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0 1 CURSO DE APLICAÇÃO DE AVALIAÇÃO TERAPÊUTICA PARA PSICANALISTAS MÓDULO 1 Introdução à Avaliação Terapêutica Todos os direitos reservados ao autor. Não permitida a reprodução no todo ou em parte. A autorização deverá ser solicitada para fins de estudos e pesquisas ABPsi Academia Brasileira de Psicanálise Belo Horizonte | 2025 Copyright @ 2025 by Academia Brasileira de Psicanálise 2 Sumário 1. Apresentação – pág. 3 2. Capítulo 1: Conceitos Fundamentais e Objetivos da Avaliação Terapêutica – pág. 4 3. Capítulo 2: Distinções entre Avaliação Diagnóstica e Avaliação Clínica – pág. 9 4. Capítulo 3: Aspectos Éticos e Legais do Uso de Instrumentos por Psicanalistas – pág. 13 5. Capítulo 4: Integração dos Resultados à Escuta Psicanalítica – pág. 18 6. Capítulo 5: Aplicação Prática e Estudo de Casos – pág. 3 7. Exercícios, Perguntas Reflexivas e Leituras Recomendadas – pág. 3 8. Anexos– pág. 3 o A. Protocolos e Instruções de Aplicação de Testes o B. Modelos de Análise e Integração de Resultados o C. Glossário de Termos Técnicos 3 Apresentação Bem-vindo ao módulo introdutório de Avaliação Terapêutica. Esta apostila foi elaborada com o propósito de oferecer aos psicanalistas um aprofundamento teórico, técnico e ético acerca do uso de instrumentos de avaliação como recurso auxiliar na prática clínica. O conteúdo aqui proposto integra fundamentos da psicanálise com a abordagem da avaliação terapêutica, respeitando os limites éticos e legais que regem a atuação do psicanalista. Desejamos que esta jornada formativa amplie sua escuta clínica e enriqueça suas possibilidades de manejo, sempre em favor do bem-estar e do desenvolvimento subjetivo dos pacientes. 4 Capítulo 1 Conceitos Fundamentais e Objetivos da Avaliação Terapêutica 1.1 Definição e Origem da Avaliação Terapêutica A Avaliação Terapêutica é um processo clínico no qual instrumentos de avaliação psicológica — tais como testes psicométricos, entrevistas semi-estruturadas e técnicas projetivas — são utilizados não apenas para obter informações diagnósticas, mas para promover a compreensão e a transformação emocional do paciente. Diferente de uma avaliação meramente diagnóstica, a Avaliação Terapêutica propõe um encontro dialógico entre paciente e terapeuta, no qual o próprio processo de avaliação se torna parte do tratamento. O conceito contemporâneo de Avaliação Terapêutica foi formalizado por Stephen Finn nos anos 1990, na Universidade do Texas (Austin, EUA). Inspirado em práticas psicodinâmicas e fenomenológicas, Finn introduziu a ideia de que os testes, quando usados de maneira colaborativa e empática, podem ter efeito terapêutico. No Brasil, embora o termo ainda seja recente na literatura psicanalítica, a prática de integrar instrumentos psicométricos à escuta clínica já era tangenciada por autores como Winnicott e Bion, que valorizaram a compreensão do mundo interno por vias simbólicas e projetivas. Historicamente, a avaliação psicológica surgiu no final do século XIX com Francis Galton e se consolidou no século XX com Alfred Binet e os testes de inteligência. Contudo, o foco diagnóstico predominava. O avanço da psicanálise, da fenomenologia e das abordagens humanistas contribuiu para o deslocamento do interesse do "rótulo diagnóstico" para a compreensão subjetiva. A Avaliação Terapêutica, portanto, emerge como síntese entre rigor metodológico e sensibilidade clínica. 1.2 Objetivos Clínicos da Avaliação A Avaliação Terapêutica, dentro do enquadre psicanalítico, tem como objetivo central enriquecer a compreensão do funcionamento psíquico do paciente e subsidiar o manejo clínico. Não se trata de substituir a escuta analítica, mas de complementá-la, oferecendo dados que podem ser metabolizados junto ao paciente no contexto transferencial. Entre os objetivos específicos destacam-se: • Explorar aspectos inconscientes que não emergem facilmente na fala espontânea, mas podem se expressar em testes projetivos ou na resposta a questionários específicos. • Aprofundar a formulação clínica, ao integrar indicadores objetivos (ex.: níveis de ansiedade e depressão) com a compreensão qualitativa da subjetividade. 