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Indaial – 2023
Desafios sociais Do 
século xx
Prof.a Franciele Otto Duque
2a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2023
Elaboração:
Prof.ª Franciele Otto Duque
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
III
apresentação
Caro acadêmico! Este é seu Livro Didático de Desafios Sociais do 
Século XX. Neste componente curricular você continuará seus estudos de 
teoria sociológica, iniciados em Teoria Sociológica I. Se em Teoria I você 
conheceu os clássicos da Sociologia, agora é hora de entender como essa 
ciência prosseguiu seu percurso e consolidou-se como área de conhecimento, 
desenvolvendo pesquisas, teorias e métodos.
Com a difusão da ciência sociológica iniciada a partir da sua 
institucionalização nas universidades, muitas investigações foram 
realizadas com essa abordagem. No entanto, algumas delas se destacaram 
pelo seu caráter contributivo com essa área. Estudaremos três movimentos 
que influenciaram os rumos da sociologia em nível mundial: a sociologia 
americana (Escola de Chicago), a sociologia alemã (Escola de Frankfurt) e a 
sociologia francesa (Norbert Elias e Pierre Bourdieu).
A divisão deste livro está baseada em três unidades, cada uma 
sobre uma frente de estudos sociológicos. As unidades dividem-se em 
tópicos que seguem uma lógica similar: o primeiro apresenta as bases 
teórico-metodológicas da perspectiva sociológica; o segundo apresenta 
os principais conceitos desenvolvidos nesse arcabouço; e o terceiro traz os 
desdobramentos de suas influências com os principais temas de estudo e 
como foram abordados pelos envolvidos.
A primeira unidade trata sobre a sociologia americana, cujo principal 
expoente foi a Escola de Chicago. Nela desenvolveu-se a sociologia urbana. 
Inicialmente, você conhecerá as dimensões históricas de seu surgimento 
e desenvolvimento, as dimensões metodológicas de suas proposições 
sociológicas, um autor da primeira geração da escola (Robert Ezra Park), e 
um autor da segunda geração (Louis Wirth). Em seguida serão apresentados 
alguns conceitos consolidados pelo grupo da Escola de Chicago: a cidade, a 
estrutura urbana e a ecologia humana. Quanto aos desdobramentos de sua 
sociologia, trataremos dos estudos acerca da criminalidade, seus métodos de 
pesquisa empírica e os estudos sobre imigração.
A segunda unidade apresenta a sociologia alemã, cuja importância 
está concentrada na Escola de Frankfurt. Ela é conhecida pelo movimento 
que consolidou o conceito de indústria cultural. Também começaremos pelas 
dimensões históricas que envolvem a escola, as influências filosóficas e as 
dimensões metodológicas. No segundo tópico estão apresentados alguns 
autores e conceitos desenvolvidos: Horkheimer e a Teoria Crítica, Adorno 
IV
e a Indústria Cultural, Habermas e o conceito de ação. Para finalizar, os 
desdobramentos apresentados de suas análises sociológicas são: estudos 
sobre a racionalidade, estudos sobre a arte e alguns outros temas, como a 
autoridade, por exemplo.
A terceira unidade apresenta a sociologia francesa, mais precisamente 
seus expoentes Norbert Elias e Pierre Bourdieu. Elias, embora seja alemão, 
apresentou uma perspectiva sociológica mais aproximada da sociologia 
francesa, além de investigar alguns objetos desse campo – como a sociedade 
de corte francesa. Para estudar a obra desses autores, no primeiro tópico 
temos seus contextos históricos e os aspectos principais de suas teorias 
sociológicas (Teoria dos Processos de Civilização – Elias e Teoria da Prática 
– Bourdieu). O segundo tópico apresenta conceitos fundamentais para o 
entendimento dos autores: figuração, interdependência e processos sociais 
(Elias); habitus, campos e capitais (Bourdieu). Para fechar, você verá a relação 
entre civilização, kultur e a sociedade de corte francesa, estudo de Norbert 
Elias e algumas dimensões da sociologia da educação e da sociologia da 
cultura de Pierre Bourdieu.
Esperamos que esse caminho lhe permita entender os rumos que a 
sociologia tomou após sua institucionalização como disciplina científica, e 
como essas três grandes correntes sociológicas se difundiram e influenciaram 
estudos em todo o mundo. Não se esqueça de aproveitar as indicações de 
materiais complementares para aprofundar seus estudos, pois existe muito 
material disponível sobre todos os temas deste livro didático.
Desejamos um ótimo percurso de estudos sobre as sociologias 
americana, alemã e francesa!
Profª. Franciele Otto Duque
V
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela 
um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro 
que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá 
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, 
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.
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Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
LEMBRETE
VI
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UNI
VII
VIII
IX
UNIDADE 1 – ESCOLA DE CHICAGO ................................................................................................1
TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO ............................................................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3
2 DIMENSÕES HISTÓRICAS ................................................................................................................4
3 DIMENSÕES METODOLÓGICAS ..................................................................................................11
4 PRIMEIRA GERAÇÃO: ROBERT EZRA PARK .............................................................................14
5 SEGUNDA GERAÇÃO: LOUIS WIRTH .........................................................................................18o que estava ao seu redor.
A cidade, especialmente a grande cidade, onde mais do que em 
qualquer outro lugar as relações humanas tendem a ser impessoais e 
racionais, definidas em termos de interesse e em termos de dinheiro, 
é num sentido bem real um laboratório para a investigação do 
comportamento coletivo (PARK, 1925 apud FREITAS, 2002, p. 64).
Park entendia que a sociologia deveria compreender como as pessoas 
reagiam aos fatos, e para tal, sugeriu a participação direta do pesquisador com o 
objeto de estudo. Essa experiência prática dentro do rigor científico passou a ser 
o método da observação participante (que consiste na coleta de dados por meio 
da participação direta do pesquisador no fenômeno social estudado, seja como 
observador ou como interventor), e que inova no sentido de permitir o acesso das 
próprias percepções ao pesquisador, e não apenas a percepção de outros sujeitos.
Com o estímulo à exploração por esse método, Park e seus colegas na Escola 
de Chicago desenvolveram importantes pesquisas, cujas diferentes dimensões 
foram analisadas pelos mesmos participantes destes grupos de pesquisa. Assim, 
a cidade de Chicago tornou-se um grande laboratório da vida social entre 1920 
e 1930, quando os professores guiavam investigações – principalmente sobre a 
criminalidade que crescia no espaço urbano.
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
27
FIGURA 8 – CHICAGO EM 1920
FONTE: . 
Acesso em: 17 jun. 2019.
Park concebe a cidade como instituição, por isso ela se torna objeto 
sociológico, sendo observada como estrutura externa ao indivíduo e que interfere 
na sua subjetividade. De forma mais completa:
A cidade (ou seja, “o lugar e as pessoas, com toda a maquinaria, 
sentimentos, costumes e recursos administrativos que as acompanham, 
a opinião pública e os trilhos de bondes nas ruas, o homem individual 
e as ferramentas que ele usa”) pode então ser pensada como “alguma 
coisa mais do que uma mera entidade coletiva”; pode ser pensada 
“como um mecanismo – um mecanismo psico-físico – no qual e 
através do qual os interesses privados e políticos encontram expressão 
associada [corporate]”. Grande parte do que comumente se considera 
como a cidade “– sua legislação, organização forma, edifícios, trilhos 
nas ruas e assim por diante – é, ou parece ser, mero artefato. Todavia, 
só quando, e na medida em que, por uso e costume, essas coisas 
se associam [...] às forças vitais que residem nos indivíduos e na 
comunidade, é que assumem a forma institucional. Como um todo, a 
cidade é uma produção. É o produto não-intencional [undesigned] do 
trabalho de sucessivas gerações de homens (EUFRÁSIO, 1999, p. 49).
Assim, Eufrásio (1999) destaca que a cidade integra a estrutura física com 
elementos espirituais, que são a ordem moral – e todo esse mecanismo é resultado 
de um processo histórico. Ambas se moldam, se modificam, conforme interagem.
A organização espacial da cidade, por exemplo, pode ser geométrica 
(como em cidades planejadas) – sendo que o planejamento impõe uma 
organização específica. No entanto, é difícil controlar a expansão, especialmente 
em se tratando de propriedades privadas, seguindo gostos e conveniências 
pessoais. Em função disso, a organização pode ser modificada e, portanto, não 
controlada. Inicialmente, a geografia local, os meios de transporte etc., podem ser 
determinantes para a distribuição populacional – mas conforme a cidade cresce 
outro item auxilia essa distribuição: as rivalidades, as simpatias, as necessidades 
econômicas, entre outros. Surge, então, a vizinhança, e cada uma delas dá 
continuidade aos processos históricos, que se impõem aos indivíduos.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
28
Assim se formam os setores que Park chama de vizinhanças, pequenas 
células da comunidade que precede e da qual parte a formação da cidade 
(EUFRÁSIO, 1999). Elas são as formas mais elementares das associações urbanas, 
existindo sem uma organização formal. Nas cidades grandes, a vizinhança 
perde grande parte da sua importância, pois a facilidade aos transportes e meios 
de comunicação permite que o sujeito distribua sua atenção, não a mantendo 
centrada apenas no seu entorno. Ainda assim, vizinhanças formadas por grupos 
segregados nas cidades tendem a existirem em suas margens, ou seja, em seu 
entorno – distantes das áreas centrais.
Outro item que auxilia a definição espacial da cidade é a organização 
econômica: o comércio é determinante para a formação das cidades, na medida em 
que a população se organiza em torno dele. O desenvolvimento industrial estimula 
o comércio e os grandes mercados passam a ser centrais no espaço urbano.
Além da análise das organizações espaciais citadinas, Park analisa a 
ordem moral disposta nas cidades, e traz a noção de regiões morais. Segundo 
ele, grupos com interesses similares formam grupos que possuem regras morais 
específicas, e que não se interpenetram com outros grupos. Ele diz:
É inevitável que indivíduos que buscam as mesmas formas de 
empolgação [excitement] (sejam corridas de cavalos ou óperas) devam 
se encontrar de tempos em tempos nos mesmos lugares. O resultado 
disso é que, na organização que a vida da cidade espontaneamente 
assume, se manifesta uma disposição da população para se segregar, 
não meramente de acordo com seus interesses, mas de acordo com 
seus gostos ou seus temperamentos. A distribuição da população 
resultante deve ser provavelmente muito diferente daquela trazida 
por interesses ocupacionais ou condições econômicas (PARK, 1915 
apud EUFRÁSIO, 1999, p. 55).
As regiões morais podem ser regiões habitacionais ou mesmo regiões 
de diversão, habitadas por pessoas como um gosto ou interesse comum, e que 
possuem um certo isolamento moral por se diferenciar de outros grupos.
Para finalizar este tópico, vamos ao texto do próprio autor:
Esse texto é parte da publicação mais determinante de Park 
sobre a cidade e está em: EZRA PARK, Robert. A cidade: sugestões para a 
investigação do comportamento humano no meio urbano. In: VELHO, 
Otávio (Org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.
DICAS
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
29
Segundo o ponto de vista deste artigo, a cidade é algo mais do que um 
amontoado de homens individuais e de conveniências sociais, ruas, edifícios, 
luz elétrica, linhas de bonde, telefones etc.; algo mais também do que uma 
mera constelação de instituições e dispositivos administrativos – tribunais, 
hospitais, escolas, polícia e funcionários civis de vários tipos. Antes, a cidade 
é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos 
e atitudes organizados, inerentes a esses costumes e transmitidos por essa 
tradição. Em outras palavras, a cidade não é meramente um mecanismo físico e 
uma construção artificial. Está envolvida nos processos vitais das pessoas que a 
compõem; é um produto da natureza, e particularmente da natureza humana. 
A cidade, como Oswald Spengler observou recentemente, tem sua 
cultura própria: “A cidade é, para o homem civilizado, o que é a casa para o 
camponês. Assim como a casa tem seus deuses lares, também a cidade tem sua 
divindade protetora, seu santo local. A cidade, como a choupana do camponês, 
também tem suas raízes no solo”. 
Em tempos recentes a cidade tem sido estudada segundo o ponto de 
vista de sua geografia, e ainda mais recentemente segundo o ponto de vista de 
sua ecologia. Existem forças atuando dentro dos limites da comunidade urbana 
— na verdade, dentro dos limites de qualquer área de habitação humana — 
forças que tendem a ocasionar um agrupamento típico e ordenado de sua 
população e instituições. A ciência que procura isolar estes fatores, e descrever 
as constelações típicas de pessoas e instituições produzidas pela operação 
conjunta de tais forças, chamamos Ecologia Humana, que se distingue da 
Ecologia dos animais e plantas.Transporte e comunicação, linhas de bonde e telefones, jornais e 
publicidade, construções de aço e elevadores — na verdade, todas as coisas 
que tendem a ocasionar a um mesmo tempo maior mobilidade e maior 
concentração de populações urbanas — são fatores primários na organização 
ecológica da cidade.
 
Entretanto, a cidade não é apenas uma unidade geográfica e ecológica; 
ao mesmo tempo, é uma unidade econômica. A organização econômica da 
cidade baseia-se na divisão do trabalho. A multiplicação de ocupações e 
profissões dentro dos limites da população urbana é um dos mais notáveis e 
menos entendidos aspectos da vida citadina moderna. Sob este ponto de vista 
podemos, se quisermos, pensar na cidade, vale dizer, o lugar e a gente, com 
todos os dispositivos de administração e maquinaria que compreendem, como 
sendo organicamente relacionada; uma espécie de mecanismo psicofísico 
no qual e através do qual os interesses políticos e particulares encontram 
expressão não só coletiva, mas também incorporada.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
30
 Muito do que normalmente consideramos como a cidade — seu estatuto, 
organização formal, edifícios, trilhos de rua, e assim por diante — é, ou parece 
ser, mero artefato. Mas essas coisas em si mesmas são utilidades, dispositivos 
adventícios que somente se tornam parte da cidade viva quando, e enquanto, se 
interligam através do uso e costume, como uma ferramenta na mão do homem, 
com as forças vitais residentes nos indivíduos e na comunidade.
 Finalmente, a cidade é o habitat natural do homem civilizado. Por essa 
razão, ela é uma área cultural caracterizada pelo seu próprio tipo cultural peculiar:
 “É um fato bastante certo, mas nunca inteiramente reconhecido”, 
diz Spengler, “que todas as grandes culturas nasceram na cidade. O homem 
proeminente da segunda geração é um animal construtor de cidades. Este é 
o critério efetivo da história mundial, distinta da história da humanidade: 
história mundial é a história dos homens da cidade. As nações, os Governos, 
a política e as religiões — todos se apoiam no fenômeno básico da existência 
humana, a cidade”.
FONTE: Park (1916 apud VELHO, 1979, p. 26)
Se você se interessou pela abordagem da cidade como categoria sociológica, 
veja o primeiro capítulo da obra disponível em: http://books.scielo.org/id/z439n/pdf/
oliven-9788579820014-02.pdf. 
A referência é: OLIVEN, R. G. A cidade como categoria sociológica. In: OLIVEN, R. G. 
Urbanização e mudança social no Brasil [on-line]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein, 2010. 
Essa leitura apresenta a cidade como categoria sociológica não apenas na Escola de 
Chicago, mas a partir de outros autores.
DICAS
3 ESTRUTURA URBANA
Um dos estudos mais detidos relacionados ao conceito de estrutura urbana 
foi desenvolvido por Robert McKenzie, publicado em 1923, cujo desenvolvimento 
lhe permitiu a titulação no doutorado junto à Universidade de Chicago. 
Ele busca materializar a estrutura espacial da cidade, apresentando itens 
bem definidos que podem ser observados em suas estruturas, além de processos 
correspondentes a essas estruturas e o desenvolvimento urbano que dela parte.
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
31
Eufrásio (1999, p. 60) selecionou deste material algumas ideias apresentadas 
no capítulo inicial, relativas à organização espacial da cidade. São elas:
- Valorização do solo nas formas de utilizações comerciais, industriais e 
residenciais determinam de modo amplo a estrutura da cidade moderna.
- Toda cidade tem seu distrito comercial central, localizado próximo 
ao centro geográfico da cidade.
- Subdistritos comerciais tendem a se formar em cruzamentos de ruas 
de tráfegos de automóveis e em torno de instituições de vizinhanças.
- As indústrias básicas comumente se localizam em torno da periferia da 
área da cidade, enquanto que os estabelecimentos manufatureiros que 
empregam mulheres comumente se localizam perto do centro da cidade.
- Os valores dos imóveis distribuem a população de uma cidade em 
vários setores residenciais de status econômico e social diferentes.
- Laços raciais e de nacionalidade tendem a subagrupar a população 
no interior das várias áreas econômicas.
O estudo de caso empírico que utiliza para embasar suas análises é a 
cidade de Columbus, em Ohio, cuja forma é similar a uma cruz em função da 
determinação do espaço geográfico natural causada por rios. No entanto, ele 
avalia que a maior parte das cidades americanas possui o desenho de uma estrela 
ou um círculo, e a partir dessas formas é possível analisar a distribuição espacial 
dos imóveis e, por consequência, dos grupos sociais que ali vivem.
FIGURA 9 – MAPA DE COLUMBUS – OHIO – EUA
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
Para além das determinações geográficas, portanto, é possível identificar 
padrões de ocupação do espaço – que determinam a estrutura urbana. McKenzie 
identificou nas grandes cidades áreas urbanas separadas por classes de utilização 
do solo, e Eufrásio (1999, p. 61) as descreve da seguinte maneira:
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
32
- O centro comercial, ponto de convergência das vias de transporte 
local, com igual facilidade de acesso de todas as partes da cidade.
- Uma área desintegrada, circundando o setor comercial central, 
ocupada por atacadistas, hotéis ruins, lojas e diversões baratas e 
por prédios de apartamentos; habitada por trabalhadores diaristas 
e imigrantes, é também onde se alojam viciados e criminosos (grifo 
do autor).
Ele também descreve áreas que não possuem localização fixa no espaço 
urbano, mas que são passíveis de identificação em função de suas características 
(EUFRÁSIO, 1999, p. 62):
- Áreas de localização de indústrias: as indústrias mais pesadas se 
situam junto à periferia, ao longo de rios e ferrovias e as indústrias 
mais leves em terrenos baratos em qualquer parte da cidade, perto 
de linhas de bondes, podendo tender a se aproximar do centro 
comercial, onde estão as lojas que abastecem.
- Áreas de residências: as áreas que concentram as residências mais 
finas se apropriam das partes com mais vantagens agradáveis ou 
naturais da cidade; as que concentram residências de padrão médio 
situam-se ao lado de grandes avenidas e rodovias com maiores 
facilidades de transporte e de ferrovias com serviços suburbanos; e 
as áreas de imóveis residenciais de aluguel ficam próximas a áreas 
de indústrias e em bolsões entre linhas férreas e junto ao centro.
- Subcentros comerciais: surgem em cruzamentos de vias de tráfego 
de automóveis, pontos de transferência ou baldeação onde se 
encontram correntes ou fluxos diários de transeuntes que criam 
oportunidades para lojas, e em torno de instituições de vizinhanças 
(grifo do autor).
Alinhado a esse uso do espaço, McKenzie identifica quatro tipos de 
processos e fatores a ele associados que são responsáveis pela formação da 
estrutura urbana:
1- A distribuição do comércio, da indústria e da população é determinada pela 
ação das forças econômicas que tendem a produzir estruturas semelhantes 
no interior das grandes cidades.
2- Há fatores de distribuição das valorizações [dos imóveis, das rendas etc.] 
pelas áreas da cidade que atraem ou repelem várias utilizações de solo: se 
para residências, ausências de transtornos, acessibilidades e facilidade de 
transportes etc., se para lojas varejistas, ruas com trânsito de passagem e 
proximidade de residência dos fregueses etc.
3- O crescimento da cidade consiste em deslocamento a partir do ponto de origem 
e é de dois gêneros: central (em todas as direções) e axial (ao longo dos cursos 
d’água, ferrovias e postos de pedágio que formam a estrutura da cidade).
4- Devido ao crescimento, há distritos que passam por uma transição, de residenciais 
para industriais ou comerciais; com isso, aumenta o valor dos terrenos e diminui 
o valor dos aluguéis, com o que advém a desintegração da área residencial, a 
mudança de seus ocupantes pela venda paraa nova finalidade e a mudança 
gradativa do tipo de utilização da área, que muda de caráter.
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
33
4- A população de qualquer cidade se distribui de acordo com o status 
econômico em áreas residenciais de vários valores de aluguéis e imóveis; a 
renda familiar tende a levar à segregação da população em diferentes distritos 
econômicos. Haverá tantas vizinhanças residenciais numa cidade quantos 
forem os estratos sociais. A população de diferentes áreas econômicas da 
cidade tende a se subagrupar em divisões sociais mais íntimas, devido a 
sentimentos racionais e nacionais.
FONTE: Eufrásio (1999, p. 62)
As pesquisas sobre estrutura urbana da Escola de Chicago são estudadas com 
maior afinco por Eufrásio (2008) no capítulo A versão final da teoria da estrutura urbana 
por Burgess em 1929. 
A referência é: EUFRÁSIO, Mario A. A Escola de Chicago de Sociologia: perfil e atualidade In: 
LUCENA, C. T.; CAMPOS, M. C. S. S. (Orgs.). Práticas e representações. São Paulo: Humanitas/
CERU, 2008. p. 153-184.
DICAS
Embora no desenvolvimento inicial dessas ideias sobre a estrutura urbana 
já existam menções à natureza, formação e desenvolvimento de uma estrutura 
urbana, a perspectiva da ecologia humana só nasceu mais tarde com os autores 
Park e Burgess, e é ela que estudaremos no subtópico a seguir.
4 ECOLOGIA HUMANA
A cidade, conforme vista no subtópico anterior, pode ter divisões bem 
marcadas – que geram a divisão não apenas espacial, mas em regiões morais. Essa 
divisão em áreas contribuiu para a elaboração do conceito de ecologia humana, 
que possui forte relação com os estudos sobre a criminalidade.
As primeiras análises relacionando o grupo de pertencimento das pessoas 
com a criminalidade ocorreram no início do século XIX, com a chamada Escola 
Cartográfica. André-Michel Guerry, um de seus autores, apresentou o primeiro 
trabalho de ecologia social do crime relacionando três itens: crime, localidade 
e fatores sociais. Os estudos sobre os fatores demográficos, situacionais e 
ambientais concluíram que as condições da sociedade causavam o fenômeno da 
criminalidade (FREITAS, 2002).
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
34
É a junção da perspectiva demográfica com a biologia que Park utiliza 
para seus estudos iniciais sobre a cidade na perspectiva ecológica – e que 
posteriormente estimula estudos de sociologia urbana. Ele apresenta a ecologia 
humana da seguinte forma:
Em tempos recentes a cidade tem sido estudada segundo o ponto 
de vista de sua geografia, e ainda mais recentemente segundo o 
ponto de vista de sua ecologia. Existem forças atuando dentro dos 
limites da comunidade urbana – na verdade, dentro dos limites de 
qualquer área de habitação humana – forças que tendem a ocasionar 
um agrupamento típico e ordenado de sua população e instituições. 
À ciência que procura isolar estes fatores, e descrever as constelações 
típicas de pessoas e instituições produzidas pela operação conjunta de 
tais forças, chamamos Ecologia Humana, que se distingue da Ecologia 
dos animais e plantas (PARK, 1925 apud FREITAS, 2002, p. 67).
O conceito de Park ficou conhecido como ecologia humana porque sua 
analogia para explicar a organização da vida humana nas sociedades era com 
a distribuição dos vegetais na natureza. Nessa perspectiva considera-se que o 
comportamento individual é moldado pelos meios físicos e sociais nos quais o 
indivíduo vive, e que existem limitações impostas pela sociedade ao livre arbítrio 
dos seres humanos. 
FIGURA 10 – REPRESENTAÇÃO DAS RELAÇÕES ENTRE AMBIENTE E SOCIEDADE – 
PERSPECTIVA DA ECOLOGIA HUMANA
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
Para desenvolver a perspectiva ecológica, Park entendeu que o meio físico 
também interfere nas relações das pessoas, não apenas as trocas entre si. Para 
tanto, ele utilizou-se de dois conceitos da biologia, que vamos apresentar a partir 
da interpretação de Freitas (2002): a) simbiose; b) invasão, dominação e sucessão.
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
35
a) Simbiose – na biologia é a convivência de diferentes espécies em um mesmo 
espaço, ecossistema, em virtude de um benefício mútuo. Para Park, a cidade 
era um superorganismo no qual havia relações simbióticas entre as pessoas 
que viviam em áreas naturais – mesmo existindo diferenças entre si. Assim 
como as plantas possuem suas áreas naturais, na cidade seria possível verificar 
áreas naturais a partir de diferentes unidades orgânicas, como grupos de 
renda, áreas industriais, áreas comerciais, bairros de imigrantes (Chinatown 
– chineses, Little Italy – italianos, entre outros). Nesses grupos seria possível 
verificar as relações em simbiose entre os indivíduos de uma área natural e 
também entre as próprias áreas naturais. A cidade, portanto, é formada por 
várias áreas naturais e suas relações simbióticas.
b) Invasão, dominação, sucessão – as áreas naturais podem sofrer modificações 
a partir da invasão de novas espécies, que após a invasão a dominam e 
afastam outras formas de vida dela. Park percebe essa sequência também nas 
sociedades humanas. As comunidades crescem em termos de utilidades e usos 
a partir da invasão de outros grupos, gerando novas segregações e associações. 
“Nas cidades, um grupo cultural ou étnico pode tomar um bairro inteiro de 
outro grupo, podendo esse processo ter início com a mudança de apenas um 
ou alguns moradores” (FREITAS, 2002, p. 69). Também um novo comércio ou 
uma grande indústria instalados em um bairro podem modificar o bairro todo.
A teoria ecológica entende que há um processo adaptativo que ocorre 
entre meio ambiente, população e organização, por isso considera os elementos 
estruturais externos nas análises de seus objetos, como a criminalidade, por 
exemplo. O crime não seria um fenômeno individual, e sim ambiental – já que o 
ambiente seria formado pelos aspectos físicos, sociais e culturais.
FIGURA 11 – QUADRO SINÓPTICO DA PERSPECTIVA ECOLÓGICA
FONTE: Freitas (2002, p. 89)
Ideia básica > a compreensão da sociedade humana através de sua analogia 
com a ecologia, especialmente a vida vegetal
Natureza humana > o ser humano fez escolhas racionais, mas seu livre arbítrio está 
limitado pelo ambiente físico e social, do qual ele faz parte
Visão da sociedade >
>
a sociedade é um conjunto de comunidades humanas
a sociedade se baseia no consenso
Leis > são regras da cultura dominante da sociedade e que são 
formuladas por suas instituições políticas
Crime > é definido pela lei
Causas da criminalidade >
>
>
desorganização social
diversidade étnico-cultural
transmissão cultural da delinquência
Resposta à criminalidade >
>
>
intervenção pela prevenção
técnicas voltadas à alteração do ambiente físico e social
programas visando aumentar o controle social nas áreas 
afetadas pela desorganização social
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
36
Embora reconhecessem a diversidade dos grupos que formam a 
sociedade, os autores vinculados à Escola de Chicago tinham uma visão baseada 
na perspectiva funcionalista da sociedade, entendendo que “a sociedade está 
fundada em um consenso de valores entre seus membros e que a função do Estado 
é proteger o interesse social, que seria comum a todos” (FREITAS, 2002, p. 70). Por 
conta dessa perspectiva, muitos indicam que estes autores são integracionistas, 
ou seja, defendem uma visão a favor da integração social – especialmente na 
sociedade urbana.
Também é preciso analisar a ecologia humana sob a ótica dos processos 
sociais de competição:
Park e Burgess associam a ideia de ecologia humana ao processo de 
interação humana da competição: dentre os quatro grandes tipos 
de interação – competição, conflito, acomodação e assimilação -, a 
competição é a forma elementar, universal e fundamental. Embora a 
interação seja criada pelo contato social,a competição, estritamente 
falando, é interação sem contato social; o que faz isso parecer paradoxal 
é que na sociedade humana a competição é sempre complicada com 
outros processos (de interação), ou seja, com o conflito, a assimilação 
e a acomodação. É só na comunidade vegetal que se pode observar o 
processo de competição em isolamento, não complicado com outros 
processos sociais. A comunidade vegetal é a melhor ilustração do 
tipo de organização social que é criado pela cooperação competitiva 
porque nela a competição é irrestrita (EUFRÁSIO, 1999, p. 103).
As teorias ecológicas que analisam o meio natural reconhecem a 
existência da competição frequente por um lugar no espaço, no ecossistema, e 
dessa competição surge certa configuração que só pode ser entendida quando 
os elementos (animais, plantas etc.) são olhados a partir do todo e não separado. 
Assim também há um processo de acomodação no meio social, quando os 
indivíduos tornam-se interdependentes de seus grupos e instituições sociais, 
tomando parte da economia biológica do sistema no qual fazem parte. Isso gera 
uma organização em função da competição por espaço, gerando uma teia de 
relações sociais, e as peculiaridades indicadas a seguir:
Entretanto, as inter-relações dos seres humanos e as interações do 
homem e seu habitat, são comparáveis, porém não idênticas às inter-
relações de outras formas de vida animada. O homem, como argumenta 
Robert Park (1948), por meio de invenções e recursos técnicos aumentou 
enormemente sua capacidade de reagir aos desafios da natureza e 
refazer o seu habitat. O homem guarda sua peculiaridade com relação 
às outras formas de vida animada justamente porque erigiu, sobre a 
base biótica da comunidade, uma estrutura institucional enraizada 
no costume e na tradição, a sociedade. Assim, a sociedade humana é 
organizada em dois níveis, o biótico e o cultural. Há uma sociedade 
simbiótica baseada na competição e uma sociedade cultural baseada 
na comunicação e no consenso. As duas sociedades, argumentam 
tanto Pierson (1948) quanto Park (1948), são simplesmente aspectos 
diferentes de uma sociedade - a superestrutura cultural repousa sobre 
a base da subestrutura simbiótica, e as energias que se manifestam 
no nível biótico em movimentos e ações revelam-se no nível social 
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
37
superior em formas mais sutis e sublimadas. À ecologia, cabe o estudo 
e a explicação deste nível da sociedade comum a todas as formas de 
vida animada, o biótico. À sociologia, cabe o estudo e compreensão, 
por meio de métodos e teorias moldados ao objeto, da “expectativa 
normal do gênero humano, dos mores, aquilo que os homens, numa 
situação definida, vieram a esperar” (SANTOS, 2010, p. 166).
Para finalizar, vamos estudar a teoria que utiliza a aplicação da ecologia 
humana, desenvolvida por Burgess e apresentada por Freitas (2002, p. 72): a 
teoria das zonas concêntricas.
Ernst Burgess, professor da Escola de Chicago de 1916 a 1952, escreveu 
The Growth of the City (1925), onde explorou o processo de invasão, dominação 
e sucessão. Burgess apresentou um mapeamento de Chicago e concluiu que 
as cidades não crescem simplesmente em seus limites. Ao invés disto, elas 
tendem a se expandir radicalmente de seu centro em padrões de círculos 
concêntricos, que descreveu como “zonas”. Daí a denominação teoria das 
zonas concêntricas. Esta teoria é um diagrama da estrutura ecológica que 
“representa uma construção ideal das tendências de qualquer cidade a se 
expandir radialmente a partir de seu bairro comercial central”.
De acordo com a teoria de zonas concêntricas, a cidade é dividida em 
cinco áreas:
A Zona I é o bairro central, com comércios, bancos, serviços etc. Burgess 
chamou este distrito de “loop”. A Zona II é a área imediatamente em torno 
da Zona I e representa a transição do distrito comercial para as residências. 
Normalmente é ocupada pelas pessoas mais pobres. É a chamada “zona em 
transição” ou, ainda, “zona de transição”. A Zona III contém residências 
de trabalhadores que conseguiram escapar das péssimas condições de vida 
da Zona II, sendo composta geralmente pela segunda geração de famílias 
imigrantes. A Zona IV, chamada de suburbia, é formada por bairros residenciais 
e é caracterizada por casas e apartamentos de luxo. É onde residem as classes 
média e alta. A Zona V, denominada exurbia, fica além dos limites da cidade 
e contém áreas suburbanas e cidades satélites. É habitada por pessoas que 
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
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trabalham no centro e despendem um tempo razoável no trajeto entre casa e 
trabalho. Esta área não é caracterizada por residências proletárias. Ao contrário, 
normalmente é composta de casas de classe média-alta e alta. O conceito de 
subúrbio das cidades norte-americanas é diverso do das cidades da América 
Latina. Enquanto nas cidades latino-americanas o subúrbio é usualmente 
caracterizado por ser uma área pobre, nos EUA é onde residem pessoas de 
alto padrão socioeconômico.
Sobre os moradores da Zona V, veja-se o seguinte comentário de Álvaro 
Mayrink da Costa:
“Os commuters são habitantes de áreas suburbanas, que moram mais 
afastados do que os trabalhadores especializados, os quais vão de trem rápido 
[metrô] diariamente ao Centro da cidade para seu trabalho [como diretores de 
grandes empresas] e áreas suburbanas ou “satélites” – dentro de um raio de 30 
a 60 minutos de viagem, por trens rápidos, da zona central”.
As cinco zonas crescem e cada uma delas gradualmente se move, 
avançando no território da zona adjacente em um processo de invasão, 
dominação e sucessão. 
 Uma descrição bastante detalhada da utilização do conceito de 
ecologia humana por parte dos integrantes da Escola de Chicago está 
no capítulo O conceito de ecologia humana na escola sociológica de 
Chicago, da obra: EUFRÁSIO, M. A. Estrutura urbana e ecologia humana: 
a escola sociológica de Chicago. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 95-129. Se 
você deseja se aprofundar no estudo desse conceito é um bom texto para 
iniciar seus estudos!
DICAS
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RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• A cidade, nos estudos de sociologia urbana, possui sempre um peso central nas 
análises – por ser uma categoria que aglutina a relação entre o comportamento 
humano urbano e as instituições nesse espaço. Em se tratando da Escola de 
Chicago, o autor clássico acerca do estudo da cidade é Park.
• Para Park, por meio de métodos como a etnografia seria possível pesquisar 
empiricamente a vida social ocorrida na cidade, especialmente suas nuances.
• Park concebe a cidade como instituição, por isso ela se torna objeto sociológico, 
sendo observada como estrutura externa ao indivíduo e que interfere na sua 
subjetividade.
• Além da análise das organizações espaciais citadinas, Park analisa a ordem 
moral disposta nas cidades e traz a noção de regiões morais.
• Um dos estudos mais detidos relacionados ao conceito de estrutura urbana foi 
desenvolvido por Robert McKenzie, publicado em 1923, cujo desenvolvimento 
lhe permitiu a titulação no doutorado junto à Universidade de Chicago. 
Segundo ele, para além das determinações geográficas, é possível identificar 
padrões de ocupação do espaço – que determinam a estrutura urbana.
• É a junção da perspectiva demográfica com a biologia que Park utiliza para 
seus estudos iniciais sobre a cidade na perspectiva ecológica.
• O conceito de Park ficou conhecido como ecologia humana porque sua 
analogia para explicar a organização da vida humana nas sociedades era com 
a distribuição dos vegetais na natureza. Nessa perspectiva considera-se que o 
comportamento individual é moldado pelos meios físicos e sociais nos quais 
o indivíduo vive, e que existem limitações impostas pela sociedade ao livre 
arbítrio dos seres humanos.
• Para desenvolver a perspectiva ecológica, Park entendeu que o meio físico 
também interfere nas relações das pessoas, não apenas as trocas entre si, por 
meioda simbiose e invasão, dominação e sucessão.
40
AUTOATIVIDADE
1 Descreva os principais aspectos dos seguintes conceitos, de acordo com as 
perspectivas apresentadas pela Sociologia Urbana:
a) Cidade:
b) Estrutura Urbana:
c) Ecologia Humana:
2 Park se deteve sobre o desenvolvimento do conceito de ecologia humana. 
Sobre esse conceito, analise as seguintes sentenças:
I- A Ecologia Humana é a ciência que procura descrever as constelações típicas 
de pessoas e instituições produzidas pela operação conjunta de tais forças.
II- Para a teoria da Ecologia Humana foram utilizados alguns termos da 
biologia, cujo destaque é no uso da simbiose e das relações entre invasão, 
dominação e sucessão.
III- A teoria da Ecologia Humana identifica um processo de acomodação no 
meio social, quando os indivíduos tornam-se interdependentes de seus 
grupos e instituições sociais, tomando parte da economia biológica do 
sistema no qual fazem parte.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente a afirmativa II está correta.
c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.
d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.
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TÓPICO 3
OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS 
DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A 
SOCIOLOGIA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Chegamos ao último tópico de seus estudos sobre a Escola de Chicago. Ele 
trata dos desdobramentos da sociologia ali praticada, ou seja, da aplicabilidade de 
suas teorias e conceitos, vistos até aqui, em pesquisas empíricas e temas de análise 
que até hoje são referência para reinterpretações e para autores contemporâneos – 
especialmente no campo da Sociologia Urbana.
Como já mencionado, há um conjunto muito amplo de pesquisas realizadas 
na Universidade de Chicago no âmbito da Escola de Chicago, portanto, trazemos 
aqui apenas alguns temas que foram essenciais para consolidar a Sociologia 
Urbana e que são utilizados como base ainda hoje nesse campo.
A primeira parte deste tópico trata sobre os estudos realizados acerca 
da criminalidade, cujos dados empíricos foram coletados na cidade de Chicago, 
mas que traz dimensões teóricas e metodológicas muito importantes. A segunda 
parte apresenta algumas discussões sobre os métodos empíricos inseridos na 
pesquisa social por esse grupo, que consolidou a característica pragmática dessas 
investigações – e influenciou toda a sociologia mundial. Por último, veremos 
os estudos sobre imigração, outro tema de grande relevância na época – cujas 
discussões permanecem atuais.
Desejamos que seja possível visualizar a aplicabilidade dos conceitos e 
aspectos metodológicos desenvolvidos a partir dessas temáticas de pesquisa. 
Vamos lá? Boa leitura!
2 ESTUDOS SOBRE A CRIMINALIDADE
Uma das grandes contribuições da Escola de Chicago diz respeito 
aos estudos que envolvem o fenômeno da criminalidade. A partir do estudo 
específico desta cidade, cuja criminalidade estava associada a conflitos frequentes 
entre grupos de imigrantes, os autores desenvolveram um arcabouço teórico e, 
principalmente, metodológico – que contribui com os estudos contemporâneos 
sobre a temática.
42
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
Destacam-se, nesse contexto, estudos sobre: gangues, organizações 
criminosas, delinquência urbana e juvenil, e ladrões.
Boa parte das pesquisas sobre o crime iniciava a partir da busca por 
identificar as gangues que ocupavam um determinado território. As gangues 
são formadas por grupos de adolescentes, geralmente filhos de imigrantes, que 
ocupam as zonas mais pobres da cidade, e se encontram regularmente para 
alguma prática – inclusive infrações e crimes. Esses grupos costumam se deslocar 
e encontrar outros grupos, hostis, provocando muitas vezes, conflitos.
FIGURA 12 – GANGUE SCREAMING PHANTONS, CIDADE DE NOVA YORK, DÉCADA DE 70
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
Park apresenta algumas de suas características:
As gangues florescem na fronteira e os bandos de predadores que 
infestam a periferia da civilização mostram as mesmas características 
que as que são analisadas nesta obra. As 1300 analisadas em Chicago 
são típicas de todas as gangues. Uma gangue é uma gangue, onde 
quer que se encontre. Representa um tipo específico de sociedade... 
As gangues, como a maioria das demais formas de associação 
humanas, devem ser estudadas em seu habitat particular. Surgem 
espontaneamente, mas apenas em condições favoráveis e em um meio 
definido... Isto é o que torna interessante o seu estudo, convence-
nos de que elas não são incorrigíveis e que podem ser controladas 
(COULON, 1995, p. 62).
A função da gangue é identificada como sendo o grupo que dá o que a 
organização social não permite que as pessoas tenham, protegendo o indivíduo. 
Elas respondem a uma desorganização social, já que surgem no habitat 
deteriorado, onde tudo está abandonado.
Os grupos encontram-se nessas condições, unem-se, tomam consciência 
e tornam-se um “clube”. Com frequência, posteriormente, tornam-se grupos 
de delinquentes. São “grupos instáveis, novos grupos aparecem, os antigos 
desaparecem ou reestruturam-se. Uma gangue possui um território próprio que 
conhece bem e do qual não se afasta muito” (COULON, 1995, p. 64).
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
43
Essas gangues tornam-se objetos sociológicos, pois, por meio das 
interações sociais, desenvolvem uma moral própria. Surgem líderes e a posição 
social de cada membro do grupo vai sendo definida, gerando uma ordem social – 
que culmina em uma consciência de grupo, ligada a um território.
O estudo mais amplo realizado sobre as gangues foi desenvolvido por 
Frederic M. Trasher, publicado em 1927. Suas principais fontes para o estudo das 
gangues foram censos, tribunais, observações, documentos pessoais e entrevistas. 
Por meio deste material, ele identifica a relação das gangues com os itens: 
território, lealdade e hierarquia.
Como ele destaca, a formação da gangue reflete uma dinâmica social, 
como, por exemplo, a busca da identidade em razão da modificação da 
cidade. A gangue, para um universo significativo de jovens, apresenta-se 
como um substituto para o que a sociedade lhes nega. Representa um 
grupo em que são aceitos. Representa, pois, inserção, oportunidade e 
objetivo comum, ainda que – e exatamente por isso – normas e valores da 
gangue se contraponham às da macrossociedade. A prática de infrações 
penais pelos membros da gangue, em termos ecológicos, é uma resposta 
contida do meio ambiente para aqueles jovens ‘buscando sobreviver em 
vizinhanças socialmente desorganizadas’ (FREITAS, 2002, p. 79).
Uma outra característica das gangues indicada por Trasher é de que ela 
é a “manifestação de conflitos culturais entre os comportamentos de imigrantes 
entre si, por um lado, e, pelo outro, entre essas diferentes comunidades e os 
valores de uma sociedade americana pouco atenta a seus problemas – sobretudo 
sua pobreza – e que continua estrangeira a eles” (COULON, 1995, p. 66). Por 
isso muitas gangues são formadas por pessoas de diferentes nacionalidades, que 
sentem-se igualmente em condições de dominação.
Muitas crianças iniciam-se nesses grupos, por vezes desenvolvendo a partir 
disso, carreiras criminosas. O início das práticas é com atividades como “matar aula”, 
o furto de pequenos itens de pouco valor, vandalismo, que tornam-se rotina desses 
grupos e ensinam aos mais jovens comportamentos organizados e delinquentes.
Trasher identificou nas gangues delinquentes características idênticas 
às encontradas em organizações formais, como, por exemplo, atividade 
dirigida a objetivos, estratificação interna, exclusividade, lealdade 
para com o grupo e estabilidade, o que autoriza que este tipo de 
agrupamento possa ser reconhecido como uma organização complexa. 
Logo, se a gangue de jovens pode apresentar tais características, é 
razoável se concluir que as organizações criminosas integradas por 
adultos também as possuam (FREITAS, 2002, p. 82).As organizações criminosas não aparecem apenas nos estudos sobre as 
gangues, mas em estudos específicos sobre o tema. Em 1924, a guerra das gangues 
em Chicago estava em seu auge, e John Landesco publicou e entregou relatórios para 
a Illinois Association for Criminal Justice, que encomendou uma vasta pesquisa sobre a 
criminalidade – cuja finalidade era mostrar que havia uma relação entre a organização 
social da cidade e o crime, e não uma falência da justiça. Durante sete anos, Landesco 
investigou e descreveu a guerra entre gangues, já que tinha contatos entre muitas delas. 
44
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
 Para conhecer a descrição das guerras entre gangues 
na cidade de Nova Iorque, a partir de histórias contadas pelos 
seus próprios líderes, veja o documentário Rubble Kings, lançado 
em 1979.
DICAS
Outro tema que apareceu com frequência, relativo à criminalidade, foi a 
delinquência urbana, especialmente juvenil.
Em 1929, Clifford Shaw, Frederic Zorbaugh, Henry McKay e 
Leonard Cottrell publicaram uma obra sobre a delinquência urbana 
em que, recenseando os domicílios de cerca de 60 mil “vagabundos, 
criminosos e delinquentes” de Chicago, mostravam que as taxas de 
criminalidade e de delinquência eram variáveis de um bairro para 
outro. Os bairros mais próximos dos centros comerciais e industriais, 
onde se concentrava a população de mais baixa renda, tinham as mais 
altas taxas de criminalidade. Ao contrário, os bairros residenciais da 
periferia da cidade, mais ricos, tinham taxas de delinquência muito 
baixas (COULON, 1995, p. 74).
Seguindo a linha da criminologia, Shaw e McKay publicam anos depois 
um novo estudo, mais amplo (não apenas tendo a cidade de Chicago como foco), 
e buscando entender a ecologia da delinquência e do crime, a partir de novas 
perguntas, como: 1) As variações das taxas de criminalidade são comparáveis de 
uma cidade para outra? 2) Essas diferenças correspondem, em todos os casos, a 
diferenças econômicas, sociais e culturais? 3) As taxas de natalidade e as de imigração 
modificam as de criminalidade? 4) É possível a existência de tipos de tratamento da 
criminalidade diferenciados, segundo as zonas urbanas? (COULON, 1995).
Os estudos indicaram a relação da criminalidade com a desorganização 
social, do ponto de vista de estrutura física, inclusive. Nas regiões com maiores 
taxas de delinquência, o desemprego e o suicídio eram altos, a população era mais 
doente, a mortalidade infantil mais frequente etc. Mas havia também aspectos 
culturais e econômicos que envolviam especialmente os grupos de imigrantes.
Em resumo, os autores indicam que para as análises sobre a criminalidade 
é preciso levar em conta três fatores: a situação econômica, a mobilidade da 
população e a heterogeneidade da composição da população. A pobreza, uma 
grande mobilidade e uma grande heterogeneidade levam à ineficácia das 
estruturas comunitárias e, por consequência, a um enfraquecimento do controle 
social – que abre espaço para o crime (COULON, 1995). 
Para finalizar este subtópico, vamos conhecer um pouco mais sobre o 
estudo direcionado à investigação da vida dos ladrões.
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
45
Em 1937, Edwin Sutherland publicou um estudo dedicado aos ladrões 
profissionais. Tal como se vê pelo próprio subtítulo (segundo o relato de um 
ladrão de profissão), o estudo baseava-se no relato autobiográfico de um 
ladrão que exercera o ofício por mais de 20 anos.
[...]
Ao descrever o mundo dos ladrões e as técnicas que estes utilizavam 
em sua “profissão”, ao evocar a repressão de que eram objeto, mas também os 
favores de que se podiam beneficiar, Sutherland traçava ao mesmo tempo um 
quadro da ordem social em cujo seio essa “profissão” podia desenvolver-se. 
Evocava assim, por exemplo, as propinas pagas pelos ladrões aos advogados, 
banqueiros, policiais e, às vezes, aos juízes.
[...]
Para Sutherland, seu livro era interessante por cinco razões: 
1- Dava conhecer à burguesia um meio social que esta ignorava.
2- Permitia estudar o quadro e as características do grupo social dos ladrões.
