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APRENDER JUNTOS NUMA
PERSPECTIVA INCLUSIVA
Lúcia de Araújo Ramos Martins
Luzia Guacira dos Santos Silva
(Organizadoras)
Autores
José Pires
Gláucia Nascimento da Luz Pires
Denise Meyrelles de Jesus
Renata Santos Venturini
Karolini Galimbert Pattuzzo Breciane
Stefhanny Paulimineytrick Nascimento Silva
Leila Regina d’Oliveira de Paula Nunes
Maria Gabriela Lopes Araújo
Cláudia Miharu Togashi
Vera Lúcia Brito Barbosa
Lúcia de Araújo Ramos Martins
Katiene Symone de Brito Pessoa da Silva
Louise Sayonara Guedes Pereira
Francisco de Paula Nunes Sobrinho
Cylene S. Medrado
Suellen Alves de Oliveira dos Santos
Débora Regina de Paula Nunes
Ideia – João Pessoa – 2020
Todos os direitos da organizadora. A responsabilidade sobre textos e imagens
é do respectivo autor(a).
Editoração/Capa: Magno Nicolau
Ilustração da capa
Imagem da capa: Autor Desconhecido. Imagem licenciada em CC BY-NC-ND
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD
A654 Aprender juntos numa perspectiva inclusiva / Lúcia de Araújo
Ramos Martins, Luzia Guacira dos Santos Silva, organizado-
ras. – João Pessoa: Ideia, 2020.
2.2mb; pdf
ISBN 978-65-5608-100-7
1. Práticas educacionais inclusivas - pessoa com deficiência.
2. Espaços educacionais inclusivos. 3.Educação inclusiva.3. I.
Martins, Lúcia de Araújo Ramos. 4. Silva, Luzia Guacira dos San-
tos. II. Título.
CDU 376-056.26
Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Gilvanedja Mendes, CRB 15/810
EDITORA
contato@ideiaeditora.com.br
www.ideiaeditora.com.br
https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/
http://www.ideiaeditora.com.br/
O processo de inclusão impõe compromisso,
participação, compartilhamento, não
apenas de alguns, mas de todos os
profissionais da escola.
(JOSÉ PIRES, 2020)
SUMÁRIO
PREFÁCIO ............................................................................................... 8
Leila Regina d´Oliveira de Paula Nunes
CAPÍTULO 1
INCLUSÃO: UMA REALIDADE EM NOSSOS DIAS? ................................... 11
José Pires
Gláucia Nascimento da Luz Pires
CAPÍTULO 2
POLÍTICAS EDUCACIONAIS INCLUSIVAS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
EM UMA ESCOLA EM SASSARI, SARDENHA – ITÁLIA ............................. 39
Denise Meyrelles de Jesus
Renata Santos Venturini
Karolini Galimbert Pattuzzo Breciane
CAPÍTULO 3
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS PARA PAIS DE CRIANÇAS E JOVENS
COM TEA EM TEMPOS DE ISOLAMENTO SOCIAL .................................... 63
Stefhanny Paulimineytrick Nascimento Silva
Leila Regina d’Oliveira de Paula Nunes
Maria Gabriela Lopes Araújo
Cláudia MiharuTogashi
CAPÍTULO 4
DESAFIOS DOCENTES DA ESCOLA REGULAR DIANTE DA EDUCAÇÃO
DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL NUMA
PERSPECTIVA INCLUSIVA ...................................................................... 83
Lúcia de Araújo Ramos Martins
CAPÍTULO 5
AGIR DOCENTE NUMA ESCOLA INCLUSIVA ..........................................103
Vera Lúcia Brito Barbosa
Lúcia de Araújo Ramos Martins
CAPÍTULO 6
OLHARES DE PROFESSORAS A RESPEITO DA INCLUSÃO DE CRIANÇAS
COM SÍNDROME DE DOWN ................................................................130
Katiene Symone de Brito Pessoa da Silva
Lúcia de Araújo Ramos Martins
CAPÍTULO 7
A PRÁTICA DO ESTUDANTE ESTAGIÁRIO REMUNERADO FRENTE A
EDUCANDOS QUE APRESENTAM DEFICIÊNCIA .....................................153
Louise Sayonara Guedes Pereira
Lúcia de Araújo Ramos Martins
CAPÍTULO 8
O PARADIGMA DA INCLUSÃO: POR UMA AÇÃO
COLABORATIVA BASEADA EM EVIDÊNCIA CIENTÍFICA .........................196
Francisco de Paula Nunes Sobrinho
Cylene S. Medrado
CAPÍTULO 9
COMPREENSÃO DA LEITURA DE EDUCANDO COM AUTISMO:
UM ESTUDO DE CASO .........................................................................225
Suellen Alves de Oliveira dos Santos
Débora Regina de Paula Nunes
SOBRE OS AUTORES ...........................................................................244
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SUMÁRIO
PREFÁCIO
Leila Regina d´Oliveira de Paula Nunes, Ph.D
Programa de Pós Graduação em Educação UFRJ
Foi com muito prazer que recebi o pedido da Profa. Dra. Lucia
Martins para prefaciar mais uma de suas obras no extenso acervo
que ela vem produzindo na área da Educação Especial/ Inclusiva
há muitas décadas em nosso país. Conheci a Profa. Lucia, no início
dos anos 2000 em alguns congressos que ela organiza de longa
data na UFRN e em outros promovidos por outras universidades e
instituições. Sempre me chamou a atenção sua seriedade e compe-
tência em articular os profissionais da Universidade e da Secreta-
ria de Educação do Rio Grande do Norte. Os congressos da UFRN
sempre foram um modelo em termos de organização e profundi-
dade em que os temas eram tratados.
Assim, neste livro, sabiamente intitulado Aprender juntos
numa perspectiva inclusiva, a Profa. Lucia reúne estudos seus e
de diversos autores sempre com o intuito de discutir o fenômeno
da inclusão escolar. Senão vejamos. Pires e Pires apoiando-se em
autores como Piaget, Vigotsky e Wallon, dentre outros, consideram
que em que pese a lentidão das transformações nas escolas, o pro-
cesso de inclusão impõe compromisso, participação, compartilha-
mento, não apenas de alguns, mas de todos os profissionais da es-
cola.
Jesus, Venturini e Breciane apresentam com muita proprie-
dade e riqueza de detalhes uma experiência de pesquisa compa-
rada internacional levada a cabo por pesquisadores da
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SUMÁRIO
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Universidade
de Sassari, na Sardenha (UNISS).
A seguir, Silva, Nunes, Araújo e Togashi expõem uma pesquisa
para verificar o impacto de um manual disponibilizado na internet
de orientação para famílias contendo informações para facilitar a
vidas de pais e de alunos com TEA nesses tempos de isolamento
social.
Em um estudo sobre os desafios docentes da escola regular
diante da educação de alunos com deficiência intelectual, Martins
conclui que uma escola inclusiva deve privilegiar as concepções e
as práticas pedagógicas e sociais, que respeitem a diversidade do
alunado.
Barbosa e Martins, em uma investigação conduzida sobre o
agir docente em uma sala de aula inclusiva, expõem de forma sin-
gular uma escola que usa a questão da deficiência para trabalhar o
preconceito, a aceitação do outro, as diferenças individuais e a po-
tencialidade humana, bem como incentiva a colaboração entre os
alunos, como um elemento importante no processo educativo.
No estudo de Silva e Martins foram coletados dados sobre a
percepção de professoras a respeito da inclusão de alunos com Sín-
drome de Down. Os dados destacaram os benefícios da inclusão es-
colar são extensivos a todos os alunos, pois o convívio com crianças
especiais traz uma variedade de desafios, estímulos, modelos e
oportunidades para todos os alunos.
Pereira e Martins conduziram uma pesquisa ação descre-
vendo e discutindo a prática do estudante estagiário remunerado
junto a alunos com deficiência e concluem que o programa de for-
mação deve contemplar conhecimentos específicos relacionados
ao processo inclusivo, conduzindo os professores e estagiários a
refletirem sobre as necessidades dos educandos com deficiência e
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SUMÁRIO
reconhecer suas possibilidades e potencialidades, no contexto da
escola regular.
Nunes e Medrado conduziram uma revisão integrativa da li-
teraturae concluíram que ações colaborativas baseadas em evi-
dência científica são raras. Destacam ainda a imprecisão no uso de
termos e de conceitos não definidos e largamente veiculados em
educação especial, como por exemplo, inclusão, acessibilidade,
customização e Universal Design. Essas concepções veiculadas em
setores de interface do saber são de significativa importância na
proposição de projetos educacionais.
Finalmente, Santos e Nunes descrevem estudo acerca de hi-
perlexia. As autoras afirmam que uma parcela expressiva de edu-
candos com autismo evidencia prejuízos na compreensão leitora a
despeito das potencialidades na decodificação da escrita. Quando
essa discrepância é acentuada e associada a um distúrbio do de-
senvolvimento, é definido um quadro de hiperlexia, observado já
nos primeiros anos de vida.
Assim, exorto os leitores a mergulhar nos textos e usufruir
os instigantes conhecimentos aqui veiculados e discutidos com
competência pelos autores.
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SUMÁRIO
CAPÍTULO 1
INCLUSÃO: UMA REALIDADE
EM NOSSOS DIAS?
José Pires
Gláucia Nascimento da Luz Pires
INTRODUÇÃO
Inclusão escolar e social: estamos diante da nomenclatura de
uma nova moda em educação, ou de uma realidade que veio para
ficar?
Por longos anos, a sociedade alimentou mecanismos de iso-
lamento social de pessoas com uma deficiência física e ou mental.
Apesar do grande Comenius1 ter alimentado o sonho de algum dia
todas as crianças poderem ser instruídas e terem acesso a uma
educação de qualidade, sem admitir nenhuma discriminação, a in-
clusão das pessoas com necessidades educativas especiais, antes
de chegar à sociedade de nossos dias e às nossas escolas, percorreu
1 João Amós Comenius, em sua Didática Magna (Tratado Universal de ensinar tudo
a todos), iniciada em 1627 e terminada em 1632 foi, ao longo da história da educa-
ção, o primeiro grande defensor de uma educação de qualidade para todos, e es-
candalizou o mundo de seu tempo quando, qual visionário da escola de todos se-
meou na sociedade as sementes da inclusão: “Devem ser enviados às escolas, não
apenas os filhos dos ricos ou dos nobres, mas todos, por igual, nobres e plebeus, ricos
e pobres, meninos e meninas, em todas as cidades, vilas, sítios, lugarejos...”. Foi o
primeiro, também, a pugnar pela inclusão dos deficientes: “Quanto mais alguém é
de natureza lenta ou rude para compreender, tanto mais tem necessidade de ser
ajudado para superar as limitações de sua debilidade e de sua rudeza de espírito”.
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SUMÁRIO
uma longa caminhada. Essa retardada marcha, na realidade, cons-
truiu o que nós poderíamos chamar a história da exclusão das cri-
anças física e psicologicamente “anormais” das instituições escola-
res. Os casos patológicos exigiam a segregação, o enclausuramento,
ou no seio da família ou em instituições especializadas ou médico-
pedagógicas, pois a “anormalidade” – essa não configuração física
ou mental à norma, segundo Binet e Simon constituíam uma “do-
ença” merecedora, portanto, de exclusão.
Os dicionários de Pedagogia, como, por exemplo, o de Ferdi-
nant Buysson2, estabelecem uma lista extremamente variada de
anomalias, integrando a categoria de indivíduos que, do ponto de
vista intelectual e social estão à margem da “norma”, segundo fór-
mula estabelecida pela Escala de Inteligência de Binet e Simon3:
idiotas, cretinos, imbecis, retardados, epiléticos, histéricos, paralí-
ticos, hemoplégicos, indivíduos de instintos perversos, incoerên-
cias de caráter, falta de equilíbrio mental... Trata-se de categorias
de deficiências extremamente diversificadas que, segundo seus ní-
veis mais ou menos acentuados passaram a ser direcionados ora
diretamente para asilos, ora para classes especiais onde eram
acompanhados por educadores em programas de educação espe-
cializada.
2 Ferdinand Buisson. Seu Dicionário de Pedagogia, editado em 1911, já em diversas
edições, na secção relativa aos anormais, organizou os sujeitos com deficiência em
várias categorias: cegos, surdos, mudos, surdo-mudos, deficientes clínico-medicais,
retardados, instáveis. comportando idiotas, cretinos, imbecis, epiléticos, histéricos,
paralíticos, hemiplégicos, instintivamente perversos. Trata-se de definição de ter-
mos nem sempre rigorosamente científicos, embora tenha contribuído para a pri-
meira organização da nomenclatura oficial das pessoas com deficiência, na França.
3 Binet e Simon: A terminologia adotada por esses autores: “anormais”, “retarda-
dos”, mesmo sendo criticada por eles em várias ocasiões, dada suas imprecisões são
termos que conduze a falsas interpretações. Alguns professores incluiriam nesta ca-
tegoria a maioria dos alunos que eles consideram antipáticos. Assim mesmo, seus
escritos fazem sempre referência a seu “retardamento mental”, aos “anormais”,
termos que eles preferiam por estar diretamente associados à escala de inteligência
por eles criada.
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SUMÁRIO
Acrescente-se a tudo isso problemáticas comportamentais
de desordem, indisciplina, violência, muitas vezes ligados a casos
não necessariamente de deficiência, mas às mais diversas situa-
ções de vivência e convivência social, extravasados, muitas vezes,
em comportamentos agressivos na escola.
Por séculos, a sociedade se amoldou a convivência com prá-
ticas que estabelecem barreiras, no acesso à educação, entre o
“normal” e o “patológico”. Essa separação, admitida por longos
anos em obediência à norma, fez com que essa exclusão começasse
também a ser olhada como um duplo benefício: para a criança nor-
mal, seu processo escolar se desenvolvia sem a interferência dos
“retardados”, numa maior economia de aproveitamento do tempo
escolar e de um melhor acesso às aprendizagens, e para a criança
“anormal”, o fato de ela ser encaminhada para uma instituição “es-
pecializada”, isso era para ela uma mais valia, ou uma boa obra, em
benefício da criança e da família!
Foi esta diversificação de comportamentos e atitudes entre
os indivíduos, ao longo da história da psicologia do ser humano,
que levou muitos estudiosos a se debruçarem para compreender
sua gênese e tendências, através do estudo e observação dos indi-
víduos em suas diferentes fases de seu desenvolvimento. Há defi-
ciências somáticas que são congênitas, perfeitamente visíveis e
identificáveis desde a mais tenra infância. Outras, só a observação
atenta, ao longo do desenvolvimento do sujeito em suas diferentes
fases, é que permite sua identificação e, posteriormente, os enca-
minhamentos mais adequados.
APORTES DA PSICOLOGIA GENÉTICA
A psicologia genética sempre achou relevante o acompanha-
mento sistemático da evolução da criança em suas sucessivas fases
de desenvolvimento. Este acompanhamento evidencia-se particu-
larmente relevante e essencial no processo evolutivo da criança
com necessidades especiais.
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SUMÁRIO
Esta observação sistemática é particularmente essencial nos
estágios evolutivos da criança ao longo dos anos que caracterizam
sua “pequena infância”, período pré-escolar, que permite aos pais
acompanharem os processos de desenvolvimento dos sentidos,
dos movimentos somáticos, da inteligência antes e depois do pro-
cesso da aquisição e desenvolvimento da linguagem.
Estas diferentes e sucessivas manifestações infantis observa-
das ao longo de seu processo de desenvolvimento, constituem o
que a psicologia contemporânea denomina genericamente “está-
gios do desenvolvimento infantil”, sucessivamente observados e
analisados por Gesell, Freud, Piaget, Wallon, Tran-Thong, entre ou-
tros.
Também só uma análise atenta do processo de desenvolvi-
mentoda linguagem da criança permite aos pais, por exemplo, a
partir do chamado estágio pré-lógico (entre os 3 – 7 anos) observar
se as suas tentativas de comunicação, quando ainda não são con-
duzidas por um raciocínio verbal: a partir dos 11 – 12 anos são
tentativas que se caracterizam por processos de raciocínio e dedu-
ção, já expressão do caráter pessoal de seu pensamento.
Foi a observação atenta do comportamento da criança a par-
tir do início de seu desenvolvimento psicomotor, que permitiu a
Wallon a identificação dos estágios impulsivo, emotivo, sensitivo-
motor e projetivo, responsáveis dos primeiros níveis sucessivos da
evolução da consciência.
Em suas observações, Wallon, ao analisar a criança turbu-
lenta4, constatou que o desenvolvimento psicomotor pode ser
4 Henri Wallon: Em suas pesquisas sobre a motricidade na criança, objeto de sua
obra “A criança turbulenta” (L’Enfant Turbulan), Wallon realiza uma das obras mais
significativas sobre o retardamento infantil. O autor analisa através da observação
sistemática do comportamento das crianças as anomalias relacionadas ao desenvol-
vimento motor e mental. No Tomo VIII da Grande Enciclopédia Francesa ele re-
toma, de forma mais sintetizada, as principais ideias relativas ao retardamento men-
tal das crianças. Em seus estudos de psicologia genética esse autor, através da ob-
servação comportamental das crianças nas mais diversas situações, trouxe enorme
contribuição ao aprofundamento do conhecimento evolutivo da criança, contributo
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SUMÁRIO
seriamente perturbado devido a deficiências ou lesões nervosas,
provocando diferentes síndromes na criança, como assinergia mo-
tora e mental (falta de coordenação dos movimentos para a concre-
tização da ação, geralmente acompanhada de uma instabilidade
mental), infantilismo motor (provocado por deficiências da ativi-
dade tônica), e sinergias automáticas, (geralmente acompanhadas
de lentidão e lacunas no desenvolvimento intelectual); síndrome de
hipertonia (devido a insuficiências subcorticais e mesenfalias).
Conhecer e acompanhar o desenvolvimento na criança dos
sucessivos estágios – impulsividade motriz, estágio emocional, es-
tágio sensório motor e projetivo, estágio do personalismo, da pu-
berdade e da adolescência, é fundamental para assegurar à criança
e ao adolescente o melhor encaminhamento de seus processos de
aprendizagem, conhecimento também indispensável para lhes as-
segurar um equilibrado processo de inclusão na escola e na socie-
dade, considerando, sempre, nesse processo de desenvolvimento,
as diferentes condições do ambiente familiar, escolar e social, sus-
cetíveis de provocar mudanças qualitativas em seu comporta-
mento.
DO MEIO FAMILIAR AO MEIO ESCOLAR
No complexo configuracional do ser humano, apesar de
quase sempre serem os pais os primeiros a identificarem, no pró-
prio meio familiar, algum tipo de deficiência somática na criança,
causadora de suas primeiras preocupações, angústias e apreen-
sões, é fora do ambiente familiar, particularmente na creche e na
que foi decisivo não apenas para uma redefinição das categorias e estágios do de-
senvolvimento infantil, retificando, particularmente, a análise comportamental das
crianças nas etapas antecedentes à pré-linguagem, objeto também meticulosa-
mente investigado por Piaget e sua equipe. Daí deriva, em parte, a classificação e
organização dos estágios de desenvolvimento da criança observados entre esses
dois autores. Para os interessados no assunto, uma leitura da obra de Thran-Ton–
Estádios e Conceito de Estádio de Desenvolvimento da Criança na Psicologia Con-
temporânea será muito esclarecedora.
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SUMÁRIO
escola que, na interação da criança com seus pares, se manifestam
as primeiras reações comportamentais dos outros em relação à de-
ficiência.
Curioso o ser humano: qualquer um, você, eu, qualquer outro,
todo ser humano, a vida inteira e em qualquer lugar, anda em busca
permanente para se “adaptar” aos outros, ao trabalho, à vida, às
circunstâncias, na relatividade do tempo, dos espaços, e no en-
tanto, quanta dificuldade para aceitar a adaptação e a “inclusão”
dos diferentes!
Considerando o processo educativo, ao nos referirmos às
pessoas com algum tipo de deficiência, talvez seja mais apropriado,
portanto, falarmos de seu comportamento adaptativo e diferenci-
ado relativamente aos três eixos do desenvolvimento humano: o
somático, o psicológico e o sócio afetivo. O processo educativo
volta-se para um desenvolvimento harmonioso desses três eixos.
A realidade, contudo, põe em evidência que um número considerá-
vel de indivíduos se encontra em desarmonia relativamente a es-
ses três fatores em seu processo educativo. Em alguns, a razão está
relacionada a limitações de aspectos físicos; em outros ela pode re-
lacionar-se a aspectos intelectuais ou sócio afetivos, limitações
que, eventualmente, podem constituir-se uma verdadeira ameaça
à personalidade do indivíduo quando no ambiente familiar, esco-
lar, social, a criança não é envolvida por atitudes de coleguismo,
amizade, estima, confiança e inclusão.
Podem conspirar contra isso, contudo, alguns comporta-
mentos ou atitudes geralmente atribuídos por outrem às pessoas
com deficiência, e nossa sociedade sempre alimentou estereótipos
sobre os outros, particularmente em relação à deficiência, talvez
até, quem sabe, para compensar sua irresponsabilidade e falta de
compromisso em relação à mesma, mas aquilo que na realidade é
importante, é o conceito que a pessoa com deficiência constrói de
si mesma, como, na realidade, ela se julga, o que ela, intimamente,
pensa de si mesma: é a construção da imagem de si.
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SUMÁRIO
É evidente que, na maior parte das vezes, uma introspecção
ou autoanálise não se revela atividade fácil para a criança, razão
porque a auto expressão da criança deve ser facilitada pelo recurso
a algumas técnicas, tais desenho, entrevista, questionário oral, pois
o fundamental, para a criança, é que sua condição de deficiente não
pode constituir-se um peso, mas um desafio, que ela vai enfrentar
com determinação, na alegria, na amizade e vontade de uma con-
vivência feliz, junto à família, escola, sociedade, enfim, no enfren-
tamento da vida.
Sonha-se, cada vez mais, com a inclusão. E muito pouco se
avalia, também, o real valor da diferenciação e da singularidade,
variáveis que constituem a maior riqueza da natureza em que vi-
vemos. Daí a importância e necessidade de cada um aperfeiçoar, ao
longo da vida, sua singularidade, pois a grande luta, a grande arte,
é ir melhorando, a cada dia, sua singularidade na (re)construção
de si mesmo. Para isso, na família, existem os pais e demais famili-
ares; nas instituições escolares existem os colegas de classe, exis-
tem os professores, eventualmente, ou quando necessário, os edu-
cadores especializados. Todos têm sua responsabilidade no pro-
cesso. Todos os recursos, os melhores recursos, em cada caso, de-
vem ser utilizados.
Ninguém pense que basta a excelente recepção da escola,
bons professores, uma classe com alunos acolhedores, para que se
julgue incluída uma criança. Isso é a primeira condição, mas não
basta. A essas atitudes é necessário acrescentar a natureza e ade-
quabilidade das ações que vão ser desenvolvidas para que, pro-
gressivamente, a pessoa com algum tipo de deficiência se sinta, efe-
tivamente, incluída.
Isto tão claro, têm, contudo, suas exigências. A inclusão exige
muito da escola. Não basta a simplória boa vontade, chegar na es-
cola, inscrever a criança, integrar uma classe, ter coleguinhas bon-
dosos e amigos, - e sabe-se que isso nem sempre acontece, -e
pronto! Será a ação educativa a ser desenvolvida, as estratégias in-
terventivasa serem acionadas, de acordo com as necessidades e
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 18
SUMÁRIO
exigências de cada caso, que irão comprovar se, efetivamente, a in-
clusão acontece. É como nos sugere a Escritura: “Pelos frutos é que
conhecereis”.
PRECISAMOS DE ESCOLAS INCLUSIVA
Em outras palavras: precisamos de escolas verdadeiramente
inclusivas. Toda uma avaliação séria precisa de ser realizada, não
pelo interesse de saber se sim ou não nossas escolas têm condições
de assegurar a inclusão, mas, objetivamente, para elas criarem as
condições e os recursos para incluir os alunos com necessidades
especiais que as procuram. Isto também não quer dizer que, no
caso da escola pública, todas as instituições disponham, obrigato-
riamente, de todos os recursos materiais e humanos suscetíveis de
assegurar a inclusão de todos, mas que o sistema: federal, estadual
ou municipal ofereça condições de assegurar inclusão plena a to-
dos os alunos com deficiência que procuram essas escolas.
No reconhecimento e na valorização da diferenciação e da
singularidade, é fundamental, igualmente, valorizar o caráter in-
dispensável de um ensino individualizado, mais compatível de res-
peitar o trabalho e o esforço de uma adaptação diferenciada do
aluno em seu processo de desenvolvimento.
É preciso, contudo, reconhecer sempre que nosso otimismo
tem limites: infelizmente, há uma cruel injustiça nas possibilidades
de inclusão escolar e social de ordem biológica: a criança nasce
com uma herança congenital predeterminada em função da quali-
dade de seu potencial cromossomático, herança essa infelizmente
irreversível.
Há patologias graves que marcam o indivíduo para sua vida
inteira: trissomia, debilidade mental profunda, surdez ou cegueira
congênitas, etc., face às quais a própria ciência ainda se revela in-
capaz, mesmo face aos extraordinários avanços da medicina e das
tecnologias. Felizmente, tanto uma quanto outra vem contri-
buindo, em seus recursos, com progressivas melhoras, tais como
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SUMÁRIO
cirurgias, quimioterapias, fisioterapias, utilização de próteses de
diferentes ordens, enfim, os mais sofisticados e diferentes recursos
de ordem terápica e tecnológica, para melhorar o equipamento
funcional do sujeito, e tanto quanto seja possível, lhe permitir as-
sumir comportamentos, atitudes e sucesso em suas aprendizagens
e nas mais diferentes atividades de seu cotidiano.
O grande recurso, contudo, fica por conta da ortopedagogia,
com suas didáticas e instrumentos mais adequados e específicos,
suscetíveis de responder às necessidades de desenvolvimento es-
colar e social desses alunos.
Apesar de alguns indivíduos apresentarem patologias pro-
fundas de caráter físico, psicológico, sensorial, mental, cada vez
mais vamos ficando surpreendidos com os progressos que, de tem-
pos em tempos, se vem verificando em pessoas com patologias gra-
ves em algumas instituições. Trata-se, evidentemente, de casos ra-
ros que vez por outra são verificados, graças à ajuda particular e
excepcional de alguém que aposta, a cada dia, no progresso de suas
performances. Estamos, portanto, diante de um cenário que
aponta para uma dinâmica positiva, e instituições que se empe-
nham em oferecer a seus alunos com alguma deficiência as condi-
ções satisfatórias de um bom funcionamento escolar e social são
instituições que, efetivamente, concretizam junto a esses sujeitos,
um autêntico processo de inclusão.
COISAS QUE ACONTECEM NA ESCOLA...
Mesmo sabendo que, geralmente, para cada caso, existe sem-
pre um conjunto de variáveis aleatórias e diferenciais suscetíveis
de operar, significativamente, sobre os indivíduos, a história esco-
lar de cada aluno com deficiência, é sempre estritamente pessoal.
Mas sem dúvida alguma, um ambiente familiar afetuoso e
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SUMÁRIO
compreensivo, associado a educadores estimuladores e competen-
tes, também exercem forte influência positiva no processo de in-
clusão desses alunos. O estímulo, a atenção e valorização do outro,
o respeito, a solidariedade, enfim, essa pedagogia relacional, carac-
terizada pela qualidade das atitudes e comportamentos do educa-
dor em relação à educação da pessoa com deficiência, é uma di-
mensão privilegiada extremamente fecunda em seu processo de
inclusão. Escolas em condições de desenvolver, como prática for-
mativa, esta pedagogia junto a seus alunos, podem considerar-se,
efetivamente, escolas inclusivas.
Incluir, dentro dos parâmetros necessários e desejáveis, atra-
vés de uma educação consistente, que assegure ao indivíduo um
desenvolvimento equilibrado físico, mental, psicológico, compor-
tamental, impõe à escola a necessidade de estar atenta, igualmente,
para uma série de fatores e sintomas sociofamiliares que se vêm
tornando cada vez mais comuns no cenário social, como a violên-
cia, a depressão, a toxicomania, o racismo extremado, a pornogra-
fia e pornoimagem que, infelizmente, chegam também a atravessar
os muros da escola, desencadear distúrbios comportamentais la-
mentáveis e afetar seriamente a formação equilibrada dos educan-
dos.
É todo um mundo de informação não necessariamente de ca-
ráter educativo circulando através dos mais diferentes veículos de
comunicação, particularmente slides, fotografias, pen-drives,
smartefones, celulares, cada vez mais presentes nas mãos de nos-
sos alunos, isto sem falar ainda do cinema pornográfico, festinhas
privadas de exibicionismo e nudismo provocando ou desencade-
ando distúrbios junto aos nossos jovens. Neste aspecto, família e
escola não podem demissionar-se de suas responsabilidades edu-
cativas, para não correrem o risco de verem seus filhos ou seus
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SUMÁRIO
alunos enveredarem pelo mundo da agressividade, violência, con-
sumação destrutiva de bebidas e drogas.
O aumento significativo das taxas de agressividade nas esco-
las deve alertar pais e educadores a manterem uma permanente
vigilância e a adotar, em casa e na escola, medidas de prevenção
contra estes tipos de violência. A sensibilização e intervenção dos
pais, dos administradores escolares, professores e educadores es-
pecializados, face a esse fenômeno, torna-se cada vez mais neces-
sária para não afetar o processo de inclusão dos alunos com defici-
ência, em princípio mais vulneráveis, e essas estratégias de inter-
venção preventiva devem contribuir para que seus filhos ou seus
alunos não se tornem, de alguma forma, vítimas da violência, da
frustração, da agressividade, da depressão e de comportamentos
de irresponsabilidade.
IMAGEM DE SI MESMO
Dentro do processo de construção da personalidade, e isto
tem tudo a ver com o processo de inclusão do aluno na família, na
escola, na sociedade, na vida, é muito importante que ele tenha
consciência do papel da percepção de si mesmo, ou sua autoima-
gem (como ele se vê), assim como do papel da imagem que eventu-
almente os outros podem fazer dele (como ele é visto).
O processo formativo, em nossa vida, é projeto a ser assu-
mido individualmente por cada um. Família, escola, sociedade, se-
rão sempre auxiliares nessa tarefa. Na escola, seja você aluno com
ou sem necessidades educativas especiais, o grande papel a ser vi-
venciado é a formação de sua personalidade, onde a aprendizagem
de conhecimentos, desenvolvimento de atitudes, relacionamento e
convivência com os outros constituem outros tantos elementos in-
tegrantes desse processo. A construção harmoniosa da
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 22
SUMÁRIO
personalidade implica uma convivência harmoniosa na família,na
escola, na sociedade. Em outras palavras, implica, para cada indi-
víduo, um processo de inclusão.
Como pessoa com deficiência, julguem os outros, de você, o
que quer que seja! Mesmo que alguns ou muitos expressem atitu-
des de “incômodo”, de “rejeição”, de “compaixão”, de “pena”, de “cu-
riosidade” - infelizmente, ainda existe em nossa sociedade um uni-
verso de preconceitos, estereótipos, reações e atitudes negativas e
nocivas em relação à pessoa com deficiência – é fundamental que a
deficiência preconceituosa dos outros não afete seu projeto pes-
soal de educação e construção de sua personalidade. É fundamen-
tal, também, que as atitudes preconceituosas dos outros não ve-
nham afetar sua determinação nem seu desenvolvimento educaci-
onal e pessoal, nem a qualidade relacional e a eficácia do trabalho
dos profissionais responsáveis por sua educação.
Pelo contrário, essas posturas preconceituosas devem cons-
cientizar ainda mais seu trabalho pessoal, o empenho de seus fa-
miliares e o trabalho educativo dos profissionais que zelam para a
concretização de seu processo de inclusão.
Como reação a atitudes preconceituosas dos outros, é funda-
mental a construção de uma imagem positiva de si mesmo.
A noção de conhecimento de si, ou a percepção de sua autoi-
magem é bastante subjetiva e complexa, mas essencial em nossa
existência para o equilíbrio da personalidade, como reconhecia a
sábia advertência socrática: “conhece-te a ti mesmo!” Se esta tenta-
tiva de conhecimento de si é difícil para todos, mas o será, certa-
mente, para uma pessoa com deficiência, mas é um conhecimento
fundamental para que a pessoa, conhecendo-se, adote atitudes que
lhe permitam enfrentar os obstáculos, desafiando-se positiva-
mente a si mesmo.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 23
SUMÁRIO
PROTOCOLOS E PROJETOS
O encaminhamento de uma pessoa com deficiência para ini-
ciar sua escolarização representa para a família uma fase bastante
conflitiva. É como expor publicamente para a escola uma realidade
que alguns pais consideram constrangedora. Com efeito, a admis-
são das crianças com deficiência na instituição escolar não se res-
tringe apenas a uma solicitação da família: ela obedece sempre a
um protocolo de que fazem parte vários fatores. Além das informa-
ções dos pais sobre a situação que envolve a realidade familiar e
da saúde da criança, costuma-se proceder a entrevista psicopeda-
gógica, exame médico, cujas orientações passadas aos educadores
especializados permitiam que os mesmos, durante as primeiras se-
manas de acompanhamento escolar e de uma permanente e atenta
observação, organizassem as diretrizes básicas do programa de
instrução a ser desenvolvido pelos educadores especiais junto à
criança.
Poucas escolas, de início, assumiram a responsabilidade de
receber crianças com necessidades especiais, ou, se por acaso as
recebiam, era que essas primeiras iniciativas, tão estranhas e já tão
distantes, tenham inspirado, ao longo do tempo, o surgimento de
políticas de adaptação e de prevenção nos mais diferentes países.
Sabemos que a nível nacional tudo caminhou lentamente, de uma
forma estritamente ligada à iniciativa de alguns pioneiros.
Segundo Martins, o marco inicial da educação especial foi a
criação, por D. Pedro II, do Imperial Instituto dos Meninos Cegos
(1854), transformado depois em Instituto Nacional dos Cegos
(1870) e, finalmente, em 1891, Instituto Benjamin Constant, nome
que conserva até hoje. A primeira escola de surdos-mudos, no Bra-
sil, surgiu com a criação do Instituto dos Surdos-mudos, também
no Rio de Janeiro, ao tempo capital do País, que passou a ser cha-
mado, por ocasião de seu centenário, Instituto Nacional de Educa-
ção de Surdos.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 24
SUMÁRIO
Instituto Benjamin Constant (Rio de Janeiro)
Fonte: Autor Desconhecido. Imagem licenciada em CC BY-SA
Aos poucos, também, em outras cidades foram sendo implan-
tadas algumas instituições estatais como o Hospital Julliano Mo-
reira (1874), em Salvador, destinado à educação de deficientes
mentais. De uma forma tímida, foram surgindo as primeiras orien-
tações oficiais de responsabilidade governamental, dirigidas aos
Conselhos e Secretarias de Educação dos Estados, até o surgimento
de uma legislação específica de estímulo à inscrição das pessoas
com deficiência nas instituições escolares Entretanto, como afirma
Martins5: “O atendimento educacional às pessoas que apresentavam
5 Martins, Lúcia de Araújo Ramos: A delicada problemática que sempre envolveu as
pessoas com deficiência praticamente na maioria dos países ao longo da história,
marcada por atitudes de rejeição, segregação eliminação, é uma demonstração elo-
quente de que a sociedade sempre se conduziu em relação à deficiência, por uma
lógica de exclusão. Tem sido sustentada uma verdadeira cruzada, ainda inglória,
contra essa lógica, para tentar transformá-la numa lógica da inclusão. É importante
conhecer essa longa luta travada pelo bem contra o mal, pela ética contra a mais
cruel desumanidade. É bom conhecer, ler e refletir sobre essa problemática lendo
com atenção a História da Educação de Pessoas com Deficiência - Da antiguidade
ao início do Século XXI, obra da Dra Lúcia de Araújo Ramos Martins (Mercado de
https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 25
SUMÁRIO
deficiências era ínfimo e ainda centrado em instituições especializa-
das, apesar das campanhas, eximindo-se assim o Estado de sua res-
ponsabilidade de educá-las, e transferindo-a para as organizações
não governamentais”.
DE UMA LÓGICA DA EXCLUSÃO A UMA LÓGICA DE INCLUSÃO
As coisas só começaram verdadeiramente a mudar, não só no
Brasil como em outros países, sob o influxo de organismos inter-
nacionais, como a UNESCO, as Conferências de Educação para to-
dos (1990), Conferência de Salamanca (1994), com vistas à promo-
ção da integração das pessoas com necessidades educativas espe-
ciais nos sistemas regulares do ensino e na sociedade em geral.
Tratava-se, evidentemente, de buscar uma concretude a con-
ceitos evolutivos, pois a análise das mais variadas experiências
suscitadas por esses organismos, ensejaram vasta produção de
descrição, análise e avaliação das mesmas nos mais diferentes pa-
íses, permitindo não só o reajustamento da legislação pertinente,
como, sobretudo, melhorias e aperfeiçoamentos significativos nas
então chamadas “práticas de integração escolar” das pessoas com
deficiência nas instituições de ensino e formação.
Muito cedo se tornou evidente, também, que a chamada falta
de “integração” não afetava apenas os sujeitos com deficiência,
mas também todo o entorno de suas convivências: a instituição fa-
miliar, escolar, social, constituindo-se muitas vezes em sistemas
segregativos, conservadores, desintegradores, suscetíveis de gerar
insegurança emocional, desconfiança, intolerância, rejeição, che-
gando a provocar e gerar, inclusive, a inutilidade da ação pedagó-
gica planejada para o atendimento educacional do aluno na escola.
Letras, 2015), para se integrar, também, nessa cruzada da transformação da segre-
gação numa lógica da inclusão.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 26
SUMÁRIO
De qualquer forma, a problemática da “integração”, suscetí-
vel de inúmeras imprecisões, suscitou o desenvolvimento de novas
atitudes e ações na escola, fora da escola, nas estruturas especiali-
zadas, gerando, inclusive, novas posturas legislativas e multiplica-ção de textos oficiais, assim como compartilhamento, comprome-
timento e responsabilidade de cada segmento no processo de in-
clusão desses sujeitos. Abrem-se, assim, novos caminhos para o
atendimento das pessoas com necessidades educativas especiais,
a começar pela adaptação dos ambientes ao atendimento de tais
necessidades.
Evidentemente, não tem sido fácil o desenvolvimento do pro-
cesso de “adaptação” da escola e das estruturas sociais à pessoa
com deficiência. Muitas vezes, em nome de teorias psicológicas do-
minantes e o estigma das leis de hereditariedade como que justifi-
cando a perenidade das diferenças, passa-se a não dar o devido
crédito à influência do meio educativo. Tem-se evidenciado pro-
gressos, mas estamos longe de nos considerarmos uma sociedade
inclusiva. As instituições, contudo, vem melhorando para se adap-
tar adequadamente ao atendimento das mais diferentes necessida-
des, tanto do ponto de vista de condições físico-estruturais, quanto
de adequação do atendimento educacional especializado, com edu-
cadores qualificados e os recursos tecnológicos indispensáveis a
cada caso.
Às vezes, simples atitudes positivas dos educadores em rela-
ção às pessoas com deficiência conseguem operar transformações
significativas, como ocorreu, no campo da aprendizagem de alunos
com deficiência mental, segundo as experiências que foram desen-
volvidas por Rosenthal e Jacobson, descritas em sua obra: O Pig-
maleão na escola6. Como educadores de um grupo de crianças
6 Rosenthall e Jacobson: São autores da obra Pigmalião na escola. Leitura deveras
cativante, pondo em evidência o papel das expectativas no rendimento escolar dos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 27
SUMÁRIO
foram estimulados a alimentar altas expectativas em relação a al-
guns alunos, suas performances na aprendizagem melhoraram de
forma muito significativa. Ora, o que esses educadores ignoravam
é que se tratava de um grupo de alunos com coeficientes intelectu-
ais bastante abaixo da média! As expectativas positivas dos educa-
dores, comprovaram esses autores, exerceram enorme influência
no rendimento escolar desses alunos.
O processo de inclusão é desafio e tarefa de todos, na escola.
Não se trata, de forma alguma, que seja somente uma equipe, na
instituição, a assumir, sozinha, as responsabilidades do processo
de inclusão. O ideal é que a escola inteira procure adaptar sua ação
educativa e pedagógica à realidade dos alunos. Já é mais do que
tempo que escola e sociedade realizem, definitivamente, a passa-
gem de uma lógica de exclusão para o desenvolvimento dinâmico
de uma política de inclusão.
Ao longo da história, a sociedade tem criado e alimentado as
mais diferentes políticas de exclusão. É essa ideologia da exclusão
e da desigualdade que preside ao fanatismo das castas, à guerra de
religiões, ao antissemitismo, a racismos, como ultimamente o
mundo inteiro pode testemunhar nos movimentos de contrara-
cismo ocorridos nos Estados Unidos, com ecos que se espalharam
alunos, e creditando certa desconfiança quanto à “infalibidade” da norma, expressa
pelo QI. Os autores relatam os resultados de pesquisa em que algumas crianças,
consideradas “retardadas” dentro dos critérios de mensuração da escala métrica de
Inteligência de Binet e Simon.: pelo simples fato dos pesquisadores haverem infor-
mado, secretamente, os professores que se tratava de alunos com um QI elevado,
os resultados da aprendizagem desses alunos passaram a ser muito bons, superiores
até ao dos alunos de QI elevado. Repetidas as experiências em outras instituições,
escolares, foram observados resultados semelhantes, evidenciando que, se não qui-
sermos admitir “variabilidade” nas mensurações da escala de inteligência, ao menos
ficou comprovado que as expectativas positivas dos educadores relativas ao(s)
aluno(s) exercem alto grau de influência nas performances escolares de alunos clas-
sificados com “abaixo da norma” nas mensurações do QI.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 28
SUMÁRIO
por vários países do mundo, sob a slogan “vida dos negros im-
porta!”. Na luta contra as desigualdades, as democracias modernas,
sob a égide dos organismos internacionais, tem se voltado para o
desenvolvimento e implantação de projetos que assegurem a paz,
a concórdia, a colaboração e o desenvolvimento de atitudes e ações
por parte dos cidadãos, conduzidos pela alteridade, reconheci-
mento e aceitação das diferenças e uma luta permanente contra a
exclusão.
O princípio da igualdade de todos os cidadãos implica na vi-
vência de uma cidadania compartilhada, onde todos devem ter
seus direitos respeitados e todos, também, cumpram consciente-
mente seus deveres. Isto significa que face à pessoa com deficiên-
cia, a sociedade tem obrigação de reduzir as distâncias de acesso
aos recursos que a sociedade oferece para todos: educação, traba-
lho, lazer. É isso que necessariamente está implícito numa socie-
dade democrática, onde seus princípios mais essenciais são o res-
peito e a solidariedade. Portanto, o princípio e o direito são a inclu-
são, e o absolutamente inaceitável é a exclusão.
Trata-se, aqui, de uma responsabilidade e obrigação de todos
os membros da sociedade: a luta permanente contra todas as for-
mas de segregação e exclusão, e todos os mecanismos da sociedade
devem ser acionados para assegurar às pessoas com alguma defi-
ciência o melhor atendimento possível em seu processo de desen-
volvimento físico, motor, intelectual, instrucional, ocupacional, vi-
vencial.
A família, sempre mais próxima, é a primeira a aprimorar
suas vivências em relação a seus filhos com alguma deficiência. Em
seguida a escola, cujos educadores e seus dispositivos educacio-
nais são acionados para assegurar sua melhor escolarização e sua
plena inclusão. Em seguida, a sociedade, com todo seu
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 29
SUMÁRIO
aparelhamento e estruturas sociais, desafiada, também, a concre-
tizar, em todas as suas instâncias, sua inclusão.
