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1 
 
 
2 
 
SUMÁRIO 
 
 
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 
1 DIFERENÇAS ENTRE PSICODIAGNÓSTICO E ENTREVISTA PSICOLÓGICA ... 4 
1.1 Características do Psicodiagnóstico .................................................................... 24 
2 CLÍNICA PSICOLÓGICA NO HOSPITAL ............................................................. 30 
2.1 A psicopatologia na assistência psicológica no hospital ...................................... 34 
3 INTERVENÇÕES PSICOLÓGICAS NO HOSPITAL E OS DESAFIOS DA 
ATUALIDADE ........................................................................................................... 38 
3.1 Contribuições da neuropsicologia à psicologia hospitalar ................................... 45 
4 PLANEJAMENTO DA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA ............................... 50 
4.1 Avaliação neuropsicológica do paciente internado .............................................. 51 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 56 
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 58 
 
 
 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 
Prezado aluno! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro - quase improvável - um 
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta, para ser esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. 
O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e 
todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é o mesmo. Não hesite em perguntar, as 
perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão 
respondidas em tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora 
que lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
1 DIFERENÇAS ENTRE PSICODIAGNÓSTICO E ENTREVISTA PSICOLÓGICA 
 
Para Serafini (2016), o psicodiagnóstico é um tipo de avaliação psicológica 
desenvolvida em escala clínica, caracterizada pelo fato de começar com requisitos 
simples e evoluir para avaliações específicas. O foco ou motivo da avaliação é muito 
importante porque orienta todo o processo psicodiagnóstico, incluindo a seleção de 
técnicas e instrumentos a utilizar. 
As informações/reclamações iniciais recebidas pelo paciente ou fonte de 
encaminhamento geralmente são insuficientes para articular esse foco e devem ser 
compartilhadas com outras fontes, como o especialista que solicitou o 
psicodiagnóstico, o próprio paciente e os pais, destaca-se, assim, a importância da 
discussão prévia com tutores ou outros familiares do paciente. Essas discussões 
também podem ser com um professor, um médico ou outro profissional que 
acompanhe o paciente em seu cotidiano. Por meio deles, os especialistas podem se 
aprofundar nos motivos e circunstâncias que surgiram nas primeiras etapas e abordar 
esses temas sob diferentes óticas. 
As entrevistas iniciais, como descreve Arzeno (1995), tem como objetivo 
conhecer os pacientes que vêm para exame e entender os motivos do 
psicodiagnóstico. Portanto, é muito importante que os psicólogos avaliadores 
obtenham o maior número possível de fontes de informação e procurem fontes 
intermediárias. Os pacientes podem ser encaminhados para tais exames por diversos 
especialistas, como psicoterapeutas, Professores, Médicos de diversas áreas, 
Fonoaudiólogos, nutricionistas, entre outros. Os encaminhamentos podem ser feitos 
por meio de contato direto entre médicos e profissionais ou mediante solicitação por 
escrito, como durante uma consulta hospitalar. Nesses casos, o ideal é ir direto ao 
profissional que solicitou a avaliação. 
É comum perguntar por que o especialista solicitou o exame, o que ele acha do 
paciente, as queixas apresentadas e o impacto na vida do paciente de um possível 
diagnóstico. Esse contato inicial não só permite um melhor entendimento dos objetivos 
do psicodiagnóstico para o caso em questão, como também ajuda o avaliador a 
começar a investigar hipóteses e a desenvolver um plano de avaliação. É também um 
momento crítico para colocar os pacientes, pais ou responsáveis em conforto e 
 
 
5 
 
planejar as reuniões de acompanhamento para que essas pessoas tenham uma 
melhor compreensão do porquê as avaliações são necessárias. Na prática, observou-
se que os leigos muitas vezes desconhecem a existência dessa atividade e 
confundem o processo avaliativo com o processo psicoterapêutico (SERAFINI, 2016). 
As entrevistas com os pacientes podem ocorrer antes ou depois do contato com 
outros membros da família. Por exemplo, crianças e adultos com doenças mais graves 
e dependentes de terceiros; a preferência é que as primeiras conversas ocorram com 
os pais ou responsáveis legais. Esse contato é importante para saber o que esperar 
da avaliação, obter informações sobre o motivo do encaminhamento e explicar o 
processo. Também é um momento importante para construir um vínculo e uma relação 
de confiança entre o especialista, o responsável e o paciente. 
Um psicólogo deve estar aberto a todas as questões que surgem e construir 
uma relação de confiança. É apropriado que os profissionais criem um ambiente 
acolhedor no qual o paciente e a família se sintam seguros e confortáveis. Vale 
ressaltar que poucas pessoas buscam avaliação psicológica sem sofrimento e medo. 
Dependendo da situação de avaliação, os avaliadores podem até se sentir ameaçados 
porque as informações obtidas durante as avaliações podem influenciar decisões 
judiciais, como armazenamento e medidas de segurança. 
O primeiro contato com o paciente permite ver as primeiras impressões 
formadas sobre o encaminhamento. É também o primeiro contato com um especialista 
para pacientes e familiares. É importante iniciar a discussão inicial com os pais ou 
responsáveis perguntando se eles entendem os motivos da avaliação e como 
percebem o desconforto da criança. 
Também é importante ver se eles estão familiarizados com o trabalho dos 
psicólogos e se têm uma ideia de como funciona o psicodiagnóstico. É hora de explicar 
que o psicodiagnóstico ocorre por tempo limitado, que nesses encontros procuramos 
entender o desconforto que surge durante as conversas com as crianças. Técnicas 
desde o tato até o uso do instrumento e ao final do processo é feito um feedback aos 
pais, pacientes e profissionais que solicitaram uma avaliação (SERAFINI, 2016). 
Situações difíceis como violência e sigilo familiar podem acompanhar o 
processo de avaliação, e o vínculo criado por tais questões torna-se fator fundamental. 
Por isso, a necessidade de que o processo seja feito baseado em relações de 
 
 
6 
 
confiança. Esse primeiro contato com os pais também é interessante. Porque a partir 
daí a imagem do paciente começa a se formar. Enfatize que as declarações dos pais 
ou responsáveis legais nem sempre condizem com a realidade observada. 
Serafini (2016), descreve um caso interessante, em que o paciente era um 
menino com diagnóstico prévio de autismo e o objetivo era avaliar os aspectos 
cognitivos. Nas conversas iniciais com os pais, eles descreveram a criança como uma 
criança muito sociável e afetuosa, que se comunicavam com ele fluentemente. Em 
seu primeiro encontro com o menino, notou que a criança apresentava grandes 
dificuldades de comunicação e dificuldade de compreensão da linguagem existente. 
É possível que os pais tenham desenvolvido alguma habilidadede compreender e se 
comunicar com seu filho, mas, na prática essa percepção dos filhos costuma envolver 
um aspecto bastante imaginativo da comunicação real e da interação com os outros. 
A autora menciona ainda que para adultos, a consulta inicial geralmente é com 
o paciente. Ele acredita que, além de entrevistar os pais e responsáveis dos pacientes 
pediátricos, e até as próprias crianças, deve-se sempre perguntar aos pacientes se 
eles sabem por que foram encaminhados para avaliação. Este estudo oferece uma 
oportunidade não apenas para explorar o conhecimento de suas dificuldades, mas 
também para explorar quaisquer fantasias que possam ter surgido a pedido desse 
outro profissional acompanhante. Após essas perguntas iniciais, os avaliadores são 
responsáveis por coletar informações que liberem a imaginação do paciente não 
corresponde à realidade, ou corrobora a informação real. 
É importante descobrir se as crianças sabem informações sobre os motivos da 
avaliação, para verificar sua capacidade de expor o que sabe, e ainda em alguns 
desses encontros a criança pode conversar e brincar com o profissional, e em outros 
realizar atividades, as quais podem ser questionários, jogos de construção ou tarefas 
de estilo escolar. A partir desses encontros o Psicólogo irá ajudá-lo a se conhecer 
melhor bem como entender suas dificuldades, ao conversar a respeito de alguns dos 
motivos pelos quais o encaminhamento aconteceu, ao mesmo tempo, em que pensa 
na melhor forma de ajudá-lo. 
Menciona ainda Serafini (2016), que quando se trata de adolescentes, é 
importante que o paciente se sinta responsável pelo seu processo de avaliação desde 
o início, sendo ideal que a primeira entrevista após a coleta de dados de 
 
 
7 
 
encaminhamento seja com o próprio jovem. Importante ainda que os pacientes 
menores de idade tenham permissão de seus pais ou responsáveis. Pode ainda ser 
utilizada uma estratégia onde, primeiramente, realiza-se uma entrevista com o jovem, 
com a finalidade de informá-lo sobre o processo e obter autorização dos responsáveis, 
assim se faria uma entrevista compartilhada onde, o primeiro momento seria com o 
paciente, e depois, com seus responsáveis para explicar como funciona o 
Psicodiagnóstico. 
No decorrer do processo, devem os responsáveis ser convidados para 
participar de outras entrevistas, principalmente caso seja necessário coletar 
informações relativas ao histórico do paciente, podendo a reunião também ocorrer em 
outro dia, preferencialmente não no dia do tratamento do paciente, conforme o acordo 
com o adolescente. 
Serafini (2016) explica que a entrevista inicial se trata de um momento 
importante de coleta de informações relacionadas ao paciente, algo importante para 
o desenvolvimento de um plano de avaliação, o avaliador poderá perguntar: 
⮚ Quais técnicas e testes podem ser utilizados com esse paciente? 
⮚ Qual o seu nível de compreensão? 
⮚ Qual sua capacidade de comunicação? 
⮚ O paciente usa lentes ou de aparelho auditivo? 
⮚ Tem algum problema de visão ou alguma dificuldade motora? 
⮚ É destro ou canhoto? 
⮚ Qual sua escolaridade? 
⮚ É alfabetizado? 
De forma que a resposta a essas perguntas se trata de uma informação 
importante, pois, um paciente, por exemplo, que possui dificuldade em identificar 
cores não pode usar um teste como o Rorschach, realizado com letras em imagens 
de manchas de tinta que o paciente deve responder o que ele vê quando olha para a 
imagem. 
Devido à gravidade do paciente, quais ferramentas estão disponíveis. Se o 
paciente usar lentes ou aparelhos auditivos, o avaliador deve ser lembrado das 
necessidades auditivas necessárias ao realizar o teste. Um fator importante a 
 
 
8 
 
considerar é o objetivo da inspeção inicial, ou seja, entender a causa da reclamação. 
Durante esse tempo, os avaliadores tentarão coletar o máximo de informações 
possível para ajudar o paciente a encontrar uma solução. 
Isso também envolve questões importantes para descobrir a causa do 
problema; assim, é importante que o avaliador pergunte ao paciente, por exemplo, 
quando percebeu que os sintomas começaram a aparecer, ou se ele consegue 
detectar alguns gatilhos? O avaliador também pode perguntar: qual é a intensidade 
dos sintomas? E em que ambientes ocorrem? Você também pode perguntar como o 
paciente experimenta esses sintomas? Outro fator importante a ser observado pelo 
avaliador é: Qual o efeito dos sintomas na vida diária do paciente? Ou que danos os 
sintomas causam à vida do paciente? 
Assim, o objetivo é identificar quais áreas da vida do paciente foram afetadas 
por esses sintomas: social, familiar, educação/trabalho, e mesmo que tais 
sintomas/problemas prejudiquem familiares, amigos e outras pessoas que convivem 
com o paciente e assim acabam quando percebem um problema? 
Além do problema em si, é importante que o avaliador procure 
conhecer/investigar a realidade atual do paciente, como seu apoio familiar, social ou 
financeiro, para lidar com o problema que ele apresenta naquele momento, é 
importante que, caso se confirme, quem ajudará o paciente em suas dificuldades e se 
o paciente já recebeu algum tratamento profissional, quais especialistas farão seu 
acompanhamento. 
Se possível, além dos pais/responsáveis, é importante que o avaliador procure 
outras fontes de informação além dos pais/responsáveis para entender melhor a 
condição do paciente, por exemplo, o especialista que encaminhou o paciente para 
avaliação, outros especialistas que acompanham o caso, outros membros da família, 
a situação reclamações paciente e como ela se manifesta em outras áreas que visam 
obter informações mais detalhadas sobre o paciente. 
No entanto, o avaliador deve estar ciente de todas as informações relevantes 
sobre o paciente, como se há pensamentos suicidas, pois, um paciente que sempre 
manifeste desejo suicida deve ser ouvido, requerendo uma investigação detalhada. 
Ideação suicida e risco real de suicídio ao tentar descobrir se um paciente tem 
pensamentos suicidas? Se ele já tivesse pensado, como e por quais meios ele 
 
 
9 
 
implementaria esses planos, na prática? Existe uma data prevista para isso? E se já 
fez tentativas anteriores? 
Serafini (2016) enfatiza a importância de avaliar cada paciente e sua realidade, 
além de diagnósticos anteriores e sintomas atuais como depressão, psicose, 
transtornos de humor e esquizofrenia, sendo que as tentativas de suicídio anteriores 
são importantes fatores de risco para o suicídio. O autor também destaca que outros 
fatores importantes incluem: uso de substâncias psicoativas, como álcool e drogas; 
fatores psicológicos, como experiências de perda (perda recente de emprego ou 
grande perda); problemas sociodemográficos (mais frequentemente em homens de 
15 a 35 anos e acima de 75 anos); e doenças incapacitantes. 
Caso haja indícios de risco suicida, o especialista não pode liberar o paciente 
para deixar o tratamento sozinho, além disso, um fator muito importante é o espaço 
para escuta empática e atenção às questões levantadas, as quais são tentar aliviar a 
dor e orientar o paciente para a necessidade de conversar com amigos e familiares 
que devem estar cientes do perigo existente e tentar eliminar o acesso a ferramentas 
suicidas como drogas, armas, cordas, etc. 
Nos casos em que o paciente já está em observação psiquiátrica, com a 
autorização do paciente e de sua família, deve-se consultar um especialista para 
implementar as medidas necessárias, mas nos casos em que o paciente não está em 
acompanhamento psiquiátrico, dependendo da gravidade do risco, a família pode 
encaminhar o familiar para um hospital psiquiátrico para tratamento. 
O certo é que a entrevista inicial pode seguir padrões diferentes em cada caso 
e ser livre, semiestruturada ou estruturada. Uma entrevista livre é mais aberta e pode 
começar com uma pergunta mais geral e continuar durante oseu desenvolvimento, 
também num contexto de avaliação uma entrevista livre deve ter alguma orientação 
do avaliador. 
Para Arzeno (2009), a entrevista inicial se caracterizaria como uma entrevista 
semiestruturada. Para os autores, nesse tipo de entrevista, é o paciente quem constrói 
a forma de eliciar as informações. Ele determina quais informações sobre seu 
problema são processadas primeiro e quais outras informações são adicionadas. O 
assistente pode ajudar a estruturar esse campo de informações perguntando o que 
pode ter sido inconsistente, impreciso, pouco claro ou incompleto e fazendo algumas 
 
 
10 
 
perguntas caso o paciente não saiba como iniciar ou continuar seu relato durante a 
entrevista. 
Durante a entrevista livre, é importante lembrar os temas a serem discutidos, 
essenciais no processo de psicodiagnóstico, que se concentra na ideia de que durante 
a entrevista podem surgir questões importantes do ponto de vista da compreensão e 
da decisão. O caso das próximas etapas do processo, sem esquecer a necessidade 
de fortalecer o foco da pesquisa. 
Devido à ansiedade, o paciente pode querer trazer muitas informações não 
relacionadas à avaliação nesse primeiro contato, nesse caso os avaliadores devem 
estar aptos a orientar a entrevista, por exemplo, pode haver pacientes 
psicodiagnósticos que acabam monopolizando a avaliação, um momento esta 
avaliação para levantar questões pessoais que não são relevantes para o processo 
de avaliação do paciente em questão. 
No entanto, essas situações trazem informações importantes sobre a dinâmica 
familiar e a realidade vivenciada pela criança ou jovem, mas é importante estabelecer 
um limite que determine que esse momento e condição pertença à avaliação da 
criança ou jovem. Se uma criança for encaminhada para avaliação porque está com 
dificuldades para acompanhar o ano letivo e não está tendo o desempenho esperado, 
algumas questões importantes sobre sua vida atual e eventos relacionados devem ser 
abordadas, sobre o surgimento de dificuldades ou se o problema tem aparecido 
continuamente ao longo da vida da criança, e os dados coletados fornecem 
informações sobre seu desenvolvimento. 
Serafini (2016) destaca que em uma entrevista aberta não haveria roteiros 
elaborados, seria necessário investigar questões relacionadas aos sintomas 
apresentados e questões mais gerais, como questões sobre marcos do 
desenvolvimento. No entanto, esteja sempre atento ao foco da avaliação. Assim, as 
entrevistas semiestruturadas também são bastante comuns no cenário 
psicodiagnóstico, pois, diferentemente de uma entrevista livre, possuem perguntas 
pré-formuladas onde o avaliador segue um roteiro de perguntas e novas perguntas ou 
questionamentos podem surgir a partir das respostas do paciente, um familiar, que 
neste caso pode acrescentar novas perguntas durante a execução do roteiro anterior. 
 