3- Contribuía para a sociologia pondo em evidência o funcionamento das 
instituições sociais e o relaxamento moral destas.
4- O estudo mostrava que os métodos punitivos e as reformas administrativas 
são impotentes para estrangular a criminalidade.
5- Podia constituir-se em um ponto de partida para estudos ulteriores mais 
aprofundados.
[...]
Sutherland, verdadeiro fundador da sociologia da delinquência, 
considerava a criminalidade como, antes de mais nada, resultado de um 
processo social. Segundo ele, a delinquência não é provocada por um 
comportamento psicológico ou patológico; mesmo havendo, é claro, um 
componente individual na criminalidade, a influência da organização social 
e da herança cultural sobre o indivíduo são fatores determinantes. Segundo 
Sutherland, não se nasce desviante ou delinquente, mas fica-se sendo por 
“associação diferencial”, por aprendizagem, por se estar exposto a um meio 
criminoso que considera como “natural” essa atividade e que impõe ao 
indivíduo uma carga de significações sociais e de “definições da situação”: não 
se é desviante ou delinquente por afinidade, mas por filiação, o que supõe uma 
conversão do indivíduo, confrontado a vários mundos culturais diferentes e 
conflitantes, que Sutherland chamou de “organizações sociais diferenciais”, 
com integridade e funcionamento próprios. Essa ecologia da delinquência 
elaborada em Chicago, especialmente por Sutherland, foi importante na 
medida em que veio dar origem, 20 anos depois, às teorias modernas sobre 
o desvio, em particular a labeling theory, que, mesmo ultrapassando as 
orientações iniciais, apoiou-se sobre o conjunto desses trabalhos.
FONTE: Coulon (1995, p. 78)
46
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
3 MÉTODOS DE PESQUISA EMPÍRICA
Uma das grandes contribuições da Escola de Chicago para os estudos 
sociológicos mundiais foi o desenvolvimento de pesquisas de base empírica, 
baseados no pragmatismo e formalismo que as influenciaram. A coleta de dados era 
realizada das mais diversas formas, imprimindo um caráter prático e, muitas vezes, 
intervencionista, nas pesquisas sociais. Buscava-se o conhecimento prático direto.
A chamada sociologia qualitativa foi utilizada pelos autores para a análise 
de dados coletados via documentos pessoais como autobiografias, correspondência 
particular, diários, relatos individuais; e também por trabalho de campo/estudo 
de caso a partir de observação, entrevista, testemunho, observação participante. 
Ainda incipiente houve o desenvolvimento de uma sociologia quantitativa, que 
se expandiria anos mais tarde (COULON, 1995).
Coulon (1995) destaca os seguintes métodos utilizados nos estudos da 
Escola de Chicago: documentos pessoais, trabalho de campo e fontes documentais. 
Vamos nos basear em sua exposição para compreender cada um deles.
• Documentos pessoais
A obra que inaugurou o uso dessas fontes na sociologia foi The polish peasant 
in Europe and in America, de Thomas e Znaniecki, cujo objetivo era descrever a vida 
social dos camponeses poloneses em seu país de origem ou emigrados para os 
Estados Unidos. Utilizaram para tal correspondências pessoais, autobiografias, 
diários íntimos, testemunhos e relatos pessoais.
Esse tipo de abordagem levou em conta a subjetividade dos indivíduos, 
aplicando assim o princípio do interacionismo. Com base nessas subjetividades 
individuais, aplicando a sociologia científica, eles pretendiam construir tipos 
ideais, orientados por Park:
Era esta a forma de investigação que Park exigia de seus alunos, e é 
assim que se deve interpretar a sua estranha recomendação no sentido 
de considerar a sociologia como uma “forma de jornalismo superior”, 
quando, ao mesmo tempo, ele tomava muito cuidado em fazer da 
sociologia uma atividade científica autêntica e objetiva. Este paradoxo e 
mesmo esta contradição explica-se por uma dupla preocupação: por umlado, a sociologia devia a si mesma a objetividade, a fim de libertar-se da 
assistência social; por outro lado, poderia ser objetiva caso se apoiasse na 
subjetividade dos agentes, cujos testemunhos deveriam ser recolhidos 
à maneira de um jornalista, que Park fora por vários anos antes de se 
tornar professor de sociologia em Chicago (COULON, 1995, p. 86).
Thomas buscou investigar como certos comportamentos dos imigrantes 
poloneses em Chicago poderiam ser explicados pelos hábitos de seu país 
de origem, pois na época eles eram tidos como incompreensíveis, já que ou 
aceitavam passivamente as autoridades americanas, ou consideravam a liberdade 
americana sem limites e travavam guerra contra a polícia. Para tanto, métodos 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
47
como históricos de vida e cartas permitiam entender a sua maneira de definir 
a situação, buscando o significado subjetivo atribuído pelos sujeitos as suas 
próprias ações.
Essa pesquisa pode ter caráter monumental devido a um alto financiamento 
que o autor conseguiu, e incluiu muitas viagens para a Europa para a coleta de 
dados locais, enquanto Znaniecki trabalhava na coleta de dados dos emigrantes 
em Chicago. 
As cartas foram material de base para sua pesquisa etnográfica, cujo foco 
eram as correspondências trocadas por famílias que moravam nos EUA com 
os integrantes que permaneceram na Polônia. Os históricos de vida também 
serviram como fonte, sendo solicitado a algumas pessoas que escrevessem sua 
autobiografia, e cuja veracidade era verificada na comparação das cartas trocadas 
com a Polônia, na época. Outros estudos, como o já mencionado trabalho de 
Sutherland, que estudou a vida dos ladrões, também se utilizaram desses métodos.
É possível reconhecer o interacionismo (concepção que prioriza a 
análise dos reflexos do mundo exterior no interior dos indivíduos) nesses usos 
metodológicos, especialmente no uso das histórias de vida: “deve-se compreender 
o que os indivíduos fazem acedendo, desde o interior, ao seu mundo particular, 
e antes de mais nada descrever os mundos particulares dos indivíduos cujas 
práticas sociais se quer entender e analisar” (COULON, 1995, p. 94).
Burgess destacou uma potencialidade do uso das histórias de vida como 
coleta de dados: “a melhor garantia é a espontaneidade e a liberdade de tom da 
pessoa que conta a sua história. Nisso reside a superioridade do histórico de vida 
com relação às perguntas “secas” que um pesquisador pode fazer” (COULON, 1995, 
p. 96). Ele destaca a importância disso nos casos de estudos sobre delinquência, em 
que a mentira era recorrente no uso de técnicas como entrevistas.
• Trabalho de campo
A grande contribuição do trabalho de campo dos integrantes da Escola 
de Chicago foi o que era chamado à época de observação participativa. Trazendo 
para a contemporaneidade, dizemos que é a técnica da pesquisa participante. 
Nesse sentido, Park orientava seus alunos a observarem, mas não 
participarem, pois prezava por manter a objetividade da pesquisa científica e, 
assim, consolidar uma sociologia cujo rigor metodológico lhe garantisse o caráter 
de ciência. O distanciamento garantiria a atitude científica. Segundo ele era 
preciso separar a sociologia, que explica as relações sociais, da assistência social 
ou filantropia, que intervém nos problemas sociais. Mas como ambas estavam 
difusas na época, os trabalhos de campo eram entendidos como observação 
participante, até por conta do caráter intervencionista que muitas vezes ainda 
estava presente.
48
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
Algumas pesquisas utilizavam uma imersão total, em que o pesquisador 
estava de maneira integral com a comunidade que estudava no momento, outras 
apenas por tempo parcial – em que estava presente em apenas algumas situações. 
A pesquisa do autor Anderson (apud COULON, 1995), por exemplo, sobre os 
hobos (cowboys de fronteira) foi realizada a partir de entrevistas informais (nas 
quais ele não se identificou como pesquisador) quando ele se hospedava nos 
finais de semana em um hotel de um bairro que os hobos habitavam. Esse trabalho 
foi publicado em 1923, sob orientação de Burgess.
A pesquisa de Anderson é representativa de um grande número das 
que foram realizadas em Chicago, na medida em que ele conduziu 
suas investigações sobre um mundo ao qual ele simplesmente tinha 
acesso. Como ele próprio esclareceu, não assumiu o papel de hobo 
para poder realizar sua pesquisa, ele próprio não era um hobo em 
busca de trabalhos sazonais para sobreviver e que, por isso, tinha 
de viajar por todo o país: foi seu encontro com os hobos, em uma 
instituição de assistência social na qual trabalhava, que o levou a 
realizar essa pesquisa, a qual acabou levando a uma descrição, sem 
conceitualização sociológica, de um mundo de hobos em vias de 
desaparição (ANDERSON apud COULON, 1995, p. 105).
Outra pesquisa que utilizou esse método foi realizada por Cressey, 
publicada em 1929, e que estudou as taxi-dance halls, casas de danças nas quais os 
homens pagavam para que mulheres dançassem com eles. Essas casas possuíam 
dançarinas e clientes fixos ou esporádicos, e eram associadas muitas vezes a 
uma fachada para a prostituição. Cressey notou que as entrevistas formais não 
davam conta de muitos aspectos, especialmente em se tratando de atividades 
ilícitas envolvendo sujeitos. Assim, valeu-se de observadores e informantes que 
participavam das atividades como clientes, não revelando que eram pesquisadores.
A potencialidade desse método de coleta de dados, portanto, consistia 
na gama de informações que os pesquisadores podiam observar no espaço 
estudado, especialmente nas relações estabelecidas com indivíduos não como 
pesquisadores, mas como parte daquele mundo.
• Fontes documentais
O uso de fontes documentais foi um dos marcos das pesquisas da Escola 
de Chicago. Reuniram-se dados especialmente sobre a própria Chicago, que Park 
utilizou em seus estudos sobre a cidade. Esse acervo foi constituído e ampliado, 
por isso há sempre grande volume de dados nas pesquisas sobre Chicago.
“Na maior parte das pesquisas que marcaram a Escola de Chicago, vários 
tipos de fonte documental seriam utilizados: arquivos históricos, os jornais 
diários, os arquivos dos tribunais, os fichários das agências de assistência social e 
de diversas organizações” (COULON, 1995, p. 117).
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
49
Algumas pesquisas podem ser citadas como exemplos do volume de dados 
que foi possível atingir com as pesquisas em função desse banco em constante 
atualização: 1) Landesco, em 1929, catalogou dados de sete mil criminosos, a 
partir do qual pôde entrevistar alguns selecionados, produzir mapas da violência, 
entre outros materiais, que geraram um grande mapa do crime organizado; 2) 
Wirth, em 1928, estudou o gueto judaico e adiantou o dado de 300 mil judeus 
a partir de dados do recenseamento; 3) Reckless, em 1923, utilizou fontes como 
fichários de tribunais e arquivos da Sociedade Histórica para investigar os bairros 
tradicionalmente delinquentes em Chicago.
A utilização dessas formas de coleta de dados marcou as pesquisas da 
Escola de Chicago e, por consequência, sua influência na sociologia mundial. As 
pesquisas empíricas vieram à tona com força e tornaram-se a principal marca 
dessa escola de autores.
4 ESTUDOS SOBRE IMIGRAÇÃO
Um dos interesses da Sociologia de Chicago foi direcionado às ondas 
migratórias que ocorriam na época, nos Estados Unidos, e mesmo em Chicago. 
Como pudemos ver até aqui, boa parte dos trabalhos direcionava-se aos fenômenos 
urbanos que se relacionavam com a imigração. Os pesquisadores acreditavam que a 
sociedade americana poderia assimilar este público e, portanto, buscaram interpretar 
as relações existentes entre imigrantes e nativos – do ponto de vista sociológico.
Um dos conceitos presentes nas análises sobre a imigração foi apresentado 
por Thomas e é o conceitode atitude. Para ele, a atitude é a subjetividade 
individual que traz em si os valores sociais do grupo ao qual o sujeito pertence. 
A atitude é o conjunto de ideias e emoções que se transforma em uma 
disposição permanente em um indivíduo e lhe permite agir de maneira 
estereotipada. Pode ser definida como o processo da consciência 
individual que determina a atividade real ou potencial do indivíduo 
no mundo social. A atitude é a contrapartida do indivíduo aos valores 
sociais, e toda atividade humana estabelece um elo entre esses dois 
elementos (COULON, 1995, p. 30).
Esse conceito permitiu uma oposição às ideias disseminadas na época que 
defendiam a determinação biológica das diferenças raciais ou étnicas. A teoria 
sociológica contribuiu para rejeitar o reducionismo biológico que atribuía o estado 
mental de imigrantes a problemas fisiológicos, na medida em que ligou isso às 
transformações sociais ocorridas em suas vidas cotidianas (COULON, 1995).
A partir disso, Thomas e Znaniecki seguem buscando entender os 
impactos da desorganização social na vida dos imigrantes. Para tal, definem:
50
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
Uma organização social é um conjunto de convenções, atitudes e 
valores que se impõem aos interesses individuais de um grupo social. 
Ao contrário, a desorganização social, que corresponde a um declínio 
da influência dos grupos sociais sobre os indivíduos, manifesta-se por 
um enfraquecimento dos valores coletivos e por um crescimento e uma 
valorização das práticas individuais. A desorganização existe quando 
atitudes individuais não encontram satisfação nas instituições, vistas 
como ultrapassadas, do grupo primário (COULON, 1995, p. 34).
Essa desorganização era observada pelos pesquisadores na Polônia, na 
época, o que provocou grande imigração para os Estados Unidos. Aqui, esses grupos 
tentam se reorganizar, não necessariamente assimilando-se totalmente ao grupo que 
os acolhe, pois é possível que elementos culturais do grupo original sejam mantidos. 
Muitas vezes essa desorganização social conduz ao chamado desvio.
Para Thomas, a reorganização passa pela assimilação, que é desejável 
e inevitável, para que haja uma memória comum entre nativos e imigrantes 
(COULON, 1995). Assim, ele indicava que os americanos se familiarizassem com 
a cultura dos imigrantes, e que os imigrantes aprendessem a língua local, história, 
ideais e valores da sociedade nas quais ingressavam. 
Park também estudou a desorganização e reorganização social e contribuiu 
desenvolvendo um ciclo entre as relações de imigrantes e nativos, cujas etapas 
seriam: rivalidade, conflito, adaptação e assimilação.
1- A rivalidade é a forma mais elementar de interação, é universal e 
fundamental. A rivalidade é a interação sem o contato social. Caracteriza-
se pela ausência de contato social entre os indivíduos, fator que favorece 
o surgimento do conflito, da adaptação e da assimilação, etapas que, ao 
contrário da rivalidade, estão ligadas ao controle social. Durante esta 
primeira etapa, que acarreta uma nova divisão do trabalho, as relações 
sociais são reduzidas a uma coexistência baseada nas relações econômicas, 
decisivas na transformação social: a rivalidade é o processo que organiza a 
sociedade. Ela determina a repartição geográfica da sociedade e a distribuição 
do trabalho. A divisão do trabalho, assim como a vasta interdependência 
econômica entre indivíduos e grupos de indivíduos, tão características da 
vida moderna, são produtos da rivalidade. Por outro lado, a ordem moral e 
política, que se impõe a esta organização competitiva, é produto do conflito, 
da adaptação e da assimilação.
2- A segunda etapa é o conflito, que é inevitável quando populações diferentes 
são postas em presença. O conflito manifesta uma tomada de consciência, 
pelos indivíduos, da rivalidade a que estão submetidos. Enquanto a 
rivalidade é inconsciente e impessoal, o conflito, ao contrário, é sempre 
consciente e envolve profundamente o indivíduo. É um processo que 
sempre acompanha a instalação dos indivíduos em seu novo ambiente: de 
um modo geral, pode-se dizer que a rivalidade determina a posição de um 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
51
indivíduo na comunidade; o conflito atribui-lhe um lugar na sociedade. 
Trata-se de uma etapa decisiva, na medida em que cria uma solidariedade 
no seio da minoria, que entra assim na ordem do político.
3- A adaptação pode ser considerada, tal como a conversão religiosa, como 
uma espécie de mutação. Ela representa o esforço que os indivíduos e grupos 
devem fazer para ajustar-se às situações sociais criadas pela rivalidade e pelo 
conflito. Desse modo, as gangues da fase precedente tornam-se clubes na 
adaptação. A adaptação é um fenômeno social relativo à cultura em geral, 
aos hábitos sociais e à técnica veiculada por um grupo. Durante esta fase, há 
uma coexistência entre grupos que continuam rivais em potencial, mas que 
aceitam suas diferenças. As relações sociais são organizadas com o fim de 
reduzir os conflitos, controlar a rivalidade e manter a segurança das pessoas.
4- A última etapa, que segundo Park é uma sequência natural da adaptação, é a 
assimilação, durante a qual as diferenças entre os grupos são diluídas, e seus 
respectivos valores misturados. Os contatos multiplicam-se e tornam-se mais 
íntimos, a personalidade do indivíduo transforma-se: há interpenetração e 
fusão, ao longo das quais os indivíduos adquirem memória, os sentimentos 
e as atitudes do outro e, ao compartilhar sua experiência e sua história, 
integram-se em uma vida cultural comum. A assimilação é um fenômeno 
de grupo, no qual as organizações de defesa da cultura dos imigrantes, por 
exemplo, ou os jornais de língua estrangeira têm um papel determinante. 
Portanto, é preciso estimular o desenvolvimento em vez de combatê-los.
FONTE: Coulon (1995, p. 44)
Cada uma dessas etapas, ou processos sociais, correspondem a uma 
ordem social na estrutura social, segundo Park:
FIGURA 13 – CORRESPONDÊNCIA PROCESSO SOCIAL X ORDEM SOCIAL, SEGUNDO PARK
FONTE: Coulon (1995, p. 45)
Processo social Ordem social
Rivalidade
Conflito
Adaptação
Assimilação
Equilíbrio econômico
Ordem política
Organização social
Personalidade e herança cultural
Park, ao estudar a assimilação, indica que apenas a aceitação comum a 
diferentes grupos étnicos não é o suficiente para a manutenção da ordem social, 
já que é preciso uma homogeneidade étnica para que haja unidade nacional. A 
assimilação de grupos étnicos para ele seria baseada na adoção de uma língua 
única e em tradições e técnicas compartilhadas (COULON, 1995).
52
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
Os preconceitos raciais encontrados entre esses grupos, para Park, 
surgem na desigualdade econômica. Os imigrantes aceitando empregos menos 
remunerados tornam-se hostilizados pelos nativos. O que ele entende como 
sendo a maneira de reduzir essas questões é a educação, mas uma educação 
americanizada, que inculque a língua e a cultura norte-americana. Segundo Park, 
seria isso que permitiria um futuro sem conflito para o imigrante.
Mas essa é apenas uma visão, existiram outras formas de pensar as relações 
entre imigrantes e nativos, e uma série de pesquisas realizadas por outros autores 
da Escola de Chicago sobre o tema – no entanto, nosso espaço não permite esgotar 
o tema, portanto, veja a sugestão a seguir. 
 A imigração estudada pela Escola de Chicago pode ser estudada por meio do 
artigo disponível em: https://bdtd.ucb.br/index.php/esf/article/view/5130. 
A referência é: ZANFORLIN, Sofia Cavalcanti. Migração e Escola de Chicago: caminhos para 
uma comunicação intercultural. Esferas, v. 1, n. 3, 2013.
DICAS
Cabe finalizar este subtópico mencionando os aspectos históricos que 
levaram ao encerramento das atividades na Escola de Chicago, essencialmente 
definidos pela ascensão da pesquisa quantitativa na universidade. Alguns alunos 
do Departamento de Sociologia passaram a estudar estatística e aenglobar 
métodos quantitativos em suas análises. 
Mas a partir de 1940, esses métodos ganham destaque por conta de 
pesquisas financiadas pelo exército norte-americano e passam a dominar a 
sociologia americana. Autores como Robert Merton e Paul Lazarsfeld ganharam 
notoriedade em suas pesquisas, de base funcionalista, nas Universidades de 
Columbia e Harvard. 
As publicações com base em análises estatísticas passaram a dominar o 
campo científico, o que coincidiu com os fatos: Burgess aposentou-se em 1951, 
Wirth faleceu em 1952, e Blumer foi para a Universidade da Califórnia. Assim, 
a segunda geração da Escola de Chicago extingue-se, mas não seu legado 
para a sociologia mundial, que permanece sendo revisitado pelos autores 
contemporâneos com frequência.
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
53
LEITURA COMPLEMENTAR
A ESCOLA DE CHICAGO – CONFERÊNCIA DE HOWARD BECKER
Falarei hoje a respeito da Escola de Chicago, mais conhecida por seu nome 
do que pelo conteúdo do que efetivamente fez. Mas quero abordar este tema 
como uma pequena história dentro de uma história mais ampla da sociologia. 
Geralmente conta-se a história da sociologia como a história das grandes ideias 
sobre a sociedade e das grandes teorias a respeito da sociedade. Quando estudei 
esse assunto, ainda na universidade, meu professor, Louis Wirth, começava por 
Heráclito e Tucídides, ou seja, pelos antigos gregos. Outros, mais modestos, 
começavam por Maquiavel ou mesmo Khaldun. No entanto, esse é um tipo de 
apropriação do passado que não tem muito a ver com a realidade. Poderíamos 
apenas dizer, desse ponto de vista, que a história da sociologia, como história 
das ideias e teorias, começou, talvez, em algum momento do século XIX. Nomes 
como os de Durkheim, Marx, Weber e outros são, de fato, nomes do século XX e 
do final do XIX.
Há, contudo, pelo menos duas outras histórias da sociologia que precisam 
ser contadas, o que deve ocorrer simultaneamente com a história das ideias. 
Uma delas é a história da prática da sociologia, dos métodos de pesquisa e das 
pesquisas realizadas, porque não se deve tomar como óbvio que as ideias foram 
as forças motrizes ou a principal realização de qualquer escola sociológica. De um 
determinado ponto de vista, que defendo com firmeza, a história da sociologia 
não é a história da grande teoria, mas a dos grandes trabalhos de pesquisa, dos 
grandes estudos sobre a sociedade. A terceira história da sociologia é a das 
instituições e organizações, dos locais onde o trabalho sociológico foi realizado, 
porque nenhuma ideia existe por si mesma, em um vácuo; as ideias só existem 
porque são levadas adiante por pessoas que trabalham em organizações que 
perpetuam essas ideias e as mantêm vivas.
[...]
Quanto a isso, eu gostaria de fazer duas distinções. A primeira é sobre 
o que se costuma dizer a respeito da Escola de Chicago. A palavra escola gera 
muita confusão, porque é possível distinguir pelos menos dois tipos de escola. 
Recorro aqui ao trabalho de um estudante da Northwestern University, Samuel 
Guillemard, que estudou os compositores contemporâneos e fez essa distinção. 
De um lado, temos as chamadas escolas de pensamento e, de outro, as escolas 
de atividade. Uma escola de pensamento, na terminologia de Guillemard, 
consiste em um grupo de pessoas que têm em comum o fato de que outras 
pessoas consideram seu pensamento semelhante; é possível que nunca tenham 
se encontrado, mas o que caracteriza uma escola de pensamento é que alguém, 
geralmente muitos anos mais tarde, decide que essas pessoas estavam fazendo a 
mesma coisa, pensando da mesma maneira, que suas ideias eram semelhantes. É 
muito comum na história das ideias definir escolas de pensamento dessa maneira, 
54
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
frequentemente em relação às circunstâncias históricas em que esse pensamento 
se formou. Uma escola de atividade, por outro lado, consiste em um grupo de 
pessoas que trabalham em conjunto, não sendo necessário que os membros 
da escola de atividade compartilhem a mesma teoria; eles apenas têm de estar 
dispostos a trabalhar juntos. Certas ideias vigentes na Universidade de Chicago 
eram compartilhadas pela maioria das pessoas, mas não por todas; certamente 
não era preciso que todos concordassem com essas ideias para se engajarem nas 
atividades que realizavam.
Gostaria agora de introduzir outro importante personagem, Robert E. 
Park, que era uma pessoa muito interessante. Ele e Thomas foram, sem dúvida, os 
membros mais influentes e autorizados do grupo que organizou as atividades do 
Departamento e as manteve de pé. Park nasceu em Omaha, Nebraska, no centro 
dos Estados Unidos e fazia parte de uma família de ricos comerciantes. Estudou, se 
não me engano, na Harvard University e depois foi para Heidelberg, onde estudou 
com Simmel. Logo nos primeiros anos deste século, voltou de Heidelberg com 
um doutorado cuja tese era um ensaio sobre as massas e o público como formas 
diferentes de organizar a sociedade de larga escala. De volta a Harvard, lecionou 
filosofia durante alguns anos. Todavia, Park parece não ter gostado muito da vida 
acadêmica, ingressando, então, no jornalismo. Primeiro foi repórter, depois editor 
de vários jornais americanos, chegando a ser editor-chefe do Free Press de Detroit, o 
mais influente jornal da cidade. Trabalhou durante anos nessa profissão, tornando-
se, posteriormente, ghost writer dos mais famosos líderes negros da época, como 
Booker T. Washington, famoso educador. Park escreveu ensaios e livros para 
Washington, inclusive seu livro mais conhecido, The Man Farthest Down. Mais 
tarde, foi secretário executivo da Organização para a Libertação do Congo Belga. 
Ele teve, pois, uma vida muito ativa e movimentada. Escreveu e publicou alguns 
ensaios com seu próprio nome, não em revistas de ciências sociais, mas naquelas 
de opinião que tratavam de questões sociais. Foi desse modo que chamou a atenção 
de Thomas, que, ao conhecê-lo, sugeriu que ele talvez se interessasse em ensinar 
sociologia na Universidade de Chicago e lhe ofereceu um cargo por um ano. Há 
uma história engraçada sobre Park: ele era um homem rico, como já disse, mas 
se vestia muito mal quando chegou a Chicago. Usava um terno velho e Thomas 
achou que ele não tinha a aparência adequada para um professor. Assim, Thomas 
levou Park até a cidade e comprou-lhe dois ternos. Park costumava contar essa 
história como uma piada, dizendo que nunca contou a Thomas que bem poderia 
ter comprado os ternos com seu próprio dinheiro!
Ao chegar a Chicago, Park mostrou-se uma pessoa muito dinâmica, 
organizando quase toda a Universidade, pelo menos na área de ciências sociais. 
Parecia que ele vinha pensando há anos no tipo de trabalho que precisava ser 
feito. Logo em seus primeiros tempos em Chicago, Park escreveu um ensaio sobre 
a cidade, encarando-a como um laboratório para a investigação da vida social. 
Ele tinha uma ideia central sobre a história do mundo naquela época, sobre o que 
estava ocorrendo, ideia que resumiu ao dizer: "hoje, o mundo inteiro ou vive na 
cidade ou está a caminho da cidade; então, se estudarmos as cidades, poderemos 
compreender o que se passa no mundo". Assim, Park organizou seus alunos para 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
55
esse empreendimento. O ensaio que resultou desse trabalho é muito interessante: 
consiste em uma série de tópicos, quase todos constituídos de perguntas cujas 
respostas se desejava conhecer e que só podiam ser encontradas por meio da 
pesquisa empírica. Cada uma dessas questões poderia, por si mesma, servir de 
base para toda uma subárea de pesquisa sociológica – aliás, muitas se tornaram 
exatamente isso. Por exemplo, uma delas, que muito me impressionou, observava 
que "na cidade, todos os tipos de trabalho tendem a se tornar uma profissão, quer 
dizer, a ser extremamente organizados, a incluir posições socialmente definidas, 
a ter regrasde conduta que regulam o trabalho nessa ocupação". Park cita 
especificamente a mendicância como uma forma de trabalho muito organizada 
nas cidades, resumindo sua posição ao sustentar que "é muito importante e 
interessante conhecer a maneira como todos os trabalhos são organizados na 
cidade segundo esse modelo". É claro que, em certo sentido, isso se relaciona com 
o pensamento de Durkheim exposto em Da Divisão do Trabalho Social, e Park 
tinha consciência dessa ligação.
Sob a orientação de Park, duas ou três gerações de cientistas sociais se 
formaram e iniciaram sua vida profissional. Ele não teve influência apenas sobre 
a sociologia: os historiadores, por exemplo, começaram a estudar a história de 
Chicago; os cientistas políticos, as organizações políticas da cidade e a natureza 
da máquina política local – um importante estudo sobre os políticos negros em 
Chicago foi elaborado; os economistas voltaram sua atenção para a economia da 
cidade. Quando Park chegou, o Departamento era de sociologia e antropologia, 
de modo que muitos antropólogos de sua geração receberam sua influência, 
particularmente Robert Redfield, conhecido por seu trabalho sobre a cultura 
folk e as sociedades camponesas. De certa forma, o trabalho de Redfield derivou 
diretamente da maneira como Park entendia a relação entre a cidade e o campo.
Há uma longa lista de pessoas que estudaram com Park e participaram 
desse trabalho de pesquisa, e eu gostaria de mencionar algumas delas. Nessa 
época, eles adicionaram à infraestrutura institucional da sociologia a University 
of Chicago Press, uma editora que, sob a direção de Park, publicou uma série de 
estudos na área. Muitos dos ensaios mais interessantes de Park foram publicados 
como introduções aos livros da série e vários desses livros eram dissertações dos 
alunos. Destaco, em primeiro lugar, um nome que estou certo ser bem conhecido 
aqui, o de Donald Pierson, que estudou as relações raciais no Brasil a partir, 
penso, da leitura do ensaio de Park sobre o homem marginal. Pierson veio para 
o Brasil, escreveu um livro muito conhecido e ficou muitos anos orientando 
pesquisas em São Paulo.
Acredito ser correto afirmar que cada aluno de Park absorveu uma de 
suas ideias e levou-a adiante. O pensamento de Park sobre as relações sociais foi 
desenvolvido por autores como Pierson e Wirth, que também se interessou muito 
pela teoria do urbanismo e pelo estudo das sociedades urbanas. Um dos temas 
considerados mais importantes naquele tempo era o da delinquência juvenil, 
que afetava especialmente os filhos dos grupos de imigrantes de Chicago, que 
não eram criados da maneira que a população dominante da cidade considerava 
56
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
apropriada. Muitos deles praticavam pequenos delitos e isso era tido como um 
grande problema. A questão era considerada, em parte, como um problema de 
reforma: o que vamos fazer com essas crianças? De outro lado, era tida como um 
problema de teoria sociológica. Dizia-se que, se concordarmos que a sociedade é 
criada por pessoas socializadas e treinadas nas atividades que a farão se mover 
– esse conhecido processo circular –, então o fracasso da sociedade em socializar 
adequadamente muitas crianças pode ser um presságio de terríveis problemas 
que ocorrerão, assim como um índice daqueles que já existem. Alguns alunos 
de Park, como Frederic Thrascher, puseram-se a estudar essa questão. Thrascher 
escreveu um livro intitulado The Gang, que traz um subtítulo encantador: A Study 
of 1,313 Gangs. Não sei como ele conseguiu contar todas essas gangues!
Dois outros alunos de Park, Clifford Shaw e Henry MacKay, iniciaram 
uma série de pesquisas de grande porte sobre a delinquência juvenil, cujos traços 
centrais eu gostaria de ressaltar. Uma das características do pensamento de Park 
– e isso se aplica à Escola de Chicago como um todo – era não ser puramente 
qualitativo ou quantitativo. Park era muito eclético em termos de método. Se 
achasse que era possível mensurar alguma coisa, ótimo, se não o fosse, ótimo 
também. Havia ainda outras maneiras de fazer essas pesquisas. Em certo 
momento, ele defendeu a ideia de que o espaço físico espelhava o espaço social, 
de modo que se se pudesse medir a distância física entre populações, se saberia 
algo sobre a distância social entre elas. É uma metáfora interessante, que levou 
ao desenvolvimento de uma área chamada ecologia, não no sentido que usamos 
hoje, de preservação do meio ambiente, mas a noção de ecologia na forma usada 
pela biologia vegetal daquela época, e que se referia à competição pelo espaço. 
Em outras palavras, os biólogos, que estudavam a biologia no mundo e não em 
laboratório, estavam muito interessados na concepção darwinista da maneira 
como diferentes tipos de animais e plantas ocupavam o território, o espaço físico. 
Park considerou que essa ideia podia ser uma excelente metáfora e mandou seus 
alunos estudarem o modo como distintos grupos se localizavam na cidade de 
Chicago. Naquela época, um aspecto típico das pesquisas era a confecção de 
mapas, onde se situavam os diferentes tipos de população, grupos étnicos, raças, 
espécies de atividades: em que lugar da cidade, por exemplo, se concentravam as 
atividades criminosas? Como explicar esse fato?
A partir dessas questões, Park elaborou noções como a de região moral, a 
área da cidade onde uma população se separava das demais. Uma característica 
do desenvolvimento das cidades americanas – creio que as cidades sul-
americanas são muito diferentes nesse sentido – sempre foi a ocupação sucessiva 
de determinadas áreas por diferentes grupos étnicos, de modo que aquela parte 
da cidade se torna ponto de atração dos grupos étnicos de imigração mais recente. 
Em uma cidade como Chicago, isso significa que, primeiro vieram os imigrantes 
irlandeses, depois os suecos, os alemães e os judeus da Europa Oriental. Cada 
um desses grupos, em épocas distintas, sofria a influência dos acontecimentos 
em sua terra natal. Houve um certo afluxo de imigração alemã por volta de 1848, 
quando se agravou a repressão na Rússia – foi aí que chegou uma grande leva 
de imigrantes judeus; depois foram os italianos, os poloneses etc. E era possível 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
57
acompanhar essa sequência por meio dos dados censitários, demonstrando como 
as características de uma determinada área da cidade mudavam de ano para ano, 
ou a cada dez anos. Outra pesquisa muito importante foi realizada por Robert 
Farisson e Warren Danum, que estudaram a incidência e a localização da doença 
mental na cidade. A pesquisa mostrou que havia um grande número de doentes 
mentais em determinadas áreas da cidade, embora a população dessas áreas se 
alterasse de modo significativo.
Outra estratégia de pesquisa, ainda que no contexto de estudos 
quantitativos, era qualitativa. Muitos alunos de Park passavam um bom 
tempo fazendo pesquisas de natureza quase antropológica em áreas da cidade, 
abordando certos fenômenos da mesma. Um dos livros mais famosos nessa linha, 
ainda hoje publicado e lido, chama-se The Gold Coast and the Slum, que analisa uma 
área próxima ao centro de Chicago onde ficavam as casas mais ricas e alguns dos 
piores casebres de toda a cidade. Harvey Zorbaugh pesquisou essa área. Aliás, 
não tenho nenhuma dúvida de que um dos resultados de todo esse movimento é 
que Chicago passou a ser a cidade mais pesquisada do mundo e provavelmente 
o será sempre. Por um bom tempo, estudar sociologia nos Estados Unidos era 
estudar a cidade de Chicago. C. Wright Mills, por exemplo, quando estudante 
universitário nos anos 30, frequentou a Universidade do Texas, em Austin. Sua 
família era de uma pequena cidade texana chamada Waco. Ele nunca tinha saído 
do Texas e seu biógrafo, Irving Horowitz, procurou investigar os cursos que Mills 
frequentou e os livros que leu para esses cursos, descobrindo que o conhecimento 
de sociologia de Mills – porque seu professor tinha sidoRESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................23
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................24
TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A 
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE ............................................................................25
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................25
2 A CIDADE ..............................................................................................................................................25
3 ESTRUTURA URBANA ......................................................................................................................30
4 ECOLOGIA HUMANA .......................................................................................................................33
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................39
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................40
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE CHICAGO 
PARA A SOCIOLOGIA ..................................................................................................41
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................41
2 ESTUDOS SOBRE A CRIMINALIDADE ........................................................................................41
3 MÉTODOS DE PESQUISA EMPÍRICA ...........................................................................................46
4 ESTUDOS SOBRE IMIGRAÇÃO .....................................................................................................49
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................53
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................58
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................59
UNIDADE 2 – ESCOLA DE FRANKFURT.........................................................................................61
TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT .....................................................63
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................63
2 DIMENSÕES HISTÓRICAS ..............................................................................................................64
3 DIMENSÕES FILOSÓFICAS .............................................................................................................69
4 DIMENSÕES METODOLÓGICAS .................................................................................................74
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................78
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................79
TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A 
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE .............................................................................81
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................81
2 HORKHEIMER E A TEORIA CRÍTICA ..........................................................................................81
sumário
X
3 ADORNO E A INDÚSTRIA CULTURAL ........................................................................................88
4 HABERMAS E O CONCEITO DE AÇÃO .......................................................................................94
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................98
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................99
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT 
PARA A SOCIOLOGIA ................................................................................................101
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................101
2 ESTUDOS SOBRE A RACIONALIDADE .....................................................................................101
3 ESTUDOS SOBRE A ARTE ..............................................................................................................106
4 OUTROS ESTUDOS ..........................................................................................................................110
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................115
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................120
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................121
UNIDADE 3 – SOCIOLOGIA FRANCESA ......................................................................................123
TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS ..........................125
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................125
2 DIMENSÕES HISTÓRICAS: ELIAS ..............................................................................................126
3 TEORIA DOS PROCESSOS DE CIVILIZAÇÃO: ELIAS ...........................................................130
3.1 SOCIEDADE GUERREIRA ..........................................................................................................132
3.2 SOCIEDADE FEUDAL .................................................................................................................133
3.3 SOCIEDADE DE CORTE ABSOLUTISTA .................................................................................134
3.4 SOCIEDADE BURGUESA ............................................................................................................136
4 DIMENSÕES HISTÓRICAS: BOURDIEU ....................................................................................137
5 TEORIA DA PRÁTICA E TEORIA DA DOMINAÇÃO SIMBÓLICA: BOURDIEU ...........140
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................146
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................147
TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA FRANCESA PARA A 
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE ..........................................................................149
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................149
2 FIGURAÇÃO E INTERDEPENDÊNCIA: ELIAS .........................................................................149
3 PROCESSOS SOCIAIS – ELIAS ......................................................................................................153
4 O CONCEITO DE HABITUS – BOURDIEU .................................................................................156
5 OS CONCEITOS DE CAMPOS E CAPITAIS – BOURDIEU .....................................................161
RESUMOaluno de Park – consistia 
quase inteiramente em estudos sobre Chicago. Foi isso que ele estudou e era isso 
que todo mundo estudava quando cursava sociologia na época.
FONTE: BECKER, H. A escola de Chicago. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 177-188, out. 1996.
58
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Uma das grandes contribuições da Escola de Chicago diz respeito aos estudos 
que envolvem o fenômeno da criminalidade. A partir do estudo específico 
desta cidade, cuja criminalidade estava associada a conflitos frequentes entre 
grupos de imigrantes, os autores desenvolveram um arcabouço teórico e 
metodológico.
• Destacaram-se estudos sobre: gangues, organizações criminosas, delinquência 
urbana e juvenil, e ladrões.
• Outra grande contribuição da Escola de Chicago para os estudos sociológicos 
mundiais foi o desenvolvimento de pesquisas de forte base empírica, baseados 
no pragmatismo e formalismo que as influenciaram.
• Destacam-se os seguintes métodos utilizados nos estudos da Escola de Chicago: 
documentos pessoais, trabalho de campo e fontes documentais.
• Boa parte dos trabalhos direcionava-se aos fenômenos urbanos que se 
relacionavam com a imigração. Os pesquisadores acreditavam que a sociedade 
americana poderia assimilar este público e, portanto, buscaram interpretar as 
relações existentes entre imigrantes e nativos – do ponto de vista sociológico.
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
59
AUTOATIVIDADE
1 A chamada sociologia qualitativa foi utilizada pelos autores da Escola de 
Chicago para a análise de dados coletados via diferentes metodologias, 
de forte caráter empírico. Sobre essas metodologias, analise as seguintes 
sentenças:
I- O uso de documentos pessoais levou em conta a subjetividade dos 
indivíduos, com a finalidade de construir tipos ideais.
II- Park defendia que a observação participante deveria levar a intervenções 
sociais no objeto de pesquisa.
III- A observação participante poderia ser de imersão total ou de imersão 
parcial, a depender da pesquisa.
IV- Algumas fontes documentais utilizadas pelas pesquisas foram arquivos 
históricos, jornais diários e arquivos dos tribunais.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente as sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente as sentenças III e IV estão corretas.
c) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas.
d) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas.
2 Duas temáticas importantes nas pesquisas da Escola de Chicago foram 
a criminalidade e a imigração. Sobre esses estudos, analise as seguintes 
sentenças:
I- As gangues são formadas por grupos de adolescentes, geralmente filhos 
de imigrantes, que ocupam as zonas mais pobres da cidade, e se encontram 
regularmente para alguma prática – inclusive infrações e crimes.
II- Os estudos indicaram que a criminalidade não possui relação com a 
desorganização social, e sim com a individualidade dos sujeitos.
III- Park estudou a desorganização e reorganização social e contribuiu 
desenvolvendo um ciclo entre as relações de imigrantes e nativos, cujas 
etapas seriam: rivalidade, conflito, adaptação e assimilação.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a sentença I está correta.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) As sentenças II e III estão corretas.
60
61
UNIDADE 2
ESCOLA DE FRANKFURT
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• situar as características e os principais aspectos das bases teóricas e 
metodológicas do pensamento sociológico desenvolvido na Escola de 
Frankfurt;
• examinar as principais contribuições das pesquisas desenvolvidas na 
Escola de Frankfurt;
• sistematizar os conceitos e metodologias utilizados na Escola de Frankfurt;
• analisar os desdobramentos das pesquisas desenvolvidas na Escola de 
Frankfurt, cuja influência persiste nas interpretações contemporâneas da 
Sociologia.
Esta unidade de estudo está dividida em três tópicos. No decorrer da 
unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o 
conteúdo apresentado. 
TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A 
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE 
FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
62
63
TÓPICO 1
A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE 
FRANKFURT
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Assim como vimos na unidade anterior, com a relação existente entre a 
Sociologia Americana e a Escola de Chicago é possível estabelecer o alinhamento 
entre a Sociologia Alemã e a Escola de Frankfurt. Os autores alemães que compõem 
a Escola de Frankfurt vincularam-se ao Instituto de Pesquisa Social – situado em 
Frankfurt, daí o nome atribuído a esse conjunto de pensadores. Como veremos, 
em função de condições históricas, o exílio ocorreu para parte deles – o que fez 
com que a sede do Instituto mudasse acompanhando seus diretores, retornando 
posteriormente à Alemanha.
Ao falarmos de sociologia alemã, portanto, nos remetemos à Escola 
de Frankfurt – cujas demandas teóricas e metodológicas contribuíram para a 
consolidação da pesquisa sociológica como campo científico – especialmente a 
partir da discussão teórica sobre o uso da chamada Teoria Crítica.
De início, conheceremos aspectos gerais sobre a Escola de Frankfurt, 
especialmente sobre sua formação como escola, consolidação e aspectos gerais 
das discussões teórico-metodológicas. Estas foram a fundamentação de estudos 
sobre comunicação, indústria cultural, artes, autoridade, tipos de racionalidade, 
ação social, entre outros. O conjunto de temas presente nas pesquisas dos 
frankfurtianos é bastante amplo.
Para entender esses aspectos fundamentais faremos o seguinte traçado: 
iniciaremos pelas dimensões históricas (surgimento do Instituto de Pesquisas 
Sociais, desenvolvimento e percurso histórico dos autores); seguimos pelas 
dimensões filosóficas (a Filosofia esteve muito presente como fundamento para 
as obras de Frankfurt, especialmente nas definições de Teoria Tradicional e Teoria 
Crítica); e fechamos com as dimensões metodológicas (consolidação da sociologia 
crítica como metodologia do campo sociológico e sua aplicabilidade).
Atente-se aos UNIs, presentes ao longo do texto, os quais apresentam 
destaques importantes e sugestões de material para aprofundamento de suas leituras. 
Assim como na Escola de Chicago, a Escola de Frankfurt também desenvolveu 
muitos estudos na forma de dissertações e teses, portanto, quando alguma menção 
lhe chamar a atenção, não hesite em buscar este material para leitura.
Vamos começar? Bons estudos!
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
64
2 DIMENSÕES HISTÓRICAS
Se existe um consenso entre os intérpretes das obras da Escola de Frankfurt, 
este é o consenso de que as condições históricas vivenciadas pelos autores que 
dela fizeram parte foram cruciais para o seu desenvolvimento. 
As obras refletem os fenômenos do contexto, e as biografias dos 
autores frankfurtianos deixam claras as relações com os momentos históricos – 
especialmente nas situações de exílio vivenciadas por essas pessoas. Assim, é 
fundamental iniciar nossos estudos com o traçado histórico da Escola, bem como 
seus fundamentos e influências filosóficas.
Matos (1993) estabelece uma síntese do trabalho intelectual desenvolvido 
na Escola de Frankfurt, traçando suas principais linhas. Ela indica o surgimento 
da Escola de Frankfurt datado de 1923, em Frankfurt, buscando uma crítica 
radical do tempo que se vivia – e que uniu em torno desse objetivo intelectual de 
diferentes influências teóricas. 
Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse,Walter 
Benjamin, Leo Lowenthal, Franz Neumann, Erich Fromm, Otto Kirchkeimer, 
Friedrick Pollock e Karl Wittfogel foram alguns dos pensadores que participaram 
do círculo frankfurtiano.
O principal objetivo desses autores era:
De diferentes maneiras, traduziram a desilusão de grande parte dos 
intelectuais com respeito às transformações do mundo contemporâneo, 
seu ceticismo quanto aos resultados do engajamento político 
revolucionário, mas também o desejo de autonomia e de independência 
do pensamento. Essa é a razão pela qual será indispensável uma 
interrogação acerca do movimento revolucionário e sua “arma teórica”, 
o marxismo, em particular no que concerne à teoria e à prática do 
movimento operário alemão depois da Primeira Guerra Mundial e do 
desmoronamento do regime imperial (MATOS, 1993, p. 5).
A revolução social e política tornavam-se menos utópica e mais uma 
realidade a ser buscada a partir dos acontecimentos históricos: Revolução Russa 
de 1917, proclamação da república na Alemanha Guilhermina em novembro de 
1918 e a insurreição em Bremen, de 1923. Também na Polônia, França e Itália 
ocorriam nesse período lutas sociais com os operários à frente da busca pela 
mudança da ordem social.
No entanto, esse contexto mudou com a ascensão de regimes conservadores:
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
65
Logo após a Primeira Guerra Mundial, os movimentos de direita 
começaram a se organizar na Alemanha, ao mesmo tempo em que as 
forças de esquerda, inspiradas pela vitória da Revolução Bolchevique 
na Rússia, passaram a ameaçar de perto o poder do grande capital na 
Alemanha. Em 1933, porém, a direita, concentrada no Partido Nacional 
Socialista, deu a vitória a Hitler em eleição direta, o que abriu caminho 
para a perseguição e destruição das organizações dos trabalhadores e 
de seus partidos representativos. A ascensão do nazismo, a Segunda 
Guerra, o “milagre econômico” no pós-guerra e o stalinismo foram os 
fatores que marcaram a Teoria Crítica da Sociedade, tal como esta se 
desenvolveu dos anos 20 até meados dos anos 70 (MATOS, 1993, p. 5).
