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Vyv Simson e Andrew Jennings OS SENHORES DOS ANÉIS Poder, dinheiro e drogas nas Olimpíadas Modernas Tradução de Celso Nogueira EDITORA BEST SELLER CÍRCULO DO LIVRO Título original: The Lords of the Rings Copyright © Ceres Productions, Ltda, 1992 Publicado sob licença de Simon & Schuster, Londres Licença editorial para o Círculo do Livro por acordo com a Editora Nova Cultural Ltda. e o detentor dos direitos autorais. Todos os direitos reservados. Direitos exclusivos da edição em língua portuguesa no Brasil adquiridos por EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., que se reserva a propriedade desta tradução. EDITORA BEST SELLER uma divisão da Editora Nova Cultural Ltda. Al. Ministro Rocha Azevedo, 346 - CEP 01410 - Caixa Postal 9442 São Paulo, SP CÍRCULO DO LIVRO Caixa postal 7413 01051 São Paulo, Brasil Fotocomposto na Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e Acabamento: Gráfica Círculo Sumário Introdução Será que o Esporte é Isso? 1 Bem-vindos a Barcelona 2 O Sistema 3 Dassler Toma Coca-Cola 4 De Montreal a Monte Carlo 5 Com o Braço Erguido Eu o Saúdo 6 O Camaleão Manhoso 7 A Jóia da Coroa 8 O ISL Dita as Regras 9 O Peso Morto 10 O Ouro Negro de Olímpia 11 As Pedras na Bota 12 Vinte Milhões de Dólares 13 As Trapaças 14 Escândalo 15 Bem Na Cara de Todos 16 Um Advogado de Des Moines 17 Sinais de Alarme 18 O Ditador Benevolente 19 O Número do Sapato da Filha Mais Nova 20 Destruindo as Olimpíadas Apêndice A: Calendário das Olimpíadas Modernas Apêndice B: Membros do Comité Olímpico Internacional INTRODUÇÃO SERÁ QUE O ESPORTE É ISSO? Este livro revela os fatos que a televisão e os jornais não contam a respeito das Olimpíadas e do esporte internacional. Durante quatro anos procuramos descobrir quem controla o esporte, para onde vai ,o dinheiro e porque um mundo considerado belo e puro há dez anos, tornou-se antidemocrático, obscuro, cheio de drogas e acabou leiloado para servir ao marketing das companhias multinacionais. Para nossa surpresa, nos deparamos com a investigação mais difícil de nossas vidas. Nos últimos anos escrevemos e fizemos documentários para a televisão sobre a Máfia, o caso Irã-Contras, o terrorismo, a corrupção na Scotland Yard e outras áreas sombrias da vida pública. O mundo do esporte amador olímpico provou ser o mais difícil de penetrar. Jamais encontramos tantas dificuldades em conseguir entrevistas autorizadas, documentos e fontes primárias. Um dirigente olímpico respeitado chegou ao ponto de contratar advogados, para tentar impedir a publicação das críticas às lideran- ças olímpicas, feitas durante uma longa entrevista gravada! Esta foi nossa grande descoberta sobre o mundo do moderno esporte olímpico. Trata-se de um domínio secreto, elitista, onde as decisões sobre o esporte, o nosso esporte, são tomadas a portas fechadas, onde se gasta rios de dinheiro para criar um estilo de vida fabuloso para um círculo restrito de dirigentes em vez de providenciar melhores condições para os atletas, onde o dinheiro destinado ao esporte acaba desviado para contas bancárias no exterior e onde os dirigentes se perpetuam no poder, sem se perturbar com eleições. Este livro, portanto, não fala dos competidores que lutam pelas medalhas de ouro. Trata do mundo oculto dos homens engravatados, dos homens que manipulam o esporte segundo seus próprios objetivos. Não somos jornalistas esportivos. Não fazemos parte do círculo onde muitos repórteres preferiram concentrar a atenção nos eventos esportivos, ignorando o modo como o esporte vem sendo destruído pela cobiça e pela ambição. Como resultado, um dos momentos mais reveladores para nós foi quando sofremos críticas veementes do diretor de informação do Comité Olímpico Internacional (COI), na Suíça, só porque fizemos perguntas diretas a um alto dirigente olímpico. Agimos como um repórter age, em qualquer matéria. Tal comportamento não é aceitável no mundo clandestino e egoísta do COI. Se o esporte pretende sobreviver, necessitará da atenção de muitos outros jornalistas sem vínculos ou compromissos com os Senhores de Lausanne. Ao avançar além da pompa e da hipocrisia das Olimpíadas modernas e de seu líder, recordamos repetidamente do comentário de uma criança no dia em que o imperador desfilou com seu novo traje: "O rei estava nu". Isso deveria ser óbvio para qualquer pessoa a quem a propaganda não conseguiu cegar. Como no restante de nosso trabalho de muitos anos, não podemos agradecer em público às fontes que mais nos ajudaram. Depois de muito esforço, os documentos chegaram às nossas mãos, e pessoas gentis, preocupadas com o esporte, deram sugestões e apontaram áreas que exigiam investigações e denúncias. Esperamos que este livro as ajude em suas batalhas para tirar o esporte das mãos de um pequeno grupo. Assumimos a responsabilidade final pelo conteúdo deste livro, é claro. Gostaríamos de agradecer a Pat Butcher, Mark Dowie, Jock Ferguson, Pierlunghi Ficoneri, sir Arthur Gold, Nick Ha-yes, Fred Holder, Dennis Howell, Arquivo de Segurança Nacional de Washington, Susan O'Keefe3 Ron Pickering (já falecido), Claire Powell, John Rodda, Claire Sambrook, Montse Trivino e Giovanni Ulleri por sua ajuda e participação de várias formas. Temos um grande débito para com nossos tradutores, Sabas-tian Balfour, Franco Bossari, Patrick Buckley, Lucy Davies e Nic-ki DiCiolla, pêlos conselhos esplêndidos, que foram muito além do significado das palavras. Recomendamos aos leitores que desejam saber mais a respeito da história de Juan António Sara- manch a consulta ao livro El Deporte dei Poder, de Jaume Boix e Arcadio Espada, publicado em 1991 pelas Ediciones Temab -ie Hoy, em Madri. Agradecemos também aos dirigentes da Associação Olímpica Britânica, por permitir a consulta de sua biblioteca. Finalmente, e como sempre, somos gratos pelo apoio das pessoas mais próximas a nós, sem o qual este projeto não teria sido realizado. Vyv Simson Andrew Jennings Janeiro de 1992 1 BEM-VINDOS A BARCELONA Bem-vindos à Espanha. Bem-vindos a Barcelona, a antiga cidade romana de Barcino, a "Cidade dos Condes" medieval, rodeada de muralhas. Bem-vindos a Barcelona. Capital da Catalunha orgulhosa e independente, segunda cidade da Espanha, e por séculos rival ferrenha de Madri, a capital. Bem-vindos a Barcelona. Cidade para onde Cristóvão Colombo retornou após a descoberta do Novo Mundo, em 1492. Bem-vindos a Barcelona. Cidade de Salvador Dali e Pablo Picasso, de Pablo Casais e José Careiras e de Cobi, o cão surrealista. Cobi, o cão surrealista? Certamente. Pois Barcelona também é a sede dos Jogos Olímpicos de 1992, e Cobi, um cachorro de gibi, é o mascote olímpico da cidade. Estamos às vésperas da estréia das Olimpíadas. A capital da Catalunha, abarrotada de gente. Quatrocentos mil espectadores são esperados em Barcelona. Eles incharão a cidade, a ponto de explodi-la. O maior espetáculo da terra vai começar. Bem-vindos a Barcelona. o comité organizador dos Jogos Olímpicos, para os responsáveis pelo planejamento e financiamento das duas semanas fantásticas, aproxima-se a hora da verdade. O comité, como acontece com quase tudo no mundo do esporte internacional, tem uma sigla: COOB'92 (Comité Organizador das Olimpíadas de Barcelona). Seu presidente é o prefeito socialista de Barcelona, Pasqual Maragall. Ele fala com entusiasmo sobre o "caso de amor" entre sua cidade e as Olimpíadas. A paixão de Barcelona custoua Maragall e sua diretoria executiva mais de l bilhão de libras, apenas para sediar um evento de duas semanas. Mais 2 bilhões de libras do dinheiro público foi gasto pela cidade, para comprar e desapropriar terrenos, construir a Vila Olímpica e 43 quilômetros do novo anel viário, reformar ou erguer do zero quarenta e três locais exigidos pelo extenso programa esportivo das Olimpíadas e, finalmente, para ampliar o aeroporto de Barcelona. Seis anos antes, em outubro de 1986, Barcelona derrotou Brisbane, Paris, Amsterdã, Belgrado e Birmingham na corrida para sediar os Jogos Olímpicos de 1992. Os bate-estacas, guindastes e máquinas de terraplenagem tomaram conta da cidade. Desde então, os moradores de Barcelona vivem em um gigantesco canteiro de obras. Mas o prefeito Maragall e sua equipe podem dormir sossegados, sabendo que tudo está pronto para as Olimpíadas. No dia 2 de outubro de 1988, na cerimônia de encerramento dos Jogos de Seul, a bandeira olímpica criada pelo fundador dos jogos modernos, barão Pierre de Coubertin, foi entregue a Maragall. No sábado, 25 de julho de 1992, a bandeira branca com os cinco anéis entrelaçados representando os cinco continentes, que se tornou o símbolo mais conhecido no mundo depois da cruz cristã, será içada no estádio Montjuic de Barcelona. Tudo estará pronto para a cerimônia de abertura da 25? Olimpíada. O estádio de Montjuic é a peça central na orgia de esportes de duas semanas e na orgia de gastos de seis anos. Nesta cerimônia, 70 mil espectadores rodearão reis e rainhas, príncipes e princesas, xeques e rajás, primeiros-ministros e presidentes acomodados na Tribuna de Honra. Os ingressos valerão US$ 500. O estádio se destaca no "Anel Olímpico", nome dado pelo comité organizador para a área de Montjuic de onde se pode avistar a cidade, a oeste, e o Mediterrâneo, a leste. O estádio tem uma longa história olímpica. A pedra fundamental foi colocada há 64 anos, pelo conde Henri Ballet-Latour, então presidente do comité olímpico. Montjuic fora construído na tentativa anterior feita por Barcelona para sediar os jogos. Em 1931 a 30? sessão — ou reunião anual — do Comité Olímpico Internacional, detentor dos direitos dos Jogos Olímpicos, realizou-se no Hotel Ritz, em Barcelona. Dez dias antes da abertura, o novo governo esquerdista da Espanha proclamou a república no país. Um marquês e cinco condes encontravam-se entre o grupo refinado que se reuniu no Ritz de Barcelona, mnco condes encontravam-se entre o grupo refinado que se reuniu no Ritz de Barcelona, mas a maioria de seus pares se manteve a distância. Eles resolveram promover pelo correio a votação que escolheria a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 1936. Quando os votos retornaram, Barcelona descobriu que perdera a indicação para a Berlim de Adolf Hitler. Desapontados e revoltados, os cidadãos radicais de Barcelona promoveram uma competição alternativa no novo estádio de Montjuic. Balizaram o evento de "Olimpíada Popular de Barcelona", caracterizando seu desafio. Em julho de 1936, 5 mil atletas e 20 mil espectadores foram recebidos em Barcelona pelo prefeito da cidade e participaram da Olimpíada Popular. Os jogos de Barcelona terminaram pouco depois do início. O dia seguinte foi marcado pelo início do levante militar que deu origem à Guerra Civil Espanhola. A Olimpíada Popular foi cancelada, e muitos atletas e espectadores juntaram-se às forças republicanas concentradas na capital catalã. Barcelona tornou-se um pólo de oposição ao general Franco e seus seguidores fascistas. O ditador jamais perdoou esta oposição, e fez com que os cidadãos de Barcelona pagassem um alto preço por ela, nos quarenta anos seguintes. Milhares de opositores de Franco morreram, e muitos outros milhares foram presos, mas os catalães que se dispuseram a erguer os braços na saudação tradicional do Movimento fascista do ditador prosperaram. A vingança do Generalíssimo sobre Barcelona incluiu até as ambições olímpicas da cidade. Em dezembro de 1965 Barcelona competiu contra Madri pela indicação como candidata da Espanha à sede dos Jogos de 1972. A reunião para decidir entre as duas cidades foi marcada para a véspera do Natal. Poucos dias antes, o representante de Barcelona recebeu um telefonema e foi avisado que não precisava se dar ao trabalho de comparecer à reunião. "Não será importante. Apenas uma prestação de contas", disse o autor da chamada. Barcelona fora lograda. Três dias antes do Natal, a sede do movimento olímpico na Suíça recebeu a informação de que Madri era a cidade espanhola escolhida como candidata para sediar o evento em 1972. — Naquele tempo o homem de El Pardo ainda vivia — lembra um catalão, referindo-se ao poder absoluto do general Franco. Mas agora o líder está morto. A Espanha tornou-se novamente uma democracia, e os fascistas companheiros de Franco trocaram os uniformes por ternos. Em 1992, o estádio de Montjuic realizará finalmente seu destino olímpico. Nos últimos seis anos o local passou por uma reforma completa. Reconstruído, manteve a aparência de 1930, preservada como "um tributo ao esporte e ao espírito olímpico das pessoas da cidade, das gerações que lutaram desde o início do século para sediar os Jogos." Quatro escadas rolantes gigantescas levarão 14 mil pessoas por hora para o Anel Olímpico, onde acompanharão os lances das estrelas do atletismo contra os recordes mundiais; assistirão os embates entre as estrelas da ginástica, vôlei e basquetebol no ginásio esportivo futurista de Palau Saint Jordi; acompanharão os esforços dos nadadores nas magníficas piscinas de Picornell. Em Poblenou, à beira-mar, encontra-se o Pare de Mar. Um terreno de 640 mil metros quadrados abriga prédios de seis andares, com vista para o mar. Pare de Mar é a Vila Olímpica, recebendo por duas semanas 15 mil atletas de mais de 160 países. Toda a área foi rodeada de uma cerca de segurança alta. A segu- rança dos atletas ganhou prioridade desde que onze competidores israelenses foram assassinados por terroristas em Munique, em 1972. Por trás da cerca, o complexo possui restaurante, agência dos correios, banco, agência de viagens, aluguel de carros, supermercado, livraria, farmácia, bar, salões de descanso e leitura. O restaurante servirá aos atletas mais de 900 mil refeições durante as Olimpíadas. Próximo ao estádio Montjuic, na borda do Anel Olímpico, situa-se o Centro de Imprensa Principal. Liga-se a centros de imprensa satélites instalados nos locais de competição, na Vila Olímpica ,e nas duas "vilas de imprensa" especialmente construídas em Badalona e Vai d'Hebron, nos subúrbios de Barcelona. O Centro de Imprensa receberá 10 mil profissionais credenciados, re- presentando jornais e emissoras de rádio e televisão de todo o mundo que se encaminharão para Barcelona. Finalmente, na famosa Diagonal, a rua mais comprida de Barcelona, fica o luxuoso Hotel Princesa Sofia. Nos últimos dois anos, os proprietários espanhóis investiram US$ 10 milhões em reformas. Ò hotel foi redecorado luxuosamente, para receber os hóspedes mais importantes dos jogos. Não haverá ali estrelas do atletismo, natação ou ginástica. O Princesa Sofia será, nas duas semanas dos Jogos Olímpicos, sede do Clube. O "Clube" é uma das sociedades fechadas mais poderosas, lucrativas e secretas do mundo. Por intermédio do Clube, um punhado de "presidentes" nomeados comanda o esporte mundial. A suíte presidencial do Princesa Sofia receberá o membro mais importante do Clube, o supremo pontífice olímpico, o rei inconteste do esporte mundial, o espanhol Juan António Samaranch. Ele preside o COI, o discrepante grupo de indivíduos "proprietários" das Olimpíadas. No comando há uma década, Samaranch considera as Olimpíadas "o movimento social mais importante e de maior prestígio no mundo contemporâneo". Isso pode surpreender os milhões de telespectadores que consideravam as Olimpíadas somente um evento esportivo quadrienal. "Ele é igual a um rei, o meuchefe", confidencia um membro do COI. Ao que parece, os líderes políticos do mundo concordam. Tratam aquele senhor de 72 anos, baixo, com cabelos prateados, que disputou apenas uma eleição em doze anos de presidência, como um verdadeiro chefe-de-estado. Quando não está visitando a Casa Branca, o Vaticano, o Kremlin ou o Palácio do Povo em Pequim, Juan António Samaranch concede audiências exclusivas para os primeiros-ministros e presidentes do mundo, em sua residência olímpica de Lausanne. Recebe homenagens por toda a parte. Universidades e chefes-de- estado o cobrem de comendas e medalhas, prêmios e títulos honoríficos. Samaranch afirma que o Comité Olímpico Internacional constitui a "maior autoridade moral em esportes competitivos do mundo". Esta afirmação parte do líder de uma organização humilhada em Seul, quando precisou tomar a medalha de ouro nos 100 metros de Ben Johnson, que correu entupido de esteróides. Samaranch compara o movimento olímpico a uma pirâmide. Naturalmente, ele e seus noventa e poucos companheiros do COI, escolhidos aleatoriamente em apenas 75 países, ocupam o topo. Durante os Jogos Olímpicos de 1992, os membros do COI, acompanhados de familiares e convidados, chegarão de todas as partes do mundo, em vôos de primeira classe, para lotar centenas de apartamentos no Princesa Sofia. O hotel inteiro foi reservado, há alguns anos, para servir de quartel-general para o Clube. Nas Olimpíadas de Barcelona, Samaranch será um presidente realizado, ao comandar sua corte no Princesa Sofia, Barcelona é a cidade natal de Samaranch. Levar os Jogos Olímpicos para casa constitui a suprema glória para o líder. Em uma suíte ligeiramente mais discreta no Hotel Princesa Sofia, como dita o protocolo olímpico, hospeda-se outro poderoso membro do Clube: o brasileiro Dr. João Havelange. Membro do COI desde 1963, dois anos a mais do que Samaranch, ele reina sobre o esporte mais popular do mundo — o futebol. Em 1974, Havelange elegeu-se presidente da Federação Internacional de Futebol Association, mais conhecida por sua sigla, FIFA. Assim como o presidente olímpico, Havelange não enfrentou mais nenhuma eleição depois de assumir o comando do esporte mais popular do mundo. Há quase vinte anos o presidente Havelange tem sido um dos dirigentes esportivos mais influentes. Quando Barcelona lançou sua campanha para sediar as Olimpíadas, no início da década de 1980, o presidente Samaranch, sendo espanhol e catalão, declarou que se manteria neutro na disputa. Podia se dar a este luxo. Todos conheciam a posição do presidente, e não faltou quem se dispusesse a defender sua cidade natal. O mais poderoso, seu amigo brasileiro, João Havelange, organizou os membros do COI de fala espanhola para apoiar a campanha de Barcelona. O processo foi pouco edificante, segundo uma descrição: "Revelou-se o lado inaceitável do Movimento Olímpico, com suas recepções suntuosas, convites aos membros de todo o mundo para visitar os locais das provas e distribuição de presentes, um quadro que se completou com o envolvimento de reis e primeiros- ministros no processo final de escolha." Em 1985, na reunião do COI em Berlim, Jacques Chirac, ex-premiê francês, líder do grupo que lutava pela escolha de Paris, atacou as manobras políticas de Havelange, que pretendia levar os Jogos para Barcelona. Chirac, acostumado aos corredores do poder, percebeu que Paris estava perdendo terreno. Segundo um comentarista, Chirac "ameaçou usar sua influência na África para impedir que Havelange se reelegesse para a presidência da FIFA. Não resta dúvida que Havelange, com seu poder sobre a América do Sul e Central, pode gerar uma maioria dentro do COI." Mais adiante, na Rua Diagonal de Barcelona, fica o Hotel Hilton, reservado para um dos esteios da pirâmide olímpica de Samaranch, as federações esportivas internacionais, conhecidas como IFs. As federações controlam, a nível mundial, os vinte e cinco esportes presentes nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Elas determinam as regras e regulamentos para as competições olímpicas. Em um carro com chofer, seguindo do aeroporto para sua suíte, encontra- se um membro do Clube, o presidente Primo Nebiolo. Uma série de escândalos reduziu temporariamente seu poder no mundo esportivo, mas quando se trata dos Jogos, ele ainda dá as cartas. Nebiolo comanda o atletismo, o esporte-chave das Olimpíadas, o que o torna o terceiro membro do Clube em importância. Esse italiano é vital para Samaranch. O presidente olímpico teme o poder de Nebiolo, porque sem o atletismo os Jogos Olímpicos deixariam de ser o espetáculo esportivo número um do mundo. Os eventos de Nebiolo são as jóias da coroa olímpica. Fornecem brilho e dólares. As companhias de televisão de todo o mundo soltam seu dinheiro para registrar as imagens das estrelas que- brando recordes. Não se lucra com atletas convictos de que o importante é apenas competir. Na Federação Internacional de Atletismo Amador, um nome curioso para a entidade que controla o suprimento de estrelas olímpicas, dirigida por Nebiolo, os atletas "amadores" passeiam em Ferraris e Porsches. Primo Nebiolo, peça fundamental para a continuidade do sucesso dos Jogos Olímpicos, vem sendo mantido fora do Comité Olímpico Internacional. Muitos membros do COI desconfiam de Nebiolo. Sua ambição é palpável, transpira por cada poro de seu rosto permanentemente bronzeado. Ele não possui os modos suaves e diplomáticos de Samaranch, presidente do COI, nem a elegância mundana e sofisticada de Havelange. Nebiolo é um bataIhador, um sobrevivente, um encrenqueiro, e isso ofende a sensibilidade de muitos dos seletos membros do Comité Olímpico Internacional. Nebiolo não perdeu as esperanças. No ano passado, um u>i-gente esportivo igualmente controvertido tornou-se membro do comité. Chegando a Barcelona em seu jatinho particular, o multimilionário Mário Vasquez Rabina, magnata da mídia mexicana, ocupará outra suíte presidencial, Rabina também ocupa posição de destaque no Clube. Ele preside a Associação dos Comitês Olímpicos Nacionais, conhecida pela sigla ANOC. Os comitês olímpicos nacionais formam o terceiro ponto de apoio da pirâmide olímpica de Samaranch. Cada país possui o seu, mas eles pouco aparecem, a não ser no ano da Olimpíada, quando levantam fundos para enviar equipes aos Jogos. As tarefas dos NOCs, os Comitês Olímpicos Nacionais, são detalhadas em um dos documentos menos lidos do mundo, apesar de sua importância: a Carta Olímpica. No passado, a Carta era apenas uma declaração de ética, objetivos e ideais. Com o crescimento dos Jogos, cresceu também a pomposidade da Carta. A função dos NOCs é "divulgar os princípios fundamentais das olimpíadas a nível nacional... e contribuir também para a difusão dos ideais olímpicos nos programas pedagógicos escolares". Os NOCs decidem qual a cidade, entre as maiores do país, será candidata à sede dos Jogos. Apenas uma cidade de cada país con- corre, mas em função dos custos poucos países se inscrevem. Existem atualmente mais de 160 comitês olímpicos nacionais, representando países como a República Popular da China, com mais de l bilhão de habitantes, até Mônaco, com cerca de 25 mil. A Carta Olímpica estabelece que eles devem "resistir a todas as pressões, de qualquer tipo, inclusive aquelas de natureza política ou econômica." Trata-se de uma regra ignorada nos anos em que os partidos comunistas comandaram o Bloco Oriental, quando os dirigentes esportivos eram nomeados somente em função de sua devoção a Marx e Lênin. Muitas nações do Terceiro Mundo integram seus NOCs aos Ministérios do Esporte controlados pelo governo. Vários membros do COI e presidentes dos NOCs são oficiais de alta patente, originários de países governados por juntas militares. A independência política e econômica é tão remota, em países assim, quanto à urna eleitoral. No restante dos 2.300 quartos de hotel reservados exclusivamente para a Família Olímpica, irão hospedar-seoutros membros do Clube. Entre eles, o presidente Un Yong Kim, da Coréia do Sul. O Dr. Kim preside a Federação Mundial de Taek-wondo, uma arte marcial coreana. Segundo Samaranch, "Kim é um consultor em quem confio plenamente." Kim é um veterano do mundo olímpico. Destacou-se como o membro mais importante do comité encarregado de organizar os Jogos Olímpicos em Seul. O Dr. Kim, tendo feito carreira em uma das ditaduras militares mais brutais do mundo, foi recompensado com o cargo de conselheiro especial do presidente da Coréia. Alguns membros do COI apontam Kim como sucessor de Samaranch. Outro nome lembrado para o mais alto cargo olímpico é o de um membro canadense do Clube, um advogado de Montreal, Dick Pound, conhecido por ser direto — às vezes até demais. Em 1991 Pound deixou o cargo de vice-presidente do COI, quando seu mandato de quatro anos chegou ao fim. Mas ele continua sendo uma das figuras mais influentes do mundo olímpico, pois Pound é o negociador de direitos para a televisão mais experiente do COI. Este canadense de aparência complacente representa o COI quando as Olimpíadas vão a leilão. Um membro do Clube, ausência notável da festança de Barcelona, antigo colega norte-americano de Pound, é o advogado Robert H. Helmick, de Dês Moines, lowa. Até o final de 1991, Helmick presidia o poderoso Comité Olímpico dos Estados Unidos — conhecido como USOC. Ele assinava os contratos multimilionários de suporte financeiro, em dólares. Ao mesmo tempo, era membro da diretoria executiva do COI. Helmick se posicionava para suceder Samaranch, mas no ano passado foi acusado de receber dinheiro de organizações esportivas e empresas de marketing e televisão interessadas em contratos com o movimento olímpico. Foi forçado a renunciar ao USOC, e depois ao próprio COI. Desfrutam também de todos os luxos os membros do Clube que representam o outrora poderoso Bloco Oriental: Vital Smirnov e Marat Gramov, da Rússia; Alexandru Siperco, da Romênia; Vladimir Cernusak, da Tchecoslováquia; Shagdarjav Mag-van, líder sindical da Mongólia; Wlodzimierz Reczek, da Polônia; Ivan Slavkov, da Bulgária; e, claro, o veterano Gunther Heinze, vindo de Berlim Oriental, agora representando a nova Alemanha unificada. Com o inesperado triunfo da democracia em seus países, muitos deles foram demitidos de seus cargos e poderes no esporte — mas permanecem no COI até o final da vida, viajando pelo mundo e representando apenas a si mesmos. Nos vinte e sete anos passados desde a entrada de Juan António Samaranch para o COI, a organização passou da miséria à riqueza. No início dos anos 1960, a situação financeira do Comité Olímpico era catastrófica. Os Jogos de Roma, em 1960, deram um prejuízo de 300 milhões de liras. Mas ainda havia uma esperança. As empresas de televisão vieram em seu socorro. Contudo, a sobrevivência se dava precariamente. Reggie Alexander, na época representando o Quênia no COI, ofereceu-se para arranjar um contador disposto a cuidar dos livros do COI de graça. Desde então, as coisas melhoraram bastante. Atualmente a renomada empresa internacional Price Waterhouse cuida da auditoria das contas. A contabilidade do COI é mantida em segredo. Descobrimos que em dezembro de 1990, o presidente Samaranch cuidava de uma organização com US$ 20 milhões de orçamento anual e bens no valor de US$ 118 milhões. Possui quase US$ 60 milhões em dinheiro — sabiamente divididos em francos suíços (75 por cento) e dólares (25 por cento), para tirar proveito das taxas de juros mais altas. O COI de Samaranch, com base na Suíça, passou de um grupo de onze pessoas amontoadas em três salas no segundo andar de uma casa chamada Mon Repôs para uma equipe de 61, instalada em um luxuoso complexo de prédios revestidos de mármore rodeados por jardins bem-cuidados, em volta do castelo de Vidy, em Lausanne. Apenas a folha de pagamento anual atinge hoje a soma de 8 milhões de francos suíços. Em breve haverá mais escritórios. Uma ampliação e salas subterrâneas ligarão o castelo de Vidy com a Casa Olímpica vizinha. E o império continua a crescer. Quando o COI se reunir em Lausanne, para sua 100? sessão, em junho de 1993, o presidente Samaranch inaugurará seu projeto mais ambicioso: um museu olímpico no valor de 40 milhões de dólares. A idéia foi custeada por conglomerados internacionais agradecidos, felizes pela oportunidade de formar fila para doar um mínimo de US$ l milhão cada para o presidente. Samaranch, confiante no toque de Midas das Olimpíadas, não hesitou em arrematar o Atleta Americano, uma estátua em bronze de Auguste Rodin. O presidente Samaranch tinha certeza de que um patrocinador apareceria para bancar seu custo. Não se pode chamar seu otimismo de exagerado. As doações para o museu superaram a casa dos US$ 20 milhões. Os comitês olímpicos auto-nomeados, responsáveis pelas finanças, doping, medicina esportiva e organização dos jogos olímpicos de inverno e verão, cresceram de sete, quando Samaranch entrou em cena em 1966, para os dezessete atuais. Apenas estes comitês consomem anualmente 4,5 milhões de francos suíços. Passagens de primeira classe em vôos de carreira ou aviões fretados e hospedagens em hotéis luxuosos para membros do COI custa mais 2 milhões de francos suíços por ano. Outros 3 milhões de francos suíços vão para a assessoria de imprensa, material de divulgação e atividades de relações públicas. Manipular profissionalmente a cobertura da mídia é algo crucial -para Samaranch. O COI contratou uma das maiores agências de relações públicas do mundo. Samaranch declarou: "O mundo do esporte está mudando rapidamente, e a complexidade das questões e a amplitude dos interesses comerciais cresce constantemente. Para lidar com estas circunstâncias, decidimos aumentar o alcance e a profissionalização de nossas comunicações." A agência de publicidade Grey, contratada para "aumentar o alcance e a profissionalização" das comunicações coloca a questão de forma mais clara: "Em nossa opinião", insiste o diretor Ed Meyer, "o movimento olímpico internacional é como uma marca', e precisa de um guardião para preservá-la e desenvolver seu potencial futuro. A Grey se orgulha de seu rol de sucessos em termos de assistência aos clientes na implementação de marcas mundiais importantes, e pretendemos ajudar o COI neste sentido." A Olimpíada como uma "marca mundial": O movimento olímpico de Samaranch encontra-se num mundo diferente daquele descrito por um ex- presidente olímpico, que declarou: "As Olimpíadas não são um negócio, e aqueles que almejam ganhar dinheiro com o esporte não são bem-vindos. É isso e pronto!" Aqueles que desejam ganhar dinheiro com o esporte, hoje em dia, são recebidos de braços abertos. O preço que o Comité Olímpico Internacional de Samaranch cobra das companhias de televisão e conglomerados comerciais multinacionais é assombroso. Para os Jogos Olímpicos em Barcelona só as companhias de televisão de todo o mundo concordaram em pagar um total de US$ 663 milhões. A rede norte- americana NBC entrou com US$ 416 milhões. A União Européia de Emissoras pagou US$ 90 milhões. A NHK lidera um grupo de emissoras de televisão japo- nesas, bancando US$ 62,5 milhões. O Canal 7 australiano pagou quase US$ 34 milhões. Mesmo com o caixa baixo, o Leste Europeu contribuiu com US$ 4 milhões. Todo este dinheiro se soma aos US$ 289 milhões que as companhias de televisão mundiais já pagaram este ano pêlos direitos de transmitir as Olimpíadas de Inverno, realizadas em fevereiro em Albertville. Na Olimpíada de Roma, em 1960, a televisão pagou apenas US$ l milhão. E isso é só o começo da avalanche de dólares. Graças à televisão, uma audiência global de quase 3,5 bilhões de consumidores está disponível. Uma dúzia de multinacionais — entre elas a Coca-Cola, Visa e Mars — pagaram até US$ 30 milhões cada para garantir os direitos mundiais de vincular seus produtos aos Jogos Olímpicos, com exclusividade. Outras dez companhias, incluindonomes como Seiko, Danone e Asics, cujos produtos não podem concorrer com as marcas dos patrocinadores principais, pagaram um mínimo de US$ 6 milhões pelo direito de incorporar o logotipo dos Jogos em seus anúncios. A Rank Xerox, Philips, IBM, Seat e outras quatro companhias, cuja contribuição foi considerada "essencial para a organização dos jogos", e que se dispuseram a pagar um mínimo de US$ 23 milhões cada, foram aceitas como colaboradoras dos organizadores do evento de Barcelona. Outras dezoito companhias, dispostas a fornecer serviços e produtos no valor mínimo de US$ 2 milhões, como equipamentos de escritório, cabos de força e sinais, completam o quadro, como fornecedores oficiais das Olimpíadas de Barcelona. Ancorados no porto de Barcelona estarão dezesseis transatlânticos de luxo. Foram alugados para atender às necessidades destas corporações patrocinadoras, colaboradoras e fornecedoras. Elas contam com 2,5 mil apartamentos flutuantes para uso de seus executivos e convidados. Na cabines e decks do Royal Viking Sun passearão 740 magnatas, convidados e celebridades da rede norte-americana NBC. Ao lado dos homens de televisão e seus convidados estarão os navios Danae e Seabourn Spirit. Estes hotéis flutuantes, igualmente luxuosos, hospedarão os diretores, amigos e clientes da IBM espanhola e da companhia norte-americana 3M — mais dois dos doze patrocinadores mundiais das Olimpíadas. O estilo de vida dos patrocinadores olímpicos nos transatlânticos ancorados em Barcelona deverá espelhar o tipo de vida desfrutado pêlos membros do Clube, em terra. Todo evento social olímpico é um carrossel constante de viagens de primeira classe, hotéis cinco estrelas, recepções regadas a champanhe, banquetes nababescos, montanhas de presentes e programas requintados. E, frequentemente, não há um único atleta à vista. O hotel cinco estrelas Hyatt Regency situa-se em frente ao novo Centro Internacional de Convenções de 160 milhões de libras, na parte nobre da segunda cidade britânica. O Hyatt é o hotel mais novo e caro de Birmingham. Grande, imponente, pintado de azul, foi classificado, para desespero de seus proprietários, como o mais pavoroso dos novos prédios ingleses. A torre de concreto e vidro repete o estilo arquitetônico "insosso" internacional moderno. Poderia ter sido construído em qualquer lugar do mundo onde os executivos das grandes empresas resolvessem torrar dinheiro. Na frente do hotel tremula a bandeira olímpica. Em junho de 1991, o Birmingham Hyatt Regency serviu de quartel-general temporário do Clube, que se reunia pela última vez antes do ano olímpico. O grosso da conta foi pago pêlos anfitriões, ou seja, a prefeitura de Birmingham. — Lamento, senhor, mas é proibido circular nesta área —, informou um dos muitos policiais da região de West Midlands, parado na entrada do Hyatt. Bem, ele não estava realmente na entrada, e sim a uns seis metros da porta. Ninguém pode se aproximar do acesso ao hotel. Há um grupo numeroso de policiais operando um sistema de segurança imenso, do tipo existente em aeroportos, montado na calçada. O sistema inclui raios-X para examinar a bagagem e detetor de metais. Tanto o Hyatt quanto o Centro Internacional de Convenções se transformaram em uma "ilha se segurança total", no jargão dos especialistas. Na prática, isso significa que os meros mortais não podem entrar. — Mas somos jornalistas credenciados — protestamos. — Sinto muito, senhor, mas não permitem a entrada de ninguém — foi à resposta. Uma frota de limusines brancas, todas ostentando os cinco anéis olímpicos e a placa "carro oficial", entram e saem do Hyatt. Ao volante sempre há moças louras idênticas, de pernas longas. As limusines conduzem uma fila de pessoas bem-vestidas, homens em sua maioria, na entrada do hotel. Trata-se dos noventa e poucos membros do Comité Olímpico Internacional, recém chegados na primeira classe dos jatos que pousam no aeroporto internacional de Birmingham. A polícia cuida da bagagem daquela gente tão importante, e escolta os grupos pêlos controles de segurança. Uma limusine, maior do que as outras, chega escoltada por batedores de motocicleta. A prefeitura de Birmingham poderia hospedar uma família sem teto num carro daqueles, e ainda sobraria espaço para alguns parentes. Oculto na barriga do monstro, um Rover Regency cinza-metálico de vinte e quatro cilindros, encontra-se o membro mais importante do Clube: o presidente olímpico Juan António Samaranch. Como no caso do Princesa Sofia de Barcelona, o Hyatt foi inteiramente reservado para o uso do movimento olímpico. Teve as portas fechadas ao público três dias antes do início da 97a. sessão, a reunião anual do COI. Patrocinar a burocracia esportiva do presidente Samaranch, e a publicidade decorrente, é tão desejável que hoje em dia as cidades disputam vigorosamente o privilégio de sediar até as meras reuniões do COI. Imaginem o que não fariam para ter as Olimpíadas! Os rivais de Birmingham no privilégio de sediar a reunião eram Moscou, Belgrado, Nairobi, Riad, Monte Cario e Budapeste. Como acontece na disputa pelas Olimpíadas, foram realizadas várias sessões de votação, onde se descartava a cidade na última colocação, até que a vencedora conseguisse maioria absoluta. Na última rodada restaram apenas Budapeste e Birmingham. Um dos membros favoráveis a Budapeste, representante do Kuwait, resolveu sair da sala para fumar um cigarro. Enquanto estava fora, Birmingham ganhou a parada — por um voto. Respondendo a uma pergunta do presidente Samaranch, Mary Glan-Haig, um dos dois membros britânicos do COI, disse que o resultado foi "decisão de Alá". Os organizadores do evento em Birmingham concordaram em pagar as diárias dos 319 apartamentos do Hyatt durante uma semana — independente de sua ocupação ou não. Só as despesas de hospedagem neste hotel chegam a 34.689 libras por dia, ou 277.512 libras por semana. Na suíte presidencial de cobertura, onde a diária chega a 595 libras, está Juan António Samaranch. O presidente pode receber seus convidados para jantar numa mesa com doze lugares; descansar nos sofás perto da lareira da sala de estar; fazer hidromassagem na imensa banheira Jacuzzi; tocar piano de cauda ou simplesmente tirar uma soneca na cama com dossel. A suíte já foi ocupada anteriormente por estrelas do show business, como Gloria Estefan, Paul Simon, Rod Stewart e Billy Idol. Tina Turner queria ficar ali, mas Cher chegou primeiro. — A suíte costuma ser usada às vezes por empresas privadas — disse a gerente de relações públicas do Hyatt, Catriona McFad-den. — Mas isso era mais comum no ano passado. Este ano tivemos muitos cancelamentos, por causa da recessão. Falta dinheiro, na verdade. Por isso esta reserva foi ótima para nós. Temos uma semana garantida, em vez de ficarmos às moscas. As suítes executivas do Hyatt, um pouco menos luxuosas, com diárias de 295 libras, foram reservadas para os três membros mais antigos do mundo olímpico. O restante da corte olímpica, seus parentes e convidados, precisam se contentar com 8 suítes júnior, 35 apartamentos Regency Club e 242 apartamentos de luxo. — O COI cuidou da distribuição das acomodações — disse McFadden. — São muito cuidadosos com o protocolo. Visitaram o hotel pela primeira vez há um ano, para ver se as instalações estavam à altura. Levaram uma planta do hotel, com os quartos e seus tamanhos, e organizaram a distribuição. Depois nos visi- taram mensalmente, para manter contato e conferir as providências tomadas. "Lausanne informava a distribuição dos quartos por fax. Havia mudanças a todo momento. A certa altura, mandavam fax com tanta freqüência que nem registrávamos as alterações no computador! Nunca vi algo assim, e duvido que um dia isso aconteça novamente. O mais próximo que vi foi uma reunião do Parti- do Conservador — mas não chegava nem aos pés. Estas pessoas agem como se fossem chefes-de-estado. "Mas sem dúvida trata-se de um bom negócio parao hotel, A situação do mercado não é das melhores no momento, e o evento nos dá muita publicidade. Aparecemos na televisão todas as noites, esta semana!" Lá dentro do Hyatt, o circo olímpico completo está montado. Membros do COI, patrocinadores das grandes empresas, pessoal de marketing, dirigentes dos comitês olímpicos nacionais e presidentes de federações internacionais encontram-se e conversam num local que mais parece uma gigantesca estufa. Há palmeiras nos vasos, árvores em jardineiras de terracota e fontes iluminadas. Sob a luz discreta do teto de vidro, um violinista toca clássicos populares. Uma pianista se instala no piano de cauda. Surge um conjunto de cordas. Eles tocam Take a Good Care of Yourself (Cuide Bem de Si Mesmo). Não precisam se preocupar com este aspecto. Os grupos se distribuem pelo saguão. Rodeiam a piscina como piranhas, esperando por uma oportunidade de dar sua mordidinha. Por trás das colunas neo-clássicas no setor da recepção principal, formam-se as rodinhas de agentes e pessoal da mídia, cheios de idéias para vender e negócios para fechar. Os funcio- nários do hotel circulam discretamente, nas áreas públicas, polindo constantemente os tampos das mesas de mármore e vidro. A televisão do Kuwait, num canto, filma o jovem xeque Ah-mad. Seu traje bordado em ouro combina com a bengala de ouro em sua mão. O pai do xeque, já falecido, representava o Kuwait no COI, e foi morto a tiros pelas tropas do Iraque na invasão de agosto de 1990. O jovem xeque assumiu o lugar do pai, como titular do comité olímpico nacional do Kuwait. Espera substituir o pai no COI, também. Cada gesto seu é filmado. O xeque se levanta. A câmera começa a funcionar. O xeque senta. A câmera começa a filmar. O xeque pede chá. A câmera, pelo jeito, não pára nunca. Nos quartos do Hyatt encontram-se flores, vinhos e frutas de boas-vindas. Outra maneira de recepcionar os hóspedes é enviar caixas de chocolates de uma fábrica local, Cadbury's. Repentinamente, os corredores se agitam. Os chocolates são arrancados das mãos dos hóspedes! A empresa Mars pagou dezenas de mi- lhões de dólares para patrocinar, em escala mundial e oficialmente, as guloseimas olímpicas, e não podem ter seu território invadido pela concorrência. "Boas-vindas especiais ao departamento de marketing do COI", diz uma nota impressa no cardápio da brasserie do hotel. Muito especiais, sem dúvida. Um dos membros destacados do Clube, o italiano Primo Nebiolo, senhor supremo do atletismo mundial, desce as escadarias do hotel. Ele se move pelo saguão como se usasse patins. Abraça Charles Mukora, antigo representante da Coca-Cola no Quênia, agora membro do COI. Mukora também participa do conselho da federação de atletismo de Nebiolo. A um passo atrás do presidente segue um de seus assessores de imprensa. As pessoas se cumprimentam com beijos e abraços exagerados. Esposas e filhos acompanham os hóspedes. O programa de atividades cobre a semana inteira, preenchendo as horas disponíveis, nos períodos em que os membros do COI se reúnem. A "programação social" inclui uma visita à fábrica real de porcelana de Worcester e uma excursão a Stratford-upon-Avon, local de nascimento de Shakespeare. Isso sem falar no passeio pelas antiguidades de Shropshire, com direito a almoço em Stanley Hall, residência de um dos diretores da Christies, a famosa firma internacional de leilões. Para terminar, uma exclusiva visita a Willey Park, em companhia dos proprietários da famosa mansão, lorde e lady Forester. Essas saídas se somam às atividades sociais já previstas para os membros da família olímpica. Uma companhia de bale apresenta o Lago dos Cisnes. A orquestra sinfônica da cidade de Birmingham dá um concerto, na outra noite. Há também os banquetes. Um jantar formal, oferecido pelo próprio presidente Samaranch; um almoço com a presença de Sua Majestade a rainha e o jantar promovido pela Associação Olímpica Britânica, em homenagem ao Comité Olímpico Internacional. Este último evento glamouroso teve como anfitriã a Princesa Real Arme, no castelo de Warwick, um dos mais belos castelos medievais da Inglaterra. A princesa Anne faz parte do COI, onde a Grã-Bretanha tem dois representantes, e preside a BOA, Associação Olímpica Britânica. A bem da verdade, ela também preside a Federação Eqüestre Internacional, um cargo herdado do pai, o príncipe Philip. Para realizar este evento, a BOA reservou uma noite no castelo, e recebeu cerca de 300 convidados com champanhe, no salão principal. Em seguida, numa tenda erguida nos gramados do castelo, aconteceu o banquete, com sopa gelada de agrião, salmão e morangos com biscoitos ao brandy e creme. O presidente Samaranch e esposa compareceram ao banquete como convidados de honra. A esposa do presidente desceu graciosamente pela porta traseira da limusine com chofer, e, num reflexo condicionado, ergueu a mão e acenou para a multidão — embora não houvesse multidão alguma. A festa era particular. Um cavaleiro de armadura e uma banda de gaita de foles saudou os membros do Clube que chegavam. Um gaiteiro solitário tocava nas ameias iluminadas da Torre Guys, quando os convidados partiram, cerca de três horas depois. Ao receber os agradecimentos, no dia seguinte, um dirigente graduado do BOA retrucou: "Não foi nada. Preferimos as coisas simples." A abertura da sessão, por si só, já foi um grande espetáculo. A cerimônia começou às 15 horas, no dia 12 de junho de 1991, no salão principal do Centro Internacional de Convenções. Acompanhado de uma fanfarra, com os trombeteiros dos Life Guards, o presidente e a Sra. Samaranch entraram na tribuna real, com Sua Majestade a Rainha e o duque de Edimburgo. Atrás deles sentaram-se os membros do COI. Na tribuna real, quebrando o protocolo do COI, instalou-se também Primo Nebiolo. Ele entrou graças a um pedido do presidente Samaranch. Alguns membros do COI ficaram contrariados com a presença do italiano, mas como confidenciaram mais tarde a nós, "como alguém poderia dizer ao presidente do COI quem ele deveria pôr ou não na tribuna real, na abertura da sessão do COI?" Após as referências obrigatórias à visão do barão Pierre de Coubertin, fundador das Olimpíadas modernas, Samaranch disse à platéia: "O esporte olímpico não pode se transformar em mero show business." Ele sugeriu que o modo de se evitar isso seria "convencer os meios de comunicação de massa a nos ajudar a dar mais importância aos valores éticos do esporte." Ele devotou um parágrafo aos problemas éticos do doping, e depois bem mais tempo atualizando os presentes sobre os progressos de seu museu olímpico. Afirmou que "as soluções podem ser encontradas para tudo." Em seguida Sua Majestade a Rainha discursou. Ela disse ao presidente Samaranch que "os olhos do mundo estarão voltados para os resultados das deliberações. Confio que o movimento olímpico continuará a prosperar, sob a direção de pessoas que, como o senhor, servem à causa com tanta devoção." Depois disso, a rainha declarou aberta a 97a. sessão do Comité Olímpico Internacional. A platéia foi brindada, em seguida, com uma apresentação de uma hora da Royal Variety Performance de Birmingham. Em um espetáculo intitulado "Uma Amostra da Grã-Bretanha", membros da Escola de Dança Contemporânea do Norte, Guarda dos Granadeiros, gaitistas e percussionistas da Guarda Escocesa e cantores dos Corais Masculinos dos Midlands apresentaram uma cansativa história das olimpíadas antigas, e depois uma explicação do desenho da bandeira britânica, o Union Jack, com música e da dança. Os membros do COI adoraram tudo. Quando o segundo batalhão da Guarda Escocesa entrou pêlos fundos do auditório e marchou pelo meio da platéia, subindo ao palco de saiote, tocando gaita de foles, os membros do COI acompanharam o ritmo com os pés e as mãos. Depois de ouvirem Amazing Grace em silêncio, embevecidos, começaram a aplaudir com entusiasmo. As estrelas do show foram as crianças fantasiadas de lepre-chauns,uma espécie de duende irlandês. "Elas são sensacionais!" exclamou um membro do COI ao voltar para o Hyatt, onde descansaria um pouco. "Uma das melhores festas de abertura já realizadas." Certos membros do COI, mais idosos, precisavam mesmo de uma soneca, para enfrentar o restante das atividades previstas para aquele dia. Dentro de duas horas, os membros do COI e seus hóspedes deveriam comparecer a um concerto, seguido de ceia no final da noite. Em meio a tanta badalação, cerimônias e programas, fica difícil lembrar que a sessão do COI é o parlamento anual e órgão supremo do movimento olímpico. Na teoria, este encontro anual debate e depois vota a política a ser implementada em nome das Olimpíadas. Apesar do comparecimento maciço da imprensa — 500 repórteres, fotógrafos e equipes de televisão credenciados com- pareceram a Birmingham —, quase nada do que se debate realmente no COI é revelado. As reuniões se realizam a portas fechadas. Representantes da imprensa não podem entrar. Em geral, as informações sobre os temas discutidos e decisões tomadas sofre o controle rígido da assessoria de imprensa do COI. Esta operação é controlada por Madame Michele Verdier. Segundo o COI, trata- se de "uma pessoa bem-informada, que os jornalistas adoram questionar." A imprensa britânica, contudo, a chama de "o Bernard Ingham do COI", em uma comparação ferina com o famigerado responsável pelo controle das informações de Margaret Thatcher. Madame Verdier controla tudo. Aquela mulher espevitada, pálida, de cabelos escuros cacheados, sempre imaculadamente vestida com trajes escuros, calçando sapatos confortáveis e pesados, desempenha suas tarefas olímpicas como um dobermann. Ela serve de filtro oficial ao COI. De acordo com o sistema de Madame Verdier, a agenda olímpica não muda nunca. Pela manhã, exata- mente às 8h45, no início de cada reunião do COI, ela escolta fotógrafos e cinegrafistas até o saguão, para uma "chance de registrar imagens". Ali eles podem fotografar e filmar o Clube, que se prepara para discutir os grandes temas do dia. Sobre o tablado instalam-se os membros do círculo íntimo de Samaranch, a diretoria executiva. Entre eles, Dick Pound, do Canadá, Un Yong Kim, da Coréia do Sul, Kevan Gosper da Austrália e Zhenialing He, da China. Esta "chance" dura exatos quinze minutos. Madame Verdier, depois de sobrevoar a cena ansiosamente, escolta fotógrafos e cinegrafistas para fora, e tranca a porta atrás deles. Os representantes da imprensa mundial sentam-se para tomar café, cortesia da casa. Alguns querem beber algo mais forte. — Uma cerveja, por favor. — Certamente, senhor. Mas infelizmente precisará pagar por ela. O centro de imprensa ostenta os logotipos e produtos dos financiadores das Olimpíadas. O local é inundado por Coca-Cola e chocolates Mars grátis. As máquinas de escrever eletrônicas são fornecidas pela Brother, e o fax pela Ricoh, patrocinadores mundiais dos Jogos Olímpicos. Os jornalistas aceitam, deslumbrados, as sacolas Adidas, tudo faz parte do esquema de relações públi- cas. A imprensa entra para a família olímpica, para o time olímpico. No fim da reunião matinal realiza-se a entrevista coletiva, sob o comando de Madame Verdier. Atrás dela, duas gigantescas bandeiras olímpicas são desfraldadas. Os jornalistas presentes ouve*:1 seu relato resumido dos acontecimentos. Se pedem esclarecimentos sobre pontos obscuros, ela se vale de desculpas como "Isso não foi discutido em profundidade", ou "não creio que tal tema estivesse em pauta". Alguns jornalistas mais ousados reclamam. Não tiveram acesso ao hotel Hyatt. Não permitem que entrem e conversem a sós com membros do COI, para tentar descobrir o que realmente aconteceu na sessão secreta. Mas Madame Verdier vê o problema de um outro ângulo. Dois jornalistas japoneses ousaram aproximar-se de um membro graduado do COI, no final de uma sessão, antes que escapassem para seu santuário no Hyatt. Em função disso, a segurança foi reforçada no lado de fora do salão de reuniões, para impedir a repetição do fato. Depois de dois dias de negociações, Madame Verdier anuncia um acordo. Receberemos passes especiais. Mas haverá apenas quarenta passes para o contingente de quinhentos e tantos jornalistas. No dia seguinte apareceu um aviso no centro de imprensa: "Por favor, não abusem do sistema de passes, ou este privilégio será cancelado." Foi posto ali por ordem de Madame Verdier. O sistema de fotos posadas e entrevistas coletivas prossegue. Somente no último dia o presidente Samaranch comparece em pessoa, para falar à imprensa mundial. A última coletiva acontece no salão recém-ocupado pêlos membros do COI. Mesmo no final das deliberações, o serviço de segurança não permite que os jornalistas entrem no local de conferência antes do sinal verde de Madame Verdier. Samaranch chega. Ele inicia sua fala ressaltando: "Encontramos aqui excelentes condições de trabalho." Usa o inglês, idioma oficial do COI, ao lado do francês. Nos fundos do salão, os tradutores vertem as declarações para seis línguas. Samaranch permite perguntas. Querem saber como ficam os casos da Catalunha e Gibraltar, que pressionam por um representante independente no COI. Samaranch responde que acabou de formar mais uma comissão para estudar a questão. Será comandada pelo juiz Mbaye, do Senegal. "Pedirei a ele que comente este tema", diz Samaranch. O juiz, sentado ao lado do presidente, parece perplexo. Diz ao jornalista que fez a pergunta: "Ainda não posso adiantar nada. Fui nomeado para a tarefa hoje de manhã." Os problemas de um recente escândalo de doping são levantados. Samaranch vai abrir inquérito? "Não. Trata-se de um assunto para a Federação Atlética Amadora Internacional", diz o presidente, que encerra o assunto. Conseguir informações específicas vai se tornando difícil, abundam as generalidades. Mas poucos jornalistas o apertam para valer. Depois de 45 minutos, Samaranch declara que a entrevista está encerrada. Quando sai, boa parte dos jornalistas se ergue para aplaudi-lo. O aplauso entusiástico será indubitavelmente ouvido novamente em Barcelona, saudando o líder do Clube. O moto desta Olimpíada é "Amigos para Sempre". Os membros do Clube já são amigos para sempre. E levam uma boa vida, num circo constante de reuniões, negócios e acordos no agora lucrativo, poderoso e badalado mundo do esporte internacional. A ironia é que, em Barcelona, as duas únicas pessoas ausentes desta última reunião do Clube foram os homens que tornaram tudo possível. 