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Autor: Prof. Maurício Felippe Manzalli Colaborador: Prof. Adalberto Oliveira da Silva Ciências Econômicas Integrada Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Professor conteudista: Maurício Felippe Manzalli Economista pela Universidade Paulista (UNIP) e mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professor da UNIP nos cursos de Ciências Econômicas e Administração e também é coordenador do curso de Ciências Econômicas na mesma universidade, tanto na modalidade presencial quanto na Educação a Distância. Tem experiência em administração e finanças, notadamente àquelas ligadas ao setor de transporte de passageiros, atuando há 29 anos no ramo. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) M296c Manzalli, Maurício Felippe. Ciências econômicas integrada. / Maurício Felippe Manzalli. – São Paulo: Editora Sol, 2017. 132 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXIII, n. 2-011/17, ISSN 1517-9230. 1. Ciências econômicas. 2. Desenvolvimentismo. 3. Intervenção governamental. I. Título. CDU 33 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Rose Castilho Carla Moro Lucas Ricardi Juliana Mendes Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Sumário Ciências Econômicas Integrada APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 CARACTERÍSTICAS DE UMA ECONOMIA SUBDESENVOLVIDA ..........................................................9 1.1 Fundamentos teóricos da economia subdesenvolvida ......................................................... 12 1.2 Considerações acerca do modelo de substituição de importações ................................. 17 2 CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTO ......................................................................................... 21 2.1 Medidas de crescimento: o PNB e o PIB ..................................................................................... 23 2.2 Medidas de desenvolvimento: o IDH, a Curva de Lorenz e o Índice de Gini ................ 25 2.2.1 IDH ................................................................................................................................................................ 25 2.2.2 Curva de Lorenz ....................................................................................................................................... 29 2.2.3 Índice de Gini............................................................................................................................................ 30 3 CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTISMO ENQUANTO PRÁTICA E POLÍTICA .............................................................................................................................................................. 31 3.1 Desenvolvimentismo no pensamento econômico brasileiro .............................................. 34 4 DA NECESSIDADE DA INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL ............................................................... 36 4.1 Falhas de mercado ............................................................................................................................... 36 4.2 Funções do governo ............................................................................................................................ 47 4.3 Planejamentos e orçamentos .......................................................................................................... 52 4.3.1 Conceituação ............................................................................................................................................ 52 4.3.2 Planejamentos na iniciativa privada ............................................................................................... 54 Unidade II 5 PLANEJAMENTO NO SETOR PÚBLICO .................................................................................................... 62 6 RESGATE DAS INICIATIVAS DE PLANEJAMENTO NO BRASIL: BREVE REVISÃO....................... 72 7 PLANEJAMENTO NO BRASIL NOS ANOS RECENTES: VISÃO DOS PLANOS PLURIANUAIS DE FHC A DILMA – DOCUMENTOS OFICIAIS ............................................................... 94 7.1 Plano Plurianual .................................................................................................................................. 94 7.2 Histórico de elaboração dos PPA ................................................................................................... 97 7.3 Lei de Diretrizes Orçamentárias ....................................................................................................111 8 ENTRAVES AO CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO: DESAFIOS INFRAESTRUTURAIS .........................................................................................................................................116 7 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 APRESENTAÇÃO O livro-texto que ora apresentamos resgata algumas questões relacionadas ao subdesenvolvimentismo, desenvolvimento e desenvolvimentismo como características de uma economia capitalista e insere a questão do planejamento governamental na discussão. A proposta é integrar os assuntos via evolução dos acontecimentos, ora empíricos, ora teóricos, no sentido de construir um conjunto de saberes que oferecerá ao discente a oportunidade de verificar como a política pública é pensada a partir das características que são apresentadas por diferentes economias e os desdobramentos de tais políticas. Neste livro-texto você encontrará: • Textos explicativos que elucidam a matéria. • Resumos do conteúdo estudado. • Exercícios comentados. • Tópicos para refletir, em que convidamos você a pensar sobre assuntos da atualidade. • A seção saiba mais, em que indicamos filmes e livros que, de alguma forma, complementam os temas investigados. Não deixe de explorar essas sugestões; garantimos que você irá ampliar seu conhecimento sobre os temas apresentados e que isso será extremamente útil, não apenas na questão específica da disciplina, mas em sua vida profissional como um todo. • Lembretes, anotações pontuais que remetem a alguma informação já conhecida, e observações, apontamentos que chamam sua atenção para algum ponto destacado sobre o assunto em desenvolvimento. São recursos que reforçam algumas questões que quisemos salientar. • Exemplos de aplicação, em que você será convidado a refletir sobre um temaproposto. Inicialmente abordaremos conceitos relacionados a subdesenvolvimento e desenvolvimento como condição econômica e social de diferentes países e avançamos para a questão do desenvolvimentismo como projeto de governo. Tratando de projeto, passamos a tratar a questão do planejamento em âmbito geral. Depois avançaremos para a discussão do planejamento no Brasil a partir de uma perspectiva histórica e, na sequência, teremos contato com uma peça muito importante do planejamento: o Plano Plurianual, em que estão delineadas as intenções e ações do governo quanto a seus projetos de crescimento e desenvolvimento econômicos. Finalizaremos com a apresentação de algumas questões relacionadas aos entraves ao crescimento e desenvolvimento econômico do Brasil recente. Preparado para a leitura? Esperamos que sim! 8 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 INTRODUÇÃO Não é de hoje que as discussões acerca de crescimento e desenvolvimento econômico estão presentes na economia brasileira. Também não é de hoje que os economistas se debruçam sobre o assunto. Há tempos as possibilidades de superação do subdesenvolvimentismo e construção de uma trajetória ao desenvolvimento contam com inúmeras propostas, tanto empresariais quanto governamentais. Assim, a disciplina Ciências Econômicas Integrada procura levantar novamente a temática no âmbito de uma economia que, de certa forma, superou alguns entraves do subdesenvolvimentismo, sendo considerada, atualmente, uma das principais economias emergentes com elevado grau de importância no âmbito internacional. Quanto à conquista do desenvolvimento, este é um processo de longo prazo e que depende de uma série de fatores ligados às oportunidades empresariais de investimentos lucrativos, bem como das políticas públicas, notadamente aquelas relacionadas à melhoria da infraestrutura econômica do país. 9 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Unidade I 1 CARACTERÍSTICAS DE UMA ECONOMIA SUBDESENVOLVIDA Quando se trata do assunto subdesenvolvimento, dois olhares podem ser utilizados. Um deles trata a questão de maneira ideológica, como uma mera classificação no tempo das condições sociais e econômicas de um país comparado a outros, mesmo que de estruturas diferentes. Por este olhar, a caracterização se daria por análises conjunturais, sem que uma raiz econômica fosse, de fato, concreta. Outro olhar reside na escolha de fatos mais concretos ligados à estrutura econômica e social de uma nação e que permitam a classificação como subdesenvolvida. Aos fatos concretos são atribuídos fatores históricos e territoriais, regionalização, acesso aos meios de produção e geração de renda, para citar alguns. Conforme destaca Souza (2009), a definição de subdesenvolvimento passa pela noção de que o crescimento demográfico ocorre de forma mais rápida do que o crescimento econômico e, diante tal irregularidade, não tarda para que a renda e a riqueza se concentrem nas mãos de poucos, o que gera, por consequência, pobreza e miséria para as classes menos favorecidas. Ainda como decorrência, indicadores sociais e ambientais apresentam menor qualidade em relação aos de países considerados desenvolvidos e as estruturas econômicas, no que diz respeito à inovação tecnológica, não se apresentam totalmente adequadas para que sejam superados os entraves colocados ao país nessa situação. Para Sandroni (1999, p. 580), subdesenvolvimento é uma [...] situação inferior do sistema econômico-social de um país em relação aos padrões econômicos das nações industrializadas. Evidencia-se por indicadores como exportação baseada em produtos primários, forte participação de produtos industrializados na pauta de importação, importação acentuada de tecnologia e capitais estrangeiros, persistência de elevadas taxas de desemprego, baixa produtividade, baixa renda per capita, mercado interno bastante limitado, baixo nível de poupança e subconsumo acentuado. [...] O subdesenvolvimento está ligado ao problema da dependência, que atinge desde países extremamente pobres, como Bangladesh, até países de considerável nível de industrialização e diversificação do aparelho produtivo, como Brasil, México e mesmo os ricos Estados árabes produtores de petróleo. Outra característica marcante do subdesenvolvimento é que os países então classificados dessa forma apresentam instabilidade política e econômica, além de serem altamente dependentes de acesso à tecnologia e de capitais de países ditos avançados. Mesmo que exista produção industrial, a maior parte do que é produzido tem como destino o consumo interno, ficando a cargo da base exportadora produtos de baixo valor agregado, notadamente aqueles provenientes do setor primário. Na medida em que uma maior quantidade de países entra no comércio internacional, a questão da produtividade 10 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I e da competitividade impera, desfavorecendo aqueles países em que sua pauta exportadora não é diversificada ou que não seja tão competitiva com relação aos demais. Nesse aspecto, o que dita a regra da competitividade são custos de produção, preços internos e para exportação, bem como os logísticos, determinados pela questão territorial. Junto às questões de produtividade e competitividade, elevadas taxas de inflação, bem como as dificuldades orçamentárias de governos de países subdesenvolvidos, colocam-se como entraves quanto à capacidade do setor público para financiar projetos em áreas chamadas estratégicas, ou infraestruturais, a exemplo de transportes, educação, saúde, comunicações e área social na tentativa de diminuição de suas desigualdades. No mundo contemporâneo, uma questão que se coloca presente quanto à classificação de países como subdesenvolvidos e desenvolvidos é que, uma vez classificados como tal, o seriam para todo o sempre. O que estamos tentando dizer? É que, uma vez que um país seja caracterizado como subdesenvolvido, isso lhe dá uma marca, independentemente se por determinação ideológica ou por condições reais de classificação. Da mesma forma que em algumas épocas a classificação dos países atendia à denominação de centro-periferia, a literatura econômica passou a adotar uma nova denominação: desenvolvido e emergente, em que aos primeiros dá-se uma conotação permanente e, aos segundos, uma condição não permanente, mas de possibilidades de conquista ao desenvolvimento. Observação Muitas vezes faz-se referência a um país como emergente com o emprego do termo Big Emerging Markets (BEM). A denominação centro-periferia é um conceito cunhado pela Comissão Econômica para América Latina (Cepal) e empregado para descrever um processo de multiplicação do avanço tecnológico na economia mundial que seja passível de explicar a distribuição de seus ganhos entre os participantes. Ocorre que, com o avanço do capitalismo industrial e a chamada nova divisão internacional do trabalho, os ganhos derivados das relações entre diferentes regiões não foram distribuídos uniformemente. Para Bielschowsky (2000, p. 16), [...] a tese parte da ideia de que o progresso técnico se desenvolveu de forma desigual nos dois polos. Foi mais rápido no centro, em seus setores industriais, e, ainda mais importante, elevou simultaneamente a produtividade de todos os setores das economias centrais, provendo um nível técnico mais ou menos homogêneo em toda a extensão dos seus sistemas produtivos. Na periferia, que teve a função de suprir o centro com alimentos e matérias-primas a baixo preço, o progresso técnico só foi introduzido nos setores de exportação, que eram verdadeiras ilhas de alta produtividade, em forte contraste com o atraso do restante do sistema produtivo. É, portanto, com base em tal ideia que reside a tese, também desenvolvida pela Cepal, da deterioração dos termos de troca, pois,enquanto o progresso técnico ocorre nos países ditos já industrializados, aquelas economias em processo de industrialização estão produzindo bens primários, e seus preços relativos de 11 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA troca são bastante díspares: a economia da periferia exporta bens de baixo valor agregado para importar bens de elevado valor agregado, fazendo com que ocorra transferência de excedente e de ganhos de produtividade para o centro. Assim, a divisão internacional do trabalho somente faria acirrar a disparidade entre os polos, visto que o centro apresenta tendência a reduzir sua taxa de expansão das importações de bens primários conforme seu progresso técnico avança para a forma poupadora de bens primários. Retomando as denominações “país desenvolvido” e “país emergente”, a título de ilustração, a figura a seguir (NOVO..., 2015) mostra a posição de alguns países considerados pela consultoria Loomis, Sayles & Company como o grupo dos dez que mais pontuaram: será considerado desenvolvido o país que estiver mais perto do topo. Quem evoluiu - ou piorou Comparação dos países entre 2003 e 2013 10Alemanha 2003 Alemanha 2013 10 10Grã-Bretanha Grã-Bretanha10 10Espanha Grécia7 México6 9Grécia Brasil6 Rússia6 8Emirados Árabes Espanha8 5Argentina Argentina5 4Brasil Emirados Árabes4 4México 4Rússia 1Nigéria Nigéria1 1Paquistão Paquistão1 Figura 1 – Classificação de países selecionados em desenvolvidos e emergentes De acordo com a reportagem da BBC Brasil (NOVO..., 2015), a metodologia para classificação considerou indicadores econômicos, financeiros e sociais de 100 países, tanto desenvolvidos quanto emergentes. Após a análise, a classificação dos países atendeu ao agrupamento dos estatisticamente próximos em termos de condições apresentadas (NOVO..., 2015). No que diz respeito ao indicador econômico, os quesitos analisados foram: • demografia, no que tange ao tamanho da população; 12 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I • renda per capita; • produtividade e competitividade oferecidas pelos setores infraestruturais e pelo mercado de trabalho. O que a metodologia levou em consideração quanto aos indicadores financeiros? No intuito de avaliar a importância do mercado de ações do país analisado, os quesitos selecionados foram: • potencial creditício do país avaliado pelo mercado internacional; • estabilidade monetária; • participação do mercado de ações como proporção do PIB. Por sua vez, o indicador social foi composto por: • posição do país no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e suas condições de educação, saúde e bem-estar; • Índice da Economia do Conhecimento (IEC), de acordo com o Banco Mundial; • indicador híbrido que relaciona liberdade civil e direitos políticos. Saiba mais Tenha mais contato com o tema economia do conhecimento através da leitura do livro: VELLOSO, J. P. dos R. (Org.). O Brasil e a economia do conhecimento. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002. 1.1 Fundamentos teóricos da economia subdesenvolvida Conforme destaca Souza (2009), na economia subdesenvolvida, considerada em sua forma mais simples, na assim chamada forma primitiva, estão alguns setores entendidos como os de subsistência, de mercado interno e de mercado externo, e há relações entre eles. Composto por pequenos latifúndios de baixa produtividade e dedicados à produção agrícola está o setor de subsistência. Ali está concentrada a produção das atividades relacionadas à agricultura de subsistência, pois a monetização é quase inexistente. O consumo exercido pelo setor é de sua própria produção, restando apenas uma pequena parte do que foi produzido para abastecimento do mercado de setor externo que, de acordo com seu desempenho, pode beneficiar ou prejudicar o dinamismo do mercado rural, assim como o urbano e industrial. 13 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Observação É recorrente, quanto às características indicadas do setor de subsistência, encontrar alusão ao setor terciário da economia, composto por desempregados das áreas rurais ou mesmo aqueles que exercem trabalho ocasional. Quanto ao setor de mercado interno, Souza (2009, p. 18-19) diz que, [...] em seu estágio inicial de desenvolvimento, é formado por atividades ligadas ao atendimento da população residente e ao fornecimento de insumos e serviços às empresas e pessoas vinculadas ao comércio externo, como alimentos, matérias-primas beneficiadas, embalagens, transportes. No processo de desenvolvimento, o setor industrial urbano leva vantagens em seu relacionamento com o setor agrícola, através da extração do excedente gerado neste último setor. O setor agrícola apresenta superávits em balança comercial, porque suas exportações excedem o volume de importações, uma vez que suas necessidades de consumo são supridas pelo setor de mercado interno. Esse superávit em moeda estrangeira é utilizado no financiamento de importações e máquinas, equipamentos e insumos industriais utilizados no setor industrial urbano. Figura 2 – Colheita de café no Estado de São Paulo em 1902, caracterizando a economia agroexportadora A figura a seguir mostra a estrutura de uma economia subdesenvolvida. Porém, para que se possa compreendê-la, Souza (2009, p. 19) adverte que algumas considerações devem ser efetuadas: (a) A balança comercial da economia nacional mantém-se equilibrada; (b) o valor das exportações do meio rural (XR) apresenta-se significativamente superior ao valor das exportações do meio urbano industrial (XU), pelo menos 14 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I nas fases iniciais do processo de desenvolvimento; (c) o meio rural mantém superávit na balança comercial (XR> MR); (d) o meio urbano e industrial apresenta déficit em sua balança comercial com o exterior (XU <MU), pela necessidade de importar bens de capital e insumos industriais; e (e) o meio urbano e industrial possui um superávit com o meio rural, ou seja, o valor da produção do meio urbano e industrial destinado ao meio rural (YUR) supera o valor da parcela da produção do meio rural endereçada ao meio urbano e industrial (YRU). Setor externo Meio urbano e industrial Meio rural XR MR YRR YRU YUR YUU XU MU Figura 3 – Estrutura de uma economia subdesenvolvida. O que é possível depreender da análise da estrutura anteriormente apresentada? Podemos notar que a produção exercida pelo setor denominado de meio rural (YR) tem três vias de destino: a primeira é seu próprio consumo, aquele considerado de subsistência devido a atividades pouco monetizadas, (YRR); outro destino é para exportação (XR); o restante é destinado para ser consumido no meio urbano e industrial (YRU), sendo que a produção destinada a esses mercados (YRU + XR) é majoritariamente composta por alimentos e matérias-primas com baixo valor agregado. Em termos de equilíbrio do meio rural, este será conquistado quando as exportações do setor rural forem maiores do que suas importações e a renda do setor urbano for maior do que a renda do setor rural. A identidade a seguir ilustra o que acabamos de afirmar: (XR> MR) = (YUR> YRU) 15 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Para Souza (2009, p. 20), a equação [...] diz que, no equilíbrio, o déficit do meio rural com o meio urbano e industrial (YUR> YRU) fica financiado por seu superávit com o exterior (XR> MR). Por seu turno, a produção do meio urbano e industrial (YU) destina- se ao próprio meio urbano (YUU), à exportação (XU) e ao meio rural (YUR). A produção destinada ao mercado externo e ao meio urbano e industrial (XU + YUR) compõe-se de produtos industrializados e serviços. O equilíbrio domeio urbano industrial é dado por (XU <MU) = (YUR> YRU), ou seja, o déficit do meio urbano e industrial com o exterior (XU <MU), no equilíbrio, fica integralmente financiado por seu superávit com o meio rural (YUR> YRU). Como o segundo membro das duas equações anteriores é o mesmo, temos que (XR> MR) = (XU <MU). Da tautologia (XR> MR) = (XU <MU) pode-se concluir que, em condição de equilíbrio, em termos de balança comercial, sendo X = M, um superávit produzido pelo meio rural com relação ao exterior será igualado ao déficit externo provocado pelas importações do meio urbano e industrial. Considerando uma economia em que impere o modelo de substituição de importações, vê-se que a produção e a exportação daquilo que é exercido pelo meio rural deve financiar as importações exercidas tanto pelos meios urbanos quanto pelos industriais. Mais: deve, ainda, financiar o desenvolvimento desses meios. Observação Observe que estamos tratando da extração de excedente por um setor do que foi produzido por outro: no caso, o excedente é extraído do setor rural em favorecimento do desenvolvimento daqueles ditos mais avançados. Várias são as formas de extração do excedente produzido pelo setor rural em favorecimento dos setores urbano e industrial. Dentre elas estão: • Elevação da tributação sobre produtos que devem ser importados pelo setor rural e que tenham como origem de produção os setores urbanos e industriais ou mesmo para aqueles produtos oriundos do setor exportador, para o caso de importação pelo setor urbano. • Confisco cambial representado pela quantidade de dólares que é apropriada pelo governo diante daqueles obtidos pelos exportadores de produtos específicos, a exemplo do que fez o Brasil em 1953 com as exportações de café (SANDRONI, 1999). • Deterioração dos termos de troca entre setor urbano e industrial em que o volume de dólares necessários para importação de bens pelo setor rural é maior do que o necessário para que o setor urbano importe os bens produzidos por aquele setor. 16 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Saiba mais Entenda mais sobre a deterioração dos termos de troca lendo a definição que Paulo Sandroni oferece à expressão “relações de troca” em sua obra: SANDRONI, P. Novíssimo dicionário de economia. São Paulo: Best Seller, 1999. Considerando então que a economia consiga se industrializar via modelo de substituição de importações, as importações do setor urbano (MU) tendem a apresentar elevação devido este tipo de indústria ser dependente de alguns meios de produção manufaturados, bem como bens de capital que lhe oferecerão condições de produzir bens de consumo na economia doméstica, interna. Para o caso de as exportações exercidas pelo meio rural (XR) não apresentarem crescimento ao mesmo tempo em que cresce o potencial importador do setor urbano e industrial, o que se verificará na economia serão déficits comerciais (X <M) que serão considerados como entraves ao processo de crescimento econômico. “Desse modo, a expansão das exportações agrícolas e, mesmo, de produtos manufaturados, desde as fases iniciais da industrialização, torna-se indispensável para evitar estrangulamentos no processo de desenvolvimento” (SOUZA, 2009, p. 21). Ainda para o autor: Com a expansão da economia de mercado, cai a participação da produção destinada à subsistência na produção rural (YRR/Y). Em muitas regiões subdesenvolvidas, isso ocorre principalmente em função da elevação dos preços de exportações. Tal participação aumenta no caso de reduções dos preços dos bens agrícolas exportados, quando cresce YRR e diminui XR. Nas crises do setor de mercado externo no Brasil, no passado, as populações voltavam às atividades de subsistência e esse setor expandia-se. Ele funciona como elemento de estabilidade da economia, amortecendo as crises do setor de mercado externo e mantendo o nível de emprego do meio rural, embora com baixa produtividade. [...] A economia estaciona nas crises e evolui nos surtos exportadores, pelos encadeamentos das exportações sobre as atividades urbanas e os investimentos que afetam o nível da produção do setor de mercado interno. A produção destinada ao consumo próprio do meio rural se reduz, enquanto aumenta a demanda urbana por produtos agropecuários. O desenvolvimento econômico tende ao setor de mercado interno e às exportações. Entretanto, essa transformação de estrutura depende do dinamismo das exportações e de suas ligações com o setor de mercado interno. Assim, torna-se importante aumentar sua competitividade pela redução de custos e melhoria da qualidade dos produtos exportados (SOUZA, 2009, p. 21). 17 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA O que se faz necessário entender é que o setor externo representa a agricultura comercial voltada para exportação, bem como para as atividades comerciais ligadas ao comércio de importação e de exportação da economia urbana. Observação Pode-se entender o setor externo como aquele caracterizado por atividades atravessadoras, de prestação de serviços de importação e de exportação a outros setores, sem que dele haja produção física. É somente um sistema que facilita o escoamento da produção e o aprovisionamento de bens que as economias não produzem, mas necessitam importar. Por sua vez, como o setor externo não é produtor, seu dinamismo está completamente dependente da demanda do mercado internacional no que diz respeito à necessidade de bens primários, de que é majoritariamente exportador. Como o bom desempenho do setor externo depende dos bons ventos da economia internacional, os preços de exportação são influenciados por dois fatores: demanda externa que impulsiona para cima em época de aquecimento e para baixo em período de recessão e pelo potencial produtivo quanto à oferta de bens pelos setores de subsistência nos países subdesenvolvidos (excesso de oferta influencia os preços negativamente enquanto os eleva em períodos de escassez). Para aquele país em que sua pauta de exportações é bastante restrita, ou seja, concentrada em poucos produtos, há baixa oportunidade de manipulação dos preços internacionais, o que dificulta o desenvolvimento do setor de mercado interno. Porém, se a economia diversifica sua pauta de exportações, a situação pode vir a ser diferente. 1.2 Considerações acerca do modelo de substituição de importações Como bem destaca Sandroni (1999, p. 581), substituição de importações é um [...] conceito elaborado por economistas da Cepal para designar um processo interno de desenvolvimento, estimulado por desequilíbrio externo e que resulta na dinamização, crescimento e diversificação do setor industrial. Portanto, é mais que a produção local de bens tradicionalmente importados. Nesse modelo de crescimento e desenvolvimento econômicos, o elemento essencial da economia deixa de ser majoritariamente a produção de bens primários para atender à demanda externa e passa a ser a atividade industrial em que a produção e a oferta estão voltadas para dentro. 18 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Figura 4 – Operários italianos em uma fábrica de latas em São Paulo no início do século XX Podemos dizer tratar-se de um modelo de crescimento voltado para dentro. Entendido ser o processo de substituição de importações aquele em que a economia doméstica passa a produzir internamente o que antes era adquirido por importações, é interessante destacar as características fundamentais de tal processo: • Parte significativa de bens de consumo industrializados visa atender ao mercado interno. • Forte dependência de medidas protecionistas por parte do governo, a exemplo de: — desvalorização cambial encarecendo importações e favorecendo atividades exportadoras; — elevação das tarifas de importações para produtos entendidos pelo governocomo os merecedores de proteção; — forte presença do Estado na condução da industrialização, com o uso de legislação pertinente e adequação de suas instituições; — criação, por parte do Estado, de infraestrutura, a exemplo de energia, água, saneamento e estradas como forma de escoamento da produção. Observação Podemos inferir que, devido ao excesso de protecionismo, as indústrias criadas através desse modelo tendem a ser mais ineficientes, pois além da proteção não contam com uma concorrência expressiva. 19 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Para Souza (2009, p. 153), Uma das vantagens do modelo de substituição de importações é poder adotar processos de produção que já deram certo em outros países, possibilitando a aprendizagem e a geração de técnicas endógenas, ao mesmo tempo em que a economia passa a produzir para um mercado já existente. A substituição de importações tem como primeiro objetivo equilibrar o balanço de pagamentos. Reduzem-se as importações por cotas, licenciamentos, elevação de tarifas e proibições, assim como através da política cambial. O autor adverte, ainda, que Uma política racional de substituição de importações extrapola o argumento da proteção à indústria nacional. Mesmo em relação a um setor antigo pode se justificar a proteção, se ele demonstrar dificuldades em enfrentar a concorrência externa, por problemas conjunturais ou estruturais. De outra parte, não representa o fechamento da economia por princípio: a característica básica do modelo consiste na flexibilidade e na capacidade de empregar recursos escassos para importar maior número de produtos. O protecionismo ajuda o país a traçar os destinos da economia (SOUZA, 2009, p. 153). Para que o modelo possa levar a economia ao crescimento econômico, faz-se necessária formação de poupança interna ou que sejam abertas linhas de crédito, ou por parte dos bancos governamentais ou daqueles comerciais, como forma de impulsionar os investimentos necessários ao desenvolvimento tecnológico correspondente com o nível de industrialização. Nesse sentido, podemos inferir que o modelo de substituição de importações coloca-se como alternativa de promoção do crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico como forma de antecipação das condições em que a economia se encontraria somente no longo prazo. Via poupança interna ou mesmo financiamentos dos investimentos subsidiados pelo governo, a economia conseguirá atingir certo nível de base industrial com possibilidade de diversificação da produção em que as condições produzidas pela economia podem gerar especialização em determinados setores que, com sorte, transformam-se em vantagens comparativas para a nação, ampliando sua competitividade internacional. Se for possível extrapolar o raciocínio para o longo prazo, cada setor da industrialização diversificada terá condições de produzir para exportação. Com o uso dos recursos oriundos da base exportadora, de forma gradual poderá haver liberalização de importações devido à existência de superávit comercial suficiente para pagamento das importações. Nesse ponto, Souza (2009, p. 154) afirma que ocorreu “a maturidade da indústria”. Agora, em que a economia se apresenta aberta ao exterior, não mais apenas com vistas às exportações, mas também a importações, temos o aumento da concorrência e maior disponibilidade interna de bens. Resultado: crescimento do bem-estar da sociedade. A economia está mais madura e moderna. Mas, como nem tudo são flores, há que se considerar distorções do modelo de substituição de importações quando adotado de forma irrestrita. 