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17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 1/45 O Modernismo: a Geração de 30 Profa. Teresa Montero Descrição Você vai estudar a terceira geração do Modernismo brasileiro denominada Geração de 30. Na prosa de ficção, através das obras de Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Na poesia, com as obras de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. Propósito Ao conhecer uma das gerações do Modernismo brasileiro, você ampliará seus conhecimentos sobre a história da literatura brasileira e o contexto histórico no qual ela está inserida. Objetivos Módulo 1 Graciliano Ramos e Vidas secas Identificar as características principais da terceira geração do Modernismo a partir de Graciliano Ramos e sua prosa de ficção regionalista. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 2/45 Módulo 2 Rachel de Queiroz e Jorge Amado Identificar as principais obras e características da prosa de ficção de Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Módulo 3 Cecília Meireles e de Carlos Drummond de Andrade Identificar a poesia da Geração de 30 na obra de Cecília Meireles e de Carlos Drummond de Andrade. Introdução Vamos explorar como se configurou a Geração de 30 na literatura brasileira nos dois gêneros: ficção e poesia. Começamos na ficção com Vidas secas de Graciliano Ramos, um retrato do modo de viver do nordestino vitimado pela seca, pela miséria e a ignorância. O autor analisa o mais íntimo do ser humano. Seus romances são um modo de refletir mais do que sobre o homem ou a mulher nascidos no Nordeste, seus personagens são universais. Abordaremos ainda a ficção nas obras de Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Rachel de Queiroz ficcionaliza as experiências das mulheres de seu tempo, de sua região, deixando à mostra as questões de gênero. Jorge Amado é o grande autor da Bahia. Em comum com Graciliano Ramos, eles mostram como o Brasil era governado por uma minoria voltada aos seus próprios interesses, contrária aos valores democráticos. Também estudaremos a poesia de Cecília Meireles. Autora múltipla, presença rara na literatura feita por mulheres. Contemporânea das mudanças na poesia trazidas pela Geração de 22, ela criou um modo pessoal de abordar grandes temas: 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 3/45 vida, morte e amor. Sem fazer necessariamente uma adesão ao nacional, cultivou o universal, uniu o passado ao futuro. Finalmente, abordaremos a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Marcada por uma dicção universal, impregnada pelos temas de seu tempo de homens partidos pelas mazelas da Grande Guerra, se interrogou constantemente sobre o estar no mundo. Legou à poesia brasileira uma forte carga metafísica e metalinguística. Conhecer os vários aspectos da Geração de 30, que provocou uma verdadeira mudança no modo de se pensar o homem brasileiro, com uma linguagem mais próxima do homem comum, e estimulou ideais de justiça social e valorização das coisas do Brasil, é uma forma de se refletir sobre o momento mais fértil da literatura brasileira: o Modernismo. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material 1 - Graciliano Ramos e Vidas secas Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as características principais da terceira geração do Modernismo a partir de Graciliano Ramos e sua prosa de �cção regionalista. javascript:CriaPDF() 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 4/45 Contexto histórico e social da Geração de 30 Quando surgiu uma nova geração de escritores do Modernismo brasileiro na ficção e na poesia entre as décadas de 1930 e 1940, o Brasil vivia momentos de grandes mudanças, após as contradições da República Velha (1894-1930). A alternância de poder dos proprietários rurais paulistas e mineiros, condutores da chamada Política do Café com Leite, já sinalizara o declínio da cultura canavieira no Nordeste, que não conseguiu competir com o café paulista. Este, por sua vez, sofreu um grande baque na crise cafeeira no final dos anos 1920. O processo de industrialização com o surgimento das primeiras fábricas gerou o crescimento das cidades. A urbanização de São Paulo e do Rio de Janeiro refletiu também grandes transformações no campo político e social: o surgimento da classe operária, do subproletariado e o crescimento da pequena classe média. Os ecos da Revolução Russa de 1917 chegaram ao Brasil, refletindo as contradições do momento histórico. A vinda de imigrantes europeus trouxe uma nova consciência social e modificou o mercado de trabalho. As greves operárias entre 1914 e 1918 atestaram a nova realidade. Fábrica no Brasil, 1880. Se o papel político relevante do Exército desde a Proclamação da República indicou um novo cenário, as oligarquias rurais tão bem 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 5/45 retratadas nos romances nordestinos, particularmente nos de Jorge Amado, viram seu poder abalado. Os velhos problemas expostos pela República Velha culminaram na Revolução de Outubro ou Revolução de 1930, com a ascensão do Governo Vargas (1930-1945) após um golpe de estado. Durante quinze anos, a política getuliana lidou com graves conflitos oriundos do descontentamento da população devido às crises na economia. A decretação da ditadura do Estado Novo (1937 -1945) no Brasil foi uma maneira do governo tentar neutralizar as forças de oposição assentadas no integralismo e no comunismo. O resultado foi a instituição da censura, de prisões e da instauração de um regime antidemocrático. Getúlio Vargas junto a outros líderes da Revolução de 1930, também conhecida como Revolução de Outubro, em outubro de 1930. A eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) exasperou as tensões ideológicas que dividiram o mapa mundial entre países aliados – parte da Europa e Estados Unidos – e países do eixo, estes se alinharam na defesa dos ideais nazifascistas, com a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini e o Japão. Como Alfredo Bosi refletiu em Modernismo e o Brasil depois de 30, há um novo sistema cultural posterior a 1930, e isso não significa cortar as linhas que articulam a sua literatura com o Modernismo, mas “significa ver novas configurações históricas a exigirem novas manifestações artísticas” (BOSI, 1979, p. 385). São as novas manifestações artísticas processadas no trabalho da Geração de 30, o que veremos a seguir. Esse momento da história estética ocidental corresponde à consolidação da consciência artística brasileira. Panorama literário As décadas de 1930 e 1940 são apontadas por grande parte dos historiadores da literatura nacional como a era do romance brasileiro. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 6/45 O panorama literário após a prosa revolucionária de 1922 (Macunaíma, Memórias sentimentais de João Miramar e Brás, Bexiga e Barra Funda) impulsionou novas formas de se ler e pensar a vida brasileira, com: [...] novos estilos ficcionais marcados pela rudeza, pela captação direta dos fatos, enfim por uma retomada do naturalismo, bastante funcional no plano da narração-documento que então prevaleceria. (BOSI, 1979, p. 389) Os novos romancistas adotaram uma visão crítica das relações sociais. A ficção tornou-se aberta a explorar a vida do homem comum, especialmente os moradores das áreas rurais do Nordeste brasileiro e das metrópoles. De acordo com Bosi (1979, p. 386), as fontes da prosa de ficção que geraram a “ficção regionalista”, também conhecida como “romancenordestino”, são: Na poesia, após os frutos deixados pelos representantes da Geração de 22, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, viu-se como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Cecília Meirelles e Jorge de Lima deram continuidade àquele roteiro de liberação estética: A acelerada decadência do Nordeste. As agruras da classe média no começo da fase urbanizadora. Os conflitos internos da burguesia entre provinciana e cosmopolita. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 7/45 mostraram a função do coloquial, do irônico e do prosaico na organização do verso, buscaram cada um a seu modo uma atualização da inteligência artística brasileira. Tivemos tanto a lírica de Cecília Meireles, antipitoresca e antiprosaica, mais próxima do Neossimbolismo europeu, quanto a poesia de Carlos Drummond de Andrade, afeita à temática na direção da inquietação filosófica e com as preocupações de ordem política, social e econômica, decorrentes de um universo de entre guerras. A geração de poetas e prosadores que integrou o decênio de 1930 é parte de umas das fases do Modernismo. Consideramos a conceituação adotada por Afrânio Coutinho (1978) que divide o movimento em três fases, marcadas por três gerações diferentes e sucessivas: 22, 30 e 45. Refletir sobre o Modernismo brasileiro ultrapassa a esfera literária e artística, envolve todo um complexo cultural. Na conferência proferida na ABL – Academia Brasileira de Letras – Graça Aranha vaticinou que o “espírito moderno” não se limitava às letras e às artes, mas possuía uma identificação total com o povo e o país (COUTINHO, 1978, p. 280). O Modernismo foi um movimento de integração nacional e é dessa forma que passaremos em revista a Geração de 30 na prosa e na poesia. Contexto da Geração de 30 e Panorama Literário Assista ao vídeo e conheça mais sobre os principais elementos que constituem o contexto sócio-histórico e o cenário da produção literária dos escritores da Geração de 30. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 8/45 Biogra�a de Graciliano Ramos Alguns afirmam que Graciliano Ramos (1892 -1953) foi o maior romancista brasileiro depois de Machado de Assis. A consagração do alagoano, natural de Quebrangulo, é uma unanimidade entre seus contemporâneos da Geração de 30, como Rachel de Queiroz e Jorge Amado. O “romance de 30” começa em 1928 com a publicação de A bagaceira, de José Américo de Almeida. A temática nova mostrava a realidade brasileira no meio rural do Nordeste. O impacto foi imenso ao ponto de Jorge Amado declarar que encontrou no romance de José Américo tudo o que aspirava. É porque o escritor abordou a realidade rural com um novo olhar (SANTOS, 1993). Capa da 7ª edição de A bagaceira, 1928. Aquele formato de romance rural idílico como Inocência (1872), de Visconde de Taunay, e Cabocla (1931), de Ribeiro Couto, jamais teria espaço na narrativa de Graciliano Ramos. Um dos quinze filhos de pais sertanejos, Graciliano Ramos, além de dirigir a Imprensa Oficial e a Instrução do Estado na capital alagoana, foi também prefeito de Palmeira dos índios. O mandato exercido de forma ética gerou dissabores e adversários. As consequências foram a prisão do escritor em 1936, quando já havia publicado seus dois primeiros romances: Caetés (1933) e São Bernardo (1934). As tristezas e os dissabores desse momento trágico foram registrados em um livro póstumo: Memórias do cárcere (1953). 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 9/45 Graciliano Ramos fez parte daquela geração de escritores que absorveram a herança realista do século XIX, já dinamizada por Lima Barreto e Graça Aranha. Alfredo Bosi (1979, p. 390) a nomeia como “realismo psicológico bruto”, isto é, um novo realismo onde o romance agride, protesta; mas com isso se faz necessário uma reorganização da linguagem narrativa. O romance brasileiro nessa etapa da história da literatura pode ser dividido em duas tendências, em dois tipos: Romance social-regional Romance psicológico Não adotamos uma classificação tipicamente didática onde um tipo exclui o outro. Os críticos literários defendem que o Graciliano Ramos de São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938) é, ao mesmo tempo, regional e psicológico. Seu romance revela o plano regional nos personagens marcados pelo meio físico e social e na forma dos diálogos. Denuncia os problemas sociais típicos do homem nordestino de uma determinada classe: a vida miserável e fadada à migração em decorrência da seca. O Regionalismo de 30 é uma forma de fazer a junção de elementos locais e universais, o resultado era dar a identidade nacional um caráter próprio, contrário à formação europeia, a tudo que representa o estrangeiro. O homem nordestino é um símbolo da identidade nacional. A obra de Graciliano Ramos Suas obras e o legado na web Além de quatro romances, Graciliano escreveu três livros de contos, histórias infantis e dois livros de memórias. Graciliano Ramos não teve vida longa, o que pode explicar uma obra pouco numerosa. A esposa de Graciliano Ramos, Heloisa Ramos, doou o acervo do escritor ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), composto por manuscritos, recortes de jornais, biblioteca, que pode ser conferido no portal da USP. Dica 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 10/45 No site oficial do escritor na internet há um panorama sobre vida e obra de Graciliano Ramos. Traços estilísticos e personagens Como observou Álvaro Lins (1970), Graciliano Ramos é um romancista voltado para a introspecção, a análise, os motivos psicológicos. Seu estilo conciso cria uma narrativa enxuta, com diálogos precisos, exatos. Prefere o parco uso do adjetivo, a sintaxe clássica em oposição à vontade gramatical dos modernistas e dos outros prosadores modernos, como observou Alfredo Bosi (1979, p. 404). Seus personagens, em geral, são criaturas desgraçadas, humilhadas por um destino cruel. O olhar do romancista não demonstra encanto, mas indiferença. Na galeria de personagens, o crítico literário Álvaro Lins (1970) recorda-se somente da cachorra Baleia, de Vidas secas, como digna de simpatia. Aos demais, Graciliano os pinta com as tintas do egoísmo, da insensibilidade. Todos os seus personagens são “vidas secas”. Os seus personagens e o estilo em que se exprime, afirma Álvaro Lins. Vidas secas Vidas secas narra a trajetória de uma família de retirantes que vive os sofrimentos da estiagem. É considerado por alguns críticos literários como o mais brasileiro dos livros de Graciliano Ramos. Publicado em 1938, narra em terceira pessoa a história da família de Fabiano: sua esposa Sinhá Vitória e os filhos – O Menino mais Velho e O Menino mais novo –, além da cachorra Baleia. O meio físico funde e nivela os personagens. Graciliano deixa em evidência os vínculos entre o homem e a natureza no Nordeste árido. Nesse aspecto, ele dialoga com outros escritores de seu tempo, nordestinos, que buscaram refletir sobre como o homem vive em sua região. Seus hábitos, suas mazelas, sua relação com o poder local. O fenômeno da seca marca o destino de muitos e a literatura da Geração de 30 no Nordeste o elege como um de seus temas principais. Ao mesmo tempo, que há o sentimento da terra nordestina áspera, cruel, dura, sobressai também o amor de seus habitantes que a elas estão ligados teluricamente, como assinalou Álvaro Lins (1970). A narrativa é construída em quadros, com capítulos independentes que não se articulam. Cada um deles é autônomo. O leitor pode lê-lo na 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio#11/45 ordem que preferir, não interfere na compreensão do enredo. Não há um nexo rigoroso entre as cenas. O excesso de introspecção em personagens rústicos como Fabiano e Sinhá Vitória faz com que o livro tenha muitos monólogos interiores. Fabiano falava pouco, muitas vezes usava exclamações, onomatopeias. No entanto, admirava Seu Tomás da Bolandeira, o protótipo do homem que inspirava sabedoria e lia muito. Revoltava-se contra o poder policial representado pelo Soldado amarelo: Teluricamente Relativo à Terra ou ao solo. Ele, Fabiano, seria tão ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar pancada neles? Não iria. (RAMOS, 1970, p. 150) O enredo pode ser resumido assim: uma família de retirantes composta de pai, mãe, dois filhos e uma cachorra, que sai em busca de um pedaço de terra, pois a seca os paralisa, aloja-se em uma fazenda abandonada. O romancista apresenta seus personagens separadamente. Cada capítulo é dedicado a um. Como se fosse “um retrato de caracterização, em que o próprio personagem se apresenta ao leitor” (Lins, 1970, p. 38). Após um tempo morando no local, volta a ser atingida pela seca, a fazenda não serve mais de abrigo para Fabiano e sua família. Novamente partem em busca de uma nova terra. O final do livro é uma retirada, como no princípio fora uma chegada. O primeiro capítulo é “Mudança”, o último, “Fuga”. Vida e obra de Graciliano Ramos Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e a obra de Graciliano Ramos. Aprofunde-se em uma análise de seu romance Vidas secas. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 12/45 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Vidas secas, de Graciliano Ramos é um romance que mostra sob vários aspectos o contexto político e social do Nordeste dos anos 1930: produtores rurais oprimindo os trabalhadores em suas fazendas, a seca levando as famílias a viverem como retirantes, o poder político representado pela polícia humilhando o cidadão de bem pelo simples prazer de mostrar a sua força. Assinale a passagem de Vidas secas que confirma com mais precisão o enunciado desta questão. A “Lembrou-se de Seu Tomás da bolandeira. (...) Certamente aquela sabedoria impunha respeito” (Ramos, 1970, p. 57). B “Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto” (Ramos, 1970, p. 47). C “Sinhá Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça” (Ramos, 1970, p. 78). D “Ergueu-se, deixou a cozinha, foi contemplar as perneiras, o guarda-peito e o gibão pendurados num torno da sala” (Ramos, 1970, p. 87). E “Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido com a roupa nova, o pescoço esticado [...] (Ramos, 1970, p. 115). 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 13/45 Parabéns! A alternativa B está correta. O trecho extraído do primeiro capítulo da obra mostra as consequências da seca, a busca dos retirantes por um novo lar em fazendas abandonadas. Os demais trechos não estão estreitamente vinculados com os aspectos especificamente destacados no enunciado. Questão 2 A Geração de 30 se destaca no Modernismo brasileiro tanto na ficção quanto na poesia. O que caracteriza o contexto social e político da Geração de 30? Parabéns! A alternativa C está correta. O Brasil da Geração de 30 vive as grandes mudanças provocadas pelo fim da República Velha. Com a ascensão da classe operária, da pequena burguesia e a força dos militares, o governo de Getúlio A A queda da Bolsa de 1929 com seus efeitos na economia que vão abalar os cafeicultores. B A Revolução de 32 em oposição ao Governo de Getúlio Vargas e seus desdobramentos político- partidários. C A ascensão de novas classes como a operária, o poder dos militares e os conflitos geopolíticos e ideológicos entre as potências do Eixo e dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. D Um Brasil refém das ditaduras do nazismo e do fascismo, permitindo a manifestação literária apenas de escritores europeus. E Uma sociedade acomodada, assentada sobre valores aristocráticos e em sintonia com a literatura europeia. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 14/45 Vargas se apoia no Estado Novo na primeira fase, e, ao final, adere às forças aliadas para derrubar o nazifascismo na Europa. 2 - Rachel de Queiroz e Jorge Amado Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as principais obras e características da prosa de �cção de Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Vida e obra de Rachel de Queiroz (1910-2003) Biogra�a de Rachel de Queiroz A cearense de Quixadá é a única romancista mulher que se destacou na Geração de 30 na prosa nordestina. Mulher escritora era uma exceção naqueles tempos em que os homens eram maioria na literatura brasileira. Rachel de Queiroz considerava-se uma sertaneja, pois, mesmo tendo nascido na cidade, foi criada em uma fazenda, mas sua vida no Ceará se deu entre o sertão e a cidade. Formada no magistério, o pendor literário surgiu na adolescência. Aos vinte anos publicou seu primeiro romance, O Quinze (1930), com grande repercussão no Sudeste. Quinze refere-se a 1915, o ano da seca que assolou o Nordeste e fez a família da romancista migrar para a cidade. Romance laureado com o prêmio Graça Aranha, marcou o início de uma bem-sucedida trajetória literária. Suas primeiras obras como O Quinze e João Miguel, este último de 1932, estão mais próximas da narrativa neorrealista que seria a marca da narrativa social do Nordeste. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 15/45 Capa da 117ª edição de O Quinze. Como os seus contemporâneos nordestinos, o contexto político e social dos anos 1930 refletiu em sua obra. Em um mundo regido por ideologias extremistas, a escritora sempre se posicionou a favor da liberdade. Rachel de Queiroz em seu terceiro romance, Caminho de Pedras (1937), abordou de forma pioneira na Geração de 30 as questões de gênero que hoje são amplamente debatidas em todos os setores da sociedade brasileira, bem como as lutas sociais e políticas das classes operárias em Fortaleza. Alfredo Bosi (1979) sublinhou que Rachel de Queiroz cultivava também uma narrativa onde os problemas psicológicos ocupavam um plano em destaque. A autora, tal como Graciliano Ramos, não restringiu seu universo ficcional à defesa das raízes nordestinas e às mazelas provocadas pelas injustiças sociais que acometem o homem do sertão nordestino. É preciso lembrar que a Geração de 30 na prosa foi influenciada pelo pensamento sociológico, particularmente de Gilberto Freyre. As Ciências Sociais abandonaram conceitos como “meio” ou “raça” para se pensar a identidade brasileira. Freyre valorizou a cultura nordestina, as tradições, os estilos de viver e de pensar herdados à sociedade patriarcal. O romancista José Lins do Rego, um dos expoentes dessa geração, seguiu à risca o pensamento de Freyre. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 16/45 Portanto, quando a prosa da Geração de 30 cultiva a visão de mundo do sociólogo Gilberto Freyre sob vários aspectos está configurando em forma de romance a tese que defende a miscigenação do povo brasileiro como um aspecto importante e positivo na formação da Nação. Rachel de Queiroz e Gilberto Freyre. A prisão foi uma experiência em comum aos escritores da prosa nordestina. Como Graciliano Ramos e Jorge Amado, Rachel de Queiroz passou três meses no cárcere em 1937, em Fortaleza, devido ao seu envolvimento com o Partido Comunista.O ano foi o da publicação de Caminhos de pedra. Com a decretação do Estado Novo (1937-1945), suas obras e as de Jorge Amado foram queimadas em Salvador. Escritora e jornalista, cultivou particularmente o romance e a crônica. Fez algumas incursões no teatro (A beata Maria Egípcia e Lampião) e na literatura infanto-juvenil (O menino mágico). Foi a primeira mulher a ingressar na ABL, em 1977, quebrando um paradigma centenário, alçando às mulheres escritoras a ocupar um espaço importante da vida literária, guardião da língua portuguesa e da cultura brasileira. A entrada na ABL é o reconhecimento de sua presença renovadora e participante como cidadã e escritora. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 17/45 Posse de Rachel de Queiroz na Academia Brasileira de Letras, em 5 de maio de 1977, tornando- se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição. Em seu livro de memórias Tantos anos (1999), escrito em parceria com a irmã caçula Maria Luiza, a escritora revelou entre outras coisas o quanto o período do Estado Novo oprimiu os escritores de esquerda. Obras de Rachel de Queiroz Um dos temas da Geração de 30 é a seca. Problema crônico que assola a região Nordeste, esteve presente em uma fase da vida da família Queiroz. A seca de 1915 levou os pais de Rachel a se mudarem para o Rio de Janeiro em 1917. O retorno para Fortaleza demorou três anos. As condições privilegiadas da família não a levaram a enfrentar a situação trágica enfrentada por milhares de nordestinos. Nos chamados campos de concentração da seca no Ceará, os flagelados eram abrigados em condições precárias de higiene para que não se deslocassem até a capital. Estima-se que mais de cem mil pessoas perderam suas vidas. A prosa de Rachel de Queiroz surpreendeu a crítica da época, chegando ao ponto de algumas pessoas acreditarem que a autora, na verdade, fosse um autor. Seu estilo enxuto, pouco dado às pieguices atribuídas a alguns livros escritos por autoras, concedeu a Rachel de Queiroz um lugar de destaque no panteão dos escritores. O Quinze (1930) não se destacou somente por abordar o drama da seca, mas por retratar um regionalismo diferente e autêntico, em que a mulher surge como uma protagonista atuante. Conceição luta contra as adversidades geradas pelo clima árido e por um lugar de protagonismo na sociedade patriarcal, almejava ser uma mulher independente. Do drama da seca, a romancista abordou nos romances posteriores temas como as questões políticas daquele momento; os conflitos de natureza partidária, a luta da militância, particularmente entre os 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 18/45 integrantes do Partido Comunista. Por exemplo, a cena do operário que mata um companheiro em João Miguel rendeu-lhe severas críticas do Partido Comunista. João Miguel fez a diferença ao abordar ao mesmo tempo o aspecto intimista e social; a obra de Rachel de Queiroz mostrou que o romance social não existe isolado da vida privada dos personagens. Dois anos depois, Rachel de Queiroz conquistou o prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. Em 1950, publicou em folhetins, na revista O Cruzeiro, o romance O galo de ouro. Capa de uma nova edição de João Miguel, publicado originalmente em 1932. Declarando-se jornalista antes de tudo, escreveu peças de teatro e publicou grande número de crônicas (de 1944 a 2003) nos principais jornais e revistas do Brasil, nos quais integrou o time de mestres no gênero. Autora de sete romances, Memorial de Maria Moura (1992) foi o último. O romance foi adaptado com sucesso para a TV em formato de minissérie. Seu estilo segue um dos preceitos da narrativa modernista, no diálogo prevalece a linguagem corrente e regional. A cronista e a literatura infantil 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 19/45 Como cronista, distinguiu-se nos longos anos dedicados à imprensa. Na revista O Cruzeiro e n'O Jornal, consagrou-se como um dos expoentes desse tipo de narrativa popular ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Publicou mais de duas mil crônicas, cuja seleta propiciou a edição dos seguintes livros: Escreveu duas peças de teatro, Lampião, em 1953, e A beata Maria do Egito, em 1958, laureada com o prêmio de teatro do Instituto Nacional do Livro, além de O padrezinho santo, peça que escreveu para a televisão, inédita em livro. No campo da literatura infantil, escreveu O menino mágico, a pedido de Lúcia Benedetti. O livro surgiu, entretanto, das histórias que inventava para os netos. Como tradutora destacou-se com cerca de quarenta volumes vertidos para o português. Personagens e temáticas em Rachel de Queiroz Personagens em Rachel de Queiroz A donzela e a Moura Torta (1930) O brasileiro perplexo (1963) O caçador de tatu (1967) 100 crônicas escolhidas (1973) 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 20/45 Conceição em O Quinze era uma professora apaixonada por sua profissão. Contrariando o desejo da família, que queria vê-la casada, ficou solteira, mesmo apaixonada por um primo. As protagonistas de Rachel de Queiroz eram mulheres fortes, independentes e, em grande parte, solteiras. Mesmo declarando não ser uma feminista, Rachel de Queiroz deixou evidente qual era a condição da mulher na sociedade de seu tempo, e como era premente a luta por igualdade de direitos e pela liberdade sexual. Confira uma fala importante da autora! Na minha adolescência, a mulher não estava ainda firme em suas posições de liberdade, como hoje. Seus direitos de estudar, de amar, de ser, tudo isso ainda era muito restrito. (QUEIROZ, 1997, p. 31) Graciliano Ramos confessou, em um artigo intitulado Caminho de pedras, que, ao ler O Quinze, pensou que a obra tivesse sido escrita por um homem. Leia o que disse o autor de Vidas secas sobre o romance de estreia de Rachel de Queiroz. [...] fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo [de Almeida], por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova. Seria mulher? Não acreditei. (LAMEGO, 1996, p. 44) Caminho de pedras e as questões de gênero 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 21/45 Noemi é uma mulher à frente de seu tempo. Casada com João Jaques, eles têm um filho, Guri. O dia a dia da família é alterado pelas lutas políticas. A protagonista se envolve em um movimento que reivindica melhores condições no trabalho. Sua paixão por um dos integrantes, Roberto, a leva a grandes conflitos que põem em destaque o papel da mulher na sociedade brasileira. Analisado sob o ponto de vista das questões de gênero, Caminho de pedras é o retrato de um romance que sacode as estruturas literárias do chamado romance engajado, social. O social e o individual caminham juntos. Rachel de Queiroz deixa entrever as diferenças entre homem e mulher. Isso é explicitado no diálogo entre os personagens homens quando falam das mulheres. A romancista não se restringe à literatura social, ela promove a fusão com a literatura intimista. O romance Memorial de Maria Moura e o assédio sexual Ainda nos anos 1990, mais precisamente em 1992, Rachel de Queiroz publicou seu último romance inspirado na história de uma cangaceira do século XVI com a da rainha Elizabeth I, da Inglaterra. Dessa forma, a romancista construiu sua protagonista. Maria Moura traça um panorama da vida no sertão, onde uma mulher se torna a líder de um bando de jagunços. A história poderia ser apenas mais um retrato dos costumes regionais de uma parcela da população nordestina, mas Rachel de Queirozinseriu na história da protagonista uma experiência profundamente traumática, a do abuso sexual. O tema que hoje é diariamente veiculado na TV brasileira e na web, que é passível de punição de acordo com a legislação brasileira, era completamente silenciado no Brasil dos anos 1990. Portanto, o romance de Rachel de Queiroz antecipa questões da mulher do Brasil do século XXI. Vida e obra de Rachel de Queiroz Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Rachel de Queiroz, destacando seus personagens e temáticas, a partir das obras Caminhos de Pedras e Memorial de Maria Moura. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 22/45 Vida e obra de Jorge Amado (1912 – 2001) Biogra�a de Jorge Amado Baiano de Itabuna, criado em Ilhéus, terra do cacau, Jorge Amado, como Rachel de Queiroz, vivenciou o cotidiano nordestino. Filho de um fazendeiro pioneiro do cacau (que perdeu sua fazenda após uma grande enchente) teve uma formação escolar sólida; a proximidade com intelectuais e jornalistas o introduziram nos grandes temas da vida brasileira e nas ideias modernistas que transformaram a nossa literatura. Formado em Direito no Rio de Janeiro aproximou-se da militância esquerdista. Suas leituras de novelas da literatura proletária russa e do realismo bruto norte-americano são fonte de inspiração para o tipo de romance que cultivaria nas primeiras obras. A consciência social também é fruto de sua experiência com os trabalhadores da fazenda de seu pai. As relações entre patrão e empregados nunca foram pacíficas considerando a mentalidade de quem detém o capital e de sua mão de obra, mesmo sendo o pai de Jorge Amado muito liberal, segundo o filho. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 23/45 Jorge Amado ao concluir o seu bacharelado em Direito, 1935. As tensões ideológicas e políticas que desaguaram no fascismo e no nazismo influenciaram alguns aspectos da política brasileira, vide a instauração da ditadura do Estado Novo (1937-1945), o que fez Jorge Amado escrever romances de propaganda política. Jorge Amado é um exemplo de como os escritores foram marcados por esse contexto político. Sobre isso, veja o que diz Itazil Santos! Foi da Revolução de 30, que surgiu esse movimento conhecido pelo nome de romance de 30, uma literatura que veio tratar dos problemas do povo, usando uma linguagem baseada naquela falada pelo povo. (SANTOS, 1993, p. 122) Sua oposição ao Governo Vargas custou-lhe a primeira prisão em 1936. Se seu colega de ofício, Graciliano Ramos, viu o sol nascer quadrado uma única vez, mas durante meses contínuos, Jorge Amado viu várias vezes o que é ser privado do direito de ir e vir pelo fato de não comungar das mesmas ideias do governo. O escritor intensificou sua militância e tornou-se deputado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1946, por decisão do partido, paralelamente à produção de romances como: Cacau (1933) Suor (1934) Terras do sem-�m (1943) 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 24/45 A perseguição do Governo Dutra (1946-1951) aos comunistas levou ao fechamento do PCB e Jorge Amado a exilar-se na Europa em 1948, na França, e 1956, na Tchecoslováquia. Ao lado de seus amigos, o antropólogo Artur Ramos e o etnólogo Edison Carneiro, interessou-se pela etnografia religiosa, especialmente tocado pela humilhação e desrespeito à crença religiosa dos negros baianos. Jorge Amado, como deputado federal, foi autor da lei que assegura a liberdade do culto religioso em 1946. Essa atitude refletiu sua participação na vida religiosa baiana, onde, de acordo com o escritor, houve repressão violenta aos cultos de matriz africana, incluindo a invasão dos terreiros de candomblé e a prisão de mães e pais de santo. No exílio, visitou países da Europa Ocidental e da Ásia, período em que se relacionou com diversos intelectuais e desenvolveu seus dotes de embaixador do Brasil. Jorge Amado se tornou em sua longa trajetória literária um dos maiores divulgadores da literatura e da cultura brasileiras. O cinema, a TV e o teatro adaptaram suas obras, o que o tornou mais popular. Durante muitos anos foi o autor mais lido no Brasil e, dos autores brasileiros, o mais traduzido. Gabriela, cravo e canela foi adaptada para a TV três vezes: em 1960, por Zora Seljan na TV Tupi; em 1975, por Walter George Durst para a TV Globo e, em 2012, por Walcyr Carrasco para a TV Globo. Dona Flor e seus dois maridos ganhou uma adaptação no cinema, em 1976, dirigida por Bruno Barreto. Todas as adaptações foram grandes sucessos de público e crítica. A trajetória do festejado escritor baiano percorreu sete décadas com mais de 30 obras que foram traduzidas para 49 idiomas. Obras e visão de mundo do romancista Ler Jorge Amado é uma forma de conhecer o Nordeste sob o ponto de vista de um de seus estados, a Bahia. Sua devoção às coisas do povo baiano o fez registrar suas várias facetas, no comportamento, na culinária, na religião e na política. As obras do romancista transportam os leitores para o dia a dia dos baianos que vivem nas cidades do Recôncavo e na capital, Salvador. São Jorge dos Ilhéus (1944) 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 25/45 Jorge Amado disse que a “coisa mais importante de todas” foi viver a vida do povo baiano (GOMES, 1981, p. 9). Quando tinha 14 anos, mudou-se para Salvador e começou a trabalhar na imprensa. Data dessa época o início de seu viver “misturado com o povo da Bahia”. Jorge chegou a viver em um casarão no Pelourinho. Quem visitar esse bairro histórico de Salvador pode conferir a placa que registra o fato fixada na entrada do Hotel Pelourinho, localizado bem próximo à Fundação Casa de Jorge Amado. Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador, Bahia. Ainda na adolescência, o romancista frequentava as casas de raparigas (prostitutas) e convivia com o pessoal dos saveiros (pescadores). Ele dizia que tinha uma vida muito livre. Ao ver a perseguição que o “povo do candomblé” sofria, Jorge Amado passou a perceber o problema racial, a entender que o problema racial é consequência do problema social. No curta-metragem Jorge Amado – na Casa de Rio Vermelho (1974), realizado por Fernando Sabino e David Neves, o romancista explica que há uma unidade na sua obra que vem do primeiro ao último livro. A primeira fase de sua obra é marcada pelos romances conhecidos como o ciclo do cacau. Esboços de um aprendiz de romancista, segundo o autor. Cacau (1933) e Suor (1934) têm a marca dos romances proletários que o influenciaram. A história se passa no meio rural, versa “sobre a vida dos trabalhadores nas roças de cacau do sul da Bahia” (SANTOS, 1993, p. 133). 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 26/45 Casa do Rio Vermelho, Salvador, Bahia. Ainda não existia uma classe operária, na visão do romancista baiano, mas o trabalhador manual. O dito romance proletário apenas se começava a conhecer no Brasil. O jovem autor era então filiado à Juventude Comunista e a mensagem contundente da obra levou a polícia a proibi-lo. Obras foram apreendidas. É a fase de encontro com a esquerda, com a identificação de autores da literatura soviética e americana (SANTOS, 1993). Jubiabá (1935) trata do problema da raça. O protagonista Balduíno entende que este é um problema de classe: “O problema da raça não é a causa, mas a consequência do problema de classe, do problema do pobre e do rico” (SANTOS, 1993, p. 136). Mar morto (1936) e Capitães de areia (1937) refletem as experiências do adolescente Jorge Amado e suas andanças pelas ruas de Salvador, onde eleteve contato com os meninos de rua, os pescadores e as prostitutas. Personagens e temáticas em Jorge Amado Personagens em Jorge Amado Os meninos marginalizados de Capitães de areia (1937), os pescadores de Mar morto (1936), os coronéis nordestinos de Terras do sem-fim (1942) são alguns exemplos de personagens representantes do povo baiano. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 27/45 As mulheres do povo ocupam um espaço abrangente e especial nessa galeria, como vemos em Gabriela, cravo e canela (1958), Dona Flor e seus dois maridos (1967), Tieta do agreste (1976) e Teresa Batista, cansada de guerra (1972). Jorge Amado foi um dos primeiros ficcionistas a abrir espaço para valorizar o protagonismo de mulheres, negros e mestiços, como Gabriela, Teresa Batista, Dona Flor, Tieta, Jubiabá e Pedro Archanjo. Temas Considerando o Brasil dos anos 1930, a primeira fase da obra de Jorge Amado é uma espécie de documento da vida social e política brasileira no Nordeste. Aborda os privilégios dos latifundiários, o poder das oligarquias representado pelos coronéis na política da época. Ao mesmo tempo, retrata a população marginalizada formada particularmente por trabalhadores explorados pelas oligarquias, os menores abandonados e as prostitutas, reflexo de uma sociedade desigual. Na perspectiva de Jorge Amado, o homem é o resultado de um conjunto de condições históricas e sociais. Jorge Amado mostra o homem baiano sob o ponto de vista da luta de classes, sem deixar de acrescentar doses de lirismo. Os protagonistas encarnam ideais que mostram a opressão das camadas menos privilegiadas. Antonio Balduíno, em Jubiabá, e Pedro Bala, em Capitães de areia, são exemplares nesse sentido. Há diferentes estágios na obra de Amado: de cunho regionalista e de denúncia social até chegar à crônica de costumes. Gabriela, cravo e canela (1956) é o divisor de águas que marca essa mudança no estilo literário do autor. Pode-se reunir esses estágios em diferentes tipos de romances: Romance proletário Cacau e Jubiabá. Romance pitoresco e fantástico Dona Flor e seus dois maridos e A morte de Quincas Berro D`água. Romance de pregação partidária O cavaleiro da esperança e O mundo da paz. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 28/45 Apesar da obra de Jorge Amado ter alcançado um público-leitor muito vasto, coisa rara em se tratando de leitores no Brasil, certa parte da crítica literária fez ressalvas ao apontar as fragilidades de uma literatura presa a clichês, lugares-comuns e dotada de um lirismo piegas. O que é considerado qualidade para muitos, como a conquista de uma ampla gama de leitores, pode ser interpretado como resultado de um excesso de concessões do escritor, criando uma obra por demais popular, o que significa perda da qualidade literária. É, por exemplo, a avaliação do crítico literário Alfredo Bosi quando sintetiza os aspectos gerais de sua obra. Veja o que ele afirma: Ao leitor curioso e glutão a sua obra tem dado de tudo um pouco: pieguice e volúpia em vez de paixão, estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez de captação estética do meio, tipos folclóricos em vez de pessoas, descuido formal a pretexto de oralidade... Além do uso às vezes imotivado do calão: o que é na cabeça do intelectual burguês, a imagem do eros do povo. (BOSI, 1979, p. 394) Se alguns acham uma falha um escritor ser acessível ao comum dos leitores, a história da literatura brasileira não poderá negar ao escritor baiano um lugar de relevo. Com sua obra, Jorge Amado contribuiu muito para consolidar o lugar da nossa literatura no Brasil e no exterior. Tenda dos milagres e a intolerância religiosa Jorge Amado dizia que Tenda dos milagres (1969) mostra a luta do povo contra o racismo. Se o Brasil contemporâneo tem nesse tema um dos mais debatidos em amplos setores da sociedade e nos meios de comunicação, é para se refletir como Jorge Amado foi pioneiro em trazer o tema do racismo em um tempo em que o cidadão brasileiro tinha sua liberdade restrita, sua voz silenciada pelos desmandos de uma ditadura civil militar. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 29/45 Em Tenda dos milagres, o protagonista é Pedro Archanjo, um homem preto que viveu no início do século passado e transpôs as limitações de sua modesta condição social. Ele combateu o racismo científico ao sustentar, na arena acadêmica, a importância da contribuição do negro e do mestiço para a construção da civilização brasileira. Vida e obra de Jorge Amado Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Jorge Amado, além dos personagens e temáticas em seus romances. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Jorge Amado é um dos autores de Geração de 30 que marcou a literatura brasileira, com várias obras vertidas para o cinema e a televisão. Qual é um dos problemas mais presentes na sociedade baiana abordado na obra de Jorge Amado que o tornaram um autor popular? A As questões existenciais das mulheres da aristocracia baiana e seus conflitos familiares. B As consequências da Segunda Guerra Mundial em Salvador. C As divergências entre as ideologias de esquerda e direita. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 30/45 Parabéns! A alternativa E está correta. Sendo um escritor do povo, como sempre afirmou, soube colocar em suas obras a luta contra os preconceitos sobre todas as formas, o racial principalmente, como se vê em Tenda dos milagres e Jubiabá. Questão 2 Rachel de Queiroz se destacou na literatura brasileira no contexto da Geração de 30, sendo a primeira escritora a ocupar uma cadeira na ABL. Qual é a contribuição da obra de Rachel de Queiroz para a ficção regionalista? Parabéns! A alternativa D está correta. Rachel de Queiroz soube mais do que qualquer autor da ficção regionalista dar às personagens femininas o protagonismo que elas não tinham, elevou as questões de gênero a um patamar até então inexistente. D A luta dos coronéis para tomar posse das terras desbravadas. E A luta contra os preconceitos, em especial o racial, enfrentados pelo povo baiano. A Abordou a relação entre produtores rurais e os trabalhadores. B Refletiu sobre o cotidiano do sertão cearense. C Criou uma obra que aborda o preconceito racial. D Deu destaque às questões da mulher na sociedade nordestina através de suas protagonistas. E Traçou um panorama do homem do sertão. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 31/45 3 - Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car a poesia da Geração de 30 na obra de Cecília Meireles e de Carlos Drummond de Andrade. A poesia de Cecília Meireles Biogra�a de Cecília Meireles Cecília Meireles (1901-1964) foi marcada pela perda desde tenra idade. Como os pais faleceram cedo, foi criada pela avó. Silêncio e solidão foram marcas de sua vida e de sua poesia. Educadora nata, formou-se no Instituto de Educação no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Chegou a atuar como professora primária. Lutou por um ideal transformador na educação, defendendo os princípios da Escola Nova. Sua “Página da educação” no Diário de Notícias registrou vários e importantes momentos dessa jornada. Instituto de Educação, Rio de Janeiro. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 32/45 Entre tantas ações da educadora Cecília Meireles, consta a organização da primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro,no Pavilhão Mourisco, em Botafogo, em 1934. O posicionamento de Cecília Meireles mostrava como os intelectuais buscavam um papel participativo na sociedade brasileira. Reflexo do desenvolvimento de uma consciência nacional tão propagada pelo Modernismo de 1922. Discreta na vida literária, a cidadã mostrou-se combativa nos caminhos da educação (LAMEGO, 1996). Ela integrou um núcleo de poetas que, no início de suas trajetórias literárias, eram ligados à poesia neossimbolista, cultivada por um dos grupos nascidos no movimento modernista: o espiritualista. Isso não implicava um compromisso doutrinário com o grupo, mas: [...] delineava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo. (DAMASCENO, 1967, p. 25) Sua poesia mostra como o caráter demolidor da primeira fase do Modernismo representada pela Geração de 22, pregando o desejo de revolução estética de rejeitar o patrimônio passadista e o culto do metro perfeito, foi cedendo lugar a outros pontos de vista. As divergências geraram diversos grupos: o primitivista de Oswald de Andrade, o dinamista de Graça Aranha e o espiritualista de Tasso da Silveira. É que o Modernismo não se restringiu à Semana de 22, nem à dita fase heroica de 1922 a 1928 ou 1930. Uma sucessão de fases, como explica Afrânio Coutinho, mostra as diferenças das três gerações perante a vida e a arte (COUTINHO, 1978, p. 276). Em torno da revista Festa, o Grupo Espiritualista de Tasso da Silveira, Andrade Muricy e Adelino Magalhães "defendia a tradição e o mistério, [conciliava] o passado e o futuro” (COUTINHO, 1978, p. 271). Os espiritualistas defendiam o universalismo e certos valores tradicionais da poesia. O viés era hegemonicamente católico, mas a adesão de Cecília Meireles ao grupo, segundo um dos seus principais estudiosos, Darcy Damasceno (1967), não tinha 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 33/45 compromisso doutrinário, sua identificação se dava sobretudo pelos temas e conteúdo filosófico. Meireles cultivava um espiritualismo mais panteísta do que católico; em outras palavras, tudo o que existe, a natureza e seus seres são idênticos, e não o resultado de um Deus criador. Se a poesia das primeiras obras não aderiu à onda modernista, conectada com o seu tempo, ela se encarregou de mostrar como Cecília Meireles reavaliou o olhar do grupo espiritualista a respeito das mudanças impostas pelo Modernismo. Isso se deu quando Meireles excluiu a fase inicial neossimbolista do livro Obra poética publicado pela Aguillar, em 1956. Do livro de estreia, publicado em 1919, Espectros, passando por Nunca mais... (1923), Poemas dos poemas (1923) até Baladas para El-Rei (1925). Desde o final dos anos 