2 O SISTEMA Naquela manhã de abril o Clube se reuniu em um cenário diferente do carrossel costumeiro de hotéis cinco estrelas, banquetes e espetáculos esportivos internacionais. A reunião ocorreu em 1987, um ano antes da Olimpíada de Seul. O Clube compareceu a um serviço fúnebre, na igreja de Notre-Dame de Lausanne, na Suíça. Os dirigentes do esporte mundial representavam os três ramos da família olímpica — O Comité Olímpico Internacional, as federações esportivas internacionais e os comitês olímpicos de cada país. Sentaram-se em silêncio, chocados, enquanto o presidente Juan António Samaranch lembrava a todos o motivo de sua presença. "Estamos aqui reunidos para prestar uma tributo a um grande homem, e rezar por ele." O grande homem, razão do comparecimento dos presidentes e secretários-gerais do vasto mundo do esporte, normalmente tão festeiros, não era nenhum grande atleta olímpico, e muito menos um membro importante do COI. Tratava-se de um empresário. Os altos dirigentes do esporte mundial, atentos e compenetrados nos bancos da igreja de Notre-Dame naquela manhã, estavam ali para honrar a memória de Horst Dassler, diretor da Adidas alemã, a maior companhia fabricante de artigos esportivos do mundo. "Horst Dassler dedicou a vida ao esporte", entoou Samaranch. "Não há necessidade de repetir aqui o que realizou durante sua carreira, pois todos os presentes estão bem-informados." Samaranch não exagerava. HorstDassler não era a penas o homem que vendia os tênis mais conhecidos do mundo, com as famosas três listas. Horst Dassler criou o Clube. "Ele tinha muitos amigos entre nós", prosseguiu o dirigente olímpico. "E será lembrado e respeitado, durante muito tempo, por todos nós. Lamentamos sinceramente a perda de seu conhecimento, visão e profunda compreensão da complexa realidade esportiva do esporte mundial." Sob a orientação de Dassler no trato da "complexa realidade" esportiva, os dirigentes internacionais ganharam um poder e um prestígio jamais sonhados. "Falo por mim, e com certeza por muitos outros", prosseguiu Samaranch, "ao afirmar que a qualidade mais notável de Horst Dassler foi sua contribuição pessoal a todos os necessitados de assistência no mundo esportivo." Manipulando com astúcia os "necessitados de assistência no mundo esportivo", Dassler criou a estrutura atual do esporte internacional, dominado pêlos empresários. Durante o processo, ele também transformou a Adidas, fabricante de equipamentos esportivos e a empresa de marketing ISL em duas instituições esportivas de grande influência internacional. Cinco anos se passaram desde a morte de Dassler, e a marca Adidas não é mais controlada por sua família. Mas a companhia de marketing ISL sim. Possui exclusividade mundial na venda dos direitos da Copa do Mundo de futebol, do Campeonato Mundial de atletismo, do Campeonato Mundial de basquete e, final- mente, dos Jogos Olímpicos. Além disso, os direitos da ISL sobre alguns destes contratos avançam até o próximo século. "Orgulhamo-nos por fazer parte de seu círculo de amizades. Estou seguro que cada um de nós guarda lembranças muito especiais deste homem extraordinário, a quem o esporte tanto deve. Obrigado, Horst, por tudo que realizou. Adeus, velho amigo. Sentiremos sua falta!" Os louvores de Samaranch ainda ecoavam nos ouvidos dos mais poderosos dirigentes esportivos mundiais quando estes saíram da igreja de Notre- Dame e voltaram imediatamente para seus negócios. Horst Dassler morreu de câncer no dia 10 de abril de 1987. Com apenas 51 anos, encontrava-se no auge de seu poder. Na época de sua morte, o império Adidas faturava mundialmente US$ 2,2 bilhões. Ele empregava mais de 12 mil pessoas, e fabricava 400 produtos esportivos, de bolas a sacolas, de jaquetas a raquetes. As fábricas, espalhadas da Europa até o Extremo Oriente, despejavam no mercado mais de 250 mil pares de tênis por semana. Grande pane dos clientes da Adidas não pratica esportes. Segundo um obituário, "milhões de pessoas usam os calçados da companhia para tarefas pouco cansativas, como apanhar o controle remoto da televisão". Mas, para manter os entusiastas da poltrona como compradores de seus produtos, Dassler fazia questão de que os vencedores também usassem Adidas. Nas Olimpíadas de Los Angeles, as últimas antes da morte de Dassler, ele se gabou de que 80 por cento dos atletas, na corrida, natação, futebol, basquete ou boxe usavam seus produtos, levando as três listas e o trevo da Adidas a uma platéia de bilhões, via televisão. Uma pessoa não compareceu à reunião de membros do Clube no serviço fúnebre de Lausanne, em homenagem ao colosso do mundo dos negócios. O ausente era Patrick Nally, antigo sócio nos negócios e braço direito de Horst Dassler. Nally também guarda "lembranças muito especiais" de Horst Dassler, para usar as palavras do presidente Samaranch. E até agora Patrick Nally con- servou estas lembranças só para si. "Quando o presidente Samaranch conferiu a Horst a medalha da Ordem Olímpica, três anos antes de sua morte", declarou Nally, "ele anunciou que Horst a recebia por sua fidelidade aos ideais olímpicos do fundador das Olimpíadas modernas, Pierre de Coubertin. Sei que os dirigentes esportivos mundiais balan- çaram a cabeça em sinal de aprovação, mas o pobre Coubertin deve ter se revirado na cova." Patrick Nally foi o homem que trabalhou ao lado de Horst Dassler para desenvolver o Clube. Juntos, eles lançaram as bases dos campeonatos mundiais esportivos: montanhas de dólares, cobertura maciça da televisão, federações fabulosamente milionárias e presidentes badalados. "Horst tornou-se o dono das marionetes do mundo esportivo", afirmou Nally. "Mexeu os pauzinhos para criar mudanças significativas, sendo a maior delas seu legado de controle dos Jogos Olímpicos modernos. Horst adorava controlar e manipular. Era realmente excelente, comandar as marionetes o entusiasmava. Agindo nos bastidores, sabia muito bem que as coisas acabavam acontecendo inteiramente de acordo com seu plano." Quando Nally associou-se a Dassler, no começo acreditava que agiam em benefício do esporte. Mas no início da década de 1980 ele começou a ter algumas dúvidas. "Cheguei a um ponto onde se tornou difícil descobrir de que lado eu estava. Do lado dos patrocinadores, que despejavam dinheiro para melhorar sua imagem? Do lado das federações esportivas, que gastavam o dinheiro? Ou do lado de Horst Dassler, que explorava tudo em função da Adidas? A história das origens da Sportschuhfabriken Adidas é bem conhecida. Parece um conto de fadas de Hans Christian Andersen ou uma história dos irmãos Grimm. Era uma vez um rapaz chamado Adolf Dassler, que vivia com o irmão Rudolph na pequena cidade alemã de Herzogenaurach. Os dois trabalhavam como sapateiros. Certo dia, os irmãos brigaram seriamente. A discussão foi tão pesada que Adolph e Rudolph resolveram nunca mais se falar. Separaram-se, e passaram a trabalhar como concorrentes no ramo da sapataria, em margens opostas do rio Aurach. Rudolph batizou sua oficina de Puma. A empresa fundada por Adolph e sua esposa recebeu o nome de Adidas, uma 'combinação não muito criativa de Adolph, mais conhecido como Adi, e Dassler. Mas, ao contrário do que ocorre nos contos de fadas, eles não viveram felizes para sempre. "Mesmo depois do famoso rompimento que gerou a Adidas e a Puma as brigas na família Dassler continuaram freqüentes", recorda-se Nally. "Horst tinha quatro irmãs, e vivia com medo que estas disputas familiares terminassem com outra separação completa, igual à ocorrida entre seu pai e o tio Rudolph. Este medo constante, que um dia coincidiu com mais um dos intermináveis confrontos dentro da família, finalmente levou Horst a deixar a Adidas da Alemanha. Ele mudou para a França, e iniciou sua própria Adidas, em Landersheim. Implantar a Adidas francesa foi a solução de Horst para se afastar dos problemas familiares." Embora a Adidas alemã e ele ainda mantivessem vínculos, por intermédio da companhia holding familiar, havia uma atitude muito competitiva entre as duas. "Todos os choques se deviam, basicamente, a um conflito de personalidades", disse Nally. "Mas, ironicamente, de certo modo os constantes atritos eram muito bons, porque todos ficaram mais competitivos. Horst e a família eram em geral agressivos e bem-sucedidos." Dassler usou a Adidas francesa para erguer seu próprio império dentro do esporte. Secretamente, através da companhia, ele conseguiu monopolizar o mercado de equipamentos esportivos. Adquiriu sub-repticiamente outras empresas fabricantes de material esportivo, e comprou quotas de concorrentes do ramo de calçados, como a Pony. "Horst não tinha apenas a marca Adidas", declarou Nally. "Ele estava criando um segundo grupo para fabricar equipamentos esportivos, desvinculado do nome Adidas, caso outro racha fundamental acontecesse. Neste caso, deixaria a Adidas de lado, reforçaria sua base na França e levaria o que pudesse consigo." Dassler amava os esportes genuinamente. Era um esportista en- tusiasmado. Na juventude jogou hóquei e ganhou campeonatos de arremesso de dardo. Mas, acima de tudo, adorava o atletismo. "Ele se considerava um velocista, de certo modo", disse Nally. "De vez em quando me desafiava para uma corrida. Mesmo dez anos mais velho, ele me deixava para trás. "Também viva fascinado com os ídolos do esporte, com os melhores atletas. Comoum eterno garoto, ficava maravilhado com as estrelas. Eu achava extraordinária a maneira como aquele homem se emocionava ao conhecer a nata do esporte. Quando os encontrava, invariavelmente os adulava. Era realmente muito estranho, levando-se em conta o quanto ele se tornaria poderoso. "Horst sempre empregou muitos atletas. Gente como Robbie Brightwell e John Boulter, o corredor dos 800 metros nas Olimpíadas, constavam de sua folha de pagamentos. Conhecia profundamente o atletismo. Estava profundamente envolvido com as Olimpíadas, onde o atletismo reinava. O atletismo é uma das chaves para o mundo olímpico. A Adidas construiu seu nome e reputação graças a este esporte. Jesse Owens, na Olimpíada de 1936 em Berlim, ganhou quatro medalhas de ouro calçando Adidas. É só olhar para as fotografias dos campeões olímpicos. Os anos passam, mas a imagem das três listas nos calçados se repete regularmente. "O pai de Horst, o velho Adolph, compreendeu a importância de fixar a marca, e a importância das Olimpíadas. As pessoas se esquecem, hoje em dia, de que este era o único evento realmente internacional em atletismo, na época. Adolph Dassler percebeu que se tornava cada vez mais importante criar o mito de que só a Adidas fazia tênis para campeões. 'O vencedores usam Adidas.' Em outras palavras, se alguém ia ganhar a medalha de ouro, a ganharia usando Adidas." A estratégia de Horst Dassler, herdada do pai, se baseava em contatar os atletas e pagá-los. A meta era garantir que todos os esportistas de destaque usassem equipamento Adidas. Ele se encarregaria, então, de associar o "mito" dos grandes atletas com a marca Adidas. Havia um problema nisso, pois os atletas eram teoricamente amadores. As tentativas de Dassler para garantir que todos os esportistas de destaque usassem Adidas provocou atritos tanto com o Comité Olímpico Internacional, na época presidido por um norte-americano austero, Avery Brundage, quanto com a Federação Internacional de Atletismo Amador, dirigida pelo britânico lorde Exeter. Como resultado da "guerra do tênis" entre as companhias rivais, que se estendeu aos vestiários e pistas dos Jogos Olímpicos de 1968 no México, as federações atléticas decidiram que nos eventos internacionais futuros, apenas tênis sem marcas seriam permitidos. "Resolvemos introduzir esta regra em função dos acontecimentos no México", disse lorde Exeter. "Na próxima reunião do conselho, na Inglaterra, discutiremos a abrangência da proibição. A regra deve ser aplicada apenas a provas internacionais, ou também a campeonatos nacionais, regionais e locais?" Dassler disse que sentia muito, prometeu se comportar e continuou agindo como antes. Em uma entrevista coletiva olímpica, o presidente Brundage queixou-se: "Este é o preço que pagamos pelo sucesso dos Jogos Olímpicos. Todos querem tirar proveito comercial e político." E ninguém desejava isso mais do que Horst Dassler. "Horst era adepto da manipulação de pessoas", disse Nally. "Ele costumava me explicar os incentivos e formas de persuasão utilizados para ter certeza de que os atletas usariam Adidas. Uma das histórias mais vívidas de que me lembro envolvia a derrota de seu primo Armin, na época trabalhando com o tio Rudolph, na Puma. "Horst foi enviado pelo pai a Melbourne, nas Olimpíadas de 1956. Não passava de um adolescente. Melbourne foi provavelmente o primeiro contato de Horst com o mundo olímpico. As Olimpíadas ainda eram muito modestas, Melbourne teria recebido, pêlos direitos televisivos, a principesca soma de 80 libras! Adidas disputava o terreno com a Purna, palmo a palmo. Horst deu um jeito de subornar algumas pessoas no porto australiano, para impedir o desembarque do equipamento da Puma. Ficou muito orgulhoso por ter derrotado o primo com tanta facilidade.'' O sucesso de Horst Dassler contrastava profundamente com os resultados obtidos por empresários mais diretos. Em Melbourne, o Comité Olímpico Internacional foi abordado por um fabricante que pretendia doar relógios de pulso aos atletas ganhadores de medalhas. A oferta foi recusada, com agradecimentos: "u COI não pretende alterar a condição de amadores dos participantes, nem permitir a comercialização dos Jogos." O infeliz fabricante de relógios deveria ter tentado a sorte com Dassler, no porto. Mas a atenção de Horst Dassler não se concentrava apenas nas estrelas do atletismo. Vinte e cinco anos depois das Olimpíadas de Melbourne, Horst Dassler permanecia ativo. Em 1982 um escândalo do "calçado pago" estourou no rúgbi britânico, ainda um esporte considerado amador. Os vilões do caso? Adidas e Puma. Dirigentes da União de Rúgbi da Inglaterra ameaçaram expulsar dos campeonatos qualquer pessoa considerada culpada por aceitar dinheiro para usar produtos de qualquer dos dois fabricantes alemães. Os times ingleses, dos juvenis em diante, recebiam kits gratuitos há anos. Um diretor da Adidas foi forçado a fornecer os nomes dos esportistas pagos para usar calçados Adidas aos fiscais do imposto de renda britânico. "Os fiscais não revelarão os nomes dos envolvidos à União do Rúgbi", disse um relatório. "Esperam, portanto, que o responsável pela Adidas, Horst Dassler, esclareça tudo em uma reunião com os dirigentes." A União do Rúgbi ficou desapontada. Dassler recusou-se a dar nomes. Preferiu afirmar: "Somos vítimas de uma situação criada por nossos rivais. Não fomos os primeiros a pagar aos jogadores de rúgbi." Ele foi mais longe, admitindo que a Adidas entregara a jogadores "amadores" cerca de 50 envelopes recheados de dinheiro, nos últimos dois anos. A circunstância atenuante, declarou, era que "ninguém recebeu mais do que uma cifra de quatro dígitos." Os jogadores de rúgbi do País de Gales foram menos acanhados. O ex- capitão de Gales, Mervyn Davies, confessou que recebia até 50 libras por jogo da Adidas, e justificou-se: "Eu não era o único". Arthur Young, servindo de representante para a Adidas, declarou à BBC que era encarregado dos pagamentos aos atletas do Welsh International desde o início da década de 1970. Segundo Young, os jogadores recebiam dele até 75 libras por jogo. Um ex- jogador do Welsh International, confirmou a história de Young: "Arthur era como um Papai Noel para num, quando me pagava 50 libras!" A reação de Horst Dassler às revelações de Young foi dizer: "Revelar nomes é antiético!" Sua postura trouxe muitos benefícios. "Os anunciantes ingleses, e o setor de promoções se encheram de admiração pela maneira como Horst Dassler, da Adidas, tratou o envolvimento de sua companhia no grande escândalo do calçado pago", afirmou um jornal empresarial. "Ele conseguiu realizar uma obra-prima de promoção de sua companhia, praticamente sem gastar nada", disse um executivo de relações pú- blicas de Londres. "Dassler se comportou bem do início ao fim. Quando tudo terminar provavelmente usaremos a campanha como um exemplo clássico para nossos estagiários, mostrando como alguém transforma uma publicidade potencialmente desastrosa em dividendos promocionais gratuitos." "Achamos tudo aquilo muito engraçado", disse seu antigo sócio Patrick Nally. "Era só um negócio, não considerávamos tais atitudes imorais, de modo algum. Horst faria o que fosse preciso para desbancar a concorrência. Creio que as batalhas familiares geraram esta paranóia do sucesso. Horst sempre acreditou que havia alguém esperando na virada da esquina, pronto para passar a perna nele. "Sua vida inteira foi marcada pelo segredo. Vivia olhando por cima do ombro, espionava a oposição e pagava para passar os outros para trás. No relacionamento com Horst, tudo era intriga, tudo era suspeita. Ele mantinha um arquivo com informações sobre as pessoas e detalhes de suas atividades. Treinava seu pessoal como se fossem espiões! Toda a equipe envolvida com es- portes cujo trabalho era acompanhar atletas, recebia ordens de espionar a concorrência. Eram treinados para vasculhar as pastas alheias. Sei que parece ridículo,mas aprendiam até a grampear telefones. Horst se mostrava disposto a fazer qualquer coisa ao inimigo. E não lhe faltava competência para tanto." Do outro lado do canal da Mancha, Patrick Nally aprimorava os vínculos entre comércio e esporte de um modo bem diferente de Horst Dassler. Nally é um relações-públicas e especialista em marketing. Na adolescência trabalhara na Littlewood Pools, estimulando as pessoas a acreditar no desenvolvimento do futebol inglês. Ele se envolveu com as promoções de uma grande cervejaria, mas durante todo esse tempo o germe de uma idéia crescia na mente de Nally. "Milhões de pessoas assistiam jogos, milhões de pessoas acompanhavam o esporte. Se eu pudesse de alguma maneira vincular este interesse esportivo a uma mensagem comercial, faria um bom negócio. Procurava uma forma de usar o esporte como instrumento de comunicação." No final da década de 1960, Nally conheceu Peter West, uma celebridade, conhecido como comentarista esportivo da televisão inglesa. West trabalhara na BBC por muitos anos, comentando vários esportes, do críquete ao rugbi. Chegou a apresentar o tradicional programa da BBC Come Dancing (Venha Dançar), um concurso de danças de salão. "Quando conheci Peter", declarou Nally, "ele pensava que sua carreira na televisão estava em decadência. Mas sua imagem ainda era das melhores. Entendia de esporte, mas não de negócios. Ficamos sócios, fundando a Peter West e Associados, mais tarde chamada de West Nally Ltd. A idéia era usar o esporte para veicular uma mensagem comercial, e o jeito de se conseguir isso era convencendo as empresas a investir dinheiro no apoio ao esporte. "Em uma de nossas primeiras tentativas abordamos a Green Shield, uma empresa de cupons de desconto e brindes. Convencemos a Green Shield a patrocinar um programa que ensinava as crianças inglesas a jogar tênis. Muita gente considerava o jogo coisa de rico, mas nós, graças ao dinheiro da Green Shield, percorremos o país dando às crianças a oportunidade de pegar numa raquete de tênis e aprender a jogar. Chegamos ao auge quando a Green Shield patrocinou o campeonato juvenil de Wimbledon. "Não existia nenhuma empresa especializada em patrocínio esportivo na época. Peter e eu fomos os primeiros. Havia sujeitos como Mark McCormack, nos Estados Unidos, cuidando das estrelas esportivas — mas ele só entrou no ramo de patrocínio muito mais tarde. Peter e eu mostramos que existia uma oportunidade de atrair as companhias para o patrocínio esportivo, algo que nin- guém havia conseguido fazer antes. "Se voltarmos a mente para aquela época, final da década de 1960 e início da década de 1970, é difícil lembrar o quanto o conceito de patrocínio representava uma novidade, e quanta resistência enfrentava por parte do esporte estabelecido. Os jornalistas, por exemplo, recusavam-se a usar os nomes dos patrocinadores. Não admitiam chamar um evento de Copa Benson & Hedges, ou Copa Gillette. "Peter não poderia imaginar, nem em um milhão de anos, que teríamos mensagens comerciais nos sagrados domínios de Twickenham — achava que morreria antes deste dia. Mas provamos que dava certo. Conseguimos atrair a Ford e a Kraft também, além da Green Shield, e nossa pequena empresa transformou-se em um negócio de tamanho razoável." John Boulter, ex-corredor olímpico britânico, compareceu um belo dia ao escritório da West Nally. Em 1974, ele trabalhava para Horst Dassler. Boulter continua na Adidas até hoje. Compareceu à sessão do Comité Olímpico Internacional do ano passado em Birmingham, reforçando seus laços com os membros mais importante do Clube. Ele agora lidera a divisão de relações in- ternacionais da Adidas. Boulter sabia que Nally se dava bem no ramo do patrocínio esportivo no Reino Unido, e acompanhara o processo no qual a empresa abrira os cofres das grandes companhias e aplicara o dinheiro no esporte. "Nally era um jovem ambicioso, e queria conhecer Horst Dassler", declarou Boulter. "Horst disse que nunca tinha ouvido falar no inglês. E pediu que eu checasse Nally." O primeiro encontro entre Patrick Nally e Horst Dassler ocorreu no refúgio do fabricante de tênis em Landersheim, sede da Adidas francesa. O moderno edifício se situa no alto de um morro, na Alsácia, com vista para a planície cultivada, típica da região. Na frente do prédio, confirmando o amor de Dassler pêlos esportes, há uma quadra de tênis e um campo de futebol de grama sintética. Já na primeira conversa ficou claro que Dassler estava intrigado com as atividades do jovem inglês, e animado com a possibilidade de obter dinheiro para o esporte nas grandes companhias. "Ele falou sobre as guerras comerciais nos esportes, que ocorriam nos bastidores das Olimpíadas, e das táticas implacáveis usadas pelas empresas de calçados rivais, na tentativa de convencer os atletas a usarem seus produtos", recorda-se Nally. "Ele me disse que a briga ia até o início da corrida. Os atletas haviam aprendido a negociar tão bem que trocavam de tênis até no momento de entrar na pista! "Ele travava batalhas enormes contra o COI e algumas federações esportivas, por causa dos pagamentos a atletas 'amadores'. Horst sofria pressões para pôr um fim àquilo. Quem não se lembra de Lassie Viren, o grande atleta finlandês, ganhador de medalhas de ouro, tanto em Munique quanto em Montreal, erguendo seus calçados Tiger na frente das câmeras? Ficou óbvia demais o desenrolar de uma guerra enorme e pouco edificante para levar atletas supostamente amadores a usar determinados produtos. "Devo admitir que o primeiro contato com Horst foi um tanto confuso. Lá estava eu, sentado na frente de um sujeito muito dinâmico — dava para sentir isso imediatamente. Havia um hotel e restaurante particulares, ao lado da sede francesa. A gente chegava lá, para falar com ele, e recebia um tratamento de pri- meira, com comida e vinhos fantásticos. Olhando para trás, percebo o quanto tudo era modesto, naquela época pioneira. A extravagância aumentou conforme o poder de Horst e o restaurante de Landersheim cresciam simultaneamente. "Ele era o tipo de pessoa que fazia questão de deixar a gente à vontade, antes de mais nada. Não costumava ir direto ao assunto, pular no pescoço da vítima, tratar de negócios logo de cara. Bater papo combinava melhor com seu estilo, preferia conversar com calma, conhecer melhor o interlocutor. E, daquela primeira conversa, emergiu uma pessoa muito decidida, resoluta, que definira realisticamente sua situação atual, e queria falar comigo sobre sua visão do futuro." Cada esporte olímpico é controlado, em última análise, por sua federação internacional respectiva. Na passagem da década de 1960 para a de 1970, muitas ainda eram organizações bem amadoras. Poucas possuíam uma equipe fixa, a maioria se valia de voluntários que amavam o esporte em questão, normalmente haviam competido na juventude e se dispunham a arcar com o ônus de ad- ministrar uma federação. Muitos presidentes das federações trabalhavam em casa. Muitas federações esportivas poderosas, como de futebol e atletismo, ainda eram organizações bem pequenas. AIAAF (International Amateur Athletic Association), Associação Internacional de Atletismo Amador, possuía um escri- tório modesto, no subúrbio londrino de Putney. O quartel-general da FIFA era uma casa em Zurique. Somente o Comité Olímpico Internacional começava a exibir sua importância, graças à entrada do dinheiro da televisão. "Horst fora criado dentro do esporte e das Olimpíadas, e tinha plena consciência da importância das federações esportivas", declarou Nally. "As federações eram a base para o futuro que sonhava. Ele foi suficientemente esperto para ver que as federações passavam por uma rápida transformação. Teriam sua importância e recursos financeiros aumentados, graças aos valores cada vez maiores pagos pela televisão para transmitir as Olimpíadas. "Horst pretendia ocupar uma posição na qual pudesse controlar essas mudanças em benefíciopróprio. Conhecia bem a estrutura das federações, e a necessidade de eleger pessoas para dirigi-las. Sua nova estratégia era deixar de lado o pagamento a atletas individuais, e trabalhar com federações e equipes nacionais. Viu que o futuro pertencia às federações, que elas decidiriam o que os atletas usariam, e que, se conseguisse controlá-las, todo mundo usaria seus produtos. "O dinheiro deu o impulso para este desenvolvimento. De repente, a televisão tornou-se importante, e parte integral do quadro. A cobertura ao vivo praticamente não existia antes. O dinheiro injetado pela televisão forçou o crescimento das federações, e atraiu o .interesse de Horst e outros, que começaram a manipulá-las e a se envolver com elas. "Dassler acreditava que poderia tornar realidade sua visão. Era um sujeito esperto, e já estudava diversos idiomas. Além de alemão, falava francês, italiano, inglês, espanhol e possuía noções de japonês. Também acreditava em viajar e conhecer pessoas. Sabia como negociar e lidar com as pessoas. "Mesmo no início, não era sempre dinheiro que a Adidas oferecia", disse Nally. "Horst sabia quem deveria atrair oferecendo dinheiro, e quem preferia outro tipo de atrativo." Quando Nally conheceu Dassler em Landersheim, em 1974, o industrial alemão já lançara os fundamentos de seu ataque às federações internacionais. As operações de Dassler tinham duas bases: Landersheim e Paris. "Havia uma loja Adidas muito sofisticada, na Rue de Louvre, mas não passava de fachada", disse Nally. "No andar de cima, trabalhava a equipe de promoção da Adidas. Os negócios de verdade aconteciam no subsolo." No porão havia um restaurante fechado. Ali Dassler recebia os dirigentes das federações que o visitavam, e os políticos do esporte. Também mantinha apartamentos no Hotel Terrasse, de Montmartre, disponíveis para pessoas que o interessavam. Havia um barman cujo serviço era arranjar moças para os convida- dos importantes de Dassler. Dassler começou a montar sua "equipe política". O grupo assumiu a responsabilidade pelo levantamento internacional de informações, pela aproximação com as federações e políticos ligados ao esporte e eventos de destaque. Cada um dos membros da equipe de Dassler cuidava de uma parte diferente do mundo. Dassler cuidava pessoalmente da América Central e do Sul. John Boulter respondia pela Europa. A Ásia era uma responsabilidade do professor Anwar Chowdhry. Ele trabalhou bem; atualmente Chowdhry preside a Federação Internacional de Boxe Amador. A África de fala inglesa e o controle dos meios de comunicação ficavam por conta de um jornalista, Bobby Naidoo. Ele dirigia a Associação Internacional de Cronistas Esportivos, que possui estreitos laços com o Comité Olímpico Internacional. A África de fala francesa era controlada pelo coronel Hassine Hamouda, da Tunísia, uma antiga colónia francesa. O coronel fora membro da equipe francesa nas Olimpíadas hitleristas de Munique, em 1936. A partir de seu escritório em Paris, um centro importante para os africanos de fala francesa, ele editava uma revista bilíngüe, chamada Champion D'Afrique. Hamouda também servia de técnico em atletismo para a Tunísia, além de ser vice-presidente da Federação de Boxe da Tunísia. "O senhor Hamouda pretende ajudar atletas africanos, para que cresçam e se aprimorem, por intermédio do Champion D'Afríque", dizia um texto da IOC Review, uma publicação do COI. Horst Dassler providenciou o escritório para Hamouda, além de contribuir para a edição da revista. Também criou prêmios sem expressão — como das medalhas de ouro Champion D'Afrique, pagando as contas dos banquetes em que eram distribuídos. "Poucas companhias se interessam pela África enquanto mercado", disse Nally. "Mas, politicamente, a região era importante para Horst, porque ali havia muitos votos de federações. Não são os dirigentes esportivos que decidem sobre os votos, e sim os políticos. A idéia de Horst era usar o coronel Hamouda e a Champion D'Afrique para ganhar influência junto aos políticos africanos importantes, e ajudá-los a crescer dentro das federações. O coronel Hamouda dedicava muito tempo e energia à África. "Os africanos eram muito pobres, e Horst tinha uma oportunidade extra de ajudá-los. Fornecia produtos esportivos para a África. Isso também era importante politicamente. Em termos comerciais não fazia diferença, porque não haveria uma avalanche de pedidos no atacado, nem encomendas enormes de tênis Adidas por parte dos africanos. Horst direcionava seu apoio para os esportes mais populares da África, o que lhe garantia o apoio das federações mais importantes. O boxe desfrutava de grande popularidade no continente, além do futebol e do atletismo, o esporte olímpico por excelência. Horst fornecia bastante equipamento para a África. Se olharmos para estes esportes hoje, veremos uma grande influência africana nas federações internacionais." A Rússia e o Leste da Europa pertenciam a um francês chamado Christian Jannette. Era o tipo de pessoa que Horst considerava útil: Jannette era ligado e influenciava os Jogos Olímpicos há muito tempo. Foi o principal encarregado do protocolo nas Olimpíadas de Munique em 1972, e recebeu a medalha de Mérito Nacional francesa, por sua "gentileza e competência durante sua estada de quatro anos em Munique." Depois das Olimpíadas de 1972, Jannette tinha dois empregos: trabalhava como adido francês no comité olímpico da França, e constava na folha de pagamentos da Adidas. Esteve em Montreal nas Olimpíadas seguintes, e depois mudou-se para Moscou, nos anos anteriores aos Jogos de 1980, quando era, ao mesmo tempo, "Chef de Mission" da equipe francesa e funcionário de Dassler. "Os contatos pessoais permitem aos organizadores preparar uma recepção muito mais calorosa", foi a lição aprendida por Jannette em Munique. "Meu conselho é tentar conhecer os dirigentes da melhor forma possível." "Estive na Rússia 62 duas vezes, entre 1974 e 1980, a serviço da Adidas", declarou Jannette. "Já na metade da década de 1960, Dassler cultivava um bom relacionamento com os países da Europa Oriental. Eu me lembro de ter assinado um contrato com a Polônia em 1974, para fornecer equipamentos a todas as fede- rações do país. E já havíamos assinado contratos com algumas federações na União Soviética." Segundo Nally, "Christian era o contato permanente de Horst com os russos. Vivia voando para Moscou, levando presentes. Potencialmente, havia um imenso mercado comercial para a Adidas. Em termos olímpicos, o Bloco Leste estava em primeiro lugar nos resultados. Os russos e alemães orientais lideravam em medalhas de ouro. Para Dassler, era importante mostrar aos europeus orientais que ele poderia funcionar como o canal para a obtenção de auxílio do Ocidente. "Assim como na África, o fornecimento de material da Adidas era a chave de tudo. Eles não fabricavam tênis ou roupas de primeira, e faltavam recursos para comprar o equipamento no Ocidente. Horst mantinha uma posição de destaque distribuindo kits da Adidas. Outra coisa importante era financiar viagens internacionais atraentes, que tirava as pessoas da melancólica Europa Oriental. "Horst não chegava distribuindo dinheiro. Seu modo de agir era primeiro conhecer os dirigentes. Ganhava a confiança deles e colocava seus produtos à disposição das várias federações: tênis de alta qualidade e roupas. "Tratar com a maioria das federações da Europa Oriental não era o mesmo que lidar com as equivalentes do Ocidente. No Leste era preciso tratar com um ministério dos esportes, que desempenhava um papel fundamental em tudo que dizia respeito ao esporte e portanto às Olimpíadas. O sistema de comando centra- lizado tornou tudo mais fácil para a penetração de Horst na infra-estrutura. Dentro do sistema, ele conversava a respeito de quais dirigentes e administradores esportivos participariam das federações internacionais, e garantia que houvesse um russo e um europeu oriental nosconselhos de todas as federações importantes. "Assim, os russos e os alemães orientais, como os africanos, pensavam que Horst era um amigo. Eles eram importantes, tratava-se de um grupo influente, com muitos votos. Menor do que o grupo africano, mas ainda assim pesavam na balança. Garantindo que seu prestígio sempre fosse levado em conta — colocando-os em posições de destaque — Horst podia controlar seu apoio, quando precisasse dele. Era urna grande barganha. Os europeus orientais são grandes negociantes. Se recebiam uma coisa, davam outra em troca." Nally seria a chave para o sonho de Horst de ter bilhões de telespectadores assistindo os maiores atletas do mundo em sua subida ao pódio, usando as três listas da Adidas. "O fato de que eu estava conseguindo que as grandes companhias investissem no esporte era um achado. Horst disse: Vamos juntas as duas coisas, e aí poderemos realmente começar a avançar.' Horst desejava encontrar um meio de unir o patrocínio esportivo e o esporte, para beneficiar a Adidas. Em sua perspectiva, isso lhe daria poder. Horst ficaria com o crédito pelo que faria para as federações, e isso o deixaria numa posição de força. Ele queria arranjar alguém para pagar a conta." Dassler precisava de Nally para arranjar quem pagasse a conta com urgência. Quando se conheceram em Landersheim, em 1974, Dassler já havia assumido um compromisso com um homem que, no decorrer dos vinte anos seguintes, se tornaria um dos mais importantes nomes no mundo do esporte. 3 DASSLER TOMA COCA-COLA Quando Diego Maradona liderou a entrada dos jogadores argentinos para a final da Copa do Mundo de 1990 no Estádio Olímpico de Roma, seu time tinha algo em comum com os oponentes da Alemanha Ocidental. As duas equipes usavam Adidas. Assim como o juiz. E os bandeirinhas. Quinze das vinte e quatro seleções presentes à Itália exibiam o trevo e as três listas em suas camisas, shorts, meias e chuteiras. O jogo teve início com uma bola Adidas branca e preta. Todos os jogos foram disputados com bolas Adidas. Era a bola oficial. A empresa fornecia as chuteiras oficiais. Do lado de fora do campo, Horst Dassler tinha tudo arranjado. Sua empresa de marketing, a ISL, detinha os direitos exclusivos de venda da Copa do Mundo. Uma das poucas coisas não fornecidas pela Adidas na final da Copa de 1990 foi o apito do árbitro. Oito anos antes, no estádio de Barcelona, o quadro fora o mesmo. Na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, Victor Puente, um menino de doze anos, soltou a pomba da paz de dentro de uma bola de futebol. A bola de futebol havia sido fornecida pela Adidas. Victor usava um uniforme Adidas. Até mesmo o sorteio para as finais daquela Copa foi realizado com miniaturas da bola oficial preta e branca da Adidas. "Não temos vínculos estreitos com a Adidas", insistiu Harry Cavan, vice- presidente da FIFA. "A companhia Adidas, pelo que sei, é uma empresa muito generosa para com o esporte em geral, e para com o futebol em particular. Se eles desejam fornecer o equipamento, não vejo nada de errado nisso." A final da Copa do Mundo de 1974, em Munique, entre a Alemanha e a Holanda, foi disputada por dois times europeus, com um juiz europeu apitando em um campo europeu. Do lado de fora do campo, aquele ano marcava o fim da dominação européia do futebol internacional. O troféu reluzente erguido por Franz Beckenbauer levou os torcedores alemães ao delírio. Era novo em folha. O homem que comandava o campeonato também estreava em sua função. Três semanas antes, o Dr. João Havelange fora eleito presidente da Federação Internacional de Futebol Association, tornando-se o dirigente mais poderoso do futebol mundial. Foi preciso providenciar um novo troféu, porque o antigo havia sido levado para casa pêlos brasileiros, em 1970. Qualquer time ganhador de três Copas ficava para sempre com o troféu. A Copa Jules Rimet original foi levada para sempre para o Brasil, depois que seus incríveis jogadores chegaram ao tricampeonato. Jean Marie Faustin Godefroid Havelange, mais conhecido como João, também era brasileiro. Agora, aos 76 anos, Havelange tornou-se um fazedor de reis. Possui mais de cinqüenta medalhas e comendas: Cavaleiro da Legião de Honra da França; Comandante dos Cavaleiros da Ordem do Infante Dom Henrique de Portugal; agraciado com a Grã-Cruz de Isabel, a Católica, da Espanha; Cavaleiro da Vasa-Orden da Suécia e Comandante da Ordem do Leão do Senegal. Havelange reuniu os votos necessários para que Barcelona sediasse as Olimpíadas de 1992. Havelange uniu-se a Horst Dassler para fazer de Juan António Samaranch presidente do Comité Olímpico Internacional. Alguns dirão que ele ficou muito velho, que seu poder declina, que Havelange já passou por seus dias de glória. Este brasileiro, contudo, continua sendo a única figura no mundo do esporte capaz de ditar seus próprios termos ao todo-poderoso presidente das Olimpíadas. A capacidade de Havelange em fazer isso deriva diretamente de sua aliança com Horst Dassler. João Havelange é membro fundador do Clube. Sua eleição para a presidência da FIFA, poucas semanas antes do início da Copa do Mundo de 1974, marcou o início de um novo domínio, o latino, na direção do esporte internacional. Houve uma virada dramática, com o afastamento do antigo controle anglo-saxônico e sua tão proclamada valorização do esporte amador. Esta é só uma parte da história. Nunca foi contado que a eleição de Havelange também marcou o início da campanha de Horst Dassler para controlar o desenvolvimento do esporte mundial. "A eleição de Havelange deu a Horst a noção da importância das federações", declarou Patrick Nally. "Para Horst, a eleição de Havelange foi o divisor de águas." Havelange enfrentou um obstáculo principal em seu desejo de se tornar o comandante do futebol mundial. A FIFA já tinha alguém. O presidente em exercício da FIFA era um inglês, sir Stanley Rous, que não pretendia deixar o cargo. Rous, sexto presidente da FIFA, era europeu, como os outros cinco. Apaixonado pelo futebol, considerava o esporte uma das coisas mais importantes em sua vida. Havia abandonado sua profissão, professor, para se tornar juiz de futebol. Em 1933, Rous já podia ser encontrado nos grandes centros do futebol mundial, com seus sapatos imensos e calças largas, apitando jogos internacionais. Grandalhão, dava grande importância ao conceito de jogo limpo. Rous possuía um conhecimento enciclopédico das regras do futebol. Escreveu a História das Regras do Jogo. Foi sagrado cavaleiro pelo rei George VI, por seu trabalho durante os Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Tornou-se presidente da FIFA em 1961. Sob o comando de sir Stanley Rous, a FIFA era "muito conservadora e discreta em suas decisões", afirma o livro que narra a história oficial da entidade. "Os fundos provinham exclusivamente da Copa do Mundo, e todos precisavam viver e trabalhar com esta verba por quatro anos. Seria impossível fazer mais sem correr riscos." "Naquele tempo", disse Nally, "a FIFA trabalhava com recursos limitados. Sua sede era uma casa antiga, a Villa Derwald, em Zurique. Ali ficava o veterano secretário-geral, Dr. Kaser, muito querido por todos, com dois cachorros sempre deitados no chão, a seu lado. As pessoas eram recebidas por uma recepcionista de voz esganiçada, com quem o Dr. Kaser acabou se casando. Creio que havia mais um funcionário, pau para toda obra. Fora ele, eram só os dois cachorros e uma mesa com livros empilhados. Estranho, antiquado, o ambiente parecia pertencer a um romance de Dickens." Havelange possuía um estilo completamente diferente. Seu passado esportivo estava mais ligado ao pólo aquático do que ao futebol. Nos anos 1930, quando Stanley Rous apitava jogos internacionais, Havelange nadava para o Brasil, nas Olimpíadas de Hitler, em Berlim. Ele fez parte do time de pólo aquático brasileiro, nas Olimpíadas de Helsinque, dezoito anos depois. Comandou a delegação brasileira nasOlimpíadas de 1956 em Melbourne; enquanto Havelange ocupava a tribuna de honra, o jovem Horst Dassler subornava os estivadores no porto australiano, para manter os equipamentos esportivos da concorrência nos caixotes. Havelange declarou: "Sou um homem de negócios, tenho muito dinheiro e não preciso ganhar mais com o futebol." Isso pode ser verdade, mas Havelange percebeu, segundo um observador, "que o esporte representa um dos veículos mais magníficos do mundo moderno para o exercício do poder puro, absoluto, direto e incontestável." Havelange iniciou sua carreira no mundo dos negócios. Cuidou de importação e exportação de aço, mineração, produtos químicos e transporte. Comanda hoje uma empresa de ônibus no Brasil. Mas ganhou dinheiro com seguros. Dirigia uma empresa em São Paulo e outra no Rio. Graças a seu passado no pólo aquático, ele se tornou presidente da federação de natação de São Paulo, e em 1955 conseguiu entrar para o Comité Olímpico brasileiro. Em 1963 passou a participar do grupo de elite do Comité Olímpico Internacional. Três anos depois, ganhou a companhia do futuro líder olímpico, Juan António Samaranch. Seu cargo mais importante foi a presidência da abrangente Confederação Brasileira de Desportes. O material promocional do próprio Havelange afirma que ele, na condição de chefe supremo do esporte brasileiro, tornou-se o "dirigente mais bem-sucedido do futebol brasileiro", tendo sido "o arquiteto das vitórias brasileiras nas Copas de 1958, 1962 e 1970." Embora alguns pensem que o sucesso do futebol brasileiro tenha mais a ver com a habilidade de Pele e Garrincha do que com Havelange, poucos poderiam negar um fato: ele usou sua posição como alavanca para se lançar na campanha pelo controle da FIFA. "Havelange viu o futuro", disse Nally. "Ele sabia que, ao se tornar o próximo presidente da única federação já possuidora de um campeonato mundial de grande popularidade, desfrutaria de um imenso poder político e econômico." Havelange lançou sua campanha para a presidência em 1970. Escorado nas três vitórias brasileiras na Copa do Mundo, ele percorreu o mundo, angariando eleitores potenciais. "Jamais houve uma campanha assim para a presidência de uma organização esportiva", afirmou Nally, "Sir Stanley Rous nunca chegou a conhecer todos os países da África e da Ásia, e seguramente jamais esteve nas pequenas ilhas espalhadas pelo mundo. A mudança foi radical. De repente aquele sul-americano dinâmico, charmoso e boa praça viajava pelo mundo, acompanhado da mulher, encontrando pessoas, apertando as mãos, acompanhado do time brasileiro, viajando ao lado de gente como Pele. Foi a hora do Carnaval brasileiro." Havelange desafiou a antiga supremacia européia na FIFA, e agiu com sagacidade. Percebera que os países recém-convertidos ao futebol, na Ásia e na África, ficavam de fora do campeonato mais importante. Em troca de seus votos, Havelange prometeu aumentar o número de times na Copa do Mundo, de 16 para 24. Prometeu criar um Campeonato Mundial de Juniores. Prometeu dinheiro para os países construírem estádios, promoverem cursos para árbitros, médicos e técnicos, além de mais campeonatos interclubes no Terceiro Mundo. "Sir Stanley de repente se deu conta de que ele estava a ponto de ser derrotado por um brasileiro", contou Nally. "E seus amigos alemães sugeriram, no último minuto, que ele falasse com Horst, para ver se conseguia algum apoio." Dassler não o decepcionou. Colocou o time em campo, e começou a fazer lobby, pressionando os delegados que compareciam a Frankfurt para o 39o. congresso da FIFA. Ele quase mudou o resultado da eleição. Até o último momento, parecia que Havelange ia perder. A eleição foi para o segundo turno, e Havelange ganhou por uma margem apertada: dezesseis votos. "Havelange gastou uma fortuna viajando pelo mundo com o time brasileiro, e angariou o voto de cada um dos membros da FIFA", disse Nally. "Foi algo inédito. Nenhum presidente de federação esportiva percorrera o mundo antes, distribuindo abraços e fazendo campanha. "Horst socorreu sir Stanley no último minuto, e quase o elegeu. Isso assustou Havelange. E os aproximou. Horst impressionou Havelange com sua capacidade de quase derrubá-lo antes que ele começasse, e Havelange pensou: 