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CURSO DE APLICAÇÃO 
DE AVALIAÇÃO TERAPÊUTICA 
PARA PSICANALISTAS 
 
 
 
 
 
 
MÓDULO 1 
Introdução à Avaliação Terapêutica 
 
 
 
 
Todos os direitos reservados ao autor. Não permitida 
 a reprodução no todo ou em parte. A autorização deverá ser solicitada 
para fins de estudos e pesquisas 
 
 
 
ABPsi 
Academia Brasileira de Psicanálise 
 
 
 
Belo Horizonte | 2025 
Copyright @ 2025 by Academia Brasileira de Psicanálise 
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Sumário 
 
1. Apresentação – pág. 3 
2. Capítulo 1: Conceitos Fundamentais e Objetivos da Avaliação Terapêutica – pág. 4 
3. Capítulo 2: Distinções entre Avaliação Diagnóstica e Avaliação Clínica – pág. 9 
4. Capítulo 3: Aspectos Éticos e Legais do Uso de Instrumentos por Psicanalistas – pág. 13 
5. Capítulo 4: Integração dos Resultados à Escuta Psicanalítica – pág. 18 
6. Capítulo 5: Aplicação Prática e Estudo de Casos – pág. 3 
7. Exercícios, Perguntas Reflexivas e Leituras Recomendadas – pág. 3 
8. Anexos– pág. 3 
o A. Protocolos e Instruções de Aplicação de Testes 
o B. Modelos de Análise e Integração de Resultados 
o C. Glossário de Termos Técnicos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Apresentação 
 
Bem-vindo ao módulo introdutório de Avaliação Terapêutica. Esta apostila foi 
elaborada com o propósito de oferecer aos psicanalistas um aprofundamento teórico, 
técnico e ético acerca do uso de instrumentos de avaliação como recurso auxiliar na 
prática clínica. O conteúdo aqui proposto integra fundamentos da psicanálise com a 
abordagem da avaliação terapêutica, respeitando os limites éticos e legais que regem a 
atuação do psicanalista. 
Desejamos que esta jornada formativa amplie sua escuta clínica e enriqueça suas 
possibilidades de manejo, sempre em favor do bem-estar e do desenvolvimento subjetivo 
dos pacientes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Capítulo 1 
Conceitos Fundamentais e Objetivos da 
Avaliação Terapêutica 
1.1 Definição e Origem da Avaliação Terapêutica 
A Avaliação Terapêutica é um processo clínico no qual instrumentos de avaliação 
psicológica — tais como testes psicométricos, entrevistas semi-estruturadas e técnicas 
projetivas — são utilizados não apenas para obter informações diagnósticas, mas para 
promover a compreensão e a transformação emocional do paciente. Diferente de uma 
avaliação meramente diagnóstica, a Avaliação Terapêutica propõe um encontro dialógico 
entre paciente e terapeuta, no qual o próprio processo de avaliação se torna parte do 
tratamento. 
O conceito contemporâneo de Avaliação Terapêutica foi formalizado por Stephen Finn 
nos anos 1990, na Universidade do Texas (Austin, EUA). Inspirado em práticas 
psicodinâmicas e fenomenológicas, Finn introduziu a ideia de que os testes, quando 
usados de maneira colaborativa e empática, podem ter efeito terapêutico. No Brasil, 
embora o termo ainda seja recente na literatura psicanalítica, a prática de integrar 
instrumentos psicométricos à escuta clínica já era tangenciada por autores como 
Winnicott e Bion, que valorizaram a compreensão do mundo interno por vias simbólicas 
e projetivas. 
Historicamente, a avaliação psicológica surgiu no final do século XIX com Francis 
Galton e se consolidou no século XX com Alfred Binet e os testes de inteligência. 
Contudo, o foco diagnóstico predominava. O avanço da psicanálise, da fenomenologia e 
das abordagens humanistas contribuiu para o deslocamento do interesse do "rótulo 
diagnóstico" para a compreensão subjetiva. A Avaliação Terapêutica, portanto, emerge 
como síntese entre rigor metodológico e sensibilidade clínica. 
1.2 Objetivos Clínicos da Avaliação 
A Avaliação Terapêutica, dentro do enquadre psicanalítico, tem como objetivo central 
enriquecer a compreensão do funcionamento psíquico do paciente e subsidiar o 
manejo clínico. Não se trata de substituir a escuta analítica, mas de complementá-la, 
oferecendo dados que podem ser metabolizados junto ao paciente no contexto 
transferencial. 
Entre os objetivos específicos destacam-se: 
• Explorar aspectos inconscientes que não emergem facilmente na fala 
espontânea, mas podem se expressar em testes projetivos ou na resposta a 
questionários específicos. 
• Aprofundar a formulação clínica, ao integrar indicadores objetivos (ex.: níveis 
de ansiedade e depressão) com a compreensão qualitativa da subjetividade. 
5 
 
