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CÂNCER DE PULMÃO BRONCOGÊNICO DEFINIÇÃO O câncer de pulmão, ou carcinoma broncogênico, é uma neoplasia maligna proliferativa com origem no epitélio respiratório primário. O câncer de pulmão em geral é dividido em dois grupos histológicos principais: câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC), que representa aproximadamente 85% de todos os cânceres de pulmão, e câncer de pulmão de pequenas células (CPPC). Existem diversas outras neoplasias pulmonares menos comuns, incluindo tumores carcinoides, sarcomas de tecidos moles do pulmão primários, blastomas pulmonares e linfoma. EPIDEMIOLOGIA O câncer de pulmão é, sem dúvida, a principal causa de morte relacionada ao câncer globalmente, com uma estimativa de 1,3 milhão de novos casos diagnosticados mundialmente a cada ano, representando quase 12% de todos os cânceres e uma estimativa de 1,1 milhão de mortes a cada ano. Nos homens, o câncer de pulmão é a neoplasia maligna mais comum (taxa de incidência de 35,5 por 100.000), enquanto nas mulheres, a incidência do câncer de pulmão (12,1 por 100.000) se aproxima somente daquela dos cânceres de mama, colo do útero e cólon. A incidência e a taxa de mortalidade relacionadas ao câncer de pulmão em homens declinaram durante as últimas duas décadas nos países do Ocidente, mas continuam a aumentar no mundo em desenvolvimento; nas mulheres, as mortes por câncer de pulmão estão aumentando na maior parte das regiões do mundo. Os aumentos mais dramáticos na incidência e na morte por câncer de pulmão globalmente ocorrem na China, que apresentou um aumento de 465% nas mortes relacionadas ao câncer de pulmão durante os últimos 30 anos. Fatores de risco O tabagismo é o fator de risco mais comum para o câncer de pulmão, com cerca de 85% dos pacientes com câncer de pulmão apresentando histórico de tabagismo e aproximadamente 50% sendo ex-fumantes (definidos como livres do tabagismo há no mínimo 12 meses antes do diagnóstico). O risco de desenvolvimento de câncer de pulmão está correlacionado à quantidade de cigarros fumados ao dia e à duração cumulativa do tempo de tabagismo.1 Os pacientes com história de tabagismo de no mínimo 20 a 30 maços-ano (definido como 1 maço de cigarros ao dia por 20 a 30 anos) apresentam aumento substancial no risco de desenvolvimento de câncer de pulmão. O sequenciamento de todo o genoma revelou que o ônus mutacional nas amostras de adenocarcinomas de pulmão de pessoas que nunca fumaram é uma ordem do registro de magnitude inferior àquela dos pulmões dos sempre-fumantes (pessoas que sempre fumaram). As características transversões de nucleotídios citosina-adenina (C S A) estão associadas à exposição ao tabaco e são observadas predominantemente nos adenocarcinomas de pulmão dos fumantes, e não naqueles que nunca fumaram.2 Desde a liberação do primeiro U.S. Surgeon General’s Report of the Hazards of Smoking em 1964, a prevalência do tabagismo declinou consideravelmente nos EUA, mas continua a aumentar de modo alarmante nos países em desenvolvimento e do terceiro mundo. Como resultado, o número de casos de câncer de pulmão diagnosticados a cada ano provavelmente aumentará durante as próximas décadas, e estima-se que a maioria dos casos de câncer de pulmão ocorrerá fora dos EUA e da Europa aproximadamente no ano de 2030. O abandono do tabagismo está associado à redução gradual no risco de desenvolvimento de câncer de pulmão, muito embora não alcance o risco das pessoas que nunca fumaram. A exposição secundária à fumaça é outro fator de risco que contribui para quase 1% de todos os casos de câncer de pulmão. Tendo em vista que aproximadamente 11% dos fumantes compulsivos desenvolvem câncer de pulmão, a suscetibilidade genética ao câncer de pulmão também parece ter uma participação. Os pacientes com história familiar de câncer de pulmão precoce (antes dos 60 anos) correm um risco duas vezes maior de desenvolvimento da doença. As mulheres aparentam ser de mais alto risco para o desenvolvimento de câncer de pulmão no mesmo nível de exposição ao tabagismo que aquele dos homens, mas os motivos por trás disto permanecem incertos. Nos últimos anos, um número crescente de pessoas que nunca fumaram foi diagnosticado com câncer de pulmão. A etiologia desse achado não está clara neste momento. Esses indivíduos apresentam maior probabilidade de ter determinadas alterações genéticas no tumor, tais como mutações no gene que codifica o receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) e um rearranjo no gene que codifica a quinase de linfoma anaplásico (ALK). A exposição ocupacional ao amianto leva a um risco estimado quatro vezes mais alto de câncer de pulmão, com o tabagismo tendo um efeito aditivo sobre o risco. Existe uma latência de diversas décadas entre a exposição ao amianto e o desenvolvimento do câncer de pulmão, e o risco está relacionado à duração da exposição, bem como à quantidade e ao tipo de fibras de amianto. A Environmental Protection Agency e a Organização Mundial da Saúde consideram que todas as formas de amianto são carcinogênicas; diante disto, o uso de amianto está banido em aproximadamente 50 países. A exposição ao radônio também tem sido implicada no desenvolvimento de 5 a 8% dos casos de câncer de pulmão. A exposição domiciliar ao radônio, que resulta do decaimento radioativo do urânio, é alta em determinadas regiões geográficas. A Environmental Protection Agency recomenda que o nível de radônio domiciliar seja inferior a 4 picocuries/litro de ar, e métodos simples de remediação estão disponíveis para reduzir as exposições ao radônio acima deste limiar. A exposição à radiação ionizante na forma de radiação terapêutica ou de exames radiográficos diagnósticos frequentes também está associada a um risco mais alto de desenvolvimento de câncer de pulmão, assim como são, em menor grau, as exposições a metais como arsênico, níquel e cromo, bem como à sílica e à poluição do ar em geral, incluindo combustíveis de biomassa como carvão e a fumaça de madeira. Um estudo estimou que o vírus da imunodeficiência humana (HIV) está associado a um aumento do risco de desenvolvimento de câncer de pulmão, com uma razão de risco (hazard ratio) de 3,6. BIOPATOLOGIA Histopatologia O câncer de pulmão é amplamente subdividido em CPNPC e CPPC com base no comportamento biológico distinto e na resposta à quimioterapia destes dois subconjuntos. O CPNPC abrange os subtipos adenocarcinoma, carcinoma de células escamosas (carcinoma espinocelular) e carcinoma de grandes células. Nas últimas décadas, foram reconhecidas diferenças distintas entre os diversos subtipos histológicos que compreendem o CPNPC, com a inserção de um aumento na ênfase sobre a identificação do subtipo histológico a partir de amostras diagnósticas. Atualmente o adenocarcinoma é o subtipo histológico mais comum de câncer de pulmão; as pessoas que nunca fumaram e que desenvolvem câncer de pulmão apresentam com mais frequência um adenocarcinoma. Este aumentou gradualmente em incidência, superando o câncer de células escamosas durante as últimas duas décadas, e atualmente representa quase 50% de todos os casos recentemente diagnosticados de câncer de pulmão nos EUA. O adenocarcinoma apresenta predileção maior pelas metástases a distância, em comparação à histologia de células escamosas. Em 2011, foi desenvolvido um novo sistema de classificação para o adenocarcinoma de pulmão, dividindo os adenocarcinomas nos tipos pré-invasivo, minimamente invasivo e invasivo. A hiperplasia adenomatosa atípica se refere a uma lesão proliferativa localizada composta por pneumócitos do tipo II atípicos ou células de Clara, que têm menos de 5 mm. O adenocarcinoma in situ se refere às lesões menores que 3 cm com ausência de quaisquer características invasivas. Esta entidade foi anteriormente denominada carcinoma bronquioalveolar ou adenocarcinoma não invasivo. Lesões de 3 cm ou menos, com um padrão predominantemente lepídico e com invasão inferior a 5 mm na maior dimensão, são denominadas adenocarcinoma minimamente invasivo. O adenocarcinoma in situ e o adenocarcinomaminimamente invasivo apresentam uma taxa de sobrevida em 5 anos superior a 95% quando são tratados com ressecção cirúrgica, o que torna o estabelecimento de um diagnóstico histopatológico preciso de grande significância. O adenocarcinoma invasivo representa quase 90% de todos os casos de adenocarcinoma. Com base nos elementos característicos predominantes, ele é categorizado como predominantemente lepídico, acinar, papilar, micropapilar ou sólido com produção de mucina. A incidência do câncer de pulmão de células escamosas (CCE) está declinando nos EUA, mais provavelmente em virtude da alteração dos hábitos de tabagismo da população. Os tumores escamosos de pulmão em geral estão localizados centralmente e quase sempre são observados em pacientes com um histórico de tabagismo significativo. A displasia escamosa e o CCE in situ são lesões pré-invasivas, que podem se tornar cânceres invasivos. Além das características morfológicas, estudos imuno-histoquímicos são importantes para estabelecer o subtipo histológico de CPNPC. As amostras de adenocarcinoma normalmente apresentam coloração positiva para citoqueratina 7, fator de transcrição tireóideo-1 (TTF-1) e napsina-A, e são negativas para citoqueratina 20. A maioria dos tumores de células escamosas apresenta coloração positiva para p40 e p63, membros da família p53 de proteínas, enquanto os adenocarcinomas ocasionalmente apresentam coloração positiva para p63. Com base nestes achados, um painel de marcadores, incluindo TTF-1, p63 e p40, com frequência é avaliado nas amostras diagnósticas de pacientes com câncer de pulmão para identificar com acurácia o subtipo histológico (Tabela 182.1). O carcinoma de grandes células representa 3 a 4% dos CPNPC e é caracterizado por uma alta taxa mitótica e características morfológicas de CPNPC. Os tumores de grandes células apresentam coloração positiva para marcadores neuroendócrinos, como cromogranina A e sinaptofisina. Tendo em vista que este subtipo histológico com frequência é difícil de diagnosticar com acurácia em virtude da abundância de tecido necrótico e de um baixo grau de diferenciação, o diagnóstico demanda uma amostra tecidual adequada. O carcinoma de grandes células com frequência está associado a evolução clínica agressiva e taxas de sobrevida desfavoráveis, até mesmo quando é encontrado na condição de doença em estágio inicial. O carcinoma de grandes células está fortemente associado a história pregressa de tabagismo. O CPPC é diagnosticado em aproximadamente 13% dos casos de câncer de pulmão nos EUA, e a sua incidência declinou gradualmente durante as últimas três décadas. O CPPC está fortemente associado ao tabagismo e é raro em pessoas que nunca fumaram. O diagnóstico histopatológico pode ser desafiador, em virtude da abundância de tecido necrótico, mas é estabelecido por elementos caraterísticos, como um alto grau de mitose e necrose. O exame diagnóstico do CPPC inclui a imunocoloração para TTF-1, cromogranina, sinaptofisina e CD56. Aproximadamente 15% das amostras de CPPC apresentam morfologia mista, com componentes de CPNPC. Patologia molecular Nos últimos anos, diversas anormalidades moleculares foram identificadas no câncer de pulmão. Muitos destes representam alvos inéditos para a terapia, fortalecendo a justificativa para a obtenção de um tecido tumoral adequado para conduzir estudos moleculares como um componente essencial da investigação diagnóstica de câncer de pulmão. Com as técnicas genômicas modernas, maior compreensão das características moleculares responsáveis pela heterogeneidade clínica do câncer de pulmão há muito tempo reconhecida está levando a abordagens de tratamento individualizadas.3 Oncogenes No adenocarcinoma de pulmão, quase dois terços dos pacientes têm mutação oncogênica que possivelmente pode representar um alvo molecular com agentes específicos (Figura 182.1A). As mais comuns são as mutações que envolvem KRAS, EFGR, BRAF, HER2, MET e PIK3CA, e rearranjos de genes que envolvem ALK, RET e ROS1. As mutações de KRAS são encontradas em aproximadamente 25% dos pacientes com adenocarcinoma de pulmão e, habitualmente, estão associadas ao tabagismo (cigarros). Os locais mais comuns de mutação em KRAS incluem os códons 12, 13 e 61, resultando em substituições de aminoácidos, que causam o comprometimento da atividade da GTPase e a ativação constitutiva da sinalização de RAS. O valor prognóstico da mutação de KRAS nos pacientes com câncer de pulmão é controverso. São observadas mutações em EGFR em quase 15% dos pacientes brancos com adenocarcinoma de pulmão e quase 40% dos pacientes asiáticos com adenocarcinoma de pulmão. As mutações de deleção no éxon 19 e uma mutação pontual no éxon 21 estão localizadas no domínio de ligação à tirosinoquinase do receptor e resultam na ativação constitutiva da via de sinalização, levando a proliferação, evasão da apoptose e intensificação da angiogênese. Pacientes com mutações de ativação de EGFR podem obter um benefício clínico robusto e duradouro do tratamento com inibidores da tirosinoquinase (TKIs) de EGFR. Entretanto, a maior parte do benefício é de duração limitada, e em 12 a 24 meses, quase 60% desses pacientes desenvolverão mutação secundária no éxon 20 (T790M), que confere resistência à terapia com TKI de EGFR. Esta mutação também pode ser observada de novo em determinados pacientes com adenocarcinoma de pulmão junto com uma mutação no éxon 19 ou 21 antes da exposição à terapia com TKI de EGFR. Outro mecanismo comum de resistência adquirida à terapia com TKI de EGFR é a amplificação do receptor do fator de crescimento c-Met. Em aproximadamente 5% dos pacientes com adenocarcinoma de pulmão, é observado um rearranjo genético que envolve a ALK. As características clínicas associadas ao rearranjo genético da ALK incluem pessoas que nunca fumaram, histologia do adenocarcinoma, características de anel de sinete à avaliação histopatológica e idade mais jovem. O gene de fusão resulta da inversão ou translocação de partes da proteína tipo 4 associada ao microtúbulo de equinoderme (EML4) com o gene da ALK e leva à ativação dos sinais downstream, que podem ser inibidos por inibidores de ALK quinase específicos. Crizotinibe, um inibidor de ALK, induz à resposta tumoral objetiva em quase dois terços dos pacientes. O rearranjo do gene da ALK é detectado por meio de hibridização in situ fluorescente, com frequência adicionalmente à imuno-histoquímica. Outras anormalidades de fusão que envolvem os genes RET e ROS1 são observadas, cada, em 1% das amostras de adenocarcinoma de pulmão. Deve-se observar que as mutações de EGFR e KRAS e os rearranjos do gene ALK em geral são mutuamente exclusivas. O carcinoma de células escamosas apresenta um espectro de anormalidades moleculares totalmente diferente (Figura 182.1B). Estudos recentes do projeto do Atlas do Genoma do Câncer (TCGA) indicam mutações comuns em p53, PTEN, PIK3CA, KEAP1, DDR2 e RB1. A amplificação do gene do receptor do fator de crescimento de fibroblastos (FGFR) também é observada em 10 a 20% dos cânceres de pulmão de células escamosas. Muitas destas anormalidades proporcionam possíveis oportunidades para as terapias com alvos moleculares. A disponibilidade do sequenciamento genômico altamente sofisticado até agora já possibilitou a elucidação de anormalidades genéticas não identificadas, revelando novos alvos moleculares terapêuticos para o câncer de pulmão. Cada vez mais, o desempenho do exame multiplex para diversos marcadores moleculares simultaneamente, como o uso de quantidades limitadas de tecido tumoral, está alterando o paradigma terapêutico para o CPNPC.4 As diretrizes da International Association for the Study of Lung Cancer recomendam a pesquisa rotineira da mutação de EGFR e da translocação de ALK para todos os pacientes com diagnóstico recente de adenocarcinoma de pulmão em estágio avançado. Para os pacientes com tumores com histologia de células escamosas, o exame molecular de rotina ainda não é recomendado, ainda que estudos clínicos randomizados que utilizam estaabordagem estejam em andamento. Como não há terapias com alvo molecular aprovadas pela FDA para os CCE, no momento o uso de quimioterapias padrão é recomendado. Tabela 182.1 Marcadores histológicos no câncer de pulmão de não pequenas células. PORCENTAGEM DE CASOS IHC-POSITIVOS ENTRE OS SUBTIPOS HISTOLÓGICOS DE CARCINOMA VALORES PREDITIVOS POS NEGATIVO DO PAINEL ANTICORPOS ADENOCARCINOMA (n = 215) CARCINOMA DE CÉLULAS ESCAMOSAS (n = 123) CARCINOMA DE GRANDES CÉLULAS (n = 22) ADENOCARCINOMA CARC DE CÉ ESCA p63 7,0 99,2 52 88,9; 9 Citoqueratina 5/6 9,8 99,2 68 84,9; 9 TTF-1 83,5 3,4 23 97,7; 76,9 Citoqueratina 7 97,2 23,5 77 88,4; 93,6 Mucina 43,4 13,4 0 Modificada de Sterlacci W, Savic S, Schmid T, et al. Tissue-sparing application of the newly proposed IASLC/ATS/ERS classification of adenocarcinoma of the lung shows practical diagnostic and prognostic impact. Am J Clin Pathol. 2012;137:946-956. IHC = imuno-histoquímica; TTF-1 = fator de transcrição tireóideo-1. FIGURA 182.1 Redes de sinalização alteradas no câncer de pulmão. A. Vias significativamente mutadas no adenocarcinoma de pulmão. ALK = quinase de linfoma anaplásico; EGFR = receptor de fator de crescimento epidérmico; EPHA/B = efrina A/B; FGFR = receptor de fator de crescimento de fibroblastos; INSR = receptor de insulina; KRAS = vírus do sarcoma de Kristen em ratos; NTRK = tirosinoquinase neutrófica; PIK3CA = subunidade alfa da fosfatidilinositol-4,5-bisfosfonato 3-quinase catalítica; VEGF = fator de crescimento endotelial vascular. (Adaptada de Ding L, Getz G, Wheeler DA, et al. Somatic mutations affect key pathways in lung adenocarcinoma. Nature. 2008;455:1069-1075.) B. Perfis genéticos de acordo com o subtipo histológico. (De the Lung Cancer Mutation Consortium e modificada de Sequist LV, Heist S, Shaw AT, et al. Implementing multiplexed genotyping of non-small- cell lung cancers into routine clinical practice. Ann Oncol. 2011;22:2616-2624; Bergethon K, Shaw AT, Ou SH, et al. ROS1 rearrangements define a unique molecular class of lung cancers. J Clin Oncol. 2012;30:863-870; Weiss J, Sos ML, Seidel D, et al. Frequent and focal FGFR1 amplification associates with therapeutically tractable FGFR1 dependency on squamous cell lung cancer. Sci Transl Med. 2010;2:62ra93; Hammerman PS, Sos ML, Ramos AH, et al. Mutations in the DDR2 kinase gene identify a novel therapeutical target in squamous cell lung cancer. Cancer Discov. 2011;1:78-89.) Genes supressores tumorais A função dos múltiplos genes supressores tumorais com frequência é perdida no câncer de pulmão, incluindo de p53, Rb, LKB1 e diversos genes observados no braço curto do cromossomo 3 (3p). A mutação ou a perda de p53 está correlacionada ao tabagismo e foi detectada em algumas lesões pré-neoplásicas de pulmão. Mutações de p53 são comuns tanto no CPNPC (≈ 50%) quanto no CPPC (≈ 80%). Mutações em LKB1 também são comuns no CPNPC. O gene STK11/LKB1, que codifica uma serino/treoninoquinase, regula a polaridade celular e atua como um supressor tumoral. Uma das anormalidades genéticas mais precoces no câncer de pulmão ocorre durante a deleção do material genético no cromossomo 3p (p14 para p23). A deleção ocorre em aproximadamente 50% dos pacientes com CPNPC e 90% dos pacientes com CPPC. O gene FHIT (tríade da histidina frágil) (3p14.2), que é anormal em muitos cânceres de pulmão, pode atuar como um gene supressor tumoral ao limitar o crescimento tumoral e intensificar a apoptose. A proteína Rb não é expressada em 90% dos CPPC em virtude de mutação ou deleção. No CPNPC, a Rb é expressada normalmente, mas quando a Rb é fosforilada, pode ocorrer divisão celular descontrolada. Epigenética A epigenética se refere a uma alteração na expressão do gene que é hereditária, mas não envolve uma alteração na sequência do DNA. As modificações epigenéticas que envolvem alterações na metilação do DNA são comuns no câncer de pulmão e incluem a hipometilação, a desregulação da DNA metiltransferase I e a hipermetilação. Os genes que são metilados no CPNPC incluem p16, RARB, RASSFIA, MGMT (metilguanina-metiltransferase) e proteinoquinase associada à morte (DAP-quinase). A hipermetilação no câncer de pulmão com frequência pode silenciar os genes supressores tumorais, deste modo promovendo o crescimento celular desregulado. O silenciamento dos genes supressores tumorais em linfonodos histologicamente normais em pacientes com CPNPC ressecável está associado a uma probabilidade mais alta de recaída da doença. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os cânceres de pulmão apresentam crescimento a partir de uma única célula anormal ou um pequeno grupo de células anormais, até o desenvolvimento em massas macroscópicas maiores, que podem ter diversos centímetros de diâmetro. A maior parte dos cânceres de pulmão tem origem no epitélio brônquico, que são denominados carcinomas. Os cânceres de pulmão primários não carcinoma são menos comuns e incluem o carcinoide, os blastomas pulmonares (mais comuns em pacientes mais jovens) e os sarcomas. Os cânceres de pulmão precoces com frequência se manifestam como nódulos pulmonares, definidos com uma “opacidade arredondada, bem ou mal definida, medindo até 3 cm de diâmetro” (ver Figura 182.2 para a avaliação de um paciente com um nódulo pulmonar solitário). Os tecidos pulmonares anormais variam em grau histológico, desde células levemente atípicas até cânceres agressivos. Lesões como a hiperplasia adenomatosa atípica são consideradas lesões pré-invasivas, com um contínuo desde a atipia celular até o adenocarcinoma. Atualmente, apenas 15% dos pacientes com câncer de pulmão são assintomáticos quando são diagnosticados inicialmente. O diagnóstico nestes pacientes com frequência é realizado incidentalmente em uma radiografia torácica obtida por outros motivos (p. ex., um exame pré-operatório). O exame de suspeita de câncer de pulmão depende da probabilidade de que a lesão em questão seja maligna ou do estágio da doença à apresentação (Figura 182.2). Os nódulos pulmonares com frequência ocorrem em virtude de infecção atual ou anterior, ainda que possam ser a manifestação do câncer inicial. Os resultados do National Lung Screening Trial demonstram que, de todos os nódulos detectados, mais de 95% foram falso-positivos e eram não cancerosos. De fato, ainda que a incidência de nódulos pulmonares detectados por meio de radiografias e TC de tórax esteja aumentando, a incidência de câncer de pulmão não está.5 Entretanto, a maior parte dos pacientes apresenta sintomas e sinais que são (1) causados pela própria lesão pulmonar – estes incluem crescimento tumoral local, invasão e obstrução; (2) disseminação tumoral regional intratorácica em linfonodos e estruturas adjacentes; (3) disseminação da doença extratorácica a distância; ou (4) síndromes paraneoplásicas.6 Os sintomas de câncer de pulmão comumente apresentados incluem tosse, dispneia, dor, hemoptise e perda de peso; aproximadamente 30% dos pacientes apresentam anorexia, um terço dos pacientes refere fadiga e 10 a 20% dos pacientes apresentam anemia e febre. Mais de 80% dos pacientes apresenta, inicialmente, três ou mais sintomas ou sinais como resultado do câncer de pulmão. Tendo em vista que a maioria dos pacientes com câncer de pulmão apresenta outras doenças cardiopulmonares relacionadas ao tabaco, tais como enfisema/doença pulmonar obstrutiva crônica, cardiopatia isquêmica e outras, estes sintomas que se sobrepõem com frequência resultam em adiamento no diagnóstico da doença maligna de base. Os sintomas também podem resultar da invasão local ou da metástase do tumor, como cefaleia, dor óssea, obstrução de vias respiratórias, tosse e hemoptise. As síndromes paraneoplásicas associadas ao câncer de pulmão incluem a síndrome do hormônio antidiurético inadequado (Capítulo 108), hipercalcemia (Capítulo 232), osteoartropatia hipertrófica pulmonar (Capítulo 259 e Figura 259.1), síndrome miastênica de Eaton-Lambert (Capítulo 394) e síndrome de Cushing (Capítulos 169 e 214). A hipercalcemia é comum na histologia de célulasescamosas, enquanto a síndrome do hormônio antidiurético inadequado, a síndrome miastênica de Eaton-Lambert e a síndrome de Cushing são mais comumente associadas ao CPPC. FIGURA 182.2 Avaliação de um paciente com um nódulo pulmonar solitário. *Paciente com histórico de tabagismo mínimo ou ausente e outros fatores de risco conhecidos para o desenvolvimento de câncer de pulmão e um nódulo de 8 mm ou menor. †Paciente com histórico de tabagismo e outros fatores de risco para o desenvolvimento de câncer de pulmão e um nódulo de 8 mm ou mais. TC = tomografia computadorizada; PAAF = punção aspirativa com agulha fina; PET = tomografia por emissão de pósitrons. DIAGNÓSTICO Com o advento do rastreamento por TC, espera-se que um subconjunto maior de pacientes com câncer de pulmão seja diagnosticado antes do início dos sintomas. Em pacientes com achados clínicos ou radiográficos sugestivos de câncer de pulmão, TCs de tórax e abdome são indicadas para determinar a localização do tumor primário, o envolvimento de linfonodos mediastinais (Figura 182.3) e a disseminação para outros locais anatômicos. Um perfil de expressão de genes pode melhorar a acurácia diagnóstica da biopsia com broncoscopia para a detecção do câncer de pulmão.7 Procedimentos diagnósticos A caracterização diagnóstica acurada dos cânceres de pulmão é essencial, tendo em vista que a presença ou ausência de metástases em linfonodos mediastinais é crucial para determinar o prognóstico, avaliar a ressecabilidade e selecionar a estratégia de tratamento adequada para o câncer de pulmão primário. O aumento de volume de linfonodos identificado por TC ou tomografia com emissão de pósitrons (PET) requer a confirmação histológica. É questionável se todos os pacientes necessitam de estadiamento mediastinal invasivo antes da ressecção cirúrgica ou outra modalidade de tratamento local, tal como radioterapia corporal estereotáxica (SBRT) ou radioterapia ablativa estereotáxica (SABR). Apenas 5 a 15% dos pacientes com tumores T1 periféricos com TC ou PET mediastinal negativas apresentam metástases em linfonodos mediastinais. FIGURA 182.3 Mapa de linfonodos da International Association for the Study of Lung Cancer (IASLC). Está incluso o proposto agrupamento das estações de linfonodos em “zonas” para fins de análises do prognóstico. (De Rusch VW, Asamura H, Watanabe H. The IASCL lung cancer staging Project. A proposal for a new international lymph node map in the forthcoming seventh edition of the TNM classification for lung cancer. J Thorac Oncol. 2009;4: 568-577.) Procedimentos diagnósticos invasivos Avanços importantes no diagnóstico cirúrgico foram estabelecidos e refinados nos últimos anos. A aspiração com agulha transbrônquica (AATB) possibilita o estadiamento do mediastino durante a broncoscopia diagnóstica. A sensibilidade do AATB depende do tamanho do linfonodo, da localização e do tamanho da agulha, sendo mais adequada para linfonodos grandes e clinicamente positivos. A análise citopatológica no local aumenta a probabilidade de obtenção de um diagnóstico maligno. A tecnologia de ultrassom com feixe linear, combinada com a AATB, possibilita a punção aspirativa com agulha fina (PAAF) com ultrassom endobrônquico (USEB) das estações de linfonodos mediastinais e hilares. A PAAF-USEB apresenta desempenho superior à AATB, com uma sensibilidade geral que se aproxima de 90%. Entre as doenças que também estão associadas a linfonodos mediastinais com aumento de volume e metabolicamente ativos estão sarcoidose, tuberculose e múltiplas causas infecciosas, em geral de natureza fúngica, atípica ou viral (histoplasmose, tuberculose e coccidioidomicose entre os diagnósticos diferenciais), o que torna mandatória a obtenção de amostras de tecido linfonodal. A ultrassonografia endoscópica esofágica (UEE), ou PAAF-UEE, possibilita a amostragem das estações dos linfonodos do ligamento pulmonar inferior, periesofágicos e subcarinais (9, 8 e 7). As estações 2 e 4 são de difícil amostragem. A combinação de AAF-USEB e AAF-UEE podem exceder um resultado de 90% para a obtenção de um diagnóstico tecidual de câncer de pulmão, quando este está presente. A mediastinoscopia envolve a avaliação cirúrgica dos linfonodos mediastinais para a determinação do envolvimento tumoral. A mediastinoscopia cervical é o padrão e possibilita a amostragem ou remoção das estações de linfonodos 2, 4, 7, e com frequência 10. A taxa de complicações é de 2%, com poucas complicações de risco à vida. Com a videomediastinoscopia, a sensibilidade e a especificidade excedem os 97%. Uma mediastinotomia anterior (procedimento de Chamberlain) proporciona acesso às estações 5 e 6 (janela aórtica e aortopulmonar), em geral não acessível com a mediastinoscopia cervical. Esta é realizada por meio de uma incisão no segundo ou terceiro espaço intercostal esquerdo ou por meio de excisão da segunda cartilagem costal. É necessária uma biopsia para estabelecer o diagnóstico e, nos últimos anos, para conduzir exames moleculares que podem orientar ainda mais a terapia. O local mais acessível com o método menos invasivo é a abordagem preferida para a obtenção do tecido diagnóstico. Embora a PAAF seja, com frequência, adequada para estabelecer o diagnóstico e possa ser realizada por via transtorácica ou por broncoscopia, o resultado com frequência é inadequado para conduzir exames moleculares. Portanto, uma biopsia com agulha cilíndrica é recomendada para obter tecido suficiente para os pacientes com suspeita de câncer de pulmão. O exame atualmente é a rotina para no mínimo as mutações de EGFR e os rearranjos de ALK, uma vez que estão disponíveis agentes aprovados para ambos estes direcionadores oncogênicos, e perfilagem amplo com abordagens de sequenciamento de nova geração está rapidamente adotada para outros alvos moleculares “que podem ser atingidos por fármacos” (p. ex., ROS1, RET, BRAF, etc.). Para os pacientes que apresentam efusões pleurais ou pericárdicas, a aspiração transtorácica do líquido é suficiente para o diagnóstico e o estadiamento. Blocos celulares preparados a partir do líquido podem ser utilizados para conduzir estudos moleculares, muito embora a taxa de sucesso dependa da quantidade de células cancerosas viáveis na amostra. O resultado diagnóstico do líquido pleural nos pacientes com efusão maligna é de aproximadamente 50 a 70%. Nos casos em que a aspiração repetida do líquido pleural não é diagnóstica, pode ser necessário um procedimento de toracoscopia videoassistida para estabelecer o diagnóstico. Para os pacientes com tumores de pulmão localizados que sejam sugestivos de câncer, é razoável proceder com a ressecção cirúrgica sem uma biopsia diagnóstica se todas as outras possíveis causas forem excluídas. Com o uso recente das terapias com alvos moleculares, a compreensão sobre os mecanismos de resistência é um determinante importante das terapias subsequentes. Portanto, é recomendado obter amostras de biopsia tumoral adicionais em diversos momentos durante a evolução do tratamento. Exames de imagem Em conjunto com procedimentos de imagem torácica padrão, locais adicionais de doença podem exigir avaliação com base nas queixas apresentadas. Os locais mais comuns de metástase de câncer de pulmão incluem pulmão contralateral, fígado, suprarrenais, ossos e cérebro. É recomendado o exame de imagem do cérebro para uma avaliação em relação à metástase em pacientes com sintomas e sinais sugestivos ou aqueles com adenocarcinoma de pulmão com mais de 3 cm e evidências de envolvimento nodal mediastinal. RM ou TC contrastada são modalidades aceitáveis para investigação de metástase cerebral, embora a RM seja preferida em virtude de sua sensibilidade superior. Cintilografia óssea é indicada para pacientes com dor óssea ou elevação inexplicada do nível sérico de fosfatase alcalina. A PET com [18F]fluorodesoxiglicose (FDG) é incluída como parte do estadiamento em pacientes com câncer de pulmão localizado; entretanto, a solicitação de FDG-PET para avaliar a resposta à terapia anticâncer e navigilância após a terapia curativa atualmente é motivo de controvérsia, e não é recomendada. A RM de tórax pode ser útil na determinação da invasão das estruturas adjacentes, tal como o plexo braquial, em pacientes com tumores que envolvem o sulco superior do pulmão, mas o seu uso no estadiamento em geral é restrito às condições pré- operatórias. Nódulo pulmonar solitário O manejo dos nódulos pulmonares difere conforme eles sejam sólidos (atenuação de tecidos moles) ou subsólidos (inferior à atenuação dos tecidos moles, sem obscurecer a arquitetura pulmonar subjacente à TC).8 Para os nódulos maiores, as características à TC sugestivas de malignidade incluem margens irregulares, formação de espículas, invasão de estruturas adjacentes, linfadenopatia e metástases a distância. O nódulo pulmonar único assintomático, com diâmetro inferior a 3 cm, o “nódulo solitário”, com arquitetura pulmonar adjacente normal, é encontrado incidentalmente em até 0,2% das radiografias torácicas; 10 a 70% são malignos. O potencial de malignidade destas lesões aumenta com a idade do paciente, o tamanho do nódulo (< 4 mm versus > 8 mm), a taxa de crescimento, o histórico definitivo de tabagismo e as alterações do tamanho em comparação a exames de imagem anteriores. PET podem ser úteis para definir os linfonodos mediastinais anormais nestes pacientes. Um nódulo pulmonar que não mudou de tamanho por mais de 2 anos provavelmente é benigno. Para lesões maiores que 8 mm, TC de alta resolução é apropriada. No futuro algoritmos de aprendizado profundo podem ser úteis na diferenciação de nódulos benignos e malignos,8b mas atualmente nódulos suspeitos devem ser submetidos a biopsia definitivo (ver Figura 182.2). O Dutch-Belgian Randomized Lung Cancer Screening Trial (NELSON) recentemente relatou que novos nódulos sólidos foram detectados a cada rodada de rastreamento em 5 a 7% dos indivíduos que foram submetidos ao rastreamento para o câncer de pulmão com TC com dose baixa. Foi observado que estes novos nódulos apresentam uma alta probabilidade de malignidade, até mesmo em um tamanho pequeno, sugerindo que diretrizes futuras devam considerar o acompanhamento mais agressivo de nódulos novos, que surgem em TC de rastreamento seriadas, do que para aqueles detectados no exame de imagem basal.9 Estadiamento O estágio é o determinante mais importante do prognóstico em pacientes com câncer de pulmão. Atualmente está em uso a oitava edição do American Joint Committee on Cancer (AJCC) Cancer Staging Manual (Tabela 182.2). Este sistema de estadiamento utiliza novos descritores T e M para determinar o estágio do câncer de pulmão com base no perfil de TNM (tumor, linfonodo e metástase) do paciente. Os descritores T individuais são definidos com base no tamanho do tumor de inferior a 2, 2 a 3, 3 a 4, 4 a 5, 5 a 6 e então 7 cm. No sistema anterior, os tumores eram categorizados com base no tamanho inferior ou superior a 3 cm. Atualmente, nódulos satélites no mesmo lobo do tumor primário são categorizados como T3 e os nódulos em outro lobo do pulmão ipsilateral como T4. Efusão (derrame) pleural ou pericárdica maligna constitui a doença M1. A existência de metástases em tórax constitui M1a e a doença extratorácica é classificada como M1b, tendo em vista que os pacientes com doença M1a apresentam um prognóstico discretamente mais favorável do que aqueles com M1b. Os descritores nodais não foram alterados desde o sistema anterior. O sistema de estadiamento TNM atualmente também é recomendado para o CPPC, em virtude da sua capacidade de determinar o prognóstico de maneira mais acurada. O CPPC anteriormente era classificado como em estágio limitado ou extensivo, com base na capacidade de administrar radioterapia no tumor com um único acesso (port). As diretrizes de tratamento para o CPPC localizado não foram afetadas. Tabela 182.2 Tratamento de acordo com o estágio do American Joint Committee on Cancer (AJCC). T M N CLINICAMENTE APTO CLINICAMENTE INAPTO Estágio IA e IB 1a, 1b, 1c, 2a 0 0 Cirurgia SBRT Estágio IIA/B T1 a 3 0/1 0 Cirurgia mais quimiorradioterapia concomitante adjuvante Irradiação torácica Estágio IIIA X a 3 1/2 0 Terapia multimodalidades 4 X 0 Estágio IIIB X a 4 2/3 0 Quimiorradioterapia concomitante e imunoterapia Estágio IIIC 1 a 4 3 Quimiorradioterapia concomitante e imunoterapia Quimioterapia sequencial Estágio IVA X X 1a/b Terapia sistêmica Estágio IVB X X 1c Terapia sistêmica; radioterapia para fins paliativos M = metástase; N = linfonodo; SBRT = radioterapia corporal estereotáxica; T = tumor. (De AJCC Cancer Staging Manual. 8th ed. New York: Springer-Verlag; 2018.) TRATAMENTO Câncer de pulmão de não pequenas células Cirurgia O manejo cirúrgico desempenha um papel importante no tratamento dos pacientes com CPNPC em estágio I, estágio II e estágio III selecionados. Entretanto, quase 40% dos pacientes com câncer de pulmão em estágio inicial não são candidatos para a cirurgia, em virtude de condições de comorbidade limitantes. Os parâmetros comumente utilizados em relação à inoperabilidade incluem funções pulmonares, com volume expiratório forçado basal no primeiro segundo de expiração (FEV1) inferior a 40%, FEV1 pós-operatório previsto inferior a 30% e capacidade de difusão gravemente limitada. Os referidos pacientes são denominados clinicamente inoperáveis, apesar da presença de doença localizada, e podem ser candidatos à radioterapia corporal estereotáxica (SBRT), conforme discutido posteriormente. A primeira etapa no manejo do câncer de pulmão localizado é realizar o estadiamento dos linfonodos mediastinais. Para os tumores periféricos que não estão associados à adenopatia mediastinal e que não apresentam captação de FDG em linfonodos, muitos cirurgiões defendem prosseguir com a ressecção cirúrgica e a amostragem de linfonodos mediastinais no período intraoperatório. Entretanto, para os pacientes com linfonodos que são positivos na PET, a amostragem é fortemente recomendada antes da cirurgia. A taxa de falso-positivo da PET do mediastino em pacientes com câncer de pulmão localizado é de aproximadamente 20%. A probabilidade de envolvimento nodal nos pacientes com PET negativa é de aproximadamente 5 a 15%. A lobectomia é o procedimento cirúrgico padrão para os pacientes com câncer de pulmão localizado que são clinicamente aptos. Se a ressecção anatômica não puder ser realizada com a lobectomia, pode ser necessária uma bilobectomia ou pneumonectomia. A ressecção em manga se refere à remoção do tumor junto com o brônquio e a anastomose das extremidades remanescentes da árvore brônquica. A ressecção cirúrgica pode ser alcançada com a realização de uma toracotomia aberta ou por meio de cirurgia com toracoscopia videoassistida (VATS).10 A VATS está sendo cada vez mais utilizada em virtude da mortalidade inferior, da recuperação mais rápida da cirurgia e da melhor capacidade para administrar a terapia sistêmica pós-operatória.A1 A capacidade de realizar uma ressecção R0 é crítica, e a cirurgia não deve ser tentada se isto não for considerado viável durante os exames pré-operatórios. Para os pacientes com margens cirúrgicas positivas, deve ser tentada uma nova ressecção sempre que esta for viável. Caso contrário, deve ser administrada radioterapia pós-operatória. Tem aumentado o uso da ressecção robótica do câncer de pulmão, incluindo da lobectomia e da pneumonectomia robóticas, mas ela não é tão amplamente empregada quanto as abordagens VATS. As ressecções sublobares não são recomendadas, em virtude do mais alto risco de recidiva local. Uma exceção a esta regra ocorre para os pacientes com tumores periféricos inferiores a 2 cm, em relação aos quais estudos demonstraram desfechos excelentes. Um estudo em andamento está comparando a ressecção sublobar à lobectomia padrão e provavelmente proporcionará respostas definitivas para esta importante questão. Uma comparação randomizada da dissecção dos linfonodos mediastinais à amostragem nodal demonstrou desfechos comparáveis para os pacientes com CPNPC.Outro estudo comparou a ressecção sublobar seguida da inserção de braquiterapia com I125 para o leito tumoral com cirurgia isoladamente em pacientes que não são candidatos para a lobectomia padrão. Não houve diferença na sobrevida em geral entre os dois grupos e, portanto, a abordagem com braquiterapia não é recomendada. Os tumores que envolvem o sulco superior são tratados com quimiorradioterapia pré- operatória para intensificar a ressecabilidade tumoral e para obter o controle tumoral local e a distância. A decisão de realizar a cirurgia para estes tumores anatomicamente desafiadores depende da extensão da invasão local, do envolvimento do plexo braquial e do envolvimento de linfonodos mediastinais. O valor da cirurgia no manejo do CPNPC em estágio III com envolvimento de linfonodos mediastinais ainda é motivo de controvérsia. A cirurgia isoladamente está associada a um desfecho desfavorável. Em um estudo randomizado, pacientes com doença N2-positiva que foram submetidos à quimiorradioterapia seguida por cirurgia não apresentaram melhora da sobrevida, em comparação à quimiorradioterapia isoladamente, e apresentaram uma taxa inaceitavelmente alta (quase 30%) de mortalidade pós-operatória. Portanto, a terapia com três modalidades não é recomendada para os pacientes que necessitam de pneumonectomia. Para os pacientes com doença N2 multiestações ou doença nodal volumosa, a ressecção cirúrgica não é recomendada. A depuração dos linfonodos mediastinais após a terapia de indução pode ser o preditor mais importante do benefício da ressecção cirúrgica, que demanda o reestadiamento do mediastino após a terapia de indução, se a cirurgia for contemplada. O papel da cirurgia nos pacientes com doença oligometastática pode ser considerado sob determinadas situações. A ressecção cirúrgica de metástase cerebral primária e de metástase solitária resultou em taxas de sobrevida em 5 anos de aproximadamente 20%. Também existem dados limitados com a doença oligometastática nas suprarrenais, mas abordagens semelhantes com metástases solitárias em outros locais distantes não é recomendada. Esta abordagem não pode ser recomendada para os pacientes com envolvimento de linfonodos mediastinais. Radioterapia A radioterapia é uma parte importante da terapia multimodalidades para o CPNPC. Ela desempenha um papel maior na terapia curativa para a doença em estágio III e a paliação da doença em estágio IV e tem sido testada com sucesso para os pacientes com doença em estágio I clinicamente não ressecável. Melhoras significativas na administração da RT nas últimas duas décadas possibilitam o uso de um campo de irradiação menor, reduzindo a exposição do tecido normal à radiação e facilitando o tratamento mais efetivo do tumor. As técnicas de gating respiratório (sincronização da radiação com o movimento respiratório) possibilitam a irradiação do tumor independentemente da fase respiratória. A SBRT envolve a administração da dose alta de radiação em um volume tumoral limitado após a localização estereotáxica. A SBRT ou radioterapia ablativa estereotáxica (SABR) para o CPNPC em estágio I inoperável demonstrou resultados promissores e pode se tornar uma opção (versus a lobectomia) até mesmo na doença em estágio I operável.11 CPNPC em estágio I e estágio II A SBRT surgiu com uma opção de tratamento efetiva para os pacientes com tumores T1 e T2 que são linfonodo-negativos, mas que são clinicamente inoperáveis em virtude de comorbidades. Em um estudo, a administração de SBRT ao longo de três a cinco frações resultou em uma taxa de controle local de quase 90%, motivando estudos da SBRT em pacientes clinicamente aptos e em combinação com a terapia sistêmica para o CPNPC em estágio inicial. A SBRT demonstrou uma eficácia considerável para os tumores periféricos; encontram-se em andamento estudos para examinar o seu uso em tumores centralmente localizados. A radioterapia é indicada para os pacientes com margens cirúrgicas