'Meu Deus, se este sujeito pode fazer isso comigo, e quase me derrubar antes que eu pudesse começar, é melhor tê-lo do meu lado.' "Horst, por sua vez, viu um homem que, vindo do nada, derrubou Sir Stanley, apesar de suas tentativas de impedi-lo. E Horst sempre gostou de ficar do lado dos vencedores. Se a pessoa não fosse mais útil para ele, seria cuspida sem pudores. O vínculo entre os dois foi criado pelo respeito ao que o outro podia fazer.'' Uma vez eleito, Havelange se deparou com o fato de não ter o dinheiro necessário para colocar suas promessas em prática. Ele se voltou, então, para Horst Dassler. Chegaram a um acordo. Se o dono da Adidas queria os benefícios do relacionamento com a FIFA, e os contratos com as federações nacionais, para que os atletas usassem uniformes Adidas, então o preço a ser pago por Dassler seria financiar o projeto de Havelange. "Horst tampouco dispunha do dinheiro. Foi por isso que se ligou a mim", explicou Nally. "Em Landersheim, falamos sobre a FIFA. Ele perguntou se eu ajudaria a levantar o necessário para ajudar Havelange a cumprir suas promessas eleitorais. "Eu era um instrumento para seus objetivos. Como profissional de marketing, poderia conseguir as verbas, e ele os benefícios decorrentes. "Isso era fundamental para seu plano de penetrar e controlar as federações esportivas. Desejava estimular seu crescimento, algo bom para elas, que desejavam crescer. Mas Horst queria desenvolvê-las de modo a se tornar o pivô do processo. Assim, Horst elegeria um presidente adequado, estabeleceria as promessas a fazer e realizaria os acordos que tornaria seu cumprimento possível. "Uma vez dentro das federações, ele estaria com um pé no Comité Olímpico Internacional, o que representava o controle das Olimpíadas, o maior evento do mundo. Horst queria ser a peça chave de todo o processo. Tornar-se indispensável. Quando as decisões fossem tomadas, quando alguém precisasse de alguma coisa, ele pretendia ser o único a quem fosse possível recorrer." Mesmo após a morte de Dassler, o envolvimento da Adidas com o futebol mundial continuou sendo total. As estrelas da música pop recebiam o Grammy, as estrelas do cinema, o Oscar. Jogadores de futebol ficavam com o Troféu Adidas. E usavam chuteiras Adidas, bolas Adidas e o logotipo da Adidas, com o trevo e as três listas em ouro, prata e bronze. No festa de gala que marcou o encerramento da Copa do Mundo de 1990, todas as estrelas estava presentes. Lothar Matthaus, capitão do time vitorioso da Alemanha Ocidental (mora na mesma cidade que serve de sede para a Adidas alemã, Herzogenaurach), recebeu a "mais alta comenda do futebol". É assim que a Adidas chama o "Trevo de Ouro Adidas", dado ao melhor jogador do ano de 1990. Para receber o Prêmio Adidas Franz Beckenbauer das mãos do homem que ergueu a Copa do Mundo há vinte anos, para delírio da torcida de Munique, o centroavante fã de lambada do Camarões, Roger Mula, deu um passo à frente. O agradecido ganhador da Chuteira de Ouro Adidas, para o artilheiro da Copa do Mundo, foi Salvatore Schillaci, da Itália. "Ele chegou à Copa do Mundo como reserva, e saiu como superstar", publicou a revista de divulgação da Adidas, Adidas News. "Como prêmio adicional", segue a reportagem, "Totó recebeu a Bola de Ouro Adidas como melhor jogador do campeonato." Quanta sorte, né, Totó? As Chuteiras de Ouro Adidas também foram conferidas a Hugo Sanchez e Quisto Stoichkov, artilheiros europeus. Na mesma festa em que a Adidas mostrou toda sua generosidade com as estrelas do futebol, a FIFA entregou a Gary Lineker, capitão da Inglaterra, o Prêmio Jogo Limpo, pelo desempenho leal do time na Itália. Linekerganhou também o Prêmio Jogo Limpo da FIFA como jogador individual, no valor de 50 mil francos suíços. Apesar destes vínculos ostensivos entre a Adidas e a FIFA, o presidente João Havelange afirmou com firmeza que "o senhor Dassler não interfere na política da FIFA." E depois demonstrou seu espanto com a possibilidade de alguém sugerir uma coisa dessas. "Por que tanto ódio contra mim, se trabalhei duro para o desenvolvimento do futebol?" Ele pergunta. "O futebol serve para vender produtos no mundo inteiro. E isso se deve ao meu trabalho." Sem dúvida, e muitos destes produtos são fabricados pela Adidas. Mesmo o próprio presidente da FIFA, ao comparecer a um amistoso que comemorou a inauguração da nova sede da entidade em Zurique, foi visto calçando sapatos com as três listas inevitáveis. Uma história edulcorada da FIFA, editada para comemorar o octogésimo aniversário da entidade, diz que a "principal preocupação" de Havelange, depois de sua eleição em 1974, era um programa abrangente, mundial, de desenvolvimento do futebol. "Como a FIFA não possuía os recursos financeiros necessários, o presidente se valeu de sua vasta experiência e visão como homem de negócios, de modo a materializar seus planos ambiciosos." O que a história oficial deixa de informar é que a "vasta experiência e visão como homem de negócios" de Havelange era na realidade a parceria entre Horst Dassler e Patrick Nally. "Politicamente, para Havelange, era importante cumprir as promessas feitas aos africanos e asiáticos", declarou Nally. "Ele prometeu que o Terceiro Mundo teria mais países africanos e asiáticos na Copa do Mundo; prometeu criar um campeonato mundial juvenil; prometeu um programa de aprimoramento que levaria o melhor do futebol europeu e sul-americano para a África e Ásia; fora eleito com esta plataforma. Se Horst pretendia ajudar Havelange a colocar em prática tudo isso, precisava de muito dinheiro para implantar os eventos." "Horst se comprometera a levantar o dinheiro para Havelange. Eu me perguntava: Como vou conseguir isso?' Fui encarregado de criar um projeto de marketing, capaz de justificar a aplicação de verbas imensas no futebol, ajudando Horst a honrar seus compromissos. Para fazer isso, precisaria de uma multinacional das grandes como patrocinadora." A revista Time publicou certa vez uma capa mostrando a Terra como um homem com uma garrafa de Coca-Cola nos lábios. O título dizia: "O Mundo Bebe Nesta Garrafa". O mundo do esporte internacional também toma Coca-Cola. A Coca-Cola é o maior e mais conhecido patrocinador das Olimpíadas em todo o mundo. A venda do produto se baseia na pureza, juventude, energia e estímulo associados ao refrigerante. A bebida mais apreciada do mundo e o admirável novo mundo do esporte internacional foram feitos um para o outro. A Coca-Cola tem um longo histórico de envolvimento com os Jogos Olímpicos. Esteve em Roma (1960) e na cidade do México (1968), quando "astronautas" em trajes espaciais vermelhos e brancos bombeavam o mágico elixir dos cilindros instalados em suas costas. Não faltou Coca-Cola em Munique (1972) e Montreal (1976), e nem mesmo em Moscou (1980). Os atletas americanos boicotaram os Jogos na Rússia, mas a Coca-Cola compareceu, promovendo seu refrigerante Fanta laranja. Em Los Angeles (1984), a Coca-Cola tornou-se "o refrigerante oficial das Olimpíadas". Isso se repetiu em Seul (1988) e Barcelona. Nos últimos 65 anos a empresa sediada em Atlanta despejou mais de um bilhão de dólares no esporte mundial. O primeiro esporte a receber verbas da Coca-Cola em escala mundial foi o futebol. "A Coca-Cola é uma das maiores companhias do mundo", disse Nally. "Qualquer coisa feita pela Coca-Cola se transforma em sucesso. E todos seguem a Coca-Cola. Se for possível convencer a Coca-Cola a fazer algo, tem o caminho aberto. Ao entrar na Coca-Cola, penetra-se no mundo da maior e mais segura empresa do planeta. "Horst sempre sustentou que nossa parte era arranjar dinheiro para que as pessoas realizassem seus sonhos, o que não deixava de ser verdade, e todos agradeciam profusamente, despejando honrarias em cima dele. Mas, na realidade, isso o colocava numa posição de incrível força para manipular e organizar as federações e os patrocinadores. "Não havia, na época, nenhuma companhia no mundo que tivesse um orçamento global de marketing. Nossa abordagem era totalmente inédita. Não dava para simplesmente chegar dizendo 'queremos que tomem uma decisão em escala mundial'. A maioria das companhias, por maiores que fossem, mantinham seus orçamentos promocionais a nível local. "Por este motivo, as companhias japonesas se tornaram tão importantes na expansão dos negócios, mais tarde. Os japoneses tinham duas vantagens. Em primeiro lugar, normalmente usavam uma marca padrão no mundo inteiro. A Toyota era Toyota em qualquer pane, enquanto muitas empresas norte- americanas e européias adotavam nomes diferentes conforme o país. Em segun- do lugar, os japoneses costumam centralizar o processo de decisão. Quando possuem diretores locais, preferem nomear japoneses, e eles sempre recorrem a Tóquio para tomar decisões. "Eu sabia que tentar fechar um contrato com a Coca-Cola daria um trabalho enorme, mas não havia percebido a tarefa gigantesca que teria pela frente. Levei cerca de um ano e meio, viajando pelo mundo inteiro, e enfrentei rodadas intermináveis de negociação, achando frequentemente que não dariam em nada." A Coca-Cola, tida por todos como um conglomerado internacional gigantesco, estava estruturada em uma série de feudos. Os alemães controlavam a Alemanha, os ingleses a Inglaterra. No nome a empresa era multinacional, mas suas operações se realizavam nacionalmente. A administração se estruturava de modo a manter o poder de decisão dentro do país, e a responsabilidade pelo orçamento nas mãos da diretoria local. "Quando eu disse que pretendia casar os interesses da companhia com um único esporte, em escala global, foi um Deus nos acuda", contou Nally. "Todos diziam, 'nada disso, tenho meus próprios esportes. Estou mais interessado em cuspe a distância do que em futebol'. Entrei numa guerra. O sangue correu pêlos carpetes. Ninguém queria abrir mão do privilégio de controlar suas próprias decisões." "Finalmente, numa reunião extremamente confusa em Atlanta, a decisão foi tomada", contou Nally. "A Coca-Cola participaria de um projeto mundial de patrocínio e todos os mercados regionais contribuiriam para isso. Não pediram a eles que participassem, foram obrigados. Teriam de reservar uma porcentagem de seu orçamento promocional para um caixa central em Atlanta, e a verba seria investida no futebol." A decisão da Coca-Cola deu a Havelange um poder de fogo de vários milhões de dólares. Ele agora poderia cumprir as promessas feitas para se eleger. Não havia uma organização capaz de levar adiante as idéias grandiosas de Havelange. Nally ficou encarregado de transformar as promessas do novo presidente em realidade. O que era o tal programa de aprimoramento? Como organizar um campeonato mundial de juniores? A FIFA não sabia responder a estas perguntas, a federação não possuía uma equipe em tempo integral. Dassler e Nally não conseguiram o dinheiro, apenas, eles precisaram montar os novos eventos e implementar os programas. Estavam assumindo o futebol mundial. Tudo foi feito fora da federação, Dassler e Nally passaram a determinar as regras. Horst procurou Klaus Willing, que trabalhava para a federação alemã de natação. Klaus era uma pessoa adorável. Falava inglês fluentemente, era eloqüente e sabia escrever muito bem. Ele montou o plano que acabou se transformando no programa de aprimoramento da FIFA. Klaus ficou encarregado de pôr no papel toda a estratégia de transferência dos conhecimentos sobre fute- bol dos países da América do Sul e Europa para cerca de cem países, levando técnicos, administradores esportivos e especialistas em medicina esportiva para a Áfricae Ásia, para os locais onde os votos foram importantes para Havelange. Infelizmente Klaus morreu em um acidente de carro, depois de sair de um jantar político da Adidas em Landersheim. Nally e Dassler criaram o campeonato mundial de juniores. Junto com a Coca-Cola, começaram a dar forma ao contrato de patrocínio esportivo multimilionário. Decidiram que o novo campeonato seria restrito a jogadores com menos de vinte anos, e se realizaria a cada dois anos, com o nome de Copa FIFA/Coca-Cola. O primeiro campeonato aconteceu em Tunis, em 1977. Quando a terceira copa de juniores foi disputada na Austrália, em 1981, dinheiro não era mais problema para a FIFA. Os executivos de Atlanta, que haviam dito "Sim!" para Nally entraram com mais de US$ 600 mil, pelo privilégio de ver seu nome no troféu. Eles também bancaram a conta de transporte dos quinze times até a Austrália, bem como as despesas com a arbitragem. Quarenta dirigentes da FIFA, do mundo inteiro, também participaram da festança. A Coca- Cola também garantiu uma reserva de US$ 250 mil, para o caso da Copa dar prejuízo. "Além de tudo isso, criamos um programa mundial de aprimoramento do futebol", contou Nally. "Isso ficou por conta dos fabricantes locais de Coca-Cola. Tiveram boas oportunidades promocionais com este programa. Depois, lentamente, atraímos a Coca-Cola para a Copa do Mundo da Argentina, em 1978." A Coca-Cola investiu uma soma inédita, US$ 8 milhões, para participar do evento. Nally e Dassler também criaram as novas regras comerciais para as competições da FIFA. Havia muita coisa em jogo, bem mais do que simplesmente colocar o logotipo da Coca-Cola no estádio. "Era preciso controlar as licenças para os bares de cada estádio, de modo que a Coca-Cola fosse o único refrigerante à venda", explicou Nally. "Tivemos uma briga enorme no estádio de Madri, na Espanha, em 1982. A Pepsi já possuía a licença para explorar os bares, mas a Coca-Cola entrou como patrocinador único. A Pepsi precisou sair." "O estádio também precisava ficar limpo', deixando todo o espaço em volta do campo para nossos patrocinadores", disse Nally. "Precisamos colocar isso no regulamento. Antes de sediar um evento da FIFA, o estádio precisava dar garantias de que estaria limpo. Estas idéias eram novas. Determinávamos as regras para o marketing, o modo de organizar os eventos, a forma de implementar os programas de aprimoramento e desenvolvimento. Nosso relacionamento com a federação era completo." Sem dúvida, tratava-se de um relacionamento "completo". Dassler assumiu a direção da FIFA, chegando a escolher o novo secretário-geral. "Horst percebeu que a FIFA, com o Dr. Kaser, dois cachorros e uma secretária esganiçada, não teria condições de administrar a nova postura da federação'', contou Nally. "Sendo assim, Horst encaixou Joseph Blatter, que trabalhava para a Swiss Timing na época. Blatter foi treinado na sede da Adidas, em Landersheim, antes de ir para a FIFA. Passava boa parte do tempo trabalhando ao lado de Horst, conhecendo o sistema da Adidas. Horst e Blatter se aproximaram muito, nos meses em que ele morou em Landersheim." A forma com que Nally e Dassler atraíram a Coca-Cola para que patrocinasse o futebol tornou-se um modelo para o desenvolvimento das outras federações esportivas. Havelange pertencia a uma nova geração de presidentes esportivos. Tinha classe, e o mundo empresarial lhe dera uma gigantesca conta corrente para administrar. Em 1979, as despesas de Havelange chegavam a 100 mil libras anuais. Em 1986, o custo de manutenção de seu escritório particular no Rio atingiu a soma de 250 mil libras. Quando os dirigentes da FIFA voaram para a Copa do Mundo da Espanha, em 1982, suas despesas se aproximavam dos 2 milhões de libras — quase o valor gasto para transportar e hospedar os vinte e quatro times participantes. A nova riqueza do esporte era estonteante. Nos dois anos seguintes a FIFA consumiu 650 mil libras em presentes e viagens internacionais. Como a torneira do dinheiro da Coca-Cola continuava aberta, Havelange continuou sendo o presidente indiscutível da FIFA. "Mas foi Horst quem ficou, em última análise, com os benefícios políticos e comerciais do investimento da Coca-Cola", lembrou Nally. "Ele trabalhou como unha e carne com a nova federação criada por nós, e se manteve muito próximo a Havelange. Os contratos voltavam para a Adidas. "Horst precisava da imagem e do nome da Coca-cola. Outras companhias ficariam felizes em seguir o exemplo da Coca-Cola, e outras federações adorariam repetir a atitude da FIFA. É só pensar na imagem limpa da Coca-Cola, e no feto de que, ao mesmo tempo, o dinheiro da empresa era usado por Horst em benefício próprio. A Coca-Cola deu legitimidade ao sistema, mas nunca se deram conta da importância de sua associação, e como esta foi abusada, permitindo ao Clube, esta máfia dentro do esporte, se manter. A Coca-Cola deu o pontapé inicial de tudo isso." 4 DE MONTREAL A MONTE CARLO Quando Dennis Howell, ex-ministro dos esportes da Grã-Bretanha, perguntou a Horst Dassler: "Por que um fabricante de sapatos precisa se envolver com a administração dos esportes?", recebeu uma resposta bem direta: "Fabricamos sapatos e camisas, e precisamos estar onde as coisas acontecem, seja onde for." Howell, um político de Birmingham com os pés no chão, aprecia uma resposta sincera. "O que me perturbou", declarou Howell, cerca de dez anos depois de seu encontro com o diretor da Adidas, "foi a insistência dele, em seguida, em me dizer que possuía uma visão de conjunto do esporte melhor do que qualquer outro. Ele possuía um departamento' encarregado de reunir e classificar informações sobre os comitês olímpicos nacionais e federações internacionais." Dassler insistiu que os arquivos continham apenas informações de "publicações oficiais", e afirmou que se sentiria muito feliz em compartilhar de seu banco de dados com qualquer interessado. "O ponto central", prosseguiu Howell, "era que ninguém, em sua posição de industrial, deveria tentar controlar o mundo das organizações esportivas. Considero tal concentração de poderes pouco saudável." O ex-ministro dos esportes teria ficado mais perturbado ainda se o alemão fabricante de sapatos revelasse toda a extensão de seu poder, as ligações com os principais dirigentes esportivos mundiais, a equipe dedicada de pessoas encarregadas de reunir informações e suas operações a nível mundial. Na metade dos anos 1970, a campanha política de Dassler começava a decolar. A equipe política montava um arquivo abrangente dos dirigentes esportivos consagrados e promissores do mundo. Eles faziam relatórios de todas as partes do mundo, sobre as federações internacionais, os diversos comitês olímpicos nacionais e o COI. "Estar onde as coisas acontecem, seja onde for", Dassler disse a Dennis Howell, e Dassler agia assim mesmo. Não havia lugar no mundo onde um representante das famosas três listas não comparecesse aos campos, adulando e cultivando a amizade dos homens que comandam o esporte mundial. "Sempre que uma federação esportiva internacional, um comité olímpico nacional, ou o próprio COI se reuniam, acontecia sempre o jantar compulsório da Adidas", contou Nally. "Sempre que acontecia um congresso anual, ou algo assim, a única companhia sempre presente era a Adidas." Dassler desempenhava o papel da boa fada madrinha. A Adidas aparecia e todos entravam na dança. "Horst foi o único a dar tanta atenção a eles", relatou Nally; "com freqüência oferecia suas próprias instalações para que realizassem as reuniões, e depois aparecia convidando todo mundo para jantar. Lá estava a Adidas, afável, generosa, agradável e cordial. Não havia pressões. Horst era um amigo. A relação era quase natural, e Horst começou a montar um grande esquema de alianças." Dassler e sua equipe política não precisavam sair sempre à cata de informações, muitas vezes estas chegavam a eles. Seu banco de dados transbordavade informações vindas de uma procissão de visitantes do mundo esportivo, contentes por poder contar com a hospitalidade de Dassler em seu hotel e restaurante, vizinhos da sede da Adidas em Landersheim. "Lá se realizavam reuniões e encontros constantes, entre Horst e dirigentes esportivos, com a equipe política distribuída em torno da imensa mesa de jantar em Landersheim", contou Nally. Houve festejos monumentais quando a cidade canadense de Montreal ganhou o direito de sediar os Jogos de 1976. O grande sonho do prefeito Jean Drapeau tornara-se realidade. A vinda das Olimpíadas para sua cidade era um fato. Seis anos depois, o sonho virou pesadelo. As Olimpíadas de 1976 deu um prejuízo de US$ l bilhão, e os contribuintes de Montreal ainda estarão pagando a conta quando o Clube descer dos jatos em Atlanta para celebrar o centenário das Olimpíadas em 1996. O prefeito Drapeau dizia que seria impossível ter prejuízo com os Jogos Olímpicos, tanto quanto um homem ter um bebê. Depois de examinar as páginas de um relatório de quatro volumes produzido por Albert Malouf, o juiz mais importante de Montreal, Drapeau tornou-se o primeiro homem a experimentar algo parecido com as dores do parto. O juiz disse que Drapeau "se autonomeara capataz e gerente do projeto" das novas instalações olímpicas de Montreal, sem ter "a aptidão e os conhecimentos" necessários para a tarefa. O prefeito encomendou "instalações luxuosas e impressionantes", ditadas por "considerações estéticas e de grandeza", sem realizar estudos sérios sobre os custos envolvidos. As coisas pioraram quando Sua Majestade a Rainha abriu os Jogos, e faltavam 22 países africanos na cerimônia inaugural. Dois dias antes eles abandonaram as Olimpíadas, em protesto pela excursão realizada pelo time de rúgbi da Nova Zelândia à África do Sul. Duas grandes estrelas dominaram os Jogos de Montreal: o finlandês Lassie Viren e o cubano Alberto Juantorena. Viren, um policial do interior, com sua barba rala, defendeu com sucesso seus títulos olímpicos, tanto nos 5 mil quanto nos 10 mil metros rasos. Juantorena, com suas passadas largas, foi o primeiro homem a ganhar as medalhas de ouro nos 400 e 800 metros numa mesma Olimpíada. Os Jogos de Montreal provavelmente ficarão na história pelas conquistas destes dois grandes atletas. Mesmo a investigação severa do juiz Malouf registrou que, para os canadenses, os Jogos foram "motivo de alegria e orgulho nacional". Patrick Nally se recorda das Olimpíadas de Montreal por outras razões: "Montreal serviu como catalisador. A equipe política de Horst estava montada. Os arquivos com quem é quem transbordavam. Diziam quais os indivíduos certos para agradar, quais os candidatos com chances de sucesso. Ele discutia com os Samaranches daquele mundo, preparando-se para as eleições futuras. "O terceiro estágio do projeto de Horst nasceu em 1976. O primeiro estágio foi pagar aos competidores para que usassem Adidas. O segundo estágio, o período em que se deu conta de que precisaria controlar as federações. O terceiro era o lançamento de uma estratégia completa. Fomos a Montreal com um plano estruturado, pela primeira vez. Ali começamos a espalhar as sementes de nosso trabalho com as federações e o COI. Montreal funcionou como plataforma de lançamento da era Dassler e Nally." O quartel-general para o lançamento da "era Dassler e Nally" funcionava em uma mansão requintada, no bairro mais chique de Montreal. Os dois sócios importaram um chef 'inglês para preparar uma série de delícias culinárias para uma interminável sucessão de jantares e almoços, nos quais Dassler e Nally faziam contatos e completavam arquivos. "Muito antes do início dos Jogos, já estávamos instalados em Montreal", lembrou Nally. "Escolhemos uma casa magnífica, onde poderíamos criar um bom ambiente, para receber pessoas que não viam a hora de fugir dos hotéis. Esperava-se muita animação em torno dos Jogos Olímpicos, mas pelo jeito isso faltou em Montreal — talvez porque os canadenses já estivessem fartos de tudo, naquela altura. Era muito difícil encontrar animação nas Olimpíadas de Montreal." A mansão alugada pêlos dois empresários logo preencheu o vácuo. Tornou-se o centro da política esportiva nas Olimpíadas de Montreal, fornecendo idéias e estratégias para as rodadas de reuniões, encontros e discussões que se seguiriam. Nestes encontros, os sócios possuíam uma isca especialmente apetitosa para balançar na frente das federações esportivas: o contrato multimilionário fechado por Nally com a Coca-Cola, para a FIFA de Havelange. O dirigente máximo do futebol mundial logo iria anunciar, para os outros presidentes, que conseguira milhões de dólares da Coca. "Poderíamos conseguir companhias interessadas em investir nas federações internacionais", disse Nally. "E também mostrar as maneiras de ajudar os interessados em presidir federações em seus objetivos de campanha. "Em Montreal, fomos capazes de usar o crescimento da FIFA e a consolidação de Havelange como um presidente esportivo poderoso para mostrar o que se poderia fazer com uma federação internacional. O dinheiro injetado na FIFA pela Coca-Cola mudou claramente a cara da organização. Havelange estava construindo uma nova sede internacional em Zurique, contratando uma equipe profissional em tempo integral, além de relações-públicas e pessoal da área financeira. A FIFA indicava o caminho. As outras federações importantes, como a de atletismo, acompanhavam tudo de perto. Muitas outras se mostravam ansiosas para seguir no mesmo rumo, e caíram logo nas mãos de Horst, e nas minhas." Conforme Havelange se mostrava mais rico e poderoso, todos queriam chegar lá. Ganhariam viagens, passeios, melhorariam sua imagem, ganhariam medalhas e status. "Voar na primeira classe para eventos internacionais importantes pelo mundo era sem dúvida muito melhor do que varrer o quintal no final de semana", disse Nally. "Assim que as pessoas mostravam interesse em chegar à presidência das federações internacionais, Horst começava a negociar, para garantir que os sujeitos certos fossem eleitos." Dassler dedicava especial atenção ao estabelecimento de contatos valiosos dentro das organizações olímpicas propriamente ditas. Muitas das pessoas que ocupavam postos-chave nos Jogos de Montreal eram funcionários da Adidas, ou serviam de consultores não remunerados da empresa. "Estávamos todos no mesmo time", explicou Nally. "Sua carreira futura estaria ligada a Horst, e portanto, durante o período em que se realizavam os jogos, eles mantinham Horst atualizado, passando as informações mais recentes, contatos, forneciam passes para entrada nas áreas reservadas aos atletas ou qualquer outra coisa que se fizesse necessária. "Em Montreal, estávamos totalmente integrados com os atletas mais importantes, como Artur Takac, que servia e ainda serve como conselheiro técnico das Olimpíadas. Artur foi praticamente a primeira pessoa que encontrei em Landersheim. Ele costumava jogar tênis com Horst, na quadra da Adidas. Takac era iugoslavo, e precisava de apoio do Ocidente. Horst cuidou disso, e Takac ajudava nos contatos com a Europa Oriental e o COI." Dassler também cultivava contatos mais difíceis, durante sua estada em Montreal. "Eu me lembro de ter saído com Horst", contou Nally, "e onde ele fosse, claro, os presentes o acompanhavam. Levávamos sempre caros relógios Omega. Conversávamos um pouco com a pessoa, sobre a vida em geral, como era tudo maravilhoso, e como procurávamos oportunidades comerciais no esporte. E de repente Horst dizia: 'Ah, por falar nisso, trouxe um presentinho, sinal de amizade da Adidas', ou algo no gênero, e os sofisticados relógios apareciam. "Conforme circulávamos, dava para perceber que isso já era esperado. A quantidade de presentes e brindes que as pessoas recebem no mundo dos esportes é extraordinária. Alguns críticos dizem que não passa de suborno, mas acho a palavra muito dura. Isso é feitoapenas para que as pessoas se sintam bem em sua presença. Havia a necessidade de distribuir brindes e presentes para que as pessoas se mostrassem receptivas e amigáveis. Circular por Montreal com Horst foi muito educativo, porque ele sabia tratar cada indivíduo como se fosse seu amigo. Cada um era tratado de modo distinto, dava para perceber que ele avaliava a personalidade e o caráter de cada um com perfeição, porque conseguia se aproximar de todo mundo." Tommy Keller, conhecido por sua sinceridade, era diretor da Swiss Timing e presidente da Federação Internacional de Remo. Há anos dirigia seus cáusticos ataques contra os líderes do esporte mundial que considerava de segunda classe. "As carreiras na administração do esporte servem frequentemente como substitutos para ambições não realizadas em outros campos, como por exemplo o meio empresarial, a vida militar ou a política", escreveu Keller, com a virulência habitual. "As funções dos dirigentes esportivos, portanto, são com freqüência meios de preencher seu orgulho pessoal, antes de mais nada." Nos anos anteriores à sua morte, ocorrida em 1989, Keller manifestou-se com mais veemência ainda, castigando o Clube construído por Dassler. Ele reclamava amargamente que o novo mundo esportivo fora "dominado por uma máfia latina, da Europa e América do Sul", e tentava lembrar aos colegas o que realmente importava no esporte internacional, em sua opinião. "Hoje os fatores dominantes são a busca do dinheiro e a satisfação das ambições pessoais", disse Keller. "Para mim, a função do esporte é ensinar aos jovens, através da competição, a se submeterem às regras das sociedades humanas, e não a servir aos interesses dos dirigentes esportivos que não tiveram muito sucesso em suas vidas profissionais ou políticas. Eles encontraram um refúgio. Os interesses pessoais tornaram-se mais importantes do que os interesses esportivos." Os partidários do Clube hostilizaram Keller, comparando-o a Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. Seu obituário olímpico oficial ressalta maliciosamente que ele "empreendeu uma cruzada contra as pressões comerciais e empresariais, exigindo que os membros de sua federação mantivessem o status de amadores, e que os dirigentes trabalhassem de graça." Mas em Montreal, durante os Jogos de 1976, o relacionamento de Keller com Dassler era bom. Keller era há muito uma figura poderosa no esporte internacional. Lutara muito pêlos interesses das federações, contra o poder do COI, excessivo em sua opinião. Já em 1967, Keller fora um dos primeiros a tentar que as federações formassem uma frente única nos contatos com o comité olímpico. Ao lado das federações de natação e luta, ele fundou a Assembléia Geral das Federações Esportivas Internacionais, conhecida pela sigla GAISF (General Assembly of International Sporting Federations). Desde o início a idéia gerou problemas com o COI. Avery Brundage, presidente do Comité Olímpico Internacional na época, recusou-se a reconhecer o GAISF, por não incluir alguns esportes mais importantes. Um dos membros italianos do COI disse que o GAISF seria uma ameaça tanto para o COI quanto para o movimento olímpico, exigindo "competência e dinheiro" que pertenciam ao COI. Na origem desta disputa inusitadamente calorosa no mundo normalmente pacato do COI estava o dinheiro. Os direitos para televisionar os Jogos Olímpicos seriam uma fonte cada vez mais importante de recursos. As companhias de televisão pagaram quase US$ 10 milhões para transmitir os Jogos Olímpicos do México, e isso era só o começo. O bolo da televisão chega a US$ 633 milhões nos Jogos de Barcelona, mas na época o total arrecadado no México era inédito. Nos anos seguintes, as empresas de televisão continuaram aumentando suas ofertas. Quatro anos depois, em Munique, pagaram US$ 17,8 milhões. No momento em que Dassler e Nally lançavam a terceira etapa de seu projeto em Montreal, a verba das te- levisões totalizava US$ 34,8 milhões. A ABC (American Broadcasting Company) pagou sozinha US$ 25 milhões. "Tommy Keller era o que se poderia chamar de um dos poucos', pertencia à honrada velha escola de dirigentes esportivos", segundo Nally. "Tommy via que os Jogos se tornaram repentinamente valiosos. No passado, as Olimpíadas não passavam de um divertimento simpático, feito por amigos alegres, onde todos se reuniam por causa do esporte. Ninguém precisava pensar no dinheiro, porque não havia dinheiro. De repente, surgiu o dinheiro da televisão. "As redes norte-americanas decidiram que as Olimpíadas eram um bom negócio. Aumentavam os índices de audiência, atraindo anunciantes, pela primeira vez havia a possibilidade de se lucrar para valer com os Jogos. E o que isso causa? Como as federações levam sua pane no bolo? Quem fica com quanto? Vai haver uma divisão em panes iguais? Como uma federação interna- cional se relaciona com um organismo como o COI, que está ficando rico?" Keller foi um dos primeiros a ver que seria necessário um novo fórum para responder a tantas perguntas. Ele também queria que as federações se tornassem um contrapeso para a crescente influência do COI, e por isso fundou o GAISF. Dassler e Nally também perceberam as vantagens de uma organização que servisse de anteparo, embora por motivos completamente diferentes. "Naquele estágio", disse Nally, "o GAISF era um órgão informal, que se reunia uma vez por ano. Não possuía uma administração central, nem sede. Horst e eu pensamos que, se conseguíssemos capturar o GAISF, providenciar uma sede e torná-lo um centro de informações e dados, isso nos daria a condição de conversar com muitas federações de uma vez só." Um príncipe e uma estrela do cinema norte-americano providenciaram a solução. Rainier, soberano de Mônaco, reina em um país miniatura, onde alguns quilômetros quadrados da costa mediterrânea se estendem entre as garras da França e da Itália. A Casa Grimaldi encara um problema perpétuo: como sustentar seu pequeno principado. O clima da Cote d'Azur, mais a fama da esposa do príncipe Rainier, a falecida estrela de cinema Grace Kelly, já ajudavam. Aviões lotados de turistas americanos, encantados com a história da "deusa de Hollywood que se apaixonou por um príncipe" voavam para Nice, "corriam a Europa" e depois cruzavam a fronteira de Monte Cario, onde podiam falar inglês novamente. O jogo também colaborava. A lenda do homem que quebrou a banca em Monte Cario era cuidadosamente cultivada há anos. Mas seria preciso mais do que o brilho decadente do Grand Cassino e de Grace Kelly para sustentar as atrações turísticas de Mônaco na década de 1980. O príncipe Rainier se dedicava com afinco à busca de novas atividades, que pudessem injetar moeda forte em Monte Cario. "Horst se entusiasmava com algumas coisas, como uma criança", disse Nally. "Ele viva deslumbrado com os heróis do esporte, por exemplo. Acontecia o mesmo com Monte Cario, só o nome do lugar já exercia uma atração enorme. Horst ficou terrivelmente lisonjeado e impressionado quando soube que o príncipe Rainier desejava conhecê-lo. "Ele ficou incrivelmente excitado. Rainier disse que tentava melhorar a imagem do principado, associando-o a eventos internacionais de prestígio. Já contavam com uma corrida de automóveis de sucesso, o Grand Prix, além de um campeonato de tênis, e queria conversar sobre as possibilidades de tornar seu país um centro esportivo internacional, com a ajuda de Horst. "Como parte da aproximação com Rainier, Horst e eu abrimos um escritório em Monte Cario. Resolvemos que a área de marketing de nosso trabalho com as federações, como as atividades desenvolvidas junto a Havelange, na FIFA, seriam realizadas através de uma sociedade que Horst e eu chamamos de SMPI — Societé Monegasque de Promotion International. "Eu ganhei um apartamento sensacional à beira-mar, com vista para o Mediterrâneo, além de um visto de residente. Personalidades do mundo esportivo começaram a mudar para lá namesma época, e costumávamos nos reunir regularmente na 'Cidade de Brinquedo', como a chamávamos. Quando todos se encontravam era ótimo, mas depois que iam embora e ficávamos sozinhos, o lugar era deprimente, cheio de velhos ricos aposentados e mais nada. "Na época em que inauguramos o escritório de Monte Cario, Horst conversava regularmente com a Madame Monique Berlioux. Ela era a diretora executiva e 'grande dame' do COI. Monique tinha um problema, o governo suíço relutava em fornecer vistos para estrangeiros que precisavam morar lá para trabalhar na sede de Lausanne. Por algum tempo discutiu-se a possibilidade de resolver a questão transferindo a sede do COI para Monte Cario. Horst encorajou esta solução, pensando que assim agradaria Rainier. "Num almoço com Monique, em Montreal, ficou claro que o plano não funcionaria. Por isso, Horst conversou comigo sobre uma alternativa para Monte Cario. Falamos muito sobre levar as maiores estrelas do esporte para morar e cuidar de seus negócios lá, como Franz Beckenbauer e Bjorn Borg. "Mas tivemos uma grande idéia: levar o GAISF. Conversamos com Tommy Keller, e ele acabou concordando em montar uma sede permanente para o GAISF em Monte Cario. O príncipe Rainier deu a Keller a base de sua organização, e em maio de 1977 a elegante Villa Henri, tendo até limoeiro no quintal, foi inaugurada, com Keller na presidência." "As reuniões do pessoal das federações internacionais eram muito divertidas", recordou Nally. "Eles erguiam as mangas da camisa e riam muito, ao contrário do que acontecia nas sessões do COI, sempre muito pomposas e formais." As redes norte-americanas de televisão compareceram em peso. A ABC, NBC e CBS brigavam pêlos direitos das Olimpíadas, e o dinheiro que se dispunham a gastar crescia. Os gigantes televisivos americanos também tentavam negociar os direitos de vários esportes, em separado. Os programas da ABC, Wide World of Sports, da NBC, Sports World e da CBS, Sports Spetacular ganhavam muita audiência. Em Monte Cario, o dinheiro não era problema. Custasse o que custasse, as redes norte-americanas pagariam, e as federações começaram a se amontoar para pegar o trem da alegria. "Cada uma das redes deu uma festa", contou Nally. "Ótimo, parecia um campeonato de badalação. Comíamos muito bem, bebíamos muito bem, nos divertíamos muito, enquanto cada uma tentava suplantar a concorrência. Ali se reuniam os dirigentes esportivos que no passado se esforçavam muito para aparecer. De repente um mundo de riquezas se descortinou para eles. Se o novo mundo era assim, melhor correr para garantir um bom lugar." Monte Cario era um pote de mel para Dassler e Nally. Ali tinham liberdade para circular nas federações, modificando-as conforme seus interesses. Eles enfatizavam a importância de manter o controle sobre todos os direitos de venda dos. esportes, separadamente. Nally realizava palestras, explicando como organizar programas de desenvolvimento como o do futebol e a necessidade de sair à luta pelo dinheiro. Ele conversava sobre a necessidade de reestruturar o calendário esportivo, destacando a perda inevitável das receitas de televisão, caso todos realizassem competições nas mesmas datas e ao mesmo tempo. "O GAISF se tornou um fórum de debates positivo, não apenas para as federações como também para nós, que pudemos desenvolver um sólido relacionamento com elas", declarou Nally. "Os rudimentos básicos da educação empresarial foram transmitidos em Monte Cario. O impulso para a realização de campeonatos mundiais e competições de natação, atletismo e ginástica nasceu ali. Nós modificamos a atitude das federações." Cada esporte seguiu o exemplo do futebol, criando novos eventos. Nally apresentou a eles o conceito de "pacote", por intermédio do qual se reunia um grupo de companhias para patrocinar um evento específico. "Não poderia haver mais um único patrocinador, como no caso da Coca- Cola", explicou Nally. "Porque nenhum patrocinador se comportaria como a Coca- Cola, injetando tanto dinheiro. Organizamos campeonatos de remo com Tommy Keller, com apoio de meia dúzia de companhias, como Canon e Metaxa. Participamos da Copa Mundial de Ginástica e Campeonatos Mundiais de Ciclismo da Holanda. Neste último deu uma confusão incrível. O estádio detinha os direitos de venda das placas em volta da pista. Quando chegamos, tendo a Heineken como principal patrocinador, não havia espaço para colocar as placas em torno da pista. Precisei mostrar às federações como conseguir estádios livres para seus eventos. Nenhum deles tinha a menor noção dos procedimentos comerciais. Nenhum deles conhecia nada sobre televisão. Não passavam de um grupo inocente e esforçado de amadores. "Mas, conforme o dinheiro ia entrando, e a importância das Olimpíadas crescendo, Deus do céu, tudo mudou. De repente havia gente da política, que não desperdiçava oportunidades. Alguns eram manipuladores muito astutos, espertos, e perceberam o potencial da coisa. Empresários e políticos começaram a fazer acordos, batalhar votos, ganhar eleições. Uma nova espécie de administrador esportivo surgiu, repentinamente, no momento em que a área se tornou lucrativa." 5 COM O BRAÇO ERGUIDO EU O SAÚDO Bem-vindo a Barcelona, mais uma vez. A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos aproxima-se de seu clímax. As equipes esportivas desfilaram em torno da pista, e logo um corredor solitário entrará no estádio Montjuic carregando a tocha Olímpica. Juan António Samaranch, presidente olímpico, dá um passo à frente para falar aos 70 mil espectadores e bilhões de telespectadores de todo o mundo. "Tenho a honra de convidar o rei Juan Carlos a abrir oficialmente os Jogos da 25a. Olimpíada". Observem o braço direito do presidente, não estaria inquieto, tentando assumir vida própria, impelido por uma força visceral que o força a erguer-se num ângulo de quarenta e cinco graus em relação ao ombro? Não? Bem, muitas vezes ele fez isso. Durante quase quarenta gloriosos anos, Juan António Samaranch foi um defensor ativo do mais longo regime ditatorial da Europa. Olhando para a Espanha moderna, é fácil esquecer que por dezessete anos o país foi um estado policial totalitário, chefiado pelo general Francisco Franco. Muitos espanhóis emigraram, ou deram as costas para a política, esperando que um dia a democracia retornasse a seu país. Samaranch não; ele vestiu a camisa azul do fascismo e desfilou pelas ruas, fazendo a saudação fascista. Fez carreira, tornando-se parlamentar, membro fascista do Conselho da Cidade de Barcelona, presidente do Conselho Regional Catalão e, por algum tempo, ministro dos esportes fascista. Em suas próprias palavras, Samaranch era "cem por cento franquista". Ele saudou e apoiou o líder de um sistema político renegado e boicotado pelas democracias ocidentais. Samaranch não encara a história de sua vida desta forma. Ele se apresenta como um amante do esporte, que se envolveu com a periferia da política. "Considero correto a prática da política para a melhoria do esporte", declarou. "Mas creio que seja errado usar o esporte a serviço da política." Os fetos mostram o oposto. Apenas quatro dos vinte anos de sua carreira na política totalitária na Espanha foram dedicados à administração do esporte em tempo integral. No resto do tempo, o esporte foi um veículo para sua ascensão ao alto da hierarquia do ditador. Quando o regime repressivo de Franco encerrou-se abruptamente na Espanha, Samaranch não teve futuro na política real. A única carreira possível era a política esportiva. Como Samaranch conseguiu abraçar duas filosofias aparentemente tão contraditórias? Como uma visão de mundo fascista, por ele proclamada até ter mais de cinqüenta anos, pode se compatibilizar com a Carta Olímpica, que prega a luta contra a discriminação e a manutenção da política fora do esporte? A res- posta de Samaranch foi ter dois pesos e duas medidas. Mesmo depois de se tornar vice-presidente do COI e percorrero mundo como guardião do ideal olímpico, Samaranch continuou a erguer o braço direito para fazer a saudação fascista em manifestações políticas na Espanha. Agora, na década de 1990, ocupando o centro da tribuna olímpica, sua conquista é única. Todos os velhos fascistas daquela era da história do século 20 na Europa há muito desapareceram ou caíram em desgraça. Samaranch é a última lembrança da Europa dos ditadores que ainda se destaca no palco do cenário mundial. Nas próximas duas semanas o centro deste palco será a arena olímpica. Os Jogos serão o primeiro grande espetáculo público espanhol onde Samaranch comparecerá com destaque desde a morte do generalíssimo Franco em 1975. Pouco depois dela, Samaranch fez as malas e deixou a Espanha, com a condenação de seus compatriotas ainda ecoando nos ouvidos. Desde então vive fora do país. O material distribuído pelo COI, referente a seu querido presidente, omite tais informações. A verdadeira história de Juan António Samaranch, o grande líder do esporte, é a história de um homem que se reinventou. Samaranch reconstruiu meticulosamente sua imagem pública. "Ele devotou a vida inteira ao ideal olímpico, sendo um homem de grande cultura", afirma um texto divulgado em Lausanne. "Nenhum dirigente olímpico, desde Pierre de Coubertin, possuiu tal variedade de talentos, como no caso do atual presidente do COI", declarou o ex-membro suíço do COI, Raymond Gafner. "Juan António Samaranch conseguiu ser ao mesmo tempo original e muito bem-sucedido em sua liderança do movimento olímpico", disse Dick Pound, do Canadá. A palavra "fascista" se mantém ausente das homenagens, claro. Samaranch é retratado como um senhor idoso, benevolente, ligeiramente imperial, que devotou generosamente seus anos de maturidade à juventude mundial e à preservação do ideal olímpico, protegendo-o dos ataques do comércio e da política. Isso impressiona terrivelmente, e é aceito sem questionamento nos perfis publicados a cada ano olímpico. Há um problema, pois pouco ou nada disso é verdade. Samaranch ficou mais bonito com o passar do tempo. Fotos do jovem empresário, há quarenta anos, em companhia dos generais que tomaram o poder na Espanha, mostram o rosto agressivo de um oportunista voraz. Seus traços, hoje, revelam suavidade. Ele tem a aparência de um senhor simpático. Enquanto se prepara para fazer seu pequeno discurso na abertura dos Jogos, Samaranch pode olhar para trás, e ver sua vida de riqueza e sucesso na Espanha com orgulho. Mas sua experiência foi inusitada. Dezenas de milhares de seus compatriotas espanhóis foram mortos com tiros, torturados ou encarcerados pêlos tribunais militares. Por quê? Inicialmente porque lutaram no lado derrotado na guerra civil, e mais tarde por oposição à vida miserável num regime de partido único. Não havia liberdades civis na Espanha, nem eleições livres, até 1977. Os partidos políticos viviam na ilegalidade. Samaranch entrou para o movimento fascista na adolescência. Permaneceu leal a ele, até sua dissolução, às vésperas das primeiras eleições democráticas, cerca de quarenta anos depois. Samaranch jamais rasgou voluntariamente a carteirinha do partido. Ele permaneceu leal até a morte do fascismo. O Movimiento, nome dado ao agrupamento fascista espanhol, controlava cada aspecto da vida do país, da justiça à política, dos salários à administração esportiva. A ditadura do general Franco reproduzia o despotismo do Leste europeu, e isso também valia para o esporte. Atividades de recreação saudáveis não se destinavam a beneficiar os jovens, a divertir os velhos e a promover a decência e a harmonia. O esporte não passava de uma propaganda vigorosa da credibilidade do regime ditatorial. Com o braço direito erguido em saudação, vestindo o uniforme do Movimiento, camisa azul e jaqueta militar branca, Samaranch usou o esporte para obter sucesso para si e para o movimento. Ele fez a mesma coisa com as Olimpíadas. No decorrer da última década, Samaranch transformou o cargo de presidente olímpico, tradicionalmente de meio período, honorífico, em uma função executiva de comando em tempo integral. Despediu o diretor remunerado anterior, criando uma corte e uma burocracia im- periais. Apesar de todos os discursos pregando o "esporte para todos", Samaranch conseguiu elevar a presidência olímpica a um status estratosférico, olímpico. Como um monarca — ou um ditador — ele ocasionalmente desce para tirar fotos com atletas selecionados e outros mortais. Mas, como político astuto, com 25 anos de prática, Samaranch não apenas se reinventou, ele remodelou o movimento olímpico de acordo com seu estilo de fazer política: o líder concede e aceita audiências com chefes de estado; o líder dá as ordens; o líder escolhe os novos membros do COI e os impõe ao movimento; o líder sabe de tudo; a vontade do líder deve ser executada; o líder comparece a entrevistas coletivas ladeado pelas bandeiras do movimento. Um dos momentos mais significativos na vida do jovem Juan António Samaranch foi o dia 17 de julho de 1936, data de seu 16o. aniversário. Naquele dia o general Franco ergueu a bandeira da rebelião. No início do ano o povo espanhol elegera um governo de centro-esquerda, da Frente Popular. Os ricos conservadores e os militares se recusaram a aceitar o veredito das urnas. A rebelião de Franco foi recebida com alívio no lar dos Samaranch. Franco contava com o apoio de Hitler e Mussolini, que já haviam estabelecido as duas outras grandes ditaduras européias. Guarnições militares por toda a Espanha se revoltaram, apoiando Franco. Os orgulhosos catalães resistiram aos exércitos de Franco por três anos, e Barcelona foi uma das últimas cidades importantes a cair. A resistência entrou em colapso depois que a cidade foi bombardeada pêlos alemães e italianos, num ensaio da guerra mundial que começaria em um ano. Samaranch pertencia a uma rica família de fabricantes de tecidos de Barcelona. Sua inclinação natural era seguir o estandarte fascista, mas isso era impossível. A Catalunha permaneceu leal ao governo eleito, e o exército "nacionalista" de Franco estava a centenas de quilômetros, no sul. Sendo assim, Samaranch entrou para uma organização