5 • Apoiar o manejo transferencial, ao permitir maior clareza sobre defesas, angústias e fantasias do paciente, facilitando a postura empática e contenedora do analista. • Promover a conscientização do paciente, por meio de uma devolutiva cuidadosa e ética, que favoreça a elaboração emocional e a apropriação de aspectos psíquicos dissociados. A avaliação terapêutica, portanto, não visa enquadrar o paciente em categorias diagnósticas estanques, mas oferecer um espelho interpretativo que convide à reflexão e ao autoconhecimento. 1.3 Princípios Teóricos: Winnicott, Bion e Stephen Finn A fundamentação teórica da Avaliação Terapêutica dialoga com autores da psicanálise que valorizaram a dimensão relacional e a experiência emocional no processo clínico. Donald W. Winnicott Winnicott introduziu os conceitos de ambiente facilitador, espaço potencial e transicionalidade, fundamentais para entender a Avaliação Terapêutica. O uso de testes e instrumentos pode ser concebido como um objeto transicional que, mediando a relação paciente-terapeuta, permite a expressão simbólica de conteúdos inconscientes. O terapeuta, ao oferecer uma devolutiva sensível e empática, atua como um ambiente suficientemente bom, favorecendo a integração psíquica. Wilfred Bion Bion destacou a importância da função de contenção (containment) e da capacidade negativa na escuta clínica. A Avaliação Terapêutica, ao acolher e processar as angústias projetadas pelo paciente nos testes, contribui para essa função de contenção. O terapeuta metaboliza os dados coletados, transformando-os em narrativas compreensíveis e elaboráveis, ampliando a capacidade de pensar do paciente. Stephen Finn Stephen Finn sistematizou esses aportes no modelo contemporâneo de Avaliação Terapêutica. Seu método enfatiza a colaboração, o respeito à subjetividade e a interpretação compartilhada. Para Finn, a aplicação de instrumentos não deve ser um ato técnico e distante, mas uma experiência de coconscientização, na qual paciente e terapeuta exploram juntos o significado dos resultados. "A avaliação é mais útil quando o paciente se sente compreendido e respeitado durante o processo e quando os dados obtidos servem como catalisadores de insight e mudança emocional." (Finn, 2007) 1.4 Instrumentos como Facilitadores da Escuta Na prática psicanalítica contemporânea, os instrumentos de avaliação — quando utilizados com critério e sensibilidade — funcionam como facilitadores da escuta 6 analítica, e não como substitutos dela. A aplicação de testes projetivos, escalas psicométricas ou protocolos de observação pode favorecer o acesso a conteúdos psíquicos que estariam inacessíveis unicamente pela fala livre ou associação livre. Entre os principais papéis facilitadores dos instrumentos, destacam-se: • Abertura de novos canais expressivos: Testes como o Desenho da Família ou o TAT (Teste de Apercepção Temática) permitem ao paciente projetar, de forma simbólica, vivências emocionais difíceis de serem verbalizadas diretamente. • Redução de resistências: Alguns pacientes com defesas mais rígidas ou alexitimia (dificuldade em identificar e expressar emoções) sentem-se mais confortáveis expressando-se por meio de atividades estruturadas do que pela fala espontânea. • Estruturação do setting: A presença de um protocolo ou instrumento pode funcionar como estrutura auxiliar, especialmente útil em contextosde alta ansiedade ou quando a relação terapêutica ainda está em fase de construção. • Apoio à contratransferência: Os dados obtidos auxiliam o analista a diferenciar conteúdos projetivos de aspectos objetivos, evitando interpretações precipitadas ou enviesadas pela contratransferência. Importante ressaltar que os instrumentos não devem ser aplicados mecanicamente, mas sempre integrados ao campo transferencial e contratransferencial, respeitando o ritmo e as defesas do paciente. 