 
 
• Apoiar o manejo transferencial, ao permitir maior clareza sobre defesas, 
angústias e fantasias do paciente, facilitando a postura empática e contenedora do 
analista. 
• Promover a conscientização do paciente, por meio de uma devolutiva cuidadosa 
e ética, que favoreça a elaboração emocional e a apropriação de aspectos psíquicos 
dissociados. 
A avaliação terapêutica, portanto, não visa enquadrar o paciente em categorias 
diagnósticas estanques, mas oferecer um espelho interpretativo que convide à reflexão 
e ao autoconhecimento. 
1.3 Princípios Teóricos: Winnicott, Bion e Stephen Finn 
A fundamentação teórica da Avaliação Terapêutica dialoga com autores da psicanálise 
que valorizaram a dimensão relacional e a experiência emocional no processo clínico. 
Donald W. Winnicott 
Winnicott introduziu os conceitos de ambiente facilitador, espaço potencial e 
transicionalidade, fundamentais para entender a Avaliação Terapêutica. O uso de testes 
e instrumentos pode ser concebido como um objeto transicional que, mediando a relação 
paciente-terapeuta, permite a expressão simbólica de conteúdos inconscientes. O 
terapeuta, ao oferecer uma devolutiva sensível e empática, atua como um ambiente 
suficientemente bom, favorecendo a integração psíquica. 
Wilfred Bion 
Bion destacou a importância da função de contenção (containment) e da capacidade 
negativa na escuta clínica. A Avaliação Terapêutica, ao acolher e processar as angústias 
projetadas pelo paciente nos testes, contribui para essa função de contenção. O terapeuta 
metaboliza os dados coletados, transformando-os em narrativas compreensíveis e 
elaboráveis, ampliando a capacidade de pensar do paciente. 
Stephen Finn 
Stephen Finn sistematizou esses aportes no modelo contemporâneo de Avaliação 
Terapêutica. Seu método enfatiza a colaboração, o respeito à subjetividade e a 
interpretação compartilhada. Para Finn, a aplicação de instrumentos não deve ser um 
ato técnico e distante, mas uma experiência de coconscientização, na qual paciente e 
terapeuta exploram juntos o significado dos resultados. 
"A avaliação é mais útil quando o paciente se sente compreendido e respeitado durante 
o processo e quando os dados obtidos servem como catalisadores de insight e mudança 
emocional." (Finn, 2007) 
1.4 Instrumentos como Facilitadores da Escuta 
Na prática psicanalítica contemporânea, os instrumentos de avaliação — quando 
utilizados com critério e sensibilidade — funcionam como facilitadores da escuta 
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analítica, e não como substitutos dela. A aplicação de testes projetivos, escalas 
psicométricas ou protocolos de observação pode favorecer o acesso a conteúdos psíquicos 
que estariam inacessíveis unicamente pela fala livre ou associação livre. 
Entre os principais papéis facilitadores dos instrumentos, destacam-se: 
• Abertura de novos canais expressivos: Testes como o Desenho da Família ou 
o TAT (Teste de Apercepção Temática) permitem ao paciente projetar, de forma 
simbólica, vivências emocionais difíceis de serem verbalizadas diretamente. 
• Redução de resistências: Alguns pacientes com defesas mais rígidas ou 
alexitimia (dificuldade em identificar e expressar emoções) sentem-se mais 
confortáveis expressando-se por meio de atividades estruturadas do que pela fala 
espontânea. 
• Estruturação do setting: A presença de um protocolo ou instrumento pode 
funcionar como estrutura auxiliar, especialmente útil em contextosde alta 
ansiedade ou quando a relação terapêutica ainda está em fase de construção. 
• Apoio à contratransferência: Os dados obtidos auxiliam o analista a diferenciar 
conteúdos projetivos de aspectos objetivos, evitando interpretações precipitadas 
ou enviesadas pela contratransferência. 
Importante ressaltar que os instrumentos não devem ser aplicados mecanicamente, 
mas sempre integrados ao campo transferencial e contratransferencial, respeitando o 
ritmo e as defesas do paciente. 
1.5 Exemplos Práticos de Aplicação 
A seguir, apresento exemplos clínicos que ilustram como os instrumentos podem ser 
integrados à escuta psicanalítica. 
Exemplo 1 — Adulto com queixas depressivas 
Paciente: Mulher de 34 anos, com sintomas de tristeza crônica e sentimento de vazio. 
Instrumentos aplicados: 
• BDI (Inventário de Depressão de Beck) 
• TAT (Teste de Apercepção Temática) 
Integração clínica: O BDI confirmou níveis moderados de depressão, e as pranchas do 
TAT revelaram temas recorrentes de abandono e desamparo. Esses dados enriqueceram 
a formulação clínica, sustentando uma abordagem empática e interpretativa centrada nas 
experiências precoces de perda. 
Exemplo 2 — Adolescente com dificuldades escolares 
Paciente: Jovem de 15 anos, com queixas de desatenção e isolamento. 
Instrumentos aplicados: 
7 
 