fascista de juventude. Suas atividades chamaram a atenção da polícia. Foi chamado para interrogatório, e sua mãe o vestiu com shorts de tênis, para que aparentasse menos idade. A polícia o liberou. Pouco antes de seu 18o. aniversário, Samaranch foi convocado para o exército republicano. "Desde o início ele se manteve muito distante dos outros soldados", declarou Juan Llarch, convocado no mesmo dia. "Sua tática era ficar sempre próximo do capitão e dos outros oficiais. Curiosamente, ele sempre tinha tabaco e chocolate — naquele tempo raros — e quando o capitão ficava sem cigarros, ele costumava oferecê-los." Juan Llarch identificara o estilo de Samaranch: "Ele agiu assim a vida inteira, oferecendo algo para conseguir coisas muito maiores." Samaranch não tinha intenção de continuar servindo no exército republicano nem um único dia além do necessário. Llarch se recorda do modo como terminou a breve passagem de Samaranch pelo exército democrático. "Seu objetivo era conseguir permissão para sair, e quando a conseguiu, disse que não voltaria, ficando em Barcelona, na Cruz Vermelha. Depois eu soube que, ao chegar em Barcelona, ele desertou e se escondeu." Llarch tornou-se um escritor destacado depois da guerra. Ele não viu mais seu colega refratário, a não ser muitos anos depois, quando Samaranch já se tornara uma importante figura pública. Llarch disse que os modos de Samaranch eram frios, e que não gostava de ser visto a seu lado. "Samaranch agora grita 'Viva a Catalunha', e tenta parecer mais democrático que todo mundo", declarou Llarch no final dos anos 1970. "Mas sabemos que foi franquista a vida inteira." Franco fez poucos prisioneiros na sua vitória, em 1939. Executou por volta de 200 mil oponentes, segundo as estimativas,e mais de l milhão de refugiados deixou o país. Sua vingança contra a Catalunha e Barcelona, que se opuseram a ele energicamente, foi severa. No mês em que Samaranch comemorava seu 19? aniversário, os fascistas executavam cerca de 500 pessoas por semana na cidade. Os visitantes do estádio Montjuic, para os Jogos Olímpicos, estarão a poucos minutos a pé da antiga guarnição de mesmo nome, onde os inimigos do homem que se tornou presidente do COI eram abatidos como cães. Os atos do movimento político de Samaranch na Catalunha, depois da Guerra Civil, contrastam ostensivamente com os ideais olímpicos que ele hoje proclama. A cidade sede dos Jogos se compromete a realizar também um festival cultural; ele deve "simbolizar a universalidade e a diversidade da cultura humana". Barcelona mostrará a diversidade da cultura catalã. Há cinqüenta anos Franco e seu Movimiento tentaram esmagar aquela cultura. Em cenas similares às queimas de livros nazistas na Alemanha, a língua catalã foi banida, e as bibliotecas particulares e museus atacados. Até mesmo os passes de ônibus impressos em catalão acabaram queimados em praça pública. O banimento da cultura catalã prosseguiu, mesmo depois que os esquadrões da morte foram desativados. Na década de 1960, quando Samaranch era um político fascista em ascensão, uma cantora catalã, cantando em castelhano, ganhou o primeiro prêmio no Festival da Canção do Mediterrâneo. A canção foi inscrita para o Festival Eurosong, e a corajosa cantora avisou que a interpretaria em catalão. O governo imediatamente recusou permissão para que a artista participasse do festival. O idioma do conquistador, o castelhano, foi imposto na região onde Samaranch nascera. Embora falasse catalão desde a infância, Samaranch renegou sua herança cultural sem problemas. Depois da morte de Franco, ele repentinamente acrescentou à sua biografia do COI um detalhe. Além de castelhano, francês, inglês e russo, Samaranch admitia que falava também catalão. Depois da Guerra Civil, Samaranch entrou para o ramo da família, a indústria têxtil. Tornou-se diretor da empresa, e graças aos lucros consideráveis obtidos com trabalhadores não-sindicalizados, estava livre para se dedicar a sua prioridade real: manipular o esporte para atender a suas ambições políticas. Ele usou a riqueza familiar para comprar favores e levar urna vida de playboy. Aos vinte e poucos anos, Samaranch freqüentava as boates de Barcelona preferidas pêlos ricos da elite. Moças atraentes conseguiam escapar da miséria da época trabalhando como recepcionistas destes clubes. Eram conhecidas como "cortesanas", e podiam ser "alugadas" pêlos fregueses masculinos. De acordo com seus companheiros, Samaranch contratava mais mulheres do que todos os outros. Ao que parece, poucas se destinavam a seu uso particular. Ele reservava mesas, e também garotas, em meia dúzia de clubes, todas as noites, como gentileza para os amigos. Através desta generosidade interminável, Samaranch tornou-se um dos líderes do jovem jet-set de Barcelona. Samaranch tornou-se alvo de mexericos. Seus amigos diziam que ele mantinha agendas com detalhes sobre as moças, e ao longo dos anos reuniu uma coleção de quarenta agendas. Seus conhecidos comentavam que ele marcava o aniversário das moças, e os presentes comprados para elas. Desde a juventude, mantinha fidelidade a um hábito que conservaria por toda a vida: dar presentes e esperar o momento de pedir favores. Na década de 1940 passou a praticar boxe, e competiu, como peso pena, no campeonato catalão. Entrou uma vez no ringue com roupão de seda e o emblema "Kid Samaranch" nas costas. Ganhou a luta no segundo assalto. Alguns comentários maldosos davam conta de que, sem seu conhecimento, amigos seus pagaram ao adversário para que este caísse! Seu período de boxeador foi breve. Samaranch logo deixou de lado a competição a sério para iniciar sua vida de dirigente. Procurou uma oportunidade, algo que ninguém tivesse notado ainda. Considerou que o hóquei sobre patins tinha um potencial razoável, por sua popularidade na Espanha e em outros países. Faltavam recursos, e o esporte se beneficiaria, a longo prazo, com um rico patrocinador. Em 1943 ele contatou o clube esportivo Espanhol, e fundou um time de hóquei. Dois anos depois persuadiu o ministro dos esportes da Espanha, general Moscardo, a permitir que ele entrasse para a federação internacional de hóquei sobre patins. Em 1946, compareceu ao congresso de Montreux. Era o primeiro passo de Samaranch no cenário do esporte mundial. Samaranch conseguiu o sucesso, em seu país e no exterior. Montou uma seleção espanhola, financiando o projeto com seus próprios recursos. Instintivamente, seguiu o mesmo caminho que produziu muitos dos atuais dirigentes do Clube: usou seu dinheiro para comprar o sucesso no esporte — e portanto na política esportiva. Outra fatia dos lucros de Samaranch na indústria têxtil serviu para financiar o campeonato mundial de hóquei sobre patins em junho de 1951, realizado em Barcelona. Não foi puro altruísmo, e sim um investimento cuidadosamente planejado e rentável. A Espanha amargava o ostracismo da comunidade internacional desde 1945. A maioria dos governos ocidentais se recusava a reco- nhecer o regime que enviara tropas para lutar ao lado dos nazistas. As Nações Unidas bateram a porta na cara de Franco. A iniciativa de Samaranch, organizando um evento internacional em Barcelona, marcou o início da lenta volta do país à comunidade internacional. Para completar, o time espanhol venceu o campeonato. Para a maioria das pessoas, a vida em Barcelona era feita de migalhas de pão e circo, ou seja, o hóquei sobre patins. Enquanto Samaranch desfrutava da companhia paga das garotas, carros e sucesso com o tique de hóquei, o grosso da população vivia no limite da fome. "A década de 1940, e o começo dos anos 1950 foram uma época de intenso sofrimento para o povo espanhol", escreveu o historiador Raymond Carr, de Oxford. "Canetas-tinteiro eram compradas a prestações, escovas de dente recuperadas. A pobreza gerava a prostituição, e havia tantos mendigos que a polícia multava quem desse esmolas." Samaranch podia ficar tranqüilo, que suas fábricas de tecidos dariam lucro. Na Espanha de Franco as greves estavam proibidas, e os salários eram mantidos baixos, à força. O desespero gerava a raiva. O campeonato de hóquei sobre patins realizou-se num cenário horripilante. Os sindicatos proscritos convocaram uma greve geral. Trezentos mil trabalhadores aderiram. Os reforços policiais chegaram de trem, e navios de guerra desembarcaram tropas no porto. A polícia abriu fogo contra os grevistas, dois trabalhadores morreram e 25 ficaram feridos. Os operários voltaram à força para as fábricas. Milhares deles foram presos. Para muitos, a greve fora um desastre. Para Samaranch, ela representou um grande sucesso. A vitória suspeita da seleção espanhola no campeonato de hóquei aumentou a importância de Samaranch dentro da estrutura do partido único espanhol, o Movimiento, que incorporara o partido fascista, a Falange. Na década anterior ele aderira à ala jovem, a Frente de Juventudes. Apoiado em seu sucesso esportivo, Samaranch tentou realizar sua ambição real, a carreira política. No dia 22 de outubro Samaranch escreveu ao chefe regional do partido, pedindo para ser selecionado como candidato nas eleições para o Conselho Municipal de Barcelona. Não se tratava de uma eleição do tipo ao qual os cidadãos de qualquer país democrático se acostumaram a reconhecer. O povo de Barcelona não tinha voz ativa no resultado. O partido "elegia" sozinho o Conselho, em uma reunião fechada, e as pessoas sabiam do resultado pêlos meios de comunicação controlados pelo Estado, descobrindo quem seriam seus novos governantes. Nos arquivos do antigo governador civil de Barcelona, falangista, há dois documentos fascinantes, datados de 1951. O primeiro — número 994 — está cheio de elogios a Samaranch.Ao que parece, durante a greve geral, o partido sentiu falta de seus ativistas, e o documento afirma que "Samaranch foi um dos poucos falangistas presentes durante o período de greve". Havia falta de fura- greves, e Samaranch realizou um trabalho notável na prefeitura local. Mas sua vida particular constituía um problema. A polícia secreta da Falange espionava todo mundo, e se sentiu incomodada pela imagem de playboy de Samaranch. Consideraram tal comportamento inaceitável em um líder político. O segundo relatório — documento número 884 — 0 critica por dar carros de presente a "suas muitas namoradas sucessivas". E concluía: "não acreditamos que ele possua a maturidade necessária para assumir uma função pública." Sem se abalar com a rejeição, Samaranch dedicou-se a granjear mais prestígio esportivo para a Espanha. Tornou-se vice-presidente do comité organizador do segundo Jogos do Mediterrâneo, que graças a sua imensa sorte seriam realizados em Barcelona, em 1955. Mais um evento de porte, capaz de desviar a atenção internacional da repressão contínua. Também daria a Sa- maranch a oportunidade política que buscava. Um dos fatores de seu sucesso na década de 1950 estava na falta de crítica por parte dos meios de comunicação, algo que o acompanhou em sua carreira olímpica. O comité dos Jogos Mediterrâneos buscava cobertura favorável e intensiva da imprensa. Para atingir seu objetivo, simplesmente subornaram jornalistas. Como eram bons burocratas falangistas, registraram todo o esquema, por escrito. O documento encontra-se hoje nos arquivos do Governador Civil. "Em cada publicação existe um homem chave, que ao se colocar a favor da Organização — ou fechar os olhos — pode, sem escrever uma única linha, influenciar o tratamento da Organização", diz o texto. "Precisamos conversar pessoalmente com estes homens, antes que a campanha de propaganda na imprensa se inicie, e oferecer dinheiro por sua colaboração." Este tipo de suborno rotineiro servia como lubrificante das engrenagens da Espanha franquista. A política corrupta gera uma sociedade corrupta. Os mesmos empresários que elogiavam ostensivamente o generalíssimo com freqüência não pagavam impostos, lesavam o Estado e praticavam fraudes escandalosas. Para Franco, esta era uma forma aceitável de recompensar alguns partidários e comprar outros que pudessem causar problemas. Samaranch recebeu uma cobertura da imprensa mais favorável do que muitos de seus companheiros do Movimiento. Um grupo de jornalistas em Barcelona que despejava uma torrente interminável de elogios a seu respeito. Ele era famoso por dar presentes aos jornalistas, com a mesma facilidade com que alugava moças nas boates. Contam até que jornalistas receberam salvas de prata como presente de casamento, sem nunca terem sido apresentados a ele. De acordo com um texto publicado na IOC Review, os Jogos Mediterrâneos de 1955 foram um tremendo sucesso. "Eles mostraram o triunfo do ideal olímpico nos países banhados pelo 'Maré Nostrum', onde se originou nossa civilização", dizia a reportagem. "O prestígio daqueles dias memoráveis em Barcelona foi aumentado pela presença de oito membros do COI." Os Jogos eram uma "manifestação educativa, lotados de história, arte, filosofia e beleza. O mais importante não era vencer, e sim ter a honra de participar." O autor esqueceu de dizer que a honra de participar fora negada a um país banhado pelo Mediterrâneo — Israel. O responsável: Juan António Samaranch. Com o impulso extra da cobertura elogiosa da imprensa, Samaranch tentou mais uma vez ser "eleito" para o Conselho da Cidade de Barcelona. Apelou novamente ao Movimiento. Novamente a polícia secreta investigou sua vida particular. O relatório subseqüente, datado de 6 de novembro de 1954, mostrou que a vida privada de Samaranch não se alterara. O relatório foi escrito com muito cuidado, deixando as farpas para o final. "Este homem desfruta de grande prestígio no esporte. Trata-se de um perfeito cavalheiro. Politicamente, identifica-se com o regime, quanto à sua conduta moral, levando-se em conta a fortuna que dispõe, sua idade e círculo de amizades, não se caracteriza nem pela ostentação nem pêlos escândalos nos relacionamentos com as mulheres e casos amorosos. Estes são muitos, e corre o boato de que ele mantém um apartamento para tais necessidades. Ele é solteiro." Apesar de tudo, sua nomeação saiu. Samaranch, naquela altura, era muito poderoso para ser ignorado politicamente. Pelo menos conseguiu abrir caminho na política fascista, participando da administração da segunda cidade espanhola. Ficou responsável por um rico subúrbio e pelo esporte na cidade. Havia apenas uma condição. Até aquele momento ele era simpatizante do partido, mas não membro oficial. Agora, se quisesse o cargo, precisaria da carteirinha do partido. Samaranch assinou a ficha. Faltava ainda mais um pequeno ajuste para garantir sua ascensão. O Governador Civil o chamou para uma conversa em particular. "Samaranch", ele disse, "creio que todos os conselheiros devem ser casados." O sinal era claro. Se Samaranch queria subir politicamente dentro do partido, precisaria arranjar uma noiva. Em pouco tempo seu casamento com Maria Teresa Salisachs foi anunciado. Universalmente conhecida como "Bibis", ela pertencia a uma família de posses. Casaram-se em um ano. Salvador Dali criou o convite para as bodas. Samaranch havia fixado os olhos na política nacional. Perdera quatro anos desde a primeira tentativa de ocupar um cargo no Conselho da cidade, e pretendia recuperar o atraso. Também desejava ser um político com assento no conselho regional, que governava toda a Catalunha. O processo eleitoral, como sempre, não teve nenhuma relação com as urnas. Ele contatou um médico de Barcelona, figura influente no Movimiento, coincidentemente apoiado pelo pai de Samaranch. O doutor deu um telefonema. No dia seguinte a imprensa anunciou que Juan António Samaranch era agora Conselheiro Regional, além de responsável pelo esporte na Catalunha. O sucesso dos Jogos Mediterrâneos, realizado sem a presença israelense, agradou ao governo. Novos telefonemas foram dados, e em 1956 o Conselho Regional nomeou Samaranch para ocupar um cargo no comité nacional do esporte, em Madri. Havia um preço a ser pago, mas para um homem com as opiniões de Samaranch, este preço estava longe de ser odioso. Ele precisaria continuar mostrando sua lealdade inabalável ao Movimiento. Coerente com tal atitude, suas cartas aos dirigentes esportivos mais graduados se encerravam com uma frase reveladora: "Sempre às suas ordens, com o braço erguido eu o saúdo." Quando a Samaranch propriamente dito, isso elimina qualquer dúvida de que, para ele, o esporte era a rota privilegiada para o sucesso na política. Na Espanha franquista não havia diferença entre esporte t política. O esporte não passava de mais um instrumento de governo, num estado totalitário abrangente. E Samaranch poderia usar este instrumento à vontade. A geração de generais que vencera a Guerra Civil e assumira o governo tinha raízes no século anterior. Pouco entendiam do esporte moderno. Samaranch era esperto, enérgico, leal e politicamente ambicioso. Buscava a ascensão política, e ao mesmo tempo melhorar a imagem esportiva da Espanha, mantendo o esporte sob controle do fascismo. Os generais gostaram da idéia, e progressivamente abriram-lhe as portas do Clube. Samaranch pulou da vida política periférica da Catalunha para o centro do poder, em Madri. Mas depois se seguiu uma década de frustrações. Ele não foi bem-recebido em todos os setores do sistema político de Madri. A riqueza de Samaranch, e sua ambição flagrante o tornaram impopular e lhe valeram o apelido de "senorito" — o rapaz mimado. Mas Samaranch, o magnata do setor têxtil da Catalunha, usou o tempo para fazer os contatos que lhe dariam sua segunda fortuna. Em Madri ele conheceu o financista Jaime Castell, de quem se tornou sócio e amigo íntimo.Eles se lançaram em uma série de empreendimentos imobiliários especulativos, para atender ao movimento turístico na costa catalã. Samaranch também entrou para a diretoria de várias companhias: bancos, indústrias e empresas de construção civil. Castell possuía bons contatos em Madri. Através dele, Samaranch conheceu a família de Franco. Ele e Bibis aproximaram-se bastante da filha de Franco, Carmen. Uma década de paciência e astuta distribuição de presentes foi finalmente recompensada em dezembro de 1966, quando o ministro do esporte deixou o posto. Samaranch foi escolhido por Franco para sucedê-lo. Os jornais e noticiários de cinema desempenharam um papel fundamental na ascensão de Samaranch. Ele aprendera antes que uma combinação de censura, suborno e favores a jornalistas era essencial para promover sua carreira política. Estava na hora de se aventurar como dono de um jornal. Entrou para a diretoria do Tele-Exprés de Barcelona. Um jornalista que trabalhava lá descreveu sua função: "inspetor político". Quando saiu uma notícia a respeito da demissão de operários numa indústria têxtil, Samaranch recortou a matéria e a enviou ao editor, com um bilhete: "Como sempre, escrevendo para quem não lê jornal. Deste jeito não chegaremos a lugar nenhum." Mas Samaranch chegaria. Entrou para o Comité Olímpico Espanhol, controlado pêlos fascistas, em 1956. Um dos fatores decisivos em sua ascensão política na Espanha era a influência que conseguira — para si e para a Espanha — no movimento olímpico. Já em 1961, cinco anos antes de entrar para o COI, Samaranch convidou a esposa de Avery Brundage, presidente do COI, para passar o verão em sua vila na Costa Brava. A cortesia valeu a pena. Em 1965, o COI realizou sua sessão anual em Madri. O Chefe do Estado abriu a conferência. O general Franco podia se considerar um patrono do ideal olímpico de decência e jogo leal. Quando vagou um lugar na representação espanhola do COI, no ano seguinte, poucos duvidavam que Samaranch seria o escolhido. Na reunião seguinte do COI, Samaranch entrou para a elite olímpica. 6 O CAMALEÃO MANHOSO A pira olímpica pega fogo. Começam os Jogos Olímpicos de Barcelona. Finalmente o estádio Montjuic cumpre seu destino. O prefeito Pascal Maragall tornou isso possível. Ele passou os últimos seis anos comandando a equipe que organizou os Jogos da 25a. Olimpíada. Pode-se perdoar Maragall se ele não cumprimentar o presidente do COI com muito entusiasmo. Trata-se do prefeito socialista de Barcelona, e sua família sofreu nas mãos do Movimiento de Samaranch, e isso não foi há tanto tempo assim. Seus irmãos foram presos, e a irmã condenada por imprimir literatura anti-franquista. Os dois homens simbolizam posturas contrastantes, dentro da política espanhola. O socialista se elegeu através de um processo democrático justo. O fascista chegou ao poder, inicialmente, por meio de contatos influentes, e se manteve devido a um processo eleitoral falsificado. Eis aí mais uma história verdadeira que não se encontra nas biografias de Samaranch divulgadas pelo COI. Na metade da década de 1960, a economia espanhola cambaleava. As democracias ocidentais haviam batido a porta na cara de Franco. Recusavam-se a permitir que a ditadura negociasse com a Comunidade Européia. Para sobreviver, a Espanha necessitava do comércio com a França, Alemanha, Itália e outros vizinhos além dos Pirineus. Franco procurava um modo de suavizar a imagem de um regime repressor. Em 1967 teve uma nova idéia: realizar eleições. O povo espanhol teria finalmente uma democracia, embora somente nas condições estipuladas pelo Movimiento. Todos poderiam votar nas eleições para o parlamento espanhol, as Cortes. O conceito de "eleição" democrática de Franco permitiria que ele nomeasse 83 por cento dos deputados. O povo votaria para eleger os 17 por cento restantes. Dois tipos de candidatos seriam permitidos: os de direita e os de extrema direita. Antes da campanha, os candidatos precisavam jurar fidelidade ao general. Isso deixou de fora muitos candidatos centristas, liberais ou esquerdistas. Por via das dúvidas, todos os partidos políticos continuavam proibidos — exceto o Mo- vimiento oficial. Um dos dois candidatos oficiais do Movimiento para a eleição de 1967 em Barcelona foi Juan António Samaranch. Ele foi eleito com mais de meio milhão de votos. Em segundo, com uma pequena diferença, ficou o direitista independente Eduardo Tarragona. Desiludidos pela falta de escolha, apenas 53 por cento do eleitorado se deu ao trabalho de ir votar. Tarragona assustava o Movimiento. Ele deu a Barcelona a chance de registrar seu voto contra o franquismo. Era preciso abalar sua campanha. "Eles usaram todos os recursos possíveis para prejudicá-lo", escreveu um historiador. "Impediram que realizasse comícios em Barcelona até que faltassem cinco dias para a eleição. Para um de seus comícios, o governo reservou uma sala de aula, com capacidade para trinta pessoas, em outro, um salão sem cadeiras. Em contraste, Samaranch teve todos os recursos do Movimiento à disposição." Muitos catalães preferiram votar de outro modo. Quando Samaranch se elegeu para as Cortes, os operários entraram em greve, exigindo salários decentes. O Estado de Emergência foi declarado, e os manifestantes presos. Este era o cenário do triunfo "democrático" de Samaranch. Samaranch podia ficar satisfeito com suas conquistas políticas. Em 1967 era membro do parlamento, ministro do governo e amigo íntimo da família de Franco. Além de multimilionário e menina dos olhos da imprensa. Viajava pela Espanha, promovendo a si mesmo e ao esporte. Ele e Bibis passaram o Ano Novo em um palácio no campo, na companhia do ditador. Mas Samaranch estava voando alto demais. Em 1970 ele aterrissou. Foi demitido. Perdeu o cargo de ministro do esporte. Sua ambição descontrolada o derrubou. O estilo de Samaranch conflitava com os velhos cinzentos do regime de Madri. Os reacionários veteranos da Guerra Civil concluíram que o senorito era ousado demais. Seu erro fatal foi irritar os burocratas do Movimiento, extremamente dedicados ao protocolo. Para começar, ele os atropelou, convidando o príncipe Juan Carlos para viajar à Tunísia e assistir os Jogos Mediterrâneos. Sua segunda gafe: convidar Franco para inaugurar um novo centro esportivo. O secretário-geral do Movimiento espumou de raiva. Fora informado da inauguração pêlos jornais! Samaranch passara dos limites. A velha guarda se livrou daquele jovem arrivista e nomeou um novo ministro do esporte, Samaranch não perdeu o cargo por ter abandonado o fascismo. Houve apenas um choque de personalidades. Não o expulsaram, nem ele se afastou do Movimiento. Manteve seus cargos no partido e na política espanhola. Sofrera apenas um pequeno tropeço. As "eleições" para as Cortes controladas pelo regime realizaram-se novamente em 1971. Mais uma vez, havia por trás um cenário de descontentamento da população civil. Trabalhadores e estudantes, apoiados também pela classe média, se mostravam cansados da ditadura e da pobreza, enquanto os amigos de Franco viviam no luxo. Para proteger seus privilégios, o Movimiento deu carta branca à polícia. Que atirassem. Três operários foram mortos com tiros em Granada. Em Barcelona, 300 intelectuais se reuniram para protestar, no convento de Montserrat, lar espiritual do nacionalismo catalão. Era ilegal. A polícia cercou o convento durante três dias, e ameaçou invadir o prédio. Quando os manifestantes saíram, muitos acabaram presos e processados. Nestas eleições, Samaranch foi novamente o candidato oficial, e mais uma vez enfrentou o direitista independente Eduardo Tarragona. Após a eleição de 1977, Tarragona iniciara contatos semanais com os eleitores. Este perigoso precedente sugeria que um representante deveria se relacionar com os eleitores. Tarragona criou associações de moradores, para protestar contra a falta de escolas, iluminação e saneamento. Denuncioua evasão de impostos da classe média, e exigiu melhorias nos cortiços, moradia barata e mais escolas. Fez campanha por apoio da previdência às crianças deficientes. Nas Cortes, ele votou contra o orçamento, que considerou "inaceitável para qualquer contador compe- tente." Apesar das vantagens de ser um candidato oficial, a eleição de 1971 quase representou um desastre para Samaranch. Ele fez sua campanha baseado em dois slogans políticos: "Ninguém fez tanto pelo esporte" e "Queremos a semana de quarenta horas". O eleitorado deu as costas para as urnas. O comparecimento caiu para 35 por cento. Pior ainda, Tarragona vencia Samaranch, cuja votação despencou. Samaranch conseguiu voltar às Cortes por pouco. Logo depois da "eleição", um operário levou um tiro e morreu durante a greve da fábrica SEAT em Barcelona. Ele não chegou a ver a semana de quarenta horas. O fato de Samaranch ter desempenhado um papel destacado no sistema totalitário espanhol nunca foi divulgado pelo COI. Em 1974, quando ele se tornou vice-presidente do COI, a Revieiu olímpica publicou que Samaranch detinha "o recorde de número de votos no parlamento espanhol". Isso ocorreu em 1967. A Reviezu deu a informação muito tempo depois da queda da votação na segunda eleição para as Cortes. O movimento olímpico era vital para Samaranch, o político. Se o fascismo entrasse em colapso na Espanha, o mundo olímpico poderia ser usado para lançar uma carreira alternativa no exterior. O COI, guardião dos nobres ideais coríntios dos Jogos Olímpicos, forneceria o disfarce ideal para que Samaranch promovesse sua própria reinvenção. O COI ainda era um clube de cavalheiros. Um oportunista batalhador poderia ir longe. E foi. Nas Olimpíadas do México, em 1968, só dois anos depois de sua entrada no COI, Samaranch ficou encarregado do protocolo olímpico. Uma posição ideal para alguém apaixonado pelas regras, regulamentos e pela ordem. Um posto-chave para um homem ambicioso. Agora o membro secundário teria sua oportunidade de melhorar a imagem perante os membros do COI do mundo inteiro. O novo chefe do protocolo discursou para os titulares das delegações durante os Jogos de Inverno de Sapporo, em 1972. O dever de todos era, disse Samaranch, convencer os atletas da importância da cerimônia de abertura. Qualquer atleta ausente do desfile seria culpado de "descortesia, violação das normas e de prejudicar o valor moral dos Jogos". Samaranch também insistiu na cerimônia de encerramento. Ele determinou que "uma disciplina rígida, porém voluntária, deve ser observada por todos. Os atletas não terão permissão para acenar com lenços nem carregar câmeras. Será proibido abandonar a formação." Um reflexo da vida autoritária de Samaranch na Espanha, onde se enfatizava o desfile militar, a ordem e a disciplina. Os membros menos ambiciosos do COI raramente participavam dos comitês olímpicos importantes. Samaranch subiu depressa. Em pouco tempo entrou para a comissão de imprensa, e se tornou membro da diretoria executiva — o comando central do COI. Samaranch parecia estar no caminho certo para o topo. Mas isso, por si só, não bastava para garantir o posto máximo no esporte mundial, a presidência do COI. Como Samaranch poderia ganhar mais destaque? Só havia uma resposta: precisava fazer uma aliança com o homem que dava as cartas em Landersheim. Como Samaranch feria o contato com Horst Dassler? Desde o final dos anos 1960 ele conhecia Christian Jannette, o francês encarregado do protocolo nos Jogos de Munique. Jannette fora ; descoberto por Dassler, e levado para trabalhar com a equipe política da Adidas. "Em Munique, Samaranch chefiava o protocolo do COI, e eu precisava trabalhar bastante com ele. Ficamos amigos", declarou Jannette. "Em 1974, Samaranch ficou sabendo que eu trabalhava com Horst, e me disse que gostaria de conhecê-lo. Ele nos convidou para ir a sua casa, em Barcelona, onde passamos dois ou três dias. * *; "Horst queria manter contato com qualquer pessoa envolvida com a organização dos esportes, e Samaranch era um dos sujeitos mais importantes, mesmo naquele tempo. Chefiava o protocolo do COI, e as pessoas costumam dizer que o chefe do protocolo se torna o presidente seguinte. Eu disse a Horst que ele era um bom sujeito, ambicioso e esforçado. Horst gostou dele. Mais tarde ficaram muito amigos." Patrick Nally logo encontrou Dassler e Samaranch, no circuito de entretenimento da Adidas. Eles estavam juntos. "Horst falava com ele de modo a indicar claramente que a conversa fazia parte de um esquema para conquistar o COI", disse Nally. "Horst sabia que ele pretendia a presidência do COI, muito antes do início da campanha declarada. Havelange chegou ao topo por conta pró- pria, e depois se apoiou em Horst. Creio que Samaranch foi o primeiro dirigente importante a sair em campanha em tempo integral, tendo sempre Horst a seu lado. "Samaranch era o início de uma nova espécie de dirigente, capaz de identificar uma boa oportunidade. Eles iam à luta, dedicavam-se à campanha política para conseguirem se eleger. Naquela época, qualquer um que pretendesse fazer isso ia primeiro a Landersheim, falava com Horst e acertava um acordo com ele. Quem se aliasse a Horst antes garantia sua ajuda na eleição." Numa das tribunas de honra da cerimônia de abertura em Barcelona encontra-se Jordi Pujol, o presidente democraticamente eleito da região da Catalunha. Como Samaranch, é um conservador, além de banqueiro. As semelhanças terminam aí. Samaranch ligou-se a Franco, ao Movimiento e ao esmagamento da identidade catalã. Pujol lutou pelo idioma, cultura e liberdade política de sua terra. Franco realizou uma visita oficial a Barcelona em 1960. No concerto especial várias pessoas da platéia começaram a entoar corajosamente o hino nacional da Catalunha, que fora proibido. As autoridades ficaram furiosas. Trancaram as portas e chamaram a polícia. Os manifestantes foram presos e espancados. A polícia secreta de Franco entrou em ação e identificou Jordi Pujol como organizador do protesto. Ele foi condenado a sete anos de prisão. Como recompensa, recebeu do povo catalão, quando a democracia finalmente chegou, o alto cargo que exerce. Seu antecessor, Juan António Samaranch, não se elegeu: o Movimiento o nomeou em Madri. A presidência do conselho regional títere de Franco na Catalunha, no início da década de 1970, era um cargo político importante. E não tinha nada a ver com o esporte. Em 1973, quando a vida de Franco se aproximava do final, um vento de mudança soprou no país. O general moribundo reagiu, nomeando o almirante Carrero Blanco, Unha dura e reacionário, para primeiro-ministro. Ele fora companheiro de Franco na Guerra Civil. Um mês depois Carrero Blanco escolheu o homem que, na opinião do regime, poderia manter a rebelde Catalunha sob controle. Seu nome: Juan António Samaranch. Samaranch mostrou, mais uma vez, sua oposição à democracia. Em sua posse declarou: "Proclamo, de modo inequívoco, a lealdade e fidelidade que une meu coração ao regime, fidelidade aos princípios do Movimiento, submissão ao príncipe da Espanha e lealdade absoluta a Franco." Cinco dias antes do Natal de 1973, uma bomba estraçalhou Carrero Blanco. O grupo terrorista basco ETA realizou sua vingança nas ruas de Madri. "Ele foi um dos maiores nomes da Espanha neste século", declarou o líder da Catalunha. "Simboliza tudo que um bom espanhol deve ser." Samaranch conferiu a medalha de ouro do conselho regional a Carrero Blanco, postumamente. O assassinado detonou uma nova onda de terror. A tarefa de Samaranch era supervisionar o esmagamento da Catalunha. "Durante 1974 e 1975, a repressão, na forma de prisões generalizadas, tortura e execuções, bem como através do uso constante de armas de fogo pela polícia e guarda civil, atingiu um nível nunca visto desde o final dos anos 1940", escreveu um historiador. Samaranch parecia incapaz de se distanciar do Movimiento. Um incidente ocorridono início de 1974 mostra sua lealdade interminável, no momento em que os coveiros se preparavam para o maior funeral oficial da Espanha em quarenta anos. Os opositores do regime tentaram atacar um monumento de Barcelona que homenageava os franquistas mortos na guerra civil. Dezenas de milhares de partidários do fascismo foram levados de ônibus para Barcelona, realizando uma marcha de protesto pela cidade. Samaranch, usando a camisa azul, fez a saudação fascista e participou da manifestação. Até o final amargo Samaranch se manteve leal ao ditador. A saúde de Franco piorou muito em 1975, mas Samaranch não abandonou o navio do regime que afundava. Em 26 de janeiro, já vice-presidente do COI, Samaranch vestiu a camisa azul e liderou a comemoração anual da "libertação" de Barcelona empreendida pêlos fascistas. Como sempre, ele ergueu o braço na saudação fascista. Na Páscoa, quando o Movimiento celebrava a missa, ele usou seu uniforme mais uma vez. Ainda naquele ano, também de camisa azul, ele compareceu à missa pêlos fascistas mortos na guerra civil. No fim do outono de 1975 Franco estava às portas da morte. A família e os velhos generais da Guerra Civil observavam impotentes o velho moribundo, deitado em seu leito, agarrado ao braço mumificado de Santa Tereza, ligado a todas as máquinas capazes de prolongar sua vida disponíveis na medicina moderna. Diziam no hospital que ele estava morto há vários dias. Seu círculo íntimo se recusava a permitir que os médicos desligassem os plugues. No dia 20 de novembro Samaranch, de camisa azul, participou da cerimônia anual em Barcelona, comemorando a fundação da Falange. Trinta anos depois da derrota do nazismo, o vice presidente do COI desfilava na rua com seus companheiros uniformizados, desafiador, fazendo a saudação que é a antítese absoluta do ideal olímpico. Mais tarde, naquela mesma noite, ele recebeu o telefonema que tanto receava. Franco estava morto. Samaranch dirigiu-se para o quartel regional da Catalunha, e exortou a tropa a defender o prédio. Samaranch depois enviou telegramas de condolências para a família de Franco, de lealdade ao rei e de apoio ao governo. No dia seguinte Samaranch falou no conselho regional: "A Espanha e a Catalunha experimentam a amarga sensação da orfandade. Mas não há motivo para o desespero, porque somos uma nação que possui uma fé e um rei. Este é o legado de Franco." Ele encerrou seu discurso com a seguinte frase: "O exemplo de Franco estará sempre conosco, na luta por uma Espanha melhor." Não apenas o sentimento era odioso. Samaranch falou em catalão, a língua que repudiara durante quarenta anos e que seu líder tentara esmagar de todas as maneiras. Seis semanas depois Samaranch compareceu à cerimônia que comemorava, em 1976, a "libertação" de Barcelona, a primeira desde a morte de Franco. Pela primeira vez Samaranch deixou a camisa azul no guarda-roupa. Preferiu usar uma branca. Samaranch procurava desesperadamente um novo espaço para exercer seu estilo de política. Uma revista em catalão, chamada Arreu, publicou um texto longo e arrasador sobre seus anos de serviço ao velho regime. Era a primeira vez, em quarenta anos, que alguém criticava Samaranch publicamente. A manchete do artigo anunciava: "Samaranch, não fazemos parte de sua turma". Uma equipe de três jornalistas pesquisara a carreira política dele. Concluíram que não dava para acreditar no que Samaranch sempre dizia: "Considero legítimo exercer a política para aprimorar o esporte, mas creio que é errado colocar o esporte a serviço da política." eles não tinham a menor dúvida de que Samaranch usara o esporte para progredir na política. "Estamos lidando com um camaleão manhoso", escreveram, "porque ele soube dosar suas mudanças com esperteza — mas não foi capaz de iludir a opinião pública." Felizmente, para Samaranch, o espírito da nova Espanha era de reconciliação. Não haveria julgamentos por crimes de guerra. Mas a carreira política de Samaranch estava encerrada. Seu passado de cumplicidade com a ditadura destruía qualquer futuro para ele, em seu país. O final de Samaranch na Espanha aconteceu no dia 23 de abril de 1977: Cem mil pessoas fizeram uma manifestação na frente da sede do conselho regional da Catalunha em Barcelona. Enquanto o presidente se trancava lá dentro, o povo gritava palavras de ordem como: "Samaranch, vá embora!" "Tomei uma das decisões mais importantes de minha vida", admitiu Samaranch alguns anos depois, "quando percebi que minha vida pública na Espanha se encerrara. Não apenas política, como também socialmente." Mas Samaranch não estava liquidado. Decidiu se reinventar. Isso não seria difícil para o "camaleão manhoso". O dilema para a Espanha, e para Samaranch, era como se livrar dele. Ambos os lados precisavam manter as aparências. Ele continuava no cargo de presidente do conselho regional, e o governo interino não desejava um confronto enquanto planejava o retorno à democracia. A solução encontrada por Madri foi um cargo diplomático. Com sua experiência internacional no COI, e sua habilidade para sobreviver às reviravoltas dentro do Movimiento durante três décadas, Samaranch poderia ser útil à Espanha — se estivesse no exterior. A história que corre no ministério do exterior, em Madri, diz que ele recebeu um convite para assumir uma função tranqüila e confortável em Viena, mas recusou-se. Samaranch mostrou interesse em ser enviado para a austera capital da União Soviética. O serviço público se surpreendeu, mas Samaranch tinha lá suas razões. O camaleão pretendia iniciar uma nova campanha política. A perda da Espanha representou um ganho para o COI. Com grande alívio o país em que nascera assistiu à partida de um de seus fascistas mais destacados. No dia 18 de julho de 1977 Samaranch seguiu para Moscou, no reatamento das relações diplomáticas rompidas há quarenta anos. Em Moscou, sua prioridade seria representar a si mesmo. Aos russos só restavam três anos para completar os preparativos para as Olimpíadas de 1980. Os Jogos seriam uma vitrine da excelência de seu sistema político. Mas a burocracia soviética hesitava, e os dirigentes encontravam muita dificuldade em atender às necessidades tanto das federações esportivas internacionais quanto do COI. Agora, para imenso alívio, tinham Samaranch batendo à sua porta. Ele era o principal vice-presidente do COI, o número dois da hierarquia olímpica. Todos os envolvidos na política esportiva podiam ver que um acordo se delineava. Em 1980 lorde Killanin se aposentaria da presidência do COI. Samaranch desejava ocupar a vaga. Andava ocupado, procurando obter todos os votos europeus para o COI. Os russos controlavam um bloco de votos considerável, da Europa Oriental e de outros países do mundo inteiro. "Samaranch sempre quis ser presidente do COI, muito antes de sua passagem por Moscou", disse Christian Jannette. "Os russos ficariam gratos por qualquer ajuda recebida. E ele passava grande parte do tempo prestando assistência a eles. Não era fácil, para a URSS, organizar os Jogos. "Uma coisa precisa ser dita: os russos não esquecem o que se faz para eles. Horst Dassler fez muito pelo país, e eles jamais se esqueceram disso. Antes até de 1970, eu me lembro que a família Dassler era generosa, fornecendo equipamento, mesmo que os russos não tivessem dinheiro." O cenário estava montado. Dassler pretendia acionar todos seus contatos para ajudar Samaranch — e esperar pelo troco. A chegada do diplomata amador a Moscou deixou os profissionais ressabiados. Todos haviam sido indicados para a capital de um dos superpoderes porque representavam a nata da diplomacia de seus respectivos países. Como poderia aquele cinqüentão, sobra de uma ditadura falida, se adaptar a uma atmosfera tão rarefeita? Mas ele se revelou surpreendentemente eficaz. Por vários motivos, o posto não apresentava muitas dificuldades para um camaleão manhoso. A Espanha não tinha um papel preponderante emMoscou. Samaranch poderia devotar seu tempo à sua própria imagem. Seu trabalho foi excelente. O dedicado franquista, que durante quarenta anos apoiou a campanha de extermínio dos comunistas espanhóis, que foram presos, torturados e executados, realizou uma façanha. Ele se insinuava em todas as rodas. Era uma suprema ironia. Samaranch combateu os "comunas" a vida inteira, e agora precisava adulá-los para conseguir o prêmio máximo do esporte. Na data nacional espanhola mais importante Samaranch apareceu na televisão e fez um discurso de três minutos, sobre o congraçamento entre os dois povos — em russo. Ele batalhou muito para aprender o idioma e decorar o texto. O sujeito não tinha vergonha; em russo ou em catalão, o camaleão diria o que as pessoas desejavam ouvir. A nova embaixada espanhola na Rua Paliashvili abriu suas portas para todos; requintadas "noites espanholas" agitaram Moscou, uma cidade normalmente maçante. Mais uma ironia na vida de Samaranch. Sua verba não era muito grande, e ele bancava as festas para os camaradas com o dinheiro amealhado na Espanha, quando os baixos salários e impostos mínimos faziam a alegria dos amigos do governo. A imprensa informava que Juan e Bibis davam as melhores festas da cidade. Sua adega de vinhos reinava suprema. Naquele período, como parte do processo de reinvenção de si mesmo, Samaranch, o diplomata amador, adotou o título de embaixador — Sua Excelência — geralmente abreviado para "S. Excia". Doze anos depois de sua breve passagem pelo posto diplomático em Moscou, muita gente ainda se refere a ele com reverência, no mundo olímpico, usando "S. Excia." Os votos que deram a Samaranch a presidência do COI foram garantidos em Moscou e nos bastidores do comité organizador da Copa do Mundo de 1982 em Madri. Embora ainda faltassem cinco anos para o maior torneio futebolístico do mundo, o presidente da FIFA, João Havelange, encontrava-se em dificuldades. Ele fora eleito com a promessa de aumentar os times da Copa de 16 para 24. Os espanhóis aceitaram sediar a competição com 16 países. O orçamento não previa dinheiro para os times restantes. Havelange poderia perder a liderança da FIFA se não honrasse sua promessa eleitoral. Socorreu-se com os dois homens que poderiam ajudá-lo: Horst Dassler e Juan António Samaranch. Dassler arranjaria o dinheiro. Samaranch, intimamente ligado ao comité organizador, conseguiria a mudança nos planos iniciais. Dassler e Nally detinham os contratos de marketing para a Espanha em 82. Dassler, em seu estilo típico, prometeu ajudar Havelange —• e mandou que Nally arrumasse o dinheiro extra. "Numa reunião em Madri" contou Nally, "no Palácio de Congressos, enquanto estávamos no banheiro dos homens, Dassler men- cionou que o valor necessário para cobrir o aumento dos times seria de 36 milhões de marcos alemães — cerca de 12 milhões de libras. Desnecessário dizer, este dinheiro não sairia da Adidas. Eu teria de levantar os recursos com as empresas patrocinadoras." Obtido o dinheiro, era hora de Samaranch entrar em campo, os espanhóis anunciaram, em maio de 1979, que o campeonato contaria com 24 times. Havelange ficou tranqüilo. Ele reconheceu sua dívida para com Samaranch ao ser reeleito para a presidência da FIFA em julho de 1982, em Madri: "Esta nova rota só se tornou possível graças à Real Federação Espanhola de Futebol." Em troca, Havelange despejaria em Samaranch os votos latinos, africanos e asiáticos. Samaranch precisava deles para se eleger presidente olímpico. Dassler confirmava sua posição de fazedor de reis. Apoiara Nebiolo, sustentara Havelange e agora poria Samaranch no trono. A vitória de Samaranch no COI parecia garantida. Aí, no Natal de 1979, o Exército Vermelho invadiu o Afeganistão. Os norte-americanos não puderam impedir isso, e o presidente Jimmy Cárter ordenou um boicote às Olimpíadas de Moscou. Os diplomatas norte-americanos, no mundo inteiro, começaram a pressionar seus aliados. O novo governo espanhol alinhou-se com os americanos e anunciou que a Espanha não compareceria a Moscou. Samaranch ficou desolado. Os russos, furiosos, poderiam desviar seus votos para outro candidato à presidência do COI. Outros membros do COI também repensariam votar em um candidato cujo país abandonara os Jogos. Segundo fontes da chancelaria espanhola, Samaranch ficou atônito. "Como podem fazer isso comigo, na reta final da corrida para a presidência do COI?" A resposta de Madri foi clara: se comparecesse às Olimpíadas estava despedido. Como representante oficial da Espanha em Moscou, não poderia comparecer às Olimpíadas. Consta que Samaranch solicitou dispensa ao governo, sem êxito. A renuncia ao posto garantiria a simpatia do COI, e diminuiria o constrangimento pela ausência espanhola. Samaranch voltou correndo para Madri. Nos bastidores do comité olímpico espanhol, que Samaranch liderara por tantos anos, todos os velhos favores foram lembrados. Seu lobby trabalhou duro, e o NOC decidiu ignorar o governo e competir em Moscou. A máquina eleitoral de Samaranch pôs-se em movimento outra vez. No primeiro número da IOC Review saiu um profético artigo de Horst Dassler. Seu título, "Esporte e Indústria". Dassler sabia qual seria o resultado da eleição do COI, e já começava a cuidar de seus negócios futuros nas Olimpíadas. Dassler colocou uma questão: "Como poderemos evitar uma situação na qual o esporte seja controlado pela indústria?" O problema era "excesso de publicidade a curto prazo". Seria muito melhor implantar projetos de marketing mais discretos, a longo prazo. Dassler os batizou de "pacotes". O COI mediaria os contatos. Seu papel não ficou claro. Como nunca perdia uma oportunidade, Dassler garantiu que a foto ilustrando o artigo mostrasse jogadores de futebol usando produtos Adidas. Na manhã de 16 de julho de 1980, os membros do COI entraram no Palácio dos Sindicatos da União Soviética para a sessão crucial. A portas fechadas, eles escolheram um dos quatro candidatos à presidência do COI. O advogado canadense James Worrall era o principal rival de Samaranch. Em um encontro particular com Dassler ele foi informado, diplomaticamente, que contava com um apoio restrito. Worrall jamais poderia pertencer ao Clube diligentemente montado por Dassler. Os outros candidatos eram Lence Cross, da Nova Zelândia e o dirigente suíço do esqui internacional, Marc Hodler. Além do alemão ocidental Willi Daume, que chegou a constituir uma ameaça a Samaranch, antes que seu país boicotasse Moscou. A eficiência do trabalho de Dassler nos anos anteriores se revelou na hora da votação. Houve apenas um turno: Samaranch esmagou os rivais. A machadinha está sendo enterrada. Samaranch, que saíra de Barcelona sob os insultos de seus compatriotas, é agora saudado como o responsável por levar as Olimpíadas para a Espanha. Ei-lo na tribuna. O líder do esporte mundial. O camaleão trocou a pele pela última vez. Talvez a generosidade deva prevalecer neste grande dia para Barcelona. Talvez Samaranch mereça respeito por seu feito memorável. Em Moscou, há doze anos, ele rompeu as amarras que o ligavam a seu passado fascista, ao assumir a presidência do movimento olímpico. Mas basta um momento de pausa, pensando no preço que o mundo pagou pelo legado de Dassler. A forma como Samaranch dirige o Clube, com seus segredos, falta de democracia, uma elite perpétua, cerimônias, protocolos e medalhas, não parece muito diferente do Movimiento que tanto amava. Melhor lembrar a forma como ele erguia o braço, saudando o maior sobrevivente de nossa era. 7 A JÓIA DA COROA O presidente de Atletismo dava um pequeno jantar em seu apartamento de Turim, localizado na frente da casa de Gianni Agnelli, o Todo-Poderoso da Fiat. Ele sempre se orgulhou desta tênue ligação com a família mais poderosa da Itália. Patrocinador do clube de futebol Juventus, considera-se, como muitos industriais, um dos cidadãos mais importantes da província do Piemonte.Um dos convidados daquela noite lembra: "Jantamos, a comida era ótima, feita por um bufe, claro. Ele sorriu e disse, 'acham isso fabuloso? Esperem até ver minha casa em Roma!'" O Dr. Primo