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17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 1/45
O Modernismo: a Geração de 30
Profa. Teresa Montero
Descrição
Você vai estudar a terceira geração do Modernismo brasileiro
denominada Geração de 30. Na prosa de ficção, através das obras de
Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Na poesia, com as
obras de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade.
Propósito
Ao conhecer uma das gerações do Modernismo brasileiro, você
ampliará seus conhecimentos sobre a história da literatura brasileira e o
contexto histórico no qual ela está inserida.
Objetivos
Módulo 1
Graciliano Ramos e Vidas secas
Identificar as características principais da terceira geração do
Modernismo a partir de Graciliano Ramos e sua prosa de ficção
regionalista.
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https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 2/45
Módulo 2
Rachel de Queiroz e Jorge Amado
Identificar as principais obras e características da prosa de ficção de
Rachel de Queiroz e Jorge Amado.
Módulo 3
Cecília Meireles e de Carlos
Drummond de Andrade
Identificar a poesia da Geração de 30 na obra de Cecília Meireles e de
Carlos Drummond de Andrade.
Introdução
Vamos explorar como se configurou a Geração de 30 na literatura
brasileira nos dois gêneros: ficção e poesia.
Começamos na ficção com Vidas secas de Graciliano Ramos, um
retrato do modo de viver do nordestino vitimado pela seca, pela
miséria e a ignorância. O autor analisa o mais íntimo do ser
humano. Seus romances são um modo de refletir mais do que
sobre o homem ou a mulher nascidos no Nordeste, seus
personagens são universais.
Abordaremos ainda a ficção nas obras de Rachel de Queiroz e
Jorge Amado. Rachel de Queiroz ficcionaliza as experiências das
mulheres de seu tempo, de sua região, deixando à mostra as
questões de gênero. Jorge Amado é o grande autor da Bahia. Em
comum com Graciliano Ramos, eles mostram como o Brasil era
governado por uma minoria voltada aos seus próprios interesses,
contrária aos valores democráticos.
Também estudaremos a poesia de Cecília Meireles. Autora
múltipla, presença rara na literatura feita por mulheres.
Contemporânea das mudanças na poesia trazidas pela Geração
de 22, ela criou um modo pessoal de abordar grandes temas:

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vida, morte e amor. Sem fazer necessariamente uma adesão ao
nacional, cultivou o universal, uniu o passado ao futuro.
Finalmente, abordaremos a poesia de Carlos Drummond de
Andrade. Marcada por uma dicção universal, impregnada pelos
temas de seu tempo de homens partidos pelas mazelas da
Grande Guerra, se interrogou constantemente sobre o estar no
mundo. Legou à poesia brasileira uma forte carga metafísica e
metalinguística.
Conhecer os vários aspectos da Geração de 30, que provocou
uma verdadeira mudança no modo de se pensar o homem
brasileiro, com uma linguagem mais próxima do homem comum,
e estimulou ideais de justiça social e valorização das coisas do
Brasil, é uma forma de se refletir sobre o momento mais fértil da
literatura brasileira: o Modernismo.
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1 - Graciliano Ramos e Vidas secas
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as características
principais da terceira geração do Modernismo a partir de Graciliano
Ramos e sua prosa de �cção regionalista.
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17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30
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Contexto histórico e social
da Geração de 30
Quando surgiu uma nova geração de escritores do Modernismo
brasileiro na ficção e na poesia entre as décadas de 1930 e 1940, o
Brasil vivia momentos de grandes mudanças, após as contradições da
República Velha (1894-1930).
A alternância de poder dos proprietários rurais paulistas e mineiros,
condutores da chamada Política do Café com Leite, já sinalizara o
declínio da cultura canavieira no Nordeste, que não conseguiu competir
com o café paulista. Este, por sua vez, sofreu um grande baque na crise
cafeeira no final dos anos 1920.
O processo de industrialização com o surgimento das primeiras fábricas
gerou o crescimento das cidades. A urbanização de São Paulo e do Rio
de Janeiro refletiu também grandes transformações no campo político e
social: o surgimento da classe operária, do subproletariado e o
crescimento da pequena classe média.
Os ecos da Revolução Russa de 1917 chegaram ao Brasil, refletindo as
contradições do momento histórico. A vinda de imigrantes europeus
trouxe uma nova consciência social e modificou o mercado de trabalho.
As greves operárias entre 1914 e 1918 atestaram a nova realidade.
Fábrica no Brasil, 1880.
Se o papel político relevante do Exército desde a Proclamação da
República indicou um novo cenário, as oligarquias rurais tão bem
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retratadas nos romances nordestinos, particularmente nos de Jorge
Amado, viram seu poder abalado.
Os velhos problemas expostos pela República Velha culminaram na
Revolução de Outubro ou Revolução de 1930, com a ascensão do
Governo Vargas (1930-1945) após um golpe de estado. Durante quinze
anos, a política getuliana lidou com graves conflitos oriundos do
descontentamento da população devido às crises na economia.
A decretação da ditadura do Estado Novo (1937 -1945) no Brasil foi uma
maneira do governo tentar neutralizar as forças de oposição assentadas
no integralismo e no comunismo. O resultado foi a instituição da
censura, de prisões e da instauração de um regime antidemocrático.
Getúlio Vargas junto a outros líderes da Revolução de 1930, também conhecida como Revolução
de Outubro, em outubro de 1930.
A eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) exasperou as
tensões ideológicas que dividiram o mapa mundial entre países aliados
– parte da Europa e Estados Unidos – e países do eixo, estes se
alinharam na defesa dos ideais nazifascistas, com a Alemanha de Hitler,
a Itália de Mussolini e o Japão.
Como Alfredo Bosi refletiu em Modernismo e o Brasil depois de 30, há
um novo sistema cultural posterior a 1930, e isso não significa cortar as
linhas que articulam a sua literatura com o Modernismo, mas “significa
ver novas configurações históricas a exigirem novas manifestações
artísticas” (BOSI, 1979, p. 385).
São as novas manifestações artísticas processadas no trabalho da
Geração de 30, o que veremos a seguir. Esse momento da história
estética ocidental corresponde à consolidação da consciência artística
brasileira.
Panorama literário
As décadas de 1930 e 1940 são apontadas por grande parte dos
historiadores da literatura nacional como a era do romance brasileiro.
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O panorama literário após a prosa revolucionária de 1922 (Macunaíma,
Memórias sentimentais de João Miramar e Brás, Bexiga e Barra Funda)
impulsionou novas formas de se ler e pensar a vida brasileira, com:
[...] novos estilos ficcionais
marcados pela rudeza, pela
captação direta dos fatos, enfim por
uma retomada do naturalismo,
bastante funcional no plano da
narração-documento que então
prevaleceria.
(BOSI, 1979, p. 389)
Os novos romancistas adotaram uma visão crítica das relações sociais.
A ficção tornou-se aberta a explorar a vida do homem comum,
especialmente os moradores das áreas rurais do Nordeste brasileiro e
das metrópoles.
De acordo com Bosi (1979, p. 386), as fontes da prosa de ficção que
geraram a “ficção regionalista”, também conhecida como “romancenordestino”, são:
Na poesia, após os frutos deixados pelos representantes da Geração de
22, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, viu-se
como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Cecília Meirelles e
Jorge de Lima deram continuidade àquele roteiro de liberação estética:
 A acelerada decadência do Nordeste.
 As agruras da classe média no começo da fase
urbanizadora.
 Os conflitos internos da burguesia entre provinciana
e cosmopolita.
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mostraram a função do coloquial, do irônico e do prosaico na
organização do verso, buscaram cada um a seu modo uma atualização
da inteligência artística brasileira.
Tivemos tanto a lírica de Cecília Meireles, antipitoresca e antiprosaica,
mais próxima do Neossimbolismo europeu, quanto a poesia de Carlos
Drummond de Andrade, afeita à temática na direção da inquietação
filosófica e com as preocupações de ordem política, social e econômica,
decorrentes de um universo de entre guerras.