Sabemos que em todas essas instâncias: família, escola, soci-
edade, haverá, necessariamente, dificuldades para a promoção de
um processo de inclusão plena. Não se pense ser um processo fácil,
harmonioso. Ser diferente, numa escola, na sala de aula, pode, al-
gumas vezes, representar uma luta contra si mesmo, povoada de
perplexidade, receios, angústias, particularmente quando se trata
de deficiência mais profunda física, mental, motora, trissômica ou
sensorial (visão, audição):
- O que todos estes meus colegas estarão pensando de mim?
Como é que eu estou sendo olhado pelos professores, pelos outros”?
O estigma de “deficiente”, para um aluno com deficiência,
pode tornar-se um peso enorme, um peso permanente... E poderá,
algum dia, deixar de sê-lo? Aqui entra em jogo todo um processo
complexo, às vezes demorado, vivenciado e sentido tanto pelo
aluno em questão, quanto pelos colegas de classe, pelos educado-
res, pela família, por todo o entorno social, até que acontece sua
aceitação plena: é esse processo que caracteriza, concretamente, a
inclusão.
Também é preciso considerar, nos dias de hoje, a relatividade
de certas deficiências. Graças aos avanços da tecnologia, certas de-
ficiências auditivas já são adequadamente corrigidas, e as mais di-
ferentes próteses já prestam inumeráveis serviços a certas defici-
ências físicas, tornando menos traumáticas, por exemplo, as ampu-
tações. Muitos progressos, também, vêm acontecendo no campo
das limitações visuais, com o recurso de novas inovações tecnoló-
gicas. Déficits adequadamente compensados tornam a vida de cer-
tas pessoas muito menos traumáticas, elevando harmonicamente
sua autoestima. O auxílio e recurso dos suportes especializados, a
ajuda médica e paramédica,graças à sua ação e intervenção
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 30
SUMÁRIO
benéficas contribui enormemente a melhorar a ação pedagógica,
educativa, terapêutica e social da pessoa com deficiência.
EM BUSCA DE UMA NOVA EDUCABILIDADE
Do ponto de vista de progressos que podem ser operados no
campo da assim chamada deficiência mental, muitas transforma-
ções têm acontecido, suscetíveis até de admitir para o indivíduo
uma nova concepção de educabilidade. Fizemos alguns parágrafos
atrás referência às experiências realizadas por Rosenthal e Jacob-
son provando que alunos com um QI abaixo da média, quando suas
expectativas de melhora são acionadas, conseguem realizar pro-
gressos surpreendentes. Aliás, o próprio Binet, o criador da escala
da inteligência que herdou o seu nome, nos adverte que “é preciso
reagir contra esse pessimismo brutal7, e Delannoy / Passegand, em
sua obra: A Inteligência pode ser educada?”8 ao fazer uma
7 “É preciso reagir contra esse pessimismo brutal”: Binet arrependido? Esta nova
postura de Binet é surpreendente, e resulta das suas diversas experiências junto a
uma clientela escolar que, apesar do afastamento da “norma”, chegava a demons-
trar, em diversas situações, comportamentos reveladores de inteligência perfeita-
mente normal. Em épocas anteriores, ele e seu colega de pesquisas Simon conside-
ravam mesmo que aqueles indivíduos que, nas mensurações de QI se situavam
muito abaixo da norma, não apenas deveriam ser encaminhados diretamente para
“as classes especiais” pois, afirmavam eles, “indivíduos “anormais”, no plano da in-
teligência, são verdadeiros doentes. Acreditar e alimentar “expectativas” de melho-
ras é, sem dúvida alguma, excelente reação contra o preconceito, contra “esse pes-
simismo brutal”. Ao menos nisso, viva Binet!
8 Delannoy e Passegand: São pesquisadores que, na França, vem fazendo uma aná-
lise crítica das teorias sobre a educabilidade cognitiva, direcionando os seus estudos
e as práticas docentes para uma nova concepção de educabilidade. Sua equipe de
pesquisadores desenvolve várias experiências de aprendizagem em diversas esco-
las, utilizando – e experimentando os mais variados recursos, sinteticamente expli-
citados a seguir.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 31
SUMÁRIO
análise crítica sobre a educabilidade cognitiva mostraram que o
Programa PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) de
Feuerstein, os Ateliês de Raciocínio Lógico (ARL) por eles criados,
e a própria linguagem informática LOGO9 são instrumentos que,
de fato, adequadamente explorados, provocam excelentes melho-
ras na aprendizagem junto a crianças com coeficiente intelectual
abaixo da média, melhoras sólidas que o postulado da
• Um desses recursos é o famoso PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental,
criado pelo psicólogo Feuerstein. O programa, de uma dimensão multidimensi-
onal, compreende (a) uma fundamentação teórica, (b) um repertório de instru-
mentos práticos, e (c) um conjunto de ferramentas analítico-didáticas. Tem a
educabilidade cognitiva como uma nova concepção de pensar e fazer educação.
• Outro recurso são os Ateliês de Raciocínio Lógico (ARL), novas tecnologias postas
a serviço da educação, com manipulação de técnicas descontextualizadas das
habituais situações de aprendizagem. Tem se mostrado bastante eficazes para
processos de educação individualizada, de alta concentração da atenção e do
interesse, mas pouco favoráveis ao processo de socialização, tão necessário à
inclusão da pessoa com deficiência.
Outro mecanismo é o GEREX, um suporte para aprendizagem aconselhado
para indivíduos deficientes que gostam ou precisam de trabalhar individualmente,
pois tais suportes favorecem muito os programas de ensino individualizado. Este
recurso está bastante sintonizado com as teorias de Vigotsky, que julgam que exer-
cícios repetitivos e conceitos limitados prejudicam, quando não impossibilitam o
aprendizado, favorecendo a passividade dos alunos. Talvez por isso, o GEREX tem
se mostrado bastante decisivo no enfrentamento de concursos para emprego. Fun-
ciona na base de manipulações técnicas descontextualizadas das situações habituais
de aprendizagem. Tem se revelado bom instrumento de luta contra o fracasso es-
colar, estimulando o interesse e a curiosidade de alunos com deficiência, incutindo-
lhes cada vez mais coragem e esperança. São os novos recursos de uma pedagogia
das aprendizagens cujo postulado é a aposta na educabilidade fortemente centrada
na individualização.
9 O LOGO é outra ferramenta utilizada com grande sucesso como instrumento de
apoio ao ensino. Desenvolvido no contexto da informática educativa, permite a ex-
ploração dos mais diversos temas desenvolvidos em diferentes níveis de profundi-
dade, segundo o interesse e necessidade dos alunos. Todos esses recursos de
grande ajuda para favorecer a aprendizagem de pessoas com deficiência, podem ser
adquiridos pela escola ou por qualquer indivíduo na plataforma AMAZON.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 32
SUMÁRIO
educabilidade e da motivação operam nessa nova pedagogia das
aprendizagens.
Mas foram, sobretudo, as teorias vigotskianas, relacionadas à
“zona proximal de desenvolvimento”, que evidenciam a relação en-
tre a aprendizagem e o processo de desenvolvimento. Para
Vigotsky10, o potencial intelectual da criança permite otimizar as
possibilidades de aprendizagem. A repetição das mesmas coisas,
ou daquilo que já é ou se tornou objeto do conhecimento, não tem
nenhum sentido em termos de um progresso no processo de
aprendizagem. Para esse autor, “o bom ensino é aquele que precede
o desenvolvimento”: ensino orientado para um estágio já adquirido
é, portanto, ineficaz, quer dizer, nem é ensino! Não provoca, nem de-
sencadeia o desenvolvimento”.
Esse modelo de interação social, na realidade, foi como uma
revolução copérnica, que permitiu, no plano da educabilidade, de-
senvolver as funções cognitivas junto aos deficientes. Esta zona de
desenvolvimento potencial de aprendizagem é um desafio às pos-
sibilidades de aprendizagem do aluno, diretamente associado à
10 Vigotsky: Em seu conjunto, suas obras, sinteticamente, giram em torno do desen-
volvimento intelectual, causando enorme impacto no pensamento de toda uma ge-
ração de psicólogos e pesquisadores. Ele insiste, sempre, na criatividade, odeia a
repetição do já conhecido, desafiando o aprendiz a enfrentar sempre o novo. En-
quanto Piaget admite que a repetição reforça a aprendizagem – uma aposta na me-
mória -, Vigotsky demonstra que, na sua já tão conhecida “zona de desenvolvimento
proximal” a repetição do ensino não suscita a criatividade nem a aprendizagem do
novo. Sua teoria da atividade mediadora foi uma revolução no uso de estratégias da
atividade cognitiva, no campo da aprendizagem, fazendo que o indivíduo, em vez
de somente “repetir”, conseguida por ele próprio, com a ajuda dos mestres – a me-
diação – criar, descobrir o novo. A capacidade do indivíduo em criar novas estrutu-
ras mediante a mediação, reforça seu ego, valoriza, no aluno seu esforço de apren-
der e assim aceder a um novo nível de aprendizagem.
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SUMÁRIO
capacidade dos educadores identificarem e acreditarem na poten-
cialidade do aluno, coisa que nenhum QI poderia suscitar.
O desenvolvimento de processos de aprendizagem centrados
na mediação, e a aposta no desenvolvimento potencial da aprendi-
zagem do aluno ajuda a pessoa com deficiência a construir positi-
vamente sua auto imagem, aumentando, também, a auto estima, o
que representa um ganho em seu processo de aprendizagem.
Esta educabilidade cognitiva, assim como o assumir expecta-
tivas positivasem relação à aprendizagem do aluno com deficiên-
cia, acreditar que ele é capaz de aprender, fazê-lo acreditar nisso,
estimulá-lo a desenvolver suas potencialidades, é meio caminho
andado na concretização de seu processo de inclusão.
A inclusão supõe, da parte da escola, o desenvolvimento de
um projeto de ação educativa junto ao aluno, em suas dimensões
educacional, psicológica, terapêutica, social, quer dizer, atendi-
mentos especializados. Supõe-se, igualmente, que isso represente
um dos segmentos do próprio projeto político pedagógico da insti-
tuição.
O projeto de atendimento do aluno deve ser atentamente
acompanhado e adequadamente avaliado pelos educadores, para
terem condições de retificar, reforçar ou otimizar as ações junto ao
aluno. Cada instituição deve planejar tais projetos de acordo com a
realidade concreta do aluno. Aquilo que é importante é que o
mesmo seja realista, com definição clara dos objetivos, as formas
de intervenção, locais e horários, indicação dos meios e recursos
para concretizar os objetivos, procedimentos e avaliação continu-
ada.
É importante observar que o processo de inclusão das pes-
soas com necessidades especiais, na escola, supõe e inclui a parti-
cipação dinâmica dos atendimentos especializados, condição que
muitas vezes é objeto das mais diferentes restrições em nossas
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 34
SUMÁRIO
escolas. Na falta de condições, muitas escolas deixam certos cuida-
dos especializados sob responsabilidade da família, ou passam a
ser objeto de atendimentos especializados assumidos pelas Secre-
tarias de Educação, dentro de calendários, horários e locais por
elas estabelecidos. Bem articulados, e adequadamente avaliados,
dentro dos objetivos do projeto, estes serviços contribuirão enor-
memente para assegurar ao aluno um processo coerente de inclu-
são.
Fica evidente que, no campo da educação, da educação espe-
cializada e terapêutica, cada caso é um caso, e face à grande diver-
sidade de necessidades, ou de deficiências, é indispensável olhar
cada caso com o máximo de objetividade, atenção, respeito e res-
ponsabilidade. Cada encaminhamento tem que ser realizado da
forma mais adequada, com profissionalismo e responsabilidade,
para que o aluno exerça sua autonomia, se sinta sempre acolhido,
apoiado e motivado, e possa progredir em seus esforços de supe-
ração.
CONCLUSÃO
Inclusão: uma realidade de nossos dias?
A inclusão, que pais, pessoas com deficiência, professores,
educadores especializados tanto lutam empenhadamente para ver
implantada na família, na escola, na sociedade, vem acontecendo, a
cada dia, devagar, mas olhada no conjunto de nossa sociedade,
ainda é sonho de uma realidade distante.
No âmbito de nossas escolas é tal a lentidão de seu avanço,
que às vezes parece caminharmos para a estagnação. Ainda há
muito descaso, muita indiferença em nosso sistema educacional
em relação à educação das pessoas com necessidades especiais,
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 35
SUMÁRIO
assim como é extremamente frágil, em nossa sociedade, o cumpri-
mento rigoroso da legislação que a regulamentou em nossas esco-
las e no meio social. Na maior parte dos casos, o atendimento de
pessoas com necessidades especiais, em nossas escolas, ainda é
olhado e tratado como uma exceção, e frequentemente torna-se ví-
tima do descaso.
Sabemos que o processo de inclusão, na escola, necessita de
coragem, vontade, determinação, vigor, profissionalismo, não ad-
mitindo improvisação. A inclusão impõe compromisso, participa-
ção, compartilhamento, não apenas de alguns, mas de todos os pro-
fissionais da escola.
Inclusão supõe empenho, aceitação, mas não promete mila-
gres. Visa sempre o melhor possível, mas dentro dos limites, ou nos
limites do possível, embora o possível, em certos casos, admita va-
riabilidades. É que o processo da inclusão é como uma caminhada,
ou, como afirmaram Hudson e Kennedy: “Wherethere’s a Will,
there’s a Way”: onde há uma Vontade, aí é o Caminho!
Nossa sociedade ainda é por demais segregativa, extrema-
mente fechada em si mesma, pouco solidária, pouco dada a atitu-
des de alteridade, presa ao seu egoísmo, e sempre na defesa de
seus interesses vai conduzindo sua vida por uma lógica de exclu-
são. Em nosso País – quiçá, também, em outras partes do mundo!
–foi preciso que uma pandemia decidisse alguns indivíduos e em-
presas a pensarem nos outros e serem solidários. É fundamental
que família, escola, educadores, educadores especializados, psicó-
logos, psiquiatras, médicos, todos os profissionais cuidadores da
saúde do corpo e da mente dos outros, unam suas forças para criar
as condições de inclusão das pessoas com necessidades especiais,
numa perspectiva que valorize e dignifique a condição humana.
É necessário que a sociedade una suas forças para criar con-
dições de uma melhor qualidade de vida para todos, num combate
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 36
SUMÁRIO
permanente à intolerância, e buscando soluções para que todos,
solidários, possam compartilhar, sem obstáculos, do acesso à edu-
cação, à cultura, ao trabalho, ao lazer, a uma convivência feliz com
os outros, lembrados sempre que é a paz, o amor, a solidariedade,
a ética, a tolerância que constituem os alicerces de nossa vida em
sociedade. Trabalhar, educar-se, ajudar a construir, em nosso
mundo, um desenvolvimento centrado na valorização humana. So-
mente quando, harmoniosamente, ajudarmos a construir este
clima, esta escola, este país, esta sociedade, é que, singularmente,
nos orgulharemos de ser, plenamente, incluídos.
No plano individual, em referência às pessoas com deficiên-
cia, tudo isso favorece o processo: hoje, os recursos tecnológicos já
põem à nossa disposição mecanismos que ajudam a resolver e a
reduzir as desigualdades pessoais, postos à disposição das pessoas
para reduzir, às vezes até suprir, suas carências pessoais.
É no processo de inclusão que as atitudes de sorrir, confiar,
compartilhar, ajudam a construir nossa existência feliz, e é para
isso que todos os processos e mecanismos giram em torno de nós
e movimentam nossa existência. Enfim, nossa educação, nossa
construção de seres humanos envolvendo família, escola, trabalho,
lazer, convivialidade, enfim, nossa vida, e a luta para superar e ven-
cer os obstáculos, nada mais é do que nossa pequena parte na cons-
trução de um outro processo que vai muito além dos meus, dos
seus, dos nossos problemas: o processo de promoção da dignidade
humana.
Inclusão supõe vida com harmonia. Sentir-se bem consigo
mesmo, na família, na escola, na sociedade, na vida. Olhar, ser tra-
tado e tratar as pessoas de igual para igual, aceitar-se e aceitar cada
um como ele é, sentir-se ligado aos outros na amizade, no respeito,
na solidariedade, na valorização do outro e de si mesmo. Ser capaz,
até, de ver nos outros uma dimensão de si mesmo.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 37
SUMÁRIO
Finalmente: possam, também, portanto, estas modestas li-
nhas que você acabou de ler, consolidar atitudes e comportamen-
tos de solidariedade, compartilhamento, tolerância, respeito e in-
clusão.
REFERÊNCIAS
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nar tudo a todos. Fundação Calouste Gubenkian, Lisboa, 1957.
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A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 38
SUMÁRIO
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________Les Origines Du Caractère chez l’Enfant. Presses Universitaires de
France. Paris, (6e Edition), 1976.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 39
SUMÁRIO
CAPÍTULO 2
POLÍTICAS EDUCACIONAIS
INCLUSIVAS E PRÁTICAS
PEDAGÓGICAS EM UMA ESCOLA EM SASSARI,
SARDENHA – ITÁLIA
Denise Meyrelles de Jesus
Renata Santos Venturini
Karolini Galimbert Pattuzzo Breciane
INTRODUÇÃO
O movimento de implementação das Políticas Públicas de In-
clusão com foco nos processos de escolarização dos alunos público
alvo da EE no Brasil representa um cenário de luta que precisa ser
constantemente reafirmada. Iniciativas políticas e sociais no cená-
rio nacional e internacional visam garantir processos de inclusão
para pessoas com deficiência, transtornos e altas habilidades.
No cenário educacional brasileiro, esse movimento se orienta
por princípios gerais do movimento internacional pela inclusão. A
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação
Inclusiva de 2008 nos afirma isso quando cita que:
O movimento mundial pela inclusão é uma ação política, cultural,
social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos
os alunos de estarem juntos, aprendendo e participando, sem ne-
nhum tipo de discriminação. A educação inclusiva constitui um pa-
radigma educacional fundamentado na concepção de direitos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 40
SUMÁRIO
humanos, que conjuga igualdade e diferença como valores indisso-
ciáveis, e que avança em relação à idéia de equidade formal ao con-
textualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão
dentro e fora da escola (BRASIL, 2008, p. 5).
Tendo em vista compreender o movimento de inclusão esco-
lar na atualidade como um direito a igualdade e diferença interna-
cionalmente Grupos de pesquisa dos Programas de Pós-Graduação
da Universidade Federal do Espírito Santo têm desenvolvido estu-
dos comparados internacionais impulsionando a construção de co-
nhecimentos sobre as aproximações e os distanciamentos entre os
contextos educacionais, que perpassam a implementação de polí-
ticas públicas favorecedoras da inclusão escolar de pessoas pú-
blico-alvo da Educação Especial.
A partir desse movimento dos Programas e de suas linhas de
pesquisa, novas possibilidades de diálogos internacionais visando
captar práticas e concepções até então invisibilizados foram sur-
gindo. Refletir acerca dos processos de escolarização dos alunos
público alvo da Educação Especial a partir de estudos comparados
visibilizam movimentos de inclusão escolar realizados em contex-
tos distintos. Dentre esses contextos destacamos a Europa com
foco no movimento italiano.
Na Europa foram realizadas algumas ações importantes em favor
das pessoas com deficiência e que deixaram uma marca positiva
em prol deste grupo social, com reflexo em decisões tomadas pelos
países nesse contexto territorial onde dialogam com diversas cul-
turas (ALVES, 2016, p. 162).
Vários estudos de nosso grupo de pesquisa como os de So-
brinho et al. (2015), Breciane (2020), Venturini (2020), Jesus et al.
(2019) Sá et al. (2019) sinalizam para a relevância de conhecer ou-
tras realidades e a troca de conhecimentos entre os diferentes
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 41
SUMÁRIO
contextos. Destacamos que as comparações internacionais como
prática social crítica e criativa não devem se descuidar do local e
do real e que a partir desse viés, “é possível falar em mudanças, pos-
sibilidades, educabilidades, em transformação, em reinvenção da es-
cola e do humano” (BRECIANE, 2020: 218).
Pensar os processos de escolarização dos alunos com neces-
sidades especiais e público-alvo da educação especial a partir de
um estudo comparado, dando visibilidade a realidades distintas,
pode nos conduzir na direção da justiça cognitiva entre os povos,
bem como ampliação dos conhecimentos disponíveis para todos.
Buscamos assim, como Santos (2013) nos instiga, inventar ou rein-
ventar não só o pensamento emancipatório como também a von-
tade de emancipação nos profissionais envolvidos nos processos
de escolarização dos alunos com necessidades educacionais espe-
ciais.
Concordamos com o Santos (2007) ao sinalizar que injus-
tiça social global está associada à injustiça cognitiva global, de
modo que a luta pela justiça social global, também deve se configu-
rar numa luta pela justiça cognitiva global. Assim nossos estudos
têm buscado constituir um conhecimento favorecedor dessa jus-
tiça de conhecimento e nessa procura as investigações comparadas
nacionais e internacionais têm se colocado.
A Itália possui uma vasta produção na área da inclusão es-
colar e tem constituído estratégias específicas para garantir uma
escolarização de qualidade para o seu público alvo da Educação Es-
pecial. Visitas técnicas e acadêmicas a região de Sassari/Sardenha
na Itália, nos anos de 2015, 2017, 2018 e 2019, possibilitaram uma
aproximação de seu contexto educacional e incentivaram a reali-
zação de novos estudos e reflexões acerca da Educação Especial e
das políticas públicas de inclusão italianas. Assim, buscamos com-
preender o movimento de materialização das Políticas Públicas de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 42
SUMÁRIO
Inclusão escolar nos processos de escolarização dos alunos Público-
Alvo da EE na Itália.
No cenário italiano, nossa coleta de dados foi orientada pe-
los movimentos de viagens do grupo de pesquisadores da UFES
que ocorreu em vários momentos. Predominaram as visitas técni-
cas com entrevistas a dirigentes públicos de Educação e Educação
Especial, diretores de escolas, docentes de sala de aula comuns, do-
centes especializados e observações nas escolas e serviços de
apoio à educação (serviços sanitários e serviços sociais).
A primeira visita à Universidade de Sassari (UNISS), se deu
em 2015. Tínhamos como objetivo conhecer por meio de conver-
sas e entrevistas o sistema educacional da região de Sassari, no que
tange às políticas e práticas escolares de inclusão escolar. A se-
gunda visita técnica, realizada em maio de 2017, contou com a par-
ticipação de 3 professoras da UFES, uma doutoranda em educação,
uma professora da Rede Municipal de Vitória e dois bolsistas de
iniciação científica. Tendo em vista a busca de informações para a
realização do estudo “Educação Especial, políticas e contextos: aná-
lise de configurações, de indicadores e de tendências em diferentes
cenários”, nesse caso o contexto italiano1. Dialogamos com profes-sores e outros profissionais que atuam com alunos com deficiên-
cias e transtornos globais do desenvolvimento e visitamos escolas
da região. Para além da coleta de dados, realizamos dois seminá-
rios de socialização das produções científicas das equipes de pes-
quisa envolvidas e um encontro de estudos com professores da
UNISS, Temática: “Processos educativos inclusivos vividos na Educa-
ção Básica” e “Processos Educacionais Alternativos”. Tendo em vista
a sustentação do diálogo UFES-UNISS, tivemos nos anos de 2017 e
2018, a visita de dois pesquisadores da Universidade de Sassari à
UFES, em cada um dos anos.
1 CNPq EDITAL UNIVERSAL 2014 n° do processo 458541/2014-1
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 43
SUMÁRIO
Já no ano de 2018, nossa visita técnica à Sardenha ocorreu
em maio e os dados coletados foram direcionados para elaboração
sistematização de pesquisas específicas, como uma dissertação e
uma tese, além do aprofundamento da pesquisa geral do grupo da
UFES. A viagem contou com a participação de dois professoras da
UFES, duas alunas do Doutorado em educação e uma aluna do Mes-
trado em educação. Todas buscamos um movimento de coleta de
dados coletivo, pesquisadoras e alunas que participaram da via-
gem. Nesse momento da coleta de dados nossos focos estiveram
direcionados ao acompanhamento dos processos educacionais nas
escolas, aprofundamento do estudo das políticas públicas italianas,
tendo em vista a inclusão escolar e o estudo teórico sobre pes-
quisa-ação socialmente sustentável, juntamente com alunos e
professores da UNISS.
Em março de 2020 retornamos a Sassari, tendo por objetivo
uma ação de devolutiva do estudo, tanto para os pesquisadores lo-
cais, quanto para os profissionais locais envolvidos no estudo ao
longo dos cinco anos de pesquisa.
POLÍTICAS QUE APONTAM PARA PRÁTICAS INCLUSIVAS NA
ITÁLIA
Reconhecemos que a Itália se coloca entre os países que tem
uma vasta produção na área da inclusão escolar com influência glo-
bal em impulsionar e constituir estratégias específicas para garan-
tir uma escolarização de qualidade para o seu público alvo da Edu-
cação Especial.
Na Itália, houve uma mudança cultural influenciada por um dis-
curso reflexivo que, em um certo sentido, moldou um novo olhar
cada vez mais positivo em relação às pessoas com deficiência. Esse
discurso impulsionou, e a ainda hoje continua a impulsionar a
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 44
SUMÁRIO
sociedade para que esta soubesse adotar atitudes positivas e sem-
pre mais favoráveis em relação aos processos inclusivos das pes-
soas com deficiência. A mudança também foi normativa, tradu-
zindo e ratificando o pensamento da sociedade (ALVES, 2016, p.
167).
Carraro et al (2013) nos aponta que a Itália foi o primeiro
país na Europa a promover o fim das escolas especiais e a inclusão
de todos os alunos com deficiência nas escolas regulares.
O contexto italiano se destaca quanto à sua tradição de investi-
mento em processos de inclusão escolar, com um histórico de po-
líticas educacionais inclusivas que asseguram a todas as pessoas o
ensino comum como única alternativa de escolarização (DI PA-
QUALE; MASELLI, 2014).
Na Itália vamos encontrar uma rica legislação sobre educa-
ção inclusiva desde os anos 70, sobretudo a partir das primeiras
normativas sobre a temática, tais como a Lei nº 118 de 1971, cujo
art. 28, já assegurava a educação de pessoas com deficiência na es-
cola comum (DE ANNA, 2018, p. 133). Segundo De Anna (2018) foi
durante a Reforma de 1974 que o Parlamento Italiano iniciou uma
discussão sobre a educação no que tange aos estudantes em condi-
ções de desvantagem social e que frequentemente eram direciona-
dos às classes especiais. Pensando a esfera global educacional, a
Itália se configura como pioneira na perspectiva da integração es-
colar em seu sentido amplo de assegurar o acesso à educação e em
sua evolução de concepção ao que concerne à inclusão. A perspec-
tiva e os princípios práticos e teóricos da integrazione italiana po-
dem ser atribuídos a perspectiva da inclusão em diversos países.
A Constituição Federal italiana de 1947 como a influência
principal na elaboração das futuras políticas educacionais postula
a fundação das escolas a partir do princípio da igualdade ao
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 45
SUMÁRIO
afirmar que “a escola está aberta a todos” no seu Artigo 34 (ITÁLIA,
1947, Artigo 34).
De acordo com a Constituição da Itália (1947) o sistema
educacional italiano se caracteriza pela descentralização adminis-
trativa que garante em diferentes âmbitos uma autonomia regio-
nal às províncias e suas instituições de ensino. As políticas educa-
cionais nacionais orientam a constituição das políticas educacio-
nais, que são implantadas e geridas localmente por escritórios re-
gionais e escolares. O Estado estabelece princípios gerais e as regi-
ões se organizam de maneira autônoma em seus territórios para
atenderem essas normativas.
Em 1977 a Itália instituiu a lei 517/77 (Norme sulla valuta-
zione degli alunni e sull'abolizione degli esami di riparazione nonché
altre norme di modifica dell'ordinamento scolastico - Regras de ava-
liação dos alunos e sobre a abolição dos exames de remediação,
bem como outras regras de emenda do sistema escolar), que ga-
rante às pessoas com necessidades especiais o acesso à educação
comum, estabelecendo o direito de frequentar a escola para todas
as pessoas com deficiência através da abolição das classes especi-
ais e extinção das classes de recuperação.
Essa lei garante a inserção dos estudantes com deficiência
nas escolas regulares e marca a história da educação especial itali-
ana. Em seu artigo 2 confere a reponsabilidade da gestão da inte-
gração ao serviço social e educacional e as “formas especiais de
apoio”, juntamente com as autoridades estaduais e locais e o con-
selho escolar do distrito.
Já em 1992 a Itália instaura a Lei 104, “Legge-quadro per
l'assistenza, l'integrazione sociale e i diritti delle persone handicap-
pate” (Lei-quadro de assistência, integração social e direitos das
pessoas com deficiência) (ITÁLIA, 1992), que define quem é a pes-
soa com deficiência e quais são os direitos dessas pessoas em
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 46
SUMÁRIO
vários âmbitos e níveis para a inclusão social, além de normatizar
serviços de assistência, integração social e educação das pessoas
com deficiência.
A Lei 104/1992 ficou marcada por descrever os participan-
tes do processo de inclusão escolar da pessoa com deficiência e
suas reponsabilidades. Os profissionais com qualificações especi-
ais anunciados na Lei 517/1977 passam a ser concebidos como os
insegnantes de sostegno, ou seja, os professores de apoio aos alunos
com necessidades educativas especiais.
Segundo Canevaro (2003) a Lei 104 de 1992 completa o ca-
minho iniciado no início dos anos setenta e coloca o princípio da
integração na esfera dos direitos da pessoa e do cidadão na comu-
nidade civil, social e política mais ampla.
Já a Lei 170/2010 Nuove norme in materia di disturbi speci-
fici di apprendimento in ambito scolastico (Novas regulamentações
sobre deficiências específicas de aprendizado nas escolas) reco-
nhece e define distúrbios específicos de aprendizagem como disle-
xia, disgrafia, disortografia e discalculia e tem como finalidade pri-
mordial garantir o direito à educação para todas as pessoas que
possuem esses distúrbios.
Canevaro (2003), afirma que no contexto italiano, a integra-
ção2 não é um acontecimento concreto, mas um acontecimento em
concretização, uma conquista contínua, um caminho que é reali-
zado apenas com a organizaçãode diferentes contextos de cresci-
mento.
Salientamos que não podemos tomar a análise das políticas
educacionais como um campo neutro e isolado das práticas cotidi-
anas e não podemos ignorar as influencias globais e das culturas
2 No contexto italiano o termo integração denota um significado atrelado a inclusão
do contexto brasileiro.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 47
SUMÁRIO
locais na constituição e implementação dessas políticas que influ-
enciam diretamente as práticas pedagógicas inclusivas.
EDUCAÇÃO ESPECIAL NA ITÁLIA NO CONTEXTO DE ESCOLAS
DE SASSARI
A comuna de Sassari é o cenário italiano de nossa pesquisa,
ela possui mais de 100.000 habitantes e compõe o território da
Sardenha que é uma das regiões autônomas da Itália. A Sardenha é
uma ilha italiana localizada no Mar Mediterrâneo, ela se divide em
8 províncias e sua capital é Cagliari. Sassari é uma das 8 províncias
da Sardenha. As províncias italianas se dividem em comunas, no
caso da província de Sassari sua comuna capital, nosso cenário da
pesquisa, também se chama Sassari.
As escolas nas quais realizamos nossos estudos em Sassari
são escolas Primárias de nível Elementare. A tabela 1 nos auxilia na
compreensão do contexto educacional italiano:
Quadro 1 – Contexto Educacional Italiano
CONTEXTO
EDUCACIONAL BRASILEIRO
CONTEXTO
EDUCACIONAL ITALIANO
Município Comuna de Sassari
Escola de Ensino Fundamental Scuola primária (Elementare)
Aluno Público-Alvo da Educação Es-
pecial
Bisognieducativispeciali (BES)
Professor Regente Insegnante curriculare
Professor Especializados/ de apoio Insegnante di sostegno
Laudo Certificado
(Elaboração pelas pesquisadoras 2019)
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 48
SUMÁRIO
O nível elementar compreende alunos de 6 a 11 anos. As sa-
las de aula geralmente têm 25 alunos. Uma das escolas onde reali-
zamos a coleta de dados possuía 690 alunos e 35 alunos “certifica-
dos” (com laudo de alunos com deficiências).
Quadro 2 – Níveis de ensino na Itália
Nível de ensino Faixa etária Obrigatoriedade Gratuidade
I
tá
li
a
Asilo Nido 0 a 3 anos Não Não
Scuola Dell’Infan-
zia
3 a 5 anos Não Não
Scuola Primaria 6 a 10 anos Sim Sim
Scuola Seconda-
ria di I Grado
11 a 13 anos Sim Sim
Scuola Seconda-
ria di II Grado (LI-
CEO)
14 a 18 anos Sim Sim
Fonte: Quadro elaborado pelas autoras (2020).
Segundo Monteiro (2003), presentificam-se no cenário ita-
liano uma série de dispositivos legais que favorecem à inclusão es-
colar, dentre eles destacamos a previsão de um docente de apoio
em casos necessários, número reduzido de alunos e a formação de
professor que seja capaz de realizar um planejamento individuali-
zado, que não busque fazer com que todos os alunos atinjam o
mesmo rendimento, mas sim que valorize as potencialidades de
cada um.
A partir da realização dos estudos percebemos o protago-
nismo exercido pelos professores especializados, insegnantes de
sostegno, no contexto italiano. Segundo Canevaro (2003) o inseg-
nante de sustegno é um professor que possui um diploma especí-
fico de especialização referente às demandas relacionadas às
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 49
SUMÁRIO
deficiências e à integração escolar, estando assim, qualificado para
realizar atividades de apoio ao ensino.
Ele coopera com os outros professores do currículo, ofere-
cendo suas habilidades específicas para a implementação do
processo de ensino e aprendizagem, respeitando o direito de
aprender de todos os alunos (CANEVARO, 2003, p.101).
É importante destacar que o insegnante de sustegno atua
com um a três alunos, no máximo, dependendo da necessidade de
apoio que o aluno apresenta e do tempo de colaboração em sala de
aula comum com o professor regente.
Em seguida trazemos um relato de episódios/momentos de
práticas pedagógicas vivenciadas nos processos de observação nas
escolas e salas de aula.
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS NA ESCOLA ITALIANA
Na Itália, a escola é pensada como espaço de aprendizagem
para todos os alunos e um ambiente em que se devem fortalecer os
princípios democráticos. Nesse sentido, vale à pena recorrer a Mei-
rieu (2005), que diz que a inclusão escolar é um movimento ético
e o trabalho educativo na escola precisa se orientar comprome-
tendo-se com o reconhecimento da diferença e da igualdade como
o vetor na promoção do conhecimento e da pluralidade humana.
Para o autor,
[...] abrir a Escola para todos não é uma escolha entre outras: é a
própria vocação dessa instituição, uma exigência consubstancial
da sua existência [...]. Uma escola que exclui não é uma Escola [...].
A Escola, propriamente, é uma instituição que tem a preocupação
de não descartar ninguém, de fazer com que se compartilhem os
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 50
SUMÁRIO
saberes que ela deve ensinar a todos. Sem nenhuma reserva. (MEI-
RIEU, 2005, p. 44)
Quando temos em mente essa perspectiva de escola, os pro-
fissionais da educação precisam, a todo momento, garantir mo-
mentos de negociação para a realização do trabalho de modo cola-
borativo e focado na apropriação do conhecimento de todos os es-
tudantes. Não podemos perder de vista que as tensões existem,
mas também há as possibilidades vivenciadas no espaço da sala de
aula. Os profissionais que buscam implementar uma escola inclu-
siva precisam reconhecer que irá
[...] trabalhar com a subjetividade dos sujeitos, as práticas pedagó-
gicas que cada profissional realiza, o trabalho colaborativo entre
os profissionais da escola, a participação da família no contexto
educacional, a constituição de um ambiente facilitador para o
acesso de todos à aprendizagem, a disponibilização de recursos
que favoreçam o acesso ao currículo escolar [...]. (BRECIANE, 2014,
p. 19)
A diversidade humana precisa ser contemplada na escola e
os profissionais da educação devem se permitir a novos olhares e
a novas oportunidades de atuar no espaço-tempo escolar, na busca
de efetivar processos de colaboração na prática pedagógica vol-
tada para a escolarização dos estudantes, em destaque o público-
alvo da Educação Especial.
Quando falamos de colaboração estamos defendendo uma
proposta discutida por Vilaronga (2014), que esclarece ser um
processo que não se resume a um trabalho individualizado e a uma
mera divisão de tarefas. Concordamos com a autora que a colabo-
ração se constitui como um processo entre duas ou mais pessoas
que precisa ser construído, cultivado ou desenvolvido com o
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 51
SUMÁRIO
objetivo de contribuir, aprender, interagir em prol de uma meta
comum, “[...] beneficiar todos os alunos em sala de aula” (p. 22).
Defendemos que o trabalho colaborativo é uma estratégia
que tem se mostrado efetiva, tanto para solucionar tensões diver-
sas relacionadas com o processo de ensino e aprendizagem, quanto
para desenvolver e promover o desenvolvimento pessoal e profis-
sional dos professores (CAPELLINI, 2004). Porém, para a ação co-
laborativa ser uma prática cotidiana do espaço escolar, “[...] resta-
nos alimentar a esperança da construção de uma vontade coletiva
que transformará as condições concretas, criando o espaço de possi-
bilidade pedagógica” (FRANCO, 2012, p. 88).
Para a escrita desse artigo, nos perguntamos: será que é
possível desvincular práticas pedagógicas inclusivas do trabalho
colaborativo? Acreditamos e defendemos que não. A partir dessa
perspectiva, propomos evidenciar que
[...] o trabalho pedagógico, quando assumido no coletivo da escola,
passa por uma outra/nova prática,consequentemente, podendo
ser planejado para o acesso ao conhecimento por todos os alunos.
(BRECIANE, 2014, p. 95)
Com esse olhar, na defesa de um trabalho coletivo entre os
profissionais da escola objetivando a todos os estudantes o acesso
ao conhecimento científico, escolhemos alguns episódios presen-
ciados durante a coleta de dados em uma escola italiana, com o ob-
jetivo de evidenciar o que entendemos ser um movimento vivido
na Itália, de criar alternativas às alternativas ou possíveis embriões
(SANTOS, 2019), no que tange à realização de um trabalho colabo-
rativo entre os profissionais – e por que não dizer, entre os alunos.
As relações inclusivas e de apoio entre colegas de escola com suas
diversas diversidades são o marco indispensável para tecer a inte-
gração. [...] é necessário criar e manter uma forte rede de relações
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 52
SUMÁRIO
solidárias entre colegas, escolas e grupos, sobre as quais (e através
das quais) será possível desenvolver iniciativas de integração em
pequenos grupos ou tutoria em duplas de alunos. (CANEVARO; IA-
NES, 2002, p. 10, tradução nossa)
Concordamos com os autores quando falam da potência da
rede de relações entre os colegas da turma e da escola. Presencia-
mos essa relação entre os estudantes público-alvo da Educação Es-
pecial e os colegas de sala e também da escola essa relação que Ca-
nevaro e Ianes (2002) chamam de inclusiva e que trouxe um maior
engajamento dos estudantes público-alvo da Educação Especial
em desenvolver as atividades individuais e em grupos, em brincar
no recreio, em participar das aulas de educação física, em querer
participar das aulas em geral, em se interessar em aprender, enfim,
trouxe possibilidades reais no cotidiano da escola.
Escolhemos evidenciar os movimentos observados na es-
cola italiana que falam das possibilidades e das tensões vivencia-
das no que tange o processo de colaboração entre os professores
regentes e os professores de Educação Especial. É importante des-
tacar que a legislação italiana aponta a atuação da professora de
apoio em sala de aula juntamente com o professor de currículo, di-
vidindo assim a responsabilidade no processo de escolarização dos
estudantes. Durante nossas observações, vivenciamos na Itália
momentos que confirmavam que os estudantes público-alvo da
Educação Especial não eram responsabilidade única dos professo-
res de apoio.
Houve dias em que a professora de apoio estava adoentada
e que não pode comparecer à escola; nesse dia, o estudante que era
acompanhado por ela estava presente, e tanto as professoras de
currículo quanto a assistente assumiram para si a responsabili-
dade de ensiná-lo e acompanhá-lo. Presenciamos também momen-
tos em que a professora de apoio precisou se ausentar da sala de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 53
SUMÁRIO
aula por um período, e a professora de currículo também se mos-
trou presente no processo de escolarização do estudante público-
alvo da Educação Especial.
Participamos de aulas em que a professora de currículo se
sentava com o estudante público-alvo da Educação Especial e a
professora de apoio orientava o restante da sala. Enfim, tivemos a
oportunidade de captar diferentes movimentos vividos pelas pro-
fessoras e chegamos à conclusão de que esse processo de colabo-
ração se efetiva como uma potência na mediação pedagógica vol-
tada para atender a todos os estudantes.
Elegemos trazer três momentos observados em diferentes
disciplinas, para evidenciar o movimento de colaboração e partici-
pação entre as professoras na direção de juntas trabalharem em
prol do desenvolvimento dos estudantes. Iniciaremos com a aula
de Geografia, porém, antes de descrever o episódio, importante ex-
plicar que o assunto trabalhado em sala surgiu após a erupção do
vulcão Etna, na região da Sicília, ilha ao sul da Sardenha. Esse acon-
tecimento foi trazido pelos alunos e a professora aproveitou o in-
teresse deles para trabalhar alguns conceitos em sala de aula.
A partir daí, a professora, nas aulas de Geografia, utilizou
mapas para mostrar aos alunos onde existem vulcões na Itália e em
outras partes do mundo, o porquê de entrarem em erupção e como
ocorre esse processo. Como os alunos ficaram bem curiosos sobre
o assunto, ela decidiu fazer em sala a experiência do vulcão em
erupção para melhor compreensão; foi nesse momento que perce-
bemos o processo de colaboração se efetivar e a professora de cur-
rículo tomar para si a responsabilidade no processo de mediação
pedagógica de todos os alunos porque no dia programado para re-
alizar a experiência do vulcão em erupção, o aluno Guliermo3 (2º
3 O aluno Guliermo era um aluno que realizava as terapias de musicoterapia (1 vez
por semana) e de logoterapia (2 vezes por semana) na escola, durante o horário
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 54
SUMÁRIO
ano A) tinha um atendimento com a logoterapista4 após o lanche.
Interessante ver a ação da professora de Geografia quando visua-
liza que o aluno Guliermo estava indo para a sala de recursos, ela
corre em direção da professora de apoio e da terapeuta e diz: “Da-
rei uma aula importante agora, Guliermo precisa acompanhar. Não
vai demorar. Você pode esperar na sala de aula se quiser, mas ele
não vai sair agora”.
A professora pega a mão de Guliermo e o acompanha até a
sala de aula, indicando onde ele deveria se sentar, visto que, a sala
foi reorganizada em formato de U para todos terem a oportunidade
de ver e participar da experiência. A terapeuta e a professora de
apoio acompanham o aluno e se dirigem para a sala de aula tam-
bém, aguardando o término da experiência. Todos os alunos fica-
ram maravilhados com essa aula.
Não poderíamos deixar de destacar essa postura da profes-
sora de currículo que assume para si a responsabilidade de garan-
tir ao estudante Guliermo a sua efetiva participação na aula junto
com seus colegas, constituindo assim em sua prática um ensino in-
clusivo com base em um currículo único, de forma que busca con-
templar a todos os estudantes, projetando assim uma escola inclu-
siva.
Não improvisamos uma escola inclusiva, mas a projetamos, assim
como não improvisamos uma intervenção educacional especial se
não queremos causar danos; é necessário ter plena consciência de
que essa ação precisa ser apoiada por uma competência didática
especial, capaz de exercer sua força educacional em todo o seu va-
lor.(D’ALONZO, 2015, p. 21, tradução nossa)
escolar, devido a um acordo entre família e escola, e conforme fala da professora
de apoio, foi autorizado pelo conselho. É o único estudante que apresentava essa
realidade na escola.
