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Prévia do material em texto

Indaial – 2023
Prof. Juliano Samways Petroski
1a Edição
Tradução
ÉTica na
Elaboração:
Prof. Juliano Samways Petroski
Copyright © UNIASSELVI 2023
 Revisão, Diagramação e Produção: 
Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech 
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI
Impresso por:
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI.
Núcleo de Educação a Distância. PETROSKI, Juliano Samways.
Ética na Tradução. Juliano Samways Petroski. Indaial - SC: Arqué, 2023.
192p.
ISBN 978-65-5646-654-5
ISBN Digital 978-65-5646-655-2
“Graduação - EaD”.
1. Ética 2. Tradução 3. Alteridade 
CDD 418.02
Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679
De início, afirmamos que é com grande honra, alegria, e tendo como bússola o 
compromisso de pensar o traduzir ético, que iniciamos nosso material acerca da Ética 
na Tradução! De igual forma, destacamos também que é com grande satisfação que 
trabalharemos aqui questões essenciais que permeiam o ato de traduzir, tendo como 
horizonte os limites dos processos criativos e técnicos da tradução, junto à questão da 
Ética que deve sempre pautar nossos textos. Vamos adentrar neste universo fascinante 
da Ética filosófica? Vamos lá? Contamos com você neste estudo de relevância, cujas 
ideias são de grande valia para a atuação profissional do tradutor. 
Nesse sentido, cabe apresentarmos aqui um breve “spoiler” do que estudaremos 
nesse curso, bem como encadear a sequência de conteúdos e ideias que nos farão 
trilhar tanto os mais variados caminhos da Ética, como pensar a tradução como criação 
responsável e de mãos dadas com a verdade do texto original, na medida do possível.
Tendo em vista a abrangência conceitual da Ética, na Unidade 1, nosso estudo se 
direcionará, num primeiro momento, a introduzir os diversos significados que o conceito 
apresenta, bem como seus temas centrais para, posteriormente, a partir de arcabouço 
teórico sólido e pertinente, podermos nos debruçar acerca da relação existente entre o 
tradutor e o texto. Desta forma, observaremos a questão da Ética como uma criação da 
Filosofia grega em termos etimológicos, bem como na criação de um pensamento originário 
e essencial nesta área do conhecimento, a saber, um guia para as ações virtuosas.
Para tanto, apresentaremos também uma breve história da Ética, dando ênfase 
àqueles autores que trataram também do rigor textual e pensaram o texto dentro dos 
domínios daquilo que consideramos ético. Assim, apresentaremos também os sistemas 
éticos e suas aplicações concretas, bem como sua relação com o objeto texto. 
Trata-se de versar sobre o valor do concreto e do real na produção do traduzir, 
ou seja, encarar a prática da escrita e a relação Ética com o real tendo o texto e o 
compromisso com a verdade: falaremos sobre ambos os assuntos.
Sem perder de vista essa contextualização histórica, após situarmos devidamente 
os sistemas éticos, dedicaremos a Unidade 2 a analisar a relação intrínseca entre a 
tradução e a responsabilidade, cujas questões se revelam primordiais para o ofício da 
tradução. Isso porque a responsabilidade se apresenta como um conceito-chave que 
une os mais variados sistemas éticos, os quais se relacionam de forma vigorosa com a 
verdade do texto. 
Veremos, então, na unidade, os aspectos inerentes ao ato de traduzir e criar, 
apontando aqueles teóricos da tradução e da Ética. Neste ponto, cabe destacarmos 
que não apenas a responsabilidade se apresenta como conceito-chave. Ora, é certo 
APRESENTAÇÃO
que existe também outro caráter ético que deverá ser ressaltado no ambiente da 
tradução: trata-se da alteridade. 
Posteriormente, outro tema importante a ser trabalhado e revisitado é a tradução 
como processo de Poética aliado ao rigor ético, bem como o processo de tradução. 
Ocorre que por mais que se trate de um processo científico e criativo, não se pode 
ignorar que a tradução se perfaz em um ato que demanda grande responsabilidade por 
parte do tradutor, razão pela qual se demonstra necessário e justificável essa caminhada 
pelas mais variadas éticas da responsabilidade.
Finalmente, na Unidade 3, vislumbraremos as questões mais práticas e alguns 
paradigmas históricos de enfrentamento do tradutor com os dilemas éticos. Em especial, 
observaremos o clássico problema de tradução do texto bíblico arcaico. 
Afinal de contas, a tradução foi um dos motivos para o desencadeamento 
de divergências relativas aos cultos religiosos católicos, no episódio que ficou 
conhecido como “o Cisma do Oriente” e que foi responsável pela cisão ocorrida no 
interior da Igreja Católica na Idade Média, criando assim um modo de pensar para 
as religiões. É tanto por isso que conceberemos o ato de traduzir como sendo a 
abertura responsável pela linguagem. 
Desta forma, ancorados em importantes pensadores sobre o tema, iremos 
analisar a prática da tradução e da Ética contemporânea, assim como os sistemas éticos 
contemporâneos, para enfim finalizarmos com algumas reflexões e conclusões sobre 
Ética e a tradução e, em especial, daquilo que deveria nos moldar como civilização.
Vivemos num mundo conectado, digital, na Era da Informação, na Era do 
Conhecimento, no mundo em que todos leem e comentam o universo dos outros, onde 
todos partilham seu dia a dia, onde um comentário acerca de uma foto pode mudar o dia 
de uma pessoa. Nesse mundo, não há como negar que todas as nossas ações devem 
ser calculadas, pensadas e meditadas. Da mesma forma um processo de tradução, ele 
deve ser pensado do início ao fim, calculado, descrito e finalizado. 
Em todas essas etapas, a Ética deve estar presente. E deve estar lá como 
um guia para as ações, como um crivo para o agir, uma filtragem de atitudes que nos 
acompanham desde as postagens nas redes sociais, até o trabalho mais complexo de 
se traduzir um dialeto quase extinto. Assim pensamos a Ética na tradução, como esse 
guia de trabalho e norte de atitudes que devem nos acompanhar.
Dito isso, e com a certeza de que este material será de grande auxílio à atuação 
de você, futuro profissional do âmbito da tradução, desejamos ótimos estudos e que o 
período de aprendizagem seja bem aproveitado!
Dr. Juliano Samways Petroski
Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e 
dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes 
completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você 
acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar 
essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só 
aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos.
GIO
QR CODE
Olá, eu sou a Gio!
No livro didático, você encontrará blocos com informações 
adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento 
acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender 
melhor o que são essas informações adicionais e por que você 
poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações 
durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais 
e outras fontes de conhecimento que complementam o 
assunto estudado em questão.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos 
os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. 
A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um 
novo visual – com um formato mais prático, que cabe na 
bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada 
também digital, em que você pode acompanhar os recursos 
adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo 
deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura 
interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no 
texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que 
também contribui para diminuir a extração de árvores para 
produção de folhas de papel, por exemplo.
Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, 
apresentamos também este livro no formato digital. Portanto,acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com 
versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
Preparamos também um novo layout. Diante disso, você 
verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses 
ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos 
nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, 
para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os 
seus estudos com um material atualizado e de qualidade.
ENADE
LEMBRETE
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma 
disciplina e com ela um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer seu conheci-
mento, construímos, além do livro que está em 
suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, 
por meio dela você terá contato com o vídeo 
da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-
res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de 
auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que 
preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um 
dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de 
educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar 
do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem 
avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo 
para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confi ra, 
acessando o QR Code a seguir. Boa leitura!
SUMÁRIO
UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AOS TEMAS CENTRAIS DA ÉTICA E NOSSA RELAÇÃO COM O 
TEXTO ...........................................................................................................................................1
TÓPICO 1 - INTRODUÇÃO ÀS QUESTÕES DA ÉTICA ............................................................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3
2 A ESSÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR ..................................................................................4
2.1 BREVE HISTÓRIA DA ÉTICA ................................................................................................................12
RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 17
AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................18
TÓPICO 2 - SISTEMAS ÉTICOS E SUA RELAÇÃO COM O OBJETO TEXTO ........................ 21
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 21
2 SISTEMAS ÉTICOS E O OBJETO TEXTO .......................................................................... 21
2.1 APLICAÇÃO DOS SISTEMAS ÉTICOS ..............................................................................................23
RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 34
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 35
TÓPICO 3 - A PRÁTICA DA ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL .......................... 39
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 39
2 A ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL ................................................................ 40
3 O TEXTO E O COMPROMISSO COM A VERDADE ............................................................. 46
LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 54
RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................................ 60
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................. 61
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 64
UNIDADE 2 — A TRADUÇÃO E A QUESTÃO DA RESPONSABILIDADE ...............................67
TÓPICO 1 - INTRODUÇÃO À ALTERIDADE NA TRADUÇÃO................................................ 69
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 69
2 INTRODUÇÃO À ALTERIDADE: ASPECTOS ÉTICOS DO TRADUZIR E CRIAR .................70
2.1 TEÓRICOS DA TRADUÇÃO E A ÉTICA ..............................................................................................78
RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 86
AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................87
TÓPICO 2 - OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO E ALTERIDADE ................................. 91
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 91
2 TRADUÇÃO E ALTERIDADE ............................................................................................. 92
2.1 TRADUÇÃO: DA POÉTICA À ÉTICA ...................................................................................................95
RESUMO DO TÓPICO 2 .........................................................................................................99
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................100
TÓPICO 3 - OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO COMO RESPONSABILIDADE .........105
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................105
2 A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE DE JEAN-PAUL SARTRE ........................................105
3 TRADUÇÃO E RESPONSABILIDADE ..............................................................................109
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 115
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 121
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................122
REFERÊNCIAS ....................................................................................................................125
UNIDADE 3 — A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS ............................... 131
TÓPICO 1 - TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM ........................133
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................133
2 A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS ...................................................133
2.1 UM ESTUDO DE CASO – O CISMA DO ORIENTE ........................................................................ 142
2.2 TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM .................................................146
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................... 151
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................152
TÓPICO 2 - A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA ...........................155
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................155
2 A TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA .................................................................155
2.1 SISTEMAS ÉTICOS CONTEMPORÂNEOS ......................................................................................158
RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................165AUTOATIVIDADE ................................................................................................................166
TÓPICO 3 - REFLEXÕES E CONCLUSÕES SOBRE ÉTICA E A TRADUÇÃO ......................169
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................169
2 REFLEXÕES E CONCLUSÕES ........................................................................................169
2.1 ÉTICA, ESCRITA E CIVILIZAÇÃO .................................................................................................... 170
LEITURACOMPLEMENTAR ................................................................................................ 177
RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................182
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................183
REFERÊNCIAS ....................................................................................................................187
1
UNIDADE 1 -
INTRODUÇÃO AOS TEMAS 
CENTRAIS DA ÉTICA E NOSSA 
RELAÇÃO COM O TEXTO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender o signifi cado, a origem e o desenvolvimento histórico do conceito de 
Ética;
• apreender o que são sistemas éticos e sua importância para o ato de traduzir;
• analisar a aplicação dos sistemas éticos no âmbito da tradução, conciliando o caráter 
criativo do ato de traduzir com a fi delidade ao texto original;
• distinguir a prática da escrita da relação com a Ética.
Com o objetivo de reforçar os conhecimentos adquiridos, a cada tema de 
aprendizagem desta unidade, você encontrará autoatividades planejadas a partir do 
conteúdo trabalhado. 
TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – INTRODUÇÃO ÀS QUESTÕES DA ÉTICA
TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – SISTEMAS ÉTICOS E SUA RELAÇÃO COM O OBJETO 
TEXTO
TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – A PRÁTICA DA ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O 
REAL
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure 
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
2
CONFIRA 
A TRILHA DA 
UNIDADE 1!
Acesse o 
QR Code abaixo:
3
INTRODUÇÃO ÀS QUESTÕES DA ÉTICA
1 INTRODUÇÃO
Quando pensamos acerca da tradução e seus horizontes éticos, devemos iniciar 
apresentando uma breve história dos pensadores, temas e questões pertinentes de 
grande valia que perfazem esse universo filosófico da Ética. Isso porque, embora a Ética 
esteja intrinsecamente relacionada ao ato de traduzir, nem sempre as questões dessa 
natureza envolvidas no processo de tradução mostram-se óbvias. Da mesma forma, 
devemos também apresentar, de maneira introdutória, como essas grandes questões 
éticas podem impactar o universo da escrita e da tradução, como de fato impactam.
Para tanto, inicialmente, falaremos de um breve vocabulário básico da Ética 
filosófica, sua relação com a moral e os hábitos, bem como sobre a terminologia adotada 
pelos gregos na fundação dessa área do conhecimento. Essa análise, a princípio 
etimológica, será importante para compreendermos a formação da Ética como uma 
disciplina de vasta atuação, que ultrapassa o universo da tradução, mas que abrange 
toda a esfera da vida prática. Trata-se, portanto, de uma passagem propedêutica na 
análise das questões que irão perfazer o universo histórico da Ética.
De forma essencial, colocaremos também algumas questões iniciais para 
meditarmos sobre como a escrita e o processo criativo humano se desenvolve no 
horizonte da Ética. Em sequência, veremos como a tradução, em seu desenlace também 
criativo, e igualmente amparada na questão técnica, se relaciona de forma contundente 
com a Ética. Afinal de contas, esta área do saber que se ocupou sempre em descrever 
o bom agir, agora pode nos ajudar a descrever como seria um “bom traduzir”, ou até 
mesmo uma conduta como “bom tradutor”. Vamos estudar e compreender melhor as 
relações entre o traduzir e a Ética? 
Com certeza! Vamos ao início das questões que nos importam sobre a Ética!
TÓPICO 1 - UNIDADE 1
4
Uma coisa que deve se esclarecer inicialmente é que devemos diferenciar um 
código de Ética, dentro de uma categoria de atuação, por exemplo, um código de Ética 
médica, código ético dos advogados, dos músicos etc. É possível vislumbrar alguns 
códigos de Ética de tradutores que já foram alçados ao público.
Dentre as diversas coisas que poderiam ser ditas acerca da Ética no âmbito 
da tradução, a primeira que salta aos olhos é que o código de Ética do tradutor não 
é algo unificado – tal como talvez deveria ser pelos órgãos de classe –, mas algo que 
parece restrito a instituições. Não obstante, a segunda coisa que precisa ser dita é que 
não basta, para a atuação do tradutor, seguir friamente o código de Ética sem antes 
trabalhar a temática e expandir sua consciência sobre o estudo formal da Ética, por 
meio da coleta de ferramentas teóricas e práticas indispensáveis para a profissão de 
tradutor. Algo importante de se lembrar é que o tradutor não é um transcodificador, ou 
seja, não é um mero aplicativo qualquer de tradução:
A responsabilidade pelo produto final da tradução só pode ser 
assumida pelo(a) tradutor(a) se primeiro isso lhe for garantido, e 
se não for tratado(a) como transcodificador(a) “impotente” que 
apenas oferece material bruto a ser processado pelo(a) especialista 
ou artista “de fato” [...]. Apesar de todos os trabalhos publicados 
por pesquisadores da tradução nas últimas décadas, apesar dos 
esforços das associações de tradutores em codificar padrões, 
normas e condições de trabalho, [...] e por contraste com a profissão 
de intérprete de conferências, entrementes mais respeitada, [...] a 
posição e a imagem do(a) tradutor(a) no mercado praticamente não 
melhoraram (SNELL-HORNBY, 2006, p. 172).
Somente enriquecendo o debate acerca da Ética na tradução é que podemos 
melhorar nossas práticas e condutas. Afinal, só podemos melhorar aquilo que bem 
conhecemos e possuímos afinidade prática, como qualquer ciência aplicada no 
universo do saber. Para ilustrar essa questão da Ética na tradução de forma prática, 
vamos observar alguns dos vários Códigos de Ética do Tradutor, disponíveis na internet, 
para verificar a capacidade ou não de darem conta dos problemas éticos da tradução. 
Observe o Código de Ética do Tradutor, a seguir, inserido em sua totalidade, e um trecho 
do código de conduta e Ética da Federação brasileira das associações dos profissionais 
tradutores e intérpretes e guia-intérpretes de língua de sinais:
2 A ESSÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR
5
CÓDIGO DE ÉTICA DO TRADUTOR
Parte integrante dos Estatutos do Sindicato Nacional dos Tradutores - SINTRA
* Aprovado em Assembleia Geral em 19 de fevereiro de 1991
CAPÍTULO I
Princípios Fundamentais
Art.1° - São deveres fundamentais do tradutor:
§1° respeitar os textos ou outros materiais cuja tradução lhe seja confi ada, não 
utilizando seus conhecimentos para desfi gurá-los ou alterá-los;
§2° exercer sua atividade com consciência e dignidade, de modo a elevar o 
conceito de sua categoria profi ssional;
§ 3° Utilizar todos os conhecimentos lingüísticos, técnicos, científi cos ou outros 
a seu alcance, para o melhor desempenho de sua função;
§4° empenhar-se em participar da tomada de decisões do seu órgão de classe 
e em vê-las acatadas, em particular no que se refere à remuneração justa, às 
condições de trabalho e ao respeito aos direitos do tradutor;
§5° solidarizar-se com as iniciativas em favor dos interesses de sua categoria 
profi ssional, ainda que não lhe tragam benefício direto.
CAPÍTULO II
Relações com os Colegas
Art. 2° - O tradutor deve tratar os colegas com lealdade, respeito e solidariedade.
Art. 3° - O tradutor deve abster-se de qualquer ato que signifi que concorrência 
desleal a outros tradutores ou exploração do trabalho de colegas, seja em 
sentido comercialou outro.
CAPÍTULO III
Relações com o Contratante do Serviço
Art. 4° - O tradutor deve servir lealmente ao interesse de quem lhe contratou o 
serviço.
Art 5° - O tradutor deve empenhar-se em lavrar previamente por escrito, com o 
contratante do serviço, as obrigações recíprocas concernentes ao trabalho em 
causa.
CAPÍTULO IV
Do Segredo Profi ssional
Art. 6° - O tradutor é obrigado a guardar segredo sobre fatos de que tenha 
conhecimento por tê-los visto, ouvido ou deduzido no exercício de sua atividade 
profi ssional, a menos que impliquem delito previsto em lei ou que possam gerar 
graves consequências ilícitas para terceiros.
6
CAPÍTULO V
Responsabilidade Profi ssional
Art. 7° - O tradutor é responsável civil e penalmente por atos profi ssionais 
lesivos ao interesse do contratante de seus serviços, cometidos por imperícia, 
imprudência, negligência ou infrações Éticas.
CAPÍTULO VI
Aplicação deste Código
Art. 8° - Cabe ao Sindicato Nacional dos Tradutores – SINTRA a apuração de 
faltas cometidas contra este Código de Ética, a aplicação das penalidades 
previstas nos Estatutos do SINTRA e, quando cabível, o encaminhamento do 
caso aos órgãos competentes.
Art. 9° - Com discrição e fundamento, o tradutor dará conhecimento ao SINTRA 
dos fatos que constituam infração às normas deste Código.
Fonte: http://www.tradulex.com/Regles/SintraEt.htm. Acesso 29 dez. 2022.
FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DOS PROFISSIONAIS 
TRADUTORES E INTÉRPRETES E GUIA - INTÉRPRETES DE LÍNGUA DE 
SINAIS
CAPÍTULO III
DA RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL
Art. 10 - É de responsabilidade do TILS e do GI:
I. Manterem-se informados e atualizados sobre quaisquer assuntos concernentes 
à profi ssão.
II. Buscar formação continuada e aperfeiçoamento profi ssional.
III. Apresentar-se adequadamente com relação à postura e à aparência.
IV. Utilizar todos os conhecimentos linguísticos, técnicos, científi cos, ou outros a 
seu alcance, para o melhor desempenho de sua função.
V. Solidarizar-se com as iniciativas em favor dos interesses de sua categoria, 
ainda que não lhe tragam benefício direto.
Art. 11 - O TILS e o GI devem observar a Tabela de Referência de Honorários 
vigente da Febrapils e aplicá-la sempre que necessário, exceto, quando houver 
desvantagem fi nanceira.
Art. 12 - O TILS e o GI são responsáveis civil e penalmente por atos profi ssionais 
lesivos ao interesse do Solicitante e Benefi ciário de seus serviços, cometidos por 
imperícia, imprudência, negligência ou infrações Éticas.
Art. 13 - É dever, exclusivamente do GI:
I. Conhecer as diferentes formas de comunicação utilizadas pelas pessoas 
7
surdocegas e conhecer as tecnologias assistivas.
II. Ter conhecimento das especifi cidades atribuídas às pessoas surdocegas, 
descrever todos os aspectos visuais e auditivos durante o processo de tradução 
e interpretação e facilitar sua mobilidade.
Art. 14 - É vedado ao TILS e ao GI:
I. Dar conselhos ou opiniões pessoais, exceto quando requerido e com anuência 
do Solicitante ou Benefi ciário.
II. Executar qualquer ato que caracterize concorrência desleal ou exploração do 
trabalho de colegas.
III. Usar informações confi denciais traduzidas ou interpretadas para benéfi cos 
próprio para ganho profi ssional.
IV. Usar de qualquer propaganda pessoal no exercício de sua função.
V. Evitar o uso de substâncias que alterem o estado psicoemocional de modo a 
não prejudicar o desempenho profi ssional.
CAPÍTULO IV
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS
Art. 15 - Quando houver um confl ito entre este código e a legislação municipal, 
estadual ou federal, prevalecerá a lei hierarquicamente superior.
Art. 16 - O TILS e O GI que se dispuserem à prestação de serviços voluntários 
devem observar as normas contidas neste documento, bem como à Lei Federal 
9.608/98 que dispõe sobre o serviço voluntário e dá outras providências.
Art. 17 - O presente Código poderá ser alterado, de acordo com as necessidades 
da Febrapils, por votação de no mínimo dois terços (2/3) dos membros efetivos 
presentes a uma Assembleia Geral Ordinária.
Art. 18 - Os casos omissos serão resolvidos pelo Conselho de Ética da Febrapils.
Art. 19 - Este Código de Conduta e Ética da Febrapils entrará em vigor a partir da 
data de sua aprovação em Assembleia Geral e registro em cartório.
Fortaleza - CE, 13 de abril de 2014.
Fonte: https://febrapils.org.br/wp-content/uploads/2022/01/Codigo-de-Conduta-e-Ética.
pdf. Acesso em: 29 dez. 2022.
Logo no início do Código de Ética, cabe destacar o seguinte trecho: “exercer sua 
atividade com consciência e dignidade, de modo a elevar o conceito de sua categoria 
profi ssional”. Uma primeira pergunta que poderia ser levantada, a partir do excerto acima 
citado, seria a seguinte questão: afi nal, o que poderia ser defi nido como consciência e 
dignidade? De onde tiramos essa defi nição? De nossa própria consciência? Qual é o 
signifi cado imbuído em ambos os conceitos?
8
Por sua vez, o parágrafo posterior traz o seguinte comando: “Art. 2° - O tradutor 
deve tratar os colegas com lealdade, respeito e solidariedade”. E quem define o que é 
lealdade, respeito, solidariedade? A resposta para a elucidação e transposição para a 
vida prática desse código de Ética está na Filosofia, sua subárea Ética, sendo amparada 
pelos grandes pensadores que avançaram nesse quesito.
Da mesma forma, no código de conduta da Federação Brasileira das Associações 
dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-intérpretes de língua de sinais:
CAPÍTULO III DA RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL Art. 10 - É 
de responsabilidade do TILS e do GI: I. Manterem-se informados e 
atualizados sobre quaisquer assuntos concernentes à profissão. II. 
Buscar formação continuada e aperfeiçoamento profissional. III. 
Apresentar-se adequadamente com relação à postura e à aparência. 
IV. Utilizar todos os conhecimentos linguísticos, técnicos, científicos, 
ou outros a seu alcance, para o melhor desempenho de sua função.
Note, caro acadêmico, que aqui também existem questões subjetivas a serem 
perseguidas, questões de aparência, questões de atualização profissional e diversas 
outras. A partir da simples leitura dos trechos acima destacados, é possível perceber 
que sem uma base sólida acerca do pensamento da Ética e dos sistemas filosóficos que 
perfazem essa trajetória, a compreensão do código de Ética seria de grande dificuldade, 
o que por sua vez acabaria por prejudicar o cumprimento adequado dos comandos 
contidos nos códigos acima ilustrados. Neste ponto, cabe trazermos a preciosa 
passagem de OLIVEIRA (2015) sobre o tema:
O tradutor está comprometido bilateralmente com as situações de 
saída e de chegada, tendo responsabilidade tanto face ao emissor do 
TP [texto de partida] [...] quanto ao receptor do TC [texto de chegada]. 
É a essa responsabilidade que chamo de lealdade. Lealdade é um 
princípio moral indispensável nas relações entre seres humanos que 
são parceiros no processo de comunicação (NORD, 1991, p. 94 apud 
SNELL-HORNBY, 2006, p. 78).
Sabe-se que não somente a lealdade que o tradutor deve ter com o receptor 
leitor, mas também a responsabilidade, a justiça, a correção e a alteridade são princípios 
éticos que parecem ser óbvios dentro da conduta humana. Contudo, na prática, é certo 
que não é assim que ocorre. A parceria no processo de comunicação requer muito mais 
do que uma breve intuição do que é a lealdade ou responsabilidade. Requer, sobretudo, 
uma meditação mais atenta acerca da Ética.
A Ética, tal como a conhecemos, é uma criação da Filosofia. Há pelo menos 
2500 anos o pensamento ocidental pensa formalmente produzindo múltiplas teorias 
e definições acerca da questão Ética. E quando falamos formalmente, queremos 
dizer que pensamos a Ética de forma sistemática, de forma analítica, isto é, dentro do 
desenvolvimento histórico temático daquilo que chamamos de Filosofia. É de suma 
importância conhecer a base teórica da Ética para aplicá-la ao universo da tradução.
9
Nesse sentido, precisamos esclarecer o seguinte ponto: não é como se as 
civilizaçõese povos anteriores ao nascimento da Filosofia não tivessem pensado sua 
própria moralidade, hábitos e costumes. Ocorre, todavia, que foi somente através da 
Filosofia que se tornou possível juntar a esse pensamento sobre a moralidade um caráter 
de pesquisa, de produção textual e também de produção de cultura em larga escala. Isso 
porque foi a partir da filosofia que emergiu o debate público de ideias que amplifica nosso 
pensamento sobre o que seria correto ou não ao agirmos, sobre o que seria o justo a ser 
feito, o respeitoso a ser seguido, ou seja, o pensamento sobre a verdade nas ações.
E qual é o objeto de estudo da Ética? Podemos dizer que a Ética busca estudar, 
teorizar, aplicar e predizer a ação humana, ou seja, o nosso agir. A melhor prática, a 
melhor ação, a atitude justa, a bela, a conduta que poderia ser classificada como boa 
e adequada: digamos que é em torno desse universo temático que a Ética tem se 
desenvolvido e se dedicado a estudar durante esses milhares de anos que datam do seu 
surgimento formal. Neste momento, imaginamos que você deve questionar o seguinte: 
“Quando isso se deu? Quando começamos a formalmente contemplar e produzir teorias 
em larga escala sobre a Ética?” Não se preocupe. As respostas para tais indagações 
encontram-se logo a seguir.
É especialmente a partir do filósofo grego Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) 
que se consolida o termo “Ética´” como área definida da Filosofia, como estudo dos 
próprios costumes, hábitos e como deveríamos agir na polis. Sobre o ponto, assim nos 
ensina George Edward Moore (1975, p. 4):
A primeira é a palavra grega éthos, com “e” curto, que pode ser traduzida 
por costume [ou hábito], a segunda também se escreve éthos, porém 
com “e” longo, que significa propriedade do caráter. A primeira é a que 
serviu de base para a tradução latina Moral, enquanto a segunda é a 
que, de alguma forma, orienta a utilização atual que damos à palavra 
Ética. Ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom. 
Embora não seja possível precisar o local e a data em que surgiu o uso do 
conceito ético, sabe-se que foi apenas a partir dos séculos V e VII a.C., na Grécia antiga, 
que surgiram os primeiros usos da palavra éthos, sufixo vocabular que dá origem à 
palavra “Ética”. Naquele tempo, os gregos utilizavam essa palavra, o éthos, para designar 
os hábitos e costumes de dadas civilizações e deles mesmos. Os costumes religiosos, os 
hábitos comerciais, bem como a cultura de convivência estabelecida entre as pessoas 
na cidade, tudo isso era entendido como o éthos de uma população ou agrupamento 
de pessoas: como comiam, como se vestiam, como formavam as famílias, leis, religião 
e assim por diante. 
Dito isso, é essencial agora fazermos uma primeira distinção entre aquilo que se 
consolidou no universo da Filosofia, qual seja, aquela que diz respeito à Ética e a moral. 
Ocorre que, ao contrário do que se costuma pensar, existe uma diferença importante 
entre Ética e moral: a Ética é um estudo formal sobre as várias moralidades existentes 
10
no mundo. Por sua vez, a moral pode ser traduzida, grosso modo, como a descrição das 
atitudes e hábitos de determinadas sociedades, populações, agrupamento de pessoas. 
Assim, é preciso ter em mente que, muito embora possam parecer sinônimos, os 
conceitos de Ética e moral não possuem significados equivalentes e nem tampouco se 
debruçam sobre o comportamento humano através da mesma perspectiva. Em resumo, 
a distinção operada entre esses dois conceitos pode ser assim resumida:
Ética. s.f. 1. (Fil.) Estudo dos valores e normas que permeiam a 
conduta humana dentro da vida prática. 2. (Fil.) Conjunto desses 
valores e normas. (2008, p. 555). Moral. adj.1.Relativo aos bons 
costumes: valores morais. 2. Pertencente ao domínio do espírito, 
da consciência, por oposição ao físico e material: sofrimento moral. 
3. Que segue as regras de conduta socialmente aceitas, correto, 
austero, ético: atitude moral. 4. Que encerra uma lição, que ensina e 
educa; edificante: fábula moral. S.m. 5. Conjunto dos valores morais 
de uma pessoa ou grupo: Aquela gente preza o moral mais que tudo. 
6. Disposição de espírito, de ânimo: O médico procurou levantar o 
moral do paciente. 7. Espírito de luta diante de dificuldades e perigos; 
brio, energia, coragem: O comandante exaltou o moral da tropa antes 
do combate. Sf. 8. (Fil.) Parte da filosofia que estabelece as regras 
de conduta, fundadas na noção do bem e do mal. 9. Conjunto dos 
princípios normativos do comportamento de um grupo social ou de 
uma sociedade: moral burguesa, moral cristã. 10. Ensinamento ou 
lição que e tira de um fato real ou de uma obra de ficção: E esta é 
a moral da história. 11. coloq. Pretensão de importância ou prestígio 
diante de outro(s): Achou-se cheio de moral por ter sido promovido2 
(ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2008, p. 877).
A partir disso, devemos observar, então, uma breve descrição vocabular do éthos:
Tabela 1 – O significado de éthos:
O nascimento da Ética se dá pela palavra éthos: 
Possíveis traduções Significado
Hábito
• Coisas feitas no cotidiano da cidade, 
da vida pública e privada, o hábito de 
se rezar para tais deuses, por exem-
plo.
Costumes
• Atividades que eram ensinadas de 
geração em geração, por exemplo, 
ensinar e educar um filho sobre tais 
aspectos de éthos.
Propriedade ou caráter
• Modo de ser e de estar, ligado a 
ações virtuosas ou não virtuosas. 
Ânimo, motivação, forma de agir.
Fonte: adaptada de Moore (1975, p. 4)
11
Realizada esta primeira incursão acerca do vocabulário da Ética, cabe agora uma 
apresentação inicial das questões que essa área de estudos nos traz, em especial, como 
essas questões se relacionam com o trabalho textual e com a tradução propriamente 
dita. E quais seriam as questões essenciais dessa Ética que nasce com a Filosofia? Ora, 
são inúmeras: desde a definição mais simples em torno do agir, até as definições mais 
complexas de uma teoria da justiça e responsabilidade. A Ética pensa o bom, o justo, 
o responsável, o respeito, a questão da alteridade e do outro, o certo, o correto a fazer. 
A esse respeito, preciosas são as lições extraídas do Dicionário de Filosofia de Nicola 
Abbagnano acerca da Ética:
Existem duas concepções fundamentais dessa ciência: 1- a que a 
considera como ciência do bem para o qual a conduta dos homens 
deve ser orientada e dos meios para atingir tal fim, deduzindo tanto 
o fim quanto os meios da natureza do homem; 2- a que a considera 
como a ciência do móvel da conduta humana e procura determinar 
tal móvel com vistas a dirigir ou disciplinar essa conduta. Essas 
duas concepções, que se entremesclaram de várias maneiras na 
Antiguidade e no mundo moderno, são profundamente diferentes e 
falam duas línguas diversas. A primeira fala a língua do ideal para 
o qual o homem se dirige por sua natureza e, por conseguinte, da 
"natureza", "essência" ou "substância" do homem. Já a segunda fala 
dos "motivos" ou "causas" da conduta humana, ou das "forças" que 
a determinam, pretendendo ater-se ao conhecimento dos fatos 
(ABBAGNANO, 2007, p. 380).
Voltaremos a essas questões que Abbagnano (2007) relaciona como formas 1 e 
2 de definir a Ética, a saber, como uma ciência do bem, ou como estudo das causas do 
agir. Antes, contudo, devemos esboçar essas questões essenciais que a Ética nos traz.
Entre essas questões, a primeira que gostaríamos de chamar a atenção é sobre 
a “natureza do bem”. O que é o bem? Como ele se distancia do mal? Tais indagações 
sempre serão feitas em algum momento das nossas vidas. No âmbito do ofício do 
tradutor não é diferente, afinal, e na vida da escrita e tradução? O que seria agir de forma 
boa como um tradutor? 
A natureza do bem e do mal é um constante questionamento da Ética e deve 
ser levado em nossa prática de trabalhar com textos, e podemos até expandir a questão: 
há uma natureza boa ou má dentro de um texto? E sua tradução? Traduzir pode ser 
bom ou mal? Como veremos à frente, alguns dos sistemas éticosde maior impacto na 
História da Filosofia vão nos traçar um guia acerca do que é o bem, e o que devemos 
fazer para alcançá-lo. 
Outra questão essencial da Ética é sobre a natureza da justiça. Tratar de 
forma igualitária as pessoas em nossas relações cotidianas pode ser um exemplo de 
justiça. Tratarmos nossas decisões comuns com o mesmo critério de responsabilidade, 
tentando não prejudicar o próximo, ou não passar por cima das pessoas, pode ser 
também um exemplo de justiça. Mas o que seria o justo em si que conduziria todas as 
ações humanas? Ele existe?
12
Essa é mais uma colossal questão Ética que podemos transpor para nossa 
atividade da escrita ou tradução: onde estaria o texto traduzido de forma mais justa 
possível? Afinal, no âmbito da escrita ou tradução não somos/seremos cobrados por 
isso? A justiça, sem sombra de dúvida, é mais uma grande questão da Ética e tenta ser 
desvendada pelos mais influentes pensadores nesses vários séculos de Filosofia.
Além da justiça, podemos ainda elencar a responsabilidade como um grande 
tema ético. Agir de acordo com um código de condutas, tendo engajamento com o que 
é bom e justo é aquilo que buscamos de um ato responsável, principalmente, pensando 
na questão do outro. Da mesma maneira, o engajamento com a conduta correta ao 
escrever e traduzir também nos aproxima da responsabilidade com o nosso entorno 
social, bem como no entorno de alcance de uma obra, ou mesmo numa tradução 
imediata para outros interlocutores. Mas como ser responsável ao traduzir e propagar 
comunicação?
O respeito surge também como grande questão Ética, tendo como foco de 
meditação e atuação na existência do outro. Afinal, não vivemos em sociedade? O 
respeito por aqueles que nos cercam amplifica-se ainda mais ao pensarmos no alcance 
de um texto e sua tradução. Quantas pessoas são impactadas e tocadas por uma 
tradução? Agir de forma respeitosa, como veremos, não é somente um detalhe na vida 
cotidiana, mas um mandamento que os vários sistemas éticos irão nos mostrar.
As questões éticas se apresentam como um amplo pensar sobre o que é o 
certo a ser feito, buscando o bem, a justiça, a responsabilidade e o respeito. Ou todos 
juntos? Como aplicar esses atributos ao nosso ofício da escrita e tradução? Milhares de 
pensadores se debruçaram sobre essas questões e de antemão sabemos que há uma 
pluralidade de ideias e correntes que fundamentam a Ética. Conhecê-las e aplicá-las no 
âmbito da tradução é nosso dever.
Vejamos então o aprofundamento e desdobramentos das questões da Ética!
2.1 BREVE HISTÓRIA DA ÉTICA
Muitos pensadores gregos antigos, desde os primeiros pré-socráticos 
(chamados assim, pois viveram antes ou no mesmo período que Sócrates) dos séculos 
VII e VI a.C., já falavam de um éthos e o pensaram e o fundamentaram preliminarmente, 
de forma crítica. Desde a época mais remota do início da Filosofia algumas questões 
Éticas começaram a tomar corpo na obra destes autores, porque a sociedade grega 
assim evoluiu para cada vez mais resolver as coisas de forma pública. Nascia o ambiente 
público de debate, aquilo que daria à luz futuramente como ambiente democrático de 
ideias, por mais que a democracia se mostrasse ainda de forma restrita.
13
Pena que pouco dessas obras dos pré-socráticos nos chegaram. Por vários 
motivos, inclusive aqueles de caráter histórico como embate entre cidades-estados, 
essas obras não sobreviveram em sua totalidade. É a partir de Platão de Atenas (428-
343 a.C.) e Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) que obtivemos escritos mais completos 
sobre Ética que permaneceram, apesar da força do tempo. Muito, inclusive, do que 
diziam os pré-socráticos, foi resguardado na obra de Platão e Aristóteles. 
O sentido da Ética aparece assim em sua fundação, advindo do termo 
éthos, sacramentado pelos gregos, como um estudo sobre o agir: costume, caráter 
e hábito. Os pensadores da Grécia antiga deram início, então, à Filosofia como 
hoje a conhecemos, e desde lá, a Ética é assunto constante, a partir dos primeiros 
pensadores pré-socráticos. Por mais que o principal assunto dos pré-socráticos fosse 
fundamentar a natureza em termos físicos, a pauta moral estava presente, e faria 
surgir um pensamento ético mais elaborado.
Xenófanes de Colofão ( -570 a.C.) foi um dos primeiros pensadores pré-
socráticos, que apesar de pouca coisa da sua obra ter sido preservada, criticava de 
forma ácida a moralidade, os hábitos e costumes gregos, principalmente, os da tradição 
da poesia épica. Outros pensadores do período – como Heráclito de Éfeso (500-450 
a.C.), ou mesmo o grande Sócrates de Atenas (470-399 a.C.) versaram muito sobre a 
moralidade, mas é a partir de Aristóteles que observamos a consolidação do termo 
“Ética”, utilizada como estudo da moral, dos hábitos.
Com relação às figuras, segue um exemplo:
Figura 1 – Aristóteles de Estagira
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles#/media/Ficheiro:Aristotle_Altemps_Inv8575.jpg. 
Acesso em: 28 mar. 2023.
14
Tanto esses primeiros pensadores, quanto os pensadores por vir, todos iriam 
pensar a Ética a partir de duas concepções fundamentais. Essas concepções, algo 
importante a ser ressaltado, se dão ao buscarmos as respostas para questões Éticas 
em dois guias de análise acerca da natureza das decisões Éticas: ou nós pensamos a 
natureza das nossas ações em si, ou seja, agimos de tal forma porque precisamos 
necessariamente agir assim independentemente da consequência dessa ação, ou 
agimos pensando na consequência de nossas ações.
Quando agimos não pensando na consequência, mas 
na ação em si, chamamos esse pensar e essa ação 
de deontológica, uma Ética não consequencialista. 
Observando a etimologia da palavra, temos que 
“déontos” signifi ca “dever” e “lógico” o estudo, o estudo 
do dever de qualquer ação. Assim, não se deve esperar 
que nossa ação traga responsabilidade, mas a própria 
ação é responsável por si mesma. Já quando pensamos 
na consequência de nossa ação, chamamos essa Ética 
de teleológica, ou seja, uma Ética consequencialista. 
Observando também a etimologia da palavra, temos 
que “téleos” signifi ca “fi nalidade” e “lógico” o estudo, a 
saber, o estudo dos fi ns da ação. Assim, quando agimos, 
devemos esperar a consequência dessa ação como 
uma espécie de conquista do ato: agimos dessa forma 
para sermos felizes, para sermos justos, corretos etc.
ATENÇÃO
Temos os dois casos de agir ético conforme a consequência 
Tipo de Ética O que busca?
Deontológica – Não 
consequencialista
• É o juízo ético que trata da natureza “em si” de nossas 
ações. Não busca um motivo ou consequência, é uma 
ação sem fi m e sem meios. Exemplo: independente de 
qual seja o fi m do meu agir, tenho de possuir uma postu-
ra correta. Agimos por dever agir!
Teleológica – 
Consequencialista
• É o juízo e ação ética que trata da fi nalidade e consequ-
ências de nossas ações. As ações teleológicas sempre 
visam a um fi m último, como a felicidade, o bem, o res-
peito, ou seja, agimos de tal maneira para concretizar um 
fi m. Exemplo: agimos dessa forma porque queremos ser 
felizes, ser ricos, ser belos etc. Agimos para chegar a uma 
consequência!
Tabela 2 – Tipos de pensamentos éticos conforme a consequência
Fonte: o autor
15
E a tradução? E a produção de texto? A tradução, ou qualquer outra atividade 
textual e seus fins também se enquadram em visões deontológicas e teleológicas 
quanto á Ética? Sem sombra de dúvidas!
Quando nos importamos com a responsabilidade e justiça de um texto em si, 
não observando ou esperando alguma finalidade a mais nesse texto, verifica-se um 
texto sustentado por uma Ética deontológica, a saber, não nos importa o impacto que 
esse texto terá, ele em si é justo, responsável e correto. Da mesma forma, a tradução: 
se traduzimos pensando na própria consciência, sendo correto e justo por mim mesmo, 
será uma tradução deontológica.
Agora, quando traduzimos e escrevemos um texto esperando que ele tenha por 
consequência a felicidade, responsabilidadeou justiça de alguém ou algo, trata-se de 
um texto com estrutura Ética teleológica. Em resumo: ou traduzimos pensando no texto 
em si, ou traduzimos pensando na consequência desse texto.
Inicialmente devemos marcar uma distinção entre "escrever um texto" e "traduzir 
para uma finalidade". O autor que nos ajuda nesse sentido é Mikhail Bakhtin (1895-1975). 
Ele foi um importante filósofo e teórico literário russo do século XX. Ele desenvolveu uma 
teoria da linguagem que enfatiza a sua dimensão social e cultural, e que reconhece a 
diversidade e a multiplicidade de vozes que se expressam em qualquer texto.
Uma das ideias fundamentais de Bakhtin é que todo texto é, de certa forma, uma 
tradução. Isso porque, segundo ele, a linguagem é sempre uma mediação entre o indivíduo 
e o mundo exterior, e qualquer expressão linguística reflete a influência de múltiplos fatores, 
tais como a cultura, a história, a posição social e a visão de mundo do falante.
No entanto, Bakhtin também defende a importância de se fazer uma distinção 
rigorosa entre "escrever um texto" e "traduzir para uma finalidade". Para ele, escrever um 
texto é uma atividade criativa que envolve a escolha e a combinação de palavras, frases e 
estruturas que reflitam a perspectiva e a intenção do autor. Já traduzir para uma finalidade 
é uma atividade que busca transferir o sentido de um texto original para outra língua ou 
para outro contexto, mantendo o máximo possível da sua forma e do seu conteúdo.
Assim, para Bakhtin, o escritor tem a liberdade de criar e inovar na construção 
do texto, enquanto o tradutor tem a responsabilidade de ser fiel ao original e respeitar as 
suas características mais importantes. Ambos são atividades importantes e necessárias, 
mas requerem habilidades e competências diferentes.
Uma questão que deve estar em sua mente agora, ao ler essas definições, paira 
acerca da possibilidade de escrever algo, ou traduzir, sem pensar no fim a que essa 
ação se destina. Seria possível? Será que ao traduzir ou escrever não colocamos sempre 
um fim dessa ação no horizonte? É possível esse “em si”? Alguns pensadores irão nos 
mostrar que sim, veremos essas ideias logo à frente.
16
Esse fim, que pode ser estritamente técnico, ou seja, entregar um texto bem 
traduzido simplesmente cumprindo seu papel, pode ser também com motivação 
estética, ou seja, traduzir revelando uma beleza Poética existente nas palavras. Em 
suma: a produção e tradução de um texto pode ter vários fins. Porém, quando pensamos 
no impacto ético desse ato de escrever ou traduzir, esse impacto ético ou é em si, 
deontológico, ou buscando alguma consequência, a saber, teleológico.
Vamos a um exemplo mais prático. Várias questões complexas podem se 
apresentar a um tradutor ou tradutora. Digamos que um profissional da tradução, 
que trabalha numa obra de relatos de vítimas do Holocausto, aceitou em fazer uma 
tradução mais fiel possível às histórias a ele designadas. Dentro desse caderno de 
relatos pessoais, ele tomou ciência e se deparou com vários trechos absurdos e até 
marcadamente repugnantes. Digamos que no meio desses relatos ele se depara com 
narrativas de oficiais nazistas justificando seu papel no extermínio das pessoas.
Como o tradutor deve seguir nesse caso? Traduzir tudo que esses oficiais 
falaram? Descrever a realidade mais clara possível dessas possíveis cenas grotescas? 
Ou poupar o leitor de certos termos e brutalidades?
Claro que muitas vezes, num trabalho de tradução, há um corpo editorial, outras 
pessoas envolvidas no processo que podem ajudar a resolver uma questão Ética que 
ora ou outra podem aparecer. Resolvemos o texto de forma deontológica, ou seja, com 
o dever em si de apresentar uma tradução exata dos termos, ou resolvemos de forma 
teleológica, prevendo o fim ao qual esse ato de traduzir se destina? O exemplo acima 
ilustra os desafios éticos que podem ocorrer num processo de tradução.
O importante é saber que o tradutor ou a tradutora devem absorver ao máximo 
a complexidade dessas questões e situações, bem como suas propostas de soluções 
no universo da Filosofia e Ética, para dar o seu melhor em processos criativos que 
impactam outras pessoas, como escrever e traduzir. Agora que cotejamos de forma 
introdutória a questão da Ética e estabelecemos algumas relações com o processo de 
traduzir, vejamos, no próximo tema de aprendizagem, como a Ética se desenvolveu em 
grandes sistemas éticos na tentativa de criar um guia para as ações humanas.
17
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• A identificação do sentido etimológico da palavra “Ética”, confrontando a construção 
da tradição filosófica com aquilo que podemos pensar do ethos da tradução.
• Como a Ética pode ser dividida entre agir deontológico e teleológico, e como alguns 
autores expressam essas ideias dentro de seus sistemas éticos.
• A identificação das primeiras questões Éticas dentro do processo de traduzir, e como 
essas questões reverberam nos estudos da tradução em geral.
RESUMO DO TÓPICO 1
18
AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 “Ninguém delibera sobre coisas que não podem ser de outro modo, nem sobre as 
que lhe é impossível fazer. Por conseguinte, como o conhecimento científico envolve 
demonstração, mas não há demonstração de coisas cujos primeiros princípios são 
variáveis (pois todas elas poderiam ser diferentemente), e como é impossível deliberar 
sobre coisas que são por necessidade, a sabedoria prática não pode ser ciência, nem 
arte: nem ciência, porque aquilo que se pode fazer é capaz de ser diferentemente, 
nem arte, porque o agir e o produzir são duas espécies diferentes de coisa. Resta, 
pois, a alternativa de ser ela uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com 
respeito às coisas que são boas ou más para o homem”. 
 