A geração de poetas e prosadores que integrou o
decênio de 1930 é parte de umas das fases do
Modernismo. Consideramos a conceituação adotada
por Afrânio Coutinho (1978) que divide o movimento
em três fases, marcadas por três gerações diferentes e
sucessivas: 22, 30 e 45.
Refletir sobre o Modernismo brasileiro ultrapassa a esfera literária e
artística, envolve todo um complexo cultural. Na conferência proferida
na ABL – Academia Brasileira de Letras – Graça Aranha vaticinou que o
“espírito moderno” não se limitava às letras e às artes, mas possuía uma
identificação total com o povo e o país (COUTINHO, 1978, p. 280).
O Modernismo foi um movimento de integração nacional e é dessa
forma que passaremos em revista a Geração de 30 na prosa e na
poesia.
Contexto da Geração de 30 e
Panorama Literário
Assista ao vídeo e conheça mais sobre os principais elementos que
constituem o contexto sócio-histórico e o cenário da produção literária
dos escritores da Geração de 30.

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Biogra�a de Graciliano
Ramos
Alguns afirmam que Graciliano Ramos (1892 -1953) foi o maior
romancista brasileiro depois de Machado de Assis. A consagração do
alagoano, natural de Quebrangulo, é uma unanimidade entre seus
contemporâneos da Geração de 30, como Rachel de Queiroz e Jorge
Amado.
O “romance de 30” começa em 1928 com a publicação de A bagaceira,
de José Américo de Almeida. A temática nova mostrava a realidade
brasileira no meio rural do Nordeste. O impacto foi imenso ao ponto de
Jorge Amado declarar que encontrou no romance de José Américo tudo
o que aspirava. É porque o escritor abordou a realidade rural com um
novo olhar (SANTOS, 1993).
Capa da 7ª edição de A bagaceira, 1928.
Aquele formato de romance rural idílico como Inocência (1872), de
Visconde de Taunay, e Cabocla (1931), de Ribeiro Couto, jamais teria
espaço na narrativa de Graciliano Ramos.
Um dos quinze filhos de pais sertanejos, Graciliano Ramos, além de
dirigir a Imprensa Oficial e a Instrução do Estado na capital alagoana, foi
também prefeito de Palmeira dos índios. O mandato exercido de forma
ética gerou dissabores e adversários. As consequências foram a prisão
do escritor em 1936, quando já havia publicado seus dois primeiros
romances: Caetés (1933) e São Bernardo (1934). As tristezas e os
dissabores desse momento trágico foram registrados em um livro
póstumo: Memórias do cárcere (1953).
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Graciliano Ramos fez parte daquela geração de escritores que
absorveram a herança realista do século XIX, já dinamizada por Lima
Barreto e Graça Aranha. Alfredo Bosi (1979, p. 390) a nomeia como
“realismo psicológico bruto”, isto é, um novo realismo onde o romance
agride, protesta; mas com isso se faz necessário uma reorganização da
linguagem narrativa.
O romance brasileiro nessa etapa da história da literatura pode ser
dividido em duas tendências, em dois tipos:

Romance social-regional

Romance psicológico
Não adotamos uma classificação tipicamente didática onde um tipo
exclui o outro. Os críticos literários defendem que o Graciliano Ramos de
São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938) é, ao mesmo tempo, regional
e psicológico.
Seu romance revela o plano regional nos personagens marcados pelo
meio físico e social e na forma dos diálogos. Denuncia os problemas
sociais típicos do homem nordestino de uma determinada classe: a vida
miserável e fadada à migração em decorrência da seca.
O Regionalismo de 30 é uma forma de fazer a junção de elementos
locais e universais, o resultado era dar a identidade nacional um caráter
próprio, contrário à formação europeia, a tudo que representa o
estrangeiro. O homem nordestino é um símbolo da identidade nacional.
A obra de Graciliano Ramos
Suas obras e o legado na web
Além de quatro romances, Graciliano escreveu três livros de contos,
histórias infantis e dois livros de memórias.
Graciliano Ramos não teve vida longa, o que pode explicar uma obra
pouco numerosa.
A esposa de Graciliano Ramos, Heloisa Ramos, doou o acervo do
escritor ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São
Paulo (USP), composto por manuscritos, recortes de jornais, biblioteca,
que pode ser conferido no portal da USP.
Dica
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No site oficial do escritor na internet há um panorama sobre vida e obra
de Graciliano Ramos.
Traços estilísticos e personagens
Como observou Álvaro Lins (1970), Graciliano Ramos é um romancista
voltado para a introspecção, a análise, os motivos psicológicos.
Seu estilo conciso cria uma narrativa enxuta, com diálogos precisos,
exatos. Prefere o parco uso do adjetivo, a sintaxe clássica em oposição
à vontade gramatical dos modernistas e dos outros prosadores
modernos, como observou Alfredo Bosi (1979, p. 404).
Seus personagens, em geral, são criaturas desgraçadas, humilhadas por
um destino cruel. O olhar do romancista não demonstra encanto, mas
indiferença. Na galeria de personagens, o crítico literário Álvaro Lins
(1970) recorda-se somente da cachorra Baleia, de Vidas secas, como
digna de simpatia. Aos demais, Graciliano os pinta com as tintas do
egoísmo, da insensibilidade. Todos os seus personagens são “vidas
secas”. Os seus personagens e o estilo em que se exprime, afirma
Álvaro Lins.
Vidas secas
Vidas secas narra a trajetória de uma família de retirantes que vive os
sofrimentos da estiagem. É considerado por alguns críticos literários
como o mais brasileiro dos livros de Graciliano Ramos. Publicado em
1938, narra em terceira pessoa a história da família de Fabiano: sua
esposa Sinhá Vitória e os filhos – O Menino mais Velho e O Menino mais
novo –, além da cachorra Baleia.
O meio físico funde e nivela os personagens. Graciliano deixa em
evidência os vínculos entre o homem e a natureza no Nordeste árido.
Nesse aspecto, ele dialoga com outros escritores de seu tempo,
nordestinos, que buscaram refletir sobre como o homem vive em sua
região. Seus hábitos, suas mazelas, sua relação com o poder local.
O fenômeno da seca marca o destino de muitos e a
literatura da Geração de 30 no Nordeste o elege como
um de seus temas principais.
Ao mesmo tempo, que há o sentimento da terra nordestina áspera, cruel,
dura, sobressai também o amor de seus habitantes que a elas estão
ligados teluricamente, como assinalou Álvaro Lins (1970).
A narrativa é construída em quadros, com capítulos independentes que
não se articulam. Cada um deles é autônomo. O leitor pode lê-lo na
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ordem que preferir, não interfere na compreensão do enredo. Não há um
nexo rigoroso entre as cenas.
O excesso de introspecção em personagens rústicos como Fabiano e
Sinhá Vitória faz com que o livro tenha muitos monólogos interiores.
Fabiano falava pouco, muitas vezes usava exclamações, onomatopeias.
No entanto, admirava Seu Tomás da Bolandeira, o protótipo do homem
que inspirava sabedoria e lia muito. Revoltava-se contra o poder policial
representado pelo Soldado amarelo:
Teluricamente
Relativo à Terra ou ao solo.
Ele, Fabiano, seria tão ruim se
andasse fardado? Iria pisar os pés
dos trabalhadores e dar pancada
neles? Não iria.
(RAMOS, 1970, p. 150)
O enredo pode ser resumido assim: uma família de retirantes composta
de pai, mãe, dois filhos e uma cachorra, que sai em busca de um pedaço
de terra, pois a seca os paralisa, aloja-se em uma fazenda abandonada.
O romancista apresenta seus personagens separadamente. Cada
capítulo é dedicado a um. Como se fosse “um retrato de caracterização,
em que o próprio personagem se apresenta ao leitor” (Lins, 1970, p. 38).
Após um tempo morando no local, volta a ser atingida pela seca, a
fazenda não serve mais de abrigo para Fabiano e sua família.
Novamente partem em busca de uma nova terra. O final do livro é uma
retirada, como no princípio fora uma chegada. O primeiro capítulo é
“Mudança”, o último, “Fuga”.