 
 
• Desenho da Família 
• Escala de Ansiedade (BAI) 
Integração clínica: O Desenho da Família evidenciou uma vivência de exclusão e 
distanciamento da figura paterna. A escala BAI indicou níveis elevados de ansiedade. 
Esses achados orientaram o manejo transferencial e embasaram a comunicação cuidadosa 
com os pais, dentro dos princípios éticos. 
1.6 Vantagens e Limitações do Método 
Como todo recurso clínico, a Avaliação Terapêutica apresenta potencialidades e 
limitações que o psicanalista precisa conhecer para uma aplicação ética e eficaz. 
Vantagens 
• Enriquecimento da compreensão clínica: Oferece dados adicionais que 
ampliam a visão do analista sobre o funcionamento psíquico. 
• Facilitação do vínculo: Quando bem conduzida, a aplicação e devolutiva dos 
instrumentos fortalecem o setting e a aliança terapêutica. 
• Apoio à tomada de decisões clínicas: Subsidiando o planejamento do manejo ou 
eventual encaminhamento (ex.: avaliação psiquiátrica complementar). 
Limitações 
• Risco de superinterpretação: Atribuir significados fixos ou excessivos aos 
resultados, desconsiderando o contexto transferencial. 
• Limitações técnicas e legais: No Brasil, a aplicação formal de testes 
psicométricos para fins diagnósticos é restrita a psicólogos e psiquiatras. 
Psicanalistas devem utilizar os instrumentos apenas como recursos auxiliares da 
escuta, sem emitir laudos ou pareceres. 
• Possibilidade de resistência: Alguns pacientes podem vivenciar a aplicação de 
testes como intrusiva ou invasiva, exigindo manejo cuidadoso. 
1.7 Estudos de Caso Exemplificativos 
Caso 1 — Avaliação de Adulto 
Paciente: Homem de 40 anos, executivo, que procura análise devido a crises de pânico. 
Instrumentos utilizados: BAI, MEEM (Mini Exame do Estado Mental), TAT 
Síntese clínica: O BAI indicou altos níveis de ansiedade, o MEEM afastou suspeita de 
comprometimento cognitivo, e o TAT revelou conflitos relacionados a autoexigência e 
temor de fracasso. A devolutiva cuidadosa permitiu que o paciente refletisse sobre 
padrões de idealização e perfeccionismo, favorecendo o aprofundamento da análise. 
Caso 2 — Avaliação de Idoso 
Paciente: Mulher de 72 anos, com queixas de esquecimentos e tristeza. 
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Instrumentos utilizados: MEEM, Inventário de Depressão Geriátrico (GDS) 
Síntese clínica: O MEEM sugeriu leve declínio cognitivo compatível com 
envelhecimento normal, enquanto o GDS apontou sintomas depressivos significativos. A 
devolutiva favoreceu a aceitação da indicação de psicoterapia de apoio, em parceria com 
acompanhamento psiquiátrico. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Capítulo 2 
Distinções entre Avaliação Diagnóstica e 
Avaliação Clínica 
2.1 Definições e Objetivos de Cada Modalidade 
Avaliação Diagnóstica 
A avaliação diagnóstica é um procedimento estruturado que visa identificar e 
classificar transtornos ou síndromes segundo sistemas classificatórios reconhecidos 
(DSM-5 ou CID-11). Seu objetivo central é estabelecer um diagnóstico nosológico, 
permitindo decisões quanto a tratamentos, prognósticos ou encaminhamentos. 
Características centrais: 
• Baseada em critérios operacionais e sintomas observáveis. 
• Utiliza protocolos padronizados (testes, escalas, entrevistas estruturadas). 
• Possui caráter taxonômico e descritivo (ex.: F41.1 — Transtorno de Ansiedade 
Generalizada). 
Finalidades típicas: 
• Encaminhamento médico-psiquiátrico. 
• Laudos periciais ou administrativos. 
• Definição de diagnóstico diferencial. 
Avaliação Clínica 
A avaliação clínica, no âmbito da psicanálise, possui uma abordagem qualitativa e 
compreensiva. Seu objetivo principal é compreender o funcionamento psíquico, os 
padrões de relação, as defesas, os conflitos inconscientes e a estrutura subjetiva. 
Características centrais: 
• Focaliza a singularidade do sujeito e sua história. 
• Integra elementos da transferência, contratransferência e material inconsciente. 
• Não visa uma classificação rígida, mas a formulação de hipóteses 
compreensivas. 
Finalidades típicas: 