As análises que buscavam compreender a vitória do nazismo e a derrota 
das ações revolucionárias eram tidas como rasas e simplórias por autores como 
Horkheimer, Adorno, Benjamin e Marcuse, que não se satisfizeram com elas e se 
vincularam ao movimento intelectual da Escola de Frankfurt, nascido oficialmente 
com a criação de Instituto para a Pesquisa Social, em Frankfurt (1923). Algumas 
abordagens apresentadas na época eram, segundo Matos (1993, p. 5):
Economistas viam na inflação crescente e na ausência de um mercado 
para exportação as origens do expansionismo alemão. Para os 
historiadores, a origem do militarismo estava na humilhação sofrida 
com a derrota alemã na Primeira Guerra; e o não-pagamento das 
dívidas de guerra seria uma revanche pela perda da Alsácia e Lorena 
para a França e pela proibição de a Alemanha manter um exército.
Outros, ainda, viam na tradição que formou o Estado Alemão a fonte 
de autoritarismo que prevaleceu na República de Weimar, nome 
emblemático que caracterizou o regime político na Alemanha com a 
proclamação da república e o fim da monarquia.
A Escola de Frankfurt reconheceu o valor dessas abordagens, mas 
não as considerou suficientes para a compreensão do fim do sonho 
revolucionário e a vitória final do Totalitarismo, seja ele o nazismo, 
o stalinismo ou a “sociedade unidimensional” tecnocrática. Nesse 
horizonte, a visão dos frankfurtianos se diferenciou das explicações 
políticas, como as de Trotsky, para quem o crescimento das forças de 
extrema-direita na Alemanha e o ulterior advento da Segunda Guerra 
Mundial deveram-se à incapacidade das lideranças políticas de 
esquerda em firmar uma aliança entre social-democratas e comunistas.
Diante disso, a explicação para o totalitarismo para os frankfurtianos é 
de ordem metafísica: “é na constituição do conceito de Razão, é no exercício de 
uma determinada figura ou modo da racionalidade, que esses filósofos alojam a 
origem do irracional” (MATOS, 1993, p. 5).
Buscando uma racionalização dos processos sociais, as estruturas do 
pensar científico passam a dominar esses processos, algo que é característico 
de uma proposta positivista. “Nessa perspectiva, a realidade social, dinâmica, 
complexa, cambiante, é submetida a um método que se pretende universalizador e 
unitário, o método científico” (MATOS, 1993, p. 5). O positivismo estaria, portanto, 
impondo um método para a compreensão do fenômeno do totalitarismo que 
considera apenas a racionalização dos processos sociais, e não as especificidades 
do contexto, a partir de uma abordagem crítica das ciências humanas.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
66
Criticando essa proposta positivista de entendimento da ordem 
social, Horkheimer escreve em 1934 (apud MATOS 1993, p. 5) que o valor 
de uma teoria depende de sua relação com a práxis. Ou seja, do ponto de 
vista sociopolítico, uma teoria social somente é coerente quando está ligada e 
considera as possibilidades de transformação revolucionária que existem na 
sociedade em estudo. Isso leva a outro pensamento complementar:
A racionalidade da dominação da natureza para fins lucrativos, 
colocando a ciência e a técnica a serviço do capital, é a primeira forma 
da ditadura, a “ditadura da produção”. Essas observações levaram 
Horkheimer e seus colaboradores do Instituto a considerar as relações 
entre fascismo e capitalismo. Em 1938 Horkheimer observou que “o 
fascismo não se opõe à sociedade burguesa, mas, sob certas condições 
históricas, é sua forma apropriada”. O fascismo é a sociedade liberal 
que perde seus escrúpulos. Também Marcuse escreveu em 1941 que “o 
Terceiro Reich é uma forma de tecnocracia: as considerações técnicas 
de racionalidade e eficiência imperialistas sobrepõem-se aos padrões 
tradicionais de lucratividade e bem-estar comum”.
Sob a influência das análises de Marx e de sua crítica à economia 
política burguesa, a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt revela 
a transformação dos conceitos econômicos dominantes em seus 
opostos: a livre troca passa a ser aumento da desigualdade social; a 
economia livre transforma-se em monopólio; o trabalho produtivo, 
nas condições que sufocam a produção; a reprodução da vida social, 
na pauperização de nações inteiras. Assim, a crítica à razão torna-se a 
exigência revolucionária para o advento de uma sociedade racional, 
porque o mundo do homem, até hoje, não é o “mundo humano”, mas 
“o mundo do capital” (MATOS, 1993, p. 5).
Esse foi o contexto histórico que impulsionou o surgimento e a consolidação da 
Escola de Frankfurt e de sua proposta de pesquisa social, baseado no desenvolvimento 
de uma Teoria Crítica que foi a base fundamental para todos os trabalhos vinculados. 
Vejamos uma imagem do prédio no qual funcionou o Instituto:
FIGURA 1 – PRÉDIO DO INSTITUTO PARA A PESQUISA SOCIAL
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
Agora, vamos conhecer os dados históricos sobre a Escola de Frankfurt em 
si, os fatos mais relevantes, a partir da apresentação de Tomás (2009). Esses dados 
históricos, o contexto no qual esse grupo de intelectuais se uniu em torno de uma 
instituição, foi uma condição essencial para o desenvolvimento do espírito crítico 
desse grupo.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
67
O reconhecimento desses trabalhos só ocorreu nos anos cinquenta e 
foram amplamente difundidos nas décadas que se seguiram. Mas para entender 
o desenvolvimento da teoria crítica é preciso entender os anos nos quais o regime 
nazista cresceu e se consolidou, assim é possível compreender a importância 
desse grupo de pensadores.
O surgimento da Escola de Frankfurt ocorreu após alguns encontros no 
formato de reuniões e conferências sobre o tema marxismo, sendo criação dos 
jovens intelectuais da época. Esses encontros originaram a fundação chamada 
Institut für Sozialforschung (Instituto de Pesquisa Social), em fevereirode 1923. Entre 
as duas guerras mundiais, os intelectuais alemães sofreram uma desorientação 
política total, necessitando de uma reorientação teórica, por isso a criação do 
Instituto tornou-se ainda mais importante.
De acordo com Tomás (2009, p. 104), esse período na Alemanha, do ponto 
de vista histórico, pode ser dividido da seguinte forma:
 
- Primeiro: revés da revolução socialista de 1919-1920 que deu origem 
à República de Weimar sob o controle do partido social-democrata. 
Esta revolução mostrou que o futuro não estava nas mãos do 
proletariado, para além de se ter passado a uma violência sangrenta 
na qual todos os revolucionários e muitos membros da oposição de 
esquerda foram assassinados.
- Segundo: que não se passou na Alemanha, mas teve repercussões 
importantes neste país, foi a vitória da revolução russa e a 
consequente instauração de uma burocracia assustadora.
- Terceiro: a ascensão do fascismo e a consequente instabilidade social 
dessa época em crise.
O surgimento da Escola de Frankfurt está vinculado a um contexto 
histórico no qual o marxismo é a inspiração. “Os membros observam um drama 
do qual eles fazem parte integrante. As primeiras preocupações do Instituto são 
a união da filosofia e da análise social, um método dialético e as possibilidades 
de transformação da ordem social pela práxis” (TOMÁS, 2009, p. 104). Após a 
Primeira Guerra Mundial, o capitalismo gerava grandes monopólios industriais 
na Alemanha, enquanto isso o Estado interferia cada vez mais na vida econômica 
e o proletariado passava a ser integrado (TOMÁS, 2009).
Assim, a teoria crítica vinha caracterizar os estudos e pesquisas realizados 
no Instituto e “demonstra já nessa altura alguns dos seus traços notáveis como 
a importância do individualismo, o pessimismo, a vontade de ultrapassar as 
contradições sociais pela práxis, o marxismo filosófico (e não dogmático) e o interesse 
da psicologia individual para a compreensão da História” (TOMÁS, 2009, p. 104).
Durante sua existência, a Escola de Frankfurt teve uma série de intelectuais 
que a compuseram e sofreu ações de censura e exílio.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
68
Max Horkheimer (1885-1973), Theodor Adorno (1903-1969), Herbert 
Marcuse (1898-1978), Walter Benjamin (1892-1940), Erich Fromm 
(1900-1980) e Friedrich Pollock (1894-1970) fazem parte do círculo 
mais íntimo de intelectuais importantes ligados ao Instituto. Todos 
são judeus, filhos de famílias burguesas (comerciantes e médicos), 
o que explica o interesse deste grupo pela decadência da burguesia 
liberal, pelo antissemitismo e pela revolução. Os membros do 
Instituto seguiam os acontecimentos históricos e sociais de perto e a 
discriminação crescente contra os judeus fez com que Horkheimer 
(diretor do Instituto desde 1931) mudasse as finanças do Instituto para 
a Holanda. Com a ideia permanente de um possível exílio foi criado 
um anexo em Genebra. Efetivamente, menos de um mês depois da 
subida ao poder de Hitler, em janeiro de 1933, o Instituto foi fechado 
por “tendências hostis ao Estado”. Todas as obras da biblioteca foram 
confiscadas e Horkheimer é oficialmente banido da Universidade 
de Frankfurt. Nesta altura, já todos os membros estão em Genebra 
e o Instituto muda o nome alemão para o título francês de Société 
Internationale de Recherches Sociales, com departamentos em Paris e 
em Londres (TOMÁS, 2009, p. 104).
O Instituto, durante essas situações de exílio, sempre tentou ajudar com a 
saída dos intelectuais da Alemanha, por meio de vistos, contato com associações 
de exílio e bolsas de financiamento. Continuando:
Em 1934 o medo do fascismo chega à Suíça e o centro administrativo 
do Instituto exila-se em Nova York. Todos conseguiram escapar para 
os Estados Unidos graças aos fundos do Instituto. Todos menos Walter 
Benjamin. Partindo demasiado tarde de Paris, acabou por ser apanhado 
na fronteira franco-espanhola onde se suicidou sob a ameaça de ser 
entregue à Gestapo. As cartas de Benjamin revelam miséria, medo e 
profundo reconhecimento por aqueles que tudo fizeram para o tirar da 
Europa. Karl August Wittfogel (1896-1988), um membro do Instituto, 
especialista da China para o Komintern e militante ativo contra o 
nazismo, foi internado num campo de concentração em 1933. Liberto 
graças a uma campanha de apoio internacional, o historiador chegou 
aos Estados Unidos em 1934 (TOMÁS, 2009, p. 104).
Todas essas vivências criaram no grupo um sentimento de pertencer aos 
mesmos objetivos e aos mesmos destinos, que fortaleceram a atuação da Escola 
de Frankfurt. Para serem lidos durante o exílio, os intelectuais utilizaram uma 
revista publicada até ser proibida pelo regime nazista, quando continuou sua 
existência em Paris até a Segunda Guerra Mundial. Ela se chamava Zeitschrift für 
Sozialforschung.
Podemos notar a importância do regime nazista para o desenvolvimento 
da Teoria Crítica:
O nazismo é para Horkheimer e Adorno – a teoria crítica foi 
estabelecida quase exclusivamente por estes dois filósofos – a negação 
radical de uma sociedade melhor: desumanização, estigmatização das 
diferenças, reificação da vida pela exterminação. A ironia do destino é 
que apesar do passado revolucionário e marxista, o Instituto consegue 
instalar-se na capital do capitalismo liberal. Se o fascismo marcou a 
primeira fase da teoria crítica, o capitalismo americano marcou a 
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
69
segunda. Aliás, para Horkheimer e Adorno são duas experiências 
negativas da razão. Em ambos os países, os intelectuais observam uma 
sociedade de massa onde a dominação se transmite na socialização, o 
que os leva a desenvolver o conceito de “indústria cultural”, na qual a 
cultura se transforma em ideologia e se reduz à distração das massas 
(TOMÁS, 2009, p. 105).
Estudaremos o conceito de “indústria cultural” no Tópico 2 desta Unidade.
ESTUDOS FU
TUROS
Após toda essa situação histórica envolvendo inúmeros exílios, o Instituto 
retoma seu funcionamento em Frankfurt apenas em 1950. Durante a reconstrução 
econômica do país, houve também a institucionalização da sociologia como um 
curso superior. Ao mesmo tempo, a Teoria Crítica chega a sua maturidade com A 
dialética do esclarecimento (1944), de Adorno e Horkheimer, Minima moralia (1951), 
de Theodor Adorno e Teoria tradicional e teoria crítica (1970), de Max Horkheimer.
Você pode aprofundar o estudo das dimensões históricas a partir do 
artigo indicado a seguir. Após, iniciaremos o estudo dos fundamentos filosóficos 
que influenciaram o pensamento frankfurtiano.
Este artigo é sugerido porque apresenta dimensões históricas a partir dos 
autores que participaram da Escola de Frankfurt, portanto, é possível estudar os autores em 
seu contexto. Para tanto, acesse: http://www.pidcc.com.br/artigos/052014/11052014.pdf. A 
referência é: NASCIMENTO, J. F. A Escola de Frankfurt e seus principais teóricos. PIDCC, ed. 
III, nº 5, Aracaju, fev. 2014, p. 244-249. 
DICAS
3 DIMENSÕES FILOSÓFICAS
A Escola de Frankfurt sofreu grande influência da Filosofia, assim como 
inúmeras correntes sociológicas. Boa parte de seus autores possui formação nessa 
área e a discussão central da Teoria Crítica aparece em oposição à ideia de uma 
Teoria Tradicional, embasada na Filosofia.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
70
A Teoria Crítica é uma proposta de interpretação do mundo, especialmente 
da ordem social, cujo conceito central é a racionalidade. A racionalização do 
mundo é discutida a partir da metodologia da sociologia crítica. Em síntese, é isso, 
mas veremos que ela possui inúmeras dimensões e é uma teoria bastante densa e 
complexa. Iremos estudá-la com mais detalhes no próximo tópico, acompanhada 
do autor Horkheimer.
A Teoria Tradicional, a qual propõe-se como oposição à Teoria Crítica, 
fundamenta-se na teoria cartesiana. Vamos retomar, a partir das explicações de 
Matos (1993), os aspectos importantes do pensamento de Descartes que originam 
uma crítica frankfurtiana.
Descartes é considerado ofundador da modernidade, pois modifica o 
pensamento da época medieval interpretando que os seres humanos não são 
subalternos ao divino e dependentes dele. Ou seja, ele exalta a razão humana 
como forma de viver, como explicação única que pode resistir às ilusões dos 
sentidos, aos erros da ciência etc. é possível duvidar de tudo, até mesmo do 
próprio pensamento – mas, ao fazer isso, estamos pensando. Assim, a única 
verdade é o pensamento, a racionalidade humana. É de autoria de Descartes a 
frase “Penso, logo existo”.
Diante disso, Descartes passa a analisar o conhecimento e começa 
por refutar a tradição, o passado, a memória. Nessa análise ele afirma que a 
erudição acaba por acumular nas pessoas os equívocos do passado, que vamos 
recebendo desde a infância – quando ainda não conseguimos fazer uso total da 
nossa racionalidade. Diante desse acúmulo de equívocos a mente humana vai se 
enchendo de erros, a ponto de não sabermos mais separar certo de errado.
Descartes não confia nos dados dos sentidos: nos sentidos e nos 
dados dos sentidos não há estabilidade, permanência, identidade. 
Se olho para o Sol, por exemplo, sou levado a concluir que o Sol é 
do tamanho que meus olhos veem. Mas, pela razão calculadora, sei 
que é infinitamente maior. Ora não podemos “confiar duas vezes em 
quem já nos enganou uma vez”. E mais: os dados dos sentidos estão 
em permanente metamorfose, transformam-se, às vezes de maneira 
imperceptível (MATOS, 1993, p. 19).
Assim, Descartes também indica o quanto é importante distinguir o sono 
da vigília, pois mesmo nos sonhos muitas vezes estamos fazendo coisas como se 
estivéssemos acordados. No entanto, ele nota que o que resta é o pensamento, 
porque em ambas as situações dois mais dois são quatro. A partir de outros 
exemplos, ele mostra como acordado ou adormecido o que resta é o pensamento 
como fonte da razão humana. É a razão, portanto, que deve ser aplicada para que 
se chegue ao conhecimento.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
71
Para Horkheimer, autor vinculado à Escola de Frankfurt (o qual 
estudaremos adiante), esta é a base da Teoria Tradicional, que envolve “todo o 
pensamento da identidade, da não-contradição, que se esforça em reconduzir a 
alteridade, a diversidade, a pluralidade, tudo o que é outro em relação a ela, à 
dimensão do mesmo, como faz a ciência cartesiana” (MATOS, 1993, p. 20). Tudo 
o que é contraditório é irracional, porque é confuso e, portanto, impensável.
No entanto, a crítica busca colocar em suspenso qualquer juízo sobre o 
mundo, reconhecendo a possibilidade da contradição. Mesmo o pensamento e a 
razão passam a ser interrogados, nesse caso, e move seu foco de análise para as 
possibilidades do conhecimento na ciência, na moral e na arte.
A partir da adoção da perspectiva crítica, a teoria frankfurtiana passa 
a ter outras influências da Filosofia: Kant, Hegel e Marx. Vejamos como eles 
influenciaram as abordagens da Escola de Frankfurt.
Kant (2015) trata sobre os limites do exercício da razão quando tratamos 
de conhecer a natureza, pois para ele a razão só pode ser aplicada quando em um 
fenômeno localizado no espaço-tempo. Ele apresenta essa ideia na obra Crítica 
da Razão Pura. Apenas os fenômenos podem ser objeto da ciência, e com isso ele 
afasta a ideia de contradição do campo científico.
Para Kant, a contradição só ocorreria quando a ciência transgredisse seus 
limites, buscando explicar fenômenos não localizados em um espaço-tempo. 
Como ela não o faz, a contradição não seria possível. 
“A ciência deve renunciar à explicação da existência de Deus, da 
imortalidade da alma e da liberdade dos homens, porque essas ideias não se 
oferecem no espaço e no tempo. Quando a razão teórica pretende explicá-las, cai 
em antinomias que não podem ser superadas” (MATOS, 1993, p. 21).
Ainda sobre a contradição, temos a seguinte contribuição de Hegel:
A essa modalidade do pensamento Hegel responde com a crítica ao 
princípio da identidade e ao exercício formalizador do entendimento 
kantiano, considerando que as coisas e os seres históricos e sociais 
não possuem uma identidade permanente, mas se constituem por sua 
negação interna. “Este homem é um escravo” é um juízo compreendido 
diferentemente por Kant e por Hegel. Para Kant, primeiramente 
existe a identidade do conceito de homem, em sua não-contradição; a 
identidade do conceito de escravo; e só depois o enfrentamento social 
que define o homem como escravo. Já em Hegel, o homem enquanto 
liberdade é negado em sua humanidade por ser escravo, mas, enquanto 
escravo carente de liberdade e autonomia, não deixa de ser homem, isto 
é, espiritualidade. Ao afirmativo e positivo kantianos, Hegel responde 
com a dialética, o pensamento do negativo, da contradição que não 
separa sujeito e objeto, natureza e cultura (MATOS, 1993, p. 21).
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
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Ou seja, a identidade como um processo de construção da negação interna 
é o destaque para Hegel. É ela que gera a contradição, como no exemplo: “a 
natureza é a cultura que não se sabe cultura, que ainda não tem consciência de si, 
não se negou na experiência imediata de ser natureza. O processo de constituição 
da consciência é, também, a história da emergência dos seres culturais” (MATOS, 
1993, p. 21). É esse ser e não ser – negação de si – que gera a contradição, o 
sofrimento, a dúvida.
Já Marx parte da dialética de Hegel, que considera a ideia, o espírito, como 
ponto de partida para o real – e substitui o espírito pela matéria, destacando a 
importância das condições de produção para o desenvolvimento do real. É o 
que você estudou no componente curricular Teoria Sociológica I, sobre as bases 
do pensamento de Marx: o real existe a partir das condições econômicas, pois é 
nestas que são produzidos os meios de existência da humanidade.
Esses três filósofos, Kant, Hegel e Marx são fundamentais para o 
desenvolvimento da ideia de crítica, e fundamentam a discussão sobre o conceito 
de teoria e o de dialética – a partir da qual foi questionado porque as insuficiências 
da teoria revolucionária se transmitiram para a realidade histórica.
Também Marx é evocado quando surge a discussão sobre a participação 
política e a efetivação da teoria crítica nas atividades revolucionárias:
Marx escreveu, nas Teses sobre Feuerbach: “Os filósofos já 
interpretaram o mundo; trata-se, agora, de transformá-lo”. O século 
XX tomou o sentido literal do texto, como um convite ao ativismo 
revolucionário, sem se perguntar o que significam interpretação, 
mundo e transformação no pensamento de Marx. Houve, para a 
Teoria Crítica, queda da teoria em ideologia, isto é, sua conversão em 
estratégia política, simetricamente oposta ao trabalho da reflexão. Esse 
foi o motivo pelo qual, comentando Marx, Adorno observou: “posto 
que a filosofia não conseguiu transformar o mundo, cabe continuar a 
interpretá-lo” (MATOS, 1993, p. 21).
Outra corrente filosófica que aparece com frequência quando tratamos 
da Escola de Frankfurt é o positivismo. Para os integrantes dessa escola, a Teoria 
Tradicional está alinhada com essa corrente, pois tem uma função social positiva 
– ou seja, permite avaliar a realidade por meio de um sistema conceitual e lógico 
transmitido pela tradição. 
A pesquisa sociológica nesse contexto tradicional segue um processo 
lógico baseado no positivismo: primeiro, observação dos fenômenos; segundo, 
comparação; terceiro, construção de conceitos gerais (TOMÁS, 2009).
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
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O positivismo é uma corrente filosófica que influenciou o surgimento da 
sociologia, que entende a ordem social como uma evolução – apresentando a ideia de que 
os grupos precisam passar por três estágios: teológico, metafísico e positivo. Seu principal 
expoente foi Auguste Comte, que desenvolveu a nomenclatura “Física Social” para a nova 
ciência que surgia, que posteriormente tornou-se a sociologia.
IMPORTANTE
A Teoria Crítica recusa essa maneira de buscar conhecimento, poisreconhece 
a importância da história, ou seja, o indivíduo precisa ser analisado em relação ao 
seu contexto histórico. Os seres humanos são resultantes da história e, portanto, os 
fenômenos precisam ser analisados com tudo aquilo que lhes é contemporâneo.
A maneira de pensar nos laços sociais como naturais, trazida pelo 
positivismo, também é recusada na medida em que os relacionamentos são 
analisados por uma ótica histórico-social. 
Para mudar a tradição é necessário não só a praxis, como também 
rupturas irreparáveis. A teoria crítica quer ultrapassar o pensar 
tradicional propondo desta forma uma nova Aufklärung. “Ultrapassar” 
é a palavra-chave da atitude crítica. Compreender e ultrapassar 
as contradições sociais (como por exemplo, liberdade individual/
mundo coletivo; autonomia/heteronomia) numa orientação negativa 
(contra todos os dogmas positivistas). A teoria crítica não trabalha 
com definições, mas com noções, porque uma definição não tem 
contradição. Ora a realidade é contraditória (TOMÁS, 2009, p. 106).
Assim, em oposição ao positivismo, a sociologia crítica propõe o seguinte 
método, de acordo com Tomás (2009): 
• Perceber o fenômeno observado na sua época.
• Reconstruir o discurso científico e o discurso do bom senso ligados ao fenômeno 
analisado.
• Esclarecer a ideologia escondida no fenômeno porque é a ideologia que ilustra 
a união entre a sociedade e os atores.
Seguiremos com o próximo tópico entendo de maneira mais aprofundada 
o que é esse método proposto pela sociologia crítica. Antes, veja uma indicação 
de livro, caso deseja avançar com os estudos sobre as fundamentações filosóficas 
da Escola de Frankfurt.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
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Se você deseja se aprofundar nas bases filosóficas que fundamentaram a 
abordagem da Escola de Frankfurt, leia: MATOS, O. C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e 
sombras do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993.
DICAS
4 DIMENSÕES METODOLÓGICAS 
Uma das noções que aparece com frequência nos estudos de Frankfurt 
e que destaca a forma como seus autores pensam a sociologia, ou os métodos 
sociológicos é a ideia de uma sociologia crítica. A palavra que designa essa 
dimensão é Sozialforschung, termo que pode ser entendido como “investigação 
social” ou “ investigação que leva ao social”. 
Essa terminologia aparece ao longo de todo o percurso da Escola de Frankfurt, 
problematizando o que é dado pela sociologia da época – a ideia de fato social como 
objeto dessa área da ciência. Como a Sozialforschung está alinhada com a Teoria 
Crítica, ela discute o que pertence ao social e quais as condições de possibilidade 
das investigações desse tipo. Os frankfurtianos mobilizam-se em torno da ciência 
sociológica e também da Filosofia Social problematizando essas questões.
Vamos recordar o conceito de fato social? Durkheim o apresenta como sendo 
o conjunto de valores, normas culturais e estruturas sociais que transcendem o indivíduo 
e podem exercer controle social, ou seja, determinam as maneiras de agir, pensar e sentir 
na vida de um indivíduo.
IMPORTANTE
Vamos entender, a seguir, a partir de Assoun (1991), o desenvolvimento 
de uma sociologia crítica na Escola de Frankfurt, permeado por essa noção de 
investigação social apresentada nominalmente como Sozialforschung. 
Em um primeiro momento, antes da década de 1930, a economia dominava 
essa fatia de investigação social, portanto a Sozialforschung era “o estudo da textura 
econômica das entidades sociais” (ASSOUN, 1991, p. 42). A sociologia científica 
se debruçava para esse tipo de problemática nesse período.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
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Há que se lembrar efetivamente que os grandes empreendimentos 
sociológicos foram produzidos no começo dos anos 1920 (Durkheim, 
Weber, Marx) e que nunca a esperança duma sociologia científica foi 
mais explícita. É aí que nasce entre outras, sob o efeito do resto de 
movimentos desligados da social-democracia alemã, a ideia de uma 
ciência social de que o marxismo é um dos referentes. Grünberg, o 
primeiro diretor do Instituto, concebe o marxismo como o modelo 
privilegiado do Sozialwissenschaft, mas assim tinha tendência a 
reduzi-lo a uma metodologia científica, e mesmo indutiva, que não 
andava longe de uma tendência positivista (ASSOUN, 1991, p. 42).
Weil, patrono do Instituto, também nessa época defende sua tese sobre 
planejamento socialista, e um dos principais sociólogos do Instituto, Wittfogel, 
estuda a China a partir de uma abordagem positivista e economista. Ou seja, tudo 
convergia para que o modelo adotado fosse este, baseado em análises econômicas 
e fundamentados em uma filosofia positiva.
No entanto, o que diferenciou a investigação social de Frankfurt foi o 
uso crítico e audacioso das categorias sociológicas. A Teoria Crítica influencia a 
metodologia sociológica do ponto de vista de sua objetividade, propondo uma 
nova concepção epistemológica, conforme a explicação a seguir:
Trata-se com efeito de ultrapassar o dualismo entre sociologia e 
filosofia social: está aí exatamente o efeito principal da Teoria Crítica 
sobre a objetividade sociológica. Segundo esta representação dualista, 
dominante na sociologia, temos por um lado a disciplina sociológica, 
que estuda as diferentes maneiras concretas que os homens têm de 
viver juntos, quer dizer as formas concretas da socialização, e por outro 
a filosofia social, que se pronuncia especulativamente sobre o grau de 
realidade e o valor destes fenômenos. É esta maneira de ver que a Teoria 
Crítica tem como efeito declarar insustentável. A filosofia social não 
deve ficar como em depósito no reservatório dos problemas da ciência 
social, como um tesouro estéril de grandes princípios. Ela opõe a isso 
a ideia de um desenvolvimento no qual estão sempre dialeticamente 
imbricadas a teoria filosófica e a prática científica especializada. Por 
outras palavras, a filosofia enquanto intervenção teórica orientada para 
o universal, para o essencial, é capaz de dar impulsos vivificantes às 
investigações particulares (ASSOUN, 1991, p. 43).
A filosofia social, portanto, aparece como base para a sociologia 
crítica a partir da direção de Horkheimer no Instituto – com a perspectiva de 
complemento teoria e prática. A filosofia social busca entender o destino dos 
seres humanos não apenas como indivíduos, mas também como membros de 
uma comunidade, participando das formas de vida social. Nota-se em Hegel essa 
ideia quando ele menciona que o particular se completa com a universalidade, 
e a individualidade se completa pelo todo coletivo. Nesse caso, é como se a 
harmonia indivíduo e sociedade ocorresse a partir da consequência de uma 
harmonia estrutural do real e do relacional.
Como já vimos, a Escola de Frankfurt possui como uma de suas influências 
nas bases filosóficas o pensamento hegeliano e, nesse caso, seus autores 
problematizam essa perspectiva:
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
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Com efeito, a partir de Hegel, a ligação entre individualidade e 
totalidade social foi quebrada. Esta quebra não pode ser ignorada pela 
filosofia social, como de certa maneira a marca da perda da Identidade 
na ordem social. Mas ela tem de pôr a novas expensas a questão da 
possibilidade desta “transfiguração” do indivíduo na totalidade social 
(ASSOUN, 1991, p. 44).
Na prática sociológica, as consequências dessa abordagem crítica entre 
indivíduo e sociedade podem ser notadas a partir do primeiro tema de trabalho 
do Instituto, que foi a mentalidade de um grupo específico – os operários 
qualificados e os empregados na Alemanha. Apenas uma sociologia empírica não 
daria conta do tema, pois há um grande problema teórico de fundo, posto como 
a questão da relação entre a vida econômica da sociedade, o desenvolvimento 
psíquico dos indivíduos e as transformações nas regiões culturais. É possível 
perceber a questão metafísica alma/corpo, tão tradicional, aqui exposta sob as 
relações entre ideologia e economia. 
Assoun (1991) mostra como as questões filosóficaspodem, portanto, 
ser transcritas para o plano social, que é o movimento que se fez inicialmente 
para o desenvolvimento de uma metodologia própria da Escola de Frankfurt. A 
pergunta do ponto de vista sociológico seria: Que relações podem-se estabelecer 
para tal grupo social em tal época e em certos países, entre o seu papel no processo 
econômico, a transformação da estrutura psíquica dos seus membros particulares 
e as ideias e instituições que agem sobre essa estrutura psíquica tomada como 
conjunto na totalidade social, e que são produzidas por ela?
A partir dessa pergunta norteadora desenvolveu-se a metodologia de 
trabalho, que consistiu em (ASSOUN, 1991):
1º A exploração das estatísticas, das relações e documentos das organizações.
2º O exame da literatura sociopsicológica sobre a questão.
3º Questionários que asseguram a conexão permanente entre as hipóteses de 
investigação e a realidade (cerca de três mil questionários foram distribuídos 
aos operários com temas da educação, racionalização da indústria, perspectiva 
da guerra etc.).
Os resultados deste inquérito são claros, mas revelam-se uma 
desilusão para a esquerda intelectual e política. Segundo as análises 
dos questionários, existem cada vez mais dominados e cada vez 
menos dominantes. A miséria material e a pauperização cultural dos 
dominados é evidente. No entanto, estes querem parecer-se como os 
dominantes, que admiram e veneram. Na realidade, é a classe burguesa 
que lhes serve de ideal. A classe operária adapta-se rapidamente ao 
capitalismo, o que faz do movimento revolucionário de trabalhadores 
uma utopia total. Pior ainda, a notável ambivalência da maioria 
poderia abrir a porta à extrema direita. Note-se também que os 
métodos de análise de inquéritos ainda não estavam suficientemente 
desenvolvidos. Todos os questionários foram preenchidos e em 
seguida quantificados à mão. Os membros do Instituto renderam-se 
à evidência que a pesquisa empírica não é suficientemente eficaz para 
satisfazer a ambição da teoria crítica (TOMÁS, 2009, p. 106).
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE FRANKFURT
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Esse estudo não foi publicado, mas é possível observar a partir dele a 
maturação metodológica da Teoria Crítica na sociologia alemã e o surgimento 
dos princípios da Escola de Frankfurt. É possível perceber a Teoria Crítica no 
trabalho sociológico quando (ASSOUN, 1991):
1- Em primeiro lugar, o problema teórico geral é relacionado com uma questão de 
cristalização sociológica.
2- A aproximação permite transpor ou traduzir a questão genérica de filosofia 
social para uma questão determinada, na linguagem da sociologia.
3- Uma vez formulada essa questão, prepara-se uma metodologia de tratamento 
ad hoc.
A sociologia crítica se propõe, portanto, a investigar uma problemática 
formulada pela Teoria Crítica. “Desse modo, a Teoria Crítica procura dar a si 
própria um corpo experimental que lhe permita intervir no território da realidade 
social. Desse modo, o projeto de explicação positivo é sustentado por um projeto 
crítico de fundo” (ASSOUN, 1991, p. 45). 
Horkheimer propõe, portanto: “Perseguir através dos mais finos métodos 
científicos as grandes questões filosóficas que são as suas, precisar e transformar ao 
longo do trabalho as questões em função do objeto, encontrar novos métodos sem por 
isso perder de vista o Universal” (HORKHEIMER, 1931 apud ASSOUN, 1991, p. 45).
Essa metodologia proposta pela Escola de Frankfurt permeará seus 
trabalhos e algumas discussões epistemológicas acontecerão conforme se pensa 
a relação entre teoria e material empírico nas pesquisas ali desenvolvidas. A 
sociologia crítica teve o alinhamento de um arcabouço conceitual para sua 
consolidação e são esses conceitos que estudaremos no próximo tópico.
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RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• A Escola de Frankfurt nasceu em fevereiro de 1923 sob o seu nome oficial 
Institut für Sozialforschung (Instituto de Pesquisa Social). Essa fundação foi 
criada depois de terem sido organizadas algumas reuniões e conferências sobre 
o marxismo pelos jovens intelectuais de Frankfurt.
• A Teoria Tradicional, a qual propõe-se como oposição à Teoria Crítica, 
fundamenta-se na teoria cartesiana.
• A Teoria Crítica é uma proposta de interpretação do mundo, especialmente da 
ordem social, cujo conceito central é a racionalidade.
• A Teoria Crítica recusa a maneira positivista de buscar conhecimento, pois 
reconhece a importância da história, ou seja, o indivíduo precisa ser analisado 
em relação ao seu contexto histórico.
• A Escola de Frankfurt apresenta e destaca a forma como seus autores pensam a 
sociologia, ou os métodos sociológicos, por meio da proposta de uma sociologia 
crítica.
• A filosofia social é a base para o surgimento da sociologia crítica, a partir da 
direção de Horkheimer no Instituto de Pesquisa Social – trazendo a perspectiva 
de complemento teoria e prática para essa ciência.
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AUTOATIVIDADE
1 Uma das dimensões filosóficas que influenciou o desenvolvimento da 
Escola de Frankfurt foi a busca pela distinção da Teoria Tradicional, de 
princípios cartesianos, pela Teoria Crítica, de princípios marxistas. Sobre as 
diferenças entre ambas, associe os itens, utilizando o código a seguir:
I- Teoria Tradicional
II- Teoria Crítica
( ) É uma proposta de interpretação do mundo, especialmente da ordem 
social, cujo conceito central é a racionalidade.
( ) Baseia-se no pensamento cartesiano, defendendo a razão como forma de 
obtenção do conhecimento.
( ) Reconhece a possibilidade da existência da contradição, mesmo utilizando-
se a razão e o pensamento.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) I – I – II.
b) ( ) II – I – II.
c) ( ) II – II – I.
d) ( ) II – II – II.
2 A proposta metodológica estabelecida pelos autores da Escola de Frankfurt 
para a sociologia é a consolidação de uma sociologia crítica. Sobre essa 
metodologia, analise as seguintes sentenças:
I- As bases da sociologia crítica são positivistas.
II- A sociologia crítica recebeu forte influência da filosofia social.
III- A sociologia crítica propõe estudar de modo empírico temas estabelecidos 
pela Teoria Crítica.
Assinale a alternativa a CORRETA:
a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
d) ( ) Somente as afirmativas II e III estão corretas.
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TÓPICO 2
CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA 
ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA 
SOCIEDADE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
A partir de seu estudo sobre as dimensões fundamentais que constituíram 
a Escola de Frankfurt – históricas, filosóficas e metodológicas – você poderá 
contextualizar e entender alguns de seus conceitos e teorias e os principais 
autores que os desenvolveram. Dizemos autores principais porque grande parte 
das obras frankfurtianas foram desenvolvidas em conjunto, com a participação 
de pelo menos dois autores.
Este tópico está organizado para apresentar os autores e os principais 
fundamentos teóricos que se desenvolveram no contexto da Escola de Frankfurt. 
Há muitos outros que perpassarão sua leitura, por isso fica novamente a dica de 
aprofundamento nos estudos a partir dos materiais complementares e de pesquisas 
próprias sobre os autores e temas que forem aparecendo ao longo de sua leitura.
Iniciaremos por Horkheimer e, com ele, estudaremos as bases da Teoria 
Crítica – proposta teórica e metodológica que permeou toda a sociologia de 
Frankfurt. Após, entenderemos o uso do conceito de indústria cultural e a 
participação do autor Adorno. Para finalizar, estudaremos o conceito de ação sob 
a ótica de Habermas. Por meio desse caminho será possível identificar a utilização 
desses conceitos principais e sua presença nas pesquisas da Sociologia Alemã.
Bons estudos!
2 HORKHEIMER E A TEORIA CRÍTICA
Como foi possível perceber em seus estudos até aqui, a chamada Teoria 
Crítica permeia tanto as discussões teóricas quanto as discussõesmetodológicas 
da Escola de Frankfurt. Sua proposição inicial foi feita por Max Horkheimer, 
primeiro diretor do Instituto de Pesquisa Social, portanto, ao estudá-la é 
imprescindível entendermos as propostas e abordagens do autor.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
82
FIGURA 2 – MAX HORKHEIMER
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
Vamos começar por uma síntese de sua biografia, baseada em Matos 
(1993). Note que a biografia de Horkheimer muitas vezes se mescla com a história 
da própria Escola de Frankfurt.
Max Horkheimer, filho de um industrial chamado Mortitz Horkheimer, 
nasceu em 1885 (Stuttgart), destinado a continuar os negócios da família. Era 
judeu, assim como boa parte dos intelectuais que compuseram o grupo da Escola 
de Frankfurt, o que justifica a inclinação para a investigação de alguns temas, 
como o autoritarismo, por exemplo.
Ele se aproximou inicialmente da área de letras, escrevendo romances, 
inclusive, o que o fez entre 1913 e 1914 viver em Londres e Bruxelas, para um 
aperfeiçoamento nas línguas inglesa e francesa. Nesse período ele frequentemente 
esteve na companhia de seu amigo Friedrich Pollock, por meio do qual passou a 
estar nas universidades de Munique Freiburg e Frankfurt.
É nesse estar nas universidades que ele se aproxima da psicologia, 
orientado por Adhemar Gelb (teórico da Gestaldt théorie – Teoria da Forma), 
para então se aproximar da Filosofia. É na Filosofia que ele defende sua tese de 
doutorado, sobre o pensamento de Kant, orientado por Hans Cornelius. O título 
de sua tese foi Contribuição à antinomia da faculdade de julgar teleológica. 
Logo após, aproxima-se da obra de Marx e Engels e, por meio do amigo 
Pollock conhece o Instituto de Pesquisa Social. Assim, em 1923, ele participa da 
constituição do instituto, tornando-se seu diretor em 1931, após o historiador Carl 
Grünberg. Isso só foi possível porque nesse período Horkheimer já era titular da 
Universidade de Frankfurt – à qual o instituto era vinculado (embora se mantendo 
com recursos próprios).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
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Sob a direção de Horkheimer, o Instituto passou a ter uma publicação 
periódica, a Revista para a Pesquisa Social (Zeitschrift für Sozialforschung). Nesse 
mesmo período, ele foi forçado ao exílio:
O Instituto para a Pesquisa Social, que devia ter-se denominado Instituto 
para o Marxismo – ideia abandonada, em parte, pelo antimarxismo 
dominante nos meios acadêmicos da época -, foi fechado quando, 
em março de 1933, Hitler chegou ao poder e o “círculo de Frankfurt” 
foi considerado responsável por “tendências hostis ao Estado”. Na 
ocasião, Horkheimer se encontrava em Genebra, na Suíça, onde havia 
um anexo do Instituto, e passou a dirigi-lo, agora no exílio forçado. Ao 
mesmo tempo, mais dois pequenos anexos do Instituto eram criados: 
um em Londres e outro em Paris, em 1933, orientado pelos sociólogos 
da cultura, Halbwachs e pelo filósofo Bergson (MATOS, 1993, p. 73).
Horkheimer passou a publicar seus escritos em Zurique, utilizando o 
pseudônimo Heinrich Regius, enquanto a revista do instituto era publicada pela 
Editora Félix Alcan. Ele se fixou nos Estados Unidos em 1934 e por lá ficou até 
1948, quando com o fim da Segunda Guerra Mundial voltou para a Alemanha. 
Sua disciplina de cátedra tratava da metafísica materialista, na época 
compreendida nos meios universitários como uma mescla entre judaísmo e 
comunismo, e foi restabelecida apenas em 1949. No ano seguinte o instituto 
retomou suas atividades. “Horkheimer tornou-se diretor do Departamento de 
Filosofia e, em seguida, Reitor da Universidade de Frankfurt (1951 – 1953), época 
em que recebeu o Prêmio Goethe” (MATOS, 1993, p. 73).
Voltou aos Estados Unidos em 1954 e retomou a docência na Universidade 
de Chicago. Quando se aposentou, em 1958, foi para Montagmola, na Suíça. 
Mesmo com todas essas mudanças nunca perdeu o contato com o Instituto e com 
seu anexo americano. Entre 1967 e 1970 trabalhou pela reedição de suas obras e 
de colegas da Escola de Frankfurt. Faleceu em 1973.
Feita esta introdução biográfica, podemos nos concentrar no texto 
fundamentador para a Teoria Crítica, publicado por Horkheimer e Adorno em 
1937, e intitulado Teoria tradicional e teoria crítica. Ele foi marcante para a história 
da Escola de Frankfurt e tornou-se um clássico para a sociologia, que é revisitado 
até hoje para os estudos sobre o tema.
Ao separarmos as palavras que nominam essa perspectiva de análise, 
vamos entender pontualmente o que se pretende com o uso de cada uma 
delas. Teoria diz respeito a um conjunto de proposições sobre um domínio do 
conhecimento, e ela torna-se válida quando essas proposições coincidem com 
acontecimentos e dados da realidade.
A teoria é desenvolvida a partir da racionalidade, por isso deve colocar a 
sua própria relação com a realidade em análise. Ela é elaborada a partir da divisão 
do trabalho, já que os cientistas possuem essa relação hierárquica, e é preciso 
reconhecer que existe relação entre o trabalho científico e o restante da vida social. 
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
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Assim, Horkheimer problematiza a função social da teoria: “Na época atual..., não 
é nas ciências da natureza, baseada na matemática apresentada como Logos eterno, 
que o homem pode aprender a conhecer-se a si próprio; é numa teoria crítica da 
sociedade tal como ela é, inspirada e dominada pela preocupação de estabelecer 
uma ordem conforme a razão” (HORKHEIMER apud ASSOUN, 1991, p. 34).
A teoria, portanto, precisa ser reconhecida como um conjunto de proposições 
contextualizadas, desenvolvidas em meio a relações de trabalho e às relações dos 
indivíduos com esse campo. Para tal, contribui a postura crítica, que se opõe à 
concepção tradicional de teoria, e que reconhece os dados como resultado de um 
trabalho executado na sociedade, não apenas nas reflexões dos cientistas.
Para tal empreendimento, a Teoria Crítica busca dar conta das estruturas 
presentes no trabalho humano, baseando-se na experiência, e defendendo a ideia 
de uma organização social conforme a razão e os interesses da coletividade. Assim, 
ela visa a uma transformação global da sociedade e, para tanto, tenta fortalecer 
as lutas às quais está ligada. A Teoria Crítica é oposicional, mesmo mantendo a 
exigência teórica de buscar as leis da realidade, ela reconhece como sua função de 
provocar a mudança na história.
Veja que a Teoria Crítica possui uma proposta fundamentada no materialismo 
histórico-dialético de Marx – que você estudou em Teoria Sociológica I. Seus pressupostos 
reconhecem a importância da história no desenvolvimento da estrutura social. Além de 
analisar a ordem social a partir da história, ela também propõe intervenções, modificações 
para que a organização social seja coletiva e racional.
IMPORTANTE
De acordo com Mogendorff (2012, p. 155), é possível estabelecer uma 
divisão entre três momentos da Teoria Crítica, que seriam: 
• Primeiro período (anos iniciais): materialismo interdisciplinar, 
focado na pesquisa embasada por uma teoria social que tinha 
como base a crítica da economia política marxista, aliando teoria 
filosófica à prática científica e seguindo uma junção “entre pesquisa 
social, análise crítica e ação revolucionária”. 
• Segundo período (1940-1951): a problemática passa a ser vista sob a 
ótica de uma “crítica da razão moderna”. 
• Terceiro período: ocorre a retomada do projeto inicial de uma 
“ciência social crítica”. 
“Em 1944, quando Horkheimer e Adorno lançaram “Dialética do 
iluminismo”, texto no qual aparece o conceito de indústria cultural, estavam mais 
próximos do terceiro período, de uma ciência social crítica, embora estivessem 
circunscritos à crítica à razão moderna” (MOGENDORFF, 2012, p. 155).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
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Esse último período também é marcado pelo olharde Habermas para a 
Teoria Crítica, quando esta sofre um reajustamento. Surge a necessidade, a partir 
de problemas teóricos e metodológicos, de justificar a relação da teoria com a 
prática sociopolítica. Busca-se tornar científica a crítica, especialmente quando ela 
se volta à própria teoria. Novas discussões epistemológicas são realizadas para 
que ocorra esse empreendimento.
Surge assim em primeiro plano a autorreflexão por meio das ciências 
hermenêuticas. Esta volta a tornar-se consciente da ligação das atividades 
de conhecimento com o processo social. É neste ponto reflexivo que em 
certa medida vem refugiar-se a Teoria Crítica. Poder-se-ia dizer que ela 
perdeu a sua autonomia filosófica: já não procura unicamente afirmar 
a sua não-identidade, mas deve tornar-se o movimento de reflexão 
crítica e hermenêutica das ciências. Afirma desse modo a sua vocação 
de “racionalidade prática” (ASSOUN, 1991, p. 37).
As chamadas ciências hermenêuticas são compostas por uma área da Filosofia 
destinada a estudar a Teoria da Interpretação, ou seja, o significado das palavras e dos textos
IMPORTANTE
É também Habermas que traz à reflexão a ideia de interesse do 
conhecimento, entendendo que muitas vezes o conhecimento é subordinado a 
um interesse social (quando tratamos da produção de conhecimentos científicos, 
por exemplo, é possível observar que algumas áreas são privilegiadas na 
obtenção de financiamentos para a pesquisa – pois existe um interesse social no 
desenvolvimento dessas pesquisas, em detrimento de outras áreas).
Seria a ciência crítica que desvelaria esse tipo de interação entre o 
conhecimento e o interesse social – que permite a reprodução social e mantém a 
dominação de grupos sociais.
