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W BA 08 05 _V 1. 0 ADMINISTRAÇÃO DA PRODUÇÃO 2 Charlie Hudson Turette Lopes Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2021 ADMINISTRAÇÃO DA PRODUÇÃO 1ª edição 3 2021 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Mariana Gerardi Mello Revisor Elaine Cristina Marques Esper Editorial Alessandra Cristina Fahl Beatriz Meloni Montefusco Gilvânia Honório dos Santos Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)__________________________________________________________________________________________ Lopes, Charlie Hudson Turette L864a Administração da Produção / Charlie Hudson Turette Lopes, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2021. 44 p. ISBN 978-65-5903-105-4 1. Planejamento e controle da produção. 2. Administração da Produção. 3. Operações produtivas. I. Título. CDD 658.5 ____________________________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB 010289/O © 2021 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 4 SUMÁRIO Modelagem de processos e de rede de operações produtivas ___________________________________________________ 05 Planejamento e controle da produção e manufatura digital __ 20 Mapeamento de fluxo de valor e balanceamento de linhas produtivas ___________________________________________________ 35 Planejamento de vendas e uso de indicadores produtivos ___ 52 ADMINISTRAÇÃO DA PRODUÇÃO 5 Modelagem de processos e de rede de operações produtivas Autoria: Charlie Hudson Turette Lopes Leitura crítica: Elaine Cristina Marques Esper Objetivos • Apresentar os conceitos de processos e modelagem de processos. • Reconhecer a importância dos modelos e notações empregadas na modelagem de processos. • Explicar como as redes de operações geram impacto na modelagem de processos. 6 1. Modelagem de processos Olhe ao seu redor e avalie quantos produtos e serviços a sociedade contemporânea consome. Agora, reflita sobre a infinidade de empresas e modelos de negócios existentes no nosso cotidiano. Apenas para exemplificar, você pode fazer compras em um pequeno mercado de bairro ou ir a um hipermercado. Entretanto, se quiser, pode receber os produtos na comodidade de sua casa por meio de pedidos feitos em apps para smartphones ou sites de vendas de produtos. Se o objetivo for lavar seu carro, em muitas cidades existem empresas que vão à residência do cliente ou ao seu trabalho. Não há a necessidade de ir ao prestador de serviços para ser atendido. Você já parou para pensar como essas e outras empresas se organizam, como estruturam seus processos e como buscam atender às necessidades dos clientes? Nesta aula, você verá métodos, técnicas e ferramentas que propiciam a modelagem dos processos e da rede de operações produtivas. 1.1 Definindo processos Provavelmente, você já utilizou a palavra processo para definir alguma tarefa que desenvolveu. Por mais que seja comum o uso do termo, é preciso compreender seu significado para podermos avançar com a modelagem de processos. Em linhas gerais, um processo pode ser definido pelo percurso que um material atravessa da entrada na empresa até sua saída, com valor agregado por meio de processos de transformação. A Figura 1 apresenta o fluxo de processos em operações. Para Slack, Brandon-Jones e Johnston (2018), todas as operações (empresas que transformam matérias-primas em produtos e serviços beneficiados) apresentam a seguinte sequência: 7 Figura 1–Todas as operações são processos de input – transformação – output. Fonte: Slack; Brandon-Jones e Johnston (2018, p. 15). Uma hamburgueria pode apresentar, por exemplo, os seguintes inputs: • Recursos transformados: materiais (carnes, pães, saladas, queijos, bebidas etc.), insumos (energia elétrica, gás, embalagens etc.), clientes (com fome). • Recursos de transformação: mão de obra (cozinheiros, atendentes, operadores de caixa), equipamentos (chapas, churrasqueira, geladeira), instalações (ambiente decorado, mesas, cadeiras). Após o processo de transformação, o output que agrega valor ao cliente será um hambúrguer com a qualidade esperada por ele ou superior. O cliente também sai transformado, pois antes do processo estava com fome e, se tudo correr como esperado, sairá satisfeito depois do consumo do lanche e bebidas. Lembrando que algumas operações podem entregar tanto produtos quanto serviços. Uma hamburgueria, por exemplo, pode criar produtos (hambúrguer) atrelados a um serviço (entrega na casa do cliente). 8 Continuando a explicação sobre processos, devemos compreender que um termo muito utilizado, atualmente, é o Gerenciamento de Processos de Negócio (BPM – Business Process Management). Em linhas gerais, se analisarmos a hamburgueria trazida como exemplo, esse estabelecimento não deve ser visualizado com áreas funcionais isoladas que trabalham individualmente, mas em sinergia, interligadas, visando agregar valor ao cliente. A Figura 2 mostra que o processo de negócio começa pelo gerenciamento (visão lógica) e, posteriormente, na visão física, é decomposto em atividades organizadas em fluxos de trabalho. Figura 2–Processo orquestrando atividades Fonte: BPM CBOK (2013, p. 33). 9 Complementarmente, Sordi (2018) afirma que para atender os interesses estratégicos de uma empresa, o Gerenciamento de Processos de Negócio pode apresentar desmembramentos de acordo com os vários processos incutidos na relação com o cliente: • Processo de negócio Administração: tem como objetivo assegurar apoio e desenvolvimento a todos os processos realizados na organização. • Processo de negócio Estratégia Empresarial: visa desenvolver estratégias que assegurem lucratividade no longo prazo e otimizar o desempenho da área tática do negócio. • Processo de negócio Produção: tem como objetivo assegurar apoio e desenvolvimento a todos os processos produtivos. • Processo de negócio Serviços a Clientes: visa responder efetivamente às necessidades dos clientes como um sistema de negócio amplo e integrado: processo de Gerenciamento de Pedidos; processo de Transportes; processo de Vendas. 1.2 Propósito da modelagem de processos Continuando a análise sobre os processos de uma hamburgueria, se questionarem a você, sob a ótica do cliente, como o fluxo de atividades do estabelecimento funciona, possivelmente, responderácom rapidez e clareza. Você chega ao local, verifica se há uma mesa disponível, senta-se, é atendido por uma pessoa que apresenta o cardápio. Posteriormente, você faz o pedido para o atendente e, alguns minutos depois, o lanchega para você. Ainda falta o pagamento, que, nessa hamburgueria, é feito depois do consumo. Até aí, não parece nada tão complicado mesmo, mas e se você pensar sob o ponto de vista de um funcionário recém-contratado? 10 Em um primeiro momento, por mais que você tenha conhecimento e habilidade para preparar um hambúrguer, saberia onde ficam todos os insumos? Quanto tempo precisa deixar a carne na chapa para chegar ao pontodesejado pelo cliente ou prometido no cardápio? Qual pedido você atende primeiro, seria por ordem de chegada ou agruparia pedidos semelhantes para executá-los juntos e ganhar em agilidade? Parece que não é tão simples assim. Até em pequenos negócios, a modelagem de processos é fundamental para o gerenciamento eficaz. Para o BPM CBOK (2013, p.72), “o propósito da modelagem é criar uma representação do processo de maneira completa e precisa sobre seu funcionamento”. Talvez, no caso da hamburgueria, um diagrama escrito num papel de pão já norteie o fluxo das atividades, sirva como norteador para uma pequena equipe. Entretanto, pense em gigantes da indústria, como as montadoras de veículos, por exemplo. No Brasil, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) divulgou que foram feitos 2.944.962 carros, no ano de 2019. Imagine como seria gerenciar todos os processos de uma empresa como essa. A modelagem de processos de negócios permite a compreensão, informação e gerenciamento de processos de negócio, seja de maneira global ou fragmentada. Ainda, permite representar processos existentes ou que estão em fase de planejamento, mas ainda não existem na prática (BPM CBOK, 2013). Também é possível analisar a situação atual do processo, identificar desperdícios, para que sejam sugeridas melhorias. Desse modo, uma situação futura poderá ser desenhada, com as melhorias discutidas e propostas em uma nova representação visual. Já que estamos falando em representar processos, como isso será feito? Voltemos ao caso da hamburgueria. Você foi contratado para trabalhar na cozinha e seu novo empregador convida para sentar e conversar sobre suas novas atividades. Ele não leva até a cozinha, mas explica, com palavras, como tudo funciona, se apoiando em toda experiência que 11 possui no negócio. Sugere, ainda, que você se aproxime das pessoas mais experientes, pois poderão explicar sobre todas as práticas. E assim, depois desse bate-papo, orienta a começar a jornada. Não se assuste, isso é comum em muitas empresas. Um bate papo inicial e o pedido de que o novo colaborador fique como um papagaio de pirata em quem já entende do assunto. Como sabermos que você aplicará a modelagem de processos na sua vida profissional a partir de agora, apresentaremos modelos para modelagem de processos que facilitarão o entendimento das atividades a serem desenvolvidas, das mais corriqueiras às complexas, sempre com apoio de elementos visuais. 