• Compreensão da dinâmica psíquica. 
• Planejamento do manejo terapêutico. 
• Delimitação da viabilidade e do enquadre da análise. 
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2.2 As Implicações Clínicas da Distinção 
A distinção entre avaliação diagnóstica e avaliação clínica não é meramente técnica — 
ela repercute diretamente na condução do processo terapêutico e na ética do trabalho. 
Aspecto Avaliação Diagnóstica Avaliação Clínica 
Objetivo Classificação nosológica Compreensão dinâmica 
Foco Sintomas e critérios objetivos Singularidade subjetiva 
Método Protocolos padronizados Entrevistas abertas, escuta flutuante 
Produto Laudo ou diagnóstico Formulação clínica 
Risco Redução da subjetividade Vagueza excessiva 
Implicações práticas: 
• Um diagnóstico fechado (ex.: transtorno borderline) pode gerar cristalização e 
estigmatização do paciente, impactando negativamente a transferência. 
• A formulação clínica, ao priorizar a escuta, favorece um manejo mais flexível e 
ajustado às necessidades do sujeito, sem aprisioná-lo a um rótulo. 
2.3 Exemplos Práticos de Cada Abordagem 
Exemplo 1 — Avaliação Diagnóstica 
Paciente: Jovem de 22 anos, encaminhado por psiquiatra com suspeita de transtorno de 
déficit de atenção. 
Procedimentos: Entrevista estruturada, Escala ASRS, MEEM 
Produto final: Diagnóstico compatível com TDAH subtipo desatento, laudo 
encaminhado para suporte acadêmico e intervenção medicamentosa. 
Exemplo 2 — Avaliação Clínica 
Paciente: Jovem de 22 anos, com queixas de dispersão e instabilidade emocional. 
Procedimentos: Entrevista psicanalítica, análise da transferência, aplicação livre de 
testes projetivos 
Produto final: Formulação clínica apontando conflitos de separação-individuação, 
defesas de clivagem e idealização, sem fechamento diagnóstico rígido. Indicação de 
psicoterapia psicanalítica. 
2.4 Riscos do Uso Inadequado 
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A utilização inadequada de avaliações diagnósticas ou clínicas pode gerar consequências 
éticas, técnicas e terapêuticas prejudiciais. O psicanalista deve estar atento a quatro 
riscos principais: 
1. Redução da Subjetividade 
O uso excessivo de rótulos diagnósticos pode apagar a singularidade do paciente, 
levando à cristalização de identidades patológicas (ex.: “sou borderline”, “tenho TDAH”) 
e dificultando o processo de elaboração psíquica. 
2. Confusão de Papéis Profissionais 
Psicanalistas não possuem, no Brasil, respaldo legal para emitir laudos diagnósticos com 
validade jurídica ou médica (atividade restrita a psicólogos e psiquiatras). Usar testes para 
finsde diagnóstico formal configura exercício ilegal da profissão de psicólogo, 
conforme as resoluções do CFP. 
3. Comprometimento da Transferência 
A comunicação inadequada de resultados pode fragilizar o vínculo transferencial, 
criando relações de autoridade, julgamento ou distância afetiva que contrariam o 
enquadre analítico. 
4. Superinterpretação dos Instrumentos 
Há o risco de atribuir valor excessivo aos resultados de testes, desconsiderando a 
plasticidade psíquica e as variáveis contextuais que influenciam o desempenho do 
paciente no momento da avaliação. 
Exemplo: Um resultado alto no BDI (Beck Depression Inventory) pode refletir um estado 
transitório, e não uma depressão estrutural. 
2.5 A Complementaridade na Prática Psicanalítica 
Embora distintas, avaliação diagnóstica e avaliação clínica não são mutuamente 
excludentes. Na prática, o psicanalista pode se beneficiar de uma complementaridade 
prudente entre ambas, desde que respeitados os limites éticos e legais. 
Quando considerar instrumentos 
diagnósticos? 
Quando priorizar avaliação clínica? 
Para rastrear sintomas e hipóteses iniciais (ex.: 
ansiedade, depressão) 
Para compreender dinâmicas 
inconscientes e relações objetais 
Como apoio ao encaminhamento médico 
Para definir a viabilidade de análise ou 
psicoterapia 
Em parceria com psicólogos/psiquiatras 
Como parte do processo contínuo de 
escuta 
Exemplo de complementaridade bem-sucedida: 
12 
 