Fonte: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril 
Cultural, 1980.
 Acerca do estudo da Ética, podemos verificar uma ampla tradição de pensamentos 
que têm início na Grécia antiga, e que perpassa séculos e séculos de fundamentações 
sobre o agir humano. Acerca dos temas da Ética assinale a alternativa CORRETA que 
representa melhor esses temas:
a) ( ) Temas como o agir humano, a finalidade das ações, ou mesmo o estudo da ação 
 em si, e a verdade das ações.
b) ( ) Temas como a origem da natureza, a origem do físico, a constituição material do 
 mundo, e a verdade das ações.
c) ( ) Temas acerca da beleza da obra de arte, a beleza natural, a beleza das emoções, 
 e a verdade das ações.
d) ( ) Temas acerca da origem do conhecimento, acerca dos alcances da ciência e 
 suas ramificações, e a verdade das ações.
2 Leia o trecho a seguir:
 “Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo 
e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; evidentemente tal fim será o bem, 
ou antes, o sumo bem. Mas não terá o conhecimento, porventura, grande influência 
sobre essa vida? Se assim for, esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas 
gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. 
Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais 
verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa 
natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num 
Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que 
19
até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, 
estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, 
legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência 
deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano”.
Fonte: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Pensadores. São 
Pauto: Nova Cultural, 1991 (adaptado).
 O termo éthos surgiu na Grécia antiga e pode ser traduzido de algumas maneiras 
diferentes. Acerca das possíveis traduções de éthos assinale a alternativaCORRETA:
a) ( ) Ação, reação ou agir.
b) ( ) Alma, espírito ou consciência.
c) ( ) Hábitos, costumes ou caráter.
d) ( ) Caráter, hábitos e ego.
3 Leia o trecho a seguir:
 “A Ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser 
constantemente retomado e rediscutido, porque é produto da relação social se 
organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para o exercício de 
um pensar e agir autônomos. A relação entre Ética e política é também uma questão 
de educação e luta pela soberania dos povos. É necessária uma Ética renovada, que 
se construa a partir da natureza dos valores sociais para organizar também uma nova 
prática política”
Fonte: CORDI et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 
(adaptado).
 As questões Éticas percorrem todas as áreas do agir humano. Acerca dos temas 
trabalhados pela Ética, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) O processo de conhecer: qual é a melhor forma de saber?
b) ( ) O processo de agir: qual é o melhor caminho a seguir?
c) ( ) O processo de analisar: como refutar tais explicações?
d) ( ) O processo de contemplar: como o pensamento pode derivar as ideias?
4 Leia o trecho a seguir:
 “Na Ética contemporânea, o sujeito não é mais um sujeito substancial, soberano 
e absolutamente livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é 
simultaneamente os dois, na medida em que é um sujeito histórico social. Assim, 
a Ética adquire um dimensionamento político, uma vez que a ação do sujeito não 
pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva. Desse modo, a Ética se 
entrelaça, necessariamente, com a política, entendida esta como a área de avaliação 
dos valores que atravessam as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si”. 
Fonte: SEVERINO. A. J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992.
20
 De acordo com o que vimos inicialmente, explique a diferença entre as perspectivas 
deontológicas e teleológicas da Ética:
5 Leia o trecho que segue:
 “O que é Ética? O que é moral? No encaminhamento dessas questões, precisamos 
voltar ao sentido originário da Ética e da moralidade. Todas as morais, por mais diversas, 
nascem de um transfundo comum, que é a Ética. Ética somente existe no singular, 
pois pertence à natureza humana, presente em cada pessoa, enquanto a moral está 
sempre no plural, porque são as distintas formas de expressão cultural da Ética”.
Fonte: BOFF, L. Ethos mundial. Rio de Janeiro, RJ: Sextante, 
2003.
 A justiça, o respeito, a responsabilidade: são assuntos abordados pela Ética. 
Escolha um desses três temas centrais na Ética e apresente como eles se 
relacionam com o agir.
21
SISTEMAS ÉTICOS E SUA RELAÇÃO COM O 
OBJETO TEXTO
1 INTRODUÇÃO
Adentramos agora em um novo tema e um novo momento que é a apresentação 
de alguns sistemas éticos que servem de modelo para definirmos nossos atos. São 
sistemas consolidados como guias para sermos corretos, justos e responsáveis. Eles 
também podem ser pensados no âmbito da prática de tradução, porque, afinal, se trata de 
uma prática intelectual que também deve estar enraizada em princípios éticos.
Desde o surgimento da Filosofia, e posteriormente da Ética, vários autores se 
engajaram nesse nobre desafio que é ditar os rumos do agir humano. Não somente ditar 
em si, mas toda uma construção de descrição da natureza humana, descrição do mundo 
em sociedade, ou seja, várias estruturas teóricas de apresentação conceitual para a 
resolução das nossas questões acerca do agir.
Essas obras, destes grandes pensadores, transformaram-se em produções 
monumentais, trazendo como uma de suas principais marcas a apresentação sistemática 
e resolução também sistemática dos problemas éticos. Essa produção titânica de 
pensamentos sobre a Ética chamamos de sistemas éticos. Vejamos como os sistemas 
éticos delimitam a questão da tradução e do tradutor! Vamos lá! 
2 SISTEMAS ÉTICOS E O OBJETO TEXTO
Vamos pensar como a Ética progrediu de algumas ideias incipientes na produção 
textual de alguns autores para a consolidação de um vasto emaranhado de critérios para 
o agir. Chamamos esse aprofundamento das ideias Éticas de sistemas éticos. Vejamos o 
que diz Costa-Leite (2009, p. 211) acerca dos sistemas éticos:
Um sistema de filosofia ou sistema filosófico é visto como um conjunto 
de enunciados que contém teses fundamentais acerca de pelo 
menos quatro bem estabelecidas partes de investigação conceitual, 
dado que são pré-requisitos para qualquer discurso. A construção 
desses grandes níveis do discurso filosófico é garantida pelo princípio 
gerador abaixo: Um sistema filosófico é um conjunto de proposições 
que deve ser especificado e determinado por uma ontologia, uma 
lógica, uma epistemologia e uma Ética. 
UNIDADE 1 TÓPICO 2 - 
22
Esses sistemas também apresentam teses fundamentais que vão determinar 
toda a sua produção textual como uma estrutura que cria um sentido próprio, como um 
edifício que possui uma fundação, primeiro andar, segundo andar, último andar e assim 
por diante. E para que serve esse edifício? A resposta é simples: se destinam a sustentar 
a natureza humana e seu agir.
Esses sistemas éticos também desenvolvem dentro de sua interioridade aquela 
questão que é essencial para a Filosofia, a saber, a questão do ser ético, ou seja, uma 
espécie de antropologia (definição de ser humano e sua natureza) em conjunção com 
a necessidade do agir, afinal, há sempre um sujeito por detrás da ação, há sempre um 
agente por detrás do ato. Eles também desenvolvem um estudo racional das coisas e da 
realidade como objeto de apreciação.
Desta forma, uma característica desses sistemas tem a ver com a construção 
de estruturas com aspectos lógicos e argumentativos em suas vísceras, na construção 
de sentido de mundo, num arcabouço racional e sistemático. Além de entrelaçamento 
lógico, os Sistemas Éticos possuem também estrutura epistemológica. Epistême é a 
palavra grega para ciência e conhecimento, pois bem, ciência e conhecimento são 
estruturas observáveis nesses grandes Sistemas que vão do ser ao agir coletivo.
Os sistemas éticos apresentam definições, conceitos 
e ideias que através de seu texto assumem posturas 
claras que reverberam até mesmo numa sintaxe e 
semântica próprias, ou seja, os grandes sistemas éticos 
são também grandes inovadores teóricos. Dizemos aqui 
sintaxe e semântica próprias, pois esses sistemas, além 
de ter profunda dimensão em caráter teórico, muitas 
vezes denotam um novo jeito de escrever, uma nova 
terminologia, um novo jeito de definir o mundo ao nosso 
redor. Os grandes pensadores e seus sistemas éticos 
são criadores conceituais e de uma escrita própria.
IMPORTANTE
23
Características dos sistemas éticos
Estrutura Características
Inovação
• Posturas claras que reverberam até mesmo numa sin-
taxe e semântica próprias.
Ser ético
• Uma antropologia do agir, comum sujeito por detrás da 
ação.
Lógica argumentativa • Arcabouço racional e sistemático.
Epistemológico
• Ciência e conhecimento são observáveis nesses Siste-
mas.
Tabela 3 – Características dos sistemas éticos
Fonte: o autor
Falaremos nas próximas páginas sobre alguns sistemas éticos que carregam 
em si as estruturas acima descritas, além de terem impactado fortemente o estudo da 
Ética, e que obviamente, devemos utilizar para pensar a questão da tradução e suas 
implicações práticas, são esses sistemas que nos orientarão.
 
2.1 APLICAÇÃO DOS SISTEMAS ÉTICOS
O primeiro sistema ético a que gostaríamos de dar destaque é a Ética de 
Aristóteles. Como já antecipamos, esta obra é considerada o primeiro sistema ético 
completo, e muito influenciou a História da Ética até os dias de hoje. Chegou a hora de 
conhecermos essa obra. Vamos lá?
Nascido em Estagira, dentro dos domínios macedônicos, Aristóteles, com idade 
tenra, foi estudar em Atenas, absorvendo as ideias lá presentes, inclusive sendo discípulo 
de Platão. Naquele período, Atenas era o centro cultural e comercial da Grécia, fazendo 
com que Aristóteles assimilassemuito do desenvolvimento da maior polis grega. 
Dentro daquilo que possuímos de documentação histórica, a Ética de Aristóteles 
surge como um dos primeiros sistemas éticos, com quase a totalidade de sua obra 
permanecendo no tempo, seja em antigas bibliotecas, pergaminhos e manuscritos 
medievais. Sua obra permaneceu no tempo e tem sido muito estudada desde então. E 
o que nos diz seu sistema ético?
24
Primeiramente, a Ética de Aristóteles é um sistema ético teleológico, que como 
já sabemos, possui um fim no fundamento da ação, é um agir que busca uma dada 
consequência. Para Aristóteles toda ação humana visa à felicidade. Ou seja, todas as 
coisas que fazemos, no decorrer de nossas vidas, todas buscam certa felicidade, por 
mais que, às vezes, essa felicidade não seja aparente para outras pessoas. A Ética de 
Aristóteles define então a ação tendo como consequência essa felicidade. A palavra 
grega para felicidade é Eudaimonia, por isso chamamos sua Ética de eudaimonista. O 
próprio Aristóteles (2009, p. 31) nos diz:
A Eudaimonia é sempre procurada por si mesma e nunca com vistas 
em outra coisa, ao passo que a honra, o prazer, a inteligência e todas 
as areté(s) nós de fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que 
nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um deles); mas 
também os escolhemos no interesse da eudaimonia, pensando que 
a posse deles nos tornará felizes. 
Esse trecho, retirado da obra Ética a Nicômaco (Nicômaco era o nome de seu 
pai e de seu filho) de Aristóteles, destaca a essência do seu pensamento ético, que é 
a ideia de que toda ação humana busca a felicidade, tanto no âmbito privado como no 
âmbito coletivo. Para elaborarmos um pouco mais a explicação do sistema aristotélico, 
devemos dizer que essa felicidade em que buscamos em todas as ações possui uma 
gradação em importância: vai de uma felicidade individual, por exemplo, um pequeno 
prazer cotidiano, ser feliz tomando um café pela manhã, para uma felicidade social mais 
complexa, pertencente a uma maior coletividade de pessoas, como por exemplo, a 
gestão de uma cidade.
Essa felicidade maior, felicidade coletiva, Aristóteles chamou-a de um bem da 
polis. Ou seja, a felicidade como um bem maior na qual todas as ações devem se destinar, 
ao bem coletivo da cidade. Quais seriam os critérios para agirmos assim? Em vistas de 
uma felicidade coletiva? Dois conceitos apresentam-se com grande importância para 
Aristóteles: o hábito e a virtude.
Aristóteles é um pensador que dá grande ênfase à contemplação, à experiência 
empírica, à observação da realidade. Por isso as ações cotidianas e nossa rotina diária 
são tão importantes em sua Ética. As pequenas ações moldadas por nossos hábitos 
no dia a dia nos fortalecem para a felicidade em sociedade. Assim, devemos aprimorar 
nossos hábitos cotidianos através de ações cada vez mais virtuosas: um hábito virtuoso 
nos conduz a uma vida cada vez mais virtuosa. Diz-nos o próprio Aristóteles:
Essa forma de justiça é, portanto, uma virtude completa, porém não 
em absoluto e sim em relação ao nosso próximo. Por isso, a justiça é 
muitas vezes considerada a maior das virtudes, e ‘nem Vésper, nem 
a estrela-d’alva’ são tão admiráveis; e proverbialmente, ‘na justiça 
estão compreendidas todas as virtudes’. E ela é a virtude completa no 
pleno sentido do termo, por ser o exercício atual da virtude completa. 
É completa porque aquele que a possui pode exercer sua virtude não 
só sobre si mesmo, mas também sobre seu próximo, já que muitos 
homens são capazes de exercer virtude em seus assuntos privados, 
25
porém não em suas relações com os outros. Por isso, é considerado 
verdadeiro o dito de Bias, ‘que o mando revela o homem’, pois 
necessariamente quem governa está em relação com outros homens 
e é um membro da sociedade. [...] "Por isto, ser bom não é um intento 
fácil, pois em tudo não é um intento fácil determinar o meio - por 
exemplo, determinar o meio de um círculo não é para qualquer pessoa, 
mas para os que sabem; da mesma forma, todos podem encolerizar 
se, pois isto é fácil, ou dar ou gastar dinheiro; mas proceder assim 
em relação a certa pessoa, até o ponto certo, no momento certo, 
pelo motivo certo e da maneira certa, não é para qualquer um, nem 
é fácil; portanto, agir bem é raro, louvável e nobilitante. Quem visa o 
meio termo deve primeiro evitar o extremo mais contrário a ele, de 
conformidade com a advertência de Calipso: 'Mantém a nau distante 
desta espuma e turbilhão' (ARISTÓTELES, 2009, p. 39).
 
Em resumo, se criarmos o hábito virtuoso de praticar a mediania no dia a dia, 
caminharemos para uma felicidade muito mais coletiva que é o bem em sociedade. E 
o que Aristóteles nos diria acerca da Ética no texto e da tradução? Como alcançar a 
virtude nessa atividade?
Figura 1 – Ágora grega
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Attica_06-13_Athens_50_View_from_Philopappos_-_
Acropolis_Hill.jpg. Acesso em: 28 mar. 2023.
 
De início, devemos ter em mente que Aristóteles tem uma vasta obra sobre o 
texto escrito e falado nos seus trabalhos de Poética e Retórica, bem como na formação 
da sua Lógica. Isso porque, na Poética, o filósofo procura apresentar a escrita como 
para constituinte de seu aspecto criativo, sendo que essa obra apresenta um estudo, 
até os dias atuais, importantes lições acerca dos gêneros de escrita. Por sua vez, 
na obra Retórica, ele centraliza suas atenções no discurso, na força das palavras 
26
proferidas na Ágora (espaço público das cidades antigas) e no ambiente privado das 
cidades. Mas como poderíamos relacionar essas ideias com a escrita e tradução em 
seu aspecto ético?
Primeiramente, atenção ao hábito da escrita! Assim como em outras práticas, 
o hábito cotidiano da escrita e sua perseverança na virtude poderá ampliar nosso 
entendimento ético da escrita e tradução, que deve buscar sempre a maior virtude que 
é a mediania do texto. Em segundo lugar, buscar essa tão sonhada mediania na escrita! 
Nem 8, nem 80, diria Aristóteles. Não podemos pender para a falta, muito menos para o 
excesso, em se tratando de tradução: a saber, não ser sintético ao extremo, nem mesmo 
ser prolixo ao exagero. É dessa maneira que podemos vislumbrar uma mediania na escrita.
Em terceiro lugar, mas não menos importante, é preciso buscar o bem comum 
da tradução! Talvez o aspecto que mais aproxima a escrita e tradução das práticas na 
cidade é a busca do bem comum e sua inserção na comunidade em geral, a saber, uma 
tradução para a coletividade, a serviço do bem comum.
Tabela 4 – Uma tradução ética, aplicando as ideias de Aristóteles
Uma tradução Ética, aplicando as ideias de Aristóteles
Característica Aplicação
O hábito
• O hábito da tradução. Da mesma forma, o processo de 
traduzir se aprimora pelo hábito diário que leva a exce-
lência do ato de traduzir. É a prática de uma virtude.
A mediania
• A mediania na tradução. Assim como nas práticas 
comuns, a mediania deve ser buscada também, a justa 
medida no hábito de traduzir.
O bem comum
• O bem comum da tradução. A tradução deve buscar 
trabalhar para a coletividade, para a pólis, para um bem 
comum social. Quando atinge esse patamar, atinge a 
mais alta virtude Ética.
Fonte: o autor
 
Escrever e traduzir para um bem comum, utilizando a virtude da justa medida, 
esse é o legado da Ética de Aristóteles, que poderíamos aplicar em nosso trabalho de 
traduzir. Mas o Sistema Ético de Aristóteles não é o único que devemos tomar como 
parâmetro para a Ética no traduzir. Outros sistemas também nos interessam!
Mais de dois milênios após a existência de Aristóteles, dentro daquilo que a 
história da Europa chama de Império da Prússia, viveu um pensador que mudaria para 
sempre os rumos da Ética escrevendo em Alemão. Seu nome é Immanuel Kant (1724-
1804), e sua obra mudou e influenciou todo o ecossistema da Ética no mundo da Filosofia 
por inaugurar toda uma vertente de pensamento ético.
27
Figura 3 – Immanuel Kant
Fonte: wikipedia.org. Acesso em: 28 mar. 2023.
O contextohistórico da obra de Kant se dá dentro do período iluminista, onde 
a crença na razão, no conhecimento científico, nas ideias de liberdade, advindas da 
Independência dos Estados Unidos da América, bem como da Revolução Francesa 
estavam em voga. A Europa vivia o frenesi iluminista, e Kant desenvolveu uma Ética 
pautada nesses princípios, pautado nos ideais de razão, conhecimento e liberdade. 
Vamos nos debruçar na Ética de Kant?
A primeira coisa que devemos saber do Sistema Ético 
de Kant é que ele é deontológico, ou seja, toda ação não 
busca uma consequência, mas um fim em si mesma. Em 
Kant, então, não agimos buscando a felicidade, o bem, 
o justo, mas a própria ação é boa, justa, pressupondo a 
felicidade. Aliás, Kant é o grande nome de peso em se 
tratar da Ética Deontológica, tendo sua obra influenciado 
muito a concepção dos Estados Democráticos e Direito 
que viriam a existir, não somente na Europa, mas nas 
américas também.
ATENÇÃO
28
Importante ressaltar a ideia que Kant traz na sua obra “O que é o Iluminismo”, ideia 
que busca descrever aquilo que o autor chama de saída da minoridade para uma espécie 
de maioridade de pensamento ético. Essa saída da minoridade se dá exatamente pelo 
movimento Iluminista do esclarecimento. A minoridade e maioridade são exatamente 
alusões ao estágio de formação de uma pessoa, uma espécie de chegada a forma 
madura. Daí o lema que ele eternizou: ouse saber (sapere aude)!
Sair da minoridade era, para Kant, compreender a essência racional e iluminista 
da natureza humana, e trazê-la para o ambiente da Ética. Para ele há algo em nossa 
natureza que independe das relações de causalidade, independe de sermos felizes ou 
não, independe de qualquer fator externo, e o que há, realmente, em nossa natureza 
em si é a razão. E é através da razão que consolidamos nossa forma de pensar o ético, 
nossa forma de estruturar nossas ações, mas antes de tudo, estruturarmos nosso 
entendimento acerca das coisas.
Por isso, Kant fundamenta todo seu Sistema Ético na ideia de racionalidade, 
na ideia de uma razão que é a essência de todos os seres humanos: descobrir isso é o 
primeiro passo para sairmos da minoridade. É a razão e esse aprofundamento que nos 
leva da minoridade à maioridade.
Tabela 5 – Saída da minoridade para Kant
Saída da minoridade para Kant
Estado de conhecimen-
to
Aplicação
Minoridade
• É o estado pré-iluminista, em que ainda não utili-
zamos nossa razão adequadamente, inclusive no 
plano ético. Devemos sair desse estado através 
da utilização da nossa razão, inclusive no espaço 
público.
Maioridade
• É o estágio do progresso do esclarecimento, onde 
utilizamos nossa razão no espaço público e saímos 
da minoridade. Segundo Kant, ainda não teríamos 
chegado a esse estágio.
Fonte: o autor
A ideia central do Sistema Ético de Kant, utilizando essa saída da minoridade 
através da razão, se dá pelo agir através do que ele chamou de Imperativo Categórico:
Pois, visto que, além da lei, o imperativo contém apenas a 
necessidade da máxima de ser conforme a essa lei, mas a lei não 
contém qualquer condição à qual estaria restrita, então nada resta 
senão a universalidade de uma lei em geral à qual a máxima da ação 
deva ser conforme, conformidade esta que é a única coisa que o 
imperativo propriamente representa como necessária. Portanto, o 
imperativo categórico é um único apenas e, na verdade, este: age 
apenas segundo a máxima pela qual possa ao mesmo tempo querer 
que ela se torne uma lei universal (KANT, 2011, p. 34).
29
Literalmente falando, um imperativo como forma textual é simplesmente um 
comando que deve ser feito, algo que deve ser seguido, colocado em prática, algo que 
deve ser feito quando devemos decidir como agir: é imperativo fazer de tal forma, é 
categórico tomar essa decisão!
O Imperativo Categórico de Kant é resumido assim: “age apenas segundo a 
máxima pela qual possa ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” 
(KANT, 2011, p. 49). É a fórmula que Kant nos apresenta para termos um guia em nossas 
ações, um guia fundamentado em nossa liberdade e atividade racional. Vejamos de 
forma analítica:
Tabela 6 – O imperativo categórico de Kant
O imperativo categórico de Kant
Partes O que significa
“age apenas segundo a 
máxima”
• Agir segundo uma máxima é agir segundo um manda-
mento, por exemplo, fazer o bem, ser responsável, não 
agredir, etc. Esses possíveis mandamentos devem ser 
submetidos ao crivo da razão.
“pela qual possa ao 
mesmo tempo querer”
• Essa máxima deve passar também pelo querer já enri-
quecido pela razão, ou seja, o caminho da ação própria 
para uma que possa ser feita por todos passa por essa 
boa vontade.
“que ela se torne uma 
lei universal”
• Aqui é a ideia mais central, a ideia de universalidade 
das ações, ou seja, uma ação que pode ser praticada 
por um é uma ação que pode ser praticada por todos, a 
saber, uma lei universal.
Fonte: o autor
Imaginemos, por exemplo, um estudante de Ensino Médio, que ao se deparar 
com o conteúdo a estudar para a prova de matemática, desespera-se ao saber que não 
conseguirá estudar tudo, e por consequência tirará uma péssima nota, possivelmente 
reprovar de ano: colar ou não colar na prova?
Podemos ter até uma espécie de consciência intuitiva de que colar na prova 
é algo errado, porém, Kant nos apresenta um dever em não colar, pois se seguirmos o 
Imperativo Categórico por ele enumerado: podemos imaginar a máxima “colar na prova” 
sendo colocada como lei universal “todas as pessoas podem colar na prova”. Existiria a 
garantia de um mundo habitável se todas as pessoas colassem na prova? Poderíamos 
confiar num médico, enfermeiro, engenheiro, professor, se todos eles tivessem colado 
na prova? Obviamente que não, por isso, segundo o Imperativo Categórico de Kant não 
podemos colar na prova.
30
Daí o brilhantismo da obra de Kant, pois quando passamos de um questionamento 
individual (o estudante que cola ou não) para o universo de todas as pessoas, é aí 
que observamos se uma ação é ou não permitida. E acerca do ato de traduzir? O que 
poderíamos indagar utilizando o Sistema Ético de Kant? O ato de traduzir poderia ser 
objeto do crivo do Imperativo Categórico? Realmente sim!
Comecemos pelo simples ato de escrever. A pergunta “posso escrever ou traduzir 
desta forma?” deve ser formulada. O ato de escrever é uma prática, e como toda prática, 
está submissa ao crivo do Imperativo Categórico. Assim, tudo o que escrevo ou traduzo 
deve ser algo que qualquer ser humano poderia escrever. Não em sua complexidade da 
escrita, mas em sua capacidade de fazer ou não o bem ou mal.
Outra pergunta a ser formulada: “posso falar de tal coisa ou assunto?” Os 
assuntos tratados e traduzidos também devem ser submetidos ao crivo do Imperativo 
Categórico. Um exemplo: “posso em meu texto induzir as pessoas a fazer algum mal?” 
Obviamente, utilizando o Imperativo Categórico, observamos que tal prática é inviável.
E a questão do plágio? Sem sombra de dúvidas, o plágio nunca poderia passar 
pelo crivo do Imperativo Categórico, pois copiar a produção intelectual de outras 
pessoas, sem dar o devido crédito, seria sim algo impossível de ser universalizado, 
comprometendo a convivência humana, se fosse praticado por todos.
Outra questão essencial de quem traduz coloca-se: “posso traduzir de tal 
forma?” A atividade de traduzir, a nós tão cara, também deve ser direcionada pela Ética 
estruturada por Kant. Por isso, ao traduzir uma frase, uma palavra sequer, devemos 
pensar se tal trecho seria universalmente aceito e possível, por mais que seja uma 
escolha prática nada comum. Mais do que um fardo, os Sistemas Éticos, e no caso aqui o 
de Kant, nos orientam a fazer escolhas no ato de traduzir, pensando na responsabilidade, 
respeito e justiça, entre outras virtudes universalmente aceitas.
Uma última questão, que pode exemplificar o processo criativo da tradução, 
que por muitas vezes apela muito mais pelo lado criativo do que técnico, pensa o criar, 
recriar, remodelarfrases e palavras. O Sistema Ético de Kant nos ajuda em tal desafio, se 
utilizarmos o Imperativo Categórico de maneira crítica em dados processos. Kant trouxe 
um importante mecanismo ético em sua estrutura filosófica que nos faz pensar que 
cada ação individual deve contar para todos, ou seja, ser universalizada.
Outro Sistema Ético de grande importância, que gostaríamos aqui também de 
enfatizar é o sistema Utilitarista. A Ética de Aristóteles fundamentou-se na Teleologia, 
a de Kant na Deontologia. O Utilitarismo também se apresenta teleológico. E o que é 
aquilo que toda ação deve buscar a partir desse Sistema Ético?
 
31
Aquilo que é mais útil, daí utilitarismo. Vamos observar mais de perto esse 
sistema. Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) são os dois 
pensadores articuladores do Utilitarismo: Bentham em sua fase mais incipiente, Mill em 
sua fase mais madura. Ambos pensadores britânicos, Bentham pensou o útil conectado 
com a ideia de prazer, já Mill aprofundou a ideia do útil como aquele melhor para a 
coletividade, resgatando um pouco de Aristóteles.
Figura 4 – Stuart Mill
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Stuart_Mill#/media/Ficheiro:John_Stuart_Mill_by_London_Stere-
oscopic_Company,_c1870.jpg. Acesso em: 28 mar. 2023.
Bentham pregava que agíamos sempre conectados com uma ideia de prazer 
imediato que designava uma espécie de bem, por isso galgam uma Ética Utilitarista. 
John Stuart Mill aprimorou as ideias de Bentham, trazendo aquilo que se consolidou 
como a Ética Utilitarista consolidada Moderna. Mill descreve o utilitarismo não somente 
uma busca pelo bom ou prazeroso, mas sim na busca daquilo que ele chamaria de 
“princípio da maior felicidade”. Vejamos:
A utilidade ou o princípio da maior felicidade como a fundação da 
moral sustenta que as ações são corretas na medida em que tendem 
a promover a felicidade e erradas conforme tendam a produzir o 
contrário da felicidade. Por felicidade se entende prazer e ausência 
de dor; por infelicidade, dor e privação de prazer [...] o prazer e a 
imunidade à dor são as únicas coisas desejáveis como fins, e que 
todas as coisas desejáveis [...] são desejáveis quer pelo prazer 
inerente a elas mesmas, quer como meios para alcançar o prazer e 
evitar a dor (MILL, 2000, p. 187).
32
Então temos o princípio da maior felicidade: assim como Aristóteles e Kant, 
os utilitaristas também estabelecem um princípio para guiar nossas ações, no sentido 
de que todas as ações boas são aquelas que produzem uma maior felicidade para um 
maior número de pessoas. Importante ressaltar aqui a conexão que Mill tenta fazer com 
o processo geral da Democracia que começa a se estabelecer no Reino Unido do século 
XIX, sistema que visa também à felicidade para um maior número de pessoas. Como 
ficariam os processos de tradução a partir do viés utilitarista?
Tabela 7 – O princípio de maior felicidade
O princípio de maior felicidade
Partes O que significa
Maior felicidade
• É a ideia de que as pessoas agem buscando o que é 
mais útil e bom, elas sempre irão buscar sua felicidade 
acima de todas as coisas.
Para um maior número de 
pessoas
• Mas há uma ideia forte em Mill de que a maior feli-
cidade é aquela que chega a um maior número de 
pessoas, a maior felicidade se dá no âmbito de um 
coletivo maior, e é nisso que devemos pensar sem-
pre ao agirmos.
Fonte: o autor
 
Quando escrevemos devemos então pensar de forma a maximizar nossa escrita 
buscando a máxima felicidade do maior número de pessoas possíveis, no caso, nossos 
leitores. Da mesma forma o traduzir, a saber, uma tradução visando a um coletivo que 
pode ser buscado por algo bom para o maior número possível de leitores.
Figura 5 – Estados democráticos de direito
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia#/media/Ficheiro:Obama_Health_Care_Speech_to_Joint_
Session_of_Congress.jpg. Acesso em: 23 mar. 2023.
33
Mill esboça o que seria o Utilitarismo, e o mesmo vem se desenvolvendo por 
todo o século XX e XXI, em especial, nos países de língua inglesa, onde essas ideias 
são muito desenvolvidas pelas respectivas comunidades acadêmicas. Observamos, 
particularmente, nos Estados Unidos da América um pensamento Utilitarista se aliando 
à ideia de Pragmatismo, dizendo que o mais útil para uma comunidade se conecta com 
aquilo que chamamos de saber na prática, que é a ideia geral do sistema Pragmatista: 
pragma é a palavra para coisa ou objeto; por isso pensamento que leva a prática em conta.
Tendo em vista as considerações tecidas sobre a Ética até agora, qual sistema, 
você, caro aluno, acredita ser o mais indicado para tomarmos um rumo no processo de 
tradução? Aristóteles, Kant ou Mill?
34
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• A compreensão do que são Sistemas Éticos, e suas aplicações pelas vertentes 
deontológicas e teleológicas no ambiente da tradução.
• Análise da aplicação dos Sistemas Éticos, e como eles se relacionam com a construção 
do texto e tradução.
• A observação dos Sistemas Éticos de Aristóteles, Kant e utilitaristas, e suas 
possibilidades de pensar a Ética também dentro da tradução.
35
AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 '“Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma 
com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas 
com vistas ao que lhe parece um bem; se todas as comunidades visam algum bem, 
é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras tem mais 
que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens”. 
Fonte: ARISTÓTELES Política. Brasília: UnB,1988.
 A Ética de Aristóteles estuda as ações Teleológicas. Acerca da teleologia, assinale a 
alternativa CORRETA:
a) ( ) A teleologia traduz a ação a partir da sua consequência.
b) ( ) A teleologia traduz a ação a partir do seu estado em si.
c) ( ) A teleologia é o não pensar ao agir.
d) ( ) A teleologia é a marca da ação infeliz.
2 Leia o trecho a seguir:
 “Vimos que o homem sem lei é injusto e o respeitador da lei é justo; evidentemente 
todos os atos legítimos são, em certo sentido, atos justos, porque os atos prescritos 
pela arte do legislador são legítimos e cada um deles é justo. Ora, nas disposições que 
tomam sobre todos os assuntos, as leis têm em mira a vantagem comum, quer de 
todos, quer dos melhores ou daqueles que detêm o poder ou algo desse gênero; de 
modo que, em certo sentido, chamamos justos aqueles atos que tendem a produzir e 
a preservar, para a sociedade política, a felicidade e os elementos que a compõem”. 
Fonte: ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Cia. das Letras, 
2010 (adaptado).
 Acerca da Ética de Aristóteles e o ato de traduzir assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Toda tradução deve buscar a solidariedade.
b) ( ) Toda tradução deve buscar a clareza.
c) ( ) Toda tradução deve buscar o bem comum.
d) ( ) Toda tradução deve ser boa em si.
RESUMO DO TÓPICO 2
36
3 Leia o trecho a seguir:
 “[...] se a razão só por si não determina suficientemente à vontade, se está ainda 
sujeita a condições subjetivas (a certos móbiles) que não coincidem sempre com 
as objetivas; numa palavra, se a vontade não é em si plenamente conforme à razão 
(como acontece realmente entre os homens), então as ações, que objetivamente são 
reconhecidas como necessárias, são subjetivamente contingentes, e a determinação 
de uma tal vontade, conforme a leis objetivas, é obrigação. 
Fonte: KANT, I. Fundamentação da metafísica dos 
costumes. São Paulo: Abril Cultural e Industrial S. A., 1974. 
(Coleção Os Pensadores, Vol. XXV).
 Acerca da Ética de Kant e o ato de traduzir assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Toda tradução deve buscar a felicidade
b) ( ) Toda tradução deve ser boa em si.
c) ( ) Toda tradução deve buscar a utilidade.
d) ( ) Toda tradução deve buscar o bem na pólis.
4 Leia o trecho a seguir:
 “O Esclarecimento é a libertação do homem de sua imaturidade autoimposta. 
Imaturidade é aincapacidade de empregar seu próprio entendimento sem a 
orientação de outro. Tal tutela é autoimposta quando sua causa não reside em falta 
de razão, mas de determinação e coragem para usá-lo sem a direção de outro. 
Sapere Aude [ousa saber]! Tenha coragem de usar sua própria mente! Este é o lema 
do Esclarecimento. [...] Para este esclarecimento, porém, nada mais se exige senão 
liberdade [...] de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. Ouço, 
agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocinai! O oficial diz: não raciocinai, 
mas exercitai-vos! O financista: não raciocinai, mas pagai! O sacerdote proclama: não 
raciocinai, mas crede! [...] Uma época não pode se aliar e conjurar para colocar a 
seguinte em um estado que impossibilite a ampliação de seus conhecimentos [...]. 
Configurar-se-ia, assim, um crime contra a natureza humana” 
Fonte: KANT, I. Resposta à questão: o que é 
esclarecimento? Tradução de Márcio Pugliesi. Disponível 
em: Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/
cognitiofilosofia/articl e/download/11661/8392. Acesso em: 
29 mar. 2023.
 
 Acerca da Ética de Kant e a tradução, explique como podemos utilizar o Imperativo 
Categórico para pautar nosso traduzir.
37
5 Leia o trecho a seguir:
 Texto 1: “Por princípio da utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou 
desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou a diminuir a 
felicidade da pessoa cujo interesse está em jogo, ou, o que é a mesma coisa em outros 
termos, segundo a tendência de promover ou comprometer a referida felicidade. Digo 
qualquer ação, com o que tenciono dizer que isto vale não somente para qualquer 
ação de um indivíduo particular, mas também de qualquer ato ou medida de governo. 
[...] A comunidade constitui um corpo fictício, composto de pessoas individuais que se 
consideram como constituindo os seus membros. Qual é, nesse caso, o interesse da 
comunidade? A soma dos interesses dos diversos membros que integram a referida 
comunidade”.
Fonte: BENTHAM, J. Uma introdução aos princípios da 
moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 10).
 Texto 2: “Para compreendermos o valor que Mill atribui à democracia, é necessário 
observar com mais atenção a sua concepção de sociedade e indivíduo [...]. O governo 
democrático é melhor porque nele encontramos as condições que favorecem o 
desenvolvimento das capacidades de cada cidadão”. 
Fonte: WEFFORT, F. (org.). Os clássicos da política 2. 3 ed. São 
Paulo: Ática, 1991. p. 197-98).
 Acerca da Ética Utilitarista e a tradução, explique como podemos utilizar o princípio 
de maior felicidade para pautar nosso traduzir.
38
39
TÓPICO 3 - 
A PRÁTICA DA ESCRITA E A RELAÇÃO 
ÉTICA COM O REAL
1 INTRODUÇÃO
Até o momento descrevemos uma breve introdução da Ética relacionada 
à tradução, algumas questões que afetam o ambiente técnico e criativo do traduzir, 
relacionado a uma também breve introdução do sentido da Ética. Desde os mais 
remotos pensadores a questão da Ética está dada na Filosofia, e o que fizemos aqui 
foi um exercício de tentar aproximar as grandes questões da Ética para o universo da 
tradução. Muitos apontamentos e questionamentos podemos fazer nessa aproximação.
Falamos também de alguns Sistemas Éticos e sugerimos como eles podem 
lidar com situações ligadas à tradução, algumas até com desenvolvimento complexo, 
pois devemos lembrar que algumas traduções alcançam um vasto público, e devemos 
lapidar aquilo que é traduzido e escrito. Nesta parte da unidade, nós falaremos como a 
escrita (e claro, a tradução como um tipo de escrita) se desenvolve também como uma 
potência Ética. 
Potência no sentido de que a tradução é uma atividade criativa, e assim uma 
atividade Poética. Mas o poético se relaciona necessariamente com o ético? Para alguns 
autores vistos até agora sim, ou seja, para alguns a Ética anda lado a lado com o poético 
sem sobreposição, mas para outros a história nem sempre é assim.
Agora que apresentamos alguns Sistemas Éticos e formulamos algumas 
questões iniciais desses sistemas, cabe a apresentação de elementos essenciais do 
processo de tradução como escrita de um real, tradução de uma realidade, e claro, a 
relação que a Ética tem com esse real e criativo poético. Trata-se de explorar perspectivas 
relevantes da análise da linguagem e criatividade humana e seu lugar nos Sistemas 
Éticos: a Poética como arte da escrita em conexão com a Ética através da realidade que 
as circundam. Nesse sentido, cabe apontarmos alguns autores que trazem a questão da 
tradução, mesmo que não explicitamente, para o universo da Poética. Estariam esses 
dois universos relacionados?
Vamos a mais uma fase desse estudo!
UNIDADE 1
40
2 A ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL
Vamos falar um pouco da história dessa área do conhecimento que trata da 
escrita, da tradução, e de toda a atividade criativa humana de forma geral, vamos falar 
da Poética.
A palavra Poética é também de origem grega, e descreve essa potência criativa 
não somente da Poesia, mas também descreve as atividades criativas que lidam 
com a beleza de forma em geral. Aliás, tanto Poética como Poesia derivam do verbo 
grego poíesis: então o sentido originário de Poética paira na palavra poíesis, que indica 
a atividade de “criar e fazer”. Trata-se de uma palavra que evoca a ideia de prática e 
criatividade, ou seja, é a criação. Esse criar e fazer acabou se associando às atividades 
artísticas, e entre elas a escrita e tradução. 
Dentro da esfera do Pensamento Ocidental, assim como a Ética, a Poética se 
desenvolveu em grandes sistemas filosóficos, determinando a forma de agir e pensar 
nas mais variadas épocas da História. Observemos a seguir um resumo da Poética 
dentro da produção conceitual da Grécia antiga, essencial para entendermos a Poética 
em comunhão com a tradução:
A doutrina da arte era chamada pelos antigos com o nome de seu 
próprio objeto, Poética, ou seja, arte produtiva, produtiva de imagens 
(PLATÃO, Sof., 265 a; ARISTÓTELES, Ret., 1,11,1371 b 7), enquanto o 
belo (não incluído no número dos objetos produzíveis) não se incluía 
na Poética e era considerado à parte (v. BELO). Assim, para Platão, 
o belo é a manifestação evidente das Ideias (isto é, dos valores), 
sendo, por isso, a via de acesso mais fácil e óbvia a tais valores 
(Fed., 250 e), ao passo que a arte é a imitação das coisas sensíveis 
ou dos acontecimentos que se desenrolam no mundo sensível, 
constituindo, antes, a recusa de ultrapassar a aparência sensível em 
direção à realidade e aos valores (Rep., X, 598 c). Para Aristóteles, o 
belo consiste na ordem, na simetria e numa grandeza que se preste 
a ser facilmente abarcada pela visão em seu conjunto (Poet., 7, 1450 
b 35 ss.; Met., XIII, 3, 1078 b 1), ao mesmo tempo que retoma e adota 
a teoria da arte como imitação, apesar de, com a noção de catarse, 
retirá-la daquela espécie de confinamento à esfera sensível a que 
fora condenada por Platão (ABBAGNANO, 2007, p. 387).
Platão e Aristóteles nos dão as possíveis primeiras chaves de interpretação da 
Poética como “A doutrina da arte era que era chamada pelos antigos com o nome de 
seu próprio objeto, Poética, ou seja, arte produtiva, produtiva de imagens” (ABBAGNANO, 
2007, p. 387), ou seja, a atividade criadora do belo, independente se ele estava na 
realidade ou nas ideias, formas que rivalizam as teorias platônicas e aristotélicas através 
da História.
41
Importante ressaltarmos o trecho: “retoma e adota a teoria da arte como 
imitação”, bem como, “a noção de catarse, retirá-la daquela espécie de confi namento 
à esfera sensível a que fora condenada por Platão” (ABBAGNANO, 2007, p. 387). Duas 
ideias essenciais aqui! A arte como imitação, defendida por Aristóteles, nos coloca frente 
a frente com o processo de tradução e suas implicações éticas. O profi ssional tradutor 
possui essas duas frentes de atuação, no sentido que imita um texto já pronto, em 
outra língua, mas que também cria o mesmo só que em uma novalíngua. Cabe também 
ao tradutor e tradutora buscar essa catarse textual que provavelmente a obra original, 
antes da tradução, demonstrava.
Eugene A. Nida (1914-2011), tradutor da Bíblia e teórico da tradução nos diz 
muito sobre isso na obra “Nida, Eugene A. Contexts in Translating. Amsterdam and 
Philadelphia" (2001), onde ele aborda a importância do contexto na tradução. Nida (2001) 
argumenta que, para produzir uma tradução efi caz, é preciso levar em consideração não 
apenas as palavras individuais de um texto, mas também o contexto em que essas 
palavras são usadas.
Veremos nas próximas páginas que essa é uma das linhas tênues da tradução 
em sua dimensão ética: preservar o brilho original da obra ou criar um novo brilho 
ao traduzir, daí a linha arriscada que dialoga com o ético e não ético dentro de uma 
tradução. Por isso a dimensão poético-ética é tão relevante de estudarmos dentro da 
tradução. Mas essas questões não se esgotaram na Grécia Antiga.
A Poética é uma força criativa que busca essa beleza 
textual, refi nando a beleza da linguagem, produzindo 
essa arte da escrita que tanto nos atrai e fascina. A 
tradução também é uma Poética, pelo fato de lidar 
também com a criatividade da linguagem.
Aristóteles já havia associado a Poética com a força 
criativa da arte, de forma mais direta, relacionada 
à Poesia Épica, parte constituinte da cultura grega. 
Notavelmente Aristóteles estabeleceu o embate da 
Poética como um agente de criação ou somente uma 
cópia malfeita da realidade. A História da Filosofi a, 
assim, produziu grandes autores que aferiram à Poética 
essa esfera da arte produtora de criatividade e beleza, 
no âmbito também da linguagem.
ATENÇÃO
42
Viajando dois milênios à frente, no período que chamamos de Romantismo 
Alemão, por volta dos séculos XVII a XIX, observamos uma verdadeira revolução no 
pensamento da Poética e sua relação com a Ética. Período rico no resgate da poesia, 
tradução e pensamento sobre a linguagem, o Romantismo alemão também enriqueceu 
o debate ético por colocar exatamente a tradução como uma das principais atividades 
poéticas.
Desenvolve-se no Romantismo alemão uma poética conectada com o 
historicismo e com uma espécie de progresso da cultura humana, e assim, a atividade 
criativa humana, como a tradução, sendo vista como um avanço civilizatório da 
humanidade: história, progresso, civilização, são adjetivos do pensamento romântico da 
época. Vejamos um resumo da época:
A tradição do cuidado com os textos remonta ao século XVI, e a 
tradução que Martin Lutero realizou da Bíblia no ano de 1530. Desde 
então, gerações de estudiosos praticaram o que pode ser considerado 
a pré-história da filologia e da hermenêutica modernas. O movimento 
que vai de Lutero até a época dos românticos é essencial não apenas 
para as teorias da tradução, a filologia, mas ao desenvolvimento da 
língua e da literatura alemã (MILTON 1998: 61). Os jovens do primeiro 
romantismo alemão, foram precedidos por estudiosos que deram 
novos limites qualitativos ao ato de traduzir. Já nas décadas de 
1760 e 1770, Ephraim Gotthold Lessing ou Johann Gottfried Herder 
teorizaram sobre a tradução, embora Herder (1985: 205) não tenha 
se mostrado muito otimista sobre a tradução dos antigos em alemão, 
como afirma em sua coleção de textos intitulada Über die neuere 
deutsche Literatur, [Sobre a mais recente literatura alemã], publicada 
no ano de 1767 (MEDEIROS, 2017, p. 170).
 