1.3 Modelos utilizados em processos Nosso objetivo, com a modelagem de negócios, é a simplificação na representação de um processo, para facilitar a compreensão das partes interessadas. Para o BPM CBOK (2013), nos ambientes de negócio algumas aplicações possíveis de modelos são: • Organização (estruturação). • Descoberta (aprendizagem). • Previsão (estimativas). • Medição (quantificação). • Explicação (ensino, demonstração). • Verificação (validação). • Controle (restrições, objetivos). 12 A representação gráfica dos modelos permite o entendimento e análise dos processos de acordo com seu nível de detalhamento. Para isso, são utilizados diagramas, mapas e modelos (BPM CBOK, 2013). O detalhamento de cada um deles segue descrito a seguir: • Diagramas: apresenta uma visão holística do processo, com o objetivo de mapear suas principais atividades. Como exemplo, podemos descrever as etapas que um cliente precisa executar para realizar uma compra on-line. • Mapas: descreverá o processo de maneira mais detalhada, apresentando atores, componentes e relacionamentos principais. Como exemplo, para a mesma compra on-line citada anteriormente, podem ser descritas outras partes interessadas do processo, como o nome do site, as marcas dos produtos, os recursos necessários, como preenchimento de dados, documentos e formas de pagamento. • Modelos: representará o processo de maneira pormenorizada. Evidenciará todos os recursos envolvidos, bem como os fluxos das atividades. No exemplo da compra on-line, podemos pensar no detalhamento da entrega do produto e as informações necessárias para tal: data prevista para entrega, empresa responsável pelo frete, emissão do código de localização, cuidados especiais de armazenagem e de recebimento etc. A Figura 3 apresenta a representação esquemática/ visual de diagramas, mapas e modelos utilizados na compreensão das etapas de um processo. 13 Figura 3–Representação esquemática de diagrama versus mapa versus modelo Fonte: BPM CBOK (2013, p. 73). Para utilização de modelos de processo, existem diversas notações possíveis. Em tempo, “notação é um conjunto padronizado de símbolos e regras que determinam o significado desses símbolos” (BPM CBOK, 2013, p.77). Algumas notações mais comuns são: • Business Process Model and Notation (BPMN): ideal para apresentar modelos para diferentes nichos de segmentos. • Fluxograma: por sua simplicidade visual, facilita entendimento de um processo. • Event-driven Process Chain (EPC): utilizado para modelagem de processos complexos. • Unifield Modeling Language (UML): utilizado para descrição de requisitos de sistemas de informação. • Integrated Definition Language (IDEF): pode ser usado como ponto de partida de entendimento de uma organização. • Value Stream Mapping (VSM): mapeamento do fluxo de valor, oriundo do sistema Toyota de produção, ou Lean Manufacturing. Usado para mapear o fluxo e a agregação de valor ao longo do processo e identificar clientes, fornecedores e desperdícios. 14 Nesta aula, abordaremos com mais profundidade o fluxograma, mas vale a pesquisa sobre as demais notações, pois cada uma tem aplicabilidade específica. 1.4 Fluxogramas Com um fluxograma, um processo pode ser representado de maneira gráfica e sequencial, por meio de figuras geométricas que simbolizam o que cada etapa do fluxo de atividades trata como ação. São utilizadas setas para ligar cada forma geométrica, dando, assim, a caracterização do sequenciamento das etapas. A Figura 4 apresenta a simbologia adotada em fluxogramas. Figura 4–Símbolos e significados para um fluxograma padrão Fonte: Barros e Bonafini (2014, p. 56). 15 Exemplos de aplicações de fluxogramas são: • O percurso de um documento em um escritório. • O fluxo de uma matéria-prima em um processo produtivo. • O detalhamento das atividades sequenciais de atendimento a um cliente em um estabelecimento. A Figura 5 apresenta um exemplo de fluxograma: Figura 5–Fluxograma da elaboração de um trabalho acadêmico. Fonte: Mello (2011, p. 111). 16 1.5 Práticas administrativas para estudo de processos Além das notações e modelos apresentados, Sordi (2018) ilustra algumas práticas administrativas fundamentadas nos estudos de processos, como mostra o Quadro 1: Quadro 1–Práticas administrativas fundamentadas no estudo de processos Prática administrativa (fundamentada em processos) Nome mercadológico (empregado por consultores e praticantes) Melhoria de processos. Business Process Improvement (BPI). Reengenharia de processos. Business Process Reengineering (BPR). Apuração de custos com base em atividades. Activity-based cost management (ABC). Indicador de desempenho. Balanced Scorecard (BSC). Business Performance Improvement (BPM). Gestão do conhecimento. Knowledge Management (KM). Automação de processos. Process automation, workflow. Terceirização de processos. Business process outsourcing (BPO). Integração de processos. Business process integration. Fonte: adaptado de Sordi (2018, p. 70). Tais práticas administrativas podem ser utilizadas em vários contextos de acordo com as necessidades das organizações e não são necessariamente excludentes, pelo contrário, podem ser utilizadas concomitantemente. As práticas apresentadas no Quadro 1 podem ser assim definidas: • Programas de melhoria de processos (Business Process Improvement– BPI): programas de curta duração, baseados em atividades rotineiras, 17 visando redução de desperdícios apartir de soluções simples. Pode ser associado ao termo japonês KAIZEN (mudar para melhor). • Reengenharia de processos (Business Process Reengineering–BPR): Buscam reestruturações, muitas vezes radicais, do processo. Na maioria das vezes são projetos de longa duração. Pode ser associado ao termo japonês KAIKAKU (mudança radical). • Projetos de custo com base em atividades (activity-based cost management–ABC): visa elencar os custos de cada item de um setor ou de uma empresa. Assim, de acordo com a quantidade de itens de uma determinada matéria-prima, por exemplo, conhecendo seu custo individual, pode-se determinar seu nível de criticidade na operação. Pode ser associado a ferramenta da qualidade gráfico de Pareto. • Balanced Scorecard (BSC): é uma abordagem estratégica que visa analisar diversos indicadores de desempenho empresarial, facilitando a tomada de decisão acerca dos interesses da organização. • Gestão do conhecimento (knowledge management–KM): visa incorporar às corporações os conhecimentos tácitos que os colaboradores possuem. • Automação de processos (workflow): possibilita a integração de diversos softwares utilizados em uma empresa, bem como tangibilizar conhecimentos abstratos. • Terceirização de processos (Business Process Outsourcing–BPO): empresas que desejam focar em suas atividades-fim optam por terceirizar algumas tarefas e até setores inteiros dos quais não são especialistas. • Integração de processos (business process integration): busca conectar diversos sistemas de maneira eficaz, possibilitando acesso 18 à informação e entendimento para profissionais dos mais diversos setores. 1.6 Modelagem de redes de operações produtivas No exemplo que apresentamos nesta aula sobre a hamburgueria, vimos basicamente atividades aplicáveis ao negócio. Entretanto, nenhuma empresa será analisada com assertividade se vista isoladamente, pois está conectada a uma rede de fornecedores (de primeira camada), dos fornecedores dos fornecedores (de segunda camada), assim como aos clientes (de primeira camada) e aos clientes dos clientes (de segunda camada). Chamamos esse cenário de rede de operações produtivas. Veja o exemplo mostrado na Figura 6: Figura 6–Rede de operações para um fabricante de artigos domésticos de plástico e para um shopping center. Fonte: Slack, Brandon-Jones e Johnston (2018, p. 154). 19 Ao analisarmos, por exemplo, os clientes de primeira camada da hamburgueria, podemos aplicar um conceito que está sendo amplamente utilizado nos dias atuais, o mapeamento de dentro para fora (outside in). Nos últimos anos, existe uma forte tendência de consumo de hambúrgueres artesanais. Se a hamburgueria citada em nossa aula ouvir o cliente e mapear suas necessidades, poderá fornecer um produto mais alinhado com as expectativas de seu público. Nesta aula, vimos a importância da modelagem de processos, suas características e principais ferramentas e técnicas. É preciso compreender que para cada segmento, algumas delas serão mais apropriadas e praticar sua utilização aumentará a assertividade da aplicação. Sempre observe clientes e fornecedores, pois poderão gerar impacto direto nos processos das empresas. Referências Bibliográficas ASSOCIATION OF BUSINESS PROCESS MANAGEMENT PROFESSIONALS INTERNATIONAL–ABPMP. BPM CBOK: Guia para o gerenciamento de processos de negócio. Corpo comum do conhecimento – ABPMP BPM CBOK V3.0, Association of Business Process Management Professionals, 2013. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS FABRICANTES DE VEÍCULOS AUTOMOTORES. Estatísticas – Anfavea. Estatísticas 2019. São Paulo, 2019. Disponível em: http:// anfavea.com.br/estatisticas. Acesso em: 12 mar. 2021. BARROS, E.; BONAFINI, F. Ferramentas da Qualidade. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2014. MELLO, C. H. P. Gestão da qualidade. São Paulo: Pearson, 2011. SLACK, N.; BRANDON-JONES, A.; JOHNSTON, R. Administração da produção. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2018. SORDI, J. O. de. Gestão por processos: uma abordagem da moderna administração. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2018. 20 Planejamento e controle da produção e manufatura digital Autoria: Charlie Hudson Turette Lopes Leitura crítica: Elaine Cristina Marques Esper Objetivos • Identificar atividades de longo, médio e curto prazo, visando tomada de decisão em empresas. • Reconhecer a importância dos modelos de previsão de demanda. • Discernir os planos de produção estratégicos, táticos e operacionais. • Compreender como a manufatura digital poderá revolucionar o futuro das empresas de transformação. 21 1. Planejamento e controle da produção Prever o que acontecerá em alguns anos com o mercado, com a tecnologia e com a sociedade são árduas e talvez inexequíveis tarefas. Por isso, vários autores definiram o conceito de estratégia empresarial para planejarem ações voltadas para o futuro, visando lidar com as incertezas que apresenta, que podem trazer desafios e oportunidades. Veja um exemplo: no início do século XXI, os aparelhos celulares continham algumas poucas funções, que, atualmente, são consideradas básicas: ligações, mensagens de texto, alguns jogos, uma agenda para um número reduzido de contatos. Com um smartphone, cerca de vinte anos depois, somos capazes de gerenciar uma empresa a distância, realizar vídeo chamadas, acessar contas bancárias, entre tantas outras coisas. Será que as empresas no ano 2000 sabiam como os telefones seriam em 2020 e como a sociedade se tornaria dependente deles? Para auxiliar a responder essa pergunta, podemos recorrer às estratégias deliberadas e emergentes de Mintzberg et al. (2010). Segundo os autores, as estratégias deliberadas apresentam a direção em que a empresa seguirá, com metas e objetivos previamente traçados. Já as estratégias emergentes são aquelas em que a empresa responde a uma oportunidade de negócio que surge em um ambiente. Pensando nos smartphones, uma demanda identificada no mercado foi a de transportar pessoas de maneira ágil, por meio de uma rede de motoristas independentes. Assim, surgiram os aplicativos de transporte particular, que revolucionam o mercado de transporte de passageiros. Esse é um exemplo de estratégia emergente, utilizada num contexto de estratégia deliberada (evolução contínua por meio dos anos dos aparelhos de telefone). Empresas de sucesso pensam no futuro. Ao fazerem isso, precisam desdobrar objetivos de longo prazo, muitas vezes ainda abstratos, em 22 planos de médio e curto prazos. Nesta aula, você verá como os planos e prazos se relacionam e funcionam nas empresas, que, geralmente, possuem um setor responsável para organizar as atividades a serem desenvolvidas em períodos de tempo estabelecidos. Esse departamento é conhecido como Planejamento e Controle da Produção (PCP) ou Planejamento, Programação e Controle da Produção (PPCP). 1.1 Horizontes de planejamento de sistemas produtivos De maneira objetiva, Tubino (2017) orienta a dividir o horizonte de planejamento de um sistema produtivo (que transforma entradas em saídas agregando valor para o cliente) em três níveis, como apresenta a Figura 1: Figura 1–Esquema representativo do planejamento de um sistema produtivo. Fonte: Tubino (2017, p. 3.) 23 Detalharemos cada um dos níveis, de maneira hierárquica e cronológica: • Planejamento Estratégico da Produção: em longo prazo, vamos pensar em uma empresa que fabrique camisas masculinas. Tem por objetivo vender 10.000 camisas por mês, nos próximos cinco anos (previsão de vendas de LP – longo prazo) e, para isso, precisa realizar uma previsão de sua capacidade produtiva, por isso, esse plano é estratégico. Se a empresa não direcionar seus recursos e esforços, visando cumprir esse objetivo, terá problemas para entregar o que foi planejado. Perceba que ainda não são conhecidas as quantidades a serem fabricadas de cada um dos modelos das camisas, as cores, tamanhos, nem os tipos de tecido. Atividade: Plano de Produção. • Planejamento Mestre da Produção: pensandono médio prazo, teremos como atividade o Plano Mestre. A empresa que produz camisas masculinas agora saberá quantas serão do tipo regata (3000), polo (3000) e social (4000) – totalizando os 10.000 itens do Plano de Produção, bem como tamanhos, cores e tecidos. Nesse nível, já é possível ter pedidos fechados com alguns clientes e é preciso gerenciar a previsão de vendas de MP – médio prazo. As táticas a serem desenvolvidas visam planejar a capacidade, definindo jornadas de trabalho, possíveis terceirizações ou subcontratações, adiantamento de produção de alguns itens etc. • Programação da Produção e Acompanhamento e Controle da Produção: enfim, no planejamento de curto prazo, acontecerá a execução da Programação da Produção. Por exemplo, para produzir uma camisa são necessários tecidos, linhas, botões, bem como as máquinas de costura, embalagens. A operação deverá atuar de acordo com a tática montada com objetivo de entregar produtos aos clientes. 24 Em linhas gerais, os objetivos de longo prazo são medidos em meses, podendo chegar a trimestres, semestre e anos. Os de médio prazo em semanas e os de curto prazo, dias. É preciso ainda compreender que os três níveis hierárquicos expostos interagem com outros setores em todas as fases expostas. Por exemplo, a engenharia é responsável pela estrutura do produto e pelos roteiros de fabricação. O setor de compras recebe as ordens de compras oriundas da Programação da Produção. Os fornecedores alimentam os estoques da empresa. Podemos ver esse fluxo na Figura 2: Figura 2–Fluxo de informações e PCP Fonte: Tubino (2017, p. 5). 25 A partir dessas interações, é possível atingir o objetivo do PCP: definir o que será feito, os responsáveis para cada atividade, em que local (setor, equipamento) acontecerá o processo de produção, as quantidades de cada item e em que momento a produção ocorrerá. 1.2 Técnicas utilizadas em previsões de demanda Estimar as quantidades de produtos que serão vendidos ou serviços que serão prestados é uma tarefa, geralmente, atribuída aos setores de vendas e marketing das empresas. Para isso, são utilizadas técnicas de previsões de demanda, que auxiliam o PCP a dimensionar os recursos necessários para a produção. O processo de previsão de demanda perpassa por uma análise das informações externas à empresa, como tendências de mercados, nichos de mercado, contato com vendedores e clientes, controle de vendas reais da empresa e dos concorrentes, segundo Corrêa (2019). Uma etapa importante para a previsão de demanda, segundo Tubino (2017), é a coleta dos dados. Quanto mais dados forem obtidos sobre as vendas passadas do produto, mais chances de acerto terá a previsão. Variações no consumo podem acontecer não só pela demanda dos clientes, mas também por falta de produtos disponíveis para compra, ou, de maneira contrária, excessos de consumos podem ocorrer devido a alguma promoção aplicada por um revendedor. Existem duas maneiras principais de classificar as técnicas de previsão de demanda: de forma qualitativa e quantitativa. Não há modelos que são comprovadamente eficazes para todos os casos. As técnicas qualitativas são baseadas em opiniões e julgamentos de especialistas, sejam funcionários da empresa ou não (TUBINO, 2017). Podemos inferir que essas técnicas são subjetivas. Abaixo, temos dois exemplos de técnicas qualitativas de previsão de demanda: 26 • Método Delphi: questionários aplicados a especialistas sobre vários cenários de um determinado segmento. As respostas recebidas são resumidas pela equipe que realiza a previsão de demanda e depois devolvidas para os especialistas, que reportarão se concordam ou justificarão a discordância sobre o conteúdo sintetizado. São feitas várias rodadas desse processo até que haja consenso entre os especialistas. • Análise de cenários: são analisados cenários otimistas, mais prováveis e pessimistas sobre o futuro de determinado produto ou serviço. Os especialistas utilizam suas experiências e buscam informações de mercados, governos, economistas etc., e criam diferentes previsões de demanda e planos de ação para atendê- las. Vale a pesquisa sobre outras técnicas qualitativas: opinião de executivos, composição de força de vendas, júri executivo de opiniões, pesquisas de mercado e analogia histórica. Já as técnicas quantitativas possuem cunho objetivo, pois utilizam modelos matemáticos para prever a demanda. É importante ressaltar que as demandas recebem impacto de algumas variáveis (tendências, sazonalidades e variações), ou seja, apenas utilizar dados passados para imaginar o futuro pode ser ineficaz na previsão de demanda. Tubino (2017) explica que tendências são movimentos graduais de longo prazo da demanda, e podem ser ascendentes ou descendentes. Já as sazonalidades, apresentam variações cíclicas de curto prazo (feriados nacionais, festas religiosas, condições climáticas). Ainda há variações irregulares (greves, por exemplo). Todos esses fatores devem ser substituídos por valores mais prováveis de ocorrência na série histórica. As variações randômicas já são esperadas e amortecidas no cálculo da média. Veja na Figura 3 como todos esses fatores se correlacionam: 27 Figura 3–Fatores que influenciam as séries históricas Fonte: Tubino (2017, p. 30). Veremos a seguir algumas das mais de sessenta séries temporais que podem ser utilizadas na previsão de demanda. As duas primeiras a serem apresentadas servirão para calcular a média e tratar as variações aleatórias. A terceira cuidará de prever a tendência, ou seja, o movimento gradual da demanda ao longo do tempo. • 1. Média móvel: a partir de uma demanda relativamente estável e que apresente uma boa quantidade de registros, utilizam-se os dados mais recentes para calcular a previsão de demanda. Primeiramente, define-se quantos serão os períodos analisados. O período mais recente substitui automaticamente o último na medida em que o tempo passa. Veja a equação 1: Onde: Mm(n) = média móvel de n períodos. Dt-x = demanda ocorrida no período t-x. 