 
 
Um paciente apresenta sintomas de ansiedade. O psicanalista, com apoio de um psicólogo 
parceiro, aplica a escala BAI para mensurar a intensidade do quadro. Os resultados 
auxiliam a decisão de manter psicoterapia psicanalítica, em paralelo a um 
acompanhamento psiquiátrico medicamentoso. 
2.6 Estudos de Caso Comparativos 
Caso A — Uso Exclusivo da Avaliação Diagnóstica 
Paciente: Mulher de 35 anos, com queixas de irritabilidade e cansaço extremo. 
Procedimento: Aplicação do Inventário de Depressão (BDI), entrevista semi-
estruturada. 
Resultado: Diagnóstico de episódio depressivo moderado. Encaminhamento para 
psiquiatra. A paciente não aderiu ao tratamento, sentindo-se reduzida a “um papel”. 
Caso B — Uso Exclusivo da Avaliação Clínica 
Paciente: Mesmo perfil. 
Procedimento: Entrevistas psicanalíticas, análise de transferência, sem uso de 
instrumentos objetivos. 
Resultado: Hipótese de melancolia inconsciente ligada a luto não elaborado. Processo 
analítico iniciado, mas as intensas queixas somáticas não foram suficientemente 
acolhidas. 
Caso C — Abordagem Complementar 
Paciente: Mesmo perfil. 
Procedimento: Aplicação do BDI para mensuração inicial, seguida de entrevistas 
analíticas. 
Resultado: Integração entre a compreensão dinâmica (luto não elaborado) e os níveis 
sintomáticos (depressão moderada). Encaminhamento compartilhado com psiquiatra e 
manutenção da psicoterapia analítica. 
 
 
 
 
 
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Capítulo 3 
Aspectos Éticos e Legais do Uso de 
Instrumentos por Psicanalistas 
3.1 O que é permitido e o que é vedado no Brasil 
A atuação do psicanalista no Brasil, embora não regulamentada por um conselho 
profissional específico, está circunscrita por princípios éticos gerais, leis federais e 
resoluções de conselhos de outras profissões, sobretudo o Conselho Federal de 
Psicologia (CFP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM). 
Permissões para o psicanalista 
• Utilizar instrumentos de avaliação terapêutica como recurso auxiliar da 
escuta clínica, sem fins diagnósticos ou periciais. 
• Aplicar escalas e protocolos não restritos por legislação (ex.: inventários 
autoaplicáveis como BDI, BAI, questionários de rastreio). 
• Utilizar instrumentos projetivos e qualitativos (ex.: Desenho da Família, Teste 
de Apercepção Temática — TAT), desde que com finalidade formativa e 
interpretativa e não com validade jurídica. 
Vedação legal 
• Emitir laudos psicológicos, diagnósticos estruturais ou pareceres oficiais, 
atividades exclusivas de psicólogos (Lei 4.119/62, Art. 13) e médicos psiquiatras. 
• Utilizar instrumentos restritos por resolução do CFP (ex.: Rorschach, WISC, 
WAIS, Bender) sem formação em Psicologia e sem registro ativo no CRP. 
• Elaborar perícias judiciais, avaliações para fins de aptidão laboral, avaliações 
escolares ou avaliações para concessão de benefícios previdenciários. 
Importante: Mesmo quando o psicanalista possuir formação prévia em Psicologia, ele 
só poderá utilizar instrumentos restritos se estiver com CRP ativo e respeitando o Código 
de Ética do Psicólogo. 
Fontes normativas relevantes 
• Lei 4.119/1962 (Regulamenta a profissão de Psicólogo) 
• Resolução CFP nº 009/2018 (Avaliação Psicológica) 
• Código Penal — Art. 282 (Exercício ilegal da profissão) 
 
