes especiais. Os russos eram 
gratos pelo material esportivo gratuito que ele doava às equipes, mas ansiavam 
mesmo pelo acesso à mercadoria mais valiosa de Dassler — conhecimentos. O 
isolamento do Bloco Leste, somado ao costume de viajar com uma falange de 
agentes da KGB, os impedia de compreender a política esportiva. Desde o início 
da década de 1970, Dassler tornou-se orientador e cicerone político dos russos. 
Eles entenderam que os votos sob seu controle lhes dava um imenso poder, mas 
não sabiam como usá-lo. 
"Sempre que Horst viajava para os países da Europa Oriental recebia 
tratamento VIP", disse Nally. "Era muito fácil a movimentação dentro daquele 
mundo. Descíamos do avião na Rússia e ninguém olhava os passaportes. 
Armand Hammer não era o único a fazer isso, Horst também fazia. 
"Horst passava muito tempo na sauna, com políticos chaves, conversando 
sobre quem deveria ser eleito e o papel desempenhado pêlos países da Europa 
Oriental nas federações. O Leste europeu oferecia poucas oportunidades de 
negócios, mas possuía grande importância do ponto de vista político." 
Dassler queria duas coisas dos russos, principalmente: abrir uma fábrica 
atrás da Cortina de Ferro e participar dos negócios decorrentes dos Jogos de 
1980 em Moscou, Em ambos os casos ele encontrou a porta aberta. Os russos 
precisavam de produtos de melhor qualidade para seu mercado interno — até há 
pouco tempo o nome genérico para os tênis, entre os europeus orientais, era 
"adidas" — e queriam exportar parte da produção, acumulando moeda forte. 
Uma nova equipe foi formada em Landersheim, para tratar do desafio 
olímpico. Nally participou bastante. "Horst selecionou um grupo, com pessoas 
como Christian Jannette. Ele morou na Rússia entre 1976 e 1980, durante a fase 
de preparativos para as Olimpíadas. 
"As visitas a Moscou se repetiam constantemente, e minha função se 
expandiu mais ainda conforme os Jogos se 1980 se aproximavam. A Rússia 
precisava de tecidos e roupas, e fechamos acordos para fornecer o material. 
Horst não tinha como bancar tudo sozinho, de modo que precisei procurar outras 
companhias para ajudar. 
"As negociações foram difíceis, mas Horst conseguiu obter alguns direitos 
de marketing em Moscou. Assinou um contrato para vestir não só atletas, como 
também dirigentes. Montamos um pacote na West Nally, e saímos à procura de 
parceiros. 
"Na época, nosso maior triunfo foi convencer a Levi's a fornecer 64 mil 
calças jeans. Levamos os executivos para a Rússia, e eles ficaram 
impressionados com os contatos políticos de Horst. A Levi's, como a Coca-Cola, 
pretendia usar as Olimpíadas como instrumento para a abertura de fábricas na 
Europa Oriental. E as calças jeans eram disputadas a tapa." 
Ninguém previu o boicote norte-americano a Moscou. Samaranch, quando 
ocupava a vice-presidência do COI, cultivara contatos comunistas, em detrimento 
dos norte-americanos. Isso tinha sentido, do ponto de vista dele. Os americanos 
pouco influíam na política olímpica. Não entendiam direitoas maquinações em 
Lausanne e nas federações internacionais. As qualidades diplomáticas de 
Samaranch falharam no primeiro grande teste. As tentativas de reverter o boicote 
promovido pêlos norte-americanos fracassaram. 
Quando os russos se vingaram, em Los Angeles, Samaranch, já presidente 
do COI, tentou de novo. E mais uma vez suas súplicas não foram ouvidas. 
Embora ativo na política olímpica há dezoito anos, ele não conseguiu fazer com 
que o Bloco Leste entendesse que se arrependeriam do boicote. Havia 
divergências notórias entre os países comunistas, e na verdade ninguém queria 
ficar fora de Los Angeles, a não ser Brezhnev. 
Apesar dos anos passados em Moscou, como embaixador, Samaranch 
jamais dominou as nuanças políticas do bloco comunista. E falhou na tentativa de 
convencer seus amigos. 
Mas Samaranch não deixou de cortejar os ditadores mais implacáveis do 
bloco comunista. Continuou a agradar aos imperadores do Leste. As honrarias 
fluíam livres, nas duas direções. Mesmo depois que lhe deram as costas em Los 
Angeles, ele prosseguiu com as atenções, como se tratasse das estrelas das 
Olimpíadas. 
Quando o COI se reuniu em Berlim Oriental, em 1985, Samaranch foi 
recebido por Manfred Ewald, o mais alto funcionário do esporte alemão oriental, e 
incentivador do programa de doping do país. Ewald já possuía a Ordem Olímpica. 
"A Alemanha Oriental se identifica profundamente com o conteúdo humanista do 
ideal olímpico", declarou Ewald, e todos aplaudiram educadamente. Como os 
anfitriões alemães pagavam a conta, teria sido descortês perguntar o papel dos 
esteróides no ideal olímpico, ou quantos haviam sido abatidos com tiros naquele 
ano, tentando pular o muro para o Ocidente, 
A hipocrisia não parou aí: Erich Honecker, ex-líder da Alemanha Oriental, 
hoje indiciado pêlos crimes cometidos durante seu governo assassino, abriu a 
sessão do COI. Recebeu como recompensa a mais alta honraria disponível, a 
Ordem de Ouro Olímpica. Dar a Ordem de Ouro a tais tiranos não apenas macula 
o ideal olímpico: zomba das legiões de pessoas comuns, decentes, que com 
freqüência dedicaram a vida ao esporte. 
Outro alto dignatário recebeu a Ordem de Ouro naquele ano: o carniceiro 
de Bucareste, Nicolae Ceaucescu. Premiado por ter ignorado os russos e enviado 
uma delegação a Los Angeles. Difícil acreditar que o presidente do COI, que se 
apresenta como diplomata viajado, não soubesse dos sofrimentos impostos aos 
romenos pela ditadura de Ceaucescu. 
Qual a mensagem recebida pelo romeno comum, assistindo à cerimônia 
transmitida na íntegra pela televisão local? Que o mundo civilizado não se 
importava com seus males e com a pobreza existente atrás das fronteiras 
fechadas. Ver o cruel dirigente sendo condecorado por mandar atletas para os 
Estados Unidos enquanto o povo levava os tiros tentando fugir deve ter sido bem 
estranho. 
A nível do esporte, Samaranch deve ter sido informado que as condições 
da Romênia eram lamentáveis. Ele conferiu a medalha olímpica a um país com 
reputação de dopar muitos de seus melhores representantes. 
Samaranch parece ter o dom de escolher os piores ditadores para receber 
honrarias. Dois anos depois de Berlim, ele foi à Bulgária e deu ao ditador Todor 
Zhikov a Ordem de Ouro Olímpica. 
Os agentes da contra-espionagem devem ter feito hora-extra em Moscou e 
Washington para estudar as viagens de Samaranch durante a década de 1980. E 
também devem ter pensado: para quem ele trabalha, afinal? A CIA pode ter 
levantado a possibilidade de que o presidente do COI fosse agente do Comintern, 
viajando "para casa" regularmente para receber ordens e entregar microfilmes. 
Da mesma forma, a KGB deve ter pesquisado seus arquivos de viagens. 
Entre 1981 e 1987, Samaranch visitou constantemente o Bloco Leste. Estaria 
espionando para os norte-americanos? A pergunta deve ter sido feita na 
Lubianka. 
Enquanto o sistema comunista desabava lentamente, Samaranch era 
fotografado em Moscou, na Albânia, Polônia e em Piongiang. As viagens só 
diminuíram quando a casa caiu. O poder esportivo do Leste foi arrasado. Os 
campos de doping fechados, a queda nas performances e a dissolução do bloco 
de votantes chegou. Os barões do esporte no Leste perderam o emprego, na 
maioria dos casos, desacreditados, e seus impérios perderam as contas ban-
cárias em moeda forte. O Leste agora suplica, e precisa chegar a Lausanne de 
chapéu na mão. 
Eles terão os melhores lugares, com a melhor vista para os eventos em 
Barcelona. Andarão de limusine. Ficarão hospedados no melhor hotel. Eles 
podem dar as Olimpíadas para uma cidade. Eles são o peso morto do Bloco 
Oriental, os subprodutos da era Brejnev, os membros totalitários do COI. 
Eis Shagdarjav Margvan, da Mongólia. Dirigente sindical e ex-lutador, 
nascido em 1927, tinha 50 anos ao ser escolhido para o COI. No ano seguinte o 
partido comunista o promoveu para dirigir uma fábrica de porcelana. Sua língua 
nativa é o mongol, mas ele também fala russo. Trata-se de um dos poucos 
membros do COI que nunca foi nomeado para participar de uma comissão. Ficará 
no COI até atingir a idade limite para a aposentadoria compulsória de 75 anos, em 
2002. só então a Mongólia poderá trocar de representante. Mesmo depois desta 
data Magvan continuará membro do COI, embora sem poder de voto. 
Há também Marat Gramov, de Moscou. Um dos maiores desastres de 
Samaranch, Gramov foi o burocrata dedicado que organizou o boicote a Los 
Angeles. Isso não incomodou Samaranch, que o escolheu para o COI em 1988. 
Gramov era deputado no Soviete Supremo da União Soviética, além de 
presidente do comité olímpico Soviético. 
Sua nomeação para o COI sinalizou claramente que Samaranch não 
compreendia as pressões crescentes na Rússia. Três anos como embaixador, e 
inúmeras visitas nos oito anos seguintes, pelo jeito pouco ensinaram ao 
presidente do COI, A escolha de Gramov deixou o COI mal representado no novo 
esquema democrático do Leste. 
Um ano depois de sua nomeação, Gramov foi forçado a renunciar de seu 
cargo no Ministério do Esporte soviético. Adiando continuamente as reuniões do 
NOC soviético, ele prolongou o inevitável, até que em abril de 1990 perdeu seu 
último posto no esporte russo. Hoje Gramov não é ninguém no esporte. Isso não 
o impede de viajar pelo mundo às custas do COI, recebendo as homenagens das 
cidades visitadas, candidatas a sede de uma Olimpíada. Gramov permanecerá no 
COI como membro pleno até 2002. 
Outro membro soviético do COI, Vitaly Smirnov, nomeado em 1971, saiu-
se melhor. Pertencia ao Soviete de Moscou, mas distanciou-se da velha guarda e 
substituiu Gramov no NOC. É vice-presidente do COI e membro pleno até o ano 
2000. Ele entrou para o novo mundo esportivo com estardalhaço, arranjando com 
a fábrica de automóveis alemã Mercedes dois carros para seu uso em Moscou. A 
Mercedes apoia a tentativa de Berlim para sediar os Jogos no ano 2000. 
Gramov e Smirnov representam a URSS no COI, mas o país deixou de existir. 
Na Roménia, enquanto o país luta para superar os traumas da era Ceaucescu, seu 
homem em Lausanne segue sendo Alexan-dru Siperco, que fala russo. Ele participou 
ativamente da política comunista romena durante anos. Nascido em 1920, é membro vitalício 
do COI. 
A Polónia encontra-se em situação similar, com Wlodzimierz Reczek, também de fala 
russa, como membro vitalício desde 1961, A Tchecoslováquia tem como representante outro 
membro de fala russa, Vladimir Cernusak, que votará nas reuniões em Lausanne até 1996. 
O representante da Bulgária também fala russo, mas Ivan Slav-kov parece ter superado 
a desvantagem de ser genro do ex-presidente Todor Zhikov, agraciado com a Ordem de Ouro 
Olímpica. Slavkov era ministro adjunto da cultura, na velha ordem, e comandava a televisão 
estatal. Samaranch tem um alto conceito deste senhor de meia idade e muita personalidade. 
Quando o governo do sogro caiu ele ficou em regime de prisão domiciliar e acabou depois na 
penitenciária, acusado de uma série de crimes, desde tráficode armamentos até apropriação 
indébita de fundos da fracassada campanha de Sofia para sediar as Olimpíadas de Inverno 
de 1994. 
As acusações foram posteriormente retiradas, e ele acabou sendo reeleito presidente do 
comité olímpico nacional, no único país da Europa Oriental onde o partido comunista é uma 
força majoritária. Permanecerá no COI como membro pleno durante as próximas cinco 
Olimpíadas — até o ano de 2015. 
Um membro do COI, representante da lugoslávia, Slobodan Filipovic, também fala 
russo. Ele luta desde 1989 para se desvincular dos antigos camaradas da liderança do partido 
local. Seus oponentes o acusam de apoiar as milícias governamentais em Mon-tenegro, quando 
estas dispararam contra os manifestantes. Filipovic nega, dizendo que os antigos 
camaradas forjaram minutas de reuniões do partido para desacreditá-lo. Enfrenta 
uma campanha dos dirigentes esportivos iugoslavos para tirá-lo do COI, já que 
não conta com apoio em seu próprio país. Samaranch fez o possível para apoiá-
lo. Filipovic continuará como membro pleno até 2014. 
Outro membro iugoslavo, Boris Stankovic, entrou para o COI em 1988, e 
serve de secretário-geral para a federação internacional de basquete desde 1976. 
Era ativo no mundo da política esportiva de Monte Cario, ao lado de Dassler, e 
manteve distância do Partido Comunista de seu país. Ficará no COI até o ano 
2000. 
Pai Schmitt, da Hungria, tem a melhor reputação internacional entre os 
membros do COI vindos do Bloco Leste. Esgrimista olímpico, Schmitt representa 
o estilo independente da política húngara, que os russos tentaram esmagar. 
Desde sua entrada para o COI em 1983, ele participa ativamente de diversas 
comissões. 
O colapso da Alemanha Oriental causou um problema para o COI. A nova 
Alemanha unificada tinha representantes demais. Gunther Heinze, que fala russo, 
era alto dirigente do sistema esportivo movido a droga da Alemanha Oriental, e 
concordou em se aposentar prematuramente. Mas permanece como membro ho-
norário. 
O último representante de um partido comunista monolítico e repressivo no 
COI é o chinês Zhenliang. Ele entrou para o COI em 1981. É vice-presidente 
olímpico e membro da diretoria executiva do COI. Continuará membro até o ano 
2004. 
 
10 
O OURO NEGRO DE OLÍMPIA 
 
Em uma noite especial de janeiro de 1987 o Clube se reuniu em um 
exclusivo restaurante parisiense. Horst Dassler chegou com seus convidados: 
Samaranch, Havelange, Nebiolo, Bob Helmick, representante americano do COI, 
Mahtar M'Bow, secretário-geral da Unesco e um punhado de outros membros do 
COI. 
Entre os convidados, havia também um membro do COI que pensava 
pertencer ao círculo mais íntimo. Como era rico o suficiente para comprar a todos, 
ninguém queria desapontá-lo. Outro fato o diferenciava do resto: era o único dos 
presentes cuja mãe fora escrava. 
O xeque Fahd al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, da bilionária família real do 
Kuwait, tinha só mais três anos de vida, pois morreria em circunstâncias 
misteriosas nas mãos dos invasores iraquianos. Seus atos não têm similar na 
história do esporte. 
Distribuindo prodigamente seus petrodólares, Fahd corrompeu uma parcela 
considerável das Olimpíadas, rasgou a Carta Olímpica e tornou os ideais do 
movimento sinônimo de trapaça e racismo. Nada disso teria sido possível sem a 
bênção de Samaranch e outros membros do Clube. 
O xeque Fahd nasceu em 1945, antes que as reservas de petróleo do 
Kuwait tornasse o país um dos mais ricos do mundo, numa época em que era 
comum, para os xeques, possuir escravos e concubinas. Seu pai, o xeque Ahmad 
Al-Jaber Al Sabah, então soberano do Kuwait, tinha entre as concubinas favoritas 
uma mulher vinda das tribos nômades do selvagem Baluquistão. Os kuwaitianos 
não renegaram os filhos nascidos de escravas, e quando sua mãe deu à luz, o 
pequeno Fahd teve o mesmo tratamento dos irmãos legítimos. 
Ser filho de escrava não impediu sua ascensão — a mãe do atual primeiro-
ministro, príncipe Saad, era uma escrava negra da Somália. Mesmo assim, o 
jovem Fahd era às vezes desprezado, por não ter somente o sangue dos Sabah. 
Um amigo de infância declarou: "Fahd se ressentia com as menções a sua 
origem, e cresceu voluntarioso e rebelde. Não era estúpido, mas faltava a ele a 
astúcia de outros membros da família. Quando a escravidão foi abolida no Kuwait, 
na década de 1950, passou a cuidar da mãe, mas sempre teve complexos por 
causa de seu nascimento, o que pode explicar sua ânsia de aparecer." 
Um conhecido de Fahd, já nos anos 1980, disse: "Fahd era o único irmão 
do emir sem cargo no ministério. Isso o enfurecia. Restava o esporte, como única 
maneira de ser notado." 
Quando entrevistado pela IOC Reviezu, Fahd afirmou ter estudado na 
universidade, mas não informou o curso freqüentado, nem o diploma obtido. 
Tratava-se de mais um dos mitos permitidos aos ricos e poderosos do Kuwait. Ele 
pode ter se matriculado na Universidade do Kuwait — como qualquer Al-Sabah — 
mas não era um acadêmico. 
Como muitos Al-Sabah, recebeu uma alta patente no exército do Kuwait. 
Ao contrário da maioria dos parentes, Fahd queria ser visto como um homem de 
ação. Enquanto a contribuição da família na defesa do Kuwait não passou do 
estabelecimento de um novo recorde mundial de fuga pelo deserto até o refúgio 
seguro na Arábia Saudita, Fahd demonstrou que não lhe faltava coragem pessoal. 
Na casa dos vinte anos, sem avisar a família, ele foi para o sul do Líbano, 
lutando ao lado da OLP contra os israelenses. A admiração provocada pelo 
ousado gesto, no mundo árabe, deu sentido a sua vida. Quando apareceu no 
mundo da política esportiva, Fahd não perdia uma oportunidade de aumentar o 
boicote contra Israel, progressivamente excluindo o país das competições 
internacionais. 
O movimento olímpico, como muitas organizações esportivas, divide o 
mundo em departamentos continentais. A Ásia é o maior deles, e o mais 
populoso. Estende-se por milhares de quilômetros, da costa leste do 
Mediterrâneo, passando pela Mongólia, China, Japão, Tailândia, Filipinas e 
Coréias. Sendo uma mistura de etnias e grupos religiosos, miséria e riqueza, 
apresenta estágios diferenciados de desenvolvimento esportivo. 