4 Terapia específica para trabalhar a fala. A profissional é formada em pedagogia e
serviço social e especialista em fonoaudiologia.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 55
SUMÁRIO
Outro momento que elegemos apresentar aconteceu na
aula de matemática. A professora de currículo estava realizando
com a turma uma brincadeira que envolvia cálculos de multiplica-
ção. Após a participação dos alunos, ela chama Guliermo e diz que
é a hora de ele brincar com ela. Interessante que nesse momento a
professora de apoio estava no corredor, resolvendo uma situação
da escola com outra professora.
Vale ressaltar que as duas professoras de apoio são efetivas
e que atuam no prédio onde foi desenvolvida a pesquisa, eram re-
ferências apoiando a direção, sendo uma responsável pela Educa-
ção Especial de todo o Instituto Compreensivo e a outra pelas ques-
tões administrativas e gerais do prédio que oferta Educação Infan-
til e Ensino Fundamental. Devido a isso, precisavam responder
questões que surgiam nocotidiano escolar, mesmo durante sua
atuação enquanto professoras de apoio. Ao assumir essa segunda
atribuição, precisavam responder às demandas envolvendo as
questões pertinentes a sua referência, e isso acarretava abdicar em
alguns momentos do atendimento educacional especializado em
sala de aula.
A organização que alguns países europeus vêm assumindo,
de unificar diferentes prédios escolares em uma única direção e
secretaria, acarreta em um acúmulo de cargos que influencia no
cotidiano da escola. Ao nosso olhar, esse não é um movimento po-
sitivo, mas que infelizmente vem sendo vivenciado na Itália. O epi-
sódio a seguir retrata esse momento em que a professora de apoio
precisou se ausentar da sala de aula e perdeu uma ação pedagógica
desenvolvida pela professora regente. Ao lado do aluno, a profes-
sora de currículo escreve no quadro os números de 1 a 10 na se-
quência e pede para o Guliermo apontar os números que ela dita
de forma aleatória. À medida que ele vai acertando as respostas,
toda a turma vibra e ele se empolga. A professora vira para a turma
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 56
SUMÁRIO
e diz: “Agora preciso que vocês façam silêncio, não digam nada por-
que nesse momento vou fazer um teste com o Guliermo”. Ela escreve
no quadro os numerais 4, 6 e 8 e pede para o Guliermo encontrar
o número 9. Ele olha para os números, olha para a professora, olha
novamente para o quadro e responde: “non lo so” (não sei). A pro-
fessora olha para a pesquisadora e balança a cabeça, ri e acrescenta
o numeral 9 junto aos números escritos no quadro. E fala nova-
mente: “Guliermo, veja novamente os números, você pode me dizer
qual é o número 9?”
Ele observa os números e em seguida aponta para o número
9 e todos os colegas da turma aplaudem com seu avanço. Interes-
sante que durante esse momento, a turma estava estática, pres-
tando atenção na professora e no Guliermo, e quando ele consegue
responder corretamente, vibraram com sua conquista. Guliermo se
empolga, pulando e vibrando animado com sua resposta. A profes-
sora de apoio entra na sala nesse momento e não entende a festa
que todos estavam fazendo e a professora explica para ela que Gu-
liermo reconheceu os números de 1 a 9 e que está ensinando o nu-
meral 10.
A professora de apoio continua a aula de matemática na sala
de apoio, utilizando material confeccionado por ela e o concreto
para avançar no conceito de quantidade. Ela justifica que ele reco-
nhece os numerais de 0 a 9, mas que ainda não faz a relação dos
números com sua quantidade.
Como nos questiona D’Alonzo (2015, p. 38), “[...] como po-
demos falar de inclusão se o aluno com deficiência ou com proble-
mas não se sente parte de um processo de formação unitária con-
cebido e fortemente desejado pelos seus professores?”. Observa-
mos no episódio uma postura da professora de currículo que busca
contemplar a todos os alunos. Destacamos três ações que mais nos
chamaram a atenção: como a professora de currículo buscou
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 57
SUMÁRIO
incluir Guliermo na sua aula o envolvendo na brincadeira proposta
mas respeitando seu processo de desenvolvimento; durante sua
intervenção, Guliermo usa a linguagem para se comunicar e mostra
o seu avanço também nessa área; por fim, como a turma se em-
polga e vibra com os avanços do colega.
Não poderíamos deixar de evidenciar um dos momentos vi-
vidos na aula de italiano, buscando destacar o avanço na leitura do
aluno Guliermo. Nessa aula, a professora de italiano estava traba-
lhando leitura e interpretação com a turma e a professora de apoio
trabalhava como Guliermo a letra M e suas sílabas com o material
preparado por ela. Passa a explicar para o aluno que juntando as
sílabas forma-se palavras, e dá o exemplo de MAMA, porém ele es-
tava desatento, prestando atenção na conversa dos colegas da sala.
A professora insistia e chamava a sua atenção e buscava sua parti-
cipação. Ele não se mostrou interessado inicialmente e respondia
para ela: “non lo so”. Ela respondia: Você sabe sim! Vou te ajudar!
Ela passa a unir a sílaba MI com as vogais A e O respectivamente e
pede para ele fazer a leitura.
No primeiro momento, ele mostrava resistência em realizar
a leitura e falava que estava com sono, colocava as mãos na cintura
e em outro momento ele cruza os braços e fazia cara de bravo. A
assistente estava do meu lado e eu pergunto o que significava o
gesto de cruzar os braços para entender o que ele queria dizer. Ela
explicou que esse é um pedido das professoras quando pedem
atenção para os alunos, solicitam que eles cruzem os braços e as-
sim eles param o que estão fazendo.
Nós duas rimos e entendemos que naquele momento ele
não queria fazer a atividade e usava suas táticas para tentar con-
vencer a professora para não insistir na atividade. Porém, ela não
se dava por vencida e ia buscando alternativas para que ele se in-
teresse na sua proposta. Ele vai cedendo e foi lendo pausadamente
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 58
SUMÁRIO
e no seu tempo: MIA (minha) e MIO (meu). Quando a professora de
italiano escuta ele lendo para a professora de apoio, ela para a cor-
reção que estava fazendo no quadro com a turma e chama a aten-
ção dos alunos dizendo: “Agora é hora do Guliermo ler!” Todos os
colegas se viram na direção onde ele estava sentado e passam a
prestar atenção nele.
A professora de apoio conversa com Guliermo informando
que todos os colegas da sala querem ouvir você lendo, e solicita que
ele faça a leitura em voz alta. E assim ele o faz, com o incentivo dos
colegas e das professoras ele lê em voz alta e fica animado com sua
conquista.
A professora de apoio aproveita o interesse dele e ensina o
som da letra R e propõe uma brincadeira de Guliermo guardar as
letras que ela fosse solicitando e assim, iria confirmando se ele es-
tava reconhecendo as letras trabalhadas, pois a medida que ela ia
pedindo para ele guardar uma determinada letra, ele procurava,
encontrava e guardava. Com esse avanço, ela informa que planejou
trabalhar com ele uma sequência de 5 palavras conhecidas para
que ele aprenda de forma consistente, sendo elas MARE, RAMO,
REMO, MURO e MORA.
Quando pensamos no projeto educativo enquanto uma ação
comprometida com o desenvolvimento humano e uma ação
política que pode apontar outros significados para a existência
humana, Meirieu (2002) defende a necessidade de os profissionais
constituírem seus saberes-fazeres pautados no que chama de
“solicitude”. É uma ação ética que desperta em nós um sentimento
de compromisso com a formação daqueles que estão ao nosso
redor.
A 'solicitude' é, ao mesmo tempo, a preocupação com sua parte de
responsabilidade no destino do outro e o estímulo para que ele
também tome parte de seu destino. É o fato de ser 'tocado',
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 59
SUMÁRIO
afetado pelo outro, tomado de compaixão em relação a ele e de
querer, simultaneamente, interpelá-lo para que ele próprio se
conduza […]. (MEIRIEU, 2002, p. 70, grifos nossos)
Percebemos que na aula de italiano as professoras busca-
ram possibilidades de ações, tendo em vista a organização do tra-
balho pedagógico, das práticas docentes e do currículo escolar, de
forma a favorecer a participação do estudante Guliermo nas ações
planejadas e desenvolvidas na sala de aula.
Dessa forma, o trabalho educativo, quando é assumido em
colaboração, em parceria, por todos os profissionais que atuam di-
retamente com os estudantes público-alvo da Educação Especial, é
primordial para o avanço de todos. No entanto, também reconhe-
cemos a importância da participação e da ação do professor espe-
cializadoem sala de aula comum, objetivando assegurar o sucesso
formativo dos educandos. Quando essa ação conjunta é efetivada
em sala de aula de forma harmônica e em colaboração, com todos
seguindo um objetivo em comum, percebemos os resultados alcan-
çados e o processo de aquisição do conhecimento sendo desenvol-
vido por todos os educandos.
Essa experiência de pesquisa comparada internacional con-
tribuiu para o grupo da UFES, no sentindo de acompanhar as arti-
culações entre políticas educacionais inclusivas em “atuação” na
sala de aula comum, com destaque para o fato de que as condições
implementadas eram facilitadas por condições concretas de apoio
de profissionais em número suficiente para fazer acontecer um
processo de escolarização para todos, democrático e solidário.
REFERÊNCIAS
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A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 60
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A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 61
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A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 63
SUMÁRIO
CAPÍTULO 3
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
INCLUSIVAS PARA PAIS DE
CRIANÇAS E JOVENS COM TEA EM TEMPOS DE
ISOLAMENTO SOCIAL
Stefhanny Paulimineytrick Nascimento Silva
Leila Regina d’Oliveira de Paula Nunes
Maria Gabriela Lopes Araújo
Cláudia MiharuTogashi
INTRODUÇÃO
Prover uma educação de qualidade para crianças com trans-
tornos do espectro autista (TEA) não constitui tarefa fácil nem
para a família, tampouco para os professores.
Crianças e adolescentes com TEA, por conta de suas dificul-
dades em se comunicar, em interagir socialmente e em ampliar seu
leque de interesses, exigem, frequentemente, rotinas rígidas em
ambientes organizados, com alta previsibilidade dos eventos
(AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION, 2013). São frequentes as
birras e descontroles quando eles se encontram em situações des-
conhecidas, não previstas (SKEY et al, 2013). Quando são atendi-
dos na escola, os pais têm parceiros com quem dividir as tarefas
educativas, e se ela for de qualidade frequentemente oferece ori-
entação à família de como proceder no dia a dia do aluno. Mas e
quando ocorre mudanças bruscas em todos os setores da
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 64
SUMÁRIO
sociedade, como no momento atual com a pandemia da Covid-19?
1Com efeito, as rotinas da população em geral, das escolas e dos
lares foram drasticamente alteradas quando se instalou no Brasil
a pandemia, em março deste ano. Ela impactou um sem número de
atividades profissionais, muitas das quais foram totalmente para-
lisadas ou sofreram mudanças em suas operações tradicionais, tor-
nandoo home office2 uma prática cada vez mais dominante.
As escolas cerraram as portas e a população foi exortada a
viver em isolamento social, a empregar práticas até então inusita-
das, como o uso permanente de máscaras, e a tomar providências
severas quanto à higiene pessoal e do ambiente como formas cien-
tificamente recomendáveis para evitar o contágio com agente pa-
tógeno tão desconhecido quanto perigoso.Com o fechamento das
escolas e a exigência premente em realizar atividades aborais em
casa, além dos serviços domésticos, as famílias tiveram que reali-
zar mudanças notáveis em seus hábitos, especialmente aqueles re-
lacionados aos cuidados e às práticas educativas de seus filhos.
Se essas adaptações provocaram desgastes nas relações fa-
miliares, com o aumento expressivo de exigências dirigidas aos
pais de crianças e jovens com desenvolvimento típico em idade es-
colar, não é difícil prever as consequências dessa verdadeira revo-
lução de costumes quando esses pais têm filhos com TEA. Habitu-
ados a contar com o trabalho dos profissionais, sobretudo, de pro-
fessores na condução do trabalho educacional, esses pais senti-
ram-se repentinamente abandonados à própria sorte.
Foi com o objetivo de ofertar um apoio a esses pais, que
Stefhanny Silva, Cláudia Togashi e Maria Gabriela Araújo,
1Recomendações: Covid-19: É uma doença provocada pelo Coronavírus, cientifica-
mente conhecido como SARS-CoV-2, sempre embasadas em preceitos científicos, e
debates inundaram a imprensa e as mídias sociais.
2É uma palavra da Língua Inglesa, que significa “escritório em casa” No ano de 2020
essa expressão se popularizou nos tempos da Covid-19.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 65
SUMÁRIO
estudiosas dessa população, se propuseram a elaborar um manual
de orientação para famílias contendo informações precisas e úteis
para facilitar a vidas de pais e de alunos com TEA nesses tempos
de isolamento social. O manual foi disponibilizado na internet atra-
vés do linktree3da página oficial do Instagram do Laboratório de
Tecnologia Assistiva e Comunicação Alternativa do Programa de
Pós-graduação em Educação da UERJ (LATECA).
Assim, para verificar o impacto do manual na população de
pais de crianças e jovens com TEA, o presente estudo foi delineado,
com os seguintes objetivos específicos: a) apresentar dados demo-
gráficos de famílias com filhos com TEA que responderam a um
survey4 realizado por meio de um questionário disponibilizado em
mídias sociais e descrever, a partir das impressões dos pais, os efei-
tos da pandemia e consequente isolamento social nos comporta-
mentos e estados emocionais de pais, crianças e adolescentes com
TEA; b) apresentar algumas atividades pedagógicas propostas no
e-book ‘’Manual de orientação de pais de crianças efeitos da leitura
do Manual.
MÉTODO
Foi realizado um estudo de cunho quali-quantitativo, do tipo
descritivo e documental. Para Gil (2008), a pesquisa descritiva per-
mite verificar o perfil de populações e fenômenos. E a pesquisa do-
cumental possibilita analisar materiais, como livros, relatórios
3 É um serviço online gratuito para o Instagram, que permite que o usuário divulgue
os links de todos os seus perfis de mídias sócias bem como os sites em um mesmo
local.
4 É um tipo de investigação quantitativa, no qual os dados e informações são cole-
tados mediante características e opiniões de grupos e/ou indivíduos.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 66
SUMÁRIO
dentre outros, de forma precisa, podendo estes receberem outras
interpretações, sobretudo quando o material não é primário.
Participantes. Quarenta e seis pais de crianças/jovens com
TEA participaram deste estudo.
Instrumentos. Questionário de survey, e-book “Manual de
orientação de pais de crianças com TEA em tempos de isolamento
social’’ e relatos redigidos por familiares mediante a leitura do ma-
nual.
Procedimentos. Um questionário contendo sete perguntas,
sendo cinco perguntas fechadas e duas abertas foi encaminhado a
pais de crianças e jovens com TEA por meio das mídias sociais (Ins-
tagram e WhatsApp). 5As respostas foram dadas por meio da pla-
taforma Google formulário, no período de 2 a 10 de junho deste
ano. Mediante as respostas de trinta e seis pais ao questionário, o
manual supracitado foi produzido.
Também foram feitas análises de três propostas pedagógicas
do referido manual, a saber: organização da rotina diária, ativida-
des de interesse da criança e o uso do PROLECA (SILVA, 2018;
SILVA, WALTER e NUNES, 2019), assim como os relatos de dez fa-
miliares de pessoas com TEA após a leitura do e-book.Vale ressal-
tar que o e-book ‘’Manual de orientação para pais de crianças com
TEA em tempos de isolamento social’’ foi lançado gratuitamente no
dia 1º de agosto de2020 e que o link deste material foi divulgado
na página do Instagram do Laboratório de Tecnologia Assistiva e
Comunicação Alternativa (LATECA). Os feedbacks das respostas
dos familiares foram coletados entre os dias 3 e 4 de agosto de
2020.
5 O instagram é uma rede social de compartilhamento de fotos e vídeos e o What-
sApp é uma rede social que possibilita troca de mensagens e chamadas de voz.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 67
SUMÁRIO
Para fins de identificação dos responsáveis que fizeram a lei-
tura do manual, foi criada uma pergunta através do story6 do Ins-
tagram do LATECA, durante estes dois dias, com a seguinte ques-
tão: “Se você é pai de uma criança com TEA e leu o manual, entre
em contato conosco por direct”7. Após o contato via direct, os res-
ponsáveis foram estimulados a falar um pouco mais das suas im-
pressões acerca do manual. Os responsáveis que concordaram em
participar do estudo, enviaram áudio com seus relatos. Esses fami-
liares foram informados de que seus nomes não seriam revelados
e todas os áudios foram transcritos verbatime analisados.
RESULTADOS
A apresentação dos resultados será dividida em três etapas.
A primeira consiste nos dados referentes às respostas de 36 pais
de crianças e jovens com TEA ao survey. A seguir, algumas propos-
tas pedagógicas utilizadas no e-book ‘’Manual de orientação de pais
de crianças com TEA em tempos de isolamento social’’ e, por último,
relatos de 10pais de crianças e jovens com TEA que tiveram acesso
ao manual.
Dados demográficos das crianças e jovens com TEA os
dados sobre idade, sexo, escolaridade, tipo de escola estão
apresentados a seguir.
6 É um recurso do Instagram que permite que o usuário poste um conteúdo(fotos,
vídeos, enquetes, perguntas) que ficará disponível durante vinte e quatro horas.
7É um recurso do Instagram que permite a troca de mensagens entre os usuários.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 68
SUMÁRIO
⚫ Faixa etária das crianças com Transtorno do Espectro
Autista –TEA7
Foi verificado que quarenta e um por cento dos filhos têm
idade entre15 e 18 anos. Vinte e oito por cento são crianças entre
7 a 10 anos e vinte e dois por cento são crianças de 4 a 6 anos de
idade. A maioria dos estudantes com TEA está matriculada na rede
pública de ensino, totalizando sessenta e nove por cento. Um nú-
mero bem menor está frequentando a rede privada.
Grande parte das crianças está frequentando a Educação In-
fantil e o Ensino Fundamental I e II. Um aluno frequenta escola es-
pecial e outro a Educação de Jovens e Adultos. O ensino remoto tem
sido predominante e dezessete por centro dos estudantes estão
tendo ‘’aulas’’ online.
• Impressões dos pais acerca das consequências ocasio-
nadas pela pandemia
A seguir serão pontuados os principais desafios encontrados
pelos pais de crianças/jovens com TEA, por conta do isolamento
social causado pelapandemia do novo Coronavírus.
Em relação ao comportamento, parte dos pais responderam
que seus filhos estão muito agitados, reprimidos, ansiosos, agres-
sivos, irritados, desconcentrados e apresentando descontrole
emocional. Também relataram que a quebra da rotina provocada
pela pandemia ocasionou inúmeras crises em seus filhos, uma vez
que estes não estão frequentando as terapias no formato presen-
cial.
Responsável A. ‘’A quebra da rotina não está sendo fácil, especial
mente porque tem semana que os professores mandam os deveres e
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 69
SUMÁRIO
outras em que fica difícil restabelecer a rotina proposta nas ativida-
des anteriores’’.
Responsável B. ‘’A mudança drástica na rotina é um dificultador.
Além da criança ter que ficar em casa o tempo todo, ela não está mais
indo às terapias e apresentando assim algumas crises’’.
Responsável C. “Ter que adaptar a rotina do meu trabalho remoto
e ainda os afazeres domésticos não é fácil, pois tenho que dar suporte
ao meu filho nas atividades escolares, uma vez que sem suporte das
terapias e da escola está sendo muito complicado. Meu filho não se
adaptou ao ensino remoto’’(83%;17%).
• Funcionamento das aulas em tempos de pandemia
Em adição, ressaltamos a problemática do ensino remoto, pois
muitos pais encontram dificuldades para que os filhos permane-
cem e realizem as atividades propostas pela escola, como nos
exemplos que estão expostos a seguir:
- Responsável D. “Não, consigo manter ele nas atividades online’’.
- Responsável E. “Tenho dificuldade para ministrar as aulas. Tenho
que ver os vídeos da professora, para ver o que o meu filho consegue
fazer, ver os vídeos da mediadora e montar a aula. Fora que eu tenho
o gêmeo dele que está numa série à frente além de ser pai e mãe de
dois. Moramos sozinhos’’.
- Responsável F. “Não, está fácil não! Ele não fica muito tempo pa-
rado fazendo os exercícios e ainda diz q não sou a professora, grita e
esperneia de vez em quando’’.
- Responsável G. “Sinceramente, eu não sei como dar continuidade
às atividades pedagógicas. Acho que a pandemia ocasiona o surgi-
mento de várias crises’’.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 70
SUMÁRIO
Para os pais, o retorno das atividades escolares gera algu-
mas preocupações, tais como: contágio, falta de preparo das esco-
las para receberem os estudantes, dificuldade de manter o distan-
ciamento social e a higiene.
- Responsável Y. ‘’A falta de cuidados adequados para evitar a con-
taminação, já que ele é totalmente disperso e não tem muita preocu-
pação com a higiene pessoal, além das atividades escolares que não
foram desenvolvidas em casa’’.
- Responsável X. “Meu filho não tem noção alguma de higiene, não
consegue
usa máscara, coloca a mão na boca a todo momento... Difícil pensar
em voltas
as aulas com uma criança atípica assim’’.
- Responsável Z. “Pelo fato de não gostar da máscara, não fica
muito tempo
com ela diz q está sufocado, não para quieto, tem mania de lavar as
mãos e
cheirar depois, como podemos impedir interação de crianças no
mesmo ambiente, como fazer com q fiquem quietas e sem se tocar?
Não estaremos lá para fiscalizar todas as normas de limpeza e segu-
rança dos alunos, funcionários e professores no mesmo ambiente’’.
Diante do exposto, percebe-se que os pais, além de terem
preocupação acerca da propagação da COVID 19, compreendem
que as escolas não estão preparadas para o retorno, sobretudo no
que tange ao estabelecimento de normas sanitárias. Também acre-
ditam que a criança e o jovem com TEA poderão encontrar dificul-
dades para se adaptar à nova rotina, para aceitar o professor e pro-
fissional de apoio, assim como em realizar e acompanhar as ativi-
dades pedagógicas. Por fim, alguns pais alegam que as crises e os
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 71
SUMÁRIO
comportamentos adversos de seus filhos estão ocorrendo com
mais frequência devido o período de confinamento social.
• Propostas apresentadas no e-book Manual de orienta-
ção para pais de crianças com TEA em tempos de isola-
mento social
Antes de iniciar quaisquer atividades pedagógicas com as cri-
anças dentro de casa, recomenda-se que a rotina seja introduzida
aos poucos com elas. Togashi e Silva (2019)sugerem o uso de um
painel de rotina para exibir figuras que representem as atividades
que a criança costuma realizar durante o dia como mostra o Qua-
dro 1 a seguir.
Quadro 1. Painel de rotina diária
Escovar Tomar
café
Estudar
Almoçar Brincar Momento
de leitura
Dormir
As imagens utilizadas são do ARASAAC8, mas é possível colo-
car fotos, imagens do Google etc. O importante é mostrar para a
criança com TEA que as tarefas tem início, meio e fim.
A seguir, outro exemplo de painel de rotina no qual a criança
ou o jovem podem dispor junto com o adulto as imagens relativas
às atividades a serem realizadas e indicar quando elas terminam
(caixinha do ACABOU). Este painel pode ser confeccionado em casa
com a utilização de materiais e equipamentos de baixo custo, como
8É um portal aragonês de Comunicação Alternativa e Ampliada.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 72
SUMÁRIO
papelão, caneta, cola, papel A4, velcro, tinta colorida e impressora.
Todas essas imagens/pictogramas podem ser colocadas em se-
quência – uma ao lado da outra - em equipamentos domésticos,
como a geladeira, ou mesmo em um painel de rotina conforme des-
crito no manual.
Figura 1. Painel de rotina/caixinha do ACABOU
Aqui você pode retirar a atividade realizada pela criança. Todas as vezes que
ele finalizar, coloque os cartões na caixinha do ACABOU.
Fonte: Silva, Togashi, Araújo (2020)
Após o estabelecimento da rotina, diversas atividades peda-
gógicas podem ser introduzidas para a criança/jovem com TEA. O
importante é propor atividades que sejam do seu interesse e que
favoreçam a ampliação de seu repertório, intercalando-as com ati-
vidades prazerosas.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 73
SUMÁRIO
Figura 2. Atividades pedagógicas
1. Atividade de interesse do estu-
dante sobre meio de transporte
2. Ampliando o repertório do es-
tudante
Fonte: Silva, Togashi, Araújo (2020)
Mas antes de propor quaisquer atividades para o estudante,
é preciso verificar quais são os interesses do indivíduo, ou seja, sa-
ber o que ele gosta. Na primeira atividade do caso acima, temos
uma tarefa referente aos meios de transporte. Nessa situação, os
pais podem perguntar para a criança/jovem o nome e a função das
figuras coladas na atividade. Igualmente, saber se a figura é um
transporte aéreo ou terrestre, e assim por Painel de rotina.
Aqui você pode retirar a atividade realizada pela criança. To-
das as vezes que ele finalizar, coloque os cartões na caixinha do
ACABOU diante. Após explorar o vocabulário, é possível ampliar o
repertório da criança/jovem gradativamente, como bem explici-
tado na segunda atividade. Isso significa dizer que os responsáveis
podem perguntar para a criança/jovem quais desses profissionais
trabalham dentro do avião, do caminhão, do ônibus etc, por exem-
plo: “O lixeiro trabalha dentro do avião ou num caminhão?’’ E assim
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 74
SUMÁRIO
ir aumentando sua lista de palavras em consonância com suas fun-
cionalidades.
Outra proposta pedagógica que pode ser utilizada em casa,
sobretudo nesses tempos tão complicados, é o PROLECA. Ele é um
programa de leitura e comunicação para crianças com autismo, de-
senvolvido em2018 por Silva, oriundo de algumas estratégias do
Reading Engage Children with Autism in Language and Learning –
RECALL9(WHALON et al, 2013), e de práticas de contação de his-
tória (dramatização, onomatopeia e entonação). O programa traz
resultados consideráveis acerca do engajamento na tarefa, da aten-
ção compartilhada e de interesse da criança com TEA durante as
leituras. As estratégias do PROLECA (SILVA, 2018) serão apresen-
tadas a seguir:
1. Montar um formulário de roteiro de perguntas diver-
sas: a)Qu perguntas (Exemplo –“O que é isso? ‘’bolo’’), b)
identificação emocional (Exemplo - Como a menina está se
sentindo? “alegre”) e c) final aberto (Exemplo – “O que está
acontecendo aqui nessa página?’’.
2. Expandir o vocabulário (Exemplo – “Bolo, o bolo de choco-
late’’), elogio. (Exemplo –“Muito bem, parabéns etc.’’). Pro-
mover a atenção compartilhada (Exemplo – “Olha!’’ – apon-
tando para a imagem do livro).
9 “É um conjunto de procedimentos promissores para favorecer a compreensão lei-
tora. Este programa constitui uma adaptação da técnica de leitura compartilhada e
dialógica, que propõe que o adulto (mediador) utilize livros infantis para estimular
a criança a verbalizar a respeito da história ou ilustração, como um procedimento
de ensino baseado em estratégias com evidências empíricas capazes de desenvolver
habilidades de leitura, atenção recíproca, linguagem e comunicação em crianças
com autismo” (SILVA, WALTER e NUNES 2019).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 75
SUMÁRIO
3. Ofertar pausa intencional (Exemplo – antes de virar a
próxima página do livro aguardar 3 segundos).
4. Atenção compartilhada (Exemplo – Olha! Apontando para
a figura do livro).
5. Dramatizar (Exemplo - Adaptação da história de forma
dramática).
6. Verbalizar onomatopeias (Quando algumas palavras da
história são substituídas pelo som representativo da ima-
gem).
7. Falar com entonação (Expressividade específica na fala).
8. Desenvolver o PEEP hierárquico, que significa (Prompt -
dicas, Evaluate-avaliação, Expand- expansão, Praise- Elo-
gio). O PEEP tem 4 níveis hierárquicos:
a) Nível I – Livro aberto à vista da criança
b) Nível II – Três opções de resposta visual
c) Nível III – Duas opções de resposta visual
d) Nível IV – Uma opção de resposta visual
Funcionamento dos níveis: O adulto conta a história para a cri-
ança e deixa o livro a sua vista (Nível I). Em seguida, realiza uma
pergunta correspondente a página que está lendo e aguarda (5 se-
gundos) a criança responder. Se a criança responder corretamente,
o adulto parafraseia e expande a resposta dela, por exemplo:
‘’Bolo! O bolo de chocolate’’. E ao final, a elogia: ‘’Muito bem’’! Mas
se a criança não responder ou responder incorretamente, o adulto
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 76
SUMÁRIO
oferta três opções de resposta visual (Nível II), sendo uma delas a
opção correta. Vale ressaltar que os níveis podem avançar caso a
criança não responda corretamente. E se a criança não responder
mesmo após a apresentação do nível IV, o adulto deve colocar a
mão da criança sob a resposta correta, não esquecendo de parafra-
sear, expandir e elogiá-la.
• Relatos de responsáveis de crianças com autismo
Aqui serão descritos trechos de falas de dez familiares de
crianças com autismo após a leitura do e-book ‘’Manual de orienta-
ção para pais de crianças com TEA em tempos de isolamento so-
cial’’.
Responsável 1. “Achei o material fantástico e muito essencial nes-
ses tempos de Coronavírus. Ainda não consegui ler o material todo,
mas com certeza quero utilizar as dicas da rotina”.
Responsável 2.“Nossa! Eu vou usar essas dicas com meu filho. Ele
tem 5 anos e eu precisava organizar melhor a rotina dele. Tá bem
colorido, com imagens bem atrativas”.
Responsável 3. “Aí, adorei o manual! Eu faço faculdade de Pedago-
gia e tenho filho com autismo com duas mutações raras. Então ler
esse manual me despertou inúmeras ideias pra eu fazer durante a
pandemia”.
Responsável 4. “Achei muito massa esse material que vocês fizeram,
Parabéns. Vou divulgar para amigos que também tem crianças com
autismo. Gostei muito da dica da leitura, vou utilizar com meu filho”.
Responsável 5. “Meu filho não está conseguindo acompanhar a ro-
tina escolar que foi feita pela escola que ele estuda. Eles não tiveram
esse olhar que vocês demonstram, sabe, que é necessário organizar
a rotina. Eu já até encaminhei para a escola esse material. Espero
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 77
SUMÁRIO
que eles leiam. E a dica da leitura eu achei muito boa. Já to até orga-
nizando um cantinho aqui em casa”.
Responsável 6. “As atividades propostas estão ótimas, parabéns pra
quem organizou este material. Tenho certeza que este manual vai
ajudar muitas famílias e professores que lidam com crianças autis-
tas”.
Responsável 7. “Oi! Eu, ao ler o manual, eu comecei a organizar a
rotina do meu filho. Nestes tempos de pandemia ele passou por mui-
tas crises e agora, se eu fizer uma rotina mais organizada, talvez ele
possa realizar algumas atividades, porque tem sido muito difícil fa-
zer com o que ele fique na tela do computador”.
Responsável 8“Olha, eu adorei todo o material, eu to apaixonada,
to achando muito fofo. Muito legal a questão da leitura. Eu sempre
tento ler com minha filha aqui em casa, mas só de noite mesmo, por-
que durante o dia é uma correria. Tá sendo difícil organizar a rotina,
mas com certeza vou usar as dicas de vocês.”
Responsável 9. “Oi! Boa noite! Eu não fazia a rotina com meu filho
usando imagens, é algo que eu vou utilizar. E a leitura é algo que eu
vou fazer, eu gostei muito da proposta do PROLECA, é assim o nome
né? Espero que o manual não só ajude a mim e a meus filhos, mas
outras pessoas, outras famílias”.
Responsável 10. “Eu comecei a elaborar algumas estratégias do
PROLECA. Não sei se fiz certo, mas o meu filho ficou mais tempo es-
cutando a história, era muito difícil porque ele se desconcentrava
muito. Percebi uma diferença, sabe? A rotina eu já fazia, mas não
usava o painel, mas com certeza eu vou utilizar. Parabéns, viu? E
também achei o manual lindo, muito funcional.”
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 78
SUMÁRIO
DISCUSSÃO
Sabe-se que a pandemia da COVID19 impactou a vida socioe-
mocional e econômica de inúmeras famílias (WHO, 2020; PEREIRA
ET AL, 2020; HOSSAIN et al, 2020). Muitas não conseguem sequer
realizar o isolamento social que, para muitos estudiosos, como Wil-
der-Smith e Freedman (2020), é a medida mais efetiva e pertinente
para combater o avanço do novo Coronavírus. Exposto isto, é im-
perativo ressaltar que uma parte da população mundial está volun-
tariamente em casa, apesar da abertura gradual do comércio e de
outras atividades essenciais.
De modo geral, a maioria das escolas brasileiras segue com
aulas presenciais suspensas por tempo indeterminado, embora
ofertando o ensino remoto (SOUZA E DAINEZ, 2020). Com efeito,
percebe-se que a falta de contato das crianças com a escola afetou
a dinâmica familiar de inúmeras crianças/jovens, em especial
aquelas com TEA e com deficiências. Entende-se que houve uma
ruptura da rotina diária, ocasionando diversos comportamentos
adversos, como medo, insegurança, agressividade, dentre outros
(SILVA, TOGASHI e ARAÚJO, 2020).
Para Valiati e Cunha (2013), estruturar a rotina para uma cri-
ança ou jovem com TEA pode ser uma estratégia imprescindível
para o desenvolvimento de outras atividades ao longo do dia com
a criança/jovem, sejam elas escolares ou não, pois a antecipação
dos acontecimentos pode organizar seu pensamento, bem como
deixá-los mais segurosquanto às tarefas que irão cumprir em seu
cotidiano. De acordo com Togashi e Silva (2019), além de ajudar na
organização, a rotina pode ser implementada na orientação das ati-
vidades de vida diária.
Também foi pontuado que promover atividades do interesse
da criança/jovem pode ser uma estratégia extremamente
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 79
SUMÁRIO
importante. Diversos autores, como Briant e Oliver (2012) e San-
tos e Martins (2015), compreendem que antes de propor quais-
quer tarefas para o estudante, faz-se necessário conhecer quem é
este indivíduo, bem como saber seus interesses e gostos. E a partir
do levantamento dessas questões, pensar em estratégias que pos-
sam envolvê-los nas atividades, como também ajudá-los no pro-
cesso de aprendizagem.
É válido lembrar que durante essa pandemia, sugiram dife-
rentes modalidades de ensino. Desde escolas que estão dando au-
las via plataformas on-line, como aquelas que estão elaborando
materiais pedagógicos impressos para entregar a cada estudante
que não tem acesso a recursos tecnológicos. Além disso, encontra-
mos escolas que não estão funcionando no formato de ensino re-
moto. Aqui neste artigo não entraremos na discussão do ensino re-
moto, mas certamente acreditamos que a parceria da família com
a escola é fundamental para o desenvolvimento global da cri-
ança/jovem com TEA. Por fim, os dados apontaram que as estraté-
gias do Proleca podem ser uma aliada durante esse período de pan-
demia, pois os pais que as utilizaram perceberam que seus filhos
ficaram mais atentos e engajados na tarefa de leitura.
No estudo desenvolvido por Silva (2018), a autora constatou
que além de favorecer o ganho de vocabulário expressivo e recep-
tivo, o Proleca pôde melhorar a atenção compartilhada, o tempo da
criança na tarefa e as tentativas de respostas da criança com TEA a
partir das perguntas propostas pelo adulto durante a contação de
história. Em adição, usar estratégias de contação de história, como
dramatização, uso de onomatopeia e entonação, pode favorecer o
gosto e interesse da criança por obras literárias. Sendo assim e
tendo em vista que o Proleca foi desenvolvido antes da pandemia
e que trouxe resultados significativos, sugere-se que o mesmo seja
lido e aplicado por pais e profissionais da educação para que
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 80
SUMÁRIO
possam utilizá-los, embora remotamente, com pessoas com e sem
autismo, a fim de ofertar momentos de aprendizagem e prazer du-
rante o momento da leitura.
CONCLUSÃO
A pandemia do Coronavírus (Covid-19), trouxe inúmeras in-
quietações não somente para famílias de crianças/jovens com TEA,
mas para todas as pessoas de um modo geral. De uma hora para
outra, todos tivemos que adotar o isolamento social e desenvolver
hábitos novos.
Com as novas restrições ocasionadas pela pandemia, as esco-
las foram as primeiras a serem afetadas e, aqui no Brasil, essa rea-
lidade foi apresentada em meados de março. Diante disso, os estu-
dantes bem como os professores tiveram que ficar em casa e
aguardar as orientações escolares e sanitárias para o retorno das
aulas. Sabemos que o retorno tem sido discutido em inúmeros de-
bates científicos e não científicos, tendo em vista que até agosto de
2020, o Brasil ainda não conseguiu diminuir a propagação do vírus.
Logo, as famílias perceberam que o “novo normal” seria orientar
as crianças a realizar as atividades escolares remotamente.
Iniciar um trabalho remoto não foi uma tarefa fácil para os
pais, tendo em vista que grande parte das crianças/jovens com
TEA apresenta dificuldades em se adaptar à mudança repentina na
rotina. Sendo assim, tanto o “Manual de orientação para pais de cri-
anças com TEA em tempos de isolamento social” como este artigo
destacam que antes de propor quaisquer atividades pedagógicas,
os pais e até mesmo os profissionais de educação orientem seus
filhos/estudantes a seguir uma rotina diária.
Por fim, o PROLECA mostrou-se um programa com estraté-
gias promissoras, sobretudo nesses tempos de pandemia, capaz de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 81
SUMÁRIO
engajar a criança/jovem na tarefa de leitura e favorecer seu gosto
e interesse por obras literárias.
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A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 83
SUMÁRIO
CAPÍTULO 4
DESAFIOS DOCENTES DA ESCOLA
REGULAR DIANTE DA EDUCAÇÃO DE ALUNOS
COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL NUMA
PERSPECTIVA INCLUSIVA
Lúcia de Araújo Ramos Martins
INTRODUÇÃO
Quando se pensa numa escola inclusiva, seja quais sejam as
características dos educandos, torna-se relevante a compreensão
do que seja Inclusão, pois a todo momento surgem alunos com ne-
cessidades especiais na instituição escolar, entre os quais os que
apresentam Deficiência Intelectual.
Segundo STAINBACK, STAINBACK (1999, p. 21), a Educação
Inclusiva pode ser percebida “[...]a prática da inclusão de todos –
independentemente de seu talento, deficiência, origem socioeco-
nômica e social – em escolas e salas de aula provedoras, onde as
necessidades desses alunos sejam satisfeitas”.
EDUCAÇÃO INCLUSIVA
A Inclusão um movimento que busca repensar a instituição
escolar, pois, conforme afirma Jiménez (1977), ela deixe de ser um
lugar que prime pela homogeneidade, transformando-se em um lo-
cal da heterogeneidade, evitando, desta maneira, que acabe a
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 84
SUMÁRIO
discriminação e prevaleça uma abertura da escola para todos, sem
exceção. Isto não apenas pela força da legislação, mas pelo reco-
nhecimento dos direitos de todos.
Isto representa não apenas a inserção física do educando
com deficiência na classe regular, porém, na busca de maneiras a
fim de contribuir para uma mudança na escola, de maneira que se
torne ais receptiva aos educandos com deficiência; auxiliar os do-
centes a se capacitarem e para refletirem sobre a responsabilidade
que têm sobre como ensinar de maneira adequada a todos, sem ex-
ceção; propiciar o envolvimento de todos que formam a comuni-
dade escolar (do porteiro ao diretor), a se esforçarem para o em-
preendimento do processo educacional Inclusivo; tornar possível
que os educandos com deficiências se sintam como participantes
do ambiente escolar (MARTINS, 2011).
Antes da década de 1980, esses alunos eram atendidos em
classes especiais ou em instituições especializadas, onde recebiam
o atendimento educacional, mas de maneira segregada, sem con-
tato com educandos tidos como “normais”.
Em 1988, a Constituição Brasileira definiu, no Artigo 208,
“[...] atendimento educacional especializado aos portadores de de-
ficiência, preferencialmente na rede regular de ensino[...]. Já em
1989, a Lei n. 7.853, dispôs também a respeito do apoio a estas pes-
soas e sobre a sua integração social. Previu, também, no artigo 2, a
matrícula compulsória nas escolas regulares, de pessoas com defi-
ciência capazes de se integrarem no sistema de ensino, assim
como, no artigo 8, punição com reclusão e multa, quem “[...] recu-
sar, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar, sem justa
causa, a inscrição de aluno em um estabelecimento de ensino de
qualquer curso ou grau, público ou privado, por motivos derivados
da deficiência que porta”.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 85
SUMÁRIO
Tais avanços ocorreram, de forma mais significativa, a partir
da realização da Conferência Mundial sobre Necessidades Educati-
vas Especiais, que ocorreu em 1994, sendo disseminado, a partir
de então, com a inserção e permanência destes alunos na institui-
ção de ensino regular.
Tais avanços se evidenciaram como mais relevantes e signi-
ficativas a partir da Conferência Mundial sobre Necessidades Edu-
cativas Especiais (1994), quando o conceito de escola inclusiva pas-
sou a evidenciar uma escola para todos, independentemente das
suas diversidades. Tal movimento vem influenciando as políticas e
desafiando as comunidades no mundo todo.
No que diz respeito à formação dos docentes especializados
[...] deverá ser reexaminada com vistas a lhes permitir um trabalho
em diferentes contextos e o desempenho de um papel-chave nos
programas relativos às necessidades educacionais especiais. Seu
núcleo comum deve ser um método geral que abranja todos os ti-
pos de deficiências, antes de se especializar numa ou várias cate-
gorias particulares de deficiência (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA,
1994, p.36).
No entanto, embora tenham ocorrido muitos avanços nos úl-
timos anos em vários países, inclusive no Brasil, já se reconhece
que tratar de questões relacionadas ao ensino de pessoas com Ne-
cessidades Educacionais Especiais, durante a formação inicial de
educadores, eliminaria muitas barreiras que impedem a inclusão
escolar desses alunos. Porém, ainda existem queixas relacionadas
ao distanciamento entre aqueles que elaboram os cursos e as ne-
cessidades das escolas, pois dar ouvidos aos que atuam nas insti-
tuições escolares, assim como o diálogo são indispensáveis para
que se saiba onde chegar e como desenvolver os cursos, por meio
de ações compartilhadas, como resultado de articulações entre
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SUMÁRIO
todos os atores e que devem ser, também, autores (CARVALHO,
2004).
A este respeito, Gonzáles (2002, p. 245), afirma que:
[...] a ansiedade e a rejeição que muitos professores manifestam
diante da integração em aulas de alunos com Necessidades Educa-
tivas Especiais estão estreitamente relacionadas, na maioria das
vezes, com a falta de preparo e informação e com a inexistência de
experiência.
Neste sentido, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio-
nal (Lei 9394/ 1996), que regulariza a educação brasileira, situa
no capítulo V, que a Educação Especial deve ser oferecida, de
forma preferencial, na rede regular de ensino para alunos portado-
res de Necessidades Especiais, devendo ser-lhes ofertados “[...] cur-
rículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização especí-
fica para atender às suas necessidades”.
Em 2011, a Lei Brasileira de Inclusão, no artigo 28, X, delega
ao poder público “assegurar, criar, desenvolver, implementar, in-
centivar, acompanhar e avaliar a adoção de práticaspedagógicas
inclusivas pelos programas de formação inicial e continuada para
o atendimento educacional especializado”.
