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Caderno de Resumos XXVI Congresso Internacional da ABRAPLIP Ensino e pesquisa da literatura portuguesa no Brasil e no mun- do Caderno de resumos Curitiba 2017 Universidade Federal do Paraná (UFPR) Reitor: Prof. Dr. Ricardo Marcelo Fonseca Setor de Ciências Humanas (SCH – UFPR) Diretora: Profª. Drª. Ligia Negri Departamento de Literatura e Linguística (DELLIN – UFPR) Chefe: Profª. Drª. Adelaide Hercília Pescatori Silva Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLET – UFPR) Coordenadora: Profª. Drª. Maria Cristina Figueiredo Silva Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP) Diretoria Executiva - Gestão 2016/2017 Presidente: Profª. Drª. Patrícia da Silva Cardoso (UFPR) Vice-Presidente: Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim (UFSCAR) Secretário-Executivo: Prof. Dr. Antonio Augusto Nery (UFPR) Secretário Adjunto: Profª. Drª. Rosana Apolonia Harmuch (UEPG) Tesoureiro: Prof. Dr. Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Tesoureiro Adjunto: Prof. Dr. Marcelo Corrêa Sandmann (UFPR) Assessora de Comunicação: Profª. Drª. Luciene Marie Pavanelo (UNESP) Zonas regionais de representatividade: Regional 1 – RJ e ES: Profª. Drª. Ida Maria Santos Ferreira Alves (UFF) e Profª. Drª. Mônica Figueiredo (UFRJ) Regional 2 – SP e MS: Prof. Dr. Paulo Motta Oliveira (USP) e Profª. Drª. Renata Soares Junqueira (UNESP) Regional 3 – BA, SE e AL: Prof. Dr. Márcio Ricardo Coelho Muniz (UFBA) e Prof. Dr. Flávio Reis (UESB) Regional 4 – PE, PB, RN, CE, MA e PI: Profª. Drª. Ana Márcia Alves Siqueira (UFC) e Profª. Drª. Márcia Manir Miguel Feitosa (UFMA) Regional 5 – RS, SC e PR: Profª. Drª. Simone Schmidt (UFSC) e Profª. Drª. Tatiana Prevedello (IFFAR) Regional 6 – MG, GO, TO e OF: Profª. Drª. Raquel Madanelo Sousa (UFMG) e Daviane Moreira (UFG) Regional 7 – AM, AP, AC, PA, RO, RR e MT: Prof. Dr. Otávio Rios Portela (UEA) e Prof. Dr. Sílvio Augusto de Oliveira Holanda (UFPA) XXVI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP) Comissão organizadora: Prof. Dr. Antonio Augusto Nery (UFPR) Profª. Drª. Luciene Marie Pavanelo (UNESP) Prof. Dr. Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Prof. Dr. Marcelo Corrêa Sandmann (UFPR) Profª. Drª. Patrícia da Silva Cardoso (UFPR) Promoção: Centro de Estudos Portugueses da Universidade Federal do Paraná (CEP – UFPR) Endereço: Rua General Carneiro, 460, 11º andar, sala 1108. Centro. 80-060150 – Curitiba, PR – Brasil. E-mail: cep.ufpr@gmail.com. Telefones: +55 (41) 3360 5303/ +55 (41) 3360 5097 Diagramação do Caderno de Resumos: Prof. Dr. Giuliano Lellis Ito Santos (USP) Assessoria técnica e coordenação dos monitores: Doutorando Sérgio Luiz Ferreira de Freitas (UFPR) Apoio: Universidade Federal do Paraná (UFPR) Setor de Ciências Humanas (CH – UFPR) Departamento de Literatura e Linguística (DELLIN – UFPR) Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET – UFPR) Associação Internacional de Lusitanistas (AIL) Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) Editora Oficina Raquel Sumário O monóculo e o paletó cor de macaco : a ironia necessária de Eça e de Graciliano 33 Adriana Coelho Florent (Universidade de Aix Marseille) Os Lusíadas: mito e história Portuguesa 33 Adriana de Oliveira Teixeira Kato (UFRR) O teatro português - perspectivas para o ensino e a pesquisa nas universidades brasileiras 34 Agnaldo Rodrigues da Silva (UNEMAT) A recepção da literatura portuguesa em países de língua estrangeira, mas sobretudo na música brasileira: o caso da obra de Fernando Pessoa 34 Albertina Pereira Ruivo (CREPAL/Sorbonne Nouvelle-Paris 3/CHAM/FCSH- UNL) Breviário do Brasil de Agustina Bessa-Luís: uma poética da relação. 35 Alda Maria Lentina (Universidade de Dalarna) Aspectos da teopoesia na escritura do heterônimo Álvaro de Campos de Fernando Pessoa 35 Alexandre Bonafim Felizardo (UEG) Comunidades leitoras, legibilidades comuns: literatura portuguesa no Brasil 35 Alexandre Montaury Baptista Coutinho (PUC-Rio/CNPq) Rosalia de Castro: autora portuguesa(?)(!) 36 Alexandre Silveira Campos (UNESP) Em nome do pai: a forma do luto na obra de José Luís Peixoto 36 Aline de Almeida Rodrigues (UCP) A moral e a ética religiosa na poesia satírica de Bocage 37 Aline Fernanda Fabricio de Andrade (UNICAMP) O entrecruzamento entre o eu e o outro diante da esfera pública e privada construída em O homem duplicado, de José Saramago 37 Aline Santos Pereira (UFPR) Blimunda: relações de poder e resistência em Memorial do convento, de José Saramago 38 Amanda Gomes de Matos Ramos (UERJ) Sobre os espelhos nos poemas de Florbela Espanca: indícios representativos 39 Amanda Moury Fernandes Bioni (UFPE) A Mariposa, de Maria Peregrina de Sousa: um inseto social?! 39 Ana Cristina Comandulli da Cunha (UNIRIO/RGPL/Centro de Estudos Clássicos – FLUL) Convergências vergilianas: arte, palavra, vida 40 Ana Cristina Fernandes Pereira Wolff (UTFPR) A composição do universo zoológico de Os cus de Judas 40 Ana Cristina Pinto Bezerra (UFRN/IFRN) A relevância dos espaços no romance Combateremos a Sombra, de Lídia Jorge 41 Ana Denise Teixeira Andrade (UniRitter) A crise identitária do sujeito pós-moderno na crônica A consequência dos semáforos, de António Lobo Antunes 41 Ana Lucia Jesus da Silva (UEFS) A demonização do feminino: a misoginia em “Sonhos de Lancelote” n’A Demanda do Santo Graal 42 Ana Luiza Magalhães Poyaes (UERJ) Aspectos e feições da Literatura Portuguesa nas pesquisas de Pós-Graduação no Nordeste 42 Ana Marcia Alves Siqueira (UFC) “O céu de todo o deus deserto”: uma análise da fortuna crítica de Sophia de Mello Breyner Andresen 43 Ana Maria Ferreira Côrtes (UNICAMP) A figura de José do Telhado em Camilo Castelo Branco e José Mena Abrantes 43 Ana Maria Lange Gomes (UNESP) A recepção crítica da Prosopopeia (1601) de Bento Teixeira e a “política literária” brasileira 44 Ana Paula Gomes do Nascimento (USP) O poder do tempo e a força da memória em Os cus de Judas 44 Ana Paula Martins Costa (SEDUC/AM) Antonia Barbosa de Oliveira (SEDUC/AM) Modernidade e experimentação em Ana Hatherly 45 André Luiz do Amaral (UNESP) Caos por ordenar: os duplos em O homem duplicado 45 Andrea Bittencourt (UFPR) Crime e Ficção: O Porto de Gervásio 46 Andreia Alves Monteiro de Castro (RGPL/Centro de Estudos Clássicos - FLUL) Conselheiro Acácio: “Cavalheiro mais sábio que Zarathustra” – recorrência e influência na mídia brasileira 46 Andréia Márcia de Castro Galvão (Universidade do Minho) Realismo Mágico Antropológico – a arte de transformar a vida comum em excepcional 47 Andressa Luciane Matheus Medeiros (UFPR) De Clarice a Rui: uma leitura de Amor de Clarice sob perspectiva da transposição intersemiótica 47 Anelise de Oliveira de Almeida (UTFPR) A mise en scène do feminino na ficção de Lídia Jorge: sombras e imagens, escolhas e destinos 48 Ângela Beatriz de Carvalho Faria (UFRJ) A metamorfose da saudade: uma leitura de Desamparo, de Inês Pedrosa 48 Angela Maria Rodrigues Laguardia (Universidade Nova de Lisboa) O animal que também sou: um estudo do conto “Um casaco de Raposa Vermelha”, de Teolinda Gersão 49 Antonia Marly Moura da Silva (UFRN) Entre flores, e pedras: um estudo comparativo de “Flores ao telefone”, “Liberdade adiada” e “A imitação da rosa” 49 Antonio Aparecido Mantovani (UNEMAT) Genivaldo Rodrigues Sobrinho (UNEMAT) “Aquele she era eu”: a (im)possibilidade de narrar, em Os Memoráveis, de Lídia Jorge 50 Ariane de Andrade da Silva (UERJ) Personalidade feminina e seus desdobramentos na poética labiríntica de Adília Lopes 50 Arlen Maia de Melo (UFPA) Sara Coelho de Lima (UFPA) A adaptação para o cinema do conto de Eça de Queiroz Singularidades de uma Rapariga Loura por Manoel de Oliveira: a questão da distância. 51 Bernard Corneloup (Université de Lyon 2) Conceição Lima e Sophia Andresen: pontes poéticas 51 Bernardo Nascimento de Amorim(UFOP) Revolta às origens de uma “tradição invisível”: uma leitura de Esse cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida 52 Bianca Mafra Gonçalves (USP) Leitoras levadas pela literatura e pelos amores 52 Bianca Meira Lopes (UEPG) José Saramago pós-Nobel e seu último romance: o escritor e sua missão 53 Bianca Rosina Mattia (UFSC) “O Século XIX concebeu a Democracia” ou Aspectos Estético-políticos da descrição em Os Maias 53 Breno Góes (PUC-Rio) Faces da religiosidade em A pécora e Auto da Compadecida 54 Bruno Vinicius Kutelak Dias (UFPR) Joaquim Sassa: o homem em viagem. Uma análise às viagens de A jangada de pedra, de José Saramago 54 Caio Henrique da Silva Reis (UERJ) O recuo do mar: Memória e erotismo em Luís Miguel Nava 54 Camila Franquini Pereira (UFRJ) “A Noite Escura”: travessia e meditação em Camilo Pessanha 55 Camila Marchioro (UFPR) O discurso simbolista nos campos literário brasileiro e português 56 Camila Paiva da Silva (UERJ) Do rizoma à ficção de Antonio Lobo Antunes 56 Camila Savegnago (UFSM) A constituição do eu narrativo e figural na temporalidade complexa de Lobo Antunes 56 Camila Stefanello (UFSM) Crônica saramaguiana na ditadura: relações empáticas entre narrativa e leitor 57 Carla Mota Menezes (UFPR) O inferno e suas ambivalências: razão, desrazão, continuidades e descontinuidades na obra Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes 58 Carlos Henrique Fonseca (UNESP) Estudos literários e ensino da literatura: o jardim dos caminhos que se cruzam 58 Carlos Reis (Universidade de Coimbra) Antero de Quental ontem e hoje: a educação através da escrita e do debate 58 Carolina Lopes Batista (UFRJ) A representação da loucura em Camilo Castelo Branco 59 Caroline Aparecida de Vargas (UFPR) O grotesco em Loucura, de Mário de Sá-Carneiro: um olhar sobre o caráter de Raul 59 Cássia Alves da Silva (UFC/IFRN) A representatividade da mulher na obra O conto da ilha desconhecida, de José Saramago 60 Celiomar Porfirio Ramos (UNEMAT) Vicente Guedes e o devir 60 Cesar Marcos Casaroto Filho (PUC-RS) “A Capital – Arhutr Corvelo, um lírico no auge do capitalismo” 60 Cíntia Bravo de Souza Pinheiro (SME/SEEDUC) Representações da Memória na obra de Vergílio Ferreira 61 Cintia de Vito Zollner (UNESP) O estudo da personagem e sua relação transliterária 61 Clarice Gomes Clarindo Rodrigues (UNEMAT) A dramaturgia de Gervásio Lobato nos palcos oitocentistas 62 Claudia Barbieri Masseran (UNESP) A formação de uma trilogia em Ensaio sobre a cegueira, A caverna e Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago 62 Claudia Carla Martins (UNEMAT) A História Acordada: Tempo de ação / Tempo de reflexão em Os memoráveis, de Lídia Jorge 62 Cláudia Maria de Souza Amorim (UERJ) Florbela Espanca e Adília Lopes: a subversão do papel feminino 63 Clêuma de Carvalho Magalhães (FURG) Eça de Queirós revisitado no Suplemento Literário de Minas Gerais 63 Cristiane Navarrete Tolomei (UFMA) O tema da censura no período formativo em Saramago (constância da circunstância) 64 Cybele Regina Melo dos Santos (USP) O olhar de Amaro 64 Daiane Cristina Pereira (USP) Presença da literatura portuguesa na revista O Futuro 65 Damares Rodrigues de Oliveira (USP) Aborrecimento e romance português: Camilo e Eça 65 Daniel Bonomo (UNICAMP) Golgona Anghel. Do realismo satírico à poética vadia 66 Daniel de Oliveira Gomes (UEPG) Realismo, arte fantástica: as relações entre imagem e memória coletiva a partir do romance Gaibéus, de Alves Redol 66 Daniel Marinho Laks (UFF) O phatos na poesia simbolista “Brando e vermelho”, de Camilo Pessanha, como provocação à modernidade 67 Daniele Santos (UTFPR) As configurações do feminino em O Primo Basílio: diálogos entre o romance português e o cinema nacional 67 Danielle Machado Fontes (IFBA/FAPESB) José Roberto de Andrade (IFBA) Os discursos são falsos, as vozes se confundem: o narrador e as personagens sob controle em A paixão (Almeida Faria) 68 Dankar Bertinato Guardiano de Souza (UFPR) A morte da vida no romance Jesus Cristo bebia cerveja (2012) do escritor português Afonso Cruz 69 Dante Luiz de Lima (UFPA) No Sonho de Xavier: a construção de um ethos jesuítico em um sermão panegírico de Padre Antônio Vieira 69 Dario Trevisan de Almeida Filho (UFSM) Que sofrência, ‘fessora: reflexões e experiências sobre o ensino de Literatura Portuguesa 70 Daviane Moreira e Silva (UFG/REJ) A escrita cronística autorreflexiva de Inês Pedrosa: Crónica Feminina e o questionamento do fazer literário 70 Diana Navas (PUC-SP) Telma Regina Ventura (PUC-SP) Luiza de Mesquita: o mar inalcançável 70 Diogo Ballestero Fernandes de Oliveira (UFRJ) Herberto Helder e o corpo político 71 Djanine Belém (UFBA) Lendo o modernismo português à luz das revistas literárias de Goa e de Macau 71 Duarte Nuno Drumond Braga (USP/FAPESP) “Para além” da adaptação: as remissões literárias do filme O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira 72 Edimara Lisboa (USP) O conto Alma-Grande, de Miguel Torga: dialogismo com o texto bíblico e a historicidade 72 Edna da Silva Polese (UTFPR) Mulher de bigode nem o cão pode: machismo em Camilo Castelo Branco 73 Edson Santos Silva (UNICENTRO/I) Ana de Castro Osório no Brasil e a defesa de um Portugal Moderno 73 Eduardo da Cruz (UERJ) Theatrum mundi: a espetacularidade barroca em Antônio José da Silva 74 Eduardo Neves da Silva (USP) O universo da vida religiosa feminina em Alexandre Herculano: de que as freiras eram capazes? 74 Eduardo Soczek Mendes (UFPR) “Passaram ainda além da Taprobana”: O romance histórico da colonização portuguesa em O feitiço da Ilha do Pavão, de João Ubaldo Ribeiro, e A sul. O Sombreiro, de Pepetela 75 Edvaldo A. Bergamo (UnB) Paralelos na obra de Jane Austen (1775-1817) e Maria Peregrina de Sousa (1809-1894) 75 Elen Biguelini (Universidade de Coimbra/CHSC) A última nau portuguesa 76 Elias dos Reis Louzeiro (PUC-SP) A Salvação no Amor em Amor de Salvação 76 Elinaldo Chaves dos Santos (UFPA) Feiticeiras: o crime da igreja católica evocado através das convergências entre Maria Teresa Horta e Jules Michelet 77 Elisa Moraes Garcia (FURG) Representação e protagonismo femininos na revista Brasil-Portugal 77 Elisabeth Fernandes Martini (UERJ) Jaime Batalha Reis: diálogos epistolares inéditos com escritores e intelectuais brasileiros nos primeiros anos do século XX 78 Elza Assumpção Miné (USP) Que eu canto o peito ilustre (afro) lusitano: AFROLIS, afrolusitanidade e a produção cultural portuguesa mais recente 78 Emerson da Cruz Inácio (USP) Os sermões de Santo Antônio de Lisboa/ de Pádua: elementos retóricos, teológicos e contextuais 79 Émili Feitosa de F. Olenchuk (UERJ) O jogo de perspectivas em Finisterra, de Carlos de Oliveira, e a relativização do real 79 Esther Costa Faria (UFSM) O espaço brasileiro na poesia de Vitorino Nemésio 80 Eunice de Morais (UEPG) Matéria, memória e ausência em A manta do soldado de Lídia Jorge 80 Evanir Pavloski (UEPG) Versões da falta como fala em alguns poemas de Inês Dias 81 Evelyn Rocha de Souza (UFF) Entre Índico e Atlântico: (des)semelhanças entre poemas de Mia Couto e de Sophia de Mello Breyner Andresen 81 Everton Fernando Micheletti (USP) Manuel da Fonseca: a busca ética e estética 82 Fabio da Fonseca Moreira (PUC-Rio) Figurações da morte voluntária em personagens da ficção portuguesa do século XIX 82 Fábio de Carvalho Messa (UFPR) Jerônimo Duarte Ayala (UFSC) A selva de Ferreira de Castro nas ilustrações de Poty 83 Fabricio Vaz Nunes (UNESPAR/EMBAP) A cegueira branca como doença: mecanismo de suspensão da democracia no Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago 83 Fabrizio Uechi (USP) A dinâmica da luta de classes em O delfim, de José Cardoso Pires 84 Felipe Clos Bassedone (UFSM) Do texto à tela. O Delfim: de Cardoso Pires a Fernando Lopes 84 Fernanda de Aquino Araújo Monteiro (UFRJ) O que o poema ensina? 85 Fernanda de Azevedo Pizarro Drummond (UFRJ) José Saramago e Oliveira Martins: entre a História e a Literatura85 Fernanda Farias Freitas (UFRJ) Aspectos das inter-relações entre colonialismo, violência e interesses econômicos, representadas em O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes 86 Fernanda Fátima da Fonseca Santos (USP) Viagens na terra de Luso: Portugal nos percursos de Garrett e Saramago 86 Fernanda Gappo Lacombe (UERJ) O ano de 1993: entre prosa e poesia e a modernidade 87 Fernando da Silva Negreiros (UEL) “Ogiva entre o Mistério e o Mar”: Mito e História em Mais Alto, de Alfredo Guisado 87 Fernando de Moraes Gebra (UFFS) Uma ideia de crise: Manuel de Freitas e a finitude 88 Fernando Ulisses Mendonça Serafim (UNICAMP) Uma leitura da peça “O Castigo da Vingança!” de Álvaro do Carvalhal 88 Fernando Vidal Variani (UDC-Foz do Iguaçu) As fronteiras entre política e literatura: uma análise de Frei Luís de Sousa 89 Filipe Costa da Silva (UFRJ) O advogado do Diabo: o narrador que contraria as tradições cristãs portuguesas em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago 89 Filipe Marchioro Pfützenreuter (IFPR) As memórias coloniais em O Retorno 90 Flávia Magalhães Roveri (USP) O ensino-aprendizagem da literatura e história portuguesas à luz do teatro 90 Flavia Maria Corradin (USP) Ruy Belo e Fernando Pessoa: o mar e o fingimento 91 Flávio França (UEFS) Figuração de personagens em “O punhal de Rosaura”, de Álvaro do Carvalhal 91 Flavio Garcia (UERJ) Violência e medo da solidão em textos escolhidos de Mia Couto e Lobo Antunes 92 Francisca Kellyane Cunha Pereira (UEFS) Tércia Costa Valverde (UEFS) O engajamento do vento 92 Gabriel Dória Rachwal (UFPR) Morte em Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares 92 Gabriela Fujimori da Silva (UNESPAR/UEM) A construção do interlocutor amoroso em as Novas cartas portuguesas 93 Gabriela Silva (URI/CAPES) Panorama da ludicidade na poesia visual 94 Geraldo Augusto Fernandes (UFC) Sobre Nocturno em Macau, de Maria Ondina Braga, o viés feminino 94 Gerson Luiz Roani (UFV) Imagens da Sobrevivência em Isabel de Sá 95 Gesqua Daiane Café dos Santos (UFBA/FAPESB) Tormes talvez não fique assim tão longe de Yasnaya Polyana 95 Giorgio de Marchis (Universidade de Roma Tre) O grande Maia: Tomás de Alencar e a polêmica entre Eça de Queirós e Bulhão Pato 95 Gisele de Carvalho Lacerda (UFF) Monumento e revolução: o Thermidor, de Eça de Queirós 96 Giuliano Lellis Ito Santos (USP/CAPES) Os viscos da (auto)biografia nas Cartas da guerra, de António Lobo Antunes 96 Graziele Maria Valim (PUC-SP) Machado leitor de Camilo: paródia e emulação em Memórias póstumas de Brás Cubas e Coração, cabeça e estômago 97 Greicy Pinto Bellin (UNIANDRADE) Eça e a Índia Portuguesa 97 Hélder Garmes (USP) Mulheres que amavam mulheres na lírica satírica trovadoresca: sobre Mari’Mateu, ir-me quer’eu daquém (B 1583, V 1115), de Afonso Anes do Cotom, e A vós, Dona abadessa (B 1604bis, V 1137), de Fernando Esquio 98 Henrique Marques Samyn (UERJ) Poesia Intranquila: sentidos e resistência 98 Ida Alves (UFF) O Fantástico como transvaloração 98 Inez Nerez de Almeida Rocha (UEL) Inclusão/Exclusão: O idiota na narrativa portuguesa contemporânea 99 Isabel Pires de Lima (Universidade do Porto/ILCML) Predestinado e Precito: o uso de personagens alegóricas a favor da catequização jesuítica 99 Isabel Scremin da Silva (UFSM) Oroboro na literatura de Garrett e Machado 100 Iuguslávia Jales Dutra (UEPG) José Luís Peixoto – Amor, luto e luta 100 Ivanete França Galvão de Carvalho (UERJ) Do lugar da mulher na poesia portuguesa – Um olhar atemporal 101 Ivani Vecina Abib (UNIP-Sorocaba) Figurações luso-brasileiras da infância: um olhar sobre Soeiro Gomes e Dalcídio Jurandir 101 Ivone dos Santos Veloso (UFPA) Enunciações, discursos e pensamentos errantes – uma perspectiva comparativa entre Machado de Assis e José Saramago 101 Jacob dos Santos Biziak (UNESP/USP) Literatura e ensino: uma leitura em meio digital de Dispersão, de Mário de Sá- Carneiro 102 Jair Zandoná (UFSC) Um amor feliz: Mourão-Ferreira e seus jogos de espelho 102 Janaina de Souza Silva (UFRJ) A presença de Eça de Queirós e Fradique Mendes no jornal paulistano O Pirralho (1911-1918) sob perspectiva de Juó Bananére e Monteiro Lobato 103 Jaqueline de Oliveira Brandão (UNESP) Entre músicos, pintores e saltimbancos: os artistas de Prosas Bárbaras, de Eça de Queirós 103 Jean Carlos Carniel (UNESP) A verdade besuntada 104 Jeanine Geraldo Javarez (UEPG) Lisboa no ano 2000: nacionalismo e determinismo tecnológico 104 Jefferson Luiz Franco (SEED/UniBrasil) O uso da breuitas como justificativa retórica do esquecimento narrativo nas crônicas de Gomes Eanes de Zurara 104 Jerry Santos Guimarães (UESB) As memórias da colonização em Comissão das lágrimas, de António Lobo Antunes 105 Jéssica Baia Moretti da Silva (UEM) O amor trovadoresco presente no livro Meu glorioso pecado, de Gilka Machado 105 Jéssica Thais Loiola Soares (IFC) O Verbo se fez arte: a Retórica Antiga na oratória de Antônio Vieira e de Dom Aquino Corrêa 106 Jildonei Lazzaretti (UFSM) A maçã que é só de Eva: Lisboa nas cantigas trovadorescas, ou, mulheres sem rosto no rosto da cidade 107 João Felipe Barbosa Borges (UFJF/IFF) O Amor Irônico nas crônicas As Coisas da Vida e Espero por ti no meio das gaivotas, de António Lobo Antunes 107 Joelma Lôbo Junqueira Trajano (UEFS) “A mesma história tantas vezes lifa”: as mi(s)tificações de Florbela Espanca 108 Jonas Jefferson de Souza Leite (UEPB) A morte sob a perspectiva do Absurdo em A desumanização de Walter Hugo Mãe 108 Jope Leão Lobo (UTFPR) Natália Correia e a (sua) poética do escárnio e do maldizer 109 Jorge Vicente Valentim (UFSCar) Funcionalidade da paródia na escrita teatral de Camilo Castelo Branco 109 José Cândido de Oliveira Martins (UCP/CEFH) Orientalismos do romance histórico português oitocentista 110 José Carvalho Vanzelli (USP/FAPESP) As relações entre memória e história no romance português contemporâneo: uma leitura do testemunho e do trauma nas obras de Jorge Reis-Sá e Francisco Camacho 110 José Luís Giovanoni Fornos (FURG) Luz e sombras: metonímia(s) do desejo em A cura, de Pedro Eiras 111 José Luiz Foureaux de Souza Júnior (UFOP) Romantismo e Realismo Português no periódico oitocentista maranhense Ramalhete 111 Josiane Oliveira Ferreira (UFMA) Cesariny e seus precursores 111 Julia Pinheiro Gomes (UFRJ) Maria Peregrina de Sousa na imprensa portuguesa do século XIX 112 Juliana de Souza Mariano (UERJ) Ensaiando a própria escrita: Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago 112 Juliana Morais Belo (UNICAMP) O sentimento de pertencimento à nação através do discurso em a máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe 113 Juliane Fernanda Kuhn de Castro (UFFS) A comunidade cínica da revista Cão Celeste 114 Julio Cesar Rodrigues Cattapan (UFF) “Espírito de universalidade incerta”: Fernando Pessoa e os ultraístas espanhóis 114 Karla Fernandes Cipreste (UFU) Cecília Meireles e a Távola Redonda: a busca pelo graal da Poesia 114 Karla Renata Mendes (UFAL) Freiras Poetisas Barrocas: representações do feminino em Adília Lopes e Paula Rêgo 115 Katiane Martins (UNEB) Gabriela Fernandes (UFBA) Digressividade e fragmentação em Camilo Castelo Branco 115 Katrym Aline Bordinhão dos Santos (IFPR) Graciliano Ramos, Branquinho da Fonseca e Luís Bernardo Honwana: um exercício comparativo em literaturas de língua portuguesa 116 Keli Cristina Pacheco (UEPG) As vozes moralizadoras em Claraboia, de José Saramago 117 Kelly Gomes Cavalcante (UFAM) A literatura contemporânea à deriva lança âncora na tradição: Uma Viagem à Índia e Os Lusíadas 117 Kim Amaral Bueno (IFSUL/UFRGS) Os autos de Gil Vicente e de Calderón de la Barca 118 Laura de Oliveira Coradi (UFU) A máquina de fazer moribundos: envelhecer e morrer como outsider em A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe 118 Leandro Francisco de Paula (UFPR) O protagonismo histórico em O Arco de Sant´Ana de Almeida Garrett 119 Leonardo de Atayde Pereira (USP) Romantismoe Realismo Português no periódico maranhense O Artista 119 Leonardo Rodrigo de Oliveira Ferreira (PIBIC/UFMA) O herói português: Da ascensão histórica ao firmamento do mito como produtor de identidade nacional 120 Letícia de Oliveira Galvão (UEPG) A Revolução dos Cravos pela ótica do testemunho 121 Licia Rebelo de Oliveira Matos (UFRJ) Ensino de Literatura Portuguesa na Graduação: Experiências na formação de professores por meio das novas tecnologias 121 Lígia Regina Máximo Cavalari Menna (UNIP) Simone de Almeida e Silva (UNIP) Sobre rastos e ruínas: uma leitura comparada de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes, e Tristano muore, de Antonio Tabucchi 122 Luca Fazzini (PUC-Rio) A Presença e a Natureza do Fantástico nos Contos, de Eça de Queirós 122 Lucas do Prado Freitas (UEL) Cartilha do Marialva e leituras afins 123 Lucia Maria Moutinho Ribeiro (UFRJ) A imagem das soldadeiras na lírica medieval galego-portuguesa 123 Lucía Sande Siaba (UdC) Matizes do fantástico: a construção da personagem nos vieses do insólito 123 Luciana Morais da Silva (UERJ/Universidade de Coimbra) Almeida Garrett relê Notre Dame de Paris, de Victor Hugo: O Arco de Sant’Ana e a experiência das massas 124 Luciene Marie Pavanelo (UNESP) Natália: uma tentativa de escapar do ontem, um diário para o esquecimento? 124 Ludovico Omar Bernardi (UEM) Portugal, França e a recepção internacional de Guimarães Rosa 125 Luís Bueno (UFPR) Uma aproximação de paixão e aprendizagem às canções de Camões 125 Luis Maffei (UFF/FAPERJ) A construção do ethos camoniano por meio da análise das ilustrações contidas nas edições do Tricentenário do poeta no periódico O Occidente – Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro (1878-1915) 126 Luiz Eduardo Rodrigues Amaro (UNESP) Inefabilidade e impostura: o (não) dizer em questão no encontro de Maria Gabriela Llansol com São João da Cruz 126 Luiz Fernando Queiroz Melques (USP) Modernismos em língua portuguesa: revisão e despedida 127 Madalena Vaz Pinto (UERJ/FFP) A história da América portuguesa, de Rocha Pita: (des)conexões (pós)coloniais em rotas alteradas 127 Manoel Barreto Júnior (UNEB) Marcas do insólito no conto “A Morta” de Florbela Espanca 128 Manuella Nogueira da Silva (UFAM) Saberes cultivados na Baixa Idade Média entre Portugal e Castela 128 Marcella Lopes Guimarães (UFPR) As pequenas memórias: notas sobre a escrita autobiográfica de José Saramago 128 Marcelo Brito da Silva (UFMT) A Eternidade e O Desejo: experiência do espaço e representação do Brasil 129 Marcelo Franz (UTFPR) A ficção dos Apólogos Dialogais de D. Francisco Manuel de Melo: considerações acerca de preceitos retóricos e poéticos 129 Marcelo Lachat (UNIFAP) Ensaio sobre a melancolia em “O cão de Dürer”, um conto de Maria João Cantinho 130 Marcelo Pacheco Soares (IFRJ) “Abro o caderno e escrevo que estou a escrever no caderno”: algumas considerações sobre Lugares comuns (2000), de João Luís Barreto Guimarães 130 Marcelo Sandmann (UFPR) A Literatura Portuguesa na pós-graduação no Maranhão: a que passos anda? 131 Márcia Manir Miguel Feitosa (UFMA) Literatura e História em O ano e a morte de Ricardo Reis de José Saramago 131 Márcia Neide dos Santos Costa (UEFS) A Lisboa salazarista no fim da década de 1930 na visão de José Saramago e de Antonio Tabucchi 131 Márcio Aurélio Recchia (USP) Flagrante social e experiência estética na narrativa memorialística luso- brasileira 132 Marcio Jean Fialho de Sousa (FATEC) África, Brasil e Portugal: trânsito por fronteiras semoventes 132 Márcio Matiassi Cantarin (UTFPR) Três proposições a respeito do ensino de literatura portuguesa 133 Marcos Lopes (UNICAMP) Interfaces entre ceticismo e ficção em contos de António Vieira 133 Marcos Rogério Heck Dorneles (UFMT) Narcisos sem espelhos – Dilemas da narrativa contemporânea em dois contos de Lídia Jorge 134 Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira (UFJF) O milenarismo no pensamento profético vieiriano: a figura do “papa angélico” e a do “imperador dos últimos dias” 134 Marcus De Martini (UFSM) O “paraíso” de Eva: figurações de Eros em A costa dos murmúrios 135 Maria Aparecida da Costa (UERN) Alyne Isabele Duarte da Silva (UERN) Os pobres: uma narrativa lírica de Raul Brandão 135 Maria Betânia da Rocha de Oliveira (UNEAL) Ferdinand Denis, promotor da literatura brasileira na França do século XIX 136 Maria Cristina Pais Simon (Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3) Da literatura e cultura portuguesas em terras baianas: para não dizer que não falamos “de cravos e de pés descalços”, nos tempos críticos de hoje e de ontem... 136 Maria de Fátima Maia Ribeiro (UFBA) O “Canto da Sibila” do Ordo Prophetarum e o Auto da Sibila Cassandra de Gil Vicente 137 Maria Amparo Tavares Maleval (UERJ/CNPq) A Literatura estrangeira na Biblioteca particular de João Baptista de Almeida Garrett 138 Maria do Rosário Alves Moreira da Conceição (UERJ/FAPERJ) Ensino das letras portuguesas em sala de aula: conceito de agudezas 139 Maria do Socorro Fernandes de Carvalho (UNIFESP) O ensino de literatura portuguesa: leituras e escritas 139 Maria do Socorro Gomes Torres (UNIR-Vilhena) Camilo Castelo Branco: as ‘leis da alma’ e os ‘imperativos do estômago’ como elementos de figuração das personagens 140 Maria Eduarda Borges dos Santos (Univesidade de Coimbra/Instituto Politécnico de Castelo Branco) Escrita feminina no século XIX: o romantismo de Ana Plácido 140 Maria Elvira Brito Campos (UFPI) Palinódias do ortônimo 141 Maria Helena Nery Garcez (USP) A Literatura Portuguesa na Imprensa Oitocentista do Grão-Pará 141 Maria Lucilena Gonzaga Costa Tavares (UFPA) A ficção Portuguesa Oitocentista nos Jornais de Cametá/PA - Brasil 142 Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima (UFPA) O Diálogo na Literatura Portuguesa do séc. XIX: identificação e caracterização do corpus 142 Maria Teresa Nascimento (Universidade da Madeira) Heróis lendários e figuras históricas do imaginário português na obra de Ariano Suassuna 142 Mariângela Monsores Furtado Capuano (UERJ) Voz e polifonia: transcendendo a cegueira em “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago 143 Marilani Soares Vanalli (UNESP) Autor e personagem: o papel de Aquilino Ribeiro na construção de seus seres ficcionais 143 Marília Angélica Braga do Nascimento (UFC) Concretismo e experimentalismo: poéticas da edição em Brasil e Portugal 144 Marina Ribeiro Mattar (Cefet-MG) Ruptura da tradição em D. João e a Máscara 144 Marina Trevisoli Gervino (UNICAMP) Memória nacional e razões de Estado: gênero e nação na derrota do Gungunhana 145 Mário César Lugarinho (USP) Helder Macedo e a narrativa fantasmática 145 Marisa Corrêa Silva (UEM) Alberto Caeiro e Manoel de Barros: uma poética de ressignificação 145 Marla dos Santos Silva (UEFS) A perplexidade do homem moderno frente aos conflitos existenciais no conto, A confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro 146 Marsiléia Brasil de Lima (UNIP/SEDUC-AM) Recepção de Camões como hipótese interpretativa 146 Matheus Barbosa Morais de Brito (Universidade de Coimbra//UNICAMP) A representação da personagem do negro na dramaturgia quinhentista 147 Matheus Nogueira Bacellar (UFBA) Márcio Ricardo Coelho Muniz (UFBA) Metodologia de ensino-aprendizagem: uma abordagem diferenciada no ensino de literatura 148 Mayara Cristina Pereira (FIMI) Tailani Azevedo Taverna (FIMI) Graciliano Ramos, contemporâneo de Eça de Queirós 148 Miguel Sanches Neto (UEPG) A trajetória autognóstica de Livro 148 Milena Figueirêdo Maia (PUC-SP) As premências de nosso tempo desveladas na Literatura Portuguesa contemporânea: indicativos para o Ensino nos cursos de Letras brasileiros 149 Miriam Denise Kelm (Unipampa) A história do contramestre e o anarquismo no romance Amanhã, de Abel Botelho 149 Moisés Baldissera da Silva (UNESP) O Cónego, de A.M. Pires Cabral e A Vinha dos Esquecidos, João Clímaco Bezerra: uma leitura intertextual 150 Mônica Maria Feitosa Braga Gentil (UESPI) Da necessidade de se ouvircoisas alucinadas ou o que se pode aprender com a literatura portuguesa 150 Mônica Muniz de Souza Simas (USP) Dominando o corpo feminino na Idade Média: a soldadeira e o cavaleiro 151 Monique Pereira da Silva (UERJ) A Epopeia Pós-Moderna Portuguesa: dissimulação e simulação em As Quybyrycas 151 Murilo da Costa Ferreira (UFRJ) Mulheres do Império: uma leitura de Ana de Amsterdam 152 Naira de Almeida Nascimento (UTFPR) O lugar da literatura portuguesa na Polônia 152 Natalia Klidzio (Universidade Maria Sklodowska-Curie) A representação da (a)normalidade humana nos cadernos de Gonçalo M. Tavares 152 Natanael Peres Fernandes (USP) O jogo dentro da máquina: a intertextualidade em “a máquina de fazer espanhóis” 153 Natasha Gonçalves Otsuka (UFRJ) Fernando Pessoa e o suicídio estoico de Barão de Teive 153 Nathália de Lima Marquez Valentini (UFMG) Poesia e escritas de si: um estudo sobre a obra de Al Berto e Ana Cristina Cesar 154 Nathalia Greco (UFMG) Os papéis femininos em O retrato de Ricardina (1868), de Camilo Castelo Branco 154 Nayara Helenn Carvalho dos Santos (UERJ) Lisboa, Manaus: cidades como cenários nas obras de Gersão e Hatoum 155 Orivaldo Rocha da Silva (Universidade Presbiteriana Mackenzie) A estética do mal e a evolução literária de Eça de Queiroz 155 Orlando Grossegesse (Universidade do Minho) Escrita discrônica em Manuel António Pina: entre o neotênico e o tardio 156 Paloma Roriz (UFF) Como se escreve agora uma canção? 156 Patrícia Chanely Silva Ricarte (UFMG) A história de Inês contada aos pequenos 157 Patrícia da Silva Cardoso (UFPR) Carlos de Oliveira – Sobre o lado esquerdo: Poesia e poética cinematográfica em Manuel Gusmão e Carlos de Oliveira 157 Patrícia Resende Pereira (UFMG) O narrador errante e paródico em Caim, de José Saramago 158 Paula Karina Verago Petersen (PUC-SP) Memória, Trauma e Infância em três romances de António Lobo Antunes 158 Paula Renata Lucas Collares Ramis (UFPel) Falsos romances portugueses editados em Paris no século XIX 159 Paulo Motta Oliveira (USP) Luís de Camões no Inferno 159 Paulo Ricardo Braz de Sousa (UFF) Redes de estereótipo: o Brasil da televisão na literatura portuguesa do século XXI 160 Paulo Ricardo Kralik Angelini (PUC-RS) O “último leitor” e a personificação narrativa de António Lobo Antunes nas Cartas da Guerra 160 Pedro Beja Aguiar (PUC-Rio) Ensaio sobre a cegueira, um romance-síntese sobre a temática do olhar na obra de José Saramago 161 Pedro Fernandes de Oliveira Neto (UFERSA) Estratos filosóficos na obra saramaguiana: o ano da morte do estoico Ricardo Reis 161 Pedro Nunes de Castro (UNISC) “The Business of all”: O abolicionismo, a memória histórica da escravatura e a formação do discurso literário português moderno. Dos debates em O Investigador Portuguez em Inglaterra e em Correio Braziliense a Alexandre Herculano e Eça de Queirós 162 Pedro Schacht Pereira (Ohio State University) A dinâmica da violência em o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe 162 Penélope Eiko Aragaki Salles (USP) O que o italiano médio sabe da literatura portuguesa 163 Philippe Simon (Université de Paris-Sorbonne) Análise do poema “Súmula” de Herberto Helder na perspectiva do Surrealismo: afinidades e divergências 163 Priscila Andrea Merisio (UTFPR) Lisboa livro de bordo: olhares sobre Lisboa que vão além do óbvio 164 Rachel Hoffmann (FAIMI/UNIESP) Variações contemporâneas do monumentum horaciano na lírica de língua portuguesa 165 Rafael Campos Quevedo (UFMA) Heroísmos à beira-mar: Cesário Verde e Augusto dos Anjos 165 Rafael Iatzaki Rigoni (UFPR) O papel do Cavaleiro Medieval na obra “Mensagem”, de Fernando Pessoa 165 Ranieri Emanuele Mastroberardino (UFPR) Antologias de poesia brasileira de José Osório de Oliveira 166 Raquel dos Santos Madanêlo Souza (UFMG) Húmus, de Raul Brandão: mudanças de paradigmas na figuração da personagem 166 Raquel Trentin Oliveira (UFSM) Maria Amália Vaz de Carvalho: uma voz atuante no periódico oitocentista Semanário Maranhense 167 Raymara Gaspar Pereira (UFMA) Diálogos lusitanos: a presença portuguesa em escritos cascudianos 167 Regina Lúcia de Medeiros (UFRN) Todo o estado de alma é uma paisagem: Paùlismo, Interseccionismo e Lúcio Cardoso 168 Regina Márcia de Souza (UFPR) Se vão da lei da morte libertando: o argumento histórico épico na Comédia de Diu 168 Renata Brito dos Reis (UFBA) “Suave Milagre” e “A aia”: Eça de Queirós e a religião como tema 169 Renata Santos Cruz (UEFS) O ensino da literatura portuguesa em perspectiva interdisciplinar: O Barão em texto, palco e tela 169 Renata Soares Junqueira (UNESP) O lugar da literatura na escola: o que fizemos nós? 170 Renata Telles (UFPR/UFRGS) Configurações do homoerotismo masculino nas Canções de António Botto 170 Ricardo de Freitas Junior (UERJ) Forças de destruição na obra de Sophia Andresen 171 Rita Barbosa de Oliveira (UFAM) Fantasmagorias do não retorno: Portugal e a nostalgia colonial como obra 171 Roberto Vecchi (Universidade de Bologna) Longe do Bairro, perto dos homens: o estado de exílio em “O Senhor Walser”, de Gonçalo M. Tavares 172 Robson José Custódio (UEPG) Um filho maior que o próprio pai? Sobre a permanência da literatura portuguesa na construção de uma estética “genuinamente” brasileira: o caso dos Modernismos 172 Rodrigo Alexandre de Carvalho Xavier (UTFPR) Linguagem e lirismo em Al Berto: uma visada a partir do grotesco 173 Rogério Caetano de Almeida (UTFPR) “Humanimalização”: os animais e as relações humanas em Galveias, de José Luis Peixoto 173 Rosa Alda Souza de Oliveira (UnB) Eça prefaciador 174 Rosana Apolonia Harmuch (UEPG) Animalescos, o bestiário contemporâneo de Gonçalo M. Tavares 174 Rosana Zanelatto Santos (UFMS/CNPq/FUNDECT) A narrativa transgressora de Teolinda Gersão: uma leitura do espaço pela perspectiva da experiência 175 Rosângela Guedêlha da Silva (UFMA) A escrita coletiva do romance Livro, de José Luís Peixoto 175 Rosemary Gonçalo Afonso (UFRJ) A memória familiar no romance Vermelho, de Mafalda Ivo Cruz 175 Samla Borges Canilha (PUC-RS) Crítico-mestre de literatura portuguesa: Fidelino de Figueiredo 176 Sandra Ferreira (UNESP) Luz nas Páginas: Literatura Portuguesa Ilustrada (séculos XIX-XXI) 176 Sandra Leandro (Universidade de Évora) Guerra: tempo de silêncio e enclausuramento da figura feminina 177 Sandra Maria Gonçalves da Silva (UNEMAT) Invocamus Te Domine: A dialética Homem-Deus na retórica do padre António Vieira 177 Saulo Gomes Thimóteo (UFFS) “Si vera est fama”: o desafio da poética sebastianista enquanto motor ético 178 Sebastião Lindoberg da Silva Campos (PUC-Rio) O Recorte Naturalista de Camilo. Sobre Eusébio Macário e A Corja 178 Sérgio Guimarães de Sousa (Universidade do Minho) A literatura gótica em língua portuguesa: a proposta de uma história 178 Sérgio Luiz Ferreira de Freitas (UFPR) Edição crítica da correspondência de Almeida Garrett: balanço geral (2004- 2017) e novas perspectivas (2017-2026) 179 Sérgio Nazar David (UERJ) Leitura literária em salas de aulas da Região transamazônica-Xingu: um olhar estrangeiro e as transações culturais em A Selva, de Ferreira de Castro 179 Sérgio Wellington Freire Chaves (UFPA) Os Lusíadas e um panfleto inglês de 1595 180 Sheila Hue (UERJ) A literatura portuguesa pós-modernista como geradora de reflexões sobre os direitos humanos no âmbito escolar 180 Sílvia Nunes Pires (UTP) Guimarães Rosa e a crítica portuguesa: de Óscar Lopes e Eduardo Lourenço 181 Sílvio Augusto de Oliveira Holanda (UFPA) Os paradoxos do niilismo em Antero de Quental, Eça de Queirós e Cesário Verde 181 Silvio Cesar dos Santos Alves (UEL) Relações entre o futurismo português e o regime salazarista: variações sobre um mesmo tema 182 Silvio Renato Jorge (UFF / CNPq) Tradição: entre a herança e a invenção 182 Sofia de Sousa Silva (UFRJ) Heroínas trágicas em três romances de Lídia Jorge 182 Soraia Lima Arabi (UFMT) José Saramago e Jorge Amado: Correspondências183 Stélio Furlan (UFSC) Às margens de uma sociedade: os dilemas dos retornados portugueses nas obras O retorno de Dulce Maria Cardoso e As Naus, de António Lobo Antunes 183 Suzana Costa da Silva (UERJ) A presença de Alberto Caeiro na poesia de Manoel de Barros 184 Suzel Domini dos Santos (UNESP) As personagens migrantes nos romances de Inês Pedrosa 185 Tainara Quintana da Cunha (FURG) Manuel de Freitas e Charles Bernstein: poesia como comunidades de afeto 185 Tamy de Macedo Pimenta (UFF) A imensurabilidade do tempo em Os dias contados, de Tolentino Mendonça 186 Tatiana Prevedello (IFFAR) O papel do humor na (des)construção do feminino em Adília Lopes e Angélica Freitas 186 Telma Maciel da Silva (UEL) A tríade visão – sonho – pecado nas cantigas de amigo de João Mendes de Briteiros 187 Thayane Gaspar Jorge (UERJ) Da metáfora ao silêncio do mundo na poesia de Manuel António Pina 187 Thiago Bittencourt de Queiroz (USP) O primo Basílio de Eça de Queirós em diálogo com a crítica literária brasileira 188 Thiago Bittencourt (UEPG) Uma perspectiva ibérica para as letras portuguesas dos séculos XVI e XVII 188 Thiago César Viana Lopes Saltarelli (UFU) Entre emulação e modernidade: um estudo das “Conclusões de retórica e poética” (1775-1790) 189 Thiago Gonçalves Souza (UERJ/UNIFESSPA) Poesia e hagiografia: S. Francisco de Assis em versos portugueses do Período Moderno 189 Thiago Maerki (UNICAMP) “Até que” Vieira e o futuro (des)coberto 189 Thomaz Heverton dos S. Pereira (UFBA) Poética do encontro 190 Tiago Correia de Jesus (UFBA) Processo criativo em Inês Pedrosa: discurso e memória em Desamparo 190 Ulysses Rocha Filho (UFG) Coração, Cabeça e Estômago (Camilo Castelo Branco): modernidade tangente na obra de 1862 191 Valeria Evencio de Carvalho (UFPR) As metáforas das recordações de infância na escrita poética de Sophia de Mello Breyner Andresen 191 Vanessa Correia de Araujo Silva (PUC-SP) Nossa senhora nos autos de António de Portoalegre, Baltasar Dias e Fernão Mendes 192 Verônica Cruz Cerqueira (UFBA) Márcio Ricardo Coelho Muniz (UFBA) Entre dois mundos: Júlia Lopes de Almeida e o ensino para crianças em Contos infantis e Traços e iluminuras 192 Viviane Arena Figueiredo (UFF) Ética, poder e política: breves reflexões sobre as personagens de Agustina Bessa-Luís 193 Viviane Vasconcelos (UERJ) A importância de Os Lusíadas na Espanha do Século de Ouro 193 Wagner Monteiro Pereira (UFPR) As Marias no contraevangelho de José Saramago 194 Wilgner Murillo da Conceição Santos (UEFS) Ressonâncias do gótico na prosa de Eça de Queirós 194 Xênia Amaral Matos (UFSM) Imagens poéticas decadentistas em Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca: limites cambiantes 195 Zilda de Oliveira Freitas (UESB) Resumos ABRAPLIP 2017 33 O monóculo e o paletó cor de macaco : a ironia necessária de Eça e de Graciliano Adriana Coelho Florent (Universidade de Aix Marseille) É sabido que a imensa popularidade de Eça de Queiroz no Brasil deu lugar a um verdadeiro culto do escritor português que, iniciado no século dezenove, ainda estava em pleno vigor entre os escritores brasileiros do segundo modernismo. A escrita de Graciliano Ramos, desde suas primeiras crônicas nos jornais do Rio por volta de 1915, traz a marca deste culto e desta influência, parecendo aplicar o mesmo monóculo do mestre à sociedade brasileira da época. Assim, num dos capítulos de Infância, o escritor nordestino nos relata o seu primeiro encontro com a ironia, graças a um certo paletó cor de macaco, elogiado em demasia. O primeiro objetivo deste trabalho é observar de que maneira, a exemplo de Eça, Graciliano recorre à ironia como instrumento necessário de sobrevivência à mediocridade do seu meio. Curiosamente, e esta é a segunda questão que gostaríamos de examinar, tanto Graciliano quanto Eça, ao serem reconhecidos como mestres da língua portuguesa na arte da ironia e da caricatura pelo meio literário e pelo público, foram eles próprios abundantemente caricaturados. Temos aí, ao nosso ver, um índice revelador sobre a recepção da ironia entre nós, leitores do espaço lusófono. Os Lusíadas: mito e história Portuguesa Adriana de Oliveira Teixeira Kato (UFRR) O século XV é um marco na história de Portugal, pois nesse período, o país conquista a hegemonia através do monopólio do comércio marítimo que se consolida com a descoberta do caminho às Índias por Vasco da Gama. As conquistas portuguesas, a história, e o renascimento literário são retratados de forma magnífica e ufana pela epopéia Camoniana, Os Lusíadas. Nesta obra, Camões, põe em evidencia a história de Portugal pela ótica renascentista, fazendo ainda, uma bela homenagem ao povo português em decorrência da garra e determinação que os levou em busca de construir um futuro mais imponente que o passado. A narrativa se desenrola a partir da saída de Vasco da Gama para a conquista do Caminho às Índias, até o retorno das naus a Portugal. Nesse percurso, oberava-se a influência da mitologia greco-romana no decorrer das aventuras e desafios da viagem, bem como a presença da fé cristã, na perspectiva de expansão religiosa, caracterizando o ecletismo religioso presente na narrativa. Neste sentido, este trabalho objetiva analisar os elementos míticos e históricos que compõem o poema épico “Os Lusíadas” de Camões, buscando ainda, compreender os principais aspectos estéticos que configuram a epopéia Camoniana. Tendo como pressuposto, que a relevância deste trabalho está em por em voga a importância de Os lusíadas para a história da literatura portuguesa, como síntese de sua evolução, bem como influência para a literatura mundial. ABRAPLIP 2017 34 O teatro português - perspectivas para o ensino e a pesquisa nas universidades brasileiras Agnaldo Rodrigues da Silva (UNEMAT) Pensar as perspectivas para o ensino e a pesquisa do teatro português nas universidades brasileiras é um desafio, quando se inclui na discussão as instituições localizadas nas regiões periféricas do país, cuja graduação é em Letras/ português, com habilitação na língua e sua respectiva literatura. Esses cursos, na sua maioria (talvez totalidade), apresentam nas suas ementas conteúdos que abordam os dramaturgos e as exemplaridades da cultura portuguesa, o que exigiria um conhecimento além do mero estudo das características literárias. Nessa dicotomia texto e cena, entra em questão a necessidade de um trabalho que articule o conhecimento do teatro e seus pressupostos. Rosenfeld (1993), em Prismas do teatro, salienta que o teatro não é literatura, é uma arte diversa, e, por isso, tem o poder de suscitar motivações para uma dinâmica de leitura que atinja não só o elemento literário, mas também as outras artes às quais a produção cênica pressupõe, tais como: artes visuais, música e dança (e não só). Diante do exposto, podemos dizer que o trabalho com o teatro pode constituir um meio eficaz para se alcançar êxito na aquisição do gosto pela leitura e desenvolvimento da expressão, tendo em vista que é uma manifestação significativa das civilizações, capaz de desenvolver a potencialidade humanizadora. Nessa direção, torna-se necessária uma discussão pontual sobre o assunto, a fim de que as Instituições de Educação Superior que habilitam para o ensino da língua materna e suas respectivas literaturas (neste caso o português), possam ampliar o ensino e a pesquisa sobre as peças teatrais portuguesas para além do horizonte literário, atingindo conhecimentos da esfera da cultura, da arte e do espetáculo. “A recepção da literatura portuguesa: o caso da obra de Fernando Pessoa.” Albertina Pereira Ruivo (Université Paris Sorbonne-Paris IV) A obra de Fernando Pessoa, depois de ter sido esquecida durante um longo período, acaba por ser conhecida e por ultrapassar as fronteiras. Graças aos estudiosos e aos tradutores a obra do poeta português tornou-se incontornável em vários países nomeadamente em França. Onde a sua obra encontra um grandesucesso, Pessoa é o único escritor português a ser publicado na prestigiosa colecção da Plêiade. A obra do autor ganhou grande notoriedade em países de língua estrangeira, mas também teve impacto do outro lado do Atlântico, em língua portuguesa sobretudo na música brasileira. Num primeiro tempo observaremos como a literatura portuguesa se impôs em países de língua estrangeira através das traduções em várias línguas. Em seguida veremos como as obras literárias, nomeadamente a obra de Fernando Pessoa, integram outros domínios da arte como a música e a ficção. ABRAPLIP 2017 35 Breviário do Brasil de Agustina Bessa-Luís: uma poética da relação. Alda Maria Lentina (Universidade de Dalarna) Propomo-nos analisar o diário de viagem, Breviário do Brasil (1991), no qual a autora portuguesa, Agustina Bessa-Luís, explora as relações Luso-brasileiras. Uma relação que, segundo Anamaria Filizola, se constrói entre “ressentimento/ fascínio” e “o que nos aproxima” e na qual a literatura desempenha uma papel preponderante para “preencher os silêncios”. O nosso trabalho tentará abordar este diário à luz das ideias desenvolvidas por E. Glissant com o conceito de “poética da relação”, enquadrando-o também no que Gisele Sapiro e Pascale Casanova, entre outros, definem como uma “Literatura-mundo”. Aspectos da teopoesia na escritura do heterônimo Álvaro de Campos de Fernando Pessoa Alexandre Bonafim Felizardo (UEG) De acordo com nossa proposta, intentamos analisar a figurativização de Deus na poesia do heterônimo Álvaro de Campos de Fernando Pessoa. Nesse sentido, utilizaremos a teoria da teopoética, corrente da crítica literária dedicada à pesquisa do sagrado e da imagem divina na literatura, para verificarmos as dinâmicas assumidas por Deus na escritura de Campos. Dessa forma, pretendemos analisar, no referido heterônimo, os sentidos simbólicos adquiridos pela divindade em sua escrita e quais os dilemas, as problemáticas assumidas pelo eu lírico frente a tal presença sacra. Nosso objetivo, portanto, será mapear e analisar os sentidos da teopoesia na obra do heterônimo Álvaro de Campos de Fernando Pessoa. Dentre nossas diretrizes teóricas de grande relevância, temos como base fundamental o pensamento de Karl-Josef Kuschel, pensador alemão responsável pela criação da teoria da teopoética e, para tanto, utilizaremos sua principal obra como sustentação teórica, intitulada Os escritores e as escrituras. Comunidades leitoras, legibilidades comuns: literatura portuguesa no Brasil Alexandre Montaury Baptista Coutinho (PUC-Rio/CNPq) A comunicação pretende examinar pressupostos teóricos operativos para o ensino da literatura portuguesa no Brasil. A revisão pós-colonial e o giro decolonial podem oferecer instrumentos relevantes para a análise de textos literários canônicos e não-canônicos da literatura portuguesa, que hoje exigem abordagens capazes de compreender lugares de leitura singulares, demarcando a experiência de leitores brasileiros. Dar legibilidade a textos portugueses ABRAPLIP 2017 36 no Brasil é, muitas vezes, um trabalho que pressupõe a necessidade de desocultação da condição colonial brasileira. Nesta comunicação, pretende-se verificar a possibilidade de releitura de textos canônicos a partir do conjunto de correntes teóricas associadas ao pós-colonialismo. Rosalia de Castro: autora portuguesa(?)