O seu trabalho inicial pretendia repor a possibilidade de uma teoria 
crítica politicamente significativa, guiado pelo problema da relação 
entre teoria e prática. Assume o debate sobre a metodologia das ciências 
sociais, tentando ultrapassar a mera preocupação hermenêutica e a 
falácia das crenças positivistas, que distinguia o conhecimento objetivo 
da ação humana interessada. Habermas tentou possibilitar a unidade 
entre teoria e prática, expandindo o sentido de prática política, como 
a constituição de uma vida conjunta que permita a realização plena 
do potencial humano. Habermas afirma a importância de reabilitar a 
esfera pública, uma vez que, através de um modelo de comunicação 
pública poder-se-ia realizar o ideal de orientação racional da sociedade. 
Através da teoria crítica, as pessoas poderiam se tornar conscientes do 
seu potencial por realizar e assim lutar contra aqueles que obstam à 
realização plena desses ideais (FONTES, 2019, p. 129).
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
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É com base nesses preceitos que se desenvolveu a Teoria Crítica como 
proposta metodológica e de ratificação da sociedade. Poucas vezes se viu 
na história da sociologia uma proposta científica como meio de análise e que 
propusesse uma intervenção, uma identificação de problemas da ordem social 
mobilizando a esfera política e pública para sua resolução.
A partir disso desenvolveu-se um arcabouço de conceitos e noções que 
foram consolidados nas pesquisas e análises da Escola de Frankfurt, o qual 
estudaremos no próximo tópico. Mas, antes de prosseguir, veja uma indicação de 
leitura para aprofundamento sobre o tema Teoria Crítica.
Para aprofundar seus estudos sobre a Teoria Crítica, procure realizar a 
leitura do artigo disponível no link: http://faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/
view/3917/4278. A referência é: 
FONTES, Paulo Vitorino. Repensando os fundamentos da Teoria Crítica de Frankfurt e os 
seus dilemas teóricos, epistemológicos e políticos. Revista Síntese, Belo Horizonte, v. 46, n. 
144, p. 121-147, jan./abr. 2019.
DICAS
Para finalizar, vamos ao texto do próprio autor, Max Horkheimer. É 
importante que você procure não apenas intérpretes, e sim os textos originais dos 
teóricos ao estudar teoria sociológica, não se esqueça disso!
A TEORIA CRÍTICA ONTEM E HOJE
Gesellschaft um Übergang – Frankfurt, 1972
Como nasceu a Teoria Crítica? Gostaria de dar a entender, 
primeiramente, a diferença entre a Teoria Tradicional e a Teoria Crítica. O que 
é a Teoria Tradicional? O que é a teoria no sentido da ciência? Permitam-me 
dar uma definição bem simplificada da ciência: a ciência é uma tal ordenação 
dos fatos de nossa consciência que ela permite, finalmente, alcançar cada vez, 
em um lugar exato do espaço e do tempo, aquilo que exatamente deve ser 
esperado ali. O mesmo vale para as ciências humanas: quando um historiador 
afirma algo com pretensão à cientificidade, deve-se estar em condições de 
encontrar sua confirmação nos arquivos.
A exatidão é, nesse sentido, o objetivo da ciência. Entretanto, e aqui 
aparece o primeiro tema da Teoria Crítica, a própria ciência não sabe por que 
põe em ordem os fatos justamente naquela direção, nem por que se concentra 
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
87
em certos objetos e não em outros. O que falta à ciência é a reflexão sobre 
si mesma, o conhecimento dos móveis sociais que a impulsionam em certa 
direção: por exemplo, em ocupar-se da Lua e não do bem-estar dos homens.
[...] Quando a Teoria Crítica surgiu, nos anos 20 partiu da ideia de uma 
sociedade melhor. Ela se comportava de maneira crítica em relação à sociedade, 
como em relação à ciência. O que eu disse da ciência não vale somente para ela, 
mas também ao indivíduo particular [...]. Não sabe dizer por quais razões se 
ocupa com paixão de tal coisa e não de outra.
Na origem, nossa Teoria Crítica era muito crítica – tal como está 
amplamente exposta na Revista para a Pesquisa Social –, como é o caso do 
início, em particular em relação à sociedade dominante, pois esta havia [...] 
produzido o que é aterrorizador no fascismo e no comunismo terrorista. Eis 
por que colocávamos nessa época nossas esperanças na revolução, pois era 
certamente impossível que a situação se tornasse pior na Alemanha após 
uma revolução do que era no nacional-socialismo. Se a “sociedade justa” 
era realizada por uma revolução dos dominados, como Marx concebeu, o 
pensamento também deveria tornar-se mais juntos. Com efeito, ele não teria 
mais então que depender da luta consciente ou inconsciente das classes entre 
si. Todavia tínhamos consciência – e aí está um momento decisivo na Teoria 
Crítica da época, como na de hoje – de não poder determinar antecipadamente 
a sociedade justa. Podíamos dizer o que era o mal na sociedade da época, mas 
não podíamos dizer o que seria o bem; poder-se-ia apenas trabalhar para que, 
ao fim, o mal desaparecesse. Devo agora descrever como se caminhou dessa 
Teoria Crítica inicial à Teoria Crítica atual. A primeira razão foi constatar que 
Marx se equivocara em diversos pontos. Nomearei aqui apenas alguns: Marx 
afirmou que a revolução seria o resultado de crises econômicas cada vez mais 
agudas, crises ligadas a uma pauperização crescente da classe operária em 
todos os países capitalistas. Isso, pensava-se, deveria conduzir finalmente o 
proletariado a pôr fim a esse estado de coisas e criar uma sociedade justa. 
Começamos a perceber que essa doutrina era falsa, pois a situação da classe 
operária é sensivelmente melhor que na época de Marx. De simples trabalhadores 
manuais que eram, inúmeros operários tornaram-se funcionários, com um 
estatuto social mais elevado e um melhor nível de vida [...]. Segundo, as crises 
econômicas de impasse estão cada vez mais raras. Podem, em larga medida, 
ser contornadas graças a medidas político-econômicas. Por último, aquilo que 
Marx esperava da sociedade justa é falso – não fosse por outra razão –, e este 
enunciado é importante para a Teoria Crítica, porque a liberdade e a justiça 
tanto estão ligadas quanto opostas. Quanto mais justiça, menos liberdade. 
Se quisermos caminhar para a equidade, devem-se proibir muitas coisas aos 
homens, notadamente de espezinharem uns aos outros [...].Se a tradição, as categorias religiosas e, em particular, a justiça e a 
bondade de Deus não forem transmitidas como dogma, como verdades 
absolutas, mas como a nostalgia daqueles capazes de uma verdadeira tristeza, 
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
88
e isso precisamente porque essas doutrinas não podem ser demonstradas e 
porque essa dúvida é seu lote, a mentalidade teológica, ou pelo menos sua 
base, poderá ser conservada de uma forma adequada. A introdução da dúvida 
na religião é um momento necessário para salvá-la.
Há duas teorias da religião decisivas para a Teoria Crítica hoje, embora 
sob uma forma modificada. A primeira é aquela que um grande, um imenso 
filósofo designou como a maior intuição de todos os tempos: a doutrina do 
pecado original. Se podemos ser felizes, cada instante é pago pelo sofrimento 
de inúmeras criaturas humanas ou animais. A cultura atual é o resultado de um 
passado pavoroso. Seria suficiente pensarmos na história de nosso continente, 
no que as Cruzadas, as guerras de religião e as revoluções tiveram de 
assustador. A Revolução Francesa, sem dúvida conseguiu grandes progressos. 
Mas, se olharmos bem tudo o que sucedeu a homens inocentes, veremos que 
por esse progresso pagou-se caro. A nossa alegria, a nossa felicidade, devemos 
todos associar à tristeza, à consciência de que dividimos uma culpa [...]. A 
segunda é uma proposição do Antigo Testamento: “Não se pode dizer o que é 
o bem absoluto; tu não podes apresentá-lo”. Os homens que vivem com essa 
consciência têm uma comunidade de pensamento com a Teoria Crítica.
FONTE: Matos (1993, p. 88)
3 ADORNO E A INDÚSTRIA CULTURAL
Um dos conceitos fundamentais nas análises da Escola de Frankfurt foi 
a noção de Indústria Cultural – e também um dos mais famosos. Quando se 
estuda sobre os frankfurtianos, independentemente da área de conhecimento, 
parte desse estudo sempre passará pela indústria cultural. Campos relacionados 
à comunicação retomam com frequência essa ideia, especialmente em sua relação 
com a cultura de massas.
Esse conceito foi apresentado por Horkheimer e Adorno na obra Dialética 
do Iluminismo, embora apareça em mais textos posteriormente. Horkheimer você 
já conhece, vimos quem ele é no tópico anterior. Antes de estudar o trabalho dessa 
dupla, vamos conhecer Adorno?
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
89
FIGURA 3 – THEODOR W. ADORNO
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
A base dessa apresentação será o texto de Matos (1993, p. 76). Adorno 
foi filho de pai alemão e mãe italiana, nascido em Frankfurt em 1903, com nome 
completo Theodor Wiesengrund Adorno. 
Seu pai era judeu assimilado, negociante de vinhos. Sua mãe era cantora 
lírica até casar-se, e filha de uma cantora alemã e de um oficial do exército francês. 
Em função disso, Adorno cresceu em um meio de musicistas e amantes da música, 
destinando-se logo cedo para a estética musical, aprendendo piano e composição. 
Também estudou a Filosofia, conhecendo Kant por meio de seu amigo Kracauer, 
especialista em sociologia do conhecimento (obra famosa: de Cagliari a Hitler – 
relações entre cinema e nazismo).
Mudou-se para Viena em 1925, ficando até 1928. Estudou composição e 
técnica pianística, frequentou os meios de vanguarda e dirigiu o jornal Anbruch 
(O Começo). Nesse período conheceu Horkheimer, pois após Viena retornou a 
Frankfurt. Ele já havia visto Horkheimer em um seminário sobre o pensamento 
de Husserl, ministrado por Hans Cornelius – que o orientou na defesa da tese A 
transcendência do objetal e do neomático na fenomenologia de Husserl, em 1924.
Já para seu doutoramento, Adorno redigiu a tese Kierkegaard, construção 
da estética, defendida em 1931 e publicada em 1933, tornando-se Privatdozent 
(livre-docente) na Universidade de Frankfurt. Ao Instituto de Pesquisa Social ele 
vinculou-se apenas em 1938.
Adorno também sofreu o exílio, tal como Horkheimer:
Ao contrário de Horkheimer, não se exila logo. Entre 1933 e 1937 passa a 
maior parte do tempo no Merton College, em Oxford. Quando se exila nos 
Estados Unidos, aproxima-se ainda mais de Horkheimer, e os dois passam 
a trabalhar em colaboração, sendo o primeiro fruto a obra Dialética do 
Iluminismo (Dialektik der Aufklärung), publicada em 1947 em Amsterdã. 
Com o fim da guerra, Adorno é um dos que mais desejam o retorno 
a Frankfurt, tornando-se diretor-adjunto do Instituto para a Pesquisa 
Social e seu co-diretor em 1955. Por fim, em 1958, com a aposentadoria de 
Horkheimer, Adorno torna-se o novo diretor (MATOS, 1993, p. 76).
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
90
Em 1966 publica a obra Dialética Negativa, e somadas às discussões sobre a 
crítica da ciência contemporânea feitas em parceria com Popper, seu desempenho 
o auxilia a chegar a posição de reitor da Universidade de Frankfurt, em 1968. 
As rebeliões estudantis desse mesmo ano o deixaram em difícil posição, pois 
representava a autoridade que estava sendo contestada. “Como artífice da Teoria 
Crítica da Sociedade, esperava-se dele o antiautoritarismo e a encarnação do anti-
Estado, por isso o movimento estudantil acusou-o de estar ao lado do poder” 
(MATOS, 1993, p. 76).
Suas obras completas começaram a ser editadas em 1969, pela editora 
Suhrkamp, no mesmo ano em que faleceu, na Suíça.
Agora sim, conhecendo a história de Adorno, seguimos com a indústria 
cultural. Antes de mais nada é importante mencionar que os frankfurtianos 
elaboraram uma crítica à indústria cultural. Para eles, tudo se inicia com a 
ideia disseminada pela modernidade de que é possível que os seres humanos 
desenvolvam um projeto coletivo que os liberte dos seres míticos e das opressões 
sociais, permitindo a todos uma vida justa e realizações individuais.
No entanto, a história mostrou que havia contradições nesse projeto, 
problemas, conflitos e sofrimentos existenciais, especialmente no contexto 
histórico da época – permeado por governos totalitários. O ser humano autônomo 
acaba por sucumbir aos interesses sistêmicos, se transformando em refém do que 
eles chamam de barbárie tecnológica (RÜDIGER, s.d.). Nas palavras dos autores:
O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz 
as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado 
ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma 
superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê 
completamente anulado em face dos poderes econômicos. Ao mesmo 
tempo, estes elevam o poder da sociedade sobre a natureza a um nível 
jamais imaginado. Desaparecendo diante do aparelho a que serve o 
indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por 
ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa 
aumentam com a quantidade de bens a ela destinados. A elevação do 
padrão de vida das classes inferiores, materialmente considerável e 
socialmente lastimável, reflete-se na difusão hipócrita do espírito. Sua 
verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente 
se esvai quando se vê concretizado em um bem cultural e distribuído 
para fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões 
assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo (ADORNO; 
HORKHEIMER, 1947 apud RÜDIGER, s.d., p. 134).
Em síntese, tudo se transforma em artigo de consumo, inclusive a cultura, 
que se torna mercadoria. A subordinação da consciência à racionalidade capitalista 
e o processo de transformação da cultura em mercadoria é que compõem a 
indústria cultural. Não se trata dos produtos em si, como televisão, imprensa etc., 
mas de uma forma de uso desses produtos. “A expressão designa uma prática 
social, através da qual a produção cultural e intelectual passa a ser orientada em 
função de sua possibilidade de consumo no mercado” (RÜDIGER, s.d., p. 138).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
91
Esse fenômeno se inicia a partir da adaptação de obras de arte paraum 
padrão de gosto chamado bem-sucedido, que poderíamos entender como um gosto 
comum, e desenvolver técnicas para colocar essas obras no mercado. A publicidade 
é parte do aparato da indústria cultural: “A colonização pela publicidade pouco 
a pouco o tornou mecanismo de mediação estética do conjunto da produção 
mercantil, momento este em que a produção cultural toda é forçada a passar pelo 
filtro da mídia enquanto máquina de publicidade” (RÜDIGER, s.d., p. 134).
Para além das obras de arte, o mesmo fenômeno atinge outros itens de 
produção cultural. A música, por exemplo, também passa pelo mesmo movimento: 
a uniformização apresenta-se para uma audição de massas, já que a indústria elege 
o que é música popular e estabelece um processo eficaz de venda a partir disso.
Em síntese, sempre que um produto cultural passa a ter uma fórmula 
popular, associada ao êxito de consumo, a indústria promove e repete sempre 
o mesmo padrão. Essa prática da indústria cultural torna-se um sistema que 
promove a passividade social (MATOS, 1993). A arte passa a ser um instrumento 
de reprodutibilidade técnica e quais itens serão reproduzidos são definidos por 
esse sistema.
FIGURA 4 – CICLO DE DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA CULTURAL
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
Associado a isso surge a ideia de que os seres humanos são dependentes 
dos bens que podem comprar e dos modelos de conduta difundidos pelos meios 
de comunicação. Essas são as bases do consumismo, que encaixa na estratégia de 
utilização da capacidade de bens e serviços conforme o consumo estético massificado.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
92
 Para Adorno e Horkheimer, a “cultura de massa” não é nem cultura 
nem é produzida pelas massas: sua lei é novidade, mas de modo a 
não perturbar hábitos e expectativas, a ser imediatamente legível 
e compreensível pelo maior número de espectadores ou leitores. 
Evita a complexidade, oferecendo produtos à interpretação literal, 
ou melhor, minimal. Assim, a mídia realiza uma caça à polissemia, 
pela demagogia da facilidade – fundamento da legitimidade desse 
sistema de comunicação. Adorno critica a “indústria cultural” não por 
ser democrática, mas por não o ser. A mídia transmite uma cultura 
agramatical e disortográfica, de tal forma que a educação retorna à 
condição do segredo, conhecimento de uma elite: “A luta contra a 
cultura de massa só pode ser levada adiante se mostrada a conexão 
entre a cultura massificada e a persistência da injustiça social” 
(MATOS, 1993, p. 70).
Segundo Rüdiger [s.d.], os pensadores de Frankfurt foram os primeiros a 
perceber que, além da religião, família e escola estavam perdendo sua influência 
socializadora para as empresas de comunicação. O capitalismo passa a participar 
da formação da consciência, quando converte bens culturais em mercadoria.
“A velhíssima tensão entre cultura e barbárie, arte série e arte leve, foi 
superada com a criação de uma cultura de mercado em que suas qualidades se 
misturam e vêm a conformar um modo de vida nivelado pelo valor de troca das 
pessoas e dos bens de consumo” (RÜDIGER, s.d., p. 139). As obras de arte, as 
ideias, as pessoas, passam a ser criadas e negociadas como bens descartáveis.
Um exemplo bastante claro utilizado pelos frankfurtianos é o da televisão, 
mecanismo que busca evitar a reflexão. Catástrofes são apresentadas seguidas de 
reportagens que as amenizam pelo seu conteúdo leve. As entrevistas são recortes 
da realidade. A forma de apresentação dos telejornais não permite reflexão, pela 
rapidez da mídia. Enfim, para os autores, a autonomia do pensamento é atacada 
com o modus operandi da televisão. 
FIGURA 5 – CHARGE SATIRIZANDO AS MÍDIAS TELEVISIVAS
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
OH, PODEROSO DA MÍDIA 
DE MASSA, OBRIGADO 
POR ELEVAR A EMOÇÃO, 
REDUZIR O PENSAMENTO, 
E ANIQUILAR A 
IMAGINAÇÃO!
OBRIGADO PELA 
ARTIFICIALIDADE DAS 
SOLUÇÕES RÁPIDAS 
E PELA MANIPULAÇÃO 
TRAIÇOEIRA DOS DESEJOS 
HUMANOS PARA FINS 
COMERCIAIS.
ESTA TIGELRA DE TAPIOCA 
MORNA REPRESENTA MEU 
CÉREBRO. EU OFEREÇO 
EM HUMILDE SACRIFÍCIO. 
MANTENHA SUA LUZ 
OSCILANTE PARA 
SEMPRE.
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
93
Para evitar a barbárie, Adorno e seus colegas defenderam o retorno à 
arte e à gratuidade da fruição estética. Os meios de comunicação de massa são o 
oposto da obra de pensamento, que é a obra cultural legítima – que leva a pensar 
e a refletir. A publicidade converte tudo em entretenimento, enquanto a cultura e 
a arte trazem a essência dos direitos humanos.
Cultura é pensamento e reflexão. Pensar é o contrário de obedecer. A 
indústria cultural cria um simulacro de participação na cultura quando, 
por exemplo, desfigura a Sinfonia nº 40 de Mozart em chorinho. Assim 
adulterada, não é Mozart nem tampouco ritmo popular. Tanto a sinfonia 
quanto o samba veem-se privados de sua força própria de bens culturais 
considerados em sua autonomia. O direito à cultura é o direito de acesso 
aos bens culturais, e a compreensão desses bens é o ponto de partida 
para a transformação das consciências (MATOS, 1993, p. 71).
Dessa forma, a cultura torna-se objeto de estudos da Escola da Frankfurt, 
a partir de uma perspectiva da Teoria Crítica. Para Adorno e Horkheimer, os 
fenômenos de mídia não podem ser estudados de forma autônoma, e sim em sua 
inserção na crise da cultura moderna provocada pelo progresso do capitalismo 
(RÜDIGER, 1999).
Para Rüdiger (1999, p. 31), é possível identificar os princípios seguidos 
pela reflexão da Escola de Frankfurt sobre a indústria cultural, a partir da 
perspectiva crítica:
1- A perspectiva de interpretação se interroga sobre a estrutura e função da 
cultura mercantil no contexto do processo global da sociedade.
2- A hipótese básica é a de que essa cultura produz e reproduz em termos 
econômicos, técnicos e espirituais as categorias e contradições sociais 
dominantes.
3- Os fenômenos de indústria cultural são tratados como fatos sociais que devem 
ser julgados de acordo com certos critérios de valor imanentes descobertos 
através de uma reflexão histórica.
4- A crítica considera o homem como sujeito e situa a indústria cultural em relação 
aos mecanismos existentes entre estrutura social, as formas de consciência e o 
desenvolvimento psíquico do indivíduo.
5- Finalmente, sustenta-se que os estímulos produzidos na esfera da indústria 
cultural são um fenômeno histórico e que a relação entre esses estímulos e a 
resposta é pré-formada e pré-estruturada pelo destino histórico do estímulo 
tanto quanto do sujeito a que ele responde.
O estudo da indústria cultural permitiu obras extensas, portanto, seguem 
duas sugestões de materiais para aprofundamento. Você também pode procurar 
conhecer as obras de teoria da comunicação que se basearam na indústria cultural 
para desenvolver seus estudos.
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
94
A trajetória da Teoria Crítica e suas análises voltadas à Indústria Cultural são 
sistematizadas por Francisco Rüdiger no texto A Escola de Frankfurt e a trajetória da crítica 
à indústria cultural, que você pode consultar no link: https://periodicos.fclar.unesp.br/
estudos/article/viewFile/903/767.
DICAS
O mesmo autor publicou um livro sobre Adorno, A Teoria Crítica e a 
comunicação, que pode auxiliar seus estudos, cuja referência é: 
RÜDIGER, F. Comunicação e teoria crítica da sociedade: Adorno e a Escola de Frankfurt. 
Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
DICAS
4 HABERMAS E O CONCEITO DE AÇÃO
Outro conceito importante utilizado pelos autores da Escola de Frankfurt 
é o conceito de ação. Em específico, ele foi objeto de análise de Habermas, autor 
considerado da segunda geração da Escola, e que desenvolveu uma teoria sobre 
a modernidade – sendo considerado um clássico na sociologia contemporânea. 
Vamos conhecê-lo melhor para então prosseguir comDO TÓPICO 2......................................................................................................................165
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................166
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DE BOURDIEU E ELIAS 
PARA A SOCIOLOGIA ................................................................................................167
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................167
2 CIVILIZAÇÃO, KULTUR E A SOCIEDADE DE CORTE FRANCESA ...................................167
3 BOURDIEU E A EDUCAÇÃO ..........................................................................................................171
4 BOURDIEU E OS ESTUDOS SOBRE A DISTINÇÃO ...............................................................176
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................180
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................186
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................188
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................189
1
UNIDADE 1
ESCOLA DE CHICAGO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• situar as características e os principais aspectos das bases teóricas e 
metodológicas do pensamento sociológico desenvolvido na Escola de 
Chicago;
• examinar as principais contribuições das pesquisas desenvolvidas na 
Escola de Chicago;
• sistematizar os conceitos e metodologias utilizados na Escola de Chicago;
• analisar os desdobramentos das pesquisas desenvolvidas na Escola de 
Chicago, cuja influência persiste nas interpretações contemporâneas da 
Sociologia.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A 
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE 
CHICAGO PARA A SOCIOLOGIA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
2
3
TÓPICO 1
A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE 
CHICAGO
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Este primeiro tópico de seus estudos sobre a Escola de Chicago inicia 
abordando os aspectos de base para o entendimento de como essa escola se formou 
e sua influência na sociologia mundial, ou seja, por que ainda a estudamos na 
contemporaneidade – principalmente quando tratamos do campo da Sociologia 
Urbana. 
Vamos iniciar pelas dimensões históricas, do que efetivamente trata a 
Escola de Chicago, como ela se formou alinhada à Universidade de Chicago. 
Após, veremos suas dimensões metodológicas, ou seja, as influências que 
desenvolveram nos autores de Chicago, uma linha similar nas escolhas para suas 
pesquisas, destacando-se o pragmatismo, o formalismo e as intenções de reforma 
social. Os últimos tópicos irão explicitar alguns autores das duas gerações da 
Escola de Chicago, com foco principal em Robert Ezra Park (primeira geração) 
e Louis Wirth (segunda geração). A passagem desses autores pela universidade 
e seus principais temas de pesquisa podem ser encontrados no texto, bem como 
sua relação com os demais autores dessas gerações.
Ao longo desta unidade, há diferentes sugestões de materiais para que 
você possa aprofundar seus estudos, já que a obra dos autores norte-americanos é 
bastante vasta. Você perceberá que houve muitos professores e alunos vinculados 
à Escola de Chicago, e que produziram muitas pesquisas – especialmente na forma 
de dissertações e teses. Alguns marcaram mais, com pesquisas “famosas”, e outros 
menos, mas o legado de todo esse conjunto de trabalhos é muito importante para 
o campo da sociologia como ciência. 
Portanto, quando algum autor lhe provocar a curiosidade, pesquise 
mais sobre ele! Aproveite para conhecer as pesquisas desenvolvidas que mais 
lhe chamarem a atenção, pois elas estão sintetizadas aqui, vale a pena buscar 
materiais e entendê-las com maior profundidade.
Vamos começar com um pouco de história... Bons estudos!
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
4
2 DIMENSÕES HISTÓRICAS
Um primeiro item essencial que você deve saber para situar as terminologias 
no campo das Ciências Sociais é que a Escola de Chicago é o núcleo de uma 
sociologia norte-americana. Costumeiramente, ao se tratar sobre a sociologia 
norte-americana, aparecerá a indicação de uma sociologia bastante pragmática, 
cuja ênfase se dá em pesquisas com grande quantidade de dados empíricos e 
desenvolvida a partir da Escola de Chicago. Portanto, ao consultar materiais sobre 
a sociologia norte-americana, você encontrará menções à Escola de Chicago, que 
consolidou a influência mundial dessa linha de análise sociológica.
O objeto principal de análise dessa escola sociológica foi a cidade, o modo 
de vida urbano e tudo o que o caracteriza. Ela se torna foco de análise após a 
industrialização, que traz do meio rural boa parte de seus habitantes para uma 
nova forma de viver, moderna e cuja lógica relacional é totalmente diferente da 
que viviam até então. O crescimento urbano provoca novas formas de controle 
social, modificando a influência das instituições sociais tradicionais, como família, 
igreja e escola.
Antes, o controle social era exercido pela comunidade local, vizinhança, 
família, e a partir do crescimento urbano, a divisão do trabalho provoca um controle 
social baseado em outra solidariedade – cujas condutas individuais possuem 
mais peso nas relações (que passam a ter maior caráter de impessoalidade) e 
cuja pluralidade passa a ter maior espaço. Ou seja, mesmo vivendo próximas, 
as pessoas podem estar distantes em se tratando da vida na cidade. Os contatos 
são rápidos e parciais, as relações transitórias e superficiais. Isso é uma grande 
mudança se comparada à vida no ambiente rural até então vivenciada por grande 
parte das pessoas antes da industrialização. Essa dinâmica gera um conteúdo 
cultural específico das cidades, que se torna objeto de estudo sociológico.
Há, entretanto, uma nova instituição que surge na cidade grande, 
especialmente entre os jovens das áreas ou classes menos favorecidas: 
a gangue. Certamente que não se trata de uma instituição no sentido 
formal, afinal, não se registra gangue na junta comercial. Porém, é 
instituição em seu sentido material, ou seja, uma entidade que agrega 
um grupo, possuindo um conjunto de regras e que tem por finalidade 
a satisfação de interesses coletivos (FREITAS, 2002, p. 37).
Chicago oferece as condições para o surgimento de uma sociologia urbana 
na medida em que seu crescimento demográfico acelerou exponencialmente 
a partir de 1900. Essa explosão demográfica levou à construção de meios de 
transporte e ampliação dos meios de comunicação. Os prédios tomam o espaço 
urbano para que haja espaço para todos, gerando um rápido processo de 
urbanização. Além disso, acompanhou o crescimento populacional o aumento da 
criminalidade e problemas sociais similares.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
5
FIGURA 1 – CHARGE REPRESENTANDO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO
FONTE: . 
Acesso em: 17 jun. 2019.
Nesse contexto está inserida a Universidade de Chicago, berço de propostas 
para a sociologia urbana que surgem em um departamento específico da instituição. É 
a partir dali que se pode dizer que se originou a Escola de Chicago.
Para conhecero estudo de sua obra. 
FIGURA 6 – JÜRGEN HABERMAS
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
95
Jürgen Habermas é um autor alemão nascido em 1929, ainda vivo, filósofo 
contemporâneo e um dos mais influentes pensadores sobre a modernidade e pós-
modernidade. Como sociólogo do pós-guerra, é influente a partir da elaboração da 
sua teoria da razão comunicativa, e por isso um dos mais importantes intelectuais 
contemporâneos.
Ele nasceu em Düsseldorf, e durante sua juventude já apresentava 
inclinação para tratar com questões sociais. Estudou Filosofia, Literatura Alemã 
e Economia nas Universidades de Göttingen, Zurique e Bonn. Suas preocupações 
políticas tornam-se evidentes em sua tese de doutorado, quando estudou a 
participação estudantil na política alemã, a partir de dados empíricos. 
Após esse doutoramento, Habermas escrevia textos para jornais alemães 
esporadicamente, e estes chamaram a atenção de Adorno, que o convida em 1956 
para trabalhar como assistente no Instituto de Pesquisas Sociais, na Universidade 
de Frankfurt. A partir disso, Adorno passa a influenciar a perspectiva crítica da 
sociedade desenvolvida por Habermas.
Horkheimer, na época diretor do instituto, não simpatizou com a 
orientação marxista e politicamente engajada de Habermas, portanto, ele mudou-
se para Marburg e pleiteou sua livre-docência com a tese Mudanças Estruturais do 
Espaço Público. Após a obtenção de mais esse título, Habermas retorna a Frankfurt 
em 1964 e assume a direção do Instituto de Pesquisas Sociais.
Habermas defende os violentos protestos estudantis ocorridos na 
Alemanha nessa época (década de 1960), sendo a favor da participação política 
por meio da desobediência civil. É hostilizado pela esquerda alemã por se afastar 
de movimentos radicais e publicar textos contra lideranças estudantis.
Assim, passa a ensinar Filosofia em Heidelberg e Sociologia em Frankfurt, 
transferindo-se para os Estados Unidos em 1968, lecionando na New School for 
Social Research de Nova Iorque. Entre 1971 e 1980, dirigiu o Instituto Max Planck de 
Starnberg, na Baviera. Um ano depois, publica a obra Teoria da Ação Comunicativa.
Em 1983, ele conquistou a cátedra de Filosofia na Universidade Johann 
Wolfgang Von Goethe, em Frankfurt, na qual permaneceu até sua aposentadoria, 
em 1994. Recebeu diversos prêmios e distinções, dentre eles o Prêmio Cultural de 
Hessen, em 1999, e o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, em 2001. 
Feita essa contextualização histórica, podemos afirmar que Habermas 
fundamenta grande parte de suas teorias na linguagem, que para ele constitui-se 
o traço distintivo dos seres humanos, e é, portanto, o fundamento da hominização. 
Para defender essas teorias ele se apropria de Mead (apud ARAGÃO, 2002) e 
argumenta que se a passagem da interação mediada por gestos para a interação 
mediada por símbolos é o que torna o ser humano um ser social, então a instituição 
da linguagem foi fundamental para estabelecer o ser humano como tal. 
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
96
A lógica encontrada pelo autor é a seguinte: o que nos distingue da natureza 
é a racionalidade, e também o que nos distingue da natureza é a linguagem, 
portanto, nossa racionalidade se manifesta por meio do uso da linguagem, e 
através dela podemos conhecer e analisar aspectos da razão humana.
A linguagem tornou-se fundamento básico de acesso à razão nas teorias 
habermasianas porque – além da dificuldade metodológica de acesso analítico à 
consciência como produtor de conhecimento –, a filosofia interpretada pela teoria 
crítica da Escola de Frankfurt concebia uma visão unilateral de razão, manifesta 
na razão instrumental (ARAGÃO, 2002). Esse conceito trata da obtenção de fins 
através do uso das pessoas como meios, e essa característica manipuladora e 
objetivante surge em decorrência das duas Grandes Guerras e dos regimes nazista 
e stalinista vivenciados pelos estudiosos frankfurtianos (ARAGÃO, 2002). 
Habermas não concordava com apenas essa forma de interpretar a razão e 
buscou construir um conceito heterogêneo à razão instrumental, que culminou no 
conceito de razão comunicativa. Assim, a linguagem permite descobrir estruturas 
de racionalidade, pois envolve pelo menos dois participantes, tem como objetivo 
o entendimento e, por isso, pode-se analisar uma razão intersubjetiva e não 
apenas uma razão instrumental.
A razão instrumental é a ação racional relativa a fins, ou seja, é o uso da 
razão humana para obtenção de finalidades, de utilidades, a partir de estratégias 
(instrumentos). Ela difere da razão comunicativa que busca a comunicação o 
diálogo, uma ação para o entendimento e desenvolvimento das ações sociais.
O aspecto da linguagem que importa para o pensamento habermasiano é a 
utilização das sentenças com intenção comunicativa, que se torna uma ação social. 
Antes de prosseguir, vamos retomar o conceito de ação social? É uma ação 
que quanto ao sentido visado pelo agente ou os agentes, se refere ao comportamento de 
outros, orientando-se por este em seu curso. Assim, é uma maneira de agir que possui um 
sentido compartilhado socialmente, e cuja referência é o outro. Você pode revisar esse 
conceito no material da unidade curricular Teoria Sociológica I, quando tratamos sobre o 
autor Max Weber.
IMPORTANTE
Em suas análises, Habermas pretende demonstrar que a racionalidade de uma 
ação é função da extensão em que pode ser justificada, ou seja, elas têm pretensões 
à verdade, à correção moral, à propriedade, à sinceridade e à compreensibilidade. A 
ação possui um significado inerente por trazer a intenção do agente com relação à 
realidade objetiva, social e subjetiva. Assim, ela ganha conteúdo cognitivo, normativo e 
expressivo e pode, por isso, ser avaliada criticamente (INGRAM, 1993).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA ALEMÃ PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
97
De acordo com Ingram (1993), Habermas parte inicialmente suas análises 
teóricas do conceito de ação, que posteriormente alia ao de razão e classifica as 
ações em: teleológica, normativa, dramatúrgica e comunicativa:
• Ações teleológicas: definidas como aquelas realizadas por uma pessoa em busca 
de um objetivo. São estratégicas e incluem pelo menos outra pessoa no cálculo 
dos meios e fins. Esse tipo de ação é racional por que os agentes calculam qual a 
melhor estratégia para atingir um determinado fim e, assim, eles se relacionam uns 
com os outros compreendendo-os como meios ou obstáculos para a realização de 
seus fins. Também chamadas de ações instrumentais. São frequentes nas relações 
estabelecidas entre as pessoas no contexto do mercado de trabalho.
• Ações normativas: a intenção das ações normativas é atender às expectativas 
recíprocas por meio do ajuste de conduta aos valores e normas compartilhados 
na sociedade. Os objetivos individuais podem ser neutralizados pelos deveres 
sociais e padrões de gosto, que são legitimados na forma de um código 
normativo compartilhado. Para ser considerada racional, esse tipo de ação 
deve se conformar com os padrões de comportamento aceitos pela sociedade e 
defender os interesses gerais das pessoas afetadas. Essas ações apresentam-se 
em situações nas quais as normas sociais precisam ser evocadas para a solução 
de conflitos, como em uma disputa judicial, por exemplo.
• Ações dramatúrgicas: são revestidas pela personalidade do agente, estratégicas 
no sentido de obter uma resposta determinada de certa audiência. Essas ações 
são baseadas na sinceridade dos agentes, envolvidas por seu caráter verdadeiro. 
São racionais se forem sinceras e se não permitirem que um dos agentes seja 
enganado. Essas ações pressupõem um consenso entre as pessoas envolvidas, 
quando se estabelecem acordos nas relações sociais.
• Ações comunicativas: ocorrem quando duas pessoas pretendem chegar a um 
acordo voluntário, coordenandoesforços para uma cooperação mútua. Nas 
outras ações não é necessário que os agentes desejem necessariamente chegar 
livremente a um acordo, porém na ação comunicativa utiliza-se a linguagem 
para obter um acordo em torno de temas problemáticos, por isso não é uma 
ação estratégica. Esse tipo de ação é frequente nas relações familiares, em que 
todos buscam o bem comum para uma convivência harmônica.
A partir dessa classificação, Habermas analisa as ações sociais, que estão 
relacionadas com sua maneira de apresentar a razão humana, o que veremos no 
próximo tópico.
Os estudos sobre a teoria da ação de Habermas estão publicados em: 
HABERMAS, J. Teoria do agir comunicativo. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
DICAS
98
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• A Teoria Crítica busca dar conta das estruturas presentes no trabalho humano, 
baseando-se na experiência e defendendo a ideia de uma organização social 
conforme a razão e os interesses da coletividade. Ela visa a uma transformação 
global da sociedade, para tanto, tenta fortalecer as lutas às quais está ligada.
• Poucas vezes se viu na história da sociologia uma proposta científica como 
meio de análise e que propusesse uma identificação de problemas da ordem 
social mobilizando a esfera política e pública para sua resolução, tal como 
ocorre na Teoria Crítica.
• A subordinação da consciência à racionalidade capitalista e o processo de 
transformação da cultura em mercadoria é que compõem a indústria cultural.
• Sempre que um produto cultural passa a ter uma fórmula popular, associada 
ao êxito de consumo, a indústria promove e repete sempre o mesmo padrão. 
Cria-se também a ideia de dependência do produto, com isso origina-se o 
comportamento consumista.
• Habermas indica que o que nos distingue da natureza é a racionalidade, 
e também o que nos distingue da natureza é a linguagem, portanto, nossa 
racionalidade se manifesta por meio do uso da linguagem.
• O aspecto da linguagem que importa para o pensamento habermasiano é a 
utilização das sentenças com intenção comunicativa, que se tornam uma ação 
social – que pode ser classificada em teleológica, normativa, dramatúrgica e 
comunicativa.
99
AUTOATIVIDADE
1 O texto fundamentador da Teoria Crítica foi publicado em 1937, e seu título 
era Teoria Tradicional e Teoria Crítica, de autoria de Horkheimer e Adorno. 
Sobre a Teoria Crítica, analise as seguintes sentenças:
I- Ela propõe uma transformação global da sociedade e, para que isso 
aconteça, busca fortalecer lutas às quais está ligada.
II- Ela defende que a sociologia deve seguir os preceitos positivistas e, por 
isso, não intervir nas realidades que estuda.
III- Ela reconhece como parte de sua função, além de analisar a realidade, ser 
base para a modificação da história.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente a afirmativa II está correta.
c) ( ) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
d) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. 
2 Descreva os principais aspectos dos seguintes conceitos, de acordo com as 
perspectivas apresentadas pela Sociologia Alemã:
a) Indústria Cultural:
b) Ação Social:
100
101
TÓPICO 3
OS DESDOBRAMENTOS DOS 
ESTUDOS DA ESCOLA DE 
FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Para o estudo do último tópico deste livro didático, temos a seleção de 
alguns temas de pesquisa que foram importantes para a consolidação da Escola 
de Frankfurt como uma escola de pensamento sociológico, cujos materiais são 
revisitados com frequência e utilizados por autores contemporâneos das mais 
diversas áreas. É comum que as obras da Sociologia Alemã estejam presentes em 
análises das áreas de Comunicação, Economia, Artes, Filosofia, entre outras.
Assim, este tópico está estruturado de maneira que iniciamos pelos 
estudos sobre a racionalidade. A racionalidade esteve bastante presente 
especialmente na segunda geração da escola, com Habermas. Ele desenvolveu os 
conceitos de razão instrumental e razão comunicativa, representativas do Mundo 
Sistêmico e Mundo da Vida. Dessa forma, ele busca explicar a modernidade, 
conforme estudaremos.
Após, vamos aos estudos sobre a arte, a estética e conheceremos o 
autor Marcuse. E, para fechar, os estudos sobre autoridade desenvolvidos 
na Escola também serão apresentados. Também são temáticas revisitadas na 
contemporaneidade por profissionais da sociologia, tamanha a influência que 
exerceram no campo.
Dessa maneira, encerramos nossos estudos iniciais sobre a Sociologia 
Alemã com alguns dos principais temas de análise dessa escola sociológica 
consolidada. Desejamos uma ótima leitura!
2 ESTUDOS SOBRE A RACIONALIDADE
O conjunto de estudos sobre a racionalidade humana, desenvolvidos 
principalmente por Habermas no contexto da Escola de Frankfurt, influencia até 
hoje grande parte dos trabalhos sociológicos que busca entender a humanidade 
em suas relações.
102
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
Habermas segue o desenvolvimento da ideia de ação comunicativa 
articulando dois outros conceitos importantes para as análises sociológicas: 
razão instrumental e razão comunicativa. Eles estão associados por meio de 
uma teoria da modernidade, que explica as relações entre o mundo sistêmico 
e o mundo da vida. Em cada um deles predomina uma forma de razão, como 
veremos neste subtópico.
A questão da razão comunicativa enquanto elemento de compreensão 
da sociedade está ligada diretamente às teorias sobre a argumentação. Para 
Habermas, a razão prática tem função de fornecer argumentos para apoiar as 
crenças subjacentes às decisões de agir. Assim, para que a ação seja racional, o 
agente precisa ter uma crença que pode ser justificada racionalmente. 
Ao agirem individualmente, os sujeitos são racionais quando resolvem 
suas necessidades pessoais, porém quando estão na esfera societária são racionais 
somente se resolvem os conflitos por meio da argumentação. Nesse processo, os 
agentes só deixam ser persuadidos para o acordo por meio da força do melhor 
argumento (INGRAM, 1993). Novamente, vemos aí as teorias da linguagem nos 
estudos habermasianos.
O entendimento, objetivo maior da ação comunicativa, só pode ser 
alcançado desde que os participantes do processo reconheçam intersubjetivamente 
as pretensões de validade lançadas pelo sujeito falante e agente. Essas pretensões 
de validade são avaliadas e, assim, compreendidas e submetidas à crítica, no que 
tornam-se expressões racionais. 
Quando realizam um proferimento, uma fala, os agentes supõem que 
existem padrões comuns, por meio dos quais decidem se pode haver um consenso 
entre eles. Para chegar a um entendimento, os agentes passam por quatro etapas: 
• o intérprete deve conhecer as condições nas quais o proferimento é válido, ou 
seja, reconhecer as condições dessa pretensão de validade; 
• esse conhecimento leva o intérprete a saber quando a ação dos participantes 
está coordenada, de forma a construir um consenso, e quando se desintegram 
devido à falta de consenso; 
• ele só pode compreender o sim ou não do agente conhecendo as razões 
implícitas que levaram os participantes a assumirem tais posições, em torno 
das quais os processos de entendimento revolvem; 
• o próprio intérprete precisa estar no processo de afirmar pretensões de validade, 
para que o falante defenda a validade de uma expressão (ARAGÃO, 1992).
A ação comunicativa distingue-se da ação instrumental porque uma 
ação que contenha eficácia é mediada pelo entendimento linguístico, ou seja, os 
agentes que estão interagindo pretendem que seus atos de fala tenham validade, 
assim, intersubjetivamente eles reconhecem pretensões de validez criticáveis. 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
103
A força que motiva esse entendimento parte de uma racionalidade que 
se manifesta nas condições de um consenso obtido comunicativamente, e não 
de uma racionalidade de tipo teleológica – que apenas apresentaum aspecto 
utilitarista no qual os agentes são utilizados para o alcance a determinados fins 
(ARAGÃO, 2002). 
Porém, o agir comunicativo só é possível porque o agente é inserido em 
um universo cultural por membros de um grupo que compartilha um conjunto de 
sentidos simbólicos e de normas sociais. Assim o indivíduo é inserido no "mundo 
da vida", conceito utilizado por Habermas e que se relaciona diretamente a sua 
teoria da ação comunicativa.
O mundo da vida possui duas dimensões: uma transcendental e 
uma empírica. A dimensão transcendental é a parte que permite a existência 
da possibilidade de entendimento, por ser o pano de fundo das práticas 
comunicativas – através do conjunto de sentidos predeterminados de que 
os agentes se utilizam para compreender, interpretar e agir sobre os mundos. 
Esses sentidos predeterminados são originários dos objetos simbólicos criados 
pelos seres falantes, e que um grupo toma por referência, criando assim uma 
tradição cultural compartilhada. Esse mundo intersubjetivo, enquanto sistema de 
referências, permite aos agentes o entendimento sobre algo no mundo, e constitui, 
portanto, o "mundo da vida" (ARAGÃO, 2002). 
O mundo da vida possui características que devem ser destacadas: I) 
caráter não problemático, pois é aceito sem questionamento pelo senso comum; 
II) existe um a priori social embutido na intersubjetividade do entendimento 
mútuo na linguagem, pois o mundo da vida é comum a todos; III) os limites do 
mundo da vida não podem ser transcendidos, apesar das situações mudarem 
constantemente (ARAGÃO, 1992).
Os sujeitos falantes e agentes criam o contexto social da vida, direta 
ou indiretamente, produzindo objetos simbólicos que corporificam 
estruturas de conhecimento pré-teórico: a) sob a forma de expressões 
imediatas: atos-de-fala, atividades dirigidas a metas e ações 
cooperativas; b) sob a forma de sedimentações dessas expressões 
imediatas: textos, tradições, documentos, obras de arte, objetos de 
cultura material, bens, técnicas, etc.; e finalmente, no nível de maior 
complexidade, c) sob a forma de configurações geradas indiretamente: 
as instituições, os sistemas sociais e as estruturas de personalidade. Esse 
conjunto de objetos forma uma realidade estruturada simbolicamente, 
anteriormente a qualquer abordagem teórica desse mesmo domínio 
de objetos. A esta realidade pré-estruturada simbolicamente, a 
esse conjunto de sentidos gramaticalmente pré-determinado, 
Habermas denomina "mundo-da-vida" [...] Esse "mundo-da-vida" 
intersubjetivamente partilhado forma o pano-de-fundo para a ação 
comunicativa, ou seja, ele forma, a partir da junção dos três mundo, um 
sistema de referência que é pressuposto nos processos comunicativos, 
pois define aquilo sobre o que possivelmente pode haver qualquer 
entendimento (ARAGÃO, 1992, p. 44).
104
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
Habermas distingue o mundo da vida do mundo sistêmico, em que 
especifica formalmente a distinção entre as esferas da reprodução social – material 
e simbólica – e as funções de integração da sociedade – sistema e social, além das 
duas interações com essas esferas – ação instrumental e ação comunicativa. 
O sistema limita as decisões do sujeito através de mecanismos de mercado 
ou burocráticos, relacionados à sobrevivência política e econômica do indivíduo. 
O mundo da vida contribui para o indivíduo realizar ações em torno de valores 
compartilhados e manter sua identidade social. 
Exemplificando, as famílias e as esferas de acesso público (cultural, social 
e político) pertencem ao mundo da vida, enquanto o mundo sistêmico manifesta-
se nas empresas e órgãos do Estado. No entanto, não se pode dissociar as funções 
reprodutivas materiais da família ou as funções reprodutivas simbólicas da 
comunidade empresarial – há uma sobreposição de funções, que Habermas 
reconhece como válida (INGRAM, 1993).