Devemos ressaltar primeiramente uma questão muito cara à História da 
Tradução e sua dimensão Ética, a saber, a obra de tradução de Martin Lutero (1483-
1546), pois observamos a tradição do cuidado com os textos remonta ao século XVI, 
e a tradução que Martinho Lutero realizou da Bíblia no ano de 1530 é algo de grande 
importância, dando origem a essa busca por uma essência da tradução que se realiza 
no Romantismo alemão, como nos aponta Furlan (2004, p. 21): “A grande diferença com 
respeito aos seus antecessores e o revolucionário do pensamento do Reformador é a 
abordagem de tipo comunicativo e suas implicações linguísticas”, e mais ainda: “Lutero 
advoga por uma tradução retórica e de estilo popular, não com fins estéticos mas 
comunicativos – a compreensibilidade do texto e o leitor –, salvaguardando sempre a 
mensagem divina”.
 
Várias questões éticas se dão aqui, nessa poética da tradução de Lutero, que 
inclusive abordaremos em unidades futuras, mas cabe aqui descrever traços que irão 
influenciar o debate ético e poético no Romantismo alemão, a saber, abraçar uma 
tradução feita para um amplo público, comunicar para uma grande audiência, e a ideia 
de um interlocutor (leitor) que estará do outro lado lendo a obra de tradução. 
43
Figura 6 – Martin Lutero
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martinho_Lutero#/media/Ficheiro:Lucas_Cranach_d.%C3%84. Acesso 
em: 28 mar. 2023.
Nesse sentido, surge outra ideia muito importante, dentro desse Romantismo 
alemão: de que a Ética é uma evolução natural da Poética. Talvez o mais conhecido 
pensador da Ética e Poética desse período tenha sido Georg Wilhelm Friedrich Hegel 
(1770-1831), que muito acrescentou para o debate da Ética, definindo até o solo dela 
como uma progressão da Poética:
Por um lado, está o solo ético, simbolizando a neutralidade Ética 
que teme a cisão das potências Éticas; o coro é o público não como 
mera reflexão exterior sobre os eventos, mas como e expressão da 
reconciliação, ou seja, é a marca essencial do sensível. Por outro lado, 
estão as forças colidentes, como potências Éticas que emergem 
deste solo; a ação traz inquietação ao repouso ético, embora traga 
por fim, fortificado, o equilíbrio originário (WERLE, 2011, p. 247).
Hegel é um pensador idealista que observa a História humana como uma linha 
de desenvolvimento progressivo. Nesse sentido, a Ética que ele desenvolveu no século 
XIX é uma evolução e progressão dialética de todas as éticas que antes o sucederam. 
Dois temas são relevantes, então: a história e o progresso. 
44
É na história que observamos o desenvolvimento e aprimoramento da intuição 
criativa da humanidade, descrevendo assim uma espécie de progresso da escrita, e 
por que não, da tradução, já que a Poética e a Ética estão sujeitas a essa mesma lei 
histórica, pois como diz Hegel: “O espírito avançou da forma da substância à forma de 
sujeito através da arte [...] No espírito, que é totalmente certo de si na singularidade da 
consciência, toda essencialidade soçobrou” (HEGEL, 2011, p. 502).
Figura 8 – Hegel
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel#/media/Ficheiro:Hegel_portrait_by_
Schlesinger_1831.jpg. Acesso em: 29 mar. 2023.
Hegel nos traz a proposição de que a Ética já é Poética, pois a evolução da nossa 
consciência através da história dialeticamente construiu uma Ética como consequência 
de uma Poética, como se antes do aprender a andar da Ética, tivemos o engatinhar da 
Poética. E assim a humanidade foi aprendendo a se desenvolver.
De forma condensada, podemos dizer que as seguintes ideias se impõem nos 
pensadores e ideólogos do Romantismo alemão: história como progresso; tradução 
como uma das maiores amplitudes da cultura humana literária; um pensamento da 
Ética como progresso da Poética. Vejamos essas ideias de forma analítica:
45
Tabela 8 – A ética da tradução é a poética da tradução
A ética da tradução é a poética da tradução
Partes O que significa
História como progresso. 
• A História se desenvolve num processo de contra-
dições em que a Cultura humana se aprimora passo 
a passo. Por isso, estudar a História é estudar esse 
progresso. Segundo essas ideias, primeiro se desen-
volveram os sistemas Poéticos, depois surgiram os 
Éticos.
Tradução como uma das 
maiores amplitudes da 
cultura humana literária.
• A capacidade de transcodificar esses progressos em 
várias línguas, resgatando inclusive as linguagens 
antigas, isso exemplifica nosso progresso como 
civilização.
Fonte: o autor
Observando a dinâmica das proposições dadas tantopelos autores do 
Romantismo alemão, como por essa breve exposição dos Sistemas Éticos, devemos 
meditar sobre duas coisas: a prática da escrita e a relação Ética com o real, a saber, 
aquilo que expressa de fato uma tradução, que é a realidade que buscamos aqui. Todos 
esses grandes autores apresentam uma concepção Ética que tenta abarcar nossas 
práticas diárias, assim, nossas almejadas práticas diárias do ato de traduzir. Sendo a 
tradução uma prática, ela se insere no contexto civilizatório, histórico e cultural que a 
humanidade tanto persegue.
A prática da tradução em sua perspectiva histórica, como brevemente 
observamos aqui, não pode deixar de lado o estudo da própria linearidade dos 
acontecimentos, das mudanças impostas pelos acontecimentos. Das tensões políticas 
e sociais que uma tradução pode acarretar, observaremos de perto, futuramente, como 
uma divergência de tradução ajudou na separação da Igreja, o chamado cisma do 
Oriente. Divergências de tradução do original da bíblia foi uma das questões da cizânia. 
Ou seja, o ato de traduzir não está alheio ao desenvolvimento e desenrolar da história.
As mudanças culturais também avançam pela prática da escrita, e influenciam 
o território da tradução. Por isso a necessidade de se pensar a tradução dentro de 
um Sistema formal e organizado de estudo sobre a Ética. Em suma, as conquistas 
civilizatórias na busca de igualdade de direitos, na prática da não violência, inclusive 
verbal e discriminatória, a noção de pluralidade e alteridade, esses avanços civilizatórios 
não podem estar fora do ato de traduzir.
46
Daí a tão buscada relação Ética com o real, pois a Ética não deve também 
desprezar os acontecimentos da História humana, mas disso tudo trazer princípios que 
sejam universais, independente do momento histórico que vivemos. A História pode ser 
uma amostra de nossa sociedade, mas a Ética deve ser a guia.
De igual maneira as mudanças culturais que se desenvolvem em nossa 
sociedade devem ser assimiladas, estudadas, diagnosticadas, mas por outro lado, em 
termos éticos, não podemos caminhar para onde o vento da cultura somente aponta, 
devemos rumar a partir de categorias bem definidas do agir, categorias bem traçadas 
no agir e sua escrita. Como nos diz a autora Susan Bassnett (2003, p. 9), descrevendo 
sobre o modo de que é vista a tradução no cenário mundial, trata do crédito destinado 
ao tradutor: 
A tradução não é somente a transferência de textos de uma língua 
para outra – ela é hoje corretamente vista como um processo de 
negociação entre textos e entre culturas, um processo em que 
ocorrem todos os tipos de transações mediadas pela figura do 
tradutor. 
A Ética deve andar de mãos dadas junto ao avanço civilizatório, perdendo sequer 
um palmo da dignidade, respeito e responsabilidade e os avanços como civilização nos 
últimos séculos. Isso não pode se perder na tradução. Tais fatores são aqueles que 
podemos eleger acerca da Ética e o desenvolvimento civilizatório da prática da escrita 
e tradução.
É assim que observamos a Ética cada vez mais conectada com o real, e assim, 
nossas práticas de escrita e tradução cada vez mais alinhadas com a realidade do 
avanço da humanidade, avanço civilizatório na própria realidade factual que vivemos.
3 O TEXTO E O COMPROMISSO COM A VERDADE
A trazer todos esses Sistemas Éticos, todas essas teorias que versam sobre a 
tradução, de forma direta ou indireta, o que na verdade buscamos é que nosso texto 
demonstre, como tradutores, uma espécie de verdade, ao menos que nosso texto revele 
uma espécie de compromisso com o que é verdadeiro, e isso se conecta com aquilo que 
também é buscado pela Ética, a saber, a verdade. Como nos diz Marilena Chauí (2000, p. 
45), acerca do significado da verdade na Filosofia:
Aletheia, palavra grega, que significa o não-oculto, não-escondido, 
não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do 
corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou 
existe tal como é. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível 
para a razão. Assim, a verdade é uma qualidade das próprias coisas 
e o verdadeiro está nas próprias coisas. Conhecer é ver e dizer a 
verdade que está na própria realidade e, portanto, a verdade depende 
de que a realidade se manifeste.
47
Uma verdade e compromisso com o texto traduzido é algo que podemos pleitear 
ao utilizarmos de maneira crítica o pensamento ético acerca do texto, estaremos assim 
buscando e retratando uma verdade, uma aletheia. Uma das grandes questões que devemos 
lançar, é se a verdade de um texto deve se alinhar muito mais com a Ética ou com a Poética?
Aquilo que os teóricos da Ética em comunhão com a tradução buscam é em 
essência o maior compromisso possível com aquilo que é verdadeiro, buscam a verdade 
no agir e no texto. Buscam expressar aquilo que necessariamente é, seja em sua forma 
textual, seja em sua forma real. É disso que se trata o compromisso com a verdade, a 
saber, traduzir e no processo de tradução correr em igual caminho em termos éticos.
E onde está a verdade da tradução? Podemos desvendar onde está a verdade 
Ética da tradução? Nosso curso aqui não se trata de um pensamento sobre os gêneros 
da escrita, mas pensemos as relações Éticas acerca das diferentes tipologias textuais. 
Traduzir, por exemplo, um texto ficcional, onde a criação de ideias e situações, a criação 
da narrativa, é o combustível e razão de ser do texto. Podemos traduzir um texto desse 
com Ética ou Poética? Ou ambas? O compromisso com a verdade deve estar enraizado 
no compromisso com o criativo ou com o correto? Ou o criativo é o correto? É possível 
conciliar as duas perspectivas?
Num texto ficcional, ou mesmo na poesia, o aspecto criativo e de captura daquilo 
que o autor original queria dizer aponta para uma bagagem de ferramentas muito mais 
estéticas, mas mesmo assim, não podemos faltar com uma certa “verdade” que o autor 
ou poeta trazia em seu texto. Daí o esforço de compreender a história do autor, sua 
cultura, seu mecanismo de contato com a arte.
Ao traduzirmos uma biografia, a coisa muda um pouco de aspecto, pois 
estamos lidando com termos e frases que devem buscar se conectar ao máximo com 
a realidade do original. Assim, o criativo deve abrir espaço para o máximo rigor dos 
termos, e máximo rigor ético.
Um relato real, uma fala ou discurso proferido por alguém mais ainda deve 
ser lapidado com a máxima realidade e compromisso ético possível para a tradução 
corresponder com o que de fato se disse ou diz.
Esse seria um breve resumo de como podemos pensar a conexão com a realidade 
dos textos ao traduzir, e como a Ética nos abre esse horizonte de compromisso com a 
verdade. Vejamos agora alguns sistemas filosóficos e éticos que parte do pressuposto 
estético e criativo como essenciais para fornecer uma Ética. Trata-se do primado da 
Poética sobre a Ética.
Como resposta crítica ao Romantismo alemão e idealismo de Hegel na Poética 
e Ética, surgem as ideias de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Nietzsche foi um pensador 
pós-romântico que descreveu a Poética de uma nova maneira, subvertendo as ideias 
48
presentes até Hegel, de que a Ética é uma evolução da arte Poética, pelo contrário, para 
Nietzsche a Poética é a suprema Ética, é aquilo que realmente movimenta a atividade 
criativa humana, e somente à Poética devemos nos submeter.
Inicialmente trabalhando com Filologia, Nietzsche embarcou numa viagem 
até a Grécia Antiga, trabalhando e estudando os primeiros pensadores pré-
socráticos, onde para ele a Filosofia atingiu seu auge e depois começou a decair. 
Como professor de Filologia embarcou na atividade da tradução, traduzindo muitos 
fragmentos dos pensadores antigos. Dominava o grego e assim procedeu nos seus 
primeiros anos como intelectual.
Figura 9 – Nietzsche
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche#/media/Ficheiro:Nietzsche187a.jpg. Acesso em: 
29 mar. 2023.
Ao traduzir os primeiros pensadores, e aqui devemos ressaltar o papel da 
tradução nomontante da obra de Nietzsche, o traduzir para ele foi essencial nessa 
reviravolta de subverter a Poética como grande agente da Ética. Isso de seu exatamente 
no processo de tradução do grego antigo, quando Nietsche se deparou com uma forma 
criativa vital que ele estudaria por toda sua vida: a força do trágico, a força da tragédia.
Em sua obra de início intelectual, O nascimento da tragédia no espírito da 
música, Nietzsche já dava pistas daquilo que defenderia em obras mais maduras que é 
a ideia do trágico como força de superação humana. Nietzsche nos explica:
49
O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais 
duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria 
inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isto 
chamei dionisíaco, isto entendi como a ponte para a psicologia do 
poeta trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, não para 
purificar-se de um perigoso afeto mediante uma veemente 
descarga – assim como entendeu Aristóteles –, mas para, além 
do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir 
a ser – esse prazer que traz em si também o prazer no destruir... 
(NIETZSCHE, 1992, p. 67).
A força da tragédia é também uma força literária de superação ética. É o dizer 
sim à vida, nas palavras de Nietzsche, vontade de vida, inspirado no deus grego da 
tragicidade, Dioniso. Essa é a essência do trágico, sobreviver ao drama, trazer para si 
essa vontade de vida que está presente, principalmente na arte. Essa nova Ética que 
Nietzsche propõe, podemos interpretar como colocar o princípio criador da arte acima 
de tudo, e nesse sentido, como ressaltamos, a Poética se sobrepõe à Ética.
E como ficaria o processo de tradução? Nietzsche, como grande filólogo que 
foi, estendeu à tradução a força da Poética, ou seja, traduziu não somente como um 
técnico rigoroso com o sentido, mas deu cores e interpretações na escolha dos termos 
e palavras: a escolha tão cara ao tradutor. Nessas escolhas privilegiou a beleza em 
detrimento de outras possibilidades, como por exemplo, dizer que as coisas progridem 
de forma racional. 
Podemos dar um exemplo diretamente ligado ao processo de tradução, um 
exemplo que ilustra a opção de Nietzsche pelo primado da Poética sobre a Ética: a 
palavra logos. Como aqui já comentamos, uma imensa tradição traduz o logos como 
razão, ou mesmo atividade racional. Nietzsche optou pelo sentido de logos como 
palavra, uma tradução perfeitamente possível, pois tanto palavra como razão cabem ao 
lógos. A opção de Nietzsche não é a esmo, trata-se de uma opção poética, o primado da 
palavra acima do primado da razão.
As implicações éticas, na escolha dos termos, é algo muito caro ao tradutor. 
Nietzsche colocou isso de forma clara e nos diz que as opções estão dadas e abertas ao 
universo existencial de cada um, o potencial criativo de cada um. Nietzsche fez escola e 
influenciou muito os pensadores da Ética e Poética dos séculos XX e XXI. 
Uma gama de autores foi influenciada por sua abordagem acerca da verdade do 
texto, e podemos dizer que se criou uma rede de pensadores afinados com a concepção 
ética de Nietzsche, submetida à Poética. Um desses autores essenciais para pensarmos 
a questão da Ética e a tradução foi Gilles Deleuze (1925-1995), e ele desenvolve essas 
ideias numa obra chamada Diferença e Repetição.
Em poucas palavras, a tese principal de Diferença e Repetição trata da 
releitura de alguns sistemas filosóficos na história do pensamento ocidental com o 
objetivo de traçar uma transformação essencial da ontologia (estudo do ser), que 
50
segundo Deleuze (2006), estaria submetida agora às categorias de diferença e 
repetição. Também, para Deleuze, a tradução é um processo de repetir diferenciando.
Figura 10 – Gilles Deleuze
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gilles_Deleuze#/media/Ficheiro:%DA%98%DB%8C%D9%84_%D8%A-
F%D9%84%D9%88%D8%B2.jpg. Acesso em: 29 mar. 2023.
A diferença para Deleuze não é mais uma negação, bem como a repetição 
não se restringe ao redito. A diferença é uma afirmação da potência criadora de nossa 
experiência, e a repetição método é a metodologia pela qual aplicamos a diferença. 
Para propor tal hipótese filosófica, Deleuze recorre ao modelo nietzschiano de que toda 
afirmação do mesmo já é poder de subversão do idêntico. Segundo Deleuze (2006, p. 3), 
“o outro” como negação “do mesmo” sempre fez parte do aparato operacional filosófico 
deste Platão até Hegel.
O que existe é o “ser”. O “não ser” seria sempre o outro através da negação. A 
partir de Nietzsche, segundo Deleuze, essa operação toma novas proporções, retomando 
a ideia que surge principalmente no texto. Sobre A Verdade e a Mentira em sentido 
Extramural, de 1873. Deleuze parte desse princípio e formula seu arcabouço teórico da 
diferença e da repetição, incorporando essa ideia no processo literário e de tradução.
 A obra Diferença e Repetição, em seu início, nos traz a relevância das categorias 
do romance contemporâneo e destacam também o papel das traduções nestes 
movimentos de repetir e diferenciar. A tradução é um processo criativo:
51
O assunto aqui tratado está manifestamente no ar, podendo-se 
ressaltar como seus sinais: a orientação cada vez mais acentuada 
de Heidegger na direção de uma filosofia da Diferença ontológica; o 
exercício do estruturalismo, fundado numa distribuição de caracteres 
diferenciais num espaço de coexistência; a arte do romance 
contemporâneo, que gira em torno da diferença e da repetição não 
só em sua mais abstrata reflexão como também em suas técnicas 
efetivas; a descoberta, em todos os domínios, de uma potência 
própria de repetição, potência que também seria a do inconsciente, 
da linguagem, da arte (DELEUZE, 2006, p. 3).
A Filosofia da Diferença surge, então, como apologia do ato criativo, como 
crítica contundente ao legado da representação na história do pensamento ocidental. 
A obra Poética de Mallarmé, ou mesmo a prosa Poética de Joyce, possuem o poder de 
descentralizar, de dissolver o sujeito. É exatamente isso que Deleuze propõe:
 
O conjunto dos círculos e das séries é, pois, um caos informal, afundado, 
que não tem outra "lei" além de sua própria repetição, sua reprodução 
no desenvolvimento do que diverge e descentra. Sabe-se como estas 
condições já se encontram efetuadas em obras como o Livro, de 
Mallarmé, ou Finnegans Wake, de Joyce: elas são, por natureza, obras 
problemáticas. Nelas, a identidade da coisa lida se dissolve realmente 
nas séries divergentes definidas pelas palavras esotéricas, assim como 
a identidade do sujeito que lê se dissolve nos círculos descentrados da 
multileitura possível. Todavia, nada se perde, cada série só existindo 
pelo retorno das outras. Tudo se tornou simulacro. Com efeito, 
por simulacro não devemos entender uma simples imitação, mas 
sobretudo o ato pelo qual a própria ideia de um modelo ou de uma 
posição privilegiada é contestada, revertida (DELEUZE, 2006, p. 74).
Quais as consequências dessas ideias para o processo de tradução e seu 
conteúdo ético? Quando traduzimos, não estamos repetindo o mesmo caráter 
comunicativo, nem mesmo redizendo o mesmo, mas operando com a diferença. E 
essa diferença, que pode ser o ato de traduzir uma palavra, não está respeitando uma 
moralidade vigente, hábitos ou costumes, mas sim representando a Poética do ato 
criativo, assim como Nietzsche defendia. Quando dizemos uma mesma coisa, mas em 
outra língua, estamos trazendo um outro, ou seja, a tradução é um outro sendo um 
pouco mesmo.
Não queremos trazer aqui a complexidade das ideias de Hegel, Nietzsche e 
Deleuze, mas sim apresentar o fato de que a tradução, o pensar “o traduzir” está sendo 
contemplado nos sistemas filosóficos desses autores.
Esses pensadores citados nos mostram que há uma questão que diz respeito 
também aos limites da criatividade, se esses limites se sobrepõem aos próprios limites 
éticos. Ou seja, toda criatividade é permitida em termos de tradução, a Poética da 
tradução pode ultrapassarqualquer limite estabelecido pela moralidade comum, em 
buscas de uma nova moralidade da própria Poética.
52
Os outros Sistemas Éticos anteriores ao século XIX, como o de Aristóteles, 
Kant e Utilitarismo não veem as coisas dessa forma, eles nos dizem que não, que o 
Poético não se sobrepõe ao Ético. Talvez essa ideia de criatividade acima de tudo seja 
um sinal de nossos tempos, e vale a pena meditarmos muito sobre isso. Principalmente 
ao efetuarmos as escolhas que o processo de tradução nos apresenta, escolhas que 
passam de um arcabouço gramatical para um arcabouço também de sentido do texto. 
Pois como bem observamos, a tradução não está ilesa neste processo de criação. 
Observamos, nesse primeiro momento, uma breve apresentação etimológica da 
palavra Ética, e como essa etimologia nos conta muito acerca dos hábitos, costumes 
e comportamentos virtuosos ou não. Compreendemos também que desde seu 
surgimento, a Ética se preocupa em descrever o bom agir, a justiça, responsabilidade 
e respeito. Um estudo sobre a Ética na tradução deve ser um estudo sobre o bem, 
a justiça, o respeito, dentro do processo de traduzir. As escolhas na tradução devem 
passar por esse crivo do conhecimento inicial do que significa ter Ética.
 
Daí a necessidade de termos falado acerca de uma visão teleológica acerca 
do objeto de traduzir, bem como uma postura deontológica. Para tanto, analisamos os 
Sistemas Éticos de Aristóteles, Kant e utilitaristas, verificando como podemos derivar 
suas respectivas éticas para nosso olhar atento sobre o traduzir.
Aristóteles aponta uma busca pela virtude, pelos hábitos corretos e a atitude 
da mediania para buscarmos a felicidade, em especial a felicidade na polis. A felicidade 
como horizonte nas ações marcará profundamente o solo da Filosofia, e ditará aquilo 
que chamamos de Ética Teleológica eudaimonista, a saber, Ética que possui a felicidade 
como consequência das ações. Devemos fazer isso na tradução.
Kant já nos mostrou outro viés, ancorado na razão, liberdade e fraternidade, 
ou seja, ancorada nos ideais Iluministas que falavam de uma superação da minoridade 
para a maioridade das escolhas. Para tanto, Kant formulou o Imperativo Categórico, 
metodologia Ética que inaugura a deontologia dentro do processo de agir, em que não 
devemos esperar uma finalidade em nossas ações, somente esperar que elas sejam 
boas em si mesmas.
Da mesma forma, o Sistema Ético Utilitarista aponta suas perspectivas e saídas 
acerca do agir, e nos mostra que o útil mais relevante é o pensar em comunidade, o 
útil para a sociedade. O verdadeiro útil é aquele que se soma aos ideais democráticos 
e pensa no bem-estar da maioria, trazer felicidade para um número maior de pessoas. 
Essas perspectivas, de Aristóteles, Kant e utilitaristas demonstram o primado ético 
acima do Poético em termos de vida prática, e puxando aqui o tema para nosso lado, 
demonstram o primado da tradução nos termos éticos sobrepostos aos Poéticos.
53
As perspectivas se modificam, principalmente, a partir do Romantismo alemão, 
trazendo uma espécie de primado do Poético sobre o Ético nas criações textuais, 
em especial a tradução. Nietzsche talvez seja o principal interlocutor dessas ideias, 
perfazendo a tradução como um potencial criativo que deve pensar somente a si 
mesmo, desprendido do engajamento ético, principalmente na atividade criativa.
Gilles Deleuze, também, em tempos mais próximos, nos revela a criatividade da 
escrita e da tradução acima de todas as coisas, quando falamos de qualquer processo 
criativo e poético, como por exemplo, a tradução.
A partir de tudo isso, a pergunta que deve ficar na consciência de quem trabalha 
com tradução deve ser: que perspectiva devemos tomar? Que caminho teórico devemos 
trilhar no processo de tradução?
As mais variadas construções éticas acerca da tradução nos apontam vários 
caminhos, a decisão para onde seguir é um juízo individual, mas sempre levando em 
conta a bagagem civilizatória que já temos a respeito do tema. Para finalizarmos essa 
ideia, uma meditação final de Venuti (1995, 1995, p. 6-7):
ao se falar de tradução, nos colocamos diante de dois dilemas, de 
um lado, a tradução é definida como uma representação de segunda 
ordem: apenas o texto estrangeiro pode ser original, uma autêntica 
cópia, fiel à personalidade ou intenção do autor, enquanto a tradução 
é derivativa, falsa, potencialmente uma falsa cópia. Por outro lado, é 
necessário à tradução um discurso transparente para apagar o status 
de segunda-ordem, produzindo a ilusão de uma presença autoral 
através da qual o texto pode ser tomado como o original. 
Essas contradições e escolhas ao traduzir vão sempre percorrer o cotidiano da 
atividade do tradutor. A ideia aqui, desse tema de aprendizagem, foi trazer uma visão 
mais histórica e filosófica da questão Ética na tradução. Em seguida, apresentaremos 
questões mais temáticas aliadas ao ato de traduzir. Começaremos a falar sobre a 
tradução e a questão da responsabilidade.
54
TRADUÇÃO E ÉTICA 
Paulo Oliveira 
Falar em Ética significa investigar os valores e posturas que orientam nosso 
pensar e sobretudo nossas ações, no limite determinando aquilo que fazemos ou 
deixamos de fazer – com base nesses valores e posturas. Assim sendo, entra em 
jogo necessariamente algum tipo de valoração, daquilo que é bom ou ruim, positivo 
ou negativo, com suas devidas gradações, até o ponto em que algo é considerado 
absolutamente necessário ou interdito. De maneira habitual, a tradução costuma ser 
tratada pelo viés negativo, condensado na máxima traduttore, traditore (tradutor, 
traidor) e em expressões como belles infidèles (belas infiéis, significando que, para ser 
bela, a tradução – notadamente de poesia – tem de ser infiel). Por outro lado, a noção de 
Ética tem sido com frequência associada na discussão contemporânea a uma postura 
que procura enfatizar a diferença entre os valores e critérios da cultura de chegada e os 
da de partida, valorizando ao máximo a última. Nessa discussão, destacam-se alguns 
trabalhos de grande repercussão internacional, de autores como Antoine Berman (2007) 
e Lawrence Venuti (1995), ambos retomando uma conferência clássica de Friedrich 
Schleiermacher (2010) e abrindo um debate que perdura até os dias de hoje, inclusive 
no Brasil (por exemplo: Wyler, 1999; Oliveira, 2005, 2011; Rodrigues, 2007). 
No âmbito da tradução de textos de cunho mais pragmático e das normas 
elaboradas por associações profissionais, que também contemplam questões 
mais gerais, como cumprimento de prazos, manutenção de sigilo etc., destaca-se 
sobretudo o conceito de lealdade (loyalty), no tocante não apenas ao autor original, 
mas também às diferentes instâncias que compõem o complexo cenário da atividade 
tradutória (cf. Nord, 1991, p. 94; Chesterman, 1997, p. 68; Snell-Hornby, 2006, p. 56-
60). Em caso de conflito de interesses ou prioridades entre as várias instâncias, a 
serem detalhadas mais adiante, decisões terão de ser tomadas com base nos critérios 
pertinentes que, no entanto, nem sempre serão suficientes para dar conta do caso 
concreto, podendo até se contradizer mutuamente. Caberá então ao indivíduo decidir 
quais critérios priorizar, ou mesmo estabelecer novos parâmetros, fazendo uso de 
sua autonomia de pensamento e ação como sujeito racional, moral e jurídico – sem 
com isso se desvincular da comunidade em que está inserido, até porque as decisões 
que tomar serão feitas sobre o pano de fundo de uma tradição herdada, com a qual 
terão de dialogar, podendo eventualmente vir a ser assimiladas e levar a uma (nova) 
regra geral dessa mesma comunidade. Ocorre, porém, que parte das discussões em 
Ética tradutória assenta-se não raro naquilo que na obra tardia do filósofo Ludwig 
LEITURA
COMPLEMENTAR
55
Wittgenstein (2009; 2004) é caracterizado como uma confusão conceitual, quando 
não se percebem os diversos níveis de abstração em que operam os diferentes 
conceitos, ou seus contextos e limites de aplicação. Criam-seentão falsos impasses, 
ou falsas soluções – pois uma solução só poderá ser boa se o problema estiver 
bem articulado, e um problema que tenha por base uma confusão conceitual com 
certeza não poderá ter uma boa solução. Nesse caso, o que podemos fazer é procurar 
dissolver o problema, mostrando em que medida ele decorre de falsas questões. 
Em se tratando de Ética, um bom caminho para chegarmos a um entendimento 
adequado do que está realmente em jogo passa por uma investigação do conceito 
propriamente dito, como pressuposto para aplicá-lo ao caso específico da tradução. 
O que é Ética? Como em tantos outros casos na filosofia ocidental, também aqui 
a origem do termo pode ser encontrada na Grécia antiga, com duas variantes: A 
primeira é a palavra grega éthos, com e curto, que pode ser traduzida por costume 
[ou hábito], a segunda também se escreve éthos, porém com e longo, que significa 
propriedade do caráter. A primeira é a que serviu de base para a tradução latina Moral, 
enquanto a segunda é a que, de alguma forma, orienta a utilização atual que damos 
à palavra Ética (Moore, 1975, p. 4). Essas variantes não são estanques, na medida 
em que a segunda, também descrita por Moore (1975, p. 4) como “investigação geral 
sobre aquilo que é bom”, interfere na primeira, quando da estipulação concreta das 
normas e dos valores que estão na base de nossos hábitos e costumes, e dos códigos 
de conduta específicos das diferentes profissões: Ética médica, Ética da investigação 
científica etc., aí inclusa a Ética da tradução – nosso caso específico. Os costumes, 
por sua vez, podem ter diferentes tipos de sustentação.
Uma delas é o hábito puro e simples: faço assim porque é assim que isso é 
feito (em minha comunidade), quase como um dado natural, as gerações anteriores 
procediam da mesma forma e outras pessoas (da mesma cultura, do ambiente em que 
convivo) procedem de modo igual. Ao serem passados de uma geração a outra, tais 
hábitos dão origem a discursos que procuram de algum modo justificar os valores e 
normas em questão. Em outras palavras, buscam uma solução para o dito “‘Porque 
sim’ Intervenções minhas diretamente no texto estão assinaladas por colchetes, sem 
indicações adicionais documentado no quadro homônimo do programa infantil Castelo 
Rá-tim-bum, da TV Cultura (São Paulo). Tal busca por algum tipo de fundamentação 
está na base das grandes narrativas que constituem as diferentes culturas, seja na 
forma de mitos e religiões ou mesmo em discursos racionais como nas ciências. O que 
distingue uma forma de outra é o tipo do elemento de coesão utilizado.
A adesão pode ser espontânea, por simples inércia (tomar o que é dado por 
natural), ou resultar de operações como sedução, persuasão ou convencimento. É ao 
último modo que se associa a racionalidade ocidental, podendo-se afirmar ser esse o 
elemento diferenciador do conceito em sua acepção mais abstrata, que está na origem 
dos diferentes sistemas de Ética com alguma fundamentação racional – por oposição 
à simples adesão, seja ao mito ou na conversão religiosa. Isso posto, podemos voltar à 
Grécia antiga e à origem do conceito.
56
Em seu livro On Translator Ethics [Sobre a Ética do tradutor], Anthony Pym 
também lembra que, segundo os manuais, é lá que nasceu o pensamento ético ocidental 
tal como o conhecemos, o pensamento ético dos sofistas e de Sócrates [e Aristóteles, 
podemos agregar]. Por que lá? Em primeiro lugar, a nova classe profissional de negócios 
(burguesia, se quisermos) estava em estado de ruptura com os valores tradicionais. Seu 
estatuto social não dependia de uma origem aristocrática; não estava acostumada à 
autoridade; precisava de razões capazes de apontar suas escolhas em uma direção 
ou outra. Através dessa procura por razões, o pensamento ético questiona tudo o que 
parece natural. Ao mesmo tempo, essa classe profissional de negócios não está mais 
engajada no trabalho físico costumeiro de uma sociedade agrícola. Para cuidar do corpo, 
precisa também de exercícios, de esporte. A Ética retomou essa ideia: para cuidar do 
espírito, é preciso também se exercitar, engajar-se em movimento intelectual regulado. 
Portanto, a função da Ética é, dentre outros, exercer o intelecto. 
Ora, se é possível atribuir uma espécie de “certidão de nascimento” até mesmo 
à racionalidade em si, como no trecho citado, não seria de se esperar que o pensamento 
ético fosse imune ao tempo e aos contextos, por mais que haja uma pretensão 
universalista no próprio conceito, em sua versão de “investigação geral sobre aquilo que 
é bom”. O que temos, na verdade, é uma tensão dialética entre a pretensão universalista 
e os diversos contextos de aplicação que levam à criação, manutenção ou ao eventual 
abandono ou enfraquecimento dos diferentes sistemas éticos. Aquilo que em um 
certo momento contestava algo antes tido por “natural” pode tornar-se tão aceito, tão 
habitual, que passa então a ser uma espécie de “segunda natureza” do homem – que é 
como também Roberto Romano (2004, p. 41) define a Ética, confluindo com a primeira 
acepção fornecida por Moore (1975, p. 4). 
Abrangência semelhante tem o conceito de habitus, amplamente utilizado 
na sociologia contemporânea (e em seus ecos nos estudos da tradução), sobretudo 
na versão popularizada por Pierre Bourdieu (1983, p. 65ss; Wacquant, 2007), mas que 
remonta a Aristóteles, cuja noção de hexis foi recuperada na Idade Média pela filosofia 
tomística e depois retomada por vários autores, como Panofsky em sua análise da 
arquitetura gótica medieval. Posteriormente, Max Weber veio a falar de um habitus 
protestante; Norbert Elias, de um habitus alemão nacional; Thorstein Veblen, de um 
habitus predatório dos industriais (Noronha; Rocha, 2007, p. 52). Notadamente nos três 
últimos casos, temos sistemas de valores tornados padrão, amplamente “naturalizados” 
em seus respectivos tempo e contexto. Por outro lado, eles não deixaram de passar por 
algum processo de justificação destinado a lhes conferir a devida legitimidade.
Tendo isso em conta, salientarei alguns aspectos dos sistemas de ética cujo 
legado ainda se faz sentir na discussão contemporânea nos Estudos da Tradução. Mas 
antes cumpre destacar uma característica geral desse debate. Em sua resenha do 
tema, Anthony Pym denuncia uma “linha de batalha” separando dois campos quase 
estanques na tradição francesa, mas não só nela (conforme já aludido anteriormente).
57
Mas antes cumpre destacar uma característica geral desse debate. Em sua 
resenha do tema, Anthony Pym denuncia uma “linha de batalha” separando dois 
campos quase estanques na tradição francesa, mas não só nela (conforme já aludido 
anteriormente): Preocupações profissionais são objeto tradicional da déontologie 
[deontologia], algo como “códigos de Ética”, operando em uma dimensão bastante 
diferente daquela da éthique [Ética] propriamente filosófica, onde intelectuais assumem 
poses elegíacas e anunciam nobres princípios a respeito de solidariedade, humanidade, 
pluralidade, abertura, justiça e às vezes alguns direitos humanos relativos a coisas 
igualmente abstratas. Por exemplo: a déontologie fala de comércio e quantidades 
(dentre outros: quanto se deve pagar ao mediador); a éthique normalmente não faria 
isso (como se atuasse em um mundo de puras qualidades). Não gostaria aqui de fazer 
tal distinção, que o presente texto recusa de modo consciente (Pym, 2012, p. 1). Apesar 
do tom tipicamente polêmico do autor, tanto a descrição do debate bipartido quanto 
a recusa em manter tal dicotomia são pertinentes. Como bem lembra Peter Singer na 
introdução de seu A Companion to Ethics [Compêndio de Ética], o que aqui entra em 
jogo são valores, ou seja, a distinção entre bem e mal, certo e errado. 
Não podemos evitar o envolvimento com a Ética, pois o que fazemos – e o 
que não fazemos – é sempre passível de avaliação Ética. Qualquer pessoa que pense 
sobre o que deve fazer está, consciente ou inconscientemente, envolvida com a Ética 
(Singer, 2012, p. v). Nessesentido, não é muito feliz a escolha da expressão “tradução 
Ética” popularizada a partir da obra de Antoine Berman, significando aquela que 
valoriza a diferença, ou o reconhecimento do Outro – por mais que a abordagem em 
si tenha seus méritos, sobretudo em contextos de hegemonia ou assimetria cultural. 
Atitudes e decisões mobilizadas em processos tradutórios poderão até ser antiéticas, 
no sentido de violarem códigos específicos de conduta, mas nenhuma poderá ser não 
ética, sobretudo no sentido mais abstrato do termo. A Ética é incontornável. Daí a 
necessidade de uma reflexão mais básica sobre a própria natureza do conceito e suas 
diversas dimensões, notadamente nas implicações que podem ter como orientação 
para o tradutor em formação.
Na medida em que tal estudante também estiver envolvido com outras áreas de 
investigação nas humanidades, tais como estudos da cultura ou literatura comparada, as 
questões mais amplas e abstratas tratadas pelos intelectuais a que alude Pym também 
serão de interesse – mas essa é certamente uma outra discussão, bem ilustrada pelos 
artigos que compõem a coletânea Nation, Language and the Ethics of Translation 
[Nação, linguagem e a Ética da tradução] (Berman; Wood, 2005), destinada a “repensar 
conexões e conflitos nacionais, subnacionais e internacionais, sua história e seu futuro, 
do ponto de vista específico da linguagem e da tradução” (p. 2). Aqui, a perspectiva 
dos diferentes autores apresenta-se como crítica ou análise de fenômenos históricos, 
geopolíticos e culturais envolvendo a tradução, com menor destaque para critérios de 
atuação do tradutor propriamente dito, naquilo que está a seu alcance fazer – ainda que 
isso também seja tematizado, em especial no tocante à tradução literária.
58
A nós, por outro lado, interessarão sobretudo questões mais próximas da prática 
tradutória, sem restrições a campos específicos (não excluindo a literatura, mas abrangendo 
também textos de cunho pragmático, os mais variados meios e suportes etc.), nas diferentes 
funções que o atual estudante poderá vir a assumir no exercício profissional – sem com 
isso retirar da reflexão sobre a Ética sua dimensão mais abstrata, ou seja, sem reduzi-la ao 
domínio das prescrições dos códigos de Ética das associações profissionais. Veremos com 
isso que o próprio termo deontologia abrange também outros aspectos, situados muito 
além – ou aquém – do escopo coberto pela déontologie citada por Pym, tendo participação 
fundamental no debate filosófico propriamente dito (éthique), inclusive no tocante a 
pretensões universalistas, tal como expressas, por exemplo, na regra de ouro darwiniana: 
faça aos outros como pensa que deveriam fazer a você; ou no imperativo categórico 
kantiano: aja sempre de modo tal que suas ações possam ser tomadas como regra geral. 
Sistemas, princípios e seus limites A dial Ética abstrato/concreto que habita as diferentes 
teorias manifesta-se também como tensão entre aspirações universalistas e exigências 
regionais. Até que ponto pode-se imaginar a Ética como um fundamento universal? Em 
que medida as diferenças culturais colocam restrições a esse universalismo? Com que 
direito uma cultura ou teoria pode arrogar-se mais correta, mais justa do que outras? O 
já citado Compêndio de Ética nos mostra que, a despeito de suas notáveis diferenças, as 
mais diversas tradições respondem de algum modo a certas questões básicas, como: “De 
onde vem a Ética? Como posso saber o que é correto?
Qual é o critério último para a ação correta? Por que eu deveria fazer o que 
é correto?” (Singer, 2012, p. x). Tal base comum pode ser lida como característica de 
nossa forma de vida humana, derivada da própria organização gregária – ou seja, de 
vida em grupo, com elementos encontráveis até mesmo em outras espécies, como 
pássaros e mamíferos de modo geral. Contrapondo-se a uma certa vulgata darwinista 
e versões contratualistas radicais, expressas dentre outros pela teoria biológica do 
“gene egoísta” ou no mote hobbesiano “o homem é o lobo do homem”, Mary Midgley 
(2012) mostra que no próprio comportamento animal há tensões que poderíamos 
caracterizar, em nosso vocabulário, como “Éticas”. São exemplos disso o cuidado 
com os mais jovens (ou mais velhos e enfraquecidos) e algum tipo de reciprocidade, 
assim como outras formas de solidariedade importantes para a coesão/preservação 
do grupo. Mas há também tensões internas, como as que opõem instintos exercidos 
lenta e continuamente a outros que são fortes e intensos, a exemplo dos pássaros 
migrantes que abandonam os filhotes, de que vinham cuidando com grande afinco, 
quando o bando parte subitamente em revoada.
Isso evoca, de certo modo, o embate humano entre a virtude (como exercício da 
moderação) e a paixão (que se sobrepõe a considerações morais ou racionais). Daí para 
vários tipos de elaboração, são poucos passos. Vejamos um exemplo tirado da literatura. 
No romance Grande sertão: veredas, o narrador resume, Poeticamente: O senhor... mire 
e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isso: que as pessoas não estão sempre 
iguais, ainda não foram terminadas – mas que estão sempre mudando. [...] E outra coisa: 
o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! [...] Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz 
59
é na lei do mansinho – assim é o milagre. [...] Somenos, não ache que religião afraca. 
Senhor ache o contrário. (Rosa, 2006, p.19) Note-se a semelhança entre a caracterização 
do mal, personificado na figura do diabo, com o domínio das paixões (“às brutas”), ao 
passo que o divino ilustra a virtude, isto é, fazer “na lei do mansinho”, do hábito, da 
moderação. De resto, se aos olhos do narrador a religião não “afraca”, é provavelmente 
porque dá um norte, fornece critérios. Em suma, é um sistema de Ética. Mas nem tudo 
que tais sistemas elaboram pode ser considerado universal. Se fosse assim, não haveria 
diferenças culturais. Pelo menos é isso o que nos diz o chamado relativismo ético, ao 
qual podemos associar parte significativa do debate contemporâneo nos estudos da 
tradução, tendo em vista seu princípio básico de que não deveríamos julgar, ou tentar 
modificar, os valores de pessoas de outras culturas. E a tradução ocorre, por definição, 
na interface entre diferentes culturas, requerendo decisões não raro muito complexas. 
Devo, por exemplo, aceitar e traduzir de modo “fiel” (aqui: acrítico) textos que veiculem 
valores contrários aos de minha própria cultura/convicção?
Ou, na perspectiva oposta: com que direito posso fazer alterações deliberadas 
nesses textos, para que sejam compatíveis com meus próprios valores? Em suma, qual 
é o limite do princípio da tolerância, da aceitação do Outro? Tais questões colocam-
se de modo agudo para abordagens solidárias com as minorias, cuja oposição aos 
diversos tipos de discriminação – de gênero, cor, credo etc. – eventualmente manifesta 
nos originais fica evidente quando se advoga algum tipo de tradução dita “subversiva” 
ou “transgressora”, ou seja, que procure conscientemente criar deslocamentos face 
ao texto de partida, tal como discutido, dentre outros, por Rosemary Arrojo (1994, 
1995), Kanavillil Rajagopalan (2000), Silene Moreno e Paulo Oliveira (2000), ou ainda, 
de forma atualizada e com deslocamentos de foco, em alguns trabalhos da já citada 
coletânea de Bermann e Wood (2005).Se ao tratar de tópicos dessa natureza levarmos 
em conta alguns princípios dos grandes sistemas de Ética, poderemos agregar uma 
nova dimensão à análise, visando obter uma compreensão adequada dos fundamentos 
e implicações das diferentes estratégias tradutórias, no que tange ao foco específico 
do presente trabalho. 
Um sistema relevante para a discussão da “tradução Ética”, baseada naquilo 
que poderíamos chamar de “Ética da diferença” (respeito ao Outro), assim como, no polo 
oposto, da tradução “subversiva/transgressora”, que questiona os valores do Outro e os 
desloca na tradução, é certamente o relativismo meta-ético, cujos princípios básicos 
são a “negaçãode que qualquer código moral específico tenha validade universal” e o 
entendimento de que “verdade moral e justificabilidade, se de fato tais coisas existem, 
são de algum modo relativas a fatores histórica e culturalmente contingentes” (Wong, 
2012, p. 442). Essa tradição remonta aos sofistas na Grécia antiga, em um contexto 
permeado por “comércio, viagens e guerra”, o que os levava a ter perfeita ciência “da 
enorme variabilidade dos costumes” e a “concluir [seu] argumento com a relatividade da 
moral” (p. 443). O tópico volta a ser central com Montaigne no século XVI e é retomado 
no século XX pela Antropologia Cultural.
Fonte: amorim-9788568334614-05.pdf (scielo.org). Acesso em: 21 dez. 2022. 
60
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• Que há algo que se relaciona com o Ético na atividade de tradução que é o Poético, 
e pensar sobre a primazia do Poético frente ao Ético, ou vice-versa, traz um 
aprofundamento na questão do traduzir.
• Que o Poético se apresenta como um grande primado criativo a partir do Romantismo 
alemão, influenciando a Ética no traduzir, bem como faz uma meditação sobre a Ética 
no traduzir.
• Que Nietzsche e Deleuze meditam sobre o traduzir ancorados nesses aspectos 
criativos que revelam a verdade do texto, e a prática da tradução como prática do 
poético.
61
AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 “Homero, sendo digno de louvor por muitos motivos, é-o em especial porque é o único 
poeta que não ignora o que lhe compete fazer. De fato, o poeta, em si, deve dizer o 
menos possível, pois não é através disso que faz a imitação. Os outros intervêm, eles 
mesmos, durante todo o poema e imitam pouco e raramente. Ele, pelo contrário, 
depois de fazer um breve preâmbulo, põe imediatamente em cena um homem, uma 
mulher ou qualquer outra personagem e nenhum sem caráter, mas cada uma dotada 
de caráter próprio”.
Fonte: ARISTÓTELES. Poética. Trad. A. M. Valente. Lisboa: 
Calouste Gulbenkian, 2004. p. 94-95.
 Acerca da Poética e das suas possíveis relações com o ato de traduzir assinale a 
alternativa CORRETA:
a) ( ) A Poética sempre se sobrepõe à Ética, em qualquer sistema filosófico.
b) ( ) A Poética é a palavra que simboliza o correto a ser feito.
c) ( ) A Poética pode ser entendida como uma potência criativa.
d) ( ) A Poética não se relaciona com a Ética, em nenhum momento.
2 Leia os dois trechos a seguir:
 Texto1
 “A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água 
é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e 
levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição 
enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem 
e favulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de 
crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um”. 
NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São 
Paulo: Nova Cultural, 1999.
 Texto 2
 “Por maioria, nós não entendemos uma quantidade relativa maior, mas a determinação 
de um estado ou de um padrão em relação ao qual tanto as quantidades maiores 
quanto as menores serão ditas minoritárias. Maioria supõe um estado de dominação. 
É nesse sentido que as mulheres, as crianças e também os animais são minoritários”.
DELEUZE, G.; GUATTARI. F. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 
2012 (adaptado).
62
 Acerca da relação do traduzir com a Poética descrita na obra de Nietzsche e Deleuze, 
assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Em ambos os autores, Deleuze e Nietzsche, a Poética conduz a Ética acerca do ato 
 criativo e sendo assim também o traduzir.
b) ( ) Somente em Nietzsche, e não em Deleuze, a Poética conduz a Ética acerca do ato 
 criativo e sendo assim também o traduzir.
c) ( ) Somente em Deleuze, e não em Nietzsche, a Poética conduz a Ética acerca do ato 
 criativo e sendo assim também o traduzir.
d) ( ) Nem em Nietzsche nem em Deleuze a Poética conduz a Ética acerca do ato 
 criativo e sendo assim também o traduzir.
3 Leia os dois textos a seguir: 
 Texto 1
 “A genuína e própria filosofia começa no Ocidente. Só no Ocidente se ergue a liberdade 
da autoconsciência. No esplendor do Oriente desaparece o indivíduo; só no Ocidente 
a luz se torna a lâmpada do pensamento que se ilumina a si própria, criando por 
si o seu mundo. Que um povo se reconheça livre, eis o que constitui o seu ser, o 
princípio de toda a sua vida moral e civil. Temos a noção do nosso ser essencial no 
sentido de que a liberdade pessoal é a sua condição fundamental, e de que nós, por 
conseguinte, não podemos ser escravos. O estar às ordens de outro não constitui 
o nosso ser essencial, mas sim o não ser escravo. Assim, no Ocidente, estamos no 
terreno da verdadeira e própria filosofia”
Fonte: HEGEL, G. W. F. (1999; 2000; 2004). Cursos de estética 
(Vol. 1, 2 e 4). Trad. De Marco Aurélio Werle e Oliver Tolle. São 
Paulo: EDUSP.
 Texto 2
 “Por um lado, está o solo ético, simbolizando a neutralidade Ética que teme a cisão 
das potências Éticas; o coro é o público não como mera reflexão exterior sobre os 
eventos, mas como e expressão da reconciliação, ou seja, é a marca essencial do 
sensível. Por outro lado, estão as forças colidentes, como potências Éticas que 
emergem deste solo; a ação traz inquietação ao repouso ético, embora traga por fim, 
fortificado, o equilíbrio originário” (WERLE, 2005, p. 247).
 Acerca das relações que o Romantismo alemão possui com o aspecto ético e poético 
do agir, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Historicismo e Progresso são as duas ideias essenciais que permeiam a 
 fundamentação teórica do Romantismo alemão.
b) ( ) Niilismo e Progresso são as duas ideias essenciais que permeiam a fundamenta- 
 ção teórica do Romantismo alemão.
63
c) ( ) Historicismo e Decadência são as duas ideias essenciais que permeiam a 
 fundamentação teórica do Romantismo alemão.
d) ( ) Casualidade e Circularidade são as duas ideias essenciais que permeiam a 
 fundamentação teórica do Romantismo alemão.
4 Leia o trecho a seguir:
 “Aliás, não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para 
uma nova época. O espírito rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, 
que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa 
de sua transformação. Certamente, o espírito nunca está em repouso, mas sempre 
tomado por um movimento para a frente. Na criança, depois de longo período de 
nutrição tranquila, a primeira respiração – um salto qualitativo – interrompe o lento 
processo do puro crescimento quantitativo; e a criança está nascida. Do mesmo 
modo, o espírito que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova 
figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo 
se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que 
ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores 
de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronar-se gradual, que não alterava a 
fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem 
do mundo novo”. 
Fonte: HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. 2. ed. 
Trad: Paulo Meneses, com a colaboração de Karl-Heinz Efken 
e José Nogueira Machado. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 31.
 Acerca do traduzir no Romantismo alemão, descreva a importância das ideias de 
historicismo e progresso.
5 Leia o trecho a seguir:
 "Mas que quer ainda você com ideais mais nobres! Sujeitemo-nos aos fatos: o povo 
venceu – ou 'os escravos', ou 'a plebe', ou 'o rebanho', ou como quiser chamá-lo se 
isto aconteceu graças aos judeus, muito bem! Jamais um povo teve missão maior na 
história universal. 'Os senhores' foram abolidos; a moral do homem comum venceu. A 
'redenção' do gênero humano (do jugo dos 'senhores') está bem encaminhada; tudo 
se judaíza, cristianiza, plebeíza visivelmente (que importam as palavras!)”.Fonte: NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. 
Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1998.
 Apresente a concepção geral das Poéticas de Nietzsche e Deleuze:
64
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HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. 2. ed. Trad: Paulo Meneses, com a cola-
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WERLE, M. A. A questão do fim da arte em Hegel. São Paulo: Hedra, 2011.
67
 A TRADUÇÃO E A QUESTÃO 
DA RESPONSABILIDADE
UNIDADE 2 
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• observar o papel da responsabilidade na tradução;
• conhecer os aspectos éticos no criar e traduzir;
• reconhecer a ética da alteridade na tradução;
• verifi car a relação entre tradução e responsabilidade.
Com o objetivo de reforçar os conhecimentos adquiridos, a cada tema de 
aprendizagem desta unidade, você encontrará autoatividades planejadas a partir do 
conteúdo trabalhado. 
TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – INTRODUÇÃO À ALTERIDADE NA TRADUÇÃO
TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO E ALTERIDADE
TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO COMO 
RESPONSABILIDADE
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure 
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
68
CONFIRA 
A TRILHA DA 
UNIDADE 2!
Acesse o 
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69
TÓPICO 1 — 
INTRODUÇÃO À ALTERIDADE NA 
TRADUÇÃO
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Como breve introdução deste nosso início de tema de aprendizagem, uma frase 
de relevância impacto para o processo ético da tradução, de um dos maiores teóricos 
do tema e que utilizaremos nesta unidade, o pensador da tradução Antoine Berman: “A 
eticidade reside no respeito, ou melhor, num certo respeito pelo original”. 
Respeito e original são breves palavras que irão guiar essa unidade tendo foco 
em três questões centrais, a saber: os aspectos éticos do traduzir e do criar; os aspectos 
éticos da tradução e alteridade; os aspectos éticos da tradução como responsabilidade. 
Nesse sentido, o respeito surge como um mandamento ético que busca um acerto de 
contas com nosso sentimento mais humano, e o original, um acerto de contas com a ideia 
de autoria concreta, o texto e autor como objetos principais no ato de traduzir. 
A frase acima de Berman, como de fato sendo um grande teórico da tradução, 
representa o espírito do tradutor no século XX e XXI, ou seja, o tradutor que não deve 
deixar de lado as atrocidades humanas ocorridas nas duas grandes guerras, num 
passado próximo e vizinho a todos nós, nos acontecimentos trágicos como o Holocausto, 
Hiroshima e Nagasaki. A pergunta que se coloca e muito se colocou nas últimas décadas 
é como pode existir e resistir a Ética? Ou melhor, é possível uma humanidade com Ética? 
E como aplicar essa ética do mundo pós-guerra na tradução? Como inserir esse rol de 
características que evocam o primado da alteridade e responsabilidade na tradução?
Descrevemos na Unidade 1 como alguns pensadores representantes da História 
da Ética apontaram o criar como uma grande potência poética, e como a criação se 
sobrepõe inclusive aos aspectos mais essenciais da Ética. Autores como Nietzsche e 
Deleuze que colocam o criativo acima de qualquer coisa.
Uma criação pela criação, uma força criativa acima de qualquer outra força 
moralizante, ou seja, a arte é quem deve criar a moral. O mundo Pós-Segunda Guerra 
aponta para outros caminhos.Uma Poética acima da Ética não é algo mais tão palatável na 
emergência dos acontecimentos. Uma arte acima do bem e do mal não é algo negociável, 
pois toda criação deve ter como medida o horizonte do respeito, da responsabilidade, 
e como veremos, da alteridade. E como fica o processo de traduzir nessa perspectiva? 
Como as principais doutrinas éticas na tradução irão operar nessas diretrizes?
70
No Tema de Aprendizagem 1, nós falaremos acerca da tradição teórica da 
ética no mundo pós-guerra, sobre os autores que denunciaram o fascismo, nazismo 
e totalitarismos mais diversos e cruéis. Escolhemos então falar da Escola de Frankfurt, 
Hanna Arendt, Primo Levi, autores que trataram informalmente da Ética, mas se são 
essenciais ao nosso ver para entender a cultura do mundo pós-guerra. São essenciais 
para a mudança cultural que também se daria nessa espécie de “pax romana” a partir 
dos anos 1940. São figuras que não falam diretamente da tradução, mas com certeza 
impactaram o ambiente ético na tradução e produção de conhecimento, uma cultura 
necessária ao traduzir.
Também trataremos de Emmanuel Lévinas, que estabeleceu a alteridade como 
chave de compreensão da ética, e influenciaria toda uma tradução teórica de ética na 
tradução pensando a questão do outro. Trata-se de um autor essencial nos séculos XX 
e XXI, e que iria influenciar um dos mais respeitados pensadores na ética da tradução, 
Antonie Berman, teórico francês, que impactou criticamente a área e é utilizado como 
um pensador parâmetro para o tema, em especial a tradução e alteridade.
Finalmente, em se tratando de responsabilidade e tradução, torna-se 
imprescindível falar de Jean Paul Sartre, que também se insere no ambiente da ética 
como grande teórico dessa perspectiva. Sartre vai descrever a atividade humana como 
responsável e engajada, uma consequência de nosso espectro existencial. Pensaremos 
isso também na tradução, e como o engajamento com a existência individual e coletiva 
nos lança ao horizonte da responsabilidade.
Vejamos agora, algo crucial, como o pós-guerra mundial afetou o ambiente 
ético da tradução? Para adentrarmos então, no traduzir e criar do século XX, precisamos 
entender os caminhos da ética no último século, e como isso nos afeta até hoje. Vamos 
observar de forma atenta!
2 INTRODUÇÃO À ALTERIDADE: ASPECTOS ÉTICOS DO 
TRADUZIR E CRIAR
 