20 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Da mesma forma que pontos positivos são destacados na literatura acerca do assunto, uma das maiores críticas que o modelo recebe reside no fato de a renda ser bastante concentrada e que, em seu início, a diminuição da disponibilidade de recursos internos do que haveria no caso de livre concorrência faz com que os preços aumentem, causando perda de bem-estar para a sociedade à custa da elevação dos lucros empresariais. Ainda na linha das críticas, há que se considerar questões relacionadas à produtividade e competitividade da nação, que se apresentam basicamente dependentes das condições internas de produção. Como a comparação da produção interna com as condições internacionais praticamente não é permitida – devido à economia fechada –, o que perdura, na maioria das vezes, são projetos de investimentos com elevados custos e taxas de retorno baixas e muito em longo prazo (SOUZA, 2009). Como o setor a ser protegido é o industrial, à revelia do primário, a elevação nos custos de produção produz uma cadeia de subida de preços que afeta o setor primário, diminuindo seu bom desempenho em relação ao setor externo, pois os preços de exportações também se elevam. Como consequência, há perda de competitividade para este setor e queda nos superávits comerciais que deveriam ser utilizados para pagar importações de bens de capital. Outra crítica que se trava acerca do assunto refere-se aos custos da proteção: estes aumentam quando o país passa da fase fácil de substituição de importações (produção interna de bens não duráveis de consumo e seus componentes), para a fase mais difícil (artigos de consumo intermediários e de consumo durável); esses custos continuam aumentando nas fases superiores, quando a economia passa a produzir bens de capital e outras manufaturas de tecnologia mais intensiva, para os quais as condições de produção interna não são favoráveis; este último ponto se deve à pequena dimensão do mercado interno, inexistência de fornecedores oferecendo produtos de qualidade, com preços competitivos, insuficiência de oferta de pessoal técnico e de mão de obra mais especializada, o que eleva os salários a serem pagos (SOUZA, 2009, p. 156). Pensando especificamente nas economias da América Latina em seu período de industrialização, o modelo de substituição de importações parte do princípio de ser resultado da interação dinâmica entre o desequilíbrio externo e as novas demandas de importação resultantes da expansão industrial promovida pelo capitalismo. Para Bielschowsky (2000, p. 25), [...] a rapidez e a profundidade do processo como um todo depende, primeiro, da capacidade de cada economia no sentido de adaptar sua estrutura produtiva às novas demandas da expansão industrial (o que, por sua vez, depende do nível de diversificação do sistema produtivo prévio ao início do processo e do tamanho absoluto dos mercados internos) e, segundo, da evolução da capacidade de importação da economia. Retomando a relação entre os diferentes setores da estrutura de uma economia subdesenvolvida (setor de subsistência, mercado interno industrial, setor de exportação), na situação de longo prazo, a economia 21 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA doméstica terá condições de produzir aqueles bens que antes eram importados, a exemplo dos bens de capital e tecnologia. Souza (2009) declara ser esta uma fase posterior do processo de desenvolvimento. Em fase mais primitiva, é o próprio setor de subsistência que produz as manufaturas para seu próprio consumo, através do artesanato e das chamadas indústrias rurais ou de “fundo de quintal”. Em uma fase posterior, com a expansão das exportações de produtos primários, esses bens manufaturados nas próprias fazendas vão sendo gradativamente substituídos por artigos industrializados importados. Esses bens importados de tecnologia superior, e mais baratos, deslocam a produção do artesão. Em uma fase mais adiantada, é a vez de algumas manufaturas importadas cederem seu lugar à produção nacional, efetuada em escala industrial. Para que isso ocorra, costuma-se estabelecer forte esquema protecionista, sem oqual a indústria nacional não teria condições de competir com os produtos importados mais baratos, de melhor qualidade e com tradição no mercado (SOUZA, 2009, p. 22). No modelo, nada funciona sem a existência do elemento-chave, a demanda externa por produtos primários. É tal demanda que oxigena o empresário do setor de mercado interno a diminuir gradualmente a produção de subsistência no produto nacional. Percebe-se um deslocamento do eixo dinâmico da economia em que o setor de mercado interno passa paulatinamente a ter como foco de sua produção aqueles bens que antes eram importados e destinados ao consumo do meio rural, inclusive. “Surtos ou crises do setor de mercado externo produzem efeitos de encadeamento de expansão ou de contração do setor de mercado interno. Quanto maiores forem os multiplicadores da base exportadora, tanto maiores serão os efeitos de encadeamento do setor de mercado externo no conjunto da economia”. (SOUZA, 2009, p. 22) Independentemente de seus pontos positivos ou negativos, da questão ideológica ou da crítica, qual será o resultado do processo, ou seu fim, se assim podemos considerar? Conforme o setor de mercado interno apresenta desenvolvimento em termos de produção, atrelados a este surgem como demanda derivada outras atividades locais, a exemplo daquelas ligadas à prestação de serviços ou mesmo atividades comerciais ou outras indústrias dedicadas à produção daquilo que antes era importado e, por naturalidade, se pode substituir por produção interna. Assim, verifica-se que qualquer investimento que ocorrer no âmbito do setor de mercado interno representa importância ímpar no descobrir de novas possibilidades de exportações, assim como para o crescimento econômico da nação. Qual o resultado disso? Quando a economia atingir a maturidade, o desempenho da economia nacional passa a ser comandado por um conjunto de transformações pelas quais a economia passou e que afetam o setor de mercado interno, independentemente do desempenho da base exportadora. Daí em diante, a economia ingressa noutro estágio. 2 CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTO Vimos que o volume de exportações de bens primários por uma economia subdesenvolvida é de extrema importância para o surgimento, ou transformação, dessas economias desenvolvidas, ou em via de desenvolvimento. O que irá, de certa forma, diferenciar uma da outra – subdesenvolvida 22 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I da desenvolvida – é o grau de industrialização desta última, que necessita de elevados níveis de investimentos e, portanto, de capital, que muitas vezes é produzido no âmbito das exportações de bens primários. Nesse aspecto, conforme ressalta Souza (2009), como os investimentos são constituídos, em grande parte, por bens de capital importados, são as exportações que representam a contrapartida da poupança para seu financiamento. Assim, “[...] há uma mudança no caráter da base exportadora, e foi isso que ocorreu no Brasil após 1950: as exportações, de fator determinante do nível de renda, passaram a ser o elemento estratégico no processo de formação de capital” (SOUZA, 2009, p. 23). Para aquela economia que já se encontra industrializada, a importância do que se chama de base exportadora tem efeitos sobre o multiplicador do setor de mercado interno, bem como na necessidade de financiamento de importação de bens de capital, se assim necessário. O que é importante perceber é que somente haverá exportação de bens em duas condições: a primeira é a demanda externa e a segunda, a produção interna com excedente. O aumento das exportações de bens produzidos internamente injeta recursos na economia doméstica, que tanto podem ser utilizados para ampliar o consumo interno por bens internos como para ampliar as condições de aquisição de bens de capital que são importados. Desta forma, saldos comerciais positivos impulsionam o acesso à tecnologia, gerando economias de escala e elevação da produtividade da economia doméstica. Para Souza (2009, p. 23), [...] a base exportadora aparece como a causa do crescimento econômico das regiões subdesenvolvidas, principalmente nos seus primeiros estágios, e como elemento dinâmico de aumento de eficiência e competitividade em economias industrializadas. A industrialização surge em uma etapa posterior e como consequência do desenvolvimento inicial da base exportadora. Em outras palavras, uma agricultura em expansão e uma base econômica diversificada representam maiores níveis de renda, que se traduzem em maior grau de consumo, de poupança e de investimento. Até que não sejam superados os entraves do subdesenvolvimentismo, a base exportadora estará restrita a poucos bens agrícolas e, por consequência, seus efeitos multiplicadores estarão instáveis. Assim, o decolar da economia em desenvolvimento estará na dependência: • Do crescimento de suas exportações, o que é determinado pelo nível de produtividade e competitividade da economia doméstica. • Do grau de integração das cadeias produtivas internas. • Da estrutura interna de distribuição de renda. • Da eliminação dos estrangulamentos do desenvolvimento econômico. Antes de caracterizar o que vem a ser desenvolvimento, é necessário tratar do que vem a ser crescimento econômico: há tempos, economistas percebem que são imensas as diferenças entre 23 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA crescimento e desenvolvimento. Se crescimento significa apenas o aumento da renda per capita, desenvolvimento implica em conhecer os beneficiários do aumento da renda. Em outras palavras, desenvolvimento requer distribuição de renda, para que o crescimento não seja concentrador ou excludente. Ainda, desenvolvimento requer respeito ambiental, já que isso está intrinsecamente ligado às condições de sustentabilidade da atividade econômica. Há muito os economistas discutem as diferenças entre os conceitos de desenvolvimento e crescimento. O debate nasceu da percepção de que, apesar das elevadas taxas de desempenho econômico, vários países apresentavam baixos níveis de qualidade de vida dos seus habitantes. Essa análise fez com que os economistas elaborassem outras medidas de mensuração que não as meramente quantitativas de produção, ou de “crescimento”. Quer dizer, buscou-se entender o que poderia determinar padrão de qualidade de vida, então se estabelecendo que esse padrão seria mensurador do desenvolvimento humano (incluído aí o desenvolvimento econômico); a partir daí, foram criados indicadores para que o padrão pudesse ser determinado. De uma forma extremamente simplificada, buscou-se entender não apenas o tamanho do “bolo” (representativo da produção de bens e serviços), mas o quanto ele poderia saciar a fome das pessoas. O raciocínio é simples: o fato de um bolo ser grande ou pequeno não significa que ele tem condições de saciar a fome das pessoas. Se forem poucas pessoas, é possível que todas fiquem satisfeitas, mas se o bolo for pequeno, as pessoas forem poucas, mas uma delas ficar com metade, a satisfação será menor. O mesmo raciocínio vale para um bolo grande e um contingente enorme de pessoas. Ainda, se o bolo crescer, mas o número de pessoas aumentar mais do que o crescimento do bolo, é bem provável que a insatisfação persista. Dessa forma, o crescimento seria dado pelo tamanho do bolo; em contrapartida, o desenvolvimento seria dado pela saciedade das pessoas ao se alimentarem do bolo. Mais: não seria suficiente o tamanho médio de cada fatia do bolo para que se pudesse concluir pela saciedade ou não das pessoas; haveria que se saber o quanto de justiça teria sido utilizada para a divisão do bolo. Vejamos então as medidas de crescimento e desenvolvimento. 2.1 Medidas de crescimento: o PNB e o PIB O Produto Nacional Bruto (PNB) e o Produto Interno Bruto (PIB) são medidas que possibilitam mensurar o tamanho do bolo. O PNB per capitae o PIB per capita dão a noção de média de apropriação do produto por habitante: o PNB per capita dá o valor de cada parcela de PNB apropriada por habitante; da mesma forma, o PIB per capita dá o valor de cada parcela do PIB apropriada por habitante. Vejamos, então, a diferença entre os dois conceitos: O PIB representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos no país (ou na região considerada) em determinado período de tempo. Para o seu cálculo, ele descarta a renda do exterior, tanto a recebida quanto a enviada. Considerando-se N o número de habitantes, o PIB per capita será dado por: PIB per capita = PIB/N 24 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I O PNB difere do PIB porque ele considera tanto as rendas enviadas para o exterior quanto as recebidas pelo exterior. Assim: PNB = PIB – Ree (Receita Enviada para o Exterior) + Rre (Receita Recebida do Exterior). O PNB per capita será dado por: PNB per capita = PNB/N Nos países em desenvolvimento, o PNB é menor do que o PIB. Isso ocorre porque, nesses países, há considerável remessa de lucros para o exterior. No que diz respeito ao desenvolvimento, há controvérsias quanto ao seu real significado. Para Souza (2009), há uma corrente de economistas que explicam o desenvolvimento como subproduto do crescimento. Aqui residem modelos que enfatizam a acumulação de capital e sua igual repartição como forma de desenvolvimento e melhoria das condições de uma nação. A ideia é a de que o crescimento econômico, distribuindo diretamente a renda entre os proprietários dos fatores de produção, quaisquer deles, leva à melhoria dos padrões de vida e ao desenvolvimento econômico. No mundo contemporâneo, vê-se que a coisa não é tão simples assim: o desenvolvimento econômico não pode ser confundido com crescimento, porque os frutos dessa expansão nem sempre beneficiam a economia como um todo e o conjunto da população. Por mais que haja crescimento exacerbado da produção industrial, isso pode ser reflexo tanto da elevação da produtividade da mão de obra quanto da expansão da demanda de mercados internos ou internacionais. Ainda, a expansão do produto pode atender também à elevação da produtividade industrial como derivado da mecanização da produção, experiência vivida por diversas economias que conseguiram superar os entraves do subdesenvolvimentismo e conheceram a tecnologia como forma de produção poupadora de mão de obra. Associado ao crescimento econômico, outros efeitos perversos podem estar ocorrendo, tais como: • Transferência de renda para outros países: reduz a capacidade de importar por parte da economia doméstica e mesmo de realizar investimentos tecnológicos. • Apropriação de excedente, produtivo ou financeiro, por poucas pessoas: eleva a concentração da renda e da riqueza, causando precarização das condições de uma parcela da sociedade. • Baixos salários aos empregados de setores industriais: limita o crescimento da demanda e dos investimentos nos setores que produzem alimentos e outros bens de consumo popular. • Dificuldades para implantação de atividades interligadas às empresas que mais crescem, exportadoras ou de mercado interno: impacta negativamente na produtividade do país. 25 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Outra corrente encara que crescimento e desenvolvimento sejam coisas distintas: enquanto o primeiro trata-se de um mero indicador quantitativo do produto de uma nação, o outro envolve mudanças qualitativas em diversas frentes, a exemplo da estrutura econômica e produtiva de um país, melhoria no relacionamento com o meio ambiente e diminuição da pobreza e da miséria. Para Bresser-Pereira e Gala (2008, p. 79), O desenvolvimento econômico depende, do lado da oferta, dos recursos naturais existentes, do estoque de capital físico disponível e da capacidade humana de produção, e, do lado da demanda, da acumulação de capital, do consumo e das exportações. Oferta e demanda devem crescer de forma equilibrada, mas uma característica universal das economias capitalistas, e principalmente das em desenvolvimento, é que a oferta geralmente excede a demanda, ocorre generalizado desemprego de recursos humanos, a emigração de pessoal educado para os países ricos é alta e as taxas de crescimento são baixas. Por esta visão, entende-se desenvolvimento econômico como um processo de longo prazo em que ocorre a acumulação de capital e o progresso técnico é incorporado tanto para elevar a produtividade do capital quanto da força de trabalho em termos de produtividade. No processo de desenvolvimento, assim definido, já se acham implícitos os fenômenos socioeconômicos que necessariamente o acompanham: transferência de grandes massas da população do campo para as cidades, constituição de um parque industrial mais ou menos amplo, aumento da produtividade do trabalho, melhoria do padrão de vida tanto da população urbana como da rural, elevação de seu nível cultural (BERLINCK; COHEN, 1970, p. 47). 2.2 Medidas de desenvolvimento: o IDH, a Curva de Lorenz e o Índice de Gini Alguns indicadores permitem avaliar o grau de desenvolvimento econômico de uma nação. Vejamos: 2.2.1 IDH A mensuração do desenvolvimento humano, feita por meio do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), se contrapõe ao conceito de crescimento econômico. Parte-se do princípio de que, para que se possa verificar o avanço de uma população em termos de desenvolvimento, é necessário analisar demais condições da sociedade, a exemplo da expectativa de vida e questões relacionadas aos níveis educacionais, que vão além da questão puramente econômica, financeira. O índice, desenvolvido pelos economistas Mahbub ul Haq e Amartya Sen, é construído levando-se em conta: 26 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I • A RNB per capita (corrigida pela paridade do poder de compra, tendo como base o ano de 2005). • A longevidade (medida pela expectativa de vida ao nascer). • A educação (avaliada por dois indicadores: média de anos de educação de adultos e expectativa de anos de escolaridade para crianças em idade de iniciar a vida escolar). Observação Há que se considerar que o índice não abrange todos os aspectos de desenvolvimento e não é uma representação da “felicidade” das pessoas, nem indica “o melhor lugar no mundo para se viver” (PNUD, 2017). As mudanças na metodologia do IDH em 2010 Não é a primeira vez que o IDH passa por mudanças. A disponibilidade de novos dados e as sugestões de alguns críticos fizeram com que o índice se adaptasse ao longo das últimas décadas. A fim de possibilitar que sejam verificadas tendências no desenvolvimento humano, a equipe responsável pelo relatório usou uma nova metodologia para calcular o IDH de 2010 e dos anos subsequentes. Os pilares do IDH não foram alterados: o índice varia de 0 a 1 (quanto mais próximo de 1, maior) e engloba três dimensões fundamentais do desenvolvimento humano: conhecimento (mensurado por indicadores de educação), saúde (medida pela longevidade) e padrão de vida digno (medido pela renda). Mas houve modificações em alguns indicadores e no cálculo final do índice. Subíndice de longevidade Não mudou: continua sendo medido pela expectativa de vida ao nascer. Subíndice de educação É o único que engloba dois indicadores, e ambos foram alterados. Sai a taxa de alfabetização, entra a média de anos de estudo da população adulta (25 anos ou mais). Para averiguar as condições da população em idade escolar, em vez de taxa bruta de matrícula passa a ser usado o número esperado de anos de estudos (expectativa de vida escolar, ou tempo durante o qual uma criança ficará matriculada se os padrões atuais se mantiverem ao longo de sua vida escolar). Essas alterações foram feitas porque alguns países, sobretudo os do topo do IDH, haviamatingido níveis elevados de matrícula bruta e alfabetização – assim, esses indicadores vinham perdendo a capacidade de diferenciar o desempenho dessas nações. Na avaliação do Relatório de Desenvolvimento Humano, as novas variáveis captam melhor o conceito de educação e permitem distinguir com mais 27 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA precisão a situação dos países. No entanto, assim como os indicadores anteriores, os novos não consideram a qualidade da educação. No método antigo, a taxa de analfabetismo tinha peso 2 nesse subíndice e a taxa de matrícula, peso 1. Agora, os dois novos indicadores têm pesos semelhantes. Subíndice de renda O PIB (Produto Interno Bruto) per capita foi substituído pela RNB (Renda Nacional Bruta) per capita, que abrange os mesmos fatores que o PIB, mas também leva em conta recursos enviados ou recebidos do exterior – a RNB acaba por ser uma maneira de captar melhor as remessas vindas de imigrantes (seu cálculo não inclui o lucro enviado por empresas para o exterior) e de computar a verba de ajuda humanitária recebida pelo país, por exemplo. Antes se usava o logaritmo natural do PIB per capita, agora se usa o logaritmo natural da renda. Também foi mantido o modo como os valores são expressos: em dólar corrigido pela paridade do poder de compra (PPC), considerada a variação do custo de vida entre os países. Normalização dos subíndices Para poder comparar indicadores diferentes (a renda é expressa em dólares; a expectativa, em anos, por exemplo), cada subíndice é transformado numa escala de 0 a 1. Por isso, estabelece-se um valor máximo e mínimo para cada indicador. Até o relatório anterior ao produzido de acordo com o novo método, os níveis máximos eram fixados pelo próprio Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH); no mais recente, foram usados os valores máximos verificados na série de dados (desde 1980), com o objetivo de eliminar a arbitrariedade na escolha desses níveis máximos e mínimos. Cálculo Até a edição de 2009, o IDH era calculado como a média simples dos três subíndices (somavam-se os três e dividia-se o resultado por três). A partir do relatório de 2010, recorre-se à média geométrica: multiplicam-se os três subíndices e calcula-se a raiz cúbica do resultado. Antes, um desempenho baixo em uma dimensão poderia ser diretamente compensado por um desempenho melhor em outra. Com o novo cálculo, essa compensação perde força – um valor ruim em um dos subíndices tem impacto maior em todo o índice. Além disso, a metodologia permite que 1% de queda na expectativa de vida, por exemplo, tenha o mesmo impacto que 1% de queda na renda ou na educação. Nível de desenvolvimento humano O Relatório de Desenvolvimento Humano deixa de classificar o nível de desenvolvimento de acordo com valores fixos e passa a utilizar uma classificação relativa. A lista de países é dividida em quatro partes semelhantes. Os 25% com maior IDH são os de desenvolvimento humano muito alto; o quartil seguinte representa os de alto desenvolvimento; o terceiro 28 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I grupo apresenta desenvolvimento médio e os 25% que registram menor IDH revelam baixo desenvolvimento humano. Adaptado de: <http://www.pnud.org.br>. A tabela a seguir apresenta indicadores selecionados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para a economia brasileira para o período 2000-2013 no que diz respeito à expectativa de vida ao nascer, expectativa de anos de estudo e média de anos de estudo. Tabela 1 Indicadores do Brasil Expectativa de vida ao nascer (anos) Expectativa de anos de estudo Média de anos de estudo 2000 70,3 14,3 5,6 2005 71,7 14,2 6,6 2010 73,1 15,2 7,2 2011 73,4 15,2 7,2 2012 73,7 15,2 7,2 2013 73,9 15,2 7,2 Fonte: PNUD. A tabela seguinte apresenta dados, referentes ao ano de 2011, quanto à expectativa de vida ao nascer, expectativa de anos de estudo, bem como a média de anos de estudo e renda per capita, de acordo com as estatísticas do IBGE. Tabela 2 Números do governo brasileiro Expectativa de vida ao nascer (anos) 74,8 Expectativa de anos de estudo 16,3 Média de anos de estudo 7,6 Renda per capita (2011) US$ 14.275 Fonte: IBGE. O gráfico a seguir apresenta a taxa de crescimento médio anual do IDH para período selecionado de acordo com as estatísticas da PNUD. É possível perceber que o Brasil entra, na década de 2010, em forte queda no índice, o que faz interromper a evolução conquistada no período anterior. 29 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA 1,5 1,2 0,9 0,6 0,3 0 1,16 1,10 0,87 0,34 0,95 1980-1990 1990-2000 2000-2008 2008-2013 1980-2013 Figura 5 – Crescimento médio anual por período (%) Os gráficos a seguir relacionam renda per capita e IDH, no Brasil, para período selecionado. É possível perceber forte correlação entre crescimento de renda e elevação do IDH. 15.000 14.000 13.000 12.000 11.000 10.000 9.000 9.154 13.794 14.275 8.000 1980 1990 2000 2010 20121985 1995 2005 2011 2013 Figura 6 – Renda bruta per capita (2011), em R$ 0,800 0,750 0,700 0,650 0,600 0,550 0,545 0,739 0,744 0,500 1980 1990 2000 2010 20121985 1995 2005 2011 2013 Figura 7 – IDH 2.2.2 Curva de Lorenz A Curva de Lorenz, representada a seguir, se forma pela união dos pontos bidimensionais obtidos pelos eixos X e Y: no eixo X temos a proporção acumulada da população e no eixo Y, a proporção acumulada da renda apropriada (IPECE, 2006). 30 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I 100% 80% 60% 40% 20% 90% 70% 50% 30% 10% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 70% 90%60% 80% 100% C β α B x A y 0% Figura 8 – Curva de Lorenz Se a distribuição for perfeita, teremos a curva na forma de uma reta de 45º: por exemplo, vinte por cento da população se apropriarão de vinte por cento da renda. Assim, quanto maior for a “barriga” (a área representada por α), mais desigual será a distribuição de renda. Na figura, por exemplo, aproximadamente 50% da população se apropriam de 20% da renda. 2.2.3 Índice de Gini De acordo com o PNUD, o Índice de Gini: Mede o grau de desigualdade existente na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita. Seu valor varia de 0, quando não há desigualdade (a renda de todos os indivíduos tem o mesmo valor), a 1, quando a desigualdade é máxima (apenas um indivíduo detém toda a renda da sociedade e a renda de todos os outros indivíduos é nula) (O ATLAS, [s.d.]). Assim, o índice é uma medida que objetiva “corrigir” os valores médios obtidos por meio do quociente entre produto e população. Ele não representa o “tamanho médio da fatia do bolo”, mas o quão justa é a divisão do bolo. Veja novamente a figura relativa à Curva de Lorenz. Geometricamente, o Índice de Gini é obtido pelo quociente entre α e a soma entre α e ß, da seguinte forma: G = α / (α + ß) Se a desigualdade é zero, quer dizer, se a distribuição de renda é perfeita, α é igual a zero; portanto, G = 0. Se, hipoteticamente, um único indivíduo se apropriar de toda a renda, ß tenderá a zero e G tenderá a 1. Quanto maior a “barriga” representada por α, maior será o valor de G. 31 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA 3 CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTISMO ENQUANTO PRÁTICA E POLÍTICA As discussões acerca do desenvolvimentismo nas economias capitalistas surgiram por volta dos anos 1930, em função da Grande Depressão daquele período, em que as políticas de desenvolvimento passam a enfatizar a industrialização via substituição de importações, com incentivos eventuais às exportações. Trata-se, além disso, de se pensar o desenvolvimento econômico das nações liderado por políticas governamentaisque impulsionam a demanda agregada, bem como a produção. Do ponto de vista da teoria econômica, haverá uma mudança de eixo em termos de análise econômica: enquanto as economias capitalistas, antes da Grande Depressão, eram analisadas pelo lado da oferta, valendo a máxima de Jean Baptist Say de que a oferta cria sua própria procura, bem como a noção de magic hands smithiana, com a depressão e seus efeitos, e no luminar das teorias keynesianas, a análise econômica volta-se, agora, para o lado da demanda – a demanda efetiva. Observação Observe que o princípio da demanda efetiva já havia sido discutido por Malthus antes de Keynes colocá-lo em prática. Kalecki também faz uso do mesmo conceito. Pensando em termos de desenvolvimentismo em ambiente de substituição de importações, algumas medidas governamentais fazem-se necessárias para o intento (SOUZA, 2009), a exemplo de: • Adoção de barreiras alfandegárias e intervenções no mercado cambial, com a manipulação da taxa de câmbio e confisco de divisas. • Controle quantitativo de importações, a fim de evitar a fuga de divisas com gastos supérfluos e proporcionar mercado para a indústria nacional nascente. • Incentivos a indústrias específicas através de créditos subsidiados e renúncias fiscais, com a participação de empresas estatais e de empresas estrangeiras. • Aumento do poder de compra das populações rurais por meio de políticas agrícolas, envolvendo crédito, seguro, preços mínimos, estoques reguladores, investimentos em estradas rurais, comercialização da produção e reforma agrária. • Implantação de infraestrutura de transportes, energia e comunicações. Para que a economia consiga atravessar o estágio do subdesenvolvimento para o desenvolvimento, a política desenvolvimentista deverá estar centrada em alguns pontos chamados de estrangulamento, em que sua solução no curto prazo não é tão simples. Vejamos alguns desses entraves. 32 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Um deles está relacionado à dificuldade de a economia doméstica conseguir diversificar a produção interna e, por consequência, melhorar sua pauta de exportações para que sejam conquistados saldos superavitários em transações correntes no balanço de pagamentos. Por que é difícil diversificar a produção interna? Para que haja diversificação da produção, o empresário deve entrar em ação no sentido de buscar novas alternativas em produzir aquilo que o mercado deseja. Mais do que isso: é necessário o tino empreendedor, criativo, arrojado e visionário para verificar e acompanhar o que a demanda está esperando de sua produção. Não somente a demanda interna, mas, principalmente, a internacional. Em um ambiente de economia em que as relações internacionais não são tão fortes, o acesso a novos meios de produção e novas formas de invenção se apresenta como entrave ao empreendedorismo e à criação. Outros fatores que prejudicam bastante o dinamismo da indústria, em termos de modernização, residem nos baixos índices de escolaridade da população, causando escassez de qualificação profissional, o que gera custos empresariais de desenvolvimento profissional. Como a taxa de poupança da economia também não é tão elevada, a capacidade creditícia fica reduzida, influenciando para cima as taxas de juros, o que inibe o empresariado na tomada de crédito. Resultado: poucos recursos para investimentos produtivos, tanto de qualificação técnica quanto de força de trabalho. Geralmente, é o Estado quem exerce uma ação coordenada do desenvolvimento e quem procura vencer esses estrangulamentos. Em fases mais avançadas do processo de desenvolvimento, os principais estrangulamentos decorrem do esgotamento do modelo de substituição de importações, em razão da pequena dimensão do mercado interno para algumas substituições, como bens de capital, da insuficiência de capital e da concentração da renda (SOUZA, 2009, p. 24). Souza (2009, p. 24) continua: A transição de uma economia de subsistência para uma economia industrializada, com amplo setor de mercado interno, pressupõe a transição de inúmeros obstáculos criados pelo próprio crescimento econômico. Nesse processo, o desenvolvimento ocorreria por etapas, começando pela economia de subsistência, passando pelas exportações e pelas inovações tecnológicas, e terminando pela era do consumo de massa com altos níveis de bem-estar para o conjunto da população nacional, a exemplo do welfare state. Deve-se a Rostow (1974) a noção de que o desenvolvimento ocorre por etapas em que a economia apresenta dinâmica como característica. Para ele, o desenvolvimento pode ser visto como um processo de evolução de economia de subsistência, primitiva, a uma forma mais avançada, com tecnologia avançada e de consumo de massa. O pensamento rostowiano está enraizado em considerações de que nações insuficientemente desenvolvidas conseguem superar seus entraves até conseguir alcançar o desenvolvimento econômico dito satisfatório (SARMENTO, 2008). O modelo de desenvolvimento estaria dividido em cinco etapas: 33 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Primeira etapa: economia predominantemente agrícola em que a maior parcela da população está empregada nesse setor. Devido à baixa tecnologia de produção e processos rudimentares, a produtividade é baixa e o quantum produzido é suficiente para atender à demanda com certa folga. A posse da terra é símbolo de poder e riqueza, e se dá grande importância aos clãs, famílias e castas. Segunda etapa: etapa chamada de criação das pré-condições para o arranco ou para a decolagem rumo ao crescimento. Aqui, já se verifica avanço tecnológico na produção do setor primário e alguns insights na indústria ainda modesta e leve expansão da demanda em mercados mundiais. Há uma demanda social por melhores níveis educacionais devido à ascensão da classe média e aquela classe dominante tradicional passa a sofrer com a concorrência de grupos industriais urbanos. O Estado é induzido a efetuar gastos em benefício do bem-estar da população e se verificam aumentos nos investimentos em infraestrutura de transporte, comunicações e energia, bem como na produção de matérias-primas estratégicas para a indústria, favorecidas pelo crédito bancário devido ao surgimento de tal atividade. Pelas palavras de Souza (2009, p. 247), “criam-se, desse modo, forças endógenas e autônomas para o crescimento econômico autossustentado” em que prevalece a ideia da valorização da expertise individual do ser humano quanto ao seu potencial criativo. Terceira etapa: fase do arranco ou decolagem propriamente dita, em que foram superados os entraves até então vigentes. É uma fase em que o desenvolvimento surge com normalidade e tem-se o surgimento de novas indústrias, tecnologicamente interligadas, em que seus lucros são reinvestidos na criação de novas condições de produção. Verifica-se a criação de novos grupos empresariais, o que favorece o crescimento do emprego inclusive no setor de serviços, apoiando o bom desenvolvimento do comércio e da indústria do setor produtor de bens de consumo. Não tardam a aparecer as inovações tecnológicas e produção de novos produtos, bem como acesso a novas fontes de insumos de produção, inclusive no campo agrícola, que agora também consome bens industrializados. Quarta etapa: denominada de etapa da marcha para a maturidade, com [...] um longo intervalo de crescimento econômico continuado, no qual a economia assimila a tecnologia moderna. Implanta-se a indústria de bens de capital e a economia aumenta suas exportações de produtos manufaturados, com tecnologia intensiva. A sociedade passa a gerar internamente grande parte da tecnologia que adota em seu processo produtivo. Na fase da maturidade econômica, a economia desenvolve indústrias diferentes daquelas que geraram a decolagem. É uma etapa em que a economia demonstra que possui as aptidõestécnicas e organizacionais para produzir não tudo, mas qualquer coisa que decida produzir (SOUZA, 2009, p. 247). Quinta etapa: é chamada etapa do consumo em massa, em que a economia é liderada pelos setores produtores de bens de consumo duráveis e setor de serviços que facilitam a vida da população. Há ligeira queda de preços da economia devido a melhores condições de oferta e maior competitividade entre as empresas, o que faz com que o salário real se eleve, permitindo, assim, o consumo em massa. “Nesta fase, o Estado investe mais na assistência social. É o chamado estado de bem-estar social característico dos anos 1950-1970, nos países desenvolvidos” (SOUZA, 2009, p. 247). 