Os países com tradição em esportes ao estilo ocidental reuniram-se em 
Deli, em 1949, e formaram a Federação Asiática. Dominavam o grupo fundador 
países nascidos do colapso do império britânico e outras potências colonialistas: 
Birmânia, Sri Lanka, índia, Indonésia, Paquistão, Filipinas, Tailândia e Israel. O 
objetivo da federação era realizar jogos regionais a cada quatro anos, segundo o 
modelo das Olimpíadas e dos Jogos Panamericanos. 
As federações esportivas internacionais não tinham com que se preocupar 
até o início da década de 1960, quando a Indonésia sediou os quartos Jogos 
Asiáticos, em Jacarta. Os promotores anunciaram que não dariam vistos a 
competidores de Israel. Seguiam apenas o padrão determinado pêlos Jogos 
Mediterrâneos de Samaranch. Desta vez o COI bateu o pé, e suspendeu a Indo-
nésia. O país foi perdoado um ano depois, na época da primeira Olimpíada 
Asiática em Tóquio. A pressão para discriminar Israel vinha dos países árabes do 
Golfo, ansiosos por mostrar seu apoio aos palestinos. 
Os atletas israelenses voltaram a disputar os Jogos Asiáticos em Bangkok, 
em 1970, pela última vez. Os países do Golfo exercitaram seus músculos 
políticos. Como o mundo árabe fracassou na tentativa militar de jogar os judeus 
no mar, a opção foi criar um gueto esportivo. A expulsão de Israel do esporte 
asiático se daria na'proporção direta do aumento da riqueza dos países petrolífe-
ros do Golfo. Os árabes orquestraram a campanha que deturpou a política 
esportiva e o próprio esporte em toda a Ásia. 
Fahd, como muitos outros filhos de famílias reais milionárias, distraía-se 
com atividades militares e um apetite prodigioso pela atividade esportiva. Ele 
praticou todos os esportes, até que sua barriga o empurrou para a administração. 
Passou a colecionar as federações esportivas doKuwait como um menino 
coleciona selos ou figurinhas. Nos anos seguintes assumiu o controle dos or-
ganismos responsáveis pela esgrima, futebol, basquete, vôlei e handball. Mais do 
que isso, tornou-se presidente do comité olímpico nacional do Kuwait, um cargo 
privativo da família Al Sa-bah. Também à sua disposição estavam os 
intermináveis recursos dos campos petrolíferos. 
Essa fortuna, que poderia ter sido investida na melhoria das condições 
sociais, econômicas e esportivas dos países árabes mais pobres, era usada no 
continente asiático para a compra de votos. Fahd, o ex-atleta, logo descobriu que 
as glórias da cartolagem eram maiores. O pequeno Kuwait causaria um tremendo 
impacto na política esportiva mundial. 
A federação asiática vivia em luta permanente para financiar e organizar os 
jogos regionais, até que uma gigantesca onda de dinheiro do golfo Pérsico 
inundou todo o continente, até o mar da China. Ela varreu os princípios da maioria 
dos dirigentes esportivos da Ásia. Estes receberam tudo o que sonhavam: recur-
sos para eventos, novas instalações, conferências, passagens aéreas e, claro, 
recompensas pessoais. Havia uma única condição. Os países árabes exigiam que 
a Federação Asiática fosse futuramente abolida. Seria substituída por uma 
organização deles. A Ásia concordou. 
As bases foram lançadas nos Jogos Asiáticos de 1974 em Teerã. Fahd e 
seus aliados da Arábia Saudita ofereceram-se para pagar os jogos seguintes, na 
Tailândia. Isso garantiu a influência necessária para dar o passo seguinte em seu 
plano. 
Na véspera dos Jogos de Bangkok em 1978, os organizadores anunciaram 
a participação de Israel. Mas prepararam uma armadilha. Quando os israelenses 
se inteiraram dos detalhes, descobriram que só poderiam mandar dirigentes para 
as cerimônias de abertura e encerramento. Nenhum atleta seria aceito. A IAAF 
ofendeu-se com esta demonstração ostensiva de anti-semitismo, e se recusou a 
reconhecer os eventos de atletismo, impondo uma suspensão de três meses aos 
atletas que participassem. 
O Sr. Sathiavan Dhillon, secretário-geral do comité olímpico nacional de 
Cingapura, e figura chave na política esportiva asiática, concordou em dar uma 
entrevista. Soubemos que ele lutara contra o controle árabe até onde foi possível. 
Mas, na entrevista, ele declarou: "O xeque Fahd é um grande líder do esporte, 
além de meu amigo pessoal. Conhecemo-nos há alguns anos, em Bangkok, 
quando reescrevíamos a constituição da Federação Asiática, para estudar um 
modo de realizar os Jogos de 1978 em Bangkok sem criar problemas com a IAAF 
por causa da exclusão de Israel. 
"Depois de muitos debates e discussões, resolvemos que Israel ficaria de 
fora, apesar das represálias da IAAF contra a Ásia. Nossa posição foi 
comunicada, e a IAAF adotou algumas medidas — muito superficiais." 
Tendo desafiado a IAAF, Fahd levou mais quatro anos para montar sua 
nova organização. Seus esforços foram lubrificados com uma nova onda de 
recursos. No final de 1980, num período de doze meses, o Kuwait ofereceu-se 
para sediar e bancar os Jogos Asiáticos futuros, além de prometer US$ 15 
milhões para os jogos seguintes, previstos para Deli em 1982. Seus aliados nos 
Emirados Árabes ajudaram, prometendo financiar os Jogos Mediterrâneos em 
Casablanca, em 1983. 
Fahd tinha outro motivo para tanta generosidade. Depois de descobrir 
como era fácil controlar a Ásia, ele ambicionava entrar para o Clube. Não 
encontrou maiores dificuldades em comprar sua participação no COI. 
O Kuwait capitalista e conservador procurou os inimigos de Israel. Acordos 
esportivos foram fechados com a Hungria, china e URSS. Mais dinheiro do 
petróleo pressionou os pontos sensíveis, e em março de 1981 o novo presidente 
Samaranch viajou pêlos países árabes do Golfo. Fahd o acompanhou, 
argumentando que os países árabes mereciam mais um representante no COI, e 
quem mais capacitado do que ele mesmo? 
Durante o verão de 1981 Fahd foi apontado como provável membro do 
COI, e eleito na sessão de setembro, em Baden-Baden. Os israelenses, mantidos 
fora do COI para evitar constrangimentos para os ricos árabes, observou tudo 
impotente. 
Apenas um país tentou reagir quando as muralhas do gueto foram 
erguidas. Em um congresso especial da IAAF em Roma, no mês de agosto de 
1981, quando Nebiolo assumiu o poder, o Japão apoiou o pedido israelense de 
abandonar a área asiática. Israel queria passar para a Europa. Ali, sem 
discriminações, poderia comparecer a reuniões internacionais. A proposta 
japonesa foi derrotada. Para completar, a IAAF reconheceu a Palestina. 
O cenário estava montado para o sucesso dos Jogos Asiáticos em Deli, no 
final de 1982, a ser coroado com a criação da organização olímpica pessoal de 
Fahd. Ele controlava os votos do Golfo Árabe, e contava com o apoio de 
Bangladesh, índia, Paquistão e Nepal. Com o reforço da China, Coréia do Norte e 
Mongólia, que o acompanhariam por causa da campanha contra Israel, garantiria 
a maioria necessária. Israel tinha amigos na Ásia, mas eles não tiveram coragem 
de se manifestar. 
Os organizadores indianos deram novas desculpas para a exclusão de 
Israel. Insistiram que não seriam capazes de providenciar a segurança 
indispensável. Como os israelenses sempre viajam com uma equipe de 
segurança armada, o argumento tinha pouco peso. 
Fahd e os árabes não faziam segredo de seus planos, e em maio de 1982 
a diretoria executiva do COI autorizou Samaranch a discutir com os indianos a 
exclusão de Israel. Era tarde demais. O dinheiro já fora pago. Dois meses antes 
dos Jogos de Deli os israelenses pediram a Samaranch, diretamente, em uma 
reunião das federações internacionais em Mônaco, que tentasse de novo. 
Samaranch inventou uma de suas soluções "diplomáticas". 
Um mês antes da abertura dos Jogos de Deli os organizadores avisaram 
que pretendiam retirar o pedido de patrocínio olímpico. Assim, não haveria a visita 
tradicional do presidente do COI, marcando a aprovação do evento. Entretanto, 
haveria um visitante chamado Juan António Samaranch, em caráter particular, 
que ficaria apenas "um período bem curto." 
Durante esta visita "particular e curta", Samaranch deu um jeito de se 
reunir com o presidente Singh, a primeira-ministra Indira Ghandi e o ministro de 
esportes da índia. Deu entrevista coletiva e visitou diversas instalações 
esportivas. Recebeu a chave da vila dos atletas, passeou com os organizadores 
dos jogos e com os dois membros indianos do COI, além de comparecer a um 
jantar para 500 pessoas. A visita recebeu cobertura completa na Review, sem 
referências ao escandaloso desprezo pela Carta Olímpica que rolava nos 
bastidores. Apesar do COI ter retirado o apoio aos Jogos, dez membros do COI 
compareceram ao evento, liderados pelo presidente do atletismo, Primo Nebiolo. 
Terminados os Jogos, a política transferiu-se para os bastidores. A 
Federação Asiática foi enterrada, dando lugar a um novo órgão, grandiosamente 
batizado de Conselho Olímpico da Ásia (OCA). Israel, fora de Deli, não pôde pedir 
admissão, ao contrário de todos os países fronteiriços. O orçamento da nova 
organização foi estabelecido: US$ l milhão por ano, apesar do OCA, como ficou 
conhecido, não ter fundos. O xeque Fahd ofereceu-se para conseguir o dinheiro, 
e como era de se esperar, elegeu-se presidente. 
O Sr. Dhillon, de Cingapura, declarou: "O OCA foi criado basicamente para 
atingir Israel, como um instrumento político. Se alguém estudar a história de Fahd, 
perceberá que ele sempre abraçou a causa palestina." 
Outro alto dirigente esportivo asiático, que preferiu não ter seu nome 
publicado, declarou: "A destruição da Federação Asiática foi planejada pêlos 
países árabes produtores de petróleo. Infelizmente, nada pudemos fazer, e Israel 
acabou fora do OCA." 
Ele também contou como Fahd conquistou votos decisivos: "Os árabes não 
se sentam, formam um grupo nas reuniões, e tentam evitar a votação secreta. 
Espalham-se pelo salão, e ficam por perto das pessoas que subornaram. Quandochega a hora de votar, pressionam as pessoas, e os braços se erguem. Em 
determinada ocasião um deles ergueu as duas mãos, e na hora da contagem des-
cobrimos mais votos do que delegados. 
"Comentava-se que eles pagaram suborno. Era um segredo de araque. O 
dinheiro do petróleo é irresistível para os países mais pobres." 
O Sr. Dhillon, de Cingapura, não tem tanta certeza do suborno. Ele 
declarou: "Não há provas. Apesar de ter ouvido histórias, não posso afirmar que 
isso ocorreu. Quem recebe suborno não comenta o assunto. Alguns acreditam 
que houve compra de votos, mas pode-se ver a questão por outro ângulo. O 
xeque Fahd ajudou financeiramente os países mais pobres, pagando passagens 
aéreas e diárias aos delegados. Em outras palavras, foi um auxílio, não um 
suborno. Prefiro que digam que ele possibilitou aos países mais pobres o envio de 
representantes, o que não pode ser chamado de suborno." 
A única coisa que poderia ter impedido Fahd de controlar o OCA foi seu 
surpreendente comportamento na Copa do Mundo da Espanha, quatro meses 
antes. Ele gastou cerca de US$ 4 milhões para preparar seu time de futebol para 
a maior Copa do Mundo de todos os tempos, e queria garantir a classificação. 
O sucesso do Kuwait nas eliminatórias regionais foi, pelo menos numa 
ocasião, controverso. Pertenciam ao grupo Ásia-Oceânia. e o Kuwait jogou quase 
todas as partidas em casa. Por coincidência, Fahd recentemente se elegera 
tesoureiro da Confederação Asiática de Futebol. Em casa, o Kuwait derrotou a 
Tailândia, Malásia e Coréia do Sul. 
Depois o time viajou para Auckland, na Nova Zelândia, país que não quis 
abrir mão do mando de campo, e recusou o oferecimento de uma viagem com 
todas as despesas pagas para jogar no Kuwait. As estatísticas do jogo, com 33 
faltas e 2 pênaltis para o Kuwait e 10 faltas para a Nova Zelândia enfureceu a 
torcida local, que atirou latas de cerveja contra os dirigentes. O Kuwait ganhou de 
2 a 1. 
Na Espanha, o Kuwait jogou contra a Tchecoslováquia e depois contra a 
França. O jogo terminou em desastre. A França marcou o quarto gol, mas o 
Kuwait reclamou, dizendo que um apito na torcida foi confundido com o do árbitro 
e levou os jogadores a deixar a bola entrar. 
Fahd entrou em campo para protestar, e foi vaiado. Mais tarde um 
comentarista disse: "Para dizer a verdade, o xeque só trata as pessoas como lixo 
quando alguém discorda dele." O Kuwait recebeu uma multa de 7 mil libras, e 
Fahd uma censura por "conduta antiesportiva". A nota triste ficou por conta dos 
jogadores, que conseguiram um progresso admirável para um país tão pequeno, 
chegando às quartas-de-final na Olimpíada de Moscou. 
A versão de Fahd para o jogo na Espanha saiu em uma nova revista, 
chamada Continental Sports, lançada em Paris no final de 1982. Editada por um 
refugiado etíope, Fekrou Kidane, teria sido financiada por Fahd. Dois meses 
depois do vexame de Fahd na Espanha, o editor escreveu: "a imprensa, que se 
alimenta de sensacionalismo, aproveitou rancorosamente a oportunidade para se 
vingar dos aumentos no preço do petróleo. Ele foi criticado porque era irmão do 
emir do Kuwait." Segundo Kidane, tudo não passava de "racismo disfarçado". 
Kidane também disse que os políticos, na Copa da Espanha, receberam lugares 
melhores do que os membros do COI e da FIFA, o que soou suspeito. 
 
Parecia despeito de Fahd. 
No final de 1982, o jornal alemão Welt am Sonntag publicou uma 
reportagem sobre Rudi Gutendorf, ex-membro da Bundes-liga. Ele acusou Fahd 
de tentar manipular o resultado do jogo entre o Kuwait e o Nepal, no ano anterior. 
Gutendorf, na época consultor da Federação de Futebol do Nepal, afirmou que 
dois emissários do xeque ofereceram a ele um emprego de US$ 240 mil por ano, 
como técnico da Associação de Futebol do Kuwait, se ele desse um jeito do time 
nepalês perder de 8 a 0. 
O Kuwait precisava ganhar de oito a zero para se classificar para a final 
asiática do Campeonato Mundial de juniores. Aos 27 minutos do segundo tempo o 
Kuwait ganhava de quatro a zero. Aí começou uma briga, segundo Gutendorf 
provocada por um jogador do Kuwait. O jogo foi suspenso, 
Os escândalos no futebol só serviram para melhorar a reputação de Fahd 
no Kuwait, por enfrentar as grandes potências. Durante os três anos seguintes, 
ele embarcou em aventuras cada vez mais caras, todas pagas com recursos do 
estado. Mesmo sem pagar imposto de renda, inexistente no Kuwait, muitos 
cidadãos importantes ficaram preocupados com o total gasto por Fahd no 
financiamento de seu império asiático. 
A primeira decisão era a localização da sede do OCA. O Japão e outros 
países do Extremo Oriente não gostaram da sugestão de Fahd de pôr o OCA no 
Kuwait, no limite da região. Os votos foram comprados e o OCA ganhou sua sede 
na capital do Kuwait. 
Mas Fahd ainda enfrentava problemas relativos ao futuro do OCA. A 
organização não teria credibilidade, a não ser que recebesse o reconhecimento 
formal do COI. O tema constava da agenda da sessão do COI em 1983, a ser 
realizada em Deli, por sorte. Mais uma vez, os votos precisariam ser garantidos. 
Fahd teve uma idéia nova. 
O aparentemente infinito tesouro do Kuwait foi aberto, e Fahd anunciou 
que o país sediaria os primeiros jogos Afro-Asiáticos em 1985. Seria uma boa 
oportunidade para hospedar luxuosamente os dirigentes esportivos dos dois 
blocos continentais, e também os membros do COI que rodam o mundo 
constantemente, recebendo presentes, passagens aéreas de primeira classe e 
acomodações em hotéis cinco estrelas. 
O próprio Samaranch foi persuadido a parar no Kuwait, a caminho de Deli, 
e participar de uma reunião com o OCA e o Comité Olímpico Africano. Tendo seu 
novo membro árabe fazendo lobby vigorosamente, nos corredores, e graças ao 
silêncio dos amigos de Israel, a sessão do COI em Deli resultou na bênção oficial 
ao OCA, uma organização cuja única razão de existir era contradizer um dos 
pontos fundamentais da Carta Olímpica. As necessidades dos eleitores asiáticos 
não foram esquecidas. Em outubro de 1983, o Campeonato Atlético Asiático 
realizou-se no Kuwait. 
Para sua surpresa, Fahd descobriu que estava à beira da falência pessoal. 
Como muitos outros especuladores irresponsáveis do Kuwait, ele investiu na 
bolsa informal do país, o Suq al-Manakh. Os preços do petróleo subiram, bem 
como ações e outros papéis. Presumindo que os preços continuariam em alta, os 
especuladores kuwaitianos soltaram cheques pré-datados, pretendendo realizar 
seus lucros antes que os cheques caíssem nas contas. 
A única coisa a cair foram as ações, e Fahd ficou devendo US$ l bilhão. 
Felizmente encontrava-se em boa companhia. Muitos membros da família Al-
Sabah arriscaram e perderam. O prejuízo total foi estimado em US$ 90 bilhões. O 
governo — na verdade a família Al-Sabah — aceitou prontamente aprovar um 
pacote de socorro aos maiores perdedores. A oposição política, composta 
principalmente de famílias de negociantes que enriqueceram através da 
especulação financeira, não gostou. 
Fahd tinha seu próprio plano para recuperar a fortuna investida. Inabalado 
com a perda de US$ l bilhão, embarcou numa orgia de gastos que levou sua 
família à beira da ruína política. Uma fonte do Kuwait declarou: "Ele pedia dinheiro 
do Estado para projetos esportivos, deliberadamente aumentando os custos para 
se apropriar das sobras." 
"Desta forma, matava dois coelhos de uma só vez. Aumentava seu 
prestígio pessoal, pelas conquistas na política esportiva, e enriquecia. Ele alterou 
orçamentos, roubando milhões de dólares. Sem dúvida o governo sabia de tudo. 
Ele comentava os subornos com amigos, pois afinal de contas os dirigentes — o 
emir e o primeiro-ministro — eram o irmão e o primo! 