Nebiolo preside a Federação Internacional de Atletismo Amador, a IAAF. Impressionado com um cenário tão magnífico, um convidado perguntou qual era o segredo de tanto sucesso. Com sua voz grave, o presidente confidenciou: "Todas as manhãs, quando acordo, fico na cama por cinco minutos, e não penso em mais nada, a não ser na maneira de melhorar minha situação naquele dia." O Dr. Nebiolo sem dúvida melhorou sua situação no esporte mundial, na última década. No final dos anos 1970 era praticamente desconhecido fora da Itália. Quando se aventurou no palco internacional, muitos riram de Nebiolo, pelas costas. Com suas longas costeletas e habilidade para conseguir acordos, foi considerado um aventureiro vulgar. Sua ambição ostensiva não combinava com o mundo do esporte, requintado e essencialmente amador. O sistema ligou a ambição ao nome, comentando: "Primo só quer ser o primo'' Dez anos depois Nebiolo raspou as costeletas, construiu um labirinto de alianças e favores no mundo promissor da política esportiva e abriu caminho até o topo do Clube. Na travessia, ele esfaqueou pelas costas um dos dirigentes mais decentes do esporte internacional, foi presidente durante o pior exemplo de fraude já visto no esporte mundial, ignorou as seringas deixadas nos vestiários de grandes atletas e passou a controlar um fundo de US$ 20 milhões, conseguido nos Jogos Olímpicos. A entourage de Nebiolo, em movimento, rivaliza-se até com o cortejo imperial de Samaranch. Seu modo preferido de viajar é o jatinho particular, trocado em terra por uma limusine escoltada por motocicletas da polícia. Gosta de ficar na melhor suíte do hotel mais badalado. Sua astuta esposa Giovanna costuma participar da corte, como secretária e assessora de imprensa particular. Nebiolo não pode se arriscar demais com a imprensa. Sua assessora tem a tarefa de divulgar os press releases e tentar impedir jornalistas curiosos de perguntar sobre os freqüentes escândalos nas pistas de atletismo. Para os corredores diletantes, esportistas dos clubes e estrelas mundiais do atletismo, a organização liderada por Nebiolo não passa de uma burocracia distante. A federação atlética organiza competições importantes e fornece juizes e dirigentes para estabelecer regras. Fora isso, trata-se só de um nome pomposo. O atletismo é a jóia da coroa olímpica, e sua federação tornou-se um negócio extremamente lucrativo. AIAAF ganhou US$ 80 milhões com patrocínios da televisão, nos últimos quatro anos, desde as Olimpíadas de Ben Johnson, em Seul. Somas enormes são investidas nos países em desenvolvimento, para melhorar as condições para a prática do esporte. Ainda assim, sobra muito dinheiro para ser torrado com despesas excessivas e a extravagante promoção de Nebiolo. Ele pode ignorar calmamente as freqüentes críticas dos jornalistas bem- informados. Nebiolo não precisa prestar contas a um eleitorado "local". Se de tempos em tempos os críticos batem com muita força na porta da IAAF, Nebiolo pode ter certeza de que acabará sobrevivendo ao escândalo. No mundo das pistas de corrida, Nebiolo exerce um poder absoluto. Seu predecessor, Adriaan Paulen, era um homem muito diferente. A Holanda é um país pequeno, com uma grande tradição esportiva. Adriaan Paulen serve de exemplo. Finalista nos 800 metros, na Olimpíada de 1920, conseguiu derrotar o ganhador da medalha de ouro de 1924, Eríc Liddell, nas quartas de finais dos 400 metros em Paris. Quebrou o recorde mundial dos 500 metros nos Jogos de Bislet, em Oslo, e quase no fim de sua carreira apresentou-se para seus compatriotas, nas Olimpíadas de 1928, em Amsterdam. Adriaan Paulen gostava de diversos esportes. Quando encerrou a carreira no atletismo, disputou oito ralies em Monte Cario, pilotou uma motocicleta no Grand Prix da Holanda e jogou futebol em um time de Haarlam, onde morava. Mas o atletismo era sua grande paixão, e ele compatibilizou sua carreira como en- genheiro de minas com o trabalho de dirigente da federação holandesa. Paulen era corajoso e patriota. Quando o exército alemão invadiu a Holanda, entrou para uma célula do movimento de resistência, formada por amigos e companheiros do clube de corridas local. Quando os mineiros recusaram-se a trabalhar, ele foi um dos diretores da mina que se recusaram a entregar uma lista com os nomes dos operários aos nazistas. Por causa disso acabou na cadeia, sendo ameaçado de execução. "Os alemães o prenderam, junto com os colegas", contou sua filha let Nieuwenhuys-Paulen. "Todas as manhãs eles tocavam gravações de fuzilamentos nos alto-falantes. Só mais tarde os prisioneiros descobriram que era uma farsa cruel. Pura tortura mental. Quando finalmente os alemães libertaram meu pai, porque precisavam desesperadamente de carvão, ele seguiu lutando. "Ele participava dos grupos clandestinos de sabotagem que explodiam os trilhos de trem durante a noite. Na manhã seguinte ele se encontrava com os oficiais alemães, para explicar que o carvão não podia ser transportado." Seus companheiros da resistência promoveram uma campanha de assassinato de oficiais alemães de alta patente. Paulen, membro destacado da classe média, corria risco constante de prisão arbitrária, como represália. "Costumava dormir no telhado, caso os alemães viessem buscá-lo", contou a filha. "Poderia ter rugido, mas escolheu ficar e lutar." Outra das atividades de guerra de Paulen era controlar um trecho de 20 quilômetros da rota de fuga clandestina, para pilotos aliados abatidos. Um relatório secreto seu foi levado à rainha, exilada em Londres. Quando os exército aliados desembarcaram para libertar a Europa, Paulen lutou ao lado da Segunda Divisão Blindada norte-americana, tornou-se coronel honorário e mais tarde recebeu a Medalha da Liberdade dos Estados Unidos. A Holanda, agradecida, deu-lhe sua mais alta honraria, a Ordem do Rei Guilherme. Três anos após a guerra Paulen foi eleito para o conselho da federação atlética. O mundo do atletismo internacional estava a anos-luz do que é hoje. As pistas para qualquer tempo não haviam sido inventadas, não havia cobertura televisiva e o patrocínio inexistia. Pouco mudou na década seguinte. "Trabalhávamos em duas salas, perto da estação de trem de Victoria", contou Fred Holder, ex-tesoureiro da IAAF. "Os recursos escassos nos permitiam ter apenas uma secretária. E ela precisou pagar parte de sua própria passagem para comparecer à Olimpíada de Melbourne, em 1956, além de hospedar-se com uma família local para economizar dinheiro." Apesar destas dificuldades, o atletismo progredia. Mesmo com a demora na remessa dos rolos de filme por via aérea para partes distantes do globo, os fãs do esporte se emocionavam ao ver os duelos entre Kuts e Pirie nas provas de longa distância, o lançamento do disco de Al Oerter, que lhe valeu a primeira de quatro l medalhas de ouro e as duas medalhas de ouro conseguidas por l Tâmara Press no lançamento feminino — que desapareceu das competições quando os testes de sexo foram introduzidos. Como membro do conselho das federações de atletismo, Adriaan Paulen encorajava os atletas e garantia a lisura das competições. "Meu pai sempre acompanhou atletas em viagem", contou a filha. "Adorava estar com eles e organizar eventos." As Olimpíadas começaram a gerar grandes quantias em dinheiro por causa da televisão. Conforme o lado empresarial do esporte se expandia, vozes novas e desagradáveis se fizeram ouvir nas pistas. "Ele ficou horrorizado em Munique, antes dos Jogos de 1972, ao receber a oferta de suborno por parte de uma companhia interessada num contrato para a nova pista de corrida. Ele recusou uma fortuna, dizendo que o melhor venceria", disse a filha. A televisão mudou definitivamente o mundo de Paulen e dos atletas. Quando os Jogosforam transmitidos via satélite no México, em 1968, o mundo começou a pedir mais esporte ao vivo. Dassler ainda se concentrava nos vestiários, fechando acordos para calçar os atletas famosos com a marca das três listas, mas já vislumbrava a forma do futuro. O atletismo precisaria de verbas para organizar novos eventos, e os atletas exigiriam sua parte. Se a televisão e os promotores desejavam sua presença, teriam de pagar. Depois de providenciar o casamento entre a Coca-Cola e o futebol, Horst Dassler e Patrick Nally rapidamente se voltaram para as outras federações importantes. O atletismo, fundamental para o êxito das Olimpíadas, estava no topo da lista.' 'Conheci Adriaan no congresso europeu de atletismo, na metade dos anos 1970", contou Nally. "Ele estava a aponto de se tornar presidente do IAAF. Era o melhor nome para o cargo de dirigente do atletismo: subira por mérito próprio, corria, todos o respeitavam e ele entendia, como no caso de Havelange no futebol, que haveria uma mudança radical no esporte. "É preciso tentar entender um homem que vive segundo seus princípios. Embora fosse muito rígido, aceitava sentar e discutir. Ao contrário de gente como Nebiolo, ele escutava. Adriaan mostrava muito entusiasmo pelas coisas. Achava normal dirigir durante dez horas para comparecer a uma reunião. E, mais extraor- dinário, ele parava quando se cansava, largava o carro no acostamento, deitava- se no chão e dormia. Era duro como pedra. Um contraste notável entre o militar experiente, forte, condecorado, que jamais se rendia, e uma exuberância quase adolescente. "Levava uma vida modesta. Não procurava as armadilhas da riqueza, jamais pedia hotéis de luxo. Nunca esquecerei dos sapatos pesados que usava, pareciam botas militares. Adriaan se vestia discretamente, e não gostava de se enfeitar." Fred Holder tem recordações semelhantes: "Adriaan chegava em Heathrow, num vôo com desconto, seguia para o centro de metro e ficava em um pequeno hotel. Ele não via necessidade de gastar o dinheiro da federação desnecessariamente." Quando Paulen conheceu Dassler, foi introduzido na boa vida da Riviera. Discutiam contratos nos ambientes mais agradáveis. "Adriaan adorava passear no avião ou no iate particular de Dassler. Um dos associados de Horst nos negócios era dono do barco mais veloz do Mediterrâneo, segundo comentários", contou Nally. "Eu me lembro de ir a Monte Cario no barco, com Adriaan, e sair a l milhão de quilômetros por hora para St. Tropez. "Era muito vantajoso para Horst entreter pessoas desta forma, e Adriaan se divertia a valer. Parecia uma criança com um brinquedo novo, sentado na popa, conversando." Sua filha, em Haarlem, fizera dele um avô. "Meu pai ganhou certa vez uma bola de futebol Adidas. Ele se recusou a dar a bola para o neto, preferiu mandá-la para um clube local, onde havia jogado. E nunca aceitou um tênis sequer de brinde. Ele dizia, 'se eu fizer isso, nunca mais confiarão em mim. Quem se vende uma vez perde a liberdade para sempre.'" A televisão exigia mais espetáculos esportivos, e graças à habilidade de Dassler e Nally no marketing, haveria mais dinheiro ainda para investir. Um dos últimos atos do antecessor de Paulen, lorde Exeter, foi concordar com a realização da Primeira Copa Mundial de Atletismo em Dusseldorf, no outono de 1977. A história recente do atletismo foi reescrita pêlos partidários de Nebiolo, sugerindo que ele foi o grande arquiteto da explosão de eventos e do fluxo interminável de verbas dos patrocinadores. Na verdade, a criação de novos eventos fora das Olimpíadas teve apoio de Exeter, e decolou graças a Paulen. Eles construíram a montanha russa, e Nebiolo deu o passeio. Enquanto Nally arranjava o dinheiro. "Adriaan comandou o campeonato mundial, um tremendo sucesso", contou Nally. "No final, deu a volta da vitória com o time vencedor, que levava a taça. Ficamos muito orgulhosos, porque o evento, em 1977, foi o primeiro grande acontecimento do atletismo mundial fora das Olimpíadas. "Ele sabia que não dava para voltar no tempo. O esporte crescia como forma de entretenimento, e as rendas aumentavam. Também sabia que atletas amadores recebiam dinheiro há anos, e que precisava regularizar a situação. Lutava constantemente com sua consciência, para manter isso sob controle sem destruir o esporte. Em suas próprias palavras, o atletismo precisava de uma lim- peza." Paulen e seus conselheiros precisavam agir rápido. Algumas estrelas norte-americanas queriam receber dinheiro abertamente dos promotores, e já falavam em seguir os passos dos tenistas, criando um circuito profissional. Um grupo de Dubai oferecia dinheiro, para promover a imagem do país. Nally encontrou-se com eles, sugeriu uma união, e o atletismo deu um salto qualitativo. "Junto com Adriaan, criamos as Séries de Ouro. O primeiro evento foi a Milha de Ouro, disputada em 1978 no Japão. As estrelas foram Steve Ovett, Henry Rono e o norte-americano Steve Scott. O troféu era uma taça de ouro imensa, custara quase US$ 40 mil. Atualmente acumula poeira num cofre de banco, em Londres. "Depois da primeira Milha de Ouro, criamos uma série de eventos — O Dardo de Ouro, O Salto com Vara de Ouro e as Corridas de Ouro, além dos 10 mil metros de Ouro. Todos estes espetáculos foram incluídos nos eventos existentes, principalmente na Europa. Entrou muito dinheiro novo." Depois de Dusseldorf e das Séries de Ouro não havia mais volta. O próximo passou foi criar o campeonato mundial de atletismo. Tradicionalmente, as Olimpíadas eram o campeonato das federações atléticas. "A Copa do Mundo era o pináculo do futebol", recorda Nally, "e Adriaan criou algo equivalente no atletismo, o Campeonato Mundial. Começamos a redigir as regras juntos, voando do Japão para Los Angeles. Fred Holder e Adriaan estavam no avião, e, como de hábito, Adriaan se recusava a dormir na poltrona. Deitou-se no chão. "Quando não estávamos dormindo, sentávamos no chão do avião para redigir o regulamento. Para mim foi um desafio. Se a idéia era comercial, como fazer um regulamento para o campeonato mundial, de modo a proteger os interesses de todos? "E lá estava um senhor, na casa dos setenta, sentado no chão de um jato jumbo, planejando o campeonato mundial, que tomou forma definitiva em Helsinque em 1983. Obviamente Nebiolo levou a fama, porque na época ele ocupava a presidência, e Adriaan era um homem alquebrado. "Adriaan tomou as medidas necessárias para desenvolver o esporte. Com o dinheiro novo que entrava iniciou o programa de aprimoramento, promoveu as Séries de Ouro, organizou a Copa Mundial e criou o Campeonato Mundial." Observando tudo em Roma, Nebiolo seguia planejando. Obviamente, Paulen era muito velho. Não seguraria as rédeas do poder por muito tempo. AIAAF, cada vez mais rica e influente, podia ser conquistada. Mas se Primo queria ser o primo no atletismo mundial, precisaria fazer acordos. £ nisso Nebiolo era excelente. Nebiolo sentiu o gosto do poder pela primeira vez no mundo do esporte estudantil. Um de seus colegas, que trabalhou com ele na década de 1950, contou: "Ele procurava o poder no esporte estudantil porque era a única área disponível." Mas havia outra razão. Nebiolo percebera o potencial de um mundo dividido pela Cortina de Ferro, mas ocasionalmente unido através do contato esportivo. Uma das biografias oficiais de Nebiolo relata sua ascensão no esporte estudantil: "Em 1961 o Dr. Nebiolo foi eleito presidente da Federação Internacional do Esporte Universitário. Neste cargo, tomou medidas dramáticas, que aumentaram a importância e o papel do esporte universitário mundial, tornando-se, entre outras coisas, o fundador da Universíada — que só perde em importância para os Jogos Olímpicos. "Como presidente, Primo Nebiolo entrou em contato com políticos e representantes das universidades do mundo inteiro, tornando a organização importante no mundo do esporte, e contribuiu como poucos para o esporte mundial."Este texto foi publicado em 1980, junto com uma fotografia de Nebiolo ao lado do "carniceiro de Bucareste", o ditador romeno Nicolae Ceausescu. Os dois presidentes conversavam animadamente durante um evento esportivo na capital romena. Sem o apoio do bloco oriental, os Jogos Estudantis bienais teriam afundado há anos. Os comunistas aceitaram financiar o evento para divulgar o comunismo. Enquanto o resto do mundo bocejava, eles levavam os jogos a sério. Negócio fechado: Nebiolo' entraria com os Jogos que tanto queriam, e em troca teria seu votos, quando alçasse vôos mais ambiciosos. Significativamente, Nebiolo foi eleito para comandar o esporte estudantil durante os Jogos de 1961, na cidade comunista de Sofia. Nebiolo afirma que, graças ao esporte estudantil, "contribuiu como poucos para o esporte mundial." O fato é que a televisão e os patrocinadores davam pouca importância aos Jogos Estudantis, porque deixavam a desejar. Alguns atletas de destaque se revelaram ali, mas a maioria dos jovens competidores jamais alcançou fama internacional. Recentemente, Patrick Nally tentou con- vencer várias cidades a sediar os jogos estudantis. "É impossível criar um entusiasmo real e despertar o interesse da televisão e dos patrocinadores quando os atletas não são conhecidos." Sob a liderança de Nebiolo, os Jogos Estudantis realizaram-se em Tóquio, em 1967, mas dois anos depois foram cancelados por falta de fundos, em Lisboa. Em 1975 Belgrado também desistiu. Mas, em 1973, Nebiolo os levou para o estádio Lênin de Moscou. Quatro mil participantes os disputaram, e Primo era o primo novamente. Leonid Brejnev tinha bons motivos para investir nos jogos estudantis. Moscou desejava sediar a Olimpíada de 1980, e precisava de um teste para provar a capacidade de fazer um grande evento. Os jogos estudantis cambalearam durante a década de 1980. Foram cancelados em São Paulo, em 1989. Em 1991 aconteceram na cidade de Sheffield, no norte da Inglaterra. A cidade se preparou para uma perda de l milhão de libras, mas acabou com um prejuízo de quase 14 milhões de libras. Houve uma perda pessoal para Nebiolo, também. Uma longa carta anônima exigindo sua saída circulou entre as delegações presentes aos jogos. Seu texto denunciava Nebiolo, dizendo: "Trata-se de um diretor totalitário, que usou a política da 'guerra fria'. Enquanto atuou como diretor, por tantos anos, acumulou poder pessoal, ao qual adicionou certas características pessoais que não deveriam fazer pane do esporte universitário. Seu comportamento era extravagante e megalomaníaco. "Os gastos em hotéis de luxo, restaurantes, viagens, carros e outros detalhes pessoais são escandalosos. Seu comportamento, quando participa de eventos estudantis, é autoritário, inadequado a uma pessoa que representa os estudantes do mundo. Ele exerce seu poder deturpando as decisões do esporte estudantil. "Acreditamos que este não é o tipo de líder compatível com as necessidades de uma entidade esportiva internacional. Não precisamos de um dirigente pomposo e dominador, que representa o esporte estudantil de modo tão horroroso.0; nem precisamos de um dirigente totalitário em um mundo cada vez mais democrático e menos envolvido na política suja do Leste contra o Oeste. Depois de tantos anos no poder, o Dr. Nebiolo deveria entender que está na hora de renunciar a seu cargo." Desnecessário dizer que Nebiolo, aos 68 anos, foi reeleito sem muita oposição, e continua a comandar o esporte estudantil. O autor da carta anônima entendia bem a estratégia de Nebiolo: "No início, Nebiolo entendeu que nos países comunistas o ministro da educação podia ser tão importante quanto o ministro do esporte", explicou um veterano líder estudantil. "O ministro da educação controlava os estudantes, e organizar os jogos combinava com a política do bloco Leste. Sendo assim, instruía os dirigentes do atletismo local a dar seu apoio a Nebiolo a nível internacional." O apoio de Moscou era essencial, e a partir da década de 1970 Nebiolo podia contar com ele. O papel importante desempenhado por Nebiolo durante a guerra fria foi demonstrado na Romênia, em 1981, durante os Jogos Estudantis. Quando Nebiolo chegou ao aeroporto de Bucareste havia um carro do governo esperando por ele. Adriaan Paulen, ainda presidente da IAAF, precisou esperar pelo ônibus para chegar ao centro da cidade. O líder estudantil de meia idade, já calvo, conseguiu progredir erraticamente, subindo alguns degraus na federação atlética italiana. A partir da base modesta no esporte universitário de Turim, foi eleito para o conselho diretor da FIDAL, a federação atlética nacional italiana. Mas na década de 1960 ele se afastou dela. Voltou por cima em 1969, quando chegou à presidência da FI-DAL. Fora eleito por um grupo de jovens dirigentes ansiosos por uma troca na liderança. Os mais jovens não tinham um candidato, até que alguém se lembrou de Primo, um sujeito enérgico e ambicioso. Nebiolo se manteria no cargo por vinte anos, até que uma sucessão de escândalos o afastasse. A primeira década de Nebiolo à frente da FIDAL foi um sucesso. Fez um bom trabalho de promoção do atletismo italiano. Em um de seus maiores triunfos, levou o primeiro grupo de atletas estrangeiros à China, e depois recebeu a equipe chinesa em Roma. Com isso ganhou prestígio no Ocidente e o apoio do Bloco Comunista não controlado por Moscou. Em 1976 a Itália o agraciou com a Grã Cruz da República. O primeiro passo do ambicioso plano de Nebiolo para controlar o atletismo mundial era se eleger para o conselho diretor da IAAF. Fechou acordos com o Terceiro Mundo e o Bloco Socialista, sendo eleito no congresso de atletismo realizado durante as Olimpíadas de Munique, em 1972. Quatro anos depois, durante o congresso seguinte, em Montreal, Nebiolo tentou a vice-presidência, mas teve sorte em manter seu posto no conselho. Muitos desejavam a eleição de uma mulher, e duas foram indicadas. Mas o voto feminista ficou dividido, e Nebiolo entrou, mesmo no final da lista. Se houvesse apenas uma candidata, ele provavelmente teria sobrado — e isso representaria o fim de suas ambições. No mesmo congresso, Adriaan Paulen elegeu-se presidente do atletismo mundial. Ganhou o cargo aos 73 anos, e anunciou que cumpriria seu mandato e se aposentaria, durante os Jogos de Moscou, em 1980. Mas ao se envolver no planejamento do primeiro campeonato mundial de atletismo, marcado para 1983, em Helsinque, preferiu ficar para acompanhar o evento. Dassler começava a se inquietar. Apesar do progresso feito desde 1976, desejava assumir o controle total. Isso jamais seria possível com Paulen no comando, e Dassler tinha bons motivos para se preocupar com o futuro. Lorde Exeter, antecessor de Paulen, se recusava a tratar com ele depois dos escândalos nos Jogos do México em 1968. No ano seguinte o conselho das federações de atletismo aprovou uma resolução drástica: "nas competições futu- ras, apenas calçados sem marcas de identificação seriam permitidos." Mais tarde realizou-se uma reunião em Londres, convocada por Fred Holder, com representantes da Adidas e da Puma. Eles prometeram parar de pagar para que usassem seus produtos. Em seu discurso de despedida em Montreal, lorde Exeter alertou os atletas que usavam logotipos de fabricantes de equipamentos esportivos. Estavam virando manequins de vitrina. Foi seu último ataque a Dassler. Mas o industrial atingiria suas metas na década de 1980. "Horst queria garantir que a Adidas fornecesse equipamentos para a IAAF com exclusividade, e também controlar o lucrativo comércio dos direitos de marketing. Nosso contrato ia até 1983, mas um novo presidente desconhecido poderia favorecer outro grupo", disse Patrick Nally. "Horst preocupava-se por não saber se controlava Adriaan na medida desejada. Adriaan o ouvia, mas assumia uma atitude muito independente. Nos jantares em Landersheim, a equipe política de Dassler costumava discutir o que fazer. Desnecessáriodizer que, no caso de uma reviravolta no atletismo, Horst deveria estar envolvido. "Debatíamos se Adriaan era mesmo o nome certo, e quem mais poderia concorrer. Horst tinha interesse em garantir a escolha de um presidente que lhe fosse eternamente grato. Horst conversou com o advogado de Nebiolo, Mino Auletta. Ele diria a Horst exatamente o que poderia ser feito em seu benefício. Este seria o fator decisivo na escolha de Nebiolo, ou outro qualquer. Claro, Primo garantiu que tudo seria feito do jeito de Horst." "Primo, sendo como era, facilitou o acordo com Horst. Nebiolo sabia negociar. Mas restava um problema: como torná-lo presidente da federação de atletismo sem que precisasse enfrentar candidatos melhores do que ele?" O primeiro estágio da guerra para impor Nebiolo à IAAF foi a escolha do campo de batalha. As eleições ocorreriam em Moscou, em 1980, e Dassler sabia que Paulen derrotaria facilmente o ambicioso italiano. O secretário-geral Brejnev e o presidente Cárter salvaram o dia. A invasão russa do Afeganistão teve como contrapartida o boicote norte-americano às Olimpíadas. Imediatamente surgiram dúvidas sobre a realização de uma votação tão importante com a ausência de tantos delegados. Nebiolo aproveitou a chance e, graças à influência de Dassler na África, América Latina e no bloco comunista, conseguiu adiar a eleição. "O boicote a Moscou foi obra de Deus", disse Nally. "Horst percebeu seu potencial imediatamente. No ano seguinte Roma sediaria a terceira copa mundial de atletismo, oferecendo a oportunidade para realizar um congresso extraordinário na terra natal de Nebiolo. E preferiu deixar que Paulen permanecesse por mais um ano. Nada mais justo, ele andava profundamente en- volvido com a organização do primeiro campeonato mundial de atletismo em 1983. Neste meio tempo, Horst organizaria o golpe." Fred Holder tem lembranças semelhantes: "Nebiolo manobrou em 1980, para adiar as eleições. Mas não era preciso esperar. Mesmo com a ausência dos atletas norte-americanos em Moscou, os dirigentes compareceram. Nebiolo viu 'cair do céu' a chance de transferir a eleição para seu território, Roma, em 1981." Nebiolo não deixou nada por conta do acaso. Em campanha, visitou Berlim Oriental, jogando com os temores do bloco comunista: "Somos contra a comercialização do esporte. Se desejamos o progresso esportivo, é essencial desenvolver o esporte amador de todas as formas." O comandante de sua campanha deve ter dado risada, em Landersheim. O Segundo Estágio, segundo Nally, era garantir que não haveria eleição alguma. "Dassler planejou o esquema. Queria apenas dois candidatos. Quando fosse tarde demais para que outros candidatos entrassem na disputa, Paulen seria convencido a desistir. "Adriaan estava no atletismo apenas por amor ao esporte", contou Nally. "Sua tragédia foi não ter tido a chance de fazer um sucessor. O plano de Horst prosseguiu nos meses seguintes. Em primeiro lugar, precisava ter certeza de que ninguém concorreria contra Nebiolo e Adriaan, porque isso poderia estragar tudo. Qualquer um teria chances de ganhar, literalmente, arruinando os planos de Horst. "Era uma campanha militar. A própria importância de Adriaan foi usada para impedir o avanço de outros possíveis candidatos. Quando anunciou publicamente que Adriaan disputaria o cargo, todos os outros desistiram, em sinal de respeito. As chances de Nebiolo contra Adriaan eram risíveis. "O próximo estágio, decisivo, era fazer com que Adriaan desistisse. Horst precisava convencê-lo de que iria perder, mas eu considerava isso impossível. Horst persuadiu Adriaan de que conhecia melhor os africanos e asiáticos, e que eles apoiariam Nebiolo. Horst convenceu Adriaan de que seria derrotado. "Conforme os meses iam passando, os avisos se tornaram mais e mais convincentes, até que Adriaan começou a acreditar que corria o risco de ser completamente expulso do atletismo internacional, a não ser que fizesse um acordo com Nebiolo e se retirasse da eleição. "Horst lhe disse: 'Adriaan, não vai ser bom para o esporte, nem para você, sair desta maneira. Vamos pensar um modo de trabalharmos juntos em benefício do esporte.' Foi muito triste, apresentar a coisa de modo tão sincero, invocando os interesses do atletismo e os de Adriaan. "O golpe de misericórdia foi desferido no começo da primavera de 1981, em um encontro num hotel parisiense. Ali ele foi posto cara a cara com Nebiolo, por Horst, para fechar um acordo. "Depois que todos se cumprimentaram, Adriaan disse: 'Muito bem, eu desisto. Desde que vocês concordem com o seguinte'. As condições lhe davam uma posição mais que simbólica. Depois foi feito um esforço enorme para convencer Adriaan Paulen que seria melhor para ele desistir, garantindo que seu papel no atletismo estaria seguro." Paulen pedira um favor a Fred Holder: "Ele solicitou meu comparecimento ao encontro com Nebiolo. Paulen já se decidira a abrir mão de sua candidatura, e na reunião Nebiolo repetiria as garantias quanto ao futuro de Paulen na IAAF. Paulen estava um tanto nervoso, temendo que Nebiolo renegasse seus compromissos depois, e me queria como testemunha." Traído e enganado por seu amigo Dassler, Adriaan Paulen escreveu uma carta curta para a IAAF, retirando-se da disputa. Mencionava discussões, opiniões emitidas. Segundo a carta, as federações, em sua maioria, apoiavam o Dr. Primo Nebiolo, um sucessor perfeito... "Meu pai era inocente, sempre via o lado bom das pessoas. Embora fosse inteligente, não tinha malícia", disse a filha de Paulen. Quando contamos a ela a verdadeira história do alijamento de seu pai da presidência da IAAF, não acreditou em nada, inicialmente. "Dassler fez isso? Ele conspirou contra meu pai? Eu sabia que havia algo contra meu pai, para garantir a eleição de Nebiolo. Mas eu nunca pensei que fosse Dassler, porque sempre foram amigos. "Mesmo depois de desistir, meu pai se hospedou na casa de Dassler. Nunca suspeitou de nada. Ele disse a minha mãe que desistiu porque havia muita gente contra ele — mas nunca mencionou Dassler. "Ele acreditava que havia algo por trás dos votos de Nebiolo. Meu pai não queria passar pela indignidade de ser derrotado. Por isso desistiu. Ele se dedicou de corpo e alma ao atletismo." 8 O ISL DITA AS REGRAS Era uma vez um homem que montou uma pequena empresa para vender anúncios de eventos esportivos, em 1980. Logo em seguida obteve os direitos multimilionários para a copa do mundo de futebol. No ano seguinte, recebeu um privilégio semelhante, para as Olimpíadas. Mais um ano e foi a vez do atletismo mundial. Uma pequena companhia sem história, sem experiência e sem currículo monopolizou os contratos de marketing dos esportes mais importantes e lucrativos do mundo. Foi uma das maiores jogadas comerciais do planeta. Os contratos invariavelmente são renovados. Alguns avançam até o próximo século. Ninguém disputa os contratos. Os concorrentes sabem que não adianta perder tempo com lances. Os patrocinadores fazem fila para investir centenas de milhões de dólares nesta companhia, pelo direito de ligar suas marcas com o que restou de beleza e pureza no esporte. Cada vez que um fã do esporte liga a televisão para assistir um evento do COI, FIFA ou IAAF, torna esta pequena companhia um pouco mais rica. Cada vez que um rolo de fume ou um refrigerante específico é adquirido, as porcentagens pingam. O fundador da companhia e dono dos contatos que permitiram tal triunfo foi, claro, Horst Dassler. Tendo criado o Clube, Horst Dassler tornou-se seu banqueiro. A ISL Marketing ocupa um conjunto de escritórios em cima da estação ferroviária de Lucerne. Possui filiais em meia dúzia de cidades do planeta. Emprega pouco mais de cem pessoas. A receita anual, segundo estimativas, passa de US$ 200 milhões. A ISL retém até 25 por cento do total como comissão por seus serviços. Os valores exatos não podem ser divulgados porque a ISL não é uma companhia aberta. Osesportes que vendem são públicos, mas poucos conhecem a ISL fora do ambiente restrito do marketing esportivo internacional. A empresa se mostra compreensivelmente constrangida em discutir os milhões que passam por suas mãos. Fala uma linguagem diferente da maioria dos entusiastas do esporte. ser o "consumidor' Para um fã ou um atleta, o maior prêmio ainda é ver ou ganhar uma medalha de ouro olímpica, na pista de atletismo, ou a taça na copa do mundo de futebol. Para a ISL, o valor destes eventos reside nas "oportunidades globais" dos "segmentos de mercado" que tornam disponível em "pacotes" para os fabricantes divididos por "categoria de produto". O alvo final pode Qual- ou ficar restrito aos "empresários". quer que seja a atividade de uma empresa, se esta for muito rica, pode comprar uma fatia da final da Copa, das Olimpíadas ou do Campeonato Mundial. Quando os eventos se realizam em cidades históricas ou de destacada beleza, o "máximo em hospitalidade empresarial" pode ser providenciado para os preciosos clientes dos patrocinadores multinacionais. Ou seja, ninguém precisa assistir as competições, se não quiser. Um ano depois do final dos Jogos de Barcelona, o orçamento anual de patrocínio ultrapassará os US$ 5 bilhões, em todo o mundo. Em troca, os patrocinadores exigirão o direito de "adequar" os maiores eventos esportivos para torná-los mais eficientes na televisão, cumprindo a função decisiva de melhorar a "imagem do patrocinador". O que a maioria chama inocentemente de Olimpíadas já leva o nome de "ferramentas de marketing" no mundo pseudo-científico da pesquisa de mercado. Não há uma única palavra sobre o assunto na carta olímpica. Os cinco anéis interligados são hoje uma das mercadorias mais valiosas do mundo — em termos financeiros. Há menos de 25 anos tinham um valor bem menor. Não estavam à venda. O presidente do COI, Avery Brundage, emitia circulares periódicas em Lausanne, recusando a competidores e federações o direito de usar logotipos em seus uniformes. Ele chegou a formar uma Comissão para Proteção dos Emblemas Olímpicos, impedindo que os anéis fossem explorados pêlos anunciantes. A Comissão foi substituída, na gestão Samaranch, pela Comissão de Novas Fontes de Financiamento, encarregada de vender o emblema no mercado, pelo melhor preço possível. A nova espécie de membros-empresários do COI adquiriram a consciência de que dependem das verbas da televisão. A prudência, insistiram, exigia que se levantasse dinheiro de outras fontes. O resultado, na opinião de um comentarista olímpico, foi "a violentação sistemática da imagem do COI pelo mundo dos ne- gócios." "Horst sempre disse que teve a idéia básica para o marketing esportivo assistindo a final de Wimbledon no início da década de 1970. Os jogadores, Nastase e Smith, ambos contratados da Adidas, usavam uniformes brancos, com discretos logotipos da companhia. O jogo recebeu uma cobertura tão grande da televisão que Horst começou a pensar nos jogadores como anúncios ambulantes, esperando a veiculação das mensagens", segundo o vice-presidente da ISL, Paul Smith. Pela cartilha de Dassler, as roupas brancas eram um pecado contra a natureza. A parceria com Patrick Nally nascia. Durante os oito anos seguintes os dois homens transformaram as fontes de recursos e a aparência do futebol, do atletismo e das Olimpíadas. As federações foram viradas de cabeça para baixo, e uma nova leva de presidentes assumiu o timão do esporte mundial. Em 1982, Dassler e Naüy se separaram. "Eu vivia em conflito", explicou Naüy. "Não sabia mais se fazia aquilo para ajudar Horst e a Adidas, ou para representar os interesses da Coca-Cola, da Canon e de outros clientes. As federações ficavam com os benefícios financeiros, mas a pessoa que colhia os dividendos políticos e manipulava a situação para proveito de suas próprias em- presas era Horst." Quando a sociedade se desfez, Dassler fundou apressadamente a ISL. Levou os direitos do futebol internacional consigo, e os manteve desde então na ISL. A FIFA mais tarde o recompensou com a opção de esticar os contratos até o próximo século. As garrafas borbulhantes estariam presentes durante todo o percurso. Por vezes em garrafas pequenas, de 300 ml, e mais frequentemente em latas vermelhas. A Coca-Cola, depois de fornecer o dinheiro e a imagem que manteve Havelange no poder, iria agora fornecer o combustível para os planos de controlar o marketing esportivo mundial de Dassler. A ISL ditaria as regras deste jogo, todas as gentilezas do passado seriam lembradas, e a Coca-Cola pagaria a conta. A corporação de Atlanta era crucial para a nova empresa de Dassler. Nally observa, quase deslumbrado: "Quando nos separamos, Horst precisava controlar a conta da Coca-Cola, porque precisava de credibilidade, de imagem. Levou um bom tempo para colocar a Coca-Cola a seu lado, e poder usar a força e o dinheiro da companhia." Paul Smith, da ISL, admite que o nome Coca-Cola possui uma "aura mágica". Esta aura foi emprestada ao novo programa de marketing do futebol. O nome "Inter-Soccer" foi mantido, e os eventos à venda incluíam as finais do Campeonato Europeu de 1984 em Paris, as finais da Copa Européia e culminavam com a Copa do Mundo do México em 1986. Aos patrocinadores oferecia-se "um pacote completo de comunicação, baseado na exclusividade por categoria de produto durante um período de quatro anos. O programa para cada um dos 75 jogos inclui propaganda nos estádios, título de fornecedor oficial, uso de mascotes e emblemas e oportunidades de franquia." Se estivessem dispostos a pagar quase 7 milhões de libras cada um, os patrocinadores poderiam, em 1986, ter sua quota do "maior evento televisivo do mundo", com "alcance inédito, muito superior ao dos outros esportes." Mas o preço era justo? Nally acha que não: "Quando criamos o Inter- Soccer, incluímos no orçamento os valores a pagar para a Espanha, necessários para aumentar o número de times de 16 para 24. Havelange precisava cumprir suas promessas eleitorais, e Samaranch encontrava-se na beira das eleições para o COI, em Moscou, necessitando do apoio de Havelange. Sendo assim, ha- via uma margem maior 1982 do que seria preciso em 1986. "Mas depois da Espanha, Horst não baixou os preços, na verdade eles foram aumentados. A participação da Coca-Cola no projeto Inter-Soccer, ao preço pedido por Horst, legitimou sua política de preços altos." Em seguida, caiu na rede da ISL o que Dassler descreveu certa vez como "a propriedade menos explorada": Os Jogos Olímpicos. A imagem deles era perfeita para o marketing. Cada comité olímpico nacional detinha os direitos de licenciar os cinco anéis em seu país. O plano de Dassler pretendia passar da venda local para a mundial. Conversas privadas foram mantidas com o COI, e em março de 1983 Samaranch anunciou que a ISL fora contratada para administrar o novo programa de obtenção de fundos. A concorrência nem teve chance de vê-lo. A reportagem do New York Times sobre esta jogada empresarial incluiu as mais diversas opiniões. O Mark McCormack's International Management Group declarou ter manifestado interesse, mas nunca foi convidado a apresentar sua proposta. Patrick Nally declarou, segundo o jornal: "O fato da ISL, vinda do nada, ter obtido um dos maiores contratos esportivos do mundo mostra claramente que Dassler encontra-se na posição de conseguir qualquer contrato que queira." Dick Pound, membro canadense do COI, disse: "A ISL foi escolhida por osmose." Samaranch comentou: "Dassler está próximo do COI, mas não vejo nenhum problema nisso". Dassler, sem dúvida com um enorme sorriso estampado no rosto, disse: "Eu faço o que é melhor para o movimento olímpico. Não há nenhum conflito de interesses." "Não é estranho que nenhuma das grandes companhias de marketing, no ramo há anos, não tenha conseguido ver projeto, nem conversar, nem mesmo ser convidada para apresentar um pacote alternativo ao da ISL?" Perguntou Nally.Mais dois anos se passaram antes que o contrato entre a ISL e o COI fosse assinado. Dassler conseguira sua brecha. Ele agora possuía os direitos para o esquema global de marketing dos Jogos em Seul. Mas, para que funcionasse, precisava persuadir os mais de 150 NOCs a abrir mão de parte de seus direitos de comercialização dos cinco anéis em seus países. Mesmo Sama- ranch mostrou-se cético, e disse a Dassler, em particular: "Tente me convencer de que você consegue a aprovação de todos eles." Dassler encontrava-se numa posição única para atingir sua meta. Ele era a pessoa mais bem-informada do meio, tinha os melhores contatos e muitos lhe deviam favores. Agora usaria tudo. Cinco meses depois de receber a aprovação de Samaranch, um grupo de executivos da ISL reuniu-se com o mexicano Mário Vazquez Rafia em Caracas, durante os Jogos Panamericanos. Rana era uma peça fundamental. Ele comandava a ANOC, a organização mundial dos comitês olímpicos nacionais. Juntos, fizeram um lobby bem-sucedido, convencendo os NOCs latino-americanos a assinar com a companhia de marketing de Dassler. Foi um bom começo. Mas o novo plano de marketing olímpico não decolaria sem o aval das grandes potências econômicas: Estados Unidos, Alemanha, Grã- Bretanha, França, Japão e Austrália. Dassler prometeu dinheiro para todos, até conseguir apoio suficiente para voltar a Samaranch, O contrato foi finalmente assinado em março de 1985, e pela primeira vez o TOP — sigla do Programa Olímpico — foi revelado. O TOP conseguiu levantar US$ 100 milhões para os Jogos de 1988, mas há dúvidas se a ISL teve algum lucro. Comprar os direitos de cada NOC, garantindo mais dinheiro do que conseguiriam isoladamente, custou uma fortuna. A maior agência de propaganda do mundo veio em socorro de Dassler. "A Dentsu é enorme", disse Nally. "Uma companhia monstruosa, infiltrada praticamente em todos os setores da vida comercial japonesa: televisão, imprensa, editoras e publicidade. "Quando eu trabalhava com Horst, vendi pacotes de futebol para a JVC, fabricante japonês de produtos eletrônicos, e também para a Fuji Film. No Japão, o sistema exige que se passe por uma agência. Escolhi a Hukuhodo, a agência número dois do Japão, rival ferrenha da Dentsu, para se associar a nós nas contas da JVC e Fuji. "Eu não me dei conta de que, ao fazer isso, despertara o gigante adormecido, o Rip Van Winkle chamado Dentsu. Tanto a JVC quanto a Fuji são companhias de grande importância, e nenhuma das duas jamais trabalhara com a Hukuhodo antes. As cabeças rolaram na Dentsu, por permitir que uma coisa tão terrível acontecesse. "Quando Horst e eu nos separamos, descobri que a Dentsu enviou uma série de telexes para Horst, na Adidas francesa, tentando comprar uma participação no ISL. Ofereciam uma fortuna, pois queriam a JVC e a Fuji fora do alcance da Hukuhodo, e de volta aos braços da Dentsu. "De repente Horst se animou, porque viu nisso a resposta para seus problemas financeiros. Uma companhia japonesa de grande porte desejava comprar uma parte de seu esquema, e se mostrava disposta a pagar qualquer preço para conseguir seu intento. Ofereceram uma vasta soma a Horst, e adquiriram metade da ISL. "Os eventos no Japão foram a salvação de Horst. Eu arranjei o sócio ideal para ele. Dassler, claro, tirou o máximo proveito. Ele disse para o pessoal da Dentsu: 'Tudo bem, posso resolver o problema que Nally criou para vocês. Precisam agir imediatamente, eis o número de minha conta bancária na Suíça, por favor mandem milhões.' E foi o que ocorreu." Tendo o dinheiro da Dentsu por trás, A energia e a inteligência de Dassler triunfaram. "Nenhum executivo da ISL teria condições de levar os comitês olímpicos nacionais a devolver ao COI seus direitos, para a implantação de um projeto global de marketing. Só Dassler, pessoalmente, teria sucesso", declarou Nally. "Samaranch poderia ter conseguido isso — mas não tinha o dinheiro para distribuir — de modo que Horst deixou Samaranch mais uma vez em débito com ele." Nove companhias multinacionais — Coca-Cola, Visa, Brother, Federal Express, 3M, Time Life, National Panasonic, Kodak e Philips participaram do projeto TOP para a Olimpíada de 1988, contribuindo com mais de US$ 100 milhões — menos a comissão da ISL. Mas isso era só a semente. A única coisa que conseguiram com este investimento foi usar os cinco anéis em qualquer parte do mundo. As Olimpíadas são um evento único no mundo esportivo. Placas de propaganda não podem desfigurar os estádios. O COI alardeia isso estridentemente. Dizem que as mensagens comerciais são proibidas nos estádios para manter a pureza do ideal olímpico. "Isso é enganoso", afirmou Nally. "A razão real para a ausência da propaganda nos estádios é a alta soma paga pelas redes norte-americanas pêlos direitos televisivos. Eles querem imagens limpas, para que possam vender seus comerciais. Se pensarmos na NBC, que pagou cerca de US$ 400 milhões pêlos direitos de Barcelona, veremos que a rede precisa vender de mais de US$ 600 milhões em publicidade para empatar, ou ter um pequeno lucro. A NBC não conseguiria tanto se houvesse propaganda nos estádios." Tendo pago milhões para entrar na elite olímpica, os nove patrocinadores do TOP gastaram ainda mais procurando formas de incorporar os anéis e os logos de Calgary, sede dos Jogos de Inverno de 1988 e Seul a seus pacotes, comprando espaço na imprensa e na televisão. Visa colocou os anéis em seus cartões de crédito, e produziu anúncios agressivos, de alto impacto, ressaltando que os locais dos Jogos eram o único lugar do mundo onde "não aceitam American Express." O cartão verde rival patrocinou os Jogos de Los Angeles em 1984, mas recuou quando soube que precisaria pagar um preço quatro vezes maior. A American Express comentou: "Recusamos pagar US$ 15,5 milhões em Seul. O preço estava muito além do que poderíamos ganhar com quaisquer benefícios comerciais." A Sopa Campbell gastou US$ 500 mil para patrocinar os jogos de inverno em Saravejo, em 1984, e quase perdeu a fala quando a ISL convidou a empresa para entrar no TOP e patrocinar os jogos de Calgary. Um diretor, George Mahrlig, disse: "Nunca vou me esquecer do preço pedido. O vendedor da ISL, com a maior caradura, queria um valor 14 vezes maior: US$ 7,2 milhões." Campbell caiu fora. A revista Time e a Sports Illustrated ganharam o direito de produzir os números especiais das Olimpíadas, vendidos como lembranças. A situação era estranha. Teria um grande grupo editorial criado um vínculo tão forte com o movimento olímpico, a ponto de abandonar sua condição de fazer um jornalismo crítico? As máquinas de escrever Brother concentraram-se mais na exploração dos anéis olímpicos para impressionar seus revendedores. Levaram clientes preferenciais para Seul, pagando pelo privilégio de apresentar seus convidados aos ganhadores de medalhas de ouro, diariamente. Não se sabe o que os campeões olímpicos acharam de desfilar e apertar as mãos dos convidados da Brother. Cerca de 17 mil convidados dos patrocinadores conseguiram privilégios em 1988. Dassler ainda precisava de um grande favor. Depois do Campeonato Mundial de Atletismo em Helsinque, o contrato de marketing com a IAAF era de quem chegasse primeiro. As negociações seriam feitas durante os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Haveria um preço a ser pago pelo final do reinado de Adriaan Paulen e a implantação do regime de Nebiolo? Tentar o contrato com a IAAF representava um novo tipo de experiência para a ISL, em ambiente diverso do encontrado na FIFA e no COI. Haveria concorrência de verdade, entre dois candidatos. Patrick Nally continuou lutando pelo contrato, depois do rompimento com Dassler. Queria dar seguimento ao esquema que levantara tanto dinheiro para o primeiro campeonato em Helsinque, em 1983. Dassler pretendia obter o contrato para si. Os dois rivais apresentaram suas propostas para o comité de marketing da IAAF, recentemente fundado. Ummembro do comité recordou a cena: "Nally fez uma apresentação muito pro- fissional, e depois veio a ISL. Eles disseram que poderiam oferecer uma garantia enorme, talvez US$ 20 milhões para os quatro anos seguintes, se concordássemos em entregar o contrato. Mas, por algum motivo, passaram-se mais dois anos até a assinatura." Nally declarou: "A ISL ficou com o contrato com a IAAF. De repente, parecia que tinham feito um acordo melhor do que nós, responsáveis pelo marketing há tantos anos e criadores de todos os projetos. Foi uma farsa." Com isso, a ISL ficou com os três grandes. A ISL descobriu que era muito mais difícil negociar com Nebiolo do que com Samaranch. O presidente desperdiçava o dinheiro da IAAF, às vezes. Durante os preparativos para o Campeonato de Atletismo de Roma, em 1987, Nebiolo insistiu para que a marca do evento fosse produzida por um membro de sua corte. "O logotipo era horrível", contou um membro da IAAF. "Muito feio. Não significava nada. Odiamos, mas ele não quis saber, insistindo que o logo da IAAF deveria ser divulgado antes do logo da FIFA para a Copa do Mundo de 1990 em Roma. O logotipo acabou com a festa. A receita foi zero." O relacionamento de Dassler com o atletismo florescia. Em 1986, Nebiolo fechou um acordo com a Adidas, para o fornecimento de material para a IAAF. A revista da federação publicou uma página de propaganda disfarçada de reportagem sobre a tecnologia por trás da fabricação dos produtos Adidas. O contrato do atletismo com a Adidas foi renovado em 1988, e novamente em 1991. Paul Smith admite que a ISL se envolvia profundamente na política esportiva, quando Dassler ainda vivia, "Desde a morte de Horst", disse, "a ISL tornou-se apenas mais uma .companhia de marketing." A ISL ganharia mais um contrato de peso. Em 1989 fechou um acordo com a federação internacional de basquete. O contrato é limitado, porque o território mais importante, os Estados Unidos, já está comprometido com outros acordos, mas as possibilidades do marketing global devem explodir em 1994, quando as maiores estrelas norte-americanas competirem na frente