34 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I 3.1 Desenvolvimentismo no pensamento econômico brasileiro O desenvolvimentismo, no Brasil, marca uma ideologia econômica que sustenta um projeto de industrialização como forma de superar entraves até então colocados pela economia agroexportadora, ou primária, se preferir, bem como aqueles colocados pelo próprio modelo de substituição de importações: economia fechada e baixa produtividade, para citar alguns. Bielschowsky (2000) indica haver, para o Brasil, duas linhas de interpretação acerca do desenvolvimentismo: uma ligada ao setor privado e outra, ao setor público. No que diz respeito ao setor privado, a ideia prevalecente era a da proteção aos interesses da classe empresarial, propondo uma visão nacionalista, enquanto economistas que trabalhavam no setor público apresentavam certa dualidade: enquanto uns, os não nacionalistas, propunham que as ações desenvolvimentistas deveriam ser tomadas pelo mercado, a partir dos interesses empresariais, outros, chamados de nacionalistas, preconizavam a estatização de setores estratégicos, a exemplo de energia, mineração e transporte, além do favorecimento à indústria de base. Assim, percebe-se as origens do desenvolvimentismo durante o período 1930-1945, que se consolidaria na década de 1950 sob dois pilares distintos, mas interligados. O primeiro, ligado ao setor privado, propunha um projeto de industrialização de forma planejada e que atendesse aos interesses do capital industrial à época dominante. Aqui forte papel foi desempenhado por dois núcleos de reflexão sobre o tema: o Conselho Econômico (CNI) e o Departamento Econômico. Bielschowsky (2000, p. 79) destaca que Essa pequena elite empresarial vivenciava o que se pode denominar, sem risco, de experiência pioneira em planejamento econômico. No esquema corporativo do Estado Novo, os líderes empresariais tiveram participação em várias das muitas agências econômicas governamentais que se criaram. Estabeleceu-se, dessa forma, um fértil cruzamento ideológico entre sua visão de mundo e as ideias e conceitos desenvolvimentistas que se formavam nos novos órgãos federais, nos quais se discutia a respeito de comércio exterior, energia, transportes, indústria siderúrgica e tantos outros temas de âmbito nacional. O ponto culminante desse momento pioneiro de concepção desenvolvimentista foi a apresentação, por Roberto Simonsen, em 1944, do projeto de criação de uma Junta Nacional de Planificação no Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial. O desenvolvimentismo interpretado pelas ideias de Simonsen (BIELSCHOWSKY, 2000), representando a classe do setor privado, baseava-se nos seguintes aspectos: • Uma das formas de dizimar a pobreza seria por meio da industrialização integrada. • A industrialização brasileira acompanharia um processo de reestruturação que vinha acontecendo nas economias da América Latina. 35 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • A industrialização somente avançaria com apoio das correções pelo Estado, das falhas de mercado: para tanto, protecionismo e intervenção estatal seriam indispensáveis. • A intervenção estatal deveria ir além dos instrumentos triviais de políticas públicas: deveria incluir investimentos em setores estratégicos. Pelo lado do setor público, conforme adiantado, havia duas correntes: dos não nacionalistas e dos nacionalistas. Como bem afirma Bielschowsky (2000, p. 103), Desde suas origens, nas décadas de 1930 e 1940, o desenvolvimentismo foi uma ideologia econômica com fortes vínculos com o nacionalismo. Havia então toda uma inclinação ideológica, por parte da maioria dos adeptos do projeto de superação do atraso brasileiro pela via da industrialização, no sentido de desconfiar das possibilidades de se obter um concurso positivo do capital estrangeiro nesse projeto. Os mais radicais viam o capital estrangeiro como um bloco monolítico de interesses imperialistas, antagônicos ao projeto. E, mesmo entre os moderados, predominava a visão de que, pelo menos nos setores fundamentais para a industrialização (energia, transporte, mineração, etc.), o Estado deveria garantir o controle decisório, deslocando o capital estrangeiro ou impedindo sua entrada. De visão não nacionalista, destaca-se Roberto Campos, considerado como o economista de maior expressão num período em que a economia brasileira passava de sua estrutura agroexportadora para a economia industrial, agora internacionalizada. O projeto de desenvolvimento não nacionalista deveria incluir a questão do planejamento da industrialização. Propunha que [...] se deveria procurar contornar a arcaica máquina administrativa brasileira, incapaz de executar as tarefas do desenvolvimentismo através da formação de equipes de planejamento e administração voltadas para a formulação e execução de uma política de investimentos básicos (BIELSCHOWSKY, 2000, p. 109). Quanto à visão nacionalista do desenvolvimentismo, a defesa era da constituição de um capitalismo industrial moderno no País. Para estes, o desenvolvimento seria alcançado pela intervenção por investimentos estatais em setores estratégicos, admitindo que não se deveria esperar das boas intenções dos empresários do setor privado. Conforme destaca Bielschowsky (2000, p. 129), O grande encontro dos desenvolvimentistas nacionalistas deu-se em meados dos anos 1950, quando Furtado e Barbosa Oliveira fundaram o Clube dos Economistas, órgão que reuniu algumas dezenas de técnicos nacionalistas do governo federal e alguns desenvolvimentistas do setor privado. Vale destacar alguns pontos importantes do pensamento desenvolvimentista nacionalista: • Defesa de intervenção estatal na economia. 36 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I • Políticas econômicas orientadas ao planejamento. • Subordinação da política monetária à política de desenvolvimento. • Adoção, por parte do Estado, de medidas econômicas de cunho social. Saiba mais O principal expoente do pensamento nacionalista é Celso Furtado. Leia mais em: BIELSCHOWSKY, R. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000. Concentre-se no capítulo cinco: “O pensamento desenvolvimentista”. 4 DA NECESSIDADE DA INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL É fato que os governos existem na vida das pessoas, gostemos ou não. Independentemente da posição política adotada por um governante, poderá ou não alegrar a sociedade de um determinado país ou desagradar por completo. Tal fato deve-se claramente ao tipo de atitude política escolhida, que, para efeito deste estudo, devemos considerar as opções pela política econômica adotada em determinado tempo. Uma política econômica mais desenvolvimentista tende a agradar boa parte da população, principalmente empresários, para quem novas oportunidade de investimentos são avistadas, favorecendo camadas das classes mais baixas da população por novas oportunidades de emprego, inclusive. Por outro lado, uma política econômica mais austera, aquela em que a opção governamental é por uma política contracionista, não é de todo agradável quando seespera crescimento de renda no curto prazo e elevação dos empregos e gastos públicos. O fato é que a opção pela política econômica dá-se de acordo com as circunstâncias que se apresentam ao governante ou simplesmente permeia sua formação e opção política. 4.1 Falhas de mercado Deixando de lado questões normativas das políticas públicas, bem como da presença do governo nas economias modernas, o fato é que devemos considerar elementos racionais que fundamentam a presença dos governos nas sociedades e sua intervenção por planejamento ou não. Nesse sentido, Giambiagi & Além (2008) chamam a atenção para a existência de falhas de mercado que impedem a situação de ótimo de Pareto. 37 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Saiba mais O ótimo de Pareto, proposição devida ao engenheiro e economista franco-italiano Vilfredo Frederico Damaso Pareto, versa que, em determinada situação em que se encontrem dois agentes, para que um ganhe, necessariamente, outro deve perder. Leia mais em: A LEI da Eficiência de Pareto. Econometrix, Fortaleza, 20 jan. 2011. Disponível em: <http://www.econometrix.com.br/pdf/ed1644f6016bdf71a 1e7509acaead9bad8ec6670.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2017. As falhas de mercado abordadas por Giambiagi e Além (2008) são: existência de bens públicos, existência de monopólios naturais, externalidades, mercados incompletos, falhas de informação e, por último, mas não menos importante, a ocorrência de desemprego e inflação. Riani (2013, p. 12-13) sumariza da seguinte forma: No mundo real existem quatro características principais que dificultariam, ou até mesmo impossibilitariam a obtenção ótima através do setor privado. Assim, o governo emerge como um elemento capaz de intervir na alocação de recursos, que atua paralelamente ao setor privado, procurando estabelecer a produção ótima dos bens e serviços que satisfaçam as necessidades da sociedade. As quatro características que podem ser consideradas como falhas de mecanismos de mercado em atender às necessidades da sociedade são: indivisibilidade do produto; externalidades; custo de produção decrescente e mercados imperfeitos; riscos e incertezas na oferta dos bens. Vejamos, então, a partir de Giambiagi e Além (2008), bem como de Riani (2013), pormenorizadamente a importância de cada uma das falhas de mercado que fazem necessária a interferência do governo nos mercados. Existência de bens públicos Os bens públicos são aqueles cujo consumo e uso é indivisível, ou ainda não rival. Significa que o consumo do bem por parte de um indivíduo não prejudica o consumo do mesmo bem pelos demais integrantes da sociedade. Parte-se do princípio que uma vez da existência do bem público, todos se beneficiam de sua existência, independentemente se uns mais e outros menos. Outra característica importante do bem público é a da não exclusão no consumo. Para poder exemplificar, pense no caso de uma cidade em que as ruas ainda não estejam todas pavimentadas, algumas são de terra e outras de asfalto. O governo dessa cidade decide asfaltar todas as ruas ainda não asfaltadas. Assim, todas as pessoas que utilizam a rua, sejam moradoras ou não, serão beneficiadas da atitude governamental. 38 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Pois bem, as ruas estão asfaltadas e a população sendo beneficiada do investimento público, mas como custear esse investimento entre a população? Quem deverá pagar mais ou menos pelo uso das ruas asfaltadas? Somente as pessoas que residem naquela rua? Contando a quantidade de vezes que um indivíduo e seu automóvel utilizam a rua em um determinado período? A nós parece difícil poder ratear o custo desse bem entre os beneficiados. Os bens indivisíveis são aqueles cujos benefícios não podem ser individualizados, tornando ineficaz o estabelecimento dos preços via sistema de mercado [...]. A não exclusividade deve-se ao fato de que, como esses bens não seriam vendidos através do sistema de mercado, via preços, a eles não se aplica o direito de propriedade (RIANI, 2013, p. 13). Sobre o assunto, Riani (2013) chama a atenção para o fato de que um tipo de oferta pública como essa, a pavimentação de uma cidade, não faz sentido em termos de investimentos privados, mas apenas nos públicos, se levar em conta a viabilidade econômica do projeto. É sabido que qualquer tipo de investimento, seja público ou privado, almeja algum tipo de retorno. Se pensarmos nos investimentos privados, o retorno do investimento se dá na forma de lucros que serão acumulados num primeiro momento para depois serem reinvestidos ou alocados para alguma outra atividade, também na forma de investimentos. Quanto aos investimentos públicos, estes também são efetuados visando retorno no futuro, só que não necessariamente na forma de lucros monetários que serão acumulados. O retorno almejado é o social: a melhoria das condições sociais, sejam elas de diferentes fontes e formas. Giambiagi e Além (2008) reforçam ser [...] justamente o princípio da não exclusão no consumo dos bens públicos que torna a solução de mercado, em geral, ineficiente para garantir a produção da quantidade adequada de bens públicos requerida pela sociedade. É por esta razão que a responsabilidade pela provisão de bens públicos recai sobre o governo, que financia a produção desses bens através da cobrança compulsória de impostos. Observação Você até pode pensar que a pavimentação de nosso exemplo seja efetuada por uma empresa privada especializada nesse tipo de serviço. Na maior parte das vezes é assim mesmo que ocorre. Porém, quem contrata tal empresa privada é o próprio governo e, portanto, é ele quem financia a obra. Ou seja, o gasto é público. Existência de monopólios naturais O mercado de monopólio apresenta condições diametralmente opostas às da concorrência perfeita. Nele, existe, de um lado, um único empresário dominando inteiramente a oferta e, de outro, 39 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA todos os consumidores. Não há, portanto, concorrência, nem produto substituto. Nesse caso, ou os consumidores se submetem às condições impostas pelo vendedor, ou simplesmente deixarão de consumir o bem ou o serviço. O fornecimento de energia elétrica nas cidades é um exemplo de empresa em monopólio. Figura 9 – O setor de energia elétrica representa monopólio Para existir monopólios, deve haver barreiras que impeçam a entrada de novas firmas no mercado. Essas barreiras podem advir de diversas formas, sendo uma delas o monopólio puro ou natural. Este caso ocorre quando o mercado, por suas próprias características, exige a instalação de grandes plantas industriais que operam normalmente com economias de escala e custos unitários bastante baixos, possibilitando à empresa cobrar preços baixos por bem ou serviço, o que acaba praticamente inviabilizando a entrada de novos concorrentes. Podemos elencar ainda como barreiras: • Elevado volume de capital requerido para montar uma indústria monopolista. • Marcas e patentes. • Controle de matéria-prima específica. • Instituições. A legislação brasileira proíbe a existência de monopólio, permitido apenas para aqueles segmentos de mercado em que, para o perfeito funcionamento, deveria existir apenas uma empresa. São os chamados monopólios institucionais ou estatais, considerados estratégicos ou de segurança nacional, como a energia elétrica e o petróleo. 40 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I No Brasil, com a privatização dos serviços de utilidade pública – Telecomunicações e Energia Elétrica –, o governo criou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com o intuito de regular as atividades desses setores, por natureza pouco competitivose que prestam um serviço essencial à população. Também com a função de regular o mercado, há diversos órgãos do governo, como o Cade e a Secretaria de Direito Econômico (REZENDE, 2012, p. 29). Externalidades As externalidades implicam custos e benefícios sociais diferentes dos privados. Enquanto os custos e benefícios privados são medidos em termos de preço – quanto custou para fabricar; quanto custou para adquirir –, os custos e benefícios sociais são diferentes. Por qual motivo? Porque estamos tratando de um assunto que analisa os impactos causados em um agente alheio àquele tomador da decisão individual. Exemplifiquemos: pense em um empreendedor que monte uma casa noturna na rua em que você reside. A legislação permite casas comerciais no local, mas o empreendedor montou uma casa noturna em que o som ao vivo seja o chamariz da freguesia. O volume e a qualidade do som – da música – pode agradar quem frequenta o local por uma questão de diversão; porém, pode desagradar você por diversos motivos: você não aprecia a música que é tocada ali, o volume do som incomoda, há maior quantidade de carros estacionados na rua, impedindo que algum parente que o venha visitar deixe seu automóvel em frente ao portão de sua casa etc. Pois bem, elencamos aqui efeitos negativos causados pela nova casa noturna. A isso chamamos de externalidade negativa. Ela ocorre quando algum agente toma determinada decisão que lhe favorece – no caso, o empreendedor – e que retire bem-estar de outro agente – no caso, você. Por outro lado, há as externalidades positivas. Pense que seu vizinho de frente contrate um segurança particular e instale uma guarita defronte à casa dele. Este segurança particular cuidará da vigilância da casa de quem o contratou, o que, por consequência, trará mais segurança aos demais moradores daquela rua, pois caso esse segurança particular perceba algo de diferente na rua, tratará de avisar aos demais moradores do local. Vemos aqui então a ocorrência de externalidade positiva. Para Giambiagi e Além (2008, p. 7), [...] a existência de externalidade justifica a intervenção do Estado, que pode ser através: a) da produção direta ou da concessão de subsídios, para gerar externalidades positivas; b) de multas ou impostos, para desestimular externalidades negativas; e c) da regulamentação. 41 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Saiba mais Flávio Riani, no primeiro capítulo da obra Economia do Setor Público: Uma Abordagem Introdutória, expande a discussão das externalidades, explicando os efeitos da produção sobre o consumo, efeitos da produção sobre a produção, bem como os efeitos externos do consumo. As análises com gráficos que o autor efetua são bem ilustrativas. RIANI, F. Economia do setor público: uma abordagem introdutória. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2013. Mercados incompletos Uma das principais características dos mercados incompletos é aquela em que o setor privado não esteja totalmente à vontade quanto à oferta de um bem ou serviço. O que o faz não estar totalmente à vontade? A insegurança quanto ao futuro e quanto ao retorno do investimento que foi efetuado. É o que Riani (2013) chama de riscos e incertezas na oferta dos bens. A falta de conhecimento perfeito por parte dos vendedores e dos compradores relacionado com os riscos de mercado, a falta de perfeita mobilidade dos recursos, a incerteza quanto à maximização dos lucros por parte das firmas e a escassez de determinados recursos produtivos, particularmente os recursos naturais, são características do mundo real que mostram a inviabilidade do atendimento de alguns dos pressupostos requeridos para se atingir a produção ótima de todos os bens econômicos necessários e desejados pela sociedade (RIANI, 2013, p. 19). Existem determinadas atividades que são indispensáveis ao desenvolvimento do país ou ao bem-estar da sociedade, mas que, pelas razões apresentadas, não seriam oferecidas no mercado se não houvesse a intervenção do governo. Nesse aspecto, Giambiagi e Além (2008) citam o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como principal órgão brasileiro de financiamento de longo prazo para investimentos em todos os segmentos da economia. Vários investimentos produtivos, seja na agricultura, seja na indústria ou no comércio, para todo tamanho de empresa, podem requerer elevado volume de recursos nos investimentos iniciais, e muitas vezes a iniciativa privada – os bancos privados – ficam receosos em efetuar os empréstimos na dúvida se o tomador terá condições ou não de honrar com a devolução dos recursos tomados. Dessa forma, procurando mitigar o risco de uma possível inadimplência, os bancos privados elevam as taxas de juros de empréstimos, dificultando os investimentos privados. É nesse âmbito que o BNDES entra como empresa pública federal: oferecendo empréstimos por vezes subsidiados pelo governo, fomentando, então, os investimentos produtivos e ativando a economia. 42 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Saiba mais Conheça mais sobre o BNDES acessando a página do banco em: <http://www.bndes.gov.br>. A falta de conhecimento perfeito por parte dos vendedores e dos compradores relacionada com os riscos do mercado, a falta da perfeita mobilidade dos recursos, a incerteza quanto à maximização dos lucros por parte das firmas e a escassez de determinados recursos produtivos, particularmente os naturais, são características do mundo real que mostram a inviabilidade do atendimento de alguns dos pressupostos requeridos para se atingir a produção ótima de todos os bens econômicos necessários e desejados pela sociedade. Nisso reside outra falha de mercado, a falha de informação. Falhas de informação Nos casos de falhas de informação, a intervenção do Estado justifica-se em razão de o mercado por si só não fornecer dados suficientes para que os consumidores tomem suas decisões racionalmente. A exemplo de ilustração, considere o mercado de automóveis usados. Pense na seguinte situação: você está interessado em adquirir um automóvel usado e encontra no jornal um anúncio exatamente do automóvel que procura. Liga para o anunciante para verificar preços, condições do automóvel, quilometragem percorrida, e coisas do tipo. Quem dos dois agentes tem mais informações sobre o automóvel? Você ou a pessoa que pretende vendê-lo? Será que o vendedor lhe oferecerá todas as informações necessárias, e reais, para que você possa tomar a decisão pela compra ou não? Caso o automóvel tenha estado imerso em alguma enchente, o vendedor falará para você? Estamos chamando a atenção para o fato de que em determinados mercados alguns têm mais informações do que outros. A isto Fernando Rezende (2012) denomina assimetria de informações. Para esses casos, a forma de atuação do Estado pode ser mediante a introdução de uma legislação que induza a uma maior transparência em que haja maior proteção tanto para vendedores quanto para consumidores, do que é exemplo o Código de Defesa do Consumidor (CDC). Desemprego e inflação O desemprego e a inflação, apesar de serem fenômenos completamente diferentes, sendo o primeiro considerado pela economia uma variável do mercado real e o segundo uma variável nominal proveniente do mercado monetário, caminham conjuntamente. Comecemos, então, pela inflação. Mas, o que vem a ser inflação? Caracteriza-se pelo generalizado e persistente crescimento nos níveis de preços, ou seja, ocorre inflação num período em que um elevado volume de mercadorias tem seus preços majorados sequencialmente, de forma que dia a dia, mês a mês, os preços sobem sem que, necessariamente, seus custos de produção tenham apresentado também elevação. Assim, quando há inflação torna-se necessária maior quantidade de moeda para adquirir as mesmas mercadorias. Resultado: perda do poder aquisitivo da moeda, o que pode causarsérios distúrbios à economia e à sociedade de forma geral (SILVA; LUIZ, 2010). 43 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Em períodos de inflação elevada, a moeda deixa de desempenhar uma de suas principais funções, que é a de preservar valor ao longo do tempo. Em períodos de inflação elevada, como viveu a sociedade brasileira boa parte dos anos 1970 e 1980, a moeda perde seu valor na medida em que é recebida! Suponha uma pessoa que receba hoje seu salário, digamos, de R$ 1.500,00 e que o índice de inflação no mês corrente, medido pelos mais diversos índices disponíveis, esteja em torno de 40% ao mês. Se tal pessoa deixar guardado esse dinheiro, digamos, num bolso de algum paletó no armário e for usar tal recurso daqui trinta dias, os R$ 1.500,00 representarão poder de compra de R$ 900,00. Receber um valor hoje, dentro de um período inflacionário, e não utilizar esse recurso o mais rápido possível faz com que haja a perda de seu valor. Em nosso exemplo hipotético, perda de R$ 600,00. Significa que os preços das mercadorias ficaram 40% mais elevados e a quantidade de moeda disponível não mais será capaz de adquirir a mesma quantidade de mercadoria que era adquirida anteriormente. Quem sofre? Na maior parte das vezes, e como salienta Mankiw (2010), a população de baixa renda. Precisamos, então, entender como é produzida a inflação, ou seja, por que existe e quais suas causas. Basicamente, são três os tipos de inflação, sendo um deles o de demanda. Vejamos o que diz Mankiw (2010, p. 636): Vamos supor que observamos, ao longo de um determinado período de tempo, o preço de um sorvete de casquinha aumentar de 5 cents para um dólar. Que conclusão poderíamos tirar do fato de que as pessoas estão dispostas a dar muito mais dinheiro em troca de um sorvete? É possível que as pessoas estejam gostando mais de sorvete (talvez porque algum químico tenha desenvolvido um novo e maravilhoso sabor). Mas, provavelmente, não é esse o caso. O mais provável é que as pessoas continuem apreciando o sorvete da mesma forma e que, com o passar do tempo, a moeda usada para comprá-lo tenha se tornado menos valiosa. De fato, o primeiro entendimento sobre a inflação é de que ela tem mais a ver com o valor da moeda do que com o valor dos bens. Portanto, o que determina o valor da moeda é a relação entre sua demanda e sua oferta, assim como é determinado o preço do tomate nos mais variados mercados. Se há mais tomate sendo ofertado, o preço do tomate será relativamente baixo e caso exista pequena quantidade de tomate sendo ofertado, ou seja, disponível à sociedade, seu preço tende a ser relativamente mais elevado. Figura 10 – Moeda e inflação 44 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Voltando à inflação, conforme Samuelson (1979), a inflação de demanda, ou de consumo, é causada pelo crescimento do volume de moeda disponível ao público, não necessariamente acompanhado pelo crescimento da produção. Como para a demanda poder se concretizar é necessária a existência de moeda, a inflação de demanda pode ser entendida como o excesso de moeda em circulação, ou seja, quando há expansão de liquidez. Nesse caso, os preços tendem a aumentar devido à grande quantidade de dinheiro em circulação, influenciando o consumo por parte da população. Por seu turno, os empresários, diante a um elevado consumo e percebendo que há grande quantidade de moeda em poder do público, elevam os preços no afã de que a venda será certa. Ribeiro (1990) explica que uma das características da inflação de demanda é que ela ocorre em períodos de expansão da economia, a exemplo do experimentado pelo milagre econômico brasileiro, no qual o governo investiu fortemente na industrialização do País, elevando os níveis de produção e superando períodos anteriores. Tais medidas diminuíram o desemprego, expandindo renda e consumo. Outro tipo de inflação é o de oferta, ou seja, explicado ou pelas condições de oferta de produtos ou pelo comportamento de seus custos de produção ou mesmo pela disponibilidade de fatores de produção que são utilizados como bens intermediários. A inflação de oferta ocorre quando os custos de produção aumentam, ou seja, quando se paga mais para produzir determinados bens ou ofertar determinados serviços. Assim, pode ocorrer inflação de oferta diante de: • Diminuição da oferta de um fator de produção. • Elevação nos preços dos fatores de produção. • Elevação nos custos da produção derivada de elevação de tributação. • Elevação nos salários pagos pelas empresas, caso sejam reajustados acima da correção monetária do período ou por convenção coletiva e sindical. • Monopolização de determinado setor, diminuindo as possibilidades de concorrência. • Demais ocorrências que representem estreita relação entre custos de produção de um bem e seu preço. Resumindo, para Silva e Luiz (2010, p. 116), [...] a inflação de custos tem origem na oferta de bens e serviços. É causada pela elevação dos custos de produção, repassados para o consumidor pelo aumento do preço do produto. Um fator agravante é o controle do mercado (monopólio ou oligopólio), que permite aos empresários obterem lucros extraordinários pelo aumento dos preços dos seus produtos, pois não há perigo de concorrência. O outro tipo de inflação, a inercial, difere das outras, pois, nesta, há tendência à perpetuidade. Significa que a inflação de um período é automaticamente repassada para o período que se segue. De 45 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA que forma? Pela indexação, que consiste em reajustar pagamentos, ou valores futuros, pela inflação do presente. Observe o exemplo a seguir, muito bem desenvolvido por Silva e Luiz (2010, p. 116-117): Imaginemos que o Sr. Alberto tome emprestado R$ 100.000,00 de seu amigo, Sr. Carlos, e prometa pagar-lhe em dois meses. Nesse período, supondo uma economia inflacionária com taxas mensais de 10%, teremos uma inflação acumulada de 21% nos dois meses que correspondem ao prazo do empréstimo. Pontualmente, no final do período, o Sr. Alberto entrega ao amigo os R$ 100.000,00 que havia tomado emprestado. Resultado, o Sr. Carlos foi prejudicado, pois os R$ 100.000,00 que recebeu do amigo valem menos do que os R$ 100.000,00 que ele havia emprestado dois meses antes. Por sua vez, o Sr. Alberto saiu ganhando, pois pagou apenas R$ 100.000,00 quando deveria ter pago, pelo menos R$ 121.000,00. [...] Se o Sr. Alberto e o Sr. Carlos tivessem combinado, na ocasião do empréstimo, que o montante emprestado seria corrigido pela inflação, o Sr. Carlos receberia R$ 121.000,00 e não se sentiria lesado pelo favor que prestou ao amigo. Em função disso, ou seja, para não haver distorções entre ganhadores e perdedores, contratos de trabalho, contratos de aluguel, preços de mercadorias e valores de outras transações são protegidas, pelo uso da indexação, de corrosão monetária. Uma observação a ser feita acerca da inflação inercial é que ela tende a se manter em determinado patamar por um determinado período, depois volta a crescer e, finalmente, estabiliza-se em um novo patamar por algum tempo. Esse processo ocorre porque as correções dos preços satisfazem os agentes por um determinado tempo, ou seja, essas correções elevam a participação dos agentes na renda. Saiba mais Para que você possa compreender melhor o processo inflacionário no Brasil, sugerimos a leitura de alguns textos complementares. Sobre o Plano Cruzado, leia: BRESSER-PEREIRA, L. C. Inflação inercial e Plano Cruzado. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 6, n. 3, jul./set. 1986. Disponível em: <http:// www.rep.org.br/pdf/23-2.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2017. Sobre o Plano Collor, leia: BRESSER-PEREIRA, L. C.; NAKANO, Y. Hiperinflação e estabilização no Brasil: o primeiro Plano Collor. Revista deEconomia Política, São Paulo, v. 11, n. 4, out./dez. 1991. Disponível em: <http://www.rep.org.br/pdf/44-6. pdf>. Acesso em: 16 mar. 2017. 46 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Sobre o Plano Real, sugerimos a leitura de: BRESSER-PEREIRA, L. C. A economia e a política do Plano Real. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 14, n. 4, out./dez. 1994. Disponível em: <http://www.rep.org.br/pdf/56-10.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2017. Sobre o desemprego, vamos entender por qual motivo ele se apresenta como um problema na economia e que precisa ser objeto de análise por parte do governo. Pense que, em um determinado momento, uma empresa do ramo farmacêutico não esteja muito bem em suas finanças. A empresa é de grande porte, tem aproximadamente duzentos e cinquenta funcionários diretos e, para ajustar sua estrutura de custos, anuncia uma política de demissão envolvendo oitenta funcionários. Está bem. Oitenta pessoas perderão seus empregos e, dessa forma, deixarão de ter renda. Se deixarão de ter renda, como conseguirão atender às necessidades de consumo de sua cesta de consumo? Pense que essas oitenta pessoas sejam chefes de família e essas famílias são compostas por quatro membros: pai, mãe e dois filhos. Esse chefe de família, agora desempregado, não tem mais condições de pagar o estudo particular dos filhos, que ainda são menores de idade. Dessa forma, os filhos passarão a depender do ensino público. A família também possuía convênio médico (seguro saúde), que também deixará de ser pago em função da falta da renda. Caso algum membro dessa família venha a necessitar de cuidados médicos, dependerá também do serviço público. Menos roupas serão adquiridas, as idas ao cinema serão cortadas, assim como os refrigerantes e o sorvete no final de semana. Quem foi afetado com a demissão efetuada pela indústria farmacêutica? • Os funcionários, com a perda do emprego. • Os membros da família dos funcionários que perderam o emprego. • As escolas dos filhos dos funcionários que perderam o emprego, pois deixarão de receber as mensalidades, e poderão vir a ter dificuldades em manter sua estrutura de custos. • A empresa que administrava o convênio médico da família, que pode vir a ter dificuldades em remunerar os médicos conveniados. • O governo, duplamente: primeiro, pela perda de arrecadação com impostos em função da queda de consumo; segundo, pelo aumento das despesas tanto na rede pública de ensino quanto no Sistema Único de Saúde, pois aumentarão os atendimentos. • A empresa de exibição de filmes nos cinemas, já que algumas famílias cortarão esse tipo de lazer. • A empresa que produz refrigerantes, bem como o mercadinho da esquina que vende os refrigerantes. • O sorveteiro e a indústria que produz sorvetes. 47 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Vamos adiante. As escolas que deixarão de receber mensalidades também têm funcionários. Se o número de alunos diminuir, o número de professores também reduzirá, bem como o de assistentes e demais trabalhadores que, por sua vez, também perderão renda, e já sabemos o que ocorrerá. A empresa que administra o convênio médico incorrerá no mesmo problema: mais pessoas sem renda. Nesse ponto, você já é capaz de pensar o que acontecerá com os demais setores da economia. Numa situação como a descrita, algo deve ser feito para que a atividade econômica volte a ser operante, bem como os empregos retomados. É nesse contexto que a atuação do governo se faz presente. Para Giambiagi e Além (2008, p. 8), [...] o livre funcionamento do sistema de mercado não soluciona problemas como a existência de altos níveis de desemprego e inflação. Neste caso, há espaço para a ação do Estado no sentido de implementar políticas que visem à manutenção do funcionamento do sistema econômico o mais próximo possível do pleno emprego e da estabilidade de preços. Até aqui, destacamos as razões pelas quais o governo, através dos diversos instrumentos de políticas à sua disposição, surge como alternativa para a intervenção na alocação de recursos da economia a fim de contribuir para que a sociedade alcance o maior nível de bem-estar possível. A exposição que se segue procura destacar as funções que poderão ser desenvolvidas pelo governo, visando corrigir ou minimizar as falhas ocorridas no sistema de mercado, buscando atender às demandas que compõem o conjunto de bens e serviços da sociedade. É aqui, portanto, que trataremos das finanças públicas. Conforme Nascimento (2014, p. 79), [...] a expressão “finanças públicas” designa os métodos, princípios e processos financeiros por meio dos quais os governos federal, estadual e municipal desempenham suas funções. Por intermédio do orçamento público, os governos perseguem os objetivos de satisfazer às necessidades sociais, de induzir a uma eficiente utilização dos recursos e de corrigir a distribuição de renda em uma sociedade. [...] As receitas e as despesas do Estado podem ser utilizadas como instrumento para influenciar o nível da produção nacional e do emprego, de forma a controlar o padrão dos preços (controle da inflação), buscar o equilíbrio da balança de pagamentos e para redirecionar as decisões de consumo e investimento dos agentes privados. 