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APOSTILA SED SC 2024/2025 CONHECIMENTOS GERAIS FUNDAMENTOS TEÓRICOS METODOLÓGICOS DA PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA. PERCURSOS FORMATIVOS E A ESTRUTURAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO. DIVERSIDADE COMO PRINCÍPIO FORMATIVO. LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA. AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM. PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Ementas/conteúdos programáticos 1 Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. § 1º Esta Lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias. § 2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. X - valorização da experiência extraescolar; XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. XII - consideração com a diversidade étnico- racial. XIII - garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. XIV - respeito à diversidade humana, linguística, cultural e identitária das pessoas surdas, surdo-cegas e com deficiência auditiva. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos respectivos Estados e Municípios e do Distrito Federal; (Redação dada pela Lei nº 14.644, de 2023) IX - garantia de padrão de qualidade; Art. 4º O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, organizada da seguinte forma: a) pré-escola; b) ensino fundamental; c) ensino médio; II - educação infantil gratuita às crianças de até 5 (cinco) anos de idade; III - atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino; IV - acesso público e gratuito aos ensinos fundamental e médio para todos os que não os concluíram na idade própria; V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; VII - oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, TÍTULO III Do Direito à Educação e do Dever de Educar TÍTULO I Da Educação TÍTULO II Dos Princípios e Fins da Educação Nacional 2 garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola; VIII - atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde; IX – padrões mínimos de qualidade do ensino, definidos como a variedade e a quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino- aprendizagem adequados à idade e às necessidades específicas de cada estudante, inclusive mediante a provisão de mobiliário, equipamentos e materiais pedagógicos apropriados; (Redação dada pela Lei nº 14.333, de 2022) X – vaga na escola pública de educação infantil ou de ensino fundamental mais próxima de sua residência a toda criança a partir do dia em que completar 4 (quatro) anos de idade. XI – alfabetização plena e capacitação gradual para a leitura ao longo da educação básica como requisitos indispensáveis para a efetivação dos direitos e objetivos de aprendizagem e para o desenvolvimento dos indivíduos. (Incluído pela Lei nº 14.407, de 2022) XII - educação digital, com a garantia de conectividade de todas as instituições públicas de educação básica e superior à internet em alta velocidade, adequada para o uso pedagógico, com o desenvolvimento de competências voltadas ao letramento digital de jovens e adultos, criação de conteúdos digitais, comunicação e colaboração, segurança e resolução de problemas. (Incluído pela Lei nº 14.533, de 2023) Parágrafo único. Para efeitos do disposto no inciso XII do caput deste artigo, as relações entre o ensino e a aprendizagem digital deverão prever técnicas, ferramentas e recursos digitais que fortaleçam os papéis de docência e aprendizagem do professor e do aluno e que criem espaços coletivos de mútuo desenvolvimento. (Incluído pela Lei nº 14.533, de 2023) Art. 4º-A. É assegurado atendimento educacional, durante o período de internação, ao aluno da educação básica internado para tratamento de saúde em regime hospitalar ou domiciliar por tempo prolongado, conforme dispuser o Poder Público em regulamento, na esfera de sua competência federativa. Art. 5º O acesso à educação básica obrigatória é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o Ministério Público, acionar o poder público para exigi-lo. § 1º O poder público, na esfera de sua competência federativa, deverá: I - recensear anualmente as crianças e adolescentes em idade escolar, bem como os jovens e adultos que não concluíram a educação básica; II - fazer-lhes a chamada pública; III - zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola. § 2º Em todas as esferas administrativas, o Poder Público assegurará em primeiro lugar o acesso ao ensino obrigatório, nos termos deste artigo, contemplando em seguida os demais níveis e modalidades de ensino, conforme as prioridades constitucionais e legais. § 3º Qualquer das partes mencionadas no caput deste artigo tem legitimidade para peticionar no Poder Judiciário, na hipótese do § 2º do art. 208 da Constituição Federal, sendo gratuita e de rito sumário a ação judicial correspondente. § 4º Comprovada a negligência da autoridade competente para garantir o oferecimento do ensino obrigatório, poderá ela ser imputada por crime de responsabilidade. § 5º Para garantir o cumprimento da obrigatoriedade de ensino, o Poder Público criará formas alternativas de acesso aos diferentes níveis de ensino, independentemente da escolarização anterior. Art. 6º É dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação básica a partir dos 4 (quatro) anos de idade. Art. 7º O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: I - cumprimento das normas gerais da educação nacionale do respectivo sistema de ensino; II - autorização de funcionamento e avaliação de qualidade pelo Poder Público; III - capacidade de autofinanciamento, ressalvado o previsto no art. 213 da Constituição Federal. Art. 7º-A Ao aluno regularmente matriculado em instituição de ensino pública ou privada, de qualquer nível, é assegurado, no exercício da liberdade de consciência e de crença, o direito de, mediante prévio e motivado requerimento, ausentar-se de prova ou de aula marcada para dia em que, segundo os preceitos de sua religião, seja vedado o exercício de tais atividades, devendo-se-lhe atribuir, a critério da instituição e sem custos para o aluno, uma das 3 seguintes prestações alternativas, nos termos do inciso VIII do caput do art. 5º da Constituição Federal: I - prova ou aula de reposição, conforme o caso, a ser realizada em data alternativa, no turno de estudo do aluno ou em outro horário agendado com sua anuência expressa; II - trabalho escrito ou outra modalidade de atividade de pesquisa, com tema, objetivo e data de entrega definidos pela instituição de ensino. § 1º A prestação alternativa deverá observar os parâmetros curriculares e o plano de aula do dia da ausência do aluno. § 2º O cumprimento das formas de prestação alternativa de que trata este artigo substituirá a obrigação original para todos os efeitos, inclusive regularização do registro de frequência. § 3º As instituições de ensino implementarão progressivamente, no prazo de 2 (dois) anos, as providências e adaptações necessárias à adequação de seu funcionamento às medidas previstas neste artigo. § 4º O disposto neste artigo não se aplica ao ensino militar a que se refere o art. 83 desta Lei. ensino fundamental e o ensino médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum; IV-A - estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, diretrizes e procedimentos para identificação, cadastramento e atendimento, na educação básica e na educação superior, de alunos com altas habilidades ou superdotação; V - coletar, analisar e disseminar informações sobre a educação; VI - assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino; VII - baixar normas gerais sobre cursos de graduação e pós-graduação; VII-A - assegurar, em colaboração com os sistemas de ensino, processo nacional de avaliação das instituições e dos cursos de educação profissional técnica e tecnológica; (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) Art. 8º A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão, em regime de colaboração, os respectivos sistemas de ensino. § 1º Caberá à União a coordenação da política nacional de educação, articulando os diferentes níveis e sistemas e exercendo função normativa, redistributiva e supletiva em relação às demais instâncias educacionais. § 2º Os sistemas de ensino terão liberdade de organização nos termos desta Lei. Art. 9º A União incumbir-se-á de: I - elaborar o Plano Nacional de Educação, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; II - organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais do sistema federal de ensino e o dos Territórios; III - prestar assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória, exercendo sua função redistributiva e supletiva; IV - estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, competências e diretrizes para a educação infantil, o VIII - assegurar processo nacional de avaliação das instituições de educação superior, com a cooperação dos sistemas que tiverem responsabilidade sobre este nível de ensino; IX - autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos das instituições de educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino. § 1º Na estrutura educacional, haverá um Conselho Nacional de Educação, com funções normativas e de supervisão e atividade permanente, criado por lei. § 2° Para o cumprimento do disposto nos incisos V a IX, a União terá acesso a todos os dados e informações necessários de todos os estabelecimentos e órgãos educacionais. § 3º As atribuições constantes do inciso IX poderão ser delegadas aos Estados e ao Distrito Federal, desde que mantenham instituições de educação superior. Art. 10. Os Estados incumbir-se-ão de: I - organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de ensino; II - definir, com os Municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamental, as quais devem assegurar a distribuição proporcional das responsabilidades, de acordo com a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis em cada uma dessas esferas do Poder Público; TÍTULO IV Da Organização da Educação Nacional http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm#art9iva 4 III - elaborar e executar políticas e planos educacionais, em consonância com as diretrizes e planos nacionais de educação, integrando e coordenando as suas ações e as dos seus Municípios; IV - autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos das instituições de educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino; V - baixar normas complementares para o seu sistema de ensino; VI - assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio a todos que o demandarem, respeitado o disposto no art. 38 desta Lei; VII - assumir o transporte escolar dos alunos da rede estadual. VIII – instituir, na forma da lei de que trata o art. 14, Conselhos Escolares e Fóruns dos Conselhos Escolares. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) Parágrafo único. Ao Distrito Federal aplicar-se- ão as competências referentes aos Estados e aos Municípios. Art. 11. Os Municípios incumbir-se-ão de: I - organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de ensino, integrando-os às políticas e planos educacionais da União e dos Estados; II - exercer ação redistributiva em relação às suas escolas; III - baixar normas complementares para o seu sistema de ensino; IV - autorizar, credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino; V - oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas, e, com prioridade, o ensino fundamental, permitida a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas plenamente as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do ensino. VI - assumir o transporte escolar dos alunos da rede municipal. VII – instituir, na forma da lei de que trata o art. 14, Conselhos Escolares e Fóruns dos Conselhos Escolares. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) Parágrafo único. Os Municípios poderão optar, ainda, por se integrar ao sistema estadual de ensino ou compor com ele um sistema único de educação básica. Art. 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: I - elaborar e executar sua proposta pedagógica; II - administrar seu pessoal e seus recursos materiais e financeiros; III - assegurar o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidas; IV - velar pelo cumprimentodo plano de trabalho de cada docente; V - prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento; VI - articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola; VII - informar pai e mãe, conviventes ou não com seus filhos, e, se for o caso, os responsáveis legais, sobre a frequência e rendimento dos alunos, bem como sobre a execução da proposta pedagógica da escola; VIII – notificar ao Conselho Tutelar do Município a relação dos alunos que apresentem quantidade de faltas acima de 30% (trinta por cento) do percentual permitido em lei; IX - promover medidas de conscientização, de prevenção e de combate a todos os tipos de violência, especialmente a intimidação sistemática (bullying), no âmbito das escolas; X - estabelecer ações destinadas a promover a cultura de paz nas escolas. XI - promover ambiente escolar seguro, adotando estratégias de prevenção e enfrentamento ao uso ou dependência de drogas. XII – instituir, na forma da lei de que trata o art. 14, os Conselhos Escolares. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) Art. 13. Os docentes incumbir-se-ão de: I - participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; II - elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; III - zelar pela aprendizagem dos alunos; IV - estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento; V - ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional; VI - colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade. 5 Art. 14. Lei dos respectivos Estados e Municípios e do Distrito Federal definirá as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (Redação dada pela Lei nº 14.644, de 2023) I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II – participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escolares e em Fóruns dos Conselhos Escolares ou equivalentes. (Redação dada pela Lei nº 14.644, de 2023) § 1º O Conselho Escolar, órgão deliberativo, será composto do Diretor da Escola, membro nato, e de representantes das comunidades escolar e local, eleitos por seus pares nas seguintes categorias: (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) I – professores, orientadores educacionais, supervisores e administradores escolares; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) II – demais servidores públicos que exerçam atividades administrativas na escola; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) III – estudantes; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) IV – pais ou responsáveis; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) V – membros da comunidade local. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) § 2º O Fórum dos Conselhos Escolares é um colegiado de caráter deliberativo que tem como finalidades o fortalecimento dos Conselhos Escolares de sua circunscrição e a efetivação do processo democrático nas unidades educacionais e nas diferentes instâncias decisórias, com vistas a melhorar a qualidade da educação, norteado pelos seguintes princípios: (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) Art. 15. Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público. Art. 16. O sistema federal de ensino compreende: I - as instituições de ensino mantidas pela União; II - as instituições de educação superior mantidas pela iniciativa privada; III - os órgãos federais de educação. Art. 17. Os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal compreendem: I - as instituições de ensino mantidas, respectivamente, pelo Poder Público estadual e pelo Distrito Federal; II - as instituições de educação superior mantidas pelo Poder Público municipal; III - as instituições de ensino fundamental e médio criadas e mantidas pela iniciativa privada; IV - os órgãos de educação estaduais e do Distrito Federal, respectivamente. Parágrafo único. No Distrito Federal, as instituições de educação infantil, criadas e mantidas pela iniciativa privada, integram seu sistema de ensino. Art. 18. Os sistemas municipais de ensino compreendem: I - as instituições do ensino fundamental, médio e de educação infantil mantidas pelo Poder Público municipal; II - as instituições de educação infantil criadas e mantidas pela iniciativa privada; III – os órgãos municipais de educação. I – democratização da gestão; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) II – democratização do acesso e permanência; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) III – qualidade social da educação. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) § 3º O Fórum dos Conselhos Escolares será composto de: (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) I – 2 (dois) representantes do órgão responsável pelo sistema de ensino; (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) II – 2 (dois) representantes de cada Conselho Escolar da circunscrição de atuação do Fórum dos Conselhos Escolares. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) Art. 19. As instituições de ensino dos diferentes níveis classificam-se nas seguintes categorias administrativas: I - públicas, assim entendidas as criadas ou incorporadas, mantidas e administradas pelo Poder Público; II - privadas, assim entendidas as mantidas e administradas por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado. III - comunitárias, na forma da lei. § 1º As instituições de ensino a que se referem os incisos II e III do caput deste artigo podem qualificar-se como confessionais, atendidas a orientação confessional e a ideologia específicas. 6 TÍTULO V Dos Níveis e das Modalidades de Educação e Ensino § 2º As instituições de ensino a que se referem os incisos II e III do caput deste artigo podem ser certificadas como filantrópicas, na forma da lei. Art. 20. (Revogado pela Lei nº 13.868, de 2019). ensino médio, distribuídas por um mínimo de duzentos dias de efetivo trabalho escolar, excluído o tempo reservado aos exames finais, quando houver; II - a classificação em qualquer série ou etapa, exceto a primeira do ensino fundamental, pode ser feita: CAPÍTULO I – Da Composição dos Níveis Escolares Art. 21. A educação escolar compõe-se de: I - educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; II - educação superior. CAPÍTULO II - Da Educação Básica Seção I Das Disposições Gerais Art. 22. A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. Parágrafo único. São objetivos precípuos da educação básica a alfabetização plena e a formação de leitores, como requisitos essenciais para o cumprimento das finalidades constantes do caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 14.407, de 2022) Art. 23. A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. § 1º A escola poderá reclassificar os alunos, inclusive quando se tratar de transferências entre estabelecimentos situados no País eno exterior, tendo como base as normas curriculares gerais. § 2º O calendário escolar deverá adequar-se às peculiaridades locais, inclusive climáticas e econômicas, a critério do respectivo sistema de ensino, sem com isso reduzir o número de horas letivas previsto nesta Lei. Art. 24. A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras comuns: I - a carga horária mínima anual será de oitocentas horas para o ensino fundamental e para o a) por promoção, para alunos que cursaram, com aproveitamento, a série ou fase anterior, na própria escola; b) por transferência, para candidatos procedentes de outras escolas; c) independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino; III - nos estabelecimentos que adotam a progressão regular por série, o regimento escolar pode admitir formas de progressão parcial, desde que preservada a sequência do currículo, observadas as normas do respectivo sistema de ensino; IV - poderão organizar-se classes, ou turmas, com alunos de séries distintas, com níveis equivalentes de adiantamento na matéria, para o ensino de línguas estrangeiras, artes, ou outros componentes curriculares; V - a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais; b) possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar; c) possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado; d) aproveitamento de estudos concluídos com êxito; e) obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos; VI - o controle de frequência fica a cargo da escola, conforme o disposto no seu regimento e nas normas do respectivo sistema de ensino, exigida a frequência mínima de setenta e cinco por cento do total de horas letivas para aprovação; VII - cabe a cada instituição de ensino expedir históricos escolares, declarações de conclusão de série e diplomas ou certificados de conclusão de cursos, com as especificações cabíveis. 7 § 1º A carga horária mínima anual de que trata o inciso I do caput deverá ser ampliada de forma progressiva, no ensino médio, para mil e quatrocentas horas, devendo os sistemas de ensino oferecer, no prazo máximo de cinco anos, pelo menos mil horas anuais de carga horária, a partir de 2 de março de 2017. § 2o Os sistemas de ensino disporão sobre a oferta de educação de jovens e adultos e de ensino noturno regular, adequado às condições do educando, conforme o inciso VI do art. 4o. Art. 25. Será objetivo permanente das autoridades responsáveis alcançar relação adequada entre o número de alunos e o professor, a carga horária e as condições materiais do estabelecimento. Parágrafo único. Cabe ao respectivo sistema de ensino, à vista das condições disponíveis e das características regionais e locais, estabelecer parâmetro para atendimento do disposto neste artigo. Art. 26. Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. § 1º Os currículos a que se refere o caput devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil. § 2o O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação básica. § 3º A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao aluno: I – que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas; II – maior de trinta anos de idade; III – que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática da educação física; IV – amparado pelo Decreto-Lei no 1.044, de 21 de outubro de 1969; V – (VETADO); VI – que tenha prole. § 4º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia. § 5º No currículo do ensino fundamental, a partir do sexto ano, será ofertada a língua inglesa. § 6º As artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens que constituirão o componente curricular de que trata o § 2o deste artigo. § 7º A integralização curricular poderá incluir, a critério dos sistemas de ensino, projetos e pesquisas envolvendo os temas transversais de que trata o caput. § 8º A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais. § 9º Conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra a criança, o adolescente e a mulher serão incluídos, como temas transversais, nos currículos de que trata o caput deste artigo, observadas as diretrizes da legislação correspondente e a produção e distribuição de material didático adequado a cada nível de ensino. (Redação dada pela Lei nº 14.164, de 2021) § 9º-A. A educação alimentar e nutricional será incluída entre os temas transversais de que trata o caput. § 10. A inclusão de novos componentes curriculares de caráter obrigatório na Base Nacional Comum Curricular dependerá de aprovação do Conselho Nacional de Educação e de homologação pelo Ministro de Estado da Educação. § 11. (VETADO). (Incluído pela Lei nº 14.533, de 2023) Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. § 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1044.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1044.htm 8 § 2º Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes: I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática; II - consideraçãodas condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento; III - orientação para o trabalho; IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não-formais. Art. 28. Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I - conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II - organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III - adequação à natureza do trabalho na zona rural. Parágrafo único. O fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas será precedido de manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, que considerará a justificativa apresentada pela Secretaria de Educação, a análise do diagnóstico do impacto da ação e a manifestação da comunidade escolar. Seção II Da Educação Infantil Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. Art. 30. A educação infantil será oferecida em: I - creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II - pré-escolas, para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade. Art. 31. A educação infantil será organizada de acordo com as seguintes regras comuns: I - avaliação mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental; II - carga horária mínima anual de 800 (oitocentas) horas, distribuída por um mínimo de 200 (duzentos) dias de trabalho educacional; III - atendimento à criança de, no mínimo, 4 (quatro) horas diárias para o turno parcial e de 7 (sete) horas para a jornada integral; IV - controle de frequência pela instituição de educação pré-escolar, exigida a frequência mínima de 60% (sessenta por cento) do total de horas; V - expedição de documentação que permita atestar os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Seção III Do Ensino Fundamental Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. § 1º É facultado aos sistemas de ensino desdobrar o ensino fundamental em ciclos. § 2º Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino- aprendizagem, observadas as normas do respectivo sistema de ensino. § 3º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. § 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como 9 complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais. § 5º O currículo do ensino fundamental incluirá, obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990, que institui o Estatuto da Criança e do Adolescente, observada a produção e distribuição de material didático adequado. § 6º O estudo sobre os símbolos nacionais será incluído como tema transversal nos currículos do ensino fundamental. Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. § 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores. § 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. Art. 34. A jornada escolar no ensino fundamental incluirá pelo menos quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola. § 1º São ressalvados os casos do ensino noturno e das formas alternativas de organização autorizadas nesta Lei. § 2º O ensino fundamental será ministrado progressivamente em tempo integral, a critério dos sistemas de ensino. Seção IV Do Ensino Médio Art. 35. O ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades: I - a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; III - o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; IV - a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina. Art. 35-A. A Base Nacional Comum Curricular definirá direitos e objetivos de aprendizagem do ensino médio, conforme diretrizes do Conselho Nacional de Educação, nas seguintes áreas do conhecimento: I - linguagens e suas tecnologias; II - matemática e suas tecnologias; III - ciências da natureza e suas tecnologias; IV - ciências humanas e sociais aplicadas. § 1º A parte diversificada dos currículos de que trata o caput do art. 26, definida em cada sistema de ensino, deverá estar harmonizada à Base Nacional Comum Curricular e ser articulada a partir do contexto histórico, econômico, social, ambiental e cultural. § 2º A Base Nacional Comum Curricular referente ao ensino médio incluirá obrigatoriamente estudos e práticas de educação física, arte, sociologia e filosofia. § 3º O ensino da língua portuguesa e da matemática será obrigatório nos três anos do ensino médio, assegurada às comunidades indígenas, também, a utilização das respectivas línguas maternas. § 4º Os currículos do ensino médio incluirão, obrigatoriamente, o estudo da língua inglesa e poderão ofertar outras línguas estrangeiras, em caráter optativo, preferencialmente o espanhol, de acordo com a disponibilidade de oferta, locais e horários definidos pelos sistemas de ensino. § 5º A carga horária destinada ao cumprimento da Base Nacional Comum Curricular não poderá ser superior a mil e oitocentas horas do total da carga horária do ensino médio, de acordo com a definição dos sistemas de ensino. § 6º A União estabeleceráos padrões de desempenho esperados para o ensino médio, que serão referência nos processos nacionais de avaliação, a partir da Base Nacional Comum Curricular. § 7º Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais. § 8º Os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação processual e formativa serão organizados nas redes de ensino por meio de 1 0 atividades teóricas e práticas, provas orais e escritas, seminários, projetos e atividades on-line, de tal forma que ao final do ensino médio o educando demonstre: I - domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna; II - conhecimento das formas contemporâneas de linguagem. Art. 36. O currículo do ensino médio será composto pela Base Nacional Comum Curricular e por itinerários formativos, que deverão ser organizados por meio da oferta de diferentes arranjos curriculares, conforme a relevância para o contexto local e a possibilidade dos sistemas de ensino, a saber: I - linguagens e suas tecnologias; II - matemática e suas tecnologias; III - ciências da natureza e suas tecnologias; IV - ciências humanas e sociais aplicadas; V - formação técnica e profissional. § 1o A organização das áreas de que trata o caput e das respectivas competências e habilidades será feita de acordo com critérios estabelecidos em cada sistema de ensino. I - (revogado); II - (revogado); § 3º A critério dos sistemas de ensino, poderá ser composto itinerário formativo integrado, que se traduz na composição de componentes curriculares da Base Nacional Comum Curricular - BNCC e dos itinerários formativos, considerando os incisos I a V do caput. § 5º Os sistemas de ensino, mediante disponibilidade de vagas na rede, possibilitarão ao aluno concluinte do ensino médio cursar mais um itinerário formativo de que trata o caput. § 6º A critério dos sistemas de ensino, a oferta de formação com ênfase técnica e profissional considerará: I - a inclusão de vivências práticas de trabalho no setor produtivo ou em ambientes de simulação, estabelecendo parcerias e fazendo uso, quando aplicável, de instrumentos estabelecidos pela legislação sobre aprendizagem profissional; II - a possibilidade de concessão de certificados intermediários de qualificação para o trabalho, quando a formação for estruturada e organizada em etapas com terminalidade. § 7º A oferta de formações experimentais relacionadas ao inciso V do caput, em áreas que não constem do Catálogo Nacional dos Cursos Técnicos, dependerá, para sua continuidade, do reconhecimento pelo respectivo Conselho Estadual de Educação, no prazo de três anos, e da inserção no Catálogo Nacional dos Cursos Técnicos, no prazo de cinco anos, contados da data de oferta inicial da formação. § 8º A oferta de formação técnica e profissional a que se refere o inciso V do caput, realizada na própria instituição ou em parceria com outras instituições, deverá ser aprovada previamente pelo Conselho Estadual de Educação, homologada pelo Secretário Estadual de Educação e certificada pelos sistemas de ensino. § 9º As instituições de ensino emitirão certificado com validade nacional, que habilitará o concluinte do ensino médio ao prosseguimento dos estudos em nível superior ou em outros cursos ou formações para os quais a conclusão do ensino médio seja etapa obrigatória. § 10. Além das formas de organização previstas no art. 23, o ensino médio poderá ser organizado em módulos e adotar o sistema de créditos com terminalidade específica. § 11. Para efeito de cumprimento das exigências curriculares do ensino médio, os sistemas de ensino poderão reconhecer competências e firmar convênios com instituições de educação a distância com notório reconhecimento, mediante as seguintes formas de comprovação: I - demonstração prática; II - experiência de trabalho supervisionado ou outra experiência adquirida fora do ambiente escolar; III - atividades de educação técnica oferecidas em outras instituições de ensino credenciadas; IV - cursos oferecidos por centros ou programas ocupacionais; V - estudos realizados em instituições de ensino nacionais ou estrangeiras; VI - cursos realizados por meio de educação a distância ou educação presencial mediada por tecnologias. § 12. As escolas deverão orientar os alunos no processo de escolha das áreas de conhecimento ou de atuação profissional previstas no caput. Seção IV-A Da Educação Profissional Técnica de Nível Médio Art. 36-A. Sem prejuízo do disposto na Seção IV deste Capítulo, o ensino médio, atendida a formação geral do educando, poderá prepará-lo para o exercício de profissões técnicas. Parágrafo único. A preparação geral para o trabalho e, facultativamente, a habilitação profissional poderão ser desenvolvidas nos próprios estabelecimentos de ensino médio ou em 11 cooperação com instituições especializadas em educação profissional. Art. 36-B. A educação profissional técnica de nível médio será desenvolvida nas seguintes formas: I - articulada com o ensino médio; II – subsequente, em cursos destinados a quem já tenha concluído o ensino médio. § 1º A educação profissional técnica de nível médio deverá observar: (Redação dada pela Lei nº 14.645, de 2023) I - os objetivos e definições contidos nas diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação; II - as normas complementares dos respectivos sistemas de ensino; III - as exigências de cada instituição de ensino, nos termos de seu projeto pedagógico. § 2º As formas referidas nos incisos I e II do caput deste artigo poderão também ser oferecidas em articulação com a aprendizagem profissional, nos termos da Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) § 3º Quando a educação profissional técnica de nível médio for oferecida em articulação com a aprendizagem profissional, poderá haver aproveitamento: (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) I - das atividades pedagógicas de educação profissional técnica de nível médio, para efeito de cumprimento do contrato de aprendizagem profissional, nos termos de regulamento;(Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) II - das horas de trabalho em aprendizagem profissional para efeito de integralização da carga horária do ensino médio, no itinerário da formação técnica e profissional ou na educação profissional técnica de nível médio, nos termos de regulamento. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) Art. 36-C. A educação profissional técnica de nível médio articulada, prevista no inciso I do caput do art. 36-B desta Lei, será desenvolvida de forma: I - integrada, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino fundamental, sendo o curso planejado de modo a conduzir o aluno à habilitação profissional técnica de nível médio, na mesma instituição de ensino, efetuando-se matrícula única para cada aluno; II - concomitante, oferecida a quem ingresse no ensino médio ou já o esteja cursando, efetuando-se matrículas distintas para cada curso, e podendo ocorrer: a) na mesma instituição de ensino, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; b) em instituições de ensino distintas, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; c) em instituições de ensino distintas, mediante convênios de intercomplementaridade, visando ao planejamento e ao desenvolvimento de projeto pedagógico unificado. Art. 36-D. Os diplomas de cursos de educação profissionaltécnica de nível médio, quando registrados, terão validade nacional e habilitarão ao prosseguimento de estudos na educação superior. Parágrafo único. Os cursos de educação profissional técnica de nível médio, nas formas articulada concomitante e subsequente, quando estruturados e organizados em etapas com terminalidade, possibilitarão a obtenção de certificados de qualificação para o trabalho após a conclusão, com aproveitamento, de cada etapa que caracterize uma qualificação para o trabalho. Seção V Da Educação de Jovens e Adultos Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos nos ensinos fundamental e médio na idade própria e constituirá instrumento para a educação e a aprendizagem ao longo da vida. § 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. § 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. § 3º A educação de jovens e adultos deverá articular-se, preferencialmente, com a educação profissional, na forma do regulamento. 1 2 Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. § 1º Os exames a que se refere este artigo realizar-se-ão: I - no nível de conclusão do ensino fundamental, para os maiores de quinze anos; II - no nível de conclusão do ensino médio, para os maiores de dezoito anos. § 2º Os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos educandos por meios informais serão aferidos e reconhecidos mediante exames. Art. 39. A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia. § 1º Os cursos de educação profissional e tecnológica poderão ser organizados por eixos tecnológicos, possibilitando a construção de diferentes itinerários formativos, observadas as normas do respectivo sistema e nível de ensino. § 2º A educação profissional e tecnológica abrangerá os seguintes cursos: I – de formação inicial e continuada ou qualificação profissional; II – de educação profissional técnica de nível médio; III – de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação. § 3º Os cursos de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação organizar-se-ão, no que concerne a objetivos, características e duração, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação. § 4º As instituições de educação superior deverão dar transparência e estabelecer critérios e procedimentos objetivos para o aproveitamento das experiências e dos conhecimentos desenvolvidos na educação profissional técnica de nível médio, sempre que o curso desse nível e o de nível superior sejam de áreas afins, nos termos de regulamento. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) Art. 40. A educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por diferentes estratégias de educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho. Art. 41. O conhecimento adquirido na educação profissional e tecnológica, inclusive no trabalho, poderá ser objeto de avaliação, reconhecimento e certificação para prosseguimento ou conclusão de estudos. Art. 42. As instituições de educação profissional e tecnológica, além dos seus cursos regulares, oferecerão cursos especiais, abertos à comunidade, condicionada a matrícula à capacidade de aproveitamento e não necessariamente ao nível de escolaridade. Art. 42-A. A educação profissional e tecnológica organizada em eixos tecnológicos observará o princípio da integração curricular entre cursos e programas, de modo a viabilizar itinerários formativos contínuos e trajetórias progressivas de formação entre todos os níveis educacionais. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) § 1º O itinerário contínuo de formação profissional e tecnológica é o percurso formativo estruturado de forma a permitir o aproveitamento incremental de experiências, certificações e conhecimentos desenvolvidos ao longo da trajetória individual do estudante. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) § 2º O itinerário referido no § 1º deste artigo poderá integrar um ou mais eixos tecnológicos. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) § 3º O Catálogo Nacional de Cursos Técnicos (CNCT) e o Catálogo Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia (CNCST) orientarão a organização dos cursos e itinerários, segundo eixos tecnológicos, de forma a permitir sua equivalência para o aproveitamento de estudos entre os níveis médio e superior. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) § 4º O Ministério da Educação, em colaboração com os sistemas de ensino, as instituições e as redes de educação profissional e tecnológica e as entidades representativas de empregadores e trabalhadores, observadas a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e a dinâmica do mundo do trabalho, manterá e periodicamente atualizará os catálogos referidos no § 3º deste artigo. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) Art. 42-B. A oferta de educação profissional técnica e tecnológica será orientada pela avaliação da qualidade das instituições e dos cursos referida no inciso VII-A do caput do art. 9º desta Lei, que deverá CAPÍTULO III - Da Educação Profissional e Tecnológica 13 considerar as estatísticas de oferta, fluxo e rendimento, a aprendizagem dos saberes do trabalho, a aderência da oferta ao contexto social, econômico e produtivo local e nacional, a inserção dos egressos no mundo do trabalho e as condições institucionais de oferta. (Incluído pela Lei nº 14.645, de 2023) CAPÍTULO IV – Da Educação Superior Art. 43. A educação superior tem por finalidade: I - estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo; II - formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua; III - incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive; IV - promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação; V - suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração; VI - estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade; VII - promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação culturale da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição. VIII - atuar em favor da universalização e do aprimoramento da educação básica, mediante a formação e a capacitação de profissionais, a realização de pesquisas pedagógicas e o desenvolvimento de atividades de extensão que aproximem os dois níveis escolares. Art. 44. A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: I - cursos sequenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino, desde que tenham concluído o ensino médio ou equivalente; II - de graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo; III - de pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação e que atendam às exigências das instituições de ensino; IV - de extensão, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos em cada caso pelas instituições de ensino. § 1º O resultado do processo seletivo referido no inciso II do caput deste artigo será tornado público pela instituição de ensino superior, sendo obrigatórios a divulgação da relação nominal dos classificados, a respectiva ordem de classificação e o cronograma das chamadas para matrícula, de acordo com os critérios para preenchimento das vagas constantes do edital, assegurado o direito do candidato, classificado ou não, a ter acesso a suas notas ou indicadores de desempenho em provas, exames e demais atividades da seleção e a sua posição na ordem de classificação de todos os candidatos. § 2º No caso de empate no processo seletivo, as instituições públicas de ensino superior darão prioridade de matrícula ao candidato que comprove ter renda familiar inferior a dez salários mínimos, ou ao de menor renda familiar, quando mais de um candidato preencher o critério inicial. § 3º O processo seletivo referido no inciso II considerará as competências e as habilidades definidas na Base Nacional Comum Curricular. Art. 45. A educação superior será ministrada em instituições de ensino superior, públicas ou privadas, com variados graus de abrangência ou especialização. Art. 46. A autorização e o reconhecimento de cursos, bem como o credenciamento de instituições de educação superior, terão prazos limitados, sendo renovados, periodicamente, após processo regular de avaliação. § 1º Após um prazo para saneamento de deficiências eventualmente identificadas pela avaliação a que se refere este artigo, haverá reavaliação, que poderá resultar, conforme o caso, em desativação de cursos e habilitações, em intervenção na instituição, em suspensão temporária 1 4 de prerrogativas da autonomia, ou em descredenciamento. § 2º No caso de instituição pública, o Poder Executivo responsável por sua manutenção acompanhará o processo de saneamento e fornecerá recursos adicionais, se necessários, para a superação das deficiências. § 3º No caso de instituição privada, além das sanções previstas no § 1o deste artigo, o processo de reavaliação poderá resultar em redução de vagas autorizadas e em suspensão temporária de novos ingressos e de oferta de cursos. § 4º É facultado ao Ministério da Educação, mediante procedimento específico e com aquiescência da instituição de ensino, com vistas a resguardar os interesses dos estudantes, comutar as penalidades previstas nos §§ 1º e 3º deste artigo por outras medidas, desde que adequadas para superação das deficiências e irregularidades constatadas. § 5º Para fins de regulação, os Estados e o Distrito Federal deverão adotar os critérios definidos pela União para autorização de funcionamento de curso de graduação em Medicina. Art. 47. Na educação superior, o ano letivo regular, independente do ano civil, tem, no mínimo, duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo, excluído o tempo reservado aos exames finais, quando houver. § 1o As instituições informarão aos interessados, antes de cada período letivo, os programas dos cursos e demais componentes curriculares, sua duração, requisitos, qualificação dos professores, recursos disponíveis e critérios de avaliação, obrigando-se a cumprir as respectivas condições, e a publicação deve ser feita, sendo as 3 (três) primeiras formas concomitantemente: I - em página específica na internet no sítio eletrônico oficial da instituição de ensino superior, obedecido o seguinte: a) toda publicação a que se refere esta Lei deve ter como título “Grade e Corpo Docente”; b) a página principal da instituição de ensino superior, bem como a página da oferta de seus cursos aos ingressantes sob a forma de vestibulares, processo seletivo e outras com a mesma finalidade, deve conter a ligação desta com a página específica prevista neste inciso; c) caso a instituição de ensino superior não possua sítio eletrônico, deve criar página específica para divulgação das informações de que trata esta Lei; d) a página específica deve conter a data completa de sua última atualização; II - em toda propaganda eletrônica da instituição de ensino superior, por meio de ligação para a página referida no inciso I; III - em local visível da instituição de ensino superior e de fácil acesso ao público; IV - deve ser atualizada semestralmente ou anualmente, de acordo com a duração das disciplinas de cada curso oferecido, observando o seguinte: a) caso o curso mantenha disciplinas com duração diferenciada, a publicação deve ser semestral; b) a publicação deve ser feita até 1 (um) mês antes do início das aulas; c) caso haja mudança na grade do curso ou no corpo docente até o início das aulas, os alunos devem ser comunicados sobre as alterações; V - deve conter as seguintes informações: a) a lista de todos os cursos oferecidos pela instituição de ensino superior; b) a lista das disciplinas que compõem a grade curricular de cada curso e as respectivas cargas horárias; c) a identificação dos docentes que ministrarão as aulas em cada curso, as disciplinas que efetivamente ministrará naquele curso ou cursos, sua titulação, abrangendo a qualificação profissional do docente e o tempo de casa do docente, de forma total, contínua ou intermitente. § 2º Os alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos, demonstrado por meio de provas e outros instrumentos de avaliação específicos, aplicados por banca examinadora especial, poderão ter abreviada a duração dos seus cursos, de acordo com as normas dos sistemas de ensino. § 3º É obrigatória a frequência de alunos e professores, salvo nos programas de educação a distância. § 4º As instituições de educação superior oferecerão, no período noturno, cursos de graduação nos mesmos padrões de qualidade mantidos no período diurno, sendo obrigatória a oferta noturna nas instituições públicas, garantida a necessária previsão orçamentária. Art. 48. Os diplomas de cursos superiores reconhecidos, quando registrados, terão validade nacional como prova da formação recebida por seu titular. § 1º Os diplomas expedidos pelas universidades serão por elas próprias registrados, e aqueles conferidos por instituições não-universitárias serão 15 registrados em universidades indicadas pelo Conselho Nacional de Educação. § 2º Os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras serão revalidados por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área ou equivalente,respeitando-se os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação. § 3º Os diplomas de Mestrado e de Doutorado expedidos por universidades estrangeiras só poderão ser reconhecidos por universidades que possuam cursos de pós-graduação reconhecidos e avaliados, na mesma área de conhecimento e em nível equivalente ou superior. Art. 49. As instituições de educação superior aceitarão a transferência de alunos regulares, para cursos afins, na hipótese de existência de vagas, e mediante processo seletivo. Parágrafo único. As transferências ex officio dar-se-ão na forma da lei. Art. 50. As instituições de educação superior, quando da ocorrência de vagas, abrirão matrícula nas disciplinas de seus cursos a alunos não regulares que demonstrarem capacidade de cursá-las com proveito, mediante processo seletivo prévio. Art. 51. As instituições de educação superior credenciadas como universidades, ao deliberar sobre critérios e normas de seleção e admissão de estudantes, levarão em conta os efeitos desses critérios sobre a orientação do ensino médio, articulando-se com os órgãos normativos dos sistemas de ensino. Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por: I - produção intelectual institucionalizada mediante o estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural, quanto regional e nacional; II - um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado; III - um terço do corpo docente em regime de tempo integral. Parágrafo único. É facultada a criação de universidades especializadas por campo do saber. Art. 53. No exercício de sua autonomia, são asseguradas às universidades, sem prejuízo de outras, as seguintes atribuições: I - criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei, obedecendo às normas gerais da União e, quando for o caso, do respectivo sistema de ensino; II - fixar os currículos dos seus cursos e programas, observadas as diretrizes gerais pertinentes; III - estabelecer planos, programas e projetos de pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão; IV - fixar o número de vagas de acordo com a capacidade institucional e as exigências do seu meio; V - elaborar e reformar os seus estatutos e regimentos em consonância com as normas gerais atinentes; VI - conferir graus, diplomas e outros títulos; VII - firmar contratos, acordos e convênios; VIII - aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentos referentes a obras, serviços e aquisições em geral, bem como administrar rendimentos conforme dispositivos institucionais; IX - administrar os rendimentos e deles dispor na forma prevista no ato de constituição, nas leis e nos respectivos estatutos; X - receber subvenções, doações, heranças, legados e cooperação financeira resultante de convênios com entidades públicas e privadas. § 1º Para garantir a autonomia didático- científica das universidades, caberá aos seus colegiados de ensino e pesquisa decidir, dentro dos recursos orçamentários disponíveis, sobre: I - criação, expansão, modificação e extinção de cursos; II - ampliação e diminuição de vagas; III - elaboração da programação dos cursos; IV - programação das pesquisas e das atividades de extensão; V - contratação e dispensa de professores; VI - planos de carreira docente. § 2º As doações, inclusive monetárias, podem ser dirigidas a setores ou projetos específicos, conforme acordo entre doadores e universidades. § 3º No caso das universidades públicas, os recursos das doações devem ser dirigidos ao caixa único da instituição, com destinação garantida às unidades a serem beneficiadas. Art. 54. As universidades mantidas pelo Poder Público gozarão, na forma da lei, de estatuto jurídico especial para atender às peculiaridades de sua estrutura, organização e financiamento pelo Poder Público, 1 6 assim como dos seus planos de carreira e do regime jurídico do seu pessoal. § 1º No exercício da sua autonomia, além das atribuições asseguradas pelo artigo anterior, as universidades públicas poderão: I - propor o seu quadro de pessoal docente, técnico e administrativo, assim como um plano de cargos e salários, atendidas as normas gerais pertinentes e os recursos disponíveis; II - elaborar o regulamento de seu pessoal em conformidade com as normas gerais concernentes; III - aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentos referentes a obras, serviços e aquisições em geral, de acordo com os recursos alocados pelo respectivo Poder mantenedor; IV - elaborar seus orçamentos anuais e plurianuais; V - adotar regime financeiro e contábil que atenda às suas peculiaridades de organização e funcionamento; VI - realizar operações de crédito ou de financiamento, com aprovação do Poder competente, para aquisição de bens imóveis, instalações e equipamentos; VII - efetuar transferências, quitações e tomar outras providências de ordem orçamentária, financeira e patrimonial necessárias ao seu bom desempenho. § 2º Atribuições de autonomia universitária poderão ser estendidas a instituições que comprovem alta qualificação para o ensino ou para a pesquisa, com base em avaliação realizada pelo Poder Público. Art. 55. Caberá à União assegurar, anualmente, em seu Orçamento Geral, recursos suficientes para manutenção e desenvolvimento das instituições de educação superior por ela mantidas. Art. 56. As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional. Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes. Art. 57. Nas instituições públicas de educação superior, o professor ficará obrigado ao mínimo de oito horas semanais de aulas. CAPÍTULO V - Da Educação Especial Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial. § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. § 3º A oferta de educação especial, nos termos do caput deste artigo, tem início na educação infantil e estende-se ao longo da vida, observados o inciso III do art. 4º e o parágrafo único do art. 60 desta Lei. Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação: I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental,em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV - educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; V - acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular. Art. 59-A. O poder público deverá instituir cadastro nacional de alunos com altas habilidades ou superdotação matriculados na educação básica e na educação superior, a fim de fomentar a execução de 17 políticas públicas destinadas ao desenvolvimento pleno das potencialidades desse alunado. Parágrafo único. A identificação precoce de alunos com altas habilidades ou superdotação, os critérios e procedimentos para inclusão no cadastro referido no caput deste artigo, as entidades responsáveis pelo cadastramento, os mecanismos de acesso aos dados do cadastro e as políticas de desenvolvimento das potencialidades do alunado de que trata o caput serão definidos em regulamento. Art. 60. Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro pelo Poder Público. Parágrafo único. O poder público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do atendimento aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na própria rede pública regular de ensino, independentemente do apoio às instituições previstas neste artigo. CAPÍTULO V-A - Da Educação Bilíngue De Surdos Art. 60-A. Entende-se por educação bilíngue de surdos, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida em Língua Brasileira de Sinais (Libras), como primeira língua, e em português escrito, como segunda língua, em escolas bilíngues de surdos, classes bilíngues de surdos, escolas comuns ou em polos de educação bilíngue de surdos, para educandos surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas, optantes pela modalidade de educação bilíngue de surdos. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio educacional especializado, como o atendimento educacional especializado bilíngue, para atender às especificidades linguísticas dos estudantes surdos. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) § 2º A oferta de educação bilíngue de surdos terá início ao zero ano, na educação infantil, e se estenderá ao longo da vida. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) § 3º O disposto no caput deste artigo será efetivado sem prejuízo das prerrogativas de matrícula em escolas e classes regulares, de acordo com o que decidir o estudante ou, no que couber, seus pais ou responsáveis, e das garantias previstas na Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência), que incluem, para os surdos oralizados, o acesso a tecnologias assistivas. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) Art. 60-B. Além do disposto no art. 59 desta Lei, os sistemas de ensino assegurarão aos educandos surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas materiais didáticos e professores bilíngues com formação e especialização adequadas, em nível superior. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) Parágrafo único. Nos processos de contratação e de avaliação periódica dos professores a que se refere o caput deste artigo serão ouvidas as entidades representativas das pessoas surdas. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) Art. 61. Consideram-se profissionais da educação escolar básica os que, nela estando em efetivo exercício e tendo sido formados em cursos reconhecidos, são: I – professores habilitados em nível médio ou superior para a docência na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio; II – trabalhadores em educação portadores de diploma de pedagogia, com habilitação em administração, planejamento, supervisão, inspeção e orientação educacional, bem como com títulos de mestrado ou doutorado nas mesmas áreas; III – trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim. IV - profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino, para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação ou experiência profissional, atestados por titulação específica ou prática de ensino em unidades educacionais da rede pública ou privada ou das corporações privadas em que tenham atuado, exclusivamente para atender ao inciso V do caput do art. 36; V - profissionais graduados que tenham feito complementação pedagógica, conforme disposto pelo Conselho Nacional de Educação. Parágrafo único. A formação dos profissionais da educação, de modo a atender às especificidades do exercício de suas atividades, bem como aos TÍTULO VI Dos Profissionais da Educação 1 8 objetivos das diferentes etapas e modalidades da educação básica, terá como fundamentos: I – a presença de sólida formação básica, que propicie o conhecimento dos fundamentos científicos e sociais de suas competências de trabalho; II – a associação entre teorias e práticas, mediante estágios supervisionados e capacitação em serviço; III – o aproveitamento da formação e experiências anteriores, em instituições de ensino e em outras atividades. Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura plena, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nos cinco primeiros anos do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal. § 1º A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios, em regime de colaboração, deverão promover a formação inicial, a continuada e a capacitação dos profissionais de magistério. § 2º A formação continuada e a capacitação dos profissionais de magistério poderão utilizar recursos e tecnologias de educação a distância. § 3º A formação inicial de profissionais de magistério dará preferência ao ensino presencial, subsidiariamente fazendo uso de recursos e tecnologias de educação a distância. § 4º A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios adotarão mecanismos facilitadores de acesso e permanência em cursos de formação de docentes em nível superior para atuar na educação básica pública. § 5º A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios incentivarão a formação de profissionais do magistério para atuar na educação básica pública mediante programa institucional de bolsa de iniciação à docência a estudantes matriculados em cursos de licenciatura, de graduação plena, nas instituições de educação superior. § 6º O Ministério da Educação poderá estabelecer nota mínima em exame nacional aplicado aos concluintes do ensino médio como pré- requisitopara o ingresso em cursos de graduação para formação de docentes, ouvido o Conselho Nacional de Educação - CNE. § 7º (VETADO). § 8º Os currículos dos cursos de formação de docentes terão por referência a Base Nacional Comum Curricular. Art. 62-A. A formação dos profissionais a que se refere o inciso III do art. 61 far-se-á por meio de cursos de conteúdo técnico-pedagógico, em nível médio ou superior, incluindo habilitações tecnológicas. Parágrafo único. Garantir-se-á formação continuada para os profissionais a que se refere o caput, no local de trabalho ou em instituições de educação básica e superior, incluindo cursos de educação profissional, cursos superiores de graduação plena ou tecnológicos e de pós- graduação. Art. 62-B. O acesso de professores das redes públicas de educação básica a cursos superiores de pedagogia e licenciatura será efetivado por meio de processo seletivo diferenciado. § 1º Terão direito de pleitear o acesso previsto no caput deste artigo os professores das redes públicas municipais, estaduais e federal que ingressaram por concurso público, tenham pelo menos três anos de exercício da profissão e não sejam portadores de diploma de graduação. § 2º As instituições de ensino responsáveis pela oferta de cursos de pedagogia e outras licenciaturas definirão critérios adicionais de seleção sempre que acorrerem aos certames interessados em número superior ao de vagas disponíveis para os respectivos cursos. § 3º Sem prejuízo dos concursos seletivos a serem definidos em regulamento pelas universidades, terão prioridade de ingresso os professores que optarem por cursos de licenciatura em matemática, física, química, biologia e língua portuguesa. Art. 63. Os institutos superiores de educação manterão: I - cursos formadores de profissionais para a educação básica, inclusive o curso normal superior, destinado à formação de docentes para a educação infantil e para as primeiras séries do ensino fundamental; II - programas de formação pedagógica para portadores de diplomas de educação superior que queiram se dedicar à educação básica; III - programas de educação continuada para os profissionais de educação dos diversos níveis. Art. 64. A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional. 19 Art. 65. A formação docente, exceto para a educação superior, incluirá prática de ensino de, no mínimo, trezentas horas. Art. 66. A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado. Parágrafo único. O notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado em área afim, poderá suprir a exigência de título acadêmico. Art. 67. Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público: I - ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos; II - aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado para esse fim; III - piso salarial profissional; IV - progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho; V - período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho; VI - condições adequadas de trabalho. § 1º A experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino. § 2º Para os efeitos do disposto no § 5º do art. 40 e no § 8o do art. 201 da Constituição Federal, são consideradas funções de magistério as exercidas por professores e especialistas em educação no desempenho de atividades educativas, quando exercidas em estabelecimento de educação básica em seus diversos níveis e modalidades, incluídas, além do exercício da docência, as de direção de unidade escolar e as de coordenação e assessoramento pedagógico. § 3º A União prestará assistência técnica aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios na elaboração de concursos públicos para provimento de cargos dos profissionais da educação. Art. 68. Serão recursos públicos destinados à educação os originários de: I - receita de impostos próprios da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; II - receita de transferências constitucionais e outras transferências; III - receita do salário-educação e de outras contribuições sociais; IV - receita de incentivos fiscais; V - outros recursos previstos em lei. Art. 69. A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, vinte e cinco por cento, ou o que consta nas respectivas Constituições ou Leis Orgânicas, da receita resultante de impostos, compreendidas as transferências constitucionais, na manutenção e desenvolvimento do ensino público. § 1º A parcela da arrecadação de impostos transferida pela União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, ou pelos Estados aos respectivos Municípios, não será considerada, para efeito do cálculo previsto neste artigo, receita do governo que a transferir. § 2º Serão consideradas excluídas das receitas de impostos mencionadas neste artigo as operações de crédito por antecipação de receita orçamentária de impostos. § 3º Para fixação inicial dos valores correspondentes aos mínimos estatuídos neste artigo, será considerada a receita estimada na lei do orçamento anual, ajustada, quando for o caso, por lei que autorizar a abertura de créditos adicionais, com base no eventual excesso de arrecadação. § 4º As diferenças entre a receita e a despesa previstas e as efetivamente realizadas, que resultem no não atendimento dos percentuais mínimos obrigatórios, serão apuradas e corrigidas a cada trimestre do exercício financeiro. § 5º O repasse dos valores referidos neste artigo do caixa da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios ocorrerá imediatamente ao órgão responsável pela educação, observados os seguintes prazos: I - recursos arrecadados do primeiro ao décimo dia de cada mês, até o vigésimo dia; II - recursos arrecadados do décimo primeiro ao vigésimo dia de cada mês, até o trigésimo dia; III - recursos arrecadados do vigésimo primeiro dia ao final de cada mês, até o décimo dia do mês subsequente. § 6º O atraso da liberação sujeitará os recursos a correção monetária e à responsabilização civil e criminal das autoridades competentes. Art. 70. Considerar-se-ão como de manutenção e desenvolvimento do ensino as despesas realizadas TÍTULO VII Dos Recursos Financeiros 2 0 com vistas à consecução dos objetivos básicos das instituições educacionais de todos os níveis, compreendendo as que se destinam a: I - remuneração e aperfeiçoamento do pessoal docente e demais profissionais da educação; II - aquisição, manutenção, construção e conservação de instalações e equipamentos necessários ao ensino; III – uso e manutenção de bens e serviços vinculados ao ensino; IV - levantamentos estatísticos, estudos e pesquisas visando precipuamente ao aprimoramento da qualidade e à expansão do ensino; V - realização de atividades-meio necessárias ao funcionamento dos sistemas de ensino; VI - concessão de bolsas de estudo a alunos de escolas públicas e privadas; VII - amortização e custeio de operações de crédito destinadas a atender ao dispostonos incisos deste artigo; VIII - aquisição de material didático-escolar e manutenção de programas de transporte escolar. IX – realização de atividades curriculares complementares voltadas ao aprendizado dos alunos ou à formação continuada dos profissionais da educação, tais como exposições, feiras ou mostras de ciências da natureza ou humanas, matemática, língua portuguesa ou língua estrangeira, literatura e cultura. (Incluído pela Lei nº 14.560, de 2023) Art. 71. Não constituirão despesas de manutenção e desenvolvimento do ensino aquelas realizadas com: I - pesquisa, quando não vinculada às instituições de ensino, ou, quando efetivada fora dos sistemas de ensino, que não vise, precipuamente, ao aprimoramento de sua qualidade ou à sua expansão; II - subvenção a instituições públicas ou privadas de caráter assistencial, desportivo ou cultural; III - formação de quadros especiais para a administração pública, sejam militares ou civis, inclusive diplomáticos; IV - programas suplementares de alimentação, assistência médico-odontológica, farmacêutica e psicológica, e outras formas de assistência social; V - obras de infraestrutura, ainda que realizadas para beneficiar direta ou indiretamente a rede escolar; VI - pessoal docente e demais trabalhadores da educação, quando em desvio de função ou em atividade alheia à manutenção e desenvolvimento do ensino. Art. 72. As receitas e despesas com manutenção e desenvolvimento do ensino serão apuradas e publicadas nos balanços do Poder Público, assim como nos relatórios a que se refere o § 3º do art. 165 da Constituição Federal. Art. 73. Os órgãos fiscalizadores examinarão, prioritariamente, na prestação de contas de recursos públicos, o cumprimento do disposto no art. 212 da Constituição Federal, no art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e na legislação concernente. Art. 74. A União, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, estabelecerá padrão mínimo de oportunidades educacionais para o ensino fundamental, baseado no cálculo do custo mínimo por aluno, capaz de assegurar ensino de qualidade. Parágrafo único. O custo mínimo de que trata este artigo será calculado pela União ao final de cada ano, com validade para o ano subsequente, considerando variações regionais no custo dos insumos e as diversas modalidades de ensino. Art. 75. A ação supletiva e redistributiva da União e dos Estados será exercida de modo a corrigir, progressivamente, as disparidades de acesso e garantir o padrão mínimo de qualidade de ensino. § 1º A ação a que se refere este artigo obedecerá a fórmula de domínio público que inclua a capacidade de atendimento e a medida do esforço fiscal do respectivo Estado, do Distrito Federal ou do Município em favor da manutenção e do desenvolvimento do ensino. § 2º A capacidade de atendimento de cada governo será definida pela razão entre os recursos de uso constitucionalmente obrigatório na manutenção e desenvolvimento do ensino e o custo anual do aluno, relativo ao padrão mínimo de qualidade. § 3º Com base nos critérios estabelecidos nos §§ 1º e 2º, a União poderá fazer a transferência direta de recursos a cada estabelecimento de ensino, considerado o número de alunos que efetivamente frequentam a escola. § 4º A ação supletiva e redistributiva não poderá ser exercida em favor do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios se estes oferecerem vagas, na área de ensino de sua responsabilidade, conforme o inciso VI do art. 10 e o inciso V do art. 11 desta Lei, em número inferior à sua capacidade de atendimento. Art. 76. A ação supletiva e redistributiva prevista no artigo anterior ficará condicionada ao efetivo cumprimento pelos Estados, Distrito Federal e 21 Municípios do disposto nesta Lei, sem prejuízo de outras prescrições legais. Art. 77. Os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas que: I - comprovem finalidade não-lucrativa e não distribuam resultados, dividendos, bonificações, participações ou parcela de seu patrimônio sob nenhuma forma ou pretexto; II - apliquem seus excedentes financeiros em educação; III - assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou confessional, ou ao Poder Público, no caso de encerramento de suas atividades; IV - prestem contas ao Poder Público dos recursos recebidos. § 1º Os recursos de que trata este artigo poderão ser destinados a bolsas de estudo para a educação básica, na forma da lei, para os que demonstrarem insuficiência de recursos, quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública de domicílio do educando, ficando o Poder Público obrigado a investir prioritariamente na expansão da sua rede local. § 2º As atividades universitárias de pesquisa e extensão poderão receber apoio financeiro do Poder Público, inclusive mediante bolsas de estudo. Art. 78. O Sistema de Ensino da União, com a colaboração das agências federais de fomento à cultura e de assistência aos índios, desenvolverá programas integrados de ensino e pesquisa, para oferta de educação escolar bilingue e intercultural aos povos indígenas, com os seguintes objetivos: I - proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, a recuperação de suas memórias históricas; a reafirmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências; II - garantir aos índios, suas comunidades e povos, o acesso às informações, conhecimentos técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não-índias. Art. 78-A. Os sistemas de ensino, em regime de colaboração, desenvolverão programas integrados de ensino e pesquisa, para oferta de educação escolar bilíngue e intercultural aos estudantes surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas, com os seguintes objetivos: (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) I - proporcionar aos surdos a recuperação de suas memórias históricas, a reafirmação de suas identidades e especificidades e a valorização de sua língua e cultura; (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) II - garantir aos surdos o acesso às informações e conhecimentos técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades surdas e não surdas. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) Art. 79. A União apoiará técnica e financeiramente os sistemas de ensino no provimento da educação intercultural às comunidades indígenas, desenvolvendo programas integrados de ensino e pesquisa. § 1º Os programas serão planejados com audiência das comunidades indígenas. § 2º Os programas a que se refere este artigo, incluídos nos Planos Nacionais de Educação, terão os seguintes objetivos: I - fortalecer as práticas socioculturais e a língua materna de cada comunidade indígena; II - manter programas de formação de pessoal especializado, destinado à educação escolar nas comunidades indígenas; III - desenvolver currículos e programas específicos, neles incluindo os conteúdos culturais correspondentes às respectivas comunidades; IV - elaborar e publicar sistematicamente material didático específico e diferenciado. § 3º No que se refere à educação superior, sem prejuízo de outras ações, o atendimento aos povos indígenas efetivar-se-á, nas universidades públicas e privadas, mediante a oferta de ensino e de assistência estudantil, assim como de estímulo à pesquisa e desenvolvimento de programas especiais. Art. 79-A. (VETADO).Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”. Art. 79-C. A União apoiará técnica e financeiramente os sistemas de ensino no provimento da educação bilíngue e intercultural às comunidades surdas, com desenvolvimento de programas integrados de ensino e pesquisa. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) § 1º Os programas serão planejados com participação das comunidades surdas, de instituições de ensino superior e de entidades representativas das pessoas surdas. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) TÍTULO VIII Das Disposições Gerais 2 2 § 2º Os programas a que se refere este artigo, incluídos no Plano Nacional de Educação, terão os seguintes objetivos: (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) I - fortalecer as práticas socioculturais dos surdos e a Língua Brasileira de Sinais; (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) II - manter programas de formação de pessoal especializado, destinados à educação bilíngue escolar dos surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas; (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) III - desenvolver currículos, métodos, formação e programas específicos, neles incluídos os conteúdos culturais correspondentes aos surdos; (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) IV - elaborar e publicar sistematicamente material didático bilíngue, específico e diferenciado. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) § 3º Na educação superior, sem prejuízo de outras ações, o atendimento aos estudantes surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas efetivar-se-á mediante a oferta de ensino bilíngue e de assistência estudantil, assim como de estímulo à pesquisa e desenvolvimento de programas especiais. (Incluído pela Lei nº 14.191, de 2021) Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada. § 1º A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União. § 2º A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância. § 3º As normas para produção, controle e avaliação de programas de educação a distância e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas. § 4º A educação a distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá: I - custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens e em outros meios de comunicação que sejam explorados mediante autorização, concessão ou permissão do poder público; II - concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas; III - reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais. Art. 81. É permitida a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais, desde que obedecidas as disposições desta Lei. Art. 82. Os sistemas de ensino estabelecerão as normas de realização de estágio em sua jurisdição, observada a lei federal sobre a matéria. Parágrafo único. (Revogado). Art. 83. O ensino militar é regulado em lei específica, admitida a equivalência de estudos, de acordo com as normas fixadas pelos sistemas de ensino. Art. 84. Os discentes da educação superior poderão ser aproveitados em tarefas de ensino e pesquisa pelas respectivas instituições, exercendo funções de monitoria, de acordo com seu rendimento e seu plano de estudos. Art. 85. Qualquer cidadão habilitado com a titulação própria poderá exigir a abertura de concurso público de provas e títulos para cargo de docente de instituição pública de ensino que estiver sendo ocupado por professor não concursado, por mais de seis anos, ressalvados os direitos assegurados pelos arts. 41 da Constituição Federal e 19 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Art. 86. As instituições de educação superior constituídas como universidades integrar-se-ão, também, na sua condição de instituições de pesquisa, ao Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, nos termos da legislação específica. Art. 87. É instituída a Década da Educação, a iniciar- se um ano a partir da publicação desta Lei. § 1º A União, no prazo de um ano a partir da publicação desta Lei, encaminhará, ao Congresso Nacional, o Plano Nacional de Educação, com diretrizes e metas para os dez anos seguintes, em sintonia com a Declaração Mundial sobre Educação para Todos. § 2º (Revogado). TÍTULO IX Das Disposições Transitórias http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11788.htm#art22 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12796.htm#art2 23 § 3º O Distrito Federal, cada Estado e Município, e, supletivamente, a União, devem: I - (revogado); a) (Revogado) b) (Revogado) c) (Revogado) II - prover cursos presenciais ou a distância aos jovens e adultos insuficientemente escolarizados; III - realizar programas de capacitação para todos os professores em exercício, utilizando também, para isto, os recursos da educação a distância; IV - integrar todos os estabelecimentos de ensino fundamental do seu território ao sistema nacional de avaliação do rendimento escolar. § 4º (Revogado). § 5º Serão conjugados todos os esforços objetivando a progressão das redes escolares públicas urbanas de ensino fundamental para o regime de escolas de tempo integral. § 6º A assistência financeira da União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, bem como a dos Estados aos seus Municípios, ficam condicionadas ao cumprimento do art. 212 da Constituição Federal e dispositivos legais pertinentes pelos governos beneficiados. Art. 87-A. (VETADO). Art. 88. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios adaptarão sua legislação educacional e d0e ensino às disposições desta Lei no prazo máximo de um ano, a partir da data de sua publicação. § 1º As instituições educacionais adaptarão seus estatutos e regimentos aos dispositivos desta Lei e às normas dos respectivos sistemas de ensino, nos prazos por estes estabelecidos. § 2º O prazo para que as universidades cumpram o disposto nos incisos II e III do art. 52 é de oito anos. Art. 89. As creches e pré-escolas existentes ou que venham a ser criadas deverão, no prazo de três anos, a contar da publicação desta Lei, integrar-se ao respectivo sistema de ensino. Art. 90. As questões suscitadas na transição entre o regime anterior e o que se institui nesta Lei serão resolvidas pelo Conselho Nacional de Educação ou, mediante delegação deste, pelos órgãos normativos dos sistemas de ensino, preservada a autonomia universitária. Art. 90-A. Até a entrada em vigor da lei de que trata o art. 14, os Conselhos Escolares e os Fóruns dos Conselhos Escolares já instituídos continuarão a observar as normas expedidas pelos respectivos sistemas de ensino. (Incluído pela Lei nº 14.644, de 2023) Art. 91. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Art. 92. Revogam-se as disposições das Leis nºs 4.024, de 20 de dezembro de 1961, e 5.540, de 28 de novembro de 1968, não alteradas pelas Leis nºs 9.131, de 24 de novembro de 1995 e 9.192, de 21 de dezembro de 1995 e, ainda, as Leis nºs 5.692, de 11 de agosto de 1971 e 7.044, de 18 de outubro de 1982, e as demais leis e decretos-lei que asmodificaram e quaisquer outras disposições em contrário. Brasília, 20 de dezembro de 1996; 175º da Independência e 108º da República. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - Paulo Renato Souza http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12796.htm#art2 Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina 18 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 INTRODUÇÃO Prezado(a) leitor(a), Para ler e compreender este documento que denominamos “Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense”, você precisará de algumas informações preliminares. Por favor, dedique um pouco de seu tempo e atenção para pensar sobre os pontos que apresentamos a seguir. Este documento foi elaborado com a participação de muitas pessoas! Em cada pa- lavra ou reflexão deste material, temos o esforço de, aproximadamente, 400 professores e gestores da Educação Básica que trabalham em escolas e centros de Educação Infantil das Redes Municipais e Estadual de todas as regiões do Estado de Santa Catarina. Na coorde- nação dos trabalhos, atuaram, aproximadamente, 100 redatores e consultores que repre- sentam não só escolas de Educação Básica, mas também instituições de Ensino Superior, Secretarias Municipais e Estadual de Educação, associação de municípios, entre outros. Escrever coletiva e colaborativamente abrange diferentes significados. A riqueza do processo democrático implica, também, compreender que muitas coisas poderiam ter sido feitas de outra forma e que elementos importantes e interessantes não encontram espaço para serem tratados aqui. Significa, portanto, que este documento precisa ser compreendido como ponto de partida, como material que precisa ser cotejado com a realidade e o movi- mento de cada escola, município ou região de Santa Catarina. Em outras palavras, estamos conscientes das limitações e das omissões que se evidenciarão na leitura e na interpretação de cada leitor. Contudo, temos a certeza de que as múltiplas interpretações deste documen- to também trarão para o debate cotidiano nas escolas e nos centros de Educação Infantil um conjunto singular de possibilidades para qualificar os processos de ensinar e de aprender. Este documento ajudar-lhe-á a pensar sobre o que e como ensinar! Nas escolhas que foram feitas neste texto, valorizamos dois princípios fundamentais, quais sejam: o da educação integral e o percurso formativo. Tais princípios alicerçam toda a proposta curricular apresentada neste documento, desde a Educação Infantil ao Ensino Fundamental, e orientam as aprendizagens essenciais que serão asseguradas aos estudantes por meio do desenvol- vimento das competências definidas pela Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017). Nos últimos anos, no Brasil, tem-se discutido a necessidade da promoção da edu- cação integral aos estudantes da Educação Básica. A Constituição Federal de 1988 já destacava a necessidade do “pleno desenvolvimento da pessoa”. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996), tal discussão ganhou força, e, no Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2014), a educação integral recebe um destaque especial, em que se enfatiza a importância dos processos de ensino e de aprendizagem considerarem os dife- rentes aspectos na formação dos estudantes. 19CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 O Estado de Santa Catarina, em suas múltiplas propostas curriculares (a da Rede Estadual e de Redes Municipais), enfatiza a formação humana integral. A Proposta Cur- ricular de Santa Catarina (2014) abre espaço no documento para ressaltar e justificar a educação integral como princípio do processo educativo, definindo-a como “[...] uma es- tratégia histórica que visa desenvolver percursos formativos mais integrados, complexos e completos, que considerem a educabilidade humana em sua múltipla dimensionalidade” (SANTA CATARINA, 2014, p. 26). Nessa definição, destaca-se a necessidade de propor-se um currículo integrado, que promova o diálogo entre as áreas do conhecimento, em um processo continuado e de ampliação constante de conhecimentos, considerando as múlti- plas dimensões do desenvolvimento humano. A Base Nacional Comum Curricular (2017) também afirma seu compromisso com a formação integral, fortalecendo o papel da Educação Básica no que diz respeito à for- mação e ao desenvolvimento humano global. A BNCC orienta, ainda, que, nesse proces- so, é importante compreender [...] a complexidade e a não linearidade desse desenvolvimento, rompendo com visões reducionistas que privilegiam ou a dimensão intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva. Significa, ainda, assumir uma visão plural, singular e inte- gral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto – considerando-os como sujeitos de aprendizagem – e promover uma educação voltada ao seu acolhi- mento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades (BRASIL, 2017, p. 113). Nessa perspectiva, o “Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamen- tal do Território Catarinense” assume e alicerça-se no princípio da educação integral, por entender que, por meio dela, promover-se-á uma formação que visa a cidadania, a emanci- pação e a liberdade como processos ativos e críticos que possibilitam ao estudante o pleno desenvolvimento e a apropriação do conhecimento e da cultura historicamente construídos, bem como o protagonismo de seu percurso formativo. Compreende, ainda, que a educação é o meio pelo qual se busca promover qualidade de vida, racionalidade, desenvolvimento da sensibilidade, desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental, bem como a compreensão entre os seres humanos e a sociabilidade, em suma, o bem-estar social. Nessa direção, o currículo base parte do princípio de que a democracia, o estímulo ao de- senvolvimento do sujeito, a difusão e o incremento do conhecimento e da cultura em geral, a inserção dos sujeitos no mundo, constituem fins e objetivos que dão sentido à educação. A formação integral do ser humano implica compreender a Educação Básica em um movimento contínuo de aprendizagens, um percurso formativo no qual a elaboração de conhecimentos vai se tornando complexa de maneira orgânica e progressiva, inde- pendentemente das etapas de organização das instituições escolares. Esse movimento ininterrupto precisa ser garantido no diálogo entre as etapas, bem como entre os anos ou 20 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 ciclos de formação. Essa articulação precisa acontecer também entre os diferentes com- ponentes curriculares e em escolhas teórico-metodológicas que mobilizem os estudantes à aprendizagem, superando a ideia de transições, bem como da organização fragmentada das propostas pedagógicas educacionais. Conforme destaca a Proposta Curricular de Santa Catarina (2014, p. 31), “[...] com- preender o percurso formativo como um continuum que se dá ao longo da vida escolar, tanto quanto ao longo da vida, significa considerar a singularidade dos tempos e dos modos de aprender dos diferentes sujeitos”. Nesse continuum, a sugestão é que se considere o desenvol- vimento em espiral (Figura 1), partindo das experiências para a elaboração conceitual, por pos- sibilitar a sucessão crescente e a garantia ininterrupta de aprendizagem e de desenvolvimento. Figura 1 – O processo de elaboração conceitual em espiral Elaboração conceitual Registro e sistematização Atividades cognitivas (práticas, discussões, exercícios, exposições do professor...) Experiências (vivências, ações práticas...) Fonte: Elaborada pelos autores. 21CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Todo aprendizado tem seu início na experiência humana, sua relação consigo e com o mundo. Por meio da experiência com um objeto cognoscível, múltiplas funções e habilidades são acionadas emum percurso que vai da recepção sensória àquelas integrativas: motivacio- nais, afetivas e mnésicas, resultando em uma construção consciente e plena de significado social, que, finalmente, se expressa por meio de habilidades motoras. Esse processo de ela- boração conceitual ocorre em todas as faixas etárias, em uma crescente complexidade que não se esgota com o amadurecimento físico-corpóreo humano. Esse desenvolvimento deve ser assegurado desde a Educação Infantil, anos iniciais e finais do Ensino Fundamental até o Ensino Médio, por meio da escolha consciente dos objetos de conhecimento que irão mobilizar as funções e as habilidades que o professor pretendeu desenvolver em seu plano de aula. Tais escolhas subsidiam o professor na procura pelos procedimentos de ensino mais adequados à experiência com o objeto e na determinação dos critérios de avaliação do processo de ensino-aprendizagem, sejam cognitivos, afetivos ou motores. Nos primei- ros, destacam-se as funções de percepção, atenção, memória, imaginação, seleção, com- paração, abstração e planejamento consciente para a solução de problemas. Dentre os afetivos, sinalizadores para a função motivadora para a ação cognitiva, importam aqueles ligados à intencionalidade, à disposição e à tendência da atividade: por que faço? Por fim, os critérios relacionados à expressão motora: como faço? A mobilização crescente dessas funções no percurso formativo, que investiga um mesmo objeto por meio dos diferentes componentes curriculares, tem como objetivo final o alcance da formação integral, expressa na compreensão da realidade em uma perspectiva histórica, na formulação e na testagem de hipóteses, na utilização de diferentes linguagens associadas a diferentes contextos, na compreensão crítica das tecnologias, na articulação de diferentes ideias e pontos de vista que assegurem a diversidade de saberes e de vivên- cias culturais, na investigação de si próprio em todos os seus âmbitos, corporais, psíquicos e espirituais e na procura por decisões apoiadas em princípios éticos. É a partir dessa com- preensão que o Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense assume e articula as 10 competências gerais propostas pela BNCC. Este documento fez escolhas! Para além do que se apresenta na BNCC, o coletivo de produção deste texto compreendeu necessário também afirmar a diversidade como princípio formativo e, por isso, apresentam-se algumas compreensões fundamentais. Em- bora precisem ser complementadas com outros materiais, demonstram o compromisso do território catarinense com todas as pessoas que residem no Estado. Outro detalhe foi o destaque dado ao processo de Alfabetização. Compreendemos que, para além da abor- dagem de todos os componentes curriculares, seria necessário e oportuno enfatizar os aspectos relacionados à apropriação da linguagem escrita. Os componentes curriculares procuram, também, trazer indicações metodológicas e reflexões sobre a avaliação. Indica- ções que, obviamente, precisam e merecem aprofundamento. 22 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 PARA LER ESTE DOCUMENTO Para ler este documento, você precisará retomar algumas questões importantes, como, por exemplo, as dez competências gerais estabelecidas pela BNCC. Vamos relembrar: Fonte: BRASIL. MEC. Base Nacional Comum Curricular, 2018. 1.Conhecimento 2.Pensamento científico, crítico e criativo 10.Responsabilidade e cidadania 8.Autoconhecimento e autocuidado 6.Trabalho e projeto de vida 3.Repertório cultural 9.Empatia e cooperação 7.Argumentação 4.Comunicação 5.Cultura digital O que: Valorizar e utilizar os conhecimento sobre o mundo físico, social, cultural e digital. O que: Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação O que: Exercitar a empatia, o diálogo a resolução de conflitos e a cooperação O que: Conhecer-se compreender-se na diversidade humana e apreciar-se O que: Argumentar com base em fatos dados e informações confiáveis O que: Valorizar e apropriar-se de conhecimentos e experiências O que: Exercitar a curiosidade intelectual e utilizar as ciências com criticidade e criatividade. O que: Valorizar as diversas manifestações artísticas e culturais. O que: Utilizar diferentes linguagens O que: Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de forma crítica, significativa e ética Para: Entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar com a sociedade. Para: Tomar decisções com base em princípios ético, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários Para: Fazer-se respeitar e promover o respeito ao outro e aos direitos humantos, com acolhimento e valorização da diversidade, sem preconceitos de qualquer natureza Para: Cuidar de sua saúde física e emocional, reconhecndo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas Para: Formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns, com base em direitos humanos, consciências socioambiental, consumo responsável e ética, Para: Entender o mundo do trabalho e fazer escolhar alinhadas à cidadania e ao seu projeto de vida com liberdade, autonomia criticidade e responsabilidade COMPETÊNCIAS GERAIS BNCC Para: Invertigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções. Para: Frui e participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Para: Expressar-se e partilhar informações, experiências, ideias, sentimentos e produzir sentimentos que levem ao entendimento mútuo Para: Comunicar-se, acessar e produzir informações e conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria Esse é o conjunto de possibilidades esperado para os estudantes ao final do Ensino Médio. No entanto, para que tais competências se construam ao longo da Educação Bási- ca, é fundamental que todos se responsabilizem por esse percurso. Por isso, sua atenção é imprescindível na etapa e/ou modalidade em que atua. Este documento contextualizou os elementos curriculares para o Território Catarinen- se. Na Educação Infantil, mantivemos a organização prevista pela BNCC, de modo a respei- tar os Direitos à Aprendizagem e ao Desenvolvimento e propor dois organizadores: campos de experiência e faixa etária. Reveja, a seguir, como essas questões estão expressas: 23CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Fonte: BRASIL. MEC. Base Nacional Comum Curricular, 2018. EDUCAÇÃO INFANTIL Direitos de aprendizagem e desenvolvimento Campos de experiências Na primeira etapa da Educação Básica, e de acordo com os eixos estruturantes da Educação Infantil (interações e brincadeira), devem ser assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, para que as crianças tenham condições de aprender e se desenvolver Considerando os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, a BNCC estabelece cinco campos de experiências, nos quais as crianças podem aprender e se desenvolver. Em cada campo de experiências, são definidos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento organizados em três grupos por faixa etária. Conviver Brincar Participar Explorar Expressar Conhecer-se • O eu, o outro e o nós • Corpo, gestos e movimentos • Traços, sons, cores e formas • Escuta, fala, pensamento e • imaginação • Espaços, tempos, quantidades, • relações e transformações Bebês (0-1a 6m) Crianças bem pequenas (1a7m-3a11m) Crianças pequenas (4a–5 a11m) Direitos de aprendizagem e desenvolvimento No Ensino Fundamental, também optamos por uma organização por áreas do conheci- mento. Em cada uma, estão definidas as competências por área e as do componente curricular. 24 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 ENSINO FUNDAMENTAL Áreas do conhecimento Língua Portuguesa LinguagensMatemática Ciências da Natureza Ciências Humanas Ensino Religioso Educação Física Educação Física Ciências Geografia História Ensino Religioso Língua Inglesa Arte Componentes curriculares Anos Iniciais (1º ao 5º ano) Anos Finais (6º ao 9º ano) Fonte: BRASIL. MEC. Temas Contemporâneos. Transversais, 2019. 25CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Com essa organização, esperamos possibilitar múltiplas leituras de articulação en- tre os diversos componentes curriculares e as etapas dos anos iniciais e dos anos finais. No entanto, sempre há muito o que fazer. Nos Projetos Político-Pedagógicos das escolas catarinenses, ainda será necessá- rio complementar dois tópicos importantes: tecnologias para a aprendizagem e os temas contemporâneos transversais. Para ensinar e aprender na sociedade atual, não há como não compreender que as tecnologias nos permitiram novas relações com o conhecimento e afetaram nossos modos de interagir e nos relacionar. Nesse sentido, as escolas do Território Catarinense ainda precisam avançar na definição de um currículo que aponte para o trabalho com Tecnologias para a apren- dizagem para todos os estudantes da Educação Infantil e do Ensino Fundamental. Todos nós, professores e gestores, precisamos lidar com o volume de informações cada vez mais rápido e disponível, para atuar de forma responsável e consciente nesse contexto de culturas digitais. Para que os elaboradores e partícipes dos Projetos Político-Pedagógicos das es- colas sintam-se convidados a buscar essa ampliação e implementação, sugerimos que conheçam alguns modelos como o da figura a seguir que pode ser encontrado em http:// curriculo.cieb.net.br/. Tencologia e Sociedade Representação de Dados Cidadania Digital Hardware e Software Comunicação e Redes Letramento Digital Etapas da Educação Cultura Digital Tecnologia Digital Pensamento ComputacionalReconhecimento de Padrões Decomposição Algoritimos Abstração 26 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Os projetos político-pedagógicos das escolas também podem ser enriquecidos com as discussões relacionadas aos temas contemporâneos transversais. Necessários para a ampliação dos conhecimentos e das competências essenciais, os temas merecem atenção das escolas no que diz respeito à atualização das discussões que acompanham a constru- ção de uma sociedade autônoma, justa e igualitária. Para isso, referenciais sobre os temas contemporâneos transversais na BNCC po- dem ser consultados no site do MEC e/ou da BNCC. Conheça, a seguir, os principais te- mas e seus desdobramentos. Fonte: BRASIL. MEC. Temas Contemporâneos. Transversais, 2019. Temas Contemporâneos Transversair na BNCC CIDADANIA E CIVISMO SAÚDE ECONOMIACIÊNCIA E TECNOLOGIA Vida familiar e social Educação para o Trânsito Educação em Direitos Humanos Direitos da Criança e do Adolescente Processo de envelhecimento, respeito e valorização do Idoso Saúde Educação Alimentar e Nutricional MULTICULTURALISMO Diversidade Cultural Educação para valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais Brasileiras Trabalho Educação Financeira Educação Fiscal Ciência e Tecnologia MEIO AMBIENTE Educação Ambiental Educação para o Consumo Este documento não lhe dirá o que fazer! A partir desses argumentos apresentados, tenha a convicção de que pensamos nos professores em sala de aula em todos os momen- tos que elaboramos este material. No entanto, será necessário traduzir as orientações para colocá-las em prática. Isso porque a história, o contexto, os movimentos que constituem cada escola são singulares e exigirão reflexão sobre os recursos disponíveis, as possibilidades e os limites de cada situação. Para que as orientações deste documento “façam sentido” 27CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 no seu cotidiano, elas precisarão ser mediadas, analisadas, revisitadas, revistas, etc. Toda implementação curricular exige um complexo processo de “escolhas” sobre o que e como ensinar. O objetivo deste material é dar-lhe subsídios, indicações e orientações para apoiar o planejamento de ensino. Faça uso dele nesse sentido e “reinvente” a prática docente. Desejamos que todos risquem e rabisquem este documento! Sim, queremos que todos transformem este material em instrumento de trabalho, que aperfeiçoem, complementem, corri- jam, enfim... utilizem e façam bom uso para o desafiador futuro que desejamos construir juntos! Cássia Ferri Consultora de Currículo Leo Lynce Valle de Lacerda Rita Buzzi Rausch Consultores 29CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 A DIVERSIDADE COMO PRINCÍPIO FORMATIVO NA EDUCAÇÃO BÁSICA 30 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1 A DIVERSIDADE COMO PRINCÍPIO FORMATIVO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Pensar a Educação no tempo que vivemos é, cada vez mais, pensar um futuro que já é presente, pensar problemas globais que requerem ação local, pensar que a formação de todos não pode deixar de olhar para cada um. O desafio da massificação da escolarização passa por não confundir acesso a uma educa- ção de qualidade com uma padronização cega que transforma a escola num redutor instrumento de transmissão de informação que não se converte em conhecimento e sabedoria (CLAUDINO et al., 2019, p. 5). A diversidade é representada pelos grupos sociais, de identidades singulares, que constituem os sujeitos históricos, nas suas relações com o ambiente e com outros grupos, na produção e na reprodução de suas existências socioambientais (SANTA CATARINA, 2014). O termo “diversidade” ganha expressão no contexto social brasileiro com a Cons- tituição Federal (BRASIL, 1988), a partir do seu marco histórico e político que demarca o princípio democrático na perspectiva da valorização cultural. O reconhecimento da di- versidade efetiva-se “[...] após a abertura política e no processo legislativo decorrente da democratização, que a Educação Básica como um direito desponta ancorada no princípio do bem comum e no respeito à diversidade” (SANTA CATARINA, 2014, p. 53). Entendida como característica da espécie humana, a diversidade projeta-nos ao cenário das diferen- ças de identidades constitutivas dos seres humanos, suas mais distintas organizações, além da própria heterogeneidade que a caracteriza. O direito à diferença, no espaço público, significa não apenas a tolerância com o outro, aquele que é diferente de nós, mas implica a revisão do conjunto dos padrões sociais de relações na sociedade, exigindo uma mudança que afeta a todos. Isso significa que a questão da identidade e da diferença tem caráter po- lítico. O direito à diferença se manifesta por meio da afirmação dos direitos de crianças, mulheres, jovens, idosos, homossexuais, negros, quilombolas, indí- genas, pessoas com deficiência, entre outros, que, para de fato se efetivarem, necessitam ser socialmente reconhecidos. (SANTA CATARINA, 2014, p. 55). Nesse contexto, a diversidade constitui-se como princípio formativo e fundamen- ta-se nos processos de ensino e de aprendizagem, reconhecendo, no ser humano, suas especificidades, suas potencialidades e suas possibilidades de acessar as expectativas da Educação Básica. Nesses termos, a adoção da [...] “diversidade como princípio formativo” repercute, necessariamente, nos con- teúdos, na organização curricular, nos tempos e nos espaços escolares, no mo- delo de gestão e de avaliação, nos materiais didáticos, na formação inicial e conti- nuada, nas relações humanas, no sujeito da educação e no modelo de sociedade que a Escola ajuda a construir. (SANTA CATARINA, 2014, p. 84). 31CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Amparada nessa perspectiva, a diversidade é reconhecida pelo seu caráterforma- tivo na educação escolar catarinense, efetivamente pelas dimensões pedagógicas que privilegiam: o educar na alteridade; a consciência política e histórica da diversidade; o reconhecimento, a valorização da diferença e o fortalecimento das identidades; a sustenta- bilidade socioambiental; o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; a laicidade do Estado e da escola pública catarinense; e a igualdade de direitos para acesso, perma- nência e aprendizagem na escola (SANTA CATARINA, 2014) para todos os estudantes, independentemente de suas especificidades humanas. Conjugada por essas dimensões pedagógicas, a organização curricular no território catarinense dá ênfase à obrigatoriedade do [...] ensino de seus conteúdos históricos nas escolas, quais sejam, os afro- -brasileiros e indígenas; é para aqueles que as diretrizes encaminham formas específicas de ensinar, aprender e de organizar a escola, como é o caso dos indígenas, dos quilombolas, sujeitos do campo, sujeitos da educação especial que têm garantido o seu direito à educação e à acessibilidade por meio de aten- dimento educacional especializado as suas necessidades específicas. (SANTA CATARINA, 2014, p. 57). Consubstanciada pela diversidade na Educação Básica, as temáticas Educação Ambiental Formal e Educação para as Relações Étnico-Raciais; e as modalidades de ensino Educação de Pessoas Jovens, Adultos e Idosos, Educação Escolar Quilom- bola, Educação Escolar Indígena, Educação Escolar do Campo e Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva ganham visibilidade curricular no território catari- nense, respaldadas pelo direito à educação que é de todos. REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. CLAUDINO, S. et al. (orgs.). Geografia, Educação e Cidadania. Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. Lisboa: ZOE, 2019. SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação. Proposta Curricular de Santa Catarina: formação integral da Educação Básica. Estado de Santa Catarina: Secretaria de Estado da Educação, 2014. 32 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.1 EDUCAÇÃO AMBIENTAL FORMAL Consultora Rosemy da Silva Nascimento Grupo de Trabalho: Andréia Rosane Longhini Balzzan Cassiana Medeiros de Souza Karla Grazielle Soares Lima Ketryn Fabiana Cidade Beseke Lúcio José Bento Marcia Aparecida Dalcanale A Educação Ambiental Formal (EAF), como especificidade no currículo da Educa- ção Básica, é focada nos sujeitos da comunidade escolar e na sua relação com o ambiente local e seu entorno, a qual reverbera nas demais dimensões escalares. A justificativa de uma educação para o ambiente foi devido a uma crescente perda da qualidade e da degradação ambiental, além do comprometimento da preservação da vida. Esse alerta serviu para o reconhecimento do papel da educação ambiental na forma- ção e na mobilização dos sujeitos, no resgate de valores e na ação social comprometidos com toda a forma de vida; é, por conseguinte, uma educação para a sustentabilidade socioambiental. Assim sendo, no contexto da definição, compreendemos que a Educação Ambiental (EA) se caracteriza como processo e não evento, considerando a educação dos sujeitos para o conhecimento socioambiental e suas conexões, sustentadas na informação, na sensibilização e na mobilização individual e/ou coletiva para a construção de valores socioambientais, conhecimentos, habilidades, atitudes, tanto para a melhoria quanto para a sustentabilidade de todas as formas de vida; e que, no âmago do corpo-mente-espírito, possa promover a fé1 e a busca de esperança. A Educação Ambiental trata da educação para o ambiente, e o agente ativo nesse processo é o ser humano. Educar significa obter conhecimento, que pode ser construído pelas experiências, pela aceitação, pela razão e pela experimentação. O sentido de edu- car é instruir para o mundo, para si e para os outros. Nesse sentido, a educação como processo visa promover, nas pessoas, o desenvolvimento de habilidades intelectuais para assimilação de dados e de informações na geração de conhecimento de forma integrada, para apropriarem-se e mudarem comportamentos. 1 Fé, etimologicamente de origem Grega “pistia”, designa a noção de acreditar. E, no Latim, “fides”, remete a uma atitude de fidelidade. Nesse contexto, ter fé implica em ter confiança. Em situações como problemas emo- cionais ou físicos, ter fé significa ter esperança de algo que vai mudar de forma positiva, para melhor. O termo “fé” também está no cotidiano, como no campo do legislativo. “Dar fé = Atesto como verdade”. 33CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.1.1 Princípios da educação ambiental nos objetos de conhecimento A Educação Ambiental propõe desenvolver o pensamento crítico e inovador, de for- ma a permitir mudanças na sociedade em uma perspectiva holística, enfocando a relação entre o ser humano, a natureza e o conhecimento. Nessa abordagem, o holístico consagra a rede de inter-relações dinâmicas e orgânicas, promovendo a alteridade, permitindo des- pertar os potenciais humanos da criação, da emoção, da intuição, do físico, da imaginação, do racional, do lógico e do verbal. Sociedades sustentáveis requerem, na educação, seres humanos para uma vida saudável e integral. Santa Catarina, apesar de constituir apenas 1,1% do território nacional, possui uma representatividade étnica enriquecida pelos seus povos originais indígenas, europeus, afri- canos, asiáticos e americanos, constituindo um mosaico de multisaberes. A diversidade também está presente nos elementos da natureza, nas diversas paisagens que caracte- rizam o uso e a cobertura da terra, os modos de produção e as redes conectadas nessa relação espaço-tempo-sócio-natural, que é o ambiente catarinense. Na BNCC, a Educação Ambiental poderá ser trabalhada em todos os componen- tes curriculares por meio dos pressupostos pedagógicos do cuidado, da integridade e do diálogo. O cuidado visa promover a empatia e a alteridade. A integridade une o que se planeja e o que se faz; sem fuga dos objetivos. E o diálogo significa saber escutar o outro, nas diferentes opiniões de cunho científico e não científico. Ressalta-se, também, que, em cada objeto de conhecimento, haja a apropriação dos conteúdos, a formação de conceitos e a aquisição de competências para agir na realidade de forma transformadora; que se tenha compreensão crítica das questões ambientais decorrentes das ações humanas na sua história; que se desenvolva o pertencimento do seu ambiente e a vontade de participar ativamente da sua proteção e do seu melhoramento; que se fortaleça o protagonismo es- tudantil para intervir na resolução dos problemas ambientais e para fomentar a cooperação local, nacional e internacional. Uma das indicações metodológicas pode ser apoiada na concepção teórica e práti- ca da abordagem sistêmica, que permite uma compreensão das inter-relações de diversos subsistemas: natural, econômico, social, cultural, etc., que compõem o ambiente. Esse método permite a observação e a análise das complexidades inerentes às relações so- cioambientais, nas inter-relações e na interdependência entre os fenômenos que ocorrem na sociedade e na natureza. A Educação Ambiental, como os demais temas e modalidades da diversidade, con- segue integrar os diversos tipos de conhecimento, desde o empírico até o científico, de modo a permitir fazer aproximações do cotidiano do estudante, do mundo e dos conteúdos 34 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 curriculares; além de os professores promoverem movimentos e aproximações das diferen- tes áreas temáticas, proporcionando reflexões sobre problemáticas e soluções existentes nos diferentes contextos. Tais estratégias fazem parte do processode ensino-aprendiza- gem, entre o arcabouço de conhecimentos dos componentes curriculares e os questio- namentos ambientais. Na BNCC, a Educação Infantil e as oito componentes curriculares – Arte, Ciências da Natureza, Educação Física, Geografia, História, Língua Inglesa, Língua Portuguesa e Matemática –, conforme seus objetos de conhecimento, poderão melhor articular em que momento essas e outras questões poderão ser abordadas. No entanto, destacamos, a seguir, algumas possibilidades e cada área. a. Arte A Arte tem seus saberes, objetivos e metodologias próprias e pode ser um instru- mento mobilizador para desenvolver a Educação Ambiental nas instituições educacionais. Pensar Arte e a EA, na vida dos sujeitos, é possibilitar conhecer os diversos tipos de lin- guagens e trazer, para a discussão, as relações estabelecidas nos mais variados contextos articulados às suas culturas, de forma a desenvolver a sensibilidade e a visão (leitura) de mundo para a construção de valores socioambientais. Assim sendo, é com a responsabili- dade de uma educação voltada ao crescimento do estudante como ser social, educacional e emocional que o professor disponibiliza o compartilhamento de saberes e de produções, sendo, no percurso do fazer artístico, que os alunos criam, experimentam, desenvolvem e percebem uma poética pessoal. A arte e a EA precisam construir seus saberes, sua identidade com equilíbrio e res- ponsabilidade. Dessa forma, destacamos a importância do professor no processo de ensino- -aprendizagem e do grupo de estudantes, na qualidade de participantes ativos nos processos de criação, de construção e de apropriação do conhecimento significativo para desenvolver o protagonismo juvenil nas suas experiências educacionais e vivências locais e regionais. b. Ciências da Natureza Construir conhecimento na relação entre o ser humano e a natureza é objetivo da Educação Ambiental, de maneira a possibilitar a observação, a experimentação, o debate e o desenvolvimento de atitudes de respeito, de valorização de si e do outro. A relação com o meio é fundamental para a formação de um cidadão crítico e consciente, capaz de disseminar a sustentabilidade e o equilíbrio necessários à vida. Para que isso seja viável, faz-se necessário considerar o entorno dos estudantes, refletir sobre o mundo do qual fazem parte, de forma a almejar uma emancipação sociocul- tural por meio dos conhecimentos científicos que precisam ser contemplados no percurso 35CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 formativo da Educação Básica, comprometida com a racionalidade, o pensamento crítico e a afetividade, como função social da escola. A BNCC, como um documento que garante os direitos mínimos de aprendizagem, deve ser considerada, de modo a respeitarem-se suas especificidades. Espera-se, assim, uma mudança de comportamento e atitudes com base em princípios éticos e sustentáveis, de forma a permitir uma reflexão sobre sua existência e sua relação com o mundo, criando um sentido de pertencimento com vistas a mudanças significativas que promovam a apren- dizagem e o desenvolvimento. c. Educação Física As Unidades Temáticas apresentadas na BNCC são: Brincadeiras e Jogos, Espor- tes, Ginásticas, Danças, Lutas e Práticas Corporais de Aventura, objetivando o eu, você, nós, o ambiente e a natureza. A educação é dialética, está continuamente em movimento, por isso a busca por métodos e ferramentas, devido às transformações sociais. Logo, é ne- cessário que o professor, a escola, os alunos e a comunidade estejam motivados a essas transformações. Nesse sentido, a EAF poderá fazer parte desse arcabouço, considerando que todas essas manifestações poderão ocorrer em diversos ambientes, de forma a inte- grar os princípios da Educação Ambiental. Os professores deverão estimular seus alunos e a comunidade escolar a um equi- líbrio físico, mental e espiritual; trabalhar a disciplina e a motivação de forma harmônica e contínua. Busca-se esse equilíbrio por meio da educação do corpo e da mente para um ser humano saudável, assim como para um ambiente melhor. Essa proposta pode ser reali- zada por meio de atividades lúdicas, recreativas, educativas, tais como: caça ao microlixo, plantio de árvores em locais que irão contribuir para o uso comum. Nesse sentido, está sendo estabelecida uma etapa para a educação brasileira com a determinação legal da construção de um elemento norteador, a Base Nacional Comum Curricular, que organiza os conhecimentos, as competências e as habilidades que podem ser desenvolvidas pelos estudantes e pela comunidade escolar. d. Geografia Na BNCC, o componente curricular Geografia visa desenvolver o pensamento es- pacial, de forma a estimular o raciocínio geográfico para representar e interpretar o mundo em permanente transformação e relacionar componentes da sociedade e da natureza. Ao unirem-se a definição e os princípios da EA, há uma sinergia entre eles, que poderão ser tratados concomitantemente nas unidades temáticas: o sujeito e seu lugar no mundo, que trabalha as noções de pertencimento e identidade; conexões e escala, que está nas 36 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 relações entre fatos nos níveis local e global; o mundo do trabalho, com suas técnicas e tecnologias da produção no campo e na cidade; formas de representação e pensamento espacial, com mapas e outras formas de representação gráfica; e as questões sobre a natureza, ambiente e qualidade de vida articuladas nas relações e nas conexões entre processos físico-naturais e humanos. Nesse compêndio, há duas situações: aquela pro- vocada pelo professor sobre os fenômenos geográficos e o raciocínio ambiental. Ambos poderão ser estimulados para se pensar espacialmente com criticidade, além de a investi- gação, a identificação de diagnósticos, as reflexões e as proposições de forma a integrar o ser humano, a natureza e o conhecimento serem construídas. e. História A compreensão da Educação Ambiental Formal no componente de História pro- move um processo educacional no reconhecimento do “Eu, do Outro e do Nós”, por meio do qual o sujeito se constitui e é constituído individual e coletivamente. Na relação com o ambiente, constroem-se valores socioambientais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências na prevenção e na preposição de soluções para problemas ambientais, com o intuito à manutenção da qualidade de vida e a sustentabilidade. Nessa perspectiva, o componente de História possibilita a constituição do estado de pertencimento, por meio do tempo e do espaço, e converge com a Educação Ambiental no sen- tido de que, em cada objeto de conhecimento, haja a apropriação dos conteúdos, a formação de conceitos e a aquisição de competências para agir na realidade de forma transformadora. f. Língua Inglesa Os processos de ensinar e aprender, desenvolvidos nas unidades escolares, não podem se ater a uma habilidade de modo isolado, fragmentando a língua. A língua é viva, multicultural e plural. Assim, pode-se atribuir vários significados e aprendizagens nessa relação de interação entre o eu e o outro. Dessa forma, a Educação Ambiental pode ser inserida no planejamento docente por meio de ações que desenvolvam a interação e pro- movam, aos estudantes, a formação humana e integral em diversas esferas da atividade humana. Refletir no sentido de que as práticas sociais e as interações desenvolvidas não estão terminadas ou internalizadas como sistema fará com que os docentes realizem suas escolhas, de modo a contextualizarem o ensino de Educação Ambiental a partir das habili- dades e do contexto da unidade educacional e dos estudantes. g. Língua Portuguesa O componente da Língua Portuguesa, associado à Educação Ambiental, tem como 37CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 objetivo promover, durante o processo, práticas de linguagemque utilizem atividades do cotidiano, de maneira a abordar a temática ambiental. Assim, é significativo para o estu- dante lidar com a leitura/a escrita, a produção (escrita e multissemiótica) e a análise lin- guística/semiótica que envolvam os conhecimentos linguísticos e essa temática. Tais prá- ticas poderão ser trabalhadas com diversas informações correlatas à questão ambiental, fazendo com que o aluno reflita sobre sua relação social com o ambiente. h. Matemática O direito de saber do indivíduo deve fazer parte da construção do conhecimento no todo sem dissociação, sobretudo em relação a questões sociais, éticas, democráticas e sustentáveis, de modo a valorizar a diversidade de opiniões de indivíduos e de grupos so- ciais sem preconceitos de qualquer natureza. A partir do momento que o sujeito está feliz e entende o meio do qual faz parte, ele interage de forma dinâmica e ativa. Modelos matemá- ticos estão em tudo e fazem parte do ambiente no qual todos estão inseridos. Assim sendo, a Matemática, como ciência, é uma forma de quantificar os elementos e os fenômenos da natureza e da sociedade. Integrada e articulada, a Matemática firma-se como ciência humana, como linguagem, espírito investigativo lógico e pesquisador, capaz de compreen- der e colaborar com a educação para o ambiente por meio da pesquisa e da resolução de problemas. Interagir de forma cooperativa e trabalhar coletivamente em sua prática com significados devem fazer parte da realidade socioambiental do indivíduo. Além das sugestões descritas anteriormente para os componentes curriculares, destacamos algumas inspirações no tópico a seguir. 1.1.2 Vários caminhos, várias possibilidades Os pressupostos teóricos e metodológicos dos níveis educacionais assim como dos componentes curriculares serão os orientadores da Educação Ambiental Formal para San- ta Catarina. Destaca-se que o foco está no estudante como sujeito crítico e ativo, de forma que este compreenda a realidade catarinense, a sua relação e a do outro como agentes do ambiente, visando construir valores e atitudes socioambientais para a sustentabilidade. As temáticas são variadas, mas conectadas aos fenômenos sociais e naturais pró- ximas da realidade do estudante e, consequentemente, das demais escalas espaciais. Como exemplo, pode-se destacar as consequências dos eventos climáticos extremos, a violência, a segurança alimentar e nutricional. As epidemias como as doenças de veicula- ção hídrica e as transmitidas por vetores que se relacionam com a água também são temas aliados à qualidade de vida, pois água não tratada é porta aberta para diversas doenças 38 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 como: hepatite, cólera, verminoses, dengue, febre amarela, etc. Outra questão que está no cotidiano é a cultura do consumo, a moda do consumo e a sustentabilidade. Sorrentino e Portugal (2017), como preconiza a BNCC (BRASIL, 2017), destacam que [...] os distintos modos de produção e consumo, seus impactos socioambientais e os instigantes caminhos a serem construídos pela ciência e pelos conheci- mentos humanos, de uma forma cooperativa e transformadora, são provoca- ções a serem colocadas por este tema integrador, (SORRENTINO; PORTU- GAL, 2017, p. 11). Outras iniciativas, ações e programas governamentais para a educação ambiental também contribuem com a comunidade escolar, principalmente com ideias para os com- ponentes curriculares, que poderão ser consultados nos cadernos de Educação Ambiental – Políticas e Práticas pedagógicas e em outras fontes, como, por exemplo: Escolas Edu- cadoras Sustentáveis; Alimentação Saudável; Programa Com-Vida; Projeto Internacional Nós-Propomos2; Permacultura3; entre outras. Em todas essas proposições, Sorrentino e Portugal (2017) reforçam que podem ser trabalhados também aspectos da sobrevivência e das espécies que hoje sobrevivem sob ameaças de extinção, como também [...] a situação dos oceanos; o aquecimento global; a fome assombrando um bilhão de humanos; a falta de água potável e de saneamento básico para imen- sas parcelas da humanidade; o desflorestamento e a desertificação; a erosão dos solos; a perda de biodiversidade e a erosão genética; os agrotóxicos e os transgênicos ampliando a insegurança alimentar; as diferentes formas de poluição; a diminuição da fertilidade do macho de nossa espécie e os distintos tipos de cânceres relacionados ao modo de vida contemporâneo; o stress, o trânsito e todas as formas de violência urbana; as guerras e os gastos com armamentos; a falta de acesso a programas de saúde, educação, moradia e aposentadoria, comprometendo a igualdade de oportunidades para todos; as discriminações de todos os tipos; as perdas linguísticas e culturais, dentre tan- tos outros problemas socioambientais que exigem de cada um de nós uma postura mais humilde e meditativa sobre os caminhos a seguir para termos uma humanidade e cada ser humano atingindo o seu pleno brilho. (SORRENTINO; PORTUGAL, 2017, p. 4). Cenários futuros sobre a capacidade de suporte do planeta em acolher a atual população mundial fazem com que sejamos criativos, diversos nos modos de produção sustentável e de uma educação democrática para a humanidade, conforme foi descrito anteriormente. A Carta da Terra lembra que os desafios para o futuro já são os do presente, e a educação pode ser de todos, sustentável e pacífica. 2 Disponível em: https://www.ulisboa.pt/evento/nos-propomos. Acesso em: 11 abr. 2019. 3 Disponível em: http://permacultura.ufsc.br. Acesso em: 11 abr. 2019. 39CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e mo- dos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas fo- rem atingidas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessá- rios para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunida- des para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios am- bientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e jun- tos podemos forjar soluções includentes. (A CARTA DA TERRA, 1992, p. 1). É importante ressaltar que as responsabilidades são diferenciadas e ninguém pode se eximir de dar sua contribuição em função da realidade atual. Na condição social de be- neficiários do atual modo de desenvolvimento, os compromissos e as obrigações de fazer pelo Bem Comum são ainda indispensáveis. 1.1.3 O que não é educação ambiental? Desde quando a Educação Ambiental se tornou pauta nas diversas dimensões edu- cacionais, avanços foram alcançados para atingir o que realmente se entende como edu- car para um ambiente saudável. Contudo, observou-se que várias ações ainda não davam conta para atender ao que se preconiza no processo educacional para o ambiente, como informar, sensibilizar e mobilizar para a sua melhora. Nesse sentido, seguem algumas su- gestões do que não se compreende como Educação Ambiental: ● Processos sem conexão entre o social e o natural. ● Desenvolvimento de atividades só na preservação da natureza. ● Toda forma de violência. ● Eventos e ações em datas comemorativas ou isoladas. ● Realizar ações sem a conexão com a comunidade. ● Compreender o lixo como resíduo e não como algo sem destinação. ● A dicotomia entre saúde/ambiente e consumo/logística reversa. ● Não zelar pelo ambiente de convívio. ● Desconexão corpo-mente-espírito. Destaca-se que, em todos os documentos legais e propositivos, a escola é vista como espaço que habita os diferentes sujeitos, também é o local onde acontecem as refle- xões, as transformações sociais e coletivas,de modo a fazer um elo entre as comunidades, promover atitudes, valores e mudanças socioambientais, na perspectiva de que cada ser 40 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 humano se conheça e se reconheça como parte integrante do ambiente em que está inse- rido. Em se tratando do espaço escolar, pode-se afirmar que as questões socioambientais perpassam por todos os níveis de conhecimento, e que, quando o “saber e o “saber fazer” acontecem, o processo educacional se efetiva como propósito da BNCC – a manutenção de toda forma de vida. REFERÊNCIAS A CARTA DA TERRA. 1992. Disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/carta_ter- ra.pdf. Acesso em: 8 dez. 2018. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wp-content/uploads/2018/06/BNCC_ EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 10 mar. 2019. SORRENTINO, M.; PORTUGAL, S. Educação Ambiental e a Base Nacional Comum Curricular. In: FÓRUM BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - FBEA, 9., 2017, Balneário Camboriú. Anais eletrônicos [...]. Bal- neário Camboriú: UNIVALI, 2017. Disponível em: http://ixfbea-ivecea.unifebe.edu.br/wiew/information/down- loads-consulta-publica/3.pdf. Acesso em: 20 abr. 2019. 41CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.2 EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS Consultor Marcos Rodrigues da Silva Colaboradora Cátia Regina Dalmolin Grupo de Trabalho Arlene Aparecida de Arruda Vanice Pizzolloto Vitali Juciléia Fontanella Odair de Souza Karin Aline Henzel Rosemar Rodrigues Padilha Nanci Alves da Rosa 1.2.1 Texto introdutório As relações étnicas são ações que consideram os seres humanos diversos em suas experiências de vida históricas e culturais, únicos em suas personalidades e, tam- bém, diversos em suas formas de perceber o mundo. A partir das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica (2013)4, respaldada constitucionalmente no artigo 1º da Constituição Federal (1988), que trata dos princípios fundamentais da cidadania e da dignidade da pessoa humana, do pluralismo político, dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o projeto educacional brasileiro concerne: “[...] construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimen- to nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. (BRASIL, 2013 p. 16 ) Diante desse cenário, o desafio está em implementar práticas pedagógicas interdis- ciplinares, articuladas aos componentes curriculares, mediante a utilização de metodolo- gias e de estratégias que visem assegurar o respeito, o reconhecimento, o protagonismo e a valorização étnico-racial dos afrodescendentes e indígenas no ambiente escolar. Evidencia-se, também, a necessidade de formação docente com vistas à sensibiliza- 4 Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Secretaria de Educação Continuada, Al- fabetização, Diversidade e Inclusão. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Conselho Nacional da Educação. Câmara Nacional de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica / Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Currículos e Educação Integral. Brasília: MEC, SEB, DICEI, 2013. 562p. 42 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 ção e à construção de estratégias para equacionar questões ligadas ao combate às discri- minações raciais, de gênero, ao feminicídio, à xenofobia e à homofobia. Além disso, faz- -se necessária a construção de material didático-pedagógico que contemple a diversidade étnico-racial na escola e a valorização dos diversos saberes e culturas, garantindo assim o cumprimento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional5, LDB nº 9394/1996, atualizada em 2018, em seu art. 3º, incisos I, II, III, IV, XII, a saber, I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamen- to, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV – respeito à liberda- de e apreço à tolerância; XII – consideração com a diversidade étnico-racial; XIII – garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. (LDB, 2018 p. 09) 1.2.2 Compreensão de cada tema das diversidades de Santa Catarina De acordo com a Lei Nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003 (BRASIL, 2003), que trata da inclusão do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira e, posteriormente, com a inserção da cultura e da história indígena por meio da Lei Nº 11.645, de 10 março de 2008 (BRASIL, 2008), provoca-se a mudança de um currículo hegemônico até então. A implementação dessas leis nas escolas, por meio dos conteúdos, trabalhados nos diferentes componentes curriculares, faz com que o conhecimento dos elementos cul- turais e de natureza emancipatória sejam voltados a todas as etnias presentes no território catarinense. As práticas pedagógicas inclusivas e interdisciplinares transformam, por con- seguinte, a escola em um espaço de convivência cidadã, de forma a promover a interação, o respeito, o reconhecimento e a valorização entre os diferentes grupos étnicos. Contribui- -se, assim, para a atuação de profissionais da educação com posturas antirracistas, não discriminatórias e excludentes. � De que diversidade está se falando? A diversidade étnico-racial catarinense envolve os grupos indígenas (Guaranis, Xo- glengs, Kaigangs), os afrodescendentes, os quilombolas, os caboclos, os mestiços, os ciganos, em respeito aos novos processos migratórios. 5 LDB : Lei de diretrizes e bases da educação nacional. – 2. ed. – Brasília : Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2018. 58 p. Conteúdo: Leis de diretrizes e bases da educação nacional – Lei nº 9.394/1996 – Lei nº 4.024/1961.Disponível em: < https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/544283/lei_de_dire- trizes_e_bases_2ed.pdf> Acesso em 16 set 2019. 43CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 � Quem são os sujeitos da diversidade? Os sujeitos da diversidade “somos todos nós”, mas há de destacarem-se os grupos que vivenciaram processos de preconceito e discriminação. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996) obriga o ensino de conteú- dos históricos nas escolas: os afro-brasileiros e indígenas (BRASIL, 1996). De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (2012)6 isso significa que “(...) todas as pessoas, independente do seu sexo, origem nacional, étnico-racial, de condições econômicas, sociais ou culturais; de suas es- colhas de credo; orientação sexual; identidade de gênero; faixa etária, pessoas com defi- ciência, altas habilidades/superdotação, transtornos globais e do desenvolvimento, têm a possibilidade de usufruírem de uma educação não discriminatória e democrática”. � A diversidade como elemento fundante da atualização curricular A concepção da Educação Básica como direito vem acompanhada de duas outras dimensões, que são imprescindíveis para a sua realização: a ideia de uma educação co- mum e a do respeito às diferenças. É fundamental vivenciar uma estruturaescolar, que acolha os sujeitos em seus tempos, seus pertencimentos, sua cultura e seus valores. A qualidade da educação também é observada nas práticas para o respeito às diferenças e a equidade. Assim sendo, o Quadro 1, a seguir, traz os componentes curriculares de cada tema das diversidades, e, a seguir, aborda-se o processo avaliativo. 6 Com parecer homologado por Despacho do Ministro, publicado no D.O.U de 30/05/2012, seção I, p.33. 