"Eles toleravam os subornos distribuídos pela Ásia, pois representavam 
prestígio para o Kuwait. E enquanto sua vaidade era satisfeita, ficaram quietos. 
Mas Fahd era um homem volátil, e dava escândalos quando contrariado. 
"Ele sabia subornar as pessoas, fosse no Kuwait ou no exterior.Checava o 
sujeito pessoalmente, para descobrir se o mais indicado seria doar instalações 
capazes de angariar mais prestígio para o dirigente esportivo em seu país, ou 
comprar o voto, com um suborno direto." 
O modo despreocupado com que Fahd se servia do dinheiro do estado 
enfureceu a oposição. Eles se ressentiam porque Fahd não trabalhava, vivendo 
de roubar os lucros do petróleo, que deveriam beneficiar o país como um todo. 
O primeiro ataque ocorreu em 1983, feito por Ahmed Al-Saadom, porta-voz 
do parlamento do Kuwait. Naquela época, a coleção de federações esportivas 
nacionais de Fahd incluía o boxe, handball e futebol. 
Al-Saadom propôs uma lei proibindo qualquer pessoas de ser presidente 
de mais de uma federação. Isso equivalia a uma declaração de guerra aos Al-
Sabahs pela oposição. A imprensa local, naquela época livre, publicou histórias 
criticando o xeque temperamental. Ele era conhecido como Fahd, o louco, e 
comentava-se que teria manipulado resultados de jogos de futebol no Kuwait. A 
batalha prosseguiu durante as eleições de 1985. Os Al-Sabah mantiveram o 
controle, mas não conseguiram calar seus críticos. 
O novo parlamento iniciou uma investigação sobre as questões financeiras 
de Fahd, mas ele se recusou a dar explicações. Outros membros da família real 
entraram na lista de suspeitos de desvio de verbas, e em 1986 o emir suspendeu 
a constituição, fechou o parlamento, ordenou rigorosa censura à imprensa e pas-
sou a governar por decreto. Desde então não houve mais eleições, e mais 
nenhuma pergunta constrangedora do parlamento. Nem mesmo as diwanias, 
grupos tradicionais de discussão, foram poupadas, sendo desbaratadas pela 
polícia até a época da invasão iraquiana. 
Com a abolição da democracia no país, o esporte tornou-se ainda mais 
politizado. Há três famílias importantes no Kuwait, e a família real Al-Sabah vive 
em conflito com as outras duas. Todas as quintas-feiras, dia tradicional para os 
jogos de futebol no Kuwait, ocorria uma batalha política no estádio Al-Arabi, 
localizado na frente do consulado britânico. Os Al-Sabahs controlavam o clube Al-
Arabi e outros dois. A oposição financiava três times, e quando clubes dos dois 
lados se enfrentavam, surgia a chance de infligir uma derrota metafórica ao 
governo. 
Os escândalos da família Al-Sabah foram largamente noticiados na 
imprensa estrangeira, mas ignorados pela IOC Review. Há anos a revista 
publicava uma série irregular, chamada ''Figuras Influentes do Esporte". Fahd foi 
entrevistado, e proclamou: "Sou um voluntário, trabalho vinte e quatro horas por 
dia, sete dias por semana, quatro semanas por mês, doze meses por ano como 
voluntário do esporte. Graças a Deus não preciso de um emprego." O COI 
contribuiu para a manutenção do mito. 
Depois de abolir a democracia em casa, Fahd saiu em campanha para 
repetir o feito no exterior. Para manter o apoio dos países em desenvolvimento 
nos fóruns esportivos internacionais, ele precisava ser considerado um 
representante de seus interesses. 
Logo depois a Continental Sports, que com demasiada freqüência refletia 
as opiniões de Fahd, estava atacando a IAAF e seu sistema de votação, que 
privilegiava as nações mais antigas e tradicionais do esporte, donas de mais 
votos. Primo Nebiolo foi acusado de "presidir uma federação onde reina a 
demagogia e o cinismo". Isso, claro, era a pura verdade, mas Fahd demonstrava 
uma lamentável ignorância do mundo real da política esportiva. Longe de ignorar 
os países pequenos, Nebiolo buscava desesperadamente chegar ao sistema de 
um voto por país, de forma a poder diluir o poder dos países mais importantes, 
alguns dos quais se opunham intensamente a sua gestão. 
Para agradar o Terceiro Mundo, Fahd começou uma cruzada hipócrita para 
manter a "pureza das Olimpíadas". Enviou cartas a diversas organizações, 
afirmando que a admissão de atletas profissionais levaria à "total destruição dos 
Jogos". Convidou os dirigentes esportivos a "cerrar fileiras conosco para deter 
esta tendência devastadora". Era uma boa idéia: muitos países pobres, que 
enfrentavam sérias dificuldades para desenvolver o esporte, temiam que o novo 
profissionalismo estabelecesse padrões impossíveis de alcançar, para eles. Não 
se fazia menção às fortunas pagas aos jogadores do Kuwait quando estes 
ganhavam um jogo. A motivação de Fahd nada tinha a ver com o altruísmo. Sua 
ambição era conseguir uma vaga na diretoria executiva do COI, nas eleições 
marcadas para a sessão de Istambul em 1987. O apoio africano o ajudou, e Fahd 
recebeu 28 votos, mas acabou derrotado por Chiharu Igaya, do Japão. Vale 
observar que numa votação secreta, sem pressões, a maioria dos votos asiáticos 
tenha ido para Igaya. 
No ano seguinte haveria as Olimpíadas de Seul. Agora a coisa era séria, e 
mesmo realizadas na Ásia, haveria pouco espaço para Fahd. Sua única 
contribuição marcante foi um protesto a Samaranch quando a capital de Israel 
apareceu no quadro de Seul como sendo Jerusalém. Os israelenses retrucaram 
dizendo que esta era a capital há 4 mil anos. 
Conforme sua vida se aproximava do final, ficou claro que Fahd conseguira 
pouca coisa fora do Kuwait. Seus "êxitos" no cenário internacional eram 
marginais, e quando se estudava o caso a fundo, os progressos no esporte 
asiático aconteceram apesar dos esforços de Fahd, e não por causa deles. 
Seu último capricho extravagante foi a realização dos Jogos da Paz e da 
Amizade, no Kuwait, em novembro de 1989. O evento teve a organização da 
Conferência Esportiva Islâmica, presidida pelo emir do Kuwait. O Iraque 
compareceu, e no futebol empatou com o Ira sem gols, o que foi um progresso, 
depois de oito anos de guerra. Samaranch compareceu, acompanhado de 
Havelange e vários membros do COI. Eles elogiaram o "espírito de disputa leal e 
respeito mútuo", e depois ouviram atentos quando Fahd recitou um poema escrito 
para a ocasião. O Kuwait fez questão de mostrar aos vizinhos árabes quanto 
dinheiro poderia ser desperdiçado no esporte, providenciando hotéis cinco 
estrelas para os competidores e limusines para jornalistas. A reportagem da 
Review levou a assinatura de Fekrou Kidane, e afirmava, sem surpresa, que o 
evento alcançou "um sucesso estrondoso". Ele também revelou que se formara 
um comité para os próximos jogos. Por aclamação, escolheram Fahd para presidi-
lo. 
O presidente do COI, Samaranch, fez outra viagem ao Oriente Médio, em 
1990. Esteve pela última vez com o xeque Fahd em Ama, e viajou com ele pela 
região. Acabaram no Kuwait, onde Fahd organizara uma conferência para discutir 
"o apartheid e o espírito olímpico". Um assunto estranho para se debater, 
levando-se em conta os milhões gastos por Fahd para discriminar Israel, aliás 
com êxito. Mas ajudou a manter o apoio africano. 
Dois meses depois Fahd concentrou-se na FIFA. Em uma reunião da 
Confederação Asiática de Futebol, ele foi nomeado vice-residente regional na 
executiva da FIFA. Um analista descreveu a eleição como "muito peculiar", e ele 
ganhou por dezessete votos a dezesseis. A campanha de Fahd foi descrita como 
"veemente". Dentro da mais pura tradição olímpica, ele fretou um Boeing para 
levar os eleitores à reunião de Bali. 
Foi o último triunfo esportivo de Fahd. Na noite de 2 de agosto de 1990 as 
tropas de Saddam Husseim entraram na cidade do Kuwait. Há várias versões 
sobre sua morte, e a verdade pode não surgir nunca. A versão oficial divulgada 
pela família Al-Sabah conta que Fahd morreu heroicamente, lutando contra o 
invasor. 
Mas a família não poderia saber com certeza, todos já haviam rugido. 
A versão mais aceita diz que a família não conseguiu encontrá-lo na hora 
da fuga, porque ele passara a noite em um estabelecimento conhecido localmente 
como "o bordel". Aparentemente ele saiu na rua de madrugada, viu as colunas de 
tanques e foi ao palácio real de Dasman para descobrir o que estava aconte-
cendo. Discutiu com as tropas iraquianas e um franco-atirador o acertou na nuca. 
O que aconteceria com o OCA depoisda morte de seu líder e 
patrocinador? Os delegados presentes ao congresso de Pequim, dois meses 
depois, ficaram atônitos quando a delegação árabe chegou com o jovem filho de 
Fahd, Ahmad, à frente, exigindo que substituísse o pai! 
Enquanto isso, no Kuwait, a resistência local lutava corajosamente contra 
os invasores. A família real se instalara em segurança na localidade saudita' de 
Taif. Ignorando as prioridades da guerra, Ahmad, aos 25 anos, sem nenhuma 
experiência em administração esportiva, conseguiu se "eleger" presidente do Co-
mité Olímpico do Kuwait, ao se cansar do exílio na cultura restrita da Arábia 
Saudita, ele se mudou para Londres, e passou a planejar a maneira de herdar os 
cargos do pai. 
Os representantes asiáticos no OCA ficaram furiosos. Se tivessem 
conseguido votar imediatamente para a presidência, o poder árabe poderia ter 
sido quebrado. "Não somos uma monarquia", disse um delegado. As tradicionais 
táticas persuasivas dos dirigentes árabes foram acionadas, numa tentativa de 
adiar a eleição até que tivessem certeza da vitória. Ahmad declarou aos jor-
nalistas: "Eu não quero que a votação se realize em Pequim, para não ameaçar a 
unidade do esporte asiático, embora eu tenha uma maioria de 24 votos a meu 
favor." Ele tinha razão. As medidas costumeiras foram tomadas, e finalmente um 
congresso do OCA aprovou o adiamento da eleição para a reunião seguinte, dali 
a seis meses, na Arábia Saudita. Mas o controle anterior perdia força, e durante o 
ano de 1991 novas reuniões foram marcadas e desmarcadas, porque o grupo de 
Fahd ainda não garantira a vitória. 
Pela primeira vez vários delegados asiáticos deram entrevistas. Um 
presidente do NOC disse sem rodeios: "Eles nos compraram e nos enganaram". 
Enquanto isso, o OCA mudou para seu novo endereço. A revista do organismo, 
Horizons, cheia de fotografias do falecido Fahd e seu ambicioso filho, foi 
publicada na sonolenta estância balneária inglesa de Eastbourne, onde o se-
cretário pessoal de Fahd, Abdul Muttaleb Ahmad se refugiara. 
O jovem xeque Ahmad compareceu à sessão do COI em Birmingham, em 
junho de 1991, sugerindo claramente que seria melhor para o COI nomeá-lo para 
ocupar o lugar do pai. O presidente Samaranch o saudou. Numerosos membros 
do COI apareceram na frente das câmeras da televisão do Kuwait para dizer que 
lamentavam a morte de Fahd, uma perda para o movimento olímpico. 
Em agosto de 1991 David Miller, do Times de Londres, enviou reportagem 
de Seul, dizendo que haveria um racha no OCA, entre os grupos asiáticos e 
árabes. Ele se referiu à atitude "desprendida e altruísta de Fahd, que manteve a 
unidade do OCA", e depois escreveu que os sul-coreanos, como muitos países 
asiáticos do Pacífico, estavam cansados da hegemonia árabe. Eles reclamavam 
que "as reuniões eram adiadas, as pautas nunca definidas, as contas do Fundo 
de Solidariedade perdidas, e as comprovações de despesas jamais apareciam." 
Estas críticas incomodaram os árabes, mas não detiveram sua obstinação 
em arranjar um jeito de impor o jovem xeque Ahmad ao OCA. Como as regras do 
OCA proibiam que qualquer pessoa com menos de 35 anos assumisse a 
presidência, enfrentavam um problema. Isso parecia tirar o jovem Ahmad de 
cena. Após uma cuidadosa leitura da constituição do OCA, descobriram uma 
cláusula estabelecendo que tal disposição poderia ser revogada por maioria 
simples. Ou seja, bastava reunir votos suficientes. 
No outono passado, os adiamentos prosseguiram, enquanto tentavam 
reunir votos para ajudar o filho de Fahd. Um dirigente do sudeste da Ásia 
declarou: "O OCA seguia à deriva, sem um comando central. Creio que o OCA 
deve voltar à sua antiga estrutura de Federação Asiática. A concentração 
excessiva do poder nas mãos do presidente causou muitos danos. 
"Seria lamentável se os países árabes impusessem o filho, só pelo amor ao 
poder. Esta é a razão para uma ação conjunta dos países do leste e do sudeste 
da Ásia. Devemos falar em conjunto, e lutar pelo desenvolvimento do OCA. 
Precisamos impedir as ir-regularidades e outro atos errados." 
O diplomático Sr. Dhillon, de Singapura, declarou: "Acho que perdemos um 
grande homem, sinto muito sua falta, e no momento o organismo debate quem 
deve assumir a liderança. Por isso há discussões, várias pessoas desejam 
modificar o esquema de liderança. Não querem que um dirigente passe tempo 
demais na presidência — talvez um mandato máximo de oito anos." 
Numa tentativa de impedir um golpe do xeque Ahmad e seus milhões de 
petrodólares, os comitês olímpicos nacionais do Leste da Ásia — China, Japão, 
Coréia, Mongólia, Taiwan e Malásia — reuniram-se em Tóquio no dia 15 de 
setembro de 1991, e discutiram o problema durante nove horas. Todos assinaram 
uma resolução criticando a maneira como o xeque Fahd dirigia o OCA, que 
tratava como um brinquedo pessoal. O documento afirmava: "O OCA está em 
desordem. Muitas irregularidades e anomalias surgiram. Os principais problemas 
são a concentração excessiva de poderes na presidência, irregularidades 
administrativas no programa de Solidariedade Olímpica e descaso na organização 
de pautas e implementação das decisões da diretoria e da Assembléia Geral." 
Eles exigiam que uma reunião extraordinária do OCA, marcada para dali a 
uma semana, em Deli, fosse adiada até que a organização preparasse a 
assembléia geral marcada para dali a três meses, no Japão. Receberam o apoio 
tardio de Samaranch, que enviou um telegrama sugerindo que o OCA ouvisse as 
nações da Ásia. 
Foram ignorados. O Kuwait comprara votos em número suficiente, e 
ansiava para elevar o jovem xeque ao trono. Uma semana depois, no sábado, 21 
de setembro de 1991, os delegados do OCA reunidos em Deli elegeram o xeque 
Ahmad para a presidência, por unanimidade. 
Man Lip Choy, secretário-geral do comité olímpico da Coréia, ainda 
demonstrava raiva quando deu uma entrevista, poucos dias depois. A maioria dos 
dirigentes esportivos asiáticos com quem conversamos na Ásia pediam que não 
fossem identificados antes de revelar seus sentimentos. Não foi o caso do 
corajoso Sr. Choy. Ele fez questão que citássemos seu nome. 
"Por nove anos o xeque Fahd não fez nada, e mesmo assim havia um 
sentimento forte entre os países do leste da Ásia, como China, Coréia e Japão, 
impedindo a manifestação das opiniões, porque tinham medo dos árabes. 
"Muitos acreditavam que era hora de mudar a liderança, porque os países 
árabes são pequenos, não devemos ignorá-los, mas pouco praticam esporte, e 
não permitem que as mulheres o pratiquem. Se tivessem feito algo para aprimorar 
o esporte na Ásia tudo bem, mas não fizeram nada. 
"Temos dezoito ou vinte países no sudeste da Ásia. Nos Jogos Asiáticos, 
poucos países árabes participam — mandam por volta de cinco pessoas. Há 
também problemas com o fundo de solidariedade do COI. Precisamos montar um 
projeto, mas eles simplesmente não fazem nada. Quanto ao dinheiro, não 
prestam contas de nada ao OCA. 
"Os países do oeste da Ásia foram praticamente todos subornados. Eles 
pagam aos delegados — entre US$ 25 mil e US$ 50 mil, chegando às vezes a 
US$ 100 mil. A cada eleição eles fazem os pagamentos e esperam que as mãos 
dóceis se ergam." 
O Sr. Choy forneceu uma lista de dirigentes olímpicos que, segundo ele, 
recebiam propinas. Depois nos contou detalhes estranhos da reunião em Deli, 
onde o xeque Ahmad se elegeu. Inevitavelmente, mesmo com mais da metade 
dos delegados comprados, o problema da idade de Ahmad foi levantado. Como 
fazer?, perguntaram alguns. Ele é dez anos mais moço do que o mínimo exigido 
pelas regras, 35 anos. Este problema foi solucionado pelo Sr. C. L. Mehta, há 
muito secretário-geral do OCA, além de amigo íntimo do falecido xeque Fahd. 
O Sr. Choy explicou: "O xeque Ahmad não falou nada. O secretário-geral 
Mehta disse: 'Ele pode ter 32, ou pode ter 35.' Foi tudo. Mas o pai tinha 45 anos 
quando morreu. Creio que Mehta quis dizer que não havia maneira de estabelecer 
a idade do filho. 
"Eu disse ao xeque Ahmad naíndia, pouco antes da eleição, sem rodeios: 
Entenda, meu amigo, conheci seu pai, estive por duas vezes em sua casa. 
Gostava de seu pai no início, mas depois ele não realizou nada. Agora você tenta 
desrespeitar a constituição, mas não estamos numa monarquia. Tem um longo 
caminho pela frente. Prove que é competente, e dentro de quatro anos, se provar 
sua capacidade, eu o apoiarei. Ahmad não respondeu. 
"Vamos tomar providencias, mas creio que os japoneses estão um pouco 
temerosos, os Jogos Asiáticos se aproximam. Os chineses esperam sediar as 
Olimpíadas no ano 2000, de forma que não se comprometerão. Quanto a nós, 
queremos justiça. 
"Se vocês não escutarem, e a predomínio árabe injustificado continuar, 
creio que surgirá um sentimento forte contra a nossa participação no OCA. Não 
passa de uma monarquia, agora, apenas isso. 