𝑴𝑴𝑴𝑴(𝒏𝒏) = 𝑫𝑫𝒕𝒕−𝟏𝟏+𝑫𝑫𝒕𝒕−𝟐𝟐+𝑫𝑫𝒕𝒕−𝟑𝟑+ … +𝑫𝑫𝒕𝒕−𝒏𝒏𝒏𝒏 (1) 28 n = número de períodos. • 2. Média móvel ponderada: similar à média móvel. No entanto, são adicionados, arbitrariamente, pesos decrescentes de acordo com a passagem dos períodos, que devem totalizar 1 (100%). O objetivo, neste método, é dar maior relevância aos consumos mais recentes. Acompanhe a equação 2: Onde: M(t) = previsão para o período t. Px = peso aplicado ao período x. Dt-x = demanda ocorrida no período t-x. • 3. Equação linear para a tendência: são utilizados dados históricos da demanda para calcular as tendências. A equação linear utilizada possui o modelo da equação 3: Onde: Y = previsão da demanda para o período X. a = ordenada à origem, ou intercessão no eixo dos Y. b = coeficiente angular. X = período (partindo de X = 0) para previsão. 𝒀𝒀 = 𝒂𝒂 + 𝒃𝒃𝒃𝒃 (3) 29 Os coeficientes b e a são obtidos por meio das equações 4 e 5: 𝒃𝒃 = 𝒏𝒏(∑ 𝑿𝑿𝑿𝑿)−(∑ 𝑿𝑿)(∑ 𝑿𝑿)𝒏𝒏(∑ 𝑿𝑿𝟐𝟐) −(∑ 𝑿𝑿)𝟐𝟐 (4) 𝒂𝒂 = ∑ 𝑿𝑿−𝒃𝒃(∑ 𝑿𝑿)𝒏𝒏 (5) Onde: n = número de períodos observados. Após a obtenção das previsões, é importante monitorar o modelo escolhido e acompanhar os desvios entre a demanda que efetivamente ocorreu e a prevista, calculando em uma planilha, a porcentagem do erro da previsão. 1.3 Planejamento agregado da produção Já vimos que o Plano de Produção apresenta um planejamento estratégico, ou seja, de longo prazo. Pense em um hospital desenvolvendo seu Plano de Produção. É difícil precisar quantas cirurgias cardíacas serão feitas por mês daqui a três anos, por mais que haja uma previsão de demanda. Já uma empresa que vende meias, não conseguirá afirmar com certeza se meias masculinas venderão mais que femininas daqui a três invernos. Visando agregar o planejamento, as empresas agrupam seus produtos no que chamamosde famílias, cujos componentes possuem alguma similaridade na forma, nos materiais empregados e/ou no processo de fabricação. Esses planos são apresentados em períodos de meses, trimestres ou semestres, abrangendo alguns anos adiante. Tal documento apresenta 30 uma estratégia alimentada de informações de várias áreas, como financeiro, marketing, compras e vendas, que servirão de norteador para o Planejamento-mestre da Produção, a nível tático. O Plano de Produção, para Tubino (2017), visa antever problemas que possam ocorrer e gerar ações preventivas para bloquear os efeitos que poderiam ser causados. Uma das decisões que pode ser tomada é se a empresa deve alinhar sua produção ou não com a demanda, ou manter a produção constante, estocando produtos em períodos em que a demanda for menor do que a produção, por exemplo. Veja na Figura 4, um exemplo de produção constante: Figura 4–Gráfico com quantidades versus períodos da produção e das vendas de um produto Fonte: Tubino (2017, p. 69). Nesse modelo apresentado, os recursos trabalharão com mais eficiência, devido à constância da operação. Em contrapartida, há grande necessidade de capital de giro nos períodos com menos vendas. Os custos fixos da empresa permanecerão mesmo sem os mesmos níveis de receitas. Se os produtos forem perecíveis, por exemplo, essa estratégia pode ser ineficaz, pois podem incorrer em custos de armazenagem, refrigeração ou, ainda, perda do prazo de validade. 31 A seguir, Slack, Brandon-Jones e Johnston (2018) listam algumas estratégias que as companhias utilizam no planejamento agregado: • Admissão ou demissão de funcionários de acordo com a demanda. • Realização de horas extras em períodos específicos de aumento de demanda. • Terceirizar ou subcontratar funcionários em períodos de picos de demanda. • Aumentar o preço de venda para reduzir a demanda. • Realizar promoções para aumentar a demanda. • Atrasar entregas até possuir os recursos disponíveis para transformação. 1.4 Planejamento Mestre da Produção Como base no planejamento agregado da produção, o Planejamento Mestre da Produção (PMP) tem por objetivo dimensionar quanto será produzido, os níveis de estoque e quantos produtos serão reservados para atender às necessidades dos clientes. Corrêa (2019) apresenta o registro básico do PMP, na Figura 5: Figura 5–Registro básico do PMP do item lapiseira P207. LAPISEIRA P207 Atraso 1 2 3 4 5 6 7 8 Previsão de demanda inde- pendente. 200 200 200 200 200 200 200 200 Demanda dependente. Pedidos em carteira. 32 Demanda total. 200 200 200 200 200 200 200 200 Estoque projetado disponí- vel. 240 40 240 40 240 40 240 40 -160 Disponível para promessa. Programa Mestre da Produ- ção (PMP). 400 400 400 Fonte: adaptado de Corrêa (2019, p. 217). Onde: Identificação do item: no exemplo, lapiseira P207. Previsão de demanda independente: é a demanda prevista ou projetada para o período que ainda não está em carteira. Demanda dependente: é a demanda futura dos itens que serão parte de outro produto. Pedidos em carteira: demanda dos itens que já foram vendidos. Demanda total: é a soma das três demandas anteriores. Estoque projetado disponível: é o nível de estoque após a demanda ser atendida, ou seja, é o nível de estoque no final do período. Disponível para promessa: corresponde à quantidade disponível para entrega aos clientes naquele período. Programa Mestre de Produção: corresponde à quantidade que será produzida, que, junto ao estoque, atenderá a demanda total. Os períodos podem representar dias ou semanas, a depender do horizonte de planejamento. O período 1 é o atual, sendo que as colunas à direita representam os próximos períodos. Ao encerrar, um período 33 deverá sair automaticamente da tabela, e os demais são deslocados para a esquerda. O período 2, por exemplo, passará a ser o período 1, quando o período 1 original for encerrado. 1.5 Programação da produção Chega o momento de realizar as ações de curto prazo que serão executadas na Programação da produção. Tubino (2017, p. 102) as divide em três grupos principais: • Administração de estoques: encarregada de planejar e controlar os estoques dos itens comprados, fabricados e montados definindo os tamanhos dos lotes, a forma de reposição e os estoques de segurança do sistema. • Sequenciamento: busca gerar um programa de produção para os itens fabricados e montados, que utilize inteligentemente os recursos disponíveis, promovendo produtos com qualidade e custos baixos. • Emissão e a liberação de ordens: implementam o programa de produção, expedindo a documentação necessária para o início das operações (compra, fabricação e montagem) e liberando-a quando os recursos estiverem disponíveis, normalmente em conjunto com a função de acompanhamento e controle da produção. É importante ressaltar que as atividades acima citadas poderão se comportar de maneiras diferentes se as programações das empresas forem do tipo puxada ou empurrada. A produção puxada ocorre quando os recursos apenas são acionados quando há um pedido, seja externo (cliente) ou interno (posto de trabalho). As empresas que assim trabalham se comportam de acordo com a mentalidade enxuta, oriunda das fábricas japonesas de automóveis. Já na produção empurrada, a 34 produção ocorre independente das necessidades dos próximos estágios de produção ou até mesmo sem que o cliente realize um pedido. 1.6 Manufatura digital Diretamente relacionada a Indústria 4.0, a manufatura digital visa a aplicação de tecnologias avançadas aos sistemas de produção, utilizando ferramentas de modelagem e visualização tridimensionais. Existem várias aplicações para as indústrias, entre elas, o gêmeo digital, que permite simular eventos em uma fábrica sem movimentar um único equipamento, a partir de uma cópia digital do processo. O gêmeo digital pode auxiliar em questões como operação, controle, organização, planejamento, novos planejamentos, redesign, otimização e (re) configuração, seja no ambiente de manufatura ou de serviços. Referências Bibliográficas CORRÊA, H. L. Planejamento, programação e controle da produção: MRP II/ ERP: conceitos, uso e implantação: base para SAP, oracle applications e outros softwares integrados de gestão. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2019. MINTZBERG, H.; AHLSTRAND, B.; LAMPEL, J. Safári de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. SLACK, N.; BRANDON-JONES, A.; JOHNSTON, R. Administração da Produção. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2018. TUBINO, D. F. Planejamento e controle da produção: teoria e prática. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2017. 35 Mapeamento de fluxo de valor e balanceamento de linhas produtivas Autoria: Charlie Hudson Turette Lopes Leitura crítica: Elaine Cristina Marques Esper Objetivos • Compreender o mapeamento de fluxo de valor dos processos de manufatura. • Reconhecer a importância de balancear processos visando aumento da eficiência operacional. • Discernir os tipos de processos produtivos e arranjos físicos. 36 1. Projetando e melhorando processos A Escola Clássica da Administração, ficou assim conhecida devido aos conceitos consagrados da Administração que seus integrantes, Frederick Taylor e Henry Ford, disseminaram. Esse período, situado entre o fim do século XIX e início do século XX, foi o momento em que as empresas começaram a se preocupar com a eficiência, ou de maneira mais direta, fazer mais com menos. As técnicas desenvolvidas nessa Escola da Administração, sobreviveram ao longo dos anos e foram aprimoradas, afinal, sempre há a possibilidade de empregar na prática melhorias contínuas. Womack e Jones (1998) relatam que quando Eiji Toyoda e Taiichi Ohno que, juntamente com Shingeo Shingo elaboraram o Sistema Toyota de Produção, foram visitar os Estados Unidos, viram inúmeros desperdícios, inclusive na famosa fábrica da Ford. Perceberam, então, que era preciso mapear o que o cliente via de valor nos produtos,e reduzir custos desnecessários. E é isso que estudaremos nesta aula. 1.1 Mapeando o fluxo de valor O Mapeamento de Fluxo de Valor (MFV), do inglês Value Stream Mapping (VSM), é uma importante ferramenta visual de mapeamento de processos que foi criada no Sistema Toyota de Produção (STP), disseminado mundialmente como Lean Manufacturing (manufatura enxuta). O Lean Manufacturing preconiza, segundo Womack e Jones (1998), cinco princípios que integram o pensamento enxuto, os quais são: 1. Especificação de valor sob a ótica do cliente. 2. Identificação do fluxo de valor durante todo o processo de produção. 37 3. Fazer o produto fluir dentro do processo. 4. Produção puxada. 5. Buscar a perfeição. O segundo desses cinco princípios é contemplado pelo MFV, pois para Rother e Shook (2003), o MFV auxilia as partes interessadas envolvidas no processo a enxergar seu fluxo de valor, assim como os desperdícios, que geram custos desnecessários à empresa. Além disso, o MFV, segundo os autores, segue a seguinte lógica de elaboração: 1. Determina-se a família de produtos a ser mapeada. 2. Desenha-se o estado atual do processo, identificando valor e desperdícios. 3. Desenha-se o estado futuro desejado, que proporá as melhorias necessárias. 4. Executa-se um plano de trabalho e implantação. O MFV se vale de ícones-padrão, como apresenta a Figura 1: 38 Figura 1 – Simbologia padrão para Value Stream Mapping (VSM) em fluxos de materiais Fonte: Corrêa e Corrêa (2019, p. 530). Corrêa e Corrêa (2019) explicam, sucintamente, o significado de cada um desses símbolos: Para os fluxos de materiais: • Processo produtivo: um processo, uma operação, máquina ou departamento, por meio do qual o material passa e é processado. • Fornecedor/cliente: representa uma empresa externa, parceira na rede de suprimentos. Pode ser um cliente (para quem o fluxo se direciona) ou um fornecedor (de quem o fluxo parte). 39 • Caixa de dados: em geral, aparece abaixo dos símbolos que representam áreas de interesse para melhoria e traz várias informações importantes para análise, como o tempo de ciclo, o tempo de preparação (setup), tamanhos de lote de transferência e produção, percentual de defeituosos, percentual de tempo disponível para produção, entre outros. • Armazém (externo): simboliza pontos de armazenagem fora da unidade produtiva analisada, podendo pertencer à empresa ou a terceiros parceiros da rede de suprimento. • Cross dock: pontos na rede de suprimentos em que operações de cross docking ocorrem. • Despacho rodoviário: simboliza quantidades de material despachadas via terrestre, com transporte rodoviário. • Despacho aéreo: simboliza quantidades de material despachadas via aérea. • Despacho ferroviário: simboliza quantidades de material despachadas via terrestre, com transporte ferroviário. • Fluxo com sequência FIFO: fluxo que atravessa determinada atividade com sequência First In First Out (primeiro a chegar é o primeiro a ser processado ou despachado). • Supermercado de componentes: indica uma posição interna de armazenagem de componentes, em geral próxima ao ponto de uso. • Despacho externo: indica fluxo de materiais despachado ou de fornecedores para a empresa ou da empresa a fornecedores, ou ainda de um parceiro a outro da rede de suprimentos. 40 • Milk run: simboliza entrega ou coleta programada, sistemática. O nome é uma referência aos trajetos, sempre iguais e realizados na mesma hora, que os leiteiros tradicionais faziam quando o leite era entregue diariamente na porta de casa. • Transporte urgente: representa transporte feito de forma expeditada ou urgente. • Retirada: representa a retirada de material, em geral, pelo “cliente”, frequentemente usado em sistemas do tipo “puxado”, quando as atividades clientes do processo puxam material das atividades fornecedoras na medida em que precisem. • Estoque: significa material estocado em localidades internas à empresa (almoxarifados, armazéns internos). Os autores definem os símbolos para os fluxos de informações como: • Kanban chegando em bateladas: representa o sinal, usado em sistemas puxados de fluxos de materiais, para requisitar material a chegar em quantidades múltiplas de um Kanban. • Kanban de transporte: representa uma autorização para que o material seja transportado do centro produtivo fornecedor para o centro produtivo cliente, em sistemas puxados de fluxo de materiais. • Kanban de produção: representa uma autorização para que o material seja produzido. Em um sistema de fluxo puxado de materiais, o material só pode ser processado caso haja uma autorização dada por um Kanban de transporte que se originou em um certo cliente. • Kanban de sinalização: usado em operações mais simples quando apenas um tipo de Kanban autoriza produção e transporte. 41 • Posto Kanban: local onde as autorizações (kanbans) estão visíveis para orientar produção/transporte de materiais. • Comunicação por telefone: simboliza um fluxo de informação realizado por telefone. • Comunicação manual (não eletrônica): pode ser pessoal, por papel ou outro meio. • Comunicação eletrônica: comunicação feita por alguma modalidade de EDI (Electronic Data Interchange, ou troca eletrônica de dados). • Carregamento nivelado: simboliza que neste ponto, o carregamento dos recursos a seguir é feito de forma a mesclar produtos em uma proporção compatível com o seu consumo, evitando, assim, as bateladas. • Linha de tempo: usada para representar os tempos dispendidos no processo. Em um nível mais baixo, geralmente, aparecem os tempos de processamento (agregação de valor); já em um nível mais alto, os lead times ou tempos totais para o atravessamento do material na atividade. • Total da linha de tempo: quadro que totaliza os tempos de agregação de valor e os tempos totais (lead times) do processo analisado. • Centro de controle: representa um centro de planejamento e controle de produção. A Figura 2 apresenta um exemplo de MFV: 42 Figura 2 – Representação de Value Stream Mapping para um processo Fonte: Corrêa e Corrêa (2019, p. 532). De posse de todas as informações obtidas pelo MFV (situação atual) é possível implantar as ferramentas de manufatura enxuta. Uma equipe multidisciplinar deve ser formada para analisar o processo e identificar os desperdícios para, então, redesenhar o MFV, dessa vez no estado futuro pretendido. 1.2 Balanceamento de linhas produtivas Além de mapear o fluxo de valor dentro de um processo, é preciso executar ações para que os fluxos dos processos de manufatura e dos serviços sejam contínuos. Inicialmente, é preciso identificar qual o tipo de processo estudado de acordo com a relação volume-variedade. A Figura 3 apresenta os tipos de processo descritos por Slack, Brandon- Jones e Johnston (2018): 43 Figura 3 – Tipos diferentes de processo que implicam características diferentes de volume-variedade Fonte: Slack, Brandon-Jones e Johnston (2018, p. 207). A partir disso, iremos compreender os conceitos e características de cada um dos processos de manufatura e dos serviços: • Processos de projeto: apresentam baixo volume e alta variedade. Caracterizam-se pelo alto grau de customização que podem apresentar. Possuem início e fim bem definidos, e não são feitos em grandes quantidades. Exemplos: construção de um navio; fabricação de móveis artesanais; construção de um prédio. • Processos de jobbing: também possuem baixo volume e alta variedade. No entanto, a equipe e os equipamentos são flexíveis, ou seja, podem produzir diversos produtos exclusivos, de acordo com as encomendas dos clientes. Exemplos: uma fábrica de sacolas plásticas que imprime a logomarca de um supermercado local; empresas de usinagem de alta precisão que fabricam moldes e matrizes. 