das câmeras, no campeonato mundial de basquete. O basquete é o que os publicitários chamam de um esporte "bom de anúncio", na televisão. A quadra é pequena, o jogo confinado a ela, e a ISL pode garantir aos clientes que somente dois cartazes de publicidade serão vistos, durante até 30 por cento do "tempo de transmissão". Há outros benefícios a oferecer. Os anunciantes poderão comprar o direito de ter seu nome incluído no título de jogos específicos. A prática leva o nome de "reforço de mensagem", e dá aos comentaristas da televisão um nome mais longo para dizer. Na primavera de 1988 Roberto G. Goizueta, diretor da Coca-Cola, viajou para Lausanne, onde recebeu de Samaranch a Ordem Olímpica. O presidente do COI informou que tal honra se devia à "profunda visão positiva da vida" demonstrada pela companhia. A Coca-Cola foi a primeira a entrar no TOP seguinte, que atingirá seu apogeu em Barcelona. Samaranch em pessoa voou para Atlanta, onde assinou o contrato. Com toda a transparência e honestidade que hoje caracterizam as Olimpíadas, nenhuma das partes revelou o quanto foi pago pela companhia. Estimativas confiáveis calculam algo em torno de US$ 30 milhões. A Coca-Cola pagará mais do que os outros patrocinadores porque o mercado de refrigerantes é um dos mais competitivos do mundo. As outras companhias que completam os "TOP 12" em Barcelona são previsíveis. Kodak pagou uma fortuna, outra vez, no mínimo para deixar de fora um rival, a Fuji Film. Igualmente decididas a participar encontram-se grandes empresas japonesas, como Brother, National Panasonic e Ricoh. A Philips holandesa também entrou, mas não pode promover produtos concorrentes da Panasonic. Os outros patrocinadores de Barcelona são a revista Time, os chocolates Mars, a Bausch & Lomb (fabricante dos óculos Rayban), a Visa, a empresa entregadora EMS e a 3M. Em 1989 o Comité Olímpico dos Estados Unidos de Bob Helmick premiou o presidente da 3M com o título de "Empresário do Ano". As Olimpíadas teriam sido "violentadas" pelas grandes corporações? Paul Smith, da ISL, acha que não: "O público não pensa que as Olimpíadas estão muito comerciais. O elemento marketing sofre controle eficaz. As companhias do TOP investiram a longo prazo, e seu interesse é garantir que a imagem dos Jogos não se degrade." Longo prazo tornou-se agora curto prazo. O COI introduziu uma modificação decisiva no tradicional ciclo de quatro anos dos Jogos. A partir de 1994 os eventos de verão e inverno se alternarão a cada dois anos. As redes norte-americanas pressionaram neste sentido, pois arcam com uma conta de quase US$ l bilhão pêlos dois eventos, num ano olímpico. Os céticos acreditam que os patrocinadores acreditam que seus investimentos dêem um retorno melhor distribuídos a cada dois anos, ao invés de concentrados a cada quatro. Em seu material de divulgação, a ISL aparece como um ponto de confluência entre o conteúdo ético do esporte e as exigências benevolentes e razoáveis dos empresários. Dentro da companhia trava-se há dois anos uma guerra, desde que a Adidas da família Dassler foi vendida para o investidor francês Bernard Tapie, em 1990. As quatro irmãs de Dassler — Inge, Karen, Brigitte e Sigrid — foram criticadas na imprensa alemã pela venda de 80 por cento das ações da Adidas a um preço muito baixo. A filha Suzanne e o filho Adi conservaram uma pane da holding Adidas. A família também possui 51 por cento da ISL, e a Dentsu o restante. Embora pareçam interessados em evitar que a companhia decaia, como ocorreu com a Adidas depois da morte de Dassler, as duas gerações da família atualmente só se relacionam através de advogados. Perdida a Adidas, a ISL tornou-se sua galinha dos ovos de ouro. Seis meses depois da venda das ações da Adidas, pouco antes do Natal de 1990, as quatro irmãs atacaram a ISL. Christoph Malms, marido de Sigrid, foi nomeado presidente da companhia holding Sporis AG, e em seguida diretor da ISL. Logo ficou claro que ele não conseguia trabalhar ao lado de Klaus Hempel e Jürgen Lens, os dois administradores que Dassler escolhera para tocar o negócio. Hempel, principal executivo, acostumara-se a dirigir a companhia sem interferências, comunicando suas decisões à diretoria dominada pela família depois de toma-las. Malms queria autonomia como diretor. Em janeiro de 1991, Hempel e Lens deixaram seus cargos. A saída deles foi anunciada no estilo dos comunicados corporativos, sugerindo harmonia para normalmente mascarar as cenas de executivos lutando na diretoria. O press release divulgado pelo escritório em Lucerne mencionava "mudanças significativas na estrutura executiva da empresa". Hempel e Lens, claro, demitiram-se "por acordo mútuo, para cuidar de outros negócios e assuntos pessoais". A ISL estava em boas mãos, porque os principais executivos continuavam nos postos. No dia seguinte uma carta discreta, assinada por Hempel e Lens, seguiu para seus melhores contatos nas federações. Deixava claro que ambos continuavam ativos no ramo. Informava aos antigos clientes: "Pretendemos capitalizar nossa experiência acumulada no marketing de eventos." A carta terminava com uma nota diplomática: "Enquanto isso, agradecemos pelo apoio à ISL." Os especialistas em conflitos administrativos sentiram o cheiro de um acordo milionário. Resta saber se Malms, ou Adi, filho de Dassler, possuem as habilidades políticas do grande homem. Contudo, eles não possuem o profundo conhecimento sobre tudo e todos que contam no esporte mundial. Dassler, brilhante e intuitivo, explorava seus conhecimentos em benefício da Adidas e da ISL. Hempel e Lens trabalharam a seu lado durante muitos anos, e mesmo que não tivessem a mesma visão, conheciam intimamente a política esportiva. Dassler tirou muito proveito, mas antes precisou investir pesado. A pergunta é se os sucessores dele na ISL manterãoo mesmo desempenho. Patrick Nally mostra-se cético quanto ao futuro da ISL: "O relacionamento com a FIFA, o COI, a IAAF e o basquete provinha de Horst. A infra-estrutura foi solidamente preparada. Ele acompanhou as pessoas que hoje comandam o esporte desde o começo. Colocou muitos deles em seus cargos atuais. "Quando largarem os cargos de direção, o legado de Horst desabará. Aí a necessidade da ISL poderá ser questionada. Quando começamos, as federações não tinham equipes de especialistas. Hoje possuem estrutura própria de marketing, com muita gente boa. Dispensarão intermediários. As federações precisavam da ISL porque precisavam da política, do dinheiro e da credibilidade de Horst, para chegar onde estão. Agora, claro, já podem cuidar de tudo sozinhas." Não surpreende que Paul Smith, da ISL, discorde: "Somos especialistas. Compreendemos as sutilezas e as nuances do marketing esportivo. Assim como as grandes empresas chamam agências de propaganda, ao invés de usar o pessoal da casa, acreditamos que as federações continuarão a precisar de nossos serviços." Neste verão, os convidados das corporações desfrutarão as delícias dos transatlânticos ancorados no porto de Barcelona. Consumidores do mundo inteiro serão encorajados a beber Coca-Cola, e não Pepsi; a fotografar com Kodak, e não Fuji; a ver as Olimpíadas numa televisão Panasonic e não Sony; a usar o cartão Visa, e não o American Express. Estes são alguns dos patrocinadores TOP. As pesquisas de mercado da ISL indicam que vale a pena: "Qualquer companhia patrocinadora das Olimpíadas adquire qualidades olímpicas." "O público não é mais tão inocente como antes", acredita Nally. "Eles sabem que o motivo para promover uma companhia através das Olimpíadas não tem nada a ver com uma missão olímpica. Ninguém é selecionado pela qualidade ou imagem. Entra quem pagar mais do que os outros." 9 O PESO MORTO O Samaranch que entrou para o COI em 1966 deve ter se sentido à vontade entre tantos outros membros de passado autoritário ou antidemocrático. Afinal, durante toda sua vida adulta apoiara ativamente um estado policial baseado em um sistema ideológico que dizia agir no interesse da maioria. Mudar para Moscou após o colapso da ditadura de Franco e do triunfo da democracia na Espanha parecia ser um conveniente passo atrás na história. Era tão fácil lidar com os russos quanto com os donos do poder em Madri. Ambos exerciam um poder absoluto e recompensavam quem os ajudasse. Iludido por sua falta de experiência em democracia, Samaranch avaliou mal a força e a longevidade de seus novos aliados comunistas. Desde sua ascensão ao poder no COI, recrutou e apoiou muitos membros do Leste, verdadeiros dinossauros de uma outra era política. Hoje o COI encontra-se lotado de delegados dos falidos regimes do antigo Bloco Oriental. Eles não representam nada, fora seu próprio desejo de sobreviver em um mundo novo e hostil, sem os privilégios antigos. Se Samaranch não pedir sua renúncia, ofenderá os novos comitês olímpicos nacionais democraticamente eleitos dos países do Leste, que não aceitam "jogadas" com seus representantes no COI. O contraste com as mudanças no restante do mundo é gritante. Quando regimes corruptos caem, seus embaixadores e delegados nas Nações Unidas voltam para casa em desgraça. Nada disso ocorre no COI. Um punhado de membros desacreditados pode permanecer no poder até a morte. Transformaram-se em apêndices do líder do COI. Sem reconhecimento ou recompensas em seus próprios países, viajarão no eterno trem da alegria, inspecionando cidades, comparecendo a sessões do COI e acompanhando os Jogos e outros eventos esportivos de destaque. Os países do Bloco Leste sempre mantiveram um relacionamento delicado com o movimento olímpico. Quatro anos depois dos Jogos de Estocolmo os russos boicotaram as Olimpíadas. Retornaram em 1952, em Helsinque, ganhando as primeiras medalhas de ouro. Faturaram 22, ficando em segundo no total de medalhas, atrás dos norte-americanos. Desde então o esporte tornou-se uma atividade política prioritária. Os russos, alemães orientais, tchecos, romenos e búlgaros ignoraram a escassez de recursos, criaram condições para a prática esportiva de competição, treinaram equipes de ponta e tentaram derrotar o Ocidente. Em 1956 os russos venceram no total de medalhas. E ficaram na frente dos norte-americanos em três das cinco Olimpíadas seguintes. Enquanto isso, a União Soviética continuava fechada. Os únicos estrangeiros realmente bem-vindos eram os adeptos do regime e capitalistas selvagens como Horst Dassler. "Sempre me impressionei com Dassler em Moscou. Ele nunca falava em política", declarou Christian Jannette. "Sua única política era a Adidas. Mesmo quando jantava com gente do Comité Central, nunca ouvi Dassler tocar em política, nem por um minuto. Falava de negócios, de organização esportiva, mas nunca de política." O cabeça da Adidas levava dois presentes especiais. Os russos eram gratos pelo material esportivo gratuito que ele doava às equipes, mas ansiavam mesmo pelo acesso à mercadoria mais valiosa de Dassler — conhecimentos. O isolamento do Bloco Leste, somado ao costume de viajar com uma falange de agentes da KGB, os impedia de compreender a política esportiva. Desde o início da década de 1970, Dassler tornou-se orientador e cicerone político dos russos. Eles entenderam que os votos sob seu controle lhes dava um imenso poder, mas não sabiam como usá-lo. "Sempre que Horst viajava para os países da Europa Oriental recebia tratamento VIP", disse Nally. "Era muito fácil a movimentação dentro daquele mundo. Descíamos do avião na Rússia e ninguém olhava os passaportes. Armand Hammer não era o único a fazer isso, Horst também fazia. "Horst passava muito tempo na sauna, com políticos chaves, conversando sobre quem deveria ser eleito e o papel desempenhado pêlos países da Europa Oriental nas federações. O Leste europeu oferecia poucas oportunidades de negócios, mas possuía grande importância do ponto de vista político." Dassler queria duas coisas dos russos, principalmente: abrir uma fábrica atrás da Cortina de Ferro e participar dos negócios decorrentes dos Jogos de 1980 em Moscou, Em ambos os casos ele encontrou a porta aberta. Os russos precisavam de produtos de melhor qualidade para seu mercado interno — até há pouco tempo o nome genérico para os tênis, entre os europeus orientais, era "adidas" — e queriam exportar parte da produção, acumulando moeda forte. Uma nova equipe foi formada em Landersheim, para tratar do desafio olímpico. Nally participou bastante. "Horst selecionou um grupo, com pessoas como Christian Jannette. Ele morou na Rússia entre 1976 e 1980, durante a fase de preparativos para as Olimpíadas. "As visitas a Moscou se repetiam constantemente, e minha função se expandiu mais ainda conforme os Jogos se 1980 se aproximavam. A Rússia precisava de tecidos e roupas, e fechamos acordos para fornecer o material. Horst não tinha como bancar tudo sozinho, de modo que precisei procurar outras companhias para ajudar. "As negociações foram difíceis, mas Horst conseguiu obter alguns direitos de marketing em Moscou. Assinou um contrato para vestir não só atletas, como também dirigentes. Montamos um pacote na West Nally, e saímos à procura de parceiros. "Na época, nosso maior triunfo foi convencer a Levi's a fornecer 64 mil calças jeans. Levamos os executivos para a Rússia, e eles ficaram impressionados com os contatos políticos de Horst. A Levi's, como a Coca-Cola, pretendia usar as Olimpíadas como instrumento para a abertura de fábricas na Europa Oriental. E as calças jeans eram disputadas a tapa." Ninguém previu o boicote norte-americano a Moscou. Samaranch, quando ocupava a vice-presidência do COI, cultivara contatos comunistas, em detrimento dos norte-americanos. Isso tinha sentido, do ponto de vista dele. Os americanos pouco influíam na política olímpica. Não entendiam direitoas maquinações em Lausanne e nas federações internacionais. As qualidades diplomáticas de Samaranch falharam no primeiro grande teste. As tentativas de reverter o boicote promovido pêlos norte-americanos fracassaram. Quando os russos se vingaram, em Los Angeles, Samaranch, já presidente do COI, tentou de novo. E mais uma vez suas súplicas não foram ouvidas. Embora ativo na política olímpica há dezoito anos, ele não conseguiu fazer com que o Bloco Leste entendesse que se arrependeriam do boicote. Havia divergências notórias entre os países comunistas, e na verdade ninguém queria ficar fora de Los Angeles, a não ser Brezhnev. Apesar dos anos passados em Moscou, como embaixador, Samaranch jamais dominou as nuanças políticas do bloco comunista. E falhou na tentativa de convencer seus amigos. Mas Samaranch não deixou de cortejar os ditadores mais implacáveis do bloco comunista. Continuou a agradar aos imperadores do Leste. As honrarias fluíam livres, nas duas direções. Mesmo depois que lhe deram as costas em Los Angeles, ele prosseguiu com as atenções, como se tratasse das estrelas das Olimpíadas. Quando o COI se reuniu em Berlim Oriental, em 1985, Samaranch foi recebido por Manfred Ewald, o mais alto funcionário do esporte alemão oriental, e incentivador do programa de doping do país. Ewald já possuía a Ordem Olímpica. "A Alemanha Oriental se identifica profundamente com o conteúdo humanista do ideal olímpico", declarou Ewald, e todos aplaudiram educadamente. Como os anfitriões alemães pagavam a conta, teria sido descortês perguntar o papel dos esteróides no ideal olímpico, ou quantos haviam sido abatidos com tiros naquele ano, tentando pular o muro para o Ocidente, A hipocrisia não parou aí: Erich Honecker, ex-líder da Alemanha Oriental, hoje indiciado pêlos crimes cometidos durante seu governo assassino, abriu a sessão do COI. Recebeu como recompensa a mais alta honraria disponível, a Ordem de Ouro Olímpica. Dar a Ordem de Ouro a tais tiranos não apenas macula o ideal olímpico: zomba das legiões de pessoas comuns, decentes, que com freqüência dedicaram a vida ao esporte. Outro alto dignatário recebeu a Ordem de Ouro naquele ano: o carniceiro de Bucareste, Nicolae Ceaucescu. Premiado por ter ignorado os russos e enviado uma delegação a Los Angeles. Difícil acreditar que o presidente do COI, que se apresenta como diplomata viajado, não soubesse dos sofrimentos impostos aos romenos pela ditadura de Ceaucescu. Qual a mensagem recebida pelo romeno comum, assistindo à cerimônia transmitida na íntegra pela televisão local? Que o mundo civilizado não se importava com seus males e com a pobreza existente atrás das fronteiras fechadas. Ver o cruel dirigente sendo condecorado por mandar atletas para os Estados Unidos enquanto o povo levava os tiros tentando fugir deve ter sido bem estranho. A nível do esporte, Samaranch deve ter sido informado que as condições da Romênia eram lamentáveis. Ele conferiu a medalha olímpica a um país com reputação de dopar muitos de seus melhores representantes. Samaranch parece ter o dom de escolher os piores ditadores para receber honrarias. Dois anos depois de Berlim, ele foi à Bulgária e deu ao ditador Todor Zhikov a Ordem de Ouro Olímpica. Os agentes da contra-espionagem devem ter feito hora-extra em Moscou e Washington para estudar as viagens de Samaranch durante a década de 1980. E também devem ter pensado: para quem ele trabalha, afinal? A CIA pode ter levantado a possibilidade de que o presidente do COI fosse agente do Comintern, viajando "para casa" regularmente para receber ordens e entregar microfilmes. Da mesma forma, a KGB deve ter pesquisado seus arquivos de viagens. Entre 1981 e 1987, Samaranch visitou constantemente o Bloco Leste. Estaria espionando para os norte-americanos? A pergunta deve ter sido feita na Lubianka. Enquanto o sistema comunista desabava lentamente, Samaranch era fotografado em Moscou, na Albânia, Polônia e em Piongiang. As viagens só diminuíram quando a casa caiu. O poder esportivo do Leste foi arrasado. Os campos de doping fechados, a queda nas performances e a dissolução do bloco de votantes chegou. Os barões do esporte no Leste perderam o emprego, na maioria dos casos, desacreditados, e seus impérios perderam as contas ban- cárias em moeda forte. O Leste agora suplica, e precisa chegar a Lausanne de chapéu na mão. Eles terão os melhores lugares, com a melhor vista para os eventos em Barcelona. Andarão de limusine. Ficarão hospedados no melhor hotel. Eles podem dar as Olimpíadas para uma cidade. Eles são o peso morto do Bloco Oriental, os subprodutos da era Brejnev, os membros totalitários do COI. Eis Shagdarjav Margvan, da Mongólia. Dirigente sindical e ex-lutador, nascido em 1927, tinha 50 anos ao ser escolhido para o COI. No ano seguinte o partido comunista o promoveu para dirigir uma fábrica de porcelana. Sua língua nativa é o mongol, mas ele também fala russo. Trata-se de um dos poucos membros do COI que nunca foi nomeado para participar de uma comissão. Ficará no COI até atingir a idade limite para a aposentadoria compulsória de 75 anos, em 2002. só então a Mongólia poderá trocar de representante. Mesmo depois desta data Magvan continuará membro do COI, embora sem poder de voto. Há também Marat Gramov, de Moscou. Um dos maiores desastres de Samaranch, Gramov foi o burocrata dedicado que organizou o boicote a Los Angeles. Isso não incomodou Samaranch, que o escolheu para o COI em 1988. Gramov era deputado no Soviete Supremo da União Soviética, além de presidente do comité olímpico Soviético. Sua nomeação para o COI sinalizou claramente que Samaranch não compreendia as pressões crescentes na Rússia. Três anos como embaixador, e inúmeras visitas nos oito anos seguintes, pelo jeito pouco ensinaram ao presidente do COI, A escolha de Gramov deixou o COI mal representado no novo esquema democrático do Leste. Um ano depois de sua nomeação, Gramov foi forçado a renunciar de seu cargo no Ministério do Esporte soviético. Adiando continuamente as reuniões do NOC soviético, ele prolongou o inevitável, até que em abril de 1990 perdeu seu último posto no esporte russo. Hoje Gramov não é ninguém no esporte. Isso não o impede de viajar pelo mundo às custas do COI, recebendo as homenagens das cidades visitadas, candidatas a sede de uma Olimpíada. Gramov permanecerá no COI como membro pleno até 2002. Outro membro soviético do COI, Vitaly Smirnov, nomeado em 1971, saiu- se melhor. Pertencia ao Soviete de Moscou, mas distanciou-se da velha guarda e substituiu Gramov no NOC. É vice-presidente do COI e membro pleno até o ano 2000. Ele entrou para o novo mundo esportivo com estardalhaço, arranjando com a fábrica de automóveis alemã Mercedes dois carros para seu uso em Moscou. A Mercedes apoia a tentativa de Berlim para sediar os Jogos no ano 2000. Gramov e Smirnov representam a URSS no COI, mas o país deixou de existir. Na Roménia, enquanto o país luta para superar os traumas da era Ceaucescu, seu homem em Lausanne segue sendo Alexan-dru Siperco, que fala russo. Ele participou ativamente da política comunista romena durante anos. Nascido em 1920, é membro vitalício do COI. A Polónia encontra-se em situação similar, com Wlodzimierz Reczek, também de fala russa, como membro vitalício desde 1961, A Tchecoslováquia tem como representante outro membro de fala russa, Vladimir Cernusak, que votará nas reuniões em Lausanne até 1996. O representante da Bulgária também fala russo, mas Ivan Slav-kov parece ter superado a desvantagem de ser genro do ex-presidente Todor Zhikov, agraciado com a Ordem de Ouro Olímpica. Slavkov era ministro adjunto da cultura, na velha ordem, e comandava a televisão estatal. Samaranch tem um alto conceito deste senhor de meia idade e muita personalidade. Quando o governo do sogro caiu ele ficou em regime de prisão domiciliar e acabou depois na penitenciária, acusado de uma série de crimes, desde tráficode armamentos até apropriação indébita de fundos da fracassada campanha de Sofia para sediar as Olimpíadas de Inverno de 1994. As acusações foram posteriormente retiradas, e ele acabou sendo reeleito presidente do comité olímpico nacional, no único país da Europa Oriental onde o partido comunista é uma força majoritária. Permanecerá no COI como membro pleno durante as próximas cinco Olimpíadas — até o ano de 2015. Um membro do COI, representante da lugoslávia, Slobodan Filipovic, também fala russo. Ele luta desde 1989 para se desvincular dos antigos camaradas da liderança do partido local. Seus oponentes o acusam de apoiar as milícias governamentais em Mon-tenegro, quando estas dispararam contra os manifestantes. Filipovic nega, dizendo que os antigos camaradas forjaram minutas de reuniões do partido para desacreditá-lo. Enfrenta uma campanha dos dirigentes esportivos iugoslavos para tirá-lo do COI, já que não conta com apoio em seu próprio país. Samaranch fez o possível para apoiá- lo. Filipovic continuará como membro pleno até 2014. Outro membro iugoslavo, Boris Stankovic, entrou para o COI em 1988, e serve de secretário-geral para a federação internacional de basquete desde 1976. Era ativo no mundo da política esportiva de Monte Cario, ao lado de Dassler, e manteve distância do Partido Comunista de seu país. Ficará no COI até o ano 2000. Pai Schmitt, da Hungria, tem a melhor reputação internacional entre os membros do COI vindos do Bloco Leste. Esgrimista olímpico, Schmitt representa o estilo independente da política húngara, que os russos tentaram esmagar. Desde sua entrada para o COI em 1983, ele participa ativamente de diversas comissões. O colapso da Alemanha Oriental causou um problema para o COI. A nova Alemanha unificada tinha representantes demais. Gunther Heinze, que fala russo, era alto dirigente do sistema esportivo movido a droga da Alemanha Oriental, e concordou em se aposentar prematuramente. Mas permanece como membro ho- norário. O último representante de um partido comunista monolítico e repressivo no COI é o chinês Zhenliang. Ele entrou para o COI em 1981. É vice-presidente olímpico e membro da diretoria executiva do COI. Continuará membro até o ano 2004. 10 O OURO NEGRO DE OLÍMPIA Em uma noite especial de janeiro de 1987 o Clube se reuniu em um exclusivo restaurante parisiense. Horst Dassler chegou com seus convidados: Samaranch, Havelange, Nebiolo, Bob Helmick, representante americano do COI, Mahtar M'Bow, secretário-geral da Unesco e um punhado de outros membros do COI. Entre os convidados, havia também um membro do COI que pensava pertencer ao círculo mais íntimo. Como era rico o suficiente para comprar a todos, ninguém queria desapontá-lo. Outro fato o diferenciava do resto: era o único dos presentes cuja mãe fora escrava. O xeque Fahd al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, da bilionária família real do Kuwait, tinha só mais três anos de vida, pois morreria em circunstâncias misteriosas nas mãos dos invasores iraquianos. Seus atos não têm similar na história do esporte. Distribuindo prodigamente seus petrodólares, Fahd corrompeu uma parcela considerável das Olimpíadas, rasgou a Carta Olímpica e tornou os ideais do movimento sinônimo de trapaça e racismo. Nada disso teria sido possível sem a bênção de Samaranch e outros membros do Clube. O xeque Fahd nasceu em 1945, antes que as reservas de petróleo do Kuwait tornasse o país um dos mais ricos do mundo, numa época em que era comum, para os xeques, possuir escravos e concubinas. Seu pai, o xeque Ahmad Al-Jaber Al Sabah, então soberano do Kuwait, tinha entre as concubinas favoritas uma mulher vinda das tribos nômades do selvagem Baluquistão. Os kuwaitianos não renegaram os filhos nascidos de escravas, e quando sua mãe deu à luz, o pequeno Fahd teve o mesmo tratamento dos irmãos legítimos. Ser filho de escrava não impediu sua ascensão — a mãe do atual primeiro- ministro, príncipe Saad, era uma escrava negra da Somália. Mesmo assim, o jovem Fahd era às vezes desprezado, por não ter somente o sangue dos Sabah. Um amigo de infância declarou: "Fahd se ressentia com as menções a sua origem, e cresceu voluntarioso e rebelde. Não era estúpido, mas faltava a ele a astúcia de outros membros da família. Quando a escravidão foi abolida no Kuwait, na década de 1950, passou a cuidar da mãe, mas sempre teve complexos por causa de seu nascimento, o que pode explicar sua ânsia de aparecer." Um conhecido de Fahd, já nos anos 1980, disse: "Fahd era o único irmão do emir sem cargo no ministério. Isso o enfurecia. Restava o esporte, como única maneira de ser notado." Quando entrevistado pela IOC Reviezu, Fahd afirmou ter estudado na universidade, mas não informou o curso freqüentado, nem o diploma obtido. Tratava-se de mais um dos mitos permitidos aos ricos e poderosos do Kuwait. Ele pode ter se matriculado na Universidade do Kuwait — como qualquer Al-Sabah — mas não era um acadêmico. Como muitos Al-Sabah, recebeu uma alta patente no exército do Kuwait. Ao contrário da maioria dos parentes, Fahd queria ser visto como um homem de ação. Enquanto a contribuição da família na defesa do Kuwait não passou do estabelecimento de um novo recorde mundial de fuga pelo deserto até o refúgio seguro na Arábia Saudita, Fahd demonstrou que não lhe faltava coragem pessoal. Na casa dos vinte anos, sem avisar a família, ele foi para o sul do Líbano, lutando ao lado da OLP contra os israelenses. A admiração provocada pelo ousado gesto, no mundo árabe, deu sentido a sua vida. Quando apareceu no mundo da política esportiva, Fahd não perdia uma oportunidade de aumentar o boicote contra Israel, progressivamente excluindo o país das competições internacionais. O movimento olímpico, como muitas organizações esportivas, divide o mundo em departamentos continentais. A Ásia é o maior deles, e o mais populoso. Estende-se por milhares de quilômetros, da costa leste do Mediterrâneo, passando pela Mongólia, China, Japão, Tailândia, Filipinas e Coréias. Sendo uma mistura de etnias e grupos religiosos, miséria e riqueza, apresenta estágios diferenciados de desenvolvimento esportivo. Os países com tradição em esportes ao estilo ocidental reuniram-se em Deli, em 1949, e formaram a Federação Asiática. Dominavam o grupo fundador países nascidos do colapso do império britânico e outras potências colonialistas: Birmânia, Sri Lanka, índia, Indonésia, Paquistão, Filipinas, Tailândia e Israel. O objetivo da federação era realizar jogos regionais a cada quatro anos, segundo o modelo das Olimpíadas e dos Jogos Panamericanos. As federações esportivas internacionais não tinham com que se preocupar até o início da década de 1960, quando a Indonésia sediou os quartos Jogos Asiáticos, em Jacarta. Os promotores anunciaram que não dariam vistos a competidores de Israel. Seguiam apenas o padrão determinado pêlos Jogos Mediterrâneos de Samaranch. Desta vez o COI bateu o pé, e suspendeu a Indo- nésia. O país foi perdoado um ano depois, na época da primeira Olimpíada Asiática em Tóquio. A pressão para discriminar Israel vinha dos países árabes do Golfo, ansiosos por mostrar seu apoio aos palestinos. Os atletas israelenses voltaram a disputar os Jogos Asiáticos em Bangkok, em 1970, pela última vez. Os países do Golfo exercitaram seus músculos políticos. Como o mundo árabe fracassou na tentativa militar de jogar os judeus no mar, a opção foi criar um gueto esportivo. A expulsão de Israel do esporte asiático se daria na'proporção direta do aumento da riqueza dos países petrolífe- ros do Golfo. Os árabes orquestraram a campanha que deturpou a política esportiva e o próprio esporte em toda a Ásia. Fahd, como muitos outros filhos de famílias reais milionárias, distraía-se com atividades militares e um apetite prodigioso pela atividade esportiva. Ele praticou todos os esportes, até que sua barriga o empurrou para a administração. Passou a colecionar as federações esportivas doKuwait como um menino coleciona selos ou figurinhas. Nos anos seguintes assumiu o controle dos or- ganismos responsáveis pela esgrima, futebol, basquete, vôlei e handball. Mais do que isso, tornou-se presidente do comité olímpico nacional do Kuwait, um cargo privativo da família Al Sa-bah. Também à sua disposição estavam os intermináveis recursos dos campos petrolíferos. Essa fortuna, que poderia ter sido investida na melhoria das condições sociais, econômicas e esportivas dos países árabes mais pobres, era usada no continente asiático para a compra de votos. Fahd, o ex-atleta, logo descobriu que as glórias da cartolagem eram maiores. O pequeno Kuwait causaria um tremendo impacto na política esportiva mundial. A federação asiática vivia em luta permanente para financiar e organizar os jogos regionais, até que uma gigantesca onda de dinheiro do golfo Pérsico inundou todo o continente, até o mar da China. Ela varreu os princípios da maioria dos dirigentes esportivos da Ásia. Estes receberam tudo o que sonhavam: recur- sos para eventos, novas instalações, conferências, passagens aéreas e, claro, recompensas pessoais. Havia uma única condição. Os países árabes exigiam que a Federação Asiática fosse futuramente abolida. Seria substituída por uma organização deles. A Ásia concordou. As bases foram lançadas nos Jogos Asiáticos de 1974 em Teerã. Fahd e seus aliados da Arábia Saudita ofereceram-se para pagar os jogos seguintes, na Tailândia. Isso garantiu a influência necessária para dar o passo seguinte em seu plano. Na véspera dos Jogos de Bangkok em 1978, os organizadores anunciaram a participação de Israel. Mas prepararam uma armadilha. Quando os israelenses se inteiraram dos detalhes, descobriram que só poderiam mandar dirigentes para as cerimônias de abertura e encerramento. Nenhum atleta seria aceito. A IAAF ofendeu-se com esta demonstração ostensiva de anti-semitismo, e se recusou a reconhecer os eventos de atletismo, impondo uma suspensão de três meses aos atletas que participassem. O Sr. Sathiavan Dhillon, secretário-geral do comité olímpico nacional de Cingapura, e figura chave na política esportiva asiática, concordou em dar uma entrevista. Soubemos que ele lutara contra o controle árabe até onde foi possível. Mas, na entrevista, ele declarou: "O xeque Fahd é um grande líder do esporte, além de meu amigo pessoal. Conhecemo-nos há alguns anos, em Bangkok, quando reescrevíamos a constituição da Federação Asiática, para estudar um modo de realizar os Jogos de 1978 em Bangkok sem criar problemas com a IAAF por causa da exclusão de Israel. "Depois de muitos debates e discussões, resolvemos que Israel ficaria de fora, apesar das represálias da IAAF contra a Ásia. Nossa posição foi comunicada, e a IAAF adotou algumas medidas — muito superficiais." Tendo desafiado a IAAF, Fahd levou mais quatro anos para montar sua nova organização. Seus esforços foram lubrificados com uma nova onda de recursos. No final de 1980, num período de doze meses, o Kuwait ofereceu-se para sediar e bancar os Jogos Asiáticos futuros, além de prometer US$ 15 milhões para os jogos seguintes, previstos para Deli em 1982. Seus aliados nos Emirados Árabes ajudaram, prometendo financiar os Jogos Mediterrâneos em Casablanca, em 1983. Fahd tinha outro motivo para tanta generosidade. Depois de descobrir como era fácil controlar a Ásia, ele ambicionava entrar para o Clube. Não encontrou maiores dificuldades em comprar sua participação no COI. O Kuwait capitalista e conservador procurou os inimigos de Israel. Acordos esportivos foram fechados com a Hungria, china e URSS. Mais dinheiro do petróleo pressionou os pontos sensíveis, e em março de 1981 o novo presidente Samaranch viajou pêlos países árabes do Golfo. Fahd o acompanhou, argumentando que os países árabes mereciam mais um representante no COI, e quem mais capacitado do que ele mesmo? Durante o verão de 1981 Fahd foi apontado como provável membro do COI, e eleito na sessão de setembro, em Baden-Baden. Os israelenses, mantidos fora do COI para evitar constrangimentos para os ricos árabes, observou tudo impotente. Apenas um país tentou reagir quando as muralhas do gueto foram erguidas. Em um congresso especial da IAAF em Roma, no mês de agosto de 1981, quando Nebiolo assumiu o poder, o Japão apoiou o pedido israelense de abandonar a área asiática. Israel queria passar para a Europa. Ali, sem discriminações, poderia comparecer a reuniões internacionais. A proposta japonesa foi derrotada. Para completar, a IAAF reconheceu a Palestina. O cenário estava montado para o sucesso dos Jogos Asiáticos em Deli, no final de 1982, a ser coroado com a criação da organização olímpica pessoal de Fahd. Ele controlava os votos do Golfo Árabe, e contava com o apoio de Bangladesh, índia, Paquistão e Nepal. Com o reforço da China, Coréia do Norte e Mongólia, que o acompanhariam por causa da campanha contra Israel, garantiria a maioria necessária. Israel tinha amigos na Ásia, mas eles não tiveram coragem de se manifestar. Os organizadores indianos deram novas desculpas para a exclusão de Israel. Insistiram que não seriam capazes de providenciar a segurança indispensável. Como os israelenses sempre viajam com uma equipe de segurança armada, o argumento tinha pouco peso. Fahd e os árabes não faziam segredo de seus planos, e em maio de 1982 a diretoria executiva do COI autorizou Samaranch a discutir com os indianos a exclusão de Israel. Era tarde demais. O dinheiro já fora pago. Dois meses antes dos Jogos de Deli os israelenses pediram a Samaranch, diretamente, em uma reunião das federações internacionais em Mônaco, que tentasse de novo. Samaranch inventou uma de suas soluções "diplomáticas". Um mês antes da abertura dos Jogos de Deli os organizadores avisaram que pretendiam retirar o pedido de patrocínio olímpico. Assim, não haveria a visita tradicional do presidente do COI, marcando a aprovação do evento. Entretanto, haveria um visitante chamado Juan António Samaranch, em caráter particular, que ficaria apenas "um período bem curto." Durante esta visita "particular e curta", Samaranch deu um jeito de se reunir com o presidente Singh, a primeira-ministra Indira Ghandi e o ministro de esportes da índia. Deu entrevista coletiva e visitou diversas instalações esportivas. Recebeu a chave da vila dos atletas, passeou com os organizadores dos jogos e com os dois membros indianos do COI, além de comparecer a um jantar para 500 pessoas. A visita recebeu cobertura completa na Review, sem referências ao escandaloso desprezo pela Carta Olímpica que rolava nos bastidores. Apesar do COI ter retirado o apoio aos Jogos, dez membros do COI compareceram ao evento, liderados pelo presidente do atletismo, Primo Nebiolo. Terminados os Jogos, a política transferiu-se para os bastidores. A Federação Asiática foi enterrada, dando lugar a um novo órgão, grandiosamente batizado de Conselho Olímpico da Ásia (OCA). Israel, fora de Deli, não pôde pedir admissão, ao contrário de todos os países fronteiriços. O orçamento da nova organização foi estabelecido: US$ l milhão por ano, apesar do OCA, como ficou conhecido, não ter fundos. O xeque Fahd ofereceu-se para conseguir o dinheiro, e como era de se esperar, elegeu-se presidente. O Sr. Dhillon, de Cingapura, declarou: "O OCA foi criado basicamente para atingir Israel, como um instrumento político. Se alguém estudar a história de Fahd, perceberá que ele sempre abraçou a causa palestina." Outro alto dirigente esportivo asiático, que preferiu não ter seu nome publicado, declarou: "A destruição da Federação Asiática foi planejada pêlos países árabes produtores de petróleo. Infelizmente, nada pudemos fazer, e Israel acabou fora do OCA." Ele também contou como Fahd conquistou votos decisivos: "Os árabes não se sentam, formam um grupo nas reuniões, e tentam evitar a votação secreta. Espalham-se pelo salão, e ficam por perto das pessoas que subornaram. Quandochega a hora de votar, pressionam as pessoas, e os braços se erguem. Em determinada ocasião um deles ergueu as duas mãos, e na hora da contagem des- cobrimos mais votos do que delegados. "Comentava-se que eles pagaram suborno. Era um segredo de araque. O dinheiro do petróleo é irresistível para os países mais pobres." O Sr. Dhillon, de Cingapura, não tem tanta certeza do suborno. Ele declarou: "Não há provas. Apesar de ter ouvido histórias, não posso afirmar que isso ocorreu. Quem recebe suborno não comenta o assunto. Alguns acreditam que houve compra de votos, mas pode-se ver a questão por outro ângulo. O xeque Fahd ajudou financeiramente os países mais pobres, pagando passagens aéreas e diárias aos delegados. Em outras palavras, foi um auxílio, não um suborno. Prefiro que digam que ele possibilitou aos países mais pobres o envio de representantes, o que não pode ser chamado de suborno." A única coisa que poderia ter impedido Fahd de controlar o OCA foi seu surpreendente comportamento na Copa do Mundo da Espanha, quatro meses antes. Ele gastou cerca de US$ 4 milhões para preparar seu time de futebol para a maior Copa do Mundo de todos os tempos, e queria garantir a classificação. O sucesso do Kuwait nas eliminatórias regionais foi, pelo menos numa ocasião, controverso. Pertenciam ao grupo Ásia-Oceânia. e o Kuwait jogou quase todas as partidas em casa. Por coincidência, Fahd recentemente se elegera tesoureiro da Confederação Asiática de Futebol. Em casa, o Kuwait derrotou a Tailândia, Malásia e Coréia do Sul. Depois o time viajou para Auckland, na Nova Zelândia, país que não quis abrir mão do mando de campo, e recusou o oferecimento de uma viagem com todas as despesas pagas para jogar no Kuwait. As estatísticas do jogo, com 33 faltas e 2 pênaltis para o Kuwait e 10 faltas para a Nova Zelândia enfureceu a torcida local, que atirou latas de cerveja contra os dirigentes. O Kuwait ganhou de 2 a 1. Na Espanha, o Kuwait jogou contra a Tchecoslováquia e depois contra a França. O jogo terminou em desastre. A França marcou o quarto gol, mas o Kuwait reclamou, dizendo que um apito na torcida foi confundido com o do árbitro e levou os jogadores a deixar a bola entrar. Fahd entrou em campo para protestar, e foi vaiado. Mais tarde um comentarista disse: "Para dizer a verdade, o xeque só trata as pessoas como lixo quando alguém discorda dele." O Kuwait recebeu uma multa de 7 mil libras, e Fahd uma censura por "conduta antiesportiva". A nota triste ficou por conta dos jogadores, que conseguiram um progresso admirável para um país tão pequeno, chegando às quartas-de-final na Olimpíada de Moscou. A versão de Fahd para o jogo na Espanha saiu em uma nova revista, chamada Continental Sports, lançada em Paris no final de 1982. Editada por um refugiado etíope, Fekrou Kidane, teria sido financiada por Fahd. Dois meses depois do vexame de Fahd na Espanha, o editor escreveu: "a imprensa, que se alimenta de sensacionalismo, aproveitou rancorosamente a oportunidade para se vingar dos aumentos no preço do petróleo. Ele foi criticado porque era irmão do emir do Kuwait." Segundo Kidane, tudo não passava de "racismo disfarçado". Kidane também disse que os políticos, na Copa da Espanha, receberam lugares melhores do que os membros do COI e da FIFA, o que soou suspeito. Parecia despeito de Fahd. No final de 1982, o jornal alemão Welt am Sonntag publicou uma reportagem sobre Rudi Gutendorf, ex-membro da Bundes-liga. Ele acusou Fahd de tentar manipular o resultado do jogo entre o Kuwait e o Nepal, no ano anterior. Gutendorf, na época consultor da Federação de Futebol do Nepal, afirmou que dois emissários do xeque ofereceram a ele um emprego de US$ 240 mil por ano, como técnico da Associação de Futebol do Kuwait, se ele desse um jeito do time nepalês perder de 8 a 0. O Kuwait precisava ganhar de oito a zero para se classificar para a final asiática do Campeonato Mundial de juniores. Aos 27 minutos do segundo tempo o Kuwait ganhava de quatro a zero. Aí começou uma briga, segundo Gutendorf provocada por um jogador do Kuwait. O jogo foi suspenso, Os escândalos no futebol só serviram para melhorar a reputação de Fahd no Kuwait, por enfrentar as grandes potências. Durante os três anos seguintes, ele embarcou em aventuras cada vez mais caras, todas pagas com recursos do estado. Mesmo sem pagar imposto de renda, inexistente no Kuwait, muitos cidadãos importantes ficaram preocupados com o total gasto por Fahd no financiamento de seu império asiático. A primeira decisão era a localização da sede do OCA. O Japão e outros países do Extremo Oriente não gostaram da sugestão de Fahd de pôr o OCA no Kuwait, no limite da região. Os votos foram comprados e o OCA ganhou sua sede na capital do Kuwait. Mas Fahd ainda enfrentava problemas relativos ao futuro do OCA. A organização não teria credibilidade, a não ser que recebesse o reconhecimento formal do COI. O tema constava da agenda da sessão do COI em 1983, a ser realizada em Deli, por sorte. Mais uma vez, os votos precisariam ser garantidos. Fahd teve uma idéia nova. O aparentemente infinito tesouro do Kuwait foi aberto, e Fahd anunciou que o país sediaria os primeiros jogos Afro-Asiáticos em 1985. Seria uma boa oportunidade para hospedar luxuosamente os dirigentes esportivos dos dois blocos continentais, e também os membros do COI que rodam o mundo constantemente, recebendo presentes, passagens aéreas de primeira classe e acomodações em hotéis cinco estrelas. O próprio Samaranch foi persuadido a parar no Kuwait, a caminho de Deli, e participar de uma reunião com o OCA e o Comité Olímpico Africano. Tendo seu novo membro árabe fazendo lobby vigorosamente, nos corredores, e graças ao silêncio dos amigos de Israel, a sessão do COI em Deli resultou na bênção oficial ao OCA, uma organização cuja única razão de existir era contradizer um dos pontos fundamentais da Carta Olímpica. As necessidades dos eleitores asiáticos não foram esquecidas. Em outubro de 1983, o Campeonato Atlético Asiático realizou-se no Kuwait. Para sua surpresa, Fahd descobriu que estava à beira da falência pessoal. Como muitos outros especuladores irresponsáveis do Kuwait, ele investiu na bolsa informal do país, o Suq al-Manakh. Os preços do petróleo subiram, bem como ações e outros papéis. Presumindo que os preços continuariam em alta, os especuladores kuwaitianos soltaram cheques pré-datados, pretendendo realizar seus lucros antes que os cheques caíssem nas contas. A única coisa a cair foram as ações, e Fahd ficou devendo US$ l bilhão. Felizmente encontrava-se em boa companhia. Muitos membros da família Al- Sabah arriscaram e perderam. O prejuízo total foi estimado em US$ 90 bilhões. O governo — na verdade a família Al-Sabah — aceitou prontamente aprovar um pacote de socorro aos maiores perdedores. A oposição política, composta principalmente de famílias de negociantes que enriqueceram através da especulação financeira, não gostou. Fahd tinha seu próprio plano para recuperar a fortuna investida. Inabalado com a perda de US$ l bilhão, embarcou numa orgia de gastos que levou sua família à beira da ruína política. Uma fonte do Kuwait declarou: "Ele pedia dinheiro do Estado para projetos esportivos, deliberadamente aumentando os custos para se apropriar das sobras." "Desta forma, matava dois coelhos de uma só vez. Aumentava seu prestígio pessoal, pelas conquistas na política esportiva, e enriquecia. Ele alterou orçamentos, roubando milhões de dólares. Sem dúvida o governo sabia de tudo. Ele comentava os subornos com amigos, pois afinal de contas os dirigentes — o emir e o primeiro-ministro — eram o irmão e o primo! "Eles toleravam os subornos distribuídos pela Ásia, pois representavam prestígio para o Kuwait. E enquanto sua vaidade era satisfeita, ficaram quietos. Mas Fahd era um homem volátil, e dava escândalos quando contrariado. "Ele sabia subornar as pessoas, fosse no Kuwait ou no exterior.Checava o sujeito pessoalmente, para descobrir se o mais indicado seria doar instalações capazes de angariar mais prestígio para o dirigente esportivo em seu país, ou comprar o voto, com um suborno direto." O modo despreocupado com que Fahd se servia do dinheiro do estado enfureceu a oposição. Eles se ressentiam porque Fahd não trabalhava, vivendo de roubar os lucros do petróleo, que deveriam beneficiar o país como um todo. O primeiro ataque ocorreu em 1983, feito por Ahmed Al-Saadom, porta-voz do parlamento do Kuwait. Naquela época, a coleção de federações esportivas nacionais de Fahd incluía o boxe, handball e futebol. Al-Saadom propôs uma lei proibindo qualquer pessoas de ser presidente de mais de uma federação. Isso equivalia a uma declaração de guerra aos Al- Sabahs pela oposição. A imprensa local, naquela época livre, publicou histórias criticando o xeque temperamental. Ele era conhecido como Fahd, o louco, e comentava-se que teria manipulado resultados de jogos de futebol no Kuwait. A batalha prosseguiu durante as eleições de 1985. Os Al-Sabah mantiveram o controle, mas não conseguiram calar seus críticos. O novo parlamento iniciou uma investigação sobre as questões financeiras de Fahd, mas ele se recusou a dar explicações. Outros membros da família real entraram na lista de suspeitos de desvio de verbas, e em 1986 o emir suspendeu a constituição, fechou o parlamento, ordenou rigorosa censura à imprensa e pas- sou a governar por decreto. Desde então não houve mais eleições, e mais nenhuma pergunta constrangedora do parlamento. Nem mesmo as diwanias, grupos tradicionais de discussão, foram poupadas, sendo desbaratadas pela polícia até a época da invasão iraquiana. Com a abolição da democracia no país, o esporte tornou-se ainda mais politizado. Há três famílias importantes no Kuwait, e a família real Al-Sabah vive em conflito com as outras duas. Todas as quintas-feiras, dia tradicional para os jogos de futebol no Kuwait, ocorria uma batalha política no estádio Al-Arabi, localizado na frente do consulado britânico. Os Al-Sabahs controlavam o clube Al- Arabi e outros dois. A oposição financiava três times, e quando clubes dos dois lados se enfrentavam, surgia a chance de infligir uma derrota metafórica ao governo. Os escândalos da família Al-Sabah foram largamente noticiados na imprensa estrangeira, mas ignorados pela IOC Review. Há anos a revista publicava uma série irregular, chamada ''Figuras Influentes do Esporte". Fahd foi entrevistado, e proclamou: "Sou um voluntário, trabalho vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, quatro semanas por mês, doze meses por ano como voluntário do esporte. Graças a Deus não preciso de um emprego." O COI contribuiu para a manutenção do mito. Depois de abolir a democracia em casa, Fahd saiu em campanha para repetir o feito no exterior. Para manter o apoio dos países em desenvolvimento nos fóruns esportivos internacionais, ele precisava ser considerado um representante de seus interesses. Logo depois a Continental Sports, que com demasiada freqüência refletia as opiniões de Fahd, estava atacando a IAAF e seu sistema de votação, que privilegiava as nações mais antigas e tradicionais do esporte, donas de mais votos. Primo Nebiolo foi acusado de "presidir uma federação onde reina a demagogia e o cinismo". Isso, claro, era a pura verdade, mas Fahd demonstrava uma lamentável ignorância do mundo real da política esportiva. Longe de ignorar os países pequenos, Nebiolo buscava desesperadamente chegar ao sistema de um voto por país, de forma a poder diluir o poder dos países mais importantes, alguns dos quais se opunham intensamente a sua gestão. Para agradar o Terceiro Mundo, Fahd começou uma cruzada hipócrita para manter a "pureza das Olimpíadas". Enviou cartas a diversas organizações, afirmando que a admissão de atletas profissionais levaria à "total destruição dos Jogos". Convidou os dirigentes esportivos a "cerrar fileiras conosco para deter esta tendência devastadora". Era uma boa idéia: muitos países