"Nunca mais comparecerei a uma reunião do OCA. Avisei minha equipe de 
que isso não tem nada a ver com o movimento olímpico. Pessoalmente, prefiro 
ficar de fora. Não vejo futuro neste tipo de ambiente. Só a política suja do jogo do 
poder." 
Perguntamos ao Sr. Choy como o COI via a crise no OCA. Ele respondeu: 
"Não sei. Samaranch deveria saber de tudo, pois Zen-liang He, da China, esteve 
em Tóquio conosco, e depois seguiu para a reunião da diretoria executiva do COI 
em Berlim. Ele deve ter feito um relatório a Samaranch. Ele tornou o xeque Fahd 
membro do COI, e a responsabilidade pelo problema é dele. Creio que o COI 
deveria ameaçar não reconhecer o OCA agora. Se Samaranch fizesse isso, 
ajudaria muito." 
Outro importante dirigente olímpico do oeste da Ásia disse: "O presidente 
Samaranch não apóia Ahmad, mas quer nossa união. O COI pressionou para que 
houvesse uma eleição pacífica, em harmonia. 
"Ahmad não tem experiência na administração esportiva, mal domina o 
inglês, não conhece esporte direito e lhe faltam muitas outras coisas. Não sabe 
fazer nada, na verdade. Havia uma pequena chance de derrotar Ahmad, mas 
agora o OCA tornou-se uma monarquia. Tal pai, tal filho." 
Mas a herança do novo monarca já começa a se desfazer. Os países do 
leste da Ásia — as nações mais importantes do OCA, do ponto de vista esportivo 
— estão cansados. Em novembro de 1991 anunciaram a realização dos Primeiros 
Jogos do Leste da Ásia, em Xangai ou Pequim, em 1993, repetidos a cada dois 
anos. O comportamento do xeque Ahmad e seus partidários foi considerado tão 
escabroso que países antagônicos como Taiwan e China, ou Coréia do Sul e do 
Norte entraram na aliança para salvar o esporte na região. O império asiático de 
Ahmad, sem China, Japão, Coréias, Taiwan e Hong Kong perde credibilidade. O 
anúncio de um novo evento regional ocorreu simultaneamente com uma 
reportagem da IOC Review informando que o xeque Ahmad fora "eleito por 
unanimidade para a presidência do OCA." 
O xeque Fahd não era um mau sujeito. Mas, rodeado de bajuladores e 
atordoado pela riqueza, nunca teve a chance de compreender os valores 
olímpicos. Ganhou prestígio em sua comunidade, tornando as coisas difíceis para 
os israelenses. Mas não era um anti-semita violento. Uri Afek, do comité olímpico 
israelense, nos contou: "O xeque Fahd se dirigia a nossos representantes com 
toda a cortesia, nas reuniões. Mesmo assim, não resta dúvida de que fez todas as 
tentativas para eliminar Israel para sempre de todas as atividades na Ásia," 
Fahd foi vítima de sua família corrupta, que aboliu a democracia em seu 
próprio país para não prestar contas de gastos. Também foi vítima do COI, que se 
curvou a seu poder e nunca teve coragem de afirmar que o poder deles era maior, 
e dotado de estatura moral. 
A Carta Olímpica proclama que o COI "combate qualquer forma de 
discriminação que interfira no Movimento Olímpico", e que se "dedica a garantir 
que prevaleça o espírito da disputa justa". Samaranch e os membros do COI 
ignoraram suas próprias regras. Difícil não acreditar que tiveram dificuldade em 
abrir mão dos benefícios distribuídos pelo OCA de Fahd, em caráter privado ou 
público. 
O COI deveria recusar o reconhecimento do OCA racista de Fahd, e dar 
aos países membros a escolha de parar de utilizar o esporte como arma política 
contra outros países ou ficar fora do movimento olímpico. 
Não surpreende muito que o COI, dirigido por um homem que tolerou a 
discriminação contra Israel nos Jogos Mediterrâneos, estivesse preparado para 
tolerar o OCA, cuja razão para existir era excluir Israel do esporte mundial. 
Quando o COI reconheceu o OCA em 1983, deram um aviso ao mundo: Os 
princípios olímpicos podem ser abandonados quando o candidato é 
multibilionário. 
 
11 
AS PEDRAS NA BOTA 
 
Cada Olimpíada tem seu slogan. Em 1988, para Seul, a escolha recaiu em 
"Harmonia e Progresso", uma frase muito ao gosto do líder militar Chun Doo 
Hwan. Quando Seul foi escolhida para sediar os Jogos, ele anunciou que o papel 
das Olimpíadas seria o de "restaurar a ordem". Na Coréia isso significa gás 
lacrimogêneo, cassetetes de borracha e tiros. Os militares aplicaram a receita 
amplamente, nos sete anos dedicados à organização dos Jogos de Seul — o 
evento que o presidente Samaranch diz "unir as pessoas em paz, para o benefício 
da humanidade". 
Os coreanos tinham um segundo slogan: "O mundo em Seul, e Seul no 
mundo". Ou seja, "vamos aos negócios". 
Cada Olimpíada tem seu mascote. Seul escolheu o tigre, um animal nobre 
transformado em brinquedinho de pelúcia com um boné alpino incompreensível. 
Cada Olimpíada possui um emblema oficial. Em Seul "modificou-se" um 
tradicional símbolo coreano. O original representava a harmonia entre homem, 
céu e terra, no universo. Os especialistas em relações públicas o refizeram, para 
indicar "o progresso por intermédio da compreensão e da paz". 
A paz é uma palavra popular nos discursos esportivos, embora não se 
registre nenhuma guerra evitada, nem nações aproximadas permanentemente 
pêlos Jogos. Quando a tocha olímpica se apagou, os Jogos de Seul foram 
declarados um "tremendo sucesso", uma volta ao "ideal olímpico". 
Os Jogos de Seul nasceram com o desejo da junta militar de melhorar sua 
imagem de brutalidade e abrir novos mercados para a dinâmica economia do 
país. Os coreanos tiveram a sorte de disputar a indicação numa época em que 
poucas cidades queriam correr o risco de boicote ou falência. Ganharam graças a 
erros dos rivais, votos conseguidos por Dassler e a capacidade política invejável 
do Dr. Un Yong Kim. O Dr. Kim, um advogado empresarial quieto, troncudo, é 
exatamente o que parece: alguém capaz de matar com as mãos nuas. 
Atualmente o Dr. Kim, membro destacado do Clube, senta-se à direita de 
Samaranch, como candidato a herdar o cargo de presidente em Lausanne. 
O Dr. Kim não faz segredo de seu passado. Admitiu ter dirigido as forças 
de segurança da presidência. Esta unidade protegia o presidente Park Chung 
Hee, que governou o país com muita brutalidade e nenhuma democracia, durante 
quase vinte anos. Foi assassinado em 1979, quando o Dr. Kim já trafegava em 
esferas mais altas. 
Mais tarde, a profissão do Dr. Kim recebeu o nome de ' 'diretor geral do 
gabinete da Presidência". Ele estudou em três universidades norte-americanos, e 
foi enviado a Washington, para as Nações Unidas e Londres, como diplomata. Em 
1973 fundou a Federação Mundial de Taekwondo, uma arte marcial ensinada a 
todos os escalões das forças armadas coreanas. Os recrutas aprendem a quebrar 
tijolos com um golpe da mão. 
O taekwondo recebe considerável apoio governamental na Coréia. 
Especula-se que o Dr. Kim, com sua mescla de inteligência considerável e 
destreza nas artes marciais, tenha sido e talvez ainda seja uma figura importante 
na CIA da Coréia. Em uma reunião do COI em Atlanta, em 1991, os 
organizadores ficaram surpresos quando o Dr. Kim ausentou-se para passar um 
dia em Fort | Benning, para "ficar com os colegas" do exército norte-americano. 
Conversamos com um ex-membro da CIA, Philip Liechty, que t; serviu na Coréia 
no final dos anos 1960.' 'É preciso levarem conta l o tipo de gente recrutada para 
a Força de Proteção Presidencial, a guarda pessoal do presidente Park", disse 
ele. "Naquele tem-| pó havia muitas tentativas de assassinato do presidente, 
cuidadosamente planejadas por grupos paramilitares, enviados da Coréia do 
Norte, e por isso ele se cercou de assassinos experientes. O ponto importante é 
que o homem encarregado de proteger o presidente num país assim precisa ter 
provado sua disposição de matar sem hesitação, para proteger o chefe, e ser 
capaz de fazer qual-H quer coisa que o presidente mandar. 
"Eles insistiam na lealdade absoluta ao presidente, recrutavam | gente sem 
idéias malucas de democracia ao estilo ocidental, capazes de dar a vida para 
proteger o presidente, cegamente obedientes, crentes que juravam estar fazendo 
o que era melhor para o país." 
Liechty, agente da CIA, também nos abriu os olhos para o papel do 
"esporte" chamado taekwondo. "Sei de muitas histórias, algumas de fontes 
confiáveis, indicando que a CIA usou, durante o governo Park, as escolas de 
taekwondo como base de operações e cobertura para agentes estrangeiros, 
particularmente aqui nos Estados Unidos. Houve um período em que alguns se 
envolveram, ao que consta, em seqüestros e remoção clandestina de estudantes 
coreanos que se opunham ao regime de Park, levando-os de volta para a Coréia. 
Há muitas evidências disso e operações similares, com envolvimento da KCIA, na 
década de 1970." 
Então, perguntamos, qual seria o papel do Dr. Kim no serviço secreto 
coreano? "Nunca tive contato com Kim, mas presumo que estivesse ligado às 
atividades da inteligência coreana", disse Liechty. "Como agente operacional, ou 
pelo menos na condição de amigo do pessoal da KCIA, cooptado para operações 
|; coreanas que procuravam exercer influência em áreas onde ele desempenhava 
funções internacionais. Baseando meu raciocínio das informações sobre seu 
passado na embaixada coreana nos Estados Unidos, em seus estudos nas 
universidades americanas, em seu papel de fundador da federação de taekwondo 
e em sua função na Força de Proteção Presidencial, eu diria que restam poucas 
dúvidas quanto a seu envolvimento, no passado, com atividades coreanas de 
inteligência no exterior. Esta é a forma mais branda que encontrei para definir 
minha opinião sobre seu possível passado na inteligência." 
O Dr. Kim tem credenciais únicas entre os organizadores de Seul. Foi o 
único coreano que conseguiu brilhar no cenário esportivo mundial. Associou-se a 
um empresário de Nova York, chamado Don Kalfin, dono da Sanshoe, 
importadora de calçados coreanos. Kalfin estava envolvido com um grupo da Cali-
fórnia que pretendia realizar os Jogos Mundiais em 1981. Estes jogos seriam uma 
reunião de todos os esportes não-olímpicos, algumas pessoas acreditavam que 
Kalfin se considerava uma espécie de Dassler americano, misturando venda de 
calçados com política esportiva. Com apoio de Kalfin, o Dr. Kim tornou-se 
presidente dos Jogos Mundiais. 
Os jogos enfrentavam problemas de financiamento, e os organizadores se 
voltaram para Patrick Nally. "O dinheiro não estava entrando, e eu fui chamado 
para ver se podia ajudar. Foi muito difícil, porque estava em cima da hora, mas 
levantei mais de US$ 100 mil, e já deu para realizar os jogos. 
"O Dr. Kim era um sujeito muito misterioso naquele tempo. Ninguém sabia 
direito qual seu poder ou influência dentro da Coréia. Começamos a conversar 
bastante. Creio que ele percebeu que Kalfin e a Sanshoe não eram os únicos que 
poderiam apoiá-lo. Ansiava obviamente por um desempenho grandioso no mundo 
do esporte internacional. 
"Ele convidou um monte de dirigentes esportivos para ir a Seul nos anos 
1970. Fazia parte do projeto de sediar as Olimpíadas. Eles precisavam convencer 
a comunidade esportiva internacional de sua capacidade de realizar os Jogos. 
Minha primeira visita foi surpreendente. Compareci ao ginásio do Dr. Kim em 
Seul, onde seus convidados assistiam a demonstrações impressionantes. Nunca 
tinha visto nada parecido em minha vida inteira de viagens. 
"Fui conduzido ao camarote VIP e acomodado em uma luxuosa poltrona 
bordada, para assistir os exercícios de taekwondo realizados por centenas de 
adolescentes e jovens coreanos. Jamais vira tanto movimento de tantos corpos 
em um só local, para uma platéia tão pequena." 
Em 1980 o Dr. Kim deu dois passos decisivos em sua carreira. O COI 
"reconheceu" o taekwondo, a mais agressiva e perigosa das artes marciais, e ele 
foi eleito para o conselho da Assembléia Geral das Federações Esportivas 
Internacionais — conhecida como GAISF. "Kim começou a conviver com os presi-
dentes internacionais mais importantes, e a perceber as possibilidades oferecidas 
pelo sistema", disse Nally. "E por meu intermédio, conheceu Horst." 
A cidade favorita para sediar as Olimpíadas de 1988 era Nagoya, no 
Japão, apoiada pela poderosa fábrica de automóveis Toyota. Os japoneses já 
haviam realizado os jogos de verão e inverno com sucesso. As chances de 
Melbourne, Atenas e Seul não eram das melhores. A Coréia, considerada uma 
ditadura militar instável, vivia em constante risco de guerra com os vizinhos 
comunistas do norte. 
Dassler avaliou os candidatos, levando em conta os benefícios para sua 
pessoa. Melbourne e Atenas não conseguiram decolar, de modo que a disputa se 
concentrou em Nagoya e Seul, e Dassler decidiu para quem deveriam ir os votos. 
"Seul possuía atrativos muito maiores do que o Japão, por várias razões", 
explicou Nally. "Primeiro, Horst não controlava os japoneses. Eles eram muito 
independentes. Horst falou com eles sobre cooperação, mas a reunião não correu 
muito bem. Arrogantes, tinham certeza de que ficariam com os Jogos. 
"A Coréia era diferente. Dispostos a cooperar, também fabricavam os 
equipamentos esportivos e calçados de quase todo mundo. Boa parte da 
produção da Adidas saía de lá, e Dassler conhecia bem os coreanos. 
Politicamente, tratava-se de um país importante para ele. 
"A vitória de Seul sobre Nagoya foi uma vitória de Dassler, a seu modo de 
ver, porque provou a ele que sua equipe política, com o coronel Hamouda, 
Chowdhry e outros, poderia pesar na balança. Foi a primeira vez que Dassler 
pôde provar que seu apoio fora decisivo para a escolha da sede das Olimpíadas." 
Outro associado de Dassler nos contou: "Antes da decisão, Horst dizia a 
nós que Nagoya ganharia. Mas no último momento ele passou para o lado de 
Seul, e deve ter dito para as pessoas que os japoneses eram arrogantes e não 
podia ficar do lado deles." 
Quando a votação foi realizada em Baden-Baden, no final de 1981, teve 
um resultado arrasador: Seul arrasou Nagoya, com 52 votos a 27. 
Contudo, havia uma questão constrangedora, que precisava ser varrida 
para debaixo do tapete. Os coreanos não apenas fabricavam roupas e sapatos 
para todo mundo, por encomenda. Produziam quase o mesmo tanto ilegalmente. 
Eram vigaristas. A indústria de falsificação na Coréia despejava no mercado cerca 
de US$ 10 bilhões por ano em imitações. Howard Bruns, presidente da 
associação dos fabricantes de equipamentos esportivos dos Estados Unidos 
disse: "A pirataria das marcas mais conhecidas tornou-se altamente sofisticada na 
Coréia do Sul. Pode-se comprar etiquetas e rótulos de quase todas as marcas 
famosas do mundo." Ele recebeu o incentivo da federação mundial dos 
fabricantes de equipamentos esportivos, que denunciou a Coréia como o maior 
fabricante mundial de produtos falsificados. Não acharam graça quando os 
funcionários do governo coreano olharam em seus olhos e disseram: "Não existe 
falsificação aqui." 
A situação se complicava ainda mais porque os coreanos, sempre 
protecionistas em relação a seu mercado interno, queriam usar as Olimpíadas 
como uma gigantesca vitrine para seus pró-J dutos. Não pretendiam promover o 
maior festival esportivo do: mundo, para a maior audiência de televisão, e divulgar 
marcas estrangeiras. A federação de futebol da Coréia deu o sinal, proibindo seus 
atletas de usarem marcasestrangeiras. O órgão responsável pelo esporte no 
país, a Associação Coreana de Esportes, proclamou que "usar marcas 
estrangeiras é vergonhoso". 
Quando passou a euforia pela vitória na indicação, os coreanos se 
defrontaram com alguns fatos duros. Por mais que tivessem recebido ajuda 
externa para sediar os jogos, agora precisavam montar uma equipe capaz de 
organizar as Olimpíadas. Além de arranjar o dinheiro. O fato de uma sociedade 
ser controlada pêlos militares ajudava a tomar decisões rápidas. Infelizmente, 
rechear o comité organizador das Olimpíadas de Seul com militares foi um 
desastre. 
O Dr. Rim tinha idéias próprias quanto à composição do comité 
organizador ideal. Segundo ele, deveria reunir "burocratas, militares, policiais, 
agentes de inteligência, esportistas, jornalistas e radialistas, diplomatas e até 
mesmo empresários". Um ano depois da escolha de Seul, o COI começou a 
temer que esta reunião de gorilas, policiais e burocratas não estava à altura da 
tarefa. 
A liderança do SLOOC era periodicamente despedida, ou, para livrar a 
cara, transferida para cargos decorativos. Novos nomes surgiam e desapareciam, 
até que o COI não sabia mais quem se responsabilizava pelo evento. Felizmente, 
os escalões inferiores mostravam competência. Sua capacidade de desviar recur-
sos do país garantiu a construção das instalações. 
Os coreanos calcularam que os custos seriam repostos pelo mundo 
agradecido, ansioso para inundar o país com pagamentos maciços das 
televisões. As três grandes redes norte-americanas — ABC, NBC e CBS — 
ficaram em estado de choque quando os coreanos anunciaram que o preço pêlos 
direitos televisivos ; para os Estados Unidos seria de US$ l bilhão. Isso 
representava mais de quatro vezes o valor pago (US$ 225 milhões) pêlos jogos 
anteriores, em Los Angeles. 'Tradicionalmente, os jogos de verão valiam cerca de 
duas vezes e meia os de inverno", disse um consultor dos coreanos. "Depois de 
Calgary, onde a ABC pagou US$ 300 milhões, os coreanos chegaram ao valor de 
US$ 700 milhões. Nos escalões superiores o total subiu, tornando-se não uma 
possibilidade, mas uma probabilidade. Depois virou uma meta, e finalmente o 
único valor aceitável. Eles criaram a desenvolveram esta expectativa irreal, 
ignorando totalmente quaisquer considerações sobre o mercado e a situação da 
televisão norte-americana naquele período." 