positivas após a cirurgia para o CPNPC em estágio inicial, mas não para os pacientes com margens cirúrgicas negativas. Metanálise relatou um efeito detrimental para os pacientes tratados com radioterapia pós-operatória, especialmente para aqueles com doença N0 e N1. Para pacientes com comprometimento de linfonodos mediastinais (ou doença N2), alguns dados sugeriram benefício em termos de sobrevida com radioterapia pós-operatória, mas um estudo mais recente não o fez. CPNPC em estágio III Ainda que a cirurgia seja adequada para os pacientes com doença T3N1, a administração de radioterapia resulta na melhora dos desfechos para os pacientes com envolvimento de linfonodos mediastinais. Um subconjunto de pacientes N2-positivos pode se beneficiar da terapia multimodalidades que envolve a quimiorradiação neoadjuvante seguida pela ressecção cirúrgica, incluindo os pacientes em estágio IIIA com envolvimento de linfonodos em estação única ou microscópico e doença passível de ressecção com lobectomia ou bilobectomia. A radiação pré- operatória consiste em 45 Gy 1 vez/dia, e uma dose de 60 Gy foi testada com resultados de segurança aceitáveis. Para os pacientes com doença em estágio III que não seja apropriada para a ressecção cirúrgica, a radioterapia torácica a uma dose de até 60 a 66 Gy em frações 1 vez/dia, com quimioterapia concomitante (em vez de sequencial), é o tratamento recomendado. Esta categoria inclui os pacientes com doença mediastinal volumosa, envolvimento de linfonodos contralaterais ou supraclaviculares (N3) e invasão direta de estruturas importantes, como vértebras, traqueia, vasos sanguíneos maiores ou esôfago, pelo tumor primário (T4). Tem sido relatada uma taxa de sobrevida em 5 anos de 20 a 25% com a quimiorradioterapia combinada nesta condição. Os principais eventos adversos incluem esofagite e pneumonite, a última dependente da extensão do tecido pulmonar normal e da dose de radiação recebida pelo tecido pulmonar normal. A pneumonite relacionada à radiação pode ocorrer imediatamente após a radioterapia ou após 6 a 9 meses. Diversos esforços para melhorar a quimiorradioterapia padrão foram empreendidos nas últimas duas décadas. A radioterapia hiperfracionada, com a administração de 2 ou 3 frações/dia, demonstrou resultados favoráveis sobre o fracionamento 1 vez/dia, em particular no carcinoma de células escamosas. Entretanto, restrições logísticas limitaram a adoção dessa abordagem. Estudos de grupos únicos demonstraram que o uso de doses mais altas, de até 74 Gy, em frações 1 vez/dia, é uma abordagem promissora. Contudo, estudos randomizados falharam em demonstrar o benefício do aumento da dose até 70 Gy ou mais nesta população de pacientes. Portanto, 60 a 66 Gy permanecem a dose de radiação padrão para o CPNPC em estágio III. Nos pacientes em estágio III, a irradiação craniana profilática reduz significativamente o risco de desenvolvimento de metástases cerebrais sintomáticas.A2 CPNPC em estágio IV Em pacientes com CPNPC em estágio avançado, a RT pode ser efetiva para a paliação da compressão da medula espinal, metástases cerebrais, obstrução de vias respiratórias, hemoptise e dor. A compressão raquimedular é uma situação de emergência, e a avaliação neurocirúrgica deve ser iniciada para analisar se a cirurgia é recomendada, o que pode ser o caso quando existe grande ônus do tumor e rápida deterioração da função motora e sensorial. A descompressão cirúrgica é utilizada quando o comprometimento neurológico é precoce e o paciente apresenta doença sistêmica bem controlada, e é seguida pela radioterapia. Em geral o manejo da compressão raquimedular consiste em RT com feixe externo até 30 Gy e corticosteroides. Para as metástases cerebrais, a ressecção da doença oligometastática tem sido associada a desfechos melhores. A radioterapia de todo o cérebro até 30 a 37,5 Gy, em 10 a 15 frações, pode ser administrada quando existem múltiplas metástases. A radiocirurgia estereotáxica pode ser utilizada em vez de irradiação de todo o cérebro para os pacientes com metástase cerebral de volume baixo, limitadaa uma a três lesões e lesões que progridem após a radioterapia de todo o cérebro. O controle da dor nos locais de metástase óssea ou envolvimento da parede torácica pode ser alcançado por meio de um ciclo breve de RT. A RT paliativa também é administrada a 30 a 45 Gy durante 2 a 3 semanas antes do início da terapia sistêmica nos pacientes com doença sistêmica que apresentam hemoptise ou pneumonia pós-obstrutiva. Terapia sistêmica A terapia sistêmica se refere ao uso de agentes citotóxicos, terapia com alvo molecular ou imunoterapia. Ainda que tenha sido desenvolvida inicialmente para pacientes com câncer de pulmão em estágio avançado, a alta propensão das células do câncer de pulmão à metástase estendeu o uso da terapia sistêmica para os pacientes com estágios mais iniciais da doença. Diversos agentes citotóxicos efetivos e bem tolerados foram desenvolvidos durante as últimas três décadas, os quais são utilizados para os cuidados de rotina dos pacientes com câncer de pulmão.17 Além disso, muitos agentes com alvo molecular substituíram a quimioterapia padrão como agentes de primeira linha para os pacientes com mutações específicas, e outros estão em investigação clínica; Na Tabela 182.3 estão arrolados alguns agentes atualmente aprovados pela FDA que têm como alvo o EGFR, o fator de crescimento do endotélio vascular (VEGF) e o MET.13,13b Atribui-se ao uso dessas terapias moleculares um declínio substancial de 50% da taxa de mortalidade anual em pacientes com diagnóstico de CPNPC, que atualmente tem 35% de chance de morrer de outra causa que não o câncer de pulmão.13c Terapia sistêmica no CPNPC em estágio inicial Até mesmo na condição de cirurgia ideal, os pacientes com CPNPC em estágio inicial permanecem de alto risco para a recaída da doença ou metástases, em virtude da presença de micrometástases, que cada vez mais podem ser quantificadas pela avaliação das células tumorais circulantes ou do DNA tumoral circulante. Um benefício consistente, de 5 a 15%, na taxa de sobrevida em 5 anos, observado entre diversos estudos clínicos, resultou na adoção de quatro ciclos de regimes adjuvantes de combinação de dois fármacos à base de cisplatina como o padrão de tratamento para o CPNPC em estágio II e estágio IIIA. Na doença em estágio IA, contudo, os possíveis benefícios da quimioterapia são amplamente superados pelos riscos, e existe um efeito detrimental em geral. Para os pacientes com doença em estágio IB, análises post hoc revelaram que a melhora na sobrevida com a terapia adjuvante foi restrita aos pacientes com tumores com mais de 4 cm, mas esta observação ainda deve ser validada nos estudos clínicos prospectivos. Ainda que a cisplatina e a vinorelbina tenham sido a combinação mais comumente utilizada em estudos clínicos da terapia adjuvante, tem aumentado o uso de agentes mais novos e mais bem tolerados, efetivos no tratamento do CPNPC avançado, como taxanos, gencitabina e pemetrexede. Graças ao sucesso das terapias com alvos moleculares no estágio avançado do CPNPC, esforços recentes focaram no estudo desses agentes no estágio precoce da doença. Osimertinibe consegue prolongar a sobrevida sem doença de pacientes cujos tumores EGFR-mutadosA2b foram extirpados cirurgicamente e submetidos a quimioterapia adjuvante. Esforços estão sendo envidados para avaliar os inibidores de ALK e inibidores de ponto de controle imunológico como adjuvantes. CPNPC localmente avançado Para os pacientes com doença em estágio III que não seja passível de ressecção cirúrgica, a administração concomitante de quimioterapia com radioterapia demonstrou consistentemente uma eficácia superior àquela da terapia sequencial. Ambos os regimes à base de cisplatina e carboplatina estão associados a resultados de sobrevida significativa, mas não foram comparados nesta condição. A combinação de cisplatina e etoposídeo possibilita a administração da dose sistêmica integral da quimioterapia com radioterapia. O regime de carboplatina e paclitaxel envolve a administração de doses “radiossensibilizantes” inferiores dos dois agentes, com a radioterapia seguida pela terapia de consolidação com dois ciclos nas doses regulares. Esta abordagem apresenta um perfil de tolerância favorável, em comparação aos regimes à base de cisplatina. A combinação de cisplatina e pemetrexede também é eficaz em combinação com radioterapia. O uso da quimioterapia de indução ou consolidação em outras condições não resultou na melhora da sobrevida. Com a quimiorradioterapia combinada moderna, taxas de cura de aproximadamente 20 a 25% são alcançadas no CPNPC localmente avançado, com a esofagite e a pneumonite sendo as principais toxicidades. Mais recentemente foi constatado que 12 meses de terapia de consolidação com durvalumabe, um inibidor de PD-L1, melhora a sobrevida em 48% em 4 anosA2c em pacientes com doença não progressiva após quimiorradioterapia e essa abordagem se tornou o novo padrão de cuidado. O papel dos inibidores de EGFR e ALK em pacientes com o status molecular relevante está em investigação para a doença localmente avançada. CPNPC em estágio avançado Em pacientes com CPNPC em estágio avançado, estudos clínicos randomizados demonstraram que a terapia sistêmica à base de platina melhora a sobrevida em geral e a qualidade de vida, em comparação aos cuidados de suporte isoladamente. O tratamento com cisplatina está associado a náuseas, êmese, nefrotoxicidade e neurotoxicidade, ainda que a disponibilidade de agentes antieméticos altamente efetivos tenha melhorado muito a sua tolerabilidade. A carboplatina é uma alternativa à cisplatina mais bem tolerada, e está associada à facilidade de administração ambulatorial. A toxicidade dose-limitante da carboplatina é a trombocitopenia. Os regimes de combinação de dois fármacos comprovaram ser superiores à monoterapia com cisplatina isoladamente ou um composto não platina, levando à adoção da quimioterapia de combinação como o tratamento recomendado para o CPNPC avançado. Metanálise de estudos clínicos randomizados comparou a eficácia da cisplatina à carboplatina no CPNPC em estágio avançado e demonstrou sobrevida comparável, mas incidência numericamente mais alta de mortes relacionadas ao tratamento com os regimes à base de cisplatina. Ainda que os regimes à base de cisplatina apresentem uma estreita vantagem na eficácia, os regimes à base de carboplatina obtiveram mais ampla adoção em virtude do seu índice terapêutico favorável. Diversos agentes parceiros da platina demonstraram eficácia semelhante no CPNPC avançado em estudos clínicos randomizados, incluindo etoposídeo, vimblastina, vindesina, vinorelbina, taxanos, gencitabina, irinotecano e pemetrexede. Com base em diversos estudos randomizados, a escolha do agente quimioterápico para o tratamento de linha de frente é realizada considerando-se a toxicidade, a preferência do paciente, o cronograma e o custo. Estudos clínicos recentes, que envolveram cuidados de suporte superiores, demonstraram sobrevida mediana para as combinações de cisplatina com docetaxel, gencitabina ou pemetrexede na variação de 10 a 11 meses. As combinações de três agentes citotóxicos não são recomendadas, em virtude de um mais alto ônus da toxicidade e da ausência de benefício adicional significativo. Terapias sistêmicas com alvos moleculares Em estudos clínicos randomizados de pacientes com mutação de EGFR ativadora, o tratamento com gefitinibe ou erlotinibe foi associado a melhoras na sobrevida livre de progressão e na qualidade de vida, em relação à quimioterapia à base de platina e o acréscimo de gefitinibe à terapia a base de platina prolonga a sobrevida em comparação com o uso apenas de gefitinibe.A2d,A2e Isto não se traduziu em um benefício para a sobrevida, tendo em vista que a maioria dos pacientes tratados com quimioterapia foi subsequentemente transferida para receber um inibidor de EGFR na progressão da doença. A importância dos exames moleculares antes da terapia com inibidor de EGFR no tratamento de primeira linha é destacada pelos desfechos inferiores nos pacientescom o tipo selvagem tratados com a terapia com alvo molecular. Afatinibe, uma TKI de EGFR irreversível, recentemente demonstrou sua superioridade sobre a quimioterapia e o erlotinibeA3 em pacientes com mutação de EGFR ativadora, levando à sua aprovação nesta condição por parte da FDA. Dacomitinibe e osimertinibe, que são agentes de segunda e terceira gerações, respectivamente, parecem ser mais eficazes do que os agentes mais antigos.A4,A5 Osimertinibe, que inibe a mutação de resistência T790M EGFR que se desenvolve em resposta a inibidores de primeira e segunda gerações, foi aprovado inicialmente pela FDA no contexto de resistência adquirida. Mais recentemente, melhorou a sobrevida global em comparação com erlotinibe ou gefitinibe em um estudo de fase III.A5b Osimertinibe também está associado a efeitos favoráveis contra metástases cerebrais, um evento clínico comum nos pacientes com CPNPC EGFR-mutado. Os estudos iniciais do anticorpo de VEGF bevacizumabe para a terapia de primeira linha para o CPNPC avançado foram promissores, ainda que a histologia escamosa estivesse associada a uma incidência mais alta de hemoptise com risco à vida. Estudos adicionais, limitados aos pacientes com histologia não escamosa, demonstraram melhora significativa na sobrevida em geral e na sobrevida livre de progressão com a adição de bevacizumabe à quimioterapia com carboplatina e paclitaxel, levando à aprovação do bevacizumabe nesta condição por parte da FDA. Os eventos adversos importantes incluíram sangramento, hipertensão, proteinúria e neutropenia. O TKI de MET, ALK e ROS1 crizotinibe demonstrou uma taxa de resposta de aproximadamente 60% e uma taxa de benefício clínico de 90% em pacientes com CPNPC em estágio avançado ALK- positivo, com sobrevida livre de progressão mediana de 10 meses. Tendo em vista que ele melhora significativamente a sobrevida mediana em comparação à terapia padrão à base de platina, de 7 meses para 11 meses no CPNPC ALK-positivo avançado,A6 crizotinibe foi usado como terapia de primeira linha nesses pacientes. os inibidores de ALK de segunda geração ceritinibe,A7 alectinibeA8 e brigatinibe49 também demonstraram resultados superiores como terapia de primeira linha. Alectinibe, brigatinibe e lorlatinibe.A9b promoveram melhora significativa da sobrevida sem evolução em comparação com crizotinibe em estudos clínicos randomizados de fase 3 e emergiram como novas opções terapêuticas de primeira linha.A10 Lorlatinibe também é usado em pacientes que desenvolvem resistência adquirida aos inibidores de ALK anteriores. Mutações BRAF-V600E são observadas em 1 a 2% dos CPNPC. A combinação de dabrafenibe e trametinibe demonstrou uma taxa de resposta superior a 60% e recebeu a aprovação da FDA.14 Papel da histologia na escolha da quimioterapia Até recentemente, os regimes quimioterápicos eram considerados adequados para todos os subtipos histológicos de CPNPC. Esta noção foi afastada em um estudo de fase III randomizado, que demonstrou sobrevida superior para os pacientes com CPNPC não escamoso em estágio avançado tratado com cisplatina e pemetrexede e sobrevida superior para os pacientes com histologia escamosa que receberam cisplatina e gencitabina. O paclitaxel ligado à nanopartícula da albumina (nab-paclitaxel) está associado a uma taxa de resposta favorável em pacientes com CPNPC avançado, que é restrito aos pacientes com histologia escamosa. Além disso, o anticorpo monoclonal necitumumabe adicionado à gencitabina e à cisplatina é melhor do que a gencitabina e a cisplatina isoladamente para os pacientes com CPNPC escamoso avançado.A11 A base biológica para a atividade terapêutica histologicamente específica destes fármacos não é conhecida no momento; entretanto, a eficácia variável de pemetrexede e nab-paclitaxel com base na histologia deve ser considerada quando a quimioterapia for selecionada para o tratamento de primeira linha do CPNPC avançado. Imunoterapia A inibição da via ligante de morte programada (PD-1) com anticorpos monoclonais reverte a exaustão dos linfócitos T e resulta na ativação das respostas imunes antitumorais do hospedeiro. Nivolumabe e pembrolizumabe são anticorpos monoclonais contra o receptor PD-1, enquanto atezolizumabe e durvalumabe são anticorpos monoclonais contra seu ligante (PD-L1). Pembrolizumabe consegue proporcionar sobrevida global superior quando adicionado ou usado no lugar da quimioterapia baseada em platina como opção de primeira linha para pacientes com um nível de expressão de PD-L1 de 1%.A12-A14,A14b Para os pacientes com nível de expressão de PD-L1 >50%, a monoterapia com pembrolizumabe está associada com uma taxa de sobrevida em 5 anos é de 32%. Cemiplimabe também é efetivo como monoterapia nessa situação,A14c enquanto atezolizumabe é efetivo como opção de primeira linha, seja como monoterapiaA14d ou acrescido a quimioterapia padrão.A15,A16 A associação de nivolumabe e ipilimumabe também é efetiva como opção de primeira linha, com melhora da sobrevida global em comparação com a quimioterapia. A17,A17b,A17c Com base nesses resultados, esses agentes são atualmente a terapia de primeira linha para formas avançadas de CPNPC, representando portanto uma mudança importante do paradigma terapêutico para formas avançadas de CPNPC. Especificamente, para pacientes com PD-1 >50%, que representam aproximadamente 25 a 30% dos CPNPC, a monoterapia com inibidores do ponto de controle imunológico é o padrão atual de cuidado; para pacientes com PD-L1 <50% ou doença negativa, a combinação de quimioterapia e imunoterapia ou a combinação de ipilimumabe e nivolumabe são consideradas opções aceitáveis como terapia de primeira linha. Nesses pacientes, a imunoterapia é utilizada por um período máximo de 2 anos em pacientes que demonstram efeitos clínicos benéficos. A principal toxicidade associada a esses agentes consiste em eventos autoimunes, com os efeitos pulmonares sendo os mais graves; felizmente, a maioria desses eventos são passíveis de tratamento com agentes imunossupressores e medidas de suporte apropriados. Terapia de manutenção No tratamento de primeira linha do CPNPC em estágio avançado, a continuação do tratamento de combinação com fármacos multicitotóxicos além de quatro a seis ciclos está associada a toxicidades cumulativas, mas não a um benefício tangível. Recentemente, a terapia de manutenção com agente único comprovou ser útil em pacientes que apresentam benefício clínico demonstrado de quatro ciclos de quimioterapia de combinação à base de platina. As estratégias terapêuticas atuais empregam uma abordagem de “manutenção de troca”, que utiliza um agente citotóxico ou com alvo molecular alternativo que não tenha sido administrado previamente, ou a “manutenção de continuação”, que envolve a continuidade do agente não platina além dos quatro ciclos. O pemetrexede é o único agente citotóxico que proporciona uma vantagem para a sobrevida como terapia de manutenção no CPNPC avançado. Ele demonstrou benefício semelhante em ambas as estratégias de manutenção contínua e de troca em estudos clínicos randomizados para pacientes com histologia não escamosa avançada e, portanto, foi aprovado para a terapia de manutenção nos EUA e na Europa. O uso da manutenção com bevacizumabe foi adotado para os pacientes que o recebem como parte do seu regime de tratamento inicial, tendo em vista que todos os estudos clínicos randomizados centrais realizados com bevacizumabe o utilizaram como terapia de manutenção após seis ciclos de tratamento de combinação. Terapia de salvamento Virtualmente todos os pacientes com CPNPC avançado inevitavelmente apresentarão progressão da doença, independentemente da extensão do benefício da quimioterapia de primeira linha. A terapia de salvamento para estes pacientes proporciona melhora modesta, porém real, na sobrevida. Docetaxel, a uma dose de 75 mg/m2 a cada 3 semanas, foi o primeiro agente nesta condição que comprovadamente melhora a sobrevida, em comparação aos melhores cuidados de suporte ou aos agentes citotóxicos de primeira geração.Pemetrexede apresenta eficácia como terapia de salvamento semelhante àquela do docetaxel e um perfil de toxicidade mais favorável, mas o seu uso é restrito aos pacientes com histologia não escamosa. Em geral, as opções de terapia de salvamento atualmente disponíveis estão associadas a taxas de resposta inferiores a 10%, com sobrevida livre de progressão mediana de 3 meses e sobrevida em geral de 8 meses. Múltiplos inibidores do ponto de controle imunológico se mostraram superiores ao docetaxel como terapia de salvamento, com uma taxa de resposta de aproximadamente 20%, uma sobrevida global de 12 a 13 meses e perfil de toxicidade favorável.A18-A21 Como resultado existem atualmente agentes preferidos para pacientes que não receberam antes inibidores do ponto de controle imunológico como parte da terapia de primeira linha. Combinações de agentes citotóxicos ou moleculares não resultaram em melhora da sobrevida, portanto, não são recomendados para terapia de salvamento. Outros agentes com alvo molecular Avanços na tecnologia genômica possibilitaram identificar prospectivamente mutações inéditas que desempenham um papel crítico no crescimento dos cânceres de pulmão. No adenocarcinoma, um gene de fusão que envolve ROS1, observado em 1% dos pacientes, também confere sensibilidade ao tratamento com crizotinibe. Outra fusão que envolve o gene RET foi identificada em 0,5 a 1% dos pacientes; nesses pacientes, selpercatinibe (um inibidor da RET quinase) consegue promover uma taxa de resposta objetiva de aproximadamente 60%.15b Os adenocarcinomas pulmonares apresentam elevada frequência de mutações do gene KRAS; o gene KRAS tem se mostrado difícil de inibir, contudo, sotorasibe já mostrou resultados promissores em pacientes com uma mutação G12C.15c A inibição de FGFR1 comprovadamente exacerba os efeitos do trametinibe (inibidor do gene KRAS), proporcionando suporte para estudos de combinações.16 Para o CPNPC om mutações de MET do tipo exon 14 skipping e amplificações de MET, capmatinibe (um inibidor seletivo do receptor MET) consegue proporcionar duração mediana de resposta durante aproximadamente 12 meses em pacientes previamente não tratados e duração mediana de resposta durante aproximadamente 11 meses em pacientes previamente tratados.16b Dados recentes do sequenciamento do DNA do projeto Cancer Genome Atlas em uma coorte de pacientes com CCE de pulmão, juntamente com os esforços do Lung Cancer Mutation Consortium, demonstraram diversas mutações inéditas e possivelmente com alvos moleculares nesta doença. O exame de rotina de amostras tumorais em relação aos alvos moleculares está sendo cada vez mais considerado como uma estratégia para personalizar as opções de tratamento para o câncer de pulmão. Manejo de populações de pacientes especiais Os pacientes idosos representam um subconjunto crescente de pacientes com câncer de pulmão. Nos EUA, a idade mediana ao diagnóstico do câncer de pulmão é de 70 anos. O envelhecimento está associado a declínios na função fisiológica e de órgãos vitais, que afetam a tolerância do paciente à terapia sistêmica, o que torna a atual função física e a qualidade de vida prospectiva fatores de consideração importantes na escolha do tratamento sistêmico. A quimioterapia com agente único já se mostrou benéfica em termos de sobrevida, em comparação aos cuidados de suporte, em pacientes idosos; e para aqueles com estado de desempenho favorável, as combinações à base de platina são superiores à terapia com agente único. O uso apropriado de agentes com alvo molecular pode ter efeitos benéficos clínicos em idosos. A adição de bevacizumabe à quimioterapia para os cânceres não escamosos em pacientes idosos, entretanto, está associada a um índice terapêutico estreito e é recomendada somente com grande cautela. Uma porcentagem substancial dos pacientes com CPNPC apresenta redução do estado de desempenho (performance status), o que limita sua capacidade de tolerar a quimioterapia de combinação. A sobrevida mediana dos pacientes com CPNPC avançado com estado de desempenho de 2 ou pior (escala do Eastern Cooperative Oncology Group) é sombria, sendo inferior a 4 meses; entretanto, estudos conduzidos exclusivamente em pacientes com desempenho desfavorável indicam que a quimioterapia pode ser benéfica para pacientes altamente selecionados. É importante considerar a causa do estado de desempenho desfavorável ao elaborar os planos de tratamento para esta população de pacientes. Para aqueles com comorbidades limitantes, uma abordagem menos agressiva, com quimioterapia com agente único, é mais apropriada. Para aqueles com mutação que possa ser um alvo molecular, a terapia com alvo molecular apropriada pode ser administrada independentemente do estado de desempenho, em virtude do maior potencial de benefício. Câncer de pulmão de pequenas células O CPPC é caracterizado pela intensificação da sensibilidade inicial à quimioterapia sistêmica, ainda que a recidiva da doença seja comum, independentemente da magnitude da resposta inicial. Aproximadamente dois terços dos pacientes apresentam CPPC em estágio extensivo, definido como doença metastática extratorácica ou doença torácica de grande volume, que não pode ser controlada com radioterapia. A sobrevida mediana do CPPC em estágio extensivo não tratado é inferior a 2 meses, e a meta geral do tratamento é a paliação. A quimioterapia à base de platina resulta em taxas de resposta de 50 a 70% e sobrevida mediana de 9 a 11 meses. O esquema de quatro a seis ciclos de cisplatina e etoposídeo é considerado a abordagem padrão para o tratamento do CPPC, que se estende até seis ciclos nos pacientes responsivos, sem valor comprovado da terapia de manutenção. A carboplatina é considerada uma alternativa aceitável no tratamento da doença em estágio extensivo. Recentemente, o acréscimo de inibidores do ponto de controle imunológico à quimioterapia sistêmica resultou em melhora discreta da sobrevida global; durvalumabeA21b e atezolizumabe, que inibem PD-L1, foram aprovados pela FDA em combinação com a quimioterapia baseada em platina para o estágio extensivo do CPPC. Após 4 a 6 ciclos de terapia combinada, o inibidor de PD-L1 é mantido como terapia de manutenção até a progressão da doença. Apesar da magnitude da resposta inicial, ocorre recidiva da doença em uma mediana de 4 a 6 meses. A doença que progride durante a ou dentro de 90 dias da administração da quimioterapia à base de cisplatina é denominada recaída refratária. A recidiva fora deste intervalo de tempo representa um subgrupo “sensível”, que pode se beneficiar do tratamento de resgate. Outras abordagens, como a dose alta de quimioterapia, regimes quimioterápicos alternados, terapia com dose densa e regimes de combinação de três fármacos, não têm obtido sucesso na melhora da sobrevida. Na população japonesa, mas não em pacientes ocidentais, o regime de cisplatina e irinotecano demonstrou resultados superiores sobre a cisplatina e o etoposídeo. Estudos clínicos forneceram dados conflitantes sobre a utilidade de radioterapia torácica no estágio extensivo do CPPC, mas a radioterapia de consolidação é benéfica para alguns pacientes. A terapia de resgate produziu somente resultados modestos no CPPC recidivante. A topotecana demonstrou benefício clínico na recaída do CPPC, com uma taxa de resposta de 20% e um perfil favorável de melhora dos sintomas, mas sem melhora na sobrevida em geral em estudos randomizados. Observou-se que a combinação de cisplatina, etoposídeo e irinotecano está associada à sobrevida em geral significativamente mais longa do que o topotecana isoladamente, mas com uma incidência mais alta de neutropenia febril.A22 Diversos agentes inéditos, incluindo agentes com alvo molecular contra alvos conhecidos e imunoterapia com inibidores do ponto de controle imune,17 estão sendo estudados atualmente em esforços para melhorar os desfechos para os pacientes com CPPC. Pembrolizumabe, um inibidor da via PD-1, demonstrou ter atividade anticancerosa nos casos de CPPC recidivante/recorrente e éapropriado para pacientes que não foram previamente tratados com um inibidor de ponto de controle imunológico. Para os pacientes com CPPC em estágio limitado, a RT é combinada com a quimioterapia e pode alcançar a cura em aproximadamente 20 a 30% dos pacientes. O início precoce da RT parece ser superior à abordagem tardia e tem sido adotado como padrão para os pacientes adequados. Um estudo randomizado demonstrou a sobrevida superior de frações de RT 2 vezes/dia, em comparação à mesma dose administrada 1 vez/dia, junto com a quimioterapia concomitante, e esta está sendo adicionalmente avaliada em um estudo clínico em andamento. A irradiação craniana profilática está associada a melhora modesta na sobrevida em 5 anos para os pacientes com CPPC em estágio limitado que alcançam a remissão completa após a terapia de modalidade combinada. Isto ocorre em virtude do alto risco de recidiva cerebral observado em pacientes com CPPC. No CPPC em estágio extensivo, o valor da irradiação craniana profilática é motivo de controvérsia, tendo em vista os resultados conflitantes de dois estudos clínicos de fase 3. O papel da cirurgia é limitado aos menos de 5% dos pacientes com CPPC que apresentam lesões pulmonares periféricas sem envolvimento nodal mediastinal. Em 10 a 15% dos pacientes com CPPC, é observada uma histologia mista com características de CPNPC. Estes pacientes podem demonstrar progressão local após a terapia de modalidade combinada resultante dos componentes de CPNPC. Portanto, estes indivíduos poderiam ser considerados para a ressecção cirúrgica em situações selecionadas. Infelizmente, os avanços no tratamento do CPPC não acompanharam os aprimoramentos do manejo do CPNPC durante as últimas duas décadas; consequentemente, os desfechos da sobrevida para o CPPC não foram alterados consideravelmente. São necessários conjuntos para desenvolver modelos pré-clínicos apropriados para testar novos agentes, a subcategorização genômica do CPPC e a descoberta de novos agentes anticâncer sistêmicos para melhorar os desfechos para esta doença agressiva. Tabela 182.3 Agentes com alvo molecular na terapia do câncer de pulmão. ALVO MOLECULAR AGENTES APROVADOS PELA FDA EGFR Erlotinibe Gefitinibe Afatinibe Osimertinibe Necitumumabe Dacomitinibe Translocação de ALK Crizotinibe Ceritinibe Alectinibe Brigatinibe Lorlatinibe Rearranjo de ROS1 Crizotinibe Entrectinibe VEGF Bevacizumabe Ramucirumabe B-Raf V600E Dabrafenibe/trametinibe Fusão do gene NTRK Larotrectinibe Entrectinibe Mutação do tipo skipping do éxon 14 de MET Capmatinibe Fusão do gene RET Selpercatinibe Pralsetinibe SOBREVIDA E VIGILÂNCIA Na medida em que os desfechos para o câncer de pulmão melhoraram nos últimos anos, com um aumento concomitante na quantidade de sobreviventes após a cirurgia ou quimiorradioterapia, a definição da vigilância ideal, o acompanhamento em relação a uma segunda doença primária e o manejo das consequências da quimiorradioterapia a longo prazo se tornaram uma parte importante dos cuidados do câncer de pulmão. A importância do abandono do tabagismo não pode ser excessivamente enfatizada, tendo em vista o alto risco da intensificação das complicações da quimioterapia e a mais alta incidência de segundos tumores primários nos sobreviventes do câncer de pulmão. Devem ser proporcionadas aos pacientes oportunidades apropriadas para receber aconselhamento e terapia comportamental e outras modalidades de tratamento para auxiliar seus esforços para abandonar o tabagismo (Capítulo 29). Atualmente, não há uma abordagem padrão para o acompanhamento radiográfico e clínico ideal em pacientes submetidos a ressecção cirúrgica ou quimiorradioterapia. A TC é comumente utilizada para o acompanhamento desses pacientes. Entretanto, os méritos da TC em comparação com a radioterapia torácica, a frequência da avaliação e o valor da FDG-PET não estão claros e serão respondidos somente por estudos clínicos prospectivos. Para os pacientes com doença em estágio avançado, a TC visa avaliar a resposta à terapia a cada dois ou três ciclos de tratamento. Em vista do comprovado valor da terapia de resgate, os pacientes que estão em acompanhamento após a quimioterapia de combinação devem ser cuidadosamente observados em relação ao desenvolvimento de novos sintomas ou deterioração clínica, além dos estudos radiográficos periódicos. A terapia respiratória deve ser ofertada e fortemente recomendada para os pacientes com dispneia após a cirurgia ou quimiorradioterapia. Tendo em vista que uma alta proporção destes pacientes também apresenta doenças pulmonares relacionadas ao tabagismo, o encaminhamento para um pneumologista deve ser aventado para pacientes sintomáticos. Em geral, uma abordagem em equipe, que inclua uma equipe de cuidados de suporte, psiquiatras oncológicos, nutricionistas, oncologistas e especialistas adicionais apropriados, deve ser utilizada para assegurar o retorno dos sobreviventes do câncer de pulmão à normalidade na maior medida possível. CUIDADOS DE SUPORTE Os pacientes com câncer de pulmão apresentam uma taxa de cura de somente 16%, até mesmo nos mais avançados sistemas de saúde ocidentais, tendo em vista que a maioria dos pacientes apresenta doença localmente avançada ou metastática. A discussão precoce e a instituição de cuidados paliativos e de suporte são, portanto, críticas para o paciente, para assegurar a máxima qualidade de vida. Estudos indicam que a integração precoce dos cuidados de suporte ajuda a manter e a melhorar a qualidade de vida, com um estudo clínico randomizado observando que a adição precoce dos cuidados paliativos à quimioterapia para os pacientes com doença avançada pode ter um impacto significativo sobre a sobrevida em geral, um achado surpreendente, porém reafirmador. Um estudo multirregional, prospectivo, de observação, identificou que, entre os familiares de pacientes idosos que morreram por câncer de pulmão em estágio avançado, as percepções sobre os melhores cuidados ao fim da vida foram associadas à admissão mais precoce em unidades de cuidados paliativos, evitando admissões em UTI, e morte fora do hospital, apoiando o avanço do planejamento dos cuidados consistente com as preferências dos pacientes.18 DETECÇÃO PRECOCE E PREVENÇÃO Décadas de pesquisas a respeito do rastreamento dos indivíduos de alto risco em relação à detecção mais precoce do câncer de pulmão recentemente obtiveram algum sucesso.19 O National Lung Screening Trial randomizou mais de 50.000 indivíduos entre 55 e 74 anos com histórico de tabagismo de no mínimo 30 anos-maço para o rastreamento com TC de dose baixa ou radiografias torácicas no período basal e em 1 e 2 anos após a admissão. A taxa de adesão aos exames foi superior a 90% nos dois grupos. Foram observados resultados positivos em quase 25 e 7% dos indivíduos submetidos a rastreamento com TC e radiografia de tórax, respectivamente. Entre os pacientes com TC positiva, 96,4% foram considerados falso-positivos após a avaliação adicional. Os eventos adversos foram incomuns. O rastreamento com TC com dose baixa em indivíduos de alto risco foi associado a 20% de redução da taxa de mortalidade por câncer de pulmão e 6,7% da taxa de mortalidade por todas as causas. Quase 80% dos pacientes diagnosticados com câncer de pulmão por TC com dose baixa apresentaram doença em estágio I, II ou IIIA, passível de terapia curativa.A23 A análise subsequente demonstrou que o rastreamento por TC com dose baixa preveniu o maior número de mortes por câncer de pulmão dos pacientes que eram de mais alto risco e preveniu pouquíssimas mortes dos indivíduos com risco mais baixo.A24 Em um uso subsequente nos Países Baixos, esse rastreamento reduziu o número de mortes por câncer de pulmão em homens e mulheres de alto risco em 24%.A24b Apesar de estudos negativos de menor porte, a TC com dose baixa de radiação de indivíduos de alto risco consegue reduzir significativamente a taxa de mortalidade por câncer de pulmão (em aproximadamente 16%), mas a redução de 4% da taxa de mortalidade global nãofoi estatisticamente significativa.A25b,A25c Estes resultados levaram à adoção da TC com dose baixa para a detecção do câncer de pulmão por parte das principais organizações de saúde, incluindo a U.S. Preventive Services Task Force.20,20b Para os nódulos pulmonares detectados no rastreamento com TC com dose baixa, foi demonstrado que as ferramentas preditivas com base nas características do paciente e do nódulo podem ser utilizadas para estimar, com acurácia, a probabilidade de que eles sejam malignos.21 Comparativamente, um estudo clínico randomizado dinamarquês de cinco TC com dose baixa anuais, em comparação a nenhum rastreamento, entre 4.000 participantes com 50 a 70 anos e com um tabagismo de no mínimo 20 anos-maço, não observou diferenças na taxa de mortalidade por câncer de pulmão ou por todas as causas 5 anos após a conclusão do rastreamento. É interessante observar que foram observadas duas vezes mais cânceres, incluindo 5 vezes mais cânceres em estágio inicial e estágio IIIA, no grupo de rastreamento.A25 O resultado negativo pode ter sido uma função do tamanho do estudo (um décimo do tamanho do National Lung Screening Trial). Portanto, as atuais diretrizes de prática clínica não necessariamente encorajam uma abordagem centrada no paciente.22 Mais recentemente, observou-se que a seleção dos indivíduos para o rastreamento com TC que sejam de mais alto risco para o câncer de pulmão, conforme determinado por cálculos do risco individual (i. e., seleção com base no risco), em vez de realizar uma avaliação do risco com base no histórico de tabagismo, é mais efetiva e mais eficiente.23 Tendo em vista que o rastreamento excessivamente frequente apresenta prejuízos correlatos, poderia ser recomendado o aumento do intervalo entre os exames de rastreamento nas pessoas com prevalência de rastreamento negativo com TC em dose baixa. A prevenção primária do câncer de pulmão enfoca nas maneiras para prevenir o tabagismo nos indivíduos e na promoção da cessação do tabagismo, que permanecem o meio mais efetivo para prevenir o câncer de pulmão. Os esforços para a cessação do tabagismo com frequência são esporádicos, mas a maior parte dos estudos indica que os pacientes que obtêm sucesso na cessação do tabagismo se beneficiam do suporte farmacológico, psicológico e médico. Estudos sobre a suplementação com betacaroteno e vitamina E, estimulados pelas evidências epidemiológicas de níveis séricos mais baixos destes antioxidantes em pacientes com câncer de pulmão, não somente não obtiveram sucesso como de fato produziram um risco mais alto de câncer de pulmão nos fumantes. Altas concentrações de selênio no sangue estão associadas a um risco mais baixo de câncer de pulmão, mas um estudo clínico de fase III em pacientes com câncer de pulmão em estágio I ressecado falhou em demonstrar qualquer benefício da suplementação de selênio. Estes e outros estudos clínicos indicaram que os pacientes com câncer de pulmão que continuam a fumar apresentam a mais alta incidência de recidiva e desenvolvimento de um segundo tumor primário. OUTRAS NEOPLASIAS PULMONARES Mesotelioma maligno Os mesoteliomas pleurais malignos24 em geral estão relacionados à exposição ao amianto, com pico do risco para o desenvolvimento da doença 30 a 35 anos após a exposição inicial. Possíveis fatores de risco adicionais incluem a radiação e o vírus SV40. O mesotelioma em geral é diagnosticado na quinta à sétima década de vida (idade mediana, 60 anos), com preponderância do sexo masculino para o feminino de 5:1. Os sintomas comuns incluem dispneia (60%) e dor ou desconforto na parede torácica (60%). As radiografias torácicas em geral revelam efusão (derrame) pleural unilateral. A progressão tumoral e os sintomas em geral são o resultado da progressão local, com metástases a distância sintomáticas sendo uma ocorrência tardia. A avaliação citológica do líquido pleural para estabelecer o diagnóstico é difícil e com frequência inexata. O diagnóstico em geral é obtido por meio de um procedimento de biopsia guiada por TC ou toracoscopia, incluindo VATS, se necessário. Diversos sistemas de estadiamento foram propostos, mas nenhum alcançou aceitação completa. O tratamento, dependendo da extensão da doença, inclui cirurgia (toracoscopia com esclerose, pleurectomia, pneumectomia extrapleural), radioterapia e, com frequência, quimioterapia.25 Com raras exceções, estas três modalidades individualmente não melhoraram significativamente as taxas de sobrevida, e a quimioterapia ou RT não proporcionam a paliação ou o alívio dos sintomas a longo prazo. Mais recentemente, a adição de bevacizumabe a pemetrexede mais cisplatina melhorou significativamente a sobrevida em geral, de 16,1 para 18,8 meses no mesotelioma pleural maligno, à custa dos esperados efeitos tóxicos tratáveis; portanto, deve ser considerada um tratamento adequado para a doença.A26 A combinação de nivolumabe e ipilimumabe consegue aumentar a sobrevida de pacientes com mesotelioma não ressecável, de aproximadamente 14 meses para cerca de 18 meses.A26b A quimioterapia de combinação com pemetrexede e cisplatina está associada ao alívio sintomático nos pacientes com mesotelioma maligno avançado e não ressecável, e a uma taxa de resposta significativa na doença avançada. Ela é ocasionalmente utilizada como quimioterapia pré-operatória ou de indução antes da pneumectomia extrapleural, seguida por radioterapia. Estão sendo avaliados agentes multimodalidades e com alvo molecular. Nem a sobrevida livre de progressão nem a sobrevida em geral foi melhorada com defactinibe após a A1. A2. A2b. quimioterapia de primeira linha em pacientes com mesotelioma pleural maligno.A27 O mesotelioma infelizmente ainda é uma doença quase universalmente fatal, com sobrevida mediana inferior a 18 meses a partir do momento do diagnóstico. Tumores neuroendócrinos e outros tumores pulmonares Os tumores pulmonares neuroendócrinos são classificados em quatro tipos: tumores carcinoides, carcinoides atípicos, CPPC e carcinomas neuroendócrinos de grandes células. Os tumores carcinoides (Capítulo 219) são tumores neuroendócrinos de grau baixo, com uma taxa de sobrevida em 10 anos superior a 90%. Os tumores carcinoides atípicos são tumores de grau intermediário, significativamente mais agressivos que o carcinoide, com sobrevida em 10 anos inferior a 20%. O carcinoma neuroendócrino de grandes células é um tumor neuroendócrino agressivo, que não atende os critérios de carcinoide, carcinoide atípico ou CPPC. A atividade considerável do everolimo e outros inibidores do alvo em mamíferos da rapamicina (mTOR) foi demonstrada nos tumores carcinoides de grau baixo. Os tumores carcinoides de pulmão representam 1 a 2% de todas as neoplasias de pulmão. Estes tumores neuroendócrinos se originam na célula de Kulchitsky encontrada no epitélio brônquico. Os carcinoides típico e atípico diferem no número de mitoses (< 2 por 10 campos de alta potência versus 2 a 10 por 10 campos de alta potência, respectivamente), no pleomorfismo nuclear (ausente versus presente) e nas metástases em linfonodos regionais (5 a 15% versus 20 a 28%). As metástases a distância na avaliação inicial são raras (< 20%). Os pacientes com tumores carcinoides típicos vivem, habitualmente, muitos anos, enquanto os pacientes com tumores carcinoides atípicos apresentam uma taxa de mortalidade em 5 anos de 61 a 88%. Os tumores carcinoides não estão associados ao tabagismo, são duas vezes mais comuns nas mulheres do que nos homens, ocorrem geralmente em pacientes com menos de 40 anos, e têm origem na área peri-hilar do pulmão. O tratamento dos tumores carcinoides brônquicos é baseado no estadiamento da doença. O estadiamento mediastinal é, habitualmente, seguido por ressecção cirúrgica. Quando há envolvimento dos linfonodos mediastinais, a RT é recomendada para os tumores carcinoides típicos se a cirurgia não puder ser realizada. Para o carcinoide atípico ou a doença metastática, a quimioterapia (etoposídeo mais cisplatina a cada 3 semanas por quatro ciclos) mais radioterapiaé comumente utilizada, mas não existem evidências do benefício de uma terapia sobre a outra. Os carcinomas de glândulas salivares incluem o carcinoma mucoepidermoide e o carcinoma cístico adenoide, que representam aproximadamente 0,2% dos cânceres de pulmão. Estas neoplasias de crescimento lento têm origem nas glândulas brônquicas e, em geral, são tratadas com cirurgia. Os sarcomas de pulmão primários são muito raros e incluem histiocitoma fibroso maligno, fibrossarcoma, liomiossarcoma, rabdomiossarcoma, hemangioendotelioma epiteloide, angiossarcoma e lipossarcoma (Capítulo 192). O tratamento primário é a cirurgia mas, dependendo das dimensões e do grau do tumor e do fato de as margens estarem limpas, também podem ser administradas radioterapia ou quimioterapia. Um subconjunto de carcinomas sarcomatoides do pulmão provavelmente ancora mutações skipping no éxon de MET 14, que podem ser passíveis de terapia com alvo molecular. Os linfomas primários do pulmão também são muito raros, responsáveis por aproximadamente 0,3% de todos os cânceres de pulmão primários. O tipo mais comum é um linfoma linfocítico de pequenas células de grau baixo, para o qual a cirurgia e a quimioterapia são as opções habituais (Capítulo 176). Bendixen M, Jorgensen OD, Kronborg C, et al. Postoperative pain and quality of life after lobectomy via video-assisted thoracoscopic surgery or anterolateral thoracotomy for early stage lung cancer: a randomised controlled trial. Lancet Oncol. 