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TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir as características da produção da Escola de Chicago de Sociologia. � Identificar as particularidades metodológicas da Escola de Frankfurt de Teoria Crítica. � Reconhecer as características de uma escola de pensamento. Introdução Neste texto, você conhecerá dois importantes movimentos da tradição sociológica do início do século XX: a Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago. Essas duas escolas se vincularam a importantes institutos de pesquisas e universidades das cidades em que se desenvolveram. Apesar do tratamento conjunto de ambas, elas constituem dois movimentos diferentes, como você verá. A Escola de Chicago de Sociologia Os Estados Unidos têm abrigado diversas pesquisas sobre os meios de co- municação. No início do século XX, os pesquisadores Robert Ezra Park (1864–1944), Ernest Burgess (1886–1966) e Charles H. Cooley (1864–1929) se reuniram em torno da Escola de Chicago. Essa escola, por meio de uma abordagem microssociológica sobre a cidade, passou a investigar o objeto da comunicação (ARAÚJO, 2013). Mais precisamente, desde a década de 1910, a comunicação no território norte-americano se encontra relacionada ao projeto de construção de uma ciência social sobre bases empíricas, sendo a Escola TC_U3_C09.indd 139 10/11/2017 15:19:53 de Chicago a sede desse mesmo projeto. Assim, a perspectiva microssociológica sobre os meios de comunicação que fazem parte da organização social é parte de uma reflexão mais ampla. Essa reflexão tem relação com o papel da ciência na resolução dos desequilíbrios sociais. A hegemonia da Escola de Chicago dura até por volta das vésperas da Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, o enfoque da pesquisa sobre os Meios de Comunicação de Massa (MCM) é deslocado para análises quantitativas. Desse modo, nos anos 1940, a supremacia da Escola de Chicago é suplantada pela da Mass Communication Research (MATTELART; MATTELART, 1997b). Contexto da Escola de Chicago Nessa tradição teórica, a cidade se apresentava como um local privilegiado para se observar o processo comunicativo. Entre o final do século XIX e o início do XX, as cidades estavam passando por grandes transformações. Essas mudanças traziam impactos profundos nas relações estabelecidas entre as pessoas e nas atividades sociais que elas exerciam. Era preciso, então, outro olhar sobre a cidade, pois ela passara a se construir de forma muito diferente. Assim, nesse novo contexto urbano, marcado pela industrialização e pela urbanização, uma nova abordagem sobre a sociedade passava a ser “solici- tada”. Ou seja, se requeriam estudos que trouxessem formas de compreender os problemas causados por esses acontecimentos. O crime, a prostituição, o abandono e a dependência eram alguns dos problemas que estavam associados ao aumento do anonimato, do isolamento entre os indivíduos e da incerteza incrementada pela vida moderna. Só que, além das mudanças sociais e econô- micas trazidas pela industrialização e pela urbanização, as diversas formas de cultura de massa – tais como música, livro, revista, jornal, filme, etc. – foram apontadas como colaboradoras do aumento do crime, do declínio da moral social, do agravamento da brutalidade e da impessoalidade – esta última em virtude da perda da ligação com os outros indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade (MCQUAIL, 2000). Com a diminuição da integração social, os pesquisadores norte-americanos passaram a conceber os meios de comunicação de massa como possíveis A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago140 TC_U3_C09.indd 140 10/11/2017 15:19:53 potencializadores dessa integração. No entanto, é importante você considerar o modo distinto de interpretação da influência gerada pelos MCM. Nesse sentido, a forma como os pesquisadores viam esses meios estava relacionada a uma atitude otimista ou pessimista do observador quanto às mudanças da sociedade. Logo, os meios de comunicação poderiam ser observados em termos negativos – em virtude do aumento do crime, da imoralidade e da solidão –, mas também positivos – pois poderiam ser capazes de ligar os indivíduos por meio de novas experiências. Ademais, a primeira parte do século XX se caracterizava tanto pelo ápice do nacionalismo, da