4.2 Funções do governo É consenso entre os autores Nascimento (2014), Giacomoni (2012), Giambiagi e Além (2008), Riani (2013) e Matias-Pereira (2012) que deve-se a Richard Musgrave a definição do que sejam as funções do governo. Segundo Giacomoni (2012, p. 22), Richard Musgrave propôs uma classificação das funções econômicas do Estado, que se tornaram clássicas no gênero. Denominadas as “funções fiscais”, o autor as considera também como as próprias “funções do 48 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I orçamento”, principal instrumento de ação estatal na economia. São três as funções: a) promover ajustamentos na alocação de recursos (função alocativa); b) promover ajustamentos na distribuição de renda (função distributiva); e c) manter a estabilidade econômica (função estabilizadora). Vejamos então as três funções básicas conforme identificadas. Função alocativa Designa a alocação de recursos pela atividade estatal quando não houver eficiência da iniciativa privada ou quando a natureza da atividade indicar a necessidade da presença do Estado. A intervenção estatal na alocação de recursos justifica-se naqueles casos que não são de interesse do setor privado. É o processo pelo qual o governo divide os recursos para utilização no setor público e privado, oferecendo bens públicos, semipúblicos e meritórios, como rodovias, segurança, educação, saúde aos cidadãos. Dessa forma, está associada ao fornecimento de bens e serviços não oferecidos adequadamente pelo sistema de mercado (NASCIMENTO, 2014). Nesse sentido, cabe ao governo decidir pelo tipo e pela quantidade de bens públicos que ofertará, ou seja, a qual(is) tipo(s) de necessidade(s) atenderá. Conforme Riani (2013), para assegurar uma alocação mais eficiente dos recursos, o governo não precisa produzir ou gerar diretamente o bem ou o serviço. Ele poderá fazê-lo ou induzir a oferta pelo setor privado. Nesse aspecto, existem quatro possibilidades de atuação do governo: • Alocação por parte do governo de recursos diretos para a produção e, portanto, a oferta dos bens, de que são exemplos a defesa nacional e seus serviços de segurança pública. • Compras governamentais em que o governo adquire a produção efetuada por outras empresas e repassa os bens à sociedade, de que são exemplos medicamentos, merenda escolar ou mesmo campanhas de vacinação. • Indução do setor privado ao aumento da produção via subsídios ou incentivos fiscais, favorecendo a produção e provocando queda de preços de venda, beneficiando determinada população. • Empresas estatais em que o governo chamapara ele a responsabilidade da produção de algum bem ou serviço que não seja oferecido pela iniciativa privada. Função distributiva Nem sempre toda a riqueza que é gerada em um país é distribuída de forma igualitária entre seus pertencentes, o que, por vezes, gera a chamada desigualdade social. Riani (2013, p. 22) esclarece que: Fatores tais como oportunidade educacional, mobilidade social, habilidade individual, mercado de trabalho, propriedades dos fatores de produção, etc. levam, dentro de uma economia de livre mercado, a desigualdades na apropriação da renda e da riqueza gerada pelo sistema econômico. 49 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA [...] O mercado funcionando livremente sem a interferência do governo não se preocupará com a concentração de renda e da riqueza uma vez que as atividades econômicas alcancem seus objetivos, atingindo frações segmentadas da sociedade detentoras de recursos para suas compras. Assim, a possibilidade espontânea da desconcentração da renda torna-se ilusória. Diante o exposto, vê-se que cabe ao Estado promover a melhoria na distribuição da renda por intermédio do gasto público como principal instrumento de política pública. Tal afirmação apoia-se em Nascimento (2014, p. 80), em que a “função distributiva refere-se à distribuição, por parte do governo, de rendas e riquezas”. Por outro lado, Rezende (2012), bem como Giambiagi e Além (2008), destaca que, além dos gastos governamentais, a exemplo de transferências, a tributação progressiva aliada aos subsídios auxiliam no processo de distribuição do produto. Enquanto os programas de transferência apresentam-se de forma direta quanto à redistribuição, a tributação progressiva oferece condições de o governo arrecadar recursos das camadas mais abastadas da sociedade e utilizá-los como forma de financiamento de programas voltados para a parcela da população de mais baixa renda. Aqui, a forma de redistribuição seria por melhoria dos atendimentos públicos nos sistemas de saúde ou mesmo utilizados para financiamento da construção de moradias populares. Giacomoni (2012, p. 25) complementa que, por mais que as políticas distributivas estejam inseridas no ambiente de correção de falhas de mercado, acabam por vezes sendo encaradas como “problemas de política e de filosofia social”, pois cabe à sociedade avaliar o que vem a ser justiça distributiva. Concordando que a distribuição de renda também seja uma questão de orçamento público, educação gratuita, capacitação profissional e programas de desenvolvimento comunitário são também exemplos de política pública com efeito distributivo. Saiba mais Conheça mais sobre os programas de distribuição de renda no Brasil e seus efeitos na economia. Para tanto, convidamos a ler o seguinte texto: SOUZA, A. P. Políticas de distribuição de renda no Brasil e o bolsa-família. C-Micro Working Paper, n. 1, 2011. (Texto para discussão n. 281). Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/9995/ TD%20281%20-%20C-Micro%2001%20-%20Andr%C3%A9%20Portela. pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 16 mar. 2017. Função estabilizadora A função estabilizadora está estreitamente ligada ao desemprego e à inflação enquanto falhas de mercado, pois, de forma abrangente, visa assegurar um desejável nível de emprego e estabilidade nos preços que não são totalmente controlados pelo sistema de livre mercado. Conforme Riani (2013, p. 22), 50 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Quando o desemprego prevalece, o governo aumenta o nível de demanda no mercado, elevando seus gastos ou diminuindo seus tributos, recolocando a produção no pleno emprego. Por outro lado, se há inflação, o governo pode reduzir a demanda de mercado, ajustando seus gastos e/ou a carga tributária, o que contribui para a diminuição e controle de preços. Do ponto de vista da política fiscal, o governo pode corrigir o desemprego enquanto falha de mercado pela elevação dos gastos públicos aumentando a quantidade de dinheiro no sistema econômico, o que incentiva a sociedade a elevar o consumo bem como as empresas a aumentarem seus níveis de produção. Desta forma, com maior produção, as empresas passam a contratar maior quantidade de pessoas, o que expande a renda. O mesmo efeito será gerado se a opção for pelo uso da diminuição de tributação. Porém, com a expansão da demanda os preços sobem, o que ocasiona inflação. Assim, paralelamente, o governo pode utilizar demais instrumentos, a exemplo da monetária, para manter a estabilidade de preços. Para Giacomoni (2012, p. 26), [...] o orçamento público é um importante instrumento da política de estabilização. No plano da despesa, o impacto das compras do governo sobre a demanda agregada é expressivo, assim como o poder de gastos dos funcionários públicos. No lado da receita, não só chama a atenção o volume, em termos absolutos, dos ingressos públicos, como também a variação na razão existente entre a receita orçamentária e a renda nacional, como consequência das mudanças existentes nos componentes da renda. Do que foi apresentado até o momento, caro aluno, é possível perceber certa relação entre as falhas de mercado e as funções do governo. As falhas de mercado são decorrência, em parte, da liberdade que os agentes econômicos detêm na sociedade e, em parte, pela própria existência de recursos disponíveis nessa sociedade. Desta forma, na decorrência de falhas do sistema, o governo é chamado então para colocar, vamos assim dizer, ordem. Pois bem: como se dá esta ordem? Parte dela por leis, regulamentos, decretos que cerceiam a liberdade de alguns. Por outro lado, há que se preocupar com o desenvolvimento dessa mesma sociedade no sentido de conduzi-la para a modernidade, ao progresso e, nesse aspecto, a política pública se faz presente. Porém, somente é possível fazer política pública diante de alguns objetivos a serem alcançados. De forma genérica, a literatura até aqui utilizada salienta que todos os governos, em maior ou menor grau, têm os mesmos objetivos: crescimento e desenvolvimento econômico, manutenção do emprego e da renda, estabilidade monetário-financeira e distribuição equitativa da renda, para citar alguns. No entanto, para que o governo consiga atingir seus objetivos, torna-se necessário planejamento como visão de futuro. Trata-se, portanto, de imaginar hoje como seria o amanhã, caso algumas medidas fossem adotadas. Nesse sentido, o planejamento governamental que se faz por política pública requer, de um lado, recursos monetários para que se coloque em prática determinada ação e, de outro, as fontes de tais recursos. Podemos claramente efetuar analogia como um individuo comum. Suponha que você 51 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA tem um amigo que deseja adquirir sua casa própria, já que o casamento está batendo à porta! Para que consiga a conquista do patrimônio, algumas ações podem ser tomadas. Entre elas, a do planejamento financeiro: daqui quanto tempo deseja adquirir tal patrimônio, qual seu valor, em qual localidade, qual a quantidade de recursos monetários já está disponível, em que tipo de aplicação financeira esse recurso disponível está alocado, o quanto ainda precisa acumular, se a opção for pela compra à vista ou ainda qual a melhor forma de financiamento, caso o desejo seja por pagar parte à vista e o restante financiado. Mesmo na opção pelo financiamento, em quanto tempo e qual valor de cada prestação. Observação Observe que acabamos de oferecer um exemplo corriqueiro, um daqueles que permeia nossa vida em algum momento dela. Tomemos agora uma empresa como exemplo e também um exemplo bem pequeno em relação a toda tomada de decisão que uma empresa precisa efetuar. Pense numa empresa do setor de bebidas que está percebendoqueda de vendas de um de seus principais produtos: “refrigerante sabor gostoso”. Diante da percepção da queda de vendas, e imaginando que a empresa tenha efetuado uma pesquisa de mercado para verificar a real causa de queda de venda do “refrigerante sabor gostoso”, verificou-se que uma nova marca, concorrente, está atraindo consumidores que antes eram fiéis àquela marca. Pois bem, estamos encarando um problema de vendas, portanto um problema de falta de entrada de recursos na empresa. Se há queda de vendas, haverá, por consequência, queda de receita. Diante tal situação a empresa decide por uma campanha de marketing na tentativa de atrair novamente os consumidores que agora foram para a empresa de “refrigerantes sabor quase gostoso”. Para a campanha de marketing, a empresa necessitará efetuar investimentos, necessitará dispor de algum recurso monetário que está na empresa – ou mesmo que a opção seja por empréstimo. Quanto de recursos a empresa pode dedicar para a campanha de marketing sendo que necessita manter seus departamentos financeiro e de recursos humanos, manter os gastos fixos de produção e assim por diante? Estamos chamando atenção para o fato de que uma nova fonte de gasto deverá fazer parte do orçamento da empresa. Por qual motivo? A empresa gastará certa quantia monetária com a campanha de marketing esperando retorno de tal investimento. Independentemente de o retorno ser o esperado, o fato é que dinheiro saiu de algum lugar e não pode sair sem que se saiba qual a fonte que financiará essa saída monetária. Portanto, planejamento financeiro e orçamento são extremamente necessários, também nessa situação. Agora, volte sua atenção novamente para aqueles objetivos governamentais que falamos em algumas linhas. Lembrete Objetivos do governo: crescimento e desenvolvimento econômico, manutenção do emprego e da renda, estabilidade monetário-financeira e distribuição equitativa da renda, para citar alguns. 52 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I A lista de objetivos governamentais parece pequena, mas, se olhada com mais cuidado, vê-se grande infinidade de ações a serem tomadas para cada um dos objetivos serem alcançados. Vamos tomar como exemplo o caso do Brasil, sua extensão territorial, as necessidades prementes e específicas de cada região. Cada governo, com sua política, sua ideologia, suas crenças e, por vezes, interesses, pode privilegiar determinada sociedade instalada numa região que será a recebedora da política pública em detrimento de outra. Porém, não se pode generalizar para o caso brasileiro. O fato é que os governos devem adotar critérios racionais no desenho de suas políticas públicas em que se privilegie a técnica como decisão estratégica no estabelecimento das prioridades sociais. Daí que se faz necessário o recomendado por Matias-Pereira (2012, p. 278): “Facilitar a solução de problemas pela ação catalisadora aplicada a toda a comunidade através de um planejamento estratégico, baseado na previsão do que vai acontecer é um bom caminho a ser seguido pelo governo”. Ainda para Matias-Pereira (2012, p.278), [...] o planejamento estratégico [é] a antítese da política, pois o mesmo presume racionalidade, o que raramente existe no governo. A política exige resultados rápidos, ao lugar de raciocinar e agir pensando no longo prazo, pois são esses resultados que garantem a permanência nos cargos. É possível perceber que o planejamento requer, antes de tudo, compromisso com atitudes racionais que gerem os resultados positivos esperados pelos envolvidos. Vejamos mais características do planejamento e do orçamento. 4.3 Planejamentos e orçamentos Passaremos agora a tratar de planejamento e de orçamentos com maior formalidade, mapeando tanto o planejamento como o orçamento na iniciativa privada e no setor público. Esperamos que aprecie a leitura. 4.3.1 Conceituação Os significados da palavra “planejamento” encontrados no dicionário Houaiss são os que se seguem: 1 ato ou efeito de planejar; 2 serviço de preparação de um trabalho, de uma tarefa, com o estabelecimento de métodos convenientes; 3 determinação de um conjunto de procedimentos, de ações (por uma empresa, um órgão do governo etc.) visando à realização de determinado projeto; planificação: elaboração de planos governamentais, especialmente nas áreas econômicas e sociais (PLANEJAMENTO, 2009). Podemos admitir ser o planejamento uma importantíssima ferramenta de gestão administrativa em qualquer ambiente que se pense, o que requer, obviamente, preparação, organização e estruturação daquilo que se almeja alcançar. Para que seja possível você compreender a importância do planejamento e como muitas das vezes o fazemos sem sequer pensar, procure descrever como é seu dia a dia. Faremos juntos! 53 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Logo quando acordamos pela manhã, como a maioria das pessoas, já estamos envolvidos com o planejamento, mas este, por vezes, não está escrito. É aquele tipo de planejamento das coisas que sempre acontecem em nosso dia a dia. Volte a atenção para você. Qual a primeira coisa que faz ao acordar? Você poderia responder: “abrir os olhos!”. Não, não é disso que estamos tratando. Algumas pessoas têm seus hábitos diários. Alguns, ao acordar, procuram inicialmente tomar o banho matinal e depois separar a roupa do dia. Outros já deixaram a roupa do dia separada na noite anterior (planejou). Outros podem ainda preferir tomar café da manhã para depois se arrumar e ir ao trabalho ou para os estudos, cada um a sua forma. Mesmo o sair de casa requer planejamento. Em dia de chuva, há opção de ir de carro ou somente de transporte urbano? A saída de casa pela manhã tem sempre o mesmo destino: trabalho ou estudos? Faz-se sempre o mesmo caminho? E assim por diante. O dia de trabalho também requer planejamento. Ao chegar no local de trabalho, o que fazer primeiro? Quais são as tarefas mais importantes que devem ser efetuadas em primeiro lugar, não impactando em resultados negativos se as demais não forem executadas naquele dia? Algumas pessoas gostam de deixar o dia seguinte programado no dia anterior. Quando isto é possível, é excelente para as pessoas extremamente organizadas que vivem com base no planejamento. Outros preferem o improviso do dia, das atividades e não são apegados a rotinas, processos, procedimentos e assim por diante. Observação Está observando que o que está sendo aludido a você combina com as definições de planejamento que foram apresentadas no início da discussão? Estamos apenas procurando trazer para a realidade algo que foi colocado com formalidade. Outra questão importante, e que está intimamente ligada ao planejamento individual, é o orçamento. Já tratamos do orçamento enquanto conceito e, de forma tímida, de seu planejamento racional. Muitas vezes a nós é possível perceber que uma grande quantidade de pessoas não “gasta tempo” com o aprendizado do planejamento financeiro particular e diversos são seus motivos: não ter tempo, não achar importante, ganhar sempre o mesmo valor, ter sempre os mesmos gastos ou ainda, a resposta mais ouvida: independentemente de escrever tudo em um papel, sempre falta dinheiro antes da chegada do próximo recebimento. Mas por qual motivo utilizamos aspas lá no início, “gasta tempo”? Entender o planejamento financeiro particular não se trata de atividade que se gasta tempo, mas atividade sobre algo de extrema importância na vida das pessoas nos tempos modernos: a administração de seus recursos monetários. Não fosse por esse motivo, o mercado editorial não teria investido no lançamento de títulos relacionados ao assunto, nem mesmo centros educacionais desenvolveriam cursos também ligados à área. O fato é que é importante, mas este não é nosso foco neste momento. 54 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 21/ 03 /2 01 7 Unidade I Saiba mais Sobre finanças pessoais, convidamos à leitura do livro: GUINDANI, R. A.; MARTINS, T. S.; CRUZ, J. A. W. Finanças pessoais. Curitiba: Intersaberes, 2012. Ainda sobre finanças, mas com um toque de empreendedorismo, indicamos o filme: O HOMEM que mudou o jogo. Dir. Benneth Miller. EUA, 2011. 133 minutos. Até o momento, colocamos a questão do planejamento do ponto de vista individual, como uma decisão individual e para tomada de atitudes individuais. Porém, na vida real nem sempre é assim que a coisa se apresenta. Nossas decisões até podem ser pessoais, individuais, mas estamos, de uma forma ou de outra, inseridos num convívio social, o que requer também respeito às decisões de outras pessoas. Chamamos a atenção para o fato de que por vezes a decisão que foi tomada por uma pessoa impacta na decisão de outra. Agora, procure pensar quando a decisão não está diretamente relacionada com o indivíduo, mas com um conjunto de indivíduos que estão inseridos num mesmo ambiente, um ambiente empresarial. 4.3.2 Planejamentos na iniciativa privada De que forma uma empresa traça seu planejamento? Primeiramente temos que pensar como as empresas são administradas do ponto de vista de suas estruturas organizacionais. Algumas são mais autocráticas e outras, mais burocráticas; algumas mais abertas a ouvir seus funcionários e outras mais distantes deles, enfim, temos uma miríade de empresas em diferentes segmentos da atividade econômica e também de diferentes portes. Chamamos aqui atenção para a existência de micro, pequenas, médias e grandes empresas, cujas preocupações podem ser diferentes em termos de tamanho, mas não em termos de objetivo. Grosso modo, o objetivo de cada uma delas é um só: lucro. No entanto, não entraremos nessa discussão. Em termos de planejamento, este também difere conforme o porte das empresas. Por vezes, pode não haver planejamento específico em empresas de menor porte devido à sua estrutura organizacional mais enxuta, e em alguns casos menos profissionalizada. Se tratarmos das empresas em estruturas maiores, daquelas que apresentam diferentes níveis organizacionais, teremos o Nível Estratégico, E, o Nível Tático, T, e o Nível Operacional, O. Veja a figura a seguir: 55 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA E T O Figura 11 – Níveis organizacionais Cada nível hierárquico pensa o planejamento de forma diferente, afinal, suas responsabilidades também são diferentes. Mesmo considerando que cada funcionário inserido em cada nível organizacional contribua para o bom desenvolvimento da organização, não se pode admitir que as conquistas de cada nível hierárquico sejam as mesmas dos demais. Aqui utilizamos o termo “conquistas”. No entanto, poderíamos utilizar o termo “entregas”: cada nível hierárquico se preocupa com suas entregas – produto de seu trabalho, de sua rotina, de suas responsabilidades. Comecemos pelo nível operacional, O. Suas entregas, via de regra, acontecem pela produção. O nível operacional é aquele também conhecido por “chão de fábrica”, onde a produção efetivamente acontece. Pensando em termos de produção, suas entregas têm a visão de curto prazo. Portanto, nesse nível organizacional, planejamento dá-se em termos de curto prazo: quantas peças diárias devem ser produzidas, por exemplo. Quando o total diário de peças estiver produzido, pronto, acabou a entrega daquele nível organizacional. Sua função é a produção. Daí inicia-se outro processo de entrega, o da disposição para venda e assim por diante. O que queremos que perceba é que o funcionário que esteja no nível operacional tem a produção diária no desempenho de suas funções. Seu trabalho inicia e termina num ciclo curto, que pode ser mensurado em dias, em horas, em minutos, em peças, em lotes, ou em qualquer outra métrica que se deseje acompanhar. Assim, e para terminar, é o nível organizacional que mais recebe ordens, mas também planeja sua rotina. Pense, por exemplo, em uma empresa que monte relógios de parede. Para montar cada relógio, necessita do fundo que servirá de base para que os números possam ser ali firmados, dos ponteiros que contarão os minutos e marcarão as horas e da moldura externa que suportará toda a base depois de, na parte traseira desta, estar alocado o mecanismo que faz o relógio funcionar alimentado por duas baterias alcalinas. Se a meta da empresa for produzir duas mil unidades de relógio por dia, qual a quantidade necessária de todos os meios de produção? Daí que deve haver um departamento, ou um conjunto deles, preocupados com o suprimento deste material de trabalho. Assim, deve-se planejar a programação da produção de forma que, em estoque, nem faltem ponteiros nem sobrem molduras não utilizadas. 56 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I Observação Observe que aqui, de forma bastante lúdica, estamos tratando do gerenciamento de estoque. Material em estoque é dinheiro parado. Se o dinheiro está lá parado, saiu de algum lugar e não está rendendo, portanto, necessita de planejamento. Em muitas empresas, é difícil afirmar se o tipo de planejamento descrito pode ser efetuado tanto no nível operacional, O, como no nível tático, T. Ou ainda, entre os dois. Cada empresa administra esse tipo de atividade de forma diferente e dizer se é efetuado num ou noutro nível organizacional seria demasiado genérico. Quanto ao nível tático, T, a preocupação é com o médio prazo. Estão neste nível diferentes departamentos: finanças, comercial, vendas, pessoal, fiscal, marketing, comunicação e demais que se possa pensar além dos exemplos oferecidos, cada um desses departamentos com suas preocupações, suas responsabilidades, suas entregas. As entregas de cada um deles, de forma isolada no departamento, mas integrada na organização como um todo, são pensar a organização em termos de crescimento e desenvolvimento. Lembrete Lembra do exemplo da empresa de “refrigerantes sabor gostoso”? Qual departamento ficou incumbido de descobrir o motivo de queda de vendas? É disso que estamos tratando, da entrega desse departamento em específico. O nível tático pensa a organização em termos de médio prazo, obedecendo, de certa forma, as regras que são impostas pelo nível organizacional superior e dá ordens de comando ao nível organizacional mais baixo. No tático estão os diretores, gerentes, alguns supervisores. Quanto ao departamento de pessoal, como exemplo, este tem como preocupação recrutamento e seleção, manutenção e retenção de quadro de funcionários, bem como desenvolvimento de novos benefícios, oferecendo melhores condições de trabalho aos funcionários. De certa forma, trabalha com a administração de todo o pessoal, tanto aquele de fácil substituição – nível operacional – quanto aqueles dos demais níveis, em que a substituição não é tão rápida – ou não tão fácil dependendo se as funções desempenhadas sejam mais específicas. Assim, todo e qualquer planejamento que ocorre neste nível é de médio prazo. Este nível também se preocupa com o planejamento orçamentário. Por vezes, cada departamento tem seu próprio orçamento, mensal ou anual, e deverá desempenhar sua função da melhor forma possível, empregando bem os recursos que lhe são destinados. O departamento de marketing tem que desenvolver seus resultados criativos de acordo com a 57 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA verba a ele destinada. Se o departamento de recursos humanos fica responsável com a festa de confraternização de final de ano, é com a verba destinada a este fim que deverá procurar agradar a todos os participantes. O departamento de finanças, apesar de trabalhar com os recursos financeiros da empresa, também tem seus gastos: os gastos com a manutenção do departamento – funcionários, equipamentos, materiaisde escritório – que não podem se confundir com a função do departamento, que é a de gerenciar os ativos da empresa em termos monetários. Enfim, o quanto gastar e o quanto destinar a cada departamento também requer orçamento e planejamento, por vezes, não determinados pelos departamentos pertencentes ao nível organizacional tático, T, e sim pelo estratégico, E. Exemplo de aplicação Lembre-se de que estamos apenas generalizando. Cada empresa com sua estrutura decide da melhor forma possível o que exemplificamos. Você poderia verificar na empresa em que trabalha de que forma o assunto aqui descrito é tratado. É um excelente exercício. É no nível estratégico, E, que estão as decisões estratégicas da empresa e que são, portanto, de longo prazo. Aqui estão os presidentes, vice-presidentes e demais “chefões” do maior nível organizacional de qualquer empresa. Suas decisões têm amplitude de planejamento de longo prazo, a exemplo de fusões e aquisições, ampliação de parque fabril, continuidade ou descontinuidade de linhas de produção, lançamento de novos produtos, abertura de novos mercados bem como de penetração internacional. Pode-se dizer que são decisões mais complexas em relação aos outros dois níveis e que têm repercussão em toda a empresa, para o progresso ou para o retrocesso, dependendo da decisão que foi adotada. Praticamente, todas as decisões tomadas em termos de planejamento de longo prazo trazem consigo também decisões orçamentárias. Pense naquela nossa empresa que produz relógios de parede. Suponha agora que ela também tenha interesse na produção de relógios de pulso. Você até pode pensar o seguinte: relógio é relógio. Porém, o de parede é diferente do de pulso e não são substitutos. Está bem: a empresa está então analisando a possibilidade de também produzir relógios de pulso. Quais são as alternativas apresentadas? Pensemos em uma e em seus desdobramentos: montar uma linha de produção na mesma fábrica, deslocando funcionários da linha de produção dos relógios de parede para os relógios de pulso. Esta opção parece interessante, porém, requer planejamento e orçamento? Sim, certamente. Primeiro a questão do planejamento, pois abrir nova linha de produto é tão arriscado quanto continuar naquela já estabelecida. Por que arriscado? Porque podem existir outras empresas no mercado e já bem consolidadas. Daí a importância de os níveis estratégico e tático caminharem juntos em termos de estudos e decisões. Quanto ao orçamento, logo de saída, há o custo de se fazer uma pesquisa de mercado para saber da existência ou não de reais possibilidades de a empresa entrar noutro mercado. Do que se apresentou na opção, outra questão que envolve planejamento: o deslocar de funcionários da linha de produção de relógios de parede para relógios para pulso. Pensemos: 58 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I • O processo de produção é o mesmo? • Se não for o mesmo, quanto custa desenvolver um novo projeto ou montar nova linha de produção? • Os dois tipos de produto utilizam o mesmo maquinário já instalado na fábrica? • Se não, quanto custa a mudança de equipamentos e quais são os novos fornecedores? • Há queda de produção nos relógios de parede que justifica o deslocamento de funcionários entre linhas de produtos? • O deslocamento de funcionários entre linhas de produção requer treinamento? • Se sim, quem deve ser treinado, quanto tempo perdurará o treinamento e a que custo? Poderíamos aqui levantar várias hipóteses além das apresentadas. O importante é que perceba que partimos de apenas uma opção para a empresa fabricante de relógios e abrimos um leque de opções em termos de decisões que poderão ser tomadas. Observação Se bem perceber, as indagações abrangem preocupações que estão no âmbito de todos os níveis organizacionais, estejam em termos de planejamento ou em orçamento. Acreditamos que você já tenha condições de raciocinar em termos da importância do planejamento e do orçamento no ambiente empresarial de forma abrangente. Se o caso se apresenta com certa complexidade, e veja que por vezes uma empresa trabalha apenas em um mercado específico, pense na maior complexidade quando o assunto é tratado do ponto de vista do setor público. Passaremos, na sequência, a tratar do planejamento no setor público. Resumo Esta unidade apresentou características acerca do subdesenvolvimentismo e do desenvolvimentismo. Vimos o que demarca uma economia subdesenvolvida em termos de produção e relação com demais setores da própria economia. A discussão apresentou uma visão teórica acerca do assunto, privilegiando considerações acerca de uma economia primária e suas relações com o mercado urbano industrial e de setor externo. 59 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Tratamos do modelo de substituição de importações como forma de fortalecimento de uma economia doméstica na tentativa de superar os entraves que são colocados por uma economia primária. Visões positivas do processo, bem como aquelas negativas, foram apresentadas. Viu-se que o modelo de substituição de importações se mostra importante na via da saída do subdesenvolvimento rumo às características do desenvolvimento. Caracterizamos o que vem a ser desenvolvimento, seus conceitos e visões, bem como as formas de mensurar o potencial de desenvolvimento econômico de uma nação. Partimos, então, para a visão do que seja desenvolvimentismo enquanto teoria e prática, ideologia e ação. Primordialmente colocada para a economia brasileira, expoentes de tal pensamento foram considerados. Na caracterização do desenvolvimentismo, percebeu-se que este pensamento prega a industrialização como forma de desenvolvimento econômico liderada pela ação do Estado, ora como complementar à iniciativa privada, ora como importante instrumento de regulação da atividade econômica e de suas falhas de mercado. Tratando das falhas de mercado, vimos quais são seus determinantes e formas de intervenção que se faz por planejamento estatal. Finalizamos a unidade tratando da questão do planejamento como atividade empresarial, que também pode ser aplicada à gestão pública. Exercícios Questão 1. (Enade 2006) Segundo dados recentes do Banco Mundial, o Brasil ocupou as seguintes posições em termos de ordenamento internacional: • 8º PNB; • 31º PNB per capita; • 72º IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Considerando esses dados, conclui-se que: A) eles refletem melhor desempenho em termos de desenvolvimento do que de crescimento econômico. B) o Brasil poderia ter uma situação pior na classificação, em termos de Produto per capita, caso fosse considerado o PIB e não o PNB. 60 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 Unidade I C) o IDH é melhor indicador que o PNB per capita para avaliar a qualidade do desenvolvimento de um país. D) o Índice de Gini, relativo à distribuição de renda, coloca o Brasil numa posição, entre os demais países, similar à de seu PNB. E) dos três indicadores, o IDH é o que menos reflete a realidade socioeconômica brasileira. Resposta correta: alternativa C. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: os dados correspondem a medidas tanto de crescimento econômico (PIB e PNB per capita) como de desenvolvimento econômico (IDH). B) Alternativa incorreta. Justificativa: se fosse considerado o PIB em vez do PNB, o Brasil teria uma melhor classificação, pois o PIB é maior que o PNB, devido a maior remessa de recursos que o recebimento de recursos do exterior. C) Alternativa correta. Justificativa: o IDH representa a melhor medida do desenvolvimento do que o PNB per capita, pois é uma medida que sintetiza a qualidade da educação, saúde e o próprio PNB per capita. D) Alternativa incorreta. Justificativa: o Índice de Gini no Brasil apresenta um alto nível de desigualdadena distribuição de renda, contrastando com a situação ilustrada pelo PNB brasileiro. E) Alternativa incorreta. Justificativa: o IDH reflete, dentre as medidas apresentadas, mais características sobre a sociedade de um país ou região. Questão 2. (Cesgranrio 2008) Segundo a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), vários problemas justificavam um esforço de industrialização baseado em proteção aduaneira e ações estatais na América Latina. Marque a opção que NÃO foi considerada um desses problemas. A) Os rendimentos crescentes da indústria (argumento da indústria nascente). 61 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : J ef fe rs on - 2 1/ 03 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA B) O desemprego decorrente do baixo crescimento da demanda internacional por produtos primários. C) A deterioração dos termos de troca entre produtos primários e industrializados. D) A instabilidade política e a presença de governos autoritários na região. E) A necessidade de grande quantidade de capital para iniciar a atividade em setores muito intensivos em capital. Resolução desta questão na plataforma. 62 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Unidade II Nesta unidade trataremos do planejamento no setor público como condição para crescimento e desenvolvimento econômicos. Veremos como, historicamente, o Estado brasileiro tratou a questão. 