2016;17:836-844. De Ruysscher D, Dingemans AC, Praag J, et al. Prophylactic cranial irradiation versus observation in radically treated stage III non-small-cell lung cancer: a randomized phase III NVALT-11/DLCRG-02 study. J Clin Oncol. 2018;36:2366-2377. Wu YL, Tsuboi M, He J, et al. Osimertinib in resected EGFR-mutated non-small-cell lung cancer. N Engl J Med. 2020;383:1711-1723. A2c. A2d. A2e. A3. A4. A5. A5b. A6. A7. A8. A9. A9b. A10. A11. A12. A13. A14. A14b. A14c. A14d. A15. A16. Antonia SJ, Villegas A, Daniel D, et al. 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Concluir questão Qual das seguintes opções não é mais consistente com um diagnóstico tecidual de adenocarcinoma de pulmão? A. Indivíduos com mais de 55 anos e que apresentam tabagismo de no mínimo 35 maços-anos. B. Mulher com histórico de tabagismo compulsivo (mais de 50 maços-ano) e evidências de enfisema/doença pulmonar obstrutiva crônica. C. Um ex-fumante de 70 anos, com um histórico de 60 maços-ano, mas que deixou de fumar há 5 anos. D. Um paciente com história pregressa de câncer laríngeo submetido a quimioterapia e radioterapia, com histórico de 40 maços-ano, que diminuiu para um ou dois cigarros ao dia. E. Um homem de 35 anos cujo pai morreu de câncer de pulmão após tabagismo de longa data. Concluir questão Mulherde 63 anos, com histórico de tabagismo compulsivo, apresenta um diagnóstico de câncer de células escamosas de pulmão, radiograficamente estadiado como T3N2M0. Ela foi encaminhada para um cirurgião torácico, que está planejando realizar uma mediastinoscopia. Se a mediastinoscopia confirmar a existência de células tumorais nos linfonodos mediastinais, a melhor recomendação para a clínica multidisciplinar é: Concluir questão Um homem de 70 anos com adenocarcinoma de pulmão, diagnosticado como em estágio IVB (T2N2M1) com metástases em linfonodos, nas duas glândulas suprarrenais e no fígado, apresenta um excelente estado de desempenho, ou seja, estado 1 do Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG). Ele nunca recebeu quimioterapia anteriormente para o seu câncer de pulmão. Na análise genômica do seu tumor, não há evidências de mutação direcionadora. O nível de expressão de PD-L1 dele é 5%. Qual das seguintes opções não é uma abordagem aceitável para o seu manejo? A. TTF-1-positivo, CK7-positivo, mutação direcionadora de EGFR e CK20-negativo e p63- negativo. B. TTF-1-negativo, p63-positivo, p40-positivo, amplificação de FGFR e EGFR do tipo selvagem. C. Sinaptofisina e cromogranina positivas, mutação de p53, e mutação de Rb. D. Tumor positivo para vimentina e melanina, negativo para TTF-1 e para todas as citoqueratinas. E. CD20-positivo, negativo para TTF-1 e para todas as citoqueratinas. A. Ressecção cirúrgica do tumor por pneumectomia e limpeza do mediastino, seguida por radioterapia em quaisquer margens positivas. B. Quimioterapia de indução ou pré-operatória, seguida por radioterapia, seguida por cirurgia. C. Quimioterapia e radioterapia concomitantes seguidas por inibição do ponto de controle imunológico. D. Quimioterapia de indução, seguida por radioterapia. E. Quimioterapia paliativa, seguida por encaminhamento para clínica de cuidados paliativos. A. Quimioterapia de combinação com carboplatina, paclitaxel e pembrolizumabe. B. Terapia de combinação com carboplatina e pemetrexede. Concluir questão Mulher de 50 anos, que nunca fumou, apresenta cefaleia seguida por uma convulsão. Seu exame no setor de emergência revela uma lesão cerebral solitária, que é ressecada e revela adenocarcinoma de pulmão com mutação direcionadora de EGFR no éxon 19. Após a consideração da radioterapia para o cérebro, a abordagem de tratamento ideal seria: Concluir questão C. Poliquimoterapia e pembrolizumabe com cuidados de suporte iniciados no momento da primeira visita. D. O agente único paclitaxel mais erlotinibe, o inibidor da tirosinoquinase de EGFR. E. Uma segunda opinião, seguida pela participação em um estudo clínico de linha de frente que combine quimioterapia e imunoterapia. A. Quimioterapia de combinação com carboplatina, paclitaxel e bevacizumabe. B. Terapia de combinação com carboplatina e pemetrexede. C. Quimioterapia de combinação com cuidados de suporte iniciados no momento da primeira visita. D. Início de osimertinibe, o inibidor da tirosinoquinase de EGFR. E. Uma segunda opinião, seguida pela participação em um estudo clínico de linha de frente com combinação da quimioterapia e inibidor de EGFR. NEOPLASIAS DE ESÔFAGO DEFINIÇÃO O esôfago é um órgão tubular oco, com funções fisiológicas primárias relacionadas à contração, que possibilita a propulsão do conteúdo alimentar sólido e líquido para o estômago. A mucosa é o epitélio escamoso estratificado que recobre a submucosa e o músculo – na parte proximal do esôfago o músculo é esquelético e nas partes média e distal do esôfago o músculo é liso. Os cânceres de esôfago podem ser amplamente classificados em epiteliais e não epiteliais. Existem determinados tumores epiteliais benignos, denominados papilomas de células escamosas. Os tumores epiteliais malignos são classificados em dois subtipos principais: carcinoma de células escamosas (CCE) esofágico e adenocarcinoma esofágico. Outros cânceres derivados do epitélio esofágico menos comuns incluem CCE verrucoso, carcinoma adenoescamoso, carcinoma cístico adenoide e carcinoma mucoepidermoide. Os tumores não epiteliais benignos incluem liomioma, tumores de células granulares, pólipo fibrovascular, hemangioma, linfangioma, lipoma e fibroma. Os tumores não epiteliais malignos incluem o liomiossarcoma e outros sarcomas, o carcinoma metastático (com origem em mama, pulmão) e o linfoma. Carcinoma de células escamosas esofágico EPIDEMIOLOGIA O CCE esofágico é o tipo mais comum de câncer esofágico mundialmente e uma causa importante de morte relacionada ao câncer em homens. O CCE esofágico tem taxas de até 100 por população de 100.000 na região que, com frequência, é denominada Cinturão Asiático Central, incluindo regiões ao redor do Mar Cáspio, do Irã, da Índia e da China; outras áreas de alta incidência incluem alguns países do Mediterrâneo e a África do Sul. Nos EUA, o CCE esofágico é mais comum em homens afro-americanos do que em homens brancos, com riscos de 15,1 por 100.000, em comparação a 2,9 por 100.000, respectivamente. Em geral, ainda que a incidência do CCE esofágico nos EUA seja baixa em homens ou mulheres com menos de 50 anos, ela aumenta com o avanço da idade. Fatores de risco Os cânceres em geral são considerados no contexto das formas hereditárias versus esporádicas ou aparentemente aleatórias, que estão relacionadas à idade, a exposições ambientais e às alterações genéticas (Tabela 183.1). A base hereditária do CCE esofágico é excessivamente rara, consistindo em uma condição descamativa denominada tilose palmar e plantar. A descamação afeta mais dramaticamente as mãos e os pés, mas também se estende até o esôfago. Outra condição incomum, a síndrome de Plummer- Vinson ou síndrome de Paterson-Brown Kelly, inclui glossite, redes esofágicas cervicais e anemia ferropriva. Nas duas condições, é provável que a inflamação crônica acione a cascata de eventos que culminam na displasia escamosa esofágica e no carcinoma de células escamosas esofágico. A maioria dos casos de CCE esofágicos é atribuível ao aumento do tabagismo ou etilismo, mas especialmente à sua combinação,1 porque aparentemente existem efeitos deletérios sinérgicos de diversos carcinógenos químicos em ambos, incluindo compostos N-nitrosos, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e aminas aromáticas. O risco relativo do CCE esofágico é de 6,2 em pessoas que fumam mais de 25 cigarros diariamente. O abandono do tabagismo reduz o risco após 10 anos de abstinência. Os fumantes que consomem cerveja e uísque correm risco de 10 a 25 vezes maior de desenvolver CCE esofágico. De fato, é o tipo de álcool etílico e o modo de destilação que são os fatores mais críticos. Em áreas endêmicas do mundo, deficiências de vitaminas A, B12, C e ácido fólico e determinados minerais (zinco, selênio, molibdênio) são fatores de risco importantes. Todas estas vitaminas e minerais exercem efeitos antioxidantes diretos ou indiretos, e as suas deficiências comprometem a homeostasia e a regeneração epitelial e tecidual. Outros fatores de risco para o CCE esofágico2 incluem a acalasia (ver Capítulo 129), um distúrbio que inclui agangliose do plexo de Auerbach, resultando em disfagia, dor torácica e perda de peso, entre outros sinais/sintomas. O surgimento do CCE esofágico pode ser observado 10 a 20 anos após a identificação da acalasia nos pacientes. Tendo em vista que o carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço (CCECP) (Capítulo 181) compartilha muitos dos fatores de risco ambientais e do estilo de vida com o CCE esofágico, em particular o etilismo e o tabagismo, o CCECP e o CCE esofágico podem ocorrer de maneira síncrona ou metacrônica. Em diferentes partes do mundo, o CCE esofágico também está associado ao estreitamento esofágico crônico em virtude da ingestão de lixívia, ao consumo de chá-mate quente, ao espru celíaco, à infecção pelo papilomavírus humano (HPV) (especialmente aos genótipos HPV-16, HPV- 18 e HPV-33) e à lesão por radiação. BIOPATOLOGIA O CCE esofágico envolve a transição do epitélio escamoso normal em displasiaescamosa, até o câncer. O início, a progressão e a metástase do CCE esofágico estão associadas a diversas alterações genéticas. Entre estas alterações genéticas estão a expressão excessiva do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) e os oncogenes da ciclina D1 e a inativação dos genes supressores tumorais TP53, p161NK4A, E-caderina e p120-catenina (p120ctn). Com base em diversos estudos, a frequência destas alterações varia muito, mas as alterações oncogênicas em geral surgem precocemente na displasia e no CCE esofágico precoce, enquanto a inativação dos genes supressores tumorais surge como eventos tardios no CCE esofágico primário e metastático. Do ponto de vista genômico, o fator de transcrição SOX-2, importante na capacidade pluripotente das células somáticas, demonstrou ser um gene importante envolvido na patogênese e na transformação do CCE esofágico em virtude da amplificação de SOX-2. A capacidade de modelar o CCE esofágico in vitro e in vivo passou por grandes progressos nos últimos anos, por meio do advento e da caracterização de modelos de cultura organotípica tridimensionais, modelos de transplante de xenoenxertos em camundongos e modelos em camundongos geneticamente modificados. Por exemplo, o knockout condicional do gene supressor tumoral p120ctn no esôfago de camundongos resulta no CCE esofágico invasivo. Esforços recentes no sequenciamento profundo do DNA confirmaram as alterações genéticas observadas anteriormente e revelaram a baixa frequência de outras alterações. Tabela 183.1 Fatores de risco para o câncer esofágico. Câncer de células escamosas esofágico Tilose palmar e plantar Acalasia Síndrome de Plummer-Vinson Tabagismo Etilismo Ingestão crônica de lixívia Deficiências alimentares (minerais, vitaminas) Infecção pelo papilomavírus humano (HPV) Lesão por radiação Espru celíaco Adenocarcinoma esofágico Refluxo gastresofágico de ácido gástrico Refluxo biliar Obesidade Esôfago de Barrett MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Sintomas e sinais Ainda que a displasia escamosa esofágica tipicamente não esteja associada a sintomas, o CCE esofágico, que apresenta predileção pela parte proximal à média do esôfago, pode estar associado a disfagia, odinofagia, dor torácica atípica ou típica, sangramento gastrintestinal, náuseas, vômito, perda de peso e desnutrição. O CCE esofágico pode metastatizar em linfonodos locais, pulmão, fígado e ossos. Os sintomas atribuíveis ao CCE esofágico podem incluir dor relacionada aos ossos, dispneia e evidências de icterícia e insuficiência hepática, dependendo da extensão da doença metastática. Exame físico O paciente deve ser avaliado em relação a alterações em pelos/cabelo, integridade da pele e leitos ungueais, como reflexo da desnutrição. A perda de peso pode resultar em caquexia geral e atrofia muscular. Pode haver linfadenopatia nas regiões cervical anterior e supraclavicular. Hepatomegalia e complicações de hepatopatia podem anunciar a doença metastática em fígado. Exames laboratoriais Pode haver anemia ferropriva progressiva em virtude de hemorragia digestiva alta crônica e de evolução arrastada. Anormalidades adicionais podem ser refletidas em distúrbios metabólicos, tais como alcalose metabólica secundária a vômitos e hipernatremia em virtude de desidratação. As anormalidades enzimáticas hepáticas, tanto hepatocelulares quanto colestáticas, podem refletir metástases em fígado. Não existem marcadores específicos para o CCE esofágico, mas uma elevação no nível do antígeno carcinoembrionário (CEA) pode ser utilizada para auxiliar no monitoramento da recidiva da doença após a terapia. DIAGNÓSTICO A seriografia esôfago-estômago-duodeno (SEED) é útil para o diagnóstico do CCE esofágico; esse exame contrastado com bário demonstra um defeito de preenchimento em virtude da lesão da mucosa ou comprometimento do trânsito do contraste em virtude do crescimento luminal (Capítulo 124). Entretanto, o diagnóstico definitivo envolve a visualização direta com endoscopia digestiva alta (EDA) (Capítulo 125); após a visualização da massa, são necessárias biopsias para a confirmação por meio de histopatologia e imuno-histoquímica para citoqueratinas associadas à proliferação e à diferenciação. O CCE esofágico pode envolver os linfonodos locais, que são mais bem detectados por meio de ultrassom endoscópico (USE); em seguida, conforme o necessário, amostras podem ser analisadas por meio de citopatologia após punção aspirativa com agulha fina (PAAF). Em centros com alto volume nos EUA, o citopatologista estará na sala de procedimentos com o gastroenterologista para fornecer uma avaliação inicial das amostras obtidas PAAF. A avaliação da doença metastática envolve tomografia computadorizada (TC) torácica e abdominal. A cintilografia óssea pode ser útil nos pacientes que são sintomáticos com dor relacionada aos ossos. A tomografia com emissão de pósitrons (PET) está sendo cada vez mais utilizada em algumas situações. Na totalidade, estas modalidades diagnósticas também possibilitam o estadiamento do CCE esofágico (Tabela 183.2), que é importante para orientar as opções terapêuticas.3 Tabela 183.2 Sistema de estadiamento TNM para o câncer de esôfago (American Joint Committee on Cancer Criteria). TUMOR PRIMÁRIO (T)* TX O tumor primário não pode ser avaliado T0 Nenhuma evidência de tumor primário Tis Displasia de alto grau† T1 O tumor invade a lâmina própria, a muscular da mucosa ou a submucosa T1a O tumor invade a lâmina própria ou a muscular da mucosa T1b O tumor invade a submucosa T2 O tumor invade a muscular própria T3 O tumor invade a adventícia T4 O tumor invade as estruturas adjacentes T4a O tumor ressecável invade a pleura, o pericárdio ou o diafragma T4b O tumor ressecável invade outras estruturas adjacentes, tais como aorta, corpos vertebrais, traqueia etc. *(1) No mínimo a dimensão máxima do tumor deve ser registrada e (2) tumores múltiplos requerem o sufixo T(m). † A displasia de grau alto inclui todo o epitélio neoplásico não invasivo que anteriormente era denominado carcinoma in situ. LINFONODOS (N)* NX Os linfonodos regionais não podem ser avaliados N0 Nenhuma metástase em linfonodos regionais N1 Metástases em 1 a 2 linfonodos regionais N2 Metástases em 3 a 6 linfonodos regionais N3 Metástases em 7 ou mais linfonodos regionais *A quantidade deve ser registrada em relação à quantidade total de linfonodos regionais amostrados e à quantidade total de linfonodos com metástases relatada. METÁSTASE A DISTÂNCIA (M) MX A metástase não pode ser avaliada M0 Nenhuma metástase a distância M1 Metástase a distância De AJCC Cancer Staging Manual, 7th ed. New York: Springer-Verlag; 2010. TRATAMENTO A maior parte dos estudos clínicos de fase III randomizados de cânceres gástricos e esofágicos locais e localmente avançados, nos quais as evidências de nível um para as diretrizes são baseadas, incluiu histologias heterogêneas e diferentes localizações anatômicas dos tumores. Entretanto, as suas diferentes etiologias, biologia molecular e padrões de recidiva sugerem a necessidade de dividir estes cânceres, e não de coalescer.4 Terapia cirúrgica A cirurgia é o pilar da terapia com intenção curativa.5 Avanços técnicos levaram a melhoras na mortalidade operatória e na morbidade pós-operatória. As diferentes técnicas cirúrgicas incluem ressecções transtorácicas, trans-hiatais e radicais em bloco. Dependendo da localização do CCE esofágico, busca-se a esofagectomia total ou esofagectomia subtotal. Para a última, pode ser realizada a interposição jejunal ou colônica. O ganho na proficiência cirúrgica na realização da esofagectomia tem demonstrado melhorar os resultados da mortalidade a curto prazo, bem como a longo prazo, no câncer esofágico.6 Ainda que atualmente haja ausência de estudos de alta qualidade que comparem a esofagectomia minimamente invasiva às abordagens convencionais, as últimas podem alcançar desfechos de mortalidade, morbidade e oncológicos peroperatórios equivalentes ou melhores, em comparação à cirurgia aberta em pacientesselecionados.A1,A2,A2b,7 Tem sido demonstrado que a esofagectomia de resgate após a quimiorradioterapia definitiva pode oferecer desfechos aceitáveis em curto e longo prazo em pacientes selecionados com câncer esofágico em centros com experiência.8 Terapia clínica Dependendo do estágio da doença, existe alguma variação na possibilidade de proceder com a quimiorradioterapia pré- operatória (neoadjuvante) (preferida para o estágio precoce) ou a quimiorradioterapia pós-operatória (adjuvante). Um estudo no qual os pacientes foram randomizados para receber cirurgia isoladamente ou cirurgia mais quimioterapia pós- operatória com 5-fluoruracila e leucovorina e radioterapia concomitante relevou que a sobrevida mediana foi de 36 meses para os pacientes no grupo adjuvante, em comparação a 26 meses para aqueles no grupo cirurgia isoladamente. As taxas de sobrevida em geral em 3 anos foram de 50% (cirurgia mais terapia adjuvante), em comparação a 40% (cirurgia isoladamente), respectivamente.A3 Dados de acompanhamento a longo prazo em pacientes com cânceres clinicamente ressecáveis, localmente avançados (células escamosas ou adenocarcinoma) de esôfago ou da junção gastresofágica demonstraram um aumento significativo na sobrevida em geral em 5 anos com a quimiorradioterapia neoadjuvante (uso de radioterapia concomitante com carboplatina mais paclitaxel) antes da cirurgia, em comparação à cirurgia isoladamente.A4 Metanálise de redes de estudos clínicos randomizados controlados demonstrou que a quimiorradioterapia de combinação neoadjuvante ou adjuvante, em comparação à quimioterapia ou à radioterapia isoladamente, é mais efetiva do que a quimioterapia ou radioterapia isoladamente para a melhora da sobrevida dos pacientes com câncer esofágico ressecável.A5 PROGNÓSTICO A sobrevida em 5 anos para o CCE esofágico tratado depende do estágio e dos tipos de terapia utilizados. Para os estágios T1 e T2 sem envolvimento de linfonodos a cirurgia isoladamente pode ser curativa em mais de 60% dos casos. A ocorrência de complicações pós-operatórias importantes, que acometem aproximadamente um terço dos pacientes, exerce um efeito negativo duradouro sobre a qualidade de vida relacionada à saúde nos pacientes que sobrevivem por 5 anos após a esofagectomia para o câncer. Dispneia, fadiga, restrição alimentar, dificuldades de sono e refluxo gastresofágico pioram progressivamente mais durante o acompanhamento naqueles que sofrem com complicações pós-operatórias importantes, em comparação àqueles sem complicações cirúrgicas importantes. Para os pacientes com doença não ressecável ou metastática, a terapia é paliativa, com o envolvimento de stents protéticos expansíveis inseridos por meio de endoscopia para abrir o lúmen quase obstruído para a passagem do conteúdo alimentar, tubos de gastrotomia endoscópica percutânea para a administração de nutrição na parte do estômago distal à lesão em massa, nutrição parenteral total, controle da dor e quimioterapia sistêmica.9 Adenocarcinoma esofágico EPIDEMIOLOGIA O adenocarcinoma esofágico afeta os brancos mais do que os afro- americanos e os homens muito mais do que as mulheres (3:1 e 5,5:1); e aumenta em incidência após os 40 anos. A incidência ajustada para a idade anualmente é de 1,3 por 100.000. Neste capítulo, o adenocarcinoma esofágico é discutido como uma entidade separada dos adenocarcinomas gastresofágicos (assim denominado câncer juncional gastresofágico) e dos adenocarcinomas da cárdia gástrica, ainda que tenha havido uma tendência crescente de pensar nestes em conjunto. A incidência do adenocarcinoma esofágico está aumentando significativamente nos países desenvolvidos, em especial nos EUA (em 4 a 10% anualmente) e na Europa Ocidental/do Norte.10 Etiologia A obesidade (central) é um fator de risco importante para o adenocarcinoma esofágico. Isto pode estar relacionado a fatores mecânicos que estimulam o refluxo gastresofágico maior (RGE) ou mais provavelmente a liberação de adipocinas, citocinas e quimiocinas pró-inflamatórias, que seguem até o esôfago. O principal precursor reconhecido do adenocarcinoma esofágico é o esôfago de Barrett (Capítulo 129). O esôfago de Barrett é a substituição do epitélio escamoso estratificado normal por um epitélio de intestino delgado incompleto (metaplasia) na parte distal do esôfago, que se projeta a partir da junção gastresofágica em um gradiente distal-proximal (Capítulo 129). Por sua vez, tem sido demonstrado que o esôfago de Barrett é estimulado pelo RGE, mas também por uma mistura de ácidos biliares no refluxo ácido. Um pequeno subconjunto de pacientes com esôfago de Barrett pode progredir para o adenocarcinoma esofágico por meio de estágios intermediários de displasia de grau baixo e grau alto. No esôfago de Barrett, estima-se que um caso de adenocarcinoma esofágico ocorra em 55 a 441 pacientes-ano, o que corresponde a um aumento de aproximadamente 125 vezes do risco de adenocarcinoma esofágico, em comparação àquele da população em geral. BIOPATOLOGIA O esôfago de Barrett envolve a metaplasia do epitélio esofágico normal até um epitélio de intestino delgado, com enterócitos colunares e células caliciformes secretoras, mas sem células de Paneth e células enteroendócrinas – portanto, a designação de metaplasia intestinal incompleta.11 Por si própria, a metaplasia do esôfago de Barrett não pode se tornar um adenocarcinoma esofágico. Entretanto, se e quando o esôfago de Barrett sofre uma transição até a displasia de grau baixo e grau alto, existe o risco de adenocarcinoma esofágico mencionado anteriormente. O esôfago de Barrett está associado a ploidia anormal do DNA e determinadas alterações genéticas na sinalização do receptor do fator de crescimento epidérmico, TP53 e p161NK4A. Também pode ser observada instabilidade de microssatélites. Abordagens de todo o genoma estão revelando ganhos e perdas de regiões cromossômicas que podem levar à identificação de genes conhecidos e anteriormente desconhecidos críticos na patogênese do adenocarcinoma esofágico. Avanços recentes em modelos em camundongos geneticamente modificados possibilitaram a realização de fenocópias do esôfago de Barrett e do adenocarcinoma esofágico por meio do direcionamento direto do alvo molecular da interleucina (IL)-1β no esôfago. Em outra abordagem, por meio do knockout global de p63 (um marcador importante das células-tronco e das células progenitoras), o esôfago de Barrett é evidente no período pós-natal. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Sintomas e sinais Estima-se que 5 a 15% dos pacientes com RGE podem desenvolver esôfago de Barrett, mas os referidos estudos com base em população são difíceis de conduzir, tendo em vista que milhões de pessoas são afetadas pelo RGE, e a maior parte dos pacientes com RGE não realiza EDA. Os pacientes com esôfago de Barrett podem ou não apresentar sintomas relacionados ao RGE. O RGE crônico com esôfago de Barrett pode estar associado a estreitamentos esofágicos distais. Com o adenocarcinoma esofágico, os pacientes podem sofrer de disfagia, odinofagia, hemorragia digestiva alta, dor torácica, náuseas, vômitos, saciedade precoce, perda de peso e desnutrição. Exame físico O exame do paciente pode revelar sinais consistentes com desnutrição e perda de peso. A linfadenopatia deve ser explorada. Pode haver hepatomegalia. É incomum haver síndromes paraneoplásicas com o adenocarcinoma esofágico (bem como com o CCE esofágico). É importante assegurar que o adenocarcinoma esofágico não seja confundido com uma entidade benigna, como um distúrbio primário da motilidade esofágica. Exames laboratoriais Os pacientes com adenocarcinoma esofágico podem apresentar anemia ferropriva (em virtude de sangramento GI alto oculto), desequilíbrios metabólicos e exames de enzimas hepáticas anormais em virtude da doença metastática. O CEA pode estar elevado com marcador sorológico tumoral, embora não confirme o diagnóstico. DIAGNÓSTICO A radiografia de tórax com ingestão de bário pode levar à suspeita de esôfago de Barrett e diagnosticar lesões expansivasluminais consistentes com adenocarcinoma esofágico na parte distal do esôfago. Entretanto, o diagnóstico se baseia na EDA. Na EDA é visualizada mucosa com coloração salmão característica na junção gastresofágica, com projeções ramificadas na direção proximal. Se a extensão do esôfago de Barrett tiver 3 cm ou menos, ele é denominado esôfago de Barrett de segmento curto; se tiver mais de 3 cm, é denominado esôfago de Barrett de segmento longo. Esta distinção é importante, porque o risco de adenocarcinoma esofágico no esôfago de Barrett de segmento longo é maior do que no esôfago de Barrett de segmento curto. Ao observar que a mucosa esofágica normal tem uma tonalidade mais rosado-esbranquiçada, pode-se distinguir visualmente os dois tipos diferentes de epitélio, com a ressalva de que a mucosa da cárdia gástrica na junção gastresofágica não deve ser confundida com o esôfago de Barrett. São necessárias biopsias endoscópicas da mucosa da região do esôfago de Barrett (com biopsias de controle do esôfago e da cárdia gástrica normais) para o diagnóstico histopatológico. As características da displasia são mais bem apreciadas na ausência da esofagite relacionada ao refluxo que pode levar à distorção da arquitetura nuclear; portanto, é necessária a supressão da produção de ácido com a terapia com inibidor da bomba de prótons por 6 a 8 semanas, com consideração de repetição das biopsias. Se o paciente apresenta metaplasia do esôfago de Barrett, a EDA deve ser repetida a cada 3 anos. Entretanto, a displasia de grau baixo (com confirmação por parte de um patologista especialista) requer a endoscopia de vigilância a cada 6 a 12 meses. A displasia de grau alto, se avaliada adequadamente pelo patologista, pode exigir reconfirmação, mas em seguida leva à intervenção clínica (ablação com radiofrequência [ARF], ressecção endoscópica da mucosa) ou cirúrgica, em virtude da possibilidade de perda de um adenocarcinoma esofágico contíguo. A USE pode ser útil para diferenciar a displasia de grau alto e o adenocarcinoma intramucoso esofágico. TRATAMENTO Os princípios são muito semelhantes àqueles aplicados para o CCE esofágico em termos de cirurgia. A quimiorradioterapia pré- operatória (neoadjuvante) (p. ex., carboplatina titulada para alcançar uma área sob a curva de 2 mg/mℓ /min e 50 mg/m2 de paclitaxel por 5 semanas) e a radioterapia concomitante (a 41,4 Gy em 23 frações, 5 dias por semana) melhoram significativamente a sobrevida mediana, de aproximadamente 24 a 27 meses para aproximadamente 43 a 49 meses entre os pacientes com câncer esofágico ou da junção gastresofágica possivelmente curável.A6 O prognóstico em geral para o adenocarcinoma esofágico é semelhante àquele do CCE esofágico. A ablação com radiofrequência (ARF) reduz a progressão do esôfago de Barrett com displasia de grau baixo ou possivelmente da displasia de grau alto até o câncer.A7 A ressecção da mucosa endoscópica (RME) é utilizada para a displasia de grau alto relacionada ao esôfago de Barrett ou o esôfago de Barrett associado ao adenocarcinoma esofágico intramucoso. Para os tumores avançados e não ressecáveis, stents autoexpansíveis, com frequência com braquiterapia localizada, pode proporcionar a paliação.12 As terapias sistêmicas para os adenocarcinomas esofágicos avançados e metastáticos (ver também a seção Tratamento sob Adenocarcinomas de estômago), incluindo abordagens com alvos moleculares, em geral também se aplicam para o adenocarcinoma gástrico avançado e metastático. O status de desempenho (performance status) com frequência declina após a terapia de primeira linha. Os pacientes com cânceres esofágicos geralmente apresentam comorbidades sérias, como obesidade, cardiopatia, enfisema, bem como desnutrição em virtude de disfagia, que limitam as oportunidades de tratamento após a terapia de primeira linha.13 NEOPLASIAS DE ESTÔMAGO DEFINIÇÃO As neoplasias gástricas são predominantemente malignas, e quase 90 a 95% destes tumores são adenocarcinomas. As doenças malignas observadas com menos frequência incluem linfomas, em especial o linfoma não Hodgkin, e sarcomas, como o liomiossarcoma. As neoplasias gástricas benignas incluem os liomiomas, tumores carcinoides e lipomas. Adenocarcinoma de estômago EPIDEMIOLOGIA A maior variação geográfica na incidência do câncer gástrico mundialmente indica que fatores ambientais influenciam a patogênese da carcinogênese gástrica. O apoio adicional a esta noção advém de observações de que grupos que emigram de áreas de risco alto para áreas de risco baixo, como os indivíduos japoneses que se mudam para o Havaí ou o Brasil, adquirem o risco baixo da área para a qual emigram, presumivelmente em virtude da adoção do estilo de vida endógeno e da exposição a fatores ambientais diferentes. O adenocarcinoma gástrico foi a doença maligna mais frequentemente observada no mundo até meados da década de 1980, e permanece extremamente comum entre os homens em determinadas regiões como a América do Sul tropical, algumas partes do Caribe e do Leste Europeu. Independentemente do sexo, ele permanece uma das malignidades mais comuns no Japão e na China. Ainda que o câncer gástrico tenha sido o câncer mais comum nos EUA na década de 1930, a sua incidência anual diminuiu de modo estável. A incidência anual no momento é inferior a 10.000 novos casos ao ano. Entretanto, embora a incidência de adenocarcinoma gástrico localizado na parte distal do estômago tenha declinado, a incidência de adenocarcinomas gástricos proximais e juncionais gastresofágicos tem aumentado estavelmente nos EUA, um achado que talvez reflita diferenças nos fatores patogênicos. Tipicamente, o câncer gástrico ocorre entre os 50 e 70 anos e é incomum antes dos 30 anos. As taxas são mais altas nos homens do que nas mulheres, em 2:1. A sobrevida em 5 anos é inferior a 20%. Fatores de risco Os fatores de risco para o desenvolvimento do adenocarcinoma gástrico14 podem ser divididos em fatores ambientais e genéticos, bem como condições precursoras (Tabela 183.3). Por exemplo, a infecção pelo Helicobacter pylori é significativamente mais comum em pacientes com câncer gástrico do que nos grupos de controle correspondentes. A erradicação do H. pylori efetivamente reduz a incidência de câncer gástrico, e a magnitude deste efeito protetor é maior entre os indivíduos com um risco de câncer gástrico basal mais alto.15 Estudos epidemiológicos de populações de risco alto também sugeriram que agentes genotóxicos, como compostos N-nitrosos, podem desempenhar um papel na tumorigênese gástrica. Os compostos N-nitrosos podem ser formados no estômago humano por meio da nitrosação de nitratos ingeridos, que são constituintes comuns da dieta. Altas concentrações de nitratos no solo e na água de bebida têm sido observadas em áreas com altas taxas de morte em virtude de câncer gástrico. A gastrite atrófica (Capítulo 130), com ou sem metaplasia intestinal, é observada em associação ao câncer gástrico, especialmente em áreas endêmicas. A anemia perniciosa (Capítulo 155) está associada a um aumento de diversas vezes no câncer gástrico. A gastrite atrófica e o câncer gástrico apresentam determinados fatores de risco ambiental em comum. É provável que a gastrite atrófica e a metaplasia intestinal representem etapas intermediárias até o câncer gástrico. A acloridria associada à gastrite relacionada à infecção pelo H. pylori, a anemia perniciosa ou outras causas favorecem o crescimento de bactérias capazes de converter nitratos em nitritos. A nitrosamina N-metil-N’- nitrosoguanidina causa alta taxa de indução de adenocarcinoma no estômago glandular de ratos. Ao mesmo tempo, a maior parte dos pacientes com gastrite atrófica não desenvolve câncer gástrico, um achado que sugere que nem a gastrite atrófica nem a acloridria isoladamente sejam responsáveis. Todavia, sua incidência está diminuindo em todo o planeta, tanto em países de baixa incidência como nos de baixa incidência.13b As úlceras gástricas benignas não aparentam predispor os pacientes ao câncer gástrico. A incidênciaé aproximadamente 1,8 vezes mais elevada em não brancos e é mais elevada em norte-americanos de origem coreana.13c Os pacientes que apresentam um remanescente gástrico após a gastrectomia subtotal em virtude de distúrbios benignos apresentam um aumento do risco relativo de câncer gástrico de 1,5 a 3,0 em 15 a 20 anos após a cirurgia. Tabela 183.3 Condições que predispõem ou que estão associadas ao câncer gástrico. AMBIENTAIS Infecção por Helicobacter pylori Alimentares: excesso de sal (alimentos em picles em salmoura), nitratos/nitritos, carboidratos; deficiência de frutas frescas, vegetais, vitaminas A e C, refrigeração Baixo status socioeconômico Tabagismo GENÉTICOS Câncer gástrico familiar (raro) Associados ao câncer colorretal não poliposo hereditário Grupo sanguíneo A CONDIÇÕES PREDISPONENTES Gastrite crônica, especialmente a gastrite atrófica com ou sem metaplasia intestinal Anemia perniciosa Metaplasia intestinal Pólipos adenomatosos gástricos (> 2 cm) Tocos pós-gastrectomia Displasia epitelial gástrica Doença de Ménétrier (gastropatia hipertrófica) Úlcera péptica crônica BIOPATOLOGIA Os adenocarcinomas gástricos podem ser divididos em dois tipos, com base na classificação de Lauren:16 intestinal e difuso. O tipo intestinal ocorre tipicamente na parte distal do estômago com ulcerações, com frequência é precedido por lesões pré-malignas e a sua incidência está declinando nos EUA. Contrariamente, o tipo difuso envolve o espessamento difuso do estômago, especialmente na cárdia, e com frequência afeta pacientes mais jovens; esta forma pode se apresentar como linite plástica, um estômago não distensível com ausência de pregas e estreitamento do lúmen causado pela infiltração da parede do estômago pelo tumor. Os cânceres gástricos do tipo difuso ancoram células produtoras de mucina. Outras condições podem resultar na linite plástica, como linfoma (Capítulo 176), tuberculose (Capítulo 308), sífilis (Capítulo 303) e amiloidose (Capítulo 179). O prognóstico em geral é mais desfavorável no tipo difuso. As principais características histopatológicas do câncer gástrico incluem o seu grau de diferenciação, a invasão pela parede gástrica, o envolvimento de linfonodos e a presença ou a ausência de células em anel de sinete no interior do próprio tumor. Outras manifestações patológicas incluem massa polipoide, que pode ser difícil de diferenciar de um pólipo benigno. O câncer gástrico precoce, uma condição que é comum no Japão e que apresenta um prognóstico relativamente favorável, consiste em lesões superficiais com ou sem o envolvimento de linfonodos. Neste caso, o esquema da classificação de Borrmann é útil: grupo I, polipoide; grupo II, úlcera fungante com margens agudas elevadas; grupo III, úlcera com margens infiltrativas pouco diferenciadas; e grupo IV, lesão infiltrativa, na maior parte intramural, não bem demarcada. A principal hipótese que explica o modo como o H. pylori predispõe ao risco de câncer gástrico é a indução de uma resposta inflamatória, na qual a IL-1β pode ser central. A infecção crônica pelo H. pylori também leva à gastrite atrófica crônica, com a resultante acloridria, que por sua vez favorece o crescimento bacteriano, que pode converter os nitratos alimentares em nitrito. Estes nitritos, em combinação com fatores genéticos, promovem a proliferação celular anormal, as mutações genéticas e, finalmente, o câncer. Em um modelo de câncer gástrico em camundongos, a infecção pelo H. pylori pode desempenhar um papel no recrutamento das células-tronco derivadas da medula óssea que facilita a carcinogênese gástrica. Modelos em animais atualmente podem recapitular as características fundamentais do adenocarcinoma gástrico, seja por meio do uso de carcinógenos ou por meio de abordagens genéticas. Genética Está claro que fatores genéticos desempenham um papel no câncer gástrico16b. Por exemplo, o grupo sanguíneo A está associado a uma taxa mais alta de incidência de câncer gástrico, até mesmo em áreas não endêmicas. Um aumento de três vezes no câncer gástrico tem sido relatado entre parentes em primeiro grau de pacientes com a doença. Além disso, mutações de linhagens germinativas e hereditárias nos genes em relação à E-caderina e alfacatenina, ainda que raras, têm sido descritas no câncer gástrico hereditário difuso, que é observado em pacientes jovens. Mais ainda, na síndrome de Lynch (ver Capítulo 184), os pacientes apresentam cânceres extracolônicos associados, incluindo câncer gástrico. Os pacientes com polipose adenomatosa familiar (PAF) apresentam aumento do risco de adenocarcinoma gástrico na parte distal (do antro). Dados sobre a expressão genética identificaram subtipos moleculares ligados a padrões distintos de alterações moleculares que estão associados a diferenças na progressão e no prognóstico da doença: relacionados ao vírus Epstein-Barr, instabilidade de microssatélites, instabilidade genômica (especialmente com mutações e fusões de RhoA) e instabilidade genômica.17 Diversos mecanismos genéticos são importantes no câncer gástrico: ativação de oncogenes, inativação de genes supressores tumorais e instabilidade de microssatélites do DNA. Por exemplo, a perda da heterozigosidade do gene APC (polipose adenomatosa do cólon) tem sido observada nos cânceres gástricos. O produto do gene supressor tumoral p53 regula o ciclo celular na transição das fases G1-S e provavelmente também atua no reparo do DNA e na apoptose (morte celular programada). O gene p53 está mutado não somente no câncer gástrico, mas também em lesões pré-cancerosas gástricas, um achado que sugere que a mutação do gene p53 seja um evento precoce na carcinogênese gástrica. Alterações de microssatélites do DNA ou instabilidade em repetições de dinucleotídios ocorrem com frequência no carcinoma gástrico esporádico. As mutações nos genes podem se acumular como resultado da instabilidade de microssatélites do DNA. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Sintomas e sinais Em seus estágios iniciais, o câncer gástrico pode ser assintomático ou produzir somente sintomas inespecíficos, que dificultam o diagnóstico precoce. Os sintomas tardios incluem inchaço, disfagia, dor epigástrica ou saciedade precoce. A saciedade precoce ou o vômito podem sugerir a obstrução parcial da saída gástrica, ainda que a dismotilidade gástrica possa contribuir para o vômito em pacientes com casos não obstrutivos. A dor epigástrica reminiscente daquela associada à úlcera péptica ocorre em aproximadamente um quarto dos pacientes mas, na maior parte dos pacientes com câncer gástrico, a dor não é aliviada com alimentos ou antiácidos. A dor que irradia até as costas pode indicar que o tumor penetrou no pâncreas. Quando a disfagia está associada ao câncer gástrico, este sintoma sugere um tumor gástrico mais proximal na junção gastresofágica ou no fundo. Os sinais de câncer gástrico incluem sangramento, que pode resultar em anemia ferropriva e que provoca os sintomas de fraqueza, fadiga e mal- estar, bem como em consequências cardiovasculares e cerebrovasculares mais sérias e raras. É incomum haver perfuração relacionada ao câncer gástrico. O câncer gástrico com metástases hepáticas pode levar a dor no quadrante superior direito do abdome, icterícia e febre. As metástases pulmonares podem causar tosse, soluço e hemoptise. A carcinomatose peritoneal pode levar à ascite maligna não responsiva a diuréticos. O câncer gástrico também pode metastatizar para os ossos. Exame físico Nos estágios mais iniciais do câncer gástrico, o exame físico não encontra achados dignos de nota. Nos estágios mais tardios, os pacientes se tornam caquéticos e massa epigástrica pode ser palpada. Se o tumor tiver metastatizado para o fígado, o paciente pode apresentar hepatomegalia associada a icterícia e ascite. A invasão da veia porta ou esplênica e a trombose podem causar esplenomegalia. O envolvimento de linfonodos na área supraclavicular esquerda é denominado linfonodo de Virchow, e o envolvimento de linfonodos periumbilicais é denominado nódulo da irmã Maria José.A pesquisa de sangue oculto nas fezes pode ser positiva. A metástase em ovário é denominada tumor de Krukenberg. As síndromes paraneoplásicas podem preceder ou ocorrer concomitantemente ao câncer gástrico. Exemplos incluem os seguintes: síndrome de Trousseau (ver Capítulo 73), que é a tromboflebite superficial migratória recidivante, indicando um possível estado de hipercoagulação; acantose nigricans, que surge como lesões cutâneas elevadas e hiperpigmentadas de áreas flexoras, pescoço, axilas, virilha e membranas mucosas; neuromiopatia com envolvimento das vias sensoriais e motoras; e síndromes do sistema nervoso central, com alteração do status mental e ataxia. Exames laboratoriais Os exames laboratoriais podem revelar anemia ferropriva. Tem sido relatada anemia hemolítica microangiopática. As anormalidades nas provas de função hepática indicam, em geral, doença metastática. A hipoalbuminemia é um marcador da desnutrição. A enteropatia com perda proteica é rara, mas pode ser observada na doença de Ménétrier, outra condição predisponente. Os resultados de exames sorológicos, tais como CEA e CA72.4 (não utilizados tipicamente), podem estar anormais. Ainda que estes exames não sejam recomendados para o diagnóstico inicial, podem ser úteis para o monitoramento da doença após a ressecção cirúrgica. DIAGNÓSTICO A acurácia do diagnóstico por EDA com biopsia e exame citológico é de quase 95 a 99% para ambos os tipos de câncer gástrico.18 O câncer pode surgir como pequena ulceração na mucosa, pólipo ou massa (Figura 183.1). Em alguns pacientes, a ulceração gástrica é observada pela primeira vez na SEED. Uma úlcera gástrica benigna está associada a base lisa e regular, enquanto uma úlcera maligna está associada a massa adjacente, pregas irregulares e base irregular. Ainda que estas e outras características radiográficas historicamente tenham ajudado a predizer a doença benigna versus maligna, a EDA com biopsia e exame citológico é obrigatória sempre que uma úlcera gástrica é observada no exame radiológico, mesmo se a úlcera apresentar características benignas. A ultrassonografia endoscópica (USE) é muito útil tanto para o diagnóstico quanto para o estadiamento do câncer gástrico (Tabela 183.4). A extensão do tumor, incluindo a invasão da parede gástrica e o envolvimento de linfonodos locais, pode ser avaliada por meio da USE (Figura 183.2), que fornece informações complementares àquelas obtidas na TC.19 A USE pode ajudar a orientar as biopsias aspirativas de linfonodos para determinar o envolvimento maligno. A TC de tórax, abdome e pelve deve ser realizada para documentar a linfadenopatia e o envolvimento de órgãos extragástricos (especialmente pulmão e fígado). Em alguns centros, o estadiamento do câncer gástrico envolve cintilografias ósseas, em virtude da propensão de metástases do câncer gástrico para os ossos. FIGURA 183.1 Úlcera gástrica benigna (esquerda) e maligna (direita). Observe as bordas irregulares, espessadas e pendentes do câncer. (Cortesia do Dr. Pankaj Jay Pasricha). Tabela 183.4 Estadiamento TNM do câncer de estômago. TUMOR PRIMÁRIO (T) TX O tumor primário não pode ser avaliado T0 Nenhuma evidência de tumor primário Tis Carcinoma in situ: tumor intraepitelial sem invasão da lâmina própria T1 O tumor invade a lâmina própria, a muscular da mucosa ou a submucosa T1a O tumor invade a lâmina própria ou a muscular da mucosa T1b O tumor invade a submucosa T2 O tumor invade a muscular própria* T3 O tumor penetra o tecido conjuntivo subseroso sem invasão do peritônio visceral ou das estruturas adjacentes†,‡ T4 O tumor invade a serosa (peritônio visceral) ou as estruturas adjacentes†,‡ T4a O tumor invade a serosa (peritônio visceral) T4b O tumor invade as estruturas adjacentes LINFONODOS REGIONAIS (N) NX O(s) linfonodo(s) regional(is) não pode(m) ser avaliado(s) N0 Nenhuma metástase em linfonodos regionais§ N1 Metástases em 1 a 2 linfonodos regionais N2 Metástases em 3 a 6 linfonodos regionais N3 Metástases em 7 ou mais linfonodos regionais N3a Metástases em 7 a 15 linfonodos regionais N3b Metástases em 16 ou mais linfonodos regionais METÁSTASE A DISTÂNCIA (M) M0 Nenhuma metástase a distância M1 Metástase a distância *Observação: um tumor pode penetrar a muscular própria, com extensão até os ligamentos gastrocólico ou gastro-hepático, ou até o omento maior ou menor, sem perfuração do peritônio visceral que recobre estas estruturas. Neste caso, o tumor é classificado como T3. Se houver perfuração do peritônio visceral que recobre os ligamentos gástricos ou o omento, o tumor deve ser classificado como T4. †As estruturas adjacentes do estômago incluem baço, cólon transverso, fígado, diafragma, pâncreas, parede abdominal, glândula suprarrenal, rim, intestino delgado e retroperitônio. ‡A extensão intramural até o duodeno ou esôfago é classificada pela profundidade da maior invasão em quaisquer destes locais, incluindo o estômago. §Observação: A designação pN0 deve ser utilizada se todos os linfonodos examinados forem negativos, independentemente do número total removido e examinado. (De AJCC Cancer Staging Manual. 7th ed. New York: Springer-Verlag, 2010.) FIGURA 183.2 Massa gástrica. Ultrassonografia endoscópica demonstrando uma grande massa gástrica, que está comprimindo o fígado e a parede da vesícula biliar (A) e, em uma vista diferente, o lobo esquerdo do fígado (B). TRATAMENTO Terapia cirúrgica A única chance de cura do câncer gástrico é a ressecção cirúrgica, que é possível em 25 a 30% dos casos.19b Se o tumor estiver confinado à parte distal do estômago, é realizada gastrectomia subtotal, com ressecção dos linfonodos porta hepáticos e da cabeça do pâncreas. Os tumores da parte proximal do estômago exigem gastrectomia total para a obtenção de margem adequada e para remover os linfonodos; a pancreatectomia distal e a esplenectomia em geral também são realizadas como parte deste procedimento, que implica taxas de mortalidade e morbidade mais altas.20 A adição da dissecção dos linfonodos para-aórticos não melhora a sobrevida. Até mesmo se um procedimento curativo não for possível em virtude de metástases, a ressecção gástrica limitada pode ser necessária para os pacientes com sangramento excessivo ou obstrução. Entretanto, a gastrectomia seguida por quimioterapia não é melhor do que a quimioterapia isoladamente para o câncer gástrico avançado que não é curável cirurgicamente.A8 Se o câncer recidivar no remanescente gástrico, pode ser novamente necessária ressecção limitada para a paliação. A maior parte das recidivas de qualquer tipo de câncer gástrico ocorrem no local ou na área regional do tumor original. Terapia clínica O câncer gástrico é um dos poucos cânceres gastrintestinais que é razoavelmente responsivo à quimioterapia.21 A quimioterapia com agente único, que proporciona taxas de resposta parcial de 20 a 30%, é reservada para os pacientes com estado de desempenho desfavorável. Por outro lado, a quimioterapia de combinação aumenta a sobrevida em geral, em comparação à quimioterapia com agente único na doença metastática, bem como no tratamento adjuvante da doença não metastática.A9 Em pacientes com câncer gástrico que são submetidos à gastrectomia e à dissecção de linfonodos estendida com intenção curativa, S-1 (uma fluoropirimidina oral, 80 mg/dia durante 4 semanas, seguidos por 2 semanas de intervalo, repetidos em ciclos de 6 semanas por 1 ano com início dentro de 6 semanas após a cirurgia) melhora significativamente a sobrevida em 3 anos, de 70 para 80%. A quimioterapia com combinação de epirrubicina, cisplatina e fluoruracila, administrada tanto no pré- operatório quanto no pós-operatório, melhora significativamente a sobrevida em 5 anos, de 23 para 36% nos pacientes com câncer gastresofágico ressecável, mas a combinação de fluoruracila, leucovorina, oxaliplatina e docetaxel pode prolongar a sobrevida mediana até 50 meses sem aumentar os efeitos colaterais do tratamento.A9b De modo semelhante, a combinação de quimioterapia (fluoruracilae leucovorina) com radioterapia demonstrou melhorar a sobrevida mediana de 27 para 36 meses, em comparação à cirurgia isoladamente em pacientes com adenocarcinoma de estômago ou da junção gastresofágica. Com um acompanhamento mediano de mais de 10 anos, a sobrevida em geral e a sobrevida livre de recaídas demonstram um forte benefício contínuo da radioquimioterapia pós-operatória. Entretanto, a quimiorradioterapia pós-operatória não melhora a sobrevida em geral, em comparação à quimioterapia pós- operatória nos pacientes cujos cânceres gástricos ressecáveis são tratados com quimioterapia pré-operatória adequada e cirurgia.A10 Para a doença avançada ou metastática, os regimes de combinação podem produzir taxas de resposta parcial de 35 a 50%, mas a maior parte dos pacientes ainda apresenta sobrevida mediana inferior a 1 ano e a sobrevida por mais de 2 anos é rara. Estes incluem os seguintes: ECF, que é mais popular na Europa (50 mg/m2 de epirrubicina no dia 1; 60 mg/m2 de cisplatina no dia 1; 200 mg/m2/dia de 5-fluoruracila como uma infusão contínua por meio de um dispositivo de acesso venoso central [DAVC] administrada durante todo o tratamento, repetidos a cada 21 dias para um máximo de 8 ciclos); CF (infusão de 1.000 mg/m2/dia de 5-fluoruracila por 4 dias; 75 a 100 mg/m2 de cisplatina no dia 1, a cada 4 semanas); ou TFC (75 mg/m2 de docetaxel no dia 1; 75 mg/m2 de cisplatina no dia 1; e 750 mg/m2/dia de 5-fluoruracila por 5 dias, a cada 3 semanas), ou capecitabina mais cisplatina. Um estudo clínico randomizado de quimioterapia tripla para o câncer esofagogástrico avançado demonstrou que a capecitabina oral é no mínimo tão efetiva quanto a fluoruracila infundida, e que a oxaliplatina (que não necessita de hidratação) é no mínimo tão efetiva quanto a cisplatina (que não necessita de hidratação) em relação à sobrevida em geral. Observou-se que bevacizumabe, um anticorpo monoclonal com alvo molecular no fator de crescimento endotelial vascular A (VEGF-A), administrado a uma dose de 7,5 mg/kg por meio de infusão intravenosa a cada 3 semanas, aumenta a sobrevida livre de progressão e a taxa de resposta em geral quando foi administrado junto com a quimioterapia com capecitabina e cisplatina como tratamento de primeira linha do câncer gástrico avançado.A11 Ramucirumabe (um antagonista de receptores de VEGF), administrado a 8 mg/kg por via intravenosa a cada 2 semanas, pode melhorar a sobrevida mediana de 3,8 para 5,2 meses no câncer gástrico avançado.A12 Trastuzumabe, um anticorpo anti-HER2 monoclonal humanizado (8 mg/kg por via intravenosa uma vez, em seguida 6 mg/kg a cada 3 semanas) pode aumentar a sobrevida do câncer gástrico HER2-positivo ou do câncer da junção gastresofágica de 11,1 meses para 13,8 meses e trastuzumabe deruxtecana, um conjugado de anticorpo-fármaco constituído por um ligante de base tetrapeptídica clivável (trastuzumabe) e um inibidor citotóxico de topoisomerase I (na dose de 6,4 mg/kg a cada 3 meses), consegue aumentar a sobrevida mediana em aproximadamente 4 meses.A12b A radioterapia isoladamente é inefetiva e em geral é empregada somente para fins paliativos na condição de sangramento, obstrução ou dor. A terapia genética e a terapia com base imune atualmente estão em investigação em modelos em animais. Os inibidores do ponto de controle imune que apresentam atividade no adenocarcinoma gástrico avançado e metastático incluem os anticorpos de PD-L1 durvalumabe, nivolumabeA13b e pembrolizumabe. O uso de imunoterapia (inibidores do ponto de controle) para o adenocarcinoma gástrico metastático é racional, tendo em vista que um subconjunto é do subtipo com EBV que está associado ao enriquecimento de PD-L1 e PD-1, e o subtipo com instabilidade de microssatélites que está associado a uma carga mutacional mais alta e presumivelmente aumento do recrutamento das células imunes. Infelizmente, o pembrolizumabe não aparenta ser melhor do que o paclitaxel para os pacientes com câncer gástrico avançado tratado anteriormente.A14 Dois agentes com alvo molecular na via de sinalização de MET, rilotumumabe e onartuzumabe, estão em estudos clínicos de fase tardia para o tratamento do câncer gástrico avançado. Outro manejo Cristicos para o manejo do paciente com câncer gástrico são a atenção meticulosa à nutrição (alimentações enterais jejunais ou nutrição parenteral total), a correção de anormalidades metabólicas que surgem a partir do vômito ou da diarreia e o tratamento da infecção em virtude de aspiração ou peritonite bacteriana espontânea. Os pacientes com câncer gástrico precoce que recebem tratamento para a erradicação do H. pylori apresentam redução do risco de carcinoma gástrico metacrônico.A15 Para manter a permeabilidade do lúmen, pode ser utilizado o tratamento a laser endoscópico ou inserção de prótese de maneira paliativa. PREVENÇÃO Nos pacientes com história familiar de câncer gástrico em um parente de primeiro grau e infecção por H. pylori, a erradicação do H. pylori reduz o risco de câncer gástrico em aproximadamente 75%.A15b Esse tratamento também diminui o risco em cerca de 40% em pacientes com lesões gástricas pré-cancerosasA15c e em aproximadamente 50% em indivíduos saudáveis.A15d PROGNÓSTICO Aproximadamente um terço dos pacientes que são submetidos à ressecção curativa estão vivos em 5 anos. No conjunto, a taxa de sobrevida em geral em 5 anos nos pacientes com câncer gástrico é inferior a 10%. Os fatores prognósticos incluem a localização anatômica e o status de linfonodos. Os cânceres gástricos da parte distal sem o envolvimento de linfonodos apresentam um prognóstico melhor do que os cânceres gástricos da parte proximal, com ou sem envolvimento de linfonodos. Outros fatores prognósticos incluem profundidade da penetração e aneuploidia do DNA celular tumoral. A linite plástica e as lesões infiltrativas apresentam um prognóstico muito mais desfavorável do que a doença com polipose ou massas exofíticas. No subconjunto de pacientes principalmente japoneses com câncer gástrico precoce que está confinado a mucosa e submucosa, a ressecção cirúrgica pode ser curativa e melhora a taxa de sobrevida em 5 anos para mais de 50%. De fato, quando o câncer gástrico inicial está confinado à mucosa, a ressecção endoscópica da mucosa pode ser uma alternativa. Linfoma de estômago EPIDEMIOLOGIA O linfoma gástrico representa aproximadamente 5% de todos os tumores gástricos malignos e está aumentando em incidência. A maioria dos linfomas gástricos é de linfomas não Hodgkin (LNH) (Capítulo 176), e o estômago é o local extralinfonodal mais comum para os LNH. Os pacientes com linfoma gástrico em geral são mais jovens do que aqueles com adenocarcinoma gástrico, mas a predominância do sexo masculino permanece. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os pacientes comumente apresentam sintomas e sinais semelhantes aos do adenocarcinoma gástrico. O linfoma no estômago pode ser um tumor primário, ou pode ser secundário ao linfoma disseminado. Os linfomas de células B (Capítulo 176) do estômago são mais comumente de células grandes, com um tipo de grau alto. Variantes de grau baixo são observadas na condição da gastrite crônica e são denominados linfomas do tecido linfoide associado à mucosa (MALT). As lesões do MALT estão fortemente associadas à infecção por H. pylori. DIAGNÓSTICO Nas radiografias, os linfomas gástricos primários surgem geralmente como úlceras ou massas exofíticas; o linfoma com infiltração difusa é mais sugestivo de linfoma secundário. Portanto, a SEED demonstra, em geral, múltiplos nódulos e úlceras no caso de linfoma gástrico primário e tipicamente apresenta o aspecto de linite plástica (ver anteriormente) no caso de linfoma secundário. Entretanto, como no adenocarcinoma gástrico, a EDA com biopsia e o exame citológico são necessários para o diagnóstico e apresentam acurácia de quase 90%. À parte da análise histopatológica convencional, a coloração com imunoperoxidase para os marcadores de linfócitos é útil no diagnóstico. Assim como com o adenocarcinoma gástrico, o estadiamentoadequado do linfoma gástrico envolve USE, TC torácica e abdominal/pélvica e biopsia de medula óssea, conforme o necessário. TRATAMENTO O tratamento do linfoma difuso de grandes células B gástrico é mais bem realizado com a quimioterapia de combinação, com ou sem radioterapia22 (Capítulo 176). Para as lesões de MALT, a erradicação da infecção por H. pylori com antibióticos deve ser tentada23 (Capítulo 130), mas os pacientes com lesões refratárias que estejam confinadas ao estômago algumas vezes podem ser curados com quimiorradioterapia (Capítulo 176). Outros tumores malignos de estômago O liomiossarcoma, que representa aproximadamente 1% de todos os cânceres gástricos, ocorre habitualmente como massa intramural com ulceração central. Os sinais/sintomas podem incluir sangramento acompanhado por massa palpável. Os liomiossarcomas com frequência são relativamente indolentes; a ressecção cirúrgica promove uma taxa de sobrevida em 5 anos de aproximadamente 50%. Pode ocorrer metástase em linfonodos e fígado. Outros sarcomas gástricos incluem os lipossarcomas, fibrossarcomas, miossarcomas e sarcomas neurológicos. A maioria dos tumores estromais gastrintestinais (GIST)24 foi associada a mutações de ativação no gene C-kit; um subconjunto desses tumores está associado a mutações no gene do receptor do fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGFR). As mutações de C-kit também são encontradas nas leucemias mieloides crônica e aguda (Capítulos 173 e 175), e aproximadamente 50% dos GISTs respondem ao mesilato de imatinibe, que deve ser continuado por no mínimo 3 anos.A16 Se o imatinibe não obtiver sucesso, o sunitinibe aumenta a sobrevida. Se ambos falharem, regorafenibe, um inibidor de múltiplas quinases, pode ser tentado.25 Os tumores carcinoides (Capítulo 219) podem ter origem no estômago e ser curados por meio de remoção, caso não tenham se disseminado para o fígado. Outros tumores primários podem se disseminar para o estômago. Além dos linfomas, os cânceres primários de pulmão (Capítulo 182) e de mama (Capítulo 188), bem como o melanoma maligno (Capítulo 193) podem metastatizar para o estômago. Liomiomas e tumores benignos Os liomiomas, que são tumores do músculo liso de origem benigna, ocorrem com igual frequência em homens e mulheres e estão tipicamente localizados nas partes média e distal do estômago. Os liomiomas podem crescer para o lúmen, com ulceração secundária e consequente sangramento. Eles também podem se expandir para a serosa, com compressão extrínseca. A EDA pode revelar massa que apresenta mucosa sobrejacente ou mucosa substituída pela ulceração. Na SEED, os liomiomas são habitualmente lisos, com um defeito de preenchimento intramural, com ou sem ulceração central. Entretanto, pode ser difícil diferenciar radiográfica ou endoscopicamente os liomiomas benignos de suas contrapartes malignas, e o diagnóstico tecidual é imperativo. Os liomiomas sintomáticos devem ser removidos, mas aqueles sem sinais/sintomas associados não necessitam de terapia. Outros tumores gástricos benignos incluem lipoma, neurofibroma, linfangioma, ganglioneuroma e hamartoma, o último associado à síndrome de Peutz-Jeghers (Capítulo 184) ou à polipose juvenil (quando restrita ao estômago). Adenomas Os adenomas gástricos e os pólipos hiperplásicos são incomuns, mas podem ser encontrados em pacientes de meia-idade e idosos. Os pólipos podem ser sésseis ou pedunculados. Ainda que os pólipos adenomatosos gástricos isolados em geral sejam assintomáticos, alguns pacientes apresentam A1. A2. A2b. A3. A4. A5. dispepsia, náuseas ou sangramento. Os adenomas gástricos e os pólipos hiperplásicos são lisos e regulares nas SEED, mas o diagnóstico deve ser confirmado por meio de EDA com biopsia. Os pólipos pedunculados com mais de 2 cm ou que apresentam sinais/sintomas associados devem ser removidos por meio de polipectomia endoscópica com alça de cautério, enquanto grandes pólipos adenomatosos gástricos sésseis justificam ressecção cirúrgica segmentar. Se os pólipos progredirem até um estágio intermediário de displasia grave ou culminarem em câncer, o tratamento é o mesmo do adenocarcinoma gástrico. Mariette C, Markar SR, Dabakuyo-Yonli TS, et al. Hybrid minimally invasive esophagectomy for esophageal cancer. N Engl J Med. 2019;380:152-162. van der Sluis PC, van der Horst S, May AM, et al. Robot-assisted minimally invasive thoracolaparoscopic esophagectomy versus open transthoracic esophagectomy for resectable esophageal cancer: a randomized controlled trial. Ann Surg. 2019;269:621-630. Nuytens F, Dabakuyo-Yonli TS, Meunier B, et al. Five-year survival outcomes of hybrid minimally invasive esophagectomy in esophageal cancer: results of the MIRO randomized clinical trial. JAMA Surg. 2021;156:323-332. Vellayappan BA, Soon YY, Ku GY, et al. Chemoradiotherapy versus chemoradiotherapy plus surgery for esophageal cancer. Cochrane Database Syst Rev. 2017;8:CD010511. Shapiro J, van Lanschot JJB, Hulshof M, et al. Neoadjuvant chemoradiotherapy plus surgery versus surgery alone for oesophageal or junctional cancer (CROSS): long-term results of a randomised controlled trial. Lancet Oncol. 2015;16:1090-1098. 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Concluir questão Qual das seguintes opções é fator de risco importante para o desenvolvimento de adenocarcinoma gástrico? Concluir questão A terapia do câncer esofágico ou gástrico pode envolver todas as modalidades a seguir, exceto: A. Obesidade. B. Deficiências nutricionais. C. Refluxo gastresofágico da infância. D. Dieta com alto teor de fibras. A. Obesidade. B. Infecção pelo Helicobacter pylori. C. História pregressa de câncer pancreático. D. Grupo sanguíneo 0. Concluir questão Qual condição hereditária predispõe ao adenocarcinoma gástrico? Concluir questão Qual é uma provável opção de tratamento para o esôfago de Barrett com displasia de grau alto e sem adenocarcinoma esofágico adjacente? A. Cirurgia. B. Quimiorradioterapia. C. Quimioterapia paliativa. D. Transplante de medula óssea. A. Mutação de E-cadherin da linhagem germinativa. B. Mutação de TP53 da linhagem germinativa. C. Mutação de p161NK4a da linhagem germinativa. D. Mutação de p12 da catenina da linhagem germinativa. A. Quimiorradioterapia neoadjuvante. Concluir questão B. Terapia com laser. C. Ressecção da mucosa por via endoscópica. D. Colocação de stent por via endoscópica. NEOPLASIAS DE INTESTINO DELGADO EPIDEMIOLOGIA As malignidades do intestino delgado são relativamente raras e representam aproximadamente 3% de todos os cânceres do sistema digestório e menos de 0,5% de todos os cânceres nos EUA. Em 2019, havia uma estimativa de que 10.000 novos casos de cânceres do intestino delgado seriam diagnosticados, e esta doença é responsável por quase 1.400 mortes anualmente.1 Existem quatro subtipos histológicos principais, que compõem mais de 90% dos cânceres de intestino delgado: carcinoide, adenocarcinoma, linfoma e tumores estromais gastrintestinais (GISTs). Nos últimos 15 a 20 anos, a incidência dos tumores do intestino delgado, e em particular dos tumores carcinoides, aumentou significativamente, em parte como resultado do aprimoramento das técnicas diagnósticas. A idade média por ocasião do diagnóstico dos tumores de intestino delgado é de 65 anos. Sarcomas e linfomas se manifestam um pouco maiscedo, na faixa dos 60 aos 62 anos, enquanto a idade média de aparecimento dos adenocarcinomas e tumores carcinoides é de 68 anos. Estes cânceres são discretamente mais comuns nos homens, em comparação às mulheres, e em afro-americanos, em comparação aos brancos. BIOPATOLOGIA Os adenocarcinomas tipicamente têm origem em adenomas, e o processo adenoma-carcinoma é impulsionado por alterações genéticas específicas. Originalmente acreditava-se que os eventos moleculares nos adenocarcinomas de intestino delgado eram semelhantes aos eventos bem estabelecidos do câncer colorretal. Entretanto, um estudo de associação genômica ampla (GWAS) recente do adenocarcinoma de intestino delgado e do câncer colorretal identificou diferenças genômicas bem-definidas entre estes dois cânceres.2 Mutações pontuais de HER2, instabilidade de microssatélites e alta carga mutacional tumoral foram, todas, enriquecidas no adenocarcinoma de intestino delgado, e foram detectadas mutações em PIK3CA e MEK1, possivelmente alvos moleculares. Os adenocarcinomas de intestino delgado constituem aproximadamente 37% de todos os tumores malignos de intestino delgado, e o duodeno é o local de apresentação mais comum no intestino delgado. A revisão histopatológica revela que a maioria destes adenocarcinomas é moderadamente ou bem diferenciada. Os carcinoides do intestino delgado (Capítulo 219), que são derivados de células enterocromafins nas criptas de Lieberkühn, representam até 44% dos cânceres com origem no intestino delgado. Eles são tipicamente cânceres bem diferenciados e, ao contrário dos adenocarcinomas, tendem a ocorrer na parte distal do íleo. Até 30% dos casos são multifocais. Outros tumores neuroendócrinos do intestino delgado menos comuns incluem gastrinomas e somatostatinomas (Capítulo 219). Os cânceres de pequenas células raramente ocorrem no intestino delgado. Aproximadamente 15% dos cânceres de intestino delgado são tumores malignos no tecido conjuntivo. Os GISTs, que são derivados das células de Cajal intestinais, são responsáveis por aproximadamente 85% dos tumores do tecido conjuntivo no intestino delgado (Figura 184.1). Os GISTs são encontrados mais comumente no duodeno e, em termos morfológicos, com frequência se assemelham aos sarcomas de tecidos moles (Figura 184.2). Entretanto, ao contrário dos sarcomas clássicos, os GISTs expressam a proteína c-Kit (CD117). Os sarcomas de tecidos moles, tais como os liomiossarcomas, são encontrados mais comumente no estômago e raramente no intestino delgado (Capítulo 192). FIGURA 184.1 Tumor estromal gastrintestinal de intestino delgado com ulcerações. FIGURA 184.2 Histopatologia do tumor estromal gastrintestinal (GIST). Os linfomas gastrintestinais (GI) primários representam a localização mais comum dos linfomas extralinfonodais; o segundo local mais comum no sistema digestório é o intestino delgado. Estes linfomas de intestino delgado são mais comumente do subtipo histopatológico não Hodgkin, e são responsáveis por aproximadamente 10% de todos os cânceres de intestino delgado. O íleo é a região mais comum destes linfomas GI extranodais, presumivelmente em virtude de esta região do intestino delgado ser rica em folículos linfoides submucosos. A natureza destes cânceres pode ser de grau baixo ou alto. Ainda que a sua origem seja mais comumente nas células B (ver Capítulo 176), podem surgir também a partir de linfócitos T precursores. O intestino delgado também pode atuar como um local metastático de cânceres sólidos avançados. A disseminação metastática pode ocorrer por meio da invasão direta, disseminação hematógena ou extensão de metástases peritoneais. Por exemplo, o intestino delgado é o local GI mais comum para o melanoma maligno metastático (Capítulo 193). Os cânceres ovariano (Capítulo 189), de mama (Capítulo 188), de pulmão (Capítulo 182) e outros cânceres GI (Capítulo 183) também podem se disseminar até o intestino delgado. Os tumores benignos que podem ter origem no intestino delgado incluem os adenomas, lipomas e liomiomas. Desmoides, hamartomas e hemangiomas são outros tumores benignos, mas são relativamente raros. Estes tumores benignos são encontrados habitualmente na parte distal do intestino delgado. Condições predisponentes A idade é um fator de risco importante para os cânceres de intestino delgado, assim como para o câncer colorretal. Estes cânceres ocorrem na população mais idosa, com idade média de 66 anos. Existe uma conexão bem documentada entre as condições inflamatórias crônicas da mucosa e o desenvolvimento de adenocarcinomas de intestino delgado e linfoma. A doença intestinal inflamatória (DII; Capítulo 132), em particular a doença de Crohn, está associada a aumento do risco de adenocarcinoma na região do intestino delgado envolvida. Conforme será descrito posteriormente neste capítulo, o risco de adenocarcinoma de intestino delgado aumenta com a extensão e a duração do envolvimento do intestino delgado. Pacientes com imunodeficiência crônica e distúrbios autoimunes, tais como doença celíaca (Capítulo 131), apresentam aumento do risco de desenvolvimento de adenocarcinomas de intestino delgado e linfoma de intestino delgado. Diversos estudos de controle de casos identificaram vários fatores alimentares, incluindo carne vermelha, alimentos em salmoura e defumados, açúcar refinado e álcool etílico, que estão associados a aumento do risco de adenocarcinomas de intestino delgado. Ainda que a exposição ao tabaco e a obesidade possam aumentar o risco de cânceres de intestino delgado, os dados sobre o possível papel destes dois fatores são conflitantes. Existem diversas síndromes de polipose familiar que estão associadas a neoplasias de intestino delgado. Assim como será descrito posteriormente neste capítulo, a síndrome de polipose adenomatosa familiar está associada a um risco de 100% de desenvolver câncer colorretal, e os pacientes com esta síndrome de câncer colorretal familiar apresentam um risco vitalício de 4 a 12% de desenvolver cânceres no duodeno ou na região periampular. O risco de câncer está relacionado ao número de pólipos e ao seu tamanho, ao tipo histológico e ao grau de displasia. O câncer de cólon hereditário não poliposo3 está associado a um risco vitalício de 80% de câncer colorretal, e existe um risco vitalício de 1 a 4% de câncer de intestino delgado, que representa um aumento de 100 vezes do risco, em comparação à população geral. Os cânceres de intestino delgado associados ao câncer colorretal hereditário não poliposo tendem a ser apresentados 10 a 20 anos antes do que a idade habitual ao início do câncer de intestino delgado. A síndrome de Peutz-Jeghers está associada a um risco vitalício de 57% de cânceres GI, sendo o câncer colorretal o tumor mais comum, seguido pelo adenocarcinoma de intestino delgado. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A maior parte dos tumores malignos de intestino delgado está associada a sintomas, enquanto os tumores benignos são tipicamente assintomáticos em até 50% dos pacientes. O sintoma mais comumente apresentado é a dor abdominal. Os pacientes também podem apresentar perda de peso, náuseas e vômitos, redução do apetite, fadiga, sangramento GI e sinais/sintomas relacionados à obstrução GI. Os tumores primários duodenais, e especialmente aqueles na região periampular, podem estar associados à icterícia obstrutiva. Os tumores carcinoides de intestino delgado normalmente são assintomáticos. Com a doença avançada e especialmente na presença de metástase hepática, eles secretam aminas bioativas que podem levar a sintomas tipicamente associados à síndrome carcinoide: ruborização, chiados, diarreia e insuficiência cardíaca direta (relacionada à fibrose vascular) (Capítulo 219). Os sintomas sistêmicos são mais frequentes com os tumores com origem no jejuno ou no íleo. Os pacientes com linfoma também podem apresentar evidências de linfadenopatia, hepatomegalia e obstrução intestinal (p. ex., distensão abdominal e hiperperistaltismo). Os linfomas GI também podem apresentar sintomas constitucionais, como febre,sudorese noturna e perda de peso. Os tumores benignos normalmente são achados incidentais, ainda que os tumores maiores possam ocasionalmente causar obstrução ou sangramento. DIAGNÓSTICO O diagnóstico do câncer de intestino delgado com frequência é tardio, em virtude de sua apresentação rara e inespecífica. A duração média dos sintomas antes da obtenção de um diagnóstico definitivo de câncer de intestino delgado pode variar de 8 a 10 meses. Nos pacientes com tumores de intestino delgado, o exame físico é tipicamente nada digno de nota, ainda que alguns pacientes desenvolvam massa palpável, distensão abdominal ou ascite. Os pacientes com um tumor duodenal primário podem apresentar icterícia escleral e icterícia resultante da obstrução biliar. Os achados laboratoriais podem incluir anemia ferropriva ou elevações em enzimas hepáticas (aspartato aminotransferase [AST], alanina aminotransferase [ALT], fosfatase alcalina). O nível sérico de bilirrubina pode estar elevado nos pacientes que apresentam metástases hepáticas ou obstrução biliar. No adenocarcinoma de intestino delgado, os níveis séricos do antígeno carcinoembrionário (CEA) podem estar elevados, em especial nos casos avançados, mas este marcador não é nem sensível, nem específico para o diagnóstico de rotina, tendo em vista que diversos tipos tumorais podem apresentar níveis elevados. Nos pacientes com tumores neuroendócrinos, níveis elevados de serotonina, cromogranina A, aminas bioativas específicas tumorais (p. ex., gastrina) ou ácido 5- hidroxi-indoleacético (5-HIAA) urinário são comumente observados. Exames de imagem são necessários tanto para o diagnóstico quanto para o estadiamento dos tumores do intestino delgado, mas não existe modalidade de imagem ideal.4 As técnicas de imagem padrão incluem séries GI altas (UGI) com acompanhamento do intestino delgado (SBFT), enteróclise, ultrassom (US) transabdominal, tomografia computadorizada (TC), ou ressonância magnética (RM). A enteróclise é um exame de imagem com contraste duplo, que é superior a UGI/SBFT, e apresenta maior sensibilidade para detectar tumores malignos do intestino delgado. Uma limitação importante da enteróclise é a incapacidade de detectar lesões planas. O exame de TC do abdome é a modalidade de imagem mais comumente utilizada na prática clínica diária, e esta modalidade de imagem é apropriada para o diagnóstico de tumores primários, bem como da doença metastática. A RM aparenta ser superior à TC, especialmente no que se refere à detecção de metástases hepáticas, bem como para a caracterização de sarcomas de tecidos moles. Os carcinoides e os tumores neuroendócrinos primários apresentam imagens melhores nos exames de cintilografia com octreotida indío-111 e/ou meta-iodobenzilguanidina (MIBG).5 Mais de 90% dos tumores carcinoides expressam receptores de somatostatina, e o exame com octreotida com o uso do traçador índio-111 apresenta alta sensibilidade (80 a 100%). Uma ampla variedade de cânceres de intestino delgado, incluindo os adenocarcinomas, linfomas e GISTs, podem demonstrar absorção em um exame de tomografia com emissão de pósitrons (PET). Entretanto, o PET não é útil para o diagnóstico de tumores carcinoides, tendo em vista que eles tipicamente não apresentam avidez por FDG. A endoscopia com cápsula de vídeo utiliza um dispositivo endoscópico sem fio para a visualização de todo o intestino delgado. As indicações primárias para a endoscopia com cápsula de vídeo são avaliar o sangramento GI de uma fonte desconhecida e possível doença de Crohn. Em aproximadamente 2 a 3% dos pacientes que são submetidos à endoscopia com cápsula para o sangramento GI, é observado um tumor. A endoscopia com cápsula também pode avaliar o intestino delgado nos pacientes que apresentam polipose adenomatosa familiar e síndrome de Peutz-Jeghers, mas a sua utilidade clínica como exame de rastreamento de rotina nos referidos pacientes não é conhecida. Técnicas de enteroscopia profunda facilitam a intubação do intestino delgado com o uso de endoscópios longos. O intestino delgado pode ser examinado pela via anterógrada (a partir da boca) ou retrógrada (a partir do cólon), desta maneira possibilitando o exame direto da maior parte do intestino delgado. Este métodos são mais invasivos do que a endoscopia com cápsula, mas apresentam possíveis vantagens para a biopsia tecidual, a polipectomia imediata e o controle direto do sangramento. Vigilância Em pacientes que apresentam quaisquer das diversas síndromes do câncer de cólon familiar (incluindo polipose adenomatosa familiar, câncer colorretal hereditário não poliposo e síndrome de Peutz-Jeghers), é necessária a vigilância regular do intestino delgado. Os pacientes com polipose adenomatosa familiar também devem ser submetidos à esofagogastroduodenoscopia de rastreamento regular como parte de seus exames diagnósticos iniciais, com repetição em intervalos de 1 a 5 anos, dependendo da presença e do grau da polipose duodenal. Os pacientes que apresentam câncer colorretal hereditário não poliposo também exibem aumento do risco de carcinomas do intestino delgado, os quais, de fato, podem ser a primeira manifestação da sua doença. O câncer de intestino delgado associado ao câncer colorretal hereditário não poliposo manifesta-se tipicamente em uma idade mais jovem (mediana, 39 anos), e o duodeno é o local de doença mais comum (aproximadamente 50% dos casos). O rastreamento deve ser considerado com início aos 30 anos. Os pacientes que apresentam adenomas de intestino delgado esporádicos e os pacientes que apresentam tumores carcinoides devem ser submetidos a colonoscopia, tendo em vista o seu risco mais alto de neoplasia colônica. Atualmente, não existem diretrizes específicas para a vigilância de rotina dos pacientes com carcinomas de intestino delgado ressecados. Estadiamento O estadiamento dos tumores de intestino delgado varia de acordo com a sua histologia. Os adenocarcinomas, GISTs e cânceres neuroendócrinos são estadiados com o uso de classificações específicas no sistema TNM do American Joint Committee on Cancer (AJCC). Os linfomas não Hodgkin (LNH) (Capítulo 176) são estadiados de acordo com um sistema de Ann Arbor modificado, utilizado originalmente para o estadiamento da doença de Hodgkin (Capítulo 177). TRATAMENTO A remoção cirúrgica em geral é o tratamento de escolha preferido para os tumores de intestino delgado localizados, com a extensão da ressecção cirúrgica dependente da histologia e da localização do tumor.6 No caso de adenocarcinomas nas primeiras duas partes do duodeno, habitualmente é necessário realizar pancreaticoduodenectomia extensiva, enquanto os carcinomas de intestino delgado exigem ressecção segmentar ou local ampla do tumor e dos linfonodos regionais. A ressecção em blocos é recomendada para os tumores endócrinos de grau baixo, incluindo os linfonodos regionais. Por outro lado, os GISTs não necessitam de linfadenectomia, a menos que os linfonodos sejam macroscopicamente anormais no momento da cirurgia. A cirurgia não é, geral, uma abordagem de tratamento primária para os linfomas, mas pode ser considerada para os linfomas em estágio baixo, e também pode ser necessária para tratar complicações como obstrução ou perfuração. Os tumores benignos do intestino delgado (como os lipomas incidentais) podem ser simplesmente observados. Adenomas pequenos podem ser removidos (polipectomia) por via endoscópica, mas os adenomas vilosos periampulares podem exigir pancreaticoduodenectomia (Vídeo 184.1). Terapia adjuvante O papel da terapia adjuvante depende do tipo específico de câncer do intestino delgado. Os tumores benignos completamente ressecados não necessitam de terapia adicional. Os adenocarcinomas de intestino delgado em geral são tratados de modo semelhante ao câncer colorretal, e a recomendação habitual é administrar 6 meses de quimioterapia sistêmica à base de fluoropirimidina para os pacientes com envolvimento de linfonodos. Os cânceres neuroendócrinos moderadamente diferenciados e completamente ressecados não necessitamde terapia adjuvante. Para os GISTs de risco alto, imatinibe pós-operatório reduz a recidiva, e 3 anos de tratamento melhoram a sobrevida, em comparação a 1 ano de tratamento, especialmente nos pacientes com determinadas deleções de Kit do éxon 11, bem como deleções que envolvem os códons 557 ou 558 do éxon 11. A quimioterapia sistêmica pós-operatória é recomendada para ambos os linfomas de grau baixo e alto (Capítulo 176). Para outros sarcomas de tecidos moles, a terapia adjuvante não apresenta um papel definitivo após a ressecção cirúrgica. Doença metastática Os carcinomas de intestino delgado metastáticos normalmente são tratados com regimes quimioterápicos sistêmicos sabidamente efetivos contra o câncer colorretal, mas nenhum dado favorece qualquer tratamento específico. Quando os pacientes com GISTs metastáticos são tratados com imatinibe, a sobrevida mediana é de aproximadamente 4 anos, com uma taxa de sobrevida em 10 anos estimada de aproximadamente 20%.A1 Se os pacientes desenvolverem resistência ao imatinibe, sunitinibe e/ou regorafenibe podem ser tratamentos de segunda linha efetivos.A2 Para os carcinoides metastáticos que não são cirurgicamente ressecáveis, análogos à somatostatina, tais como octreotida e lanreotida, são as principais opções de tratamento, mas agentes como fluoruracila, estreptozocina e doxorrubicina têm sido utilizados com uma atividade clínica modesta (Tabela 169.4). PROGNÓSTICO O prognóstico geral para os cânceres de intestino delgado depende do subtipo patológico específico. Para os carcinomas de intestino delgado, a sobrevida em 5 anos é de 50 a 85% para os pacientes em estágios I a III, mas de somente 5% para o estágio IV. O local do tumor também é um determinante importante do prognóstico, com as taxas de sobrevida sendo mais desfavoráveis para os tumores duodenais primários, em comparação aos tumores primários ileais ou jejunais. Outros fatores associados a um prognóstico desfavorável incluem pouca diferenciação, envolvimento de linfonodos, metástases a distância e invasão linfovascular. Os carcinoides (Capítulo 219) são tipicamente indolentes e as taxas de sobrevida em 5 anos variam entre 50 e 95%, dependendo do estágio da doença. O prognóstico dos GISTs de intestino delgado depende do local do tumor (tumores distais apresentam um prognóstico mais desfavorável), do tamanho e da atividade mitótica, bem como da adequação da ressecção cirúrgica. Entretanto, as taxas de sobrevida em 5 anos são de aproximadamente 80% com a terapia com imatinibe, até mesmo quando a ressecção cirúrgica completa não é possível. Para os linfomas de intestino delgado, a taxa de sobrevida em 5 anos é superior a 60%, mas varia de acordo com o subtipo histológico. NEOPLASIAS DE INTESTINO GROSSO Nos EUA, o câncer colorretal é o terceiro câncer mais comum, com uma incidência anual de aproximadamente 135.000.7 Ele também é a segunda causa líder de morte por câncer, com quase 50.000 mortes a cada ano. Mundialmente, uma estimativa de 1,2 milhão de casos novos de câncer colorretal são diagnosticados a cada ano, e aproximadamente 600.000 pacientes morrem em virtude do mesmo. No indivíduo médio, o risco vitalício de desenvolvimento de câncer colorretal é alto, de aproximadamente 1 em 20. EPIDEMIOLOGIA Aproximadamente 75% dos cânceres de intestino grosso têm origem na parte proximal do cólon. O câncer colorretal é mais comum em idosos, com uma idade mediana de aproximadamente 73 anos, mas cerca de 10% dos casos ocorrem em pacientes com menos de 50 anos. A incidência geral e a taxa de mortalidade do câncer colorretal declinaram significativamente ao longo das últimas 2 décadas, especialmente para os pacientes com mais de 50 anos. Entretanto, a incidência do câncer colorretal em adultos com menos de 50 anos aumentou em mais de 20% desde 2000, com aquela elevação direcionada por tumores na parte distal do cólon e no reto. A incidência geral do câncer de cólon do lado esquerdo ou na parte distal diminuiu, provavelmente graças ao rastreamento da parte distal do intestino grosso, mas a incidência do câncer de cólon do lado direito ou da parte proximal tem aumentado de maneira estável nos EUA. O câncer colorretal é mais comum nos homens do que nas mulheres, e os homens o desenvolvem, em média, quando têm 5 a 10 anos a menos do que as mulheres. A taxa de mortalidade em virtude do câncer colorretal também é 25% mais alta nos homens. De todos os grupos étnicos nos EUA, os afro-americanos apresentam as mais altas taxas de câncer colorretal, e a sua doença ocorre em média 5 a 10 anos antes do que nos pacientes brancos, com uma frequência especialmente aumentada em indivíduos com menos de 50 anos. A taxa de mortalidade associada ao câncer colorretal é 20% mais alta na população afro-americana do que em brancos. BIOPATOLOGIA Os adenocarcinomas representam mais de 90% dos cânceres colorretais. Outros subtipos histológicos relativamente raros incluem os cânceres neuroendócrinos, carcinomas epidermoides, hamartomas, linfomas e sarcomas (incluindo os GISTs). Também são observados tumores compostos, mais comumente adenocarcinomas com características neuroendócrinas. Os adenocarcinomas colorretais têm origem a partir do epitélio glandular colunar da mucosa. Aproximadamente 20% dos adenocarcinomas não produzem mucina, e os cânceres mucinosos tendem a se desenvolver no lado direito do cólon, onde estão associados a um prognóstico geral mais desfavorável do que os subtipos não mucinosos. O subtipo do carcinoma medular, que é caracterizado por grandes células eosinofílicas, apresenta substancial infiltração de linfócitos infiltrantes tumorais. Estes tumores exibem um grau alto de instabilidade de microssatélites, tendo em vista que apresentam deficiência em uma ou mais das proteínas de reparo de