O Decreto n. 7.611, de 2011, no artigo 5, parágrafo 2º, con-
templa que:
III - Formação continuada de professores, inclusive para o desen-
volvimento da educação bilíngue para estudantes surdos ou com
deficiência auditiva e do ensino do Braille para estudantes cegos
ou com Baixa Visão;
IV - Formação de gestores, educadores e demais profissionais da
escola para a educação numa perspectiva inclusiva, particular-
mente na aprendizagem, na participação e na criação de vínculos
interpessoais.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 87
SUMÁRIO
Atualmente, a Política de Educação Especial, intitulada “Equi-
tativa, inclusiva e ao Longo da Vida” está sendo analisada com vis-
tas a uma alteração.
Diante do que foi estabelecido, o conceito de “inclusão”, ultra-
passa a mera inserção física de um educando com deficiência na
escola regular, exigindo que dele não seja requerido ser igual e que
se desenvolva tal como os colegas, porém, respeitar a sua hetero-
geneidade, buscando maneiras para que se desenvolva, participe
nas atividades e colabore com os colegas, independentemente do
seu nível acadêmico e social, pois todos são capazes de aprender
no seu ritmo próprio.
A inclusão traz benefício para todos, requerendo uma prepa-
ração dos profissionais de ensino para atuar adequadamente di-
ante das diferençasdos seus educandos. Porém, segundo Hallahan,
Kauffman (1999, p. 25),
[...] há um longo caminho a percorrer uma vez que no decorrer de
todo este processo de implementação de um modelo inclusivo é
exigido aos educadores e professores um elevado profissionalismo
e competência no desempenho de suas reponsabilidades. Os edu-
cadores e professores, muitas vezes, confrontados por dilemas éti-
cos, profissionais, bem como legais e administrativos, e, no caso,
dos educadores e professores de educação especial, convém subli-
nhar que nem sempre é fácil, eles praticarem um ensino altamente
individualizado, intensivo e baseado em planificações consisten-
tes.
Numa sociedade onde o padrão da normalidade é impor-
tante, faz-se necessária a compreensão da diversidade e dos direi-
tos de cada educando a uma aprendizagem dentro do contexto so-
cial da escola e da classe, de maneira a ter acesso ao currículo, de
se dedicar a atividades que visem a aprendizagem, que possam
corroborar sua imagem e autonomia (PACHECO, 2007).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 88
SUMÁRIO
PRÁTICA EDUCACIONAL INCLUSIVA
Ao falarmos de Inclusão, destacamos que a UNESCO (1994) a
define como o princípio fundamental da escola inclusiva que con-
siste no fato de que todas as pessoas devem aprender juntas, onde
seja possível, não importam quais as dificuldades ou diferenças
elas possam ter.
Para que a escola se torne uma “escola das diferenças”, local
onde todos se expressam livremente, participam das atividades de
ensino e se desenvolvem como um cidadão, mesmo com suas di-
versidades. Assim, a escola é realmente para todos, sem distin-
ções, requerem-se transformações, o que não é algo fácil, reque-
rendo formas de superar as dificuldades dos alunos, de maneira
que possam acender às diversas etapas do currículo, de forma mais
autônoma (GROSS, 2002).
No entanto, ainda existem concepções de que os alunos com
Necessidades Educacionais Especiais nas classes regulares é algo
percebido como muito difícil, complicado, mas ideal, pois tais edu-
candos não se encaixam no modelo idealizado, com as normas, nos
padrões instituídos pelas escolas.
Tais aspectos nos remetem à visão de Larossa, Skliar (2001),
enfatizam que ensinar numa classe inclusiva é algo diz respeito a
ensinar educandos denominados “normais” com os denominados
“anormais”, porque para ele os níveis cognitivos são diferentes, não
se enquadrando no modelo de escola moderna. Consideram que foi
um arranjo inventado para colocar em prática as normas existen-
tes. Porém, com base em pesquisas realizadas, consideram que a
concepção dos docentes se aproxima da definição da Declaração de
Salamanca (1994), quando passou-se a reconhecer esses alunos
como parte da clientela da instituição regular, exigindo apenas um
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SUMÁRIO
tratamento diferenciado, porque são compreendidos como defe-
rentes dos demais.
A prática numa perspectiva inclusiva necessita ser estimu-
lada por considerações no aspecto curricular, bem como com me-
todologias, materiais e em níveis curriculares e por outras condi-
ções ambientais, pois
Escolas inclusivas precisam reconhecer e responder às necessida-
des diversificadas de seus alunos, acomodando a diferentes estilos
e ritmos de aprendizagem e assegurando educação de qualidade
para todos mediante currículos apropriados, mudanças organiza-
cionais, estratégias de ensino, uso de recursos e parcerias com suas
comunidades (UNESCO, 1994).
De acordo com Radruello (2002), considerando as necessida-
des dos educandos, a escola necessita estar preparada para rece-
ber e atuar com alunos com deficiência, pois é um direito assegu-
rado nas legislações internacionais, pois não basta matricular o
aluno numa escola regular, porém, verificar as suas singularidades.
Os pais devem ser estimulados a oferecerem uma atenção es-
pecial no que diz respeito à aprendizagem dos filhos com Necessi-
dades Educacionais Especiais (NEE), pois isto pode trazer muitos
benefícios para a sua aprendizagem, no que diz respeito a várias
disciplinas, como por exemplo: leitura, escrita, matemática, entre
outras. (GROSS, 2002).
De acordo com Prieto (2003. p. 27),
As políticas públicas para a inclusão devem ser concretizadas na
forma de programas de capacitação e acompanhamento contínuo,
que orientam o trabalho docente na perspectiva da diminuição
gradativa da exclusão escolar, o que visa a beneficiar não apenas
os alunos com necessidades especiais, mas, de forma geral, a edu-
cação escolar como um todo.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 90
SUMÁRIO
Neste sentido, há necessidade de uma efetiva preparação dos
professores de todos os níveis, mesmo que tenham formação em
nível superior e pós-graduação, no tocante a forma de perceberem
e de proporcionarem uma efetiva atuação com a diversidade do
alunado no ambiente escolar. Capacitação esta que não os faça
conscientes apenas das necessidades, características e potenciali-
dades dos seus educandos, mas de suas próprias condições para
ensinar num ambiente inclusivo, de refletir constantemente sobre
a sua prática e de buscar caminhos, a fim de modificá-la, quando
necessário (MARTINS, 2009).
As propostas de Educação Inclusiva obrigam-nos a abando-
nar a visão tradicionalmente utilizada de formação dos docentes
do ensino regular e dos de Educação Especial, numa perspectiva
inclusiva. Atualmente, admite-se que a educação ultrapassa a uma
operação concreta em determinadas situações, envolvendo uma
programação sistemática, com objetivos claros, com os devidos re-
cursos existentes (SANCHEZ et all, 2011).
No panorama educacional brasileiro vêm se acentuando os
investimentos na formação continuada dos docentes, tendo em
vista que grande parte dos professores do Ensino Básica não teve
oportunidade de não teve oportunidade de construir, durante a
sua formação na graduação ou no Ensino Médio, conhecimentos
sobre a Educação Inclusiva de alunos com deficiência e outras ne-
cessidades Educacionais Especiais.
Vários cursos foram oferecidos pelo MEC e pelas Universida-
des, em parceria com os sistemas estaduais e municipais, inclusive
no Rio Grande do Norte. Na maior parte das instituições escolares
existem também profissionais de apoio que possam atuar como
apoio aos educandos com NEE, de acordo com a Lei 9.394 (LDB),
mas nem sempre trazem resultados positivos para todo no tocante
ao rendimento dos alunos. Alguns estão iniciando o curso de
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SUMÁRIO
Pedagogia ou outras licenciaturas e nem sempre cursaram sequer
a disciplina introdutória sobre a Educação Especial (DUEK, MAR-
TINS, 2020).
As práticas dos professores, em sala de aula regular, visam o
desenvolvimento dos relacionamentos, a criação de um ambiente
afetivo com vistas ao apoio e à esperança de desenvolvimento cog-
nitivo, social e emocional dos alunos. Isto, porém, não é algo fácil,
requerendo a formação dos profissionais, orientações à família. O
ensino de forma colaborativa está correlacionado a avanços, de-
vendo os docentes serem responsáveis conjuntamente por todos
os educandos, sem exceção.
No intuito de manter e aprimorar o ambiente social na classe
e em outros ambientes escolares, existe carência de orientação e
planejamento com os alunos, porque isto vai evitar a existência de
apreensões, atitudes desinteressadas, preconceituosas e falta de
iniciativa de alguns educandos, assim como o papel dos pais neces-
sita ser destacado e incentivado.
Diferenciar o ensino requer que as informações e as explica-
ções dos docentes sejam individualizadas, assim como as ativida-
des dos educandos,a observação e a avaliação, considerando-os,
animando-os, comunicando-se, mantendo a ordem, orientando-os
para colaborarem uns com os outros, realizando atividades con-
juntas para todos. Existe necessidade de ensino mútuo, de coope-
ração dos pares, respeito às diferenças, porque os alunos devem
ter consciência da importância deste processo inclusivo.
Para tanto, faz-se necessária uma preparação cuidadosa dos
colegas que atuarão como tutores no processo educacional, de ma-
neira que saibam claramente como atuar, o que é exemplificado
pelos docentes e depois praticado de maneira supervisionada.
Assim, os relacionamentos permanentes, de cunho emocio-
nais interativos e a observância de regras sociais são
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SUMÁRIO
imprescindíveis para o desenvolvimento de habilidades emocio-
nais, sociais e intelectuais dos educandos. No entanto, não é fácil
aprender a ficarem tranquilas, atentas ao ambiente a sua volta, a
se comunicarem de maneira clara, afetuosa, brincando com os ami-
gos, tendo experiências adequadas ao seu nível de desenvolvi-
mento, participando (os que tiverem interesse) de outras experi-
ências extra classe, tais como esportes, competições em classe.
Segundo Wallon (1989), é de grande relevância
[...] da relação lúdica para a para a constituição do sujeito, constru-
ção da subjetividade e a identificação do ser. O brincar, as brinca-
deiras e os brinquedos são elementos fundamentais para a organi-
zação psíquica e para o desenvolvimento cognitivo das crianças
desde os primeiros dias de vida.
A partir disso, segundo Wallon (op. cit.), o cérebro se forma
numa ação continuada mediante a atividade lúdica da criança,
desde a idade mais precoce, de maneira coerente com as solicita-
ções do meio ambiente, transitando entre os pares, mas isto muitas
vezes não ocorre na maior parte das vivências, especialmente para
a criança com deficiência que foi incluída numa turma regular, es-
truturada com base num modelo que foi estruturado para atender
à diversidade (MORENO, 1972).
Na Educação Inclusiva, um meio de apoio aos alunos com
NEE e aos colegas, a fim de que podem atuar como alguém que en-
sina de forma colaborativa, que traz benefícios para todos os cole-
gas com e sem deficiência, pois permite que consigam elevar seu
conhecimento nos conteúdos ensinados (GROSS, 2002).
Diversos autores, entre os quais destacamos Piaget, Wallon
e Vygotsky, destacam que o jogo simbólico tem grande importân-
cia do jogo simbólico para o desenvolvimento infantil, onde as cri-
anças fazem uma diferenciação da realidade da fantasia com vistas
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 93
SUMÁRIO
a experimentar outras possibilidades no imaginário (leões, maca-
cos, carros, bailarinas), pinturas, entre outros. Os materiais de
apoio aos alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE)
demanda tarefas ilustrativas, materiais acessíveis, jogos, brinque-
dos, entre outros que precisam ser adaptados para a utilização com
todos os educandos, na sala de aula.
É imprescindível, também, a formação dos docentes para
uma atuação adequada com todos os educandos, inclusive com
aqueles que apresentam Deficiência Intelectual. Em culturas dife-
rentes há conceitos diversos, preconceitos e discriminações que
influenciam a sociedade.
O documento intitulado Currículo Nacional (NLS, 2000), do
Chile, no tocante à formação relativa à inclusão de alunos com NEE,
com base na forma de pensar sobre a diversidade humana, envolve
três vínculos: estabelecer objetivos de aprendizagem adequados,
responder às diversidades de aprendizagem dos educandos, supe-
rar os possíveis obstáculos para a aprendizagem.
A observação centrada em determinados aspectos da classe
e assessoramento ao professor acerca: das estratégias para a dife-
renciação e gestão da conduta; observar determinados alunos com
o objetivo de obter informações para uma avaliação; garantir o
acesso, utilizando recursos para evitar obstáculos, por exemplo,
simplificando a linguagem do professor nas aulas, ajudando o
aluno a fazer questões, utilizando recursos específicos; reunir o
grupo para desenvolver tarefas específicas; preparar materiais di-
ferenciados, sob a orientação de profissionais especializados; tra-
balhar com um aluno durante dez minutos, diariamente, em um
programa de ensino, com base em objetivos, utilizando materiais
gráficos de aprendizagem; ajudar os educandos a usarem a auto
avaliação e os produtos das avaliações efetuadas e as suas fichas
de progresso (GROSS, op.cit).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 94
SUMÁRIO
Com apoio dos auxiliares de ensino as escolas têm que deci-
dir em que circunstâncias os educandos vão receber o Atendi-
mento Educacional Especializado (AEE) fora da classe, visando fa-
cilitar o trabalho com base em determinados objetivos específicos
individualizados, em uma atmosfera de tranquilidade. Pode, desta
maneira, contribuir para que o aluno se distancie das atividades da
turma, se ocorrer no mesmo horário das aulas, perdendo o contato
com os colegas nas atividades escolares.
COMPREENDENDO ALGUNS ASPECTOS DA DEFICIÊNCIA INTE-
LECTUAL
A deficiência sempre existiu na história da humanidade.
Quando pensamos sobre o que é deficiência, não temos uma única
resposta, pois existem vários conceitos a respeito do tema, reque-
rendo uma efetiva atenção. Entendemos que as pessoas com defi-
ciência não são “incapazes”, pois, segundo Smith (2008), as pessoas
com deficiência não devem ser segregadas, mas têm que ser perce-
bidas como uma pessoa com “diferença”. Isto não é algo fácil, por-
que existem definições diversas sobre o tema, que são transmitidas
de uma geração para a outra (MARTINS, 2015).
A expressão Necessidades Educacionais Especiais (NEE) tor-
nou-se sinônimo de juízo acerca da capacidade dos alunos, ou seja,
de suas carências, afirmando-se que eles têm dificuldades de
aprendizagem. Segundo Gross (2002, p.15), “El concepto era flu-
ido, lo que suponía que cualquer niño podia tener en algún mo-
mento, en vez de que essas dificultades fuesen propias de um
grupo determinado que fuera de alguna manera diferente de la ma-
yoria.”
Deficiência Intelectual é uma condição, não uma doença ou
incapacidade, que se caracteriza por limitações nas habilidades
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 95
SUMÁRIO
intelectuais em geral. Tais habilidades estão relacionadas à inteli-
gência, atividades que implicam na resolução de problemas e pla-
nejamento de atividades, entre outros aspectos, requerendo acom-
panhamento médico e estimulação desde a idade mais precoce da
parte de fonoaudiólogos, psicopedagos, terapeutas ocupacionais,
entre outros profissionais.
Como o educando com Deficiência Intelectual que
[...] apresenta muita dificuldade de vinculação, em que fracassam
muitas vezes nas tentativas de envolvimento com qualquer ativi-
dade proposta e, mesmo, com a professora e colegas. Escutando-se
os pais para reconstruir seu percurso de subjetivação, verifica-se
num certo momento, um dos avós, que era nordestino, tinha tido
grande aproximação com ela. Outro dado importante da história
individual e observado pela equipe é seu envolvimento com a mú-
sica (FABRÍCIO et all, 2007).
Quando falamos em Deficiência Intelectual, não estamos nos
referindo apenas a uma maneira de conceituá-la, nas concepções
que respaldaram o pensamento em relação a este conceito durante
várias épocas, pois é algo construído ao longo de várias épocas, co-
erentemente com as convenções sociais e/ou científica, o que vem
sendo traduzido sob a forma de distintas nomenclaturas
(PLETSCH, 2010).
O modelo médico-pedagógico,tradicionalmente adotado, as-
socia esta condição a uma “doença”, oque ressalta mais as limita-
ções do que a valorização das potencialidades dessas pessoas, deve
ser abandonada. A escola necessita se adaptar a todos os alunos,
indistintamente, compreendendo as necessidades educacionais de
todos, e procurando dar respostas às suas necessidades educacio-
nais.
Estudos relativos à construção social da Deficiência Intelec-
tual, demonstram que além das suas dificuldades e limitações
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 96
SUMÁRIO
pessoais, também apresentam necessidades, direitos e possibili-
dade, assim como que suas inabilidades estão relacionadas às con-
dições de inserção ofertadas pelo meio ambiente. O que se eviden-
cia, neste contexto, não são procuradas nos alunos, mas para o seu
processo educacional.
A Associação Americana de Retardo Mental (AAMD, 2006),
atualmente denominada de International Association for the Sci-
entific of Intellectual Disabities (IASSID), anuncia a existência de
novas maneira de conceber a Deficiência Intelectual, levando em
consideração pelo menos quatro fatores de ordem: biométricos,
comportamentais, educacionais e sociais.
O modelo expresso no Sistema 2002, publicado pela AAMR
(2006), ressaltou o modelo de apoio e se aproxima do referencial
da THC, trazendo fortes implicações na maneira de conceber a de-
ficiência e na postura educacional frente a tais educandos, uma vez
que Vygotsky (1997), opondo-se à visão biológica diante destes
educandos, com deficiência, situa-a como uma concepção biológica
e determinante das deficiências (OLIVEIRA, 2011).
O educando com Deficiência Intelectual, matriculado numa
classe regular, deve ser percebido como alguém que pode ser al-
guém em processo dinâmico e progressivo de desenvolvimento,
desde que lhe seja proporcionada uma educação de qualidade, ade-
quada às suas condições.
A sua capacidade depende de maneira substancial da pre-
sença e participação de outras pessoas (familiares, docentes, cole-
gas), com quem tem apego afetivo e da comunicação existente en-
tre eles, das informações que cada ambiente tem a respeito do ou-
tro (BRONFENBRENN, 1994).
As limitações podem ser superadas através de ações adequa-
das, assim como da oportunidade de inclusão educacional e social,
pois todos os educandos, independentemente das suas diferenças,
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SUMÁRIO
têm direitos que precisam ser respeitados no que diz respeito à
aprendizagem e ao seu desenvolvimento de forma ampla, para me-
lhorar de maneira ampla (PIRES, 2011).
Como a construção da aprendizagem se faz pela interação
dos alunos com os objetos, conforme Piaget, numa perspectiva
construtivista. Assim, os docentes precisam sempre valorizar as vi-
vências dos educandos, em todos os momentos das aulas como por
exemplos nas festas, nas Feiras de Ciências, nas montagens de pe-
ças teatrais, na sala de aula, entre outras ocasiões (REILY, 2006).
Para atuar melhor com as diferenças dos educandos, torna-
se imprescindível, estabelecer estímulos adequados à aprendiza-
gem, responder às diversas necessidades de aprendizagem dos
educandos, superar possíveis obstáculos para aprendizagem, por-
que também, adaptar o currículo regular das instituições escolares
de forma a que as práticas pedagógicas, no que diz respeito a di-
versas áreas, inclusive no tocante ao desenvolvimento da lingua-
gem. Gerar práticas pedagógicas que ultrapassem o mecânico, de
forma a possibilitar aprimoramento das interações sociais com
base nas palavras, nas atitudes e ações, na formação docente de to-
dos que constituem a comunidade escolar.
Neste sentido, a formação inicial e continuada dos profissio-
nais de ensino é imprescindível para a construção de uma institui-
ção educacional, numa perspectiva inclusiva, ofertando novos en-
foques, que propiciarão novas maneiras de organização, de plane-
jamento, de metodologias, de atividades, de adaptações curricula-
res e de formas de avaliação. A sala de aula deve ser um espaço de
trocas, de crescimento, de compartilhamentos, de ações relevantes
para a permanência com sucesso de todos os educandos, sem dis-
tinções (DENARI, 2008).
As mudanças envolvem também uma reestruturação do pro-
jeto político pedagógico das escolas, e da expansão das são
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 98
SUMÁRIO
ambientes de Recursos Multifuncionais (SRM) que visam oferecer
alguns equipamentos, materiais didáticos, de informática e peda-
gógicos mobiliários adequados às necessidades dos educandos. É
um dispositivo prioritário na política de Educação Especial do
MEC. Nelas atuam docentes especializados, que vão atuar com os
educandos com Necessidades Educacionais Especiais, em parceria
com os professores das classes regulares.
Os recursos selecionados pelo professor do AEE podem ser
de alta ou baixa tecnologia. Os de baixa podem ser construídos pe-
los docentes da SRM, mas os alta tecnologia têm que ser adquiridos
após uma avaliação das necessidades dos educandos, sob a indica-
ção do professor do AEE, com base nas características dos alunos,
tais como: lápis adequados que são engrossados com uma bola de
espuma; teclado expandido; máquinas braile; pranchas com le-
tras; livros em relevo; prancha de comunicação com símbolos, en-
tre outros.
Construir uma escola inclusiva não é algo fácil, mas é algo
possível, pois pode ser percebida como “[...] um trampolim para o
futuro que se pretende dar ao indivíduo e à sociedade”. Alguns
questionamentos surgem neste sentido: Porque as crianças apren-
dem? Como elas aprendem? Por que as crianças não aprendem?
Qual é a relação que se estabelece entre o interesse, o conheci-
mento, o saber, e o desenvolvimento do ser? Poderia ser a apren-
dizagem de hoje um saber para o futuro? São perguntas que não
podemos deixar de formular (FERREIRA, GUIMARÃES, 2003).
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
A escola inclusiva não ocorre por acaso, nem de decretos.
Construir uma escola nesta perspectiva, requer transformações
que possam privilegiar as concepções, as práticas pedagógicas e
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 99
SUMÁRIO
sociais, de maneira que tragam contribuições valiosas para o pro-
cesso inclusivo, no que se refere ao respeito à diversidade do alu-
nado, ao currículo e as práticas educacionais que visem o reconhe-
cimento das diferenças cognitivas, sociais e físicas que existem na
classe.
A partir da Conferência Mundial opara Educação de Todos
(1990), o Brasil fixou normas básicas para aprimorar o sistema
educacional, no tocante à Educação Inclusiva.
Mesmo que as instituições escolares tenham avançado no
que diz respeito ao atendimento à diversidade do alunado, ainda
correm práticas e mecanismos que evidenciam uma visão limitada
sobre os mesmos, com ações de reprimendas, que ainda reforçam
uma visão de limitação do educando, de orientação para um aten-
dimento clínico, psicopedagógico, dentre outros auxílios que pos-
sam colaborar para redução das dificuldades de aprendizagem.
Requer-se, também, um investimento substancial na forma-
ção dos profissionais da escola, de maneira específica que lhes pos-
sibilite: perceber as condições dos alunos; adequar ao currículo
para favorecer a participação de todos; analisar atentamente quais
as estratégias a serem consideradas para responder às necessida-
des educacionais de todos; analisar qual o papel que devem desem-
penhar as tecnologias assistivas nesta conjuntura; a planificação
em parceria com outros docentes e pais; trabalhar diretamente
com os alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE) na
Sala de Recursos Pedagógicos (CORREIA, 2012).
Na escola regularo educando com deficiência tem mais opor-
tunidades de aprender, de se socializar, de avançar no seu desen-
volvimento de forma ampla, porque há maior respeito às diferen-
ças, independentemente da sua natureza, buscando-se responder
às suas necessidades educacionais especiais, inclusive na formação
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SUMÁRIO
inicial e continuada dos educadores, o que implica em muitas difi-
culdades e desafios.
A inclusão escolar para ter êxito requer olhares e questiona-
mentos diversos, assim como muitos esforços no sentido de enten-
der a respeito das diferenças dos alunos, como vistas à atuação pe-
dagógica com estes educandos.
O desenvolvimento da Educação Inclusiva tem maior possi-
bilidade de avançar se forem levados em consideração o papel dos
que formam as escolas, cada contexto educativo local, da socie-
dade, da cultura, da economia, do habitat, entre outros aspectos,
como geradores do processo de exclusão ou inclusão.
A Educação Inclusiva pressupõe uma oportunidade para de-
safiar as práticas normalmente utilizadas no contexto escolar e, as-
sim, buscar melhor e mudar as mesmas, identificando dificuldades
e procurando novos espaços de diálogos e mudanças, assim con-
vidando todos os integrantes da comunidade escolar para um diá-
logo permanente (alunos, famílias, profissionais, entre outros).
A defesa de uma instituição escolar inclusiva não elimina a
existência de educandos com Necessidades Educacionais Especi-
ais, nem tão pouco a produção de conhecimentos sobre a sua rea-
lidade, nem dos profissionais que vão atuar especificamente com
eles. Requer não apenas inserir o educando na escola regular, mas
possibilitar que se adapte às condições de todos os alunos, sem se-
gregá-los.
Apesar dos avanços existentes, podemos constatar que muito
ainda necessita ser efetuado para propiciar um trabalho coopera-
tivo e avanços no tocante à Educação Inclusiva de educandos com
Necessidades Educacionais Especiais na instituição escolar.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 101
SUMÁRIO
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SUMÁRIO
CAPÍTULO 5
AGIR DOCENTE NUMA
ESCOLA INCLUSIVA
Vera Lúcia Brito Barbosa
Lúcia de Araújo Ramos Martins
INTRODUÇÃO
Estamos vivendo momentos de constantes reflexões sobre as
práticas pedagógicas, em busca de viabilizar um ensino de quali-
dade para todos os alunos, independentemente de sua raça, reli-
gião, fator econômico, ou qualquer alteração sensorial, cognitiva,
física ou de altas habilidades/superdotação que apresente. Como a
meta é não deixar ninguém fora do sistema regular de ensino, esse
sistema deve adaptar-se às particularidades de cada aluno e pro-
curar responder significativamente sua aprendizagem.
Isto significa que as pessoas com necessidades educacionais
especiais devem ter acesso às escolas comuns, que deverão inte-
grá-las numa pedagogia centralizada, capaz de atender a essas ne-
cessidades; adotando, como política, o princípio da educação inclu-
siva,
Nesse sentido, cabe à escola procurar garantir a educação
para todos, adequando o currículo, apresentando uma boa organi-
zação escolar, criando estratégias pedagógicas que atendam a to-
dos, utilizando recursos adequados para as necessidades, elimi-
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SUMÁRIO
nando, assim, as barreiras enfrentadas pelos alunos com alguma
dificuldade no seu processo educativo.
Partindo dessa compreensão, podemos considerar que a in-
clusão representa uma ruptura nos costumes, crenças, atitudes de
uma sociedade em busca de garantir os seus direitos e beneficiar a
todos, uma vez que procura desenvolver sentimentos de respeito
à diferença, de cooperação e solidariedade humana, baseados nos
princípios defendidos pelos direitos humanos como o direito de to-
dos participarem igualitariamente na sociedade (BRASIL,1999).
Assim, a escola pesquisada, mesmo sendo uma instituição de
médio porte, vem se destacando, em nível estadual, por apresentar
estilo próprio, pela diversidade de sua clientela e pela qualidade
do trabalho desenvolvido. Tais constatações reforçaram nosso em-
penho em investigar o agir docente no cotidiano dessa escola, com
alunos que apresentam Necessidades Educacionais Especiais. Para
a sistematização do referido estudo, centramo-nos em pressupos-
tos inclusivos, sem perder de vista o diálogo com o processo histó-
rico da educaçãogeral e especial.
Foi utilizado como instrumento da pesquisa a técnica de ob-
servação livre, que nos permitiu ver mais de perto o agir docente,
e um roteiro de entrevista semiestruturado obedecendo a dois mo-
mentos distintos: no primeiro momento utilizamos perguntas fe-
chadas, procurando caracterizar os sujeitos da pesquisa; no se-
gundo, utilizamos perguntas abertas, através das quais buscamos
respostas que pudessem fornecer subsídios para a investigação da
prática educativa realizada na escola. Foram alvo da pesquisa doze
professores, que compõem o quadro docente da escola. Nossa pes-
quisa foi realizada no período vespertino, embora a escola funcio-
nasse nos três turnos.
Para analisar e compreender a dinâmica da classe e o cotidi-
ano da escola buscamos registrar, com a autorização da escola, as
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SUMÁRIO
situações vividas através de anotações e filmagem. A análise dos
dados coletados, através da entrevista, se focou precisamente no
agir docente na escola inclusiva; apoiamo-nos em alguns aspectos
da Análise da Enunciação, por envolver uma concepção da comu-
nicação como processo, e não somente como dado (BARDIN,
1977).
As questões fechadas foram analisadas através do método es-
tatístico descritivo por nos proporcionar resultados quantitativos
do corpo docente. Os dados obtidos, através da observação, da fil-
magem e dos discursos dos professores e professoras, foram trian-
gulados no sentido de garantir a fidedignidade das informações. O
nosso estudo foi caracterizado como estudo de caso.
A opção por essa escola se deu pelo fato da instituição preen-
cher determinados requisitos propostos por nossa investigação,
como a questão de atender a alunos com Necessidades Educacio-
nais Especiais, juntamente com outros alunos no ambiente regular
de ensino, numa perspectiva inclusiva, assim como pelo fato de os
professores e professoras já apresentarem certa experiência em
relação à inclusão desses alunos, pelo fato de ter sido fundada por
um grupo de pais, com o objetivo de oferecer Educação Infantil e
Ensino Fundamental, de forma mais qualitativa, a seus filhos, ba-
seada nos princípios de cooperação e de respeito ao outro.
Ao observarmos a prática docente durante aproximada-
mente oito meses, percebemos que a escola utiliza a técnica de pro-
jetos, sendo a mesma desenvolvida com todos os alunos. No uso da
metodologia de ensino, os docentes não se detêm em uma única
teoria ou método, uma vez que usam recursos baseados nas teorias
da aprendizagem de vários autores, entre eles, Vigostky e Freinet.
Percebemos que as professoras são conscientes das suas
bases teóricas, pois, ao questionarmos sobre suas práticas, parece-
ram seguras no que estavam trabalhando e sobre os resultados que
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SUMÁRIO
queriam obter; embora não se apresentassem preocupados com as
teorias utilizadas, o que nos chamou a atenção.
No final das atividades realizadas, todos os trabalhos são so-
cializados, expostos em murais, lidos e apreciados por colegas,
pais, visitantes da escola, pesquisadores e estagiários. Os alunos ao
verem seus trabalhos apreciados e valorizados, sentem-se estimu-
lados para produzir seu conhecimento e melhorar gradativamente
sua aprendizagem.
As práticas das professoras são avaliadas em processo, le-
vando em consideração os avanços obtidos na aprendizagem dos
alunos e os conteúdos não aprendidos.
Ao nos propormos analisar esse projeto político-pedagógico
da escola, sentimos a necessidade de refletir a respeito do conceito
existente sobre a escola como instituição de ensino. A proposta pe-
dagógica, de acordo com essa concepção, tem como princípio bá-
sico a construção de conhecimentos, mudanças de atitudes e de ha-
bilidades. Esta forma de pensar leva a escola a desenvolver uma
crença de que, preparando pessoas capazes de enfrentar os desa-
fios, de se posicionar como cidadãos, estão garantindo a educação
numa dimensão pessoal e social.
Outro fator que move o projeto político-pedagógico da es-
cola é ela fazer parte de uma associação de pais e possuir ideias
comuns. A inserção da família na escola, desde a elaboração de seu
projeto, tem como base a utilização de um sistema de avaliação
contínua, dinâmica e investigativa.
O corpo docente da escola consta de vinte e um professores,
que atuam em dois turnos, sendo nove no turno matutino e doze
no turno vespertino. A nossa pesquisa foi realizada no turno ves-
pertino, com os 12 (doze) professores que atuam no ensino Infantil
e Fundamental. No que tange à formação dos professores, a escola
conta com 07 professores de Licenciatura em Pedagogia; 03 com
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SUMÁRIO
Magistério (2º Grau), atuando como professores auxiliares; 01 de
Licenciatura em Letras; 01 em Filosofia, Educação Artística e Edu-
cação Física. A maioria das professoras possui nível superior com-
pleto, possuindo larga experiência como docente.
A escola objeto de estudo possuía, na época em que empre-
endemos a nossa pesquisa, 246 alunos matriculados nos vários ní-
veis de ensino, distribuídos em dois turnos, sendo 140 no turno
matutino e 106 no turno vespertino. Dos 106 alunos matriculados
no turno vespertino, 12 apresentam algum tipo de deficiência, in-
seridos em classes regulares.
No turno em que desenvolvemos a pesquisa, as classes estão
estruturadas para receber um número de, aproximadamente, vinte
alunos. No entanto, no momento em que desenvolvemos a pes-
quisa, duas classes contavam com quinze alunos, e quatro classes,
com um número de dezesseis a vinte alunos matriculados, perfa-
zendo um total de seis classes.
De acordo com os dados acima citados, podemos verificar
que os alunos com deficiência são incluídos nas classes em um nú-
mero significativamente inferior aos demais. A classe que conta
com o maior número de alunos com Necessidades Educacionais
Especiais é a do Ciclo de Alfabetização dividida em duas turmas.
Conforme observamos, em uma das classes de alfabetização, existe
um aluno e, na outra, quatro alunos com Necessidades Educacio-
nais Especiais, conforme observação realizada. A classe de alfabe-
tização, da qual fazem parte esses quatro alunos, é acompanhada
por duas professoras (sendo uma titular e uma auxiliar de ensino),
o mesmo ocorrendo com a classe de sistematização.
Neste sentido, observamos que, quando o número de alunos
com necessidades educacionais especiais é pequeno numa classe,
não há grandes dificuldades para os referidos professores, con-
forme ficou claro também nas observações realizadas. Esse é um
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SUMÁRIO
aspecto que merece atenção dos dirigentes de escola, tendo em
vista um atendimento mais adequado aos referidos alunos e aos
colegas em geral.
Entre esses educandos que apresentavam várias necessida-
des especiais, havia um maior percentual de alunos com Deficiên-
cia Intelectual (33,4%), sendo que, desses, a metade (16,7%) tinha
Síndrome de Down. Havia, também, um número razoável de alunos
com Paralisia Cerebral (25%), seguido de outras deficiências, tais
como, auditiva, do tipo moderado; física; múltipla; e ainda outras
síndromes como de autismo e de West, numa proporção menor
(8,3%).
Inicialmente, procuraremos retratar o cenário da pesquisa,
com base em dados obtidos durante o processo de observação, da
forma mais clara e real possível, uma vez que se trata de uma es-
cola que procura fugir de um sistema tradicional de ensino, para
atender às necessidades individuais dos alunos. Em etapas poste-
riores, situaremos também algunsdados obtidos através da aná-
lise documental e do estudo de caso.
A escola funciona em um prédio em forma de L, bem conser-
vado, limpo, arejado, de estilo simples, com piso apenas cimentado,
paredes de tijolos pintadas de cor clara, com bons espaços internos
e externos. Internamente, apresenta nove salas de aulas, que fun-
cionam nos turnos matutino e vespertino, oferecendo os ensinos:
Infantil, Fundamental e Médio.
As salas de aulas são grandes, arejadas, com espaço para dois
ambientes, e utilizadas com atividades diversificadas; compõem-
se de um ambiente, com carteiras (tipo mesa) utilizadas para tra-
balhos em grupos com quatro a cinco alunos, um espaço livre onde
são realizados trabalhos em grupos e atividades diversificadas: lei-
turas, artes e recreação entre outras. As salas são convidativas,
apresentam um bom aspecto visual; suas paredes são usadas para
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SUMÁRIO
exposição dos trabalhos realizados pelos alunos, transformando-
se, assim, em grandes murais. Algumas salas possuem aparelhos
de TV e videocassete, além de quadro-giz, armários e materiais pe-
dagógicos à disposição dos alunos.
Das salas existentes, três são laboratórios, sendo: um de in-
glês, com estrutura adequada, ou seja, salas fechadas, com ar-con-
dicionado, aparelhos de TV e vídeo, som, cadeiras acolchoadas e
móveis, que facilitam o deslocamento dos alunos de um lugar para
o outro, nos trabalhos de grupo ou mesmo individuais; um de in-
formática, com nove computadores, ar-condicionado e uma boa
iluminação, utilizado por todos os alunos das várias turmas, em ho-
rários pré-estabelecidos. A escola conta, ainda, com uma sala de jo-
gos, uma sala para artes, outra para ballet e uma biblioteca.
Ao nos depararmos com as classes, observamos uma grande
diferença em relação às demais escolas existentes na comunidade
onde está inserida, pois apresenta uma estrutura pedagógica dinâ-
mica, flexível, tendo os alunos como um dos instrumentos impor-
tantes na aprendizagem.
A própria forma de trabalhar em classe, em pequenos e gran-
des grupos, facilita a troca entre os pares, assim como a compreen-
são dos alunos, uma vez que os mesmos solicitam orientações
constantes às professoras e aos colegas, procurando compreender
e obter soluções para a resolução dos seus problemas. Agindo
dessa forma, as professoras criam nos alunos o desejo de aprender,
de conhecer, de saber e de fazer.
Ao observar as classes, chamou-nos a atenção a maneira
como os alunos usam o material para a construção de seus traba-
lhos, sob a orientação da docente. Não há, em nenhum momento, o
desperdício.
Os alunos são valorizados, respeitados como crianças que
criam e constroem seu conhecimento, o qual posteriormente é
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SUMÁRIO
exposto em painéis e apresentado a todo o grupo da escola ou
ainda transformado em livros. Isso faz com que os alunos se empe-
nhem e tenham a escola como algo prazeroso. A liberdade do
aluno, de ir e vir em busca de recursos para construir o seu conhe-
cimento desenvolve, nos mesmos, o interesse de aprender, pois o
conhecimento do qual o aluno necessita e com o qual está sendo
trabalhado encontra-se à disposição dos mesmos.
Chamou-nos igualmente a atenção a indisciplina, hoje vista
como um grande problema nas escolas em geral. Durante o perí-
odo em que convivemos na escola, não registramos nenhum fato
que caracterizasse a indisciplina, nem tampouco houve qualquer
queixa dos professores e das professoras em relação a isso.
Essa forma de os professores e as professoras trabalharem
com os alunos, contextualizando os conteúdos e valorizando a pro-
dução de cada um, impede que o aluno considere os conteúdos en-
fadonhos e passem a criar situações que caracterizam a indisci-
plina.
As ações das professoras e dos alunos desenvolvidas na es-
cola são disseminadas através de apresentações na própria escola
e em teatros da cidade. Durante esses momentos os docentes
atuam na formação de outros educadores, através do compartilha-
mento de experiências. Assim, a escola acredita que está exercendo
seu papel social de transformação da consciência a respeito da in-
clusão de alunos no ensino regular, como também na busca de um
ensino de qualidade, que atenda a todos os alunos.
O AGIR DOCENTE
O resultado da pesquisa sobre o agir docente traz experiên-
cias de um grupo de professores e professoras que buscam romper
com o ensino tradicional e adotar uma nova forma de aprender e
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SUMÁRIO
de ensinar, que atenda as necessidades educativas de todos os alu-
nos e alunas da escola pesquisada.
Dessa forma, segundo retratam as professoras, a escola abre
suas portas para a diversidade e mostra certa responsabilidade na
sua ação enquanto instituição destinada a oferecer uma educação
para todos.
As medidas assumidas pela referida escola, em busca de pre-
parar as professoras para um ensino de qualidade direcionado a
todos, fizeram com que as mesmas desenvolvessem um olhar dife-
rente a respeito de escola, de profissionais da educação e de alu-
nos. Incorporaram a idéia de Stainback, S., e Stainback, W. (1999 p.
69) de que a “[...] as boas escola são boas para todos os alunos” e não
apenas para alguns. Tais atitudes favorecem a aprendizagem dos
alunos, o envolvimento pessoal e profissional dos docentes com o
trabalho do ensino, tanto dos professores como dos alunos, além
de um gerenciamento respeitoso, caracterizando a escola e o en-
sino diferente.
O QUE A ESCOLA OFERECE EM TERMOS DE APERFEIÇOA-
MENTO DOCENTE
As professoras entrevistadas, ao serem indagadas sobre
como têm buscado a sua atualização profissional, responderam
que todos os anos se organizam para participar dos cursos, semi-
nários e congressos que surgem na área. Para tanto, recebem ajuda
financeira da escola, através de diárias e inscrições nos cursos. Par-
ticipam de um projeto denominado de formação continuada, na
própria escola. Nele são realizados mensalmente grupos de estu-
dos, nos quais procuram refletir sobre suas práticas com os demais
colegas, os coordenadores e a psicopedagoga.
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SUMÁRIO
Dessas reflexões, surgem os temas geradores do estudo so-
bre as dificuldades apresentadas pelas professoras em suas clas-
ses, tais como: o preconceito, a indisciplina, o respeito ao outro, a
solidariedade, a valorização pessoal, as dificuldades de aprendiza-
gem, a língua de sinais, entre outros. Existem, também, discussões
e orientações quinzenais sobre as dificuldades encontradas, no
manejar a sala de aula, no comportamento dos alunos e vários ou-
tros aspectos que exigem competência emocional e técnica do do-
cente.
Agindo assim, a escola – ao desenvolver uma política de for-
mação em serviço – oferece às professoras e ao grupo, como um
todo, um ambiente de formação e autoformação, investindo nas re-
lações e nas trocas positivas, de conhecimentos cognitivos e afeti-
vos. Isso proporciona o desenvolvimento de sentimentos de confi-
ança mútua, fazendo com que não exista, nas relações entre os pa-
res, competitividade, mas, sim, a colaboração, o compartilhamento
dos saberes adquiridos, seja através da experiência, seja dos co-
nhecimentos acadêmicos.
Nesse sentido, concordamos com Ainscow (1996, p. 32),
quando coloca que o sucesso dos alunos com necessidades especi-
ais ocorre na escola regular quando existe uma liderança eficaz de
um diretor de escola empenhado em ir ao encontro das necessida-
des de todos os alunos; um sentimento otimista em relação à capa-
cidade de êxitopor parte de todos os alunos; disposição organiza-
cional tendente a apoiar cada um dos membros da equipe de pro-
fissionais da escola; empenho em fornecer aspecto amplo e equili-
brado de experiências curriculares a todos os alunos; procedimen-
tos sistemáticos de orientação e avaliação do processo educativo.
A capacitação continuada empreendida na escola, além de
fornecer conhecimentos e corrigir distorções existentes no pro-
cesso inicial de formação, também contribui para a reflexão das
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SUMÁRIO
práticas dessas professoras e, sem dúvida, para uma melhor inter-
venção junto aos alunos numa classe heterogênea.
A ação de capacitação em serviço é percebida, pela maioria
das professoras, como muito importante para sua formação. Suge-
rem, porém, que seja realizada de forma mais sistemática, e que
integrem teoria e prática, com vistas a atender às necessidades
imediatas dos professores frente aos seus alunos. Como percebe-
mos, as sugestões colocadas através dos discursos das professoras
deixaram claras o quanto esses cursos e eventos contribuem para
o crescimento e a valorização das mesmas, bem como para a me-
lhoria da sua prática. Portanto, concordamos com elas, quando so-
licitam que as ações que visam a sua atualização sejam mais siste-
matizadas e periódicas na escola. Assim, pode ser proporcionado
aos docentes o acesso ao conhecimento, ou seja, ao saber, saber fa-
zer, aprender a aprender de forma valorizada.
A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO ESPECÍFICA PARA OS EDU-
CANDOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS
Ao serem indagadas sobre a importância da professora ter
uma formação especial para ensinar aos alunos com Necessidades
Educacionais Especiais, as entrevistadas se dividem em suas opi-
niões. A maioria delas (58,3%) afirma não ser necessária tal for-
mação, uma vez que o contato direto com os alunos, no cotidiano
escolar, estimula o professor e professoras a irem ao encontro dos
conhecimentos necessários para atender às especificidades do seu
alunado, seja ele com alguma deficiência ou não. Precisam, sim, de
uma formação continuada que ofereça conhecimentos que unam
teoria e prática, precisam estar preparadas para criar estratégias
de resolução de problemas, pois não existem receitas prontas para
serem aplicadas. Já 41,7% apontaram a necessidade de uma
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SUMÁRIO
formação específica na área, desde a graduação à pós-graduação
(mestrado e doutorado). Afirmam que para ensinar é preciso uma
carreira acadêmica.