(!) Alexandre Silveira Campos (UNESP) A escolha da pontuação, interrogativa ou exclamativa, no título desta comunicação também define um marco de posicionamento político, linguístico e literário que envolve todas as comunidades de língua portuguesa e a postura destas frente a novos desafios sociais e literários. Rosalia de Castro é considerada como a fundadora da literatura galega moderna e em seus poemas desfilam cantigas populares, injustiças sociais, os sentimentos de sua gente e seu amor por sua língua e sua pátria, Galiza. Em vista dessas observações, esta comunicação tem o objetivo de colocar em debate a questão da aproximação – ou reaproximação, visto sua comum origem - da língua galega e da língua portuguesa e de suas comunidades lingüísticas através da proposta de inclusão da obra de Rosalia de Castro no arcabouço dos estudos de literatura portuguesa. Em consonância com movimentos contemporâneos de aproximação do Galego e do Português, a exemplo da fundação da Academia Galega da Língua Portuguesa (fundada em 2008 e em plena atividade) e da promulgação no parlamento galego da Lei Valentin Paz- Andrade em 2014 (cujo propósito de suas ações é integrar a variedade galega ao conjunto de variedades de língua portuguesa) a reivindicação de uma obra como a da escritora Rosalia de Castro se faz necessária e urgente. Pois é certo que muito mais do que na literatura castelhana (que já lhe tem apropriada e não necessariamente deva ser excluída) o falante e leitor de língua portuguesa se reconhece nos “ais”, “inhas” e “inhos” de sua magistral poética. Em nome do pai: a forma do luto na obra de José Luís Peixoto Aline de Almeida Rodrigues (UCP) Morreste-me (2000), primeiro livro publicado por José Luís Peixoto, mostra um relato intimista da forma como um filho busca lidar com a doença e a morte de seu pai. Apesar de se tratar de um livro que se situa no limiar entre o autobiográfico e literário, nele está prenunciado o drama poético que pretendemos desenvolver neste trabalho a respeito da obra do romancista. No referido romance, a morte do pai é a força motriz para a tinta da pena com a qual a narrativa é escrita - a campa do pai é o berço do escritor-filho. A questão que norteia este trabalho consiste em desvendar como a linguagem se encarrega de dar corpo ao luto por meio de um lirismo “luminoso, e ao mesmo tempo tristíssimo – ou seja, absolutamente português.” (AGUALUSA). ABRAPLIP 2017 37 Interessa-nos aqui a ficcionalização da morte e, principalmente, do luto; observar os traços que esse sofrimento assume no discurso literário do autor em questão. Com efeito, é a morte o leitmotiv do percurso literário de José Luís Peixoto, portanto, ser leitor de sua obra é observar como essas perdas que acontecem ao longo da vida – tendo, em seu caso, como ponto de partida a morte física do pai – são ou não significadas e simbolizadas. A moral e a ética religiosa na poesia satírica de Bocage Aline Fernanda Fabricio de Andrade (UNICAMP) A sátira é um gênero recorrente em vários períodos da literatura portuguesa, constituindo-se uma constante da identidade cultural lusitana. Sua importância na literatura portuguesa consiste o motivo que incentivou a realização deste trabalho. Realizamos uma análise dos poemas de Manuel M. Barbosa du Bocage (1765-1805), especificadamente do livro Poesias eróticas, burlescas e satíricas (1969), o que possibilitou um estudo da poesia satírica em um momento histórico importante para a sociedade portuguesa: a modificação da estrutura da cultura portuguesa idealizada por Verney. Alcir Pécora (2001) diz que a crítica, tanto brasileira quanto portuguesa, tem se ocupado pouco de Bocage, conferindo uma significativa ausência de estudos em relação à sua obra satírica. Percebeu-se que a crítica literária direcionou e, aparentemente ainda direciona seu foco somente para a lírica bocagiana, deixando de lado toda a sátira produzida pelo escritor árcade. Sátira esta que Bocage se utiliza para empreender uma crítica à sociedade portuguesa, na qual abrange desde assuntos sociais, passando por uma reflexão sobre a literatura e os preceitos árcades, até uma crítica à religião. Este último aspecto é o que mais nos interessa neste estudo, uma vez que nos debruçamos em analisar a moral e a ética religiosa na poesia satírica de Bocage. O entrecruzamento entre o eu e o outro diante da esfera pública e privada construída em O homem duplicado, de José Saramago Aline Santos Pereira (UFPR) Considerando a obra O homem duplicado, de José Saramago, é possível afirmar que, diante de tal texto, o leitor depara-secom um exímio jogo identitário delineado entre as páginas literárias. A figura de Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, personagem central da trama, transmite, face à situação narrada, sentimento de angústia e dúvida ao questionar o próprio eu e buscar- se a si mesmo no outro e vice-versa. Assim, ao encontrar seu duplo – a figura dele mesmo –, não como uma metáfora, mas como um duplicado, igual no sentido físico, Tertuliano percebe-se em uma linha tênue entre o público e o privado, visto que ao buscar compreender o eu, o professor de História ABRAPLIP 2017 38 torna-se sujeito ativo na sua própria vida e em consequência de procurar alcançar a si mesmo, ele seleciona quais aspectos da sua própria identidade irá mostrar àqueles que o rodeiam, aludindo a metáfora de Sennett (1988) sobre a criação de cenas do espaço público, posto que por maior conhecimento que a plateia tenha sobre aspectos que compõem a vida privada do ator, não será suficiente para legitimar o que ele faz no palco, ou seja, por mais íntima que sejam as relações do indivíduo, aqueles que o rodeiam jamais saberão se o que está sendo apresentado é factível ou não, completo ou não. Dessa maneira, procurou-se compreender, a partir das influências entre o público e o privado, a construção identitária do personagem central de Saramago, pontuando acerca das turbulências vivenciadas por Tertuliano a fim de sanar questionamentos sobre a existência dele e o que o qualifica como indivíduo único e real. Blimunda: relações de poder e resistência em Memorial do convento, de José Saramago Amanda Gomes de Matos Ramos (UERJ) Esse estudo procura analisar a resistência da personagem, Blimunda Sete Luas, às relações de poder que a cercam durante toda a narrativa. Ela é personagem potência na obra Memorial do Convento do escritor português José Saramago. Para esta análise, levaremos em conta os conceitos de poder e resistência de Michel Foucault. Sendo assim, seguiremos a ideia de que as relações de poder são difusas e se exercem a partir de todos os afetos que praticamos e sofremos. E pensaremos na ideia de resistência como a criação de estilos e modos de vida que caminham paralelamente às forças de poder que nos afetam. A ideia é pensar a resistência como dobra da própria força, como um processo de subjetivação, um afeto de si por si. Resistência às relações de poder dentro de um diagrama de Soberania, com seus saberes e discursos próprios. Analisaremos as condições de vida criadas por Blimunda Sete Luas diante do afeto das relações de poder em seu entorno. No decorrer de sua vida, a personagem, que já é singular desde o inicio da obra, vai se potencializando cada vez mais e essa força tem seu auge no desaparecimento de seu companheiro, Baltasar Sete Sóis . Em meio à procura de seu companheiro, Blimunda já não mais conta as horas ou as léguas percorridas, sua relação com a vida é outra. Blimunda já tem outro tempo, outra duração, uma dobra, uma relação consigo resistindo ao poder. Blimunda será a personagem que seguiremos neste trabalho, acompanhando todo o seu processo de Ser diante das forças que a cercam. ABRAPLIP 2017 39 Sobre os espelhos nos poemas de Florbela Espanca: indícios representativos Amanda Moury Fernandes Bioni (UFPE) A presente proposta assume um olhar investigativo sobre a simbologia especular, especificamente, ao que se refere à tradição do simbolismo catóptrico (BRADLEY, 1954; JÓNSSON,1995) descobertas pelo fazer literário poético da escritora portuguesa. É importante perceber que a contemplação do sujeito lírico através de um espelho elementar ou alegórico entusiasma uma escrita flutuante, a qual põe a realidade empírica em suspense. Desse modo, se analisa, nessa proposta os seguintes poemas florbelianos: “Eu”, “Que diferença!” e “Cegueira Bendita”, pertencentes aos livros, respectivamente, Livro de Mágoas (1919) e Trocando Olhares (1915- 1917), buscando perceber como as relações especulares, as quais evocam, entre outras perspectivas, o ver e o ser visto, são estabelecidas através dos textos. Finalmente, ao compreender que a imagem possui a capacidade de harmonizar realidades opostas, a experiência especular e contemplativa resulta bastante conveniente à análise dos poemas selecionados, tendo em vista que a pretensão geradora dessa proposta é esclarecer que a poesia lírica não é simples enunciação emotiva, porém uma dissociação criativa entre o aparecer e o parecer, de acordo com Bosi (2000). Além disso, é importante acrescentar as investigações de Pozuelo (1997), que indicam o caráter inventivo da lírica poética, através da disposição e organização de mundos imaginados. Outros teóricos como Dal Farra (1997, 2006), Junqueira (1992) e Blikstein (2003) também são utilizados como referência. A Mariposa, de Maria Peregrina de Sousa: um inseto social?! Ana Cristina Comandulli da Cunha (UNIRIO/RGPL/Centro de Estudos Clássicos – FLUL) Maria Peregrina de Sousa escreveu, no periódico portuense Braz Tisana, um romance chamado A Mariposa. Mais do que um inseto, a mariposa, personagem criada por Peregrina desfrutou da inocência das crianças e cresceu em meio aos adultos. A Mariposa passou grandes momentos: alguns escapando da morte, outros, talvez mais interessantes, viajando entre os seres humanos, nos quais solta a participar das relações amorosas, políticas e sociais do Portugal oitocentista. Seguindo o pensamento de Michel Foucault, em A Ordem do Discurso, em uma sociedade, onde nem sempre se tem o direito de dizer tudo, um procedimento utilizado é o jogo da interdição. A pergunta que se coloca é: A Mariposa é um texto que intenta apenas entreter seus leitores com a história de um inseto ou Maria Peregrina de Sousa utiliza um tipo complexo de jogo narrativo para burlar os impedimentos e desnudar uma sociedade repleta de convenções? ABRAPLIP 2017 40 Convergências vergilianas: arte, palavra, vida Ana Cristina Fernandes Pereira Wolff (UTFPR) Vergílio Ferreira é um ficcionista que dispensa apresentações. Seus romances, diários e ensaios repercutem sua particular relação com a linguagem, revelando um homem impelido a escrever ao longo de toda a vida, labutando, lapidando, condensando a palavra em busca da máxima expressão. As limitações da língua e da linguagem foram um desafio para o escritor que, artisticamente, superou-as e deixou um legado literário ímpar no contexto das literaturas de língua portuguesa. Consciente de que somente a arte é capaz de expressar o mais grave e importante do homem, Ferreira trabalhou incansavelmente a palavra, palavra “mistério”, extraindo dela os mais diversos efeitos para, enfim, apreender o sentido da vida que se oculta na (e da) própria vida. Sua palavra criadora, genesíaca, instaurou universos ficcionais que falam do homem e ao homem, abrindo-se à revelação e aguçando a sensibilidade do leitor. Diante disso, esta comunicação reflete a respeito da estreita relação de Ferreira com a linguagem, num trabalho de depuração rumo à palavra essencial, inaugural, sagrada. Para tanto, apoiamo-nos em romances e ensaios vergilianos, bem como em trabalhos de críticos e pesquisadores brasileiros e portugueses. A composição do universo zoológico de Os cus de Judas Ana Cristina Pinto Bezerra (UFRN/IFRN) O romance Os cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes constitui-se a partir da rememoração da aprendizagem empreendida pelo narrador em sua vivência na guerra colonial em África. Tal momento impulsiona no sujeito uma série de transformações, vistas na narrativa sob o epíteto de metamorfose, algo que é permeado pela agônica experiência no solo angolano. Uma dessas vias de transformação recai na conversão dos “aclamados heróis lusitanos” a um repertório zoológico que surge na narrativa como uma forma de simbolizar e intensificar a amplitude da degradação moral e física vivenciada em prol de um conflito sem razão. Dessa maneira, pretende-se analisar de que forma a metamorfose animalescaocorre na prosa à medida que seria relatado o período de “aprisionamento ao largo do arame” vivenciado pelo “eu narrador”, do mesmo modo que se busca compreender as implicações de sentido relacionadas à construção de uma “fauna romanesca” na obra em questão de Lobo Antunes, dialogando com o contexto histórico-social da antiga metrópole portuguesa. Para tanto, serão cruciais as leituras das análises de pesquisadores, como Maria Alzira Seixo (2002), Norberto do Vale Cardoso (2016) que se dedicam ao estudo da obra desse literato para compor, assim, esta análise na qual se anseia perceber as linhas de composição do universo zoológico de Os cus de Judas. ABRAPLIP 2017 41 A relevância dos espaços no romance Combateremos a Sombra, de Lídia Jorge Ana Denise Teixeira Andrade (UniRitter) Os espaços assumem real importância na consolidação da memória. Tudo o que acontece pode ser facilmente lembrado, porque é possível associar o acontecimento a um determinado lugar. Dessa forma, todo ambiente é memorável. Outro fato é que esses locais frequentados, jamais estão completamente desabitados. Isso quer dizer que ninguém está a sós com suas recordações, pois há uma memória coletiva presente emcada acontecimento, em todos os ambientes. A leitura do romance lusitano Combateremos a Sombra (2014), de Lídia Jorge, promove tal discussão. Em cada local frequentado pelo protagonista, o psicanalista e professor Osvaldo Campos e seus pacientes, a memória é evocada. Em todos os ambientes há algo para recordar. Gaston Bachelard, em A poética do espaço (s/d), revela que todos os espaços, objetos e móveis que fazem parte do cenário são significativos e evocam às lembranças e o imaginário. Também Paul Ricoeur, em A memória, a história, o esquecimento (2012), e Maurice Halbwachs, com A memória coletiva (2003) enfatizam a relevância do ambiente para a consolidação das memórias, bem como esse, ainda, salienta que as lembranças não são unicamente de um indivíduo, uma vez que é formada pela comunhão de diferentes memórias coletivas. Na esteira desse pensamento, as recordações só existem, em sua plenitude, porque estão associadas a lugares e indivíduos, que trazem consigo uma “bagagem” repleta de experiências e memórias. A crise identitária do sujeito pós-moderno na crônica A consequência dos semáforos, de António Lobo Antunes Ana Lucia Jesus da Silva (UEFS) Neste estudo, objetivamos analisar a crise identitária do sujeito pós-moderno na crônica A Consequência dos Semáforos (1998) de António Lobo Antunes, escritor pós-moderno, que tece uma crítica às sociedades portuguesa e ocidental do século XX e XXI. Lobo Antunes lança um novo olhar para as problemáticas sociais, construindo uma narrativa crítica, e manifesta suas inquietações em relação a vida humana, fazendo seus leitores refletirem e questionarem o ser e estar, no mundo moderno. Os personagens da crônica são, em sua maioria, indivíduos comuns e desassistidos pelo governo, a exemplo dos: Vendedores ambulantes, tuberculosos, microcefálicos, macrocefálicos, coxos, mongoloides, entre outros pobres e enfermos. A presente crônica mostra o reflexo de uma sociedade fragmentada que valoriza o consumismo, o individualismo e o efêmero. Em decorrência desses fatos, o protagonista mostra-se indignado diante do caos que enfrenta nas ruas, em sua vida cotidiana. Toda esta crise de identidade nos leva à discussão da fragmentação ABRAPLIP 2017 42 do sujeito pós-moderno. Para fundamentar este estudo, utilizaremos as ideias de: Arnaut (2009), Bauman (2001), Bakhtin (2013), Hall (2006), Hutcheon (2000), Valverde (2014) dentre outros. A demonização do feminino: a misoginia em “Sonhos de Lancelote” n’A Demanda do Santo Graal Ana Luiza Magalhães Poyaes (UERJ) A novela de cavalaria A Demanda do Santo Graal é uma obra de autoria anônima, sendo sua versão portuguesa datada no século XIII. Com raízes em lendas celtas e na Matéria de Bretanha, seu conteúdo foi, todavia, cristianizado e modificado ao longo do tempo. A narrativa é caracterizada pela busca do santo cálix, sendo os cavaleiros que o demandavam a todo tempo postos à prova quanto à sua devoção, cristandade e honra. Lancelote possui bastante relevância na novela, tendo uma relação carnal com a Rainha Genevra; entretanto, durante a obra lhe são apresentadas algumas possibilidades de redenção dos pecados, como em sonhos. Em “Sonhos de Lancelote” podemos observar explicitamente como se dá o discurso moralizante na Idade Média em relação às mulheres, uma vez que Lancelote é advertido de seus pecados por meio da demonização de personagens femininas, reforçando a visão pejorativa da mulher na sociedade medieval. Essa passagem da novela ressalta ainda o feminino como obstáculo para elevação espiritual do homem, aproximando-o da imagem de Eva. Desse modo, pretendemos compreender como as representações da feminilidade demonizada n’A demanda do Santo Graal dialogam com princípios cristãos, fortalecendo o discurso misógino presente na sociedade medieval. Aspectos e feições da Literatura Portuguesa nas pesquisas de Pós-Graduação no Nordeste Ana Marcia Alves Siqueira (UFC) O trabalho investiga, a partir do levantamento quantitativo da base de dados dos bancos de teses e dissertações disponíveis nas bibliotecas das universidades públicas do Nordeste, a situação dos estudos relativos à Literatura Portuguesa nos Programas de Pós-Graduação dessas instituições, objetivando refletir sobre o desenvolvimento do ensino e da pesquisa em Literatura Portuguesa na região onde há um contexto heterogêneo de Programas, alguns com longo histórico e desenvolvimento de pesquisa e outros relativamente novos. O conhecimento da situação das investigações sobre o assunto pode levar a uma melhor definição de estratégias para o fortalecimento das pesquisas na área, desafio importante para a ABRAPLIP. ABRAPLIP 2017 43 “O céu de todo o deus deserto”: uma análise da fortuna crítica de Sophia de Mello Breyner Andresen Ana Maria Ferreira Côrtes (UNICAMP) Esta comunicação discutirá a fortuna crítica de parte da obra poética da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Nosso intuito é mapear de que maneira a poesia da autora foi recebida, conferindo particular destaque às temáticas da religião, do sagrado e da presença de conteúdos relacionados à cultura greco-latina. A ênfase conferida a essas questões se deve ao fato de que, na análise do corpus poético, partimos da hipótese de que a poesia de Andresen solicita um exercício hermenêutico, o qual se fundamentaria na tensão dialética entre as instâncias da imanência e da transcendência em seus poemas. Essa leitura iria de encontro a uma postura já consolidada de sua fortuna crítica, que atribuiria à poética de Andresen uma clareza de sentidos, vinculada a um vocabulário preciso e a uma tematização do mundo sensível. Nesse sentido, ao estudar a fortuna crítica de Andresen, buscamos compreender como essas questões vêm sendo compreendidas pela crítica, levando em conta nossa hipótese e a relação entre a suposta simplicidade de sua poesia e a dificuldade ou impossibilidade de empreender um exercício hermenêutico. A figura de José do Telhado em Camilo Castelo Branco e José Mena Abrantes Ana Maria Lange Gomes (UNESP) José do Telhado foi um famoso militar e salteador português que entrou no imaginário do povo por representar uma espécie de “Robin Hood português”. Conheceu Camilo Castelo Branco quando esteava preso na Cadeia da Relação, e esse envolvimento foi relatado pelo escritor em seu livro Memórias do Cárcere. Em 1859 foi condenado ao exílio na África, onde passou a ser conhecido pelo apelido de kimuezo, homem de barbas grandes. Assim, essa figura, além dos português, ocupou também o imaginário africano, sendo retratado por alguns escritores, dentre ele, o dramaturgo José Mena Abrantes. Isto posto, esta comunicação propõe uma leitura comparativa desta figura mítica na perspectiva da obra desses dois autores,enfatizando os contextos histórico- sociais de inserção das narrativas. ABRAPLIP 2017 44 A recepção crítica da Prosopopeia (1601) de Bento Teixeira e a “política literária” brasileira Ana Paula Gomes do Nascimento (USP) Soares Amora, em texto de 1957 intitulado A Prosopopeia de Bento Teixeira Pinto, à luz da moderna camonologia, sugeriu que as leituras do poema de Bento Teixeira deveriam ser estudadas de modo a identificar a existência de uma “política literária” brasileira. De fato, o poema é referido desde a edição de 1873, elaborada por Ramiz Galvão no Rio de Janeiro, como o primeiro da literatura brasileira, embora seu mérito poético seja questionado. Amora percebe, então, que as abordagens ao poema não têm exatamente a ver com uma crítica literária, pois apenas afirmam que se trata de um poema de valor histórico sem, no entanto, se aprofundar na técnica poética exercitada nele. O estudioso aproxima a Prosopopeia d’Os lusíadas, mas sem classificar tal proximidade como negativa, e indica que acompanhar as leituras desta funcionaria como um verdadeiro “estudo de caso” sobre os métodos da nossa crítica e sobre o que ela revela da nossa postura com relação a Portugal. As leituras desde o século XIX criam uma ruptura entre o que seria a “literatura portuguesa” e a “literatura brasileira” em tempos coloniais, uma vez que surgem no contexto do estabelecimento do Brasil como estado-nação independente de Portugal. Nesta comunicação, portanto, percorreremos os caminhos da crítica ao poema desde o aparato de sua publicação em Lisboa no ano de 1601 até os dias atuais. Nosso objetivo é demonstrar que a hipótese de Soares Amora é pertinente, assim como indicar as novas abordagens ao poema, tributárias dos estudos sobre a retórica. O poder do tempo e a força da memória em Os cus de Judas Ana Paula Martins Costa (SEDUC/AM) Antonia Barbosa de Oliveira (SEDUC/AM) Este trabalho tem por finalidade analisar como a memória é ativada no decorrer da narrativa em Os cus de Judas, de António Lobo Antunes - e como a personagem é capaz de levar o leitor em seu passeio oscilando entre “os passados” e o presente sem um futuro certo. Para compreender a transição da personagem entre “os tempos” faz-se necessário uma definição de um termo familiar à filosofia, neste caso, o tempo, pois, dentre as conceituações aludidas ao vocábulo, está a que se encaixa como ponto de partida deste estudo. O tempo é definido no dicionário de filosofia por duas composições distintas: a memória retentiva e a memória reminiscente. Diante delas circulam três concepções de tempo como movimento mensurável, movimento intuído e o tempo como estrutura de possibilidades, sendo que o último conceito não será aprofundado pela relevância dos dois primeiros na obra de António Lobo Antunes. O flashback realizado pelo narrador-personagem é ativado em ABRAPLIP 2017 45 uma conversa de bar desencadeando um ir e vir no tempo aparentemente desordenado, mas que revelará fases de sua vida na infância, juventude e vida adulta captados pelo passado distante e recente, que vão sendo ativados durante a narrativa através dos sentidos. Trata-se de um processamento mental no qual o sujeito da enunciação despeja, num tom confessional, fatos angustiantes na tentativa de exorcizar seu passado na verbalização de sua experiência traumática do período de guerra. Modernidade e experimentação em Ana Hatherly André Luiz do Amaral (UNESP) O conceito de modernidade articulado por Ana Hatherly não é o de evento, no sentido de um acontecimento irrepetível, mas de série, na medida em que a modernidade se apresenta sucessiva e ininterruptamente, desde o século XIX, numa dinâmica acumulativa. Segundo ela, a(s) modernidade(s) implica(m) numa nova atitude frente ao poema, inaugurada por Mallarmé, como atestam também Walter Benjamin e o grupo da Poesia Concreta no Brasil. A visualidade, a experiência do espaço do poema e o uso incomum da linguagem rompem com a retórica burguesa da literatura, então dominante. Essa visada é devedora de Adorno, para quem a experimentação é o fundamento do processo produtivo da obra de arte moderna, construída na ruína, melancolia e perda. Em Hatherly, a reflexão teórica sobre a Modernidade, elaborada em O Espaço Crítico (1979) e amadurecida A casa das musas (1995), tem seu reflexo em toda a sua atividade poética, principalmente em obras como Rilkeana (1999), O Cisne Intacto, (1982) e 463 Tisanas (2006). Caos por ordenar: os duplos em O homem duplicado Andrea Bittencourt (UFPR) Em O homem duplicado, obra de 2002, José Saramago, um dos expoentes literários portugueses contemporâneos, aborda mais uma vez a temática pós-moderna, especificamente, a questão da identidade e sua perda, numa sociedade globalizada. Considerando tal temática e tomando como principal apoio teórico a obra de Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, o objetivo deste trabalho é analisar a presença de duplos diversos, principiando pelos personagens principais (Tertuliano Máximo Afonso e António Claro/ Daniel Santa-Clara) e atingindo os secundários, representados pelas três mulheres que orbitam os protagonistas: Helena, Maria da Paz e Carolina Máximo. Com essa perspectiva, mais do que analisar as transformações identitárias em Tertuliano e António, decorrentes do percurso em busca de seus eus, quer-se identificar também o modo como tais transformações atuaram na (re)construção identitária dos indivíduos atingidos pelo processo pelo qual passa os dois personagens principais da narrativa. ABRAPLIP 2017 46 Crime e Ficção: O Porto de Gervásio Andreia Alves Monteiro de Castro (RGPL/Centro de Estudos Clássicos - FLUL) No final do oitocentos, investigadores, médicos e peritos contam com um novo aparato científico para comprovar a ocorrência e descobrir a autoria de um crime. Os periódicos e os romances passaram a retratar e registrar tais procedimentos em detalhes. Gervásio Lobato, atento às inovações da ciência, trazidas para a literatura, abordou, em Os Mysterios do Porto (1890-1891), os sofrimentos e as aspirações dos que não podiam ou não conseguiam se encaixar no senso comum, por isso mesmo mais sujeitos à delinquência. O escritor lisboeta mais conhecido por seu sucesso na comédia e na sátira de costumes, baseado em crimes e julgamentos reais, também escreveu sobre mortes sangrentas, sociedades secretas e violência e exploração sexual, empregando uma linguagem sensacionalista e por vezes picante para os padrões do seu tempo, e também urdindo enredos carregados de suspense e erotismo com o intuito de atrair a atenção de um público leitor acostumado a acompanhar esses casos nos jornais e revistas. Conselheiro Acácio: “Cavalheiro mais sábio que Zarathustra” – recorrência e influência na mídia brasileira Andréia Márcia de Castro Galvão (Universidade do Minho) Em meio das históricas e complexas relações luso-brasileiras, Eça de Queiroz destaca-se como um dos poucos autores que em certo sentido ‘mediou’ tais relações, nomeadamente nos campos literário e cultural. No Brasil, Eça obteve um consenso poder-se-ia dizer quase unânime, tanto que o sucesso de suas obras, sobretudo após o lançamento d’O Primo Basílio (1878), encontra- se fartamente documentado nos jornais e revistas da época. Com efeito, é possível observar que, mesmo décadas após os lançamentos e após a morte do escritor, alguns de seus personagens, tornados icônicos, figuravam ainda na mídia, qual personalidades reais. Partindo dessas premissas, essa comunicação visa comentar a ‘influência’ de uma das criações ecianas que mais fascinou a intelectualidade brasileira do período: o Conselheiro Acácio. As variadas frases atribuídas ao referido personagem, a sua caracterização (no título: da revista Careta, de 1920) e a múltipla utilização de seu nome como pseudônimo etc. servem a ressaltar tanto a grande importância da literatura na vida cotidiana brasileira da época, quanto a aclamação de Eça de Queiroze suas obras/ personagens como parte preponderante desse mesmo cotidiano. ABRAPLIP 2017 47 Realismo Mágico Antropológico – a arte de transformar a vida comum em excepcional Andressa Luciane Matheus Medeiros (UFPR) A presente comunicação tem como objetivo comparar os textos: o nosso reino, de Valter Hugo Mãe e Campo GeraL, de João Guimarães Rosa, os textos apresentam como protagonista duas crianças que interpretam o mundo real de uma maneira profundamente poética – o comum, transformado em excepcional, porém com contornos habituais. Essa interpretação, em grande medida, é motivada pela presença marcante da religiosidade e das crendices que exercem a função mitopoética os quais motivam Miguilim e Benjamim a interpretar a realidade de forma mágica e transformar os aspectos do cotidiano em algo excepcional – como acontece no realismo mágico. Também no realismo mágico a percepção do espaço geográfico e literário se faz essencial para analisar os demais aspectos do enredo, no caso das narrativas há um limite físico imposto por elementos naturais, no primeiro caso pela mata, e no segundo pelo morro, essa limitação é ao mesmo tempo aquilo que lhes fornece elementos para imaginar o que não se é dito, o que está para além de suas vivência no seio do ethos A análise dos textos adotará a perspectiva teórica do realismo mágico, a partir da tipologia de William Spindler do realismo mágico antropológico, o qual consiste na análise da realidade vivida, o mágico que não é produzido artificialmente, mas que é verificado na vivência cotidiana dos povos. O realismo mágico antropológico partilhado entre a América Latina e Portugal é marcado pela vocação natural desses povos para imaginar e inventar e que concomitantemente conjuga essa vocação à tradição popular fortemente abalizada pelas superstições, crendices, lendas e religiões. Tal perspectiva nos permite analisar dois textos ficcionais inspirados nas mentalidades e crenças de Portugal e do Sertão Mineiro que por um lado é fruto da imaginação, por outro produto da cultura. De Clarice a Rui: uma leitura de Amor de Clarice sob perspectiva da transposição intersemiótica Anelise de Oliveira de Almeida (UTFPR) A da plataforma de poesia experimental portuguesa Po.Ex promove o trabalho de diversos poetas e programadores através de obras que buscam a experimentação e a inovação em formas digitais de poesia, além de trabalhar diversos gêneros literários midiáticos, como a videopoesia e a poesia digital, traz diversos trabalhos que podem ser lidos como transposições intersemióticas de obras canônicas. Rui Torres, português da cidade do Porto, é um dos poetas que colaboram com o projeto. Em seu poema digital Amor de Clarice, Torres faz uma releitura do conto Amor, de Clarice Lispector. Em nossa leitura, interpretamos a construção de Torres como uma transposição intersemiótica do conto de Lispector, levando em conta o conceito apresentado por Claus ABRAPLIP 2017 48 Clüver (1989), em artigo intitulado On Intersemiotic Transposition. Para Clüver (1989), a transposição intersemiótica deve ser encarada como uma forma de tradução, uma vez que traduz o texto de uma linguagem artística para outra. A transposição intersemiótica busca equivalências de sentido e forma entre linguagens diferentes a fim de, não apenas recuperar o sentido do texto que está sendo traduzido, mas criando uma obra de arte independente. Nesse sentido, buscaremos paralelismos entre estruturas e sentidos do conto de Lispector no poema digital de Torres, além de ler o poema sob o viés de uma obra de arte independente da poesia digital. A mise en scène do feminino na ficção de Lídia Jorge: sombras e imagens, escolhas e destinos Ângela Beatriz de Carvalho Faria (UFRJ) A partir das reflexões de Lídia Jorge, no ensaio “Para um destinatário ignorado”, inserido em Para um leitor ignorado: Ensaios sobre a ficção de Lídia Jorge (Org. Ana Paula Ferreira, Texto Editores, Lda., 2009) e da análise de contos de sua autoria, pretende-se privilegiar: a) a gênese da escrita da escritora portuguesa contemporânea, baseada em narrativas que, retidas em sua memória, “continuam a brilhar no escuro da imaginação e alimentam um território de tal forma carregado de beleza e violência, que resultam numa espécie de obstinação tão sedutora quanto incontrolável”; b) o “espaço como um intervalo que age” e os “atos passionais que habitam os seres humanos e que se revelam em todo o seu esplendor”; c) a intertextualidade e o dialogismo : o “espelho invertido”; d) a questão ontológica, de raiz pessoana, capaz de “declinar até ao infinito não só a impossibilidade de definir, como a própria impossibilidade de ser”; e) as estratégias discursivas inerentes à Estética da Crueldade e que nos propõem os seguintes questionamentos: “Como representar o irrepresentável, o indizível, a realidade inelutável?”, “Como revelar os espaços distópicos de um espaço urbano desencantado?”, Como detectar “a noção de limite e a impossibilidade de expressar diretamente a verdade”? ; e) a questão inerente à estética da modernidade: o desejo e a (im)possibilidade da fala - “Se só temos a fala para dizermos quem somos, porque é que não nos ouvimos enquanto a fala é possível?” A metamorfose da saudade: uma leitura de Desamparo, de Inês Pedrosa Angela Maria Rodrigues Laguardia (Universidade Nova de Lisboa) Desamparo (2015) é o último romance da escritora Inês Pedrosa. Tecido entre memória e a identidade, o romance reflete sobre o “não-lugar”’, através das representações significativas de suas personagens, os emigrantes do Brasil e de Portugal. Neste “trânsito”, e no espelhamento dos valores de cada país, a busca de suas “raízes” e de um possível “encontro”. ABRAPLIP 2017 49 Nossa leitura procura analisar estes espaços identitários, e a construção destas questões lacunares, originárias, também, do sentimento da “saudade” até à contemporaneidade. O animal que também sou: um estudo do conto “Um casaco de Raposa Vermelha”, de Teolinda Gersão Antonia Marly Moura da Silva (UERN) O conto de bichos, tal como denomina Temístocles Linhares (1973), muitas vezes filiado à tradição do animalismo dominante na literatura, tem sido cultivado de modo recorrente na literatura da segunda metade do século XX. No conto “Um casaco de raposa vermelha”, integrante de A mulher que prendeu a chuva e outras histórias (2007) de Teolinda Gersão, formas seculares do imaginário do animal enaltecem a relação humano e inumano. No discurso fabular, o imaginário do animal constitui terreno fértil para uma reflexão sobre essa relação binária, sobretudo no que se refere ao território e as fronteiras entre o real e o irreal, entre literatura e mito. Nesta perspectiva, na leitura do referido conto busca-se identificar aspectos estéticos que acentuam tensões que são do campo do duplo e da metamorfose. Para tal direcionamento, serão fundamentais os conceitos de fantástico formulados por Irène Bessière (1974), Julio Cortázar (1974), Roger Bozzetto (2001), Remo Ceserani (2006) e David Roas (2001, 2011, 2014), perspectivas teóricas sobre o duplo, dentre as quais convém destacar O duplo (1914) de Otto Rank; a noção freudiana de estranho em O inquietante (1919); a perspectiva clássica ovidiana expressa em sua célebre Metamorfoses (2003), dentre outras referências da Teoria da narrativa. Entre flores, e pedras: um estudo comparativo de “Flores ao telefone”, “Liberdade adiada” e “A imitação da rosa” Antonio Aparecido Mantovani (UNEMAT) Genivaldo Rodrigues Sobrinho (UNEMAT) Este estudo propõe comparativamente, a partir dos contos “Flores ao telefone” de Maria Judite de Carvalho, “Liberdade adiada”, de Dina Salústio e “A imitação da rosa”, de Clarice Lispector problematizar como as autoras constroem suas personagens, mulheres solitárias que vivem uma tensão interior, passivas e delimitadas, ou não, e suas representatividades na pós- modernidade em sociedades ainda com resquícios patriarcais, ondea mulher vem paulatinamente conquistando um espaço social, além da função do lar e da educação dos filhos. As protagonistas destes contos são mulheres que pouco dizem através do diálogo, mas suas angústias muitas vezes nos são reveladas por um “ver-por-dentro” dos monólogos. São mulheres cheias de angústia, em reflexão, vivendo seus cotidianos em lares envoltos de dramas existenciais contemporâneos, cuja desilusão parece ser fruto de uma ABRAPLIP 2017 50 sociedade que conscientemente ou não, ainda delimita a mulher mesmo no contexto sócio-cultural na pós-modernidade. “Aquele she era eu”: a (im)possibilidade de narrar, em Os Memoráveis, de Lídia Jorge Ariane de Andrade da Silva (UERJ) Para não esquecer. Para lembrar. Demarcada pelo período posterior ao 25 de abril de 1974, a literatura portuguesa envereda por um novo processo de escrita, em que as relações entre construção literária e percurso histórico se estreitam e se conectam intimamente. Por sua vez, nesse cenário, novas vozes, partindo das margens da nação, emergem e, ao se distanciarem de certa maneira do discurso historiográfico, é à memória que se fiam, por ser essa capaz de abarcar as percepções do sujeito, revelar fragmentos do passado e expor mazelas de um tempo pretérito. Nesse sentido, este artigo pretende fazer uma leitura do romance Os Memoráveis (2014), de Lídia Jorge, buscando analisar os mecanismos de construção da narrativa, sob a ótica da rememoração do período colonial, atravessada pela voz testemunhal da personagem-protagonista-narradora, a repórter-viajante Ana Machado. Ao imergir no passado através da memória, a personagem é conduzida “para lugares que não desejava revisitar” (JORGE, 2014, p.14) e, através dessa incursão, revela “a dimensão testemunhal de um momento acontecido nas costas da história” (JORGE, 2014, p.56). Nesse sentido, espera-se, finalmente, analisar a experiência de contar, ao se refletir, principalmente, sobre a presença de uma instância ficcional que se destaca no processo narrativo, uma voz em primeira pessoa, que se entrelaça ao romance para questionar, interpelar e desestabilizar. Personalidade feminina e seus desdobramentos na poética labiríntica de Adília Lopes Arlen Maia de Melo (UFPA) Sara Coelho de Lima (UFPA) O presente trabalho apresenta uma análise da obra A mulher a Dias (2002) de Adília Lopes, poetisa portuguesa contemporânea, em que trata da figura do feminino e seus desdobramentos. O suporte teórico para esta pesquisa está baseado nos pensamentos de Arendt em sua obra A condição Humana (2007), considerando as esferas pública e privada nas quais o homem está inserido, assim como, a proposta de uma metáfora do olhar assimilando a figura do flâneur difundida pelos estudos contemporâneos de Walter Benjamin (2004) à obra adiliana. O subsídio para o desenvolvimento desta tarefa consiste na leitura analítica entre a poética da autora em diálogo com o pensamento destes dois grandes teóricos. O trabalho consiste na análise de poemas da obra em questão e uma pesquisa bibliográfica, apresentando uma linguagem poética tipicamente contemporânea. A escrita adiliana é tratada por muitos críticos como uma linguagem labiríntica e ao mesmo tempo instigadora. ABRAPLIP 2017 51 A partir disso, se estabelece a relação entre sua obra e o controle do corpo feminino no qual está sujeito às regras estabelecidas, tanto para a esfera pública quanto pela esfera privada, proporcionando a moldura de comportamentos, o adestramento feminino. É com esse olhar, artístico e sensível, que a Flânerie é evidenciada; Adília eleva o poder da escrita feminina, assimilando-a, assim, a elementos desvalorizados ou menosprezados a princípio. Desse modo, a autora demonstra sua autenticidade enquanto poetisa, em uma análise minuciosa dos elementos de seu cotidiano e detentora de um olhar específico e artístico em meio à multidão de uma sociedade desenfreada. A adaptação para o cinema do conto de Eça de Queiroz Singularidades de uma Rapariga Loura por Manoel de Oliveira: a questão da distância. Bernard Corneloup (Université de Lyon 2) Toda narração induz uma distância em relação ao que é contado, decorrendo da posição tanto temporal como espacial, explícita ou não, do narrador, e da sua implicação na ficção. Quando se trata de uma adaptação para o cinema, estende-se essa noção da distância, na comparação dos dois objetos artísticos, o romance e o filme, geralmente exprimida através do termo “fidelidade”. Esta noção de nova distância se inscreve por sua vez no campo da leitura : o filme é mais uma leitura do livro. E, novamente, outras distâncias vão se criando, de maneira inerente, dentro da narração fílmica. No caso do realizador Manoel de Oliveira trata-se de um ponto particular no paradigma das adaptações da literatura no cinema, pois o podemos entender como uma proposta deliberada de criação artística se apoiando no objeto-livro. Conceição Lima e Sophia Andresen: pontes poéticas Bernardo Nascimento de Amorim (UFOP) Escritoras de gerações diferentes, de países diferentes, mas de mesma língua, a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen e a sã-tomense Conceição Lima escolheram o caminho da poesia como uma das formas para se relacionar com o mundo. A primeira seção do terceiro livro de Lima, O país de Akendenguê, de 2011, abre com uma epígrafe de Sophia, de um poema chamado “Eurydice”, publicado em No tempo dividido (1954). A palavra “rosto”, presente na epígrafe (“Este é o poema – engano do teu rosto / No qual eu busco a abolição da morte”), também aparece no título da primeira seção do livro de Lima: “A mão e o rosto”. Sob a luz da palavra de Sophia, Lima se propõe a falar de um país (“o reino que forjamos”), do “canto” e de “caminhos”. O estabelecimento de algumas pontes, contatos, relações, a partir da leitura dos dois livros citados, parece-me poder levar a uma compreensão de questões relevantes às duas poéticas, para além de poder descortinar algo das formas de apreensão de uma poeta portuguesa fora do espaço restrito de sua nação e de sua origem, ABRAPLIP 2017 52 o qual, certamente, ela, como Lima, pretendia transcender. Proponho-me, então, a estabelecer tais pontes poéticas. Revolta às origens de uma “tradição invisível”: uma leitura de Esse cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida Bianca Mafra Gonçalves (USP) Esta comunicação pretende apresentar uma leitura crítica de Esse Cabelo, livro de estreia de Djaimilia Pereira de Almeida. Afastando-se da recepção simplista entre jovens leitores, - presente na maioria das resenhas disponíveis em blogs portugueses, - notamos que uma leitura detida da obra ultrapassa a limitante estética pró-negritude de sua capa; não se trata, como se poderia vulgarmente imaginar, de uma narrativa de reencontro com a origem, mas de constante hesitação em relação a ela. Não obstante, a obra cumpre o papel político de dar voz a certa “Tradição Invisível”, expressão usada pela narradora ao referir- se a seu avô, e que podemos aqui estender ao próprio projeto do livro. Sendo o mote narrativo o cabelo crespo, isto é, um traço de pertença étnico-racial, entendemos que Esse Cabelo configura um marco nas literaturas portuguesas contemporâneas que revisitam a identidade portuguesa. Leitoras levadas pela literatura e pelos amores Bianca Meira Lopes (UEPG) O século XIX foi marcado pela expansão do romance, e com isso, ele tornou- se mais acessível à sociedade. Um exemplo da propagação do gênero são as próprias obras literárias da época, muitas das quais contam com personagens leitores (as) de romance. As leitoras, em muitos casos, mostram- se influenciadas pelos livros, sonhando viver as aventuras das heroínas do papel, o que gerou muita polêmica nesse século, devido à falta de imoralidade desses romances, segundo alguns críticos do momento. A partir destes apontamentos, o presente estudo faz uma análise dos contos: ‘No moinho’ (1892) de Eça de Queirós e de ‘Confissões de uma viúva moça’(1865) de Machado de Assis, buscando encontrar as influências da literatura sobre as personagens leitoras de romance presentes nos dois contos. Para amparar o trabalho, o estudo contará, entre outros textos, com a “Construção do leitor”, de Lajolo e Zilberman (2003). ABRAPLIP 2017 53 José Saramago pós-Nobel e seu último romance: o escritor e sua missão Bianca Rosina Mattia (UFSC) Em 1998 o escritor português José Saramago recebeu o Prêmio Nobel de Literatura tendo, na oportunidade de seu discurso, refletido sobre sua obra. Antes, porém, durante uma conferência na Universidade de Turim, Saramago explicou-se propondo que, com seus romances, esteve inicialmente a construir uma estátua e, a determinado momento, fez-se preciso escavá-la para chegar à sua pedra. Uma metáfora que divide sua produção literária em dois ciclos não restritos ao tempo cronológico, mas especialmente às temáticas que abordam. Foi também durante o discurso que proferiu no Banquete Nobel que Saramago revelou sua inquietação com o desrespeito aos direitos humanos. O escritor, desde então, não parou com seu ofício, mas foi além. Manifestou- se ainda mais enquanto cidadão crítico do seu tempo. Quando faleceu, em 2009, estava a escrever um romance sobre a fabricação e o comércio de armas, que veio a ser publicado, de forma inacabada, em 2014. A presente comunicação, nesse sentido, tem por objetivo cotejar a proposta de Alabardas, o último romance de Saramago, como fechamento do seu percurso literário, especialmente diante da posição assumida pelo autor após o Nobel e do que delineou como sendo o segundo ciclo de sua obra, o da pedra. “O Século XIX concebeu a Democracia” ou Aspectos Estético-políticos da descrição em Os Maias Breno Góes (PUC-Rio) Esta comunicação se insere no âmbito mais geral de uma pesquisa que tem por propósito fazer um esboço de leitura política do romance Os Maias, de Eça de Queirós. Para tanto, tomará por objeto o conjunto de procedimentos estéticos que permitem a instauração do romance, partindo do pressuposto de que toda prática estética já tem em si uma dimensão política que lhe é inalienável. Especificamente, interessam certos aspectos das descrições de Os Maias nos quais o livro parece assemelhar-se a certas obras (hoje por nós denominadas realistas) que o crítico francês Armand du Pontmartin qualificou em 1857 como “Democracia em Literatura” (termo recuperado mais tarde por Jacques Rancière). Cabe detalhar quais são esses aspectos, aqui agrupados sob o nome de “escrita alusiva”, e qual a sua relação com algo que se possa chamar de “democracia”. O mote que serve de título para o trabalho - “o século XIX concebeu a democracia e sua atitude é esta…” - vem de uma fala do personagem João da Ega, de Os Maias, que parece funcionar como síntese ambígua dos aspectos políticos deste romance. ABRAPLIP 2017 54 Faces da religiosidade em A pécora e Auto da Compadecida Bruno Vinicius Kutelak Dias (UFPR) Quando observamos o teor religioso na literatura e no teatro de língua portuguesa, dentre muitos autores e obras, duas se destacam para um possível diálogo, não só por sua proximidade temporal quanto pelos enredos nos quais encontramos a temática mariana, A pécora, da portuguesa Natália Correia, e o Auto da Compadecida, do brasileiro Ariano Suassuna. Com base, principalmente, nas teorias de Brandão (1985), Campbell (1990) e Jurkevics (2004), o presente trabalho propõe a análise comparada das peças com o foco na representação da religiosidade em cada uma das obras. Tanto o enredo quanto os personagens, principalmente os principais – Melânia, João Grilo e Chicó – nos mostram características da cultura religiosa de cada povo, tanto quando observamos a religião oficial quanto a que é efetivamente praticada pelo povo, de acordo com crenças e costumes particulares de cada contexto. Joaquim Sassa: o homem em viagem. Uma análise às viagens de A jangada de pedra, de José Saramago Caio Henrique da Silva Reis (UERJ) A proposta deste trabalho é analisar Joaquim Sassa, um dos protagonistas do romance A jangada de pedra, de José Saramago, para defender a ideia do “homem em viagem”, ou seja, um homem em busca de respostas para algum evento que o inquieta. Esse estudo analítico é composto por quatro etapas: 1) apresentar a definição de “viagem”, aplicada ao romance de Saramago; 2) abordar a viagem da Península Ibérica, sob viés histórico; 3) relacionar a viagem de Joaquim Sassa dentro dos países ibéricos com os outros personagens; 4) refletir sobre a visão de Joaquim Sassa ser uma metonímia do que é “ser português”. Para realizarmos essas etapas, utilizaremos como fundamentação teórica os livros Rumo de Portugal: A Europa ou o Atlântico?, de Joaquim Barradas de Carvalho e Proust e os signos, de Gilles Deleuze, além dos ensaios “Nós e a Europa ou as duas razões”, de Eduardo Lourenço e “A metáfora da viagem”, de Octavio Ianni. O recuo do mar: Memória e erotismo em Luís Miguel Nava Camila Franquini Pereira (UFRJ) Poeta e ensaísta, Luís Miguel Nava pode ser considerado um dos mais eminentes escritores do último quartel do século XX em Portugal. Nesta comunicação, objetivo discutir o papel da memória e da experiência carnal na ABRAPLIP 2017 55 obra do autor, por meio do texto “Os dedos”, do livro Onde à nudez. O poema se inicia com o fim do ato erótico, com os versos “O mar recua, o leite e a língua digladiam-se ao sentirmos/ a chama largar leite (...)”, que mostram o recuo do mar em consonância com o encontro entre o leite e a língua. Ao perseguir o mar — elemento associado ao encontro erótico —, o eu-lírico deixa claro que o plano da ação do poema se passa no passado. Os versos “às vezes acontece eu sentir, mesmo por baixo os cabelos, a memória aligeirar-se (…)” explicitam que o ato não é simplesmente relembrado, mas revivido sensorialmente, porque se a pele porosa do sujeito permitiu a internalização de uma experiência por meio da memória, ela pode ser trazida de volta à superfície, tornando- se, pois, uma nova potência criadora, que irrompe por meio dos d”os dedos em desordem”. O movimento dos dedos pode representar o fulgor erótico de um ato individual que ocorre em consonância com o narrado na primeira estrofe; ou um poema, que se apresenta como possibilidade de conservação da memória. “A Noite Escura”: travessia e meditação em Camilo Pessanha Camila Marchioro (UFPR) A Noite Escura, termo derivado do poema homônimo de São João da Cruz (séc. XVI), passou a ser utilizado pela tradição católica como referência ao sentimento de desolação que pode assolar quem percorre uma jornada espiritual. O poema do místico católico configura-se como uma alegoria para o perigoso caminho em que se pode adentrar na busca pela perfeição – só é possível chegar ao “dia claro” após completar a travessia pela “noite escura”. Em contrapartida, no início do século XX, Camilo Pessanha legou à tradição lusófona poemas em que a escuridão e a ruina se unem para compor uma atmosfera de labirinto, sonho e desencanto. Em 1894, envolto pela névoa da modernidade, o poeta coimbrão partiu rumo a Macau, experiência que o marcou profundamente devido à travessia do mar e ao distanciamento da pátria, ressoando em sua obra. Dentre muitas das características de seus versos, a abulia ganhou notoriedade diante da crítica, que muitas vezes encontrou nas vivências do autor a fonte para tal traço poético. Ainda que a noite escura na obra de Pessanha não tenha necessariamente uma fonte cristã, a estada do poeta na China e, consequentemente, o conhecimento do budismo podem ter trazido para sua obra certa prática meditativa. Essa prática evidencia elementos que, tal como em São João da Cruz, fazem parte da passagem pela escuridão. Ao relacionar tais aspectos, a comunicação visa compreender como a meditação, nas suas variadas acepções, pode se configurar poeticamente na obra de Pessanha. ABRAPLIP 2017 56 O discurso simbolista nos campos literário brasileiroe português Camila Paiva da Silva (UERJ) O discurso simbolista vai se desenvolver no Brasil e em Portugal na contramão do cânone vigente, que privilegiava a realidade e a nação. No Brasil buscava- se uma identidade literária, renegando a cópia. Em Portugal era preciso estabelecer uma cenografia que abarcasse os problemas sociais referentes à crise econômica e política, que revivesse os tempos áureos da nação e rompesse os pressupostos do movimento anterior. Assim, é através da gênese do “campo literário” de Bourdieu e as condições de emergência do “discurso literário” de Maingueneau que tentaremos, neste trabalho, sondar a recepção simbolista no Brasil e em Portugal. Para tanto, é preciso perceber os motes que relegaram o movimento e sua estética ao não lugar nestas sociedades. Do rizoma à ficção de Antonio Lobo Antunes Camila Savegnago (UFSM) A ficção de António Lobo Antunes tem sido amplamente estudada nos meios acadêmicos do Brasil e de Portugal ao longo dos anos. As muitas peculiaridades de sua escrita romanesca: multiplicação de planos memorialísticos, diversificação de vozes, pontos de vista e perspectivas narrativas, imbricamento de níveis espaço-temporais distintos, fragmentação de personagens, aliadas a problemáticas históricas e existenciais, são alguns dos pontos que mais despertam o interesse dos pesquisadores. Nesse contexto, o presente estudo objetiva analisar a narrativa de O esplendor de Portugal (1997) com base no conceito de rizoma desenvolvido por Deleuze e Guattari, propondo, assim, uma nova leitura possível à ficção antuniana. O desenvolvimento do estudo recai sobre o levantamento de questões históricas, políticas, sociais, envolvidas com a narrativa e a análise da técnica romanesca antuniana, partindo do estudo de categorias da narrativa: tempo, espaço, personagem, narrador, enredo. Tal processo permite observar com mais clareza os diversos agenciamentos presentes no texto, deslindando sua composição rizomática. Além disso, possibilita que se verifique como esse texto faz rizoma com o mundo. A constituição do eu narrativo e figural na temporalidade complexa de Lobo Antunes Camila Stefanello (UFSM) Esta comunicação tem por objetivo apresentar parte do estudo do romance Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009) de António Lobo Antunes, realizado na Dissertação de Mestrado da proponente. Nesse romance, ABRAPLIP 2017 57 é narrada a história de decadência de uma tradicional família portuguesa, através das vozes dos seus integrantes. O mundo narrado é perpassado pelos múltiplos e contraditórios afetos das personagens em relação aos seus familiares e pela tentativa, por vezes, inútil de compreenderem a si mesmas e aos outros. Esse mundo caótico e amargurado é manifestado na própria estrutura da narrativa, com suas ramificações, desvios e fragmentações. Do mesmo modo, a configuração da intriga romanesca evidencia o caráter radicalmente conflitante e problemático das próprias personagens. A lembrança obsessiva do passado e a projeção repetitiva do futuro reconstroem momentos distintos da experiência do tempo das personagens em um tempo presente sempre distendido. Tomando por base principal a teoria de Paul Ricouer, esta comunicação apresenta a análise da configuração ramificada da intriga, da complexidade da experiência temporal manifestada pelas personagens e da identidade narrativa constituída a partir dessas vivências no tempo. Crônica saramaguiana na ditadura: relações empáticas entre narrativa e leitor Carla Mota Menezes (UFPR) Este trabalho se dedica a investigar as relações entre contexto de produção, foco narrativo e a crítica social presente em três crônicas de A Bagagem do Viajante (1996), do escritor português José Saramago. Para isso, é interessante levar em conta a existência de classes sociais, a relação de opressão estabelecida entre elas e o tensionamento ainda maior dessas relações em períodos ditatoriais, uma vez que os textos cronísticos foram produzidos e contextualizados durante a ditadura salazarista. Publicadas pela primeira vez em periódicos no início da década de 70, as crônicas “Não sabia que era preciso”, “Uma carta com tinta de longe” e “Apólogo de uma vaca lutadora” apresentam interessantes escolhas lexicais e argumentativas por parte de narradores engajados, que exigem de seus leitores a mesma preocupação social de que dispõem. Para pensar a maneira como os narradores constroem sua crítica e argumentação para convencer os interlocutores a intervirem na realidade injusta e desigual, a pesquisa de Suzanne Keen, publicada no livro Empathy and the novel (2007), fornece informações valiosas para compreender o laço criado entre ficção e leitor - e, principalmente, as explícitas tentativas, por parte do narrador, de fomentar a criação desse laço. Dessa forma, pretende- se investigar os elementos que, segundo a autora, podem ser articulados pelo narrador intuindo provocar efeitos de sentido e sentimento no leitor. ABRAPLIP 2017 58 O inferno e suas ambivalências: razão, desrazão, continuidades e descontinuidades na obra Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes Carlos Henrique Fonseca (UNESP) Esta comunicação consiste em uma proposta de leitura do romance Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes, à luz do estudo de Michel Foucault, A História da loucura, bem como a partir de alguns aspectos da Teoria da Desconstrução, com base em estudos do filósofo argeliano Jacques Derrida. São acionadas para a discussão noções derridianas como hospitalidade, pharmakon e suplemento, a fim de se compreender a relação entre Portugal e suas ex-colônias, a forma como são recebidos os retornados da guerra colonial e como a loucura se constitui, neste romance, em metáfora da nação e sua crise identitária. Como exemplo de suplemento, o presente estudo conclui-se com uma reflexão sobre razão e desrazão na obra de Lobo Antunes a partir de uma polêmica instaurada entre Michel Foucault e Jacques Derrida sobre a História da Loucura. Estudos literários e ensino da literatura: o jardim dos caminhos que se cruzam Carlos Reis (Universidade de Coimbra) O título proposto apresenta uma reflexão acerca da situação atual dos estudos literários, considerados num contexto de renovação de paradigmas teóricos, de atitudes epistemológicas e de mudanças socioeducativas. Nesse contexto, analisamos questões relevantes, relacionadas entre si e com destaque para as seguintes: o estatuto e a crise simbólica das Humanidades, a renovação da teoria e da crítica e as suas incidências no plano pedagógico, a configuração e a legitimação de cânones alternativos (designadamente, em cenários pós-coloniais), a renovação dos estudos narrativos e o seu alargamento transliterário, o aparecimento e a afirmação das chamadas Humanidades digitais. Estes campos de reflexão serão considerados tendo em atenção o ensino e a pesquisa da literatura portuguesa, como tema estruturante do congresso. Antero de Quental ontem e hoje: a educação através da escrita e do debate Carolina Lopes Batista (UFRJ) Antero de Quental foi um escritor bastante atuante em questões culturais, literárias, e, principalmente, no que dizia respeito à situação ecônomica, social e política de Portugal e da Europa como um todo. Realizador de conferências, ABRAPLIP 2017 59 artigos e revoluções, ele espalhava seus pensamentos por toda uma geração que dizia estar escurecida e pesada pela sombra de uma educação autoritária e elitista, que se preocupava mais em produzir novos seguidores da mesma antiga ordem do que desenvolver seres pensantes e críticos, observadores e participantes de um mundo efervescente histórica e cientificamente que se apresentava. Mais de um século depois, a história se repete, com reformas educacionais – tais como a Reforma do Ensino Médio e a Escola Sem Partido – que visam direcionar os alunos a um paradigma de educação limitadora e passiva. À luz de textos de autores comoMônica do Nascimento Figueiredo, Amadeu Carvalho Homem, Ana Maria Castelo Martins Jorge, Eduardo Lourenço, Carlos Reis, Ana Maria Almeida Martins, João Medina e Paulo Freire, pretendo realizar uma discussão entre dois períodos que apenas aparentemente são distantes. A representação da loucura em Camilo Castelo Branco Caroline Aparecida de Vargas (UFPR) O processo de enlouquecimento feminino se faz presente em algumas obras do romancista português Camilo Castelo Branco (1825-1890). Dentre elas podemos citar A Bruxa de Monte Córdova (1867) e A doida do Candal (1867). Nosso trabalho tem como objetivo compreender como a loucura é compreendida por Camilo e como seu trabalho de representação literária se concretiza. O grotesco em Loucura, de Mário de Sá-Carneiro: um olhar sobre o caráter de Raul Cássia Alves da Silva (UFC/IFRN) O texto Loucura, de Mário de Sá-Carneiro apresenta a história de Raul, jovem artista de ideias enigmáticas. Como diz o narrador da obra, ele “não pensava como toda gente”. Apaixonou-se pela bela Marcela e, com o intuito de provar que a amaria mesmo se fosse feia, sugeriu acabar com a beleza da moça queimando o rosto e o corpo dela, deixando-a com aspecto repugnante. Assim, ele poderia provar a verdade do seu sentimento. O caráter de Raul, evidenciado a partir das suas atitudes, é o maior indício da forte presença do grotesco na narrativa. Para comprovar isso, pautamo-nos no conceito de grotesco estabelecido pelos principais teóricos do tema, a saber, Victor Hugo, Wolfgang Kayser e Mikhail Bakhtin. Além disso, recorrermos a alguns conceitos vizinhos, como o de estranho e o de anormal, ampliando a análise da personagem. Para tanto, tomamos como base estudos feitos por Sigmund Freud e por Michel Foucault. ABRAPLIP 2017 60 A representatividade da mulher na obra O conto da ilha desconhecida, de José Saramago Celiomar Porfirio Ramos (UNEMAT) Este trabalho tem como objetivo realizar algumas considerações acerca da importância da mulher na obra O Conto da ilha desconhecida (1997), do escritor português José Saramago. A reflexão é estruturada sob a hipótese de que a mulher na escrita saramaguiana, apesar de viver numa sociedade patriarcal, não é um ser submisso e oprimido, rompe com as amarras impostas por esse contexto, exercendo papel de primordial importância no universo masculino em diversos aspectos, dentre eles o afetivo, moral e ideológico. Vicente Guedes e o devir Cesar Marcos Casaroto Filho (PUC-RS) É porque se reconhece como ficção que Vicente Guedes, um dos autores do Livro do desassossego, afirma: “Quero ser uma obra de arte”. Sabendo que “a vida prejudica a expressão da vida”, a fim de renegar o real postulado pelo racionalismo, Guedes expressa a existência utilizando-se da artificialidade proposta pelos Dândis no século XIX. Mas o que é a expressão? Para Deleuze, a expressão não está mais atrelada de maneira estanque ao conteúdo, o que permite que o dualismo significante-significado, que tende a simplificar as formas de conteúdo e expressão por meio de estruturas profundas na psique humana seja questionado. Um significante nada representa. Para o francês, não existe subjetividade, mas tão somente agenciamentos que ocorrem por meio da hecceidade. Tudo é acontecimento e o homem não se difere de uma estação ou de uma hora. Tudo é múltiplo e inclassificável. Ao contrário da mimesis Aristotélica, não se trata de imitar. Deleuze chama de plano de imanência aquilo que não corresponde a um desenho mental, mas a um desenho abstrato, plano sem forma que não distingue o natural do artificial. Sendo assim, dado que a expressão já não corresponde a estruturas profundas e que o eu não representa nada, é possível reconhecer em Guedes – na medida em que o Livro, que não apresenta um enredo ou objetivo precisos rompe com a forma clássica –, ao contrário de um sujeito, um agente de um devir? “A Capital – Arhutr Corvelo, um lírico no auge do capitalismo” Cíntia Bravo de Souza Pinheiro (SME/SEEDUC) A leitura de A Capital, romance póstumo de Eça de Queiroz, nos remete às ideias discutidas na Obra de W. Benjamim, sobre as relações de trabalho e a difusão das ideias socialistas na França do início do Século XIX. Essas mesmas ideias foram também absorvidas pela geração Coimbrã – a geração de Eça de Queiroz ABRAPLIP 2017 61 – no final do século XIX em Portugal, e estão representadas na melancólica figura do poeta Artur Corvelo; Um talentoso jovem, cheios de sonhos e ideais, mas que não consegue ver oportunidades na capital portuguesa, ainda muito resistente a mudanças sociais e políticas, e onde um grupo pequeno detém o poder, mas não quer perdê-lo. Como pode sobreviver um poeta do interior, estudante de Coimbra, numa sociedade excludente e hipócrita ??? São essas as questões que procuraremos tratar em nosso trabalho. Representações da Memória na obra de Vergílio Ferreira Cintia de Vito Zollner (UNESP) A finalidade dessa pesquisa é estudar o romance contemporâneo Manhã Submersa, publicado em 1954, discutindo as formas de representação do narrador personagem que evoca o passado e o rememora, observando como esse processo é refletido na linguagem literária, pelo discurso do narrador. A ‘essência’ da obra de Vergílio Ferreira, como escritor pertencente ao período de dupla tendência literária, neorrealista e existencialista é também percebida na ficção, a partir do contexto social por ele vivenciado. No momento histórico de Portugal, marcado pela ditadura de ‘Salazar’ (1933) e seu regime associado à ideia de ‘apagamento’, bem como de ‘discrição’, como representações do seu poder no governo. Neste contexto, a religião católica surge também como elemento de identidade nacional. Na obra de ficção, a linguagem (neorrealista/ existencialista) social e simbólica apresenta tais aspectos. O seminário é símbolo desse espaço opressor, de reclusão e ‘apagamento’ em que Antonio Santos Lopes ou António Borralho, como é chamado o personagem principal do romance, vive ‘obrigado’ por sua tutora D.Estefânia. Conflitos sentidos neste ambiente opressor marcam toda a sua vida. Parte de sua identidade está presa ao passado e o personagem o evoca, num espaço entre o ‘real’ e o ‘imaginário’, para a possível reconstrução do presente. Esse processo é refletido na linguagem literária. O presente estudo propõe uma análise aprofundada desses aspectos. O estudo da personagem e sua relação transliterária Clarice Gomes Clarindo Rodrigues (UNEMAT) O presente trabalho segue pela linha investigativa dos estudos narrativos, caracterizado pela interdisciplinaridade e transnarratividade e enquadradado pelo interesse no estudo da personagem, especificamente, as personagens femininas em Eça de Queirós. Há que considerar os modernos estudos narrativos como contribuição significativa aos estudos literários. Por esse viés, são valorizadas as novas interfaces no estudo da personagem ficcional, contemplando-a como categoria do texto literário e dos textos ficcionais nas suas relações transliterárias. ABRAPLIP 2017 62 A dramaturgia de Gervásio Lobato nos palcos oitocentistas Claudia Barbieri Masseran (UNESP) Gervásio Lobato (1850-1895) foi um dos mais populares dramaturgos portugueses nas últimas décadas do século XIX. Ao lado de nomes como Marcelino de Mesquita, D. João da Câmara e Henrique Lopes de Mendonça, contribuiu para a consolidação do teatro realista nos palcos. Sua produção não poderia ser mais variada: foi romancista, cronista, jornalista e crítico teatral. Como dramaturgo escreveu 25 peças originais (comédias e farsas em sua grande maioria) e realizou mais de 115 traduções ou adaptações do repertório estrangeiro, principalmente o francês. Os mais importantes teatros lisboetas abrigaram com sucesso as encenações das suas peças, que muitas vezes eram representadas em todo o território português, bem como na Ilha da Madeira e no Brasil. Entretanto, toda essa extensa produção dramatúrgica jaz esquecida porparte da crítica literária e sua obra, mesmo que representada até os dias atuais, não recebeu nenhum estudo mais aprofundado. Resgatar o nome e parte da produção dramatúrgica deste autor é o propósito desta comunicação. A formação de uma trilogia em Ensaio sobre a cegueira, A caverna e Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago Claudia Carla Martins (UNEMAT) Numa leitura comparativa, é possível perceber ligações profundas e em diversos níveis entre as obras Ensaio sobre a cegueira (1995), A caverna (2000) e Ensaio sobre a lucidez (2004), do escritor português José Saramago. Todas elas estabelecem um diálogo com a alegoria da caverna e trazem desdobramentos, atualizações do conteúdo do texto platônico. Além do plano das ideias, observa-se uma articulação, em conjunto, detectável por meio do exame dos elementos próprios da narrativa, como personagem e espaço. Também é perceptível a busca da ruptura de fronteiras de gêneros textuais (ensaio/ romance), indiciada já nos próprios títulos de dois dos romances supracitados. Considerando estes e outros aspectos, pretendemos sustentar a formação de uma trilogia abrangendo estas obras. A História Acordada: Tempo de ação / Tempo de reflexão em Os memoráveis, de Lídia Jorge Cláudia Maria de Souza Amorim (UERJ) Em Os memoráveis (2014), de Lídia Jorge, reconhecemos uma das características da obra da escritora portuguesa, que é a de revisitar a recente história ABRAPLIP 2017 63 portuguesa a contrapelo, para empregar a conhecida expressão de Walter Benjamin. Nesse romance, mais uma vez, a narrativa nos leva à inquietante revisão dos marcantes episódios em torno da revolução do 25 de Abril, por meio da personagem-narradora, uma jornalista portuguesa, radicada nos EUA, que retorna a seu país de origem com dois outros jovens jornalistas, a fim de concluir uma reportagem encomendada para a cadeia jornalística CBS, para a qual todos trabalham. Revisitando a história, a partir de alguns de seus protagonistas, ao entrevistarem algumas das pessoas que a viveram visceralmente, a jornalista Ana Maria Machado e seus jovens colegas perspectivam não só o tempo da utopia, como o tempo da desilusão, assim como se aproximam de narrativas esquecidas ou desconhecidas pelas novas gerações que se distanciaram do cerne dos acontecimentos. História e memória confluem nessa narrativa para problematizar o confronto entre passado e presente, entre utopia e distopia, entre verdades e pós- verdades, nesses tempos de diluição em que vivemos. Florbela Espanca e Adília Lopes: a subversão do papel feminino Clêuma de Carvalho Magalhães (FURG) Este trabalho tem como propósito analisar a subversão do papel feminino na obra das escritoras portuguesas Florbela Espanca e Adília Lopes. A produção poética de Florbela Espanca vem à luz nas primeiras décadas do século XX, tendo início com Livro de mágoas (1919), seguido pelo Livro de Sóror Saudade (1923) e pelo póstumo Charneca em flor (1931). Adília Lopes, poetisa contemporânea, inicia sua atividade literária em 1985 com a obra Um jogo bastante perigoso. Seus livros de poesia publicados até maio de 2014 estão reunidos na antologia intitulada Dobra (2014). A ligação entre as duas escritoras dá-se especialmente pela abordagem da questão do feminino. Cada uma à sua maneira (e Adília Lopes a distorcer e, por vezes, negar a voz de Florbela Espanca), ambas constroem uma imagem feminina que foge aos padrões impostos pela sociedade portuguesa, negando o seu papel de submissão, assumindo o desejo que habita o seu corpo e afirmando-se como sujeito. Eça de Queirós revisitado no Suplemento Literário de Minas Gerais Cristiane Navarrete Tolomei (UFMA) A presente comunicação intitulada “Eça de Queirós revisitado no Suplemento Literário de Minas Gerais” apresenta o resultado de um estudo crítico dos ensaios acerca de Eça de Queirós, entre 1966 e 2014, no Suplemento Literário de Minas Gerais _SLMG_, de Belo Horizonte, verificando como os ensaios do SLMG são fonte documental para a história, a biografia e a crítica sobre o autor ABRAPLIP 2017 64 português. Para a realização dessa pesquisa, realizamos visitas a três centros de referência: à coleção literária e cultural da Secretaria Estadual de Cultura, de Minas Gerais; à coleção de obras raras da biblioteca da Faculdade de Letras, da Universidade Federal de Minas Gerais; e à coleção eletrônica do Suplemento Literário de Minas Gerais. Além de notarmos a importância da atuação do SLMG na área de cultura e literatura de língua portuguesa, observamos como os ensaios desse periódico apontam para um Eça de Queirós preocupado com questões literárias, políticas e sociais. Há também um diálogo entre os ensaios do SLMG com as mais recentes críticas queirosianas do Brasil e de Portugal. Logo, para esta apresentação, apresentamos a história e a atuação do SLMG no cenário do jornalismo cultural brasileiro; e análise das publicações na seção “Ensaio” acerca de Eça de Queirós no SLMG, observando a relevância das publicações para a permanência do autor português no universo jornalístico e literário do Brasil. O tema da censura no período formativo em Saramago (constância da circunstância) Cybele Regina Melo dos Santos (USP) A História foi o tema ficcional mais visitado na literatura portuguesa, em meados da década de 1980. As obras do escritor José Saramago (1922-2010), que compõem o período formativo de sua carreira, possuem traços de uma tendência ao contexto histórico. Em sua escrita é possível perceber o emprego de recursos da intertextualidade, em um momento conturbado, políticamente e socialmente, de Portugal, pois haviam passado por um longo período de ditadura militar, que se iniciou em 1933, culminando na Revolução dos Cravos, em 1974. Mesmo apresentando em algumas de suas obras deslocamentos temporais distantes (no século XIV) ou próximos (no século XX), o tema constante em suas obras, é o da censura, seja a do período inquisitorial ou a da ditadura militar. Para tanto, buscaremos realizar uma análise do tema da censura em algumas de suas obras, como A noite (1979), Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984) e História do Cerco de Lisboa (1989). O olhar de Amaro Daiane Cristina Pereira (USP) Este trabalho faz parte da tese de doutoramento em curso, intitulada “A mulher e o discurso masculino no romance de Eça de Queirós”. Nele pretendemos observar como o olhar do protagonista de “O crime do padre Amaro”, ao qual temos acesso através da focalização interna possibilitada pelo narrador, o configura como um invasor, não só da casa de suas anfitriãs, mas também da intimidade, do corpo e da vida de Amélia. Dessa maneira, desejamos ABRAPLIP 2017 65 demonstrar como o romance, além de denunciar a problemática do celibato, mostra também como a dominação masculina se estabelece, principalmente através da confusão entre o público e privado, manipulando a vida da mulher representada nessa narrativa. Presença da literatura portuguesa na revista O Futuro Damares Rodrigues de Oliveira (USP) Esta comunicação tem por objetivo apresentar parte do resultado de nossa pesquisa de mestrado sobre a revista O Futuro e refletir sobre a presença da literatura portuguesa neste periódico. Baseando-se nas reflexões elaboradas por MASSA (2008) e SANDMANN (2004) sobre a existência de uma relação luso-brasileira intermediada, principalmente, pela figura do escritor Machado de Assis, podemos depreender através da análise de O Futuro a existência de um diálogo entre escritores brasileiros e portugueses assim como também uma busca pela difusão de suas obras. Reunindo renomados escritores, como Faustino Xavier de Novais (fundador, editor e redator principal), Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Reinaldo Carlos Montoro, Augusto Emílio Zaluar, entre outros, nos vinte exemplares desta revista, publicados de 15 de setembro de 1862 à 1 de julho de 1863, há uma forte colaboração de escritoresportugueses. Como o nosso principal objetivo no mestrado foi o de compreender o que foi esta revista através de sua descrição - um levantamento biográfico dos colaboradores, dos diversos gêneros textuais impressos (desde artigos à romances) e dos assuntos abordados - vamos apresentar algumas considerações sobre os dados levantados referente aos escritores portugueses e suas obras. Aborrecimento e romance português: Camilo e Eça Daniel Bonomo (UNICAMP) A atual viabilidade da exclusão da literatura portuguesa dos currículos escolares brasileiros parece apontar não apenas para um conflituoso projeto de valores nacionais identitários datado de dois séculos, mas endossar um enfraquecimento completo da cultura literária moderna ancorada na ideia de estado-nação. Entretanto, na mais recente crise estatal brasileira, a cassação do direito à literatura lusófona integra-se a um pacote tão radical de alienação dos direitos fundamentais do cidadão que, para maior espanto dos que se espantam ainda, já pouco surpreende. Aqui, discutir o lugar público da literatura e investir no seu ensino como instituição crítica deveriam ser formas de resistência ao desastre. Porém, entre os escrúpulos que atrapalham o hábito literário e sua pedagogia, predomina certa visão que os associa redutoramente ao prazer da leitura. Nesse sentido minha proposta, neste encontro, é falar de uma pesquisa em progresso que vincula histórica e teoricamente “aborrecimento” e romance, numa tentativa de revisão deste gênero inclusivo e extensivo por ABRAPLIP 2017 66 excelência. Enfim, a literatura portuguesa desempenha aí papel fundamental, mais notadamente em leituras de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. Golgona Anghel. Do realismo satírico à poética vadia Daniel de Oliveira Gomes (UEPG) Abordaremos o livro “Vim porque me pagavam” de Golgona Anghel, uma autora que, apesar de nascida na Romênia, reside em Portugal, onde foi autora da tese de doutoramento “A Metafísica do Medo” sobre o poeta Al Berto. Nesta autora tão recente, queremos observar precisamente a característica transfronteiriça da identidade prostituível do presente e questões daquilo que podemos notar como sendo seu “realismo satírico”, onde a autora inspira-se na tradição burlesca lusitana. Independentemente de sua língua materna não ser o português, a autora demonstra aderir a todo um jogo de influências da língua portuguesa e sua literatura satírica, de onde será possível vislumbrar tanto uma crítica saturada às questões sociológicas do presente, quanto um estilo que visa uma releitura da “fórmula anestésica” impressionista dos estilos poéticos de Cesário Verde e Al Berto. Realismo, arte fantástica: as relações entre imagem e memória coletiva a partir do romance Gaibéus, de Alves Redol Daniel Marinho Laks (UFF) A possibilidade de curadoria dos episódios que devem ser rememorados ou comemorados sob uma perspectiva pública está intimamente ligada a legitimação dos interesses de grupos que estabeleceram sua hegemonia e, nesse sentido, o processo de produção de uma memória coletiva pretende funcionar como ferramenta política de legitimação de estruturas específicas de poder. Entretanto, qual o papel da arte na construção de imagens e saberes sobre um determinado tempo? O objetivo desta comunicação é discutir a estratégia realista de narrativa que embasou o romance neorrealista português Gaibéus, de 1939, a partir das relações entre imagem, memória e a produção de conhecimento sobre um determinado tempo. O conceito de real, conforme definido no projeto de Alves Redol, almejava uma capacidade de agência sobre as dinâmicas sociais. A função vislumbrada para a literatura, de contribuir para a aceleração do tempo revolucionário através da produção de uma consciência de classe pretendia se situar no limite entre o documental e o ficcional, engendrando imagens capazes de alterar as formas de subjetividade. Em outras palavras, criando um efeito de presença de algo que se encontrava ausente. A produção de um efeito de presença retoma o debate iniciado por Platão sobre as relações entre memória e imaginação. Entretanto, na esteira do pensamento de Deleuze em Lógica do Sentido, a comunicação visa discutir como a estratégia realista de escrita em meados do século XX reverbera com ABRAPLIP 2017 67 a potência do simulacro de estabilizar ou mesmo desarticular formas lógicas específicas consolidadas como saberes. O phatos na poesia simbolista “Brando e vermelho”, de Camilo Pessanha, como provocação à modernidade Daniele Santos (UTFPR) O simbolismo data do final do século XIX, momento em que a racionalidade do Iluminismo estava sendo repensada. O indivíduo, nesse cenário, se vê frente ao moderno, à novidade, aos desdobramentos da Revolução Técnico- científica. Não mais se distanciam o eu do universo. O sujeito volta-se ao seu inconsciente. (RAYMOND,1997). Alguns autores, além disso, o consideravam como antirreal, espiritualista, contrário ao positivismo e contendo determinadas características próximas do romantismo (MARTINS, 1953). No entanto, parte dessa perspectiva pode ser repensada a partir da nossa análise do poema “Branco e Vermelho”, de Camilo Pessanha, importante simbolista português. Nossa proposta considera o phatos como forma de união de duas perspectivas: estética e material. Ele é entendido aqui como sentimento e sofrimento, seja ele de ordem biológica ou psicológica, além ainda de direcionar o receptor à catarse, por meio do discurso e da retórica (CEIA, 2017), apelando para os seus sentimentos. Sendo assim, nossa hipótese é de que Camilo Pessanha, no poema já citado, transita facilmente entre o estético – artístico – e o material. Para tanto, a discussão com alguns teóricos é fundamental. Entre eles, podemos citar Walter Benjamin (1975), Marshall Berman (2007), Paulo Franchetti (2001), Alvaro Cardoso Gomes (1977), João Adalberto Campato Junior (2003), entre outros, assim que se fizer necessário. As configurações do feminino em O Primo Basílio: diálogos entre o romance português e o cinema nacional Danielle Machado Fontes (IFBA/FAPESB) José Roberto de Andrade (IFBA) Este artigo é fruto de uma pesquisa de Iniciação Científica (IC) realizada de 2016 a 2017 pela graduanda Danielle Machado Fontes, sob orientação do professor José Roberto de Andrade, no Instituto Federal da Bahia (IFBA). O trabalho analisa duas obras de diferentes suportes: o romance O Primo Basílio, publicado em 1878, e o filme homônimo, de 2007. Das duas narrativas, analisam-se três personagens femininas Luísa, Juliana e Leopoldina (Leonor, no filme) e selecionam-se cenas que delineiam o feminino nos contextos português e brasileiro. Literatura e cinema são considerados como espaço de reflexão social e seu estudo, análise e problematização se darão pela inter- relação entre o texto e a sociedade, o presente e o passado, o imaginário individual e o coletivo. Por isso, gênero e sexualidade são observados nos ABRAPLIP 2017 68 discursos que os definem e enquadram, nas narrativas e nos seus contextos de específicos, plasmados pelas forças históricas no imaginário coletivo de cada povo, cada realidade sociocultural e cada sujeito. A análise das personagens e das cenas mostra que a experiência histórica comum permite aproximações possíveis. Personagens e enredo se assemelham e se entreveem sexualidade e gênero num contínuo português-brasileiro: nas duas narrativas estão o adultério feminino condenado, a igualdade de gênero negada, a subalternidade feminina constituída. No entanto, as Luísas, Julianas e Leopoldinas do filme e do livro não são as mesmas. Ambientado na São Paulo de meados do século XX, o filme, muitas vezes, reaviva concepções sociais mais conservadoras, retrógradas e reacionárias do que o romance, ambientado na Lisboa, do século XIX. Apesar da aparente “contradição histórica”, Eça de Queirós plasmou, em certa medida, personagens femininas vanguardeiras, que, como vêm propondo- e realizando - críticos como Mônica Figueiredo, estão a pedir uma releitura inovadora que as liberte das teias configuradas pela crítica tradicional. Os discursos são falsos, as vozes se confundem: o narrador e as personagens sob controle em A paixão (Almeida Faria) Dankar Bertinato Guardiano de Souza (UFPR) O objetivo deste trabalho é investigar o modo como o narrador do romance A paixão (1965), de Almeida Faria, se posiciona em relação às individualidades das personagens de seu relato, frequentemente subjugando-as à sua. Pelo fato de no terço final do romance o narrador se assumir enquanto autor do enredo que constitui a obra, o pacto ficcional firmado até então se rompe e a presença daquelas personagens no enredo é ressignificada a partir da intrusão súbita de um “autor”. Assim, a relação entre sujeitos tão comum ao gênero romance é perturbada com o desvelamento do próprio narrador – até então aparentando neutralidade na forma verbal da terceira pessoa – em um sujeito ativo na narrativa; isto é, um “eu”. Buscaremos compreender de que forma essa desconstrução do papel de sujeito das personagens no romance contribuem para a individualização do próprio narrador, e que efeitos isso gera na narrativa. Para tanto, utilizaremos as noções de distanciamento narrativo elaboradas por Mikhail Bakhtin em seu texto O Autor e a Personagem, presente no livro Estética da Criação Verbal (2011), e as proposições a respeito dos sujeitos- de-enunciação nas narrativas em terceira e primeira pessoa da teórica Käte Hamburger em sua obra A Lógica da Criação Literária (2013). Essas discussões teóricas serão fundamentais para uma melhor compreensão da construção narrativa por trás do romance de Faria e da forma que nele se operam as relações entre o narrador e as personagens. ABRAPLIP 2017 69 A morte da vida no romance Jesus Cristo bebia cerveja (2012) do escritor português Afonso Cruz Dante Luiz de Lima (UFPA) O mundo ocidental foi acidentalmente levado a acreditar, fundamentado nas palavras do texto bíblico, que o deus israelita é o ser supremo que controla a vida na terra. Sendo assim, esse livro “sagrado” teve um grande impacto sobre o destino de muitos povos e, consequentemente, sobre as artes em geral, especialmente a literatura. O romance Jesus Cristo bebia cerveja (2012) do escritor português Afonso Cruz, através da intertextualidade como a Bíblia e os dogmas da religião católica nos leva a refletir sobre o que é viver e, principalmente, a nos questionarmos sobre a morte, a única certeza da vida. Neste trabalho investigo as elucubrações feitas pelo narrador onisciente e pelos personagens do romance acerca de tais temas. Para atingir meus objetivos me valho da Teopoética, ramo da literatura que nos leva a uma reflexão literária do texto bíblico e a relação, muitas vezes conturbada, entre a teologia e a literatura. No Sonho de Xavier: a construção de um ethos jesuítico em um sermão panegírico de Padre Antônio Vieira Dario Trevisan de Almeida Filho (UFSM) Em A Oratória Barroca de Vieira (2003), Margarida Vieira Mendes indica a existência de “protagonistas textuais da pregação evangélica” (Ibid., p. 103) em alguns sermões hagiográficos e panegíricos de Padre Antônio Vieira. De acordo com a autora, tais exempla seriam tomados com o propósito de configurar o ethos de um pregador ideal jesuítico. A fim de melhor compreender em que consistiria esse ethos, o trabalho ora apresentado toma como corpus o “Sonho Primeiro”, primeiro sermão da série dedicada a São Francisco Xavier, único fundador da Companhia de Jesus a pregar além-Europa e um dos possíveis modelos de pregador-missionário de Vieira. No sermão, é abordada a luta empenhada por Xavier em um sonho que o santo teria tido; a partir desse tema, buscou-se reunir e analisar os mecanismos retóricos aí empregados, como comparações estabelecidas entre Xavier e personagens históricas e bíblicas, provas apresentadas pelo orador, bem como o próprio campo semântico das denominações utilizadas para se referir ao santo, projetando uma imagem de pregador-missionário beligerante em Xavier, que, alegoricamente, poderia ser apontada como um do elementos constitutivos do ethos de um pregador prototípico da Companhia. Além do interesse literário deste estudo, ressalta- se sua possível relevância a áreas afins, como à história do período colonial, uma vez que o melhor entendimento identitário desse pregador jesuítico ideal poderia contribuir para esclarecer o modo de proceder da ordem, sobretudo nas missões jesuíticas de catequização. ABRAPLIP 2017 70 Que sofrência, ‘fessora: reflexões e experiências sobre o ensino de Literatura Portuguesa Daviane Moreira e Silva (UFG/REJ) A proposta desse trabalho é refletir sobre alguns dos caminhos possíveis para o ensino de literatura portuguesa no ensino superior. A necessidade de apresentar obras canônicas para alunos que muitas vezes têm o primeiro contato com a produção literária portuguesa nos cursos de Letras já é, por si só, um grande desafio, incrementado pela premência em se estabelecer uma relação dialógica com outras produções em língua portuguesa, destacadamente a brasileira. A escrita cronística autorreflexiva de Inês Pedrosa: Crónica Feminina e o questionamento do fazer literário Diana Navas (PUC-SP) Telma Regina Ventura (PUC-SP) O presente estudo objetiva apresentar de que maneira a produção cronística de Inês Pedrosa, uma das mais significativas vozes da Literatura Contemporânea Portuguesa, evoca discussões a respeito do fazer literário, bem como dos lugares da Literatura, na contemporaneidade. Valendo-se de uma orquestração de vozes - de riquezas ideológica, temática e estilística -, a autora em seu discurso cronístico registra histórias ligadas ao quotidiano social e étnico, denotando não apenas as preocupações e os temas da sociedade portuguesa, mas também o questionamento de seu próprio ofício – a construção e as funções da própria linguagem. De cunho exploratório e bibliográfico, a pesquisa revela, nas crônicas metaficcionais pedrosinas - escritas para o semanário Expresso e posteriormente compiladas e publicadas na obra Crónica Feminina (2005) - um discurso irônico e, por vezes, ácido, tecido por uma escritura comprometida e questionadora do paradigma literário canônico. Luiza de Mesquita: o mar inalcançável Diogo Ballestero Fernandes de Oliveira (UFRJ) Nascida na pequena Horta, Açores, em 1926, e falecida na cosmopolita cidade do Rio de Janeiro, 2002, entre Lisboa, Paris e Rio, Luiza de Mesquita viveu uma vida de permanente desterro afetivo. Sua poesia possui uma obsessão: o mar de Açores, o mar da infância. Procuraremos demonstrar, através de alguns poemas, como o mar é a ponte sobre a qual a ânsia de sua poética busca a infância perdida. ABRAPLIP 2017 71 Herberto Helder e o corpo político Djanine Belém (UFBA) Identificando na poética de Herberto Helder, a figura do acéfalo moderno, a comunicação levanta a hipótese de que o sacrifício da cabeça desdobra a questão da poética e do corpo político, consoante a performance de poeta obscuro com os nódulos de resistência e transgressão que esse corpo agrega. Para tanto, analisa-se como se dão os trânsitos de cenas e ideias a partir da leitura em dois contos que integram a obra Os Passos em Volta e “Poemacto III” do escritor português Herberto Helder. Lendo o modernismo português à luz das revistas literárias de Goa e de Macau Duarte Nuno Drumond Braga (USP/FAPESP) Neste período em que ocorrem várias comemorações de efemérides ligadas a eventos e a revistas do Modernismo português, não se tem atendido à presença modernistas em revistas coloniais, focando-se sobretudo no eixo Portugal-Brasil. Dentro das revistas literárias colonais, menos ainda ou nada se tem atendido a publicações das ex-colónias asiáticas de Portugal, Goa e Macau, colónias cujas literaturas em língua portuguesa estão quase totalmente por entender e interpretar, não sendo ainda clarose se trata de literaturas independentes ou de satélites da literatura portuguesa. Trata-se de publicações com tempos diferentes do português, ora demasiado cedo, ora demasiado tarde face a 1915, ano órfico por excelência. Na verdade, essas produções literárias em periódicos, possuem ingredientes centrais para reequacionar o modenisno português, pelo fato de serem ao mesmo tempo abertas às estéticas modernistas, neo-românticas e saudosistas, o que encontramos também em autores portugueses como Alfredo Guisado ou Ângelo de Lima, que se localizam nessa fronteira estética. A partir de alguns exemplos de A Revista da Índia (1913) e de Mosaico (1930), propomos uma leitura comparada de um poema de cada periódico com poemas de Ângelo de Lima e de Alfredo Guisado, publicados no segundo número de Orpheu, mostrando como, quer em Portugal, quer em Goa e em Macau, não se tem atendido a entender a modernidade fora do modernismo propriamente dito. ABRAPLIP 2017 72 “Para além” da adaptação: as remissões literárias do filme O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira Edimara Lisboa (USP) Os questionamentos metafísicos da existência de vida após a morte e da impossibilidade de atingir em vida o amor absoluto são problemáticas recorrentes nos filmes de Manoel de Oliveira e funcionam como importante caminho de abertura para os diálogos com escritores e obras literárias que singularizam a filmografia deste cineasta português, particularmente no que diz respeito ao universo de leituras da geração presencista. No filme de roteiro original O Estranho Caso de Angélica, indicações e citações literárias, tais como o segundo terceto do soneto “No Céu, se existe um céu para quem chora” de Antero de Quental, a capa da biografia romanceada de São Paulo, de Teixeira de Pascoaes e a parte 16 do poema “Sarça ardente”, que fecha o livro As encruzilhadas de Deus de José Régio, intensificam a atmosfera de mistério e convergem com a concepção de transcendência de Manoel de Oliveira. O objetivo da comunicação é apresentar uma análise do papel central que essas remissões literárias ocupam na tecitura do filme e na estética oliveiriana. O conto Alma-Grande, de Miguel Torga: dialogismo com o texto bíblico e a historicidade Edna da Silva Polese (UTFPR) Miguel Torga na obra Novos contos da montanha, apresenta-nos a figura do abafador no conto Alma-Grande. O abafador é figura salvadora da chamada “hora do convento” quando, na hora da morte os judeus de Riba Dal eram obrigados a converterem-se ao cristianismo. Entrava aí a presença do Alma- Grande que selava o destino dos aldeões antes da chegada do padre. Numa situação inesperada, Alma-Grande não cumpre o combinado e as demais personagens envolvidas na situação, Isaac, que seria morto, e o filho de Isaac, Abel, que testemunhara a cena, formam a tríade de uma situação insustentável. No prefácio de edições mais recentes, o autor informa a situação da visita ao túmulo do Alma-Grande, direcionando o leitor à ideia da existência real dessa personagem, assim como do cenário que evoca no conto. O dialogismo com o texto bíblico e com a historicidade embasam esse trabalho. A obra de Auerbach, Mimesis e os conceitos de ficção histórica serão aqui utilizados para dar direcionamento crítico à proposta de leitura. ABRAPLIP 2017 73 Mulher de bigode nem o cão pode: machismo em Camilo Castelo Branco Edson Santos Silva (UNICENTRO/I) Camilo Castelo Branco (1825-1890) está para a novelística portuguesa o que foram para a dramaturgia Gil Vicente (1465-1537) e Almeida Garrett (1799- 1854): um inovador. Dentro da vasta produção camiliana destacar-se-á, na comunicação, a novela A queda de um anjo, vinda a lume em 1866. Para muitos críticos, essa novela representa um marco dentro da produção camiliana, seja por ironizar o amor romântico, seja por descrever com tintas fortes a vida social e política de Portugal no período da Regeneração Portuguesa (1851-1910). Interessa, ainda, analisar como a questão da pilosidade, sobretudo a barba e os cabelos, servirá ao autor para que ele coloque em “cena” a diferença entre os sexos. De um lado, a “potência da barba” a representar a virilidade, o macho; de outro, a exibição da feminilidade, a delicadeza da mulher, com os cabelos. Seria possível a inversão desses modelos, ou seja, do feminino e masculino no século XIX? O título da comunicação já antecipa algumas conclusões. Ana de Castro Osório no Brasil e a defesa de um Portugal Moderno Eduardo da Cruz (UERJ) Os imigrantes portugueses no Rio de Janeiro foram fecundos na publicação de jornais e revistas destinados à sua colônia, sobretudo durante o grande século XIX. Ao analisarmos um desses periódicos, podemos examinar como esse grupo se percebia como comunidade, que estratégias simbólicas utilizavam para se posicionar em meio a uma sociedade que, apesar de culturalmente próxima, lhe era alheia, mormente se levarmos em consideração, como afirma Benedict Anderson em Comunidades Imaginadas (2008), o papel fundamental da imprensa periódica na construção das identidades nacionais e a composição do jornal como ficção. Um dos seus periódicos mais longevos foi o Portugal Moderno, que circulou entre 1899 e 1913. Esse semanário passa a trazer colaboração constante de Ana de Castro Osório (1872-1935), alterando seu perfil editorial, pois essa escritora difundia ali suas ideias sobre a república lusa, o feminismo e os portugueses no Brasil. Pretendemos nesta comunicação apresentar um panorama dessa longa participação e discutir como seus textos colaboravam para a construção, deste lado do Atlântico, de uma nova visão sobre Portugal. ABRAPLIP 2017 74 Theatrum mundi: a espetacularidade barroca em Antônio José da Silva Eduardo Neves da Silva (USP) A hipótese apresentada neste trabalho é a de que a ópera joco-séria As variedades de Proteu (1737), de autoria do luso-brasileiro Antônio José da Silva (1705-1739), reproduziria o theatrum mundi — o teatro do mundo —, topos recorrente no pensamento e