1.5 Exemplos Práticos de Aplicação A seguir, apresento exemplos clínicos que ilustram como os instrumentos podem ser integrados à escuta psicanalítica. Exemplo 1 — Adulto com queixas depressivas Paciente: Mulher de 34 anos, com sintomas de tristeza crônica e sentimento de vazio. Instrumentos aplicados: • BDI (Inventário de Depressão de Beck) • TAT (Teste de Apercepção Temática) Integração clínica: O BDI confirmou níveis moderados de depressão, e as pranchas do TAT revelaram temas recorrentes de abandono e desamparo. Esses dados enriqueceram a formulação clínica, sustentando uma abordagem empática e interpretativa centrada nas experiências precoces de perda. Exemplo 2 — Adolescente com dificuldades escolares Paciente: Jovem de 15 anos, com queixas de desatenção e isolamento. Instrumentos aplicados: 7 • Desenho da Família • Escala de Ansiedade (BAI) Integração clínica: O Desenho da Família evidenciou uma vivência de exclusão e distanciamento da figura paterna. A escala BAI indicou níveis elevados de ansiedade. Esses achados orientaram o manejo transferencial e embasaram a comunicação cuidadosa com os pais, dentro dos princípios éticos. 1.6 Vantagens e Limitações do Método Como todo recurso clínico, a Avaliação Terapêutica apresenta potencialidades e limitações que o psicanalista precisa conhecer para uma aplicação ética e eficaz. Vantagens • Enriquecimento da compreensão clínica: Oferece dados adicionais que ampliam a visão do analista sobre o funcionamento psíquico. • Facilitação do vínculo: Quando bem conduzida, a aplicação e devolutiva dos instrumentos fortalecem o setting e a aliança terapêutica. • Apoio à tomada de decisões clínicas: Subsidiando o planejamento do manejo ou eventual encaminhamento (ex.: avaliação psiquiátrica complementar). Limitações • Risco de superinterpretação: Atribuir significados fixos ou excessivos aos resultados, desconsiderando o contexto transferencial. • Limitações técnicas e legais: No Brasil, a aplicação formal de testes psicométricos para fins diagnósticos é restrita a psicólogos e psiquiatras. Psicanalistas devem utilizar os instrumentos apenas como recursos auxiliares da escuta, sem emitir laudos ou pareceres. • Possibilidade de resistência: Alguns pacientes podem vivenciar a aplicação de testes como intrusiva ou invasiva, exigindo manejo cuidadoso. 1.7 Estudos de Caso Exemplificativos Caso 1 — Avaliação de Adulto Paciente: Homem de 40 anos, executivo, que procura análise devido a crises de pânico. Instrumentos utilizados: BAI, MEEM (Mini Exame do Estado Mental), TAT Síntese clínica: O BAI indicou altos níveis de ansiedade, o MEEM afastou suspeita de comprometimento cognitivo, e o TAT revelou conflitos relacionados a autoexigência e temor de fracasso. A devolutiva cuidadosa permitiu que o paciente refletisse sobre padrões de idealização e perfeccionismo, favorecendo o aprofundamento da análise. Caso 2 — Avaliação de Idoso Paciente: Mulher de 72 anos, com queixas de esquecimentos e tristeza. 8 Instrumentos utilizados: MEEM, Inventário de Depressão Geriátrico (GDS) Síntese clínica: O MEEM sugeriu leve declínio cognitivo compatível com envelhecimento normal, enquanto o GDS apontou sintomas depressivos significativos. A devolutiva favoreceu a aceitação da indicação de psicoterapia de apoio, em parceria com acompanhamento psiquiátrico. 