Tanto o ambiente da criação como o ambiente da tradução nos apresentam 
diversos questionamentos éticos. O ambiente da criação varia nas concepções de 
uma criação acima de tudo, inclusive da moral e ética, bem como nas concepções 
de que deve existir um freio ético para tudo, inclusive na arte. Da mesma forma a 
tradução, que é de certa perspectiva também uma atividade criadora, como ela 
deve se portar? Criar e traduzir acima de tudo? A primeira metade do século XX nos 
mostrou muitas coisas.
71
As mais sangrentas tragédias do início do século XX marcaram para 
sempre a humanidade devido aos seus aspectos mais trágicos e horrendos. Esses 
acontecimentos impulsionaram um variado percurso teórico de autores e ideias que 
tentaram resgatar algo de humano em nossas produções criativas e acadêmicas, 
algo de humano nesse vazio ético e de responsabilidade com a dignidade humana. 
Diz-nos de forma categórica o historiador Eric Hobsbawm (1995, p. 31), sobre o início 
do século XX como Era do Massacre:
Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iriam dar-se 
numa (escala muito mais vasta do que qualquer coisa experimentada 
antes. Das 74 guerras internacionais travadas entre 1816 e 1965 que 
especialistas americanos, amantes desse tipo de coisa, classifi caram 
pelo número de vítimas, as quatro primeiras ocorreram no século 
XX: as duas guerras mundiais, a guerra do Japão contra a China em 
1937-9, e a Guerra da Coréia. Cada uma delas matou mais de 1 milhão 
de pessoas em combate. A maior guerra internacional documentada 
do século XIX pós-napoleônico, entre Prússia-Alemanha e França, 
em 1870-1, matou talvez 150 mil pessoas, uma ordem de magnitude 
mais ou menos comparável às mortes da Guerra do Chaco, de 1932-
5, entre Bolívia (pop. c. 3 milhões) e Paraguai (pop. c. 1,4 milhão). Em 
suma, 1914 inaugura a era do massacre.
Milhões e milhões de mortes nessa Era do massacre, quando as armas de 
destruição em massa deram o tom do combate. Hobsbawn (1995) nos apresenta 
um panorama absurdo do talvez mais absurdo período da raça humana, quando a 
aniquilação foi concreta, e a criação posterior de uma eminente guerra nuclear nos 
assola desde então.
A Ética precisava dar uma resposta a essa crise tão contundente e sanguinária 
acerca do que é a humanidade. No ambiente da Ética e da tradução não foi diferente, essa 
busca também se deu na produção teórica de vários autores. Observamos no mundo pós-
guerra o alvorecer de novas teorias, bem como a fi xação em duas ideias centrais quando 
o assunto é Ética e tradução: a alteridade e a responsabilidade.
Nesta perspectiva, trataremos na Unidade 2, o contexto histórico da ética 
da tradução no pós-guerra, e como alguns teóricos da ética e tradução 
nos ajudam a enfrentar teoricamente essas questões que assolam a 
humanidade desde então.
ESTUDOS FUTUROS
72
É impossível falar de Ética em qualquer âmbito, a partir do século XX, sem 
passarmos pelas atrocidades das Guerras Mundiais. Na verdade, o contexto das duas 
guerras, primeira e segunda, apresentam a visão mais catastrófica dos seres humanos, 
iniciando pela utilização massiva de armas químicas, até o desfecho de devastação 
atômica em Hiroshima e Nagasaki, talvez a maior tragédia humana da história.
Esse aspecto sombrio e mórbido do ser humano foi amplamente pensado e 
teorizado por muitos pensadores do século XX e XXI. A chamada Escola de Frankfurt já 
alertava para o papel midiático dos Sistemas Totalitários e como usar o mito da razão, da 
tecnologia, do nacionalismo, para concretizar seus regimes de exceção, para realizarem 
um projeto de poder populista e cruel. Em especial, a Escola de Frankfurt alertou para o 
mito do Iluminismo e do progresso das civilizações, que para eles são apenas formas de 
se criar e prosperar mitos de domínio, tudo pelo poder.
Figura 1 – Max Horkheimer (à esquerda), Theodor Adorno (à direita), representantes da Escola de Frankfurt
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Frankfurt#/media/Ficheiro:AdornoHorkheimerHabermasby-
JeremyJShapiro2.png. Acesso em 31 mar. 2023.
Os regimes totalitaristas do período das grandes guerras e os regimes 
democráticos, há de se dizer, utilizaram-se de tecnologia e armas de destruição em 
massa para atingirem seus objetivos. Para entendermos o impacto destes totalitarismos 
na teoria e ética da tradução, no seu criar e traduzir, é preciso meditar sobre as seguintes 
críticas da Escola de Frankfurt: crítica ao Iluminismo, à razão instrumental, aos sistemas 
totalitários e aos meios de comunicação em massa.
73
Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) são dois grandes 
representantes da Escola de Frankfurt. Ambos escreveram em parceria muitas obras 
críticas aos sistemas totalitários, ao Iluminismo, à razão instrumental, ao sistema 
capitalista, entre outras importantes críticas. Uma de suas principais obras, na Dialética 
do Esclarecimento, os autores revelam a face destrutiva do Iluminismo, que poderia 
levar a tragédias como de fato veríamos nas grandes guerras: na crítica ao Iluminismo, 
observemos o trecho de Adorno e Horkheimer (1983, p. 90):
Desde sempre o Iluminismo, no sentido mais abrangente de 
um pensar que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar os 
homens do medo e de fazer deles senhores. Mas, completamente 
iluminada, a terra resplandece sob o signo do infortúnio triunfal. 
O programa do Iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço. Sua 
pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio 
do saber. Mas, o Iluminismo a serviço do presente [da ciência e da 
técnica tal e qual ela se apresenta neste século] transforma-se no 
totalengano das massas. 
Por muito tempo, desde a Idade Moderna, o ser humano vem construindo 
uma crença cada vez mais forte e estruturada acerca do papel da razão em nossas 
vidas, inclusive no cotidiano mais simples. No Iluminismo, como observamos na ética 
de Kant, essa crença de que a razão poderia explicar tudo e acabar com os males 
do mundo se amplificou. Foi uma fé na racionalidade que foi sendo construída por 
séculos e séculos, e que impulsionou inclusive uma crítica literária que acreditava 
que a razão seria nossa chave para resolução, estruturação e até mesmo a tradução 
textual. Esse mito da razão tomaria um viés muito forte com as guerras mundiais e a 
ascensão dos regimes totalitários.
E assim se daria, como vários autores do início do século XX e fim do XIX 
alertaram, e como se observou de forma trágica nas grandes guerras mundiais, a razão 
pode ser usada como meio de dominação e destruição, da mesma forma, o avanço 
e progresso das tecnologias: o ideal iluminista não caminhou para o progresso da 
liberdade, mas sim sua ruína. Os regimes totalitaristas souberam se apropriar desse 
mito da razão instrumental, segundo Adorno e Horkheimer (1983), e o utilizaram a 
serviço da barbárie, e não para o progresso civilizatório, utilizaram para manter o 
poder a qualquer custo.
Outra dimensão trágica desses regimes totalitários foi a manipulação utilizando-
se dos meios de comunicação em massa. Em todo contexto das guerras mundiais 
utilizou-se o rádio, o cinema em seus anos iniciais, jornais, revistas, meios impressos, 
a máquina da propaganda se fez presente e criou narrativas de ódio e difamação. Mais 
uma vez utilizou-se a arte, também, como uma arma de guerra. O estudo da Ética não 
mais seria o mesmo, e iria assim absorver o que essa chamada Teoria Crítica da Escola 
de Frankfurt estaria a dizer, para tentar compreender essas mudanças tão importantes 
no seio da sociedade.
74
É aquilo que a pensadora Hannah Arendt (1906-1975) viria a dizer em sua 
importante obra. Nascida em solo alemão, e de ascendência judia, Hannah Arendt viria 
a ser perseguida pelo nazismo, conseguindo fugir para os Estados Unidos da América 
onde se exilou e escreveu grande parte de sua obra.
Dentro dessa obra, Hannah Arendt deu uma das respostas mais sublimes 
para tentar explicar a condição humana em suas dimensões éticas e políticas no Pós-
Segunda Guerra Mundial. Segundo essa pensadora, o mal não possui origem metafísica, 
religiosa, ou algum tipo de entidade demoníaca. Pelo contrário, a causa do mal é sua 
regularidade, sua exposição cotidiana, sua repetição instrumentalizada. Uma vez 
normalizado, o mal assume uma manifestação cada vez mais cruel, pois banalizado 
pelas pessoas ele assume aparência comum.
Primeiramente, há a culpa que a Sociedade Alemã de forma geral colocou nos 
povos semitas pelos desastres econômicos, depois confi scando seus bens, então a 
perseguição, exílio, depois mandados para os campos de concentração e aniquilamento, 
tudo isso foi normalizado pelos soldados e entorno militar nazista. Esse conceito de 
banalização da maldade e sua descrição trágica está no cerne da obra ética e política 
de Hannah Arendt:
Começou dizendo enfaticamente que era um Gottglauniger, 
expressando assim da maneira comum dos nazistas que não era 
cristão e não acreditava na vida após a morte. E continuou: “Dentro 
de pouco tempo, senhores, iremos encontrar-nos de novo. Esse é 
o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, 
viva a Áustria. Não as esquecerei”. [...] Foi como se naqueles últimos 
minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de 
maldade humana nos ensinou – a lição da temível banalidade do mal, 
que desafi a as palavras e os pensamentos (ARENDT, 1999, p. 274). 
A ideia central no pensamento de Hannah Arendt é que a banalidade do mal 
pode estabelecer pontos de contato com a razão instrumental da Escola de Frankfurt e 
nos dimensionar naquilo que devemos pensar acerca da Ética, do traduzir e do criar. Se 
a razão instrumental nos condiciona muitas vezes em nos tornarmos apenas peças de 
um sistema, nos transformando em partes de um processo de produção, a banalidade 
do mal nos explica como essa razão instrumental nos torna seres amorais, ou seja, sem 
a capacidade de sentir a dor alheia e a dor do próximo.
Em resumo, no contexto das duas grandes guerras e a 
ascensão dos regimes totalitários, podemos dizer que as 
pessoas comuns se deixaram seduzir pelo crescimento 
econômico, pela melhoria aparente da vida cotidiana, e 
acabam por dar sustentação popular a esses regimes. Mas 
como a maioria dessas sociedades não tentou mudar essa 
marcha da insensatez?
ATENÇÃO
75
O pensamento racional tecnicista, nos disse Hanna Arendt, instituiu um certo 
fordismo no partido nazista, onde as pessoas comuns pareciam não ter a dimensão do 
que faziam, por ser o campo de extermínio parecido com uma linha de produção. Tal 
situação técnica, metódica e mórbida, gerou algo nunca antes visto na História que é a 
racionalização da morte, uma espécie de linha de produção absurda da morte. Como a 
Ética poderia lidar com isso?
Outro pensador seminal para pensarmos a ética Pós-Segunda Guerra é Primo 
Levi (1919-1987). Primo Levi foi um escritor, químico, e principalmente, sobrevivente 
do holocausto. Na sua obra mais conhecida “É isso o homem?”, Primo Levi descreve 
de forma realista sua sobrevivência nos campos de concentração, trazendo uma das 
frases mais emblemáticas no século XX, em termos éticos: “Se Auschwitz existe, Deus 
não existe”:
Sucumbir é a coisa mais simples: basta executar todas as ordens 
recebidas, comer somente a ração oferecida, ater-se à disciplina do 
trabalho e do campo. A experiência demonstrou que, desse modo, 
apenas excepcionalmente se pode aguentar mais do que três meses. 
Todos os muçulmanos que foram enviados à câmara de gás possuem 
a mesma história, ou, melhor dizendo, não têm história; seguiram a 
descida até o fundo, naturalmente, como os arroios que vão ao mar. 
Na obra Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal, Hannah Arendt trata 
o oficial nazista Eichmann como uma pessoa comum, aparentemente sem perversidade, 
mas que dentro do sistema assassino de aniquilação nazista, levou centenas de milhares 
à morte.
Eichmann era um homem que não parava para refletir. Ele não tinha perplexidades e nem 
perguntas, apenas atuava, obedecia. Seu desejo [era] de agir corretamente, de ser um 
funcionário eficiente, de ser aceito e reconhecido dentro da hierarquia. [...] Sem dúvida, os 
juízes tiveram razão quando disseram ao acusado que tudo o que dissera era “conversa 
vazia” – só que eles pensaram que o vazio era fingido, e que o acusado queria encobrir 
outros pensamentos, que embora hediondos, não seriam vazios. Essa ideia parece ter sido 
refutada pela incrível coerência com que Eichmann, apesar de sua má memória, repetia 
palavra por palavra as mesmas frases feitas e clichês semi-inventados (quando conseguia 
fazer uma frase própria, e a repetia até transformá-la em clichê) toda vez 
que se referia a um incidente ou acontecimento que achava importante. 
[…] o que ele dizia era sempre a mesma coisa, expressa com as 
mesmas palavras. Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava 
que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua 
incapacidade de pensar” (ARENDT, 1999, p. 62-63).
Eichmann apenas obedecia a ordens, fazia o que mandavam, não 
questionava, e assim, tinha sua vida cotidiana moldada por uma 
naturalização da maldade. Ele não se achava mal, não se julgava uma 
aberração, mas foi uma peça importante na máquina de aniquilação 
nazista. Ele, Eichmann, era uma peça dentro deste sistema burocrático, 
perverso e de sangue frio, que produziu uma máquina de destruição 
em massa, segundo Hanna Arendt.
IMPORTANTE
76
Uma vez dentro do campo, ou devido à intrínseca incapacidade, 
ou à desventura, ou por um banal acidente qualquer, eles foram 
esmagados antes de conseguirem adaptar-se; ficaram paratrás 
sem nem ao menos começarem a aprender o alemão ou a perceber 
alguma coisa no emaranhado infernal de leis e proibições [...] (LEVI, 
1988, p. 91).
Primo Levi (1988), a seu modo, também nos mostra a banalidade do mal, pelo 
prisma daquele que sofreu a tragicidade dessa banalidade. Esse axioma ético, até 
mesmo teológico, de Primo Levi demonstrou a que ponto pode chegar a perversidade 
humana, e indagou até que ponto os Sistemas Éticos nos distanciaram da barbárie 
dos homens. Primo Levi (1988) nos apresentou textualmente, de forma concreta, que 
precisávamos de um recomeço, novamente pensar e agir em como poderíamos frear 
essa perversidade em potencial da humanidade.
Várias tentativas de remodelar a ética se desenvolvem a partir do fim da Segunda 
Guerra Mundial, teorias éticas que tentam devolver à face humana e respeito em nossa 
sociedade, criando-se assim um período desafiador, porém criativo para a ética.
 
Em resumo, os pensadores da ética subsequentes ao fim da Segunda Guerra, 
iriam tomar essa lição de como a razão pode instrumentalizar as pessoas, transformar 
as relações humanas em espécies de fordismos, uma linha de produção burocratizante 
e banalizante da ética, a lição de nunca mais utilizar a técnica e tecnologia para a 
racionalização da morte. Sabemos que isso ainda não se concretizou nos dias de hoje, 
mas após a Segunda Guerra, essa ideia norteou as criações da ética.
 
Tabela 1 – Pensadores da ética no pós-guerra
Pensadores da Ética no pós-guerra
Pensador Ideia geral
Escola de Frankfurt
• Críticos ao mito da razão, do Iluminismo, dos sistemas 
totalitaristas, apresentaram uma postura crítica ao extre-
mo tecnicismo. Isso demonstra a ética mais voltada ao 
humano, e não ao racional tecnicista.
Hanna Arendt
• Apresentou a banalidade do mal como característica 
mais marcante de sociedades totalitárias, que se utilizam 
de organização tecnicista e que normalizam o mal em 
seu cotidiano.
Primo Levi
• Descreveu o mal totalitarista como experiência própria de 
sobrevivente do holocausto. Apresentou a impossibilida-
de ética da humanidade no existir dos regimes nazifas-
cistas.
Fonte: o autor
77
Os autores do pós-guerra aqui estudados, nesta parte inicial do texto, deixam 
claros os perigos de uma sociedade fundada no puro tecnicismo, na utilização da razão 
instrumental como burocratização dos processos práticos. É um ensinamento que deve 
ser levado no âmbito da tradução. É a pergunta que se coloca: como fugir do tecnicismo 
na tradução?
Para fugir da armadilha tecnicista devemos pensar uma tradução cada vez 
mais humanizada e priorizando o respeito pelas minorias linguísticas, ou melhor, 
pelas minorias de forma em geral. Muitas vezes acabamos naturalizando processos já 
tradicionais do traduzir, e cometemos uma espécie de banalização do mal, obviamente, 
em menor escala.
Figura 2 – Hanna Arendt
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt#/media/Ficheiro:Hannah_Arendt_1933.jpg. Acesso em: 
31 mar. 2023.
 
A própria Hanna Arendt é um exemplo de pesquisadora, pensadora e produtora 
de várias traduções, até mesmo ao escrever em inglês como sua segunda língua. Trata-
se de um ótimo exemplo de engajamento pela humanidade do texto. Agindo assim, 
talvez consigamos escapar da tecnização do traduzir, não instrumentalizarmos ao 
extremo nossos textos, não banalizarmos e naturalizarmos um mau procedimento.
78
2.1 TEÓRICOS DA TRADUÇÃO E A ÉTICA
Foi a partir do final da Segunda Guerra Mundial que o pensar da tradução e 
seus aspectos criam novos contornos. Primeiramente, a questão do respeito se torna 
objeto essencial não somente na ética filosófica, como também na busca institucional 
dos países mais desenvolvidos. Um reflexo disso é a criação da ONU e sua carta 
mais acerca dos Direitos Humanos, que estabelece o respeito como uma de suas 
principais vertentes. Poderíamos citar várias partes da Carta, mas o Artigo 1, parágrafo 
3 resume bem: “Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas 
internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover” e 
“e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, 
sem distinção de raça, sexo, língua ou religião” (ONU, 2023, s.p.).
O respeito por aquilo que é humano e pelas diferenças vai se concretizando, 
aparentemente, nos ambientes mais civilizados, nas democracias mais consolidadas, 
longe de chegar à perfeição, mas avançando em algumas questões históricas. É nesse 
contexto, nessa espécie de otimismo Pós-Segunda Guerra, que avançam algumas 
questões dos direitos civis, por exemplo, o fim da segregação racial patrocinada pelo 
estado nos Estados Unidos da América, o fim do Apartheid na África do Sul, ascensão 
e conscientização dos direitos femininos, LGBT+, enfim, uma sociedade civil mais 
organizada, buscando seus direitos mais elementares como o respeito.
[...] embora configure um campo composto por forças sociais 
heterogêneas, representando a multiplicidade e diversidade 
de segmentos sociais que compõem a sociedade, está 
preferencialmente relacionada à esfera da defesa da cidadania e 
suas respectivas formas de organizações em torno de interesses 
públicos e valores, incluindo-se o de gratuidade/altruísmo, 
distinguindo-se assim dos dois primeiros setores acima (Estado 
e mercado), que estão orientados, preferencialmente, pelas 
racionalidades do poder, da regulação e da economia (SCHERER-
WARREN, 2006, p. 4).
 Conduzida por uma defesa da cidadania, os avanços das causas civis 
e movimentos sociais avançaram principalmente a partir dos anos 1960 do século XX, 
buscando vários direitos por muito tempo renegados, a busca dessas pessoas ancorava-
se no prisma da igualdade de direitos, acesso à saúde, educação, cultura. O respeito à 
diversidade era e é um dos seus principais motes e ainda movimenta a busca.
No ambiente do texto e da tradução, o criar se conecta com essa renovação e 
ênfase na ideia de um respeito efetivo na convivência social amparado pelas novas éticas 
do respeito (influenciada por esses autores que tentaram explicar as guerras mundiais), 
seguindo de carona com as novas conquistas civis. Temos então uma tradução muito 
mais voltada para um olhar agudo acerca do respeito. Uma afeição às minorias, aos 
excluídos, àqueles não contemplados pelas riquezas materiais e pelas facilidades que 
os detentores e atuantes formais do poder e dos bens materiais carregam.
79
No ambiente teórico da tradução essa ética do respeito está muito presente 
também. Está presente, principalmente, no respeito pelo original e sua autoria. Como 
ler um original, como respeitar um original, como traduzir um original, essas questões 
se colocam como essenciais na tradução a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. 
São questões obviamente éticas e necessárias. O que orbita nesse contexto ético de 
referências, é então, a questão do outro, e mais do que isso, do respeito ao outro.
Uma obra jornalística, ficcional, poética, biográfica, enfim, qualquer atividade 
criativa escrita leva em si à originalidade, à subjetividade, à pessoalidade, à vida do 
autor ou autora. Deve-se concretamente levar em conta todos esses aspectos tendo 
a responsabilidade como horizonte. Então, nossas relações com essas obras devem 
preservar o maior respeito possível, a maior dimensão de alteridade, e compreensão 
possível da singularidade ali investida. 
 
Assim, uma obra original deve ser observada como um caleidoscópio de 
respeito, alteridade, compreensão, desde que também essa obra não quebre com 
o mesmo respeito à alteridade com o leitor, pois essa obra deve ter ética também. 
Assim deve ser também a leitura, a saber, um olhar acerca da alteridade, saber que por 
trás de um texto há um autor, saber compreender a multiplicidade, a pluralidade de 
leituras, e principalmente, exercer a alteridade. Onde reside então o verdadeiro desafio 
ético? Reside na tradução de um original? Reside na linguagem dessa tradução e seus 
mecanismos técnicos?
Comoapresentamos anteriormente, com o reflexo do fim da Segunda Guerra 
Mundial, a questão do “outro” se coloca como uma das mais relevantes da Ética. Também 
na tradução, o “outro como objeto” é assunto corolário. Devemos então estudar um 
grande pensador, que juntou ética e alteridade, e influenciou muito a tradução. Seu 
nome é Emmanuel Lévinas (1905-1995). Junto a Lévinas se estabelece um estudo 
profundo acerca de uma ideia que se desenvolve no Pós-Segunda Guerra, que é o 
primado ético da alteridade. Observamos no dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano 
a definição da palavra:
Ser outro, colocar-se ou constituir-se como outro. A alteridade 
é um conceito mais restrito do que diversidade e mais extenso 
do que diferença. A diversidade pode ser também puramente 
numérica, não assim a alteridade. (cf. ARISTÓTELES, Met., IV, 9,1.018 
a 12). Por outro lado, a diferença implica sempre a determinação da 
diversidade (v. DIFERENÇA), enquanto a alteridade não a implica 
(ABBAGNANO, 2007, p. 34).
 
Basicamente, então, alteridade é se colocar no lugar do outro, tentar ver o 
mundo sob a ótica do outro, exercitar a empatia, exercitar a ideia de que devem existir 
razão e motivos nas atitudes alheias. E assim devemos pensar também a tradução. O 
que seria uma tradução que pensa a alteridade? O que seria uma tradução que pensa o 
outro e alheio? Lévinas nos ajuda a pensar acerca dessa questão.
80
Para descrever que a alteridade não é um princípio ético inatingível, mas 
está entre nós desde sempre, Lévinas parte exatamente da crítica ao mundo dos 
entre guerras, do mundo totalitarista e bárbaro que teve seu auge nas guerras 
mundiais do início do século XX. Lá se desenhou para Lévinas o princípio da barbárie 
e privação da liberdade:
[...] que a fome e o medo podem vencer a toda a resistência humana 
e toda a liberdade. Não se trata de duvidar da miséria humana – 
do domínio que as coisas e os maus exercem sobre o homem da 
animalidade. Mas ser homem é saber que é assim. A liberdade 
consiste em saber que a liberdade está em perigo. Mas saber ou 
ter consciência é ter tempo para evitar e prevenir o momento da 
inumanidade. É o adiamento perpétuo da hora da traição – ínfima 
diferença entre o homem e o não – homem (LÉVINAS, 1988, p. 23).
Liberdade tem a ver com a manutenção da humanidade, tirar e privar o homem 
dos seus instintos mais animalescos e vil. Ter liberdade é se prevenir dessa animalidade 
inumana. Lévinas, por ser judeu, por ter sido perseguido na Alemanha nazista, por ter 
sido preso e depois ter fugido com sua família para preservar suas vidas, sentiu na pele 
o gosto horrível da barbárie e privação da liberdade, sentiu ele mesmo a inumanidade. 
De 1939 a 1945 viveu num campo de concentração em Hanover, longe de seus entes 
queridos, e encarou as violências nazistas por ter se alistado na resistência francesa e 
lutado, e obviamente, por ser judeu.
Figura 3 – Emannuel Lévinas
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Emmanuel_Lévinas#/media/Ficheiro:Emmanuel_Lévinas.jpg. Acesso em: 
31 mar. 2023.
81
Mesmo assim, depois de toda exposição ao mal, Lévinas não perdeu a sua 
humanidade e descreveu o caminho da alteridade através de simples experiências de 
acolhimento. A primeira delas, a ideia de que o acolhimento nos ronda desde sempre, 
a saber, sempre que temos contato com o rosto alheio: “A epifania do rosto, duplica 
todo o discurso, não como um discurso sobre temas morais, mais como momento 
irredutível do discurso suscitado essencialmente pela revelação do rosto enquanto 
ele atesta a presença do terceiro, de toda a humanidade, nos olhos que me observam” 
(LÉVINAS, 1988, p. 191).
O “face a face” é uma experiência essencial para Lévinas, é a partir dela que 
a ética desenvolve seu primado de filosofia primeira. A epifania do rosto é saber da 
existência concreta do outro. O mais importante de tudo é essa consciência ética que 
nasce do contato com o outro. Temos o contato com o alheio, desde que nascemos, e 
neste contato é que desenvolvemos as consciências mais básicas (por exemplo de que 
temos consciência) até as mais complexas (como a ideia de Deus e Infinito):
A proposta de Lévinas dá nova cor à fenomenologia husserliana 
possibilitando um sentido ético. É saída de si para ir em direção ao 
outro, é infinito dinamismo, um presente vivo de relações que escapa 
de qualquer subjugação temática. Como o próprio Lévinas afirma “[...] 
multiplicação de modificações, dispersando-se a partir do presente 
vivo [...]” (LÉVINAS, 2011, p. 55).
Por exemplo, o contato com nossos genitores, desde que nascemos, nos possibilita 
abrir desde então o horizonte da ética. Mas não somente o seio familiar, mas todas as 
experiências futuras, por exemplo, nossa educação, se dá na experiência do alheio:
[...] a altura donde vem a linguagem designando-a pela palavra 
ensino [...] Não exclui a abertura da própria dimensão do Infinito que 
é altura no rosto do mestre. A voz que vem de uma outra margem 
ensina a própria transcendência. O ensino significa todo o infinito 
da exterioridade, que não se produz primeiro para ensinar depois, 
o ensino é a sua própria produção. O ensinamento primeiro ensina 
essa mesma altura que equivale a sua exterioridade, a ética [...] 
(LÉVINAS, 1988, p. 153).
A ética se desenvolve na medida em que tomamos consciência de nós e dos 
outros, portanto, a ética é o essencial, é a descoberta, é o conhecimento, educação, tudo 
isso na dimensão do nós e dos outros. É a saída do interno para o externo. Novamente, 
a epifania do rosto, o contato com o outro, a alteridade. Daí, novamente, salienta o papel 
da ética, dentro de sua obra:
Descrevo a ética, é o humano, enquanto humano. Penso que a ética 
não é uma invenção da raça branca, da humanidade que leu os 
autores gregos nas escolas e que seguiu certa evolução. O único valor 
absoluto é a possibilidade humana de dar, em relação a si, prioridade 
ao outro. Não creio que haja uma humanidade que possa recusar este 
ideal, mesmo que se deva declará-lo ideal de santidade. Não digo que 
o homem é um santo, digo que é aquele que compreendeu que a 
santidade era incontestável. É o começo da filosofia, é o racional, é o 
inteligível (LÉVINAS, 1986, p. 149-150).
82
A ética é a condição mais básica da definição do ser humano, é o humano 
enquanto ser humano. Não é uma invenção meramente intelectual, mas sim nossa 
definição e condição de vida. O legado de Lévinas é nos apontar a questão essencial da 
alteridade como essência desse ser humano. Vivemos muito a cultura da subjetividade, 
do ego, daquilo que me diz respeito somente. E a dimensão do outro? Segundo Lévinas 
(2018), sem o outro não existiríamos da maneira que nos entendemos, pois desde que 
nascemos estamos conectados com outros. Só existimos como sujeito, em virtude de 
um outro que me protege e que eu devo proteger.
[...] a necessidade faz com que o indivíduo se mova, portanto, o sujeito 
de necessidade movimenta-se, não é estático, porém dinâmico. 
Além disso, indica uma dependência do outro, do mundo. Vive com 
os outros, mas está só, separado. No entanto, a necessidade faz 
com que se abra para a alteridade do mundo e para outros seres. 
A necessidade indica uma intencionalidade sentida pelo corpo e 
essa mostra que ele está no mundo, é independente e dependente 
(GRZIBOWSKI, 2018, p. 90-91).
A tradução, como atividade de desvendar em outra língua aquilo que outro disse 
fez e escreveu é algo a ser muito pensado através do prisma de Lévinas, pois o traduzir 
é um tipo de percepção que temos do outro. Nossa percepção do mundo emerge como 
sentido ético, pois ao nascer já estamos com a consciência sendo projetada num outro, 
no rosto de um outro, no convívio com um outro. É nossa relação com as outras pessoas 
que descobrimos e nos tornamos o que somos. Em resumo, o que poderíamos apontar 
como os principais legados de Lévinas na ética, e depois, ampliando para o horizonte 
ético também da tradução.
A primeira ideia essencial é o primado da alteridade contráriaao subjetivismo 
completo. Contrário à transformação técnica e burocrática das relações humanas, 
Lévinas nos traz a ideia de que o humano se faz na relação com o outro. Se faz no 
ato de simples observar que nos formamos pela alteridade. Lévinas amargou na pele a 
violência nazista, e os campos de concentração foram o auge do solipsismo tecnicista 
e desumanizante. Por isso, antes de qualquer coisa, a prática da alteridade é o que 
sustenta o campo ético.
Daí outra ideia crucial em Lévinas, que a ética emerge como filosofia primeira. 
Ela é primeira pois demonstra o que somos desde o início, ou seja, somos consciências 
projetando nossas consciências em outras consciências. Assim nascemos, aprendemos, 
ensinamos e vivemos. Assim, desde o início de nossa relação com o mundo, tornamos 
essas relações em relações humanas por excelência.
83
Por isso, como observado em alguns autores por nós aqui estudados, 
segundo Lévinas nunca poderemos colocar a ética em segundo plano, nem mesmo 
comparada à poética, pois somos ética desde quando existimos, e a poética é um 
desenvolvimento e consequência da ética. O face a face com o outro nos coloca na 
posição ética originária, que não depende de nosso aparato racional cerebral, mas 
depende de encontros, afetividades e empatias. Por isso a obra de Lévinas é um 
resgate tão importante de humanidade.
A postura de Lévinas foi de grande importância para a época, e ainda é uma 
influência presente em vários autores. Em especial, no ambiente da ética da tradução, 
sua influência e presença é muito forte. Nunca devemos esquecer que a tradução lida 
com o nós, mas essencialmente o outro, ou aquele que será traduzido. Essa dimensão de 
que o outro ocupa papel fundamental deve povoar a mente de tradutor e trazer seu olhar 
para a responsabilidade, alteridade e empatia com o desconhecido. Um desconhecido 
que passará a ser conhecido pelas mãos da tradução, algo que foi adquirido da obra de 
Martin Heidegger, que cravou acerca do processo de traduzir:
 