3.2 Consentimento informado e manejo ético 
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O consentimento informado é um princípio ético central quando o psicanalista utiliza 
qualquer instrumento de avaliação, mesmo quando este não gera laudo ou diagnóstico 
formal. 
Elementos obrigatórios do consentimento informado 
O paciente deve ser informado de forma clara e compreensível sobre: 
1. Objetivo do uso do instrumento (ex.: apoiar a escuta, compreender sintomas); 
2. Natureza do teste (ex.: autoaplicável, projetivo); 
3. Forma de uso dos resultados (não gerarão laudo formal ou diagnóstico médico); 
4. Possíveis benefícios e limites do procedimento; 
5. Direito de recusar a participação sem prejuízo ao vínculo terapêutico. 
Exemplo de frase para consentimento verbal: 
“Vou sugerir a aplicação de um questionário que pode nos ajudar a compreender melhor 
como você tem sentido seus sintomas de ansiedade. O objetivo é apoiar nossa conversa 
e aprofundar nossa escuta. Os resultados não definem um diagnóstico formal, mas 
podem orientar nossas reflexões. Você se sente confortável em realizar essa atividade?” 
Registro documental 
Recomenda-se que o consentimento informado, mesmo quando obtido verbalmente, seja 
registrado no prontuário clínico (ex.: “Paciente ciente e concordante com aplicação do 
BDI para apoio terapêutico em 10/05/2025”). 
Princípios éticos aplicáveis 
• Sigilo profissional: Resultados não devem ser compartilhados sem autorização 
expressa do paciente. 
• Autonomia do paciente: A recusa em participar da avaliação deve ser respeitada 
sem coerção ou julgamento. 
• Não maleficência: Evitar interpretações precipitadas ou devolutivas que possam 
causar sofrimento desnecessário. 
• Beneficência: Utilizar os instrumentos sempre em favor do processo 
terapêutico, e nunca para controle, manipulação ou validação de hipóteses 
pessoais do analista. 
3.3 Resoluções do CFP e do CFM: o que o psicanalista 
precisa saber 
Embora a psicanálise não seja uma profissão regulamentada por lei no Brasil (isto é, não 
há um “Conselho de Psicanálise”), a prática do psicanalista deve observar limites que 
respeitem áreas regulamentadas — especialmente a Psicologia e a Medicina. O 
desconhecimento dessas fronteiras pode configurar exercício ilegal da profissão ou 
violação ética. 
Resoluções fundamentais do CFP (Conselho Federal de Psicologia) 
15 
 
 
 
• Resolução CFP nº 009/2018 — Avaliação Psicológica 
Define que a avaliação psicológica e o uso de testes psicológicos padronizados 
são atos privativos do psicólogo. O uso, aplicação, correção, interpretação e 
emissão de documentos com base nesses testes requer: 
o Formação em Psicologia; 
o Registro ativo no Conselho Regional de Psicologia (CRP); 
o Acesso autorizado pelo Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos 
(SATEPSI). 
• Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005) 
Define princípios sobre sigilo, consentimento, uso adequado de instrumentos e 
comunicação responsável de resultados. 
Implicação para o psicanalista: Mesmo que um psicanalista possua formação prévia em 
Psicologia, se não estiver com CRP ativo, não poderá aplicar instrumentos restritos. 
Caso não tenha formação em Psicologia, deve limitar-sea instrumentos livres ou 
qualitativos, e sempre como recurso auxiliar da escuta. 
Normativas relevantes do CFM (Conselho Federal de Medicina) 
• Resolução CFM nº 1.658/2002 — Ato Médico 
Determina que diagnóstico de transtornos mentais, prescrição de 
medicamentos e laudos médicos são atos privativos de médicos. 
Implicação para o psicanalista: O psicanalista não pode emitir diagnóstico médico ou 
prescrever medicamentos, ainda que utilize instrumentos que indiquem sintomas (ex.: 
altos escores de depressão). 
 