Vida e obra de Graciliano
Ramos
Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e a obra de Graciliano
Ramos. Aprofunde-se em uma análise de seu romance Vidas secas.

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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Vidas secas, de Graciliano Ramos é um romance que mostra sob
vários aspectos o contexto político e social do Nordeste dos anos
1930: produtores rurais oprimindo os trabalhadores em suas
fazendas, a seca levando as famílias a viverem como retirantes, o
poder político representado pela polícia humilhando o cidadão de
bem pelo simples prazer de mostrar a sua força.
Assinale a passagem de Vidas secas que confirma com mais
precisão o enunciado desta questão.
A
“Lembrou-se de Seu Tomás da bolandeira. (...)
Certamente aquela sabedoria impunha respeito”
(Ramos, 1970, p. 57).
B
“Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O
curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e
também deserto” (Ramos, 1970, p. 47).
C
“Sinhá Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro
gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça”
(Ramos, 1970, p. 78).
D
“Ergueu-se, deixou a cozinha, foi contemplar as
perneiras, o guarda-peito e o gibão pendurados num
torno da sala” (Ramos, 1970, p. 87).
E
“Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as
velas acesas, constrangido com a roupa nova, o
pescoço esticado [...] (Ramos, 1970, p. 115).
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Parabéns! A alternativa B está correta.
O trecho extraído do primeiro capítulo da obra mostra as
consequências da seca, a busca dos retirantes por um novo lar em
fazendas abandonadas. Os demais trechos não estão
estreitamente vinculados com os aspectos especificamente
destacados no enunciado.
Questão 2
A Geração de 30 se destaca no Modernismo brasileiro tanto na
ficção quanto na poesia. O que caracteriza o contexto social e
político da Geração de 30?
Parabéns! A alternativa C está correta.
O Brasil da Geração de 30 vive as grandes mudanças provocadas
pelo fim da República Velha. Com a ascensão da classe operária, da
pequena burguesia e a força dos militares, o governo de Getúlio
A
A queda da Bolsa de 1929 com seus efeitos na
economia que vão abalar os cafeicultores.
B
A Revolução de 32 em oposição ao Governo de
Getúlio Vargas e seus desdobramentos político-
partidários.
C
A ascensão de novas classes como a operária, o
poder dos militares e os conflitos geopolíticos e
ideológicos entre as potências do Eixo e dos Aliados
na Segunda Guerra Mundial.
D
Um Brasil refém das ditaduras do nazismo e do
fascismo, permitindo a manifestação literária
apenas de escritores europeus.
E
Uma sociedade acomodada, assentada sobre
valores aristocráticos e em sintonia com a literatura
europeia.
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Vargas se apoia no Estado Novo na primeira fase, e, ao final, adere
às forças aliadas para derrubar o nazifascismo na Europa.
2 - Rachel de Queiroz e Jorge Amado
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as principais obras
e características da prosa de �cção de Rachel de Queiroz e Jorge
Amado.
Vida e obra de Rachel de
Queiroz (1910-2003)
Biogra�a de Rachel de Queiroz
A cearense de Quixadá é a única romancista mulher que se destacou na
Geração de 30 na prosa nordestina. Mulher escritora era uma exceção
naqueles tempos em que os homens eram maioria na literatura
brasileira.
Rachel de Queiroz considerava-se uma sertaneja, pois, mesmo tendo
nascido na cidade, foi criada em uma fazenda, mas sua vida no Ceará se
deu entre o sertão e a cidade.
Formada no magistério, o pendor literário surgiu na adolescência. Aos
vinte anos publicou seu primeiro romance, O Quinze (1930), com grande
repercussão no Sudeste. Quinze refere-se a 1915, o ano da seca que
assolou o Nordeste e fez a família da romancista migrar para a cidade.
Romance laureado com o prêmio Graça Aranha, marcou o início de uma
bem-sucedida trajetória literária.
Suas primeiras obras como O Quinze e João Miguel, este último de 1932,
estão mais próximas da narrativa neorrealista que seria a marca da
narrativa social do Nordeste.
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Capa da 117ª edição de O Quinze.
Como os seus contemporâneos nordestinos, o contexto político e social
dos anos 1930 refletiu em sua obra. Em um mundo regido por ideologias
extremistas, a escritora sempre se posicionou a favor da liberdade.
Rachel de Queiroz em seu terceiro romance, Caminho
de Pedras (1937), abordou de forma pioneira na
Geração de 30 as questões de gênero que hoje são
amplamente debatidas em todos os setores da
sociedade brasileira, bem como as lutas sociais e
políticas das classes operárias em Fortaleza.
Alfredo Bosi (1979) sublinhou que Rachel de Queiroz cultivava também
uma narrativa onde os problemas psicológicos ocupavam um plano em
destaque. A autora, tal como Graciliano Ramos, não restringiu seu
universo ficcional à defesa das raízes nordestinas e às mazelas
provocadas pelas injustiças sociais que acometem o homem do sertão
nordestino.
É preciso lembrar que a Geração de 30 na prosa foi influenciada pelo
pensamento sociológico, particularmente de Gilberto Freyre. As Ciências
Sociais abandonaram conceitos como “meio” ou “raça” para se pensar a
identidade brasileira.
Freyre valorizou a cultura nordestina, as tradições, os estilos de viver e
de pensar herdados à sociedade patriarcal. O romancista José Lins do
Rego, um dos expoentes dessa geração, seguiu à risca o pensamento de
Freyre.
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Portanto, quando a prosa da Geração de 30 cultiva a visão de mundo do
sociólogo Gilberto Freyre sob vários aspectos está configurando em
forma de romance a tese que defende a miscigenação do povo
brasileiro como um aspecto importante e positivo na formação da
Nação.
Rachel de Queiroz e Gilberto Freyre.
A prisão foi uma experiência em comum aos escritores da prosa
nordestina. Como Graciliano Ramos e Jorge Amado, Rachel de Queiroz
passou três meses no cárcere em 1937, em Fortaleza, devido ao seu
envolvimento com o Partido Comunista.O ano foi o da publicação de
Caminhos de pedra. Com a decretação do Estado Novo (1937-1945),
suas obras e as de Jorge Amado foram queimadas em Salvador.
Escritora e jornalista, cultivou particularmente o romance e a crônica.
Fez algumas incursões no teatro (A beata Maria Egípcia e Lampião) e na
literatura infanto-juvenil (O menino mágico).
Foi a primeira mulher a ingressar na ABL, em 1977, quebrando um
paradigma centenário, alçando às mulheres escritoras a ocupar um
espaço importante da vida literária, guardião da língua portuguesa e da
cultura brasileira. A entrada na ABL é o reconhecimento de sua presença
renovadora e participante como cidadã e escritora.
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Posse de Rachel de Queiroz na Academia Brasileira de Letras, em 5 de maio de 1977, tornando-
se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição.
Em seu livro de memórias Tantos anos (1999), escrito em parceria com
a irmã caçula Maria Luiza, a escritora revelou entre outras coisas o
quanto o período do Estado Novo oprimiu os escritores de esquerda.
Obras de Rachel de Queiroz
Um dos temas da Geração de 30 é a seca. Problema crônico que assola
a região Nordeste, esteve presente em uma fase da vida da família
Queiroz. A seca de 1915 levou os pais de Rachel a se mudarem para o
Rio de Janeiro em 1917. O retorno para Fortaleza demorou três anos. As
condições privilegiadas da família não a levaram a enfrentar a situação
trágica enfrentada por milhares de nordestinos.
Nos chamados campos de concentração da seca no Ceará, os
flagelados eram abrigados em condições precárias de higiene para que
não se deslocassem até a capital. Estima-se que mais de cem mil
pessoas perderam suas vidas.
A prosa de Rachel de Queiroz surpreendeu a crítica da
época, chegando ao ponto de algumas pessoas
acreditarem que a autora, na verdade, fosse um autor.
Seu estilo enxuto, pouco dado às pieguices atribuídas
a alguns livros escritos por autoras, concedeu a Rachel
de Queiroz um lugar de destaque no panteão dos
escritores.