incompatibilidades. Os carcinomas medulares surgem mais comumente do lado direito do cólon, são observados em mulheres mais idosas e apresentam menos probabilidade de disseminação em linfonodos. Em geral, o subtipo medular apresenta um prognóstico relativamente favorável. O câncer em anel de sinete é caracterizado por numerosas células tumorais únicas, com deslocamento nuclear pela mucina intracitoplasmática. Os tumores em anel de sinete são agressivos na sua apresentação clínica e estão associados a um prognóstico mais desfavorável. Os cânceres neuroendócrinos incluem os tumores carcinoides (Capítulo 219) e os carcinomas de pequenas células. Os tumores carcinoides, que são as segundas neoplasias colorretais mais comuns após os adenocarcinomas, são mais comuns em não brancos e estão associados a um prognóstico favorável. Na parte distal do intestino, os carcinoides raramente são inativos em termos hormonais. Os cânceres neuroendócrinos pouco diferenciados, tais como o carcinoma de pequenas células verdadeiro, são os mais agressivos, comumente apresentam metástases hepáticas e outras a distância e apresentam um prognóstico geral desfavorável. Contrariamente aos carcinoides, entretanto, os cânceres neuroendócrinos pouco diferenciados são mais responsivos, ao menos inicialmente, à quimioterapia sistêmica. Os carcinomas epidermoides são, habitualmente, do subtipo de células escamosas. Eles tendem a ser mais comuns nas mulheres e em pacientes hispânicos. Mais de 90% dos carcinomas epidermoides estão localizados no reto, e são, de modo geral, moderadamente a pouco diferenciados. Os linfomas primários de intestino grosso representam cerca de 10 a 20% de todos os linfomas GI, mas menos de 1% de todos os cânceres colorretais. O ceco é o local mais comum, e eles são mais comuns nos homens e em idosos. A maioria destes linfomas do intestino grosso tem origem nas células B. Os sarcomas do intestino delgado são relativamente raros, e a maioria é de liomiossarcomas (Capítulo 192). Esses tumores ocorrem comumente no reto, onde habitualmente são localizados por ocasião do diagnóstico, independentemente do seu grau. Os GISTs e os sarcomas de Kaposi (Capítulo 366) ocorrem no intestino grosso. Fatores de risco Para o câncer colorretalesporádico, que representa 80 a 85% dos casos, os fatores de risco incluem idade mais avançada, sexo masculino, ancestralidade afro-americana, história familiar, doença intestinal inflamatória, obesidade, diabetes melito e resistência à insulina, consumo de tabaco e etilismo. O consumo de carne vermelha ou alimentos processados e a redução da ingestão de fibras, vegetais folhosos verdes e frutas também contribuem para o risco de câncer colorretal. Determinados elementos da microbiota intestinal, incluindo bactérias (Streptococcus bovis, Fusobacterium e diversas cepas de E. coli) e vírus (papilomavírus humano), são fatores de risco. Os fatores associados a redução do risco de câncer colorretal incluem maior atividade física e prática de exercícios físicos; maior ingestão alimentar de fibras, frutas e vegetais; uso regular de ácido acetilsalicílico (AAS) e anti- inflamatórios não esteroides (AINEs) e suplementação de ácido fólico, cálcio e vitamina D. A idade é o fator de risco mais forte para o câncer colorretal esporádico, com o risco aumentando a partir dos 50 anos. A história familiar é importante, até mesmo na ausência de síndromes de câncer de cólon familiar definidas. Se um parente de primeiro grau apresentar câncer colorretal, o risco de uma pessoa de desenvolver um câncer colorretal é 2 a 3 vezes mais alto, com o risco aumentando para 5 ou 6 vezes quando dois parentes em primeiro grau apresentam um câncer colorretal. Até mesmo se um parente em primeiro apresentar um adenoma, o risco de câncer colorretal aumenta em 2 vezes. Os pacientes com história pregressa de colite ulcerativa ou doença de Crohn (Capítulo 132) correm risco 60% mais alto de câncer colorretal,7b em comparação à população geral, e o risco está relacionado à extensão e à duração do envolvimento do intestino grosso. Síndromes de câncer colorretal familiar Diversas síndromes familiares bem definidas estão associadas a aumento do risco de câncer colorretal. Estas síndromes incluem o câncer colorretal hereditário não poliposo (CCHNP), a síndrome de Muir-Tore, a polipose adenomatosa familiar, a síndrome de Gardner, a síndrome de Turcot, a polipose associada a MUTYH, a síndrome de Peutz-Jeghers e a polipose juvenil (Tabela 184.1). Tabela 184.1 Características gerais das síndromes de câncer colorretal hereditárias. SÍNDROME HISTOLOGIA DO PÓLIPO DISTRIBUIÇÃO DO PÓLIPO IDADE DE INÍCIO RISCO DE CÂNCER DE CÓLON LESÃO GENÉTICA Polipose adenomatosa familiar Adenoma Intestino grosso, duodeno 16 anos (variação, 8 a 34 anos) 100% 5q (gene APC) Síndrome de Peutz- Jeghers Hamartoma Intestino grosso e delgado Primeira década Discretamente superior à média 19p (STK11) Polipose associada a Adenoma Intestino grosso, 45 a 50 anos 75% (variação, 50 a 100%) 1p (gene MUTYH) MUTYH duodeno (variação, 13 a 60 anos) Polipose juvenil Hamartoma (raramente adenoma) Intestino grosso e delgado Primeira década ≈ 9% PTEN, SMAD4, BMPR1 Câncer de cólon hereditário não poliposo Adenoma Intestino grosso 40 anos (variação, 18 a 65 anos) 30% Genes de reparo de incompatibilidades* *Incluindo hMSH2, hMSH3, hMSH6 e hPMS2. MVA = malformação arteriovenosa; HCEPR = hipertrofia congênita do epitélio pigmentado retiniano. A HCEPR, também conhecida como síndrome de Lynch, é a síndrome de câncer colorretal hereditária mais comum, sendo responsável por aproximadamente 2% de todos os casos de cânceres colorretais. A causa é a mutação de linhagem germinativa de perda de função, altamente penetrante, dominante autossômica, em genes (MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2) que reparam incompatibilidades de pares de bases do DNA que ocorrem durante a replicação do DNA. Os critérios de Amsterdam definem a HCEPR: (1) um câncer associado à HCEPR (câncer colorretal ou cânceres de estômago, intestino delgado, pelve renal, ureter ou endométrio) foi diagnosticado em três ou mais parentes, um dos quais é um parente em primeiro grau dos outros dois, na ausência de polipose adenomatosa familiar; (2) o câncer colorretal se desenvolveu em no mínimo duas gerações sucessivas; e (3) um ou mais familiares foram diagnosticados antes dos 50 anos, com um sendo um parente em primeiro grau dos outros dois. Os critérios de Bethesda revisados definem a HCEPR quando: (1) o câncer colorretal é diagnosticado em um paciente com menos de 50 anos; (2) um câncer colorretal síncrono ou metácrono ou outros tumores associados à síndrome e Lynch são diagnosticados, independentemente da idade; (3) o câncer colorretal apresenta um alto grau de instabilidade de microssatélites em um paciente com menos de 60 anos; (4) um câncer colorretal é diagnosticado em um ou mais parentes em primeiro grau com um câncer da síndrome de Lynch, com um dos cânceres diagnosticados a uma idade inferior aos 50 anos; (5) um câncer colorretal é diagnosticado em dois ou mais parentes em primeiro grau ou segundo grau com um câncer da síndrome de Lynch, independentemente da idade. A idade mediana em relação ao diagnóstico de HCEPR é na metade da quinta década de vida, o que é 25 a 30 anos mais cedo do que a idade da apresentação do câncer colorretal esporádico. Ainda que os pacientes possam apresentar diversos adenomas, não é observada a polipose difusa característica da polipose adenomatosa familiar. É comum haver tumores síncronos e metácronos. Os cânceres de cólon associados ao CCHNP apresentam predominância do lado direito (antes da flexura esplênica). Estes cânceres com frequência são pouco diferenciados, mas em geral apresentam um prognóstico mais favorável do que os cânceres colorretais esporádicos típicos. Os pacientes com CCHNP também apresentam um risco mais alto de outros tumores sólidos, especialmente de carcinoma endometrial, bem como de cânceres de ovário (ver Capítulo 189), estômago (ver Capítulo 183), intestino delgado, pâncreas (ver Capítulo 185), trato hepatobiliar (ver Capítulo 186) e ureter (ver Capítulo 187). A síndrome de Muir-Torre é uma síndrome dominante autossômica rara, que é um subtipo do CCHNP. Assim como com o CCHNP, a síndrome de Muir-Torre tem origem em mutações nos genes de reparo de incompatibilidades de DNA (hMLH1, hMSH2 e MSH6), e os pacientes apresentam câncer colorretal, cânceres do sistema geniturinário e lesões cutâneas, incluindo ceratoacantomas e tumores sebáceos. A polipose adenomatosa familiar, que é uma condição dominante autossômica com penetrância incompleta, é o resultado de mutação no gene da polipose adenomatosa de cólon (APC). Os pacientes apresentam centenas a milhares de pólipos adenomatosos (Figura 184.3), que ocorrem de maneira relativamente uniforme e que surgem, habitualmente, no início da segunda década de vida. De modo geral, os sinais/sintomas GI se desenvolvem na terceira ou na quarta década, e quase todo paciente não tratado desenvolve câncer colorretal aproximadamente aos 40 anos. Adenomas de intestino delgado, geralmente no duodeno, são observados em 45 a 90% dos casos, e ocorre desenvolvimento de câncer duodenal periampular em aproximadamente 10% dos pacientes. Os pacientes com uma forma atenuada da polipose adenomatosa familiar apresentam menos de 100 adenomas colônicos, com predominância no cólon direito, e desenvolvem câncer colorretal aproximadamente 10 anos mais tarde. FIGURA 184.3 Cólon ressecado de um paciente com polipose adenomatosa familiar. A síndrome de Gardner, que é um subtipo da polipose adenomatosa familiar e que também é causada por mutações no gene APC, é caracterizada por características clínicas extraintestinais, incluindo tumores de tecidos moles (incluindo lipomas, cistos sebáceos e fibrossarcomas), dentição supranumerária, tumores desmoides, osteomas (particularmente submandibulares), fibromatose mesentérica e hipertrofia congênita do epitélio pigmentado retiniano. A síndrome de Gardner e a polipose adenomatosa familiar diferem em virtude de variações na localização da mutação de APC, nos genes modificadores e nos fatores ambientais. Entretanto, os pólipos adenomatosos na síndrome de Gardner e na polipose adenomatosa familiar apresentamum potencial maligno semelhante, de modo que as recomendações sobre o rastreamento e o tratamento também são semelhantes. A síndrome de Turcot é a combinação da polipose colorretal, do câncer colorretal e da malignidade do sistema nervoso central. As mutações no gene APC causam dois terços dos casos, enquanto o outro terço resulta das mesmas mutações nos genes de reparo de incompatibilidades do DNA que são observadas no CCHNP. As malignidades do sistema nervoso central incluem meduloblastomas, glioblastomas e ependimomas. A polipose associada a MUTYH, que é uma síndrome recessiva autossômica, é causada por mutações no gene MUTYH (também denominado MYH [homólogo de mutY]). Os defeitos de base no reparo da excisão de bases, bem como as mutações adquiridas no gene APC e em outros genes (p. ex., KRAS) levam à polipose colônica e a um aumento do risco de desenvolvimento de câncer colorretal. Aproximadamente 0,4 a 0,7% dos pacientes que desenvolvem câncer colorretal apresentam mutação de MUTYH homozigota. O fenótipo é semelhante ao da polipose adenomatosa familiar atenuada. Os pacientes apresentam até centenas de adenomas por todo o cólon, e também pode apresentar múltiplos pólipos hiperplásicos, bem como adenomas serrilhados. Em comparação à polipose adenomatosa familiar, os cânceres colorretais da polipose associada ao MUTYH mais provavelmente estão do lado direito, com idade média ao início de 45 a 50 anos. As características extracolônicas incluem pólipos gastroduodenais, carcinoma duodenal, câncer de mama, câncer ovariano, câncer de bexiga, câncer de pele, osteomas, e hipertrofia congênita do epitélio pigmentado retiniano. A síndrome de Peutz-Jeghers é uma síndrome dominante autossômica rara, porém altamente penetrante, causada por mutação no gene da serino-treoninoquinase (STK11), localizado no cromossomo 19p. Quase todos os pacientes apresentam manchas de melanina características em seus lábios, mucosa bucal e pele. A idade média ao diagnóstico ocorre na terceira década. A síndrome é caracterizada por pólipos hamartomatosos benignos predominantemente no intestino delgado, estômago e cólon, ocasionalmente acompanhados por pólipos adenomatosos e hiperplásicos. As manifestações mais comuns são intussuscepção de intestino delgado, obstrução e sangramento GI. Quase 50% dos pacientes desenvolvem malignidade aproximadamente aos 65 anos, mais comumente em intestino delgado, estômago, cólon, pâncreas, testículos, mamas, ovário, colo do útero ou útero. Como o exame genético não está amplamente disponível, parentes em primeiro grau devem ser rastreados anualmente a partir do nascimento, com observação especial em relação a manchas melanóticas, puberdade precoce e tumores testiculares. A polipose juvenil familiar (não neoplásica, hamartomatosa) é uma síndrome rara (< 1 em 100.000 nascimentos), na qual os pacientes desenvolvem 10 ou mais pólipos hamartomatosos e não neoplásicos (histologicamente distintos daqueles observados na síndrome de Peutz-Jeghers) por todo o seu sistema digestório. A causa é mutação dominante autossômica altamente penetrante no gene SMAD4, PTEN ou BMPR1A. Os sintomas e sinais incluem dor abdominal, sangramento retal, obstrução intestinal e anemia no início da adolescência. Também são observadas malformações arteriovenosas pulmonares. O risco de malignidade pode ser tão alto quanto 20%, com idade mediana de 37 anos. Pólipos de cólon Um pólipo é a massa de células epiteliais visível macroscopicamente, que se projeta a partir da superfície da mucosa intestinal até o interior do seu lúmen. Um pólipo pode ser plano, séssil ou pedunculado (anexado por uma haste). Os pólipos podem ser não neoplásicos ou neoplásicos (adenomatosos). Geralmente são assintomáticos, mas ocasionalmente provocam sangramento, prolapso ou obstrução. Os pólipos não neoplásicos não são pré-malignos, mas os pólipos neoplásicos podem se tornar um câncer verdadeiro. PÓLIPOS NÃO NEOPLÁSICOS Aproximadamente 50% de todos os pólipos de intestino grosso em indivíduos de risco médio com mais de 50 anos são pólipos não neoplásicos (não adenomatosos). Os pólipos não adenomatosos podem ser hiperplásicos, inflamatórios, linfoides ou juvenis. Os pólipos hiperplásicos normalmente são causados pela maturação anormal das células epiteliais da mucosa. Os pólipos hiperplásicos em geral são pequenos e na maior parte observados na parte distal do cólon sigmoide e no reto. Os pólipos hiperplásicos não são pré-malignos. Os pacientes com doença intestinal inflamatória (Capítulo 132) com frequência apresentam pseudopólipos inflamatórios, que podem ser diferenciados dos pólipos neoplásicos somente por meio de uma biopsia. Os pólipos linfoides contêm tecido linfoide intramucoso exagerado. Os pólipos juvenis são malformações hamartomatosas focais, que são causadas pelo desenvolvimento anormal da lâmina própria e normalmente são observados no reto de crianças jovens. Necessitam de tratamento somente se forem sintomáticos (p. ex., obstrução, sangramento grave). PÓLIPOS ADENOMATOSOS Os pólipos crônicos adenomatosos (adenomas) são tumores glandulares benignos, com um potencial maligno. Ao exame patológico, podem apresentar displasia de grau baixo ou alto. Os pólipos adenomatosos apresentam uma distribuição anatômica semelhante ao adenocarcinoma colorretal, podem variar em tamanho e podem ser sésseis, planos ou pedunculados. Evidências contundentes indicam que são lesões precursoras do adenocarcinoma colorretal. Além disso, o rastreamento, a detecção precoce e a remoção dos pólipos adenomatosos reduzem substancialmente o risco de um câncer colorretal subsequente. EPIDEMIOLOGIA Os pólipos adenomatosos são relativamente comuns e se tornam mais comuns com a idade: mais de 15% das mulheres saudáveis e mais de 25% dos homens saudáveis com mais de 50 anos apresentam adenomas. A prevalência dos adenomas tende a ser mais alta nos países do Ocidente e em quaisquer locais onde o câncer colorretal é mais comum. Além dos riscos genéticos definidos observados anteriormente nas síndromes de câncer colorretal familiar, atém mesmo os adenomas esporádicos apresentam uma agregação familiar; por exemplo, se um parente em primeiro grau positivo apresenta um pólipo adenomatoso, o risco do indivíduo aumenta. Nos EUA, afro-americanos correm um risco mais alto, em relação aos brancos de ascendência europeia, cujo risco, por sua vez, é semelhante ao de indivíduos asiáticos e hispânicos. BIOPATOLOGIA As células epiteliais do intestino grosso são submetidas a uma autorrenovação contínua, com renovação completa a cada 3 a 8 dias. Os pólipos adenomatosos são causados pela aquisição específica da sequência de mutações que favorecem a proliferação celular em vez da morte celular. As células indiferenciadas se acumulam na superfície luminal, continuam a se dividir e finalmente formam massa tecidual adenomatosa. Os adenomas podem ser tubulares, vilosos ou tubulovilosos. A maior parte dos adenomas (70 a 85%) removidos à colonoscopia são tubulares; eles são tipicamente pequenos, pedunculados e compostos por glândulas displásicas que se dividem e se ramificam a partir da superfície mucosa. Os adenomas tubulares raramente apresentam displasia de grau alto ou carcinoma in situ. Comparativamente, os adenomas vilosos (< 5% de todos os adenomas) em geral são grandes, sésseis e compostos por epitélio displásico, que se projeta para o interior do lúmen intestinal. Os adenomas vilosos com frequência apresentam displasia de grau alto ou até mesmo carcinoma in situ. Os adenomas tubulovilosos (10 a 25% de todos os adenomas) incluem ambos os componentes tubular e viloso. Um adenoma é considerado “avançado” se ele tiver um tamanho de no mínimo 1 cm ou apresentar histologia vilosa ou displasia de grau alto. Os pacientes que apresentam adenomas avançados ou três ou mais adenomas exibem um risco muito mais alto de desenvolver um câncer colorretal síncrono ou metácrono. Em um paciente que apresenta um primeiro adenoma documentado, o risco de um adenoma adicional é de 30 a 50%. MANIFESTAÇÕESCLÍNICAS A maior parte dos pólipos adenomatosos é assintomática e descoberta por rastreamento colorretal. Alguns pacientes, entretanto, podem apresentar pesquisa de sangue oculto nas fezes positiva e assintomática, ou evidências óbvias de sangramento GI baixo. Menos de 5% de todos os adenomas acabam se tornando carcinomas: 1 a 3% dos pólipos com menos de 1 cm, 10% dos pólipos entre 1 e 2 cm, e 40% dos pólipos com mais de 2 cm. Todos os adenomas contêm alguma displasia, e a displasia de grau mais alto implica um risco de aproximadamente 30% de sofrer transformação maligna. DIAGNÓSTICO O câncer colônico e retal pode ser diagnosticado por meio de diversos métodos, incluindo endoscopia, radiografia com bário, ou colografia com TC (colonoscopia virtual). A colonoscopia é o método preferido, em virtude de sua alta acurácia e da capacidade de biopsiar e remover a maior parte dos pólipos imediatamente. Contudo, a colonoscopia pode não detectar 6 a 12% dos pólipos grandes (≥ 1 cm) e 5% dos cânceres. Comparativamente, os enemas de bário não detectam aproximadamente 50% dos pólipos com mais de 1 cm. A colografia com TC é sensível para a detecção de pólipos grandes (> 1 cm) (> 85%) e para a detecção de cânceres (95%), mas muito menos sensível e específica para pólipos com menos de 1 cm. Ainda que a colografia com TC seja não invasiva e relativamente rápida, ainda requer o preparo intestinal e expõe o paciente à radiação ionizante. Deve-se observar que as neoplasias colorretais sem pólipos (planas e deprimidas), que mais provavelmente são lesões carcinomatosas do que poliposas, são observadas à colonoscopia em quase 10% dos adultos assintomáticos e sintomáticos, mas são muito menos provavelmente diagnosticadas por meio de radiografia com bário ou TC. A retossigmoidoscopia flexível, que pode ser utilizada para fins de rastreamento de indivíduos assintomáticos de risco médio, detecta somente 50 a 60% de todos os pólipos e cânceres. Os pacientes com pólipos detectados por meio de radiografia com bário, colografia com TC ou retossigmoidoscopia flexível devem ser submetidos à colonoscopia para a remoção da lesão e para a busca de pólipos ou lesões expansivas adicionais. Quando os pacientes com pólipos descobertos por meio de retossigmoidoscopia flexível também são submetidos à colonoscopia subsequente, a incidência do câncer colorretal pode ser reduzida em aproximadamente 80%. Esta necessidade de colonoscopia subsequente explica a atratividade da sua utilização como a modalidade de rastreamento inicial. PÓLIPOS SERRILHADOS Os adenomas serrilhados sésseis, que são uma lesão neoplásica recentemente reconhecida, com predominância no cólon direito e potencial maligno no mínimo tão alto quanto dos carcinomas convencionais,8 apresentam um padrão de crescimento das criptas desorganizado e distorcido. Como são sésseis ou planos, podem ser difíceis de observar à endoscopia. A sua patogênese ocorre por meio da hipermetilação de ilhotas de CpG (“CIMP-alto”) e do gene de reparo de incompatibilidades MLH1, quando existem mutações de BRAF. Como resultado, os pólipos serrilhados exibem um alto grau de instabilidade de microssatélites. Os adenomas serrilhados tradicionais são raros e histologicamente distintos dos adenomas serrilhados sésseis. Eles comumente exibem displasia de grau alto e, muitas vezes, carcinoma in situ. O exame dos pacientes à procura de CCHNP pode ocorrer por meio do exame do tumor para a instabilidade de microssatélites e da coloração para os produtos proteicos dos genes de reparo de incompatibilidades (MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2). O rastreamento positivo não diagnostica definitivamente o CCHNP, tendo em vista que até 15% dos cânceres colorretais esporádicos podem apresentar estas características. O exame de linhagens germinativas do sangue periférico em geral é o preferido, mas a saliva ou um swab bucal também podem ser examinados para confirmar a presença de mutações em um dos genes de reparo de incompatibilidades e para a obtenção do diagnóstico definitivo de CCHNP. TRATAMENTO Os pólipos neoplásicos devem ser removidos pela via endoscópica para reduzir o risco de um câncer colorretal subsequente. Um adenoma pedunculado normalmente pode ser removido intacto por meio de polipectomia com laçada (Vídeo 184.2), enquanto os pólipos sésseis podem necessitar de ressecção com laçada fragmentada. A avaliação patológica deve avaliar a presença ou a ausência de um câncer; se for identificado um tecido maligno, ele deve ser avaliado em relação ao seu grau histológico, à disseminação vascular e linfática e às margens livres de adenoma. Os fatores histopatológicos desfavoráveis que necessitam de ressecção cirúrgica imediata após a polipectomia endoscópica incluem a histologia pouco diferenciada, invasão vascular, invasão linfática e ressecção incompleta.9 Os pólipos pedunculados malignos podem ser tratados com a ressecção endoscópica isoladamente, se o câncer estiver confinado à submucosa e se não estiverem presentes características histológicas desfavoráveis. Quando um pólipo séssil maligno é removido pela via endoscópica, o possível risco de recidiva ou o envolvimento de linfonodos devem ser ponderados em face dos riscos da cirurgia definitiva em cada paciente individual. PROGNÓSTICO Os pacientes que foram submetidos à remoção endoscópica de um pólipo adenomatoso ou denteado séssil diagnosticado anteriormente apresentam aumento do risco de subsequente desenvolvimento de adenomas e câncer colorretal. A vigilância pós-ressecção recomendada depende das lesões primárias, do tamanho e da histologia, bem como do número de adenomas (Tabela 184.2).9b Se um paciente de risco baixo apresentar somente 1 ou 2 pequenos adenomas tubulares, a colonoscopia de vigilância pode ser adiada por 5 a 10 anos. Comparativamente, os pacientes que apresentam múltiplos adenomas (> 2), adenomas grandes (≥ 1 cm), adenomas com histologia vilosa ou de grau alto ou numerosos adenomas (> 10) devem ser submetidos à colonoscopia de repetição dentro de 3 anos. Após a remoção de um adenoma grande (≥ 2 cm) ou a ressecção fragmentada de qualquer adenoma, a colonoscopia deve ser repetida após 6 meses para determinar se a ressecção original foi completa. Para os pólipos serrilhados sésseis com menos de 10 mm sem displasia, a colonoscopia de vigilância é recomendada aos 5 anos, mas o intervalo recomendado é de 3 anos se o pólipo denteado tiver apresentado displasia de grau alto ou se tratava-se de um adenoma denteado tradicional (Vídeo 184.3). Adenocarcinoma de cólon e reto BIOPATOLOGIA O câncer colorretal é causado por um processo multietapas, quando múltiplas alterações genéticas ocorrem ao longo do tempo (Figura 184.4) em uma ou mais de três vias: instabilidade cromossômica, instabilidade de microssatélites e fenótipo metilador de ilhotas de CpG. A via da instabilidade cromossômica, que é responsável por até 70% dos casos de câncer colorretal esporádico, está mais comumente relacionada a mutações no gene APC (gene supressor tumoral) e no gene KRAS (proto-oncogene que regula a transdução de sintais mitogênicos entre as membranas celulares). Na polipose adenomatosa familiar, as mutações de linhagens germinativas no APC são o resultado da instabilidade cromossômica que leva à aneuploidia (desequilíbrio no número de cromossomos), amplificações genômicas e perda da heterozigosidade (as células apresentam apenas um alelo no gene, em virtude • • da perda de cromossomos individuais durante a mitose). Diversas outras mutações genéticas levam ao câncer colorretal, incluindo o gene do câncer de cólon (MCC) (um gene supressor tumoral), p53 (um importante regulador do ciclo celular), VEGF, MYC, MET, LYN e PTEN. Muitos dos eventos mutacionais apresentam defeitos downstream na via de sinalização de Wnt. A via da instabilidade de microssatélites é o resultado de defeitos no reparo de incompatibilidades do DNA. Os microssatélites, que são curtas sequências de nucleotídios repetidos, são propensos a erros, em virtude da sua natureza repetitiva. Os tumores comaltas instabilidades de microssatélites são causados por defeitos na função dos genes de reparo de incompatibilidades, especialmente MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2. As mutações em linhagens germinativas nestes genes causam o CCHNP (síndrome de Lynch), mas o silenciamento de MLH1 pela hipermetilação é o mecanismo molecular de base mais comum dos defeitos no reparo de incompatibilidades no câncer colorretal esporádico. Os tumores com altas instabilidades em microssatélites, que são mais comuns nas mulheres e no lado direito do cólon, com frequência são pouco diferenciados e estão associados a uma infiltração linfocítica. Quando os pacientes apresentam doença em estágio II, os cânceres de cólon com altas instabilidades de microssatélites estão associados à melhora da sobrevida. Tabela 184.2 Intervalos de vigilância da colonoscopia. ACHADO MAIS AVANÇADO INTERVALO Nenhum pólipo ou pólipos hiperplásicos pequenos (< 10 mm) 10 anos 1 a 2 adenomas, < 1 cm 5 a 10 anos 3 a 10 adenomas ou adenoma com características vilosas, ≥ 1 cm, ou com displasia de grau alto 3 anos > 10 adenomas < 3 anos Adenoma séssil ≥ 2 cm, excisão fragmentada 2 a 6 meses Lesões denteadas: < 10 mm, nenhuma displasia 5 anos ≥ 10 mm ou displasia 3 anos FIGURA 184.4 A base molecular do câncer colorretal. Resultado das alterações genéticas de sequências específicas na transição do epitélio do intestino grosso normal até o câncer invasivo. FAC = focos aberrantes em criptas; BAX = proteínas relacionadas à apoptose; CCR = câncer colorretal; CCHNP = câncer colorretal hereditário não poliposo; IIR = receptor do tipo II; PDH = perda de heterozigosidade; RIM = reparo de incompatibilidades de mutações; MSI = instabilidade de microssatélites; TGF-β = fator transformador de crescimento β. Na via do fenótipo de metilador de ilhotas de CpG, a hipermetilação das regiões promotoras do DNA silencia os genes supressores tumorais, levando, desta maneira, à carcinogênese. No câncer colorretal, os genes hipermetilados incluem APC, MCC, MLH1 e MGMT. Os tumores com fenótipo com altos metiladores de ilhotas de CpG com frequência apresentam mutações de BRAF, são pouco diferenciados, exibem morfologia mucinosa ou em anel de sinete e altas instabilidades de microssatélites. O precursor provavelmente é um adenoma denteado séssil. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os pacientes com câncer de cólon em estágio inicial são tipicamente assintomáticos, e o câncer é, em geral, descoberto no rastreamento de rotina. Se houver sintomas, isto ocorre quando o tumor cresce para o lúmen ou quando o tumor invade as estruturas anatômicas adjacentes. Os sinais/sintomas comuns relacionados ao câncer colorretal incluem dor abdominal baixa, alteração na função intestinal, sangramento GI (Capítulo 126), anemia e alterações no calibre das fezes. Os pacientes podem apresentar anorexia, perda de peso e fadiga, e as metástases hepáticas podem ser manifestadas por hepatomegalia, icterícia, distensão abdominal ou ascite. Os sinais/sintomas dependem do local primário (Figura 184.5). As lesões proximais mais frequentemente se manifestam como anemia ferropriva (Capítulo 150) resultante da perda de sangue oculto. O câncer colorretal na parte distal do cólon provoca tipicamente alteração nos hábitos intestinais, como constipação intestinal ou diarreia, e hematoquezia. Os tumores com origem no reto provocam habitualmente alterações do calibre das fezes, sangramento retal e dor retal. Em alguns casos, quando o tumor retal envolve o plexo dos nervos sacrais, o paciente sente dor neuropática significativa. DIAGNÓSTICO A anamnese, o exame físico e a avaliação radiológica cuidadosos são importantes para a obtenção do diagnóstico. O paciente deve ser indagado a respeito de ocorrência anterior de pólipos adenomatosos ou câncer colorretal, história pregressa de doença intestinal inflamatória e história familiar de câncer colorretal ou de outros tumores sólidos. Ao exame físico, podem ser observadas lesões extraintestinais características da síndrome de Peutz- Jeghers ou síndrome de Gardner. A doença metastática em fígado ou linfonodos pode ser sugerida por hepatoesplenomegalia ou linfadenopatia, e distensão abdominal ou ascite podem refletir o envolvimento peritoneal. O toque retal pode revelar massa na região retal distal ou a disseminação do tumor para a “prateleira” retal ou a pelve. O exame das fezes revela sangue franco ou oculto em até 80% dos casos avançados. A anemia ferropriva e a elevação de enzimas hepáticas (AST, ALT e fosfatase alcalina) e da bilirrubina sérica podem auxiliar no diagnóstico. Os níveis de marcadores tumorais (CEA e CA19-9) no sangue periférico podem estar elevados, mas estes marcadores séricos são relativamente insensíveis e podem estar elevados em outros tumores sólidos. FIGURA 184.5 Locais de desenvolvimento de adenocarcinoma de intestino grosso. As abordagens para a obtenção do diagnóstico definitivo do câncer colorretal são semelhantes àquelas utilizadas para detectar pólipos adenomatosos. A colonoscopia é considerada o padrão para todos os pacientes com sangue oculto nas fezes, anemia ferropriva inexplicada ou sintomas e sinais que sugiram um câncer colorretal (Figura 184.6). Para o câncer retal, a ultrassonografia endoscópica (que combina ultrassonografia de alta frequência com a videoendoscopia) é superior à TC para o estadiamento do tumor, ao determinar com acurácia o grau de invasão, bem como detectar e coletar amostras de quaisquer linfonodos aumentados. Este procedimento também é altamente sensível para detectar o câncer retal recidivante após ressecção baixa anterior. A RM também pode realizar o estadiamento do câncer retal com acurácia e pode ser preferível ao ultrassom endoscópico. Diretrizes de consenso recomendam TCs de tórax, abdome e pelve, tendo em vista que metástases hepáticas avançadas ou o tumor que envolve estes outros locais com frequência impedem a ressecção cirúrgica imediata do tumor primário. PET, que pode confirmar a doença sistêmica, é útil antes da ressecção de um local metastático solitário e em pacientes que apresentam elevação de CEA ou novos sintomas sugestivos de doença progressiva, apesar da ausência de alterações na TC. PET também pode ser utilizada para avaliar lesões anormais observadas à TC. Entretanto, a PET não tem papel específico na avaliação de rotina de pacientes com câncer colorretal. Radiografias de tórax simples não são suficientemente sensíveis para detectar a presença de lesões metastáticas em pulmões, e as radiografias de abdome simples são úteis somente para auxiliar no diagnóstico de obstrução intestinal. A análise histopatológica é crítica para a obtenção do diagnóstico de câncer colorretal. Estudos adicionais para avaliar a expressão imuno-histoquímica de determinadas proteínas celulares importantes podem ser úteis para identificar adenocarcinomas com origem no câncer colorretal. Por exemplo, a citoqueratina 20 (CK20) e o homeobox do tipo caudal 2 (CDX2) são dois dos marcadores mais sensíveis e específicos utilizados para auxiliar no diagnóstico do câncer colorretal. A imuno-histoquímica também pode ser útil para a obtenção do diagnóstico de defeitos no reparo de incompatibilidades por meio do teste em relação à expressão proteica dos quatro genes MMR principais: MLH1, MSH2, PMS2 e MSH6. Estadiamento O estadiamento acurado é crítico para a determinação do prognóstico e do tratamento. Ao contrário de outros tumores sólidos, o câncer colorretal não é estadiado de acordo com suas dimensões, mas sim por meio do sistema de classificação de tumor, linfonodo e metástase (TNM), com base em exame físico, radiografia, endoscopia, cirurgia e estágio histopatológico: os cânceres em estágio I penetram a parede intestinal, mas não a atravessam (T1-2N0 M0); os cânceres em estágio II penetram e atravessam a parede intestinal e podem envolver os órgãos próximos, mas não se disseminam até os linfonodos regionais; os cânceres em estágio III envolvem os linfonodos regionais (Figura 184.7); e a doença em estágio IV se disseminaaté fígado, pulmão, linfonodos e peritônio. Nos EUA, aproximadamente 50% dos pacientes apresentam doença em estágio I ou II, 30% apresentam a doença em estágio III, 20% apresentam a doença avançada e metastática. Até 40 a 50% dos pacientes que inicialmente exibem doença em estágio inicial apresentarão uma recidiva com envolvimento metastático. Em geral, os tumores primários com origem no cólon seguem uma disseminação ordenada até os linfonodos regionais, em seguida até o fígado, e então até os pulmões e outros locais distantes. Contrariamente, em virtude da drenagem venosa dupla do reto para a veia porta e a veia cava inferior, os tumores retais primários podem se disseminar por meio da disseminação hematógena até os pulmões antes que ocorra qualquer envolvimento do fígado. PREVENÇÃO Rastreamento O papel do rastreamento é reduzir a taxa de mortalidade relacionada ao câncer colorretal por meio da remoção de quaisquer adenomas precursores e detecção de cânceres verdadeiros em um estágio mais precoce e mais curável. Para os indivíduos de risco médio, a latência relativamente longa entre o desenvolvimento do adenoma e o desenvolvimento do câncer é da ordem de 8 a 12 anos, desta maneira tornando o câncer colorretal uma doença altamente prevenível com o uso da colonoscopia com polipectomia. Para o câncer colorretal esporádico, a idade é o principal fator de risco; por este motivo, a maior parte dos pacientes deve iniciar o rastreamento aos 45 anos. A ampla variedade de opções para os indivíduos de risco médio (Tabela 184.3) pode ser dividida em duas categorias distintas: exames fecais à procura de sangue oculto ou DNA anormal; e exames estruturais, que incluem colonoscopia, retossigmoidoscopia flexível, colografia com TC e clister opaco duplo, utilizados isoladamente ou em combinação.10,11,11b Em um estudo clínico randomizado de adultos assintomáticos de 50 a 69 anos, a colonoscopia isolada e o exame imuno-histoquímico fecal foram igualmente efetivos na identificação do câncer colorretal, embora um número maior de adenomas tenha sido identificado por meio da colonoscopia (Capítulo 125). As atuais diretrizes de sociedades profissionais reconhecem múltiplas opções de rastreamento, mas recomendam exames estruturais que possam tanto detectar quanto prevenir o câncer colorretal. Por exemplo, o American College of Physicians recomenda o rastreamento de adultos de risco médio em relação ao câncer colorretal com início aos 50 anos e, em indivíduos de risco alto, com início aos 40 anos (ou 10 anos antes da idade em que o parente mais jovem foi diagnosticado com câncer colorretal). A colonoscopia, a retossigmoidoscopia flexível ou um exame fecal são recomendados nos pacientes de risco médio, mas a retossigmoidoscopia flexível ou colonoscopia é recomendada em pacientes de risco alto. A recomendação geral é descontinuar o rastreamento do câncer colorretal em indivíduos com mais de 75 anos, ou que tenham uma expectativa de vida inferior a 10 anos. • • FIGURA 184.6 Aspecto de adenocarcinomas de intestino grosso à colonoscopia. A. Crescimento exofítico no lúmen intestinal. B. Lesão com estreitamento em caráter de “maçã mordida”. Tabela 184.3 Métodos de rastreamento em relação ao câncer colorretal.* EXAME INTERVALO EXAMES QUE DETECTAM PÓLIPOS ADENOMATOSOS OU CÂNCER Colonoscopia A cada 10 anos Retossigmoidoscopia flexível† A cada 5 anos Colografia com TC† A cada 5 anos Clister opaco duplo† A cada 5 anos EXAMES QUE DETECTAM O CÂNCER PRIMARIAMENTE† Pesquisa de sangue oculto nas fezes Pesquisa de sangue oculto nas fezes com base em guáiaco de alta sensibilidade Anualmente Exame imuno-histoquímico fecal Anualmente DNA fecal Intervalo incerto *Com início aos 50 anos para os indivíduos de risco médio. †O exame positivo deve motivar a colonoscopia total. TC = tomografia computadorizada. Os pacientes com colite ulcerativa (Capítulo 132) apresentam 10 a 20 vezes mais probabilidade de desenvolver um câncer colorretal do que a população em geral, com uma incidência cumulativa em 25 anos de aproximadamente 12%. O risco é até mesmo mais alto nos pacientes que apresentam tanto colangite esclerosante primária (Capítulo 146) quanto colite ulcerativa. Se a doença de Crohn (Capítulo 132) envolver mais de um terço do cólon, o risco de câncer colorretal aumenta em 6 a 8 vezes. Os pacientes com colite ulcerativa ou doença de Crohn extensiva devem realizar uma colonoscopia de rastreamento a cada 1 a 2 anos, com início 8 a 10 anos após a doença ser diagnosticada pela primeira vez. O principal objetivo é identificar a presença de displasia. A displasia de grau baixo multifocal ou qualquer displasia que não possa ser excisada pela via endoscópica é uma indicação para a colectomia. Na polipose adenomatosa familiar, a mutação do gene APC é identificada em até 85% dos indivíduos afetados e é útil para o rastreamento. As pesquisas de sangue oculto nas fezes, sejam à base de guáiaco ou imuno-histoquímicos, detectam a hemoglobina dos tumores com sangramento. As sensibilidades dos exames à base de guáiaco para a detectar o câncer colorretal variam de 35 a 80%. O exame de guáiaco deve ser realizado em duas amostras de cada uma de três defecações consecutivas dos indivíduos instruídos a evitar AAS, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), vitamina C e carne vermelha, frango e peixe por 2 dias antes do exame. Em estudos clínicos randomizados, o exame à base de guáiaco diminui a taxa de mortalidade por câncer colorretal em 15 a 33%, com o benefício para a mortalidade persistindo por 30 anos. Os exames à base de imuno-histoquímica, que apresentam sensibilidades e especificidades mais altas do que os exames de guáiaco, são realizados de maneira semelhante ao exame de guáiaco tradicional, mas não requerem quaisquer restrições alimentares e necessitam de somente uma amostra fecal. Como resultado da melhor adesão, os exames imuno-histoquímicos identificam 2,5 vezes mais adenomas avançados e cânceres colorretais do que os exames à base de guáiaco e, atualmente, são os exames preferidos para pesquisa de sangue oculto. A pesquisa de sangue oculto nas fezes deve ser repetida anualmente, e qualquer exame positivo justifica a realização de colonoscopia. A justificativa para os exames de DNA fecal é que tanto os adenomas quanto os carcinomas contêm DNA alterado, que é continuadamente eliminado nas fezes. Estes exames de DNA fecal contêm um painel desenhado para detectar marcadores do DNA esfoliados, incluindo mutação de KRAS, NDRG4 aberrante e metilação de BMP3, e beta-actina. O exame de DNA fecal identifica até aproximadamente 90% dos pacientes com câncer colorretal e 40% dos pacientes com adenomas avançados. Em um estudo clínico randomizado, a sensibilidade do exame de DNA fecal com multialvos moleculares foi de 92% com o exame do DNA fecal, em comparação a 74% com o exame imuno-histoquímico fecal, e a sensibilidade para detectar lesões pré-cancerosas avançadas e pólipos com displasia de grau alto também foi significativamente mais alta com o exame de DNA fecal.A3 Entretanto, o exame de DNA fecal é mais dispendioso e está associado a uma taxa mais alta de falso-positivos. O intervalo de rastreamento ideal para o exame de DNA fecal não foi claramente definido. A retossigmoidoscopia flexível (Capítulo 125) é um procedimento endoscópico que examina o reto e a parte distal do cólon até a flexura esplênica. Ela é realizada com preparo intestinal mínimo, não exige sedação e pode ser realizada no consultório do proctologista. Este procedimento detecta os cânceres distais ou pólipos com a mesma acurácia que a colonoscopia. Se um adenoma for observado à retossigmoidoscopia, a colonoscopia é necessária, tendo em vista o alto risco de pólipos síncronos ou câncer na parte mais proximal do cólon. Em um estudo clínico randomizado, o rastreamento com retossigmoidoscopia flexível (com colonoscopia subsequente, conforme indicado) reduziu a incidência do câncer colorretal tanto distal quanto proximal em aproximadamente 30%, com diminuição significativade 50% da taxa de mortalidade do câncer colorretal distal. Em um recente estudo clínico randomizado, a retossigmoidoscopia flexível, realizada uma vez entre os 55 e os 64 anos, reduziu a incidência do câncer colorretal em 28% e a mortalidade em 27%.A4 Em uma análise agrupada de estudos clínicos randomizados, a retossigmoidoscopia comprovou ser efetiva para o rastreamento do câncer colorretal em homens e mulheres mais jovens, e reduz a taxa de mortalidade por câncer colorretal em homens mais jovens e idosos e em mulheres com menos de 60 anos.A5 Por outro lado, o benefício da retossigmoidoscopia em oportunidade única foi menor e não estatisticamente significativo para mulheres com mais de 60 anos. A colonoscopia possibilita a visualização completa do cólon e a remoção de quaisquer pólipos visualizados. Como tal, a colonoscopia é tanto diagnóstica quanto preventiva. Nos EUA, este procedimento é realizado por médicos especificamente treinados em um paciente sedado após preparo intestinal por via oral. A colonoscopia com fins de rastreamento encontra câncer em aproximadamente 1% dos pacientes, adenoma avançado (tamanho > 10 mm, histologia vilosa ou displasia de grau alto) em 5 a 10%, e 1 ou mais adenomas em no mínimo 20% dos pacientes. A principal taxa de complicação é inferior a 5%, com mais da metade das referidas complicações relacionadas à polipectomia. O National Polyp Study, que acompanhou os pacientes após uma polipectomia colonoscópica, relatou uma incidência 76 a 90% mais baixa de câncer colorretal, em comparação a três populações de referência.12 Nos pacientes cujos adenomas são detectados e removidos por meio de colonoscopia, o risco subsequente de morte em virtude de câncer colorretal é 50% mais baixo do que seria esperado de outro modo, com a maior parte do benefício atribuível à remoção dos adenomas de risco baixo. O risco mais elevado de câncer colorretal subsequente é o de pacientes cujos adenomas removidos tinham 20 mm de diâmetro ou mais ou apresentavam grau alto de displasia.12b,12c O benefício da colonoscopia é maior se for realizada por um gastroenterologista experiente, quando o ceco é intubado (indicando um exame completo), e quando ela é realizada por um médico que remove mais pólipos por exame. Se a colonoscopia de rastreamento inicial for completamente normal, o rastreamento seguinte pode ser adiado por 10 anos. A repetição do rastreamento é preconizada mais frequentemente para pacientes com achados positivos (Tabela 184.3A).12d Tabela 184.3A Vigilância recomendada para adenomas encontrados na colonoscopia. PRIMEIRA COLONOSCOPIA PRIMEIRA VIGILÂNCIA ACHADO NA PRIMEIRA VIGILÂNCIA PRÓXIMA VIGILÂNCIA RECOMENDADA 1 a 2 adenomas tubulares pequenos* 7 a 10 anos Colonoscopia normal 1 a 2 adenomas tubulares pequenos* 3 a 4 adenomas tubulares pequenos* 5 adenomas tubulares pequenos*, qualquer adenoma grande+, adenoma tubuloviloso ou viloso ou adenoma com displasia de alto grau 10 anos 7 a 10 anos 3 a 5 anos 3 anos 3 a 4 adenomas tubulares pequenos* 3 a 5 anos Colonoscopia normal 1 a 2 adenomas tubulares pequenos* 3 a 4 adenomas tubulares pequenos* 5 adenomas tubulares pequenos*, qualquer adenoma grande+, adenoma tubuloviloso ou viloso ou adenoma com displasia de alto grau 10 anos 7 a 10 anos 3 a 5 anos 3 anos 5 adenomas tubulares pequenos*, qualquer adenoma grande+, adenoma tubuloviloso ou viloso ou adenoma com displasia de alto grau 3 anos Colonoscopia normal 1 a 2 adenomas tubulares pequenos* 3 a 4 adenomas tubulares pequenos* 5 adenomas tubulares pequenos*, qualquer adenoma grande+, adenoma tubuloviloso ou viloso ou adenoma com displasia de alto grau 5 anos 5 anos 3 a 5 anos 3 anos *pequeno: <10 mm. †grande: ≥10 mm. Adaptado de Gupta S, Lieberman D, Anderson JC, et al. Recommendations for follow-up after colonoscopy and polypectomy: a consensus update by the US multi-society task for on colorectal cancer. Gastroenterology. 