Prévia do material em texto
Indaial – 2023 Prof. Juliano Samways Petroski 1a Edição Tradução ÉTica na Elaboração: Prof. Juliano Samways Petroski Copyright © UNIASSELVI 2023 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI. Núcleo de Educação a Distância. PETROSKI, Juliano Samways. Ética na Tradução. Juliano Samways Petroski. Indaial - SC: Arqué, 2023. 192p. ISBN 978-65-5646-654-5 ISBN Digital 978-65-5646-655-2 “Graduação - EaD”. 1. Ética 2. Tradução 3. Alteridade CDD 418.02 Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 De início, afirmamos que é com grande honra, alegria, e tendo como bússola o compromisso de pensar o traduzir ético, que iniciamos nosso material acerca da Ética na Tradução! De igual forma, destacamos também que é com grande satisfação que trabalharemos aqui questões essenciais que permeiam o ato de traduzir, tendo como horizonte os limites dos processos criativos e técnicos da tradução, junto à questão da Ética que deve sempre pautar nossos textos. Vamos adentrar neste universo fascinante da Ética filosófica? Vamos lá? Contamos com você neste estudo de relevância, cujas ideias são de grande valia para a atuação profissional do tradutor. Nesse sentido, cabe apresentarmos aqui um breve “spoiler” do que estudaremos nesse curso, bem como encadear a sequência de conteúdos e ideias que nos farão trilhar tanto os mais variados caminhos da Ética, como pensar a tradução como criação responsável e de mãos dadas com a verdade do texto original, na medida do possível. Tendo em vista a abrangência conceitual da Ética, na Unidade 1, nosso estudo se direcionará, num primeiro momento, a introduzir os diversos significados que o conceito apresenta, bem como seus temas centrais para, posteriormente, a partir de arcabouço teórico sólido e pertinente, podermos nos debruçar acerca da relação existente entre o tradutor e o texto. Desta forma, observaremos a questão da Ética como uma criação da Filosofia grega em termos etimológicos, bem como na criação de um pensamento originário e essencial nesta área do conhecimento, a saber, um guia para as ações virtuosas. Para tanto, apresentaremos também uma breve história da Ética, dando ênfase àqueles autores que trataram também do rigor textual e pensaram o texto dentro dos domínios daquilo que consideramos ético. Assim, apresentaremos também os sistemas éticos e suas aplicações concretas, bem como sua relação com o objeto texto. Trata-se de versar sobre o valor do concreto e do real na produção do traduzir, ou seja, encarar a prática da escrita e a relação Ética com o real tendo o texto e o compromisso com a verdade: falaremos sobre ambos os assuntos. Sem perder de vista essa contextualização histórica, após situarmos devidamente os sistemas éticos, dedicaremos a Unidade 2 a analisar a relação intrínseca entre a tradução e a responsabilidade, cujas questões se revelam primordiais para o ofício da tradução. Isso porque a responsabilidade se apresenta como um conceito-chave que une os mais variados sistemas éticos, os quais se relacionam de forma vigorosa com a verdade do texto. Veremos, então, na unidade, os aspectos inerentes ao ato de traduzir e criar, apontando aqueles teóricos da tradução e da Ética. Neste ponto, cabe destacarmos que não apenas a responsabilidade se apresenta como conceito-chave. Ora, é certo APRESENTAÇÃO que existe também outro caráter ético que deverá ser ressaltado no ambiente da tradução: trata-se da alteridade. Posteriormente, outro tema importante a ser trabalhado e revisitado é a tradução como processo de Poética aliado ao rigor ético, bem como o processo de tradução. Ocorre que por mais que se trate de um processo científico e criativo, não se pode ignorar que a tradução se perfaz em um ato que demanda grande responsabilidade por parte do tradutor, razão pela qual se demonstra necessário e justificável essa caminhada pelas mais variadas éticas da responsabilidade. Finalmente, na Unidade 3, vislumbraremos as questões mais práticas e alguns paradigmas históricos de enfrentamento do tradutor com os dilemas éticos. Em especial, observaremos o clássico problema de tradução do texto bíblico arcaico. Afinal de contas, a tradução foi um dos motivos para o desencadeamento de divergências relativas aos cultos religiosos católicos, no episódio que ficou conhecido como “o Cisma do Oriente” e que foi responsável pela cisão ocorrida no interior da Igreja Católica na Idade Média, criando assim um modo de pensar para as religiões. É tanto por isso que conceberemos o ato de traduzir como sendo a abertura responsável pela linguagem. Desta forma, ancorados em importantes pensadores sobre o tema, iremos analisar a prática da tradução e da Ética contemporânea, assim como os sistemas éticos contemporâneos, para enfim finalizarmos com algumas reflexões e conclusões sobre Ética e a tradução e, em especial, daquilo que deveria nos moldar como civilização. Vivemos num mundo conectado, digital, na Era da Informação, na Era do Conhecimento, no mundo em que todos leem e comentam o universo dos outros, onde todos partilham seu dia a dia, onde um comentário acerca de uma foto pode mudar o dia de uma pessoa. Nesse mundo, não há como negar que todas as nossas ações devem ser calculadas, pensadas e meditadas. Da mesma forma um processo de tradução, ele deve ser pensado do início ao fim, calculado, descrito e finalizado. Em todas essas etapas, a Ética deve estar presente. E deve estar lá como um guia para as ações, como um crivo para o agir, uma filtragem de atitudes que nos acompanham desde as postagens nas redes sociais, até o trabalho mais complexo de se traduzir um dialeto quase extinto. Assim pensamos a Ética na tradução, como esse guia de trabalho e norte de atitudes que devem nos acompanhar. Dito isso, e com a certeza de que este material será de grande auxílio à atuação de você, futuro profissional do âmbito da tradução, desejamos ótimos estudos e que o período de aprendizagem seja bem aproveitado! Dr. Juliano Samways Petroski Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO QR CODE Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto,acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. ENADE LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conheci- mento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa- res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confi ra, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! SUMÁRIO UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AOS TEMAS CENTRAIS DA ÉTICA E NOSSA RELAÇÃO COM O TEXTO ...........................................................................................................................................1 TÓPICO 1 - INTRODUÇÃO ÀS QUESTÕES DA ÉTICA ............................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3 2 A ESSÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR ..................................................................................4 2.1 BREVE HISTÓRIA DA ÉTICA ................................................................................................................12 RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 17 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................18 TÓPICO 2 - SISTEMAS ÉTICOS E SUA RELAÇÃO COM O OBJETO TEXTO ........................ 21 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 21 2 SISTEMAS ÉTICOS E O OBJETO TEXTO .......................................................................... 21 2.1 APLICAÇÃO DOS SISTEMAS ÉTICOS ..............................................................................................23 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 34 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 35 TÓPICO 3 - A PRÁTICA DA ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL .......................... 39 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 39 2 A ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL ................................................................ 40 3 O TEXTO E O COMPROMISSO COM A VERDADE ............................................................. 46 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 54 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................................ 60 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................. 61 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 64 UNIDADE 2 — A TRADUÇÃO E A QUESTÃO DA RESPONSABILIDADE ...............................67 TÓPICO 1 - INTRODUÇÃO À ALTERIDADE NA TRADUÇÃO................................................ 69 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 69 2 INTRODUÇÃO À ALTERIDADE: ASPECTOS ÉTICOS DO TRADUZIR E CRIAR .................70 2.1 TEÓRICOS DA TRADUÇÃO E A ÉTICA ..............................................................................................78 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 86 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................87 TÓPICO 2 - OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO E ALTERIDADE ................................. 91 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 91 2 TRADUÇÃO E ALTERIDADE ............................................................................................. 92 2.1 TRADUÇÃO: DA POÉTICA À ÉTICA ...................................................................................................95 RESUMO DO TÓPICO 2 .........................................................................................................99 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................100 TÓPICO 3 - OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO COMO RESPONSABILIDADE .........105 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................105 2 A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE DE JEAN-PAUL SARTRE ........................................105 3 TRADUÇÃO E RESPONSABILIDADE ..............................................................................109 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 115 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 121 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................122 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................125 UNIDADE 3 — A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS ............................... 131 TÓPICO 1 - TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM ........................133 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................133 2 A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS ...................................................133 2.1 UM ESTUDO DE CASO – O CISMA DO ORIENTE ........................................................................ 142 2.2 TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM .................................................146 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................... 151 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................152 TÓPICO 2 - A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA ...........................155 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................155 2 A TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA .................................................................155 2.1 SISTEMAS ÉTICOS CONTEMPORÂNEOS ......................................................................................158 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................165AUTOATIVIDADE ................................................................................................................166 TÓPICO 3 - REFLEXÕES E CONCLUSÕES SOBRE ÉTICA E A TRADUÇÃO ......................169 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................169 2 REFLEXÕES E CONCLUSÕES ........................................................................................169 2.1 ÉTICA, ESCRITA E CIVILIZAÇÃO .................................................................................................... 170 LEITURACOMPLEMENTAR ................................................................................................ 177 RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................182 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................183 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................187 1 UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO AOS TEMAS CENTRAIS DA ÉTICA E NOSSA RELAÇÃO COM O TEXTO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o signifi cado, a origem e o desenvolvimento histórico do conceito de Ética; • apreender o que são sistemas éticos e sua importância para o ato de traduzir; • analisar a aplicação dos sistemas éticos no âmbito da tradução, conciliando o caráter criativo do ato de traduzir com a fi delidade ao texto original; • distinguir a prática da escrita da relação com a Ética. Com o objetivo de reforçar os conhecimentos adquiridos, a cada tema de aprendizagem desta unidade, você encontrará autoatividades planejadas a partir do conteúdo trabalhado. TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – INTRODUÇÃO ÀS QUESTÕES DA ÉTICA TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – SISTEMAS ÉTICOS E SUA RELAÇÃO COM O OBJETO TEXTO TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – A PRÁTICA DA ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 INTRODUÇÃO ÀS QUESTÕES DA ÉTICA 1 INTRODUÇÃO Quando pensamos acerca da tradução e seus horizontes éticos, devemos iniciar apresentando uma breve história dos pensadores, temas e questões pertinentes de grande valia que perfazem esse universo filosófico da Ética. Isso porque, embora a Ética esteja intrinsecamente relacionada ao ato de traduzir, nem sempre as questões dessa natureza envolvidas no processo de tradução mostram-se óbvias. Da mesma forma, devemos também apresentar, de maneira introdutória, como essas grandes questões éticas podem impactar o universo da escrita e da tradução, como de fato impactam. Para tanto, inicialmente, falaremos de um breve vocabulário básico da Ética filosófica, sua relação com a moral e os hábitos, bem como sobre a terminologia adotada pelos gregos na fundação dessa área do conhecimento. Essa análise, a princípio etimológica, será importante para compreendermos a formação da Ética como uma disciplina de vasta atuação, que ultrapassa o universo da tradução, mas que abrange toda a esfera da vida prática. Trata-se, portanto, de uma passagem propedêutica na análise das questões que irão perfazer o universo histórico da Ética. De forma essencial, colocaremos também algumas questões iniciais para meditarmos sobre como a escrita e o processo criativo humano se desenvolve no horizonte da Ética. Em sequência, veremos como a tradução, em seu desenlace também criativo, e igualmente amparada na questão técnica, se relaciona de forma contundente com a Ética. Afinal de contas, esta área do saber que se ocupou sempre em descrever o bom agir, agora pode nos ajudar a descrever como seria um “bom traduzir”, ou até mesmo uma conduta como “bom tradutor”. Vamos estudar e compreender melhor as relações entre o traduzir e a Ética? Com certeza! Vamos ao início das questões que nos importam sobre a Ética! TÓPICO 1 - UNIDADE 1 4 Uma coisa que deve se esclarecer inicialmente é que devemos diferenciar um código de Ética, dentro de uma categoria de atuação, por exemplo, um código de Ética médica, código ético dos advogados, dos músicos etc. É possível vislumbrar alguns códigos de Ética de tradutores que já foram alçados ao público. Dentre as diversas coisas que poderiam ser ditas acerca da Ética no âmbito da tradução, a primeira que salta aos olhos é que o código de Ética do tradutor não é algo unificado – tal como talvez deveria ser pelos órgãos de classe –, mas algo que parece restrito a instituições. Não obstante, a segunda coisa que precisa ser dita é que não basta, para a atuação do tradutor, seguir friamente o código de Ética sem antes trabalhar a temática e expandir sua consciência sobre o estudo formal da Ética, por meio da coleta de ferramentas teóricas e práticas indispensáveis para a profissão de tradutor. Algo importante de se lembrar é que o tradutor não é um transcodificador, ou seja, não é um mero aplicativo qualquer de tradução: A responsabilidade pelo produto final da tradução só pode ser assumida pelo(a) tradutor(a) se primeiro isso lhe for garantido, e se não for tratado(a) como transcodificador(a) “impotente” que apenas oferece material bruto a ser processado pelo(a) especialista ou artista “de fato” [...]. Apesar de todos os trabalhos publicados por pesquisadores da tradução nas últimas décadas, apesar dos esforços das associações de tradutores em codificar padrões, normas e condições de trabalho, [...] e por contraste com a profissão de intérprete de conferências, entrementes mais respeitada, [...] a posição e a imagem do(a) tradutor(a) no mercado praticamente não melhoraram (SNELL-HORNBY, 2006, p. 172). Somente enriquecendo o debate acerca da Ética na tradução é que podemos melhorar nossas práticas e condutas. Afinal, só podemos melhorar aquilo que bem conhecemos e possuímos afinidade prática, como qualquer ciência aplicada no universo do saber. Para ilustrar essa questão da Ética na tradução de forma prática, vamos observar alguns dos vários Códigos de Ética do Tradutor, disponíveis na internet, para verificar a capacidade ou não de darem conta dos problemas éticos da tradução. Observe o Código de Ética do Tradutor, a seguir, inserido em sua totalidade, e um trecho do código de conduta e Ética da Federação brasileira das associações dos profissionais tradutores e intérpretes e guia-intérpretes de língua de sinais: 2 A ESSÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR 5 CÓDIGO DE ÉTICA DO TRADUTOR Parte integrante dos Estatutos do Sindicato Nacional dos Tradutores - SINTRA * Aprovado em Assembleia Geral em 19 de fevereiro de 1991 CAPÍTULO I Princípios Fundamentais Art.1° - São deveres fundamentais do tradutor: §1° respeitar os textos ou outros materiais cuja tradução lhe seja confi ada, não utilizando seus conhecimentos para desfi gurá-los ou alterá-los; §2° exercer sua atividade com consciência e dignidade, de modo a elevar o conceito de sua categoria profi ssional; § 3° Utilizar todos os conhecimentos lingüísticos, técnicos, científi cos ou outros a seu alcance, para o melhor desempenho de sua função; §4° empenhar-se em participar da tomada de decisões do seu órgão de classe e em vê-las acatadas, em particular no que se refere à remuneração justa, às condições de trabalho e ao respeito aos direitos do tradutor; §5° solidarizar-se com as iniciativas em favor dos interesses de sua categoria profi ssional, ainda que não lhe tragam benefício direto. CAPÍTULO II Relações com os Colegas Art. 2° - O tradutor deve tratar os colegas com lealdade, respeito e solidariedade. Art. 3° - O tradutor deve abster-se de qualquer ato que signifi que concorrência desleal a outros tradutores ou exploração do trabalho de colegas, seja em sentido comercialou outro. CAPÍTULO III Relações com o Contratante do Serviço Art. 4° - O tradutor deve servir lealmente ao interesse de quem lhe contratou o serviço. Art 5° - O tradutor deve empenhar-se em lavrar previamente por escrito, com o contratante do serviço, as obrigações recíprocas concernentes ao trabalho em causa. CAPÍTULO IV Do Segredo Profi ssional Art. 6° - O tradutor é obrigado a guardar segredo sobre fatos de que tenha conhecimento por tê-los visto, ouvido ou deduzido no exercício de sua atividade profi ssional, a menos que impliquem delito previsto em lei ou que possam gerar graves consequências ilícitas para terceiros. 6 CAPÍTULO V Responsabilidade Profi ssional Art. 7° - O tradutor é responsável civil e penalmente por atos profi ssionais lesivos ao interesse do contratante de seus serviços, cometidos por imperícia, imprudência, negligência ou infrações Éticas. CAPÍTULO VI Aplicação deste Código Art. 8° - Cabe ao Sindicato Nacional dos Tradutores – SINTRA a apuração de faltas cometidas contra este Código de Ética, a aplicação das penalidades previstas nos Estatutos do SINTRA e, quando cabível, o encaminhamento do caso aos órgãos competentes. Art. 9° - Com discrição e fundamento, o tradutor dará conhecimento ao SINTRA dos fatos que constituam infração às normas deste Código. Fonte: http://www.tradulex.com/Regles/SintraEt.htm. Acesso 29 dez. 2022. FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DOS PROFISSIONAIS TRADUTORES E INTÉRPRETES E GUIA - INTÉRPRETES DE LÍNGUA DE SINAIS CAPÍTULO III DA RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL Art. 10 - É de responsabilidade do TILS e do GI: I. Manterem-se informados e atualizados sobre quaisquer assuntos concernentes à profi ssão. II. Buscar formação continuada e aperfeiçoamento profi ssional. III. Apresentar-se adequadamente com relação à postura e à aparência. IV. Utilizar todos os conhecimentos linguísticos, técnicos, científi cos, ou outros a seu alcance, para o melhor desempenho de sua função. V. Solidarizar-se com as iniciativas em favor dos interesses de sua categoria, ainda que não lhe tragam benefício direto. Art. 11 - O TILS e o GI devem observar a Tabela de Referência de Honorários vigente da Febrapils e aplicá-la sempre que necessário, exceto, quando houver desvantagem fi nanceira. Art. 12 - O TILS e o GI são responsáveis civil e penalmente por atos profi ssionais lesivos ao interesse do Solicitante e Benefi ciário de seus serviços, cometidos por imperícia, imprudência, negligência ou infrações Éticas. Art. 13 - É dever, exclusivamente do GI: I. Conhecer as diferentes formas de comunicação utilizadas pelas pessoas 7 surdocegas e conhecer as tecnologias assistivas. II. Ter conhecimento das especifi cidades atribuídas às pessoas surdocegas, descrever todos os aspectos visuais e auditivos durante o processo de tradução e interpretação e facilitar sua mobilidade. Art. 14 - É vedado ao TILS e ao GI: I. Dar conselhos ou opiniões pessoais, exceto quando requerido e com anuência do Solicitante ou Benefi ciário. II. Executar qualquer ato que caracterize concorrência desleal ou exploração do trabalho de colegas. III. Usar informações confi denciais traduzidas ou interpretadas para benéfi cos próprio para ganho profi ssional. IV. Usar de qualquer propaganda pessoal no exercício de sua função. V. Evitar o uso de substâncias que alterem o estado psicoemocional de modo a não prejudicar o desempenho profi ssional. CAPÍTULO IV DAS DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 15 - Quando houver um confl ito entre este código e a legislação municipal, estadual ou federal, prevalecerá a lei hierarquicamente superior. Art. 16 - O TILS e O GI que se dispuserem à prestação de serviços voluntários devem observar as normas contidas neste documento, bem como à Lei Federal 9.608/98 que dispõe sobre o serviço voluntário e dá outras providências. Art. 17 - O presente Código poderá ser alterado, de acordo com as necessidades da Febrapils, por votação de no mínimo dois terços (2/3) dos membros efetivos presentes a uma Assembleia Geral Ordinária. Art. 18 - Os casos omissos serão resolvidos pelo Conselho de Ética da Febrapils. Art. 19 - Este Código de Conduta e Ética da Febrapils entrará em vigor a partir da data de sua aprovação em Assembleia Geral e registro em cartório. Fortaleza - CE, 13 de abril de 2014. Fonte: https://febrapils.org.br/wp-content/uploads/2022/01/Codigo-de-Conduta-e-Ética. pdf. Acesso em: 29 dez. 2022. Logo no início do Código de Ética, cabe destacar o seguinte trecho: “exercer sua atividade com consciência e dignidade, de modo a elevar o conceito de sua categoria profi ssional”. Uma primeira pergunta que poderia ser levantada, a partir do excerto acima citado, seria a seguinte questão: afi nal, o que poderia ser defi nido como consciência e dignidade? De onde tiramos essa defi nição? De nossa própria consciência? Qual é o signifi cado imbuído em ambos os conceitos? 8 Por sua vez, o parágrafo posterior traz o seguinte comando: “Art. 2° - O tradutor deve tratar os colegas com lealdade, respeito e solidariedade”. E quem define o que é lealdade, respeito, solidariedade? A resposta para a elucidação e transposição para a vida prática desse código de Ética está na Filosofia, sua subárea Ética, sendo amparada pelos grandes pensadores que avançaram nesse quesito. Da mesma forma, no código de conduta da Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-intérpretes de língua de sinais: CAPÍTULO III DA RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL Art. 10 - É de responsabilidade do TILS e do GI: I. Manterem-se informados e atualizados sobre quaisquer assuntos concernentes à profissão. II. Buscar formação continuada e aperfeiçoamento profissional. III. Apresentar-se adequadamente com relação à postura e à aparência. IV. Utilizar todos os conhecimentos linguísticos, técnicos, científicos, ou outros a seu alcance, para o melhor desempenho de sua função. Note, caro acadêmico, que aqui também existem questões subjetivas a serem perseguidas, questões de aparência, questões de atualização profissional e diversas outras. A partir da simples leitura dos trechos acima destacados, é possível perceber que sem uma base sólida acerca do pensamento da Ética e dos sistemas filosóficos que perfazem essa trajetória, a compreensão do código de Ética seria de grande dificuldade, o que por sua vez acabaria por prejudicar o cumprimento adequado dos comandos contidos nos códigos acima ilustrados. Neste ponto, cabe trazermos a preciosa passagem de OLIVEIRA (2015) sobre o tema: O tradutor está comprometido bilateralmente com as situações de saída e de chegada, tendo responsabilidade tanto face ao emissor do TP [texto de partida] [...] quanto ao receptor do TC [texto de chegada]. É a essa responsabilidade que chamo de lealdade. Lealdade é um princípio moral indispensável nas relações entre seres humanos que são parceiros no processo de comunicação (NORD, 1991, p. 94 apud SNELL-HORNBY, 2006, p. 78). Sabe-se que não somente a lealdade que o tradutor deve ter com o receptor leitor, mas também a responsabilidade, a justiça, a correção e a alteridade são princípios éticos que parecem ser óbvios dentro da conduta humana. Contudo, na prática, é certo que não é assim que ocorre. A parceria no processo de comunicação requer muito mais do que uma breve intuição do que é a lealdade ou responsabilidade. Requer, sobretudo, uma meditação mais atenta acerca da Ética. A Ética, tal como a conhecemos, é uma criação da Filosofia. Há pelo menos 2500 anos o pensamento ocidental pensa formalmente produzindo múltiplas teorias e definições acerca da questão Ética. E quando falamos formalmente, queremos dizer que pensamos a Ética de forma sistemática, de forma analítica, isto é, dentro do desenvolvimento histórico temático daquilo que chamamos de Filosofia. É de suma importância conhecer a base teórica da Ética para aplicá-la ao universo da tradução. 9 Nesse sentido, precisamos esclarecer o seguinte ponto: não é como se as civilizaçõese povos anteriores ao nascimento da Filosofia não tivessem pensado sua própria moralidade, hábitos e costumes. Ocorre, todavia, que foi somente através da Filosofia que se tornou possível juntar a esse pensamento sobre a moralidade um caráter de pesquisa, de produção textual e também de produção de cultura em larga escala. Isso porque foi a partir da filosofia que emergiu o debate público de ideias que amplifica nosso pensamento sobre o que seria correto ou não ao agirmos, sobre o que seria o justo a ser feito, o respeitoso a ser seguido, ou seja, o pensamento sobre a verdade nas ações. E qual é o objeto de estudo da Ética? Podemos dizer que a Ética busca estudar, teorizar, aplicar e predizer a ação humana, ou seja, o nosso agir. A melhor prática, a melhor ação, a atitude justa, a bela, a conduta que poderia ser classificada como boa e adequada: digamos que é em torno desse universo temático que a Ética tem se desenvolvido e se dedicado a estudar durante esses milhares de anos que datam do seu surgimento formal. Neste momento, imaginamos que você deve questionar o seguinte: “Quando isso se deu? Quando começamos a formalmente contemplar e produzir teorias em larga escala sobre a Ética?” Não se preocupe. As respostas para tais indagações encontram-se logo a seguir. É especialmente a partir do filósofo grego Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) que se consolida o termo “Ética´” como área definida da Filosofia, como estudo dos próprios costumes, hábitos e como deveríamos agir na polis. Sobre o ponto, assim nos ensina George Edward Moore (1975, p. 4): A primeira é a palavra grega éthos, com “e” curto, que pode ser traduzida por costume [ou hábito], a segunda também se escreve éthos, porém com “e” longo, que significa propriedade do caráter. A primeira é a que serviu de base para a tradução latina Moral, enquanto a segunda é a que, de alguma forma, orienta a utilização atual que damos à palavra Ética. Ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom. Embora não seja possível precisar o local e a data em que surgiu o uso do conceito ético, sabe-se que foi apenas a partir dos séculos V e VII a.C., na Grécia antiga, que surgiram os primeiros usos da palavra éthos, sufixo vocabular que dá origem à palavra “Ética”. Naquele tempo, os gregos utilizavam essa palavra, o éthos, para designar os hábitos e costumes de dadas civilizações e deles mesmos. Os costumes religiosos, os hábitos comerciais, bem como a cultura de convivência estabelecida entre as pessoas na cidade, tudo isso era entendido como o éthos de uma população ou agrupamento de pessoas: como comiam, como se vestiam, como formavam as famílias, leis, religião e assim por diante. Dito isso, é essencial agora fazermos uma primeira distinção entre aquilo que se consolidou no universo da Filosofia, qual seja, aquela que diz respeito à Ética e a moral. Ocorre que, ao contrário do que se costuma pensar, existe uma diferença importante entre Ética e moral: a Ética é um estudo formal sobre as várias moralidades existentes 10 no mundo. Por sua vez, a moral pode ser traduzida, grosso modo, como a descrição das atitudes e hábitos de determinadas sociedades, populações, agrupamento de pessoas. Assim, é preciso ter em mente que, muito embora possam parecer sinônimos, os conceitos de Ética e moral não possuem significados equivalentes e nem tampouco se debruçam sobre o comportamento humano através da mesma perspectiva. Em resumo, a distinção operada entre esses dois conceitos pode ser assim resumida: Ética. s.f. 1. (Fil.) Estudo dos valores e normas que permeiam a conduta humana dentro da vida prática. 2. (Fil.) Conjunto desses valores e normas. (2008, p. 555). Moral. adj.1.Relativo aos bons costumes: valores morais. 2. Pertencente ao domínio do espírito, da consciência, por oposição ao físico e material: sofrimento moral. 3. Que segue as regras de conduta socialmente aceitas, correto, austero, ético: atitude moral. 4. Que encerra uma lição, que ensina e educa; edificante: fábula moral. S.m. 5. Conjunto dos valores morais de uma pessoa ou grupo: Aquela gente preza o moral mais que tudo. 6. Disposição de espírito, de ânimo: O médico procurou levantar o moral do paciente. 7. Espírito de luta diante de dificuldades e perigos; brio, energia, coragem: O comandante exaltou o moral da tropa antes do combate. Sf. 8. (Fil.) Parte da filosofia que estabelece as regras de conduta, fundadas na noção do bem e do mal. 9. Conjunto dos princípios normativos do comportamento de um grupo social ou de uma sociedade: moral burguesa, moral cristã. 10. Ensinamento ou lição que e tira de um fato real ou de uma obra de ficção: E esta é a moral da história. 11. coloq. Pretensão de importância ou prestígio diante de outro(s): Achou-se cheio de moral por ter sido promovido2 (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2008, p. 877). A partir disso, devemos observar, então, uma breve descrição vocabular do éthos: Tabela 1 – O significado de éthos: O nascimento da Ética se dá pela palavra éthos: Possíveis traduções Significado Hábito • Coisas feitas no cotidiano da cidade, da vida pública e privada, o hábito de se rezar para tais deuses, por exem- plo. Costumes • Atividades que eram ensinadas de geração em geração, por exemplo, ensinar e educar um filho sobre tais aspectos de éthos. Propriedade ou caráter • Modo de ser e de estar, ligado a ações virtuosas ou não virtuosas. Ânimo, motivação, forma de agir. Fonte: adaptada de Moore (1975, p. 4) 11 Realizada esta primeira incursão acerca do vocabulário da Ética, cabe agora uma apresentação inicial das questões que essa área de estudos nos traz, em especial, como essas questões se relacionam com o trabalho textual e com a tradução propriamente dita. E quais seriam as questões essenciais dessa Ética que nasce com a Filosofia? Ora, são inúmeras: desde a definição mais simples em torno do agir, até as definições mais complexas de uma teoria da justiça e responsabilidade. A Ética pensa o bom, o justo, o responsável, o respeito, a questão da alteridade e do outro, o certo, o correto a fazer. A esse respeito, preciosas são as lições extraídas do Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano acerca da Ética: Existem duas concepções fundamentais dessa ciência: 1- a que a considera como ciência do bem para o qual a conduta dos homens deve ser orientada e dos meios para atingir tal fim, deduzindo tanto o fim quanto os meios da natureza do homem; 2- a que a considera como a ciência do móvel da conduta humana e procura determinar tal móvel com vistas a dirigir ou disciplinar essa conduta. Essas duas concepções, que se entremesclaram de várias maneiras na Antiguidade e no mundo moderno, são profundamente diferentes e falam duas línguas diversas. A primeira fala a língua do ideal para o qual o homem se dirige por sua natureza e, por conseguinte, da "natureza", "essência" ou "substância" do homem. Já a segunda fala dos "motivos" ou "causas" da conduta humana, ou das "forças" que a determinam, pretendendo ater-se ao conhecimento dos fatos (ABBAGNANO, 2007, p. 380). Voltaremos a essas questões que Abbagnano (2007) relaciona como formas 1 e 2 de definir a Ética, a saber, como uma ciência do bem, ou como estudo das causas do agir. Antes, contudo, devemos esboçar essas questões essenciais que a Ética nos traz. Entre essas questões, a primeira que gostaríamos de chamar a atenção é sobre a “natureza do bem”. O que é o bem? Como ele se distancia do mal? Tais indagações sempre serão feitas em algum momento das nossas vidas. No âmbito do ofício do tradutor não é diferente, afinal, e na vida da escrita e tradução? O que seria agir de forma boa como um tradutor? A natureza do bem e do mal é um constante questionamento da Ética e deve ser levado em nossa prática de trabalhar com textos, e podemos até expandir a questão: há uma natureza boa ou má dentro de um texto? E sua tradução? Traduzir pode ser bom ou mal? Como veremos à frente, alguns dos sistemas éticosde maior impacto na História da Filosofia vão nos traçar um guia acerca do que é o bem, e o que devemos fazer para alcançá-lo. Outra questão essencial da Ética é sobre a natureza da justiça. Tratar de forma igualitária as pessoas em nossas relações cotidianas pode ser um exemplo de justiça. Tratarmos nossas decisões comuns com o mesmo critério de responsabilidade, tentando não prejudicar o próximo, ou não passar por cima das pessoas, pode ser também um exemplo de justiça. Mas o que seria o justo em si que conduziria todas as ações humanas? Ele existe? 12 Essa é mais uma colossal questão Ética que podemos transpor para nossa atividade da escrita ou tradução: onde estaria o texto traduzido de forma mais justa possível? Afinal, no âmbito da escrita ou tradução não somos/seremos cobrados por isso? A justiça, sem sombra de dúvida, é mais uma grande questão da Ética e tenta ser desvendada pelos mais influentes pensadores nesses vários séculos de Filosofia. Além da justiça, podemos ainda elencar a responsabilidade como um grande tema ético. Agir de acordo com um código de condutas, tendo engajamento com o que é bom e justo é aquilo que buscamos de um ato responsável, principalmente, pensando na questão do outro. Da mesma maneira, o engajamento com a conduta correta ao escrever e traduzir também nos aproxima da responsabilidade com o nosso entorno social, bem como no entorno de alcance de uma obra, ou mesmo numa tradução imediata para outros interlocutores. Mas como ser responsável ao traduzir e propagar comunicação? O respeito surge também como grande questão Ética, tendo como foco de meditação e atuação na existência do outro. Afinal, não vivemos em sociedade? O respeito por aqueles que nos cercam amplifica-se ainda mais ao pensarmos no alcance de um texto e sua tradução. Quantas pessoas são impactadas e tocadas por uma tradução? Agir de forma respeitosa, como veremos, não é somente um detalhe na vida cotidiana, mas um mandamento que os vários sistemas éticos irão nos mostrar. As questões éticas se apresentam como um amplo pensar sobre o que é o certo a ser feito, buscando o bem, a justiça, a responsabilidade e o respeito. Ou todos juntos? Como aplicar esses atributos ao nosso ofício da escrita e tradução? Milhares de pensadores se debruçaram sobre essas questões e de antemão sabemos que há uma pluralidade de ideias e correntes que fundamentam a Ética. Conhecê-las e aplicá-las no âmbito da tradução é nosso dever. Vejamos então o aprofundamento e desdobramentos das questões da Ética! 2.1 BREVE HISTÓRIA DA ÉTICA Muitos pensadores gregos antigos, desde os primeiros pré-socráticos (chamados assim, pois viveram antes ou no mesmo período que Sócrates) dos séculos VII e VI a.C., já falavam de um éthos e o pensaram e o fundamentaram preliminarmente, de forma crítica. Desde a época mais remota do início da Filosofia algumas questões Éticas começaram a tomar corpo na obra destes autores, porque a sociedade grega assim evoluiu para cada vez mais resolver as coisas de forma pública. Nascia o ambiente público de debate, aquilo que daria à luz futuramente como ambiente democrático de ideias, por mais que a democracia se mostrasse ainda de forma restrita. 13 Pena que pouco dessas obras dos pré-socráticos nos chegaram. Por vários motivos, inclusive aqueles de caráter histórico como embate entre cidades-estados, essas obras não sobreviveram em sua totalidade. É a partir de Platão de Atenas (428- 343 a.C.) e Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) que obtivemos escritos mais completos sobre Ética que permaneceram, apesar da força do tempo. Muito, inclusive, do que diziam os pré-socráticos, foi resguardado na obra de Platão e Aristóteles. O sentido da Ética aparece assim em sua fundação, advindo do termo éthos, sacramentado pelos gregos, como um estudo sobre o agir: costume, caráter e hábito. Os pensadores da Grécia antiga deram início, então, à Filosofia como hoje a conhecemos, e desde lá, a Ética é assunto constante, a partir dos primeiros pensadores pré-socráticos. Por mais que o principal assunto dos pré-socráticos fosse fundamentar a natureza em termos físicos, a pauta moral estava presente, e faria surgir um pensamento ético mais elaborado. Xenófanes de Colofão ( -570 a.C.) foi um dos primeiros pensadores pré- socráticos, que apesar de pouca coisa da sua obra ter sido preservada, criticava de forma ácida a moralidade, os hábitos e costumes gregos, principalmente, os da tradição da poesia épica. Outros pensadores do período – como Heráclito de Éfeso (500-450 a.C.), ou mesmo o grande Sócrates de Atenas (470-399 a.C.) versaram muito sobre a moralidade, mas é a partir de Aristóteles que observamos a consolidação do termo “Ética”, utilizada como estudo da moral, dos hábitos. Com relação às figuras, segue um exemplo: Figura 1 – Aristóteles de Estagira Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles#/media/Ficheiro:Aristotle_Altemps_Inv8575.jpg. Acesso em: 28 mar. 2023. 14 Tanto esses primeiros pensadores, quanto os pensadores por vir, todos iriam pensar a Ética a partir de duas concepções fundamentais. Essas concepções, algo importante a ser ressaltado, se dão ao buscarmos as respostas para questões Éticas em dois guias de análise acerca da natureza das decisões Éticas: ou nós pensamos a natureza das nossas ações em si, ou seja, agimos de tal forma porque precisamos necessariamente agir assim independentemente da consequência dessa ação, ou agimos pensando na consequência de nossas ações. Quando agimos não pensando na consequência, mas na ação em si, chamamos esse pensar e essa ação de deontológica, uma Ética não consequencialista. Observando a etimologia da palavra, temos que “déontos” signifi ca “dever” e “lógico” o estudo, o estudo do dever de qualquer ação. Assim, não se deve esperar que nossa ação traga responsabilidade, mas a própria ação é responsável por si mesma. Já quando pensamos na consequência de nossa ação, chamamos essa Ética de teleológica, ou seja, uma Ética consequencialista. Observando também a etimologia da palavra, temos que “téleos” signifi ca “fi nalidade” e “lógico” o estudo, a saber, o estudo dos fi ns da ação. Assim, quando agimos, devemos esperar a consequência dessa ação como uma espécie de conquista do ato: agimos dessa forma para sermos felizes, para sermos justos, corretos etc. ATENÇÃO Temos os dois casos de agir ético conforme a consequência Tipo de Ética O que busca? Deontológica – Não consequencialista • É o juízo ético que trata da natureza “em si” de nossas ações. Não busca um motivo ou consequência, é uma ação sem fi m e sem meios. Exemplo: independente de qual seja o fi m do meu agir, tenho de possuir uma postu- ra correta. Agimos por dever agir! Teleológica – Consequencialista • É o juízo e ação ética que trata da fi nalidade e consequ- ências de nossas ações. As ações teleológicas sempre visam a um fi m último, como a felicidade, o bem, o res- peito, ou seja, agimos de tal maneira para concretizar um fi m. Exemplo: agimos dessa forma porque queremos ser felizes, ser ricos, ser belos etc. Agimos para chegar a uma consequência! Tabela 2 – Tipos de pensamentos éticos conforme a consequência Fonte: o autor 15 E a tradução? E a produção de texto? A tradução, ou qualquer outra atividade textual e seus fins também se enquadram em visões deontológicas e teleológicas quanto á Ética? Sem sombra de dúvidas! Quando nos importamos com a responsabilidade e justiça de um texto em si, não observando ou esperando alguma finalidade a mais nesse texto, verifica-se um texto sustentado por uma Ética deontológica, a saber, não nos importa o impacto que esse texto terá, ele em si é justo, responsável e correto. Da mesma forma, a tradução: se traduzimos pensando na própria consciência, sendo correto e justo por mim mesmo, será uma tradução deontológica. Agora, quando traduzimos e escrevemos um texto esperando que ele tenha por consequência a felicidade, responsabilidadeou justiça de alguém ou algo, trata-se de um texto com estrutura Ética teleológica. Em resumo: ou traduzimos pensando no texto em si, ou traduzimos pensando na consequência desse texto. Inicialmente devemos marcar uma distinção entre "escrever um texto" e "traduzir para uma finalidade". O autor que nos ajuda nesse sentido é Mikhail Bakhtin (1895-1975). Ele foi um importante filósofo e teórico literário russo do século XX. Ele desenvolveu uma teoria da linguagem que enfatiza a sua dimensão social e cultural, e que reconhece a diversidade e a multiplicidade de vozes que se expressam em qualquer texto. Uma das ideias fundamentais de Bakhtin é que todo texto é, de certa forma, uma tradução. Isso porque, segundo ele, a linguagem é sempre uma mediação entre o indivíduo e o mundo exterior, e qualquer expressão linguística reflete a influência de múltiplos fatores, tais como a cultura, a história, a posição social e a visão de mundo do falante. No entanto, Bakhtin também defende a importância de se fazer uma distinção rigorosa entre "escrever um texto" e "traduzir para uma finalidade". Para ele, escrever um texto é uma atividade criativa que envolve a escolha e a combinação de palavras, frases e estruturas que reflitam a perspectiva e a intenção do autor. Já traduzir para uma finalidade é uma atividade que busca transferir o sentido de um texto original para outra língua ou para outro contexto, mantendo o máximo possível da sua forma e do seu conteúdo. Assim, para Bakhtin, o escritor tem a liberdade de criar e inovar na construção do texto, enquanto o tradutor tem a responsabilidade de ser fiel ao original e respeitar as suas características mais importantes. Ambos são atividades importantes e necessárias, mas requerem habilidades e competências diferentes. Uma questão que deve estar em sua mente agora, ao ler essas definições, paira acerca da possibilidade de escrever algo, ou traduzir, sem pensar no fim a que essa ação se destina. Seria possível? Será que ao traduzir ou escrever não colocamos sempre um fim dessa ação no horizonte? É possível esse “em si”? Alguns pensadores irão nos mostrar que sim, veremos essas ideias logo à frente. 16 Esse fim, que pode ser estritamente técnico, ou seja, entregar um texto bem traduzido simplesmente cumprindo seu papel, pode ser também com motivação estética, ou seja, traduzir revelando uma beleza Poética existente nas palavras. Em suma: a produção e tradução de um texto pode ter vários fins. Porém, quando pensamos no impacto ético desse ato de escrever ou traduzir, esse impacto ético ou é em si, deontológico, ou buscando alguma consequência, a saber, teleológico. Vamos a um exemplo mais prático. Várias questões complexas podem se apresentar a um tradutor ou tradutora. Digamos que um profissional da tradução, que trabalha numa obra de relatos de vítimas do Holocausto, aceitou em fazer uma tradução mais fiel possível às histórias a ele designadas. Dentro desse caderno de relatos pessoais, ele tomou ciência e se deparou com vários trechos absurdos e até marcadamente repugnantes. Digamos que no meio desses relatos ele se depara com narrativas de oficiais nazistas justificando seu papel no extermínio das pessoas. Como o tradutor deve seguir nesse caso? Traduzir tudo que esses oficiais falaram? Descrever a realidade mais clara possível dessas possíveis cenas grotescas? Ou poupar o leitor de certos termos e brutalidades? Claro que muitas vezes, num trabalho de tradução, há um corpo editorial, outras pessoas envolvidas no processo que podem ajudar a resolver uma questão Ética que ora ou outra podem aparecer. Resolvemos o texto de forma deontológica, ou seja, com o dever em si de apresentar uma tradução exata dos termos, ou resolvemos de forma teleológica, prevendo o fim ao qual esse ato de traduzir se destina? O exemplo acima ilustra os desafios éticos que podem ocorrer num processo de tradução. O importante é saber que o tradutor ou a tradutora devem absorver ao máximo a complexidade dessas questões e situações, bem como suas propostas de soluções no universo da Filosofia e Ética, para dar o seu melhor em processos criativos que impactam outras pessoas, como escrever e traduzir. Agora que cotejamos de forma introdutória a questão da Ética e estabelecemos algumas relações com o processo de traduzir, vejamos, no próximo tema de aprendizagem, como a Ética se desenvolveu em grandes sistemas éticos na tentativa de criar um guia para as ações humanas. 17 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • A identificação do sentido etimológico da palavra “Ética”, confrontando a construção da tradição filosófica com aquilo que podemos pensar do ethos da tradução. • Como a Ética pode ser dividida entre agir deontológico e teleológico, e como alguns autores expressam essas ideias dentro de seus sistemas éticos. • A identificação das primeiras questões Éticas dentro do processo de traduzir, e como essas questões reverberam nos estudos da tradução em geral. RESUMO DO TÓPICO 1 18 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: “Ninguém delibera sobre coisas que não podem ser de outro modo, nem sobre as que lhe é impossível fazer. Por conseguinte, como o conhecimento científico envolve demonstração, mas não há demonstração de coisas cujos primeiros princípios são variáveis (pois todas elas poderiam ser diferentemente), e como é impossível deliberar sobre coisas que são por necessidade, a sabedoria prática não pode ser ciência, nem arte: nem ciência, porque aquilo que se pode fazer é capaz de ser diferentemente, nem arte, porque o agir e o produzir são duas espécies diferentes de coisa. Resta, pois, a alternativa de ser ela uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas que são boas ou más para o homem”. Fonte: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, 1980. Acerca do estudo da Ética, podemos verificar uma ampla tradição de pensamentos que têm início na Grécia antiga, e que perpassa séculos e séculos de fundamentações sobre o agir humano. Acerca dos temas da Ética assinale a alternativa CORRETA que representa melhor esses temas: a) ( ) Temas como o agir humano, a finalidade das ações, ou mesmo o estudo da ação em si, e a verdade das ações. b) ( ) Temas como a origem da natureza, a origem do físico, a constituição material do mundo, e a verdade das ações. c) ( ) Temas acerca da beleza da obra de arte, a beleza natural, a beleza das emoções, e a verdade das ações. d) ( ) Temas acerca da origem do conhecimento, acerca dos alcances da ciência e suas ramificações, e a verdade das ações. 2 Leia o trecho a seguir: “Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem. Mas não terá o conhecimento, porventura, grande influência sobre essa vida? Se assim for, esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que 19 até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano”. Fonte: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Pensadores. São Pauto: Nova Cultural, 1991 (adaptado). O termo éthos surgiu na Grécia antiga e pode ser traduzido de algumas maneiras diferentes. Acerca das possíveis traduções de éthos assinale a alternativaCORRETA: a) ( ) Ação, reação ou agir. b) ( ) Alma, espírito ou consciência. c) ( ) Hábitos, costumes ou caráter. d) ( ) Caráter, hábitos e ego. 3 Leia o trecho a seguir: “A Ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser constantemente retomado e rediscutido, porque é produto da relação social se organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para o exercício de um pensar e agir autônomos. A relação entre Ética e política é também uma questão de educação e luta pela soberania dos povos. É necessária uma Ética renovada, que se construa a partir da natureza dos valores sociais para organizar também uma nova prática política” Fonte: CORDI et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 (adaptado). As questões Éticas percorrem todas as áreas do agir humano. Acerca dos temas trabalhados pela Ética, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O processo de conhecer: qual é a melhor forma de saber? b) ( ) O processo de agir: qual é o melhor caminho a seguir? c) ( ) O processo de analisar: como refutar tais explicações? d) ( ) O processo de contemplar: como o pensamento pode derivar as ideias? 4 Leia o trecho a seguir: “Na Ética contemporânea, o sujeito não é mais um sujeito substancial, soberano e absolutamente livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é simultaneamente os dois, na medida em que é um sujeito histórico social. Assim, a Ética adquire um dimensionamento político, uma vez que a ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva. Desse modo, a Ética se entrelaça, necessariamente, com a política, entendida esta como a área de avaliação dos valores que atravessam as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si”. Fonte: SEVERINO. A. J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992. 20 De acordo com o que vimos inicialmente, explique a diferença entre as perspectivas deontológicas e teleológicas da Ética: 5 Leia o trecho que segue: “O que é Ética? O que é moral? No encaminhamento dessas questões, precisamos voltar ao sentido originário da Ética e da moralidade. Todas as morais, por mais diversas, nascem de um transfundo comum, que é a Ética. Ética somente existe no singular, pois pertence à natureza humana, presente em cada pessoa, enquanto a moral está sempre no plural, porque são as distintas formas de expressão cultural da Ética”. Fonte: BOFF, L. Ethos mundial. Rio de Janeiro, RJ: Sextante, 2003. A justiça, o respeito, a responsabilidade: são assuntos abordados pela Ética. Escolha um desses três temas centrais na Ética e apresente como eles se relacionam com o agir. 21 SISTEMAS ÉTICOS E SUA RELAÇÃO COM O OBJETO TEXTO 1 INTRODUÇÃO Adentramos agora em um novo tema e um novo momento que é a apresentação de alguns sistemas éticos que servem de modelo para definirmos nossos atos. São sistemas consolidados como guias para sermos corretos, justos e responsáveis. Eles também podem ser pensados no âmbito da prática de tradução, porque, afinal, se trata de uma prática intelectual que também deve estar enraizada em princípios éticos. Desde o surgimento da Filosofia, e posteriormente da Ética, vários autores se engajaram nesse nobre desafio que é ditar os rumos do agir humano. Não somente ditar em si, mas toda uma construção de descrição da natureza humana, descrição do mundo em sociedade, ou seja, várias estruturas teóricas de apresentação conceitual para a resolução das nossas questões acerca do agir. Essas obras, destes grandes pensadores, transformaram-se em produções monumentais, trazendo como uma de suas principais marcas a apresentação sistemática e resolução também sistemática dos problemas éticos. Essa produção titânica de pensamentos sobre a Ética chamamos de sistemas éticos. Vejamos como os sistemas éticos delimitam a questão da tradução e do tradutor! Vamos lá! 2 SISTEMAS ÉTICOS E O OBJETO TEXTO Vamos pensar como a Ética progrediu de algumas ideias incipientes na produção textual de alguns autores para a consolidação de um vasto emaranhado de critérios para o agir. Chamamos esse aprofundamento das ideias Éticas de sistemas éticos. Vejamos o que diz Costa-Leite (2009, p. 211) acerca dos sistemas éticos: Um sistema de filosofia ou sistema filosófico é visto como um conjunto de enunciados que contém teses fundamentais acerca de pelo menos quatro bem estabelecidas partes de investigação conceitual, dado que são pré-requisitos para qualquer discurso. A construção desses grandes níveis do discurso filosófico é garantida pelo princípio gerador abaixo: Um sistema filosófico é um conjunto de proposições que deve ser especificado e determinado por uma ontologia, uma lógica, uma epistemologia e uma Ética. UNIDADE 1 TÓPICO 2 - 22 Esses sistemas também apresentam teses fundamentais que vão determinar toda a sua produção textual como uma estrutura que cria um sentido próprio, como um edifício que possui uma fundação, primeiro andar, segundo andar, último andar e assim por diante. E para que serve esse edifício? A resposta é simples: se destinam a sustentar a natureza humana e seu agir. Esses sistemas éticos também desenvolvem dentro de sua interioridade aquela questão que é essencial para a Filosofia, a saber, a questão do ser ético, ou seja, uma espécie de antropologia (definição de ser humano e sua natureza) em conjunção com a necessidade do agir, afinal, há sempre um sujeito por detrás da ação, há sempre um agente por detrás do ato. Eles também desenvolvem um estudo racional das coisas e da realidade como objeto de apreciação. Desta forma, uma característica desses sistemas tem a ver com a construção de estruturas com aspectos lógicos e argumentativos em suas vísceras, na construção de sentido de mundo, num arcabouço racional e sistemático. Além de entrelaçamento lógico, os Sistemas Éticos possuem também estrutura epistemológica. Epistême é a palavra grega para ciência e conhecimento, pois bem, ciência e conhecimento são estruturas observáveis nesses grandes Sistemas que vão do ser ao agir coletivo. Os sistemas éticos apresentam definições, conceitos e ideias que através de seu texto assumem posturas claras que reverberam até mesmo numa sintaxe e semântica próprias, ou seja, os grandes sistemas éticos são também grandes inovadores teóricos. Dizemos aqui sintaxe e semântica próprias, pois esses sistemas, além de ter profunda dimensão em caráter teórico, muitas vezes denotam um novo jeito de escrever, uma nova terminologia, um novo jeito de definir o mundo ao nosso redor. Os grandes pensadores e seus sistemas éticos são criadores conceituais e de uma escrita própria. IMPORTANTE 23 Características dos sistemas éticos Estrutura Características Inovação • Posturas claras que reverberam até mesmo numa sin- taxe e semântica próprias. Ser ético • Uma antropologia do agir, comum sujeito por detrás da ação. Lógica argumentativa • Arcabouço racional e sistemático. Epistemológico • Ciência e conhecimento são observáveis nesses Siste- mas. Tabela 3 – Características dos sistemas éticos Fonte: o autor Falaremos nas próximas páginas sobre alguns sistemas éticos que carregam em si as estruturas acima descritas, além de terem impactado fortemente o estudo da Ética, e que obviamente, devemos utilizar para pensar a questão da tradução e suas implicações práticas, são esses sistemas que nos orientarão. 