O Quinze (1930) não se destacou somente por abordar o drama da seca,
mas por retratar um regionalismo diferente e autêntico, em que a mulher
surge como uma protagonista atuante. Conceição luta contra as
adversidades geradas pelo clima árido e por um lugar de protagonismo
na sociedade patriarcal, almejava ser uma mulher independente.
Do drama da seca, a romancista abordou nos romances posteriores
temas como as questões políticas daquele momento; os conflitos de
natureza partidária, a luta da militância, particularmente entre os
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integrantes do Partido Comunista. Por exemplo, a cena do operário que
mata um companheiro em João Miguel rendeu-lhe severas críticas do
Partido Comunista.
João Miguel fez a diferença ao abordar ao mesmo tempo o aspecto
intimista e social; a obra de Rachel de Queiroz mostrou que o romance
social não existe isolado da vida privada dos personagens.
Dois anos depois, Rachel de Queiroz conquistou o prêmio da Sociedade
Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. Em 1950, publicou em
folhetins, na revista O Cruzeiro, o romance O galo de ouro.
Capa de uma nova edição de João Miguel, publicado originalmente em 1932.
Declarando-se jornalista antes de tudo, escreveu peças de teatro e
publicou grande número de crônicas (de 1944 a 2003) nos principais
jornais e revistas do Brasil, nos quais integrou o time de mestres no
gênero.
Autora de sete romances, Memorial de Maria Moura (1992) foi o último.
O romance foi adaptado com sucesso para a TV em formato de
minissérie.
Seu estilo segue um dos preceitos da narrativa modernista, no diálogo
prevalece a linguagem corrente e regional.
A cronista e a literatura infantil
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Como cronista, distinguiu-se nos longos anos dedicados à imprensa. Na
revista O Cruzeiro e n'O Jornal, consagrou-se como um dos expoentes
desse tipo de narrativa popular ao lado de Rubem Braga, Fernando
Sabino e Paulo Mendes Campos.
Publicou mais de duas mil crônicas, cuja seleta propiciou a edição dos
seguintes livros:
Escreveu duas peças de teatro, Lampião, em 1953, e A beata Maria do
Egito, em 1958, laureada com o prêmio de teatro do Instituto Nacional
do Livro, além de O padrezinho santo, peça que escreveu para a
televisão, inédita em livro.
No campo da literatura infantil, escreveu O menino mágico, a pedido de
Lúcia Benedetti. O livro surgiu, entretanto, das histórias que inventava
para os netos.
Como tradutora destacou-se com cerca de quarenta volumes vertidos
para o português.
Personagens e temáticas em
Rachel de Queiroz
Personagens em Rachel de Queiroz
 A donzela e a Moura Torta (1930)
 O brasileiro perplexo (1963)
 O caçador de tatu (1967)
 100 crônicas escolhidas (1973)
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Conceição em O Quinze era uma professora apaixonada por sua
profissão. Contrariando o desejo da família, que queria vê-la casada,
ficou solteira, mesmo apaixonada por um primo.
As protagonistas de Rachel de Queiroz eram mulheres
fortes, independentes e, em grande parte, solteiras.
Mesmo declarando não ser uma feminista, Rachel de Queiroz deixou
evidente qual era a condição da mulher na sociedade de seu tempo, e
como era premente a luta por igualdade de direitos e pela liberdade
sexual. Confira uma fala importante da autora!
Na minha adolescência, a mulher
não estava ainda firme em suas
posições de liberdade, como hoje.
Seus direitos de estudar, de amar, de
ser, tudo isso ainda era muito
restrito.
(QUEIROZ, 1997, p. 31)
Graciliano Ramos confessou, em um artigo intitulado Caminho de
pedras, que, ao ler O Quinze, pensou que a obra tivesse sido escrita por
um homem. Leia o que disse o autor de Vidas secas sobre o romance de
estreia de Rachel de Queiroz.
[...] fez nos espíritos estragos
maiores que o romance de José
Américo [de Almeida], por ser livro
de mulher e, o que na verdade
causava assombro, de mulher nova.
Seria mulher? Não acreditei.
(LAMEGO, 1996, p. 44)
Caminho de pedras e as questões de gênero
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Noemi é uma mulher à frente de seu tempo. Casada com João Jaques,
eles têm um filho, Guri. O dia a dia da família é alterado pelas lutas
políticas. A protagonista se envolve em um movimento que reivindica
melhores condições no trabalho. Sua paixão por um dos integrantes,
Roberto, a leva a grandes conflitos que põem em destaque o papel da
mulher na sociedade brasileira.
Analisado sob o ponto de vista das questões de gênero, Caminho de
pedras é o retrato de um romance que sacode as estruturas literárias do
chamado romance engajado, social. O social e o individual caminham
juntos.
Rachel de Queiroz deixa entrever as diferenças entre homem e mulher.
Isso é explicitado no diálogo entre os personagens homens quando
falam das mulheres. A romancista não se restringe à literatura social, ela
promove a fusão com a literatura intimista.
O romance Memorial de Maria Moura e o
assédio sexual
Ainda nos anos 1990, mais precisamente em 1992, Rachel de Queiroz
publicou seu último romance inspirado na história de uma cangaceira do
século XVI com a da rainha Elizabeth I, da Inglaterra. Dessa forma, a
romancista construiu sua protagonista.
Maria Moura traça um panorama da vida no sertão, onde uma mulher se
torna a líder de um bando de jagunços. A história poderia ser apenas
mais um retrato dos costumes regionais de uma parcela da população
nordestina, mas Rachel de Queirozinseriu na história da protagonista
uma experiência profundamente traumática, a do abuso sexual.
O tema que hoje é diariamente veiculado na TV brasileira e na web, que
é passível de punição de acordo com a legislação brasileira, era
completamente silenciado no Brasil dos anos 1990. Portanto, o romance
de Rachel de Queiroz antecipa questões da mulher do Brasil do século
XXI.
Vida e obra de Rachel de
Queiroz
Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Rachel de
Queiroz, destacando seus personagens e temáticas, a partir das obras
Caminhos de Pedras e Memorial de Maria Moura.

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Vida e obra de Jorge Amado
(1912 – 2001)
Biogra�a de Jorge Amado
Baiano de Itabuna, criado em Ilhéus, terra do cacau, Jorge Amado, como
Rachel de Queiroz, vivenciou o cotidiano nordestino. Filho de um
fazendeiro pioneiro do cacau (que perdeu sua fazenda após uma grande
enchente) teve uma formação escolar sólida; a proximidade com
intelectuais e jornalistas o introduziram nos grandes temas da vida
brasileira e nas ideias modernistas que transformaram a nossa
literatura.
Formado em Direito no Rio de Janeiro aproximou-se da militância
esquerdista. Suas leituras de novelas da literatura proletária russa e do
realismo bruto norte-americano são fonte de inspiração para o tipo de
romance que cultivaria nas primeiras obras.
A consciência social também é fruto de sua experiência com os
trabalhadores da fazenda de seu pai. As relações entre patrão e
empregados nunca foram pacíficas considerando a mentalidade de
quem detém o capital e de sua mão de obra, mesmo sendo o pai de
Jorge Amado muito liberal, segundo o filho.
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Jorge Amado ao concluir o seu bacharelado em Direito, 1935.
As tensões ideológicas e políticas que desaguaram no fascismo e no
nazismo influenciaram alguns aspectos da política brasileira, vide a
instauração da ditadura do Estado Novo (1937-1945), o que fez Jorge
Amado escrever romances de propaganda política. Jorge Amado é um
exemplo de como os escritores foram marcados por esse contexto
político. Sobre isso, veja o que diz Itazil Santos!
Foi da Revolução de 30, que surgiu
esse movimento conhecido pelo
nome de romance de 30, uma
literatura que veio tratar dos
problemas do povo, usando uma
linguagem baseada naquela falada
pelo povo.
(SANTOS, 1993, p. 122)
Sua oposição ao Governo Vargas custou-lhe a primeira prisão em 1936.
Se seu colega de ofício, Graciliano Ramos, viu o sol nascer quadrado
uma única vez, mas durante meses contínuos, Jorge Amado viu várias
vezes o que é ser privado do direito de ir e vir pelo fato de não comungar
das mesmas ideias do governo.