pobres, que enfrentavam sérias dificuldades para desenvolver o esporte, temiam que o novo profissionalismo estabelecesse padrões impossíveis de alcançar, para eles. Não se fazia menção às fortunas pagas aos jogadores do Kuwait quando estes ganhavam um jogo. A motivação de Fahd nada tinha a ver com o altruísmo. Sua ambição era conseguir uma vaga na diretoria executiva do COI, nas eleições marcadas para a sessão de Istambul em 1987. O apoio africano o ajudou, e Fahd recebeu 28 votos, mas acabou derrotado por Chiharu Igaya, do Japão. Vale observar que numa votação secreta, sem pressões, a maioria dos votos asiáticos tenha ido para Igaya. No ano seguinte haveria as Olimpíadas de Seul. Agora a coisa era séria, e mesmo realizadas na Ásia, haveria pouco espaço para Fahd. Sua única contribuição marcante foi um protesto a Samaranch quando a capital de Israel apareceu no quadro de Seul como sendo Jerusalém. Os israelenses retrucaram dizendo que esta era a capital há 4 mil anos. Conforme sua vida se aproximava do final, ficou claro que Fahd conseguira pouca coisa fora do Kuwait. Seus "êxitos" no cenário internacional eram marginais, e quando se estudava o caso a fundo, os progressos no esporte asiático aconteceram apesar dos esforços de Fahd, e não por causa deles. Seu último capricho extravagante foi a realização dos Jogos da Paz e da Amizade, no Kuwait, em novembro de 1989. O evento teve a organização da Conferência Esportiva Islâmica, presidida pelo emir do Kuwait. O Iraque compareceu, e no futebol empatou com o Ira sem gols, o que foi um progresso, depois de oito anos de guerra. Samaranch compareceu, acompanhado de Havelange e vários membros do COI. Eles elogiaram o "espírito de disputa leal e respeito mútuo", e depois ouviram atentos quando Fahd recitou um poema escrito para a ocasião. O Kuwait fez questão de mostrar aos vizinhos árabes quanto dinheiro poderia ser desperdiçado no esporte, providenciando hotéis cinco estrelas para os competidores e limusines para jornalistas. A reportagem da Review levou a assinatura de Fekrou Kidane, e afirmava, sem surpresa, que o evento alcançou "um sucesso estrondoso". Ele também revelou que se formara um comité para os próximos jogos. Por aclamação, escolheram Fahd para presidi- lo. O presidente do COI, Samaranch, fez outra viagem ao Oriente Médio, em 1990. Esteve pela última vez com o xeque Fahd em Ama, e viajou com ele pela região. Acabaram no Kuwait, onde Fahd organizara uma conferência para discutir "o apartheid e o espírito olímpico". Um assunto estranho para se debater, levando-se em conta os milhões gastos por Fahd para discriminar Israel, aliás com êxito. Mas ajudou a manter o apoio africano. Dois meses depois Fahd concentrou-se na FIFA. Em uma reunião da Confederação Asiática de Futebol, ele foi nomeado vice-residente regional na executiva da FIFA. Um analista descreveu a eleição como "muito peculiar", e ele ganhou por dezessete votos a dezesseis. A campanha de Fahd foi descrita como "veemente". Dentro da mais pura tradição olímpica, ele fretou um Boeing para levar os eleitores à reunião de Bali. Foi o último triunfo esportivo de Fahd. Na noite de 2 de agosto de 1990 as tropas de Saddam Husseim entraram na cidade do Kuwait. Há várias versões sobre sua morte, e a verdade pode não surgir nunca. A versão oficial divulgada pela família Al-Sabah conta que Fahd morreu heroicamente, lutando contra o invasor. Mas a família não poderia saber com certeza, todos já haviam rugido. A versão mais aceita diz que a família não conseguiu encontrá-lo na hora da fuga, porque ele passara a noite em um estabelecimento conhecido localmente como "o bordel". Aparentemente ele saiu na rua de madrugada, viu as colunas de tanques e foi ao palácio real de Dasman para descobrir o que estava aconte- cendo. Discutiu com as tropas iraquianas e um franco-atirador o acertou na nuca. O que aconteceria com o OCA depoisda morte de seu líder e patrocinador? Os delegados presentes ao congresso de Pequim, dois meses depois, ficaram atônitos quando a delegação árabe chegou com o jovem filho de Fahd, Ahmad, à frente, exigindo que substituísse o pai! Enquanto isso, no Kuwait, a resistência local lutava corajosamente contra os invasores. A família real se instalara em segurança na localidade saudita' de Taif. Ignorando as prioridades da guerra, Ahmad, aos 25 anos, sem nenhuma experiência em administração esportiva, conseguiu se "eleger" presidente do Co- mité Olímpico do Kuwait, ao se cansar do exílio na cultura restrita da Arábia Saudita, ele se mudou para Londres, e passou a planejar a maneira de herdar os cargos do pai. Os representantes asiáticos no OCA ficaram furiosos. Se tivessem conseguido votar imediatamente para a presidência, o poder árabe poderia ter sido quebrado. "Não somos uma monarquia", disse um delegado. As tradicionais táticas persuasivas dos dirigentes árabes foram acionadas, numa tentativa de adiar a eleição até que tivessem certeza da vitória. Ahmad declarou aos jor- nalistas: "Eu não quero que a votação se realize em Pequim, para não ameaçar a unidade do esporte asiático, embora eu tenha uma maioria de 24 votos a meu favor." Ele tinha razão. As medidas costumeiras foram tomadas, e finalmente um congresso do OCA aprovou o adiamento da eleição para a reunião seguinte, dali a seis meses, na Arábia Saudita. Mas o controle anterior perdia força, e durante o ano de 1991 novas reuniões foram marcadas e desmarcadas, porque o grupo de Fahd ainda não garantira a vitória. Pela primeira vez vários delegados asiáticos deram entrevistas. Um presidente do NOC disse sem rodeios: "Eles nos compraram e nos enganaram". Enquanto isso, o OCA mudou para seu novo endereço. A revista do organismo, Horizons, cheia de fotografias do falecido Fahd e seu ambicioso filho, foi publicada na sonolenta estância balneária inglesa de Eastbourne, onde o se- cretário pessoal de Fahd, Abdul Muttaleb Ahmad se refugiara. O jovem xeque Ahmad compareceu à sessão do COI em Birmingham, em junho de 1991, sugerindo claramente que seria melhor para o COI nomeá-lo para ocupar o lugar do pai. O presidente Samaranch o saudou. Numerosos membros do COI apareceram na frente das câmeras da televisão do Kuwait para dizer que lamentavam a morte de Fahd, uma perda para o movimento olímpico. Em agosto de 1991 David Miller, do Times de Londres, enviou reportagem de Seul, dizendo que haveria um racha no OCA, entre os grupos asiáticos e árabes. Ele se referiu à atitude "desprendida e altruísta de Fahd, que manteve a unidade do OCA", e depois escreveu que os sul-coreanos, como muitos países asiáticos do Pacífico, estavam cansados da hegemonia árabe. Eles reclamavam que "as reuniões eram adiadas, as pautas nunca definidas, as contas do Fundo de Solidariedade perdidas, e as comprovações de despesas jamais apareciam." Estas críticas incomodaram os árabes, mas não detiveram sua obstinação em arranjar um jeito de impor o jovem xeque Ahmad ao OCA. Como as regras do OCA proibiam que qualquer pessoa com menos de 35 anos assumisse a presidência, enfrentavam um problema. Isso parecia tirar o jovem Ahmad de cena. Após uma cuidadosa leitura da constituição do OCA, descobriram uma cláusula estabelecendo que tal disposição poderia ser revogada por maioria simples. Ou seja, bastava reunir votos suficientes. No outono passado, os adiamentos prosseguiram, enquanto tentavam reunir votos para ajudar o filho de Fahd. Um dirigente do sudeste da Ásia declarou: "O OCA seguia à deriva, sem um comando central. Creio que o OCA deve voltar à sua antiga estrutura de Federação Asiática. A concentração excessiva do poder nas mãos do presidente causou muitos danos. "Seria lamentável se os países árabes impusessem o filho, só pelo amor ao poder. Esta é a razão para uma ação conjunta dos países do leste e do sudeste da Ásia. Devemos falar em conjunto, e lutar pelo desenvolvimento do OCA. Precisamos impedir as ir-regularidades e outro atos errados." O diplomático Sr. Dhillon, de Singapura, declarou: "Acho que perdemos um grande homem, sinto muito sua falta, e no momento o organismo debate quem deve assumir a liderança. Por isso há discussões, várias pessoas desejam modificar o esquema de liderança. Não querem que um dirigente passe tempo demais na presidência — talvez um mandato máximo de oito anos." Numa tentativa de impedir um golpe do xeque Ahmad e seus milhões de petrodólares, os comitês olímpicos nacionais do Leste da Ásia — China, Japão, Coréia, Mongólia, Taiwan e Malásia — reuniram-se em Tóquio no dia 15 de setembro de 1991, e discutiram o problema durante nove horas. Todos assinaram uma resolução criticando a maneira como o xeque Fahd dirigia o OCA, que tratava como um brinquedo pessoal. O documento afirmava: "O OCA está em desordem. Muitas irregularidades e anomalias surgiram. Os principais problemas são a concentração excessiva de poderes na presidência, irregularidades administrativas no programa de Solidariedade Olímpica e descaso na organização de pautas e implementação das decisões da diretoria e da Assembléia Geral." Eles exigiam que uma reunião extraordinária do OCA, marcada para dali a uma semana, em Deli, fosse adiada até que a organização preparasse a assembléia geral marcada para dali a três meses, no Japão. Receberam o apoio tardio de Samaranch, que enviou um telegrama sugerindo que o OCA ouvisse as nações da Ásia. Foram ignorados. O Kuwait comprara votos em número suficiente, e ansiava para elevar o jovem xeque ao trono. Uma semana depois, no sábado, 21 de setembro de 1991, os delegados do OCA reunidos em Deli elegeram o xeque Ahmad para a presidência, por unanimidade. Man Lip Choy, secretário-geral do comité olímpico da Coréia, ainda demonstrava raiva quando deu uma entrevista, poucos dias depois. A maioria dos dirigentes esportivos asiáticos com quem conversamos na Ásia pediam que não fossem identificados antes de revelar seus sentimentos. Não foi o caso do corajoso Sr. Choy. Ele fez questão que citássemos seu nome. "Por nove anos o xeque Fahd não fez nada, e mesmo assim havia um sentimento forte entre os países do leste da Ásia, como China, Coréia e Japão, impedindo a manifestação das opiniões, porque tinham medo dos árabes. "Muitos acreditavam que era hora de mudar a liderança, porque os países árabes são pequenos, não devemos ignorá-los, mas pouco praticam esporte, e não permitem que as mulheres o pratiquem. Se tivessem feito algo para aprimorar o esporte na Ásia tudo bem, mas não fizeram nada. "Temos dezoito ou vinte países no sudeste da Ásia. Nos Jogos Asiáticos, poucos países árabes participam — mandam por volta de cinco pessoas. Há também problemas com o fundo de solidariedade do COI. Precisamos montar um projeto, mas eles simplesmente não fazem nada. Quanto ao dinheiro, não prestam contas de nada ao OCA. "Os países do oeste da Ásia foram praticamente todos subornados. Eles pagam aos delegados — entre US$ 25 mil e US$ 50 mil, chegando às vezes a US$ 100 mil. A cada eleição eles fazem os pagamentos e esperam que as mãos dóceis se ergam." O Sr. Choy forneceu uma lista de dirigentes olímpicos que, segundo ele, recebiam propinas. Depois nos contou detalhes estranhos da reunião em Deli, onde o xeque Ahmad se elegeu. Inevitavelmente, mesmo com mais da metade dos delegados comprados, o problema da idade de Ahmad foi levantado. Como fazer?, perguntaram alguns. Ele é dez anos mais moço do que o mínimo exigido pelas regras, 35 anos. Este problema foi solucionado pelo Sr. C. L. Mehta, há muito secretário-geral do OCA, além de amigo íntimo do falecido xeque Fahd. O Sr. Choy explicou: "O xeque Ahmad não falou nada. O secretário-geral Mehta disse: 'Ele pode ter 32, ou pode ter 35.' Foi tudo. Mas o pai tinha 45 anos quando morreu. Creio que Mehta quis dizer que não havia maneira de estabelecer a idade do filho. "Eu disse ao xeque Ahmad naíndia, pouco antes da eleição, sem rodeios: Entenda, meu amigo, conheci seu pai, estive por duas vezes em sua casa. Gostava de seu pai no início, mas depois ele não realizou nada. Agora você tenta desrespeitar a constituição, mas não estamos numa monarquia. Tem um longo caminho pela frente. Prove que é competente, e dentro de quatro anos, se provar sua capacidade, eu o apoiarei. Ahmad não respondeu. "Vamos tomar providencias, mas creio que os japoneses estão um pouco temerosos, os Jogos Asiáticos se aproximam. Os chineses esperam sediar as Olimpíadas no ano 2000, de forma que não se comprometerão. Quanto a nós, queremos justiça. "Se vocês não escutarem, e a predomínio árabe injustificado continuar, creio que surgirá um sentimento forte contra a nossa participação no OCA. Não passa de uma monarquia, agora, apenas isso. "Nunca mais comparecerei a uma reunião do OCA. Avisei minha equipe de que isso não tem nada a ver com o movimento olímpico. Pessoalmente, prefiro ficar de fora. Não vejo futuro neste tipo de ambiente. Só a política suja do jogo do poder." Perguntamos ao Sr. Choy como o COI via a crise no OCA. Ele respondeu: "Não sei. Samaranch deveria saber de tudo, pois Zen-liang He, da China, esteve em Tóquio conosco, e depois seguiu para a reunião da diretoria executiva do COI em Berlim. Ele deve ter feito um relatório a Samaranch. Ele tornou o xeque Fahd membro do COI, e a responsabilidade pelo problema é dele. Creio que o COI deveria ameaçar não reconhecer o OCA agora. Se Samaranch fizesse isso, ajudaria muito." Outro importante dirigente olímpico do oeste da Ásia disse: "O presidente Samaranch não apóia Ahmad, mas quer nossa união. O COI pressionou para que houvesse uma eleição pacífica, em harmonia. "Ahmad não tem experiência na administração esportiva, mal domina o inglês, não conhece esporte direito e lhe faltam muitas outras coisas. Não sabe fazer nada, na verdade. Havia uma pequena chance de derrotar Ahmad, mas agora o OCA tornou-se uma monarquia. Tal pai, tal filho." Mas a herança do novo monarca já começa a se desfazer. Os países do leste da Ásia — as nações mais importantes do OCA, do ponto de vista esportivo — estão cansados. Em novembro de 1991 anunciaram a realização dos Primeiros Jogos do Leste da Ásia, em Xangai ou Pequim, em 1993, repetidos a cada dois anos. O comportamento do xeque Ahmad e seus partidários foi considerado tão escabroso que países antagônicos como Taiwan e China, ou Coréia do Sul e do Norte entraram na aliança para salvar o esporte na região. O império asiático de Ahmad, sem China, Japão, Coréias, Taiwan e Hong Kong perde credibilidade. O anúncio de um novo evento regional ocorreu simultaneamente com uma reportagem da IOC Review informando que o xeque Ahmad fora "eleito por unanimidade para a presidência do OCA." O xeque Fahd não era um mau sujeito. Mas, rodeado de bajuladores e atordoado pela riqueza, nunca teve a chance de compreender os valores olímpicos. Ganhou prestígio em sua comunidade, tornando as coisas difíceis para os israelenses. Mas não era um anti-semita violento. Uri Afek, do comité olímpico israelense, nos contou: "O xeque Fahd se dirigia a nossos representantes com toda a cortesia, nas reuniões. Mesmo assim, não resta dúvida de que fez todas as tentativas para eliminar Israel para sempre de todas as atividades na Ásia," Fahd foi vítima de sua família corrupta, que aboliu a democracia em seu próprio país para não prestar contas de gastos. Também foi vítima do COI, que se curvou a seu poder e nunca teve coragem de afirmar que o poder deles era maior, e dotado de estatura moral. A Carta Olímpica proclama que o COI "combate qualquer forma de discriminação que interfira no Movimento Olímpico", e que se "dedica a garantir que prevaleça o espírito da disputa justa". Samaranch e os membros do COI ignoraram suas próprias regras. Difícil não acreditar que tiveram dificuldade em abrir mão dos benefícios distribuídos pelo OCA de Fahd, em caráter privado ou público. O COI deveria recusar o reconhecimento do OCA racista de Fahd, e dar aos países membros a escolha de parar de utilizar o esporte como arma política contra outros países ou ficar fora do movimento olímpico. Não surpreende muito que o COI, dirigido por um homem que tolerou a discriminação contra Israel nos Jogos Mediterrâneos, estivesse preparado para tolerar o OCA, cuja razão para existir era excluir Israel do esporte mundial. Quando o COI reconheceu o OCA em 1983, deram um aviso ao mundo: Os princípios olímpicos podem ser abandonados quando o candidato é multibilionário. 11 AS PEDRAS NA BOTA Cada Olimpíada tem seu slogan. Em 1988, para Seul, a escolha recaiu em "Harmonia e Progresso", uma frase muito ao gosto do líder militar Chun Doo Hwan. Quando Seul foi escolhida para sediar os Jogos, ele anunciou que o papel das Olimpíadas seria o de "restaurar a ordem". Na Coréia isso significa gás lacrimogêneo, cassetetes de borracha e tiros. Os militares aplicaram a receita amplamente, nos sete anos dedicados à organização dos Jogos de Seul — o evento que o presidente Samaranch diz "unir as pessoas em paz, para o benefício da humanidade". Os coreanos tinham um segundo slogan: "O mundo em Seul, e Seul no mundo". Ou seja, "vamos aos negócios". Cada Olimpíada tem seu mascote. Seul escolheu o tigre, um animal nobre transformado em brinquedinho de pelúcia com um boné alpino incompreensível. Cada Olimpíada possui um emblema oficial. Em Seul "modificou-se" um tradicional símbolo coreano. O original representava a harmonia entre homem, céu e terra, no universo. Os especialistas em relações públicas o refizeram, para indicar "o progresso por intermédio da compreensão e da paz". A paz é uma palavra popular nos discursos esportivos, embora não se registre nenhuma guerra evitada, nem nações aproximadas permanentemente pêlos Jogos. Quando a tocha olímpica se apagou, os Jogos de Seul foram declarados um "tremendo sucesso", uma volta ao "ideal olímpico". Os Jogos de Seul nasceram com o desejo da junta militar de melhorar sua imagem de brutalidade e abrir novos mercados para a dinâmica economia do país. Os coreanos tiveram a sorte de disputar a indicação numa época em que poucas cidades queriam correr o risco de boicote ou falência. Ganharam graças a erros dos rivais, votos conseguidos por Dassler e a capacidade política invejável do Dr. Un Yong Kim. O Dr. Kim, um advogado empresarial quieto, troncudo, é exatamente o que parece: alguém capaz de matar com as mãos nuas. Atualmente o Dr. Kim, membro destacado do Clube, senta-se à direita de Samaranch, como candidato a herdar o cargo de presidente em Lausanne. O Dr. Kim não faz segredo de seu passado. Admitiu ter dirigido as forças de segurança da presidência. Esta unidade protegia o presidente Park Chung Hee, que governou o país com muita brutalidade e nenhuma democracia, durante quase vinte anos. Foi assassinado em 1979, quando o Dr. Kim já trafegava em esferas mais altas. Mais tarde, a profissão do Dr. Kim recebeu o nome de ' 'diretor geral do gabinete da Presidência". Ele estudou em três universidades norte-americanos, e foi enviado a Washington, para as Nações Unidas e Londres, como diplomata. Em 1973 fundou a Federação Mundial de Taekwondo, uma arte marcial ensinada a todos os escalões das forças armadas coreanas. Os recrutas aprendem a quebrar tijolos com um golpe da mão. O taekwondo recebe considerável apoio governamental na Coréia. Especula-se que o Dr. Kim, com sua mescla de inteligência considerável e destreza nas artes marciais, tenha sido e talvez ainda seja uma figura importante na CIA da Coréia. Em uma reunião do COI em Atlanta, em 1991, os organizadores ficaram surpresos quando o Dr. Kim ausentou-se para passar um dia em Fort | Benning, para "ficar com os colegas" do exército norte-americano. Conversamos com um ex-membro da CIA, Philip Liechty, que t; serviu na Coréia no final dos anos 1960.' 'É preciso levarem conta l o tipo de gente recrutada para a Força de Proteção Presidencial, a guarda pessoal do presidente Park", disse ele. "Naquele tem-| pó havia muitas tentativas de assassinato do presidente, cuidadosamente planejadas por grupos paramilitares, enviados da Coréia do Norte, e por isso ele se cercou de assassinos experientes. O ponto importante é que o homem encarregado de proteger o presidente num país assim precisa ter provado sua disposição de matar sem hesitação, para proteger o chefe, e ser capaz de fazer qual-H quer coisa que o presidente mandar. "Eles insistiam na lealdade absoluta ao presidente, recrutavam | gente sem idéias malucas de democracia ao estilo ocidental, capazes de dar a vida para proteger o presidente, cegamente obedientes, crentes que juravam estar fazendo o que era melhor para o país." Liechty, agente da CIA, também nos abriu os olhos para o papel do "esporte" chamado taekwondo. "Sei de muitas histórias, algumas de fontes confiáveis, indicando que a CIA usou, durante o governo Park, as escolas de taekwondo como base de operações e cobertura para agentes estrangeiros, particularmente aqui nos Estados Unidos. Houve um período em que alguns se envolveram, ao que consta, em seqüestros e remoção clandestina de estudantes coreanos que se opunham ao regime de Park, levando-os de volta para a Coréia. Há muitas evidências disso e operações similares, com envolvimento da KCIA, na década de 1970." Então, perguntamos, qual seria o papel do Dr. Kim no serviço secreto coreano? "Nunca tive contato com Kim, mas presumo que estivesse ligado às atividades da inteligência coreana", disse Liechty. "Como agente operacional, ou pelo menos na condição de amigo do pessoal da KCIA, cooptado para operações |; coreanas que procuravam exercer influência em áreas onde ele desempenhava funções internacionais. Baseando meu raciocínio das informações sobre seu passado na embaixada coreana nos Estados Unidos, em seus estudos nas universidades americanas, em seu papel de fundador da federação de taekwondo e em sua função na Força de Proteção Presidencial, eu diria que restam poucas dúvidas quanto a seu envolvimento, no passado, com atividades coreanas de inteligência no exterior. Esta é a forma mais branda que encontrei para definir minha opinião sobre seu possível passado na inteligência." O Dr. Kim tem credenciais únicas entre os organizadores de Seul. Foi o único coreano que conseguiu brilhar no cenário esportivo mundial. Associou-se a um empresário de Nova York, chamado Don Kalfin, dono da Sanshoe, importadora de calçados coreanos. Kalfin estava envolvido com um grupo da Cali- fórnia que pretendia realizar os Jogos Mundiais em 1981. Estes jogos seriam uma reunião de todos os esportes não-olímpicos, algumas pessoas acreditavam que Kalfin se considerava uma espécie de Dassler americano, misturando venda de calçados com política esportiva. Com apoio de Kalfin, o Dr. Kim tornou-se presidente dos Jogos Mundiais. Os jogos enfrentavam problemas de financiamento, e os organizadores se voltaram para Patrick Nally. "O dinheiro não estava entrando, e eu fui chamado para ver se podia ajudar. Foi muito difícil, porque estava em cima da hora, mas levantei mais de US$ 100 mil, e já deu para realizar os jogos. "O Dr. Kim era um sujeito muito misterioso naquele tempo. Ninguém sabia direito qual seu poder ou influência dentro da Coréia. Começamos a conversar bastante. Creio que ele percebeu que Kalfin e a Sanshoe não eram os únicos que poderiam apoiá-lo. Ansiava obviamente por um desempenho grandioso no mundo do esporte internacional. "Ele convidou um monte de dirigentes esportivos para ir a Seul nos anos 1970. Fazia parte do projeto de sediar as Olimpíadas. Eles precisavam convencer a comunidade esportiva internacional de sua capacidade de realizar os Jogos. Minha primeira visita foi surpreendente. Compareci ao ginásio do Dr. Kim em Seul, onde seus convidados assistiam a demonstrações impressionantes. Nunca tinha visto nada parecido em minha vida inteira de viagens. "Fui conduzido ao camarote VIP e acomodado em uma luxuosa poltrona bordada, para assistir os exercícios de taekwondo realizados por centenas de adolescentes e jovens coreanos. Jamais vira tanto movimento de tantos corpos em um só local, para uma platéia tão pequena." Em 1980 o Dr. Kim deu dois passos decisivos em sua carreira. O COI "reconheceu" o taekwondo, a mais agressiva e perigosa das artes marciais, e ele foi eleito para o conselho da Assembléia Geral das Federações Esportivas Internacionais — conhecida como GAISF. "Kim começou a conviver com os presi- dentes internacionais mais importantes, e a perceber as possibilidades oferecidas pelo sistema", disse Nally. "E por meu intermédio, conheceu Horst." A cidade favorita para sediar as Olimpíadas de 1988 era Nagoya, no Japão, apoiada pela poderosa fábrica de automóveis Toyota. Os japoneses já haviam realizado os jogos de verão e inverno com sucesso. As chances de Melbourne, Atenas e Seul não eram das melhores. A Coréia, considerada uma ditadura militar instável, vivia em constante risco de guerra com os vizinhos comunistas do norte. Dassler avaliou os candidatos, levando em conta os benefícios para sua pessoa. Melbourne e Atenas não conseguiram decolar, de modo que a disputa se concentrou em Nagoya e Seul, e Dassler decidiu para quem deveriam ir os votos. "Seul possuía atrativos muito maiores do que o Japão, por várias razões", explicou Nally. "Primeiro, Horst não controlava os japoneses. Eles eram muito independentes. Horst falou com eles sobre cooperação, mas a reunião não correu muito bem. Arrogantes, tinham certeza de que ficariam com os Jogos. "A Coréia era diferente. Dispostos a cooperar, também fabricavam os equipamentos esportivos e calçados de quase todo mundo. Boa parte da produção da Adidas saía de lá, e Dassler conhecia bem os coreanos. Politicamente, tratava-se de um país importante para ele. "A vitória de Seul sobre Nagoya foi uma vitória de Dassler, a seu modo de ver, porque provou a ele que sua equipe política, com o coronel Hamouda, Chowdhry e outros, poderia pesar na balança. Foi a primeira vez que Dassler pôde provar que seu apoio fora decisivo para a escolha da sede das Olimpíadas." Outro associado de Dassler nos contou: "Antes da decisão, Horst dizia a nós que Nagoya ganharia. Mas no último momento ele passou para o lado de Seul, e deve ter dito para as pessoas que os japoneses eram arrogantes e não podia ficar do lado deles." Quando a votação foi realizada em Baden-Baden, no final de 1981, teve um resultado arrasador: Seul arrasou Nagoya, com 52 votos a 27. Contudo, havia uma questão constrangedora, que precisava ser varrida para debaixo do tapete. Os coreanos não apenas fabricavam roupas e sapatos para todo mundo, por encomenda. Produziam quase o mesmo tanto ilegalmente. Eram vigaristas. A indústria de falsificação na Coréia despejava no mercado cerca de US$ 10 bilhões por ano em imitações. Howard Bruns, presidente da associação dos fabricantes de equipamentos esportivos dos Estados Unidos disse: "A pirataria das marcas mais conhecidas tornou-se altamente sofisticada na Coréia do Sul. Pode-se comprar etiquetas e rótulos de quase todas as marcas famosas do mundo." Ele recebeu o incentivo da federação mundial dos fabricantes de equipamentos esportivos, que denunciou a Coréia como o maior fabricante mundial de produtos falsificados. Não acharam graça quando os funcionários do governo coreano olharam em seus olhos e disseram: "Não existe falsificação aqui." A situação se complicava ainda mais porque os coreanos, sempre protecionistas em relação a seu mercado interno, queriam usar as Olimpíadas como uma gigantesca vitrine para seus pró-J dutos. Não pretendiam promover o maior festival esportivo do: mundo, para a maior audiência de televisão, e divulgar marcas estrangeiras. A federação de futebol da Coréia deu o sinal, proibindo seus atletas de usarem marcasestrangeiras. O órgão responsável pelo esporte no país, a Associação Coreana de Esportes, proclamou que "usar marcas estrangeiras é vergonhoso". Quando passou a euforia pela vitória na indicação, os coreanos se defrontaram com alguns fatos duros. Por mais que tivessem recebido ajuda externa para sediar os jogos, agora precisavam montar uma equipe capaz de organizar as Olimpíadas. Além de arranjar o dinheiro. O fato de uma sociedade ser controlada pêlos militares ajudava a tomar decisões rápidas. Infelizmente, rechear o comité organizador das Olimpíadas de Seul com militares foi um desastre. O Dr. Rim tinha idéias próprias quanto à composição do comité organizador ideal. Segundo ele, deveria reunir "burocratas, militares, policiais, agentes de inteligência, esportistas, jornalistas e radialistas, diplomatas e até mesmo empresários". Um ano depois da escolha de Seul, o COI começou a temer que esta reunião de gorilas, policiais e burocratas não estava à altura da tarefa. A liderança do SLOOC era periodicamente despedida, ou, para livrar a cara, transferida para cargos decorativos. Novos nomes surgiam e desapareciam, até que o COI não sabia mais quem se responsabilizava pelo evento. Felizmente, os escalões inferiores mostravam competência. Sua capacidade de desviar recur- sos do país garantiu a construção das instalações. Os coreanos calcularam que os custos seriam repostos pelo mundo agradecido, ansioso para inundar o país com pagamentos maciços das televisões. As três grandes redes norte-americanas — ABC, NBC e CBS — ficaram em estado de choque quando os coreanos anunciaram que o preço pêlos direitos televisivos ; para os Estados Unidos seria de US$ l bilhão. Isso representava mais de quatro vezes o valor pago (US$ 225 milhões) pêlos jogos anteriores, em Los Angeles. 'Tradicionalmente, os jogos de verão valiam cerca de duas vezes e meia os de inverno", disse um consultor dos coreanos. "Depois de Calgary, onde a ABC pagou US$ 300 milhões, os coreanos chegaram ao valor de US$ 700 milhões. Nos escalões superiores o total subiu, tornando-se não uma possibilidade, mas uma probabilidade. Depois virou uma meta, e finalmente o único valor aceitável. Eles criaram a desenvolveram esta expectativa irreal, ignorando totalmente quaisquer considerações sobre o mercado e a situação da televisão norte-americana naquele período." Os executivos da televisão americana disseram publicamente que as exigências de Seul estavam "completamente fora da realidade". Quando os coreanos abaixaram a cifra em US$ 300 milhões, um executivo da NBC comentou secamente: "Não há como se chegar a um total de US$ 700 milhões, após os cálculos financeiros". O vice-presidente do COI, Dick Pound, participante da equipe de negociações de Lausanne, declarou: "Os problemas eram graves, porque os coreanos superestimaram o valor dos direitos, e criaram uma expectativa impossível de ser realizada. "A isso somou-se a suspeita, quando se depararam com números muito menores do que o esperado, de terem sido enganados pêlos americanos por serem coreanos. Talvez o gigantes pisassem neles porque não passavam de um pequeno país asiático, sem noção da capacidade do mercado. "O terceiro problema estava na despesa excessiva da ABC na cobertura em Calgary, o que deixou a rede praticamente de fora. A CBS não entrava no esquema de transmissão das Olimpíadas desde Roma, em 1960, e sua cultura corporativa impedia que pagassem muito por direitos, embora estivessem no mês- • mo ramo das outra duas redes." Mas os coreanos não deram atenção aos argumentos dos norte- j americanos. Quando informados que cada rede tinha um orça-,:] mento anual de apenas US$ 2 bilhões, os coreanos continuaram suspeitando de trapaça. Um dos negociadores americanos declarou: "Os coreanos surgiam com números insanos. Eles chegavam e diziam que era o valor calculado, a NBC ofereceu US$ 325 milhões e participação na receita. A ABC e CBS ofereceram US$ 300 milhões. Os coreanos ficaram atônitos com estas propostas, e foi aí que descobrimos que a equipe de negociação deles não tinha nem liberdade para negociar. "Eles vieram de Seul com instruções para aceitar qualquer valor acima de US$ 500 milhões. Estávamos sentados à mesa de reuniões em Lausanne, e eles não podiam fazer nada, precisavam esperar horas até que amanhecesse na Coréia, para telefonar e pedir novas instruções. O Dr. Kim compareceu, mas não disse nada. Ficou sentado na poltrona, dormindo. Era um bando de inúteis fazendo nada." Finalmente Samaranch entrou em contato com o governo coreano e insistiu para que aceitassem a oferta de US$ 325 milhões da NBC. Relutantes, concordaram. Quando voltaram a se reunir, a NBC retirou a proposta. A consternação tomou conta do COI. Eles estavam ansiosos para aceitar o lance da NBC. Samaranch temia que a ambição coreana atrapalhasse o bom relacionamento com as redes americanas. Ele saiu do Château de Vidy, em Lausanne, para anunciar: "No que diz respeito ao comité organizador, o relaciona- mento com as companhias de televisão termina com os Jogos. Para o COI, este relacionamento continua, e sempre dependeremos da boa vontade delas. O COI não tem interesse em elevar os preços até o infinito." O recado de Lausanne a Nova York era claro: o COI estava puxando o tapete dos coreanos. Quando o recado chegou ao governo coreano em Seul, eles r puxaram o tapete da equipe de negociações. O ministro de esportes foi chamado de volta a Seul, e o Dr. Un Yong Kim promovido à condição de principal interlocutor. Ele havia aprendido com os mestres. "Eu tinha um escritório Japão, e o Dr. Kim observava enquanto eu e meus cole-; fechávamos acordos com a televisão", contou Patrick Nally. "Ele acompanhava as vendas de direitos, e está na cara que aprendeu rápido. Começou puro e inocente, e tornou-se, de repente, o negociador - chefe do SLOOC. Era esperto, assimilou o que ensinamos. Frio, calculista e competente, aproveitava cada vantagem disponível." Dick Pound, líder das negociações do COI, lembra-se de que a última etapa de negociações com a televisão foi intransigente e mal-humorado. "Os detalhes dos contratos eram minuciosos. A NBC queria garantias de recuperar todo o dinheiro que gastariam antes dos Jogos, se algo saísse errado. Insistiam que as garantias oferecidas pelo Banco Central da Coréia não eram suficientes — queriam uma carta de crédito que fosse aceita por um consórcio de bancos norte- americanos. "Tudo que diziam insultava os coreanos, e as negociações levaram meses. Não sabíamos, na tarde em que partimos para assinar o contrato em Lausanne, se haveria acordo. Foi assim, difícil". Eles selaram o trato com um mínimo de US$ 300 milhões, US$ 25milhões a menos do que os coreanos recusaram antes. Para salvar as aparências em Seul, a NBC ofereceu uma porcentagem nos lucros que poderia elevar os pagamentos a US$ 500 milhões — mas todos sabiam que isso jamais aconteceria. O poder real, atrás da equipe organizadora coreana, estava agora com o Dr. Kim. Ostentava o título de vice-presidente, mas todos os assuntos importantes passavam por ele. Depois de concluir as negociações com a televisão norte- americana, vendeu os direitos para o resto do mundo. Foi nomeado chefe de relações internacionais, chefe do protocolo e finalmente convidado a controlar a organização dos eventos esportivos. O Dr. Kim se transformara no centro dos Jogos. Sua ambição era maior ainda. Queria entrar para o Clube. "Qualquer que fosse o assunto, ele dizia sim para todos, para ser convidado a participar do COI", disse um membro. Em novembro de 1985 abriu-se uma vaga no COI. O representante da Coréia, Chong Kyu Park, morreu de câncer, e menos de um anos depois o Dr. Kim prestava o juramento olímpico em Lausanne. Passaram-se mais nove dias e ele se elegeu presidente do GAISF. Uma ascensão notável no mundo dos esportes. A admissão do Dr. Kim no Clube aconteceu num clima de guerra civil. Em 1987 o clima na Coréiaera similar ao das Filipinas, onde o "poder popular" derrubou a corrupta ditadura de Ferdinand Marcos. Em Seul e nas principais cidades coreanas, a classe média, as donas de casa, os trabalhadores e os estu- dantes saíram às ruas para exigir eleições livres e o final do governo autoritário do presidente Chun. No início do ano ele anunciara que não haveria reformas constitucionais antes do final dos Jogos. Os protestos de rua transformaram-se em combates. Chun foi forçado a renunciar, a presidência foi reivindicada por seu braço direito, Roh Tae Woo, o padrinho dos Jogos. Ele liderara a campanha coreana, e presidira o comité organizador. No final do ano elegeu-se presidente. Os norte-coreanos ficaram furiosos quando Seul ganhou a indicação para sediar os Jogos. Tentaram arrastar os países comunistas a um boicote, como gesto de solidariedade. Os Jogos de 1988 corriam perigo? Samaranch entrou em ação. O diplomata amador, que conviveu constrangido com os profissionais de Moscou, tentaria conferir alguma substância ao título de V. Excia., que o COI sempre colocava antes de seu nome. De 1985 até a véspera das Olimpíadas, três anos depois, Samaranch dedicou-se a jogadas diplomáticas intermináveis, pulando de uma capital comunista para outra, visitando Pyongyang regularmente e recebendo delegações da Coréia do Sul e do Norte na residência oficial de Lausanne. Reportagens emocionantes surgiram em várias partes do mundo, sugerindo que Samaranch era um super-diplomata, lutando para salvar as Olimpíadas da destruição. Superficialmente, parecia uma cruzada contra o mundo real da política do poder. Mesmo comentaristas famosos, que deveriam saber das coisas, elogiaram a capacidade política de Samaranch. Tratava-se de uma charada. Os russos e alemães orientais emitiram sinais de solidariedade, mas de jeito nenhum ficariam de fora de mais uma Olimpíada. O boicote norte-americano reduzira a competição de Moscou ao Bloco Leste, e os comunistas ficaram em casa em 1984. Se não fossem a Seul, seus atletas es- tariam fora das Olimpíadas por doze anos. Não poderiam permitir que dezesseis anos se passassem — de Montreal a Barcelona — antes de enfrentar os americanos novamente. Um boicote era impensável. Gerações de jovens estrelas surgiriam e desapareceriam antes que o Bloco Leste pudesse se apresentar na Espanha, em 1992. A moral nos campos de treinamento seria seriamente abalada, e a valiosa propaganda derivada dos montes de medalhas perdidas. Por mais que os países comunistas mais poderosos odiassem o regime militar de extrema direita de Seul, não fariam mais do que se solidarizar simbolicamente com a ditadura absolutista de Kim II Sung na Coréia do Norte. Mais importante de tudo, agora o poder do Kremlin se encontrava com Gorbachev. A perestroika e a glasnost entraram para o vocabulário ocidental, enquanto Gorbachev se dedicava a afastar a velha guarda. A URSS se dedicava à construção de vínculos sólidos com o Ocidente. O único incidente preocupante, capaz de prejudicar os Jogos de Seul, foi a derrubada de um jato de passageiros coreano pela Rússia, em 1983, quando sobrevoava o espaço aéreo soviético. Duzentas e sessenta e nove pessoas morreram, em sua maioria coreanos. Horst Dassler, num esforço para acalmar os ânimos e o pesar, promoveu um jantar particular em Beverly Hills, durante os Jogos de Los Angeles, com a presença dos dois representantes russos no CO! e o presidente Roh, do SLOOC. A imagem belicosa da Coréia do Norte causou preocupações legítimas quanto à segurança dos Jogos. Em novembro de 1987 um terrorista norte- coreano colocou uma bomba num avião da Korean Airlines, no vôo Bagdá-Seul, e 115 pessoas morreram na explosão. O público norte-americano ficou chocado. Os telefones começaram a tocar no Departamento de Estado, e os pais angustiados dos atletas selecionados para ir a Seul perguntaram o que Tio Sam faria para protegê-los. Clayton McManaway, na época trabalhando com contra-terrorismo no Departamento de Estado, declarou: "Preparamos instruções especiais da Agência de Segurança Diplomática para todos os atletas norte-americanos, antes que partissem para a Coréia. Depois meu setor coordenou o apoio governamental americano à segurança coreana nas Olimpíadas." McManaway pouco depois deixou o Departamento de Estado, para trabalhar em uma das mais discretas companhias particulares de segurança do mundo, o Fairfax Group, sediado na Virgínia do Norte, do outro lado do Potomac, em frente a Washington. A empresa foi contratada pela NBC para proteger os vários grupos de repórteres, técnicos e equipamentos em Seul. Um ex-agente do FBI, David Faulkner, também funcionário da Fairfax, disse: "Depois da bomba no avião, estávamos quase certos de que os norte- coreanos tinham outros atentados planejados, mas ele foram pegos antes, e não podiam atacar. A maioria dos envolvidos com a segurança concluiu isso." O maior problema para as equipes da NBC era conseguir realizar seu trabalho. Seul encontra-se cercada de instalações militares, e isso provocava dores de cabeça para os câmeras. "Queríamos uma câmera bem no alto", contou Faulkner. "Mas se a focalizássemos no local errado, pegaríamos algo que não po- dia ser visto. Por isso, os coreanos puseram soldados armados no alto do prédio, para garantir que a câmera se movesse somente o previsto. Eles mantinham o pessoal da NBC sob a mira de armas, e em uma ocasião ameaçaram atirar!" Nunca houve um perigo real de sabotagem dos Jogos por parte dos norte- coreanos, depois de seu início. Milhares de camaradas seus do Bloco Leste encontravam-se em Seul, como competidores ou dirigentes, e seriam vítimas prováveis dos ataques terroristas. O governo dos Estados Unidos organizou três exercícios militares ostensivos, e encheu o mar em torno da Coréia de navios de guerra. Era um sinal óbvio para a Coréia do Norte não tentar nada. Conforme os Jogos se aproximavam, os norte-americanos ficaram preocupados com a possibilidade de uma missão terrorista de Pyongyang. A milhares de quilômetros de distância, no Quênia, a CIA correu um risco considerável para persuadir um agente da inteligência norte-coreana a desertar na véspera dos Jogos. Eles queriam saber se havia algum plano de sabotagem em curso. As autoridades sul-coreanas não deixaram nada por conta do acaso. Usaram os Jogos Asiáticos de Seul, em 1986, como ensaio para as Olimpíadas. A polícia prendeu um número assustador de pessoas, 263.564, durante a disputa. Explicaram que isso fazia parte de um "programa de purificação social". O exercício se repetiu na véspera das Olimpíadas, e milhares de dissidentes foram encarcerados em campos fora de Seul. Sem dúvida explicaram a eles que a detenção era parte da "Harmonia e Progresso". No que dizia respeito às medalhas de ouro, os organizadores de Seul se dedicaram ao progresso, em detrimento da harmonia. Dezoito meses antes dos Jogos, o ministro dos esportes da Coréia divulgou um relatório governamental afirmando que a nação sede ganharia mais de uma dúzia de medalhas de ouro — inclusive três no boxe. Depois que uma promessa temerária dessas foi feita, fi- caria muito chato não ganhar as medalhas. A previsão do sucesso da Coréia no boxe não se baseava só no otimismo. O trabalho de base feito nos dois anos anteriores às Olimpíadas teve pouco a ver com os ringues. O resultado seria a cena mais vergonhosa transmitida pela televisão durante os Jogos, seguida de embaraço para o país sede e manchetes sobre corrupção. Desde 1986 o boxe amador era presidido pelo professor Anwar Chowdhry, do Paquistão, antes membro muito bem-remunerado da equipe política de Horst Dassler. Durante anos o boxe amador realizou reuniões graças à cortesia da Adidas na base francesa de Dassler em Landersheim. A Adidas era fornecedora oficial dos lutadores em Seul, e houve um escândalo ao lado do ringue quando um lutador surgiu na frente das câmeras usando uniforme fornecido por um concorrente.O professor Chowdhry não costuma mencionar suas ligações passadas com a Adidas. Em um perfil recente, divulgado pela revista de sua federação, com milhares de palavras, não se fez menção aos anos de pagamentos recebidos feitos pelo fabricante alemão de material esportivo. Chowdhry foi eleito para a presidência no congresso anual da federação em Bangkok, em novembro de 1986. No mesmo congresso, Seung-Youn Kim, da Coréia do Sul, elegeu-se vice-presidente para a Ásia. Kim, que comandava o comité de finanças da federação, tem a fama de ser um dos homens mais ricos do mundo. É conhecido internacionalmente por seu apelido, "Dinamite", por causa do pai, fabricante de munições. Kim — que não é parente do Dr. Un Yong Kim — presidia a Federação Coreana de Boxe Amador desde 1982, e ficou encarregado do boxe nas Olimpíadas. No período anterior aos Jogos, os coreanos tentaram subornar os juizes olímpicos. Um dos maiores problemas do boxe amador é garantir que os juizes sejam capazes de atuar corretamente na luta. Os juizes e árbitros potenciais das Olimpíadas foram convidados para um seminário em março de 1988 em Seul. Um membro da federação, presente ao seminário, contou: "Todos foram recebidos com pompa, ganharam pilhas de presentes e visitaram casas noturnas. Qualquer juiz do torneio poderia pedir o que quisesse. Alguns dirigentes se preocuparam muito, porque quando voltassem para julgar as Olimpíadas, os coreanos obviamente pediriam a contrapartida." Um juiz, o neozelandês Keith Walker, que mais tarde ocuparia as manchetes dos jornais, comentou que o nível dos presentes era "fenomenal". A cena que muitos telespectadores ainda se recordam aconteceu durante a luta entre os pesos-galo Jong-il Byun da Coréia e Alexander Hristov da Bulgária. O árbitro Keith Walker advertiu o coreano duas vezes, por usar a cabeça de modo perigoso, mas mesmo assim alguns observadores acreditam que ele foi muito complacente. Depois de três rounds os juizes declararam a vitória de Hristov por 4 a l. Todos os especialistas consideraram o resultado justo. Mas os torcedores coreanos viram que mais uma esperança de medalha de ouro se perdera. O ginásio de Chamsil pegou fogo. O técnico da Coréia e outro dirigente entraram no ringue e começaram a espancar o árbitro. Receberam reforço de pessoas que puxaram os cabelos de Walker. Ele conseguiu escapar, foi para o aeroporto e pegou o primeiro avião para a Nova Zelândia, os coreanos derrotados promoveram um protesto, permanecendo no ringue por 67 minutos. As imagens do perdedor inconformado correram o mundo. A Coréia ficou numa situação ainda pior. David Faulkner, que cuidava da segurança dos comentaristas da NBC, contou: "A NBC repetiu a cena várias vezes, e os coreanos diziam que não tinha acontecido nada. Precisamos reforçar a segurança dos comentaristas da NBC nas lutas seguintes, porque a multidão tentou intimidá-los." O professor Chowdhry teve de admitir que se tratava "do incidente mais lamentável" que já vira. Veria algo pior, antes do final do torneio. Para aplacar a fúria da imprensa, foi anunciada a renúncia do presidente do boxe coreano, Seung-Youn Kim. As câmeras de televisão dedicaram-se a outros temas, mas os escândalos do boxe não pararam. No dia seguinte o peso meio-médio norte-americano Todd Foster derrubou o coreano Jin-chul Chung e concluiu que ganhara a luta. Chung disse que havia parado de lutar porque ouvira o gongo no ringue adjacente e se confundira. Os dirigentes do boxe determinaram imediatamente a anulação da luta, para irritação dos norte-americanos. Na revanche do dia seguinte Chung foi nocauteado no segundo round. O desespero começou a tomar conta da cena quando o peso pesado iugoslavo Havrovic perdeu do oponente coreano. Segundo os especialistas, o iugoslavo ganhou os três assaltos. A cena que conta melhor a história real do boxe em Seul ocorreu na última noite do torneio. Mostrava o médio-ligeiro coreano Park Si Hun, ganhador da medalha de ouro, levantando o homem que acabara de derrotar no ar, o norte- americano Roy Jones. Os dois lutadores foram vítimas de um dos piores exemplos de trapaça já vistos nas Olimpíadas. Antes das finais, Park derrotara o italiano Vincenzo Nardieüo. A decisão surpreendeu muitos observadores, que davam como certa a derrota de Park. Nardiel-lo bateu o pé na lona com raiva quando o veredito de 3 a 2 foi anunciado. O pior ainda viria. Na final Jones bateu em Park durante os três rounds. No segundo o coreano foi forçado a esperar a contagem até oito. No final da luta, o computador da NBC acusou 86 socos acertados por Jones, contra apenas 32 de Park. Os juizes russos e húngaros deram a medalha de ouro a Jones por diferenças enormes. Mas Jones perdeu. Os outros três juizes fizeram o oposto. O técnico norte-americano Ken Adams correu até a mesa do presidente e gritou para Chowdhry: "Eu não acredito. Você não vai ter coragem de dar a vitória ao coreano!" Chowdhry nem olhou para cima. O juiz britânico Rod Robertson, que assistia a luta, chamou o resultado de "desastroso". O alemão ocidental Heinz Birkle classificou o resultado de "criminoso", e o escocês Frank Hendry ficou "chocado". O presidente do boxe coreano considerou a planilha dos juizes "justa". Dirigentes dos dois países, inclusive alguns da Coréia, alegaram que os três juizes teriam sido subornados. A imprensa mundial encampou a denúncia. Usaram palavras como "fedor" e "corruptos". Park, medalha de ouro, afirmou que se envergonhava da vitória, e ergueu Jones no ar para deixar claro quem era o vencedor, em sua opinião. Em benefício da nação anfitriã, vale lembrar que 50 mil pessoas telefonaram para a emissora de televisão local protestando contra a vitória do coreano. Os três juizes favoráveis a Park, Larbi do Marrocos, Duran do Uruguai e Kasule de Uganda deram desculpas. Alegaram que se todos votassem a favor de Jones, o veredito unânime poderia provocar tumultos. Ninguém acreditou neles. Talvez tenha sido a única