revolução e do conflito social como pelo pensamento progressivo, pelo avanço da democracia e pela evolução científica e tecnológica (MCQUAIL, 2000, p. 39). De 1915 a 1935, muitas pesquisas da Escola de Chicago foram dedicadas a temas como imigração e integração dos imigrantes na sociedade norte-americana. Robert Ezra Park, que era um jornalista militante pela causa negra, foi uma das figuras de destaque da Escola de Chicago. Segundo Mattelart e Mattelart (1997b, p. 30-31), Park transforma a sua prática jornalística e elabora uma forma “superior” de reportagem a partir das pesquisas sociológicas feitas nos bairros da periferia. Em um dos seus estudos sobre as comunidades étnicas, o pesquisador questiona a função assimiladora dos jornais e, em especial, das publicações feitas em línguas estrangeiras. Ele também reflete sobre a natureza da informação, o profissionalismo do jornalismo e a diferença entre informação e propaganda. De acordo com Clark (1969 apud MCQUAIL, 2000), Robert Park e o seu aluno Herbert George Blumer (1900-1987) foram alguns dos que destacaram o potencial positivo dos meios de comunicação de massa na pesquisa realizada sobre a assimilação de imigrantes nos Estados Unidos. Além disso, para McCornack (1961 apud MCQUAIL, 2000), os MCM também apresentavam um potencial positivo. Na sua perspectiva, uma sociedade moderna e em mudança se apresenta de forma segmentada. Nela, a única função dos meios de comunicação é proporcionar à indústria e à sociedade uma coerência, isto é, uma “síntese da experiência” e uma “consciência do todo”. Características da Escola de Chicago Uma das características fundamentais dessa escola é a objetividade cientí- fica. Esse princípio leva a outros dois, que são: a investigação indutiva e a imparcial. Para essa tradição, a sociedade deve ser compreendida por meio do método científico, do indutivismo e da neutralidade. Esses métodos são as 141A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 141 10/11/2017 15:19:53 bases dos estudos realizados pelas ciências naturais. Além disso, o enfoque sociológico dessa escola se dá no espaço da cidade, isto é, no meio urbano, em especial no que envolve as cidades norte-americanas e o processo de exclusão urbana. Segundo Mattelart e Mattelart (1997b, p. 30), a cidade é observada como um laboratório social: caracterizada pelos signos de desorganização, marginalidade, aculturação, assimilação e mobilidade, ela é o espaço privi- legiado de estudo da Escola de Chicago. O sociólogo alemão Georg Simmel (1858–1918) e o francês Gabriel Tarde (1843–1904) influenciaram as pesquisas norte-americanas sobre a cidade com seus conceitos próximos de “situações concretas”. Suas influências ajudaram os americanos a criar ferramentas científicas para analisar atitu- des e comportamentos relativos ao espaço urbano. O biólogo alemão Ernest Haeckel (1834–1919) também exerce influência nos estudos dessa tradição sociológica por meio da noção de ecologia como a ciência das relações do organismo com o meio ambiente. Na ecologia humana ou economia biológica, expressão usada por Park, a luta pelo espaço é o que rege as relações entre os indivíduos. Essa luta ou competição é observada como um princípio de organização. Isso ocorre porque, nas sociedades dos homens, além da competição, existe a divisão do trabalho. Esses dois fatores resultam em formas de cooperação competitiva que constituem o nível biótico da orga- nização humana. Há também o nível social ou cultural, que se impõe como direção ou controle. Assumidopela comunicação e pela moral, esse nível regula a competição, levando os indivíduos a partilharem uma experiência, se vinculando à sociedade. Você pode encontrar ainda, no pragmatismo de John Dewey (1859–1951), George Herbert Mead (1863-1931) e, principalmente, Charles Cooley (1864- 1929), outras influências para essa escola. Cooley, inclusive, é anterior a Park na análise dos processos comunicacionais. É ele quem usa primeiramente a expressão grupo primário para indicar grupos que se constituem pela asso- ciação e pela cooperação íntima entre si. Esse tipo de análise era importante para avaliar os impactos trazidos pela urbanização, pela industrialização e pelos novos meios de comunicação. Ela também era relevante para compre- ender que o indivíduo poderia viver uma experiência singular