Podemos sintetizar as diferenças da seguinte forma:
QUADRO 1 – QUADRO COMPARATIVO MUNDO DA VIDA X MUNDO SISTÊMICO
FONTE: A autora
MUNDO DA VIDA MUNDO SISTÊMICO
Integração social Reprodução social
Família, Esferas Públicas Empresas, Estado
Razão comunicativa Razão instrumental
Ação comunicativa Ação estratégica (instrumental)
A racionalidade instrumental, para Habermas, é proveniente das esferas 
científicas e técnicas, que trazem em si uma essência de dominação por consistir na 
organização e na escolha adequadas de meios para atingir fins determinados. Assim, 
[...] na medida em que a racionalidade instrumental da ciência e da 
técnica penetra nas esferas institucionais da sociedade, transforma 
as próprias instituições, de tal modo que as questões referentes às 
decisões racionais baseadas em valores, ou seja, em necessidades 
sociais e interesses globais, que se situam no plano da interação, 
são afastadas do âmbito da reflexão e da discussão. A racionalidade 
instrumental, na trajetória de ampliação de seu campo de atuação, 
substituiu de forma crescente o espaço da interação comunicativa 
que havia anteriormente no âmbito das decisões práticas que diziam 
respeito à comunidade. Dessa forma, caem por terra as antigas formas 
ideológicas de legitimação das relações sociais de poder. Com esse tipo 
de racionalidade não se questiona se as normas institucionais vigentes 
são justas ou não, mas somente se são eficazes, isto é, se os meios são 
adequados aos fins propostos, ficando a questão dos valores éticos e 
políticos submetida a interesses instrumentais e reduzida à discussão 
de problemas técnicos (GONÇALVES, 1999, p. 130).
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
105
Para Habermas, ocorre a colonização do mundo da vida pelo mundo 
sistêmico, em que a racionalidade instrumental passa a querer operar nas esferas 
do mundo da vida. O pensamento administrativo, econômico – em busca de 
dinheiro e poder, por exemplo –, passa a estar presente também nas relações 
familiares, de amizade e demais relações mais íntimas entre as pessoas.
Com esse processo, Habermas defende que se produzem três ilusões: que 
a linguagem é um meio de conhecimento verídico e transparente; que a interação 
comunicativa se caracteriza pela pura reciprocidade; e que os indivíduos são 
plenamente conscientes dos seus motivos, que funcionam como pressupostos 
contrafactuais subjacentes à ação comunicativa (INGRAM, 1993). 
A complexidade do mundo sistêmico, para ele, amplia-se de acordo com 
a complexidade das estruturas institucionais de uma determinada sociedade. 
A estratificação de classes organizadas em torno do Estado – a distribuição 
de funções políticas – produz a separação entre o mundo da vida e o mundo 
sistêmico. O que completa essa separação é a lei formal, em que o mercado, por 
exemplo, eleva-se e torna-se um sistema autorregulado que distribui mercadorias 
de acordo com as leis da oferta e da demanda (INGRAM, 1993). 
Com a sociedade de classes, o sistema torna-se cada vez mais independente 
do mundo da vida, pois para que houvesse um mundo vivo racionalizado seria 
pré-condição haver integração social. 
Para finalizar, o quadro a seguir sintetiza as principais características do 
agir comunicativo e agir instrumental, permitindo sua comparação:
QUADRO 2 – QUADRO COMPARATIVO AGIR COMUNICATIVO X AGIR INSTRUMENTAL
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
Agir comunicativo Agir instrumental
Agir: falar ou atuar com o outro. Agir: atuar apenas sobre o outro.
Ações orientadas para o (pelo) entendimento 
mútuo
Ações orientadas para o sucesso
Perspectiva de 1a pessoa ou do agente Perspectiva de 3a pessoa ou do observador
Razão comunicativa
Agir comunicativo – entendimento mútuo
Razão instrumental
Agis estratégico
Interação social reside na própria linguagem Interação social reside na própria influência de 
um sujeito sobre outro
Consenso Adequação de meios e fins
Se você deseja ampliar seu conhecimento neste tema, segue a indicação de 
um compilado de obras do autor Habermas.
106UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
A editora Edições 70 possui publicada uma coleção de alguns textos de 
Habermas, intitulada Obras Escolhidas de Jürgen Habermas. As obras trazem: 
Volume I – Fundamentação Teórico-Linguística da Sociologia. 
Volume II – Teoria da Racionalidade e Teoria da Linguagem.
Volume III – Ética do Discurso.
 Volume IV – Teoria Política.
DICAS
3 ESTUDOS SOBRE A ARTE
Um dos temas que permeou as análises da Escola de Frankfurt com relativa 
frequência foi a temática artística. Para os autores, a arte é a maneira do sujeito se 
desconectar das estruturas que o condicionam – ela permite uma experiência de 
liberdade e, por isso, deve ser objeto de análise nas pesquisas sociais. Além disso, 
tornou-se mercadoria diante da amplitude da indústria cultural. 
A temática artística sempre esteve pouco presente na Sociologia e os 
estudos da Escola de Frankfurt lançam sobre ela um olhar sociológico de grande 
valia, que impactam a análise desse campo. Os trabalhos de pesquisa social que 
consideram algum aspecto das artes utilizam com frequência os fundamentos 
lançados pelos frankfurtianos.
Alguns dos teóricos frankfurtianos analisaram a arte, inclusive do ponto 
de vista das relações arte, cultura erudita, cultura de massas, entre outros, e um 
deles foi Herbert Marcuse. Antes de conhecer seu ponto de vista, vamos apreender 
a história de vida de Marcuse, a partir da exposição de Matos (1993).
FIGURA 7 – HERBERT MARCUSE
FONTE: . Acesso em: 14 ago. 2019.
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
107
Hebert Marcuse nasceu em Berlim, Alemanha, também em uma família 
de judeus assimilados, como boa parte de seus colegas da Escola de Frankfrut. 
Participou do Partido Social-Democrata Alemão entre 1917 e 1918, integrando um 
Conselho de Soldados.
Marcuse conheceu a Filosofia em Berlim e Freiburg, com Husserl e 
Heidegger, foi onde se doutorou com a tese Romance de artista (Kunstlerroman). 
Após, trabalhou em editoras em Berlim, e quando voltou a Freiburg estudou sob 
a orientação de Heidegger uma tese que foi publicada em Heidelberg como A 
ontologia de Hegel e a função da historicidade.
Após essa publicação, Marcuse entrou em contato com o Instituto de 
Pesquisas Sociais, conhecendo Horkheimer. “Participou da revista A Sociedade 
(Die Gesselschaft), de Hilferding, e dos Cadernos Filosóficos (Philosophische Hefte), 
de Maximilien Beck, assim como da Revista do Instituto para a Pesquisa Social” 
(MATOS, 1993, p. 77).
Marcuse foi exilado, a partir de 1933, primeiro em Genebra e depois em Paris, 
assumindo com Horkheimer e Adorno a direção da Revista para a Pesquisa Social. 
Em 1934, foi para os Estados Unidos e lecionou na Universidade de Columbia e na 
Universidade de San Diego. Contribuiu com a obra Autoridade e Família, publicada 
em 1936, e depois distanciou-se do instituto. Ao término da guerra, Horkheimer 
retornou à Alemanha e Marcuse optou por permanecer nos Estados Unidos até 
1950 – trabalhando no Departamento de Estado. A partir disso:
Retornou à Universidade de Columbia como professor convidado do 
Departamento de Sociologia e do Instituto Russo. Sua colaboração 
no Centro de Pesquisa Russo de Harvard, Massachusetts (1952-
1954), resultou na publicação da obra O marxismo soviético (1958). 
Em 1954 tornou-se professor de política e filosofia na Universidade 
de Boston, onde permaneceu até 1965, participando do programa de 
estudos sobre a obra História das ideias, de Brandeis. Durante esse 
período foram publicados Eros e a civilização (1955) e A ideologia na 
sociedade industrial (Onde Dimensional Man) (1964), obras que lhe 
valeram a celebridade.
Trocando Massachusetts pela Califórnia, lecionou na Universidade de 
San Diego e começou a se caracterizar como uma das referências mais 
importantes da Nova Esquerda americana (MATOS, 1993, p. 78).
Marcuse foi bastante ativo em movimentos, participando dos movimentos 
estudantis de 1968, no movimento Black Power, em debates da Universidade Livre 
de Berlim em 1967, Colóquio da Unesco em 1968, entre outros. Tornou-se uma 
celebridade mesmo após seu afastamento da Escola de Frankfurt. Faleceu em 1978, 
na Alemanha, onde estava viajando a trabalho, como um cidadão americano. 
Marcuse revisita a obra de Marx para desenvolver suas análises. Um 
conceito forte que ele reinterpreta é o conceito de trabalho – que constitui o ser 
humano e no capitalismo leva à alienação. Ele busca entender a relação entre a arte e 
o trabalho. Mas também embarca nas obras de Freud, buscando a relação trabalho, 
subjetividade a arte na sociedade industrial (CHAVES; RODRIGUES, 2014).
108
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
Embora Marcuse (1955/1969) reconheça a cisão entre arte e trabalho 
como um dado histórico, ele adverte que a contraposição não pode 
ser hipostasiada, pois é resultado de uma cultura que supervaloriza a 
arte, como expressão estética diferenciada, e, por isso perde a tensão 
com a possibilidade de essa manifestação da cultura reverter-se em 
uma mercadoria da indústria cultural. Esse movimento encobre 
aspectos importantes da realidade como o fato das obras de arte 
serem sucumbidas aos valores e às normas da sociedade capitalista 
(CHAVES; RODRIGUES, 2014, p. 13).
Para Marcuse, a beleza das obras de arte não pode ser relacionada 
a contextos históricos específicos, pois se fosse dessa maneira cairíamos no 
relativismo. Assim, ele sugere pensar certas qualidades da arte ao longo de 
todas as mudanças de estilo e períodos históricos, que seriam, conforme Chaves 
e Rodrigues (2014), caráter político da arte, o fato dela ser revolucionária, a 
universalidade, a alteridade, a transcendência, a forma estética, o belo e a 
possibilidade de instigar a sensibilidade.
Aliado a isso, ele traz o debate sobre a unidimensionalidade da sociedade, 
ou seja, uma sociedade que constitui indivíduos para a adaptação, uma sociedade 
totalitária mais consolidada do que todas as instituições – que conduz os indivíduos 
à passividade. “A sociedade unidimensional aparece como uma totalidade que 
atinge a todos, sem exceção. Essa percepção é fruto da relação de troca e da abstração 
objetiva a que a vida social obedece” (CHAVES; RODRIGUES, 2014, p. 14).
Para Marcuse, a arte não precisa configurar os interesses de uma classe 
e sua verdade não se localiza nas relações de produção existentes, como afirma 
Marx, mas a arte é política porque na sua forma estética rompe com a consciência 
dominante e revoluciona a experiência. 
Para Marcuse, o potencial político da arte não está associado a quem 
escreveu ou para quem a obra é destinada. Se ela foi escrita para ou 
pela classe trabalhadora ou para a revolução, esta não é a questão 
principal. O potencial político da arte é qualidade de sua forma 
estética: “Se alguma arte existe para qualquer consciência coletiva, é 
a dos indivíduos unidos na sua consciência da necessidade universal 
de libertação – qualquer que seja a sua posição de classe” (CHAVES; 
RODRIGUES, 2014, p. 14).
Marcuse afirmava que a arte poderia ser engajada, e aos que entendiam 
que a realidade da época só poderia ser modificada por meio de radicalismo 
político – e que a arte apenas era romântica e elitista – ele dizia que a arte era 
parte do processo revolucionário.
A arte pode ser revolucionária em vários sentidos. Em sentido 
restrito, quando apresenta uma mudança radical no estilo e na técnica 
(vanguarda), “antecipando ou refletindo mudanças substanciais na 
sociedade”, como aconteceu com o expressionismo e o surrealismo, 
que “anteciparam a destrutividade do capitalismo monopolista”. Mas 
também a arte pode ser revolucionária em sua configuração estética, 
quando apresenta ausência de liberdade do existente e indica as forças 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
109
que se rebelam contra isso; quando rompe com a realidade reificada 
e aponta horizontesde transformação; quando subverte as formas de 
percepção e compreensão e deixa transparecer um teor de verdade, de 
protesto e de promessa na linguagem e na imagem. Dentre os exemplos 
dessa estética revolucionária, o autor menciona a obra As afinidades 
eletivas, de Goethe, que apresenta a denúncia da realidade existente 
e deixa aparecer a imagem da libertação, e as narrativas de Beckett e 
de Kafka, que dão forma ao conteúdo, o qual aparece transformado, 
alienado e mediatizado (CHAVES; RODRIGUES, 2014, p. 15).
Marcuse também analisa as relações entre indivíduo e sociedade a partir 
da arte, buscando entender o modelo de análise do materialismo histórico-
dialético e seus efeitos nessa relação.
Para o autor, a polarização do materialismo vulgar levou à preferência 
intransigente do realismo como modelo de arte progressista e ao 
descrédito do romantismo, considerado reacionário. Ele pondera que 
ir à interioridade da subjetividade também pode fazer que o indivíduo 
emerja do emaranhado das relações de troca da sociedade burguesa. 
A subjetividade se constitui na história e na objetividade, mas ela não 
é idêntica a existência social. “Sem dúvida, as manifestações concretas 
da história são determinantes pela sua situação de classe, mas essa 
situação não é a causa do seu destino” (p. 18). Assim, se a subjetividade 
é refletida ela pode analisar a própria particularidade histórica que a 
constituiu (CHAVES; RODRIGUES, 2014, p. 15).
Existem ainda alguns itens que Marcuse analisa quando estuda a arte: 
sua universalidade – ela articula a humanidade em todas as pessoas que podem 
ser livres, portanto, não pode ser associada a uma classe em particular; os 
personagens representam tendências do desenvolvimento da sociedade como um 
todo – não apenas de uma classe específica; a existência na arte de uma alteridade 
ligada à autonomia, pela possibilidade de comunicar verdades que não podem 
ser comunicadas por outras linguagens, entre outros.
A arte está ligada a uma percepção do mundo que aliena os indivíduos 
de sua existência funcional e da realização de seu desempenho 
funcional – a arte está voltada para a emancipação da sensibilidade, da 
imaginação e da razão em todas as áreas de subjetividade e objetividade. 
Mas esse sucesso supõe um grau de autonomia que arranca a arte da 
potência de mistificação do dado e a libera, permitindo-lhe exprimir a 
verdade que lhe é própria. Na medida em que o homem e a natureza 
são constituídos por uma sociedade não-livre, seu potencial reprimido 
e deformado só pode ser representado sob a forma que distancia e 
destaca. O mundo da arte é o de um princípio de realidade diferente, 
o da alteridade; e é por sua alteridade que a arte preenche uma função 
cognitiva: comunica verdades que não são comunicáveis em nenhuma 
outra linguagem, ela contradiz (MATOS, 1993, p. 110).
Você pode estudar mais sobre os estudos de Marcuse acerca da arte e 
estética a partir do artigo sugerido a seguir.
110
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
Sobre a arte nas análises de Marcuse, acesse: http://www.redalyc.org/articulo.
oa?id=309330671003. A referência é: 
CHAVES, J. C.; RODRIGUES, D. R. Arte em Herbert Marcuse: formação e resistência à 
sociedade unidimensional. Revista Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 26, n. 1, p. 
12-21, 2014.
DICAS
Investigue também sobre outras obras de Marcuse, além de desenvolver 
escritos em parceria com outros autores da Escola de Frankfurt, ele possui uma 
boa quantidade de artigos e livros publicados sobre outros temas da sociologia. 
4 OUTROS ESTUDOS
A sociologia crítica passou por dificuldades de aplicação empírica em seus 
primeiros estudos, enquanto ajustava seus fundamentos epistemológicos para 
que as pesquisas baseadas em suas teorias atingissem o rigor científico necessário 
para sua legitimação como metodologia das ciências sociais. Isso ocorreu, em 
parte, em função da linha positivista dominante na ciência da época, que colocava 
a Teoria Crítica à prova diante de investigações empíricas.
Nesse sentido, os estudos cruciais para essa consolidação da Teoria Crítica 
como método se deram em torno da temática da autoridade. As dimensões da 
autoridade constituem-se, assim, um objeto sociológico importante no contexto 
da época, pelas quais perpassam os estudos contemporâneos sobre esse tema – 
pois a Teoria Crítica deixou sua marca nas análises sobre o tema.
Foi após o exílio europeu e americano, conforme você estudou nas 
dimensões históricas apresentadas no primeiro tópico, que surgem os estudos 
sobre autoridade na Escola de Frankfurt. O Instituto sofria a pressão da crise 
social que seus integrantes buscavam diagnosticar, ou seja, a própria história 
trazia novamente à tona o problema da legitimação da dominação – um dos itens 
de estudo dos frankfurtianos.
Os estudos sobre a autoridade partiram da ideia de que este era um 
fenômeno de limites incertos, e que se todas as relações humanas fossem 
colocadas sob o signo da autoridade seria um conceito vazio, momentos isolados 
na história que representavam a vida social. Para evitar esse esvaziamento era 
preciso que a autoridade fosse colocada em relação a outros conceitos da teoria, 
desenvolvendo assim uma estrutura teórica (ASSOUN, 1991). Vejamos essa 
explicação com mais detalhes:
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
111
Estamos perante a advertência de que este estudo da autoridade não 
diz respeito a um fenômeno isolado, mas que é no fundo o processo 
de totalização social agarrado através do artifício que a autoridade 
serve precisamente para nomear. O conceito de autoridade não é 
necessariamente homogêneo: enquanto conceito geral, contém elementos 
de significação antitéticos que o conceito adquiriu ao longo das mudanças 
históricas. Resta saber por que é que este fenômeno se confirma 
privilegiado para cristalizar a teoria social (ASSOUN, 1991, p. 47).
A definição apresentada para autoridade é: “a aptidão, consciente ou 
inconsciente, para se integrar ou para se submeter, a faculdade de aprovar a 
situação presente como tal, em pensamento ou em ação, de viver na dependência 
de ordens impostas e de vontades estranhas” (ASSOUN, 1991, p. 47).
Enquanto função social, a autoridade pode ser explicada como uma 
relação em que está presente a submissão a uma autoridade, o indivíduo se 
integra com o todo social dependendo de imposições. A Teoria Crítica, portanto, 
olha para esse fenômeno para entender como ocorre a socialização do indivíduo 
nessa totalidade cultural, e que gera essa adesão a uma autoridade.
O problema crítico, em resumo, era a legitimidade da dominação. O 
momento histórico denotava ainda mais força a essa problemática, pois várias 
“autoridades” totalitárias emergiam, regimes como o nazismo e o fascismo 
– baseados na autoridade de um indivíduo – detinham força e com facilidade 
angariavam novas pessoas a eles submetidas.
Nos estudos sobre autoridade é possível verificar como o trabalho na 
Escola de Frankfurt era coletivo. A fundamentação teórica foi elaborada por 
Horkheimer, Fromm e Marcuse (filosofia, psicologia social e política da história 
intelectual). Criou-se a partir disso uma tipologia, “autoritário – revolucionário 
– ambivalente”, e um questionário. Após, gerou-se conhecimento a partir da 
publicação de diferentes monografias sobre o tema (TOMÁS, 2009).
A partir disso, definem-se três conclusões, sob o ponto de vista dos três 
autores citados há pouco (TOMÁS, 2009, p. 105):
- Horkheimer: para ele, o sujeito é determinado pelas relações de 
dominação que caracterizam a sociedade de uma certa época. A 
obediência e a submissão sempre tiveram um lugar central na 
educação da criança. A educação autoritária faz parte da socialização. 
Segundo o sociólogo: “Os indivíduos não emitem um juízo pessoal a 
cada instante. Pelo contrário, submetem-se em geral a um pensamento 
superior, para cujo nascimento puderam aliás contribuir.” 
- Fromm: o autor quer compreender o comportamento motivadopelo inconsciente baseado na relação entre o efeito da infraestrutura 
socioeconômica com as pulsões psíquicas fundamentais. A 
importância do Pai como figura de autoridade põe em evidência 
uma ética repressiva. O psicanalista explica como o indivíduo 
absorve esta posição de dominação conduzindo à vontade de evasão 
em direção às autoridades coletivas. A autoridade individual (na 
educação parental), ao tornar-se coletiva, transforma-se numa 
negação da autonomia. 
112
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
- Marcuse: conclui, que para que exista uma democracia (que ele 
e Horkheimer veem como a polis grega sem a escravatura), a 
sociedade tem de ser racionalmente organizada. Existe por isso um 
tipo de autoridade legítima: a autoridade da razão. No entanto, a 
autoridade política que domina o homem moderno parece cada vez 
mais irracional.
O corpo teórico consolidado e o corpo empírico um tanto fragmentado 
caracterizam essa pesquisa, e Assoun (1991) reconhece nela a primeira súmula da 
sociologia crítica. Essa pesquisa foi o símbolo da Teoria Crítica atuando em parceria 
com a sociologia, em um objeto sociológico bastante amplo e que, por isso, seria alvo 
de críticas da sociologia positivista. No entanto, essa parceria permitiu o surgimento 
de uma sociologia crítica. Tomás analisa essas pesquisas do seguinte modo:
Estes primeiros trabalhos são relativamente primitivos do ponto de 
vista metodológico. No entanto, do ponto de vista das interrogações os 
inquéritos são inventivos. Mais importante, estes trabalhos servirão de 
inspiração para os trabalhos críticos posteriores. Depois da eliminação 
da esperança revolucionária, Horkheimer e Adorno assumem uma 
posição verdadeiramente pessimista, a qual toma a forma de uma 
concepção desiludida da história insistindo sobre o preço que a 
humanidade tem de pagar em nome do progresso. A teoria crítica é 
inseparável da crise de identidade do indivíduo e dos valores culturais 
que provêm do liberalismo (TOMÁS, 2009, p. 49).
Conforme avançam os anos, especialmente no período “americano” 
do Instituto, algumas contradições começam a aparecer. A Teoria Crítica 
necessitava de espaço para atuar com sua crítica, e não ficar amarrada aos 
métodos empiristas defendidos pela sociologia positivista. No entanto, como 
você estudou na Unidade 1 deste livro, a sociologia norte-americana possuía 
forte caráter empirista e pragmático.
Essa situação gerou uma adaptação por parte da Teoria Crítica, se antes ela era 
defendida com total autonomia (mesmo em terras norte-americanas as publicações 
saíam em alemão), a partir de então surgem trabalhos mistos nos quais essa teoria 
é mais uma inspiração do que uma metodologia. Mas foi a ocasião para cultivar a 
investigação empírica e fortalecer esse espaço nas análises da Teoria Crítica.
Acompanhando os estudos sobre a autoridade seguiram-se outros, tão 
importantes quanto, como o estudo sobre o antissemitismo realizado em 1943-
1945, que pode ocorrer a partir de doações do American Jewish Committee (Comitê 
Judeu Americano). A ideia da pesquisa era de 1939, mas ela só pôde ser executada 
a partir dessa contribuição financeira.
O objetivo do trabalho era determinar a presença de antissemitismo 
entre os operários americanos e conseguiu muitos dados, apresentados em uma 
relação de quatro volumes (totalizando 1300 páginas). Esse material foi entregue 
em 1944 ao Jewish Labor Committee (Comitê Judeu do Trabalho). Os dados foram 
obtidos em Nova Iorque, Detroit e Califórnia, com o apoio de grandes centrais 
sindicais (ASSOUN, 1991).
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
113
Estavam à frente da coleta de dados Gurland, Massing, Lowenthal, Pollock 
e Weil, portanto, os economistas da Escola de Frankfurt passavam a aparecer mais 
fortemente nas pesquisas – e a quantificação dos dados é colocada em ênfase, 
com a participação do Gabinete de Pesquisa Social aplicada de Paul Lazarsfeld, 
por intermédio de Herta Herzog. Assim, a linguagem apresentada pela Escola de 
Frankfurt é uma linguagem da sociologia quantitativa, algo raro até então.
Acompanhando esse trabalho havia um conjunto ainda maior, um 
programa de pesquisas sobre o preconceito, para o qual foi criado um departamento 
de investigação científica por Horkheimer a partir de uma conferência em Nova 
Iorque, em 1944. Resultou na obra Studies in Prejudice. Esse tema permitia o uso de 
todos os métodos da problemática crítica e permitiu uma inovação metodológica:
O aproximar da ideologia antissemita, em virtude do seu 
funcionamento inconsciente, requeria um método de aproximação 
indireta que foi resolvido de maneira original. Em vez de testar o 
antissemitismo com questionários diretos explícitos, quis-se agarrar 
ao vivo o comportamento ou habitus antissemitas. Para este fim, 270 
operários de fábrica desempenharam o papel de agentes do inquérito, 
tendo memorizado séries de questões que serviam de testemunho 
revelador quando de incidentes antissemitas. Foi assim que 566 
entrevistas puderam ser utilizadas com a credibilidade resultante da 
sua inserção na própria prática (ASSOUN, 1991, p. 49).
Esse foi o estímulo para uma pesquisa que deveria tratar de um campo 
ideológico mais vasto, desde as técnicas de agitação política, problemas do 
antissemitismo, estabelecimentos de ensino, até mesmo aos conjuntos ideológicos 
dos antigos combatentes. Esse material é o balanço do período americano do 
instituto e foi publicado em cinco volumes no ano de 1950, no seguinte formato, 
conforme Assoun (1991, p. 49):
1) Dynamics of Prejudice: A Psychological and Sociological Study 
of Veterans (Dinâmica do preconceito: um estudo psicológico e 
sociológico dos antigos combatentes), por Bruno Bettelheim e 
Morris Janowitz (1950).
2) Anti-Semitism and Emotional Disorder (Anti-semitismo e 
perturbações afetivas: uma interpretação psicanalítica), por Nathan 
W. Ackerman e Marie Jahoda (1950).
3) The Autoritarian Personality (A personalidade autoritária) por T. W. 
Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel J. Levinson e R. Nevitt Sanford.
4) Prophets of Deceit (Falsos profetas), por Leo Lowenthal e Norbert 
Guterman (1949).
5) Rehearsal for Destruction (Antevisão da destruição), por Paul 
Massing (1949).
É com essa relação de estudos que finalizamos esta unidade, lembrando o 
quanto é importante que você prossiga conhecendo de modo mais aprofundado 
as pesquisas realizadas na Escola de Frankfurt. Seu legado é amplo e, como 
você pôde perceber, além da interdisciplinaridade que ocorria nas abordagens 
dos fenômenos (economia, psicologia, sociologia, filosofia etc.), também foram 
114
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
inúmeros os autores vinculados a essa escola de pensamento. As marcas da Escola 
de Frankfurt são tão duradouras que a referência à sociologia alemã sempre 
perpassa esse conjunto teórico e metodológico.
Para encerrar, segue uma sugestão de artigo, que articula as contribuições 
da obra frankfurtiana com as análises da sociedade contemporânea – e um texto 
complementar que trata da crítica à Escola de Frankfurt, nada mais concreto para 
entendermos os desdobramentos da sociologia alemã para os dias atuais.
Para o texto mencionado sobre a análise da sociedade contemporânea a partir 
da Escola de Frankfurt, acesse o link: http://revistas.unisinos.br/index.php/ciencias_sociais/
article/download/csu.2015.51.2.01/4785. 
A referência é: LEISTNER, R. M. O debate da Escola de Frankfurt e suas contribuições para 
uma reflexão crítica da sociedade contemporânea. Revista Ciências Sociais Unisinos, São 
Leopoldo, v. 2, n. 51, p. 110-122, maio/ago. 2015. 
DICAS
Se você deseja aprender sobre as influências da Escola de Frankfurt no Brasil, 
inicie pelo artigo: CAMARGO, S. A Escola de Frankfurt e seus principais teóricos: os primeiros 
anos da “Escola de Frankfurt” no Brasil. Revista Lua Nova, São Paulo, n. 91, p. 105-133, 2014. 
Você também pode acessar o link: http://www.scielo.br/pdf/ln/n91/n91a05.pdf. 
DICAS
TÓPICO 3| OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
115
LEITURA COMPLEMENTAR
AS VOZES CRÍTICAS (IN: A ESCOLA DE FRANKFURT E SEU LEGADO)
As vozes insurgentes contra a Escola de Frankfurt não são poucas. A 
mais famosa delas talvez seja a de Umberto Eco. Em 1964 (posteriormente seria 
publicada uma edição revista em 1977), o intelectual italiano lançou “Apocalípticos 
e integrados”, sobre o qual falaremos a seguir. Quando, em 1969, Adorno afirma 
que “tiveram de se passar trinta anos para que a teoria crítica da indústria cultural 
se afirmasse; [e] ainda hoje numerosas instâncias e agências tentam sufocá-la, por 
prejudicar os negócios” (in Rüdiger, 1999, p. 7), não imaginava que mais de trinta 
anos depois de proferir essa constatação a teoria crítica da indústria cultural 
continuaria sendo posta em xeque. Rüdiger (1999, p. 7) vai além, afirmando que 
“a crítica à indústria da cultura parece ter sido jogada às traças pela maior parte 
dos praticantes dos estudos culturais e pesquisadores da comunicação”. Entre as 
diversas acusações, o anacronismo e a posição elitista de seus teóricos, a defesa da 
cultura erudita e a rejeição da cultura de massa são algumas das mais recorrentes.
Retornando a Umberto Eco, em seu já citado livro ele classifica os 
frankfurtianos como “apocalípticos”, adjetivo usado largamente na crítica à Escola 
de Frankfurt (os integrados do título seriam os funcionalistas). Segundo o autor, 
os apocalípticos seriam responsáveis por esboçar teorias sobre a decadência, 
enquanto aos integrados, pela falta de teorização, só lhes restaria produzir e afirma: 
“O Apocalipse é uma obsessão do dissenter, a integração é a realidade concreta dos 
que não dissentem [grifo do autor]” (Eco, 1979, p. 9). Para o teórico, caberia aos 
apocalípticos o papel de consolar o leitor, já que, em meio à catástrofe, se elevariam 
os “super-homens”, ou seja, aqueles acima da média, que olhariam para o mundo 
com desconfiança. Para Eco (1979), essa atitude seria um convite à passividade.
Os apocalípticos seriam responsáveis também por difundir conceitos-fetiche, 
como o da indústria cultural, por exemplo. Segundo o autor, o conceito-fetiche tem a 
capacidade de bloquear o discurso e mostra uma recusa em aceitar a própria história 
e a perspectiva de que a humanidade saiba se colocar frente a ela. Segundo Eco, pode-
se afirmar que a indústria cultural remonta ao invento de Gutenberg e à utilização 
dos tipos móveis para imprimir as primeiras cópias dos livros.
O autor classifica as formulações da Escola como “pseudomarxistas” e 
critica a posição dos frankfurtianos de não procederem a um estudo concreto 
dos produtos, assim como de seu consumo, e de trabalharem com conceitos 
difusos e imprecisos de cultura de massa, sobre o qual não se sabe exatamente 
o que significa cultura e o que se chama indistintamente de massa, fazendo-se 
preciso reelaborar essa noção do homem de cultura, perdido em meio à crítica 
apocalíptica à indústria cultural.
116
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
Em meio à discussão sobre os apocalípticos, Eco levanta a contradição da 
cultura de massas, uma vez que a comunicação massiva propõe às massas um 
consumo de modelos culturais da burguesia, pondo em xeque tanto a mensagem 
massificante como o homem massa. Dessa maneira, como a própria cultura de 
massa, afirma o autor, as generalizações contradiriam as premissas.
Assim como Rüdiger (1999) apontou anteriormente quais eram as 
principais críticas à Escola de Frankfurt, Eco (1979, p. 44) arrola a seguir algumas 
proposições sobre a “verdadeira” cultura de massa:
• a cultura de massa não nasce necessariamente de um regime capitalista, mas de 
um regime industrial; entre seus defeitos constam “o conservatismo estético, 
o nivelamento do gosto pela média, a recusa das propostas estilísticas que não 
correspondem ao que o público já espera”;
• a cultura de massa preencheu uma lacuna junto àqueles que não tinham acesso 
aos bens culturais;
• o acúmulo de informação trazido pelos mass media pode sim gerar um ganho 
qualitativo;
• as formas de entretenimento ditas “menores” (como histórias em quadrinhos 
eróticas, lutas etc.) não deveriam ser considerados como uma forma de 
decadência de costumes;
• uma homogeneização do gosto serviria para “unificar as sensibilidades nacionais”;
• a difusão de obras integrais a preços baixos e em grandes tiragens é uma ação 
válida para a cultura; 
• a repetição à exaustão de certos bens culturais afeta a recepção dos mesmos, 
tornando-se, de tão batidos, quase que slogans;
• os mass media têm um poder de mobilização das massas frente ao mundo, 
provocando certas subversões culturais;
• por fim, os mass media não são em si conservadores, já que introduzem uma 
renovação estilística.
Para Eco, acima de tudo, os fenômenos culturais de massa são fruto de um 
contexto industrial, sofrendo as consequências dessa condição. Para o autor, o erro 
dos apocalípticos reside em “pensar que a cultura de massa seja radicalmente má, 
justamente por ser um fato industrial, e que hoje se possa ministrar uma cultura 
subtraída ao condicionamento industrial” (Eco, 1979, p. 49).
O problema estaria em pensar na cultura de massa como algo 
essencialmente bom ou mau. Para Eco, o verdadeiro problema reside em aceitar 
que se vive em uma sociedade industrial na qual os meios de massa são uma 
realidade. A partir de tal premissa, o teórico questiona qual seria então o modo 
pelo qual os mass media poderiam servir para transmitir valores culturais.
Na perspectiva de Jesús Martín-Barbero (2003), não se pode dissociar a 
Escola de Frankfurt da experiência nazista, uma experiência radical, que por sua 
vez estaria na base da radicalidade do pensamento desses autores. O capitalismo 
mostraria, a partir do nazismo, seu caráter totalizante. Por essa razão, entende 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
117
Barbero (2003, p. 75), a impossibilidade de os frankfurtianos fazerem economia 
e sociologia sem fazer filosofia. “É o que significa a crítica e o lugar estratégico 
atribuído à cultura”, afirma. A partir do momento em que os processos de 
massificação passam a ser vistos como parte dos conflitos da sociedade, uma 
transformação se opera:
Em lugar de ir da análise empírica da massificação à de seu sentido na 
cultura, Adorno e Horkheimer partem da racionalidade desenvolvida pelo 
sistema – tal e como pode ser analisada no processo de industrialização-
mercantilização da existência social – para chegar ao estudo da massa 
como efeito dos processos de legitimação e lugar de manifestação da 
cultura em que a lógica da mercadoria se realiza (BARBERO, 2003, p. 75).
Para o autor, a Escola de Frankfurt é responsável por dois grandes feitos: levar 
a problemática cultural para o campo da filosofia, bem como transformá-lo num ponto 
de partida para os teóricos de esquerda refletirem sobre as contradições sociais.
Barbero aproxima a Escola de Frankfurt da reflexão crítica latino-
americana para encetar um debate com ela e mostrar as diferenças de realidade 
sociocultural. Para o autor, Benjamin – como voz dissidente da Escola de Frankfurt 
– foi também a voz mais lúcida, principalmente por mostrar “algumas chaves 
para pensar o não pensado: o popular na cultura não como sua negação, mas 
como experiência e produção” (BARBERO, 2003, p. 76).
O autor acredita que a conceituação da indústria cultural é resultado de 
uma cuidadosa reflexão, e não de definições rápidas e rasteiras. Comenta, ainda 
que uma das maiores contribuições da obra de Horkheimer e Adorno é a noção 
de “unidade do sistema”, afirmação essa polêmica, principalmente pela ideia 
generalizante que carrega, assim como afirmava Eco (1979), e pelo que Barbero 
(2003) chama de “pessimismo cultural”.
Adorno, segundo Barbero (2003, p. 80), se coloca numa posição tal que 
muitas vezes o leitor não sabe de que lado o crítico se encontra. “Que sentido tem 
tudo o que foi afirmado sobre a lógicada mercadoria, que sentido tem criticar a 
indústria cultural se ‘o que parece decadência da cultura é seu puro chegar a si 
mesma’?” (Adorno in BARBERO, 2003, p. 80). Segundo o autor, Adorno, ao fazer 
da arte o único caminho para a verdade, omite a pluralidade das experiências 
estéticas e, ao se colocar num lugar mais elevado, parece se distanciar do estudo 
das contradições das massas.
O autor ressalta que Benjamin “não investiga a partir de um lugar fixo, 
pois toma a realidade como algo descontínuo” (BARBERO, 2003, p. 84). Ao se 
afastar desse centro, Benjamin percebe que o caminho está em pensar a experiência 
[grifo do autor] e para isso traça uma análise da modernidade a partir daquilo 
que vê acontecer no mundo, seja nas artes ou na rua.
118
UNIDADE 2 | ESCOLA DE FRANKFURT
Para Barbero (2003, p 84), a popularidade de “A obra de arte na era de sua 
reprodutibilidade técnica” talvez seja seu maior inimigo, uma vez que o texto 
tem sido lido de diversas – e principalmente errôneas – maneiras, ou por ser lido 
de modo isolado do restante da obra ou por confundir a morte da aura com o 
próprio fim da arte. “Tratar-se-ia então, mais do que de arte ou de técnica, do 
modo como se produzem as transformações na experiência e não só na estética”, 
conclui. Para Benjamin, ao contrário de Adorno, a técnica aliada às massas seria 
capaz de emancipar a arte.
***
A aceitação da perspectiva frankfurtiana no campo da comunicação no 
Brasil passou por diversos períodos. Após uma primeira fase de descoberta e 
incorporação desses teóricos nos anos 1970, os mesmos foram sendo relegados a 
segundo plano, recebendo inclusive a alcunha de apocalípticos. Posteriormente, 
na década de 1980 – tendo como ponto de referência a obra de Adorno –, seriam 
tachados de pessimistas, e a crítica à indústria cultural, esvaziada de seu conteúdo. 
Já na década seguinte, a teoria foi dada como caduca: “A referência às suas teses 
transformou-se num procedimento ritual, através do qual eles preparam o terreno 
para expor outras concepções teóricas e metodológicas” (Rüdiger, 1998, p. 15). Para 
o autor, ainda, esse tipo de posicionamento é fruto de uma leitura apressada e de 
um falso entendimento de que os autores frankfurtianos eram contra a cultura 
popular e contra a tecnologia, quando na verdade eram críticos a esse sistema.
E os anos 2000, como ficam nessa perspectiva? É interessante observar que 
em 2011 a obra de Walter Benjamin entrou em domínio público no Brasil (setenta 
anos depois da sua morte, de acordo com a lei do direito autoral). Unicamente 
de “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” já foi publicada uma 
nova tradução (Francisco de Ambrosis Pinheiro, Zouk, 2012) e há outra sendo 
preparada (Gabriel Valladão Silva, com introdução de Márcio Seligmann-Silva, 
pela L&PM Editores, com previsão de publicação em 2013). As novas traduções 
de uma obra, especialmente do idioma original, são de suma importância para o 
estudo e a divulgação do tema, uma vez que a renovação dos leitores é facilitada, 
especialmente de obras há muito esgotadas ou traduzidas indiretamente de 
outras línguas. Em termos de perpetuação da Escola, observa-se também o que se 
pode chamar de uma quarta geração de pensadores (The Frankfurt School, 2010), 
encabeçada pela figura do filósofo alemão Rainer Forst, que não por acaso teve 
sua tese de doutorado orientada por Jürgen Habermas.
A partir de uma revisão bibliográfica, vimos alguns dos pontos mais 
polêmicos que cercam a dialética do esclarecimento e as críticas em relação à 
indústria cultural, especialmente na visão de dois autores, Umberto Eco e Jesús 
Martín-Barbero, um com um olhar europeu e o outro com uma visão latino-
americana. 
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DA ESCOLA DE FRANKFURT PARA A SOCIOLOGIA
119
Ao pensarmos o legado da Escola de Frankfurt, é interessante sempre 
retomar o ponto de partida dos próprios teóricos, seu contexto social e histórico, 
para entender como é possível que, prestes a completar 90 anos da inauguração 
do Instituto de Pesquisas Sociais, seus textos continuem sendo estudados com 
tanta atenção. Benjamin foi o grande teórico da modernidade. Já a teoria estética 
de Adorno e seus estudos sobre a música foram ofuscados pela força de sua crítica 
à indústria cultural e pela polêmica que suscitou. Tanto Adorno como Benjamin 
exerceram sua produção intelectual em grande parte por meio do ensaio.
Tanto um como o outro se deparou com um regime de exceção que os fez 
imigrar. Depois da Segunda Guerra, Adorno ainda retornou para a Alemanha, 
onde viveu até morrer em 1969. Benjamin sucumbiu e se suicidou em 1940, em 
Port Bou. Críticos da anestesia cultural, ambos devem ser relidos sempre.
FONTE: Mogendorff (2012, p. 157)
120
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Habermas segue o desenvolvimento da ideia de ação comunicativa articulando 
dois outros conceitos importantes para as análises sociológicas: razão 
instrumental e razão comunicativa.
• Ao agirem individualmente, os sujeitos são racionais quando resolvem suas 
necessidades pessoais, porém quando estão na esfera societária são racionais 
somente se resolvem os conflitos por meio da argumentação.
• A ação comunicativa distingue-se da ação instrumental porque uma ação que 
contenha eficácia é mediada pelo entendimento linguístico.
• O mundo da vida possui duas dimensões: uma transcendental e uma empírica. 
Ele é colonizado pelo mundo sistêmico. O mundo sistêmico é a esfera de 
reprodução material da sociedade.
• Nas análises frankfurtianas, a arte é a maneira do sujeito se desconectar das 
estruturas que o condicionam – ela permite uma experiência de liberdade e, 
por isso, deve ser objeto de análise nas pesquisas sociais.
• A autoridade, tema de pesquisa do Instituto, é assim definida: a aptidão, 
consciente ou inconsciente, para se integrar ou para se submeter, a faculdade 
de aprovar a situação presente como tal, em pensamento ou em ação, de viver 
na dependência de ordens impostas e de vontades estranhas.
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
121
1 As análises sobre a razão comunicativa do autor Habermas possuem forte 
relação com sua perspectiva de entendimento das relações humanas no 
mundo moderno. Pensando nos conceitos que fazem parte dessa análise e 
em suas definições, associe os itens, utilizando o código a seguir:
I- Razão Instrumental
II- Razão Comunicativa
III- Mundo da Vida
IV- Mundo Sistêmico
( ) Composto pelas esferas públicas, família, amizades.
( ) Composto pelo mercado (empresas) e pelo Estado.
( ) É estratégica e procura a reprodução social.
( ) Busca a comunicação e integração entre as pessoas.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) I – II – III – IV. 
b) ( ) II – I – III – IV.
c) ( ) III – IV – I – II.
d) ( ) IV – III – II – I.
2 Os estudos sobre a autoridade foram fundamentais para a consolidação 
da estrutura empírica proposta pela sociologia crítica. Sobre esses estudos, 
analise as seguintes sentenças:
I- Nas relações autoritárias, o indivíduo se integra com o todo social 
dependendo de imposições alheias.
II- Os trabalhos da Escola de Frankfurt desenvolveram uma tipologia para 
análise: autoritário, revolucionário e ambivalente.
II- O momento histórico dos estudos sobre autoridade auxiliou a coleta de 
dados empíricos, pois estavam em vigência regimes totalitários na Europa.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente a afirmativa II está correta.
c) ( ) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.
AUTOATIVIDADE
122
123
UNIDADE 3
SOCIOLOGIA FRANCESA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• situar as características e os principaisaspectos das bases teóricas e 
metodológicas do pensamento sociológico francês, especialmente dos 
autores Norbert Elias e Pierre Bourdieu;
• examinar as principais contribuições das pesquisas desenvolvidas por 
Norbert Elias e Pierre Bourdieu;
• sistematizar os conceitos e metodologias utilizados por Norbert Elias e 
Pierre Bourdieu;
• analisar os desdobramentos das pesquisas desenvolvidas por Norbert 
Elias e Pierre Bourdieu, cuja influência persiste nas interpretações 
contemporâneas da Sociologia.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
TÓPICO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA FRANCESA PARA A 
COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
TÓPICO 3 – OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DE BOURDIEU E 
ELIAS PARA A SOCIOLOGIA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
124
125
TÓPICO 1
UNIDADE 3
A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E 
NORBERT ELIAS
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, neste tópico abriremos a unidade com os fundamentos 
necessários para a compreensão do pensamento e obras dos autores que 
representam a sociologia francesa: Norbert Elias e Pierre Bourdieu. Elias na 
verdade é alemão, mas a sua abordagem sociológica e, especialmente, seus 
estudos sobre a sociedade de corte francesa (que desencadearam as teorias acerca 
do processo civilizador) o aproximam muito mais de uma sociologia francesa do 
que da escola alemã de teoria sociológica.
No caso da sociologia francesa não temos uma escola, um conjunto de 
autores que formem uma tradição de teorias e métodos, como na Escola de 
Chicago e na Escola de Frankfurt – representantes da sociologia americana e da 
sociologia alemã. No entanto, temos estudos e autores que se desenvolveram em 
torno do pensamento e da obra de Elias e Bourdieu, por isso são estes que você 
estudará ao longo desta unidade.
Para começar, as dimensões históricas nas quais os autores estiveram 
envolvidos são apresentadas para que você compreenda como esse contexto 
influencia a formação do pensamento deles. Além disso, você conhecerá os 
principais fundamentos das teorias sociológicas que mais impactaram a área 
de pesquisas sociais de cada autor: Teoria dos Processos de Civilização (Elias) e 
Teoria da Prática e Teoria da Dominação Simbólica (Bourdieu).
Lembre-se de aproveitar os materiais complementares para conhecer a 
obra dos autores, buscando ler intérpretes e obras originais. Há diversos livros 
traduzidos de ambos autores para o português, pois a sociologia francesa é ainda 
na contemporaneidade uma referência forte nos estudos sociológicos brasileiros.
Vamos começar? Bons estudos!
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
126
2 DIMENSÕES HISTÓRICAS: ELIAS
Vamos conhecer esse autor a partir da obra de Brandão (2003): Norbert 
Elias, embora seja classificado como um autor que desenvolveu um pensamento 
sociológico na escola francesa, na verdade é alemão, nascido em Breslau, hoje 
Wroclaw (Polônia), que na época era território alemão – em 1897. Era filho de 
judeus e alistou-se no exército alemão, trabalhando na telegrafia durante a 
Primeira Guerra Mundial. 
FIGURA 1 – NORBERT ELIAS
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
Após retornar e finalizar o serviço militar, ele se matriculou nos cursos 
de medicina e filosofia, desistindo da carreira médica no primeiro semestre e se 
dedicando unicamente ao aprendizado da filosofia em Heidelberg e em Freiburg. 
Tornou-se Doutor em Filosofia em 1924, com o estudo Ideia e indivíduo – Uma 
investigação crítica acerca do conceito de História.
Durante a República de Weimar houve um período de grande inflação, 
o que fez com que os rendimentos da família Elias fossem reduzidos, e Norbert 
passou a ter que sustentar a si e sua família. Como não tinha experiência, aceitou 
um emprego em uma fábrica de produtos metálicos. Essa situação, ele afirma 
posteriormente, alinhada com a experiência da guerra, o fizeram trocar os estudos 
da filosofia pela sociologia. 