 
11 
 
As entrevistas semiestruturadas são adequadas para a realização de uma 
anamnese, a partir da qual, dependendo da faixa etária do paciente, são obtidas 
informações importantes relacionadas ao estágio de desenvolvimento, que devem ser 
coletadas em quase todos os casos. Para o profissional elaborar esses roteiros, 
visando cada da vida (infância/adolescência/adulto) e adaptá-los conforme as 
características individuais do paciente. Por exemplo, um roteiro de entrevista de 
história da criança deve incluir perguntas sobre marcos de desenvolvimento, que 
podem ser ilustrados pelas seguintes perguntas: com que idade a criança se 
sentou/andou/falou pela primeira vez? Caso a resposta se refira a um evento que não 
é esperado do ponto de vista do desenvolvimento, a tarefa do avaliador é investigar a 
questão com mais detalhes e acrescentar novas questões à entrevista para maiores 
esclarecimentos das entrevistas de anamnese. 
Por outro lado, as entrevistas estruturadas são menos comuns em contextos 
clínicos, porque as entrevistas totalmente estruturadas são raramente utilizadas, 
limitando o avaliador tanto em termos das perguntas a colocar como dos tipos de 
respostas que podem ser obtidas, pelo que seguem um roteiro de perguntas e 
respostas alternativas (SERAFINI, 2016). Nas entrevistas estruturadas, não há 
liberdade para acrescentar novas perguntas e o paciente não tem a oportunidade de 
dar respostas diferentes das previamente acordadas. 
Portanto, se usarmos uma entrevista estruturada, outras informações e outras 
técnicas são, sem dúvida, necessárias para entender cada caso individual. Os 
próprios instrumentos de avaliação, como inventários ou escalas, podem seguir a 
lógica de uma entrevista estruturada. Entretanto, mesmo esses instrumentos, quando 
utilizados na avaliação psicodiagnóstica, devem fundamentar seus resultados com 
outras informações que se busca entre as técnicas utilizadas. 
Como já mencionado no capítulo anterior, é muito importante que ao iniciar o 
processo de psicodiagnóstico, o especialista/avaliador investigue quais fatores 
levaram o aluno/paciente a buscar tratamento, Silva; Bandeira (2016) explica que, 
para estabelecer hipóteses diagnósticas iniciais e, assim, coletar dados para subsidiar 
a escolha de instrumentos e técnicas utilizadas no psicodiagnóstico, os psicólogos 
costumam realizar uma extensa entrevista sobre a história de vida de uma pessoa, 
 
 
12 
 
denominada “entrevista de anamnese”, que se mostrou um importante recurso de 
apoio a todo o processo psicodiagnóstico. 
Para Soares et al. (2014), é um tipo de entrevista que visa explorar a história 
do sujeito, ou seja, aspectos de sua vida que foram considerados importantes para a 
compreensão da queixa. Etimologicamente, a palavra vem do grego anamneses, a 
qual é composto da palavra por “aná”, que se refere à lembrança, ao ato de lembrar, 
com a raiz “mneses”, que significa recordar, fazer lembrar. 
Cunha (2000) menciona que, o histórico médico refere-se ao conhecimento dos 
fatos e da história a ser avaliada em relação à queixa. Um de seus principais objetivos 
é encontrar uma possível conexão entre aspectos da vida do aluno e o problema que 
está sendo apresentado. Nesse tipo de coleta de dados, supõe-se que o informante 
tenha informações sobre si mesmo ou sobre a vida da pessoa avaliada, e ele precisa 
relembrar de sua memória os acontecimentos importantes questionados pelo 
psicólogo. 
Na prática, a história médica é feita em conjunto com os pais ou responsáveis 
na avaliação das crianças. Para os adolescentes, isso pode ser feito em conjunto com 
o jovem, os pais ou ambos em momentos diferentes. Em conjunto com os pais, o 
histórico médico do jovem pode ser preenchido e discutido com o jovem. 
No caso de avaliação com adultos ou idosos, o processo é geralmente feito 
com o próprio paciente (a menos que haja uma condição psicopatológica que ameace 
a qualidade da informação, por exemplo, no caso de depressão profunda ou amnésia). 
A anamnese é um tipo de entrevista clínica que visa apurar os fatos, portanto, o 
psicólogo fica em uma posição mais ativa durante a entrevista. O uso de 
interpretações ou mesmo notas deve ser dosado durante o processo, pois é o 
momento da coleta de dados. Devem ser evitadas opiniões sobre o avaliado, que 
podem ser levantadas oportunamente quando os resultados forem devolvidos. 
Cunha (2000) também menciona que a entrevista histórica é de natureza 
exploratória, priorizando a coleta de informações organizadas cronologicamente para 
orientar a tomada de decisão à medida que a avaliação avança. Por exemplo, no caso 
de um adolescente que necessita de um psicodiagnóstico devido a uma queixa de 
dificuldades de aprendizagem, é imprescindível o conhecimento da vida escolar na 
infância. Ao constatar que as dificuldades já estavam presentes nos primeiros anos 
 
 
13 
 
escolares, as hipóteses iniciais da psicóloga podem focar em uma possível deficiência 
intelectual, reforçando a necessidade de uma avaliaçãocognitiva. 
Quando as dificuldades não estavam presentes na infância e não há indícios 
de prejuízos na funcionalidade como: capacidade de se comunicar adequadamente, 
autonomia para tarefas da vida diária e para o autocuidado, entre outras, a 
identificação dos possíveis acontecimentos que antecederam a dificuldade atual e do 
momento em que os problemas começaram a ocorrer podem sugerir a prioridade de 
outro tipo de investigação, como, por exemplo, a emocional ou comportamental. 
Muitas vezes, no entanto, a cronologia da história de vida em estudo 
permanece obscura. Os informantes podem expressar suas ideias e pensamentos de 
maneira mal organizada. Então, o trabalho do avaliador é tentar organizar essas 
informações em ordem cronológica e ajudar o informante nos pontos de verificação 
da história. Por exemplo, se o informante não conseguir identificar quando realmente 
os primeiros sintomas apareceram, como a idade da criança, por exemplo, pode-se 
perguntar: "Foi antes ou depois que a criança começou a andar?”, “Antes ou depois 
do início das aulas?”. 
A anamnese costuma ser feita na forma de entrevista semiestruturada, 
contendo aspectos importantes a serem abordados para nortear algumas questões, e 
esse roteiro é modificado durante a entrevista. O psicólogo tem a flexibilidade de 
adaptar as perguntas à formação ao nível de instrução do informante e as condições 
culturais do informante e também acrescentar as perguntas que julgar relevantes. 
Também é possível fazer ajustes no roteiro para deixar de questionar aspectos não 
respondidos ou questões que já foram respondidas em momento anterior. Por 
exemplo, muitas vezes recebemos pacientes que usam os primeiros minutos da 
entrevista para se libertarem emocionalmente de seu sofrimento. 
Já abordam alguns aspectos que precisam ser explorados por meio do roteiro 
de anamnese. Portanto, sugere-se que o psicólogo verifique se o que foi dito é 
compreensível para ele ou se é necessário estudar alguns aspectos com mais 
detalhes. O psicólogo também pode chamar a atenção para as questões que se 
revelam mais informativas conforme a queixa relatada. 
 
 
14 
 
Se for, por exemplo, uma criança com enurese noturna, é muito importante 
examinar detalhadamente como se deu o treinamento tanto dos pais quanto dos 
acompanhantes da criança para controlar os músculos esfincterianos. 
Antes de iniciar a coleta do histórico médico, é necessário criar um vínculo 
suficiente com o informante, no qual são explicados os objetivos gerais da entrevista, 
bem como sua duração e o papel no processo de psicodiagnóstico. Geralmente 
começamos esta etapa perguntando por que você está solicitando uma avaliação. 
Dedicamos algum tempo para fortalecer a participação do informante, essencial para 
o bom funcionamento do processo de avaliação, e para tirar suas dúvidas. O psicólogo 
deve demonstrar interesse pelo que a pessoa relata e ouvir atentamente o conteúdo 
dos relatos espontâneos. Você deve deixá-lo confortável e garantir que a "conversa" 
flua naturalmente. Nessa etapa, o psicólogo não deve comentar os possíveis 
resultados da avaliação e ter cuidado com expressões e entonações que possam 
expressar julgamento. 
Na entrevista de anamnese, formamos imagens e percepções sobre o 
avaliando, esteja ele presente ou não. Alguns aspectos relevantes podem ser 
observados mesmo quando ele não está presente, como por meio da visão do 
informante sobre ele e como apresenta suas características e dificuldades. Pode ser 
que, ao final, a imagem e as percepções construídas inicialmente se modifiquem de 
forma substancial ou permaneçam inalteradas durante as sessões de avaliação. 
A partir do momento em que conhecemos o próprio paciente, começamos a 
formar uma imagem do que ele realmente é, e observamos como ele se comunica e 
parece sentir a queixa. Comparar os achados do histórico médico com o observado 
no contato direto com o paciente durante as consultas pode ser uma rica fonte de 
informações. 
Embora a entrevista anamnese tenha um papel central no Psicodiagnóstico, é 
importante considerá-la como um recurso limitado. No primeiro encontro com o 
avaliador ou o denunciante, o psicólogo e o informante se influenciam, a partir de 
experiências anteriores e expectativas em relação ao processo de Psicodiagnóstico. 
Um dos maiores desafios é criar uma comunicação que possibilite entender a 
doença atual do paciente e desenvolver juntos sua evolução ao longo do tempo. É 
quase impossível reunir todas as informações relevantes sobre a vida do sujeito em 
 
 
15 
 
uma entrevista. As informações são filtradas conforme a percepção do entrevistado e, 
às vezes, falham por resistência, esquecimento, distorções, omissões ou manipulação 
deliberada. Além disso, o psicólogo nem sempre conhece todas as questões 
importantes discutidas durante a entrevista de anamnese, valendo a pena retorná-las 
nas sessões subsequentes do processo de psicodiagnóstico. No entanto, tal 
entrevista é considerada um ponto de partida necessário. 
Gravar uma entrevista anamnese é um aspecto muito importante a ser 
considerado. Um psicólogo deve conseguir fazer perguntas, ouvir, prestar atenção ao 
informante e anotar o que ele disse. As respostas do entrevistado devem ser 
registradas com precisão e preferencialmente com suas próprias palavras, para que 
a interpretação do psicólogo não atrapalhe as anotações. Tomar notas enquanto 
escuta pode ser difícil, pois as informações obtidas da observação podem ser perdidas 
e criar distância do informante. 
Confiar nas lembranças e anotar tudo depois da sessão pode ser arriscado, 
pois ao ouvirmos filtramos as informações e perdemos partes importantes da fala do 
informante. Uma opção menos usada é gravar a entrevista histórica. As principais 
vantagens deste formato de armazenamento são a confiabilidade dos dados 
coletados, a capacidade de controlar o armazenamento e, em caso de incerteza, 
controlar todos os dados. Além disso, o psicólogo pode passar mais tempo ouvindo e 
observando durante a sessão. Desvantagens podem ocorrer quando o entrevistado, 
apesar de consentir com a gravação, se sente desconfortável e passa a esconder ou 
mesmo esquecer detalhes importantes devido à gravação. 
Em alguns casos, se o psicólogo optar por gravar e perceber durante a 
entrevista que a pessoa se sente desconfortável, ele pode interromper e explicar o 
assunto ao informante. É importante enfatizar que qualquer gravação de áudio ou 
vídeo tem implicações éticas. Ao se registrar em qualquer formulário, você deve 
sempre notificar o avaliador ou informante e pedir sua permissão. Recomendamos 
que o consentimento de armazenamento de dados digitais seja formalizado por escrito 
e arquivado com os documentos elaborados durante a avaliação. 
Em termos de duração, não há uma regra de quantas sessões devem ser 
reservadas para a entrevista anamnese. Nas atividades de psicodiagnóstico, 
costumamos reservar um horário para a sessão e, em seguida, caso seja necessário 
 
 
16 
 
verificar informações adicionais, solicitamos ao avaliado ou seu responsável que 
responda às questões. Costumamos usar a última parte da sessão de avaliação para 
isso. Essas dúvidas podem surgir durante a escrita da história clínica ou em outras 
sessões, quando surgem observações ou novas informações do mesmo informante 
ou de um informante diferente. Como o psicodiagnóstico é um processo de duração 
limitada, o tempo disponível deve ser utilizado da forma mais eficiente possível. Nos 
casos em que a história clínica é rica em detalhes importantes, como muitos eventos 
na família e na vida do sujeito, uma segunda sessão pode ser necessária. 
Dependendo do campo em que o psicólogo atua, alguns aspectos da história 
são mais importantes que outros. A tarefa do profissional é escolher questões 
relevantes segundo os objetivos da entrevista para distinguir o importante do 
inexplorado. Existemmodelos de anamnese prontos para ajudar o profissional em 
algumas questões importantes. Por exemplo, os serviços de saúde às vezes têm um 
roteiro de histórico padrão que facilita a coleta de dados por profissionais 
inexperientes. Na prática clínica, o psicólogo deve ter um roteiro básico, mas a 
entrevista é pautada por sua experiência e conhecimento do desenvolvimento 
esperado de cada etapa da vida. 
A anamnese não é uma técnica exclusiva do psicólogo. No campo da saúde, é 
amplamente utilizado para compreender os fatores envolvidos no processo saúde-
doença. Em diferentes campos, eles compartilham o objetivo comum de buscar 
informações sobre a história de uma pessoa, orientando a formulação de hipóteses, a 
busca de um diagnóstico e a avaliação de um prognóstico. 
Werlang (2000), explica as peculiaridades da entrevista médica, que não segue 
a mesma estrutura para diferentes faixas etárias. Certos aspectos são sempre 
considerados independentemente da idade, como a composição e as relações 
familiares, o número de parentes próximos e a profissão de cada membro, as 
peculiaridades do ambiente doméstico, a rede de apoio do avaliado e questões 
relacionadas a ele. Existe a necessidade de que a investigação seja feita por meio de 
uma posição do avaliando no sistema familiar, podendo ser ilustrada por meio de um 
genograma, uma representação gráfica da família. 
Outros aspectos comuns a todas as entrevistas de anamnese incluem: 
 