e única, mas estava ao mesmo tempo submetido ao processo de homogeneização dessa experiência. Essa visão ambivalente sobre o processo de individualização do cidadão urbano surge na noção de mídia da Escola de Chicago, pois os MCM são observados tanto como elementos de emancipação do indivíduo como de aceleramento da superficialidade das relações sociais (MATTELART; MATTELART, 1997b, p. 35-36). A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago142 TC_U3_C09.indd 142 10/11/2017 15:19:54 Indutivismo O indutivismo é uma das características marcantes da Escola de Chicago. Esse procedimento investigativo se relaciona à noção de objetividade, que é a base para a construção do objeto científico. A esse respeito, é importante você ficar atento ao que significa o indutivismo e à sua oposição com relação ao dedutivismo: enquanto o primeiro parte de uma realidade particular, o segundo é indagado por meio de uma hipótese levantada para a pesquisa, a qual se procura validar na prática. No processo dedutivo, se parte de uma verdade já conhecida, já dada. Essa verdade funciona como um pressuposto geral. Assim, os casos a serem pesquisados serão demonstrados a partir dela. Dito de outro modo: na dedução, é demonstrado que uma verdade sabida se aplica a todos os casos particulares iguais, conforme aponta Chauí (2013, p. 78). É por esse motivo que comumente se fala que na dedução o pesquisador vai do geral ao particular ou do universal ao individual. Já na indução, o pesquisador segue o caminho oposto. Com ela, ele parte de casos particulares iguais ou semelhantes para procurar uma lei, definição, verdade ou teoria geral. Essa lei, por sua vez, poderá explicar todos esses casos particulares. Desse modo, a definição, explicação ou teoria não é dada no início nem é o ponto de partida da pesquisa, como no percurso dedutivo. Na trajetória investigativa de caráter indutivo, a teorização é o ponto final. É esse o trajeto seguido pela Escola de Chicago. Por meio desse método, essa escola estudaria os processos comunicativos pelo critério de objetividade científica, que é a base para a ciência. Além disso, você precisa saber que a razão é um importante elemento para guiar a indução, pois é formada por um conjunto de regras específicas. Se essas regras não forem consideradas, a indução poderá ser invalidada (CHAUÍ, 2013). A Escola de Frankfurt de Teoria Crítica De acordo com Wolf (1999), a Escola de Frankfurt de Teoria Crítica repre- senta a corrente oposta da Mass Communication Research. Isso ocorre porque ela se contrapõe ao conhecimento que estava sendo elaborado pela Pesquisa Administrativa norte-americana. A Teoria Crítica é comumente associada ao grupo de pesquisadores que frequentaram o Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, fundado em 1923. A identidade central da abor- dagem crítica se dá na construção analítica dos fenômenos investigados e na capacidade de relacionar esses fenômenos às forças sociais que os engendram. 143A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 143 10/11/2017 15:19:54 Desse modo, a pesquisa dessa teoria se propõe como uma teoria social ou da sociedade vista como um todo. Vale a pena você considerar que esse é um forte ponto de contraposição da Teoria Crítica à Pesquisa Administrativa. Isso pois a Pesquisa Administrativa se especializa em disciplinas setoriais, as quais se dedicam a estudar campos de competência distintos. Então, essas disciplinas acabam, por meio dessa múltipla diferenciação e especialização, se desviando do entendimento da sociedade de forma global. Além disso, exercem muito mais uma função de manutenção da ordem social existente, no ponto de vista dos estudiosos críticos. Nas palavras de Wolf (1999, p. 83), “[...] a teoria crítica pretende ser o oposto, pretende evitar a função ideológica das ciências e das disciplinas setorializadas.”