44 • Processos em lote ou batelada: assim como os processos de jobbing, tem por característica a flexibilidade de pessoas e máquinas, entretanto, com considerável redução da variedade. São produzidosvários itens (lotes) e não um único. Exemplos: fabricação de roupa que varia a cada estação ou coleção; fabricação de componentes de automóveis. • Processos em massa: possuem alto volume e a variedade é relativamente baixa. As operações e tarefas são repetitivas e o resultado final do processo é previsível, por exemplo, uma linha de montagem de automóveis. Por mais que um veículo possa ter várias cores, motorizações e diferentes acessórios, seus aspectos fundamentais de fabricação são mantidos e não prejudicam a fluidez do processo. • Processos contínuos: alto volume e baixa ou nenhuma variedade. Geralmente operam em períodos ininterruptos (365 dias por ano, 24 horas por dia). Os materiais a serem transformados se movem por meio das instalações. Demandam de alto investimento inicial por conta das necessidades de instalações e maquinário. Exemplos: siderúrgicas e usinas de eletricidade. • Serviços profissionais: são de baixo volume e alta variedade. A customização é feita para atender as necessidades dos clientes, que participam ativamente durante o processo. Exemplos: consultorias, advogados, arquitetos. • Lojas de serviços: nível intermediários de volume e variedade. São necessários para atendimento pessoas de linha de frente e de retaguarda. Exemplos: bancos, escolas, restaurantes. • Serviços em massa: aqui há alto volume e pouca variedade. São muitas transações efetuadas com pouca ou nenhuma customização. Exemplos: supermercados, emissoras de rádio, call centers. 45 É possível perceber que, em processos contínuos, é difícil separar os produtos produzidos em unidades, pois são fibras, líquidos, aço etc. Já nos processos de projeto, pelo alto grau de customização, algumas tarefas podem ser feitas uma única vez. Para esses tipos de processos, há maior foco no produto e não necessariamente no processo. Quando o processo de manufatura ou de serviço pode ser dividido em ciclos de cada item produzido ou cliente atendido, podemos utilizar o conceito de balanceamento de linha. O exemplo a seguir, já contempla os tempos de carregamento, movimentação, ajustes, e até as perdas do processo em cada uma de suas operações. Ou seja, sempre devemos enxergar criticamente os processos, pois podemos sempre realizar melhorias. Nesse caso, aplicar o Mapeamento de Fluxo de Valor que vimos nessa aula é uma estratégia interessante para reduzirmos os desperdícios. A empresa TecnoTudo comercializa produtos eletrônicos. Dentre os produtos mais vendidos está o headphone utilizado para jogos online modelo HPH2021. Esse produto é montado em uma linha de produção que trabalha 8 horas por dia (480 minutos) e segue as seguintes operações sequenciais: Quadro 1 – Sequência de operações do produto HPH2021 Operação 1 Operação 2 Operação 3 Operação 4 Operação 5 0,5 minuto 0,4 minuto 1,1 minutos 0,8 minuto 0,3 minuto Fonte: elaborado pelo autor. Veja que a Operação 1 e a Operação 2 fluem harmoniosamente, pois, o primeiro operador leva 0,5 minuto para realizar suas atividades, e o operador 2 0,4 minuto. Está bem equilibrada essa sequência, certo? Mas, ao analisar a terceira operação, temos um gargalo. Slack, Brandon- Jones e Johnston (2018, p. 223) definem gargalo como “atividade ou 46 estágio onde o congestionamento ocorre porque a carga de trabalho imposta é maior do que a capacidade de lidar com ela”. Isso significa que a maior velocidade possível desta linha é de 1,1 minutos, ou seja, a taxa em que o processo irá operar. A Operação 4, que leva 0,8 minuto para concluir suas atividades, ficará 0,3 minuto aguardando que o estágio anterior lhe entregue um novo produto para produzir. Já a Operação 5 é a que apresenta a maior folga, pois conclui sua atividade em apenas 0,3 minuto. Vamos balancear a alocação desses tempos de trabalho? Inicialmente, precisamos descobrir qual a demanda mensal do HPH2021. Essa linha de produção, seguindo os preceitos da manufatura enxuta, produzirá apenas o que estiver alinhado com a velocidade de vendas da empresa. Para isso, vamos utilizar o conceito de Takt Time, a partir de Batalha (2019), que sincroniza o ritmo da produção com o ritmo de vendas. O Takt Time pode ser definido, segundo Ballestero-Alvarez (2019), de acordo com a Equação 1: Como a empresa trabalha 480 minutos por dia, e a demanda informada pelo Planejamento e Controle da Produção (PCP) da empresa é de 400 unidades por dia, temos: 47 Isso significa que para atender a demanda do produto HPH2021, a empresa TecnoTudo precisa entregar um produto a cada 1,2 minutos. Se analisarmos isoladamente o gargalo, que está na Operação 3, não teremos atrasos na entrega. Porém, as cargas distribuídas para cada posto de trabalho (estágio) estão desbalanceadas. Para resolver essa questão, veremos qual a quantidade de trabalho necessária para montar o headphone, somando todas as suas operações: Sabemos que o Takt é de 1,2 minutos, ou seja, esse é o tempo máximo para que a demanda seja atendida. Agora, compreendendo a quantificação do trabalho necessário, podemos calcular o número de etapas exigidas, de acordo com Slack, Brandon-Jones e Johnston (2018): Como o valor encontrado foi maior que 2, adotaremos como referência três estágios. Isso significa que as cinco operações serão desempenhadas por três operadores. É importante ressaltar que é preciso que os operadores sejam polivalentes e recebam capacitações para desempenhar as novas funções. A nova configuração dos postos de trabalho será: • Posto de trabalho 1 = Operação 1 + Operação 2. 0,5 minuto + 0,4 minuto = 0,9 minuto. • Posto de trabalho 2 = Operação 3. 48 1,1 minutos. • Posto de trabalho 3 = Operação 4 + Operação 5 0,8 minuto + 0,3 minuto = 1,1 minutos. Observe que o agrupamento das tarefas foi sequencial e não ultrapassa o Takt Time, para que toda a demanda seja atendida sem atrasos. Finalmente, avaliamos a perda obtida pelo balanceamento, calculando os tempos alocados de trabalho e os tempos ociosos. Essas informações são imprescindíveis para que o PCP da empresa possa tomar decisões sobre a programação da produção. A equipe de engenharia de processos também é beneficiada, pois poderá escolher o tipo de arranjo físico (layout) que melhor satisfaça às necessidades da produção. Neumann (2015) conceitua os layouts clássicos e suas aplicações da seguinte forma: • Layout posicional: utilizado para produtos de grandes dimensões ou em casos em que há dificuldades de locomoção, como os pacientes em uma sala de cirurgia. Os materiais a serem transformados e os recursos transformadores, organizam-se ao redor do produto. Podem ser vistos exemplos em construções de estradas e estaleiros. • Layout por produto: conhecidos popularmente como linha de montagem ou linha de produção. O material a ser transformado é conduzido pelas estações de trabalho, que são dispostas sequencialmente, com os recursos transformadores necessários. 49 Produtos eletrônicos, como celulares e computadores, seguem esse tipo de arranjo físico. Em serviços, quando há filas de espera, pode-se ter um layout do tipo produto, como em caixas eletrônicos, por exemplo. • Layout por processos: também chamado de layout funcional, agrupa máquinas que desempenham papeis semelhantes no processo em um departamento. O trabalho nestes setores é especializado, e o material transformado percorre o roteiro necessário para sua transformação. Exemplo: em um hospital, se um paciente precisar de uma radiografia e de um exame de sangue, deverá se deslocar para dois setores distintos, cada um deles responsável por uma das atividades. • Layout celular: ocorre o agrupamento de máquinas que servem para funções distintas objetivando aumentar a eficiência do processo e redução de desperdícios, como de deslocamentos de máquinas e pessoas. Empregado em casos em que a empresa possui um mix considerável de produtos e os agrupa em famílias. Um exemplo pode ser visto na Figura 4, que apresenta três células em U: 50 Figura4 – Ilustração esquemática de um layout composto de três células distintas Fonte: Neumann (2015, p. 221). Primeiramente, vimos a célula 1 tendendo a produto, em que seus seis estágios de produção formam uma sequência contínua do processo (A1-A2-A3-A4-A5-A6), produzindo assim a família de produtos A. A célula 2 é intermediária, e os seis estágios possuem mais interações de idas e vindas entre si. Ou seja, o produto pode ir da estação B2 para B3, B4 ou B5, por exemplo para, no final, completar produtos da família de produtos B. Já a célula 3 está tendendo a processo, com a possibilidade de interações entre os estágios sendo ainda maior que no caso anterior. Podemos perceber o produto se movendo de C3 para C4 ou C6, e ainda C5 enviando materiais para C3, que é um estágio posicionado anteriormente. O resultado final é a fabricação de produtos da família C. • Layout misto: utilizado quando dentro de uma mesma empresa há a necessidade de utilizar mais de um dos tipos de arranjos físicos apresentados. Um restaurante, por exemplo, pode valer-se de um layout funcional na cozinha, celular no buffet e em linha no caixa. 