3.4 A ética da interpretação e devolução dos resultados 
A devolutiva clínica — ou seja, a comunicação ao paciente sobre os resultados de um 
teste ou instrumento aplicado — é uma etapa sensível e ética do processo de avaliação 
terapêutica. 
Princípios para uma devolutiva ética e clínica 
1. Clareza e linguagem acessível 
o Evitar jargões técnicos; 
o Utilizar uma linguagem que o paciente compreenda sem distorções. 
2. Respeito à subjetividade do paciente 
o Não apresentar os resultados como verdades absolutas ou definitivas; 
o Deixar espaço para que o paciente possa refletir e expressar seus 
sentimentos a partir da devolutiva. 
3. Integração com a escuta analítica 
o Utilizar o resultado como ponto de partida para aprofundar hipóteses e 
não como conclusão fechada; 
o Favorecer a elaboração subjetiva (ex.: “Este resultado nos convida a 
pensar sobre...”). 
16 
 
 
 
4. Evitar etiquetamentos e rotulações 
o Não reduzir o paciente ao resultado obtido (ex.: “Você é depressivo porque 
o teste disse”); 
o Valorizar a dimensão processual da subjetividade. 
5. Proteger o vínculo transferencial 
o Realizar a devolutiva com empatia, cuidado e acolhimento, evitando 
rupturas no vínculo terapêutico. 
Exemplo de devolutiva ética 
“O resultado do questionário de ansiedade que você respondeu sugere que temos alguns 
indícios de sofrimento relacionados à ansiedade, o que está em consonância com o que 
você já compartilhou em nossas conversas. Esses dados podem nos ajudar a pensar 
melhor sobre suas experiências, mas não definem você nem encerram a compreensão da 
sua história. Seguiremos explorando juntos o que tudo isso significa para você.” 
3.5 Riscos éticos e como preveni-los 
Embora a avaliação terapêutica ofereça subsídios valiosos para a escuta clínica, seu uso 
inadequado pode configurar violação ética, gerar prejuízos ao paciente e comprometer 
o setting psicanalítico. 
Principais riscos éticos 
Risco Ético Consequência 
Aplicação de instrumentos privativos (ex.: 
testes restritos a psicólogos) 
Exercício ilegal da profissão; possível 
denúncia e processo jurídico 
Comunicação inadequada de resultados 
Fragilização do vínculo; aumento de 
angústia ou resistência 
Uso de instrumentos sem preparo teórico 
Interpretação equivocada e indução de 
erro clínico 
Violação de sigilo na comunicação de dados 
Quebra da confidencialidade; dano à 
relação terapêutica 
Uso de testes para confirmar hipóteses 
pessoais do analista (viés confirmatório) 
Distanciamento da escuta analítica; 
tecnicismo excessivo 
Estratégias de prevenção 
1. Formação continuada 
Manter-se atualizado sobre aspectos técnicos, éticos e legais relacionados ao uso 
de instrumentos. 
2. Supervisão clínica constante 
Discutir a indicação, aplicação e interpretação de instrumentos com supervisores 
experientes. 
3. Consentimento informado claro 
Explicar previamente a finalidade dos instrumentos, limites e possíveis 
benefícios. 
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4. Autoconhecimento do analista 
Monitorar as próprias contratransferências para evitar usos defensivos ou 
excessivos de instrumentos. 
5. Utilizar instrumentos como apoio, nunca como substituição da escuta 
A avaliação deve enriquecer a escuta, não empobrecê-la ou automatizá-la. 
 
3.6 Estudos de caso e dilemas éticos 
Estudo de Caso 1 – Uso inadequado de teste restrito 
Contexto: João, psicanalista sem formação em Psicologia, decide aplicar o WAIS-IV 
(teste de inteligência restrito a psicólogos) para avaliar um paciente adulto com queixas 
de baixa autoestima. Após a aplicação, comunica ao paciente que ele tem “baixa 
capacidade intelectual”. 
Conseqüência: O paciente abandona o tratamento sentindo-se desqualificado. 
Posteriormente, denuncia o analista ao Ministério Público. 
Análise: 
João cometeu exercício ilegal da profissão, aplicando instrumento restrito e comunicando 
o resultado de forma inadequada e antiética. 
Estudo de Caso 2 – Devolutiva cuidadosa e ética 
Contexto: Ana, psicanalista, aplica o Inventário de Depressão de Beck (BDI) — um 
teste livre — em uma paciente que apresenta sintomas depressivos. Durante a devolutiva, 
compartilha que os resultados sugerem indícios de sofrimento depressivo e convida a 
paciente a refletir juntas sobre os significados desse sofrimento. 
Conseqüência: A paciente se sente acolhida, compreendida e motivada a continuar o 
tratamento. 
Análise: 
Ana utilizou o instrumento de forma ética, comunicando os resultados de maneira 
cuidadosa, respeitosa e integrada à escuta. 
Dilema Ético 1 – Pressão de familiares 
Contexto: Os pais de um adolescente em tratamento solicitam ao analista um relatório 
com os resultados dos testes aplicados, sem o consentimento do jovem. 
Decisão ética recomendada: 
Negociar com o adolescente a possibilidade de compartilhar algumas informações, 
respeitando seu direito à confidencialidade. Caso haja risco iminente (ex.: risco de 
suicídio), considerar a comunicação com os responsáveis de forma ética e proporcional. 
 