. Desse modo, a Teoria Crítica não trabalha com a noção de dados como informações extraídas da realidade. Nessa abordagem, os dados são produtos históricos, se constituem numa situação histórico-social determinada. É por isso que essa teoria é nomeada de Teoria Crítica ou de caráter crítico: nessa visão, não há dados ou verdades absolutas. Ela é uma teorização, uma pesquisa ou um estudo que se faz na prática. A análise realizada pela Escola de Frankfurt envolve uma investigação teórica que é contextualizada na sua prática. Dito de outro modo, a teoria deve partir da prática, pois é na prática que os problemas sociais surgem. Nessa concepção de pesquisa, os resultados obtidos na investigação feita por essa escola também devem ser ancorados na realidade. Contexto da Escola de Frankfurt Durante a República de Weimar – que é a forma histórica de nomear o Estado alemão entre os anos de 1919 e 1933 –, o filósofo e sociólogo alemão Max Horkheimer (1895–1973) e o economista, cientista social e filósofo alemão Friedrich Pollock (1894–1970) fundam o Instituto de Pesquisa Social. Esse instituto também é conhecido como Escola de Frankfurt, pois era filiado à Universidade de Frankfurt. Essa instituição se tornou famosa por ser a primeira de origem alemã de abordagem teórica marxista. No início, seus estudos tomam como objeto tanto a economia capitalista como a história do A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago144 TC_U3_C09.indd 144 10/11/2017 15:19:54 movimento operário. Em e 1930, quando Horkheimer passa a assumir a direção do instituto, ele traz um novo direcionamento ao programa. Após a tomada do poder por Hitler, com a ascensão do nazismo, Horkheimer foi desligado da direção do centro e, com essa ação, todos os membros judeus fundadores também o foram. O instituto acaba sobrevivendo porque, desde a sua origem, era financiado por empresários que faziam parte da comunidade judaica. Com a transferência dos fundos do centro para os Países Baixos – antiga denominação da costa da Europa ocidental que abarcava principalmente a Holanda e a Bélgica –, se criam anexos para dar continuidade aos estudos do instituto, como em Genebra e Paris. Entre os anexos criados, o único conside- rado estável para os pesquisadores exilados foi o da Universidade Columbia, em Nova Iorque. Lá, Horkheimer, o sociólogo alemão Leo Löwenthal (1900–1993) e o filósofo e sociólogo alemão Theodor W. Adorno (1903–1969) passam a trabalhar em um dos prédios cedidos pela universidade norte-americana, em especial no chamado Institute of Social Research (Instituto de Pesquisa Social) (MATTELART; MATTELART, 1997a; WOLF, 1999). Caraterísticas da Escola de Frankfurt Os filósofos da Escola de Frankfurt se inspiraram na perspectiva marxista não ortodoxa (marxismo libertário) de interpretar a história. Esse método, contudo, passou por modificações porque foi retomado em confluência com outras áreas do saber, tais como a filosofia da cultura, a ética e a psicossociologia. O projeto dos filósofos era unir Marx e Freud. De maneira geral, Horkheimer e Adorno compartilham do ponto de vista epistemológico comum e se opõem à visão empírica adotada pelos estudos norte-americanos. Para eles, não era o objeto da pesquisa que deveria ser adaptado aos métodos empregados,mas os métodos ao objeto. Exilados nos Estados Unidos, Horkheimer e Adorno questionaram a trans- formação cultural ocorrida a partir dos anos 1940. Essa escola de pensamento crítico se interroga, assim, sobre as consequências do desenvolvimento dos novos meios de produção e transmissão cultural, recusando a ideia de que as inovações tecnológicas fortaleceriam necessariamente o sistema democrático. Dito de outro modo, a Teoria Crítica observa os meios de comunicação de massa como meios de poder e dominação (MATTELART; MATTELART, 1997a). Uma das críticas feitas pela Teoria Crítica se dá quanto à separação do indivíduo da sociedade, separação esta que é resultado da histórica divisão de classes. Nessa avaliação, a Escola de Frankfurt apresenta a sua tendência para a crítica dialética da Economia Política (Marxismo). Desse modo, o ponto de 145A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 145 10/11/2017 15:19:54 partida dos estudos críticos é a análise do sistema econômico de mercado (o capitalismo). Além da retomada dos aspectos fundamentais do materialismo marxista, os pesquisadores dessa escola realizam uma abordagem original: Horkheimer, Adorno, Marcuse e Habermas, só para citar alguns, observam os temas estruturais da sociedade, como autoritarismo, indústria cultural e transformação dos conflitos sociais em sociedades industrializadas, por meio dos fenômenos supraestruturais da cultura. E, ao fazerem isso, observam que as ciências sociais que se reduzem a técnicas de pesquisa e classificação