51 Nesta aula, vimos a importância do Mapeamento de Fluxo de Valor e do balanceamento de linha. Todas as técnicas aqui apresentadas, devem ser avaliadas em conjunto com as características da organização em que se deseja implementá-las. Os resultados da identificação dos desperdícios, juntamente com um sistema de produção harmonioso podem ser o aumento da competitividade e diminuição do tempo de resposta aos pedidos dos clientes. Referências Bibliográficas BALLESTERO-ALVAREZ, Maria E. Gestão de qualidade, produção e operações. São Paulo: Atlas, 2019. BATALHA, Mário O. (Org.). Gestão da produção e operações: abordagem integrada. São Paulo: Atlas, 2019. CORRÊA; Henrique L.; CORRÊA, Carlos A. Administração de produção e operações: manufatura e serviços: uma abordagem estratégica. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2019. NEUMANN, Clóvis. Projeto de fábrica e layout. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. ROTHER, M.; SHOOK, J. Aprendendo a enxergar: mapeando o fluxo de valor para agregar valor e eliminar desperdício. São Paulo: Lean Institute, 2003. SLACK, Nigel; BRANDON-JONES, Alistair; JOHNSTON, Robert. Administração da Produção. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2018. WOMACK, J. P.; JONES, D. T. A Mentalidade Enxuta nas Empresas. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1998. 52 Planejamento de vendas e uso de indicadores produtivos Autoria: Charlie Hudson Turette Lopes Leitura crítica: Elaine Cristina Marques Esper Objetivos • Reconhecer a importância do S&OP para a empresa. • Compreender a importância de um bom balanceamento entre oferta e demanda. • Aprender as etapas de implementação do S&OP. • Compreender os principais indicadores produtivos. • Calcular o indicador OEE. 53 1. Planejamento de vendas e operações O planejamento é vital em todas as etapas da produção em uma organização. Buscar prever o que acontecerá em alguns anos com o mercado, com a tecnologia e com a sociedade, é condição vital para melhor tomada de decisão. Por isso, o planejamento deve ser cuidadosamente estudado, visando atingir resultados positivos no futuro, mesmo se estivermos lidando com cenários de extrema incerteza. O conceito de Planejamento de Vendas e Operações (do inglês Sales and Operations Planning – S&OP) surgiu para auxiliar as empresas nessas tomadas de decisões, ajudando a manter seus ciclos de demanda e oferta balanceadas. Para executar o S&OP, uma equipe de trabalho multidisciplinar deve ser montada. Essa equipe deve envolver vários níveis hierárquicos da empresa, até mesmo a presidência. Na Figura 1 são apresentados os principais setores organizacionais que devem ser envolvidos no S&OP. Figura 1 – Setores envolvidos no S&OP Fonte: adaptado de Wallace (2001, p. 77). 54 Veja um exemplo: a black friday é um período sazonal de aumento da demanda. Caso haja um desbalanceamento entre os setores expostos na Figura 1, a probabilidade de a empresa deixar de realizar as melhores vendas aumenta consideravelmente. O S&OP faz com que esses setores estudem o mercado e, juntos, escolham os produtos mais adequados para serem vendidos nessa época do ano. O S&OP deve ser operado pelo menos uma vez por mês e, nesta ação, toda a cadeia de suprimentos é analisada para que se possa realizar ajustes no planejamento de vendas. Las Casas (2012) afirma que, no Brasil e no mundo, as empresas, geralmente, utilizam uma sequência de seis etapas para realizarem seu planejamento: compilação de dados; percepção e estudos acerca do que poderá reduzir o crescimento da empresa; desenvolvimento de suposições; criação de objetivos e metas; planejamento das ações necessárias para atingimento das metas e; elaboração do cronograma dessas ações. Se bem executado, o planejamento de vendas e operações permite um alinhamento positivo entre o plano estratégico da empresa e o plano operacional. A análise dos resultados do planejamento permite um constante crescimento e melhoria contínua nas operações, segundo Wallace (2001). 1.1 Balanceamento de demanda e oferta Quando a demanda e oferta estão desbalanceadas o atendimento ao cliente fica prejudicado. A Figura 2 explica o que ocorre quando a oferta é maior do que a demanda (representado pelo símbolo + na figura) e quando a oferta é menor que a demanda (representado pelo símbolo – na figura). 55 Figura 2 – Consequências do desbalanceamento de demanda versus oferta Fonte: adaptado de Wallace (2001, p. 16). Explicando a Figura 2, o excesso de oferta causa: - Excesso de estoque: os produtos ficam encalhados na empresa, provocando aumento no inventário e no custo de estocagem. - Queda nos índices de produção: com o estoque cheio e um maior custo de estocagem, a empresa diminui a sua produção para tentar equilibrar as contas. As margens de lucro diminuem. Os preços caem, os descontos aumentam e se tornam frequentes. - Possibilidade de demissões: com a queda nos índices de produção, a empresa começa a cortar custos, o que vai gerar demissões e abalo na moral da empresa. Já deficiência de oferta causa: - Perda do prazo de entrega: a empresa negociará os prazos de entrega, não respeitando o prazo original. 56 - Perda de qualidade: com os prazos atrasados, a empresa aumentará a produção, que pode gerar queda na qualidade do produto. - Perda de negócios: com os prazos atrasados e queda na qualidade, a empresa perderá oportunidades de novos negócios e contratos ativos, gerando prejuízos. 1.2 Vantagens do S&OP A implantação do S&OP traz diversos benefícios tanto para empresas que produzem para estoque, quanto para empresas que produzem sob encomenda. Dentre essas vantagens, podemos citar as principais: • Foco no atendimento ao cliente. • Estoques reduzidos. • Prazos de entregas reduzidos. • Ritmo de produção mais estável com diminuição de horas extras. • Trabalho em equipe. • Atualização mensal do plano de negócios. • Maior agilidade e flexibilidade nas mudanças não programadas. • Retorno financeiro. • Integração entre oferta e demanda. • Capacidade de executar uma análise da causa principal. 57 1.3 Etapas de implantação do S&OP Wallace (2001) lista dezoito etapas para uma implantação bem-sucedida do S&OP. Etapa 1: apresentação inicial aos presidentes e diretores da empresa. É sugerido que essa apresentação tenha a duração máxima de uma hora e contenha os conceitos do S&OP detalhados, enfatizando o modelo integrado de gerenciamento e a disposição do time executivo para atingir os objetivos da empresa. Etapa 2: o projeto deve ser aprovado pela diretoria e comunicado a todos os setores envolvidos. É sugerido um evento especial para esta comunicação, com o intuito de aproximar as pessoas do projeto. Etapa 3: deve ser escolhido o gerente do processo, assim como a equipe executiva e a equipe do comitê de S&OP. O gerente do processo é responsável por acompanhar todo o processo de implementação.Etapa 4: um treinamento envolvendo os conceitos do S&OP deve ser realizado para as equipes escolhidas. É estimado o tempo de dois dias para esse treinamento. Etapa 5: definir a responsabilidade de cada envolvido no processo de implantação do S&OP. Etapa 6: definir quais produtos farão parte do S&OP. É um bom costume estabelecer até doze famílias de produtos. Etapa 7: definir a unidade de medida de cada família de produto. Etapa 8: estabelecer níveis de estoque para cada família de produto. Etapa 9: identificar os recursos críticos da produção com o intuito de definir a limitação da capacidade produtiva. 58 Etapa 10: definir time fence, que é um limite de horário para a utilização de aplicativos de trabalho ou pessoais. O objetivo do time fence é evitar sobrecarga de trabalho. Etapa 11: definir modelos estatísticos para previsão de vendas. Etapa 12: escolher uma ou duas famílias de produtos para elaborar o projeto piloto. Etapa 13: implantar o projeto piloto nas famílias escolhidas. Etapa 14: desenvolver as planilhas eletrônicas que serão as ferramentas de acompanhamento e controle. Etapa 15: desenvolver as planilhas eletrônicas de previsão de venda e planejamento em médio prazo. Etapa 16: quando as planilhas estiverem validadas e operando sem erros, desenvolver um software, que compile todas as áreas de controle, para ser integrado a base de dados corporativa. Etapa 17: criar o plano de melhoria contínua do projeto. Etapa 18: aplicar o modelo final as outras famílias de produtos escolhidas. Esse projeto tem o tempo médio de implementação entre sete meses a um ano. A Figura 3 informa o tempo de cada etapa. 59 Figura 3 – Cronograma de implementação do S&OP Fonte: Wallace (2001, p. 117). 