Os executivos da televisão americana disseram publicamente que as 
exigências de Seul estavam "completamente fora da realidade". Quando os 
coreanos abaixaram a cifra em US$ 300 milhões, um executivo da NBC comentou 
secamente: "Não há como se chegar a um total de US$ 700 milhões, após os 
cálculos financeiros". 
O vice-presidente do COI, Dick Pound, participante da equipe de 
negociações de Lausanne, declarou: "Os problemas eram graves, porque os 
coreanos superestimaram o valor dos direitos, e criaram uma expectativa 
impossível de ser realizada. 
"A isso somou-se a suspeita, quando se depararam com números muito 
menores do que o esperado, de terem sido enganados pêlos americanos por 
serem coreanos. Talvez o gigantes pisassem neles porque não passavam de um 
pequeno país asiático, sem noção da capacidade do mercado. 
"O terceiro problema estava na despesa excessiva da ABC na cobertura 
em Calgary, o que deixou a rede praticamente de fora. A CBS não entrava no 
esquema de transmissão das Olimpíadas desde Roma, em 1960, e sua cultura 
corporativa impedia que pagassem muito por direitos, embora estivessem no 
mês- • mo ramo das outra duas redes." 
Mas os coreanos não deram atenção aos argumentos dos norte- j 
americanos. Quando informados que cada rede tinha um orça-,:] mento anual de 
apenas US$ 2 bilhões, os coreanos continuaram suspeitando de trapaça. 
Um dos negociadores americanos declarou: "Os coreanos surgiam com 
números insanos. Eles chegavam e diziam que era o valor calculado, a NBC 
ofereceu US$ 325 milhões e participação na receita. A ABC e CBS ofereceram 
US$ 300 milhões. Os coreanos ficaram atônitos com estas propostas, e foi aí que 
descobrimos que a equipe de negociação deles não tinha nem liberdade para 
negociar. 
"Eles vieram de Seul com instruções para aceitar qualquer valor acima de 
US$ 500 milhões. Estávamos sentados à mesa de reuniões em Lausanne, e eles 
não podiam fazer nada, precisavam esperar horas até que amanhecesse na 
Coréia, para telefonar e pedir novas instruções. O Dr. Kim compareceu, mas não 
disse nada. Ficou sentado na poltrona, dormindo. Era um bando de inúteis 
fazendo nada." 
Finalmente Samaranch entrou em contato com o governo coreano e 
insistiu para que aceitassem a oferta de US$ 325 milhões da NBC. Relutantes, 
concordaram. Quando voltaram a se reunir, a NBC retirou a proposta. 
A consternação tomou conta do COI. Eles estavam ansiosos para aceitar o 
lance da NBC. Samaranch temia que a ambição coreana atrapalhasse o bom 
relacionamento com as redes americanas. Ele saiu do Château de Vidy, em 
Lausanne, para anunciar: "No que diz respeito ao comité organizador, o relaciona-
mento com as companhias de televisão termina com os Jogos. Para o COI, este 
relacionamento continua, e sempre dependeremos da boa vontade delas. O COI 
não tem interesse em elevar os preços até o infinito." O recado de Lausanne a 
Nova York era claro: o COI estava puxando o tapete dos coreanos. 
Quando o recado chegou ao governo coreano em Seul, eles r puxaram o 
tapete da equipe de negociações. O ministro de esportes foi chamado de volta a 
Seul, e o Dr. Un Yong Kim promovido à condição de principal interlocutor. 
Ele havia aprendido com os mestres. "Eu tinha um escritório Japão, e o Dr. 
Kim observava enquanto eu e meus cole-; fechávamos acordos com a televisão", 
contou Patrick Nally. 
"Ele acompanhava as vendas de direitos, e está na cara que aprendeu 
rápido. Começou puro e inocente, e tornou-se, de repente, o negociador - chefe 
do SLOOC. Era esperto, assimilou o que ensinamos. Frio, calculista e 
competente, aproveitava cada vantagem disponível." 
Dick Pound, líder das negociações do COI, lembra-se de que a última 
etapa de negociações com a televisão foi intransigente e mal-humorado. "Os 
detalhes dos contratos eram minuciosos. A NBC queria garantias de recuperar 
todo o dinheiro que gastariam antes dos Jogos, se algo saísse errado. Insistiam 
que as garantias oferecidas pelo Banco Central da Coréia não eram suficientes — 
queriam uma carta de crédito que fosse aceita por um consórcio de bancos norte-
americanos. 
"Tudo que diziam insultava os coreanos, e as negociações levaram meses. 
Não sabíamos, na tarde em que partimos para assinar o contrato em Lausanne, 
se haveria acordo. Foi assim, difícil". 
Eles selaram o trato com um mínimo de US$ 300 milhões, US$ 25milhões 
a menos do que os coreanos recusaram antes. Para salvar as aparências em 
Seul, a NBC ofereceu uma porcentagem nos lucros que poderia elevar os 
pagamentos a US$ 500 milhões — mas todos sabiam que isso jamais 
aconteceria. 
O poder real, atrás da equipe organizadora coreana, estava agora com o 
Dr. Kim. Ostentava o título de vice-presidente, mas todos os assuntos importantes 
passavam por ele. Depois de concluir as negociações com a televisão norte-
americana, vendeu os direitos para o resto do mundo. Foi nomeado chefe de 
relações internacionais, chefe do protocolo e finalmente convidado a controlar a 
organização dos eventos esportivos. O Dr. Kim se transformara no centro dos 
Jogos. 
Sua ambição era maior ainda. Queria entrar para o Clube. "Qualquer que 
fosse o assunto, ele dizia sim para todos, para ser convidado a participar do COI", 
disse um membro. Em novembro de 1985 abriu-se uma vaga no COI. O 
representante da Coréia, Chong Kyu Park, morreu de câncer, e menos de um 
anos depois o Dr. Kim prestava o juramento olímpico em Lausanne. Passaram-se 
mais nove dias e ele se elegeu presidente do GAISF. Uma ascensão notável no 
mundo dos esportes. 
A admissão do Dr. Kim no Clube aconteceu num clima de guerra civil. Em 
1987 o clima na Coréiaera similar ao das Filipinas, onde o "poder popular" 
derrubou a corrupta ditadura de Ferdinand Marcos. Em Seul e nas principais 
cidades coreanas, a classe média, as donas de casa, os trabalhadores e os estu-
dantes saíram às ruas para exigir eleições livres e o final do governo autoritário do 
presidente Chun. No início do ano ele anunciara que não haveria reformas 
constitucionais antes do final dos Jogos. Os protestos de rua transformaram-se 
em combates. 
Chun foi forçado a renunciar, a presidência foi reivindicada por seu braço 
direito, Roh Tae Woo, o padrinho dos Jogos. Ele liderara a campanha coreana, e 
presidira o comité organizador. No final do ano elegeu-se presidente. 
Os norte-coreanos ficaram furiosos quando Seul ganhou a indicação para 
sediar os Jogos. Tentaram arrastar os países comunistas a um boicote, como 
gesto de solidariedade. Os Jogos de 1988 corriam perigo? Samaranch entrou em 
ação. O diplomata amador, que conviveu constrangido com os profissionais de 
Moscou, tentaria conferir alguma substância ao título de V. Excia., que o COI 
sempre colocava antes de seu nome. De 1985 até a véspera das Olimpíadas, três 
anos depois, Samaranch dedicou-se a jogadas diplomáticas intermináveis, 
pulando de uma capital comunista para outra, visitando Pyongyang regularmente 
e recebendo delegações da Coréia do Sul e do Norte na residência oficial de 
Lausanne. 
Reportagens emocionantes surgiram em várias partes do mundo, 
sugerindo que Samaranch era um super-diplomata, lutando para salvar as 
Olimpíadas da destruição. Superficialmente, parecia uma cruzada contra o mundo 
real da política do poder. Mesmo comentaristas famosos, que deveriam saber das 
coisas, elogiaram a capacidade política de Samaranch. 
Tratava-se de uma charada. Os russos e alemães orientais emitiram sinais 
de solidariedade, mas de jeito nenhum ficariam de fora de mais uma Olimpíada. O 
boicote norte-americano reduzira a competição de Moscou ao Bloco Leste, e os 
comunistas ficaram em casa em 1984. Se não fossem a Seul, seus atletas es-
tariam fora das Olimpíadas por doze anos. Não poderiam permitir que dezesseis 
anos se passassem — de Montreal a Barcelona — antes de enfrentar os 
americanos novamente. Um boicote era impensável. Gerações de jovens estrelas 
surgiriam e desapareceriam antes que o Bloco Leste pudesse se apresentar na 
Espanha, em 1992. A moral nos campos de treinamento seria seriamente 
abalada, e a valiosa propaganda derivada dos montes de medalhas perdidas. 
Por mais que os países comunistas mais poderosos odiassem o regime 
militar de extrema direita de Seul, não fariam mais do que se solidarizar 
simbolicamente com a ditadura absolutista de Kim II Sung na Coréia do Norte. 
Mais importante de tudo, agora o poder do Kremlin se encontrava com 
Gorbachev. A perestroika e a glasnost entraram para o vocabulário ocidental, 
enquanto Gorbachev se dedicava a afastar a velha guarda. A URSS se dedicava 
à construção de vínculos sólidos com o Ocidente. 
O único incidente preocupante, capaz de prejudicar os Jogos de Seul, foi a 
derrubada de um jato de passageiros coreano pela Rússia, em 1983, quando 
sobrevoava o espaço aéreo soviético. Duzentas e sessenta e nove pessoas 
morreram, em sua maioria coreanos. Horst Dassler, num esforço para acalmar os 
ânimos e o pesar, promoveu um jantar particular em Beverly Hills, durante os 
Jogos de Los Angeles, com a presença dos dois representantes russos no CO! e 
o presidente Roh, do SLOOC. 
A imagem belicosa da Coréia do Norte causou preocupações legítimas 
quanto à segurança dos Jogos. Em novembro de 1987 um terrorista norte-
coreano colocou uma bomba num avião da Korean Airlines, no vôo Bagdá-Seul, e 
115 pessoas morreram na explosão. 
O público norte-americano ficou chocado. Os telefones começaram a tocar 
no Departamento de Estado, e os pais angustiados dos atletas selecionados para 
ir a Seul perguntaram o que Tio Sam faria para protegê-los. 
Clayton McManaway, na época trabalhando com contra-terrorismo no 
Departamento de Estado, declarou: "Preparamos instruções especiais da Agência 
de Segurança Diplomática para todos os atletas norte-americanos, antes que 
partissem para a Coréia. Depois meu setor coordenou o apoio governamental 
americano à segurança coreana nas Olimpíadas." McManaway pouco depois 
deixou o Departamento de Estado, para trabalhar em uma das mais discretas 
companhias particulares de segurança do mundo, o Fairfax Group, sediado na 
Virgínia do Norte, do outro lado do Potomac, em frente a Washington. A empresa 
foi contratada pela NBC para proteger os vários grupos de repórteres, técnicos e 
equipamentos em Seul. 
Um ex-agente do FBI, David Faulkner, também funcionário da Fairfax, 
disse: "Depois da bomba no avião, estávamos quase certos de que os norte-
coreanos tinham outros atentados planejados, mas ele foram pegos antes, e não 
podiam atacar. A maioria dos envolvidos com a segurança concluiu isso." 
O maior problema para as equipes da NBC era conseguir realizar seu 
trabalho. Seul encontra-se cercada de instalações militares, e isso provocava 
dores de cabeça para os câmeras. "Queríamos uma câmera bem no alto", contou 
Faulkner. "Mas se a focalizássemos no local errado, pegaríamos algo que não po-
dia ser visto. Por isso, os coreanos puseram soldados armados no alto do prédio, 
para garantir que a câmera se movesse somente o previsto. Eles mantinham o 
pessoal da NBC sob a mira de armas, e em uma ocasião ameaçaram atirar!" 
Nunca houve um perigo real de sabotagem dos Jogos por parte dos norte-
coreanos, depois de seu início. Milhares de camaradas seus do Bloco Leste 
encontravam-se em Seul, como competidores ou dirigentes, e seriam vítimas 
prováveis dos ataques terroristas. O governo dos Estados Unidos organizou três 
exercícios militares ostensivos, e encheu o mar em torno da Coréia de navios de 
guerra. Era um sinal óbvio para a Coréia do Norte não tentar nada. 
Conforme os Jogos se aproximavam, os norte-americanos ficaram 
preocupados com a possibilidade de uma missão terrorista de Pyongyang. A 
milhares de quilômetros de distância, no Quênia, a CIA correu um risco 
considerável para persuadir um agente da inteligência norte-coreana a desertar 
na véspera dos Jogos. Eles queriam saber se havia algum plano de sabotagem 
em curso. 
As autoridades sul-coreanas não deixaram nada por conta do acaso. 
Usaram os Jogos Asiáticos de Seul, em 1986, como ensaio para as Olimpíadas. A 
polícia prendeu um número assustador de pessoas, 263.564, durante a disputa. 
Explicaram que isso fazia parte de um "programa de purificação social". O 
exercício se repetiu na véspera das Olimpíadas, e milhares de dissidentes foram 
encarcerados em campos fora de Seul. Sem dúvida explicaram a eles que a 
detenção era parte da "Harmonia e Progresso". 
No que dizia respeito às medalhas de ouro, os organizadores de Seul se 
dedicaram ao progresso, em detrimento da harmonia. Dezoito meses antes dos 
Jogos, o ministro dos esportes da Coréia divulgou um relatório governamental 
afirmando que a nação sede ganharia mais de uma dúzia de medalhas de ouro — 
inclusive três no boxe. Depois que uma promessa temerária dessas foi feita, fi-
caria muito chato não ganhar as medalhas. 
A previsão do sucesso da Coréia no boxe não se baseava só no otimismo. 
O trabalho de base feito nos dois anos anteriores às Olimpíadas teve pouco a ver 
com os ringues. O resultado seria a cena mais vergonhosa transmitida pela 
televisão durante os Jogos, seguida de embaraço para o país sede e manchetes 
sobre corrupção. 
Desde 1986 o boxe amador era presidido pelo professor Anwar Chowdhry, 
do Paquistão, antes membro muito bem-remunerado da equipe política de Horst 
Dassler. Durante anos o boxe amador realizou reuniões graças à cortesia da 
Adidas na base francesa de Dassler em Landersheim. A Adidas era fornecedora 
oficial dos lutadores em Seul, e houve um escândalo ao lado do ringue quando 
um lutador surgiu na frente das câmeras usando uniforme fornecido por um 
concorrente.O professor Chowdhry não costuma mencionar suas ligações passadas 
com a Adidas. Em um perfil recente, divulgado pela revista de sua federação, com 
milhares de palavras, não se fez menção aos anos de pagamentos recebidos 
feitos pelo fabricante alemão de material esportivo. 
Chowdhry foi eleito para a presidência no congresso anual da federação 
em Bangkok, em novembro de 1986. No mesmo congresso, Seung-Youn Kim, da 
Coréia do Sul, elegeu-se vice-presidente para a Ásia. Kim, que comandava o 
comité de finanças da federação, tem a fama de ser um dos homens mais ricos 
do mundo. É conhecido internacionalmente por seu apelido, "Dinamite", por causa 
do pai, fabricante de munições. Kim — que não é parente do Dr. Un Yong Kim — 
presidia a Federação Coreana de Boxe Amador desde 1982, e ficou encarregado 
do boxe nas Olimpíadas. 
No período anterior aos Jogos, os coreanos tentaram subornar os juizes 
olímpicos. Um dos maiores problemas do boxe amador é garantir que os juizes 
sejam capazes de atuar corretamente na luta. Os juizes e árbitros potenciais das 
Olimpíadas foram convidados para um seminário em março de 1988 em Seul. 
Um membro da federação, presente ao seminário, contou: "Todos foram 
recebidos com pompa, ganharam pilhas de presentes e visitaram casas noturnas. 
Qualquer juiz do torneio poderia pedir o que quisesse. Alguns dirigentes se 
preocuparam muito, porque quando voltassem para julgar as Olimpíadas, os 
coreanos obviamente pediriam a contrapartida." 
Um juiz, o neozelandês Keith Walker, que mais tarde ocuparia as 
manchetes dos jornais, comentou que o nível dos presentes era "fenomenal". 
A cena que muitos telespectadores ainda se recordam aconteceu durante a 
luta entre os pesos-galo Jong-il Byun da Coréia e Alexander Hristov da Bulgária. 
O árbitro Keith Walker advertiu o coreano duas vezes, por usar a cabeça de modo 
perigoso, mas mesmo assim alguns observadores acreditam que ele foi muito 
complacente. Depois de três rounds os juizes declararam a vitória de Hristov por 4 
a l. Todos os especialistas consideraram o resultado justo. Mas os torcedores 
coreanos viram que mais uma esperança de medalha de ouro se perdera. O 
ginásio de Chamsil pegou fogo. O técnico da Coréia e outro dirigente entraram no 
ringue e começaram a espancar o árbitro. Receberam reforço de pessoas que 
puxaram os cabelos de Walker. 
Ele conseguiu escapar, foi para o aeroporto e pegou o primeiro avião para 
a Nova Zelândia, os coreanos derrotados promoveram um protesto, 
permanecendo no ringue por 67 minutos. As imagens do perdedor inconformado 
correram o mundo. A Coréia ficou numa situação ainda pior. David Faulkner, que 
cuidava da segurança dos comentaristas da NBC, contou: "A NBC repetiu a cena 
várias vezes, e os coreanos diziam que não tinha acontecido nada. Precisamos 
reforçar a segurança dos comentaristas da NBC nas lutas seguintes, porque a 
multidão tentou intimidá-los." O professor Chowdhry teve de admitir que se tratava 
"do incidente mais lamentável" que já vira. Veria algo pior, antes do final do 
torneio. Para aplacar a fúria da imprensa, foi anunciada a renúncia do presidente 
do boxe coreano, Seung-Youn Kim. As câmeras de televisão dedicaram-se a 
outros temas, mas os escândalos do boxe não pararam. No dia seguinte o peso 
meio-médio norte-americano Todd Foster derrubou o coreano Jin-chul Chung e 
concluiu que ganhara a luta. Chung disse que havia parado de lutar porque ouvira 
o gongo no ringue adjacente e se confundira. Os dirigentes do boxe determinaram 
imediatamente a anulação da luta, para irritação dos norte-americanos. Na 
revanche do dia seguinte Chung foi nocauteado no segundo round. O desespero 
começou a tomar conta da cena quando o peso pesado iugoslavo Havrovic 
perdeu do oponente coreano. Segundo os especialistas, o iugoslavo ganhou os 
três assaltos. A cena que conta melhor a história real do boxe em Seul ocorreu na 
última noite do torneio. Mostrava o médio-ligeiro coreano Park Si Hun, ganhador 
da medalha de ouro, levantando o homem que acabara de derrotar no ar, o norte-
americano Roy Jones. 