44 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques ARTES Impacto das Artes na vida social e no combate ao racismo. África e seus descen- dentes e o desenvolvi- mento artístico mundial. História da Arte de matriz africano, afro-brasileira/ catarinense e indígena; Inclusão de artistas ne- gros dos séculos XIX, XX e XXI. � Reconhecer e analisar a influência de distintas matrizes estéticas e culturais das artes visuais nas manifestações ar- tísticas das culturas locais, regionais e nacionais. � Discutir, com respeito e sem preconceito, as expe- riências pessoais e coletivas em dança vivenciadas na escola, como fonte para a construção de vocabulários e repertórios próprios. � Caracterizar e experimentar brinquedos, brincadeiras, jogos, danças, canções e histórias de diferentes matrizes estéticas e culturais. � Conhecer e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo-se suas matrizes indígenas, africanas e euro- peias, de diferentes épocas, favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes lingua- gens artísticas. � Analisar aspectos históricos, sociais e políticos da produção artística, problematizando as narrativas euro- cêntricas e as diversas categorizações da arte (arte, ar- tesanato, folclore, design etc.). � Analisar, entre os textos literários e entre estes e outras manifestações artísticas (como cinema, teatro, música, ar- tes visuais e midiáticas), referências explícitas ou implícitas a outros textos, quanto aos temas, afro e indígena nos per- sonagens e recursos literários e semióticos. �A história da arte africana. �A estética africana e sua influência na arte e cultura Brasileira. �Os elementos visuais no trançado indígena. �A dança indígena e a dança de países afri- canos. � Instrumentos musicais e suas origens. �A arte contemporânea e uma reflexão sobre diversidade. �Máscaras africanas e indígenas. �A história da arte dos diferentes continentes e em diferentes épocas. �A estética africana e sua influência na arte e cultura brasileira. �As linguagens visuais no estudo da arte Indí- gena Brasileira e Afro-brasileira. �A função da dança para as diferentes culturas no mundo. � Instrumentos musicais e suas origens. �A arte contemporânea. CIÊNCIAS DA NATUREZA Os impactos das Ciên- cias na vida social, nas relações étnico-raciais e combate ao racismo. Etnia, etnosaúde, este- reótipos, reconhecimen- to e valorização das diversidades, proble- matizando de diferentes formas a exclusão, vio- lências, preconceitos e discriminações, possibi- litando o enfrentamento do machismo, do sexis- mo, do racismo, da ho- mofobia e da xenofobia. Desconstrução do mode- lo eurocêntrico da Ciên- cia, incluindo os saberes científicos africanos e in- dígenas. � Comparar características físicas entre os colegas, reco- nhecendo a diversidade e a importância da valorização, do acolhimento e do respeito às diferenças. � Discutir e avaliar mudanças econômicas, étnico-racial, cul- turais e sociais, tanto na vida cotidiana quanto no mundo do trabalho, decorrentes do desenvolvimento de novos materiais e tecnologias (como automação e informatização). � Impacto da ciência na vida social, nas relações étnico raciais e combate ao racismo. � Reconhecer e valorizar os diferentes grupos étnicos para amenizar a violência e as desigualdades sociais. � Reconhecer e problematizar atitudes e enfrentar o pre- conceito, o machismo, o racismo, o sexismo, a homofobia e a xenofobia, na busca por uma sociedade com equidade. � Conhecer a história e a cultura. �Os impactos das Ciências na vida social, nas relações étnico-raciais e no combate ao ra- cismo. �Racismo: o que é, tipos e conceitos relacio- nados ao racismo. �Etnias. �Etnosaúde. �Formas de exclusão: machismo, sexismo, ra- cismo, homofobia, xenofobia. �Saberes científicos africanos e indígenas. �Racismo: o que é, tipos e conceitos relacio- nados ao racismo. �Formas de exclusão: machismo, sexismo, racismo, homofobia, xenofobia. �Saberes científicos africanos e indígenas. 45CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques ARTES Impacto das Artes na vida social e no combate ao racismo. África e seus descen- dentes e o desenvolvi- mento artístico mundial. História da Arte de matriz africano, afro-brasileira/ catarinense e indígena; Inclusão de artistas ne- gros dos séculos XIX, XX e XXI. � Reconhecer e analisar a influência de distintas matrizes estéticas e culturais das artes visuais nas manifestações ar- tísticas das culturas locais, regionais e nacionais. � Discutir, com respeito e sem preconceito, as expe- riências pessoais e coletivas em dança vivenciadas na escola, como fonte para a construção de vocabulários e repertórios próprios. � Caracterizar e experimentar brinquedos, brincadeiras, jogos, danças, canções e histórias de diferentes matrizes estéticas e culturais. � Conhecer e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo-se suas matrizes indígenas, africanas e euro- peias, de diferentes épocas, favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes lingua- gens artísticas. � Analisar aspectos históricos, sociais e políticos da produção artística, problematizando as narrativas euro- cêntricas e as diversas categorizações da arte (arte, ar- tesanato, folclore, design etc.). � Analisar, entre os textos literários e entre estes e outras manifestações artísticas (como cinema, teatro, música, ar- tes visuais e midiáticas), referências explícitas ou implícitas a outros textos, quanto aos temas, afro e indígena nos per- sonagens e recursos literários e semióticos. �A história da arte africana. �A estética africana e sua influência na arte e cultura Brasileira. �Os elementos visuais no trançado indígena. �A dança indígena e a dança de países afri- canos. � Instrumentos musicais e suas origens. �A arte contemporânea e uma reflexão sobre diversidade. �Máscaras africanas e indígenas. �A história da arte dos diferentes continentes e em diferentes épocas. �A estética africana e sua influência na arte e cultura brasileira. �As linguagens visuais no estudo da arte Indí- gena Brasileira e Afro-brasileira. �A função da dança para as diferentes culturas no mundo. � Instrumentos musicais e suas origens. �A arte contemporânea. CIÊNCIAS DA NATUREZA Os impactos das Ciên- cias na vida social, nas relações étnico-raciais e combate ao racismo. Etnia, etnosaúde, este- reótipos, reconhecimen- to e valorização das diversidades, proble- matizando de diferentes formas a exclusão, vio- lências, preconceitos e discriminações, possibi- litando o enfrentamento do machismo, do sexis- mo, do racismo, da ho- mofobia e da xenofobia. Desconstrução do mode- lo eurocêntrico da Ciên- cia, incluindo os saberes científicos africanos e in- dígenas. � Comparar características físicas entre os colegas, reco- nhecendo a diversidade e a importância da valorização, do acolhimento e do respeito às diferenças. � Discutir e avaliar mudanças econômicas, étnico-racial,cul- turais e sociais, tanto na vida cotidiana quanto no mundo do trabalho, decorrentes do desenvolvimento de novos materiais e tecnologias (como automação e informatização). � Impacto da ciência na vida social, nas relações étnico raciais e combate ao racismo. � Reconhecer e valorizar os diferentes grupos étnicos para amenizar a violência e as desigualdades sociais. � Reconhecer e problematizar atitudes e enfrentar o pre- conceito, o machismo, o racismo, o sexismo, a homofobia e a xenofobia, na busca por uma sociedade com equidade. � Conhecer a história e a cultura. �Os impactos das Ciências na vida social, nas relações étnico-raciais e no combate ao ra- cismo. �Racismo: o que é, tipos e conceitos relacio- nados ao racismo. �Etnias. �Etnosaúde. �Formas de exclusão: machismo, sexismo, ra- cismo, homofobia, xenofobia. �Saberes científicos africanos e indígenas. �Racismo: o que é, tipos e conceitos relacio- nados ao racismo. �Formas de exclusão: machismo, sexismo, racismo, homofobia, xenofobia. �Saberes científicos africanos e indígenas. 46 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques EDUCAÇÃO FÍSICA Origens dos jogos, das brinca- deiras e das danças africanas, afro-brasileiras e indígenas, vi- venciando-os com objetivo de minimizar questões discrimi- natórias étnico-raciais, presen- tes no cotidiano escolar. As contribuições dos povos africanos e indígenas nas di- ferentes culturas, na formação social e demográfica brasilei- ra, destacando a catarinense. Aspectos culturais das práticas corporais, por meio da dança, da brincadeira, do esporte, da ginástica, da luta, contextuali- zando cada uma dessas ma- nifestações. � Experimentar e fruir brincadeiras e jogos po- pulares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e recriá-los, va- lorizando a importância desse patrimônio histó- rico cultural. � Descrever, por meio de múltiplas linguagens (corporal, oral, escrita, audiovisual), as brin- cadeiras e os jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana, explicando suas ca- racterísticas e a importância desse patrimônio histórico cultural na preservação das diferentes culturas. � Planejar e utilizar estratégias para possibi- litar a participação segura de todos os alunos em brincadeiras e jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana. � Experimentar, recriar e fruir danças popula- res do Brasil e do mundo e danças de matriz indígena e africana, valorizando e respeitando os diferentes sentidos e significados dessas danças em suas culturas de origem. � Comparar e identificar os elementos consti- tutivos comuns e diferentes (ritmo, espaço, ges- tos) em danças populares do Brasil e do mundo e danças de matriz indígena e africana. � Experimentar, fruir e recriar danças de sa- lão, valorizando a diversidade cultural e respei- tando a tradição dessas culturas. � Problematizar preconceitos e estereótipos relacionados ao universo das lutas e demais práticas corporais, propondo alternativas para superá-los, com base na solidariedade, na jus- tiça, na equidade e no respeito. Brincadeiras e jogos: �esportes; �ginásticas; �danças; � lutas; �práticas corporais de aventuras. �Brincadeiras e jogos da cultura popular no contexto comunitário regional. �Lutas do contexto comunitário e regional de matrizes africanas. �Esporte de rede, parede, campo, invasão e combate. �Danças regionais africanas. 47CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques EDUCAÇÃO FÍSICA Origens dos jogos, das brinca- deiras e das danças africanas, afro-brasileiras e indígenas, vi- venciando-os com objetivo de minimizar questões discrimi- natórias étnico-raciais, presen- tes no cotidiano escolar. As contribuições dos povos africanos e indígenas nas di- ferentes culturas, na formação social e demográfica brasilei- ra, destacando a catarinense. Aspectos culturais das práticas corporais, por meio da dança, da brincadeira, do esporte, da ginástica, da luta, contextuali- zando cada uma dessas ma- nifestações. � Experimentar e fruir brincadeiras e jogos po- pulares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e recriá-los, va- lorizando a importância desse patrimônio histó- rico cultural. � Descrever, por meio de múltiplas linguagens (corporal, oral, escrita, audiovisual), as brin- cadeiras e os jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana, explicando suas ca- racterísticas e a importância desse patrimônio histórico cultural na preservação das diferentes culturas. � Planejar e utilizar estratégias para possibi- litar a participação segura de todos os alunos em brincadeiras e jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana. � Experimentar, recriar e fruir danças popula- res do Brasil e do mundo e danças de matriz indígena e africana, valorizando e respeitando os diferentes sentidos e significados dessas danças em suas culturas de origem. � Comparar e identificar os elementos consti- tutivos comuns e diferentes (ritmo, espaço, ges- tos) em danças populares do Brasil e do mundo e danças de matriz indígena e africana. � Experimentar, fruir e recriar danças de sa- lão, valorizando a diversidade cultural e respei- tando a tradição dessas culturas. � Problematizar preconceitos e estereótipos relacionados ao universo das lutas e demais práticas corporais, propondo alternativas para superá-los, com base na solidariedade, na jus- tiça, na equidade e no respeito. Brincadeiras e jogos: �esportes; �ginásticas; �danças; � lutas; �práticas corporais de aventuras. �Brincadeiras e jogos da cultura popular no contexto comunitário regional. �Lutas do contexto comunitário e regional de matrizes africanas. �Esporte de rede, parede, campo, invasão e combate. �Danças regionais africanas. 48 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques GEOGRAFIA Continente Africano como espaço de origem dos deslocamentos de populações que vieram a constituir uma das matrizes de formação da sociedade brasileira, interpretando essa formação como um processo ocorrido ao longo dos séculos XVI ao XIX. Processo de formação dos povos africanos, a diáspora e a divisão dos Estados africanos bem como os principais aspectos e conflitos étnicos nesses países, com ênfase no Apartheid na África do Sul. Mapeamento e contextualização das comunidades tradicionais afro- -catarinenses, indígenas e a impor- tância na formação do Estado e da economia catarinense. � Descrever e comparar diferentes tipos de mo- radia ou objetos de uso cotidiano (brinquedos, roupas, mobiliários), considerando técnicas e ma- teriais utilizados em sua produção. � Comparar costumes e tradições de diferentes populações inseridas no bairro ou comunidade em que vive, reconhecendo a importância do res- peito às diferenças. � Identificar e comparar aspectos culturais dos grupos sociais de seus lugares de vivência, seja na cidade, seja no campo. � Selecionar, em seus lugares de vivência e em suas histórias familiares e/ou da comunidade, ele- mentos de distintas culturas (indígenas, afro-bra- sileiras, de outras regiões do país, latino-america- nas, europeias, asiáticas etc.), valorizando o que é próprio em cada uma delas e sua contribuição para a formação da cultura local, regional e bra- sileira. � Descrever processos migratórios e suas contri- buições para a formação da sociedadebrasileira. � Identificar e descrever territórios étnico-cultu- rais existentes no Brasil, tais como terras indíge- nas e de comunidades remanescentes de quilom- bos, reconhecendo a legitimidade da demarcação desses territórios. � Analisar modificações de paisagens por dife- rentes tipos de sociedade, com destaque para os povos originários. � Selecionar argumentos que reconheçam as territorialidades dos povos indígenas originários, das comunidades remanescentes de quilombos, de povos das florestas e do cerrado, de ribeiri- nhos e caiçaras, entre outros grupos sociais do campo e da cidade, como direitos legais dessas comunidades. � Descrever as rotas de dispersão da população humana pelo planeta e os principais fluxos migr atórios em diferentes períodos da história, discu- tindo os fatores históricos e condicionantes físico- -naturais associados à distribuição da população humana pelos continentes. �O continente africano território e natureza. �Povos africanos que formaram o povo brasileiro e catarinense. �Os preconceitos contra povos africanos em Santa Catarina e seu combate. �A historicidade dos quilombos como espaço de resistência histórico-cultural dos povos afrodescendentes em Santa Catarina. �Re(significar) o espaço dos quilombos. �Os povos africanos que constituíram e os afro-brasileiros que constituem Santa Catarina na atualidade. �As estatísticas oficiais do IBGE na caracterização da população negra do Brasil. �A importância dos povos africanos e afro- brasileiros na economia do estado e local. �As culturas africanas e indígenas na composição da cultura catarinense (vocabulário, história, culinária, entre outros). �Os povos bantus e sudaneses que formaram a população brasileira e suas características. �Origem dos povos africanos em Santa Catarina. �A desconstrução da história catarinense eurocentrada e a adoção de um viés decolonial com os estudos dos quilombos, das festas e das tradições africanas e afro- catarinenses. �Mapa de Santa Catarina com os locais dos quilombos e suas caraterísticas físicas e geográficas. �Ênfase do trabalho do povo negro para a economia do território catarinense. �A presença da população negra nas mesorregiões catarinenses: Oeste, Serra, Norte, Sul, Vale do Itajaí e Norte. 49CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques GEOGRAFIA Continente Africano como espaço de origem dos deslocamentos de populações que vieram a constituir uma das matrizes de formação da sociedade brasileira, interpretando essa formação como um processo ocorrido ao longo dos séculos XVI ao XIX. Processo de formação dos povos africanos, a diáspora e a divisão dos Estados africanos bem como os principais aspectos e conflitos étnicos nesses países, com ênfase no Apartheid na África do Sul. Mapeamento e contextualização das comunidades tradicionais afro- -catarinenses, indígenas e a impor- tância na formação do Estado e da economia catarinense. � Descrever e comparar diferentes tipos de mo- radia ou objetos de uso cotidiano (brinquedos, roupas, mobiliários), considerando técnicas e ma- teriais utilizados em sua produção. � Comparar costumes e tradições de diferentes populações inseridas no bairro ou comunidade em que vive, reconhecendo a importância do res- peito às diferenças. � Identificar e comparar aspectos culturais dos grupos sociais de seus lugares de vivência, seja na cidade, seja no campo. � Selecionar, em seus lugares de vivência e em suas histórias familiares e/ou da comunidade, ele- mentos de distintas culturas (indígenas, afro-bra- sileiras, de outras regiões do país, latino-america- nas, europeias, asiáticas etc.), valorizando o que é próprio em cada uma delas e sua contribuição para a formação da cultura local, regional e bra- sileira. � Descrever processos migratórios e suas contri- buições para a formação da sociedade brasileira. � Identificar e descrever territórios étnico-cultu- rais existentes no Brasil, tais como terras indíge- nas e de comunidades remanescentes de quilom- bos, reconhecendo a legitimidade da demarcação desses territórios. � Analisar modificações de paisagens por dife- rentes tipos de sociedade, com destaque para os povos originários. � Selecionar argumentos que reconheçam as territorialidades dos povos indígenas originários, das comunidades remanescentes de quilombos, de povos das florestas e do cerrado, de ribeiri- nhos e caiçaras, entre outros grupos sociais do campo e da cidade, como direitos legais dessas comunidades. � Descrever as rotas de dispersão da população humana pelo planeta e os principais fluxos migr atórios em diferentes períodos da história, discu- tindo os fatores históricos e condicionantes físico- -naturais associados à distribuição da população humana pelos continentes. �O continente africano território e natureza. �Povos africanos que formaram o povo brasileiro e catarinense. �Os preconceitos contra povos africanos em Santa Catarina e seu combate. �A historicidade dos quilombos como espaço de resistência histórico-cultural dos povos afrodescendentes em Santa Catarina. �Re(significar) o espaço dos quilombos. �Os povos africanos que constituíram e os afro-brasileiros que constituem Santa Catarina na atualidade. �As estatísticas oficiais do IBGE na caracterização da população negra do Brasil. �A importância dos povos africanos e afro- brasileiros na economia do estado e local. �As culturas africanas e indígenas na composição da cultura catarinense (vocabulário, história, culinária, entre outros). �Os povos bantus e sudaneses que formaram a população brasileira e suas características. �Origem dos povos africanos em Santa Catarina. �A desconstrução da história catarinense eurocentrada e a adoção de um viés decolonial com os estudos dos quilombos, das festas e das tradições africanas e afro- catarinenses. �Mapa de Santa Catarina com os locais dos quilombos e suas caraterísticas físicas e geográficas. �Ênfase do trabalho do povo negro para a economia do território catarinense. �A presença da população negra nas mesorregiões catarinenses: Oeste, Serra, Norte, Sul, Vale do Itajaí e Norte. 50 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques HISTÓRIA Contexto político da África sub- saariana, às vésperas da Con- quista, por meio do estudo da di- versidade de povos, da formação de estados, como o Reino de Mali, e do lugar da Escravidão entre as sociedades africanas. Relações atlântico de pessoas, das culturas material e imaterial, do desenvolvimento econômico do Brasil, da polissemia religiosa, dos processos de negociação e de resistência e da dinâmica po- lítica nacional, sobretudo entre os séculos XVI e XIX. Desconstrução da perspectiva histórica eurocêntrica dos conhe- cimentos do continente, das civili- zações e dos povos africanos. � Identificar aspectos e processos específicos das sociedades africanas antes da chegada dos europeus, com destaque para as formas de orga- nização social e o desenvolvimento de saberes e técnicas. � Identificar conexões e interações entre as so- ciedades do Novo Mundo, da Europa e da África no contexto das navegações e indicar a comple- xidade e as interações que ocorrem no Oceano Atlântico. � Conhecer a história e a cultura do continente africano e dos povos indígenas sob a sua pers- pectiva. �Os povos africanos entre os séculos VIII e XV: suas formas de organização política, social e cultural, cidades e trocas comerciais, arte e trocas culturais. - Vislumbrar os primeiros cenários de povos africanos que vieram para o Brasil e para Santa Catarina. �A chamada “GrandesNavegações” e a chegada dos primeiros navegadores europeus à América, ao Brasil. �Contextualizar e problematizar o contato dos europeus com povos da América, do Brasil e de Santa Catarina. �Os povos indígenas em Santa Catarina, às vésperas da chegada dos primeiros exploradores vicentistas e fundação das cidades de Santa Catarina: �São Francisco do Sul e Laguna. �O encontro entre os primeiros colonizadores (açorianos, alemães, italianos, entre outros) e suas relações com os povos originários. �Vida, cultura e sociedade dos povos africanos em Santa Catarina. �História de personalidades negras ilustres de Santa Catarina: Cruz e Sousa, Antonieta de Barros e outros. �Concepção histórica eurocêntrica do continente, civilização e povos africanos. �Estudo da história do continente, civilizações e povos africanos, com tradições orais e acadêmicas. 51CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques HISTÓRIA Contexto político da África sub- saariana, às vésperas da Con- quista, por meio do estudo da di- versidade de povos, da formação de estados, como o Reino de Mali, e do lugar da Escravidão entre as sociedades africanas. Relações atlântico de pessoas, das culturas material e imaterial, do desenvolvimento econômico do Brasil, da polissemia religiosa, dos processos de negociação e de resistência e da dinâmica po- lítica nacional, sobretudo entre os séculos XVI e XIX. Desconstrução da perspectiva histórica eurocêntrica dos conhe- cimentos do continente, das civili- zações e dos povos africanos. � Identificar aspectos e processos específicos das sociedades africanas antes da chegada dos europeus, com destaque para as formas de orga- nização social e o desenvolvimento de saberes e técnicas. � Identificar conexões e interações entre as so- ciedades do Novo Mundo, da Europa e da África no contexto das navegações e indicar a comple- xidade e as interações que ocorrem no Oceano Atlântico. � Conhecer a história e a cultura do continente africano e dos povos indígenas sob a sua pers- pectiva. �Os povos africanos entre os séculos VIII e XV: suas formas de organização política, social e cultural, cidades e trocas comerciais, arte e trocas culturais. - Vislumbrar os primeiros cenários de povos africanos que vieram para o Brasil e para Santa Catarina. �A chamada “Grandes Navegações” e a chegada dos primeiros navegadores europeus à América, ao Brasil. �Contextualizar e problematizar o contato dos europeus com povos da América, do Brasil e de Santa Catarina. �Os povos indígenas em Santa Catarina, às vésperas da chegada dos primeiros exploradores vicentistas e fundação das cidades de Santa Catarina: �São Francisco do Sul e Laguna. �O encontro entre os primeiros colonizadores (açorianos, alemães, italianos, entre outros) e suas relações com os povos originários. �Vida, cultura e sociedade dos povos africanos em Santa Catarina. �História de personalidades negras ilustres de Santa Catarina: Cruz e Sousa, Antonieta de Barros e outros. �Concepção histórica eurocêntrica do continente, civilização e povos africanos. �Estudo da história do continente, civilizações e povos africanos, com tradições orais e acadêmicas. 52 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques LÍNGUA INGLESA Processos históricos de re- sistência negra desenca- deados pelos africanos es- cravizados no Brasil/Santa Catarina e países de língua inglesa, por seus descenden- tes na contemporaneidade, desde as formas individuais até as coletivas. A influência da língua inglesa na vida social, nas relações étnico-raciais e combate ao racismo. � Construir repertório relativo às expressões usadas para o convívio social e o uso da lín- gua inglesa em sala de aula. � Descrever sobre si mesmo, sua família, seus amigos, gostos, preferências e rotinas, sua comunidade, seu contexto escolar e ou- tras temáticas abordadas utilizando o verbo to be e o presente do indicativo. � Produzir textos diversos sobre fatos, acon- tecimentos e/ ou personalidades afrodescen- dentes e indígenas. � Analisar o alcance da língua inglesa e os seus contextos de uso no mundo globalizado. � Reconhecer a variação linguística como fenômeno natural das línguas, refutando pre- conceitos. � Construir repertório cultural por meio do contato com manifestações artístico-culturais vinculadas à língua inglesa (artes plásticas e visuais, literatura, música, cinema, dança, festividades, entre outros), valorizando a di- versidade entre culturas. � Debater sobre a expansão da língua inglesa pelo mundo, em função do processo de colo- nização nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania. � Discutir a comunicação intercultural por meio da língua inglesa como mecanismo de valorização pessoal e de construção de identi- dades no mundo globalizado. �Desenvolvimento das habilidades (leitura e escrita), utilizando o princípio da interculturalidade. �Leitura de gêneros textuais diversos (poemas, cartas, notícias, telefonema, entre outros), com diferentes estruturas gramaticais sobre o movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e África do Sul – destacando personalidades de diferentes períodos históricos. �Práticas de audição e de fala no contexto da diversidade étnico-racial. �Destaque – diálogos com personagens de diferentes etnias, identificando dados biográficos referentes à idade, às datas de acontecimentos relevantes, às atividades desenvolvidas, à escolaridade, às relações familiares, entre outros. Utilização das quatro habilidades (audição, fala, leitura e escrita) no desenvolvimento de projetos, envolvendo a temática étnico-racial. �Prática das habilidades estudadas, na criação de posters, entrevistas, revistas impressas ou digitais, relatos de resultados de pesquisa sobre o combate ao racismo no Brasil e nos países de língua inglesa. 53CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques LÍNGUA INGLESA Processos históricos de re- sistência negra desenca- deados pelos africanos es- cravizados no Brasil/Santa Catarina e países de língua inglesa, por seus descenden- tes na contemporaneidade, desde as formas individuais até as coletivas. A influência da língua inglesa na vida social, nas relações étnico-raciais e combate ao racismo. � Construir repertório relativo às expressões usadas para o convívio social e o uso da lín- gua inglesa em sala de aula. � Descrever sobre si mesmo, sua família, seus amigos, gostos, preferências e rotinas, sua comunidade, seu contexto escolar e ou- tras temáticas abordadas utilizando o verbo to be e o presente do indicativo. � Produzir textos diversos sobre fatos, acon- tecimentos e/ ou personalidades afrodescen- dentes e indígenas. � Analisar o alcance da língua inglesa e os seus contextos de uso no mundo globalizado. � Reconhecer a variação linguística como fenômeno natural das línguas, refutando pre- conceitos. � Construir repertório cultural por meio do contato com manifestações artístico-culturais vinculadas à língua inglesa (artes plásticas e visuais, literatura, música, cinema, dança, festividades, entre outros), valorizando a di- versidade entre culturas. � Debater sobre a expansão da língua inglesa pelo mundo, em função do processo de colo- nização nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania. � Discutir a comunicação intercultural por meio da língua inglesa como mecanismo de valorização pessoal e de construção de identi- dades no mundo globalizado. �Desenvolvimentodas habilidades (leitura e escrita), utilizando o princípio da interculturalidade. �Leitura de gêneros textuais diversos (poemas, cartas, notícias, telefonema, entre outros), com diferentes estruturas gramaticais sobre o movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e África do Sul – destacando personalidades de diferentes períodos históricos. �Práticas de audição e de fala no contexto da diversidade étnico-racial. �Destaque – diálogos com personagens de diferentes etnias, identificando dados biográficos referentes à idade, às datas de acontecimentos relevantes, às atividades desenvolvidas, à escolaridade, às relações familiares, entre outros. Utilização das quatro habilidades (audição, fala, leitura e escrita) no desenvolvimento de projetos, envolvendo a temática étnico-racial. �Prática das habilidades estudadas, na criação de posters, entrevistas, revistas impressas ou digitais, relatos de resultados de pesquisa sobre o combate ao racismo no Brasil e nos países de língua inglesa. 54 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques LÍNGUA PORTUGUESA A influência da língua por- tuguesa na vida social, nas relações étnicos raciais e no combate ao racismo, desconstruindo discursos, denominações e práticas preconceituosas e discrimi- natórias, nos diferentes gê- neros textuais. Lendas, mitos e contos afri- canos e indígenas. Literatura Africana, afro-bra- sileira e indígena. Processos históricos de resis- tência negra desencadeados pelos africanos escravizados no Brasil/Santa Catarina e países de língua portuguesa, por seus descendentes na contemporaneidade, desde as formas individuais até as coletivas. � Ler e compreender, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, quadras, quadrinhas, parlendas, trava-línguas, dentre ou- tros gêneros do campo da vida cotidiana, conside- rando a situação comunicativa e o tema/assunto do texto e relacionando sua forma de organização à sua finalidade. � Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, listas, agen- das, calendários, avisos, convites, receitas, ins- truções de montagem e legendas para álbuns, fotos ou ilustrações (digitais ou impressos), den- tre outros gêneros do campo da vida cotidiana, considerando a situação comunicativa e o tema/ assunto/ finalidade do texto. � Planejar e produzir pequenos relatos de ob- servação, de contos, de processos, de fatos, de experiências pessoais, mantendo as característi- cas do gênero, considerando a situação comuni- cativa e o tema/assunto do texto. � Cantar cantigas e canções, obedecendo ao ritmo e à melodia. � Realizar levantamento de questões, proble- mas que requeiram a denúncia de desrespeito a direitos, reivindicações, reclamações, solicitações que contemplem a comunidade afrodescendente e indígena ou algum de seus membros e exami- nar normas e legislações. � Analisar, entre os textos literários e entre estes e outras manifestações artísticas (como cinema, teatro, música, artes visuais e midiáticas), refe- rências explícitas ou implícitas a outros textos, quanto aos temas, afro e indígena nos persona- gens e nos recursos literários e semióticos. � Ler, de forma autônoma, e compreender – se- lecionando procedimentos e estratégias de lei- tura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes –, romances infanto-juvenis, contos populares, contos de terror, lendas brasileiras, indígenas e africanas, narrativas de aventuras, narrativas de enigma, mitos, crônicas, autobiografias, histórias em quadrinhos, mangás, poemas de forma livre e fixa (como sonetos e cordéis), vídeo-poemas, poemas visuais, dentre outros. � Expressar avaliação sobre o texto lido e esta- belecer preferências por gêneros, temas, autores. �Reconstrução e reflexão sobre as condições de produção e recepção dos textos pertencen- tes a diferentes gêneros e que circulam nas di- ferentes mídias e esferas/campos de atividade humana. �Reflexão crítica sobre as temáticas tratadas e validade das informações. �Compreensão de textos orais. �Produção de textos orais. �Relação entre fala e escrita. �Oralidade. �Leitura/Escuta. �Produção de textos. ORALIDADE �As variedades linguísticas, intertextualidade e processo de referenciação. �Estruturais (gênero proposto, estruturação do parágrafo).*Normativos (ortografia, con- cordâncias, vícios de linguagem). �Recursos gráficos (pontuação, sublinhados). �Papel dos pronomes na organização e na re- tomada de textos. �Modos e tempos verbais. �Associação semântica entre as palavras e seus efeitos para coesão e coerência. �Função das conjunções, advérbios, conectivos e preposições na relação do texto. �Uso de gírias, entonação e repetição. �Fala formal e informal. LEITURA �Texto em registro formal e informal. �A repetição das palavras e o efeito produzi- do. �Figuras de linguagem e pensamento. �Léxico. �Progressão referencial no texto. �Discursos direito, indireto e indireto livre. ESCRITA �Análise dos aspectos discursivos. �Análise dos aspectos textuais. �Análise dos aspectos estruturais. 55CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques LÍNGUA PORTUGUESA A influência da língua por- tuguesa na vida social, nas relações étnicos raciais e no combate ao racismo, desconstruindo discursos, denominações e práticas preconceituosas e discrimi- natórias, nos diferentes gê- neros textuais. Lendas, mitos e contos afri- canos e indígenas. Literatura Africana, afro-bra- sileira e indígena. Processos históricos de resis- tência negra desencadeados pelos africanos escravizados no Brasil/Santa Catarina e países de língua portuguesa, por seus descendentes na contemporaneidade, desde as formas individuais até as coletivas. � Ler e compreender, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, quadras, quadrinhas, parlendas, trava-línguas, dentre ou- tros gêneros do campo da vida cotidiana, conside- rando a situação comunicativa e o tema/assunto do texto e relacionando sua forma de organização à sua finalidade. � Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, listas, agen- das, calendários, avisos, convites, receitas, ins- truções de montagem e legendas para álbuns, fotos ou ilustrações (digitais ou impressos), den- tre outros gêneros do campo da vida cotidiana, considerando a situação comunicativa e o tema/ assunto/ finalidade do texto. � Planejar e produzir pequenos relatos de ob- servação, de contos, de processos, de fatos, de experiências pessoais, mantendo as característi- cas do gênero, considerando a situação comuni- cativa e o tema/assunto do texto. � Cantar cantigas e canções, obedecendo ao ritmo e à melodia. � Realizar levantamento de questões, proble- mas que requeiram a denúncia de desrespeito a direitos, reivindicações, reclamações, solicitações que contemplem a comunidade afrodescendente e indígena ou algum de seus membros e exami- nar normas e legislações. � Analisar, entre os textos literários e entre estes e outras manifestações artísticas (como cinema, teatro, música, artes visuais e midiáticas), refe- rências explícitas ou implícitas a outros textos, quanto aos temas, afro e indígena nos persona- gens e nos recursos literários e semióticos. � Ler, de forma autônoma, e compreender – se- lecionando procedimentos e estratégias de lei- tura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes –, romances infanto-juvenis, contos populares, contos de terror, lendas brasileiras, indígenas e africanas,narrativas de aventuras, narrativas de enigma, mitos, crônicas, autobiografias, histórias em quadrinhos, mangás, poemas de forma livre e fixa (como sonetos e cordéis), vídeo-poemas, poemas visuais, dentre outros. � Expressar avaliação sobre o texto lido e esta- belecer preferências por gêneros, temas, autores. �Reconstrução e reflexão sobre as condições de produção e recepção dos textos pertencen- tes a diferentes gêneros e que circulam nas di- ferentes mídias e esferas/campos de atividade humana. �Reflexão crítica sobre as temáticas tratadas e validade das informações. �Compreensão de textos orais. �Produção de textos orais. �Relação entre fala e escrita. �Oralidade. �Leitura/Escuta. �Produção de textos. ORALIDADE �As variedades linguísticas, intertextualidade e processo de referenciação. �Estruturais (gênero proposto, estruturação do parágrafo).*Normativos (ortografia, con- cordâncias, vícios de linguagem). �Recursos gráficos (pontuação, sublinhados). �Papel dos pronomes na organização e na re- tomada de textos. �Modos e tempos verbais. �Associação semântica entre as palavras e seus efeitos para coesão e coerência. �Função das conjunções, advérbios, conectivos e preposições na relação do texto. �Uso de gírias, entonação e repetição. �Fala formal e informal. LEITURA �Texto em registro formal e informal. �A repetição das palavras e o efeito produzi- do. �Figuras de linguagem e pensamento. �Léxico. �Progressão referencial no texto. �Discursos direito, indireto e indireto livre. ESCRITA �Análise dos aspectos discursivos. �Análise dos aspectos textuais. �Análise dos aspectos estruturais. 56 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques MATEMÁTICA A influência da Matemática na vida social, nas relações étnicos raciais e combate ao racismo. Estatística relacionada às questões étnico-raciais e Santa Catarina. Conheci- mentos matemáticos na ar- quitetura africana e indígena. � Contar a quantidade de objetos de coleções até 100 unidades e apresentar o resultado por registros verbais e simbólicos, em situações de interesse, como jogos, brincadeiras, materiais da sala de aula, entre outros. � Construir fatos básicos da adição e utilizá- -los em procedimentos de cálculo para resolver problemas. � Organizar e ordenar objetos familiares ou representações por figuras, por meio de atribu- tos, tais como cor, forma e medida. � Classificar eventos envolvendo o acaso, tais como “acontecerá com certeza”, “talvez acon- teça” e “é impossível acontecer”, em situações do cotidiano. � Ler dados expressos em tabelas e em gráfi- cos de colunas simples. � Realizar pesquisa, envolvendo até duas va- riáveis categóricas de seu interesse e univer- so de até 30 elementos, e organizar dados por meio de representações pessoais. � Compreender a ideia de igualdade para es- crever diferentes sentenças de adições ou de subtração de dois números naturais que resul- tem na mesma soma ou diferença. � Descrever e representar, por meio de esbo- ços de trajetos ou utilizando croquis e maque- tes, a movimentação de pessoas ou de objetos no espaço, incluindo mudanças de direção e sentido, com base em diferentes pontos de re- ferência. � Associar figuras geométricas espaciais (cubo, bloco retangular, pirâmide, cone, cilindro e esfera) a objetos do mundo físico e nomear essas figuras. � Descrever características de algumas figu- ras geométricas espaciais (prismas retos, pi- râmides, cilindros, cones), relacionando-as as suas planificações. 1- Números. 2- Medidas. 3- Operações com números. 4- Resolução de problemas. 5- Geometria. 6- Figuras geométricas. 7- Probabilidade. 1.1- Conceitos 1.2- Correspondência Bionívoca 2.1- Média 2.2- Comparar 2.3 - Uso de instrumentos 2.4- Noções de espaço 3.1- Adição e subtração 3.2- Multiplicação e adição 4.1- Situações problema 4.2- Compreender o problema 4.1.2- Conceber um plano 4.2.2- Executar o plano 4.2.3- Examinar a solução do problema 5.1- Pontos, espaços e planos 5.2- Objetos cotidianos 5.2.1- Formas e tamanhos, por meio da manipulação 6.1- Análise da arquitetura africana e indígena 6.2- Poligonos 6.3- Círculos, retas, semicírculo e ângulos 7.1- Análise de possibilidades de acontecer o evento 7.2- Possibilidade de sucesso na caça e na plantação 7.3- Situações problemas envolvendo probabilidades 8.1- Coletar dados para análise dos eventos - plantações - caça - número de filhos - idades 8.2- Representar por meio de gráficos os eventos des- critos anteriormente 8.3- Representar os perfis dos africanos por meio de tabelas e gráficos. 57CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques MATEMÁTICA A influência da Matemática na vida social, nas relações étnicos raciais e combate ao racismo. Estatística relacionada às questões étnico-raciais e Santa Catarina. Conheci- mentos matemáticos na ar- quitetura africana e indígena. � Contar a quantidade de objetos de coleções até 100 unidades e apresentar o resultado por registros verbais e simbólicos, em situações de interesse, como jogos, brincadeiras, materiais da sala de aula, entre outros. � Construir fatos básicos da adição e utilizá- -los em procedimentos de cálculo para resolver problemas. � Organizar e ordenar objetos familiares ou representações por figuras, por meio de atribu- tos, tais como cor, forma e medida. � Classificar eventos envolvendo o acaso, tais como “acontecerá com certeza”, “talvez acon- teça” e “é impossível acontecer”, em situações do cotidiano. � Ler dados expressos em tabelas e em gráfi- cos de colunas simples. � Realizar pesquisa, envolvendo até duas va- riáveis categóricas de seu interesse e univer- so de até 30 elementos, e organizar dados por meio de representações pessoais. � Compreender a ideia de igualdade para es- crever diferentes sentenças de adições ou de subtração de dois números naturais que resul- tem na mesma soma ou diferença. � Descrever e representar, por meio de esbo- ços de trajetos ou utilizando croquis e maque- tes, a movimentação de pessoas ou de objetos no espaço, incluindo mudanças de direção e sentido, com base em diferentes pontos de re- ferência. � Associar figuras geométricas espaciais (cubo, bloco retangular, pirâmide, cone, cilindro e esfera) a objetos do mundo físico e nomear essas figuras. � Descrever características de algumas figu- ras geométricas espaciais (prismas retos, pi- râmides, cilindros, cones), relacionando-as as suas planificações. 1- Números. 2- Medidas. 3- Operações com números. 4- Resolução de problemas. 5- Geometria. 6- Figuras geométricas. 7- Probabilidade. 1.1- Conceitos 1.2- Correspondência Bionívoca 2.1- Média 2.2- Comparar 2.3 - Uso de instrumentos 2.4- Noções de espaço 3.1- Adição e subtração 3.2- Multiplicação e adição 4.1- Situações problema 4.2- Compreender o problema 4.1.2- Conceber um plano 4.2.2- Executar o plano 4.2.3- Examinar a solução do problema 5.1- Pontos, espaços e planos 5.2- Objetos cotidianos 5.2.1- Formas e tamanhos, por meio da manipulação 6.1- Análise da arquitetura africana e indígena 6.2- Poligonos 6.3- Círculos, retas, semicírculo e ângulos 7.1- Análise de possibilidades de acontecer o evento 7.2- Possibilidade de sucesso na caça e na plantação 7.3- Situações problemas envolvendo probabilidades 8.1- Coletar dados para análise dos eventos - plantações - caça - número de filhos - idades 8.2- Representar por meio de gráficos os eventos des- critos anteriormente 8.3- Representar os perfis dos africanos por meio de tabelas e gráficos. 58 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃOINFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quadro 1 - Componentes curriculares de cada tema das diversidades Unidade temática Objeto de conhecimentos Imprescindíveis Habilidades Conteúdos Destaques ENSINO RELIGIOSO Diversidades e direitos huma- nos. O eu e os am- bientes de con- vivências. Memórias e símbolos sagra- dos. Animais, alimen- tos e plantas sa- gradas. Ritos sagrados. Lideranças Reli- giosas. Ideia(s) de divin- dade(s). Tradição escrita. Imanência e transcendência. Vida e Morte. � Conhecer os aspec- tos estruturantes das di- ferentes manifestações, tradições religiosas e filosofias de vida, emba- sados em pressupostos científicos, filosóficos, estéticos e éticos, a par- tir das manifestações percebidas na realidade dos educandos. � Compreender, valori- zar e respeitar as mani- festações, as tradições religiosas e filosofias de vida, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e terri- tórios, no constante pro- pósito de promoção dos direitos humanos. � Reconhecer e cuidar de si, do outro, da cole- tividade e da natureza, como expressão de va- lor da vida. � Conviver com a di- versidade de crenças, pensamentos, convic- ções, modos de ser e de viver, exercitando o res- peito à liberdade de con- cepções, ao pluralismo de ideias e à cidadania. � Analisar as relações entre as manifestações, tradições religiosas e filo- sofias de vida e os cam- pos da cultura, da política, da economia, da saúde, da ciência, da tecnologia e do meio-ambiente para a construção de projetos de vida. � I d e n t i d a d e s , diversidades e alteridades. �Manifestações religiosas. �Crenças religio- sas e filosofia de vida. Fonte: Adaptado pelos autores de Brasil (2017). 59CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Processo avaliativo: ● Avaliar os estudantes de forma quantitativa, sobressaindo o aspecto qualitativo em todo o seu percurso formativo. ● Considerar os aspectos socioculturais no processo de avaliação de estudantes negros e indígenas. ● Priorizar avaliações interdisciplinares, envolvendo todo os componentes curriculares. ● Avaliar para além da perspectiva somatória com ênfase em avaliações diagnósticas e formativas. 