5 PLANEJAMENTO NO SETOR PÚBLICO Tratar do planejamento no setor público é pensar no longo prazo e nas ações que o governo deve realizar para que seus objetivos estratégicos sejam atingidos. Conforme bem coloca Lafer, B. (1975, p. 7): “o planejamento nada mais é do que um modelo teórico para ação. Propõe-se a organizar racionalmente o sistema econômico a partir de certas hipóteses sobre a realidade”. Tomando como inspiração o que a autora nos oferece, estabeleceremos aqui que há duas formas de organização da atividade econômica: descentralizada, predominante nas economias ocidentais, e centralizada, predominante nos casos em que impera o socialismo ou o comunismo. Observação Vamos explorar com maior preocupação a forma descentralizada, predominante nas economias modernas. A forma descentralizada, também chamada de economia de mercado, reúne três elementos principais: livre-iniciativa, presença do Estado e elementos de uma economia capitalista. No caso da livre-iniciativa, nenhum agente econômico – empresas, como produtoras e vendedoras de mercadorias, ou famílias, como fornecedoras de fatores de produção e consumidores de mercadorias – se preocupa em desempenhar o papel de gerenciar o bom funcionamento do sistema de preços. O agente econômico se preocupa em resolver isoladamente seus próprios negócios e sobreviver apenas na concorrência imposta pelos mercados, tanto na venda e compra de produtos finais como de fatores de produção. Trata-se de um jogo econômico, com base em sinais dados por preços estabelecidos nos diversos mercados. Trata-se de um agir egoísta que, no conjunto, resolve inconscientemente os problemas básicos da coletividade. Há uma espécie de mão invisível agindo sobre os mercados e operando como coordenadora das atividades econômicas e sociais. A ação conjunta dos indivíduos e das empresas permite que centenas de milhares de mercadorias sejam produzidas em um fluxo constante, mais ou menos voluntariamente, sem uma direção central. Quanto à organização racional do sistema econômico, a livre-iniciativa ajuda a responder ao problema econômico fundamental, resolvendo estas questões principais de um sistema econômico: • o que e quanto produzir? 63 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • como produzir? • para quem produzir? O que e quanto produzir são questões resolvidas pela procura dos consumidores no mercado: são eles quem dão sinais de mercado às empresas sobre o que elas precisam produzir. Portanto, o agente principal nesse processo é o consumidor, pois sua atuação determinará quais os produtos que serão fabricados. A questão sobre como produzir é determinada pela concorrência entre os produtores – pelo emprego do método de fabricação mais eficiente ou mais barato em que aquele produtor mais eficiente derrotará o produtor mais ineficiente. Por fim, a questão sobre para quem produzir será respondida pela oferta e demanda no mercado de fatores de produção, ou seja, pelo montante de renda individual. Esquematizando, tratar da organização racional do sistema econômico nada mais é do que considerar o fluxo circular da renda. Gasto($) (= PIB) Renda($) (= PIB) Receitas($) (= PIB) Salários, aluguéis, juros e lucros($) (= PIB) Mercado de produtos Mercado de produtos Famílias Empresas Bens e serviços comprados Terra, Capital, Trabalho e Empreendedorismo Bens e serviços vendidos Insumos para produção Fluxo de bens e serviços Fluxo de dinheiro Figura 12 – Fluxo circular da renda A livre-iniciativa opera conforme demonstrado pelo fluxo circular da renda: as famílias dão sinais de mercado, às empresas do que elas necessitam consumir e, portanto, sinalizam às empresas, o que estas devem produzir. Para tanto, as empresas também dão sinais de mercado de que é necessário empregar fatores de produção (terra, trabalho, capital, tecnologia e capacidade empresarial) e em quais quantidades. Desses sinais de mercado, do que produzir e quanto empregar de fatores de produção, chega-se à determinação dos preços das mercadorias e dos fatores de produção. Esse é o motivo de a 64 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II livre-iniciativa também ser chamada de sistema de preços como coordenador das decisões de milhões de unidades econômicas. Então, além de o fluxo circular da renda demonstrar os fluxos monetário e real, ele demonstra a existência de um mercado de bens e um mercado de fatores. Quando as empresas destinam bens e serviços às famílias, estamos trabalhando com um mercado de bens no qual serão estabelecidos os preços das mercadorias transacionadas, bem como suas quantidades. Quando as famílias destinam fatores de produção às empresas, estamos trabalhando com um mercado de fatores de produção, em que são estabelecidos os preços desses fatores, bem como as quantidades de fatores utilizadas pelas empresas. O sistema de preços determina preços e quantidade de equilíbrio, pois os consumidores estabelecem os preços máximos que desejam pagar pelo consumo das mercadorias e os produtores estabelecem os preços mínimos que desejam pagar pela utilização dos fatores de produção. No que diz respeito ao Estado, dadas as imperfeições apresentadas pelo sistema de preços da livre-iniciativa, ele surge para regulamentar essas atividades. Lembrete A introdução do governo nesse modelo simplificado não o modifica, pois o governo exerce funções normativas e regulatórias ao participar dos fluxos econômicos fundamentais. Sendo o governo um agente econômico como outro qualquer, ele se apropria de uma parte da renda e, com ela, proporciona à sociedade o suprimento de bens e serviços de uso coletivo que, de outra forma, não seriam disponibilizados. Para tanto, ele também emprega e paga fatores de produção interagindo, assim, com as unidades familiares. Possui, ainda, a função de adquirir produtos das empresas. Quanto aos elementos de uma economia capitalista, esse sistema se caracteriza por uma organização econômica baseada na propriedade privada dos meios de produção, isto é, os bens de produção ou de capital. Os elementos são: • capital; • propriedade privada dos meios de produção, dada a existência do capitalista; • divisão do trabalho através da especialização do trabalho e da mecanização da produção; • moeda. 65 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Saiba mais Caso ache interessante aprofundarseus conhecimentos acerca dos elementos de um sistema de capital, leia: DOWBOR, L. O que é capital. São Paulo: Brasiliense, 1982. É possível perceber que vivemos em uma sociedade baseada nas trocas que ocorrem através do mercado. Nessa sociedade, o agente busca individualmente solucionar o seu problema econômico. Para isso, de forma racional, ele dá em troca à sociedade, no mercado, o que detém, recebendo, também no mercado, o que necessita e não detém. Se Adam Smith estivesse explicando tal sociedade, diria o seguinte: [...] não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua autoestima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles (SMITH, 1983, p. 50). Nessa sociedade, de forma anárquica – afinal, cada agente cuida de si –, emergiria o bem-estar coletivo. Portanto, uma vez que cada um cuida de si, vemos que a competição é um fator inerente e determinante em uma economia de mercado: todos os agentes se movimentam pelo interesse próprio, fazendo escolhas racionais com o intuito de obter mais poder de mercado que os demais agentes e, com isso, minimizar as suas restrições na busca da maximização do seu benefício individual. Assim, na economia de mercado, vemos que a relação de troca das mercadorias é peça-chave na solução do problema econômico, individual e coletivo. Nas economias modernas, por uma questão de eficiência e necessidade, as trocas são intermediadas pela moeda. Por exemplo, no mercado, não trocamos trabalho por roupas. De fato, primeiro vendemos trabalho no mercado e, com o dinheiro apurado nessa venda, compramos no mercado as roupas que desejávamos. Portanto, na economia de mercado em que vivemos, as trocas, de fato, ocorrem, não mercadoria por mercadoria, mas, sim, mercadoria por dinheiro (vendas) e dinheiro por mercadoria (compras). De forma nítida, estamos tratando de trocas: empresas produzindo mercadorias para consumo da sociedade em troca de recursos, no caso monetário, que serão aplicados novamente na produção de mais mercadorias, e assim por diante. Pessoas trabalham para empresas e, em troca de sua força de trabalho, recebem salário na forma de dinheiro para destinar ao consumo de mais mercadorias. Para Jorge e Moreira (1990, p. 27), qualquer que seja a forma de organização da atividade econômica de uma comunidade, [...] os seus objetivos são muito semelhantes: busca-se 66 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II otimizar a satisfação do indivíduo, de um lado e, de outro, maximizar a eficiência produtiva. Ademais, em um sistema de livre-iniciativa empresarial, impera a propriedade privada dos bens de produção ao lado das decisões sobre o que e quanto produzir fundamentadas no mercado e nos preços. As atividades econômicas são, portanto, dirigidas e controladas unicamente por empresas privadas, que competem entre si. Daí a alcunha de “economia de mercado”, porque o mercado é o habitat natural das empresas (JORGE; MOREIRA, 1990, p. 29). Quanto à segunda forma de organização da atividade econômica, ou seja, a forma centralizada, quem responde ao problema econômico fundamental é um órgão planejador central (JUDENSNAIDER; MANZALLI, 2011). Para Lafer, B. (1975), nesse tipo de organização, a alocação de recursos é efetuada em termos quantitativos de forma independente da economia de mercado. Apenas para dar um exemplo: desde a revolução que destituiu Batista e levou Fidel Castro ao poder cubano, é o governo quem decide o que cada um deve produzir e o que cada agente deve consumir. O princípio que norteia essas decisões é o socialista, que prevê que cada um deve contribuir/consumir de acordo com sua capacidade e com seu trabalho. Do ponto de vista prático, as vendas são realizadas através de libretas, criadas em 1962, e que representam o conjunto de mercadorias que podem ser consumidas por cada pessoa. A quantidade e tipos de produtos foram os seguintes: em todo o território nacional, 2 libras de gordura comestível, óleo ou banha de porco ao mês; 6 libras de arroz por pessoa ao mês; 13 libras e meia de feijões de qualquer tipo, grão-de-bico, ervilhas ou lentilhas por pessoa nos nove mêses seguintes. Na cidade de Havana, (...) uma barra de sabão por pessoa ao mês; um pacote médio de detergente por pessoa ao mês; um sabonete por pessoa ao mês; um tubo grande de creme dental para cada duas pessoas ao mês. Na cidade de Havana, três quartos de libra de carne de gado por pessoa por semana; 2 libras de frango por pessoa ao mês; meia libra de peixe de escama, limpo e em posta, por pessoa ao mês; cinco ovos por pessoa ao mês; um litro de leite diário para cada criança de menos de sete anos e um litro diário para cada 5 pessoas maiores de 7 anos (PIÑEDA, 2001 apud CARCANHOLO; NAKATANI, 2002, p. 142). Judensnaider e Manzalli (2011) levantam o seguinte questionamento: a pergunta a ser respondida, agora, é: qual o tipo de sistema da maior parte das economias nos dias de hoje? Dizemos que elas são economias mistas e que combinam características das economias de mercado e das economias centralizadas. Para Hubbard e O’Brien (2009, p. 66), uma economia mista ainda é primordialmente uma economia de mercado com a maioria das decisões econômicas sendo resultantes da interação entre compradores e vendedores em mercados, mas em uma economia mista, o governo desempenha um papel significativo na alocação dos recursos. 67 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA De acordo com Lafer, B. (1975), nas economias capitalistas, a necessidade de planejamento relaciona-se com objetivos econômicos e sociais derivados das falhas de mercado que impedem o Ótimo de Pareto. Diante de crises cíclicas do capitalismo, cada uma delas mais profunda do que as anteriores em impacto no mundo do emprego e no crescimento econômico, a adoção “de modelos racionais de política econômica” poderia permitir a alocação ótima de recursos. Não há que se pensar que o planejamento governamental sirva para substituir a economia de mercado, mas apenas para corrigir suas imperfeições, “aproximando a alocação de recursos correspondente a um ótimo pareteano e aumentando a eficiência dinâmica do sistema, ou seja, promovendo o desenvolvimento econômico” (LAFER, B., 1975, p.16). Ainda, em economias capitalistas, o planejamento dá-se em diferentes níveis de elaboração, abrangendo uma parte ou a totalidade da população de um país; sendo esta de caráter mais geral, é a mais importante para efeito deste estudo. Observação Quando tratamos o assunto do ponto de vista do setor privado, a abordagem também foi por diferentes níveis hierárquicos. Tomada pelo nível estratégico, a abordagem pode ser por planejamento parcial ou geral, da mesma forma que com o governo: parcial = setores (departamentos); geral = toda a sociedade (os envolvidos). O planejamento global visa ao crescimento e ao desenvolvimento econômico a ser conquistado via equilíbrio entre a oferta e a demanda de bens em todos os setores da economia, indistintamente (LAFER, B., 1975). Afinal, os objetivos estão no ampliado da sociedade. Um país que esteja experimentando pela primeira vez a estratégia de planejamento não se dedica especificamente a entender pormenorizadamente as condições econômicas de setores isolados. Começa, na maioria das vezes, com um amplo programa de investimentos públicos nas áreas de transportes, energia, educação e saúde, que vão além de seu orçamento. Aqui, o maior destaque é para as áreas que receberão investimentos em detrimento da importância de seu orçamento. Motivo: criação da demanda derivada e de mercado correlacionados aos setores privilegiados. Vamos explicar melhor o que acabamos de afirmar. Pense em um governo disposto a ampliar e melhoraro atendimento de saúde para sua população. Bem, sabemos que o atendimento em saúde se dá em hospitais, ambulatórios, postos de atendimento à saúde e demais formas, até em ambulâncias. Assim, para esse governo melhorar o sistema de saúde para sua população, precisará: • construir hospitais, ambulatórios, postos de atendimento; • contratar médicos, enfermeiros, atendentes e preencher vagas para todas as demais atividades que são exercidas no local; • adquirir os equipamentos necessários para que o hospital tenha condições de funcionar, a exemplo de macas, estetoscópios, aparelhos de raio x e tantos outros que sua mente puder lembrar neste momento; 68 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II • fornecer materiais de uso diário, como medicamentos, esparadrapos, gazes, seringas, gesso e tudo o mais que médicos e enfermeiros necessitam para bem poder exercer sua profissão quando necessário; • comprar ambulâncias. Vamos adiante para entender a demanda derivada. Para a construção do hospital, há a necessidade de um espaço territorial. Digamos que seja de domínio do próprio Estado e que não haja necessidade de adquirir de pessoa física. Mesmo assim, há demanda derivada e desenvolvimento de novos negócios. Para a construção física do hospital, existe a necessidade de o governo adquirir materiais de construção civil de alguma empresa que fornecerá tijolos, blocos, cimento, areia, pedras de construção. Alguma empresa receberá por essa venda, e da mesma forma, alguma pessoa receberá salário pelo trabalho ali desempenhado. Mentalmente, nesse momento, nosso hospital já está montado. Médicos e enfermeiros trabalhando, recebendo seus salários e consumindo nos diferentes mercados aquilo que desejam: roupas, alimentos, eletroeletrônicos, educação para os filhos etc. Indústrias farmacêuticas produziram medicamentos e também venderam ao hospital; seus funcionários também recebem salários e adquirem tudo o que desejam em diferentes mercados: roupas, alimentos, eletroeletrônicos, educação para os filhos etc. A indústria automobilística aumentou a produção do tipo de veículo atendendo à nova demanda do hospital, e o motorista da ambulância – que foi contratado pelo hospital – está até pensando em fazer uma reforma em sua casa, adquirindo novos produtos oferecidos pelo mercado da construção civil, além de investir em mais roupas, alimentos, eletroeletrônicos, educação para os filhos etc. Observação A simples iniciativa do governo de investir em uma área específica – saúde – causa um efeito positivo em toda a sociedade. É isso que chamamos de demanda derivada, efeito cascata, ou, se preferir, efeito dominó: uma cadeia de produção puxa a outra. Para Lafer, B. (1975, p. 17), a técnica do planejamento, em suas linhas gerais, consiste em [...] a) dar coerência aos objetivos; b) prever o crescimento da demanda caso esses objetivos sejam atingidos; c) assegurar o crescimento da produção em níveis compatíveis com a demanda, usando os recursos para a máxima eficiência; d) assegurar o crescimento da oferta de fatores de produção. O exemplo do hospital para a melhoria do setor de saúde combina muito bem com a colocação de Lafer, B. (1975). Vamos entender o motivo. 69 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • “Coerência aos objetivos”: a melhoria do sistema de saúde e a construção de um hospital são bastante coerentes noq ue se refere a planejamento governamental. O governo está cuidando da saúde de sua população, que terá maiores condições de produzir para o próprio país. • “Prever o crescimento da demanda”: se o atendimento na saúde pública for coerente e satisfatório, a população tenderá a procurá-la mais vezes, podendo deixar de lado a saúde privada, por exemplo. • “Assegurar o crescimento da produção em níveis compatíveis com a demanda, usando os recursos para a máxima eficiência”: com o desenvolvimento das sociedades modernas, e com o avanço da medicina, novos cuidados com a saúde – e novas doenças – vão surgindo, de forma que o crescimento de especialidades para atendimento às novas demandas é um fato. • “Assegurar o crescimento da oferta de fatores de produção”: significa que sempre haverá investimentos no setor, tanto em manutenção quanto em modernização, para que sua função seja permanentemente exercida. Do que vimos até o momento, é possível dizer que o planejamento consiste em apontar o caminho mais racional do desenvolvimento, considerando as características da economia que se está analisando. Mesmo reconhecendo tal fato, “o problema que se coloca é saber se o governo dispõe de instrumentos suficientes para alocar os recursos de acordo com a orientação do plano” (LAFER, B., 1975, p. 21). Nesse sentido, os instrumentos de que o governo dispõe são muitos. Ele pode, via tributação, induzir investimentos privados. Suponha que a opção daquela empresa de produção de relógios seja pela construção de outra fábrica, uma filial, em uma outra localidade – outra cidade. A prefeitura dessa cidade pode ceder alguns tipos de benefícios fiscais para que o investimento seja viabilizado. De forma não tão direta como a identificada, o governo pode ainda induzir, via políticas cambial e monetária, novos investimentos, mas que ficariam na decisão do empresário da iniciativa privada. Quanto aos investimentos públicos, o governo tem controle, sendo necessário porém haver coordenação entre os orçamentos públicos, os órgãos executivos e o organismo encarregado do planejamento. A organização administrativa, portanto, é fundamental para a execução das metas do plano (LAFER, B., 1975, p. 21). Matias-Pereira (2012) complementa que o planejamento deve ser visto como um conjunto de ações interligadas e que se complementam entre diferentes instâncias governamentais para que seu real objetivo seja conquistado. São atividades contínuas e que se apresentam por ciclos que envolvem estudos, além de decisões táticas e estratégicas na formulação de planos e programas, bem como acompanhamento e controle de sua execução. A figura a seguir apresenta o planejamento como processo. 70 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Estudos Decisões estratégicas e táticas Formulação de planos e programas Controle da execução Avaliação Alocação de recursos Acompanhamento Estratégias da organização governamental Objetivos da organização governamental Fe ed ba ck Figura 13 – Planejamento como processo Pela concepção de planejamento como processo sistemático, vê-se claramente que atende às questões de gestão ligadas à área de administração. O ponto de partida são os objetivos e as estratégias organizacionais seguidas por fases que se pode chamar de planejamento, execução, controle e avaliação em um processo que se retroalimenta. Matias-Pereira (2012, p. 282, grifo nosso) complementa: O planejamento [...] é um processo dinâmico de racionalização coordenada das opções, permitindo prever e avaliar cursos de ação alternativos e futuros, com vistas na tomada de decisões mais adequadas e racionais. A execução consiste em fazer com que as tarefas sejam realizadas de acordo com o plano, isto é, organizar e distribuir tarefas e delegar autoridade para a execução. O controle é o conjunto de ações para que as pessoas se comportem da forma determinada pelo plano, para isso comparando-se o previsto com o realizado, verificando-se os desvios e tomando-se as providências corretivas. E constituindo-se de certa forma um controle, podemos considerar, finalmente, a avaliação de resultados, após o que inicia-se novo ciclo. 71 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Então, quais são as formas de se implementar um planejamento? Matias-Pereira (2012) diz que se poderá optar pela via: • democrática, quando a intençãogovernamental for oferecer condições de o setor privado participar ou tomar as iniciativas que, de alguma forma, foram induzidas pelo governo; • totalitária, quando o agente governamental tiver por intenção controlar as ações dos diversos setores econômicos; • mista, em que há intervenção e ação direta em setores específicos. A partir do momento em que se reconhece o planejamento como um processo, é possível perceber que ele vai além de um simples plano ou projeto. Estes últimos são utilizados como guias para que os objetivos sejam conquistados com mais efetividade. Assim, o planejamento econômico apresenta-se como um processo de elaboração, execução e controle de um plano maior, qual seja, o de desenvolvimento, “a partir do qual se fixam objetivos gerais e metas específicas, assim como a ordenação do elenco de decisões e providências indispensáveis para a consecução desses objetivos” (MATIAS-PEREIRA, 2012, p. 280). A história mostra que diante de falhas de mercado e na tentativa de atender às demandas da sociedade por bens públicos a intervenção do Estado na economia se fez crescente notadamente em países não desenvolvidos. Nesse quadro, é possível perceber que o planejamento econômico é utilizado como instrumento tanto de administração pública quanto privada no uso de recursos escassos a fim de atender ao que se demanda. Matias-Pereira (2012) sustenta que o planejamento econômico tem os principais objetivos: • aumentar a renda nacional; • aumentar o emprego; • melhorar a posição do balanço de pagamentos; • diminuir os desníveis regionais; • melhorar a distribuição da renda; • aumentar a produtividade do setor agrícola; • manter uma taxa adequada de crescimento real da renda nacional; • promover a ocupação territorial, a integração nacional e a exploração dos recursos naturais; • atingir níveis adequados de segurança e bem-estar social. 72 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Lembrete Os objetivos que aqui foram declarados combinam com os objetivos principais de qualquer governo que apresentamos na unidade anterior. 6 RESGATE DAS INICIATIVAS DE PLANEJAMENTO NO BRASIL: BREVE REVISÃO Antes de tratarmos da evolução histórica do planejamento no Brasil, é extremamente importante ter em mente o que ressalta Matias-Pereira (2012, p. 284): O Estado tem função explícita de planejamento. O planejamento governamental, portanto, além de um instrumento de ação pública, deve ser visto como uma imposição constitucional. Isso está explícito na Constituição Federal de 1988, por meio de vários dispositivos, que lhe conferem caráter imperativo, ao estabelecer a obrigatoriedade de formulação de planos, de forma ordenada e sequencial, para viabilizar o alcance dos objetivos previamente estabelecidos, que buscam o atingimento do progresso econômico e social. Conforme ressaltam Giambiagi e Além (2008), a expansão das atividades do Estado no Brasil não decorreu de uma atitude deliberada do Estado com vistas a ocupar o espaço do setor privado. Inevitável, procurou: • expandir a produção no País em decorrência de um setor privado restrito; • atenuar as tensões internas provocadas por efeitos de crises internacionais; • controlar a expansão do capital estrangeiro em áreas de interesse público, bem como nas áreas de exploração de recursos naturais; • promover a industrialização do País de forma rápida. Observação De forma generalizada, é possível compreender que o planejamento no Brasil é tomado como um processo racional que, pelo emprego dos instrumentos de política monetária, cambial, creditícia e tributária – para citar algumas -, induz a iniciativa privada a tomar decisões de produção e investimento que ofereçam condições para a conquista dos objetivos de desenvolvimento e planejamento governamental. Fala-se, portanto, de um Estado desenvolvimentista que, liderando um processo de substituição de importações, coloca o país na rota do crescimento econômico induzido pela produção interna em 73 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA diferentes áreas, inicialmente na infraestrutura, em que prevalecem os investimentos públicos seguidos pelos investimentos privados em setores induzidos pelo Estado. Qual a ideia principal? Frear importações de bens finais e induzir a produção interna com o intuito de abastecer o mercado interno conforme a demanda se apresenta. Em termos de cronologia, no Brasil, até a década de 1930, é difícil afirmar a existência de planejamento econômico propriamente dito. Ações isoladas com relação à agricultura, preservação do capital estrangeiro, políticas de preços mínimos, apoio seletivo a alguns setores industriais, a exemplo do têxtil, foram algumas iniciativas. A década de 1930 será decisiva para o assunto. Devido aos efeitos da crise internacional, a diversificação industrial terá papel de destaque perante as autoridades governamentais. Durante essa década, conforme Giambiagi e Além (2008), a ação do Estado manifesta-se nas seguintes frentes: • controle de preços nos setores de água, energia e combustível; • manutenção dos lucros no setor cafeeiro via controle de preços; • administração de taxas de juros; • criação de autarquias; • proteção à indústria local; • criação de linhas de financiamento em favorecimento aos setores agrícola e industrial, com forte expressão do Banco do Brasil. As iniciativas adotadas na década de 1930 foram decisivas para que o período seguinte prosperasse na formação do setor produtivo estatal. Porém, como salienta Lafer (1975, p. 29-30), A partir da década de 1940 várias foram as tentativas de coordenar, controlar e planejar a economia brasileira. Entretanto, o que se pode dizer a respeito dessas tentativas até 1956 é que elas foram mais propostas como é o caso do relatório Simonsen (1944-1945); mais diagnósticos como é o caso da Missão Cooke (1942-1943), da Missão Abbink (1948), da Comissão Mista Brasil-EUA (1951-1953); mais esforços no sentido de racionalizar o processo orçamentário como é o caso do Plano Salte (1948); mais medidas puramente setoriais como é o caso do petróleo ou do café do que experiências que pudessem ser enquadradas na noção de planejamento propriamente dito. Observação O Plano Salte, lançado durante o governo Dutra, ganhou esse nome, pois a prioridade estava na melhoria dos setores saúde, alimentação, transporte e energia. 74 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II No que diz respeito à evolução da participação estatal na economia, é interessante destacar que nesse período surgem as empresas estatais para dar suporte infraestrutural ao processo de industrialização brasileira. Além dos investimentos em hidrelétricas, demais empresas foram criadas. Para citar algumas e seu período de surgimento, temos: • 1942: são criadas a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD); • 1943: é criada a Fábrica Nacional de Motores (FNM); • 1952: surge o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), que viria posteriormente a ser chamado de Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); • 1953: é criada a Petrobras. Os anos 1950 são marcados pela consolidação do nacional-desenvolvimentismo enquanto projeto industrializante. Sob a batuta de Juscelino Kubitschek e sua orquestra conhecida como “50 anos em 5”, ou seja, cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo, é lançado o Plano de Metas. Contando com capitais estatal, privado e estrangeiro, o plano propunha expansão da indústria nacional por parte da iniciativa privada apoiada por investimentos infraestruturais que dariam suporte à industrialização. Ao setor estatal, basicamente caberiam investimentos nos setores de: • energia e transporte; • siderurgia; • petróleo. Ao setor privado, caberiam investimentos em: • indústria de transformação nos setoresde insumos básicos e bens de capital, a exemplo da metalmecânica; • distribuição e fornecimento no setor de autopeças e apoio a grandes multinacionais. A tabela a seguir sumariza os investimentos previstos pelo Plano de Metas para o período 1957-1961. Tabela 3 – Investimentos do Plano de Metas Setores Participação do Investimento Total (%) Energia 43,4 Transportes 29,6 Indústrias básicas 20,4 Educação 3,4 Alimentação 3,2 Fonte: Giambiagi e Além (2008, p. 68). 75 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Lafer (1975) destaca que devido à complexidade e à arquitetura, bem como ao alcance de suas propostas em objetivos, o Plano de Metas pode ser considerado como a primeira experiência de planejamento governamental efetivamente posta em prática no Brasil. Ainda: Daí a importância do estudo do Plano de Metas se se deseja conhecer não só a evolução histórica do planejamento no Brasil como também as condições atuais do planejamento no País, as quais resultam em parte de determinadas opções tomadas e desenvolvidas naquele plano e, em parte, do progresso mais recente na aplicação de novas metodologias (LAFER, C., 1975, p. 30). Com base em Nascimento (2014), além da construção da nova capital federal do País, a cidade de Brasília, é possível destacar pontos positivos e negativos do Plano de Metas, por exemplo: • crescimento de aproximadamente 80% na produção industrial, notadamente em setores de aço, mecânico, elétrico, de comunicação e também de transporte; • crescimento da produção de automóveis e caminhões; • incentivo à entrada de capital estrangeiro, auxiliando investimentos privados; • ingresso de empresas multinacionais no mercado doméstico, diversificando a produção industrial; • uso da tecnologia como indutora do crescimento de produtividade; • economia doméstica dependente de importação tecnológica e de bens de capital; • dificuldades de fechar contas em balanço de pagamentos. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o setor público prosseguiu ampliando a sua participação direta no setor produtivo, aprofundando a aliança entre “militares e tecnocratas” (GIAMBIAGI; ALÉM, 2008, p. 70). Em se tratando de Estado no Brasil, a ação dos governos militares seguia, conforme Brum (1997), quatro diretrizes básicas: • criar e assegurar condições para o crescimento econômico acelerado; • consolidar o sistema capitalista no Brasil; • aprofundar a integração da economia brasileira no sistema capitalista internacional; • transformar o Brasil em potência mundial, retirando-o da condição de país subdesenvolvido. Ainda no regime parlamentarista e sob o governo João Goulart, em 1962, é lançado o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social que compreenderia o período entre 1963 e 1965. A principal preocupação do Plano era a inflação, e seu elemento impulsionador, o excesso de demanda, sustentada 76 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II por elevação de gastos públicos. Nascimento (2014) aponta algumas metas e medidas adotadas pelo Plano. Como metas: • crescimento do produto nacional de aproximadamente 7% com o objetivo de melhorar a repartição, bem como o nível de vida da população; • promoção da reforma agrária; • melhoria do relacionamento financeiro com o setor externo via refinanciamento de dívidas; • diminuição da pressão inflacionária até 1965 de forma que a variação de preços não ultrapasse 10%; • melhoria na qualidade do ensino. Com relação à inflação, o Plano propunha: • programação para gradual redução dos gastos públicos; • diminuição da liquidez via captação de recursos do setor privado no mercado de capitais; • política fiscal restritiva, notadamente quanto à elevação da tributação. Para Macedo (1975), o Plano não passava de uma mera pretensão de implantação de planejamento econômico no País, e um dos motivos de seu fracasso foi a derrubada do governo da época no ano de 1964. Por sua vez, Nascimento (2014) considera ter sido o Plano Trienal um marco no que se refere a abordar questões globais da economia, objetivando mudanças estruturais, a exemplo da valorização dos recursos humanos, correção das disparidades regionais, organização do setor público e melhorias nas condições institucionais. No período seguinte, 1964-1967, sob o regime militar e por meio do Ato Institucional nº 1, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco assume a presidência do País. Neste governo, • foram criados instrumentos de controle quanto à informação; • eliminou-se o direito à greve; • surgiram as eleições indiretas para governos estaduais; • instituiu-se o cruzeiro novo como moeda corrente; • criam-se o Banco Central do Brasil e o Banco Nacional da Habitação (BNH); • institui-se a correção monetária; • institucionaliza-se o regime autoritário no País. 77 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA De forma análoga ao Plano Trienal, esse período também é marcado pelo controle inflacionário e busca colocar novos capitais internacionais para fomentar os investimentos internos. Para Nascimento (2014, p. 27), Uma característica do crescimento econômico brasileiro pós-1964 foi o grande e crescente envolvimento do Estado na economia. As empresas públicas dominavam o aço, a mineração, os produtos petroquímicos e a energia elétrica. Além disso, observa-se no período o desenvolvimento dos bancos estatais. Observação O processo de desenvolvimento brasileiro no período pós-guerra teve como elemento principal o modelo de substituição de importações, grande responsável pela industrialização e modernização do parque produtivo do País. O modelo de substituição de importações foi extremamente importante no processo de industrialização do País; porém, quando esse processo começa a dar sinais de esgotamento, a economia brasileira não consegue continuar sua trajetória de crescimento. Assim, um período de estagnação se verifica devido a instabilidades e distorções provocadas. Dentre tais distorções, Martone (1975) destaca: • o processo inflacionário presente em todo o período das iniciativas de industrialização; • o sentido capital intensivo dado ao processo de industrialização no lugar da mão de obra intensiva; • a crescente presença do setor público em diversos ramos da economia; • a estagnação produtiva no setor agrícola. Diante das distorções somadas à crise política vivida pelo País à época, insere-se um novo plano para o período entre 1964 e 1966: o Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg). O Paeg surge como tentativa de recolocar a economia brasileira na trajetória de desenvolvimento com a formulação de uma política econômica capaz de eliminar as fontes internas de estrangulamento que freavam as condições de crescimento da economia. Após efetuar um diagnóstico bem apurado das condições da economia brasileira, foram estabelecidos os objetivos do plano. Uma vez caracterizada a inflação como uma das causas importantes na explicação das baixas taxas de crescimento do período 1962-1964, o Paeg procura formular uma interpretação do processo inflacionário brasileiro. 