Neste sentido, percebe-se a importância de uma constante
formação - a formação continuada para a maioria das professoras
é fundamental por oferecer um espaço de reflexão na ação. Nóvoa
(1992), nos diz que “a formação continuada é um trabalho de re-
flexão crítica sobre as práticas e reconstrução permanente de uma
identidade pessoal”.
Constatamos que as professoras, tanto as defensoras de
um saber prático como as defensoras de um saber acadêmico, re-
conhecem e destacam a carência de aprofundamento e da necessi-
dade de mudanças de atitudes nos docentes, de maneira que pos-
sam responder as necessidades de seus alunos, embora desenvol-
vam uma crença de que são capazes de realizar todos os esforços
para responder as necessidades de seus alunos.
As professoras valorizam mais o conhecimento prático do
que o teórico, embora percebam que é a necessidade do conheci-
mento prático que as leva a buscar o conhecimento teórico, sendo
a prática considerada como uma instância de problematização, sig-
nificação e exploração dos conteúdos adquiridos na formação teó-
rica.
Em geral, as professoras mostram uma certa responsabili-
dade em relação ao seu agir pedagógico com grupos heterogêneos,
percebendo que não dá mais para ensinar através de ensaio e erro,
que é preciso um compromisso não só das professoras, mas tam-
bém das agências formadoras, das escolas como um todo e do po-
der público.
Podemos assinalar que o agir docente exige competências
emergentes e necessárias à preparação do professor para enfren-
tar as novas exigências postas pelo mundo atual. É exigida,
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SUMÁRIO
segundo afirma Perrenoud (2000), uma profissão integral, autô-
noma e responsável, rumo à prática reflexiva; envolver o aluno em
atividades de pesquisa, em projetos; desenvolver capacidade de
tornar-se acessível e desejável com a sua necessidade.
SABERES NECESSÁRIOS AS PROFESSORAS PARA ATUAREM
COM EDUCANDO COM NECESSIDADES ESPECIAIS
Muitas das professoras que se submeteram a entrevistas
(41,7%) situaram como importante, para uma atuação pedagógica
com tais alunos, um conhecimento sobre o seu diagnóstico, pois
acreditam que, sabendo mais sobre a deficiência apresentada e as
suas causas, podem atuar de forma que garanta a aprendizagem
dos mesmos, visando protegê-los de situações que podem lhes tra-
zer prejuízos e que, muitas vezes, eles não são capazes de desen-
volver.
A necessidade sentida por essas professoras de conhecer as-
pectos relacionados ao diagnóstico e suas causas pode apontar
uma concepção de ensino ainda centrado nas possibilidades pré-
determinadas do aluno. Evidencia que o professor, de antemão, ne-
cessita de um saber que é dito, que é expresso por um especialista
e que muitas vezes legitima a impossibilidade ou incapacidade do
aluno. Em outras palavras, um saber de um especialista que o ro-
tula, que o caracterizará em muitos casos por toda uma vida.
Essa forma de pensar se encontra centrada em um modelo
clínico que teve grande ênfase nos anos 60/70 e que, como consta-
tamos, ainda pode ser percebida nos dias atuais, mesmo em mo-
mentos que se busca uma inclusão efetiva desses alunos tanto na
escola como na sociedade.
Outros conhecimentos necessários, apontados por 25% das
professoras, foram: saber como os alunos aprendem; como criar
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 116
SUMÁRIO
estratégias adequadas de ensino e adquirir conhecimentos cientí-
ficos e práticos sobre os educandos com necessidades educacio-
nais especiais.
Por fim, 8,3% das professoras entrevistadas apontaram
como saber fundamental, para a inclusão dos alunos em sala de
aula o conhecimento da língua de sinais.
Fica claro, nos depoimentos das professoras a necessidade
de saberes que vão além dos conteúdos para ensinar. Precisam sa-
ber mais, um saber que contribua para a inserção social desses alu-
nos, a exemplo da língua de sinais que segundo Vygotsky, a língua
é o canal principal para o acesso do desenvolvimento da aprendi-
zagem, através da interação com o outro.
Percebe-se a presença de uma preocupação real com o
aluno, não no sentido de enfatizar as impossibilidades, mas de ori-
entá-los na criação de estratégias de ensino mais adequado para o
processo educativo.
PREPARAÇÃO PARA A ATUAÇÃO PEDAGÓGICA COM EDUCAN-
DOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS.
As professoras entrevistadas usaram critérios diferentes ao
verbalizar a falta de informações nos cursos de Pedagogia a res-
peito dos alunos com Necessidades Educacionais Especiais.
Das entrevistadas, 83,3% não obtiveram nenhuma informa-
ção a respeito desses alunos em seus cursos de formação. Acusa-
ram a universidade, como instituição formadora, pela omissão no
tocante à inclusão, em seu currículo, de disciplinas e/ou conteúdos
sobre o tema, embora tal necessidade não fosse tão evidenciada,
algumas décadas atrás, em virtude da vigência dos modelos segre-
gativo e integrativo.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p er s p e c t i v a i n c l u s i v a | 117
SUMÁRIO
Podemos considerar que, quando as referidas professoras
empreenderam a sua formação inicial, o curso de Pedagogia fazia
parte de um sistema educacional centrado em um modelo tecni-
cista de ensino, voltado para a formação não só de professores, mas
de especialistas que ocupavam funções específicas nas escolas,
como administração, supervisão e orientação escolar. Isto fica
claro em razão de apenas 16,7% das professoras apontarem que
apenas obtiveram informação sobre necessidades educativas es-
peciais e a língua de sinais no curso de pedagogia. Conhecimento
esse insuficiente para subsidiar a formação dessas professoras,
sendo necessária uma formação continuada para suprir o déficit
existente no referido curso.
Carvalho (2000) destaca que a preocupação com a defici-
ência, com aquilo que diferenciava para menos, afastava o profes-
sor e as professoras dos conteúdos e práticas necessárias para fa-
zer com que o aluno avançasse, como também a perceber o aluno
e investir em suas potencialidades.
Esse sistema educacional na época era reduzido a uma mera
transferência do conhecimento, cabendo, ao professor, ser um sim-
ples transmissor do saber, um saber descontextualizado que, ex-
plícita e/ou implicitamente, transmitia uma ideologia cujos valores
eram o individualismo, a competitividade e a falta de solidarie-
dade, valores esses que pouco ou quase nada contribuíam para a
aprendizagem dos alunos na sua diversidade.
A formação inicial do docente vem sendo destacada como um
tema crucial e, sem dúvida, um dos mais importantes nas políticas
públicas para a educação, pois o desafio colocado à escola do tra-
balho educativo requer outro profissional com novas formas de
aprender e de ensinar.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 118
SUMÁRIO
OPINIÃO DAS PROFESSORAS SOBRE OS ALUNOS COM NECES-
SIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS
As professoras, ao serem questionadas sobre como perce-
bem os alunos com necessidades educacionais especiais, respon-
deram, em sua maioria (50%), que os vêem como os demais alu-
nos, como pessoas comuns, normais.
As professoras que opinaram sobre os alunos com alguma
deficiência como normais podem ser analisadas por dois ângulos
distintos. Sobre o primeiro, pode mostrar uma possível negação
das condições desse aluno com necessidades educativas especiais.
Situação essa vista por Amaral (1990) como um mecanismo de de-
fesa, envolvendo atitudes subjetivas diante das diferenças dos alu-
nos. Afirmar que são normais é negar sua condição, ou seja, é fugir
da realidade.
Sobre o outro ângulo, a normalidade é vista a partir da con-
vivência com os alunos, pois estes se fazem perceber como pessoas
com potencialidades e limitações, como outras com as quais se po-
dem conviver de maneira natural.
As demais professoras (25%) veem tais alunos como os que
precisam de mais atenção e cuidado. Essa forma de perceber o
aluno mostra uma questão ideológica, arraigada na condição femi-
nina, a de que a professora deve dispensar aos alunos cuidados ma-
ternais. Percebemos que os alunos que apresentam necessidades
educacionais especiais requerem carinho e atenção, como todos os
outros, mas também precisam de outros recursos que lhes favore-
çam o processo ensino-aprendizagem, de adaptações pedagógicas
e de inclusão efetiva no sistema regular de ensino. É preciso que os
docentes estejam muito atentos às questões das necessidades in-
dividuais de todos os alunos, inclusive daqueles que apresentam
deficiências.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 119
SUMÁRIO
Outras professoras (16,7%) percebem os alunos com neces-
sidades educacionais especiais como aqueles que possuem poten-
cialidades e dificuldades. As professoras pesquisadas possuem
uma forma de olhar o aluno no seu todo, de um lado possuindo po-
tencialidades, mas também deficiências. Veem, ainda, os mesmos
conseguindo progressos no ambiente escolar regular, muito mais
do que poderiam obter num ambiente segregado. Percebem que
há, na escola, vantagens observáveis, também, para os demais edu-
candos, que crescem como seres humanos mais solidários.
Somente 8,3%, das professoras entrevistadas percebem o
aluno apenas como um ser deficiente, principalmente aqueles que
apresentam comprometimentos mais acentuados no aspecto
adaptativo. Para elas é impossível o atendimento inclusivo, em
classes regulares, em virtude de algumas situações de indisciplinas
que têm vivenciado em relação aos mesmos.
Verificamos que as professoras apresentaram uma variedade
ao perceber e opinar a respeito dos seus alunos, o que nos dá um
leque de situações para questionamentos e reflexões. São situações
que precisam ser analisadas durante as atividades empreendidas
na escola, com vistas ao aprimoramento da prática docente.
Portanto, apesar dessas professoras apresentarem uma prá-
tica reflexiva e inclusiva, e estarem buscando uma formação conti-
nuada, estão passando por um processo de mudança de atitudes,
que sabemos ser lenta e gradual, pois existem crenças enraizadas
e que precisam ser substituídas, desencadeando novas atitudes
mais desprovidas de preconceitos.
Essas docentes estão vivendo o grande desafio que é a mu-
dança interna, a quebra das chamadas barreiras atitudinais, que
são um dos maiores obstáculos a serem enfrentados e vencidos no
processo de inclusão.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 120
SUMÁRIO
PROCEDIMENTOS PARA ATENDER ÀS NECESSIDADES
INDIVIDUAIS DESSES EDUCANDOS
A maioria das professoras entrevistadas desenvolveu uma
crença de que, procurando conhecer mais os alunos, adaptando as
atividades às condições de cada um e traçando estratégias de tra-
balho, eliminaria as suas dificuldades no processo de aprendiza-
gem. Tal convicção torna-as, cada vez mais, conscientes de suas
possibilidades e limitações. Algumas realizam adaptações de ativi-
dades às condições de cada aluno, buscando conhecê-lo traçar es-
tratégias, caminhos que facilitam a aprendizagem e que a torne sig-
nificativa.
É desencadeada nos alunos, em geral, uma consciência sobre
a importância de atitudes de solidariedade, de aceitação dos cole-
gas, assim como se desenvolveu um trabalho na escola sobre o res-
peito às diferenças. Tudo isso é, efetivamente, vivido na escola, pois
observamos que os colegas se ajudam mutuamente, criando um
ambiente de harmonia.
Os alunos são, também, percebidos como auxiliares no pro-
cesso educativo dos colegas com necessidades educacionais espe-
ciais, pois ajudam os outros nas tarefas escolares, facilitando a har-
monia entre os pares.
Portanto as professoras desenvolvem atividades com os alu-
nos, procurando conscientizá-los de que todos nós somos diferen-
tes, que somos naturalmente bons em algumas coisas e, em outras,
não. Diante desse fato, orientam que devemos ajudar uns aos ou-
tros, e, assim, todos avançam consideravelmente.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 121
SUMÁRIO
A PRESENÇA DE PROFESSOR ESPECIALISTA PARA ENSINAR
EDUCANDOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS
Das doze professoras entrevistadas, 91% afirmaram, catego-
ricamente, não haver necessidade de se contar com um professor
especialista para ensinar o aluno com necessidades educacionais
especiais, em decorrência de terem, na escola, um projeto de capa-
citação em serviço (chamado por eles de formação continuada)
que está voltado para orientá-los, no sentido de atender às neces-
sidades desses alunos. Tal projeto conta com o apoio dadireção da
escola, sendo centrado num ensino voltado para todos os alunos e
que atenda à sua diversidade. Salientamos que a escola conta com
um corpo docente comprometido com o que faz, que pensa, reflete,
organiza e reestrutura o ensino para atendê-los.
Diante disso, acreditam que uma boa formação inicial, adici-
onada a uma formação continuada, prepara o professor para ensi-
nar a todos os alunos. Assim, o professor tem condições de atuar
de forma planejada, em sintonia com a escola, com a família e com
seus pares. Em decorrência disso, afirmam que a preparação do
professor deve caminhar paralelamente com a prática, podendo
ele sempre questioná-la e refletir.
Neste sentido, o aluno com deficiência na classe é, também,
um instrumento de aprendizagem do professor, no cotidiano esco-
lar (MANTOAN, 1997). Trata-se da capacidade de o professor sa-
ber escutar, estar aberto ao diálogo e manter uma relação afetuosa
com seus alunos.
O professor especialista é extremamente importante na es-
cola, segundo as professoras investigadas, para o apoio especiali-
zado no planejamento, na organização de materiais e no apoio ao
professor e alunos da classe regular.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 122
SUMÁRIO
ADAPTAÇÕES DO CURRÍCULO PARA ATENDER AO EDUCANDO
COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS
Ao serem questionadas sobre a adaptação curricular para
atendimento a esses alunos, todas as professoras participantes da
pesquisa afirmaram que não havia uma adaptação do currículo na
escola, direcionada ao atendimento específico dos alunos com ne-
cessidades educacionais especiais. Em geral, costumam realizar
atividades diversificadas em suas aulas, acreditando que, com as
mudanças nos objetivos e nas estratégias, obtêm a aprendizagem
de todos os alunos, bem como desenvolvem a sua autonomia e so-
cialização.
Segundo elas, não é preciso haver uma adaptação do currí-
culo, mas compete ao professor criar estratégias e utilizar recursos
adequados às necessidades individuais de cada aluno.
Ao observarmos as práticas e analisarmos o projeto político-
pedagógico da escola, fica claro que essa adaptação curricular
existe, se partimos da noção de que o currículo pode ser entendido,
segundo Coll (1997), como o projeto que preside as atividades edu-
cativas escolares, define suas intenções, proporciona guias de ação
adequadas e úteis para os professores, que são diretamente res-
ponsáveis pela sua execução.
Assim, as professoras, ao traçarem seus objetivos, suas estra-
tégias e suas metas renovadoras baseiam-se na proposta político-
pedagógica da escola, que se fundamenta na crença de que essa
instituição precisa formar cidadãos, e não meros participantes da
sociedade, para que possam agir de forma a construir uma socie-
dade mais justa e igualitária.
As professoras, unanimemente, afirmaram que a metodolo-
gia construtivista utilizada busca atender a todo o alunado, mas
que há situações em que se torna necessário simplificar o conteúdo
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 123
SUMÁRIO
ou mesmo adaptar as estratégias e os materiais, para que todos se-
jam atendidos adequadamente frente às suas necessidades indivi-
duais.
Todas as professoras afirmaram que a presença do aluno
com necessidades educacionais especiais na classe não interfere
na aprendizagem dos demais colegas. Ao contrário, estes contri-
buem bastante, favorecendo o desenvolvimento e o crescimento
pessoal daqueles com necessidades educacionais especiais, por
possibilitar a construção de novas atitudes e valores, como a soli-
dariedade, a colaboração entre os pares e o respeito pela diferença.
Constatamos que a escola trabalha efetivamente com os alu-
nos no tocante a aspectos relativos à solidariedade, à colaboração,
à ética e à própria diferença/deficiência, levando os alunos a acei-
tarem seus colegas com muita naturalidade, incentivando o com-
panheirismo e eliminando, assim, a rejeição e o preconceito.
Concordamos com Sanches (1996), quando afirma ser im-
portante, em primeiro lugar, a equipe da escola procurar conhecer
e compreender o aluno, tentar saber a respeito de suas preferên-
cias, seus problemas, analisarem as causas que originaram as difi-
culdades. Enfim, estudar com profundidade as necessidades do
aluno, para elaborar estratégias pedagógicas eficazes. Destaca-
mos, porém, que, de forma geral, a escola mostra a importância de
se trabalhar com um grupo de professores comprometido, cen-
trado na aprendizagem dos alunos e nas suas necessidades educa-
tivas.
ESTRATÉGIAS DE TRABALHO JUNTO AOS EDUCANDOS COM
NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS
As professoras, de forma unânime, responderam que esti-
mulam a participação de todos os seus alunos em classe. Essa
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 124
SUMÁRIO
medida tomada pelas professoras é fundamental para que os alu-
nos aprendam a se assumir como sujeitos de sua ação, de suas
ideias, bem como para que desenvolvam o sentimento de perten-
cer à escola.
Uma professora destaca que, além de incentivar seus alunos
a participarem das atividades, conta com a colaboração dos outros
alunos, pois ele contribui para que todos se posicionem. Eviden-
ciam, ainda, que os alunos são muito unidos e que tê-los na classe,
juntos com os demais, é um aprendizado fabuloso para todos, fa-
zendo-os aprender todos os dias. As professoras são empenhadas
em incentivar a participação de todos os alunos, incluindo aqueles
que apresentam necessidades educacionais Especiais, nas ativida-
des desenvolvidas na escola. Para tanto, estimulam a colaboração
e o desenvolvimento dos laços de amizade.
A maioria das professoras respondeu que utiliza duas estra-
tégias mais específicas junto aos alunos com Necessidades Educa-
cionais Especiais, as quais são vistas como fundamentais para a
aprendizagem, tanto desses alunos, como dos demais. As professo-
ras do primeiro ciclo, por exemplo, organizam a classe em dois mo-
mentos. No primeiro, os alunos são distribuídos em pequenos gru-
pos constituídos de crianças com habilidades diferentes, que pro-
curam entre si desenvolver as tarefas, compartilhando uns com os
outros os conteúdos e as atividades. Às vezes, quando sentem ne-
cessidade, recorrem a outros grupos. Esse momento é muito rico,
pois os alunos discutem, levantam hipóteses, elimina as dúvidas,
ajudam-se e encontram, juntos, soluções para suas questões.
No segundo momento, as professoras organizam a turma em
forma de círculo, oferecendo aos alunos oportunidades de estarem
voltados uns para os outros, incentivando-os a discutir, a desen-
volver a escuta, a observar o tempo de cada um e a desenvolver o
respeito mútuo, entre outros aspectos.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 125
SUMÁRIO
Nesse contexto, a avaliação passa a ter um papel significativo,
uma vez que refletem os avanços, as dificuldades dos alunos e pos-
sibilita a redefinição de novas metodologias de ensino que favore-
çam a aprendizagem dos alunos. Oferece condições, tanto nos
grandes como nos pequenos grupos. Os professores estão cientes
disso quando afirmam que procuraram trabalhar sempre em
grupo, incentivando-os para que possam desenvolver sua indepen-
dência, embora os alunos com deficiência exijam uma maior aten-
ção, pois são mais dependentes.
Como podemos perceber, as professoras procuram atender
às necessidades dos alunos, adaptando atividades e criando situa-
ções desafiadoras, para que os mesmos procurem soluções para os
problemas. Eles contam quase sempre com a colaboração dos co-
legas, uma vez que absorveram a importância de compartilhar com
os outros as situações de aprendizagem. Essa formade organiza-
ção das classes incentiva todos os alunos a participarem das ativi-
dades, de forma igualitária, de acordo com as suas condições.
Ao serem questionadas sobre como avaliavam seus alunos,
todas as professoras afirmaram que utilizam a avaliação contínua,
ou seja, registram diariamente todo o desempenho de seus alunos,
tanto os aspectos relacionados às dificuldades, quanto os avanços.
Para as professoras, o registro do desempenho dos alunos é funda-
mental, pois ajudam a refletir, juntamente com a coordenação da
escola, a equipe técnica e o grupo de apoio pedagógico, no sentido
de retomar os conteúdos trabalhados e organizar novas estraté-
gias de intervenções.
Com tais exigências, o agir docente tem como princípio fun-
damental colaborar com o aluno no seu processo de aprender a
aprender, cabendo ao mesmo avaliar continuamente suas ações
para que possa responder satisfatoriamente às necessidades de to-
dos os seus alunos.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 126
SUMÁRIO
As professoras foram unânimes em afirmar que adaptam as
atividades dentro do contexto das aulas, respeitando a compreen-
são dos alunos. Utilizam, em alguns momentos, atividades especí-
ficas, visando a atender às suas necessidades. Assim, os alunos são
estimulados a participar, a se comportar de forma ativa diante dos
desafios, mais autônomos no desempenho das tarefas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Consideramos, a partir do que foi estudado e observado, a
importância da inclusão escolar e social como uma forma de res-
peito às diferenças entre as pessoas. O respeito à diversidade é,
pois, o caminho a ser trilhado em busca da dignidade humana.
Em relação à escola, essa transformação resulta não só de
dispositivos legais e de documentos educacionais, mas de todo um
esforço que visa possibilitar, não só o acesso do aluno com neces-
sidades educacionais especiais ao ambiente regular de ensino, mas
a sua permanência de forma qualitativa, resultando em avanços
compatíveis com as suas condições.
Constatamos, através de nosso estudo, que a inclusão desses
alunos na escola regular não é tarefa fácil. É preciso, antes de tudo,
promover uma reestruturação da escola, de maneira que garanta o
ingresso e o desenvolvimento desses alunos, como também a res-
significação de valores e de crenças, assim como mudanças de prá-
ticas e de atitudes em todas aquelas pessoas que fazem a comuni-
dade escolar: professores, administradores, alunos, pais, funcioná-
rios, entre outros.
É, portanto, uma nova concepção de escola, de alunos e de
professores. É uma nova forma de ser e de agir docente. E foi essa
diferença na ação das professoras que buscamos analisar em nossa
investigação. Pensar a comunidade escolar e, especialmente, o agir
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 127
SUMÁRIO
docente nesse processo inclusivo, nos levou a identificar alguns fa-
tores que influenciaram no cotidiano escolar, desencadeando uma
proposta de mudança na escola que foi objeto de nosso estudo.
Reconhecemos a coragem dessa escola, de seus dirigentes,
dos professores e pais no sentido de que – embora não se sentindo
preparadas e organizadas para oferecer a todos os alunos um en-
sino de qualidade – possuíam a vontade para procurar aprender a
fazer melhor. Esse querer fazer contribuiu para que as professoras
refletissem sobre suas práticas, e, com a participação de seus pa-
res, utilizassem dois princípios que foram fundamentais nesse pro-
cesso: o diálogo e a valorização de cada professora, dos educandos
e dos gestores. Assim, pouco a pouco, a escola cresceu e passou a
ser caracterizada pelo respeito à heterogeneidade, pelo espírito de
colaboração, pela valorização de seus integrantes.
Destacamos, também, no agir docente, uma prática de cultura
inclusiva, que envolve a existência de espaços de discussões na
classe e fora dela, oportunidades iguais de participação dos alunos
nas atividades, produções valorizadas e comemoradas pela comu-
nidade da escola, o que evidencia o respeito a todos os alunos, in-
dependentemente das suas diferenças.
Comprovamos o investimento da escola na capacitação das
professoras, tanto em serviço (na própria escola), como através da
participação em diversos cursos e eventos, e a união de todas as
professoras em um único objetivo: a aprendizagem de todos os alu-
nos e o respeito à sua cidadania.
As professoras procuram conhecer mais seus alunos, para
poderem adaptar as atividades propostas e traçar estratégias de
trabalho, de maneira que favoreçam a participação, sem distinção,
dos educandos e o seu desenvolvimento. Para aqueles alunos que
apresentam uma deficiência mais significativa e, consequente-
mente, um comprometimento maior na sua aprendizagem, são
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 128
SUMÁRIO
organizadas atividades mais simplificadas, porém no mesmo con-
texto em que todos estão trabalhando, visando atender às necessi-
dades educacionais de todos.
Esse estudo permitiu uma melhor compreensão a respeito da
escola pesquisada. Retrata uma escola que vem trabalhando numa
perspectiva inclusiva, estimulando atitudes de solidariedade, de
respeito, num agir que garante a participação de todos.
REFERÊNCIAS
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Paulo: FEUSPP, 1998.
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cação inclusiva, Porto Alegre: Medição, 2000.
COLL, César; PALÀCIOS, J; MARCHESI, A. (Org). Desenvolvimento psicológico
e educação: necessidades educativas especiais e aprendizagem escolar. n. 3.
Porto Alegre: Artmed, 1995. 217
DANIELS, Harry (Org.). Vygotsky em foco: pressupostos e desdobramentos.
[S.l.]: Papirus, 1994.
DEFICIÊNCIA mental e física. Caderno TV Escola, Educação Especial, 1998.
DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. Campinas: Autores Associados, 1998.
GÓMEZ, Ángel Pérez. A formação do professor como profissional reflexivo.
Portugal: [S. n.] , 1992.
GONZÁLEZ, José Antonio Torres. Educação e diversidade: bases didáticas e
MARTINS, Lúcia de Araújo Ramos. Análise da formação do profissional de
Educação Especial em Natal – RN, Frente às especificidades e necessida-
des do Educando Portador de Deficiência Mental. 1993. Dissertação
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 129
SUMÁRIO
(Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Na-
tal, 1993.
______ . Integração dos portadores da Síndrome de Down: um estudo sobre a
percepção dos educadores. 1997. Tese (Doutorado em Educação) – Natal,
1997.
______ . A formação continuada do profissional de educação: uma necessi-
dade diante da proposta da escola inclusiva. Anais. diversidade e diferencia-
ção em pedagogia. Lisboa: ARFISE, 2000.
SANCHES, Isabel Rodrigues. Necessidades educacionais especiais e apoios e
complementos educativos no quotidiano do professor. Portugal: Porto,
1996.
______ . Professores de educação especial: da formação às práticas educativas.
Portugal: Porto, 1995.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 130
SUMÁRIO
CAPÍTULO 6
OLHARES DE PROFESSORAS A
RESPEITO DA INCLUSÃO DE
CRIANÇAS COM
SÍNDROME DE DOWN
Katiene Symone de Brito Pessoa da Silva
Lúcia de Araújo Ramos Martins
INTRODUÇÃO
A inclusão escolar, conforme explicita Hehir (et al., 2016, p.
3), envolve
[...] um processo de reforma sistêmica, incorporando apri-
moramentos e modificações em conteúdo, métodos de en-
sino, abordagens, estruturas e estratégias de educação para
superar barreiras, com a visão de oferecer a todos os estu-
dantes uma experiênciae um ambiente de aprendizado igua-
litário e participativo, que corresponde às suas demandas e
preferências.
Inclusão escolar implica, ainda, na promoção de relaciona-
mentos interpessoais de forma a exercerem influências recíprocas,
oportunidade de condições, acesso, por meio da garantia de aces-
sibilidade em suas diferentes dimensões, participação e
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 131
SUMÁRIO
aprendizagem, e não pode ser visto como um estado que se alcança
de uma única vez, mas, como um processo que se renova continu-
amente.
Vale salientar, que apenas a convivência de pessoas com de-
ficiência e as demais não garante a sua inclusão. Portanto, a inclu-
são escolar deve ser considerada como um processo complexo,
uma vez que necessita de uma ação planejada, que tem como obje-
tivo uma educação de qualidade para todos.
Nessa perspectiva, o presente artigo apresenta uma discus-
são sobre os olhares de professoras da Educação Infantil em rela-
ção à inclusão de crianças com Síndrome de Down nesse nível de
ensino. Participaram do estudo 4 (quatro) professoras, sendo 2
(duas) do nível III e 2 (duas) do nível V da Educação Infantil de uma
escola pública, localizada na cidade de Natal/RN, envolvendo 2
(duas) crianças com Síndrome de Down. Os dados construídos,
através de entrevista, foram organizados e analisados com base em
3 (três) categorias: concepções sobre inclusão escolar; percepções
sobre as interações entre as crianças; e implicações sobre a pre-
sença da criança com Síndrome de Down.
CONCEPÇÕES SOBRE INCLUSÃO ESCOLAR
Atualmente, a sociedade expõe, cada vez mais, a necessi-
dade das crianças serem inseridas o mais cedo possível em insti-
tuições de Educação Infantil. Ao ingressarem na escola, as crianças
se deparam com um espaço com características próprias, com ob-
jetos específicos e com uma estrutura diversa da familiar (OLI-
VEIRA, Z. 1998), e assim, “uma escolarização iniciada cedo pode
contribuir para a igualdade de oportunidade, ajudando a criança a
superar dificuldades” (DELORS, 1999, p. 129).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 132
SUMÁRIO
A Educação Infantil tem como objetivo primordial o desen-
volvimento integral da criança. Ou seja, devem ser proporcionadas
a ela condições para a apreensão e a compreensão do mundo, vi-
sando à comunicação, à aquisição de conhecimentos, à troca de ex-
periências, entre outros aspectos. Assim, as atividades realizadas
enriquecem as experiências infantis e o contato com os pares
(UNESCO, 1999; SILVA, 2005).
As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil
(DCNEI, Resolução CNE/CEB nº 5/2009), definem em seu Artigo
4º, a criança como “sujeito histórico e de direitos, que interage,
brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta,
narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a socie-
dade, produzindo cultura” (BRASIL, 2009). Sujeitos que, em suas
ações e interações com os pares e com o mundo físico, constroem
e se apropriam de conhecimentos diversos.
No tocante aos eixos estruturantes das práticas pedagógi-
cas, dessa etapa da Educação Básica, as DCNEI, em seu Artigo 9º,
consideram que esses são as interações e as brincadeiras, expe-
riências através das quais as crianças constroem e se apropriam
de conhecimentos, desenvolvido a partir de suas ações e intera-
ções com seus pares e com os adultos. (BRASIL, 2009).
Cabe à Educação Infantil, portanto, fornecer conjuntamente
dois tipos de atendimento: o educar e o cuidar.
O sentido de educar, de acordo com Brasil (1998, p. 23),
significa
[...] propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens
orientadas de forma integradas e que possam contribuir para o de-
senvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de
ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, res-
peito e confiança, e o acesso pelas crianças aos conhecimentos
mais amplos da realidade social e cultural.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 133
SUMÁRIO
Neste sentido, a educação no nível da Educação Infantil pro-
porcionará o desenvolvimento da criança, como a aprendizagem
de conhecimentos sistematizados, constituição de hábitos e atitu-
des, contribuindo dessa maneira para a formação de crianças feli-
zes.
No que diz respeito ao cuidar, Brasil (1998) informa que o
cuidado se refere à ajuda fornecida à criança com a intenção de
fazê-la se desenvolver como ser humano. Nesse ato, estão implica-
dos, principalmente, a necessidade de se considerar as carências
afetiva, social, orgânica e cognitiva da criança, bem como de dar-
lhe atenção, compreendendo sua singularidade, identificando e
respondendo às suas especificidades, como uma pessoa que está
em contínuo desenvolvimento.
Nesse viés, a inclusão escolar, na Educação Infantil, possibi-
lita às crianças o contato com a diversidade humana no início da
sua formação enquanto sujeito social, além de vivenciar experiên-
cias únicas de interações entre pares com as mais diversas carac-
terísticas e necessidades.
Assim, as professoras participantes da pesquisa foram
questionadas como compreendem a inclusão escolar nessa etapa
da Educação Básica:
- Processo de trabalho que tem como princípio norteador uma
ação pedagógica que atende às diferenças presentes no cotidiano
da escola e da sala de aula (FLOR DE LIZ, Nível III).
- A possibilidade de incluir nas escolas crianças com necessidades
especiais, num sentido mais restrito (GIRASSOL, Nível III).
- Inclusão é integrar o indivíduo na sociedade. A escola deve pro-
porcionar a interação da criança com deficiência com as outras, e
possibilitar que ela vivencie todas as experiências, respeitando
suas limitações. Sempre acreditando que ela é capaz de aprender,
embora seu tempo e ritmo possa ser diferente dos demais. Ela,
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SUMÁRIO
como as outras, é um ser cultural, social que possui características
próprias (VIOLETA, Nível V).
- É uma escola percebendo a criança com necessidades especiais
como ser capaz de aprender com o outro e vice-versa. Proporcio-
nando atividades que possibilitem: socialização e aquisição nas di-
ferentes áreas do conhecimento, respeitando suas diferenças
(GÉRBERA, Nível V).
Estas professoras percebem a inclusão escolar como um
processo de trabalho planejado e orientador da prática pedagógica
que visa o atendimento de todas as crianças no ambiente escolar,
sem distinção, pois todas são vistas como capazes de avançar na
sua aprendizagem e socialização. Para tanto, as ações empreendi-
das devem respeitar o ritmo e o tempo de cada uma das crianças,
incentivando trocas significativas entre os pares, e o reconheci-
mento das características próprias de cada uma.
Tais afirmações contribuem para confirmar as palavras de
Stainback, S. e Stainback, W. (1999, p. 11) a respeito da escola in-
clusiva ser “aquela que educa todas as crianças em salas de aulas
regulares, dando-lhes oportunidades educacionais adequadas, que
são desafiadoras, porém ajustadas às suas habilidades e necessida-
des”.
Nessas salas, portanto, os alunos recebem o apoio e a ajuda
de que necessitam, configurando-se em um espaço em que todos
fazem parte, são aceitos, ajudam e são ajudados por seus colegas e
por outras pessoas da escola. Esses autores, salientam, ainda, que
ao se educar
[...] todos os alunos juntos, as pessoas com deficiência têm oportu-
nidade de preparar-se para a vida na comunidade, os professores
melhoram suas habilidades profissionais e a sociedade toma a de-
cisão consciente de funcionar de acordo com o valor social da
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p ec t i v a i n c l u s i v a | 135
SUMÁRIO
igualdade para todas as pessoas (STAINBACK, S. STAINBACK, W.,
1999, P. 21).
Observa-se, em diversas pesquisas (HEHIR et al, 2016, PES-
SOA, 2002; MARTINS, L 2003; VYGOTSKY, 1997; VAYER; RONCIN,
1989), que alunos com diferentes condições de deficiência apren-
dem e se desenvolvem mais em ambientes inclusivos, juntamente
com outras crianças, do que em ambientes segregativos.
No entanto, podemos afirmar que a simples inclusão de cri-
anças com Síndrome de Down em berçários, creches ou escolas de
Educação Infantil não resulta em benefícios de aprendizagem e de-
senvolvimento. De acordo com Vayer e Roncin (1989, p.61), “[...]
não basta dar lugar à criança, no fundo da classe ou numa estrutura
de atendimento na vida do grupo social em que se encontra”, é ne-
cessário que ela possa envolver-se na ação empreendida na classe,
que se relacione com os outros alunos, a fim de melhor se desen-
volver.
O acesso à escola extrapola, pois, o ato da matrícula e im-
plica na apropriação do saber e das oportunidades educacionais
oferecidas à totalidade dos alunos, com vistas a atingir os objetivos
educacionais, com base na diversidade da escola.
Podemos afirmar que a inclusão escolar se baseia em prin-
cípios diversos, tais como: cooperação, aceitação das diferenças in-
dividuais, valorização de cada indivíduo, convivência dentro da di-
versidade. Nesta perspectiva, é na interação com os pares que as
crianças desenvolvem efetivamente suas capacidades, aprendem a
descobrir o outro como condutor de valores e, como consequência
dessa relação, a ter mais confiança em si. À vista disso, é necessário
que as influências educativas sejam recíprocas e que, na convivên-
cia escolar, possam ser constantes os relacionamentos interpesso-
ais, possibilitar que cada criança seja introduzida na vivência da
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 136
SUMÁRIO
cidadania, na aprendizagem, que vai além dos conteúdos escolares,
mas que envolve a construção de valores, hábitos e atitudes.
PERCEPÇÃO SOBRE AS INTERAÇÕES ENTRE AS CRIANÇAS
Diante das discussões atuais sobre inclusão escolar, princi-
palmente no que se refere às pessoas com deficiência, percebemos
a necessidade da existência de interações entre pares, uma vez que
tais alunos, antes excluídos do ambiente educacional, buscam e lu-
tam por uma educação comum e de qualidade para todos.
A inclusão escolar da criança com deficiência não pode ser
percebida como uma via de “mão única”, mas como um fator de
crescimento humano e social para todos aqueles que dela partici-
pam: professores, crianças, demais profissionais e família (SILVA,
2005).
Para Vygotsky (1997), a criança não é um ser apenas ativo,
mas um ser interativo, cada uma elabora e se apropria do conheci-
mento constituindo-se como sujeito a partir das relações intra e
interpessoais. Dessarte, é na troca com os outros que cada criança
internaliza conhecimentos, papéis e funções sociais, o que possibi-
lita a formação da própria personalidade, aspecto de extrema im-
portância, principalmente para crianças que apresentam a Sín-
drome de Down.
Oliveira (2011, p.22) destaca que
A ideia de interação social é assim aproximada da noção de ação
conjunta, da relação Eu/Outro, em que os sentidos são construídos
sempre em resposta a uma alteridade. Mas tal noção vai além disso
e abrange o social enquanto aparato histórico e ideológico, en-
quanto conjunto de normas, valores, representações. Assim, a
atividade em parceria na realização de atividades culturais con-
cretas – tais como: construir um brinquedo com sucata, consolar
alguém, escrever uma carta, preparar um seminário, verificar
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 137
SUMÁRIO
a origem de um defeito em uma máquina, editar um texto no com-
putador, etc. – constitui uma condição necessária para a for-
mação das funções psíquicas caracteristicamente humanas.
Experiências simbólicas, mediadas pela cultura, inscritas na
história do sujeito, que, dialeticamente dialoga com a história de
seu tempo, de seu meio, igualmente, mas em ritmos e tempos dis-
tintos, também, podem e devem ser experienciadas pelas crianças
que apresentam Síndrome de Down.
Diante disso, todas as crianças têm oportunidade, através
da convivência em situações de igualdade com seus pares com de-
ficiência, de desempenharem um papel essencial na estimulação
dos mesmos, pelo fornecimento de modelos diversos. No entanto,
pouco se tem investido no que diz respeito à orientação dos apren-
dizes para o desempenho desse processo tão importante.
A instituição de Educação Infantil é habitada por um grupo de
adultos e por um grupo de crianças, é, portanto, um espaço coletivo
de convivência, onde acontecem interações entre crianças, entre
crianças e adultos e entre adultos. Sendo uma instituição educaci-
onal, essas interações devem ser formadoras, no sentido de que
devem ser baseadas nos valores sociais que fundamentam sua pro-
posta pedagógica. A cidadania, a cooperação, o respeito às diferen-
ças e o cuidado com o outro são aprendidos na vivência cotidiana.
Por isso, não podemos esperar que as crianças desenvolvam essas
atitudes se os adultos não as demonstram em sua forma de atuar
na instituição, com as crianças, os colegas e as famílias. (BRASIL,
2009b, p. 43)
A esse respeito, as professoras foram questionadas se
ocorre interação entre as crianças em geral e as que apresentam
Síndrome de Down:
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 138
SUMÁRIO
- De modo geral, não há interação. Observamos que em momentos
de conflito, alguns a tratam como igual, enquanto outros não rea-
gem, protegendo-a ou “dando o desconto” pela diferença. Todo o
tempo procuramos intervir no sentido de reafirmar o respeito que
devemos ter uns com os outros, considerando nossas diferenças e
singularidades e ressaltando que ela é um pouco mais diferente
que os outros (FLOR DE LIZ, nível III).
- Percebemos que o grupo se relaciona muito bem com a criança
com Síndrome de Down, apenas destacamos que algumas crianças
sempre apontam-na como “culpada” do barulho, da “bagunça”, do
livro rasgado, do quadro riscado, enfim, de vários momentos que,
de repente, nem estava próximo do ocorrido. Temos retomando
com o grupo, e, especificamente, com essas crianças, que ela é uma
pessoa como todas as outras, que possui defeitos e qualidades, que
acerta e também erra, como todos eles. Percebemos um certo iso-
lamento dela, poucos são os momentos que presenciamos colegas
brincando com ela. Até pelo fato dela preferir se balançar por
muito tempo. Percebemos que algumas crianças a procuram para
brincar, fazer algo, mas ela escapa e procura logo algum adulto que
lhe dê atenção e compartilhe de suas brincadeiras (GIRASSOL, ní-
vel III).
Nesses depoimentos podemos perceber que a professora
Flor de Liz afirma inicialmente que não existe de forma geral inte-
ração entre a criança com síndrome de Down e as demais crianças.
No entanto, destaca que, em momentos de conflitos, algumas cri-
anças a tratavam como igual e outras a protegiam em função da
diferença. Considerando a faixa etária das crianças, entre 3 (três) e
4 (quatro) anos de idade, observa-se que, conforme discutido por
Galvão (1996), se por um lado ocorre a proteção – efeito e reação
– que causa no outro, que pode ocorrer através do agrupamento
nas brincadeiras, por outro lado também responsável pelas rela-
ções interindividuais onde diluem-se os contornos da perso-
nalidade de cada uma das crianças envolvidas. Logo, é possível
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 139SUMÁRIO
inferir que as características dessa fase da infância são relevantes,
pois considerando o agente mediador, tem o poder de agregar,
como também de separar o indivíduo de determinado grupo.
Nessa perspectiva, as interações estão presentes em todos
os relacionamentos entre pessoas, sejam de aceitação ou de rejei-
ção. Esses relacionamentos, muitas vezes contraditórios, que nos
formam seres sociais. Portanto, podemos presumir que as relações
ocorridas entre as crianças e mediadas pelas professoras, podem
se configurar em interações e fortalecer o processo inclusivo esco-
lar.
Girassol, por sua vez, afirmou que todas as crianças se rela-
cionavam muito bem com a criança com Síndrome de Down, no en-
tanto, ela sempre era tida como a culpada por tudo de errado que
ocorria na classe, o que, muitas vezes, não correspondia à reali-
dade dos fatos. No entanto, observamos que a mesma não aceitava
passivamente ser considerada culpada. Assim, buscava, sempre
que possível, provar e apontar o verdadeiro “culpado”.
Foi evidenciado, também na fala das professoras, que a cri-
ança com Síndrome de Down se isolava com bastante frequência,
principalmente nos momentos de brincadeiras. E raras foram as
ocasiões que as mesmas a viram brincando com outras crianças,
em especial com as da sua classe. Em consequência disso, sempre
buscava os adultos, para que lhe dessem atenção e participassem
de suas brincadeiras.
Outro ponto relevante é a intervenção situada pelas profes-
soras. Essas intervenções ocorriam num sentido de fazer as crian-
ças refletirem sobre as diferenças e semelhanças existentes no
grupo.
Consideramos que, apesar da criança com Síndrome de
Down ser considerada a “culpada” ou ainda ser rejeitada em
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 140
SUMÁRIO
algumas situações, conseguia, nesse contexto, avançar, pois era de-
safiada, fosse por si só ou pela ajuda do outro.
No entanto, acreditamos que essa não é uma realidade vi-
venciada por todas as crianças. Algumas, quando rejeitadas pelo
grupo, regridem significativamente, não conseguindo avançar em
sua aprendizagem.