na produção cultural do século XVII. Na peça em questão, a teatralidade barroca manifesta-se não apenas no uso inflacionado das maquinarias e nos demais recursos cênicos, mas, sobretudo e especialmente, no fingimento das personagens, de modo que tal noção integraria a própria ação dramática, servindo como motor das intrigas. Em nosso estudo, buscaremos promover um diálogo entre a referida ópera e a perspectiva de pensadores (Descartes e Leibniz), poetas (Campanella e Marino) e dramaturgos (Shakespeare e Calderón de la Barca) que atualizaram, explícita ou implicitamente, a ideia da teatralização da existência mundana. O universo da vida religiosa feminina em Alexandre Herculano: de que as freiras eram capazes? Eduardo Soczek Mendes (UFPR) Abunda na Literatura Portuguesa, das mais variadas épocas, a abordagem de temas relativos às freiras, sobretudo no que se refere em questões morais. Para ilustrarmos brevemente sobre a importância do conteúdo a que nos referimos, podemos rememorar desde as Cantigas Medievais chegando até as Cantigas Populares que ainda hoje são executadas em Portugal, pensando também nas muitas monjas produtoras de literatura e naquelas que se envolveram em notórios escândalos morais. Tendo ciência de tais dados, podemos pensar em como Alexandre Herculano (1810-1877), sempre muito atento à cultura religiosa católica de Portugal, tanto em suas pesquisas de cunho historiográfico quanto na elaboração de suas obras ficcionais e das personagens que povoam as suas narrativas, tratou da vida religiosa feminina no país, bem como abordou temáticas importantes referentes às monjas e freiras, circunscrevendo as suas obras na recorrente tradição anticlerical lusitana. Isso está patente no estudo História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854), bem como no capítulo “O Mosteiro”, do romance Eurico, o presbítero (1844) e também em missivas como “As Freiras de Lorvão” (1853), na qual apelavapelas monjas cistercienses que passavam por necessidade após o decreto de extinção das Ordens Regulares em Portugal (1834) ou nas escritas, datadas um ano antes de sua morte, para o padre lazarista Barros Gomes (1839-1910), nas quais denunciava a ação perniciosa das Filhas da Caridade ou freiras vicentinas. Partimos de uma hipótese de que Herculano possuía perante as figuras religiosas um anticlericalismo que visava a correção de comportamentos incoerentes, mas que não generalizava ou condenava os religiosos pelo simples fato de pertencerem à instituição eclesiástica. Nosso trabalho, portanto, pretende ABRAPLIP 2017 75 averiguar, nas obras já citadas, como o autor e historiador tratou, seja por meio do discurso narrativo, historiográfico ou epistolar, a questão da vida religiosa feminina em Portugal. Para tanto, pretendemos também estabelecer um diálogo com autores que trataram, ainda que indiretamente, de tais questões, como Ana Isabel Buescu, Carlos Eduardo da Cruz, João Francisco Marques, Luís Machado de Abreu e Manuel Trindade, a fim de estribarmos a nossa análise. “Passaram ainda além da Taprobana”: O romance histórico da colonização portuguesa em O feitiço da Ilha do Pavão, de João Ubaldo Ribeiro, e A sul. O Sombreiro, de Pepetela Edvaldo A. Bergamo (UnB) A nova concepção de História foi um fator decisivo para a conformação do romance no século XIX, o que possibilitou a criação de uma forma literária específica destinada a captar o tempo de outrora como movimento contínuo que interfere na vida corrente, com grande desenvolvimento na segunda metade do século XX. Parte do romance histórico contemporâneo no Brasil e em Angola pode ser caracterizada principalmente pela figuração crítica da experiência colonizadora europeia em territórios tropicais. Assim, tal narrativa de extração histórica enfoca privilegiadamente a natureza perturbadora dos fatos narrados como acontecimentos decorridos que permanecem como estímulo questionador de uma atualidade contraditória. Considerando semelhantes aspectos teóricos e críticos, nosso objetivo nesta comunicação é examinar, pelos caminhos da fabulação de um passado conturbado, a dialética da colonização portuguesa como matéria histórica e ficcional, com vistas a cotejar dois romances que retratam em chave paródica e irônica os primórdios da presença lusitana na América e na África: O feitiço da Ilha do Pavão (1997), do brasileiro João Ubaldo Ribeiro, e A sul. O Sombreiro (2011), do angolano Pepetela. O Brasil como “terra paradisíaca” e “máquina de moer gente” e Angola como “chão de cobiça e riqueza” e “inferno das febres” são estratégias de figuração artística transgressiva de um passado colonial em comum, representado em obras que dão a ver um pretérito de lutas cruentas que reverbera ainda num hoje conflituoso. Paralelos na obra de Jane Austen (1775-1817) e Maria Peregrina de Sousa (1809-1894) Elen Biguelini (Universidade de Coimbra/CHSC) Maria Peregrina de Sousa (1809-1894) provavelmente não teria conhecido a obra da inglesa Jane Austen (1775-1817). Ainda assim, sua obra apresenta paralelos com à daquela ilustre inglesa. A obscura portuense pseudónimo de Maria Peregrina de Sousa, vivia reclusa na quinta de sua família, próxima ao Porto. Apezar disto, produziu uma vasta ABRAPLIP 2017 76 quantidade de romances e folhetins, entre os quais Roberta, ou a força da simpatia (1863), que apresenta diversas semelhanças a Orgulho e Preconceito (1813), da mais conhecida autora. Neste trabalho, pretendemos encontrar estes parelelos e, com o auxílio da crítica literária feminista, em especial do conceito de anxiety of authorship, conhecer e compreender um pouco da obra desta autora portuense. A última nau portuguesa Elias dos Reis Louzeiro (PUC-SP) A partir da leitura e análise do romance A máquina de fazer espanhóis do autor contemporâneo português Valter Hugo Mae o trabalho procura apresentar as dicotomias temporais existentes na obra. O enredo conta a respeito de um homem idoso, recém-viúvo que é posto em um asilo. O processo de ruptura e progressão, é exemplificado pelos dois tempos presentes. Um tempo cronológico, sucedâneo e organizado, ligado a ação presente, aos fatos do cotidiano, e outro tempo de característica memorialista e orgânica, voltado à reflexão e a recordação. Os dois tempos, em verdade simbolizam o duo progressão-retrocesso vivenciado pela personagem, e travam um conflito dentro desta, porém tal tensão pode ser vista como microcosmo de uma sociedade portuguesa igualmente apegada ao passado e duvidosa das novas perspectivas que se apresentam frente a ela. O embasamento teórico será feito a partir da obra dos autores franceses Paul Ricoeur na obra Tempo e Narrativa e Henri Bergson em Matéria e Memória. A Salvação no Amor em Amor de Salvação Elinaldo Chaves dos Santos (UFPA) A transitoriedade dos sujeitos, a finitude da vida, a decodificação dos sentidos e sentimentos marcadamente presentes na historicidade daqueles que não alheios aos condicionamentos humanos conseguem vislumbrar a salvação através do amor. Essa possibilidade de alcançar o divino, de aperfeiçoar-se no outro e de constituir no ser amado a inteireza da felicidade vai se contrapor as desventuras e atropelos ocasionais da vida, como os que compõem “Amor de salvação” de Camilo Castelo Branco. Romance português que dialoga subjetivamente com outras obras, apresentando o amor e seus desdobramentos como possibilidade de salvação. ABRAPLIP 2017 77 Feiticeiras: o crime da igreja católica evocado através das convergências entre Maria Teresa Horta e Jules Michelet Elisa Moraes Garcia (FURG) A jornalista e escritora Maria Teresa Horta pode ser considerada como um dos nomes mais representativos da Literatura Portuguesa Contemporânea. Com uma vasta obra, que abrange contos, romances e poemas, sua produção não só se estende por um período de mais de meio século, como dialoga com séculos de tradição literária. Fazendo do feminino e da mulher os principais elementos de sua produção, Horta constrói uma literatura que dá visibilidade e voz a este sujeito, desconstruindo os estereótipos femininos da sociedade ocidental e questionando não só a tradição cultural como também a literária. Em sua poesia, são diversas as representações femininas a quem ela personifica, como os Anjos e as Feiticeiras. As feiticeiras, as bruxas, por sua vez, apresentam-se ao longo de sua obra, em uma relação aparente com La Sorcière (1862), de Jules Michelet. Partindo do diálogo que Maria Teresa Horta estabelece com a obra de Michelet, o presente trabalho pretende analisar como a poeta constrói a representação da feiticeira/bruxa no livro Feiticeiras (2006). Representação e protagonismo femininos na revista Brasil-Portugal Elisabeth Fernandes Martini (UERJ) Com o primeiro número datado de 1º de fevereiro 1899, a Brasil-Portugal: revista quinzenal illustrada (1899-1914) inicia o seu bem-sucedido percurso em terras brasileiras, visando contemplar a expressiva comunidade portuguesa e agregar ao seu contingente os brasileiros dos estratos superiores. Além firmar os pontos de contato, tendo por prismas a política e a economia, a linha editorial da revista busca privilegiar, a cada número, a paisagem, a literatura e a vida cultural e social de ambas as nações, em seus quinze anos de circulação ininterrupta. Nesse ínterim, a representação, os interesses e até mesmo a participação feminina adquirem, no periódico em tela, um outro perfil, sobre o qual nos propomos debruçar. ABRAPLIP 2017 78 A construção de memórias de Batalha Reis em discurso compartilhado Elza Miné (USP/CNPq) A comunicação tem por objetivo apresentar o livro recém publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra Alguns Homens de Meu Tempo e Outras Memórias de Jaime Batalha Reis, de minha autoria. Batalha Reis (1847-1935) tinha em vista registrar recordações de seus amigos, cuja reunião viria a constituir um volume a intitular-seAlguns homens de meu tempo. Não chegou, contudo, a realizar tal projeto que, desde seus primeiros anos como cônsul em Newcastle, para onde se mudou em 1883, até os últimos de sua vida, passados na Quinta da Viscondessa, em Portugal, sempre acalentou e referiu. Alinhavei-o eu, então, em seu nome. As partes I e II do referido volume correspondem à gestação e a uma (possível) concretização desse projeto. A seguir, vêm as “Antigas Lembranças em Cartas a Celeste” (Parte III), “Recordações Musicais” (Parte IV), “Alguns dos meus Textos de Imprensa” (Parte V), “Alguns projetos” (Parte VI), que correspondem às “Outras memórias” referidas no título do volume. Que eu canto o peito ilustre (afro) lusitano: AFROLIS, afrolusitanidade e a produção cultural portuguesa mais recente Emerson da Cruz Inácio (USP) Partindo da identidade portuguesa intentada por Luis de Camões, em Os Lusíadas, depois reforçada por Fernando Pessoa em A mensagem, pretende- se, a partir de alguns exemplos da produção literária portuguesa recente, circundar a noção de “afrolusitanidade”, defendida pelos artistas reunidos em torno do grupo “AFROLIS”, bem como pensar que estatuto cultural e identitário a produção negroportuguesa assume no panorama maior do edifício canônico português, como também a “presença silenciosa” (cf. José Ramos Tinhorão) desses atores culturais no concerto cultural lusitano mais contemporâneo. ABRAPLIP 2017 79 Os sermões de Santo Antônio de Lisboa/ de Pádua: elementos retóricos, teológicos e contextuais Émili Feitosa de F. Olenchuk (UERJ) Santo Antônio de Lisboa/ de Pádua, frade franciscano, viveu entre 1191 e 1231, período conhecido como Baixa Idade Média (século XIII ao XV), estudou nos centros de ensino mais proeminentes de Portugal em sua época, o que lhe possibilitou assimilar vasto conhecimento que seria usado posteriormente na pregação e no combate aos hereges, principalmente os cátaros. Em uma época de efervescência religiosa, em que os fiéis exigiam maior participação na vida eclesiástica, e de crescentes críticas, os movimentos mendicantes foram o sustentáculo de Roma: os dominicanos com os estudos e com a pregação, e os franciscanos com a pregação por meio sobretudo da vida exemplar. É também nesse período que tem início o estabelecimento de uma arte de pregar medieval, que possui como referência a própria prédica dos primórdios do Cristianismo, baseando-se principalmente em Jesus Cristo e no apóstolo Paulo; nos Padres da Igreja, sobretudo Santo Agostinho e Gregório Magno; e, enfim, em diversos preceptores do século XIII. Frade Antônio escreveu diversos sermões, onde é possível verificar a presença de vários elementos retóricos que possuem como objetivo alcançar a benevolência do ouvinte e, assim, atingir o propósito máximo, no dizer de Santo Agostinho: instruir para convencer e comover. Para alcançar tal propósito, fez amplo uso das cláusulas, das Ciências Naturais, dos Pais da Igreja, de escritores pagãos e dos bestiários medievais. Este último foi de vital importância principalmente na pregação contra os hereges cátaros, que negligenciavam a natureza como algo puro e de onde se poderia retirar preceitos espirituais ocultos. A presente comunicação possui como objetivo examinar a importância dos sermões como gênero textual medieval para a sociedade em que estavam inseridos, bem como apontar alguns imprescindíveis elementos retóricos, textuais e contextuais. O jogo de perspectivas em Finisterra, de Carlos de Oliveira, e a relativização do real Esther Costa Faria (UFSM) O neo-realismo português surgiu na década de 40 como um movimento voltado às preocupações ideológicas, com a proposta de assumir uma perspectiva documental em detrimento de aspectos estéticos restritos. O escritor português Carlos de Oliveira, um dos nomes exemplares dessa tendência, destoa ao mesmo tempo dela por aliar, ao interesse crítico- social, investimentos formais específicos e inovações estéticas importantes. Se considerarmos, principalmente, as questões sociais defendidas pelos neo-realistas, precisamos destacar que a literatura produzida neste período pretende fazer das personagens e do modo de narrar uma forma de reconstrução social, dando lugar aos humildes, injustiçados e marginalizados (MOISÉS, 1978, p. 333-334). Nesta perspectiva, pretendemos analisar a forma ABRAPLIP 2017 80 narrativa de Carlos de Oliveira no romance Finisterra – paisagem e povoamento (2003). Por meio das diversas representações da paisagem, orientadas pela perspectiva das personagens, o romance ressalta a “textualização do real” (GUERREIRO, 1988), ou a relativização da imagem da realidade. Inicialmente, o narrador se apresenta numa posição heterodiegética, na terceira pessoa; porém, a análise permite perceber que o olhar do narrador se mistura com as perspectivas das personagens, assumindo-se a distância, a diferença e a relativização de pontos de vista. Desse modo, pretendemos entender como esse jogo de vozes e perspectivas se entretece no discurso narrativo e assim problematiza a visão ortodoxa da realidade predominante no neo-realismo português. O espaço brasileiro na poesia de Vitorino Nemésio Eunice de Morais (UEPG) Poemas Brasileiros (1972) é composto por 3 livros: Nove Romances da Bahia ou Romanceiro da Bahia, Violão de Morro e Ode ao Rio/ABC do Rio de Janeiro. O primeiro constitui-se por onze poemas, incluindo um “Intróito em teço- teco” (trata da chegada do poeta a Salvador/BA, em 1952; e uma “elegia ao cemitério de Santa Efigênia de Ouro Preto”. A atmosfera de triste Bahia e ritmo cadenciado pela musicalidade do candomblé dos Romances da Bahia dá lugar a uma cadência de samba e alegria, nas composições de Violão de Morro (1965); No terceiro livro, as epígrafes tomadas de empréstimo a Machado de Assis, António Nobre, Manuel Bandeira e Stella Leonards, além de uma estrofe das Cantigas do Norte de Portugal, antecipam o discurso laudatório à cidade do Rio de Janeiro e principalmente a transnacionalidade da concepção de Cidade- amálgama, que exerce força centrípeta naqueles que por ela passam ou habitam sem, no entanto, afastar-se de aspectos históricos e das imagens que revelam a cidade-texto. Neste trabalho, pretendemos desenvolver reflexões a respeito da visão espacial, presente nesta obra de Vitorino Nemésio. Nossa busca principal será sobre o sentido que as obras revelam, a partir de uma leitura que compreenda a cidade como espaço mediador e veículo informativo das trans-formações históricas, culturais e individuais do poeta. Matéria, memória e ausência em A manta do soldado de Lídia Jorge Evanir Pavloski (UEPG) O presente trabalho tem como objetivo analisar a importância da noção bergsoniana de imagens-lembranças no discurso memorialista da narradora no romance A manta do soldado, de Lídia Jorge. Ao longo da narrativa, a personagem recupera, por meio da escrita, três décadas da história de sua família como forma de reinterpretar a si mesma diante das ausências e presenças de seu pai Walter Dias. Esse resgate do passado se notabiliza como ABRAPLIP 2017 81 um processo de construção e de afirmação identitária, que se baseia no caráter fragmentário não apenas da psique da personagem, mas também do fluxo de sua memória no plano de conteúdo da obra. Nesse contexto, a espacialização do tempo no romance e a significação mnemônica de determinados objetos fazem com as lembranças da narradora assumam uma indelével carga imagética, característica que, segundo o filósofo Henri Bergson, é imanente em qualquer forma de recuperação subjetiva do passado. Assim, a nossa proposta de discussão enfoca a relevância da dimensão imagética nas rememorações da protagonista do romance e os processos pelos quais suas recordações são ativadas e/ou intensificadas no decurso da narrativa. Com isso, pretendemos demonstrar que as imagens mudas, atualizadas pela memória e corporificadas pela linguagem, preenchem ausências e rompem silêncios na obrade Lídia Jorge. Versões da falta como fala em alguns poemas de Inês Dias Evelyn Rocha de Souza (UFF) Inês Dias faz parte de uma geração de poetas portugueses que encontra na falta lugares de fala, dado que a localiza em certa consonância com seus contemporâneos. À sua maneira, formula uma poesia em hipótese de (auto) investigação a partir da perda, da doença e da morte, não deixando de articular a esses impasses uma espécie de nostalgia do sagrado, especialmente na sua relação com a finitude. Este trabalho pretende investigar a problemática da linguagem e do desamparo em dois ou três poemas da poeta portuguesa, partindo dos amplamente conhecidos textos “A literatura e o direito à morte” e “As duas versões do imaginário”, de Maurice Blanchot. Entre Índico e Atlântico: (des)semelhanças entre poemas de Mia Couto e de Sophia de Mello Breyner Andresen Everton Fernando Micheletti (USP) Nos poemas de Mia Couto e de Sophia, há aspectos que permitem uma aproximação, de modo mais geral, como na temática do mar, o constante uso de metáforas e a preocupação com a situação histórica de seus países, Moçambique e Portugal. De modo mais específico, surgem algumas diferenças, as quais podem aparecer na forma, em outros recursos figurativos ou nos sentidos particulares de cada texto. Em relação ao Índico e ao Atlântico, portanto, surgem sentimentos negativos e positivos, referências ao tempo, à vida e à morte, características locais e universais, os elementos de cada identidade nacional, assim como as abordagens de (re)visão histórica. Ademais, há pontos de contato entre os dois escritores, Couto declara-se leitor dos poemas de Sophia, tendo citado alguns deles em epígrafes de seus ABRAPLIP 2017 82 livros, em especial do romance Jesusalém/Antes de nascer o mundo (2009). Assim, pelo que se expõe, a comunicação tem como objetivo apresentar uma leitura comparativa de poemas dos dois autores, com ênfase da temática do mar, procurando investigar as relações intertextuais em suas semelhanças e contrastes. Manuel da Fonseca: a busca ética e estética Fabio da Fonseca Moreira (PUC-Rio) Mesmo com uma produção literária não muito extensa, Manuel da Fonseca notabilizou-se por uma coesão temática e estilística, desdobrada através de seus romances, poemas e contos, perpassando nesses diversos gêneros uma mesma busca ética e estética. Manuel da Fonseca parece ter conseguido superar com alguma eficácia essa primeira perspectiva neorrealista através da busca de símbolos, imagens e outras estratégias narrativas que conferem à linguagem literária uma dimensão que ultrapassa o meramente ideológico, ao mesmo tempo em que revela um cuidadoso trabalho no campo formal e, consequentemente, artístico. Nessa direção, este trabalho tem como proposta verificar a maneira como Manuel da Fonseca apreende a realidade e como esta se reflete em sua escrita. Para tanto, os contos “Aldeia Nova” e “Mestre Finezas” e o poema “Canção” serão aqui tomados como nosso objeto de análise, a partir dos quais buscaremos verificar o alargamento do conceito de Neorrealismo em relação às estratégias de invenção de uma linguagem literária e de um procedimento de escrita capazes de revelar o conteúdo político e ideológico em textos que poderiam conter fenômenos estéticos puramente formais. Figurações da morte voluntária em personagens da ficção portuguesa do século XIX Fábio de Carvalho Messa (UFPR) Jerônimo Duarte Ayala (UFSC) Este trabalho aproxima algumas personagens da ficção, romântica e realista, portuguesa que têm em comum discursos e performances que conduzem e justificam suas mortes voluntárias. São alguns perfis femininos que nos interessam: Teresa e Mariana, de Amor de Perdição (1862), de Camilo Castelo Branco, e Luísa, de O Primo Basílio (1876), de Eça de Queirós, respectivamente representantes de estéticas distintas, que preservam essências específicas que vão do fatalismo romântico de Inocência, de Visconde de Taunay, ao determinismo de Helena, de Machado de Assis. Para todos os enredos, a morte é a melhor solução. Mariana e Teresa são os vértices do triângulo amoroso que, além de evidenciarem o trunfo passional da narrativa, ressignificam o drama shakespeariano; Luísa, não só se constitui como a fusão entre Madame Bovary e Eugénie Grandet, possibilitando cotejos com as personagens de Flaubert e ABRAPLIP 2017 83 Balzac, como também enaltece a ascensão do romance ao redor do adultério, sinalizando sua irrefreável e fatal queda. Estes eixos temáticos, ao redor dos quais as personagens vivem seus conflitos, são um legado não só da esfinge ultra-romântica, como também esboço exemplificador do discurso da histeria. Considerando toda essa rede intertextual e sua cadeia de sentidos no texto romanesco, o embasamento desta discussão se dá a partir do que se considera a dicção suicida, numa perspectiva retórico-ficcional, emprestando concepções e fundamentos da semiologia e da psicanálise para fins especulativos. A selva de Ferreira de Castro nas ilustrações de Poty Fabricio Vaz Nunes (UNESPAR/EMBAP) Surgido de experiências pessoais do autor, o romance “A selva”, de Ferreira de Castro, publicado pela primeira vez em 1930, descortina o ambiente hostil da natureza amazônica como palco para a exploração e a violência humanas, sempre através da perspectiva estrangeira do protagonista, Alberto. A esta perspectiva estrangeira contrapõem-se, na edição brasileira de 1967, as ilustrações do artista brasileiro Poty Lazzarotto, em que se destacam o apagamento da individualidade dos personagens e sua incorporação trágica à lógica da exploração instituída nos seringais, revelando assim um novo olhar sobre a selva tal como representada na obra do autor português. Este trabalho busca demonstrar como as dinâmicas instituídas entre o indivíduo, a sua exploração por outros homens e sua luta contra o ambiente natural hostil são retratadas nestes diferentes meios, o do texto e o da imagem, cada um com seu ângulo específico de focalização. Entre estes diferentes pontos de vista ‒ do texto e da imagem, do português e do brasileiro - revelam-se semelhanças e diferenças significativas nas formas como o universo da selva amazônica é representado nas duas modalidades artísticas. A cegueira branca como doença: mecanismo de suspensão da democracia no Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago Fabrizio Uechi (USP) No “Ensaio sobre a cegueira”, do escritor português José Saramago, a cegueira branca não se constituiu numa doença: não se chegou a uma conclusão sobre a sua origem, as suas causas, os seus sintomas, a sua cura. Este foi o diagnóstico preliminar feito pela personagem do médico, após exame clínico no primeiro cego, e foi essa a declaração do Governo – mas após iniciado o plano de confinamento dos cegos na instituição asilar. Portanto, mesmo sem uma justificativa técnica, no princípio, a cegueira branca foi categorizada pelas autoridades como doença e, por conta de seu raio de “contaminação”, como epidemia, legitimando àqueles a suspensão de garantias e direitos dos cidadãos personagens, e as práticas de violência, tão evidentes dentro ABRAPLIP 2017 84 do manicômio. Diante disso, a hipótese de leitura da qual se parte neste trabalho é a de que a cegueira apenas ganha a categoria de doença porque são acionados mecanismos de manutenção do poder, que realizam práticas e constituem discursos a princípio incongruentes a uma democracia, mas que nela são encontrados, sob o pretexto da conservação da ordem e do bem- estar da maioria. Para tanto, são utilizados instrumentos teóricos de autores como Susan Sontag, Jacques Rancière e Giorgio Agamben. A dinâmica da luta de classes em O delfim, de José Cardoso Pires Felipe Clos Bassedone (UFSM) A morte de Maria das Mercês e o desaparecimento de seu marido Tomás Manuel são os acontecimentos centrais da narrativa de O Delfim (1968), de José Cardoso Pires. A partir disso, o narrador-personagem, tomado pela curiosidadeem entender a totalidade das relações que compõem a lagoa e o largo da aldeia da Gafeira, posiciona-se na janela de um quarto de pensão e, assim, observa, rememora e analisa o passado e o presente de um espaço onde a vida aparenta certa estagnação. Tal como outros autores da produção romanesca da década de 60/70, Cardoso Pires rompe com o Neo-Realismo ortodoxo e passa a elaborar inovações tanto no que diz respeito à forma, quanto ao conteúdo. Mesmo assim, a proposta ideológica neo-realista não é, como se pode perceber em O Delfim, de todo abandonada. De forma sutil, são mantidos a crítica social e os conflitos que refletem e refratam uma luta de classes entre personagens. Entretanto, diferentemente dos trabalhos anteriores de Cardoso Pires, como a obra O Anjo Ancorado (1958) na qual a proposta neo-realista é apresentada em contornos bem delimitados, em O Delfim, as injustiças sociais são tratadas de uma nova forma no texto, de modo que, nas palavras de Arnaut (2002, p. 85), “a sua organização, num todo mais ou menos coeso e coerente, depende, agora, já não do narrador, mas do leitor”. Desse modo, o objetivo deste trabalho consiste em analisar o discurso do narrador-personagem e também o das demais personagens, bem como a dinâmica da luta de classes existente nas relações estabelecidas entre os habitantes do largo da Gafeira e a família dos Palma Bravo, proprietários da lagoa. Do texto à tela. O Delfim: de Cardoso Pires a Fernando Lopes Fernanda de Aquino Araújo Monteiro (UFRJ) Nesta chamada de apresentação, a Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa vem manifestar sua reação com o projeto do MEC de exclusão da disciplina de literatura portuguesa do ensino básico do país. Dessa forma, o trabalho “Do texto à tela. O Delfim: de Cardoso Pires a Fernando ABRAPLIP 2017 85 Lopes” pretende levantar críticas sobre as adaptações fílmicas de obras literárias, focando no romance O Delfim, de José Cardoso Pires, publicado em 1968, e o filme de mesmo nome do diretor português Fernando Lopes, de 2002. O leitor do romance e o espectador do filme precisam percorrer atentamente pelas páginas ou cenas desse Jogo do Olho Vivo, recolhendo pistas sobre o crime da Gafeira, perseguindo-as atentamente e às personagens, tentando decodificá-las, a partir do seu próprio olhar particular, porque é sobre essas figuras narrativas que o trabalho pretende se desenvolver, acentuando as semelhanças e particularidades de algumas delas. Para isso, será levantado os textos críticos e teóricos de Eunice Cabral, Eduardo Prado Coelho, Teresa Cerdeira, Michelle Dull Beraldo Matter, Adauto Novaes, Robert Stam e Ismail Xavier. O que o poema ensina? Fernanda de Azevedo Pizarro Drummond (UFRJ) A presente comunicação oferece uma leitura de Luiza Neto Jorge, buscando elucidar aos leitores/aprendizes o que o poema pode ensinar. Tem como ponto de partida os versos de “O poema ensina a cair”, de O seu a seu tempo, publicado em 1966, no contexto do auge do salazarismo e da guerra colonial portuguesa. Entrecruzando as duas estrofes do poema às ideias de solo e chão, que, por sua vez, remeteriam tanto à pátria como à agricultura, procuraremos discutir que tipo de pedagogia a poética pode oferecer. Toma-se como base, também, um ensaio de Sophia de Mello Breyner, em que a poeta, de geração anterior a Luiza, afirma: “toda arte é didática”. Nosso objetivo é entender se é possível que a arte nos encaminhe no sentido de uma insurreição contra o status quo, experiência que se torna cada vez mais premente e atual, tendo em vista os problemas do Brasil contemporâneo. José Saramago e Oliveira Martins: entre a História e a Literatura Fernanda Farias Freitas (UFRJ) Na presente chamada para a XXVI edição do Congresso Internacional da ABRAPLIP, evidencia-se a procupação com a discussão que envolve a possível retirada da literatura portuguesa do ensino básico brasileiro. Faz-se importante, nesse contexto, debruçar-se sobre a relação dessa literatura com outras áreas do saber e sobre sua imprescindibilidade para a comprensão do homem contemporâneo, e, assim, o trabalho “José Saramago e Oliveira Martins: entre a História e a Literatura” mostra-se pertinente às discussões suscitadas. Isso porque Memorial do Convento é uma obra em que José Saramago constrói um ponto de vista singular acerca de parte da história portuguesa, de modo que resgata para a memória do país aqueles represenantes do povo que ABRAPLIP 2017 86 haviam lutado e sofrido para construir o convento e, consequentemente, a identidade portuguesa. O autor promove, dessa forma, a ressignificação de parte da narrativa sobre o passado português fabricada por meio da ficção. Objetiva-se, portanto, uma comunicação que, ao estabelecer o diálogo entre José Saramago e o historiador Oliveira Martins em sua obra História de Portugal, mostre como a relação entre Literatura e História é fundamental para o conhecimento de aspectos da realidade humana ao longo dos séculos. A fim de trazer enriquecimento a tal análise, críticos como Antonio Candido, Carlos Reis, Eduardo Coutinho e Teresa Cerdeira serão imprescindíveis. Aspectos das inter-relações entre colonialismo, violência e interesses econômicos, representadas em O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes Fernanda Fátima da Fonseca Santos (USP) A respeito da História do colonialismo português na África, pode-se afirmar que muito tem contribuído para o seu entendimento o corpus literário que vem sendo chamado por seus principais estudiosos de Literatura da Guerra Colonial e que é formado por um conjunto de obras que se relacionam intimamente às guerras coloniais na África. É nesse quadro que se situa a extensa obra de António Lobo Antunes, cujo romance de 1997, O esplendor de Portugal, focalizaremos em nossa comunicação. Nossa intenção é assinalar o potencial que tem esse livro no sentido de ampliar o nosso entendimento acerca da presença portuguesa em Angola, suas motivações, características e desdobramentos no período pós-colonial. A análise de alguns dos principais procedimentos estéticos levados a cabo por Lobo Antunes para organizar o seu romance evidencia que nele colocam- se em relevo aspectos da História do colonialismo português que não têm sido abordados com muita atenção, especialmente pela crítica literária que se ocupa dessa obra. É o caso, por exemplo, de dois dos eixos em torno dos quais toda a narrativa de O esplendor de Portugal se edifica, a saber: a figuração das dinâmicas dialéticas que se deram, em diferentes períodos históricos, entre o desenvolvimento do capitalismo das grandes potências mundiais e o histórico atraso do capitalismo português e, além disso, a mediação dessas dinâmicas no estabelecimento e na manutenção das estruturas coloniais impostas por Portugal em Angola. Viagens na terra de Luso: Portugal nos percursos de Garrett e Saramago Fernanda Gappo Lacombe (UERJ) A comunicação em questão tem por objetivo realizar uma comparação das obras Viagens na minha terra, de Almeida Garrett e Viagem a Portugal, de José Saramago. ABRAPLIP 2017 87 Segundo Eduardo Lourenço, em sua obra O labirinto da saudade, Garrett é o fundador da questão nacional como principal preocupação da literatura portuguesa. Apesar da diferença histórica, aproximam-se estes dois autores no exercício de olhar para seu país de dentro, evitando os delírios relacionados a glórias passadas e terras além-mar. Sendo ambas as obras escritas após movimentos revolucionários de grande importância – A revolução liberal de 1820 e a revolução de 25 de abril de 1974 - _a comparação entre elas permite um panorama do exercício de reflexão problematizador da realidade nacional realizado pela literatura portuguesa moderna. Em um percurso iniciado pela inquietude, os dois narradores buscarão na realidade palpável da terra uma forma de construírem seu próprio retrato de Portugal. O ano de 1993: entre prosa e poesia e a modernidadeFernando da Silva Negreiros (UEL) O ano de 1993 não está na lista dos romances canônicos de José Saramago, é uma obra renegada até pelo próprio autor. Porém, além de antecipar muitos temas e experimentações estéticas que aconteceriam em obras posteriores, o romance apresenta valor estético próprio, pois se apropria das formas da prosa poética para escrever uma história sobre uma distopia a se passar no futuro, onde uma ditadura instaura um mundo caótico. Dessa maneira, o trabalho analisará as estruturas formais dessa prosa poética, seu diálogo com as escolas modernistas e sua evidente relação com o romance 1984 de George Orwell. O trabalho ainda intenta mostrar a irracionalidade dadaísta da narrativa somada às inúmeras experimentações que a obra consegue equilibrar com harmonia e organização. “Ogiva entre o Mistério e o Mar”: Mito e História em Mais Alto, de Alfredo Guisado Fernando de Moraes Gebra (UFFS) A presente comunicação divulga resultados do projeto de pesquisa Dialogismo e Intertextualidade em Orpheu: o caso de Alfredo Guisado, centrado na produção poética e ensaística desse autor, em diálogo com as poéticas dos demais colaboradores da geração de Orpheu, que apresentam um conjunto significativo de textos referentes aos mitos portugueses – inesiano, henriquino e sebastianista. É possível, pois, analisar a leitura mítica que esses autores fazem da História e da Cultura, fundada na “preocupação obsessiva de descobrir quem somos e o que somos como portugueses” (LOURENÇO, 1982, p. 89-90). Essa categoria proposta por Eduardo Lourenço, e a filosofia do Mito, de António Quadros, são fundamentais para o entendimento de como ABRAPLIP 2017 88 ocorrem as projeções dos mitos universais e portugueses na configuração simbólico-figurativa dos poemas dos autores da geração de Orpheu. Na poética de Alfredo Pedro Guisado (1891-1975), o poeta atua como um intérprete dos símbolos codificados pela esfera divina ou pela natureza animista, o que se verifica na estrutura narrativo-discursiva dos poemas “Sagres” e “O túmulo vazio”, inseridos no livro Mais Alto (1917). Ambos os poemas, analisados na presente comunicação, fazem parte, respectivamente, das seções intituladas “O Infante” e “Alcácer Quibir”, e que se destinam a motivos históricos e mitológicos, centrados no apogeu dos grandes descobrimentos marítimos e na decadência e esperança de ressurreição da Pátria portuguesa. Uma ideia de crise: Manuel de Freitas e a finitude Fernando Ulisses Mendonça Serafim (UNICAMP) Manuel de Freitas é um dos responsáveis pela nova onda que, de 2001 para cá, vem abalando as estruturas da poesia portuguesa. Trata-se da geração dos “puetas”, autoironicamente identificados pela pecha de “sem qualidades”, os quais inauguraram o movimento de mesmo nome numa espécie de recusa radical da intelectualizada “Geração 61”. Em seus poemas, são visitados alguns temas de grande interesse na modernidade: a relação com a crítica, o fazer poesia no mundo do capital, os pequenos dramas do homem contemporâneo, o deleite da crise, as frequentes remissões à tradição, a paródia, as respostas e rendições à cultura de massa, a ironia sempre pronta a acudir o discurso. Freitas mobiliza as tensões do discurso para conceber um panorama de “crise” muito próximo a formulações como as dos críticos Rosa Maria Martelo, Marcos Siscar, Giorgio Agamben e Michel Deguy sobre o mesmo tema. Identificar os pontos de contato entre a poética de Freitas e as expressões de (des)continuidade desse desgaste é o escopo de nossa comunicação. Uma leitura da peça “O Castigo da Vingança!” de Álvaro do Carvalhal Fernando Vidal Variani (UDC-Foz do Iguaçu) É muito provável que os motivos pelos quais a obra de Álvaro do Carvalhal (1844-1868) tenha recebido pouca atenção na historiografia literária portuguesa produzida até hoje, sejam justamente aqueles que a tornam consideravelmente interessante para o leitor contemporâneo. Ao pensar as relações entre a Literatura Portuguesa e o Brasil, bem como buscando encorajar a revisitação da obra de Carvalhal, pretendemos desenvolver, neste trabalho, uma leitura/apresentação da peça “O Castigo da Vingança!”. Encenada e publicada pela primeira vez no longínquo ano de 1862 (e nunca reeditada), esta pequena obra prima faz uso de uma série de convenções dramáticas – do melodrama, que já saía de moda, aos mais emblemáticos recursos do drama trágico – acrescentando, porém, à retórica artificial e às ABRAPLIP 2017 89 reviravoltas conhecidas pelo público, um cenário e um tipo de personagem que, a julgar pela maior parte das obras portuguesas publicadas no período, esse mesmo público parecia preferir não (re)conhecer. Veremos como esse autor voltado ao insólito e à artificialidade desenvolve um típico “melodrama trágico” numa casa-grande brasileira “gotificada”, onde as questões do sangue, do amor interdito e das figuras diabólicas se encontram mescladas ao típico “brasileiro” oitocentista e ao contexto escravocrata que o rodeia. As fronteiras entre política e literatura: uma análise de Frei Luís de Sousa Filipe Costa da Silva (UFRJ) Se exploramos a metáfora da literatura como um mapa pelo qual os novos navegantes se guiam, certos portos são incontornáveis. Reconhecemos que na história de Portugal, o nome de Almeida Garrett (1799-1854), escritor imerso no caldeirão cultural e político do século XIX, sinaliza uma ancoragem obrigatória para quem pretende estudar a literatura portuguesa. Ao adentrarmos nessa senda, elegemos uma cena chave: a peça Frei Luís de Sousa (1843). Quando Garrett passa a dedicar-se ao teatro efetivamente, havia acontecido a Revolução de Setembro. Passos Manuel, primeiro ministro do governo de D. Maria, encarrega Garrett de propor um plano para a fundação e organização de um teatro nacional, que deveria contribuir para “a civilização e aperfeiçoamento moral na nação”. Ao longo do desenvolvimento da pesquisa observamos o impacto de uma obra produzida em meio a um caos histórico, quando Portugal, enfraquecido pela guerra civil e pela presença britância, solicitava com urgência uma arte mais interveniente nos problemas nacionais, até chegar a um momento em que o fazer literário é arregimentado pelas próprias esferas políticas, vertendo- se em braço oficial de um governo de inspirações liberais, que, crente no poder da arte como ferramenta de transformação social, estimula a produção dramatúrgica, a partir da década de 1830, em Portugal. Almeida Garrett foi um escritor sensível aos problemas sociais de seu tempo, através da análise da peça Frei Luís de Sousa, pretendemos debater temas como a função social do intelectual e o caráter pedagógico de uma literatura que se pretende engajada. O advogado do Diabo: o narrador que contraria as tradições cristãs portuguesas em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago Filipe Marchioro Pfützenreuter (IFPR) Em uma de suas famosas conferências em Harvard, Jorge Luís Borges afirma que a história de Jesus, juntamente com as histórias de Ulisses e Tróia, tem sido suficiente para a humanidade, sendo contada e recontada durante séculos. ABRAPLIP 2017 90 Jack Miles, por sua vez, afirma que a Bíblia é a obra literária mais bem-sucedida que a humanidade já pôde escrever. Esses dois grandes estudiosos não fazem outra coisa senão confirmar o papel dessa coletânea de livros como o grande seleiro de provisões para toda a Literatura Ocidental. José Saramago, em seu romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, também bebeu dessa fonte. Mais do que isso, fez uso da liberdade de criação literária, do seu narrador intruso e da técnica do fluxo de consciência para contestar as tradições cristãs do seu tempo. Compreendendo o citado romance como uma das mais polêmicas obras da Literatura Portuguesa, esta comunicação visa a analisar como o narrador saramaguiano interpõe sua fala em meio à fala dos personagens, de modo a induzir o leitor a ver o Diabo com outros olhos; contribuindo,assim, para contrariar os conceitos cristãos de bem e mal, assim como para desconstruir os arquétipos de Deus e do Diabo. Para tanto, a pesquisa realizada inseriu-se na linha dos Estudos Comparados entre Teologia e Literatura – a Teopoética, de Karl-Josef Kuschel –, fazendo uso do método da analogia estrutural e se fundamentando nos estudos sobre narrador desenvolvidos por Yves Reuter, em Introdução à Análise do Romance. As memórias coloniais em O Retorno Flávia Magalhães Roveri (USP) O romance O Retorno, de Dulce Maria Cardoso pertence a categoria de livros que resgatam a memória colonial e, principalmente, o movimento de saída dos portugueses após a independência das ex-colônias africanas em 1975. Dessa forma, a personagem de Rui, o adolescente protagonista, é importante para que compreendamos, por meio da narrativa em primeira pessoa, de que maneira transcorreu esse movimento de volta para a pátria que já não mais pertencia aos portugueses das colônias. Nessas condições de “não pertencimento”, ou seja, por não ser nem português e nem angolano, Rui consegue nos mostrar que as memórias e consequências dos vários anos do governo salazarista, bem como do colonialismo, afetaram diretamente a vida das ex-colônias e da ex-metrópole que passavam por um processo de readaptação. O ensino-aprendizagem da literatura e história portuguesas à luz do teatro Flavia Maria Corradin (USP) O Projeto Autor por Autor: A Literatura e História portuguesas à luz do Teatro vem sendo desenvolvido no âmbito da Graduação e da Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo. O referido projeto introduziu o estudo sistemático da dramaturgia portuguesa, do século XVI ao XXI, na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo e se propõe a oferecer um enfoque criativo para o ensino e aprendizagem da Literatura e da História Portuguesas. ABRAPLIP 2017 91 Ruy Belo e Fernando Pessoa: o mar e o fingimento Flávio França (UEFS) Ruy Belo teve uma larga produção poética. Para ele, Fernando Pessoa é o único poeta “vivo” que realmente o interessa. Dessa forma, ele se apropria da obra de Fernando Pessoa reconhecendo um diálogo entre a poesia da geração 1960-70 (Poesia 61) e o modernismo português (Silva, 2012). O presente trabalho visa buscar a presença de Fernando Pessoa na poesia de Ruy Belo, traçando contato na temática do mar e do fingimento. O texto base foi o livro “O Tempo das Suaves Raparigas e Outros Poemas de Amor”. Em ambos poetas, O mar é associado à Portugal e à mulher. A recorrência à paisagem martítima em Ruy Belo sugere que há uma associação entre o mar e o processo de elaboração poética. (Silva, 2012). Há um contínuo trânsito entre o mundo e o poeta, eles se observam, se interpenetram. Ruy Belo usa ao “fingimento” com o qual Pessoa caracterizou a produção poética. Silva (2012) vê expressão do fingimento pessoano na impessoalidade da forma presente em Ruy Belo, ambos relacionados à intelectualização das emoções. Nesta obras o fingimento é retomado, pois para ele a verdadeira poesia é a mais fingida, sendo que sua ficção é a sua própria realidade. O poeta nega qualquer acesso à realidade empírica através da sua poesia. Os poetas da geração 1960 articulam o fingimento e o testemunho, ou seja, entre a liberdade da criação artística e o engajamento na vida prática e política. Tratando-se da temática Mar/Fingimento, Ruy Belo aprofunda sua concepção em relação ao seu antecessor, personificando o mar e o trazendo pra dentro das pessoas, como também fazendo do fingimento uma norma estática a ser seguida. Um pouco menos de 30 anos após a morte de Fernando Pessoa, Ruy Belo repercute sua estética. Estando o mundo se dirigindo rapidamente para o centenário da morte de Pessoa, percebe-se que que sua poesia continuará a reverberar na língua portuguesa por muito mais tempo ainda. Figuração de personagens em “O punhal de Rosaura”, de Álvaro do Carvalhal Flavio Garcia (UERJ) O presente trabalho pretende tratar da figuração – processos de composição de personagens – das personagens centrais do conto “O punhal de Rosaura”, de Álvaro do Carvalhal, Rosaura, anunciada no título, e Everardo, que empresta seu nome à parte I do conto. Everardo cumpre a função de narrador, oscilando entre posições auto e homodiegética, conforme se entenda seu protagonismo em relação à Rosaura. Assim, salvo o que se extraia das falas de Rosaura, que se sabe a seu respeito é comunicado por Everardo, ficando sua figuração bastante subordinada ao que ele diz e pensa dela. A figuração de Everardo envolve processos que prenunciam incoerência compositiva. Na maior parte da narrativa, ele se identifica com indivíduos viris, machistas, cafajestes, todavia, nas cenas em que se encontra com o dominó escarlata – Lorenzo del Giocondo, que empresta seu nome à parte II do conto –, sua figuração se mostra contraditória. Sem distinguir o gênero desta figura, porque “o trajo ABRAPLIP 2017 92 não tinha divisa, que extremasse o sexo”, deixa-se seduzir, sensualmente, por ela, que admite possa ser um jovem. Desse modo, a contracena entre essas duas personagens empresta uma aura homoafetiva à história. A figuração do dominó escarlata também é complexa, oscilando entre o anonimato da figura carnavalesca, a assunção de irmão vingador da assassinada Rosaura e a própria Rosaura ainda viva. O desfecho da história, porém, não desfaz as incertezas que irrompem ao longo da narrativa, autorizando que se entenda o conto de Carvalhal como um legítimo representante da ficção fantástica. Violência e medo da solidão em textos escolhidos de Mia Couto e Lobo Antunes Francisca Kellyane Cunha Pereira (UEFS) Tércia Costa Valverde (UEFS) Na presente pesquisa, pretendemos estabelecer uma comparação entre personagens femininas de textos de Lobo Antunes e Mia Couto, tratando das temáticas da violência doméstica e da solidão da mulher. Para tanto, foram selecionados a crônica As Palavras Cruzadas no Jornal (1998) e o conto Os Negros Olhos de Vivalma (2014), dos autores acima citados. A análise contemplará aspectos da Literatura contemporânea, no tratamento de temas universais, a exemplo do individualismo, da solidão, enquanto sentimento e sua presença na Literatura. Analisaremos também as personagens principais, suas semelhanças e singularidades. Utilizaremos as ideias de Agambem (2009), Ana Paula Arnaut (2009) e Neiva Kampff Garcia (2013), dentre outros. Ressaltaremos as questões sociais do comportamento submisso, o medo de estar sozinha e a infelicidade conjugal que as duas personagens, Vivalma e Cristina, apresentam. O engajamento do vento Gabriel Dória Rachwal (UFPR) Em poema do livro Cenas vivas, publicado em 2000, Fiama Hasse Pais Brandão encara a sua retirada dos “negócios públicos”e procura dar uma justificativa para isso. A presente comunicação ocupa-se em fazer uma leitura do poema e mostrar como alguns outros poemas da primeira parte deste livro, intitulada “Elegíacos”, podem se unir ao poema para compor tal justificativa. Morte em Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares Gabriela Fujimori da Silva (UNESPAR/UEM) A obra Jerusalém compõe a tetralogia O Reino, do escritor português Gonçalo M. Tavares. Trata-se de um período pós-guerra, evidenciado pelo resgate de ABRAPLIP 2017 93 memórias das atrocidades cometidas, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, e aos efeitos repercutidos ao longo da história, por inúmeros genocídios. Por meio da personagem Theodor Busbeck, médico psiquiatra e pesquisador, o qual desenvolve um estudo, almejando compreender as práticas de horror ao longo do tempo, algumas memórias do Holocausto da década de 1940 vão sendo resgatadas. As lembranças das atrocidades cometidas em campos de concentração, como Auschwitz, interferem na vida das personagens. Ao resgatar a memória da segunda Grande Guerra, uma das maiores matanças da humanidade, o romance evidencia temas tais como a violência, o mal, a crueldade. A morte é tema constantena narrativa, tanto no pano de fundo, remetendo