2020;158:1131-1153. O clister opaco duplo (Capítulo 124) consegue avaliar a superfície da mucosa de todo o cólon. Este exame apresenta sensibilidade de 85 a 97% para a detecção de cânceres colorretais, mas de apenas 48 a 73% para a detecção de grandes adenomas. Ele raramente é recomendado para o rastreamento de rotina, tendo em vista a sua baixa sensibilidade e o risco pequeno, ainda que real, da radiação ionizante. A colonografia com TC (colonoscopia virtual) obtém imagens bidimensionais e tridimensionais de todo o cólon por TC com multidetectores (Capítulo 124). Um tubo retal é utilizado para infundir gás e distender o intestino para a obtenção de imagens melhores. A sensibilidade é de 85 a 92% para grandes pólipos (≥ 10 mm), com especificidade de 83 a 89%, e de aproximadamente 65% para pólipos de 5 mm ou mais. A sua sensibilidade de 96% para o câncer colorretal é semelhante à da colonoscopia. Tendo em vista que a colonografia com TC é menos sensível que a colonoscopia para a detecção de lesões com menos de 10 mm e substancialmente menos sensível para a detecção de pólipos serrilhados sésseis de risco alto,13 em geral a colonoscopia permanece o procedimento de rastreamento preferido. O rastreamento por colografia com TC, se for instituído, deve ter início aos 50 anos e repetido a cada 5 anos. A descoberta de um pólipo com mais de 5 mm exige a realização de colonoscopia. Estadiamento O estadiamento acurado é crítico para a determinação do prognóstico e do tratamento. Ao contrário de outros tumores sólidos, o câncer colorretal não é estadiado de acordo com suas dimensões, mas sim por meio do sistema de classificação de tumor, linfonodo e metástase (TNM), com base em exame físico, radiografia, endoscopia, cirurgia e estágio histopatológico: os cânceres em estágio I penetram a parede intestinal, mas não a atravessam (T1-2N0 M0); os cânceres em estágio II penetram e atravessam a parede intestinal e podem envolver os órgãos próximos, mas não se disseminam até os linfonodos regionais; os cânceres em estágio III envolvem os linfonodos regionais (Figura 184.7); e a doença em estágio IV se dissemina até fígado, pulmão, linfonodos e peritônio. Nos EUA, aproximadamente 50% dos pacientes apresentam doença em estágio I ou II, 30% apresentam a doença em estágio III, 20% apresentam a doença avançada e metastática. Até 40 a 50% dos pacientes que inicialmente exibem doença em estágio inicial apresentarão uma recidiva com envolvimento metastático. Em geral, os tumores primários com origem no cólon seguem uma disseminação ordenada até os linfonodos regionais, em seguida até o fígado, e então até os pulmões e outros locais distantes. Contrariamente, em virtude da drenagem venosa dupla do reto para a veia porta e a veia cava inferior, os tumores retais primários podem se disseminar por meio da disseminação hematógena até os pulmões antes que ocorra qualquer envolvimento do fígado. Quimioprevenção Os AINEsA6 e o ácido acetilsalicílicoA7,A7b reduzem a formação e inibem o desenvolvimento do câncer de cólon ao inibir a ciclo-oxigenase (COX) e a subsequente geração de prostaglandinas. Nos pacientes com polipose adenomatosa familiar, sulindaco (150 mg/dia) e celecoxibe podem causar a regressão dos adenomas existentes e inibir a formação de novos adenomas. Em estudos epidemiológicos, usuários regulares de AINEs correm risco mais baixo de desenvolver um câncer colorretal. Em estudos clínicos randomizados, o AAS também reduziu a recorrência de adenomas em até 20 a 40%, com dados agrupados sugerindo redução de até 70% na incidência do câncer colorretal quando no mínimo 75 mg de AAS são administrados por 5 anos ou mais. Com um acompanhamento mediano de 10 anos, o Women’s Health Study conduzido nos EUA demonstrou redução de 42% na incidência do câncer colorretal, principalmente em virtude de redução do câncer de cólon proximal; entretanto, não foi observado um efeito prolongado sobre as mortes por câncer ou a incidência de pólipos, e a suplementação de ácido acetilsalicílico foi associada a incidência mais alta de eventos adversos, incluindo úlcera péptica e sangramentoGI. A suplementação de cálcio diminui a taxa de adenomas metacrônicos em 20%,14 e a ingestão de cálcio total (> 1.400 versus < 600 mg/dia) está associada a risco significativamente mais baixo de câncer de cólon. Estudos de observação sugerem que níveis mais altos de 25-hidroxivitamina D3 (25[OH]D) estão associados a redução do risco de câncer colorretal, e também melhorou a sobrevida após o seu diagnóstico. Em pacientes com câncer de cólon em estágio III, a suplementação de vitamina D adjuvante está associada a melhora significativa na sobrevida livre de recidivas e na sobrevida em geral.15 Atualmente, AAS, AINEs ou cálcio não são recomendados de modo rotineiro para prevenir o câncer colorretal, mas podem ser considerados individualmente. Prevenção alimentar Estudos epidemiológicos identificaram correlação do câncer colorretal com dietas com alto teor de gorduras e baixo teor de fibras, vegetais folhosos verdes e frutas; inatividade física; tabagismo; e consumo excessivo de álcool.16 Relatos também sugerem que o aumento do consumo de peixes reduz a incidência do câncer colorretal e que a suplementação com o ácido graxo ômega-3 ácido eicosapentaenoico pode diminuir a carga de pólipos na polipose adenomatosa familiar. Entretanto, três estudos clínicos randomizados de alterações alimentares modestas (10% menos gorduras, 25 a 75% mais fibras, 50% mais frutas e vegetais) não reduziram a incidência de adenomas ou câncer colorretal ao longo de 3 a 8 anos de acompanhamento. É possível que seja necessária modificação alimentar prolongada para efetuar alterações significativas nos eventos moleculares que medeiam o desenvolvimento de adenomas e/ou câncer colorretal. TRATAMENTO Cirurgia A ressecção cirúrgica é o tratamento primário para o câncer de cólon em estágio inicial, localmente confinado. Pacientes altamente selecionados, com doença metastática limitada ao local, também podem ser submetidos à cirurgia com intenção curativa. A cirurgia curativa tem por objetivo remover o tumor primário com margens livres de tumor, bem como remover o vaso arterial da alimentação primária e os vasos linfáticos correspondentes em bloco. Um mínimo de 12 linfonodos deve ser removido e examinado microscopicamente para o estadiamento acurado. Os cânceres de cólon sincrônicos podem ser removidos individualmente (colectomia subtotal). Quaisquer estruturas aderentes adjacentes devem ser ressecadas em bloco. A ooforectomia profilática não é recomendada, mas se um ovário estiver macroscopicamente envolvido, o outro também deve ser removido, em virtude do risco de envolvimento contralateral. A ressecção laparoscópica é tão segura e efetiva quanto a ressecção a céu aberto e seu tempo de recuperação é um pouco menor.A8 Para o câncer retal, uma consideração importante é tentar preservar a função do esfíncter anal. Para os cânceres distais, a recomendação é a excisão mesorretal total, com a remoção em bloco do envelope linfovascular e adiposo que circunda o reto. Para os tumores retais superiores, comparativamente, a excisão mesorretal específica do tumor (remoção em bloco do mesorreto 5 cm distal ao tumor) é suficiente. Para os cânceres retais baixos de risco mínimo (doença T1, tamanho < 3 cm, bem diferenciado, dentro de 8 cm da borda anal, sem invasão linfovascular, e menos de um terço da circunferência), a excisão transanal local é aceitável. No pós-operatório, é comum haver aumento da frequência intestinal, e alguns pacientes desenvolvem incontinência fecal ou disfunção da defecação (ver Capítulo 136). Portanto, o principal foco nos pacientes com câncer retal é preservar a função do esfíncter anal. Os tumores que causam obstrução devem ser imediatamente ressecados com reanastomose intestinal. O desvio proximal pode ser a única opção inicial para um câncer não ressecável avançado, com a ressecção futura seguida por fechamento da ostomia se o tumor primário responder até o ponto em que possa ser removido posteriormente. A inserção de stents por endoscopia algumas vezes alivia a obstrução aguda. A perfuração intestinal deve ser ressecada, com ou sem desvio antes da reanastomose. Nos pacientes que apresentam câncer colorretal síncrono e metástases não ressecáveis, um tumor primário assintomático pode ser tratado com segurança com a terapia clínica sistêmica, sem cirurgia, com baixa probabilidade de que complicações sérias exijam intervenção cirúrgica imediata. Radioterapia De modo geral, a radioterapia (RT) não é considerada para o câncer de cólon em estágio inicial cirurgicamente ressecado, nem para o câncer de cólon primário quando existe doença metastática. Um uso importante da RT é no manejo do câncer retal localmente avançado, e isto está descrito a seguir na seção Adenocarcinoma retal. Determinados cânceres colorretais de alto risco para a recidiva local da doença, como aqueles com tumores T4 com penetração em uma estrutura fixa, em especial na região pélvica, podem ser considerados para a RT pós-operatória. Entretanto, até o momento, não existem estudos clínicos randomizados para documentar o benefício da RT nesta condição. A RT paliativa também pode ser considerada para controlar os sinais/sintomas relacionados ao tumor quando o câncer de cólon metastático se dissemina para os ossos, o cérebro, o fígado e os pulmões. Existe um crescente interesse no uso da RT estereotáxica para os pacientes com câncer colorretal metastático com metástases hepáticas. As taxas de controle local em 1 e 2 anos são de aproximadamente 90%, com poucos relatos de toxicidade importante. Esta abordagem é uma alternativa razoável e segura para os pacientes que apresentam menos de 4 lesões metastáticas hepáticas e que não podem ser submetidos a uma cirurgia ou a quaisquer outras opções de tratamento. Terapias sistêmicas e de combinação O tratamento do câncer colorretal se baseia, tanto na doença adjuvante como na doença metastática, na fluoropirimidina 5-fluoruracila. Dois agentes fluoropirimidínicos orais são aprovados pela FDA para uso nos EUA: capecitabina e TAS-102. Embora a 5-fluoruracila apresente atividade modesta como agente único, a sua eficácia clínica pode ser intensificada pela infusão prolongada e pela coadministração com o folato reduzido leucovorina. Dois outros agentes citotóxicos comumente utilizados para tratar o câncer colorretal metastático são o irinotecano (um inibidor da topoisomerase I) e a oxaliplatina (um análogo à platina de terceira geração) (Tabela 169.4). Estão disponíveis agentes biológicos com alvo molecular na via de sinalização do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) (bevacizumabe, aflibercepte e ramucirumabe), na via do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) (cetuximabe e panitumumabe), e nas tirosinoquinases que estão envolvidas no crescimento celular, na proliferação, na angiogênese, na invasão e na metástase (regorafenibe). Os pacientes com câncer de cólon em estágio I ressecado apresentam taxa de cura extremamente alta, que se aproxima de 95%, com a cirurgia isoladamente, e não necessitam de terapia sistêmica adjuvante. Para os pacientes em estágio II, o risco de recidiva é mais alto (aproximadamente 25% em 3 anos), e o tratamento combinado com 5-fluoruracila e leucovorina proporciona benefício clínico modesto.17 Entretanto, os tumores em estágio II que expressam níveis altos de instabilidade de microssatélites apresentam um prognóstico melhor do que os tumores com doença com microssatélites estáveis, e a sobrevida nos referidos pacientes é mais desfavorável com o tratamento com 5-fluoruracila. Portanto, a quimioterapia adjuvante não é recomendada para a doença com alta instabilidade de microssatélites em estágio II. Para a doença em estágio II de risco alto (definido por obstrução, perfuração, invasão linfovascular, invasão perineural e menos de 12 linfonodos na amostra da ressecção cirúrgica), o benefício da quimioterapia adjuvante é semelhante ao observado para o câncer de cólon em estágio III. Os pacientes com doença em estágio II de risco alto devem receber 6 meses de terapiaadjuvante com quimioterapia de combinação que inclua 5- fluoruracila, leucovorina e oxaliplatina (FOLFOX) ou um esquema de combinação alternativo de capecitabina e oxaliplatina (XELOX/CAPOX). Tanto FOLFOX quanto XELOX/CAPOX prolongam significativamente a sobrevida sem doença e a sobrevida em geral, em comparação à monoterapia com fluoropirimidina. Alguns dados sugerem desfechos ainda melhores com protocolos FOLPOX ou CAPOX neoadjuvantes e radioterapia em comparação com terapia adjuvante pós-operatória para doença localmente avançada.A8b Para os pacientes que não conseguem tolerar a quimioterapia de combinação agressiva, a monoterapia com fluoropirimidina com infusão de 5-fluoruracila ou capecitabina oral é uma alternativa razoável. Nos pacientes com câncer de cólon em estágio III, as taxas de sobrevida da doença em 5 anos variam de 25 a 85%, dependendo do número de linfonodos positivos na amostra da ressecção cirúrgica. A recomendação habitual para os pacientes com doença em estágio III linfonodo-positiva é receber a terapia sistêmica adjuvante. Para os pacientes com um estado de desempenho favorável e sem comorbidades, o tratamento agressivo com o regime FOLFOX melhora significativamente as taxas de sobrevida a longo prazo e representa o tratamento padrão atual.A9 XELOX/CAPOX aparentam ser tão bons quanto FOLFOX em pacientes de todas as idades. Para os pacientes que não são candidatos para a quimioterapia citotóxica agressiva, a monoterapia com fluoropirimidina com infusão de 5-fluoruracila ou capecitabina oral é uma opção apropriada. Com base em diversos estudos, 3 meses de terapia adjuvante são tão favoráveis quanto 6 meses de terapia no caso de pacientes com risco mais baixo com doença T1 a 3 e somente 1 a 3 linfonodos positivos. Para os pacientes em estágio III com mais de 4 linfonodos, 6 meses de terapia adjuvante padrão proporcionam um benefício clínico maior do que 3 meses de terapia, ainda que ao custo mais alto de eventos adversos.A10 Adenocarcinoma retal O risco de recidiva local é muito maior para o câncer retal, de modo que a abordagem terapêutica para os pacientes com adenocarcinoma retal primário é distinta daquela para o câncer de cólon primário. Os pacientes com câncer retal necessitam de um estadiamento pré-operatório acurado com ultrassom retal endoscópico ou RM retal para definir com precisão o tamanho, a extensão e a profundidade da invasão do tumor retal, bem como o envolvimento de linfonodos. Para os pacientes com câncer retal em estágio I, a ressecção cirúrgica é suficiente, sem necessidade de tratamento adjuvante adicional com radiação ou quimioterapia. Entretanto, os pacientes de risco mais alto (doença T2, T1 com histologia pouco diferenciada, invasão perineural ou linfovascular, ou margens próximas) devem receber irradiação pélvica pós-operatória com ou sem quimioterapia com 5- fluoruracila. A RT é considerada a conduta padrão para os pacientes com adenocarcinomas retais em estágio II e localmente avançados em estágio III para diminuir as taxas de recaída local, melhorar a chance de preservação do esfíncter e, possivelmente, melhorar a sobrevida. A principais questões a serem consideradas estão relacionadas ao momento (pré-operatório ou pós-operatório) e à duração (breve ou longa), bem como sobre a sua combinação com quimioterapia à base de fluoropirimidina. A irradiação pré-operatória com ciclo breve de 5 dias sem quimioterapia, conforme praticada em determinados países na Europa, pode ser considerada quando a diminuição do tamanho do tumor não for necessária. Quando o ciclo breve de radiação for utilizado, a terapia sistêmica adjuvante pós- operatória é recomendada com uma fluoropirimidina isoladamente (estágio II) ou um regime de combinação de fluoropirimidina e oxaliplatina (doença linfonodo-positiva). Nos EUA, um ciclo de 6 semanas de radiação pré-operatória é a abordagem recomendada no câncer retal localmente avançado para possibilitar a ressecção cirúrgica, preservar a função do esfíncter anal e reduzir as toxicidades agudas e crônicas. A capecitabina oral pode ser substituída pela infusão de 5-fluoruracila no tratamento pré-operatório com modalidades combinadas do câncer retal em estágios II/III, para proporcionar o mesmo controle local e regional, a mesma sobrevida livre de doença e a mesma sobrevida em geral.A11 A adição do análogo à platina oxaliplatina a uma infusão de 5-fluoruracila ou à capecitabina oral não melhora a eficácia clínica e foi associada a uma incidência significativamente mais alta de diarreia. Embora a quimioterapia adjuvante seja habitualmente administrada após a ressecção cirúrgica, o esquema ideal para a doença em estágios II/III ainda precisa ser determinado. A monoterapia com fluoropirimidina (infusão de 5-fluoruracila ou capecitabina oral) é habitualmente recomendada se não houver evidências de envolvimento de linfonodos na amostra da ressecção cirúrgica e se houver diminuição significativa do estadiamento do tumor primário. Entretanto, se houver envolvimento linfonodal na amostra ressecada ou se houver poucas evidências de diminuição significativa do estadiamento do tumor, geralmente são recomendados esquemas quimioterápicos à base de oxaliplatina com FOLFOX ou XELOX/CAPOX. Câncer colorretal metastático O câncer colorretal metastático é tratado com a mesma abordagem, independentemente do local de origem (cólon versus reto).17b Os pacientes com doença metastática apresentam sobrevida mediana de aproximadamente 6 a 8 meses com os melhores cuidados de suporte isoladamente. Entretanto, ao longo dos últimos 20 anos, novas quimioterapias citotóxicas sistêmicas em combinação com diversos agentes biológicos (Capítulo 33) melhoraram a sobrevida em geral para 30 a 32 meses (e- Figura 184.1).18,19 No tratamento de primeira linha do câncer colorretal metastático, estudos clínicos randomizados demonstram que os esquemas quimioterápicos citotóxicos FOLFOX e FOLFIRI proporcionam sobrevida livre de progressão e sobrevida em geral virtualmente idênticas,A12 com sobrevida em geral mediana de quase 23 meses. É interessante observar que os resultados a longo prazo aparentam ser semelhantes, independentemente de qual fármaco (oxaliplatina ou irinotecano) é combinado primeiro com 5-fluoruracila. Entretanto, o padrão de toxicidade varia, dependendo de qual fármaco é administrado; o irinotecano está comumente associado a efeitos colaterais GI, enquanto o tratamento com oxaliplatina pode levar à neuropatia sensorial periférica. O câncer colorretal metastático atualmente está se tornando uma doença crônica, e a principal questão é assegurar que os pacientes sejam tratados em uma abordagem de cuidados contínuos, com exposição a todos os agentes ativos no arsenal terapêutico. E-FIGURA 184.1 Evolução da terapia sistêmica para o câncer colorretal metastático. Bev = bevacizumabe; Cmab = cetuximabe; FOLFIRI = 5-fluoruracila, ácido folínico (leucovorina), irinotecano; FOLFOX = 5-fluoruracila, leucovorina, oxaliplatina; 5-FU = 5- fluoruracila; IFL = irinotecano, 5-fluoruracila, leucovorina; Pmab = panitumumabe; RAS wt = RAS do tipo selvagem; SG = sobrevida geral. A adição do anticorpo anti-VEGF bevacizumabe ou do anticorpo anti-EGFR cituximabe à quimioterapia citotóxica, seja FOLFOX ou FOLFIRI, proporciona o mesmo nível de benefício clínico nos pacientes com câncer colorretal metastático com RAS do tipo selvagem – sobrevida livre de progressão mediana de 10,6 meses e sobrevida geral mediana de 30 meses. Entre os agentes anti- VEGF, bevacizumabe apresenta pouca atividade como agente único contra o câncer colorretal metastático, mas melhora significativamente a atividade clínica dos regimes à base de irinotecano (FOLFIRI) ou oxaliplatina (FOLFOX) e atualmente é o tratamento de primeira linha para os referidos pacientes. Se a doença progredir, o bevacizumabe pode ser continuado em combinação com a quimioterapia citotóxica de segunda linha. Aflibercepte mais FOLFIRI melhora a sobrevida, em comparação a FOLFIRI isoladamente, nos pacientes que progridem apesardo tratamento com oxaliplatina. Ramucirumabe é aprovado pela FDA para uso em combinação com FOLFIRI no tratamento de segunda linha do câncer colorretal metastático. Comparações entre estudos clínicos sugerem uma eficácia clínica equivalente entre bevacizumabe, aflibercepte e ramucirumabe, mas o aflibercepte é significativamente mais tóxico e o ramucirumabe é muito mais dispendioso do que o bevacizumabe. Cetuximabe e panitumumabe são os dois anticorpos monoclonais direcionados contra o receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR). Ambos os anticorpos apresentam atividade quase idêntica como agentes únicos contra o câncer colorretal metastático quimiorrefratário,A13 e ambos os agentes podem ser efetivamente combinados com a quimioterapia com FOLFIRI ou FOLFOX na condição do tratamento de primeira linha para melhorar as taxas de resposta em geral e da sobrevida livre de progressão. Entretanto, esses anticorpos anti-EGFR somente devem ser utilizados em pacientes cujos tumores albergam RAS do tipo selvagem e BRAF. Infelizmente, mesmo nos tumores com RAS do tipo selvagem, apenas aproximadamente 30% dos pacientes responderão à terapia anti-EGFR, desta maneira destacando a necessidade de identificar outros biomarcadores para predizer, com mais acurácia, a responsividade a estes anticorpos. Os pacientes com tumores primários do lado esquerdo apresentam sobrevida geral melhor do que aqueles com tumores primários do lado direito, independentemente do tipo de quimioterapia e do agente biológico. Os tumores do lado direito obtêm pouco benefício do cetuximabe, enquanto os tumores do lado esquerdo obtêm um benefício clínico significativamente maior do cetuximabe, em comparação ao bevacizumabe. Embora o bevacizumabe seja efetivo nos tumores do lado esquerdo e direito, a sua eficácia clínica também é muito maior nos tumores do lado esquerdo.20,21 Regorafenibe e a fluoropirimidina oral TAS-102 são aprovados pela FDA nos EUA para o tratamento do câncer colorretal metastático quimiorrefratário, com atividade clínica quase idêntica. Ainda que nenhum dos agentes apresente um impacto significativo sobre as taxas de resposta, ambos melhoram a sobrevida livre de progressão e a sobrevida em geral medianas nos pacientes com progressão da doença, apesar de múltiplos regimes de tratamento anteriores. Regorafenibe é um inibidor oral de determinadas importantes tirosinoquinases angiogênicas, estromais e oncogênicas. As suas toxicidades incluem fadiga e a síndrome mão-pé dermatológica, e reduções da dose e adiamentos no tratamento normalmente são indicados para reduzir ou prevenir o desenvolvimento de efeitos colaterais. TAS-102, que é uma combinação de trifluridina, um análogo à timidina citotóxico, e tipiracil, melhora significativamente a sobrevida em geral e a sobrevida livre de progressão medianas, em comparação aos melhores cuidados de suporte.A14 A sua principal toxicidade é a mielossupressão, com neutropenia grave em quase 40% dos pacientes e neutropenia febril de 4%. Em geral, o TAS-102 apresenta um perfil de segurança mais tratável, quando comparado ao regorafenibe, e não necessita de tantas reduções da dose ou adiamentos do tratamento. Sotorasibe é uma terapia experimental para tumores com a mutação KRAS P-G12C.21b A imunoterapia com um inibidor de ponto de controle imunológico contra morte programada (PD- 1) (pembrolizumabe ou nivolumabe) é benéfica para pacientes com câncer colorretal metastático com defeito do reparo e instabilidade de microssatélites, seja como opção de primeira linhaA14b ou para doença que evoluiu apesar do tratamento com um fluoropirimidina, oxaplatina e irinotecano.22 Estes anticorpos intensificam a resposta imune das células T, levando, assim, à ativação e à proliferação das células T. Tratamento localmente direcionado da doença metastática Para os pacientes selecionados com câncer colorretal metastático, a ressecção completa das metástases hepáticas ou pulmonares algumas vezes pode proporcionar a sobrevida a longo prazo e se tornou o padrão de tratamento.23 Para a metastasectomia hepática, as taxas de sobrevida em 5 anos encontram-se na variação de 30 a 50%, com cirurgia laparoscópica ou a céu abertoA14c mas recaídas posteriores sugerem que a sobrevida em 5 anos pode não ser um reflexo acurado da cura verdadeira. Nos pacientes inicialmente considerados portadores de doença metastática não ressecável cirurgicamente, a terapia sistêmica pré-operatória melhora as taxas de resposta. Para os pacientes com doença com RAS do tipo selvagem, por exemplo, a quimioterapia citotóxica com FOLFOX ou FOLFIRI em combinação com cetuximabe ou panitumumabe oferece a melhor chance de citorredução da doença hepática metastática e de ressecção cirúrgica de sucesso. Na condição do câncer colorretal metastático com RAS mutante, o anticorpo anti-VEGF bevacizumabe combinado com quimioterapia proporciona uma taxa de resposta objetiva que se aproxima de 70%, com uma ressecção cirúrgica de sucesso que se aproxima de 30%.24 Após os pacientes terem se recuperado do seu procedimento de metastasectomia, o que em geral demora de 4 a 5 semanas, normalmente são recomendados 6 meses de quimioterapia adjuvante com FOLFOX. A ablação por radiofrequência é um possível tratamento para os pacientes cujas metástases hepáticas são consideradas não ressecáveis cirurgicamente em virtude de sua localização anatômica ou em virtude de o paciente estar muito debilitado para ser submetido à ressecção hepática. A sua eficácia provavelmente é inferior à da ressecção cirúrgica. Uma estratégia alternativa é administrar quimioterapia com fluoropirimidina via artéria hepática por meio de um cateter intra- arterial. A radioterapia interna seletiva emboliza esferas radiomarcadas na artéria hepática para o tratamento das metástases hepáticas.A15 A radioterapia corporal estereotáxica também é uma alternativa razoável e segura para os pacientes que apresentam câncer colorretal metastático limitado ao fígado e que não podem ser submetidos à cirurgia ou a outras opções de tratamento. Infelizmente, o benefício destas abordagens, em comparação à quimioterapia, é incerto e o transplante de fígado (Capítulo 145) é, provavelmente, preferido para pacientes com metástases hepáticas extensas e não ressecáveis.24b Vigilância É recomendada a vigilância ativa após a ressecção cirúrgica do câncer de cólon e retal em estágio inicial, em virtude de o risco de recidiva da doença ser mais alto dentro dos primeiros 2 a 3 anos após a cirurgia e a quimioterapia adjuvante para os pacientes com câncer em estágio II ou III. A American Society of Clinical Oncology recomenda um histórico e exame físico a cada 3 a 6 meses por 5 anos, exames de TC torácica e abdominal anuais por 3 anos após a ressecção de tumores primários de risco alto, e a adição de exame de TC pélvica para o câncer retal primário.25 Entretanto, o rastreamento com TC mais CEA em 12 e 36 meses aparenta ser tão favorável quanto o rastreamento mais frequente para a doença em estágios II e III.A16 A colonoscopia deve ser realizada 1 ano após a conclusão da quimioterapia adjuvante, e caso seja completamente negativa, a cada 5 anos posteriormente. Os níveis séricos de CEA devem ser medidos a cada 3 a 6 meses por 5 anos. FIGURA 184.7 Estágio da doença no momento da apresentação inicial. PROGNÓSTICO O prognóstico geral para os pacientes com câncer colorretal depende principalmente do estágio (Figura 184.8). A sobrevida em 5 anos é de aproximadamente 90 a 95% para a doença em estágio I e diminui consideravelmente, para menos de 10%, para a doença metastática em estágio IV. O prognóstico para os pacientes em estágio III pode variar de 65 a 70% para os pacientes com apenas 1 ou 2 linfonodos e até menos de 25% para aqueles com doença de risco alto e mais de quatro linfonodos positivos. As taxas correspondentes para o câncer retal são discretamente inferiores àquelas para o câncer de cólon. Além do estágio, outros fatores que são prognósticos de desfechos mais desfavoráveis nos pacientes com câncer decólon em estágio inicial submetidos à ressecção possivelmente curativa incluem histologia em anel de sinete, grau tumoral alto, invasão linfovascular e perineural, ausência de resposta linfoide do hospedeiro, evidências de obstrução ou perfuração no pré-operatório, níveis séricos de CEA pré- operatórios altos, margens cirúrgicas positivas e doença com microssatélites estáveis. É interessante observar que o prognóstico dos cânceres colorretais não depende do tamanho do tumor primário. Entretanto, a localização do tumor primário é um fator prognóstico importante, com os tumores primários do lado esquerdo associados a um prognóstico significativamente mais favorável, em comparação aos tumores do lado direito.24 Além disso, o efeito da localização do tumor independe de outros fatores clínicos importantes, incluindo estágio, raça e uso de quimioterapia adjuvante. FIGURA 184.8 Sobrevida do câncer de cólon em 5 anos, de acordo com o estágio da doença. Os biomarcadores moleculares também estão correlacionados ao prognóstico de todos os estágios do câncer colorretal. As mutações de KRAS, que estão presentes em 30 a 40% dos cânceres colorretais, estão associadas a um prognóstico mais desfavorável. Além disso, estas mutações levam à ativação constitutiva da via de sinalização de A1. A2. A3. A4. A5. A6. A7. A7b. A8. A8b. A9. A10. A11. RAS-RAF-MAPK downstream do EGFR, o que torna os tumores resistentes à terapia com anticorpos anti-EGFR com cetuximabe ou panitumumabe. Mutações de NRAS ocorrem somente em cerca de 5% dos pacientes com câncer colorretal, e estas mutações também conferem resistência à terapia anti-EGFR. As mutações de BRAF, que são observadas em 5 a 10% dos pacientes com câncer colorretal, também predizem a resistência à terapia anti- EGFR e estão associadas a um desfecho clínico mais desfavorável. Uma subtipificação molecular mais detalhada pode ser até mais preditiva. Uma abordagem agrupa os cânceres colorretais em quatro tipos – imune com instabilidade de microssatélites, canônico, metabólico e mesenquimal – com base na referida caracterização. Espera-se que estas outras abordagens possam orientar com sucesso a seleção de terapias específicas e possibilitar que o tratamento do câncer colorretal progrida a partir de uma abordagem puramente empírica para a medicina de precisão mais personalizada. 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Concluir questão Qual dos seguintes é o fator de risco mais importante para o desenvolvimento do câncer colorretal esporádico? Concluir questão Um homem de 58 anos apresenta câncer retal localmente avançado (T3N1M0). O exame físico não revela qualquer anormalidade significativa. Ele não apresenta sintomas significativos secundários ao seu câncer, não existem evidências de sangramento retal ou de alteração em suas defecações, e ele continua a ser fisicamente ativo. Ele não apresenta A. MLH1. B. KRAS. C. BRAF. D. APC. A. Histórico familiar. B. Dieta. C. Idade. D. Sexo. outros problemas clínicos. Qual dos seguintes é o tratamento imediato mais apropriado para este paciente? Concluir questão Qual dos cânceres a seguir não está associado à síndrome de câncer colorretal hereditário não poliposo? Concluir questão Qual das características a seguir não está associada a um câncer de cólon primário do lado direito? A. Ressecção cirúrgica, seguida por terapia com modalidades combinadas com infusão de 5-FU e radioterapia. B. Terapia com modalidades combinadas neoadjuvantes com quimioterapia à base de oxaliplatina e radioterapia seguida por cirurgia. C. Terapia com modalidades combinadas neoadjuvantes com quimioterapia com 5-FU, bevacizumabe e radioterapia seguida por cirurgia. D. Terapia com modalidades combinadas neoadjuvantes com capecitabina oral e radioterapia seguida por cirurgia. E. Quimioterapia com FOLFOX neoadjuvante seguida por cirurgia. A. Câncer endometrial. B. Câncer de intestino delgado. C. Câncer de pulmão. D. Câncer ureteral. E. Câncer da pelve renal. A. Sexo feminino. B. Alta instabilidade de microssatélites. C. Mutações de BRAF. D. Aumento da infiltração por células imunes. Concluir questão E. Redução do risco de morte por câncer, quando comparado ao câncer de cólon primário do lado esquerdo. DEFINIÇÃO O termo câncer pancreático se refere, habitualmente, aos adenocarcinomas ductais do pâncreas porque mais de 90% dos tumores pancreáticos têm origem no epitélio ductal. Outros tumores de pâncreas importantes são malignidades endócrinas (Capítulo 219), tumores carcinoides (Capítulo 219), linfomas (Capítulo 176) e diversos sarcomas raros. EPIDEMIOLOGIA O adenocarcinoma ductal pancreático apresenta uma das razões incidência/mortalidade mais altas.1 Ainda que represente a décima causa de câncer nos EUA,é a quarta causa de mortes relacionadas ao câncer, uma vez que a vasta maioria dos pacientes morrerá em virtude da sua doença. Anualmente, cerca de 40.000 indivíduos morrerão nos EUA em razão do adenocarcinoma pancreático ou de suas complicações. A incidência de câncer pancreático está aumentando lentamente, com base nas alterações dos dados demográficos da população norte-americana. O risco de desenvolvimento de um adenocarcinoma pancreático aumenta com a idade, com uma idade média ao início de 71 anos; o risco é equivalente nos homens e nas mulheres. O risco vitalício mínimo de desenvolvimento de um adenocarcinoma pancreático é de aproximadamente 1 em 78, tanto para os homens quanto para as mulheres. Globalmente, 70% de todos os casos de câncer pancreático ocorrem em pessoas que vivem em economias avançadas, com mais de 270.000 mortes por ano em todo o mundo.1b Alguns adenocarcinomas pancreáticos ocorrem em associação a outros cânceres ou doenças, mas a maioria não ocorre em associação a uma síndrome definida. A maioria dos casos de adenocarcinoma pancreático é esporádica – ou seja, ocorre sem história da doença nos parentes em primeiro grau. Entretanto, as mutações em linhagens germinativas nos genes de suscetibilidade ao câncer pancreático são comumente identificadas nos pacientes com câncer pancreático sem um histórico familiar de câncer significativo.2 O tabagismo, bem como a exposição passiva à fumaça do tabaco no ambiente, contribui significativamente para o desenvolvimento do adenocarcinoma pancreático, e também está associado à redução na sobrevida entre os pacientes com câncer pancreático.3 Os riscos ocupacionais que têm sido associados a aumento do risco de desenvolvimento de adenocarcinoma pancreático incluem a exposição a solventes de hidrocarboneto clorados e metais pesados. Aproximadamente 10% dos adenocarcinomas pancreáticos ocorrem em pessoas com história familiar de adenocarcinoma pancreático; nestes pacientes, o risco de desenvolvimento de um adenocarcinoma pancreático aumenta sete vezes, em comparação à população em geral. As lesões císticas pré-malignas do pâncreas também ocorrem em pessoas com história familiar de câncer pancreático. Além da recente descoberta do gene PALB2 em 3% destas famílias, mutações em ATM ou BRCA2, parceiros críticos na via do reparo do dano do DNA, bem como em p16, também foram descobertos. A inflamação pancreática crônica em virtude do uso abusivo de álcool etílico ou de anomalias genéticas aumenta significativamente o risco de um diagnóstico de adenocarcinoma pancreático. Ainda que a associação entre a pancreatite crônica e o desenvolvimento de um adenocarcinoma pancreático seja reconhecida há décadas,4 apenas recentemente estudos esclareceram como as citocinas pró-inflamatórias contribuem para a progressão de uma lesão pré-maligna até um tumor avançado. Além da pancreatite crônica, o papel do diabetes melito e da obesidade no desenvolvimento do adenocarcinoma pancreático tem sido enfatizado. O diabetes melito do tipo 1 e do tipo 2 de longa duração pode representar o aumento do risco de um adenocarcinoma pancreático, mas a relação de causa e efeito entre o câncer pancreático e o diabetes é complexa. Recentemente, estudos epidemiológicos enfocaram no desenvolvimento do adenocarcinoma pancreático em pacientes com diabetes melito do tipo 3c (diabetes relacionado à doença pancreática, ou diabetes pancreatogênico), um subconjunto importante do diabetes, caracterizado por deficiência significativa de todos os hormônios glicorreguladores (Capítulo 216). Os pacientes com diabetes melito do tipo 3 c parecem correr o mais alto risco associado de desenvolvimento de adenocarcinoma pancreático, especialmente na condição de pancreatite crônica coexistente. O diabetes melito do tipo 3c também é uma consequência do adenocarcinoma pancreático em aproximadamente 30% dos pacientes. O aumento da obesidade na população norte-americana e o aumento concomitante no diabetes melito associado estão fortemente associados ao aumento do risco vitalício de desenvolver um adenocarcinoma pancreático. BIOPATOLOGIA A compreensão sobre as características moleculares dos cânceres do pâncreas exócrino é crítica para o desenvolvimento de terapias com alvos moleculares.5 O câncer pancreático é causado por mutações hereditárias (linhagens germinativas) e adquiridas (somáticas) nos genes causadores do câncer.6 Tem sido demonstrado que diversos oncogenes e genes supressores tumorais estão envolvidos no desenvolvimento do câncer pancreático, tanto ao contribuir para o crescimento do próprio tumor, quanto para o microambiente que o circunda. Os oncogenes, tipicamente inativos nas células normais, causam a proliferação celular descontrolada ao inibir a apoptose e ativar o ciclo celular quando mutações os tornam constitutivamente ativos. O oncogene KRAS, localizado no cromossomo 12, é o oncogene mutado com mais frequência no câncer pancreático (em > 90% dos tumores). Ele codifica uma proteína ligada à membrana que apresenta atividade de GTP-ase e está envolvida na transdução de sinais. Quando ativado por mutação, tipicamente a mutação pontual no códon 12, as funções do KRAS são independentes do controle do fator de crescimento, levando à ativação crônica de seus parceiros de sinalização downstream, PIK3, MAPK e RAF, causando a inibição da apoptose e a ativação do ciclo celular, da migração, da angiogênese, do remodelamento do citoesqueleto e da proliferação não verificada. A variação da dose oncogênica de KRAS é importante na tumorigênese, na progressão e na metástase do câncer pancreático.7 Os genes supressores tumorais, quando funcionam normalmente, atuam de maneira oposta, ao intensificar a apoptose e inibir a proliferação celular. O supressor tumoral CDKN2A/TP12, um gene de controle do ciclo celular, está comumente inativado no câncer pancreático, com 80 a 95% de perda a atividade, levando ao aumento da progressão do ciclo celular. O TP53 é ativado pela lesão do DNA para interromper a progressão do ciclo celular e reparar o DNA danificado ou iniciar a apoptose. Mutações neste gene supressor tumoral são comumente observadas em 50 a 75% dos tumores pancreáticos. A inativação de SMAD4 (DPC4), envolvido na regulação da progressão do ciclo celular por meio da via do fator transformador do crescimento (TGF)-b, é observada em mais de 50% dos cânceres pancreáticos e está associada a um prognóstico mais desfavorável e ao desenvolvimento de metástases. Também é observada inativação de RB1 (em < 10% dos cânceres pancreáticos) e STK11 (responsável pela síndrome de Peutz-Jeghers). Existem diversas vias de sinalização importantes envolvidas na tumorigênese pancreática. A sinalização de hedgehog (Hh), crítica na embriogênese, regula o ciclo celular e a apoptose, auxilia na formação do estroma tumoral e, com frequência, sofre regulação ascendente e está anormal nos cânceres pancreáticos. A via de NOTCH, também importante na embriogênese normal para prevenir a diferenciação terminal das células até que seja apropriado, pode estar anormalmente ativada no câncer pancreático, possibilitando que as células permaneçam em um estado indiferenciado, que contribui para o crescimento tumoral. Quando a via Wnt está ativada, a betacatenina é estabilizada e migra para o núcleo, onde ativa os seus genes-alvo. Também foi observado que as vias do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), TGF-β e JAK/STAT são anormais nas células do câncer pancreático, levando à promoção do crescimento, da proliferação, da diferenciação celular e da sobrevida das células. A modificação epigenética, o processo por meio do qual a expressão genética é alterada por outros mecanismos além de alterações na sequência real do DNA, também desempenha um papel na tumorigênese do câncer pancreático.8 O encurtamento dos telômeros e a expressão excessiva dos microRNAs levam à instabilidade cromossômica e à desregulação da expressão genética, respectivamente, e também são observados. Além das próprias células cancerosas, o microambientetumoral é composto por células estromais, células inflamatórias e células endoteliais, todas as quais desempenham um papel particularmente importante no crescimento do câncer pancreático. As células cancerosas secretam fatores de crescimento, incluindo fator de crescimento semelhante à insulina (IGF)-1, fator de crescimento de fibroblastos (FGF), TGF-β, fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) e fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF), que estimulam as células estreladas pancreáticas (também denominadas miofibroblastos) a secretar quantidades excessivas de matriz extracelular. A matriz e as suas células estromais, por sua vez, secretam citocinas e fatores de crescimento que promovem o crescimento das células cancerosas, a invasão e a disseminação e protegem as células do câncer pancreático contra a apoptose, bem como geram uma reação desmoplásica que interfere na administração da quimioterapia no local do tumor.9 A presença local de TGF-β também leva à diminuição da atividade dos linfócitos T helper, que suprime a reação imune do corpo contra as células do câncer pancreático. Lesões precursoras Um avanço importante na compreensão do desenvolvimento do câncer pancreático foi a apreciação de que a maioria dos adenocarcinomas pancreáticos progride sequencialmente a partir do epitélio ductal histologicamente normal para a neoplasia intraepitelial pancreática de grau baixo, até a neoplasia intraepitelial pancreática de grau alto e até o carcinoma invasivo. Este processo está associado ao acúmulo de alterações genéticas específicas (Figura 185.1). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS As manifestações do adenocarcinoma pancreático inicial com frequência são sutis e incluem queixas gastrintestinais inespecíficas (náuseas, dor abdominal vaga), fadiga e perda de peso de etiologia indeterminada. A dor epigástrica e a icterícia obstrutiva com frequência motivam o exame diagnóstico inicial da árvore biliar, mas com frequência são os sintomas tardios que estão associados à doença local avançada ou regionalmente disseminada. Tendo em vista que aproximadamente 75% dos carcinomas pancreáticos estão localizados na cabeça do pâncreas, as apresentações clínicas com frequência estão relacionadas à compressão ou à invasão da árvore biliar ou dos ductos pancreáticos. Não é infrequente haver trombose venosa profunda ou superficial (síndrome de Trousseau), seja inicial ou tardiamente na apresentação do adenocarcinoma pancreático (Capítulo 73). O achado de uma vesícula biliar distendida palpável (em virtude da obstrução do ducto biliar comum distal), ou sinal de Courvoisier, é incomum. As anormalidades laboratoriais que acompanham o adenocarcinoma pancreático à apresentação incluem anemia e elevações de bilirrubina sérica, fosfatase alcalina e aminotransferases. A maioria dos pacientes acaba apresentando sinais de icterícia obstrutiva, bem como hiperglicemia, que reflete o diabetes melito associado. As lesões da neoplasia intraepitelial pancreática precoce são assintomáticas. As lesões císticas pré-neoplásicas do câncer com frequência permanecem assintomáticas. Algumas são descobertas em exames de imagem abdominais realizados por outros motivos, com algumas estimativas de que 2 a 15% dos pacientes submetidos a uma ressonância magnética (RM) abdominal podem apresentar cistos pancreáticos sem haver suspeitas. A maioria das lesões pequenas não provoca sinais/sintomas e permaneceria indetectável, exceto se posteriormente causassem sintomas agudos que precipitassem uma tomografia computadorizada (TC) abdominal. Os cistos grandes podem causar sintomas vagos, mas é incomum haver icterícia obstrutiva. FIGURA 185.1 Modelo da progressão genética do adenocarcinoma pancreático. As alterações moleculares no desenvolvimento do adenocarcinoma ductal pancreático têm início com alterações precoces, que incluem o encurtamento do telômero e o desenvolvimento de mutações em KRAS; estes são seguidos pela perda da função de p16 e pela expressão da ciclina D1. As alterações tardias incluem a expressão de p53 e a perda de SMAD4/DPC4. PanIN = neoplasia intraepitelial pancreática. DIAGNÓSTICO Diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial do adenocarcinoma pancreático inclui condições que com frequência se apresentam como massa pancreática sólida, incluindo pancreatite aguda (ou uma exacerbação da pancreatite crônica) (Capítulo 135), colangiocarcinoma ampular ou distal com obstrução e icterícia associadas (Capítulo 186) e neoplasias pancreáticas císticas não adenocarcinomatosas (Capítulo 135). Uma alta proporção de cistos incidentais entre os pacientes sem histórico de pancreatite é neoplásica. A TC de alta resolução pode proporcionar um diagnóstico presuntivo quando estão presentes elementos característicos. A RM consegue identificar qualquer comunicação entre o cisto e o ducto pancreático. A ultrassonografia endoscópica pode diferenciar as lesões benignas das malignas se for observada massa sólida ou tumor invasivo. Neoplasias císticas As lesões císticas do pâncreas podem ser categorizadas em lesões císticas não neoplásicas (p. ex., pseudocistos [Capítulo 135]) e neoplásicas.10,11As neoplasias císticas podem ser subcategorizadas em neoplasias císticas produtoras de mucina e não produtoras de mucina.12,12b As neoplasias císticas que não produzem mucina incluem os cistadenomas serosos, que não apresentam aumento do risco de câncer, neoplasias císticas papilares e tumores neuroendócrinos pancreáticos císticos. Os cistadenomas serosos ocorrem mais comumente nas mulheres e quase sempre são benignos. Embora costumem ser assintomáticos, podem ser sintomáticos quando seu volume aumenta. O exame anatomopatológico revela uma cápsula fibrosa bem circunscrita, que contém numerosos pequenos cistos preenchidos por líquido. As neoplasias císticas mucinosas, que quase sempre ocorrem no corpo do pâncreas ou na cauda em mulheres, compreendem aproximadamente 50% dos tumores pancreáticos removidos em séries cirúrgicas contemporâneas. Aproximadamente um terço é descoberto incidentalmente em exames de imagem realizados por outros motivos, mas os pacientes também podem apresentar dor, massa abdominal ou perda de peso. Uma cápsula fibrosa espessa contém cistos revestidos por células semelhantes a ductos produtoras de mucina. Cerca de 30% das neoplasias císticas mucinosas apresentam evidências de adenocarcinoma invasivo com um prognóstico variável. As neoplasias mucinosas papilares intraductais são lesões produtoras de mucina que, ao contrário das neoplasias císticas mucinosas, se comunicam com o ducto pancreático principal. O seu epitélio displásico intraductal se assemelha aos adenomas vilosos colorretais, com as papilas recobertas por epitélio colunar e as ocasionais células caliciformes com extensiva produção de mucina. As lesões, que com frequência são confinadas à cabeça do pâncreas, ocorrem tipicamente em homens de meia-idade. Os sinais/sintomas podem incluir pancreatite inexplicada recidivante. Estas neoplasias sempre contêm no mínimo displasia de grau baixo e são sempre pré-malignas. Exames de imagem A TC contrastada dinâmica com cortes finos de todo o pâncreas é o procedimento de imagem de escolha quando há suspeita de adenocarcinoma pancreático. A TC pode proporcionar informações a respeito de doença metastática, invasão vascular e potencial de ressecção. A malignidade é mais comum quando o cisto tem mais de 3 cm, apresenta um componente sólido ou está associado a um ducto pancreático dilatado, mas está menos claramente associada à sua taxa de crescimento em diversos exames de imagem. As recomendações de consenso13 incluem RM de cistos pancreáticos identificados na TC; ultrassonografia endoscópica e aspiração com agulha fina para os cistos pancreáticos com características preocupantes à RM; e avaliação citológica e de biomarcador do líquido aspirado.14 A ultrassonografia endoscópica (USE) pode proporcionar informações adicionais úteis para a avaliação pré-operatória, incluindo a biopsia aspirativa com agulha fina guiada por endoscopia.É importante ressaltar que a reação desmoplásica típica que pode encapsular os adenocarcinomas pancreáticos aumenta a possibilidade de achados de biopsia falso-negativos. Os pacientes com doença localmente avançada ou metastática devem ter o seu diagnóstico confirmado por patologia por meio da biopsia com agulha fina do local primário ou de uma metástase. Biomarcadores e rastreamento A análise do líquido dos cistos consegue identificar corretamente até 90% dos cistos pancreáticos que não necessitam de cirurgia.15 Entretanto, até o momento, não foram estabelecidos biomarcadores com base no soro ou no tumor ou perfis de biomarcadores que sejam tanto sensíveis quanto específicos o suficiente para a detecção precoce acurada na prática clínica, muito embora existam relatos promissores de exames de sangue (múltiplos analitos) que conseguem detectar e localizar os cânceres cirurgicamente ressecáveis, incluindo os cânceres pancreáticos.16 O CA19.9 é o biomarcador tumoral mais comumente utilizado para o monitoramento do progresso terapêutico no adenocarcinoma pancreático, mas ausência de especificidade do ensaio é uma preocupação e, portanto, o CA19.9 não pode ser utilizado para a detecção precoce. A USE é útil para a avaliação das lesões císticas e possibilita a amostragem do líquido cístico em relação a marcadores genéticos associados ao desenvolvimento do adenocarcinoma pancreático em famílias propensas ao câncer, bem como para estudos citológicos. Alguns dados sugerem um possível benefício do rastreamento anual com o uso de RM, colangiopancreatografia por ressonância magnética ou USE em adultos assintomáticos que são portadores da mutação CDNK2A de risco alto.17 TRATAMENTO Neoplasias císticas Comumente a ressecção cirúrgica é oferecida aos pacientes com cistos pancreáticos que apresentam características preocupantes (Tabela 185.1),18,19 enquanto os pacientes sem características que recomendam a ressecção devem ser submetidos à vigilância com RM, provavelmente a cada 2 anos, por até 5 anos.19b,19c Apesar dos cistadenomas serosos sejam anormalidades benignas que não se conectam aos ductos pancreáticos e a cirurgia seja recomendada somente se eles forem sintomáticos, os cistadenomas mucinosos são precursores do adenocarcinoma pancreático e com frequência ocorrem na cauda do pâncreas, com mais frequência em mulheres ao redor dos 40 anos; eles são manifestamente malignos em 15% dos pacientes e necessitam de ressecção cirúrgica. As neoplasias mucinosas papilares intraductais do pâncreas ocorrem na cabeça do órgão, com frequência são policísticos e contêm elementos malignos em aproximadamente 40% dos pacientes; todos os pacientes com esta lesão necessitam de cirurgia. Câncer pancreático ressecável A cirurgia oferece a única chance para a cura do câncer pancreático.20,20b Os tumores são considerados ressecáveis se houver um plano adiposo bem- definido ao redor das artérias celíaca e mesentérica superior, e se as veias mesentérica e porta estiverem pérvias. Infelizmente, o tumor recidivará na maioria dos pacientes que são submetidos à ressecção. A terapia adjuvante é indicada para diminuir o risco e adiar o momento da recidiva locorregional e metastática. Ela é tipicamente iniciada 1 a 2 meses após a cirurgia para possibilitar que o paciente se recupere das complicações associadas ao câncer de base, bem como da própria cirurgia. Nos pacientes que foram submetidos à remoção completa macroscópica do câncer pancreático, a gencitabina adjuvante por 6 meses aumenta a sobrevida livre de doença (de 6,7 meses para 13,4 meses) e a sobrevida em geral (para 21% em 5 anos e 12% em 10 anos), em comparação à ausência de quimioterapia.A1 Dados do Japão sugerem que uma combinação de tegafur (um profármaco do fluoruracila), gimeracila e oteracila pode até mesmo ser melhor.A2 Mais recentemente, o estudo clínico ESPAC-4 demonstrou que gencitabina mais capecitabina adjuvantes melhoram a sobrevida geral mediana (de 25,5 meses para 28,0 meses), em comparação à monoterapia com gencitabina.A3 O esquema FOLFIRINOX (oxaliplatina, irinotecano, fluoruracila e leucovorina) pode proporcionar sobrevida significativamente mais longa (livre da doença em 63% versus 49% em 3 anos) do que a gencitabina entre os pacientes com câncer pancreático ressecado, mas a taxa de efeitos colaterais sérios também é significativamente mais alta.A4 Quimiorradiação mais quimioterapia é menos efetiva no prolongamento da sobrevida e é mais tóxica do que a quimioterapia.A5,A6 A terapia (pré-cirúrgica) neoadjuvante ainda é uma opção para o câncer pancreático.21 Ela apresenta o potencial de reduzir o estágio dos pacientes de ressecabilidade limítrofe que alcançam uma resposta parcial com a terapia, possibilitando a realização de cirurgia com probabilidade mais alta de ressecção completa.A7 De fato, 15 a 40% dos pacientes que inicialmente apresentam tumores limítrofes ou não ressecáveis podem ao fim ser considerados apropriados para a cirurgia. Além disso, a terapia neoadjuvante poupa alguns pacientes dos riscos e do estresse de um procedimento cirúrgico complexo, tendo em vista que a doença metastática em rápido desenvolvimento pode ser detectada pelo reestadiamento de rotina após a conclusão do tratamento neoadjuvante. Infelizmente, câncer resistente à quimioterapia pode ser demonstrado em 15 a 35% dos pacientes inicialmente considerados para a cirurgia nesta condição. O uso do tratamento neoadjuvante também garante que quase todos os pacientes receberão alguma forma de quimioterapia ou quimiorradiação, tendo em vista que eles não apresentam quaisquer complicações pós-operatórias das quais tenham que se recuperar. Estudos demonstram que 73 a 100% dos pacientes têm capacidade para concluir a maioria dos seus regimes neoadjuvantes. O componente da quimiorradiação da terapia neoadjuvante também diminui as taxas de recidiva local em pacientes que são submetidos à cirurgia. Entretanto, a cirurgia é necessária para a cura, e a terapia neoadjuvante adia a cirurgia possivelmente curativa. Ainda que a mesma porcentagem de pacientes ao fim seja submetida à cirurgia, não existem estudos clínicos randomizados que favoreçam o tratamento neoadjuvante em relação ao tratamento adjuvante. Portanto, neste momento a terapia neoadjuvante é geralmente reservada para os pacientes com tumores ressecáveis limítrofes, enquanto os pacientes com tumores ressecáveis são encaminhados imediatamente para a cirurgia, com a terapia adjuvante administrada após a recuperação. Os pacientes que recebem terapia adjuvante ou neoadjuvante apresentam taxas de sobrevida semelhantes quando a ressecção pode ser concluída com sucesso. As decisões a respeito do tratamento devem, se possível, ser tomadas de maneira multidisciplinar, para alcançar a terapia mais oportuna e coordenada. Doença metastática A terapia de primeira linha para o câncer pancreático metastático22,22b é o esquema FOLFIRINOXA8 ou gencitabina mais NAB-paclitaxelA9 (Tabela 185.2). O irinotecano nanopolissômico em combinação com fluoruracila e ácido folínico prolonga a sobrevida com um perfil de segurança tratável nos pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático que receberam terapia à base de gencitabina anteriormente.A10 A gencitabina também tem sido combinada com terapias com alvos moleculares, como o inibidor de EGFR erlotinibe, mas com efeitos inconsistentesA11 sobre a sobrevida em geral. Na pequena porcentagem de pacientes com mutações na linhagem germinativa em BRCA1 ou BRCA2, olaparibe (300 mg 2 vezes/dia) pode prolongar a sobrevida livre de progressão em aproximadamente 3,5 meses.A11b Para pacientes com mutações do gene KRAS, sotorasibe é uma terapia experimental promissora.22c Tabela 185.1 Diretrizes para os cistos pancreáticos incidentais assintomáticos. CISTO ESTRATÉGIA DE MANEJO (a) Um componente sólido e dilatação do ducto pancreático principal ou (b) achados suspeitos na PAAF guiada por USE Cirurgia: se displasia de grau alto ou câncer, acompanhamento com RM a cada 2 anos pós-cirurgia; se benigno,não é necessário o acompanhamento ≥ 2 de (a) tamanho ≥ 3 cm, (b) componente sólido, (c) dilatação do ducto pancreático principal PAAF guiada por USE; se positiva, cirurgia; se negativa, RM a cada 2 anos Tamanho < 3 cm, nenhum componente sólido, sem dilatação do ducto pancreático principal RM em 1, 3 e 5 anos; se houver alterações, PAAF guiada por USE; se estável em 5 anos, descontinuar o rastreamento USE = ultrassonografia endoscópica; PAAF = punção aspirativa com agulha fina; RM = ressonância magnética. (De Vege SS, Ziring B, Jain R, et al. American Gastroenterological Association Institute Guideline on the Diagnosis and Management of Asymptomatic Neoplastic Pancreatic Cysts. Gastroenterology. 2015;148:819-822.) PREVENÇÃO Muito embora os adenomas císticos pré-malignos possam ser detectados por meio de exames de imagem, o rastreamento não é recomendado para adultos assintomáticos.22d,22e Rastreamento é recomendado para pacientes com história familiar forte ou com uma síndrome genética associada a risco elevado (p. ex., síndrome de Peutz-Jeghers ou síndrome de Lynch; mutações de BRCA) geralmente com ressonância magnética e ultrassonografia endoscópica a partir dos 50 anos de idade.22f PROGNÓSTICO Nos pacientes com uma neoplasia cística serosa acompanhados por mais de 1 ano em um grande estudo, o tamanho aumentou em aproximadamente 40%, esteve estável em aproximadamente 55% e diminuiu em aproximadamente 5%. Cistadenocarcinomas serosos se desenvolveram em somente 0,1% dos pacientes em um acompanhamento médio de 3 anos.23 A sobrevida em geral em 5 anos para todos os pacientes com câncer pancreático é inferior a 5%. Isto ocorre, em parte, porque não existe um exame de rastreamento apropriado para a população em geral, e as manifestações iniciais são vagas. A imunidade mediada por linfócitos T foi ligada ao desfecho excepcional dos poucos sobreviventes a longo prazo, e recentemente a qualidade de neoantígenos foi identificada como um biomarcador para os tumores imunogênicos, que pode orientar as imunoterapias futuras.24 Após o diagnóstico dos pacientes, somente 15 a 20% apresentam doença ressecável e, portanto, potencialmente curável. Nesses pacientes, o análogo à somatostatina pasireotida (900 mg por via subcutânea 2 vezes/dia durante 7 dias, com início na manhã da cirurgia) consegue reduzir o risco de extravasamento em fístulas com abscesso em 50%.A12 Entretanto, até mesmo nos pacientes com doença em estágio inicial, a sobrevida mediana é de 20 a 24 meses, com sobrevida em 5 anos de apenas 15 a 20%, tendo em vista que a maioria inevitavelmente recidivará, apesar da cirurgia e da terapia adjuvante ou neoadjuvante. Os pacientes com doença localmente avançada (≈ 25 a 30% à apresentação) e metastática (≈ 50 a 60% à apresentação) apresentam sobrevidas medianas de 8 a 14 meses e de 4 a 6 meses, respectivamente. O câncer pancreático avançado está associado a risco alto de complicações tromboembólicas venosas, e a tromboprofilaxia com enoxaparina é comprovadamente muito efetiva e viável nesses pacientes.A13 Tendo em vista que muitos pacientes sofrem de obstrução biliar, diarreia, dor e desnutrição, os cuidados paliativos proporcionam um grande benefício. A cirurgia também tem papel paliativo importante; os pacientes com tumores irressecáveis podem apresentar melhora sintomática com um procedimento de bypass biliar ou gástrico, dependendo do local da obstrução. A inserção de stents biliares e duodenais sem abordagem cirúrgica também melhora o prurido, a dor ou outras complicações da obstrução das vias biliares. Os cuidados paliativos para os pacientes com adenocarcinoma pancreático exigem atenção escrupulosa ao manejo da dor que, com frequência, demanda abordagem multidisciplinar, bem como a manutenção da hidratação e do estado nutricional adequado. Tabela 185.2 Estudos sobre o câncer pancreático metastático selecionados. ESTUDO QUIMIOTERAPIA TAXA DE RESPOSTA (% DE RESPOSTA PARCIAL) SOBREVIDA MEDIANA (ME) SOBREVIDA EM 1 ANO (%) Burris (1997)* N = 126 5-FU versus gen NR 4,4 versus 5,6 (P = 0,0025) 2 versus 18 A1. A2. A3. A4. A5. A6. Cunningham (2009)† N = 533 Gen ± capecitabina 14 versus 7 (P = 0,008) 7,4 versus 6 (P < 0,05) 26 versus 19 Conroy (2011)‡ N = 344 Gen versus FOLFIRINOX 9 versus 32 6,8 versus 11,1 (P < 0,0001) 17 versus 36 Van Hoff (2013)§ N = 861 Gen ± nab- paclitaxel 23 versus 7 8,5 versus 6,7 (P < 0,001) 35 versus 22 (P < 0,001) 5-FU = 5-fluoruracila; FOLFIRINOX = quimioterapia de combinação com oxaliplatina, irinotecano, fluoruracila e leucovorina; gen = gencitabina; NR = não relatada. *Burris H, Storniolo AM. Assessing clinical benefit in the treatment of pancreas cancer: gemcitabine compared to 5-fluorouracil. Eur J Cancer. 1997;33 Suppl 1:S18-S22. †Cunningham D, Chau I, Stocken DD, et al. Phase III randomized comparison of gemcitabine versus gemcitabine plus capecitabine in patients with advanced pancreatic cancer. J Clin Oncol. 2009;27:5513-5518. ‡Conroy T, Desseigne F, Ychou M, et al. FOLFIRINOX versus gemcitabine for metastatic pancreatic cancer. N Eng J Med. 2011;364:1817- 1825. §Von Hoff DD, Ervin T, Arena FP, et al. Increased survival in pancreatic cancer with nab-paclitaxel plus gemcitabine. N Eng J Med. 2013;369:1691-1703. Oettle H, Neuhaus P, Hochhaus JT, et al. Adjuvant chemotherapy with gemcitabine and long-term outcomes among patients with resected pancreatic cancer: the CONKO-001 randomized trial. JAMA. 2013;310:1473-1481. Uesaka K, Boku N, Fukutomi A, et al. Adjuvant chemotherapy of S-1 versus gemcitabine for resected pancreatic cancer: a phase 3, open-label, randomised, non-inferiority trial (JASPAC 01). Lancet. 2016;388:248-257. Neoptolemos JP, Palmer DH, Ghaneh P, et al. 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Combinação de quimiorradioterapia e quimioterapia. C. Gencitabina ou 5-fluoruracila. D. Agentes biológicos. E. Infelizmente, nenhuma terapia atual aumenta a sobrevida após a cirurgia. Os processos malignos com origem no parênquima hepático e no epitélio ductal biliar são um grupo de cânceres heterogêneos, com um prognóstico em geral desfavorável, cujo tratamento é complicado pela lesão hepática de base, pela cirrose ou pela obstrução biliar na maioria dos casos. Estes cânceres representam, coletivamente, a segunda causa líder de morte por câncer em todo o mundo e estão aumentando em incidência, o que requer a conscientização dos clínicos a respeito da sua apresentação, avaliação e do tratamento. DEFINIÇÃO Os cânceres com origem no fígado e nas vias biliares incluem carcinoma hepatocelular (CHC), colangiocarcinoma e adenocarcinoma da vesícula biliar, bem como outras histologias malignas menos comuns (e-Tabela 186.1, Figura 186.1). Os colangiocarcinomas são subclassificados de acordo com a sua localização anatômica ao longo das vias biliares: intra- hepáticos (também conhecidos como periféricos) ou extra-hepáticos, o que inclui as localizações hilar (também conhecidos como tumores de Klatskin) e distais. O fígado é um local frequente de metástases de outros cânceres primários, o que requer a consideração da doença metastática no diagnóstico diferencial dos tumores hepáticos. Este capítulo enfoca nos tumores malignos primários do fígado e das vias biliares; a doença metastática do fígado é apresentada em outros capítulos, de acordo com o local de origem primário. e-Tabela 186.1 Tumores malignos primários de fígado e das vias biliares. TIPO DE TUMOR INCIDÊNCIA ANUAL APROXIMADA Carcinoma hepatocelular 782.000 casos/ano mundialmente* Carcinoma de vesícula biliar 145.000 casos/ano mundialmente Colangiocarcinoma 9.810 casos/ano nos EUA† Hepatocelular- colangiocarcinoma misto Raro Carcinoma hepatocelular fibrolamelar RaroCistadenocarcinoma Raro Hemangioendotelioma endotelioide hepático Raro Angiossarcoma e outros sarcomas Raro *Inclui casos de colangiocarcinoma intra-hepático. †Inclui casos de câncer de vesícula biliar e exclui casos de colangiocarcinoma intra-hepático. EPIDEMIOLOGIA Carcinoma hepatocelular O CHC1 é o tumor primário mais comum do fígado e a segunda causa de morte por câncer mundialmente,2,3 representando aproximadamente 728.000 novos casos e 746.000 mortes a cada ano, com base nas estimativas de 2012. Mais de 80% dos casos de CHC ocorrem nos países em desenvolvimento (Figura 186.2), em virtude de aumento da prevalência dos fatores de risco de CHC, em particular do vírus da hepatite B (HBV) e do vírus da hepatite C (HCV), ainda que as taxas também estejam aumentando nas nações desenvolvidas (Capítulos 139 e 140, e-Tabela 186.2).3b Historicamente, o HBV e o HCV eram responsáveis por mais de 80% de todos os casos de CHC mundialmente, embora fatores de risco de esteatose hepática não alcóolica (EHNA), incluindo diabetes melito e obesidade, sejam atualmente responsáveis pela maior proporção de CHCs nos EUA,4 à frente dos distúrbios relacionados ao álcool etílico5 e ao HCV. e-Tabela 186.2 Fatores de risco para carcinoma hepatocelular. FATOR DE RISCO INCIDÊNCIA DE CARCINOMA HEPATOCELULAR* Homens asiáticos com mais de 40 anos portadores de HBV 0,4 a 0,6%/ano Mulheres asiáticas com mais de 50 anos portadoras de HBV 0,3 a 0,6%/ano Portador de HBV com história familiar de CHC Incidência mais alta do que nas pessoas sem história familiar Negros africanos/norte- americanos com HBV O CHC ocorre em pessoas mais jovens Portadores de HBV com cirrose hepática 3 a 8%/ano Cirrose hepática por HCV 3 a 5%/ano Cirrose biliar primária em estágio 4 3 a 5%/ano Hemocromatose hereditária com cirrose Desconhecida Deficiência de α1-antitripsina com cirrose Desconhecida Cirrose por outras causas Desconhecida *Dados de Nordenstedt H, White DL, El-Serag HB. The changing pattern of epidemiology in hepatocellular carcinoma. Digest Liver Dis. 2010;42(Suppl 3):S206-S214. HBV = vírus da hepatite B; HCV = vírus da hepatite C; CHC = carcinoma hepatocelular. (Adaptada de Bruix J, Sherman M. Management of carcinoma: an update. Hepatology. 2011;53:1020-1022.) A obesidade, o diabetes melito e a síndrome metabólica são fatores de risco de EHNA, uma condição com incidência crescente, sobretudo nas populações ocidentais, que pode levar à esteato-hepatite, à cirrose e ao CHC.6 Os CHCs associados à EHNA e à doença hepática alcóolica apresentam evolução clínica semelhante, embora os elementos subjacentes característicos destas duas doenças sejam diferentes. O CHC nos pacientes com doença hepática não alcóolica antes do desenvolvimento da cirrose mais provavelmente se manifesta mais tardiamente, com carga tumoral maior e taxas mais altas de recidiva do tumor do que nos pacientes que já têm cirrose.7 O HBV é endêmico em regiões que incluem a Ásia e a África Subsaariana e pode ser transmitido verticalmente da mãe para o feto in utero. O HCV, que pode ser adquirido por meio do abuso de substâncias psicoativas intravenosas ou de transfusão de sangue, é outro fator de risco importante para o CHC, resultando em uma incidência estimada de CHC de 2 a 8% ao ano entre os pacientes com cirrose causada pelo HCV. Outros fatores de risco para o CHC incluem o vírus da hepatite D (que exige coinfecção pelo HBV para a patogenicidade), hemocromatose hereditária, deficiência de α1-antitripsina, cirrose biliar primária, hepatite autoimune, sexo masculino e exposição alimentar às aflatoxinas fúngicas. Cânceres das vias biliares Embora seja classificado como um câncer raro, o colangiocarcinoma é a malignidade das vias biliares primária mais comum e o segundo câncer de fígado primário mais comum, após o CHC. A incidência do colangiocarcinoma intra-hepático parece estar aumentando. Embora a maioria dos casos seja esporádica, o risco de colangiocarcinoma aumenta com as condições ou exposições a seguir: colangite esclerosante primária, doença intestinal inflamatória, hepatite viral, cistos do colédoco congênitos ou outras anormalidades estruturais das vias biliares, pancreatite crônica, obesidade, infecções por Fasciola e outras causas de colangite crônica, adenomas do ducto biliar, doença de Caroli e diabetes melito. Os adenocarcinomas de vesícula biliar são raros nos EUA,8 mas são responsáveis por 178.100 casos ao ano em todo o mundo, com base em estimativas de 2012. Existe uma variação regional significativa na incidência, com a incidência mais alta relatada na Índia e em áreas da América do Sul e da Ásia. Os fatores de risco para um adenocarcinoma de vesícula biliar incluem sexo feminino, colelitíase crônica, colecistite crônica, história pregressa de pólipos na vesícula biliar e anormalidades do ducto biliar comum. A calcificação da vesícula biliar (“vesícula biliar de porcelana”) com frequência é considerada um fator de risco, mas está apenas fracamente associada ao desenvolvimento de câncer.9 Outros cânceres de fígado primários Outros tumores primários de fígado são muito menos comuns, com fatores de risco mal compreendidos. Condições inflamatórias crônicas, inclusive hepatite viral, podem estar associadas ao desenvolvimento de tumores de fígado de histologia combinada. A exposição ao cloreto de polivinil tem sido implicada no desenvolvimento de angiossarcomas hepáticos. A variante fibrolamelar do CHC pode ocorrer mais comumente nas mulheres. Os hepatoblastomas ocorrem em lactentes e crianças, mas quase nunca em adultos. FIGURA 186.1 Anatomia do fígado e das vias biliares. O carcinoma hepatocelular tem origem no parênquima hepático e os colangiocarcinomas têm origem no epitélio ductal biliar intra- hepático (ou periférico) ou extra-hepático. Os tumores com origem na confluência do ducto biliar direito e esquerdo no hilo hepático são denominados colangiocarcinomas ou tumores de Klatskin. FIGURA 186.2 Incidência global do câncer de fígado. A incidência do câncer de fígado é mais alta nas regiões menos desenvolvidas, sobretudo no leste da Ásia, no Sudeste Asiático, na África Central e na África Ocidental. BIOPATOLOGIA Carcinoma hepatocelular O CHC é uma neoplasia epitelial com origem na transformação maligna dos hepatócitos hepáticos (Figura 186.3A e B). Acredita-se que a patogênese do CHC seja um processo com múltiplas etapas acionado por lesão hepática subjacente (p. ex., hepatite viral, esteato-hepatite, etilismo, sobrecarga de ferro ou exposição à aflatoxina) na maioria dos casos. As subsequentes inflamação, necrose, regeneração, renovação celular e proliferação10 resultam no acúmulo progressivo de danos genéticos e mutações somáticas (adquiridas). Pode ocorrer a ativação de oncogenes ou a inativação de genes supressores tumorais, displasia e, subsequentemente, carcinoma. A análise de uma coorte de 363 casos de CHC como parte do Cancer Genome Atlas identificou mutações promotoras que resultam na ativação do gene TERT, que codifica a transcriptase reversa da telomerase em aproximadamente 44% dos casos; a inativação do supressor tumoral TP53 em 31% dos casos; ou a ativação do oncogene betacatenina (CTNNB1) em 27% dos casos. Já foram descritas aberrações em Wnt, no ciclo celular e nas vias de remodelação da cromatina. FIGURA 186.3 Histologia do carcinoma hepatocelular e do colangiocarcinoma. A. Carcinoma hepatocelular (40×) com claras características celulares e inclusões hialinas de Mallory (setas). B. Carcinoma hepatocelular (40×) com padrão trabecular e pequena alteração celular. C. Colangiocarcinoma hilar (20×) com reação estromal fibrosa densa. (Cortesia da Dra. Linda Ferrell, Departamento de Patologia, University of California, São Francisco.) No CHC associado ao HBV, um mecanismo único de transformação maligna é a integração direta do DNA viral ao genoma do hospedeiro, que parece favorecer loci específicos, incluindo o promotor do gene TERT, resultando em ativação do TERT de modo semelhante a eventos demutação de promotor. Cânceres das vias biliares Os colangiocarcinomas são um grupo histologicamente diverso dos cânceres epiteliais, que podem ter origem em múltiplos diferentes tipos celulares no fígado, incluindo células epiteliais biliares ou células precursoras hepáticas, e com frequência são circundados por um estroma denso, com fibroblastos associados ao câncer (Figura 183.6C). Os colangiocarcinomas estão associados à inflamação de base e à colestase, que ativam fatores de crescimento e uma resposta proliferativa. A expressão excessiva de Notch1 e AKT tem sido implicada em um processo de conversão dos hepatócitos em precursores de colangiócitos do colangiocarcinoma intra-hepático. Os subtipos moleculares e genômicos dos cânceres das vias biliares também podem ser definidos pelo estado mutacional (tais como mutação do gene da isocitrato desidrogenase-1 [IDH1] e fusões do gene do receptor do fator de crescimento de fibroblastos 2 [FGFR2], com cada um ocorrendo em aproximadamente 15% dos colangiocarcinomas intra-hepáticos) e dos perfis de expressão dos genes.11 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Considerações gerais Independentemente do subtipo histológico, os tumores primários de fígado podem se manifestar com dor no quadrante superior direito, efeito de massa que causa saciedade precoce ou sintomas obstrutivos, náuseas, sangramento e obstrução biliar. Todos estes tumores apresentam potencial metastático; portanto, também é possível haver apresentação com sintomas constitucionais (tais como perda de peso, febre ou sudorese noturna) e sinais e sintomas de doença metastática (tais como dor óssea ou fratura patológica), ainda que sejam menos comuns. As síndromes paraneoplásicas são raras nos cânceres hepatobiliares, mas podem incluir eritrocitose em virtude da produção de eritropoetina pelo tumor e hipercalcemia da malignidade (Capítulo 169). Carcinoma hepatocelular A apresentação clínica do CHC pode variar de acordo com a extensão do tumor e a disfunção hepática de base. Alguns pacientes podem ser assintomáticos, em particular quando diagnosticados por meio de exames de imagem de vigilância e/ou elevação do marcador tumoral alfafetoproteína (AFP). Em alguns casos, os pacientes apresentam sintomas de agravamento da função hepática e hipertensão portal (Capítulo 144), tais como início de ascite, encefalopatia, sangramento gastrintestinal ou icterícia, como resultado da descompensação hepática acionada pelo crescimento de um tumor. Esta apresentação é mais comum se houver trombose da veia porta associada. Em outros casos, pode haver dor abdominal alta progressiva crônica, em virtude do envolvimento, pelo tumor, da cápsula hepática sensível, início súbito de dor aguda em virtude do sangramento ou da ruptura do tumor, ou massa palpável que leve ao diagnóstico de CHC. Sintomas constitucionais, tais como caquexia, fadiga e perda de peso, podem estar presentes com os estágios avançados. Ao exame físico, os pacientes com CHC podem apresentar aumento de volume do fígado com sensibilidade. Em particular em tumores grandes e de crescimento rápido, pode ser auscultado um ruído sobre a superfície do fígado. Ascite, icterícia, sinais de hipertensão portal, tais como “cabeça de Medusa” e esplenomegalia, e asterixe podem estar variavelmente presentes se houver descompensação na função hepática. O marcador tumoral AFP está elevado em aproximadamente 70% dos casos, mas não é diagnóstico (ver a discussão a seguir). Cânceres das vias biliares Os colangiocarcinomas extra-hepáticos se manifestam com mais frequência com sinais e sintomas de obstrução biliar, tais como icterícia, prurido, acolia, colúria, anorexia, náuseas e perda de peso. Os colangiocarcinomas intra-hepáticos também podem causar obstrução, mas em geral somente quando a doença está disseminada. Menos comumente, ocorrem complicações como fístulas biliares e hemobilia. Com frequência os cânceres de vesícula biliar são diagnosticados incidentalmente durante a colecistectomia, mas em alguns casos estão associados a dor no quadrante superior direito do abdome, cólica biliar ou massa palpável e dolorosa à palpação. A obstrução biliar pode levar a infecções das vias biliares, ou colangite, com sintomas que incluem dor no quadrante superior direito do abdome, febre, calafrios, náuseas, vômitos e icterícia. A colangite pode levar a complicações como abscesso, bacteriemia (mais comumente por patógenos entéricos gram-negativos) e síndrome da sepse. DIAGNÓSTICO Considerações gerais A abordagem dos pacientes com massa hepática exige avaliação dos fatores de risco e da extensão de qualquer doença hepática subjacente. A avaliação diagnóstica, o estadiamento e as opções de tratamento são guiados pela existência de doença subjacente, bem como por sua extensão. O diagnóstico diferencial do CHC e dos cânceres das vias biliares inclui lesões hepáticas benignas (tais como hemangiomas, adenomas, abscessos e nódulos regenerativos), tumores malignos de outras histologias hepáticas primárias, tumores de histologia mista e doença metastática. É recomendado que a avaliação diagnóstica e os procedimentos em pacientes com tumores hepatobiliares sejam realizados em centros especializados, em virtude da interação única da doença hepática subjacente, dos achados de exames de imagem específicos da doença e do estadiamento, e dos riscos da biopsia do tumor de fígado no subconjunto possivelmente curável de pacientes com tumores localizados. Carcinoma hepatocelular Em alguns pacientes, as manifestações clínicas, conforme descrito anteriormente, promovem a solicitação de exames de imagem que identificam massa hepática, levando à biopsia para o diagnóstico histológico ou, em alguns casos, a um diagnóstico radiográfico, se os achados de imagem do tumor atenderem aos critérios descritos adiante. Nos pacientes com cirrose conhecida ou outros fatores de risco para o CHC (e- Tabela 186.2), um tumor de fígado também pode ser identificado na ausência de outros sinais ou sintomas de câncer nos pacientes com fatores de risco para o CHC que são submetidos à vigilância por meio de monitoramento com exames de imagem e/ou AFP sérica. Um estudo clínico controlado e randomizado da vigilância por meio de ultrassonografia e AFP a cada 6 meses, em comparação a nenhuma vigilância, em uma grande população chinesa predominantemente HBV-positiva, mostrou efeitos benéficos em termos de sobrevida a partir da vigilância, ainda que o benefício não tenha sido comprovado em estudos clínicos randomizados em outras populações. Revisão sistemática e metanálise de pacientes com cirrose observaram que a vigilância regular em relação ao CHC com monitoramento com ultrassonografia e/ou AFP foi associada ao prolongamento da sobrevida e a um estágio mais inicial do CHC ao diagnóstico, em comparação a nenhuma vigilância.A111b O CHC é único na oncologia, no sentido em que o diagnóstico pode ser realizado por exames de imagem sem a amostragem do tecido tumoral no contexto clínico apropriado.12 Recomenda-se ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC) para investigação diagnóstica dos tumores de fígado com fases múltiplas de administração de contraste (incluindo as fases arterial, venosa portal e tardia). Nos pacientes com fatores de risco para o CHC (e-Tabela 186.2), um nódulo de no mínimo 1 cm realçado na fase arterial com diminuição do realce durante a fase venosa porta do contraste (conhecida como washout) é suficiente para um diagnóstico de CHC por exame de imagem. O realce arterial brilhante das lesões do CHC nos exames de imagem contrastados ocorre em razão da propensão deste tumor de parasitar o suprimento sanguíneo proveniente da artéria hepática, enquanto o parênquima hepático normal obtém a maior parte do seu suprimento de sangue da veia porta. Isto resulta em washout dos CHCs porque o fígado ao fundo brilha durante a fase venosa porta tardia. A Figura 186.4A e B mostra o realce arterial clássico (parte A) e washout venosa porta (parte B) de um tumor CHC em um fígado cirrótico. Vale mencionar quea elevação do nível de AFP não é suficientemente sensível ou específica para o diagnóstico de CHC nos pacientes cirróticos com massa hepática. É recomendada biopsia para confirmar o diagnóstico de CHC, se os critérios do diagnóstico por imagem não forem atendidos. Quando a primeira biopsia for inconclusiva em pacientes com nódulos hepáticos observados durante o acompanhamento em relação à doença hepática crônica (p. ex., fibrose ou sem lesão focal definitiva), observou-se que uma segunda biopsia de uma lesão suspeita produz amostra diagnóstica a uma taxa não inferior à da primeira biopsia.13 Nos pacientes com lesões pequenas, que possam ser elegíveis para a cirurgia curativa ou um transplante, a consulta com um hepatologista e/ou cirurgião hepático experiente deve ser realizada antes de proceder-se à biopsia percutânea para avaliar a candidatura para a ressecção cirúrgica e evitar o risco raro de semeadura do tumor com a biopsia (Figura 186.4). Após o diagnóstico de CHC por exame de imagem e/ou exame histopatológico, o estadiamento da extensão da doença demanda exames de imagem de tórax, abdome e pelve, mensuração dos níveis de AFP e cintilografia óssea, se houver sintomas ou sinais de metástases ósseas (tais como dor óssea ou valor de fosfatase alcalina acentuadamente elevado). O estadiamento do CHC também exige avaliação completa da função hepática basal, que afeta o prognóstico e as opções de tratamento, independentemente da extensão do tumor. Já foram desenvolvidos diversos sistemas de estadiamento do tumor conjuntos e de pontuação da doença hepática específicos para o CHC, incluindo o sistema de estadiamento do Barcelona Clinic Liver Cancer (BCLC), o sistema de estadiamento Hong Kong Liver Cancer (HKLC), a classificação de Okuda e o sistema de pontuação do Cancer of the Liver Italian Program (CLIP), embora não exista um consenso a respeito de qual é superior. Outros tumores de fígado e cânceres das vias biliares Para os pacientes com tumores de fígado sem fatores de risco conhecidos para o CHC e/ou caso não haja características de realce diagnósticas do CHC, é necessária a confirmação por meio de biopsia ou exame citológico para o diagnóstico. Tendo em vista que há um risco raro de semeadura do tumor pelo trajeto da agulha na biopsia percutânea ou endoluminal, é recomendado o encaminhamento para um centro especializado para orientar a avaliação diagnóstica em possíveis candidatos à cirurgia. As abordagens endoluminais, tais como a raspagem citológica com colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) ou a aspiração com agulha fina com ultrassonografia endoscópica, são preferidas para os pacientes nos estágios iniciais da doença que possam ser passíveis de cirurgia curativa ou transplante. O estadiamento do câncer das vias biliares e de outros tipos mais raros de câncer de fígado em geral inclui exames de imagem de tórax, abdome e pelve. Massa na fossa da vesícula biliar sugere um câncer de vesícula biliar primário. Ao contrário dos CHC, os colangiocarcinomas demonstram caracteristicamente realce progressivo durante a fase venosa porta do exame de imagem contrastado (Figura 186.5). Obstrução biliar e atrofia do lobo hepático ipsilateral e hipertrofia contralateral podem ser observadas, e algumas vezes elas podem obscurecer a identificação da massa tumoral real. No caso de cânceres das vias biliares, os marcadores tumorais CA-19-9 e antígeno carcinoembrionário (CEA) podem estar elevados e ajudam a monitorar a resposta ao tratamento, embora os níveis não sejam úteis se houver obstrução biliar e hiperbilirrubinemia. Endoscopia alta e endoscopia baixa são indicadas para excluir a doença metastática nos pacientes com diagnóstico de colangiocarcinoma intra-hepático, que de outro modo podem ser difíceis de diferenciar da doença metastática nos exames de imagem e histológicos. A colangiografia (CPRE ou colangiografia com ressonância magnética) pode ser indicada para fins diagnósticos e também terapêuticos (como inserção de um stent), sobretudo se houver obstrução biliar. Uma laparoscopia diagnóstica para descartar doença peritoneal deve ser considerada antes da realização de laparotomia para ressecção curativa nos pacientes com adenocarcinoma de vesícula biliar e colangiocarcinoma recentemente diagnosticados, em razão da propensão a metástases peritoneais radiograficamente ocultas, que afetariam a tomada de decisão cirúrgica. O estadiamento dos cânceres do trato biliar e de outros tumores de fígado segue o sistema de tumor, linfonodo e metástase (TNM) do American Joint Committee on Cancer. FIGURA 186.4 Exame de imagem de um carcinoma hepatocelular. Nesta tomografia computadorizada contrastada do fígado de um paciente com carcinoma hepatocelular, um tumor no lobo hepático direito demonstra realce da fase arterial (seta em A), seguida por washout na fase venosa porta (seta em B). FIGURA 186.5 Exame de imagem do colangiocarcinoma. Esta imagem de tomografia computadorizada contrastada na fase venosa porta mostra um colangiocarcinoma hilar (tumor de Klatskin) infiltrativo, que se estende até o lobo hepático esquerdo (seta branca), com um stent endobiliar posicionado (seta preta). TRATAMENTO Considerações gerais O tratamento dos