De acordo com Vygotsky (1997), a aprendizagem desperta
diversos processos internos de desenvolvimento, que são capazes
de operar somente quando a criança interage com outras pessoas,
crianças e adultos, em seu próprio ambiente ou em cooperação
com seus pares. A aprendizagem escolar guia e estimula os proces-
sos internos de desenvolvimento. Desse modo, a criança trans-
forma e é transformada nas relações com o outro. Portanto, o de-
senvolvimento infantil está intimamente relacionado ao meio soci-
ocultural em que a criança se insere, e este se processa de forma
dinâmica por meio de sucessivas rupturas e desequilíbrios, provo-
cando contínuas reorganizações por parte da criança.
No tocante às professoras do nível V, no que tange à per-
cepção que têm a respeito das interações entre as crianças com sín-
drome de Down e seus colegas, afirmaram:
- Após a fase inicial de questionamentos e observação, algumas cri-
anças vêem a criança com Down como se necessitasse de ajuda
para realizar, até, pequenas tarefas, tipo escrever nome, organizar
lancheira, desenhar, dançar etc. Após essa fase inicial, passam a es-
tabelecer vínculos, procurando ajudá-lo em pequenas tarefas. Ob-
servamos, que existem grupos mais abertos para essas crianças e
outros mais fechados. As crianças procuram brincar com os cole-
gas com que mais se identificam. Observamos, de forma geral, em
atividades de jogos, que algumas crianças têm receio que a Down
atrapalhe. Já outras crianças procuram ajudá-las, incentivando-as
a participarem e a vencer suas dificuldades (GÉRBERA, Nível V).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 141
SUMÁRIO
- No início ajudam após a solicitação da professora, mas quando
percebem que, apesar da dificuldade, também, conseguem realizar
as atividades, passam a ajudá-los. Geralmente, procuram as outras
crianças para formar os grupos. No parque percebo que as crianças
com síndrome de Down se procuram no momento do parque para
brincar juntas e outras vezes preferem brincar sozinhas. Às vezes
vejo alguns meninos convidando outros com síndrome de Down
para brincar. Em atividades extra-classe, geralmente quando têm
que escolher grupos para jogos, eles não convidam o colega com
síndrome para jogar, deixando ele por último, por isso cabe à pro-
fessora criar estratégias para formar os grupos para que isto não
aconteça. (VIOLETA, Nível V)
No primeiro depoimento, a professora Gérbera evidencia
que, inicialmente, existe uma reação comum a todos, que envolve
a observação e questionamentos a respeito da colega, onde se pro-
cura conhecê-la. Pela falta de conhecimento, as crianças acabam
pensando que a colega com síndrome de Down vai necessitar de
ajuda para fazer tudo, resultando, em alguns casos, na superprote-
ção. Porém, à medida que as crianças vão se conhecendo, começam
a se estabelecer vínculos mais significativos, como cooperação e
amizade.
Violeta, afirma que as crianças não interagiam com a cri-
ança com Síndrome de Down quando iam realizar alguma ativi-
dade competitiva, pois era vista como alguém menos produtiva, e
que, nos momentos de brincadeiras, ela sempre buscava a compa-
nhia de outras crianças com síndrome de Down. Nesse processo,
reforçamos o importante papel que deve ser desenvolvido pelas
professoras, na busca de mediar os relacionamentos entre as cri-
anças, e incentivar os diferentes agrupamentos.
Quando questionadas como a criança com síndrome de
Down interage com os seus colegas, as professoras responderam:
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 142
SUMÁRIO
- Inicialmente, tímida, aos poucos, já consegue se relacionar com
algumas crianças do grupo de forma geral, embora tenha dois ou
três colegas com quem prefira brincar, sentar junto na roda e/ou
durante as atividades. Ela procura participar das atividades, pro-
curando seguir as orientações, embora no seu ritmo. (GÉRBERA,
Nível V)
- Ela tem preferência por uma colega, sempre procura ficar pró-
xima dela, por ser tímida dificilmente se expõe, só quando questi-
onada. Mas fala de suas preferências quanto aos colegas e realiza
as atividades aceitando ajuda dos colegas. No parque brinca com
sua amiga preferida ou procura outro menino com síndrome de
Down, eles correm, sobem na casinha, balançam, se escondem e
fogem das professoras para não entrarem para a sala. Nas ativida-
des extra-classe, participam de todas as atividades: danças, jogos,
brincadeiras, aulas-passeios (VIOLETA, Nível V).
Percebemos que as professoras do nível V confirmaram que
a criança com Síndrome de Down interage com todos os colegas,
mas que, por ser tímida, dificilmente se expunha. Outro aspecto
evidenciado diz respeito às preferências que tem, ao escolher os
colegas. Isto mostra que as pessoas estão sempre fazendo escolhas
e preferindo alguém em lugar do outro, em decorrência de identi-
ficações maiores e também da própria aceitação pelos pares. Esse
aspecto é comum a todas as pessoas, inclusive no que diz respeito
às crianças com Síndrome de Down.
As professoras reconhecem que a criança com Síndrome de
Down participa das atividades propostas, conjuntamente com os
seus colegas, ajudando e sendo ajudada, porém, dentro do seu
ritmo próprio.
- Reconhece nominalmente todos os colegas da sala, a ponto de
identificar de imediato as crianças que estão ausentes e perguntar
qual o motivo da falta dos colegas. Apresenta atitudes carinhosas
com algumas crianças em especial (beija, abraça, faz carinho).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 143
SUMÁRIO
Participa das atividadescoletivas quando lhe atraem de algum
modo: faz-de-conta, roda, desenho, pintura; (FLOR DE LIZ, Nível
III).
- São poucas às vezes em que se aproxima do grupo. Mas sempre
pergunta pelos colegas que não estão presentes, sobretudo por
aqueles com os quais já estabelece vínculos afetivos. Algumas ve-
zes, talvez para chamar a atenção (quando não se sente parte inte-
grante do grupo) começa a provocar as crianças e professoras, be-
liscando-as ou puxando-lhes os cabelos (GIRASSOL, Nível III).
No tocante às falas das professoras do nível III, é impor-
tante destacar a afirmação feita por Flor de Liz que a criança com
Síndrome de Down conhecia todos os colegas da classe pelo nome
e, que sempre se preocupava com a ausência de algum deles no
grupo, e também, que apresentava atitudes afetivas com os mes-
mos. Outro aspecto relevante diz respeito à participação nas ativi-
dades coletivas propostas pelas professoras.
A professora Girassol percebe, ainda, que o comportamento
agressivo da criança com Síndrome de Down poderia ser resul-
tante da sua não aceitação por parte do grupo. E em resposta a isso,
beliscava e puxava os cabelos dos colegas ou de quem estivesse
próximo a ela, para retomar a atenção.
Com relação ao comportamento agressivo, Bee (2011), si-
tua que cada criança manifesta comportamento agressivo na pri-
meira infância e tende a diminuir com a idade, mas a forma e fre-
quência dessa agressão muda com o passar dos anos. Portanto,
com base nessa autora, podemos inferir que o comportamento
agressivo não se trata de uma característica exclusiva da criança
com Síndrome de Down.
De acordo com Mussen (2001, p.420) a “agressividade é
uma reação frente e proeminente à frustração; a evidência também
mostra que a agressão não é somente a reação possível à
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 144
SUMÁRIO
frustração”. Em outras palavras, nem todas as respostas agressivas
são motivadas pela frustração. A frustração pode ser resultante de
privações, punições, ou como consequência de barreiras que impe-
dem ou adiam atingir objetivos, de sentimentos de inadequação ou
ansiedade que inibem a busca de realizações desejadas, ou de ame-
aças à autoestima.
Ainda sobre o comportamento agressivo, Dér (2005, p.69)
afirma que crianças com idade
Entre 3 e 6 anos, as atividades de alternância e de reciproci-
dade são exercícios funcionais [...], que se manifesta primeira-
mente por uma afirmativa do eu em que o ponto de vista pessoal
se torna exclusivo, unilateral, por vezes agressivo; [...] A crise de
oposição ao outro constitui uma fase combativa, de negação
de volta para dentro de si, que se origina da necessidade
da criança de reconhecer a sua existência e de sentir a sua pró-
pria independência em relação ao outro [...] a criança se opõe a
tudo, apenas para marcar posição.
Considerando a afirmativa, podemos pressupor que o com-
portamento apresentado pela criança com Síndrome de Down é
comum a qualquer criança nessa faixa etária, por exercitarem as
funcionalidades de alternância e de reciprocidade, entre outros as-
pectos, para demarcação de posição no grupo.
De acordo com Oliveira (2011, p. 78),
as interações fazem a mediação do desenvolvimento humano,
ou seja, tornam-se recursos para a transformação das formas hu-
manas de ação, pois fornecem ao indivíduo recursos para ele apro-
priar-se ativamente de formas de perceber, memorizar, emocio-
nar-se, conversar, solucionar problemas e outras ações humanas
que foram e estão sendo culturalmente desenvolvidas.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 145
SUMÁRIO
As interações entre as crianças e entre crianças e adultos
nessa faixa etária assumem papel relevante no processo de desen-
volvimento da criança, além de propiciar experiências fundantes
na relação com os pares. com base nos dados da pesquisa, conside-
ramos que as crianças estão construindo suas interações com os
colegas, e papel relevante e diferenciado pode ser realizado pelas
professoras nesse processo.
Ressaltamos, ainda, que a inclusão da criança com Sín-
drome de Down nesse nível de ensino, possibilitará à mesma uma
vivência com pares de sua faixa etária, em um ambiente comum,
desde as primeiras etapas de sua vida. Este contato direto com ou-
tras crianças, favorece o desenvolvimento de interações ricas e va-
riadas, que não seriam possíveis às crianças com Síndrome de
Down se estivessem segregadas em instituições especializadas.
IMPLICAÇÕES SOBRE A PRESENÇA DA CRIANÇA COM SÍN-
DROME DE DOWN
Segundo Paulo Freire (1999), ninguém educa ninguém, nin-
guém se educa sozinho, mas a educação é o resultado das trocas e
partilhas na convivência com as pessoas. E incluir é possibilitar a
reciprocidade de influências que acontecem no dia-a-dia da escola,
e compreender que as interações são uma fonte de enriquecimento
mútuo permanente, que concretiza e dá sentido ao ensino e à
aprendizagem de todos.
Entendemos que a entrada da criança na escola evidencia
mudanças qualitativas na percepção sobre si mesma, bem como na
própria maneira de interagir em um meio social até então desco-
nhecido. Quando nos referimos a uma criança com síndrome de
Down percebemos que, na maioria das vezes, cria-se uma vasta
gama de expectativas em relação a ela. Muitos pensam que não vai
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 146
SUMÁRIO
conseguir se socializar, aprender os conteúdos sistematizados,
aprender a ler, escrever, contar, entre outros aspectos. No entanto,
pesquisas realizadas por Hehir et al (2016), Martins (2003) e Pu-
eschel (1993), evidenciam que pessoas com Síndrome de Down
podem se desenvolver satisfatoriamente, dentro de um ritmo pró-
prio.
Quando as professoras foram questionadas se existia impli-
cações sobre a presença da criança com síndrome de Down na sala
de aula, responderam:
- As implicações trazidas são da ordem de formação valorativa des-
sas outras crianças, de forma que aprendem a reconhecer o poten-
cial criador do outro, independente da aparência, capacidade cog-
nitiva ou comportamento que passa vir a apresentar. Vale ressaltar
que as implicações podem ser negativas quando não se tem um
trabalho sério, comprometido e que aborda a perspectiva de res-
peito às diferenças. Portanto, é o encaminhamento que é dado que
determinará que tipo de implicações as crianças com deficiência
trarão para demais (FLOR DE LIZ, Nível III).
- Eu diria que há implicações para os alunos e também para os pro-
fissionais que atuam diretamente com essas crianças. Há uma
aprendizagem recíproca no sentido mais amplo do termo. O res-
peito às diferenças (desde as mais sutis e corriqueiras), a descons-
trução do preconceito, a construção do afeto, a descoberta da
nossa ignorância em relação às limitações e possibilidades dessas
crianças são apenas parte dessa aprendizagem (GIRASSOL, Nível
III).
- Não (GÉRBERA, Nível V)
- Sim, eles percebem que o mundo é feito de diferenças e que todos
têm que viver juntos numa sociedade (VIOLETA, Nível V).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 147
SUMÁRIO
Como observado na fala das professoras, a maioria apre-
sentou diferentes implicações quanto à presença de crianças com
síndrome de Down na sala de aula, que dizem respeito: à aprendi-
zagem de valores; ao reconhecimento do potencial do outro como,
alguém que é, também, criador; à aprendizagem por parte das pro-
fessoras, que são desafiadas a buscar novos caminhos, e, com isso,
todos se beneficiam; a derrubada de barreiras atitudinais, pois to-
dos aprendem a conviver com o outro; independentemente de suas
diferenças;à construção de vínculos afetivos mais significativos
entre as crianças. Apenas a professora Gérbera, do nível V, afirmou
que não existiam implicações quanto à presença da criança com
Síndrome de Down no grupo.
Percebemos, que a inclusão escolar é benéfica para todos os
alunos, em termos de construção de hábitos e de atitudes, bem
como em relação aos ganhos obtidos quanto às habilidades acadê-
micas e sociais, que são mutuamente desenvolvidas.
Hehir et al (2016) destaca que a inclusão traz benefícios
para todos os envolvidos, aspecto evidenciado a partir de revisão
sistemática realizada em 280 estudos de 25 países sobre inclusão
escolar, destacamos:
A educação inclusiva pode fornecer uma série de benefícios acadê-
micos e sociais para alunos com deficiência, como melhor desem-
penho em linguagem e matemática, taxas mais elevadas do nú-
mero de conclusão do ensino médio e relações mais positivas com
alunos sem deficiência. (p. 7)
Estudar em ambientes que valorizam a diversidade, em que estão
juntos estudantes com e sem deficiência, pode ter efeitos positivos
nas atitudes e nas crenças sociais de alunos sem deficiência. Uma
revisão da literatura descreve cinco benefícios da inclusão para
alunos sem deficiência: redução do medo das diferenças humanas,
acompanhada por um maior conforto e consciência (menos medo
de pessoas com aparência ou comportamento diferentes);
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 148
SUMÁRIO
crescimento da cognição social (aumento da receptividade aos ou-
tros, comunicação mais eficaz com todos os colegas); melhorias no
autoconceito (aumento da autoestima, do status percebido e da
sensação de pertencimento); desenvolvimento de princípios mo-
rais e éticos pessoais (menos preconceito, maior capacidade de
responder às necessidades dos outros); e amizades carinhosas
(Staub & Peck, 1995). Essas mudanças de atitude são previstas
pela Hipótese do Contato (Contact Hypothesis), um termo que se
refere à redução de hostilidade, preconceito e discriminação entre
grupos (por exemplo, pessoas sem deficiência contra pessoascom
deficiência) por meio de um maior contato entre os grupos (All-
port, 1979). Salas de aulainclusivas fornecem muitas das condi-
ções necessárias para a redução da discriminação sob a Hipótese
do Contato, entre elas: 1) membros dos grupos em condições de
igualdade; 2) cooperação na busca de objetivos comuns; 3) estí-
mulo do desenvolvimento de relações pessoais íntimas; e 4) apoio
institucional (Allport, 1979). (p. 12)
A educação inclusiva tem demonstrado reiteradamente que serve
para apoiar o desenvolvimento acadêmico de estudantes com de-
ficiência intelectual, como a síndrome de Down, em particular nas
áreas da linguagem e alfabetização (de Graaf & van Hove, 2015;
Turner, Alborz & Gayle, 2008). (p. 17)
Portanto, podemos considerar que os benefícios da inclu-
são escolar para crianças com e sem a Síndrome de Down são, en-
tre outros aspectos: valorização da diversidade individual; respon-
sabilidade e melhor desenvolvimento acadêmico e social; acesso a
diversidade de experiências; aprendizagem cooperativa; maior
preparo para a vida adulta, desenvolvimento de confiança, oportu-
nidade de demonstrar mais responsabilidade com o ser humano
(SASSAKI, 1997; SILVA, 2005).
Karagiannis, Stainback, S. e Stainback, W. (1999, p.26) afir-
mam que “[...] a razão mais importante para o ensino inclusivo é o
valor social da igualdade”, pois devemos reforçar, na prática, a
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 149
SUMÁRIO
idéia de que as diferenças devem ser aceitas, sendo o principal ob-
jetivo da inclusão escolar, atender adequadamente a todos no am-
biente comum de ensino.
TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
A inclusão escolar de crianças com Síndrome de Down é
algo que se impõe como iminente e essencial no contexto atual, no
reconhecimento da diversidade humana, valorização, luta pela
derrubada de barreiras e garantia de acessibilidade em suas di-
mensões.
O presente estudo, sobre os olhares de professoras da Edu-
cação Infantil em relação à inclusão escolar de crianças com Sín-
drome de Down evidenciou aspectos fundamentais para o pro-
cesso de inclusão e os desafios enfrentados no cotidiano instituci-
onal. Entretanto, é reconhecido que crianças com Síndrome de
Down incluídas na escola, desde os primeiros anos de vida e que
recebem um atendimento educacional adequado, se desenvolvem
de maneira mais efetiva.
Considerando, então, o contexto atual, em que as crianças
chegam à escola cada vez mais cedo, destacamos a importância da
presença e do envolvimento constante de todos os que fazem a co-
munidade escolar e, em especial, dos pais, dos profissionais da ins-
tituição, e das demais crianças, nesse processo.
A partir do estudo empreendido, podemos destacar que os
benefícios da inclusão escolar são para todos que participam deste
processo, pois o convívio com crianças com Síndrome de Down
traz uma variedade de desafios, estímulos, modelos e oportunida-
des para as crianças.
De maneira geral, a aceitação do outro é um desafio a ser
vencido e que cabe à instituição educativa contribuir para maior e
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 150
SUMÁRIO
melhor aceitação das crianças, uma vez que é mais fácil trabalhar
essas questões com crianças, pois estão com sentimento e valores
menos cristalizados, do que com os adultos.
Com relação aos olhares das professoras investigadas, per-
cebemos que todas consideram a inclusão como um processo, onde
se deve levar em consideração as diferenças das crianças, bem
como respeitar o ritmo e o tempo de aprendizagem de cada uma
delas. Neste contexto, percebe-se que, com a chegada de uma cri-
ança com deficiência na classe, a professora é desafiada a buscar
novas estratégias de ensino e a conhecer sobre as próprias dificul-
dades.
Diante do exposto, acreditamos que é a partir da convivên-
cia que a criança vive experiências e obtém conhecimentos sobre
os pares, derruba barreiras e constrói novas atitudes.
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A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 153
SUMÁRIO
CAPÍTULO 7
A PRÁTICA DO ESTUDANTE
ESTAGIÁRIO REMUNERADO FRENTE
A EDUCANDOS QUE
APRESENTAM DEFICIÊNCIA
Louise Sayonara Guedes Pereira
Lúcia de Araújo Ramos Martins
INTRODUÇÃO
A inclusão representa uma responsabilidade coletiva da co-
munidade escolar, sendo, portanto, “[...] a prática da inclusão de to-
dos - independentemente de seu talento, deficiência, origem soci-
oeconômica ou cultural - em escolas e salas de aula provedoras,
onde as necessidades desses alunos sejam satisfeitas” (STAIN-
BACK; STAINBACK, 1991, p. 21).
A legislação nacional tem procurado oferecer aos alunos
com deficiência possibilidades de prosseguimento em sua vida
tanto acadêmica quanto profissional. A Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB) nº 9394/96 sinaliza rumo ao acesso do
aluno com Necessidades Educacionais Especiais à escola comum e
dedica o Capítulo V à Educação Especial, ratificando-a como um de-
ver constitucional em três artigos (artigos 58, 59 e 60).
No artigo 59, inciso II, da LDB, está preconizado que “os sis-
temas de ensino deverão assegurar a terminalidade específica para
aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 154
SUMÁRIO
do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e acelera-
ção para concluir em menor tempo o programa escolar para os su-
perdotados”. (BRASIL, 1996, p. 37).
Correia (2010), discutindo a questão da inclusão, aponta
também que, no processo inclusivo, há de considerar que aqueles
que estão envolvidos na educação, como professores, coordenado-
res pedagógicos, diretores, funcionários, pais entre outros preci-
sam observar um conjunto de premissas, tais como: a) os docentes,
os profissionais da educação, os pais e a comunidade em geral de-
vem trabalhar de forma colaborativa, partilhar informações, deci-
sões, recursos e apoios b) os serviços que os alunos com necessi-
dades especiais devem ser desenvolvidos, sempre que possível, na
escola regular; c) as escolas devem envolver a família e a comuni-
dade na educação dos alunos; d) os serviços regionais e locais pre-
cisam fornecer apoio e recursos para dar apoio às escolas para se
reestruturarem de tal forma que possam atender à diversidade de
seus alunos.
De acordo com Vygostki (1984), inclusão não implica ape-
nas na matrícula e na inserção do aluno na escola. Ele não ignora o
papel dos fatores biológicos na dinâmica da ortogênese, porém
compreende que a complexibilidade deste processo das ligações
socais com membros do seu grupo e da sua participação em práti-
cas sociais, educacionais, envolvendo a capacitação inicial e conti-
nuada dos docentes e da equipe técnica da escola.
Refletindo sobre os desdobramentos desse processo gra-
dual, que deve envolver toda a comunidade escolar, chegamos a
um importante ator que está presente nesse cenário: o estudante
estagiário remunerado, que por vezes ocupam diferentes funções,
papéis e perfis.
O estágio remunerado caracteriza-se como atividade não
obrigatória definida como tal no projeto do curso, acrescida à carga
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 155
SUMÁRIO
horária regular e obrigatória, podendo receber bolsa ou outra
forma de compensação a ser acordada, sendo compulsória a sua
concessão, bem como os auxílios pertinentes a atividade, não se
caracterizando como vínculo empregatício, aplicando-se, ainda ao
estagiário a legislação relacionada à saúde e segurança no traba-
lho, com a implementação de responsabilidade da parte conce-
dente do estágio.
No município de Natal, Rio Grande do Norte estima-se que
716 (setecentos e dezesseis) estudantes dos cursos de licenciatura,
cursando a partir dos primeiros períodos de seus determinados
cursos, estejam alocados nas escolas e nos centros de educação in-
fantil da rede pública auxiliando professores com alunos que apre-
sentam alguma deficiência, sendo 103 (cento e três) destes alunos
do curso de Pedagogia presencial da UFRN e pouco menos de 90
(noventa) destes do curso de Pedagogia presencial da UNP.
Na Resolução nº 05/2009 do Conselho Municipal de Educa-
ção de Natal, que fixa a normas relativas à educação da pessoa com
necessidades educacionais especiais (NEE), em seu Art. 25 precei-
tua que a
[...] turma com educandos com NEESP1 matriculados, cujas dificul-
dades de adequação escolar não forem supridas com as interven-
ções colaborativas do professor, do coordenador e do gestor, de-
verá, mediante parecer avaliativo do Setor de Educação Especial
da SME/Natal, contar com a presença de outro professor, que
atuará como apoio pedagógico-educacional às necessidades espe-
cíficas dos alunos com NEESP e à turma em geral.
A referida resolução estabelece, ainda, que o professor que
atuará na função de apoio pedagógico-educacional às necessidades
1 Necessidades Educacionais Especiais (NEE).
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SUMÁRIO
específicas dos educandos público alvo2 da Educação Especial, na
sala de aula regular, deve apresentar o seguinte perfil: ser do qua-
dro funcional da Rede Municipal de Ensino do Nataleser graduado
em Pedagogia e/ou em outra licenciatura, nas demais áreas do co-
nhecimento; ter participado de cursos de Aperfeiçoamento em
Educação Especial e/ou Pós-graduação na área. Diferencia-se, as-
sim, do cuidador, pois seu papel está associado, principalmente, à
tarefa de educar como uma mediação para que todas as atividades
desenvolvidas sejam significativas e estimulem o potencial de seu
alunado.
Há pouca informação sobre as especificidades deste profes-
sor de apoio-pedagógico educacional, o que pede um olhar atento
às peculiaridades do trabalho pedagógico desenvolvido em sala de
aula, pois sua prática deverá estar de acordo com as necessidades
singulares de cada aluno atendido.
No entanto, esse ainda não é o pensamento de toda socie-
dade – acreditar na aprendizagem de todos – o que vem ocasio-
nando, há anos, a diminuição ou a negação desse direito de igual-
dade de oportunidades aosque fogem ao modelo idealizado de
aluno, justificando ou rotulando-os como sendo incapazes de pen-
sar, de agir e, até mesmo, de conviver em sociedade, culpabilizando-
os por não participar da prática coletiva, o que resulta em estar na
escola, mas não fazer parte dela.
Então, questionamo-nos: será que a igualdade de direitos de
estar na escola para aprender, conviver, interagir, está acontecendo
2 A saber: entende-se por público alvo da Educação Especial pessoas com deficiência
física, visual, auditiva, transtornos globais do desenvolvimento e superdotação/al-
tas habilidades. Pessoa com deficiência: aquelas que têm impedimentos de longo
prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que em interação com
diversas barreiras podem ter restringida sua participação plena e efetiva na escola
e na sociedade. Necessidades Educacionais Especiais: refere-se a interação das ca-
racterísticas individuais dos alunos com o ambiente educacional e social.
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SUMÁRIO
para todos? Que implicações o processo de inclusão de alunos com
deficiência tem gerado no espaço escolar? Como os professores es-
tão sendo preparados para atender à pluralidade e à diversidade
dos alunos? Que competências didático-pedagógicas são fundamen-
tais e/ou necessárias para se ensinar, reconhecendo as diferentes
formas de ser e de aprender dos educandos?
Instigada por esses questionamentos traçamos nosso objeto
de estudo para o desenvolvimento de uma pesquisa numa escola da
Rede Pública Municipal da cidade do Natal/RN, situada na Zona
Norte da cidade, sobre o que trazemos nesse capítulo, a equação
explicativa do nosso problema de pesquisa: de que forma a prática
pedagógica desempenhada pelo estudante estagiário tem sido ins-
tituída frente ao aluno com deficiência?
O ESTÁGIO NOS CURSOS DE FORMAÇÃO INICIAL
Entendido como um campo de conhecimento, o estágio su-
pera a concepção da didática instrumental em que estaria reduzido
apenas a uma atividade prática, tendo em vista que este é desen-
volvido a partir da interação dos cursos de formação com o campo
social no qual acontecem as práticas educativas. Não é, pois um
complemento curricular, mas um instrumento pedagógico que
contribui para superação da dicotomia teoria e prática, consti-
tuindo como uma atividade de pesquisa.
Ao ser percebido como a parte prática dos cursos de forma-
ção, o estágio se contrapõe à teoria, por isto que, recorrentemente,
podemos ouvir depoimentos de graduados e/ou graduandos que,
ao se depararem com a realidade das escolas, relatam que a teoria
aprendida não responde às demandas apresentadas, isto é, o cur-
rículo não fundamenta a atuação do profissional, de modo que a
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SUMÁRIO
fundamentação teórica é ineficaz, carecendo tanto de teoria como
de prática.
Ao justapor teoria à prática, partimos do pressuposto que,
ao prover-se do conhecimento científico, o momento da prática é o
de validar os modelos e métodos apreendidos, como se alunos e
escolas fossem invariáveis, obedecessem a um padrão tradicional-
mente concebido. A escola teria em si o papel de ensinar e os alu-
nos de aprenderem e, caso não consigam, seria problema deles e
de sua cultura, de seus hábitos e estrutura familiar, divergentes da
valorada tradicionalmente.
Essa formulação, além de excludente, desvaloriza o saber
do professor, é reducionista ao atrelar o êxito docente ao que ele
observa e imita dos modelos institucionalizados e tem o estágio
como momento de observar e imitar modelos vistos. Seria, assim,
a prática como imitação de moldes, designada como artesanal (PI-
MENTA; LIMA. 2005/2006).
Dessa forma, o estágio é entendido como ação docente e
prática social ao mesmo tempo, constituindo um campo de conhe-
cimento articulando a formação teórico-didática com o campo so-
cial no qual as práticas educativas se desenvolvem, apontando ca-
minhos, reflexões e ressignificações importantes para a melhoria e
manutenção do trabalho
A primeira lei específica para regulamentar os estágios, da-
tada em 1977 (Lei nº 6.494/77), dispõe sobre os estágios de estu-
dantes do Ensino Superior, Ensino Profissionalizante de Segundo
Grau e Supletivo, bem como de escolas de Educação Especial (BRA-
SIL, 1977).
Não obstante, a regulamentação da primeira Lei do Estágio
somente ocorreu em 1982, pelo Decreto nº 87.497/82. Este legi-
tima o estágio, que passa a ser nomeado por “estágio curricular”,
como procedimento didático-pedagógico, concernente à
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 159
SUMÁRIO
instituição de ensino a decisão quanto à estruturação e organiza-
ção da disciplina, sendo também uma “aprendizagem social, pro-
fissional e cultural”.
Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nº
9.394/96 e das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os
cursos de graduação, o estágio entendido como obrigatório, para a
formação de professores da educação básica, passa a ter no mí-
nimo 300 horas de prática de ensino. Nas DCNs de cada licencia-
tura passa-se a utilizar o termo “estágio supervisionado”, sendo
400 horas para o estágio obrigatório.
Em 2008, temos o advento da Lei nº 11.788, a nova Lei do
Estágio que resgata o feitio pedagógico à atividade de estágio obri-
gatório e não obrigatório, subordinando-o ao projeto pedagógico
do curso e exigindo a supervisão de supervisor na instituição con-
cernente e do docente orientador na instituição de ensino, sendo
ambas as modalidades, obrigatório e não obrigatório, curriculares
e supervisionadas.
Previsto na Lei 11.788/08, denominada Lei do Estágio, o es-
tágio curricular supervisionado pode ser encontrado sob duas for-
mas: obrigatório e não obrigatório, ambos caracterizam-se como
ato educativo supervisionado, desenvolvido no ambiente de traba-
lho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de educandos
que estejam frequentando o ensino regular, tendo por objetivo o
aprendizado de competências próprias da atividade profissional e
à contextualização curricular, objetivando o desenvolvimento do
educando para a vida cidadã e para o mundo. Não cria, pois vínculo
empregatício, mesmo quando concedidos benefícios pelas conce-
dentes, este será considerado caso desatendidas as regras da legis-
lação ou do Termo de Compromisso do Estágio.
Os estágios obrigatórios e não obrigatórios fazem parte do
projeto pedagógico dos cursos de licenciatura, além de integrar o
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 160
SUMÁRIO
itinerário formativo do educando, que tem a matrícula escolar de
caráter obrigatório com a jornada de atividade de no máximo 6
(seis) horas diárias e 30 (trinta) horas semanais (Ensino Superior)
firmadas no Termo de Compromisso.
No que tange às diferenças entre estágio obrigatório e não
obrigatório, destacamos que, enquanto este último é facultativo ao
estudante, podendo ser realizado ao longo do curso ou não ge-
rando expensas a parte concedente, tais como auxílio vale-trans-
porte e a bolsa, o primeiro é requisito para a conclusão do curso de
graduação e não gera ônus à instituição de ensino.
O ESTÁGIO NÃO OBRIGATÓRIO E A INCLUSÃO ESCOLAR - CA-
MINHOS E ENCONTROS
A efetivação das determinações da LDB - 9. 394/96, no que
se refere à Educação Especial, as ações e metas do Plano Nacional
de Educação e as orientações instituídas pelas Diretrizes Nacionais
para a Educação Especial na Educação Básica gerou algumas mu-
danças em níveis federal, estadual e municipal para atender essas
novas demandas. Dentro dessas, destacamos: a implementação
e/ou aperfeiçoamento do atendimento educacional e serviços es-
pecializados para crianças,jovens e adultos com NEE da rede re-
gular de ensino, a qualificação inicial e continuada de profissionais
para atuarem junto a esse público no contexto escolar promo-
vendo, assim, a quebra de paradigmas e a construção de novas prá-
ticas.
O Sistema Municipal de Natal, buscando atender a tais de-
mandas promulga em 2009, a Resolução nº 05 que fixa normas re-
lativas à educação das pessoas com Necessidades Educacionais Es-
peciais. Este, não somente propõe uma revisão do acesso à educa-
ção como, também, estabelece um novo profissional para atender
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 161
SUMÁRIO
às necesidades que não forem supridas com as intervenções cola-
borativas do professor, do coordenador e do gestor, contar com a
presença de outro professor, que atuará como apoio pedagógico-
educacional às necessidades específicas dos alunos com NEE e à
turma em geral.
No ano seguinte, em 2010, o Ministério da Educação por
meio da Secretaria de Educação Especial lança a nota técnica nº19
de 08 de setembro de 2010, que dispõe sobre os profissionais de
apoio para com Deficiência e Transtornos Globais do Desenvolvi-
mento matriculados nas escolas comuns da rede pública de ensino.
Esses profissionais seriam necessários para promoção da acessibi-
lidade e para atendimento a necessidades específicas dos estudan-
tes no âmbito da acessibilidade às comunicações e da atenção aos
cuidados pessoais de alimentação, higiene e locomoção (BRASIL,
2015).
Ao consultarmos a LDB 9.394/1996, Lei Brasileira de Inclu-
são da Pessoa com Deficiência (13.146/2015) e a Nota Técnica
19/2010 – MEC/SEESP/GAB, percebemos que não é definido o
perfil, a formação, remuneração bem como, quem é o responsável
pelo encaminhamento deste profissional, deixando a critério de
cada instituição construir a identidade dele. É válido destacar que
ao não deixar claro tais critérios abre-se a possibilidade para a in-
terpretação de atuação dos profissionais de apoio em variadas ati-
vidades, tais como a “responsabilidade de planejamento e ensino”.
Desse modo, é nítida a diversidade de perfis que o profissi-
onal de apoio assume na prática e é diante de tais variações des-
conformes, que atualmente pesquisadores e gestores buscam por
uma orientação mais adequada para definir esse profissional e sua
atuação no espaço escolar.
Um ponto de controvérsias nas discussões acerca das atri-
buições do profissional de apoio diz respeito à responsabilidade de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 162
SUMÁRIO
planejamento e ensino, ou seja, o planejamento das atividades, as
adaptações e a flexibilização curricular que se fazem necessária em
casos específicos e que exigem conhecimentos técnicos para atua-
ção.
Existem três formas de atuação para o profissional de apoio
presentes na prática. A primeira exige-se formação inicial na área
da educação, capacitação e especialização para atuar nas respon-
sabilidades de planejamento e ensino, configurando em um ensino
colaborativo, coensino ou bidocência. A segunda é um profissional
responsável pelo apoio aos cuidados, orientações e suportes bási-
cos para os alunos, a exemplo da alimentação, locomoção e higiene,
quando o aluno apresentar dependência em alguma área do desen-
volvimento, sem exigência de formação inicial e a terceira é exis-
tência dos dois profissionais quando o aluno apresentar necessi-
dade.
Na tentativa de contornar e reafirmar que o profissional de
apoio não pode estar restrito apenas à função de cuidar, a Secreta-
ria Municipal de Educação de Natal vincula uma minuta deta-
lhando o perfil, atribuições e encaminhamento do profissional de
apoio a alunos com Necessidades Educacionais Especiais. E, é en-
tão, neste documento que o estagiário remunerado aparece como
candidato apto a assumir essa função.
Desse modo, o candidato que almeja assumir essa função pode: a)
Ser do quadro funcional da SME (preferencialmente), o que se
constitui em carga suplementar; b) Não ser do quadro funcional,
mas haver sido selecionado anteriormente e já atuar como profes-
sor da rede, renovando-se o contrato, dentro das possibilidades le-
gais; c) Não ser do quadro funcional, nem ter sido selecionado an-
teriormente e participar de uma nova seleção a ser promovida pela
SME, como contingente a ser convocado quando a necessidade de
atender as unidades de ensino; d) Ser estagiário, aluno(a) dos
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SUMÁRIO
últimos anos do curso de Pedagogia, em convênio firmado entre
SME e unidades de ensino superior (grifo nosso) (NATAL, 2011).
O profissional de apoio teria em suas atribuições um viés
mais educacional ao ser direcionado para as ações educacionais
que envolvem o cuidar e o ensinar participando coletivamente e
colaborativamente junto aos professores regentes da educação re-
gular onde estão matriculados os alunos com NEE, bem como junto
ao professor da Sala de Recursos Multifuncionais, ao coordenador
e demais profissionais da escola.
Dessa forma, o trabalho a ser desenvolvido por ele não se
restringiria as atividades realizadas em sala de aula e/ou fora dela,
mas a cooperação articulada nas atividades de planejamento edu-
cacional na escola, quando não prejudicar suas atribuições de
apoio permanente aos alunos com NEE, na realização do Planeja-
mento do Plano de Trabalho Individual (PTI) para os alunos com
NEE, na correspondência família e demais atendimentos pedagó-
gicos, médicos e/ou terapêuticos conjuntamente com o professor
regente.
No tocante a formação continuada, ficaria a cargo da Secre-
taria Municipal de Educação ao longo do tempo de contrato laboral
garanti-la, além de promover um curso de 20 horas a cada início
de ano letivo, logo após a efetivação da matrícula antecipada, a qual
apontará as necessidades dos alunos com NEE matriculados.
Não podemos perder de vista que ao instituir um profissio-
nal de apoio, que no município de Natal vem a ser unicamente o
estagiário remunerado embora outros candidatos estejam aptos
para este cargo, não eliminamos ou excluímos o professor regente
e muito menos a condição de aluno em formação desse estagiário.
Vale ressaltar, que ao notificar a SME que necessita de outro
profissional, a escola aponta para a fragilidade em promover a in-
clusão e terceiriza esse papel para o estagiário, cria-se então, a
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SUMÁRIO
ideia de que ao ter um terceiro agente as barreiras que se sobre-
põem entre escola e alunos com alguma deficiência ruíram.
Contudo, salientamos que a inclusão é um produto de uma
educação plural, democrática e transgressora como coloca Man-
toan (2003, p. 20), ou seja, é a escola como ambiente formativo que
tem sua identidade institucional reformada. A inclusão é, portanto,
papel de toda a comunidade escolar que por sua vez deve garantir
o direito à diferença ressignificando o espaço institucional, o cur-
rículo e suas práticas.
Assim sendo, incluir é melhorar e assegurar a qualidade do
ensino da escola alcançando todos os alunos teria, pois o estagiário
remunerado não como agente solitário promotor da transforma-
ção, mas como mais uma peça na constituição do novo cenário.
A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ESTÁGIO
Definir prática pedagógica não é de todo uma tarefa fácil,
contudo ao voltarmos nossos olhares para a ação docente, perce-
bemos a grande influência que esta exerce no ensino e na aprendi-
zagem. Refletir sobre a prática pedagógica gera um repensar desde
a formação inicial e continuada do educador até o seu exercício co-
tidiano de compartilhar o saber.
Este professor é partícipe do processo da aprendizagem,
não protagonista, mas canal que de possedo contexto e provo-
cando a reflexão sobre este, extingue a neutralidade e incentiva o
posicionamento e a significação individual e coletiva acarretando
em uma conscientização dos direitos e deveres que cada indivíduo
possui.
Zabala (1998) nos relembra que a prática além de ser algo
fluido, difícil de limitar com coordenadas simples, é também com-
plexa, já que reflete múltiplos valores, fatores, ideias, hábitos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 165
SUMÁRIO
pedagógicos, ou seja, a prática do docente está permeada pela aná-
lise que este faz da sociedade, da política, economia e até do status
quo. Portanto, as relações sociais não somente passeiam pela es-
cola, como também se materializam nos métodos, técnicas, mate-
riais, estratégias. Encontramos, então, que a prática educativa está
subordinada aos modelos sociais vigentes, sendo o meio de se pro-
pagar valores, melhorias e a consciência do papel social que cada
educando ali possui.
Destarte, a prática pedagógica assume a forma da expressão
e da fonte do saber docente, ao mesmo tempo em que o professor
age mediante suas aprendizagens e experiência, constrói novos co-
nhecimentos e saberes, em um processo contínuo de fazer e refa-
zer.
Ao propormos a discussão sobre a prática pedagógica do es-
tagiário frente a um aluno com deficiência colocamos sob a luz dois
aspectos importantes: o processo formativo desse aluno de gradu-
ação e as imbricações de seu fazer diante do paradigma da inclusão
escolar.
Na atualidade a Legislação brasileira institui a partir da Re-
solução nº2, de 1º de julho de 2015, as Diretrizes Curriculares Na-
cionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licen-
ciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos
de segunda licenciatura) e para a formação continuada, onde em
seu art.13 §2º traz a garantia de que os cursos de licenciatura te-
nham em sua matriz curricular disciplinas que contemplem a dis-
cussão da Educação Especial, bem como da Língua Brasileira de Si-
nais (LIBRAS).
Nas matrizes curriculares do curso de Pedagogia das insti-
tuições das quais as estagiárias são provenientes, podemos anali-
sar que na UFRN há a oferta no primeiro período da disciplina de
Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e no quarto período a de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 166
SUMÁRIO
Educação numa Perspectiva Inclusiva, percebemos que ao introdu-
zir primeiramente o componente curricular LIBRAS, especifica-
mente, sem nenhuma contextualização da inclusão escolar, só a fa-
vorecendo três períodos depois, cria-se uma lacuna formativa e a
não abrangência da discussão sobre a inclusão de alunos que apre-
sentem alguma deficiência.
Já na Universidade Potiguar - UNP, instituição particular, há
também somente duas disciplinas que contemplam o debate am-
plo da inclusão, são elas Educação Inclusiva e LIBRAS, sendo ofer-
tadas no 5º e 4º períodos, respectivamente. Tais destaques sobre
as matrizes curriculares das instituições citadas se fazem necessá-
rios, para compreendermos que o aluno estagiário quando é con-
tratado pela Secretaria Municipal de Educação de Natal, em sua
maioria, não teve o contato em sua formação inicial com os diálo-
gos de um fazer pedagógico inclusivo.
O desafio que se coloca, então, é o de propiciar o acesso e a
permanência, bem sucedida, em escolas comuns para todos os alu-
nos, independentemente das suas diferenças, sejam elas raciais,
econômica, culturais, de gênero ou mesmo decorrentes de alguma
deficiência sem que o profissional de apoio tenha tido em sua for-
mação uma introdução ao que a escola propõem como atividade a
ser realizada por ele.
Compreendemos, dessa forma, que a efetivação da educa-
ção inclusiva implica, conforme defendem Glat e Nogueira (2002),
numa transformação do sistema educacional, pressupondo a revi-
são de concepções e práticas, com o intuito de possibilitar o acesso,
a permanência e a aprendizagem de todos os educandos, bem como
o desenvolvimento nos âmbitos cognitivo, cultural e social.
Nesse sentido, a escola é convidada a rever suas velhas
crenças, dogmas e práticas para atender com competência todo o
alunado sendo a escola não apenas para quem pode frequentá-la e
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 167
SUMÁRIO
tirar proveito dessa experiência, mas para todos os alunos
(OMOTE, 2008). Sobre estas práticas pedagógicas, Ainscow (1997)
afirma serem apropriadas a todos os alunos, alunos com NEE e aos
outro, que podem precisar de mais tempo, de mais prática ou de
uma abordagem com variações individualizadas, mas não de uma
estratégia explicitamente diferente da que é utilizada com os ou-
tros alunos.
Ao desenvolver práticas pedagógicas inclusivas a escola e
seus agentes devem ter como essência a reflexão sobre o papel de-
sempenhado pelos professores, isto é, o professor deve assumir
que sua função não é de transmitir conhecimentos, mas despertar
e possibilitá-los aos e em seus alunos; considerar que a metodolo-
gia que se propõe em prática é flexível, cabendo adaptações e ino-
vações posteriores; o reconhecimento que a metodologia é um ele-
mento dinamizador da prática docente e, que, assim sendo, deve
permanecer aberta tanto ao programa curricular da escola quanto
ao da aula, aceitando a diversidade como condição inata dos seres
humanos (GONZÁLEZ, 2002).
Diante disso, os docentes deverão ser capazes de identificar
as especialidades dos seus alunos para que as adequações sejam
realizadas, a partir de um currículo comum a todos, direcionando-
o para as potencialidades dos educandos.
