Prévia do material em texto
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 6 Romantismo: prosa166 Azevedo (Com desdém) — Já foi a Paris, Sr. Alfredo? Alfredo – Não, senhor; desejo, e ao mesmo tempo receio ir. Azevedo – Por que razão? Alfredo – Porque tenho medo de, na volta, desprezar o meu país, ao invés de amar nele o que há de bom e procurar corrigir o que é mau. [...] ALENCAR, J. O demônio familiar. 4.ed. São Paulo: Martin Claret, 2013. p.90-92. Com base na obra O demônio familiar, de José de Alencar, responda aos itens a seguir. a) A cena ressalta uma temática comumente explo- rada por José de Alencar. Indique qual é essa temática e explique como a cena a aborda. ) De acordo com a temática indicada no item a), aponte a personagem que mais se aproxima das concepções defendidas por Alencar. Justifique sua resposta. 17 Fuvest 2015 Tornando da malograda espera do tigre, al- cançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão, com que pre- tendiam abrir uma boa roça. — Mas chegará, homem? perguntou a velha. — Há de se espichar bem, mulher! Uma voz os interrompeu: — Por este preço dou eu conta da roça! — Ah! É nhô Jão! Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado. Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos des- cobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados. José de Alencar, Til. Moquirão: mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito). Considerada no contexto histórico-social gurado no romance Til, a brusca reação de Jão Fera, narrada no nal do excerto, explica-se A pela ambição ou ganância que, no período, carac- terizava os homens livres não proprietários. b por sua condição de membro da Guarda Nacional, que lhe interditava o trabalho na lavoura. c pela indolência atribuída ao indígena, da qual era herdeiro o “bugre”. d pelo estigma que a escravidão fazia recair sobre o trabalho braçal. E pela ojeriza ao labor agrícola inerente a sua condi- ção de homem letrado. 18 Unicamp 2013 — [...] Quando o Bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz garbo disso! — Então você cuida que ele anda atrás de alguém? — Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda. Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa: — Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui per- to, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça. — É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola. — Coitado! Se o prendem! — Ora qual. Dançará um bocadinho na corda! — Você não tem pena? — De um malvado, Inhá! — Pois eu tenho! José de Alencar, Til, em Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958, p. 825. O trecho do romance Til transcrito acima evidencia a ambivalência que caracteriza a personagem Jão Fera ao longo de toda a narrativa. a) Explicite quais são as duas faces dessa ambiva- lência. ) Exemplifique cada face dessa ambivalência com um episódio do romance. 19 ITA 2015 No romance Senhora, José de Alencar mostra que A o dinheiro e a ambição impedem a realização do amor entre Aurélia e Seixas. b Aurélia, moça de origem pobre, conquistou o amor de Seixas só porque enriqueceu. c o amor de Aurélia teve força suficiente para rege- nerar o caráter de Seixas. d Seixas se regenerou moralmente por si mesmo, in- dependentemente de Aurélia. E o meio social corrompeu de uma vez por todas o caráter de Seixas. 20 ITA 2017 Na cção romântica, em geral, o destino das personagens femininas é a felicidade pelo casamen- to ou a morte trágica. Nesse aspecto, Til, de José de Alencar, traz um nal inovador, resultante do amadure- cimento de Berta após conhecer a história de Besita, sua mãe. Podemos armar isso acerca do romance em questão, pois Berta A recusa-se a se casar com Miguel quando descobre ser filha incógnita de Luís Galvão. b abre mão do casamento, ainda que com algum so- frimento, optando por cuidar de Zana e Brás. c aceita ser reconhecida legalmente como filha por Luís Galvão, mostrando-se mais flexível que a mãe. d enfrenta o assédio de Jão Fera, que violentou Besita. E assassina Ribeiro, como vingança pela morte da mãe. F R E N T E 2 167 Texto para as questões 21 e 22. A esmeralda e o camafeu — Se eu encontrasse!... — Então?... que faria?... — Atirar-me-ia a seus pés, abraçar-me-ia com eles e lhe diria: “Perdoai-me, perdoai-me, senhora, eu já não posso ser vosso esposo! tomai a prenda que me deste...” E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve, que convulsivamente apertou na mão. — O breve verde!... exclamou D. Carolina, o breve que contém a esmeralda!... — Eu lhe diria, continuou Augusto: “recebei este breve que já não devo conservar, porque eu amo outra que não sois vós, que é mais bela e mais cruel do que vós!...” A cena se estava tornando patética; ambos choravam e só passados alguns instantes a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao triste estudante. — Oh! pois bem, disse; vá ter com sua desposada, repita-lhe o que acaba de dizer, e se ela ceder, se perdoar, volte que eu serei sua... esposa. — Sim... eu corro... Mas, meu Deus, onde poderei achar essa moça a quem não tornei a ver, nem poderei conhecer?... onde meu Deus?... onde?... E tornou a deixar correr o pranto, por um momento suspendido. — Espere, tornou D. Carolina, escute, senhor. Houve um dia, quando a minha mãe era viva, em que eu também socorri um velho moribundo. Como o senhor e sua cama- rada, matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus filhos; em sinal de reconhecimento também este velho me fez um presente: deu-me uma relíquia milagrosa que, asseverou-me ele, tem o poder uma vez na vida de quem a possui, de dar o que se deseja; eu cosi essa relíquia dentro de um breve; ainda não lhe pedi coisa alguma, mas trago-a sempre comigo; eu lha cedo... tome o breve, descosa-o, tire a relíquia e à mercê dela encontre sua antiga amada. Obtenha o seu perdão e me terá por esposa. — Isto tudo me parece um sonho, respondeu Augusto, porém, dê-me, dê-me esse breve! A menina, com efeito, entregou o breve ao estudan- te, que começou a descosê-lo precipitadamente. Aquela relíquia, que se dizia milagrosa, era sua última esperança; e, semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo se agarra à mais leve tábua, ele se abraçava com ela. Só falta a derradeira capa do breve... ei-la que cede e se descose... Salta uma pedra... e Augusto, entusiasmado e como deli- rante, cai aos pés de D. Carolina, exclamando: — O meu camafeu!... o meu camafeu!... MACEDO, Joaquim Manoel de. A moreninha. 21 Mackenzie 2015 A partir do fragmento selecionado, pode-se armar que a prosa de Joaquim Manoel de Macedo I. é marcada por enredos cheios de peripécias e final feliz. II. é composta com uma linguagem simples, estilo fluente e leve. III. é elaborada em torno de objetividade temática, com negação do sentimentalismo. Assinale a alternativa correta. A Estão corretas apenas as alternativas I e II. b Estão corretas apenas as alternativas I e III. c Estão corretas apenas as alternativas II e III. d Todas as alternativas estão corretas. E Nenhuma das alternativas está correta. 22 Mackenzie 2015 Assinale a alternativa inorreta sobre a prosa romântica brasileira. A Destacam-se autores como Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Visconde de Taunay. b Retrata a sociedade da época embasada pela ideologia positivistae pelo cientificismo. c Costuma girar em torno da descrição dos costumes da sociedade da época, criando identificação com o público-leitor. d É composta de romances de costumes, urbanos, indianistas, regionalistas e históricos. E Visconde de Taunay é um dos representantes do romance regionalista com a obra Inocência. Texto para as questões 23 e 24. Inocência Depois das explicações dadas ao seu hóspede, sen- tiu-se o mineiro mais despreocupado. — Então, disse ele, se quiser, vamos já ver a nossa doentinha. — Com muito gosto, concordou Cirino. E, saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez pas- sar por duas cercas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira a magnífico laranjal, naquela ocasião todo pontuado das brancas e olorosas flores. — Neste lugar, disse o mineiro apontando para o po- mar, todos os dias se juntam tamanhos bandos de graúnas, que é um barulho dos meus pecados. Nocência gosta mui- to disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. É uma menina esquisita... Parando no limiar da porta, continuou com expansão: — Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças e perguntas que me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta avó... Pois não é que um belo dia ela me pediu que lhe ensinasse a ler? ... Que ideia! Ainda há pouco tempo me disse que quisera ter nascido princesa... Eu lhe retruquei: E sabe você o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio tonto. E se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?! ... Parece que está falando com eles e que os entende... [...] Quando Cirino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quase noite, de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde lobrigar, além de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradadas. [...] Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 6 Romantismo: prosa168 uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e voltou-se para os que entravam. — Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar- -te de vez. — Boas noites, dona, saudou Cirino. Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no seu papel de médico, se sentava num escabelo junto à cama e tomava o pulso à doente. Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por trás da nuca. Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante. Do seu rosto, irradiava singela expressão de encanta- dora ingenuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a ponto de projeta- rem sombras nas mimosas faces. Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pe- quena, e o queixo admiravelmente torneado. Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo de fascinadora alvura, em que ressaltava um ou outro sinal de nascença. Razões de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a mão fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil cliente. TAUNAY, Visconde de. Inocência. São Paulo: Ática, 2011. graúna: pássaro de plumagem negra, canto melodioso e hábitos eminentemente sociais; livro de horas: livro de preces; secundar: responder; lavrado: na província de Mato Grosso, colar de contas de ouro e adornos de ouro e prata; lobrigar: enxergar; escabelo: assento; facultativo: médico. 23 Uerj 2013 A caracterização de Inocência confirma só parcialmente a idealização da heroína romântica. Indique uma característica que Inocência apresenta em comum com as heroínas românticas e outra que a torna diferente dessas heroínas. 24 Uerj 2013 — Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças e perguntas que me fazem em- batucar... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta avó... Pois não é que um belo dia ela me pediu que lhe ensinasse a ler?... Que ideia! Ainda há pouco tempo me disse que quisera ter nascido princesa... Eu lhe retruquei: E sabe você o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito boni- ta, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no pescoço (l 16-24). O trecho anterior faz referência a crenças e valores de Inocência e de seu pai, Pereira. Apresente dois traços do comportamento de cada um desses personagens que revelam a diferença de valo- res entre eles. Em seguida, indique a modalidade de romance em que tais personagens se inserem. 25 UFBA 2012 I. Mas que é na realidade o negro escravo feiticeiro? Em que consiste a sua faculdade de fazer mal impunemente? Qual é a fonte de sua força, da sua influência ativa e funesta? [...] [...] O feiticeiro não é mais nem menos do que um pro- pinador de venenos vegetais. [...] [...] Herbolários tremendos, os escravos feiticeiros têm escondidos no bosque, e sempre à mão, e sempre certos de serem achados, os punhais invisíveis, os tiros sem es- trépito, os venenos ignorados, com que estragam a saúde, ou apagam a vida daqueles de quem se querem vingar, ou a quem se resolvem a matar. MACEDO, Joaquim Manuel de. As vítimas-algozes: quadros da escravidão. 4 ed. São Paulo: Zouk, 2005. p. 62. II. A escrava já tinha feito da menina inocente, donzela maliciosa e sabida de mais do que para sua glória podia ignorar ainda por alguns anos. Da donzela maliciosa fizera depois moça hipócrita e falaz. Da moça hipócrita acabara por fazer indômita na- moradeira. Matara-lhe a inocência, destruíra-lhe a virgindade do sentimento, viciara-lhe o coração, sensualizara-lhe os senti- dos, desvirtuara-lhe a educação, e já lhe atirava o nome e o crédito aos insultos das murmurações e da maledicência. A influência da mucama escrava produzia seus natu- rais resultados. A árvore da escravidão envenenava com seus frutos a filha dos senhores. A vítima era por sua vez algoz. MACEDO, Joaquim Manuel de. As vítimas-algozes: quadros da escravidão. 4 ed. São Paulo: Zouk, 2005. p. 151 III. [...] Aqui, destaca-se a atuação socializadora da mulher negra servindo de “mãe-preta” no seio da família colonial e o tráfico de influên cias exercido pelo escravo ladino (aquele que logo aprendia a falar português) sobre um número maior de ouvintes. Subjacente a esse processo, o desempenho só- cio-religioso de uma geração de sacerdotisas negras que sobreviveu a toda a sorte de perseguições e preconceitos. [...] Na inevitabilidade desse processo de influências cul- turais recíprocas e em resistência a ele, o negro terminou impondo, de forma mais ou menos subliminar, alguns dos mais significativos valores do seu patrimônio cultural na construção da sociedade nacional emergente no Brasil. [...] É evidente o impacto da herança africana nas mais conhecidas manifestações culturais que foram legitima- das como autenticamente brasileiras e são utilizadas para projetar a imagem do Brasil no exterior, seja no samba, na capoeira, no traje da baiana, na cozinha à base de dendê, no Candomblé com suas danças e seus ritos. Além disso, a herança africana no Brasil tem sido fonte valiosa de criação artística e literária na promoção internacional de escritores, compositores, artistas plásticos, bailarinos, cineastas, fotógrafos, não só de nacionalidade brasileira. CASTRO, Yeda Passos de. Dimensão dos aportes africanos no Brasil. In: BACELAR, Jeferson; PEREIRA, Cláudio (Orgs.). Vivaldo da Costa Lima: intérprete do Afro-Brasil. Salvador: EDUFBA; CEAO, 2007. p. 126-7.