1930, portanto, na segunda fase modernista, a da Geração de 30, a poeta mostrou em Viagem (1939) as várias facetas de seu fazer poético, que soube conciliar o verso livre com as formas tradicionais (decassílabo, soneto, elegia, ode) tão caras à poesia simbolista. Essa obra conquistou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, fato que incomodou muito alguns modernistas da Geração de 22, particularmente Mário de Andrade, que fez comentários contundentes. Afinal, estar vinculada ao grupo espiritualista era sinônimo de cultivar um Modernismo sem rupturas drásticas com a tradição romântica e simbolista. Mário de Andrade. Mas é importante destacar o comentário de um dos maiores estudiosos do Modernismo, Mário da Silva Brito. Ele dizia que Cecília Meireles não se filiou a nenhuma corrente estética e não se inseriu no momento 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 34/45 histórico de sua geração devido ao apreço pela sua individualidade (Brito, 1968, p. 170). Portanto, encarar a poesia de Cecília Meireles como menos modernista deveu-se ao vínculo com a tradição simbolista. Alfredo Bosi (1979) achava que sua poesia não era filiada aos princípios do grupo festa, o que a aproximou daqueles poetas foi a admiração mútua por Cruz e Souza e os simbolistas. Temática e traços estilísticos na obra de Cecília Meireles Na temática, é patente a efemeridade do tempo, a transitoriedade da vida, a presença dos elementos da natureza como o mar, o ar, o vento, os desacertos da solidão, e a música permeando vários momentos. A indagação sobre o fazer poético é outro tema recorrente. Cecília Meireles aderiu ao verso livre a partir de Viagem (1939), uma conquista da fase heroica da poesia da Geração de 22, e o cultivou privilegiando uma temática onde a reflexão filosófica e existencial, o sonho, a fuga e o sentimento transformado em imagem saltam aos olhos. Quando analisada à luz dos princípios do Modernismo da primeira geração, a poesia de Cecília Meireles poderia ser vista como distante das palavras de ordem que marcaram o movimento: recusa da tradição, destruição das velhas formas. Mas, como Lucia Helena (2004) analisa, Cecília Meireles misturou tradição e mudança. O repertório de sua obra inclui não só a tradição de língua portuguesa ou mesmo ocidental de diversos estilos e épocas, mas também parte significativa da literatura oriental. Mesclar múltiplas influências em um estilo único é a marca da modernidade da poesia de Cecília Meireles, segundo Lucia Helena (2004). A poeta de Solombra, conforme nos diz Bosi, [...] parte de certo distanciamento do real imediato e norteia os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, quando não para o sentimento da ausência e do nada. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 35/45 (BOSI, 1979, p. 461) Cecília Meireles foi completamente avessa aos fenômenos imediatos, foi um tipo de poeta mais conectada com o universal. Resistiu a qualquer adesão passiva ao Modernismo, como disse Mário de Andrade. Sua poesia é mais eclética, mais metafísica e mais misteriosa. Dotada de uma visão humanista muito ampla, não queria um homem necessariamente brasileiro, mas universal. Uma poesia sofisticada, que não cedia a um vocabulário de choque, por isso os modernistas demoraram a reconhecer sua poesia. Cecília fazia o elogio da delicadeza, alguma coisa bela e mortal. Romanceiro da Inconfidência (1953) é um marco em sua trajetória literária. Um livro polifônico, com poemas líricos e dramáticos, conta a saga do Brasil não ter alcançado a independência. Cecília resgata um momento da história do Brasil que foi muito caro aos modernistas, mas ela conta a história do ponto de vista de quem perdeu. É uma meditação sobre o poder, a política e a ambição. O que a distingue, quando comparada aos poetas modernos, é a maestria com que uniu diversos estilos da literatura ocidental e oriental. Nada lhe é indiferente, daí vem a força de sua modernidade. O moderno em Cecília Meireles não é a ruptura pura e simples, é preservar do passado o que fortalece o discurso poético. A poesia de Cecília Meireles Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Cecília Meireles, além das temáticas e dos traços estilísticos de suas poesias. A poesia de Carlos Drummond de Andrade Vida e obra de Drummond 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 36/45 A geração de poetas que se firmou após a fase heroica de 1922 conquistou temáticas novas: a política em Drummond e Murilo Mendes. Também podemos mencionar as experiências metafísicas da lírica moderna em Cecília Meireles e em Henriqueta Lisboa (BOSI, 1979, p. 438). Quando a caravana modernista aportou em Belo Horizonte, em 1924, com Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e outros artistas, Drummond e seus companheiros aderiram prontamente às ideias de Mário de Andrade e o tomaram como um mestre. O resultado foi o início de uma longa correspondência entre o autorde Macunaíma e Drummond, publicada em A lição do amigo (1982), organizada pelo mineiro. Nessa obra se pode acompanhar uma parte da trajetória dos dois poetas e de vários momentos do movimento modernista. O poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e seus amigos mineiros receberam os ventos modernistas nas Minas Gerais dos anos 1920. O resultado foi a criação de A Revista, fundada por ele e poetas como Emilio Moura e João Alphonsus. Mas foi após sua mudança de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, então Capital Federal, que Drummond entraria para o time seleto de poetas modernistas. Convidado pelo amigo e ministro Gustavo Capanema, tornou-se seu chefe de gabinete no Ministério da Educação e Saúde. Primeira edição de A Revista, 1925. Após a publicação do primeiro livro, Alguma poesia (1930), seguiu-se Brejo das almas (1934) e Sentimento do mundo (1940). Este último recebido como uma poesia renovadora e impregnada pelo contexto político. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 37/45 Um número da Revista Acadêmica, em 1941, dedicado a Drummond, já atestava sua importância naquele momento. Mário de Andrade, em nota à Revista Acadêmica, afirmava ser o poeta maior do que os outros (CANÇADO, 1993). Os 84 anos de vida proporcionaram a Drummond escrever uma obra vasta que reúne poesia, crônicas, contos e livros infantis, além da faceta de tradutor. Foram mais de cinquenta livros publicados. A poesia de Drummond Em seu livro de estreia, Alguma poesia (1930), dedicado a Mário de Andrade, o poeta cultivou as palavras em liberdade, o verso não se prendia à metrificação, a poesia aproximava-se da prosa, a linguagem era coloquial. Aspectos estilísticos cultivados pela Geração de 22. A obra voltou-se para seus dramas pessoais, para a vida familiar, a memória afetiva da cidade natal, Itabira. Confira estes versos do poema Infância: Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé [...]. (DRUMMOND, 1969, p. 3) Em sintonia com as diretrizes do Modernismo, inseria elementos do cotidiano como matéria de inspiração poética, como você pode notar nestes versos de Poema do jornal: O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 38/45 (DRUMMOND, 1969, p. 14) O eu do poeta se apresenta como um ser estranho, esquisito, não adaptado, desajeitado desde Alguma poesia, conforme vemos no Poema de sete faces: Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida. (DRUMMOND, 1969, p. 3) A poética de Drummond faz uma indagação filosófica da existência através do ato de escrever, de fazer poesia. É através dela que se mostram os mistérios do mundo, o que leva ao conhecimento de si próprio. O poeta-cronista Drummond começou a trabalhar na imprensa ainda em Belo Horizonte e colaborou em vários jornais durante sua trajetória. Funcionário público, desenvolveu sua trajetória literária na imprensa como cronista ao longo dos anos. Colaborador longevo no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil, neste último no Caderno B, que o tornou um poeta-cronista popular. Sobre a poesia, certa vez Drummond (1969) declarou que ela o ensinou um pouco a viver, pois “através da poesia, nós adquirimos um sentido mais generoso do mundo, e ao mesmo tempo sentimos a magia do mundo, a magia do universo”. A poesia de Carlos Drummond de Andrade é uma síntese do século XX. Ele foi testemunha da Semana de Arte Moderna ao período do Estado Novo, das duas grandes guerras, da ascensão da tecnologia que gerou formatos de poesia como a poesia concreta, de oito décadas do Brasil moderno. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 39/45 Temas na poesia de Drummond O social A vertente social se expressava no contexto da Segunda Guerra Mundial e das ideologias extremistas que abalaram a Europa e o Brasil: o nazismo e o fascismo. É nesse sentido que A rosa do povo (1945), escrita durante a Grande Guerra, é uma obra contundente. O tempo é de união diante do cenário bélico, conforme vemos nestes versos do poema Nosso tempo: Este é tempo de partido, tempo de homens partidos. (DRUMMOND, 1969, p. 82) O poeta solitário é também solidário desde o livro Sentimento do mundo (1940): “O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. “O poeta está em sintonia com o tempo presente (“O tempo é a minha matéria, do tempo presente”) (DRUMMOND, 1969, p. 55). Segundo Alfredo Bosi (1994), a partir de Claro enigma (1948-1951) prevalece uma atmosfera de desencanto e de reflexão, isso se plasma em poemas reflexivos como Memória, Eterno e A ingaia ciência. Surge o poeta metafísico. Metafísico, fazer poético, memorialista A poesia metafísica dá lugar à poesia objetual de Lição de coisas (1959- 62), o poeta desenvolve seu olhar sobre o fazer poético. Poemas como O lutador, no livro José (1967), mostra como Drummond estabelece uma luta corpo a corpo com o poema. Faz uso de vocábulos típicos de uma relação erótica para mostrar como o fazer poético se refaz a cada vez, a luta com as palavras parece inútil, mas é do embate entre tentativa e fracasso que se faz a poesia: 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 40/45 Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. [...] Lutar com palavras parece sem fruto. Não têm carne e sangue… Entretanto, luto. [...] O ciclo do dia ora se conclui e o inútil duelo jamais se resolve. [...] (DRUMMOND, 1969, p. 67) O estilo drummondiano se desfaz dos adjetivos (“por que noite gélida?”), ele adere ao prosaico, ao irônico. Drummond é antirretórico. O fazer poético e a memória são duas ideias-força que permeiam a obra de Carlos Drummond de Andrade de ponta a ponta. O poeta sempre esteve em busca do passado. O resgate da paisagem da cidade natal através da família mostra essa caminhada em direção à poesia memorialista. Drummond oscila entre o pessoal e o social, é uma marca de sua poesia. A perquirição metalinguística se dá quando o poeta se debruça sobre o próprio texto, “à medida que o elabora, inquirindo-lhe do cabimento, da legitimidade, da propriedade das palavras e sintagmas que vai empregando” (HOUAISS, 1969, p. XXV). Para Antonio Houaiss (1969), a poesia de Carlos Drummond de Andrade teve a função de cristalizar o movimento modernista, pois nela a poesia atingiu a plenitude moderna no sentido de antenação com a problemática do mundo moderno, na sua multifacetada e aparentemente caótica dispersão e concentração planetizadas (HOUAISS, 1969, p. XXVIII). Um traço destacado por Houaiss (1969) é ver na obra drummondiana um unipoema, ou seja, construída num poetar de várias décadas. Quando o poeta diz que o sentido da vida é seu sem sentido significa: o sentido é o da busca. Cabe aos homens construírem o sentido (HOUAISS, 1969, p. XVI). 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 41/45 A poesia de Carlos Drummond de Andrade Assista ao vídeo e conheça mais sobre a vida e as obras de Carlos Drummond de Andrade, além das temáticas e dos traços estilísticos de suas poesias. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Cecília Meireles se destaca por sua obra poética. Qual é a obra de Cecília Meireles que se tornou um divisor de águas em sua trajetória literária por promover uma ligação mais estreita com a poesia modernista da Geração de 22? A Solombra B Ou isto ou aquilo C Viagem D Balada para El Rei E Noturno 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 42/45 Parabéns! A alternativa C está correta. Viagem marca uma virada na obra ceciliana por mostrar a síntese de várias dicções poéticas, do Simbolismo ao Modernismo, e deste se aproximar por adotar o verso livre. Questão 2 Drummond é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa. Qual é a obra de Carlos Drummond de Andrade que mostra o engajamento do poeta com o contexto político e social da Geração de 30? Parabéns! A alternativa A está correta. Sentimento do mundo mostra a adesão do poeta solidário, desesperançado diante da Grande Guerra e dos regimes totalitários, mas disposto a prestar solidariedade aos irmãos. Considerações �nais Neste conteúdo, mostramos uma das gerações principais do movimento modernista, com destaque para a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles e a prosa de ficção nordestina de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. A Sentimento do mundo B Alguma poesia C José D Claro enigma E Brejo das almas 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 43/45 Vimos que a marca da Geração de 30 é a sintonia que estabelece especialmente com o contexto social e político de sua época. Não fica indiferente às consequências da Grande Guerra que abala os alicerces geopolíticos e econômicos das nações e cria dois polos que se enfrentam sob a égide do capitalismo e do socialismo. A relação entre a literatura dos romancistas nordestinos também foi estudada, explorando como essa modalidade de narrativa dialogou com grandes questões do Brasil da Era Vargas, marcada pelo Estado Novo e as consequências dos regimes totalitários. Discutimos os traços essenciais da prosa de ficção de 1930, destacando as particularidades de cada autor. Além disso, analisamos a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, abordando o lugar de suas obras após as transformações operadas pela Geração de 22. Vimos como a Geração de 30 na poesia deu continuidade às inovações implementadas pela poesia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Explore + Assista ao vídeo Recordar é TV reverencia a escrita de Rachel de Queiroz, no canal da TV Brasil no YouTube, no qual a escritora é entrevistada por Araken Távora em Os Mágicos, 1978 e entrevistada por Hildegard Angel em As Pessoas, 1989. Assista ao vídeo Carlos Drummond de Andrade, que reproduz o programa De lá Pra Cá, disponível no no canal da TV Brasil no YouTube, com apresentação de Ancelmo Gois e Vera Barroso, dando uma boa perspectiva da importância de Drummond. Assista ao vídeo Cecília Meireles, do Programa De Lá Pra Cá, com Apresentação de Ancelmo Gois e Vera Barroso, para conhecer um pouco mais a vida e obra de Cecília Meireles, disponível no canal da TV Brasil no Youtube. Ouça o podcast Especial Jorge Amado, produzido pelo MEC e disponível no portal Domínio Público, para uma abordagem panorâmica das obras de Jorge Amado. Referências ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião. 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969. 17/04/2024, 11:12 O Modernismo: a Geração de 30 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/05635/index.html?brand=estacio# 44/45 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1979. BRITO, Mário da Silva. Cecília Meireles In: BRITO, Mário da Silva. Poesia do Modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. CANÇADO, José Maria. Os sapatos de Orfeu. Biografia de Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Página Aberta, 1993. COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 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