O escritor intensificou sua militância e tornou-se deputado pelo Partido
Comunista Brasileiro (PCB) em 1946, por decisão do partido,
paralelamente à produção de romances como:
 Cacau (1933)
 Suor (1934)
 Terras do sem-�m (1943)
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A perseguição do Governo Dutra (1946-1951) aos comunistas levou ao
fechamento do PCB e Jorge Amado a exilar-se na Europa em 1948, na
França, e 1956, na Tchecoslováquia.
Ao lado de seus amigos, o antropólogo Artur Ramos e o etnólogo Edison
Carneiro, interessou-se pela etnografia religiosa, especialmente tocado
pela humilhação e desrespeito à crença religiosa dos negros baianos.
Jorge Amado, como deputado federal, foi autor da lei
que assegura a liberdade do culto religioso em 1946.
Essa atitude refletiu sua participação na vida religiosa
baiana, onde, de acordo com o escritor, houve
repressão violenta aos cultos de matriz africana,
incluindo a invasão dos terreiros de candomblé e a
prisão de mães e pais de santo.
No exílio, visitou países da Europa Ocidental e da Ásia, período em que
se relacionou com diversos intelectuais e desenvolveu seus dotes de
embaixador do Brasil. Jorge Amado se tornou em sua longa trajetória
literária um dos maiores divulgadores da literatura e da cultura
brasileiras.
O cinema, a TV e o teatro adaptaram suas obras, o que o tornou mais
popular. Durante muitos anos foi o autor mais lido no Brasil e, dos
autores brasileiros, o mais traduzido. Gabriela, cravo e canela foi
adaptada para a TV três vezes: em 1960, por Zora Seljan na TV Tupi; em
1975, por Walter George Durst para a TV Globo e, em 2012, por Walcyr
Carrasco para a TV Globo. Dona Flor e seus dois maridos ganhou uma
adaptação no cinema, em 1976, dirigida por Bruno Barreto. Todas as
adaptações foram grandes sucessos de público e crítica.
A trajetória do festejado escritor baiano percorreu sete décadas com
mais de 30 obras que foram traduzidas para 49 idiomas.
Obras e visão de mundo do romancista
Ler Jorge Amado é uma forma de conhecer o Nordeste sob o ponto de
vista de um de seus estados, a Bahia. Sua devoção às coisas do povo
baiano o fez registrar suas várias facetas, no comportamento, na
culinária, na religião e na política. As obras do romancista transportam
os leitores para o dia a dia dos baianos que vivem nas cidades do
Recôncavo e na capital, Salvador.
 São Jorge dos Ilhéus (1944)
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Jorge Amado disse que a “coisa mais importante de todas” foi viver a
vida do povo baiano (GOMES, 1981, p. 9).
Quando tinha 14 anos, mudou-se para Salvador e começou a trabalhar
na imprensa. Data dessa época o início de seu viver “misturado com o
povo da Bahia”. Jorge chegou a viver em um casarão no Pelourinho.
Quem visitar esse bairro histórico de Salvador pode conferir a placa que
registra o fato fixada na entrada do Hotel Pelourinho, localizado bem
próximo à Fundação Casa de Jorge Amado.
Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador, Bahia.
Ainda na adolescência, o romancista frequentava as casas de raparigas
(prostitutas) e convivia com o pessoal dos saveiros (pescadores). Ele
dizia que tinha uma vida muito livre. Ao ver a perseguição que o “povo
do candomblé” sofria, Jorge Amado passou a perceber o problema
racial, a entender que o problema racial é consequência do problema
social.
No curta-metragem Jorge Amado – na Casa de Rio Vermelho (1974),
realizado por Fernando Sabino e David Neves, o romancista explica que
há uma unidade na sua obra que vem do primeiro ao último livro.
A primeira fase de sua obra é marcada pelos romances conhecidos
como o ciclo do cacau. Esboços de um aprendiz de romancista,
segundo o autor. Cacau (1933) e Suor (1934) têm a marca dos
romances proletários que o influenciaram. A história se passa no meio
rural, versa “sobre a vida dos trabalhadores nas roças de cacau do sul da
Bahia” (SANTOS, 1993, p. 133).
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Casa do Rio Vermelho, Salvador, Bahia.
Ainda não existia uma classe operária, na visão do romancista baiano,
mas o trabalhador manual. O dito romance proletário apenas se
começava a conhecer no Brasil. O jovem autor era então filiado à
Juventude Comunista e a mensagem contundente da obra levou a
polícia a proibi-lo. Obras foram apreendidas. É a fase de encontro com a
esquerda, com a identificação de autores da literatura soviética e
americana (SANTOS, 1993).
Jubiabá (1935) trata do problema da raça. O protagonista Balduíno
entende que este é um problema de classe: “O problema da raça não é a
causa, mas a consequência do problema de classe, do problema do
pobre e do rico” (SANTOS, 1993, p. 136).
Mar morto (1936) e Capitães de areia (1937) refletem as experiências do
adolescente Jorge Amado e suas andanças pelas ruas de Salvador,
onde eleteve contato com os meninos de rua, os pescadores e as
prostitutas.
Personagens e temáticas em
Jorge Amado
Personagens em Jorge Amado
Os meninos marginalizados de Capitães de areia (1937), os pescadores
de Mar morto (1936), os coronéis nordestinos de Terras do sem-fim
(1942) são alguns exemplos de personagens representantes do povo
baiano.
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As mulheres do povo ocupam um espaço abrangente e especial nessa
galeria, como vemos em Gabriela, cravo e canela (1958), Dona Flor e
seus dois maridos (1967), Tieta do agreste (1976) e Teresa Batista,
cansada de guerra (1972).
Jorge Amado foi um dos primeiros ficcionistas a abrir espaço para
valorizar o protagonismo de mulheres, negros e mestiços, como
Gabriela, Teresa Batista, Dona Flor, Tieta, Jubiabá e Pedro Archanjo.
Temas
Considerando o Brasil dos anos 1930, a primeira fase da obra de Jorge
Amado é uma espécie de documento da vida social e política brasileira
no Nordeste. Aborda os privilégios dos latifundiários, o poder das
oligarquias representado pelos coronéis na política da época. Ao
mesmo tempo, retrata a população marginalizada formada
particularmente por trabalhadores explorados pelas oligarquias, os
menores abandonados e as prostitutas, reflexo de uma sociedade
desigual.
Na perspectiva de Jorge Amado, o homem é o
resultado de um conjunto de condições históricas e
sociais.
Jorge Amado mostra o homem baiano sob o ponto de vista da luta de
classes, sem deixar de acrescentar doses de lirismo. Os protagonistas
encarnam ideais que mostram a opressão das camadas menos
privilegiadas. Antonio Balduíno, em Jubiabá, e Pedro Bala, em Capitães
de areia, são exemplares nesse sentido.
Há diferentes estágios na obra de Amado: de cunho regionalista e de
denúncia social até chegar à crônica de costumes. Gabriela, cravo e
canela (1956) é o divisor de águas que marca essa mudança no estilo
literário do autor.
Pode-se reunir esses estágios em diferentes tipos de romances:
Romance proletário
Cacau e Jubiabá.
Romance pitoresco e fantástico
Dona Flor e seus dois maridos e A morte de Quincas Berro D`água.
Romance de pregação partidária
O cavaleiro da esperança e O mundo da paz.
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Apesar da obra de Jorge Amado ter alcançado um público-leitor muito
vasto, coisa rara em se tratando de leitores no Brasil, certa parte da
crítica literária fez ressalvas ao apontar as fragilidades de uma literatura
presa a clichês, lugares-comuns e dotada de um lirismo piegas.
O que é considerado qualidade para muitos, como a conquista de uma
ampla gama de leitores, pode ser interpretado como resultado de um
excesso de concessões do escritor, criando uma obra por demais
popular, o que significa perda da qualidade literária.
