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@anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 1 OBJETIVOS − Estudar os transtornos conversivos e diferenciar dos transtornos orgânico-neurológicos; − Diferenciar transtorno conversivo de transtorno factício e simulação; − Diferenciar quais os transtornos que causam alterações somáticas. Transtornos Somatoformes INTRODUÇÃO Os transtornos somatoformes, dissociativos e factícios constituem um desafio diagnóstico e uma das principais causas de incapacidade ao redor do mundo. Como características essenciais desses transtornos, podemos citar sintomas físicos sem qualquer explicação médica. Embora a fisiopatologia dessas condições ainda não seja totalmente conhecida, algumas generalizações foram identificadas, como alterações no sistema límbico e córtex pré-frontal, histórico de abuso e negligência na infância, além de fatores genéticos e possíveis alterações epigenéticas. A maioria dos transtornos dissociativos, somatoformes e factícios permanece sem ser detectada e não é adequadamente tratada pelos profissionais da saúde, acarretando pior prognóstico e maiores complicações para os pacientes. Sintomas físicos sem explicação médica são aqueles que não podem ou não foram suficientemente explicados por causas orgânicas após um exame físico completo. Os sintomas físicos sem explicação podem ser considerados o cerne de uma série de transtornos mentais, entre eles, os somatoformes, dissociativos e factício. Pacientes que apresentam transtornos somatoformes, dissociativos ou factícios são vistos em uma variedade de configurações médicas e, muitas vezes, são fonte de frustração para profissionais da saúde em virtude de suas visitas incessantes a locais de saúde sem a elucidação de seu quadro clínico. TRANSTORNOS SOMATOFORMES, OU TRANSTORNO DE SINTOMAS SOMÁTICOS Diz-se que a somatização está presente quando o sofrimento psicológico ou emocional se manifesta na forma de sintomas físicos que, de outra forma, não têm explicação médica. A apresentação de vários sintomas físicos persistentes, que parecem não ter qualquer base biológica aparente, representa a principal característica dos pacientes com transtornos somatoformes, ou transtorno de sintomas somáticos. Na 5ª edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), a nomenclatura para a categoria diagnóstica conhecida como transtornos somatoformes foi alterada para transtorno de sintomas somáticos e transtornos relacionados, e passou a incluir sete diagnósticos específicos: − Transtorno de sintomas somáticos; − Transtorno de ansiedade de doença (antiga hipocondria); − Transtorno conversivo (transtorno de sintomas neurológicos funcionais); − Fatores psicológicos que afetam outras condições médicas; − Transtorno factício; − Outro transtorno de sintomas somáticos e transtorno relacionado especificado; − Transtorno de sintomas somáticos e transtorno relacionado não especificado. SUBTIPOS DO TRANSTORNO DE SINTOMAS SOMÁTICOS, CONFORME DEFINIDO PELO DSM-5 Transtorno conversivo Um ou mais sintomas neurológicos, como a alteração da função motora voluntária ou sensorial. Inconsistente com uma condição médica conhecida. Transtorno factício Falsificação de sintomas físicos ou psicológicos. Transtorno de ansiedade de doença Preocupação em adquirir ou ter um distúrbio médico sério. Fatores psicológicos que afetam outras condições médicas Deve existir uma condição médica e fatores psicológicos devem afetar negativamente a condição. Outro transtorno de sintomas somáticos e transtorno relacionado especificado Sintomas consistentes com transtorno de sintomas somáticos estão presentes, mas não atendem aos critérios completos para nenhum dos transtornos já citados. Transtorno de sintomas somáticos e transtorno relacionado não especificado Sintomas consistentes com transtorno de sintomas somáticos estão presentes, mas não atendem aos critérios para nenhum dos transtornos já citados; deve ser usado apenas quando @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 2 não houver informações suficientes para fazer um diagnóstico mais específico. ETIOLOGIA A etiologia do transtorno de sintomas somáticos não é clara. No entanto, estudos determinaram que os FATORES DE RISCO para sintomas somáticos crônicos e graves incluem negligência na infância, abuso sexual, estilo de vida caótico/desorganizado e histórico de abuso de álcool e outras substâncias. Ademais, traços de personalidade com alexitimia (dificuldade de expressar emoções) ou neuroticismo (tendências para vivenciar afetos negativos e sofrimento ao longo da vida) são considerados fatores de risco para os transtornos somatoformes. Essa condição é frequentemente acompanhada de outras comorbidades psiquiátricas, entre elas, os transtornos da personalidade. DIAGNÓSTICO O transtorno de sintomas somáticos representa um problema para o médico e para o paciente, pois coloca os pacientes em risco de exames e tratamentos desnecessários, bem como constitui um desafio diagnóstico para o profissional. A principal característica desse transtorno é a preocupação com sintomas físicos atribuídos a uma doença não psiquiátrica. Essa preocupação pode se manifestar como um ou mais sintomas somáticos que resultam em pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos relacionados a esses sintomas e que são angustiantes ou resultam em perturbações significativas da vida diária. Um dos seguintes critérios também deve estar presente: − Reflexões significativas sobre a gravidade dos sintomas; − Alto nível de ansiedade em relação aos sintomas ou − Energia excessiva gasta em relação à preocupação sintomática. Embora os sintomas somáti-cos não precisem estar continuamente presentes, eles devem ser persistentes (devem estar presentes por mais de seis meses). CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DO TRANSTORNO DE SINTOMAS SOMÁTICOS, DE ACORDO COM O DSM-5 Critério A: Um ou mais sintomas somáticos que são angustiantes ou resultam em perturbações significativas da vida diária. Critério B: Pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos relacionados aos sintomas somáticos ou problemas de saúde associados, manifestados por, pelo menos, um dos seguintes: − Pensamentos desproporcionais e persistentes sobre a gravidade dos sintomas de uma pessoa. − Nível persistentemente alto de ansiedade sobre saúde ou sintomas. − Tempo e energia excessivos devotados a esses sintomas ou problemas de saúde. Critério C: Embora qualquer sintoma somático possa não estar continuamente presente, o estado de ser sintomático é persistente (normalmente mais de seis meses). Além disso, deve-se especificar se o diagnóstico é: − Com dor predominante (anteriormente distúrbio de dor) – o especificador é para indivíduos cujos sintomas somáticos envolvem predominantemente dor. − Persistente – caracterizado por sintomas graves, deficiência acentuada e longa duração (mais de seis meses). Ainda, deve-se especificar a gravidade atual: − Leve – apenas um dos sintomas especificados no critério B é atendido. − Moderado – dois ou mais dos sintomas especificados no critério B são atendidos. − Grave – dois ou mais dos sintomas especificados no critério B são atendidos, além de haver múltiplas queixas somáticas (ou um sintoma somático muito grave). Fonte: American Psychiatric Association. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O transtorno de sintomas somáticos deve ser diferenciado de doenças médicas e de outras condições psiquiátricas. É importante considerar as condições médicas que causam sintomas vagos e difusos no diagnóstico diferencial de tal transtorno. Além disso, é preciso levar em conta os sintomas somáticos como parte de um quadro de transtorno do humor ou de ansiedade. Alguns dos problemas a serem analisados incluemos seguintes: − Acidente vascular cerebral; − Esclerose múltipla; − Encefalopatia; − Doença de lyme; − Bócio; − Transtorno depressivo maior (tdm); − Transtornos de ansiedade generalizada (tag); − Transtorno de pânico (tp); − Transtorno de estresse pós-traumático (tept); @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 3 − Transtorno de estresse agudo; − Transtorno por uso de substâncias; − Transtornos psicóticos. TRATAMENTO O tratamento psicoterápico, em especial a terapia cognitivo-comportamental (TCC), é aquele que fornece melhor nível de evidência entre os disponíveis para o transtorno de sintomas somáticos. Com relação à terapêutica medicamentosa, antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), apresentam nível de evidência baixo no tratamento. Outros psicofármacos não foram bem avaliados no contexto de terapêutica para esse transtorno. TRANSTORNOS DISSOCIATIVOS Os transtornos dissociativos são caracterizados por rupturas nas funções geralmente integradas de consciên-cia, memória, identidade, sensações e controle dos movimentos corporais. Segundo o DSM-5, os sintomas dissociativos podem ser experimentados como: − Intrusões espontâneas na consciência e no comportamento, com acompanhamento de perdas de continuidade na experiência subjetiva (como fragmentação de identidade, despersonalização e desrealização); e/ou − Incapacidade de acessar informações ou controlar funções mentais que, em geral, são prontamente passíveis de acesso ou controle (como amnésia). Exemplos de sintomas dissociativos incluem a experiência de desapego ou sensação de estar fora do corpo e perda de memória ou amnésia. Os transtornos dissociativos estão frequentemente associados a experiências anteriores de trauma. TRANSTORNO FACTÍCIO O transtorno factício é caracterizado pela intenção do paciente de produzir sinais ou sintomas de problemas físicos ou mentais. Os comportamentos são voluntários, deliberados e destinados a um objetivo, mas não conseguem ser controlados, sendo considerados de qualidade compulsiva. − Pacientes com transtorno factício simulam, induzem ou agravam a doença para receber atenção médica, independentemente de estarem ou não doentes. Os pacientes com transtorno factício podem fingir sinais (como desmaios), exagerar e dramatizar seus relatos ou até mesmo autoinduzir doenças (como a manipulação excessiva de um corte, tornando-o grave, ou a aplicação de insulina, a fim de causar uma hipoglicemia). Esses pacientes escolhem o papel de doente, uma vez que, com isso, ganham atenção e cuidados. Podemos distinguir duas síndromes no transtorno factício: a síndrome de Munchausen e a síndrome de Munchausen por procuração. − Na primeira, o indivíduo que organicamente não tem nenhuma doença, mas que visa ocupar o papel de paciente, a fim de ganhar atenção e cuidados médicos com essa posição, pode se comportar como portador de um sintoma, chegando até a autoinduzir um sinal de doença, física ou mental. − Na síndrome de Munchausen por procuração, um terceiro faz o indivíduo assumir o papel de doente. Nesse caso, em geral uma mãe usa o filho para que ela própria se coloque no papel de paciente, só que indiretamente, por meio da invenção, exagero ou produção de uma doença na criança. O transtorno factício ocorre tanto na infância e na adolescência quanto na vida adulta. A maioria dos casos é de mulheres jovens, sendo que muitos pacientes tiveram algum contato com profissões da área da saúde. Pode haver lesões autoprovocadas na pele (escoriações, queimaduras, abscessos, impedimento de cicatrização de ferida, etc.), vômitos, além de indução de infecções e febre (injeção de material contaminado no próprio corpo, adição de fezes na urina, aquecimento de termômetro), anemia (retirada de sangue com seringa, indução de hemorragia), hipertireoidismo e hipoglicemia (injeção de insulina ou ingestão de sulfonilureias) e adição de sangue em líquidos corporais coletados para exame. Pode haver a inclusão de sintomas e sinais psiquiátricos, como, por exemplo, ideação suicida. As lesões e os relatos factícios podem ser provocados por terceiros, geralmente a mãe a uma criança. Essa condição é chamada de transtorno factício por procuração, sobre interconsulta de crianças. DIAGNÓSTICO O diagnóstico baseia-se em três critérios principais: − A produção e/ou simulação intencional dos sintomas e sinais predominantemente físicos; − A necessidade de colocar-se no papel do doente; @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 4 − A ausência de incentivos externos (como ganho econômico, fuga de responsabilidade legal ou melhora do bem-estar físico). Esse último critério auxilia na distinção entre transtornos factícios e a simulação, pois nesta, a ação é incentivada por algo externo, que, em geral, é mais fácil de ser identificado, por ser aparente, como as compensações financeiras. Os pacientes com transtornos factícios apresentam gradações da complexidade de seus comportamentos. Eles podem, por exemplo, − Exagerar um problema médico (como exagerar no sintoma de dores nas costas); − Fingir a doença, como falsificar um ataque ou agir como se tivessem múltiplas personalidades; − Falsificar resultados de exames laboratoriais (como pela introdução de açúcar em uma amostra de urina); − Agravar uma doença, o que pode ocorrer se evitar o tratamento inicial, para que um problema pequeno se torne grave; − Induzir uma doença real (por meio de injeções com bactérias/vírus em si próprios). De acordo com o DSM-5, os transtornos factícios são classificados conforme a prevalência de seus sinais, representados pelas características a seguir: 1Com sinais e sintomas predominantemente psicológicos – se sinais e sintomas psicológicos predominam na apresentação clínica. 