Os dois lutadores foram vítimas de um dos piores exemplos de trapaça já 
vistos nas Olimpíadas. Antes das finais, Park derrotara o italiano Vincenzo 
Nardieüo. A decisão surpreendeu muitos observadores, que davam como certa a 
derrota de Park. Nardiel-lo bateu o pé na lona com raiva quando o veredito de 3 a 
2 foi anunciado. 
O pior ainda viria. Na final Jones bateu em Park durante os três rounds. No 
segundo o coreano foi forçado a esperar a contagem até oito. No final da luta, o 
computador da NBC acusou 86 socos acertados por Jones, contra apenas 32 de 
Park. 
Os juizes russos e húngaros deram a medalha de ouro a Jones por 
diferenças enormes. Mas Jones perdeu. Os outros três juizes fizeram o oposto. 
O técnico norte-americano Ken Adams correu até a mesa do presidente e 
gritou para Chowdhry: "Eu não acredito. Você não vai ter coragem de dar a vitória 
ao coreano!" Chowdhry nem olhou para cima. 
O juiz britânico Rod Robertson, que assistia a luta, chamou o resultado de 
"desastroso". O alemão ocidental Heinz Birkle classificou o resultado de 
"criminoso", e o escocês Frank Hendry ficou "chocado". O presidente do boxe 
coreano considerou a planilha dos juizes "justa". 
Dirigentes dos dois países, inclusive alguns da Coréia, alegaram que os 
três juizes teriam sido subornados. A imprensa mundial encampou a denúncia. 
Usaram palavras como "fedor" e "corruptos". Park, medalha de ouro, afirmou que 
se envergonhava da vitória, e ergueu Jones no ar para deixar claro quem era o 
vencedor, em sua opinião. 
Em benefício da nação anfitriã, vale lembrar que 50 mil pessoas 
telefonaram para a emissora de televisão local protestando contra a vitória do 
coreano. Os três juizes favoráveis a Park, Larbi do Marrocos, Duran do Uruguai e 
Kasule de Uganda deram desculpas. Alegaram que se todos votassem a favor de 
Jones, o veredito unânime poderia provocar tumultos. Ninguém acreditou neles. 
Talvez tenha sido a única ocasião, na controversa história do boxe, que lutadores, 
imprensa mundial e um bilhão ou mais de telespectadores concordaram que os 
juizes estavam errados. 
Um dirigente chamou jornalistas de lado e disse que precisavam entender 
a posição do juiz Larbi, do Marrocos. O resultado foram combinado antes, e Larbi, 
um professor primário, nunca mais trabalharia se deixasse de dar a vitória ao 
coreano. Chowdhry, ignorando as críticas universais, continuou escalando os três 
juizes para as finais olímpicas restantes. 
No ano seguinte a federação internacional de boxe reuniu-se em Nairobi. 
Em pauta, a questão dos procedimentos a adotar em relação aos três juizes que 
quase conseguiram expulsar o boxe das Olimpíadas. Os árbitros da federação e a 
comissão de julgamento decidiu que os três deveriam ser banidos para sempre. 
Eles se prepararam para levar tal ponto de vista ao presidente Chowdhry. 
O presidente ficou sabendo disso antes. Um de seus assessores diretos 
contatou um membro da comissão e disse: "O presidente acredita que a decisão 
não deve ser anunciada. Prefere realizar outra reunião primeiro." E outras 
reuniões ocorreram. Finalmente, os três juizes foram suspensos por dois anos, e 
mais da metade deste período já transcorrera. Em 1989, o desacreditado Larbi 
surgiu em um torneio de Moscou, como técnico da equipe marroquina. 
Todas as exigências de uma investigação dos escândalos de Seul foram 
ignoradas pelo presidente Chowdhry. Tentando recuperar a imagem danificada na 
mídia mundial, um velho amigo de Chowdhry, seu colega na equipe política de 
Dassler, foi chamado para melhorar a imagem do boxe amador: o coronel 
Hassine Hamouda. 
Chowdhry proclamou: "Temos condições de aperfeiçoar o sistema, 
tornando-o imune a bobagens." Mas ninguém falou que os juizes eram bobos. 
O presidente do boxe coreano, Sy Kim, renunciou ao cargo, 
mas apenas por um ano. Depois apareceu em Moscou, foi efusivamente 
saudado por Chowdhry, e continua sendo o vice-presidenteda federação de boxe 
para a Ásia, Samaranch fez críticas veladas ao boxe, logo depois de Seul, mas o 
esporte permaneceu na agenda de Barcelona porque os telespectadores norte-
americanos desejam ver seus boxeadores no ringue. As Olimpíadas perderiam 
muitos dólares se o boxe fosse banido. 
Após o encerramento das Olimpíadas de Seul, os coreanos começaram as 
rodadas de agradecimentos aos que ajudaram a tornar os jogos um "tremendo 
sucesso". Prepararam uma lista especial de pessoas que receberiam presentes. 
No topo, os membros do COI e suas esposas. Depois vinham os presidentes das 
federações internacionais, dirigentes e juizes. No final, os atletas. O valor dos 
presentes era de US$1.100 no topo e US$110 no fim da lista. Os organizadores 
de Seul sabiam quem realmente mandava nas Olimpíadas. A conta total chegou a 
US$ 4,5 milhões. 
Horst Dassler, o nome mais merecedor de agradecimentos, morrera no ano 
anterior aos jogos. O presidente Roh, responsável pelo projeto de levar os Jogos 
para a Coréia, convidou Suzanne e Adi, filhos de Dassler, para ir a Seul receber 
seu agradecimento pessoal. Roh conferiu a Dassler a Ordem do Mérito da Coréia, 
em caráter póstumo. A confidente de Dassler, Huguette Clegironnet, também se 
encontrou com Roh. 
Na sessão do COI em Birmingham, em 1991, conversamos rapidamente 
com o Dr. Un Yong Kim. Perguntamos sobre seu envolvimento com Dassler. "Não 
fiz muitos negócios com Dassler, só sei que ele se destacava pelo apoio dado ao 
movimento olímpico", insistiu o Dr. Kim. "Não o conheci pessoalmente. Não 
tivemos negócios diretos." Ao encerrar a entrevista, ele desfiou a ladainha 
olímpica, concentrada em uma única frase: "As Olimpíadas são o maior festival da 
humanidade, onde a juventude se reúne pela paz e fraternidade mundial. 
"O Dr. Kim participou do comité de Seul em Baden-Baden, trabalhou com 
Dassler para levar as Olimpíadas à Coréia, e acabou conseguindo entrar para o 
COI", afirmou Patrick Nally. "Kim era um dos poucos que considerávamos 
politicamente astuto, e via exatamente o que se poderia obter. Mas Kim não era 
um prodígio criado por Dassler, como Nebiolo, Havelange ou Samaranch. Ele 
fazia acordos com Dassler, mas para ser justo com Kim, ele aprendia muito 
depressa, e saiu da obscuridade, entrando para o COI em tempo recorde. 
"Acredito que ele seja uma mistura de lutador com espião", declarou um 
membro do COI. "Dizem que dirigiu a CIA na Coréia. Certamente foi treinado por 
eles. É muito misterioso e ambicioso. Montou o esquema do taekwondo, 
totalmente financiado pelo governo coreano, esta era sua tarefa. Ele é tudo que 
se pode temer de uma pessoa daquela parte do mundo, em posição de poder." 
O Dr. Kim se destaca hoje como possível sucessor de Samaranch para o 
cargo de presidente olímpico. Seria uma escolha apropriada. Como o espanhol, 
ele fez carreira em um estado totalitário que assassinava dissidentes como rotina, 
e usou o esporte para melhorar sua imagem deteriorada. Ambos sobreviveram à 
democracia em seus países, e se afastaram de suas origens para se concentrar 
no cenário esportivo internacional. 
Vale perguntar se uma pessoa como o Dr. Kim, com tal passado, deveria 
fazer parte do COI, para começar. Ele sem dúvida ficaria ofendido com a questão. 
Afinal de contas, seu predecessor no COI, Chong Kyu Park, conhecido como Park 
Pistola, por ser também vice-presidente da união internacional de tiro, teve a 
mesma origem. Park Pistola foi chefe de Kim na Força de Proteção Presidencial, 
e presidente do comité olímpico nacional coreano, mas precisou renunciar por 
"motivos políticos", depois do assassinato do presidente em 1979. "Park era 
totalmente leal ao presidente", disse o antigo agente da CIA Philip Liechty. "Era 
perigoso, mortífero. O Assassino Número Um da Coréia." 
Park Pistola foi nomeado para o COI pelo presidente Samaranch. 
Estranhos caminhos levam ao COI. 
 
12 
VINTE MILHÕES DE DÓLARES 
 
Esta é a história secreta de como os Jogos Olímpicos de Seul quase foram 
destruídos antes da chegada da tocha olímpica. A ameaça não partiu dos 
terroristas norte-coreanos, nem de boicote comunista, e sim de um dos mais 
destacados membros do Clube. Ele ameaçou os jogos de 1988 e pressionou os 
coreanos até deixá-los de joelhos. Depois aceitou que o subornassem com de-
zenas de milhões de dólares. 
As longas e desgastantes negociações para venda dos direitos televisivos 
para as redes norte-americanas ocultavam um drama. A trama se desenrolou em 
torno das finais dos esportes decisivos em Seul. Os ingredientes eram os horários 
e o personagem principal, o atletismo. 
O ponto culminante das Olimpíadas ocorre nas finais, quando as medalhas 
de ouro são conquistadas. Aí o mundo liga a televisão. 
Tradicionalmente, as finais dos esportes olímpicos mais populares se 
realizam no final da tarde. Em Seul, isso criava um problema. Em função da 
diferença horária entre Seul e Nova York, as finais à tarde iriam ao ar "ao vivo" no 
Estados Unidos no final da noite e início da madrugada. Seria a ruína financeira. 
Se as finais não fossem antecipadas em algumas horas, a audiência nos Estados 
Unidos cairia muito. 
Os Jogos teriam pouco apelo para os anunciantes. As Olimpíadas seriam 
vendidas a preço de banana. Finais à meia-noite — ou reprises no dia seguinte — 
significavam uma queda vertiginosa no valor dos Jogos. 
As redes americanas queriam as finais no início da tarde, em Seul. Assim 
entrariam no horário nobre, garantindo o retorno em propaganda. 
A decisão de mudar o horário das finais só poderia ser tomada por cada 
federação internacional. Elas planejavam os eventos dentro da estrutura global 
dos jogos. 
A federação-chave, responsável pelo maior número de horas de 
transmissão, era sem dúvida a de atletismo. Um membro do Clube, Dr. Primo 
Nebiolo, presidia truculento. Tinha consciência de controlar uma mercadoria que 
os coreanos, o comité olímpico e as redes desejavam mais do que tudo. 
A federação de atletismo programou as finais para o final da tarde, por 
volta das 5, hora de Seul. Nebiolo deixou claro que não incomodaria seus atletas 
com alterações de horário. Depois sentou e esperou. 
No outono de 1984 Samaranch convocou Nebiolo para uma reunião em 
Lausanne. Precisavam conversar sobre o horário das finais. Como poderia 
persuadir Nebiolo a mudar o programa? Nebiolo disse a Samaranch que aceitaria 
antecipar as finais para a hora do almoço, desde que recebesse uma parcela 
maior dos direitos de televisão do COI. 
Samaranch fincou e pé e disse que não. Previa protestos furiosos das 
outras federações, se Nebiolo fosse atendido. Então Nebiolo exigiu negociar 
separadamente com as redes. Samaranch impediu isso também. 
Os coreanos foram chamados de volta à mesa de negociação, e várias 
federações aceitaram as alterações propostas. Algumas pediram uma 
compensação modesta — até um teto de US$ 200 mil, segundo informações — e 
os coreanos concordaram em pagar. 
No momento em que os coreanos aceitaram resolver o problema usando 
dinheiro, e não as redes ou o COI, Nebiolo viu a chance de dar o golpe de sua 
vida. Seu esporte agora detinha a chave para o sucesso ou o colapso dos Jogos. 
Os coreanos estavam vulneráveis, e quanto mais Nebiolo adiasse a solução, mais 
maleáveis eles se tornariam. 
O conselho do atletismo reuniu-se em Camberra, em outubro de 1984, e 
Nebiolo o convenceu a ficar firme. Tinham o direito de manter as finais às 5 horas 
da tarde, e não haveria concessões. Os coreanos seguiram para Camberra com o 
objetivo de fazer lobby no IAAF. Mas seu estilo era abrasivo, e estavam nas mãos 
de Nebiolo. A equipe coreana saiu da Austrália sabendo que o valor dos Jogos na 
televisão sofria uma hemorragia. 
O jogo de pôquer prosseguiu até 1985. Para manter o cronograma das 
preparações, os coreanos foram forçados a se comprometer com gastos cada vez 
maiores, sem saber se recuperariam o dinheiro com a venda dos direitos de 
televisão. 
O COI parecia incapaz de lidar com o problema. A Review publicouum 
texto dizendo que as redes se dispunham a "dobrar os valores pagos aos 
organizadores se as finais dos esportes olímpicos mais importantes se 
realizassem de manhã". Na realidade, os valores cairiam para a metade se as 
federações não alterassem os horários. 
Os coreanos argumentaram, desesperados, que a temperatura e a 
umidade aconselhavam a transferências das finais para o período da manhã. 
Nebiolo entrou empena, apertando o cerco contra Seul, com uma 
entrevista na Review. Disse que consultara os líderes mundiais do atletismo, e 
eles preferiam não mudar os horários. E completou: "Finais de manhã não 
permitem que os atletas atinjam o máximo de seu potencial. E sempre nos 
pautamos pelo interesse dos atletas." 
Em março e abril e 1985 as redes pressionaram os coreanos mais ainda. 
Os executivos declararam na imprensa de Nova York que as transmissões das 
Olimpíadas, realizadas em setembro, coincidiriam com os campeonatos de futebol 
universitário, de basquetebol e a estréia dos programas líderes de audiência, pro-
gramados para o outono. 
A Advertising Age registrou que os coreanos, tendo desistido de pedir US$ 
l bilhão, ainda queriam US$ 500 milhões por "videoteipes e programas na 
madrugada". Um comentarista escreveu que "em setembro as pessoas mandam 
os filhos de volta à escola, e se divertem vendo o final das World Series de beise-
bol, o início do campeonato de futebol e as emoções da nova programação." 
Tentavam diminuir a importância dos Jogos. As redes sabiam que as 
especulações publicadas em Nova York seriam lidas em Seul no dia seguinte. 
Mais pressão. 
No final de março Samaranch lavou as mãos. "A questão dos horários de 
competição em Seul devem ser decididas entre o comité organizador e as 
federações internacionais. O fato de cada federação ser livre para negociar os 
horários tornou mais fácil resolver o problema das finais pela manhã." Era um 
sinal claro para Nebiolo fazer o que quisesse — desde que as finais aconte-
cessem. 
Nebiolo conduziu sua tática de forma brilhante. Os coreanos estavam 
quase de joelhos. Agora era a hora da Corrida do Ouro. Ele se acomodou em 
Roma e esperou que os coreanos agissem, tentando um acordo. 
Houve várias reuniões entre a IAAF e os coreanos. A imprensa recebia 
informações regulares sobre a feita de progresso. Depois aconteceu a reunião 
que jamais foi divulgada. Uma pessoa presente relatou o momento crucial, 
quando as cartas foram postas na mesa. ' De acordo com esta fonte, um 
negociador coreano, percebendo finalmente o calibre de seu oponente, perguntou 
desesperado: "O que quer para mudar o horário das finais?" Era hora de atacar. 
Estavam de joelhos. Os olhos de Nebiolo se ergueram, e ele disse sucinto: "Vinte 
milhões de dólares." Os coreanos caíram de costas. Mas um cheque de US$ 20 
milhões a Nebiolo os poria de volta na negociação de muitos milhões com a NBC. 
Era um investimento. Eles concordaram em levantar o dinheiro. 
Nebiolo tinha planos grandiosos para os US$ 20 milhões. Se conseguisse 
manter a verba longe da IAAF, poderia administrar uma fortuna, e seus poderes 
de patrocínio cresceriam enormemente. 
Os organizadores de Seul persuadiram uma companhia de material 
esportivo coreana a assinar um contrato de patrocínio com a federação atlética, A 
empresa concordou em assinar o cheque de US$ 20 milhões, cinco a mais do que 
a Visa pagara pelo patrocínio exclusivo total da Olimpíada no mundo inteiro. O 
cheque foi depositado em uma conta no banco de Monte Cario. 
Monte Cario tornara-se um centro de intrigas da política esportiva, desde 
que Dassler e Nally ali se instalaram, na década anterior. A família real Grimaldi 
era grata pêlos negócios atraídos por Dassler, pela associação internacional das 
federações esportivas e pelo calendário recheado de reuniões. 
Agora Nebiolo aparecia com outra organização esportiva, com mais 
dinheiro. Mas queria algo em troca: patrocínio "real". Isso não era problema. O 
herdeiro do trono, Sua Alteza Real o príncipe Albert, estava disponível. 
No final da primeira semana de maio de 1985, o príncipe Albert e sua 
comitiva foram recebidos em Lausanne por Samaranch. O motivo alegado foi a 
recente eleição do príncipe Albert como presidente da federação de atletismo de 
Mônaco. Não era uma das maiores federações do mundo. A dócil Review relatou 
a visita da forma habitual, descrevendo o playboy Albert como "um homem do 
mar", porque organizava uma regata a Nova York. Samaranch e seu nobre 
convidado jantaram no melhor restaurante da cidade, O Girardet, onde, segundo 
o press release, discutiram "o desenvolvimento do esporte no principado". O 
desenvolvimento mais importante, para a economia de Mônaco, só seria revelado 
dentro de um ano. 
Uma semana depois, em Berlim Oriental, na 90a. sessão do COI, o 
príncipe Albert foi admitido no Clube. Mais um "aristocrata" para a coleção de 
Samaranch. 
Agora tudo estava pronto. O cheque de US$ 20 milhões fora enviado em 
segurança para Monte Cario. O príncipe Albert entrara para o Clube. Um mês 
depois, o conselho da federação atlética de Nebiolo reuniu-se em Atenas, e 
cumpriu sua parte no acordo secreto de Seul. Todas as finais importantes, 
inclusive dos 100 metros e dos 1.500 metros, seriam realizadas na hora do 
almoço, em Seul. 