É, por exemplo, a avaliação do crítico literário Alfredo Bosi quando
sintetiza os aspectos gerais de sua obra. Veja o que ele afirma:
Ao leitor curioso e glutão a sua obra
tem dado de tudo um pouco:
pieguice e volúpia em vez de paixão,
estereótipos em vez de trato
orgânico dos conflitos sociais,
pitoresco em vez de captação
estética do meio, tipos folclóricos
em vez de pessoas, descuido formal
a pretexto de oralidade... Além do
uso às vezes imotivado do calão: o
que é na cabeça do intelectual
burguês, a imagem do eros do povo.
(BOSI, 1979, p. 394)
Se alguns acham uma falha um escritor ser acessível ao comum dos
leitores, a história da literatura brasileira não poderá negar ao escritor
baiano um lugar de relevo. Com sua obra, Jorge Amado contribuiu muito
para consolidar o lugar da nossa literatura no Brasil e no exterior.
Tenda dos milagres e a intolerância religiosa
Jorge Amado dizia que Tenda dos milagres (1969) mostra a luta do povo
contra o racismo.
Se o Brasil contemporâneo tem nesse tema um dos mais debatidos em
amplos setores da sociedade e nos meios de comunicação, é para se
refletir como Jorge Amado foi pioneiro em trazer o tema do racismo em
um tempo em que o cidadão brasileiro tinha sua liberdade restrita, sua
voz silenciada pelos desmandos de uma ditadura civil militar.
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Em Tenda dos milagres, o protagonista é Pedro Archanjo, um homem
preto que viveu no início do século passado e transpôs as limitações de
sua modesta condição social. Ele combateu o racismo científico ao
sustentar, na arena acadêmica, a importância da contribuição do negro e
do mestiço para a construção da civilização brasileira.
Vida e obra de Jorge Amado
Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Jorge
Amado, além dos personagens e temáticas em seus romances.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Jorge Amado é um dos autores de Geração de 30 que marcou a
literatura brasileira, com várias obras vertidas para o cinema e a
televisão. Qual é um dos problemas mais presentes na sociedade
baiana abordado na obra de Jorge Amado que o tornaram um autor
popular?

A
As questões existenciais das mulheres da
aristocracia baiana e seus conflitos familiares.
B
As consequências da Segunda Guerra Mundial em
Salvador.
C
As divergências entre as ideologias de esquerda e
direita.
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Parabéns! A alternativa E está correta.
Sendo um escritor do povo, como sempre afirmou, soube colocar
em suas obras a luta contra os preconceitos sobre todas as formas,
o racial principalmente, como se vê em Tenda dos milagres e
Jubiabá.
Questão 2
Rachel de Queiroz se destacou na literatura brasileira no contexto
da Geração de 30, sendo a primeira escritora a ocupar uma cadeira
na ABL. Qual é a contribuição da obra de Rachel de Queiroz para a
ficção regionalista?
Parabéns! A alternativa D está correta.
Rachel de Queiroz soube mais do que qualquer autor da ficção
regionalista dar às personagens femininas o protagonismo que elas
não tinham, elevou as questões de gênero a um patamar até então
inexistente.
D A luta dos coronéis para tomar posse das terras
desbravadas.
E
A luta contra os preconceitos, em especial o racial,
enfrentados pelo povo baiano.
A
Abordou a relação entre produtores rurais e os
trabalhadores.
B Refletiu sobre o cotidiano do sertão cearense.
C Criou uma obra que aborda o preconceito racial.
D
Deu destaque às questões da mulher na sociedade
nordestina através de suas protagonistas.
E Traçou um panorama do homem do sertão.
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3 - Cecília Meireles e Carlos Drummond de
Andrade
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car a poesia da
Geração de 30 na obra de Cecília Meireles e de Carlos Drummond de
Andrade.
A poesia de Cecília Meireles
Biogra�a de Cecília Meireles
Cecília Meireles (1901-1964) foi marcada pela perda desde tenra idade.
Como os pais faleceram cedo, foi criada pela avó. Silêncio e solidão
foram marcas de sua vida e de sua poesia.
Educadora nata, formou-se no Instituto de Educação no Rio de Janeiro,
então Distrito Federal. Chegou a atuar como professora primária. Lutou
por um ideal transformador na educação, defendendo os princípios da
Escola Nova. Sua “Página da educação” no Diário de Notícias registrou
vários e importantes momentos dessa jornada.
Instituto de Educação, Rio de Janeiro.
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Entre tantas ações da educadora Cecília Meireles, consta a organização
da primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro,no Pavilhão Mourisco,
em Botafogo, em 1934.
O posicionamento de Cecília Meireles mostrava como os intelectuais
buscavam um papel participativo na sociedade brasileira. Reflexo do
desenvolvimento de uma consciência nacional tão propagada pelo
Modernismo de 1922. Discreta na vida literária, a cidadã mostrou-se
combativa nos caminhos da educação (LAMEGO, 1996).
Ela integrou um núcleo de poetas que, no início de suas trajetórias
literárias, eram ligados à poesia neossimbolista, cultivada por um dos
grupos nascidos no movimento modernista: o espiritualista. Isso não
implicava um compromisso doutrinário com o grupo, mas:
[...] delineava a feição
espiritual de sua arte,
inspirada em elevado
misticismo.
(DAMASCENO, 1967, p. 25)
Sua poesia mostra como o caráter demolidor da primeira fase do
Modernismo representada pela Geração de 22, pregando o desejo de
revolução estética de rejeitar o patrimônio passadista e o culto do metro
perfeito, foi cedendo lugar a outros pontos de vista. As divergências
geraram diversos grupos: o primitivista de Oswald de Andrade, o
dinamista de Graça Aranha e o espiritualista de Tasso da Silveira.
É que o Modernismo não se restringiu à Semana de 22, nem à dita fase
heroica de 1922 a 1928 ou 1930. Uma sucessão de fases, como explica
Afrânio Coutinho, mostra as diferenças das três gerações perante a vida
e a arte (COUTINHO, 1978, p. 276).
Em torno da revista Festa, o Grupo Espiritualista de Tasso da Silveira,
Andrade Muricy e Adelino Magalhães "defendia a tradição e o mistério,
[conciliava] o passado e o futuro” (COUTINHO, 1978, p. 271).
Os espiritualistas defendiam o universalismo e certos
valores tradicionais da poesia. O viés era
hegemonicamente católico, mas a adesão de Cecília
Meireles ao grupo, segundo um dos seus principais
estudiosos, Darcy Damasceno (1967), não tinha
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compromisso doutrinário, sua identificação se dava
sobretudo pelos temas e conteúdo filosófico.
Meireles cultivava um espiritualismo mais panteísta do que católico; em
outras palavras, tudo o que existe, a natureza e seus seres são idênticos,
e não o resultado de um Deus criador.
Se a poesia das primeiras obras não aderiu à onda modernista,
conectada com o seu tempo, ela se encarregou de mostrar como Cecília
Meireles reavaliou o olhar do grupo espiritualista a respeito das
mudanças impostas pelo Modernismo.
Isso se deu quando Meireles excluiu a fase inicial neossimbolista do
livro Obra poética publicado pela Aguillar, em 1956. Do livro de estreia,
publicado em 1919, Espectros, passando por Nunca mais... (1923),
Poemas dos poemas (1923) até Baladas para El-Rei (1925).
Desde o final dos anos 1930, portanto, na segunda fase modernista, a
da Geração de 30, a poeta mostrou em Viagem (1939) as várias facetas
de seu fazer poético, que soube conciliar o verso livre com as formas
tradicionais (decassílabo, soneto, elegia, ode) tão caras à poesia
simbolista. Essa obra conquistou o prêmio de poesia da Academia
Brasileira de Letras, fato que incomodou muito alguns modernistas da
Geração de 22, particularmente Mário de Andrade, que fez comentários
contundentes. Afinal, estar vinculada ao grupo espiritualista era
sinônimo de cultivar um Modernismo sem rupturas drásticas com a
tradição romântica e simbolista.
Mário de Andrade.
Mas é importante destacar o comentário de um dos maiores estudiosos
do Modernismo, Mário da Silva Brito. Ele dizia que Cecília Meireles não
se filiou a nenhuma corrente estética e não se inseriu no momento
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histórico de sua geração devido ao apreço pela sua individualidade
(Brito, 1968, p. 170).