2Com sinais e sintomas predominantemente físicos – se sinais e sintomas físicos predominam na apresentação clínica. 3Com sinais e sintomas psicológicos e físicos combinados – se sinais e sintomas tanto psicológicos quanto físicos estão presentes, sem predominância de nenhum deles na apresentação clínica. FATORES QUE AUMENTAM A PROBABILIDADE DE O PACIENTE TER TRANSTORNO FACTÍCIO − Apresentação dramática ou atípica de uma doença. − Inconsistências entre a história e as descobertas objetivas. − Detalhes vagos e inconsistentes, embora possivelmente plausíveis na superfície. − Longo histórico médico com múltiplas admissões em vários hospitais em diferentes cidades. − Conhecimento de descrições de livros de doenças; uma apresentação da doença muito próxima do exemplo do livro didático. − Circunstâncias de admissão que não estão em conformidade com um transtorno mental ou médico identificável. − Compreensão incomum da terminologia médica. − Emprego ou educação em um campo relacionado à medicina. − Pseudologia fantástica. − Apresentação no pronto-socorro durante os momentos em que os registros médicos antigos são de difícil acesso ou quando a equipe experiente é menos provável de estar presente (p. ex., feriados e tardes de sexta-feira). − Um paciente que recebe poucas visitas, apesar de ter história de ocupar um cargo importante ou prestigioso ou história que o coloca em um papel heroico. − Aceitação, com equanimidade, do desconforto e risco dos procedimentos diagnósticos. − Aceitação, com equanimidade, do desconforto e risco de cirurgia. − Abuso de substâncias, especialmente de analgésicos e sedativos prescritos. − Sintomas ou comportamentos que só estão presentes quando o paciente está ciente de que está sendo observado. − Comportamento controlador, hostil, zangado, perturbador ou de busca de atenção durante a hospitalização. − Evidência de presença patológica em áreas diferentes dos sintomas apresentados. − Curso clínico flutuante,incluindo rápido desenvolvimento de complicações ou uma nova patologia se os resultados da investigação inicial forem negativos. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Quando se suspeita de um diagnóstico de transtorno factício, é importante considerar outras etiologias prováveis: − SIMULAÇÃO – o fingimento consciente de sintomatologia para obter ganho secundário – é um dos diagnósticos mais difíceis de distinguir do transtorno factício, pois a motivação pode ser difícil de detectar em muitos casos. Portanto, é importante descartar qualquer motivação externa, como ganho monetário ou evasão do trabalho, encarceramento ou serviço militar. − TRANSTORNO DE CONVERSÃO E TRANSTORNO DE SINTOMAS SOMÁTICOS – ambos envolvendo processos subconscientes – também podem ser difíceis de distinguir do transtorno factício. Para fazê-lo, é imperativo encontrar evidências objetivas de comportamento enganoso no transtorno factício. − Pacientes com TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE, especificamente o @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 5 transtorno da personalidade borderline (TPB), ou limítrofe, frequentemente demonstram comportamento enganoso e apresentam automutilação. No entanto, esses indivíduos normalmente admitem terem se automutilado e não fazem isso a fim de obter o papel de doente. Deve-se considerar também que os diagnósticos de transtorno factício e transtorno da personalidade frequentemente coincidem. TRATAMENTO Estudos mostram que o único tratamento eficaz disponível atualmente para transtorno factício é a PSICOTERAPIA. Com base na pesquisa disponível, o uso de medicamentos não melhora significativamente os sintomas desse transtorno. Como os pacientes geralmente apresentam comorbidades psiquiátricas, como o TDM, é importante tratar os sintomas comórbidos de maneira adequada, pois isso pode melhorar indiretamente o comportamento factício. − TDM: transtorno depressivo maior Os pacientes com transtorno factício geralmente são considerados de prognóstico desfavorável. Quando confrontados, a maioria dos pacientes nega seu comportamento e poucos autorizam o tratamento. Daqueles que iniciam a terapia, a maioria desiste. No entanto, há evidências de que os pacientes que persistem com a terapia de longo prazo apresentam desfechos favoráveis. Indivíduos com transtorno factício normalmente apresentam comorbidades