 
17 
 
⮚ Evolução da queixa, ou seja, há quanto tempo o avaliando apresenta o 
problema e se teve momentos em que ele foi mais ou menos comprometedor; 
⮚ Histórico de tratamentos de saúde atuais e pregressos; 
⮚ Uso de medicamentos; 
⮚ Efeitos do problema sobre o funcionamento psicossocial do paciente 
atualmente; e 
⮚ Percepção do examinando em relação à queixa. 
À medida que envelhecemos, alguns aspectos tornam-se mais ou menos 
importantes do que outros, o que faz com que as questões da história precisem ser 
adaptadas a essas especificidades. 
Na anamnese da criança, a coleta da história pré-natal e perinatal e o alcance 
dos marcos do desenvolvimento são primordiais. A história médica pré-natal e 
perinatal inclui informações sobre a condição física e mental da mãe durante e após 
a gravidez, cuidados pós-natal e possíveis efeitos colaterais durante a gravidez 
(quedas, acidentes, outros eventos graves). 
Os detalhes do nascimento, o estado mental e de saúde da mãe no momento, 
a condição da criança no momento do nascimento, os escores de Apgar nos primeiros 
5 minutos, as características e habilidades iniciais do bebê e a reação do bebê aos 
pais, especialmente naquela época, investigando também as condições emocionais 
dos familiares e pais, buscando identificar existência de conflitos no seio familiar. É 
também importante investigar o potencial de exposição materna a teratógenos, 
substâncias que podem causar danos estruturais durante a fase embrionária e o 
desenvolvimento cerebral. Os principais teratógenos incluem infecções, 
medicamentos como antibióticos, anticonvulsivantes, antidepressivos e antipsicóticos, 
uso de drogas, radiação, exposição a produtos químicos como chumbo, mercúrio e 
fenilbenzeno e deficiências de vitaminas e desnutrição materna durante a gravidez. 
Quando se trata de desenvolvimento infantil, precisamos observar indicadores 
de idade esperada, como quanto tempo leva para atingir determinados marcos de 
desenvolvimento e a qualidade de quando uma criança começa a realizar essa 
habilidade. As questões-chave dizem respeito à linguagem, capacidade motora, 
cognitiva, social, emocional e adaptativa. Com relação à linguagem, se a criança 
balbuciou nos primeiros meses, com que idade foram ditas as primeiras palavras, qual 
 
 
18 
 
a qualidade da linguagem e como foram avaliadas as tentativas de comunicação do 
adulto aceitação. 
A avaliação dos marcos motores incluía a idade da criança engatinhando, 
quando começou a andar, se tinha problemas para manipular objetos ou se 
movimentar e se já tinha controle sobre seus esfíncteres diurnos e noturnos, podendo 
incluir se foi feito ou não. As habilidades cognitivas podem ser avaliadas fazendo 
perguntas sobre a capacidade da criança de aprender coisas novas, qualidade do 
jogo, sinais de criatividade, dificuldade com tarefas diárias, desempenho escolar e 
muito mais. 
A avaliação da interação social e dos aspectos emocionais inclui o apego inicial 
do bebê, a interação entre o bebê e o cuidador imediato e o relacionamento emocional 
com outras pessoas próximas, como irmãos, parentes e colegas. Para as crianças 
que já começaram a frequentar a escola, podemos examinar como elas reagem ao 
aumento da interação social e à experiência de separação dos pais. 
Bem como as capacidades adaptativas podem se concentrar no grau de 
autonomia e dependência da criança para realizar tarefas diárias adequadas à idade, 
como: vestir-se, alimentar-se e pedir ajuda a outras pessoas para atender às suas 
necessidades. Se uma criança carece de certas habilidades ou não apresenta 
comportamento adequado à idade, o psicólogo deve ficar atento e avaliar se isso se 
deve a problemas de redução da capacidade devido a problemas desenvolvimento ou 
a fatores ambientais, como, por exemplo, a superproteção dos pais. Devendo, nesse 
último caso, essa percepção ser discutida com os responsáveis no final do 
psicodiagnóstico, mas não no momento da entrevista de anamnese. 
Cunha (2000) esclarece que outros aspectos muito importantes a serem 
considerados na história médica de uma criança estão relacionados à amamentação 
e desmame, nutrição e qualidade do sono. Isso inclui informações sobre com quem a 
criança dorme, se ela tem quarto próprio, sinais como chupar o dedo, entre outros. 
Roer unhas, urinar na cama, relaxamento, acessos de raiva, tiques, medos 
excessivos, pesadelos, fobias, masturbação, crueldade animal. 
Para que a anamnese não fique muito extensa, o psicólogo, pode fazer uma 
pesquisa mais geral, não precisa perguntar individualmente sobre esses fatores, 
buscando identificar se houve algum problema em determinada área e explorar 
 
 
19 
 
respostas positivas do informante. Recomendamos o uso de um roteiro básico, que 
deve permitir a inclusão ou a redução de questões conforme as informações que vão 
sendo coletadas na entrevista. 
Assim, para investigar problemas motores, pode iniciar com a pergunta: “Com 
que idade ele/ela começou a andar?” Se a resposta for “Por volta de um ano”, não nos 
dedicamos a investigar com que idade firmou a cabeça ou engatinhou. Presume-se 
que o desenvolvimento tenha ocorrido conforme o esperado, pois, caso a criança ande 
por volta de um ano, e o alcance dessa habilidade mais complexa indica o sucesso 
de etapas anteriores do desenvolvimento motor. 
Se uma criança for adotada, deve-se tentar recuperar o máximo possível de 
dados da história da criança. Isso pode ser difícil, especialmente para adoções em 
que os pais biológicos da criança não podem ser identificados. Nesses casos, a 
triangulação de dados de vários informantes da história anamnésica e dados 
complementares da história médica da criança são altamente relevantes. 
Uma entrevista de anamnese com adolescentes deve considerar as diversas 
mudanças que ocorrem nessa fase, principalmente as hormonais, físicas e de 
formação de identidade. Os marcos do desenvolvimento infantil precisam ser tratados 
de forma mais sucinta e geral, a fim de determinar se os problemas encontrados na 
infância estão afetando ou ainda permanecem na adolescência. Atenção especial 
deve ser dada à socialização, interesse em relacionamentos íntimos, questões de 
sexualidade, histórico escolar e questões específicas durante esse período. 
O autor supracitado, a adolescência foi caracterizada como uma fase especial 
no processo de desenvolvimento marcada pela ruptura de papéis e dificuldade em 
estabelecera própria identidade, marcando a transição entre a infância e a idade 
adulta, está associada a muitas crises e deve ser considerada quando se trabalha 
com jovens. 
Para Cunha (2000), quanto à socialização, as relações na adolescência tendem 
a se tornar mais amplas e importantes. Pode haver um afastamento dos pais devido 
a contradições de valores e interesses, fazendo os jovens se aproximarem mais de 
amigos e figuras de identificação. Comportamentos opositores podem surgir ou se 
acentuar nessa fase da vida. Na anamnese, deve-se investigar as relações do 
adolescente com os pais, irmãos, amigos, colegas, figuras de autoridade e de 
 
 
20 
 
identificação. Além disso, deve-se investigar o interesse do jovem em relacionamentos 
íntimos, seus possíveis conflitos e dificuldades com essa questão e aspectos 
relacionados à sexualidade, muito importantes nessa fase da vida. 
A vida escolar também ocupa um papel preponderante na adolescência, sendo 
a principal ocupação da maioria dos jovens. O desempenho acadêmico pode ser um 
importante indicador de potenciais problemas na vida dos adolescentes, sendo 
relevante analisar sua evolução no tempo. Por exemplo, se o adolescente tem um 
mau desempenho escolar em várias disciplinas, destoante de um padrão anterior de 
aproveitamento, isso pode assinalar a presença de eventos pontuais que começaram 
a afetar a vida do jovem em um dado momento. 
A identificação desses eventos pode ajudar a formular hipóteses sobre o que 
aconteceu paralelamente ao declínio do aproveitamento escolar e que, 
provavelmente, está afetando também outros âmbitos da vida do adolescente. No que 
lhe concerne, se o desempenho escolar é ruim, mas tem se mantido constante ao 
longo do tempo, isso pode sugerir um déficit cognitivo, o qual exerce uma influência 
mais duradoura e pode explicar os prejuízos do aprendizado. 
Também é válido explorar os interesses gerais do adolescente, como seus 
hobbies, e suas perspectivas de futuro profissional, além de sua satisfação diante 
desses aspectos e seu potencial para realizar seus objetivos. Os níveis de autonomia, 
os sentimentos de autoestima e autoeficácia e possíveis conflitos com a aparência 
são importantes e devem ser considerados. Comportamentos problemáticos, como 
fugas de casa, uso abusivo de álcool e drogas, e atitudes contrárias às leis e normas 
sociais, quando bem analisadas, podem suscitar hipóteses para o processo 
Psicodiagnóstico. 
Na anamnese com adultos, o desenvolvimento nas fases anteriores da vida é 
investigado em termos da possível ocorrência de problemas que podem apresentar 
progressos relevantes, sem grande detalhamento. As questões mais importantes 
referem-se às demandas de desenvolvimento esperadas nos âmbitos sexual, familiar, 
social, ocupacional e físico. Assim, podemos considerar como aspectos centrais da 
vida dos adultos podem ser organizados em cinco domínios: 
Relacionamento íntimo: Os autores destacam que quando se trata de adultos, em 
relação à vida íntima, a expectativa é de que o indivíduo já tenha encontrado, por 
 
 
21 
 
exemplo, um parceiro e se adaptem à convivência com ele. Desse modo, a entrevista 
de anamnese, torna-se um fator importante na avaliação da qualidade do 
relacionamento entre os parceiros ou cônjuges, a qual irá questionar situações que 
abrangem desde a satisfação geral como a intimidade, sexualidade, bem como os 
padrões comportamentais do casal, além dos pontos positivos e possíveis problemas 
enfrentados. 
Outro fator relevante no caso de adultos em um relacionamento íntimo é a 
importância de fazer uma análise das expectativas relativas à relação, além de uma 
busca sobre relacionamentos anteriores e sua qualidade, aprofundando na 
investigação relativa a divórcio, novos casamentos, perda do cônjuge ou mesmo a 
resistência a envolvimentos afetivos, os quais podem fornecer elementos significativos 
para a compreensão da queixa. 
Quanto ao domínio da vida familiar: deve ser considerado a qualidade das relações, 
a administração de tarefas como, por exemplo, a divisão das responsabilidades com 
os demais membros da família. Quanto aos filhos, deve ser dada atenção especial à 
relação com os filhos, quando for o caso, bem como às responsabilidades que 
envolvem pai e mãe. Além da atenção devida aos possíveis problemas de 
relacionamento na família, bem como a necessidade de prover cuidados contínuos a 
uma pessoa doente. 
Vida profissional: trata-se também de algo de suma importância na vida adulta, pois 
está relacionada a satisfação pessoal, com o próprio desempenho na carreira, bem 
como a concretização ou não de planos e metas de vida, as condições financeiras, 
além dos relacionamentos com a chefia, colegas e subordinados. Desse modo, é 
importante dar a devida atenção a detalhes como recorrentes mudanças de emprego, 
algum estresse ou esgotamento emocional relacionados ao trabalho. Ainda, no caso 
de adultos aposentados, é importante considerar os sentimentos que predominam 
nessa nova fase da vida. 
Vida social: importante que se faça uma busca nas informações sobre a rede de 
contatos do adulto e que se verifique a importância que ele atribui aos seus 
relacionamentos. Outros fatores que podem ser analisados, estão relacionados à 
capacidade da pessoa em se divertir e fazer atividades em grupo para além do 
 
 
22 
 
ambiente de trabalho. Além de constatar alterações físicas dessa etapa da vida, bem 
como questões relacionadas à fertilidade e possíveis preocupações com a saúde. 
Para Cunha (2000), quanto aos adultos de meia-idade e idosos, é importante 
abordar a adaptação às mudanças físicas indesejadas, por exemplo, aquelas 
relacionadas a hormônios (menopausa ou andropausa), envelhecimento da pele e 
diminuição da força física. É relevante que se considere na anamnese de adultos 
abordar como este enfrenta as mudanças ocorridas ao longo dos anos, assim como 
suas reações diante de crises, adversidades e outras situações críticas e 
estressantes. Já no caso dos idosos, vale a pena considerar aspectos do 
envelhecimento, relacionando-os às perdas ocorridas ao longo da vida que podem 
estar conectadas à queixa. 
Conforme os estudos de Silva; Bandeira (2016), o principal informante 
escolhido na entrevista de anamnese, trata-se de fator relevante, devendo ser 
considerados fatores como: idade do avaliando, suas capacidades intelectuais no 
momento da entrevista, o grau de autonomia ou de limitação no exercício de 
atividades da vida diária e o interesse em colaborar. Já quando se tratar de crianças 
é indicado que se chamem os pais, considerando que geralmente quem comparece é 
a mãe, e que é ela quem passa mais tempo com o filho e observa o seu 
desenvolvimento. 
Entretanto, deve-se preferencialmente chamar ambos os pais, não priorizando 
o comparecimento de um único responsável para a primeira entrevista. O Psicólogo 
pode tender a chamar somente a mãe da criança ou quem procurou o atendimento, 
mas pai e mãe podem ter perspectivas complementares. Os pais podem, também, já 
no primeiro momento, revelar percepções diferentes sobre a criança e inconsistências 
na forma de lidar com ela, dado que pode ajudar na compreen-são da queixa. Em 
casos de pré-adolescentes, além da anamnese com os pais, pode-se fazer uma 
entrevista com o jovem, enfocando brevemente as queixas apresentadas pelos 
responsáveis para verificar como o adolescente percebe e experimenta esses 
possíveis problemas. 
Silva e Bandeira (2016), menciona ainda que na entrevista de anamnese de 
adolescentes, por vezes a escolha do principal informante se configura como a tarefa 
mais difícil. Por um lado, o adolescente já tem as habilidades e competências 
 