Entre 1925 e 1930 ocorre uma melhora na economia e Elias retorna para 
a Universidade de Heidelberg, preparando sua tese de habilitation, orientado por 
Alfred Weber (irmão de Max Weber), cujo tema era a sociedade de corte francesa 
nos séculos XVII e XVIII, publicada apenas em 1969 – com o título A sociedade de 
corte (uma de suas obras mais famosas).
Em 1933, Hitler é nomeado chanceler na Alemanha, no mesmo período 
em que Elias apresentava sua tese de habilitation, que lhe permitiria ser assistente 
de cátedra de Karl Mannheim – na Universidade de Frankfurt. O concurso foi 
interrompido devido às novas leis do regime de Hitler, que impediam a atuação 
de profissionais judeus. 
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
127
Essa situação obrigou Elias a fugir para a França, em 1933, e depois para 
a Inglaterra, em 1935, onde naturalizou-se. Lá, ele escreve seu primeiro artigo 
como exilado, publicado em um jornal de Paris, editado em língua alemã por 
refugiados – no qual analisa a expulsão dos calvinistas da França no século XVII. 
Para muitos autores esse texto já apresenta as bases de sua teoria das relações 
sociais entre ‘estabelecidos e outsiders’.
Com as dificuldades de um refugiado na Inglaterra, ele sobreviveu a partir 
de um fundo para refugiados, o que o permitiu estudar e pesquisar na biblioteca 
do Museu Britânico, o que originou a obra Processo Civilizador. Após esse trabalho 
eclode a segunda guerra, e alguns exilados alemães, como ele, mudam-se para 
Cambridge. Nesse momento, ele já era pesquisador visitante da London School of 
Economics. No ano seguinte foi classificado como inimigo estrangeiro e preso até 
o final da guerra.
Depois de todos esses percalços, vivendo na Inglaterra, ele se aproximou 
da psicanálise e, a partir de amigos, foi convidado a fazer uma conferência sobre 
as relações entre a psiquiatria e a sociologia em um evento dessa área, o que 
ajudou a torná-lo mais conhecido. Apenas em 1954 ele foi aceito como docente 
na Universidade de Leicester, tornando-se posteriormente professor adjunto até 
a sua aposentadoria, em 1962.
Seu verdadeiro reconhecimento teórico veio posterior a isso, já que com 
menos compromissos intelectuais ele pôde dedicar-se mais ao desenvolvimento 
de suas obras. Acrescentou uma longa introdução ao Processo Civilizador para 
explicar sua articulação com a sociologia, ao mesmo tempo é publicada Os 
estabelecidos e os outsiders e A sociedade de corte. Isso desencadeou uma série 
de convites para diferentes falas em universidades, que o fez publicar uma 
quantidade significativa de artigos e receber o Prêmio Adorno, concedido pela 
Universidade de Frankfurt. Faleceu em 1990, em Amsterdã.
A principal contribuição de Elias para a sociologia diz respeito à 
análise sobre os costumes e evolução destes e a maneira como impactam o 
desenvolvimento da civilização e as relações sociais que são modificadas 
conforme ocorre o processo civilizador. Ele enxerga nos manuais de civilidade 
um rico material para entender os costumes em um dado momento histórico (por 
isso a importância da história em suas obras), desde a maneira de se alimentar, de 
se lavar, de urinar, de cuspir, entre outros. 
Tudo o que é de natureza animal é repelido e o controle sobre isso se dá 
tornando essas ações menos visíveis ou confinando-as à esfera íntima (HEINICH, 
2001). A nudez não é mais mostrada, os odores corporais são disfarçados, não 
se come mais com as mãos, e sim com os garfos. “Esta constatação permite, 
em primeiro lugar, que Elias demonstre que estas funções ditas naturais são 
totalmente modeladas pelo contexto histórico e social” (HEINICH, 2001, p. 14).
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
128
A modelagem dessas funções provocamudanças na sensibilidade das 
pessoas, já que as manifestações corporais dos outros tornam-se um incômodo 
e as suas próprias causam incômodo e pudor, contribuindo para novas regras 
de conduta que impactam a sensibilidade. A esse estudo das modificações na 
maneira de viver, Elias direciona seus estudos para observar o nível coletivo – 
que ele chama de sociogênese – e o nível individual – ou psicogênese.
Assim, o estudo das formas do saber-viver e das suas alterações 
revela apenas uma parte simples e acessível de uma mudança mais 
fundamental da sociedade considerada, uma evolução que é possível 
observar não só ao nível coletivo – a sociogênese – como ao nível 
individual – a psicogênese – já que cada indivíduo deve percorrer por 
sua própria conta, em resumo, o processo de civilização que a sociedade 
no seu conjunto percorreu; porque a criança não nasce civilizada. É 
aquilo que Elias, passando aqui da história para a antropologia, chama 
a lei fundamental sociogenética. A história de uma sociedade reflete-se 
na história interna de cada indivíduo (HEINICH, 2001, p. 15).
A evolução dos costumes deve ser entendida como um processo de 
longa duração (daí a ideia de uma sociologia processual) com movimentos de 
aceleração, de estagnação ou regressão. Não é possível perceber o fenômeno de 
forma individual, apenas em escala coletiva. Como exemplo, o início do uso do 
garfo, que se consolidou em duas gerações – um movimento de aceleração.
O método histórico que Elias propõe é a comparação de documentos 
de épocas diferentes, verificando a evolução do processo de recalcamento das 
funções corporais e da interiorização dos sentimentos relativos a isso. Após, ele 
começa a se perguntar sobre as causas de tais fenômenos, identificando que todas 
as condutas que eram alcançadas pelas classes mais baixas eram modificadas, 
funcionando como mecanismo de distinção.
Historicamente, as novas maneiras, mais civilizadas, começaram por 
ser elaboradas pela aristocracia da corte, e depois transmitiram-se a 
outras categorias sociais. Foi em parte este mecanismo: apuramento 
de hábitos da corte, difusão destes hábitos às camadas mais baixas, 
ligeira deformação social, desvalorização enquanto sinal distintivo, 
que manteve o movimento dos modos de comportamento do estrato 
superior (HEINICH, 2001, p. 15).
Elias utiliza o método histórico de análise de longa duração e o 
problematiza da seguinte forma:
A questão posta por Elias, é a seguinte: uma vez que todos os fenômenos 
históricos, tanto atitudes humanas como instituições sociais, realmente 
se ‘desenvolveram’ em alguma época, qual o método histórico mais 
adequado para estudá-las, o relativismo histórico ou o estatismo 
histórico? Com o intuito de responder a essa questão, Elias primeiro 
define o que ele chama de estatismo histórico. Para ele, essa expressão 
refere-se ao método de análise histórica que tende a descrever todos 
os movimentos históricos como algo estacionário e sem evolução. O 
relativismo histórico, por sua vez, é o método de análise da história 
que a enxerga apenas em transformação constante, sem chegar à 
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
129
ordem subjacente a esta transformação e às leis que governam a 
estrutura histórica. A opção metodológica de Elias é revelar a ordem 
subjacente às mudanças históricas, sua mecânica e mecanismos 
concretos, de forma que essa proposta signifique uma terceira opção, 
que caminhe entre essas duas outras, ou em suas próprias palavras, 
encontrar meios e maneiras intelectuais de traçar o curso entre o 
Cila deste estatismo e o Caribde do relativismo histórico, ou seja, a 
análise dos processos históricos, dentro de uma perspectiva de longa 
duração, perspectiva essa que englobe longos períodos da história das 
sociedades (BRANDÃO, 2003, p. 66).
Essa nova proposta que Elias indica como sendo um meio-termo entre 
ambas, ele utiliza para analisar o que chama de curva da civilização, ou seja, o 
fenômeno da civilização dentro de uma perspectiva de longa duração. Ele indica 
que essa curva não é a única possível, mas que esse processo civilizatório tende 
a mundializar-se, no que ele é questionado por outros autores, que indicam essa 
perspectiva como determinista, já que as dimensões históricas e sociais teriam 
uma direção marcada dentro da civilização.
Respondendo a isso, Elias afirma que existe um sentido para a história, 
mas que esse sentido só pode ser percebido a posteriori, ou seja, apenas em uma 
análise do passado é possível notar a direção que a história tomou. No mais, ele 
complementa indicando que as interconexões funcionais realizadas pelos seres 
humanos muitas vezes são cegas, sem finalidade ou involuntárias. Com isso, ele 
indica que as figurações formadas, pelos e entre os indivíduos na sociedade, são 
processos não planejados nem intencionais. As relações de interdependência, 
que emergem dessas figurações, podem até ser intencionais, mas, mesmo assim, 
“poderão produzir consequências não intencionais, ou terem sido originadas 
de outras interdependências humanas não intencionais” (ELIAS, 1997, apud 
BRANDÃO, 2003, p. 67).
Nós vamos conhecer os conceitos de figuração e interdependência no 
Tópico 2, complementando o entendimento sobre a teoria dos processos de 
civilização desenvolvida por esse autor, que veremos a seguir.
Para fechar, cabe destacar o papel que o cientista social possui para 
Norbert Elias, que é o de investigar processos sociais de longo curso, de longa 
duração, pois como cientista especializado, o sociólogo pode apreender algumas 
transformações sociais e processos de civilização por meio da análise de seu 
desenvolvimento a partir de várias gerações.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
130
Para conhecer melhor a teoria sociológica de Elias, procure a obra Introdução 
à Sociologia. No Brasil está publicada pela Editora Edições 70, com edição de 1980.
DICAS
3 TEORIA DOS PROCESSOS DE CIVILIZAÇÃO: ELIAS
Como vimos, a grande teoria sobre a sociedade apresentada por Norbert Elias 
envolve seu conceito de processo de civilização. Para ele, é a partir desse entendimento 
que é possível interpretar a ordem social e as relações entre os indivíduos. 
O estudo sobre a civilização é apresentado por Norbert Elias na obra O 
processo civilizador, em dois volumes. O primeiro trata sobre “Uma história dos costumes” 
e o segundo sobre “Formação do Estado e Civilização”. Leitura recomendada para o 
aprofundamento sobre a teoria dos processos civilizadores do autor.
DICAS
Ao analisar estudos contemporâneos, Elias afirma que muitos deles 
estabelecem uma relação entre a organização das sociedades ocidentais sob 
a forma de Estados e o comportamento chamado de civilizado. A partir disso, 
ele analisa que a civilização deve ser compreendida como uma “mudança 
no controle das emoções, que guarda estreita relação com o entrelaçamento e 
interdependência crescente das pessoas” (ELIAS, 1999 apud BRANDÃO, 2003, p. 
70). Para entender a sociedade, portanto, seria preciso pesquisar o núcleo de seus 
processos de civilidade.
Elias é um autor que também gosta dos trabalhos com bases empíricas 
e, para comprovar essa sua perspectiva, utilizou dois aspectos: a história dos 
costumes das pessoas na vida cotidiana e a formação dos Estados Nacionais. 
Também a interdependência entre esses dois fenômenos é indicada pelo autor 
como importante foco de análise.
Com isso, o autor complementa seu conceito de civilização, afirmando 
que ela deve ser entendida “como processo contínuo, não acabado e sem a 
possibilidade de definirmos uma causa única, algum tipo de ponto zero para o 
início do processo civilizador” (BRANDÃO, 2003, p. 70).
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
131
Aqui, é importante ressaltar que Elias apresenta a civilização como um 
processo, ainda não acabado, no qual nós mesmos estamos envolvidos. As 
características de uma dada civilização acompanham uma estrutura particular de 
relações humanas e correspondentesos primórdios históricos da Escola de Chicago, vamos nos 
apropriar do resumo publicado por Freitas (2002, p. 49-53):
FUNDAÇÃO DA UNIVERSIDADE E DO DEPARTAMENTO
 DE SOCIOLOGIA
A Universidade de Chicago foi fundada sob os auspícios do milionário 
americano John D. Rockfeller, que desejava que o meio-oeste americano tivesse 
uma instituição universitária de primeira linha para fazer frente às universidades 
do leste. O primeiro presidente da Universidade de Chicago foi William Rainey 
Harper, que, como Rockfeller, era batista, tendo sido pastor, professor no Baptist 
Theological Seminary em Chicago e fundador do The Journal of Religion em 1882. 
Harper realizou o que David Downes e Paul Rock chamaram de “pilhagem”, 
eis que atraía os profissionais das outras instituições oferecendo-lhes vantagem 
salarial, o que muitas vezes representava pagar ao novo contratado o dobro de 
seu salário anterior. Harper incentivou a instalação de departamentos novos, 
o que resultou na instalação de muitos deles praticamente ao mesmo tempo. 
Como resultado desta política, a Universidade de Chicago, inaugurada em 1891, 
foi a primeira instituição de ensino norte-americana a ter um departamento de 
sociologia, fundado em 1892, sendo também responsável pelo primeiro periódico 
importante sobre a disciplina, o American Journal of Sociology, que passou a ser 
veiculado a partir de 1895.
O primeiro diretor do departamento de sociologia foi Albion Woodbury 
Small, que, embora não tenha ficado conhecido por sua obra escrita, ganhou 
notoriedade pelo trabalho que desenvolveu à frente do departamento de 
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
6
sociologia da Universidade de Chicago, onde demonstrou seu espírito 
empreendedor. Segundo Small, antes da Escola de Chicago, a sociologia 
americana não era marcada por um corpo substancial de conhecimento, um 
ponto-de-vista constituído e nem um método rigoroso de pesquisa.
Quanto ao termo “Escola de Chicago”, foi cunhado ao longo de muitos 
anos, sendo que o primeiro a utilizá-lo em sentido similar ao que tem hoje foi 
Luther L. Bernard, no texto Schools os Sociology, publicado em 1930. Maurice 
Halbawachs, em Chicago, expérience ethnique (1932), reconheceu a existência 
de uma escola de sociologia original na Universidade de Chicago. Milla 
Alihan, na obra Social Ecology (1938), utilizou o termo “Escola de Chicago” e, 
apesar das críticas que fez, identificou-se como uma escola com seguidores, 
um arcabouço teórico e estilo próprio.
A denominada ‘primeira Escola de Chicago’ compreende o período de 
1915 a 1940. Apesar de Andrew Abbott considerar que esta fase tenha tido seu 
término em 1935, Alain Coulon esclarece que ela se estendeu até 1940 e que o ano 
de 1935 apenas marcou a perda de influência exercida por membros da Escola 
de Chicago na American Sociological Society, quando outro grupo conquistou 
o poder nesta associação. Morris Janowitz, na introdução que escreveu para 
reimpressão de 1967 do clássico The City, confirma a continuidade do maior 
período (1915 a 1940). Coulon esclarece, ainda, que na mesma reunião que 
os sociólogos de Chicago perderam poder na American Sociological Society se 
decidiu editar, diretamente pela associação, o American Sociological Review, pelo 
que a publicação da Universidade de Chicago, o American Journal of Sociology, 
deixava de ser a única. A ‘segunda Escola de Chicago’ designa fase posterior à 
Segunda Guerra Mundial, indo de 1945 a 1960.
Quando nos referimos à Escola de Chicago, especialmente nesta sua 
primeira fase, estamos a falar de uma tradição marcada pelo pragmatismo 
filosófico, a observação direta da experiência e a análise de processos 
sociais urbanos. A obra de seus sociólogos é caracterizada por três vertentes 
principais, a saber: 1) o trabalho de campo e o estudo empírico; 2) o estudo 
da cidade, a envolver problemas relativos à imigração, delinquência, crime 
e problemas sociais, o que se relaciona diretamente com a teoria ecológica e 
que tem em Robert Park, Ernst Burgess e Roderick McKenzie seus maiores 
expoentes, sendo que Louis Wirth também se destacou no estudo da cidade, 
mas não era propriamente um ecologista, tendo estudado o fenômeno urbano 
pela trilha da ideia do ‘urbanismo como estilo de vida’, por ele preconizada; 
3) uma forma característica de psicologia social, oriunda principalmente do 
trabalho de George Herbert Mead e que veio a ser denominada interacionismo 
simbólico. As três vertentes referidas serão consideradas, porém, o enfoque 
principal deste trabalho e recairá sobre o estudo da cidade, notadamente pela 
lente da teoria sociológica, como destacado na introdução.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
7
A Universidade de Chicago assumiu posição mundial de destaque em 
sociologia. Poucas universidades mantinham centros de pesquisa em ciências 
sociais no início dos anos de 1920. Segundo Martin Bulmer, a única instituição 
de ensino que se equiparava à Escola de Chicago durante a década de 1920, 
em termos de escopo de trabalho e de um corpo docente de elevado nível 
internacional, era a London School of Economics and Political Science, que integra a 
Universidade de Londres, Inglaterra, embora esta fosse menor que a primeira, 
tanto em corpo docente quanto em alunado. A Universidade de Columbia, em 
Nova Iorque, só consegue rivalizar a sociologia de Chicago no final da década 
de 1930, período que coincide com a perda da influência da Escola de Chicago.
Vejamos uma imagem do prédio da Universidade de Chicago na época:
FIGURA 2 – PRÉDIO DA UNIVERSIDADE DE CHICAGO
FONTE: . 
Acesso em: 17 jun. 2019.
Um nome de fundamental importância para o surgimento da Escola de 
Chicago foi Albion Small, o primeiro diretor do departamento de sociologia a ser 
convidado para tal função. Vamos conhecer suas influências a seguir:
Small (1854-1926) teve um grande papel na instalação da sociologia, 
não só em Chicago, mas igualmente no conjunto dos Estados Unidos. Após ter 
iniciado estudos de teologia, foi estudar em Berlim – onde conheceu o então 
estudante Georg Simmel, que viria a marcar a sociologia alemã e europeia – 
e, em Leipzig, de 1879 a 1881, cidade em que estudou a história, a filosofia 
e a sociologia alemãs. Voltou depois disso aos Estados Unidos, concluiu seu 
doutorado em história em 1889 na Universidade Johns-Hopkins e tornou-se 
professor de história do Colby College, cargo em que permaneceu até 1892.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
8
Começou ensinando sociologia, principalmente a alemã. Em 1890, por 
sua própria conta, publicou uma obra que, durante 20 anos, seria lida por todos 
os estudantes de sociologia dos Estados Unidos, e cujo título seria retomado em 
1921 por Robert Park e Ernst Burgess em sua obra de introdução à sociologia, 
com a significativa troca da palavra sociology por society: desse modo, ao se 
passar da primeira para a segunda geração dos sociólogos de Chicago, passa-
se de um projeto de conhecimento científico da sociedade à construção de uma 
teoria que, segundo se julgava, permitiria estudar essa sociedade.
Os escritos de Small não sobreviveram a ele, e seus desenvolvimentos 
teóricos – sobretudo a sua classificação das motivações humanas em seis 
categorias: a saúde, o bem-estar material, a sociabilidade, o conhecimento, 
a beleza e a retidão – não deixaram marcas profundas na sociologia. Hoje 
em dia, ele só é lido, como sociólogo, por pesquisadores interessados no 
desenvolvimento da sociologia americana. Contudo, deve-se observar que 
ele insistia que seus alunos fizessem pesquisas de campo ativas e observações 
diretas e que não se entregassem a reflexões teóricas “de poltrona”.
Na obra que publicou em colaboração com George Vincent em 1894, 
Small, que chamava seu próprio livro de “guia de laboratório”, consagrou 
dois capítulos à conduta empírica da sociologia. Sublinhando a importância 
do habitat para as relações sociais, estimulou os estudantes a observar as 
comunidadesformas de comportamento. 
A civilização não é fruto de causa única, pois os movimentos individuais 
na rede de processos sofrem muitas reações, gerando movimento e tensões nessa 
rede social. O ponto zero para identificar o início do processo de civilização não 
existe na historicidade do pensamento humano, pois cada movimento é explicado 
a partir de outro movimento e não por uma primeira causa, pois os movimentos 
são dinâmicos.
A partir desses três argumentos, Elias refuta teorias sociológicas que se 
baseiam no raciocínio da causalidade, pois para ele não basta identificar causas, 
é preciso verificar a interdependência pela qual uma estrutura se insere na 
estrutura de uma sociedade geral. Assim, ele também apresenta sua análise sobre 
as relações entre indivíduo e sociedade nas teorias sociológicas:
Na teoria dos processos de civilização proposta por Elias, constitui um 
erro querer separar as transformações gerais sofridas pelas sociedades e 
as alterações ocorridas nas estruturas de personalidade dos indivíduos 
que a formam, visto que a relação entre esses dois tipos de alterações é 
uma relação de correspondência mútua. Um dos pontos essenciais da 
teoria de Elias é mostrar a impossibilidade de pensarmos os conceitos 
de indivíduo e de sociedade como duas categorias separadas e/
ou antagônicas. Para Elias, “as estruturas de personalidade e da 
sociedade evoluem em uma inter-relação indissolúvel”, sendo que as 
mudanças “nas estruturas de personalidade é um aspecto específico 
do desenvolvimento de estruturas sociais” (BRANDÃO, 2003, p. 72).
Ao pensar o desenvolvimento do indivíduo, Elias apresenta o processo 
de civilização como consequência de uma mudança na conduta e sentimentos 
humanos com rumos bastante específicos, nem sempre intencionais ou planejados 
– mas também não totalmente aleatórios e desordenados, quando vistos sob o 
ponto de vista histórico.
Para explicar, ele utiliza o percurso das relações sociais existentes na 
sociedade guerreira, na sociedade feudal, na sociedade de corte absolutista e 
finaliza na sociedade burguesa. Estas representam o avanço de uma figuração 
para outra, a transição de uma figuração social para outra.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
132
Estudaremos o conceito de “figuração” no Tópico 2 desta unidade. Por hora 
é importante que você conheça a definição: para Elias, figuração social refere-se à teia de 
relações de indivíduos interdependentes que se encontram ligados entre si a vários níveis e 
de diversas maneiras (ELIAS, 1992 apud BRANDÃO, 2003, p. 61).
DICAS
Elias possui objetivos ao realizar essa análise: “Entre os muitos objetivos 
de Elias também está o de explicitar quais os mecanismos sociais, históricos, 
políticos e econômicos, que possibilitaram a existência de tais sociedades, bem 
como as forças de coesão e/ou as forças de distensão, as quais ele irá chamar 
de forças centrífugas, que possibilitaram a sucessão, naquela sequência, desses 
diferentes tipos de sociedades ou figurações sociais” (BRANDÃO, 2003, p. 73).
Vamos seguir acompanhando o desenvolvimento do pensamento de Elias 
sobre o percurso de transição das quatro figurações sociais já indicadas. 
3.1 SOCIEDADE GUERREIRA
FIGURA 2 – SOCIEDADE GUERREIRA
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
Caracterizada por uma economia de troca (escambo), ausência de moeda, 
pequena diferenciação de funções e baixo grau de controle dos impulsos e das 
paixões. A sociedade guerreira era dominada pelos cavaleiros, cuja única forma 
de moderação de atitudes era a coerção direta e física, a partir do perigo de serem 
vencidos por um inimigo superior. No mais, eram inclinados a explosões de 
violência ou explosões de alegria, e movidos para a busca de novos territórios:
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
133
O que move a sociedade guerreira, grosso modo, é a constante 
conquista de novas terras, através do conflito belicoso. Segundo Elias, 
os momentos de paz, por menores que fossem nessa sociedade, irão 
afetar diretamente o controle das emoções dos indivíduos. Nessa 
sociedade, ilustra Elias, não havia poder central suficientemente 
forte para obrigar as pessoas a se controlarem. Mas se nesta região 
ou naquela o poder de uma autoridade central crescia, se em uma 
área maior ou menor as pessoas eram forçadas a viver em paz entre 
si, a modelação das emoções e os padrões da economia dos instintos 
lentamente mudavam (BRANDÃO, 2003, p. 75).
A conquista de terras representava poder político e social para o 
senhor dessas terras, mas também a necessidade de administrar esse território, 
obrigando-o a oferecer partes para parentes ou servidores. O movimento 
inevitável a partir disso seria a independência gradativa dessas pessoas que, em 
atitudes de rebeldia produziam novos combates, levando a sociedade guerreira 
a um processo de feudalização, gerando, para Elias, uma nova figuração social.
3.2 SOCIEDADE FEUDAL
FIGURA 3 – SOCIEDADE FEUDAL
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
Com o aumento da população e a descentralização do poder do rei, a 
quantidade de terras a serem conquistadas diminui, surgindo os chamados 
feudos. Neles, as relações sociais modificam-se e surge uma nova estrutura social. 
Vejamos nas palavras de Elias:
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
134
O processo de feudalização nada mais foi do que uma dessas mudanças 
compulsivas na rede de dependências. Em toda parte e numa dada 
fase, no Ocidente a dependência dos grandes em relação aos serviços 
prestados tornou-se maior do que a dependência de seus vassalos 
quanto à proteção. Esse fato reforçava as forças centrífugas numa 
sociedade, na qual cada pedaço de terra sustentava seu proprietário. 
Essa foi a forma simples desses processos, no curso das quais, em toda 
a hierarquia da sociedade guerreira, os antigos servidores foram se 
tornando, em número crescente, proprietários independentes da terra 
que lhes fora confiada, e os títulos nobiliárquicos, baseados em serviço, 
tornaram-se as designações simples de posição na escala social, em 
correspondência com o tamanho da propriedade e o poder militar 
(ELIAS, 1993 apud BRANDÃO, 2003, p. 76).
A sociedade feudal continuava tendo uma economia baseada no escambo, 
mas que foi sendo gradativamente substituída pelo uso da moeda. Também 
caracterizam esse período uma maior diferenciação de função se comparado com 
a sociedade guerreira, pressão por falta de terras, aumento demográfico ligado ao 
surgimento de cidades e do comércio (BRANDÃO, 2003).
Os moradores das cidades preferiam que os senhores feudais contratassem 
guerreiros para defender suas terras e passaram a pagar por isso. Surgem aí os 
impostos, que geram concentração de capital para os senhores das terras. Com a 
expansão do comércio surge a burguesia e, para os antigos guerreiros, sobravam 
poucas oportunidades de fontes de renda. Assim, nota-se a formação da sociedade 
de classes.
A monetarização permitia aos senhores feudais e aos reis a cobrança de 
impostos, enriquecendo-os. O rei não precisa mais pagar seus guerreiros com 
terras, o que torna esses guerreiros dependentes dessa autoridade. Ele passa a 
distribuir salários e não terras – tornando-se latifundiário e possuidor de um 
poder sólido gerado pelo monopólio da tributação. Surge uma nova figuração 
social, a sociedade de corte absolutista.
3.3 SOCIEDADE DE CORTE ABSOLUTISTA
FIGURA 4 – SOCIEDADE DE CORTE
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
135
Nessa figuração social temos a centralização do poder em um monarca 
absoluto, dada pela pacificação e consolidação dos territórios. É um período 
de controle dos impulsos e das paixões individuais e de onde, segundo Elias, 
herdamosgrande parte dos costumes e padrões de comportamento que 
chamamos de civilizados.
A sociedade de corte absolutista foi o locus social onde mais se 
desenvolveu o controle dos impulsos e das paixões pelos indivíduos, 
e de onde, segundo Elias, herdamos boa parte dos nossos costumes e 
padrões de comportamento que chamamos de civilizados ou corteses. 
Foi nessa sociedade que foram modelados ou, pelo menos, preparadas, 
grande parte das proibições que ainda hoje se percebem. Recebemos, 
dessa sociedade, parte do selo comum que nos caracteriza como uma 
civilização específica (BRANDÃO, 2003, p. 79).
Essas formas de conduta eram uma maneira de distinção da nobreza da 
época com relação às demais classes, especialmente a burguesia emergente. O 
controle das emoções também se torna uma marca diferencial, nesse caso. Essa 
distinção representa a dependência da nobreza com relação ao monarca.
A nova forma de conduta resulta dessa dependência, pois o nobre não é 
mais senhor de suas terras, de seu castelo, e sim um homem da corte, que vive nela 
para servir ao monarca. Por isso, estando agora cercado de pessoas, o nobre deve 
comportar-se de acordo com a sua posição e a dessas outras pessoas. “Necessita 
aprender a ajustar seus gestos em relação às diferentes posições das pessoas 
da corte, usar com perfeição a linguagem, e também controlar exatamente os 
movimentos dos olhos” (BRANDÃO, 2003, p. 81). Temos aí uma figuração social 
que exige autodisciplina e uma reserva imposta às pessoas.
Essa sociedade produziu, e ao mesmo tempo é fruto, se assim 
podemos dizer, de um mecanismo que Elias denomina de ‘mecanismo 
régio’. Tal mecanismo social consistia na equivalência de forças entre 
a nobreza, que perdia poder social com a expansão do setor monetário 
da economia, e a burguesia, que ascendia socialmente em razão dos 
mesmos fatores. O monarca absoluto podia ou não ter consciência 
de tal mecanismo, porém, sua sobrevivência social dependia da 
manutenção do mesmo (BRANDÃO, 2003, p. 81).
Esse mecanismo régio, ou equilíbrio de forças entre a nobreza e a 
burguesia, mantinha o poder e a hegemonia do monarca intactos. Para Elias, ele é 
formado de maneira não planejada, no curso dos processos sociais, assim como os 
processos de civilização. A luta pelo poder social e prestígio dentro dos domínios 
do monarca, operada pela nobreza e burguesia, gera a próxima figuração social, 
o advento da sociedade burguesa.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
136
3.4 SOCIEDADE BURGUESA
FIGURA 5 – SOCIEDADE BURGUESA
FONTE: . 
Acesso em: 18 out. 2019.
Elias apresenta a Revolução Francesa como marco para o advento da 
burguesia, já que a queda do poder absoluto da monarquia ocorreu também pela 
luta dos burgueses por uma nova distribuição dos monopólios de tributação, 
já que eles pagavam impostos e a nobreza (que não trabalhava) estava isenta, 
caracterizando um privilégio.
A burguesia não defende a extinção dos monopólios de tributação, mas 
apenas que as oportunidades geradas por eles sejam de interesse de toda a 
sociedade e não interesse individualizado. Surge o primeiro princípio para um 
regime democrático.
Olhando essa última figuração social e comparando-a com as outras, 
podemos afirmar que:
Para Elias, o processo de civilização comporta diferentes relações 
de interdependência existentes em seu interior, fazendo com que o 
processo de civilização não se realize de forma homogênea e retilínea. 
Esse mesmo processo de civilização possui uma direção específica, 
porém essa direção não é perceptível para os próprios indivíduos 
que participam desse processo. Tal direção só se torna perceptível 
a posteriori, como resultado da utilização de um método de análise 
histórica e sociológica, no qual a observação dos dados empíricos 
de uma dada figuração social são vistos – e analisados – tomando-se 
como referência um grande espaço temporal, ou seja, dentro de uma 
perspectiva de longa duração (BRANDÃO, 2003, p. 84).
É com base nessa análise que Elias defende um método histórico como 
forma de compreender as figurações sociais, ou seja, as diferentes estruturas 
e relações entre as pessoas. Vamos estudar essa proposta elisiana no próximo 
subtópico, com vistas a apreender a teoria social proposta a partir dos estudos 
desse autor.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
137
4 DIMENSÕES HISTÓRICAS: BOURDIEU
Pierre Bourdieu nasceu em 1930 em um pequeno vilarejo da província 
do Béarn, região rural do sudoeste francês, próxima da Espanha. Seu pai era 
originário de uma família de camponeses, mas havia se tornado funcionário 
público dos correios, sendo carteiro na mesma região. Sua mãe, Noémie, também 
era de família campesina, porém com nível social um pouco mais elevado. 
Bourdieu fez seus primeiros estudos no Liceu de Pau (capital do Béarn).
FIGURA 6 – PIERRE BOURDIEU
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
A partir de uma bolsa de estudos, acessa o Liceu Louis-le-Grand em Paris, 
melhor curso preparatório para a École Normale Supérieure de Paris, um centro 
de formação da elite intelectual francesa – para o qual é aprovado e passa a 
frequentar em 1951. Diploma-se nessa instituição em Filosofia, no ano seguinte é 
admitido como docente no Liceu de Moulins, cidade central da França.
A Argélia, colônia francesa no Norte da África, busca sua independência a 
partir de 1955 – o que gera uma situação de guerra e consequente convocação de 
Bourdieu para o serviço militar. Essa mudança para a Argélia é fundamental para 
a ‘conversão’ do autor para a sociologia, pois enquanto lá esteve, desenvolveu a 
etnologia da sociedade cabila (população local), com extenso trabalho de campo 
– estando professor assistente na Faculdade de Letras de Argel. É sua primeira 
grande experiência com material empírico dessa profundidade, por isso a 
atribuição à conversão para a sociologia se dá nesse período.
Em 1960, em função do agravamento do conflito e das posições liberais 
que assume ante a guerra da independência, Bourdieu é obrigado a voltar para a 
França e assume o cargo de professor assistente na Faculdade de Letras de Paris 
(Sorbonne). Casou-se dois anos depois e dessa união teve três filhos.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
138
Em 1961 é nomeado professor da Faculdade de Letras de Lille, onde inicia 
cursos e conferências sobre os clássicos da sociologia e sobre a sociologia norte-
americana. Em 1964, segue para a Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais 
(EHESS), passando a orientar teses e estudos científicos. Nessa instituição funda 
o Centro de Sociologia da Educação e da Cultura em 1967, dirigindo por mais de 
30 anos uma equipe de pesquisadores desse núcleo.
Iniciando em 1964, por mais de duas décadas dirigiu a coleção Le sens 
commun para a editora parisiense Minuit, publicando obras clássicas e traduzindo 
e divulgando autores contemporâneos como Goffman, Bernstein, Labov etc. Em 
1975, criou o periódico Actes de la Recherche en Sciences Sociales, uma das mais 
importantes publicações em Ciências Sociais no mundo.
Em 1981 é eleito professor titular do Collège de France. A partir de 1990, 
Bourdieu assume um papel combativo nos movimentos sociais antiglobalização 
e de apoio a desempregados, trabalhadores do campo, imigrantes ilegais e 
intelectuais perseguidos no mundo.
Bourdieu foi agraciado com a medalha de ouro do CNRS (Centre National 
de la Recherche Scientifique), um dos mais importantes símbolos da comunidade 
científica francesa. Faleceu em 2002, vítima de câncer.
O pensamento sociológico de Pierre Bourdieu tem sido objeto de diversos 
estudos e reconhecido em escala mundial. Suas obras são caracterizadas pela 
densidade e variabilidade de assuntos: campesinato, arte, escola, patronato, 
política, consumo, mídia, cultura etc. 
Apesar de seu construto teórico estar situado no campo das Ciências 
Sociais, comojá mencionado, a formação de Bourdieu realizou-se em Filosofia, 
campo que forneceu a ele suas influências teóricas iniciais. Por conta disso, o 
autor utilizou e rejeitou elementos de diversas correntes teóricas, desde a filosofia 
das ciências – na tradição de Bachelard –, estendendo-se ao marxismo e ao 
diálogo com seus contemporâneos – Althusser, Habermas e Foucault (THIRY-
CHERQUES, 2006). 
A chamada conversão de Bourdieu às Ciências Sociais ocorreu durante 
estudos que realizou enquanto prestava serviço militar e lecionava na Faculdade 
de Argel (1958-60). A situação que lhe chamou atenção naquele momento foi 
a agricultura argelina, pois esta encontrava-se em transição, passando de um 
sistema tradicional ao capitalismo moderno. 
Cabe ressaltar que, apesar de muitos autores terem classificado sua 
abordagem como estruturalista, Bourdieu criticava a filiação teórica unilateral e 
afirmava que o pesquisador deveria aproveitar a multiplicidade de conhecimentos 
das mais diversas abordagens. Ademais, ele sugeria um "pluralismo 
metodológico", de forma que o pesquisador confrontasse os resultados obtidos 
por diferentes métodos de investigação (WACQUANT, 2007).
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
139
Em se tratando do estruturalismo, o pensamento bourdieusiano rejeita 
seu reducionismo, que nega as práticas dos agentes e afirma o determinismo 
das estruturas. À filosofia das ciências, ele se opõe às tipologias que cristalizam 
as situações, recusando-se a aplicar sistemas classificatórios aos seus objetos de 
pesquisa. Considerando o descritivismo como etapa do processo de investigação, 
Bourdieu rejeita a fenomenologia. Do marxismo, ele absorve as ideias de luta 
pela dominação e do individualismo metodológico rejeita a ideia de que o 
fenômeno social é unicamente produto das ações individuais. Defendendo que a 
objetividade da investigação não é atingida por ser o objeto um ente que pensa e 
que fala, ele opõe-se também ao positivismo (THIRY-CHERQUES, 2006).
Partindo da teoria dos campos sociais, Bourdieu analisa o campo no qual 
o próprio sociólogo está inserido, o campo científico. Ele possui uma grande parte 
de sua obra voltada à análise da sociologia e de seus fundamentos científicos.
Pierre Bourdieu discutiu e analisou o campo de atuação do sociólogo, 
a prática da sociologia e os usos sociais dessa ciência. Sua principal obra nesse 
sentido foi Le métier de sociologue, de 1968, escrita em parceira com Jean Claude 
Passeron e Jean Claude Chamboredon, em que debate como romper com as 
visões do senso comum para atingir o espírito científico. A primeira tarefa do 
sociólogo seria, efetivamente, afastar-se das ideias difundidas pelo senso comum, 
que podem distorcer os resultados de uma pesquisa. Para os profissionais da 
Sociologia existe maior dificuldade em cumprir essa tarefa, pois também são 
socialmente situados.
Desse modo, deve haver constantemente um elevado nível de vigilância 
epistemológica por parte do sociólogo, pois a reflexão epistemológica torna-se 
indispensável. Além disso, Bourdieu defende que a função social da sociologia é de 
permitir o desvelamento das estratégias de dominação, fornecendo instrumentos 
de compreensão do mundo social que permitirão aos agentes lutar contra todas 
as formas de dominação (BONNEWITZ, 2003).
Segundo ele, esse campo dispõe de certa autonomia, pois as pressões 
externas são mediatizadas pelas pressões do campo e, quanto mais autônomo for 
o campo, maior a sua capacidade de refração. Todo campo é um campo de luta 
para transformar a disposição das forças, os agentes criam o espaço e o espaço 
existe pelos agentes e relações objetivas entre eles. Para clarificar, como exemplo 
pode-se utilizar o campo econômico, no caso em que a inserção de uma grande 
empresa pode redefinir todo o espaço econômico, conferindo-lhe uma certa 
estrutura, bem como um grande cientista pode o mesmo com o campo científico 
– como Einstein o fez (BOURDIEU, 2004).
A obra de Bourdieu passa ainda por outras temáticas, tais como as funções 
sociais das práticas culturais (L’Amour de l’art, em 1966), os professores universitários 
(Homo academicus, 1984), a alta burguesia (La noblesse d’etat, 1989), a exclusão social 
(La misère du monde, 1993), entre outros. Além disso, passou por uma fase de forte 
engajamento político, nos anos 1990, quando publicou livros visando alimentar os 
debates sociais e ideológicos, sobretudo com Sur la television, 1996.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
140
Existe uma corrente de crítica voltada a esse autor em função da 
quantidade de objetos diferenciados a que ele se destinou analisar. No entanto, 
independentemente de seus objetos sociológicos, ele possui contribuições muito 
significativas para a sociologia contemporânea, e vamos iniciar conhecendo 
duas teorias que perpassam seu pensamento: a Teoria da Prática e a Teoria da 
Dominação Simbólica.
Para entender como Bourdieu analisa o trabalho metodológico na Sociologia, 
recomendamos a leitura de O ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia, 
publicado pela Editora Vozes, com diferentes edições.
DICAS
5 TEORIA DA PRÁTICA E TEORIA DA DOMINAÇÃO 
SIMBÓLICA: BOURDIEU
Bourdieu é um dos autores contemporâneos que enfrenta, assim como 
Elias, a dicotomia indivíduo e sociedade presente na sociologia desde o seu 
surgimento. Para ele não é uma perspectiva objetivista ou subjetivista que poderá 
superar essa questão, e sim uma nova forma de compreender a sociedade, 
intitulada conhecimento praxiológico. É dessa forma de conhecer o mundo que 
surge a Teoria da Prática.
Bourdieu defende o conhecimento praxiológico porque este considera as 
relações dialéticas entre as estruturas e as disposições estruturadas. Efetivamente,
[...] o conhecimento praxiológico não se restringiria a identificar 
estruturas objetivas externas aos indivíduos, tal como faz o objetivismo, 
mas buscaria investigar como essas estruturas encontram-se interiorizadas 
nos sujeitos constituindo um conjunto estável de disposições estruturadas 
que, por sua vez, estruturam as práticas e as representações das práticas. 
Essa forma de conhecimento buscaria apreender, então, a própria 
articulação entre o plano da ação ou das práticas subjetivas e o plano 
das estruturas, ou, como repetidamente refere-se o autor, o processo de 
"interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade" 
(NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006, p. 26).
Essa ideia de interiorização da exterioridade e de exteriorização da 
interioridade fundamenta o conceito de habitus, a base para sua teoria da ação. É 
uma ideia bastante presente em suas obras.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
141
Estudaremos o conceito de habitus e seu funcionamento no Tópico 2, mas 
do ponto de vista conceitual, nas palavras de Bourdieu, ele é: “um sistema de disposições 
duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, 
quer dizer, enquanto princípio de geração e de estruturação de práticas e de representações 
que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares” sem que, por isso, sejam o produto 
da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu objetivo sem supor a visada 
consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-las e, por 
serem tudo isso, coletivamente orquestradas sem serem o produto da ação combinada de 
um maestro” (BOURDIEU, 2004, p. XL).
IMPORTANTE
O conhecimento praxiológico operacionalizado na noção de habitus seria, 
portanto, a alternativa para o problema do subjetivismo – tendência a ver a 
ordem social apenas como produto consciente e intencional da ação individual 
– e do objetivismo – tendência a tomar a ordem social como realidade externa 
e que determina os indivíduos de fora para dentro, transcendendo o indivíduo 
(NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006). 
Segundo o autor, esse conhecimento "tem como objeto não somente o 
sistema das relações objetivas que o modo de conhecimento objetivista constrói,mas também as relações dialéticas entre essas estruturas e as disposições 
estruturadas [...]" (BOURDIEU, 1983, p. 35). Assim, essa forma de conhecimento 
articula, sobretudo, o plano da ação (práticas subjetivas) e o plano das estruturas 
através do conceito de habitus, enquanto processo de interiorização da 
exterioridade e exteriorização da interioridade.
Para avançar na ideia de Teoria da Prática, você pode buscar duas obras: Razões 
Práticas (Editora Papirus, 2017) ou Esboço de uma Teoria da Prática (Editora Celta, 2002).
DICAS
Para que você entenda a Teoria da Prática de Bourdieu é fundamental 
entender como ele pensa a estrutura da sociedade. Ele rompe com a ideia de 
uma sociedade no formato de pirâmide, o que até então era mais comumente 
apresentado pelos sociólogos. Para ele é preciso pensar a ordem social como 
um espaço múltiplo de posições, descrevendo a sociedade em termos de espaço 
social, o que permite analisar a dimensão relacional das posições sociais.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
142
O pensamento bourdieusiano foge, dessa forma, das explicações clássicas 
para as desigualdades trazidas pela tradição sociológica e encabeçadas por Karl 
Marx e Max Weber. Para as concepções marxistas, a sociedade está dividida em 
classes sociais que se opõem segundo um critério econômico. Para as concepções 
derivadas de Weber, a sociedade é analisada em termos de estratos, definidos 
a partir dos seguintes princípios de classificação: poder, prestígio e riqueza 
(BONNEWITZ, 2003). Essas duas concepções são sintetizadas e superadas pela 
abordagem que utiliza as noções de espaço e campos sociais, na intenção de evitar 
se inserir nessas dicotomias. 
A teoria do espaço social pressupõe que os agentes são definidos pelas 
suas posições relativas no espaço, formando assim um espaço multidimensional. 
Esse espaço é definido por coordenadas, correspondentes a valores de diferentes 
variáveis e que posicionam o agente (capitais). A posição dos agentes na estrutura 
do campo é dada pelo volume global de seus capitais, outro conceito utilizado 
por Bourdieu. 
Para Bourdieu, os capitais são os princípios de diferenciação que determinam 
o posicionamento do agente social no campo, podem ser acumulados por meio de 
operações de investimentos, transmitidos pela herança e permitem extrair lucros segundo 
a oportunidade que o seu detentor tiver de operar as aplicações mais rentáveis. Alguns 
exemplos são capital social, capital cultural, e capital econômico.
IMPORTANTE
Os capitais (por estarem vinculados à posição social do indivíduo) podem 
ser conservados ou aumentados, por isso os agentes sociais mobilizam estratégias 
para conservar ou para se apropriar de capital, procurando manter ou elevar 
seu volume para, consequentemente, manter ou elevar sua posição social. Por 
esse motivo são ativados mecanismos de reprodução que mantêm conservada a 
ordem social e a perpetuam. 
Para Bourdieu, a reprodução das estruturas sociais baseada na disputa 
por esses capitais serviu de base para a construção de uma de suas obras – escrita 
em conjunto com Jean Claude Passeron – mais influentes, em especial no campo 
educacional, La Reproduction (1970). Nessa obra ele “preocupa-se em apreender 
a contribuição do sistema de ensino aos processos mais gerais de reprodução 
social” (CATANI; CATANI; PEREIRA, 2001, p. 128) e desenvolve o conceito de 
estratégia, que divide na seguinte tipologia: estratégias de investimento biológico, 
estratégias de sucessão, estratégias educativas, estratégias de investimento 
econômico e estratégias de investimento simbólico. Segundo Bonnewitz (2003):
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
143
• As estratégias de investimento biológico relacionam-se ao controle de 
fecundidade e às estratégias profiláticas, objetivando facilitar a ascensão social 
da prole e manter a saúde (patrimônio biológico). 
• As estratégias de sucessão garantem a transmissão de patrimônio material 
entre gerações com o mínimo de perda possível. 
• As estratégias educativas produzem agentes capazes a receber a herança do 
grupo e transmiti-la. 
• As estratégias de investimento econômico perpetuam ou aumentam os capitais.
• As estratégias de investimento simbólico conservam e aumentam o capital de 
reconhecimento social.
Cabe lembrar que essas estratégias nem sempre são conscientes, pois 
resultam da conjunção do habitus com práticas anteriores. Na obra O Poder 
Simbólico (1989), Bourdieu discute como a produção e a reprodução da vida 
social são influenciadas pela dimensão simbólica, que defende ser uma dimensão 
fundamental na análise da realidade social. 
Para estudar as dimensões simbólicas, ele buscou sintetizar três tradições 
sociológicas e filosóficas (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006): 
• A primeira, que tem em Durkheim seu maior representante sociológico, toma 
os sistemas simbólicos como estruturas estruturantes, como elementos que 
organizam o conhecimento ou mais amplamente a percepção que os indivíduos 
têm da realidade. 
• A segunda, cuja origem se encontra no estruturalismo linguístico de Sausurre 
e que teve em Lévi-Strauss um dos seus grandes expoentes, analisa os sistemas 
simbólicos como estruturas estruturadas, ou seja, como realidades organizadas 
em função de uma estrutura subjacente que se busca identificar. 
• A terceira tradição, representada sobretudo pelo marxismo, concebe os sistemas 
simbólicos, antes de mais nada, como instrumentos de dominação ideológica, ou 
seja, como recursos utilizados para legitimar o poder de determinada classe social. 
Bourdieu não se filia a essas tradições, embora seja influenciado por elas. 