de dados supostamente “objetivos” ignoram as suas possibilidades de intervenção e modificação social (WOLF, 1999). Indústria cultural é uma expressão usada por Adorno e Horkheimer pela primeira vez na obra Dialética do Iluminismo, iniciada em 1942 mas só publicada em 1947. Essa expressão, empregada para substituir cultura de massa, foi usada para indicar um sistema de produção, transmissão e consumo cultural promovido pelos meios de comunicação de massa, os quais impõem uma padronização e uma organização dos gostos do público. À primeira vista, as necessidades dos indivíduos parecem ser atendidas, porém esses indivíduos são inseridos em um círculo de manipulação que atende perfeitamente à lógica do sistema capitalista. Além disso, a indústria cultural fornece um ar de similitude a todos os bens que, padronizados, servem para “satisfazer” às demandas – estas são supostamente os critérios a que os padrões de produção devem atender. Com esse modo industrial de produção cultural, objetos são construídos por meio de uma marca de serialização-padronização-divisão do trabalho. Assim, a racionalidade técnica, supervalorizada na sociedade, promove a transformação da cultura em mercadoria e, consequentemente, dissolve e degrada o seu papel e o seu traço crítico (WOLF, 1999, MATTELART; MATTELART, 1997a). Assim, a Teoria Crítica acaba sendo, ou pelo menos tenta ser, uma teoria da sociedade que busca uma avalição crítica do próprio fazer científico. Ademais, a Sociologia, disciplina, aliás, que é retomada pela Escola de Frank- furt, só se transforma em crítica da sociedade quando considera as tensões que existem nela, tais como as que ocorrem entre as instituições e a vida, sem dissolver o social no natural (WOLF, 1999). Por fim, é importante que você saiba que a Escola de Frankfurt se baseia no materialismo, influenciado pelos estudos de Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895). No entanto, esse método é abordado pela escola A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago146 TC_U3_C09.indd 146 10/11/2017 15:19:54 por meio da interdisciplinaridade, uma vez que é formado pelos seguintes campos de estudo: Economia Política (Marxismo), Sociologia (Teoria da Cultura), Psicologia (em especial a Psicanálise) e Epistemologia (esta também é conhecida como Filosofia ou por meio da nomeação Teoria do Conhecimento). Além disso, o materialismo é interdisciplinar porque é tomado a partir da situação prática da teorização. O marxismo permitiu entender que os “fatos” humanos são instituições sociais e históricas. Portanto, são produzidos pelas condições sociais e históricas nas quais as ações e os pensamentos se realizam. Você pode considerar também que os ditos fatos humanos “primários” foram as relações dos homens com a natureza em busca de sobrevivência. Dessas relações, surgiram as de trabalho e, a partir delas, foram criadas as primeiras instituições sociais, a saber, a da família, a do pastoreio e agricultura, a da troca e comércio. Então, as primeiras instituições sociais originadas foram as econômicas. Para que elas fossem mantidas, os grupos sociais precisaram elaborar ideias e valores aceitos por todos, de tal forma que legitimassem a importância e a necessidade das instituições criadas. Além dessas ideias e valores, instituições de poder foram elaboradas para sustentar as relações sociais e esses mesmos valores (ou ideologias) produzidos. Assim, você pode afirmar que o marxismo ofereceu uma base para que as ciências humanas pudessem entender as relações entre o plano psicológico e social da existência do homem; entre o econômico e as instituições sociais e políticas; entre todas essas supracitadas e o conjunto de ideias e práticas produzidas por uma sociedade. Ademais, o marxismo possibilitou a compreensão de que as modificações ocorridas ao longo da história resultam de processos sociais, políticos e econômicos que são lentos, e não instantâneos. E é a materialidade da vida econômica que comanda as esferas da vida do indivíduo. Por fim, ciências como Sociologia, Ciência Política e História, à luz das ideias discutidas pelo marxismo, passaram a observar os fenômenos humanos como resultados de contradições, lutas e conflitos determinados pelas relações econômicas que exploram o trabalho da maioria em virtude de uma pequena minoria privilegiada