 
23 
 
necessárias para falar sobre si, e possui conhecimentos sobre sua vida e sobre as 
dificuldades ou problemas que o trazem à avaliação. Entretanto, fatores como 
interesse e motivação para o Psicodiagnóstico, característicasda personalidade, 
como introversão e extroversão, capacidade cognitiva, entre outras, vão estabelecer 
se ele será o principal informante ou se será melhor chamar um responsável. 
Assim, não há uma regra geral sobre quem é o melhor informante para o 
psicodiagnóstico de adolescentes. A escolha vai depender de quem elaborou a 
demanda, de quem procurou o psicólogo para a avaliação, de qual é a queixa 
principal, de qual é o interesse do avaliando, etc. Por exemplo, se o adolescente iniciar 
uma avaliação por queixas de comportamentos percebidos como opositores, ele pode 
se recusar a falar sobre isso ou não considerar o fato um problema. Em casos em que 
o jovem será avaliado por queixas de dificuldades de aprendizado, ele pode estar 
interessado em descobrir as causas dessas dificuldades e ser muito cooperativo. 
Alguns adolescentes não estão cientes de como foi seu desenvolvimento nos 
primeiros anos e, nessa hipótese, chamar os pais pode ser mais informativo. Portanto, 
o psicólogo deve considerar vários fatores para decidir com quem fazer a entrevista 
de anamnese, ou, o que seria ideal, entrevistar tanto o adolescente como os seus 
responsáveis. A comparação de perspectivas costuma ser uma fonte rica de 
informações. No caso de fazer a anamnese com os pais, o psicólogo deve ser honesto 
e falar com o adolescente no primeiro contato, em linhas gerais, sobre o que foi dito a 
respeito dele, visando estabelecer uma relação de confiança. O jovem pode ser 
incentivado a dizer se concorda com o que foi dito e fornecer a sua visão dos fatos. 
Silva e Bandeira (2016), explicam que em caso de Psicodiagnóstico de adultos, 
a anamnese é geralmente realizada com o próprio avaliando, exceto quando ele tem 
limitações intelectuais consideráveis ou quando um problema o impede de ser o 
principal informante. Por exemplo, pode ser que o adulto seja muito introvertido, ou 
esteja muito deprimido, e não consiga falar sobre a queixa ou sobre os dados de sua 
história. Nesse caso, é entrevistada uma pessoa próxima a ele, que conhece bem a 
sua história, como pais, cônjuge, um parente, um filho ou mesmo um amigo próximo. 
Em todos os tipos de anamnese, o psicólogo pode considerar a necessidade e 
a viabilidade de consultar diferentes informantes. Quando o avaliando é um idoso, a 
anamnese também pode ser feita com o próprio avaliando ou com uma informante 
 
 
24 
 
chave, analisando-se as mesmas potencialidades e limitações descritas 
anteriormente. 
1.1 Características do Psicodiagnóstico 
O psicodiagnóstico trata-se de uma avaliação psicológica realizada por 
métodos, instrumentos e técnicas as quais têm por objetivo diagnosticar o paciente, 
ou seja, encontrar o melhor tratamento para assim orientar o paciente visando sua 
qualidade de vida, bem como a ajuda aos profissionais de saúde em seu trabalho com 
os pacientes. Cunha (2000) define o psicodiagnóstico como: “(...) avaliação 
psicológica para fins clínicos, portanto, não contempla todos os modelos de avaliação 
psicológica das diferenças individuais" (CUNHA, 2000, p. 19). Na descrição do autor: 
Psicodiagnóstico é um processo científico, limitado no tempo, que utiliza 
técnicas e testes psicológicos, ao nível individual ou não, seja para entender 
problemáticas à luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos 
específicos, seja para classificar o caso e prever seu curso possível, 
comunicando os resultados (output), na base dos quais são propostas 
soluções, se for o caso. (CUNHA, 2000, p. 26) 
Assim, entende-se que o psicodiagnóstico é um procedimento científico cuja 
finalidade é avaliar uma ou mais características psicológicas do (a) paciente, o qual 
se configura como base para estudo descritivo e/ou dinâmica pela qual a história do 
paciente se desenvolve e pode ser tratada e compreendida. 
No Brasil, utiliza-se a avaliação psicológica visando diagnosticar o paciente. 
Porém, costuma-se recorrer ao termo psicodiagnóstico, quando um especialista se 
utiliza da coleta de informações de um (a) paciente por meio de testes psicológicos 
visando obter uma visão geral e consistente de seu quadro. 
Outro fator relevante, quanto a definição e prática do psicodiagnóstico no Brasil, 
está relacionada ao fato de que atualmente os meios científicos brasileiros têm 
desenvolvido diversos instrumentos confiáveis, os quais a partir das realidades 
culturais específicas da sociedade brasileira, somados a maior qualificação 
profissional do cenário da psicologia no Brasil e dos atendimentos psicológicos 
oferecidos à população, aumentam a oferta e a qualidade dos exames. 
 
 
25 
 
Os pesquisadores Krug; Trentini; Bandeira (2016), acreditam que estes estudos 
serviram apenas para dar qualidade aos testes, mas não ao processo 
psicodiagnóstico em si, o demonstram que o problema não está totalmente definido 
do seu ponto de vista psicométrico, ou seja, como parte de testes e sua validação 
prática e epistemológica. 
Além do fato de que existe a necessidade de capacitação do profissional para 
que este utilize os instrumentos de forma adequada, sendo, necessário investir na 
formação teórica do especialista para que ele possa ser capaz de escolher, manejar, 
interpretar e integrar os resultados de tais instrumentos clínicos por meio de práticas, 
pesquisas e procedimentos psicodiagnósticos. Diante disso, o investimento em 
aprimoramento de testes e a busca para os tornarem mais válidos e confiáveis é de 
suma importância. 
Os autores, partem da reflexão e questionam a atual supervalorização dos 
instrumentos psicométricos e projetivos em detrimento da tarefa de escuta e da 
síntese compreensiva que o psicólogo deve realizar com base em todas as 
informações colhidas durante a avaliação. Mencionam o fato de que, por vezes, a 
teoria psicológica tem tido cada vez menos influência no processo de avaliação, seja 
porque não é utilizada pelo profissional para orientar o processo de avaliação em si, 
seja porque não faz parte da estrutura das ferramentas/instrumentos utilizados nas 
avaliações, talvez porque haja uma dificuldade do profissional, ou seja, o domínio 
teórico no sentido, de fazer um trânsito entre o teste, o sentido do teste e a concepção 
de sujeito cuja experiência encontra-se na base de seu trabalho. 
Além do fato de que alguns psicólogos adotam em seus processos avaliativos 
técnicas que se estruturam em diferentes teorias sem nenhum parâmetro crítico, 
apenas guiados pelo esforço de compatibilizar posturas epistemológicas conflitantes 
e incongruentes, o que faz surgir no campo da avaliação instrumentos que não se 
sustentam teoricamente e nem respondem a especificidade da prática onde são 
colocados em cena. 
Diferentemente, os autores defendem a necessidade de aprofundar as teorias 
psicológicas subjacentes às técnicas de coleta e análise de dados utilizadas nos 
processos avaliativos. Entendem “ [...] que não existe a possibilidade de o psicólogo 
trabalhar sem uma teoria de base, uma vez que os fenômenos são observados e 
 
 
26 
 
analisados à luz de pressupostos teóricos, em um processo interativo (KRUG; 
TRENTINI; BANDEIRA, 2016, p. 18). 
 Trazem ainda a necessidade de que se entenda que a prática do 
psicodiagnóstico é também guiada por uma multiplicidade de posições e concepções, 
as quais, muitas vezes, não são questionadas em suas bases teóricas, mas servem 
como orientadores do trabalho do profissional, devendo também ser consideradas. 
Já no entendimento de Cunha (2000), o termo psicodiagnóstico, caracteriza um 
tipo de avaliação psicológica que possui objetivos clínicos por meio do uso de testes 
e outras estratégias que visam avaliar o paciente de forma sistemática, orientada e 
científica com a finalidade de solucionar problemas. Suas definições, demandam a 
ênfase na avaliação diagnóstica como ferramenta obrigatória e o uso de testes para 
definir o processo de avaliação psicológica clínica do psicodiagnóstico.Aponta, para 
uma definição ‘psicométrica’ da avaliação e do psicodiagnóstico, que segundo Krug; 
Trentini; Bandeira, é insuficiente se não houver uma mediação teórica consistente. 
Castro, Campezatto e Saraiva (2009) possuem o mesmo entendimento, mas 
indicam as etapas do processo que permitem aprofundar os conceitos os quais 
distinguem avaliação e psicodiagnóstico. Segundo as autoras, avaliação e 
psicodiagnóstico não são a mesma coisa, pois durante o processo psicológico é 
possível reconhecer um período de avaliação e um período de “psicodiagnóstico” no 
processo de atuação do psicólogo em relação ao paciente. 
Diante disso elas entendem que durante o “período de avaliação” que precede 
a psicoterapia, o profissional pode realizar um “psicodiagnóstico” ou encaminhá-lo 
para outro psicólogo que esteja apto a realizá-lo, e, quando houver a necessidade de 
aplicação de testes psicológicos, ela pode ser realizada pelo próprio psicoterapeuta, 
caso este domine as técnicas necessárias e se sentir confortável para realizá-lo, ou 
por meio de um colega especializado em psicodiagnóstico (CASTRO; CAMPEZATTO; 
SARAIVA, 2009). 
Mediante estes entendimentos, conclui-se que o processo de psicodiagnóstico 
se inicia por meio de uma etapa obrigatória direcionada à aplicação de testes e 
técnicas de projeção, pela qual distingue a prática avaliativa denominada 
Psicodiagnóstico. Já na prática avaliativa dos psicanalistas, podem usufruir de 
entrevistas gratuitas ou totalmente abertas, o que não é possível no Psicodiagnóstico 
 
 
27 
 
por limitações de tempo (CAMPO; ARZENO, 2009). Em outras palavras, o que 
distingue a avaliação clínica de psicólogos que denominam sua prática de 
Psicodiagnóstico daqueles que não o fazem é simplesmente o uso de testes 
psicológicos (KRUG, 2014). 
Entretanto Krug; Trentini; Bandeira (2016) trazem um entendimento de que: 
Parece-nos infrutífera essa distinção terminológica, uma vez que, para nós, o 
que define um psicodiagnóstico relaciona-se mais ao caráter investigativo e 
ao diagnóstico do que à necessidade do uso de determinado tipo de 
instrumento de coleta de dados. Diferentemente dos trabalhos citados, 
encontramos outros autores que defendem a ideia de que o uso de testes 
pode não ser necessário em um psicodiagnóstico (KRUG; TRENTINI; 
BANDEIRA, 2016, p. 17). 
Sendo assim a utilização ou não de testes no Psicodiagnóstico, depende do 
profissional e de seu pensamento clínico conforme as necessidades de cada paciente. 
Dito isto, o Conselho Federal de Psicologia – CFP, traz a definição de “avaliação 
psicológica”: 
A avaliação psicológica é compreendida como um amplo processo de 
investigação, no qual se conhece o avaliado e sua demanda, com o intuito de 
programar a tomada de decisão mais apropriada do psicólogo. Mais 
especialmente, a avaliação psicológica refere-se à coleta e interpretação de 
dados, obtidos por meio de um conjunto de procedimentos confiáveis, 
entendidos como aqueles reconhecidos pela ciência psicológica. (CFP, 2013, 
p.11) 
Dessa forma a avaliação psicológica engloba qualquer atividade, com ou sem 
o uso de testes. Já em relação à diferença entre “avaliação psicológica” e “testagem 
psicológica”, a Cartilha CFP (2013), traz expresso: 
A avaliação psicológica é um processo amplo que envolve a integração de 
informações provenientes de diversas fontes, dentre elas, testes, entrevistas, 
observações e análise de documentos, enquanto a testagem psicológica 
pode ser considerada um processo diferente, cuja principal fonte de 
informação são os testes psicológicos de diferentes tipos. (CFP, 2013, p. 13) 
Ressalta-se que a CFP (2007) não menciona o termo Psicodiagnóstico, mas a 
Cartilha do CFP (2013) apenas menciona o termo com a finalidade de descrever uma 
forma de avaliação psicológica sem especificar se os testes são necessários ou não 
(...) no âmbito da intervenção profissional, os processos de investigação psicológica 
 
 
28 
 
são denominados de avaliação psicológica, descritos em termos de suas modalidades 
psicodiagnóstico, exame psicológico, psicotécnico ou perícia” (CFP, 2013, p. 34). 
Sobre o tema Krug; Trentini; Bandeira (2016) trazem o seguinte 
questionamento: 
(...) as chamadas “entrevistas preliminares”, “entrevistas de avaliação” ou 
“entrevistas iniciais”, conduzidas por Psicólogos de diferentes abordagens 
teóricas antes de indicar ao paciente uma análise, uma Psicoterapia ou 
qualquer modalidade de tratamento Psicológico ou de outra área, não 
poderiam ser consideradas uma prática de avaliação Psicológica (KRUG; 
TRENTINI; BANDEIRA, 2016, p. 17). 
No início do tratamento o Psicólogo tem como finalidade identificar o problema 
de um paciente, para isso faz uma avaliação clínica preliminar, onde busca conhecer 
os aspectos psicológicos do paciente à luz da teoria da teoria configurada, baseado 
em sua prática de avaliação psicológica, e conforme sua formação e escolhas 
teóricos-profissionais, o profissional tem a liberdade de optar pelas estratégias, 
técnicas/instrumentos que entender mais indicados conforme o caso em concreto. 
Assim, o Psicólogo opta pelo Psicodiagnóstico, ou testes psicológicos (KRUG; 
TRENTINI; BANDEIRA, 2016). 
Os autores pontuam ainda que essa confusão conceitual pode ser visualizada 
no trabalho essa confusão conceitual é descrita pela literatura Wainstein & Bandeira, 
2013: 
Nesses estudos, investigou-se o que profissionais da saúde e da educação 
entendem e esperam de um processo psicodiagnóstico para crianças e 
adolescentes, assim como de que forma encaminham seus pacientes para 
esse tipo de avaliação. Os resultados indicaram que o conceito de 
“psicodiagnóstico” é associado ao uso de algum instrumento psicológico, 
mais especificamente testes que avaliam as capacidades cognitivas, e 
sugeriram que os profissionais que encaminham seus pacientes não sabem 
ao certo a nomenclatura que deve ser utilizada, usando “psicodiagnóstico”, 
“avaliação diagnóstica”, “psicoavaliação”, “testagem”, conforme o tipo de 
interesse (aspectos cognitivos, aspectos sociais e outros). Essa pesquisa 
apontou que todas as nomenclaturas usadas representam a avaliação 
psicológica clínica, mas o termo que aparenta ser o melhor para esses casos 
é “psicodiagnóstico”, que tem uma definição clara de todo o processo (KRUG; 
TRENTINI; BANDEIRA, 2016, p. 18). 
Baseados nestes estudos os pesquisadores concluíram que o termo 
Psicodiagnóstico faz referência ao uso de determinados instrumentos psicológicos 
(testes que avaliam habilidades cognitivas), constataram ainda que quando esses 
 
 
29 
 
profissionais orientam seus pacientes, eles não têm certeza de qual nomenclatura 
usar, então usam: psicodiagnóstico, "avaliação diagnóstica", "psicoavaliação", "teste" 
por tipos de interesse, aspectos cognitivos, aspectos sociais e muito mais. O estudo 
também mostrou que toda a nomenclatura utilizada representa uma avaliação 
psicológica clínica, o melhor termo para esses casos é Psicodiagnóstico, que tem uma 
definição clara de todo o processo. 
Krug; Trentini; Bandeira (2016) observaram ainda que o uso ou não de testes 
ou de determinados tipos de testes não determina a realização do psicodiagnóstico, 
uma vez que existem os casos que o psicólogo abre mão de utilizar testes, 
principalmente se não estiverem disponíveis e aprovados no mercado. 
Para Wainstein; Bandeira (2013), a avaliação de pré-escolares de 0 a 6 anos, 
em sua maioria, é baseada em critérios de acompanhamento do desenvolvimento 
infantil, a maioria dos profissionais que trabalham com essa faixa etária, não possuem 
um consenso sobre a nomenclatura utilizada para identificar um encaminhamento 
para avaliação psicológica. 
Ainda, Barbieri (2008), acredita na existência de uma significativa lacuna entre 
o campo da avaliação psicológica e as teorias psicológicas, pois a predominância do 
pensamento positivista nas ciências sociais e humanas historicamentetem levado a 
uma lacuna entre a pesquisa acadêmica e a prática profissional. Situação que resultou 
em um empobrecimento da produção de conhecimento, estimulando um 
distanciamento do que deveria ser o objetivo principal do trabalho do psicólogo. 
Para o autor é perigoso negligenciar os próprios aspectos de intervenção e 
terapêuticos, voltando o olhar apenas para as práticas avaliativas em sua dimensão 
de pesquisa, sendo, a separação das atividades de pesquisa e intervenção, resultado 
de uma abordagem positivista que busca o ideal de objetividade. De forma que o 
psicodiagnóstico não intervencionista pode trazer muitas desvantagens para o 
paciente. Desse modo, entrevistas prévias utilizadas sem intervenção não apenas 
atingem seu objetivo de fazer um diagnóstico e iniciar o tratamento, mas também dão 
ao paciente a oportunidade de conhecer outra (s) pessoa (s), o que pode levar a uma 
experiência negativa de tratamento. 
 
