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Capítulo 1 Introdução à Química dos compostos de carbono 51 R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ak g-i m ag es / la ti n st o c k - c o le ç Ã o s m P k , g a le r ia n a c io n al , b er lim “Como pensam os cientistas Em Ciência, a criatividade é a arte de somar dois mais dois e obter cinco. A instigante definição pertence ao escritor húngaro Artur Koestler (1905-1983), que investigou com rara sutileza o processo da criação científica. ‘Esse aparente passe de mágica deriva do fato de que o todo não é meramente a soma das partes, mas uma expressão da relação entre elas’, explicou Koestler, procurando justificar sua provocadora aritmética. Além da poderosa ferra- menta constituída pelo raciocínio, outra função psíquica fornece aos cientistas a chave que permite abrir a porta para esse ‘algo mais’. Referimo-nos à intuição. Exemplo emblemático do uso da intuição foi a célebre descoberta da estrutura molecu- lar do benzeno pelo químico alemão Friedrich August Kekulé (1829-1896). Pai fundador da Química Orgânica, Kekulé sabia que a molécula do benzeno era formada por seis átomos de carbono e seis átomos de hidrogênio (C6H6). Mas como dispor esses componentes em um arranjo estável? Ele mesmo havia descoberto que o átomo de carbono é capaz de estabelecer ligações simples com quatro átomos quaisquer (tetravalência). Ao passo que o hidrogênio estabelece uma única ligação simples (monovalência). Fazendo as contas, concluíra que, em todos os hidrocarbonetos (substâncias formadas exclusivamente por carbono e hidrogênio) [que tivessem cadeia saturada], o número de átomos de hidrogênio devia exceder o número de átomos de carbono em duas vezes mais dois – uma regra ele- mentar desafiada pelo benzeno. O químico dedicou longas reflexões à análise do problema. Sem sucesso aparente. Até que, em um sonho ocorrido no ano de 1865, viu uma cobra engolindo o próprio rabo. Ao acordar, tinha consigo a resposta para a pergunta que há tanto tempo o desafiava: bastava fechar a cadeia de carbonos, compondo uma estrutura em forma de anel. A figura da serpente deu-lhe a chave para a solução do enigma. C C H C C H C H Fórmula estrutural do benzeno H C H H O mais interessante é que essa imagem, previamente desconhecida pelo cientista, é um símbolo antiquíssimo, o Uroboros, encontrado em diversas tradições espirituais, inclusive a alquimia. Representa a Totalidade, que é única e tudo engloba. Por isso, a cobra muitas vezes aparece acompanhada da inscrição Én Tó Pan, que, em grego, significa ‘Um, o Todo’. […] Longe de ser um caso isolado, o sonho de Kekulé é característico de um tipo de processo psíquico extremamente frequente na história da Ciência. Precedida de longo e trabalhoso período de reflexão, pontuado por tentativas e erros, a solução do problema muitas vezes surge ao cientista não como argumentação racional extensa, mas de forma compacta, se- melhante a um raio caído do céu azul. Esses vislumbres ocorrem em geral nos contextos mais inesperados. Todos conhecem os exemplos do eureca de Arquimedes ou da maçã de Newton. O físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-1894) discorreu explicitamente sobre o papel da intuição em sua própria atividade científica. Consagrado como um dos maiores cientistas de todos os tempos, graças à enunciação do princípio da conservação da energia, Helmholtz reconheceu que suas principais realizações nasceram de ‘ideias felizes’ que lhe surgiram sem ele mesmo saber de onde. ‘Antes’, afirmou, ‘era sempre preciso que tivesse estudado exaustivamente o problema, até o ponto de poder guardar na memória todos os seus aspectos, tornando-me capaz de examiná-los facilmente, sem anotações’. Quando ele se recuperava do cansaço causado pelo esforço intelectual, a solução aflorava repentinamente em sua consciência. […] 52 Reavalie o que você pensa a respeito Resolva em seu caderno Verifique em que mudaram suas concepções prévias Reveja sua resposta à atividade da segunda página deste capítulo, reavalie o que escreveu, discuta com seus colegas e, se julgar necessário, elabore novas justificativas ou aprimore as que tinha escrito. Apresenteas ao professor. UROBOROS. O símbolo, antiquíssimo, aparece em várias c tradições espirituais, inclusive na alquimia. Sonhando com ele, Kekulé resolveu o problema da estrutura molecular do benzeno: bastava fechar a cadeia de carbono. Ilustração de Theodoros Pelecanos, de 1478. R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . o x fo r d u n iv e r s it y Não existem receitas para a criatividade. Mas o que parece distinguir os indivíduos realmente criativos é sua capacidade de alternar com grande flexibilidade os dois estados psíquicos mencionados por Helmholtz: a atenção focalizada, característica da atividade racional, e a abertura ao inusitado, que os torna receptivos aos lampejos da intuição.” Fonte do segundo texto: ARANTES , J. T. Scientific American Brasil, Edição especial Gênios da Ciência — Stephen Hawking, s.d., p. 2627. 1. Após leitura atenta do texto, escreva no seu caderno o que vem a ser a Teoria da Força Vital. 2. Após leitura atenta do texto, cite alguns fatores que contribuíram para o abandono da Teoria da Força Vital. 3. Pesquise o que se entende por composto orgânico natural e por composto orgânico artificial e, trabalhando em grupo, faça uma pequena apresentação para seus colegas de sala. 4. Faça com o grupo uma lista contendo alguns compostos orgânicos naturais e alguns compostos orgânicos artificiais. 5. Em 1828, o químico alemão Friedrich Wöhler transformou cianato de amônio (composto inorgânico) em ureia (composto orgânico). cianato de amônio ureia CNH14CNO O NH2H2N Baseado em seus conhecimentos sobre substâncias químicas, você espera que as pro- priedades da ureia sintetizada por Wöhler sejam iguais ou diferentes da ureia encontrada na natureza? Justifique. 6. Baseado na definição do escritor húngaro Artur Koestler, presente na leitura, qual seria o elemento adicional na frase: “Em Ciência, a criatividade é a arte de somar dois mais dois e obter cinco”? 7. Faça uma pesquisa e discuta com seus colegas outras situações na história da Ciência em que esse “algo mais” fez a diferença. Você entendeu a leitura? Responda em seu caderno