ao Holocausto, como é o caso da pesquisa de Busbeck, quanto na conturbada vida individual das personagens. O horror diante da morte, na obra, instaura-se principalmente no assassinato de tantas pessoas: um genocídio. Somando-se a isso, outra face da morte no romance é a tentativa de suicídio por Ernest Spengler. Ainda, há angústia em previsão da morte em Mylia, a qual temendo a morte, procura incessantemente uma igreja aberta na madrugada em que se passa a narrativa. Nesse sentido, esta comunicação abordará as representações da morte em Jerusalém, nas diferentes especificidades, numa perspectiva de trabalho associado às abordagens psicológicas, antropológicas, filosóficas, sociológicas e religiosas sob a luz da literatura. A construção do interlocutor amoroso em as Novas cartas portuguesas Gabriela Silva (URI/CAPES) Partindo da ideia do romance espistolar Cartas portuguesas, publicado em 1669, por Claude Barbin, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa em 1971 iniciam a escrita das Novas cartas portuguesas. A primeira obra é comporta pelas cartas da Freira Mariana Alcoforado ao oficial francês por quem era apaixonada. Eram a representação da infelicidade e do abandono de sua autora.Séculos depois, as três autoras retomam o texto das cartas e rompendo limites temáticos e de linguagem reconstroem as cartas. A obra publicada em 1972, mesmo com indicativos de corte pela censura, chegava aos leitores na versão integral. De grande impacto nacional, as Novas cartas portuguesas instauram uma nova possibilidades da escrita feminina. Caracterizam-se pela tematização do corpo, do desejo e da relação amorosa. Trangressoras por seu conteúdo, em seu momento de criação e publicação são anunciadoras do novo engajamento feminino político-social. Fundamentado nos conceitos apresentados por Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso, sobre a interlocução amorosa, esse trabalho propõe uma possibilidade de análise dessa construção ficcional.Ao pensarmos sobre o engendramento desse interlocutor, também refletimos sobre a importância da descontrução proposta pelas autoras e a reformulação dos questionamentos sobre o discurso amoroso-erótico feminino, bem como a projeção social feminina no contexto político-social pré-Revolução dos Cravos. ABRAPLIP 2017 94 Panorama da ludicidade na poesia visual Geraldo Augusto Fernandes (UFC) A poesia visual tem sido apresentada na escola, na maioria das vezes, apenas como recurso ora pictórico, ora gráfico, que o artista escolhe para se manifestar. Através dos tempos, o artifício da visualidade na poesia tem tido objetivos outros que não somente aqueles: nas épocas primevas, tinha sentido religioso e mágico; na Idade Média, sua preocupação passa a ser mais ligada à destreza e agudeza do poeta, para atingir o ápice no Barroco e no Concretismo. Calcadas na tradição, as carmina figurata têm oferecido ao poeta e ao utente um manancial de possibilidades tanto estéticas como de deleite. Centradas no significante da palavra, a leitura que sobressai dos poemas “em forma de” tem instigado estudos unindo a questão mágico-religiosa à estética. Baseado nos estudos de Johan Huizinga, Paul Zumthor, Ana Hatherly e teóricos da Poesia Concreta, pretende-se pontuar outro elemento básico da poesia visual – a ludicidade – e, a partir dela, sugerir uma nova possibilidade de ensino da poesia. Sobre Nocturno em Macau, de Maria Ondina Braga, o viés feminino Gerson Luiz Roani (UFV) O romance Nocturno em Macau (1991) de Maria Ondina Braga transfigura a decadência imperial portuguesa numa visada que privilegia a perspectiva feminina na leitura desse processo, mostrando que a colonização, no âmbito de uma civilização patriarcal, foi redimensionada a uma questão de mulher. A trama romanesca se circunscreve à história portuguesa dos anos sessenta do século XX, marcados pela integração de Goa à Índia, pela obstinação sangrenta em manter as colônias africanas e pela transferência da administração lusitana de Macau para o governo de Pequim. Romance do fim do império, Nocturno em Macau é também uma narrativa sobre as complexas relações socioculturais marcadas por esta perspectiva, no âmbito das quais a mulher ganha destaque quase desconhecido em tempos anteriores. Durante séculos, o colonialismo lusitano que particulariza a presença de Portugal no Oriente (Índia e China), que sempre havia sido um empreendimento masculino, resultou em tarefa que passa a contar com a efetiva participação da mulher. Dominadas pelos homens, tanto portugueses, quanto chineses e indianos, as personagens femininas, professoras do Colégio Santa Fé, assumiram a defesa dos valores masculinos que o colonialismo colocava em circulação. Na tessitura ficcional ondiniana, as mulheres são vítimas e também agentes de um império na fase final da sua agonia. A narrativa sublinha a ruína do império, por causa das suas bases frágeis, contraditórias e desumanas, incluindo aí a submissão das mulheres. Sintomaticamente, o Nocturno é uma metáfora do fim, de natureza elegíaca e fúnebre que se opõe ao imaginário imperial português. ABRAPLIP 2017 95 Imagens da Sobrevivência em Isabel de Sá Gesqua Daiane Café dos Santos (UFBA/FAPESB) A presente comunicação tem como objetivo apresentar imagens da sobrevivência na poesia da escritora e artista plástica portuguesa Isabel de Sá na obra Repetir o Poema (2005). O ponto de partida para presente proposta é a leitura do livro Sobrevivência dos Vaga-lumes de Georges Didi-Huberman. O autor propõe a ideia da sobrevivência da imagem como aparição única, preciosa e resistente ao domínio da cultura repressora e espetacularizada. É com base nesta hipótese que analisarei algumas imagens da sobrevivência em Isabel. A primeira imagem da sobrevivência refere-se à sexualidade homoerótica. Isabel de Sá nasceu em 1951, cresceu e viveu no Porto sob o Salazarismo (1933-1974) e sua base ideológica calcada no lema fascista Deus, Pátria e Família. Na convicção do salazarismo, as mulheres deveriam assumir papéis tradicionais relacionados à família e “manter a moral”. Nesta perspectiva, o modelo de repressão da mulher portuguesa estava no centro do regime. Portanto a libertação feminina significava a libertação da sociedade. A autora constrói sua orientação homossexual afirmando poeticamente seu lugar de fala nessa sociedade patriarcal. A segunda imagem da sobrevivência reporta ao traço metalinguístico, à própria escrita poética, ou seja: escrever poesia em uma sociedade que mantém a memória desse autoritarismo faz de quem escreve, e da própria poesia, verdadeiros sobreviventes. Tormes talvez não fique assim tão longe de Yasnaya Polyana Giorgio de Marchis (Universidade de Roma Tre) A comunicação vai propor uma leitura do romance queirosiano A Cidade e as Serras, procurando interpretar a sua ambígua idealização dum mundo rural, incontaminado e regenerador, à luz da contemporânea divulgação do tolstoismo em Portugal. Deste ponto de vista, poderá contribuir à decifração do romance a leitura atenta dalguns textos que Jaime Magalhães Lima publica entre 1889 e 1892: Cidades e Paisagens (Porto, 1889), o artigo A Philosophia de Tolsoi aparecido na “Revista de Portugal” e As Doutrinas do Conde Leão Tolstoi (Porto, 1892). O grande Maia: Tomás de Alencar e a polêmica entre Eça de Queirós e Bulhão Pato Gisele de Carvalho Lacerda (UFF) Nesta comunicação pretendo destacar um dos fatores da recepção de Os Maias, de Eça de Queirós pelos seus contemporâneos, em particular no que foi registrado na imprensa brasileira e portuguesa. ABRAPLIP 2017 96 Pinheiro Chagas, forte representante do romantismo em Portugal, sempre polemizou com Eça desde a Questão Coimbrã desencadeada em virtude de seu Poema da Mocidade. Sugerindo que as Conferências do Cassino de 1871 eram comunistas, teve de se retratar com o futuro autor de O Crime do Padre Amaro. No artigo Eça eBulhão Pato, publicado no jornal O País, Pinheiro Chagas defende Bulhão Pato da caricatura feita deste por Eça n’Os Maias em Tomás de Alencar, poeta ultrarromântico. Em defesa própria, B. Pato arremete duas sátiras contra Eça: O grande Maia (1888) e Lázaro Cônsul (1889). Eça de Queirós escreve uma carta pública justificando a acusação da qual foi alvo e apresentando as razões pelas quais não poderia ter se inspirado em B. Pato (Porém a referência a este ainda aparece no conto José Matias, em que é citada uma estrofe do poema de Pato). Apresento uma das sátiras feita por Bulhão Pato (a de 1888) e a resposta/ retratação de Eça às acusações de Pinheiro Chagas, enquanto procuro mostrar a confecção da personagem Alencar dentro da vertente queirosiana. Monumento e revolução: o Thermidor, de Eça de Queirós Giuliano Lellis Ito Santos (USP/CAPES) Um texto de imprensa, de Eça de Queirós, publicado em 1896, intitulado “A propósito de Thermidor”, parte da montagem de uma peça de Vitorien Sardou, Thermidor, que havia sido censurada cinco anos antes. Com este mote, o escritor português trabalha com as diversas abordagens sobre a Revolução Francesa. Essa reflexão abre caminho para buscarmos entender os debates sobre a história no final do século XIX e, especificamente, da posição queirosiana frente a isso. Neste sentido, busco analisar como esse texto propõe uma revisão do momento político e literário francês para os brasileiros da época e, também, esboçar alguns traços do pensamento histórico inerentes ao texto. Os viscos da (auto)biografia nas Cartas da guerra, de António Lobo Antunes Graziele Maria Valim (PUC-SP) Este estudo, que assume como corpus o romance D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra, de António Lobo Antunes, investiga os traços autobiográficos e sua relação com a escrita na obra de cartas do autor. No livro de missivas, encontram-se reunidas cartas enviadas por Lobo Antunes à sua mulher, entre 1971 e 1973, quando ele combateu em Angola, na fase final da guerra colonial portuguesa. Nelas, há a dor da guerra, da ausência da esposa e a obsessão e compulsão do autor, pela literatura e escrita. Intenciona-se mostrar como a obra de cartas parece assumir um caráter híbrido quando parece ao mesmo tempo ser um livro (auto)biográfico, ou de memórias da guerra, ou críticas a respeito de obras literárias. Almeja-se demonstrar que, o ABRAPLIP 2017 97 “eu” da enunciação presente na obra Cartas da guerra, mescla-se à figura do autor empírico e também, aos narradores dos primeiros romances de Lobo Antunes. A fundamentação teórica está apoiada nos estudos de Maria Alzira Seixo (2002), Ana Paula Arnaut (2008), Philippe Lejeune (2008), Leonor Arfuch (2010), Michel Foucault (2013). Machado leitor de Camilo: paródia e emulação em Memórias póstumas de Brás Cubas e Coração, cabeça e estômago Greicy Pinto Bellin (UNIANDRADE) No centro das disputas entre intelectuais brasileiros e portugueses pela hegemonia do campo literário, tanto a paródia quanto a emulação emergem como estratégias relevantes para o estabelecimento de relações críticas e produtivas com os modelos colonizadores representados, no século XIX, por França, Portugal e Inglaterra. Machado de Assis, enquanto figura chave da intelectualidade da época, estava atento a estas disputas, além de ter sido um parodiador contumaz dos escritores portugueses, entre eles Camilo Castelo Branco. A crítica a O primo Basílio evidencia a preocupação machadiana acerca dos problemas relativos à cópia e imitação literária em contextos não- hegemônicos, o que também consistia em uma das principais preocupações de Camilo, conforme as ácidas críticas presentes no Cancioneiro alegre de poetas portugueses e brasileiros. O objetivo desta comunicação é analisar as formas pelas quais Machado, em Memórias póstumas de Brás Cubas, parodia e emula o camiliano Coração, cabeça e estômago como forma de não apenas pensar e repensar as relações entre intelectuais brasileiros e portugueses, mas de buscar sua própria identidade como escritor e, porque não dizer, uma identidade própria para uma literatura ainda muito atrelada aos modelos europeus. Nesse sentido, as Memórias póstumas configurariam uma resposta ao romance de Camilo, resposta esta que assume dimensões políticas e que problematiza, em última instância, as relações entre colonizador e colonizado nas literaturas brasileira e portuguesa. Eça e a Índia Portuguesa Hélder Garmes (USP) O texto “História pitoresca da revolta da Índia”, publicado por Eça de Queirós em As farpas de setembro de 1871, revela a visão bastante crítica que o escritor tinha do colonialismo português em particular e, de forma mais geral, do colonialismo europeu. Nosso intuito é problematizar a perspectiva crítica que Eça assumiu em relação ao episódio que motivou a escrita do texto, a saber, a extinção do exército de Goa, a partir da realidade daqueles que foram afetados por essa decisão do governo português, isto é, a partir da visão que os goeses tiveram dessa história. ABRAPLIP 2017 98 Mulheres que amavam mulheres na lírica satírica trovadoresca: sobre Mari’Mateu, ir-me quer’eu daquém (B 1583, V 1115), de Afonso Anes do Cotom, e A vós, Dona abadessa (B 1604bis, V 1137), de Fernando Esquio Henrique Marques Samyn (UERJ) O trabalho proposto tenciona apresentar algumas considerações em torno de duas cantigas trovadorescas galego-portuguesas que encerram alusões ao que, atualmente, poderíamos caracterizar como relações lesboafetivas: Mari’Mateu, ir-me quer’eu daquém (B 1583, V 1115), de Afonso Anes do Cotom; e A vós, Dona abadessa (B 1604bis, V 1137), de Fernando Esquio. Trata-se de analisar as referidas alusões – mais explícitas na primeira das cantigas mencionadas, mais veladas na segunda – à luz do imaginário medieval, considerando-se especialmente os elementos misóginos e patriarcais que nele operavam como fatores constitutivos. Poesia Intranquila: sentidos e resistência Ida Alves (UFF) Abordagem crítica sobre a importância da poesia como ação e questionamento do que o poeta Ruy Belo já considerava ser uma “educação dos sentidos” e que muitos outros poetas defendem como uma forma de resistir a tudo que age para a rarefação da emoção e para o desprezo da condição humana. Valendo- nos do que dizem e escrevem alguns poetas portugueses contemporâneos e do que refletem pensadores como Walter Benjamin, Hanna Arendt e a portuguesa Silvina Rodriges Lopes, buscaremos discutir escrita lírica, humanismo e a necessária intranquilidade da poesia contemporânea, em especial no espaço da cultura de língua portuguesa. O Fantástico como transvaloração Inez Nerez de Almeida Rocha (UEL) Em Introdução à Literatura Fantástica (2014), Tzvetan Todorov, citando Lovecraft, afirma que, num conto fantástico, o leitor experimenta, profundamente, um sentimento de temor e de terror em virtude da presença de mundos e poderes insólitos (p.40). Em Contos fantásticos, obra publicada por António José da Silva Pinto, em 1875, esse autor nos apresenta pequenas narrativas nas quais não comparece o elemento sobrenatural, mas que giram em torno de comportamentos repudiados pela sociedade da época, como a homoafetividade, o satanismo ou a prostituição. É o caso, respectivamente, dos contos “O berloque vermelho”, “O cahosbacchico” e “Esperando a ABRAPLIP 2017 99 valsa”, apenas para nos referirmos aos três primeiros que compõem a obra em questão. Portanto, o objetivo desta comunicação, em que analisaremos, comparativamente, as narrativas contidas nessa obra de Silva Pinto, é compreender em que medida a especificidade do elemento fantástico nelas presente se afasta ou se aproxima das definições canônicas do fantásticos enquanto gênero. Inclusão/Exclusão: O idiota na narrativa portuguesa contemporânea Isabel Pires de Lima (Universidade do Porto/ILCML) Sobretudo desde o romantismo que a figura do idiota perpassa pela ficção enquanto corporização de uma singularidadeontológica, apresentando-se como um manancial de alteridade. A partir da reflexão sobre o idiota e a sobre quatro dos seus traços distintivos: relação singular com o tempo; não reclamação de uma identidade; perseguição da intuição; linguagem não convencional, procurarei constatar a sua presença em obras de autores portugueses contemporâneos (Agustina Bessa-Luís, Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes, Lídia Jorge, Mário Cláudio; Vergílio Ferreira, entre outros) e interrogar-me sobre o seu lugar de ser incomum, profanador da ordem e força de resistência nas sociedades contemporâneas abertas à diferença. Predestinado e Precito: o uso de personagens alegóricas a favor da catequização jesuítica Isabel Scremin da Silva (UFSM) Este trabalho é resultado do projeto Construções da alegoria em narrativas do século XVII-XVIII, que, por sua vez, faz parte do projeto guarda-chuva Literatura e Retórica; ambos coordenados pelo Prof. Dr. Marcus De Martini, na Universidade Federal de Santa Maria. Atualmente, os estudos centram-se na análise da alegoria em textos oriundos entre os séculos XVII e XVIII; entendida aqui como um recurso retórico-poético que – conforme a noção quintiliana de metáfora continuada – trabalha com a transposição de um sentido literal a um sentido mais abstrato, visando à aprendizagem moral por parte do leitor (CEIA, 1998). Para tal, tem-se atentado à produção do padre jesuíta Alexandre de Gusmão (1629-1724), de origem portuguesa, e à sua novela História do Predestinado Peregrino e de seu irmão Precito, publicada pela primeira vez no território brasileiro em 1682, com uma nova edição de 2012, organizada por Marina Massimi. Considerada como a primeira novela alegórica em língua portuguesa (FREITAS, 2011), a obra trata da salvação e da condenação eternas; representadas, respectivamente, pelos irmãos Predestinado e Precito. Assim, considerando o contexto luso-brasileiro de publicação e os intentos da Companhia de Jesus, o presente trabalho pretende analisar os ABRAPLIP 2017 100 dois protagonistas quanto às suas configurações alegóricas do bom e do mau cristãos, em relação ao público leitor e à intenção pragmática de catequização portuguesa. Espera-se, por fim, que a análise contribua para os estudos, ainda pouco empreendidos, das narrativas alegóricas jesuíticas e da sua importância no contexto colonial. Oroboro na literatura de Garrett e Machado Iuguslávia Jales Dutra (UEPG) Este trabalho examina os romances Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett e Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, tendo como eixo de análise o conceito de autoteorização. Ambos foram escritos no século XIX, quando o gênero romanesco ganhava ascensão. Por conta disso, alguns autores, inclusive Garrett e Machado, começaram a discutir literatura dentro das suas obras. Este trabalho aponta e analisa as discussões e reflexões sobre literatura dentro dos romances selecionados. As concepções teóricas que nortearam o trabalho são de Jonathan Culler, Karin Volobuef e Luiz Costa Lima. José Luís Peixoto – Amor, luto e luta Ivanete França Galvão de Carvalho (UERJ) A comunicação que se apresenta pretende desenvolver uma reflexão acerca de “Morreste-me”, de José Luís Peixoto. Alinhado na geração dos novíssimos autores contemporâneos, seu nome se afirma pela qualidade de seus romances, os diversos prêmios atestam, como sua tradução para outros países. Sua obra se destaca pelo traço poético, uma constante em seus romances. A temática de “Morreste-me” gira em torno da morte do pai. Daí encontremos questões que irão girar em torno do amor, da vida, da morte e do luto. O carinho e afeto familiar, as memórias de convivência e principalmente a relação de união entre pai e filho. A arte, a literatura como transgressão se afirmam. Se a morte limita o curso da vida, Peixoto através do livro, imortalizará a imagem do pai. Ainda sob a perspectiva transgressora dos temas citados, reconhecer o papel da literatura em sua árdua luta de vencer o instante. Então analisaremos o combate sem tréguas entre a vida e a morte, Eros, pulsão de vida e Tânatos, pulsão de morte, segundo a teoria freudiana. Nos apoiaremos, para este estudo, nos teóricos como Severo Sarduy, Jean Ziegler, Herbert Marcuse, Michel Focault, Santo Agostinho, que apontam considerações e problematizam as questões da morte, do luto e da vida e como cada um a enfrenta e a supera através da lembrança, da convivência e da saudade que pode eliminar a angústia e deixar vir sorrateiramente o sabor dos sentimentos que une entes queridos. ABRAPLIP 2017 101 Do lugar da mulher na poesia portuguesa – Um olhar atemporal Ivani Vecina Abib (UNIP-Sorocaba) Sem rótulos feministas ou femininos, tampouco sem se perder na questão de gênero, com este trabalho, busquei a poesia da mulher portuguesa, que enfrentou inúmeros desafios de uma educação rigorosa, carregada nas cores pela religiosidade, muitas vezes opressora da sociedade portuguesa. Nestes dias em que tanto se fala do empoderamento da mulher, esse mergulho que proponho na história e no fazer poético das mulheres portuguesas tem o objetivo de trazer um panorama da poesia feminina em Portugal. Muitas vezes a história portuguesa não reconheceu a obra ou o valor dessas mulheres poetisas, o que não quer dizer que elas não tenham existido ou não tenham tido a ousadia de entrar nesse universo literário masculino. Figurações luso-brasileiras da infância: um olhar sobre Soeiro Gomes e Dalcídio Jurandir Ivone dos Santos Veloso (UFPA) O diálogo entre as literaturas portuguesa e brasileira sempre existiu desde os tempos coloniais e se estende à contemporaneidade. Nesse sentido, um ensino de literatura que privilegiasse a comparação entre obras e autores de Portugal e do Brasil seria uma maneira eficiente de abordar as possíveis relações entre as literaturas desses países, para além do paradigma fonte- influência. Assim, nesta comunicação pretendo tratar de duas experiências literárias em língua portuguesa que deram tratamento ao tema da infância na primeira metade do século XX. Desse modo, aproximo o romance Esteiros (1941), do escritor português Soeiro Pereira Gomes, e Chove nos Campos de Cachoeira (1941), do escritor brasileiro Dalcídio Jurandir Ramos Pereira, ambos militantes comunistas que produziram narrativas cujo alinhamento estético assume o compromisso com a denúncia social e a representação das minorias. Para tanto, a recepção crítica a respeito dos autores e aportes teóricos da literatura comparada serão revisitados. Enunciações, discursos e pensamentos errantes – uma perspectiva comparativa entre Machado de Assis e José Saramago Jacob dos Santos Biziak (UNESP/USP) Este trabalho busca colocar em contato dois autores de língua portuguesa, oriundos de condições de produção diferentes, as quais, no entanto, aproximam-se por expressarem momentos de ruptura profunda dentro e entre as formações discursivas dominantes. Dessa forma, tanto Machado ABRAPLIP 2017 102 de Assis quanto Saramago – um na turbulência da passagem do século XIX ao XX, outro no redemoinho da chamada contemporaneidade, por alguns interpelada como pós-modernismo – trazem, em suas obras, representações da realidade veementemente pautadas pela revisão severa de verdades e valores outrora tidos como essências, estáveis. Dessa maneira, pretendemos uma comparação entre as duas obras a partir da enunciação construída nos romances de ambos os autores e que parecem lhes caracterizar enquanto traço de estilo. Na verdade, este, ao nosso ver, surge como resposta estética, ética e política da linguagem sobre as possibilidades de construção de uma coerência histórica, seja do contexto brasileiro, seja do lusitano ou universal. Com isso, pretendemos colocar em interlocução estes dois autores não de forma a buscar influências entre ambos, mas a desloca-los de contextos de análise já realizados. Ou seja, em diálogo, talvez, eles possam proporcionar novas reflexõessobre as transformações na ficção romanesca no último século. Para tanto, será fundamental a releitura que empreenderemos de parte da teoria literária a partir do contato com a Análise do Discurso de Pêcheux bem como com as ideias de Derrida. Literatura e ensino: uma leitura em meio digital de Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro Jair Zandoná (UFSC) Tratar de leitura parece ter se tornado um assunto bastante sensível. Não que a leitura tradicional tenha desaparecido, mas está em constante concorrência com outros tipos de textos, dos quais o virtual e o cinematográfico recebem maior destaque. Nesse sentido, esta comunicação propõe apresentar os resultados de uma leitura em meio digital do livro de poemas Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro, como uma estratégia e prática metodológica possível para o ensino e pesquisa em literatura usando a ferramenta de anotações DLNotes. Essa proposta de leitura demanda a necessidade de repensar o próprio gesto de leitura – como ideia de leitura ativa, processual – inclusive de fazer perceber a necessidade de re-ler e, portanto, de re-examinar o objeto, com o propósito de construir cartografias (d)e leituras do texto poético. O estudo sistemático oportunizado pela ferramenta DLNotes pode instrumentalizar o estudante para que amplie seu repertório teórico, aplicando os conhecimentos adquiridos, por exemplo, nas disciplinas teóricas, no gesto mesmo de ler (literatura). Um amor feliz: Mourão-Ferreira e seus jogos de espelho Janaina de Souza Silva (UFRJ) A leitura de Um amor feliz, de David Mourão-Ferreira, impele para a questão do espelhamento constante de natureza intratextual, que, mais do que algo inconsciente, traduz-se numa estratégia discursiva extremamente eficaz que se ergue como pilar da própria construção do romance. Analisar os diversos momentos em que esse jogo intratextual se revela de modo contundente ao ABRAPLIP 2017 103 longo da narrativa é a proposta deste trabalho cuja origem remonta a uma análise da poética davidiana, a fim de ali identificar a gênese de um processo literário de espelhamento que norteia a construção da história de amor narrada no romance. A presença de Eça de Queirós e Fradique Mendes no jornal paulistano O Pirralho (1911-1918) sob perspectiva de Juó Bananére e Monteiro Lobato Jaqueline de Oliveira Brandão (UNESP) Os anos finais do século XIX e iniciais do século XX marcaram demasiadamente a vida paulistana pelas constantes revoluções e avanços significativos em todas as esferas que interferem no convívio daqueles que habitavam a cidade, principalmente no domínio cultural e isso pode ser constatado a partir da contribuição que o jornal semanário O Pirralho (1911 – 1918) nos deixou como legado. A partir dele podemos averiguar a presença de Eça de Queirós (1945 – 1900) e especialmente de sua personagem Fradique Mendes, já que lhe foi reservado espaço expressivo em uma enquête, para isso destacaremos sua recepção a partir da observação de dois dos dezesseis artigos-respostas, no caso escritos por Juó Bananére (Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, 1892 – 1933) e Monteiro Lobato (1882 – 1948), para assim avaliarmos, com base nos conceitos de herói de Frye, o protagonista Fradique Mendes por meio de comparação com o ser humano comum e confirmar a relevância de sua presença, assim como todo o universo queirosiano no âmbito paulista. Entre músicos, pintores e saltimbancos: os artistas de Prosas Bárbaras, de Eça de Queirós Jean Carlos Carniel (UNESP) No início da carreira literária, entre os anos de 1866 e 1867, Eça de Queirós (1845-1900) publicou diversos folhetins no jornal Gazeta de Portugal¸ lançados postumamente por Luís de Magalhães, em 1903, com o nome Prosas Bárbaras. Percebe-se que, nas páginas de Prosas Bárbaras, a temática artística é recorrente, já que, em vários textos, há a presença de personagens artistas e, até mesmo, alguns deles têm por temática a própria arte. Deste modo, objetiva-se, com este trabalho, a análise dos contos A ladainha da dor e Misticismo humorístico, observando como a temática artística é representada. ABRAPLIP 2017 104 A verdade besuntada Jeanine Geraldo Javarez (UEPG) Este artigo tem por objetivo analisar o espelho e o duplo nos romances “O homem duplicado” e “O ano da morte de Ricardo Reis”, de José Saramago, como metáforas autoteorizantes do conceito de representação. Para isso, retomamos o conceito de autoteorização ou ironia romântica, segundo Karin Volobuef e Johnathan Culler, e a discussão promovida pelos teóricos Bauman e Costa Lima a respeito da relação entre literatura e verdade. Para a análise, destacamos os trechos em que o duplo e o espelho poderiam ser tomados como metáforas do conceito de representação e comparamos com as teorias propostas por Aristóteles e Umberto Eco. Dessa forma, verificamos como a autoteorização do conceito de representação a partir das metáforas do espelho e do duplo corrobora o que Bauman defende a respeito do papel da ficção na relação homem-mundo. Lisboa no ano 2000: nacionalismo e determinismo tecnológico Jefferson Luiz Franco (SEED/UniBrasil) Publicada como um conjunto de textos breves na revista Illustração Portugueza, em 1906, a obra de José Maria Mello de Matos faz como que um passeio turístico no qual os leitores são convidados a conhecer as maravilhas futuras da capital lusitana à beira do então distante século XXI. Embora concebida pelo autor apenas como um espetáculo imaginativo destinado a apresentar visualmente, por descrições e ilustrações, sua visão do potencial tecnológico ao alcance da nação e, contando, por consequência, com um mero arremedo de enredo e personagens, o texto de Mello de Matos também é representativo dos princípios do determinismo tecnológico que se estabelecera com a difusão das tecnologias características do alvorecer do século XX, característica que analisaremos brevemente em nosso texto. O uso da breuitas como justificativa retórica do esquecimento narrativo nas crônicas de Gomes Eanes de Zurara Jerry Santos Guimarães (UESB) Visa-se a demonstrar como Gomes Eanes de Zurara, segundo cronista-mor da Casa de Avis, utilizou-se do topos breuitas para justificar a omissão de nomes de alguns nobres lusitanos, bem como de seus feitos, nas crônicas por ele produzidas no século XV. Numa época em que as crônicas eram utilizadas como certidão de bons serviços prestados à Coroa, em troca dos ABRAPLIP 2017 105 quais se poderia requerer mercês ao rei, a supressão de nomes e de boas ações significaria um duplo prejuízo para os nobres e seus descendentes: a perda do proveito imediato e da honra pela eternidade. Alvo de queixas neste sentido, Zurara justifica tal esquecimento narrativo de duas maneiras: devido à insuficiência de informações de suas fontes, tanto orais quanto escritas, o que caracterizaria um esquecimento involuntário; e por conta da necessidade da breuitas na escrita, configurando-se assim num esquecimento intencional. As memórias da colonização em Comissão das lágrimas, de António Lobo Antunes Jéssica Baia Moretti da Silva (UEM) Esta comunicação tem por objetivo principal a análise sob a perspectiva memorialística do romance Comissão de Lágrimas, do escritor português António Lobo Antunes. Comissão de Lágrimas é uma narrativa sobre memória, sofrimento e identidade, onde a protagonista é Cristina, uma mulher angolana que está presa em uma clínica psiquiátrica de Lisboa. O contexto histórico é o da sangrenta luta pela independência da Angola e o do tumultuado período pós-independência. Por meio do relato memorialístico de Cristina e de seus familiares, os sofrimentos e as torturas enfrentadas pelas pessoas de Angola nesse período são revelados. Os relatos memorialísticos de Cristina não são apenas seus, mas de toda a nação, uma vez que exprimem a dor compartilhada por todos os cidadãos angolanos. Portanto, no romance, não é evidente apenas a memória individual, mas, também, a coletiva. De forma aconfirmar a relação da memória individual com a memória coletiva, Maurice Halbwachs (2013) defende que a memória individual é construída sob o ponto de vista da memória coletiva, já que não é possível se desvincular das lembranças e das referências do grupo do qual se faz parte. Como principal embasamento teórico para os estudos da memória os livros utilizados serão: A memória coletiva (1990), de Maurice Halbwachs, História e Memória (2013), de Jacques Le Goff, A memória, a história, o esquecimento, de Paul Ricoeur e História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes (2013), de Márcio Seligmann-Silva. O amor trovadoresco presente no livro Meu glorioso pecado, de Gilka Machado Jéssica Thais Loiola Soares (IFC) A poeta Gilka Machado é tradicionalmente reconhecida pelos elementos simbolistas de sua obra, bem como pela força insubmissa de sua voz nos poemas em que reflete acerca da situação feminina na sociedade em que vivia, reivindicando os direitos da mulher. Embora tenha nascido no final do século XIX, é uma artista do século XX, e, como tal, apresenta inovações e acréscimos à poesia de cunho simbolista. Ademais, muitos de seus poemas revelam traços ABRAPLIP 2017 106 do modo de amar da aristocracia da Idade Média Central, na Península Ibérica, bem como do modo de amar do campesinato de mesma época e local, representados literariamente nas cantigas de amor e de amigo trovadorescas, respectivamente. Tais características são encontradas, sobretudo, em seu livro Meu glorioso pecado, publicado inicialmente em 1918. Essa obra apresenta uma mulher tomada pelo amor incondicional, porém impossível e, por isso, sofrido, dedicado ao homem por quem é apaixonada, de forma semelhante à maneira de amar registrada pelos trovadores medievais. Todavia, apesar de apresentar esses resíduos da literatura portuguesa medieval, a obra de Gilka Machado reveste-se de uma roupagem própria, revelando elementos sensuais e, muitas vezes, não servis, em direção ao ser amado. Dessa forma, usa os aspectos medievais ao seu próprio modo. Sendo assim, as literaturas portuguesa e brasileira mostram sempre ter tido – e continuar tendo – ampla e mútua influência. Para chegar a essa conclusão na poesia de Gilka Machado, tomaremos como base a Teoria da Residualidade (PONTES, 1999), segundo a qual não há nada novo em termos de cultura e literatura, pois estas se hibridizam com o passar do tempo e adaptam-se à nova realidade, sempre mantendo em si resíduos de tempos e espaços outros. O Verbo se fez arte: a Retórica Antiga na oratória de Antônio Vieira e de Dom Aquino Corrêa Jildonei Lazzaretti (UFSM) Este trabalho desenvolve uma análise comparativa da oratória de padre Antônio Vieira e de Dom Aquino Corrêa, observando que tanto os sermões do jesuíta como os discursos do salesiano utilizam-se de mecanismos da Retórica Antiga, compreendida como a arte da oratória dos antigos gregos e latinos, a qual se consolidou fundamentalmente a partir de Aristóteles, Cícero e Quintiliano. Neste estudo, são analisados cinco sermões de Vieira – Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640), Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma (1649), Sermão da Primeira Dominga da Quaresma (1653), Sermão do Bom Ladrão (1655) e o Sermão da Sexagésima (1655) – e cinco discursos de Dom Aquino – Noiva dos sábios (1910), Bispo e Presidente de Estado (1917), Meus ideais literários (1927), Ciência e fé (1936) e Política das Árvores (1951). A partir de Barthes (1975), Reyes (1961), Hansen (1978, 2006), Mendes (1989), Pécora (1994) e Saraiva (1980), observa-se como a Retórica Antiga se constituiu historicamente, e como permaneceu na formação eclesiástica, sendo associada à hermenêutica cristã. Na análise dos recursos retóricos dos dois oradores, percebe-se que ambos buscavam a persuasão de seus ouvintes considerando-os como destinatários da salvação, mas também como indivíduos inseridos em determinada ordem social e política. Nesse sentido, tanto Vieira como Aquino, por meio de uma retórica hermenêutica, exerceram papéis fundamentais em suas épocas: o primeiro como oráculo da Restauração da Coroa Portuguesa, e o segundo como porta- voz da construção da identidade mato-grossense. ABRAPLIP 2017 107 A maçã que é só de Eva: Lisboa nas cantigas trovadorescas, ou, mulheres sem rosto no rosto da cidade João Felipe Barbosa Borges (UFJF/IFF) Desde a década de 1990, é crescente o interesse acadêmico sobre a cidade, tanto por parte de governantes, arquitetos, historiadores, geógrafos, cientistas sociais, e até por nós, da ciência da literatura, que tendemos analisar as representações textuais/discursivas do espaço urbano. Quando se considera, no entanto, no cerne da questão, a presença feminina na representação deste espaço, nos deparamos com uma verdadeira ausência de estudos que investiguem sobre o papel da mulher na cidade, sobretudo em textos literários anteriores ao século XIX. Nesse sentido, tenho por interesse, nesta comunicação, investigar sob que formas, através de que canais, e em meio a que discursos, a mulher e a cidade de Lisboa se entrecruzaram na representação literária do espaço urbano presente na poesia medieval, especificamente a dos Cancioneiros galego-portugueses (datáveis de cerca de 1200 a 1350). Tão logo, porém, cumpre ressaltar, que em razão da ausência, no âmbito da historiografia literária, de registros textuais de autoria feminina nesse período, somos obrigados a olhar para este entrecruzamento a partir do espelho masculino, o que, antes de se apresentar como um problema intransponível para análise, incita-nos a uma reflexão desconfiada e problematizadora, ao nos deparar com uma associação da mulher e de Lisboa, ao corpo, ao desejo, às emoções, configurando um espaço de vício e pecado que muito longe estará da representação idílica e masculina da cidade, que nos séculos seguintes predominará. O Amor Irônico nas crônicas As Coisas da Vida e Espero por ti no meio das gaivotas, de António Lobo Antunes Joelma Lôbo Junqueira Trajano (UEFS) A disforia está presente na obra de António Lobo Antunes. Frequentemente, as personagens são descritas, nos textos desse escritor, como pessoas solitárias (mesmo as casadas), infelizes, em conflito de identidade, desiludidas ou amarguradas com as instituições, incluindo a familiar. Refletindo sobre as relações conjugais desses sujeitos, neste trabalho, nos concentraremos em demonstrar o enfoque “desestruturante” que António Lobo Antunes, ironicamente, dá ao amor nas relações homem-mulher nas crônicas As coisas da vida e Espero por ti no meio das gaivotas. Como embasamento teórico acerca do amor, utilizaremos, principalmente, os estudos de Rougemont (1988), para o teórico, ainda que muito debatida, a temática do amor não se esgota, e Zygmunt Bauman (1925), cuja abordagem reflete a ótica dos valores contemporâneos. Os estudos de María Luisa Blanco (2002), Ana Paula Arnaut ABRAPLIP 2017 108 (2009) e Tércia Costa Valverde (2009) ampararão nosso entendimento da obra antuniana. Para a compreensão de Ironia e seus usos, nos basearemos nos conceitos das pesquisadoras Linda Hutcheon (2000) e Lélia Duarte (2006) que a definem como “forma séria do riso” e narrativa que explora a ambiguidade, em busca dos resultados desejados. “A mesma história tantas vezes lifa”: as mi(s)tificações de Florbela Espanca Jonas Jefferson de Souza Leite (UEPB) Florbela Espanca, em vida, não conseguiu atingir o público leitor português: publicou, às suas expensas, dois livros de poesias, mas sem grande impacto no espaço literário da época e teve uma tímida participação em jornais e suplementos literários, geralmente, com uma aceitação negativa por parte da crítica literária. Depois de sua morte, em 1930, a artista passou a ser lida, justamente por uma campanha de marketing pelo professor italiano Guido Battelli, mediante uma associação muito direta entre vida e obra, em um movimentoem que os leitores poderiam buscar as pistas na poética da escritora para, de alguma forma, “compreender” os múltiplos aspectos biográficos que intrigaram a sociedade portuguesa do início do século XX. Nessa mecânica, para potencializar a avidez dos leitores, Battelli manipulou dados biográficos e literários no afã de obter mais lucro com as sucessivas edições que saíam dos livros de Florbela. A partir desse cenário, diversas versões sobre a vida da poetisa começaram a circular, acarretando mi(s)tificações de toda sorte, erigindo um patamar de poeta-mito para essa autora na história da Literatura Portuguesa. Assim, pela ação do professor italiano, os primeiros contornos das apropriações da biografia de Florbela foram estabelecidos. É possível que tal visão tenha se estendido às leituras biográficas que se sucederam, dentro de um panorama onde tais contornos podem ser redesenhados e a história mítica retroalimentada. Dessa maneira, o presente estudo objetiva compreender o percurso de mi(s)tificação da escritora, num processo de transformá-la em personagem literária, figurando dentro da sua própria biografia, em diferentes gêneros literários e com pontos de vista vários. A morte sob a perspectiva do Absurdo em A desumanização de Walter Hugo Mãe Jope Leão Lobo (UTFPR) O objetivo deste trabalho é demonstrar diferentes visões da morte em A desumanização, de Walter Hugo Mãe. Para se cumprir o proposto, foram analisadas as mortes das personagens Einar, Halla e Sigrudur, da obra mencionada anteriormente. O recorte teórico que pauta tal análise é a das possíveis relações entre a morte e suas tipologias, desenvolvidas por Phillip Ariés, e as reflexões advindas da filosofia sobre o absurdo. A fundamentação ABRAPLIP 2017 109 teórica principal utilizada para análise foi O desespero humano, de S. Kierkegaard, O mito de Sísifo, de A. Camus, e O homem diante da morte, de P. Ariés. Com isso se espera demonstrar a morte como escapatória de um mundo contraditório e Absurdo, mesmo quando vista em diferentes perspectivas. Natália Correia e a (sua) poética do escárnio e do maldizer Jorge Vicente Valentim (UFSCar) O presente trabalho tem como objetivo propor uma leitura de Uma estátua para Herodes (1974) e Poemas a rebate (1975), da escritora portuguesa Natália Correia, escritos à sombra e ao redor do calor da Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974. Profunda conhecedora da tradição ibérica medieval, a autora em foco destila uma poética irreverente e irônica, marcada pelo escárnio e pelo maldizer, nos mais diversos gêneros que compõem a sua obra. Partindo, portanto, de um ensaio e de uma coletânea de poemas censurados em livros anteriores e recolhidos posteriormente, esta comunicação propõe uma leitura do modus operandi da escrita nataliana, sublinhando este traço criativo como uma espécie de diálogo intertextual com a própria tradição portuguesa, revisitada por ela. Funcionalidade da paródia na escrita teatral de Camilo Castelo Branco José Cândido de Oliveira Martins (UCP/CEFH) Numa variedade e ambiguidade assumidas, o teatro de Camilo Castelo Branco contempla a sentimentalidade passional do drama histórico e do melodrama, por um lado; e, por outro, é também um exemplo paradigmático de sátira e de paródia, oscilando assim “entre a lágrima e o sarcasmo”(Jorge de Sena). Esta segunda dimensão é particularmente visível em duas “comédias” ou farsas, bastante populares da sua produção dramática, desde a sua recepção coeva: O Morgado de Fafe em Lisboa (1861); e O Morgado de Fafe Amoroso (1865). De facto, num processo similar ao realizado em algumas narrativas ficcionais, Camilo opera uma significativa investida parodística, tendo como alvo privilegiado a cómica desmistificação de algumas convenções estético- literárias românticas e ultra-românticas, mas também de alguns valores e costumes subjacentes. Numa época de grandes transformações sócio- culturais e a pretexto do tema do casamento, o dramaturgo mostra aguda consciência crítica do esgotamento de alguns códigos e tópicos da literatura contemporânea, num permanente debate entre a retórica idealista do romantismo e o pragmatismo materialista dos novos tempos. ABRAPLIP 2017 110 Orientalismos do romance histórico português oitocentista José Carvalho Vanzelli (USP/FAPESP) Desde “Três Meses em Calecut – Primeira crônica dos Estados das Índias”, presente no 2º Tomo de Lendas e Narrativas (1851), de Alexandre Herculano a A Estrela de Nagasáqui (1923) de Campos Júnior, por inúmeras vezes o Oriente, suas terras e seus habitantes foram representados nas narrativas históricas portuguesas. Essas representações se intensificaram nas últimas décadas do século XIX, com as comemorações do III Centenário da morte de Camões (1880) e do IV Centenário da chegada de Vasco da Gama às Índias (1898). Apesar do caráter nacionalista dessas comemorações, as imagens e representações do Oriente no romance histórico português nem sempre foi instrumento de exaltação patriótica, tendo sido também um recurso crítico bastante eficaz. Para esta apresentação intencionamos debater, portanto, as diferentes formas de orientalismo presentes nas narrativas históricas de Portugal do século XIX. Como principais pilares para nosso estudo, utilizaremos os romances O Senhor do Paço de Ninães (1867), de Camilo Castelo Branco e A Descoberta da Índia contada por um marinheiro (1891), de Manuel Pinheiro Chagas, dois dos mais importantes escritores de sua época. As relações entre memória e história no romance português contemporâneo: uma leitura do testemunho e do trauma nas obras de Jorge Reis-Sá e Francisco Camacho José Luís Giovanoni Fornos (FURG) O objetivo da comunicação, intitulada As relações entre memória e história no romance português contemporâneo: uma leitura do testemunho e do trauma nas obras de Jorge Reis-Sá e Francisco Camacho é investigar as relações entre memória e história, considerando as categorias do testemunho e do trauma nos romances de Jorge Reis-Sá e Francisco Camacho. Para tal empreendimento analítico, recorre-se aos campos teóricos da historiografia, da psicanálise e da teoria da literatura, inserindo-os numa perspectiva política e sociológica. Dos entrelaçamentos previstos, são importantes a compreensão e a explicação dos processos sociais envolvendo sujeitos vinculados em distintos territórios, demarcados regional, nacional e globalmente. Entre os estudiosos que servem de base para o estudo, estão Paul Ricoeur, S. Freud, Márcio Seligmann-Silva, entre outros. ABRAPLIP 2017 111 Luz e sombras: metonímia(s) do desejo em A cura, de Pedro Eiras José Luiz Foureaux de Souza Júnior (UFOP) A presente comunicação faz uso das prerrogativas metodológicas da Literatura Comparada para sustentar a leitura do livro de Pedro Eiras, A cura. A proposta de abordagem busca articular os conceitos operacionais (desejo e inconsciente) da Psicanálise, para apresentar uma leitura do livro referido, partindo do pressuposto de que o modo metonímico de funcionamento da linguagem pode oferecer maior espectro de interpretação e análise da ficção de Pedro Eiras, sobretudo no embate que se desentola ao longo do relato ficcional do autor. Romantismo e Realismo Português no periódico oitocentista maranhense Ramalhete Josiane Oliveira Ferreira (UFMA) A presente comunicação se articula com as reflexões e debates do “Grupo de Estudos e de Pesquisa Literatura e Imprensa” (GEPELI/UFMA/FAPEMA/ CNPq) e traz resultados a respeito da presença do Romantismo e do Realismo Português na imprensa maranhense do século XIX, em especial, o periódico Ramalhete. Para a realização desta pesquisa, foram realizadas visitas ao acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite, em São Luís, e ao acervo digital da Biblioteca Nacional. Após reunir os exemplares, verificamos as questões historiográficas, analíticas, críticas e biográficas a respeito dos autores e das obras das estéticas romântica e realista de Portugal parapoder compreender o contexto de produção e publicação do período, observar a atuação dos autores portugueses na/para formação da literatura brasileira e, em especial, a maranhense; e também compreender como essas escolas literárias vindas de Portugal marcaram a formação identitária do maranhense. Propomos a instrumentalização e análise dos textos jornalísticos como fonte e objeto de pesquisa, pois o reconhecimento da imprensa, devido a sua introdução e difusão no Brasil desde o século XIX, ganhou o status de documento para uma parcela de estudiosos. Logo, o estudo da fonte jornalística permitiu ampliar os horizontes para novas reflexões e problemáticas nos conhecimentos sobre as sociedades do passado. Cesariny e seus precursores Julia Pinheiro Gomes (UFRJ) Nesta comunicação pretendemos levantar algumas questões relacionadas à ainda pouco explorada obra ensaística do poeta, pintor, tradutor e crítico português Mário Cesariny, a partir da antologia de textos críticos as mãos na ABRAPLIP 2017 112 água a cabeça no mar, publicado inicialmente em 1972 pela editora A Phala, e depois reeditado em 1985 e 2015 também pela Assírio & Alvim. Nos ensaios presentes neste livro, datados entre os anos de 1950 e 1977, a vocação crítica do autor surrealista, que ainda não foi alvo de estudos mais aprofundados, fica clara. Estes textos versam em sua maioria sobre autores ditos modernos, sejam eles portugueses (Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, etc.) ou estrangeiros (Emily Dickinson, Rimbaud, Ezra Pound, André Breton, etc.). Para este trabalho, selecionamos alguns ensaios do livro em questão nos quais o autor parece fundar a sua modernidade a partir da escrita sobre o outro. Apresentaremos, assim, um Cesariny que revela (e recusa) seus precursores através do controverso gênero ensaístico – fugindo muitas vezes, aliás, do lugar comum – e, consequentemente, dá chaves de leitura para sua própria poesia. Maria Peregrina de Sousa na imprensa portuguesa do século XIX