2.1 APLICAÇÃO DOS SISTEMAS ÉTICOS O primeiro sistema ético a que gostaríamos de dar destaque é a Ética de Aristóteles. Como já antecipamos, esta obra é considerada o primeiro sistema ético completo, e muito influenciou a História da Ética até os dias de hoje. Chegou a hora de conhecermos essa obra. Vamos lá? Nascido em Estagira, dentro dos domínios macedônicos, Aristóteles, com idade tenra, foi estudar em Atenas, absorvendo as ideias lá presentes, inclusive sendo discípulo de Platão. Naquele período, Atenas era o centro cultural e comercial da Grécia, fazendo com que Aristóteles assimilassemuito do desenvolvimento da maior polis grega. Dentro daquilo que possuímos de documentação histórica, a Ética de Aristóteles surge como um dos primeiros sistemas éticos, com quase a totalidade de sua obra permanecendo no tempo, seja em antigas bibliotecas, pergaminhos e manuscritos medievais. Sua obra permaneceu no tempo e tem sido muito estudada desde então. E o que nos diz seu sistema ético? 24 Primeiramente, a Ética de Aristóteles é um sistema ético teleológico, que como já sabemos, possui um fim no fundamento da ação, é um agir que busca uma dada consequência. Para Aristóteles toda ação humana visa à felicidade. Ou seja, todas as coisas que fazemos, no decorrer de nossas vidas, todas buscam certa felicidade, por mais que, às vezes, essa felicidade não seja aparente para outras pessoas. A Ética de Aristóteles define então a ação tendo como consequência essa felicidade. A palavra grega para felicidade é Eudaimonia, por isso chamamos sua Ética de eudaimonista. O próprio Aristóteles (2009, p. 31) nos diz: A Eudaimonia é sempre procurada por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, ao passo que a honra, o prazer, a inteligência e todas as areté(s) nós de fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um deles); mas também os escolhemos no interesse da eudaimonia, pensando que a posse deles nos tornará felizes. Esse trecho, retirado da obra Ética a Nicômaco (Nicômaco era o nome de seu pai e de seu filho) de Aristóteles, destaca a essência do seu pensamento ético, que é a ideia de que toda ação humana busca a felicidade, tanto no âmbito privado como no âmbito coletivo. Para elaborarmos um pouco mais a explicação do sistema aristotélico, devemos dizer que essa felicidade em que buscamos em todas as ações possui uma gradação em importância: vai de uma felicidade individual, por exemplo, um pequeno prazer cotidiano, ser feliz tomando um café pela manhã, para uma felicidade social mais complexa, pertencente a uma maior coletividade de pessoas, como por exemplo, a gestão de uma cidade. Essa felicidade maior, felicidade coletiva, Aristóteles chamou-a de um bem da polis. Ou seja, a felicidade como um bem maior na qual todas as ações devem se destinar, ao bem coletivo da cidade. Quais seriam os critérios para agirmos assim? Em vistas de uma felicidade coletiva? Dois conceitos apresentam-se com grande importância para Aristóteles: o hábito e a virtude. Aristóteles é um pensador que dá grande ênfase à contemplação, à experiência empírica, à observação da realidade. Por isso as ações cotidianas e nossa rotina diária são tão importantes em sua Ética. As pequenas ações moldadas por nossos hábitos no dia a dia nos fortalecem para a felicidade em sociedade. Assim, devemos aprimorar nossos hábitos cotidianos através de ações cada vez mais virtuosas: um hábito virtuoso nos conduz a uma vida cada vez mais virtuosa. Diz-nos o próprio Aristóteles: Essa forma de justiça é, portanto, uma virtude completa, porém não em absoluto e sim em relação ao nosso próximo. Por isso, a justiça é muitas vezes considerada a maior das virtudes, e ‘nem Vésper, nem a estrela-d’alva’ são tão admiráveis; e proverbialmente, ‘na justiça estão compreendidas todas as virtudes’. E ela é a virtude completa no pleno sentido do termo, por ser o exercício atual da virtude completa. É completa porque aquele que a possui pode exercer sua virtude não só sobre si mesmo, mas também sobre seu próximo, já que muitos homens são capazes de exercer virtude em seus assuntos privados, 25 porém não em suas relações com os outros. Por isso, é considerado verdadeiro o dito de Bias, ‘que o mando revela o homem’, pois necessariamente quem governa está em relação com outros homens e é um membro da sociedade. [...] "Por isto, ser bom não é um intento fácil, pois em tudo não é um intento fácil determinar o meio - por exemplo, determinar o meio de um círculo não é para qualquer pessoa, mas para os que sabem; da mesma forma, todos podem encolerizar se, pois isto é fácil, ou dar ou gastar dinheiro; mas proceder assim em relação a certa pessoa, até o ponto certo, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa, não é para qualquer um, nem é fácil; portanto, agir bem é raro, louvável e nobilitante. Quem visa o meio termo deve primeiro evitar o extremo mais contrário a ele, de conformidade com a advertência de Calipso: 'Mantém a nau distante desta espuma e turbilhão' (ARISTÓTELES, 2009, p. 39). Em resumo, se criarmos o hábito virtuoso de praticar a mediania no dia a dia, caminharemos para uma felicidade muito mais coletiva que é o bem em sociedade. E o que Aristóteles nos diria acerca da Ética no texto e da tradução? Como alcançar a virtude nessa atividade? Figura 1 – Ágora grega Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Attica_06-13_Athens_50_View_from_Philopappos_-_ Acropolis_Hill.jpg. Acesso em: 28 mar. 2023. De início, devemos ter em mente que Aristóteles tem uma vasta obra sobre o texto escrito e falado nos seus trabalhos de Poética e Retórica, bem como na formação da sua Lógica. Isso porque, na Poética, o filósofo procura apresentar a escrita como para constituinte de seu aspecto criativo, sendo que essa obra apresenta um estudo, até os dias atuais, importantes lições acerca dos gêneros de escrita. Por sua vez, na obra Retórica, ele centraliza suas atenções no discurso, na força das palavras 26 proferidas na Ágora (espaço público das cidades antigas) e no ambiente privado das cidades. Mas como poderíamos relacionar essas ideias com a escrita e tradução em seu aspecto ético? Primeiramente, atenção ao hábito da escrita! Assim como em outras práticas, o hábito cotidiano da escrita e sua perseverança na virtude poderá ampliar nosso entendimento ético da escrita e tradução, que deve buscar sempre a maior virtude que é a mediania do texto. Em segundo lugar, buscar essa tão sonhada mediania na escrita! Nem 8, nem 80, diria Aristóteles. Não podemos pender para a falta, muito menos para o excesso, em se tratando de tradução: a saber, não ser sintético ao extremo, nem mesmo ser prolixo ao exagero. É dessa maneira que podemos vislumbrar uma mediania na escrita. Em terceiro lugar, mas não menos importante, é preciso buscar o bem comum da tradução! Talvez o aspecto que mais aproxima a escrita e tradução das práticas na cidade é a busca do bem comum e sua inserção na comunidade em geral, a saber, uma tradução para a coletividade, a serviço do bem comum. Tabela 4 – Uma tradução ética, aplicando as ideias de Aristóteles Uma tradução Ética, aplicando as ideias de Aristóteles Característica Aplicação O hábito • O hábito da tradução. Da mesma forma, o processo de traduzir se aprimora pelo hábito diário que leva a exce- lência do ato de traduzir. É a prática de uma virtude. A mediania • A mediania na tradução. Assim como nas práticas comuns, a mediania deve ser buscada também, a justa medida no hábito de traduzir. O bem comum • O bem comum da tradução. A tradução deve buscar trabalhar para a coletividade, para a pólis, para um bem comum social. Quando atinge esse patamar, atinge a mais alta virtude Ética. Fonte: o autor Escrever e traduzir para um bem comum, utilizando a virtude da justa medida, esse é o legado da Ética de Aristóteles, que poderíamos aplicar em nosso trabalho de traduzir. Mas o Sistema Ético de Aristóteles não é o único que devemos tomar como parâmetro para a Ética no traduzir. Outros sistemas também nos interessam! Mais de dois milênios após a existência de Aristóteles, dentro daquilo que a história da Europa chama de Império da Prússia, viveu um pensador que mudaria para sempre os rumos da Ética escrevendo em Alemão. Seu nome é Immanuel Kant (1724- 1804), e sua obra mudou e influenciou todo o ecossistema da Ética no mundo da Filosofia por inaugurar toda uma vertente de pensamento ético. 27 Figura 3 – Immanuel Kant Fonte: wikipedia.org. Acesso em: 28 mar. 2023. O contextohistórico da obra de Kant se dá dentro do período iluminista, onde a crença na razão, no conhecimento científico, nas ideias de liberdade, advindas da Independência dos Estados Unidos da América, bem como da Revolução Francesa estavam em voga. A Europa vivia o frenesi iluminista, e Kant desenvolveu uma Ética pautada nesses princípios, pautado nos ideais de razão, conhecimento e liberdade. Vamos nos debruçar na Ética de Kant? A primeira coisa que devemos saber do Sistema Ético de Kant é que ele é deontológico, ou seja, toda ação não busca uma consequência, mas um fim em si mesma. Em Kant, então, não agimos buscando a felicidade, o bem, o justo, mas a própria ação é boa, justa, pressupondo a felicidade. Aliás, Kant é o grande nome de peso em se tratar da Ética Deontológica, tendo sua obra influenciado muito a concepção dos Estados Democráticos e Direito que viriam a existir, não somente na Europa, mas nas américas também. ATENÇÃO 28 Importante ressaltar a ideia que Kant traz na sua obra “O que é o Iluminismo”, ideia que busca descrever aquilo que o autor chama de saída da minoridade para uma espécie de maioridade de pensamento ético. Essa saída da minoridade se dá exatamente pelo movimento Iluminista do esclarecimento. A minoridade e maioridade são exatamente alusões ao estágio de formação de uma pessoa, uma espécie de chegada a forma madura. Daí o lema que ele eternizou: ouse saber (sapere aude)! Sair da minoridade era, para Kant, compreender a essência racional e iluminista da natureza humana, e trazê-la para o ambiente da Ética. Para ele há algo em nossa natureza que independe das relações de causalidade, independe de sermos felizes ou não, independe de qualquer fator externo, e o que há, realmente, em nossa natureza em si é a razão. E é através da razão que consolidamos nossa forma de pensar o ético, nossa forma de estruturar nossas ações, mas antes de tudo, estruturarmos nosso entendimento acerca das coisas. Por isso, Kant fundamenta todo seu Sistema Ético na ideia de racionalidade, na ideia de uma razão que é a essência de todos os seres humanos: descobrir isso é o primeiro passo para sairmos da minoridade. É a razão e esse aprofundamento que nos leva da minoridade à maioridade. Tabela 5 – Saída da minoridade para Kant Saída da minoridade para Kant Estado de conhecimen- to Aplicação Minoridade • É o estado pré-iluminista, em que ainda não utili- zamos nossa razão adequadamente, inclusive no plano ético. Devemos sair desse estado através da utilização da nossa razão, inclusive no espaço público. Maioridade • É o estágio do progresso do esclarecimento, onde utilizamos nossa razão no espaço público e saímos da minoridade. Segundo Kant, ainda não teríamos chegado a esse estágio. Fonte: o autor A ideia central do Sistema Ético de Kant, utilizando essa saída da minoridade através da razão, se dá pelo agir através do que ele chamou de Imperativo Categórico: Pois, visto que, além da lei, o imperativo contém apenas a necessidade da máxima de ser conforme a essa lei, mas a lei não contém qualquer condição à qual estaria restrita, então nada resta senão a universalidade de uma lei em geral à qual a máxima da ação deva ser conforme, conformidade esta que é a única coisa que o imperativo propriamente representa como necessária. Portanto, o imperativo categórico é um único apenas e, na verdade, este: age apenas segundo a máxima pela qual possa ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal (KANT, 2011, p. 34). 29 Literalmente falando, um imperativo como forma textual é simplesmente um comando que deve ser feito, algo que deve ser seguido, colocado em prática, algo que deve ser feito quando devemos decidir como agir: é imperativo fazer de tal forma, é categórico tomar essa decisão! O Imperativo Categórico de Kant é resumido assim: “age apenas segundo a máxima pela qual possa ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” (KANT, 2011, p. 49). É a fórmula que Kant nos apresenta para termos um guia em nossas ações, um guia fundamentado em nossa liberdade e atividade racional. Vejamos de forma analítica: Tabela 6 – O imperativo categórico de Kant O imperativo categórico de Kant Partes O que significa “age apenas segundo a máxima” • Agir segundo uma máxima é agir segundo um manda- mento, por exemplo, fazer o bem, ser responsável, não agredir, etc. Esses possíveis mandamentos devem ser submetidos ao crivo da razão. “pela qual possa ao mesmo tempo querer” • Essa máxima deve passar também pelo querer já enri- quecido pela razão, ou seja, o caminho da ação própria para uma que possa ser feita por todos passa por essa boa vontade. “que ela se torne uma lei universal” • Aqui é a ideia mais central, a ideia de universalidade das ações, ou seja, uma ação que pode ser praticada por um é uma ação que pode ser praticada por todos, a saber, uma lei universal. Fonte: o autor Imaginemos, por exemplo, um estudante de Ensino Médio, que ao se deparar com o conteúdo a estudar para a prova de matemática, desespera-se ao saber que não conseguirá estudar tudo, e por consequência tirará uma péssima nota, possivelmente reprovar de ano: colar ou não colar na prova? Podemos ter até uma espécie de consciência intuitiva de que colar na prova é algo errado, porém, Kant nos apresenta um dever em não colar, pois se seguirmos o Imperativo Categórico por ele enumerado: podemos imaginar a máxima “colar na prova” sendo colocada como lei universal “todas as pessoas podem colar na prova”. Existiria a garantia de um mundo habitável se todas as pessoas colassem na prova? Poderíamos confiar num médico, enfermeiro, engenheiro, professor, se todos eles tivessem colado na prova? Obviamente que não, por isso, segundo o Imperativo Categórico de Kant não podemos colar na prova. 30 Daí o brilhantismo da obra de Kant, pois quando passamos de um questionamento individual (o estudante que cola ou não) para o universo de todas as pessoas, é aí que observamos se uma ação é ou não permitida. E acerca do ato de traduzir? O que poderíamos indagar utilizando o Sistema Ético de Kant? O ato de traduzir poderia ser objeto do crivo do Imperativo Categórico? Realmente sim! Comecemos pelo simples ato de escrever. A pergunta “posso escrever ou traduzir desta forma?” deve ser formulada. O ato de escrever é uma prática, e como toda prática, está submissa ao crivo do Imperativo Categórico. Assim, tudo o que escrevo ou traduzo deve ser algo que qualquer ser humano poderia escrever. Não em sua complexidade da escrita, mas em sua capacidade de fazer ou não o bem ou mal. Outra pergunta a ser formulada: “posso falar de tal coisa ou assunto?” Os assuntos tratados e traduzidos também devem ser submetidos ao crivo do Imperativo Categórico. Um exemplo: “posso em meu texto induzir as pessoas a fazer algum mal?” Obviamente, utilizando o Imperativo Categórico, observamos que tal prática é inviável. E a questão do plágio? Sem sombra de dúvidas, o plágio nunca poderia passar pelo crivo do Imperativo Categórico, pois copiar a produção intelectual de outras pessoas, sem dar o devido crédito, seria sim algo impossível de ser universalizado, comprometendo a convivência humana, se fosse praticado por todos. Outra questão essencial de quem traduz coloca-se: “posso traduzir de tal forma?” A atividade de traduzir, a nós tão cara, também deve ser direcionada pela Ética estruturada por Kant. Por isso, ao traduzir uma frase, uma palavra sequer, devemos pensar se tal trecho seria universalmente aceito e possível, por mais que seja uma escolha prática nada comum. Mais do que um fardo, os Sistemas Éticos, e no caso aqui o de Kant, nos orientam a fazer escolhas no ato de traduzir, pensando na responsabilidade, respeito e justiça, entre outras virtudes universalmente aceitas. Uma última questão, que pode exemplificar o processo criativo da tradução, que por muitas vezes apela muito mais pelo lado criativo do que técnico, pensa o criar, recriar, remodelarfrases e palavras. O Sistema Ético de Kant nos ajuda em tal desafio, se utilizarmos o Imperativo Categórico de maneira crítica em dados processos. Kant trouxe um importante mecanismo ético em sua estrutura filosófica que nos faz pensar que cada ação individual deve contar para todos, ou seja, ser universalizada. Outro Sistema Ético de grande importância, que gostaríamos aqui também de enfatizar é o sistema Utilitarista. A Ética de Aristóteles fundamentou-se na Teleologia, a de Kant na Deontologia. O Utilitarismo também se apresenta teleológico. E o que é aquilo que toda ação deve buscar a partir desse Sistema Ético? 31 Aquilo que é mais útil, daí utilitarismo. Vamos observar mais de perto esse sistema. Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) são os dois pensadores articuladores do Utilitarismo: Bentham em sua fase mais incipiente, Mill em sua fase mais madura. Ambos pensadores britânicos, Bentham pensou o útil conectado com a ideia de prazer, já Mill aprofundou a ideia do útil como aquele melhor para a coletividade, resgatando um pouco de Aristóteles. Figura 4 – Stuart Mill Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Stuart_Mill#/media/Ficheiro:John_Stuart_Mill_by_London_Stere- oscopic_Company,_c1870.jpg. Acesso em: 28 mar. 2023. Bentham pregava que agíamos sempre conectados com uma ideia de prazer imediato que designava uma espécie de bem, por isso galgam uma Ética Utilitarista. John Stuart Mill aprimorou as ideias de Bentham, trazendo aquilo que se consolidou como a Ética Utilitarista consolidada Moderna. Mill descreve o utilitarismo não somente uma busca pelo bom ou prazeroso, mas sim na busca daquilo que ele chamaria de “princípio da maior felicidade”. Vejamos: A utilidade ou o princípio da maior felicidade como a fundação da moral sustenta que as ações são corretas na medida em que tendem a promover a felicidade e erradas conforme tendam a produzir o contrário da felicidade. Por felicidade se entende prazer e ausência de dor; por infelicidade, dor e privação de prazer [...] o prazer e a imunidade à dor são as únicas coisas desejáveis como fins, e que todas as coisas desejáveis [...] são desejáveis quer pelo prazer inerente a elas mesmas, quer como meios para alcançar o prazer e evitar a dor (MILL, 2000, p. 187). 32 Então temos o princípio da maior felicidade: assim como Aristóteles e Kant, os utilitaristas também estabelecem um princípio para guiar nossas ações, no sentido de que todas as ações boas são aquelas que produzem uma maior felicidade para um maior número de pessoas. Importante ressaltar aqui a conexão que Mill tenta fazer com o processo geral da Democracia que começa a se estabelecer no Reino Unido do século XIX, sistema que visa também à felicidade para um maior número de pessoas. Como ficariam os processos de tradução a partir do viés utilitarista? Tabela 7 – O princípio de maior felicidade O princípio de maior felicidade Partes O que significa Maior felicidade • É a ideia de que as pessoas agem buscando o que é mais útil e bom, elas sempre irão buscar sua felicidade acima de todas as coisas. Para um maior número de pessoas • Mas há uma ideia forte em Mill de que a maior feli- cidade é aquela que chega a um maior número de pessoas, a maior felicidade se dá no âmbito de um coletivo maior, e é nisso que devemos pensar sem- pre ao agirmos. Fonte: o autor Quando escrevemos devemos então pensar de forma a maximizar nossa escrita buscando a máxima felicidade do maior número de pessoas possíveis, no caso, nossos leitores. Da mesma forma o traduzir, a saber, uma tradução visando a um coletivo que pode ser buscado por algo bom para o maior número possível de leitores. Figura 5 – Estados democráticos de direito Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia#/media/Ficheiro:Obama_Health_Care_Speech_to_Joint_ Session_of_Congress.jpg. Acesso em: 23 mar. 2023. 33 Mill esboça o que seria o Utilitarismo, e o mesmo vem se desenvolvendo por todo o século XX e XXI, em especial, nos países de língua inglesa, onde essas ideias são muito desenvolvidas pelas respectivas comunidades acadêmicas. Observamos, particularmente, nos Estados Unidos da América um pensamento Utilitarista se aliando à ideia de Pragmatismo, dizendo que o mais útil para uma comunidade se conecta com aquilo que chamamos de saber na prática, que é a ideia geral do sistema Pragmatista: pragma é a palavra para coisa ou objeto; por isso pensamento que leva a prática em conta. Tendo em vista as considerações tecidas sobre a Ética até agora, qual sistema, você, caro aluno, acredita ser o mais indicado para tomarmos um rumo no processo de tradução? Aristóteles, Kant ou Mill? 34 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • A compreensão do que são Sistemas Éticos, e suas aplicações pelas vertentes deontológicas e teleológicas no ambiente da tradução. • Análise da aplicação dos Sistemas Éticos, e como eles se relacionam com a construção do texto e tradução. • A observação dos Sistemas Éticos de Aristóteles, Kant e utilitaristas, e suas possibilidades de pensar a Ética também dentro da tradução. 35 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: '“Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhe parece um bem; se todas as comunidades visam algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras tem mais que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens”. Fonte: ARISTÓTELES Política. Brasília: UnB,1988. A Ética de Aristóteles estuda as ações Teleológicas. Acerca da teleologia, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A teleologia traduz a ação a partir da sua consequência. b) ( ) A teleologia traduz a ação a partir do seu estado em si. c) ( ) A teleologia é o não pensar ao agir. d) ( ) A teleologia é a marca da ação infeliz. 2 Leia o trecho a seguir: “Vimos que o homem sem lei é injusto e o respeitador da lei é justo; evidentemente todos os atos legítimos são, em certo sentido, atos justos, porque os atos prescritos pela arte do legislador são legítimos e cada um deles é justo. Ora, nas disposições que tomam sobre todos os assuntos, as leis têm em mira a vantagem comum, quer de todos, quer dos melhores ou daqueles que detêm o poder ou algo desse gênero; de modo que, em certo sentido, chamamos justos aqueles atos que tendem a produzir e a preservar, para a sociedade política, a felicidade e os elementos que a compõem”. Fonte: ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010 (adaptado). Acerca da Ética de Aristóteles e o ato de traduzir assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Toda tradução deve buscar a solidariedade. b) ( ) Toda tradução deve buscar a clareza. c) ( ) Toda tradução deve buscar o bem comum. d) ( ) Toda tradução deve ser boa em si. RESUMO DO TÓPICO 2 36 3 Leia o trecho a seguir: “[...] se a razão só por si não determina suficientemente à vontade, se está ainda sujeita a condições subjetivas (a certos móbiles) que não coincidem sempre com as objetivas; numa palavra, se a vontade não é em si plenamente conforme à razão (como acontece realmente entre os homens), então as ações, que objetivamente são reconhecidas como necessárias, são subjetivamente contingentes, e a determinação de uma tal vontade, conforme a leis objetivas, é obrigação. Fonte: KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Abril Cultural e Industrial S. A., 1974. (Coleção Os Pensadores, Vol. XXV). Acerca da Ética de Kant e o ato de traduzir assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Toda tradução deve buscar a felicidade b) ( ) Toda tradução deve ser boa em si. c) ( ) Toda tradução deve buscar a utilidade. d) ( ) Toda tradução deve buscar o bem na pólis. 4 Leia o trecho a seguir: “O Esclarecimento é a libertação do homem de sua imaturidade autoimposta. Imaturidade é aincapacidade de empregar seu próprio entendimento sem a orientação de outro. Tal tutela é autoimposta quando sua causa não reside em falta de razão, mas de determinação e coragem para usá-lo sem a direção de outro. Sapere Aude [ousa saber]! Tenha coragem de usar sua própria mente! Este é o lema do Esclarecimento. [...] Para este esclarecimento, porém, nada mais se exige senão liberdade [...] de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. Ouço, agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocinai! O oficial diz: não raciocinai, mas exercitai-vos! O financista: não raciocinai, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocinai, mas crede! [...] Uma época não pode se aliar e conjurar para colocar a seguinte em um estado que impossibilite a ampliação de seus conhecimentos [...]. Configurar-se-ia, assim, um crime contra a natureza humana” Fonte: KANT, I. Resposta à questão: o que é esclarecimento? Tradução de Márcio Pugliesi. Disponível em: Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ cognitiofilosofia/articl e/download/11661/8392. Acesso em: 29 mar. 2023. Acerca da Ética de Kant e a tradução, explique como podemos utilizar o Imperativo Categórico para pautar nosso traduzir. 37 5 Leia o trecho a seguir: Texto 1: “Por princípio da utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou a diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse está em jogo, ou, o que é a mesma coisa em outros termos, segundo a tendência de promover ou comprometer a referida felicidade. Digo qualquer ação, com o que tenciono dizer que isto vale não somente para qualquer ação de um indivíduo particular, mas também de qualquer ato ou medida de governo. [...] A comunidade constitui um corpo fictício, composto de pessoas individuais que se consideram como constituindo os seus membros. Qual é, nesse caso, o interesse da comunidade? A soma dos interesses dos diversos membros que integram a referida comunidade”. Fonte: BENTHAM, J. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 10). Texto 2: “Para compreendermos o valor que Mill atribui à democracia, é necessário observar com mais atenção a sua concepção de sociedade e indivíduo [...]. O governo democrático é melhor porque nele encontramos as condições que favorecem o desenvolvimento das capacidades de cada cidadão”. Fonte: WEFFORT, F. (org.). Os clássicos da política 2. 3 ed. São Paulo: Ática, 1991. p. 197-98). Acerca da Ética Utilitarista e a tradução, explique como podemos utilizar o princípio de maior felicidade para pautar nosso traduzir. 38 39 TÓPICO 3 - A PRÁTICA DA ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL 1 INTRODUÇÃO Até o momento descrevemos uma breve introdução da Ética relacionada à tradução, algumas questões que afetam o ambiente técnico e criativo do traduzir, relacionado a uma também breve introdução do sentido da Ética. Desde os mais remotos pensadores a questão da Ética está dada na Filosofia, e o que fizemos aqui foi um exercício de tentar aproximar as grandes questões da Ética para o universo da tradução. Muitos apontamentos e questionamentos podemos fazer nessa aproximação. Falamos também de alguns Sistemas Éticos e sugerimos como eles podem lidar com situações ligadas à tradução, algumas até com desenvolvimento complexo, pois devemos lembrar que algumas traduções alcançam um vasto público, e devemos lapidar aquilo que é traduzido e escrito. Nesta parte da unidade, nós falaremos como a escrita (e claro, a tradução como um tipo de escrita) se desenvolve também como uma potência Ética. Potência no sentido de que a tradução é uma atividade criativa, e assim uma atividade Poética. Mas o poético se relaciona necessariamente com o ético? Para alguns autores vistos até agora sim, ou seja, para alguns a Ética anda lado a lado com o poético sem sobreposição, mas para outros a história nem sempre é assim. Agora que apresentamos alguns Sistemas Éticos e formulamos algumas questões iniciais desses sistemas, cabe a apresentação de elementos essenciais do processo de tradução como escrita de um real, tradução de uma realidade, e claro, a relação que a Ética tem com esse real e criativo poético. Trata-se de explorar perspectivas relevantes da análise da linguagem e criatividade humana e seu lugar nos Sistemas Éticos: a Poética como arte da escrita em conexão com a Ética através da realidade que as circundam. Nesse sentido, cabe apontarmos alguns autores que trazem a questão da tradução, mesmo que não explicitamente, para o universo da Poética. Estariam esses dois universos relacionados? Vamos a mais uma fase desse estudo! UNIDADE 1 40 2 A ESCRITA E A RELAÇÃO ÉTICA COM O REAL Vamos falar um pouco da história dessa área do conhecimento que trata da escrita, da tradução, e de toda a atividade criativa humana de forma geral, vamos falar da Poética. A palavra Poética é também de origem grega, e descreve essa potência criativa não somente da Poesia, mas também descreve as atividades criativas que lidam com a beleza de forma em geral. Aliás, tanto Poética como Poesia derivam do verbo grego poíesis: então o sentido originário de Poética paira na palavra poíesis, que indica a atividade de “criar e fazer”. Trata-se de uma palavra que evoca a ideia de prática e criatividade, ou seja, é a criação. Esse criar e fazer acabou se associando às atividades artísticas, e entre elas a escrita e tradução. Dentro da esfera do Pensamento Ocidental, assim como a Ética, a Poética se desenvolveu em grandes sistemas filosóficos, determinando a forma de agir e pensar nas mais variadas épocas da História. Observemos a seguir um resumo da Poética dentro da produção conceitual da Grécia antiga, essencial para entendermos a Poética em comunhão com a tradução: A doutrina da arte era chamada pelos antigos com o nome de seu próprio objeto, Poética, ou seja, arte produtiva, produtiva de imagens (PLATÃO, Sof., 265 a; ARISTÓTELES, Ret., 1,11,1371 b 7), enquanto o belo (não incluído no número dos objetos produzíveis) não se incluía na Poética e era considerado à parte (v. BELO). Assim, para Platão, o belo é a manifestação evidente das Ideias (isto é, dos valores), sendo, por isso, a via de acesso mais fácil e óbvia a tais valores (Fed., 250 e), ao passo que a arte é a imitação das coisas sensíveis ou dos acontecimentos que se desenrolam no mundo sensível, constituindo, antes, a recusa de ultrapassar a aparência sensível em direção à realidade e aos valores (Rep., X, 598 c). Para Aristóteles, o belo consiste na ordem, na simetria e numa grandeza que se preste a ser facilmente abarcada pela visão em seu conjunto (Poet., 7, 1450 b 35 ss.; Met., XIII, 3, 1078 b 1), ao mesmo tempo que retoma e adota a teoria da arte como imitação, apesar de, com a noção de catarse, retirá-la daquela espécie de confinamento à esfera sensível a que fora condenada por Platão (ABBAGNANO, 2007, p. 387). Platão e Aristóteles nos dão as possíveis primeiras chaves de interpretação da Poética como “A doutrina da arte era que era chamada pelos antigos com o nome de seu próprio objeto, Poética, ou seja, arte produtiva, produtiva de imagens” (ABBAGNANO, 2007, p. 387), ou seja, a atividade criadora do belo, independente se ele estava na realidade ou nas ideias, formas que rivalizam as teorias platônicas e aristotélicas através da História. 