Agora a NBC poderia falar de dinheiro a sério, e os executivos a vender o 
espaço comercial. Nebiolo deve ter rido sozinho. Ele levara a bolada no maior 
jogo de pôquer do mundo. E com a mão vazia! 
"Se os coreanos dissessem a Nebiolo que a exigência de US$ 20 milhões 
era inaceitável, e se recusassem a pagar, ele teria dado de ombros e antecipado 
as finais como desejavam", declarou uma fonte da IAAF. "Os coreanos não 
sabiam que o conselho da IAAF tinha decidido não deixar as redes esperando por 
muito mais tempo. 
"É preciso lembrar que Primo queria que as redes pagassem muito dinheiro 
pelo Campeonato Mundial de Atletismo de Roma, em 1987. Ele não poderia ser 
visto como o sujeito que sabotou as Olimpíadas. Secretamente, a decisão já havia 
sido tomada, e estava na hora de mudar os horários. Se os coreanos não fossem 
tão ingênuos, tão deslocados neste tipo de negociação, poderiam ter batido o pé 
e economizado um monte de dinheiro." 
Nebiolo blefara alto. Felizmente para ele, os coreanos só sabiam sair da 
encrenca pagando. 
O Dr. Un Yong Kim comandou as negociações dos coreanos com as redes, 
e fazia parte no grupo de Seul que tratava tanto das relações internacionais 
quanto da organização dos eventos esportivos dos Jogos. O Dr. Kim liderou a 
delegação de Roma, em busca da aprovação de Nebiolo para rever os horários 
do atletismo. "O Dr. Kim desenvolveu, em cooperação com as associações 
esportivas, uma programação aceitável para as televisões norte-americanas, sem 
constranger as associações", registrou a revista Sport Intern. 
Presumimos que o Dr. Kim soubesse que o problema do horário das finais 
já estava resolvido. Parecia impossível que ele ignorasse um acordo envolvendo 
uma soma tão alta, US$ 20 milhões. Estávamos errados. 
"Eu não tinha a menor idéia. Não me envolvo com dinheiro, só com a 
organização", declarou o Dr. Kim em nossa entrevista. "A NBC não determinou o 
horário das finais de Seul. Nós fizemos isso. Procuramos os horários mais 
adequados. Para o Japão e Europa não havia problemas. Para os Estados 
Unidos, as imagens chegariam ao vivo à meia-noite ou de madrugada. Mas as 
decisões foram tomadas pelo comité organizador. As federações não fizeram 
imposições, tampouco. Estudamos os horários e determinamos os mais 
apropriados. 
"Nós, os coreanos, somos um povo muito orgulhoso, nacionalista, e não 
gostamos que nos digam o que fazer. Respondemos simplesmente, 'vá para o 
inferno'." 
Depois de conversarmos com o Dr. Kim, na sessão do COI em 
Birmingham, em 1991, despedimo-nos cordialmente, em nossa opinião. Poucas 
horas depois a chefe da assessoria de imprensa do COI, Michele Verdier, nos 
procurou. Madame Verdier não estava satisfeita. Na verdade, parecia muitochocada por saber que jornalistas podiam querer informações além das 
divulgadas em seus comunicados. 
"O Dr. Kim queixou-se de vocês", ela disse. "Não fizeram perguntas sobre 
a sessão. Perguntaram outras coisas." Este comportamento era aparentemente 
inaceitável nos círculos olímpicos. 
Depois dos Jogos de Seul, o Dr. Kim escreveu um livro sobre suas 
experiências. A respeito dos problemas enormes com os horários das finais, ele 
resumiu: "O atletismo foi a coisa mais difícil de ajustar." E só. 
Nebiolo inventou um programa de caridade próprio, com os US$20 milhões 
de Seul. Levaria o nome de "Fundação" Internacional de Atletismo, conhecida 
pela sigla IAF. Sediada em Mônaco, teria o objetivo de ajudar a IAAF a promover 
o esporte no mundo inteiro. A Fundação parecia repetir os propósitos da 
federação, com dinheiro levantado em nome do esporte. 
Os membros da IAAF souberam do projeto de Nebiolo pela Newsletter do 
organismo. A Fundação foi criada pelo círculo íntimo de Nebiolo. O assunto 
jamais foi levado à discussão de um congresso. A tão propagada "família atlética" 
ficou fora de qualquer discussão democrática sobre a própria necessidade de se 
criar a fundação, a origem do dinheiro e quem o controlaria. A jogada de Nebiolo 
tinha dado certo. 
A IAF foi registrada de acordo com as leis de Mônaco. Os estatutos 
transmitem a impressão de uma organização grandiosa. Possui assembléia geral, 
conselho, comité executivo, secretário-geral assistente, secretário-geral, vice-
presidente e presidente. Soa impressionante. Um exame detalhado revela que há 
menos de trinta pessoas envolvidas. Os membros precisam sair do conselho da 
IAAF, que atualmente conta com 25 pessoas. 
Virtualmente, todo o poder da Fundação concentra-se nas mãos do 
presidente — o Dr. Nebiolo, claro. Ele nomeia novos membros, é o único que 
pode assinar cheques e "tomar as medidas necessárias", informando a Fundação 
posteriormente. 
Nebiolo também "tem todos os poderes de agir em nome da Fundação", 
em "particular o poder de constituir advogados." Um advogado escolhido por ele, 
Mino Auletta, velho amigo de Milão, recebe um pagamento anual de US$ 30 mil 
da Fundação. Auletta também recebe uma importância considerável da federação 
de atletismo de Nebiolo, cerca de US$ 100 mil anuais, para ficar de olho nos 
contratos com a ISL e Adidas. Auletta substituiu uma firma de advocacia londrina 
que costumava realizar este trabalho. Auletta recebeu perto de US$ l milhão nos 
últimos cinco anos. Seu salário causou atritos dentro da federação. 
A primeira reunião da nova Fundação ocorreu em julho de 1986, "com a 
presença de Sua Alteza o príncipe Albert de Mônaco. O conselho convidou Sua 
Alteza para a presidência honorária da Fundação, e sentiu-se honrado quando 
Sua Alteza graciosamente aceitou o convite", revelou a Newsletter do atletismo. 
Era a hora da onça beber água. No Natal, o príncipe Albert '| "honrou" a 
primeira atividade pública da nova Fundação, dedicada ao incentivo do atletismo. 
O evento, no hotel de Paris, em Mônaco, era o "Primeiro Encontro de Gala do 
Atletismo Mundial", Nebiolo e seu príncipe condecoraram, com a "prestigiada 
Estrela de Ouro do Atletismo", todos os responsáveis pela quebra de recordes do 
ano. Para aplaudir, convocou o que chama de "membros da família atlética" — 
dirigentes de confiança, jornalistas simpáticos, executivos de televisão e 
patrocinadores. 
A noite de badalação custou US$ 500 mil. "O objetivo moral desta 
instituição é ajudar a aprimorar o esporte de alto nível", anunciou Nebiolo. Ele não 
explicou como conciliaria isso com as origens do dinheiro que pagava a 
champanhe daquela noite. 
Os faraónicos encontros de gala se repetem anualmente. O convite diz: 
"Na presença do presidente da Federação Internacional de Atletismo Amador, Dr. 
Primo Nebiolo, e de Sua Alteza Real Príncipe Albert de Mônaco, O Encontro de 
Gala do Atletismo se realizará no Clube Sporting, de Monte Cario." 
Infelizmente, o príncipe Albert não tem qualificações para ser chamado de 
"real". No mundo rígido da etiqueta, ele é apenas "sereno". Isso não deve 
perturbar muito Nebiolo, que arranjou um príncipe para emprestar credibilidade à 
fundação, e um dia o príncipe reinará naquele paraíso fiscal. 
Nebiolo ocupa a presidência e ficará no cargo pelo resto da vida. Se a 
Fundação for fechada por algum motivo, não há exigência .alguma de destinar os 
US$ 20 milhões ou mais existentes na conta do banco de Monte Cario para o 
atletismo. 
Nebiolo jamais revelou a fonte do dinheiro da sua Fundação. Na verdade, 
faz o possível para manter o segredo. Se perguntado a respeito, diz: "A origem é 
anônima, porque as pessoas que o doaram preferem assim. O dinheiro é gasto 
apenas na promoção do esporte." 
Os escritórios da IAAF em Hans Crescent, perto de Knights-bridge, em 
Londres, receberam uma cópia de uma grossa brochura, pronta para ser 
distribuída. O texto informava que o capital inicial — de um único doador — era 
mesmo US$ 20 milhões. Quando manifestamos surpresa pela existência de uma 
empresa ou indivíduo capaz de doar uma soma tão vasta, houve consternação. A 
brochura foi arrancada de nossas mãos. 
Mais tarde disseram que tratava-se só de uma prova, a ser revisada. 
Ficamos surpresos, obviamente custara uma fortuna. Explicaram que havia um 
erro. Não era um doador só, e a brochura seria reimpressa. Tecnicamente isso é 
verdade. A Adidas recentemente doou US$ 50 mil, e um ou dois patrocinadores 
entraram com quantias modestas. Fontes da Adidas concordam que a Fundação 
de Nebiolo não precisa de mais dinheiro, mas a doação ajudou a dar a impressão 
de que os fundos vinham de mais de uma fonte. 
A Fundação de Nebiolo mostra bem o que há de errado no Clube. Nos 
últimos dois anos a Fundação investiu US$ 516 mil em projetos importantes. No 
mesmo período, gastou mais de US$ l milhão em dois eventos de gala em 
Mônaco. A cena se 
repete anualmente. Até agora algo em torno de US$ 3 milhões já foi destinado a 
estas festas. 
Há também os valores pagos pela fundação a consultores profissionais, 
gastos em viagens, hospedagem e outras despesas não reveladas. As perguntas 
sobre o que acontece com a montanha de dinheiro guardada no banco de Monte 
Cario recebem a diplomática resposta: "investimento em projetos autônomos su-
pervisionados pelo conselho da IAF e monitorados pelo secretariado da IAF." 
Um membro do COI nos contou: "Ninguém comenta estes pagamentos 
com as federações, porque seria embaraçoso. Sempre se fala "precisamos 
pensar nas crianças que acordam às três da manhã para treinar — só nos 
interessa o bem estar dos atletas.' Depois descobre-se que fizeram o contrário, e 
centenas de milhares de dólares foram gastos." 
O eminente dirigente olímpico deu sua opinião pessoal: "Não sabemos 
muita coisa sobre a maneira como surgiram os recursos para a Fundação, apenas 
que naquela parte do mundo, na zona cinzenta em que Nebiolo age, houve um 
acerto." 
 
13 
AS TRAPAÇAS 
 
O melhor ano de Primo Nebiolo deveria ter sido 1987. Mas o lado sombrio 
de sua personalidade triunfou, e os doze meses de conquistas para o esporte e 
prestígio para sua pessoa são lembrados apenas porque ele era o presidente no 
período do pior exemplo de trapaça organizada na história do esporte moderno. 
Como se não bastasse, ele se recusou a admitir os fatos ocorridos. Agora 
é possível revelar os segredos da conspiração para roubar uma medalha de um 
atleta norte-americano no salto a distância, durante o Campeonato Mundial de 
Roma, em 1987, e entregá-la a um italiano. Só resta descobrir uma coisa: quando 
o presidente ficou sabendo de tudo? 
O ano começou como Nebiolo gostava. No final da primeira semana de 
janeiro ele comandou uma reunião do conselho da IAAF no Rio de Janeiro, uma 
de suas cidades favoritas. O convidado de honra era um velho amigo, presidente 
da FIFA e membro do COI, João Havelange. 
Depois Nebiolo seguiu para Paris, onde receberia mais uma comenda. 
Pouco antes do final do mês ele compareceuao hotel Inter-Continental. O press 
release definiu o evento como "uma ocasião magnífica". O coronel Hamouda 
distribuiria os prêmios anuais da revista Champion d'Afrique. Dassler obviamente 
servia de anfitrião, e Samaranch se encarregou de entregar as "medalhas de 
ouro" para o secretário-geral da UNESCO, Mahtar M'Bow, Havelange e Nebiolo, 
perante 200 convidados. 
Nebiolo ocupava o palco com perfeição. Bem alimentado e agraciado, 
poderia dedicar algum tempo a refletir que planejara 1987 de modo a se manter 
no centro do cenário esportivo o ano inteiro. Afirmara que 1987 seria o "ano do 
atletismo". A temporada começaria na primavera, com o primeiro campeonato 
mundial indoors da IAAF nos Estados Unidos. 
Durante o verão haveria os preparativos para o segundo campeonato 
mundial de atletismo, a realizar-se no estádio olímpico de Roma. Na véspera do 
campeonato, Nebiolo compareceria ao congresso da IAAF, onde seria "reeleito" 
presidente, sem a menor oposição, como já sabia. 
O Ano do Atletismo deveria ser também o ano de Luciano Barra, um dos 
dirigentes esportivos mais importantes da Itália. Empregado do comité olímpico 
italiano, foi durante muitos anos um dos grandes responsáveis pelo sucesso do 
atletismo local, e pela ascensão de Nebiolo ao poder. Fora da Itália, era 
respeitado por sua capacidade de organizar e comercializar eventos de atletismo. 
Barra também servia de secretário-geral para a Federação Italiana de 
Atletismo (FIDAL), e um dos partidários de Nebiolo na disputa da presidência, no 
final dos anos 1960. Ele passara muitos anos como dirigente esportivo viajando 
pela Itália, de trem e ônibus, hospedando-se em hotéis modestos e estimulando 
organizadores locais a promover o esporte nas várias regiões do país. 
Ele funcionou como freio em vários esquemas de Nebiolo, e quando seu 
chefe ocupou o palco internacional, Barra manteve-se discretamente um passo 
atrás, garantindo que a retórica se transformasse em ação. Quando Dassler 
instalou Nebiolo no cargo de presidente do atletismo mundial em 1981, foi criado 
um novo cargo na IAAF, de "assessor da presidência". Barra o ocupou. 
Mas o grande teste de Barra estava por vir: sediar o maior e mais 
complexo evento de atletismo já visto no mundo. Ninguém duvidava de sua 
capacidade para garantir que o campeonato mundial de Roma fosse um sucesso. 
Mas nem Nebiolo nem Barra previram que uma tarefa tão grandiosa fosse de 
impedir que o assistente encontrasse tempo para controlar seu chefe errático e 
ambicioso, interessado em garantir medalhas para a Itália. 
O primeiro campeonato de atletismo indoors em Indianápolis foi projetado 
como mais um triunfo para Nebiolo, mais um passo no desenvolvimento do 
esporte. Mas a delegação italiana voltou amargurada dos Estados Unidos. 
O campeonato fora organizado para ampliar a força de Nebiolo. Cada uma 
das federações — mais de 170 —- recebeu um convite para enviar pelo menos 
dois atletas, um homem e uma mulher, tivessem ou não atingido os padrões 
mínimos. Isso inevitavelmente aumentou o número de eliminatórias, e dúzias de 
atletas sem chance experimentaram uma amostra rápida de uma competição 
internacional antes de voltar para casa. 
Convidar atletas inexperientes não foi uma demonstração de caridade 
esportiva, e sim uma decisão política deliberada. Mesmo as nações com um único 
competidor poderiam enviar um dirigente, pago pela IAAF. Eles sim, importavam. 
Os dirigentes, e não os atletas, dariam votos cruciais para Nebiolo, quando este 
precisasse. Embora a IAAF de Nebiolo dê muitos almoços, nenhum deles sai de 
graça. 
O campeonato foi disputado no gigantesco Hoosier Dome de Indianápolis. 
Mais de 20 mil pessoas compareceram, no maior festival de atletismo indoors de 
todos os tempos. Nebiolo expressou seu "imenso prazer" por ter 84 países 
competindo. Seu desejo insaciável por recordes mundiais, para aumentar o valor 
dos eventos para a televisão, foi satisfeito. Ben Johnson, unia montanha de 
músculos entupidos de esteróides reluzindo sob os refletores, percorreu os 60 
metros rasos em 6,41 segundos, um novo recorde. 
Apesar de tanto sucesso, os dirigentes italianos ficaram furiosos. 
Compareceram a Indianápolis acreditando na conquista de uma medalha de ouro 
com sua grande estrela no salto em distância, Giovanni Evangelisti. Cari Lewis 
não competiria, e o grande rival seria outro americano, Larry Myricks. Evangelisti 
não estava no auge da forma, e depois de cinco tentativas, seu melhor pulo foi de 
7,91 metros. Na última chance, ele se agachou 
na beira da pista e correu para saltar, decidido a ganhar a medalha de ouro. 
Os dirigentes italianos tinham certeza de que o salto fora válido. Todos os 
olhos se voltaram para o telão de vídeo, e eles juraram ter visto o pé de 
Evangelisti pisar bem antes da marca. Quando os juizes americanos ergueram a 
bandeira anulando o salto, os italianos ficaram revoltados, convencidos de que a 
medalha de ouro lhes fora roubada. E observaram desolados o salto de Larry 
Myricks, de 8,23 metros. O incidente abriu uma ferida que jamais cicatrizaria. 
O salto controvertido de Evangelisti em março não foi esquecido pêlos 
dirigentes da equipe italiana. Embora suas energias se concentrassem na 
organização do campeonato mundial em agosto, dali a cinco meses, tinham 
tempo de refletir sobre o ocorrido nos Estados Unidos. Em Roma eles forneceriam 
os juizes para o salto a distância. 
Alguns dirigentes reuniram-se na sede do campeonato, para finalizar os 
planos. O tema em discussão era surpreendente: os atletas italianos, ganhariam 
as medalhas, a qualquer preço. 
Eles discutiram diversos eventos, mas a decisão de Indianápolis ainda 
ecoava em seus ouvidos, e resolveram que Evangelisti, desde que aparecesse 
para saltar, atingiria a marca próxima dos 8,40 metros. 
Notícias a respeito dos planos dos dirigentes da FIDAL vazaram 
lentamente dentro da organização, e chegaram aos ouvidos da Sra. Anna 
Micheletti, secretária da FIDAL, que avisou o marido, Renato Marino, chefe dos 
técnicos dos clubes mais importantes da Itália. Ele mencionou o caso a seu amigo 
Sandro Donati, técnico treinador de velocistas da equipe nacional. Donati se 
preocupava cada vez mais com o estilo de Nebiolo na direção da FIDAL, e com a 
falta de providências oficiais com o doping crescente no atletismo italiano. Marino 
decidiu comparecer ao estádio com binóculos, e prestar bastante atenção no que 
aconteceria na prova de salto a distância. 
Durante o congresso da IAAF em Roma, na véspera do campeonato, 
Nebiolo foi eleito para mais um mandado de quatro anus, por aclamação dos 
delegados. Depois passou a lutar pelo aumento de seu poder. 