Portanto, encarar a poesia de Cecília Meireles como menos modernista
deveu-se ao vínculo com a tradição simbolista. Alfredo Bosi (1979)
achava que sua poesia não era filiada aos princípios do grupo festa, o
que a aproximou daqueles poetas foi a admiração mútua por Cruz e
Souza e os simbolistas.
Temática e traços estilísticos na obra de Cecília
Meireles
Na temática, é patente a efemeridade do tempo, a transitoriedade da
vida, a presença dos elementos da natureza como o mar, o ar, o vento,
os desacertos da solidão, e a música permeando vários momentos. A
indagação sobre o fazer poético é outro tema recorrente.
Cecília Meireles aderiu ao verso livre a partir de Viagem
(1939), uma conquista da fase heroica da poesia da
Geração de 22, e o cultivou privilegiando uma temática
onde a reflexão filosófica e existencial, o sonho, a fuga
e o sentimento transformado em imagem saltam aos
olhos.
Quando analisada à luz dos princípios do Modernismo da primeira
geração, a poesia de Cecília Meireles poderia ser vista como distante
das palavras de ordem que marcaram o movimento: recusa da tradição,
destruição das velhas formas. Mas, como Lucia Helena (2004) analisa,
Cecília Meireles misturou tradição e mudança.
O repertório de sua obra inclui não só a tradição de língua portuguesa ou
mesmo ocidental de diversos estilos e épocas, mas também parte
significativa da literatura oriental. Mesclar múltiplas influências em um
estilo único é a marca da modernidade da poesia de Cecília Meireles,
segundo Lucia Helena (2004).
A poeta de Solombra, conforme nos diz Bosi,
[...] parte de certo distanciamento
do real imediato e norteia os
processos imagéticos para a
sombra, o indefinido, quando não
para o sentimento da ausência e do
nada.
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(BOSI, 1979, p. 461)
Cecília Meireles foi completamente avessa aos fenômenos imediatos,
foi um tipo de poeta mais conectada com o universal. Resistiu a
qualquer adesão passiva ao Modernismo, como disse Mário de
Andrade. Sua poesia é mais eclética, mais metafísica e mais misteriosa.
Dotada de uma visão humanista muito ampla, não queria um homem
necessariamente brasileiro, mas universal.
Uma poesia sofisticada, que não cedia a um vocabulário de choque, por
isso os modernistas demoraram a reconhecer sua poesia. Cecília fazia o
elogio da delicadeza, alguma coisa bela e mortal.
Romanceiro da Inconfidência (1953) é um marco em sua trajetória
literária. Um livro polifônico, com poemas líricos e dramáticos, conta a
saga do Brasil não ter alcançado a independência. Cecília resgata um
momento da história do Brasil que foi muito caro aos modernistas, mas
ela conta a história do ponto de vista de quem perdeu. É uma meditação
sobre o poder, a política e a ambição.
O que a distingue, quando comparada aos poetas modernos, é a
maestria com que uniu diversos estilos da literatura ocidental e oriental.
Nada lhe é indiferente, daí vem a força de sua modernidade. O moderno
em Cecília Meireles não é a ruptura pura e simples, é preservar do
passado o que fortalece o discurso poético.
A poesia de Cecília Meireles
Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Cecília
Meireles, além das temáticas e dos traços estilísticos de suas poesias.
A poesia de Carlos
Drummond de Andrade
Vida e obra de Drummond

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A geração de poetas que se firmou após a fase heroica de 1922
conquistou temáticas novas: a política em Drummond e Murilo Mendes.
Também podemos mencionar as experiências metafísicas da lírica
moderna em Cecília Meireles e em Henriqueta Lisboa (BOSI, 1979, p.
438).
Quando a caravana modernista aportou em Belo Horizonte, em 1924,
com Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e outros artistas, Drummond e
seus companheiros aderiram prontamente às ideias de Mário de
Andrade e o tomaram como um mestre.
O resultado foi o início de uma longa correspondência entre o autorde
Macunaíma e Drummond, publicada em A lição do amigo (1982),
organizada pelo mineiro. Nessa obra se pode acompanhar uma parte da
trajetória dos dois poetas e de vários momentos do movimento
modernista.
O poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e seus
amigos mineiros receberam os ventos modernistas nas Minas Gerais
dos anos 1920. O resultado foi a criação de A Revista, fundada por ele e
poetas como Emilio Moura e João Alphonsus.
Mas foi após sua mudança de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro,
então Capital Federal, que Drummond entraria para o time seleto de
poetas modernistas. Convidado pelo amigo e ministro Gustavo
Capanema, tornou-se seu chefe de gabinete no Ministério da Educação
e Saúde.
Primeira edição de A Revista, 1925.
Após a publicação do primeiro livro, Alguma poesia (1930), seguiu-se
Brejo das almas (1934) e Sentimento do mundo (1940). Este último
recebido como uma poesia renovadora e impregnada pelo contexto
político.
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Um número da Revista Acadêmica, em 1941, dedicado a Drummond, já
atestava sua importância naquele momento. Mário de Andrade, em nota
à Revista Acadêmica, afirmava ser o poeta maior do que os outros
(CANÇADO, 1993).
Os 84 anos de vida proporcionaram a Drummond escrever uma obra
vasta que reúne poesia, crônicas, contos e livros infantis, além da faceta
de tradutor. Foram mais de cinquenta livros publicados.
A poesia de Drummond
Em seu livro de estreia, Alguma poesia (1930), dedicado a Mário de
Andrade, o poeta cultivou as palavras em liberdade, o verso não se
prendia à metrificação, a poesia aproximava-se da prosa, a linguagem
era coloquial. Aspectos estilísticos cultivados pela Geração de 22.
A obra voltou-se para seus dramas pessoais, para a vida familiar, a
memória afetiva da cidade natal, Itabira. Confira estes versos do poema
Infância:
Meu pai montava a cavalo, ia para o
campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre
mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé
[...].
(DRUMMOND, 1969, p. 3)
Em sintonia com as diretrizes do Modernismo, inseria elementos do
cotidiano como matéria de inspiração poética, como você pode notar
nestes versos de Poema do jornal:
O fato ainda não acabou de
acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
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(DRUMMOND, 1969, p. 14)
O eu do poeta se apresenta como um ser estranho, esquisito, não
adaptado, desajeitado desde Alguma poesia, conforme vemos no Poema
de sete faces:
Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na
vida.
(DRUMMOND, 1969, p. 3)
A poética de Drummond faz uma indagação filosófica da existência
através do ato de escrever, de fazer poesia. É através dela que se
mostram os mistérios do mundo, o que leva ao conhecimento de si
próprio.
O poeta-cronista
Drummond começou a trabalhar na imprensa ainda em Belo Horizonte e
colaborou em vários jornais durante sua trajetória. Funcionário público,
desenvolveu sua trajetória literária na imprensa como cronista ao longo
dos anos. Colaborador longevo no Correio da Manhã e no Jornal do
Brasil, neste último no Caderno B, que o tornou um poeta-cronista
popular.
Sobre a poesia, certa vez Drummond (1969) declarou que ela o ensinou
um pouco a viver, pois “através da poesia, nós adquirimos um sentido
mais generoso do mundo, e ao mesmo tempo sentimos a magia do
mundo, a magia do universo”.
A poesia de Carlos Drummond de Andrade é uma síntese do século XX.
Ele foi testemunha da Semana de Arte Moderna ao período do Estado
Novo, das duas grandes guerras, da ascensão da tecnologia que gerou
formatos de poesia como a poesia concreta, de oito décadas do Brasil
moderno.
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Temas na poesia de
Drummond
O social
A vertente social se expressava no contexto da Segunda Guerra Mundial
e das ideologias extremistas que abalaram a Europa e o Brasil: o
nazismo e o fascismo. É nesse sentido que A rosa do povo (1945),
escrita durante a Grande Guerra, é uma obra contundente.