 
30 
 
Parece ser compatível com a visão positivista que o uso do termo 
Psicodiagnóstico apenas em situações em que os testes psicológicos são utilizados 
para tornar a avaliação mais objetiva. 
Barbieri (2008) conclui que a lacuna que se percebe entre o campo da 
avaliação psicológica e as teorias psicológicas resultam na pobreza decorrente do 
contato direto e da produção de conhecimento das pessoas, o que tem ajudado a 
alienar o que deveria ser o trabalho do psicólogo. 
Dadas as características da pesquisa qualitativa e quantitativa pós-moderna 
relevantes para a prática avaliativa, pode-se pensar que o uso do termo 
psicodiagnóstico deveria abranger não apenas a objetividade do diagnóstico, mas 
também preocupações clínicas sobre o processo avaliativo. Com a ajuda de 
entrevistas e/ou outros relatos metodicamente detalhados, os sujeitos contam suas 
histórias e experiências e as revivem na relação com os psicólogos, como diz Barbieri 
(2010), permitem mudar a si mesmo por meio dos retornos e do processo terapêutico. 
2 CLÍNICA PSICOLÓGICA NO HOSPITAL 
 
A internação hospitalar provoca diferentes reações no indivíduo, trazendo 
alterações na vida cotidiana e redefinição de papéis. Para Andreoli (2013), a 
intensidade do impacto emocional da hospitalização depende, entre outros fatores, da 
condição psíquica prévia de cada pessoa, do momento de vida em que a internação 
ocorre, do suporte social existente e da gravidade da condição de saúde. É nesse 
contexto que o psicólogo hospitalar atua. Sua inserção na área hospitalar busca a 
significação da doença para o paciente e seus familiares, redefinindo seus limites 
profissionais no espaço institucional. 
As possibilidades de atuação no hospital são determinadas e limitadas pela 
instituição, que é caracterizada por regras, rotinas e dinâmicas de funcionamento. 
Dentre os vários objetivos do psicólogo no hospital, destacam-se a minimização do 
sofrimento causado pela hospitalização, a busca pela humanização das relações 
travadas nesse contexto e a promoção coordenada, interativa e integrativa entre os 
diferentes profissionais envolvidos com o paciente, apresentando uma contribuição 
multidisciplinar. 
 
 
31 
 
Andreoli (2013) traz ainda que a literatura aponta que o surgimento de 
transtornos psiquiátricos é grande no hospital, e as reações mais comuns são as de 
ajustamento, além de sintomas depressivos e ansiosos. O transtorno mental pode 
aparecer nas seguintes situações: 
 
⮚ Reação a uma doença física: observa-se que uma parte dos pacientes 
internados em hospital apresentam reações de ajustamento diante da 
internação. Essa reação está correlacionada com a personalidade, a história 
pessoal e familiar de doenças anteriores e o tratamento necessário a ser 
submetido. 
⮚ Provocando a doença física: sintomas de depressão, cansaço, perda da 
libido e ansiedade fóbica podem estar correlacionados com doenças (p.ex., 
infarto). 
⮚ Manifestado pela doença física de base: em alguns casos que apresentam 
algum transtorno psiquiátrico, a patologia física encontra-se na etiologia dos 
sintomas, por exemplo, a ansiedade e os ataques de pânico como 
consequência de hipertireoidismo ou hipoglicemia. 
⮚ Manifestado por meio de queixas corporais: estima-se que boa parte das 
pessoas possuam algum sintoma corporal ao longo de 1 semana, cuja etiologia 
os médicos não são capazes de determinar (ANDREOLI, 2013). 
 
Outro aspecto importante é a maior morbidade e mortalidade de pacientes que 
apresentam transtornos psiquiátricos quando internados por causas diversas em 
hospital. Dessa forma, a avaliação psicológica é necessária para contextualizar a 
queixa emocional e correlacioná-la à situação em que o indivíduo se encontra, 
permitindo o tratamento global do paciente, considerando e integrando os aspectos 
físicos e emocionais. 
Entende-se por avaliação psicológica a busca sistemática de conhecimento a 
respeito do funcionamento psicológico em situações especificas e que possa ser útil 
para orientar ações e decisões futuras. É um processo de busca de dados agrupando 
 
 
32 
 
informações com três objetivos principais: conhecer o indivíduo, identificar o problema 
e programar uma intervenção. 
No exame psicológico, devem constar: a discussão do caso com o solicitante da 
avaliação, a leitura de prontuário, o exame psíquico, a avaliação da dinâmica 
emocional do paciente e/ou familiar, a compreensão e adesão ao tratamento, a 
conclusão e a proposta de intervenção e o registro em prontuário. 
Discussão do caso: nesse momento, é importante conhecer o motivo da 
solicitação da avaliação psicológica e a suspeita ou impressão que o profissional que 
fez a solicitação tem do paciente ou familiar. O profissional que já́ acompanha o caso 
pode fornecer dados relevantes da história clínica e pessoal, que podem ser melhor 
investigados durante a entrevista de avaliação psicológica. 
Leitura de prontuário: é importante que o psicólogo tenha conhecimento do 
histórico da internação do paciente e da programação do tratamento, assim como 
deve conhecer as medicações que estão sendo administradas ao paciente, a rotina 
na internação, os exames realizados e programados e a equipe médica e 
multiprofissional que está responsável pelo caso. Todas essas informações agregam 
conhecimento global do caso e permitem ao psicólogo a construção de suas hipóteses 
a respeito do funcionamento psicológico do paciente. 
Exame psíquico: didaticamente, pode-se dividir a avaliação psicológica em 
exame psíquico e avaliação da dinâmica emocional e situacional. Na prática, as 
entrevistas ocorrem concomitantemente, a menos que o paciente não esteja em 
condições psíquicas para avaliação da dinâmica emocional e situacional. O exame 
psíquico é a base da avaliação psicológica e permite conhecer o estado atual do 
paciente e garantir que existam condições para se prosseguir com sua avaliação da 
dinâmica emocional. Devem ser avaliados: estado de consciência (normal ou 
alterado), orientação no tempo e espaço e quanto a si mesmo, atenção, concentração, 
memória (recente, imediata e remota), senso/percepção (alucinação visual e/ou 
auditiva), pensamento (velocidade, forma, conteúdo, presença de confusão, 
confusão), linguagem (presença de dificuldade de expressão), humor (presença ou 
não de labilidade, depressão, eufórico ou eutímico), juízo da realidade, inteligência e 
volição (presença ou redução do desejo, impulsividade, compulsividade). 
 
 
33 
 
Avaliação da dinâmica emocional: nesta etapa, deve-se contextualizar a 
doença com o tipo de personalidade e os recursos de enfrentamento que o indivíduo 
possui, bem como a avaliação situacional. Conhecer como a pessoa lida com o 
adoecimento, o tipo de doença enfrentado e o impacto na rotina diária, se é uma 
doença crônica ou aguda e o tipo de exigência que o paciente e o familiar terão no 
posa-la hospitalar, se existe ou não a presençade suporte social, a concepção que 
tem a respeito da situação, se existem mecanismos de defesa presentes, como é a 
adesão ao tratamento e quais recursos o indivíduo encontra para enfrentar a situação. 
Ao obter todas as informações, o psicólogo deve encerrar a avaliação 
psicológica abordando todos os aspectos observados, bem como sua impressão 
sobre o caso. Nesse momento, ele deve propor o tipo de intervenção, o objetivo desta 
e a frequência. É importante que o psicólogo tenha clareza sobre qual abordagem 
pode ser realizada. 
Geralmente, durante a avaliação psicológica, são detectados vários aspectos 
emocionais do paciente; entretanto, no contexto de internação hospitalar, é necessário 
definir o foco do atendimento e se ater ao objetivo definido. A discussão das 
conclusões a respeito da avaliação deve ser realizada com a equipe envolvida e com 
o paciente e sua família. 
Registro em prontuário: a última etapa é a anotação em prontuário sobre o 
que foi observado e realizado. Deve-se tomar cuidado no momento de apontar os 
dados para que a equipe possa compreender a dinâmica emocional sem que a vida 
do paciente seja revelada ou exposta ou que a sua privacidade seja comprometida. A 
evolução em prontuário deve conter o motivo da solicitação, quem solicitou a 
avaliação, uma breve descrição do exame psíquico, a queixa e a compreensão do 
paciente ou familiar, o estado emocional observado e o diagnóstico psicológico. Deve-
se registrar, também, a proposta de intervenção, o objetivo e a frequência. 
É comum encontrar pacientes que não colaboram ou não querem o contato 
com o psicólogo, pois consideram que estão no hospital para tratar de sua saúde física 
a despeito de a equipe ou a família entenderem que pode haver benefício nesse tipo 
de abordagem. Por outro lado, podem existir famílias que interferem, tentando fazer 
prevalecer seus interesses e repetindo a dinâmica relacional já́ estabelecida 
anteriormente. Existe, ainda, a interferência da equipe e do próprio médico do paciente 
 
 
34 
 
que, muitas vezes, não valoriza os aspectos emocionais do paciente e/ou da família 
e, portanto, não solicita a avaliação. 
Diante da impossibilidade de atendimento, é importante que o psicólogo 
esclareça à família e à equipe o que está acontecendo e auxilie no manejo do 
paciente. Muitas vezes, o psicólogo pode identificar uma melhor forma de manejo ou 
uma atitude que pode beneficiar a família a partir do relato dela e da equipe. Quando 
a equipe ou o médico não valoriza o aspecto emocional, cabe ao psicólogo alertar, 
por meio do relato, sobre o que ele está́ pensando e sobre as possíveis implicações 
do não atendimento. Essa também é uma maneira de sensibilizar a equipe para os 
aspectos emocionais envolvidos naquele momento. 
Muitos serviços não contam com serviço social ou retaguarda psiquiátrica, e o 
psicólogo precisa encontrar um modo de atender, da melhor maneira, as 
necessidades do paciente e/ou da família. Em relação ao ambiente, em muitas 
situações, o psicólogo trabalha sem privacidade, como no caso de unidades de terapia 
intensiva (UTI) abertas ou no atendimento de familiares, em que não há um local 
propício para a realização do atendimento. 
Mesmo diante dos desafios, o psicólogo pode contribuir com um conhecimento 
específico e promover benefícios em várias esferas: para o paciente (e a família), que 
tem a oportunidade de reorganização emocional para lidar com a situação de 
adoecimento e encontrar mecanismos de enfrentamento efetivos para a situação, e 
para a equipe, com a possibilidade de compreensão dos mecanismos emocionais 
presentes, considerando os aspectos individuais e promovendo, dessa forma, a 
assistência focada na necessidade do paciente. 
2.1 A psicopatologia na assistência psicológica no hospital 
Andreoli (2013) menciona um entendimento de Karl Jaspers, descrito em 1913, 
onde ele explica que o objeto da psicopatologia é a atividade psíquica real e 
consciente. Queremos saber o que os homens vivem, sentem e como fazem; 
queremos conhecer a extensão das realidades da alma. Queremos examinar não só́ 
a vida dos homens, mas as circunstâncias e as causas que a condicionam, aquilo a 
 
 
35 
 
que se vinculam todos os aspectos que apresenta. Mas não se trata de toda a 
atividade psíquica, só́ a patológica constitui nosso objeto de estudo. 
Considerando esse contexto ainda moderno, pode-se entender que a 
psicopatologia aborda diferentes aspectos da vida psíquica: 
⮚ Atividade intelectual elementar (sensopercepção); atividade intelectual superior 
(pensamento); atividade cognitiva (consciência, atenção, orientação, memória); 
⮚ Afetividade (afeto, humor); 
⮚ Vontade (volição, psicomotricidade). 
As vivencias psíquicas são compreensíveis a partir da biografia do sujeito, 
como reação a evento estressante (o fenômeno psicopatológico resulta da reação a 
um elemento externo, responsável pela provocação do transtorno mental, de forma 
compreensível e relacionada às características de personalidade do paciente), de sua 
personalidade (o desenvolvimento do fenômeno psicopatológico refere-se ao que 
surge em direta conexão evolutiva com a história da personalidade do indivíduo); e 
das rupturas (o fenômeno psicopatológico surge sem clara relação ou nexo causal 
com a personalidade pré-mórbida, de forma não compreensível, ainda que explicável). 
Consciência: é o conhecimento compartilhado com o outro. Tem a função de 
colocar o indivíduo em contato com a realidade para perceber e conhecer os objetos. 
As alterações da consciência podem ser quantitativas ou qualitativas. As alterações 
quantitativas da consciência são descritas como obnubilação da consciência e podem 
se caracterizar pela presença de diferentes sinais e sintomas, como rebaixamento de 
grau leve ou moderado (o paciente pode estar sonolento ou aparentar estar desperto), 
diminuição do grau de clareza sensorial, diminuição da concentração, dificuldade para 
compreensão, dificuldade para integrar as informações sensoriais provenientes do 
ambiente, perplexidade e pensamento incoerente. 
Em estados mais avançados, podem se caracterizar como estupor, até́ o 
estado mais grave, de coma, ficando marcante um acentuado rebaixamento de 
consciência, com dificuldade de permanecer desperto e com a psicomotricidade 
inibida. As alterações qualitativas da consciência referem-se ao comprometimento 
focal do campo da consciência, por exemplo, estados crepusculares (estreitamento 
transitório da consciência, com conservação de uma atividade psicomotora 
 