da sociedade (CHAUÍ, 2013, p. 307). A constituição de uma escola de pensamento Do ponto de vista de Guillemard (apud BECKER, 1996), uma escola de pensamento consiste em um grupo de pesquisadores que compartilham um “pensamento” ou uma fundamentação epistemológica. Dito de outro modo, compartilham ideias gerais, pontos e questões de pesquisas e estudos. Eles 147A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 147 10/11/2017 15:19:54 não necessariamente precisam estar juntos, nem trabalhar no mesmo espaço, nem ter se encontrado fisicamente. Assim, você pode considerar que uma escola de pensamento se caracteriza por apresentar objetivos, programas de pesquisa e referenciais teóricos em comum. No entanto, a noção de escola não se fundamenta numa suposta homogeneidade compartilhada entre os pesquisadores. Isso significa que, embora existam pesquisas em torno de teorias e objetivos partilhados, o que permite abarcá-las em uma categorização específica – pertence a uma escola X, que se diferencia da escola Y, ou, ainda, é da Escola de Chicago ou da Escola de Frankfurt, por exemplo –, é preciso pensar que há variações dentro de cada escola de pensamento. Logo, podem existir distintos resultados obtidos pelas pesquisas realizadas por pesquisadores de uma mesma escola. A respeito dessa discussão, é importante você saber o seguinte: de maneira geral, para que um determinado conjunto de investigações seja agrupado como uma escola de pensamento específica, é preciso que sejam atendidas algumas condições. Entre essas condições, estão a abertura para interdisciplinaridade nas pesquisas; a ligação com uma universidade, um instituto e/ou um centro de pesquisa; a presença de representantes que são líderes; e a constituição de uma forte rede acadêmica de pesquisa (BECKER, 1996). O conhecimento científico Discutir sobre o que significa uma escola de pensamento leva também a pensar sobre o que significa produzir conhecimento científico. Fazer científico, ciência e objetividade científica, por exemplo, são palavras usadas frequentemente para tratar daprodução teórica dentro de um domínio metodológico guiado por regras da razão, isto é, do que comumente se define como “ciência”. Mas o que é a própria ciência? Não é possível falar ao certo nem definir objetivamente o que é a ciência. Algumas definições situam o conhecimento científico como parte das disciplinas sociais e excluem desse domínio as áreas humanas. Outras reduzem a atividade científica a uma suposta busca “desinteressada” pelo conhecimento verdadeiro; e há ainda as que a identificam com a tecnologia. Para muitos, a ciência constitui um conjunto de conhecimentos “puros” que são produzidos por métodos objetivos, rigorosos, neutros, os quais capturam o real de forma diferente da filosofia e da arte, por exemplo (JAPIASSU, 1975). Embora pareça ser uma discussão simples, não se tem uma resposta. Na verdade, há várias. E sabe por quê? Porque não há uma definição certa e uma errada, nem uma definição “verdadeira” em oposição a uma “falsa”, nem muito menos imparcialidade e neutralidade na forma de definir e conceituar. A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago148 TC_U3_C09.indd 148 10/11/2017 15:19:54 A própria elaboração do conhecimento não pode ser objetiva – aqui no sentido estrito do termo –, pois a ciência pode ser muitas coisas: a procura de um saber, uma forma de interpretar o real, uma instituição com suas instâncias administrativas, políticas ou ideológicas e até uma “aventura” intelectual que conduz a um conhecimento teórico ou a uma pesquisa específica. Dito de outro modo, não há ciência “pura”. A ciência é um “produto humano” que funciona dentro de um contexto sócio-histórico. Logo, o cientista é um indivíduo social, política e historicamente situado e não dotado de um saber inteiramente racional e objetivo. A razão do cientista não é imutável; ela pode mudar ao longo do tempo e do espaço, além de sofrer influência da sua subjetividade. Logo, a escolha do objeto a ser estudado deve ser observada por meio de algumas perspectivas: nunca sendo um ato neutro, pode ter considerável influência do olhar pessoal do pesquisador. Contudo, também é possível que o pesquisador opte por investigar um objeto que esteja além do seu campo de atuação ou escolha pessoal. Seja qual for o caminho que leve à