Quando adentramos no contexto escolar de nossa pesquisa
percebemos que é o estagiário o protagonista desse repensar e re-
fazer-se no cotidiano demandando dele unicamente uma prática
que a priori seria coletiva e supervisionada.
Para discutirmos prática pedagógica e como o estágio tem
se instituído na escola que ‘pensa’ e almeja a qualidade do ensino
para todos, ao propor práticas inovadoras, faz necessário voltar ao
que seria estágio a partir do que se pensa ao instituí-lo na formação
dos novos docentes nos cursos de licenciatura, para tal recorremos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 168
SUMÁRIO
ao Parecer CNE/CP nº28/2001, do Conselho Nacional de Educa-
ção, o define como um
Tempo de aprendizagem que, através de um período de perma-
nência, alguém se demora em algum lugar ou ofício para aprender
a prática do mesmo e depois poder exercer uma profissão ou ofí-
cio. Assim o estágio curricular supervisionado supõe uma relação
pedagógica entre alguém que já é profissional reconhecido em um
ambiente institucional de trabalho e um aluno estagiário. Por isso
é que este momento se chama estágio curricular supervisionado
(p.10)
Destacamos no texto acima que o estágio supõe uma relação
pedagógica entre o supervisor, professor formado, e o estudante
de graduação, isto é o estágio torna-se um elemento integrador te-
oria-prática e do aperfeiçoamento técnico cientifico.
Contudo, quando entrevistamos e observamos as estagiá-
rias de nossa pesquisa fica evidente a inexistência da articulação
professor supervisor e/ou regente de sala e estudante de gradua-
ção, pois não há um acompanhamento das atividades exercidas por
este, bem como não foi oferecido orientações conceituais, metodo-
lógicas e didáticas ao iniciar o estágio e/ou ao longo do período de
permanência destas nessa função.
A PESQUISA – CAMINHOS TRAÇADOS
Para o desenvolvimento da pesquisa adotamos uma abor-
dagem metodológica qualitativa, uma vez que se fundamenta na
relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, havendo uma in-
terdependência entre o sujeito e o objeto, um elo entreo mundo
objetivo e a subjetividade do sujeito. Assim, o conhecimento não se
resume a um rol de dados, tendo o objeto neutro e inerte, mas, sim,
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 169
SUMÁRIO
vemos que o sujeito-observador é parte integrante do processo,
pois significa o conhecimento e o interpreta.
De cunho exploratório, nossa pesquisa buscou conhecer a
variável do estudo tal como se apresenta e o contexto onde ela se
insere, pressupondo que a prática pedagógica do aluno estagiário
remunerado junto a uma sala com o aluno com deficiência é me-
lhor compreendida no contexto social onde ocorre, permitindo ser
percebida tal como ela é, e não como o pesquisador pensa que é.
Quanto aos procedimentos, utilizamo-nos da Pesquisa Bi-
bliográfica, da Pesquisa Documental e do Estudo de Caso (GIL,
1994), que se caracteriza como um método de pesquisa, cujo ob-
jeto é uma unidade que se analisa profundamente, envolvendo o
exame detalhado de um ambiente, de um simples sujeito ou de uma
situação em particular (GODOY, 1995). Como instrumento de pes-
quisa utilizamos a observação não participante associando-a ao di-
ário de campo e à entrevista para dessa forma obtemos uma maior
aproximação possível daquela realidade de modo a não a modifi-
car. As nossas observações compreenderam um total de 20 dias.
Assim sendo, os dados coletados foram devidamente sele-
cionados, codificados e tabulados, buscando detectar inexatidões
ou erros, evitando informações confusas, distorcidas, incompletas,
que podem interferir negativamente no resultado da pesquisa (LA-
KATOS; MARCONI, 2003. Vejamos os elementos constituintes da
investigação:
a) O campo de pesquisa
A nossa investigação foi desenvolvida em uma escola da
Rede Pública Municipal da cidade do Natal/RN, situada na Zona
Norte da cidade. Esta escola foi escolhida devido ao grande número
de estagiários remunerados em seu quadro de funcionários. Para
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 170
SUMÁRIO
iniciarmos a pesquisa fez-se necessária a autorização por parte da
Secretaria Municipal de Educação do Natal e da equipe gestora da
instituição, obtidas somente no segundo semestre de 2019.
A instituição que, aqui, daremos o nome de Escola Munici-
pal Aprender3 (EMA) foi criada pelo Decreto de número 2.161, de
14/2 / 1979 e pela Portaria de Autorização 078 de 17/2/ 1996.
Possui prédio próprio, funcionando nos turnos matutino, vesper-
tino e noturno. Atende a alunos do Ensino Fundamental II (6º ao
9º ano) e a alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
No que se refere ao espaço físico, a EMA, conta com os se-
guintes ambientes: 12 salas de aula, 1 Biblioteca, 1 Laboratório de
Informática, 1 Laboratório de Ciências, 1 Sala de Vídeo, 1 Sala da
Direção, Sala Professores, 1 Secretaria, 1 Sala de Refrigeração, 1
Refeitório, Almoxarifado, 1 Quadra Esportiva, 1 Pátio, 6 Banheiros.
A escola passou por uma reforma para a acessibilidade no
ano de 2014, de modo que podemos encontrar rampas de acesso
na entrada e para as salas de aula e piso tátil direcional por toda
instituição escolar. Contudo, os banheiros ainda não são completa-
mente acessíveis para os estudantes que fazem uso de cadeiras de
rodas e, também não há um fraldário para aqueles que necessitam.
No tocante à Distribuição dos docentes por disciplina, cons-
tatamos que existiam docentes de: Língua Portuguesa (7); Mate-
mática (6); Ciências (6); História (5); Geografia (5); Ensino da Re-
ligião (3); Ensino da Arte (5); Educação Física (5); Inglês (5).
Os docentes descritos acima cumprem em seus respectivos
componentes curriculares toda a carga horária anual que varia de
40 (quarenta) a 200 (duzentas) horas/aula, segundo o estabele-
cido pela Secretaria Municipal de Educação – SME/ Natal. Tais in-
formações nos foram transmitidas pela Gestora Pedagógica e,
3 Nome fictício dado pelas pesquisadoras
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 171
SUMÁRIO
também, encontradas no Projeto Político Pedagógico (PPP) da Es-
cola, disponibilizado pela mesma.
b) Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola
Segundo a Gestora Pedagógica, o PPP da escola foi elabo-
rado no ano de 2010 por um único docente e, por ter sido tecido
em uma escrita solitária com a ausência do diálogo com os pares
que compõem o espaço formativo da instituição, tal documento
não está condizente com a realidade escolar, de modo que, no iní-
cio do ano passado iniciou-se o processo para a elaboração de um
novo PPP, desta vez contemplando todos os agentes da escola. É
válido destacar que esse é o documento norte para toda comuni-
dade deve conter as decisões e deliberações pautadas e realizadas
por toda a comunidade escolar, estabelecendo a singularidade que
o faz único para cada instituição. Para a construção deste novo do-
cumento, estão sendo organizadas palestras na própria instituição
com professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN).
Destacamos do antigo e ainda vigente PPP a única referên-
cia a Educação Inclusiva, assim compreendida como “uma prática
inovadora que irá enfatizar a qualidade de ensino para todos os
alunos, exigindo que a escola se modernize e que os professores se
aperfeiçoem suas práticas pedagógicas” (PPP, 2010, p. 13).
Percebemos que muito embora tenha sido escrito em
2010, tal compreensão é bastante atual ao revelar a Educação In-
clusiva como uma prática que garante a qualidade de ensino para
todos os alunos, respeitando a individualidade de cada um (a). Pro-
porcionando àqueles com necessidades educativas especiais, de-
correntes de uma deficiência, transtorno ou altas habilidades/su-
perdotação, a sua participação direta e constante nas atividades
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 172
SUMÁRIO
cotidianas da classe regular, aprendendo a mesma coisa que os de-
mais - mesmo que haja algumas adaptações curriculares e didáti-
cas. Os professores são compreendidos como mediadores do pro-
cesso de ensino e aprendizagem necessitando, portanto, aprimorar
suas práticas para atender a todos os alunos da classe.
Uma escola que tem em sua proposta pedagógica a inclusão
demanda uma ruptura com o currículo único que não comporta a
pluralidade de seu alunado. Abraçar o diverso não é somente fazer
adaptações curriculares, mas também elaborar uma nova forma de
concepção curricular.
De acordo com Manjón (apud MAGALHÃES, 2013), as adap-
tações curriculares podem ser conceituadas como não significati-
vas oude pequeno porte, quando requerem à pequenas alterações
no programa da aula, ou seja, ocorre quando há a demanda de
adaptações espaciais organizativas, metodológicas, relativas aos
objetivos, conteúdos e avaliação são, portanto, promovidas pelo
professor para todos os alunos, independentemente se apresenta
alguma deficiência ou não. A sua implementação não exige autori-
zação de qualquer outra instância política, técnica ou administra-
tiva, aplicadas no cotidiano da sala de aula. Isto significa, portanto,
que elas são mais simples de serem feitas, e não que sejam menos
significativas, tal como o termo pode sugerir.
Na perspectiva inclusiva o currículo épensado enquanto
(re)construção coletiva que responde às singularidades e diversi-
dades dos alunos, havendo a facilitação das aprendizagens de to-
dos quanto se implicam no processo educativo.
c) Os sujeitos
Ao longo de nossa pesquisa contamos com a participação de
6 (sete) sujeitos: 2 (duas) estagiárias remuneradas, 2 (dois) alunos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 173
SUMÁRIO
com deficiência,1 (um) professor e 1 (uma) diretora pedagógica.
Lydia4 é a estagiária que atua no 6º D, cursa5o 7º período do curso
de Pedagogia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ele-
onor, estagiária no 8º B, cursa o 3º período do curso de Pedagogia
na Universidade Potiguar.
Quanto ao que motivou as estudantes ao estágio não obri-
gatório, a necessidade financeira se apresentou como principal jus-
tificativa, embora, ambas tivessem predileção para acompanhar o
Ensino Infantil. Contudo, o estágio acompanhando turmas do En-
sino Fundamental - Anos finais, fora a única alternativa dada pela
Secretaria Municipal de Educação de Natal/RN, quando procura-
ram para concorrer às vagas ofertadas aos estudantes de gradua-
ção.
Anne, aluna do 6º ano D tem 14 (catorze) anos e está na Es-
cola Municipal Aprender, desde 2018, quando veio transferida de
uma escola particular. Foi diagnosticada com Síndrome de Down,
quando sua mãe ainda a gestava. Frequenta o Atendimento Educa-
cional Especializado (AEE) em outra escola municipal, pois na Es-
cola Aprender não há Sala de Recursos Multifuncionais, nem um
professor especialista em Educação Especial.
Quando questionada sobre a transferência de uma institui-
ção particular para uma pública, Marilla, mãe de Anne, conta que
na antiga escola ela não era estimulada a participar da aula, che-
gando a passar todo o horário de aula no refeitório ou em outro
espaço escolar que não a sala de aula de sua turma.
Devido a este fato, Marilla preferiu matriculá-la na Escola
Municipal Aprender porque, “Me disseram que no município ela
(Anne) teria uma professora ‘só’ para ela. E, além do mais, aqui ela
ia fazer as próprias atividades e não fariam por ela”.
4 Nome fictício, assim como os demais sujeitos, para garantir o anonimato desses.
5 Na época da pesquisa.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 174
SUMÁRIO
João, aluno do 8º ano B, tem 15 anos e já está na EMA desde
2016. Menino simpático, João é conhecido e querido por todos da
escola. Em nosso primeiro dia de observação ele nos conduziu,
junto com a estagiária, para a cozinha, onde nos mostrou a sua foto
colada na parede, pelas merendeiras. Diagnosticado com Encefalo-
patia crônica6 não evolutiva do tipo discinética CID- G80.3, além de
CID 10H90.37. João faz uso de cadeira de rodas e não fala ou sina-
liza em LIBRAS, mas se comunica por gestos e sons próprios para
chamar a atenção de seu interlocutor e transmitir a sua mensagem.
Hércules é docente, tanto de Anne, quanto de João. Formado
em Educação Física, com Especialização em Educação Física do Es-
porte, tem 50 anos de idade e 30 anos de profissão, sendo 20 anos
na Escola Municipal Aprender.
Elizabete, a gestora pedagógica, tem 45 anos e ocupa o
cargo desde o início de 2019. Como no momento da nossa pesquisa
o colégio encontrava-se sem coordenador pedagógico, Elizabete
disse que as competências deste cargo estavam sob sua responsa-
bilidade, sendo ela quem enviava à Coordenadoria de Gestão de
Pessoal (CGP) da Secretaria Municipal de Educação, ofício de soli-
citação um profissional de apoio, que neste caso é o estagiário. Em
tal solicitação deve constar a necessidade educacional do aluno ou
os comportamentos que a justifiquem, acrescido da idade, turma,
turno e, se possível, anexar os laudos e relatórios médicos/tera-
pêuticos e relatório de observação do comportamento do aluno na
escola. Elizabete, também tinha a atribuição de acompanhar o pro-
cesso de aprendizagem dos alunos, em geral, além de ser a respon-
sável pelo acompanhamento dos estagiários na escola.
6 Mais conhecida por Paralisia Cerebral.
7 Perda de audição bilateral neurossensorial.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 175
SUMÁRIO
ANÁLISE SOBRE A REALIDADE ENCONTRADA
Ao analisarmos o conteúdo das falas dos participantes da
pesquisa, emergiu a variável Formação, para a qual é apontada
uma grande lacuna. É importante dizer que cada profissional ou
estudante envolvido na pesquisa teve ou tem o acesso à educação
superior em espaços temporais diferentes em instituições públicas
ou privadas. As categorias surgidas a partir da variável formação
foram a) Não formação em Educação Especial; b) Formação em
Educação Especial e c) Formação Continuada:
Quadro – Categorias da variável Formação
a) NÃO FORMAÇÃO EM EDUCA-
ÇÃO ESPECIAL
b) FORMAÇÃO EM EDUCAÇÃO
ESPECIAL
Não cursei nenhuma disciplina
(Estagiária Eleonor, 2019)
Cursei uma disciplina no 4º perí-
odo (Estagiária Lydia, 2019)
Nunca tive nenhuma disciplina ou
módulo [na graduação] e especia-
lização (Professor Hércules,
2019)
Cursei disciplina optativa (Ges-
tora pedagógica Elizabete, 2019)
A estagiária Eleonor e o professor Hércules evocam o esva-
ziamento de discussão ou distanciamento da teoria e prática em
sua formação em relação à educação inclusiva.
Já a estagiária Lydia e a gestora pedagógica Elizabete cursa-
ram disciplina em Educação Especial, contudo o significado e im-
portância dado a mesma difere em graus. Para a primeira a disci-
plina foi cansativa e para essa gestora Elizabete “conta-se nos de-
dos quem teve algum contato com essa área [na escola] [...] muitos
nunca nem foram estimulados a pensar a inclusão”.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 176
SUMÁRIO
Por se tratar de uma discussão ainda inicial nos cursos de
formação docente, o desconhecimento torna-se uma barreira à ela-
boração de práticas pedagógicas inclusivas. Prática e teoria devem
assim caminhar juntas, fazendo com que o profissional em forma-
ção ou já formado sempre reflita sobre o seu fazer, daí o destaque
a importância da formação continuada também, pois um educador
deve estar em permanente processo de aprendizagem, tal qual seu
alunado pois, sua tarefa não se reduz a reprodução de conteúdos
de um currículo fechado e taxativo, mas ao despertar do outro para
o conhecimento.
Sobre a categoria formação continuada, se revisitarmos o
documento do município que estabelece o perfil, as atribuições e
encaminhamentos do profissional de apoio a alunos com NEE, en-
contraremos que a Secretaria Municipal de Educação de Natal, traz
em seu escopo a garantia da formação continuada ao longo do
tempo do contrato laboral e a promoção de um curso de 20 horas
a cada início de ano letivo. Contudo, nas falas das estagiárias per-
cebemos que há uma carência também do contínuo repensar em
momentos formativos.
Sobre esta questão concordamos com Prieto (2003) quando
salienta que se considerando que a formação inicial e continuada
do professor como uma das tarefas mais significativas para apri-
morar a qualidade do ensino, e para isto é preciso nunca esquecer
que a resolução de problemas depende em muito da elaboração de
novos conhecimentos apreendidos por meio de investimento em
pesquisa, cuja preocupação deve ser subsidiar a construção de no-
vas perspectivas de trabalho em educação.
A formação continuada tem em sua importância não só a
melhora das práticas empreendidas pelos docentes, mas, sobre-
tudo, o conhecer das necessidades de formação pelo próprio do-
cente, isto é, os efeitos dessa formação nas práticas dos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 177
SUMÁRIO
professores, tornando uma das condições primordiais para o apri-
moramento do processo formativo (RODRIGUES, 2006).
Pensando e reconhecendo a importância da formação con-
tinuada a SME, em parceria com a UFRN, neste ano de 2020, pro-
moverá um projeto de extensão voltado para estagiários remune-
rados e supervisores. O curso estava para ser desenvolvido de
março a setembro, com carga horária de 60h. Nele serão discutidos
fundamentos da Educação Especial, estratégias e recursos pedagó-
gicos para o ensino a alunos com Transtorno do espectro autista,
deficiência sensoriale intelectual. Também serão discutidos os cui-
dados com crianças que apresentam microcefalia8, epilepsia9 e be-
xiga neurogênica10.
Uma iniciativa propositiva que certamente trará bons resul-
tados para a formação dos estagiários, bem como para o aprimora-
mento de práticas inclusivas nas escolas da rede, no entanto não
atingirá ao total de estagiários remunerados existentes daquele
sistema de ensino.
Variável: Prática pedagógica no processo de estágio
Na variável Prática pedagógica no processo de estágio, a
categoria que emerge nas falas dos entrevistados é aPrática peda-
gógica compreendida pelas duas estagiárias e pelo professor Hér-
cules como um meio de atingir resultados por meio de atividades.
8 Microcefalia – Condição neurológica rara em que a cabeça e o cérebro do bebê são
significativamente menores do que os de outros da sua mesma idade.
9 Epilepsia – Doença cerebral crônica causada por diversas etiologias e caracterizada
pela ocorrência de crises epilépticas não provocadas. Esta condição tem consequên-
cias neurobiológicas, psicológicas e sociais, prejudicando a vidado indivíduo afe-
tado.
10 Bexiga neurogênica – Disfunção da bexiga causada por lesão neurológica.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 178
SUMÁRIO
Em suas falas, Lydia, Eleonor e Hércules resumem a prática
pedagógica à execução de atividades que podem “levar a bom re-
sultado”(Professor Hércules, 2019), “a fim de ter um resultado sig-
nificativo” (Estagiária Lydia, 2019). A quantidade é evidenciada,
faltando trazer a reflexão sobre ‘o fazer’ como um processo, consi-
derando as diferenças dos estudantes. Na fala de Hércules surge o
verbo “adaptar” como condição inerente ao professor, dadas às cir-
cunstancias em que se encontra.
Certamente, carecidos de formação continuada que trate
das questões vivenciadas, traçando caminhos possíveis à reflexão
e à compreensão do como ocorrem os processos de aprendizagem,
do como o ser humano apreende o conhecimento mesmo com li-
mitações provenientes da condição de perda de algum sentido ou
da capacidade intelectiva e motora.
Também advogamos que a inclusão escolar é de responsa-
bilidade de todo o sistema educativo. O Estado deve prover os
meios – legislação que considere as reformas necessárias e asse-
gure as mudanças e implementação de “sistema inclusivo”; e finan-
ciamento – que garanta recursos humanos e materiais acessíveis
para atender as demandas de alunos com NEE.
As Secretarias de Educação devem assegurar a autonomia
das escolas em prover um sistema inclusivo, considerando a reali-
dade existente, assim como prover formação continuada sistemá-
tica para todos os envolvidos nas escolas, estabelecendo parcerias
com instituições de ensino superior, de saúde entre outras que a
realidade escolar demandar.
A escola, por sua vez, precisa ter em seu PPP, que deve ser
de conhecimento de toda a comunidade escolar, as abordagens, os
princípios e diretrizes que tenham em conta a filosofia da inclusão,
para nortear a prática educativa. Estabelecer parceria com as famí-
lias, e não a ter distante da escola. Sensibilizar a comunidade
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 179
SUMÁRIO
escolar e em geral a perceber as vantagens de um sistema escolar
inclusivo. Acompanhar o desenvolvimento do ensino e da aprendi-
zagem de seus alunos e alunas com ou sem necessidades educati-
vas especiais e estar aberta, sempre a novas aprendizagens e mu-
danças que o momento histórico revela assumindo o “[...] desafio
da descoberta e da busca pela superação de preconceitos, de atitu-
des que negam a capacidade do outro em aprender e de desenvol-
ver suas potencialidades, garantindo assim o direito inalienável
que todos têm de aprender” (SILVA, 2008, p. 21).
Quando solicitamos que dissessem sobre a compreensão
em relação ao que deveria ser uma prática pedagógica inclusiva,
Lydia, Eleonor, Hércules e Elizabete assim se pronunciaram que:
“O professor consegue na sua prática diária incluir o aluno especial
em atividades, na socialização com os colegas de turma. (Lydia,
2019); “Fazer o acompanhamento do seu aluno... é aplicar algumas
atividades para o aluno para ele aprender certas coisas, suas limi-
tações, entre essas coisas (Eleonor, 2019). “A prática pedagógica
inclusiva tem um olhar especifico sobre cada aluno em si (Hércu-
les, 2019); Prática pedagógica inclusiva é algo que nós não temos
aqui [...] são algumas atividades direcionadas para ela [Anne] (Eli-
zabete, 2019)
.
A variável Inclusão apresentou duas categorias: a) deficiência
e b) relação família escola
Na variável INCLUSÃO, três dos entrevistados atrelam o
processo de inclusão à atenção a alunos com NEE. Lydia, acrescen-
tou a inclusão “ [...] é uma forma da criança interagir, de se sociali-
zar e ser aceita como uma criança comum”, enquanto Eleonor, sa-
lienta que é “incluir o aluno dentro das atividades escolares”.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 180
SUMÁRIO
Esta visão de inclusão referente à deficiência tem sua eficá-
cia há muito tempo questionada, uma vez que: “[...] ao tentar au-
mentar a participação dos estudantes, a educação enfoca a parte
da deficiência ou das necessidades especiais desses estudantes e
ignora todas as outras formas em que a participação de qualquer
estudante pode ser impedida ou melhorada” (AINSCOW, 2009, p.
15).
A gestora pedagógica amplia o conceito de inclusão afir-
mando que “Inclusão escolar é a abertura da escola ao diferente, é
a transformação da escola em um ambiente acolhedor para todos”
e lamenta por, na escola onde atua, não vivenciarem essa proposta,
tal como podemos apreciar em sua fala: “[...] infelizmente, não é o
que acontece aqui na escola, está mais para socialização dos alunos
com deficiência do que inclusão propriamente dita” (Elizabete,
2019)
Percebemos que a perspectiva de inclusão citada por Eliza-
bete se coaduna, inicialmente, com o Movimento Educação para
Todos (EPT), criado nos anos de 1990, e relacionado com o acesso
e a participação na educação em todo o mundo. Referente a este
movimento, Ainscow (2009, 18), nos comunica que “[...] apesar do
aparente progresso visando chamar a atenção para as possibilida-
des de um sistema educacional inclusivo para todas as crianças, es-
pecificamente incluindo crianças com deficiência isto só acontece-
ria na Declaração de Salamanca”.
Ainda sobre a concepção de inclusão de Eleonor, percebe-
mos a evolução para uma abordagem de princípios à educação, sob
a qual pairam: à igualdade, à participação, à comunidade, à com-
paixão, o respeito pela diversidade, à sustentabilidade, o direito, a
valorização de uma variedade de identidades, de diferenças, para
que as pessoas sejam aceitas como são (AINSCOW, 2009).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 181
SUMÁRIO
Nesta perspectiva a inclusão tem uma importância especial
uma vez que abrange todas as crianças e jovens nas escolas, fo-
cando na presença, na participação e na realização.
Desta forma, uma escola inclusiva está em permanente pro-
cesso de transformação de valores em ação, resultando em práti-
cas e serviços educacionais, em sistemas e estruturas que incorpo-
ram tais valores. Assim, está sempre e não aquela que já atingiu um
estado perfeito.
a) Categoria deficiência
Na fala dos entrevistados, a deficiência aparece como: Limi-
tação para fazer certas atividades (LYDIA, 2019); Deficiência é uma
dificuldade, talvez em alguma coisa como, por exemplo, eu posso ter
uma dificuldade para andar, eu tenho deficiência nas pernas (ELE-
ONOR, 2019); Como eu disse antes, deficiência é uma limitação que
eu e você podemos ter. (HÉRCULES, 2009).
Quando refletimos sobre deficiência,partimos do pressu-
posto que esta é marcada pelos contextos em que é tecida, sendo
por consequência um produto historicamente datado.
Nas falas de Lydia, Eleonor e Hércules o viés funcional e es-
trutural da compreensão acerca da deficiência dos alunos acompa-
nhados torna-se preponderante. Ao suscitarem termos como “limi-
tação” e “dificuldade”, revelam a compreensão de deficiência sob a
perspectiva de limitação e não no viés da incapacidade social em
atender as suas especificidades.
Tal compreensão conversa positivamente com o que foi dis-
posto na Convenção Interamericana para a Eliminação de todas as
Formas de Discriminação em relação à Pessoa com Deficiência
(BRASIL, 2001), conforme exposto em seu art. 1º, ao definir que a
deficiência representa uma restrição física, mental ou sensorial, de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 182
SUMÁRIO
natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de
exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada
ou agravada pelo ambiente econômico e social.
Nos entendimentos dos entrevistados sobre deficiência, en-
contramos duas vertentes divergentes, deficiência enquanto pato-
logia individual (modelo médico) ou enquanto patologia social
(modelo social). Podemos assinalar que os discursos de Lydia, Ele-
onor e Hércules distanciam-se, portanto, do modelo social, ao com-
preenderem a deficiência como algo inerente ao indivíduo que não
necessariamente se relaciona com o meio, aproximando-se do mo-
delo da patologia individual (modelo médico). Esta perspectiva
vem sofrendo duras críticas na prática atual da Educação Especial,
que reconhece a abordagem dos direitos humanos como mais pro-
missora, pois para esta a deficiência é concebida como consequên-
cia da forma como a sociedade está organizada e de como são teci-
das as relações sociais.
Devemos, pois objetivar a construção uma sociedade sob a
perspectiva inclusiva, valorando a individualidade e a coletividade
de cada sujeito, sem destacar as marcas que os diferenciam, o que
seria propagado como “normal”, mas entendendo que a deficiência
não incapacita ou impossibilita, mas nos torna plurais.
Na fala da estagiária Lydia há, ainda, marcas muito fortes do
construto social quando, ao dizer que o aluno estaria limitado “a
fazer uma certa atividade”, ela atribui que há um caminho único de
abordagem pedagógica. Isto é, que ele pode fazer isso, mas não
aquilo, Lydia deixa de trazer à luz a possibilidade de adaptação cur-
ricular e de considerar os ritmos de aprendizagem de cada indiví-
duo.
A pluralidade dos ritmos de aprendizagem numa escola in-
clusiva deve ser o norte de toda e qualquer situação pedagógica.
Entender que nenhum dos alunos está fadado a não ter acesso a tal
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 183
SUMÁRIO
conhecimento, mas propiciar e traçar estratégias pedagógicas que
abarquem a diversidade é o que deve mover o docente e o discente
a derrubarem as barreiras que, porventura, se sobreponham na
sala de aula.
b) Categoria relação família escola
Na fala das duas estagiárias e do professor Hércules, a mães
dos alunos Anne e João são presentes na escola, cada uma a sua
maneira. O que foi afirmado pela gestora pedagógica. A mãe de
Anne “é bem presente. Sempre pergunta como foi o dia, participadas
reuniões e está sempre disposta a ajudar no que for preciso” (ESTA-
GIÁRIA LYDIA, 2019), além de passar a impressão de que se sente
acolhida pela escola. Já a mãe de João vai à escola quando é cha-
mada pela estagiária Eleonor – a quem a sua ida a escola está con-
dicionada – “para saber das dificuldades e limitações dele, as melho-
ras que ele tá tendo. Eu que geralmente passo as coisas para ela,
quando não vai ter aula, eu passo as coisas para ela, se ela quiser
saber como está o melhoramento dele, eu passo para ela” (ESTAGI-
ÁRIA ELEONOR, 2019)
A inclusão família e escola é considerada fator primordial
para o desenvolvimento do educando. Esta parceria quando esta-
belecida influi diretamente para a efetiva inclusão escolar do pú-
blico alvo da Educação Especial: pessoas com deficiência, outros
transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/super-
dotação (BRASIL, 2008), proporcionando traçar objetivos e meto-
dologias que atendam a demanda real dos alunos.
Contudo, para que tal demanda seja suprida e notem-se
avanços significativos no desenvolvimento dos alunos, é preciso
que pais e professores comunguem das mesmas concepções em re-
lação à condição biológica e a capacidade de aprendizagem,
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 184
SUMÁRIO
cabendo à escola propiciar um diálogo contínuo apresentando ori-
entações à família sobre as diversas possibilidades de avanço des-
tes alunos mesmo quando possuem um grau severo de deficiência
(GLAT; PLESTCH, 2004).
Ao relatar o envolvimento da mãe de Anne, Lydia aponta
para uma possível unidade entre o trabalho estabelecido na escola
e com a família. Hollerweger e Catarina (2014) evocam que essa
parceria transmite ao aluno segurança, permitindo que ele desen-
volva suas habilidades de forma mais tranquila, tendo em vista que
a escola, depois da família, é o espaço primeiro e fundamental para
o processo de socialização da pessoa.
No entanto, na fala da estagiária Eleonor há um condiciona-
mento e um direcionamento à estagiária, esta é o mais importante
canal do diálogo família e escola. Tendo em vista a importância da
construção coletiva do planejamento da ação pedagógica, há de se
considerar todos os que fazem parte da comunidade escolar, o en-
laçamento e comprometimento destes garante a integração e a de-
mocracia no ambiente, além de oportunizar a quebra de paradig-
mas excludentes socialmente ao passo que considera o cenário po-
lítico, histórico e social sob o qual se dá a prática pedagógica.
Estabelecer uma articulação entre família e escola não é ter-
ceirizar a responsabilidade da instituição educativa, “mas deixar
de gestar uma prática autoritária para garantir à família a liber-
dade de exercer a democracia em seu sentido pleno” (BIÁZZIO;
LIMA, 2009, p. 381).
DA OBSERVAÇÃO DA PRÁTICA
Durante o período de observações – de junho a dezembro
de 2019 - podemos perceber como o trabalho do estagiário é insti-
tuído no cotidiano escolar. A partir de agora traremos algumas
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 185
SUMÁRIO
fichas de observações registradas por nós, a inclusão de tais dados
está pautada nas categorias de análise, proporcionando a articula-
ção entre as falas e o observado.
A partir das primeiras observações, tanto na sala de aula
onde Eleonor é auxiliar, quanto na que Lydia está alocada, eviden-
ciam-se a pouca ou nenhuma interação entre os professores das
disciplinas e os alunos que apresentam deficiência, apesar de am-
bos demandarem atenção ao que está sendo desencadeado em
sala. Temos aqui o primeiro grande marco do papel desempenhado
pelas estagiárias, elas estariam ali não para suprirem as demandas
que surjam em toda a turma, de modo a conduzi-la para o caminho
da melhor compreensão, mas para quase que solitariamente ela-
borar as estratégias de aprendizagem para os alunos público-alvo
da educação inclusiva.
A estagiária Eleonor nos relata que as atividades elaboradas
por ela surgiram a partir de suas inquietações sobre como proce-
der didaticamente em sala de aula, a fim de minimizar as barreiras
que se sobreponham cotidianamente no processo de ensino e
aprendizagem do aluno João, encontrando somente algum direcio-
namento nas conversas com seus professores do curso de Pedago-
gia, que ao indagarem sobre a mobilidade de João, e de acordo com
as informações trocadas, sugeriramque ela desenvolvesse ativida-
des de contorno. Assim, iniciou as atividades sem muita pretensão,
mas quando João começou a aprender ela foi aprendendo a cuidar
melhor dele.
Diante do exposto, trazemos à luz para a abordagem frag-
mentada da instituição sob o paradigma da inclusão ao ausentar-
se de sua responsabilidade na contínua formação e discussão so-
bre os processos que estão sendo estabelecidos nela. Pensar em
uma escola onde todos estão envolvidos na aprendizagem dos alu-
nos em geral deve ser o objetivo principal de todas as atividades,
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 186
SUMÁRIO
partindo, pois de dois componentes basilares: uma visão firme da
maneira como as escolas poderiam ou deveriam ser, visualizando
sempre a não estratificação pela capacidade, o não apego a um cur-
rículo fixo, com professores inovadores, engajados e bem apoia-
dos; uma agenda compartilhada, entendendo que o ajuste da es-
cola a alguns educandos deve significar o ajuste da escola para to-
dos os alunos.
Suscitamos, também, que de acordo com o Relatório para a
UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século
XXI, um dos pilares da educação é aprender a viver juntos, a fim de
promover a cooperação em todas as atividades humanas, ou seja,
é imprescindível a elaboração de objetivos e projetos comuns com
vistas a promoção da diversidade na unidade derrubando precon-
ceitos e aproximando pessoas de etnias, condições motoras, socio-
culturais, econômicas diversas.
Avaliamos que as inquietações e a falta de conhecimento es-
tão diretamente relacionados a formação ou capacitação recebida,
podendo gerar um estranhamento e um afastamento do professor
regular e da própria equipe gestora frente aquilo que desconhece
deixando a cargo de um terceiro agente que é visto como respon-
sável único, isto é, a falta de informação e de conhecimento impos-
sibilitam uma prática pedagógica sensível às necessidades do
aluno que apresenta uma deficiência por parte da equipe pedagó-
gica reforçando uma ideia de cuidado e até incapacidade dos edu-
candos.
Dessa forma, concordamos com Pletsch (2009), quando
afirma que o grande e atual desafio para os cursos de formação de
professores é o de produzir conhecimentos que possam desenca-
dear novas atitudes que permitam a compreensão de situações
complexas de ensino, para que os professores possam
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 187
SUMÁRIO
desempenhar de maneira comprometida e satisfatória seu papel
de ensinar e aprender para a diversidade.
Destacamos ainda o papel fundamental das políticas públi-
cas educacionais voltadas para práticas mais inclusivas no intuito
de moldar a formação inicial e continuada de professores para
atender às exigências educacionais oportunizando competências e
habilidades necessárias aos docentes de acordo com a realidade
em que está inserido, ajudando a superar, inclusive, a visão tera-
pêutica ainda presente em muitos discursos sobre o ensinar, con-
fundindo-o com o cuidar.
Como já demarcamos anteriormente, as estagiárias pos-
suem um papel de mediadoras exclusivas dos alunos que possuem
deficiência, tendo em vista que, como pudemos observar na ausên-
cia destes, elas passam a exercer funções administrativas na insti-
tuição ao invés de trabalhar cooperativamente com os docentes
das salas de aulas em que seriam apoio pedagógico.
Percebemos, também, que diferentemente de Eleonor, Ly-
dia encontra em alguns docentes um direcionamento, pois estes
demandam a tentativa de incluir Anne em suas salas, com ativida-
des adaptadas, a exemplo, os professores de Matemática e Língua
Portuguesa. Contudo, lembramos que este seria apenas o primeiro
passo para a efetiva inclusão.
Isto porque, apenas proporcionar uma atividade ‘adaptada’
não proporciona um ambiente inclusivo, como também garantir a
matrícula e o mesmo ensino ofertado a todos os alunos não atende
suficientemente aos alunos público alvo da Educação Especial, pre-
cisando que haja adaptações e novas configurações no espaço es-
cola, tais como uma rede de serviços de apoio à inclusão escolar
dos quais podemos citar Atendimento Educacional Especializado,
seguindo o modelo da sala de recursos, como serviço itinerante,
como consultoria e ainda seguindo como coensino ou ensino
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 188
SUMÁRIO
colaborativo. A busca por estratégias pedagógicas para uma prá-
tica promissora deve envolver a colaboração entre educadores,
profissionais, alunos, famílias e comunidade.
Ainda sobre a o seu fazer, Lydia nos relatou durante a ob-
servação que não planeja previamente as atividades de Anne, pois
espera que os professores das disciplinas o façam, muito embora
ela perceba o não envolvimento da maioria, enveredando aqui por
um caminho Laissez-faire11, encontramos aqui uma omissão não
somente dos professores, mas também da estagiária, tendo em
vista que ambos devem conjuntamente elaborar caminhos para
aprendizagem de todos os alunos, sem distinção.
Reforçamos a ideia supracitada de que a presença do aluno
com deficiência no espaço escolar gera diferentes comportamen-
tos, comprovadamente como dito por Silva (2013, p.59): “[...] não
são raras as atitudes de perplexidade, incompreensão, insegurança
e resistência por parte de educadores, quando se deparam com a
possibilidade de ter em sala de aula um aluno com deficiência”.
Desse modo, ao resgatarmos a fala da gestora pedagógica,
Elizabete, e relacionarmos com os escritos de Silva (2013) vemos
mais uma vez que o desconhecimento se torna a força motriz do
comportamento dos professores. Todavia, Lydia, que em sua for-
mação já teve acesso às discussões sobre Educação Inclusiva, apre-
senta a mesma resistência, o que nos leva a concluir que a forma-
ção pela formação, não extinguirão atitudes de exclusão, se não
houver também um comprometimento, sensibilização, superação
da omissão e da terceirização do fazer pedagógico pelos docentes.
Além de que, a formação deve corresponder, minimante, a
11 Laissez-faire é uma expressão francesa que significa literalmente “deixar fazer”.
Esta frase ficou conhecida por ser símbolo do Liberalismo econômico.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 189
SUMÁRIO
realidade vivida por estes para despertar o desejo em querer saber
mais e mudar suas posturas excludentes.
Concordamos com Perrenoud (2000), quando afirma que
ensinar é reforçar a decisão de aprender, estimulando o desejo de
saber, para tanto aquele que ensina deve estabelecer uma relação
com o saber, construindo e consolidando suas competências, cabe
então um movimento de contínua busca e debruçar sobre o como
se aprende.
Para o desenvolvimento do exercício docente, a aproxima-
ção e a escuta do outro, percebendo suas singularidades, supe-
rando um modelo de reprodução e padronização das funções e pa-
peis, são fundamentais.
Dessa forma, concordamos com Silva (2008, p. 21) quando
aponta que a prática pedagógica do professor deve “[...] assumir o
desafio da descoberta e da busca pela superação de preconceitos,
de atitudes que negam a capacidade do outro em aprender e de de-
senvolver suas potencialidades, garantindo assim o direito inalie-
nável que todos têm em aprender”. Ao trazermos à luz tal afirma-
ção, surge uma indagação muito recorrente na sala de aula: “Mas,
como fazer isso? Como desenvolver as potencialidades desses alu-
nos?”.
Acreditamos que a prática para a superação da diferencia-
ção está pautada na aprendizagem cooperativa onde há a partici-
pação direta não somente do professor e seu auxiliar, mas do pró-
prio estudante demarcando, sinalizando para estes seus interes-
ses, habilidades objetivando atingirseu potencial, há então, uma
quebra na cultura da discriminação, marcada muitas vezes pelo
não reconhecimento dos ditos diferentes, mas, em muitos casos ti-
dos por ‘inferiores’, resultando em um contexto escolar capaz de
ressignificar a prática pedagógica e transformar a sociedade ao
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 190
SUMÁRIO
acolher e propagar os valores da dignidade e respeito a todos sem
exceções (CANDAU; MOREIRA apud MARTINS, 2016).
Elizabete, a gestora pedagógica, reconhece que o movi-
mento da inclusão não se faz presente na escola em que atua “[...]
está mais para socialização dos alunos com deficiência” – ela relata,
tal afirmação se confirma preponderantemente nesta última ficha,
quando os colegas de classe de João se encarregam de levá-lo para
as aulas na ausência da estagiária Eleonor.
Destacamos que a socialização possui certamente um papel
notável na aquisição de conhecimentos, sendo a escola a segunda
instituição a qual temos acesso desde a primeira infância. É nela,
que os valores sociais sob a forma de comportamentos e pensa-
mentos são repassados, de geração a geração. Convêm perceber
que a socialização dos indivíduos-alunos está atrelada ampla-
mente com sua constituição como sujeitos.
Para Perrenoud (1994) é na escola que o aluno adquire os
saberes e o saber-fazer, os valores e os códigos, os hábitos e as ati-
tudes que o transformarão em um sujeito capaz de desenvolver es-
tratégias mais ou menos eficazes face à avaliação de sabe mostrar
uma “habilidade tática”. A “boa” socialização escolar implica, assim,
no domínio mínimo desses “ingredientes” de excelência que fazem
parte do “currículo oculto”.“Para o professor, no dia-a-dia, o bom
aluno não é somente aquele que domina bem o currículo. É tam-
bém, e pode ser sobretudo, aquele que se investe nas atividades
propostas ou impostas e que respeita as regras” (ibid., p.255).
Legitimamos a importância da socialização, todavia salien-
tamos que ela é, somente, o primeiro passo para a inclusão. As re-
lações interpessoais e o ambiente, como primeiro plano, orientam
a construção da consciência, mas há um outro plano que é tão im-
portante no processo de aprendizagem quanto este que é a ativi-
dade interna, empenhada pelo próprio individuo ao internalizar os
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 191
SUMÁRIO
signos, comportamentos e ser intuído a estabelecer novas cone-
xões através de sua escolarização.
Ao propor ao aluno João uma nova forma de se comunicar –
a LIBRAS, a estagiária Eleonor utiliza a linguagem como ferra-
menta desencadeadora dos novos processos cognitivos, propici-
ando para além de uma interação qualitativa uma janela de apren-
dizagem personalizada de forma a atender as demandas apresen-
tadas pelo discente.
Vemos aqui um avanço nas atividades inicialmente propos-
tas ao aluno João, se antes ele ficava somente no contorno e nas
atividades de ligar um nome/número a seu correspondente, agora
o desafio cognitivo crescia.
Ao ser questionada sobre como lhe chegou a ideia de usar a
LIBRAS em seu processo de ensino, a estagiária Eleonor nos disse
que, no final de semana anterior, esteve pesquisando sobre como
aprimorar a comunicação com o aluno João e, como é ela que ela-
bora o plano de aula para ele, optou por ‘tentar” ensiná-lo LIBRAS.
Para nós, é evidente que mesmo despretensiosamente esta estagi-
ária, conferiu respeito e dignidade ao aluno quando buscou novas
ferramentas para propiciar-lhe uma aprendizagem significativa,
dando ao mesmo a oportunidade de se comunicar e se colocar di-
ante as atividades propostas.
Finalizamos os apontamentos sobre as categorias e obser-
vações cientes de que este é ainda um campo muito vasto e que
fizemos aqui um recorte de uma realidade em que as estagiárias
ora assumem o papel de cuidadoras, ora de professoras elabo-
rando atividades e buscando novas metodologias. Com isto, consi-
deramos o processo formativo como ponto de partida para dimi-
nuir a distância que ainda se faz presente nas salas de aulas onde
alunos com deficiência são incluídos.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 192
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A escola inclusiva não ocorre por acaso, nem de decretos.
Para construir uma escola nesta perspectiva, são necessárias
transformações que possam privilegiar as concepções, as práticas
pedagógicas e sociais de maneira que tragam contribuições valio-
sas para o processo inclusivo, no que diz respeito ao respeito à di-
versidade do alunado, ao currículo e as práticas educacionais que
visem o reconhecimento das diferenças cognitivas, sociais, físicas
que existem na classe.