 
36 
 
coordenada), dissociação da consciência (divisão do campo da consciência, 
ocorrendo perda da unidade psíquica) e transe (estado de dissociação com atividade 
motora estereotipada). 
Atenção: é a direção da consciência, ou seja, o estado de concentração da 
atividade mental. Divide-se em dois tipos: a atenção voluntária, que se caracteriza 
pela direção intencional da consciência para um determinado foco, e a espontânea, 
que é instintiva e, por isso, ligada à vigilância em relação ao ambiente. Pode se 
manifestar por alteração quantitativa, estando diminuídas ou aumentadas a atenção 
voluntária e/ou espontânea. As atividades de atenção podem ser alteradas 
independentemente, de uma para outra. 
Orientação: é a amplitude e a claridade dos processos da consciência, 
expressando, de forma objetiva, a lucidez psíquica. Pode ser entendida como 
psíquica, na qual o sujeito percebe os processos da consciência externos a ele, como 
o tempo e o espaço, e espaço, na qual o sujeito percebe a si mesmo, identificando-se 
(atividade do eu, unidade do eu, identidade do eu, oposição do eu). 
Memoria: é a capacidade de registrar, manter e evocar os fatos já́ ocorridos, e 
essa capacidade se relaciona intimamente com o nível de consciência, de atenção e 
de interesse afetivo. O processo de memorização ocorre em três fases: 
 
⮚ Fase de percepção,registro e fixação; 
⮚ Fase de retenção e conservação; 
⮚ Fase de reprodução e evocação. 
Basicamente, podem-se avaliar dois tipos de memória, a de fixação (retém os 
fatos novos) e a de evocação (tem a capacidade de recuperar e atualizar os dados 
fixados). Por sua vez, a memória pode ser alterada quantitativamente (amnesia, 
amnesia, amnesia) ou qualitativamente, como ocorre nas fabulações e nos falsos 
reconhecimentos. 
Pensamento: é constituído a partir dos elementos sensoriais, embora estes 
não sejam propriamente intelectivos, e podem fornecer substrato para o processo de 
pensar, isto é, imagens perceptivas e suas representações. Os elementos 
constitutivos do pensamento são o conceito, o juízo e o raciocínio, enquanto o 
 
 
37 
 
processo de pensar caracteriza-se por uma descrição da forma, do curso e do 
conteúdo: 
⮚ Alterações do curso do pensamento: aceleração, lentidão, bloqueio e roubo do 
pensamento; 
⮚ Alterações da forma do pensamento: fuga de ideias, afrouxamento das 
associações e desagregação do pensamento; 
⮚ Alterações do conteúdo do pensamento: delírios persecutórios, depreciativos, 
religiosos, sexuais, de poder, riqueza ou grandeza, de ruína ou culpa e 
hipocondríacos. 
Sensopercepção: é um fenômeno elementar gerado por estímulos físicos, 
químicos ou biológicos, originados dentro ou fora do organismo, produzindo estímulos 
nos órgãos receptores visuais, olfativos, gustativos, auditivos, táteis, cenestésicos 
(sensações somáticas) e cenestésicos (sensações motoras). Por sua vez, a 
percepção é a tomada de consciência pelo indivíduo do estímulo sensorial. O 
elemento básico do processo de sensopercepção é a imagem perceptiva real, 
caracterizada por nitidez, corporeidade, estabilidade, extrojeção, básico voluntária e 
completude. 
A ilusão é a percepção deformada de um objeto real e presente, sendo as mais 
frequentes os visuais e auditivas, que ocorrem principalmente por rebaixamento do 
nível de consciência, fadiga grave ou diminuição marcante da atenção ou estados 
afetivos (ilusões catatimias). 
A alucinação é a percepção clara e definida de um objeto, sem a presença do 
estímulo real, e pode ser auditiva, visual, táteis, olfativa, gustativa, cenestésicas e 
cenestésica. 
Humor: é o estado emocional basal no qual se encontra a pessoa em um dado 
momento, determinado pela intensidade, duração e excitabilidade. As alterações do 
humor são registradas de acordo com seus fatores determinantes: 
⮚ Quanto à regulação da intensidade: hipertimia (exaltação patológica), eutimia 
(normal), hipotimia (retraimento patológico); 
⮚ Quanto à regulação da duração: disforia (oscilação); 
 
 
38 
 
⮚ Quanto à regulação da excitabilidade: irritabilidade emocional (predisposição à 
raiva e ao furor). 
Afetividade: compreende o tônus emocional que acompanha uma ideia ou 
vivência, ou seja, é o componente emocional de uma ideia. Apresenta intrínseca 
relação com a sensopercepção, a memória, o pensamento e a vontade. As alterações 
da afetividade podem se caracterizar por apatia (estado de indiferença ou 
esvaziamento afetivo), embotamento afetivo (ausência de nexos afetivos), 
ambivalência afetiva (coexistência de estados emocionais incompatíveis, de forma 
cindida, desagregada) e puerilismo (estado de regressão ao comportamento infantil). 
Vontade: é a capacidade de se exercitar livremente, deliberar, escolher e 
realizar atos voluntários, o que possibilita a interação entre aspectos intelectivos e 
afetivos. A atividade volitiva normal compreende as fases do desejo (etapa afetiva), 
de intenção (etapa afetivo-cognitiva), de deliberação (etapa cognitiva) e de execução 
(etapa psicomotora). As alterações quantitativas da vontade (alteração não controlável 
da energia volitiva), por sua vez, são descritas como prejuízo do desejo e da intenção: 
⮚ Hiperbulia: aumento da capacidade de atividades espontâneas, da iniciativa 
e da disposição; 
⮚ Hipobulia: diminuição da capacidade de atividades espontâneas, da 
iniciativa e da disposição; 
⮚ Abulia: ausência de vontade. 
Há, também, o prejuízo da execução, descrito como o pragmatismo 
(incapacidade de dar sequência aos pensamentos e de agir de acordo com o que se 
pretende). 
3 INTERVENÇÕES PSICOLÓGICAS NO HOSPITAL E OS DESAFIOS DA 
ATUALIDADE 
 
Para Andreoli (2013), um dos principais desafios da psicologia hospitalar tem 
sido fundamentar e desenvolver técnicas de intervenção psicológica que atendam as 
demandas especificas de ambientes hospitalares diferenciados. A teoria que muito 
tem auxiliado na consecução dessa tarefa é a teoria de crise, originada da teoria 
 
 
39 
 
psicanalítica e de suas derivações em psicoterapia breve. As diferentes respostas 
emocionais e a gravidade das repercussões durante e após a crise revelam a 
necessidade de aplicação de intervenções psicológicas capazes de restaurar a 
estabilidade afetiva e de estabelecer medidas de tratamento e de prevenção em saúde 
mental do paciente internado em hospital. 
A crise surge diante da quebra de equilíbrio do indivíduo, em um momento em 
que ele não consegue lidar de modo efetivo com a situação, gerando sintomas que 
são considerados indicadores clínicos das respostas à crise. Assim, a crise é 
compreendida como um estado psicológico transitório, em que o fator desencadeante 
é o desequilíbrio entre a percepção da dificuldade, a importância do problema e os 
recursos disponíveis para sua solução. Esse estado emocional agudo de perturbação 
pode ser gerado por crises evolutivas, fontes situacionais ou socioculturais, resultando 
na incapacidade temporária de a pessoa lidar com a situação por seus meios habituais 
de solução do problema. 
A primeira parte da definição do conceito de crise refere-se ao caráter 
“temporário” dessas situações, as quais, para a maioria das pessoas, caracterizam-
se por ser situações imediatas e transitórias. Entretanto, outras pessoas são 
propensas a desenvolver quadros emocionais mais graves e crônicos, podendo até́ 
constituir novos modos de enfrentamento de vida após a crise. 
A segunda parte da constituição do conceito de crise refere-se à resposta do 
indivíduo diante da situação, na qual a perturbação emocional pode ser definida por 
simples reações de alteração de humor, como depressão e ansiedade, até́ 
perturbações mais graves. Nos quadros mais graves, o indivíduo pode desenvolver 
estados desorganizadores pela diminuição da capacidade de resposta e pelo 
sofrimento emocional, incluindo as psicoses reativas. 
O último termo incluído na definição de crise refere-se à capacidade de solução 
do problema, o que necessariamente solicita do profissional de saúde uma avaliação 
da saúde global do indivíduo, ou seja, uma visão não somente dos recursos psíquicos, 
como também dos cognitivos, clínicos, físicos, genéticos e sociais. 
As diferentes respostas clínicas diante das situações de crise tornam a 
intervenção psicológica necessária não somente pelo caráter imediato de sua solução 
(objetivo de algumas técnicas), mas também pelo caráter preventivo, pois podem ser 
 
 
40 
 
realizadas avaliação global de risco psicológico e intervenções com o objetivo de 
prevenir novos episódios de crise. 
As intervenções psicológicas com os pacientes em crise no contexto hospitalar 
devem levar em conta, essencialmente, a avaliação das condições emocionais para 
tolerar abordagens técnicas que sejam geradoras de ansiedade, como aquelas que 
trabalham com interpretação de forças inconscientes. Assim, as intervenções devem 
consistir em técnicas supressoras de ansiedade, permitindo a promoção do alívio da 
angústia, favorecendo o desenvolvimento de um estado emocional mais tolerável e 
restaurando a estabilidade afetiva e as relações com o ambiente. 
As indicações gerais para a aplicação de técnicas supressoras de ansiedade 
são: estado de crise aguda (p.ex., luto, tentativa de suicídio e transtornode estresse 
agudo), transtornos graves de personalidade, transtornos delirantes e esquizofrênicos 
e transtornos de humor e são. 
No hospital, há indicações frequentes para atendimentos de pacientes e/ou 
familiares em situações como: 
⮚ Crise depressiva reacional; 
⮚ Ansiedade pré ou pós-operatória; 
⮚ Diante de procedimentos invasivos; 
⮚ Adaptação a novas situações clinicas; 
⮚ Reação emocional diante de decisões de tratamento clínico; 
⮚ Reação aguda de luto de pacientes ou familiares. 
 
As contraindicações consistem em retardo mental severo, transtornos factícios, 
prejuízo de memória recente significativo, agressividade (oferecendo perigo ao 
terapeuta) e recusa do paciente em aderir ao tratamento. 
Entre as técnicas supressoras de ansiedade, encontram-se diferentes 
modalidades psicodinâmicas e de psicoterapia de apoio com utilização de técnicas 
cognitivo-comportamentais e de aprendizagem. Outras modalidades de intervenções 
podem somar-se à ação psicoterápica, como manejo ambiental e de familiares, 
exercícios respiratórios, técnicas de relaxamento e intervenção psicofarmacológica. 
 
 
41 
 
A escolha da intervenção psicológica deve ser fundamentada em uma 
avaliação inicial, que deve considerar as possíveis inter-relações entre as 
manifestações atuais do paciente e os seguintes aspectos: 
⮚ Local específico em que o paciente se encontra; “urgência” de atendimento e 
solução do problema, que deve ser graduada, tendo como referência a 
necessidade psíquica e clínica de tratamento; histórico e diagnóstico clínico 
atual; diagnóstico de dinâmica psíquica desenvolvida com o foco inicial na 
identificação do funcionamento psíquico, de mecanismos de defesas 
predominantes, do nível de organização estrutural da personalidade bem como 
dos aspectos sadios ou adaptativos; 
⮚ Fatores ambientais: privações, perdas, doenças físicas, problemas evolutivos, 
ambiente familiar, recursos do ambiente e da comunidade. 
As técnicas e intervenções psicológicas também se diferenciam segundo as 
necessidades do paciente, as limitações do ambiente e do contexto e as interferências 
e inter-relações com a equipe assistencial e a família. Para discutir esses aspectos, 
será seguida uma sequência de intervenções por meio da apresentação e da 
discussão de vinhetas clínicas. Os dados pessoais dos pacientes e seus familiares 
encontram-se alterados e as descrições foram modificadas a fim de preservar o 
anonimato sem, contudo, alterar o contexto trabalhado. 
Manejo assistencial: o manejo da situação de crise deve abranger, muitas 
vezes, o trabalho direto com a equipe, a despeito da possibilidade de intervenção 
psicológica diretamente com o paciente ou com seus familiares. Assim, a análise da 
dinâmica hospitalar passa pelo reconhecimento de que a equipe de saúde compõe o 
setting no qual o psicólogo irá atuar, permitindo o manejo assistencial com a equipe 
multiprofissional. 
Considera-se que o paciente estabelece um vínculo transferencial com a 
equipe, cujo teor será condicionado por sua constituição de personalidade, de sua 
história de vida, de seu adoecimento e do seu momento de vida atual. Assim, a equipe 
de saúde é alvo de transferência de conteúdos internos do paciente e dos familiares; 
esse movimento deve ser cuidado pelo psicólogo, procurando-se viabilizar um 
ambiente terapêutico propício ao restabelecimento do paciente. 
 
 
42 
 
Diagnostico diferencial: o conhecimento da interface diagnostico envolvida 
no processo de adoecimento do paciente é de vital importância para que a intervenção 
psicológica seja efetiva. Dessa forma, a tarefa do psicólogo é compreender e conciliar 
as diferentes opiniões entre diversos sistemas conceituais de interpretação, sejam 
eles psicodinâmicos ou biológicos. 
A compreensão de diferentes saberes e a discussão em equipe 
multiprofissional, no contexto hospitalar, tornam-se fundamentais tanto para análise 
da situação quanto para seleção da técnica, do tipo de assistência e do 
acompanhamento na evolução do caso. 
A psicoterapia de apoio é largamente utilizada em instituições de saúde e em 
consultórios privados. Durante muito tempo, foi considerada uma psicoterapia 
superficial e ineficaz na produção de mudanças de personalidade, para a qual eram 
encaminhados pacientes sem condições de se beneficiarem das formas mais 
“elaboradas” de tratamento, como as terapias psicanalíticas. Essa convicção provém 
da ideia de que apoio é instrumento de mudança direta, direcionado a condutas e à 
repressão. 
Outra concepção errônea estava baseada na consideração de que a 
psicoterapia de apoio era uma forma simples de terapia, exigindo menos preparo do 
terapeuta. Trata-se de um equívoco, pois são encaminhados à psicoterapia de apoio 
os pacientes comprometidos e com psicopatologias ou estados emocionais graves, 
exigindo dos profissionais um enorme preparo teórico e o conhecimento de técnicas 
passíveis de aplicação em pacientes graves. 
Essas críticas se devem ao fato de a psicoterapia de apoio se fundamentar em 
elementos teóricos e técnicos advindos de escolas diferenciadas, como a 
psicanalítica, a cognitiva, e comportamental; a educacional e a sistêmica, condição 
que exige da profissional habilidade para utilizar tais elementos e supõe um 
conhecimento amplo e uma prática clínica considerável. 
Além de ser indicada para pacientes graves, a psicoterapia de apoio também 
pode ser indicada para aqueles com bom nível de funcionamento psíquico prévio e 
em situações de crise aguda de qualquer natureza. Nesse tipo de psicoterapia, não 
se trata de trazer à consciência os conflitos inconscientes, diante da incapacidade do 
ego de integrá-lós ou de resolvê-lós, o que teria como consequência um aumento de 
 
 
43 
 
ansiedade, a proposta é verificar as defesas possíveis e úteis para cada paciente, 
reforçando-as e encorajando-as em situação de crise. Dessa maneira, os objetivos da 
psicoterapia de apoio são: 
⮚ Promover uma relação paciente-terapeuta positiva e de apoio; 
⮚ Reforçar aspectos sadios do paciente, suas habilidades e capacidades; 
⮚ Reduzir o desconforto subjetivo e o comportamento disfuncional (sintomas); 
⮚ Auxiliar o paciente na independência e na autonomia, quando estiver em 
estados de fragilidade egóica ou for caso psiquiátrico. 
 