Juliana de Souza Mariano (UERJ) Maria Peregrina de Sousa (1809-1894) participou ativamente da imprensa portuguesa de oitocentos. Estreou no Archivo Popular e colaborou em outros jornais, como Almanach das Lembranças, Almanach das Senhoras, Aurora, Braz Tisana, Grinalda, Lidador, Miscelanea Poetica, O panorama, Periódico dos Pobres no Porto, Pirata e Revista Universal Lisbonense. Nesta comunicação, analisaremos as personagens femininas nas narrativas “História de Adelaide” e “Falta de uma mãe”, publicadas no Archivo Popular em 1842 e 1843, respectivamente, e “Roberta ou a força da simpatia”, publicada no Periódico dos Pobres no Porto em 1848. Nosso objetivo é investigar, nesses textos, como o discurso do senso comum ora se confirma, ora é desestabilizado, e como algumas personagens poderiam contornar os interditos sociais. Pretende-se, portanto, discutir como a obra de Peregrina interpela a sociedade e como suas personagens femininas se inserem num mundo repleto de interditos. Ensaiando a própria escrita: Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago Juliana Morais Belo (UNICAMP) Em 1977, ao desistir da carreira de jornalista para dedicar-se exclusivamente ao ofício de escritor, José Saramago lança Manual de Pintura e Caligrafia, obra que traz na primeira edição o subtítulo “Ensaio de Romance” – o primeiro indício de uma escrita experimental, dado que no “ensaio de romance” há uma espécie de trocadilho com a palavra ensaio, sugerindo uma tentativa, um ensaio de um escritor estreante no gênero romance. Outra leitura diz respeito ao diálogo entre ensaio e ficção, visto que este aspecto é perceptível em duas obras saramaguianas: Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez. Aliás, os ABRAPLIP 2017 113 romances de Saramago surgem como manual, como memorial, como história, como anuário de incidência biografista, como cadernos, como evangelho ou como o já citado ensaio. Trata-se talvez, antes de tudo, chamar atenção para a própria escrita como ato e como multiplicidade de formas possíveis. No caso do Manual, trabalho artístico e narrador-personagem se desenvolvem e crescem ininterruptamente num processo que tem como consequência uma escrita autobiográfica e a pintura de um autorretrato – características observadas nos primeiros ensaios atribuídos ao filósofo Michel de Montaigne. Sendo assim, este trabalho propõe uma leitura de Manual de Pintura e Caligrafia como um romance de exercício ensaístico, visto que em diversas entrevistas o autor afirma ser mais um ensaísta que romancista e “que por não saber escrever ensaios, se limitou ao romance”. (SARAMAGO, 2001). O sentimento de pertencimento à nação através do discurso em a máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe Juliane Fernanda Kuhn de Castro (UFFS) Na presente comunicação, analiso como é representado o sentimento de pertencimento à nação e a construção de imagens acerca de Portugal em a máquina de fazer espanhóis (2010), de Valter Hugo Mãe. Último dos quatro livros que compõem a tetralogia das minúsculas, obras escritas em sua maioria em minúsculo, privilegiando o que o autor chama “a democracia do pensamento”, esse romance centra-se no processo de adaptação da personagem António Silva ao asilo em que foi internado após a morte de sua esposa. Acompanhamos como o personagem é atravessado por diferentes tradições, costumes e modos de ser português. Trata-se, conforme abordagem teórica de Stuart Hall, de identidades clivadas, atravessadas umas pelas outras, as quais vão tecendo uma ideia de pertencimento à nação que vai sendo questionado ao longo da trajetória do protagonista em sua convivência com os demais idosos. Com o passar dos dias do protagonista em sua nova casa, somos conduzidos a uma mudança ideológica da personagem, que deixa, aos poucos, de ser levado pelo discurso das esferas de poder e passa a contrariar seus valores, invertendo a hierarquia social dada. Nesse momento, é questionada a ideia de pertencimento à nacionalidade portuguesa. Mesmo com a delimitação de um espaço do “outro”, para aquele que está além das fronteiras geográficas e culturais, há uma constante relação entre este e o português que guarda traços de outrora, que tem orgulho da resistência ao regime salazarista, como António, que mesmo se revoltando contra essa época, é adepto do princípio de valorização da família. ABRAPLIP 2017 114 A comunidade cínica da revista Cão Celeste Julio Cesar Rodrigues Cattapan (UFF) Lançada em 2012, a revista portuguesa de poesia Cão Celeste, com direção de Manuel de Freitas e Inês Dias, vem se firmando como uma importante voz no cenário contemporâneo português das publicações literárias destinadas à poesia. A proposta da comunicação é apresentar como os colaboradores da revista formam uma comunidade de autores sediada em seu espaço gráfico-textual, estruturando-se de modo muito semelhante às comunidades tradicionais, calcadas numa identidade em comum e no compartilhamento dos mesmos valores, mundividência e ideais de convivialidade. Essa comunidade tem como eixo a defesa de valores herdados da filosofia cínica antiga, agora atualizados e adaptados à realidade contemporânea. Estabelece-se uma oposição entre a comunidade dos colaboradores da revista e a sociedade capitalista de mercado, retomando a oposição entre comunidade e sociedade que fundamenta as comunidades tradicionais. “Espírito de universalidade incerta”: Fernando Pessoa e os ultraístas espanhóis Karla Fernandes Cipreste (UFU) Os estudos de fôlego sobre as relações pessoais e artísticas que Fernando Pessoa estabeleceu com artistas e intelectuais espanhóis são muito recentes. Um dos maiores pesquisadores da literatura portuguesa na Espanha, o lusitanista Antonio Sáez Delgado, apresenta os três momentos mais importantes dessas relações, os quais foram responsáveis pela recepção, de início muito tímida, da obra de Pessoa no mundo hispânico. Para esta comunicação, pretende-se dar a conheceros três momentos estudados por Delgado; explicar o porquê do quase insucesso das primeiras articulações; e, principalmente, aprofundar uma reflexão sobre a primeira interlocução de Pessoa com artistas espanhóis, feita com os poetas ultraístas andaluzes. Desse contato, feito predominantemente por correspondência, pode-se refletir sobre as considerações de Pessoa em relação à política e à cultura ibéricas, à estética modernista e às concepções sobre o ocidental e o universal. Cecília Meireles e a Távola Redonda: a busca pelo graal da Poesia Karla Renata Mendes (UFAL) A revista Távola Redonda circulou em Portugal, entre 15 de janeiro de 1950 e julho de 1954, tendo David Mourão-Ferreira como um dos principais nome à sua frente. Esboçando uma reação ao neorrealismo, e ecoando discursos manifestados na antecessora revista Presença, reivindicava-se uma literatura ABRAPLIP 2017 115 pautada pela subjetividade e pela expressão individual do autor. Távola estabeleceu, assim, uma clara oposição aos neorrealistas que priorizavam uma poesia comprometida com seu momento histórico e social, ou seja, acima das nuances do “eu”. Nesse contexto, e, inserida no meio literário português, surge o nome de Cecília Meireles que integrou esse rol de poetas “acolhidos” com simpatia e, mais do que isso, admiração pelas páginas da Távola. O fascículo número doze, de 29 de fevereiro de 1952, publicou quatro poemas que apareceram com o título de “Poesias inéditas”, além de um texto crítico, “Cecília Meireles, acerca da sua poesia”, de autoria de David Mourão- Ferreira. Dessa forma, espera-se observar as forças motrizes da publicação e estabelecer os parâmetros que levaram a poeta brasileira a figurar na revista. Destacar-se-á também a importância de sua participação no periódico e o diálogo luso-brasileiro ali estabelecido. Freiras Poetisas Barrocas: representações do feminino em Adília Lopes e Paula Rêgo Katiane Martins (UNEB) Gabriela Fernandes (UFBA) Pretende-se nesse trabalho realizar uma leitura das representações do feminino em duas artistas contemporâneas portuguesas, a saber: Adília Lopes e Paula Rêgo. São cada vez mais crescentes as discussões acerca do papel social da mulher, dessa forma, faz-se necessário também analisar as representações do feminino nas artes, a partir da leitura de “poetisas fêmeas”, dando voz e visibilidade para as mulheres. A escolha por uma poeta e uma artista plástica se dá por percebermos proximidade entre ambas, especialmente no que concerne à quebra de paradigmas e estereótipos na representação do feminino, por tematizar situações polêmicas referentes a questões de gênero, além da multiplicidade do olhar. Analisaremos as obras das duas artistas sob uma perspectiva das interartes, aproximando poesia de artes plásticas sem hierarquizá-las. Digressividade e fragmentação em Camilo Castelo Branco Katrym Aline Bordinhão dos Santos (IFPR) Camilo Castelo Branco pode ser aproximado a diversas correntes de escrita por conta de sua vasta produção. Uma delas é a forma shandiana, proposta por Sérgio Paulo Rouanet no livro Riso e Melancolia. Neste trabalho pretendemos aprofundar como a digressividade e fragmentação, características dessa forma, ficam representadas em O que fazem mulheres e A brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco, no intuito de demonstrar como esses elementos são importantes na organização dos romances. Para isso, serão analisados trechos em que os narradores, intencionalmente, comentam sobre as interrupções ABRAPLIP 2017 116 a que se sujeitam as narrativas, demonstrando, portanto, a importância que questionar o próprio estatuto do romance assumiu na produção camiliana em algumas de suas obras. Graciliano Ramos, Branquinho da Fonseca e Luís Bernardo Honwana: um exercício comparativo em literaturas de língua portuguesa Keli Cristina Pacheco (UEPG) René Wellek no final de década de 1950 constatava a crise do comparatismo na literatura, no ensaio “A crise da literatura comparada”, o crítico, ainda contaminado por um método bastante científico de montagem argumentativa, em que descreve um problema, elabora um diagnóstico e receita uma cura, solicita aos pesquisadores, como um bom textualista, um retorno à literariedade. Das lições que lega, temos uma não redução da disciplina de literatura às balizas nacionais, já adotada em muitos currículos de Letras, e um pedido, aos estudiosos da área de literatura, de menos senso de propriedade, uma vez que Wellek acredita no olhar do não especialista como sendo fonte de uma possível sensibilidade e maior raio de ação, “cuja perspectiva mais ampla e discernimento mais agudo podem muito bem suprir anos de intensa dedicação” (1994, p. 116). Em muitos currículos, as disciplinas de literatura abandonaram o critério nacional, substituindo-o pelo critério linguístico, e a presença da língua portuguesa como língua oficial nos territórios passa, portanto, a ser ponto que une distintas literaturas e culturas, fazendo da prática comparatista um campo profícuo que possibilita a trabalho criativo do professor não-especialista em algumas dessas literaturas, ao menos. Mais recentemente, Alfredo de Mello (2016) visualiza que o estudo das literaturas africanas em língua portuguesa, em perspectiva comparada, desestabiliza o pressuposto de que a literatura é uma instituição criada na Europa, para o pesquisador, não há um centro de irradiação, há a revelação de outros roteiros que merecem ser estudados. Nessa perspectiva, sem procurar estabelecer um centro de influência, pretendemos realizar um exercício de literatura comparada que considere as linhas de poder das relações das personagens, do modo como recepcionaram paisagens históricas, ou ainda do modo como resistem a elas, para isso tomamos Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, Bandeira Preta (1957), de Branquinho da Fonseca e Nós matamos o cão tinhoso (1964), de Luís Bernardo Honwana, com a intenção de refletir principalmente sobre os temas da autoridade e do autoritarismo presente em seus enredos. ABRAPLIP 2017 117 As vozes moralizadoras em Claraboia, de José Saramago Kelly Gomes Cavalcante (UFAM) Neste trabalho analisarei o modo como o texto da obra Claraboia, sob um foco narrativo único, apresenta os relatos dos pensamentos dos personagens a favor de sua construção textual multifacetada. A possibilidade de percepção dos múltiplos pontos de vistas acerca das relações entre gêneros é entendida a partir do modo pelo qual o narrador trabalha esses relatos. Para isto, destaco questões teóricas como ironia, contraponto e discurso, instrumentos fundamentais para entender a estruturação da obra, neste estudo. A literatura contemporânea à deriva lança âncora na tradição: Uma Viagem à Índia e Os Lusíadas Kim Amaral Bueno (IFSUL/UFRGS) As quase quinhentas páginas de Uma Viagem à Índia (2010), do português Gonçalo M. Tavares, poetizam/narram as peripécias de Bloom, protagonista que se lança em viagem de Lisboa rumo à Índia com a finalidade de esquecer a tragédia que lhe acometera: o assassinato da mulher amada por ordem do pai e o assassinato do pai por ele mesmo premeditado como vingança. De matriz transtextual, a grande viagem operada na obra é sem dúvida aquela que percorre a tradição cultural do Ocidente, cujos empréstimos são verificáveis desde o nome do protagonista, Bloom (retomando a personagem de James Joyce, em Ulysses, que, por sua vez, remete-nos a personagem homérica da Odisseia, produzindo um circuito explícito no qual Uma Viagem à Índia é o motor hipotextual), atravessando a temática da viagem, tão cara ao universo lusófono, e chegando, com sua estrutura formal, a espelhar Os Lusíadas. A tarefa deste estudo será a de compreender em que concerne o hibridismo formal encarnado por esta forma poética na qual o texto se apresenta. A hipótese a ser desenvolvida é aquela que o compreende enquanto exemplar de um discurso épico contemporâneo, diferindo de uma compreensão clássicapor meio do gênero épico de viés aristotélico. A resistência, em Gonçalo M. Tavares, de um modelo considerado “morto” por pensadores modernos, e os dispositivos literários engendrados na subversão deste modelo de discurso “maior”, subvertem a estrutura da própria épica, possibilitando, por fim, ler Uma Viagem à Índia sob o viés de uma “literatura menor”, categoria desenvolvida por Deleuze & Guattari. ABRAPLIP 2017 118 Os autos de Gil Vicente e de Calderón de la Barca Laura de Oliveira Coradi (UFU) A Idade Medieval foi um período propício à Igreja, pois, segundo Heliodora (2008, p.33, apud FREITAS, 2014, p.7), “[...] o Cristianismo sentiu a necessidade de tornar o seu Deus conhecido através de cerimoniais”. [...] (p.7). Assim, um gênero dramático ganhou fortuna nessa época, o chamado Auto, originado na Espanha. A palavra Auto, em latim, significa actus, a saber, acçom num só acto, de acordo com Cornide (2000, p.103). Neste gênero, podemos identificar dois subgêneros: o Auto e o Auto Sacramental. Segundo Davis (1996, p.55), o primeiro diz respeito a episódios bíblicos, interpretados de forma satírica; e o segundo, a obras religiosas que tratam de temas teológicos e morais. Quando à influência cristã nesse gênero, o eixo temático que o compõe é a moralidade, a qual muitas vezes vem acompanhada de uma escrita satírica. Nesse sentido, elegemos dois autores de Autos e suas respectivas obras: o português Gil Vicente, com a obra Auto da Barca do Inferno, e Calderón de la Barca, com a obra Lo que va del hombre a Dios. Esses dois autores possuem similaridade no que diz respeito ao gênero de suas obras, mas se diferenciam no que tange ao conteúdo. Em Calderón, seus Autos Sacramentais destacam-se por estarem fomentadas no ritual da Eucaristia, caracterizando-se como representações missais. Por outro lado, Gil Vicente coloca a sua dramatização ao meio a um julgamento, a saber, o juízo final cristão. Ademais, Calderón não se utiliza da comédia em seus Autos Sacramentais, enquanto que Vicente apresenta uma linguagem satírica e, inclusive, escrachada. Portanto, neste trabalho apresentar as principais diferenças entre essas obras, no que concerne à alegoria e à temática do sacrifício como expiação das faltas. A máquina de fazer moribundos: envelhecer e morrer como outsider em A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe Leandro Francisco de Paula (UFPR) A solidão e a morte são pontos centrais em A máquina de fazer espanhóis, do escritor português Valter Hugo Mãe. A respeito do assunto, Norbert Elias, sociólogo alemão, em A solidão dos moribundos, percebe como os processos históricos que levaram o Ocidente a se afastar cada vez mais da morte se consolidam. Para ele, as sociedades contemporâneas ocidentais temem a morte e deixam os idosos à sua margem, transformando-os em outsiders frente ao establishment dos jovens saudáveis. Isolando os idosos, os saudáveis tentam esquecer que também são mortais e que podem um dia chegar também à condição semelhante à deles, os moribundos. Cabem, portanto, aos outsiders a exclusão em sanatórios e asilos. Lá, nos novos espaços de convívio, criam laços de interdependência com indivíduos estranhos à sua vida anterior à velhice e à doença (ELIAS, 2001). Em A máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe conta-nos sobre a vida de António Jorge da Silva, antigo barbeiro, ABRAPLIP 2017 119 que foi parar no asilo Feliz Idade após a morte de sua mulher. Aos 84 anos, Silva é um outsider que viveu sob regime salazarista. Ele é um idoso arrependido com as escolhas do passado e que não vê possibilidade de redenção. Naquele espaço de isolamento, cria rede de interdependências e muda seu habitus social aos poucos, convivendo com outros outsiders como ele. Nossa proposta na presente comunicação é analisar a obra do autor português sob uma perspectiva que una a história, a sociologia e a análise literária, tendo como base teórica a abordagem analítica de Norbert Elias. O protagonismo histórico em O Arco de Sant´Ana de Almeida Garrett Leonardo de Atayde Pereira (USP) O autor português Almeida Garrett, figura notória da intelectualidade portuguesa durante os anos de formação do pensamento romântico e liberal em Portugal, produziu, nessa época, uma série de escritos de temas bastante amplos, que iam de reflexões políticas a experiências literárias. Um exemplo desse alcance reflexivo e criativo de Garrett pode ser verificado no seu romance histórico O Arco de Sant´Ana, publicado em dois momentos, 1845 (Tomo I) e 1850 (Tomo II). Esse romance, que veio a lume na sociedade portuguesa numa época de introdução e cultivo do gênero do romance histórico promovido por Alexandre Herculano por meio de jornais e revistas, ao mesmo tempo dialoga com algumas questões de ordem histórica presentes na própria prosa de Garrett, em especial com o seu trabalho Da Educação, e com as interpretações historiográficas feitas por Herculano acerca do passado medieval português. Com base nessa ideia, a presente comunicação tem por objetivos identificar e analisar essa intrínseca relação existente entre os escritos produzidos por Garrett, tendo como ponto de referência O Arco de Sant´Ana, e revelar uma possível similaridade entre Alexandre Herculano e Almeida Garrett na forma de redimensionar a Idade Média portuguesa e alguns de seus protagonistas, como os monarcas D. Afonso I e D. Pedro I. Romantismo e Realismo Português no periódico maranhense O Artista Leonardo Rodrigo de Oliveira Ferreira (PIBIC/UFMA) O projeto de pesquisa em questão se articula com as reflexões e debates do “Grupo de Estudos e de Pesquisa Literatura e Imprensa” (GEPELI/UFMA/ FAPEMA/CNPq), o qual iniciou suas atividades em setembro de 2015, pela Coordenação de Letras, do Campus Universitário Bacabal, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), propondo pesquisas de campo e visitas aos acervos de fonte primárias em busca de documentos que trazem à baila aspectos literários, linguísticos, históricos, sociais e culturais do Maranhão ABRAPLIP 2017 120 do século XIX para catalogação, análise e divulgação no acervo digital local. Para esta comunicação apresentamos a presença do Romantismo e do Realismo Português no periódico oitocentista do Maranhão intitulado O Artista. Para a realização desta pesquisa foram realizadas visitas ao acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite, em São Luís, e ao acervo digital da Biblioteca Nacional. Após reunir os exemplares, verificamos as questões historiográficas, analíticas, críticas e biográficas a respeito dos autores e das obras da estética romântica e realista de Portugal para poder compreender o contexto de produção e publicação do periódico. Ademais, observamos a atuação dos autores portugueses na/para formação da literatura brasileira e, em especial, a maranhense, e também como essas escolas literárias vinda de Portugal marcaram a formação identitária do maranhense. Propomos a instrumentalização e análise de textos jornalísticos como fonte e objeto de pesquisa, já que desde o século XIX é um importante instrumento difusor da cultura e da literatura. Além disso, o periódico ganhou status de documento e o estudo da fonte jornalística permitiu ampliar os horizontes para novas reflexões e problemáticas nos conhecimentos sobre o passado literário no país. O resultado da pesquisa será a elaboração de um corpus inédito - um conjunto/recolha/recortes de textos sobre o objeto de estudo - cuja análise, deverá contribuir quer para a análise e interpretação das obras românticas e realistas portuguesas, quer para a sistematização do acervo jornalístico maranhense pelo GEPELI. O herói português: Da ascensão histórica ao firmamento do mito como produtor de identidade nacional Letícia de Oliveira Galvão (UEPG) Ao observar as diversas maneiras com que a história portuguesa tomou forma nas mãos dos grandes autores procura-se promover o (re) pensar sobre a constituição do ser português, buscando-se investigarde que forma a literatura contribuiu para a perpetuação da História nacional através do uso do mito como referência, promovendo então a análise da progressão do sentimento de pertencimento e a construção de identidade a partir da trajetória dos heróis deste país. Ao se tratar de mito, a importância da ficcionalização da História para se enraizar a glória dos grandes nomes de Portugal é tema dos estudos apresentados em Mitologia da Saudade: seguindo de Portugal como destino, de autoria de Eduardo Lourenço, onde se discute a relação entre os mitos e as narrativas históricas e como isto se tornou alicerce para a construção da glória portuguesa. Neste caso, esta obra será utilizada como base para analisar o Mito Sebastianista e o Mito de Inesiano, onde se dará ênfase na forma em que eles surgem no meio literário através de autores como Camões, Pessoa e Garrett, e como isto influi no orgulho dos portugueses frente a sua própria realidade. Por fim, espera-se contribuir para o reconhecimento da importância do mito como elemento fundamental para a sobrevivência da memória nacional ABRAPLIP 2017 121 mostrando assim, a relação evidente entre realidade e ficção. A Revolução dos Cravos pela ótica do testemunho Licia Rebelo de Oliveira Matos (UFRJ) Na fronteira entre a memória e o esquecimento residem a linguagem e sua capacidade de narrar fatos históricos, mas não só na história propriamente dita registram-se os acontecimentos que se quer relembrar. Por exemplo, Portugal das navegações e conquistas tem seus heróis dos mares eternizados em diversos textos, dentre os quais o mais importante não é historiográfico, mas literário: a viagem marítima e poética d’Os lusíadas. De forma semelhante à proposta do épico, existem, na ficção contemporânea, obras que trazem de volta ao presente a Revolução dos Cravos, marco da história portuguesa recente, do qual resta um grande número de sobreviventes. Trata-se de vozes ainda sonantes, que podem contar a seu próprio modo suas versões do que aconteceu em 1974. No romance Os memoráveis (2014), Lídia Jorge apresenta uma retomada do 25 de Abril por essa rica via do testemunho, com base em personagens fictícios que, tendo participado do episódio, concedem entrevistas a uma equipe de reportagem 30 anos após a revolução. Jorge passeia, portanto, por esse tenso limiar entre a história e a narrativa em primeira pessoa, assunto que pretendo abordar em minha pesquisa de doutorado. Quem são os sujeitos da história, o que a memória atual retém do passado e o que resta, ainda, por contar são alguns dos questionamentos que tenciono desenvolver nesse estudo em fase inicial. Ensino de Literatura Portuguesa na Graduação: Experiências na formação de professores por meio das novas tecnologias Lígia Regina Máximo Cavalari Menna (UNIP) Simone de Almeida e Silva (UNIP) Em um processo de formação contínua do profissional de Letras, é imprescindível que haja uma maior reflexão sobre o ensino de literatura aliado às novas Tecnologias da Informação e Comunicação (Tics), observando-se as práticas cotidianas, tanto no período da graduação, quanto no percurso docente. A partir dessa demanda, esta comunicação objetiva apresentar nossas experiências enquanto professoras de Literatura Portuguesa na graduação e pós-graduação, formando professores, que, em sua maioria, dominam o mundo digital e suas especificidades e já se deparam com alunos nativos digitais. Por meio de multiletramentos, procuramos conciliar tradição à modernidade, estabelecendo relações entre a literatura portuguesa a outras literaturas , outras artes e outras linguagens, intentando tornar o processo de ensino-aprendizagem o mais significativo possível. ABRAPLIP 2017 122 Sobre rastos e ruínas: uma leitura comparada de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes, e Tristano muore, de Antonio Tabucchi Luca Fazzini (PUC-Rio) Muito do interesse que o estudo da Literatura Portuguesa recebe hoje em Itália, deve-se ao trabalho crítico e de tradução desenvolvido por Antonio Tabucchi ‒ estudioso e tradutor para o italiano, entre outros, da obra de Fernando Pessoa. Juntamente com essa contribuição inteletual, é também através dos seus romances de ambientação “lusitana”, como Afirma Pereira, e Requiem: uma alucinação (o único livro que Tabucchi terá escrito em português), que espaços e momentos da cultura portuguesa foram conhecidos pelos leitores italianos. Se, por um lado, Antonio Tabucchi é portanto uma figura fundamental para o estudo crítico, na Itália, da literatura portuguesa, considerando o inteiro corpus da sua produção literária, por outro lado é possível afirmar que tanto a própria literatura portuguesa quanto a história mais recente de Portugal constituíram uma importante base de reflexão para a sua escrita. Neste sentido, através de uma leitura comparada dos romances de Tabucchi com algumas obras da literatura portuguesa contemporânea, seria possível estabelecer um produtivo diálogo que tente abordar questões relevantes do imaginário coletivo português, na vertente literária. É a partir dessas considerações que, com a minha comunicação, pretendo oferecer uma leitura comparada dos romances Os cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes, e Tristano Muore (2004), de Antonio Tabucchi. Ambas as obras, representando ou encenando o momento da perda e do trauma – o relativo à Segunda Guerra Mundial e ao pós-guerra, em Tabucchi, e o da Guerra Colonial, em Lobo Antunes –, solicitam uma mais ampla reflexão sobre a construção da memória pela escrita e sobre a relação entre esta e as violências da guerra. A Presença e a Natureza do Fantástico nos Contos, de Eça de Queirós Lucas do Prado Freitas (UEL) Este trabalho, resultante do projeto de pesquisa de Iniciação Cientifica que desenvolvi, tem como objetivo analisar, comparativamente, algumas das narrativas escritas e apresentadas ao público entre 1874 e 1898, por Eça de Queirós, e que compõem a coletânea intitulada Contos, organizada e publicada, postumamente, por Luís de Magalhães, em 1902. Nesses textos, existe um manifesto e um permanente deslizamento entre o sobrenatural e o real, o que configura uma dinâmica de afastamento e aproximação relativamente aos pressupostos positivistas do século XIX. Portanto, a nossa análise se dará a partir da concepção de fantástico como “impureza escorregadia”, sustentada por Maria do Carmo Castelo Branco de Siqueira, em A Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queiroz. ABRAPLIP 2017 123 Cartilha do Marialva e leituras afins Lucia Maria Moutinho Ribeiro (UFRJ) No ensaio pioneiro Cartilha do Marialva, de 1969, em defesa da mulher, seja esta personagem de ficção ou não, José Cardoso Pires, inspirado na figura do Marquês de Marialva, analisa a sociedade portuguesa sob um enfoque feminista. Faz-se necessário, pois, manter vigilância permanente sobre a questão. A propósito desta, examinar-se-ão o desempenho e alguns sonetos de autoras portuguesas, como Sóror Violante do Céu, Marquesa de Alorna e Florbela Espanca, colhidos na antologia de Cleonice Berardinelli, Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa, entre outras personagens célebres. A imagem das soldadeiras na lírica medieval galego- portuguesa Lucía Sande Siaba (UdC) As opções de vida das mulheres na Idade Média reduziam-se ao casamento e a maternidade, a consagração a Deus nos conventos ou a marginalidade. Pertencer ao último grupo implicava se submeter a uma enorme discriminação social impulsionada pela Igreja, difusora de dois estereótipos opostos que dominaram a visão sobre o sexo feminino: a virgem Maria, encarnação de toda bondade, e Eva, a razão da expulsão do paraíso, e por tanto, de todos os males da humanidade. Essa dicotomia entre o bem e o mal também se encontra refletida na imagem da mulher exposta nas cantigas de tema amoroso e a mulher pecadora das cantigas de escánio. As soldadeiras representam muito bem o segundo tipo de mulheres comuma vida afastada do caminho moral ditado pela Igreja, o que as converteu em alvo de inúmeros chistes nas cantigas medievais. Ao longo deste trabalho tentaremos oferecer uma visão panorâmica que encontramos na lírica medieval galego-portuguesa. Para isto, buscaremos, entre as 43 cantigas, que segundo G. Videira Lopes, tratam o tema das soldadeiras, as características que lhes são atribuídas com maior frequência, tanto a nível físico como psicológico, obtendo assim o “contra- retrato” cortês que implicitamente condena a vida dissoluta destas mulheres. Matizes do fantástico: a construção da personagem nos vieses do insólito Luciana Morais da Silva (UERJ/Universidade de Coimbra) As narrativas ficcionais construídas sob a égide do fantástico vêm, em geral, sendo estudadas por diversos matizes e, em certo sentido, configurações existentes no processo histórico de formação desse discurso. Com isso, demonstra-se, em certo sentido, um posicionamento acerca dos ABRAPLIP 2017 124 procedimentos empregados nas leituras a serem realizadas na presente discussão. Pretende-se analisar as estratégias de composição da personagem ficcional “Andrade da Lua”, na obra Casos do Beco das Sardinheiras (1991), do escritor português Mário de Carvalho, demonstrando o modo como esse autor lança mão de ausências significativas na estrutura textual para formular situações conflituosas. Ao fazer isso, o escritor vai pouco a pouco tecendo as estruturas de suas personagens, tão ou mais insólitas que o Beco habitado. Nos mundos possíveis ficcionais construídos pelo escritor português, o leitor é submetido, como o próprio autor enuncia no prefácio brasileiro de sua publicação (CARVALHO, 2008), em um aparentemente comum, corriqueiro, porém habitado por “seres” extraordinários e por histórias “fantásticas”, marcadas, ambos, pela consciência de pertença a um lugar. Com isso, a narrativa de Mário de Carvalho, além de cerzir-se pelos muitos fragmentos de suas personagens, molda-se pelo discurso de pertença formulado por entidades conscientes da simplicidade, porém grandeza, de seu Beco dentre tantos outros Becos. Almeida Garrett relê Notre Dame de Paris, de Victor Hugo: O Arco de Sant’Ana e a experiência das massas Luciene Marie Pavanelo (UNESP) Com o sucesso de seu romance Notre Dame de Paris (1831), Victor Hugo foi responsável pela popularização de um outro tipo de narrativa histórica, diferente do modelo criado por Walter Scott. Definido por Maria Helena Santana (2007) como um “romance histórico heterodoxo”, O Arco de Sant’Ana (1845-1851), de Almeida Garrett, possui muitos pontos de contato com a obra de Hugo, reconhecidos pelo próprio escritor de Viagens na Minha Terra. Um desses pontos que nos chama a atenção é a representação da experiência das massas, aparentemente similar nos dois romances, mas profundamente distinta, o que mostraria a diferença de perspectivas políticas dos dois autores. É nosso objetivo, nesse sentido, analisar a recuperação temática e estilística que Garrett promove do romance de Hugo, a fim de compreender as suas especificidades no contexto português. Natália: uma tentativa de escapar do ontem, um diário para o esquecimento? Ludovico Omar Bernardi (UEM) Este estudo tem por foco o romance Natália, de Helder Macedo, espécie de compêndio psicanalítico e literário, que favorece a opção teórica de uma leitura memorialística. A obra é-nos narrada pela personagem homônima ao título do livro, em forma de diário íntimo, no ínterim 2000 a 2003, tratando- se de um treino de escrita, já que se trata de um possível romance que ela própria, Natália, pudesse um dia vir a escrever, porém que, no nível do narrado, ABRAPLIP 2017 125 nunca se concretiza. Em Natália a coisa não está escondida no diário, ela é o próprio diário, tratando-se este de uma falsa atividade, ou seja, a narradora não age somente para mudar alguma coisa, ela age para impedir que alguma coisa aconteça, de modo que nada venha a mudar. Nesse sentido, materializa no artefato diário a verdade de sua postura paranoica: ela é a trama destrutiva contra a qual está lutando, residindo todo esse logro em nossa incapacidade de incluir na lista de suspeitos a ideia de desconfiança. Isso porque não devemos esquecer de incluir no conteúdo de um ato de comunicação o próprio ato, já que seu significado é também afirmar reflexivamente que ele é um ato de comunicação. Portugal, França e a recepção internacional de Guimarães Rosa Luís Bueno (UFPR) A partir de sugestão feita pelo livro recente de Joseph Rezek, London and the Making of Provincial Literature, que estuda o papel das editoras londrinas na difusão de autores “das províncias” como Walter Scott e Fenimore Cooper, este trabalho investiga a presença editorial em Portugal de um dos mais importantes autores brasileiros do século XX, Guimarães Rosa. A seguir, traça uma comparação com a sua presença num mercado editorial de grande potencial de difusão de uma autor não-europeu com o francês. Uma aproximação de paixão e aprendizagem às canções de Camões Luis Maffei (UFF/FAPERJ) No universo da lírica camoniana, as dez canções encerram um universo peculiar. A especificidade da forma fixa permite, e no limite, impõe, poemas longos, caracterizados por uma música que altera versos decassílabos e hexassílabos, permissora de uma reflexividade cambiante. O gênero acolhe uma dicção experiente do poeta, o que faz das canções camonianas lugar privilegiado de paixão e aprendizagem. Uma voz exilada, em constante falta, num deslocamento fragmentado e lamentoso, experimenta dizer a melancolia e especular sobre poesia e linguagem enquanto reflete (sobre) a especial circunstância histórica de seu exílio e da sua necessidade de formulá- lo. A paixão do poeta, que recupera muito da simbologia do Cristo apaixonado, funde a indigência de um estado de desejo e perda à mais sábia ignorância, partilhando com o leitor uma fala em estado de desesperada herança e, como herança, aprendizagem. ABRAPLIP 2017 126 A construção do ethos camoniano por meio da análise das ilustrações contidas nas edições do Tricentenário do poeta no periódico O Occidente – Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro (1878-1915) Luiz Eduardo Rodrigues Amaro (UNESP) O Tricentenário de Camões (1880) foi um evento importante para os republicanos portugueses que, pela figura de Teófilo Braga, utilizaram o evento para divulgar sua ideologia. A revista O Occidente (1878-1915), pela figura do então editor Guilherme de Azevedo, percebeu esse uso e fez várias críticas no espaço intitulado Chronica Occidental, pois a revista era predominantemente monarquista. Apesar da crítica, ela abriu um amplo espaço para a cobertura do evento. Como a característica marcante e diferencial dela era a ilustração, percebemos a importância de analisar a narrativa contada por essa forma de expressão, utilizando a teoria de Bakhtin para revelar as ideologias e significações das ilustrações, o que colaborará para o entendimento das transformações sócio-políticas que o país passaria nas décadas subsequentes ao evento e reforçará a importância da Literatura Camoniana como forma de construção da própria nação portuguesa. Inefabilidade e impostura: o (não) dizer em questão no encontro de Maria Gabriela Llansol com São João da Cruz Luiz Fernando Queiroz Melques (USP) O poeta místico espanhol São João da Cruz (1542-1591) é convocado pela escrita de Maria Gabriela Llansol (1931-2008) para participar de uma comunidade textual ética e estética. Segundo a teologia negativa, as palavras não têm o poder de expressar em linguagem o conhecimento de sua doutrina, revelado, portanto, apenas na experiência do êxtase. Com isso, a extremamente sensorial poesia mística devia utilizar-se de alegorias para tornar linguagem o inefável encontro de Deus com a alma do fiel. Em O Livro das Comunidades (1977), São João da Cruz é referido, pela textualidade llansoliana, como “actor da palavra”, emum gesto performativo de partilha da autoria de uma obra que denuncia a “impostura” da língua. Em nossa comunicação, pretendemos, portanto, refletir sobre a dinâmica, suscitada no diálogo entre os dois escritores, entre o poder da língua e a língua atravessada pelo poder. ABRAPLIP 2017 127 Modernismos em língua portuguesa: revisão e despedida Madalena Vaz Pinto (UERJ/FFP) O fim da obrigatoriedade do ensino de literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum causou alvoroço. Um olhar mais atento, porém, verifica que não é só o ensino da literatura portuguesa que está em jogo, mas o ensino da literatura de forma abrangente. Mas o susto está dado e seus efeitos podem ser direcionados para repensar em que bases tal ensino deverá ser reivindicado. Será o momento de insistir na diferença de imagem que cada país – Portugal e Brasil – têm reciprocamente, ou de atualizar esse diagnóstico? O que a história dos modernismos português e brasileiro nos pode ainda dizer sobre a anterior construção da relação entre os dois países e a necessidade de sua atualização? A história da América portuguesa, de Rocha Pita: (des) conexões (pós)coloniais em rotas alteradas Manoel Barreto Júnior (UNEB) Aproximadamente três séculos transcorreram desde o ano de 1730, ano de publicação da História da América Portuguesa, de Sebastião da Rocha Pita. Com efeito, esta comunicação se fundamenta a partir do discurso narrativo que, a serviço das perspectivas interativas e comunicacionais dos leitores da obra, acaba por precipitar as contingências do imaginário e seus empenhos simbólicos. De tal modo, deve-se evidenciar que, quando se pondera sobre as práticas interativas junto ao discurso historiográfico na História da América Portuguesa, não se pretende limitar a textualidade da obra, que atuam pelos trânsitos de leituras. Antes disto, busca-se reafirmar o específico (por Rocha Pita) o plural (pelos colonos brasílicos), o particular (pelos portugueses) e o disperso, arregimentado, (pelos leitores contemporâneos), a evidenciar inúmeras possibilidades de leitura desta obra setecentista. Seja como for, cabe frisar que a argumentação desta investigação se retroalimenta através de leituras contextuais da obra - como matéria elementar. Sem, contudo, excluir a ambivalência narrativa que, filtrada pelo imaginário de Rocha Pita, (re)cria a América portuguesa, do século XVIII por infindas dimensões interpretativas, tão bem acolhidas, pelo viés da metaficção historiográfica. Assim exposto, é necessária a compreensão de que tanto os contemporâneos deste século XXI, quanto Sebastião da Rocha Pita não são meramente “autores” e/ou “ledores” do fluxo tempo-espacial, uma vez que sempre haverá a dependência de gerações precedentes, a fim de favorecer as (des)conexões dos sujeitos históricos e suas incríveis narrativas. ABRAPLIP 2017 128 Marcas do insólito no conto “A Morta” de Florbela Espanca Manuella Nogueira da Silva (UFAM) Este artigo tem como intuito analisar o conto “A Morta”, da autora portuguesa Florbela Espanca, por meio da linha teórica do Fantástico, o insólito. O trabalho tem por objetivo identificar como se dá o insólito dentro da narrativa, uma vez que um dos elementos que causam certa estranheza ao leitor ocorre por meio da morte, ou propriamente dita; a morta; Personagem ficcional. Neste conto podemos encontrar alguns elementos sobrenaturais, que de certa forma, infringem as leis naturais, criando rupturas no que se refere aos limites entre o real e o imaginário. Nele é relatada uma história de uma morta que é dotada de sentimentos e naturalmente levanta a tampa do caixão em busca do amado, dando seguimento há outros acontecimentos que fogem do real, a partir disto, será traçada uma análise dentro da narrativa que expressa constantemente um timbre de suspense, terror, gótico e de hesitação, decorrentes da morte. Sobre a característica da hesitação Todorov discorre em “Introdução à Literatura Fantástica”, que o fantástico é um gênero que depende da hesitação entre o real e o sobrenatural, inserindo a narrativa no terreno inexplicável, ou estranho, devido não existir uma explicação racional para o evento ocorrido na história. Nesse sentido, analisaremos as marcas do insólito no conto da autora portuguesa. Saberes cultivados na Baixa Idade Média entre Portugal e Castela Marcella Lopes Guimarães (UFPR) Essa comunicação parte do inventário da biblioteca do rei de Portugal D. Duarte (1391-1438), consignada no Livro dos Conselhos, para compreender a constituição do acervo do monarca. Além de comparar essa lista com outros acervos principescos de que temos notícia no Ocidente Tardo-Medieval, a comunicação ainda envereda pela apreciação das vozes de autoridade que perpassam as obras dos letrados ibéricos do contexto: como os Príncipes de Avis e os cronistas Pero López de Ayala, Fernão Lopes e o compilador Fernán Perez de Guzman. As pequenas memórias: notas sobre a escrita autobiográfica de José Saramago Marcelo Brito da Silva (UFMT) Este artigo propõe uma análise crítica do livro As pequenas memórias (2006), de José Saramago. Para tanto, adota como operador de leitura a definição de “pacto autobiográfico” formulada por Philippe Lejeune (2014), bem como ABRAPLIP 2017 129 aportes teóricos colhidos do pensamento de Clara Rocha (1977), em especial as condições definidoras da escrita autobiográfica, a saber, complexo de Narciso, desvio temporal e de identidade, autoconhecimento, extravasamento de emoções, doação do eu, desejo de absolvição e universalização da personagem. Busca transcender a mera inventariação de dados autobiográficos para compreender o processo de significação que tais condições operam na construção de uma imagem do autor. A Eternidade e O Desejo: experiência do espaço e representação do Brasil Marcelo Franz (UTFPR) O romance A Eternidade e O Desejo, de Inês Pedrosa é marcado pelo discurso intimista da protagonista Clara e pela sua imersão na memória pessoal, articulada com suas memórias de leitura. Em sua construção, o romance se nutre da remissão crítica aos textos literários com que dialoga, permitindo- se uma espécie de memorialismo leitor ao manipular sentidos e formas do que constitui a matéria da tradição literária e reprocessar (ou ressituar) entendimentos do que forma a memória de recepção de variadas formas textuais. Atentaremos para a complexa incorporação de elementos formais de romances de ambiente e de narrativas de viagem e os modos como esses formatos são problematizados no livro de Inês Pedrosa, ligando-se a ocorrências como a discussão sobre o Brasil, território físico, cultural e afetivo “decifrado” por uma visitante estrangeira a partir de sua leitura de textos de António Vieira. O olhar e o estilo do pregador jesuíta impregnam o modo de ela “ver” e “dizer” as descobertas do lugar por onde se desloca. A ficção dos Apólogos Dialogais de D. Francisco Manuel de Melo: considerações acerca de preceitos retóricos e poéticos Marcelo Lachat (UNIFAP) Neste trabalho, propõe-se uma discussão sobre a “ficção” dos Apólogos Dialogais de D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), tendo em vista preceptivas retóricas e poéticas adequadas às letras seiscentistas. Assim, pretende-se evidenciar que esses apólogos são ficções que se mostram, retórica e poeticamente, verossímeis, para deleite e desengano do mundo. ABRAPLIP 2017 130 Ensaio sobre a melancolia em “O cão de Dürer”, um conto de Maria João Cantinho Marcelo Pacheco Soares (IFRJ) Propõe-se leitura do conto “O cão de Dürer”, de Maria João Cantinho, publicado em 2006 em Caligrafia da Solidão, narrativa em que comparece, em explícito diálogo, a gravura Melencolia I, do renascentista alemão Albrecht Dürer, em que se alegoriza a melancolia. Há, além da menção do seu autor no título, várias evidências que corroboram a presença da gravura no conto, desde a personagem feminina semelhante à presença central da obra de Dürer até um cãode olhar perdido no infinito, ambas as aparições a sugerir, na imobilidade corporal, seu estado de espírito melancólico. Acreditamos haver ainda nesse conto possível referência à própria assinatura do artista renascentista, que usava um monograma para se identificar. Outra indicação reside no fato de a sua autora dedicar-se, paralelamente à produção literária, a trajetória acadêmica nos estudos filosóficos, tendo na obra de Walter Benjamin o seu principal corpus. Sendo a gravura düreriana em questão cara a Benjamin em Origem do Drama Barroco Alemão, parece-nos pertinente investigar aqui seu resultado, pois quiçá a motivação da escritura do conto seja decifrar as leituras para a gravura. Por isso, mais do que se encaminhar para o interior da imagem, o que o protagonista empreende é uma viagem para dentro de si mesmo, a fim de investigar os sentidos da obra em sua própria memória (daí que encontremos a imagem transformada em relação à sua matriz, decodificada pelas compreensões, ainda que imprecisas, que o herói do conto lhe lega). Nessa memória é que o personagem busca sua leitura da gravura düreriana, a partir da qual nós então produzimos nossa leitura de “O cão de Dürer”, conto que agencia assim uma re-significação de Melencolia I, atualizando, aliás, as próprias discussões de uma factível representação hodierna do conceito de melancolia. “Abro o caderno e escrevo que estou a escrever no caderno”: algumas considerações sobre Lugares comuns (2000), de João Luís Barreto Guimarães Marcelo Sandmann (UFPR) Lugares comuns, publicado em 2000, é o quarto livro do poeta João Luís Barreto Guimarães. Se se pode falar ainda em poesia (e o autor chama, de fato, “poema” ao tipo de texto que realiza), é uma “poesia” como aquela que encontramos em Pequenos Poemas em Prosa (O “Spleen” de Paris), de Charles Baudelaire, ou ainda no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, de onde, aliás, se extrai a epígrafe. No livro, o autor, frequentador regular de um café na cidade do Porto, observador agudo do que se passa ao redor, vai registrando o que observa e realizando reflexões sobre o observado e o processo de escrita. A presente comunicação propõe-se a realizar uma discussão sobre esses aspectos, bem como a construção do livro e o lugar que ele ocupa na obra do poeta. ABRAPLIP 2017 131 A Literatura Portuguesa na pós-graduação no Maranhão: a que passos anda? Márcia Manir Miguel Feitosa (UFMA) O objetivo dessa comunicação é suscitar, no âmbito da temática geral do evento, uma reflexão crítica em torno do ensino e da pesquisa em literatura portuguesa na pós-graduação no Maranhão, em particular em sua capital, São Luís. Tendo em vista o recente congresso internacional da ABRAPLIP realizado em 2011 e a afamada memória histórica de São Luís como a capital portuguesa por excelência, ainda que “fundada” por franceses, a que passos anda a Literatura Portuguesa no Mestrado em Letras, criado em 2014, e no Mestrado Interdisciplinar em Cultura e Sociedade (PGCult), criado em 2010, ambos lotados no Centro de Ciências Humanas na Universidade Federal do Maranhão? Qual o valor que se tem dado à pesquisa disciplinar e interdisciplinar que envolva a Literatura Portuguesa? De que modo o interesse dos mestrandos pela Literatura Portuguesa tem sido despertado? Que autores contemporâneos e suas obras estão sendo divulgados nesse contexto? Esses e outros questionamentos constituirão o cerne dessa proposta de discussão. Literatura e História em O ano e a morte de Ricardo Reis de José Saramago Márcia Neide dos Santos Costa (UEFS) Neste estudo, que tem como objeto a obra O ano e a morte de Ricardo Reis, do escritor português José Saramago, pretendemos analisar o romance, focando os aspectos históricos e ficcionais presentes na narrativa. Destacaremos o personagem Reis, dialogando com o fantasma de Fernando Pessoa. A história é instigante porque relata o último ano de vida de