O tempo é de união diante do cenário bélico, conforme vemos nestes
versos do poema Nosso tempo:
Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
(DRUMMOND, 1969, p. 82)
O poeta solitário é também solidário desde o livro Sentimento do mundo
(1940): “O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos
afastemos muito, vamos de mãos dadas”. “O poeta está em sintonia
com o tempo presente (“O tempo é a minha matéria, do tempo
presente”) (DRUMMOND, 1969, p. 55).
Segundo Alfredo Bosi (1994), a partir de Claro enigma (1948-1951)
prevalece uma atmosfera de desencanto e de reflexão, isso se plasma
em poemas reflexivos como Memória, Eterno e A ingaia ciência. Surge o
poeta metafísico.
Metafísico, fazer poético, memorialista
A poesia metafísica dá lugar à poesia objetual de Lição de coisas (1959-
62), o poeta desenvolve seu olhar sobre o fazer poético. Poemas como
O lutador, no livro José (1967), mostra como Drummond estabelece uma
luta corpo a corpo com o poema.
Faz uso de vocábulos típicos de uma relação erótica para mostrar como
o fazer poético se refaz a cada vez, a luta com as palavras parece inútil,
mas é do embate entre tentativa e fracasso que se faz a poesia:
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Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã. [...]
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto. [...]
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve. [...]
(DRUMMOND, 1969, p. 67)
O estilo drummondiano se desfaz dos adjetivos (“por que noite gélida?”),
ele adere ao prosaico, ao irônico. Drummond é antirretórico.
O fazer poético e a memória são duas ideias-força que
permeiam a obra de Carlos Drummond de Andrade de
ponta a ponta. O poeta sempre esteve em busca do
passado. O resgate da paisagem da cidade natal
através da família mostra essa caminhada em direção
à poesia memorialista. Drummond oscila entre o
pessoal e o social, é uma marca de sua poesia.
A perquirição metalinguística se dá quando o poeta se debruça sobre o
próprio texto, “à medida que o elabora, inquirindo-lhe do cabimento, da
legitimidade, da propriedade das palavras e sintagmas que vai
empregando” (HOUAISS, 1969, p. XXV).
Para Antonio Houaiss (1969), a poesia de Carlos Drummond de Andrade
teve a função de cristalizar o movimento modernista, pois nela a poesia
atingiu a plenitude moderna no sentido de antenação com a
problemática do mundo moderno, na sua multifacetada e
aparentemente caótica dispersão e concentração planetizadas
(HOUAISS, 1969, p. XXVIII).
Um traço destacado por Houaiss (1969) é ver na obra drummondiana
um unipoema, ou seja, construída num poetar de várias décadas.
Quando o poeta diz que o sentido da vida é seu sem sentido significa: o
sentido é o da busca. Cabe aos homens construírem o sentido
(HOUAISS, 1969, p. XVI).
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A poesia de Carlos
Drummond de Andrade
Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Carlos
Drummond de Andrade, além das temáticas e dos traços estilísticos de
suas poesias.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Cecília Meireles se destaca por sua obra poética. Qual é a obra de
Cecília Meireles que se tornou um divisor de águas em sua
trajetória literária por promover uma ligação mais estreita com a
poesia modernista da Geração de 22?
A Solombra
B Ou isto ou aquilo
C Viagem
D Balada para El Rei
E Noturno
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Parabéns! A alternativa C está correta.
Viagem marca uma virada na obra ceciliana por mostrar a síntese
de várias dicções poéticas, do Simbolismo ao Modernismo, e deste
se aproximar por adotar o verso livre.
Questão 2
Drummond é considerado um dos maiores poetas da língua
portuguesa. Qual é a obra de Carlos Drummond de Andrade que
mostra o engajamento do poeta com o contexto político e social da
Geração de 30?
Parabéns! A alternativa A está correta.
Sentimento do mundo mostra a adesão do poeta solidário,
desesperançado diante da Grande Guerra e dos regimes totalitários,
mas disposto a prestar solidariedade aos irmãos.
Considerações �nais
Neste conteúdo, mostramos uma das gerações principais do movimento
modernista, com destaque para a poesia de Carlos Drummond de
Andrade e Cecília Meireles e a prosa de ficção nordestina de Graciliano
Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado.
A Sentimento do mundo
B Alguma poesia
C José
D Claro enigma
E Brejo das almas
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Vimos que a marca da Geração de 30 é a sintonia que estabelece
especialmente com o contexto social e político de sua época. Não fica
indiferente às consequências da Grande Guerra que abala os alicerces
geopolíticos e econômicos das nações e cria dois polos que se
enfrentam sob a égide do capitalismo e do socialismo.
A relação entre a literatura dos romancistas nordestinos também foi
estudada, explorando como essa modalidade de narrativa dialogou com
grandes questões do Brasil da Era Vargas, marcada pelo Estado Novo e
as consequências dos regimes totalitários. Discutimos os traços
essenciais da prosa de ficção de 1930, destacando as particularidades
de cada autor.
Além disso, analisamos a poesia de Carlos Drummond de Andrade e
Cecília Meireles, abordando o lugar de suas obras após as
transformações operadas pela Geração de 22. Vimos como a Geração
de 30 na poesia deu continuidade às inovações implementadas pela
poesia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira.
Explore +
Assista ao vídeo Recordar é TV reverencia a escrita de Rachel de
Queiroz, no canal da TV Brasil no YouTube, no qual a escritora é
entrevistada por Araken Távora em Os Mágicos, 1978 e
entrevistada por Hildegard Angel em As Pessoas, 1989.
Assista ao vídeo Carlos Drummond de Andrade, que reproduz o
programa De lá Pra Cá, disponível no no canal da TV Brasil no
YouTube, com apresentação de Ancelmo Gois e Vera Barroso,
dando uma boa perspectiva da importância de Drummond.
Assista ao vídeo Cecília Meireles, do Programa De Lá Pra Cá, com
Apresentação de Ancelmo Gois e Vera Barroso, para conhecer um
pouco mais a vida e obra de Cecília Meireles, disponível no canal
da TV Brasil no Youtube.
Ouça o podcast Especial Jorge Amado, produzido pelo MEC e
disponível no portal Domínio Público, para uma abordagem
panorâmica das obras de Jorge Amado.
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião. 10 livros de poesia. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1969.
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BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo:
Cultrix, 1979.
BRITO, Mário da Silva. Cecília Meireles In: BRITO, Mário da Silva. Poesia
do Modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
CANÇADO, José Maria. Os sapatos de Orfeu. Biografia de Carlos
Drummond de Andrade. São Paulo: Página Aberta, 1993.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1978.
DAMASCENO, Darcy. Cecília Meireles. O mundo contemplado. Rio de
Janeiro: Orpheu, 1967.
GOMES, Álvaro Cardoso. Entrevista biográfica [Jorge Amado]. Literatura
Comentada, São Paulo: Abril Cultural, 1981.
HELENA, Lucia. Ler e reler Cecília Meireles: a escuridão e as águas de
cristal. Légua & Meia: Revista de literatura e diversidade cultural. Feira
de Santana, v.3, n.2, pp.209-219, 2004. Consultado na internet em: 25
out. 2023.
HOUAISS, Antonio. Introdução. In: ANDRADE, Carlos Drummond.
Reunião. 10 livros de poesia. Carlos Drummond de Andrade. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1969.
LAMEGO, Valéria. Cecília Meireles na Revolução de 30. Rio de Janeiro:
Record, 1996.
LINS, Álvaro. Valores e misérias das Vidas secas. In: RAMOS, G. Vidas
secas. Martin, 1970.
MURACA, Marcio Henrique. Uma visão de Caminho de pedras, de
Rachel de Queiroz. Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG, Belo
Horizonte, v.10. n.18, maio 2016.
QUEIROZ, Rachel de. Cadernos de Literatura Brasileira - Rachel de
Queiroz. Número 4, setembro, 1997. São Paulo: Instituto Moreira Salles,
1997.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 24. ed. São Paulo: Martins, 1970.
SANTOS, Itazil Benício. Jorge Amado. Retrato incompleto. Rio de
Janeiro: Record, 1993.
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