As intervenções psicoterápicas de apoio podem ser aplicadas em pacientes em 
situações de crise, mas apresentando característica de personalidade que possibilite 
a construção de pensamentos abstratos e que permita o vínculo com o terapeuta. 
Essa abordagem visa a minimizar a angustia e a ansiedade, promovendo um 
conhecimento maior do paciente sobre sua condição psíquica e auxiliando-o, assim, 
a enfrentar a atual situação de vida. 
Destaca-se, no atendimento psicológico de apoio, a postura ativa do terapeuta 
no manejo da assistência, a fim de permitir continência a expressões, clarificação e 
restabelecimento das soluções do paciente diante do conflito. Portanto, o papel do 
terapeuta caracteriza-se pela participação ativa em relação ao cuidado do paciente, 
expressando concordância com suas ideias ou atitudes (quando pertinentes), 
reforçando funções adaptativas do ego, assegurando a boa percepção da realidade e 
clarificando as características do paciente ou episódios de sua vida que podem estar 
envolvidos nos conflitos atuais. 
Entre as intervenções, as técnicas educativas também podem ser associadas 
ao acompanhamento psicológico de apoio, visando a atender as necessidades de 
orientação e de planejamento na rotina do paciente. Estabelecer um diálogo franco e 
claro, acompanhar nos momentos de incertezas e de decisões no tratamento e 
orientar quanto ao tempo de internação também são intervenções que fazem parte do 
repertório de condutas do psicólogo hospitalar. 
A utilização de técnicas de apoio voltadas ao ambiente também faz parte do 
espectro de atuação. A intervenção direcionada dopsicólogo hospitalar deve ser 
 
 
44 
 
embasada nas necessidades do paciente e no conhecimento das características do 
local em que se encontra. Dessa maneira, o psicólogo pode promover algumas 
mudanças favoráveis ao bem-estar e à reabilitação do paciente, como: 
⮚ Solicitar a presença ou a retirada de objetos (livros, som ou fotos) ou de 
pessoas; minimizar estressores (luz, barulho, privação de água ou de sono); 
⮚ Sugerir mudanças de leitos, unidades ou rotinas. 
As necessidades dos pacientes, dos familiares e da equipe mudam a cada 
momento do tratamento hospitalar, o que provoca novos períodos de instabilidades e 
de adaptações, desencadeados por mudança de medicação, novo exame, troca de 
unidade, troca de enfermeira, entre outros motivos. Portanto, as intervenções em 
contexto hospitalar consistem na ação diretamente voltada ao paciente, bem como ao 
manejo assistencial e ambiental, o que torna o trabalho do psicólogo muito mais 
abrangente. 
 
Técnicas complementares 
 
Para Andreoli (2013) o uso do relaxamento, trata-se de uma das técnicas de 
relaxamento que favorecem o bem-estar e a melhoria do estado emocional do 
paciente que se encontra em situação de estresse prolongado ou de crise. Propiciam, 
ainda, o desenvolvimento de estados emocionais que capacitem o paciente a tolerar 
níveis elevados de angústia e de ansiedade, podendo ser indicados no momento de 
um procedimento terapêutico invasivo ou a pacientes que se encontram por tempo 
demasiado em ambientes desagregadores. 
A utilização de técnicas complementares na assistência psicológica a pacientes 
em crise cumpre o objetivo de promover suporte e de propiciar condições para uma 
adaptação mais rápida, por meio de um vínculo de confiança e de conforto. Um dos 
exercícios de relaxamento utilizado em pacientes graves consiste na adaptação da 
técnica autógena de J. H. Schultz, em que, com a imaginação, criam-se condições de 
relaxamento para todos os grupos musculares do corpo pela indução da sensação de 
calor e do estado pesado e relaxado de músculos, tendões e órgãos, seguida de uma 
transposição a um lugar seguro e confortável. 
 
 
45 
 
Esse exercício é extremamente propício, pois é realizado por meio da 
imaginação do paciente, não envolvendo o toque e podendo ser aplicado em 
ambientes hospitalares compartilhados (mais de um paciente). O exercício é 
direcionado pelo terapeuta e pode ser acompanhado também por uma música de 
escolha do paciente, se ele utilizar fone de ouvido ou estiver em ambiente propício. 
3.1 Contribuições da neuropsicologia à psicologia hospitalar 
 A neuropsicologia, como especialidade da psicologia clínica, é uma área que 
apresentou rápido e grande crescimento nos últimos anos. Embora muitos conceitos 
e conhecimentos sobre a correlação entre cérebro comportamento tenham se iniciado 
nos séculos XVII, XVIII e XIX, foi somente a partir da segunda metade do século XX 
que o escopo de conhecimento atual e as técnicas modernas de investigação das 
funções neuropsicológicas começaram a se basear nos avanços em pesquisas das 
neurociências, no desenvolvimento de instrumentos psicométricos e no surgimento de 
novas tecnologias de neuroimagem. Pode-se considerar que a neuropsicologia como 
especialidade é uma área recente de conhecimento e de prática para os psicólogos 
clínicos. 
A identidade dos profissionais especializados na pesquisa e na prática clínica 
da neuropsicologia consagrou-se na década de 1970, na América do Norte, com a 
realização dos primeiros congressos da área, as publicações de títulos especializados 
e a formação oficial de sociedades de profissionais dedicados à área. 
No Brasil, a atuação dos primeiros psicólogos teve início em meados da 
década de 1970, os quais estavam inseridos em ambientes de atendimento hospitalar, 
especialmente em departamentos de neurocirurgia, psiquiatria e neurologia infantil. 
A partir de 2004, o Conselho Federal de Psicologia, passou a conceder o título 
de Psicólogo Especialista em Neuropsicologia para os profissionais que atuam no 
diagnóstico, no tratamento e na pesquisa da cognição, das emoções, do 
comportamento e da personalidade sob o enfoque da relação com o funcionamento 
cerebral. 
É difícil compreender o que é funcionamento cerebral normal até que se tenha 
a chance de observar o funcionamento cerebral anormal. A maioria de nós não aprecia 
 
 
46 
 
o papel e importância do cérebro no que diz respeito à personalidade e ao controle de 
habilidades até a ocorrência de uma lesão cerebral ou o desenvolvimento de uma 
condição incapacitante. 
Doenças cerebrais produzem mudanças comportamentais, incluindo prejuízo 
de habilidades cognitivas e sintomas neuropsiquiátricos. Por meio de técnicas 
especializadas de exame e da compreensão das relações compreensão, a avaliação 
neuropsicológica tem como objetivo elucidar as manifestações comportamentais das 
funções cerebrais prejudicadas e preservadas. A avaliação neuropsicológica tem sido 
utilizada desde a década de 1940 para diagnóstico de lesão ou disfunção cerebral e, 
inicialmente, era a medida mais direta para avaliar a integridade do cérebro, bem como 
a localização de um dano cerebral. 
Atualmente, o diagnóstico de dano cerebral tornou-se mais preciso, por meio 
de técnicas modernas de neuroimagem que permitem a visualização da estrutura e 
do funcionamento do cérebro. Apesar desses avanços, a avaliação neuropsicológica 
ainda permanece como um importante auxílio diagnóstico, principalmente para o 
mapeamento de funções preservadas e comprometidas, para o planejamento de 
reabilitação e para estimativa do impacto funcional e do nível de autonomia dos 
indivíduos após um dano neurológico. 
O conhecimento neurológico e da neurologia comportamental permite, 
atualmente, saber que as regiões cerebrais são demarcadas e diferenciadas em 
vários aspectos. Do ponto de vista funcional, os hemisférios e lobos cerebrais são 
especializados em determinadas funções, sendo denominados áreas críticas à 
função. Da mesma maneira, participam da rede de outras funções, sendo também 
denominados áreas participativas. 
Uma função complexa depende da ação de diversas regiões conectadas entre 
si, estabelecendo-se uma rede de conexões ou circuito funcional. Portanto, uma lesão 
cerebral focal não localiza necessariamente a função na região implicada, mas 
informa que aquela região participa da rede de conexões relacionadas à função 
comprometida. 
Os hemisférios cerebrais são diferenciados funcionalmente e, quando 
acometidos por uma lesão, cada qual acarreta danos neuropsicológicos específicos. 
Os danos cerebrais em hemisfério esquerdo e dominante para a linguagem estão 
 
 
47 
 
associados ao surgimento de quadros de afasias e de problemas relacionados ao 
processamento da linguagem, ao processamento sequencial de informações, à 
atenção auditiva, à memória verbal, a praxias motoras, etc. Os danos cerebrais em 
hemisfério direito e não dominante para a linguagem estão associados a quadros de 
déficits viso perceptivos, comprometimento no julgamento visuoespacial, negligencia 
atencional à esquerda, atenção visual seletiva para estímulos simultâneos, praxia 
simultâneos, memória visual, etc. 
Exame neuropsicológico: do ponto de vista pragmático, o exame 
neuropsicológico está baseado na conceituação e na classificação das funções 
cognitivas e comportamentais correlacionadas ao funcionamento cerebral. O 
processo de investigação do funcionamento neuropsicológico geralmente segue a 
taxonomia das funções atencionais e executivas, da memória, da linguagem, de 
praxias e de gnosias. 
Funções atencionais: a complexidade conceitual, neuroanatomia e neuro 
funcional, faz com que a atenção não possa ser reduzida a uma simples definição 
nem estar ligada a uma única estrutura anatômica ou explorada por um único teste. 
Assim, pode-se dividi-la em cinco formas básicas:⮚ Amplitude atencional auditiva: corresponde à quantidade de informações 
que se consegue registrar simultaneamente por meio da atenção durante um 
período limitado; 
⮚ Sustentação atencional: processo que envolve um estado de prontidão para 
detectar e responder a alterações específicas no ambiente; 
⮚ Atenção dividida: está relacionada à necessidade de atender 
concomitantemente a duas ou mais fontes de estimulação, o que pode envolver 
tanto aspectos espaciais quanto temporais; 
⮚ Controle inibitório: capacidade de direcionar a atenção para determinada 
porção do ambiente, enquanto os demais estímulos, potencialmente 
concorrentes e que estão ao redor, são ignorados; 
⮚ Memória de trabalho: envolve a habilidade não somente de reter informações 
por meio da atenção (amplitude atencional), mas também a capacidade de 
manipulá-las mentalmente. 
 
 
48 
 
⮚ Funções executivas: fazem parte de um conjunto de habilidades cognitivas 
necessárias para a realização de ações complexas e dirigidas a um objetivo, o 
que envolve adaptação constante às mudanças das demandas ambientais. 
Elas incluem as habilidades de dirigir recursos atencionais as demandas de 
eventos, tomar decisões, ter iniciativa para as ações ou inibição, planejar, 
antecipar resultados/consequências, gerar hipóteses e novas respostas 
(flexibilidade cognitiva), além de automonitoramento e autopercepção, 
necessárias para a adequação comportamental. 
 
As funções executivas são difíceis de avaliar por meio de medidas 
padronizadas e sua localização cerebral também permanece elusiva e controversa. 
Regiões do córtex pré-frontal têm participação especial na conexão com outras áreas 
cerebrais, formando uma série de redes distribuídas que, dependendo do 
processamento demandado, recrutam os diferentes componentes das funções 
executivas. 
Memoria: é basicamente um sistema de aquisição, retenção e evocação de 
informações. Desde a divisão feita por William James, que Andreoli (2013) traz em 
seus estudos, a memória tem sido vista como uma entidade heterogênea, composta 
de muitos sistemas e subsistemas distintos que interagem entre si. Atualmente, é 
consenso a divisão da memória em dois grandes grupos chamados de memória de 
curto prazo e memória de longo prazo. 
Os mecanismos de memória de curto prazo permitem que informações sejam 
retidas por um curto período e, logo em seguida, substituídas por outras informações 
mais relevantes. O principal modelo de memória de curto prazo, mais influente e 
conhecido, é o modelo de memória de trabalho proposto por badale, em 1986, no qual 
a memória de curto prazo seria um sistema tripartite composto por dois 
armazenadores de curto prazo (alça fonológica e alça visuoespacial) e um sistema 
executivo central (ANDREOLI, 2013). 
Ambas as alças seriam sistemas “escravos” passivos e limitados quanto à 
quantidade de informações e ao tempo de retenção, enquanto o sistema executivo 
central seria responsável pela seleção, iniciativa e manipulação dessas informações. 
 Já́ a memória de longo prazo, como o nome sugere, é a capacidade de armazenar e 
 
 
49 
 
evocar informações após um longo período, a partir de sua aprendizagem inicial, e 
pode ser dividida em memória declarativa (explicita) e não declarativa (implícita). 
As memórias declarativas correspondem as memórias para experiências, fatos 
ou eventos que podem ser conscientemente recordados, sendo tanto episódicas 
quanto semânticas. A memória episódica é aquela relacionada a um contexto 
específico, frequentemente autobiográfico e que preserva suas referências temporais 
e espaciais (isto é, quando e onde). 
Já a memória semântica não se relaciona a um contexto específico, refletindo 
um conhecimento geral, conceitos ou regras que, diferentemente da memória 
episódica, raramente se referem à situação na qual foram aprendidas. O 
conhecimento de que “foram os egípcios que construíram as pirâmides” e que “um 
martelo serve para fixar um prego”, são exemplos de memória semântica. 
Contrapondo-se à memória declarativa, existe a memória não declarativa ou 
implícita, que é um amplo conjunto de memórias executado ou alterado sem mediação 
da consciência. Exemplos de memória não declarativa incluem a memória procedural 
(memória das habilidades motoras, como andar de bicicleta), o priminha (efeito de 
uma exposição prévia a um estímulo que pode facilitar sua detecção e identificação 
posterior), as memórias emocionais e o condicionamento clássico. 
Linguagem: conforme Andreoli (2003), a linguagem se apresenta como um 
sistema de comunicação de expressão simbólica com uma organização gramatical e 
sintática, com o objetivo de transmitir uma informação semântica. Geralmente, o termo 
linguagem geralmente é relacionado ao uso de símbolos verbais, mas inclui também 
a expressão e a compreensão verbais que podem ser expressos por meio de gestos 
(sinais da linguagem) ou de outras modalidades (modalidade tátil no caso da escrita 
em Braille). 
O comprometimento da linguagem por uma lesão cerebral pode refletir um 
quadro de afasia (déficits de linguagem que podem comprometer em diferentes níveis 
as habilidades de nomeação, fluência, compreensão auditiva e repetição e ser 
acompanhadas por alterações da leitura e da escrita), de agrafia (conjunto de 
dificuldades adquiridas na escrita e na ortografia) e de alexia (comprometimento da 
habilidade de leitura causado por uma lesão cerebral). Podendo o ato de falar ser 
 