9 Capítulo 2 Distinções entre Avaliação Diagnóstica e Avaliação Clínica 2.1 Definições e Objetivos de Cada Modalidade Avaliação Diagnóstica A avaliação diagnóstica é um procedimento estruturado que visa identificar e classificar transtornos ou síndromes segundo sistemas classificatórios reconhecidos (DSM-5 ou CID-11). Seu objetivo central é estabelecer um diagnóstico nosológico, permitindo decisões quanto a tratamentos, prognósticos ou encaminhamentos. Características centrais: • Baseada em critérios operacionais e sintomas observáveis. • Utiliza protocolos padronizados (testes, escalas, entrevistas estruturadas). • Possui caráter taxonômico e descritivo (ex.: F41.1 — Transtorno de Ansiedade Generalizada). Finalidades típicas: • Encaminhamento médico-psiquiátrico. • Laudos periciais ou administrativos. • Definição de diagnóstico diferencial. Avaliação Clínica A avaliação clínica, no âmbito da psicanálise, possui uma abordagem qualitativa e compreensiva. Seu objetivo principal é compreender o funcionamento psíquico, os padrões de relação, as defesas, os conflitos inconscientes e a estrutura subjetiva. Características centrais: • Focaliza a singularidade do sujeito e sua história. • Integra elementos da transferência, contratransferência e material inconsciente. • Não visa uma classificação rígida, mas a formulação de hipóteses compreensivas. Finalidades típicas: • Compreensão da dinâmica psíquica. • Planejamento do manejo terapêutico. • Delimitação da viabilidade e do enquadre da análise. 10 2.2 As Implicações Clínicas da Distinção A distinção entre avaliação diagnóstica e avaliação clínica não é meramente técnica — ela repercute diretamente na condução do processo terapêutico e na ética do trabalho. Aspecto Avaliação Diagnóstica Avaliação Clínica Objetivo Classificação nosológica Compreensão dinâmica Foco Sintomas e critérios objetivos Singularidade subjetiva Método Protocolos padronizados Entrevistas abertas, escuta flutuante Produto Laudo ou diagnóstico Formulação clínica Risco Redução da subjetividade Vagueza excessiva Implicações práticas: • Um diagnóstico fechado (ex.: transtorno borderline) pode gerar cristalização e estigmatização do paciente, impactando negativamente a transferência. • A formulação clínica, ao priorizar a escuta, favorece um manejo mais flexível e ajustado às necessidades do sujeito, sem aprisioná-lo a um rótulo. 2.3 Exemplos Práticos de Cada Abordagem Exemplo 1 — Avaliação Diagnóstica Paciente: Jovem de 22 anos, encaminhado por psiquiatra com suspeita de transtorno de déficit de atenção. Procedimentos: Entrevista estruturada, Escala ASRS, MEEM Produto final: Diagnóstico compatível com TDAH subtipo desatento, laudo encaminhado para suporte acadêmico e intervenção medicamentosa. Exemplo 2 — Avaliação Clínica Paciente: Jovem de 22 anos, com queixas de dispersão e instabilidade emocional. Procedimentos: Entrevista psicanalítica, análise da transferência, aplicação livre de testes projetivos Produto final: Formulação clínica apontando conflitos de separação-individuação, defesas de clivagem e idealização, sem fechamento diagnóstico rígido. Indicação de psicoterapia psicanalítica. 2.4 Riscos do Uso Inadequado 11 A utilização inadequada de avaliações diagnósticas ou clínicas pode gerar consequências éticas, técnicas e terapêuticas prejudiciais. O psicanalista deve estar atento a quatro riscos principais: 1. Redução da Subjetividade O uso excessivo de rótulos diagnósticos pode apagar a singularidade do paciente, levando à cristalização de identidades patológicas (ex.: “sou borderline”, “tenho TDAH”) e dificultando o processo de elaboração psíquica. 2. Confusão de Papéis Profissionais Psicanalistas não possuem, no Brasil, respaldo legal para emitir laudos diagnósticos com validade jurídica ou médica (atividade restrita a psicólogos e psiquiatras). Usar testes para finsde diagnóstico formal configura exercício ilegal da profissão de psicólogo, conforme as resoluções do CFP. 3. Comprometimento da Transferência A comunicação inadequada de resultados pode fragilizar o vínculo transferencial, criando relações de autoridade, julgamento ou distância afetiva que contrariam o enquadre analítico. 