Toda tradução é em si mesma uma interpretação. Ela carrega no 
seu ser, sem dar-lhes voz, todos os fundamentos, as aberturas 
e os níveis da interpretação que estavam na sua origem. E a 
interpretação, por sua vez, é somente o cumprimento da tradução 
que permanece calada [...]. Conforme às suas essências, a 
interpretação e a tradução são somente uma e única coisa 
(HEIDEGGER, 1983, p. 75).
Se a tradução é uma interpretação, uma abertura para o ser, Lévinas faz 
questão de apresentar o outro como a principal abertura do nosso ser, principalmente, 
em se tratando de tradução, levar a ideia de alteridade, respeito com o outro, à máxima 
potência. Mergulhar numa tradução, tentando penetrar cada vez mais nessa abertura 
da alma de outrem, isso é algo que traz a obviedade do respeito e responsabilidade 
com o outro. Quando escutamos o outro, quando traduzimos outro ser humano, essa 
perspectiva de abertura se aguça, e se desenvolve como altruísmo e compreensão. 
Esse é o caminho para nossa reumanização como sociedade.
O processo de tradução, seja textual ou pessoal, deve levar sempre em conta 
esse momento de descoberta do outro, requerendo uma pesquisa profunda acerca 
daquele que tomamos a voz para tornar nossa voz, uma pesquisa profunda fundada na 
empatia e conhecimento, na medida do possível, do outro rosto que está ali envolvido 
e transbordado na obra. Vejamos um breve resumo das implicações éticas da obra de 
Lévinas, no ambiente da tradução:
84
Implicações de Lévinas na ética da tradução
Conceito Implicações
Alteridade
• Alteridade é se colocar no lugar do outro, tentar ver o mundo 
sob a ótica do outro, exercitar a empatia, exercitar a ideia de 
que deve existir razão e motivos nas atitudes alheias. 
• E assim devemos pensar também a tradução.
A tradução
• A tradução é uma interpretação, uma abertura para o ser, 
Lévinas faz questão de apresentar o outro como a principal 
abertura do nosso ser, principalmente, em se tratando de 
tradução, levar a ideia de alteridade, respeito com o outro à 
máxima potência.
A Ética
• A ética emerge como filosofia primeira. Ela é primeira pois 
demonstra o que somos desde o início, ou seja, somos 
consciências projetando nossas consciências em outras 
consciências.
• Assim nascemos, aprendemos, ensinamos e vivemos. As-
sim, desde o início de nossa relação com o mundo, torna-
mos essas relações em relações humanas por excelência.
Tabela 2– Implicações de Lévinas na ética da tradução
Fonte: o autor
Lévinas nos apresenta uma ideia essencial de que se não há o outro, não há 
obra. Esse é um axioma básico das teorias da recepção dentro das últimas décadas. O 
outro se dá sempre no contexto de uma recepção: 
Um ‘texto’ ─ e aqui eu estou usando a palavra no sentido amplo pós-
estruturalista, que poderia significar uma pintura, ou uma cerimônia 
de casamento, ou uma pessoa, ou um evento histórico ─ nunca é 
apenas ‘em si’, apelos para aquela entidade reificada enquanto mera 
sinalização retórica; pelo contrário, é algo que um leitor lê, de forma 
diferente. A maioria das versões da teoria da recepção sublinha 
o caráter mediado, situado, contingente (oque, naturalmente, 
não significa o mesmo que arbitrária) das leituras, e isso inclui 
nossas próprias leituras tanto quanto aquelas de séculos passados 
(MARTINDALE, 2006, p. 3).
85
Temos então, que um texto não promove uma percepção fechada e em si, e de 
que ele tem necessidade de um interlocutor para fazer sentido. Todo texto, para existir, 
deve ter seu receptor, deve ter seu caminho final, que é exatamente a consciência do 
outro. Essa construção, pelo preservar a função do outro não somente na obra escrita, 
como também em nossa existência é uma contribuição essencial de Lévinas. É a 
conexão ético do um com o outro, com o “em si” e o “para si”.
Essa ética voltada para o outro de Lévinas influenciará várias perspectivas 
éticas no mundo pós-guerra, e colocará luz sobre a questão da alteridade. Vejamos 
como isso se dará na próxima temática.
86
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• O impacto da Ética no período pós-guerras, e como esse impacto influencia o 
ambiente da tradução.
• O possível impacto dessas éticas na tradução, em especial aquelas que versam à 
alteridade.
• A ideia da tradução e criação no pós-guerra, e como isso se converge com a tradução.
• A observar o papel da alteridade na tradução e como ela se torna essencial.
87
RESUMO DO TÓPICO 1 AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 “O mito converte-se em esclarecimento e a natureza em mera objetividade. O preço 
que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que 
exercem o poder. O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se 
comporta com os homens. Este os conhece na medida em que pode manipulá-los. O 
homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. É assim que 
seu em-si torna para-ele. Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se como 
sempre a mesma, como substrato de dominação”.
Fonte: ADORNO; HORKHEIMER. Dialética do 
esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 21).
 Acerca da obra da Escola de Frankfurt e suas implicações éticas na tradução, assinale 
a alternativa CORRETA:
a) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à razão instrumental, aos sistemas 
 totalitários, e o uso manipulador dos meios de comunicação em massa.
b) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à emoção instrumental, aos sistemas 
 totalitários, e o uso manipulador dos meios de comunicação em massa.
c) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à razão instrumental, aos sistemas 
 democráticos, e o uso manipulador dos meios de comunicação em massa.
d) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à razão instrumental, aos sistemas 
 totalitários, e o uso correto dos meios de comunicação em massa.
2 Leia o trecho a seguir:
 “A sociedade contemporânea convive com os riscos produzidos porela mesma e com 
a frustração de, muitas vezes, não saber distinguir entre catástrofes que possuem 
causas essencialmente naturais e aquelas ocasionadas a partir da relação que o 
homem trava com a natureza. Os custos ambientais e humanos do desenvolvimento 
da técnica, da ciência e da indústria passam a ser questionados a partir de desastres 
contemporâneos como AIDS, Chernobyl, aquecimento global, contaminação da água 
e de alimentos pelos agrotóxicos, entre outros”.
Fonte: LIMA, M. L. M. A ciência, a crise ambiental e a 
sociedade de risco. Senatus. v. 4, n. 1, nov. 2005. p. 42-47). 
Adaptado.
 Acerca da utilização técnica e da razão instrumental dentro dos pesadores do pós-
guerra, leia as assertivas a seguir:
88
I- Os autores do pós-guerra enaltecem as tecnologias e a utilização da razão instrumental, 
tendo isso como nosso progresso.
II- Esses autores criticam o mito da razão e da tecnologia como salvadores de nossa 
humanidade e avanço civilizatório.
III- Esses autores demonstraram o absurdo dos sistemas totalitários e apontaram para 
uma nova definição do que é humano:
 Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 Leia o trecho a seguir:
 “Sempre que a relevância do discurso entra em jogo, a questão torna-se política 
por definição, pois é o discurso que faz do homem um ser político. E tudo que os 
homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser 
discutido. Haverá, talvez, verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de 
grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, 
não é um ser político. Mas homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem 
e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem 
falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos”.
Fonte: ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: 
Forense Universitária, 2004.
 Acerca da obra de Hanna Arendt e sua obra contra os sistemas totalitários, assinale 
V para verdadeiro e F para falso.
( ) Hanna Arendt aponta a banalidade do mal como principal conceito para fundamentar 
 os horrores do Holocausto.
( ) A autora, apesar de ser crítica aos modelos totalitaristas, defende a razão instrumental 
 como modelo de gestão ético.
( ) Hanna Arendt nos apresenta a origem do mal não em base metafísica ou teológica, 
 mas a partir de fatos comuns.
 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
89
4 Leia o trecho a seguir:
 Observe a seguinte afirmação sobre o pensamento de Emmanuel Lévinas (1906-1995): 
“Uma primeira fase da filosofia ocidental, da Antiguidade à Idade Média, foi centrada no 
estudo do ser. Esse estudo apaga a noção de alteridade, pois o ser é aquilo que é ele 
mesmo. Estudar o ser é sempre estudar o mesmo, nunca o outro. Depois de pensar o ser, 
a filosofia pensou o eu e a filosofia moderna constitui-se como uma filosofia do sujeito. 
Também nessa filosofia do sujeito o outro ficou de fora, pois ele é sempre tematizado 
com base no eu. É necessário, portanto, voltar-se para o outro. Essa é, pensa Lévinas, 
a tarefa da filosofia contemporânea. Isso significa colocar a ética em primeiro lugar, pois 
é da relação com o outro que surge o questionamento moral”.
Fonte: GALLO, S. Filosofia: experiência do pensamento. São 
Paulo: Scipione, 2013, p. 281).
 A partir disso, apresente o legado de Lévinas na Ética da Alteridade e como podemos 
pensá-lo na tradução:
5 Leia o trecho a seguir:
 “Desde sempre o Iluminismo, no sentido mais abrangente de um pensar que faz 
progressos, perseguiu o objetivo de livrar os homens do medo e de fazer deles 
senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sob o signo do 
infortúnio triunfal. O programa do Iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço. Sua 
pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do saber. Mas, o 
Iluminismo a serviço do presente [da ciência e da técnica tal e qual ela se apresenta 
neste século] transforma-se no total engano das massas”.
Fonte: ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Conceito de 
Iluminismo. Trad. Zeljko Loparic e Andréa M. A. C. Loparic. 2. 
ed. São Paulo: Victor Civita, 1983, p. 90. 
 Apresente as considerações éticas desenvolvidas pela escola de Frankfurt e suas 
implicações no mundo pós-guerra:
90
91
OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO 
E ALTERIDADE
1 INTRODUÇÃO
Observamos no ano de 1945 um mundo no abismo, com o fim da Segunda Guerra 
Mundial. O legado do nosso avanço científico, da nossa racionalidade, das lutas operárias, 
das lutas pelo direito civil, o breve avanço do início do século XX, tudo isso pareceu sucumbir 
a uma violência e tragicidade humana brutal. Por isso o mundo estava no abismo e dele 
deveria de alguma forma sair. A humanidade apresentava seu aspecto mais sombrio. Mais 
do que urgente foi preciso repensar isso que chamamos de ser humano.
Na Escola de Frankfurt, teóricos como Hanna Arendt e Primo Levi, verbalizaram 
a tragédia e suas causas. Mas o que a ética poderia fazer? E o que isso impactaria no 
processo de escrita e tradução?
A tradução surge ali, no início do pós-guerra, como uma tentativa de reumanização, 
uma tentativa de trazer para o mundo das interconexões linguísticas um universo mais 
humano e civilizado, e até mesmo progressista por assim dizer. Abordaremos a partir de 
agora em nosso texto que essa reumanização, entre muitos caminhos, pode ser observada 
na produção teórica sobre a ética na tradução que permeia as últimas décadas. 
Vamos tratar agora de como a ideia de alteridade, primeiramente como 
observamos em Lévinas e depois em outros autores, como a alteridade influenciou 
muito o desenvolvimento das teorias éticas da tradução no final do século XX e 
início de XXI. Em especial, iremos falar da escola francesa da alteridade que muito 
foi influenciada por Emmanuel Lévinas, uma escola que coloca a questão do outro 
como essência da tradução.
Pensar em função do outro na tradução parece ser algo elementar, algo 
normal de ser seguido. Nem sempre foi assim. Muito da história da tradução tem a ver 
com a tentativa daquele que traduz tentar colocar sua individualidade acima daquilo 
que a obra e o autor de fato entregaram em sua língua natal. Por isso a escola que 
Lévinas inicia faz esse trabalho tão contundente em justificar a existência do outro 
como essencial da tradução. 
UNIDADE 2 TÓPICO 2 - 
92
2 TRADUÇÃO E ALTERIDADE
Naquela que fi cou conhecida como uma das principais obras do século XX 
sobre Ética na tradução, Antoine Berman (1942-1991) nos aproxima de um pensamento 
complexo e profundo sobre a ética ao traduzir em seu livro “Albergue do longínquo”. 
Filósofo, tradutor e professor, Berman criou uma escola de tradução na França, 
principalmente, pensando a tradução do espanhol e alemão para o francês. Viveu 
apaixonadamente a tradução e sua crítica, fl ertando de forma teórica com a Filosofi a, 
Sociologia e Antropologia. Em especial, trouxe para a tradução a teoria ética de Emmanuel 
Lévinas, entre outras coisas além de produzir um texto de referência sobre ética e 
tradução. Além de demarcar a produção ética de Lévinas, Berman operou uma crítica 
contundente à História da Tradução, e nesse caminho, tecer suas considerações acerca 
da ética da tradução.
O título da sua obra sobre ética na tradução, “Albergue do longínquo”, já nos 
manda um recado acerca de Berman e seus objetivos.
O “Albergue” é um local simbólico de acolhimento do 
estrangeiro, do outro, daquele que não tem lar, não 
tem onde morar. É um espaço de recepção do outro, é 
um espaço de recebimento daquilo que muitas vezes 
desconhecemos, uma representação de Berman acerca 
do outro na língua e tradução. O albergue talvez seja, 
ainda mais, o limiar daquele que está totalmente sem tetojunto com aqueles que buscam uma nova chance.
Já a segunda palavra do título, “longínquo”, apresenta-nos 
a dimensão do estranho, do diferente, do que vem de 
longe, é o outro, o alheio. Hospedar o distante, recepcionar 
o outro, estes são os sentidos básicos do título da obra de 
Berman. O albergue hospeda o longínquo e estabelece 
essa imagem que o autor quer nos passar.
INTERESSANTE
Comecemos com o conceito de acolhimento, que é uma ideia essencial em 
Berman. Um dos refl exos do pós-guerra, referendado pela carta máxima da ONU, e que se 
tenta institucionalizar nos vários estados membros desde então, é a ideia de acolhimento. 
Um dos traços do progresso civilizatório é essa marca do primeiro acolher, depois ajudar 
da melhor forma aqueles que realmente precisam de ajuda. Veremos que no âmbito 
da tradução, como tratamos sempre “do estrangeiro” e do “outro”, tratamos sempre de 
reexpressar aquele que linguisticamente está distante, essa será a característica ética 
essencial. Por isso o acolhimento do tradutor acerca do traduzido, isso é o que a alteridade 
nos apresenta como correto a fazer.
93
Quando o acolhimento se materializa, na recepção do outro, ele expressa um 
mandamento ético fundamental no traduzir, a saber, a ideia de traduzir a partir da recepção 
respeitosa desse outro, observa-se ali então, nessa recepção, civilização e ética. O outro, 
o alheio, são eles é que dão materialidade ao traduzir, sendo esse o grande desafio ético 
do tradutor. Vejamos de forma mais detalhada essa ética do traduzir proposta por Berman.
No início da sua obra, Berman apresenta uma crítica aos métodos tradicionais 
da tradução, que concebem a mesma, o ato de traduzir, como um aparato meramente 
estético, ou seja, como dar beleza a um sentido.
Assim é a tradução: experiência. Experiência das obras e do ser-
obra, das línguas e do ser-língua. Experiência, ao mesmo tempo, 
dela mesma, da sua essência. Em outras palavras, no ato de traduzir 
está presente um certo saber, um saber sui generis. A tradução 
não é nem uma subliteratura (como acreditava-se no século XVI), 
nem uma subcrítica (como acreditava-se no século XIX). Também 
não é uma linguística ou uma poética aplicada (como acredita-se 
no século XX). A tradução é sujeito e objeto de um saber próprio 
(BERMAN, 2013, p. 25).
A experiência existencial é aquilo que circunda o tradutor e o conduz para a 
experiência da língua que deve traduzir, bem como a experiência da obra que almeja 
trabalhar a tradução. Observamos aqui um vocabulário que remonta ao método 
fenomenológico existencial que acompanha boa parte do pensamento humano desde 
após a Segunda Guerra.
A observação do fenômeno, ou seja, dos objetos como se apresentam para a 
nossa consciência, utilizando aquilo que ficou conhecido como fenomenologia, é parte 
essencial do método de Berman. É a busca do ser da obra, do ser da língua. Mas essa 
busca sempre requer e apresenta a necessidade de alteridade. Nesse sentido a tradução 
não é um luxo ou adorno, é de fato uma operação essencial de acolhimento e alteridade.
A Fenomenologia é então, em poucas palavras, o estudo do fenômeno, ou o 
estudo daquilo que se apresenta para a nossa experiência, na verdade um estudo de 
como nossa consciência se conecta com a realidade através da experiência. Berman faz 
uma fenomenologia da tradução e dá a ela contornos éticos.
Nessa perspectiva Berman traz um neologismo interessante, que ele chama 
de tradutologia: “A tradutologia: a reflexão da tradução sobre si mesma a partir da sua 
natureza de experiência. Insistimos sobre os dois termos da nossa dupla: experiência e 
reflexão” (BERMAN, 2013, p. 26). A tradutologia é esse método que busca a experiência 
do autor, do texto e língua a ser traduzida. Mais do que isso, ele busca colocar a tradução 
em lugar central das humanidades, sendo colocada inclusive como a busca de grandes 
pensadores modernos. A tradutologia seria a busca de um método de tradução que 
cumpra o principal requisito com a ética que é pensar o outro como tema principal:
94
Que o pensamento moderno está intimamente relacionado ao 
problema da tradução, ou mais precisamente ao espaço desta, é 
bastante evidente, justamente, com Benjamin, Heidegger, Gadamer 
e Derrida (sem falar dos fi lósofos analíticos como Wittgenstein 
e Quine). Mas além desta confi guração tipicamente moderna (a 
fi losofi a tornando-se, com Heidegger em primeiro lugar, comentário 
e tradução), existe uma ligação muito antiga entre o “fi losofar” e o 
“traduzir”. Aqui não é o lugar de examinar isto. Assim o testemunham 
estas linhas de Benjamin (1971, p. 270 apud BERMAN, 2013, p. 28).
Tradução, fi losofi a e ética devem andar juntas, e andam. Falaremos 
ainda nesse material sobre Walter Benjamin e Martin Heidegger e como 
o pensamento deles acerca da tradução possibilitou as teorias hoje 
existentes. Porém, Berman nos lembra a importância do traduzir para 
esses autores, pelo fato de que a fi losofi a sempre se fundamenta e se 
articula também em traduções, pois os autores diferem em línguas.
ESTUDOS FUTUROS
O importante aqui é ressaltar o método de Berman, assentado naquilo que 
podemos chamar de olhar para a experiência plural da tradução que é a tradutologia do 
autor, uma experiência que pode ser comparada à psicanálise, fi losofi a, teatro, dada a 
dimensão do outro que envolve o processo de traduzir, dada à experiência de alteridade 
do objeto de tradução:
Assim, a tradutologia não ensina a tradução, mas, sim, desenvolve 
de maneira transmissível (conceitual) a experiência que a tradução 
é na sua essência plural. O paralelo, aqui, com a psicanálise, o teatro 
ou a fi losofi a nunca é sufi cientemente destacado. Neste sentido, ela 
não concerne somente aos tradutores, mas a todos os que estão no 
espaço da tradução. Isto é, todos nós, considerando que, da tradução, 
ninguém está livre (BERMAN, 2013, p. 31).
Tradutologia é essa técnica plural de comunhão de saberes, de mergulhar na 
conjunção das línguas e suas conexões. Ressalta-se assim, que junto com essa pluralidade 
no espaço de tradução, devemos observar a Ética com área central e principal fator de 
contato entre obra e tradutor. A essência da tradução que Berman coloca, nada mais é do 
que a essência ética da tradução. E talvez o mais relevante, a tradução não somente como 
ofício singular e técnico do tradutor, mas um ofício abrangente.
Mas como apresentar essa ética na tradução? Como o tradutor deve agir nesse 
sentido ao se deparar com o texto a ser traduzido? Algumas ideias são essenciais para 
esse horizonte do traduzir, na verdade, muito mais que ideias, são atitudes essenciais 
do tradutor, temos então: proceder a uma desconstrução da tradição etnocêntrica, 
hipertextual e platônica da tradução. Vejamos cada uma delas e como a tradução opera 
uma diferenciação do poético em detrimento do ético.
95
2.1 TRADUÇÃO: DA POÉTICA À ÉTICA
O caminho do compromisso do texto escrito e traduzido, segundo Berman, vai 
da criação poética à ética. É um caminho oposto ao observado na unidade anterior, e 
acena para o maior compromisso com um código moral, um pacto do pós-guerra que 
leva em conta o respeito pelas diferenças como algo muito sério a ser considerado, um 
compromisso com uma ética normativa, uma ética como primeiro fundamento.
Vamos percorrer o caminho teórico apontado por Berman, através do que 
ele e outros teóricos operarem uma “desconstrução”. Primeiramente, há de se 
observar uma necessidade que Berman coloca de desconstrução de uma tradição 
etnocêntrica. O que seria isso? 
Etnocentrismo é um conceito derivado da Antropologia que diz estar no centro 
das relações humanas somente um ou poucos povos (etno). E com relações humanas 
podemos colocar as línguas, as culturas materiais e imateriais, ou seja, tudo que 
produzimos em sociedade. Mais do que isso, uma visão etnocêntrica é aquela visão que 
se destaca como se achando a melhor visão de ver as coisas, a visão mais bela e correta 
de se ver as coisas, a visão que se achasuperior como muitas culturas e povos já se 
acharam na História humana.
Com um olhar rápido sobre a História, descobrimos que o Etnocentrismo pode ser 
considerado muito mais uma mazela do que qualidade. O Etnocentrismo foi a causa de 
muitas barbáries e erros históricos, como o colonialismo, neocolonialismo, nazismo, fascismo, 
imperialismo, neoimperialismo, também, segundo Berman, causa de muitas barbáries na 
tradução também. Berman é um pensador ético da tradução que vai contra esse movimento.
Ele observa que a tradução, desde os gregos, passando pelos romanos, idade 
média, impérios ocidentais, a tradução sempre teve uma visão etnocêntrica, a saber, a 
visão de um povo que se considerava maior e melhor perante os outros e produzia sua 
cultura assim, dessa maneira, hegemônica e etnocêntrica. Berman faz então uma pergunta 
essencial: por que o princípio ético da tradução deve se opor a essa visão etnocêntrica? Não 
somente etnocêntrica, mas como Berman nos lembra, também hipertextual e platônica?
Antoine Berman, como citamos anteriormente, é um teórico da ética na 
tradução que se utiliza de uma vertente importante da crítica dos séculos XX e XXI 
que é a desconstrução. Em breves palavras, desconstruir algo não é somente negar 
e refutar certas ideias, mas operar uma refutação crítica que desmonta e depois 
recompõe. Refaz-se o passo a passo da origem de tais ideias, procedendo a um 
desarranjo criativo e propositivo.
O primeiro desarranjo criativo e propositivo que Berman opera é a desconstrução 
do etnocentrismo na tradução como norte ético. Berman está tentando desconstruir 
a figura do ocidental, homem, branco, como traços hegemônicos do ato de traduzir, a 
96
saber, achar que o mundo se resume em ser ocidental, homem e branco. Ou seja, ele 
tenta desconstruir um parâmetro que seria o padrão das traduções, que seria aquilo 
que impulsionou negativamente a tradição ética da tradução, que é pensar a mesma 
através de um olhar restrito ao mesmo e não ao outro, a saber, devemos ampliar o olhar 
ao diferente. A tradução ética deve acolher as minorias não hegemônicas e diferentes: é 
acolher o outro, na voz de Berman:
Etnocêntrico significará aqui: que traz tudo à sua própria cultura, às 
suas normas e valores, e considera o que se encontra fora dela — o 
Estrangeiro- como negativo ou, no máximo, bom para ser anexado, 
adaptado, para aumentar a riqueza desta cultura. Hipertextual remete 
a qualquer texto gerado por imitação, paródia, pastiche, adaptação, 
plágio, ou qualquer outra espécie de transformação formal, a partir de 
um outro texto já existente. Gérard Genette (1982) explorou o espaço 
da hipertextualidade, incluindo a tradução (BERMAN, 2013, p. 40).
Outra conduta que devemos desconstruir é o hábito de traduzir a partir do 
hipertextual. O que seria isso? A tradição poética da tradução, segundo Berman, considera 
a tradução como uma forma de hipertexto ou de metatexto:
A relação hipertextual é a que une um texto x com um texto y que lhe 
é anterior. Um texto pode imitar um outro texto, fazer um pastiche, 
uma paródia, uma recriação livre, uma paráfrase, uma citação, um 
comentário, ou ser uma mescla de tudo isso. Como mostraram 
Bakhtin, Genette ou Compagnon, há uma dimensão essencial da 
"literatura". Todas essas relações hipertextuais se caracterizam por 
uma relação de engendramento livre, quase lúdico, a partir de um 
"original". Ora, do ponto de vista da estrutura formal, essas relações 
estão muito próximas da tradução (BERMAN, 2013, p. 34).
Assim, a tradução hipertextual é aquela que devemos evitar, pois ela se dá 
por imitação, por paródia, por pastiche, entre outras maneiras formais de traduzir a 
informação dada em certos textos, ou seja, é um mero transpor formal de informações 
de um texto A para um texto B. Berman vai nos conduzir para uma tradução não servil, 
ou seja, não servir a esses moldes hegemônicos da história ocidental do traduzir, moldes 
hipertextuais e etnocêntricos:
Não nos deteremos, aqui, nestas teorias. Pois são apenas o 
epifenômeno de uma fissura essencial e dominante da tradução 
ocidental, da qual não escapa nenhum tradutor e nenhum “teórico”. É 
esta figura que se trata de questionar e, talvez, de destruir, a partir de 
uma experiência mais original, não da tradução, mas de sua essência. 
Nesta figura, a tradução se caracteriza por três traços. Culturalmente 
falando, ela é etnocêntrica. Literariamente falando, ela é hipertextual. 
E filosoficamente falando, ela é platônica. A essência etnocêntrica, 
hipertextual e platônica da tradução recobre e oculta uma essência 
mais profunda, que é simultaneamente ética, poética e pensante. Em 
suas regiões mais profundas, o traduzir está ligado à ética, à poesia e 
ao pensamento. E mesmo – veremos com Hölderlin e Chateaubriand 
– ao “religioso” (para não dizer à “religião”). Mas o ético, o poético, o 
pensante e o religioso, por sua vez, definem-se em relação ao que 
chamamos a “letra”. A letra é seu espaço de jogo. Isto pode se verificar 
97
claramente com Hölderlin. Para alcançar esta dimensão, é necessário 
operar uma destruição (retomo o conceito de Heidegger) da tradição 
etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução. [...] À tradução 
etnocêntrica se opõe a tradução ética. À tradução hipertextual, a 
tradução poética (BERMAN, 2013, p. 35).
Antoine Berman nos coloca um desafio inquietante que é romper e operar a 
desconstrução dessa tradição de forma propositiva ao declarar que a “tradução deve ser 
ética, poética e pensante”. O que ele quer dizer com isso? Que ao ser ética a tradução 
deve pensar no outro, na minoria, do não colonialismo, do não racismo, do não sexismo, 
do não etnocentrismo. Que ao ser poética, a tradução deve evitar os moldes fechados e 
tradicionais do hipertexto. Ao ser poética a tradução deve evitar o formal pelo formal. 
E aqui notamos a visão que Berman tem do poético, a saber, aquilo que se adequa 
perfeitamente com o ético, ou melhor, o ético é o poético, pois o ético coloca-se sempre 
no lugar do outro, exerce sempre um altruísmo. Então, observamos em Berman que o 
etnocêntrico se opõe ao ético, e o hipertextual se opõem ao poético. Mas além dessas 
duas características negativas, para o autor, que a ética da tradução carrega, há ainda 
outra que Berman chama de platonismo na tradução. E o que seria esse platônico? O que 
Berman quer dizer quanto ao ir contra o platonismo na tradução?
Ele quer dizer que devemos assumir o poético como algo importante no ato de 
traduzir, e poético aqui é no sentido de criativo, algo que já descrevemos anteriormente 
sobre o poético dentro da História da Ética. A grande ferramenta que Berman nos 
apresenta, como exemplo prático do traduzir ético, podemos ver logo a seguir:
Assentados em uma experiência, a princípio idêntica, os provérbios 
de uma língua têm quase sempre equivalentes em uma outra 
língua. Assim, ao alemão “a hora da manhã tem ouro na boca” 
parece corresponder, na França, a “o mundo pertence aos que se 
levantam cedo”. Traduzir o provérbio seria, portanto, encontrar o seu 
equivalente (a formulação diferente da mesma sabedoria). Desta 
forma, frente a um provérbio estrangeiro, o tradutor encontra-se 
numa encruzilhada: ou busca seu suposto equivalente, ou o traduz 
“literalmente”, “palavra por palavra”. No entanto, traduzir literalmente 
um provérbio não é simplesmente traduzir “palavra por palavra”. 
É preciso também traduzir o seu ritmo, o seu comprimento (ou 
sua concisão), suas eventuais aliterações etc. Pois um provérbio é 
uma forma. O trabalho tradutório se situa precisamente entre estes 
dois polos: a tradução “palavra por palavra” do provérbio alemão, 
que conservará “ouro”, “manhã”, “boca” (que não se encontram no 
equivalente francês) e a tradução da forma-provérbio, a qual pode 
eventualmente ser levada, para atingir os seus fins, a forçar o francês 
e a modificar alguns elementos do original (BERMAN, 2013, p. 20).
O provérbio é o exemplo dado por Berman na busca pelo equivalente na tradução,mantendo a poética e não sendo um escravo da tradução literal, e assim somos éticos 
com o original e com o autor. Quando buscamos um equivalente proverbial na tradução 
precisamos adequar uma forma e conteúdo, mantendo a mensagem original e respeitando 
também aquilo que o autor original nos reservou. 
98
A tradução mecânica, da palavra por palavra, é aquilo que Berman vai contra, 
sendo esse tipo de tradução aquilo que Berman viria chamar de platonismo na tradução, 
ou seja, é uma tradução serva somente de símbolos e formas, perdendo a essência 
original do sentido.
Também entra no mapa dessa tradução com alteridade, componentes importantes 
como o ritmo, o comprimento do provérbio, até mesmo as suas eventuais aliterações. A 
busca dessa tradução ética percorre então dois polos de manejo da palavra, que vai da 
tradução “palavra por palavra” até a tradução da forma-provérbio, que força a língua da 
tradução a modificar alguns elementos do original.
Vejamos um breve resumo das implicações éticas na tradução feitas por Berman.
Tabela 3 – Implicações de Berman na ética da tradução
Fonte: o autor
É, então, contra o etnocentrismo no ato de traduzir, que Berman argumenta que a 
tradução sempre foi vista como a adequação de uma língua diferente àquela considerada 
dominante e culturalmente mais aceita naquele período histórico, por diversos fatores. É 
afirmar um povo como central, e os outros como periféricos. Berman acredita então que 
devemos quebrar com essa perspectiva etnocêntrica, tão nociva, há vários séculos, para 
a tradução. Por isso a relevância e necessidade de tratarmos desses temas.
Implicações de Berman na Ética da Tradução
Conceito Implicações
Contra o 
etnocentrismo
• Berman está tentando desconstruir a figura do ocidental, 
homem, branco, como traços hegemônicos do ato de tradu-
zir, a saber, achar que o mundo se resume em ser ocidental, 
homem e branco.
• Ou seja, ele tenta desconstruir um parâmetro que seria o 
padrão das traduções, que seria aquilo que impulsionou 
negativamente a tradição ética da tradução.
• Que é pensar a mesma através de um olhar restrito ao 
mesmo e não ao outro, a saber, devemos ampliar o olhar ao 
diferente.
Contra o 
hipertextual
• A tradução hipertextual é aquela que devemos evitar, pois 
ela se dá por imitação, por paródia, por pastiche, entre 
outras maneiras formais de traduzir a informação dada em 
certos textos, ou seja, é um mero transpor formal de infor-
mações de um texto A para um texto B.
Contra o 
platonismo 
da tradução
• Contra A tradução mecânica, da palavra por palavra, é aquilo 
que Berman vai contra, sendo esse tipo de tradução aquilo 
que Berman viria chamar de platonismo na tradução.
99
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• A questão da alteridade, segundo Lévinas, dentro da ética da tradução, e suas 
consequências na sociedade contemporânea.
• Analisar, segundo Berman, o que é ter ética na tradução, e como devemos colocar o 
olhar crítico em certas categorias.
• A sintetizar alguns pensadores da ética na tradução dentro dos séculos XX e XXI, e 
como eles compreendem a alteridade e responsabilidade.
100
AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 “É somente através dessas diversas leituras que o crítico descobre quais os graus 
de consistência imanente do texto traduzido, fora de qualquer relação com o 
original. Segundo Berman, essas releituras apontam também as “zonas textuais” 
problemáticas: de repente, o texto traduzido parece se enfraquecer, se contradizer, 
perder o ritmo, parece demasiado fácil, impessoalmente francês; ou, o texto 
traduzido exibe com brutalidade palavras, formas frasais, que destoam; e ainda, o 
texto traduzido se mostra invadido por modismos, remetendo à língua do original, 
o que testemunha o fenômeno de contaminação linguística ou de interferência. 
Essas leituras e releituras, diz Berman, podem revelar uma escrita de tradução, uma 
escrita que nenhum escritor francês poderia ter escrito, uma escrita de estrangeiro 
harmoniosamente passada para o francês. Essas zonas textuais, nas quais o tradutor 
escreveu “estrangeiro em francês” e assim produziu um francês novo, são as zonas 
de graça e riqueza do texto traduzido. São essas “impressões” de leitura que vão, 
segundo Berman, orientar o trabalho analítico do crítico: “Nós lemos e relemos 
a tradução, formamos uma impressão (ou uma impressão se formou em nós). É 
necessário agora tornar, ou retornar, ao original”. 
Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: 
John Donne. Paris: Gallimard. 1995.
 
 Acerca da obra de ética na tradução de Berman, assinala alternativa CORRETA:
a) ( ) Berman dialoga contra o etnocentrismo na tradução, contra a tradução através do 
 hipertexto, é contra também o platonismo da forma.
b) ( ) Berman dialoga contra o pluralismo na tradução, contra a tradução através do 
 hipertexto, é contra também o platonismo da forma.
c) ( ) Berman dialoga contra o etnocentrismo na tradução, contra a tradução através do 
 poético, é contra também o platonismo da forma.
d) ( ) Berman dialoga contra o etnocentrismo na tradução, contra a tradução através do 
 hipertexto, é contra também o a desconstrução da forma.
2 Leia o trecho a seguir: 
 “De uma maneira geral, traduzir exige leituras vastas e diversificadas. E Berman 
acrescenta que um tradutor ignorante – que não lê tanto assim – é um tradutor 
deficiente. Traduz-se com livros e não unicamente com dicionários! Ele chama esse 
necessário recurso às leituras de escoramento do ato tradutório, isto é, todos os 
paratextos que venham a sustentar a leitura: introdução, prefácio, posfácio, notas, 
101
glossários etc. A tradução não pode estar “nua”, sob pena de não levar a cabo a 
tradução literária, avisa Berman. Porém ele não quer ser prescritivo e afirma que 
a análise textual não é imprescindível e que ela é uma ferramenta de apoio para 
qualquer trabalho de tradução. Não quer dizer “o que é necessário fazer” e afirma 
que não pretende regrar a prática da tradução. A pré-análise consiste na leitura da 
tradução pelo crítico, porque tem apenas a função de preparar a confrontação. Essas 
leituras são mais interligadas e mais sistemáticas do que as do tradutor”. 
Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: 
John Donne, Paris: Gallimard. 1995, p. 67).
 Observe e analise as assertivas abaixo acerca da obra de Berman:
I- Berman estabelece uma obra que versa sobre a ética da tradução, trazendo ideias 
importantes, como a fuga do etnocentrismo.
II- Berman não dialoga com a tradição e história da tradução, deixando de lado os 
conceitos de hipertexto.
III- Berman estabelece uma forte crítica à tradução pela forma, chamando inclusive 
essa escola de platonismo da tradução.
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 Leia o trecho a seguir:
 “Conforme Berman, uma das tarefas de uma hermenêutica do traduzir é ter em vista 
o sujeito que traduz, por isso, vai em busca do tradutor. Assim, a pergunta “quem 
é o tradutor?” deve ser colocada frente a uma tradução. Essa pergunta é diferente 
da pergunta feita ao autor de uma obra literária, “quem é o autor?”, pois visa aos 
elementos biográficos, psicológicos existenciais etc., que supostamente irão iluminar 
a sua obra. Apesar da obra e da existência estarem ligadas. A pergunta “quem é 
o tradutor?” tem uma outra finalidade. Salvo exceções, como São Jerônimo, por 
exemplo, para Berman, a vida do tradutor não nos diz respeito e, menos ainda, os 
seus estados de alma. Não obstante, é impensável que o tradutor permaneça este 
perfeito desconhecido que é na maior parte do tempo”.
Fonte: HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de 
tradução de Antoine Berman: autorresenha do seu livro 
por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em 
revista (on-line), 2021.
 Acerca da obra de Berman sobre a teoriaética da tradução e crítica, assinale V para 
verdadeiro e F para falso.
102
( ) Uma importante contribuição de Berman é a busca pelo ético determinando o 
 poético, sem perder a beleza da literatura envolvida.
( ) Berman utiliza o etnocentrismo como forma de progresso da ética na tradução, 
 exacerbando a ideia de etno.
( ) O autor classifica a hipertextual como algo que deve ser confrontado em detrimento 
 do ético, que acaba sendo poético.
 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 Leia o trecho a seguir:
 “Toda tradução, consequentemente, é conduzida por um projeto ou uma finalidade 
articulados. O projeto (ou finalidade) é determinado, por sua vez, pela posição tradutória 
e por exigências específicas colocadas pela obra a ser traduzida. Não há necessidade 
de serem enunciados discursivamente e, depois, teorizados. O projeto define a 
maneira pela qual, por um lado, o tradutor vai efetuar a translação literária e, de outra 
parte, assumir a própria tradução, escolher um “modo” de tradução, uma “maneira 
de traduzir”. Para ilustrar o seu argumento, Berman pega o caso dos tradutores que 
decidiram tornar conhecida na França a obra poética de Kathleen Raine. Poderiam 
escolher entre várias possibilidades: fazer uma “antologia” dos poemas de Raine a 
partir de seus livros ou editar seus livros – todos ou parte deles. Escolheram traduzir 
vários dos seus livros integralmente. Poderiam ainda propor uma edição monolíngue 
(francês apenas) ou bilíngue. Escolheram a segunda possibilidade”.
Fonte: HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de 
tradução de Antoine Berman: autorresenha do seu livro 
por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em 
revista (on-line), 2021.
 Descreva por que Berman é contrário ao etnocentrismo na ética da tradução, bem 
como apresente o conceito de hipertextual:
103
5 Leia o trecho a seguir:
 “Berman dá o exemplo do horizonte de uma retradução francesa, um horizonte 
triplo que leva em conta as traduções anteriores, em francês, as outras traduções 
francesas contemporâneas e as traduções estrangeiras. Ele afirma que não é raro o 
caso de o tradutor consultar as traduções estrangeiras para traduzir tal obra, mesmo 
sendo a primeira na sua língua. É suficiente mesmo que saiba que a obra já tenha 
sido traduzida em algum lugar, de modo que a natureza de seu trabalho se altere. Ele 
não é mais o primeiro. Ambos os casos se apresentaram para Berman quando fez a 
tradução de Yo el Supremo, de Roa Bastos. Ele diz ter consultado a tradução alemã 
(anterior), a obra Os diferentes métodos de traduzir de Schleiermacher, bem como a 
tradução espanhola de V. García Yebra. Quanto à tradução de Sete loucos, de Roberto 
Arlt, Berman diz que sabia que existiam versões em italiano e em alemão e que a 
tradução dele seria posterior a estas. Afirma, portanto, que qualquer tradução que 
vem após outra, mesmo sendo ela estrangeira, é ipso facto uma retradução. É o que 
faz que existam muito mais retraduções do que primeiras traduções”.
Fonte: HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de 
tradução de Antoine Berman: autorresenha do seu livro 
por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em 
revista (on-line), 2021.
 
 Apresente o que é o método da desconstrução descrito por Berman e sua relação 
com a ética da tradução. Descreva também o que é a tradutologia para o autor:
104
105
TÓPICO 3 - 
OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO 
COMO RESPONSABILIDADE
1 INTRODUÇÃO
Outro aspecto importante no universo da tradução é a responsabilidade. 
Como sabemos, a tradução é um processo complexo que envolve a transposição de 
interlocutores. A tradução carrega uma grande responsabilidade, pois pode afetar 
profundamente a compreensão, a interpretação e a recepção da mensagem original.
A responsabilidade da tradução também inclui o reconhecimento das diferenças 
culturais e linguísticas que possam afetar a compreensão da mensagem. Um tradutor 
deve considerar cuidadosamente a forma como uma palavra, frase ou conceito pode ser 
interpretado em diferentes contextos e culturas, a fim de evitar mal-entendidos ou erros.
Por isso devemos investigar agora um grande pensador da ética da 
responsabilidade no século XX que foi Jean-Paul Sartre, pois ele é um autor que nos 
insere nesses temas com grande amplitude.
2 A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE DE JEAN-PAUL SARTRE
Continuando a linha de grandes personagens da ética, que desenvolveram ideias que 
impactam na tradução, está Jean-Paul Sartre (1905-1980). Sartre foi um pensador que viveu 
também na pele os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, servindo na resistência 
francesa, e após isso, produzindo uma grande obra em prol do humanismo e ética.
Figura 4 – Jean Paul Sartre
UNIDADE 2
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre#/media/Ficheiro:Sartre_1967_crop.jpg. Acesso em: 3 
abr. 2023.
106
Sartre foi também um grande representante do pensamento da 
contracultura na que época em que a mesma começava a galgar apoiadores contra 
a cultura hegemônica, sendo um dos motores da revolução sexual, de costumes, 
que culminaria no Maio de 68, bem como no movimento hippie. Sartre esteve junto 
a esses movimentos de forma ativa, inclusive se recusando a receber o Prêmio 
Nobel, em 1964.
Além de ter produzido uma monumental obra filosófica e literária, Jean-Paul 
Sartre muito contribuiu para as causas de direitos civis, inclusive junto com sua parceira 
de vida, Simone de Beauvoir (1908-1986).
Sartre nos conduz então para uma nova perspectiva da ética e 
responsabilidade, fundada nesse ambiente pós-Segunda Guerra, e fundada na teoria 
de duas grandes vertentes do pensamento dentro do século XX: a Fenomenologia 
e o Existencialismo. A Fenomenologia, que já apresentamos de forma introdutória, 
entrou na obra de Sartre, principalmente, por influência da obra de Edmund Husserl 
e Martin Heidegger.
A ideia essencial retomada por Sartre é que nossa consciência está sempre 
lançada nos objetos como uma espécie de corda entre nosso entendimento e os 
fenômenos, ou seja, as coisas com que nos deparamos no mundo. Esses fenômenos 
estão fora do nosso corpo de existência, mas nós os apreendemos através dessa 
espécie de cópia que nosso entendimento faz, daí a ideia de que nossa consciência 
está sempre projetada nas coisas.
Retomando essa ideia geral, como isso se dá na tradução? E mais ainda, na 
ética da tradução? Ao nos depararmos com um texto, segundo Sartre, não estamos 
experimentando o texto em si, mas a abertura da nossa consciência projetada no texto 
original e sua autoria. Nunca saberemos aquilo que o autor do original realmente quis 
dizer, porque aquilo que ele escreveu faz parte de um contexto em si de sua própria 
existência que não podemos acessar. Nós acessamos o fenômeno dessa escrita autoral, 
ou seja, aquilo que se mostra, através da nossa consciência. E através dela é que 
traduzimos e damos sentido ao texto original, que por sua vez vai ser interpretado por 
diversas outras consciências, a saber, os leitores.
O método fenomenológico influencia a obra de Sartre no mesmo momento em 
que influencia a crítica literária e teoria da tradução. Mas além disso, Sartre vai utilizar 
essa fenomenologia para também produzir literatura, e associado ao Existencialismo, 
produzir uma teoria ética que podemos adequar ao traduzir. 
107
E o que seria então o Existencialismo? Como o Existencialismo se 
associa à tradução? Sartre é o grande teórico do Existencialismo no século XX, 
mas não é o único. O Existencialismo surge num contexto híbrido de Literatura, 
Filosofia, Artes em geral, tomando vários rumos e vertentes. Considera-se o 
dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855) o primeiro pensador da 
corrente existencialista, que em essência parte da experiência, ás vezes, 
vertiginosa do “estarmos aqui” transcorridas da nossa existência. Nos diz o 
dicionário de Filosofia:
Costuma-se indicar por essetermo, desde 1930 aproximadamente, 
um conjunto de filosofias ou de correntes filosóficas cuja marca 
comum não são os pressupostos e as conclusões (que são 
diferentes), mas o instrumento de que se valem: a análise da 
existência. Essas correntes entendem a palavra existência (v.) 
no significado 3B, vale dizer, como o modo de ser próprio do 
homem enquanto é um modo de ser no mundo, em determinada 
situação, analisável em termos de possibilidade. A análise 
existencial é, portanto, a análise das situações mais comuns 
ou fundamentais em que o homem vem a encontrar-se. Nessas 
situações, obviamente, o homem nunca é e nunca encerra em si 
a totalidade infinita, o mundo, o ser ou a natureza (ABBAGNANO, 
2001, p. 402).
O instrumento dos existencialistas, então, é a análise da existência, a saber, 
a análise das questões mais cotidianas e simples de cada ser existente. Sartre toma 
partida dessa vertente filosófica e produz suas ideias no campo da existência, mas 
não tomando somente a dimensão trágica e pueril de uma existência infecunda, mas 
sim toda uma construção humana dessa perspectiva, que reverberará na literatura e 
ambiente da tradução propriamente dita.
As ideias de Sartre são então fundamentadas por uma ideia que parece simples, 
porém é na verdade de fato muito complexa: tudo o que somos advém da nossa 
condição do existir, por isso chamamos essa corrente de Existencialismo. As ideias 
de Sartre argumentam que o ser humano possui uma condição sui generis onde sua 
existência precede a sua essência.
O existencialismo afirma é que o covarde se faz covarde 
que o herói se faz herói; existe sempre, para o covarde, 
uma possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, 
de deixar de o ser. [...] Com efeito, se a existência precede 
a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência 
a uma natureza humana dada e definitiva, ou seja, não 
existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade 
(SARTRE, 1987, p. 9).
108
Quer dizer, tudo isso que nós somos, toda nossa personalidade, nossas 
ideologias, visões de mundo, tudo aquilo que nos define como pessoa, tudo isso se dá 
somente pelo fato de que existimos. Para Sartre não há nada antes, muito menos depois 
de existirmos: não há Deus, não há alma, não há espírito, não há imortalidade, só há isso 
que chamamos de existência individual: 
[...] existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. 
Afirma que, se Deus existe, há pelo menos um ser no qual a 
existência precede a essência, um ser existe antes de poder 
ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem. [...] O 
existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido em que se 
esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, 
mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria, eis 
nosso ponto de vista. Não que acreditamos que Deus exista, mas 
pensamos que o problema não é de sua existência, é preciso que 
o homem se reencontre e se convença de que nada pode salvá-lo 
dele próprio, nem mesmo uma prova válida da existência de Deus 
(SARTRE, 1987, p. 22).
Até as outras existências, das outras pessoas, elas só estão lá pelo fato de nós 
as captarmos através da nossa abertura existencial. Assim, o ser humano primeiro 
existe, depois se define como essência. Enquanto todos as outros objetos e coisas 
são o que são, sem uma definição própria, o ser humano existe. Sartre foi alvo e 
objeto de muitas críticas, e ainda o é, pela construção dessas ideias, principalmente 
pelo seu ateísmo. 
Mas observamos a motivação do autor exatamente em não dependermos de 
nada mais para sermos bons a não ser nossa própria vida. Essa concepção se dá 
na obra e conferência “O Existencialismo é um Humanismo” de 1946: “Humanismo, 
porque recordamos ao homem que não existe outro legislador a não ser ele próprio” 
(SARTRE, 1987, p. 21).
Sem dúvida, a liberdade enquanto definição do homem, não depende 
de outrem, mas, logo que existe um engajamento, “sou forçado a querer, 
simultaneamente, a minha liberdade e a dos outros, não posso ter objetivo a minha 
liberdade a não ser que meu objetivo seja também a liberdade dos outros” (SARTRE, 
1987, p. 199).
Daí a grande relevância de Sartre no contexto da Ética. Ele lança uma teoria 
que fundamenta a liberdade e escolha fora de qualquer grande sistema metafísico, mas 
sim dentro do espectro da própria liberdade e escolha existencial. Ele nos diz acerca da 
questão da Liberdade e escolha: “Com efeito, se a existência precede a essência, nada 
poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva, ou 
seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade (SARTRE, 1987, p. 9).
109
Como nada nos condiciona, a não ser nossa própria existência e escolhas, 
nossa liberdade, segundo Sartre, é incondicional. Aliás, segundo Sartre, estamos a 
todo momento fazendo escolhas, pois até não escolher enquadra-se no rol de nossas 
escolhas. Assim, estamos sempre na condição de liberdade plena. Daí a afirmação de 
Sartre, de que é impossível não sermos livres, a liberdade é nossa essência prática.
Escolhas a todo tempo, liberdade a todo tempo, essas definições apresentam 
Sartre não como um pensador da negação de Deus, ou um pensador niilista em que 
nada faz sentido no absurdo da existência, pelo contrário, a nossa essência em liberdade 
é que nos faz humanos, por isso o Existencialismo é um Humanismo.
Nosso humanismo não reside somente na razão ou o esclarecimento técnico, 
mas sim em nossas escolhas, reside na nossa liberdade total, que claro, pode gerar 
algumas angústias. Mas aquém de tudo isso, segundo Sartre, estamos condenados 
sempre a sermos livres. Surge então outra perspectiva suscitada por Sartre, também no 
ambiente pós-guerra, acerca do nosso engajamento como pessoas livres:
Para o filósofo, escolher seu tema é escolher seu público, para 
quem irá escrever. O escritor não escreve para sujeitos universais, 
de caráter universal, mas para sujeitos situados e engajados na 
história. O escritor é engajado pela sua consciência de estar situado 
no mundo na sua época quando faz o engajamento para si e para o 
plano refletido. [...] A implicação entre as duas se dá, pois a literatura é 
capaz de descrever as ambiguidades [...] e complexidade do homem 
por meio de sua linguagem imediata e não consciente de si, assim, a 
literatura mostra a densidade concreta do vivido; já a filosofia torna o 
vivido consciente por meio de noções, de conceitos, mas não tem a 
capacidade de descrever a totalidade do vivido, pois fala do homem 
enquanto sujeito-objeto, mas não estuda o homem como indivíduo 
(SARTRE, 1987 apud MOREIRA, 2012, p. 24).
O engajamento político na vida de Sartre foi evidente, comprometendo-se 
publicamente com as causas de direitos civis, militou na política partidária em grande 
parte da sua vida, participou ativamente das mudanças culturais e sociais da França. Mas 
não somente pregava o engajamento político, mas também para com a humanidade.
 