 
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Exercícios, Perguntas Reflexivas e Leituras 
Recomendadas 
Objetivo desta seção: Consolidar os conceitos desenvolvidos nos três capítulos, 
estimular a reflexão clínica e proporcionar aprofundamento teórico, assegurando uma 
prática ética, fundamentada e eficaz da Avaliação Terapêutica em psicanálise. 
 
Exercícios Práticos 
Exercício 1 – Elaboração de Caso Clínico (Aplicação Integrada) 
Proposta: Escolha um paciente real (preservando o anonimato) ou fictício que 
apresente impasses na escuta psicanalítica (ex.: resistência, dificuldade de simbolização, 
sintomas persistentes). 
Tarefa: Elabore uma hipótese de avaliação terapêutica que inclua: 
a) Objetivo clínico da avaliação 
b) Instrumentos que você aplicaria (livres) 
c) Como integraria os resultados à escuta psicanalítica 
Extensão sugerida: 3 a 5 páginas 
 
Exercício 2 – Redação de Devolutiva Ética 
Proposta: Baseando-se no exercício anterior, elabore um exemplo de devolutiva que 
seria comunicada ao paciente. 
Tarefa: 
a) Redija um texto (máx. 1 página) com a linguagem clara, humanizada e ética 
b) Reflita como essa devolutiva pode enriquecer o vínculo transferencial 
 
Exercício 3 – Análise Ética de Dilema 
Proposta: Escolha um dos dilemas éticos apresentados no Capítulo 3 ou outro de sua 
experiência. 
Tarefa: 
a) Analise os riscos éticos envolvidos 
b) Proponha alternativas de manejo ético e clínico adequadas 
Extensão sugerida: 2 páginas 
 
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Perguntas Reflexivas 
• Em quais situações a avaliação terapêutica amplia a escuta, e em quais pode 
restringi-la? 
• Quais limites éticos você considera mais desafiadores na utilização de 
instrumentos por psicanalistas? 
• Como a teoria de Winnicott, Bion ou Stephen Finn pode embasar suas escolhas 
na avaliação terapêutica? 
• Como você se posiciona diante da tensão entre sigilo analítico e demanda de 
familiares por informações? 
• De que forma o uso de instrumentos pode favorecer ou prejudicar a transferência 
e o manejo clínico? 
 
Leituras Recomendadas 
Autor Título Editora Conteúdo Relevante 
Finn, S. E. Therapeutic Assessment Routledge 
Fundamentação da Avaliação 
Terapêutica como intervenção 
clínica 
Winnicott, D. W. 
O Brincar e a 
Realidade 
Imago 
Conceito de espaço potencial e 
criatividade na clínica 
Bion, W. R. 
A Aprendizagem da 
Experiência 
Imago 
Teoria do pensar e função alfa 
como base da escutapsicanalítica 
Gabbard, G. O. 
Psiquiatria 
Psicodinâmica na 
Prática Clínica 
Artmed 
Integração de psicopatologia e 
escuta analítica 
Conselho Federal 
de Psicologia 
(CFP) 
Resoluções CFP nº 
9/2018 e nº 6/2019 
CFP 
Normas sobre uso de 
instrumentos psicológicos e 
ética profissional 
Cordeiro, M. F. Ética em Psicanálise Blucher 
Fundamentos da ética aplicada 
à prática psicanalítica 
 
Orientação Final 
A efetividade da Avaliação Terapêutica reside na combinação equilibrada entre 
conhecimento técnico, escuta humanizada e compromisso ético. Recomenda-se que 
os exercícios sejam desenvolvidos individualmente e posteriormente discutidos em 
supervisão clínica, promovendo a integração teórico-prática.

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