Ricardo Reis, que retorna a Portugal e toma conhecimento de como se encontra seu país. O trabalho também busca discutir a intertextualidade, ironia Metaficção historiográfica, paródia, sátira e post-modernismo na obra de Saramago. Portanto, para a realização desse estudo, utilizaremos, como suporte teórico, as ideias de: Linda Hutcheon (1991), Ana Paula Arnaut (2008), Silviano Santiago (2002), Gyorgy Lukács (2000), entre outros. A Lisboa salazarista no fim da década de 1930 na visão de José Saramago e de Antonio Tabucchi Márcio Aurélio Recchia (USP) A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi um dos conflitos que impactou o mundo e ainda reverbera na sociedade contemporânea. Abordada como tema principal ou como pano de fundo nas mais diversas expressões culturais, ABRAPLIP 2017 132 quer na literatura, no cinema ou na pintura, por exemplo, este conflito foi e tem sido bastante evocado. Porém, é importante salientar que no período precedente à eclosão da segunda grande guerra, isto é, após o término da Primeira Guerra Mundial em 1918, e principalmente nos anos 20 e 30 do século XX, a Europa se converteu em terreno fértil que geraria o próximo conflito, uma vez que governantes de extrema direita ascendiam ao poder, com destaque para Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha e Salazar em Portugal. Levando-se em conta o contexto lusitano, destacamos os romances O ano da morte de Ricardo Reis (1984) de José Saramago e Afirma Pereira (1994) de Antonio Tabucchi, uma vez que ambos os enredos estão ambientados no Portugal salazarista dos anos de 1936 e de 1938 respectivamente, enquanto no país vizinho se dá a Guerra Civil Espanhola. Assim, esta comunicação tem por objetivo comparar e abordar a trajetória dos protagonistas das narrativas, Ricardo Reis e Pereira, dentro do Estado Novo português, nos anos que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial. Flagrante social e experiência estética na narrativa memorialística luso-brasileira Marcio Jean Fialho de Sousa (FATEC) As memórias e os textos autobiográficos buscam retratar a reestruturação de acontecimentos relacionados à vida do memorialista, demonstrando aspectos inerentes ao contexto em que as ações foram vividas e contadas, por isso há um “flagrante social”; além de ter como objetivo prestar um serviço aos leitores vindouros. Segundo Béatrice Didier (1976, p. 47), os textos pertencentes ao gênero autobiográfico teriam surgido junto ao advento da sociedade capitalista, como uma forma de preservar o capital de recordações e vivências dentro do espaço histórico e geográfico. Isso posto, o objetivo dessa comunicação é demonstrar como o pacto autobiográfico com o leitor é estabelecido a partir do flagrante social retratado na obra Diário do Hospício, de Lima Barreto e de Os guarda-chuvas cintilantes, de Teolinda Gersão. África, Brasil e Portugal: trânsito por fronteiras semoventes Márcio Matiassi Cantarin (UTFPR) No âmbito dos estudos sobre a Literatura Portuguesa, a obra da lisboeta Maria Archer (1899 - 1982) bem poderia figurar com maior destaque em face da quantidade e diversidade de sua produção, lavorada num constante trânsito entre Portugal, as então colônias portuguesas em África e por fim o Brasil. Não é o que ocorre; uma série de fatores lançou a autora no ostracismo. A presente comunicação pretende dar visibilidade a um aspecto de sua obra, aquele que pode ser classificado como escritos de cunho sociológico/antropológico, em ABRAPLIP 2017 133 muito dos quais a autora intenta evidenciar as proximidades entre Brasil e África, evocando o Brasil como exemplo a ser seguido pelas nações africanas em luta contra o imperialismo da era salazarista. Serão analisadas as obras Brasil, fronteira da África (1963) e Herança Lusíada (s.d.). Três proposições a respeito do ensino de literatura portuguesa Marcos Lopes (UNICAMP) Dado o momento histórico brasileiro e o contexto institucional e político que envolve o ensino de humanidades, em particular, a literatura portuguesa, caberia ainda seinterrogar sobre a prática efetiva desse ensino e do seu horizonte de expectativas diante das novas gerações de estudantes que chegam às universidades. A pluralidade de um repertório formativo, a atenção vigorosa à cultura literária portuguesa, com base em um aparato conceitual e crítico irredutível a uma disciplina específica, e a orientação ética e existencial constituiriam as três vigas mestras da reflexão que pretendo apresentar. Interfaces entre ceticismo e ficção em contos de António Vieira Marcos Rogério Heck Dorneles (UFMS) Pesquisa sobre uma interconexão entre tópicos e proposições do pensamento e da filosofia cética e elementos constitutivos de contos de António Vieira (2001; 2002). Para tal, inicialmente, foram ressaltadas algumas configurações narrativas predominantes da criação contística de Vieira, evidenciadas na disposição das categorias de tempo, espaço e personagens (GENETTE, 1979; NUNES, 2013; LINS, 1976; CANDIDO, 1972). Posteriormente, foram dimensionados pontos basilares do ceticismo como a diaphonía, epoché e adiaphoria (MONDOLFO, 1965; KRAUSE, 2004; NUNES, 2012) em conjunção recorrente com a constituição composicional dos contos. Decorrentes dessa interface foram examinados os processos de expansão das virtualidades ficcionais da narrativa de Vieira por meio do cotejamento entre o caráter dubitativo e corrosivo da escrita e a manutenção de algumas noções da filosofia cética nos contos. Provenientes dessa pesquisa dispõe-se um exame do desenvolvimento de alguns aspectos formais na composição literária, e se destaca uma ponderação acerca da viabilidade e organicidade de certas formas de interação entre literatura e filosofia. ABRAPLIP 2017 134 Narcisos sem espelhos – Dilemas da narrativa contemporânea em dois contos de Lídia Jorge Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira (UFJF) O texto que por ora propomos tem como objetivo discutir algumas das questões relacionadas aos dilemas da narratividade no contexto da contemporaneidade. Em um mundo no qual todos parecem reivindicar protagonismos e todas as vidas parecem fascinantes, a grandeza épica dos fatos foi definitivamente substituída pela banalidade espetacular de um “eu” que dá mostras de ser cada vez mais potente, quase hegemônico, mas que, ao mesmo tempo, resulta ensimesmado, preso a um vazio de referenciais para aferir e afirmar seus códigos de conduta perante o “outro”. Para tanto, escolhemos dois contos da ficcionista portuguesa Lídia Jorge, “Marido” e “Praça de Londres”, cujos narradores e personagens nos fornecerão possíveis ângulos de observação dos dilemas contemporâneos da representação ficcional. O milenarismo no pensamento profético vieiriano: a figura do “papa angélico” e a do “imperador dos últimos dias” Marcus De Martini (UFSM) Ligado aos projetos de pesquisa “Representações literárias dos séculos XVI- XVIII” e “Literatura e Retórica”, desenvolvidos na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o presente trabalho aborda o surgimento das figuras do “papa angélico” e do “imperador dos últimos dias” na tradição escatológica ocidental e sua migração até o século XVII, dando especial atenção ao contexto português e à obra profética de Padre Antônio Vieira (1608-1697). Estuda-se então o lugar de tais conceitos na noção vieiriana de “Quinto Império”, ou “Reino de Cristo na Terra”, segundo a qual, no surgimento dessa nova era do mundo, o “papa angélico” teria um papel a desempenhar como instrumento reformador e o “imperador dos últimos dias” seria sua contraparte secular, auxiliando na derrota dos infiéis e no estabelecimento de uma única Igreja, sob a égide do primeiro. No entanto, sublinha-se o uso discreto da figura do “papa angélico” por Vieira, em comparação com a tradição de onde foi tirado, o que pode se dever ao fato de o jesuíta considerar o poder secular mais efetivo, e daí dar mais atenção à figura do “imperador dos últimos dias”, concepção essa mais alinhada também a certas nuances do “Sebastianismo” característico do Portugal desse tempo. ABRAPLIP 2017 135 O “paraíso” de Eva: figurações de Eros em A costa dos murmúrios Maria Aparecida da Costa (UERN) Alyne Isabele Duarte da Silva (UERN) Este estudo analisa a complexidade do amor Eros no romance A costa dos murmúrios (2004), de Lídia Jorge. Sobretudo, propomos observar os desdobramentos de histórias de amor em um contexto de guerra, a partir da personagem Eva/Evita. As relações amorosas na literatura, de um modo geral, sempre vieram intrincadas com as questões históricas e sociais, no entanto, em se falando de literatura portuguesa contemporânea, produto de um país envolvido por bases religiosas fortes, ditadura severa, e intimamente ligado a conflitos coloniais, a problemática amorosa fica mais evidente. Sendo assim, além da análise estética do texto literário, nos deteremos também nas questões sociais que circundam essas personas por entender que as relações das personagens estão inseridas em arcabouços cultural e social específicos. Objetivamos, portanto, explorar a particularidade das personagens e suas relações com Eros no romance A costa dos murmúrios. Os pobres: uma narrativa lírica de Raul Brandão Maria Betânia da Rocha de Oliveira (UNEAL) Este trabalho propõe uma leitura do romance Os Pobres (1906), de Raul Brandão, à luz da teoria da narrativa lírica. Por se tratar de uma modalidade de narrativa ainda pouco explorada, este texto apresenta, inicialmente, a evolução do romance do surgimento até a atualidade. Destaca que a narrativa romanesca sofreu alterações no tempo, mas conservou as marcas de sua origem, cujas temáticas já envolviam os conflitos individuais e a vida cotidiana. Enfatiza, também, que as formas de narrar iniciadas no século XX sinalizam a problemática de uma existência fragmentada de um ser que se angustiava numa eterna busca de si mesmo, tal como o autor de Os pobres apresenta em sua narrativa. Nessa perspectiva, este trabalho apresenta o romance de Raul Brandão como um romance lírico, pois as angústias e as problemáticas do homem relacionadas à busca da afirmação de uma identidade individual e coletiva são tão complexas e indizíveis que só seriam possíveis numa escrita lírica, porque só a poesia pode expressar, por meio de seus recursos, as dores mais profundas desse homem. Todo o trabalho seguiu as concepções teóricas de: Freedman (1972), Goulart (1990), Gullón (1984), Tofalini (2013), Lukács (2000), Schüler (1989), Bhabha (2007), Hall (2003) e Candido (1986). ABRAPLIP 2017 136 Ferdinand Denis, promotor da literatura brasileira na França do século XIX Maria Cristina Pais Simon (Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3) Ferdinand Denis (1798-1890), grande viajante, historiador e, mais tarde, conservador e administrador da prestigiosa Bibliothèque Sainte Geneviève de Paris, permaneceu no Brasil (essencialmente no Rio de Janeiro e em Salvador) entre os anos de 1816 e 1819. De regresso a França, dedica-se ao estudo das culturas brasileira e portuguesa, pouco ou mal conhecidas pelo público letrado deste país, publicando numerosas obras e artigos em revistas e jornais, entre os quais La Revue des Deux Mondes e Corographia Brasilica. Com base em Scènes de la nature sous les tropiques et de leur influence sur la poésie (1824), Résumé de l’histoire du Brésil (1826), Brésil (1837), Poésies en langue tupique de Christovam Valente (1850), pretendemos nesta comunicação analisar o entendimento que Ferdinand Denis tem das letras brasileiras e relevar as linhas mestras sobre as quais, como historiador da literatura do século XIX, assenta o seu estudo. Da literatura e cultura portuguesas em terras baianas: para não dizer que não falamos “de cravos e de pés descalços”, nos tempos críticos de hoje e de ontem... Maria de Fátima Maia Ribeiro (UFBA) Em face da proposta temática do Congresso de “mapeamento do ensino e da pesquisa da literatura portuguesa no Brasil”, apontada em mais um momento crítico quanto à sua permanênciaacadêmica, o texto examina os caminhos traçados e trilhados pelo campo de estudos na Universidade (Federal) da Bahia, desde a sua implementação na antiga Faculdade de Filosofia, antes de 1940 – época chave para a criação de universidades e cursos superiores no País. Aos anos 40, vem aliar-se 1950, considerada década icônica de uma “relação especial” entre Brasil e Portugal, a contrastar com a anterioridade e com os dias de hoje, respeitadas as turbulências. Ressaltando-se, à época, o protagonismo das universidades Nacional do Rio de Janeiro e de São Paulo, de que viria aproximar-se a Universidade da Bahia, nos reitorados de Edgard Santos, em interlocução sobremodo mediada pelo professor Hélio Simões, não obstante as resistências de diversas procedências quanto às relações luso- brasileiras, cogita-se serem as duas décadas o tempo de construção de redes concertadas para os estudos portugueses em território brasileiro, respaldados no ensino da literatura, em estratégicas relações com a história, como marcas desdobradas de modernização e internacionalização, de intercâmbios, comunitarismos e alianças, colmatando-se interesse(s) e conhecimento. O feito cultural, afinal, não esteve dissociado das forças políticas que regiam os dois países, em especial envolvendo demandas oficiais de relações culturais em ABRAPLIP 2017 137 termos de aproximações e de legitimação do colonialismo lusitano. Por entre a revisão histórica, pretende-se empreender a leitura crítica das diferenças de tratamento destinado a literatura e, por extensão, cultura portuguesas, no Brasil, com o foco nas diferenças e nos contenciosos ocorridos ao longo do tempo. Coloca-se no centro da discussão a correlação entre os mecanismos de força advindos de personalidades e instituições, assim como entre academia e Estado, a força dos lugares de cultura em sua diversidade ampliada pela interculturalidade de patrimônios em tela, e as escolhas didático-pedagógicas e intelectuais de professores e investigadores a interferirem na recepção, visibilidade, ou porventura, centralidade conferidas ao campo de estudos. A reflexão investe nas possibilidades que se abrem atualmente ao ensino da literatura portuguesa no Brasil de hoje, em especial, na Bahia e em Salvador, em escolas do ensino médio e nas instituições de ensino superior, percebidas em suas relações com os dispositivos de poder e com os mundos históricos, sociais e culturais à sua volta, de díspares e desencontrados interesses, imaginários e discursos. Como trabalhar a literatura portuguesa no Brasil, ter por receptores brasileiros, ou não propriamente portugueses, apesar de certas controvérsias, torna-se uma questão nuclear, sobretudo quando ainda se pode enveredar pela discussão singular de tratar-se de uma literatura estrangeira em diversos sentidos, ao tempo em que traz em si elementos pretensamente familiares, que sofrem a ação de discursos dissonantes no âmbito das relações culturais e da textualidade crítica que, não raro, afastam, se não indispõem, docentes, discentes e pesquisadores que passam a conhecer manifestações diversas de animosidade, ressentimentos mútuos e imagens negativas acerca de “pés descalços” a assistir concertos no salão nobre de uma Reitoria ou de um povo de pouco memória a cometer convencionais “parricídios”. Acresce à discussão frisar que, na semana em que se comemorava o 25 de Abril, neste ano de 2017, em Salvador, não a Reitoria da Universidade da Bahia, mas o Teatro Castro Alves, em suas imediações e seu coetâneo, abriu as portas em concerto do Neojibá, no qual os “pés descalços” já não se encontravam na plateia, mas no palco, a tocar, dançar e interpretar, mesclando Nietzsche, francofolies a baianidades, contemporaneidades e cosmopolitismos distendidos. De fato, a diferença pode desafiar as mentes mais brilhantes, sendo difícil reconhecer e respeitar o outro. Este é um desafio que se apresenta ao pesquisador, ao professor ou ao aficionado da literatura e cultura portuguesas, em exercício para além das fronteiras nacionais de referência. O “Canto da Sibila” do Ordo Prophetarum e o Auto da Sibila Cassandra de Gil Vicente Maria Amparo Tavares Maleval (UERJ/CNPq) O Ordo Prophetarum (Desfile de Profetas) era na Idade Média europeia representado nas matinas da festa do Natal com o objetivo de não só embelezar e tornar agradável a liturgia, mas ensinar de forma concreta e explícita os mistérios da Encarnação. Há poucos anos, em Santiago de Compostela, foi feita uma reconstituição do mesmo, ressaltando-se a sua ABRAPLIP 2017 138 relação com a iconografia do magnífico Pórtico da Glória da basílica jacobeia. Para a atualização da profecia sobre o Juízo Final da Sibila Eritréia, finalizadora dessa representação, foi utilizada cantiga mariana de Afonso X, escrita em galego-português no século XIII, cujo título-ementa é “de como Santa Maria rogue por nos a seu Fillo eno dia do juyzio”,. Pretendemos observar as ressonâncias desse Ordo, e da peça sibilina que o encerra, em um auto natalino de Gil Vicente, o qual, no Portugal quinhentista, atualizou tradições do medievo de forma inovadora. Trata-se do Auto da Sibila Cassandra, representado à Rainha D. Leonor no Mosteiro de Enxobregas, nas matinas do Natal de, provavelmente, 1513. É uma preciosa amostra do desenvolvimento do tema das profecias em torno do nascimento do Messias feita de forma bastante peculiar, servindo-se o autor do riso, causado pela grotesca situação que se apresenta, para criticar vícios como a presunção ou soberba. O estudo comparado dessas peças possibilita-nos avaliar o modo como o docere cum delectare nelas se realiza, tornando-as verdadeiros sermões em cena direcionados ao ensino da doutrina cristã e /ou à conversão do auditório para uma vida virtuosa. A Literatura estrangeira na Biblioteca particular de João Baptista de Almeida Garrett Maria do Rosário Alves Moreira da Conceição (UERJ/FAPERJ) A proposta do trabalho é apresentar e analisar a biblioteca particular de João Baptista de Almeida Garrett, destacando a importância do acervo de literatura estrangeira contidos na mesma. Localizada no seu inventário post mortem com uma livraria constituída por 370 títulos, mesmo pequena era excelente e possuía algumas obras raras e as melhores edições de autores gregos, latinos, franceses, ingleses, entre outros. Esse achado nos faz refletir sobre a importância de tal acervo na formação intelectual desse homem de letras Oitocentista. A história dos livros e das bibliotecas tem gerado muito interesse e fazem parte de uma renovação da historiografia que privilegia a história cultural. Isto nos leva ao seguinte questionamento: O que liam esses homens? A partir daí a busca de novas abordagens tem-se ampliado significativamente. Assim, as bibliotecas privadas permitem uma ampla gama de reflexões sobre os sujeitos e as práticas históricas. Permitindo propor traçar um perfil cultural de Garrett, uma vez que no percurso de sua vida agitada, soube produzir uma extraordinária e intensa atividade como escritor e homem público. Consciente de seu valor soube montar uma bela e interessante biblioteca. ABRAPLIP 2017 139 Ensino das letras portuguesas em sala de aula: conceito de agudezas Maria do Socorro Fernandes de Carvalho (UNIFESP) Eu gostaria de conversar com os colegas professores de literatura portuguesa sobre a questão do ensino das letras anteriores à modernidade literária, ou seja, as letras conforme eram pensadas e escritas até o século XVIII: a poesia compreendida como prática de imitação de modelos poéticos coetâneos e antigos aos poetas dos séculos XVI e XVII. Gostaria de relevar a importância do conceito de agudeza poética, definida por autores seiscentistas como Baltasar Gracián, para quem: o concepto é “um ato de conhecimento que expressa a correspondência entre objetos”, o que respalda ao mesmo tempo a concepção tanto lógica quanto elocutiva da forma poética de expressão. Outro autor,Torquato Tasso, atualizando o pensamento de Aristóteles, compreende que os conceitos são imagens das coisas pensadas, e que as palavras dependem dos conceitos, sendo a poesia imitação do verossímil que resulta dessa expressão. O ensino de literatura portuguesa: leituras e escritas Maria do Socorro Gomes Torres (UNIR-Vilhena) Esta comunicação visa discutir o Ensino de Literatura Portuguesa na Graduação em Letras e segue três focos: o currículo, a extensão e o Estágio Supervisionado. Discutiremos a formação e o desenvolvimento profissional dos acadêmicos universitários, com destaque para o Curso de Letras, busca- se, ainda, discutir algumas matrizes curriculares da disciplina de Literatura Portuguesa, tendo em vista os diversos aspectos da aprendizagem, além disso, discutir autores e obras em algumas matrizes curriculares. Discutiremos a prática pedagógica no ensino superior; a ideia é discutir métodos e procedimentos didáticos pedagógicos no processo formativo e da relação do discente/docente. Compreendemos que o desenvolvimento profissional do discente passa por atos que podem ser propostos pelo docente, pois os mesmos estão diretamente ligados “[...], à luta pela instauração de políticas universitárias que valorizem seus profissionais e o relevante trabalho político- formativo pelo qual são responsáveis (CAVALCANTE, et al., 2011). Nesse sentido, pretendemos discutir três questões básicas: (i) como a disciplina de Literatura Portuguesa pode, através de seus currículos formativos, associar-se ao processo formativo como um todo, visando ao final ampliar a sua relação com as demais disciplinas; (ii) a urgente necessidade de que na disciplina de Literatura Portuguesa possam ser inclusos estudos comparativos com as demais disciplinas do currículo que, ampliem a visão do discente; (iii) Como construir um ensino de Literatura Portuguesa tendo por base a integração e a interdisciplinaridade curricular, além disso, o Estágio Supervisionado e sua relação com a disciplina de Literatura Portuguesa. ABRAPLIP 2017 140 Camilo Castelo Branco: as ‘leis da alma’ e os ‘imperativos do estômago’ como elementos de figuração das personagens Maria Eduarda Borges dos Santos (Univesidade de Coimbra/Instituto Politécnico de Castelo Branco) Numa primeira leitura, talvez Camilo Castelo Branco não seja o exemplo inequívoco de um escritor onde a gastronomia e o prazer da mesa constituam a temática central dos enredos narrativos, dos textos teatrais ou dos poemas de sua lavra. No entanto, como autor cuja vida decorreu entre 1825 e 1890, período de que pretendeu esboçar os traços mais marcantes dos costumes portugueses, não há dúvida de que a informação acerca das iguarias com as quais as suas personagens se deleitam constitui um interessante contributo do que se pode designar por consciência patrimonial na gastronomia lusa. Descendente dos Brocas de Vila Real (epíteto que bem ou mal deriva de ‘broa’, pão típico da região de Entre Douro e Minho) Camilo atribuiu a duas das suas obras títulos que remetem para a degustação e para digestão: Coração, cabeça e estômago (1862) e O vinho do Porto (1885). Faz igualmente alusão a alguns clássicos da gastronomia internacional, como os franceses Brillat-Savarin e Bouchet, autores da Fisiologia do Gosto (VIII. CCE: 83) e de Gastronomia, respetivamente, o que denota atenção ao que sobre o assunto se publicava na Europa do seu tempo. Procuraremos abordar o tema proposto baseando-nos nas novelas referidas, mas também em Amor de perdição, Coração, cabeça e estômago, A queda dum anjo, Doze casamentos felizes e Eusébio Macário. Escrita feminina no século XIX: o romantismo de Ana Plácido Maria Elvira Brito Campos (UFPI) O presente ensaio busca depreender/analisar, de forma breve, marcas de autoria da escrita romântica da escritora portuguesa Ana Plácido, segunda mulher do consagrado autor Camilo Castelo Branco. Esse estudo foi idealizado após visita à casa-museu Camilo Castelo Branco, em Portugal, quando tive acesso aos dois dois volumes da obra daquela que fora companheira amorosa, que se arriscou a viver um romance adúltero em que ambos foram presos, e que foi escritora de novelas e romances. Na carceragem, ela escreveu suas confissões, ficções, novelas, romance. Ainda na introdução do duo Herança de Lágrimas (1871) e Lágrimas forjadas a Ferro (1963), há, na introdução, a indagação de que essas obras poderiam não ter sido da autoria dessa mulher, dado o brilho que sustentava o marido. Nesse enfrentamento de estilos, tento aqui mostrar sobre o quê escreveu Ana Augusta Plácido, numa investigação que busca não somente valorar suas obras, mas vislumbrar o Portugal finissecular (séc. XIX para XX), a partir do desta mulher destemida, cuja história tanto motivou os romances do marido e, por que não, perfazer essa estrada ABRAPLIP 2017 141 de dois vieses que podem (ou não) se complementar. Nesse trabalho, cuidarei de analisar a introdução e buscar, no romance Herança de Lágrimas”, publicado em 1871, a paisagem e linguagem românticas. A metodologia será de cunho bibliográfico, com base nas obras de temática feminista, como O sexo dos Textos, da Maria Alzira Seixo, assim como obras de estudos recentes. Palinódias do ortônimo Maria Helena Nery Garcez (USP) A retórica ensina que a palinódia é a retratação num poema daquilo que se disse noutro. Um leitor atento da poesia ortônima de Fernando Pessoa, em ordem cronológica das datas que ele lhes atribuiu, nas edições críticas e ou completas que saíram nas primeiras décadas do século XXI, poderá descobrir poemas que constituem verdadeiras palinódias daquilo que se afirmara noutros, incluindo-se nelas retratações até de alguns preceitos fundamentais de sua poética. Neste texto, analisaremos alguns poemas nos quais procuraremos mostrar essas ocorrências. A Literatura Portuguesa na Imprensa Oitocentista do Grão-Pará Maria Lucilena Gonzaga Costa Tavares (UFPA) Durante o século XIX, o Grão-Pará foi uma das províncias do Brasil que mais recebeu imigrantes portugueses. Ainda hoje, encontramos nesta região marcas de um passado glorioso, resultado de investimentos feitos por comerciantes portugueses que investiram parte de seu capital para tentar ambientar-se ao clima tropical e à cultura distintos de Portugal. Mas não foi exclusivamente por meio do comércio que os lusitanos enriqueceram, eles estiveram entre os primeiros a inaugurar a imprensa no Pará, tornando-se proprietários de muitos jornais, nos quais publicavam informações relacionadas ao seu país, tais como: política, economia, imigração, cultura e literatura. A literatura advinda de Portugal por meio de livros, revistas e publicada nos jornais contribuiu significativamente para a propagação da leitura e cultura na província paraense. Nessa perspectiva, essa comunicação visa demonstrar como a imprensa tem sido fonte documental, na qual localizamos rastros de colonizadores que ajudaram a construir a história e cultura da região. ABRAPLIP 2017 142 A ficção Portuguesa Oitocentista nos Jornais de Cametá/PA - Brasil Maria Luiza Rodrigues Faleiros Lima (UFPA) Nesse trabalho pretendemos abordar a ficção portuguesa publicada nos jornais durante o século XIX em Cametá/PA, haja vista que a referida cidade era considerada um centro difusor de cultura perante a província do Grão-Pará. Assim sendo, nosso trabalho discorre sobre a ficção veiculada por meio dos periódicos cametaenses no século XIX, enquanto forma de expansão cultural e atuação portuguesa nessa região. Ressaltamos que a presença da prosa de ficção portuguesa foi um fator de grande importância nos jornais brasileiros e, indubitavelmente, contribuiu para a expansão de leitura, além de instigar escritores brasileiros a publicarem suas prosas. O fato de não haver muitos trabalhos que que versem a respeito dessa temática, sobre as publicações dos portugueses nos jornais de Cametá, carece de um estudo mais aprofundado, pois poderá trazer à tonaos textos que recontam a história sociocultural do município e dos escritores portugueses que ficaram esquecidos nas páginas desses jornais. O Diálogo na Literatura Portuguesa do séc. XIX: identificação e caracterização do corpus Maria Teresa Nascimento (Universidade da Madeira) Quase quatrocentos anos depois de ser conhecido o primeiro diálogo português, da autoria de João de Barros, e sem que, em tão longo período tenha esmorecido a fortuna do género, entramos no séc. XIX, com destacado fulgor. Não estando ainda constituído o inventário sistemático dos diálogos deste século, esta comunicação pretende constituir-se como um contributo - ainda provisório - para o estabelecimento dum corpus que identifique autores, impressores e possíveis constelações temáticas. A conjuntura histórico-político, marcada, primeiro pelas Invasões Napoleónicas, com a subsequente partida de D. João VI para o Brasil, depois, pelas lutas fratricidas entre Liberais e Absolutistas ofereceu matéria privilegiada para um género que enveredou, então, pela vertente polémica e satírica. Heróis lendários e figuras históricas do imaginário português na obra de Ariano Suassuna Mariângela Monsores Furtado Capuano (UERJ) O trabalho consiste, fundamentalmente, em examinar o diálogo estabelecido entre a obra de Suassuna (O Romance d’A Pedra do Reino) e textos ABRAPLIP 2017 143 representativos da tradição literária portuguesa, mais propriamente com os que remontam ao medievo. Para isso, far-se-á um recorte nas relações que o romance trava com a matéria cavaleiresca, principalmente com a Demanda do Santo Graal, na sua estrutura e no desenho psicológico e moral dos personagens, notadamente no personagem Sinésio, que encarna o mito do herói prometido, cujos paradigmas se assentam nas figuras lendárias do Rei Artur e de Galaaz, e na histórica de D. Sebastião, o rei desaparecido de Portugal. Sabe-se que esses reis e heróis míticos, considerados salvadores, uma vez que retornariam para restituir ao povo a dignidade e a liberdade perdidas, povoaram o imaginário ibérico e chegaram ao Brasil trazidos pelos colonizadores europeus. Dessa forma, a cultura popular do Nordeste brasileiro é povoada de histórias e lendas eternizadas e recriadas no folclore da região e na literatura de Cordel. O trabalho tem por objetivo analisar a permanência da matéria literária portuguesa em nossa formação cultural. Voz e polifonia: transcendendo a cegueira em “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago Marilani Soares Vanalli (UNESP) Pretende-se analisar de forma reflexiva, a polifonia de vozes na instância textual “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago. Embora o terreno ficcional seja composto por vários elementos da narrativa, este estudo privilegiará as atuações das vozes que se erguem em capítulos no romance, procurando conhecer a estrutura padrão por ela praticada para compreender o rompimento dessas fronteiras; as estratégias implantadas; as tensões que instala; o trânsito de uma voz para outra e as consequencialidades de tais perfomances. Por conseguinte, um olhar mais aprofundado para esse elemento da ficção. Para executar tal análise, apoiar-se-á na teoria de Bakhtin. Não se tem a pretensão de esgotar possibilidades de leituras, mas sim, apresentar algumas delas. Autor e personagem: o papel de Aquilino Ribeiro na construção de seus seres ficcionais Marília Angélica Braga do Nascimento (UFC) Considerando a relevância da produção literária de Aquilino Ribeiro (1885- 1963), escritor português que publicou dezenas de títulos, sobretudo na primeira metade do século XX, cultivando diversos gêneros, este breve estudo propõe-se a refletir sobre o papel do autor-criador na construção da personagem enquanto objeto estético que, não obstante sua natureza essencialmente verbal, permite entrever determinada visão de mundo que permeia o texto literário. Para tanto, nossas reflexões tocam nas questões de autoria e de influência, mas levam em consideração sobretudo a concepção de literatura defendida por Aquilino Ribeiro, bem como a sensibilidade do escritor e sua capacidade de enxergar o mundo e captar nele determinados ABRAPLIP 2017 144 aspectos transfigurados nos seres ficcionais que habitam o universo de sua criação literária. Concretismo e experimentalismo: poéticas da edição em Brasil e Portugal Marina Ribeiro Mattar (Cefet-MG) O trabalho a ser apresentado é fruto de pesquisas em poesia de invenção do Brasil e de Portugal. A vertente brasileira, representada pelo grupo concreto paulista, encabeçado por Décio Pignatari e Augusto e Haroldo de Campos, propôs nos anos 60 uma ‘revolução crítica das formas’ que revia os processos do escrever, do criar, do traduzir e da arte de fazer livros. Em Portugal, os movimentos de poesia experimental seguiam a mesma tendência, com publicações que propunham uma poesia de invenção, veiculada pelos Cadernos da Poesia Experimental, Operação 1 e 2, entre outros. Aqui, pretende- se uma análise comparativa entre o livro-poema Poemóbiles (1974) de Augusto de Campos e Julio Plaza e o livro O dedo (1981) de Fernando Aguilar. Busca-se analisar os aspectos históricos e estruturais presentes nas edições e como isso dialoga com as questões teóricas e estéticas de ambos poetas e suas respectivas vanguardas. Ruptura da tradição em D. João e a Máscara Marina Trevisoli Gervino (UNICAMP) O teatro de António Patrício (1878-1930) teve uma modesta recepção no século XX. Pouco encenado nos palcos portugueses e pouco estudado pela crítica ou historiografia literárias, o texto teatral de Patrício ainda está por merecer a devida atenção do público leitor. Desde a sua primeira aparição, em cerca de 1620, na comédia espanhola El burlador de Sevilha y el convidado de piedra, atribuída a Tirso de Molina, o mito de Don Juan tem sido muitas vezes revisitado por grandes autores da literatura de todo o mundo. Como são diversas as polêmicas que envolvem o tema, será adotada apenas uma para comparação com a obra de António Patrício, D. João e a Máscara, de 1924, pois é através do estudo comparado que poderemos analisar criticamente a obra. E a obra a ser analisada é a peça Don Giovanni ou o Dissoluto absolvido (2005), experiência de Saramago em recontar a lenda do Don Juan. A nossa proposta é a de comparar esta peça de Patrício com a de Saramago. A peça de António Patrício será confrontada com a tradição cômica no século XXI, que novamente lê D. João em chave cômica. O que podemos concluir é que, durante esses mais de trezentos anos, os valores e as crenças que fizeram com que o primeiro Don Juan nascesse se modificaram substancialmente. ABRAPLIP 2017 145 Memória nacional e razões de Estado: gênero e nação na derrota do Gungunhana Mário César Lugarinho (USP) Entre os anos de 1933 e 1948, a Agência Geral das Colônias (AGC), fundada em 1924, atuou intensamente como uma empresa editorial, com uma política agressiva de propaganda colonial. Uma das vertentes mais férteis foi a produção de biografias de heróis nacionais que naquelas páginas constituíam-se em modelos célebres que atendiam à “lição de Salazar”. Destaca-se a personagem histórica de Mouzinho de Albuquerque, que celebrado em mais de quatro biografias publicadas pela AGC, foi convertido, especialmente, entre os anos de 1936 e 1947, em paradigma maior da colonialidade e, consequentemente, do Império. Seu célebre oponente, o Gungunhana, lançado ao esquecimento naqueles anos, converteu-se em herói da nacionalidade moçambicana após a independência (1975). O episódio histórico que envolve ambas as personagens, mereceu ainda as narrativas de Ungulani Ba Ka Khosa, Ualalapi (1988), e de Mia Couto, Mulheres de cinza (2015). Esse conjunto heterogêneo de obras literárias, entretanto, redefine a tensão entre modelos identitários nacionais, expondo as razões do estado que, intervindo na memória nacional, refundam a literatura. Helder Macedo e a narrativa fantasmática Marisa Corrêa Silva (UEM)O romancista português Helder Macedo é um leitor privilegiado de textos como o Frei Luís de Sousa, de Garrett. Sua prosa, irônica e brilhante, lança mão dos espectros diversas vezes, embora de forma bastante distinta da de Almeida Garrett. Seus fantasmas são criações da linguagem e da estrutura de seus romances, e mantém um significado psicanalítico à flor do texto, causando a um só tempo fascínio e perturbação em seus leitores. Nosso trabalho objetiva analisar a presença das figuras espectrais, sua importância e sua função na obra de Macedo, com ênfase em seu romance Tão Longo Amor, Tão Curta a Vida (2013). Alberto Caeiro e Manoel de Barros: uma poética de ressignificação Marla dos Santos Silva (UEFS) A leitura atenta dos poemas de Alberto Caeiro e Manoel de Barros explicita uma transversalidade entre eles, a natureza e a infância são referências substanciais para ambos. Um é guardador de rebanhos, o outro fazendeiro, teorizam o mundo por meio de suas vivências, entretanto se afastam da investigação de realidades que transcendem a experiência sensível. Caeiro privilegia ABRAPLIP 2017 146 as sensações, registrando-as sem a intervenção do pensamento, o poeta entende que a corrupção da poesia consiste na busca da aplicação de uma leitura racional. Manoel de Barros revela o mundo através de suas metáforas, criando uma instabilidade semântica. Ambos são escritores fundamentais, pois convidam o leitor a visitar a sua subjetividade, eles concebem a existência através de um mundo sensível, de um olhar panteísta, percebendo o homem como uma extensão da natureza e, portanto, como um indivíduo que deve valorizar a leveza e a sabedoria, resultados de uma experiência, do contato com o universo. Dessa forma, pretende-se estudar o olhar inaugural dos dois poetas, pensando a poesia como descobrimento, como “ressacralização” do mundo. A perplexidade do homem moderno frente aos conflitos existenciais no conto, A confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro Marsiléia Brasil de Lima (UNIP/SEDUC-AM) No início do século passado, quando os movimentos modernistas efervesciam na Europa, a obra do Escritor e poeta Mário de Sá Carneiro, “A confissão de Lúcio” traz em seu bojo o retrato dos conflitos humanos pelos quais passava a sociedade da época. A questão de gênero como um fator motivador de grandes confusões existenciais travadas pelos personagens envolvidos na trama. Essa questão, leva-nos a refletir que os problemas do homem contemporâneo são basicamente os mesmos do homem do início do século passado. A proposição ora abordada é identificar os prováveis fatores que levaram o homem da época ao suicídio. A estratégia metodológica partiu de uma revisão bibliográfica sobre a literatura moderna portuguesa, características físicas e psicológicas de seus personagens e a influência do meio social nos perfis estereotipados do homem em seu meio social sob a luz de teóricos como: Beth Brait (1985), Marshall Berman (1096), Carl Marx (2012), Antonio Cândido (2006) (estabelecendo a correlação entre literatura e sociedade) e Massaud Moisés (2008). Mostrando- nos que estão presentes: a questão da identidade do homem em conflito e a questão de gênero que permeiam o psicológico dos personagens. Levando- nos a inferir que os personagens literários da época não só retratam os valores e conflitos do homem da sociedade em questão, como também, mostra- nos a relação estabelecida com o homem da sociedade contemporânea e a perplexidade pela qual ele passa. Recepção de Camões como hipótese interpretativa Matheus Barbosa Morais de Brito (Universidade de Coimbra//UNICAMP) A dimensão social que sustenta a autoria de Luís de Camões, por oposição à doutrina do gênio que ainda permeia sua crítica, é especialmente entrevista nos ataques que se lhe dirigiram. A relevância epistêmica dessa crítica, ao ABRAPLIP 2017 147 evidenciar o caráter problemático do que hoje parece dado, está no tipo de experiência que sua obra acolheu. Das cousas que se opõem a Camões em três decênios desde Os Lusíadas, apontadas por Severim de Faria (1584—1655), pense-se como soam atuais as de que “não he decente ao Poema Heroico a Graça” do episódio de Veloso e a troça que ali irrompe (Lus. V,31-35) e de que “no fim desacredita a Nação Portugueza dizendo que faltão com prémios”. “Decência” não é o horizonte pragmático d’Os Lusíadas, nem a intenção de Camões foi tão-só o panegírico. No entanto, é duma sofrível petitio principii tomar por modelo a epopeia camoniana e retroativamente insistir em como cada coisa está em seu lugar. Antes de medirmo-nos com o passado, devemos indagar o que surgia ali: o que seria tão perturbador nesses rasgos d’Os Lusíadas, e por quê? Talvez Camões não estivesse tão seguro do seu epos quanto hoje nós, talvez tenha encontrado soluções ruins. O estudo da recepção de Camões, como exporemos, no sentido da concretização de sua poética, franqueia hipóteses interpretativas historicamente pautadas e de valor heurístico para o conhecimento do seu funcionamento social e cultural. A representação da personagem do negro na dramaturgia quinhentista Matheus Nogueira Bacellar (UFBA) Márcio Ricardo Coelho Muniz (UFBA) No século XVI, o teatro português viveu o que muitos autores consideram seu período mais profícuo, coincidindo com o momento áureo do império marítimo português. Neste contexto histórico, o negro escravizado surge na sociedade portuguesa como principal força de trabalho do império, tanto em suas lavouras coloniais quanto como escravo doméstico, tornando-se um componente decisivo da arquitetura social portuguesa quinhentista. Talvez por isso, a personagem do negro apareça em ao menos onze obras do corpus da dramaturgia portuguesa quinhentista atualmente conhecida, em uma configuração de personagem tipo bastante engenhosa que conta, inclusive, com um idioma próprio: Língua de Preto ou Falar da Guiné. Geralmente representado de forma jocosa, a personagem do negro aparece desprovida de valores morais e civilizatórios. Contudo, no Auto de Vicente Anes Joeira, anônimo, uma personagem negra aparece no ofício de Físico, correspondente à médico no período, o que causa estranhamento e demanda atenção para a complexidade que a representação dessa personagem pode apresentar nesse corpus dramatúrgico. Este trabalho pretende aprofundar os estudos relacionados à personagem do negro nessa dramaturgia, com enfoque especial em sua representação, sob a ótica dos Estudos Culturais e Identitários. Busca- se verificar a hipótese de que este teatro reforça a representação arquetípica do negro na sociedade portuguesa, de modo a justificar sua dominação; e, por outro lado, a figura do negro como Físico presente no Auto de Vicente Anes Joeira revela possibilidade de representações outras desta personagem. ABRAPLIP 2017 148 Metodologia de ensino-aprendizagem: uma abordagem diferenciada no ensino de literatura Mayara Cristina Pereira (FIMI) Tailani Azevedo Taverna (FIMI) O presente artigo, de natureza empírica, tem como objetivo que a arte de contar histórias seja base das aulas de Literatura, pois para transmitir é preciso encantar e envolver ao aluno para que as palavras despertem nele sua visão crítica sobre arte, sociedade e cultura, tanto local quanto internacional. O que se pretende demonstrar é que a Literatura, seja a Literatura Brasileira, a Literatura Portuguesa ou a Literatura Estrangeira, perde gradualmente seu encanto e não atrai a atenção do aluno visto que para ensinar as distinções entre um texto literário e um texto não literário é preciso longas e cansativas análises. Nestes variados métodos de aprendizagem de Literatura e incentivo a leitura, não se encontra um método específico que capte o aluno para que ele seja apto a contar, criar e analisar histórias. Uma metodologia diferenciada seria a “estratégia da vovó” na qual para entreter os netos conta histórias de modo agradável, didático, instrutivo e com encantamento em suas narrativas.Graciliano Ramos, contemporâneo de Eça de Queirós Miguel Sanches Neto (UEPG) Esta comunicação busca definir um conceito de “contemporaneidade extemporânea”, mostrando como uma obra finalizada, de um autor morto, pertencente a outro tempo estético, pode funcionar como elemento de atualização da cena artística de um país, reafirmando procedimentos tidos como superados na mecânica dos movimentos literários. Isso será feito a partir da definição do aproveitamento de materiais narrativos de Eça de Queirós empreendido por Graciliano Ramos em seu livro de estreia – Caetés. A trajetória autognóstica de Livro Milena Figueirêdo Maia (PUC-SP) Neste artigo, investigaremos o percurso do insólito narrador do romance Livro, de José Luís Peixoto, em busca do autoconhecimento. A nossa leitura do romance segue os rastros deste narrador errante, que busca o conhecimento de si e, ao ser nomeado Livro, traz consigo a bagagem metalinguística. O narrador, que se configura também herói problemático, perfaz seu trajeto por meio de uma narrativa que aponta para si mesma e desnuda seu fazer literário. Neste aspecto, a própria metaficcionalidade da obra contribui para que ela, assim como o narrador, revele sua procura autognóstica. Embora só na segunda parte do romance ele assuma a condição de narrador-personagem – que carrega consigo bagagem metalinguística ao ser nomeado Livro – declarando- ABRAPLIP 2017 149 se narrador de toda a obra, examinaremos como, de certo modo, ele está presente ao longo de toda a narrativa. É por meio da metalinguagem, ou mais especificamente da autorreferencialidade, característica inerente ao romance metaficcional, que esta busca pelo autoconhecimento se solidifica. De acordo com Patricia Waugh (2003), nos romances metaficcionais, o objeto de análise é a natureza da relação entre o real e o fictício e, portanto, o comentário metalinguístico (isto é, o comentário da linguagem que faz referência à própria linguagem) é destacado como o veículo desta análise. As premências de nosso tempo desveladas na Literatura Portuguesa contemporânea: indicativos para o Ensino nos cursos de Letras brasileiros Miriam Denise Kelm (Unipampa) A Comunicação versa sobre o ensino de Literatura Portuguesa nos cursos de Letras em universidades brasileiras, justificando a permanência através de sua extrema atualidade no que diz respeito ao tratamento de temas de interesse universal. Dentre esses, enaltecemos os deslocamentos, o desenraizamento, a identidade, a descolonização, o esfacelamento do núcleo familiar e a alteração nos padrões afetivo-relacionais. Para tanto, destacamos a qualidade dos meios expressivos explorados na produção recente, tal como ela é perceptível nas obras de Walter Hugo Mãe, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, Dulce Maria Cardoso e David Machado. Na mesma linha de afirmação da necessária apropriação da produção literária portuguesa, propõe-se uma reflexão sobre a herança mais distante (vide Luís de Camões, Gil Vicente, Eça de Queirós e Fernando Pessoa). Esta, para além do contato com momentos singulares da expressão linguístico—literária, possibilita ao estudante brasileiro conhecimentos sobre a condição colonial primeira do Brasil, sobre mentalidades de época diversas com reflexos na cultura ainda hoje e sobre a influência desses autores na produção brasileira. Valemo-nos de apoio teórico em autores como Margarida Calafate Ribeiro, Eduardo Lourenço e Benjamin Abdalla Jr., entre outros. A história do contramestre e o anarquismo no romance Amanhã, de Abel Botelho Moisés Baldissera da Silva (UNESP) No final do “longo século XIX” (1789-1914), na classificação de Hobsbawm, Abel Botelho (1854 - 1917), escritor considerado realista-naturalista, publica em 1901 o romance Amanhã. A obra faz parte da série de livros intitulada “Patologia Social”, composta por mais quatro romances: O Barão de Lavos (1891), O Livro de Alda (1898), Fatal Dilema (1907) e Próspero Fortuna (1910). Em Amanhã, a temática principal são os movimentos operários em Portugal no século XIX, e o ideal político que conduz esses movimentos é o Anarquismo. O personagem responsável por disseminar os ideais anarquistas entre os ABRAPLIP 2017 150 trabalhadores é Mateus, o contramestre. É nosso objetivo analisar, então, por meio das frustrações pessoais do personagem e sua posição intermediária na sociedade - um bom funcionário e ao mesmo tempo um bom chefe - algumas características da sociedade portuguesa daquele período, além das causas da disseminação do anarquismo. Essa comunicação recebeu o apoio da FAPERP (processo nº 059/2017). O Cónego, de A.M. Pires Cabral e A Vinha dos Esquecidos, João Clímaco Bezerra: uma leitura intertextual Mônica Maria Feitosa Braga Gentil (UESPI) Na história da literatura podemos observar vários fatos que demonstram temas de uma época sendo retomados por outra. Vários são os teóricos que se ocuparam e se ocupam da intertextualidade. Dentre eles recortamos alguns, por julgarmos mais claras e objetivas as suas definições. Kisteva (2004), Barthes (2007), Maingueneau (1997), Fávero & Koch (2002), Sant’Anna (1985) e Genette (1982). A questão da intertextualidade, ou seja, a comunicação entre obras e a recorrente volta e retomada dos fatos, que se repetem no transcorrer do tempo, é mais antigo do que imaginamos.. Nessa perspectiva, pretendemos analisar, sob um diálogo intertextual, dois romances, O Cónego (2007), de A.M. Pires Cabral, autor português, e A Vinha dos Esquecidos (2005), de João Clímaco Bezerra, autor brasileiro. Entende-se por intertextualidade a presença de um texto o outro. Esta concepção abre-se a uma dupla determinação intertextual da obra: a que se prende com relação com seus arquétipos que codificam a linguagem literária. Acredita-se contribuir para a compreensão de que a intertextualidade é mais