1.2.3 Sobre a temática indígena na escola Neste item, para refletir sobre como é tratada a temática indígena nos cen- tros de Educação Infantil e nas escolas de Educação Básica, os professores indí- genas optaram por organizar as ideias por meio da carta a seguir. Desejamos que tais palavras influenciem todos os professores que, no mês de abril ou em qualquer outra data do ano, trabalham com seus alunos questões relacionadas às comuni- dades e às culturas indígenas. CARTA ÀS PROFESSORAS E AOS PROFESSORES DAS REDES PÚBLICA ESTADUAL E MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO BÁSICA DE SANTA CATARINA Prezadas professoras e prezados professores, Esta carta é para manifestar nossa indignação perante a representação de nós indígenas no ensino da nossa cultura nas redes públicas municipal e estadual de ensino. No Estado de Santa Catarina, somos três povos indígenas: Kaingang, Laklãnõ/Xokleng e Guarani. Não toleramos mais sermos representados como su- jeitos do passado, “congelados” no tempo das primeiras invasões dos nossos territórios. Muito menos toleramos um julgamento prévio sobre a nossa aparência física, determinando quem é ou não indígena. Pedimos respeito. Não somos per- sonagens folclóricos, somos reais. Não aceitamos, portanto, a vulgarização dos nossos elementos sagrados, como nossa pintura corporal e nosso cocar. Assim, pedimos que não pintem os rostos dos seus alunos ou façam cocares para ador- ná-los no dia 19 de abril: o respeito não se ensina por meio de uma fantasia. 60 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Insistimos em esclarecer que não mais vivemos nus, em ocas ou malocas, se alimentando exclusivamente com peixes e frutas, conforme representações de livros didáticos ultrapassados. Embora tenhamos sofrido um histórico de violência e de sistemática tentativa de destruição dos nossos povos e de nossas culturas, nós resistimos. Em meados de 1950, alguns estudiosos previam um futuro bastante sombrio: o de que logo seríamos extintos. Contudo, não aceitamos passivamente tal previsão, por isso lutamos, resistimos, insurgimo-nos e conquistamos direitos. Com muita garra, garantimos o reconhecimento de nossos territórios, mesmo que reduzidos como Terras Indígenas “demarcadas”. Nossa educação é pautada, sobretudo, na nossa filosofia de vida que prega o respeito à Mãe Terra, aos nossos ancestrais e à nossa espiritualidade. Isso se reflete em um bem viver, individual e coletivo e nos garante a sustentabilidade. Assim, o poder econômico não domina nossas existências, mas nem por isso ele deixa de ser importante. Produzimos e vendemos nossos artesanatos e alimentos orgânicos. Temos, também, trabalhos para além dos tradicionais, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Por meio da renda que conquistamos com nosso trabalho, compramos celulares, veículos, roupas! Isso não nos faz menos indígenas! Construímos nossas casas com barro, pau a pique, mas também com tijolos e cimento. Valorizamos nossos mestres anciões, mas também já temos mestres, doutores e pós-doutores formados na academia. A formação acadêmica faz-nos afirmar ainda mais nossas identidades, pois, no contato com o outro, podemos reconhecer nossa subjetividade e respeitar a alteridade. Não queremos e não vamos ser integrados, porque integrar sem respeito às diferenças é sinônimo de anular. Exigimos direitos iguais, quando a diferença nos inferioriza e, também, lu- tamos por nosso direito à diferença, quando a igualdade nos descaracteriza. Somos portadores de ancestralidade, por isso valorizamos profundamente os conhecimentos dos nossos ancestrais transmitidos por gerações por meio da ora- lidade, da língua, das pinturas corporais, do respeito aos espíritos e à Mãe Terra. Como todos os humanos, somos sujeitos suscetíveis a mudanças culturais, lem- brando que cultura não é algo estático. Nem por isso perdemos nossas culturas: as ressignificamos. Fazemos parte da história do Brasil, mas nos antecedemos a ela. Somos povos originários, não paramos no tempo, andamos através e com o tempo, somos atuais. Nossas culturas estão em movimento, na certeza de que cada sujeito Kaingang, Laklãnõ/Xokleng e Guarani está ancorado pelo povo ao qual pertence. Enfatizamos que não cabe ao não indígena dizer se somos ou não somos indígenas! 61CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Sugerimos a vocês que, ao criarem seus planos de aula para cada compo- nente curricular, busquem bibliografias indígenas históricas e, também, atuais. Nós produzimos material didático em diversas áreas do conhecimento e para diversas fases da vida da pessoa. Sugerimos, aqui, uma lista de material didá- tico ou indicamos onde encontrar, seja para a Educação Infantil, para o Ensino Fundamental ou para o Ensino Médio. Contudo, caso tenham dificuldades em encontrar o material didático sugerido, não hesitem em convidar um professor indígena para ensinar. Outra sugestão é levarem seus alunos para conhecer uma das nossas aldeias. Vale informar que também estamos nas redes sociais. Enfim, ensine aos seus alunos que, ao nos encontrarem nos meios virtuais, não debo- chem ou nos acusem. Vamos juntos ensinar e pedir o respeito e, assim, vencer a discriminação racial, o preconceito e o racismo. Professores Indígenas e indigenistas: Josué Carvalho Professor Kaingang. Doutor em Educação, Pós-Doutor em Educação e Museologia. Professor adjunto do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica – UFSC. Namblá Gakran Professor Xokleng-Laklanõ. Pós-Doutor em Linguística. Davi Timóteo Martins Professor-Diretor Escolar Guarani.Mestrando em Antropologia Social – UFSC. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 248, p. 27833-27841, 23 dez. 1996. ______. Lei Nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 8, p. 1, 10 jan. 2003. ______. Lei Nº 11.645, de 10 março de 2008. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro- Brasileira e Indígena. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 48, p. 1, 11 mar. 2008. 66 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.3 EDUCAÇÃO DE PESSOAS JOVENS, ADULTAS E IDOSAS – EJA Consultores Adriana Regina Sanceverino Maria Hermínia Lage Fernandes Laffin Colaboradora Beatris Clair Andrade Grupo de Trabalho Édna Berger Ivete Terezinha Uliana Bassari Leila Carla Flor Margarete Aparecida Morais Salvadori 1.3.1 Texto introdutório Este texto objetiva apresentar pressupostos teórico-metodológicos para a Educação de Jovens, Adultos(as) e Idosos(as) (EJA) no contexto do documento Currículo Base da Educação Infantil e Ensino Fundamental do território catarinense (SANTA CATARINA, 2018), sendo parte integrante de um outro documento específico intitulado Educação de Jovens, Adultos(as) e Idosos(as) (EJA): princípios filosóficos, legais e curriculares para a Educação de Jovens e Adultos no território catarinense (SANTA CATARINA, 2019), elaborado também em 2019, com a intencionalidade de apresentar proposições curriculares e pedagógicas pró- prias para a EJA; é, assim, uma reflexão ampliada incluindo os elementos aqui apresenta- dos. Desse modo, os dois documentos compõem o debate para EJA no território catarinense. Atualmente, há a oferta de Educação de Jovens e Adultos(as) (EJA) em diferentes municípios do território catarinense e nas redes estadual e federal de ensino com a oferta de Educação de Jovens e Adultos na modalidade presencial no Ensino Fundamental com o 1º Segmento/Anos Iniciais, no 2º Segmento/Anos Finais e o Ensino Médio e, também, com cur- sos do Programa Nacional de Integração da Educação Básica Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos(as) (PROEJA) em algumas redes municipais e na rede federal. Na rede estadual, essa oferta de Educação Básica aos jovens e adultos é realizada pelos 40 Centros de Educação de Jovens e Adultos(as) (CEJAs), por meio de ensino presencial perante a viabilidade de matrícula por disciplinas, conforme as necessidades e as expectativas dos/das estudantes com o intuito de viabilizar possibilidades de acesso, de permanência e de conclusão do processo de escolaridade como um direito público e subjetivo. Além dessa oferta, também nas redes públicas, conta-se com a EJA no contexto do Programa de Educação em Espaços de Restrição e Privação de Liberdade, que 67CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 [...] é desenvolvido por intermédio dos CEJAs, atende aos jovens e adultos internos de estabelecimentos prisionais, socioeducativos e centros terapêuticos do estado de Santa Catarina e tem como objetivo a oferta de Educação Básica na perspectiva do direito à educação com base na LDB 9.394/1996, no ECA 8.069/1990 e confor- me estabelece a Resolução Nº 3 do CNE/2010 e a Resolução nº 110 do CEE/2012. São oferecidos cursos presenciais e avaliação no processo, nos níveis de Ensino Fundamental - Anos Iniciais (1º ao 5º ano), Ensino Fundamental - Anos Finais (6º ao 9º ano) e Ensino Médio, para que os adolescentes, jovens e adultos inseridos no programa, possam iniciar continuar ou concluir o processo de escolaridade básica. (SANTA CATARINA, 201-, n.p.71) Não será realizado um debate neste texto acerca das particularidades e das condi- ções objetivas da Educação em Espaços de Restrição e Privação de Liberdade (EERPL), pois, apesar de se inserir no contexto das muitas diferentes formas de pensar a Educação de Jovens e Adultos, acredita-se que demanda atenção para as suas especificidades. No entanto, este texto pode contribuir para que os educadores da EERPL possam construir as suas próprias proposições curriculares e pedagógicas. Em Santa Catarina (SC), há diferentes formas de organização curricular e de oferta da EJA. Para tanto, busca-se respeitar as suas diversidades e as concepções, lançando um olhar neste texto para possíveis indicações quanto ao pensar e ao dialogar com essas diferentes formas. A Educação de Jovens e Adultos(as), em Santa Catarina, observa as seguintes legislações: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN Nº 9.394/1996; o Parecer CNE/CEB Nº 11/2000 e a Resolução CNE/CEB Nº 1/2000, que tratam das Dire- trizes Curriculares para a EJA; o Plano Nacional de Educação - PNE (Lei Nº 10.172/01); a Resolução Nº 3 do CNE/2010, que apresenta as Diretrizes Operacionais da Educação de Jovens e Adultos(as); e a Resolução Nº 2010/074/CEE/SC que situa as Normas Operacio- nais Complementares referentes às Diretrizes Curriculares Nacionais e às Diretrizes Ope- racionais para a Educação de Jovens e Adultos(as). Ainda, há as resoluções específicas da Rede Federal e dos Conselhos Municipais de Educação. Um aspecto importante a considerar é que a constituição dessa legislação é resul- tado da correlação de forças dos movimentos sociais da Educação Popular e dos Compro- missos e acordos internacionais, particularmente pelos tratados feitos nas Conferências Internacionais de Educação de Adultos (CONFINTEAS). Nesses termos, a política curricu- lar nacional da Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas contempla o movimento da EJA a partir dos movimentos sociais e das organizações não governamentais. 7 Fonte: http://www.sed.sc.gov.br/servicos/etapas-e-modalidades-de-ensino/6617-educacao-de-jovens-e-adul- tos. Acesso em: 10 maio 2019. 68 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN Nº 9.394/1996, ao si- tuar a EJA como uma modalidade da Educação Básica, considera a atual Constituição Fe- deral do Brasil ao incorporar, como princípio, que toda e qualquer educação visa ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988, art. 205). Nessas perspectivas, a Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas é modalidade estratégica de ação afirmativa e em defesa de uma igualdade de acesso à educação como bem social e, como tal, deve ser considerada. Trata-se, portanto, de um direito positivado, constitucionalizado e cercado de mecanismos financeiros e jurídicos de sustentação. Ressalta-se, assim, que as lutas que marcaram a constituição da EJA na legislação brasileira a transforma em status de modalidade de educação, representa a superação da histórica compreensão de ensino supletivo. Essa nova acepção não é mera formalidade, pois a EJA passou a ser entendida como ferramenta de inserção político-social de uma expressi- va parcela da população excluída e expropriada de todas as formas de inclusão social. Considerando as especificidades da Educação de Jovens e Adultos como Educa- ção Básica, os documentos legais e de orientação, a EJA, nas diferentes redes de ensino, pode ser organizada em regime semestral pensada por segmentos, e este em fases ou etapas. Para cada Segmento da EJA, há uma carga horária específica (Quadro 2), regu- lamentadapela legislação nacional e estadual e a Portaria SED No 13, de 4 julho 2016, do Diário Oficial de SC, que normatiza as alterações curriculares do Ensino Presencial dos cursos de 2° Segmento do Ensino Fundamental e do Ensino Médio na modalidade de Edu- cação de Jovens e Adultos. Quadro 2 - Carga Horária da EJA Segmentos da Educação Básica Carga Horária Primeiro Segmento - Anos iniciais 2000 h Segundo Segmento - Anos finais 1600 h Ensino Médio 1200 h Neste momento de produção de um documento para a Educação de Jovens, Adul- tos(as) e idosos(as) para o Ensino Fundamental (anos iniciais e anos finais) e Ensino Mé- dio, o olhar remete para demarcar territórios a partir desses marcos legais e na compreen- são de quem são os sujeitos e suas identidades constitutivas para uma pedagogia própria. Perante essas identidades, faz-se uma discussão sobre o currículo e a organiza- ção no âmbito das ações de ensino e de estudo, tomando como base pensar o percurso formativo da EJA: os(as) jovens, os(as) adultos(as) e os(as) idosos(as) e são situadas indi- Fonte: Matriz Curricular de EJA (SC) e documentos legais. 69CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 cações para a organização pedagógica e curricular na Educação de Jovens, Adultos(as) e Idosos(as), particularmente para a construção de modelos de currículos com base na inte- gração curricular no sentido do desenvolvimento de ações interdisciplinares e, por último, são apresentadas considerações e recomendações para a EJA no território catarinense. 1.3.2 A Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas: a constituição dos marcos legais A Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas é constituída por pessoas às quais foi negado o direito à educação durante a infância e/ou adolescência, seja pela não oferta de vagas, seja pelas inadequações do sistema de ensino ou pelas condições socioe- conômicas desfavoráveis em suas vidas, dentre outros fatores. A história da EJA, portanto, expressa a multiplicidade das forças sociais, das lutas que marcaram a construção da atual LDBEN No 9.394/96 (BRASIL, 1996). Pode-se afirmar que o Brasil possui uma legislação capaz de produzir avanços educacionais significativos; contudo, na atualidade, há um cenário de crise da sociedade brasileira e da adoção de políticas de estado mínimo, o que impõe vigilância e movimentos de lutas em prol da defesa dos direitos e das conquistas sociais objetivadas nas últimas dé- cadas, pois se observa, em curso, retrocessos no âmbito das políticas públicas e da busca de direitos da população. Entre esses retrocessos, tem-se a questão da não garantia do direito à educação pública de qualidade por parte da população, particularmente àqueles das camadas populares. Em 2010, a média de estudos era de 6,9 anos; em 2012, de 7,2 anos; e de 7,7 anos em 2014. Em 2015, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento indicou que a média de anos de estudos no Brasil era de 7,8 anos, sendo a escolaridade obrigatória de 12 anos. Desse modo, há um grupo elevado de estudantes que não concluem a escolari- dade básica, sendo, logo, potenciais estudantes de EJA. [...] em números absolutos, a taxa representa 11,5 milhões de pessoas que ain- da não sabem ler e escrever. A incidência chega a ser quase três vezes maior na faixa da população de 60 anos ou mais de idade, 19,3%, e mais que o dobro entre pretos e pardos (9,3%) em relação aos brancos (4,0%). Quatorze das 27 unidades da federação, porém, já conseguiram alcançar a meta do PNE, mas o abismo regional ainda é grande, principalmente no Nordeste, que registrou a maior taxa entre as regiões, 14,5%. As menores foram no Sul e Sudeste, que registraram 3,5% cada. No Centro-Oeste e Norte, os índices ficaram em 5,2% e 8,0%, respectivamente. (IBGE, 2018, n.p.) 70 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Em 2016, pesquisas do IBGE registram que o Brasil possuía 207,7 milhões de pessoas; destas, 66,3 milhões com 25 anos ou mais têm somente o Ensino Fundamental (IBGE, 2017), isso corresponde a 51% da população adulta com apenas a escolaridade elementar. Já, na pesquisa do IBGE sobre analfabetismo, em 2017, a taxa de analfabe- tismo de pessoas com 15 anos ou mais de idade caiu de 7,2%, em 2016, para 7,0%, em 2017, no Brasil (BRASIL, 2018), mas não obteve o resultado esperado que era de 6,5%, em 2015, pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Segundo os dados de Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD, 2010), no censo de 2010, a população de Santa Catarina era de 6.248.436 pessoas e a população estimada para 2018 era de 7.075.494. Em 2017, os dados de analfabetismo divulgados pelo (IBGE, 2018) revelam que Santa Catarina apresenta a taxa de analfabetismo de 2,6% da população com 15 anos ou mais. Santa Catarina está entre os estados (Rio de Janeiro e Distrito Federal com 2,5 e São Paulo com 2,6%) com menor índice de analfabetismo da população com 15 anos ou mais; entretanto, o índice ainda não é suficiente. Embora o estado tenha conseguido uma redução significativa em relação a 2016, ainda não atingiu a meta do Plano Estadual de Educação que é de 98% de alfabetizados. Apesar desse bom índice em comparação a ou- tros estados do país, a desigualdade aparece no quesito “raça”. Em Santa Catarina, a taxa é de 2,2% de analfabetos brancos e 5% de analfabetos pretos ou pardos, esses números são correspondentes à população com 15 anos ou mais. Dentro do território catarinense, também há diferença no índice referente a homens e a mulheres, uma vez que, entre eles, a taxa é de 2,3%; entre elas, de 2,9%. Esses números também são correspondentes à população com 15 anos ou mais. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), Censo escolar de 201882, o número de alunos(as) de EJA matriculados(as) no território catarinense93 é de 73.462, comparado a 1.094.524 que constitui a soma dos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio do sistema “regular” de ensino. Os indicadores apresentam registros de matrículas em EJA dos Anos Iniciais (I Segmento) ao Ensino Médio de 2015 a 2019. Esses indicadores apontam que, entre o período analisado, no ano de 2019, o Ensino Médio representa o maior percentual de ma- trículas nas instituições do estado, que é de 57%, 36% dos anos finais na EJA e 7% dos anos iniciais na EJA. Apesar dos avanços da expansão da oferta de EJA e do reconhecimento pelo poder 8 Dados recuperados de http://www.educacenso.inep.gov.br/censobasico/#/ Acesso em: 1 maio 2019. 9 Dados disponíveis em: https://www.qedu.org.br/estado/124-santa-catarina/censo-escolar?year=2018&depen dence=0&localization=0&education_stage=0&item=. Acesso em: 1 maio 2019. 71CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 público acerca da importância do(a) educador(a) para a qualidade do ensino, nem sempre há uma política pública ampla para essa oferta que garanta os direitos conquistados. Para reparar a sua histórica trajetória de ausência de políticas de ofertas educacionais, seria im- prescindível que a gestão pública cumprisse as resoluções das Conferências Nacionais de Educação (CONAEs) (2010 e 2014), em parte expressas nos dispositivos do Plano Nacio- nal de Educação (PNE) (2014-2024). As CONAEs mobilizaram milhões de educadores(as) de todos os níveis, de todas as etapas e modalidades, de todos os estados da federação, inclusive a modalidade de EJA. Contudo, as metas do PNE decorrentes desse processo de mobilização democrática não têm sido prioridade da gestão pública e não dispõem do orçamento necessário. Esse fato se agrava ainda mais para a modalidade EJA, visto que já é marcada por uma realidade que tem sido condicionada às formas da oferta, muitas vezes aligeirada e com poucos recursos que são destinadas às pessoas jovens e adultas, ou seja, são esses “[...] os lugares sociais a eles reservados –marginais, oprimidos, excluí- dos, empregáveis, miseráveis...[que] – têm condicionado o lugar reservado à sua educa- ção no conjunto das políticas públicas oficiais” (ARROYO, 2006, p. 221). Nesse tenso cenário que se apresenta, cada vez mais complexo, na arena de ne- gociação e das disputas atravessadas por relações de saber e poder na definição das políticas curriculares, o desafio que a EJA tem pela frente é encontrar um desenho forma- tivo com estrutura e formas teórico-práticas, capazes de sustentar um projeto educacional participativo e democrático, que promova o desenvolvimento integral dos(as) estudantes, que legitime a liberdade da mente e dos corpos e um sistema justo e includente. Perante esse contexto, o currículo da EJA deve pautar-se na visibilidade dada aos sujeitos e, para tanto, precisa levar em conta sua história e reconhecer os (as) educan- dos (as) como sujeitos culturais e sociais, sujeitos que chegam ao espaço escolar com diferentes realidades de “classe, raça, etnias, gênero, território, campo, cidade, periferia” (ARROYO, 2006, p. 221) e que podem expressar, em condições legitimamente reais, seus anseios, seus desejos e seus saberes. Destaca-se a importância dos currículos da EJA observarem a especificidade des- ses sujeitos, que chegam aos espaços educacionais com uma bagagem cultural muito diversificada, com conhecimentos acumulados em seu percurso formativo e percepções singulares sobre a realidade do mundo. Entretanto, é preciso considerar também que mui- tos(as) jovens e adultos(as) trazem consigo algumas experiências negativas, frustrantes, suportadas ao longo da vida. Muitas dessas experiências são frutos de relações injustas de poder que perpassam a sociedade capitalista e obrigam, sobretudo, as pessoas jovens e adultas oriundas de classes populares a abandonarem seus estudos por diversos motivos. Na EJA, conta-se ainda com uma realidade educacional em que as pessoas jovens 72 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 e adultas, ao retomarem seus estudos, encontram, nessa modalidade, a mesma escola excludente da qual outrora se evadiram, com práticas pedagógicas que não contemplam as suas expectativas pessoais e sociais. Apesar do reconhecimento da EJA pela legislação educacional como modalidade da Educação Básica, das reflexões realizadas nos fóruns de EJA nacional e regional, no conjunto das pesquisas acadêmicas, nas reflexões em- preendidas nos momentos de formação inicial e continuada nas redes de ensino, ainda há tensionamentos que revelam a existência de diferentes concepções de conhecimento, de currículo, do papel do(a) professor(a), das metodologias para essa modalidade, portanto da concepção da EJA que é considerada nas redes de ensino. É necessário garantir que o direito à EJA não seja violado no que tange à qualidade e às condições de ensino e aprendizagem ofertadas aos seus sujeitos. No âmbito dessa reflexão, busca-se redimensionar o foco de análise para pensar e projetar um desenho curricular que responda à EJA na perspectiva do direito dessas pessoas. Para tanto, compreender quem são esses sujeitos e como eles/elas se constituem e se articulam no contexto social é condição proeminente para suplantar os desafios do currículo para essa modalidade de educação. 1.3.3 Os sujeitos da Educação de Pessoas Jovens Adultas e Idosas: identidades constitutivas de uma pedagogia própria Diante das considerações explicitadas e dando continuidade às reflexões, ques- tiona-se que desenhos curriculares correspondam à EJA na perspectiva do direito dos sujeitos dessa modalidade? Considerando que a EJA ocupa um lugar nas políticas afirma- tivas, o que implica pensá-la como espaço de inclusão, de construção de identidades, de reafirmação de direitos, particularmente, do direito à educação? Considera-se premente o reconhecimento de quem são os sujeitos que a procuram e que nela se encontram pessoas jovens, adultas e idosas e à escola cabe o importante papel da garantia dos Direitos Humanos, sendo imprescindível, nos diversos níveis, etapas e modalidades de ensino, a criação de espaços e tempos promotores desta cultura. Me- diante o que preconiza as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (2012)104 faz-se necessário compreender esta garantia como um processo sis- temático e multidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos, articulando as seguintes dimensões: a) apreensão de conhecimentos historicamente construídos sobre direitos hu- manos e a sua relação com os contextos internacional, nacional e local; b) afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que expressem a cultura dos direitos humanos em todos os espaços da sociedade; 10 Com parecer homologado por Despacho do Ministro, publicado no D.O.U de 30/05/2012, seção I, p.33 73CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 c) formação de uma consciência cidadã capaz de se fazer presente em níveis cognitivo, social, cultural e político; d) desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de construção coletiva, utilizando linguagens e materiais didáticos contextualizados; e) fortalecimento de práticas individuais e sociais que gerem ações e instru- mentos em favor da promoção, da proteção e da defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das violações. (BRASIL, 2012) Especialmente, no que tange à EJA ocupar um lugar nas políticas afirmativas, como espaço de inclusão, de construção de identidades, de reafirmação de direitos, as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos é clara no, respeito a um conjunto de direitos internacionalmente reconhecidos, como os direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sejam eles individuais, coletivos, transindividuais ou difusos, que se referem à necessidade de igualdade e de defesa da dignidade humana. (BRASIL, 2012) Neste sentido, a política dos direitos humanos pretende fazer cumprir, “[...] os direitos hu- manos que estão preconizados e trabalhar pela sua universalização [...] os princípios da contem- poraneidade: da solidariedade, da singularidade, da coletividade, da igualdade e da liberdade”. Considerada a inserção desses sujeitos em processos de escolarização de EJA, questionam-se os conhecimentos ali adquiridos: Eles permitem que se reconheçam nessas relações de desigualdades na perspectiva de seu empoderamento? Em que medida a garan- tia do princípio democrático de participação desses sujeitos contribui para essa perspectiva? Esses questionamentos remetem ao que as pesquisas e os documentos dos fóruns de EJA, nos seus movimentos formadores, vêm apontando como condição sine qua non para se fazer currículo na EJA: a participação efetiva dos atores políticos dessa modalida- de de ensino, isto é, os sujeitos da EJA, sua pertença como sujeito dessa ação. Reafirma- -se, aqui, o caráter popular da educação que se faz e se refaz nas bases da participação, na cidadania e na autonomia dos seus sujeitos emergindo da vida cotidiana, da cultura popular e do trabalho. Em seu nascedouro, a educação popular emerge como instrumento de libertação das classes subalternas, exploradas e expulsas da mínima condição de so- brevivência digna e humana (MANFREDI, 1980). Sob as bases freireanas, o processo educativo popular contém uma linguagem mui- to própria, a qual alguns conceitos são muito caros e se sustentam pelo caráter dialógico, político e transformador da educação popular. Um desses conceitos é a conscientização que, como aponta Freire (1996), se refere a pensar processos em que “[...] a pessoa cons- cientizada é capaz de perceber claramente, sem dificuldades, a fome como algo mais do 74 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 que seu organismo sente por não comer, a fome como expressão de uma realidade políti- ca, econômica, social, de profunda injustiça”(FREIRE, 1996, p. 225). Freire defende que os sujeitos tenham o direito de dizerem a “sua palavra”, de modo que ele possa assumir a sua função de sujeito da sua história em colaboração com os demais e com o povo, sendo o diálogo outro conceito fundamental na sua obra. Na literatura sobre a EJA, Sanceverino (2016, 2019), ao problematizar os sentidos da mediação pedagógica na EJA, desenvolve reflexões acerca da dimensão mediadora do diálogo na ação docente na EJA. Ao reafirmar a política do diálogo como fundamento da prática pedagógica, a autora situa que [...] para estabelecer a dialogicidade como fundamento e caminho para a práti- ca pedagógica na Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas é necessário que o(a) professor(a) introduza uma cultura do diálogo em sala de aula. São as experiências de aprendizagens mediadas pelo diálogo que possibilitam aos(as) alunos(as) a preparação para a captação do mundo, para que eles(as) com- preendam a realidade que os cerca e possam intervir nela. (SANCEVERINO, 2016, p. 459). Por esse caminho, sustenta-se a base metodológica da prática pedagógica da educação popular, como possibilidades para pensar a EJA: as próprias condições reais, concretas e objetivas de vida dos sujeitos, cujo processo de escolarização deve partir do contexto das significações populares para então articular com os referencias teóricos cons- truídos pela cultura científica. 1.3.4 O percurso formativo da EJA: os(as) adultos(as) as juventudes e os(as) idosos(as) Como percursos formativos, compreendem-se os processos constituintes das tra- jetórias de formação que estão ou deveriam estar presentes nas práticas pedagógicas da educação de pessoas jovens adultas e idosas. Falar em percurso formativo na EJA é falar de identidade própria dessa modalidade de educação, elementos explicitados ao longo deste texto quando se caracterizam os sujeitos. Como defende Arroyo (2013), “[...] para outros sujeitos, são necessárias outras pedagogias”; portanto, se para outros sujeitos, ou- tras pedagogias, outra docência. Dessa forma, defende-se o reconhecimento de um modelo pedagógico próprio para a EJA calcado pelos princípios já apresentados. Destaca-se, também, outro elemento fundamental, o trabalho, quer seja formal ou informal, mas que constitui e marca a vida dos sujeitos da EJA. Deve-se apontar para a necessidade de uma educação em que se visualizem as “[…] relações com o mundo do trabalho, com os saberes produzidos nas 75CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 práticas sociais cotidianas, e o envolvimento de todos com esse mundo e seus saberes for- mais, seja como trabalhadores(as), como empregados(as) ou como desempregados(as)” (FÓRUNS DE EJA/ENEJA, 2010). Pensar em uma pedagogia própria para a EJA demanda pensar a especificidade de pertencer aos setores populares da sociedade capitalista de produção. Por isso, Ar- royo (2007) aponta para a necessidade de olhar para a especificidade de ser povo, de ser trabalhador(a), de ser pessoa jovem e adulta dos setores populares. Ao problematizar a realidade social em que se insere o sujeito da EJA e aferir que um dos primeiros traços que marcam a vida dessas pessoas é o desemprego, o autor chama atenção para o fato de que são, exatamente, essas pessoas que triplicam o trabalho informal. Para que os(as) jovens, adultos(as) e idosos(as) tenham a oportunidade de esco- lher o percurso formativo que atenda a seus interesses, necessidades e aspirações, para que se assegure a permanência deles/as na escola, é preciso considerar uma concepção de currículo que reconheça as marcas das especificidades desses sujeitos da EJA: Jovens, adultos(as) e idosos(as) demarcados(as) pelas questões geracionais em suas diferentes histórias de vida, vinculadas às condições de classe, étnicas e de gênero, contextualizadas social, histórica, política e economicamente, mas certamente, sujeitos que vêm em bus- ca de escolarização, de um direito constitucional, direito que não tiveram acesso quando crianças ou jovens (LAFFIN, 2016). 1.3.5 Como pensar efetivamente essa identidade pedagógica no contexto de um Currículo Base para o território catarinense? É preciso considerar de que, para a EJA, não há um documento da Base Nacional Comum Curricular e, sobre a necessidade de sua elaboração, não há um consenso nacional, são mais os posicionamentos contrários do que os favoráveis. De qualquer modo, reafirma-se que é preciso garantir princípios fundamentais que considerem a diversidade de sujeitos, suas particularidades, seus saberes e suas histórias de vida ao se pensar em um documento curricular para a EJA. No documento do Currículo Base da Educação Infantil e Ensino Fundamental do território catarinense (2018), no contexto do Ensino Fundamental/anos iniciais anos finais, localizaram-se os conteúdos dos diferentes componentes disciplinares, pensados a partir de Unidades Temáticas, os objetos do conhecimento e seus objetivos. O que se precisa é pensar quanto à pertinência, ou não, dessas unidades temáticas e dos conteúdos no con- texto dos sujeitos jovens, adultos(as) e idosos(as). Tanto no documento da BNCC como no de Santa Catarina, tais conteúdos não foram pensados especificamente para a EJA; 76 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 desse modo, precisa ser um trabalho destinado aos(às) educadores(as) da EJA115. Portan- to, neste texto, não se construiu esse rol de conteúdos, mas se propõe uma articulação dos princípios fundamentais da EJA e da busca de saberes que sejam demandados pelas necessidades conceituais desses(dessas) jovens, adultos(as) e idosos(as). Há, em diferentes redes de ensino do Brasil e de Santa Catarina, uma busca de modos organizativos interdisciplinares para romper com o modo convencional de organizar os saberes escolares em listas imensas de conteúdos, geralmente com pouca articulação entre si e com as demais áreas do conhecimento. Tais saberes, ao serem selecionados curricularmente, por vezes acabam sendo caracterizados em um recorte simplificado, re- duzido e condensado do saber científico. Dessa maneira, ao serem descontextualizados das origens de sua produção, dificultam uma aprendizagem com compreensão e impõem limites a uma articulação interdisciplinar. Nesse sentido, propõe-se pensar uma organização curricular que considere os per- cursos formativos dos sujeitos mediante unidades temáticas focadas em problemas mate- riais ou conceituais, buscando aproximá-los da vida e do conhecimento dos/das estudantes, para que possam perceber/estabelecer uma maior relação de significado e reconhecer as fi- nalidades e os motivos para apreenderem tais saberes. Destaca-se, também, a necessidade de metodologias e materiais utilizados nas diferentes ações e situações de ensino, de modo que possam auxiliar no processo de elaboração conceitual. Cabe, assim, ao educador, a organização intencional das ações de ensino; e, para a apropriação do conhecimento, busca- -se a articulação dos conhecimentos cotidianos e sociais com os sistematizados, no sentido de possibilitar a apropriação dos diferentes campos do desenvolvimento do(a) educando(a). Buscar na EJA os conteúdos necessários aos(às) estudantes e à sua vida a serem selecionados nas ações de ensino remete a debater essa questão. Em suas ações peda- gógicas, os(as) docentes passam a considerar os diferentes significados e sentidos que os(as) alunos(as) atribuem a determinados temas, de modo a construir pontos de partida e constatar o que realmente eles(elas) já dominam e, então, planejam suas ações de ensi- no-aprendizagem para a apropriação de novos conhecimentos. Nessa dimensão, corrobo- ra-se com uma concepção de currículo já apontada em outros documentos curriculares de Santa Catarina, particularmente no texto intitulado Diretrizes para a organização da prática escolar na Educação Básica: Ensino Fundamental e Ensino Médio (SANTACATARINA, 2000), pois essa concepção ajuda a pensar as especificidades de ensino-aprendizagem da Educação de Jovens e Adultos(as), ou seja, um currículo: 11 Em documento específico para a EJA (SANTA CATARINA, 2019), há a análise e a localização dos objetos do conhecimento das diferentes áreas com base no documento nacional e estadual. 77CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 [...] pautado num novo entendimento de que são os conteúdos escolares con- siderados para a apropriação dos conceitos e na forma como estes conteúdos devem ser abordados. A elaboração conceitual constitui-se em categorias de compreensão da realidade que, quando elaboradas a partir de fundamentos científicos, possibilitam uma melhor maneira de organizar, interpretar e analisar essa mesma realidade. Esta forma de construção do conhecimento possibilita- rá ao aluno uma compreensão da totalidade do sujeito, das relações estabeleci- das social e historicamente, das formas de produção da sociedade e da relação estabelecida com a natureza e com o seu espaço físico, cultural, político, etc. Portanto, cada disciplina elegerá seus conceitos essenciais de trabalho, a partir da compreensão dos campos conceituais, dos conceitos que os mesmos correspondem. (SANTA CATARINA, 2000, p. 18, grifo nosso). Além disso, é importante considerar que esses conceitos, organizados de forma sistematizada, englobam os vários conhecimentos: artísticos, sociais, políticos, científicos etc. Reitera-se a necessidade de ser considerada pelos(as) docentes a articulação entre o que realmente os(as) estudantes já dominam, os saberes que são necessários a eles(e- las) no processo de ensino e aprendizagem e os diferentes significados e sentidos que eles(elas) atribuem a determinados temas e a relação com os conhecimentos indicados no documento Currículo Base do Ensino Fundamental do território catarinense. O que se indi- ca não é a apropriação linear de listas de conteúdos desse documento base, mas que ele constitua um instrumento de consulta aos conteúdos das áreas. Esses conteúdos são com- preendidos como meio para trabalhar os conceitos fundamentais e necessários aos(às) estudantes. Logo, selecionam-se os conteúdos dos diferentes componentes curriculares elegendo os conceitos essenciais à aprendizagem dos(as) estudantes. É preciso lembrar que se trabalha com sujeitos jovens, adultos(as) e idosos(as) que conseguem fazer a análise de seu processo de aprendizagem, ou seja, de perceber o que conseguem aprender e que dificuldades sentem. Portanto, ao pensarem-se as ações de ensino e selecionar os conteúdos, é importante que os(as) estudantes saibam quais são esses conteúdos, seus objetivos e o que se espera deles(as), pois, desse modo, é possível que percebam e construam finalidades para se envolverem nas suas atividades de estudo. Nessa dimensão pedagógica, Moura (2001) aponta como possibilidade a organização das ações de ensino por meio do que conceitua de atividade orientadora do ensino (pensar boas situações de ensino). O autor afirma que [...] a atividade orientadora de ensino aquela que se estrutura de modo a per- mitir que os sujeitos interajam, mediados por um conteúdo negociando significados, com o objetivo de solucionar coletivamente uma situação problema”. É atividade orientadora porque define elementos essenciais da ação educativa e respeita a dinâmica das interações que nem sempre chegam a resul- tados esperados pelo professor. Este estabelece os objetivos, define as ações e elege os instrumentos auxiliares de ensino, porém não detém todo o processo, justamente porque aceita que os sujeitos em interação partilhem signifi- cados que se modificam diante do objeto de conhecimento em discussão. (MOURA, 2001, p. 155, grifos nossos). 78 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Além disso, destaca-se a importância de considerar-se o diálogo com os(as) estudantes nas proposições curriculares e, assim, cabe a cada escola construir seu Projeto Pedagógico. Nesse processo, leva-se em conta, principalmente, os saberes e as mobiliza- ções dos(as) estudantes para, então, selecionar os conteúdos constantes no Currículo da EJA no território catarinense (2019), mediante os conceitos básicos de cada área do co- nhecimento e articular de forma histórica e contextualizada esses conceitos e conteúdos. 1.3.6 Desenhos curriculares com base na integração curricular Há, no Brasil, e, neste caso, em Santa Catarina, diferentes modos organizativos da Educação de Jovens e Adultos(as), o que é coerente por ela se constituir uma modalidade da Educação Básica. Esse termo modalidade já indica outras formas/outros modos de or- ganização curricular e pedagógica. Nos desenhos curriculares, que se busca dialogar com as particularidades dos(as) estudantes, recolhem-se modos organizativos a partir das ex- periências de diferentes redes, bem como a perspectiva de integração curricular no sentido de se desenvolverem ações interdisciplinares. Para Santomé (1998, p. 61), a construção do conhecimento disciplinar toma como base paradigmas do pensamento científico e de que não há interdisciplinaridade sem dis- ciplinas. É a partir da especialização de saberes que se pode buscar a interdisciplinaridade como uma unidade dialógica, universal e de sentido de compreensão da realidade. Buscam- -se possibilidades de estabelecer relações interdisciplinares, que, para Zabala (1998, p.143- 144), se dão em três graus de relações: multidisciplinar: é a mais tradicional, não aparecem explícitas as relações que podem existir entre as disciplinas, pois é uma organização soma- tiva; interdisciplinar: há intencionalidade de interação entre duas ou mais disciplinas, desde a comunicação de ideais até a integração recíproca dos conceitos fundamentais, da teoria do conhecimento, da metodologia e dos dados da realidade e; a transdisciplinar: é o grau máximo de relações entre as disciplinas. Supõe-se uma interação mais global que favorece uma unidade interpretativa, com o objetivo de constituir uma ciência que explique a realidade sem parcelamento. Determina certas relações de conteúdos com pretensões integradoras. Na busca de compreensão, remete-se ao conceito de integração curricular, que, segun- do Santomé (1998), significa a estruturação das diferentes áreas de conhecimento de modo a abordar temáticas significativas aos sujeitos da aprendizagem. O pesquisador aponta que há diferentes formas de efetivar essa integração: a) Integração correlacionando diversas discipli- nas, em que os conceitos de uma disciplina se integram a conceitos de outras (por exemplo, um conhecimento geográfico ser necessário para a compreensão de um histórico ou matemá- tico); b) Integração de temas, tópicos ou ideias, quando estes integram diversos conteúdos e atividades características de diferentes áreas de conhecimento; c) Integração de uma questão da vida diária, pois debatem temas da vida cotidiana integrando saberes das diversas discipli- nas; d) Integração que se dá mediante problematizações de pesquisas dos(das) estudantes. 79CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.3.7 Por que pensar essa integração no âmbito da Educação de Jovens, Adultos(as) e Idosos(as)? A organização do trabalho integrado facilita a apropriação do saber mediante uma apresentação de conteúdos sem descuidar da lógica das conexões. Em busca de resposta a essa questão, remete-se à indicação de Gimeno Sacristán: A ordenação dos componentes do currículo dentro de uma área e a relação entre elas é uma constante na didática, promovida pela intenção de que a seleção de peças - que é todo currículo - tenha uma coerência para quem as deve assimilar [...]. A integração do saber é algo que acontece na mente dos indivíduos (TABA, 1974, p. 392), mas pode se facilitar externamente com uma apresentação dos conteúdos mais de acordo com essainten- ção; portanto, é necessário propô-la quando se planeja o currículo. A inte- gração pedagógica do conhecimento não anula a ordem lógica entre saberes ou a ordem construída dentro de cada disciplina, senão que o subordina à pre- tensão de sua integração. Não significa que se descuidará da lógica das co- nexões que existem entre os temas, conceitos ou partes específicas, mas sim que, levando-as em conta, se busca apresentar os conteúdos da forma mais adequada para uma aprendizagem significativa, interessante e que mostre a maior quantidade de relações possíveis entre componentes, com problemas reais e aplicações à vida cotidiana, originando experiências variadas. (GIMENO SACRISTÁN, 1998, p. 283, grifos nossos). Para a organização curricular no contexto dos anos iniciais, há mais possibilidades para uma proposta de integração, em função de sua organização não disciplinar contando com a unidocência. No entanto, no contexto dos anos finais e do Ensino Médio estruturados disciplinarmente, se não for pensada uma organização específica com tempos disponíveis para que os/as docentes pensem essa integração curricular, certamente haverá mais dificul- dades nessa integração. Metodologicamente, a organização curricular pode ser viabilizada por diferentes abordagens e perspectivas na objetivação de integração curricular, pois: O currículo formal exige a seleção e a organização desses conhecimentos em componentes curriculares, sejam eles em forma de disciplinas, módulos, projetos etc., mas a integração pressupõe o reestabelecimento da relação entre os conhe- cimentos selecionados. Como o currículo não pode compreender a totalidade, a seleção é orientada pela possibilidade de proporcionar a maior aproximação do real, por expressar as relações fundamentais que definem a realidade. (RAMOS, 2009, p. 117). Destaca-se que, mesmo levando em conta as diferentes perspectivas assumidas pelas redes de ensino, vale lembrar que, independentemente, 80 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 [...] da forma de organização e das estratégias adotadas para a construção do currículo integrado, torna-se imperativo o diálogo entre as experiências que estão em andamento, o diagnóstico das realidades e demandas locais e a existência de um planejamento construído e executado de maneira coletiva e democrática. Isso implica a necessidade de encontros pedagógicos periódicos de todos os sujeitos envolvidos no projeto, professores, estudantes, gestores, servidores e comunida- de. É importante ressaltar, mais uma vez, que essa construção curricular implica uma nova cultura escolar e uma política de formação docente; também a produção de um material educativo que seja de referência, mas, de forma alguma, prescriti- vo. (BRASIL, 2007, p. 53). 