41 Importante ressaltarmos o trecho: “retoma e adota a teoria da arte como imitação”, bem como, “a noção de catarse, retirá-la daquela espécie de confi namento à esfera sensível a que fora condenada por Platão” (ABBAGNANO, 2007, p. 387). Duas ideias essenciais aqui! A arte como imitação, defendida por Aristóteles, nos coloca frente a frente com o processo de tradução e suas implicações éticas. O profi ssional tradutor possui essas duas frentes de atuação, no sentido que imita um texto já pronto, em outra língua, mas que também cria o mesmo só que em uma novalíngua. Cabe também ao tradutor e tradutora buscar essa catarse textual que provavelmente a obra original, antes da tradução, demonstrava. Eugene A. Nida (1914-2011), tradutor da Bíblia e teórico da tradução nos diz muito sobre isso na obra “Nida, Eugene A. Contexts in Translating. Amsterdam and Philadelphia" (2001), onde ele aborda a importância do contexto na tradução. Nida (2001) argumenta que, para produzir uma tradução efi caz, é preciso levar em consideração não apenas as palavras individuais de um texto, mas também o contexto em que essas palavras são usadas. Veremos nas próximas páginas que essa é uma das linhas tênues da tradução em sua dimensão ética: preservar o brilho original da obra ou criar um novo brilho ao traduzir, daí a linha arriscada que dialoga com o ético e não ético dentro de uma tradução. Por isso a dimensão poético-ética é tão relevante de estudarmos dentro da tradução. Mas essas questões não se esgotaram na Grécia Antiga. A Poética é uma força criativa que busca essa beleza textual, refi nando a beleza da linguagem, produzindo essa arte da escrita que tanto nos atrai e fascina. A tradução também é uma Poética, pelo fato de lidar também com a criatividade da linguagem. Aristóteles já havia associado a Poética com a força criativa da arte, de forma mais direta, relacionada à Poesia Épica, parte constituinte da cultura grega. Notavelmente Aristóteles estabeleceu o embate da Poética como um agente de criação ou somente uma cópia malfeita da realidade. A História da Filosofi a, assim, produziu grandes autores que aferiram à Poética essa esfera da arte produtora de criatividade e beleza, no âmbito também da linguagem. ATENÇÃO 42 Viajando dois milênios à frente, no período que chamamos de Romantismo Alemão, por volta dos séculos XVII a XIX, observamos uma verdadeira revolução no pensamento da Poética e sua relação com a Ética. Período rico no resgate da poesia, tradução e pensamento sobre a linguagem, o Romantismo alemão também enriqueceu o debate ético por colocar exatamente a tradução como uma das principais atividades poéticas. Desenvolve-se no Romantismo alemão uma poética conectada com o historicismo e com uma espécie de progresso da cultura humana, e assim, a atividade criativa humana, como a tradução, sendo vista como um avanço civilizatório da humanidade: história, progresso, civilização, são adjetivos do pensamento romântico da época. Vejamos um resumo da época: A tradição do cuidado com os textos remonta ao século XVI, e a tradução que Martin Lutero realizou da Bíblia no ano de 1530. Desde então, gerações de estudiosos praticaram o que pode ser considerado a pré-história da filologia e da hermenêutica modernas. O movimento que vai de Lutero até a época dos românticos é essencial não apenas para as teorias da tradução, a filologia, mas ao desenvolvimento da língua e da literatura alemã (MILTON 1998: 61). Os jovens do primeiro romantismo alemão, foram precedidos por estudiosos que deram novos limites qualitativos ao ato de traduzir. Já nas décadas de 1760 e 1770, Ephraim Gotthold Lessing ou Johann Gottfried Herder teorizaram sobre a tradução, embora Herder (1985: 205) não tenha se mostrado muito otimista sobre a tradução dos antigos em alemão, como afirma em sua coleção de textos intitulada Über die neuere deutsche Literatur, [Sobre a mais recente literatura alemã], publicada no ano de 1767 (MEDEIROS, 2017, p. 170). Devemos ressaltar primeiramente uma questão muito cara à História da Tradução e sua dimensão Ética, a saber, a obra de tradução de Martin Lutero (1483- 1546), pois observamos a tradição do cuidado com os textos remonta ao século XVI, e a tradução que Martinho Lutero realizou da Bíblia no ano de 1530 é algo de grande importância, dando origem a essa busca por uma essência da tradução que se realiza no Romantismo alemão, como nos aponta Furlan (2004, p. 21): “A grande diferença com respeito aos seus antecessores e o revolucionário do pensamento do Reformador é a abordagem de tipo comunicativo e suas implicações linguísticas”, e mais ainda: “Lutero advoga por uma tradução retórica e de estilo popular, não com fins estéticos mas comunicativos – a compreensibilidade do texto e o leitor –, salvaguardando sempre a mensagem divina”. Várias questões éticas se dão aqui, nessa poética da tradução de Lutero, que inclusive abordaremos em unidades futuras, mas cabe aqui descrever traços que irão influenciar o debate ético e poético no Romantismo alemão, a saber, abraçar uma tradução feita para um amplo público, comunicar para uma grande audiência, e a ideia de um interlocutor (leitor) que estará do outro lado lendo a obra de tradução. 43 Figura 6 – Martin Lutero Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martinho_Lutero#/media/Ficheiro:Lucas_Cranach_d.%C3%84. Acesso em: 28 mar. 2023. Nesse sentido, surge outra ideia muito importante, dentro desse Romantismo alemão: de que a Ética é uma evolução natural da Poética. Talvez o mais conhecido pensador da Ética e Poética desse período tenha sido Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), que muito acrescentou para o debate da Ética, definindo até o solo dela como uma progressão da Poética: Por um lado, está o solo ético, simbolizando a neutralidade Ética que teme a cisão das potências Éticas; o coro é o público não como mera reflexão exterior sobre os eventos, mas como e expressão da reconciliação, ou seja, é a marca essencial do sensível. Por outro lado, estão as forças colidentes, como potências Éticas que emergem deste solo; a ação traz inquietação ao repouso ético, embora traga por fim, fortificado, o equilíbrio originário (WERLE, 2011, p. 247). Hegel é um pensador idealista que observa a História humana como uma linha de desenvolvimento progressivo. Nesse sentido, a Ética que ele desenvolveu no século XIX é uma evolução e progressão dialética de todas as éticas que antes o sucederam. Dois temas são relevantes, então: a história e o progresso. 44 É na história que observamos o desenvolvimento e aprimoramento da intuição criativa da humanidade, descrevendo assim uma espécie de progresso da escrita, e por que não, da tradução, já que a Poética e a Ética estão sujeitas a essa mesma lei histórica, pois como diz Hegel: “O espírito avançou da forma da substância à forma de sujeito através da arte [...] No espírito, que é totalmente certo de si na singularidade da consciência, toda essencialidade soçobrou” (HEGEL, 2011, p. 502). Figura 8 – Hegel Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel#/media/Ficheiro:Hegel_portrait_by_ Schlesinger_1831.jpg. Acesso em: 29 mar. 2023. Hegel nos traz a proposição de que a Ética já é Poética, pois a evolução da nossa consciência através da história dialeticamente construiu uma Ética como consequência de uma Poética, como se antes do aprender a andar da Ética, tivemos o engatinhar da Poética. E assim a humanidade foi aprendendo a se desenvolver. De forma condensada, podemos dizer que as seguintes ideias se impõem nos pensadores e ideólogos do Romantismo alemão: história como progresso; tradução como uma das maiores amplitudes da cultura humana literária; um pensamento da Ética como progresso da Poética. Vejamos essas ideias de forma analítica: 45 Tabela 8 – A ética da tradução é a poética da tradução A ética da tradução é a poética da tradução Partes O que significa História como progresso. • A História se desenvolve num processo de contra- dições em que a Cultura humana se aprimora passo a passo. Por isso, estudar a História é estudar esse progresso. Segundo essas ideias, primeiro se desen- volveram os sistemas Poéticos, depois surgiram os Éticos. Tradução como uma das maiores amplitudes da cultura humana literária. • A capacidade de transcodificar esses progressos em várias línguas, resgatando inclusive as linguagens antigas, isso exemplifica nosso progresso como civilização. Fonte: o autor Observando a dinâmica das proposições dadas tantopelos autores do Romantismo alemão, como por essa breve exposição dos Sistemas Éticos, devemos meditar sobre duas coisas: a prática da escrita e a relação Ética com o real, a saber, aquilo que expressa de fato uma tradução, que é a realidade que buscamos aqui. Todos esses grandes autores apresentam uma concepção Ética que tenta abarcar nossas práticas diárias, assim, nossas almejadas práticas diárias do ato de traduzir. Sendo a tradução uma prática, ela se insere no contexto civilizatório, histórico e cultural que a humanidade tanto persegue. A prática da tradução em sua perspectiva histórica, como brevemente observamos aqui, não pode deixar de lado o estudo da própria linearidade dos acontecimentos, das mudanças impostas pelos acontecimentos. Das tensões políticas e sociais que uma tradução pode acarretar, observaremos de perto, futuramente, como uma divergência de tradução ajudou na separação da Igreja, o chamado cisma do Oriente. Divergências de tradução do original da bíblia foi uma das questões da cizânia. Ou seja, o ato de traduzir não está alheio ao desenvolvimento e desenrolar da história. As mudanças culturais também avançam pela prática da escrita, e influenciam o território da tradução. Por isso a necessidade de se pensar a tradução dentro de um Sistema formal e organizado de estudo sobre a Ética. Em suma, as conquistas civilizatórias na busca de igualdade de direitos, na prática da não violência, inclusive verbal e discriminatória, a noção de pluralidade e alteridade, esses avanços civilizatórios não podem estar fora do ato de traduzir. 46 Daí a tão buscada relação Ética com o real, pois a Ética não deve também desprezar os acontecimentos da História humana, mas disso tudo trazer princípios que sejam universais, independente do momento histórico que vivemos. A História pode ser uma amostra de nossa sociedade, mas a Ética deve ser a guia. De igual maneira as mudanças culturais que se desenvolvem em nossa sociedade devem ser assimiladas, estudadas, diagnosticadas, mas por outro lado, em termos éticos, não podemos caminhar para onde o vento da cultura somente aponta, devemos rumar a partir de categorias bem definidas do agir, categorias bem traçadas no agir e sua escrita. Como nos diz a autora Susan Bassnett (2003, p. 9), descrevendo sobre o modo de que é vista a tradução no cenário mundial, trata do crédito destinado ao tradutor: A tradução não é somente a transferência de textos de uma língua para outra – ela é hoje corretamente vista como um processo de negociação entre textos e entre culturas, um processo em que ocorrem todos os tipos de transações mediadas pela figura do tradutor. A Ética deve andar de mãos dadas junto ao avanço civilizatório, perdendo sequer um palmo da dignidade, respeito e responsabilidade e os avanços como civilização nos últimos séculos. Isso não pode se perder na tradução. Tais fatores são aqueles que podemos eleger acerca da Ética e o desenvolvimento civilizatório da prática da escrita e tradução. É assim que observamos a Ética cada vez mais conectada com o real, e assim, nossas práticas de escrita e tradução cada vez mais alinhadas com a realidade do avanço da humanidade, avanço civilizatório na própria realidade factual que vivemos. 3 O TEXTO E O COMPROMISSO COM A VERDADE A trazer todos esses Sistemas Éticos, todas essas teorias que versam sobre a tradução, de forma direta ou indireta, o que na verdade buscamos é que nosso texto demonstre, como tradutores, uma espécie de verdade, ao menos que nosso texto revele uma espécie de compromisso com o que é verdadeiro, e isso se conecta com aquilo que também é buscado pela Ética, a saber, a verdade. Como nos diz Marilena Chauí (2000, p. 45), acerca do significado da verdade na Filosofia: Aletheia, palavra grega, que significa o não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão. Assim, a verdade é uma qualidade das próprias coisas e o verdadeiro está nas próprias coisas. Conhecer é ver e dizer a verdade que está na própria realidade e, portanto, a verdade depende de que a realidade se manifeste. 47 Uma verdade e compromisso com o texto traduzido é algo que podemos pleitear ao utilizarmos de maneira crítica o pensamento ético acerca do texto, estaremos assim buscando e retratando uma verdade, uma aletheia. Uma das grandes questões que devemos lançar, é se a verdade de um texto deve se alinhar muito mais com a Ética ou com a Poética? Aquilo que os teóricos da Ética em comunhão com a tradução buscam é em essência o maior compromisso possível com aquilo que é verdadeiro, buscam a verdade no agir e no texto. Buscam expressar aquilo que necessariamente é, seja em sua forma textual, seja em sua forma real. É disso que se trata o compromisso com a verdade, a saber, traduzir e no processo de tradução correr em igual caminho em termos éticos. E onde está a verdade da tradução? Podemos desvendar onde está a verdade Ética da tradução? Nosso curso aqui não se trata de um pensamento sobre os gêneros da escrita, mas pensemos as relações Éticas acerca das diferentes tipologias textuais. Traduzir, por exemplo, um texto ficcional, onde a criação de ideias e situações, a criação da narrativa, é o combustível e razão de ser do texto. Podemos traduzir um texto desse com Ética ou Poética? Ou ambas? O compromisso com a verdade deve estar enraizado no compromisso com o criativo ou com o correto? Ou o criativo é o correto? É possível conciliar as duas perspectivas? Num texto ficcional, ou mesmo na poesia, o aspecto criativo e de captura daquilo que o autor original queria dizer aponta para uma bagagem de ferramentas muito mais estéticas, mas mesmo assim, não podemos faltar com uma certa “verdade” que o autor ou poeta trazia em seu texto. Daí o esforço de compreender a história do autor, sua cultura, seu mecanismo de contato com a arte. Ao traduzirmos uma biografia, a coisa muda um pouco de aspecto, pois estamos lidando com termos e frases que devem buscar se conectar ao máximo com a realidade do original. Assim, o criativo deve abrir espaço para o máximo rigor dos termos, e máximo rigor ético. Um relato real, uma fala ou discurso proferido por alguém mais ainda deve ser lapidado com a máxima realidade e compromisso ético possível para a tradução corresponder com o que de fato se disse ou diz. Esse seria um breve resumo de como podemos pensar a conexão com a realidade dos textos ao traduzir, e como a Ética nos abre esse horizonte de compromisso com a verdade. Vejamos agora alguns sistemas filosóficos e éticos que parte do pressuposto estético e criativo como essenciais para fornecer uma Ética. Trata-se do primado da Poética sobre a Ética. Como resposta crítica ao Romantismo alemão e idealismo de Hegel na Poética e Ética, surgem as ideias de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Nietzsche foi um pensador pós-romântico que descreveu a Poética de uma nova maneira, subvertendo as ideias 48 presentes até Hegel, de que a Ética é uma evolução da arte Poética, pelo contrário, para Nietzsche a Poética é a suprema Ética, é aquilo que realmente movimenta a atividade criativa humana, e somente à Poética devemos nos submeter. Inicialmente trabalhando com Filologia, Nietzsche embarcou numa viagem até a Grécia Antiga, trabalhando e estudando os primeiros pensadores pré- socráticos, onde para ele a Filosofia atingiu seu auge e depois começou a decair. Como professor de Filologia embarcou na atividade da tradução, traduzindo muitos fragmentos dos pensadores antigos. Dominava o grego e assim procedeu nos seus primeiros anos como intelectual. Figura 9 – Nietzsche Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche#/media/Ficheiro:Nietzsche187a.jpg. Acesso em: 29 mar. 2023. Ao traduzir os primeiros pensadores, e aqui devemos ressaltar o papel da tradução nomontante da obra de Nietzsche, o traduzir para ele foi essencial nessa reviravolta de subverter a Poética como grande agente da Ética. Isso de seu exatamente no processo de tradução do grego antigo, quando Nietsche se deparou com uma forma criativa vital que ele estudaria por toda sua vida: a força do trágico, a força da tragédia. Em sua obra de início intelectual, O nascimento da tragédia no espírito da música, Nietzsche já dava pistas daquilo que defenderia em obras mais maduras que é a ideia do trágico como força de superação humana. Nietzsche nos explica: 49 O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isto chamei dionisíaco, isto entendi como a ponte para a psicologia do poeta trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, não para purificar-se de um perigoso afeto mediante uma veemente descarga – assim como entendeu Aristóteles –, mas para, além do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir a ser – esse prazer que traz em si também o prazer no destruir... (NIETZSCHE, 1992, p. 67). A força da tragédia é também uma força literária de superação ética. É o dizer sim à vida, nas palavras de Nietzsche, vontade de vida, inspirado no deus grego da tragicidade, Dioniso. Essa é a essência do trágico, sobreviver ao drama, trazer para si essa vontade de vida que está presente, principalmente na arte. Essa nova Ética que Nietzsche propõe, podemos interpretar como colocar o princípio criador da arte acima de tudo, e nesse sentido, como ressaltamos, a Poética se sobrepõe à Ética. E como ficaria o processo de tradução? Nietzsche, como grande filólogo que foi, estendeu à tradução a força da Poética, ou seja, traduziu não somente como um técnico rigoroso com o sentido, mas deu cores e interpretações na escolha dos termos e palavras: a escolha tão cara ao tradutor. Nessas escolhas privilegiou a beleza em detrimento de outras possibilidades, como por exemplo, dizer que as coisas progridem de forma racional. Podemos dar um exemplo diretamente ligado ao processo de tradução, um exemplo que ilustra a opção de Nietzsche pelo primado da Poética sobre a Ética: a palavra logos. Como aqui já comentamos, uma imensa tradição traduz o logos como razão, ou mesmo atividade racional. Nietzsche optou pelo sentido de logos como palavra, uma tradução perfeitamente possível, pois tanto palavra como razão cabem ao lógos. A opção de Nietzsche não é a esmo, trata-se de uma opção poética, o primado da palavra acima do primado da razão. As implicações éticas, na escolha dos termos, é algo muito caro ao tradutor. Nietzsche colocou isso de forma clara e nos diz que as opções estão dadas e abertas ao universo existencial de cada um, o potencial criativo de cada um. Nietzsche fez escola e influenciou muito os pensadores da Ética e Poética dos séculos XX e XXI. Uma gama de autores foi influenciada por sua abordagem acerca da verdade do texto, e podemos dizer que se criou uma rede de pensadores afinados com a concepção ética de Nietzsche, submetida à Poética. Um desses autores essenciais para pensarmos a questão da Ética e a tradução foi Gilles Deleuze (1925-1995), e ele desenvolve essas ideias numa obra chamada Diferença e Repetição. Em poucas palavras, a tese principal de Diferença e Repetição trata da releitura de alguns sistemas filosóficos na história do pensamento ocidental com o objetivo de traçar uma transformação essencial da ontologia (estudo do ser), que 50 segundo Deleuze (2006), estaria submetida agora às categorias de diferença e repetição. Também, para Deleuze, a tradução é um processo de repetir diferenciando. Figura 10 – Gilles Deleuze Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gilles_Deleuze#/media/Ficheiro:%DA%98%DB%8C%D9%84_%D8%A- F%D9%84%D9%88%D8%B2.jpg. Acesso em: 29 mar. 2023. A diferença para Deleuze não é mais uma negação, bem como a repetição não se restringe ao redito. A diferença é uma afirmação da potência criadora de nossa experiência, e a repetição método é a metodologia pela qual aplicamos a diferença. Para propor tal hipótese filosófica, Deleuze recorre ao modelo nietzschiano de que toda afirmação do mesmo já é poder de subversão do idêntico. Segundo Deleuze (2006, p. 3), “o outro” como negação “do mesmo” sempre fez parte do aparato operacional filosófico deste Platão até Hegel. O que existe é o “ser”. O “não ser” seria sempre o outro através da negação. A partir de Nietzsche, segundo Deleuze, essa operação toma novas proporções, retomando a ideia que surge principalmente no texto. Sobre A Verdade e a Mentira em sentido Extramural, de 1873. Deleuze parte desse princípio e formula seu arcabouço teórico da diferença e da repetição, incorporando essa ideia no processo literário e de tradução. A obra Diferença e Repetição, em seu início, nos traz a relevância das categorias do romance contemporâneo e destacam também o papel das traduções nestes movimentos de repetir e diferenciar. A tradução é um processo criativo: 51 O assunto aqui tratado está manifestamente no ar, podendo-se ressaltar como seus sinais: a orientação cada vez mais acentuada de Heidegger na direção de uma filosofia da Diferença ontológica; o exercício do estruturalismo, fundado numa distribuição de caracteres diferenciais num espaço de coexistência; a arte do romance contemporâneo, que gira em torno da diferença e da repetição não só em sua mais abstrata reflexão como também em suas técnicas efetivas; a descoberta, em todos os domínios, de uma potência própria de repetição, potência que também seria a do inconsciente, da linguagem, da arte (DELEUZE, 2006, p. 3). A Filosofia da Diferença surge, então, como apologia do ato criativo, como crítica contundente ao legado da representação na história do pensamento ocidental. A obra Poética de Mallarmé, ou mesmo a prosa Poética de Joyce, possuem o poder de descentralizar, de dissolver o sujeito. É exatamente isso que Deleuze propõe: O conjunto dos círculos e das séries é, pois, um caos informal, afundado, que não tem outra "lei" além de sua própria repetição, sua reprodução no desenvolvimento do que diverge e descentra. Sabe-se como estas condições já se encontram efetuadas em obras como o Livro, de Mallarmé, ou Finnegans Wake, de Joyce: elas são, por natureza, obras problemáticas. Nelas, a identidade da coisa lida se dissolve realmente nas séries divergentes definidas pelas palavras esotéricas, assim como a identidade do sujeito que lê se dissolve nos círculos descentrados da multileitura possível. Todavia, nada se perde, cada série só existindo pelo retorno das outras. Tudo se tornou simulacro. Com efeito, por simulacro não devemos entender uma simples imitação, mas sobretudo o ato pelo qual a própria ideia de um modelo ou de uma posição privilegiada é contestada, revertida (DELEUZE, 2006, p. 74). Quais as consequências dessas ideias para o processo de tradução e seu conteúdo ético? Quando traduzimos, não estamos repetindo o mesmo caráter comunicativo, nem mesmo redizendo o mesmo, mas operando com a diferença. E essa diferença, que pode ser o ato de traduzir uma palavra, não está respeitando uma moralidade vigente, hábitos ou costumes, mas sim representando a Poética do ato criativo, assim como Nietzsche defendia. Quando dizemos uma mesma coisa, mas em outra língua, estamos trazendo um outro, ou seja, a tradução é um outro sendo um pouco mesmo. Não queremos trazer aqui a complexidade das ideias de Hegel, Nietzsche e Deleuze, mas sim apresentar o fato de que a tradução, o pensar “o traduzir” está sendo contemplado nos sistemas filosóficos desses autores. Esses pensadores citados nos mostram que há uma questão que diz respeito também aos limites da criatividade, se esses limites se sobrepõem aos próprios limites éticos. Ou seja, toda criatividade é permitida em termos de tradução, a Poética da tradução pode ultrapassarqualquer limite estabelecido pela moralidade comum, em buscas de uma nova moralidade da própria Poética. 52 Os outros Sistemas Éticos anteriores ao século XIX, como o de Aristóteles, Kant e Utilitarismo não veem as coisas dessa forma, eles nos dizem que não, que o Poético não se sobrepõe ao Ético. Talvez essa ideia de criatividade acima de tudo seja um sinal de nossos tempos, e vale a pena meditarmos muito sobre isso. Principalmente ao efetuarmos as escolhas que o processo de tradução nos apresenta, escolhas que passam de um arcabouço gramatical para um arcabouço também de sentido do texto. Pois como bem observamos, a tradução não está ilesa neste processo de criação. Observamos, nesse primeiro momento, uma breve apresentação etimológica da palavra Ética, e como essa etimologia nos conta muito acerca dos hábitos, costumes e comportamentos virtuosos ou não. Compreendemos também que desde seu surgimento, a Ética se preocupa em descrever o bom agir, a justiça, responsabilidade e respeito. Um estudo sobre a Ética na tradução deve ser um estudo sobre o bem, a justiça, o respeito, dentro do processo de traduzir. As escolhas na tradução devem passar por esse crivo do conhecimento inicial do que significa ter Ética. Daí a necessidade de termos falado acerca de uma visão teleológica acerca do objeto de traduzir, bem como uma postura deontológica. Para tanto, analisamos os Sistemas Éticos de Aristóteles, Kant e utilitaristas, verificando como podemos derivar suas respectivas éticas para nosso olhar atento sobre o traduzir. Aristóteles aponta uma busca pela virtude, pelos hábitos corretos e a atitude da mediania para buscarmos a felicidade, em especial a felicidade na polis. A felicidade como horizonte nas ações marcará profundamente o solo da Filosofia, e ditará aquilo que chamamos de Ética Teleológica eudaimonista, a saber, Ética que possui a felicidade como consequência das ações. Devemos fazer isso na tradução. Kant já nos mostrou outro viés, ancorado na razão, liberdade e fraternidade, ou seja, ancorada nos ideais Iluministas que falavam de uma superação da minoridade para a maioridade das escolhas. Para tanto, Kant formulou o Imperativo Categórico, metodologia Ética que inaugura a deontologia dentro do processo de agir, em que não devemos esperar uma finalidade em nossas ações, somente esperar que elas sejam boas em si mesmas. Da mesma forma, o Sistema Ético Utilitarista aponta suas perspectivas e saídas acerca do agir, e nos mostra que o útil mais relevante é o pensar em comunidade, o útil para a sociedade. O verdadeiro útil é aquele que se soma aos ideais democráticos e pensa no bem-estar da maioria, trazer felicidade para um número maior de pessoas. Essas perspectivas, de Aristóteles, Kant e utilitaristas demonstram o primado ético acima do Poético em termos de vida prática, e puxando aqui o tema para nosso lado, demonstram o primado da tradução nos termos éticos sobrepostos aos Poéticos. 