escolha do objeto pesquisado, é possível que a pesquisa seja desenvolvida por meio de influências pessoais, mas não seja determinada por elas (CORDEIRO, 2017). As noções de neutralidade e/ou imparcialidade foram trazidas dos estudos das ciências sociais. Contudo, não existem neutralidade e imparcialidade no sentido estrito. O que existe é a referenciação da pesquisa no seu contexto social. Nesse sentido, a pesquisa científica se insere dentro de um processo que envolve a escolha sobre o tema a ser estudado e a forma de sua abordagem (referencial teórico-metodológico). Nesse processo, é possível que a opinião do pesquisador – que é um sujeito como qualquer outro, influenciado pelas suas experiências e pelas condições sócio-históricas da sociedade em que vive – influencie ou interfira durante a investigação do objeto estudado, porém ela pode também não ser determinante (CORDEIRO, 2017). Considerações finais Como você observou, a Escola de Chicago de Sociologia e a Escola de Frankfurt de Teoria Crítica constituíram dois movimentos teóricos que ocorreram no início do século XX. Embora tenham se caracterizado como tradições distintas dos estudos sobre os meios de comunicação de massa, essas 149A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 149 10/11/2017 15:19:54 duas escolas de pensamento estavam associadas a importantes institutos de pesquisas e instituições universitárias, a saber, a Universidade de Chicago e a Universidade de Frankfurt, respectivamente. Além disso, partiam de referenciais teóricos distintos. Na primeira, o estudo microssociológico das interações sociais reside na metodologia etnográfica. Já na segunda, o objeto conduz a metodologia investigativa, e a teoria (ou o estudo teórico do objeto) deve ser ancorada ou embasada na prática. Ademais, a Escola de Chicago se baseia na investigação indutiva. Isto é, ela estuda os processos comunicativos a partir da noção de objetividade científica, destacando a racionalidade como elemento para a trajetória da pesquisa. Já a Teoria Crítica se baseia no materialismo interdisciplinar, o qual se caracteriza por ancorar a teoria na prática, isto é, por posicionar e contextualizar o conhe- cimento. Para a Teoria Crítica, o que existe são situações e práticas marcadas pela história ou ainda diagnósticos parciais da realidade, e não verdades absolutas. Desse modo, se os pesquisadores dessa abordagem fossem estudar um problema social qualquer, como o aumento da taxa de analfabetismo em certas cidades brasileiras e a sua diminuição em outras, os dados referentes a essas taxas deveriam ser apresentados por meio de uma contextualização, uma ancoragem no contexto social, e não serem pressupostos por meio de uma análise empírica que se atém a uma verdade a ser verificada ou validada. A Escola de Chicago analisaria esse problema por meio do contato direto com uma cidade em particular, por exemplo, levantando dados próprios. A partir daí, se tentaria chegar a uma explicação geral sobre o aumento dessa taxa por meio de uma construção teórica específica. Você pode considerar que ambas as escolas revolucionaram a forma de analisar a vida social na sua época. A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago150 TC_U3_C09.indd 150 10/11/2017 15:19:54 151A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 151 10/11/2017 15:19:55 ARAÚJO, C. A. A pesquisa norte-americana. In: HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. (Coord.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 119-130. BECKER, H. A escola de Chicago. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 177-188, 1996. CHAUÍ, M. Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática, 2013. CORDEIRO, R. Q. F. Nominações, vozes e pontos de vista sobre a loucura na e pela mídia: da reforma psiquiátrica ao boom das doenças mentais. 2017. 474 f. Tese (Doutorado em Linguística)–Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2017. JAPIASSU, H. Introdução. In: JAPIASSU, H. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 8-18. MATTELART, A.; MATTERLAT, M. Indústria cultural, ideologia e poder. In: MATTELART, A.; MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1997a. p. 73-112. MATTELART, A.; MATTERLAT, M. Os empirismos do novo mundo. In: MATTELART, A.; MATTELART, M. 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