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Instituto Federal do Norte de Minas Gerais
Diretoria de Assuntos Estudantis
Coordenadoria de Ações Inclusivas
A CONSTRUÇÃO DO RACISMO CIENTÍFICO E O COLORISMO NO BRASIL – UMA
EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM DEBRET
JÚNIOR, E. G.¹
¹Docente de Sociologia no IFNMG campus Arinos
Resumo: A experiência analisa a obra de Debret (1834) como instrumento do racismo científico no
século XIX, que hierarquizou grupos raciais no Brasil, associando branquitude a civilização e
negros/indígenas a "atraso". A atividade pedagógica aplicada no IFNMG-Arinos combinou análise
textual, iconográfica e depoimentos para desnaturalizar essas categorias. Os estudantes identificaram
a artificialidade das classificações raciais e sua persistência no colorismo atual, visível em estatísticas
sociais. Concluiu-se que o racismo científico estruturou desigualdades duradouras, e que a
desconstrução crítica desses paradigmas é essencial para enfrentar seus reflexos contemporâneos,
como a valorização de fenótipos claros e a marginalização de negros retintos.
Palavras-chave: Racismo científico, Colorismo, Debret, Eurocentrismo, Ensino de Sociologia.
Introdução
No século XIX, no contexto da expansão colonial europeia, naturalistas, artistas e cientistas
foram agentes fundamentais na construção de um paradigma eurocêntrico que classificava os povos
não europeus dentro de uma hierarquia racial supostamente baseada em critérios "científicos". Jean-
Baptiste Debret, integrante da Missão Artística Francesa no Brasil (1816), não apenas retratou a
sociedade brasileira, mas também reproduziu e legitimou esse modelo classificatório em sua obra
Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834).
No trecho analisado ("A População Brasileira", p. 87), Debret lista onze categorias raciais,
ordenadas desde o "português legítimo" (topo da civilização) até o "índio selvagem" e o "negro de
África" (base da escala "selvagem"). Essa classificação não era neutra, ela servia ao projeto imperial
de justificar a dominação através da naturalização das diferenças, associando fenótipo a capacidade
intelectual e moral. Essa estrutura, herdada do Iluminismo e do racialismo científico do século XIX,
operava uma dupla violência: a biológica na a fixação de "tipos raciais" como entidades imutáveis,
atribuindo-lhes características inatas e a cultural na associação entre branquitude e progresso,
enquanto negros e indígenas eram vistos como obstáculos à civilização".
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O colorismo no Brasil contemporâneo é um desdobramento direto desse sistema, pois mantém
a lógica de que quanto mais clara a pele, maior o acesso a privilégios sociais. Debret, ao documentar
essas categorias, não apenas as descreveu, mas as reforçou visual e discursivamente, tornando-as
parte do imaginário nacional. Estudos como os de Schwarcz (1993) e Fernandes (1965) destacam
como o século XIX consolidou o mito da democracia racial brasileira através de uma falsa harmonia
entre raças, enquanto na prática se mantinha uma rígida hierarquia baseada em cor. A obra de Debret,
analisada por Lopes (2007), é parte desse processo, pois suas classificações refletem o pensamento
racial europeu que associava branquitude a civilização. Já Munanga (2004) e Almeida (2018)
discutem como o colorismo, derivado dessa hierarquia, perpetua desigualdades mesmo após a
abolição, privilegiando tonalidades de pele mais claras em espaços de poder.
Esta escolha do trecho de Debret como objeto de análise justifica-se por sua função
pedagógica para desnaturalizar categorias raciais historicamente construídas. Conectar passado
colonial com desigualdades contemporâneas, como a sub-representação de negros retintos na mídia
além da promoção da decolonização do currículo, ao questionar fontes canônicas que reforçaram
estereótipos. Como objetivo as atividades propostas buscaram expor as raízes históricas do racismo
científico e sua relação com o colonialismo, demonstrando como a obra de Debret perpetuou uma
hierarquia cromática que ainda estrutura o colorismo hoje e a realização da reflexão crítica sobre os
impactos dessas classificações na autoidentificação racial dos estudantes.
Atividades Realizadas
A experiência realizada foi a aplicação de uma atividade nas turmas do segundo ano, nos
cursos técnicos Integrados do IFNMG campus Arinos, tendo como atividades a análise textual e
iconográfica, leitura do trecho de Debret comparada com suas aquarelas (ex.: "Tipos e costumes
brasileiros"), destacando a estereotipização de negros e indígenas; a contextualização histórica, a
discussão sobre o papel de naturalistas como Debret, Gobineau e Martius na racialização das relações
sociais.
Ainda como atividade prática os estudantes criaram uma "linha do tempo do colorismo",
relacionando as onze categorias de Debret com dados atuais (ex.: perfil racial de elites políticas x
população carcerária) e a realização da coleta de depoimentos, relatos pessoais sobre experiências
com colorismo no cotidiano (ex.: diferença no tratamento entre irmãos de tons de pele distintos).
Como Resultados os estudantes identificaram a artificialidade das categorias de Debret, que
misturavam origem geográfica, cor e status social além da construção histórica do racismo científico,
a partir da classificação eurocêntrica de hierarquização, de selvagens (como primitivos) e os
civilizados (no topo). Identificou também como termos como "mulato" e "caboclo" foram
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ressignificados, mas ainda carregam vestígios da hierarquia colonial até os dias atuais e a persistência
do colorismo em estatísticas de renda, escolaridade e violência policial.
Considerações Finais
Conclui-se que a experiência evidenciou que o racismo científico não foi uma mera teoria do
passado, mas um projeto político que moldou instituições e subjetividades. Debret, ao catalogar a
população brasileira, colaborou com a naturalização de desigualdades que hoje se expressam no
colorismo. A atividade mostrou-se eficaz ao desvelar essas continuidades, incentivando os estudantes
a questionarem criticamente padrões de exclusão ainda vigentes.
Referências:
ALMEIDA, S. L. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2018. 264 p.
DEBRET, J. B. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. v. 1. 310
p.
FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Dominus, 1965. v.
1. 424 p.
MUNANGA, K. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2004. 132 p.
LOPES, M. M. O Brasil descrito e desenhado: arte, ciência e política no Império de d. Pedro
II. São Paulo: Hucitec, 2007. 328 p.
SCHWARCZ, L. M. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil -
1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 287 p.