Há quase uma década os países pequenos criticavam o sistema de 
votação da IAAF. Queriam que cada nação tivesse direito a apenas um voto, e 
para Nebiolo convinha alimentar tal ressentimento. Até 1984, os cerca de 170 
países membros dividiam-se em quatro grupos. Dependendo do tamanho e do 
destaque no atletismo mundial, tinham dois a oito votos nos congressos. Durante 
os Jogos de Los Angeles, o sistema foi simplificado para três grupos. 
Nos preparativos para o congresso de Roma, os russos apoiaram a 
reivindicação das nações menores, na base de um voto por país. Eles se 
dispunham a sacrificar sua posição privilegiada por um motivo simples. Com 
tantos países dependentes da Rússia, sempre que necessário reuniriam um bloco 
com os votos desejados. Ao apoiar os países menores, posavam de 
progressistas. 
Sob as luzes favoráveis de Roma, em agosto, Nebiolo viu a chance de se 
ver livre para sempre da ameaça dos votos contrários por parte dos países da 
Europa Ocidental, todos pertencentes ao primeiro time, e insatisfeitos com seu 
estilo. Ele recomendou que o congresso modificasse o sistema, e o princípio de 
um voto por país foi apresentado como uma revolução democrática. Nebiolo 
consolidou seu domínio ditatorial sobre a IAAF. 
Ele sabia muito bem que seria fácil garantir o apoio dos países pequenos. 
Os ganhos crescentesda federação permitiam bancar o transporte dos atletas e 
dos dirigentes para eventos internacionais, congressos e seminários técnicos, de 
televisão e de marketing. 
O acordo implícito era claro, e foi oferecido para locais remotos como 
Vanuatu, Ilhas Cook, Nauru e Ilhas Marianas, no Pacífico; Aruba, Ilhas Turks e 
Caicós, no Caribe; Butão, Macau e Laos, na Ásia. Os dirigentes receberiam 
passagens aéreas regularmente, acomodações em hotéis de primeira e verbas 
generosas em dólares, para despesas, em troca da lealdade que manteria Primo 
no primo lugar. 
Foi um golpe de mestre. Quanto mais os países poderosos criticavam 
Nebiolo por seus gastos excessivos, mais empurrariam os dirigentes de rochedos 
plantados nos mares do mundo para seus braços, e todos com o mesmo poder de 
voto. Para completar o quadro, tudo parecia muito democrático. 
Além de ser o "Ano do Atletismo", 1987 também foi promovido por marcar 
os 75 anos da IAAF, Editaram um livro luxuoso, sobre o atletismo, com o título de 
"Cem Momentos de Ouro". Encomendaram um filme comemorativo, mais 8 mil 
conjuntos de brindes para competidores, dirigentes, patrocinadores, executivos de 
televisão e todo o circo que acompanhava o presidente. Medalhas e prêmios 
especiais foram distribuídos durante o ano, para "membros da família atlética, 
VIPs, convidados e chefes-de-estado". Para o público, Nebiolo inaugurou uma ex-
posição no Foro Itálico, comemorando o aniversário da IAAF, também batizado de 
"Cem Momentos de Ouro". 
No jantar antes do campeonato, Nebiolo chamou Cari Lewis de lado. Ele 
disse que esperava por um recorde mundial — qualquer recorde. "Este será o 
maior evento de todos os tempos", avisou. Nebiolo repetiu a mesma história para 
Ben Johnson. O canadense foi a estrela de Roma em 1987, e do mundo, nos 
treze meses seguintes. 
Em junho Johnson passou pelo último ciclo de duas semanas de 
esteróides, esperou que o sistema eliminasse os sinais das drogas e viajou para 
Roma. Na abertura do campeonato, ele derrotou Cari Lewis e quebrou o recorde 
mundial, com a impressionante marca de 9.84 segundos nos 100 metros. "Eu vi 
que os dirigentes canadenses tremeram enquanto o teste anti-doping de Johnson 
era realizado", disse um membro do COI presente ao evento. Quando a estrela 
passou no exame, o agente de Johnson passou a negociar milhões de dólares em 
patrocínio. 
Lewis, como muitos competidores e dirigentes do atletismo, sabia que 
Johnson era um monstro criado pela drogas. Pouco antes da final dos 100 
metros, Lewis fora informado de uma conversa altamente suspeita entre o técnico 
de Johnson, Charlie Francis, e o técnico americano Chuck DeBus. Ao que consta, 
Francis teria comentado: "Direi que Ben tinha gonorréia." 
Era a prova virtual de que Johnson tomava uma droga chamada 
probenecid, para mascarar traços residuais de esteróides. Um dos usos legítimos 
da probenecid é aumentar a eficácia da penicilina no tratamento de doenças 
venéreas. Francis estava bem preparado para contestar um resultado positivo. 
Lewis disse que ficou perplexo: não sabia se acusava Johnson ou confiava 
nos dirigentes para acabar com a fraude. O problema era que Lewis não confiava 
nos dirigentes do atletismo de seu país, nem nos internacionais. Mais tarde Lewis 
declarou que conhecia pelo menos um ganhador de medalha de ouro em Roma 
que tomava drogas, e que outro campeão exibia marcas de agulha na coxa. 
Depois de chegar atrás de Johnson nos 100 metros, Lewis viajou para 
Londres. Em uma entrevista à televisão, disse: "Existem ganhadores de medalha 
de ouro neste campeonato que tomam drogas, sem dúvida. Aquela disputa dos 
100 metros ficará na história, por muitas razões. Se eu tomasse drogas, poderia 
fazer 9.8 sem problemas." Feita a alusão a Johnson, ele voltou a Roma para 
disputar o salto a distância. 
Poucos duvidavam de quem venceria o salto a distância, levando as 
medalhas de ouro e prata. Cari Lewis e o russo Robert Emitam haviam vencido 
várias vezes naquele ano. Lewis se de dicava tanto ao salto que desistiu dos 200 
metros rasos, para poder descansar. A disputa seria pela medalha de bronze, 
entre Evangelisti, Myricks e o cubano Jefferson. 
Ninguém esperava problemas com os juizes do salto a distância. Os três 
delegados técnicos oficiais para o Campeonato Mundial de Roma eram Georg 
Wieczisk, da Alemanha Oriental, Artur Takac, da Jugoslávia, e Hassan Agabani, 
do Sudão. Todos membros graduados do conselho da IAAF de Nebiolo. 
Dez minutos antes da prova começar, Luciano Barra e Takac chegaram à 
pista e afastaram os fotógrafos da imprensa, alegando que estes obstruíam as 
câmeras de televisão e incomodavam os atletas. Mas uma câmera foi esquecida 
por todos. No final da pista de salto havia uma câmera estática, automática, que 
registrava o percurso de cada atleta. As imagens da câmera eram gravadas em 
videoteipe. Dificilmente seria usada numa transmissão ao vivo, porque só 
mostrava a ação na pista. Mais tarde seria útil, para a montagem com cenas de 
outras câmeras, do momento do salto. 
Os juizes, sicilianos em sua maioria, e os dois técnicos ingleses que 
monitoravam o aparelho eletrônico de medição da Seiko, esperaram o momento 
da ação. A máquina da Seiko substituíra a tradicional medição por fita. Um prisma 
reflexivo na ponta de uma haste era colocado na areia, no ponto onde o calcanhar 
do atleta tocava o solo, e um raio luminoso "disparado" pela máquina posicionada 
no ponto inicial. Se operada adequadamente, dois sinais sonoros tipo bip 
indicavam que a medição se realizara. 
Naquela tarde, às 5h30, Evangelisti abriu a competição, para delírio da 
torcida italiana predominante. Correu pela pista, mas seu salto foi impugnado. A 
multidão rugiu. O americano Larry Myricks também queimou o salto. Lewis voou 
no ar e marcou 8,67 metros. Não foi superado naquela tarde, e tinha garantido a 
medalha de ouro. Emitam ficou em segundo, com uma boa! marca: 8,30 metros. 
Meia hora mais tarde começou o segundo round. Evangelisti' tentou de 
novo, e conseguiu um salto modesto, 8,09 metros, que o colocou em quinto lugar. 
Myricks ficou 5 centímetros atrás. Lewis pulou 8,65 metros, e Emitam queimou o 
salto. 
No terceiro round o italiano aumentou sua marca para 8,19 metros. Foi 
superado no geral por Myricks, com 8,23 metros. Enquanto isso Lewis mostrou 
que era mesmo o melhor do mundo, repetindo os 8,67 metros. 
Evangelisti iniciou a segunda parte da final saltando menos de oito metros. 
Myricks ficou nos 8,19 metros, e Emitam garantiu a medalha de prata, com 8,53 
metros. O quinto round deprimiu ainda mais os italianos: Evangelisti foi 
impugnado novamente. Myricks, com 8,33 metros, ficaria com a medalha de 
bronze. 
Era agora ou nunca. Se Evangelisti quisesse derrotar Myricks, seu último 
salto precisaria ser especial. Ele se posicionou e fez uma pausa para se 
concentrar. Antes que explodisse para a frente, a abertura do Guilherme Tell 
ecoou pêlos alto-falantes, anunciando a entrega das medalhas para o arremesso 
de peso feminino. O italiano fez um gesto irritado e deu as costas. Precisaria 
esperar até o final da entrega dos prêmios para dar seu último salto. 
Os organizadores haviam preparado planos elaborados para a entrega de 
medalhas. Todos os dirigentes deveriam interromper suas atividades e virar de 
frente para o pódio. Todos os olhos e câmeras voltaram-se para as três mulheres 
que entravam em campo para receber as medalhas. 
Por isso, quase ninguém reparou nas atividades dos juizes na pista de 
salto. Os juizes esqueceram-se da câmera automática no final da pista. As 
imagens foram gravadas e guardadas nos estúdios da RAI, a televisão estatal, ao 
lado do estádio Olímpico. 
A cerimônia terminou e Evangelisti preparou-se para seu salto l final, última 
chance para ganhar a medalha de bronze. Quando i voou no ar, os espectadores 
e conhecedores do esporte sabiam g que havia falhado. Evangelisti saiu da caixa 
de areia, deu de ombros como quem diz "Fiz o máximo", e foi embora. "Foi um 
bom salto", comentoua Track and Field News, "mas a torcida f não comemorou. 
Ele foi embora, e parecia desanimado." 
O juiz Sérgio Maggiari entrou na caixa e colocou a marca no ponto onde o 
calcanhar de Evangelisti tocara o solo. Os juizes Mário Biagini e Paolo Pellegrino, 
que aguardavam do lado de fora para nivelar a areia após o salto, sabiam que 
não poderiam se mover antes de ouvir os dois bips da máquina de medição da 
Seiko. Eles esperaram, mas a máquina emitiu apenas um bip. 
Notaram que havia algo errado, e Pellegrino agiu, colocando seu ancinho 
ao lado da marca de Evangelisti, para garantir a medição correta. Avisou Biagini 
para não nivelar a areia. Para surpresa de Pellegrino, o chefe dos juizes, 
Tommaso Aiello, correu até eles gritando: "Apaguem, apaguem". 
Obedientemente, eles nivelaram a areia e a verdadeira extensão do salto perdeu-
se para sempre. 
Biagini não pareceu completamente surpreso com o estranho desenrolar 
dos eventos. Ele se voltou para Pellegrino e pediu: "Por favor, eu o conheço, 
mantenha a calma, isso tudo é maior do que nós dois. Quando sair daqui, melhor 
fingir que não viu nada, e ficar de boca fechada." 
O resultado surgiu no placar. Evangelisti saltara 8,38metros. O estádio 
pegou fogo. Ganharia a medalha de bronze, em terceiro lugar. Quando os outros 
competidores fizeram a última tentativa, a multidão de torcedores gritou e vaiou a 
todos, inclusive Myricks, que poderia alterar a situação. O norte-americano saltou 
bem, mas os juizes mediram 8,20 metros, uma marca superior a todas as outras 
de Evangelisti, fora a última. Mas, segundo os juizes, Myricks perdera para o 
último e surpreendente salto de Evangelisti na tentativa final. "Saltei mais de 8,20 
metros", disse Myricks mais tarde. "Houve algo suspeito no último round." 
Evangelisti ganhou a medalha de bronze e o norte-americano ficou em quarto 
lugar. 
Muitos jornalistas esportivos norte-americanos presentes em Roma 
pensaram que o resultado do salto a distância era pouco convincente. E não 
estava sozinhos. Um repórter da Finlândia protestou a quem quis ouvir, afirmando 
que Evangelisti recebera uma marca superior ao que merecia. O salto foi criticado 
por outros especialistas. Na frente da pista encontrava-se um grupos de en-
tusiastas do esporte e estatísticos do atletismo inglês. Um deles, Alf Wilkins, de 
Londres, declarou: "Calculamos o salto em cerca de 7,95 metros. Não 
acreditamos no resultado. Certamente não foi 8,38 metros. Mesmo os italianos 
mais próximos não ficaram animados com o salto. Todos comentaram o caso nos 
restaurantes, naquela noite. O resultado foi recebido com reservas. 
Wilkins faz parte da associação dos estatísticos do atletismo, que se 
recusou a aceitar o salto, classificado como "duvidoso". Um veredito 
surpreendente para um resultado obtido num campeonato mundial organizado 
pela IAAF na presença de seu presidente. 
Dois dias depois do salto, Renato Marino, que observara tudo com o 
binóculo, sem identificar exatamente como o resultado de Evangelisti fora 
alterado, estava em um bar de Roma. Ali encontrou-se com o diretor do 
campeonato, Paolo Giannone e esposa. Enquanto comiam uma pizza, Giannone 
disse que ficou preocupado com uma história a seu respeito, publicada nos 
jornais. Luciano Barra declarou a um jornalista que recebera de Giannone um 
pedido de desculpas por permitir que a cerimônia de premiação do arremesso de 
peso feminino perturbasse o russo Sergei Bubka quando este se preparava para 
quebrar o recorde do salto com vara. 
Giannone insistia que não havia dado o sinal para o prosseguimento da 
cerimônia. Estava fora da pista, conferindo a "regularidade" do salto a distância. 
— Regularidade? — explodiu Marino. — Irregularidade, isso sim! 
— Está vendo? — disse a esposa de Gionnone ao marido. 
— Ele é um especialista, e percebeu tudo — Giannone retrucou. 
— Eu não percebi tudo porque sou especialista — disse Marino. — Todo 
mundo notou algo estranho. 
— Você precisa entender — reagiu Giannone — que Evangelisti precisava 
ganhar uma medalha. Foi o que nos disseram. 
 
14 
ESCÂNDALO 
 
A primeira vítima do escândalo do salto a distância foi a carreira de Nebiolo 
na Itália. Não bastava presidir o esporte universitário mundial, o atletismo italiano 
e a federação internacional. Ele ambicionava outro posto, o de presidente do 
comité olímpico italiano. A presidência controla um orçamento anual de US$ 750 
milhões, dispondo de um poder proporcional a este valor. Com isso, seria o primo 
no esporte italiano. 
A vaga se abriu quando o presidente Franco Carraro entrou para o governo 
do socialista Bettino Craxi. Somente os 39 presidentes das federações de 
esportes podiam votar. Nebiolo já era | vice-presidente, como líder de um esporte 
importante, e pretendia acionar quem lhe devia favores. Contou rapidamente os 
votos prováveis e entrou na briga. 
A eleição se daria no dia 12 de novembro de 1987, dois meses após o final 
do Campeonato Mundial em Roma. Tarde demais para Nebiolo. A esperança de 
uma vitória desabou uma semana antes da eleição. Os cronistas esportivos da 
RAI ficaram tão per- | turbados quanto os outros repórteres com a incrível proeza 
de Evangelisti no último salto. Resolveram aplicar um de seus recursos de vídeo 
favoritos, o "Telebeam", uma espécie de tira-teima que analisava dos gols do 
futebol aos saltos duvidosos. 
Os resultados foram divulgados no noticiário noturno, em horário nobre. A 
conclusão estonteante: Evangelista não saltara mais do que 7,90 metros na última 
tentativa. Luciano Barra, assistente de Nebiolo, compareceu ao programa como 
convidado. Afirmou, calmamente, que uma diferença tão grande — cerca de meio 
metro — entre a medição oficial de 8,38 metros e os 7,90 medidos indicava que 
não poderia ter ocorrido uma fraude. Ninguém, segundo ele, teria a coragem de 
roubar tanto. Um erro técnico explicaria tudo, concluiu. Era a primeira deserção 
nas fileiras de Nebiolo. Embora o presidente afirmasse que não havia erro algum, 
seu assistente e secretário-geral da FIDAL admitia que o resultado não estava 
correio. Sua opinião foi divulgada amplamente na Itália, ecoando principalmente 
no CONI, o comité olímpico. 
A eleição para a presidência aconteceria na elegante sede do CONI, ao 
lado do estádio Olímpico, no Foro Itálico. Na Itália, um país alucinado por 
esportes, tratava-se de um grande evento. O jornal mais importante, La 
Republica, publicou um artigo longo, em destaque, assinado por Vittorio 
Zambardino, sobre a disputa entre Nebiolo e o outro candidato, Arrigo Gattai, 
presidente do esqui. "O dia mais longo da vida de Nebiolo começou às 6 horas da 
manhã", começava o texto, "quando recebeu um telefonema em casa. Era 
Marchio, presidente da federação de boxe. "Eles conseguiram. Levamos uma 
rasteira. Vamos perder." Mais telefonemas. Um conselho: "Desista, para salvar as 
aparências." Mas Primo iria até o fim. 
"Ele foi o primeiro presidente a chegar ao CONI, às 8h20 da manhã. Seu 
famoso bronzeado mostra rachaduras. Saúda efusivamente os presidentes que 
chegam. Depois enfia a mão no bolso e anda de um lado para o outro, consciente 
da derrota, mas . sem saber o motivo. Troca apertos de mão, frios e poucos. Ne-
biolo não sorri. Percorre o corredor das ambições perdidas. Os olhos 
avermelhados encaram furiosos os traidores." 
Carraro chega, e os presidentes esportivos reúnem-se para o discurso de 
despedida. Carraro não perde a chance de apunhalar Nebiolo por causa dos 
rumores referentes ao salto a distância, e faz uma referência à "moralização dos 
esportes". A votação ainda demora um pouco. 
"Alguém, tentando bancar o engraçado, diz: 'Quem quer comprar o meu 
voto pode dar um passo à frente"', prossegue o texto do La Republica. "Nebiolo 
permanece grudado na cadeira, fitando os óculos. Giorgio di Stefani, às 10h30, 
anuncia o resultado: Gattai, 26; Nebiolo, 13. Nebiolo fica mais do que deprimido, é 
1,65 metros de puro sofrimento. Ele sussurra: 'Acho melhor cumprimentá-lo.' Com 
o rosto transformado numa

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