3 TRADUÇÃO E RESPONSABILIDADE
Em especial, no âmbito da tradução, Sartre falou muito e escreveu acerca 
do engajamento do escritor. Engajar-se é pertencer a algo, é se comprometer com 
o espectro da existência, é a escolha da singularidade existente. Daí surge outro 
componente essencial da ética de Sartre, que é a responsabilidade e engajamento, 
ambos como práticas e atividades também dos grandes intelectuais.
110
Implicações da ética de Sartre na tradução
Conceito Implicações
Existencialismo
• A existência é a nossa condição primordial do existir, por isso 
Existencialismo.
• As ideias de Sartre argumentam que o ser humano possui 
uma condição sui generis onde sua existência precede a sua 
essência.
• Quer dizer, tudo isso que nós somos, toda nossa personali-
dade, nossas ideologias, visões de mundo, tudo aquilo que 
nos define como pessoa, tudo isso se dá somente ao fato de 
que existimos.
• Para Sartre não há nada antes, muito menos depois de existir-
mos: não há Deus, não há alma, não há espírito, não há imortali-dade, só há isso que chamamos de existência individual.
Liberdade
• Sartre lança uma teoria que fundamenta a liberdade e escolha 
fora de qualquer grande sistema metafísico, mas dentro do 
espectro da própria liberdade e escolha existencial.
• Ele nos diz acerca da questão da liberdade e escolha: “Com 
efeito, se a existência precede a essência, nada poderá 
jamais ser explicado por referência a uma natureza humana 
dada e definitiva, ou seja, não existe determinismo, o homem 
é livre, o homem é liberdade (SARTRE, 1987, p. 9).
Responsabilidade 
e engajamento
• Engajar-se é pertencer a algo, é se comprometer com o es-
pectro da existência, é a escolha da singularidade existente.
• Daí surge outro componente essencial da ética de Sartre, que 
é a responsabilidade e engajamento, ambos como práticas e 
atividades também dos grandes intelectuais.
Tabela 4 – Implicações da ética de Sartre na tradução
Fonte: o autor
Observamos a ética como não somente um código de condutas ou ideias, mas 
uma condição essencial para vivermos em sociedade. A ética é o próprio engajamento 
do indivíduo e seu entorno social. A liberdade é incondicional dentro dos limites da 
responsabilidade, dentro do horizonte do respeito. Pensar para um é pensar e agir por 
todos, essa é a mensagem essencial de Sartre. E essa mensagem essencial opera 
numa espécie de binômio responsabilidade-liberdade. Um está condicionado ao outro, 
o existir está condicionado ao agir. O engajamento é então tema essencial para Sartre, 
aplicando-se à literatura e tradução.
111
Problematizado e problematizador, o texto literário é, para Sartre, 
resultado de uma criação (artística) que, assim como a leitura, não 
se coloca como um ato alheio à percepção do mundo e à produção 
de sentidos. Desde que o leitor, assim como o autor, seres históricos 
que são, não se alienem a respeito da contemporaneidade em que 
vivem, segue-se que ter consciência de sua própria situação é uma 
tarefa essencial para que o desvendamento do mundo, proposto pela 
escrita sartriana (e embasado em uma filosofia da imaginação), ocorra, 
visto que as palavras, as coisas, as instituições, as ideias, o mundo, 
“adquirem estatutos distintos segundo as diferentes maneiras 
da intencionalidade humana, conforme as diferentes formas de a 
consciência se postar frente aos objetos” (DUARTE JR., 2008, p. 11).
A tradução também não é um ato alheio, ela é pensada dentro de um campo 
existencial, e é pensada também para o público que ela se destina. Quando se fala 
em problematizado e problematizador, função essencial do texto dentro da existência, 
Sartre nos aponta para o engajamento crítico da literatura. Então, uma tradução, 
para Sartre, como reflexo de uma criação artística que não pode estar desprovida de 
engajamento, pois não é um ato alheio à percepção do mundo, muito menos à produção 
de sentidos. Mais do que isso, o engajamento é uma não alienação, visto que se trata de 
um autoconhecimento e desvelamento da consciência e do mundo, através da relação 
de intencionalidade com os objetos.
Por isso é tão importante falar de engajamento em Sartre. Outro aspecto 
importante na ética do traduzir, então, é o que podemos pensar através de Sartre através 
da questão do engajamento. Engajar-se dentro de uma tradução seria algo correto? 
Para Sartre, sim. Devemos observar, porém, que não se trata de se engajar em alguma 
coloração política, muito menos levantar e propor ideologias, mas sim um engajamento 
pelo respeito e responsabilidade. Um engajamento que trata a responsabilidade de um 
como se fosse a responsabilidade com toda a humanidade.
Esse tipo de engajamento, pelo respeito e responsabilidade, ecoará no texto 
como aquilo que Sartre defendeu como os maiores princípios éticos, e faz valer o sentido 
de nossa existência.
O que estudamos até aqui? Vamos recapitular algumas ideias essenciais então!
Lévinas nos traz uma importante questão no pós-guerra que é a questão da 
alteridade. A importância ética do outro se fundamenta não somente como uma mera 
formalidade, mas sim como nossa essência primordial da consciência. Ter consciência 
do outro que ajuda é formar sua própria consciência ética, e assim perceber que a 
alteridade é o principal atributo da ética e da filosofia.
Antoine Berman, como um dos principais teóricos da ética na tradução de nossa 
história recente, aplica na sua obra o axioma ético fundamental de Lévinas. O título da 
obra de Berman já nos apresenta isso: o Albergue do longínquo. Do albergue observamos 
o acolhimento do outro, e do longínquo a ideia do estrangeiro a ser compreendido 
como alteridade. Nessa obra, três paradigmas a serem superados na ética da tradução, 
segundo Berman: etnocentrismo, o hipertextual, o platonismo na tradução.
112
O contrário da uma ética etnocêntrica na tradução é uma ética que pensa o 
diferente, o fora do padrão, pensa nos outros, a saber, os outros povos, culturas, línguas, 
como identidades a serem acolhidas, e não dominadas: não há melhor ou pior cultura, não 
há uma hegemonia ética do ocidente na tradução, nesse sentido. Da mesma forma uma 
tradução fundada na hipertextualidade e não na atividade poética, estaríamos, segundo 
Berman, utilizando de um platonismo na tradução, algo que deve ser evitado e combatido.
Outro personagem visto aqui, de grande peso para a ética da tradução é Jean-
Paul Sartre. Tentando dar forma também a um novo tempo no humanismo, Sartre parte 
do existencialismo e propõe uma importante teoria da responsabilidade e engajamento. 
Assim deve ser a tradução e os indivíduos engajados.
Todos esses caminhos teóricos nos levaram até a tradução e sua relação com 
a alteridade e responsabilidade. Portanto, da metade do século XX até os nossos dias, 
a questão da responsabilidade com a tradução, com o autor e sua obra surge como 
questão essencial. O centro de gravidade ético de uma tradução passa pelo completo 
senso de engajamento com o original, dentro da sua poética original.
Podemos considerar, em termos técnicos, se traduzimos de forma literal ou 
adaptada, mas não podemos deixar de considerar a singularidade envolvida numa obra, 
no seu entorno, na sua áurea. O mundo civilizado pós-guerra reagiu a qualquer violência, 
seja física ou simbólica, e reagiu produzindo ideias e obras éticas que nos apontaram 
novos rumos. A questão da responsabilidade é essencial nesse sentido e nos aproxima 
da ideia de ser humano e humanidade dentro do processo de tradução. 
Tabela 5 – Resumo geral da ética na tradução no pós-guerra
Resumo geral da ética na tradução no pós-guerra
Conceito Ideia geral
Ética no pós-guerra
• O movimento da ética no pós-guerra é um repúdio aos totalitaris-
mos, à banalidade do mal, à razão instrumentalizada e tecnicista, é 
uma tentativa de retorno a reumanização.
Alteridade em 
Lévinas
• Uma das respostas também ao pós-guerra é a ética de Eman-
nuel Lévinas que aposta na abertura para o outro como proces-
so primeiro da filosofia, é uma abertura à alteridade.
Ética na tradução de 
Antoine Berman
• Berman traz as ideias essenciais de Lévinas, e aposta numa tra-
dução ética como contrária ao etnocentrismo, contrária ao uso do 
hipertexto.
• É uma aposta no poético conectado à alteridade.
Sartre e a 
responsabilidade 
e engajamento
• A influência de Sartre na ética da metade do século XX até os dias 
de hoje se fundamenta na ideia de uma liberdade com respon-
sabilidade, o engajamento deve se dar na obra literária, e assim 
também na tradução e produção cultural.
Fonte: o autor
113
Um dos objetivos desta unidade foi demonstrar como a alteridade da tradução 
é um compromisso ético importante desde sempre, mas de forma crucial a partir do 
mundo pós-guerra. Essa alteridade não é uma mera cortesia que fazemos para as 
pessoas, mas um compromisso com a humanidade para que atrocidades como as 
acontecidas no início do século XX não voltem a acontecer. Esse é o papel do tradutor 
ao se deparar com um texto e produzir sua tradução.
Antes de finalizarmos, dois documentáriosque versam sobre a questão da 
tradução:
Os autores aqui citados, do início do século XX, anteviram a desumanização que 
se realizaria de forma trágica nas duas grandes guerras, e abriram caminho para autores 
como Lévinas que propusessem uma teoria ética da alteridade em que o outro é peça 
fundamental.
A ética de Lévinas demanda isso por habitarmos cada vez mais um isolamento 
e solipsismo, fruto da própria época em que vivemos. Mas como traduzir com alteridade, 
alguém poderia novamente perguntar no fechar dessa unidade. Novamente a resposta 
é honrar o autor e seu original, sua história, honrar aquele ao qual o texto se destina, ou 
seja, o público da obra, vivenciar as coisas e suas práticas pensando no alheio.
Outro objetivo dessa unidade foi chamar atenção para o discurso da 
responsabilidade, a partir também do mundo pós-guerra, o tema necessário e a ética que 
Sartre desenvolve tendo como guia o engajamento da nossa liberdade, o engajamento 
da existência como se fosse um engajamento por toda humanidade.
Para terminar essa unidade, gostaríamos de compartilhar uma última ideia 
crítica sobre a ética e a tradução. Segundo Kremer (2007, p. 4011-2):
"American Tongues" – um documentário que investiga 
a diversidade linguística e cultural nos Estados Unidos e 
como a tradução é fundamental para a compreensão e 
respeito mútuo.
"The Art of Translation" – um documentário que explora 
a história e o processo de tradução literária, incluindo os 
desafios éticos e literários que os tradutores enfrentam ao 
traduzir obras de diferentes gêneros e estilos.
NOTA
114
É preciso ampliar os saberes éticos da tradução e rever a ética 
tradicional com base na ética proposta pelos estudos pó[s]-
modernos da tradução. Uma ética relacionada com a visibilidade, com 
a coerência do que se diz com o que se faz, com a responsabilidade 
do tradutor, cujo comprometimento se dará a partir do momento 
em que se assumir como produtor de significados e não como 
mero transportador. Esse comprometimento ético e político pode 
ser viabilizado quando o caráter indiscutivelmente intervencionista 
da tradução for explicitado por meio de prefácios do tradutor e 
reconhecido por teóricos e leitores. O não apagamento do tradutor, 
passa a ser, nesse contexto, uma maneira de torná-lo responsável e 
comprometido com o saber ético pós-moderno. Um saber ético sem 
normas prescritas, mas normas inscritas em cada situação, em cada 
jogo de linguagem, em cada projeto de tradução.
Um tradutor como produtor de significados e não como mero transportador, 
essa é a ideia essencial que tiramos ao estudar o avanço da ética nos pensadores do 
pós-guerra. Uma ética que se sustenta pela “visibilidade, com a coerência do que se 
diz com o que se faz, com a responsabilidade do tradutor”, sendo aqui o tradutor peça 
essencial nesse debate sobre a ética, não somente como parte envolvida, mas como 
atuante no processo. 
É um intervencionismo ético da tradução através de uma ferramenta muito 
importante a qual falaremos de forma detalhada na próxima unidade que é a utilização 
do prefácio. Mas esse é um assunto para uma próxima conversa. Por hora ressaltamos 
a ideia de não apagamento do tradutor, longe disso, o tradutor deve estar eticamente 
presente mais do que nunca.
115
Tradução e Ética: Sobre ética da tradução como uma prática social de reflexão 
consciente
Daniel Antonio de Sousa Alves
INTRODUÇÃO 
A epígrafe escolhida para enquadrar esta reflexão teórica foi retirada do terceiro 
episódio da quinta temporada da comédia televisiva The Office (US), intitulada em inglês 
"Business Ethics". Na epígrafe, é mostrada uma fala do personagem Oscar que, durante 
um seminário sobre ética no meio corporativo, protesta ao ser deparado com uma visão 
restrita de ética como um sistema de regras fechadas. Em seu protesto, o personagem 
tenta elevar a discussão, chamando atenção para a existência de diferentes concepções 
sobre o que constitui a noção de correto e para a complexidade em torno desse debate. 
Este texto buscará promover uma discussão teórica sobre ética, trazendo-a para o 
contexto dos Estudos da Tradução e tentando evitar o estabelecimento de regras 
fechadas descrito no parágrafo anterior (não assumindo, portanto, a postura deôntica), 
mas adotando uma postura relativista que reflete sobre como um mesmo objeto pode 
ser observado a partir de visões concorrentes. Na busca por essa reflexão, este texto 
debaterá sobre como o processo de construção de significados a partir de um texto-
fonte necessariamente abre múltiplas possibilidades de interpretação e sobre como 
essas interpretações podem abrir (também múltiplas) possibilidades para a formulação 
de projetos tradutórios – aqui entendidos como os sistemas subjacentes às escolhas 
tradutórias que levam à construção de qualquer texto-alvo. É necessário reconhecer, no 
entanto, que mesmo uma discussão relativista, como a aqui proposta, tem suas 
limitações. Contextos mais influenciados por pressões de mercado, como o de editoras 
comerciais, por exemplo, tendem a ser menos receptivos a discussões que não levem a 
uma aceleração nos processos de tomadas de decisões – o que talvez seja uma razão 
por trás da existência de diversos materiais sobre ética e tradução que adotam um viés 
deôntico e que tendem a limitar o leque de fatores a serem considerados nas discussões 
sobre o tema. Ambientes acadêmicos, por outro lado, tendem a ser mais abertos a 
discussões que privilegiam a reflexão e o debate, reconhecendo a multiplicidade de 
fatores que pode influenciar um determinado objeto ou processo. A partir desse 
contraste de contextos, este trabalho reconhece, de antemão, os diferentes locais para 
a promoção de diferentes debates e não se propõe a avançar sobre contextos em que 
uma lógica deôntica possa ser mais aplicável. Ao se localizar dessa forma, este texto 
busca inserção em contextos nos quais há espaço para discussões sobre como um 
mesmo texto-fonte pode levar à construção de diferentes interpretações, com diferentes 
LEITURA
COMPLEMENTAR
116
nuances e diferentes possibilidades de tradução. Para atingir seus objetivos, este texto 
está organizado em quatro seções, contando com esta introdução; a saber: i) 
Considerações sobre ética, na qual são discutidos conceitos iniciais e feitas considerações 
sobre ética inserida em um contexto dos Estudos da Tradução; ii) Ética da tradução e 
projetos tradutórios, na qual são apresentadas reflexões sobre políticas tradutórias e 
suas construções e sobre a importância delas para a construção de textos-alvo; por fim, 
iii) Considerações finais, na qual são retomadas possíveis leituras e feitas considerações 
sobre outras discussões acerca do tema ética. Essa última seção também reconhece a 
existência de outras abordagens sobre ética no contexto dos Estudos da Tradução e faz 
indicações de outros trabalhos que apontam caminho Considerações sobre ética Ao 
longo de todo o livro, Singer (2011) ressalta a característica de a ética de ser, por si só, 
um tema abrangente, com várias ramificações e implicações filosóficas, apontando não 
haver consensos sobre o que é ética, sobre o que não é ética, tampouco sobre a própria 
existência de uma dicotomia entre o ético e o não-ético. O autor pontua que a simples 
definição de o que constitui ética é alvo de diferentes percepções e muitas vezes é 
confundida com um debate sobre a defesa da moralidade, às vezes permeado por 
discursos religiosos. Para os fins deste trabalho – que não se propõe a uma discussão 
sobre ética pura e não faz, portanto, uma revisão abrangente das mais diferentes 
concepções sobre ética –, será adotada a definição de Singer (2011, p. 284-5) de ética 
como uma prática social que visa a promover a reflexão consciente sobre os 
comportamentos e os interesses de indivíduos em relação aos seus grupos sociais e às 
expectativas sociais desse grupo. Nessa visão promovida por Singer (2011, p. 285), a 
reflexão sobre os motivos que levam um comportamento a ser consideradocomo 
desejável (ou não desejável) em um dado contexto social passa a ter relevância 
equiparável à do próprio comportamento sob escrutínio. Para o autor, simplificar ética a 
uma mera visão de ‘o que é correto’, sem a devida análise dos motivos subjacentes – 
tanto daqueles por trás tanto do próprio comportamento, quanto daqueles por trás dos 
valores sociais que levam tal comportamento a ser considerado correto – pode levar a 
situações de negação da capacidade do indivíduo em avaliar seu contexto social e seu 
raio individual de ação. Singer (2011, p. 270) faz tal defesa da ética como uma prática 
social que preza pela reflexão consciente se amparando na ideia de que não há absolutos 
(tampouco uma divisão estanque) em uma discussão entre o correto e o errado, muitas 
vezes cabendo ao indivíduo a decisão de como agir frente a uma situação concreta. Em 
sua argumentação, o autor aponta que, embora haja uma expectativa idealizada de uma 
confluência entre a) o que uma sociedade valoriza como positivo; b) o que a lei dessa 
sociedade preconiza como comportamento desejável; e c) o que um indivíduo que faz 
parte dessa sociedade decide fazer frente a uma dada situação, a relação entre essas 
três variáveis nem sempre é pacífica – o que reforça a importância da discussão 
consciente acerca do contexto da ação do indivíduo. Nessa argumentação, Singer (2011) 
apoia-se em Henry David Thoreau e em Robert Paul Wolff para discutir os conflitos 
resultantes de situações em que os três fatores mencionados no parágrafo anterior não 
confluem segundo essa expectativa idealizada (ou mesmo em que tal há uma grande 
divergência entre os três). Discussões sobre desobediência civil e resistência pacífica 
trazem bons exemplos, nos mais diferentes âmbitos, que podem ser usados para 
117
justificar a importância de se privilegiar a reflexão consciente sobre ações e 
comportamentos dos indivíduos em suas sociedades, em detrimento de uma simples 
colocação de ‘o que é correto’. Em se tratando de uma discussão de ética em um 
contexto dos Estudos da Tradução, igualmente se pode valorizar a reflexão consciente 
em detrimento de uma colocação absoluta de ‘o que é uma boa tradução’, também se 
levando em consideração que há muitos fatores e perspectivas envolvidos. Um fator a 
ser aqui destacado é o papel desempenhado pelo(a) próprio(a) leitor(a) na construção do 
texto-fonte e as implicações disso para a construção de textos-alvo. Segundo Bassnett 
(1980), um dos grandes avanços dos estudos literários no século XX é a mudança no 
paradigma do(a) leitor(a), que deixa de ser um(a) consumidor(a) passivo(a) dos textos e 
passa a ser visto(a) como sujeito ativo(a) no processo de comunicação, chegando a ter 
status de coprodutor(a) do texto. Com essa mudança de paradigma, ainda de acordo 
com Bassnett (1980), os estudos literários deixam de lado a ideia de que um texto tem 
uma leitura única, correta e invariável e passam a abraçar as diferentes possibilidades 
de interpretação que decorrem da ação dos(as) diferentes leitores(as). Essa propriedade 
das narrativas literárias também é ressaltada por Fludernik (1996), que discute como 
textos permitem que leitoras e leitores ativamente construam significados, fazendo 
associações e interpretações relacionadas aos seus esquemas individuais de percepção 
da realidade. A discussão sobre o papel do(a) leitor(a) na construção do texto não se 
limita à literatura. Costa Val (2004) abordando as noções texto, textualidade e 
textualização – baseando-se na linguística textual de Beaugrande e Dressler (1981) – 
também ressalta que o significado não é algo imanente ao texto, mas construído por 
meio de um processo dialógico e interativo. A autora trabalha com uma definição de 
textualidade como “um princípio geral que faz parte do conhecimento textual dos 
falantes e que os leva a aplicar a todas as produções lingüísticas que falam, escrevem, 
ouvem ou leem um conjunto de fatores capazes de textualizar essas produções” (COSTA 
VAL, 2004, p. 114 – grifo da autora). Emblemática dessa mudança de postura em relação 
à construção de significados é a fala da autora ao introduzir os conceitos de coesão e 
coerência:
Autores(as), como Nietzsche (1901), por exemplo, discutem como aquilo que 
classificamos como realidade é fruto de uma interpretação, moldada por uma perspectiva. 
Nietzsche (1901) ressalta a impossibilidade da existência de uma verdade absoluta (ou de 
fatos que existam por si próprios) e aponta a perspectiva e a interpretação – associadas 
aos interesses pessoais do indivíduo – como cernes das percepções humanas acerca 
da realidade. O perspectivismo de Nietsche implica a aceitação da multiplicidade de 
interpretações como pressuposto da realidade e convida à reflexão sobre o papel da 
pessoa que interpreta a realidade e sobre suas eventuais agendas (já que, para o autor, 
a interpretação também é uma forma de estrutura de poder) acerca de todas as coisas 
que percebemos como reais. Trazendo esse perspectivismo para o contexto dos Estudos 
da Tradução, admitir que um mesmo texto-fonte abre múltiplas possibilidades de 
leitura igualmente válidas, implica aceitar que cada texto-fonte pode abrir espaço para 
múltiplas possibilidades de tradução, também igualmente válidas. Além disso, entender 
a interpretação como uma ação associada às agendas do indivíduo, pode ser vista 
118
como um convite para a compreensão e para a discussão crítica sobre as motivações 
subjacentes à tradução como uma ação social. Para Bassnett (1980), uma consequência, 
para o campo disciplinar, de se aceitar a multiplicidade de significados como algo inerente 
a qualquer texto é a diminuição da importância das tentativas de categorização “entre 
traduções, versões, adaptações e [d]o estabelecimento de uma hierarquia de ‘correção 
entre essas categorias’” (BASSNETT, 1980, p. 84). Para a autora, a diferenciação entre as 
categorias citadas deriva, em primeiro lugar, da noção de leitor(a) como sujeito passivo 
e, em segundo lugar, da noção de significado como propriedade imanente do texto e 
não como um produto do dialogismo intrínseco ao processo de leitura e produção de 
significados. Dando sequência às discussões sobre fatores a serem considerados em uma 
discussão sobre ética vista no contexto dos Estudos da Tradução, este texto passa a se 
concentrar na construção de textos-alvo a partir de projetos tradutórios, ainda evitando 
o maniqueísmo de certo versus errado e evitando o estabelecimento de hierarquias 
de correção ou de avaliação de traduções (em termos qualitativos). Trata-se aqui de 
uma tentativa de reforçar a discussão sobre a possibilidade de inúmeras leituras e de 
construções tradutórias a partir disso, mas reconhecendo que uma escolha de tradução 
(feita em detrimento de outra) pode abrir espaço para diferentes construções de textos-
alvo. A próxima seção parte desse dialogismo implícito a leituras de textos (e também à 
produção de traduções) para abordar a construção de projetos tradutórios e seu papel 
construção dos textos-alvo. Pressupor que textos-fonte abrem múltiplas possibilidades 
de interpretação e, consequentemente, podem ser traduzidos de diferentes formas, 
também tem como consequência a necessidade de se promover uma visão da ética 
da tradução que supere aquilo que Kremer (2007) chama de ética da igualdade. Kremer 
(2007) – que classifica essa ética da igualdade como uma postura ilusionista que tenta 
se impor como absoluta e universal – critica a noção equivocada de que a atividade 
do(a) tradutor(a) pode ser isenta e apagada de motivações políticas, além de criticar a 
expectativa de que traduções sejam meras reproduções de textos originais, que, por 
sua vez, são vistos como sacralizados e imutáveis no tempo. Essa ética da igualdade, 
associada à condição de invisibilidade de tradutores e tradutoras, gera, segundo Kremer 
(2007, p. 4004), um contexto propício para a realização de interferências veladas 
pois “[cria-se] no leitor a expectativa de estar lendo o texto “original”sem mediações, 
quando de fato, [o tradutor] está manipulando o texto sem assumir sua interferência”. 
Kremer (2007), tanto em sua discussão teórica quanto no estudo de caso que promove 
– ao analisar o caso de uma tradução de Dom Casmurro para a língua inglesa que 
ignora grandes passagens do texto-fonte, excluindo capítulos sem que sejam feitas 
quaisquer ressalvas ou anúncios, informando essa decisão ao público-alvo –, ressalta 
a necessidade de reconhecer que toda tradução, por mais despretensiosa que possa 
parecer, é uma forma de intervenção política, na qual o(a) tradutor(a) se coloca como 
agente, consciente ou não, da promoção de ideias que ocorre em qualquer contato 
entre línguas e culturas. Mais do que simplesmente reescrever textos de uma língua A 
em uma língua B, tradutores têm um papel histórico e social na mediação cultural, com 
reflexos sobre o fluxo de informações, sobre a construção de imagens culturais e sobre 
o estabelecimento de relações de convencimento entre diferentes agentes. Nesse 
cenário, Kremer (2007) defende – como alternativa ao que ela denomina como ética 
119
da igualdade – uma ética pós-moderna, que promova a visibilidade de tradutores(as) e 
permita aos(às) leitores(as) avaliar a coerência entre a proposta construída na política 
tradutória e a forma que o texto traduzido efetivamente assume. Segundo Kremer (2007, 
p. 4011-2):
Ao convidar tradutores(as) a explicitarem seus saberes éticos, Kremer (2007) 
mostra uma preocupação em garantir que o público-alvo das traduções possa ter meios 
para saber as visões e posturas subjacentes à construção dos textos traduzidos a que 
tem acesso. Trata-se de uma posição que encontra amparo em autores como, por 
exemplo, Antoine Berman (1995) e Sherry Simon (1996). Berman (1995) defende que 
todas as possibilidades de tradução são válidas, desde que o processo decisório por trás 
delas seja franco/aberto, e enfatiza que todas traduções significativas são baseadas 
em projetos de tradução, por ele definidos como objetivos articulados, que envolvem 
desde a posição do(a) tradutor(a) até as demandas e características específicas do 
texto a ser traduzido. Esses projetos seriam, portanto, o princípio norteador por trás 
de todo o processo decisório de uma tradução, constituindo o sistema subjacente a 
todas as escolhas realizadas na construção de um texto-alvo. Simon (1996, p. 35), 
também amparada em Berman (1995), ressalta a necessidade de reconhecer “o 
projeto tradutório como uma influência formativa sobre o texto final”, defendendo 
que tradutores e tradutoras construam suas posições, sem se basear em ideias pré-
determinadas, mas com foco nas questões efetivamente trabalhadas em cada situação 
de tradução. Infelizmente, a morte prematura de Antoine Berman – em 1991, aos 48 
anos – não nos possibilitou que o autor desenvolvesse mais trabalhos sobre como 
percebia as possibilidades para a efetiva promoção dessa ética da diferença, como bem 
ressalta Venuti (1998). Um ponto importante a ser considerado a partir das discussões 
de Kremer (2007), Berman (1995) e Simon (1996) é não haver normas prescritas para a 
construção de um projeto de tradução. Trata-se de algo a ser construído a partir das 
características individuais de cada tarefa de tradução, analisada dentro de seu contexto 
específico, pois, como explica Berman (2002), citado por Sousa et al (2011, p. 84), 
“todo texto a ser traduzido apresenta uma sistematicidade própria que o movimento 
de tradução encontra, enfrenta e revela”. Assim, entendendo que não há projetos 
de tradução que possam ser considerados universalmente corretos para quaisquer 
casos e que um mesmo projeto de tradução pode ser alterado quando colocado em 
um contexto diferente, defende-se aqui uma postura acerca de ética semelhante à de 
Singer (2011). Promove-se, portanto, uma ética da tradução que se constitua como uma 
prática social que estimula a reflexão ativa sobre as traduções, analisadas em função de 
projetos de tradução (ou das linhas de raciocínio construídas por trás das decisões de 
tradução) que venham a ser publicados em conjunto com os textos traduzidos. Trata-
se de uma perspectiva sobre a ética da tradução que pode permitir, pelo lado do(a) 
analista, acesso a indícios sobre os esquemas individuais de percepção da realidade 
de cada tradutor(a) – utilizando aqui os termos de Fludernik (1996) –, podendo até 
mesmo permitir a discussão acerca dos mecanismos de interpretação de cada leitor(a)/
tradutor(a). Já pelo lado do(a) consumidor(a) do texto-alvo, essa mudança pode permitir 
uma localização mais clara dos textos-alvo nos seus contextos de recepção, com 
120
implicações até mesmo para a percepção dos trabalhos de tradutores(as) enquanto 
produtores(as) de conhecimento. O fato de se tratar de uma postura que não prescreve 
modelos para a construção de projetos de tradução não deve, no entanto, ser visto 
como um fator impeditivo ou desestimulador do debate sobre o tema. Pelo contrário, 
é importante que o campo disciplinar aproveite essa abertura para desenvolver 
discussões que estimulem a reflexão sobre as práticas de tradução, visando a entender 
os raciocínios desenvolvidos para a construção de textos-alvo. Outro ponto de igual 
importância é a discussão sobre como tornar tais projetos públicos e como ampliar o 
debate em torno desses projetos, reconhecendo as diferentes possibilidades leitura 
abertas por um texto-fonte e analisando as diferentes possibilidades de tradução em 
função das discussões explicitadas por tradutores(as) em torno dos valores subjacentes 
às suas decisões de tradução e as limitações que eles(as) percebem em relação aos 
seus trabalhos. Dentre os trabalhos que podem indicar caminhos nesse sentido, podem 
ser feitas algumas indicações. Simon (1996, p. 35), por exemplo, destaca tradutoras 
feministas como “Barbara Godard, Suzanne Jill Levine, Susanne de Lotbinière-Harwood 
ou Luise von Flotow, em suas formas personalizadas de escrita crítica”. Trata-se, 
segundo a autora, de trabalhos que desenvolvem uma postura ética ao apresentar 
as posições subjacentes às suas traduções. Outra indicação de meios para explicitar 
os projetos tradutórios ou princípios que guiam tarefas de tradução é dada por Venuti 
(1995, p. 311) que, ao defender uma maior visibilidade dos trabalhos de tradutores e 
tradutoras por meio do desenvolvimento de práticas inovadoras de tradução (que fujam 
à norma do apagamento e da invisibilidade), sugere a apresentação de “discussões 
lógicas sofisticadas para essas práticas em prefácios, teses, palestras, entrevistas”.
Por fim, Alves, Braga e Liparini (2016) também se colocam neste debate, 
discutindo os processos decisórios por trás da construção de um texto-alvo, que, segundo 
os autores, tem pressupostos ideológicos controversos. Os autores citam Baker (2014, 
p. 23) para argumentar que, ao abrir, para a comunidade acadêmica, o debate sobre 
tais processos decisórios, criam-se as condições para uma maior compreensão sobre 
os “papéis que tradutores(as) e intérpretes desempenham em suprimir ou promover 
aspectos relativos às experiências vividas por grupos marginalizados”. 
Fonte: ALVES, D. A. de S. Tradução e ética: sobre ética da tradução como uma prática social de reflexão 
consciente. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 1, jan./mar., 2021. Disponível em: https://periodicos.
ufpel.edu.br/ojs2/index.php/rle/index. Acesso em: 31 maio 2021.
121
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• A questão da responsabilidade na ética da tradução, e a relevância de pensarmos os 
sistemas éticos que versam sobre isso.
• Como a obra de Jean-Paul Sartre estabelece a responsabilidade, e como ela fomenta 
o pensar sobre a tradução.
• As ideias de responsabilidade e engajamento de uma tradução, e como elas se 
refletem na obra de alguns pensadores.
122
AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 “Em Sartre, a liberdade é precisamente o Ser da consciência: nela, o ser humano é 
o seu próprio passado –bem como o seu devir – sob a forma de nadificação. Sendo 
consciência de Ser (liberdade), há para o ser humano um determinado modo de 
situar-se frente ao passado e ao futuro como sendo e não sendo ambos ao mesmo 
tempo. A liberdade humana, da perspectiva sartriana, é a escolha irremediável de 
certos possíveis: o homem não é, mas faz-se. Não há futuro previsível e nem ao 
menos algumas cartas marcadas de antemão. Há, isso sim, o movimento através do 
qual o Ser do homem faz-se isso ou aquilo – escolhas que, por seu turno, serão feitas 
a partir de certas situações, jamais encerradas em algum tipo de determinismo”.
Fonte: YAZBEK, A. C. A concepção de liberdade em Sartre. 
Vol. 6, nº 1, 2005, p. 142. 
 
 Acerca da obra de Sartre e suas implicações na ética da tradução e crítica, assinale a 
alternativa CORRETA:
a) ( ) Sartre estabelece o Humanismo fundado na existência, responsável e engajado.
b) ( ) Sartre estabelece o Iluminismo fundado na existência, responsável e engajado.
c) ( ) Sartre estabelece o Humanismo fundado na transcendência, responsável e 
 engajado.
d) ( ) Sartre estabelece o Humanismo fundado na existência, teológico e engajado.
2 Leia o trecho a seguir:
 “O conceito de ato, com efeito, contém numerosas noções subordinadas que devemos 
organizar e hierarquizar: agir é modificar a figura do mundo, é dispor de meios com 
vistas a um fim, é produzir um complexo instrumental e organizado de tal ordem 
que, por uma série de encadeamentos e conexões, a modificação efetuada em um 
dos elos acarrete modificações em toda série e, para finalizar, produza um resultado 
previsto. Mas ainda não é isso que nos importa. Com efeito, convém observar, antes 
de tudo, uma ação é por princípio intencional” 
Fonte: SARTRE, J. P. O ser e o nada – ensaio de ontologia 
fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de 
Janeiro: Vozes, 1998, p. 536).
 Observe e analise as assertivas abaixo acerca da obra de Sartre:
123
I- Sartre apresenta uma teoria fundada na liberdade como principal elemento da 
existência, somos sempre livres.
II- O pensador fundamenta a razão como tema central de nossas ações, estabelecendo 
o progresso e avanço iluminista.
III- Sartre traz o Existencialismo como fonte do Humanismo, estabelecendo a 
 responsabilidade com centro da ética.
 Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 Leia o trecho a seguir:
 “A realidade-humana é livre porque não é o bastante, porque está perpetuamente 
desprendida de si mesmo, e porque aquilo que foi está separado por um nada daquilo 
que é e daquilo que será. E, por fim, porque seu próprio ser presente é nadificação na 
forma do ‘reflexorefletidor’. O homem é livre porque não é si mesmo, mas presença a si. 
O ser que é o que é não poderia ser livre. A liberdade é precisamente o nada que tendo 
sido no âmago do homem e obriga a realidade humana a fazer-se em vez de ser. 
Fonte: SARTRE, J. P. O ser e o nada – ensaio de ontologia 
fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de 
Janeiro: Vozes, 1998, p. 545.
 Acerca da obra de Sartre, sobre a teoria ética da tradução e crítica, assinale V para 
verdadeiro e F para falso.
( ) Liberdade é um tema central em Sartre, inclusive não podemos nunca deixarmos de 
 sermos livres.
( ) Iluminismo é o tema central em Sartre, vivemos o progresso da ciência e tecnologia, 
 vivemos o progresso da razão.
( ) A existência fundamenta o engajamento que devemos ter frente ao próximo, 
 fundamenta também nossa responsabilidade.
 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
124
4 Leia o trecho a seguir:
 [...] a consciência não passa de um vazio transparente que se alimenta de sua 
intencionalidade, e isso de um modo tão radical que o tema da intencionalidade 
ostenta uma dimensão ontológica. A consciência é consciência de..., ela é intencional, 
e, nesse sentido, o para si é o que não é e não é o que é. A vida da consciência 
consiste em tender a algo que ela não é, buscando como coincidir plenamente com 
o outro que não ela mesma, com um intencionado; assim, ela é o que não é. Mas ela 
não é o outro, não é aquilo do qual tem consciência, visto que, sendo consciência, 
esgota-se na distância e não consegue abandonar-se; e, assim, ela não é o que é 
enquanto intencional. 
Fonte: BORNHEIM, G. Sartre: metafísica e existencialismo. 
São Paulo: Perspectiva, 1971, p. 54).
 Descreva a ideia de Existencialismo em Sartre, e como a escolha fundamenta seu 
Humanismo. Liste ainda as características do Existencialismo:
5 Leia o texto a seguir:
 “[...] Como vimos, para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, ou 
tão pouco de dentro, que ele possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonado, 
sem qualquer ajuda de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de fazer-se 
até o mínimo detalhe. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, ou seja, 
ser nada do ser. Se começássemos por conceder o homem como algo pleno, seria 
absurdo procurar nele depois momentos ou regiões psíquicas em que fosse livre: 
daria no mesmo buscar o vazio em um recipiente que previamente preenchemos a 
borda. O homem não poderia ser ora livre, ora escravo: é inteiramente e sempre livre, 
ou não o é”. 
Fonte: SARTRE, J. P. O ser e o nada – ensaio de ontologia 
fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de 
Janeiro: Vozes, 1998, p. 545.
 
 Como a liberdade se relaciona com engajamento em Sartre? Disserte com objetivo de 
responder essa questão e liste as principais características desses aspectos:
REFERÊNCIAS
125
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131
A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E 
AS QUESTÕES ÉTICAS
UNIDADE 3 —
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• observar as questões ético-práticas no universo da tradução;
• distinguir exemplos históricos da complexidade ética de algumas traduções;
• analisar a prática da tradução e a ética contemporâneas;
• investigar as refl exões e conclusões sobre ética e a tradução.
Com o objetivo de reforçar os conhecimentos adquiridos, a cada tema de 
aprendizagem desta unidade, você encontrará autoatividades planejadas a partir do 
conteúdo trabalhado. 
TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM
TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA
TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – REFLEXÕES E CONCLUSÕES SOBRE ÉTICA E A TRADUÇÃO
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure 
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
132
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A TRILHA DA 
UNIDADE 3!
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133
TÓPICO 1 — 
TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL 
DA LINGUAGEM
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Seguiremos, agora, num primeiro momento, com uma análise mais detalhada 
da ética na tradução de Berman, trazendo mais exemplos práticos para nosso campo de 
estudos, detalhando mais e mais o que seria a prática da tradução e as questões éticas 
dentro de um mundo contemporâneo.
Para tanto, um resgate e exemplo histórico se faz necessário. Abordaremos um 
estudo de caso importante na história da ética da tradução que é aquilo que na Idade 
Média se convencionou como o Cisma do Oriente. Houve lá também um debate ético 
teológico acerca da tradução.
Utilizaremos isso para aprofundar o assunto do traduzir e a abertura responsável 
da linguagem e a prática da tradução e a ética contemporânea, dentro dos sistemas 
éticos contemporâneos. Finalizaremos nosso debate com reflexões e conclusões sobre 
ética e a tradução, pensando a ética, escrita e civilização. Progredimos ou não nas 
questões éticas da tradução? Ou esse é um desafio em atualização? Vamos lá!
2 A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS
Observamos na parte inicial de nosso material uma apresentação histórico-
filosófica do que seria a ética e como ela se desenvolveu em seus primórdios dentro do 
mundo helênico, e como ela caminhou também como parte do pensamento da filosofia 
e como parte de uma espécie de avanço civilizatório.
Os mais variados sistemas éticos apontam para a resolução das questões 
práticas: ou estudando as questões em si mesmas (éticas deontológicas), ou estudando 
as questões éticas pelas suas consequências (éticas teleológicas). Assim, num primeiro 
momento, estudamos como Aristóteles, Kant e utilitaristas poderiam pensar a questão 
da tradução em seu prisma ético.
Estudamos também acerca da poética da tradução e suas implicações éticas. 
Se há uma primazia da poética acerca da ética, ou se há uma primazia da ética sobre 
a poética. Para tratar desse assunto trouxemos à discussão as ideias do Romantismo 
Alemão, a obra de Nietzsche e de Deleuze, além da relação deles com a tradução.
134
Seguimos nosso debate, num segundo momento, tratando da questão da 
alteridade na ética da tradução. Para tanto, perpassamos o momento histórico e filosófico 
do pós-guerra, e como esse pós-guerra trouxe à luz o pensamento de sistemas éticos 
como o de Emmanuel Levinas, entre outros grandes pensadores que também pensaram 
a alteridade e responsabilidade como o filósofo Jean-Paul Sartre.
Introduzimos também algumas ideias iniciais e práticas acerca de um importante 
pensador da ética na tradução que é Antoine Berman, e como ele utilizou das ideias de 
Levinas e construiu uma espécie de guia da alteridade na tradução, fugindo daquilo que 
ele chamou de etnocentrismo, hipertextual e platônico no processo de traduzir.
 Se pensarmos num mundo ideal, onde vislumbrássemos uma tradução 
perfeita, poderíamos dizer que essa tradução perfeita se daria num texto traduzido 
exatamente igual ao original, só que em outra língua. Esse é o grande desafio do tradutor, 
aliado, obviamente, com a questão ética do texto traduzido.
 É no exercício e prática da tradução que sentimos de fato os desafios 
éticos que tal atividade nos propõe. E se traduzirmos errado? E se alterarmos o sentido? 
Se deturparmos sem saber o significado de uma obra? Se comprometermos um 
personagem? São várias questões e desafios que se colocam.
 Vamos observar, a partir desse momento, o que mais Antoine Berman 
pode nos auxiliar neste processo de ética na tradução. Já sabemos que Berman se 
apoia na ética de Levinas, colocando o respeito e a alteridade como critérios essenciais 
de uma ética na tradução. A eticidade, para Berman, reside no respeito pelo original:
 