4. Superinterpretação dos Instrumentos Há o risco de atribuir valor excessivo aos resultados de testes, desconsiderando a plasticidade psíquica e as variáveis contextuais que influenciam o desempenho do paciente no momento da avaliação. Exemplo: Um resultado alto no BDI (Beck Depression Inventory) pode refletir um estado transitório, e não uma depressão estrutural. 2.5 A Complementaridade na Prática Psicanalítica Embora distintas, avaliação diagnóstica e avaliação clínica não são mutuamente excludentes. Na prática, o psicanalista pode se beneficiar de uma complementaridade prudente entre ambas, desde que respeitados os limites éticos e legais. Quando considerar instrumentos diagnósticos? Quando priorizar avaliação clínica? Para rastrear sintomas e hipóteses iniciais (ex.: ansiedade, depressão) Para compreender dinâmicas inconscientes e relações objetais Como apoio ao encaminhamento médico Para definir a viabilidade de análise ou psicoterapia Em parceria com psicólogos/psiquiatras Como parte do processo contínuo de escuta Exemplo de complementaridade bem-sucedida: 12 Um paciente apresenta sintomas de ansiedade. O psicanalista, com apoio de um psicólogo parceiro, aplica a escala BAI para mensurar a intensidade do quadro. Os resultados auxiliam a decisão de manter psicoterapia psicanalítica, em paralelo a um acompanhamento psiquiátrico medicamentoso. 2.6 Estudos de Caso Comparativos Caso A — Uso Exclusivo da Avaliação Diagnóstica Paciente: Mulher de 35 anos, com queixas de irritabilidade e cansaço extremo. Procedimento: Aplicação do Inventário de Depressão (BDI), entrevista semi- estruturada. Resultado: Diagnóstico de episódio depressivo moderado. Encaminhamento para psiquiatra. A paciente não aderiu ao tratamento, sentindo-se reduzida a “um papel”. Caso B — Uso Exclusivo da Avaliação Clínica Paciente: Mesmo perfil. Procedimento: Entrevistas psicanalíticas, análise de transferência, sem uso de instrumentos objetivos. Resultado: Hipótese de melancolia inconsciente ligada a luto não elaborado. Processo analítico iniciado, mas as intensas queixas somáticas não foram suficientemente acolhidas. Caso C — Abordagem Complementar Paciente: Mesmo perfil. Procedimento: Aplicação do BDI para mensuração inicial, seguida de entrevistas analíticas. Resultado: Integração entre a compreensão dinâmica (luto não elaborado) e os níveis sintomáticos (depressão moderada). Encaminhamento compartilhado com psiquiatra e manutenção da psicoterapia analítica. 13 Capítulo 3 Aspectos Éticos e Legais do Uso de Instrumentos por Psicanalistas 3.1 O que é permitido e o que é vedado no Brasil A atuação do psicanalista no Brasil, embora não regulamentada por um conselho profissional específico, está circunscrita por princípios éticos gerais, leis federais e resoluções de conselhos de outras profissões, sobretudo o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM). Permissões para o psicanalista • Utilizar instrumentos de avaliação terapêutica como recurso auxiliar da escuta clínica, sem fins diagnósticos ou periciais. • Aplicar escalas e protocolos não restritos por legislação (ex.: inventários autoaplicáveis como BDI, BAI, questionários de rastreio). • Utilizar instrumentos projetivos e qualitativos (ex.: Desenho da Família, Teste de Apercepção Temática — TAT), desde que com finalidade formativa e interpretativa e não com validade jurídica. Vedação legal • Emitir laudos psicológicos, diagnósticos estruturais ou pareceres oficiais, atividades exclusivas de psicólogos (Lei 4.119/62, Art. 13) e médicos psiquiatras. • Utilizar instrumentos restritos por resolução do CFP (ex.: Rorschach, WISC, WAIS, Bender) sem formação em Psicologia e sem registro ativo no CRP. • Elaborar perícias judiciais, avaliações para fins de aptidão laboral, avaliações escolares ou avaliações para concessão de benefícios previdenciários. Importante: Mesmo quando o psicanalista possuir formação prévia em Psicologia, ele só poderá utilizar instrumentos restritos se estiver com CRP ativo e respeitando