78 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Observação Da análise efetuada é possível entender que a origem histórica do processo inflacionário reside no custo interno elevado derivado da substituição de importações. Como a política desenvolvimentista adotada foi aquela por substituição de importações, na medida em que o produto antes importado passa a ter produção doméstica, criam-se barreiras alfandegárias para proteção do produto nacional, ainda que essa produção implique inicialmente custos maiores para o consumidor do que os do similar importado. O fato é que, em ambiente de economia fechada sem relações comerciais com o exterior, o custo interno de produção se eleva, o que automaticamente é repassadopara os preços. Assim, produção crescente eleva custos e preços, impulsionando a necessidade do uso de maior quantidade de moeda para que as compras sejam efetivadas. Resultado: aprofundamento do processo inflacionário. Vejamos o que explica Martone (1975, p. 73): [...] o plano interpreta o processo inflacionário brasileiro como o reflexo de uma inconsistência do ponto de vista da distribuição da renda: de um lado, o Governo procura injetar na economia um volume maior de recursos do que o poder de compra dela retirado, gerando déficits crônicos no orçamento federal; de outro lado, forma-se uma luta constante entre empresas e assalariados pela fixação dos salários nominais, redundando na famosa espiral preços-salários e pressionando o nível de demanda monetária para cima. Inicialmente, e em caráter de urgência, é preciso retomar a trajetória de desenvolvimento econômico combatendo as fontes de distorções da economia (MARTONE, 1975). Na sequência, combater fervorosamente o processo inflacionário, e, ainda, promover a melhoria das condições sociais via diminuição das desigualdades setoriais e regionais. Lembrete A estratégia do Paeg residia no objetivo de diminuir, ou até eliminar, toda e qualquer demanda que excedesse a capacidade de oferta para procurar diminuição de preços. Para tanto, foi necessário tornar compatíveis três políticas: • revisão da política de crédito ao governo, com o intuito de procurar diminuir o custo do endividamento governamental; • política de crédito ao setor privado, procurando fazer que a expansão do crédito pelo sistema bancário acontecesse concomitantemente ao crescimento do produto nacional; 79 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • política salarial, na tentativa de eliminar a instabilidade dos salários reais verificada nos últimos anos procurando mantê-los, por correção monetária, no mínimo constante. Anteriormente, afirmamos que toda técnica de planejamento deve levar em consideração a coerência entre objetivos. Assim, percebe-se a coerência entre as três políticas adotadas pelo PAEG. Em relação à coerência das políticas, Martone (1975, p. 79) explica: A compatibilização entre os três elementos básicos da estratégia de combate à inflação exposta acima é quase evidente. Na medida em que o Governo tivesse êxito na contenção do déficit orçamentário ou conseguisse financiá-lo por vias não inflacionárias, os meios de pagamento não teriam que ser expandidos. O crédito às empresas, então, permaneceria relativamente estável, não provocando aumentos de liquidez perigosos do ponto de vista da inflação e, simultaneamente, o mecanismo de correção salarial evitava pressões sobre os custos e sobre a demanda agregada. Nessas condições, as causas monetárias da inflação estariam rigidamente sob o controle do Governo. A década de 1970 é de relevante importância, notadamente pelo “milagre econômico”, ou “milagre brasileiro”, que compreende o período entre 1968 e 1973. Tratamos aqui, então, dos Governos Costa e Silva para o período 1967-1969 e Médici para 1969-1974. Para o período Costa e Silva, há de se destacar, no âmbito econômico, o Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED) no período 1968-1970. Tal plano almejava sustentar o crescimento econômico apoiado em uma política comercial expansionista, utilizando como instrumentos a isenção de impostos ao exportador combinada com a adoção de minidesvalorizações da moeda nacional da época. Com relação ao lado social, em dezembro de 1970, o governo lança dois programas favorecendo assalariados e servidores públicos: o Programa de Integração Social e o Programa de Assistência aos Servidores Públicos, conhecidos mais tarde como PIS-Pasep, que, junto ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), configura-se como forma de a população exercer alguma poupança e o governo dela se utilizar, por algum período, devolvendo quando de direito (FURTADO, 1997). Observação A Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) surgiram também nesse governo, que enfrentou, logo em seu início, uma grande onda de protestos. Nascimento (2014, p. 28) destaca que: talvez o ano de 1968, no campo político, tenha sido um dos anos mais conturbados do século em todo o mundo, e também foi um período 80 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II movimentado no Brasil. A radicalização política ficou dia a dia maior; greves em Osasco/SP e Contagem/MG abalaram a economia nacional; a formação da Frente Ampla (aliança entre Jango, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda contra o regime); o caso Edson Luis; a Passeata dos Cem Mil e o AI-5 são alguns dos exemplos da agitação nacional. O governo seguinte, Médici (1969-1974), também é marcado pelo fervor da repressão política, pela censura aos meios de comunicação e pelas denúncias de tortura a presos políticos. No lado econômico, observa-se conjuntura internacional favorável oferecendo condições de expansão para a economia brasileira. Destaca-se o Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento – I PND –, a ser posto em prática durante o período 1972-1974, cuja bandeira seria a de elevar o Brasil à categoria de país desenvolvido que, elaborado em clima de euforia de crescimento econômico, incorporou a si mesmo o conceito de “Modelo Brasileiro e Estratégia de Desenvolvimento”, embora, na realidade, ficasse circunscrito ao desenvolvimento setorial, não indo muito além da produção de bens de consumo duráveis (FURTADO, 1997, p. 199). Não obstante demais medidas adotadas no período, bem como do desenvolvimento da economia brasileira da época, o período compreendido pelos dois governos ficou conhecido como milagre econômico por ter apresentado as maiores taxas de crescimento do produto brasileiro até aqui percebidas. Pode-se dizer que a expansão da economia brasileira foi decorrente das reformas institucionais promovidas no período militar e da recessão do período anterior, que geraram uma capacidade ociosa no setor industrial e as condições necessárias para a retomada da demanda. Conforme Gremaud, Toneto Jr. e Vasconcellos (2002), para o período até então considerado, a taxa média de crescimento do produto situou-se acima dos 10% a.a., como pode ser verificado na tabela a seguir: Tabela 4 – Produto: taxas de crescimento e inflação em %: 1968-1973 Ano PIB Indústria Agricultura Serviços Inflação 1968 9,8 14,2 1,4 9,9 25,4 1969 9,5 11,2 6,0 9,5 19,3 1970 10,4 11,9 5,6 10,5 19,3 1971 11,3 11,9 10,2 11,5 19,5 1972 12,1 14,0 4,0 12,1 15,7 1973 14,0 16,6 0,0 13,4 15,6 1974 8,2 8,5 1,3 10,6 34,5 1975 5,6 6,2 3,4 11,8 29,3 1976 9,0 10,7 4,2 7,5 46,3 1977 4,7 3,9 9,6 4,1 38,8 1978 5,0 6,4 -2,7 6,2 40,7 Fonte: Gremaud, Toneto Junior e Vasconcellos (2002, p. 398); Brum (1997, p. 323-335). 81 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Pode-se perceber um interessante crescimento do PIB no período do milagre econômico, conjugado com a diminuição nos índices de inflação. Porém, o País não conseguiria sustentar nos anos seguintes o mesmo feito; a partir de 1974, o crescimento do PIB tende ao declínio. O fato é que o mundo foi surpreendido pela primeira crise do petróleo, o que repercutiu profundamente na economia mundial e na economia brasileira. O que a elevação do preço do petróleo representou? Como o Brasil não era autossuficiente em petróleo, ou seja, como não havia produção interna que conseguisse atender toda a demanda, parte do petróleo consumido internamente era proveniente de importações. O uso do petróleo no País era bastante expressivo, fruto do rápido processo de industrialização por que passou a economia brasileira; o petróleo e seus derivados eram usados não somente nas indústrias, mas também pelos automóveis, como fonte de combustão para os motores. Se no mercado internacional houveelevação nos preços, haveria, agora, necessidade de maior quantidade de recursos monetários para pagar as importações de petróleo, que estavam quatro vezes mais caras. Resultado: perda de dinamismo para a economia nacional. Como resposta à crise, o governo brasileiro passou a adotar medidas que envolviam um imenso programa de investimentos públicos com participação da iniciativa privada para elevar novamente as taxas de crescimento, mesmo que tais medidas implicassem perdas significativas de reservas cambiais ou que tornassem o País devedor para com o setor externo. Tal programa ficou conhecido como Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento – II PND, lançado em 1975. Como ilustra Baer (1996, p. 106), embora não tivesse se mantido o mesmo nível dos “anos do milagre”, a taxa de crescimento real do PIB manteve uma média anual de cerca de 7% pelo restante da década, enquanto a indústria se expandia a uma taxa anual de aproximadamente 7,5%. Acrescenta que: A opção pelo crescimento implicou um excepcional aumento da dívida externa do país. Sem os empréstimos no exterior, não teria sido possível para o Brasil pagar a conta do petróleo, mais elevada, e continuar a importar os insumos necessários à produção de bens industriais, principalmente aqueles que deveriam acompanhar os maiores planos de investimentos do II PND. O crescimento por meio da dívida era justificado pela possibilidade de as futuras economias de divisas resultantes dos programas de investimentos – devido à substituição de importações e ao desenvolvimento de uma nova capacidade de exportação – virem a criar uma situação na qual o Brasil poderia produzir superávits comerciais suficientemente grandes para pagar os juros e amortizar a dívida internacional (BAER, 1996, p. 107). Em vez de utilizar uma política recessiva e de contenção de gastos, Geisel se propôs a investir no crescimento econômico buscando a criação de bases para a indústria nacional para diminuir a 82 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II dependência externa. Com o objetivo de ampliar as fontes alternativas de energia diante da crise do petróleo, os investimentos estenderam-se para o setor energético. Para tal, iniciou-se um programa visando à implantação de combustível alternativo à gasolina, o álcool. Surgiu então o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), ao mesmo tempo que se desencadeou uma campanha de racionamento de combustíveis. Além de todos os problemas causados pela crise do petróleo, bem como pela elevação das taxas de juros internacionais, outra questão acompanhava a economia brasileira durante o período dos governos militares: a inflação. Apesar de a economia brasileira ter experimentado períodos inflacionários anteriormente à década de 1970, eles se mostraram passageiros e transitórios. Agora a história seria outra: a inflação apresentava-se realmente como uma crise e, como em toda crise, haveria perdas, a exemplo de diluição dos valores dos ativos monetários, falência de bancos e empresas, elevação de tributação para diminuir liquidez e outras medidas de política econômica de caráter restritivo. Quanto ao Brasil, com os choques externos, petróleo e juros dos anos 1970, a indexação se fez cada vez mais presente, pressionando a elevação de custos de produção que automaticamente recaía sobre as empresas e sobre os indivíduos que haviam tomado empréstimos indexados. À medida que a inflação aumentava, durante a década de 1970 e fim de 1980, desenvolvendo já um processo de hiperinflação, falava-se cada vez mais em se controlar a indexação financeira via programa de estabilização. A necessidade de superar não só o inflacionismo, mas também o autoritarismo, e implantar instituições democráticas era uma aspiração dominante na sociedade brasileira na década de 1980. É sobre ela e os programas de estabilização que passaremos a tratar. A década de 1980 encerraria o período do regime militar. A passagem de um governo militar para um presidente civil, no caso, José Sarney, empossado em março de 1985, impulsionaria a Nova República, que constituía um novo ciclo histórico com décadas de duração. Sarney inicia seu governo com a equipe econômica, composta por Francisco Dornelles como Ministro da Fazenda e João Sayad no Planejamento, adotando posicionamento de austeridade sob a bandeira “é proibido gastar” (BRUM, 1997, p. 403). Sob seu governo, o primeiro plano de estabilização foi o Plano Cruzado, implementado em fevereiro de 1986. De raiz heterodoxa e influenciado pelo sucesso do Plano Austral na Argentina, a ideia central desse plano era de que a inflação brasileira fosse inercial. As principais medidas do Plano Cruzado foram congelamento de preços e salários e reforma monetária, com a alteração do nome da moeda de cruzeiro para cruzado, passando, a representar, respectivamente, Cr$ 1.000,00 e Cz$ 1,00 (SILVA; LUIZ, 2010, p. 120-121). O objetivo da política monetária durante os primeiros meses do Plano Cruzado era acomodar o desenvolvimento e o aumento estável da demanda de moeda. Já a política fiscal visava à eliminação das necessidades de financiamento do setor público. A desindexação da economia ensejou substituição das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN) pelas Obrigações do Tesouro Nacional (OTN). O Pis-Pasep, bem como o FGTS, lançados ainda 83 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA durante o período militar, preservaram reajustes como uma espécie de proteção contra a inflação ainda existente (FURTADO, 1997). O resultado imediato foi deflação nos primeiros meses do Plano, em que a inflação do mês de fevereiro foi de 22% e, em março de 1986, apresentou índice de -1%. Porém, em fins de 1986, a inflação volta a subir em virtude de elevação do déficit público, chegando em dezembro de 1986 a 7,6% (BAER, 1996, p. 169). Liberando preços de alguns produtos, congelando o salário mínimo e revendo formas de cálculo da inflação para o próximo período, em novembro de 1986, o governo lançou o Plano Cruzado 2, com vida curta e que chegou ao colapso em fevereiro de 1987, com inflação acelerada e marcando os 16,82% ao mês. As principais medidas do Plano Cruzado 2 foram (NASCIMENTO, 2014): • aumento nos impostos indiretos sobre preços de bens específicos, a exemplo de automóveis, cigarros e bebidas alcoólicas; • aumento nos preços de bens administrados: gasolina e álcool, energia e telefone, serviços postais; • minidesvalorização cambial; • reindexação de contratos financeiros com base nas Letras do Banco Central. Em um quadro de desaquecimento da economia e prolongada estagnação econômica, pressão inflacionária e elevação do déficit público, queda nas reservas internacionais e decepção por parte da população, a equipe econômica foi substituída. À frente da pasta ministerial, Luis Carlos Bresser-Pereira. Assim, em junho de 1987, e encontrando certa resistência por parte da sociedade, foi lançado o Plano Bresser, que também contava com congelamento de preços e salários, mas por um período menor, de aproximadamente três meses, diferentemente do anterior, que propunha congelamento por um período maior, nove meses. Outra frente de ataque do plano seria o déficit público, com a tentativa de diminuir tal déficit para 2% do PIB até o final de 1987. Na tentativa de frear o consumo, as taxas de juros foram mantidas elevadas, em patamares superiores ao da inflação, para incentivar poupança por parte dos agentes econômicos. Assim, com medidas tanto ortodoxas como heterodoxas adotadas pelo plano, a inflação que no primeiro semestre de 1987 apresentou índice de 186%, passou para 63% no acumulado do segundo semestre do mesmo ano (FURTADO, 1997). Independentemente de os índices de inflação terem recuado consideravelmente diante das medidas adotadas pelo Plano Bresser, a maior dificuldade encontrada pelo governo foi o controle dos gastos públicos e, portanto,do déficit público. Os gastos governamentais aumentaram em razão de reajuste salarial de funcionários públicos, repasses de verbas do governo federal a estados e municípios e elevação de subsídios às empresas estatais, diminuindo consideravelmente a arrecadação governamental. Como salienta Furtado (1997), o fracasso do plano em seu intento deu-se, principalmente, pela falta de apoio político para adoção de políticas restritivas, pois Sarney procurava apoio do Congresso para aumentar para cinco anos seu mandato na presidência da república. 84 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Em dezembro de 1987, Bresser-Pereira deixou o ministério e quem assumiu a pasta foi o Ministro Mailson da Nóbrega, que lançou o Plano Verão. Esse plano consistiu novamente em congelamento de preços e salários e nova reforma monetária, dessa vez tendo a moeda novo nome, cruzado novo, e novamente sendo dividida por mil. Assim, Cz$ 1.000,00 passaram a ser NCz$ 1,00. A essas medidas, soma-se eliminação de indexação, exceto para depósitos de poupança como desestímulo ao consumo e restrição à expansão monetária e creditícia (BAER, 1996). No decorrer do ano de 1988, Mailson da Nóbrega adotou a chamada política “feijão com arroz”, que significava a rejeição às políticas heterodoxas de combate à inflação. O plano visava estabilizar a inflação em torno de 15% a.m., além de reduzir o déficit do governo de 8% do PIB para 4%. O plano adotou o congelamento de empréstimos ao setor público, contenção salarial e redução no prazo de recolhimento de impostos. Além disso, em março de 1988, suspendeu a moratória que fora decretada em fevereiro de 1987. A nova Constituição, que foi promulgada em outubro de 1988, elevava os custos governamentais, aumentando a transferência de impostos para estados e municípios, desequilibrando o orçamento federal. O plano conseguiu manter a inflação abaixo dos 20% no primeiro semestre de 1988, mas, a partir do segundo semestre, a recomposição das tarifas públicas e a promulgação da nova Constituição elevaram a inflação. O Plano Verão tinha elementos tanto ortodoxos como heterodoxos. Os elementos ortodoxos visavam conter a demanda através da diminuição dos gastos públicos e da elevação da taxa de juros, e os heterodoxos tentavam acabar com a indexação da economia; para isso, foi feito novamente o congelamento dos preços. Mesmo com as medidas do Plano Verão, o ano de 1989 encerrou com a taxa anual de inflação próxima a 1.800% (NASCIMENTO, 2014). O Brasil vivia então os efeitos da crise que atingiu amplamente a América Latina na década de 1980, quando o aumento da taxa de juros americana e a recessão mundial afetaram as exportações brasileiras. Em consequência, verificaram-se a diminuição dos investimentos públicos, traduzidos em cortes orçamentários, e a retração da iniciativa privada por conta das altas taxas de juros e da reduzida perspectiva de consumo. Na sequência, a economia brasileira experimentou outro governo e outro plano: o governo Collor e o confisco de liquidez. Conforme afirma Bresser-Pereira (2003, p. 324), Será depois do episódio de hiperinflação, no início de 1990, quando terminava o governo Sarney, que a sociedade abrirá os olhos para a crise. Em consequência, as reformas econômicas e o ajuste fiscal ganham impulso no governo Collor. Será esse governo contraditório, senão esquizofrênico, que dará os passos decisivos no sentido de iniciar as necessárias reformas orientadas para o mercado. Na área do Estado, porém e, especificamente, da administração pública, as tentativas de reforma do governo Collor foram equivocadas, ao confundir [...] reforma do Estado com corte de funcionários, redução dos salários reais e diminuição do tamanho do Estado. 85 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Fernando Collor de Mello foi eleito em 1989 por um partido ainda desconhecido por boa parte da sociedade. Ele prometia, sobretudo, modernizar o mercado seguindo a tendência mundial pós-queda do Muro de Berlim e combater a inflação utilizando a experiência proporcionada pela heterodoxia dos planos anteriores. No seu discurso de posse como Presidente da República, e dirigindo-se ao Congresso Nacional, Collor de Mello afirmou: Conhecem Vossas Excelências a agenda de medidas básicas com que encetarei nossa estratégia de extermínio da praga inflacionária. Não poderemos edificar a estabilização financeira sem sanear, antes de tudo, as finanças do Estado. É imperativo equilibrar o orçamento federal, o que supõe reduzir drasticamente os gastos públicos. Para atingir o equilíbrio orçamentário, é preciso adequar o tamanho da máquina estatal à verdade da receita. Mas isso não basta. É preciso, sobretudo, acabar com a concessão de benefícios, com a definição de privilégios que, independentemente de seu mérito, são incompatíveis com a receita do Estado. No momento em que lograrmos esse equilíbrio - o que ocorrerá com certeza - teremos dado um passo gigantesco na luta contra a inflação, dispensando o frenesi das emissões e controlando o lançamento de títulos da dívida pública. Tudo isso, Senhores Congressistas, possui como premissa maior uma estratégia global de reforma do Estado. Para obter seu saneamento financeiro, empreenderei sua tríplice reforma: fiscal, patrimonial e administrativa. A dura verdade é que, no Brasil dos anos oitenta, o Estado não só comprometeu suas atribuições, mas perdeu também sua utilidade histórica como investidor complementar. O Estado não apenas perdeu sua capacidade de investir como, o que é ainda mais grave, por seu comportamento errático e perverso, passou a inibir o investimento nacional e estrangeiro (BRASIL, 1990, p. 14). Nesse discurso, e em relação à reforma pretendida do Estado, pode-se apreender que a equipe econômica de Collor de Mello diagnosticou que: • a crise brasileira tinha origem na crise fiscal do Estado; • o Estado só conseguia se financiar através do processo inflacionário ou através da emissão de títulos de dívida pública; • o Estado crescera demais, inclusive do ponto de vista patrimonial, o que justificaria a necessidade de privatizar empresas estatais, deixando ao Estado apenas a responsabilidade de investir complementarmente à iniciativa privada. Ainda, pelo mesmo discurso, com adição nossa, [A] perversão das funções estatais – agravada por singular recuo na capacidade extrativa do Estado – exige que se redefina, com toda a urgência, 86 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II o papel do aparelho estatal entre nós. Meu pensamento, neste ponto, é muito simples. Creio que compete primordialmente à livre-iniciativa – não ao Estado – criar riqueza e dinamizar a economia. Ao Estado corresponde planejar sem dirigismo o desenvolvimento e assegurar a justiça, no sentido amplo e substantivo do termo. O Estado deve ser apto, permanentemente apto a garantir o acesso das pessoas de baixa renda a determinados bens vitais. Deve prover o acesso à moradia, à alimentação, à saúde, à educação e ao transporte coletivo a quantos deles dependam para alcançar ou manter uma existência digna, num contexto de iguais oportunidades – pois outra coisa não é a justiça, entendida como dinâmica social da liberdade de todos e para todos. Entendo assim o Estado não como produtor, mas como promotor do bem-estar coletivo. Daí a convicção de que a economia de mercado é forma comprovadamente superior de geração de riqueza, de desenvolvimento intensivo e sustentado. Daí a certeza de que, no plano internacional, são as economias abertas as mais eficientes e competitivas, além de oferecerem bom nível de vida aos seus cidadãos, com melhor distribuição de renda. Não abrigamos, a propósito, nenhum preconceito colonial ante o capital estrangeiro. Ao contrário: tornaremos o Brasil, uma vez mais, hospitaleiro em relação aele, embora, é claro, sem privilegiá-lo. Não nos anima a ideia de discriminar nem contra nem a favor dos capitais externos, mas esperamos que não falte seu concurso para a diversificação da indústria, a ampliação do emprego e a transferência de tecnologia em proveito do Brasil (BRASIL, 1990, p. 15). Da leitura desse trecho, é possível perceber que era objetivo a redução do Estado, dentro da perspectiva de Estado mínimo, bem como eliminar grande parte das barreiras ao livre-comércio. O anúncio do Plano Collor, efetuado pela Ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello, em linhas gerais: • apresentou necessidade de efetuar uma reforma monetária, em que a moeda até então vigente, o cruzado novo, perderia três zeros e viraria uma nova moeda, o cruzeiro; • anunciou bloqueio de boa parte dos depósitos à vista que se encontravam sob controle dos bancos comerciais para diminuir possibilidades de os bancos expandirem créditos; • efetuou bloqueio de 80% das aplicações de overnight e de demais fundos de investimentos de curto prazo com o intuito de diminuir liquidez; • bloqueou saldos de cadernetas de poupança com os mesmos objetivos anteriores; • anunciou necessidade de reforma administrativa e fiscal, suspendeu alguns subsídios à produção, incentivos fiscais e isenções, ao mesmo tempo que ampliou a carga tributária por elevação de alíquotas e criação de impostos diretos e indiretos; 87 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • promoveu congelamento de preços e desindexação dos salários; • adotou regime cambial com taxas flutuantes em favorecimento às importações de produtos; • procedeu a ampla e ambiciosa abertura comercial com redução das tarifas de importação, em atenção às recomendações internacionais. O plano não apresentou resultados satisfatórios, o que levou a equipe econômica a elaborar outra proposta, conhecida como Plano Collor II, ainda sob o comando da Ministra da Fazenda. Pretendia acabar com o overnight e outras formas de indexação, além de fazer novo congelamento de preços e salários. A inflação caiu entre os meses de fevereiro e maio de 1991, porém as resistências políticas à equipe econômica, acompanhadas de uma série de escândalos envolvendo o nome do Presidente Collor, levaram à queda da ministra Zélia em maio de 1991, e Marcílio Marques Moreira assumiu o posto. A política econômica do novo ministro não conseguiu deter o processo inflacionário e alimentou uma grande recessão no ano de 1992 em função dos constantes aumentos da taxa de juros. Bresser-Pereira (1991) afirmou: Terminaram os tempos jovens e heroicos de Zélia. Tempos de coragem de enfrentar os interesses, de determinação de cobrar de todos uma parcela de sacrifício, de tenacidade na luta pelos objetivos; mas também tempos de aprendizado, de inabilidade política, de dificuldade de ouvir, de desconhecimento da dinâmica da inflação inercial brasileira. O balanço destes 14 meses foi positivo. Ainda que Zélia Cardoso de Mello e sua equipe tenham sido derrotados pela inflação, que afinal não foi controlada, e pela recessão, que resultou da política ortodoxa, monetarista, inutilmente implantada no Brasil entre maio de dezembro de 1990, o saldo de sua administração é favorável ao país. O período 1990-1992 foi marcado por início de uma reestruturação produtiva, aceleração da abertura da economia, desregulamentação dos mercados e aceleração dos processos de privatização de empresas estatais (NASCIMENTO, 2014). Esse período foi marcado também por forte recessão, aumento do desemprego e queda dos salários reais e da massa salarial. O desgaste político do governo, aliado às denúncias de corrupção, acabou por levar o presidente Collor ao impeachment em outubro de 1992. Durante o governo Collor, um ponto que deve ser ressaltado é o programa de privatizações como componente essencial de todo o processo de ajuste fiscal e patrimonial do setor público. Durante seu governo, houve o anúncio de que boa parte das empresas estatais passariam por programas de privatização, o que, de fato, aconteceu no período seguinte. Com o Programa Nacional de Desestatização (PND), regulamentado em agosto de 1990, as oportunidades das privatizações são debatidas, sendo a Usiminas a primeira estatal a ser privatizada em 1991. No início dos anos 1990, o Brasil havia intensificado os processos de abertura comercial e financeira, de privatizações, de renegociação da dívida externa e de desregulamentação dos mercados. 88 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Com a derrocada do governo Collor, Itamar Franco – e seu governo de transição – assume a presidência em dezembro de 1992 com inflação mensal em torno de 23%. Após a passagem dos sucessivos escândalos que deram fim ao governo Collor, as questões e os problemas que perturbavam a nação brasileira continuaram a ser uma incógnita. A instabilidade econômica, o processo inflacionário e a desigualdade socioeconômica pareciam ainda maiores e insuperáveis. O clima de frustração e desconfiança era notório. No início do governo Itamar Franco, a sociedade brasileira começa a se dar conta da crise da administração pública. Havia, entretanto, ainda muita perplexidade e confusão. A ideologia burocrática, que se tornara dominante em Brasília a partir da transição democrática, assim se manteve até o final desse governo (BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 324). Foi quando em fevereiro de 1994, ainda no governo de Itamar Franco, o então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, anunciou as medidas do Plano Real. Esse plano foi concebido e implementado em três etapas: • estabelecimento do equilíbrio das contas públicas federais, a fim de eliminar a principal causa da inflação; • criação de um padrão estável de valor, a Unidade Real de Valor (URV); • emissão de uma moeda nacional nova, o Real, com poder aquisitivo estável. A jornalista Miriam Leitão (2008) afirmou que: antes do Real, cada plano foi uma grande esperança. Foram vários que fracassaram, o mais famoso deles, o Cruzado. Hoje, grande parte da população não sabe o que é isso, já que 100 milhões de brasileiros têm menos de 30 anos. Só viram esse filme na infância. A época da hiperinflação era um tumulto, um tormento na vida das pessoas. Quem tinha muito dinheiro, ganhava com suas aplicações. Quem tinha pouco dinheiro não conseguia nem ir ao banco, ter conta bancária. Quanto menos você tinha para investir, menor era a remuneração. O dia a dia da Casa da Moeda era um tumulto, sempre substituindo notas que perdiam o valor, trabalhando em três turnos. As pessoas tinham que comprar as coisas na hora, com medo do preço aumentar no dia seguinte. E que empresa poderia fazer planos para o futuro, planejar abrir um negócio daqui a seis meses? Em compensação, tinha muita gente que ganhava. Até o governo ganhava, cortando o prazo de pagamento de impostos, mas alongando o que ele pagava seus compromissos. Como parte do Plano Real, a implantação da Unidade Real de Valor (URV) teve como objetivo, inicialmente, separar duas funções de uma mesma moeda: a URV era moeda de curso legal para servir 89 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA exclusivamente como padrão de valor monetário. Procurou ainda criar ambiente favorável para a primeira emissão do Real e a consequente desmonetização do Cruzeiro Real, permitindo adaptações para o mundo da estabilidade de preços de forma gradual e antecipada, dando amplo curso ao processo de negociação. Ao longo do ano de 1993 foi aprovado o Imposto Provisório sobre Movimentações Financeiras (IPMF), que, mais adiante, se tornaria Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF) e pretendia melhorar as contas públicas e o Plano de Ação Imediata (PAI), que pretendia a redução de despesas em todas as esferas do governo. Ademais, durantetodo o período FHC, houve intenso processo de combate à sonegação fiscal, conjugada com ampliação da carga tributária e aceleração das privatizações como forma de diminuir o gasto público, principal causa de seu aprofundamento (NASCIMENTO, 2014). Com relação ao setor externo, promoveram-se maior abertura comercial e ampliação da desregulamentação dos mercados. O Plano Real é apontado como a melhor experiência de estabilização da economia brasileira. Houve de fato uma queda brusca da inflação, e o objetivo da estabilização monetária foi amplamente alcançado. No entanto, os fundamentos do Plano Real provocaram uma deterioração significativa das contas públicas, uma elevação significativa da dívida pública interna e déficits em transações correntes constantes. Para que fosse alcançado o sucesso do plano, quanto à tão sonhada estabilidade monetário-financeira, o Plano Real foi pautado por duas âncoras: âncora de juros e âncora cambial. Nesse aspecto, as taxas de juros foram mantidas em níveis bastante elevados para desencorajar o consumo excessivo, bem como a expansão de crédito. Por sua vez, a taxa de câmbio foi valorizada, prática permitida somente em razão de grande quantidade de reservas internacionais que o País detinha. Em vez de continuar acumulando reservas internacionais, o Banco Central adotou, à época, regime de câmbio flutuante, permitindo sua valorização natural e consequente aumento de importações. Portanto, a elevação dos juros (âncora de juros) e a ampliação das importações (âncora cambial) permitiriam o freio no processo inflacionário. Com o Plano Real, a inflação caiu rapidamente. Em agosto de 1994, a inflação estava em 3% a.m., com tendência de queda. Em 1995, a inflação anual foi de 14,8%; em 1996, estava em 9,3%; em 1997, estava em 7,5%; e, em 1998, 1,7% (GIAMBIAGI; VILLELA, 2004). Apesar da manutenção de taxa de juros elevadas, foi difícil conter certa expansão da demanda. Tal fato deu-se em função do aumento do poder aquisitivo da população brasileira e da recomposição do crédito por parte do setor bancário. O plano sofreu alguns ataques especulativos, a exemplo das crises internacionais provocadas pelos tigres asiáticos, além de México, Rússia e Argentina, em períodos e com magnitudes diferentes. Mesmo assim, permaneceu forte em seu propósito de diminuição da inflação. Durante os dois mandatos, o Presidente Fernando Henrique Cardoso contou com fortes nomes na condução da economia e da política econômica, o que foi praticamente seguido pelo próximo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. 