O fundamento da avaliação de uma tradução consiste em dois 
critérios: poeticidade e eticidade. A eticidade “reside no respeito, 
ou melhor, num certo respeito pelo original” (1995: 92). Partimos do 
seguinte axioma: a tradução é tradução-da-letra, do texto enquanto 
letra. Que isto é a essência última e definitiva da tradução ficará claro 
pouco a pouco. Existe um belíssimo texto de Alain (1934: 56-7) que 
faz alusão a isso: “Tenho a ideia de que sempre se pode traduzir um 
poeta, inglês, latino ou grego, exatamente palavra por palavra, sem 
acrescentar nada, e conservando inclusive a ordem, até encontrar o 
metro e mesmo a rima. Eu, raramente, conduzi o experimento até este 
ponto; é necessário tempo, digo, meses, e uma rara paciência. Chega-
se inicialmente a uma espécie de mosaico bárbaro; os fragmentos 
estão mal juntados; o cimento os liga, mas não os harmoniza. Resta 
a força, o brilho, até mesmo uma violência, e provavelmente mais do 
que o necessário. É mais inglês que o inglês, mais grego que o grego, 
mais latim que o latim [...] (BERMAN, 2013, p. 2).
A poeticidade e a eticidade andam juntas como critério de apreciação correta 
de uma tradução, pois tanto a poeticidade como a eticidade revelam a quebra com uma 
tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica. Como isso se dá na ética da tradução 
proposta por Berman, por mais que não seja exatamente um sistema ético clássico?
135
Berman desenvolveu uma abordagem ética da tradução que enfatiza a 
responsabilidade do tradutor em relação ao texto original e à cultura de origem. A ética 
da tradução de Berman se baseia em quatro princípios fundamentais:
Respeito pelo texto original: Segundo Berman, o tradutor deve respeitar o 
texto original e sua estrutura, estilo e linguagem. Isso significa que o tradutor deve evitar 
a simplificação ou adaptação excessiva do texto para que ele se encaixe nas convenções 
ou expectativas da cultura de destino.
Busca pela equivalência: Berman argumenta que o objetivo da tradução não 
é apenas transmitir o significado literal do texto, mas também capturar a intenção, o 
tom e o estilo do autor. Portanto, o tradutor deve buscar uma equivalência entre o texto 
original e a tradução, levando em consideração a cultura de origem e destino.
Atenção à cultura de origem: Berman enfatiza a importância de o tradutor 
ter conhecimento da cultura de origem do texto, bem como do contexto histórico, 
social e político em que o texto foi escrito. Isso permitirá que o tradutor compreenda 
as referências culturais e contextuais no texto original e as transmita adequadamente 
na tradução.
Responsabilidade ética: por fim, Berman destaca a responsabilidade ética do 
tradutor em relação ao texto original, à cultura de origem e à cultura de destino. Isso 
significa que o tradutor deve estar ciente do impacto potencial da tradução e de como 
ela pode ser interpretadapelos leitores. O tradutor deve, portanto, estar comprometido 
em transmitir o texto original de forma precisa e fiel, sem comprometer sua integridade 
ou a intenção do autor.
A ética da tradução de Berman enfatiza a importância do respeito pelo 
texto original, da busca pela equivalência, da atenção à cultura de origem e da 
responsabilidade ética do tradutor. Através desses princípios, Berman defende uma 
abordagem ética da tradução que visa preservar a integridade e a riqueza da literatura 
e da cultura em todo o mundo.
Berman também descreveu o fim do etnocentrismo necessário para uma boa 
tradução. Ele discutiu o etnocentrismo em sua obra A tradução e a letra, ou o albergue 
do longínquo. Ele argumenta que o etnocentrismo é um problema comum na tradução, 
onde um tradutor pode julgar a cultura de origem do texto como inferior a sua própria 
cultura, levando a uma tradução que não é fiel ao texto original.
O etnocentrismo, segundo Berman, pode ser encontrado em muitas formas de 
comunicação intercultural, não apenas na tradução. Ele argumentou que o etnocentrismo 
é uma manifestação do preconceito cultural, em que as pessoas tendem a julgar outras 
culturas com base em suas próprias normas culturais e valores.
Antoine Berman nos diz que a solução para o etnocentrismo na tradução é a 
"desautomatização", um processo que envolve uma compreensão mais profunda da 
cultura de origem do texto, e uma tentativa de evitar julgamentos pré-concebidos 
136
baseados na cultura do tradutor. Ele acreditava que os tradutores devem se esforçar 
para entender a cultura de origem do texto, e para trazer a complexidade e a riqueza 
dessa cultura para a tradução.
Em suma, Berman reconheceu o etnocentrismo como um problema comum 
na tradução, e defendeu a necessidade de os tradutores reconhecerem suas próprias 
tendências etnocêntricas, e trabalharem para superá-las por meio da compreensão e 
respeito pelas culturas de origem do texto:
Nesta figura, a tradução se caracteriza por três traços. Culturalmente 
falando, ela é etnocêntrica. Literariamente falando, ela é hipertextual. 
E filosoficamente falando, ela é platônica. A essência etnocêntrica, 
hipertextual e platônica da tradução recobre e oculta uma essência 
mais profunda, que é simultaneamente ética, poética e pensante. Em 
suas regiões mais profundas, o traduzir está ligado à ética, à poesia e 
ao pensamento (BERMAN, 2013, p. 22).
Berman também lança um pensar sobre o fim do hipertextual na tradução. 
De forma geral, o hipertextual é um termo que se refere às conexões entre diferentes 
textos que podem ser estabelecidas por meio de referências, citações, alusões, 
intertextualidade e outras formas de interconexão.
Para Berman, a tradução, como a tradição a vê, é um ato hipertextual por excelência, 
pois envolve a busca por essas conexões entre o texto original e o texto traduzido. Ele 
argumenta que o tradutor deve estar ciente dessas conexões e trabalhar para preservá-las 
na tradução, a fim de manter a integridade e a riqueza do texto original, mas sem se submeter 
totalmente ao hipertextual. Berman cita importante contribuição de São Jerônimo:
São Jerônimo define assim a essência da tradução: "sed quasi 
captivos sensus in suam linguam uictoris iure transposuit" e "non 
uerbum e uerbo, sed sensum exprimere de sensu" [mas os sentidos, 
como que capturados, trasladou-os à sua língua, como um direito de 
vencedor] e [não traduzir uma palavra a partir de outra palavra, mas o 
sentido a partir do sentido] (BERMAN, 2013, p. 21).
Berman também enfatiza que o hipertextual é uma das características distintivas 
da literatura em relação a outros tipos de texto. A literatura é permeada por referências, 
alusões e citações que estabelecem conexões entre diferentes textos e épocas, e é 
através dessas conexões que a literatura adquire sua profundidade e complexidade.
Na perspectiva de Berman, porém, a tradução literária é uma forma de criar 
novas conexões hipertextuais, uma vez que o texto traduzido pode ser entendido como 
um novo ponto de conexão entre o texto original e a cultura da língua de chegada. 
Portanto, a tradução não deve ser vista como uma simples transposição de um texto de 
uma língua para outra, mas como um processo criativo que envolve a criação de novas 
conexões entre culturas e épocas.
137
Destarte, Berman enfatiza a importância do hipertextual na tradução 
literária, mas que não devemos somente nos submeter ao hipertextual, e destaca 
que o trabalho do tradutor envolve a busca por essas conexões e a criação de novas 
conexões hipertextuais entre textos e culturas. Por isso, Berman desenvolveu uma 
abordagem crítica que valoriza a especificidade da língua e da cultura de origem do 
texto, buscando preservar suas singularidades em vez de homogeneizá-lo na língua 
de destino.
Outro desafio, em suma, proposto por Berman é o fim do legado do platonismo 
na tradução. Berman faz referência ao platonismo ao defender que a tradução deve 
buscar transmitir não apenas o sentido das palavras, mas também a sua essência, sua 
verdadeira natureza. Segundo ele, o texto é um objeto estético que deve ser preservado 
em sua forma e não apenas em seu conteúdo.
A tradução não pode se limitar a uma mera transferência de informações de uma 
língua para outra, mas deve considerar aspectos como a sonoridade, a musicalidade, a 
sintaxe e a estrutura do texto original. Berman chama essa abordagem de "tradução 
enquanto criação", pois acredita que a tradução deve ser vista como uma obra em si 
mesma, com suas próprias peculiaridades e singularidades:
Não existe a tradução (como postula a teoria da tradução), mas uma 
multiplicidade rica e desconcertante, fora de qualquer tipologia, as 
traduções, o espaço das traduções, que cobre o espaço do que existe 
em todo e qualquer lugar para traduzir. Assim, a tradutologia não 
ensina a tradução, mas, sim, desenvolve de maneira transmissível 
(conceitual) a experiência que a tradução na sua essência plural 
(BERMAN, 2013, p. 21).
Assim, ao se referir ao platonismo, Berman destaca que a tradição da tradução 
sempre buscou uma certa importância da essência e da verdadeira natureza das coisas, 
que devem ser buscadas através da tradução. Para ele não deve a tradução ser somente 
isso, ela não é apenas uma tarefa técnica, mas um ato criativo que requer sensibilidade 
e habilidade por parte do tradutor para transmitir as nuances e os significados sutis 
do texto original. A tradução não deve ser apenas uma questão de transposição de 
palavras de uma língua para outra, mas uma prática culturalmente situada que envolve 
a interpretação e a transmissão de significados.
Surge também, como dissemos acima, a questão da ética atada com a 
poeticidade. A poeticidade é um dos conceitos-chave de Berman em relação à 
tradução. Ele a define como a qualidade poética presente em um texto original que 
deve ser transmitida para o texto traduzido. A poeticidade não se refere apenas a 
aspectos formais, como a escolha de palavras ou a estrutura da frase, mas também aos 
significados implícitos e às associações culturais que o texto original evoca. Vejamos: no 
seu romance Eu, o Supremo, Roa Bastos cita este provérbio: 
138
A cada dia le basta su pena, a cada ano su dano.
Poder-se-ia, certamente, procurar um equivalente francês. Mas 
escolhi uma tradução ao mesmo tempo literal e livre: 
A cbaque jour suffit sapeine, à chaque annéesa déveine. 
[A cada dia basta seu sofrimento, a cada ano seu lamento] 
O duplo jogo aliterativo do original, díalpena, anoldano, desaparece, 
mas para ser substituído por uma outra aliteração peine/ déveine. 
Não se trata, pois, de uma tradução palavra por palavra "servil", mas 
da estrutura aliterativa do provérbio original que reaparece sob uma 
outra forma. Tal me parece ser o trabalho sobre a letra: nem calco, 
nem (problemática) reprodução, mas atenção voltada para o jogo 
dos significantes. Assim é a tradução: experiência. Experiência das 
obras e do ser-obra, das línguas e do ser-língua. Experiência,ao 
mesmo tempo, dela mesma, da sua essência. Em outras palavras, no 
ato de traduzir está presente um certo saber, um saber sui generis. 
A tradução não é nem uma subliteratura (como acreditava-se no 
século xvi), nem uma subcrítica (como acreditava-se no século xrx). 
Também não é uma linguística ou uma poética aplicadas (como se 
acredita no século XX). A tradução é sujeito e objeto de um saber 
próprio. Mas a tradução (quase) nunca considerou sua experiência 
como uma palavra inteira e autônoma, como o fez (ao menos desde 
o Romantismo) a literatura (BERMAN, 2013, p. 23).
No entanto, a poeticidade não pode ser isolada da eticidade, como também já 
observamos. A eticidade se refere ao conjunto de valores éticos e culturais que estão 
presentes em um texto original e que devem ser levados em consideração na prática 
da tradução. Isso significa que o tradutor não pode simplesmente escolher as palavras 
que parecem mais poéticas ou que melhor se adéquam à estrutura da frase. Ele deve 
considerar também as implicações culturais e os valores éticos presentes no texto 
original, a fim de transmitir seu significado de maneira fiel e respeitosa. Vejamos outro 
exemplo destacado pelo autor:
Quando no início do Processo, Vialatte traduz ... un homme assisprh 
de lafenêtre ouverte et arme d 'un livre dont z/détacha son regarden 
voyant entrer Joseph K., [1976: 260] 
[...um homem sentado perto da janela aberta e armado de um livro do 
qual desprendeu os olhos ao ver Joseph K. entrar.] onde Lortholary e 
Goldschmidt traduzem mais literalmente ...un homme assis prês de 
lafenêtre, un livre à Ia main. Levant les yeux... (Lortholary) [1983: 30] 
[um homem sentado perto da janela, um livro na mão. Levantando 
os olhos...] 
...un homme assisprh de lafenêtre ouverte, un livre à Ia main et qui 
leva les yeux à cet instant..., (Goldschmidt) [1983: 32]13 
[um homem sentado perto da janela aberta, um livro na mão e 
que levantou os olhos neste momento...] a diferença pode parecer 
mínima, mas entre "armado de um livro" e "um livro na mão", entre 
"desprendeu os olhos" e "levantou os olhos", há toda uma distância 
entre literarização e literalidade. Aplicada a cada frase da obra, o 
"leve" toque de literatura de Vialatte acaba produzindo um "outro" 
Kafka, e, evidentemente, apagando sua língua (BERMAN, 2013, p. 34).
139
Assim, Berman acredita que a tradução deve ser vista como uma prática 
ética e estética que busca transmitir a poeticidade e a eticidade do texto original. 
O tradutor deve ter um conhecimento profundo da cultura de origem do texto e 
da cultura de destino, além de ser sensível às nuances linguísticas e culturais que 
envolvem a prática da tradução.
A tradução é uma prática culturalmente situada 
que envolve a transmissão de significados e 
valores éticos e estéticos. Berman defende 
então uma abordagem crítica e reflexiva 
sobre a tradução, destacando a importância 
da consideração do contexto cultural e social 
tanto do texto de partida quanto do texto de 
chegada, é a tradução um processo complexo 
de reconstrução do sentido e da mensagem 
do texto em um novo contexto cultural e 
linguístico.
Por isso os tradutores devem estar cientes da 
relação entre as línguas e culturas envolvidas 
no processo de tradução e de considerarem 
as diferenças de valores, históricas e políticas 
que podem afetar a compreensão e a 
interpretação do texto. Todo esse aparato e 
sistema de visões sobre a tradução, Berman 
chamou de uma tradução “não servil”.
A saber, uma tradução não servil, portanto, 
não se preocupa apenas em transmitir 
o significado literal do texto original, mas 
também leva em consideração o contexto 
cultural e histórico em que o texto foi escrito, 
bem como as nuances linguísticas e literárias 
do idioma original. Isso significa que a tradução 
deve ser fiel ao espírito do texto original, mas 
não necessariamente à sua letra.
ATENÇÃO
Segundo Berman, a tradução não servil envolve uma abordagem criativa e 
interpretativa que valoriza tanto o texto original quanto a cultura e a língua de chegada. 
Em outras palavras, a tradução não deve ser uma mera transferência de palavras e 
significados, mas uma recriação do texto original em uma nova língua, preservando sua 
qualidade estética e literária. Berman consolidou a noção de "ética da tradução", na 
importância da fidelidade ao texto original e da preservação de sua "alteridade" cultural, 
ou seja, a singularidade e especificidade cultural do texto original.
140
Tabela 1 – Princípios éticos na tradução segundo Antoine Berman
Princípios éticos na tradução segundo Antoine Berman
ATIVIDADE TAREFA
Respeito pelo texto original
O respeito pelo original é aquilo de mais tocante 
e crucial na obra de Berman, por isso o tradu-
tor deve trabalhar sempre a estrutura, o estilo, 
a linguagem. Nunca simplificar, nunca somente 
adaptar, mas sim se esforçar para traduzir aquilo 
que o original tem de mais essencial. Deve, tam-
bém, se desprender da cultura destino ao qual o 
texto se desloca.
Busca pela equivalência
Capturar o tom, o estilo, as nuances, e não so-
mente transmitir o sentido literal do texto, esta é 
a busca pela equivalência descrita por Berman. 
Essa equivalência é uma espécie de justa medida 
entre o texto original e aquela à qual a obra se 
destina.
Atenção à cultura de origem
O tradutor deve desempenhar um trabalho com-
plexo de pesquisa, criação, buscando o contexto 
histórico, social e político no original do texto. 
Isso possibilitará a compreensão das referências 
culturais e de estilo envoltas no texto. Isso deve 
ser transmitido na tradução.
Responsabilidade ética
A responsabilidade ética deve ser destacada, 
a mesma que se dá ao tradutor em relação ao 
texto original, à cultura de origem e à cultura de 
destino. O tradutor, devemos ressaltar, deve estar 
ciente do impacto potencial da tradução e de 
como ela pode ser interpretada pelos leitores. O 
tradutor deve, portanto, estar comprometido em 
transmitir o texto original de forma precisa e fiel, 
sem comprometer sua integridade ou a intenção 
do autor, e sem comprometer a conexão ética 
com o texto.
Fonte: o autor
 Um adendo que devemos fazer à teoria de Berman e seus apontamentos 
éticos na tradução, perpassa pela função do prefácio como ambiente de interlocução 
entre a obra original e o ofício da tradução. A história do prefácio remonta à Grécia 
antiga, onde era comum incluir um prólogo antes de uma peça de teatro. Essa prática 
se espalhou para Roma e, eventualmente, para a literatura em geral.
Na Idade Média, os prefácios eram escritos por estudiosos ou monges e eram 
usados para explicar o propósito do livro e fornecer informações adicionais sobre o autor 
ou a obra. No Renascimento, os prefácios se tornaram mais comuns e começaram a 
141
incluir opiniões pessoais sobre a obra ou o autor. Durante o século XVIII, o prefácio se 
tornou uma forma de os autores defenderem suas obras e responderem a críticas. 
Com o surgimento da imprensa moderna e a popularização do livro como forma de 
entretenimento, o prefácio também se tornou uma ferramenta de marketing, com 
editores e autores usando-o para promover o livro.
Figura 1 – Prefácio na Idade Média
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Livro#/media/Ficheiro:Gutenberg_bible_Old_Testament_Epistle_of_St_
Jerome.jpg. Acesso em: 11 abr. 2023.
142
No século XIX, o prefácio se tornou um lugar comum para autores incluírem 
agradecimentos e dedicatórias, e também para fazerem comentários sobre a natureza da 
literatura e do processo de escrita. Hoje em dia, o prefácio continua sendo um elemento 
importante em muitos livros, com autores, editores e outros escritores usando-o para 
fornecer informações sobre o contexto da obra, para dar a sua opinião sobre o que está 
sendo apresentado ou para agradecer às pessoas que ajudaram na criação do livro. Isso 
se dá de forma muito recorrente e concreta na tradução. Por isso é um espaço ético e 
de alteridade entre as obras.
O prefácio em uma tradução é uma parte decisivado livro, pois pode fornecer 
informações valiosas sobre a tradução em si, o tradutor e o autor original. O prefácio 
pode dar ao leitor uma compreensão mais profunda da obra e do processo de tradução. 
Em uma tradução literária, o prefácio pode explicar as decisões tomadas pelo tradutor 
ao escolher como traduzir certas palavras ou expressões, além de dar um contexto 
cultural e histórico da obra original. Também pode fornecer informações sobre o autor 
original e a importância da obra na literatura mundial.
Além disso, o prefácio pode ser usado para esclarecer as diferenças entre a 
língua original e a língua para a qual o livro foi traduzido. Isso pode ser útil, por exemplo, 
se a língua original tiver nuances culturais ou expressões idiomáticas que não sejam 
facilmente traduzidas para outra língua.
O prefácio também pode ser uma oportunidade para o tradutor compartilhar suas 
reflexões pessoais sobre a obra, como as dificuldades encontradas durante o processo 
de tradução, as escolhas que teve que fazer e sua visão geral do texto traduzido, daí sua 
grande relevância ética.
O prefácio em uma tradução pode ajudar o leitor a compreender melhor a obra, 
a tradução e o processo de tradução, além de proporcionar um contexto mais completo 
para a leitura. Essa prática não é somente essencial em Berman, como em qualquer 
autor que pense a ética na tradução.
2.1 UM ESTUDO DE CASO – O CISMA DO ORIENTE 
 
Que tal botar um pouco em prática nessa bagagem sobre a ética na tradução 
até aqui? Que tal visualizar a realidade histórica de uma tradução?
Em termos de ética e tradução, devemos observar que ela não é um simples 
pensar teórico e não prático que se coloca. A história é nossa melhor guia nesse sentido, 
em demonstrar as situações concretas em que a tradução impactou intensamente 
uma grande comunidade de indivíduos. E se por uma opção ou um erro de tradução 
comprometêssemos a existência de todo um império?
143
Há um grande exemplo histórico entre muitos outros que poderíamos abordar, 
que versa sobre um dos fatos mais relevantes da Idade Média, e tem origem também 
numa questão de tradução. Sim, numa questão ética sobre a tradução. É o chamado 
Cisma da Igreja Católica, que conforme o pesquisador Souza (2020) nos apresenta, 
trata-se de um evento de grandes complexidades envolto também numa questão de 
tradução. É no Cisma que há uma separação entre a Igreja Católica Apostólica Romana 
e a Igreja Ortodoxa. Tal acontecimento se deu em 1054 d.C., e concretizou uma série de 
eventos e acontecimentos que deram origem à igreja que hoje chamamos de Ortodoxa.
O Cisma do Oriente, também conhecido como Grande Cisma do Oriente, ocorreu 
no século XI e dividiu a Igreja Cristã em duas partes: a Igreja Católica Romana no Ocidente 
e a Igreja Ortodoxa no Oriente. Ele foi causado por uma série de questões teológicas, 
políticas e culturais que foram se acumulando por séculos, conforme (SOUZA, 2020).
Entre as principais causas do cisma estavam as diferenças teológicas entre 
as igrejas do Ocidente e do Oriente, como a questão da Trindade e a natureza da 
Eucaristia. Também houve diferenças políticas, incluindo a relação entre o papa em 
Roma e os líderes da Igreja no Oriente, bem como diferenças culturais e linguísticas 
entre as duas regiões.
O cisma foi oficialmente declarado em 1054, quando o papa Leão IX e o patriarca 
Miguel I de Constantinopla se excomungaram mutuamente, separando formalmente 
as duas igrejas. A partir desse ponto, a Igreja Católica Romana se tornou a principal 
denominação cristã no Ocidente, enquanto a Igreja Ortodoxa se tornou a principal 
denominação no Oriente.
Embora as duas igrejas tenham permanecido separadas desde então, houve 
alguns esforços para reconciliá-las ao longo dos anos. Em 1965, o papa Paulo VI e o 
patriarca Atenágoras I de Constantinopla revogaram as excomunhões mútuas de 
1054, o que foi um passo significativo em direção à reconciliação. No entanto, ainda há 
diferenças teológicas, litúrgicas e culturais significativas entre as duas igrejas, como 
também nos aponta a fortuna crítica desse período (SOUZA, 2020).
Essa separação entre as Igrejas trazia de forma escancarada uma luta pelo poder. 
A luta era pelo primado da Igreja, a saber, quem detém a verdade ética, cultural, simbólica 
e ritualística? Desde o início da Igreja como instituição, houve o primado do poder advindo 
de Roma, e essa tradição acabou se impondo nas outras regiões onde a Igreja Católica 
também prosperou, como em Antioquia, Alexandria, Jerusalém e Constantinopla:
De fato, o chamado cisma de 1054, que deu origem a Igreja ortodoxa, 
não pode e nem deve ser compreendido como um ato arbitrário 
e isolado, mas sim como consequência de diversos fatores que 
atingiram o cume no século XI, devido, basicamente, a uma questão 
primordial: o primado de jurisdição do bispo de Roma. Na verdade, na 
constituição daquilo que se chamava pentarquia, ou seja, o governo 
da Igreja a partir dos cinco bispos das maiores igrejas – à época, 
144
Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém – o bispo 
de Roma, hoje o papa, já gozava de uma primazia, mas apenas de 
honra, visto que era compreendido como o “primeiro entre os pares”. 
Gozando dessa primazia, poderia intervir em conflitos e discussões 
dos demais patriarcados, mas apenas se consultado. O fato é que, 
ao longo dos séculos, alguns dos bispos de Roma começaram a 
confundir o que era apenas um primado de honra com um poder de 
decisão sobre a Igreja inteira – não mais “o primeiro entre os pares”, 
mas “o primeiro sobre os pares” – até culminar nas excomunhões 
mútuas, no século XI (SOUZA, 2020, p. 113-114).
 
Como em qualquer instituição feita por seres humanos, a Igreja Católica 
também sofreu uma luta pelo poder, desde suas origens mais remotas. O Cisma do 
Oriente representa historicamente esse fato, a saber, a luta pelo poder e designações 
da Igreja cristã. E a luta pelo poder é também uma luta pelo significado, pelo primado de 
uma tradição, pela força de uma palavra. 
No Cisma da Igreja, uma das frentes na briga pelo poder simbólico estava (e 
ainda está, de certa forma) na concepção daquilo que é chamado “Santíssima Trindade”, 
ou seja, a concepção daqueles três entes fundamentais na crença cristã, e que se 
tornou objeto de estudo, tradução e objeto de cizânia entre as partes:
No decorrer dos primeiros séculos, porém, os próprios costumes e 
aspectos culturais motivaram a algumas diferenças entre as igrejas 
do Ocidente e do Oriente. O Tratado contra os francos, escrito atribuído 
a Fócio (810/820-893), que fora eleito patriarca de Constantinopla e, 
depois, não reconhecido pelo bispo de Roma, acusava os ocidentais 
de introduzirem a expressão filioque – “e do Filho” – na profissão de 
fé, ao falar do Espírito Santo (SOUZA, 2020, p. 110); de usarem pão 
ázimo na celebração da missa, de não jejuarem durante a quaresma, 
entre outros (NAVARRO, 1995, p. 97).
Um dos motivos de separação da Igreja estava, então, na expressão chamada 
“filioque”, que simplesmente quer dizer “e do Filho” e que compõe o credo cristão: “Toda 
pessoa que deseja estudar teologia cristã em algum momento se deparará com a questão 
do Espírito Santo” e mais ainda: “e, consequentemente, esbarrar-se-á com a antiga 
discussão acerca da processão desse Espírito. Afinal, ele procede do Pai, do Filho, do Pai e 
do Filho ou do Pai do Filho, ou ainda, de nenhum desses” (NAVARRO, 1995, p. 98).
A questão está então de onde procede o Espírito Santo, dentro da doutrina cristã. 
Buscou-se então os textos mais antigos para se resolver teologicamente a questão. O 
problema do filioque, por assim dizer, foi então um dos principais fatores que levaram 
ao Cisma do Oriente. A controvérsia do filioque envolve a frase "filioque" em latim, que 
significa "e do Filho", que foi adicionada ao Credo Niceno-Constantinopolitano na liturgia 
ocidental da Igreja Católica Romana no século XI. A frase se refere à crença de que o 
Espírito Santo procede não apenas do Pai, mastambém do Filho.
145
A Igreja Ortodoxa Oriental, por outro lado, acredita que o Espírito Santo procede 
apenas do Pai e não do Filho. A controvérsia em torno do filioque se intensificou ao 
longo dos séculos, com as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Oriental tendo opiniões 
divergentes sobre o assunto.
Esse problema teológico e de tradução foi um dos vários fatores que contribuíram 
para o Cisma do Oriente, mas não foi o único. Questões políticas e culturais também 
desempenharam um papel importante na divisão entre as Igrejas Católica Romana e 
Ortodoxa Oriental (NAVARRO, 1995).
Essa questão teológica desencadeou uma corrida aos textos originais, para ver 
se no texto em grego antigo, de onde os textos sagrados foram resgatados, se nesse 
texto antigo está presente ou não a expressão “e do filho”. Ou melhor, se no texto grego 
original foi traduzido corretamente a expressão “e do filho”?
A expressão “filioque” foi então criada em um “cisma de tradução”, desenvolvido 
em Neceia, antiga Turquia, bem como em Constantinopla, sendo um dos textos escritos 
em grego antigo ainda em uso na Igreja Latina e tomado como texto canônico. Ou 
seja, em resumo, a questão teológica envolvida na tradução pergunta se traduzimos “e 
filho” ou “e do filho”, sendo esse “do” crucial na interpretação da doutrina cristã. Eis os 
textos originais para termos uma ideia, primeiramente em grego antigo, logo depois em 
sublinhado a sua tradução.
Καὶ εἰς τὸ Πνεῦμα τὸ Ἅγιον, τὸ κύριον, τὸ ζωοποιόν, τὸ ἐκ τοῦ Πατρὸς 
ἐκπορευόμενον
E no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai
Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre 
Filioque procedit
E no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai e do 
Filho (NAVARRO, 1995, p. 97).
 A tese histórica que se coloca, é da possibilidade da inserção “do pai” 
de forma premeditada, ou até mesmo uma possível tradução deturpada de um trecho 
original nunca encontrado.
Frequentemente diz-se que o primeiro caso conhecido da 
inserção da palavra Filioque na versão latina do Credo niceno-
constantinopolitano ocorreu no Terceiro Concílio de Toledo (589) e 
que a sua inclusão a partir daí se espalhou espontaneamente por 
todo o Império dos Francos. No século IX, o Papa Leão III, ainda que 
aceitando a doutrina da procedência do Espírito Santo do Pai e do 
Filho, se opôs à adoção da cláusula Filioque. Em 1014, porém, o canto 
do credo – com a Filioque – foi adotado na celebração da missa em 
Roma (NAVARRO, 1995, p. 97).
146
 É impressionante, se não fosse trágico, como a inserção de uma breve 
palavra, de duas letras, “do”, como ela influenciou na separação de uma instituição 
milenar. Essa questão leva ao extremo o que podemos pensar de uma ética da tradução, 
de como poderíamos utilizar essa gama de autores aqui estudados, como os Sistemas 
Éticos poderiam nortear a visão desse tradutor ou tradutora que ou inseriu um termo, 
ou mesmo deu sua interpretação ao trecho. Isso se tomarmos em conta o fato de que o 
texto foi realmente alterado. Se não foi, a outra parte, ou seja, aqueles que não acreditam 
nessa versão do credo, teriam razão.
 Aristóteles, certamente, não chamaria essa atitude ou erro do tradutor 
de uma ação virtuosa. Pelo contrário, foi uma tradução que na prática desencadeou um 
conflito teológico, distanciando-se de qualquer viés de mediania ou moderação, foi uma 
ação, que se realmente aconteceu, determinou a cisão trágica de um grupo de pessoas.
 Da mesma forma, o Sistema ético de Kant teria condenado 
veementemente tal alteração ou deturpação de um texto sagrado, se ela realmente 
aconteceu, sendo algo totalmente negado e abolido pelo uso universal de nossas 
capacidades racionais, algo que teria sido rechaçado pelo Imperativo Categórico.
 O Sistema Ético utilitarista também condenaria tal ação, pois vai contra 
a um bem maior e convivência em sociedade, vai contra os ideais de um bem maior para 
um maior número de pessoas, ideal de ação pregado pelo utilitarismo.
 O exemplo do Cisma da Igreja nos faz meditar a amplitude que pode 
galgar um problema de tradução, seja pela supressão, acréscimo ou mesmo alteração 
de um original. Aqui não se vê o tão aclamado respeito pelo original, pelo contrário, é 
a deturpação da autoria, o descaso com o original. Talvez algo dessa amplitude não 
acontecesse nos dias de hoje, mas fica o exemplo histórico de como um texto pode 
influenciar e mudar os rumos de uma sociedade. Fica o exemplo de como o desrespeito 
com a autoria pode gerar um fato tão trágico, como as guerras santas entre as duas 
igrejas através da história.
2.2 TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM
Esses exemplos práticos, de como a tradução nos coloca em situações delicadas 
e complexas nos faz meditar sobre tudo aquilo que já comentamos sobre a abertura 
responsável da linguagem. Mas agora, daremos um enfoque àquele autor que trouxe 
essas ideias de forma inovadora, e acabou por influenciar alguns dos pensadores da 
tradução aqui descritos, como Levinas, Berman e Sartre. Estamos falando de Martin 
Heidegger e sua abertura para a linguagem como teoria do ser.
147
Figura 2 – Martin Heidegger
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger#/media/Ficheiro:Heidegger_2_(1960).jpg. Acesso 
em: 11 abr. 2023.
Martin Heidegger (1889-1976) foi um filósofo alemão que teve um impacto 
significativo no desenvolvimento da fenomenologia, da ontologia e da hermenêutica. 
Ele nasceu em Messkirch, na Alemanha, em uma família católica e estudou teologia, 
filosofia e literatura na Universidade de Freiburg e na Universidade de Marburg.
Durante seus estudos, Heidegger foi influenciado por filósofos como Edmund 
Husserl, Friedrich Nietzsche e Immanuel Kant. Em 1927, publicou sua obra-prima, Ser 
e tempo, que é considerada uma das mais importantes obras filosóficas do século XX.
No início de sua carreira, Heidegger se envolveu com o Partido Nazista e foi 
reitor da Universidade de Freiburg entre 1933 e 1934. Ele foi removido do cargo em 1934 
e, posteriormente, se distanciou do Partido Nazista.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Heidegger foi convocado para servir 
no exército alemão, mas foi dispensado por motivos de saúde. Após a guerra, ele se 
recusou a se desculpar por seu envolvimento com o Partido Nazista e, em vez disso, 
tentou justificar suas ações em termos filosóficos.
148
As obras de Heidegger continuaram a influenciar a filosofia e outros campos, 
como a literatura, a teologia e a psicologia. Ele foi um importante crítico da tecnologia 
moderna e defendeu uma forma de existência autêntica, que ele chamou de "Dasein".
Algumas de suas obras mais conhecidas incluem Contribuições à filosofia; 
Identidade e diferença; A origem da obra de arte e Os conceitos fundamentais da 
metafísica. Heidegger faleceu em 1976, na cidade de Friburgo, na Alemanha.
Heidegger cunhou uma ideia essencial aqui que é a abertura da linguagem. A 
“abertura responsável da linguagem" é um conceito mais amplo que pode ter diferentes 
interpretações, dependendo do contexto em que é usado. Geralmente, isso se refere 
à prática de se comunicar de maneira clara, honesta e respeitosa, evitando o uso de 
palavras ou frases que possam ser ofensivas ou prejudiciais para outras pessoas ou 
grupos. Heidegger elevou esse conceito a sua ideia de ser.
Exemplos de práticas de abertura responsável da linguagem 
incluem evitar estereótipos e generalizações, usar termos 
inclusivos para se referir a todas as pessoas e evitar linguagem 
que possa ser considerada discriminatória ou ofensiva. Portanto, 
traduzir e praticar a abertura responsável da linguagem são duas 
atividades diferentes, mas ambas são importantes para garantir 
uma comunicação eficaz e respeitosa em diferentes contextos e 
culturas. Mas o que seria o ser e a abertura da linguagem para 
Heidegger e como ele se enquadra nessa visão?
Para Martin Heidegger, o ser é a questão fundamental da filosofia, 
bem como da linguagem. Ele acreditava que a tradição filosófica 
ocidental,desde os pré-socráticos até os filósofos modernos, 
havia negligenciada a questão do ser e se concentrado apenas 
nos entes (seres existentes) individuais. Heidegger argumentava 
que o ser é a condição prévia para que qualquer ente exista, 
e que entender o ser é fundamental para entender a natureza 
da realidade. Ele via o ser como um mistério que não pode ser 
explicado ou reduzido a qualquer outra coisa, e acreditava que a 
tarefa da filosofia era explorar esse mistério.
ATENÇÃO
Heidegger desenvolveu uma abordagem radicalmente nova da filosofia, que ele 
chamou de "ontologia fundamental" ou seja, o fundamental estudo do ser. Sua ontologia 
não se preocupa com as categorias tradicionais da filosofia, como a mente e o corpo, a 
razão e a emoção, mas com a questão do ser. Para Heidegger, a ontologia fundamental é 
uma investigação do modo como o ser se revela para nós. O ser é a questão fundamental 
da filosofia e é um mistério que não pode ser explicado ou reduzido a qualquer outra 
coisa. Sua ontologia fundamental é uma abordagem radicalmente nova da filosofia, que 
se concentra na questão do ser em si mesmo.
149
Martin Heidegger também desenvolveu, como antecipamos, um conceito de 
"abertura da linguagem", que se refere à maneira como a linguagem nos permite acessar 
e compreender o mundo ao nosso redor e se estabelece como também a abertura 
do ser. Para Heidegger, a linguagem não é apenas um conjunto de palavras e regras 
gramaticais, mas um meio através do qual experimentamos a realidade. Ele argumenta 
que a linguagem nos permite nomear e conceituar o mundo, o que por sua vez nos 
permite dar significado a nossa existência.
A abertura da linguagem é, portanto, um processo pelo qual a linguagem nos 
permite transcender nossas experiências imediatas e compreender o mundo de uma 
maneira mais profunda e significativa. Heidegger também se preocupa com o fato de 
que a linguagem pode se tornar limitante ou reduzir nossa compreensão do mundo, se 
usada de maneira inadequada ou imprecisa.
Ele acredita que a linguagem pode se tornar um obstáculo para nossa 
compreensão da realidade se estivermos presos em conceitos e categorias pré-
existentes, ou se usarmos palavras e frases que obscurecem o verdadeiro significado 
das coisas. A abertura da linguagem é fundamental para nossa compreensão da 
realidade e de nós mesmos como seres humanos. Ele argumenta que devemos usar a 
linguagem de maneira cuidadosa e responsável, a fim de obter uma compreensão mais 
profunda e autêntica do mundo:
Para alcançar esta dimensão, é necessário operar uma destruição 
(retomo o conceito de Heidegger) da tradição etnocêntrica, 
hipertextual e platônica da tradução. Em suas linhas gerais, este 
trabalho de destruição é, além disso, idêntico à "destruição" 
heideggeriana, ela mesma seguida, na trajetória deste pensador, por 
um imenso trabalho de "tradução". Entretanto, esta destruição – se ela 
não quiser ser uma simples operação ideológica ou teórica – deve ser 
precedida de uma análise do que há por destruir. A este trabalho, que é 
simultaneamente análise e destruição (crítica no sentido schlegeliano), 
chamaremos: a analítica da tradução. A analítica da tradução é a crítica 
do etnocentrismo, do hipertextualismo e do platonismo da figura 
tradicional da tradução – no Ocidente (BERMAN, 2013, p. 23).
Heidegger não é conhecido por ter uma teoria completa da tradução, mas ele 
escreveu algumas reflexões sobre o assunto em seus escritos filosóficos. Para Heidegger, 
a tradução não é apenas uma questão de transferir palavras ou frases de uma língua 
para outra, mas envolve uma compreensão mais profunda do ser e da linguagem.
Para Heidegger, a linguagem é a casa do ser, ou seja, a linguagem é a estrutura 
em que a existência humana é revelada e compreendida. Assim, a tradução não deve 
ser vista como uma tarefa mecânica de transferência de significados entre línguas, mas 
como um processo de compreensão da linguagem como um todo. Heidegger acreditava 
que a tradução poderia ser uma forma de revelar as possibilidades ocultas da língua 
de origem e da língua de destino, e que isso poderia levar a uma compreensão mais 
profunda da existência humana.
150
Para Heidegger, a linguagem é a "casa do ser" também por aquilo que 
encontramos em sua principal obra. Em sua obra Ser e tempo, Heidegger argumenta que 
a linguagem é a forma pela qual os seres humanos se relacionam com o mundo e com os 
outros seres humanos, aquilo que já trouxemos como abertura. Através da linguagem, 
os seres humanos são capazes de dar significado às coisas e de se comunicar uns com 
os outros. Para ele, a linguagem é a "casa do ser", pois é a partir dela que podemos 
habitar e compreender o mundo.
Além disso, Heidegger argumenta que a linguagem não é apenas um meio de 
comunicação, mas também é um modo de ser. A forma como usamos a linguagem 
reflete nossa compreensão do mundo e nossa relação com ele. Assim, a linguagem é 
uma parte essencial da nossa existência e da nossa compreensão do ser.
Heidegger também enfatizou a importância da cultura e da história na tradução, 
argumentando que a tradução é sempre influenciada pelo contexto cultural e histórico 
em que ocorre. Ele acreditava que a tradução não deve ser vista como uma forma de 
estabelecer uma linguagem universal, mas como uma forma de revelar as diferenças 
culturais e históricas que existem entre as línguas.
Ele via a tradução como uma atividade que envolve uma compreensão 
profunda da linguagem como um todo e de sua relação com a existência humana, a 
cultura e a história. Embora ele não tenha desenvolvido um Sistema ético de tradução, 
suas reflexões filosóficas sobre o assunto oferecem insights importantes sobre a 
importância da tradução como uma forma de compreensão e comunicação entre 
diferentes culturas e línguas.
Daí a grande importância de trazermos as ideias de Heidegger para o ambiente 
da tradução, uma vez que já pudemos aqui observar a amplitude de suas ideias 
reverberando tanto na produção ética de Levinas, como em toda obra de Berman. 
Heidegger influenciou muito o trabalho de tradução como abertura da linguagem e 
abertura de um processo de busca pelo outro na língua.
Todas essas ideias são de grande relevância para pensarmos uma ética na 
tradução. Nesse percurso que estamos trilhando, cabe ainda um estudo sobre duas 
correntes éticas de grande importância no universo da tradução dos séculos XX e XXI. A 
ética pragmática e o neopositivismo ético. Vamos a elas no próximo tema de aprendizagem!
151
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• Como Antoine Berman desenvolveu sua teoria da ética na tradução de forma mais 
específica, e como a responsabilidade pelo original destaca essa ética como oposição 
ao etnocêntrico, hipertextual e platônico.
• A observar um caso histórico notório de como diferentes intepretações na tradução 
podem desencadear questões complexas e de luta por narrativas, em especial, a 
questão da tradução no Cisma da Igreja.
• A análise da abertura do texto como uma abertura do ser da linguagem no pensamento 
de Martin Heidegger, e como isso impactou nas éticas da alteridade no decorrer dos 
séculos XX e XXI.
152
AUTOATIVIDADE
1 “Para Berman, em seu texto Pour une critique des traductions: John Donne, o 
fundamento da avaliação de uma tradução consiste em dois critérios: poeticidade e 
eticidade. A eticidade “reside no respeito, ou melhor, num certo respeito pelo original” 
(1995: 92)”. Partimos do seguinte axioma: a tradução é tradução da letra, do texto 
enquanto letra. Que isto é a essência última e definitiva da tradução ficará claro 
pouco a pouco. Existe um belíssimo texto de Alain (1934: 56-57), que faz alusão a 
isso: “Tenho a ideia de que sempre se pode traduzir um poeta, inglês, latino ou grego, 
exatamente palavra por palavra, sem acrescentar nada, e conservando inclusive a 
ordem, até encontrar o metro e mesmo a rima. Eu, raramente, conduzi o experimento 
até este ponto; é necessário tempo, digo,meses, e uma rara paciência. Chega-se 
inicialmente a uma espécie de mosaico bárbaro; os fragmentos estão mal juntados; 
o cimento os liga, mas não os harmoniza. Resta a força, o brilho, até mesmo uma 
violência, e provavelmente mais do que o necessário. É mais inglês que o inglês, mais 
grego que o grego, mais latim que o latim...”
 
 Acerca da teoria ética da tradução de Berman, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do etnocentrismo, do 
 hipertextual e do platonismo.
b) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do egocentrismo, do 
 hipertextual e do platonismo.
c) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do etnocentrismo, do 
 extratextual e do platonismo.
d) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do etnocentrismo, do 
 hipertextual e do aristotelismo.
2 Leia o trecho a seguir:
 No seu romance Eu, o Supremo, Roa Bastos cita este provérbio: “A cada dia le basta 
su pena, a cada ano su dano”. 
 Poder-se-ia, certamente, procurar um equivalente francês. Mas escolhi uma tradução 
ao mesmo tempo literal e livre: “A cbaque jour suffit sapeine, à chaque annéesa 
déveine". [A cada dia basta seu sofrimento, a cada ano seu lamento].
 O duplo jogo aliterativo do original, díalpena, anoldano, desaparece, mas para ser 
substituído por uma outra aliteração peine/déveine. Não se trata, pois, de uma 
tradução palavra por palavra "servil", mas da estrutura aliterativa do provérbio original 
que reaparece sob outra forma. Tal me parece ser o trabalho sobre a letra: nem calco, 
nem (problemática) reprodução, mas atenção voltada para o jogo dos significantes. 
Assim é a tradução: experiência. Experiência das obras e do ser-obra, das línguas e do 
ser-língua. Experiência, ao mesmo tempo, dela mesma, da sua essência. Em outras 
153
palavras, no ato de traduzir está presente um certo saber, um saber sui generis. A 
tradução não é nem uma subliteratura (como acreditava-se no século XVI), nem uma 
subcrítica (como acreditava-se no século XRX). Também não é uma linguística ou 
uma poética aplicadas (como se acredita no século XX). A tradução é sujeito e objeto 
de um saber próprio. Mas a tradução (quase) nunca considerou sua experiência como 
uma palavra inteira e autônoma”.
 Acerca da obre de Berman sobre a ética na tradução assinale a alternativa correta:
a) ( ) Berman fala de uma tradição não servil da tradução.
b) ( ) Berman fala de uma tradição servil da tradução.
c) ( ) Berman fala de uma tradição disjuntiva da tradução.
d) ( ) Berman fala de uma tradição niilista da tradução.
3 Nesta figura, a tradução se caracteriza por três traços. Culturalmente falando, ela é 
etnocêntrica. Literariamente falando, ela é hipertextual. E filosoficamente falando, ela 
é platônica. A essência etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução recobre 
e oculta uma essência mais profunda, que é simultaneamente ética, poética e 
pensante. “Em suas regiões mais profundas, o traduzir está ligado à ética, à poesia e 
ao pensamento” (BERMAN, 1995, p. 22).
 Para alcançar esta dimensão, é necessário operar uma destruição (retomo o conceito 
de Heidegger) da tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução. Em 
suas linhas gerais, este trabalho de destruição é, além disso, idêntico à "destruição" 
heideggeriana, ela mesma seguida, na trajetória deste pensador, por um imenso 
trabalho de "tradução". Entretanto, esta destruição – se ela não quiser ser uma simples 
operação ideológica ou teórica – deve ser precedida de uma análise do que há por 
destruir. A este trabalho, que é simultaneamente análise e destruição (crítica no 
sentido schlegeliano), chamaremos: a analítica da tradução. A analítica da tradução é 
a crítica do etnocentrismo, do hipertextualismo e do platonismo da figura tradicional 
da tradução – no Ocidente. 
Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: 
John Donne, Paris: Gallimard. 1995.
 Acerca da obra ética de Berman, assinale a alternativa correta:
a) ( ) O correto é a junção da política com a poética, ampliando o espaço criativo da 
 tradução.
b) ( ) O correto é a junção da ética com a poética, ampliando o espaço criativo da 
 tradução.
c) ( ) O correto é a junção da ética com a política, ampliando o espaço criativo da 
 tradução.
d) ( ) O correto é a junção da ética com a poética, ampliando o espaço destrutivo da 
 tradução.
154
4 Leia o trecho a seguir:
 ‘Quando no início do Processo, Vialatte traduz... un homme assisprh de lafenêtre 
ouverte et arme d 'un livre dont z/détacha son regarden voyant entrer Joseph K., 
[1976: 260] 
 [...um homem sentado perto da janela aberta e armado de um livro do qual desprendeu 
os olhos ao ver Joseph K. entrar.] 
 onde Lortholary e Goldschmidt traduzem mais literalmente ...un homme assis prês de 
lafenêtre, un livre à Ia main. Levant les yeux... (Lortholary) [1983: 30] 
 [um homem sentado perto da janela, um livro na mão. Levantando os olhos...] 
 ...un homme assisprh de lafenêtre ouverte, un livre à Ia main et qui leva les yeux à cet 
instant..., (Goldschmidt) [1983: 32]13 
 [um homem sentado perto da janela aberta, um livro na mão e que levantou os olhos 
neste momento...] 
 a diferença pode parecer mínima, mas entre "armado de um livro" e "um livro na 
mão", entre "desprendeu os olhos" e "levantou os olhos", há toda uma distância entre 
literarização e literalidade. Aplicada a cada frase da obra, o "leve" toque de literatura 
de Vialatte acaba produzindo um "outro" Kafka, e, evidentemente, apagando sua 
língua’ (BERMAN, 2013, p. 34).
Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: 
John Donne, Paris: Gallimard. 1995.
 Descreva em resumo os quatro princípios fundamentais da ética na tradução de 
Berman:
5 Leia o trecho a seguir:
 “De fato, o chamado cisma de 1054, que deu origem a Igreja ortodoxa, não pode 
e nem deve ser compreendido como um ato arbitrário e isolado, mas sim como 
consequência de diversos fatores que atingiram o cume no século XI, devido, 
basicamente, a uma questão primordial: o primado de jurisdição do bispo de Roma. Na 
verdade, na constituição daquilo que se chamava pentarquia, ou seja, o governo da 
Igreja a partir dos cinco bispos das maiores igrejas – à época, Roma, Constantinopla, 
Alexandria, Antioquia e Jerusalém – o bispo de Roma, hoje o papa, já gozava de uma 
primazia, mas apenas de honra, visto que era compreendido como o “primeiro entre 
os pares”. Gozando dessa primazia, poderia intervir em conflitos e discussões dos 
demais patriarcados, mas apenas se consultado. O fato é que, ao longo dos séculos, 
alguns dos bispos de Roma começaram a confundir o que era apenas um primado de 
honra com um poder de decisão sobre a Igreja inteira – não mais “o primeiro entre os 
pares”, mas “o primeiro sobre os pares” – até culminar nas excomunhões mútuas, no 
século XI” (SOUZA, 2020, p. 113-114).
SOUZA, N. História da igreja: notas introdutórias. Petrópolis: 
Vozes, 2020.
 Apresente como os Sistemas Éticos poderiam tentar resolver a ética na tradução na 
questão do Cisma da Igreja:
155
A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E A ÉTICA 
CONTEMPORÂNEA
1 INTRODUÇÃO
O século XX nos trouxe grandes questões acerca da tradução, em especial, as 
correntes pragmáticas e neopositivistas, que depositaram metodologias diversas na 
questão da tradução, bem como na ética da tradução. São duas perspectivas que apelam 
para duas questões importantes na contemporaneidade que é a noção do aprendizado 
pela prática e a inserção da linguística como meio essencial de visualização da tradução.
O pragmatismo se inseriu em diversas áreas do conhecimento, em especial na 
pedagogia e psicologia, e ampliou o escopo de atuação da experiência prática na vida do 
conhecimento, bem como no horizonte de como devemos aprender e ensinar qualquer 
coisa, inclusive a questão de como deve ser uma tradução e sua ética.
Já o neopositivismo introduziu uma meditação de como a linguística cumpre 
papel essencial na tradução,sendo pensada a mesma como um sistema racional, 
próximo de um modelo analítico de compreensão das coisas. Daí a tradução cada vez 
mais conectada com a ideia de uma formalidade que deve ser cumprida.
2 A TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA
Como uma exposição final dos sistemas éticos que integram o ecossistema 
do traduzir, devemos dedicar algumas páginas aos sistemas éticos pragmáticos e 
neopositivistas que muito influenciam o pensar sobre a tradução nas últimas décadas, 
dentro daquilo que chamamos de ética contemporânea. Tanto o Pragmatismo como 
o Neopositivismo são importantes nesse movimento. Vamos a eles! Primeiramente o 
Pragmatismo e a sua ética.
A palavra "pragmatismo" tem origem no termo grego "pragma", que significa 
"ação" ou "coisa a ser feita". O sufixo "-ismo" é utilizado para indicar uma doutrina, 
teoria ou sistema de pensamento. Não é comum se referir ao pragmatismo na Grécia 
Antiga, como aqui estudado brevemente, já que o termo "pragmatismo" é de origem 
mais recente. No entanto, alguns filósofos gregos antigos, como Aristóteles, podem 
ter defendido ideias que se assemelham ao pragmatismo de certa forma, também 
como vimos aqui.
UNIDADE 3 TÓPICO 2 - 
156
Aristóteles, por exemplo, enfatizava a importância da experiência e da observação 
empírica na busca pelo conhecimento. Ele acreditava que o conhecimento só podia ser 
obtido através da experiência e que a teoria deveria estar sempre relacionada à prática. 
Além disso, Aristóteles valorizava a aplicação prática do conhecimento e enfatizava 
a importância da ética na vida cotidiana. Para ele, o conhecimento tinha uma função 
prática na sociedade e deveria ser utilizado para melhorar a vida das pessoas.
Já o pragmatismo filosófico é uma corrente filosófica mais recente, com 
inspiração grega, mas que surgiu nos Estados Unidos na segunda metade do século 
XIX, com pensadores como Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey. Em 
linhas gerais, o pragmatismo propõe que a verdade de uma ideia ou conceito deve ser 
avaliada a partir de sua utilidade prática e dos resultados que ela produz na experiência 
humana. Segundo essa perspectiva, as ideias e teorias são importantes na medida em 
que produzem resultados concretos e positivos na vida das pessoas.
Para os pragmatistas, a verdade não é uma questão de correspondência entre 
uma ideia e um fato, mas sim uma questão de adequação às necessidades e demandas 
práticas da vida. Eles defendem que o conhecimento deve ser voltado para a ação e que 
a filosofia deve ter uma função prática na sociedade.
O pragmatismo destaca a importância do método científico e experimental na 
busca pelo conhecimento, pois para os pragmatistas, a ciência é a melhor forma de 
se obter conhecimento confiável e verificável sobre o mundo. O pragmatismo filosófico 
valoriza a experiência prática, a utilidade e a eficácia na busca pelo conhecimento e na 
resolução de problemas. Assim também a ética pragmática.
Ela é uma abordagem filosófica, que se concentra na resolução de problemas 
éticos práticos, em vez de se preocupar com teorias ou princípios abstratos. Ela se baseia 
na ideia de que a ética deve ser vista como uma ferramenta para ajudar as pessoas a 
resolverem problemas cotidianos, em vez de um conjunto de regras rígidas que devem 
ser seguidas sem exceção. 
Essa abordagem considera que a moralidade é moldada pelas circunstâncias e 
que as decisões éticas devem levar em conta o contexto específico em que são tomadas. 
Isso significa que, para a ética pragmática, não existe uma única resposta "certa" para uma 
situação ética, mas sim uma solução que melhor se adapte às necessidades da situação.
A ética pragmática também enfatiza a importância da colaboração e do diálogo 
na resolução de problemas éticos, pois reconhece que diferentes pessoas podem ter 
perspectivas diferentes sobre uma situação e que todas as perspectivas devem ser 
consideradas na busca pela solução mais adequada. Vejamos mais a frente como esse 
pragmatismo se conecta com as ideias éticas e aplicações na tradução. Mas antes, 
vamos introduzir outro pensamento ético importante que é o neopositivismo ético.
157
O neopositivismo ético é uma corrente filosófica que surgiu no século 
XX e que se baseia na ideia de que o conhecimento só pode ser obtido através 
da observação empírica e da análise lógica dos dados. Esta corrente enfatiza a 
importância da clareza e precisão na linguagem, e rejeita conceitos vagos ou 
metafísicos que não possam ser definidos em termos concretos. Daí sua importância 
no processo de tradução.
Em termos éticos, o neopositivismo enfatiza a importância do empirismo 
e da análise lógica na formulação de teorias éticas. De acordo com esta corrente, as 
questões éticas só podem ser resolvidas através de uma análise precisa e objetiva dos 
fatos relevantes. Os juízos éticos não são considerados verdadeiros ou falsos, mas sim 
como expressões de preferência ou desaprovação.
O neopositivismo ético também rejeita a ideia de que a ética tem uma base 
metafísica ou religiosa, e enfatiza que as teorias éticas devem ser baseadas em fatos 
observáveis e verificáveis. Em vez de tentar descobrir uma verdade absoluta, a ética 
neopositivista busca fornecer um conjunto de regras e princípios que possam ser 
aplicados de forma consistente e objetiva.
De forma geral, o neopositivismo ético tem como objetivo fornecer uma base 
objetiva e científica para a ética, e enfatiza a importância da clareza e precisão na 
linguagem e na análise lógica dos dados. Alguns dos autores mais importantes do 
neopositivismo ético incluem:
Rudolf Carnap – foi um dos fundadores do Círculo de Viena, que foi uma importante 
influência no desenvolvimento do neopositivismo. Ele escreveu extensivamente sobre 
a lógica e a filosofia da ciência, bem como sobre questões éticas.
A. J. Ayer – filósofo britânico que também fez parte do Círculo de Viena. Ele é conhecido 
por seu livro Language, truth and logic, que é um dos trabalhos mais importantes 
do neopositivismo. Ayer também escreveu sobre ética, e defendeu uma forma de 
subjetivismo ético baseada na expressão de emoções e atitudes.
C. L. Stevenson – filósofo americano que se destacou no desenvolvimento da ética 
emotivista, que é uma forma de subjetivismo ético que enfatiza a expressão de emoções 
e atitudes. Ele escreveu extensivamente sobre ética, e seu livro Ethics and language é 
uma das obras mais importantes do neopositivismo ético.
H. L. A. Hart – foi um filósofo britânico que escreveu sobre filosofia do direito e ética. 
Ele defendeu uma forma de legalismo ético, que enfatiza a importância da lei na 
definição de normas éticas. Esses autores foram importantes no desenvolvimento do 
neopositivismo ético e contribuíram para o desenvolvimento de diferentes abordagens 
éticas dentro desta corrente filosófica.
158
G. E. Moore – filósofo britânico do início do século XX, que desempenhou um papel 
importante no desenvolvimento do movimento filosófico conhecido como neopositivismo.
 