1.3.8 O planejamento de situações mobilizadoras de ensino Sugere-se, para a organização das ações de ensino, a Unidade Temática, a qual constitui um recorte organizado de forma didática, que agrupa os conceitos, e/ou temáti- cas, conhecimentos significativos e relevantes encontrados nos componentes curriculares e que atendem ao Eixo Transversal, às dimensões formadoras e aos eixos integradores. A Unidade Didática/Temática é compreendida como um recorte organizado, que agrupa os conceitos e/ou temáticas, problemas, conhecimentos significativos e relevantes, encontrados nos componentes curriculares e que atendem às dimensões formadoras, aos eixos integradores. No Quadro 3 a seguir, apresentam-se os elementos necessários para composição da unidade temática. Quadro 3 - Elementos para elaboração das Unidades Temáticas UNIDADE TEMÁTICA Fase ou período letivo Eixos integradores Projeto integrador como mobilização da integração das áreas do conhecimento Componentes curriculares e os objetos do conhecimento Proposição de unidades te- máticas, eixos conceituais, e/ou problemas, os quais viabilizem a integração hori- zontal e vertical. Seleção do conhecimento e atividades de aprendizagem integradas entre as áreas que componham um projeto que permita ao estudante a vivência e intervenção social e escolar. Objetos dos conhecimen- tos e das bases conceituais do Currículo Base da Edu- cação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense e dos cadernos de EJA. Fonte: Elaborado pelos autores. Nessa sistematização, procura-se potencializar a formação, centrando seus inte- grantes no reconhecimento das necessidades e das mobilizações dos/as estudantes e na elaboração e no desenvolvimento de um projeto que viabilize a efetivação da sua atividade estudo perante uma perspectiva interdisciplinar por meio dos princípios da integração cur- ricular. Na atividade de planejar situações de ensino, deve-se ter a preocupação de traba- lhar o conhecimento de forma contextualizada, o que implica refletir acerca das questões apontadas por Hernández: 81CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Uma tarefa fundamental do currículo escolar consistiria na proposta de ques- tões do tipo: Como se produziu esse fenômeno? Qual é a origem dessa prática? Sempre foi assim? Como o percebiam as pessoas de outras épocas e lugares? Consideravam-nos tal como nós? Como se explicam essas mudanças? Por que se considera uma determinada visão como natural? Por que se excluem outras interpretações? Como esse fenômeno afeta nossas vidas e de outras pessoas? A partir dessas e de outras perguntas, procuraria buscar-se, com os alunos, fontes diversas que apresentem respostas que sejam reflexo de como o conhecimento não é estável e que a realidade se ‘fixa’ em função das inter- pretações que se produzem em cada momento. (HERNÁNDEZ, 1998, p. 28). No conjunto das reflexões deste documento, aponta-se que a organização de boas situações de ensino perpassa pensar procedimentos, ações e recursos de acordo com cada objetivo e ação, cujo olhar e diálogo emergem sempre a partir dos sujeitos a quem es- sas ações se destinam. Desse modo, este documento apresenta um conjunto de reflexões sobre os sujeitos da Educação de Jovens, Adultos(as) e Idosos(as), o contexto de oferta e de indicações teórico-metodológicas do currículo para a EJA, no território catarinense, que objetivam ações de ensino em que o diálogo e os sujeitos são princípios fundamentais. 1.3.9 Considerações e recomendações Ao concluir este texto, situa-se um conjunto de recomendações/sugestões para a ela- boração de diretrizes curriculares, teórico-metodológicas e operacionais para a implantação/ acompanhamento da EJA no território catarinense. Assim sendo, indica-se e defende-se: � a compreensão dos fundamentos teórico-metodológicos da Educação de Jovens, Adul- tos(as) e Idosos(as) como uma modalidade da Educação Básica. Tal compreensão busca, em sua organização curricular, ações de Integração curricular orientada pelos princípios do trabalho, das questões sociais e da diversidade como percurso formativo; � o enfoque maior, por parte do(a) professor(a), nas experiências concretas dos(as) jo- vens e adultos(as), em sua maioria, trabalhadores(as) como elementos fundantes para o desenvolvimento dos processos de ensino e de aprendizagem; � a incorporação nas propostas curriculares dos seguintes componentes pedagógicos: ava- liação diagnóstica e formativa, planejamento participativo com toda a comunidade escolar; � a autonomia das diferentes redes de ensino na construção de matrizes curriculares a partir das especificidades dos/das estudantes jovens, adultos(as) e idosos(as) no diálo- go com as equipes pedagógicas; � a necessidade de acompanhamento pedagógico dos cursos e dos(as) estudantes na busca de estratégias de acesso, permanência e continuidade de estudos; 82 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 � a promoção de chamadas públicas para a Educação de jovens, adultos(as) e idosos(as) como direito subjetivo e constitucionalpor parte das redes de ensino; � a elaboração de materiais didáticos por parte das redes de ensino, conjuntamente aos seus/suas docentes fundamentados em diretrizes específicas para a EJA; � a construção de indicativos para a formação docente que atenda ao caráter crítico-refle- xivo e que compreenda as especificidades da EJA; � as garantias por parte das redes de ensino condições materiais, de estrutura pedagó- gica e financeiras aos docentes e às discentes da EJA e a constituição de documentos legais e de orientação para a EJA nos diferentes Conselhos Municipais de Educação; � os programas de alfabetização de jovens, adultos(as) e idosos(as) precisam ser pen- sados como processos iniciais de escolarização e é preciso que seja garantida a oferta para a continuidade dos processos de escolarização desses(as) estudantes. � a criação de políticas de valorização dos profissionais da Educação de Jovens, adul- tos(as) e idosos(as), incluindo quadros efetivos de docentes. � as perspectivas de possibilidades de inserção social de apostas na diversidade como percurso formativo mediante os elementos que constituem este documento. REFERÊNCIAS ARROYO, M. G. A educação de jovens e adultos em tempos de exclusão. In: BRASIL. Construção co- letiva: contribuições à Educação de Jovens e Adultos. Brasília: UNESCO, MEC, RAAAB, 2006. p. 221-230. ______. Balanço da EJA: o que mudou nos modos de vida dos jovens-adultos populares? REVEJ@ - Revista de Educação de Jovens e Adultos, v. 1, n. 0, p. 1-108, ago. 2007. ______. Políticas educacionais e desigualdades: à procura de novos significados. Educação & Sociedade, Campinas, v. 113, p. 1381-1416, 2010. ______. Outros Sujeitos, Outras Pedagogias. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. ______. Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 248, p. 27833-27841, 23 dez. 1996. ______. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução Nº 1, de 5 de julho de 2000. Brasília, 2000. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/marco-2012-pdf/ 10161-2-resolucao-cne-ceb-01-2000/file. Acesso em: 5 maio 2019. ______. Ministério da Educação. Conselho Nacional De Educação. PARECER CNE/CP Nº: 8/2012. Despacho do Ministro, publicado no D.O.U. de 30/5/2012, Seção 1, Pág. 33. Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos. Brasília, 2012. Disponível em: <https://www.mdh.gov.br/navegue-por-temas/educacao-em- -direitos-humanos/DiretrizesNacionaisEDH.pdf> Acesso em: 16 set 2019. ______. Resolução No 3, de 15 de junho de 2010. Institui Diretrizes Operacionais para a Educação de Jo- vens e Adultos nos aspectos relativos à duração dos cursos e idade mínima para ingresso nos cursos de EJA; idade mínima e certificação nos exames de EJA; e Educação de Jovens e Adultos desenvolvida por meio da Educação a Distância. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 113, p. 66, 16 jun. 2010. 85CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.4 EDUCAÇÃO ESCOLAR QUILOMBOLA Consultora Adriana Ferreira da Silva Colaboradora Fernanda Zimmermann Forster Grupo de Trabalho Elizabete Aparecida de Lima Fagundes Everaldo Santos de Aguiar Rodrigo Lucas Pereira Sandra Helena Maciel Tamara Spinola Pereira Pailão Barbosa Ao abordar a modalidade da Educação Escolar Quilombola, é necessário memorar alguns aspectos importantes que marcaram toda nossa história de colonização. O Brasil é um país que viveu mais de 300 anos sob um sistema escravocrata e desumano, que recebeu o maior contingente de negros escravizados no mundo, ficando com o vergonhoso título de último país a abolir a escravidão. Essas pessoas, nossos ancestrais, foram retiradas da mãe África à força e transportadas como mercadorias para uma terra distante, em que a união e a colaboração negra eram a única opção de resistência diante dessa barbárie. Desde que os Africanos foram trazidos para o Brasil na condição de escravizados, iniciou-se uma trajetória de exclusão social e invisibilidade, que, na prática, negou direitos aos negros/remanescentes e desconsiderou os territórios quilombolas na estrutura agrária brasileira. Além disso, salientamos que, apesar do contexto em que o povo africano foi escra- vizado, a origem ancestral, cultural, econômica e social coletiva não foi abandonada. Seus laços de pertencimento ainda estão ligados a partir da remanescência quilombola. A expres- são Quilombo é originária da palavra “quimbundo” que quer dizer “união, reunião de acam- pamentos” ou, ainda, “residência, acampamento de guerra de habitação” (LOPES, 1988). “A formação de quilombos não somente a partir de fugas e insurreições, mas de diversos outros contextos, como heranças de terras de antigos senhores, abandono das plantações e das terras em razão da decadência econômica ou pela compra de alforria e manutenção de um território próprio e a produção autônoma” (CARRIL apud MOURA, 1988, p. 2). Na atualidade, segundo o Decreto No 4.887/2003 (BRASIL, 2003), as comunidades quilombolas são grupos étnico-raciais segundo critérios de auto atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestrali- dade negra relacionada à resistência à opressão histórica sofrida. Segundo Adriana Ferrei- 86 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 ra da Silva126, cada quilombola tem uma forma específica e cheia de significados e saberes ao compreender “o que é ser quilombola”. Quilombo é lugar de luta e conquista de liberdade e de preservação da cultura refletida na sua forma de organização territorial local, no uso social da terra para subsistência; identidade; memória; ancestralidade religiosa diversificada; práticas culturais e coletividade. Os Quilombolas carregam consigo uma identi- dade legítima de representação de uma parte muito significativa de constituição da história do país, embora muito se tem mascarado ou negado essa partici- pação pelo predomínio do poder hegemônico, atravessado pelo racismo, que ainda se apresenta na contemporaneidade de forma a negar os quilombolas como parte da constituição e consequente negação dos direitos adquiridos. (SANTA CATARINA, 2018, p. 23). 1.4.1 As Comunidades Quilombolas de Santa Catarina Tramitam no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) 1.536 processos para regularização das terras. Desses processos, apenas 219 já terminaram a fase de elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID). Somente 369 terras quilombolas estão tituladas no Brasil. Estima-se, assim, que serão precisos 600 anos para titularem todas as comunidades quilombolas no país. Os dados oficiais disponibilizados pela Fundação Cultural Palmares (FCP) são fre- quentemente atualizados em razão dos novos processos de reconhecimento, de titulação e de certificação. Não obstante, Santa Catarina conta com 18 comunidades remanescentes que receberam o Certidão de Reconhecimento como “Comunidade Remanescente Qui- lombola”, sendo elas: Invernada dos Negros – Campos Novos/Abdon Batista; São Roque – Praia Grande/Mampituba; Valongo – Porto Belo; Morro do Fortunato – Garopaba; Santa Cruz – Paulo Lopes; Campo dos Poli – Monte Carlo/Fraiburgo; Morro do Boi – Balneário Camboriú; Tabuleiro – Santo Amaro da Imperatriz; Família Thomaz – Treze de Maio; Caldas do Cubatão – Santo Amaro da Imperatriz; Aldeia – Garopaba; Vidal Martins – Florianópolis; Ilhotinha – Capivari de Baixo; Itapocu – Araquari; Rosalina – Araranguá; Beco do Caminho Curto – Joinville; Areias Pequenas – Araquari; Tapera – São Francisco do Sul (FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, 2018). Essas comunidades não resultaram apenas de fugas ou revoltas, mas a partir de lutas e de estratégias negraspela construção de autonomia, por meio da compra de alforria ou de pequenas terras, muitas delas adquiridas por prestação de serviços ou doações em testamentos de antigos senhores. A Educação Escolar Quilombola é uma reivindicação histórica dos movimentos qui- lombolas e do movimento negro em todo o país. Essa pauta histórica foi reconhecida como um direito em 2010, desde a publicação do Documento Final da Conferência Nacional da Educação (CONAE). Nessa Conferência, deliberou-se sobre a necessidade imediata 12 Oriunda da Comunidade Quilombola Invernada dos Negros, Campos Novos/Abdon Batista/SC, trata-se de uma informação verbal constante na Política de Educação Escolar Quilombola (SANTA CATARINA, 2018). 87CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 da elaboração de uma legislação específica para a implementação da Educação Escolar Quilombola e o seu reconhecimento. Contudo, a escolarização nas comunidades quilom- bolas de Santa Catarina iniciou-se pela inserção do Projeto de Alfabetização, no qual o Movimento Negro Unificado (MNU), em 2003, com uma militância junto às Comunidades Quilombolas do Estado, comprometeu-se com a organização sociopolítica dos Quilombos. Em 2005, o maior entrave para o desenvolvimento das comunidades estava no alto índice de analfabetismo. Surgiu, assim, a necessidade de construir um Programa de Educação Quilombola que atendesse às especificidades das Comunidades Quilombolas. Constituiu-se um coletivo de 16 Educadores de oito Comunidades de Remanescentes dos Quilombos de Santa Catarina, além de Professores que compunham o quadro do MNU- -SC, com o objetivo de construir e implementar um Projeto de Educação Quilombola para atender às necessidades de uma formação educacional que contemplasse os aspectos políticos, econômicos e sociais das comunidades negras rurais e urbanas. Em 2006, por solicitação desse coletivo, foi realizada uma audiência com a Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina, em que foi apresentado o contexto de exclusão das políticas de educação nas comunidades. O resultado foi a realização de um seminário com a parti- cipação das direções dos Centros de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) que tinha por objetivo criar uma política educacional focada na cultura e na cosmovisão quilombola. No entanto, resultou em um Projeto de Alfabetização em convênio com a Fundação Banco do Brasil, Associação Rondon Brasil, Movimento Negro Unificado de Santa Catarina e Secre- taria de Estado da Educação por meio do Programa Brasil Alfabetizado a partir do governo de 2003, além da inclusão no projeto Saberes da Terra. A meta era alfabetizar 486 Jovens e Adultos tendo como resultado 460 pessoas alfabetizadas, sendo em sua maioria mulheres. Atualmente a Educação Escolar Quilombola (EEQ)137 está em processo de regula- mentação e aprovação da matriz curricular do ensino pelo Conselho Estadual de Santa atarina para torna-la efetiva em todos os campos educacionais,148 pois a mesma é uma 13 I – da historicidade, ancestralidade e memória coletiva; II - das línguas reminiscentes; III - dos marcos civilizatórios; IV - das práticas culturais; V - das tecnologias e formas de produção do trabalho como princípio educativo; VI - dos acervos e repertórios orais; VII- dos festejos, usos, tradições e demais elementos que conformam o patrimônio cultural das comunidades quilombolas de todo o país; VIII- da territorialidade e respeito aos processos históricos de luta pela regularização dos territórios tradicionais dos povos quilombolas; IX- do reconhecimento dos quilombolas como povos ou comunidades tradicionais; 14 A Educação Escolar Quilombola será ofertada por estabelecimentos de ensino localizados em comunidades quilombolas, rurais e urbana, reconhecidas pelos órgãos públicos responsáveis devendo observar o seguinte: A Educação Infantil e os Anos Iniciais do Ensino Fundamental e as escolas quilombolas, quando nucleadas, deverão 88 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 modalidade oferecida dentro da Educação de Jovens e Adultos nos níveis de nivelamento, Ensino Fundamental anos finais e Ensino Médio,. iniciado a partir de 2016 na EJA, tendo como eixos temáticos a Ancestralidade e a Territorialidade. Segundo a Política de Educa- ção Escolar Quilombola, “[...] a ancestralidade é o signo da resistência a afrodescendente e está relacionada à história do negro no Brasil e parte do processo de sua inclusão social, respeito às diferenças, e na convivência sustentável do homem com o meio ambiente [...]”; já a territorialidade, juntamente à [...] ideia de pertencimento de grupo, torna-se a expressão da identidade. [...]. A terra para as comunidades quilombolas tem valor diferente dado pelos gran- des proprietários. Ela representa o sustento e é ao mesmo tempo o resgate a memória dos antepassados, onde se realizam as tradições, onde se criam e recriam valores, onde se luta para garantir o direito de ser diferente sem ser desigual [...]. (SANTA CATARINA, 2018, p. 37). Dentro da (EEQ) os princípios da oralidade, identidade, coletividade e da mulher quilombola são abordados por meio das áreas do conhecimento159 acontecem a partir da Pedagogia da Alternância1610 que integra a vivência do aluno no Tempo (TC) com a prática da assimilação desses conhecimentos, no Tempo Escola (TE) , fazendo a articulação entre conhecimentos prévios e científicos, os quais asseguram a interdisciplinaridade dos conteúdos e o currículo; sendo que os educandos efetivaram seus conhecimentos fazendo a sistematização das atividades que envolvem estudantes, professores e a comunidade, ficar em polos quilombolas. Quando os Anos Finais do Ensino Fundamental, o Ensino Médio, integrado ou não à Educação Profissional Técnica e a Educação de Jovens e Adultos não puderem ser ofertados nos próprios territórios quilombolas, e a garantia de transporte intracampo dos estudantes quilombolas, em condições adequadas de segurança. A Secretaria de Estado da Educação (SED) deve garantir a identificação dos estudantes oriundos de territórios quilombolas, no sistema de informações educacionais Garantir a alimentação escolar, na forma da Lei e em conformidade com as especificidades socioculturais das comunidades quilombolas. A demanda da Educação Escolar Quilombola deve ser identificada no Plano de Atendimento Educacional das Gerências Regionais e/ou Coordenadorias de Educação (conforme nova estrutura do estado) e nas Secretarias Municipais de Educação, de acordo com a responsabilidade de cada ente federado. O Estado e os Municípios devem assegurar, Os materiais didáticos pedagógicos próprios preferencialmente deverão ser produzidos considerando a autoria, história e experiência das comunidades quilombolas e com anuência das mesmas, bem como salas ambiente, ginásio de esportes, centros culturais), escolas, para o atendimento da Educação Escolar Quilombola. 15 A saber: Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Matemática, Linguagens, Saberes e Fazeres Regionais. 16 A Educação Escolar Quilombola é desenvolvida em unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura, requerendo pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a Educação Básica brasileira. Na estruturação e organização da (EEQ) cada etapa da Educação Básica, poderá assumir variadas formas, de acordo com o art. 23 da LDB, tais como: I - anuais; II- períodos semestrais; III - ciclos; IV - alternância regular de períodos de estudos com tempos e espaços específicos; V - grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. 89CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTALDO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 principalmente os griots (os mais velhos considerados sábios contadores de histórias), na qual há um processo de estudo, pesquisa e proposta de intervenção na comunidade. Por- tanto os professores são preferencialmente quilombolas e que tenham a carta de anuência dada pelas lideranças. Na (EEQ) o planejamento das aulas dá-se pela organização cole- tiva semanalmente entre as áreas do conhecimento, priorizando os eixos e princípios que orientam o processo educacional, em suma o processo avaliativo deve ser contínuo, de forma a observarem-se as diferentes formas de apreensão do conhecimento tradicional e científico – feito por meio de seminários de socialização e de projetos de intervenção na comunidade com a participação dos mais velhos –, e a intensão para o empoderamento etinico racial e a transformação social, política e econômica, considerando-se as realida- des e as especificidades das comunidades quilombolas de SC. O processo avaliativo deve ser contínuo, de forma a observarem-se as diferentes formas de apreensão do conhecimento tradicional e científico – feito por meio de seminários de socialização e de projetos de intervenção na comunidade com a participação dos mais ve- lhos –, e a intensão para o empoderamento e a transformação social, política e econômica, considerando-se as realidades e as especificidades das comunidades quilombolas de SC. 1.4.2 Orientações gerais para Base Curricular Catarinense Os diferentes componentes curriculares e o Projeto Político Pedagógico de todas as unidades escolares devem abordar as questões inerentes à existência de comunidades quilombolas em Santa Catarina, de modo a contemplar os seguintes aspectos: as diferen- tes formas de racismo, inclusive estrutural; contextualizar o racismo na sua base teórica histórica, compreender que há uma necessidade em abordar políticas de direito por re- paração histórica; fomentar o protagonismo negro nas diferentes esferas da sociedade, atendendo às disposições da Lei de Reparação história No 12.711/2012; assim como a ressignificação de quilombo pelo Decreto No 4.887/2003, pela Convenção No 169, da Orga- nização Internacional do Trabalho (OIT), artigo 68, pela LDB Nº 9.394/1996 e pelo caderno de políticas públicas de Educação Quilombola/2018 de Santa Catarina. O reconhecimento e a valorização da cultura africana como berço da humanidade devem ser ressaltados. A remanescência e o processo de identificação, de localização, de certificação e de titulação das comunidades quilombolas de Santa Catarina devem aparecer nos currículos. Os sabe- res tradicionais, a cultura e a ancestralidade devem ser ressignificados. Há a necessidade de inserção de referenciais teóricos de autoras e autores negros como contribuição histó- rica, política, social, econômica e científica da educação. Assim sendo, é preciso salientar que, apesar do contexto histórico de exploração, de desvalorização e da tentativa de tornar invisível o povo negro brasileiro, em especial, o catarinense, faz-se necessária a inclusão de tais conhecimentos nos componentes cur- 90 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 riculares de Santa Catarina como forma de reparação histórica. Temos ciência de que tal documento ainda não contempla a Educação Escolar Quilombola em sua completude, nem atende a todas as reinvindicações da sociedade civil negra organizada; contudo, faz parte dos primeiros passos rumo a uma sociedade mais justa e equitativa, garantidos na vigente Constituição da República Federativa do Brasil. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacio- nal. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 248, p. 27833-27841, 23 dez. 1996. ______. Lei n° 12.711, de 29 agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 169, p. 1-2, 30 ago. 2012. ______. Convenção N° 169 sobre povos indígenas e tribais e Resolução referente à ação da OIT/Orga- nização Internacional do Trabalho. Brasília: OIT, 2011. ______. Decreto Nº 4.887, 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitó- rias. Brasília, 2003. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/D4887.htm. Acesso em: 12 abr. 2019. FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Comunidades Quilombolas de SC. 2018. Disponível em: http://www. palmares.gov.br/?page_id=417. Acesso em: 12 abr. 2019. LOPES, N. Bantos e malês e identidade negra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1988. MOURA, C. Rebeliões e Senzalas. 4. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988. SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação. Política de educação escolar quilombola. Florianó- polis: Secretaria de Estado da Educação, 2018. 91CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.5 EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA Consultores Davi Timóteo Martins Josué Carvalho Nanblá Gakran Colaborador Cesar Cancian Dalla Rosa Grupo de Trabalho Lalan Priprá Paté Osias Tucugm Paté Pedro Egino Leites de Alexandre João Batista Antunes Daniel Timóteo Martins Marco Antônio da Silva Historicamente, os povos indígenas foram negligenciados como produtores de co- nhecimentos. É relativamente recente a descoberta de que as tecnologias indígenas são responsáveis por preservar o meio ambiente e, assim, garantir o futuro do planeta. Os dados referentes à destruição da natureza em prol de um consumo desenfreado, as catástrofes naturais e o aquecimento global fizeram com que parte de uma sociedade etnocentrada em parâmetros ocidentais olhasse para os indígenas com apreço: como guardiões do planeta. Os saberes indígenas passaram, assim, a ser considerados, especialmente em rela- ção ao cuidado com a natureza, mas continuam sendo homogeneizados e compactados em suas diferenças culturais, como ocorre desde o contato. Importa esclarecer que cada povo indígena é portador de conhecimentos distintos em relação ao cuidado com as pessoas e com o ambiente como um todo. As formas de tratar gente e natureza, os rituais, os métodos de ensino e a aprendizagem podem ser semelhantes entre os povos, mas raramente iguais. Refuta-se a ideia homogeneizante, porém considera-se que os povos nativos têm em co- mum cosmologias nas quais humanos, meio ambiente e mundo espiritual são indissociáveis. No que tange à Educação Escolar Indígena, com a Constituição Federal de 1988, os Povos Indígenas conquistaram o direito a uma educação escolar específica, diferenciada, in- tercultural, bilíngue/multilíngue e comunitária. No artigo 210 (BRASIL, 1988), assegura-se aos indígenas o uso de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem, cabendo ao Estado proteger as manifestações das culturas indígenas. A coordenação nacional das políticas de Educação Escolar Indígena é de competência do Ministério da Educação (MEC), cabendo aos Estados e Municípios a execução para a garantia deste direito dos povos indígenas. 92 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Nas leis subsequentes e artigos, fica definida a Educação Escolar Indígena como moda- lidade com organização curricular e princípios específicos por meio da Resolução CEB-CNE No 5/2012, respeitadas as políticas territoriais organizadas no Decreto Presidencial No 6.861/2009. Em Santa Catarina, a organização escolar indígena é reconhecida e organizada no Sistema de Ensino pela Resolução CEE-SC No 68/2018, onde estão dispostas as Normas Complementares para a oferta de Educação Básica na modalidade de Educação Escolar Indígena. 1.5.1 Educação Indígenae Educação Escolar No estado de Santa Catarina, existem aproximadamente 16 mil indígenas vivendo em 27 Terras Indígenas demarcadas ou em processo de demarcação, pertencentes a três povos distintos: Povo Kaingang, com maior contração no Oeste; Povo Guarani Mbya e Nhandeva, com maior concentração na região litorânea; Povo Laklãnõ/Xokleng, concen- trado no Alto Vale do Itajaí. Esses dados foram obtidos com o último Censo (2010). Ao que se refere à questão da comunidade estudantil, pelos dados do Censo Escolar de 20151711, o estado conta com aproximadamente 3 mil matrículas, estando por volta de 2.700 na rede estadual e 200 na rede municipal de ensino. O Censo aponta que a maior concentração de matrículas está no Ensino Fundamental, com cerca de 71% do total. Quanto ao número de professores, aproximadamente 250 são indígenas e 50 são não indígenas. A educação escolar, para ambos os povos nos últimos anos, vem tomando forma e relevância, porém uma comunidade, mesmo pertencendo ao mesmo povo, preserva suas especificidades e concepções próprias sobre a educação escolar. Embora haja a ideia da instituição escolar como espaço de ensino e de aprendizagem, a educação indígena e a educação escolar fundem-se e fundamentam-se nos diferentes espaços, ou seja, no território como um todo que está para além do espaço físico tal qual a instituição escolar é concebida nos moldes ocidentais. O Povo Kaingang distingue a educação indígena da educação escolar: a edu- cação indígena volta-se ao conhecimento sobre si, sobre a natureza, sobre o outro e é responsável pela aquisição dos costumes e dos saberes específicos inerentes a cada co- munidade a qual o indivíduo pertence. A educação escolar é concebida no sentido de com- plementariedade entre o conhecimento indígena e o conhecimento não indígena; também a educação escolar tem sido elemento que possibilita ao kaingang a afirmação da identi- dade cultural individual e coletiva, construção da subjetividade e alteridade. Ela é pensada de modo que garanta o acesso aos códigos escolares não indígenas; além disso, para a formação da consciência da cidadania, a capacidade de reformulação de estratégias de resistência, garantia de seus direitos, a promoção de suas culturas, o conhecimento das 17 Dados recuperados de http://matricula.educacenso.inep.gov.br/controller.php . Acesso em: 1 maio 2019. 93CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 estruturas da sociedade não indígena, e a aquisição de novos conhecimentos úteis para a melhoria da condição de vida dos kaingang. A educação kaingang estrutura-se em modos próprios de ensino e aprendizagem, que envolvem saberes e costumes característicos de cada aldeia. Esses saberes/conhecimentos são ensinados/aprendidos de forma oral no dia a dia, nos rituais, nos mitos e nas distintas formas de organização de cada comunidade. O povo kaingang pensa a educação escolar como aporte de redução da desigualdade, de firmação de direitos e de conquistas, além da promoção do diálogo intercultural entre diferentes agentes sociais. Para o Povo Guarani, a Educação Escolar faz-se por meio da relação com a terra, com a territorialidade (Yvyrupá) e com todos os conhecimentos que são considerados mais relevantes para que cada indivíduo forme a sua consciência de cidadania (Nhandereko). A educação escolar guarani tem seu calendário específico que atende à realidade da co- munidade escolar, respeitando as cerimônias e os rituais sagrados, como é o caso do petynguá e demais medicinas. A educação é interdisciplinar e intercultural, relacionando as cosmologias guarani por meio da sabedoria dos anciões (xeramoi kuery) e as metodo- logias de conhecimentos gerais. A escola tem um papel importante, pois é um dos meios de encontro de saberes tradicionais que, de acordo com o entendimento do povo guarani, são científicos. Por intermédio desses valores, é possível formar nossos jovens de acordo com as suas potencialidades. Educação indígena para o Povo Xokleng/Laklãnõ é compreendida como a continuidade da educação assistemática para a educação sistemática, a qual os conhecimentos tradicionais são repassados por meio da oralidade. Nesse contexto, considera-se a escola como um espaço para o exercício da autonomia e da expressão da identidade como povo indígena. Nesse sentido, são utilizados os mesmos mecanismos do aculturamento ocidental. Atualmente, esse espaço é utilizado para registro e fortalecimento da língua e da cultura e, assim, a manutenção de suas formas específicas de viver e de pensar, de suas línguas e de sua cultura, de seu modo próprio de construção, de elaboração e de transmissão de conhecimentos tradicionais. Para este caderno, embora se intua um debate para construção do currículo base para educação escolar indígena, que vai do Ensino Infantil aos anos finais do Ensino Fundamental, registra-se a importância de que o currículo das escolas indígenas seja construído em fóruns específicos junto à cada Povo, para que haja mais aprofundamento e representatividade entre os diferentes povos indígenas do estado de Santa Catarina. Considerando a Educação Escolar Indígena, seus componentes nos diferentes campos do conhecimento, os direitos, as especificidades, as formas próprias de educar, de ensinar e de aprender, garantidos desde a Constituição Federal de 1988, apontam-se, neste texto, os princípios para orientação curricular nas diferentes etapas e áreas da Educação Infantil ao Ensino Fundamental. 94 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.5.2 Princípios gerais Os princípios da Educação Escolar Indígena estão ancorados em uma construção de escola que deve ser específica, diferenciada, intercultural, bilíngue/multilíngue e comunitária (GRUPIONI, 2001), conforme define a legislação nacional que fundamenta a Educação Escolar Indígena, pois os povos indígenas se constroem social, econômica, cultural e filosoficamente. Assim sendo, tem-se em vista: ● Uma visão de sociedade que transcende as relações entre humanos e admite diversos “seres” e forças da natureza com os quais estabelecem relações de cooperação e inter- câmbio a fim de adquirir - e assegurar - determinadas qualidades. ● Valores e procedimentos próprios de sociedades originalmente orais, menos marcadas por profundas desigualdades internas, mais articuladas pela obrigação da reciprocida- de entre os grupos que as integram. ● Noções próprias, culturalmente formuladas (portanto variáveis de uma sociedade indí- gena a outra) da pessoa humana e dos seus atributos, capacidades e qualidades. ● Formação de crianças e jovens como processo integrado; apesar de suas inúmeras particularidades, uma característica comum às sociedades indígenas e que cada expe- riência cognitiva e afetiva carrega múltiplos significados - econômicos, sociais, técnicos, rituais, cosmológicos. O Decreto Nº 6.861, de 27 de maio de 2009, define a organização do sistema educacional indígena no território nacional, determina a participação da comunidade indígena na organização do sistema de ensino, respeitando sua territorialidade, suas necessidades e especificidades, e trata dos objetivos da educação escolar indígena: I - Valorização das culturas dos povos indígenas e a afirmação e manutenção de sua diversidade étnica; II - Fortalecimento das práticas socioculturais e da língua materna de cada co- munidade indígena; III - Formulação e manutenção de programas de formação de pessoal especia- lizado, destinados à educação escolar nas comunidades indígenas; IV - Desenvolvimento de currículos e programas específicos, neles incluindo os conteúdos culturais correspondentes às respectivas comunidades; V - Elaboração e publicação sistemática de material didático específico e dife- renciado; e VI - Afirmação das identidades étnicas e consideração dos projetos societários definidos de forma autônoma por cada povo indígena (BRASIL, 2009, n.p.).Seguindo esses objetivos e princípios, no que se refere à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental para o estado de Santa Catarina, visam-se os objetivos descritos a seguir. 95CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.5.3 Objetivos gerais e específicos Conceber os processos de ensino e de aprendizagem do educando indígena dentro e fora do espaço escolar de modo a promover o acesso, a permanência e a garantia da aprendizagem significativa às crianças e aos adolescentes, conforme estabelece a base legal destinada à Educação no Ensino Infantil e Ensino Fundamental. Ter como base o Referencial Curricular Nacional para a Educação Escolar Indígena (RCNEI) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas respeitar os princípios da Educação Indígena e o Projeto Político Pedagógico, assim como a estrutura curricular, respeitar as especificidades de cada Povo e localidade a qual a escola está inserida. Que haja uma construção conjunta entre a comunidade escolar indígena e a comunidade indígena e, principalmente, com respeito aos tempos de aprendizagem da criança e do adolescente. � Educação Infantil: Contribuir para o reconhecimento e o desenvolvimento da criança na qualidade de sujeito indígena e possibilitar a ela, por meio de práticas cotidianas, em espaços escolares e no território, o desenvolvimento de suas potencialidades, de seu cognitivo, cultural e social. ● Objetivos específicos: ● Possibilitar e respeitar a interação entre as crianças. ● Respeitar o tempo e a concepção de infância de cada Povo. ● Entender e respeitar a criança como sujeito social, individual e coletivo, portadora de saberes. ● Possibilitar o ensino dos saberes indígenas bem como da língua indígena na sala de aula. ● Proporcionar espaços de vivências de ensino e de aprendizagem na escola e na comunidade. ● Desenvolver a imaginação criativa da criança com respeito aos conhecimentos de cada criança. ● Respeitar o tempo e as formas de aprendizagem de cada criança. ● Possibilitar o ensino integrado e interdisciplinar. ● Transmitir os conhecimentos da sociedade envolvente como complementar ao conhe- cimento indígena, nunca como superior ou dominante. 96 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 � Ensino Fundamental: Fortalecimento da identidade individual e coletiva (étnica), desenvolver os sentidos das linguagens e das ciências de modo interdisciplinar e que possibilite ao educando desenvolver e promover a capacidade de reconhecimento e tradução das ciências. � Objetivos específicos: ● Possibilitar o ensino integrado e interdisciplinar. ● Desenvolver métodos que valorizam o educando em seus conhecimentos de vivência tradicional. ● Desenvolver métodos de ensino e contextos de aprendizagem de afirmação da identi- dade étnica. ● Desenvolver métodos de ensino e de aprendizagem, tendo em vista a ascensão do conhecimento do educando no âmbito local, nacional e mundial. ● Pensar a escola indígena como um local de trocas de saberes, não de transição do educando indígena para cultura não indígena. ● Possibilitar práticas escolares visando à ascendência do aluno para cada fase do ensino. 1.5.4 A Proposta Curricular Conforme o que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica - DCNEB (BRASIL, 2013, p. 27), visa-se pensar as formas para a organização curricular da escola, o que implica o entendimento de que currículo é o conjunto de valores e de práticas que proporcionam a produção e a socialização de significados no espaço social e que contribuem, intensamente, para a construção de identidades sociais e culturais dos estudantes. Deve-se difundir os valores fundamentais do interesse social, dos direitos e dos deveres dos cidadãos, do respeito ao bem comum e à ordem democrática, bem como considerar as condições de escolaridade dos estudantes em cada estabelecimento, a orientação para o trabalho, a promoção de práticas educativas formais e não-formais. Na Educação Básica, a organização do tempo curricular deve ser construída em função das peculiaridades de seu meio e das características próprias dos seus estudantes, não se restringindo às aulas das várias disciplinas. O percurso formativo deve, nesse sentido, ser aberto e contextualizado, incluindo não só os componentes curriculares centrais obrigatórios, previstos na legislação e nas normas educacionais, mas também conforme cada projeto escolar estabelecer outros componentes flexíveis e variáveis que possibilitem percursos formativos que atendam aos inúmeros interesses, necessidades e características dos educandos. 97CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Quanto à concepção e à organização do espaço curricular e físico, imbricam-se e alargam-se, por incluir no desenvolvimento curricular ambientes físicos, didático-pedagógicos e equipamentos que não se reduzem às salas de aula, incluindo outros espaços da escola e de outras instituições escolares, bem como os socioculturais e esportivo-recreativos do entorno, das aldeias e mesmo da região. Essa ampliação e essa diversificação dos tempos e dos espaços curriculares pressupõem profissionais da educação dispostos a reinventar e construir, para essa escola, uma responsabilidade compartilhada com as demais autoridades encarregadas da gestão dos órgãos do poder público, na busca de parcerias possíveis e necessárias, até porque educar é responsabilidade da família, do Estado e da sociedade. A escola precisa acolher diferentes saberes, manifestações culturais e ópticas, empenhar-se para constituir-se, ao mesmo tempo, em um espaço de heterogeneidade e de pluralidade, situado na diversidade em movimento, no processo tornado possível por meio de relações intersubjetivas, fundamentadas no princípio emancipador. Cabe às escolas, nesse sentido, desempenharem o papel socioeducativo, artístico, cultural, ambiental, fundamentadas no pressuposto do respeito e da valorização das diferenças que dão sentido às ações educativas, enriquecendo-as, visando à superação das desigualdades de natureza sociocultural e socioeconômica. Pensados nesses moldes, os dispositivos abriram a possibilidade para que a escola indígena se constitua em um instrumento de valorização das línguas, dos saberes e das tradições indígenas, deixando de restringir-se a um instrumento de imposição dos valores culturais da sociedade envolvente. 1.5.5 Da avaliação Sistema de avaliação ensino-aprendizagem relação alunos/docente; relação disciplina/docente. Levar em consideração a concepção de ensino, aprendizagem e produção do conhecimento, por meio da relação dialógica entre professor, educando, família, comunidade, ou seja, o contexto sociocultural. Uma avaliação que rompa com o modelo classificatório e de cunho finalista, mas que seja realizada no processo, em que o professor também se permita autoavaliar-se. Salienta-se que o disposto aqui não visa fragmentar e/ou finalizar o assunto sobre a Educação Escolar Indígena, mas vai além. Chama-se atenção para a necessidade urgente de debates e de formação dos agentes educacionais junto às bases, ou seja, junto à comunidade escolar indígena de cada região para formatação de seus currículos, conforme suas realidades e suas necessidades. Busca-se, aqui, traçar os princípios, os objetivos gerais e específicos para que educadores, diretores escolares e comunidades indígenas o tenham como norte, porém não como encerrado, pois tem-se em vista que a educação, 98 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 indígena não se constrói em uma revisão constante dos métodos de ensino e das práticas de aprendizagem. Registra-se a necessidade da realização de conferências para o debate sobre o componente curricular das escolas indígenas, tal qual está sendo possível fazer com a BNCC, no Estado. Considera-seque, embora haja um avanço significativo nas discussões sobre o componente curricular para o estado de Santa Catarina, no que se refere à proposta curricular para as escolas indígenas, a BNCC em questão não contempla o que se entende como educação indígena, comunitária, intercultural, bilíngue, específica e diferenciada. No âmbito nacional, o ano de 2019 tem como marco para a educação escolar indígena a realização de encontros para a elaboração do 1º Plano Nacional de Educação Escolar Indígena (PNEEI). Nesse sentido, no âmbito estadual, essa discussão faz-se emergente. Não se trata de abortar o que a atual BNCC tem como base; ao contrário, parte- se dela, mas com direcionamento específico para a educação escolar indígena, visando dar vazão ao direito à educação diferenciada já conquistada com a Constituição de 1988. REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. ______. Decreto Nº 6.861, de 27 de maio de 2009. Dispõe sobre a Educação Escolar Indígena, define sua organização em territórios etnoeducacionais, e dá outras providências. Brasília, 2009. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6861.htm. Acesso: 10 maio 2019. ______. Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 248, p. 27833-27841, 23 dez. 1996. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Secretaria de Educação Continuada, Alfabe- tização, Diversidade e Inclusão. Conselho Nacional da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Brasília: MEC, SEB, DICEI, 2013. GRUPIONI, L. D. B. (org.). As leis e a educação escolar indígena: Programa Parâmetros em Ação de Educa- ção Escolar Indígena. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Fundamental, 2001. 99CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.6 EDUCAÇÃO DO CAMPO Consultor Antonio Munarim Grupo de Trabalho Daniel Zanata Josimeri Gasparetto Manoel Donizete Velho Rosimari de Fátima Cubas Blaka Rodrigo Pinheiro Simone Batista Coelho Marcon A expressão Educação do Campo, com base nos significados conceptuais que emergiram das práticas educativas empreendidas por organizações e movimentos sociais do campo, já no contexto do regime militar e dos anos subsequentes, foi firmada na "Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo", realizada em Luziânia, em 1998. A expressão foi usada oficialmente pela primeira vez no Parecer CNE/CEB N° 36, de 4 de dezembro de 2001. Nesse Parecer (BRASIL, 2001), a "Educação do Campo" ganha status oficial e seu significado alude essencialmente à educação nas escolas do campo. Com o Parecer, há, assim, uma perspectiva de educação não mais funcional a um projeto de desenvolvimento nacionalista urbano-industrial, mas, sim, vincada aos contextos sociais, econômicos e culturais onde cada escola está inserida. Trata-se, pois, de um esforço de superar os limites da verticalidade e da escassez das políticas de "educação rural" que era até então oferecida, ou escassamente oferecida, pelo Estado Brasileiro. Com essa perspectiva, o mesmo Parecer define um entendimento novo sobre o campo e a questão do campo, que visa superar a dicotomia imperante no binômio "cidade x campo" ou "urbano x rural". A educação do campo, tratada como educação rural na legislação brasileira, tem um significado que incorpora os espaços da floresta, da pecuária, das mi- nas e da agricultura, mas os ultrapassa ao acolher em si os espaços pesquei- ros, caiçaras, ribeirinhos e extrativistas. O campo, nesse sentido, mais do que um perímetro não-urbano, é um campo de possibilidades que dinamizam a li- gação dos seres humanos com a própria produção das condições da existência social e com as realizações da sociedade humana. (BRASIL, 2001, p. 1). 100 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Assim, no que concerne à materialidade que embasa a Educação do Campo, sempre entendida como Educação Escolar do Campo, o Parecer N° 36/2001 rejeita o binômio “Campo X Cidade”, como polos que se oporiam. Rejeita a visão de "[...] nostalgia de um passado rural de abundância e felicidade [...]” (BRASIL, 2001, p. 2, grifo nosso) e “[...] a visão idealizada das condições materiais de existência na cidade [...]” (BRASIL, 2001, p. 2, grifo nosso), que veria o campo como vestígio da realidade ainda atrasada da sociedade e que deve ser superada, ou seja, deve ser urbanizada. Em vez, o Parecer identifica a relação dos polos campo-cidade ou urbano-rural como um continuum [...] que identifica, no espaço local, o lugar de encontro entre o rural e o urbano, onde [...] as especificidades se manifestam no plano das identificações e das reivindicações na vida cotidiana, desenhando uma rede de relações recíprocas que reiteram e viabilizam as particularidades dos citados polos. E, neste par- ticular, o campo hoje não é sinônimo de agricultura ou de pecuária. Há traços do mundo urbano que passam a ser incorporados no modo de vida rural, assim como há traços do mundo camponês que resgatam valores sufocados pelo tipo de urbanização vigente. Assim sendo, a inteligência sobre o campo é também a inteligência sobre o modo de produzir as condições de existência em nosso país. (BRASIL, 2001, p. 20, grifo do autor). Enfim, na concepção de Educação do Campo, ainda conforme o Parecer n° 36, [...] campo consta como espaço heterogêneo, destacando a diversidade eco- nômica, em função do engajamento das famílias em atividades agrícolas e não-agrícolas (pluriatividade), a presença de fecundos movimentos sociais, a multiculturalidade, as demandas por educação básica e a dinâmica que se es- tabelece no campo a partir da convivência com os meios de comunicação e a cultura letrada. (BRASIL, 2001, p. 2). Nesse espírito, a Resolução CNE/CEB N° 1, de 3 de abril de 2002, que segue ao Parecer N° 36, traça o princípio do respeito à diversidade e do vínculo com a dinâmica da produção da existência nos diversos contextos, que deve ser seguido nos processos de educação escolar ofertados aos povos do campo. Art. 5º As propostas pedagógicas das escolas do campo, respeitadas as dife- renças e o direito à igualdade e cumprindo imediata e plenamente o estabeleci- do nos artigos 23, 26 e 28 da Lei 9.394, de 1996, contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos. (BRASIL, 2002, p. 1, grifo nosso). Ainda no mesmo sentido de vínculo da escola com seu contexto diverso, a Resolução N° 1/2002 desenha o que se deve entender por identidade da escola do campo e seu correspondente “projeto institucional”: 101CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Art. 2º, Parágrafo único: A identidade da escola do campo é definida pela sua vin- culação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defe- sa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. (BRASIL, 2002, p. 1). Por outro lado, para além da aludida realidade local da escola, com vista ao projeto institucional da escola (Projeto Político-Pedagógico), a mesma Resolução invoca que, se o educando da escola do campo é um ser situado, ele é também universal. Por isso, importa que o projeto institucional de cada sistema de ensino, ao considerar as suas escolas do campo, bem como e principalmente o PPP de cada escola do campo que o compõem, considere princípios que extrapolam os limites de lugar, tais como: a "universalização da educação com qualidade social", reforçada pela Emenda Constitucional Nº 59, de 11 de novembro de 2009 (BRASIL, 2009); escola como espaço deinvestigação; o mundo do trabalho como princípio educativo; e uma perspectiva de desenvolvimento sustentável, que considere não apenas a atual, mas as gerações futuras. Art. 4° O projeto institucional das escolas do campo, expressão do trabalho compartilhado de todos os setores comprometidos com a universalização da educação escolar com qualidade social, constituir-se-á num espaço público de investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o mun- do do trabalho, bem como para o desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável. (BRASIL, 2002, p. 1). Contudo, o que é, o que pode, ou o que deve ser considerado como escola do campo para efeitos do planejamento e efetivação das práticas educativas escolares correspondentes? O questionamento tem sentido especialmente para a realidade territorial catarinense, formada por um grande número de pequenos municípios, que podem ser considerados "territórios rurais", a julgar pelas baixas concentrações nos seus perímetros delimitados como urbanos, e pelas bases estruturais da produção da existência das pessoas que neles vivem. Importantes estudos demonstram o Estado de Santa Catarina, principalmente pelas suas características geográficas e econômicas, como um composto de territórios essencialmente rurais; característica que, em geral, não é levada em conta nos planos institucionais dos sistemas de ensino dos municípios e mesmo do estado. O Decreto Presidencial N° 7.352, de 4 novembro de 2010, no seu §1o, inciso II, define como escola do campo: “[...] aquela situada em área rural, conforme definida pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, ou aquela situada em área urbana, desde que atenda predominantemente a populações do campo” (BRASIL, 2010, p. 1, grifo nosso). 102 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Ora, por essa definição e levando em conta o entendimento expresso anteriormente acerca do continuum que se estabelece na relação campo-cidade, além dos estudos já realizados sobre a realidade catarinense, é possível afirmar que a quase totalidade das escolas situadas nas sedes dos pequenos municípios, assim como muitas das situadas nos médios municípios, e, por fim, determinadas escolas situadas nas periferias das sedes dos municípios maiores do território catarinense – mormente aquelas que recebem residentes do campo ou se inserem em comunidades de migrantes de seu próprio território ou de outros territórios rurais –, podem ou devem ser classificadas como escolas do campo. Desse modo, esteja fisicamente localizada onde quer que seja, uma vez definida como escola do campo, cada uma das unidades assim consideradas, que compõem os diversos sistemas de ensino do território catarinense, deve proceder à elaboração de seu respectivo Projeto Político Pedagógico (PPP) embasado nos princípios e nas normas que conceituam a Educação do Campo e Escola do Campo. Para esse efeito, a definição ou a classificação como escola do campo, quando não está dada de ofício, ou seja, pela sua situação administrativa, deve, antes de tudo, constituir objeto de análise de seu contexto por parte dos sujeitos que a compõem, no âmbito de sua autonomia institucional, com a finalidade de autodefinir-se como tal. Uma vez definida por ofício ou autodefinida como escola do campo, esta deve ser assim reconhecida e assumida pelos sujeitos que a compõem, especialmente seus profissionais e seus estudantes, bem como pelo respectivo sistema ao qual está vinculada. Esses indicativos, tanto para a “autodefinição" quanto para a elaboração do projeto institucional de cada sistema, bem como e principalmente do PPP da escola do campo, encontram-se nos seguintes instrumentos legais nacionais e estadual a serem considerados: em primeiro lugar, os essenciais: a) Parecer CNE/CEB N° 36, de 4 de dezembro de 2001; b) Resolução CNE/CEB N° 1, de 3 de abril de 2002; c) Parecer CNE/CEB, N° 23, de 12 de setembro de 2007; d) Resolução CNE/CEB N° 2, de 28 de abril de 2008 (Diretrizes Complementares); d) Decreto N° 7.352, de 4 de novembro de 2009; e) Resolução CEE/SC Nº 063, de 27 de novembro de 2018, que dispõe sobre normas complementares para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Em segundo lugar, aportes legais de fundo: a) Emenda Constitucional Nº 59/2009; b) a Lei N° 9.394/96 (LDB) - artigos 23, 26 e 28; c) a Proposta Curricular de SC, de 2014, com seção específica para a Educação do Campo (SANTA CATARINA, 2014); d) o Plano Nacional de Educação Lei Nº 13.005, de 25 de junho de 2014; e) o Plano Estadual de Educação (PEE/SC), Lei N° 16.794, de 14 de dezembro de 2015. Para além dos instrumentos legais e normativos, a temática da Educação do Campo já conta com vasta literatura, que sustenta um patamar epistemológico consistente, trazendo análises e sistematizações de muitas experiências exitosas realizadas em todo o Brasil. Destaque-se, para o caso de Santa Catarina, para finalidade de apoio aos processos de planejamento, o Caderno de Políticas de Educação do Campo da SED/20181812, que se encontra disponível na internet. 18 Disponível em: http://www.sed.sc.gov.br/documentos/cadernos-sobre-as-diversidades-e-os-temas-que-os- compoem/7377-caderno-politica-de-educacao-do-campo-nec. Acesso em: 12 maio 2019. 103CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Por fim, esses indicativos e aportes são válidos para se levar em conta a concepção de Educação do Campo já construída por seus sujeitos legítimos, em todas as fases, etapas e modalidades da Educação Básica nas escolas que forem definidas como do campo. Ademais, a Educação do Campo, em que pese ser considerada uma modalidade específica a partir da Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho de 2010, fazer-se, de fato, modalidade ainda é um vir a ser; todavia, tem como possibilidade real de se realizar no bojo do desenvolvimento das outras modalidades em todas as suas fases e etapas. Em resumo, em cada uma das fases e etapas, de cada modalidade que possa ocorrer na escola básica do campo, deve-se considerar, nas áreas do conhecimento da organização curricular, os princípios essenciais que caracterizam a Educação do Campo, tais como: ● Respeito à diversidade do campo em seus aspectos sociais, culturais, ambientais, polí- ticos, econômicos, de gênero e de etnias. ● Ressignificação e recriação da cultura herdada, considerando, particularmente, a pre- sença ou a ausência das organizações e dos movimentos sociais no contexto histórico da comunidade escolar. ● Reconstrução e valorização das identidades culturais. ● Rechaço dos estereótipos do tipo "Jeca Tatu" e do "caipira", presentes na literatura di- dática e paradidática e nos festejos juninos. ● Sustentabilidade como base dos processos de produção e de reprodução da existên- cia humana. ● Interdisciplinaridade e/ou transdisciplinaridade no trado dos objetos das áreas do conhecimento. ● Respeito aos tempos e aos ciclos próprios, cotejados com as condições impostas pela natureza e com os processos de produção e de trabalho no campo. ● Respeito na relação com a terra. ● Acesso dos educandos aos avanços no universo científico e tecnológico e respectivas contribuições para a melhoria das condições de vida e a fidelidade aos princípios éticos que norteiam a convivência solidária e colaborativa nas sociedades democráticas. ● Respeito e valorização da heterogeneidade de ritmos e do capital cultural inerente às origens dos educandos nos processos de ensino-aprendizagem, de modo que, por exemplo, uma sala "multisseriada" possa ser reinventada como espaço privilegiado de troca de saberes, em que o diferente aprende com o diferente. ● Estímulo à produção e ao consumo de alimentos saudáveis. ● Respeito ao efetivo protagonismo dos educandos crianças, jovens e adultos do campo na construção dos processos de ensino-aprendizagem. 105CURRÍCULO BASE DAEDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 1.7 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Consultoras Cléia Demétrio Pereira Geovana Mendonça Lunardi Mendes Colaboradora Ellen Mara da Silva Machado Grupo de Trabalho Airton Kerbes Aline Perazzoli Buratto Ana Claudia Domingues Rauen Andreia Pereira Rabello Link Ariane Domingues de Jesus Bruna de Fátima Goulart Miot Cinara Lino Colonetti Dianete Sganzerla Ogliari Eri Cristina dos Anjos Campos Josiane Soares da Silveira Jucilei Aparecida Blanger Perin Karla Demonti Passos Cathcart Lúcia Aulete Búrigo de Sousa Marisa Fátima Padilha Giroletti Milana Franciele Klock Pinotti Carvalho Monica Denzer Rosângela do Rocio Valentim Ferreira da Silva Rosiane Mendes Rosa La Banca Silvana Weiser Simone das Graças Nogueira Feltrin Solange Stelzner Vilmar Rodrigues 106 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 O cenário atual da Educação Especial no Brasil é resultante de um conjunto de movimentos da sociedade civil organizada e de mudanças no contexto internacional, que culminaram em eventos, entre eles, especialmente, a Conferência Mundial de Educação para Todos (UNESCO, 1990), a Declaração de Salamanca (1994) e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), que tiveram implicações diretas no sistema educacional brasileiro. Desde a Constituição Federal (BRASIL, 1988, Art. 205), a Educação Especial tem ganhado visibilidade na educação geral como um direito de todos e dever do Estado e da família, sem qualquer forma de preconceito ou discriminação, pela sua condição humana de ser e estar no mundo, visando minimizar as desigualdades sociais e promover o sucesso e o bem-estar de todos os estudantes. A Lei Nº 8.069, de 13 de julho de 1990, estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990, Art. 3) e reafirma o direito à educação para todas as crianças e adolescentes, [...] sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem. (BRASIL, 2016, n.p.)1913 Contudo, a Educação Especial no Sistema Nacional de Educação ganha realce com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996, Art. 58), ao demarcar a Educação Especial como "[...] a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação"2014 (BRASIL, 2013, p. 2). Com efeito, a expansão da Educação Especial pelo viés da Educação Inclusiva é consolidada no contexto brasileiro em 2008, ao instituir a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva – PNEEPEI (BRASIL, 2008), regulamentada pela Resolução Nº 4/2009 (BRASIL, 2009) e pelo Decreto Nº 7.611/2011 (BRASIL, 2011), com ênfase dada às necessidades educacionais específicas dos estudantes considerados público- alvo da Educação Especial, mediante o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Em linhas gerais, as políticas educacionais curriculares no território catarinense encontram-se subsidiadas pelas políticas curriculares nacionais e reiteram a escolarização dos estudantes com necessidades educacionais específicas, preferencialmente na rede regular de ensino, com atendimento educacional especializado, de forma a complementar ou suplementar os percursos formativos, regulamentada pela Política de Educação Especial de Santa Catarina (SANTA CATARINA, 2006), pela Proposta Curricular de Santa Catarina (SC, 2014) e pela Resolução Nº 100/2016 (SANTA CATARINA, 2016). 19 Redação alterada pela Lei nº 13.257, de 8 de março de 2016 (BRASIL, 2016). 20 Redação alterada pela Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013 (BRASIL, 2013). 107CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 Conforme a Proposta Curricular de Santa Catarina, [...] a inclusão de estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades/superdotação demanda uma nova organização do trabalho pedagógico a partir da compreensão que se tem sobre diferença na escola e, consequentemente, sobre Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. (SANTA CATARINA, 2014, p. 69). Reconhecer as peculiaridades e as potencialidades desses sujeitos no contexto da Educação Básica torna-se relevante para o momento histórico que se vive, ao definir uma base curricular catarinense, que assegure a educação de todos os estudantes com "equidade", independentemente de suas características individuais, como um princípio democrático e de direito à diversidade presente nos sistemas de ensino. Nessa direção, o estado de Santa Catarina concebe a Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva como uma modalidade de ensino e campo de atuação que transversaliza todos os níveis, as etapas e as modalidades de ensino no contexto geral da educação catarinense, de modo a complementar ou suplementar os percursos de escolarização dos estudantes com necessidades educacionais específicas. Nessa concepção, podemos depreender a Educação Especial como uma parte indissociável da Educação Básica, que, a partir das suas especificidades, pode contribuir para o contexto da escola em suas práticas e repertórios cada vez mais diferenciados para tornar o conhecimento acessível a todos. Assim, cumpre com seu papel fundamental, ao estabelecer a igualdade de direitos na educação escolar para todos, ao mesmo tempo que reconhece as necessidades educativas, limitações e potencialidades desses sujeitos pelo princípio da equidade, com atenção às expectativas de chegada ao final do percurso formativo escolar. A ênfase dada à equidade como princípio norteador das práticas curriculares diferenciadas tem sido frequentemente desafiada no contexto da Educação Básica, pela expansão da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Por isso, ter em conta a diferenciação curricular no acesso aos conhecimentos e no sucesso escolar como ponto de chegada dos percursos formativos dos estudantes identificados como público- alvo da Educação Especial, além do acesso e da permanência na educação escolar, pode potencializar a justiça curricular e equidade. A equidade, nesse contexto da inclusão escolar, visa, essencialmente, a garantia da justiça curricular aos estudantes que, no decorrer de seus percursos de escolarização, ficaram excluídos dos processos de ensino e de aprendizagem. Resgatar a dignidade e o direito a educação de todos requer, fundamentalmente, a ampliação de recursos e de qualidade na efetivação das aprendizagens dos estudantes, formação continuada e permanente 108 CURRÍCULO BASE DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL DO TERRITÓRIO CATARINENSE - 2019 aos profissionais da educação, a criação de uma cultura escolar mediada pelo trabalho colaborativo entre os educadores e os gestores, com a corresponsabilidade de viabilizar a integração da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva no Projeto Político Pedagógico da unidade educativa. Requer, também, que as instituições educativas no território catarinense assumam o compromisso com a escolarização da diversidade escolar e promovam a equidade das práticas curriculares com base na diferenciação curricular, integrada aos componentes curriculares das áreas do conhecimento, compreendida como justiça curricular, além de contemplar o desenho universal de aprendizagem (DUA), com a finalidade de ampliar as alternativas e as possibilidades de estratégias de aprendizagens por meio de adequação, de adaptação, de flexibilização e de diversificação curricular, em articulação com os profissionais do atendimento educacionalespecializado. O DUA visa essencialmente diferenciar e proporcionar alternativas de ensino e aprendizagem nas práticas curriculares, em um contexto de acessibilidade ampliado, visando maximizar a equidade escolar e minimizar as desigualdades dos diferentes percursos de escolarização. Com isso, o Referencial Curricular de Santa Catarina prevê a organização de "[...] um sistema que garanta não apenas a inserção parcial, mais sim a inclusão de todos" (SANTA CATARINA, 2014, p. 71) nos diferentes sistemas educacionais. Nesse sentido, a ideia de equidade aqui defendida também se ancora em um princípio de interseccionalidade. No conjunto de práticas para construir justiça curricular, é preciso desenvolver estratégias capazes de auxiliar no combate aos sistemas de opressão, de dominação e de discriminação muito presentes nas escolas e nos currículos escolares, e que, por vezes, silenciam diferentes identidades. Do mesmo modo, é necessário romper com um "olhar essencializado" da deficiência, que não permite identificar outras identidades sociais desse alunado. Construir práticas com vias a garantir a equidade é compreender as múltiplas identidades sociais que posicionam o sujeito em um contexto social, especificamente, nesse caso, no contexto escolar. Assim, a centralização do discurso em torno de um grupo específico, especialmente os "alunos com deficiência", gera uma especificação do discurso e uma situação bastante paradoxal, tornando a educação inclusiva "seletivamente inclusiva". Outro aspecto importante para o qual é preciso atentar é que a Educação Inclusiva parece não conseguir enfrentar as questões de poder e desigualdade que permeiam as práticas escolares de contextos marginais. Nesse sentido, parece que a capacidade "reconstrutora" da Educação Inclusiva fica diminuída quando não enfrenta as questões de poder que organizam os processos de desigualdade sociais e que se manifestam na escola. Por isso, nas propostas de Educação Inclusiva, equidade e justiça curricular são conceitos- chave, que precisam ser mobilizados por práticas cotidianas de diferenciação curricular. PROPOSTA CURRICULAR (Introdução) 1 Proposta Curricular de Santa Catarina . Educação Infantil . Ensino Fundamental e Ensino Médio (Disciplinas Curriculares) 1998 PROPOSTA CURRICULAR (Sumário) 4 PREFÁCIO esforço para garantir a todos uma educação de qualidade nos levou, desde 1995, a empreender ações que sempre procuraram garantir o maior benefício ao maior número de pessoas possível. A ampliação e a reforma de espaços escolares, a construção de espaços esportivos, a parceria com o Ministério da Educação para garantir a infra-estrutura tecnológica nas escolas que permita o recurso da educação a distância, a introdução da informática educativa, a informatização das secretarias das escolas, a descentralização do orçamento, um amplo programa de formação e capacitação de professores são alguns exemplos de programas e projetos que norteiam nossa ação política de condução da rede pública de ensino de Santa Catarina numa perspectiva da socialização do conhecimento. Consciente da necessidade de atualizar e aprofundar a Proposta Curricular do Estado, constituímos o Grupo Multidisciplinar, para o qual foram selecionados educadores de comprovada formação e destacada ação pedagógica. Confiamos a esse grupo a importante atribuição de incorporar à referida proposta o que há de mais atual nas discussões pedagógicas que considerem a possibilidade de todos aprenderem, pois não nos interessava que fossem acrescidas contribuições que acenassem para a possibilidade de formar poucos gênios ao lado de multidões de analfabetos. Esta versão da Proposta Curricular de Santa Catarina é o resultado de mais de dois anos de trabalho do Grupo Multidiscipinar, que se valeu do auxílio de consultores buscados em Universidades e dos professores da rede estadual de ensino, uma vez que houve uma versão preliminar desta proposta que foi editada e distribuída a todas as escolas estaduais de Santa Catarina, com o intuito de ser lida, discutida e criticada pelos educadores catarinenses. Da incorporação dessas discussões e críticas é que resultou este trabalho, que com certeza servirá como contribuição para melhorar o ensino para todas as crianças e jovens catarinenses, pois é da nossa convicção que todos podem aprender e que a escola é um recurso social fundamental para que isto aconteça. JOÃO BATISTA MATOS Secretário de Estado da Educação e do Desporto O PROPOSTA CURRICULAR (Educação Infantil) 6 INTRODUÇÃO Desde o século XVI, com a colonização portuguesa no Brasil, a educação iniciou sua existência ligada a dois eixos: a cultura portuguesa e os princípios da Companhia de Jesus. Assim, traços fundamentais que o Brasil herdou diretamente de Portugal foram de um lado uma fuga das contribuições do Renascimento (devido ao caráter católico da nação portuguesa) e, por outro, uma grande valorização da assim chamada cultura erudita (que teve como resultado a ênfase na formação de bacharéis e homens de letras). Os períodos em que o Brasil foi Colônia de Portugal (1500-1808), sede do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves (1808-1822) e Império (1822-1889) não foram marcados por nenhuma significativa mudança na educação, ressalvando-se o período de 13 anos que sucedeu a expulsão dos Jesuítas de território português por ordem do Marquês de Pombal (1759) em que, no lugar de uma reforma do ensino ligada aos princípios iluministas, em oposição aos princípios da igreja católica (o que acontecera nos outros estados nacionais europeus que constituiam governos com influência do Iluminismo), não houve educação nenhuma. Com a imigração européia não portuguesa, que teve o mais marcante afluxo no século XIX, outros modelos educacionais foram introduzidos no país, à margem do Estado. Como a oferta do ensino, até então, era restrita a partes do meio urbano, e como esses novos imigrantes traziam já incorporada a necessidade de escola como tradição de seus países, mesmo nas localidades rurais donde muitos vieram, criaram esses suas próprias escolas, trazendo consigo professores (ou improvisando-os) que ensinassem a língua e a cultura de origem. A partir do período republicano (1889-...) passaram a se suceder reformas na educação brasileira que, apesar de procurarem modificar em profundidade os princípios sobre os quais se assentava essa educação, não lograram total êxito até nossos dias. No início da República (1891), a primeira grande reforma da educação no que diz respeito a princípios procurou substituir o caráter apenas erudito da educação brasileira por um caráter científico. Com forte influência positivista, essa reforma procurou introduzir o ensino das ciências, com primazia sobre a literatura, desde os primeiros anos da escolarização, bem como criar institutos científicos para o fomento da pesquisa científica no país. Dessas duas iniciativas, prevaleceu a ciência apenas nos institutos científicos, sem vingar de pronto nas escolas, cuja tradição jesuítica não foi tão logo quebrada. No período do Estado Novo (período ditatorial compreendido entre 1937 e 1945), consideramos importante ressaltar alguns aspectos. A nacionalização do ensino, que consistiu na destruição das iniciativas educacionais comunitárias dos imigrantes, e a instituição da obrigatoriedade do ensino na língua portuguesa; a ampliação da oferta educacional também nas zonas rurais, para fazer frente às escolas dos imigrantes e ao crescente êxodo rural, que era superior ao afluxo populacional que as cidades comportavam com possibilidade de empregar; a introdução de uma dualidade no ensino, com a criação de escolas profissionalizantes para a classe trabalhadora, ao lado das escolas preparatórias ao ensino superior; a introdução dos princípios da assim chamada escola nova, nesse período, contribuiram para a expansãoda oferta educacional, para a mudança de um ensino baseado na memorização de conhecimentos em um ensino baseado na interrelação pessoal, na valorização do aluno enquanto indivíduo e no enfraquecimento do conteúdo curricular. Um outro período ditatorial, comandado por governos militares (1964-1985), que fizeram parte de um movimento de militarização dos governos latino-americanos, para garantir no continente os interesses políticos e econômicos das economias capitalistas desenvolvidas do Norte, marcou a educação com a introdução do tecnicismo, entendido aqui como um movimento que coloca as técnicas educacionais acima dos conteúdos curriculares, a compulsória profissionalização do ensino médio e um patrulhamento ideológico feroz sobre a educação (assim como sobre a sociedade toda), que só permitia o ensino dentro dos princípios aprovados pelo governo e pelos grupos econômicos aos quais o mesmo servia. Com a redemocratização política do país a partir de 1985, ganha corpo um movimento de discussão educacional que já existia nos últimos anos da ditadura militar, de uma forma mais tímida, porque reprimida. Sem nenhuma modificação na legislação do que diz respeito às questões curriculares, a introdução de textos PROPOSTA CURRICULAR (Educação Infantil) 7 ligados a um pensamento mais social no meio educacional introduziu mudanças nesse meio. Se não houve uma imediata transformação da prática educacional, houve pelo menos o despertar de uma discussão aberta sobre uma linha de pensamento que antes, por ser reprimida, só podia ser feita na clandestinidade. O pensamento histórico-cultural na educação, nessa época, no Brasil, entrou pelos textos de Antonio Gramsci (1891-1937) e outros autores pertencentes à mesma vertente teórica, dos quais alguns pensadores brasileiros do meio educacional se tornaram divulgadores e intérpretes. É importante registrar, portanto, que o pensar a educação numa ótica histórico-cultural, no Brasil, nas últimas décadas, está fortemente marcado pela compreensão da ligação da educação com a política e da conseqüente importância da educação das camadas populares como um dos caminhos para a criação de uma nova hegemonia, ligada aos seus interesses. Esse pensamento, num espaço muito curto de tempo, passou da clandestinidade a uma legitimidade institucional. As eleições para governos estaduais realizadas em 1986 deram, nos estados-membros, uma vitória massiva a grupos políticos com perfil de centro-esquerda. Isso possibilitou o acesso a cargos governamentais, em grande parte dos estados brasileiros, de professores que eram partícipes das discussões educacionais a partir do pensamento histórico-cultural. O movimento dos educadores por uma nova perspectiva curricular, portanto, encontrou eco nas instâncias oficiais dos governos estaduais de então, fazendo com que na maior parte do país se trabalhassem novas propostas curriculares, com apoio oficial, no período entre 1987 e 1991. Foi nesse âmbito que se elaborou a primeira edição da Proposta Curricular de Santa Catarina, que foi resultado da discussão e de estudos sistemáticos realizados sob a coordenação da Secretaria de Estado da Educação, entre 1988 e 1991, momento em que se pretendeu dar ao currículo escolar catarinense uma certa unidade a partir da contribuição das concepções educacionais derivadas desse marco teórico. Nesta segunda edição, procura-se aprofundar e rever a proposta curricular do Estado, a partir da versão sistematizada em início de 1991, incorporando as discussões realizadas no âmbito da teoria que lhe dá sustentação desde aquela época, e fazendo um esforço para superar posturas lineares que, eventualmente, pontuavam a primeira edição. Cumpre aqui ressaltar a realização do Congresso Internacional de Educação, em dezembro de 1996, através do qual foram trazidos ao estado discussões muito atuais sobre a pedagogia histórico-cultural que estão sendo realizadas na Alemanha, nos Estados Unidos, na Espanha, na Argentina e no Brasil. Esta edição é resultado do trabalho do Grupo Multidisciplinar, da contribuição de professores de todas as regiões do Estado e do auxílio de consultores buscados em Universidades de diversas partes do país, durante mais de dois anos. O Grupo Multidisciplinar, que trabalhou mais diretamente na sistematização dos textos que compõem esta edição, teve sua formação iniciada em 1995, a partir de um edital divulgado em todo o Estado, para inscrição de candidatos à composição do grupo. A seleção se deu a partir de critérios de formação acadêmica (pós-graduação em nível de Doutorado, Mestrado e Especialização), conhecimento da primeira versão da Proposta Curricular e apresentação de Projeto de Trabalho vinculado teórica e praticamente a essa proposta. Selecionado o grupo, foi formalmente constituído por Portaria do Senhor Secretário de Estado da Educação e do Desporto1, e foi liberado de metade de sua carga horária, para dedicar-se ao Projeto de Revisão e Aprofundamento da Proposta Curricular, cuja culminância se dá com a publicação desta edição. A participação dos professores de todas as regiões do Estado se deu por um amplo processo de conhecimento, análise e crítica de uma versão preliminar desta edição, impressa e distribuída para todas as escolas estaduais de Santa Catarina, em dois âmbitos privilegiados: em todo o processo de capacitação de professores no decorrer de 1997, os textos foram exaustivamente analisados e criticados; além disso, as escolas foram convidadas a fazerem estudos por área do conhecimento, desses mesmos textos. Esse processo resultou em relatórios de todos os cursos de capacitação e de todas as regiões do estado, que contemplaram as contribuições dos educadores catarinenses, nas diferentes áreas do conhecimento, incorporadas posteriormente pelo Grupo Multidisciplinar. 1 As Portarias de constituição do Grupo Multidisciplinar foram: P/2122/SED, de 28.03.96 (DOE 15.405); P/2109/SED, de 28.03.96 (DOE 15.405); P/2595/SED, de 09.04.97 (DOE 15.652); P/2596/SED, de 09.04.97 (DOE 15.652); P/5242/SED, de 10.06.97 (DOE 15.691) e P/5264/SED, de 10.06.97 (DOE 15.691) PROPOSTA CURRICULAR (Educação Infantil) 8 Em termos de amplitude, a presente publicação reúne, em volumes separados, textos referentes às disciplinas curriculares, aos conteúdos de abrangência multidisciplinar e ao curso de Magistério. Dessa forma, esta edição torna possível levar aos educadores, em cada escola de Santa Catarina, uma contribuição para a discussão daqueles conteúdos que fazem parte da responsabilidade de todos os professores, mas que não fazem parte da especificidade das disciplinas com as quais trabalham. A exemplo da primeira edição, a presente não se constitui num ementário de conteúdos por disciplina. Embora muitas das disciplinas relacionem conteúdos, não é esse o ponto principal desta proposta. O importante é o enfoque que é dado para as disciplinas, visto que é através deste que os professores poderão efetivamente melhorar a qualidade da relação pedagógica estabelecida com seus alunos. Aos professores, portanto, interessa o todo desta proposta, uma vez que, recorrendo apenas aos conteúdos explicitados, sem o recurso aos textos que tratam da abordagem teórica acerca desses conteúdos, o professor nada encontrará de novo que lhe auxilie a melhorar a qualidade do seu trabalho. Um esforço intelectual, porém, de compreender os fundamentos teórico-práticos que esta proposta traz em termos de compreensão de mundo, de homem e de aprendizagem, sem dúvida, é compensado com resultados melhores na ação pedagógica de todos e de cada um. PROPOSTA CURRICULAR (Educação Infantil) 9 EIXOS NORTEADORES DA PROPOSTA CURRICULAR Paulo Hentz* Qualquer proposta curricular fundamenta-se, explícita ou implicitamente, em alguns eixos fundamentais. É impensável uma propostra curricular que se dê no espontaneísmo, sem que haja umnorte a partir do qual a mesma se fundamente. Entendemos como eixos fundamentais uma concepção de homem e uma concepção de aprendizagem. Pela primeira, decide-se que homem se quer formar, para construir qual modelo de sociedade. Consequentemente, escolhe-se o que ensinar; pela segunda (que não está descolada da concepção de homem), escolhe-se a maneira de compreender e provocar a relação do ser humano com o conhecimento. Para a Proposta Curricular de Santa Catarina, o ser humano é entendido como social e histórico. No seu âmbito teórico, isto significa ser resultado de um processo histórico, conduzido pelo próprio homem. Essa compreensão não consegue se dar em raciocínios lineares. Somente com um esforço dialético é possível entender que os seres humanos fazem a história, ao mesmo tempo que são determinados por ela. Somente a compreensão da história como elaboração humana é capaz de sustentar esse entendimento, sem cair em raciocínios lineares. Ilustrativo dessa concepção é a afirmação de que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem: não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas a gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos (MARX, 1978). Em termos de conhecimento produzido no decorrer do tempo, esta proposta curricular parte do pressuposto de que o mesmo é um patrimônio coletivo, e por isso deve ser socializado. Essa afirmação, mesmo que à primeira vista pareça simples, implica numa série de desdobramentos. Alguns deles: Falar-se em socialização do conhecimento implica em garanti-lo a todos. Não se socializa nada entre alguns. Isto tem implicações com políticas educacionais que devem zelar pela inclusão e não pela exclusão, tais como campanhas de matrícula abrangentes, capacitação de professores, programas de formação, e com posturas dos professores diante do ato pedagógico, que zelem igualmente pela inclusão, tais como: zelar para que todos aprendam, não apenas os que tenham maior facilidade para tal, garantir que o conhecimento do qual o professor é portador seja efetivamente oportunizado a todos os alunos. Um indicativo da preocupação desta proposta curricular com a radicalidade do significado da socialização do conhecimento é a abordagem do Serviço de Apoio Pedagógico e da Educação Especial, uma vez que o corpo conceitual que lhe dá sustentação não consegue admitir que não se trate da educação escolar das crianças e dos jovens com necessidades educativas especiais. Falar em socialização do conhecimento das ciências e das artes implica também em encarar a relação desse conhecimento com outros saberes, tais como o do cotidiano e o religioso. Não se trata de negar a existência, nem a importância desses saberes, nem de considerar que o aluno chega à escola sem saber nenhum. Nas diferentes áreas do conhecimento, as crianças e os jovens já trazem conceitos elaborados a partir das relações que estabelecem em seu meio extra-escolar, que não podem ser ignorados pela escola. Trata-se de lidar com esses saberes como ponto de partida e provocar o diálogo constante deles com o conhecimento das ciências e das artes, garantindo a apropriação desse conhecimento e da maneira científica de pensar. Com o conhecimento das ciências e das artes, as gerações mais jovens se apropriam de conhecimentos mais complexos e socialmente mais legítimos, uma vez que, a partir do Renascimento (Séc. XVI), o conhecimento que se pôs como dominante na Europa e em todo o mundo então tido como civilizado foi o científico, em substituição ao teológico, cuja legitimidade social reinou absoluta durante toda a Idade Média. É importante notar que a mudança de eixo do conhecimento, da teologia para ciência, não fora um PROPOSTA CURRICULAR (Educação Infantil) 10 acontecimento isolado. Foi decorrência de um conjunto de fatores de ordem econômica e política, ligado à ascensão econômica e política da burguesia e da conseqüente diminuição do poder político da Igreja. Em outras palavras, o clero governava pela teologia, ao passo que, na sociedade burguesa se passou a governar pela ciência. Há, portanto, uma relação do conhecimento considerado mais legítimo em cada tempo, com o poder. Assim, quanto mais esse conhecimento estiver concentrado nas mãos de poucos, maior é a possibilidade de esses poucos controlarem pacificamente a maioria; quanto mais, porém, esse conhecimento for socializado, maior a possibilidade de conquista ou do controle do poder pela maioria. Gramsci (1989)2 chama atenção para a necessidade de as camadas populares terem acesso ao conhecimento próprio da camada dominante da sociedade para se tornarem também governantes. O NOME DA ROSA, de Umberto Eco, serve como ilustração da relação direta entre o conhecimento mais legítimo de uma época com o poder (o conhecimento mais complexo, mesmo da teologia, era escondido também de muitos de dentro da hierarquia da Igreja, para que poucos pudessem mandar mais facilmente em todos). A socialização é sempre socialização de riqueza. À escola não é possível promover a socialização da riqueza material. A socialização da riqueza intelectual – apanágio da escola – no entanto, é um dos caminhos para a socialização da riqueza material. Isto não significa, porém, que basta ter a riqueza intelectual, que a material vem por acréscimo. Significa, por outro lado, que a apropriação da riqueza intelectual abre caminhos para a ação política das camadas populares, capacitando-as para criarem alternativas sociais de maior distribuição da riqueza material. É importante frisar, ainda, sobre este assunto: socializar o conhecimento das ciências e das artes implica também em oportunizar uma maneira científica de pensar. Apenas oportunizar a informação científica, de forma dogmática, acrescenta muito pouco ao preparo intelectual dos alunos, uma vez que as informações científicas, diante da dinamicidade da ciência, tornam-se rapidamente obsoletas. O que não se obsoletiza é a maneira de pensar que permita a autonomia de cada um na compreensão do conhecimento e das informações, na busca e na elaboração de novas informações e de novos conhecimentos, uma vez que a elaboração de novos conhecimentos se dá sempre a partir dos conhecimentos que alguém já tem internalizados. A socialização do conhecimento na perspectiva do universal implica em não se prender a conhecimentos localizados, nem à abordagem localizada do conhecimento. Isto, no entanto, não significa uma postura de desprezo para com a realidade proximal dos alunos, apenas na necessidade de ir para além dela, oportunizando ao aluno o entendimento de que o conhecimento tem características universais. Explicitando melhor: trabalhar com o conhecimento numa perspectiva universal significa saber lidar com a realidade proximal dos alunos, provocando o diálogo dessa realidade com conhecimentos que a expliquem, mas expliquem ao mesmo tempo o mundo. Exemplificando: a história da vida individual de cada aluno pode adquirir um caráter universal, se for compreendida a carga da história universal que determina essa história individual. Em termos de concepções de aprendizagem, pode-se afirmar que, desde a antigüidade, duas concepções básicas convivem e, em diferentes momentos, cada uma delas ganha relevo, em detrimento da outra, que é minimizada. Há diferentes referências a essas concepções. Atualmente, é mais usual chamá-las de inatismo (gestaltismo) e empirismo (behaviorismo, ambientalismo). A primeira delas, com raízes na Grécia antiga, entende que todo o conhecimento tem sua origem em estruturas mentais inatas. Nesta concepção, o conhecimento é anterior à experiência. Na relação sujeito/objeto, não há influência do objeto, uma vez que o mesmo é “parido” pelo sujeito. A segunda, com origem igualmente na antiguidade grega, entende que todo o conhecimento é transmitido, de modo que o sujeito recebe o objetodo conhecimento sem agir sobre ele. No que diz respeito a este assunto, a Proposta Curricular de Santa Catarina faz a opção pela concepção histórico-cultural de aprendizagem, também chamada sócio-histórica ou sociointeracionista. Esta é uma concepção relativamente jovem, embora traga também uma carga conceitual que a liga a diferentes momentos da tradição filosófica, desde a antiguidade. 