pacientes com cânceres hepatobiliares exige o manejo da doença ou obstrução hepática subjacente, bem como do próprio tumor. Nos pacientes com infecção pelo HBV ativa ou exposição anterior ao HBV, é recomendável o cuidadoso monitoramento da função hepática e da carga viral; a terapia antiviral pode ser necessária para prevenir a reativação, que pode ocorrer com a terapia imunossupressora (Capítulo 32). O manejo dos tumores hepáticos em pacientes com cirrose exige tratamento das complicações da hipertensão portal ou da disfunção hepática (Capítulo 144). Nos pacientes com cânceres das vias biliares, a obstrução biliar é uma complicação comum, que com frequência exige a inserção endoscópica de um stent, drenagem percutânea ou antibioticoterapia se ocorrer colangite. A quimioterapia e as medicações para os cuidados de suporte podem exigem ajustes posológicos, dependendo do grau de disfunção hepática. Carcinoma hepatocelular O tratamento dos estágios iniciais do CHC depende do grau de disfunção hepática.13b No subconjunto de pacientes com CHC localizado e função hepática preservada, sem hipertensão portal significativa, a ressecção cirúrgica pode ser curativa, com taxas de sobrevida em 5 anos de aproximadamente 60 a 80% nos pacientes cuidadosamente selecionados. Entre os pacientes com graus crescentes de hipertensão portal, contudo, os desfechos cirúrgicos são significativamente mais desfavoráveis do que nos pacientes sem hipertensão portal. Para os indivíduos com contraindicações à cirurgia ou função hepática remanescente inadequadamente projetada, a ablação dos tumores pequenos com o uso de sondas que transmitem radiofrequência ou micro- ondas, ou por meio da injeção de etanol, pode proporcionar o controle em longo tempo e algumas vezes é curativa. Contrariamente a alguns cânceres, incluindo câncer do trato biliar ou colorretal, nos quais a terapia sistêmica adicional após a cirurgia pode aumentar a sobrevida livre de recidivas, não existem evidências de que a terapia sistêmica “adjuvante” melhore os resultados após a cirurgia ou a ablação para o CHC. O grande estudo clínico de fase III randomizado STORM não demonstrou benefício da terapia adjuvante com o inibidor de múltiplas quinases sorafenibe após a ressecção ou ablação dos tumores do CHC em estágio inicial.A2 Para os pacientes com estágios iniciais do CHC de acordo com os critérios de Milão (uma lesão ≤ 5 cm ou até 3 lesões ≤ 3 cm cada, sem evidências de envolvimento vascular ou disseminação extra-hepática) que não são candidatos à ressecção em virtude da localização do tumor ou de reserva hepática inadequada, o transplante de fígado ortotópico é um tratamento aprovado, com potencial de sobrevida a longo prazo semelhante à dos pacientes submetidos ao transplante em virtude de cirrose, sem câncer,durante o tratamento da disfunção hepática subjacente por meio da substituição com um novo fígado. Os critérios estendidos, com parâmetros que incluem tamanhos tumorais maiores, podem ser aceitos para o transplante em centros selecionados, com frequência acompanhado por tratamentos direcionados ao fígado, tais como embolização ou ablação, para controlar a carga tumoral durante o período em que os pacientes aguardam pelo transplante. Embolização Quando a carga tumoral do CHC excede os critérios para o transplante ou a cirurgia, mas permanece limitada ao fígado (estágio intermediário de BCLC), as terapias direcionadas ao fígado são comumente empregadas para adiar a progressão e prolongar a sobrevida, ainda que estes tratamentos provavelmente não sejam curativos. A quimioembolização transarterial (TACE) é a abordagem mais comum: o material embólico, geralmente misturado com agentes quimioterápicos, é infundido por cateteres arteriais diretamente nos tumores vasculares no fígado (Figura 186.6). Estudos clínicos randomizados demonstraram efeitos benéficos em termos de sobrevida da TACE para o CHC em estágio intermediário.A3 O material embólico e os agentes quimioterápicos ideais para a TACE ainda não foram definidos. Um estudo clínico de fase II randomizado comparou embolização via cateter com contas embólicas a quimioembolização com contas de doxorrubicina e não demonstrou diferença significativa na taxa de resposta, na sobrevida livre de progressão ou na sobrevida geral entre os grupos de tratamento.A4 A radioembolização com o uso de ítrio-90 ligado a microesferas de vidro ou resina é outra terapia administrada pela via arterial que pode ser empregada no CHC em estágio intermediário.14 Quimioterapia/Agentes biológicos Para os pacientes com estágios mais avançados de CHC, os agentes quimioterápicos citotóxicos convencionais não melhoram a sobrevida.15 O inibidor de multiquinases sorafenibe, que tem por alvo molecular a quinase de Raf e o receptor do fator de crescimento endotelial vascular (VEGFR), foi o primeiro agente de terapia sistêmica a prolongar significativamente a sobrevida, em comparação ao placebo, em dois estudos clínicos de fase III randomizados, ainda que o encolhimento do tumor tenha sido alcançado em menos de 5% dos pacientes. Diversos outros inibidores de múltiplas quinases com atividade antiangiogênica não melhoraram os desfechos em comparação ao sorafenibe, embora o lenvatinibe, que tem por alvo molecular inclusive o VEGFR e os receptores do fator de crescimento de fibroblastos, tenha demonstrado não inferioridade ao sorafenibe como terapia de primeira linha para o CHC não ressecável em um estudo clínico de fase III randomizado.A5 A adição de outras terapias com alvos moleculares ou quimioterapia ao sorafenibe não melhorou os desfechos, em comparação à monoterapia com sorafenibe. Após a progressão com a terapia de primeira linha com sorafenibe,16 os inibidores de multiquinases regorafenibe e cabozantinibe também demonstraram melhora da sobrevida geral, em comparação ao placebo.A6,A7 O inibidor de receptor do fator de crescimento do endotélio vascular 2, ramucirumabe, também consegue aumentar a sobrevida de pacientes com níveis elevados marcador tumoral alfafetoproteína (>400 ng/mL).A7b Imunoterapia A combinação de atezolizumabe (inibidor do ponto de controle imunológico da morte programada [PD]-L1) e bevacizumabe (inibidor do VEGF) consegue melhor de modo significativo a sobrevida sem progressão da doença, a sobrevida global e a qualidade de vida em comparação com sorafenibe.A7c Como resultado, está se tornando o padrão de cuidado para pacientes com formas avançadas de carcinoma hepatocelular e classe A de Child-Turcotte-Pugh de função hepática (Tabela 144-2). Imunoterapia com nivolumabe, inibidor de PD-1, também promoveu taxa de resposta objetiva de 20% com duração prolongada em 262 pacientes com carcinoma hepatocelular irressecável no estudo CheckMate-040.17 Cânceres das vias biliares A ressecção cirúrgica é a terapia definitiva para os pacientes com cânceres das vias biliares localizados,18,19,19b incluindo câncer da vesícula biliar. Para os pacientes com colangiocarcinoma distal, pode ser necessária pancreaticoduodenectomia de Whipple.20 O transplante de fígado para o colangiocarcinoma hilar em estágio inicial após a quimioterapia neoadjuvante e/ou quimiorradiação pode ser uma opção em determinados centros em pacientes altamente selecionados.21 No câncer de vesícula biliar, a colecistectomia com ressecção hepática em bloco e a linfadenectomia da porta hepática é recomendada para os pacientes com massa na vesícula biliar identificada no pré- operatório em exames de imagem ou no intraoperatório. Uma laparoscopia de estadiamento pode ser realizada anteriormente para descartar a possibilidade de carcinomatose peritoneal oculta. Para os pacientes com câncer de vesícula biliar em estágio inicial diagnosticado incidentalmente na revisão dos achados histopatológicos cirúrgicos após uma colecistectomia realizada por causas benignas, os pacientes com tumores que invadem mais profundamente do que a lâmina própria (T1a) e margens cirúrgicas negativas podem ser tratados somente com observação. Os pacientes que apresentam invasão da camada muscular (T1b), ou além desta, podem necessitar de ressecção hepática adicional e linfadenectomia, mas devem ser encaminhados a um centro com especialização no manejo de cânceres das vias biliares para a avaliação e o tratamento. Uma grande metanálise que incluiu 6.710 pacientes de 20 estudos sugeriu taxas de sobrevida mais altas com o uso de quimioterapia adjuvante, quimiorradiação ou radioterapia após a ressecção cirúrgica para os pacientes com colangiocarcinoma e cânceres de vesícula biliar. A adição de capecitabina adjuvante por 6 meses pode prolongar significativamente a sobrevida em geral e a sobrevida livre de recidivas após a ressecção do colangiocarcinoma ou câncer de vesícula biliar e pode se tornar o padrão de tratamento.A8 Nos pacientes com cânceres das vias biliares avançados não passíveis de ressecção, a quimioterapia de combinação com gencitabina mais cisplatina melhorou a sobrevida, em comparação à gencitabina isoladamente, em um estudo clínico de fase III randomizado.A9 Não existe uma terapia padrão para os cânceres biliares avançados após a falha da terapia de primeira linha, ainda que os esquemas à base de 5-fluoruracila (5-FU) sejam comumente utilizados. Está em andamento um estudo clínico de fase III randomizado que compara o esquema de 5-FU mais oxaliplatina (FOLFOX) versus os melhores cuidados de suporte. Estudos de terapias genomicamente direcionadas, inclusive inibidores de IDH1 e FGRFR2, mostraram efeitos benéficos em subgrupos definidos por mutação. O inibidor de IDH1 ivosidenibe melhorou a sobrevida sem evolução da doença em comparação com placebo em um estudo clínico randomizado de pacientes com colangiocarcinoma que apresentava mutações de IDH1.A9b O inibidor de FGFR pemigatinibe mostrou respostas duradouras em um estudo clínico de fase 2 de pacientes com colangiocarcinoma positivo para fusão de FGRF2.21b Para o raro subconjunto de pacientes com colangiocarcinoma que têm tumores com deficiência da via de reparo de incompatibilidades (MMR), o inibidor do ponto de controle (checkpoint) de PD-1, pembrolizumabe, é uma opção de tratamento importante, com base na resposta duradoura e na sobrevida prolongada em todos os tumores com deficiência de MMR.22 FIGURA 186.6 Quimioembolização transarterial (TACE) de carcinoma hepatocelular. Este angiograma da artéria hepática comum de mulher de 42 anos com hepatite B demonstra duas áreas distintas de “blush tumoral”, correspondentes às lesões do carcinoma hepatocelular subjacente (setas) que foram tratadas com TACE. (Cortesia do Dr. Nicholas Fidelman, Departamento de Radiologia Intervencionista, University of California, São Francisco.) CUIDADOS NA TERMINALIDADE A maioria dos pacientes com cânceres hepatobiliares primários apresenta manifestações clínicas somente nosestágios avançados da doença ou evolui para esses e sucumbe ao seu câncer ou às complicações do mesmo dentro de um período de tempo relativamente curto; portanto, os cuidados paliativos e os cuidados na terminalidade desempenham um papel integrante no manejo. Assim como com a maior parte dos cânceres avançados, o controle da dor, o tratamento das náuseas e da constipação intestinal, e o apoio familiar e social são essenciais. As metástases ósseas podem exigir radioterapia paliativa ou procedimentos de estabilização. Os pacientes com os estágios avançados dos cânceres hepatobiliares, em particular do CHC, também são de risco para o desenvolvimento de complicações da doença hepática em estágio terminal, tais como ascite intratável, icterícia, prurido, encefalopatia, infecções e sangramento gastrintestinal (Capítulo 126). A terapia diurética, a paracentese terapêutica e o manejo endoscópico do sangramento gastrintestinal podem ser necessários. Nos cânceres das vias biliares, a obstrução biliar e a colangite recidivante também podem necessitar de drenagem biliar endoscópica ou percutânea e terapia com antibióticos para a paliação. O encaminhamento para a unidade de cuidados paliativos pode ser apropriado quando os pacientes progredirem com as terapias anticâncer padrão e/ou forem inelegíveis para a terapia anticâncer adicional em virtude da extensão da doença, da disfunção hepática, do estado de desempenho desfavorável ou das preferências do paciente. Nos EUA, o CHC está associado a incidência elevada de disparidades de saúde, incluindo condição de imigrante, minoria racial ou étnica e nível socioeconômico baixo. Os médicos precisam se conscientizar das questões interculturais que circundam a revelação do diagnóstico, o controle da dor, o uso de terapias alternativas e os cuidados na terminalidade. O manejo da dor nos pacientes que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas atual ou com história pregressa de uso abusivo de substâncias psicoativas (um fator de risco para o CHC) pode ser complicado pela tolerância e/ou dependência. Em alguns casos, os pacientes e os cuidadores precisam ser tranquilizados pelos médicos antes do uso de opioides ou outros analgésicos para o controle da dor, em virtude de preocupações sobre a dependência. Especialistas em cuidados paliativos e assistentes sociais prestam serviços auxiliares importantes nos cuidados na terminalidade para os pacientes com cânceres hepatobiliares. PREVENÇÃO O rastreamento e a vigilância em relação ao CHC estão associados à melhora dos desfechos em populações selecionadas, ainda que o valor do rastreamento e da vigilância de rotina não tenha sido estabelecido entre as populações de risco e permaneça motivo de controvérsia. Os programas de vacinação contra o HBV também reduzem comprovadamente a incidência do CHC. A terapia antiviral efetiva para a infecção por HBV subjacente em pacientes com hepatite viral ativa está associada a redução do risco de desenvolvimento de CHC. Metanálise que incluiu 13.875 pacientes não demonstrou diferença significativa na ocorrência ou recidiva de CHC nos pacientes com infecção por HBV que alcançam uma resposta virológica prolongada após a terapia antiviral de ação direta ou a terapia à base de interferona.23 A prevenção e o tratamento de distúrbios relacionados ao etilismo, à obesidade e a outras condições associadas à EHNA são medidas apropriadas para mitigar os fatores de risco do CHC e minimizar a lesão hepática contínua, ainda que as evidências prospectivas em relação à redução do risco de câncer sejam limitadas. Alguns dados sugerem que o ácido acetilsalicílico (AAS) em doses baixas consegue reduzir significativamente o risco de carcinoma hepatocelular e a taxa de mortalidade relacionada ao fígado em pacientes com hepatite viral crônica.23b A previsão do risco de CHC individual deve possibilitar a quimioprevenção personalizada no futuro, com alvo nos pacientes de risco alto para a prevenção precisa.24 Existem evidências limitadas para apoiar medidas preventivas ou rastreamento dos cânceres das vias biliares. Para os pacientes com colangite esclerosante primária com aumento do risco de colangiocarcinoma, o rastreamento periódico por meio de exames de imagem não invasivos e medições séricas do marcador CA-19-9 podem ser considerados, ainda que os dados de suporte sejam limitados. A1. A2. PROGNÓSTICO O prognóstico dos pacientes com CHC e cânceres das vias biliares em geral é desfavorável. Para os pacientes com CHC ou colangiocarcinoma intra- hepático, a taxa de sobrevida em geral em 5 anos entre todos os estágios é de aproximadamente 20%. Para a minoria dos pacientes com CHC ou colangiocarcinoma intra-hepático diagnosticados com estágios localizados da doença, a taxa de sobrevida relativa em 5 anos se aproxima de 30%, ainda que este número seja substancialmente mais alto nos pacientes com estágios iniciais da doença que são submetidos a ablação curativa, cirurgia ou transplante, para os quais as taxas de sobrevida específicas da causa em 5 anos em geral se aproximem de ou excedam 60%. Para os pacientes diagnosticados com CHC ou colangiocarcinoma metastático, a taxa de sobrevida em 5 anos é inferior a 5% e a sobrevida geral mediana é inferior a 1 ano. Para os pacientes com adenocarcinoma de vesícula biliar, a taxa de sobrevida em geral em 5 anos varia de aproximadamente 50% para os pacientes com tumores em estágio I a menos de 5% para aqueles com doença metastática. A taxa de recidiva metastática é alta, até mesmo entre aqueles com carcinoma de vesícula biliar ressecável. O prognóstico dos pacientes com tipos mais raros de cânceres de fígado primários, tais como CHC fibrolamelar, hemangioendotelioma endotelioide hepático ou angiossarcoma hepático é extremamente heterogêneo e em geral baseado em dados limitados de séries de casos retrospectivos. Singal AG, Pillai A, Tiro J. Early detection, curative treatment, and survival rates for hepatocellular carcinoma surveillance in patients with cirrhosis: a meta-analysis. PLoS Med. 2014;1-20. Bruix J, Takayama T, Mazzaferro V, et al. Adjuvant sorafenib for hepatocellular carcinoma after resection or ablation (STORM): a phase 3, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2015;16:1344-1354. A3. A4. A5. A6. A7. A7b. A7c. A7d. A8. A9. A9b. Liu Z, Gao F, Yang G, et al. 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A. Não existe exceção à exigência de um diagnóstico histológico em relação ao CHC. Sempre é necessária biopsia para confirmar a existência de células malignas. B. Homem asiático com infecção pelo vírus da hepatite B (HBV) conhecida, sem cirrose hepática, que apresenta uma lesão hepática expansiva de 3 cm e um valor de alfafetoproteína (AFP) de 400 ng/mℓ. C. Paciente com cirrose C de Child-Pugh como resultado de infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) duradoura, que desenvolve descompensação hepática junto com o achado de massa infiltrativa, definidora da doença, em uma ultrassonografia hepática e um valor de AFP de 43 ng/mℓ, em comparação a uma AFP basal de 18 ng/mℓ 1 ano antes. Concluir questão Um homem de 54 anos apresenta cirrose B de Child-Pugh como resultado de infecção pelo HCV e de sangramento recente de varizes esofágicas que exigiu transfusão. Foi diagnosticado um CHC de 2 cm no lobo direito do fígado, com realce arterial e washout na fase venosa porta na TC contrastada. Não existem evidências de invasão vascular ou disseminação extra-hepática em exame de imagem. Qual opções das seguintes é o manejo mais apropriado? D. Tumor realçado na fase arterial, com no mínimo 1 cm, na RM ou na TC contrastada e washout na fase venosa porta em um paciente com hepatopatia conhecida. A. Biopsia hepática percutânea para confirmar o diagnóstico de CHC, seguida por encaminhamento ao departamento de radiologia intervencionista para quimioembolização transarterial (TACE). B. Ablação ou ressecção do tumor, seguida por radioterapia adjuvante em todo o fígado. C. Encaminhamento a um centro especializado para a avaliação em relação ao transplante de fígado. D. Ressecção cirúrgica, seguida por sorafenibe adjuvante. E. Espera cuidadosa. Concluir questão Atualmente o sorafenibe é o padrão de tratamento para os pacientes com estágios avançados de carcinoma hepatocelular. Qual das declarações a seguir é verdadeira a respeito deste fármaco? A. Sorafenibe é um inibidor seletivo da c-Met tirosinoquinase, que alcança um tempo até a progressão prolongado em pacientes com CHC avançado cujos tumores são positivos para a expressão excessiva de c-Met por meio de imuno-histoquímica. B. Sorafenibe é um inibidor de múltiplas quinases, cujos alvos moleculares incluem VEGFR2 e Raf quinases, que comprovadamente prolonga a sobrevida em pacientes com CHC não ressecável em estudos clínicos de fase III randomizados, duplos-cegos e controlados por placebo. C. Sorafenibe é um inibidor de múltiplas quinases, que inibe a replicação viral e pode reverter a progressão da cirrose, com aumento do benefício em pacientes com cirrose B e C de Child- Pugh, em comparação à cirrose A de Child-Pugh. D. Sorafenibe demonstra melhora dos desfechos em pacientes asiáticos com hepatopatia associada ao HBV, em comparação aos pacientes não asiáticos com infecçãopelo HCV de base como causa da hepatopatia. Concluir questão Mulher de 47 anos de ascendência sul-americana é submetida a colecistectomia laparoscópica para um diagnóstico clínico de colelitíase. Após a cirurgia, incidentalmente observa-se que a amostra anatomopatológica alberga um adenocarcinoma de vesícula biliar, que invade a camada muscular (T1b), com margens negativas. O exame de imagem de estadiamento é negativo para doença metastática. Qual das seguintes opções deve ser realizada? E. Sorafenibe é um fármaco imunomodulador que estimula as respostas dos linfócitos T efetores contra os antígenos tumorais. A. Nenhum tratamento adicional, ou observação, é necessário(a) após a colecistectomia laparoscópica. B. Ela deve ser acompanhada com observação cuidadosa, incluindo exames de imagem e níveis do marcador tumoral CA- 19-9, em intervalos de aproximadamente 6 meses, por até 5 anos. C. Ela deve ser encaminhada para um centro especializado em cânceres das vias biliares para ressecção hepática e linfadenectomia, seguidas por terapia adjuvante com capecitabina. Concluir questão Observa-se que um homem de 71 anos, anteriormente com boa saúde e sem hepatopatia conhecida, apresenta elevação leve dos níveis de aspartato aminotransferase, alanina aminotransferase e fosfatase alcalina, com bilirrubina normal. A colonoscopia e a endoscopia digestiva alta recentes foram normais. Ele está assintomático, sem icterícia. Uma ultrassonografia revela massa hepática em lobo direito de 4 cm mal definida, junto com duas lesões menores em lobo direito e uma lesão em lobo esquerdo, sem dilatação biliar significativa. TCs contrastadas de tórax, abdome e pelve mostram uma lesão em lobo direito dominante, com características infiltrativas e alguma retração capsular adjacente, junto com múltiplas lesões hepáticas com realce bilobar diminuído adicional durante a fase arterial, bem como linfonodos regionais aumentados de volume. Uma biopsia percutânea guiada por TC de um linfonodo regional demonstra adenocarcinoma compatível com D. Ela deve receber quimioterapia adjuvante à base de gencitabina por 6 meses. E. Ela deve receber radioterapia adjuvante no leito da ressecção cirúrgica. colangiocarcinoma. Qual é a próxima etapa mais apropriada no manejo? Concluir questão A. Encaminhamento para um oncologista para quimioterapia sistêmica com gencitabina mais cisplatina para o diagnóstico de colangiocarcinoma intra-hepático multifocal com metástases em linfonodos. B. Encaminhamento para o departamento de oncologia para radioterapia com feixe estereotáxico para o diagnóstico de colangiocarcinoma intra-hepático multifocal não ressecável. C. Encaminhamento para um centro especializado para avaliação em relação ao transplante de fígado para colangiocarcinoma intra-hepático. D. Encaminhamento para o departamento de radiologia intervencionista para quimioembolização para um diagnóstico de CHC bilobar em estágio intermediário que excede os critérios de Milão para um transplante. CARCINOMA DE CÉLULAS RENAIS DEFINIÇÃO Os cânceres de rim são um grupo heterogêneo de neoplasias, a maioria delas malignas e de origem epitelial. O carcinoma de células renais, classicamente denominado carcinoma de células claras ou hipernefroma, não é um processo maligno único. O carcinoma de células renais compreende um grupo de entidades distinguíveis, cada uma das quais com uma forte relação entre as suas características morfológicas e genéticas.1 A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece estas diferenças biológicas e histológicas no seu sistema de classificação dos cânceres de rim (Tabela 187.1). O potencial metastático depende do subtipo histológico e varia dos carcinomas de células claras convencionais mais virulentos (65% do total dos tumores, mas responsáveis por 90% das metástases), até os carcinomas papilares e cromófobos de evolução mais indolente (25% do total, mas somente 10% das metástases), e os oncocitomas benignos (10% de todos os tumores). EPIDEMIOLOGIA Eram esperados mais de 65.000 novos casos de tumores de rim e pelve renal nos EUA em 2018, resultando em aproximadamente 14.000 mortes. Estes cânceres representam a sexta forma de câncer mais comum em homens e a décima mais comum em mulheres. O aumento na incidência de cânceres de células renais (CCR) está parcialmente relacionado à detecção precoce em consequência de tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) de abdome realizadas em razão de outras condições clínicas. A razão homem/mulher é de aproximadamente 2:1 a 3:1, e a incidência é mais alta em afro-americanos e mais baixa em asiáticos e nativos das ilhas do Pacífico. A idade média ao diagnóstico é na sexta à sétima décadas de vida. Além da predisposição genética, os fatores de risco associados ao CCR incluem tabagismo, obesidade, hipertensão arterial sistêmica e uso de diuréticos. O tabagismo (cigarros) foi associado a um risco maior, tanto nos homens quanto nas mulheres.2 O risco diminui após o abandono do tabagismo, mas são necessários aproximadamente 20 anos. Pessoas obesas correm risco aumentado de CCR, e o risco aumenta com o aumento do índice de massa corporal (IMC). Embora exista elevação do risco associada ao uso de diuréticos, é difícil distinguir esta associação do aumento do risco associado à hipertensão arterial sistêmica. O CCR é mais prevalente nos pacientes com condições renais preexistentes, tais como doença renal policística, rim em ferradura e insuficiência renal crônica que exige hemodiálise. Tabela 187.1 Classificação dos tumores de células renais de acordo com a classificação da OMS de 2016. SUBTIPOS DE TUMORES DE CÉLULAS RENAIS ATUAIS CCR de células claras (convencional)* (65 a 70%) CCR papilar (cromófilo)* (15 a 20%) CCR cromófobo* (5 a 7%) Carcinoma de ducto coletor* Carcinoma medular renal* Carcinoma tubular mucinoso e de células fusiformes* CCR, não classificado* Oncocitoma Adenoma papilar (cromófilo) SUBTIPOS DE TUMORES DE CÉLULAS RENAIS NOVOS Neoplasia renal cística multilocular de baixo potencial maligno CCR associados à translocação da família Mi T* CCR tubulocístico* CCR associado à doença cística adquirida* CCR papilar de células claras* CCR com deficiência de succinato desidrogenase* CCR associado à liomiomatose hereditária e CCR* Os subtipos tumorais em itálico são os tumores de células renais mais comuns, compreendendo as porcentagens de todos os CCRs (entre parênteses), respectivamente. *Maligno. Mi T = fator de transcrição de microftalmia; CCR = carcinoma de células renais; OMS = Organização Mundial da Saúde. (Adaptada de Inamura K. Renal cell tumors: understanding their molecular pathological epidemiology and the 2016 WHO classification. Int J Mol Sci. 2017;18:E2195. A classificação da OMS de 2016 revisada adicionou os subtipos de tumores novos à Classificação das Neoplasias Renais de Vancouver de 2013 [Srigley JR, et al. Am J Surg Pathol. 2013;37:1469-1489].) BIOPATOLOGIA O sistema de classificação dos CCR possibilita uma compreensão melhor sobre a célula de origem dos diversos subtipos e de suas anormalidades cromossômicas (Tabela 187.2). O carcinoma de células claras clássico constitui aproximadamente 65% dos tumores e acredita-se que tenha origem no túbulo contorcido proximal. Em geral é solitário e bem circunscrito, com coloração amarelo-dourada resultante dos lipídios citoplasmáticos abundantes. Os tumores de grau mais alto contêm menos lipídios e glicogênio. Aproximadamente metade dos tumores exibe padrão de crescimento sólido ou acinar caracterizado por lâminas sólidas de células tumorais, acompanhadas por uma rica rede vascular de capilares. Os CCR papilares representam 7 a 14% das neoplasias renais epiteliais primárias. A maioria dos pacientes apresenta tumores unilaterais. A multifocalidade, seja na forma de lesões bilaterais ou multifocais no mesmo rim, ocorre em aproximadamente 45% dos casos. A maioria destes tumores exibe um amplo espectro morfológico, incluindo áreas papilares, papilares-trabeculares e papilares-sólidas; a necroseassociada é um achado comum. O padrão papilar clássico é caracterizado por discretas folhas papilares revestidas por células epiteliais neoplásicas que contêm um centro fibrovascular central, facilmente reconhecível com pouco aumento. Esses tumores são divididos em lesões tipo 1 e tipo 2, com base nas características citológicas e nas diferenças genéticas. A caracterização molecular abrangente, com o uso de uma combinação de sequenciamento de todo o exoma, análise da quantidade de cópias, sequenciamento do RNA mensageiro e do microRNA, DNA-metilação e análise proteômica dos tumores, demonstrou que os carcinomas de células renais papilares tipo 1 e tipo 2 são clínica e biologicamente distintos.3 Os cânceres renais cromófobos são responsáveis por 6 a 11% dos tumores epiteliais renais. Caracteristicamente, estes tumores são solitários e discretos, mas não encapsulados. Os achados histológicos típicos são compostos por células redondas a poligonais grandes, com bordas celulares bem definidas e citoplasma basofílico pálido, misturado com uma população menor de células poligonais com citoplasma eosinofílico. Esses tumores podem ser razoavelmente grandes ao diagnóstico, com relatos de tumores ressecáveis tão grandes quando 23 cm. O CCR de células claras é caracterizado pela perda de material genético do braço curto do cromossomo 3 (3p) e por mutações no gene de von Hippel-Lindau (VHL). Nos pacientes com doença de von Hippel-Lindau, essas perdas e mutações ocorrem em virtualmente todos os casos. Os tumores esporádicos mais comuns também apresentam mutações somáticas e hipermetilação na mesma região em aproximadamente 75 a 80% dos casos. Os tumores de células claras convencionais apresentam mutação no gene VHL, que é inativado por mutação pontual ou pelo silenciamento do gene epigenético por meio da metilação do promotor. A perda de VHL, responsável pela ubiquinação e pela degradação do fator induzível pela hipoxia (HIF), leva à regulação ascendente dos genes responsivos ao HIF responsáveis pela angiogênese e pelo crescimento celular. Dois destes genes com regulação ascendente são o fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF) e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que são proteínas pró-angiogênicas que se acredita induzirem a neovascularidade nos cânceres de células claras primários e metastáticos. Os pacientes com VHL mais comumente desenvolvem tumores a uma idade mais precoce e com frequência apresentam múltiplos tumores. Outros tumores associados à síndrome incluem os hemangioblastomas do sistema nervoso central, tumores neuroendócrinos pancreáticos, feocromocitomas, angiomas retinianos e cistadenomas epididimários. A caracterização molecular mais recente do CCR demonstra alterações nos genes responsáveis pela manutenção dos estados da cromatina, como PBRM1, o complexo de remodelamento da cromatina SWI/SNF, incluindo ARID1A e SMARCA4, e membros da via de PI3K/AKT. A maioria dos CCR papilares esporádicos é caracterizada pela trissomia dos cromossomos 7 e 17 e pela perda do cromossomo Y. Os CCR cromófobos apresentam perda genética dos cromossomos 1 e Y, bem como perdas cromossômicas combinadas que afetam os cromossomos 1, 6, 10, 13, 17 e 21. O CCR papilar hereditário é resultado das mutações de linhagens germinativas e da ativação do proto-oncogene MET, que está localizado no cromossomo 7p. Estas células apresentam receptores do fator de crescimento de hepatócitos aberrantes, que não podem ser desativados após a ligação pelo fator de crescimento. Também têm sido observadas amplificações somáticas no gene MET em aproximadamente 10% dos cânceres renais papilares esporádicos. A síndrome de liomiomatose hereditária e carcinoma de células renais (LHCCR), caracterizada pela alteração do gene fumarato hidratase, está associada a liomiomas (mais comuns) ou liomiossarcomas (raros) uterinos, nódulos cutâneos (liomiomas) e carcinoma de células renais papilares do tipo 2, que com frequência são solitários e usualmente desenvolvem metástases. A síndrome de Birt-Hogg Dubé é um distúrbio raro, predominantemente associado aos CCR cromófobos, mas nos quais pode haver desenvolvimento de tumores de células claras e cromófobos/oncocíticos. A síndrome de Birt-Hogg-Dubé é caracterizada por fibrofoliculomas, cistos pulmonares, pneumotórax e tumores renais bilaterais. O gene associado à síndrome de Birt-Hogg-Dubé foi mapeado em 17p e expressa uma proteína inédita, a foliculina, cuja função ainda não está caracterizada. Tabela 187.2 Subtipos histológicos, genética e síndromes. SUBTIPO HISTOLÓGICO PORCENTAGEM DEFEITOS GENÉTICOS/MOLECULARES IMPORTANTES SÍNDROMES ASSOCIADAS Células claras convencionais 75 Mutação LOH 3p de 3p24 (VHL) CCR hereditário de von Hippel- Lindau Papilar 1 5 Mutação do gene C-met 7q31 Carcinoma de células renais papilar hereditário (CCRPH) Papilar 2 10 Fumarato hidratase 1q42 Liomiomatose hereditária e carcinoma de células renais (LHCCR) Cromófobo 5 Birt-Hogg Dubé 17p11 Birt-Hogg Dubé Oncocitoma 9,7 Birt-Hogg Dubé 17p11 Oncocitoma familiar e Birt- Hogg Dubé Ducto coletor 0,4 –18 –,Y Carcinoma medular renal LOH = perda de heterozigose (do inglês, loss of heterozygosity); VHL = von Hippel-Lindal; CCR = carcinoma de células renais. Adaptada de Zambrano N. Histopathology and molecular genetics of renal tumors. J Urol. 1999;162:1246-1258. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Ainda que o CCR apresente elevada propensão a metástases e esteja associado a síndromes paraneoplásicas, a maioria dos pacientes é assintomática à apresentação. Historicamente, o CCR era caracterizado pela tríade inicial de hematúria, massa palpável e dor em até 10% dos pacientes. Entretanto, houve uma migração do estágio, que resultou na detecção dos tumores em estágios mais iniciais, com o aumento do uso de exames de imagem abdominais para condições clínicas não relacionadas nas séries modernas. Até 48% dos tumores podem ser descobertos desta maneira, e menos de 5% dos pacientes apresenta massa palpável à apresentação. Os sinais/sintomas iniciais mais comuns são anemia, perda de peso, mal-estar e anorexia (Tabela 187.3). Os pacientes com CCR apresentam frequentemente síndromes paraneoplásicas associadas (ver Capítulo 169).4 Hipercalcemia é encontrada em aproximadamente 20% dos pacientes e pode ser consequência da secreção de paratormônio (PTH), peptídio semelhante ao paratormônio e interleucina-6 (IL-6), que comprovadamente estimulam a reabsorção óssea por osteoclastos. Outras síndromes associadas incluem hipertensão arterial sistêmica, eritrocitose (em virtude da produção ectópica de eritropoetina) e a rara síndrome de Stauffer, que consiste em disfunção hepática sem metástases hepáticas associadas; a disfunção hepática desaparece após a ressecção cirúrgica do tumor. DIAGNÓSTICO A avaliação completa dos pacientes com suspeita de CCR deve incluir hemograma completo, perfil bioquímico, exame ósseo e exame de TC de tórax, abdome e pelve. A TC é o método mais confiável para a detecção e o estadiamento do CCR.6 A TC “ideal” para as massas renais pode ser dividida em quatro fases, incluindo as imagens pré-contraste, a fase arterial (cerca de 25 segundos após a injeção), a fase nefrográfica (cerca de 90 segundos desde a injeção) e a fase excretória. As fases mais importantes para a obtenção de imagens dos tumores renais são a pré- contraste e a nefrográfica, tendo em vista que as lesões renais aparecem com densidade baixa, contrastando com o parênquima renal uniformemente intensificado. A fase arterial é útil para identificar as artérias renais e pequenas massas hipervasculares. A fase excretória auxilia na avaliação do sistema coletor e da pelve renal. A TC também é útil para detectar metástases regionais, e atualmente é possível obter TC tridimensionais quando se planeja uma cirurgia poupadora de néfrons ou uma nefrectomia parcial. O uso adicional de ultrassonografia e RM ajuda a diferenciar as lesões benignas e malignas do rim e no planejamento do tratamento. A ultrassonografia (US) é utilizada quando se diferenciamlesões císticas e sólidas. A RM tem a vantagem de obter imagens de tumores em pacientes com função renal desfavorável, para os quais o contraste intravenoso é contraindicado. A RM também é útil para definir quaisquer trombos que possam estar se estendendo até a veia renal ou a veia cava inferior, e a angiografia com RM pode ser utilizada para determinar o número e a localização das artérias renais nos candidatos à nefrectomia parcial. Após a conclusão da avaliação, o estágio clínico é avaliado com o uso do sistema Tumor, Linfonodo, Metástase (TNM) (Tabela 187.4).6 Tabela 187.3 Sintomas e sinais iniciais de carcinoma de células renais (tanto doença localizada quanto metastática). SINTOMAS E SINAIS PORCENTAGEM Anemia 52 Disfunção hepática 32 Perda de peso 23 Hipoalbuminemia 20 Mal-estar 19 Hipercalcemia 13 Anorexia 11 Trombocitose 9 Sudorese noturna 8 Febre 8 Hipertensão arterial sistêmica 3 Eritrocitose 4 Calafrios 3 Adaptada de Kim KI, Belldegrun AS, Freitas DG, et al. Paraneoplastic signs and symptoms of renal cell carcinoma: implications for prognosis. J Urol. 2003;170:1742-1746. TRATAMENTO Doença localizada O padrão de tratamento histórico para os pacientes com CCR é a nefrectomia radical. Os cânceres de rim rotineiramente selecionados para nefrectomia radical incluem tumores grandes e centralmente localizados, que efetivamente substituíram a maioria do parênquima renal normal, tumores associados à adenopatia regional (de etiologia benigna ou maligna), aqueles com extensão até a veia cava inferior ou átrio direito, e até mesmo aqueles nos quais há doença metastática evidente. A nefrectomia pode ser realizada por meio de incisão no flanco, transperitoneal ou transtorácica. A glândula suprarrenal ipsilateral também é removida, mas a dissecção de linfonodos regionais é opcional e motivo de controvérsia. O aumento da porcentagem de tumores pequenos resultou em diminuição correspondente nos pacientes submetidos à nefrectomia radical, com uma excelente sobrevida a longo prazo. Tanto as abordagens abertas quanto laparoscópicas podem ser utilizadas para a nefrectomia parcial para controlar a doença e preservar a função renal. A nefrectomia laparoscópica oferece uma alternativa minimamente invasiva à nefrectomia radical clássica. A nefrectomia parcial para os tumores com 7 cm ou menos, seja realizada por meio de técnica aberta ou laparoscópica minimamente invasiva, alcança taxas de controle tumoral local e sobrevida semelhantes às da nefrectomia radical. A nefrectomia parcial reduz o risco de insuficiência renal ao longo do tempo. O manejo com nefrectomia parcial é adicionalmente apoiado pelo fato de que aproximadamente 35% dos tumores corticais renais são carcinomas papilares ou cromófobos de evolução arrastada. Os CCR são resistentes tanto à radioterapia quanto à quimioterapia citotóxica e, portanto, são úteis como tratamento adjuvante após a nefrectomia. Sunitinibe, um fármaco com alvo molecular no VEGF, é efetivo como tratamento adjuvante após a nefrectomia, com um impacto favorável sobre a sobrevida.A1 Doença metastática Aproximadamente 30% dos pacientes com CCR apresentam doença metastática, e um adicional de 20 a 30% dos pacientes com tumores primários cirurgicamente ressecados apresentará recaída com metástases. As complicações da doença metastática incluem dor em virtude de um tumor primário não ressecável ou metástases esqueléticas. A radioterapia é, com frequência, utilizada para a paliação das metástases ósseas e para os pacientes com múltiplas metástases cerebrais. Algumas vezes a nefrectomia paliativa é utilizada para proporcionar o alívio sintomático da dor. A ressecção cirúrgica do tumor primário é considerada um fundamento do tratamento, até mesmo no paciente com doença metastática, e comprovadamente prolonga a sobrevida nos pacientes com doença metastática. A ressecção cirúrgica dos locais metastáticos da doença (metastasectomia) também prolonga a sobrevida e até mesmo cura um subconjunto de pacientes. Os pacientes que mais provavelmente se beneficiam da ressecção cirúrgica da doença são aqueles com um intervalo livre da doença superior a 1 ano, aqueles com um local de metástase solitária, e aqueles com metástases pulmonares. Tem sido observada a sobrevida a longo prazo quando o local solitário de ressecção foi o pulmão (até 45%) e até mesmo o cérebro (até 20%). O CCR é resistente à maioria dos agentes quimioterápicos convencionais, com respostas observadas em menos de 10% dos pacientes. A imunoterapia7 com IL-2 ou interferona-a (IFN-a) foi o padrão histórico para os pacientes com doença metastática, mas foi substituída por agentes mais novos como opção de primeira linha para as formas avançadas da doença. Por exemplo, o uso isolado de sunitinibe (um inibidor de tirosinoquinase) (50 mg/dia em ciclos de 28 dias on e 14 dias off a intervalos de 6 semanas) é tão efetivo quanto a nefrectomia seguida por sunitinibe em pacientes com carcinoma de células renais metastático.A2 Nivolumabe, um inibidor de ponto de controle imunológico da morte programada (PD-1) imunoglobulina G4 (IgG4) que bloqueia seletivamente a interação entre PD-1 e seus ligantes PD-L1 and PD-L2, interfere na capacidade dos tumores escaparem das respostas imunes do hospedeiro. Nivolumabe apresenta efeitos clínicos benéficos comprovados, tanto como agente isoladoA3 como em combinação com o anticorpo ipilumimabe (imunoterapia) direcionada contra CTLA-4A4 ou com cabozantinibe, um inibidor de tirosinoquinase oral (molécula pequena) direcionado contra VEGFR, MET e AXL.A4b A imunoterapia7 com IL-2 ou interferona-a (IFN-a) tem sido o tratamento padrão histórico para os pacientes com doença metastática. A dose alta de IL-2 intravenosa, uma terapia possivelmente curativa, exige hospitalização em razão de suas toxicidades graves, incluindo hipotensão, edema pulmonar, insuficiência renal e efeitos tóxicos no sistema nervoso central. Entretanto, a maioria dos efeitos tóxicos é reversível e são observadas respostas completas ou parciais em aproximadamente 15 a 20% dos pacientes; aproximadamente 4% dos pacientes alcança a sobrevida livre da doença a longo prazo. A terapia com IFN-a é menos tóxica do que com IL-2 e apresenta uma taxa de resposta em geral de aproximadamente 15%, mas não é observada a sobrevida a longo prazo. As toxicidades reversíveis do tratamento com IFN-a incluem sintomas semelhantes aos da gripe, incluindo febre, calafrios, mialgias, mielossupressão leve e disfunção hepática leve. Nivolumabe, um anticorpo inibidor do ponto de controle imune de morte programada (PD)-1 imunoglobulina G4 (IgG4), que bloqueia seletivamente a interação de PD-1 com seus ligantes PD-L1 e PD-L2, previne a capacidade dos tumores de evadir às respostas imunes do hospedeiro. Nivolumabe demonstrou benefício clínico tanto como um agente únicoA3 quanto em combinação com o anticorpo para imunoterapia ipilimumabe, com alvo molecular em CTLA-4. Um recente estudo clínico de fase 3 comparou nivolumabe mais ipilimumabe ao inibidor de tirosinoquinase sunitinibe (ver parágrafo a seguir) nos pacientes com carcinoma de células renais avançado de células claras não tratado anteriormente e demonstrou taxas de sobrevida em geral e resposta objetiva significativamente mais altas nos pacientes tratados com nivolumabe mais ipilimumabe de risco intermediário e desfavorável.A4 O CCR tem sido um candidato ideal para o desenvolvimento de fármacos com alvo nos efeitos downstream das mutações de VHL.8 Estudos clínicos demonstraram o benefício dos inibidores de tirosinoquinase (TKIs), tais como cabozantinibe, sunitinibe, axitinibe, pazopanibe e sorafenibe, que bloqueiam as ações de VEGF e PDGF; todos são aprovados pela FDA para o tratamento da doença metastática, mas somente o sunitinibe é aprovado como tratamento adjuvante de tumores primários cirurgicamente ressecados com um risco alto de recaída.A5 Os efeitos colaterais comuns incluem fadiga, diarreia, hipertensão e síndrome mão-pé, uma condição na qual surgem bolhas nas áreas de contato.