53 As perspectivas se modificam, principalmente, a partir do Romantismo alemão, trazendo uma espécie de primado do Poético sobre o Ético nas criações textuais, em especial a tradução. Nietzsche talvez seja o principal interlocutor dessas ideias, perfazendo a tradução como um potencial criativo que deve pensar somente a si mesmo, desprendido do engajamento ético, principalmente na atividade criativa. Gilles Deleuze, também, em tempos mais próximos, nos revela a criatividade da escrita e da tradução acima de todas as coisas, quando falamos de qualquer processo criativo e poético, como por exemplo, a tradução. A partir de tudo isso, a pergunta que deve ficar na consciência de quem trabalha com tradução deve ser: que perspectiva devemos tomar? Que caminho teórico devemos trilhar no processo de tradução? As mais variadas construções éticas acerca da tradução nos apontam vários caminhos, a decisão para onde seguir é um juízo individual, mas sempre levando em conta a bagagem civilizatória que já temos a respeito do tema. Para finalizarmos essa ideia, uma meditação final de Venuti (1995, 1995, p. 6-7): ao se falar de tradução, nos colocamos diante de dois dilemas, de um lado, a tradução é definida como uma representação de segunda ordem: apenas o texto estrangeiro pode ser original, uma autêntica cópia, fiel à personalidade ou intenção do autor, enquanto a tradução é derivativa, falsa, potencialmente uma falsa cópia. Por outro lado, é necessário à tradução um discurso transparente para apagar o status de segunda-ordem, produzindo a ilusão de uma presença autoral através da qual o texto pode ser tomado como o original. Essas contradições e escolhas ao traduzir vão sempre percorrer o cotidiano da atividade do tradutor. A ideia aqui, desse tema de aprendizagem, foi trazer uma visão mais histórica e filosófica da questão Ética na tradução. Em seguida, apresentaremos questões mais temáticas aliadas ao ato de traduzir. Começaremos a falar sobre a tradução e a questão da responsabilidade. 54 TRADUÇÃO E ÉTICA Paulo Oliveira Falar em Ética significa investigar os valores e posturas que orientam nosso pensar e sobretudo nossas ações, no limite determinando aquilo que fazemos ou deixamos de fazer – com base nesses valores e posturas. Assim sendo, entra em jogo necessariamente algum tipo de valoração, daquilo que é bom ou ruim, positivo ou negativo, com suas devidas gradações, até o ponto em que algo é considerado absolutamente necessário ou interdito. De maneira habitual, a tradução costuma ser tratada pelo viés negativo, condensado na máxima traduttore, traditore (tradutor, traidor) e em expressões como belles infidèles (belas infiéis, significando que, para ser bela, a tradução – notadamente de poesia – tem de ser infiel). Por outro lado, a noção de Ética tem sido com frequência associada na discussão contemporânea a uma postura que procura enfatizar a diferença entre os valores e critérios da cultura de chegada e os da de partida, valorizando ao máximo a última. Nessa discussão, destacam-se alguns trabalhos de grande repercussão internacional, de autores como Antoine Berman (2007) e Lawrence Venuti (1995), ambos retomando uma conferência clássica de Friedrich Schleiermacher (2010) e abrindo um debate que perdura até os dias de hoje, inclusive no Brasil (por exemplo: Wyler, 1999; Oliveira, 2005, 2011; Rodrigues, 2007). No âmbito da tradução de textos de cunho mais pragmático e das normas elaboradas por associações profissionais, que também contemplam questões mais gerais, como cumprimento de prazos, manutenção de sigilo etc., destaca-se sobretudo o conceito de lealdade (loyalty), no tocante não apenas ao autor original, mas também às diferentes instâncias que compõem o complexo cenário da atividade tradutória (cf. Nord, 1991, p. 94; Chesterman, 1997, p. 68; Snell-Hornby, 2006, p. 56- 60). Em caso de conflito de interesses ou prioridades entre as várias instâncias, a serem detalhadas mais adiante, decisões terão de ser tomadas com base nos critérios pertinentes que, no entanto, nem sempre serão suficientes para dar conta do caso concreto, podendo até se contradizer mutuamente. Caberá então ao indivíduo decidir quais critérios priorizar, ou mesmo estabelecer novos parâmetros, fazendo uso de sua autonomia de pensamento e ação como sujeito racional, moral e jurídico – sem com isso se desvincular da comunidade em que está inserido, até porque as decisões que tomar serão feitas sobre o pano de fundo de uma tradição herdada, com a qual terão de dialogar, podendo eventualmente vir a ser assimiladas e levar a uma (nova) regra geral dessa mesma comunidade. Ocorre, porém, que parte das discussões em Ética tradutória assenta-se não raro naquilo que na obra tardia do filósofo Ludwig LEITURA COMPLEMENTAR 55 Wittgenstein (2009; 2004) é caracterizado como uma confusão conceitual, quando não se percebem os diversos níveis de abstração em que operam os diferentes conceitos, ou seus contextos e limites de aplicação. Criam-seentão falsos impasses, ou falsas soluções – pois uma solução só poderá ser boa se o problema estiver bem articulado, e um problema que tenha por base uma confusão conceitual com certeza não poderá ter uma boa solução. Nesse caso, o que podemos fazer é procurar dissolver o problema, mostrando em que medida ele decorre de falsas questões. Em se tratando de Ética, um bom caminho para chegarmos a um entendimento adequado do que está realmente em jogo passa por uma investigação do conceito propriamente dito, como pressuposto para aplicá-lo ao caso específico da tradução. O que é Ética? Como em tantos outros casos na filosofia ocidental, também aqui a origem do termo pode ser encontrada na Grécia antiga, com duas variantes: A primeira é a palavra grega éthos, com e curto, que pode ser traduzida por costume [ou hábito], a segunda também se escreve éthos, porém com e longo, que significa propriedade do caráter. A primeira é a que serviu de base para a tradução latina Moral, enquanto a segunda é a que, de alguma forma, orienta a utilização atual que damos à palavra Ética (Moore, 1975, p. 4). Essas variantes não são estanques, na medida em que a segunda, também descrita por Moore (1975, p. 4) como “investigação geral sobre aquilo que é bom”, interfere na primeira, quando da estipulação concreta das normas e dos valores que estão na base de nossos hábitos e costumes, e dos códigos de conduta específicos das diferentes profissões: Ética médica, Ética da investigação científica etc., aí inclusa a Ética da tradução – nosso caso específico. Os costumes, por sua vez, podem ter diferentes tipos de sustentação. Uma delas é o hábito puro e simples: faço assim porque é assim que isso é feito (em minha comunidade), quase como um dado natural, as gerações anteriores procediam da mesma forma e outras pessoas (da mesma cultura, do ambiente em que convivo) procedem de modo igual. Ao serem passados de uma geração a outra, tais hábitos dão origem a discursos que procuram de algum modo justificar os valores e normas em questão. Em outras palavras, buscam uma solução para o dito “‘Porque sim’ Intervenções minhas diretamente no texto estão assinaladas por colchetes, sem indicações adicionais documentado no quadro homônimo do programa infantil Castelo Rá-tim-bum, da TV Cultura (São Paulo). Tal busca por algum tipo de fundamentação está na base das grandes narrativas que constituem as diferentes culturas, seja na forma de mitos e religiões ou mesmo em discursos racionais como nas ciências. O que distingue uma forma de outra é o tipo do elemento de coesão utilizado. A adesão pode ser espontânea, por simples inércia (tomar o que é dado por natural), ou resultar de operações como sedução, persuasão ou convencimento. É ao último modo que se associa a racionalidade ocidental, podendo-se afirmar ser esse o elemento diferenciador do conceito em sua acepção mais abstrata, que está na origem dos diferentes sistemas de Ética com alguma fundamentação racional – por oposição à simples adesão, seja ao mito ou na conversão religiosa. Isso posto, podemos voltar à Grécia antiga e à origem do conceito. 56 Em seu livro On Translator Ethics [Sobre a Ética do tradutor], Anthony Pym também lembra que, segundo os manuais, é lá que nasceu o pensamento ético ocidental tal como o conhecemos, o pensamento ético dos sofistas e de Sócrates [e Aristóteles, podemos agregar]. Por que lá? Em primeiro lugar, a nova classe profissional de negócios (burguesia, se quisermos) estava em estado de ruptura com os valores tradicionais. Seu estatuto social não dependia de uma origem aristocrática; não estava acostumada à autoridade; precisava de razões capazes de apontar suas escolhas em uma direção ou outra. Através dessa procura por razões, o pensamento ético questiona tudo o que parece natural. Ao mesmo tempo, essa classe profissional de negócios não está mais engajada no trabalho físico costumeiro de uma sociedade agrícola. Para cuidar do corpo, precisa também de exercícios, de esporte. A Ética retomou essa ideia: para cuidar do espírito, é preciso também se exercitar, engajar-se em movimento intelectual regulado. Portanto, a função da Ética é, dentre outros, exercer o intelecto. Ora, se é possível atribuir uma espécie de “certidão de nascimento” até mesmo à racionalidade em si, como no trecho citado, não seria de se esperar que o pensamento ético fosse imune ao tempo e aos contextos, por mais que haja uma pretensão universalista no próprio conceito, em sua versão de “investigação geral sobre aquilo que é bom”. O que temos, na verdade, é uma tensão dialética entre a pretensão universalista e os diversos contextos de aplicação que levam à criação, manutenção ou ao eventual abandono ou enfraquecimento dos diferentes sistemas éticos. Aquilo que em um certo momento contestava algo antes tido por “natural” pode tornar-se tão aceito, tão habitual, que passa então a ser uma espécie de “segunda natureza” do homem – que é como também Roberto Romano (2004, p. 41) define a Ética, confluindo com a primeira acepção fornecida por Moore (1975, p. 4). Abrangência semelhante tem o conceito de habitus, amplamente utilizado na sociologia contemporânea (e em seus ecos nos estudos da tradução), sobretudo na versão popularizada por Pierre Bourdieu (1983, p. 65ss; Wacquant, 2007), mas que remonta a Aristóteles, cuja noção de hexis foi recuperada na Idade Média pela filosofia tomística e depois retomada por vários autores, como Panofsky em sua análise da arquitetura gótica medieval. Posteriormente, Max Weber veio a falar de um habitus protestante; Norbert Elias, de um habitus alemão nacional; Thorstein Veblen, de um habitus predatório dos industriais (Noronha; Rocha, 2007, p. 52). Notadamente nos três últimos casos, temos sistemas de valores tornados padrão, amplamente “naturalizados” em seus respectivos tempo e contexto. Por outro lado, eles não deixaram de passar por algum processo de justificação destinado a lhes conferir a devida legitimidade. Tendo isso em conta, salientarei alguns aspectos dos sistemas de ética cujo legado ainda se faz sentir na discussão contemporânea nos Estudos da Tradução. Mas antes cumpre destacar uma característica geral desse debate. Em sua resenha do tema, Anthony Pym denuncia uma “linha de batalha” separando dois campos quase estanques na tradição francesa, mas não só nela (conforme já aludido anteriormente). 57 Mas antes cumpre destacar uma característica geral desse debate. Em sua resenha do tema, Anthony Pym denuncia uma “linha de batalha” separando dois campos quase estanques na tradição francesa, mas não só nela (conforme já aludido anteriormente): Preocupações profissionais são objeto tradicional da déontologie [deontologia], algo como “códigos de Ética”, operando em uma dimensão bastante diferente daquela da éthique [Ética] propriamente filosófica, onde intelectuais assumem poses elegíacas e anunciam nobres princípios a respeito de solidariedade, humanidade, pluralidade, abertura, justiça e às vezes alguns direitos humanos relativos a coisas igualmente abstratas. Por exemplo: a déontologie fala de comércio e quantidades (dentre outros: quanto se deve pagar ao mediador); a éthique normalmente não faria isso (como se atuasse em um mundo de puras qualidades). Não gostaria aqui de fazer tal distinção, que o presente texto recusa de modo consciente (Pym, 2012, p. 1). Apesar do tom tipicamente polêmico do autor, tanto a descrição do debate bipartido quanto a recusa em manter tal dicotomia são pertinentes. Como bem lembra Peter Singer na introdução de seu A Companion to Ethics [Compêndio de Ética], o que aqui entra em jogo são valores, ou seja, a distinção entre bem e mal, certo e errado. Não podemos evitar o envolvimento com a Ética, pois o que fazemos – e o que não fazemos – é sempre passível de avaliação Ética. Qualquer pessoa que pense sobre o que deve fazer está, consciente ou inconscientemente, envolvida com a Ética (Singer, 2012, p. v). Nessesentido, não é muito feliz a escolha da expressão “tradução Ética” popularizada a partir da obra de Antoine Berman, significando aquela que valoriza a diferença, ou o reconhecimento do Outro – por mais que a abordagem em si tenha seus méritos, sobretudo em contextos de hegemonia ou assimetria cultural. Atitudes e decisões mobilizadas em processos tradutórios poderão até ser antiéticas, no sentido de violarem códigos específicos de conduta, mas nenhuma poderá ser não ética, sobretudo no sentido mais abstrato do termo. A Ética é incontornável. Daí a necessidade de uma reflexão mais básica sobre a própria natureza do conceito e suas diversas dimensões, notadamente nas implicações que podem ter como orientação para o tradutor em formação. Na medida em que tal estudante também estiver envolvido com outras áreas de investigação nas humanidades, tais como estudos da cultura ou literatura comparada, as questões mais amplas e abstratas tratadas pelos intelectuais a que alude Pym também serão de interesse – mas essa é certamente uma outra discussão, bem ilustrada pelos artigos que compõem a coletânea Nation, Language and the Ethics of Translation [Nação, linguagem e a Ética da tradução] (Berman; Wood, 2005), destinada a “repensar conexões e conflitos nacionais, subnacionais e internacionais, sua história e seu futuro, do ponto de vista específico da linguagem e da tradução” (p. 2). Aqui, a perspectiva dos diferentes autores apresenta-se como crítica ou análise de fenômenos históricos, geopolíticos e culturais envolvendo a tradução, com menor destaque para critérios de atuação do tradutor propriamente dito, naquilo que está a seu alcance fazer – ainda que isso também seja tematizado, em especial no tocante à tradução literária. 58 A nós, por outro lado, interessarão sobretudo questões mais próximas da prática tradutória, sem restrições a campos específicos (não excluindo a literatura, mas abrangendo também textos de cunho pragmático, os mais variados meios e suportes etc.), nas diferentes funções que o atual estudante poderá vir a assumir no exercício profissional – sem com isso retirar da reflexão sobre a Ética sua dimensão mais abstrata, ou seja, sem reduzi-la ao domínio das prescrições dos códigos de Ética das associações profissionais. Veremos com isso que o próprio termo deontologia abrange também outros aspectos, situados muito além – ou aquém – do escopo coberto pela déontologie citada por Pym, tendo participação fundamental no debate filosófico propriamente dito (éthique), inclusive no tocante a pretensões universalistas, tal como expressas, por exemplo, na regra de ouro darwiniana: faça aos outros como pensa que deveriam fazer a você; ou no imperativo categórico kantiano: aja sempre de modo tal que suas ações possam ser tomadas como regra geral. Sistemas, princípios e seus limites A dial Ética abstrato/concreto que habita as diferentes teorias manifesta-se também como tensão entre aspirações universalistas e exigências regionais. Até que ponto pode-se imaginar a Ética como um fundamento universal? Em que medida as diferenças culturais colocam restrições a esse universalismo? Com que direito uma cultura ou teoria pode arrogar-se mais correta, mais justa do que outras? O já citado Compêndio de Ética nos mostra que, a despeito de suas notáveis diferenças, as mais diversas tradições respondem de algum modo a certas questões básicas, como: “De onde vem a Ética? Como posso saber o que é correto? Qual é o critério último para a ação correta? Por que eu deveria fazer o que é correto?” (Singer, 2012, p. x). Tal base comum pode ser lida como característica de nossa forma de vida humana, derivada da própria organização gregária – ou seja, de vida em grupo, com elementos encontráveis até mesmo em outras espécies, como pássaros e mamíferos de modo geral. Contrapondo-se a uma certa vulgata darwinista e versões contratualistas radicais, expressas dentre outros pela teoria biológica do “gene egoísta” ou no mote hobbesiano “o homem é o lobo do homem”, Mary Midgley (2012) mostra que no próprio comportamento animal há tensões que poderíamos caracterizar, em nosso vocabulário, como “Éticas”. São exemplos disso o cuidado com os mais jovens (ou mais velhos e enfraquecidos) e algum tipo de reciprocidade, assim como outras formas de solidariedade importantes para a coesão/preservação do grupo. Mas há também tensões internas, como as que opõem instintos exercidos lenta e continuamente a outros que são fortes e intensos, a exemplo dos pássaros migrantes que abandonam os filhotes, de que vinham cuidando com grande afinco, quando o bando parte subitamente em revoada. Isso evoca, de certo modo, o embate humano entre a virtude (como exercício da moderação) e a paixão (que se sobrepõe a considerações morais ou racionais). Daí para vários tipos de elaboração, são poucos passos. Vejamos um exemplo tirado da literatura. No romance Grande sertão: veredas, o narrador resume, Poeticamente: O senhor... mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que estão sempre mudando. [...] E outra coisa: o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! [...] Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz 59 é na lei do mansinho – assim é o milagre. [...] Somenos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário. (Rosa, 2006, p.19) Note-se a semelhança entre a caracterização do mal, personificado na figura do diabo, com o domínio das paixões (“às brutas”), ao passo que o divino ilustra a virtude, isto é, fazer “na lei do mansinho”, do hábito, da moderação. De resto, se aos olhos do narrador a religião não “afraca”, é provavelmente porque dá um norte, fornece critérios. Em suma, é um sistema de Ética. Mas nem tudo que tais sistemas elaboram pode ser considerado universal. Se fosse assim, não haveria diferenças culturais. Pelo menos é isso o que nos diz o chamado relativismo ético, ao qual podemos associar parte significativa do debate contemporâneo nos estudos da tradução, tendo em vista seu princípio básico de que não deveríamos julgar, ou tentar modificar, os valores de pessoas de outras culturas. E a tradução ocorre, por definição, na interface entre diferentes culturas, requerendo decisões não raro muito complexas. Devo, por exemplo, aceitar e traduzir de modo “fiel” (aqui: acrítico) textos que veiculem valores contrários aos de minha própria cultura/convicção? Ou, na perspectiva oposta: com que direito posso fazer alterações deliberadas nesses textos, para que sejam compatíveis com meus próprios valores? Em suma, qual é o limite do princípio da tolerância, da aceitação do Outro? Tais questões colocam- se de modo agudo para abordagens solidárias com as minorias, cuja oposição aos diversos tipos de discriminação – de gênero, cor, credo etc. – eventualmente manifesta nos originais fica evidente quando se advoga algum tipo de tradução dita “subversiva” ou “transgressora”, ou seja, que procure conscientemente criar deslocamentos face ao texto de partida, tal como discutido, dentre outros, por Rosemary Arrojo (1994, 1995), Kanavillil Rajagopalan (2000), Silene Moreno e Paulo Oliveira (2000), ou ainda, de forma atualizada e com deslocamentos de foco, em alguns trabalhos da já citada coletânea de Bermann e Wood (2005).Se ao tratar de tópicos dessa natureza levarmos em conta alguns princípios dos grandes sistemas de Ética, poderemos agregar uma nova dimensão à análise, visando obter uma compreensão adequada dos fundamentos e implicações das diferentes estratégias tradutórias, no que tange ao foco específico do presente trabalho. Um sistema relevante para a discussão da “tradução Ética”, baseada naquilo que poderíamos chamar de “Ética da diferença” (respeito ao Outro), assim como, no polo oposto, da tradução “subversiva/transgressora”, que questiona os valores do Outro e os desloca na tradução, é certamente o relativismo meta-ético, cujos princípios básicos são a “negaçãode que qualquer código moral específico tenha validade universal” e o entendimento de que “verdade moral e justificabilidade, se de fato tais coisas existem, são de algum modo relativas a fatores histórica e culturalmente contingentes” (Wong, 2012, p. 442). Essa tradição remonta aos sofistas na Grécia antiga, em um contexto permeado por “comércio, viagens e guerra”, o que os levava a ter perfeita ciência “da enorme variabilidade dos costumes” e a “concluir [seu] argumento com a relatividade da moral” (p. 443). O tópico volta a ser central com Montaigne no século XVI e é retomado no século XX pela Antropologia Cultural. Fonte: amorim-9788568334614-05.pdf (scielo.org). Acesso em: 21 dez. 2022. 60 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • Que há algo que se relaciona com o Ético na atividade de tradução que é o Poético, e pensar sobre a primazia do Poético frente ao Ético, ou vice-versa, traz um aprofundamento na questão do traduzir. • Que o Poético se apresenta como um grande primado criativo a partir do Romantismo alemão, influenciando a Ética no traduzir, bem como faz uma meditação sobre a Ética no traduzir. • Que Nietzsche e Deleuze meditam sobre o traduzir ancorados nesses aspectos criativos que revelam a verdade do texto, e a prática da tradução como prática do poético. 61 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: “Homero, sendo digno de louvor por muitos motivos, é-o em especial porque é o único poeta que não ignora o que lhe compete fazer. De fato, o poeta, em si, deve dizer o menos possível, pois não é através disso que faz a imitação. Os outros intervêm, eles mesmos, durante todo o poema e imitam pouco e raramente. Ele, pelo contrário, depois de fazer um breve preâmbulo, põe imediatamente em cena um homem, uma mulher ou qualquer outra personagem e nenhum sem caráter, mas cada uma dotada de caráter próprio”. Fonte: ARISTÓTELES. Poética. Trad. A. M. Valente. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2004. p. 94-95. Acerca da Poética e das suas possíveis relações com o ato de traduzir assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A Poética sempre se sobrepõe à Ética, em qualquer sistema filosófico. b) ( ) A Poética é a palavra que simboliza o correto a ser feito. c) ( ) A Poética pode ser entendida como uma potência criativa. d) ( ) A Poética não se relaciona com a Ética, em nenhum momento. 2 Leia os dois trechos a seguir: Texto1 “A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e favulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um”. NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Texto 2 “Por maioria, nós não entendemos uma quantidade relativa maior, mas a determinação de um estado ou de um padrão em relação ao qual tanto as quantidades maiores quanto as menores serão ditas minoritárias. Maioria supõe um estado de dominação. É nesse sentido que as mulheres, as crianças e também os animais são minoritários”. DELEUZE, G.; GUATTARI. F. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 2012 (adaptado). 62 Acerca da relação do traduzir com a Poética descrita na obra de Nietzsche e Deleuze, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Em ambos os autores, Deleuze e Nietzsche, a Poética conduz a Ética acerca do ato criativo e sendo assim também o traduzir. b) ( ) Somente em Nietzsche, e não em Deleuze, a Poética conduz a Ética acerca do ato criativo e sendo assim também o traduzir. c) ( ) Somente em Deleuze, e não em Nietzsche, a Poética conduz a Ética acerca do ato criativo e sendo assim também o traduzir. d) ( ) Nem em Nietzsche nem em Deleuze a Poética conduz a Ética acerca do ato criativo e sendo assim também o traduzir. 3 Leia os dois textos a seguir: Texto 1 “A genuína e própria filosofia começa no Ocidente. Só no Ocidente se ergue a liberdade da autoconsciência. No esplendor do Oriente desaparece o indivíduo; só no Ocidente a luz se torna a lâmpada do pensamento que se ilumina a si própria, criando por si o seu mundo. Que um povo se reconheça livre, eis o que constitui o seu ser, o princípio de toda a sua vida moral e civil. Temos a noção do nosso ser essencial no sentido de que a liberdade pessoal é a sua condição fundamental, e de que nós, por conseguinte, não podemos ser escravos. O estar às ordens de outro não constitui o nosso ser essencial, mas sim o não ser escravo. Assim, no Ocidente, estamos no terreno da verdadeira e própria filosofia” Fonte: HEGEL, G. W. F. (1999; 2000; 2004). Cursos de estética (Vol. 1, 2 e 4). Trad. De Marco Aurélio Werle e Oliver Tolle. São Paulo: EDUSP. Texto 2 “Por um lado, está o solo ético, simbolizando a neutralidade Ética que teme a cisão das potências Éticas; o coro é o público não como mera reflexão exterior sobre os eventos, mas como e expressão da reconciliação, ou seja, é a marca essencial do sensível. Por outro lado, estão as forças colidentes, como potências Éticas que emergem deste solo; a ação traz inquietação ao repouso ético, embora traga por fim, fortificado, o equilíbrio originário” (WERLE, 2005, p. 247). Acerca das relações que o Romantismo alemão possui com o aspecto ético e poético do agir, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Historicismo e Progresso são as duas ideias essenciais que permeiam a fundamentação teórica do Romantismo alemão. b) ( ) Niilismo e Progresso são as duas ideias essenciais que permeiam a fundamenta- ção teórica do Romantismo alemão. 63 c) ( ) Historicismo e Decadência são as duas ideias essenciais que permeiam a fundamentação teórica do Romantismo alemão. d) ( ) Casualidade e Circularidade são as duas ideias essenciais que permeiam a fundamentação teórica do Romantismo alemão. 4 Leia o trecho a seguir: “Aliás, não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época. O espírito rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação. Certamente, o espírito nunca está em repouso, mas sempre tomado por um movimento para a frente. Na criança, depois de longo período de nutrição tranquila, a primeira respiração – um salto qualitativo – interrompe o lento processo do puro crescimento quantitativo; e a criança está nascida. Do mesmo modo, o espírito que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronar-se gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo”. Fonte: HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. 2. ed. Trad: Paulo Meneses, com a colaboração de Karl-Heinz Efken e José Nogueira Machado. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 31. Acerca do traduzir no Romantismo alemão, descreva a importância das ideias de historicismo e progresso. 5 Leia o trecho a seguir: "Mas que quer ainda você com ideais mais nobres! Sujeitemo-nos aos fatos: o povo venceu – ou 'os escravos', ou 'a plebe', ou 'o rebanho', ou como quiser chamá-lo se isto aconteceu graças aos judeus, muito bem! Jamais um povo teve missão maior na história universal. 'Os senhores' foram abolidos; a moral do homem comum venceu. A 'redenção' do gênero humano (do jugo dos 'senhores') está bem encaminhada; tudo se judaíza, cristianiza, plebeíza visivelmente (que importam as palavras!)”.Fonte: NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Apresente a concepção geral das Poéticas de Nietzsche e Deleuze: 64 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Dicionário escolar da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Pau- lo: Companhias das Letras, 1999. ARISTÓTELES. Política. Brasília: UnB,1988. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Pensadores. São Pauto: Nova Cultural, 1991. ARISTÓTELES. Poética. Trad. A. M. Valente. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2004. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução: Antônio Castro. São Paulo: Atlas, 2009. ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. ARROJO, R. Fidelity and the gendered translation. TTR – Traduction, Terminologie, Redaction, v. 1, n. 2, p. 147-63, 1994. BASSNETT, S. Estudos de tradução. Tradução de Vivina de Campos Figueiredo. Lis- boa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. BENTHAM, J. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974. BOFF, L. Ethos mundial. Rio de Janeiro, RJ: Sextante, 2003. BOURDIEU, P. Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, R. (Org.). Pierre Bourdieu – Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. BRASIL. Lei nº 12.319, de 1 de setembro de 2010. Regulamenta a profissão de Tradu- tor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – Libras. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. CHESTERMAN, A. Memes of translation: the spread of ideas in translation theory. Amsterdam: John Benjamins, 1997. CORDI et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007. 65 REFERÊNCIAS COSTA-LEITE, A. Construções sistêmicas e leis de interação. Systemic Construc-tions and Interaction Laws. Cognitio, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 209-220, jul./dez. 2009. DELEUZE, G. Diferença e repetição. São Paulo: Graal, 2006. DELEUZE, G.; GUATTARI. F. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 2012 BERMAN, A. A tradução e a letra, ou o albergue do longínquo. Trad. M. H. C. Torres, M. Furlan e A. Guerini. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. BERMANN, S.; WOOD, M. Nation, language and the ethics of translation. New Jer- sey: Princeton University Press, 2005. FURLAN, M. A teoria de tradução de Lutero. 2004. In: Annete Endruschat e Axel Schönberger (orgs.). Übersetzung und Übersetzen aus dem und ins Portugiesis- che. Frankfurt am Main: Domus Editoria Europaea. HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. 2. ed. Trad: Paulo Meneses, com a cola- boração de Karl-Heinz Efken e José Nogueira Machado. Petrópolis: Vozes, 2003. HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. Trad. Paulo Menezes. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2011. KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Abril Cultural e Industrial S. A., 1974. (Coleção Os Pensadores, Vol. XXV). KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. 2. ed. Tradução de Paulo Quintela. Introdução de Pedro Galvão. Lisboa: Edições 70, 2009. MIDGLEY, M. The origin of ethics. In: SINGER, P. (Org.). A companion to ethics. 29. ed. Oxford: Blackwell, 2012, p. 3-13. MOORE, G. E. Princípios éticos. Tradução de L. J. Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1975. MILL, S. A Liberdade/Utilitarismo. São Paulo: Martins Fontes. 2000. MILL. S. Utilitarismo: introdução, tradução e notas de Pedro Galvão. Porto. Porto Editora, 2005. NIDA, E. A. Contexts in translating. Amsterdam and Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2001.T 66 NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. 2. ed. Tra- dução de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. OLIVEIRA, M. C. C. de. Ética em tradução, frutos de posturas estéticas e políti- cas. In: Sentidos dos lugares. Encontro Regional da ABRALIC 2005. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2005. O’NEILL, O. Kantian ethics. In: SINGER, P. (Org.). A companion to ethics. 29.ed. Oxford: Blackwell, 2012. PYM, A. On translator ethics: principles for mediation between cultures. Amsterdam: John Benjamins, 2012. SEVERINO. A. J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992. SNELL-HORNBY, M. The turns of translation studies: new paradigms or stifting viewpoints. Amsterdam: John Benjamin Publisching Company, 2006. VENUTI, L. The Translator’s Invisibility: a history of translation. London and New York: Routledge, 1995. (WEFFORT, F. (org.). Os clássicos da política 2. 3 ed. São Paulo: Ática, 1991. WERLE, M. A. A questão do fim da arte em Hegel. São Paulo: Hedra, 2011. 67 A TRADUÇÃO E A QUESTÃO DA RESPONSABILIDADE UNIDADE 2 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • observar o papel da responsabilidade na tradução; • conhecer os aspectos éticos no criar e traduzir; • reconhecer a ética da alteridade na tradução; • verifi car a relação entre tradução e responsabilidade. Com o objetivo de reforçar os conhecimentos adquiridos, a cada tema de aprendizagem desta unidade, você encontrará autoatividades planejadas a partir do conteúdo trabalhado. TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – INTRODUÇÃO À ALTERIDADE NA TRADUÇÃO TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO E ALTERIDADE TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO COMO RESPONSABILIDADE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 68 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 69 TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À ALTERIDADE NA TRADUÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Como breve introdução deste nosso início de tema de aprendizagem, uma frase de relevância impacto para o processo ético da tradução, de um dos maiores teóricos do tema e que utilizaremos nesta unidade, o pensador da tradução Antoine Berman: “A eticidade reside no respeito, ou melhor, num certo respeito pelo original”. Respeito e original são breves palavras que irão guiar essa unidade tendo foco em três questões centrais, a saber: os aspectos éticos do traduzir e do criar; os aspectos éticos da tradução e alteridade; os aspectos éticos da tradução como responsabilidade. Nesse sentido, o respeito surge como um mandamento ético que busca um acerto de contas com nosso sentimento mais humano, e o original, um acerto de contas com a ideia de autoria concreta, o texto e autor como objetos principais no ato de traduzir. A frase acima de Berman, como de fato sendo um grande teórico da tradução, representa o espírito do tradutor no século XX e XXI, ou seja, o tradutor que não deve deixar de lado as atrocidades humanas ocorridas nas duas grandes guerras, num passado próximo e vizinho a todos nós, nos acontecimentos trágicos como o Holocausto, Hiroshima e Nagasaki. A pergunta que se coloca e muito se colocou nas últimas décadas é como pode existir e resistir a Ética? Ou melhor, é possível uma humanidade com Ética? E como aplicar essa ética do mundo pós-guerra na tradução? Como inserir esse rol de características que evocam o primado da alteridade e responsabilidade na tradução? Descrevemos na Unidade 1 como alguns pensadores representantes da História da Ética apontaram o criar como uma grande potência poética, e como a criação se sobrepõe inclusive aos aspectos mais essenciais da Ética. Autores como Nietzsche e Deleuze que colocam o criativo acima de qualquer coisa. Uma criação pela criação, uma força criativa acima de qualquer outra força moralizante, ou seja, a arte é quem deve criar a moral. O mundo Pós-Segunda Guerra aponta para outros caminhos.Uma Poética acima da Ética não é algo mais tão palatável na emergência dos acontecimentos. Uma arte acima do bem e do mal não é algo negociável, pois toda criação deve ter como medida o horizonte do respeito, da responsabilidade, e como veremos, da alteridade. E como fica o processo de traduzir nessa perspectiva? Como as principais doutrinas éticas na tradução irão operar nessas diretrizes? 70 No Tema de Aprendizagem 1, nós falaremos acerca da tradição teórica da ética no mundo pós-guerra, sobre os autores que denunciaram o fascismo, nazismo e totalitarismos mais diversos e cruéis. Escolhemos então falar da Escola de Frankfurt, Hanna Arendt, Primo Levi, autores que trataram informalmente da Ética, mas se são essenciais ao nosso ver para entender a cultura do mundo pós-guerra. São essenciais para a mudança cultural que também se daria nessa espécie de “pax romana” a partir dos anos 1940. São figuras que não falam diretamente da tradução, mas com certeza impactaram o ambiente ético na tradução e produção de conhecimento, uma cultura necessária ao traduzir. Também trataremos de Emmanuel Lévinas, que estabeleceu a alteridade como chave de compreensão da ética, e influenciaria toda uma tradução teórica de ética na tradução pensando a questão do outro. Trata-se de um autor essencial nos séculos XX e XXI, e que iria influenciar um dos mais respeitados pensadores na ética da tradução, Antonie Berman, teórico francês, que impactou criticamente a área e é utilizado como um pensador parâmetro para o tema, em especial a tradução e alteridade. Finalmente, em se tratando de responsabilidade e tradução, torna-se imprescindível falar de Jean Paul Sartre, que também se insere no ambiente da ética como grande teórico dessa perspectiva. Sartre vai descrever a atividade humana como responsável e engajada, uma consequência de nosso espectro existencial. Pensaremos isso também na tradução, e como o engajamento com a existência individual e coletiva nos lança ao horizonte da responsabilidade. Vejamos agora, algo crucial, como o pós-guerra mundial afetou o ambiente ético da tradução? Para adentrarmos então, no traduzir e criar do século XX, precisamos entender os caminhos da ética no último século, e como isso nos afeta até hoje. Vamos observar de forma atenta! 2 INTRODUÇÃO À ALTERIDADE: ASPECTOS ÉTICOS DO TRADUZIR E CRIAR Tanto o ambiente da criação como o ambiente da tradução nos apresentam diversos questionamentos éticos. O ambiente da criação varia nas concepções de uma criação acima de tudo, inclusive da moral e ética, bem como nas concepções de que deve existir um freio ético para tudo, inclusive na arte. Da mesma forma a tradução, que é de certa perspectiva também uma atividade criadora, como ela deve se portar? Criar e traduzir acima de tudo? A primeira metade do século XX nos mostrou muitas coisas. 71 As mais sangrentas tragédias do início do século XX marcaram para sempre a humanidade devido aos seus aspectos mais trágicos e horrendos. Esses acontecimentos impulsionaram um variado percurso teórico de autores e ideias que tentaram resgatar algo de humano em nossas produções criativas e acadêmicas, algo de humano nesse vazio ético e de responsabilidade com a dignidade humana. Diz-nos de forma categórica o historiador Eric Hobsbawm (1995, p. 31), sobre o início do século XX como Era do Massacre: Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iriam dar-se numa (escala muito mais vasta do que qualquer coisa experimentada antes. Das 74 guerras internacionais travadas entre 1816 e 1965 que especialistas americanos, amantes desse tipo de coisa, classifi caram pelo número de vítimas, as quatro primeiras ocorreram no século XX: as duas guerras mundiais, a guerra do Japão contra a China em 1937-9, e a Guerra da Coréia. Cada uma delas matou mais de 1 milhão de pessoas em combate. A maior guerra internacional documentada do século XIX pós-napoleônico, entre Prússia-Alemanha e França, em 1870-1, matou talvez 150 mil pessoas, uma ordem de magnitude mais ou menos comparável às mortes da Guerra do Chaco, de 1932- 5, entre Bolívia (pop. c. 3 milhões) e Paraguai (pop. c. 1,4 milhão). Em suma, 1914 inaugura a era do massacre. Milhões e milhões de mortes nessa Era do massacre, quando as armas de destruição em massa deram o tom do combate. Hobsbawn (1995) nos apresenta um panorama absurdo do talvez mais absurdo período da raça humana, quando a aniquilação foi concreta, e a criação posterior de uma eminente guerra nuclear nos assola desde então. A Ética precisava dar uma resposta a essa crise tão contundente e sanguinária acerca do que é a humanidade. No ambiente da Ética e da tradução não foi diferente, essa busca também se deu na produção teórica de vários autores. Observamos no mundo pós- guerra o alvorecer de novas teorias, bem como a fi xação em duas ideias centrais quando o assunto é Ética e tradução: a alteridade e a responsabilidade. Nesta perspectiva, trataremos na Unidade 2, o contexto histórico da ética da tradução no pós-guerra, e como alguns teóricos da ética e tradução nos ajudam a enfrentar teoricamente essas questões que assolam a humanidade desde então. ESTUDOS FUTUROS 72 É impossível falar de Ética em qualquer âmbito, a partir do século XX, sem passarmos pelas atrocidades das Guerras Mundiais. Na verdade, o contexto das duas guerras, primeira e segunda, apresentam a visão mais catastrófica dos seres humanos, iniciando pela utilização massiva de armas químicas, até o desfecho de devastação atômica em Hiroshima e Nagasaki, talvez a maior tragédia humana da história. Esse aspecto sombrio e mórbido do ser humano foi amplamente pensado e teorizado por muitos pensadores do século XX e XXI. A chamada Escola de Frankfurt já alertava para o papel midiático dos Sistemas Totalitários e como usar o mito da razão, da tecnologia, do nacionalismo, para concretizar seus regimes de exceção, para realizarem um projeto de poder populista e cruel. Em especial, a Escola de Frankfurt alertou para o mito do Iluminismo e do progresso das civilizações, que para eles são apenas formas de se criar e prosperar mitos de domínio, tudo pelo poder. Figura 1 – Max Horkheimer (à esquerda), Theodor Adorno (à direita), representantes da Escola de Frankfurt Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Frankfurt#/media/Ficheiro:AdornoHorkheimerHabermasby- JeremyJShapiro2.png. Acesso em 31 mar. 2023. Os regimes totalitaristas do período das grandes guerras e os regimes democráticos, há de se dizer, utilizaram-se de tecnologia e armas de destruição em massa para atingirem seus objetivos. Para entendermos o impacto destes totalitarismos na teoria e ética da tradução, no seu criar e traduzir, é preciso meditar sobre as seguintes críticas da Escola de Frankfurt: crítica ao Iluminismo, à razão instrumental, aos sistemas totalitários e aos meios de comunicação em massa. 73 Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) são dois grandes representantes da Escola de Frankfurt. Ambos escreveram em parceria muitas obras críticas aos sistemas totalitários, ao Iluminismo, à razão instrumental, ao sistema capitalista, entre outras importantes críticas. Uma de suas principais obras, na Dialética do Esclarecimento, os autores revelam a face destrutiva do Iluminismo, que poderia levar a tragédias como de fato veríamos nas grandes guerras: na crítica ao Iluminismo, observemos o trecho de Adorno e Horkheimer (1983, p. 90): Desde sempre o Iluminismo, no sentido mais abrangente de um pensar que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar os homens do medo e de fazer deles senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sob o signo do infortúnio triunfal. O programa do Iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço. Sua pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do saber. Mas, o Iluminismo a serviço do presente [da ciência e da técnica tal e qual ela se apresenta neste século] transforma-se no totalengano das massas. Por muito tempo, desde a Idade Moderna, o ser humano vem construindo uma crença cada vez mais forte e estruturada acerca do papel da razão em nossas vidas, inclusive no cotidiano mais simples. No Iluminismo, como observamos na ética de Kant, essa crença de que a razão poderia explicar tudo e acabar com os males do mundo se amplificou. Foi uma fé na racionalidade que foi sendo construída por séculos e séculos, e que impulsionou inclusive uma crítica literária que acreditava que a razão seria nossa chave para resolução, estruturação e até mesmo a tradução textual. Esse mito da razão tomaria um viés muito forte com as guerras mundiais e a ascensão dos regimes totalitários. E assim se daria, como vários autores do início do século XX e fim do XIX alertaram, e como se observou de forma trágica nas grandes guerras mundiais, a razão pode ser usada como meio de dominação e destruição, da mesma forma, o avanço e progresso das tecnologias: o ideal iluminista não caminhou para o progresso da liberdade, mas sim sua ruína. Os regimes totalitaristas souberam se apropriar desse mito da razão instrumental, segundo Adorno e Horkheimer (1983), e o utilizaram a serviço da barbárie, e não para o progresso civilizatório, utilizaram para manter o poder a qualquer custo. Outra dimensão trágica desses regimes totalitários foi a manipulação utilizando- se dos meios de comunicação em massa. Em todo contexto das guerras mundiais utilizou-se o rádio, o cinema em seus anos iniciais, jornais, revistas, meios impressos, a máquina da propaganda se fez presente e criou narrativas de ódio e difamação. Mais uma vez utilizou-se a arte, também, como uma arma de guerra. O estudo da Ética não mais seria o mesmo, e iria assim absorver o que essa chamada Teoria Crítica da Escola de Frankfurt estaria a dizer, para tentar compreender essas mudanças tão importantes no seio da sociedade. 74 É aquilo que a pensadora Hannah Arendt (1906-1975) viria a dizer em sua importante obra. Nascida em solo alemão, e de ascendência judia, Hannah Arendt viria a ser perseguida pelo nazismo, conseguindo fugir para os Estados Unidos da América onde se exilou e escreveu grande parte de sua obra. Dentro dessa obra, Hannah Arendt deu uma das respostas mais sublimes para tentar explicar a condição humana em suas dimensões éticas e políticas no Pós- Segunda Guerra Mundial. Segundo essa pensadora, o mal não possui origem metafísica, religiosa, ou algum tipo de entidade demoníaca. Pelo contrário, a causa do mal é sua regularidade, sua exposição cotidiana, sua repetição instrumentalizada. Uma vez normalizado, o mal assume uma manifestação cada vez mais cruel, pois banalizado pelas pessoas ele assume aparência comum. Primeiramente, há a culpa que a Sociedade Alemã de forma geral colocou nos povos semitas pelos desastres econômicos, depois confi scando seus bens, então a perseguição, exílio, depois mandados para os campos de concentração e aniquilamento, tudo isso foi normalizado pelos soldados e entorno militar nazista. Esse conceito de banalização da maldade e sua descrição trágica está no cerne da obra ética e política de Hannah Arendt: Começou dizendo enfaticamente que era um Gottglauniger, expressando assim da maneira comum dos nazistas que não era cristão e não acreditava na vida após a morte. E continuou: “Dentro de pouco tempo, senhores, iremos encontrar-nos de novo. Esse é o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Não as esquecerei”. [...] Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou – a lição da temível banalidade do mal, que desafi a as palavras e os pensamentos (ARENDT, 1999, p. 274). A ideia central no pensamento de Hannah Arendt é que a banalidade do mal pode estabelecer pontos de contato com a razão instrumental da Escola de Frankfurt e nos dimensionar naquilo que devemos pensar acerca da Ética, do traduzir e do criar. Se a razão instrumental nos condiciona muitas vezes em nos tornarmos apenas peças de um sistema, nos transformando em partes de um processo de produção, a banalidade do mal nos explica como essa razão instrumental nos torna seres amorais, ou seja, sem a capacidade de sentir a dor alheia e a dor do próximo. Em resumo, no contexto das duas grandes guerras e a ascensão dos regimes totalitários, podemos dizer que as pessoas comuns se deixaram seduzir pelo crescimento econômico, pela melhoria aparente da vida cotidiana, e acabam por dar sustentação popular a esses regimes. Mas como a maioria dessas sociedades não tentou mudar essa marcha da insensatez? ATENÇÃO 75 O pensamento racional tecnicista, nos disse Hanna Arendt, instituiu um certo fordismo no partido nazista, onde as pessoas comuns pareciam não ter a dimensão do que faziam, por ser o campo de extermínio parecido com uma linha de produção. Tal situação técnica, metódica e mórbida, gerou algo nunca antes visto na História que é a racionalização da morte, uma espécie de linha de produção absurda da morte. Como a Ética poderia lidar com isso? Outro pensador seminal para pensarmos a ética Pós-Segunda Guerra é Primo Levi (1919-1987). Primo Levi foi um escritor, químico, e principalmente, sobrevivente do holocausto. Na sua obra mais conhecida “É isso o homem?”, Primo Levi descreve de forma realista sua sobrevivência nos campos de concentração, trazendo uma das frases mais emblemáticas no século XX, em termos éticos: “Se Auschwitz existe, Deus não existe”: Sucumbir é a coisa mais simples: basta executar todas as ordens recebidas, comer somente a ração oferecida, ater-se à disciplina do trabalho e do campo. A experiência demonstrou que, desse modo, apenas excepcionalmente se pode aguentar mais do que três meses. Todos os muçulmanos que foram enviados à câmara de gás possuem a mesma história, ou, melhor dizendo, não têm história; seguiram a descida até o fundo, naturalmente, como os arroios que vão ao mar. Na obra Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal, Hannah Arendt trata o oficial nazista Eichmann como uma pessoa comum, aparentemente sem perversidade, mas que dentro do sistema assassino de aniquilação nazista, levou centenas de milhares à morte. Eichmann era um homem que não parava para refletir. Ele não tinha perplexidades e nem perguntas, apenas atuava, obedecia. Seu desejo [era] de agir corretamente, de ser um funcionário eficiente, de ser aceito e reconhecido dentro da hierarquia. [...] Sem dúvida, os juízes tiveram razão quando disseram ao acusado que tudo o que dissera era “conversa vazia” – só que eles pensaram que o vazio era fingido, e que o acusado queria encobrir outros pensamentos, que embora hediondos, não seriam vazios. Essa ideia parece ter sido refutada pela incrível coerência com que Eichmann, apesar de sua má memória, repetia palavra por palavra as mesmas frases feitas e clichês semi-inventados (quando conseguia fazer uma frase própria, e a repetia até transformá-la em clichê) toda vez que se referia a um incidente ou acontecimento que achava importante. […] o que ele dizia era sempre a mesma coisa, expressa com as mesmas palavras. Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar” (ARENDT, 1999, p. 62-63). Eichmann apenas obedecia a ordens, fazia o que mandavam, não questionava, e assim, tinha sua vida cotidiana moldada por uma naturalização da maldade. Ele não se achava mal, não se julgava uma aberração, mas foi uma peça importante na máquina de aniquilação nazista. Ele, Eichmann, era uma peça dentro deste sistema burocrático, perverso e de sangue frio, que produziu uma máquina de destruição em massa, segundo Hanna Arendt. IMPORTANTE 76 Uma vez dentro do campo, ou devido à intrínseca incapacidade, ou à desventura, ou por um banal acidente qualquer, eles foram esmagados antes de conseguirem adaptar-se; ficaram paratrás sem nem ao menos começarem a aprender o alemão ou a perceber alguma coisa no emaranhado infernal de leis e proibições [...] (LEVI, 1988, p. 91). Primo Levi (1988), a seu modo, também nos mostra a banalidade do mal, pelo prisma daquele que sofreu a tragicidade dessa banalidade. Esse axioma ético, até mesmo teológico, de Primo Levi demonstrou a que ponto pode chegar a perversidade humana, e indagou até que ponto os Sistemas Éticos nos distanciaram da barbárie dos homens. Primo Levi (1988) nos apresentou textualmente, de forma concreta, que precisávamos de um recomeço, novamente pensar e agir em como poderíamos frear essa perversidade em potencial da humanidade. Várias tentativas de remodelar a ética se desenvolvem a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, teorias éticas que tentam devolver à face humana e respeito em nossa sociedade, criando-se assim um período desafiador, porém criativo para a ética. Em resumo, os pensadores da ética subsequentes ao fim da Segunda Guerra, iriam tomar essa lição de como a razão pode instrumentalizar as pessoas, transformar as relações humanas em espécies de fordismos, uma linha de produção burocratizante e banalizante da ética, a lição de nunca mais utilizar a técnica e tecnologia para a racionalização da morte. Sabemos que isso ainda não se concretizou nos dias de hoje, mas após a Segunda Guerra, essa ideia norteou as criações da ética. Tabela 1 – Pensadores da ética no pós-guerra Pensadores da Ética no pós-guerra Pensador Ideia geral Escola de Frankfurt • Críticos ao mito da razão, do Iluminismo, dos sistemas totalitaristas, apresentaram uma postura crítica ao extre- mo tecnicismo. Isso demonstra a ética mais voltada ao humano, e não ao racional tecnicista. Hanna Arendt • Apresentou a banalidade do mal como característica mais marcante de sociedades totalitárias, que se utilizam de organização tecnicista e que normalizam o mal em seu cotidiano. Primo Levi • Descreveu o mal totalitarista como experiência própria de sobrevivente do holocausto. Apresentou a impossibilida- de ética da humanidade no existir dos regimes nazifas- cistas. Fonte: o autor 77 Os autores do pós-guerra aqui estudados, nesta parte inicial do texto, deixam claros os perigos de uma sociedade fundada no puro tecnicismo, na utilização da razão instrumental como burocratização dos processos práticos. É um ensinamento que deve ser levado no âmbito da tradução. É a pergunta que se coloca: como fugir do tecnicismo na tradução? Para fugir da armadilha tecnicista devemos pensar uma tradução cada vez mais humanizada e priorizando o respeito pelas minorias linguísticas, ou melhor, pelas minorias de forma em geral. Muitas vezes acabamos naturalizando processos já tradicionais do traduzir, e cometemos uma espécie de banalização do mal, obviamente, em menor escala. Figura 2 – Hanna Arendt Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt#/media/Ficheiro:Hannah_Arendt_1933.jpg. Acesso em: 31 mar. 2023. A própria Hanna Arendt é um exemplo de pesquisadora, pensadora e produtora de várias traduções, até mesmo ao escrever em inglês como sua segunda língua. Trata- se de um ótimo exemplo de engajamento pela humanidade do texto. Agindo assim, talvez consigamos escapar da tecnização do traduzir, não instrumentalizarmos ao extremo nossos textos, não banalizarmos e naturalizarmos um mau procedimento. 78 2.1 TEÓRICOS DA TRADUÇÃO E A ÉTICA Foi a partir do final da Segunda Guerra Mundial que o pensar da tradução e seus aspectos criam novos contornos. Primeiramente, a questão do respeito se torna objeto essencial não somente na ética filosófica, como também na busca institucional dos países mais desenvolvidos. Um reflexo disso é a criação da ONU e sua carta mais acerca dos Direitos Humanos, que estabelece o respeito como uma de suas principais vertentes. Poderíamos citar várias partes da Carta, mas o Artigo 1, parágrafo 3 resume bem: “Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover” e “e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião” (ONU, 2023, s.p.). O respeito por aquilo que é humano e pelas diferenças vai se concretizando, aparentemente, nos ambientes mais civilizados, nas democracias mais consolidadas, longe de chegar à perfeição, mas avançando em algumas questões históricas. É nesse contexto, nessa espécie de otimismo Pós-Segunda Guerra, que avançam algumas questões dos direitos civis, por exemplo, o fim da segregação racial patrocinada pelo estado nos Estados Unidos da América, o fim do Apartheid na África do Sul, ascensão e conscientização dos direitos femininos, LGBT+, enfim, uma sociedade civil mais organizada, buscando seus direitos mais elementares como o respeito. [...] embora configure um campo composto por forças sociais heterogêneas, representando a multiplicidade e diversidade de segmentos sociais que compõem a sociedade, está preferencialmente relacionada à esfera da defesa da cidadania e suas respectivas formas de organizações em torno de interesses públicos e valores, incluindo-se o de gratuidade/altruísmo, distinguindo-se assim dos dois primeiros setores acima (Estado e mercado), que estão orientados, preferencialmente, pelas racionalidades do poder, da regulação e da economia (SCHERER- WARREN, 2006, p. 4). Conduzida por uma defesa da cidadania, os avanços das causas civis e movimentos sociais avançaram principalmente a partir dos anos 1960 do século XX, buscando vários direitos por muito tempo renegados, a busca dessas pessoas ancorava- se no prisma da igualdade de direitos, acesso à saúde, educação, cultura. O respeito à diversidade era e é um dos seus principais motes e ainda movimenta a busca. No ambiente do texto e da tradução, o criar se conecta com essa renovação e ênfase na ideia de um respeito efetivo na convivência social amparado pelas novas éticas do respeito (influenciada por esses autores que tentaram explicar as guerras mundiais), seguindo de carona com as novas conquistas civis. Temos então uma tradução muito mais voltada para um olhar agudo acerca do respeito. Uma afeição às minorias, aos excluídos, àqueles não contemplados pelas riquezas materiais e pelas facilidades que os detentores e atuantes formais do poder e dos bens materiais carregam. 