2.1 SISTEMAS ÉTICOS CONTEMPORÂNEOS
Vamos detalhar então mais essas duas correntes éticas contemporâneas que 
também influenciam o pensar ético sobre a tradução. Vejamos primeiro o pragmatismo 
de John Dewey e sua obra. John Dewey (1859-1952) foi um filósofo, educador e 
psicólogo americano, considerado uma das figuras mais influentes da educação 
progressista no século XX.
Ele nasceu em Burlington, Vermont e estudou na Universidade de Vermont 
e na Universidade Johns Hopkins. Em 1894, ele se tornou professor de filosofia na 
Universidade de Chicago, onde fundou a Escola de Educação da Universidade. Dewey 
acreditava que a educação deveria ser prática e democrática, ensinando aos alunos 
habilidades que poderiam ser aplicadas em suas vidas diárias e preparando-os para 
serem cidadãos participativos em uma sociedade democrática. Ele também enfatizava 
a importância da experiência e da reflexão na aprendizagem.
Dewey escreveu extensivamente sobre educação, filosofia, psicologia e política,e sua obra influenciou muitos campos diferentes. Ele também foi um defensor ativo do 
movimento progressista em sua época, trabalhando em questões como reforma social, 
direitos das mulheres e dos trabalhadores, e direitos civis. Dewey morreu em 1952, mas 
sua obra continua a ser estudada e debatida por acadêmicos e educadores até hoje. E 
em termos de ética e tradução? O que ele nos legou?
Dewey defendia que a experiência é a base de aprendizagem e formação do ser 
humano. Ele acreditava que a educação deveria ser centrada nas experiências vividas 
pelos alunos, e que o conhecimento deveria ser construído a partir da reflexão sobre 
essas experiências.
John Dewey apresenta a experiência como a base de aprendizagem e de 
formação do ser humano. A práxis se calca nas situações da vida que exigem reflexão 
conduzindo a uma decisão pessoal com intencionalidade. Dewey afirma que o progresso 
moral no sentido de uma conduta mais racional e social é condição indispensável da 
moral, mas destaca que não é tudo. 
Segundo Dewey, a aprendizagem não é um processo passivo de absorção de 
informações, mas sim uma atividade ativa, na qual o aluno interage com o ambiente 
e constrói seu próprio conhecimento. Para ele, a educação deveria preparar os alunos 
para lidar com situações reais e desafiadoras, e não apenas para memorizar fatos e 
informações. Dewey (l979, p. 76) enfatiza que: “Cabe ao educador, no exercício de sua 
função, selecionar as coisas que, dentro da órbita da experiência existente, tenham 
159
possibilidade de suscitar novos problemas, os quais, estimulando novos modos de 
observação e julgamento, ampliarão a área para experiências posteriores”. E o autor 
complementa: “No continuum das experiências vivenciadas pelo aluno que o conduzem 
a adquirir um hábito, para que o hábito seja ético deve haver motivo ético que se 
distingue de impulso” (DEWEY, 1979 p. 51). 
Dewey também enfatizava a importância da interação social na aprendizagem, 
defendendo que os alunos aprendem melhor quando trabalham em grupo e colaboram 
uns com os outros. Além disso, ele acreditava que a educação não deveria ser limitada 
ao ambiente escolar, mas integrada à vida cotidiana dos alunos.
Figura 3 – John Dewey
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Dewey#/media/Ficheiro:John_Dewey_cph.3a51565.jpg. Acesso 
em: 11 abr. 2023.
Para ele a experiência é a base da aprendizagem e formação do ser humano, e a 
educação deve ser centrada nas vivências dos alunos e na construção do conhecimento 
a partir da reflexão sobre essas experiências.
Para John Dewey, moralidade é uma questão prática e experimental, que se 
relaciona com as ações e decisões tomadas pelos indivíduos em suas vidas cotidianas. 
Ele via a moralidade como um processo social e educacional, que se desenvolve a 
partir da interação entre as pessoas em suas comunidades. Dewey argumentava que 
160
a moralidade não é algo fixo e imutável, mas sim algo que evolui com o tempo e as 
mudanças na sociedade. Ele acreditava que a moralidade não pode ser baseada em 
regras absolutas ou princípios universais, mas sim em uma compreensão empírica das 
necessidades e interesses dos indivíduos em uma determinada situação.
Dewey também enfatizava a importância da experiência na formação da 
moralidade. Ele argumentava que as pessoas aprendem a ser morais através da 
experimentação e reflexão sobre suas ações e as consequências dessas ações para si 
mesmas e para os outros. Para ele a moralidade é um processo dinâmico e prático, que 
se baseia na experiência e na interação social, e que está em constante evolução de 
acordo com as mudanças na sociedade.
A tradução, por sua vez, na visão da ética pragmática, envolve a transferência 
de significado de uma língua para outra. Ela desempenha um papel fundamental na 
comunicação intercultural e pode influenciar significativamente a compreensão e o 
relacionamento entre as pessoas de diferentes culturas.
Do ponto de vista da ética pragmática, a tradução envolve uma série de 
questões éticas complexas. Por exemplo, um tradutor pode precisar tomar decisões 
éticas sobre como transmitir nuances culturais e contextuais de uma língua para outra. 
Eles também podem precisar lidar com questões de poder e hierarquia em relação aos 
autores originais e seus trabalhos.
Além disso, a ética pragmática pode ser usada para analisar a qualidade e 
a precisão da tradução, bem como a sua adequação para diferentes públicos e 
contextos sociais. Isso pode envolver questões como a escolha de palavras e frases, a 
inclusão ou exclusão de informações e a adaptação do texto para diferentes culturas 
e expectativas sociais.
Em suma, a ética pragmática é uma abordagem útil para a análise da tradução e 
pode ajudar os tradutores a tomar decisões éticas informadas em relação à transferência 
de significado entre diferentes línguas e culturas.
Assim como na ética pragmática, em voga nas últimas décadas, a ética 
neopositivista também contribui para o debate contemporâneo da tradução. Entre suas 
principais vozes está Moore.
George Edward Moore foi um filósofo britânico nascido em 1873 e falecido 
em 1958. Ele é conhecido como um dos principais representantes da escola de 
filosofia analítica e é mais conhecido por sua defesa do intuicionismo ético. Moore 
estudou na Universidade de Cambridge, onde se tornou amigo de Bertrand Russell, 
que se tornou uma grande influência em sua vida e trabalho. Depois de se formar em 
Cambridge, Moore lecionou filosofia na Universidade de Cambridge e, mais tarde, na 
Universidade de Londres.
161
Figura 6 – G. E. Moore
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Edward_Moore#/media/Ficheiro:1914_George_Edward_Moo-
re_(cropped).jpg. Acesso em: 11 abr. 2023.
Em 1903, Moore publicou um livro chamado Princípios éticos, que foi uma obra 
importante na história da ética. Nesse livro, Moore argumentou que o bem não pode 
ser definido em termos de qualquer outra coisa. Em vez disso, o bem é uma qualidade 
simples e indefinível, que é conhecida através da intuição moral. Ele também defendeu 
que os valores éticos são objetivos e independentes da vontade humana.
Em seu trabalho posterior, Moore se concentrou na análise da linguagem e na 
filosofia da matemática. Ele argumentou que a matemática é uma disciplina puramente 
dedutiva e que seus axiomas são verdadeiros por definição. Moore teve uma grande 
influência em filósofos posteriores, como Ludwig Wittgenstein e J. L. Austin, e sua defesa 
do intuicionismo ético continua a ser uma posição importante na ética contemporânea.
O neopositivismo de Moore, conforme (PEQUENO, 2003) também conhecido 
como empirismo lógico, foi uma corrente filosófica que surgiu na Europa Central na 
década de 1920 e que teve grande influência na filosofia da ciência e na filosofia da 
linguagem, como rapidamente nós expusemos aqui.
Moore é frequentemente considerado como um dos fundadores do 
neopositivismo, embora ele próprio não tenha se identificado como tal. Em sua 
filosofia, Moore defendia a ideia de que o conhecimento filosófico deveria ser baseado 
na observação e na experiência, em contraposição à tradição filosófica anterior, que 
frequentemente se concentrava em questões abstratas e metafísicas.
162
De acordo com Moore (1975), a filosofia deveria se concentrar na análise 
cuidadosa dos conceitos e proposições que usamos em nossas discussões e 
investigações científicas. Ele argumentou que muitos dos problemas filosóficos surgem 
de confusões semânticas ou erros lógicos que podem ser evitados por meio da análise 
rigorosa da linguagem:
Para Moore, a análise é o húmus da filosofia e o objetivo final desta 
é a clarificação dos conceitos. De posse da acuidade e do rigor 
analítico, sua função consiste, pois, em tornar explícito o que se 
afigura difuso, nebuloso, intransparente. Assim, acrescenta ele, a 
capacidade de analisar sem descanso, a necessidade de observar as 
diferentes perspectivas, constituem o exercício essencial do filosofar. 
O primeiro passo de toda atitudepensante consiste em analisar, pois 
somente assim poder-se-ia oferecer uma representação adequada 
da realidade. O procedimento de Moore, convém alertar, não repousa 
na mera exegese das palavras, mas na análise dos conceitos e 
das proposições que os manifestam. Eis por que, de posse dessa 
démarche analítica, podemos, mediante o refinamento da análise, 
aceder com mais segurança ao universo dos fatos. Moore busca 
um caminho para conhecer de modo mais límpido as entranhas da 
realidade, os objetos do mundo. Isto o permite erigir as bases de uma 
filosofia destituída de todo desejo de doutrinamento moral. O que 
importa, para ele, não é o fato moral em si, mas o enunciado que o 
traduz ou que o torna inteligível. Antes de interrogar sobre o valor das 
ações, as regras de conduta e seus critérios de justificação, deve-
se clarificar o discurso normativo, seus enunciados de base, seus 
termos constitutivos (PEQUENO, 2003, p. 21).
Embora Moore tenha sido uma figura importante no desenvolvimento do 
neopositivismo, ele também teve diferenças significativas com outros filósofos 
neopositivistas. Por exemplo, conforme Pequeno (2003), Moore rejeitava a ideia 
de que a filosofia deveria se concentrar exclusivamente em questões científicas ou 
empiricamente verificáveis e argumentava que a filosofia também poderia abordar 
questões metafísicas e éticas.
O neopositivismo de Moore pode ser caracterizado como uma abordagem 
filosófica que valoriza a análise rigorosa da linguagem e a base empírica do conhecimento, 
mas que também reconhece a importância de questões metafísicas e éticas na filosofia. 
Daí a importância de se saber um pouco da ética de Moore, tão importante para a 
tradição analítica da tradução. A filosofia da linguagem se preocupa com o estudo do 
conceito de significado nos vários sentidos da palavra. Todavia, os significados das 
palavras e sentenças morais, muitas vezes, determinam a lógica das inferências onde 
aparecem. Assim, um estudo dos significados das palavras e sentenças morais, ou do 
que as pessoas querem dizer quando as dizem, deve nos tornar capazes de investigar 
as propriedades lógicas do que elas dizem é autossuficiente e que implicações isso tem 
e que argumentos são bons e quais não são. Assim, a filosofia da linguagem aplicada à 
linguagem moral, deve ser capaz de prover uma estrutura lógica para o pensar moral. 
163
Moore argumentou que a ética é uma questão de discernimento intuitivo entre 
o que é bom e o que é mau. Ele afirmou que existem coisas que são boas em si mesmas, 
independentemente de quaisquer outras considerações, e que essas coisas são o que 
tornam outras coisas boas:
A análise do problema moral a partir de uma abordagem lingüística 
começa a se constituir de forma mais vigorosa e sistematizada no 
início do século XX, precisamente a partir de 1903, com a publicação 
da obra Principia Ethica de George Moore. Moore inaugura a 
filosofia moral de inspiração analítica cuja influência seria marcante 
durante a primeira metade daquele século. Antes de investigar a 
natureza do universo moral, a filosofia deveria analisar o conteúdo 
dos termos empregados nos enunciados prescritivos. A esta nova 
modalidade de abordagem que toma a linguagem como paradigma 
de toda investigação possível no campo da moral deu-se o nome 
de teoria ética ou meta-ética. Sob este nome designa-se o estudo 
concernente às formas lingüísticas das proposições prescritivas e 
à significação dos predicados morais. Trata-se, pois, de elucidar o 
sentido dos conceitos éticos e a maneira como são lingüisticamente 
expressos em um enunciado. A importância da linguagem para a ética 
é representada pelo significado que as proposições morais assumem 
nas interações e embates que marcam o universo axiológico dos 
indivíduos. A análise do fenômeno moral torna-se um estudo sobre 
a matéria simbólica do nosso modo de “ser-no-mundo-moral-pela-
linguagem (PEQUENO, 2003, p. 2).
Para Moore, o bem é algo intrínseco e não pode ser reduzido a qualquer outra 
coisa. Ele argumentou que o bem não pode ser definido em termos de qualquer outra 
propriedade, como a felicidade, a virtude ou a utilidade. Em vez disso, ele defendeu que 
o bem é uma propriedade indefinível que é discernida intuitivamente.
Moore influenciou decisivamente a pesquisa analítica em ética, na 
medida em que seu projeto teórico tenta evidenciar as articulações 
possíveis da experiência moral a partir da avaliação das condições 
formais e do conteúdo proposições normativas. Examinar o que se 
passa no terreno da moral significa inicialmente interrogar sobre o que 
nós queremos dizer quando atribuímos, por exemplo, o predicado bom 
ou justo para designar um evento, um comportamento, uma decisão. 
Moore abre caminho para que o problema da justificação ética seja 
formulado no âmbito da análise dos enunciados morais. Com isso, 
a análise semântica dos enunciados de valor, empreendida por ele 
na supracitada obra, fornecerá novas ferramentas ao tratamento dos 
problemas referentes à justificação lógica das expressões normativas 
(PEQUENO, 2003, p. 25).
Em resumo, a ética analítica de Moore sustenta que o bem é uma propriedade 
intrínseca que é discernida intuitivamente e que a moralidade é uma questão de 
fato objetiva. A teoria de Moore foi uma das primeiras tentativas de fornecer uma 
fundamentação objetiva para a ética e influenciou significativamente o desenvolvimento 
da ética analítica no século XX. E a questão da tradução?
164
O neopositivismo, como uma corrente filosófica que valoriza a análise rigorosa 
da linguagem, tem uma abordagem específica em relação à tradução. Segundo 
os neopositivistas, a tradução pode ser vista como um processo de equivalência 
entre as expressões linguísticas em diferentes idiomas, onde a tarefa do tradutor é 
encontrar a correspondência mais próxima possível entre as palavras, estruturas e 
significados das duas línguas.
Para os neopositivistas, a tradução é um processo importante na comunicação 
entre pessoas que falam idiomas diferentes, e é fundamental para a transmissão de 
conhecimento científico e filosófico. No entanto, eles também reconhecem que a 
tradução tem seus limites, já que nem sempre é possível encontrar uma correspondência 
exata entre as expressões linguísticas de diferentes idiomas.
Além disso, os neopositivistas enfatizam a importância da precisão na tradução, 
pois a ambiguidade e a imprecisão na linguagem podem levar a mal-entendidos e erros 
conceituais. Eles argumentam que a tradução precisa levar em consideração o contexto 
em que as expressões linguísticas são usadas, bem como as nuances culturais e 
históricas que podem afetar seu significado.
Os neopositivistas então veem a tradução como um processo de equivalência 
entre as expressões linguísticas em diferentes idiomas, que é fundamental para 
a comunicação e transmissão de conhecimento, mas que também tem limites e 
requer precisão.
São as éticas pragmáticas e neopositivistas essenciais para observarmos os 
debates contemporâneos em torno da ética na tradução. A pragmática, pelo fato de 
apontar a grande importância e onipotência do prático, influenciou muito a tradução no 
seu quesito do fazer, e não elaborar sistemas ideias infindáveis, ou seja, é no fazer que 
o tradutor desenvolve sua ética.
Já o neopositivismo ampliou o debate em termos da linguística como um arranjo 
formal da linguagem, e como observar isso nos torna melhores tradutores, tentando 
extrair dos textos seus padrões mais objetivos possíveis.
São essas duas vertentes que pensam de sobremaneira a tradução e seu 
componente ético mais relevante.
165
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tema de aprendizagem, você aprendeu:
• A analisar como temas da ética contemporânea se destacam no trabalho do tradutor, 
como a ética pragmática e a ética neopositivista, e suas ressonâncias na prática da 
tradução e seu componente ético.
• A observar a ética pragmática como aquela que parte da prática para assim se 
desenhar como um sistema moral, e como elaadota a prática também como fundante 
no ofício da tradução.
• A analisar como a ética neopositivista se destaca como um pensamento mais 
analítico acerca da linguagem, e como isso se desenvolve na tradução, em especial 
na aproximação mais objetiva da linguagem.
166
AUTOATIVIDADE
1 Leia o trecho a seguir:
 “[...] cada experiência afeta para melhor ou para pior as atitudes que contribuem 
para a qualidade das experiências subsequentes, estabelecendo certas preferencias 
e aversões, tornando mais fácil ou difícil agir nessa ou naquela direção. Além disso, 
toda a experiência exerce, em algum grau, influência sobre as condições objetivas 
sob as quais novas experiências ocorrem [...] A educação tradicional não teve que 
enfrentar tal problema, pôde ignorar sistematicamente essa responsabilidade. O 
ambiente escolar de carteira, quadro-negro e um pequeno pátio era considerado 
suficiente. Não havia exigência de que o professor conhecesse intimamente as 
condições físicas, históricas, econômicas, ocupacionais etc da comunidade local 
[...]. Um sistema educacional baseado na necessária conexão entre educação e 
experiência, se fiel aos seus princípios, deve, ao contrário, levar todas estas coisas 
em consideração constantemente [...]”. (DEWEY, 2011, p. 41).
Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: 
Editora Vozes, 2011.
 Em relação aos conceitos relacionados ao pragmatismo, analise as afirmações e 
assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer coisa.
b) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer eu.
c) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer felicidade.
d) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer “o útil”.
2 “[...] a feição de uma comunidade em miniatura ensinando em situações de 
comunicação de umas a outras pessoas, de cooperação entre elas, visando a propósitos 
comuns [...] ao mesmo tempo em que um pequeno sistema social com o trabalho de 
todas as demais instituições: a família, os centros de recreação, as organizações da 
vida cívica, religiosa, econômica, política. [...] aprender por experiência em oposição à 
aprendizagem através de textos e professores, a aquisição de habilidade e técnicas 
como meio para atingir fins que correspondem às necessidades diretas e vitais do 
aluno em oposição à sua aquisição através de exercício e treino, aproveitar ao máximo 
as oportunidades do presente se opõe à preparação para um futuro mais ou menos 
remoto; o contato com um mundo em constante processo de mudança em oposição 
a objetivos e materiais estáticos” (DEWEY, 2011, p. 22).
Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: 
Editora Vozes, 2011.
167
 Com base no texto acima e nas discussões realizadas, analise as sentenças a seguir:
I- A ética pragmática versa sobre o conhecimento prático da moralidade.
II- Os pragmáticos buscam coisas ideias.
III- Os pragmáticos buscam coisas reais, que somente existem na prática.
 Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 Leia o trecho a seguir:
 “[...] O problema da educação tradicional não foi o fato de os educadores serem 
responsáveis por proporcionar o ambiente, mas o de não levarem em consideração 
a capacidade e os propósitos de seus alunos [...]. O educador deve estudar as 
capacidades e necessidades do grupo particular de indivíduos com o qual ele 
está lidando e, ao mesmo tempo, deve organizar as condições que disponibilizem 
as matérias ou conteúdos de forma a proporcionar experiências que satisfaçam a 
essas necessidades e desenvolva essas capacidades. Através dessa educação 
inconsciente, o indivíduo gradualmente vem a partilhar os recursos intelectuais e 
morais que a humanidade conseguiu juntar. Ele se torna um herdeiro desse capital 
acumulado da civilização. A mais formal e técnica educação no mundo não pode 
se distanciar sem custos desse processo geral. Ela pode apenas organizá-lo, ou 
diferenciá-lo em alguma direção particular” (DEWEY, 2011, p. 59). 
Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: 
Editora Vozes, 2011.
 
 Com base nas contribuições de Dewey, classifique V para as sentenças verdadeiras e 
F para as falsas:
( ) A tradução pragmática observa os textos na sua realidade.
( ) A tradução pragmática observa os textos em seu aspecto mais sagrado.
( ) A ética pragmática associa a prática ao real.
 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
168
4 Leia o trecho a seguir:
 “[...] cada experiência afeta para melhor ou para pior as atitudes que contribuem para 
a qualidade das experiências subsequentes, estabelecendo certas preferencias e 
aversões, tornando mais fácil ou difícil agir nessa ou naquela direção. Além disso, 
toda a experiência exerce, em algum grau, influência sobre as condições objetivas 
sob as quais novas experiências ocorrem [...] A educação tradicional não teve que 
enfrentar tal problema, pôde ignorar sistematicamente essa responsabilidade. O 
ambiente escolar de carteira, quadro-negro e um pequeno pátio era considerado 
suficiente. Não havia exigência de que o professor conhecesse intimamente as 
condições físicas, históricas, econômicas, ocupacionais etc da comunidade local 
[...]. Um sistema educacional baseado na necessária conexão entre educação e 
experiência, se fiel aos seus princípios, deve, ao contrário, levar todas estas coisas 
em consideração constantemente [...]”. (DEWEY, 2011, p. 41).
Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: 
Editora Vozes, 2011.
 Descreva o pragmatismo filosófico.
5 Leia o trecho a seguir:
 “Partindo da distinção – e por vezes da complementaridade – entre o que designamos 
como bem/bom (adjetivo) e isto que tomamos como o bem/o bom (substantivo), 
Moore acrescenta um novo elemento ao debate. O bom, segundo Moore, não é 
de forma alguma indefinível; ele é o substantivo ao qual se aplica o adjetivo bom. 
Certos atributos como honestidade, solidariedade, simpatia, podem ser considerados 
como convenientes ao que é bom, ou mesmo como elementos constitutivos de sua 
definição. Portanto, isso que chamamos o bom nada mais é do que substantivo ao 
qual se pode aplicar o predicado bom. É neste sentido que ele se torna passível de 
definição. Assim, diz Moore, “o bom é definível, enquanto bom em si mesmo não o 
é”3. A propriedade das coisas boas não é suficiente para definir o que é bom, posto 
que ela não é inteiramente idêntica à propriedade de ser bom. Se isso fosse possível, 
dever-se-ia dar razão ao naturalismo. Para Moore, o naturalismo tenta justificar sua 
posição mediante um raciocínio sofístico do tipo “se bom é definido como sendo 
outra coisa que não ele mesmo, então se torna impossível provar que uma definição 
é má ou de recusar alguma”4. O naturalismo postula uma definição daquilo que é, a 
rigor, indefinível. Segundo Moore, seu erro consiste em reduzir o bem a uma forma 
substancial”.
Fonte: PEQUENO, M. J. P. Moore e os pressupostos da meta-
ética. Ethic@ (UFSC), Florianópolis - SC, v. 2, n. 1, p. 21-34, 
2003.
Resuma a ética analítica de Moore.
169
TÓPICO 3 - 
REFLEXÕES E CONCLUSÕES SOBRE ÉTICA 
E A TRADUÇÃO
1 INTRODUÇÃO
Importante agora fazermos uma reflexão final daquilo que aqui foi abordado, 
tentando fazer um fechamento geral e síntese da questão da ética na tradução.
Foi relevante estudarmos o desenvolvimento dos sistemas éticos desde a 
antiguidade, pois desde lá está colocada a questão da tradução e da ética. Por isso o 
mapa que aqui desenhamos, para ver como a Filosofia se colocou acerca do tema, o 
como esses sistemas poderiam no responder a questões essenciais da tradução.
Outro passo importante foi falar da alteridade e do mundo pós-guerra, e como 
essa nova mentalidade moldou o pensar da ética e datradução, e como a importância 
do outro começa a tomar conta do ambiente teórico em nossa atividade do traduzir.
Ainda de grande importância foi tomarmos ciência da obra de Antoine Berman, 
sendo ele um dos autores mais ovacionados nos dias de hoje acerca do traduzir e sua 
ética, influenciado também pela questão do respeito e alteridade das obras.
Vejamos como podemos fazer uma reflexão final e fechamento dessas ideias!
2 REFLEXÕES E CONCLUSÕES 
Nossa última temática versará sobre uma reflexão final, mas claro, não definitiva 
acerca da ética na tradução. Desde seus primórdios, a ética representa um conjunto 
de ações particulares, que se tornam coletivas na medida em que se realizam como 
uma cultura de ações e hábitos de uma determinada comunidade. Foi assim desde as 
primeiras culturas homo sapiens, e não seria diferente dentro de uma comunidade de 
práticas como é a tradução.
Os gregos fundamentaram isso e produziram uma cultura escrita e detalhada 
sobre a ética, trazendo os primeiros grandes tratados e fundamentações sobre essa 
área formalizada como parte da Filosofia.
UNIDADE 3
170
É correto então pensar num grupo de pessoas, numa coletividade que vê 
a tradução como uma atividade que deve ser guiada também pelos princípios e 
pressupostos éticos daquilo que seria o correto. É o que chamamos de uma ética da 
tradução, e ela deve percorrer de forma concreta todos os instantes dessa atividade.
Vejamos agora, em resumo, como a ética pode nos ajudar a atravessar essa 
barreira que há tempos percorremos entre a civilização e a barbárie, entre a boa a má 
tradução, entre a boa e má ação!
2.1 ÉTICA, ESCRITA E CIVILIZAÇÃO 
O que a ética e seus sistemas nos ensinaram acerca da tradução? O que 
nos coloca numa espécie de trilha civilizatória e o que nos afasta disso? A ética nos 
ensinou que podemos observar a ação humana através do seu conteúdo em si, 
bem como através da consequência dessa ação: a primeira é a ética deontológica, a 
segunda a ética teleológica.
As éticas deontológicas vão observar uma ação em si mesma, como já 
observamos, sem mirar suas consequências. O deontológico, versa, em resumo, acerca 
de nossa consciência em si: devemos ser responsáveis, corretos, justos no nosso texto, 
não por pensar no leitor final, mas porque há um mandamento na nossa consciência que 
assim se posiciona. Devemos fazer o correto porque é o correto aquilo que se apresenta 
para a nossa consciência. Porém, há outros autores, devotos da teleologia, que dizem 
estar na consequência de nossas ações aquilo que as justificam. Ou seja, devemos 
pensar numa tradução que resulte a concretização de uma consequência: atingir a um 
público, ser feliz, ser poético etc.
É através das éticas deontológicas e teleológicas que orbitam as ideias e 
fundamentos práticos da tradução. Essa bagagem teórica e prática da ética podemos 
vislumbrar naquilo que chamamos de sistemas éticos através da história, e todos esses 
sistemas podem ser aplicados na atividade da tradução.
No sistema ético de Aristóteles podemos pensar a tradução dentro de uma 
ética teleológica, cujo fim é a busca da felicidade. Essa felicidade se concretiza 
na maior felicidade possível que é aquela que se assenta no meio social, que é a 
coletividade. Essa felicidade maior é o exercício virtuoso de certos hábitos, como a 
justiça, responsabilidade, e, principalmente, a mediania da ação e da temperança. 
Essas seriam ações virtuosas de uma tradução.
Observamos também o sistema deontológico de Kant, que nos oferece 
indicações concretas sobre o agir do tradutor. Kant nos diz que a razão universal (que é 
para todos) e o entendimento regulam nossas ações em si, dentro da nossa consciência 
171
e aponta para aquilo que ele chama de Imperativo Categórico como guia de nossas 
ações. Assim se faz na prática da tradução, a saber, devemos utilizar nosso aparato 
racional para julgar se aquilo que estamos traduzindo é possível de se concretizar 
conforme o Imperativo Categórico.
Outro sistema ético estudado aqui, que versa sobre a tradução, é o utilitarismo. 
Com sua visão teleológica de uma ação voltada para o bem comum em sociedade, o 
utilitarismo influenciou muitos pensadores da ética criando seu próprio sistema. Um 
bem maior para o maior número de pessoas, é isso que podemos trazer para o ambiente 
da tradução e é isso que devemos marcar como influência maior do utilitarismo.
Dentro das últimas décadas, há que se lembrar dos sistemas pragmáticos e 
neopositivistas, que cada um a sua maneira observa a tradução como um conjunto de 
regras que advém da prática (pragmáticos) e a tradução como fruto de um pensamento 
analítico da linguagem (neopositivistas). São sistemas muito em voga nos dias de hoje.
Hão de ser lembrados também os pensamentos éticos menos sistemáticos, que 
apontaram o primado da poética sobre a ética, principalmente, no advento do século 
XX, através de Nietzsche, Deleuze, entre outros, que colocaram o trágico e poético 
como norte moral e guia criativo a prático na arte de traduzir.
O ambiente pós-guerra transformou o que pensávamos acerca da alteridade, 
responsabilidade e respeito. Autores de grande renome apontaram um caminho de não 
aceitar nunca mais as mazelas do autoritarismo, da supressão de direitos fundamentais, 
esses autores, como Hanna Arendt, Primo Levi, a Escola de Frankfurt, esses autores 
revelaram a chave de mudança social que deveria vir com a alteridade.
Por isso, o ambiente da tradução também absorveu essas ideias, dando vazão a 
novas teorias que levassem em conta todo rigor ético possível, na medida de retomarmos 
uma nova humanidade, ou um resgate dos ideais humanos assim por dizer.
Um dos grandes autores da alteridade, como aqui visto, e levado para o 
horizonte da tradução, foi Emmanuel Levinas. Este autor apresentou a alteridade não 
como uma mera formalidade ética, mas descreveu o papel do “outro” na formação 
da nossa consciência, e a ética como mãe de todos os conhecimentos. É através da 
ética que devemos moldar o mundo, e colher assim mais justiça e respeito em nossas 
relações. Assim também deve ser na tradução, ou seja, traduzir tendo o outro como 
principal norte ético.
Jean-Paul Sartre foi outro pensador que nos fez olhar para questões elementares 
da ética, como responsabilidade e engajamento, dentro do espectro existencial. 
Trouxemos assim, para o ambiente da tradução, os valores humanistas de Sartre, dando 
o enfoque exatamente para esse engajamento e responsabilidade de nosso existir: 
consequências necessárias da nossa liberdade de escolha.
172
São esses alguns pensadores da História da ética que podemos relacionar 
diretamente com a prática da tradução. Em especial, são autores e pensadores que 
influenciaram uma das principais vozes na ética da tradução no século XX e XXI, que 
é Antoine Berman.
Observamos aqui que Berman vai contra três fatores tradicionais do ato de 
traduzir: a ideia do etnocentrismo, a hipertextualidade e o platonismo na tradução.
Contra o etnocentrismo no ato de traduzir, Berman argumenta que a tradução 
sempre foi vista como a adequação de uma língua diferente àquela considerada 
dominante e culturalmente mais aceita naquele período histórico, por diversos fatores. O 
etnocentrismo é então pressupor que há culturas superiores, e que as inferiores devem 
a essa se submeter. É afirmar um povo como central, e os outros como periféricos. 
Berman acredita então que devemos quebrar essa perspectiva etnocêntrica, tão nociva, 
há vários séculos, para a tradução.
Outro dano histórico, apontado por Berman, é a primazia do hipertextual. 
Traduzir um texto, através de um modelo ou de uma forma já consolidada, ou melhor, 
traduzir um texto a partir da forma do outro, esta é a crítica apontada por Berman. Cada 
texto, segundo ele, deve ter uma tradução e experiência únicas.
A noção errônea do hipertextual se conecta também com a errada tradição do 
platonismo, segundo Berman. Não há essências eternas, não há uma forma ideal de 
se traduzir um texto. Mashá sim formas criativas que vão se formando e moldando de 
maneira individual.
Todos esses autores e propostas éticas, por mais diversos que sejam, nos 
apontam uma barreira muito bem estruturada acerca do civilizado, banindo qualquer 
expectativa de barbárie.
A ética é fundamental para moldar uma civilização e negar a barbárie, pois 
ela fornece as diretrizes e os valores pelos quais as pessoas devem se guiar em suas 
ações e decisões. A ética é um conjunto de princípios morais que orienta as escolhas e 
comportamentos individuais e coletivos.
Através da ética, a sociedade estabelece um padrão moral e de conduta que 
deve ser seguido pelos seus membros. Esses princípios podem ser baseados em ideias 
como justiça, igualdade, respeito, responsabilidade e empatia, e sua observância é 
essencial para garantir uma convivência pacífica e harmônica entre as pessoas.
Quando os indivíduos e as instituições agem de acordo com esses 
valores éticos, a civilização é fortalecida, pois a confiança e o respeito mútuos 
se desenvolvem. Além disso, a ética também pode ajudar a prevenir conflitos e 
173
violência, uma vez que as pessoas são incentivadas a resolver suas diferenças de 
forma pacífica e justa.
Por outro lado, quando os princípios éticos são ignorados ou violados, a barbárie 
pode surgir. A falta de ética pode levar a comportamentos desonestos, desrespeitosos e 
injustos, que prejudicam não apenas os indivíduos afetados diretamente, mas também 
a sociedade como um todo. A ausência de valores éticos pode levar a um estado de caos 
e desordem, onde prevalecem a violência, a corrupção e a injustiça.
A ética é talvez a única ferramenta para moldar uma civilização justa, pacífica e 
harmônica, negando a barbárie e promovendo valores positivos que beneficiam todos os 
membros da sociedade. Isso se dá também na tradução. Continuamos em consonância 
com a voz de Berman (2013, p. 23):
Ora, a tradução, com seu objetivo de fidelidade, pertence 
originariamente à dimensão ética. Ela é, na sua essência, animada 
pelo desejo de abrir o Estrangeiro enquanto estrangeiro ao seu 
próprio espaço de língua. Isto não significa, em absoluto, que 
historicamente tenha sido sempre assim. Pelo contrário, o objetivo 
apropriador e anexionista que caracteriza o Ocidente sufocou 
quase sempre a vocação ética da tradução. A "lógica do mesmo" 
quase sempre prevaleceu. Isso não impede que o ato de traduzir 
obedeça a uma outra lógica, a da ética. Por isto, retomando a 
bela expressão de um trovador, falamos que a tradução é, na sua 
essência, o "albergue do longínquo". Como eu estava dizendo: 
abrir o Estrangeiro ao seu próprio espaço de língua. Abrir é mais 
que comunicar: é revelar, manifestar. Dissemos que a tradução é 
a "comunicação de uma comunicação". Mas é mais do que isso. 
Ela é, no âmbito das obras (que aqui nos ocupam), a manifestação 
de uma manifestação. Por quê? Porque a única definição possível 
de uma obra só pode ser feita em termos de manifestação. Numa 
obra, é o "mundo" que, cada vez de uma maneira diferente, se 
manifesta na sua totalidade.
 
Fica então uma última pergunta e uma necessidade de resposta: a ética nos dá 
civilização em termos de tradução?
A ética, e isso não temos dúvida, é uma parte essencial da vida em sociedade 
e pode ser vista como uma base moral para a construção de uma civilização, uma 
civilização que deve espelhar nossas traduções. Através da ética, os indivíduos são 
incentivados a seguir princípios e valores que são considerados bons e desejáveis para 
a convivência pacífica e harmoniosa em uma sociedade, em qualquer autor de sistema 
ético que possamos estudar, e assim também na produção de um texto.
Para terminar, colocamos como sugestão uma lista de séries, documentários e 
breve sinopse de alguns livros que tratam o assunto de forma não tão acadêmica, e que 
podem nos ajudar a entender a complexidade da ética em meio a tradução.
174
Séries:
"The Interpreter" – uma série coreana que explora as complexidades da tradução e 
interpretação em contextos políticos e diplomáticos.
"Borgen" – uma série dinamarquesa que aborda questões éticas e morais na política e na 
comunicação, incluindo tradução e interpretação em situações de crise.
"Narcos" – uma série americana que retrata a luta contra o narcotráfico na Colômbia e as 
dificuldades enfrentadas pelos tradutores e intérpretes que trabalham no meio.
"The Americans" – uma série americana que segue a vida de espiões soviéticos disfarçados 
de americanos durante a Guerra Fria e as complexidades da tradução e interpretação em 
contextos de espionagem.
"The Translation" – uma série turca que aborda a história de uma tradutora que enfrenta 
dilemas éticos e pessoais enquanto trabalha em um grande projeto de tradução.
"Translators" – uma série francesa que retrata a história de nove tradutores que são 
contratados para traduzir o último livro de um famoso autor americano e precisam trabalhar 
juntos para encontrar soluções para os desafios éticos e literários que enfrentam.
DICA
Documentários:
"The Linguists" – um documentário que segue dois 
linguistas que viajam pelo mundo para documentar 
línguas em extinção e a importância da tradução na 
preservação da diversidade cultural.
"Lost in Translation" – um documentário que investiga 
as implicações éticas e culturais da tradução em 
diferentes contextos, desde a interpretação em 
tribunais até a tradução de obras literárias.
"Interpreters" – um documentário que segue a vida de 
intérpretes em situações de conflito armado e como 
eles enfrenta desafios éticos e morais ao trabalhar com 
militares e jornalistas em zonas de guerra.
"Speaking in Tongues" – um documentário que explora 
a importância da educação bilíngue e a ética da 
tradução em ambientes escolares multiculturais.
"American Tongues" – um documentário que investiga 
a diversidade linguística e cultural nos Estados Unidos 
e como a tradução é fundamental para a compreensão 
e respeito mútuo.
"The Art of Translation" – um documentário que explora 
a história e o processo de tradução literária, incluindo os 
desafios éticos e literários que os tradutores enfrentam 
ao traduzir obras de diferentes gêneros e estilos.
175
A ética nos dá civilização, pois fornece um conjunto de princípios morais que 
orientam as escolhas e comportamentos individuais e coletivos. Esses princípios 
podem incluir ideias como justiça, igualdade, respeito, responsabilidade e empatia, 
e são fundamentais para a construção de uma sociedade justa e equitativa, e são 
fundamentais para traduzirmos com rigor, mas também com virtude.
DICA
Livros e sinopses:
"Found in Translation: How Language Shapes Our Lives and Transforms the World", de Nataly 
Kelly e Jost Zetzsche – um livro que explora a importância da tradução em nossas vidas 
cotidianas e como a ética é fundamental para o sucesso da tradução.
"Translation and Ethical Engagement: Advocacy, Social Justice, and Responsibility in Mediation", 
de Aftab Ahmad – um livro que analisa as questões éticas na mediação e na tradução em 
ambientes multiculturais e multilíngues, com foco na justiça social e na responsabilidade.
"Translation and Confl ict: A Narrative Account" de Mona Baker – um livro que aborda a ética 
da tradução em situações de confl ito, incluindo a tradução de documentos políticos e a 
interpretação em julgamentos de crimes de guerra.
"Translation and the Challenge of Revision" de Nicole Nolette – um livro que analisa a ética da 
revisão de traduções e os desafi os que os revisores enfrentam ao trabalhar com tradutores.
"The Ethics of Translation", de Christina Schäff ner e Kelly Washbourne – um livro que aborda 
as questões éticas na tradução em uma ampla variedade de contextos, incluindo a tradução 
literária, a interpretação e a tradução em situações de crise.
"Translation and Identity in the Americas", de Gentzler Edwin – um livro que aborda a relação 
entre tradução, identidade cultural e questões éticas em contextos das Américas.
"In Other Words: A Coursebook on Translation",

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