o Código de Ética do Psicólogo. Fontes normativas relevantes • Lei 4.119/1962 (Regulamenta a profissão de Psicólogo) • Resolução CFP nº 009/2018 (Avaliação Psicológica) • Código Penal — Art. 282 (Exercício ilegal da profissão) 3.2 Consentimento informado e manejo ético 14 O consentimento informado é um princípio ético central quando o psicanalista utiliza qualquer instrumento de avaliação, mesmo quando este não gera laudo ou diagnóstico formal. Elementos obrigatórios do consentimento informado O paciente deve ser informado de forma clara e compreensível sobre: 1. Objetivo do uso do instrumento (ex.: apoiar a escuta, compreender sintomas); 2. Natureza do teste (ex.: autoaplicável, projetivo); 3. Forma de uso dos resultados (não gerarão laudo formal ou diagnóstico médico); 4. Possíveis benefícios e limites do procedimento; 5. Direito de recusar a participação sem prejuízo ao vínculo terapêutico. Exemplo de frase para consentimento verbal: “Vou sugerir a aplicação de um questionário que pode nos ajudar a compreender melhor como você tem sentido seus sintomas de ansiedade. O objetivo é apoiar nossa conversa e aprofundar nossa escuta. Os resultados não definem um diagnóstico formal, mas podem orientar nossas reflexões. Você se sente confortável em realizar essa atividade?” Registro documental Recomenda-se que o consentimento informado, mesmo quando obtido verbalmente, seja registrado no prontuário clínico (ex.: “Paciente ciente e concordante com aplicação do BDI para apoio terapêutico em 10/05/2025”). Princípios éticos aplicáveis • Sigilo profissional: Resultados não devem ser compartilhados sem autorização expressa do paciente. • Autonomia do paciente: A recusa em participar da avaliação deve ser respeitada sem coerção ou julgamento. • Não maleficência: Evitar interpretações precipitadas ou devolutivas que possam causar sofrimento desnecessário. • Beneficência: Utilizar os instrumentos sempre em favor do processo terapêutico, e nunca para controle, manipulação ou validação de hipóteses pessoais do analista. 3.3 Resoluções do CFP e do CFM: o que o psicanalista precisa saber Embora a psicanálise não seja uma profissão regulamentada por lei no Brasil (isto é, não há um “Conselho de Psicanálise”), a prática do psicanalista deve observar limites que respeitem áreas regulamentadas — especialmente a Psicologia e a Medicina. O desconhecimento dessas fronteiras pode configurar exercício ilegal da profissão ou violação ética. Resoluções fundamentais do CFP (Conselho Federal de Psicologia) 15 • Resolução CFP nº 009/2018 — Avaliação Psicológica Define que a avaliação psicológica e o uso de testes psicológicos padronizados são atos privativos do psicólogo. O uso, aplicação, correção, interpretação e emissão de documentos com base nesses testes requer: o Formação em Psicologia; o Registro ativo no Conselho Regional de Psicologia (CRP); o Acesso autorizado pelo Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI). • Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005) Define princípios sobre sigilo, consentimento, uso adequado de instrumentos e comunicação responsável de resultados. Implicação para o psicanalista: Mesmo que um psicanalista possua formação prévia em Psicologia, se não estiver com CRP ativo, não poderá aplicar instrumentos restritos. Caso não tenha formação em Psicologia, deve limitar-sea instrumentos livres ou qualitativos, e sempre como recurso auxiliar da escuta. Normativas relevantes do CFM (Conselho Federal de Medicina) • Resolução CFM nº 1.658/2002 — Ato Médico Determina que diagnóstico de transtornos mentais, prescrição de medicamentos e laudos médicos são atos privativos de médicos. Implicação para o psicanalista: O psicanalista não pode emitir diagnóstico médico ou prescrever medicamentos, ainda que utilize instrumentos que indiquem sintomas (ex.: altos escores de depressão). 