A partir da Conferência Mundial opara Educação de Todos
(1990), o Brasil fixou normas básicas para aprimorar o sistema
educacional, no tocante à Educação Inclusiva. Mesmo que as insti-
tuições escolares tenham avançado no que diz respeito ao atendi-
mento à diversidade do alunado, ainda correm práticas e mecanis-
mos que evidenciam uma visão limitada sobre os mesmos, com
ações de reprimendas, que ainda reforçam uma visão de limitação
do educando, de orientação para um atendimento clínico, psicope-
dagógico, dentre outros auxílios que possam colaborar para redu-
ção das dificuldades de aprendizagem.
Requer-se, também, um investimento substancial na forma-
ção dos profissionais da escola, de maneira específica que lhes pos-
sibilite: perceber as condições dos alunos; adequar ao currículo
para favorecer a participação de todos; analisar atentamente quais
as estratégias a serem consideradas para responder às necessida-
des educacionais de todos; analisar qual o papel que devem desem-
penhar as tecnologias assistivas nesta conjuntura; a planificação
em parceria com outros docentes e pais; trabalhar diretamente
com os alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE) na
Sala de Recursos Pedagógicos.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 193
SUMÁRIO
Na escola regular o educando com deficiência tem mais opor-
tunidades de aprender, de se socializar, de avançar no seu desen-
volvimento de forma ampla, porque há maior respeito às diferen-
ças, independentemente da sua natureza, buscando-se responder
às suas necessidades educacionais especiais, inclusive na formação
inicial e continuada dos educadores, o que implica em muitas difi-
culdades e desafios.
O desenvolvimento da Educação Inclusiva tem maior possi-
bilidade de avançar se forem levados em consideração o papel dos
que formam as escolas, cada contexto educativo local, da socie-
dade, da cultura, da economia, do habitat, entre outros aspectos,
como geradores do processo de exclusão ou inclusão.
A Educação Inclusiva pressupõe uma oportunidade para de-
safiar as práticas normalmente utilizadas no contexto escolar e, as-
sim, buscar melhor e mudar as mesmas, identificando dificuldades
e procurando novos espaços de diálogos e mudanças, assim convi-
dando todos os integrantes da comunidade escolar para um diá-
logo permanente.
Apesar dos avanços existentes, podemos constatar que muito
ainda necessita ser efetuado para propiciar um trabalho coopera-
tivo e avanços no tocante à Educação Inclusiva de educandos com
Necessidades Educacionais Especiais na instituição escolar pes-
quisada.
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SUMÁRIO
CAPÍTULO 8
O PARADIGMA DA INCLUSÃO:
POR UMA AÇÃO COLABORATIVA
BASEADA EM EVIDÊNCIA CIENTÍFICA
Francisco de Paula Nunes Sobrinho
Cylene S. Medrado
INTRODUÇÃO
À luz do acervo do conhecimento produzido nas interfaces
do saber humano, que versa sobre o tópico da inclusão, no âmbito
da educação especial, este estudo cumpre duplo objetivo: a) iden-
tificar concepções correntes sobre inclusão escolar e b) sintetizar
relatos de pesquisas que apontam evidências científicas nas práti-
cas colaborativas inclusivas. Trata-se de pesquisa descritiva, apoi-
ada por procedimentos da Revisão Integrativa da Literatura (NU-
NES SOBRINHO; MEDRADO, 2016; MEDRADO; NUNES SOBRINHO,
2014).
Ao focalizarem o processo de inclusão de estudantes que
compõem o contingente da diversidade funcional1 no ensino geral,
1Para designar pessoas com alguma limitação, independentemente do tipo ou grau
de deficiência que apresentam, utiliza-se o termo ‘diversidade funcional’ e ‘dife-
rença funcional’. A forma diferente de denominá-las implica na substituição do con-
ceito de "ter necessidades específicas" e "ser incapaz", para a ideia de indivíduos
com habilidades diversas e múltiplas que desempenham as mesmas funções de ma-
neiras diferentes, e não enfatizam os aspectos negativos, comum na terminologia
vigente (CAMPOY-CUBILLO, 2019).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 197
SUMÁRIO
Kauffman e outros (2018) sustentam ser este um objetivo
importante da Educação Especial. Inclusão Total significa que
todos os alunos com deficiência estão melhor alocados na
educação geral providos dos apoios necessários. Entretanto,
assinalam que inclusão é uma questão de natureza global não tão
importante quanto a instrução eficaz, devendo ser esta a primeira
preocupação da educação, geral ou especial. Incluir todos os alunos
em um mesmo projeto ou empreendimento de aprendizado é mais
importante do que o próprio local onde adquirem ensinamentos.
Na medida em que qualquer outro aspecto se torne mais
importante, como por exemplo, estar em um determinado lugar ou
grupo, ser aceito e ter um sentimento de pertencimento, a
educação especial perde seu caminho. Nesse contexto, a seleção e
adoção de estratégias de ensino utilizadas pelos professores, por
meio de ações colaborativas com a equipe escolar, promove um
currículo adaptável, flexível e desafiador para todos os alunos
(STAINBACK; STAINBACK; STEFANICH, 1996).
Ao longo da existência, a prática de excluir pessoas se con-
solida no impedimento ao acesso a direitos básicos para alguns, em
detrimento de outros. Incluir/excluir pessoas do grupo social re-
montam a tempos antigos, enquanto que o percurso histórico do
paradigma da Inclusão completou um ciclo de três décadas, tendo
seu início quando testemunhávamos pelo menos dois eventos sig-
nificativos para a Educação Especial praticada no Brasil e no
mundo: a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, em
1990, e a Declaração de Salamanca, no ano de 1994. Ambos os do-
cumentos advogam a favor de uma escola acessível para todos, in-
discriminadamente centrada na criança e suas demandas. Naquele
período, especialistas, pesquisadores e estudiosos do assunto co-
meçaram a fazer uso do termo Inclusão quando se referiam ao
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 198
SUMÁRIO
processo de adaptação do ambiente da escola a todos os indiví-
duos, sem exceção.
DESENVOLVIMENTO
Por conta da complexidade do tema inclusão, foram selecio-
nados tópicos que possam sustentar a argumentação proposta pe-
los autores do capítulo: a) definição do conceito inclusão; b) perti-
nência das pesquisas de revisão da literatura; c) a prática baseada
em evidência científica na intervenção colaborativa e d) acessibili-
dade e customização do trabalho escolar. Constatado o enreda-
mento das ideias, opiniões, inferências e concepções a respeito do
objeto em pauta, nem todos os conteúdos essenciais foram inseri-
dos e com a profundidade desejada. Isso se justifica não só pelo vo-
lume de informações disponíveis como também pelo espaço reser-
vado para o texto. O formato sugerido para publicação é de um po-
sition paper, em estilo compacto e resumido, demonstrando o po-
sicionamento dos autores sobre a inclusão e seus desdobramentos.
Na tentativa de preservar o significado original, a designaçãoposi-
tion paper será mantida no próprio idioma.
Quanto à escolarização, na atualidade, há evidências de que
o distanciamento social obrigatório se constitui em fator de peso
nas ações de escolarização. Como exemplo dessa possibilidade,
segue-se a narrativa sobre episódio ocorrido em tempos de
pandemia do COVID-19. O fato foi protagonizado por uma criança
funcionalmente diferente, sua mãe e a professora da turma, todos
participantes de uma mesma atividade educacional online.
Joca completou 10 anos de idade, tem síndrome de Down e é o filho
do meio de uma família compartilhada por suas duas irmãs. Os pais,
com escolaridade superior, estão atentos ao desenvolvimento do fi-
lho que frequenta a escola regular, com desempenho compatível em
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 199
SUMÁRIO
habilidades sociais e escolares. Concebe a professora que Joca é
aluno exclusivo da Educação Especial, sendo tutelado pela mãe. Vir-
tualmente, um dia por semana, os alunos são reunidos para o cum-
primento de tarefas pedagógicas. Recentemente, a turma foi convo-
cada para uma ”live”, com o objetivo de saber-se notícias de todos.
Durante a última live, a professora pediu para que Joca, em compa-
nhia de sua mãe, desligasse o aplicativo do computador, enquanto
acenava com um breve tchau. No mesmo instante, ostensivamente,
pediu para que os demais permanecessem ali sentados. Constran-
gida com o episódio, a mãe desabafou: “falam sobre inclusão com a
boca cheia. Cenas constrangedoras assim não são novidade, sendo
observadas em outros países como Dinamarca, Inglaterra, Portugal
e Alemanha. É necessário discutir o assunto, afinal de contas a per-
gunta continua sem resposta: onde está a inclusão?
Mesmo que não se aplique diretamente ao personagem
Joca, há indivíduos que permanecerão eternamente excluídos e se-
gre-gados das relações sociais. E, apesar das leis brasileiras procla-
marem seus direitos, um quantitativo considerável sobrevive, tra-
balha e frequenta escolas em ambientes isolados. São os integran-
tes do contingente da diversidade funcional, os quais convivem
com a solidão e diminuição do sentimento da autoestima.
Situações constrangedoras e protagonizadas por indivíduos
funcionalmente diferentes são denunciadas por famílias originá-
rias de camadas sociais diversas. Embora ocorram mobilizações no
sentido de se produzir mudanças, tais iniciativas são ainda modes-
tas. Promulgada em 06 de julho de 2015, a Lei 13.146/2015, a Lei
Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pes-
soa com Deficiência), dentre outras, não foi o suficiente. Ações de
políticas públicas, capazes de desencadear mudanças de valores e
de atitudes favoráveis ao que é preconizado pelo paradigma da in-
clusão são tarefas árduas e sem precedentes ao longo da história
da humanidade.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 200
SUMÁRIO
Tanto a inclusão escolar quanto a inclusão laboral da diver-
sidade, ambas, se constituem em tópicos investigativos contempo-
râneos. São temas interdependentes que formam um continuum
em busca de respostas esclarecedoras, no sentido da mobilização
de ações que realmente produzam efeitos positivos. Quando se
trata de inclusão, percebe-se maior empenho direcionado para a
população estudantil, em detrimento dos jovens adultos em tran-
sição para o trabalho. O sucesso dos egressos da escola se conso-
lida na conquista dos direitos de cidadania, no contexto do traba-
lho remunerado.
A história de vida dos indivíduos funcionalmente diferen-
cia-dos, infelizmente, costuma ser marcada por situações alta-
mente aversivas, constrangedoras, tanto na escola quanto no am-
biente de trabalho. A propósito, sobre a Lei nº 8.213/91, a Lei de
Cotas, que trata da obrigatoriedade da organização empresarial,
com quantitativo de 100 ou mais empregados, preencher 2 a 5%
de seus cargos com beneficiários da Previdência Social reabilitados
ou com pessoas funcionalmente diferentes, constata-se que
quando não havia a ameaça de punição, qual seja, a aplicação de
multas, as empresas não tratavam o assunto com a devida atenção
(CARUSO, 2012).
Dentre as ações direcionadas para a inclusão, nos diferentes
espaços sociais, o acesso à escola regular, para o contingente de
pessoas que integram a diversidade funcional, representa um ga-
nho na história da educação. No entanto, barreiras à aprendizagem
e à participação dificultam o cotidiano escolar dos alunos em situ-
ação de inclusão sendo necessária a mobilização de recursos – hu-
manos, físicos, políticos etc. – nas escolas e comunidades (OLIVA,
2016).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 201
SUMÁRIO
DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INCLUSÃO
Inclusão: afinal de contas, do que estamos falando?
As pesquisas científicas nem sempre oferecem uma defini-
ção teórica plausível para o conceito de inclusão, não só no que se
refere ao ambiente escolar como também ao ambiente de trabalho
- inclusão laboral. Conceitos, quando demasiadamente extensivos,
abrangentes, como é o caso da inclusão, possibilitam o apareci-
mento de entraves de natureza metodológica, por conta dos seus
limites desconhecidos, obscuros e exagerados. Estamos nos refe-
rindo aos níveis de sua cobertura. A ausência ou fragilidade de li-
mites é fator na diferenciação entre os atributos críticos e atributos
irrelevantes2 contidos nas definições de conceitos. Quanto às fun-
ções dos atributos críticos inseridos nos conceitos, a esse respeito
Walker e Avant (2019) oferecem argumentos esclarecedores.
Se o propósito do movimento inclusionista é encontrar res-
postas consistentes e definitivas para a remoção de entraves pre-
judiciais às ações colaborativas do processo de inclusão (FRIEND;
COOK, 2013), caberá ao especialista explicitar os significados dos
termos empregados, incluindo-se os tipos de variáveis, concep-
ções, conceitos e constructos. Caso isso não ocorra, a fidedignidade
e a validade dos resultados conclusivos estarão seriamente com-
prometidas, a ponto de inviabilizarem o compartilhamento de in-
formações sobre seus eventuais efeitos e de sua eficácia quando a
2A determinação dos atributos críticos ou essenciais representa um passo funda-
mental na análise do conceito, quando são identificadas palavras ou expressões que
aparecem, repetidamente, na literatura e mostram sua essência. Esses atributos
constituem características que expressam o conceito, atuando como elementos
para diagnósticos diferenciais, isto é, para discriminar o que é uma expressão do
conceito daquilo que não é. A identificação dos elementos do conceito na literatura
é feita utilizando-se a técnica de análise de conteúdo.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 202
SUMÁRIO
ação avaliativa/interventiva chegar ao seu final. No contexto, o
termo construto é concebido como construção teórica, de natureza
intelectual, baseada nos fenômenos da natureza.
Pesquisadores são unânimes em considerar como princi-
pais propriedades de medida de instrumentos, a confiabilidade e a
validade (SOUZA; ALEXANDRE; GUIRARDELLO, 2017). O termo fi-
dedignidade ou confiabilidade refere-se à possibilidade de se pro-
duzir resultados consistentes, quando replicada a intervenção.
Quanto ao termo validade, trata-se da propriedade de um instru-
mento medir exatamente o que se propõe (SOUZA; ALEXANDRE;
GUIRARDELLO, 2017). Ao referir-se à atitude dos professores em
sala de aula, Omote (1998), adverte que é de especial importância
para as pesquisas sobre a inclusão a disponibilidade de instrumen-
tos de mensuração de atitudes sociais, construídos com os cuida-
dos necessários para tornar confiáveis as medidas obtidas por
meio deles.
Em situações avaliativas,torna-se essencial fazer-se uso de
instrumentos de medida válidos e fidedignos, tais como escalas ati-
tudinais, questionários, dentre outros. Relatórios de estudos re-
centes já apresentam respostas conclusivas sobre categorias de va-
riáveis, assim como quais instrumentos psicométricos devem ser
empregados para fins de observação e registro de eventos que re-
metam ao processo de inclusão educacional (OMOTE, 2014). Ins-
trumentos para avaliação só são úteis e capazes de apresentar re-
sultados cientificamente robustos quando demonstram boas pro-
priedades psicométricas. Apesar do aumento significativo do nú-
mero de escalas de avaliação e/ou questionários, muitos não são
desenvolvidos e validados de forma apropriada (COLUCI; ALE-
XANDRE; MILANI , 2015).
Quanto à construção e formação do conceito de inclusão, os
autores do presente capítulo se posicionam sobre a necessidade do
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 203
SUMÁRIO
uso de escalas de avaliação do diferencial semântico, conside-
rando-se que instrumentos psicométricos dessa natureza servem
para detectar diferenças sutis nas respostas dos usuários, relativa-
mente a termos que suscitam conotações opostas, sendo no caso
específico a inclusão e a exclusão. Esse instrumento foi desenvol-
vido por Osgood, Suci e Tannenbaum (1957) e sua utilidade é me-
dir a reação das pessoas expostas a palavras e conceitos por meio
de escalas bipolares, definida com adjetivos antônimos em seus
extremos (ANDRADE et al., 2009).
No caso, o respondente é então exposto a uma escolha for-
çada de valor, em uma escala psicométrica construída sob duas al-
ternativas de uso de termos com significados opostos, como no
caso, inclusão e exclusão. Os resultados obtidos são indicadores
para a definição operacional do conceito de inclusão, alinhada às
expectativas metodológicas do pensamento científico. Os significa-
dos não são propriedades das palavras em si; são propriedades de
nossas respostas às palavras, conforme trecho de a mensuração do
significado, em Catania (1999, pg. 298).
PERTINÊNCIA DAS PESQUISAS DE REVISÃO DA LITERATURA
O intenso volume e a complexidade dos dados circulantes
em áreas do conhecimento instigam pesquisadores, especialistas,
professores, administradores e familiares a desenvolverem o pen-
samento crítico sobre os resultados de pesquisas contemporâneas.
Nesse cenário, há pelo menos duas alternativas: a) Situações que
ocorrem, por exemplo, quando o pesquisador propõe agrupar as
melhores evidências científicas disponíveis que respondam a uma
questão clínica ou educacional, ainda sem resposta, levando-se em
conta a validade, fidedignidade e relevância da evidência detectada
e b) quando o pesquisador opta por revisar e combinar estudos
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 204
SUMÁRIO
com múltiplas metodologias e integrar seus resultados. Poderá
também reunir dados da literatura empírica e teórica e utilizá-los
na definição de conceitos, na identificação de lacunas no saber
construído ou mesmo delinear o estado da arte de um tópico sob
investigação.
A primeira alternativa supra mencionada diz respeito às
pesquisas de Revisão Sistemática da Literatura (RSL) e a segunda
alternativa refere-se às pesquisas de Revisão Integrativa da Litera-
tura (RIL). Ambas as modalidades investigativas são de natureza
científica e se utilizam de fontes de informações bibliográficas ou
eletrônicas, o que gera resultados provenientes de estudos condu-
zidos por outros autores, no intuito de fundamentar teórica e cien-
tificamente um determinado objetivo, conforme Galvão, Sawada e
Mendes (2003).
Na atualidade, pesquisas dessa natureza representam uma
quebra paradigmática, notadamente pela possibilidade de replica-
ção dos seus procedimentos metodológicos e, além disso, consti-
tui-se em ferramenta que se mostra transparente e objetiva. Além
disso, esse rigor metodológico contribui, sobremaneira, na redu-
ção do viés, quando da análise de resultados de pesquisa, aumen-
tando assim o grau de fidedignidade e de validade. Mais ainda, a
RSL gera uma quantidade considerável de resultados de pesquisas
que respondem perguntas científicas previamente formuladas.
Esse modo de conduzir o trabalho de pesquisa enfatiza a explora-
ção crítica, a avaliação, a síntese de estudos e a exclusão do conte-
údo considerado insignificante ou redundante na literatura, le-
vando-se em conta apenas o que é relevante na prática profissional
(COOK et al, 2020).
Com o auxílio de pelo menos dois pesquisadores indepen-
dentes, a proposta da RSL é localizar, no acervo de conhecimento
produzido, nas múltiplas áreas do saber humano, assim como nas
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 205
SUMÁRIO
suas interfaces, evidências variadas que sejam confiáveis. Além
disso, o resultado da análise dos dados deve demonstrar coerência
com a pergunta de pesquisa previamente formulada. E, após a ex-
tração dos dados, o pesquisador estará pronto para sintetizar os
resultados obtidos através dos estudos (TALBOTT et al., 2018).
Relativamente ao passo a passo no trajeto metodológico su-
gerido para as pesquisas de revisão, foram elencadas oito tarefas
distintas: a) formular a pergunta de pesquisa; b) coletar informa-
ções na literatura; c) selecionar artigos incluídos, conforme os cri-
térios previamente definidos; d) extrair dados de interesse do pes-
quisador; e) avaliar a qualidade metodológica dos artigos revisa-
dos; f) sintetizar os dados no formato de metanálise; g) avaliar a
qualidade das evidências observadas; e h) redigir e submeter o re-
latório conclusivo para publicação dos resultados (MEDRADO; GO-
MES; NUNES SOBRINHO, 2014; MEDRADO; NUNES SOBRINHO,
2016).
A RIL é o centro do movimento das práticas baseadas em
evidências (PBE), conforme explicitado no parágrafo 2.3, abaixo.
Assinale-se que a necessidade de indicadores de pesquisas de qua-
lidade dessa natureza é imperativa em educação especial, por
conta dos seguintes fatores: a) a heterogeneidade da população as-
sistida; b) os diversos contextos nos quais interagem as pessoas
com diferença funcional; c) a rica diversidade cultural e linguística
da população afetada; d) a heterogeneidade dos delineamentos de
pesquisa em uso na área e e) os diversos profissionais interessados
nos resultados, a partir desses indicadores de qualidade em pes-
quisas, nos setores da educação especial (ODOM et al., 2005).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 206
SUMÁRIO
A PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIA NA INTERVENÇÃO COLA-
BORATIVA
Convém destacar a importância metodológica das pesqui-
sas de Revisão Sistemática da Literatura (RSL), como tópico rele-
vante na aplicabilidade da Prática Baseada em Evidências (PBE).
Pesquisas de revisão viabilizam o uso de resultados de estudos
concluídos, para a implementação de ações de políticas públicas e
de formação profissional (MEDRADO; GOMES; NUNES SOBRINHO,
2014). As revisões sistemáticas (RS) possuem relevância no
mundo e na América Latina pela sua credibilidade na busca, coleta,
ordenação e análise das pesquisas sobre as intervenções de saúde.
É assim que a prática baseada na evidência tem usado as RS como
forma de obter as melhores evidências da efetividade clínica (ME-
DINA; PAILAQUILÉN, 2015).
O fator de diferenciação entre a prática baseada em evidên-
cia, prática baseada em pesquisa e as melhores práticas envolve a
qualidade e a magnitude da evidência científica. No contexto esco-
lar, por exemplo, é rotineiro o professor adotar procedimentos a
partir da sua própria expertise técnico-profissional, em sala de aula
(melhores práticas) ou utilizar procedimentos isolados, proveni-
entes de revisões narrativasda literatura (RNL), ou mesmo se va-
ler de práticas de ensino isoladas, como resultados de pesquisas
com baixo nível de evidência científica (prática baseada em pes-
quisa). Já o professor que faz uso de procedimentos válidos e fide-
dignos, com resultados significativos e com validade social, adota
a prática baseada em evidência - PBE (LEKO et al., 2019).
Identificar a evidência científica para determinar a prática
instrucional eficaz é o primeiro passo para se fazer uso da prática
baseada em evidência (PBE) no processo de escolarização. No en-
tanto, o simples fato de saber que uma prática é baseada em
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 207
SUMÁRIO
evidência não significa necessariamente que educadores a adotem
ou a implementem efetivamente. Essa disparidade entre as evidên-
cias de pesquisa e a prática em sala de aula por vezes é considerada
um gap entre pesquisa e prática na educação especial (COOK; et al,
2020).
O movimento de profissionais em educação especial e áreas
afins, como por exemplo, psicologia, justiça criminal, política social
e assistência médica defende a implementação de PBE e incentiva
pesquisadores a preservarem a qualidade do conhecimento cientí-
fico. A missão, por exemplo, do Council of Exceptional Children, o
CEC, associação profissional internacional voltada para a formação
e certificação de educadores especiais, tem como meta aproximar
a prática educativa dos recursos da ciência.
De fato, a diversidade de estudantes atendidos exige que os
pesquisadores tenham à sua disposição, modalidades variadas de
pesquisas, sobretudo, as de Revisão Integrativa da Literatura
(RIL). O uso desses recursos múltiplos é justificado, também, pelas
especificidades de cada aluno, incluindo-se dificuldades de comu-
nicação, déficits cognitivos e os problemas comportamentais, que
se refletem na interação familiar, acadêmica e social e repercutem
no processo de aprendizagem.
A escolha pela modalidade de procedimentos de interven-
ção educacional, focada no contingente de alunos funcionalmente
diferentes, depende do grau de preparo e da experiência profissi-
onal demonstrada pelo professor, assim como da expertise de es-
pecialistas que manejam estratégias específicas no processo edu-
cacional. Por meio desses recursos, cada um dos colaboradores se
utiliza da própria expertise na seleção das evidências científicas,
acompanhadas por tomadas de decisão, na seleção ou implemen-
tação das melhores práticas em uso no contexto escolar (TALBOTT
et al., 2018).
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 208
SUMÁRIO
Para fins de intervenção, cabe ao pesquisador delimitar as
bases conceituais de ações colaborativas circunscrito à pesquisa
educacional. Trata-se, especificamente, das investigações de cará-
ter científico que reúnem pesquisadores e docentes interessados
em tópicos relativos ao exercício profissional de magistério. Indi-
víduos que integram equipes colaborativas têm perspectivas e ex-
periências de vida variadas por isso podem apoiar, efetivamente, o
processo de planejamento colaborativo. Nesse viés, a colaboração
refere-se às pessoas que trabalham juntas em busca de objetivos
comuns envolvendo indivíduos com deficiência, profissionais,
membros da família e da comunidade, no sentido de alcançarem
juntos o mesmo objetivo (SOLONE et al., 2020).
Colaboração não significa evitar confrontos, pelo contrário,
promove oportunidades de discussões acerca de crenças, atitudes
e estratégias. Além disso, não “obriga” aos membros da equipe co-
laborativa a chegarem a um consenso. Apenas, ressalta que a deci-
são foi coletiva, e que todos tiveram a oportunidade de expressa-
rem suas opiniões oferecendo sugestões. Ademais, a colaboração é
um compromisso baseado no respeito e confiança mútuos, ser-
vindo como catalisador para os melhores resultados de todos os
alunos (FRIEND et al., 2010).
A colaboração em equipe constitui-se em ingrediente-chave
na escolarização. Isso acontece, notadamente, quando se trata da
relação colaborativa na equipe, sendo de vital importância e ex-
pressa uma infinidade de preocupações relacionadas à própria
ação como: a) falta de tempo para um planejamento adequado, b)
valores e crenças diferentes e c) falta de eficiência colaborativa
(SOLONE et.al, 2020).
A exigência para que todos os professores de sala de aula
estejam preparados para a educação inclusiva é cada vez mais dis-
cutida na literatura. Entretanto, estudos apontam que professores
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 209
SUMÁRIO
regentes de turmas e de disciplinas específicas relatam não esta-
rem preparados ou não possuírem as habilidades necessárias para
ensinar alunos com deficiência (GUÐJÓNSDÓTTIR; ÓSKARSDÓT-
TIR, 2019).
No contexto da Educação, pelo menos três características
servem de base para caracterizar a intervenção educacional cola-
borativa: a) o enfoque colaborativo sugere a Co construção entre
parceiros envolvidos no processo de inclusão escolar; b) o foco de
atenção se circunscreve, simultaneamente, à produção do saber e
ao padrão de desenvolvimento profissional demonstrado pelos do-
centes e c) é fator contribuinte para aproximar e mediar ações que
ocorrem entre comunidade de pesquisa e o contexto escolar. É um
modo, talvez, de reduzir o distanciamento entre aspectos de natu-
reza teórica e a prática pedagógica cotidiana (SOLONE et.al, 2020).
Um fator de peso na preparação de professores para a edu-
cação inclusiva é identificar suas crenças e valores, ao longo da for-
mação acadêmica e no exercício da prática docente. Cada membro
da equipe colaborativa possui um histórico, treinamento, normas,
perspectivas, experiências de vida e circunstâncias diferentes, que
interagem entre si para moldar a maneira como cada pessoa per-
cebe o mundo, seu lugar e o modo mais favorável para servir aos
alunos. Eventualmente, esses atributos podem estar em desa-
cordo. Para se montar uma equipe colaborativa, seus membros de-
vem compartilhar recursos, conhecimentos, perspectivas e res-
ponsabilidades a fim de criarem programas e serviços inclusivos,
eficazes e significativos para estudantes com ou sem deficiência
(CARTER et al., 2010).
É preciso prover condições adaptativas de um mundo que,
realmente, atenda às demandas individuais de todos os seus habi-
tantes. A montagem de um mundo com tais características exige
que o foco aponte para as oportunidades e serviços ofertados,
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 210
SUMÁRIO
jamais direcionado para os déficits das pessoas funcionalmente di-
ferentes (CAMPOY-CUBILLO, 2019).
ACESSIBILIDADE E CUSTOMIZAÇÃO DO TRABALHO ESCOLAR
No movimento de inclusão educacional, tem destaque o tó-
pico sobre humanização do ambiente escolar, ou seja, o cumpri-
mento das leis que incidem nas relações estabelecidas entre o in-
divíduo e seu ambiente físico e social. Trata-se das leis naturais,
conforme as palavras gregas ergon ("trabalho") e nomos ("lei na-
tural"), na composição do vocábulo Ergonomia. Originariamente,
esta disciplina de interface se constitui em suporte estratégico
tanto para a acessibilidade, quanto para a customização do traba-
lho.
Em se tratando dos indivíduos funcionalmente diferentes, o
planejamento do ambiente torna-se, relativamente, mais com-
plexo, o que exige domínio de conhecimentos e de habilidades pro-
venientes de áreas de interface e dentre as quais as que compõem
o acervo da própria Ergonomia, como a Psicologia, a Medicina, a
Engenharia, a Estatística, a Biomecânica Ocupacional, o Universal
Design, a Análise Aplicada do Comportamento, a Fisiologia, Anato-
mia Humana, Desenho Industrial, dentre outras. A população afe-
tadajá se beneficia da aplicação desses saberes, tanto no ambiente
laboral quanto no contexto escolar (NUNES SOBRINHO; ME-
DRADO, 2017; DIAS, NUNES SOBRINHO; MORO E MEDRADO,
2016; VIEIRA; NUNES SOBRINHO, 2013; NUNES SOBRINHO; LU-
CENA, 2012; NUNES SOBRINHO; NASSARALLA, 2004).
Nessa perspectiva, o conhecimento gerado pelo Universal
Design é de relevância no atendimento das demandas geradas pela
relação indivíduo e ambiente.
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 211
SUMÁRIO
O “Desenho Universal” (Universal Design) para Aprendiza-
gem (DUA) é reconhecido como mais uma possibilidade no pro-
cesso de desenvolvimento de ambientes educacionais organizados
para o enfrentamento e a eliminação de barreiras na escolarização
de todas as pessoas, dentre elas aquelas com deficiência (BOCK;
GESSER; NUERNBERG, 2018).
O Universal Design é orientado para a Aprendizagem (DUA),
no sentido de adequar o ensino, ampliar a participação e a apren-
dizagem de todos e reduzir a necessidade de adequações persona-
lizadas custosas que dificultam as práticas inclusivas do professor
da classe comum (ZERBATO; MENDES, 2018).
No que cabe à disciplina Ergonomia centrada na PBE, Sil-
veira (2012) apoia a busca e disseminação do conhecimento espe-
cífico, integrando explicitamente evidências de pesquisas aliadas
ao raciocínio e à experiência profissional. Com isso, o autor destaca
a importância da evidência científica na estruturação de uma prá-
tica ergonômica voltada para atingir metas estabelecidas. Mais
ainda, para ele a evidência científica dispõe de soluções efetivas de
problemas no ambiente de trabalho, culminando assim em proces-
sos de tomada de decisão com base em ferramentas de apoio e em
metodologias cientificamente validadas.
A proposta da ergonomia escolar se resume ao fomento de
padrões de relacionamento amigáveis, no caso os alunos, com o
ambiente construído, de tal modo que os constrangimentos, assim
como as desconformidades ergonômicas possam ser minimizadas
ou neutralizadas, a ponto de favorecerem condições dignas e soli-
dárias de acessibilidade e inclusão social, na conquista do direito
de cidadania, conforme Nunes; Nunes Sobrinho (2011).
O conceito de acessibilidade ampliou-se sensivelmente,
pois no início se restringia à ideia de superação de barreiras arqui-
tetônicas, como garantia das condições de segurança e de
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 212
SUMÁRIO
autonomia para pessoas com limitação motora ou com mobilidade
reduzida. É possível que essa ampliação do conceito tenha ocor-
rido por conta da nova ordem proclamada pelos que se apropriam
do paradigma da inclusão social (NUNES; NUNES SOBRINHO,
2010). Em se tratando de acessibilidade, barreiras arquitetônicas,
porventura observadas na escola, refletem barreiras atitudinais,
sendo este o elemento paradigmático decisivo na consolidação do
movimento inclusionista (RIBEIRO; SIMÕES; PAIVA, 2017).
A customização, assim como se aplica ao mundo do traba-
lho, deveria ser estendida ao contexto escolar. O trabalho customi-
zado resulta da reestruturação ou criação de atividades em um
posto de trabalho, com o objetivo de se promover a inclusão de
pessoas com diferença funcional que, de outra forma, não pode-
riam ser contratadas (REDIG, 2019). Este processo exige, contudo,
a avaliação das habilidades e potencial de aprendizagem do futuro
trabalhador e as possibilidades de adequação do ambiente de tra-
balho, conforme Luecking (2011).
Há décadas passadas, o propósito inicial talvez fosse definir
as melhores práticas, no sentido de favorecer o desenvolvimento
de competências elencadas nas grades curriculares da época ante-
rior ao surgimento do Plano Educacional Individualizado (PEI).
Nos tempos atuais, não se cogita, simplesmente, em ajustar o aluno
ao ambiente físico e social da escola, como se pretendia e conforme
proclamado pelo paradigma da integração, mas justamente o con-
trário, ou seja, adaptar o ambiente educacional ao educando em
toda sua plenitude e complexidade, conforme se concebe no mo-
delo da Inclusão Total.
O processo de customização na escola deverá ser precedido
de diagnóstico/avaliação apurada, possivelmente com apoio do
Plano Educacional Individualizado, o PEI. Assim, criam-se as bases
científicas seguidas de intervenção focada no rearranjo ambiental,
A p r e n d e r j u n t o s n u m a p e r s p e c t i v a i n c l u s i v a | 213
SUMÁRIO
com vistas ao atendimento das demandas físicas e sociais do tra-
balho escolar. Os resultados das avaliações preliminares aponta-
riam o grau de adaptação das demandas laborais/escolares às ca-
racterísticas pessoais do aluno no posto de trabalho escolar custo-
mizado.
O ponto de partida é, naturalmente, o PEI, o qual se constitui
em modelo de protocolo colaborativo de planejamento, sujeito a
critérios de validação e de experimentação, em ambiente natural
onde ocorre a aprendizagem(SOLONE et al., 2020). O objetivo do
PEI é produzir um registro do perfil de competências, estilos de
aprendizagem, preferências, padrões de comportamento, atitudes
e interesses, dentre outras características críticas e essenciais que,
porventura, impactam a escolarização de todos os alunos.
A construção colaborativa do PEI tem início ao final do pro-
cesso diagnóstico, envolvendo o próprio aluno, seus familiares,
pessoas de relacionamento próximo, professores, profissionais
que lhe prestam atendimento, como por exemplo, médicos, psicó-
logos, fonoaudiólogos, dentre outros atores sociais. Mesmo sujei-
tos à imprecisão no uso de termos como acessibilidade e customi-
zação, estes assumem papéis complementares e interdependentes
em ações colaborativas, que favorecem a escolarização da diversi-
dade funcional.
PERCURSO METODOLÓGICO RESUMIDO
Com o objetivo de rastrear o saber científico sobre concep-
ções a respeito do paradigma da inclusão, os autores do presente
capítulo valeram-se dos procedimentos da Revisão Integrativa da
Literatura (RIL). Assim, foram selecionados os respectivos descri-
tores, para favorecer o acesso aos estudos primários direcionados
ao tópico Full Inclusion. Com o apoio das bases de dados ERIC, Web
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SUMÁRIO
of Science e Wiley Online Library, sendo aplicados quatro filtros de
busca para reduzir e especificar os resultados: 1) data de publica-
ção - período 2018-2020; 2) conteúdos que contemplem a defini-
ção operacional do conceito Full Inclusion; 3) idioma pretendido -
português, inglês e espanhol e; 4) área da educação especial.
Após a aplicação dos respectivos filtros de busca, foram
identificados 12 artigos a partir da base de dados ERIC, 06 artigos
resultantes da pesquisa na Willey Online Library e 133 artigos
identificados na base de dados Web of Science, perfazendo um to-
tal de 151 artigos restantes para análise de títulos e de resumos. A
partir da análise dos títulos e dos resumos, foram excluídos 135
artigos por não atenderem aos critérios de inclusão, conforme os
seguintes temas: justiça social, entrevista sobre a concepção dos
professores acerca da Full Inclusion, home schooling, jogos educa-
tivos, identidade coletiva da inclusão, barreiras legais da educação
inclusiva, perspectiva histórica da Full Inclusion, política educacio-
nal. Por fim, foram selecionados 16 artigos os quais, após revisão
do texto integral, foram excluídos por não se enquadrarem na de-
finição operacional do conceito Full Inclusion. Localizados nas ba-
ses de dados investigadas, esses 16 textos reúnem estudos teóricos
em defesa da temática inclusão. Entretanto, não informam sobre a
realização de pesquisas empíricas cujos resultados revelem evi-
dências científicas comprobatórias da eficácia da InclusãoTotal.
O fluxograma ilustra, a seguir, o processo de seleção e de
inclusão dos artigos de interesse da Revisão Integrativa da Litera-
tura (RIL), conforme as bases de dados.
https://buscador-periodicos-capes-gov-br.ez25.periodicos.capes.gov.br/V/LPKB2SPT8X8BIRY432LUTU1HE4X3FL3HDVBCDDS9BCF2ETU2HJ-01886?func=native-link&resource=CAP01273
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SUMÁRIO
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Com o apoio dos procedimentos das pesquisas de revisão
integrativa da literatura, (RIL) a proposta do presente estudo foi
identificar concepções correntes sobre inclusão escolar e sinteti-
zar relatos de pesquisas que apontam evidências científicas nas
práticas colaborativas inclusivas. Considerando o tema inclusão,
os autores incorporaram ao estudo conteúdos de relevância que
porventura possam sustentar as argumentações: a) definição do
conceito de inclusão; b) pertinência das pesquisas de revisão da li-
teratura; c) a prática baseada em evidência científica na interven-
ção colaborativa e d) acessibilidade e customização do trabalho es-
colar.
De posse dos resultados, os autores sustentam a argumen-
tação inicial relativamente à quase inexistência de ações colabora-
tivas baseadas em evidência científica, além da imprecisão no uso
de termos e de conceitos não definidos e largamente veiculados em
educação especial, como por exemplo, inclusão, acessibilidade,
customização e Universal Design. Essas concepções veiculadas em
setores de interface do saber são de significativa importância na
proposição de projetos educacionais.
Embora as concepções de acessibilidade e de customização,
por exemplo, não atendam ainda os requisitos essenciais na sua
151 artigos encontrados
151 (trabalhos publicados
que versam sobre temáticas-
daFull Inclusion, mas des-
providos de dados de pes-
quisa aplicada.
Nenhum artigo selecionado
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SUMÁRIO
definição, os pesquisadores começam a se interessar em aprofun-
dar estudos sobre esses tópicos. Relativamente às pesquisas ende-
reçadas ao design do mobiliário escolar, já se percebe alguma pre-
ocupação. O foco central é a eficácia de ações colaborativas válidas,
fidedignas, passíveis de serem replicadas por agências ou por pro-
fissionais oriundos de diversas áreas. Estratégias de ensino e de
aprendizagem deveriam contribuir, sobremaneira, na consolida-
ção da evidência dos seus efeitos sobre indivíduos com diferença
funcional. Trata-se da verificação da evidência empírica dos resul-
tados positivos de ações colaborativas no processo de inclusão
educacional.
A busca insistente por uma definição operacional plausível
do conceito de inclusão nos parece a questão central nas tomadas
de decisão complexas em Educação Especial. No caso, o estabeleci-
mento de uma metodologia validada se constitui em forma virtu-
osa de contribuir com a consolidação da Inclusão Total. Para tanto,
é fundamental o cumprimento dos objetivos do PEI, afinados com
as necessidades acadêmicas, linguísticas, comportamentais, le-
vando-se em conta as preferências e valores da família. Para os pais
do Joca, personagem presente no início deste texto, a escola ainda
não adota procedimentos compatíveis com as especificidades e
perfil de seu filho, afim de ajustá-lo à nova era do mundo virtual,
com impactos significativos no contexto da educação.
É de extrema relevância a promoção de ações colaborativas,
para que os profissionais consigam identificar problemas decor-
rentes da implementação da evidência e realizem as adaptações
necessárias para maximizar sua eficácia nas contingências que se
apresentam, garantindo assim o aprendizado e participação do
aluno no contexto escolar.
Pelas características da ciência, a comunidade de pesquisa-
dores endossa a conduta de se compartilhar da linguagem técnica
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SUMÁRIO
e, concomitantemente, explicitar, de forma clara, objetiva e com
precisão, o significado de construtos e de conceitos de uso cor-
rente. Quanto ao uso generalizado do termo inclusão, persistem la-
cunas quanto à sua definição, e compartilhamento de significados
o que dificulta, por exemplo, a tomada de decisões e avaliação de
resultados sobre o atendimento das demandas da diversidade. Afi-
nal de contas, de qual inclusão estamos falando? A questão não é
tão simples, pois o fenômeno da inclusão se reveste de valores cul-
tuados através de séculos, o que contraria a argumentação de que
o “movimento inclusionista” tem seu início há aproximadamente 3
décadas.
De fato, incluir/excluir são ações humanas que tem suas par-
ticularidades diluídas nos padrões da cultura de um povo. O que é
concebido como exclusão poderá ser interpretado de maneira di-
ferente em outro cenário cultural da mesma sociedade. No nosso
contexto, excluir pessoas se consolida no impedimento ao acesso a
direitos básicos para alguns, em detrimento de outros. A exemplo
do aluno Joca, conforme mostrado no início do capítulo, a exclusão
escolar continua ocorrendo, de fato, na nossa sociedade.
Relativamente à pertinência da escolha da modalidade de
pesquisa de revisão da literatura, como apoio a trabalhos investi-
gativos desse porte, chega-se à conclusão de que há uma quebra de
paradigma. Evoluímos das simples revisões da literatura, com as
suas limitações, para procedimentos metodológicos que nos per-
mitem replicar estudos, conforme preconizado pela própria ciên-
cia. Os dados gerados por estudos de revisão da literatura são re-
cursos informativos e eficientes também a serviço dos profissio-
nais da educação especial desejosos de saber o que a pesquisa in-
forma sobre a eficácia das práticas instrucionais atualmente em
uso nas escolas. Em síntese, neste position paper, a revisão
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integrativa da literatura representa um ganho sem precedentes na
produção e disseminação do saber.
Vale assinalar que as pesquisas de revisão da literatura de-
sempenham papel de relevância metodológica na aplicabilidade da
PBE. Trabalhos de pesquisa dessa modalidade viabilizam o uso de
resultados de estudos concluídos, servindo para a implementação
de ações de políticas públicas e de formação profissional regular e
continuada. É uma ferramenta metodológica, por excelência, indi-
cada na solução de problemas inerentes à tomada de decisão clí-
nica/educacional/organizacional, dentre outras possibilidades.
Trata-se de instrumento ancorado na experiência individual do es-
pecialista, na melhor evidência disponível na atualidade e na pre-
ferência do usuário e de seu grupo familiar. No caso, a tarefa do
cientista pesquisador é gerar conhecimentos no sentido de facilitar
a tomada de decisão e promover ações executadas por profissio-
nais da área. Cabe-lhe também colocar em prática estratégias que
minimizem os efeitos eventuais de intervenções desfavoráveis,
oferecendo assim alternativas assertivas fundadas em evidências
previamente testadas.
Como conteúdo para sustentação das ideias apresentadas
no texto, a acessibilidade e a customização do trabalho escolar são
também consideradas ingredientes de relevância, quando se pro-
põe uma definição operacional para o conceito de inclusão. Nessa
perspectiva, o que se pretende é humanizar, ou seja, fazer cumprir
as leis naturais, o nomos. O pensamento ergonômico aliado aos
princípios do Universal Design se constitui em suporte estratégico
para a acessibilidade, como também para a customização da diver-
sidade funcional.
O foco central do planejamento inclusivo implica no cum-