 
50 
 
afetado por outros fatores não relacionados às funções dos hemisférios cerebrais, por 
exemplo, em uma disartria causada por lesão cerebral. 
Praxia: se refere à capacidade de executar voluntariamente movimentos 
especializados e destinados a um objetivo. Assim, as alterações da praxia motora, 
denominadas apraxias (a = sem; práxis = ação), referem-se à incapacidade de realizar 
movimentos intencionais aprendidos por outras razões que não sejam justificáveis 
pela perda de força motora, sensibilidade, coordenação ou compreensão. A apraxia 
tem sido descrita como uma desconexão entre a ideia do movimento e sua execução 
motora e pode ser subdividida em apraxia construtiva (inabilidade para copiar ou 
montar no espaço bi ou tridimensional), ide motora (inabilidade para realizar gestos 
transitivos e intransitivos sob comando) e ide motora (inabilidade para realizar uma 
sequência de gestos por causa de uma perda do planejamento da ação do 
movimento). 
Gnosia: é um prejuízo no reconhecimento perceptivo de estímulos previamente 
conhecidos que não pode ser atribuído a déficits sensoriais primários, alterações 
atencionais ou desordens de nomeação. As agnosias podem estar presentes em cada 
uma das modalidades sensoriais, embora, clinicamente, as mais comuns sejam as 
agnosias visuais e auditivas. 
4 PLANEJAMENTO DA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA 
 
O exame das funções neuropsicológicas se aplica a vários contextos médicos 
e psiquiátricos. É um exame sensível para avaliar a integridade do funcionamento 
cerebral, apontando desordens neurológicas ou psicológicas, além de ser útil nos 
serviços de diagnóstico e em ambientes de pesquisa clínica quando os aspectos 
cognitivos e comportamentais estão envolvidos. Assim, a atuação do neuropsicólogo 
clínico está estritamente relacionada ao ambiente da prática médica e hospitalar. 
A avaliação neuropsicológica geralmente está baseada em um procedimento 
padronizado em termos de administração de testes cognitivos e avaliação de 
resultados. Tendo como objeto de investigação as manifestações das habilidades 
cognitivas, emocionais e comportamentais, a avaliação neuropsicológica é 
considerada um tipo de avaliação psicológica dirigida à análise e à compreensão das 
 
 
51 
 
funções neuropsicológicas por meio de entrevistas clinicas, uso de testes, escalas e 
inventários, com validade e sensibilidade comprovadas, os quais devem sempre ser 
consideradosno contexto da idade do paciente, do nível educacional e dos aspectos 
culturais. 
Andreoli (2013) traz estudos onde Turner et al. (2001) apresentam orientações 
e diretrizes importantes para os profissionais que usam testes psicológicos no 
processo de avaliação. A correlação de dados observacionais sobre o comportamento 
com os dados do histórico médico, social, educacional, vocacional e psicológico são 
também aspectos de extrema importância no exame e na compreensão do 
funcionamento neuropsicológico. Assim, a avaliação neuropsicológica é um 
procedimento diagnóstico que visa a mensurar e a descrever o perfil de desempenho 
cognitivo (p.ex., atenção, memória, raciocínio, etc.) por meio de testes específicos, 
com o objetivo de elucidar as manifestações comportamentais das funções cerebrais 
preservadas e/ou alteradas na ocorrência de lesões cerebrais ou na suspeita de 
disfunções cognitivas associadas a quadros neurológicos e/ou psiquiátricos. 
O processo de avaliação neuropsicológica inclui diferentes etapas 
interdependentes: planejamento da avaliação, processo de avaliação, obtenção dos 
escores dos testes, interpretação e comunicação dos resultados. 
4.1 Avaliação neuropsicológica do paciente internado 
A avaliação neuropsicológica do paciente durante a internação hospitalar pode 
ser necessária e muito útil em diversas situações clinicas. Os motivos frequentemente 
relacionados ao encaminhamento do paciente durante a internação hospitalar podem 
estar diretamente associados à condição clínica que motivou a internação ou se tratar 
de um seguimento evolutivo no transcorrer de uma síndrome ou doença que requer 
monitoramento do processo de recuperação ou do agravamento de comprometimento 
da cognição. Em ambas as situações de encaminhamento, a avaliação 
neuropsicológica permite o estabelecimento do perfil cognitivo, podendo auxiliar no 
processo de confirmação de uma hipótese de diagnóstico prévia ou, quando 
necessário, auxiliar no diagnóstico diferencial entre patologias sob risco. 
 
 
52 
 
Os achados de exame permitem o estabelecimento de orientações para os 
cuidados do paciente, como avaliar a capacidade de tomada de decisão 
(competência), estimar o nível de autonomia possível, apontar áreas de problemas 
que requerem intervenção, identificar esferas cognitivas preservadas ou com melhor 
desempenho, estabelecer forças e fraquezas para um plano de reabilitação, 
recomendar acompanhamentos terapêuticos (p.ex., reabilitação neuropsicológica e 
fonoaudiológica, terapia ocupacional, etc.). Além disso, possibilitam orientar 
familiares, cuidadores e equipe multiprofissional sobre as intervenções e o manejo 
comportamental do paciente que apresenta comprometimento cognitivo. 
No âmbito hospitalar, geralmente é a equipe médica que, em um primeiro 
momento, identifica a necessidade do exame neuropsicológico, cuja solicitação 
frequentemente provem de neurologistas, psiquiatras, neurocirurgiões, fisiatras, 
geriatras, bem como de outras especialidades, como cardiologia, endocrinologia, 
pediatria, oncologia, entre outros. Contudo, a equipe multidisciplinar (enfermeiros, 
fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e nutricionistas) pode 
identificar a necessidade do exame e compartilhar tal necessidade junto ao médico. 
No ambiente de internação e cuidados a pacientes, é necessário o 
desenvolvimento de rotinas para rastreamento e observação dirigida de riscos 
psicológicos, o que envolve a observação e a notificação do risco de 
comprometimento da cognição. A atenção ao paciente nos cuidados diários permite 
identificar possíveis prejuízos cognitivos, como alterações da habilidade para orientar-
se temporã espacialmente, prejuízo da capacidade de memorizar informações 
recentes e administradas no contato diário com o paciente, alterações das habilidades 
de compreensão da linguagem mediante as instruções fornecidas e da expressão da 
fala, comprometimento da capacidade de execução de rotinas e participação nos 
tratamentos propostos. 
Apesar dos cuidados intensivos ao paciente em internação hospitalar, a 
condição de declínio cognitivo pode passar despercebida. Andreoli (2013) traz ainda 
um estudo de Souder e O’Sullivan (2000) com 42 pacientes em internação hospitalar 
que foram submetidos à avaliação neuropsicológica formal onde mostraram, por meio 
de uma observação, que a equipe de enfermagem não apontou suspeita de 
comprometimento cognitivo para a grande maioria dos pacientes, porém os resultados 
 
 
53 
 
do exame neuropsicológico apontaram declínio do desempenho cognitivo em 67% dos 
pacientes dessa amostra. 
É recomendável que ocorra a preparação do paciente para maior colaboração 
no processo de avaliação, informando-o sobre os objetivos do exame. Pacientes não 
colaborativos, cansados, ativamente confusos e/ ou psicóticos, severamente 
deprimidos ou ansiosos, com comprometimento clínico agudo, severamente 
denunciados ou em fase aguda de AVC ou TCE, não são pacientes indicados para 
uma avaliação neuropsicológica extensa. Nesses casos, são priorizadas as escalas 
cognitivas e/ ou comportamentais ou é realizada uma abordagem interativa e 
observacional que promova o exame breve das funções cognitivas elementares, como 
orientação temporal e espacial, atenção seletiva, memória operacional, memória 
recente, nomeação, compreensão de instruções, praxia simples e raciocínio. 
No contexto hospitalar, muitos são os pacientes que podem se beneficiar de 
um procedimento neuropsicológico padronizado e mais extenso, entre eles: 
⮚ Pacientes com dano cerebral adquirido: tumores, TCE leve, AVC isquêmico ou 
hemorrágico, encefalites, encefalopatias, anoxias, etc.; 
⮚ Pacientes com risco conhecido para disfunção cognitiva: doenças ou 
intervenções cardíacas, doenças metabólicas e/ou sistêmicas, abuso de 
substâncias, síndromes genéticas, etc.; 
⮚ Pacientes com queixas cognitivas e/ou comportamentais sem etiologia 
conhecida: suspeita de transtornos neuropsiquiátricos, doenças 
neurodegenerativas e/ou distúrbios do desenvolvimento. 
 
Pacientes submetidos a procedimentos bariátricos e com risco de síndrome têm 
constituído uma nova demanda de encaminhamento para a avaliação 
neuropsicológica, por causa da possibilidade de comprometimentos cognitivos 
graves. O processo de avaliação neuropsicológica no contexto da internação 
hospitalar deve seguir as etapas e os procedimentos propostos, tendo em vista 
algumas especificidades relacionadas ao ambiente da hospitalização. 
O contexto do atendimento hospitalar normalmente exige ações e respostas 
rápidas por parte da equipe de saúde. Portanto, recomenda-se maior economia e 
 
 
54 
 
otimização de tempo na realização do processo de exame, com o objetivo de fornecer 
resultados e respostas mais rápidas ao médico e à equipe multidisciplinar. Após a 
solicitação formal do exame, sugere-se o prazo máximo de 24 horas para início do 
procedimento, dispondo de protocolos breves de testes e que atendam aos objetivos 
do encaminhamento. Os protocolos de avaliação neuropsicológica não devem 
exceder mais que duas sessões de trabalho, salvo exceções. Após a finalização da 
avaliação neuropsicológica, é preciso, também, ater-se à necessidade de eficiência 
de tempo para as etapas de pontuação dos testes, tabulação de resultados, 
interpretação clínica e redação de laudo. 
A entrevista de anamnese deve ser realizada, servindo de meio para a 
investigação da evolução das queixas neuropsicológicas atuais, o levantamento da 
história médica, do perfil cognitivo prévio, da história educacional e ocupacional do 
paciente, das características comportamentais e de humor. O conhecimento do perfil 
geral do paciente em relação às características cognitivas, comportamentais, de 
personalidade e humor é necessário para a contextualização dos resultados da 
avaliação neuropsicológica. O prontuário hospitalarfornece informações fidedignas 
sobre o quadro clínico atual, além de possibilitar a pesquisa de informações 
provenientes de resultados de exames e das evoluções da equipe de enfermagem e 
multidisciplinar. 
Quando possível, a decisão sobre o ambiente de testagem mais adequado ao 
paciente internado deve estar pautada nas recomendações da equipe de enfermagem 
e do médico de referência. Ambientes de consultório oferecem os benefícios de menor 
interferência e podem prover maior controle sobre outros estímulos concorrentes e 
indesejáveis. No entanto, dependendo da gravidade do comprometimento 
cognitivo/comportamental, dos fatores relacionados ao quadro clínico e da 
necessidade de monitoramento da equipe de enfermagem, recomenda-se que o 
paciente seja avaliado no leito. Nesses casos, a avaliação neuropsicológica deve ser 
realizada mediante adaptações necessárias, de forma a proporcionar a melhor 
acomodação para a acessibilidade do paciente e o manuseio do material durante o 
exame. 
Quanto à seleção da bateria de testes a ser utilizada, segundo Andreoli (20130 
alguns autores citam três abordagens possíveis: bateria fixa, bateria flexível e uma 
 
 
55 
 
posição intermediária. Na bateria fixa, o clínico fornece os mesmos testes a todos os 
sujeitos, independentemente do motivo do encaminhamento. A aplicação dos testes 
é padronizada e a interpretação fundamentada em medidas quantitativas, baseada 
em normas populacionais, possibilitando a comparação dos escores entre os testes 
da mesma bateria. Outra vantagem da utilização da bateria fixa é a possibilidade de 
um exame compreensivo, que busca avaliar globalmente o paciente em termos de 
suas habilidades preservadas e habilidades sob risco de comprometimento. No 
entanto, essa metodologia requer maior disponibilidade de tempo, além de ser 
relativamente inflexível, impossibilitando um planejamento mais individualizado do 
processo de exame. 
A utilização de bateria flexível é dirigida para confirmar a presença e a 
gravidade dos déficits suspeitos. A seleção dos testes utilizados pode variar a cada 
caso, de acordo com a coleta preliminar de dados clínicos e o motivo do 
encaminhamento. A possibilidade de ampliação do exame, abrangendo outras 
esferas/domínios (p.ex., humor, linguagem, habilidade de cálculos, leitura), favorece 
uma visão mais completa do funcionamento cognitivo. Nesse tipo de exame, a 
observação de dificuldades não previstas possibilita a ampliação do exame e a 
investigação de outros domínios/habilidades inicialmente não contemplados. 
A equipe de neuropsicologia, quando inserida em ambulatórios especializados 
nos serviços hospitalares, tende à construção de baterias fixas ou de protocolos de 
avaliação planejados para grupos específicos de pacientes e patologias. No 
atendimento de encaminhamentos do hospital, o mais recomendado é a utilização de 
bateria intermediária, baseada minimamente em um protocolo fixo e também flexível, 
na medida em que se possa ampliar e adequar o atendimento de patologias 
específicas. O atendimento ao paciente internado pode abranger uma gama de 
patologias, com diferentes níveis de gravidade dos déficits e de domínios cognitivos 
em risco. 
Assim, a seleção de testes e/ou escalas específicas é necessária na avaliação 
neuropsicológica do paciente internado em hospital, podendo-se utilizar medidas 
quantitativas e exame observacional. Como exemplo, pode-se citar a avaliação 
neuropsicológica de pacientes com TCE, no qual o dano neurológico pode ser leve, 
moderado ou grave e correlacionar-se a uma grande diversidade de déficits 
 
 
56 
 
neuropsicológicos. Pacientes com TCE podem evoluir inicialmente coma, amnésia 
pós-traumática (APT), desorientação temporal e espacial, dificuldades motoras e 
sensoriais, alterações da compreensão verbal e/ou expressão oral (p.ex., afasia de 
expressão, disartria, anomia), alterações comportamentais, fadiga, desconforto, etc. 
Nos casos de pacientes com TCE na fase APT, é recomendável a avaliação utilizando 
o instrumento GOAT, que se apresenta enquanto uma escala de rápida e fácil 
aplicação, utilizada especificamente nesses casos. 
Na recuperação e evolução do TCE ao longo do tempo, torna-se possível e 
recomendável a avaliação neuropsicológica mais extensa e padronizada para o 
mapeamento do comprometimento neuropsicológico, o estabelecimento do padrão de 
recuperação e a orientação de intervenções e metas de reabilitação. 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Na avaliação neuropsicológica do paciente internado, diversos fatores devem 
ser considerados. A compreensão dos objetivos/motivos do encaminhamento é o 
ponto de partida, sendo recomendável a comunicação efetiva com o médico 
responsável pelo encaminhamento para o devido planejamento do exame. O 
levantamento de dados de anamnese e de outras fontes fidedignas permite a 
contextualização dos resultados dos exames e uma maior confiabilidade diagnóstica. 
A necessidade de decisões importantes, como tipo de bateria a ser utilizada, 
seleção de testes que melhor responderão as suspeitas de déficits neuropsicológicos, 
local de atendimento do paciente, disponibilidade de tempo para o exame e urgência 
e contribuição dos resultados, torna a avaliação neuropsicológica no contexto 
hospitalar um processo altamente complexo e que requer a atuação de profissionais 
capacitados e experientes. 
O ambiente hospitalar oferece grande demanda de atendimento e exige 
contribuições da neuropsicologia no âmbito do diagnóstico e da reabilitação de 
pacientes com neuropatologias primárias ou disfunções neuropsicológicas 
secundárias a outras condições clínicas. As equipes de psicologia hospitalar devem 
cada vez mais capacitar os profissionais nos conhecimentos da área de 
 
 
57 
 
neuropsicologia clínica e, preferencialmente, admitir psicólogos especialistas com 
formação teórica e prática nessa área. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
58 
 
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