3.4 A ética da interpretação e devolução dos resultados A devolutiva clínica — ou seja, a comunicação ao paciente sobre os resultados de um teste ou instrumento aplicado — é uma etapa sensível e ética do processo de avaliação terapêutica. Princípios para uma devolutiva ética e clínica 1. Clareza e linguagem acessível o Evitar jargões técnicos; o Utilizar uma linguagem que o paciente compreenda sem distorções. 2. Respeito à subjetividade do paciente o Não apresentar os resultados como verdades absolutas ou definitivas; o Deixar espaço para que o paciente possa refletir e expressar seus sentimentos a partir da devolutiva. 3. Integração com a escuta analítica o Utilizar o resultado como ponto de partida para aprofundar hipóteses e não como conclusão fechada; o Favorecer a elaboração subjetiva (ex.: “Este resultado nos convida a pensar sobre...”). 16 4. Evitar etiquetamentos e rotulações o Não reduzir o paciente ao resultado obtido (ex.: “Você é depressivo porque o teste disse”); o Valorizar a dimensão processual da subjetividade. 5. Proteger o vínculo transferencial o Realizar a devolutiva com empatia, cuidado e acolhimento, evitando rupturas no vínculo terapêutico. Exemplo de devolutiva ética “O resultado do questionário de ansiedade que você respondeu sugere que temos alguns indícios de sofrimento relacionados à ansiedade, o que está em consonância com o que você já compartilhou em nossas conversas. Esses dados podem nos ajudar a pensar melhor sobre suas experiências, mas não definem você nem encerram a compreensão da sua história. Seguiremos explorando juntos o que tudo isso significa para você.” 3.5 Riscos éticos e como preveni-los Embora a avaliação terapêutica ofereça subsídios valiosos para a escuta clínica, seu uso inadequado pode configurar violação ética, gerar prejuízos ao paciente e comprometer o setting psicanalítico. Principais riscos éticos Risco Ético Consequência Aplicação de instrumentos privativos (ex.: testes restritos a psicólogos) Exercício ilegal da profissão; possível denúncia e processo jurídico Comunicação inadequada de resultados Fragilização do vínculo; aumento de angústia ou resistência Uso de instrumentos sem preparo teórico Interpretação equivocada e indução de erro clínico Violação de sigilo na comunicação de dados Quebra da confidencialidade; dano à relação terapêutica Uso de testes para confirmar hipóteses pessoais do analista (viés confirmatório) Distanciamento da escuta analítica; tecnicismo excessivo Estratégias de prevenção 1. Formação continuada Manter-se atualizado sobre aspectos técnicos, éticos e legais relacionados ao uso de instrumentos. 2. Supervisão clínica constante Discutir a indicação, aplicação e interpretação de instrumentos com supervisores experientes. 3. Consentimento informado claro Explicar previamente a finalidade dos instrumentos, limites e possíveis benefícios. 17 4. Autoconhecimento do analista Monitorar as próprias contratransferências para evitar usos defensivos ou excessivos de instrumentos. 5. Utilizar instrumentos como apoio, nunca como substituição da escuta A avaliação deve enriquecer a escuta, não empobrecê-la ou automatizá-la. 3.6 Estudos de caso e dilemas éticos Estudo de Caso 1 – Uso inadequado de teste restrito Contexto: João, psicanalista sem formação em Psicologia, decide aplicar o WAIS-IV (teste de inteligência restrito a psicólogos) para avaliar um paciente adulto com queixas de baixa autoestima. Após a aplicação, comunica ao paciente que ele tem “baixa capacidade intelectual”. Conseqüência: O paciente abandona o tratamento sentindo-se desqualificado. Posteriormente, denuncia o analista ao Ministério Público. Análise: João cometeu exercício ilegal da profissão, aplicando instrumento restrito e comunicando o resultado de forma inadequada e antiética. Estudo de Caso 2 – Devolutiva cuidadosa e ética Contexto: Ana, psicanalista, aplica o Inventário de Depressão de Beck (BDI) — um teste livre — em uma paciente que