90 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Em que pesem os efeitos positivos ou negativos do Governo Fernando Henrique Cardoso, vale destacar que, quando ele assumiu a Presidência da República em 1995, a crise do Estado dito até então burocrático era considerável e se arrastava desde meados da década de 1980, o que se apresentava como uma crise cíclica em decorrência das distorções que o Estado sofrera entre os anos 1930 e os 1980. Restava ao governo se concentrar em algum tipo de reforma ou mesmo reconstrução do Estado para se transformar em agente efetivo de regulação do mercado. Nesse sentido, uma das iniciativas do governo FHC foi transformar a Secretaria da Administração Federal da Presidência da República (SAF) em Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (Mare), tendo como ministro Bresser-Pereira, que logo tratou de elaborar o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Na apresentação do documento (BRASIL, 1995, p. 9), encontramos a seguinte declaração: A crise brasileira da última década foi também uma crise do Estado. Em razão do modelo de desenvolvimento que Governos anteriores adotaram, o Estado desviou-se de suas funções básicas para ampliar sua presença no setor produtivo, o que acarretou, além da gradual deterioração dos serviços públicos, a que recorre, em particular, a parcela menos favorecida da população, o agravamento da crise fiscal e, por consequência, da inflação. Nesse sentido, a reforma do Estado passou a ser instrumento indispensável para consolidar a estabilização e assegurar o crescimento sustentado da economia. Somente assim será possível promover a correção das desigualdades sociais e regionais. Como tal reforma necessitava de emenda constitucional, resistências foram enfrentadas. Quanto a isso, nada melhor do que ter contato com a declaração do próprio ministro: Quando as ideias foram inicialmente apresentadas, em janeiro de 1995, a resistência a elas foi muito grande. Tratei, entretanto, de enfrentar essa resistência da forma mais direta e aberta possível, usando a mídia como instrumento de comunicação. O tema era novo e complexo para a opinião pública e a imprensa tinha dificuldade em dar ao debate uma visão completa e fidedigna. Não obstante, a imprensa serviu como um maravilhoso instrumento para o debate das ideias. Minha estratégia principal era atacar a administração pública burocrática ao mesmo tempo que defendia as carreiras de Estado e o fortalecimento da capacidade gerencial do Estado. Dessa forma, confundia meus críticos, que afirmavam que eu agia contra os administradores públicos ou burocratas quando eu procurava fortalecê-los e torná-los mais autônomos e responsáveis. Em pouco tempo, um tema que não estava na agenda do país assumiu o caráter de um grande debate nacional. Os apoios políticos e intelectuais não tardaram e afinal, quando a reforma constitucional foi promulgada, em abril de 1998, [formou-se] um quase-consenso sobre a importância para o país da reforma, agora fortemente apoiada pela opinião pública, pelas elites formadoras de opinião e, em particular, pelos administradores públicos (BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 325). 91 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Em relação à Reforma Gerencial de 1995, em vez de continuar no debate sobre o grau de intervenção estatal ou na tese do Estado mínimo, o ministro preferiu seguir procurando respostas aos seguintes questionamentos: Perguntei-me: primeiro, quais são as atividades que o Estado hoje executa que lhe são exclusivas envolvendo poder de Estado; segundo, quais as atividades para as quais embora não exista essa exclusividade, são atividades que a sociedade e o Estado consideram necessário financiar (particularmente, serviços sociais e científicos); finalmente, quais as atividades empresariais, de produção de bens e serviços para o mercado? A essas três perguntas, adicionei mais uma: quais são as formas de propriedade privada não estatal, que assume cada vez maior importância nas sociedades contemporâneas? (BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 327). A partir de tal questionamento foi possível delinear onde deveria estar presente o Estado moderno e, nesse aspecto, três foram os setores identificados para atuação do Estado: • atividades exclusivas do Estado, onde estariam o núcleo estratégico, bem como as agências reguladoras; • atividades não exclusivas, mas que dependem de financiamento do Estado, a exemplo de serviços sociais e científicos em que estão envolvidos direitos humanos; • atividades de produção de bens e serviços para o mercado. Sobre o assunto, o que apresenta o Plano Diretor (BRASIL, 1995, p. 18): Deste modo o Estado abandona o papel de executor ou prestador direto de serviços, mantendo-se entretanto no papel de regulador e provedor ou promotor destes, principalmente dos serviços sociais como educação e saúde, que são essenciais para o desenvolvimento, na medida em que envolvem investimento em capital humano, para a democracia, na medida em que promovem cidadãos, e para uma distribuição de renda mais justa, que o mercado é incapaz de garantir, dada a oferta muito superior à demanda de mão de obra não especializada. Como promotor desses serviços o Estado continuará a subsidiá-los, buscando, ao mesmo tempo, o controle social direto e a participaçãoda sociedade. Definidas as novas diretrizes de atuação do Estado na economia e em se tratando de uma economia mista – aquela em que há tanto a presença da iniciativa privada quanto a estatal –, a questão da propriedade também é debatida no âmbito do novo modelo do Estado que se quer formar a partir do Plano Diretor. Nesse aspecto, Bresser-Pereira (2003, p. 327) declara que: No núcleo estratégico e nas atividades exclusivas do Estado, a propriedade será, por definição, estatal. Ao contrário, na produção de bens e serviços, 92 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II há hoje consenso cada vez maior de que a propriedade deva ser privada, particularmente nos casos em que o mercado possa controlar as empresas comerciais. No domínio dos serviços não exclusivos, a definição do regime de propriedade é mais complexa. Se assumirmos que devem ser financiadas ou fomentadas pelo Estado, seja porque envolvem direitos humanos básicos (educação, saúde) seja porque implicam externalidades envolvendo economias que o mercado não pode compensar na forma de preço e lucro (educação, saúde, cultura, pesquisa científica), não há razão para que sejam privadas. Por outro lado, uma vez que não implicam no exercício do poder de Estado, não há razão para que sejam controladas pelo Estado. Se não têm, necessariamente, de ser propriedade do Estado nem de ser propriedade privada, a alternativa é adotar o privado com finalidades públicas, sem fins lucrativos. “Propriedade pública” no sentido de que se deve dedicar ao interesse público, que deve ser de todos e para todos, que não visa ao lucro; “não estatal” porque não é parte do aparelho do Estado. Com tal proposta, vê-se claramente que se trata de um reforço à questão da governabilidade não no sentido burocrático, rígido e ineficiente como se tinha anteriormente, mas em direção a um Estado em que a governança fala mais alto, totalmente voltado para uma administração pública gerencial, flexível e eficiente. Isso culmina, em 1999, na fusão do Mare com o Ministério do Planejamento, passando o novo ministério a ser denominado de Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. É consenso que uma reforma dessa envergadura não se faz da noite para o dia e que leva um bom tempo até que seja implementada, provoque seus efeitos, seja revista, caso necessário, e atinja a maturidade. Porém, com a vitória do Partido dos Trabalhadores nas eleições de 2002, havia grande especulação em virtude de o novo governo não seguir no mesmo caminho e, portanto, a reforma poder ser abandonada. Felizmente não foi o presenciado, e o novo governo, aparentemente, mostrou-se disposto a continuar com a Reforma da Gestão Pública de 1995. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, inicia-se em 2003, após vencer José Serra, permanecendo no poder por dois mandatos, que se encerraram em 2010. Após esse período, eleita também pelo PT, o Brasil terá uma presidenta: Dilma Rousseff, que também experimentará dois mandatos. Conforme Paulino (2010, p. 315), Uma vez eleito, e para decepção daquela parcela do eleitorado que, nas eleições anteriores, havia lhe dado apoio na expectativa de grandes mudanças, Lula adotou como política de governo o que havia prometido na “Carta aos Brasileiros”, de junho de 2002, ou seja, manter, em linhas gerais, a política macroeconômica do governo anterior. Afinal, foi com essa plataforma que, na quarta tentativa, finalmente vencera as eleições. Uma das principais características do Governo Lula foi uma política de continuidade do Plano Real, mas em um governo voltado para as questões sociais e para a retomada do crescimento do País! 93 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Os principais nomes do Governo Lula foi Antonio Palocci, até então Ministro da Fazenda, deixando o cargo após denúncias de escândalo e corrupção. Seu sucessor no cargo, o economista Guido Mantega, terá papel significativo na condução da política econômica ao lado de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Durante o Governo Lula, a inflação continuou sendo rigorosamente controlada pela administração da taxa de juros, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e pela adoção de política monetária bastante conservadora devido à manutenção de altas taxas de juros. A política macroeconômica foi anunciada e implementada com o objetivo de alcançar a autossustentabilidade das contas públicas, dando continuidade ao regime de câmbio flexível e metas de inflação sem que fosse necessária elevação da carga tributária bastante penosa para a sociedade brasileira (NASCIMENTO, 2014). Tais medidas visavam à sustentação do superávit primário de 4,25% do PIB ao mesmo tempo que se reduzia o gasto com serviço de dívida. A política fiscal, com vistas à estabilidade da dívida pública e ao controle das contas governamentais, é projetada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), em que os objetivos macroeconômicos estão explicitados, e em uma maior importância dada à Lei de Responsabilidade Fiscal criada no governo de Fernando Henrique Cardoso. Conforme destaca Giacomoni (2012, p. 238), as administrações federais do período pós-1988, provavelmente reconhecendo a incapacidade de o Estado atual assumir as responsabilidades de condutor do processo de desenvolvimento econômico, não elaboraram planos nacionais de desenvolvimento nos moldes daqueles que caracterizavam o Estado desenvolvimentista. Igualmente, não vêm sendo elaborados os planos regionais de desenvolvimento que, nos termos da Constituição, devem integrar os planos nacionais e serem com eles aprovados. Para Paulino (2010, p. 316), Pode-se acusar o Governo Lula de não ter um projeto claro de desenvolvimento para o país e de ter permitido que, nesse vácuo, o projeto neoliberal do governo anterior continuasse a avançar. [...] Não podemos acusá-lo, contudo, de ter abraçado o neoliberalismo como política de governo. [...] Ao contrário, importantes medidas foram tomadas para fortalecer a estrutura do Estado. [...] O Ministério das Minas e Energia e a Eletrobrás retomaram as rédeas do planejamento enérgico brasileiro. [...] O novo marco regulatório proposto pelo Governo Federal para exploração do petróleo recém-descoberto na camada pré-sal fortaleceram a Petrobras e o controle da União sobre o setor nacional. É difícil encontrar na literatura disponível opções de planejamento propriamente dito para os governos atuais. Apenas insights aparecem, notadamente aqueles voltados à distribuição de renda com políticas assistencialistas, de que é exemplo o Programa Bolsa Família, e de proteção a setores específicos, a exemplo do automobilístico e de eletrodomésticos, que contam com isenções 94 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II de pagamento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) (NASCIMENTO, 2014). Conforme continua destacando Paulino (2010, p. 318), A principal deficiência do Governo Lula, se é possível pôr a questão nesses termos, é a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento. A ruptura do pacto nacional-desenvolvimentista, que se deu em 1964, deu lugar, com a redemocratização, a um pacto liberal-social, que [está mais para] o neoliberalismo [...]. A Política macroeconômica do Governo Lula apresentou, no período de 2003 a 2007, como principal prioridade, a estabilidade monetária. Mesmo o reconhecimento tardio, por meio do Plano de Desenvolvimento Produtivo (PDP), anunciado em 12 de maio de 2008, de que a política monetária é condição necessária, mas não suficiente, para a aceleração da competitividade industrial, pode ser totalmente comprometida, caso a ênfase da política econômica continue a restringir-se à estabilidade monetária por meio do aumento ou da manutenção das ainda elevadas taxas de juros e da taxa de câmbio valorizada. 7 PLANEJAMENTONO BRASIL NOS ANOS RECENTES: VISÃO DOS PLANOS PLURIANUAIS DE FHC A DILMA – DOCUMENTOS OFICIAIS Na atualidade, quando se trata do assunto finanças públicas e, de forma mais abrangente, receitas e despesas governamentais, deve-se levar em consideração a Constituição Federal de 1988. Com ela, a gestão pública aproxima-se cada vez mais da gestão privada, o que pode ser percebido com a criação de dois importantes instrumentos de gestão: o Plano Plurianual e a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Esses instrumentos valorizam o planejamento, bem como criam a obrigatoriedade da elaboração de planos de médio prazo vinculados aos orçamentos anuais. A mesma Constituição procura observar o princípio da universalidade pela inclusão de todas as receitas e despesas no processo orçamentário. Passaremos então a tratar desses dois instrumentos. 7.1 Plano Plurianual De forma contrária à questão orçamentária, que é obrigatoriedade da União desde a década de 1930, a questão do planejamento coloca-se como imperativo a cada ente federativo a partir da Constituição de 1988. Antes disso, cada unidade de Federação legislava em causa própria, vamos assim dizer. Conforme relata Giacomoni (2012, p. 222), anteriormente a 1988, o que mais se aproximou da ideia de plano ou programa plurianual a ser implementado por todas as esferas de governo foram o Quadro de Recursos e de Aplicação de Capital (QRAC) e o Orçamento Plurianual de Investimentos (OPI). Criação da Lei nº 4.320/64, o QRAC apresentava as seguintes características: (i) compreendia as Receitas e despesas de Capital; (ii) era aprovado por decreto do Poder Executivo; (iii) cobria, no mínimo, um triênio; (iv) era anualmente reajustado, com o 95 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA acréscimo de mais um exercício; e (v) sempre que possível, os programas deviam estar correlacionados a metas objetivas em termos de realização de obras e de prestação de serviços. Cabe destacar o que se determina no § 1º do artigo nº 165 da Constituição Federal: A lei que instituir o plano plurianual estabelecerá, de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da administração pública federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada (BRASIL, 1988). Trazendo modernidade e técnica para a elaboração e execução do orçamento público, o planejamento no Brasil passa a ser guiado pelo Plano Plurianual (PPA). O PPA apresenta-se como um instrumento de planejamento estratégico de todas as ações que serão tomadas por determinado governo. Elaborado para o período de quatro anos, procura expressar com clareza os resultados pretendidos pelo governante que o elabora e, por meio de seu acompanhamento e avaliação, verificar a efetividade da execução de seus programas, bem como rever objetivos e metas (MATIAS-PEREIRA, 2012). Nascimento (2014) complementa que o PPA traduz, de um lado, o compromisso entre as estratégias e o projeto de futuro e, de outro, a alocação real e concreta dos recursos orçamentários nas funções, nas áreas e nos órgãos públicos, com a finalidade de intermediar as ações de longo prazo e as necessidades imediatas. O Poder Executivo deverá encaminhar o PPA ao Congresso Nacional até o dia 31 de agosto do primeiro ano de governo, e o prazo de aprovação pelo Congresso é até o término da sessão legislativa daquele ano, ou seja, até dezembro. Quanto a sua vigência, é até o dia 31 de dezembro do primeiro ano de governo subsequente. Observação Para que não haja descontinuidade das ações propostas pelo planejamento de diferentes governantes, é importante ressaltar que a vigência do PPA não coincide com o mandato do governante, mesmo que o período de vigência do mandato seja de quatro anos. O primeiro ano de vigência do PPA será o segundo ano do mandato do governante, seja ele presidente, governador ou prefeito. O objetivo principal do PPA é formular as diretrizes para as finanças públicas no período do plano com o propósito de identificar e avaliar os recursos disponíveis para o desenvolvimento de ações a cargo da administração pública, incluindo os provenientes de financiamento, bem como de estabelecimento dos tipos de despesas segundo função, subfunção e programa de governo. Desenvolvido por programas, articula um conjunto de ações representadas por projetos, atividades e operações especiais, que concorrem para o alcance dos objetivos governamentais. Os programas e ações do PPA são revisados anualmente para fins de elaboração das propostas orçamentárias setoriais que dão origem à Lei de Diretrizes Orçamentárias e à Lei de Orçamento Anual de que trataremos oportunamente. 96 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Conforme Matias-Pereira (2012, p. 319), os projetos de lei do Plano Plurianual serão encaminhados pelo Presidente da República ao Congresso Nacional nos termos da lei complementar, aplicando-se, subsidiariamente, as normas pertinentes ao processo legislativo (art. 166, § 7º, da Constituição Federal). Eles serão apreciados pelas duas casas do Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal) na forma do regime comum, após parecer emitido pela Comissão mista permanente de Senadores e Deputados (art. 166, § 1º, e art. 58, § 2º, inciso VI). Deve-se ressaltar, conforme prevê o art. 166, § 3º, inciso I, da Constituição Federal, que as emendas ao projeto de lei do orçamento anual ou aos projetos que o modifiquem somente podem ser aprovadas caso sejam compatíveis com o Plano Plurianual. Com a nova Constituição trazendo modernidade integradora entre planejamento e orçamento, é notório perceber que a construção, tanto do planejamento quanto da gestão pública delineada por programas, requer competência gerencial em todos os âmbitos, incluindo os setoriais e suas equipes de gestores. Cada uma das equipes envolvidas no PPA fica responsável pelos compromissos do plano no alcance de seus objetivos. Para tanto, os gestores devem assumir postura administrativa orientada para resultados. Conforme bem destaca Nascimento (2014, p. 106), a gestão voltada para resultados pressupõe a adoção de um modelo de gerenciamento em que a responsabilidade esteja claramente atribuída e os objetivos delineados de forma consistente. Além disso, o órgão gestor deverá desenvolver processos produtivos eficientes, promover a conscientização e o controle de custos e buscar sistematicamente a qualidade e efetividade dos resultados alcançados. Observação A conhecida Lei de Responsabilidade Fiscal surge no mesmo contexto do Plano Plurianual, promovendo maior transparência à gestão de recursos públicos Em síntese, o Plano Plurianual visa: • orientar a ação governamental, objetivando alcançar o desenvolvimento econômico, que, por sua vez, propiciará a efetiva promoção do bem-estar social; • orientar o planejamento em sintonia com a programação e o orçamento do Poder Executivo, obedecendo aos princípios de regionalização da economia; • definir diretrizes que deverão nortear a elaboração dos orçamentos fiscal e de investimentos, que possibilitem a redução das desigualdades regionais e sociais; 97 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • ordenar e disciplinar a execução de despesas com investimentos que se reverterão em benefício para a sociedade. A figura a seguir retrata, de forma sintética, o ordenamento do Plano Plurianual. Orientações estratégicas do Presidente da República • Megaobjetivos • Desafios • Diretrizes Orientações estratégicas do Ministro da Fazenda • Objetivos setoriais Programas de Governo Ações (atividades e projetos) a cargo dos órgãos e entidades Figura 14 – Plano Plurianual (PPA) 7.2 Histórico de elaboração dos PPA Como vimos, o Plano Plurianual instituído pela Constituição Federal de 1988, de acordocom seu art. 165, § 1º, oferece mudanças que reestruturam as ações governamentais. Com ele é possível perceber os objetivos governamentais com maior clareza, bem como, via integração de planejamento e orçamento, observar se os resultados esperados serão, de alguma forma, alcançados. Várias foram as edições de PPA elaboradas no Brasil desde então. Vejamos cada uma delas em ordem cronológica. Quinquênio 1991-1995 Primeiro plano elaborado em cumprimento às determinações da Constituição de 1988, esteve mais voltado para as ações governamentais do que para o desenvolvimento econômico-social. Interessante destacar a preocupação com os gastos públicos declarada no Plano. É o que se estabelece tanto no § 2º quanto no § 3º do art. 5º. Quanto à reestruturação do gasto público, deve-se (BRASIL, 1991): • assegurar o equilíbrio nas contas públicas; • aumentar os níveis de investimento público federal, em particular os voltados para a área social e para infraestrutura econômica; • ajustar a execução das políticas públicas federais a uma nova conformação do Estado que privilegie as iniciativas e a capacidade gerencial do setor privado e, ao mesmo tempo, fortaleça as inerentes ao Poder Público; 98 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II • rever o papel regulador do Estado, com vistas à consolidação de uma economia de mercado moderna, competitiva e sujeita a controles sociais; • conferir racionalidade e austeridade ao gasto público federal; • elevar o nível de eficiência do gasto público, mediante melhor discriminação e maior articulação dos dispêndios efetivados pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos Municípios. As medidas a serem tomadas para que os objetivos fossem atingidos prescreviam: • redução da participação relativa dos gastos com pessoal nas despesas públicas federais; • modernização e racionalização da Administração Pública Federal; • privatização de participações societárias, bens ou instalações de sociedades controladas, direta ou indiretamente, pela União, em conformidade com o Programa Nacional de Desestatização; • alienação de imóveis e de outros bens e direitos integrados do ativo permanente de órgãos e entidades da Administração Pública Federal direta, autárquica ou fundacional; • transferência de encargos públicos para Estados, Distrito Federal e Municípios. Para Giacomoni (2012), em razão dos desajustes do governo do período – Collor e o processo de impeachment, bem como pelo governo de transição, Itamar Franco – somados às medidas macroeconômicas com caráter contracionista, esse planejamento não merece avaliação rigorosa quanto aos seus resultados. Período 1996-1999 Primeiro plano plurianual da gestão Fernando Henrique Cardoso e estruturado em duas fases: a primeira, de estratégias, e a segunda, de ordenação de objetivos por áreas temáticas. Dentre as estratégias, estão a construção de um Estado moderno e eficiente; redução dos desequilíbrios especiais e sociais do País; modernização produtiva da economia brasileira (BRASIL, 1996). Para a construção de um Estado moderno e eficiente, as diretrizes do governo concentraram-se em: • consolidação do processo de saneamento das finanças públicas; • descentralização das políticas públicas para Estados e Municípios, setor privado e organizações não governamentais; • aumento da eficiência do gasto público, com ênfase na redução dos desperdícios e no aumento da qualidade e da produtividade dos serviços públicos; 99 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • aprofundamento do programa de desestatização; • modernização das Forças Armadas e de seus níveis operacionais; • modernização da Justiça e dos sistemas de Segurança e Defesa Nacional; • reformulação e fortalecimento da ação reguladora do Estado, inclusive nos serviços públicos privatizados; • reformulação e fortalecimento dos organismos de fomento regional; • modernização dos Sistemas de Previdência Social. Quanto à redução dos desequilíbrios especiais e sociais do País, o plano destaca: • criação de novas oportunidades de ocupação da força de trabalho; • redução dos custos de produtos de primeira necessidade; • aproveitamento das potencialidades regionais, com uso racional e sustentável dos recursos; • fortalecimento da base de infraestrutura das regiões menos desenvolvidas; • fortalecimento da política de desconcentração industrial; • redução da mortalidade infantil; • ampliação do acesso da população aos serviços básicos de saúde; • melhoria das condições de vida, trabalho e produtividade do pequeno produtor e do trabalhador rural; • melhoria das condições de vida nas aglomerações urbanas críticas (segurança pública, saneamento, habitação, transporte coletivo, serviços urbanos, desporto, e cultura e meio ambiente); • mobilização da sociedade e comprometimento de todo o governo para a erradicação da miséria e da fome; • fortalecimento da cidadania e preservação dos valores nacionais. Sobre o que é possível destacar acerca da modernização produtiva da economia brasileira, as diretrizes da ação do governo para o período foram: • modernização e ampliação da infraestrutura; • aumento da participação do setor privado em investimentos para o desenvolvimento; 100 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II • fortalecimento de setores com potencial de inserção internacional e estímulo à inovação tecnológica e à restruturação produtiva; • melhoria educacional, com ênfase na educação básica; • modernização das relações trabalhistas. Já os objetivos por áreas temáticas procuravam melhorar as condições da infraestrutura básica, priorizando regiões onde as condições econômicas mostravam-se mais frágeis. Para tanto, recursos seriam destinados para as áreas de transportes, energia e comunicações (BRASIL, 1996). Saiba mais Outras áreas foram compreendidas no Plano Plurianual. Recomendamos a consulta para que possa perceber o avanço em relação à primeira iniciativa, aquela do período do governo Collor. Acesse: BRASIL. Lei nº 9.276, de 9 de maio de 1996. Dispõe sobre o Plano Plurianual para o período de 1996/1999 e dá outras providências. Brasília, 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9276. htm>. Acesso em: 25 abr. 2017. Giacomoni (2012, p. 240) destaca que: A maior deficiência desse plano é a ausência total de representação financeira. A mensagem que acompanhou o projeto de lei trouxe algumas estimativas, de forma bastante agregada, dos montantes a serem aplicados e de suas fontes de financiamento. Ao se transformar em lei, o PPA acabou ficando sem nenhuma referência de ordem financeira, o que é paradoxal em se tratando de instrumento com características orçamentárias. Cabe, também, fazer restrições à solução metodológica adotada que desconsiderou, totalmente, as características estabelecidas na Constituição Federal, ou seja, as despesas de capital, as despesas decorrentes destas e os programas de duração continuada. Período 2000-2003 O PPA para a segunda gestão de Fernando Henrique Cardoso foi instituído pela Lei nº 9.989, de 21 de julho de 2000 (BRASIL, 2000). Sob a bandeira “Avança Brasil”, o plano foi organizado com base nos elementos básicos: (i) orientação estratégica; (ii) macro-objetivos; (iii) agendas; (iv) programas” (GIACOMONI, 2012, p. 240). Dentre as estratégias, 101 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Consolidar a estabilidade econômica com crescimento sustentado; promover o desenvolvimento sustentável voltado para a geração de empregos e oportunidades de renda; combater a pobreza e promover a cidadania e a inclusão social; consolidar a democracia e a defesa dos direitos humanos; reduzir as desigualdades inter-regionais; promover os direitos de minorias vítimas de preconceito e discriminação(GIACOMONI, 2012, p. 240). Dentre os macro-objetivos figuravam saneamento das finanças públicas, elevação das exportações, preocupação com a gestão ambiental, melhorias no sistema de educação, combate à fome e à mortalidade infantil. É importante lembrar que planejamento, gerência e controle são as três funções básicas do processo, e o PPA 2000-2003 procurou reavaliar tais funções propondo um orçamento mais moderno e com foco em resultados (CAVALCANTE, 2007). Nesse sentido, integração e desenvolvimento nacional, melhoria na gestão do Estado, maior atenção ao meio ambiente, valorização do emprego e cidadania e promoção do conhecimento foram os grandes eixos temáticos que fizeram parte da agenda, que contava com mais de trezentos programas. Giacomoni (2012) avalia o plano de forma bastante positiva, com destaque para a metodologia adotada quanto à articulação dos programas com os objetivos que foram alcançados. Período 2004-2007 Após dois mandatos com o Presidente Fernando Henrique Cardoso, o Brasil experimenta uma nova gestão sob a regência de Luiz Inácio Lula da Silva e seu Plano Plurianual para o período 2004-2007. O plano foi elaborado com base em consultas públicas, bem como em debate entre as três esferas do governo. O governo colocava para si os desafios de eliminar a fome e a miséria, gerar empregos, distribuir renda com a construção de uma sociedade mais justa e moderna no tocante a crescimento e desenvolvimento econômico. No que diz respeito ao desenvolvimento, o documento Plano Brasil de Todos: Participação e Inclusão (2003) destaca o que se segue: O PPA 2004-2007 terá como norte a seguinte estratégia de longo prazo: inclusão social e desconcentração da renda com crescimento do produto e emprego, desenvolvimento ambientalmente sustentável, redutor das disparidades regionais, dinamizado pelo mercado de consumo de massa, por investimentos e pela elevação da produtividade, e viabilizado pela expansão competitiva das atividades que superem a vulnerabilidade externa. As cinco dimensões da estratégia (social, econômica, regional, ambiental e democrática) representam os megaobjetivos a ser perseguidos. 102 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Para que os megaobjetivos pudessem ser alcançados, a estratégia de desenvolvimento foi dividida em cinco dimensões, cada uma com suas ações e políticas: • social; • econômica; • regional; • ambiental; • democrática. Saiba mais Consulte o documento Plano Brasil de Todos: Participação e Inclusão e veja quais são as atitudes governamentais para que os objetivos de cada dimensão pussam ser atingidos. PLANO Brasil de todos: participação e inclusão. Brasília, 2003. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/gesta/PPA.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2017. Cavalcante (2007) ressalta que esse PPA avança em relação ao anterior justamente pela implantação de um Sistema de Monitoramento e Avaliação com quatro objetivos. O primeiro objetivo foi proporcionar transparência quanto às ações tomadas pelo governo; nesse aspecto, as ações e os resultados foram amplamente divulgados. O segundo objetivo está ligado ao auxílio na tomada de decisão, portanto as consultas populares, bem como o debate com demais unidades de federação, ofereceram melhoria na qualidade não só das decisões, mas também das ações realizadas no âmbito governamental. O segundo objetivo, de certa forma, dá condições para que o terceiro também seja conquistado, qual seja, promoção, aprendizado e disseminação do conhecimento organizacional com o envolvimento de todas as equipes e seus debates programáticos. Por último, o aperfeiçoamento, a concepção e gestão do plano e seus programas também se destaca como objetivo para melhoria contínua, totalmente influenciado pelas novas formas de gerenciamento organizacional. Finalizando, Cavalcante (2007, p. 139-140) destaca que, no Plano, prevalece a perspectiva da importância dos resultados da avaliação para subsidiar as tomadas de decisão em diferentes níveis: estratégico (Ministros e Comitê de Coordenação de Programas), tático (gerentes, 103 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA gerentes-executivos e coordenadores de ação) e operacional (coordenadores de ação e sua equipe). Observação A sucinta apresentação dos Planos Plurianuais que estamos efetuando remete às funções organizacionais e de planejamento privado conforme aquelas discutidas anteriormente no livro-texto. O que isso revela? Que cada vez mais o planejamento apresenta-se como técnico, e não como político. Saiba mais Outro documento bastante interessante e que você também pode consultar é Plano Plurianual 2004-2007: Relatório de Avaliação. Na apresentação desse documento, é possível verificar quais foram as conquistas do período. BRASIL. Câmara dos Deputados. PPA 2004-2007: relatório de avaliação 2007. Brasília, 2007a. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/ atividade-legislativa/orcamentobrasil/ppa/ppa2004_7.html/ppa-2004- 2007-avaliacao-2008>. Acesso em: 26 abr. 2017. Período 2008-2011 Da mesma forma que aconteceu com Fernando Henrique Cardoso, Lula experimentará a oportunidade de um segundo mandato e, portanto, de declarar um novo PPA. Este seguirá reafirmando os compromissos com o crescimento econômico e com a inclusão social em um Brasil de menos desigualdade. Para tanto, esse novo mandato é pautado por três linhas mestras, quais sejam: • na questão social, envolvendo inclusão e diminuição das desigualdades sociais e regionais via transferências de renda e fortalecimento da cidadania; • melhorias na educação, com o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE); • ênfase no crescimento, com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em que são retomadas ações de planejamento e execução de obras infraestruturais nos âmbitos social, urbano, logístico e energético. 