Ele procura desenvolver uma teoria de síntese, afirmando que a organização e 
a lógica da percepção dos indivíduos podem ser cientificamente identificadas, 
pois as produções simbólicas (língua, ciência, religião, arte, moral etc.) funcionam 
como estruturas estruturantes (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006). 
Elas funcionam dessa forma porque também são estruturadas e, por 
isso, reproduzem as estruturas de dominação social e hierarquias presentes na 
sociedade. As produções simbólicas podem ser produzidas ou apropriadas por 
um grupo, por um corpo de especialistas ou mesmo por um campo de produção 
e circulação relativamente autônomo.
Quando se refere aos campos de produção e circulação relativamente 
autônomos, Bourdieu consolida mais um de seus conceitos, o conceito de campo. 
Para o autor, na medida em que as sociedades apresentam uma divisão social do 
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
144
trabalho mais complexa, alguns domínios de atividade se tornam relativamente 
autônomos (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006). Os agentes contribuem para a 
conservação ou transformação da estrutura do campo no qual estão envolvidos, 
pois eles se enfrentam com meios e fins diferenciados conforme sua posição na 
estrutura, o que o caracteriza como campo de forças e de lutas.
Também vamos estudar com mais afinco o conceito de campo no Tópico 2, 
mas por ora: os campos se apresentam à apreensão sincrônica como espaços estruturados 
de posições (ou de postos) cujas propriedades dependem das posições nesses espaços, 
podendo ser analisadas independentemente das características de seus ocupantes (em 
parte determinados por elas) (BOURDIEU, 1983).
IMPORTANTE
Desenvolvendo sua teoria da dominação, Bourdieu afirma que a cultura 
é o meio pelo qual as elites garantem sua dominação e, por ser um sistema de 
significações hierarquizadas, torna-se móvel de luta para grupos sociais que 
querem manter distintivos entre classes sociais (BONNEWITZ, 2003). Essa teoria 
é desenvolvida na obra La distinction, no ano de 1979. 
Os conflitos ocorrem porque a cultura dominante tem a legitimidade de 
definir o mundo social e, consequentemente, garantir a reprodução da sociedade. 
Assim, ele defende que as lutas de classes são lutas simbólicas, cujo conflito 
encontra-se na imposição de categorias de percepção do mundo social de acordo 
com o interesse dos agentes dominantes.Os agentes passam a consumir bens 
culturais inscritos numa vontade de distinção social, e procuram em geral o que 
é socialmente legítimo como superior. 
Essa é a base para o que Bourdieu chama de violência simbólica, em que: 
Os indivíduos que sustentam as formas dominadas da cultura podem, 
por outro lado, da mesma forma como ocorre no interior de um campo 
específico, adotar uma de duas estratégias diferentes. A primeira, mais 
comum, consiste em reconhecer a superioridade da cultura dominante 
e, em alguma medida, buscar se aproximar ou mesmo se converter 
a essa cultura. [...] A segunda consiste em se contrapor à hierarquia 
cultural dominante visando reverter a posição ocupada pela cultura 
dominada. [...] Bourdieu se mostra cético, no entanto, em relação às 
possibilidades de sucesso dessa segunda estratégia. As crenças, os 
valores e as tradições que compõem o que se denomina habitualmente 
cultura popular não constituiriam, do ponto de vista dele, um sistema 
simbólico autônomo e coerente, capaz de se contrapor efetivamente à 
cultura dominante. (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006, p. 38).
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU E NORBERT ELIAS
145
A hierarquização dos bens simbólicos constitui, para Bourdieu, a base 
das hierarquias construídas pelos grupos sociais, reforçando as estruturas de 
dominação social e restringindo a mobilidade social desses mesmos grupos. 
Como os capitais incorporados no habitus, definem o posicionamento do agente 
no espaço social, ele está em relação de homologia com os consumidores dos 
mesmos bens simbólicos, permitindo assim um recorte teórico que Bourdieu 
chama de classe (CATANI; PEREIRA, 2002). Portanto, nessa perspectiva, as 
classes não são algo pré-construído, os agentes são classes potenciais por estarem 
em relação de homologia. 
Dessa maneira é possível o trabalho do sociólogo, estabelecendo recortes a 
partir dos conceitos e a partir do material empírico, em especial. Bourdieu destaca 
que seus conceitos só funcionarão com as práticas identificadas a partir de dados de 
material empírico. Por isso, no próximo tópico, estudaremos com mais detalhes os 
dois conceitos principais da teoria sociológica do autor: habitus e campos.
Para estudar a Teoria da Dominação Simbólica, inicie com as seguintes obras: 
O Poder Simbólico (Editora Bertrand Brasil, 2011) e Economia das Trocas Simbólicas (Editora 
Perspectiva, 7. ed., 2013).
DICAS
146
Neste tópico, você aprendeu que:
• A principal contribuição de Elias para a sociologia diz respeito à análise sobre 
os costumes e evolução destes e a maneira como impactam o desenvolvimento 
da civilização e as relações sociais que são modificadas conforme ocorre o 
processo civilizador
• A evolução dos costumes deve ser entendida como um processo de longa 
duração com movimentos de aceleração, de estagnação ou regressão; portanto, 
a análise sociológica deve ser processual.
• O método histórico que Elias propõe é análise de longa duração, baseada 
na comparação de documentos de épocas diferentes, verificando a evolução 
do processo de recalcamento das funções corporais e da interiorização dos 
sentimentos relativos a isso.
• A civilização, para Elias, deve ser compreendida como uma mudança no 
controle das emoções, que guarda estreita relação com o entrelaçamento e 
interdependência crescente das pessoas. Para explicar, ele utiliza o percurso 
das relações sociais existentes na sociedade guerreira, na sociedade feudal, 
na sociedade de corte absolutista e finaliza na sociedade burguesa. Estas 
representam a transição de uma figuração social para outra.
• Apesar de muitos autores terem classificado sua abordagem como estruturalista, 
Bourdieu criticava a filiação teórica unilateral e defendia o pluralismo 
metodológico.
• Bourdieu defende o conhecimento praxiológico porque este considera 
as relações dialéticas entre as estruturas e as disposições estruturadas, 
solucionando a dicotomia indivíduo e sociedade.
• Para Bourdieu, a sociedade deve ser entendida em termos de um espaço 
social multidimensional, no qual os agentes são definidos pelas suas posições 
relativas no espaço, organizadas pela posse de capitais. 
• A reprodução das estruturas sociais baseada na disputa por posições sociais 
a partir dos capitais fez com que os agentes desenvolvessem: estratégias 
de investimento biológico, estratégias de sucessão, estratégias educativas, 
estratégias de investimento econômico e estratégias de investimento simbólico.
• Desenvolvendo sua teoria da dominação, Bourdieu afirma que a cultura é o 
meio pelo qual as elites garantem sua dominação e, por ser um sistema de 
significações hierarquizadas, torna-se móvel de luta para grupos sociais que 
querem manter distintivos entre classes sociais.
RESUMO DO TÓPICO 1
147
1 Norbert Elias desenvolveu sua teoria sociológica com base na análise dos 
processos civilizadores, utilizando a análise de longa duração para explicar 
as mudanças de figurações sociais ocorridas ao longo dos períodos históricos. 
Sobre a Teoria dos Processos de Civilização, analise as seguintes sentenças:
I- Elias afirma que o processo civilizador possui uma direção que culmina em 
um final, que seria a sociedade científica.
II- Um dos materiais empíricos mais importantes para a análise da civilização 
foi a história dos costumes da vida cotidiana.
III- Elias afirma que existe uma forte relação entre o desenvolvimento da 
civilização e o aumento do controle emocional dos indivíduos. 
IV- O processo de civilização, para Elias, ocorre a partir da modificação 
consciente e planejada dos sentimentos e condutas humanas.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a sentença I está correta.
b) ( ) Somente as sentenças I e IV estão corretas.
c) ( ) Somente as sentenças II e III estão corretas.
d) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas.
2 Pierre Bourdieu desenvolveu diferentes teorias que contribuíram para as 
análises sociológicas, dentre as quais estão a Teoria da Dominação Simbólica 
e a Teoria da Prática. Na Teoria da Prática, ele apresenta o modo de interpretar 
o mundo a partir do conhecimento praxiológico. Sobre essa perspectiva 
teórica, analise as seguintes sentenças:
I- Em Bourdieu, o conceito de base que fundamenta a Teoria da Prática é o 
conceito de capitais. 
II- O conhecimento praxiológico busca superar a dicotomia existente entre 
objetivismo e subjetivismo nas ciências sociais.
II- Para o conhecimento praxiológico, a análise sociológica deve ocorrer 
apenas com foco a identificar as estruturas externas ao indivíduo. 
IV- A Teoria da Prática é fundamentada no conceito de habitus, que representa 
as dimensões objetivas sendo mobilizadas nas disposições subjetivas do 
agente social.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a sentença III está correta.
b) ( ) Somente as sentenças II e IV estão corretas.
c) ( ) Somente as sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas.
AUTOATIVIDADE
148
149
TÓPICO 2
CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA 
FRANCESA PARA A COMPREENSÃO DA 
SOCIEDADE
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Agora que você já conheceu o contexto histórico que envolveu Elias 
e Bourdieu, e os fundamentos de suas principais teorias sociológicas, vamos 
conhecer mais pontualmente alguns dos conceitos mais utilizados por eles. Ambos 
consolidaram um vasto conjunto conceitual, que não conseguiríamos estudar por 
completo nesta unidade curricular, portanto, prossiga com seus estudos para 
conhecer mais noções de cada autor.
Por ora, vamos estudar de Norbert Elias os conceitos de figuração (que em 
algumas obras é traduzida como ‘configuração’), interdependência e processos 
sociais. Especialmente, os dois primeiros expressam a discussão de Elias sobre a 
relação indivíduo e sociedade – tão presente na sociologia.
De Bourdieu, passaremos pelos conceitos de habitus, campos e capitais. O 
habitus e os campos é que representam, para esse autor, a dicotomia indivíduo e 
sociedade, que ele busca solucionar com a propostapraxiológica.
Desejamos uma ótima leitura!
2 FIGURAÇÃO E INTERDEPENDÊNCIA: ELIAS
Como vimos no tópico anterior, a teoria social proposta por Norbert Elias 
– a sociologia configuracional ou figuracional – possui como conceito central a 
figuração. Nas palavras do próprio Elias, o conceito de figuração “refere-se à teia 
de relações de indivíduos interdependentes que se encontram ligados entre si a 
vários níveis e de diversas maneiras” (ELIAS, 1992 apud BRANDÃO, 2003, p. 61). 
As ações desse conjunto de relações e indivíduos interferem “de maneira 
a formar uma estrutura entrelaçada de numerosas propriedades emergentes, tais 
como relações de força, eixos de tensão, sistemas de classes e de estratificação, 
desportos, guerras e crises econômicas” (ELIAS, 1992 apud BRANDÃO, 2003, p. 61). 
Temos, portanto, por um lado, uma teia de interdependência entre indivíduos e, 
por outro, uma estrutura formada pelas ações desses indivíduos interdependentes. 
150
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
Estabelecendo uma análise das relações e funções sociais é possível 
notar um conjunto de relações interdependentes que ligam os indivíduos em 
uma formação. E é o conjunto dessas formações que forma o que Elias chama 
de figuração. As figurações são produzidas pelas sociedades em seu contexto 
histórico específico e mudam conforme esse contexto. Para exemplificar, Elias 
utiliza a dança:
Elias, muitas vezes, utiliza imagens a fim de deixar mais claro um 
conceito; no caso do termo figuração, faz menção à dança, independente 
do estilo, se tango, rock ou outro. A dança, segundo ele, não pode ser 
pensada sem uma pluralidade de indivíduos dependentes e orientados 
reciprocamente uns aos outros. Além disso, não é entendida como 
uma construção mental e, portanto, como uma mera abstração ou algo 
que existe para além do indivíduo – ainda que possa ser entendida 
como relativamente independente daqueles que estão tomando parte 
de uma determinada peça, jamais é entendida como independente dos 
indivíduos enquanto tais (LANDINI, 2005, p. 6).
A partir do uso do conceito de figuração para as análises sociais, Elias 
objetiva que os seres humanos deixem de ser encarados como unidades totalmente 
autônomas, e que se reconheça que são unidades semiautônomas, pois são 
dependentes umas das outras, de diferentes maneiras. Ele explica:
Embora não possuam um começo absoluto, não tendo nenhuma 
outra substância a não ser seres humanos gerados por mães e pais, 
as sociedades humanas não são simplesmente um aglomerado 
cumulativo dessas pessoas. O convívio dos seres humanos em 
sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração, na maior 
desordem social, uma forma absolutamente determinada. É isso que o 
conceito de figuração exprime. Os seres humanos, em virtude de sua 
interdependência fundamental uns dos outros, agrupam-se sempre na 
forma de figurações específicas. Diferentemente das configurações de 
outros seres vivos, essas figurações não são fixadas nem com relação 
ao gênero humano, nem biologicamente (ELIAS, 2006, p. 26).
O uso correto desse conceito se dá, para Elias, a partir de dois pontos: 
primeiro, a natureza das transformações que dada figuração social pode sofrer, 
pois toda a figuração complexa e integrada deve surgir de figurações inicialmente 
menos complexas e menos integradas; segundo, a necessidade do distanciamento 
para a correta compreensão da autonomia e dinâmica de uma figuração social, 
pois para ele não é possível perceber os conflitos existentes na interdependência 
das relações de uma figuração enquanto se estiver envolvido nela. Ou seja, para 
o sociólogo, seria impossível realizar uma análise coerente das figurações sociais 
estando ou sendo parte do grupo que a integra.
As figurações são apresentadas por Elias como processuais, em fluxo 
permanente e, como tal, esses fluxos não são planejados nem intencionais. Além 
disso, é preciso considerar três aspectos essenciais no entendimento do conceito 
de figuração (BRANDÃO, 2003):
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
151
• Os seres humanos precisam ser entendidos como interdependentes, já que 
suas vidas são desenvolvidas dentro das figurações sociais, portanto, sofrem 
um processo de coerção por parte destas, que são construídas pelos próprios 
seres humanos e entre eles.
• As figurações, sendo processuais, estão em fluxos constantes, realizando trocas 
de diferentes ordens – sejam rápidas e efêmeras ou lentas e profundas.
• Os processos de trocas ocorridos nas figurações possuem dinâmicas próprias e 
participam delas os motivos e intenções individuais, mas as dinâmicas dessas 
trocas não podem ser reduzidas às motivações isoladas do indivíduo.
Para Elias, a melhor forma de visualizar a figuração é olhando para a 
própria sociedade, quando se observa que nessa figuração maior, que é o conjunto 
das relações sociais que a formam, vemos figurações menores, como as relações 
entre pequenos grupos, as relações entre as classes etc.
FIGURA 7 – REPRESENTAÇÃO EM IMAGEM DAS REDES QUE FORMAM A FIGURAÇÃO
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
Um dos objetivos da sociologia de Elias é eliminar a antítese existente 
entre os conceitos de indivíduo e sociedade, e também discutir a mudança – já 
que as figurações estão sempre em fluxo. “Assim como mudam as figurações 
formadas na dança – ora se tornam mais rápidas, ora mais lentas –, as figurações 
maiores, às quais chamamos sociedades, também mudam, ora de forma mais 
repentina e efêmera, ora de forma mais gradual e possivelmente mais duradoura” 
(LANDINI, 2005, p. 6).
Para Elias também é essa noção que pode evitar a redução processual na 
sociologia, que é a tendência a reduzir processos a estados, do ponto de vista 
conceitual. Isso aconteceria nas distinções que são feitas entre o indivíduo e 
suas atividades, entre estruturas e processos, objetos e relações (LANDINI, 
2005). Conceitos como normas, valores, classes, papéis sociais, muitas vezes 
são apresentados como independentes dos indivíduos, o que ele defende não 
152
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
ser correto. Por isso a ideia de figuração seria tão importante, já que considera 
as relações entre as pessoas. Na citação a seguir, o intérprete de Elias, chamado 
Mennell, explica como funcionariam essas redes de figurações:
Obviamente, o mapeamento de interconexões sociais entre pessoas 
individuais torna-se impraticável se o objeto de interesse é a sociedade 
mais extensa, formada por centenas, milhares ou milhões de membros. 
[...]. Mas a imagem de uma rede complexa pode ser guardada na 
mente. As várias formas de unidades sociais coletivas das quais os 
sociólogos falam, tais como famílias, vilas, cidades, fábricas, escolas, 
burocracias e classes, podem ser entendidas como várias formas de 
nós e entrelaçados, redes mais ou menos conectadas e atadas por meio 
de redes mais dispersas. Essas redes, nas quais as pessoas são presas 
em alianças, conflitos e balanços flutuantes de poder, têm dinâmicas 
próprias, cujas características nem sempre são fáceis de perceber, tanto 
por sociólogos quanto pelas próprias pessoas nelas emaranhadas. O 
entrelaçamento das ações leva à emergência de padrões e processos 
aparentemente independentes de qualquer ação individual e além de 
seu controle (MENNELL, 1998 apud LANDINI, 2005, p. 7).
Portanto, ele reconhece que existem processos que vão além do controle 
do indivíduo, mas que não devem ser tratados como independentes, já que se 
efetivam apenas nas relações entre as pessoas.
Esse conceito de figuração está ligado a outro – chamado interdependência. 
Vejamos como Elias apresenta essa relação:
A rede de interdependências entre os seres humanos é o que os liga. Elas 
formam o nexo do que aqui é chamado de configuração, ou seja, uma 
estrutura de pessoas mutuamente orientadas e dependentes. Uma vez 
que as pessoas são mais ou menos dependentesentre si, inicialmente 
pela ação da natureza e mais tarde através da aprendizagem social, 
da educação, socialização e necessidades recíprocas socialmente 
geradas, elas existem, poderíamos nos arriscar a dizer, apenas como 
pluralidades, apenas como configurações (ELIAS, 1994, p. 249 apud 
BRANDÃO, 2003, p. 62).
Assim, ligado à figuração está o conceito de interdependência, que Elias 
apresenta como fundamental para a análise das interconexões da vida social, 
quando reconhece que cada indivíduo possui em si, desde a infância, influências 
de uma multidão de indivíduos interdependentes.
Para a sociologia, isso se torna objeto sociológico da seguinte maneira:
Elias entende que o problema mais importante da sociologia é saber 
de que maneira e por que razões os homens se ligam entre si e formam 
em conjunto grupos dinâmicos específicos. Esse problema só será 
resolvido a partir da “determinação das interdependências entre 
indivíduos”, interdependências essas que fazem parte do conceito 
elisiano de sociedade (BRANDÃO, 2003, p. 64).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
153
Existem duas características importantes quando tratamos do conceito 
de interdependência (BRANDÃO, 2003): primeiro, mesmo quando as relações 
são intencionais é possível que elas produzam consequências não intencionais 
(podem surgir consequências sociais não planejadas a partir do cruzamento de 
ações de muitas pessoas); segundo, as relações intencionais de interdependência 
podem surgir de outras interdependências não intencionais. 
Para Elias, portanto, a importância dos conceitos de figuração e 
interdependência para a sociologia se dá porque essa ciência deve preocupar-
se em investigar e compreender os processos e estruturas de interpenetração 
entre as figurações sociais, e as figurações formadas pelas ações de pessoas 
interdependentes, ou seja, pela sociedade.
Para se aprofundar mais no conhecimento dos conceitos de figuração e 
interdependência, busque a tese desenvolvida por Luci Silva Ribeiro, intitulada Processo e 
figuração – um estudo sobre a sociologia de Norbert Elias. Ela foi defendida em 2010 no 
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Pode ser acessada no link: http://
repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/280478.
DICAS
3 PROCESSOS SOCIAIS – ELIAS
Um dos conceitos presentes na teoria sociológica de Norbert Elias é a ideia 
de processos sociais, que fundamenta sua proposta de sociologia processual. 
Como vimos, a análise sobre a civilização está centrada na observação do processo 
civilizacional, ou seja, um percurso de longa duração, e não um fenômeno 
individual localizado em um curto espaço de tempo.
Assim, Elias define os processos sociais como “transformações amplas, 
contínuas, de longa duração, de figurações formadas por seres humanos, ou de 
seus aspectos, em uma de duas direções opostas” (ELIAS, 2006, p. 27). O período 
de longa duração ele apresenta como sendo acima de três gerações. 
Nesse processo de transformação geralmente uma figuração social 
está em ascensão, enquanto outra está em declínio. Como exemplos, ele cita a 
diferenciação entre funções sociais, por ora maior ou menor, o aumento ou 
diminuição de capital social, aumento ou diminuição da compaixão por outras 
pessoas, entre outros.
154
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
Elias apresenta os processos sociais como reversíveis, explicando dessa 
forma:
Surtos em uma direção podem dar lugar a surtos contrários e ambos 
podem ocorrer simultaneamente. Um deles pode tornar-se dominante, 
ou caber ao outro manter o equilíbrio. Assim um processo dominante, 
direcionado a uma maior integração, pode, por exemplo, andar de par 
com uma desintegração social. Inversamente, um processo dominante 
de desintegração social, por exemplo o processo de feudalização, pode 
conduzir a uma reintegração sob novas bases, a princípio parcial e 
a seguir dominante; portanto, a um novo processo de formação do 
Estado (ELIAS, 2006, p. 28).
Alinhado a isso, ele afirma que os instrumentos conceituais utilizados 
nas teorias sociológicas também são pares conceituais e exemplifica: integração 
e desintegração, engajamento e distanciamento, civilização e descivilização, 
ascensão e declínio. Esses pares indicam a direção dos processos sociais e 
diferenciam as análises dos conceitos históricos, que para ele são “focados na 
apreensão de detalhes únicos e não direcionados da vida em conjunto dos seres 
humanos no passado” (ELIAS, 2006, p. 28).
Momentos de distanciamento e momentos de integração podem ser 
observados desde sempre na história, e Elias usa como exemplo o processo de 
industrialização: o primeiro surto de industrialização caminhou em paralelo com 
o declínio da produção artesanal; o segundo surto (automatização da produção) 
ocorreu enquanto havia o declínio da produção fabril.
Esses pares de conceitos podem servir para determinar a direção dos processos 
sociais, mas também podem indicar oposições e tensões estruturais no interior do 
próprio movimento processual. Eles são importantes para determinar as fases ou 
estágios de um processo social. “No processo de desenvolvimento da humanidade 
até agora, uma fase posterior frequentemente apresenta, em relação à fase anterior, 
uma ruptura na dominância decisiva de um centro de poder, cujos representantes 
anteriormente disputavam com outros centros de poder” (ELIAS, 2006, p. 30).
Elias ilustra a partir do exemplo do Império Romano:
O desmoronamento do antigo Império Romano pode servir como um 
modelo instrutivo e empírico de um processo social em cujo decurso, 
com aceleração crescente, tendências de desintegração e descivilização 
sobrepuseram-se a tendências de integração e civilização. Somente 
pelo encolhimento do Império foi possível, por cerca de um milênio, 
conter as tendências de desintegração crescente em seu lado oriental, 
que atuavam tanto interna como externamente. A integração 
posterior, reconstituída, no espaço europeu central e ocidental oferece 
exemplos dos tipos mais variados para processos de longa duração 
de formação do Estado e para o incremento da divisão de funções, 
intimamente ligado a ele. Esses processos caminhavam paralelamente 
a um deslocamento gradual de poder, desfavorável a grupos humanos 
estruturados segundo forças centrífugas (a nobreza feudal) e favorável 
aos senhores em posição central (príncipes territoriais, reis) e às 
cidades inicialmente autônomas e fortificadas (ELIAS, 2006, p. 30).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
155
Essa situação histórica é exemplo de um processo social não planejado, 
já que os resultados dessas lutas de poder poderiam levar a diferentes caminhos 
para os grupos envolvidos. Por isso Elias afirma que uma teoria sociológica 
deve considerar os processos de formação do Estado no passado e no presente, 
analisando os resultados das disputas de poder e do processo social ali envolvido.
Portanto, os impulsos desses processos sociais estão ligados à 
monopolização por um grupo de meios de poder (ou meios de satisfação das 
necessidades sociais). Podem ser meios de produção, de orientação, de organização, 
ou mesmo de violência física. Para explicar essa relação com os processos 
sociais, Elias faz uma reflexão usando o exemplo dos processos interestatais e 
intraestatais, aproveitando para propor o tipo de análise sociológica que julga ser 
coerente para essas investigações:
Esta é uma das razões pelas quais o fulcro do que se entende por 
processo social deslocou-se na segunda metade do século XX, 
principalmente em relação ao século XIX. No século XIX e início do 
XX, o foco dos sociólogos ao utilizarem esse conceito, ou outros a 
ele aparentados, limitava-se geralmente aos processos intraestatais 
— portanto, por exemplo, à dinâmica de processos sociais ligados à 
monopolização intraestatal dos meios de produção. Processos sociais 
interestatais apareciam implicitamente como não estruturados, 
talvez até comoum campo de problemas para além do domínio de 
pesquisa sociológica. Transformações da realidade social mostram 
agora mais claramente que essa separação de processos intraestatais 
e interestatais corresponde decerto à divisão das disciplinas, mas não 
à própria coisa. A integração crescente da humanidade aponta cada 
vez mais inequivocamente para a interdependência de processos intra 
e interestatais. A isso corresponde ao fato de que o campo de tarefas 
da sociologia não se restringe aos processos sociais intraestatais, 
por exemplo à dinâmica dos processos de industrialização ou dos 
conflitos sociais de um Estado singular. Processos de formação ou 
de desintegração do Estado, de integração e desintegração estatal 
e supraestatal podem servir como exemplos de processos sociais 
cuja estrutura e transcurso influenciam fortemente a estrutura e 
o transcurso de processos de Estados singulares, mas que não se 
deixam mais esclarecer e determinar diagnosticamente pela limitação 
do campo de investigação. Pode servir como exemplo o poderoso 
processo de integração que, atualmente, leva todas as sociedades 
singulares da humanidade a uma dependência cada vez mais estreita 
umas das outras. Ele merece a atenção dos sociólogos. Como no 
caso de muitos outros surtos de integração, com isso aumentam 
inicialmente as tensões e os conflitos entre as unidades participantes 
que, sem serem consultadas e frequentemente à revelia, tornam-se 
dependentes umas das outras. Uma teoria dos processos sociais não 
pode ignorar processos desse tipo, ou seja, processos que englobam 
a humanidade. Antigamente, o conceito de humanidade referia-se a 
uma imagem ideal distante, sempre pacífica e harmônica. Hoje, refere-
se a uma realidade rica em conflitos e tensões. Na teoria e na prática, o 
processo social de uma humanidade que se integra ou se autodestrói 
com alguma velocidade constitui o enquadramento universal para 
a investigação de todos os processos sociais específicos. Só assim se 
abrirá caminho para a discussão de outros problemas relativos aos 
processos sociais (ELIAS, 2006, p. 31).
156
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
Esses outros problemas que envolvem os processos sociais mencionados 
por Elias nessa longa reflexão/citação envolvem a relação entre os processos e as 
ações individuais, por exemplo. Ele apresenta os processos e os seres humanos 
como inseparáveis, reconhecendo que o ser humano realiza ações individuais em 
processos já em andamento, nunca sendo um começo. E reconhece também que os 
processos não são totalmente independentes das ações humanas. A “autonomia 
relativa dos processos baseia-se na vida em comum de uma pluralidade de seres 
humanos mais ou menos dependentes uns dos outros e que agem uns com os 
outros ou uns contra os outros” (ELIAS, 2006, p. 31).
Os processos sociais, portanto, são continuamente dependentes do 
entrelaçamento dos seres humanos singulares e seus grupos. É essa interdependência 
que resulta em mudanças na convivência social, modificações não planejadas e 
não previstas, que modificam os próprios processos e podem ser estudados pelos 
sociólogos a partir da proposta eliasiana de análise de longa duração.
Para aprofundar seus estudos sobre o conceito de processos sociais, bem 
como a proposta de uma sociologia processual, veja o artigo disponível no link: http://
www.uel.br/grupo-estudo/processoscivilizadores/portugues/sitesanais/anais9/artigos/
mesa_debates/art27.pdf. 
A referência é: LANDINI, T. S. A Sociologia Processual de Norbert Elias. Anais do... IX Simpósio 
Internacional Processo Civilizador. Ponta Grossa/PR, 2005. 
DICAS
4 O CONCEITO DE HABITUS – BOURDIEU
Como já apresentamos no Tópico 1, o conceito de habitus foi muito 
importante para o desenvolvimento da teoria sociológica de Bourdieu, 
especialmente quando ele busca pensar a sociedade em termos praxiológicos, e 
não com a dicotomia tradicional entre indivíduo e sociedade. As disposições, ou 
habitus, possuem em si tanto as dimensões da ação do agente social quanto da 
estrutura que o cerca.
Na verdade, a palavra “habitus” tem como origem histórica a tradição 
escolástica medieval, sendo a tradução latina da noção grega de "hexis", utilizada 
por Aristóteles. Hexis referia-se a “um estado adquirido e firmemente estabelecido 
do caráter moral que orienta nossos sentimentos e desejos numa situação e, 
como tal, a nossa conduta” (WACQUANT, 2007, p. 65). Com o filósofo Tomás 
de Aquino a noção se expande, adquirindo o sentido de disposição durável 
suspensa a meio caminho entre potência e ação propositada. Émile Durkheim 
utilizou-se da noção para designar um estado geral dos indivíduos, interior e 
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
157
profundo, que orienta suas ações de forma durável. Desse modo, outros autores 
posteriormente apropriaram-se do conceito de habitus em seus estudos, tais como 
Marcel Mauss, Max Weber, Thorstein Veblen, Edmund Husserl, Alfred Schutz, 
Maurice Merleau-Ponty e até mesmo Norbert Elias.
Por consequência de sua formação em Filosofia, Bourdieu esteve envolvido 
nos debates filosóficos em torno da noção de habitus, porém em sua teoria do 
mundo social esse conceito passa por uma renovação e assume um caráter 
delineado pela Sociologia. Isso porque em Bourdieu é o conceito de habitus que 
articula o individual e o coletivo, além de dar a coerência entre a sua concepção 
de sociedade e de agente social individual (BONNEWITZ, 2003).
FIGURA 8 – CHARGE DEFINIÇÕES DE HABITUS
FONTE: . 
Acesso em: 18 out. 2019.
158
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
Portanto, o conceito de habitus surge da necessidade empírica de apreender 
as relações de afinidade entre o comportamento dos agentes e as estruturas e 
condicionamentos sociais. Como já mencionado anteriormente, é nas pesquisas 
realizadas na Argélia que Bourdieu executou as experiências de campo e os 
trabalhos teóricos que o levaram a elaborar sua proposta para o conceito de habitus.
Considerando que o habitus é um sistema de disposições, estas são 
engendradas em condições determinadas e inegavelmente ajustadas a outras 
condições. 
Quando tratamos sobre as disposições, estamos nos referindo a atitudes, 
inclinações para perceber, sentir, fazer e pensar, interiorizadas pelos indivíduos em razão 
de suas condições objetivas de existência, e que funcionam então como princípios 
inconscientes de ação, percepção e reflexão (BONNEWITZ, 2003).
IMPORTANTE
Dessa forma, é pelo desajustamento que o habitus torna-se manifesto. 
Quando os argelinos dos anos 50 e 60 são lançados ao universo urbano – após 
serem arrancados de seu universo rural – ocorre que suas disposições passam 
a se ajustar ao novo ambiente, porém a partir de experiências anteriores já 
interiorizadas, originando uma espécie de senso prático de orientação no mundo 
social. 
Assim, o habitus é formado por dois aspectos: um objetivo – a estrutura – e 
um subjetivo – a percepção dos indivíduos. A partir dessa experiência, o conceito 
é retirado de seu contexto inicial e adquire alcance universal, definindo-se como 
noção mediadora que capta, nas palavras da já famosa fórmula: a interiorização da 
exterioridade e a exteriorização da interioridade, ou seja, o modo como a sociedade 
torna-se depositada nos indivíduos e guia suas respostas às solicitações do 
mundo social (WACQUANT, 2007).
O habitus constitui-se em um sistema de disposições duradouras adquirido 
pelo indivíduo durante o processo de socialização, cuja interiorização permite 
que determinados comportamentos e valores sejam efetivados sem a necessidade 
de lembrar-se explicitamente das regras que os regem antes de agir. 
Nesse sentido, o habitus pode ser dividido em primário e secundário. O 
habitus primário é fruto das ações pedagógicas recebidas na infância, as mais 
precoces e mais antigamente adquiridas, em que predomina a influência da 
família. Consequentemente, produz as disposiçõesmais duradouras. Bourdieu 
defende em suas obras o conceito de habitus de classe, pois segundo ele, toda 
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
159
família ocupa uma posição no espaço social e no momento da socialização 
recebemos uma educação ligada a essa posição, para que possamos reproduzir 
espontaneamente as relações sociais existentes no momento da aprendizagem. 
Portanto, sujeitos situados em condições sociais diferentes vão adquirir 
disposições diferentes (BONNEWITZ, 2003). O habitus não é imutável, ele recebe 
estímulos externos que vão sobrepondo-se ao programa inicial constituído no 
habitus primário. Esse processo cumulativo traduz-se no habitus secundário, 
formado essencialmente pela instituição escolar.
Do ponto de vista teórico e analítico, os componentes formadores do 
habitus são três: ethos, hexis e eidos, de acordo com Thiry-Cherques (2006):
• Ethos – designa os valores em estado prático, que regulam a conduta moral 
diária dos seres humanos de maneira inconsciente.
• Hexis – refere-se às interiorizações inconscientes do indivíduo ao longo de sua 
história em relação às posturas e disposições do corpo, uma aptidão corporal 
adquirida.
• Eidos – relaciona-se ao modo de apreensão intelectual da realidade, um modo 
de pensar específico. 
 Ethos: valores (dimensão normativa).
HABITUS Hexis: posturas (dimensão existencial).
 Eidos: pensamentos (dimensão cognitiva).{
Bourdieu objetiva, com a utilização do conceito de habitus, resolver a 
dicotomia entre subjetivismo e objetivismo, constante em diversas análises 
sociológicas e cuja resolução tornou-se a principal característica da sociologia 
contemporânea. Ele argumenta que existem três possibilidades de conhecimento 
do mundo social: fenomenológica, objetivista e praxiológica. 
A forma fenomenológica – representada, por exemplo, pela 
Etnometodologia ou pelo Interacionismo Simbólico – restringir-se-ia a captar 
a experiência primeira do mundo social como vivida cotidianamente pelos 
membros da sociedade, descrevendo as ações e interações sociais, mas não 
questionando a respeito das condições objetivas que poderiam explicar o curso 
dessas interações e as condições de possibilidade dessa experiência subjetiva. 
Dessa forma, para Bourdieu, o problema dessa concepção é não chegar às bases 
sociais e conferir ao indivíduo excessiva autonomia na condução de suas ações 
(NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006).
O conhecimento objetivista contrapõe-se à corrente fenomenológica e 
rompe em relação à experiência subjetiva imediata. Essa experiência é tida como 
estruturada por relações objetivas que ultrapassam o plano da consciência e da 
160
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
intencionalidade individuais. Bourdieu concorda parcialmente com essa ruptura, 
que funcionaria como base para o conhecimento científico do mundo social, 
além de permitir fugir da concepção de que os indivíduos são seres autônomos e 
plenamente conscientes do sentido de suas ações. 
Entretanto, Bourdieu discorda do objetivismo em outros aspectos, 
especialmente na tendência que ele teria de conceber a prática apenas como execução 
de regras, não considerando o processo pelo qual essas regras são produzidas 
e reproduzidas socialmente. Dessa forma, considerar-se-iam as propriedades 
estruturantes da estrutura sem analisar os processos de estruturação, conduzindo à 
omissão de como, na prática, essas regras operam como princípios estruturantes das 
ações e representações dos sujeitos (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006).
O conceito de habitus seria então a mediação entre as dimensões objetiva 
e subjetiva do mundo social, conciliando a oposição aparente entre realidade 
exterior e realidades individuais. Assim, diante desse aspecto relacional, pode-se 
afirmar que o individual, o pessoal e o subjetivo são simultaneamente sociais e 
coletivamente orquestrados, tornando-se um conjunto de esquemas de percepção, 
apropriação e ação, que é experimentado e posto em prática, na medida em que 
o campo estimule.
A relação dialética entre subjetivismo e objetivismo está manifesta na 
relação conceitual entre habitus e campos, pois os segundos são as estruturas e 
conjunturas que pressionam e influenciam os primeiros. Nesse sentido, há uma 
interdependência entre habitus e campos, pois o habitus não é autossuficiente para 
a geração da ação: ele necessita de impulso externo e não pode ser considerado 
isoladamente dos campos nos quais evolui (WACQUANT, 2007). 
Para Bourdieu, a maioria das ações dos agentes sociais é produto do 
encontro de um habitus e de uma conjuntura, ou seja, um campo. Em função dessa 
relação, nosso próximo estudo é sobre a noção de campo.
Há um artigo que sintetiza os principais aspectos do conceito de habitus, 
publicado por Löic Wacquant, sociólogo que trabalhou por um longo tempo com Bourdieu. 
Está disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/EL/article/
view/126/136. 
A referência é: WACQUANT, L. Esclarecer o habitus. Educação e Linguagem, ano X, n. 16, 
p. 63-71, jul./dez. 2017.
DICAS
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
161
5 OS CONCEITOS DE CAMPOS E CAPITAIS – BOURDIEU
Na medida em que as sociedades tornam sua divisão social do trabalho mais 
complexa, ocorre um processo de autonomização de certos domínios de atividade da 
realidade social. Esses domínios são os campos, certos espaços de posições sociais nos 
quais determinado tipo de bem é produzido, consumido e classificado. 
A relação entre o habitus e o campo é dialética: enquanto o habitus de 
certa forma é determinado pelo campo, a estrutura das posições do campo é 
determinada pelos habitus dos agentes integrantes deste. A relação de homologia 
entre habitus permite a formação dos diversos campos sociais, bem como – sendo 
o habitus produto de uma filiação social – ele se estrutura em relação a um campo. 
É através dos campos que ocorre o processo de diferenciação que distingue 
as funções sociais, tais como as funções religiosas, econômicas, educacionais, 
políticas, entre outras.
Nas palavras de Bourdieu, os campos se apresentam à apreensão 
sincrônica como espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas 
propriedades dependem das posições nesses espaços, podendo ser analisadas 
independentemente das características de seus ocupantes (em parte determinados 
por elas) (BOURDIEU, 1983).
FIGURA 9 – IMAGEM REPRESENTATIVA DE CAMPO
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
Cada campo possui uma lógica própria de regulação e, em geral, possui 
mecanismos de refração para as lógicas de outros campos. Quando mais 
autônomo for um campo social, maior sua capacidade de refração. Um campo 
pode ser considerado um mercado em que os agentes se comportam como 
jogadores, buscando acumular capitais que os permitam ter acesso às estruturas 
de dominação da hierarquia vigente (BONNEWITZ, 2003).
No interior dos campos constituintes da realidade social, os indivíduos 
que os compõem passam a estabelecer disputas em torno do controle da produção 
do campo, bem como da legitimidade de classificarem e hierarquizarem os 
162
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
bens produzidos. Ao longo da história do campo, determinados indivíduos ou 
instituições ocupam posições dominantes e adotam estratégias de conservação 
dessa dominação, objetivando manter a estrutura que os beneficia. 
Porém, os indivíduos e instituições participantes das posições 
inferiorizadas no campo tendem a adotar outras estratégias: ou reconhecem sua 
inferioridade e aceitam a estrutura hierárquica vigente, ou buscam contestar e 
aplicar estratégias de subversão a essa estrutura (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 
2006). Assim, compreende-se que uma das características dos campos é ser palco 
de disputas entre dominantes e pretendentes cujo objeto de desejo é a legitimidade 
das decisões. 
Enquanto estruturas objetivas, os campos podem ser analisados 
independentementedas características de seus ocupantes, pois são microcosmos 
sociais, com valores, objetos e interesses específicos. 
Efetivamente, existem propriedades universais inerentes a todos os 
campos, que são a doxa e o nomos. A doxa é o senso comum que predomina 
no campo, aquilo sobre o que todos os agentes estão de acordo. Já o nomos 
é o sistema de leis gerais que governam o campo, invariantes e que regem o 
funcionamento deste. Cada campo possui um nomos diferente e, ao longo do 
avanço histórico das sociedades, novos campos vão surgindo a partir dessa 
diferenciação. Tanto a doxa como o nomos são aceitos como legítimos no seu 
campo de origem (THIRY-CHERQUES, 2006).
 Doxa: senso comum.
CAMPOS
 Nomos: leis gerais.{
A coexistência dos diversos campos sociais estrutura o espaço social, 
enquanto a posição dos agentes no campo é dada pelo seu volume de capitais, 
definindo assim uma posição relativa que determina a dominação ou a submissão 
a outros agentes. 
Os capitais são os princípios de diferenciação que determinam o 
posicionamento do agente social no campo, podem ser acumulados por meio de 
operações de investimentos, transmitidos pela herança e permitem extrair lucros 
segundo a oportunidade que o seu detentor tiver de operar as aplicações mais 
rentáveis (BONNEWITZ, 2003). Em suas obras, Bourdieu distingue quatro tipos 
de capital: econômico, cultural, social e simbólico.
• Econômico: diz respeito ao conjunto de bens econômicos, tais como a riqueza 
material e os meios de produção. 
• Cultural: é definido pelo conjunto de qualificações intelectuais produzidas e 
transmitidas pela família e pelo sistema escolar. O capital cultural pode ser encontrado 
sob três formas: em estado incorporado (disposições duradouras do corpo), objetivo 
(posse de bens culturais) e institucionalizado (títulos escolares e acadêmicos).
TÓPICO 2 | CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA URBANA PARA A COMPREENSÃO DA SOCIEDADE
163
• Social: corresponde ao conjunto de acessos e relações sociais disponíveis ao 
agente ou ao grupo, incluindo relacionamentos e redes de contato. 
• Simbólico: é, em geral, a síntese dos outros capitais; ele relaciona-se ao modo 
como um indivíduo é percebido pelos outros e aos rituais de reconhecimento 
social, envolvendo prestígio, honra e boa reputação.
A distribuição desigual de capitais faz com que todo campo esteja em 
permanente conflito, com indivíduos e grupos dominantes defendendo seus 
privilégios em face do inconformismo dos demais indivíduos e grupos. Dessa forma:
Como espaço social, isto é, como estrutura de relações gerada pela 
distribuição de diferentes espécies de capital, todo campo pode ser 
dividido em regiões menores, os subcampos, que se comportam da 
mesma forma que os campos. A dinâmica dos campos é dada pela 
luta das classes sociais, na tentativa de modificar a sua estrutura, isto 
é, na tentativa de alterar o princípio hierárquico (econômico, cultural, 
simbólico...) das posições internas ao campo. As classes ou frações 
sociais dominantes são aquelas que impõem a sua espécie de capital 
como princípio de hierarquização do campo. Não se trata, no entanto, 
de uma luta meramente política (o campo político é um campo como 
os outros), mas de uma luta, a maioria das vezes inconsciente, pelo 
poder. O campo do poder é uma espécie de "metacampo" que regula as 
lutas em todos os campos e subcampos. A sua configuração determina, 
em cada momento, a estrutura de posições, alianças e oposições, tanto 
internas ao campo, quanto entre agentes e instituições do campo com 
agentes e instituições externos (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 40).
Para que o agente possa ingressar no campo precisa possuir o capital 
específico deste, além de conhecer as regras do jogo e a história do campo, 
podendo assim reconhecer seus valores fundamentais e ter o direito de entrada. 
O agente passa, então, a aceitar os pressupostos cognitivos e valorativos daquele 
campo, que passa a exercer sobre ele uma espécie de encantamento. 
Bourdieu intitula esse encantamento como illusio, reproduzindo as 
ilusões necessárias ao funcionamento e à manutenção do sistema. A illusio 
também é compreendida como a motivação inerente ao indivíduo dotado de um 
determinado habitus de campo.
Os campos se articulam entre si, eles não são totalmente autônomos e suas 
fronteiras não são completamente delimitadas. Pode haver uma interpenetração 
dos campos, em que um determinado campo passa a reger de alguma forma 
aspectos do outro (BONNEWITZ, 2003). As inter-relações, influências e 
contaminações entre os campos são refratadas de acordo com a autonomia destes, 
pois elas passam por um prisma composto por suas próprias regras. 
Os limites do campo são dados pelos interesses específicos dos agentes 
dotados de habitus e das instituições que fazem parte deste, pois são eles que 
respondem às solicitações de investimentos psicológicos e econômicos do 
campo. A economia particular de cada campo retribui os investimentos de 
tempo, dinheiro e trabalho a cada ação de indivíduos ou grupos participantes da 
estrutura (THIRY-CHERQUES, 2006).
164
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
Para finalizar, segue uma indicação de leitura para aprofundamento em 
seus estudos. Cabe lembrar que habitus, campos e capitais são apenas alguns 
conceitos trabalhados por Bourdieu, você pode conhecer muitos mais. No 
entanto, podemos afirmar que são os mais fundamentais para a compreensão de 
sua teoria sociológica.
Para se aprofundar na noção de campo, veja o artigo publicado por Afrânio 
Mendes Catani, um dos mais importantes intérpretes da obra de Bourdieu no Brasil – 
docente da Universidade de São Paulo. Está disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/
v32n114/a12v32n114.pdf. 
A referência é: CATANI, A. M. As possibilidades analíticas da noção de campo social. 
Educação e Sociedade, v. 32, n. 144, p. 189-202, jan./mar. 2011.
DICAS
165
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• O conceito de figuração para Elias refere-se à teia de relações de indivíduos 
interdependentes que se encontram ligados entre si a vários níveis e de diversas 
maneiras. As figurações são apresentadas por Elias como processuais, em fluxo 
permanente.
• Ligado à figuração está o conceito de interdependência, que Elias apresenta 
como fundamental para a análise das interconexões da vida social, quando 
reconhece que cada indivíduo possui em si, desde a infância, influências de 
uma multidão de indivíduos interdependentes.
• Elias define os processos sociais como transformações amplas, contínuas, de 
longa duração, de figurações formadas por seres humanos, ou de seus aspectos, 
em uma de duas direções opostas.
• Em Bourdieu, o habitus constitui-se em um sistema de disposições duradouras 
adquirido pelo indivíduo durante o processo de socialização, cuja interiorização 
permite que determinados comportamentos e valores sejam efetivados sem a 
necessidade de lembrar-se explicitamente das regras que os regem antes de agir. 
• Bourdieu apresenta os campos como estruturas que se apresentam à 
apreensão sincrônica como espaços estruturados de posições (ou de postos) 
cujas propriedades dependem das posições nesses espaços, podendo ser 
analisadas independentemente das características de seus ocupantes (em parte 
determinados por elas).
• Os capitais, para Bourdieu, são os princípios de diferenciação que determinam 
o posicionamento do agente social no campo, podem ser acumulados por meio 
de operações de investimentos, transmitidos pela herança, e permitem extrair 
lucros segundo a oportunidade que o seu detentor tiver de operar as aplicações 
mais rentáveis. Em suas obras, Bourdieu distingue quatro tipos de capital: 
econômico, cultural, social e simbólico.