apresenta sintomas depressivos. Durante a devolutiva, compartilha que os resultados sugerem indícios de sofrimento depressivo e convida a paciente a refletir juntas sobre os significados desse sofrimento. Conseqüência: A paciente se sente acolhida, compreendida e motivada a continuar o tratamento. Análise: Ana utilizou o instrumento de forma ética, comunicando os resultados de maneira cuidadosa, respeitosa e integrada à escuta. Dilema Ético 1 – Pressão de familiares Contexto: Os pais de um adolescente em tratamento solicitam ao analista um relatório com os resultados dos testes aplicados, sem o consentimento do jovem. Decisão ética recomendada: Negociar com o adolescente a possibilidade de compartilhar algumas informações, respeitando seu direito à confidencialidade. Caso haja risco iminente (ex.: risco de suicídio), considerar a comunicação com os responsáveis de forma ética e proporcional. 18 Exercícios, Perguntas Reflexivas e Leituras Recomendadas Objetivo desta seção: Consolidar os conceitos desenvolvidos nos três capítulos, estimular a reflexão clínica e proporcionar aprofundamento teórico, assegurando uma prática ética, fundamentada e eficaz da Avaliação Terapêutica em psicanálise. Exercícios Práticos Exercício 1 – Elaboração de Caso Clínico (Aplicação Integrada) Proposta: Escolha um paciente real (preservando o anonimato) ou fictício que apresente impasses na escuta psicanalítica (ex.: resistência, dificuldade de simbolização, sintomas persistentes). Tarefa: Elabore uma hipótese de avaliação terapêutica que inclua: a) Objetivo clínico da avaliação b) Instrumentos que você aplicaria (livres) c) Como integraria os resultados à escuta psicanalítica Extensão sugerida: 3 a 5 páginas Exercício 2 – Redação de Devolutiva Ética Proposta: Baseando-se no exercício anterior, elabore um exemplo de devolutiva que seria comunicada ao paciente. Tarefa: a) Redija um texto (máx. 1 página) com a linguagem clara, humanizada e ética b) Reflita como essa devolutiva pode enriquecer o vínculo transferencial Exercício 3 – Análise Ética de Dilema Proposta: Escolha um dos dilemas éticos apresentados no Capítulo 3 ou outro de sua experiência. Tarefa: a) Analise os riscos éticos envolvidos b) Proponha alternativas de manejo ético e clínico adequadas Extensão sugerida: 2 páginas 19 Perguntas Reflexivas • Em quais situações a avaliação terapêutica amplia a escuta, e em quais pode restringi-la? • Quais limites éticos você considera mais desafiadores na utilização de instrumentos por psicanalistas? • Como a teoria de Winnicott, Bion ou Stephen Finn pode embasar suas escolhas na avaliação terapêutica? • Como você se posiciona diante da tensão entre sigilo analítico e demanda de familiares por informações? • De que forma o uso de instrumentos pode favorecer ou prejudicar a transferência e o manejo clínico? Leituras Recomendadas Autor Título Editora Conteúdo Relevante Finn, S. E. Therapeutic Assessment Routledge Fundamentação da Avaliação Terapêutica como intervenção clínica Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade Imago Conceito de espaço potencial e criatividade na clínica Bion, W. R. A Aprendizagem da Experiência Imago Teoria do pensar e função alfa como base da escutapsicanalítica Gabbard, G. O. Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica Artmed Integração de psicopatologia e escuta analítica Conselho Federal de Psicologia (CFP) Resoluções CFP nº 9/2018 e nº 6/2019 CFP Normas sobre uso de instrumentos psicológicos e ética profissional Cordeiro, M. F. Ética em Psicanálise Blucher Fundamentos da ética aplicada à prática psicanalítica Orientação Final A efetividade da Avaliação Terapêutica reside na combinação equilibrada entre conhecimento técnico, escuta humanizada e compromisso ético. Recomenda-se que os exercícios sejam desenvolvidos individualmente e posteriormente discutidos em supervisão clínica, promovendo a integração teórico-prática.