104 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Saiba mais Leia o Plano Nacional de Educação na íntegra: BRASIL. O plano de Desenvolvimento da Educação: razão, princípios e programas. Brasília, [s.d.]a. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/ arquivos/livro/livro.pdf>. Acesso em: 25 abr. 2017. Faça o mesmo com o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC): BRASIL. Ministério do Planejamento. Sobre o PAC. Brasília, [s.d.]c. Disponível em: <http://www.pac.gov.br/sobre-o-pac>. Acesso em: 26 abr. 2017. No âmbito da questão social, a Agenda Social compreende um conjunto de iniciativas prioritárias, com ênfase: nas transferências condicionadas de renda associadas às ações complementares; no fortalecimento da cidadania e dos direitos humanos; na cultura e na segurança pública. A prioridade é a parcela da sociedade mais vulnerável. A evolução nos indicadores de renda entre a população mais vulnerável verificada na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e no crescimento com índices superiores à média nacional nas regiões menos desenvolvidas é o resultado agregado das políticas de valorização do salário mínimo, da integração crescente do trabalhador ao mercado de trabalho formal, do aumento gradativo da escolaridade média da população e das políticas de transferência de renda, em particular, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Programa Bolsa Família. A Agenda Social para o próximo período promoverá as alternativas de emancipação para as famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família por meio da integração de políticas de acesso à educação, à energia, aos produtos bancários, ao trabalho e à renda, viabilizando a continuidade da redução da pobreza e da desigualdade. O Programa atendeu, no fim de 2006, 11 milhões de famílias, número correspondente ao universo de famílias com renda per capita até R$ 120,00, segundo estimativas baseadas na PNAD 2004. Em agosto de 2007, o valor dos benefíciosfoi reajustado em 18,25% e, para 2008, serão incorporados adolescentes de 16 e 17 anos ao Programa (BRASIL, 2007b, p. 13-14). Organizado em quatro eixos – educação básica; alfabetização e educação continuada; ensino profissional e tecnológico; ensino superior –, quanto ao Plano de Desenvolvimento da Educação, cabe destacar que: 105 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA na área de financiamento da educação básica, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 11.494/2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). O novo fundo atende a toda a educação básica, da creche ao ensino médio. No Fundeb, o aporte do Governo Federal é de R$ 2 bilhões em 2007; R$ 3,1 bilhões em 2008; R$ 4,9 bilhões em 2009 e 10% do montante da contribuição dos Estados e Municípios ao fundo a partir de 2010, alcançando cerca de 7,6 bilhões em 2010 e 8,4 bilhões em 2011. O atendimento por meio da cooperação técnica e financeira da União a Estados, Municípios e escolas será redirecionado, de modo prioritário, às Unidades da Federação e escolas com os menores Índices de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O Ideb com dados sobre fluxo escolar combinado com o desempenho dos alunos permitirá a pais, comunidades, escolas, Municípios e Estados acompanharem o desempenho das escolas, ao mesmo tempo que fixará metas de curto, médio e longo prazo para a melhoria da qualidade da educação básica. Como meta de longo prazo espera-se que o IDEB nacional atinja o índice 6 para os anos iniciais do ensino fundamental até 2021 - índice médio atual para países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Atualmente, a educação básica brasileira tem uma média de 3,8 pontos, para os anos iniciais do ensino fundamental; 3,5, para os anos finais do ensino fundamental e 3,4, para o ensino médio, em uma escala de 0 a 10 algarismos (BRASIL, 2007b, p.16-17). Quanto ao Programa de Aceleração do Crescimento, compreendia um: conjunto de investimentos públicos em infraestrutura econômica e social nos setores de transportes, energia, recursos hídricos, saneamento e habitação, além de diversas medidas de incentivo ao desenvolvimento econômico, estímulos ao crédito e ao financiamento, melhoria do ambiente de investimento, desoneração tributária e medidas fiscais de longo prazo. As metas propostas pelo PAC envolvem expansão significativa do investimento público e, em decorrência, do investimento privado. A elevação do nível de investimento pelo setor público na resolução dos gargalos existentes na infraestrutura logística e energética, aliada à continuidade das políticas inclusivas – essenciais à expansão do mercado interno –, é fundamental para a expansão da capacidade produtiva nacional e elevação da produtividade sistêmica da economia. Estão previstos investimentos em infraestrutura logística, em energia e em infraestrutura social e urbana superiores a R$ 500 bilhões, equivalentes em 2007 a cerca de 20% do PIB, com equilibrada distribuição territorial, de modo a reduzir as desigualdades regionais (BRASIL, 2007b, p. 19). 106 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Saiba mais No site indicado a seguir, é possível verificar, ano a ano, as ações, as metas físicas, os programas e os indicadores do Plano Plurianual do período 2008-2011: BRASIL. Plano plurianual 2008-2011. Brasília, [s.d.]b. Disponível em: <http://dados.gov.br/dataset/plano-plurianual-2008-2011>. Acesso em: 25 abr. 2017. Período 2012-2015 A partir do exercício financeiro de 2012, o Plano Plurianual Federal passou a ter uma nova configuração voltada para os resultados na gestão pública, consolidando uma visão estratégica, participativa e territorializada para o planejamento governamental. A figura a seguir retrata essa nova configuração. Dimensão tática Programas: Objetivos Iniciativas Dimensão operacional Ações: (no âmbito das LOAs) Dimensão estratégica Visão de futuro Valores Macrodesafios Valor global e indicadores Órgão executor, meta global e regionalizada Vinculam-se aos programas e são detalhadas no orçamento Identifica as entregas de bens e serviços à sociedade, resultantes da coordenação de ações orçamentárias, não orçamentárias, institucionais e normativas Figura 15 – Nova configuração do Plano Plurianual Federal 2012-2015 Com a nova configuração, o PPA apresenta-se nas seguintes dimensões: • Dimensão estratégica: é a orientação estratégica que tem como base os macrodesafios e a visão de longo prazo do Governo Federal. 107 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • Dimensão tática: define caminhos exequíveis para o alcance dos objetivos e das transformações definidas na dimensão estratégica, considerando as variáveis inerentes à política pública tratada. Vincula os Programas Temáticos para consecução dos objetivos assumidos, materializados pelas iniciativas expressas no plano. • Dimensão operacional: relaciona-se com o desempenho da ação governamental no nível da eficiência e é especialmente tratada no orçamento. Busca a otimização na aplicação dos recursos disponíveis e a qualidade dos produtos entregues. Os macrodesafios, inseridos na dimensão estratégica, representam diretrizes elaboradas com base no Programa de Governo e na visão estratégica que orientarão a formulação dos Programas do PPA, que são instrumentos de organização da ação governamental visando à concretização dos objetivos pretendidos. O Programa Temático retrata no PPA a agenda de governo organizada pelos Temas das Políticas Públicas e orienta a ação governamental. Sua abrangência deve ser a necessária para representar os desafios e organizar a gestão, o monitoramento, a avaliação, as transversalidades, as multissetorialidades e a territorialidade. O Programa Temático desdobra-se em Objetivos e Iniciativas. O Objetivo expressa o que deve ser feito, refletindo as situações a serem alteradas pela implementação de um conjunto de Iniciativas, com desdobramento no território. O Objetivo apresenta as seguintes características (NASCIMENTO, 2014): • define a escolha para a implementação da política pública desejada, levando em conta aspectos políticos, sociais, econômicos, institucionais, tecnológicos, legais e ambientais. Para tanto, a elaboração do Objetivo requer o conhecimento aprofundado do respectivo tema, bem como do contexto em que as políticas públicas a ele relacionadas são desenvolvidas; • orienta taticamente a ação do Estado com o intuito de garantir a entrega, à sociedade, dos bens e serviços necessários para o alcance das metas estipuladas. Tal orientação passa por uma declaração objetiva, por uma caracterização sucinta, porém completa, e pelo tratamento no território, considerando suas especificidades; • expressa um resultado transformador da situação atual em que se encontra um determinado tema; • é exequível, ou seja, o Objetivo deve estabelecer metas factíveis e realistas para o governo e a sociedade no período de vigência do Plano, considerando a conjuntura econômica, política e social existente. Pretende-se, com isso, evitar declarações genéricas que não representam desafios, bem como a assunção de compromissos intangíveis; • define Iniciativas que declaram aquilo que deve ser ofertado na forma de bens e serviços ou pela incorporação de novos valores à política pública, considerando como organizar os agentes e os instrumentos que a materializam; 108 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II • declara as informações necessárias para a eficácia da ação governamental (o que fazer, como fazer, em qual lugar, quando), além de indicar os impactos esperados na sociedade (para quê). A Iniciativa declaraas entregas de bens e serviços à sociedade, resultantes da coordenação de ações orçamentárias e outras ações institucionais e normativas, bem como da pactuação entre entes federados, entre Estados e sociedade e da integração de políticas públicas. A Iniciativa associa-se a duas dimensões: • As fontes de financiamento: — orçamento; — outras fontes. • As formas de gestão e implementação. O Plano Plurianual para o período 2012-2015 representa as diretrizes do primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff e segue a nova configuração. É importante destacar os principais pontos de discussão da dimensão estratégica do Plano Mais Brasil e seus macrodesafios (BRASIL, 2015b). A dimensão estratégica apresenta: • visão de futuro do Brasil que se quer construir; • descrição do cenário macroeconômico, com a análise do período recente, do contexto internacional, dos desafios a serem enfrentados pelos programas delineados no Plano, as projeções macroeconômicas, tanto pelo lado da demanda quanto pelo lado da oferta, projeção da inflação e condições do setor público; • avaliação do cenário social do ponto de vista da demografia, das desigualdades e da pobreza; • condições no cenário ambiental, notadamente, geração e distribuição de energia; • cenário regional. Seus macrodesafios são: • Projeto Nacional de Desenvolvimento: dar seguimento ao Projeto Nacional de Desenvolvimento apoiado na redução das desigualdades regionais, entre o rural e o urbano, e na continuidade da transformação produtiva ambientalmente sustentável, com geração de empregos e distribuição de renda. • Erradicação da pobreza extrema: superar a pobreza extrema e prosseguir reduzindo as desigualdades sociais. 109 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA • Ciência, tecnologia e inovação: consolidar a ciência, a tecnologia e a inovação como eixo estruturante do desenvolvimento econômico brasileiro. • Conhecimento, educação e cultura: propiciar o acesso da população brasileira à educação, ao conhecimento, à cultura e ao esporte com equidade, qualidade e valorização da diversidade. • Saúde, previdência e assistência social: promover o acesso universal à saúde, à previdência e à assistência social, assegurando equidade e qualidade de vida. • Cidadania: fortalecer a cidadania, promovendo igualdade de gênero e étnico-racial, respeitando a diversidade das relações humanas e promovendo a universalização do acesso e a elevação da qualidade dos serviços públicos. • Infraestrutura: expandir a infraestrutura produtiva, urbana e social de qualidade, garantindo a integração do Território Nacional e do País com a América do Sul. • Democracia e participação social: fortalecer a democracia e estimular a participação da sociedade, ampliando a transparência da ação pública. • Integridade e soberania nacional: preservar os poderes constitucionais, a integridade territorial e a soberania nacional, participando ativamente da promoção e defesa dos direitos humanos, da paz e do desenvolvimento no mundo. • Segurança pública: promover a segurança e integridade dos cidadãos, através do combate à violência e do desenvolvimento de uma cultura de paz. • Gestão pública: aperfeiçoar os instrumentos de gestão do Estado, valorizando a ética no serviço público e a qualidade dos serviços prestados ao cidadão. Para que os dispêndios pudessem ser efetuados, o financiamento do PPA do período contava com recursos da ordem de R$ 5,4 trilhões provenientes de orçamento fiscal e da seguridade social, orçamento de investimentos das estatais e de recursos extraordinários, a exemplo de renúncia fiscal, planos de dispêndios das empresas estatais, agências oficiais de crédito e parcerias com o setor privado. A tabela a seguir apresenta a fonte de recursos, bem como seu percentual representativo no orçamento. Tabela 5 – Fontes de recursos e participação orçamentária Fonte de recursos (%) Orçamento fiscal e seguridade 68 Recursos extraorçamentários 25 Investimentos de empresas estatais 7 Fonte: Brasil (2011). 110 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Quanto à alocação dos recursos, os programas temáticos representam 80% do total de gastos, distribuídos em quatro macroáreas: social (57%), infraestrutura (26%), desenvolvimento produtivo e ambiental (15%) e especiais (2%). Na área social, os dispêndios estão divididos da seguinte forma: • 28% para aperfeiçoamento do Sistema Único de Saúde (SUS); • 22% para trabalho, emprego e renda; • 17 % para educação; • 13% para o fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (Suas); • 8% para agricultura familiar; • 7% para o programa Bolsa Família; • 5% para demais ações. A política de infraestrutura contempla os seguintes programas e seus percentuais de recebimento de recursos: • Moradia digna: 32,6%. • Energia: 25,1%. • Petróleo e gás: 19,1%. • Transportes: 9,8%. • Minerais: 5,0%. • Demais: 8,4%. No que diz respeito à área de desenvolvimento produtivo e ambiental, os programas associados à área correspondem a 15% dos Programas Temáticos, divididos entre: • agropecuária sustentável, abastecimento e comercialização (33%); • comércio exterior (27%); • desenvolvimento produtivo (15%); • micro e pequenas empresas (12%); • demais (13%). 111 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Por fim, os temas especiais compreendem ações de organização do Estado, notadamente: • política nacional de defesa, recebendo 51% dos recursos destinados para a área; • desenvolvimento regional, territorial sustentável e economia solidária, com 42% dos recursos; • 4% dos recursos destinados para a política externa; • 3% para demais ações. 7.3 Lei de Diretrizes Orçamentárias Vejamos o que dispõe o § 2º do art. 165 da Constituição Federal de 1988 que trata dos orçamentos: A lei de diretrizes orçamentárias compreenderá as metas e prioridades da administração pública federal, incluindo as despesas de capital para o exercício financeiro subsequente, orientará a elaboração da lei orçamentária anual, disporá sobre as alterações da legislação tributária e estabelecerá a política de aplicação das agências financeiras oficiais de fomento (BRASIL, 1988). É com a Lei de Diretrizes Orçamentárias que se estabelecem as prioridades e as metas da administração pública federal no que diz respeito aos orçamentos anuais que formam o orçamento unificado, quais sejam, o orçamento fiscal, o de seguridade social e o de investimentos das empresas estatais. Nesse sentido, a Lei de Diretrizes Orçamentárias estabelece as normas de orçamento da União para o exercício financeiro seguinte e de acordo com o Plano Plurianual, compreendendo, conforme Matias-Pereira (2012, p. 320-321), I – as prioridades e metas da Administração Pública Federal; II – a estrutura e organização dos orçamentos; III – as diretrizes para a elaboração e execução dos orçamentos da União e suas alterações; IV – as disposições relativas à dívida pública federal; V – as disposições relativas às despesas da União com pessoal e encargos sociais; VI – a política de aplicação dos recursos das agências financeiras oficiais de fomento; VII – as disposições sobre as alterações na legislação tributária da União; 112 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II VIII – as disposições sobre a fiscalização pelo Poder Legislativo e sobre as obras e serviços com indícios de irregularidades graves; IX – as disposições gerais. Portanto, é no âmbito da Lei de Diretrizes Orçamentárias que o Governo Federal elenca suas prioridades, bem como as metas que comporão o orçamento para períodos seguintes ao de sua elaboração, em consonância com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Lembrete Lembre-se de que a Lei de Responsabilidade Fiscal – Lei Complementar nº 101/2000 – disciplina o equilíbrioentre receitas e despesas públicas. Giacomoni (2012) afirma ser de extrema importância analisar a Lei de Diretrizes Orçamentárias à luz da Lei de Responsabilidade Fiscal, pois esta última exige que a primeira considere: • equilíbrio entre receitas e despesas; • metas fiscais; • riscos fiscais; • programação financeira e o cronograma de execução mensal de desembolso, a serem estabelecidos pelo Poder Executivo trinta dias após a publicação da lei orçamentária; • critérios e formas de limitação de empenho, a serem efetivados nas hipóteses de risco de não cumprimento das metas fiscais ou de ultrapassagem do limite da dívida consolidada; • normas relativas ao controle de custos e à avaliação dos resultados dos programas financiados com recursos dos orçamentos; • condições e exigências para transferências de recursos a entidades públicas e privadas; • forma de utilização e montante da reserva de contingência a integrar a lei orçamentária anual; • demonstrações trimestrais apresentadas pelo Banco Central sobre o impacto e o custo fiscal das suas operações; • concessão ou ampliação de incentivo ou benefício de natureza tributária da qual decorra renúncia de receita. (GIACOMONI, 2012, p. 228). 113 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Matias-Pereira (2012) salienta que o planejamento de todas as atividades a serem efetuadas pela administração pública devem estar alinhadas ao orçamento-programa e ao Plano Plurianual, pois, não estando, não haverá condição de as diretrizes do orçamento serem aprovadas pelo órgão competente. Assim, incorporadas ao texto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, deverão estar: • fixados os critérios de elaboração da Lei Orçamentária Anual; • definidos como serão utilizados os recursos de reserva de contingência, caso necessário; • explicitados os índices para correção monetária de possível dívida mobiliária em caso de seu refinanciamento; • demonstrados os orçamentos mensais com suas devidas programações financeiras. Observação É importante saber que estamos tratando de um instrumento que funciona como um elo entre os orçamentos anuais e o Plano Plurianual e que, para que seja efetivamente posto em prática, deverá ser aprovado tanto pela Câmara dos Deputados quanto pelo Senado Federal. Não é por outro motivo que, por vezes, há repetição no tratamento de alguns pontos do PPA e da LDO. Saiba mais Acesse o site da câmara dos deputados federais para ler o documento intitulado Informativo Conjunto. O documento comenta os pontos importantes constantes do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias do governo federal para o ano de 2014. BRASIL. Congresso Nacional. Projeto de lei de diretrizes orçamentárias para 2014. Brasília, 2014. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/sileg/ integras/1084702.pdf>. Acesso em: 25 abr. 2017. Conforme Nascimento (2014), o Governo Federal deverá encaminhar o Projeto de Lei das Diretrizes Orçamentárias para aprovação até oito meses antes do encerramento do exercício financeiro. O projeto deve ser devolvido para sanção até o encerramento do primeiro período da sessão legislativa. 114 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II Saiba mais O que se estabelece de prazo para aprovação e sanção do Projeto de Lei das Diretrizes Orçamentárias reflete o que se determina no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). Este tem a finalidade de estabelecer regras de transição entre diferentes ordenamentos jurídicos, a exemplo de mudanças de constituição efetuada por determinado país. Você poderá ler o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias diretamente na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. TÍTULO X – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. In: BRASIL. Constituição Federal. Brasília, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/constituicao/constituicao.htm#adct>. Acesso em: 25 abr. 2017. Nascimento (2014) ainda destaca que, além de a LDO ser vista como uma inovação constitucional em matéria orçamentária, duas considerações devem ser levantadas. A primeira é que a LDO aborda alterações quanto à legislação tributária. A segunda é que ela estabelece políticas específicas para alguns agentes financeiros que se apresentam como agências de fomento, a exemplo do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Giacomoni (2012, p. 227) acrescenta que na LDO deverão constar: • parâmetros para iniciativa de lei de fixação das remunerações no âmbito do Poder Legislativo; • limites para elaboração das propostas orçamentárias do Poder Judiciário e do Ministério Público; • autorização para a concessão de qualquer vantagem ou aumento de remuneração, para a criação de cargos, empregos e funções ou alteração de estrutura de carreiras, bem como para a admissão ou contratação de pessoal, a qualquer título, pelos órgãos e entidades da administração direta e indireta, ressalvadas as empresas públicas e sociedades de economia mista. Outra inovação a ser destacada com o advento da LDO é a possibilidade de retorno à soberania popular com a participação da sociedade na discussão do que deve ou não ser considerado como prioridade em termos de ações públicas, o que sem a constituinte não seria possível. 115 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Lembrete Lembre-se de que esse aspecto também foi ressaltado quando tratamos do PPA. Giacomoni (2012) indica que, quando a lei de diretrizes pode ser aprovada com brevidade, ou mesmo previamente a sua execução, há maior possibilidade de entendimento entre os poderes executivo e legislativo, pois ali estão explicitados “investimentos, metas fiscais, mudanças na legislação sobre tributos e políticas de fomento a cargo de bancos oficiais” (GIACOMONI, 2012, p. 229). Além do que se estabeleceu de obrigatoriedade, a LDO deve apresentar detalhamentos anexos; os dois eixos são o de metas fiscais e o de riscos fiscais (GIACOMONI, 2012). Nos Anexos de Metas Fiscais deverão ser apresentadas, tanto para o exercício corrente como para os dois próximos, as metas anuais para receitas e despesas, e a dívida pública em seus conceitos primário e nominal. Além disso, há necessidade de avaliar se as metas estabelecidas para o ano anterior ao corrente foram conquistadas. Do contrário, de alguma forma, devem ser encontrados seus motivos. Acrescenta-se que, referentes aos últimos três exercícios, a evolução patrimonial deve ser demonstrada e, em caso de algum ativo ter sido transferido de titularidade, a origem e o uso dos recursos devem ser explicitados, além de apresentar o demonstrativo da estimativa e/ou da compensação da renúncia de receitas, caso haja. Nos mesmos Anexos, a avaliação da situação financeira e atuarial deve ser levada em consideração, notadamente aquela relacionada à previdência social, incluindo a dos servidores e a situação financeira do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT). O Anexo de Riscos Fiscais apresenta avaliação das condições dos passivos, bem como demais riscos financeiros que possam atrapalhar as contas públicas. Saiba mais Para que veja a Lei de Diretrizes Orçamentárias na prática, acesse: BRASIL. Lei nº 13.080, de 2 de janeiro de 2015. Dispõe sobre as diretrizes para a elaboração e execução da Lei Orçamentária de 2015 e dá outras providências. Brasília, 2015a. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13080.htm>. Acesso em: 26 abr. 2017. 116 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II 8 ENTRAVES AO CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO: DESAFIOS INFRAESTRUTURAIS Não é difícil verificar que as mais variadas mídias anunciam todos os anos notícias sobre promessas governamentais acerca da construção de uma nova ferrovia; manchetescom o número de mortes nas estradas em um feriado prolongado; imagens de um apagão logístico nos aeroportos ou no abastecimento energético, dentre outras questões pertinentes. É possível verificar que o Brasil avançou muito nos últimos 15 ou 20 anos, mas há muito o que fazer ainda. Particularmente na infraestrutura, são grandes os desafios. É notória a percepção de que a infraestrutura econômica ainda precisa avançar muito para que deixe de ser uma limitadora ao desenvolvimento do Brasil. Quando tratamos da questão da infraestrutura, não estamos somente nos referindo à questão da malha dos transportes e suas diversas modalidades, mas também lembrando saúde, saneamento básico, educação, mobilidade social e questões demográficas dos grandes centros urbanos e melhorias nas condições de produção e sociais das áreas rurais. Ainda há muito o que fazer. Giambiagi e Pinheiro (2012) abordam que a análise da infraestrutura brasileira deve ser efetuada por quatro ângulos: da perspectiva da renda, das condições atuais do setor, das iniciativas do Plano de Aceleração do Crescimento e, por fim, mas não mesmo importante, o que se tem a fazer quanto ao futuro. No que é possível comparar, conforme o ranking divulgado pelo World Economic Forum (2015), o Brasil ocupou, no ano de 2015, o lugar de 75º entre as 140 economias estudadas. No ano de 2011 ocupou o 53º lugar dentre as 142 economias. Com relação à renda, ocupou a 79ª posição em 2015 dentre os 185 países classificados. Conforme abordado pelo referido relatório, a perda de competitividade deve- se, basicamente, à má qualidade da infraestrutura do País, o que acaba por afetar a geração da renda. Conforme destacam Giambiagi e Pinheiro (2012, p. 93), A situação dos setores não é uniforme. Nos serviços de eletricidade e telefonia, o Brasil ocupa posição pouco abaixo da que caberia esperar, dada a renda per capita [...]. Não obstante, [...], a infraestrutura de transporte ocupa posição bem pior especialmente em relação aos portos e estradas. A qualidade dos aeroportos também se compara desfavoravelmente com outros países, embora a disponibilidade de assentos em aviões seja percebida como abundante. Por mais que as atitudes governamentais e seu planejamento econômico procurem avançar em melhoria das condições infraestruturais, como se viu no histórico aqui apresentado, percebe-se uma carência em diversas áreas. É uma questão de limites, assim como colocado pelo Ótimo de Pareto: por mais que o Estado procure melhorar as condições em alguma área, saúde ou educação, por exemplo, sempre haverá necessidade de melhorias em outras: seja pelo motivo de algumas áreas serem privilegiadas diante da gestão pública, seja pela percepção de como a sociedade recebe a política pública desenvolvimentista adotada por determinado governo. Aqui, não nos cabe julgar. 117 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA Resumo Nesta unidade, tratamos do assunto Planejamento do ponto de vista do setor público. Abordamos a questão do planejamento governamental como atividade específica do Estado que, do ponto de vista de uma economia moderna, não mais se faz pelo Estado patrimonialista e burocrático, mas pelo Estado gestor, regulador, com as premissas do planejamento empresarial estão impregnadas. Abordamos a questão do planejamento do ponto de vista teórico a fim de poder avançar para o planejamento no Brasil, especificamente. Para tanto, resgatamos as principais iniciativas de planejamento econômico no Brasil, desde as teses desenvolvimentistas até aquelas mais contemporâneas. Vimos, de forma geral, como cada governo tratou da questão do crescimento e do desenvolvimento econômico em suas iniciativas de planejamento, sem colocar juízo de valor nas atitudes. Tratamos da obrigatoriedade de qualquer governo em apresentar seu planejamento por meio do uso de peças orçamentárias, a exemplo do Plano Plurianual e das Leis de Diretrizes Orçamentárias. Nesse aspecto, efetuamos uma leitura dos documentos oficiais de tais peças orçamentárias desde seu surgimento, com os governos de Fernando Henrique Cardoso, até a atualidade. Claro que os documentos avançam em relação ao que foi aqui apresentado: nosso intuito foi oferecer, a você, contato com o que lá existe de mais relevante para o assunto tratado na disciplina. Caso prefira um contato direto com os documentos, é possível observar diversas nuances que não foram aqui privilegiadas por uma questão de escolha. Finalizamos a unidade tratando do assunto da infraestrutura econômica como principal entrave ao crescimento e ao desenvolvimento econômico atuais. O tratamento não foi profundo, mas teve como propósito colocar a questão em pauta, mesmo porque, neste momento, fazemos parte da história que pode ser modificada amanhã. Exercícios Questão 1. (Cesgranrio 2009) O governo Collor, no início da década de 1990, lançou uma nova Política Industrial e de Comércio Exterior (PICE) com vários objetivos, dentre eles, A) proteger a indústria no País da competição externa predatória, sobretudo asiática. B) reduzir a demanda agregada na economia brasileira, que estava superaquecida. 118 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Unidade II C) expor a indústria no Brasil à competição externa, reduzindo paulatinamente as tarifas alfandegárias. D) aumentar a eficiência das empresas estatais, para evitar privatizá-las. E) promover a produção de bens de consumo de massa. Resposta correta: alternativa C. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta Justificativa: a PICE diminuiu a proteção da indústria nacional devido à abertura comercial, com a diminuição das tarifas alfandegárias e a desestatização de empresas públicas. B) Alternativa incorreta Justificativa: a PICE buscava alterar o ritmo de preços da economia, com uma maior entrada de produtos importados mais baratos e racionalizar a produção das empresas nacionais. C) Alternativa correta Justificativa: a PICE tinha como objetivo propiciar uma maior entrada de produtos importados, assim, passaria por uma diminuição das tarifas alfandegárias dando maior competitividade a estes produtos. D) Alternativa incorreta Justificativa: dentro desta nova política, com a abertura da economia, o processo de privatização das estatais era importante para aumentar a eficiência da produção nacional. E) Alternativa incorreta Justificativa: a PICE contava com a prerrogativa de abrir a economia brasileira, principalmente aumentando a importação de bens de consumo de massa concorrendo com a produção nacional e racionalizando a produção. Questão 2. (ISAE-Analista/2011) O Plano Plurianual, instrumento de planejamento da atuação governamental, estabelece: A) as prioridades da administração pública. B) as orientações sobre a elaboração do orçamento anual. C) a política de aplicação das agências financeiras oficiais de fomento. 119 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 CIÊNCIAS ECONÔMICAS INTEGRADA D) as orientações sobre as alterações na legislação tributária. E) as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública. Resolução desta questão na plataforma. 120 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 1 NOVO método para classificação de países acaba com conceito de “emergentes”. BBC Brasil, 19 ago. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150814_economia_paises_ hb>. Acesso em: 10 mar. 2016. Figura 2 16.JPG. Disponível em: <http://www.objetivo.br/conteudoonline/imagens/conteudo_8901/16.jpg>. Acesso em: 10 mar. 2017. Figura 3 SOUZA, N. de J. de. Desenvolvimento econômico. São Paulo, Atlas, 2009. p. 20. Adaptada. Figura 4 17A.JPG. Disponível em: <http://www.objetivo.br/conteudoonline/imagens/conteudo_8901/17a.jpg>. Acesso em: 17 mar. 2017. Figura 5 IMAGEM0001.JPG.Disponível em: <http://www.objetivo.br/conteudoonline/imagens/conteudo_3842/ imagem0001.jpg>. Acesso em: 14 mar. 2017. Figura 6 IMAGEM0002.GIF. Disponível em: <http://www.objetivo.br/conteudoonline/imagens/conteudo_3842/ imagem0002.gif>. Acesso em: 14 mar. 2017. Figura 7 IMAGEM0003.GIF. Disponível em: <http://www.objetivo.br/conteudoonline/imagens/conteudo_3842/ imagem0003.gif>. Acesso em: 14 mar. 2017. Figura 8 HOLANDA, M. C.; GOSSON, A. M. P. M.; NOGUEIRA, C. A. G. O Índice de Gini como medida da concentração da renda. Fortaleza: Governo do Estado do Ceará; Seplan; Ipece, 2006. p. 3. Nota Técnica n. 14. Disponível em: <http://www.ipece.ce.gov.br/notas_tecnicas/NT_14.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2016. 121 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 6/ 04 /2 01 7 Figura 9 RODION-KUTSAEV-950.JPG. Disponível em: <https://unsplash.com/photos/23dcwcPYegU>. Acesso em: 9 mar. 2016. Figura 10 Grupo Unip-Objetivo. Figura 12 Grupo Unip-Objetivo. Figura 13 MATIAS-PEREIRA, J. Finanças públicas: foco na política fiscal, no planejamento e orçamento público. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012. p. 279. Figura 14 MATIAS-PEREIRA, J. Finanças públicas: foco na política fiscal, no planejamento e orçamento público. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012. p. 318. Figura 15 NASCIMENTO, E. R. Gestão pública. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 107. Adaptada. REFERÊNCIAS Audiovisuais O HOMEM que mudou o jogo. Dir. Benneth Miller. EUA, 2011. 133 minutos. Textuais O ATLAS: Glossário. Atlas do Desenvolvimento Humano, Brasília, [s.d.]. Disponível em: <http://www. atlasbrasil.org.br/2013/pt/o_atlas/glossario/>. Acesso em: 14 mar. 2017. BAER, W. A economia brasileira. São Paulo: Nobel, 1996. BERLINCK, M. T.; COHEN, Y. Desenvolvimento econômico, crescimento econômico e modernização na Cidade de São Paulo. Rev. Adm. Empr., São Paulo, v. 10, n. 1, p. 45-64, jan./mar. 1970. 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