79 No ambiente teórico da tradução essa ética do respeito está muito presente também. Está presente, principalmente, no respeito pelo original e sua autoria. Como ler um original, como respeitar um original, como traduzir um original, essas questões se colocam como essenciais na tradução a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. São questões obviamente éticas e necessárias. O que orbita nesse contexto ético de referências, é então, a questão do outro, e mais do que isso, do respeito ao outro. Uma obra jornalística, ficcional, poética, biográfica, enfim, qualquer atividade criativa escrita leva em si à originalidade, à subjetividade, à pessoalidade, à vida do autor ou autora. Deve-se concretamente levar em conta todos esses aspectos tendo a responsabilidade como horizonte. Então, nossas relações com essas obras devem preservar o maior respeito possível, a maior dimensão de alteridade, e compreensão possível da singularidade ali investida. Assim, uma obra original deve ser observada como um caleidoscópio de respeito, alteridade, compreensão, desde que também essa obra não quebre com o mesmo respeito à alteridade com o leitor, pois essa obra deve ter ética também. Assim deve ser também a leitura, a saber, um olhar acerca da alteridade, saber que por trás de um texto há um autor, saber compreender a multiplicidade, a pluralidade de leituras, e principalmente, exercer a alteridade. Onde reside então o verdadeiro desafio ético? Reside na tradução de um original? Reside na linguagem dessa tradução e seus mecanismos técnicos? Comoapresentamos anteriormente, com o reflexo do fim da Segunda Guerra Mundial, a questão do “outro” se coloca como uma das mais relevantes da Ética. Também na tradução, o “outro como objeto” é assunto corolário. Devemos então estudar um grande pensador, que juntou ética e alteridade, e influenciou muito a tradução. Seu nome é Emmanuel Lévinas (1905-1995). Junto a Lévinas se estabelece um estudo profundo acerca de uma ideia que se desenvolve no Pós-Segunda Guerra, que é o primado ético da alteridade. Observamos no dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano a definição da palavra: Ser outro, colocar-se ou constituir-se como outro. A alteridade é um conceito mais restrito do que diversidade e mais extenso do que diferença. A diversidade pode ser também puramente numérica, não assim a alteridade. (cf. ARISTÓTELES, Met., IV, 9,1.018 a 12). Por outro lado, a diferença implica sempre a determinação da diversidade (v. DIFERENÇA), enquanto a alteridade não a implica (ABBAGNANO, 2007, p. 34). Basicamente, então, alteridade é se colocar no lugar do outro, tentar ver o mundo sob a ótica do outro, exercitar a empatia, exercitar a ideia de que devem existir razão e motivos nas atitudes alheias. E assim devemos pensar também a tradução. O que seria uma tradução que pensa a alteridade? O que seria uma tradução que pensa o outro e alheio? Lévinas nos ajuda a pensar acerca dessa questão. 80 Para descrever que a alteridade não é um princípio ético inatingível, mas está entre nós desde sempre, Lévinas parte exatamente da crítica ao mundo dos entre guerras, do mundo totalitarista e bárbaro que teve seu auge nas guerras mundiais do início do século XX. Lá se desenhou para Lévinas o princípio da barbárie e privação da liberdade: [...] que a fome e o medo podem vencer a toda a resistência humana e toda a liberdade. Não se trata de duvidar da miséria humana – do domínio que as coisas e os maus exercem sobre o homem da animalidade. Mas ser homem é saber que é assim. A liberdade consiste em saber que a liberdade está em perigo. Mas saber ou ter consciência é ter tempo para evitar e prevenir o momento da inumanidade. É o adiamento perpétuo da hora da traição – ínfima diferença entre o homem e o não – homem (LÉVINAS, 1988, p. 23). Liberdade tem a ver com a manutenção da humanidade, tirar e privar o homem dos seus instintos mais animalescos e vil. Ter liberdade é se prevenir dessa animalidade inumana. Lévinas, por ser judeu, por ter sido perseguido na Alemanha nazista, por ter sido preso e depois ter fugido com sua família para preservar suas vidas, sentiu na pele o gosto horrível da barbárie e privação da liberdade, sentiu ele mesmo a inumanidade. De 1939 a 1945 viveu num campo de concentração em Hanover, longe de seus entes queridos, e encarou as violências nazistas por ter se alistado na resistência francesa e lutado, e obviamente, por ser judeu. Figura 3 – Emannuel Lévinas Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Emmanuel_Lévinas#/media/Ficheiro:Emmanuel_Lévinas.jpg. Acesso em: 31 mar. 2023. 81 Mesmo assim, depois de toda exposição ao mal, Lévinas não perdeu a sua humanidade e descreveu o caminho da alteridade através de simples experiências de acolhimento. A primeira delas, a ideia de que o acolhimento nos ronda desde sempre, a saber, sempre que temos contato com o rosto alheio: “A epifania do rosto, duplica todo o discurso, não como um discurso sobre temas morais, mais como momento irredutível do discurso suscitado essencialmente pela revelação do rosto enquanto ele atesta a presença do terceiro, de toda a humanidade, nos olhos que me observam” (LÉVINAS, 1988, p. 191). O “face a face” é uma experiência essencial para Lévinas, é a partir dela que a ética desenvolve seu primado de filosofia primeira. A epifania do rosto é saber da existência concreta do outro. O mais importante de tudo é essa consciência ética que nasce do contato com o outro. Temos o contato com o alheio, desde que nascemos, e neste contato é que desenvolvemos as consciências mais básicas (por exemplo de que temos consciência) até as mais complexas (como a ideia de Deus e Infinito): A proposta de Lévinas dá nova cor à fenomenologia husserliana possibilitando um sentido ético. É saída de si para ir em direção ao outro, é infinito dinamismo, um presente vivo de relações que escapa de qualquer subjugação temática. Como o próprio Lévinas afirma “[...] multiplicação de modificações, dispersando-se a partir do presente vivo [...]” (LÉVINAS, 2011, p. 55). Por exemplo, o contato com nossos genitores, desde que nascemos, nos possibilita abrir desde então o horizonte da ética. Mas não somente o seio familiar, mas todas as experiências futuras, por exemplo, nossa educação, se dá na experiência do alheio: [...] a altura donde vem a linguagem designando-a pela palavra ensino [...] Não exclui a abertura da própria dimensão do Infinito que é altura no rosto do mestre. A voz que vem de uma outra margem ensina a própria transcendência. O ensino significa todo o infinito da exterioridade, que não se produz primeiro para ensinar depois, o ensino é a sua própria produção. O ensinamento primeiro ensina essa mesma altura que equivale a sua exterioridade, a ética [...] (LÉVINAS, 1988, p. 153). A ética se desenvolve na medida em que tomamos consciência de nós e dos outros, portanto, a ética é o essencial, é a descoberta, é o conhecimento, educação, tudo isso na dimensão do nós e dos outros. É a saída do interno para o externo. Novamente, a epifania do rosto, o contato com o outro, a alteridade. Daí, novamente, salienta o papel da ética, dentro de sua obra: Descrevo a ética, é o humano, enquanto humano. Penso que a ética não é uma invenção da raça branca, da humanidade que leu os autores gregos nas escolas e que seguiu certa evolução. O único valor absoluto é a possibilidade humana de dar, em relação a si, prioridade ao outro. Não creio que haja uma humanidade que possa recusar este ideal, mesmo que se deva declará-lo ideal de santidade. Não digo que o homem é um santo, digo que é aquele que compreendeu que a santidade era incontestável. É o começo da filosofia, é o racional, é o inteligível (LÉVINAS, 1986, p. 149-150). 82 A ética é a condição mais básica da definição do ser humano, é o humano enquanto ser humano. Não é uma invenção meramente intelectual, mas sim nossa definição e condição de vida. O legado de Lévinas é nos apontar a questão essencial da alteridade como essência desse ser humano. Vivemos muito a cultura da subjetividade, do ego, daquilo que me diz respeito somente. E a dimensão do outro? Segundo Lévinas (2018), sem o outro não existiríamos da maneira que nos entendemos, pois desde que nascemos estamos conectados com outros. Só existimos como sujeito, em virtude de um outro que me protege e que eu devo proteger. [...] a necessidade faz com que o indivíduo se mova, portanto, o sujeito de necessidade movimenta-se, não é estático, porém dinâmico. Além disso, indica uma dependência do outro, do mundo. Vive com os outros, mas está só, separado. No entanto, a necessidade faz com que se abra para a alteridade do mundo e para outros seres. A necessidade indica uma intencionalidade sentida pelo corpo e essa mostra que ele está no mundo, é independente e dependente (GRZIBOWSKI, 2018, p. 90-91). A tradução, como atividade de desvendar em outra língua aquilo que outro disse fez e escreveu é algo a ser muito pensado através do prisma de Lévinas, pois o traduzir é um tipo de percepção que temos do outro. Nossa percepção do mundo emerge como sentido ético, pois ao nascer já estamos com a consciência sendo projetada num outro, no rosto de um outro, no convívio com um outro. É nossa relação com as outras pessoas que descobrimos e nos tornamos o que somos. Em resumo, o que poderíamos apontar como os principais legados de Lévinas na ética, e depois, ampliando para o horizonte ético também da tradução. A primeira ideia essencial é o primado da alteridade contráriaao subjetivismo completo. Contrário à transformação técnica e burocrática das relações humanas, Lévinas nos traz a ideia de que o humano se faz na relação com o outro. Se faz no ato de simples observar que nos formamos pela alteridade. Lévinas amargou na pele a violência nazista, e os campos de concentração foram o auge do solipsismo tecnicista e desumanizante. Por isso, antes de qualquer coisa, a prática da alteridade é o que sustenta o campo ético. Daí outra ideia crucial em Lévinas, que a ética emerge como filosofia primeira. Ela é primeira pois demonstra o que somos desde o início, ou seja, somos consciências projetando nossas consciências em outras consciências. Assim nascemos, aprendemos, ensinamos e vivemos. Assim, desde o início de nossa relação com o mundo, tornamos essas relações em relações humanas por excelência. 83 Por isso, como observado em alguns autores por nós aqui estudados, segundo Lévinas nunca poderemos colocar a ética em segundo plano, nem mesmo comparada à poética, pois somos ética desde quando existimos, e a poética é um desenvolvimento e consequência da ética. O face a face com o outro nos coloca na posição ética originária, que não depende de nosso aparato racional cerebral, mas depende de encontros, afetividades e empatias. Por isso a obra de Lévinas é um resgate tão importante de humanidade. A postura de Lévinas foi de grande importância para a época, e ainda é uma influência presente em vários autores. Em especial, no ambiente da ética da tradução, sua influência e presença é muito forte. Nunca devemos esquecer que a tradução lida com o nós, mas essencialmente o outro, ou aquele que será traduzido. Essa dimensão de que o outro ocupa papel fundamental deve povoar a mente de tradutor e trazer seu olhar para a responsabilidade, alteridade e empatia com o desconhecido. Um desconhecido que passará a ser conhecido pelas mãos da tradução, algo que foi adquirido da obra de Martin Heidegger, que cravou acerca do processo de traduzir: Toda tradução é em si mesma uma interpretação. Ela carrega no seu ser, sem dar-lhes voz, todos os fundamentos, as aberturas e os níveis da interpretação que estavam na sua origem. E a interpretação, por sua vez, é somente o cumprimento da tradução que permanece calada [...]. Conforme às suas essências, a interpretação e a tradução são somente uma e única coisa (HEIDEGGER, 1983, p. 75). Se a tradução é uma interpretação, uma abertura para o ser, Lévinas faz questão de apresentar o outro como a principal abertura do nosso ser, principalmente, em se tratando de tradução, levar a ideia de alteridade, respeito com o outro, à máxima potência. Mergulhar numa tradução, tentando penetrar cada vez mais nessa abertura da alma de outrem, isso é algo que traz a obviedade do respeito e responsabilidade com o outro. Quando escutamos o outro, quando traduzimos outro ser humano, essa perspectiva de abertura se aguça, e se desenvolve como altruísmo e compreensão. Esse é o caminho para nossa reumanização como sociedade. O processo de tradução, seja textual ou pessoal, deve levar sempre em conta esse momento de descoberta do outro, requerendo uma pesquisa profunda acerca daquele que tomamos a voz para tornar nossa voz, uma pesquisa profunda fundada na empatia e conhecimento, na medida do possível, do outro rosto que está ali envolvido e transbordado na obra. Vejamos um breve resumo das implicações éticas da obra de Lévinas, no ambiente da tradução: 84 Implicações de Lévinas na ética da tradução Conceito Implicações Alteridade • Alteridade é se colocar no lugar do outro, tentar ver o mundo sob a ótica do outro, exercitar a empatia, exercitar a ideia de que deve existir razão e motivos nas atitudes alheias. • E assim devemos pensar também a tradução. A tradução • A tradução é uma interpretação, uma abertura para o ser, Lévinas faz questão de apresentar o outro como a principal abertura do nosso ser, principalmente, em se tratando de tradução, levar a ideia de alteridade, respeito com o outro à máxima potência. A Ética • A ética emerge como filosofia primeira. Ela é primeira pois demonstra o que somos desde o início, ou seja, somos consciências projetando nossas consciências em outras consciências. • Assim nascemos, aprendemos, ensinamos e vivemos. As- sim, desde o início de nossa relação com o mundo, torna- mos essas relações em relações humanas por excelência. Tabela 2– Implicações de Lévinas na ética da tradução Fonte: o autor Lévinas nos apresenta uma ideia essencial de que se não há o outro, não há obra. Esse é um axioma básico das teorias da recepção dentro das últimas décadas. O outro se dá sempre no contexto de uma recepção: Um ‘texto’ ─ e aqui eu estou usando a palavra no sentido amplo pós- estruturalista, que poderia significar uma pintura, ou uma cerimônia de casamento, ou uma pessoa, ou um evento histórico ─ nunca é apenas ‘em si’, apelos para aquela entidade reificada enquanto mera sinalização retórica; pelo contrário, é algo que um leitor lê, de forma diferente. A maioria das versões da teoria da recepção sublinha o caráter mediado, situado, contingente (oque, naturalmente, não significa o mesmo que arbitrária) das leituras, e isso inclui nossas próprias leituras tanto quanto aquelas de séculos passados (MARTINDALE, 2006, p. 3). 85 Temos então, que um texto não promove uma percepção fechada e em si, e de que ele tem necessidade de um interlocutor para fazer sentido. Todo texto, para existir, deve ter seu receptor, deve ter seu caminho final, que é exatamente a consciência do outro. Essa construção, pelo preservar a função do outro não somente na obra escrita, como também em nossa existência é uma contribuição essencial de Lévinas. É a conexão ético do um com o outro, com o “em si” e o “para si”. Essa ética voltada para o outro de Lévinas influenciará várias perspectivas éticas no mundo pós-guerra, e colocará luz sobre a questão da alteridade. Vejamos como isso se dará na próxima temática. 86 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • O impacto da Ética no período pós-guerras, e como esse impacto influencia o ambiente da tradução. • O possível impacto dessas éticas na tradução, em especial aquelas que versam à alteridade. • A ideia da tradução e criação no pós-guerra, e como isso se converge com a tradução. • A observar o papel da alteridade na tradução e como ela se torna essencial. 87 RESUMO DO TÓPICO 1 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: “O mito converte-se em esclarecimento e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder. O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este os conhece na medida em que pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. É assim que seu em-si torna para-ele. Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se como sempre a mesma, como substrato de dominação”. Fonte: ADORNO; HORKHEIMER. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 21). Acerca da obra da Escola de Frankfurt e suas implicações éticas na tradução, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à razão instrumental, aos sistemas totalitários, e o uso manipulador dos meios de comunicação em massa. b) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à emoção instrumental, aos sistemas totalitários, e o uso manipulador dos meios de comunicação em massa. c) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à razão instrumental, aos sistemas democráticos, e o uso manipulador dos meios de comunicação em massa. d) ( ) A Escola de Frankfurt faz uma crítica direta à razão instrumental, aos sistemas totalitários, e o uso correto dos meios de comunicação em massa. 2 Leia o trecho a seguir: “A sociedade contemporânea convive com os riscos produzidos porela mesma e com a frustração de, muitas vezes, não saber distinguir entre catástrofes que possuem causas essencialmente naturais e aquelas ocasionadas a partir da relação que o homem trava com a natureza. Os custos ambientais e humanos do desenvolvimento da técnica, da ciência e da indústria passam a ser questionados a partir de desastres contemporâneos como AIDS, Chernobyl, aquecimento global, contaminação da água e de alimentos pelos agrotóxicos, entre outros”. Fonte: LIMA, M. L. M. A ciência, a crise ambiental e a sociedade de risco. Senatus. v. 4, n. 1, nov. 2005. p. 42-47). Adaptado. Acerca da utilização técnica e da razão instrumental dentro dos pesadores do pós- guerra, leia as assertivas a seguir: 88 I- Os autores do pós-guerra enaltecem as tecnologias e a utilização da razão instrumental, tendo isso como nosso progresso. II- Esses autores criticam o mito da razão e da tecnologia como salvadores de nossa humanidade e avanço civilizatório. III- Esses autores demonstraram o absurdo dos sistemas totalitários e apontaram para uma nova definição do que é humano: Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Leia o trecho a seguir: “Sempre que a relevância do discurso entra em jogo, a questão torna-se política por definição, pois é o discurso que faz do homem um ser político. E tudo que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Haverá, talvez, verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos”. Fonte: ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. Acerca da obra de Hanna Arendt e sua obra contra os sistemas totalitários, assinale V para verdadeiro e F para falso. ( ) Hanna Arendt aponta a banalidade do mal como principal conceito para fundamentar os horrores do Holocausto. ( ) A autora, apesar de ser crítica aos modelos totalitaristas, defende a razão instrumental como modelo de gestão ético. ( ) Hanna Arendt nos apresenta a origem do mal não em base metafísica ou teológica, mas a partir de fatos comuns. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 89 4 Leia o trecho a seguir: Observe a seguinte afirmação sobre o pensamento de Emmanuel Lévinas (1906-1995): “Uma primeira fase da filosofia ocidental, da Antiguidade à Idade Média, foi centrada no estudo do ser. Esse estudo apaga a noção de alteridade, pois o ser é aquilo que é ele mesmo. Estudar o ser é sempre estudar o mesmo, nunca o outro. Depois de pensar o ser, a filosofia pensou o eu e a filosofia moderna constitui-se como uma filosofia do sujeito. Também nessa filosofia do sujeito o outro ficou de fora, pois ele é sempre tematizado com base no eu. É necessário, portanto, voltar-se para o outro. Essa é, pensa Lévinas, a tarefa da filosofia contemporânea. Isso significa colocar a ética em primeiro lugar, pois é da relação com o outro que surge o questionamento moral”. Fonte: GALLO, S. Filosofia: experiência do pensamento. São Paulo: Scipione, 2013, p. 281). A partir disso, apresente o legado de Lévinas na Ética da Alteridade e como podemos pensá-lo na tradução: 5 Leia o trecho a seguir: “Desde sempre o Iluminismo, no sentido mais abrangente de um pensar que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar os homens do medo e de fazer deles senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sob o signo do infortúnio triunfal. O programa do Iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço. Sua pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do saber. Mas, o Iluminismo a serviço do presente [da ciência e da técnica tal e qual ela se apresenta neste século] transforma-se no total engano das massas”. Fonte: ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Conceito de Iluminismo. Trad. Zeljko Loparic e Andréa M. A. C. Loparic. 2. ed. São Paulo: Victor Civita, 1983, p. 90. Apresente as considerações éticas desenvolvidas pela escola de Frankfurt e suas implicações no mundo pós-guerra: 90 91 OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO E ALTERIDADE 1 INTRODUÇÃO Observamos no ano de 1945 um mundo no abismo, com o fim da Segunda Guerra Mundial. O legado do nosso avanço científico, da nossa racionalidade, das lutas operárias, das lutas pelo direito civil, o breve avanço do início do século XX, tudo isso pareceu sucumbir a uma violência e tragicidade humana brutal. Por isso o mundo estava no abismo e dele deveria de alguma forma sair. A humanidade apresentava seu aspecto mais sombrio. Mais do que urgente foi preciso repensar isso que chamamos de ser humano. Na Escola de Frankfurt, teóricos como Hanna Arendt e Primo Levi, verbalizaram a tragédia e suas causas. Mas o que a ética poderia fazer? E o que isso impactaria no processo de escrita e tradução? A tradução surge ali, no início do pós-guerra, como uma tentativa de reumanização, uma tentativa de trazer para o mundo das interconexões linguísticas um universo mais humano e civilizado, e até mesmo progressista por assim dizer. Abordaremos a partir de agora em nosso texto que essa reumanização, entre muitos caminhos, pode ser observada na produção teórica sobre a ética na tradução que permeia as últimas décadas. Vamos tratar agora de como a ideia de alteridade, primeiramente como observamos em Lévinas e depois em outros autores, como a alteridade influenciou muito o desenvolvimento das teorias éticas da tradução no final do século XX e início de XXI. Em especial, iremos falar da escola francesa da alteridade que muito foi influenciada por Emmanuel Lévinas, uma escola que coloca a questão do outro como essência da tradução. Pensar em função do outro na tradução parece ser algo elementar, algo normal de ser seguido. Nem sempre foi assim. Muito da história da tradução tem a ver com a tentativa daquele que traduz tentar colocar sua individualidade acima daquilo que a obra e o autor de fato entregaram em sua língua natal. Por isso a escola que Lévinas inicia faz esse trabalho tão contundente em justificar a existência do outro como essencial da tradução. UNIDADE 2 TÓPICO 2 - 92 2 TRADUÇÃO E ALTERIDADE Naquela que fi cou conhecida como uma das principais obras do século XX sobre Ética na tradução, Antoine Berman (1942-1991) nos aproxima de um pensamento complexo e profundo sobre a ética ao traduzir em seu livro “Albergue do longínquo”. Filósofo, tradutor e professor, Berman criou uma escola de tradução na França, principalmente, pensando a tradução do espanhol e alemão para o francês. Viveu apaixonadamente a tradução e sua crítica, fl ertando de forma teórica com a Filosofi a, Sociologia e Antropologia. Em especial, trouxe para a tradução a teoria ética de Emmanuel Lévinas, entre outras coisas além de produzir um texto de referência sobre ética e tradução. Além de demarcar a produção ética de Lévinas, Berman operou uma crítica contundente à História da Tradução, e nesse caminho, tecer suas considerações acerca da ética da tradução. O título da sua obra sobre ética na tradução, “Albergue do longínquo”, já nos manda um recado acerca de Berman e seus objetivos. O “Albergue” é um local simbólico de acolhimento do estrangeiro, do outro, daquele que não tem lar, não tem onde morar. É um espaço de recepção do outro, é um espaço de recebimento daquilo que muitas vezes desconhecemos, uma representação de Berman acerca do outro na língua e tradução. O albergue talvez seja, ainda mais, o limiar daquele que está totalmente sem tetojunto com aqueles que buscam uma nova chance. Já a segunda palavra do título, “longínquo”, apresenta-nos a dimensão do estranho, do diferente, do que vem de longe, é o outro, o alheio. Hospedar o distante, recepcionar o outro, estes são os sentidos básicos do título da obra de Berman. O albergue hospeda o longínquo e estabelece essa imagem que o autor quer nos passar. INTERESSANTE Comecemos com o conceito de acolhimento, que é uma ideia essencial em Berman. Um dos refl exos do pós-guerra, referendado pela carta máxima da ONU, e que se tenta institucionalizar nos vários estados membros desde então, é a ideia de acolhimento. Um dos traços do progresso civilizatório é essa marca do primeiro acolher, depois ajudar da melhor forma aqueles que realmente precisam de ajuda. Veremos que no âmbito da tradução, como tratamos sempre “do estrangeiro” e do “outro”, tratamos sempre de reexpressar aquele que linguisticamente está distante, essa será a característica ética essencial. Por isso o acolhimento do tradutor acerca do traduzido, isso é o que a alteridade nos apresenta como correto a fazer. 93 Quando o acolhimento se materializa, na recepção do outro, ele expressa um mandamento ético fundamental no traduzir, a saber, a ideia de traduzir a partir da recepção respeitosa desse outro, observa-se ali então, nessa recepção, civilização e ética. O outro, o alheio, são eles é que dão materialidade ao traduzir, sendo esse o grande desafio ético do tradutor. Vejamos de forma mais detalhada essa ética do traduzir proposta por Berman. No início da sua obra, Berman apresenta uma crítica aos métodos tradicionais da tradução, que concebem a mesma, o ato de traduzir, como um aparato meramente estético, ou seja, como dar beleza a um sentido. Assim é a tradução: experiência. Experiência das obras e do ser- obra, das línguas e do ser-língua. Experiência, ao mesmo tempo, dela mesma, da sua essência. Em outras palavras, no ato de traduzir está presente um certo saber, um saber sui generis. A tradução não é nem uma subliteratura (como acreditava-se no século XVI), nem uma subcrítica (como acreditava-se no século XIX). Também não é uma linguística ou uma poética aplicada (como acredita-se no século XX). A tradução é sujeito e objeto de um saber próprio (BERMAN, 2013, p. 25). A experiência existencial é aquilo que circunda o tradutor e o conduz para a experiência da língua que deve traduzir, bem como a experiência da obra que almeja trabalhar a tradução. Observamos aqui um vocabulário que remonta ao método fenomenológico existencial que acompanha boa parte do pensamento humano desde após a Segunda Guerra. A observação do fenômeno, ou seja, dos objetos como se apresentam para a nossa consciência, utilizando aquilo que ficou conhecido como fenomenologia, é parte essencial do método de Berman. É a busca do ser da obra, do ser da língua. Mas essa busca sempre requer e apresenta a necessidade de alteridade. Nesse sentido a tradução não é um luxo ou adorno, é de fato uma operação essencial de acolhimento e alteridade. A Fenomenologia é então, em poucas palavras, o estudo do fenômeno, ou o estudo daquilo que se apresenta para a nossa experiência, na verdade um estudo de como nossa consciência se conecta com a realidade através da experiência. Berman faz uma fenomenologia da tradução e dá a ela contornos éticos. Nessa perspectiva Berman traz um neologismo interessante, que ele chama de tradutologia: “A tradutologia: a reflexão da tradução sobre si mesma a partir da sua natureza de experiência. Insistimos sobre os dois termos da nossa dupla: experiência e reflexão” (BERMAN, 2013, p. 26). A tradutologia é esse método que busca a experiência do autor, do texto e língua a ser traduzida. Mais do que isso, ele busca colocar a tradução em lugar central das humanidades, sendo colocada inclusive como a busca de grandes pensadores modernos. A tradutologia seria a busca de um método de tradução que cumpra o principal requisito com a ética que é pensar o outro como tema principal: 94 Que o pensamento moderno está intimamente relacionado ao problema da tradução, ou mais precisamente ao espaço desta, é bastante evidente, justamente, com Benjamin, Heidegger, Gadamer e Derrida (sem falar dos fi lósofos analíticos como Wittgenstein e Quine). Mas além desta confi guração tipicamente moderna (a fi losofi a tornando-se, com Heidegger em primeiro lugar, comentário e tradução), existe uma ligação muito antiga entre o “fi losofar” e o “traduzir”. Aqui não é o lugar de examinar isto. Assim o testemunham estas linhas de Benjamin (1971, p. 270 apud BERMAN, 2013, p. 28). Tradução, fi losofi a e ética devem andar juntas, e andam. Falaremos ainda nesse material sobre Walter Benjamin e Martin Heidegger e como o pensamento deles acerca da tradução possibilitou as teorias hoje existentes. Porém, Berman nos lembra a importância do traduzir para esses autores, pelo fato de que a fi losofi a sempre se fundamenta e se articula também em traduções, pois os autores diferem em línguas. ESTUDOS FUTUROS O importante aqui é ressaltar o método de Berman, assentado naquilo que podemos chamar de olhar para a experiência plural da tradução que é a tradutologia do autor, uma experiência que pode ser comparada à psicanálise, fi losofi a, teatro, dada a dimensão do outro que envolve o processo de traduzir, dada à experiência de alteridade do objeto de tradução: Assim, a tradutologia não ensina a tradução, mas, sim, desenvolve de maneira transmissível (conceitual) a experiência que a tradução é na sua essência plural. O paralelo, aqui, com a psicanálise, o teatro ou a fi losofi a nunca é sufi cientemente destacado. Neste sentido, ela não concerne somente aos tradutores, mas a todos os que estão no espaço da tradução. Isto é, todos nós, considerando que, da tradução, ninguém está livre (BERMAN, 2013, p. 31). Tradutologia é essa técnica plural de comunhão de saberes, de mergulhar na conjunção das línguas e suas conexões. Ressalta-se assim, que junto com essa pluralidade no espaço de tradução, devemos observar a Ética com área central e principal fator de contato entre obra e tradutor. A essência da tradução que Berman coloca, nada mais é do que a essência ética da tradução. E talvez o mais relevante, a tradução não somente como ofício singular e técnico do tradutor, mas um ofício abrangente. Mas como apresentar essa ética na tradução? Como o tradutor deve agir nesse sentido ao se deparar com o texto a ser traduzido? Algumas ideias são essenciais para esse horizonte do traduzir, na verdade, muito mais que ideias, são atitudes essenciais do tradutor, temos então: proceder a uma desconstrução da tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução. Vejamos cada uma delas e como a tradução opera uma diferenciação do poético em detrimento do ético. 