2 GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 7. a ed. – Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1989, 244 p. PROPOSTA CURRICULAR (Educação Infantil) 11 Esta concepção, na sua origem, tem como preocupação a compreensão de como as interações sociais agem na formação das funções psicológicas superiores. Estas não são consideradas uma determinação biológica. São resultado de um processo histórico e social. As interações sociais vividas por cada criança são, dessa forma, determinantes no desenvolvimento dessas funções. Portanto, a partir deste ponto de vista, há diferença na formação do que se chama normalmente de inteligência, entre uma criança que vive em um meio social intelectualmente rico e outra que vive em um meio social intelectualmente pobre. Ser mais ou menos capaz de acompanhar as atividades escolares deixa de ser visto como uma determinação da natureza, e passa a ser visto como uma determinação social. Nesta perspectiva a criança (sujeito) e o conhecimento (objeto), se relacionam através da interação do social. Não há, portanto, uma relação direta do conhecimento (como algo abstrato) com a criança. Isto equivale a afirmar que o conhecimento não existe sozinho. Existe sempre impregnado em algo humano (ou um ser humano ou uma criatura humana, como o livro, um aparelho, o meio social). Na educação escolar, o professor passa a ter a função de mediador entre o conhecimento historicamente acumulado e o aluno. Ser mediador, no entanto, implica em também ter se apropriado desse conhecimento. A ação educativa que permite aos alunos dar saltos na aprendizagem e no desenvolvimento, é a ação sobre o que o aluno consegue fazer com a ajuda do outro, para que consiga fazê-lo sozinho. Utilizar o tempo que o aluno está na escola para exercitar com ele aquilo que ele já sabe, sem desafiá-lo a algo novo, equivale a fazê-lo perder tempo, uma vez que a repetição do mesmo nada acrescenta ao conhecimento já apropriado ou elaborado até aquele momento. Tentar forçar o aluno a trabalhar questões com as quais não tenha nenhuma familiaridade, além de causar a rejeição por sua parte, traz a dificuldade inerente a trabalhar com algo totalmente estranho. No âmbito desta concepção de aprendizagem, o processo pedagógico passa a ter um sentido ético mais marcado do que em muitas outras concepções. As concepções que permitiam a classificação das crianças e dos jovens em capazes e incapazes de aprender podiam muitas vezes levar a escola a remeter à natureza a responsabilidade pelo fracasso escolar. A concepção histórico-cultural, ao contrário, à medida que considera todos capazes de aprender e compreende que as relações e interações sociais estabelecidas pelas crianças e pelos jovens são fatores de apropriação de conhecimento, traz consigo a consciência da responsabilidade ética da escola com a aprendizagem de todos, uma vez que ela é interlocutora privilegiada nas interações sociais dos alunos. De todos os alunos. *Coordenador Geral de Ensino e coordenador do Grupo Multidisciplinar. BIBLIOGRAFIA GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 7. Ed. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1989. MARX, Karl. O dezoito brumário de Luiz Bonaparte. In: Os Pensadores. São Paulo. Abril, 1974. SANTA CATARINA.PROPOSTA CURRICULAR: Uma Contribuição para a Escola Pública do Pré-Escolar, 1o Grau, 2o Grau e Educação de Adultos. Florianópolis. Secretaria de Estado da Educação/ Coordenadoria de Ensino, 1991. VYGOTSKY, Lev Seminovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Trad. José Cipolla Neto, Luiz Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. 4. Ed. São Paulo. Martins Fontes, 1991. 2020 Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense Caderno 1 - Disposições Gerais ____________________________________________________ 18 APRESENTAÇÃO “Eu quero desaprender para aprender de novo. Raspar as tintas com que me pintaram. Desencaixotar emoções, recuperar sentidos”. (Rubem Alves) Partindo dos dizeres de Rubem Alves, apresentamos este Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense, indicando que ele exige o repensar dos modos e das práticas do fazer escolar, numa constante dinâmica de desaprender para aprender. Este documento, que agora se apresenta, é uma potencial ferramenta norteadora do trabalho pedagógico, no qual os múltiplos saberes se relacionam a partir da organização e da teorização do conhecimento em áreas, com vistas a colaborar com a formação do estudante em sua totalidade e de forma conectada com sua realidade. Espera-se que esta proposta de organização curricular ressoe em um ensino significativo e atrativo, permitindo aos estudantes serem protagonistas de suas histórias no planejar seus percursos escolares e suas vidas com maior consistência, desenvolvendo-se integralmente. A construção deste currículo, alicerçado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), foi pensada no sentido de garantir a mobilização necessária para a participação democrática. Nessa perspectiva, os trabalhos ocorreram alinhados com a União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação (Uncme/SC), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime/SC), a Federação Catarinense de Municípios (Fecam/SC), o Conselho Estadual de Educação (CEE/SC) e a Secretaria de Estado da Educação (SED/SC). O resultado deste processo se deu a partir de um intenso trabalho coletivo, que contou com a participação de mais de 300 profissionais da Rede Estadual de Ensino, atuantes nas diversas esferas da educação. Esta construção democrática reflete a busca contínua por um sólido percurso de construção da Proposta Curricular do Estado, a qual imprime, como neste documento, a multiplicidade das vozes de profissionais da educação. Vale registrar que este documento - Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense - complementa o Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense. Logo, deve-se compreendê-lo como um continuum processo de discussões, a partir do documento já homologado, uma vez que 19 este se constitui como complementaridade daquele. Sendo assim, a educação catarinense passa a contar, a partir de agora, com um documento completo que norteará a educação básica para todo o sistema de ensino, que servirá como um material de apoio para os educadores de todas as etapas do ensino básico e suas modalidades, passando a trabalhar na perspectiva das Áreas do Conhecimento, conectando teoria e prática. Para contextualizar este processo, registramos que a elaboração deste Currículo Base do Ensino Médio foi iniciada em abril de 2019, através do Programa de Apoio à Implementação da Base Nacional Comum Curricular (ProBNCC). Envolveu-se neste trabalho uma equipe de vinte e cinco profissionais da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina, apoiada por uma consultora geral de currículo. Esta equipe realizou o estudo dos principais documentos de referência - a Proposta Curricular de SC; o Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense; a Base Nacional Comum Curricular e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (2018) -, possibilitando, assim, a construção da primeira versão do documento, denominado "Marco Zero". Essa proposição inicial foi submetidaa consulta pública, que recebeu 2.120 contribuições válidas nas diferentes áreas do conhecimento. Após este movimento inicial, foram integrados ao processo, por meio de um edital de seleção que dispunha vagas para professores, gestores e profissionais das Coordenadorias Regionais de Educação de todas as mesorregiões do estado, um total de 254 profissionais da educação efetivos da Rede Estadual de Ensino, os quais foram convidados a atuar como professores elaboradores/colaboradores/formadores, dando continuidade à escrita do documento. Foi programado para participarem, de forma presencial, de um ciclo de três seminários, quando iriam contribuir para o aprofundamento do documento. Porém, estes seminários foram reprogramados por conta da pandemia da Covid-19, elaborando-se um novo cronograma para ocorrer de forma remota (online). Assim, a partir do mês de junho de 2020, os trabalhos foram retomados. Além disso, mobilizaram-se uma equipe de profissionais das diferentes diretorias da Secretaria de Estado da Educação e uma equipe de consultores de cada uma das áreas de conhecimento para a estruturação e concretização do currículo. Alinhados a esse processo, 363 educadores das 120 escolas-piloto do Novo Ensino Médio, no âmbito do ProNem (Programa de Apoio a Núcleos Emergentes), apoiados pela equipe técnica da SED, por especialistas externos, com base nas experiências vivenciadas no processo de 20 implementação do Novo Ensino Médio e nos parâmetros da BNCC, elaboraram o portfólio dos Componentes Curriculares Eletivos que integram este documento. Uma vez que o trabalho estava sendo realizado de forma remota, muitos encontros online foram estabelecidos, partindo de um cronograma geral e também por iniciativa dos grupos de trabalho, que, de forma uníssona, tinham como objetivo elaborar um novo currículo, capaz de produzir novos sentidos e significados aos estudantes, bem como o de favorecer o protagonismo juvenil na realização das escolhas dos itinerários formativos em conformidade com seus projetos de vida. Nessa perspectiva, acredita-se que este documento sirva para romper com anos de desinteresse de grande parte dos estudantes, fator que contribui significativamente para os altos índices de abandono escolar e a baixa proficiência, que demarcam, historicamente, a realidade do Ensino Médio no Brasil. Espera-se, também, que esta proposta contribua para fortalecer o sentimento de pertencimento de estudantes e professores para com a escola, fator determinante para uma educação de qualidade e com melhores resultados. Por fim, conclui-se que este documento, ao mesmo tempo que representa o nosso ponto de chegada, representa também o grande ponto de partida, pois irá referenciar o trabalho educacional por longos anos, tornando-se, assim, um documento vivo, que produza sentidos e significados para os estudantes do Ensino Médio de Santa Catarina. Assim, convidam-se todos os educadores a seguir juntos no desafio de implementar este currículo na prática, nas escolas, que é onde a educação acontece, na perspectiva de que se concretize, neste estado, uma educação pública de qualidade! Finalmente, não poderíamos deixar de mencionar a atipicidade do momento de construção deste importante documento, tecido ao longo de um ano marcado por uma pandemia mundial. Contudo, mesmo diante de todos os desafios e adversidades enfrentadas, saímos vitoriosos: entregamos um currículo que reflete a excelência dos profissionais da Rede Estadual de Ensino. Secretário de Estado da Educação 21 ESTRUTURA DO DOCUMENTO O presente documento integra o Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense (CBTCem), que foi organizado em quatro cadernos: 1. Caderno 1 - Disposições Gerais: textos introdutórios e gerais do Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense; 2. Caderno 2 - Formação Geral Básica: textos da Formação Geral Básica, por Área do Conhecimento, do Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense; 3. Caderno 3 - Parte Flexível do Currículo: Portfólio de Trilhas de Aprofundamento: Portfólio de Trilhas de Aprofundamento que fazem parte dos Itinerários Formativos no Território Catarinense; 4. Caderno 4 - Parte Flexível do Currículo: Portfólio de Componentes Curriculares Eletivos: Portfólio de Componentes Curriculares Eletivos, que fazem parte dos Itinerários Formativos no Território Catarinense. Este caderno representa a primeira sessão do documento, cujo conteúdo é voltado às questões gerais do CBTC para a etapa do Ensino Médio. Contudo, considerando a complexidade do Novo Ensino Médio e as grandes mudanças suscitadas pela Lei 13.415/2017, e pela BNCC a ela vinculada, frisamos, aqui, a importância de apreender este documento em sua totalidade, visando a preservar a compreensão e a coesão do currículo ora apresentado. Isto significa realizar o estudo aprofundado tanto do Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense na íntegra, conforme cadernos acima apresentados, quanto do Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense, que apresentam, com maior ênfase, as questões teóricas e epistemológicas da educação básica e suas modalidades, documento do qual o Currículo do Ensino Médio do Território Catarinense deve ser entendido como continuidade. Bons estudos! Cássia Ferri Maria Tereza Paulo Hermes Cobra 22 1 INTRODUÇÃO: ENSINO MÉDIO NA PERSPECTIVA DO PERCURSO FORMATIVO DA EDUCAÇÃO BÁSICA Em 2019, ao se finalizar a escrita do Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense,1 foram destacados dois princípios fundamentais: o da educação integral e o do percurso formativo. A esse documento integra-se agora o currículo base da etapa do ensino médio. Compreende-se esta etapa como fundamental, por fortalecer os alicerces de uma educação básica que objetiva promover: [...] uma formação que visa à cidadania, à emancipação e à liberdade como processos ativos e críticos que possibilitem ao estudante o pleno desenvolvimento e a apropriação do conhecimento e da cultura historicamente construídos, bem como o protagonismo de seu percurso formativo (SANTA CATARINA, 2019, p. 19). Faz-se necessário relembrar a Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 2010, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a educação básica, e trata, no § 3º de seu Art. 13, do currículo e de suas formas de organização, salientando a necessidade de organização de um percurso formativo, aberto e contextualizado, construído em função das peculiaridades do meio, das características, interesses e necessidades dos estudantes. Ainda neste mesmo artigo e inciso, o texto indica os princípios que devem ser assegurados na elaboração dos projetos pedagógicos de escolas de educação básica. Em 21 de novembro de 2018, a Resolução CNE/CEB nº 3 atualizava as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, expressando, em seu Art. 5º, a necessidade de se observar: os princípios de formação integral; o projeto de vida como estratégia de reflexão sobre a trajetória escolar; a pesquisa como prática pedagógica para inovação, criação e construção de novos recursos, entre outros. Essas duas indicações normativas, somadas à aprovação, em dezembro de 2018, da Base Nacional Comum Curricular para 1 SANTA CATARINA - Secretaria de Estado da Educação. Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense. 2019. Disponível em: http://www.cee.sc.gov.br/index.php/downloads/documentos-diversos/curriculo-base-do-territorio- catarinense/1620-curriculo-base-ed-infantil-e-ens-fundamental-de-sc>. Acesso em: 25 out. 2020. http://www.cee.sc.gov.br/index.php/downloads/documentos-diversos/curriculo-base-do-territorio-catarinense/1620-curriculo-base-ed-infantil-e-ens-fundamental-de-schttp://www.cee.sc.gov.br/index.php/downloads/documentos-diversos/curriculo-base-do-territorio-catarinense/1620-curriculo-base-ed-infantil-e-ens-fundamental-de-sc 23 o Ensino Médio, provocaram um intenso debate acerca da reorganização curricular proposta para a etapa atual da educação básica. Esta construção foi demarcada por movimentos intensos e contraditórios, decorrentes do contexto de produção deste documento, bem como do pluralismo teórico- metodológico que o demarca na condição de uma construção a partir de muitas vozes. Longe de apresentar uma resposta definitiva, procurou-se imprimir às discussões, que subsidiaram a elaboração deste documento, a perspectiva da continuidade do processo de elaboração conceitual. Este processo foi iniciado e proposto no documento da educação infantil e do ensino fundamental, compreendendo que vencer o chamado “etapismo” da educação básica significa, antes de tudo, a tomada de consciência de que se trata de um percurso que merece ser contínuo e compreendido em sua integralidade. Este “percurso formativo”, que se inicia na educação infantil e alcança seu ápice no ensino médio, pode e deve ser acompanhado pelos professores e gestores, repercutindo na elaboração do projeto pedagógico dos cursos e nas escolhas presentes neste documento, norteador do trabalho escolar. Neste continuum, é preciso privilegiar práticas pedagógicas que permitam aos estudantes do ensino médio reconhecer e explorar seus próprios modos de pensar, bem como as estratégias que empregam em situações cotidianas, seja para resolver problemas, seja para interagir com seus pares e com outras pessoas, ou, ainda, para agir nas diversas e complexas situações de seu cotidiano, mobilizando os diversos conhecimentos. A flexibilização curricular, proposta pelos itinerários formativos, é uma importante ferramenta para “dar voz” aos estudantes, tendo como eixo seus projetos de vida, ampliando-lhes o leque de possibilidades e de repertórios culturais. As atividades didático- pedagógicas propostas na Formação Geral Básica e nos Itinerários Formativos compreendem a mobilização dos conhecimentos e das habilidades necessárias para permitir a autorregulação das aprendizagens, consequentemente, a tomada de consciência de que seja possível aprender a aprender, generalizando e transferindo tais ações para as diversas situações cotidianas. A oferta dos itinerários formativos por parte das unidades escolares não pode dar- se de forma aleatória. Devem-se sistematizar os dados coletados a partir dos conselhos de classe, das avaliações de larga escala, das dificuldades que rondam a didática 24 empregada nas salas de aula do ensino médio. Menciona-se que estes dados demonstram que as dificuldades de aprendizagem decorrem, em grande parte, da falta de autonomia, de motivação, de persistência nas tarefas e da ausência de formas apropriadas para gerir o seu próprio modo de aprender. Diante disso, para promover junto aos estudantes a formação integral, tão propalada e desejada, será preciso enfrentar o medo de mudar e encontrar meios para ajudá-los a tecer percursos formativos significativos. 25 2 MARCOS LEGAIS DO NOVO ENSINO MÉDIO A necessidade de mudanças no ensino médio é pauta recorrente nos debates educacionais no Brasil desde os anos 1950. Essa reestruturação está prevista em diversos marcos legais da educação brasileira e é justificada pelos recentes resultados do Ensino Médio, sejam estes referentes às avaliações externas, índices de proficiência, reprovação ou abandono dos estudantes. O Parecer CNE/CEB nº 5/2011 afirma que o ensino médio, tal como se apresenta, está longe de atender às necessidades dos jovens do século XXI, tanto nos aspectos da formação para a cidadania, como para o mundo do trabalho, frustrando suas expectativas, promovendo uma relação paradoxal com a escola. Ao mesmo tempo, os jovens reconhecem seu papel fundamental no que se refere à sua formação cidadã e à empregabilidade, mas não conseguem atribuir sentido imediato à sua aprendizagem, o que resulta em evasão escolar. Comprova este entendimento o diagnóstico da OCDE, realizado em Santa Catarina em 2010, quando afirma que os currículos não estão centrados nos fundamentos estruturantes da formação científica e dos contextos vivenciados pelos alunos e professores. Este formato de abordagem é preponderantemente teórico, expositivo, centrado em informações e memorizações, preso a livros e textos, dificultando, desta forma, a contextualização, a análise, a investigação e a produção própria (SANTA CATARINA, 2012). Diante deste quadro, não há dúvidas de que é preciso pensar novas possibilidades para o ensino médio, no sentido de garantir aos estudantes o direito à aprendizagem, bem como à terminalidade da educação básica. Muitas propostas foram levantadas nos últimos anos, objetivando galgar a universalização do acesso, a qualidade do ensino e a permanência da população de 15 a 17 anos de idade na escola, com especial destaque para o Projeto de Lei (PL) 6.840/2013, que institui a jornada integral no ensino médio e dispõe sobre a organização dos currículos e das áreas de conhecimento. Este projeto tramitou na Câmara Federal, promovendo um movimento de discussão em todo o país, com a realização de audiências públicas, e culminando na elaboração, homologação e publicação da Lei nº 13.415/2017. Nesta esteira, a BNCC, prevista na Constituição Federal de 1988, na LDB/1996 e na Lei nº 13.005/2014, que regulamenta o Plano Nacional de Educação (PNE), contempla 26 as finalidades da educação básica e seu público e as exigências de qualidade na formação das novas gerações. Do início de sua vigência até os tempos atuais, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), atualmente Lei nº 9.394/1996, tem passado por diversas alterações com o objetivo de assegurar o direito à educação de qualidade a todos os brasileiros. Nesse direcionamento, a LDB deixa claro dois conceitos básicos para o desenvolvimento da questão curricular. O primeiro, a relação entre o que é básico-comum e o que é diverso em matéria curricular: as competências e diretrizes são comuns; os currículos são diversos. O segundo está relacionado ao foco do currículo, compreendendo que os conteúdos curriculares estão a serviço do desenvolvimento de competências que garantem as aprendizagens essenciais, e não apenas dos conteúdos mínimos a serem ensinados. Essa orientação induziu à concepção do conhecimento curricular contextualizado pela realidade local, social e individual da escola e do seu alunado, constituindo-se como balizador das diretrizes curriculares traçadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) ao longo da década de 1990, bem como de sua revisão nos anos 2000. Neste mesmo ano, foram lançados os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNem), em quatro partes, com o objetivo de cumprir o duplo papel de difundir os princípios da reforma curricular e orientar o professor na busca por novas abordagens e metodologias. Em 2010, o CNE homologou novas DCN, ampliando e organizando o conceito de contextualização como “a inclusão, a valorização das diferenças e o atendimento à pluralidade e à diversidade cultural, resgatando e respeitando as várias manifestações de cada comunidade”, conforme destaca o Parecer CNE/CEB nº 7/2010. Em 2014, a Lei nº 13.005/2014 promulgou o Plano Nacional de Educação (PNE), que reitera a necessidade de estabelecer e implantar, mediante pactuação interfederativa [União, estados, Distrito Federal e municípios], diretrizes pedagógicas para a educação básica e a base nacional comum dos currículos, com direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento dos(as) alunos(as) para cada ano do ensino fundamental e médio, respeitadas as diversidades regionais, estaduais e locais (BRASIL, 2014). 27Consoante os marcos legais anteriores, o PNE "afirma a importância de uma base nacional comum curricular para o Brasil, com foco na aprendizagem como estratégia para fomentar a qualidade da Educação Básica em todas as etapas e modalidades (meta 7)", referindo-se a direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Em 2017, com a alteração da LDB, por força da Lei nº 13.415/2017, têm-se duas mudanças de grande impacto no ensino médio. A primeira, refere-se à ampliação da carga horária mínima anual de 800 horas, para 1.000 horas, no prazo de cinco anos. A segunda, diz respeito à definição de uma nova organização curricular, contemplando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que define os direitos e objetivos de aprendizagem no ensino médio e trata da oferta de diferentes itinerários formativos (BRASIL, 2017). O Novo Ensino Médio busca atender às necessidades e expectativas dos estudantes dessa etapa, fortalecendo seu interesse, engajamento e protagonismo, com vistas a garantir sua permanência e aprendizagem na escola. Também busca assegurar o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores capazes de formar as novas gerações para lidar com desafios pessoais, profissionais, sociais, culturais e ambientais do presente e do futuro, considerando a intensidade e a velocidade das transformações que marcam a contemporaneidade. Coerente com esta perspectiva, a Portaria nº 1.432, de 28 de dezembro de 2018, em seu Art. 1º, estabelece os referenciais para a Elaboração dos Itinerários Formativos, para atender às Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio, publicadas na Resolução MEC/CNE/CEB nº 3, de 21 de novembro de 2018, e à Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Estes documentos estabelecem que os itinerários formativos são compostos por um conjunto de situações e atividades educativas que os estudantes podem escolher, conforme seu interesse, para aprofundar e ampliar aprendizagens em uma ou mais áreas de conhecimento e/ou na formação técnica e profissional, com carga horária total mínima de 1.200 horas. Nesse direcionamento, complementa-se o que o parágrafo 2º do artigo 12 das DCNem estabelece, ou seja, que os itinerários formativos se organizam a partir de quatro eixos estruturantes: investigação científica; processos criativos; mediação e intervenção sociocultural e empreendedorismo. Como todas as unidades federativas do Brasil, Santa Catarina tem o desafio de implantar o Novo Ensino Médio em todas as escolas do Sistema Estadual de Educação 28 até 2022, em atendimento à legislação vigente. Na rede estadual, o compromisso com a implementação se tem configurado como um processo gradativo, iniciado com a adesão, em 2018, e implementação em 2019, de 120 unidades escolares, denominadas escolas- piloto, por meio da Portaria MEC nº 649/2018, que instituiu o Programa de Apoio ao Novo Ensino Médio. 29 3 MÚLTIPLAS JUVENTUDES DO ENSINO MÉDIO: DIVERSIDADE COMO PRINCÍPIO FORMATIVO Redatoras Letícia Vieira Olires Marcondes do Espírito Santo Mas é no momento do sinal que aumenta o volume de pessoas chegando. Brancos, negros, mulatos, na sua maioria jovens, aparentando idades que variam de 15 a 20 anos, alguns um pouco mais velhos, principalmente mulheres. Vestem-se de formas as mais variadas, predominando jeans e tênis. Começam a entrar por um portão de ferro inteiriço [...] O espaço é claramente delimitado, como que a evidenciar a passagem para um novo cenário, onde vão desempenhar papéis específicos, próprios do ‘mundo da escola’, bem diferentes daqueles que desempenham no cotidiano do ‘mundo da rua’. (Juarez Tarcisio Dayrell) A Proposta Curricular de Santa Catarina (PCSC), em suas diferentes versões e documentos-síntese (1991, 1998, 2005, 2014, e na atual, agora em processo de finalização, com o Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense), assume a diversidade como princípio formativo. Tal compreensão implica a clareza de que a valorização das diferenças não se dá por meio de um “discurso harmonioso, inócuo e pela aceitação de grupos considerados excluídos como uma atitude, apenas, de tolerância”, mas pelo respeito e conhecimento dos diversos sujeitos (PCSC, 2014, p. 56). Trazendo esta reflexão para o cotidiano da escola, importa compreender que a diversidade constitui a identidade dos sujeitos escolares, e, portanto, importa que estes sejam acolhidos em suas diferentes condições de existência e diferentes manifestações. Para isso, é primordial conhecer as especificidades desse público, tanto do que acessa o ensino médio, quanto as do que dele se evade. Dayrell (2007) afirma a existência de uma nova condição juvenil no Brasil contemporâneo e chama a atenção para a mudança do perfil do jovem que chega às escolas de ensino médio, em especial às escolas públicas. Para o autor, as problemáticas da relação entre as juventudes e a escola não se explicam por si mesmas, mas são resultado de mutações profundas na sociedade ocidental. Essas mutações, por sua vez, afetam as instituições, os processos de socialização das novas gerações e a produção social dos indivíduos em seus tempos e espaços. Nessa direção, o ponto de partida para 30 a compreensão dessa relação seria a problematização da condição juvenil atual, partindo de sua cultura, de suas demandas e necessidades. Em outras palavras, para efetivamente acolher essas juventudes, a escola precisa repensar a condição do estudante que adentra o espaço escolar, colocando-o no eixo da discussão. É necessário refletir: quem é esse estudante que chega ao ensino médio? Que dimensões o constituem? A escola deve interrogar-se e lançar luz sobre a necessidade de se pensar efetivamente a constituição das juventudes, privilegiando reflexões sobre as tensões e ambiguidades vivenciadas por esses sujeitos que se constituem alunos num cotidiano escolar que, na maior parte das vezes, não leva em conta a sua condição juvenil (DAYRELL, 2007). Deve-se mencionar, aqui, que compreender a condição juvenil implica não apenas uma análise dos modos como a nossa sociedade atribui significados ao jovem, mas também uma análise processual das situações vivenciadas a partir dos diversos recortes que o constituem enquanto sujeito (classe, trabalho, gênero, etnia, etc.). Importam, assim, tanto a dimensão simbólica da constituição das nossas juventudes, quanto os aspectos materiais, históricos, políticos e os fatos que envolveram e envolvem sua produção. Na mesma direção, Carrano (2003) faz um convite a uma ação reflexiva pautada na recusa da docilização dos corpos, do disciplinamento arbitrário, da uniformidade e da passividade implícita na categoria aluno, realçando uma condição que ultrapassa o mero controle institucional. Para tanto, sugere “pular o muro da escola”, lançando-se a observar a cidade enquanto espaço educativo. Nesse mesmo direcionamento, a Proposta Curricular de Santa Catarina (2014) contribui ao chamar atenção para o fato de que: Procurar abrigar atividades em clubes, espaços religiosos, praças, abrigos diversos para além da estrutura qualificada já existente na escola traz para a educação integral uma ampliação de possibilidades ao transformar o entorno, o bairro ou a cidade em espaços educativos, em salas de referência. A principal indicação é a necessidade de a cidade, grande ou pequena, ser objeto de observação e estudo, permitindo de forma viva e ativa o convívio dos sujeitos com o que ela tem para oferecer, estabelecendo um conhecimento que se torna aprofundado e organizado pelas trilhas, rotas e intervenções possíveis. Nesse sentido, a proposta da educação integral é ampliar o repertório vivencial da vida escolar dos sujeitos, buscando relacionar os conceitos sistematizados às vivências na comunidade (PCSC, 2014, p. 44). 31 Compreender a dimensão educativa de outros espaços frequentadospelos estudantes e dotá-los de importância, entendendo-os também como constituintes desses sujeitos, posto que esses os apreendem ativamente, é primordial. Concordando com Carrano (2003), há que se atentar para o fato de que buscar aproximação com estas vivências implica compreender que a apreensão dos espaços não se dá de forma livre, mas delimitada por coações estruturais, mais ou menos determinantes e mais ou menos duradouras. Por isso, entende-se, como escrevem Cardini e Sanchez (2018, p. 33), que as trajetórias se dão como uma trama que vincula o aspecto estrutural, o institucional e o individual. Partindo dessa compreensão, frisa-se a necessidade de enfatizar a dimensão institucional dessas trajetórias, buscando oferecer experiências e percursos que não obstruam a construção de percursos inclusivos para esses jovens, adultos e idosos. O processo de construção de identidades é ativo, contínuo e dado a partir da apropriação dos diferentes espaços e dos diferentes leques de escolha que se colocam nesses campos sociais, que os estudantes vivenciam de acordo com suas possibilidades de atuação dentro desse universo. Deve-se mencionar que tais escolhas não se dão de forma neutra, sendo, na maior parte das vezes, de natureza conflituosa, já que, por vezes, a situação social e econômica destes sujeitos não entra em concordância com as expectativas e projetos traçados. Para Peregrino, esta condição se encontra numa tênue linha: Numa dinâmica delicada e perigosa como um “fio de navalha”, o “eu” relacional e móvel se redefine continuamente, como resposta a uma dinâmica social que exige dos sujeitos (no caso, os jovens) uma multiplicidade de linguagens e de relações, para que identidades se produzam (PEREGRINO, 2003, p. 193). É importante considerar que os estudantes são também produtores dos espaços e dos conhecimentos que os atravessam, vivenciando as situações educativas para além da condição de meros usuários. Logo, se apreendem os espaços ativamente, configuram- se como praticantes do mundo. Portanto, a escola deve configurar-se como espaço aberto à experienciação, permitindo-lhes a aplicação a valores e a pressupostos, além de lhes proporcionar “práticas de aprender/apreender espaços cheios de linguagens e signos e que implicam passagens e interdições. Confrontos e encontros. Diálogos, monólogos e silêncios” (PEREGRINO, 2003, p. 3). A escola, na condição de espaço educativo, deve permitir aos estudantes as vivências necessárias à construção desse e de outros espaços 32 pelos quais transitam e, de forma indissociada a isto, proporcionar a contínua reformulação de suas identidades, individuais ou coletivas – sendo essas identidades transitórias, fluidas e instáveis, embora tratadas pela ocidentalidade como uma categoria estável. Transformar a escola em um espaço aberto, que dê visibilidade ao estudante jovem, adulto e idoso, como sujeito de aprendizagem e como participante ativo do mundo, exige o transpassar dos “muros da escola” e uma ampliação de olhares para as práticas e vivências de outros espaços educativos. Ao estabelecer diálogo com as diferentes linguagens e diferentes contextos, busca-se posicionar as práticas educativas na tensão dialética “entre as forças de conservação e as forças de transformação do homem e suas circunstâncias de vida” (CARRANO, 2003, p. 15). Este é um posicionamento que implica uma organização do conhecimento que considere o entrelaçamento entre “o tempo de vida do sujeito e o percurso formativo nos diferentes processos de aprendizagem e desenvolvimento, entre o conhecimento sistematizado e a realidade, no processo de elaboração conceitual, sendo reforçado pela cultura em que está inserido” (PCSC, 2014, p. 44). A reformulação curricular por área de conhecimento, apresentada na Base Nacional Comum Curricular, propõe uma melhor articulação entre os saberes de cada área e os saberes próprios de cada componente curricular, bem como da educação técnica e profissional, tendo como objetivo proporcionar aos estudantes do ensino médio uma melhor compreensão e apreensão do conhecimento historicamente acumulado, sem, com isso, descontextualizá-lo. Essa organização, aliada ao planejamento e à postura de trabalho docente coletivo, proporciona uma melhor interação entre professores, seus pares e estudantes, favorecendo articulações dialógicas entre esses sujeitos (PCSC, 2014). Além disso, a BNCC do Ensino Médio estimula à flexibilização dos percursos formativos, via oferta de itinerários, fator que pode figurar como oportunidade de atendimento das reais expectativas de escolha dos estudantes, permitindo-lhes aprofundar os conhecimentos de seu maior interesse. Vale chamar a atenção para a necessidade de se compreender que a organização escolar deve ser pensada com vistas a proporcionar a melhor produção/apropriação possível dos conhecimentos aos diferentes públicos. Logo, importa sobremaneira a compreensão dos sujeitos dentro de seus espaços e condições de vida, 33 “sejam eles urbanos, rurais, das periferias urbanas, quilombos, aldeias indígenas, etc.”, possibilitando o entrelaçamento entre o conhecimento sistematizado e suas realidades, no processo de elaboração conceitual (PCSC, 2014, p. 44). Garantir uma educação que valorize as questões culturais, sociais e econômicas dessas comunidades perpassa múltiplos aspectos que compõem esses sujeitos de forma interseccional, aspectos que coexistem e não excluem todas as suas múltiplas fontes de identidade e de constituição juvenil. Falar do acolhimento das juventudes e da inclusão dessas diferentes juventudes nos espaços educativos e na organização escolar implica falar das especificidades que constituem os sujeitos que compõem essa diversidade. Ganham visibilidade, portanto, as temáticas da Educação Ambiental Formal, da Educação para as Relações Étnico-Raciais, as modalidades de ensino Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas, a Educação Escolar Quilombola, Indígena e do Campo, e, ainda, a Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, dando continuidade ao percurso formativo iniciado a partir da Organização da Base Nacional Comum Curricular e do Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense. A diversidade, nesse contexto, está representada pelos grupos sociais, com suas identidades singulares, que constituem os sujeitos históricos em suas relações com o ambiente e com outros grupos, na produção e na reprodução de suas existências (PCSC, 2014). Logo, deve-se frisar que a organização do Currículo Base do Território Catarinense para a educação básica dá ênfase à obrigatoriedade do ensino, em todas as suas etapas e modalidades, dos conteúdos históricos dos diferentes povos que compõem a diversidade dos estudantes catarinenses: [...] é para aqueles que as diretrizes encaminham formas específicas de ensinar, aprender e de organizar a escola, como é o caso dos indígenas, dos quilombolas, sujeitos do campo, sujeitos da educação especial que têm garantido o seu direito à educação e à acessibilidade por meio de atendimento educacional especializado às suas necessidades específicas; e também para aqueles que se reconstroem em seus direitos, em suas identidades, nos movimentos de direitos humanos [...] (PCSC, 2014, p. 57). Compreender as juventudes implica conhecer os significados que os diferentes recortes socioculturais atribuem à categoria juventude (dimensão simbólica) e, ainda, às 34 situações por elas vivenciadas a partir dos diversos recortes que as constituem (dimensão material) (DAYRELL, 2007, 2016). Importa destacar, por esse ângulo, a fluidez da própria categoria, com diferentes significados e diferentes etnias. Em algumas comunidades indígenas, por exemplo, não existe a categoria “adolescência” ou “juventude” no sentido atribuído pela ocidentalidade,mas uma categorização que compreende existir uma transição direta entre infância, juventude (fase adulta) e velhice. Assim, deve-se perseguir o entendimento de que, “em algumas culturas, uma pessoa pode ser considerada jovem, enquanto que para outros olhares culturais ela poderá ser vista como um adulto, e assim, contrariamente”, como bem afirma Detogni (2015). Além disso, inúmeras questões de constituição da linguagem, das relações consigo, com o outro, com o mundo, com as tecnologias, e inúmeros conflitos advindos dos entrecruzamentos culturais enfrentados, são questões que fornecem elementos para a constituição de material que precisa ser considerado pela organização escolar (SAMANIEGO, 2015). Entende-se ser primordial o desenvolvimento de uma melhor compreensão dos processos de construção de identidades das juventudes que compõem a diversidade catarinense a partir do contexto de suas relações e práticas. Um outro espectro de composição dessa diversidade são as comunidades quilombolas, das quais se devem levar em conta tanto práticas de seu contexto, quanto as implicações de suas relações com os territórios externos, uma vez que é no seio dessa interculturalidade que se forjam, de forma mais ou menos conflituosa, as identidades desses sujeitos. Ressalta-se, aqui, a especificidade da juventude quilombola em relação aos processos de construção da identidade, uma vez que, “nos quilombos, a relação entre território e identidade é intrínseca, estando “intimamente relacionada à ancestralidade, ao sentimento de pertença a um grupo étnico e racial que lutou e resguardou seus modos de vida e território” (SANTOS, 2018, p. 22). Deve-se mencionar, ainda, que a educação escolar quilombola desempenha um papel fundamental na preservação da identidade cultural e dos processos de formação de seus redutos, do passado ao presente. Cumpre salientar, contudo, que todos os espaços educativos devem investir no questionamento de práticas que cristalizam visões ultrapassadas de quilombos e seus povos, bem como combater práticas de dominação e de prenoções discriminatórias em relação aos negros do país (SANTA CATARINA, 2018). 35 Nessa esteira, a escola se configura como espaço de excelência para o estudo das influências dos diversos povos étnicos que compõem o Brasil, de forma especial no ensino de História, já que esta é uma questão assegurada por lei. Avançando ainda na abordagem das múltiplas juventudes, é primordial voltar os olhares para as juventudes do campo, atentando para o fato de que não é possível restringir “a uma única parcela por meio de olhares abstratos tamanha pluralidade e singularidade coletiva” (DETOGNI, 2015, p. 4). A partir de sua própria representação, os “jovens rurais”, como se autodenominam, definem-se como “agricultores familiares, camponeses, assentados da reforma agrária, assalariados, sem-terra, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, extrativistas, oriundos das diferentes regiões do país” (CARTA DO I SEMINÁRIO..., 2012). Esses jovens, que vivenciam diferentes espaços, situações e condições, têm em comum o fato de construir e reconstruir suas identidades num contínuo processo de resistência, luta e transformação do que significa, por si só, permanecer no campo. Definem-se num processo em que conhecer-se e reconhecer-se importa não somente para a constituição de suas identidades (pessoal, social, política, cultural), mas também para o destino do trabalho no campo, desenhado a partir da continuidade e permanência dessas juventudes em seus locais de origem. Logo, é preciso reafirmar a necessidade política e teórica de compreender o fenômeno da Educação do Campo em sua historicidade, trazendo à luz “as contradições e tensões que estão na realidade que a produziu e que a move, e que ela ajuda a produzir e a mover” (CALDART, 2009, p. 38). Mantoan (2004, p. 17) chama a atenção para o fato de que “sendo relacional e dialógico e ao mesmo tempo singular, o ser humano se constrói no encontro com o outro e nos embates com as diferenças”, de maneira que “conviver com o outro, reconhecendo e valorizando as diferenças, é uma experiência essencial à nossa existência”. Apesar de se concordar com a autora, é primordial a compreensão de que estar com o outro não significa, tão somente, estar junto ao outro. Para promover processos que considerem a diferença como valor (estando com o outro) e não somente recebam a diferença (estando junto ao outro), a escola precisa voltar a atenção à composição física, intelectual e sensorial dos alunos que, assim como a dimensão espacial e a cultural, compõe o sujeito em sua diversidade. 36 A partir dessa ótica, cumpre destinar atenção também aos processos de ensino- aprendizagem das pessoas com deficiência, rompendo com o viés assistencialista, por vezes impresso nesses processos, investindo em ações de cunho efetivamente educacional, com a finalidade de aprendizagem e inclusão social destes cidadãos. Faz-se necessário, nessa direção, promover o debate acerca dos pressupostos da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e do que implica efetivamente esse debate. Importa compreender que pensar a educação nessa perspectiva significa reorientar as diretrizes da escola, considerando a diferença humana como valor e repensando suas práticas, de forma a questionar processos de ensino-aprendizagem homogeneizadores, discutindo questões que possam afiançar a efetivação e o êxito de uma pedagogia que considere a diversidade humana. Entende-se que educar na perspectiva inclusiva pressupõe um processo de conscientização política acerca do fato de que todos devem ser agentes do ato educativo como transformação social, a partir do qual se deve desenvolver a capacidade de reconhecer o outro em sua diferença (KITTEL, 2015). É primordial, tomando por base a Política de Educação Especial do Estado de Santa Catarina, compreender que o acolhimento dos estudantes com deficiência, em suas diferenças, reconhecendo-as como valor e promover percursos escolares com equidade, exige não só a inclusão destes jovens na escola, mas reais garantias de aprendizagem em seu percurso escolar, enfocando suas capacidades e reduzindo as barreiras que se colocam ao seu aprendizado. Ainda que se abordem os inúmeros aspectos que compõem o vasto espectro de constituição das identidades das juventudes, não é possível dar conta de apreendê-las em sua totalidade.2 Contudo, é necessário que se amplie o olhar para este movimento que reconhece tal diversidade, acolhendo-a e permitindo que, em suas diferenças, desfrute os espaços escolares como espaços de expressão. Importa ter claro que não existe uma juventude em si, estando essa categoria em constante construção e reconstrução, na medida em que o jovem se relaciona consigo, com o outro e com o mundo. Assim, é preciso considerar as juventudes concretas e reais: 2 Reforça-se, aqui, a necessidade de realizar o estudo aprofundado de cada uma destas temáticas e modalidades da educação básica, a partir da leitura do item “A Diversidade como princípio formativo na Educação Básica”, do Currículo Base da Educação Infantil e Ensino Fundamental do Território Catarinense, documento que antecede e prepara as discussões ora realizadas. 37 [...] aquelas que trabalham desde a infância e pouco estudaram; que trabalham fora de uma perspectiva do capitalismo, ou não; que não trabalham, e estudam aparentemente em melhores escolas; que não trabalham ou estudam e se envolvem na delinquência, dentre tantas outras possibilidades (DETOGNI, 2015, p. 3). Dessa forma, com um olhar voltado à multiplicidade dessas vivências, poderá a escola sair do abstracionismo do sujeito idealizado e aproximar-se do sujeito real, favorecendo a construção de percursos de escolarização efetivamente pautados