um recurso de que dispomos para compor significados ou para compreender textos. Isso nos permite afirmar que nenhum texto se produz no vazio ou se origina do nada, pelo contrário, todo texto se alimenta, explicita ou implicitamente, de outros textos. Da necessidade de se ouvir coisas alucinadas ou o que se pode aprender com a literatura portuguesa Mônica Muniz de Souza Simas (USP) Esta comunicação aborda como o educando/leitor pode despertar a sua consciência para uma sensibilidade subjetiva em níveis profundos a partir do contato com a literatura portuguesa. Para Paulo Freire não existe ensino sem uma aprendizagem constante para a humanidade do humano e, para João Barrento, é inalienável da experiência humana a dor, convocada ainda que em tempos de simulacros e de espetáculos, por certa literatura. Bucar analisar essa questão, a partir da análise de alguns poemas portugueses do século XX, é o principal objetivo desse trabalho. ABRAPLIP 2017 151 Dominando o corpo feminino na Idade Média: a soldadeira e o cavaleiro Monique Pereira da Silva (UERJ) Nosso trabalho pretende apresentar uma proposta de análise acerca das formas de violência sexual e moral às quais a mulher estava exposta na Idade Média, por meio de uma das cantigas trovadorescas galego-portuguesas. Para isso, propomos como corpus Domingas Eanes houve sa baralha (B495), cantiga de escárnio e maldizer atribuída a Afonso X que pode ser lida como relato do estupro de uma soldadeira – ou seja, uma das mulheres que participavam do espetáculo trovadoresco, por esse motivo estigmatizadas como prostitutas. Nessa cantiga, a mulher briga com um cavaleiro que a violenta de todas as formas possíveis; a soldadeira acaba com graves ferimentos no corpo e doenças venéreas. Acerca dessa composição, analisaremos o que percebemos como possível descrição de um estupro – já que a cantiga pode ser lida como a representação literária de uma relação sexual violenta, da qual a mulher sai “golpeada”; e porque esse ato é referido de forma jocosa, o que pode estar relacionado ao fato de envolver uma mulher pertencente a uma categoria estigmatizadana sociedade patriarcal. Assim, estaremos atentos às nuances do discurso satírico, que evidencia o poder masculino sobre o corpo feminino, seja de forma mais simbólica ou mais explícita, através de efeitos metafóricos relacionados ao erotismo, à violação e ao escárnio, com o auxílio de autores como Michelle Perrot e Michel Foucault. A Epopeia Pós-Moderna Portuguesa: dissimulação e simulação em As Quybyrycas Murilo da Costa Ferreira (UFRJ) As Quybyrycas, obra escrita por Antônio Quadros, são uma epopeia pós- moderna, transversal à épica pós-colonial, que se centra nas antinomias da modernidade da cultura portuguesa e no potencial de seus debates. A reescrita da história do povo português, através de uma nova semiotização épica do discurso, não faz eco com o “nacionalista místico e sebastianista racional” da ótica de Fernando Pessoa. Ao contrário, representa contemporaneamente um meio de contrapor-se a toda e qualquer forma mitificante que se construiu em torno da figura de D.Sebastião e seus sequazes que se envolveram na derrota de Alcácer-Quibir e, metonimicamente, na de Portugal. Em particular, esta obra enuncia uma proposição de realidade ao relatar as formas de racionalidade presentes na estrutura política, cultural e econômica de Portugal, do século XVI, que se tornaram implausíveis por seu carácter colonial, escravista e racialmente excludente. ABRAPLIP 2017 152 Mulheres do Império: uma leitura de Ana de Amsterdam Naira de Almeida Nascimento (UTFPR) Ainda que Ana de Amsterdam (2015), romance de Ana Cássia Rebelo, possa testemunhar uma parcela da produção a que se convencionou denominar Literatura dos retornados, pelos vínculos da protagonista e de sua família aos dramas ocorridos em finais do Império Colonial, nesse caso goeses retornados de Moçambique, nele não se destaca o ajuste de contas com o passado. Ao contrário, a construção dos cenários além-mar dá-se menos pelo resgate doloroso que por uma sugestão de porvir que habita o texto ou ainda pelas vias de uma historicidade paralela que se insinua. Provavelmente, a chave da autoficção ofereça melhores caminhos de leitura, se tomarmos ainda em conta o processo constitutivo do romance, nascido da experiência da autora com um blog iniciado em 2006. A forma do diário, contudo, é desafiada permanentemente pelas outras vozes, em particular as femininas, que se instauram no romance. O lugar da literatura portuguesa na Polônia Natalia Klidzio (Universidade Maria Sklodowska-Curie) Este artigo apresenta, inicialmente, um histórico da presença da literatura portuguesa e seu ensino no contexto estrangeiro, nos principais centros universitários da Polônia. Propõe ainda, um olhar para como esta literatura entra nos programas curriculares do país. Faz-se ainda uma busca das traduções existentes no país. Servindo-se de algumas entrevistas com professores, pontua-se as prioridades, dificuldades e o que pode ser considerado êxito no ensino desta. Com base também em entrevistas com estudantes levantar-se-á o grau de receptividade desta literatura, opiniões e sugestões. Por fim, o artigo pretende chegar a problemática da leitura da produção literária portuguesa. Objetiva tecer uma reflexão sobre o espaço ocupado com a leitura da produção literária portuguesa nos cursos de letras e levantar um questionamento de como otimizar este espaço no exterior, pontuando também passagens e experiência pessoal vivida no campo. A representação da (a)normalidade humana nos cadernos de Gonçalo M. Tavares Natanael Peres Fernandes (USP) A comunicação pretende apresentar e analisar, dos cadernos (categoria com a qual o autor organiza sua obra) de Gonçalo M. Tavares, excertos que iluminem a representação do homem no texto, buscando categorizar e analisar essas manifestações nas narrativas ficcionais. Assim, partindo de uma certa noção do que se considera como “normal” da (e na) constituição humana, seja do ABRAPLIP 2017 153 ponto vista dos discursos médico, histórico ou sociológico, intentar-se-á observar como os paradigmas de (a)normalidade são borrados (e mesmo invertidos) na obra tavariana. Por fim, a proposta deseja caminhar tendo como objetivo destacar, a partir dessas representações, qual a condição humana (ou condições de humanidade) possível(is) segundo a obra de Gonçalo M. Tavares, tendo em vista uma sociedade profundamente estigmatizada pelos regimes totalitários e por um mundo pós-Auschwitz (tão explorado pelos cadernos), onde a técnica e a barbárie se unem para objetivos de destruição do mundo e dos paradigmas éticos estabelecidos. O jogo dentro da máquina: a intertextualidade em “a máquina de fazer espanhóis” Natasha Gonçalves Otsuka (UFRJ) Em a máquina de fazer espanhóis (2011), Valter Hugo Mãe insere na narrativa dois personagens oriundos do universo policial: Jaime Ramos e Isaltino de Jesus. Personagens do escritor português Francisco José Viegas, eles são responsáveis pela tentativa da solução de um crime dentro do asilo em que o narrador está inserido. Adicionalmente, outro personagem também é convocado pela escrita de Valter Hugo Mãe nesse romance: Esteves sem metafísica, do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos. Como postulou Linda Hutcheon, em A poética da pós-modernidade, a intertextualidade é a própria condição da textualidade. Sendo assim, a comunicação proposta pretende analisar os diálogos intertextuais dentro da narrativa de Valter Hugo Mãe. Fernando Pessoa e o suicídio estoico de Barão de Teive Nathália de Lima Marquez Valentini (UFMG) Pretendo apresentar em A Educação do Estoico de Barão de Teive, um dos autores ficcionais de Fernando Pessoa, como alguns elementos da filosofia estoica são apropriados na justificação da morte voluntária desse heterônimo. O Barão, antes de se matar, escreve o seu único manuscrito, após reler e queimar – por serem imperfeitos – todos os textos que supostamente havia produzido. Mostrarei como essa prosa poética e fragmentária suscita reflexões sobre a noção de obra, relacionando o modo como Barão justifica o inacabamento e a destruição de sua obra à especulação filosófica a respeito da morte, tal como aparece no pensamento estoico, especificamente em Sêneca. Levar-se-á em consideração em que medida os princípios do Sensacionismo (compreendido aqui como a base estética da obra pessoana, e não somente uma doutrina artística restrita dentro de sua arte poética), devido às suas bases atemporais e universalistas, possibilita o diálogo com o Estoicismo. ABRAPLIP 2017 154 Poesia e escritas de si: um estudo sobre a obra de Al Berto e Ana Cristina Cesar Nathalia Greco (UFMG) O poeta português Al Berto e o seu diário configuram um espaço de pesquisa no período do meu mestrado. Sua obra reside na tensão entre vida e obra, entre ficção e verdade, em nada inferior, no que tange à noção de obra literária inventiva ou poética. É interessante perceber uma ressonância desse estilo nos escritos da poeta brasileira Ana Cristina Cesar. Principalmente ao incorporar, agudamente, o prosaico e performatizar obsessivamente os gêneros da carta e do diário íntimo em seus escritos, como pode ser observado em Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980) e A teus pés (1892), que serão analisados neste estudo. Ambos os poetas, objetos desta comunicação, apresentam uma produção literária que coloca em evidência uma intensa subjetividade que se estende pelo amplo espectro dos gêneros da escrita de si. Intenta-se cotejar a escrita íntima desses dois poetas, salvaguardando as diferenças e ressaltando as semelhanças no que diz respeito ao “eu” que emerge ou é construído em seus textos. A comparação entre esses dois grandes poetas da língua portuguesa se faz pertinente por, em ambas as escritas, conter aspectos que desviam do prescrito para os gêneros da escrita de si. De acordo com a noção tradicional desses gêneros, para além de outras marcantes características, espera-se daquele que assume uma escrita que pende aoconfessional, a revelação de um segredo. Há uma demanda na escrita íntima para que ela desvele aquilo que está no mais recôndito do artista, do escritor; evocando a conhecida expressão tout dire, de Jacques Derrida. Com isso, faz-se relevante perfilar em que medida o “dizer tudo” derridiano se manifesta em Diários, de Al Berto e na escrita de Ana Cristina Cesar. Os papéis femininos em O retrato de Ricardina (1868), de Camilo Castelo Branco Nayara Helenn Carvalho dos Santos (UERJ) Este trabalho discute a situação das mulheres no século XIX sob a perspectiva do romance O retrato de Ricardina do autor português Camilo Castelo Branco. Através da história desse livro, é possível perceber o contexto opressor da época em questão. Quando as atitudes das personagens são analisadas, notam-se aspectos vivenciados por gerações femininas com modos diferentes do comportamento que era esperado para elas. Comportamento medido pelo comedimento e pelo recato. O principal objetivo da pesquisa é mostrar como as personagens camilianas se relacionam com a sociedade portuguesa desse período, e como Camilo dava importância ao papel das mulheres com seus respectivos destinos em um momento de transição difícil na história de Portugal. ABRAPLIP 2017 155 Lisboa, Manaus: cidades como cenários nas obras de Gersão e Hatoum Orivaldo Rocha da Silva (Universidade Presbiteriana Mackenzie) A partir da análise do tratamento dispensado às paisagens urbanas de uma Lisboa que se perde nas dobras do tempo e do mito e de uma Manaus que serve como pano de fundo para uma narrativa de memórias, objetiva-se nessa comunicação aproximar os romances A cidade de Ulisses (2011) da escritora portuguesa Teolinda Gersão e Relato de um certo Oriente (1989) do brasileiro Milton Hatoum, buscando inscrevê-los numa tradição literária que constrói, reconstrói e reinventa os espaços urbanos por meio dos múltiplos olhares a eles direcionados. A estética do mal e a evolução literária de Eça de Queiroz Orlando Grossegesse (Universidade do Minho) «O Diabo sorri, (…), escreve as suas memórias, e (…), morre enfastiado e silencioso». Este diabo espelha claramente uma disposição discursiva de provocação que carateriza os folhetins publicados na Gazeta de Portugal (1866-67). Para além de “O Senhor Diabo”, títulos como “Poetas do Mal” ou “Memórias de uma forca” são elucidativos e levam-nos a intuir o efeito de choc num público não habituado a uma estética do mal exemplarmente realizada em Les Fleurs du Mal (1857). Charles Baudelaire é uma referência-chave para o jovem escritor que ecoa no perfil de ‘Carlos Fradique Mendes’, criado por Eça juntamente com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. Quando se pretende definir o nexo destas práticas com a posterior evolução literária de Eça de Queiroz, a crítica tradicional, nomeadamente de cariz biografista, cultiva a ideia de regresso ‘purificador’, que aliás se coaduna com a revisitação de Fradique Mendes e a leitura redutora de A Cidade e as Serras: o abandono da civilização cosmopolita decadente em favor da ruralidade renovadora no Norte de Portugal compreendido em harmonia com a viragem para o diabólico e milagroso ‘originais’ nas Lendas de Santos, porque afastado do paradigma moderno francês. Tal visão deve-se a uma simplificação da complexidade da cultura e literatura na segunda metade do século XIX que menoriza a relevância do conceito do dândi, idealizado como herói que empreende a última tentativa de criar expressões que sejam eximidas da ‘era da grande indústria’, um conceito cunhado por Walter Benjamin. Sob este ângulo, propomos uma reavaliação da estética do mal, também presente na chamada fase realista- naturalista, portanto entendendo-a como persistente na evolução literária queirosiana, o que contribui para definir a sua modernidade no contexto da literatura europeia finissecular. ABRAPLIP 2017 156 Escrita discrônica em Manuel António Pina: entre o neotênico e o tardio Paloma Roriz (UFF) Em seu livro Ideia da prosa, Giorgio Agamben refere-se a uma espécie de salamandra albina, um anfíbio de aspecto quase fetal, chamado axolotl, a partir do qual o filósofo propõe a imagem de uma “criança neotênica”, para através dela advertir que “antes de transmitir qualquer saber ou qualquer tradição, o homem tem necessariamente de transmitir a sua própria distração, a sua própria não latência indeterminada, pois só nela se tornou possível qualquer coisa como uma tradição histórica concreta”. Se nesta ideia de distração, ou neotenia, em sua possibilidade de infância, abertura e ausência de conhecimento, é possível entender uma forma anacrônica de inscrição no presente, por outro lado, na ideia de uma tradição histórica concreta, em seu acúmulo e saturação, podemos ver acionada outra forma de anacronismo, próxima desta vez da noção de tardio, trabalhada pelo teórico e crítico palestino Edward Said. A noção de tardio teria a ver com uma sobrevivência além do aceitável e do normal. Neste sentido, viver uma condição tardia significa viver rumo ao fim, com plena consciência, com plena memória e ciência do presente. O propósito desta comunicação é procurar refletir em que medida a obra poética do escritor português Manuel António Pina pode ser entendida dentro de uma condição ao mesmo tempo neotênica e tardia, dentro, portanto, de uma condição anacrônica, o que se manifestaria em procedimentos temáticos recorrentes em seus poemas, como no caso da morte e da infância, e na maneira com a qual a sua poesia aponta para certa inadequação em relação ao que vai se desenhar como uma poesia “nova” nos anos 70 em Portugal, voltada em grande parte para o esgotamento do ethos modernista, em sua procura de abertura e criação de novos paradigmas. Como se escreve agora uma canção? Patrícia Chanely Silva Ricarte (UFMG) Apresentarei, nesta comunicação, um estudo acerca da relação entre poesia e música na obra dos poetas portugueses contemporâneos Rui Pires Cabral, Manuel de Freitas e Luís Quintais. A partir do conceito discursivo de ritmo, que distingue a linguagem poética da musical, busco compreender, em minha abordagem, o diálogo crítico que, por meio da historicidade e da subjetividade, tais poéticas estabelecem com a tradição moderna da poesia, entendida em sua analogia com a arte da música. Trata-se, nesse sentido, de conceber a perda ou ausência da música na lírica portuguesa contemporânea – propalada, em maior ou menor grau, por cada um desses três autores – como fenômeno relacionado à consciência histórica do poeta acerca da poesia. Ao se colocar depois da música, essa escritura também assume uma posição depois da poesia ou, melhor dizendo, inscreve-se como um depois da história (moderna) da poesia, na medida em que, ao se definir pelo ritmo ou pela escuta do ritmo ABRAPLIP 2017 157 discursivo ou subjetivo, na acepção de Henri Meschonnic, o texto poético torna-se linguagem sem música ou linguagem que tem a sua história em seu próprio trabalho poemático. Assim, a concepção moderna da poesia como música ou como algo análogo à música dá lugar, nessa nova perspectiva, à ideia de poesia e, sobretudo, de poema como transformação crítico-discursiva do arquivo musical. A história de Inês contada aos pequenos Patrícia da Silva Cardoso (UFPR) O episódio envolvendo a tríade Inês de Castro, Afonso IV e Pedro, seu filho, está entre as passagens da história portuguesa que mais retomadas literárias vem conhecendo ao longo dos séculos, como pode ser observado na bibliografia dedicada a listar as obras de temática inesiana publicadas em Portugal e no estrangeiro. Nesse expressivo contingente, quando se trata de abordar o tema a atenção dos autores volta-se predominantemente para o casal de amantes separado pela morte trágica de Inês, atrelada às circunstâncias em que tal morte ocorre. Para quem se interesse em ultrapassar os limites desse núcleo, são significativas as mudanças de perspectiva sobre o episódio e seus sentidospossíveis operadas quando se alteram os tipos de texto e os narradores, como acontece em “Teorema”, conto antológico de Herberto Helder, cuja narrativa fica a cargo de um dos algozes de Inês. Investindo nesse campo, esta comunicação focalizará Inês, um livro em que tanto o formato, dedicado ao público infanto-juvenil, quanto a narradora – Beatriz, filha do casal de amantes infelizes – contribuem para discutir-se o alcance de uma velha história. Carlos de Oliveira – Sobre o lado esquerdo: Poesia e poética cinematográfica em Manuel Gusmão e Carlos de Oliveira Patrícia Resende Pereira (UFMG) O estudo tem a proposta de discutir a maneira como o crítico português Manuel Gusmão tem condições de expandir a escrita poética de Carlos de Oliveira no média-metragem Carlos de Oliveira – Sobre o lado esquerdo, de 2007. O filme, dirigido por Margarida Gil, co-autora do roteiro, pode ser compreendido como uma colagem de fragmentos de Finisterra: paisagem e povoamento, de 1978 – obra responsável por fornecer o cerne para a narrativa cinematográfica – além de outros livros de poesia, como Sobre o lado esquerdo, e textos de O aprendiz de feiticeiro. Deve-se ter em mente que Manuel Gusmão, também ele um poeta, é um ensaísta que estudou por anos a obra poética de Carlos de Oliveira, situação pouco comum no cinema. Diante disso, a proposta de estudo é a de se estabelecer um diálogo entre Manuel Gusmão, seu trabalho como ensaísta e poeta, e a poesia de Carlos de Oliveira, agora levada para as telas por um especialista em sua obra. ABRAPLIP 2017 158 O narrador errante e paródico em Caim, de José Saramago Paula Karina Verago Petersen (PUC-SP) O objetivo desta pesquisa é o de analisar a presença do narrador no romance Caim, de Saramago, a partir do diálogo que estabelece com o narrador do episódio bíblico de Caim, que serviu de matriz para esta nova versão. A análise comparativa demonstrou que o elo comum entre ambas as narrativas – o Caim bíblico e o de Saramago – é o sinal de errância que, imposto por Deus e assumido por Caim, dissemina-se por todos os planos do romance de Saramago, atingindo o narrador, os personagens e os planos discursivos de narrativas dentro de outras, numa estrutura em abismo. Por outro lado, é a paródia o outro elemento que irá desconstruir o relato bíblico por meio da inversão, na medida em que, além de trazer para o texto um Caim questionador dos imperativos divinos, rebaixa Deus à posição de ser humano, repleto de falhas e dúvidas. No nível da microestrutura, a paródia se dá tanto por paralelismo, quanto por inversão. No primeiro caso, Saramago dá continuidade à errância presente na narrativa bíblica, porém, de forma amplificada: em primeiro lugar, Caim materializa sua errância viajando no tempo e no espaço pelas mãos no narrador; além disso, o próprio narrador é errante, deslizando pelos espaços narrativos e cedendo sua voz aos personagens da obra. No segundo caso, é a inversão que conduz a interpretação paródica da narrativa bíblica de Caim na medida em que o narrador rebaixa pelo riso e pela irreverência profana a seriedade sagrada do texto original e a onisciência de um narrador participante do plano da divindade. Desta forma, o romance, ao inserir no discurso um narrador errante, convida o leitor a realizar um exercício de crítica e auto- crítica, que lhe oferece uma nova forma de pensar o mundo em que vive. Memória, Trauma e Infância em três romances de António Lobo Antunes Paula Renata Lucas Collares Ramis (UFPel) Este trabalho dedica-se ao estudo do espaço da infância na narrativa do escritor português António Lobo Antunes, tomando como objeto de análise os seguintes romances: O arquipélago da insónia (2008), Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009) e Sôbolos rios que vão (2010). Tenciona- se mostrar como a temática da infância é revisitada ficcionalmente a partir da memória de um passado quase sempre traumático. Para fundamentar a hipótese de que a memória é um elemento constitutivo nas narrativas antunianas, busca-se perceber como as personagens rearticulam o passado através da memória da infância e, muitas vezes, diante da eminência da morte. Procura-se analisar a reconstrução (e narração) de momentos precedentes partindo das contribuições de Paul Ricoeur, Sigmund Freud, Márcio Seligmann- Silva e Walter Benjamin. Em suma, neste trabalho, pretende-se mostrar que as personagens antunianas, nos três romances escolhidos, viveram uma infância ABRAPLIP 2017 159 marcada por algum acontecimento traumático recuperado/reinventado repetidamente na narração. Falsos romances portugueses editados em Paris no século XIX Paulo Motta Oliveira (USP) São raros os trabalhos sobre os romances em português publicados na França ao longo do século XIX. Pude pesquisar este material em 2013, com apoio da FAPESP. Em minha apresentação pretendo trabalhar com uma pequena parcela desses romances, que possui uma característica peculiar: são narrativas que, mesmo sendo traduções de livros estrangeiros, pretendem simular que são obras escritas por portugueses. Luís de Camões no Inferno Paulo Ricardo Braz de Sousa (UFF) Dada a aguda modernidade de que se reveste Os Lusíadas, de Luís de Camões, a crítica de poesia, sobretudo aquela que tem início a partir das teses revolucionárias de Jorge de Sena em seus estudos camonianos, tem destacado sempre renovado interesse em leituras do épico que lhe desvendem o seu caráter intrinsecamente poético em tensão com os discursos oficiais da narrativa das grandes navegações. Na esteira de alguma tradição crítica mais recente da poesia camoniana, esta comunicação se propõe a apresentar os resultados parciais da minha pesquisa de doutorado em torno d’Os Lusíadas e seus sentidos diabólicos subjacentes a uma visão ideológica fraturada do homem do século XVI, ou seja, a uma perspectiva em dissensão quanto ao caráter simbólico que o poema supostamente funda, narrando a viagem de Vasco da Gama. O ponto fundamental desta análise compreende uma interpretação global d’Os Lusíadas por meio de uma visada crítica lançada sobre o núcleo irradiador de sentidos que localizo na estrofe 666 do poema (estância 1 do Canto VII). A referida estrofe, cercada por singulares meditações de caráter moralista, católica e contrarreformista, narra nada mais nada menos que a chegada dos portugueses à Índia (objetivo da viagem): “Ora sus, gente forte, que na guerra/ Quereis levar a palma vencedora:/ Já sois chegados, já tendes diante/ A terra de riquezas abundantes!” (VII, 1). As implicações críticas desta estrofe para a leitura do poema dão a ver, mais do que a impossibilidade do canto encomiástico, a afirmação, sem reservas, de um quadro humano esfacelado pelas contradições do seu tempo. ABRAPLIP 2017 160 Redes de estereótipo: o Brasil da televisão na literatura portuguesa do século XXI Paulo Ricardo Kralik Angelini (PUC-RS) Muito mais do que a literatura, o que culturalmente une Portugal ao Brasil, especialmente desde as décadas finais do século XX, é a televisão. O escritor Eduardo Lourenço reflete sobre isso na obra A nau de Ícaro, quando vê um certo apagamento nas relações literárias, ao mesmo tempo em que percebe a força da mídia brasileira em terra lusitana. A globalização, e assim a define Stuart Hall, se refere “àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado” (HALL, 1999, p.67). Esta interconexão fica visível na forma como a literatura portuguesa recupera, de modo recorrente, este mundo fantasioso vendido nas telenovelas: novelas, atrizes, atores e um cenário de sonhos. Este trabalho investiga, pois, as relações complexas entre a literatura e a comunicação, seja de forma afetiva, na lembrança de uma infância ou adolescência compartilhadas com personagens de telenovelas,seja de modo agressivo, na reprodução de estereótipos reforçados via televisão. Para o embasamento teórico, pretende-se discutir mídia, identidade, estereótipo, em obras de autores como Eduardo Lorenço, Stuart Hall, Montserrat Guibernau, Robert Stam, Homi Bhabha, Zigmunt Bauman, Ana Scott, Eric Landowski, entre outros. O “último leitor” e a personificação narrativa de António Lobo Antunes nas Cartas da Guerra Pedro Beja Aguiar (PUC-Rio) A proposta desta comunicação é analisar de maneira provisória o volume de cartas do escritor português António Lobo Antunes, organizadas e publicadas no livro “D’Este viver aqui neste papel descripto – Cartas da Guerra” (2005). Buscaremos situar o jovem médico português, visto que Lobo Antunes não era um escritor quando de sua missão militar na guerra colonial em Angola, como um “último leitor”, na definição do crítico literário argentino Ricardo Piglia (2006). Imerso na solidão e na distância que a guerra proporciona, António Lobo Antunes parece identificar, no cotidiano de leitura e de correspondência com a sua companheira, instantes de refúgio e de evasão que permitiram uma nova inscrição da sua experiência no real. Esta nova inscrição, dentro do contexto múltiplo e anônimo que é a guerra, na concepção de Piglia, faria do jovem António que escreve as cartas uma personificação narrativa do António leitor real; ou seja, ao escrever sobre si e sobre a sua experiência, António se torna leitor de si mesmo, tornando-se visível para a sua companheira. Ao assumir a distância existente entre a personagem protagonista, narrador das cartas, para construir uma metáfora de si mesmo, Lobo Antunes se transforma na própria obra, deslocando-se para a enunciação e materializando-se como ABRAPLIP 2017 161 relato. Neste sentido é que se tornaria possível aproximar o António Lobo Antunes personificado nas cartas à figura do “último leitor” da guerra colonial. Ensaio sobre a cegueira, um romance-síntese sobre a temática do olhar na obra de José Saramago Pedro Fernandes de Oliveira Neto (UFERSA) O olhar está entre os temas recorrentes da literatura saramaguiana – sobretudo no Ensaio sobre a cegueira. Entretanto, este não apareceu com o romance publicado em 1995, tampouco findou aí; este é um fio que perpassa toda sua obra: remonta ao período quando Saramago ainda polia os elementos que dariam forma ao seu universo literário (na crônica, no conto, nos romances da primeira fase) e se manteve direta ou indiretamente nas criações posteriores à obra na qual o tema é sua principal dorsal. De modo que podemos afirmar ser a obra de José Saramago o exercício para um tratado sobre o tema cuja dimensão maior se confirma no Ensaio. A recorrência temática não se trata apenas de uma revisão para uma tese, mas também, não excluindo a dimensão ética e política como queria o escritor, um apelo à visão, a outra forma de ver. Por isso, investir na leitura de que o Ensaio sobre a cegueira se constitui um romance-síntese. Ao tratá-lo dessa maneira, esta comunicação alcança o interesse de examinar romance a romance ou mesmo em outras peças do universo saramaguiano a recorrência, a diversidade como o tema é trabalhado pelo escritor e as relações cerzidas no jogo intertextual. Esta obra é tratada aqui como ponto de observação para os lugares da visão sugeridos pela literatura de Saramago. Nesse percurso, nos guiaremos por responder sobre quais as motivações sobre o tema e em torno de quais variantes se assume. Síntese sobre uma síntese, o que evidenciamos é uma plurividência de sentidos para um tema que se repete não da mesma maneira e constitui uma das perspectivas mais ricas sugeridas no decurso do projeto literário conduzido pelo escritor português. Estratos filosóficos na obra saramaguiana: o ano da morte do estoico Ricardo Reis Pedro Nunes de Castro (UNISC) A presente comunicação segue a esteira de outros estudos que evidenciaram a interação profícua da obra de José Saramago com a filosofia. Fixando-nos em O ano da morte de Ricardo Reis (1984) pretendemos demonstrar que nele a corrente filosófica do Estoicismo é um componente intertextual determinante. Esta filosofia, na fase romana, privilegiou o âmbito ético preconizando diretrizes para que o ser humano alcance a eudaimonia, isto é, a felicidade. Entretanto, a interpretação de tais diretrizes acarretou uma polaridade: a possibilidade de inferir que o dever é adaptar-se às circunstâncias, concebendo uma postura contemplativa, e de outro lado, facultou-se interpretar que o dever é moldar ABRAPLIP 2017 162 as circunstâncias segundo as convicções, significando uma exortação à ação. E esta mesma ambivalência verifica-se no romance em tela, demarcada pela atuação de Ricardo Reis e da personagem Lídia. Entendemos que trazer a lume esta relação dialética do romance saramaguiano com o estoicismo agregará novas possibilidades hermenêuticas à fortuna crítica do prêmio Nobel de literatura. E para efetivar esta análise, referenciamo-nos em Kristeva (1974) e Mikhail Bakhtin (1981), que proclamam a onipresença da intertextualidade e do dialogismo na linguagem literária. “The Business of all”: O abolicionismo, a memória histórica da escravatura e a formação do discurso literário português moderno. Dos debates em O Investigador Portuguez em Inglaterra e em Correio Braziliense a Alexandre Herculano e Eça de Queirós Pedro Schacht Pereira (Ohio State University) A relação da cultura portuguesa com a história do império e com a instituição da escravatura nunca foi fácil, e nem a chegada da democracia em 1974 nem a liquidação do império colonial no ano seguinte facilitaram a emergência de debates abertos sobre a questão. Em anos recentes alguns estudiosos (sobretudo no domínio da historiografia) têm chamado a atenção em relação ao tema, mas continuam a faltar estudos de fôlego, e na área dos estudos literários a pesquisa tem avançado sobretudo em relação à literatura contemporânea e à problemática da Guerra Colonial. A partir de uma análise de artigos de duas publicações direta ou indiretamente associadas ao império colonial português em África, como sejam o Correio Braziliense ou Armazém Literário (1808-1820) e O Investigador Portuguez em Inglaterra (1811-1819), pretendo mostrar como a emergência da instituição literária moderna em Portugal é indissociável dos debates sobre o abolicionismo e o papel que estes tiveram na formação e transformação da memória histórica da escravatura e dos legados do colonialismo. Em seguida mostrarei como a questão recua da atenção pública a partir da afirmação da primeira geração romântica e nomeadamente com Alexandre Herculano, até se plasmar num jogo de alternativa entre a transparência e a opacidade na obra de Eça de Queirós, na era em que o projeto colonial português em África começou a receber os impulsos mais decisivos. A dinâmica da violência em o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe Penélope Eiko Aragaki Salles (USP) De acordo com Cynthia Sarti (2011, p.51), em situações de violência, a construção da categoria vítima leva em consideração determinados grupos ABRAPLIP 2017 163 sociais (crianças, mulheres, idosos, etc), especificados por gênero e idade, considerados mais vulneráveis à violência. Desta maneira, são vistas como vítimas potenciais e o sofrimento delas considerado legítimo, enquanto que outros grupos sociais não são reconhecidos como passíveis de sofrer violência. Nessa perspectiva, é imprescindível compreender a dinâmica da violência como algo complexo e relacional (FASSIN, 2009). A posição de vítima não corresponde a um lugar fixo, ela depende do contexto de violência em que está inserida e da figura do agressor. Assim como a posição do agressor, a de vítima pode-se deslocar entre diferentes indivíduos dependendo da dinâmica da violência. De modo geral nos estudos antropológicos, temos com maior frequência o relato da vítima e pouco material sobre a versão do autor da violência(ALVIM; SOUZA, 2005; ROSA, 2008; CORTÉZ; SOUZA, 2010). Uma das justificativas deve-se ao fato de nem sempre conseguir identificar ou localizar o agressor ou ainda saber quais foram as motivações e as circunstâncias da violência. Como forma de compreender melhor a dinâmica da violência contra a mulher, analisaremos alguns trechos do romance o remorso de baltazar serapião, do escritor português valter hugo mãe. O que o italiano médio sabe da literatura portuguesa Philippe Simon (Université de Paris-Sorbonne) As obras de divulgação (como dicionários, enciclopédias) sintetizam e resumem mais ou menos precisamente as pesquisas mais especializadas em vários âmbitos, cientifíco, técnico e também literário. Estas obras são muito importantes porque têm uma grande difusão e porque contribuem fortemente a formação cultural de um amplo público de cultura média.. Nesta comunicação, tencionamos analisar a formação da imagem « divulgativa »da literatura portuguesa na Itália. Em primeiro lugar estudaremos a primeira síntese enciclopédica sobre este assunto : o artigo « letteratura portoghese » na Enciclopedia Italiana Treccani primeira enciclopédia italiana no século XX (publicada a partir dos anos trinta) de autoria de Fidelino de Figueiredo, resumo das suas pesquisas sobre a literatura portuguesa. Em seguida, ilustraremos a evolução da imagem da mesma, as vezes surpreendente e paradoxal, noutra obra divulgativa mais recente e muito difundida : a Enciclopedia della letteratura Garzanti publicada a partir dos anos 70. Análise do poema “Súmula” de Herberto Helder na perspectiva do Surrealismo: afinidades e divergências Priscila Andrea Merisio (UTFPR) Este trabalho se desenvolverá a partir de uma problematização que envolve o fato de Herberto Helder ser considerado como surrealista ou não. Neste sentido, o autor nega sua relação e afirma que “o surrealismo foi uma soma ABRAPLIP 2017 164 de equívocos” (Entrevista à “Luzes da Galiza”, 1987). Além disso, o poeta não pertenceu formalmente ao grupo surrealista (MAFFEI, 2007). Nesta pesquisa, verificaremos se o poema “Súmula” pode ser enquadrado como surrealista ou não a partir de autores que afirmam, negam e ponderam sobre sua participação: “Ele é e não é um poeta surrealista” (GUEDES, 2013); A busca pela “liberdade subversiva” do poeta é uma das afinidades com o surrealismo (JOAQUIM, 2016). Se a escrita automática não é condicionante para indicar se um poema possui elementos surrealistas, ela funciona como uma forma de preservar a primeira manifestação de desejo (LIMA, 2009). O surrealismo português tem alguns pontos de divergência com o surrealismo bretoniano francês, e um deles é a questão da espiritualidade, “da manifestação do espírito”. Muito além do inconsciente, o movimento pensa novas funções do corpo e dos objetos (JOAQUIM, 2016). Estas particularidades do surrealismo português serão aplicadas na análise do poema “Súmula”. Lisboa livro de bordo: olhares sobre Lisboa que vão além do óbvio Rachel Hoffmann (FAIMI/UNIESP) Durante muito tempo, a ditadura salazarista se utilizou de imagens acerca do ser português como povo colonizador por excelência, e de Portugal como império, para justificar sua maneira de governar. Entre essas imagens, destaca-se ainda a eleição de Lisboa como capital representante de um passado marcado pela expansão marítima levada a cabo pelos portugueses. Em nosso trabalho trazemos uma leitura do livro Lisboa, livro de bordo: vozes, olhares, memorações (1997), de José Cardoso Pires, a qual segue a linha de reflexão por nós adotada em nossa tese de doutorado. Se a proposta de nossa tese foi verificar de que maneira o uso da ironia e da paródia a mitos da tradição portuguesa permite o questionamento da identidade lusa em textos de Cardoso Pires, na análise do livro escolhido para apresentação, verificaremos de que modo a retomada de textos conhecidos por um leitor virtual possibilita o desmascaramento da leitura que se fez durante muito tempo da cultura portuguesa. Nesse sentido, a estrutura do livro, marcada por textos introduzidos por frases, cada um deles representando um olhar sobre Lisboa, leva a uma fruição do texto a partir da focalização de passagens consideradas elementares para a construção da interpretação por nós sinalizada. Paralelamente, a retomada de algumas imagens, como a da capital portuguesa como barca, abordadas de maneira crítica pelo narrador, faz com que recorramos uma vez mais ao conceito de ironia, o qual, juntamente com as visões de teóricos que se debruçaram sobre a obra cardoseana, mostra-se necessário a nossa abordagem. ABRAPLIP 2017 165 Variações contemporâneas do monumentum horaciano na lírica de língua portuguesa Rafael Campos Quevedo (UFMA) Tendo como propósito mais geral a reflexão acerca das relações entre a lírica contemporânea de língua portuguesa e tradições literárias canonizadas, esta comunicação aborda variações atuais da tópica horaciana da perenidade da poesia cuja mensagem, amplamente cultivada pela antiguidade greco-latina e pela poesia portuguesa de índole clássica (Sá de Miranda, Antonio Ferreira, Camões e Correia Garção), trata do poder imortalizador da palavra poética. Nesse sentido, poemas dos brasileiros Geraldo Carneiro, Dora Ferreira da Silva, Antônio Cícero, Marco Catalão e do português Pedro Tamen serão abordados com o intuito de se discutir que novos sentidos são produzidos a partir desse antigo topos e, em última instância, o que dizem tais reescritas acerca de traços da própria contemporaneidade lírica em língua portuguesa. Como referencial teórico serão empregados os estudos de Ernst Robert Curtius sobre investigação tópica e Francisco Achcar sobre os temas horacianos na poesia de língua portuguesa. Heroísmos à beira-mar: Cesário Verde e Augusto dos Anjos Rafael Iatzaki Rigoni (UFPR) João Cabral em seu poema “O sim contra o sim” estabelece uma relação entre a ars poetica de Cesário Verde e de Augusto dos Anjos por meio da metáfora da “tinta – água clara/suja” com que esses poetas “coloriam” seus poemas. Em nosso trabalho gostaríamos de refletir sobre as relações entre Cesário Verde e Augusto dos Anjos a partir da leitura analítica de dois sonetos: “Heroísmos” do poeta português e “Alucinação à beira-mar” do poeta brasileiro. Dentre os possíveis pontos de aproximação dos dois poemas, como por exemplo, a influência baudelairiana, a forma do soneto, os indicies de modernidade e outros, partiremos da análise do uso da imagem do “mar” para desenvolvermos uma reflexão sobre a linguagem poética, a construção da subjetividade no poema e a relação com a tradição presente nos poemas. O papel do Cavaleiro Medieval na obra “Mensagem”, de Fernando Pessoa Ranieri Emanuele Mastroberardino (UFPR) A presente comunicação é cara ao contexto do modernismo português e possui, como foco basilar, evidenciar e analisar os atributos intrínsecos ao cavaleiro medieval, bem como o posicionamento ativo deste, na elucidação do ABRAPLIP 2017 166 espírito de consciência criadora nacional, que perpassa o livro Mensagem, de Fernando Pessoa. Nesta linha investigativa, destacaremos, em uma segunda etapa, como que as características dos guerreiros atrelavam-se ao verdadeiro sentimento de pertencimento à nação portuguesa, tal como à incumbência do poeta, a qual se distinguia por promover uma remodelação do subconsciente nacional do povo lusitano, remodelação que não se associava aos ideais do nacionalismo ideológico e político do Estado Novo, mas ao ideal de ressuscitar/ regenerar Portugal, tanto no âmbito cultural quanto no âmbito espiritual. Antologias de poesia brasileira de José Osório de Oliveira Raquel dos Santos Madanêlo Souza (UFMG) José Osório de Oliveira foi um crítico, escritor, tradutor, ensaísta e cronista português que estabeleceu um fecundo diálogo com importantes escritores brasileiros durante as primeiras décadas do século XX. Seu trabalho de divulgação da literatura brasileiraem terras lusitanas traduziu-se em estudos de natureza variada, que incluem desde a primeira História da literatura brasileira produzida em Portugal a algumas antologias de prosa e poesia do Brasil. O objetivo dessa comunicação será refletir sobre as antologias de poesia, organizadas por Oliveira, e sobre seu papel na divulgação de nossa literatura naquele país. Húmus, de Raul Brandão: mudanças de paradigmas na figuração da personagem Raquel Trentin Oliveira (UFSM) Na esteira de Aristóteles, boa parte da teoria narrativa tradicional tratou da personagem como subordinada à ação. Muitas vezes, portanto, a complexidade da personagem ficou reduzida à sua função de agente na intriga. A teoria narratológica contemporânea, no entanto, tem tentado revigorar os estudos da personagem, ampliando seu escopo de abordagem em diálogo com outras áreas do saber, como a psicologia cognitiva e as teorias da informação. Nesse contexto, esta comunicação busca refletir sobre o seguinte problema: com as metamorfoses da intriga na narrativa do século XX, que formas e status a personagem assume? No caso do romance sem intriga, ou melhor, em que os eventos se passam na mente do narrador-personagem, como qualificar o papel da personagem em relação à ação? “Os maiores dramas passam-se no silêncio”, isso é o que diz o narrador do romance Húmus (1917), de Raul Brandão, escolhido para estudo. Tal narrativa é bastante apropriada à discussão desse assunto, pois, além de inaugurar diversas facetas tomadas pelo romance português contemporâneo e abandonar a lógica da intriga convencional, incorpora uma dimensão reflexiva propensa a redimensionar conceitualmente a personagem em sua relação com a ação. ABRAPLIP 2017 167 Maria Amália Vaz de Carvalho: uma voz atuante no periódico oitocentista Semanário Maranhense Raymara Gaspar Pereira (UFMA) A presente comunicação se articula com as reflexões e debates do “Grupo de Estudos e de Pesquisa Literatura e Imprensa” (GEPELI/UFMA/FAPEMA/ CNPq) e traz os resultados a respeito da presença da escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho no periódico oitocentista do Maranhão intitulado Semanário Maranhense. Para a realização deste trabalho foram realizadas visitas ao acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite, em São Luís, e ao acervo digital da Biblioteca Nacional. Após reunir todos os exemplares, verificamos as questões historiográficas, analíticas, críticas e biográficas a respeito da autora. Destacamos a atuação de Maria Amália Vaz de Carvalho num período em que as mulheres não tinham muito espaço nos periódicos, mas no Semanário Maranhense ela ganha destaque como literata e crítica. Propomos a instrumentalização e análise de textos jornalísticos como fonte e objeto de pesquisa, já que desde o século XIX é um importante instrumento difusor da cultura e da literatura. Além disso, o periódico ganhou status de documento e o estudo da fonte jornalística permitiu ampliar os horizontes para novas reflexões e problemáticas nos conhecimentos sobre o passado literário no país. Diálogos lusitanos: a presença portuguesa em escritos cascudianos Regina Lúcia de Medeiros (UFRN) Propomos uma análise integrativa de “O mouro indispensável”, diálogo imaginário que compõe o Prelúdio e fuga do real, do norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo. Datado de 1974, esse livro é fruto da maturidade do escritor, revelando traços recorrentes na produção de seu autor e apresentando diálogos entre um “eu-ficcionalizado” do próprio autor, que atende ao vocativo de “professor”, e personagens da literatura ocidental, figuras religiosas e personalidades políticas. No capítulo analisado nesta comunicação, o narrador cascudiano dialoga com Luís de Camões numa praia de Moçambique. Nesse capítulo, a descrição inicial é longa e detalhada, com comentários sobre a história do país e observações de caráter etnográfico sobre a sociedade moçambicana, lembrando a escrita dos textos de Made in Africa (CASCUDO, 2002), assim como os interesses focalizados nesse livro, tais como a alimentação e os gestos africanos. Nossa leitura parte da concepção dialógica da literatura e retoma outras obras do escritor potiguar com o objetivo de comprender o seu posicionamento em relação à tradição portuguesa. ABRAPLIP 2017 168 Todo o estado de alma é uma paisagem: Paùlismo, Interseccionismo e Lúcio Cardoso Regina Márcia de Souza (UFPR) A presente pesquisa tem por objetivo estabelecer um diálogo entre a poesia interseccionista e paùlica de Fernando Pessoa e a poesia do romancista e poeta mineiro Lúcio Cardoso. Será analisada a maneira como cada poeta trabalha temas e formalidades estéticas em comum, colocando a poesia cardosiana em debate, bem como aspectos da obra de Fernando Pessoa que foram ofuscados pela construção heteronímica. A partir da premissa pessoana de que “todo estado de alma é uma paisagem”, presente em uma nota preliminar atribuída ao projeto poético Cancioneiro, será discutida a ocorrência da paisagem como representação de um estado de alma nos poemas “Impressões do Crepúsculo” e “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa, e alguns poemas selecionados de Lúcio Cardoso. Se vão da lei da morte libertando: o argumento histórico épico na Comédia de Diu Renata Brito dos Reis (UFBA) É irrefutável a importância que o teatro de Gil Vicente representa para a história da literatura dramática portuguesa. No entanto, pensando nas instâncias que incidem sobre a definição do que é canônico, torna-se necessário refletir sobre as condições que propiciaram a criação de uma tradição literária denominada de Escola Vicentina por Teófilo Braga (1898). Nesse sentido, além de levar em conta que entender um dramaturgo é também entender os seus pares, aqueles com quem ele dialoga, é evidente que não se pode desvinculá-lo do contexto histórico no qual está inserido. Com base nisso, e em consonância com o pensamento de José Antônio Saraiva (1981), em Gil Vicente e o fim do teatro medieval, a proposta deste trabalho se configura como um esforço de projetar luzes na história da literatura portuguesa para repensar, assim, a afirmação de que a obra de Gil Vicente é uma espécie de resumo de toda uma época. Para tanto, propõe-se estudar de que modo Simão Machado, poeta e dramaturgo português do século XVI, se relaciona com a história ao lançar mão de um argumento histórico-épico para compor a sua obra dentro dos limites do gênero comédia. Dessa maneira, é patente que, na Comédia de Diu, a construção dos heróis nacionais extrapola os limites da relação entre ficção e história. Isso porque, no contexto de decadência em que se encontrava Portugal quando a peça foi impressa (1601), a história recuperada através do texto dramático não é apenas repetida, mas experimentada no “aqui e agora” inerente ao drama. ABRAPLIP 2017 169 “Suave Milagre” e “A aia”: Eça de Queirós e a religião como tema Renata Santos Cruz (UEFS) Levando em consideração a literatura portuguesa, nota-se que há referências a temática religiosa. A presença dessas marcas pode ser explícita ou não, exigindo do leitor um conhecimento prévio dessa temática para melhor compreender este diálogo. Uma vez que, para haver a intertextualidade o mesmo precisa demonstrar a habilidade de reconhecer tais relações. É necessário o estudo de textos literários de escritores portugueses, para podermos identificar a presença da tradição bíblica nas narrativas, pois, essas obras são de grande importância, podendo identificar a tradição bíblica vista pela perspectiva dos autores, como uma das principais influências culturais do ocidente. A temática desse trabalho é relevante no que objetiva realizar o estudo das influências bíblicas em contos modernos. Para exemplificar, temos os contos de Eça de Queirós Suave Milagre (1898) e A aia (1893), os quais dialogam com os elementos bíblicos, ou seja, a recriação de textos literários da tradição bíblica é evidente. Portanto, Eça de Queirós em toda a sua maestria,