psiquiátricas, mais comumente depressão. Pacientes com comorbidades de humor, ansiedade ou transtornos por uso de substâncias em geral têm um prognóstico melhor quando tratados. Os transtornos da personalidade, especialmente o TPB, costumam ser comórbidos com transtornos factícios e, geralmente, esses pacientes têm um prognóstico ruim. TRANSTORNOS CONVERSIVOS Verifica-se uma alteração funcional na motricidade e/ou sensibilidade do paciente, sem que haja um comprometimento anatômico que a justifique e voluntariedade do paciente na produção dos sintomas. As manifestações motoras mais frequentes são paresias flácidas e rígidas, contrações, tremores, crises pseudoepilépticas, tiques, alterações da marcha. Entre os sintomas sensoriais, encontram-se distúrbios visuais, parestesias, hiperestesias e anestesias. Apesar dos sintomas, com frequência, o paciente pode se apresentar calmo e indiferente. O clínico descobre que a manifestação não guarda correlação com os conhecimentos anatomopatológicos. É dado de anamnese importante a ocorrência de um evento desfavorável recente desencadeando ou piorando o episódio conversivo. Uma doença que o paciente teve no passado pode ser a fonte de sintomas conversivos que, no presente, servem para resgatar o paciente de uma situação de estresse. Outra possibilidade é que os sintomas se pareçam com os vivenciados ou observados em outras pessoas em situações de estresse intenso e repentino. Para fazer o diagnóstico, o médico necessita examinar com cuidado o paciente, observando-o sem que ele perceba. Poderá, assim, surpreender movimentos em uma perna “paralisada” e terá de considerar, nesse caso, o diagnóstico diferencial de simulação. Às vezes, os sintomas mantêm-se apenas para determinada atividade. Por exemplo, um paciente que não consegue movimentar as pernas para andar é capaz de cruzá-las durante a entrevista. Do ponto de vista psicodinâmico, entende-se que a conversão é um “grito” do corpo, quando a mente silencia, ou seja, a dissociação é um silêncio. Visa à elisão de eventos e conflitos, uma “queima de arquivos comprometedores”. Às vezes, ocorre de o médico intuir a dimensão simbólica de certos sintomas, ligando-os a um conflito na vida do paciente. Com o sintoma, há o chamado ganho secundário, visto que a pessoa pode conseguir reorganizar, temporariamente, as relações desfavoráveis que experimentava com o meio. O ganho primário seria a defesa contra a grande ansiedade gerada a partir de uma situação conflitiva, permitindo a descompressão psicológica. Via de regra, são pacientes com características de imaturidade, teatralidade e sugestionabilidade. TRATAMENTO DE PRIMEIRA LINHA O tratamento de primeira linha para o transtorno de conversão (transtorno de sintomas neurológicos funcionais) é a educação sobre o diagnóstico, com base em estudos observacionais. O envolvimento terapêutico de pacientes com transtorno de conversão muitas vezes requer explicações repetidas da justificativa para o diagnóstico. Assim, os médicos que administram o tratamento devem entender como o diagnóstico foi feito com base nas características físicas dos sintomas. Com o envolvimento bem-sucedido, os pacientes ficam mais dispostos a assumir alguma responsabilidade com a ajuda dos médicos para melhorar, o que pode reduzir os sentimentos de impotência, frustração e desconfiança tanto para os pacientes quanto para os médicos. Para pacientes com sintomas de conversão que desejam saber a causa, geralmente reconhecemos que, embora seja possível especular, as causas são complexas e muitas vezes incertas. No entanto, salientamos que apesar desta incerteza podemos diagnosticar e tratar o problema. Quando relevante, explique que o paciente não tem uma doença neurológica, como esclerose múltipla, epilepsia @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 6 ou acidente vascular cerebral. Tente recrutar membros da família para ajudar os pacientes a entender o diagnóstico. Diga aos pacientes que, embora não tenham causado os sintomas, eles precisam participar ativamente de sua reabilitação. TRATAMENTO DE SEGUNDA LINHA Para transtorno conversivo com sintomas motores funcionais, sugerimos fisioterapia como terapia de segunda linha. No entanto, a terapia psicológica, especialmente a terapia cognitivo-comportamental (TCC), também é frequentemente usada, concomitantemente ou sequencialmente (depois). Os pacientes podem recusar a psicoterapia porque se recusam a aceitar que os tratamentos “conversados” podem ser benéficos para os sintomas físicos. TRATAMENTO DE TERCEIRA LINHA O transtorno de conversão (distúrbio de sintomas neurológicos funcionais) geralmente não responde aos tratamentos de primeira ou segunda linha; para esses pacientes refratários, sugerimos um dos seguintes: − Farmacoterapia − Hipnose − Psicoterapia Psicodinâmica Breve − Internação Multidisciplinar − Terapia familiar / Terapia de Grupo Os medicamentos mais comumente usados para o transtorno de conversão são os antidepressivos. Ansiedade comórbida ou transtornos depressivos são frequentemente uma indicação para o uso de antidepressivos, como inibidores seletivos da recaptação de serotonina. A presença de dor, especialmente no contexto de ansiedade ou depressão, também é uma indicação para antidepressivos, e pode ser possível usar um medicamento para controlar a dor, ansiedade/depressão e transtorno de conversão. Opções de antidepressivosrazoáveis para transtorno de sintomas somáticos incluem inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs), inibidores de recaptação de serotonina-norepinefrina e tricíclicos de baixa dose. Os antidepressivos devem ser iniciados em doses baixas e aumentados lentamente conforme tolerado para atingir uma dose terapêutica, porque a sensibilidade somática e a ansiedade de saúde nos pacientes criam um baixo limiar para perceber os efeitos colaterais. Em pacientes que relutam em experimentar um antidepressivo por causa de uma sensibilidade geral aos efeitos colaterais, os médicos devem começar com a dose mais baixa possível. Como exemplo, os médicos podem prescrever citalopram ou nortriptilina 10 mg/dia ou duloxetina 20 mg/dia, na primeira semana e, em seguida, titule a dose a cada quatro semanas conforme necessário e tolerado. TRIAGEM Para os médicos que desejam rastrear o transtorno de sintomas somáticos, sugerimos medidas de autorrelato, que podem economizar tempo do entrevistador. No entanto, os instrumentos de autorrelato são mais propensos a falsos positivos do que os instrumentos administrados pelo clínico. Uma característica central do transtorno de sintomas somáticos é a presença de um ou mais sintomas somáticos atuais que são de longa duração e causam sofrimento ou comprometimento psicossocial. Instrumentos autoadministrados que rastreiam sintomas físicos incluem o seguinte: O PHQ-15 é o instrumento mais utilizado para avaliar o número de sintomas somáticos angustiantes, devido às suas propriedades psicométricas bem estabelecidas, brevidade e disponibilidade em múltiplos línguas. Já o Somatic Symptom Scale-8 – A Somatic Symptom Scale- 8 foi derivada do PHQ-15 e é uma medida de oito itens que quantifica a carga de sintomas somáticos A outra característica central do transtorno de sintomas somáticos são pensamentos excessivos, preocupações ou comportamentos relacionados aos sintomas somáticos ou a preocupações com a saúde. Os instrumentos autoadministrados que fazem a triagem desse recurso incluem: Índice de Whiteley de sete itens, que é a medida mais amplamente estudada para a ansiedade em relação à saúde. Possui propriedades psicométricas aceitáveis e inclui subescalas validadas que avaliam doença preocupante (itens número dois, quatro e seis; sensibilidade 0,37, especificidade 0,70 e valor preditivo positivo 0,41) e convicção de doença (itens número três, cinco e sete; sensibilidade 0,63, especificidade 0,87 e valor preditivo positivo. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Nardi, Antonio, E. et al. Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo A, 2021. UpToDate. https://www.uptodate.com/contents/citalopram-drug-information?search=transtornos%20conversivos&topicRef=110022&source=see_link https://www.uptodate.com/contents/nortriptyline-drug-information?search=transtornos%20conversivos&topicRef=110022&source=see_link https://www.uptodate.com/contents/duloxetine-drug-information?search=transtornos%20conversivos&topicRef=110022&source=see_link @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 04 7 Escala de Critérios de Transtorno de Sintomas Somáticos-B de 12 itens, que avalia pensamentos excessivos, preocupações ou comportamentos relacionados a sintomas somáticos, tem propriedades psicométricas boas a excelentes e foi desenvolvida especificamente para o diagnóstico de transtorno de sintomas somáticos. Escores mais altos nesta escala estão associados a maior comorbidade médica geral e aumento da utilização de cuidados de saúde.