2. Indicadores de produção Imagine uma fábrica de embalagens que não saiba quantas caixas produziu em um dia, quanto tempo levou para fabricar cada produto ou até mesmo quanto custou à produção daquele produto. Parece absurdo, mas existem empresas que não têm qualquer conhecimento de sua produção. Os indicadores de produção são vitais para que a empresa tenha total controle do seu processo produtivo. Somente por meio deste levantamento de dados, os gestores da empresa terão capacidade de questionar se os resultados foram positivos, atenderam à meta estabelecida ou foram negativos. A combinação dos principais indicadores da produção é conhecida pela sigla da língua inglesa KPI (Key Performance Indicator) ou Indicador Chave de Desempenho em português. São os indicadores responsáveis por auxiliar os gestores nas tomadas de decisões. 60 2.1 Tipos de indicadores Antes de você conhecer os principais tipos de indicadores, vamos fixar três conceitos importantes para o entendimento do funcionamento deles: • Índice: é o número que mostra o desempenho medido em um processo produtivo por meio dos indicadores. • Meta: é o valor que deve ser alcançado no processo produtivo. São estabelecidas pela diretoria ou gestores da empresa. • Tolerância: é a porcentagem aceitável, caso uma meta não seja batida. Agora, conheceremos alguns tipos de KPI’s utilizados nas organizações para avaliar a performance. Cruz (2019) lista da seguinte forma: • Indicador de capacidade: a capacidade de produção é medida pela relação entre a quantidade que se pode produzir e o tempo para produzir esta mesma quantidade. Exemplo: a indústria de embalagens tem capacidade de produzir um milhão de caixas de panetone por mês. • Indicador de produtividade: a produtividade é medida pela relação entre a saída de produto e o recurso utilizado para esta tarefa. Exemplo: a indústria de embalagens tem uma impressora que imprime 1.000 caixas de panetone, por hora, e outra que imprime 800 caixas de panetone, por hora. Logo, a segunda impressora é menos produtiva que a primeira. • Indicador de qualidade: a qualidade é medida pela relação entre a contagem total de produtos fabricados e os produtos defeituosos. Exemplo: a impressora da indústria de embalagens 61 produziu 1.000 caixas, mas 100 estavam fora do padrão de qualidade, ou seja, a empresa teve 90% de conformidade. • Indicador de lucratividade: a lucratividade é calculada pela relação percentual entre o lucro e as vendas totais. Exemplo: a indústria de embalagens vendeu R$ 100.000 em produtos e o lucro constatado foi de R$ 10.000. Portanto, a lucratividade foi de 10%. • Indicador de rentabilidade: a rentabilidade é calculada pelo percentual entre lucro e investimento realizado pela empresa. Exemplo: a indústria de embalagens investiu R$ 500.000 e obteve o lucro de R$ 10.000. A sua rentabilidade foi de 2%. Entre tantos tipos de indicadores, como as empresas devem escolher os seus? Primeiramente, devemos avaliar quais serão os indicadores de desempenho estratégicos, ou seja, se a empresa está cumprindo as metas desdobradas do planejamento estratégico. Em seguida, avaliaremos os indicadores de desempenho de processos, que, geralmente, são avaliados por índices (números), que retratarão o processo como um todo em um fragmento deste, segundo Cruz (2019). 2.2 Indicadores utilizados na filosofia enxuta Segundo Tavares (1996), os maquinários com paradas longas e não programadas influenciam em perda de concorrência. Entregar produtos com atrasos ou com baixa qualidade, pode ser uma consequência desastrosa oriunda de equipamentos não confiáveis, principalmente se não forem utilizados indicadores adequados para medir o tamanho do problema. Com a evolução dos sistemas produtivos, diversas metodologias surgiram para sanar essa situação, entre elas, o Lean Manufacturing, ou seja, Manufatura Enxuta. 62 Baseado na filosofia lean, as organizações passaram a focar não somente em dados financeiros, mas também no seu sistema produtivo, como, por exemplo, a melhoria da disponibilidade e eficiência de seus equipamentos para que alcancem os objetivos que almejam. 2.3 OEE O índice de Eficiência Global de Equipamento (OEE) é um mensurador tridimensional, que estima três concepções: disponibilidade, performance e qualidade. Foi concebido dentro dos conceitos da metodologia Total Productive Maintenance (TPM), que significa Manutenção Produtiva Total, que, por sua vez, está relacionado como uma ferramenta da Manufatura Enxuta. Esse índice visa apresentar as perdas e custos que podem estar veladas no processo produtivo, segundo Nakajima (1989). 2.3.1 Estrutura das perdas do OEE O OEE proporciona uma perspectiva global do equipamento, apresentando seus dados de qualidade, desempenho e disponibilidade. A Figura 4 apresenta a estrutura das perdas que o OEE identifica. 63 Figura 4 – Estrutura das seis perdas de tempo Fonte: Slack; Brandon-Jones; Johnston (2018, p. 402). 2.3.2 Cálculo dos índices do OEE O indicativo de disponibilidade mostra o percentual de tempo em que a máquina trabalhou, e também aponta o percentual de tempo que ficou parada e suas respectivas causas. A performance está associada com a velocidade das linhas de produção e a inatividade dos recursos e a qualidade demonstra a reprovação de produtos não conformes realizados pelo equipamento, segundo Nakajima (1989). 64 A disponibilidade pode ser calculada, conforme a equação 1: A performance pode ser calculada, conforme a equação 2: A disponibilidade pode ser calculada, conforme a equação 3: O OEE é obtido pela multiplicação dos três índices acima, conforme a equação 4: 2.3.3 Montando uma tabela para o OEE Utilizando softwares de planilhas eletrônicas, uma tabela do OEE pode ser montada, como a Figura 5 indica: 65 Figura 5 – Modelo de uma tabela OEE Fonte: elaborada pelo autor. As colunas identificadas na Figura 5 podem ser descridas da seguinte forma: - Tempo total: este é o tempo que a empresa esteve com as portas abertas (por exemplo, a empresa abre às 7:00h e fecha às 17:00h. No total são dez horas funcionado, incluindo as paradas pra almoço e lanche). - Tempo programado: tempo total descontado de paradas que não sãode responsabilidade da produção (almoço, lanche, reunião, falta de serviço, intempéries do tempo e falta de energia). - Tempo produzindo: tempo em que a máquina estava ligada produzindo. 66 - Disponibilidade: é o percentual de aproveitamento do tempo, ou seja, o percentual entre a razão do tempo produzindo pelo tempo programado. - Produção teórica: é a capacidade de produção diária das máquinas. Os valores dessa produção, geralmente, são estabelecidos pela diretoria. - Produção real: produção realizada de fato pela empresa. - Performance: é o percentual da razão da produção real pela produção teórica. - Boas + ruins: é o total de itens produzidos (mesmo número da produção real). - Boas: quantidade de itens produzidos subtraídos das perdas de produção e dos itens refugados pela qualidade. - Qualidade: é o percentual entre os itens bons pelos itens totais produzidos. - OEE: Eficácia Geral do Equipamento é a multiplicação entre os percentuais de disponibilidade, performance e qualidade. 2.3.4 Classificação dos resultados do OEE Para Nakajima (1989), o resultado do OEE pode ser classificado da seguinte forma: • Menor que 65%: classificado como um índice inaceitável e que medidas devem ser tomadas o mais rápido possível. • Entre 65% e 75%: classificado como bom. 67 • Entre 75% e 85%: classificado como muito bom, o que apresenta potencial para alcançar o nível mundial. • Acima de 85%: classifica correspondente a uma empresa de classe mundial. Esse número é visto com um referencial de eficiência dentro das empresas. Nesta aula, vimos a importância do planejamento de vendas e do uso de indicadores de produção. Todas as técnicas aqui apresentadas devem ser avaliadas em conjunto com as características da organização em que se deseja implementá-las. O bom uso dos indicadores e do S&OP trarão melhor visão dos desperdícios da empresa, facilitando, assim, atuar nos itens que efetivamente precisam ser melhorados. Referências Bibliográficas CRUZ, T. Planejamento estratégico: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2019. LAS CASAS, A. L. Administração de vendas. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2012. MORAES, P. H. de A. Manutenção produtiva total: estudo de caso em uma empresa de automobilística. Dissertação (Mestrado em Gestão e Desenvolvimento Regional do Departamento de Economia, Contabilidade e Administração), Departamento de Economia, Universidade de Taubaté. Taubaté, 2004. NAKAJIMA, S. Introdução ao TPM – Total Productive Maintenance. São Paulo: IMC Internacional Sistemas Educativos Ltda., 1989. SLACK, N.; BRANDON-JONES, A.; JOHNSTON, R. Administração da produção. 8.ed. São Paulo: Atlas, 2018. TAVARES, L. Excelência na manutenção: estratégias para otimização e gerenciamento. Salvador: Casa da Qualidade, 1996. WALLACE, T. F. Planejamento de vendas e operações: guia prático. São Paulo: IMAM, 2001. 68 BONS ESTUDOS! Sumário Modelagem de processos e de rede de operações produtivas Objetivos 1. Modelagem de processos Referências Bibliográficas Planejamento e controle da produção e manufatura digital Objetivos 1. Planejamento e controle da produção Referências Bibliográficas Planejamento e controle da produção e manufatura digital Objetivos Planejamento de vendas e uso de indicadores produtivos Objetivos 1. Planejamento de vendas e operações 2. Indicadores de produção Referências Bibliográficas