166
1 Descreva os principais aspectos dos conceitos indicados a seguir, 
consolidados por Norbert Elias.
a) Figuração:
b) Interdependência:
c) Processos sociais:
2 Descreva os principais aspectos dos conceitos indicados a seguir, 
consolidados por Pierre Bourdieu.
a) Habitus:
b) Campos:
c) Capitais:em que viviam, analisar este “mosaico de pequenos mundos”, 
estudar a sua história e levantar mapas de suas características. Por outro lado, 
propôs a seus colegas do departamento de sociologia usar a cidade de Chicago 
como objeto e como campo de pesquisas. Esta ideia, portanto, prefigurava os 
princípios de pesquisas sobre a cidade que, 20 anos depois, Park e Burgess 
aplicariam de maneira ainda mais sistemática.
[...]
Enfim, a influência decisiva de Small sobre a Sociologia foi sobretudo 
de ordem institucional, e todos os seus contemporâneos reconhecem-lhe um 
extraordinário talento de administrador e organizador. Por um lado, dirigiu 
o departamento de sociologia desde a sua criação, em 1892, até aposentar-
se, em 1924, data em que a sociologia já se tinha implantado firmemente em 
Chicago como uma disciplina importante. Por outro lado, seguindo conselhos 
do presidente Harper, fundou em julho de 1895 – ou seja, um ano antes de 
L’année sociologique de Durkheim – o American Journal of Sociology, do qual seria 
redator-chefe por 30 anos, até 1925. Esta revista, que existe ainda quase um 
século após ter sido fundada, foi assim a primeira revista sociológica do mundo 
e também, durante algum tempo, a única existente nos Estados Unidos, posto 
que foi preciso esperar até 1921 para ver a publicação da Sociology and Social 
Research, e até 1922 para que a Social Forces aparecesse.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
9
Albion Small contribuiu também para a fundação, em 1905, da American 
Sociological Society, que se transformaria em 1935 na American Sociological 
Association. Este elo, estabelecido por Small, entre a associação nacional de 
sociologia (cujos trabalhos e debates ele mesmo publicou em sua maioria) e 
a revista de sociologia de Chicago teria uma influência considerável sobre a 
sociologia americana, fundamentando por muito tempo a liderança da Escola 
de Chicago.
FONTE: Coulon (1995, p. 14)
FIGURA 3 – ALBION SMALL
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
O interesse por temáticas da vida urbana deu-se entre professores e 
alunos da universidade, já que estavam no meio de todas as mudanças sociais e 
do crescimento urbano que geravam crimes e delinquência, um dos temas mais 
buscados para investigações.
Uma característica importante do trabalho dos sociólogos de 
Chicago foi a de terem reunido dados estatísticos e qualitativos que 
evidenciavam que o crime era um produto social do urbanismo, o que 
representou um novo enfoque teórico, pois, até então, as causas da 
criminalidade eram explicadas por diferenças individuais, biológicas 
(positivismo biológico) e psicológicas (positivismo psicológico) 
(FREITAS, 2002, p. 54).
Muitos professores integraram as pesquisas da Escola de Chicago, que 
prezava por uma sociologia pragmática, cujo valor prático pudesse ajudar a 
entender a origem dos problemas sociais específicos do meio urbano. Vejamos a 
seguir o tempo de atuação de cada um dos nomes mais conhecidos relacionados 
à Escola de Chicago.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
10
FIGURA 4 – RELAÇÃO PROFESSORES x PERÍODO: ESCOLA DE CHICAGO
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
No entanto, diante da pluralidade de nomes que se pode observar 
vinculados à Escola de Chicago, pode-se afirmar que:
Todavia, é o caso de ressaltar que o escopo da escola de Chicago de 
sociologia sobre um âmbito amplo, no qual se destaca a orientação 
ou perspectiva de teorização da ecologia humana, que durante muitos 
anos foi seguida em seu interior e incentivou grande número de 
estudos empíricos, centrados sobretudo na cidade de Chicago; no 
período em que vigorou, as formulações que contemplaram de modo 
mais específico a temática da estrutura espacial da cidade – por vezes 
denominada de “ecologia urbana” e que constitui, hoje em dia, um 
capítulo próprio da sociologia urbana – formam um núcleo de um 
desenvolvimento muito inspirado e que levou a descobertas originais; 
e o estudo das relações entre os diferentes grupos culturais, étnicos e 
raciais, no qual se salienta a situação dos negros nos Estados Unidos, 
em especial nas grandes cidades do norte do país, introduzido por 
Thomas e continuado por Park, teve grande relevo na sociologia 
americana (EUFRÁSIO, 1999, p. 37).
No subtópico a seguir entenderemos de maneira breve como funcionava o 
programa de pesquisas da Escola de Chicago, quais suas características, para que 
nos aprofundemos nos conceitos principais no próximo tópico. Após o estudo 
do programa de pesquisas seguiremos pelos autores principais da primeira e 
segunda geração desses grupos. Mas antes, uma sugestão importante de leitura!
Para estudar de modo mais aprofundado o surgimento da Escola Sociológica 
de Chicago, veja o artigo disponível em: https://www.revistas.usp.br/plural/article/
view/68042/70612. A referência é: EUFRÁSIO, Mario A. A formação da Escola Sociológica 
de Chicago. Revista Plural: Sociologia, São Paulo, nº 2, USP, 1º semestre de 1995, p. 37-60. 
DICAS
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
11
3 DIMENSÕES METODOLÓGICAS
A Escola de Chicago possui características específicas do ponto de vista 
das formas metodológicas utilizadas em suas investigações, que interferiram 
também no desenvolvimento das teorias de seus autores. Freitas (2002) explica 
que três características peculiares foram o formalismo, o pragmatismo e a reforma 
social. Vamos entender melhor cada um deles a seguir.
O formalismo busca identificar uma fórmula da vida social, objetiva 
“captar as formas subjacentes de relações sociais e, assim, fornecer uma espécie de 
geometria da vida social” (FREITAS, 2002, p. 55). As situações sociais, neste caso, 
são tratadas como parte de um quadro maior de processos formais. Como exemplo 
podemos citar um juiz que esteja avaliando uma causa, ele pode agir em função 
das leis já existentes e não pode criar novas leis naquele momento – portanto, sua 
ação individual terá embasamento em processos formais preexistentes. Um dos 
autores que desenvolve essa perspectiva é Simmel.
O pragmatismo busca a ênfase no valor prático, sendo este o critério de 
verdade, e rejeitando a busca por uma verdade absoluta. Verdadeiro é o que pode 
ser feito com êxito, segundo esta corrente (FREITAS, 2002). Pode-se dizer que uma 
pessoa pragmática vive sempre pela solução de seus problemas de maneira imediata, 
e utiliza as ideias e lógicas de qualquer pessoa sempre para isso – considerando 
apenas as que são úteis para esta situação imediata. Os proponentes do pragmatismo 
foram John Dewey, Charles A. Peirce, William James e George H. Mead.
Juntos, pragmatismo e formalismo trouxeram um toque especial ao 
trabalho sociológico. Era argumentado que o objetivo da pesquisa 
é entender o mundo social e que o mundo social, por sua vez, é 
fabricado pela experiência prática daqueles que nele vivem. É nesta 
experiência que a sociologia deve se concentrar, não em alguma 
ordem alternativa predita por uma teoria abstrata. Tal teoria lida 
com uma série de “fatos” e processos que são menos sólidos do que o 
conhecimento pessoal concreto daqueles que atualmente produzem o 
comportamento que é para ser explicado (DOWNES, ROCK, 1998, p. 
63 apud FREITAS, 2002, p. 56).
FIGURA 5 – CHARGE EXEMPLIFICANDO PRAGMATISMO
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
12
Também permeou o desenvolvimento da Escola de Chicago a ideia de 
contribuição para uma reforma social, por meio de propostas de intervenção. 
Dewey, por exemplo, que era do departamento de Filosofia da Universidade, mas 
trabalhou em parceria com o departamento de Sociologia, fundou uma escola 
primária experimental para utilização de uma nova proposta de currículo, a fim 
de melhorar a educação. Sobre as ideias de reforma social:
Pode-se dizer que a sociologia da Escola de Chicago é umaAUTOATIVIDADE
167
TÓPICO 3
OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS 
DE BOURDIEU E ELIAS PARA A 
SOCIOLOGIA
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Este é o último tópico de seu livro didático, no qual estudaremos 
alguns dos desdobramentos da sociologia francesa para as análises e pesquisas 
contemporâneas. Tanto Elias quanto Bourdieu desenvolveram importantes 
estudos aplicando seus conceitos e consolidando teorias, com os mais diversos 
temas, e são autores fundamentais para a área das ciências sociais.
Em um recorte de suas obras, conheceremos em Elias os estudos 
sobre civilização, kultur e a sociedade de corte francesa. Foi a partir da noção 
de civilização e kultur (termo alemão) que ele direcionou seus estudos sobre a 
sociedade cortesã francesa, chegando assim à ideia de um processo civilizador.
Quanto a Bourdieu, o recorte será em sua sociologia da educação e sua 
sociologia da cultura. Ambos tiveram um grande espaço em suas investigações 
e é possível visualizar a aplicabilidade dos conceitos já estudados a partir dessas 
temáticas ainda na atualidade.
Esperamos que você tenha uma excelente leitura!
2 CIVILIZAÇÃO, KULTUR E A SOCIEDADE DE CORTE 
FRANCESA
Uma discussão importante apresentada por Norbert Elias, do ponto de 
vista conceitual, é sobre as diferenças de origem e significado de civilização e 
cultura nas sociedades alemã e francesa. Ele aplica seu método histórico para 
buscar a gênese de determinado fenômeno, nesse caso, da significação dessas 
duas palavras. Elas estão ligadas ao desenvolvimento da sociedade de corte 
francesa, um dos seus estudos mais populares.
A ideia de zivilisation, na Alemanha, significa algo útil, mas de segunda 
classe, algo externo e superficial para os seres humanos. Já kultur é utilizado para 
designar fatos intelectuais, artísticos ou religiosos, representando as próprias 
realizações e o orgulho por elas. É utilizada também para diferenciar esses fatos 
dos políticos, econômicos e sociais.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
168
Portanto, a diferenciação que se apresenta é fruto da sociedade alemã do 
final do século XVIII, que opunha indivíduos e grupos que falavam francês e 
decidiam a política (representantes da zivilisation) e outros intelectuais alemães que 
não exerciam influência na política (representantes da kultur). O primeiro grupo 
era composto pela nobreza cortesã, civilizada ao modelo francês, e o segundo 
grupo um extrato de intelectuais da classe média – formado por burgueses, 
funcionários públicos e alguns nobres proprietários de terra (BRANDÃO, 2003).
Essa nobreza cortesã seguia regras rígidas de etiqueta para legitimar sua 
‘civilidade francesa’, que era muito criticada pela classe média, tido como um 
modo de vida superficial e falso. “Para os indivíduos alemães que se orgulhavam 
de serem detentores da Kultur, os nobres cortesãos possuíam uma polidez de 
fachada” (ELIAS, 1994 apud BRANDÃO, 2003, p. 87).
Vejamos como a oposição entre zivilisation e kultur interferiu na ordem 
social alemã:
A lenta e gradual ascensão desse estrato de intelligentsia alemã de 
classe média para, “muito tarde e com reservas”, classe governantes, 
transformou a oposição entre os conceitos de Kultur e Zivilisation, de 
uma antítese primeiramente social em uma antítese primariamente 
nacional, ou seja, dois diferentes conceitos que caracterizavam 
distintamente as classes sociais alemãs passaram a diferenciar a 
Alemanha dos outros países. Essa oposição expressa a autoimagem 
alemã, a qual aponta para as diferenças em autolegitimação, em 
caráter e em comportamento total, existentes inicialmente entre as 
classes sociais alemãs e, em seguida, entre a nação alemã e outras 
nações (BRANDÃO, 2003, p. 88).
Na França, esse processo de ascensão das classes médias burguesas 
e intelectuais aos círculos aristocráticos já havia ocorrido no século XVIII, 
permitindo que estas discutissem questões de economia e política com as pessoas 
influentes. Assim, quando a classe burguesa assumiu o poder muito do que fora 
de caráter distintivo e específico da sociedade aristocrata passou a ser de caráter 
nacional, e surgiu o conceito de civilisation, um único – e não diferenciado como 
zivilisation e kultur, na Alemanha.
Centralização estatal e concorrência entre nobreza da corte e burguesia, 
por um lado, e dispersão e concentração em si mesmos de círculos 
aristocráticos por outro, levaram as elites francesas a privilegiar um 
refinamento das maneiras que a burguesia ascendente na Alemanha 
teve tendência a estigmatizar como atributos externos, superficiais 
e mundanos, preferindo antes a profundidade, a autenticidade e a 
sinceridade dos valores de cultura – esta passava gradualmente de 
uma acepção social, que caracterizava uma categoria detentora destas 
qualidades, para uma acepção nacional, que englobava todo o povo 
alemão (HEINICH, 2001, p. 34).
TÓPICO 3 | OS DESDOBRAMENTOS DOS ESTUDOS DE BOURDIEU E ELIAS PARA A SOCIOLOGIA
169
Nota-se que o conceito de civilização na França é mais abrangente, sendo 
utilizado para referir-se a fatos políticos ou econômicos, e a fatos religiosos, técnicos, 
morais ou sociais (BRANDÃO, 2003). Refere-se também ao comportamento das 
pessoas, realizações e atitudes. Para os franceses, a civilização é tema de orgulho, 
designando as maneiras que se opõem à barbárie, distinguindo as elites dentro 
de uma sociedade.
Assim, a noção de civilização, tomada num sentido mais geral, tende 
a anular as diferenças entre os povos, enquanto a noção alemã de 
cultura acentua as diferenças nacionais – aquilo a que chamamos hoje 
as culturas nacionais. Por outro lado, a civilização tem um sentido 
progressivo, na medida em que corresponde a um processo evolutivo, 
ao passo que a cultura é mais redutora, visto que designa produtos 
acabados – obras de arte, livros, sistemas religiosos ou filosóficos 
reveladores das particularidades de um povo (HEINICH, 2001, p. 23).
É importante ressaltar que o significado do conceito de civilização só pode 
ser entendido quando reconhecemos que ele nasce de um conjunto específico de 
situações históricas, ou seja, por e para povos que compartilham uma tradição e 
situação particulares.
Elias estudou manuais de civilidade ao longo de suas pesquisas, mas 
antes disso concentrou-se em compreender a etiqueta da corte francesa, análise 
publicada na obra A sociedade de corte, em 1969. Lá, ele explica as transformações 
de uma sociedade feudal em uma monarquia absoluta sob um diferente ponto 
de vista: o monopólio da coleta de impostos e do uso de armas origina uma 
sociedade de corte que consagra a autonomia do soberano com relação à nobreza 
e a torna dependente dele (HEINICH, 2001).
O monarca absoluto difere-se do líder carismático que movimenta a 
sociedade, apoiando-se nos grupos que o envolvem para manter o equilíbrio, e 
para isso a etiqueta de corte contribui substancialmente – fixando precedências e 
posições hierárquicas. Assim, essas regras tornam-se um mecanismo de regulação, 
de consolidação e vigilância.
Esse fenômeno da etiqueta social imposto na sociedade de corte ganha 
força porque o monarca não pode submeter os outros a regras às quais ele mesmo 
não está submetido, portanto, ele mesmo se torna prisioneiro dessas regras. 
“Considerando que cada diligência, cada gesto, simbolizavam os privilégios 
de tais pessoas ou famílias, cada atropelo à etiqueta se arriscava a provocar o 
descontentamento e a resistência ativa de outros grupos e famílias privilegiados” 
(HEINICH, 2001, p. 25). Garantir que não houvesse esse descontentamento era 
garantir que os seus próprios privilégios não fossem comprometidos, por isso 
renunciavam às mínimas alterações, conservando toda a estrutura com afinco.
UNIDADE 3 | SOCIOLOGIA FRANCESA
170
FIGURA 10 – SOCIEDADE DE CORTE FRANCESA NO JARDIM DE UM CASTELO
FONTE: . Acesso em: 18 out. 2019.
Elias identifica três grandes princípios paradoxais em que se assenta arepresentante paradigmática dessa mudança, seguindo as tendências 
do desenvolvimento da disciplina nessa época: os esquemas teórico-
conceituais deixam de ser elaborados especulativa e aprioristicamente, 
para se tentar derivá-los empiricamente (com esperança até numa 
construção indutiva) e, em contrapartida, em vez de usar as informações 
acumuladas por assistentes sociais como base empírica, os sociólogos 
passaram a entrar em contato direto com os objetos de suas pesquisas, 
levantando seus próprios dados em combinação com o processo de 
construção de suas categorias teóricas. Visavam com isso satisfazer 
a exigência de cientificidade e objetividade buscava pela sociologia 
nessa fase de consolidação e busca de legitimidade acadêmica e de 
solidez teórico-metodológica em face às demais disciplinas sociais 
(EUFRÁSIO, 2008, p. 16).
O formalismo, pragmatismo e as intenções de reforma social aparecem 
nos dois programas de pesquisa principais que, segundo Eufrásio (2008), se 
destacaram na Escola de Chicago: um a partir do autor Thomas (publicando o 
artigo Race Psychology – 1912) e outro a partir de Park (publicando The City – 1915). 
Thomas propõe o estudo de comunidades de diferentes composições 
raciais e das relações entre elas, bem como da aceitação ou imitação da cultura 
desses grupos. Deste modo, a abordagem seria de uma psicologia racial e social, 
como subcampo da psicologia social. Ele indica que do ponto de vista do método, 
a coleta de dados poderia obter material a partir de três princípios: observação 
pessoal (viver junto ao grupo, observação participante), registros não planejados 
(cartas, diários, jornais etc.) e registros planejados (história, etnologia).
Explicando a etnologia, ela pode ser definida como o estudo ou a ciência que 
estuda os fatos e documentos obtidos por meio de etnografia – método de coleta de dados 
comum no âmbito da antropologia cultural e social, que consiste no estudo descritivo da 
cultura de diferentes grupos sociais.
NOTA
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
13
Park desenvolve uma abordagem cujo objeto principal é a cidade grande, 
a partir de uma psicologia social urbana. Acrescidos ao artigo The City foram, anos 
mais tarde, as noções de ecologia humana e a teoria ecológica da estrutura urbana 
que desencadearam o projeto de pesquisa “A Cidade como Laboratório Social”, 
em que Park define um programa de pesquisas empíricas da área de ciências 
sociais para entender a cidade. Estudaremos a ecologia humana no Tópico 2.
A partir dessas formulações, tornaram-se viáveis numerosos temas 
identificando possibilidades de projetos específicos de pesquisa 
empírica; assim, nas duas décadas seguintes aproximadamente 
cinquenta dissertações e teses acadêmicas foram completadas (das 
quais aproximadamente trinta foram publicadas como livros), 
num caso singular de pesquisas coordenadas e sob orientação 
compartilhada, com o que se desenvolveu a linha de pesquisa em 
sociologia urbana que constituiu o eixo central da pesquisa da escola 
de Chicago, cujas aquisições e elaborações marcam até hoje essa sub-
disciplina (EUFRÁSIO, 2008, p. 24).
Dadas as características de programas de pesquisa comuns, orientações 
compartilhadas, entre outros, Eufrásio (2008) explica, a partir do autor Bulmer 
(1920), nove características presentes na criação e manutenção de uma escola em 
ciências sociais. A partir disso é possível definir a Escola de Chicago como tal. 
São elas:
1- Uma figura central em torno da qual se organiza;
2- a localização numa universidade importante, bem organizada e com 
boa presença na área de estudos e motivada pela comunidade local;
3- as características da cidade ou metrópole e a relação da universidade 
com essa cidade;
4- a personalidade dominadora da figura central da escola, para 
inspirar admiração, respeito e lealdade;
5- o líder da escola deve ter uma visão intelectual clara e um impulso 
missionário;
6- deve haver intercâmbios intelectuais frequentes e intensos entre o líder 
e os outros membros do grupo: tal “rede” acadêmica deve ser mais 
fortemente unida do que normalmente ocorre (por meio de seminários, 
publicações, orientações, núcleos de estudos e discussões etc.);
7- para desenvolver pesquisa empírica deve existir uma infraestrutura 
adequada: métodos de pesquisa, boas ideias, ligações institucionais, 
apoio financeiro externo etc.;
8- a escola persiste enquanto permanece atuante a geração de seu(s) 
fundador(es);
9- deve haver abertura para ideias e influências de outros campos e 
boas relações interdisciplinares (EUFRÁSIO, 2008, p. 14).
Essas características aplicam-se à Escola de Chicago e fazem dela uma 
grande influenciadora na consolidação das pesquisas na área de sociologia 
urbana e sociologia do imigrante. Houve, portanto, duas fortes gerações de 
autores envolvidos com essa perspectiva de investigação, cujos principais feitos 
conheceremos a seguir.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
14
O programa de pesquisas da Escola de Chicago é sistematizado por Eufrásio (2008) 
no capítulo A Escola de Chicago de Sociologia: perfil e atualidade. A referência é: EUFRÁSIO, 
Mario A. A Escola de Chicago de Sociologia: perfil e atualidade In: LUCENA, C. T.; CAMPOS, M. C. 
S. S. (Orgs). Práticas e representações. São Paulo: Humanitas/CERU, 2008. p. 13-28.
DICAS
4 PRIMEIRA GERAÇÃO: ROBERT EZRA PARK
Um dos autores mais fundamentais para a consolidação da Escola de 
Chicago, em sua primeira geração, foi Robert Ezra Park. Ele é considerado um de 
seus principais fundadores. Desenvolveu o conceito de ecologia humana, a qual 
estudaremos no próximo tópico. Por hora, vamos iniciar com sua biografia.
Robert Ezra Park (1864-1944), um dos fundadores da Escola de 
Chicago, estudou na Universidade de Michigan. Seu interesse pelas questões 
sociais, especialmente as questões raciais e urbanas, levou-o a trabalhar como 
jornalista em Chicago. Depois de ser jornalista, estuda Psicologia e Filosofia 
em Harvard. Vai à Alemanha onde permanece por quatro anos estudando com 
Simmel e Wilhelm Windelban. Retorna aos Estados Unidos em 1903, tornando-
se assistente em Filosofia em Harvard em 1904-1905.
Park lecionou em Harvard até quando, por um convite de Booker T. 
Washington, passou a trabalhar no Instituto Tuskegee, desenvolvendo estudos 
sobre questões raciais do sul do país. Ingressou no departamento de Sociologia 
da Universidade de Chicago em 1914 onde permaneceu até sua aposentadoria 
em 1936. No entanto, Park continuou a lecionar na Universidade Fisk, até sua 
morte, ocorrida em Nashville, aos 79 anos de idade. Figura reconhecida nos 
círculos acadêmicos, foi presidente da Associação Sociológica Americana e 
da Liga Urbana de Chicago, além de membro do Conselho de Pesquisa em 
Ciências Sociais.
FONTE: Silva (2009, p. 67)
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
15
FIGURA 6 – ROBERT EZRA PARK
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
Park, ao se debruçar sobre a ideia de consolidar uma Sociologia Urbana, 
indica que o espaço de investigação desse ramo da sociologia seriam as mudanças 
sociais, espaciais e residenciais. A mobilidade de um indivíduo ou grupo, para 
ele, mede-se não apenas pela mudança de local, mas pela quantidade e variedade 
de estímulos aos quais respondem. Esse autor se aproxima da obra de Durkheim 
quando tenta estabelecer o tipo de solidariedade que ocorre nas cidades, em 
função da divisão do trabalho. Essa divisão gera, para ele, uma interdependência 
entre as pessoas – acompanhada por uma solidariedade social baseada em um 
grupo de interesses.
A partir da discussão da divisão do trabalho o autor construirá um 
quadro comparativo das diferenças entre a cidade grande e o campo ou 
comunidades de vizinhanças. Somente na cidade, para Park, é que se 
encontra o fenômeno da multidão, conjunto de indivíduos que perdem 
a sua capacidade de manifestação de interesses individuais, torna-se 
um ente irracional e, portanto, pode ser manipulada e controlada.A 
multidão só é possível na cidade, pois exige alto estágio de mobilidade, 
bem como relações modernas e industriais (SILVA, 2009, p. 71).
Para este autor, a cidade é um espaço privilegiado de investigação sobre o 
comportamento humano, já que as relações tendem a ser impessoais e racionais, 
com a predominância do interesse pessoal – especialmente no que tange ao dinheiro. 
Além disso, as relações primárias são substituídas com frequência pelas relações 
secundárias, em função da rapidez de meios de transporte e comunicação. Trata-
se da substituição das relações próximas, ocorridas entre família, amigos, vizinhos, 
pelas relações mais distantes, geradas no trabalho, relações comerciais, entre outros.
A relação com grupos primários reduz-se e ocorre a perda de funções de 
instituições como família e igreja, alterando a vida social e ampliando situações 
como vícios e crimes nas cidades (SILVA, 2009). Park trata essa situação como 
objeto de investigação, tais como “enfraquecimento da família e da igreja; a crise 
e os tribunais; o vício comercializado e o tráfico de bebidas; política partidária e 
publicidade [...]” (SILVA, 2009, p. 71).
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
16
Seria possível estudar o controle social na cidade não mais realizado pelas 
instituições clássicas, mas apoiado em normas jurídicas. Também as tentativas de 
repressão ao vício e de controle do tráfico seriam objetos de investigação, já que o 
espaço urbano torna-se o campo ideal para sua disseminação. 
O controle social – entendido como os mecanismos que estabelecem a 
ordem social – manifesta-se, também, na publicidade e propaganda nos espaços 
urbanos. São estes os meios de controlar a opinião pública nas sociedades, 
especialmente se tratando da organização dos governos que, com a complexidade 
das cidades, necessitam administrar os grupos e suas relações secundárias.
Park propõe algumas categorias para comparação da vida na cidade e 
no campo, conforme é possível observar a seguir. Se no campo as relações são 
fundamentadas nos sentimentos, nas ações de cooperação e no conservadorismo 
– por exemplo –, na cidade temos relações movidas a interesse, competição 
frequente e excentricidade.
QUADRO 1 – CATEGORIAS PROPOSTAS POR PARK
FONTE: Silva (2009, p. 74)
Cidade Campo/comunidades de vizinhanças
Interesse Sentimento
Mobilidade Isolamento
Divisão do trabalho Simplicidade do trabalho
Raciocínio abstrato Raciocínio
Homem síntese: judeu Homem síntese: campones
Competição Cooperação
Mores ( usos sociais, maneiras de agir 
racionais)
Folkways (costumes tradicionais, derivados 
de agrupamentos homogêneos e simples)
Excentricidade Conservadorismo
Aventura Acomodação
Silva (2009) destaca que Park indica que na cidade existem os chamados 
tipos temperamentais, frutos das relações sutis causadas pela forte mobilidade 
social. Neste sentido, Park destaca três eixos de estudos sociológicos:
• a mobilização do homem individual;
• a região moral;
• o temperamento e contágio social.
Vejamos como Silva (2009, p. 73) descreve cada eixo de acordo com as 
obras de Park:
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
17
No primeiro eixo, da mobilização do homem individual, destaca que 
a cidade proporciona muitos contatos, mais transitórios e menos estáveis, a 
substituição das associações mais íntimas e permanentes da comunidade por 
uma relação causal e fortuita, o peso do status, ou seja, da aparência.
A cidade é o ambiente para a emergência de outro temperamento humano 
apoiado em elementos do acaso e aventura, funcionando com atração especial 
aos “nervos jovens e frescos”. A cidade é sinônimo de um clima moral que lhe dá 
liberdade, é o espaço para excentricidade e para a livre manifestação dos talentos.
Do estudo desses tipos excepcionais e temperamentais, deveríamos 
distinguir entre as qualidades mentais abstratas em que se baseia a excelência 
técnica e as características inatas mais fundamentais que encontram expressão 
no temperamento. Esta outra dimensão da cidade como região moral é 
importante para os estudos sobre a cidade, pois para Park, a segregação ocorre 
não apenas por interesses, mas de acordo com os gostos e temperamentos de 
seus habitantes. Assim, pode ser tomada também como apenas um ponto de 
encontro, um local de reunião ou um local de moradia. Para entendermos o 
surgimento da região moral é necessário perceber o que o autor chama de 
teoria dos impulsos latentes do homem.
A verdade parece ser que os homens são trazidos ao mundo com 
todas as paixões, instintos e apetites, incontrolados e indisciplinados. 
A civilização, no interesse do bem-estar comum, requer, algumas 
vezes, a repressão, e sempre o controle, dessas disposições naturais. 
No processo de impor sua disciplina ao indivíduo, de refazer o 
indivíduo de acordo com o modelo comunitário aceito, grande 
parte é completamente reprimida, e uma parte mais encontra uma 
expressão substituta nas formas socialmente valorizadas ou pelo 
menos inócuas. É nesse ponto que funcionam o esporte, a diversão e 
a arte. Permitem ao indivíduo se purgar desses impulsos selvagens 
e reprimidos por meio da expressão simbólica. É esta a catarse de 
que Aristóteles escreve em sua Poética, e à qual têm sido dadas 
significações novas e mais positivas pelas investigações de Sigmund 
Freud e dos psicanalistas. (PARK, 1979, p. 65).
Somente a vida na cidade permite “contágio” de tipos excêntricos, em 
que os tipos diferentes podem se associar com outros de sua laia, pois a cidade 
lhes dá o suporte moral. Dessa forma, a região moral é uma categoria analítica 
para se aplicar a regiões onde prevaleça um código moral divergente, por uma 
região em que as pessoas que a habitam são dominadas de uma maneira que 
as pessoas normalmente não o são, por um gosto, por uma paixão, por algum 
interesse que tem suas raízes diretamente na natureza original do indivíduo.
FONTE: Silva (2009, p. 73)
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
18
Park introduz a dimensão moral nas análises sobre as relações no meio 
urbano, passando de uma abordagem ecologista para uma abordagem culturalista. 
Mais adiante, essas duas correntes irão se consolidar e separar autores da Escola 
de Chicago, sendo que a vertente ecologista será guiada por Ernest Burgess e a 
vertente culturalista por Louis Wirth.
Uma obra muito importante para o estudo do autor Park, publicada no 
Brasil e muito recente é: 
VALLADARES, L. P. A Sociologia urbana de Robert E. Park. Rio de 
Janeiro: UFRJ, 2018.
DICAS
5 SEGUNDA GERAÇÃO: LOUIS WIRTH
Na segunda geração de sociólogos da Escola de Chicago temos Louis Wirth, 
que revisitou os clássicos da sociologia e pôs sobre eles suas análises, originando 
novas formas de compreender o contexto urbano a partir da sociologia.
Louis Wirth nasceu na Alemanha (1897-1952), mas fez seus estudos nos 
Estados Unidos, na Universidade de Chicago. Formado pela primeira geração 
dessa escola, este autor iria tornar-se, mais tarde, um de seus mais importantes 
professores. Suas principais obras são O Gueto, publicado em 1928, e o texto O 
urbanismo como modo de vida. Publicado originalmente no American Journal of 
Sociology, em 1928, tornou-se o seu texto mais popular, muito utilizado pela 
Antropologia em seus estudos sobre a cidade (SILVA, 2009).
FIGURA 7 – LOUIS WIRTH
FONTE: . Acesso em: 17 jun. 2019.
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
19
Para entender o desenvolvimento de seu pensamento, nos basearemos no 
autor Silva (2009). Wirth busca entender como o modo de vida urbano funciona, 
e para tal divide sua análise em quatro aspectos: 
• a cidade e a civilização contemporânea; 
• a definição de cidade a partir da sociologia; 
• uma teoria sobre o urbanismo; 
• a relação entre a teoria do urbanismo e a pesquisa sociológica.
Wirth inicialmente articula a civilização contemporânea com o conceito 
de cidade, indicando uma polarização entre o rural – que seria aligação com 
o tradicional – e o urbano – que seria a materialização do que é moderno. A 
civilização moderna, portanto, apresentaria uma tendência a viver em cidades, 
e estas, por sua vez, se sobrepõem a tudo o que é ligado ao campo, ao rural. Do 
ponto de vista evolucionista, a cidade seria a evolução de outros modos de vida, 
que não deixam de existir, mas que passam a ser tradicionais, ultrapassados.
Para analisar essa polarização, Wirth revisita o clássico Weber e seu 
conceito de tipo ideal, lançando mão de dois tipos ideais: a comunidade rural de 
folk e a sociedade urbano-industrial. Segundo ele, esses dois tipos permitem a 
análise das associações humanas, pois existe uma tendência dos conglomerados 
a se dispor de acordo com esses dois polos, que representam o meio rural (folk) e 
o meio urbano (industrial).
O conceito de Tipo Ideal na obra de Weber é um dos temas de estudo do 
componente curricular Teoria Sociológica I. Retome este material para relembrar as 
características e o funcionamento desse conceito.
ATENCAO
Definida essa polarização e consolidando a cidade como espaço da civilização 
moderna, Wirth passa a definir sociologicamente a cidade. Segundo ele, esta 
promove uma personalidade humana diferente naqueles que vivem no meio urbano, 
por meio das suas instituições, meios de transporte e comunicação. O modo de vida 
dos indivíduos na cidade, portanto, deve ser investigado em suas características 
peculiares – e analisado a partir das características da urbanidade em que vive.
A análise sociológica do urbanismo deve dar conta da descoberta das 
variações nas características essenciais da cidade, bem como deve 
ser suficientemente inclusiva para conter quaisquer características 
essenciais que os diferentes tipos de cidade têm em comum. Trata-se 
então de encontrar no urbanismo o ponto central de investigação de 
uma Sociologia Urbana e tratá-lo como um complexo de caracteres 
que formam o modo de vida peculiar das cidades (SILVA, 2009, p. 81).
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
20
O desenvolvimento e a extensão desse modo de vida peculiar das cidades 
mencionado por Wirth é, em suas definições, a urbanização. Esses fatores são 
encontrados especialmente em regiões metropolitanas, mas existem em todos os 
agrupamentos urbanos. E uma última definição, porém não menos importante, 
indica que a cidade é – para Wirth – um “núcleo relativamente grande, denso e 
permanente de indivíduos socialmente heterogêneos” (SILVA, 2009, p. 81).
Wirth volta suas análises para a cidade e para o urbanismo por identificar 
a ausência de hipóteses sobre esses temas nas análises sociológicas. Para tanto, ele 
baseia-se em Park e Weber, e busca analisar a cidade, desenvolvendo os seguintes 
postulados, elencados por Silva (2009, p. 82):
- quanto mais densamente habitada, quanto mais heterogênea for 
a comunidade, tanto mais acentuadas serão as características 
associadas ao urbanismo; 
- como o modo de vida urbano se espalha para além da cidade, ele 
poderá ser perpetuado sob condições bem diferentes daquelas 
necessárias para sua origem;
- a quantidade populacional conduz à alta densidade;
- a heterogeneidade dos habitantes e da vida social resulta tanto do 
crescimento próprio dos centros urbanos como da migração.
Wirth também buscou analisar as questões relativas à densidade 
populacional, ao tamanho das cidades e tudo o que envolve essa problemática:
Ao detalhar o tamanho do agregado populacional, Wirth afirma que 
quanto maior o número de indivíduos participando de um processo de 
interação, tanto maior a diferenciação potencial entre eles e tais variações 
dão origem à separação espacial entre os indivíduos. Este processo leva 
ao afrouxamento dos laços dos grupos primários ou comunitários: em 
comunidades (folk) imperam os vínculos de solidariedade, ao passo que 
na cidade (city) são os mecanismos formais de controle e a concorrência 
que predominam. Na cidade os contatos são muito mais frequentes e 
menos intensos. O indivíduo depende de mais pessoas, o que leva a 
uma maior segmentação de papéis (SILVA, 2009, p. 82).
Esta segmentação de papéis mencionada na citação anterior também 
aparece na especialização dos trabalhos, que traz o utilitarismo para as relações 
entre as pessoas, a predominância da segmentação nas relações. Muitas vezes, 
o mínimo de comunicação prevalece entre as pessoas, o que torna os contatos e 
associações superficiais. Boa parte das cidades, e as norte-americanas na época 
das análises ainda mais, são/eram formadas por grupos culturais diferenciados, 
cujo modo de vida diferente reflete em uma tolerância ou indiferença, gerando 
apenas a mínima comunicação. 
Além desses contatos indicados por Silva (2009), como contatos 
secundários, é possível identificar nas pesquisas de Wirth outras características 
que indicam o urbanismo como forma de organização social. 
TÓPICO 1 | A SOCIOLOGIA DA ESCOLA DE CHICAGO
21
A esfera pública amplia seu domínio sobre o indivíduo, na medida em 
que funções das instituições familiares passam a ser funções da esfera pública. 
A família nuclear passa a predominar em relação aos grupos de parentesco, 
refletindo em divergências entre estes núcleos – em função da ênfase maior no 
indivíduo. O custo de vida é maior no meio urbano, a necessidade do consumo é 
ampliada, e o lazer surge como escape à rotina, nesse contexto. Essa dinâmica gera 
o movimento do indivíduo de participação em grupos de interesses semelhantes 
aos seus, organizações voluntárias, a fim de atingir seus fins. Os sindicatos são 
exemplo desses grupos (SILVA, 2009).
Em função dessas características, para Wirth torna-se difícil prever as 
associações que irão ocorrer no meio urbano, pois trata-se de uma busca por 
organizações que auxiliarão o acesso aos seus interesses – portanto, é possível 
haver incongruências e contradições – diferentemente do meio rural, onde a partir 
de alguns aspectos institucionais é possível prever o pertencimento a grupos e a 
aproximação com associações.
O urbanismo torna-se objeto sociológico, portanto, em função das 
personalidades individuais que são moldadas pelos comportamentos coletivos 
estimulados pelas instituições urbanas. “Na cidade, o homem urbano exprime 
e desenvolve plenamente sua personalidade, adquire status e consegue 
desempenhar a quantidade de atividades que constituem sua carreira na vida” 
(SILVA, 2009, p. 86). 
O controle social resultante do tamanho, da densidade e da 
heterogeneidade das cidades deve processar-se tanto por meio de grupos 
formalmente organizados como através dos meios de comunicação. 
Nesse sentido, a manipulação das massas através de símbolos e 
estereótipos comandados por indivíduos “operando de longe” é um 
dos fenômenos urbanos da maior importância (SILVA, 2009, p. 86).
Esses grupos operando de longe se organizam de acordo com interesses, 
baseados em uma solidariedade social gerada com base em interações mínimas e 
pouca comunicação, mas ainda assim geram uma coesão social – proporcionando 
um equilíbrio entre as forças sociais. 
Segundo Wirth, a partir do entendimento desses quatro aspectos da 
vida urbana é possível estabelecer análises sociológicas a respeito da cidade, do 
urbanismo, do modo de vida urbano. Deveria, portanto, ocorrer a construção de 
uma sociologia urbana. Ele escreve:
Somente na medida em que o sociólogo tiver uma compreensão 
clara do que seja a cidade como entidade social e possuir uma teoria 
razoável sobre urbanismo, poderá ele desenvolver um corpo unificado 
de conhecimentos, pois aquilo que passa por “Sociologia Urbana” 
certamente não o é atualmente. Se, se tomar como ponto de partida uma 
teoria sobre urbanismo como delineada nas páginas anteriores, a ser 
elaborada, testada e revista à luz de mais análises e pesquisa empírica, 
pode-se esperar que seja determinado o critério de relevância e validade 
de dados concretos. Esse sortimento heterogêneo de informações 
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
22
Para complementar seu conhecimento acercadeste autor, o texto mais 
conhecido de Wirth sobre o urbanismo pode ser buscado na seguinte publicação: WIRTH, 
Louis. O urbanismo como modo de vida. In: VELHO, Otávio (Org.). O fenômeno urbano. 
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979. Vale a pena a leitura!
DICAS
separadas que foram incorporadas em tratados de Sociologia sobre a 
cidade poderá, assim, ser filtrado e incorporado num corpo coerente de 
conhecimentos. A propósito, somente por meio de uma teoria desse tipo, 
o sociólogo escapará da fútil prática de enunciar em nome da ciência 
sociológica, uma variedade de julgamentos, às vezes insuscitáveis, 
relativos a problemas, tais como pobreza, habitação, planejamento 
urbano, higiene, administração municipal, policiamento, mercadologia, 
transporte e outros itens técnicos. Embora o sociólogo não possa 
solucionar qualquer desses problemas práticos – pelo menos não por 
si só – ele poderá, se descobrir sua função apropriada, contribuir para a 
sua compreensão e solução. As perspectivas de fazê-lo são mais claras 
através de uma abordagem geral, teórica, do que por uma abordagem 
ad hoc (WIRTH, 1979, p. 112 apud SILVA, 2009, p. 86).
É dessa maneira que Wirth propõe que haja a construção de uma Sociologia 
Urbana, tornando-se um dos precursores dessa abordagem. Uma teoria do 
urbano, portanto, seria desenvolvida a partir de pesquisas e investigações que 
tratem a cidade como objeto sociológico, considerando suas peculiaridades em 
relação ao rural/tradicional.
23
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• A Escola de Chicago é o núcleo de uma sociologia norte-americana, cujo 
principal objeto de análise desta escola sociológica foi a cidade, o modo de 
vida urbano e tudo o que o caracteriza.
• No contexto de uma cidade que sofre explosão demográfica está inserida a 
Universidade de Chicago, berço de propostas para a sociologia urbana. É a 
partir dali que se pode dizer que se originou a Escola de Chicago.
• Um nome de fundamental importância para o surgimento da Escola de 
Chicago foi Albion Small, o primeiro diretor do Departamento de Sociologia a 
ser convidado para tal função.
• Do ponto de vista metodológico, a Escola de Chicago sofreu influências do 
formalismo, pragmatismo e das intenções de reforma social.
• Um dos autores fundamentais para a consolidação da Escola de Chicago, em 
sua primeira geração, foi Robert Ezra Park. Ao se debruçar sobre a ideia de 
consolidar uma Sociologia Urbana, Park indica que o espaço de investigação 
deste ramo da sociologia seriam as mudanças sociais, espaciais e residenciais. 
Um de seus conceitos importantes é o de ecologia humana.
• Na segunda geração de sociólogos da Escola de Chicago temos Louis Wirth, que 
revisitou os clássicos da sociologia e pôs sobre eles suas análises, originando 
novas formas de compreender o urbano a partir da sociologia. Um de seus 
conceitos importantes é a ideia de urbanidade.
24
AUTOATIVIDADE
1 A Escola de Chicago tornou-se célebre na Sociologia ao utilizar metodologias 
de forte caráter empírico. É conhecida por privilegiar a pesquisa prática. 
Para tal, sofreu influência de algumas perspectivas, citadas a seguir. Sobre 
estas perspectivas, associe os itens, utilizando o código a seguir:
I- Formalismo
II- Pragmatismo
III- Reforma Social
( ) Utiliza-se de propostas de intervenção aliadas à pesquisa científica.
( ) Objetiva captar as formas subjacentes de relações sociais e, assim, fornecer 
uma espécie de geometria da vida social.
( ) Busca a ênfase no valor prático, sendo este o critério de verdade, e 
rejeitando a busca por uma verdade absoluta.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) III – I – II.
b) ( ) II – I – III.
c) ( ) I – II – III.
d) ( ) III – II – I.
2 A Escola de Chicago é o berço da Sociologia Urbana, desenvolvendo estudos 
que tiveram influência mundial nesta área. Sobre a Escola de Chicago, 
analise as seguintes sentenças:
I- A Sociologia Rural também é desenvolvida na Escola de Chicago, com 
estudos que comparam a vida urbana ao meio rural.
II- O objeto principal de análise desta escola sociológica foi a cidade, o modo 
de vida urbano e tudo o que o caracteriza.
III- Robert Park desenvolveu estudos sobre a ideia de ecologia humana e 
Louis Wirth estudou o urbanismo.
IV- O crescimento urbano provoca novas formas de controle social, 
modificando a influência das instituições sociais tradicionais, como 
família, igreja e escola.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a afirmativa IV está correta.
b) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
c) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.
d) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.
25
TÓPICO 2
CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLOGIA 
URBANA PARA A COMPREENSÃO DA 
SOCIEDADE
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Agora que você já sabe como se originou a Escola de Chicago, as influências 
que sofreu nas dimensões metodológicas e um pouco sobre alguns de seus autores 
e pesquisas, é hora de adentrar no mundo dos seus conceitos. Muitas noções 
sociológicas foram utilizadas, versões clássicas revisitadas e outras criadas.
A Sociologia Urbana esteve em formação durante o desenvolvimento das 
investigações na Escola de Chicago, portanto, além das discussões metodológicas 
que estavam em andamento, também se desenvolveu um arcabouço próprio 
conceitual – para que a área pudesse ser consolidada como legítima dentro das 
pesquisas sociais.
Dentro do espaço que temos para estudo não seria possível esgotar todos 
esses conceitos, portanto, novamente sua tarefa é ir além! Procure ampliar os 
estudos com as leituras indicadas e pesquisar mais quando algum conceito lhe 
chamar a atenção. 
Por ora, vamos conhecer a ideia de cidade apresentada por este grupo, a 
noção de estrutura urbana e suas características, e a ecologia humana. Este último 
marcou fortemente toda a trajetória da Escola de Chicago, portanto, dê especial 
atenção a este conceito/teoria. 
Desejamos uma ótima leitura!
2 A CIDADE
A cidade, nos estudos de Sociologia Urbana, possui sempre um peso 
central nas análises – por ser uma categoria que aglutina a relação entre o 
comportamento humano urbano e as instituições nesse espaço. Em se tratando da 
Escola de Chicago, o autor clássico acerca do estudo da cidade é Park, conforme 
vimos no primeiro tópico desta unidade. A cidade é o espaço de análise do 
sociólogo, ela é entendida nesse contexto como laboratório social.
UNIDADE 1 | ESCOLA DE CHICAGO
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Antes de Park, um outro membro do Departamento de Sociologia, 
Charles Richmond Henderson, já havia se interessado por estudar a 
cidade, embora seu interesse estivesse mais próximo do humanitário 
do que do cientista objetivo. Nos primeiros anos da universidade, 
Henderson costumava enviar alunos da pós-graduação para 
observarem o que ocorria em várias áreas da cidade. Faleceu em 1916, 
sendo sucedido por Ernest Watson Burgess, que havia sido seu aluno 
e cuja associação com Park resultou no período de intensa produção 
acadêmica e influência da Escola de Chicago (FREITAS, 2002, p. 63).
O artigo que Park escreveu sobre esse tema e que se tornou um marco para 
a consolidação de uma tradição de pesquisa fortemente pragmática e de cunho 
empírico foi A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio 
urbano, em 1915. A publicação ocorreu no periódico American Journal of Sociology, 
que – como já vimos – foi o principal meio de comunicação da Escola de Chicago. 
No artigo, Park apresenta as potencialidades da etnografia urbana, 
indicando que os “métodos pacientes de observação utilizados por antropólogos 
como Boas e Lowie para estudo dos povos primitivos poderiam ser ainda mais 
vantajosamente empregados na investigação dos costumes, crenças e práticas 
sociais do homem civilizado” (FREITAS, 2002, p. 64).
E por meio de métodos como a etnografia seria possível pesquisar 
empiricamente a vida social ocorrida na cidade, especialmente suas nuances. Ele 
pedia aos seus alunos que observassem tudo

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