ocasião, na controversa história do boxe, que lutadores, imprensa mundial e um bilhão ou mais de telespectadores concordaram que os juizes estavam errados. Um dirigente chamou jornalistas de lado e disse que precisavam entender a posição do juiz Larbi, do Marrocos. O resultado foram combinado antes, e Larbi, um professor primário, nunca mais trabalharia se deixasse de dar a vitória ao coreano. Chowdhry, ignorando as críticas universais, continuou escalando os três juizes para as finais olímpicas restantes. No ano seguinte a federação internacional de boxe reuniu-se em Nairobi. Em pauta, a questão dos procedimentos a adotar em relação aos três juizes que quase conseguiram expulsar o boxe das Olimpíadas. Os árbitros da federação e a comissão de julgamento decidiu que os três deveriam ser banidos para sempre. Eles se prepararam para levar tal ponto de vista ao presidente Chowdhry. O presidente ficou sabendo disso antes. Um de seus assessores diretos contatou um membro da comissão e disse: "O presidente acredita que a decisão não deve ser anunciada. Prefere realizar outra reunião primeiro." E outras reuniões ocorreram. Finalmente, os três juizes foram suspensos por dois anos, e mais da metade deste período já transcorrera. Em 1989, o desacreditado Larbi surgiu em um torneio de Moscou, como técnico da equipe marroquina. Todas as exigências de uma investigação dos escândalos de Seul foram ignoradas pelo presidente Chowdhry. Tentando recuperar a imagem danificada na mídia mundial, um velho amigo de Chowdhry, seu colega na equipe política de Dassler, foi chamado para melhorar a imagem do boxe amador: o coronel Hassine Hamouda. Chowdhry proclamou: "Temos condições de aperfeiçoar o sistema, tornando-o imune a bobagens." Mas ninguém falou que os juizes eram bobos. O presidente do boxe coreano, Sy Kim, renunciou ao cargo, mas apenas por um ano. Depois apareceu em Moscou, foi efusivamente saudado por Chowdhry, e continua sendo o vice-presidenteda federação de boxe para a Ásia, Samaranch fez críticas veladas ao boxe, logo depois de Seul, mas o esporte permaneceu na agenda de Barcelona porque os telespectadores norte- americanos desejam ver seus boxeadores no ringue. As Olimpíadas perderiam muitos dólares se o boxe fosse banido. Após o encerramento das Olimpíadas de Seul, os coreanos começaram as rodadas de agradecimentos aos que ajudaram a tornar os jogos um "tremendo sucesso". Prepararam uma lista especial de pessoas que receberiam presentes. No topo, os membros do COI e suas esposas. Depois vinham os presidentes das federações internacionais, dirigentes e juizes. No final, os atletas. O valor dos presentes era de US$1.100 no topo e US$110 no fim da lista. Os organizadores de Seul sabiam quem realmente mandava nas Olimpíadas. A conta total chegou a US$ 4,5 milhões. Horst Dassler, o nome mais merecedor de agradecimentos, morrera no ano anterior aos jogos. O presidente Roh, responsável pelo projeto de levar os Jogos para a Coréia, convidou Suzanne e Adi, filhos de Dassler, para ir a Seul receber seu agradecimento pessoal. Roh conferiu a Dassler a Ordem do Mérito da Coréia, em caráter póstumo. A confidente de Dassler, Huguette Clegironnet, também se encontrou com Roh. Na sessão do COI em Birmingham, em 1991, conversamos rapidamente com o Dr. Un Yong Kim. Perguntamos sobre seu envolvimento com Dassler. "Não fiz muitos negócios com Dassler, só sei que ele se destacava pelo apoio dado ao movimento olímpico", insistiu o Dr. Kim. "Não o conheci pessoalmente. Não tivemos negócios diretos." Ao encerrar a entrevista, ele desfiou a ladainha olímpica, concentrada em uma única frase: "As Olimpíadas são o maior festival da humanidade, onde a juventude se reúne pela paz e fraternidade mundial. "O Dr. Kim participou do comité de Seul em Baden-Baden, trabalhou com Dassler para levar as Olimpíadas à Coréia, e acabou conseguindo entrar para o COI", afirmou Patrick Nally. "Kim era um dos poucos que considerávamos politicamente astuto, e via exatamente o que se poderia obter. Mas Kim não era um prodígio criado por Dassler, como Nebiolo, Havelange ou Samaranch. Ele fazia acordos com Dassler, mas para ser justo com Kim, ele aprendia muito depressa, e saiu da obscuridade, entrando para o COI em tempo recorde. "Acredito que ele seja uma mistura de lutador com espião", declarou um membro do COI. "Dizem que dirigiu a CIA na Coréia. Certamente foi treinado por eles. É muito misterioso e ambicioso. Montou o esquema do taekwondo, totalmente financiado pelo governo coreano, esta era sua tarefa. Ele é tudo que se pode temer de uma pessoa daquela parte do mundo, em posição de poder." O Dr. Kim se destaca hoje como possível sucessor de Samaranch para o cargo de presidente olímpico. Seria uma escolha apropriada. Como o espanhol, ele fez carreira em um estado totalitário que assassinava dissidentes como rotina, e usou o esporte para melhorar sua imagem deteriorada. Ambos sobreviveram à democracia em seus países, e se afastaram de suas origens para se concentrar no cenário esportivo internacional. Vale perguntar se uma pessoa como o Dr. Kim, com tal passado, deveria fazer parte do COI, para começar. Ele sem dúvida ficaria ofendido com a questão. Afinal de contas, seu predecessor no COI, Chong Kyu Park, conhecido como Park Pistola, por ser também vice-presidente da união internacional de tiro, teve a mesma origem. Park Pistola foi chefe de Kim na Força de Proteção Presidencial, e presidente do comité olímpico nacional coreano, mas precisou renunciar por "motivos políticos", depois do assassinato do presidente em 1979. "Park era totalmente leal ao presidente", disse o antigo agente da CIA Philip Liechty. "Era perigoso, mortífero. O Assassino Número Um da Coréia." Park Pistola foi nomeado para o COI pelo presidente Samaranch. Estranhos caminhos levam ao COI. 12 VINTE MILHÕES DE DÓLARES Esta é a história secreta de como os Jogos Olímpicos de Seul quase foram destruídos antes da chegada da tocha olímpica. A ameaça não partiu dos terroristas norte-coreanos, nem de boicote comunista, e sim de um dos mais destacados membros do Clube. Ele ameaçou os jogos de 1988 e pressionou os coreanos até deixá-los de joelhos. Depois aceitou que o subornassem com de- zenas de milhões de dólares. As longas e desgastantes negociações para venda dos direitos televisivos para as redes norte-americanas ocultavam um drama. A trama se desenrolou em torno das finais dos esportes decisivos em Seul. Os ingredientes eram os horários e o personagem principal, o atletismo. O ponto culminante das Olimpíadas ocorre nas finais, quando as medalhas de ouro são conquistadas. Aí o mundo liga a televisão. Tradicionalmente, as finais dos esportes olímpicos mais populares se realizam no final da tarde. Em Seul, isso criava um problema. Em função da diferença horária entre Seul e Nova York, as finais à tarde iriam ao ar "ao vivo" no Estados Unidos no final da noite e início da madrugada. Seria a ruína financeira. Se as finais não fossem antecipadas em algumas horas, a audiência nos Estados Unidos cairia muito. Os Jogos teriam pouco apelo para os anunciantes. As Olimpíadas seriam vendidas a preço de banana. Finais à meia-noite — ou reprises no dia seguinte — significavam uma queda vertiginosa no valor dos Jogos. As redes americanas queriam as finais no início da tarde, em Seul. Assim entrariam no horário nobre, garantindo o retorno em propaganda. A decisão de mudar o horário das finais só poderia ser tomada por cada federação internacional. Elas planejavam os eventos dentro da estrutura global dos jogos. A federação-chave, responsável pelo maior número de horas de transmissão, era sem dúvida a de atletismo. Um membro do Clube, Dr. Primo Nebiolo, presidia truculento. Tinha consciência de controlar uma mercadoria que os coreanos, o comité olímpico e as redes desejavam mais do que tudo. A federação de atletismo programou as finais para o final da tarde, por volta das 5, hora de Seul. Nebiolo deixou claro que não incomodaria seus atletas com alterações de horário. Depois sentou e esperou. No outono de 1984 Samaranch convocou Nebiolo para uma reunião em Lausanne. Precisavam conversar sobre o horário das finais. Como poderia persuadir Nebiolo a mudar o programa? Nebiolo disse a Samaranch que aceitaria antecipar as finais para a hora do almoço, desde que recebesse uma parcela maior dos direitos de televisão do COI. Samaranch fincou e pé e disse que não. Previa protestos furiosos das outras federações, se Nebiolo fosse atendido. Então Nebiolo exigiu negociar separadamente com as redes. Samaranch impediu isso também. Os coreanos foram chamados de volta à mesa de negociação, e várias federações aceitaram as alterações propostas. Algumas pediram uma compensação modesta — até um teto de US$ 200 mil, segundo informações — e os coreanos concordaram em pagar. No momento em que os coreanos aceitaram resolver o problema usando dinheiro, e não as redes ou o COI, Nebiolo viu a chance de dar o golpe de sua vida. Seu esporte agora detinha a chave para o sucesso ou o colapso dos Jogos. Os coreanos estavam vulneráveis, e quanto mais Nebiolo adiasse a solução, mais maleáveis eles se tornariam. O conselho do atletismo reuniu-se em Camberra, em outubro de 1984, e Nebiolo o convenceu a ficar firme. Tinham o direito de manter as finais às 5 horas da tarde, e não haveria concessões. Os coreanos seguiram para Camberra com o objetivo de fazer lobby no IAAF. Mas seu estilo era abrasivo, e estavam nas mãos de Nebiolo. A equipe coreana saiu da Austrália sabendo que o valor dos Jogos na televisão sofria uma hemorragia. O jogo de pôquer prosseguiu até 1985. Para manter o cronograma das preparações, os coreanos foram forçados a se comprometer com gastos cada vez maiores, sem saber se recuperariam o dinheiro com a venda dos direitos de televisão. O COI parecia incapaz de lidar com o problema. A Review publicouum texto dizendo que as redes se dispunham a "dobrar os valores pagos aos organizadores se as finais dos esportes olímpicos mais importantes se realizassem de manhã". Na realidade, os valores cairiam para a metade se as federações não alterassem os horários. Os coreanos argumentaram, desesperados, que a temperatura e a umidade aconselhavam a transferências das finais para o período da manhã. Nebiolo entrou empena, apertando o cerco contra Seul, com uma entrevista na Review. Disse que consultara os líderes mundiais do atletismo, e eles preferiam não mudar os horários. E completou: "Finais de manhã não permitem que os atletas atinjam o máximo de seu potencial. E sempre nos pautamos pelo interesse dos atletas." Em março e abril e 1985 as redes pressionaram os coreanos mais ainda. Os executivos declararam na imprensa de Nova York que as transmissões das Olimpíadas, realizadas em setembro, coincidiriam com os campeonatos de futebol universitário, de basquetebol e a estréia dos programas líderes de audiência, pro- gramados para o outono. A Advertising Age registrou que os coreanos, tendo desistido de pedir US$ l bilhão, ainda queriam US$ 500 milhões por "videoteipes e programas na madrugada". Um comentarista escreveu que "em setembro as pessoas mandam os filhos de volta à escola, e se divertem vendo o final das World Series de beise- bol, o início do campeonato de futebol e as emoções da nova programação." Tentavam diminuir a importância dos Jogos. As redes sabiam que as especulações publicadas em Nova York seriam lidas em Seul no dia seguinte. Mais pressão. No final de março Samaranch lavou as mãos. "A questão dos horários de competição em Seul devem ser decididas entre o comité organizador e as federações internacionais. O fato de cada federação ser livre para negociar os horários tornou mais fácil resolver o problema das finais pela manhã." Era um sinal claro para Nebiolo fazer o que quisesse — desde que as finais aconte- cessem. Nebiolo conduziu sua tática de forma brilhante. Os coreanos estavam quase de joelhos. Agora era a hora da Corrida do Ouro. Ele se acomodou em Roma e esperou que os coreanos agissem, tentando um acordo. Houve várias reuniões entre a IAAF e os coreanos. A imprensa recebia informações regulares sobre a feita de progresso. Depois aconteceu a reunião que jamais foi divulgada. Uma pessoa presente relatou o momento crucial, quando as cartas foram postas na mesa. ' De acordo com esta fonte, um negociador coreano, percebendo finalmente o calibre de seu oponente, perguntou desesperado: "O que quer para mudar o horário das finais?" Era hora de atacar. Estavam de joelhos. Os olhos de Nebiolo se ergueram, e ele disse sucinto: "Vinte milhões de dólares." Os coreanos caíram de costas. Mas um cheque de US$ 20 milhões a Nebiolo os poria de volta na negociação de muitos milhões com a NBC. Era um investimento. Eles concordaram em levantar o dinheiro. Nebiolo tinha planos grandiosos para os US$ 20 milhões. Se conseguisse manter a verba longe da IAAF, poderia administrar uma fortuna, e seus poderes de patrocínio cresceriam enormemente. Os organizadores de Seul persuadiram uma companhia de material esportivo coreana a assinar um contrato de patrocínio com a federação atlética, A empresa concordou em assinar o cheque de US$ 20 milhões, cinco a mais do que a Visa pagara pelo patrocínio exclusivo total da Olimpíada no mundo inteiro. O cheque foi depositado em uma conta no banco de Monte Cario. Monte Cario tornara-se um centro de intrigas da política esportiva, desde que Dassler e Nally ali se instalaram, na década anterior. A família real Grimaldi era grata pêlos negócios atraídos por Dassler, pela associação internacional das federações esportivas e pelo calendário recheado de reuniões. Agora Nebiolo aparecia com outra organização esportiva, com mais dinheiro. Mas queria algo em troca: patrocínio "real". Isso não era problema. O herdeiro do trono, Sua Alteza Real o príncipe Albert, estava disponível. No final da primeira semana de maio de 1985, o príncipe Albert e sua comitiva foram recebidos em Lausanne por Samaranch. O motivo alegado foi a recente eleição do príncipe Albert como presidente da federação de atletismo de Mônaco. Não era uma das maiores federações do mundo. A dócil Review relatou a visita da forma habitual, descrevendo o playboy Albert como "um homem do mar", porque organizava uma regata a Nova York. Samaranch e seu nobre convidado jantaram no melhor restaurante da cidade, O Girardet, onde, segundo o press release, discutiram "o desenvolvimento do esporte no principado". O desenvolvimento mais importante, para a economia de Mônaco, só seria revelado dentro de um ano. Uma semana depois, em Berlim Oriental, na 90a. sessão do COI, o príncipe Albert foi admitido no Clube. Mais um "aristocrata" para a coleção de Samaranch. Agora tudo estava pronto. O cheque de US$ 20 milhões fora enviado em segurança para Monte Cario. O príncipe Albert entrara para o Clube. Um mês depois, o conselho da federação atlética de Nebiolo reuniu-se em Atenas, e cumpriu sua parte no acordo secreto de Seul. Todas as finais importantes, inclusive dos 100 metros e dos 1.500 metros, seriam realizadas na hora do almoço, em Seul. Agora a NBC poderia falar de dinheiro a sério, e os executivos a vender o espaço comercial. Nebiolo deve ter rido sozinho. Ele levara a bolada no maior jogo de pôquer do mundo. E com a mão vazia! "Se os coreanos dissessem a Nebiolo que a exigência de US$ 20 milhões era inaceitável, e se recusassem a pagar, ele teria dado de ombros e antecipado as finais como desejavam", declarou uma fonte da IAAF. "Os coreanos não sabiam que o conselho da IAAF tinha decidido não deixar as redes esperando por muito mais tempo. "É preciso lembrar que Primo queria que as redes pagassem muito dinheiro pelo Campeonato Mundial de Atletismo de Roma, em 1987. Ele não poderia ser visto como o sujeito que sabotou as Olimpíadas. Secretamente, a decisão já havia sido tomada, e estava na hora de mudar os horários. Se os coreanos não fossem tão ingênuos, tão deslocados neste tipo de negociação, poderiam ter batido o pé e economizado um monte de dinheiro." Nebiolo blefara alto. Felizmente para ele, os coreanos só sabiam sair da encrenca pagando. O Dr. Un Yong Kim comandou as negociações dos coreanos com as redes, e fazia parte no grupo de Seul que tratava tanto das relações internacionais quanto da organização dos eventos esportivos dos Jogos. O Dr. Kim liderou a delegação de Roma, em busca da aprovação de Nebiolo para rever os horários do atletismo. "O Dr. Kim desenvolveu, em cooperação com as associações esportivas, uma programação aceitável para as televisões norte-americanas, sem constranger as associações", registrou a revista Sport Intern. Presumimos que o Dr. Kim soubesse que o problema do horário das finais já estava resolvido. Parecia impossível que ele ignorasse um acordo envolvendo uma soma tão alta, US$ 20 milhões. Estávamos errados. "Eu não tinha a menor idéia. Não me envolvo com dinheiro, só com a organização", declarou o Dr. Kim em nossa entrevista. "A NBC não determinou o horário das finais de Seul. Nós fizemos isso. Procuramos os horários mais adequados. Para o Japão e Europa não havia problemas. Para os Estados Unidos, as imagens chegariam ao vivo à meia-noite ou de madrugada. Mas as decisões foram tomadas pelo comité organizador. As federações não fizeram imposições, tampouco. Estudamos os horários e determinamos os mais apropriados. "Nós, os coreanos, somos um povo muito orgulhoso, nacionalista, e não gostamos que nos digam o que fazer. Respondemos simplesmente, 'vá para o inferno'." Depois de conversarmos com o Dr. Kim, na sessão do COI em Birmingham, em 1991, despedimo-nos cordialmente, em nossa opinião. Poucas horas depois a chefe da assessoria de imprensa do COI, Michele Verdier, nos procurou. Madame Verdier não estava satisfeita. Na verdade, parecia muitochocada por saber que jornalistas podiam querer informações além das divulgadas em seus comunicados. "O Dr. Kim queixou-se de vocês", ela disse. "Não fizeram perguntas sobre a sessão. Perguntaram outras coisas." Este comportamento era aparentemente inaceitável nos círculos olímpicos. Depois dos Jogos de Seul, o Dr. Kim escreveu um livro sobre suas experiências. A respeito dos problemas enormes com os horários das finais, ele resumiu: "O atletismo foi a coisa mais difícil de ajustar." E só. Nebiolo inventou um programa de caridade próprio, com os US$20 milhões de Seul. Levaria o nome de "Fundação" Internacional de Atletismo, conhecida pela sigla IAF. Sediada em Mônaco, teria o objetivo de ajudar a IAAF a promover o esporte no mundo inteiro. A Fundação parecia repetir os propósitos da federação, com dinheiro levantado em nome do esporte. Os membros da IAAF souberam do projeto de Nebiolo pela Newsletter do organismo. A Fundação foi criada pelo círculo íntimo de Nebiolo. O assunto jamais foi levado à discussão de um congresso. A tão propagada "família atlética" ficou fora de qualquer discussão democrática sobre a própria necessidade de se criar a fundação, a origem do dinheiro e quem o controlaria. A jogada de Nebiolo tinha dado certo. A IAF foi registrada de acordo com as leis de Mônaco. Os estatutos transmitem a impressão de uma organização grandiosa. Possui assembléia geral, conselho, comité executivo, secretário-geral assistente, secretário-geral, vice- presidente e presidente. Soa impressionante. Um exame detalhado revela que há menos de trinta pessoas envolvidas. Os membros precisam sair do conselho da IAAF, que atualmente conta com 25 pessoas. Virtualmente, todo o poder da Fundação concentra-se nas mãos do presidente — o Dr. Nebiolo, claro. Ele nomeia novos membros, é o único que pode assinar cheques e "tomar as medidas necessárias", informando a Fundação posteriormente. Nebiolo também "tem todos os poderes de agir em nome da Fundação", em "particular o poder de constituir advogados." Um advogado escolhido por ele, Mino Auletta, velho amigo de Milão, recebe um pagamento anual de US$ 30 mil da Fundação. Auletta também recebe uma importância considerável da federação de atletismo de Nebiolo, cerca de US$ 100 mil anuais, para ficar de olho nos contratos com a ISL e Adidas. Auletta substituiu uma firma de advocacia londrina que costumava realizar este trabalho. Auletta recebeu perto de US$ l milhão nos últimos cinco anos. Seu salário causou atritos dentro da federação. A primeira reunião da nova Fundação ocorreu em julho de 1986, "com a presença de Sua Alteza o príncipe Albert de Mônaco. O conselho convidou Sua Alteza para a presidência honorária da Fundação, e sentiu-se honrado quando Sua Alteza graciosamente aceitou o convite", revelou a Newsletter do atletismo. Era a hora da onça beber água. No Natal, o príncipe Albert '| "honrou" a primeira atividade pública da nova Fundação, dedicada ao incentivo do atletismo. O evento, no hotel de Paris, em Mônaco, era o "Primeiro Encontro de Gala do Atletismo Mundial", Nebiolo e seu príncipe condecoraram, com a "prestigiada Estrela de Ouro do Atletismo", todos os responsáveis pela quebra de recordes do ano. Para aplaudir, convocou o que chama de "membros da família atlética" — dirigentes de confiança, jornalistas simpáticos, executivos de televisão e patrocinadores. A noite de badalação custou US$ 500 mil. "O objetivo moral desta instituição é ajudar a aprimorar o esporte de alto nível", anunciou Nebiolo. Ele não explicou como conciliaria isso com as origens do dinheiro que pagava a champanhe daquela noite. Os faraónicos encontros de gala se repetem anualmente. O convite diz: "Na presença do presidente da Federação Internacional de Atletismo Amador, Dr. Primo Nebiolo, e de Sua Alteza Real Príncipe Albert de Mônaco, O Encontro de Gala do Atletismo se realizará no Clube Sporting, de Monte Cario." Infelizmente, o príncipe Albert não tem qualificações para ser chamado de "real". No mundo rígido da etiqueta, ele é apenas "sereno". Isso não deve perturbar muito Nebiolo, que arranjou um príncipe para emprestar credibilidade à fundação, e um dia o príncipe reinará naquele paraíso fiscal. Nebiolo ocupa a presidência e ficará no cargo pelo resto da vida. Se a Fundação for fechada por algum motivo, não há exigência .alguma de destinar os US$ 20 milhões ou mais existentes na conta do banco de Monte Cario para o atletismo. Nebiolo jamais revelou a fonte do dinheiro da sua Fundação. Na verdade, faz o possível para manter o segredo. Se perguntado a respeito, diz: "A origem é anônima, porque as pessoas que o doaram preferem assim. O dinheiro é gasto apenas na promoção do esporte." Os escritórios da IAAF em Hans Crescent, perto de Knights-bridge, em Londres, receberam uma cópia de uma grossa brochura, pronta para ser distribuída. O texto informava que o capital inicial — de um único doador — era mesmo US$ 20 milhões. Quando manifestamos surpresa pela existência de uma empresa ou indivíduo capaz de doar uma soma tão vasta, houve consternação. A brochura foi arrancada de nossas mãos. Mais tarde disseram que tratava-se só de uma prova, a ser revisada. Ficamos surpresos, obviamente custara uma fortuna. Explicaram que havia um erro. Não era um doador só, e a brochura seria reimpressa. Tecnicamente isso é verdade. A Adidas recentemente doou US$ 50 mil, e um ou dois patrocinadores entraram com quantias modestas. Fontes da Adidas concordam que a Fundação de Nebiolo não precisa de mais dinheiro, mas a doação ajudou a dar a impressão de que os fundos vinham de mais de uma fonte. A Fundação de Nebiolo mostra bem o que há de errado no Clube. Nos últimos dois anos a Fundação investiu US$ 516 mil em projetos importantes. No mesmo período, gastou mais de US$ l milhão em dois eventos de gala em Mônaco. A cena se repete anualmente. Até agora algo em torno de US$ 3 milhões já foi destinado a estas festas. Há também os valores pagos pela fundação a consultores profissionais, gastos em viagens, hospedagem e outras despesas não reveladas. As perguntas sobre o que acontece com a montanha de dinheiro guardada no banco de Monte Cario recebem a diplomática resposta: "investimento em projetos autônomos su- pervisionados pelo conselho da IAF e monitorados pelo secretariado da IAF." Um membro do COI nos contou: "Ninguém comenta estes pagamentos com as federações, porque seria embaraçoso. Sempre se fala "precisamos pensar nas crianças que acordam às três da manhã para treinar — só nos interessa o bem estar dos atletas.' Depois descobre-se que fizeram o contrário, e centenas de milhares de dólares foram gastos." O eminente dirigente olímpico deu sua opinião pessoal: "Não sabemos muita coisa sobre a maneira como surgiram os recursos para a Fundação, apenas que naquela parte do mundo, na zona cinzenta em que Nebiolo age, houve um acerto." 13 AS TRAPAÇAS O melhor ano de Primo Nebiolo deveria ter sido 1987. Mas o lado sombrio de sua personalidade triunfou, e os doze meses de conquistas para o esporte e prestígio para sua pessoa são lembrados apenas porque ele era o presidente no período do pior exemplo de trapaça organizada na história do esporte moderno. Como se não bastasse, ele se recusou a admitir os fatos ocorridos. Agora é possível revelar os segredos da conspiração para roubar uma medalha de um atleta norte-americano no salto a distância, durante o Campeonato Mundial de Roma, em 1987, e entregá-la a um italiano. Só resta descobrir uma coisa: quando o presidente ficou sabendo de tudo? O ano começou como Nebiolo gostava. No final da primeira semana de janeiro ele comandou uma reunião do conselho da IAAF no Rio de Janeiro, uma de suas cidades favoritas. O convidado de honra era um velho amigo, presidente da FIFA e membro do COI, João Havelange. Depois Nebiolo seguiu para Paris, onde receberia mais uma comenda. Pouco antes do final do mês ele compareceuao hotel Inter-Continental. O press release definiu o evento como "uma ocasião magnífica". O coronel Hamouda distribuiria os prêmios anuais da revista Champion d'Afrique. Dassler obviamente servia de anfitrião, e Samaranch se encarregou de entregar as "medalhas de ouro" para o secretário-geral da UNESCO, Mahtar M'Bow, Havelange e Nebiolo, perante 200 convidados. Nebiolo ocupava o palco com perfeição. Bem alimentado e agraciado, poderia dedicar algum tempo a refletir que planejara 1987 de modo a se manter no centro do cenário esportivo o ano inteiro. Afirmara que 1987 seria o "ano do atletismo". A temporada começaria na primavera, com o primeiro campeonato mundial indoors da IAAF nos Estados Unidos. Durante o verão haveria os preparativos para o segundo campeonato mundial de atletismo, a realizar-se no estádio olímpico de Roma. Na véspera do campeonato, Nebiolo compareceria ao congresso da IAAF, onde seria "reeleito" presidente, sem a menor oposição, como já sabia. O Ano do Atletismo deveria ser também o ano de Luciano Barra, um dos dirigentes esportivos mais importantes da Itália. Empregado do comité olímpico italiano, foi durante muitos anos um dos grandes responsáveis pelo sucesso do atletismo local, e pela ascensão de Nebiolo ao poder. Fora da Itália, era respeitado por sua capacidade de organizar e comercializar eventos de atletismo. Barra também servia de secretário-geral para a Federação Italiana de Atletismo (FIDAL), e um dos partidários de Nebiolo na disputa da presidência, no final dos anos 1960. Ele passara muitos anos como dirigente esportivo viajando pela Itália, de trem e ônibus, hospedando-se em hotéis modestos e estimulando organizadores locais a promover o esporte nas várias regiões do país. Ele funcionou como freio em vários esquemas de Nebiolo, e quando seu chefe ocupou o palco internacional, Barra manteve-se discretamente um passo atrás, garantindo que a retórica se transformasse em ação. Quando Dassler instalou Nebiolo no cargo de presidente do atletismo mundial em 1981, foi criado um novo cargo na IAAF, de "assessor da presidência". Barra o ocupou. Mas o grande teste de Barra estava por vir: sediar o maior e mais complexo evento de atletismo já visto no mundo. Ninguém duvidava de sua capacidade para garantir que o campeonato mundial de Roma fosse um sucesso. Mas nem Nebiolo nem Barra previram que uma tarefa tão grandiosa fosse de impedir que o assistente encontrasse tempo para controlar seu chefe errático e ambicioso, interessado em garantir medalhas para a Itália. O primeiro campeonato de atletismo indoors em Indianápolis foi projetado como mais um triunfo para Nebiolo, mais um passo no desenvolvimento do esporte. Mas a delegação italiana voltou amargurada dos Estados Unidos. O campeonato fora organizado para ampliar a força de Nebiolo. Cada uma das federações — mais de 170 —- recebeu um convite para enviar pelo menos dois atletas, um homem e uma mulher, tivessem ou não atingido os padrões mínimos. Isso inevitavelmente aumentou o número de eliminatórias, e dúzias de atletas sem chance experimentaram uma amostra rápida de uma competição internacional antes de voltar para casa. Convidar atletas inexperientes não foi uma demonstração de caridade esportiva, e sim uma decisão política deliberada. Mesmo as nações com um único competidor poderiam enviar um dirigente, pago pela IAAF. Eles sim, importavam. Os dirigentes, e não os atletas, dariam votos cruciais para Nebiolo, quando este precisasse. Embora a IAAF de Nebiolo dê muitos almoços, nenhum deles sai de graça. O campeonato foi disputado no gigantesco Hoosier Dome de Indianápolis. Mais de 20 mil pessoas compareceram, no maior festival de atletismo indoors de todos os tempos. Nebiolo expressou seu "imenso prazer" por ter 84 países competindo. Seu desejo insaciável por recordes mundiais, para aumentar o valor dos eventos para a televisão, foi satisfeito. Ben Johnson, unia montanha de músculos entupidos de esteróides reluzindo sob os refletores, percorreu os 60 metros rasos em 6,41 segundos, um novo recorde. Apesar de tanto sucesso, os dirigentes italianos ficaram furiosos. Compareceram a Indianápolis acreditando na conquista de uma medalha de ouro com sua grande estrela no salto em distância, Giovanni Evangelisti. Cari Lewis não competiria, e o grande rival seria outro americano, Larry Myricks. Evangelisti não estava no auge da forma, e depois de cinco tentativas, seu melhor pulo foi de 7,91 metros. Na última chance, ele se agachou na beira da pista e correu para saltar, decidido a ganhar a medalha de ouro. Os dirigentes italianos tinham certeza de que o salto fora válido. Todos os olhos se voltaram para o telão de vídeo, e eles juraram ter visto o pé de Evangelisti pisar bem antes da marca. Quando os juizes americanos ergueram a bandeira anulando o salto, os italianos ficaram revoltados, convencidos de que a medalha de ouro lhes fora roubada. E observaram desolados o salto de Larry Myricks, de 8,23 metros. O incidente abriu uma ferida que jamais cicatrizaria. O salto controvertido de Evangelisti em março não foi esquecido pêlos dirigentes da equipe italiana. Embora suas energias se concentrassem na organização do campeonato mundial em agosto, dali a cinco meses, tinham tempo de refletir sobre o ocorrido nos Estados Unidos. Em Roma eles forneceriam os juizes para o salto a distância. Alguns dirigentes reuniram-se na sede do campeonato, para finalizar os planos. O tema em discussão era surpreendente: os atletas italianos, ganhariam as medalhas, a qualquer preço. Eles discutiram diversos eventos, mas a decisão de Indianápolis ainda ecoava em seus ouvidos, e resolveram que Evangelisti, desde que aparecesse para saltar, atingiria a marca próxima dos 8,40 metros. Notícias a respeito dos planos dos dirigentes da FIDAL vazaram lentamente dentro da organização, e chegaram aos ouvidos da Sra. Anna Micheletti, secretária da FIDAL, que avisou o marido, Renato Marino, chefe dos técnicos dos clubes mais importantes da Itália. Ele mencionou o caso a seu amigo Sandro Donati, técnico treinador de velocistas da equipe nacional. Donati se preocupava cada vez mais com o estilo de Nebiolo na direção da FIDAL, e com a falta de providências oficiais com o doping crescente no atletismo italiano. Marino decidiu comparecer ao estádio com binóculos, e prestar bastante atenção no que aconteceria na prova de salto a distância. Durante o congresso da IAAF em Roma, na véspera do campeonato, Nebiolo foi eleito para mais um mandado de quatro anus, por aclamação dos delegados. Depois passou a lutar pelo aumento de seu poder. Há quase uma década os países pequenos criticavam o sistema de votação da IAAF. Queriam que cada nação tivesse direito a apenas um voto, e para Nebiolo convinha alimentar tal ressentimento. Até 1984, os cerca de 170 países membros dividiam-se em quatro grupos. Dependendo do tamanho e do destaque no atletismo mundial, tinham dois a oito votos nos congressos. Durante os Jogos de Los Angeles, o sistema foi simplificado para três grupos. Nos preparativos para o congresso de Roma, os russos apoiaram a reivindicação das nações menores, na base de um voto por país. Eles se dispunham a sacrificar sua posição privilegiada por um motivo simples. Com tantos países dependentes da Rússia, sempre que necessário reuniriam um bloco com os votos desejados. Ao apoiar os países menores, posavam de progressistas. Sob as luzes favoráveis de Roma, em agosto, Nebiolo viu a chance de se ver livre para sempre da ameaça dos votos contrários por parte dos países da Europa Ocidental, todos pertencentes ao primeiro time, e insatisfeitos com seu estilo. Ele recomendou que o congresso modificasse o sistema, e o princípio de um voto por país foi apresentado como uma revolução democrática. Nebiolo consolidou seu domínio ditatorial sobre a IAAF. Ele sabia muito bem que seria fácil garantir o apoio dos países pequenos. Os ganhos crescentesda federação permitiam bancar o transporte dos atletas e dos dirigentes para eventos internacionais, congressos e seminários técnicos, de televisão e de marketing. O acordo implícito era claro, e foi oferecido para locais remotos como Vanuatu, Ilhas Cook, Nauru e Ilhas Marianas, no Pacífico; Aruba, Ilhas Turks e Caicós, no Caribe; Butão, Macau e Laos, na Ásia. Os dirigentes receberiam passagens aéreas regularmente, acomodações em hotéis de primeira e verbas generosas em dólares, para despesas, em troca da lealdade que manteria Primo no primo lugar. Foi um golpe de mestre. Quanto mais os países poderosos criticavam Nebiolo por seus gastos excessivos, mais empurrariam os dirigentes de rochedos plantados nos mares do mundo para seus braços, e todos com o mesmo poder de voto. Para completar o quadro, tudo parecia muito democrático. Além de ser o "Ano do Atletismo", 1987 também foi promovido por marcar os 75 anos da IAAF, Editaram um livro luxuoso, sobre o atletismo, com o título de "Cem Momentos de Ouro". Encomendaram um filme comemorativo, mais 8 mil conjuntos de brindes para competidores, dirigentes, patrocinadores, executivos de televisão e todo o circo que acompanhava o presidente. Medalhas e prêmios especiais foram distribuídos durante o ano, para "membros da família atlética, VIPs, convidados e chefes-de-estado". Para o público, Nebiolo inaugurou uma ex- posição no Foro Itálico, comemorando o aniversário da IAAF, também batizado de "Cem Momentos de Ouro". No jantar antes do campeonato, Nebiolo chamou Cari Lewis de lado. Ele disse que esperava por um recorde mundial — qualquer recorde. "Este será o maior evento de todos os tempos", avisou. Nebiolo repetiu a mesma história para Ben Johnson. O canadense foi a estrela de Roma em 1987, e do mundo, nos treze meses seguintes. Em junho Johnson passou pelo último ciclo de duas semanas de esteróides, esperou que o sistema eliminasse os sinais das drogas e viajou para Roma. Na abertura do campeonato, ele derrotou Cari Lewis e quebrou o recorde mundial, com a impressionante marca de 9.84 segundos nos 100 metros. "Eu vi que os dirigentes canadenses tremeram enquanto o teste anti-doping de Johnson era realizado", disse um membro do COI presente ao evento. Quando a estrela passou no exame, o agente de Johnson passou a negociar milhões de dólares em patrocínio. Lewis, como muitos competidores e dirigentes do atletismo, sabia que Johnson era um monstro criado pela drogas. Pouco antes da final dos 100 metros, Lewis fora informado de uma conversa altamente suspeita entre o técnico de Johnson, Charlie Francis, e o técnico americano Chuck DeBus. Ao que consta, Francis teria comentado: "Direi que Ben tinha gonorréia." Era a prova virtual de que Johnson tomava uma droga chamada probenecid, para mascarar traços residuais de esteróides. Um dos usos legítimos da probenecid é aumentar a eficácia da penicilina no tratamento de doenças venéreas. Francis estava bem preparado para contestar um resultado positivo. Lewis disse que ficou perplexo: não sabia se acusava Johnson ou confiava nos dirigentes para acabar com a fraude. O problema era que Lewis não confiava nos dirigentes do atletismo de seu país, nem nos internacionais. Mais tarde Lewis declarou que conhecia pelo menos um ganhador de medalha de ouro em Roma que tomava drogas, e que outro campeão exibia marcas de agulha na coxa. Depois de chegar atrás de Johnson nos 100 metros, Lewis viajou para Londres. Em uma entrevista à televisão, disse: "Existem ganhadores de medalha de ouro neste campeonato que tomam drogas, sem dúvida. Aquela disputa dos 100 metros ficará na história, por muitas razões. Se eu tomasse drogas, poderia fazer 9.8 sem problemas." Feita a alusão a Johnson, ele voltou a Roma para disputar o salto a distância. Poucos duvidavam de quem venceria o salto a distância, levando as medalhas de ouro e prata. Cari Lewis e o russo Robert Emitam haviam vencido várias vezes naquele ano. Lewis se de dicava tanto ao salto que desistiu dos 200 metros rasos, para poder descansar. A disputa seria pela medalha de bronze, entre Evangelisti, Myricks e o cubano Jefferson. Ninguém esperava problemas com os juizes do salto a distância. Os três delegados técnicos oficiais para o Campeonato Mundial de Roma eram Georg Wieczisk, da Alemanha Oriental, Artur Takac, da Jugoslávia, e Hassan Agabani, do Sudão. Todos membros graduados do conselho da IAAF de Nebiolo. Dez minutos antes da prova começar, Luciano Barra e Takac chegaram à pista e afastaram os fotógrafos da imprensa, alegando que estes obstruíam as câmeras de televisão e incomodavam os atletas. Mas uma câmera foi esquecida por todos. No final da pista de salto havia uma câmera estática, automática, que registrava o percurso de cada atleta. As imagens da câmera eram gravadas em videoteipe. Dificilmente seria usada numa transmissão ao vivo, porque só mostrava a ação na pista. Mais tarde seria útil, para a montagem com cenas de outras câmeras, do momento do salto. Os juizes, sicilianos em sua maioria, e os dois técnicos ingleses que monitoravam o aparelho eletrônico de medição da Seiko, esperaram o momento da ação. A máquina da Seiko substituíra a tradicional medição por fita. Um prisma reflexivo na ponta de uma haste era colocado na areia, no ponto onde o calcanhar do atleta tocava o solo, e um raio luminoso "disparado" pela máquina posicionada no ponto inicial. Se operada adequadamente, dois sinais sonoros tipo bip indicavam que a medição se realizara. Naquela tarde, às 5h30, Evangelisti abriu a competição, para delírio da torcida italiana predominante. Correu pela pista, mas seu salto foi impugnado. A multidão rugiu. O americano Larry Myricks também queimou o salto. Lewis voou no ar e marcou 8,67 metros. Não foi superado naquela tarde, e tinha garantido a medalha de ouro. Emitam ficou em segundo, com uma boa! marca: 8,30 metros. Meia hora mais tarde começou o segundo round. Evangelisti' tentou de novo, e conseguiu um salto modesto, 8,09 metros, que o colocou em quinto lugar. Myricks ficou 5 centímetros atrás. Lewis pulou 8,65 metros, e Emitam queimou o salto. No terceiro round o italiano aumentou sua marca para 8,19 metros. Foi superado no geral por Myricks, com 8,23 metros. Enquanto isso Lewis mostrou que era mesmo o melhor do mundo, repetindo os 8,67 metros. Evangelisti iniciou a segunda parte da final saltando menos de oito metros. Myricks ficou nos 8,19 metros, e Emitam garantiu a medalha de prata, com 8,53 metros. O quinto round deprimiu ainda mais os italianos: Evangelisti foi impugnado novamente. Myricks, com 8,33 metros, ficaria com a medalha de bronze. Era agora ou nunca. Se Evangelisti quisesse derrotar Myricks, seu último salto precisaria ser especial. Ele se posicionou e fez uma pausa para se concentrar. Antes que explodisse para a frente, a abertura do Guilherme Tell ecoou pêlos alto-falantes, anunciando a entrega das medalhas para o arremesso de peso feminino. O italiano fez um gesto irritado e deu as costas. Precisaria esperar até o final da entrega dos prêmios para dar seu último salto. Os organizadores haviam preparado planos elaborados para a entrega de medalhas. Todos os dirigentes deveriam interromper suas atividades e virar de frente para o pódio. Todos os olhos e câmeras voltaram-se para as três mulheres que entravam em campo para receber as medalhas. Por isso, quase ninguém reparou nas atividades dos juizes na pista de salto. Os juizes esqueceram-se da câmera automática no final da pista. As imagens foram gravadas e guardadas nos estúdios da RAI, a televisão estatal, ao lado do estádio Olímpico. A cerimônia terminou e Evangelisti preparou-se para seu salto l final, última chance para ganhar a medalha de bronze. Quando i voou no ar, os espectadores e conhecedores do esporte sabiam g que havia falhado. Evangelisti saiu da caixa de areia, deu de ombros como quem diz "Fiz o máximo", e foi embora. "Foi um bom salto", comentoua Track and Field News, "mas a torcida f não comemorou. Ele foi embora, e parecia desanimado." O juiz Sérgio Maggiari entrou na caixa e colocou a marca no ponto onde o calcanhar de Evangelisti tocara o solo. Os juizes Mário Biagini e Paolo Pellegrino, que aguardavam do lado de fora para nivelar a areia após o salto, sabiam que não poderiam se mover antes de ouvir os dois bips da máquina de medição da Seiko. Eles esperaram, mas a máquina emitiu apenas um bip. Notaram que havia algo errado, e Pellegrino agiu, colocando seu ancinho ao lado da marca de Evangelisti, para garantir a medição correta. Avisou Biagini para não nivelar a areia. Para surpresa de Pellegrino, o chefe dos juizes, Tommaso Aiello, correu até eles gritando: "Apaguem, apaguem". Obedientemente, eles nivelaram a areia e a verdadeira extensão do salto perdeu- se para sempre. Biagini não pareceu completamente surpreso com o estranho desenrolar dos eventos. Ele se voltou para Pellegrino e pediu: "Por favor, eu o conheço, mantenha a calma, isso tudo é maior do que nós dois. Quando sair daqui, melhor fingir que não viu nada, e ficar de boca fechada." O resultado surgiu no placar. Evangelisti saltara 8,38metros. O estádio pegou fogo. Ganharia a medalha de bronze, em terceiro lugar. Quando os outros competidores fizeram a última tentativa, a multidão de torcedores gritou e vaiou a todos, inclusive Myricks, que poderia alterar a situação. O norte-americano saltou bem, mas os juizes mediram 8,20 metros, uma marca superior a todas as outras de Evangelisti, fora a última. Mas, segundo os juizes, Myricks perdera para o último e surpreendente salto de Evangelisti na tentativa final. "Saltei mais de 8,20 metros", disse Myricks mais tarde. "Houve algo suspeito no último round." Evangelisti ganhou a medalha de bronze e o norte-americano ficou em quarto lugar. Muitos jornalistas esportivos norte-americanos presentes em Roma pensaram que o resultado do salto a distância era pouco convincente. E não estava sozinhos. Um repórter da Finlândia protestou a quem quis ouvir, afirmando que Evangelisti recebera uma marca superior ao que merecia. O salto foi criticado por outros especialistas. Na frente da pista encontrava-se um grupos de en- tusiastas do esporte e estatísticos do atletismo inglês. Um deles, Alf Wilkins, de Londres, declarou: "Calculamos o salto em cerca de 7,95 metros. Não acreditamos no resultado. Certamente não foi 8,38 metros. Mesmo os italianos mais próximos não ficaram animados com o salto. Todos comentaram o caso nos restaurantes, naquela noite. O resultado foi recebido com reservas. Wilkins faz parte da associação dos estatísticos do atletismo, que se recusou a aceitar o salto, classificado como "duvidoso". Um veredito surpreendente para um resultado obtido num campeonato mundial organizado pela IAAF na presença de seu presidente. Dois dias depois do salto, Renato Marino, que observara tudo com o binóculo, sem identificar exatamente como o resultado de Evangelisti fora alterado, estava em um bar de Roma. Ali encontrou-se com o diretor do campeonato, Paolo Giannone e esposa. Enquanto comiam uma pizza, Giannone disse que ficou preocupado com uma história a seu respeito, publicada nos jornais. Luciano Barra declarou a um jornalista que recebera de Giannone um pedido de desculpas por permitir que a cerimônia de premiação do arremesso de peso feminino perturbasse o russo Sergei Bubka quando este se preparava para quebrar o recorde do salto com vara. Giannone insistia que não havia dado o sinal para o prosseguimento da cerimônia. Estava fora da pista, conferindo a "regularidade" do salto a distância. — Regularidade? — explodiu Marino. — Irregularidade, isso sim! — Está vendo? — disse a esposa de Gionnone ao marido. — Ele é um especialista, e percebeu tudo — Giannone retrucou. — Eu não percebi tudo porque sou especialista — disse Marino. — Todo mundo notou algo estranho. — Você precisa entender — reagiu Giannone — que Evangelisti precisava ganhar uma medalha. Foi o que nos disseram. 14 ESCÂNDALO A primeira vítima do escândalo do salto a distância foi a carreira de Nebiolo na Itália. Não bastava presidir o esporte universitário mundial, o atletismo italiano e a federação internacional. Ele ambicionava outro posto, o de presidente do comité olímpico italiano. A presidência controla um orçamento anual de US$ 750 milhões, dispondo de um poder proporcional a este valor. Com isso, seria o primo no esporte italiano. A vaga se abriu quando o presidente Franco Carraro entrou para o governo do socialista Bettino Craxi. Somente os 39 presidentes das federações de esportes podiam votar. Nebiolo já era | vice-presidente, como líder de um esporte importante, e pretendia acionar quem lhe devia favores. Contou rapidamente os votos prováveis e entrou na briga. A eleição se daria no dia 12 de novembro de 1987, dois meses após o final do Campeonato Mundial em Roma. Tarde demais para Nebiolo. A esperança de uma vitória desabou uma semana antes da eleição. Os cronistas esportivos da RAI ficaram tão per- | turbados quanto os outros repórteres com a incrível proeza de Evangelisti no último salto. Resolveram aplicar um de seus recursos de vídeo favoritos, o "Telebeam", uma espécie de tira-teima que analisava dos gols do futebol aos saltos duvidosos. Os resultados foram divulgados no noticiário noturno, em horário nobre. A conclusão estonteante: Evangelista não saltara mais do que 7,90 metros na última tentativa. Luciano Barra, assistente de Nebiolo, compareceu ao programa como convidado. Afirmou, calmamente, que uma diferença tão grande — cerca de meio metro — entre a medição oficial de 8,38 metros e os 7,90 medidos indicava que não poderia ter ocorrido uma fraude. Ninguém, segundo ele, teria a coragem de roubar tanto. Um erro técnico explicaria tudo, concluiu. Era a primeira deserção nas fileiras de Nebiolo. Embora o presidente afirmasse que não havia erro algum, seu assistente e secretário-geral da FIDAL admitia que o resultado não estava correio. Sua opinião foi divulgada amplamente na Itália, ecoando principalmente no CONI, o comité olímpico. A eleição para a presidência aconteceria na elegante sede do CONI, ao lado do estádio Olímpico, no Foro Itálico. Na Itália, um país alucinado por esportes, tratava-se de um grande evento. O jornal mais importante, La Republica, publicou um artigo longo, em destaque, assinado por Vittorio Zambardino, sobre a disputa entre Nebiolo e o outro candidato, Arrigo Gattai, presidente do esqui. "O dia mais longo da vida de Nebiolo começou às 6 horas da manhã", começava o texto, "quando recebeu um telefonema em casa. Era Marchio, presidente da federação de boxe. "Eles conseguiram. Levamos uma rasteira. Vamos perder." Mais telefonemas. Um conselho: "Desista, para salvar as aparências." Mas Primo iria até o fim. "Ele foi o primeiro presidente a chegar ao CONI, às 8h20 da manhã. Seu famoso bronzeado mostra rachaduras. Saúda efusivamente os presidentes que chegam. Depois enfia a mão no bolso e anda de um lado para o outro, consciente da derrota, mas . sem saber o motivo. Troca apertos de mão, frios e poucos. Ne- biolo não sorri. Percorre o corredor das ambições perdidas. Os olhos avermelhados encaram furiosos os traidores." Carraro chega, e os presidentes esportivos reúnem-se para o discurso de despedida. Carraro não perde a chance de apunhalar Nebiolo por causa dos rumores referentes ao salto a distância, e faz uma referência à "moralização dos esportes". A votação ainda demora um pouco. "Alguém, tentando bancar o engraçado, diz: 'Quem quer comprar o meu voto pode dar um passo à frente"', prossegue o texto do La Republica. "Nebiolo permanece grudado na cadeira, fitando os óculos. Giorgio di Stefani, às 10h30, anuncia o resultado: Gattai, 26; Nebiolo, 13. Nebiolo fica mais do que deprimido, é 1,65 metros de puro sofrimento. Ele sussurra: 'Acho melhor cumprimentá-lo.' Com o rosto transformado numa