95 2.1 TRADUÇÃO: DA POÉTICA À ÉTICA O caminho do compromisso do texto escrito e traduzido, segundo Berman, vai da criação poética à ética. É um caminho oposto ao observado na unidade anterior, e acena para o maior compromisso com um código moral, um pacto do pós-guerra que leva em conta o respeito pelas diferenças como algo muito sério a ser considerado, um compromisso com uma ética normativa, uma ética como primeiro fundamento. Vamos percorrer o caminho teórico apontado por Berman, através do que ele e outros teóricos operarem uma “desconstrução”. Primeiramente, há de se observar uma necessidade que Berman coloca de desconstrução de uma tradição etnocêntrica. O que seria isso? Etnocentrismo é um conceito derivado da Antropologia que diz estar no centro das relações humanas somente um ou poucos povos (etno). E com relações humanas podemos colocar as línguas, as culturas materiais e imateriais, ou seja, tudo que produzimos em sociedade. Mais do que isso, uma visão etnocêntrica é aquela visão que se destaca como se achando a melhor visão de ver as coisas, a visão mais bela e correta de se ver as coisas, a visão que se achasuperior como muitas culturas e povos já se acharam na História humana. Com um olhar rápido sobre a História, descobrimos que o Etnocentrismo pode ser considerado muito mais uma mazela do que qualidade. O Etnocentrismo foi a causa de muitas barbáries e erros históricos, como o colonialismo, neocolonialismo, nazismo, fascismo, imperialismo, neoimperialismo, também, segundo Berman, causa de muitas barbáries na tradução também. Berman é um pensador ético da tradução que vai contra esse movimento. Ele observa que a tradução, desde os gregos, passando pelos romanos, idade média, impérios ocidentais, a tradução sempre teve uma visão etnocêntrica, a saber, a visão de um povo que se considerava maior e melhor perante os outros e produzia sua cultura assim, dessa maneira, hegemônica e etnocêntrica. Berman faz então uma pergunta essencial: por que o princípio ético da tradução deve se opor a essa visão etnocêntrica? Não somente etnocêntrica, mas como Berman nos lembra, também hipertextual e platônica? Antoine Berman, como citamos anteriormente, é um teórico da ética na tradução que se utiliza de uma vertente importante da crítica dos séculos XX e XXI que é a desconstrução. Em breves palavras, desconstruir algo não é somente negar e refutar certas ideias, mas operar uma refutação crítica que desmonta e depois recompõe. Refaz-se o passo a passo da origem de tais ideias, procedendo a um desarranjo criativo e propositivo. O primeiro desarranjo criativo e propositivo que Berman opera é a desconstrução do etnocentrismo na tradução como norte ético. Berman está tentando desconstruir a figura do ocidental, homem, branco, como traços hegemônicos do ato de traduzir, a 96 saber, achar que o mundo se resume em ser ocidental, homem e branco. Ou seja, ele tenta desconstruir um parâmetro que seria o padrão das traduções, que seria aquilo que impulsionou negativamente a tradição ética da tradução, que é pensar a mesma através de um olhar restrito ao mesmo e não ao outro, a saber, devemos ampliar o olhar ao diferente. A tradução ética deve acolher as minorias não hegemônicas e diferentes: é acolher o outro, na voz de Berman: Etnocêntrico significará aqui: que traz tudo à sua própria cultura, às suas normas e valores, e considera o que se encontra fora dela — o Estrangeiro- como negativo ou, no máximo, bom para ser anexado, adaptado, para aumentar a riqueza desta cultura. Hipertextual remete a qualquer texto gerado por imitação, paródia, pastiche, adaptação, plágio, ou qualquer outra espécie de transformação formal, a partir de um outro texto já existente. Gérard Genette (1982) explorou o espaço da hipertextualidade, incluindo a tradução (BERMAN, 2013, p. 40). Outra conduta que devemos desconstruir é o hábito de traduzir a partir do hipertextual. O que seria isso? A tradição poética da tradução, segundo Berman, considera a tradução como uma forma de hipertexto ou de metatexto: A relação hipertextual é a que une um texto x com um texto y que lhe é anterior. Um texto pode imitar um outro texto, fazer um pastiche, uma paródia, uma recriação livre, uma paráfrase, uma citação, um comentário, ou ser uma mescla de tudo isso. Como mostraram Bakhtin, Genette ou Compagnon, há uma dimensão essencial da "literatura". Todas essas relações hipertextuais se caracterizam por uma relação de engendramento livre, quase lúdico, a partir de um "original". Ora, do ponto de vista da estrutura formal, essas relações estão muito próximas da tradução (BERMAN, 2013, p. 34). Assim, a tradução hipertextual é aquela que devemos evitar, pois ela se dá por imitação, por paródia, por pastiche, entre outras maneiras formais de traduzir a informação dada em certos textos, ou seja, é um mero transpor formal de informações de um texto A para um texto B. Berman vai nos conduzir para uma tradução não servil, ou seja, não servir a esses moldes hegemônicos da história ocidental do traduzir, moldes hipertextuais e etnocêntricos: Não nos deteremos, aqui, nestas teorias. Pois são apenas o epifenômeno de uma fissura essencial e dominante da tradução ocidental, da qual não escapa nenhum tradutor e nenhum “teórico”. É esta figura que se trata de questionar e, talvez, de destruir, a partir de uma experiência mais original, não da tradução, mas de sua essência. Nesta figura, a tradução se caracteriza por três traços. Culturalmente falando, ela é etnocêntrica. Literariamente falando, ela é hipertextual. E filosoficamente falando, ela é platônica. A essência etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução recobre e oculta uma essência mais profunda, que é simultaneamente ética, poética e pensante. Em suas regiões mais profundas, o traduzir está ligado à ética, à poesia e ao pensamento. E mesmo – veremos com Hölderlin e Chateaubriand – ao “religioso” (para não dizer à “religião”). Mas o ético, o poético, o pensante e o religioso, por sua vez, definem-se em relação ao que chamamos a “letra”. A letra é seu espaço de jogo. Isto pode se verificar 97 claramente com Hölderlin. Para alcançar esta dimensão, é necessário operar uma destruição (retomo o conceito de Heidegger) da tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução. [...] À tradução etnocêntrica se opõe a tradução ética. À tradução hipertextual, a tradução poética (BERMAN, 2013, p. 35). Antoine Berman nos coloca um desafio inquietante que é romper e operar a desconstrução dessa tradição de forma propositiva ao declarar que a “tradução deve ser ética, poética e pensante”. O que ele quer dizer com isso? Que ao ser ética a tradução deve pensar no outro, na minoria, do não colonialismo, do não racismo, do não sexismo, do não etnocentrismo. Que ao ser poética, a tradução deve evitar os moldes fechados e tradicionais do hipertexto. Ao ser poética a tradução deve evitar o formal pelo formal. E aqui notamos a visão que Berman tem do poético, a saber, aquilo que se adequa perfeitamente com o ético, ou melhor, o ético é o poético, pois o ético coloca-se sempre no lugar do outro, exerce sempre um altruísmo. Então, observamos em Berman que o etnocêntrico se opõe ao ético, e o hipertextual se opõem ao poético. Mas além dessas duas características negativas, para o autor, que a ética da tradução carrega, há ainda outra que Berman chama de platonismo na tradução. E o que seria esse platônico? O que Berman quer dizer quanto ao ir contra o platonismo na tradução? Ele quer dizer que devemos assumir o poético como algo importante no ato de traduzir, e poético aqui é no sentido de criativo, algo que já descrevemos anteriormente sobre o poético dentro da História da Ética. A grande ferramenta que Berman nos apresenta, como exemplo prático do traduzir ético, podemos ver logo a seguir: Assentados em uma experiência, a princípio idêntica, os provérbios de uma língua têm quase sempre equivalentes em uma outra língua. Assim, ao alemão “a hora da manhã tem ouro na boca” parece corresponder, na França, a “o mundo pertence aos que se levantam cedo”. Traduzir o provérbio seria, portanto, encontrar o seu equivalente (a formulação diferente da mesma sabedoria). Desta forma, frente a um provérbio estrangeiro, o tradutor encontra-se numa encruzilhada: ou busca seu suposto equivalente, ou o traduz “literalmente”, “palavra por palavra”. No entanto, traduzir literalmente um provérbio não é simplesmente traduzir “palavra por palavra”. É preciso também traduzir o seu ritmo, o seu comprimento (ou sua concisão), suas eventuais aliterações etc. Pois um provérbio é uma forma. O trabalho tradutório se situa precisamente entre estes dois polos: a tradução “palavra por palavra” do provérbio alemão, que conservará “ouro”, “manhã”, “boca” (que não se encontram no equivalente francês) e a tradução da forma-provérbio, a qual pode eventualmente ser levada, para atingir os seus fins, a forçar o francês e a modificar alguns elementos do original (BERMAN, 2013, p. 20). O provérbio é o exemplo dado por Berman na busca pelo equivalente na tradução,mantendo a poética e não sendo um escravo da tradução literal, e assim somos éticos com o original e com o autor. Quando buscamos um equivalente proverbial na tradução precisamos adequar uma forma e conteúdo, mantendo a mensagem original e respeitando também aquilo que o autor original nos reservou. 98 A tradução mecânica, da palavra por palavra, é aquilo que Berman vai contra, sendo esse tipo de tradução aquilo que Berman viria chamar de platonismo na tradução, ou seja, é uma tradução serva somente de símbolos e formas, perdendo a essência original do sentido. Também entra no mapa dessa tradução com alteridade, componentes importantes como o ritmo, o comprimento do provérbio, até mesmo as suas eventuais aliterações. A busca dessa tradução ética percorre então dois polos de manejo da palavra, que vai da tradução “palavra por palavra” até a tradução da forma-provérbio, que força a língua da tradução a modificar alguns elementos do original. Vejamos um breve resumo das implicações éticas na tradução feitas por Berman. Tabela 3 – Implicações de Berman na ética da tradução Fonte: o autor É, então, contra o etnocentrismo no ato de traduzir, que Berman argumenta que a tradução sempre foi vista como a adequação de uma língua diferente àquela considerada dominante e culturalmente mais aceita naquele período histórico, por diversos fatores. É afirmar um povo como central, e os outros como periféricos. Berman acredita então que devemos quebrar com essa perspectiva etnocêntrica, tão nociva, há vários séculos, para a tradução. Por isso a relevância e necessidade de tratarmos desses temas. Implicações de Berman na Ética da Tradução Conceito Implicações Contra o etnocentrismo • Berman está tentando desconstruir a figura do ocidental, homem, branco, como traços hegemônicos do ato de tradu- zir, a saber, achar que o mundo se resume em ser ocidental, homem e branco. • Ou seja, ele tenta desconstruir um parâmetro que seria o padrão das traduções, que seria aquilo que impulsionou negativamente a tradição ética da tradução. • Que é pensar a mesma através de um olhar restrito ao mesmo e não ao outro, a saber, devemos ampliar o olhar ao diferente. Contra o hipertextual • A tradução hipertextual é aquela que devemos evitar, pois ela se dá por imitação, por paródia, por pastiche, entre outras maneiras formais de traduzir a informação dada em certos textos, ou seja, é um mero transpor formal de infor- mações de um texto A para um texto B. Contra o platonismo da tradução • Contra A tradução mecânica, da palavra por palavra, é aquilo que Berman vai contra, sendo esse tipo de tradução aquilo que Berman viria chamar de platonismo na tradução. 99 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • A questão da alteridade, segundo Lévinas, dentro da ética da tradução, e suas consequências na sociedade contemporânea. • Analisar, segundo Berman, o que é ter ética na tradução, e como devemos colocar o olhar crítico em certas categorias. • A sintetizar alguns pensadores da ética na tradução dentro dos séculos XX e XXI, e como eles compreendem a alteridade e responsabilidade. 100 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: “É somente através dessas diversas leituras que o crítico descobre quais os graus de consistência imanente do texto traduzido, fora de qualquer relação com o original. Segundo Berman, essas releituras apontam também as “zonas textuais” problemáticas: de repente, o texto traduzido parece se enfraquecer, se contradizer, perder o ritmo, parece demasiado fácil, impessoalmente francês; ou, o texto traduzido exibe com brutalidade palavras, formas frasais, que destoam; e ainda, o texto traduzido se mostra invadido por modismos, remetendo à língua do original, o que testemunha o fenômeno de contaminação linguística ou de interferência. Essas leituras e releituras, diz Berman, podem revelar uma escrita de tradução, uma escrita que nenhum escritor francês poderia ter escrito, uma escrita de estrangeiro harmoniosamente passada para o francês. Essas zonas textuais, nas quais o tradutor escreveu “estrangeiro em francês” e assim produziu um francês novo, são as zonas de graça e riqueza do texto traduzido. São essas “impressões” de leitura que vão, segundo Berman, orientar o trabalho analítico do crítico: “Nós lemos e relemos a tradução, formamos uma impressão (ou uma impressão se formou em nós). É necessário agora tornar, ou retornar, ao original”. Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: John Donne. Paris: Gallimard. 1995. Acerca da obra de ética na tradução de Berman, assinala alternativa CORRETA: a) ( ) Berman dialoga contra o etnocentrismo na tradução, contra a tradução através do hipertexto, é contra também o platonismo da forma. b) ( ) Berman dialoga contra o pluralismo na tradução, contra a tradução através do hipertexto, é contra também o platonismo da forma. c) ( ) Berman dialoga contra o etnocentrismo na tradução, contra a tradução através do poético, é contra também o platonismo da forma. d) ( ) Berman dialoga contra o etnocentrismo na tradução, contra a tradução através do hipertexto, é contra também o a desconstrução da forma. 2 Leia o trecho a seguir: “De uma maneira geral, traduzir exige leituras vastas e diversificadas. E Berman acrescenta que um tradutor ignorante – que não lê tanto assim – é um tradutor deficiente. Traduz-se com livros e não unicamente com dicionários! Ele chama esse necessário recurso às leituras de escoramento do ato tradutório, isto é, todos os paratextos que venham a sustentar a leitura: introdução, prefácio, posfácio, notas, 101 glossários etc. A tradução não pode estar “nua”, sob pena de não levar a cabo a tradução literária, avisa Berman. Porém ele não quer ser prescritivo e afirma que a análise textual não é imprescindível e que ela é uma ferramenta de apoio para qualquer trabalho de tradução. Não quer dizer “o que é necessário fazer” e afirma que não pretende regrar a prática da tradução. A pré-análise consiste na leitura da tradução pelo crítico, porque tem apenas a função de preparar a confrontação. Essas leituras são mais interligadas e mais sistemáticas do que as do tradutor”. Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: John Donne, Paris: Gallimard. 1995, p. 67). Observe e analise as assertivas abaixo acerca da obra de Berman: I- Berman estabelece uma obra que versa sobre a ética da tradução, trazendo ideias importantes, como a fuga do etnocentrismo. II- Berman não dialoga com a tradição e história da tradução, deixando de lado os conceitos de hipertexto. III- Berman estabelece uma forte crítica à tradução pela forma, chamando inclusive essa escola de platonismo da tradução. a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Leia o trecho a seguir: “Conforme Berman, uma das tarefas de uma hermenêutica do traduzir é ter em vista o sujeito que traduz, por isso, vai em busca do tradutor. Assim, a pergunta “quem é o tradutor?” deve ser colocada frente a uma tradução. Essa pergunta é diferente da pergunta feita ao autor de uma obra literária, “quem é o autor?”, pois visa aos elementos biográficos, psicológicos existenciais etc., que supostamente irão iluminar a sua obra. Apesar da obra e da existência estarem ligadas. A pergunta “quem é o tradutor?” tem uma outra finalidade. Salvo exceções, como São Jerônimo, por exemplo, para Berman, a vida do tradutor não nos diz respeito e, menos ainda, os seus estados de alma. Não obstante, é impensável que o tradutor permaneça este perfeito desconhecido que é na maior parte do tempo”. Fonte: HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de tradução de Antoine Berman: autorresenha do seu livro por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em revista (on-line), 2021. Acerca da obra de Berman sobre a teoriaética da tradução e crítica, assinale V para verdadeiro e F para falso. 102 ( ) Uma importante contribuição de Berman é a busca pelo ético determinando o poético, sem perder a beleza da literatura envolvida. ( ) Berman utiliza o etnocentrismo como forma de progresso da ética na tradução, exacerbando a ideia de etno. ( ) O autor classifica a hipertextual como algo que deve ser confrontado em detrimento do ético, que acaba sendo poético. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Leia o trecho a seguir: “Toda tradução, consequentemente, é conduzida por um projeto ou uma finalidade articulados. O projeto (ou finalidade) é determinado, por sua vez, pela posição tradutória e por exigências específicas colocadas pela obra a ser traduzida. Não há necessidade de serem enunciados discursivamente e, depois, teorizados. O projeto define a maneira pela qual, por um lado, o tradutor vai efetuar a translação literária e, de outra parte, assumir a própria tradução, escolher um “modo” de tradução, uma “maneira de traduzir”. Para ilustrar o seu argumento, Berman pega o caso dos tradutores que decidiram tornar conhecida na França a obra poética de Kathleen Raine. Poderiam escolher entre várias possibilidades: fazer uma “antologia” dos poemas de Raine a partir de seus livros ou editar seus livros – todos ou parte deles. Escolheram traduzir vários dos seus livros integralmente. Poderiam ainda propor uma edição monolíngue (francês apenas) ou bilíngue. Escolheram a segunda possibilidade”. Fonte: HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de tradução de Antoine Berman: autorresenha do seu livro por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em revista (on-line), 2021. Descreva por que Berman é contrário ao etnocentrismo na ética da tradução, bem como apresente o conceito de hipertextual: 103 5 Leia o trecho a seguir: “Berman dá o exemplo do horizonte de uma retradução francesa, um horizonte triplo que leva em conta as traduções anteriores, em francês, as outras traduções francesas contemporâneas e as traduções estrangeiras. Ele afirma que não é raro o caso de o tradutor consultar as traduções estrangeiras para traduzir tal obra, mesmo sendo a primeira na sua língua. É suficiente mesmo que saiba que a obra já tenha sido traduzida em algum lugar, de modo que a natureza de seu trabalho se altere. Ele não é mais o primeiro. Ambos os casos se apresentaram para Berman quando fez a tradução de Yo el Supremo, de Roa Bastos. Ele diz ter consultado a tradução alemã (anterior), a obra Os diferentes métodos de traduzir de Schleiermacher, bem como a tradução espanhola de V. García Yebra. Quanto à tradução de Sete loucos, de Roberto Arlt, Berman diz que sabia que existiam versões em italiano e em alemão e que a tradução dele seria posterior a estas. Afirma, portanto, que qualquer tradução que vem após outra, mesmo sendo ela estrangeira, é ipso facto uma retradução. É o que faz que existam muito mais retraduções do que primeiras traduções”. Fonte: HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de tradução de Antoine Berman: autorresenha do seu livro por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em revista (on-line), 2021. Apresente o que é o método da desconstrução descrito por Berman e sua relação com a ética da tradução. Descreva também o que é a tradutologia para o autor: 104 105 TÓPICO 3 - OS ASPECTOS ÉTICOS DA TRADUÇÃO COMO RESPONSABILIDADE 1 INTRODUÇÃO Outro aspecto importante no universo da tradução é a responsabilidade. Como sabemos, a tradução é um processo complexo que envolve a transposição de interlocutores. A tradução carrega uma grande responsabilidade, pois pode afetar profundamente a compreensão, a interpretação e a recepção da mensagem original. A responsabilidade da tradução também inclui o reconhecimento das diferenças culturais e linguísticas que possam afetar a compreensão da mensagem. Um tradutor deve considerar cuidadosamente a forma como uma palavra, frase ou conceito pode ser interpretado em diferentes contextos e culturas, a fim de evitar mal-entendidos ou erros. Por isso devemos investigar agora um grande pensador da ética da responsabilidade no século XX que foi Jean-Paul Sartre, pois ele é um autor que nos insere nesses temas com grande amplitude. 2 A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE DE JEAN-PAUL SARTRE Continuando a linha de grandes personagens da ética, que desenvolveram ideias que impactam na tradução, está Jean-Paul Sartre (1905-1980). Sartre foi um pensador que viveu também na pele os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, servindo na resistência francesa, e após isso, produzindo uma grande obra em prol do humanismo e ética. Figura 4 – Jean Paul Sartre UNIDADE 2 Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre#/media/Ficheiro:Sartre_1967_crop.jpg. Acesso em: 3 abr. 2023. 106 Sartre foi também um grande representante do pensamento da contracultura na que época em que a mesma começava a galgar apoiadores contra a cultura hegemônica, sendo um dos motores da revolução sexual, de costumes, que culminaria no Maio de 68, bem como no movimento hippie. Sartre esteve junto a esses movimentos de forma ativa, inclusive se recusando a receber o Prêmio Nobel, em 1964. Além de ter produzido uma monumental obra filosófica e literária, Jean-Paul Sartre muito contribuiu para as causas de direitos civis, inclusive junto com sua parceira de vida, Simone de Beauvoir (1908-1986). Sartre nos conduz então para uma nova perspectiva da ética e responsabilidade, fundada nesse ambiente pós-Segunda Guerra, e fundada na teoria de duas grandes vertentes do pensamento dentro do século XX: a Fenomenologia e o Existencialismo. A Fenomenologia, que já apresentamos de forma introdutória, entrou na obra de Sartre, principalmente, por influência da obra de Edmund Husserl e Martin Heidegger. A ideia essencial retomada por Sartre é que nossa consciência está sempre lançada nos objetos como uma espécie de corda entre nosso entendimento e os fenômenos, ou seja, as coisas com que nos deparamos no mundo. Esses fenômenos estão fora do nosso corpo de existência, mas nós os apreendemos através dessa espécie de cópia que nosso entendimento faz, daí a ideia de que nossa consciência está sempre projetada nas coisas. Retomando essa ideia geral, como isso se dá na tradução? E mais ainda, na ética da tradução? Ao nos depararmos com um texto, segundo Sartre, não estamos experimentando o texto em si, mas a abertura da nossa consciência projetada no texto original e sua autoria. Nunca saberemos aquilo que o autor do original realmente quis dizer, porque aquilo que ele escreveu faz parte de um contexto em si de sua própria existência que não podemos acessar. Nós acessamos o fenômeno dessa escrita autoral, ou seja, aquilo que se mostra, através da nossa consciência. E através dela é que traduzimos e damos sentido ao texto original, que por sua vez vai ser interpretado por diversas outras consciências, a saber, os leitores. O método fenomenológico influencia a obra de Sartre no mesmo momento em que influencia a crítica literária e teoria da tradução. Mas além disso, Sartre vai utilizar essa fenomenologia para também produzir literatura, e associado ao Existencialismo, produzir uma teoria ética que podemos adequar ao traduzir. 107 E o que seria então o Existencialismo? Como o Existencialismo se associa à tradução? Sartre é o grande teórico do Existencialismo no século XX, mas não é o único. O Existencialismo surge num contexto híbrido de Literatura, Filosofia, Artes em geral, tomando vários rumos e vertentes. Considera-se o dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855) o primeiro pensador da corrente existencialista, que em essência parte da experiência, ás vezes, vertiginosa do “estarmos aqui” transcorridas da nossa existência. Nos diz o dicionário de Filosofia: Costuma-se indicar por essetermo, desde 1930 aproximadamente, um conjunto de filosofias ou de correntes filosóficas cuja marca comum não são os pressupostos e as conclusões (que são diferentes), mas o instrumento de que se valem: a análise da existência. Essas correntes entendem a palavra existência (v.) no significado 3B, vale dizer, como o modo de ser próprio do homem enquanto é um modo de ser no mundo, em determinada situação, analisável em termos de possibilidade. A análise existencial é, portanto, a análise das situações mais comuns ou fundamentais em que o homem vem a encontrar-se. Nessas situações, obviamente, o homem nunca é e nunca encerra em si a totalidade infinita, o mundo, o ser ou a natureza (ABBAGNANO, 2001, p. 402). O instrumento dos existencialistas, então, é a análise da existência, a saber, a análise das questões mais cotidianas e simples de cada ser existente. Sartre toma partida dessa vertente filosófica e produz suas ideias no campo da existência, mas não tomando somente a dimensão trágica e pueril de uma existência infecunda, mas sim toda uma construção humana dessa perspectiva, que reverberará na literatura e ambiente da tradução propriamente dita. As ideias de Sartre são então fundamentadas por uma ideia que parece simples, porém é na verdade de fato muito complexa: tudo o que somos advém da nossa condição do existir, por isso chamamos essa corrente de Existencialismo. As ideias de Sartre argumentam que o ser humano possui uma condição sui generis onde sua existência precede a sua essência. O existencialismo afirma é que o covarde se faz covarde que o herói se faz herói; existe sempre, para o covarde, uma possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, de deixar de o ser. [...] Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva, ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade (SARTRE, 1987, p. 9). 108 Quer dizer, tudo isso que nós somos, toda nossa personalidade, nossas ideologias, visões de mundo, tudo aquilo que nos define como pessoa, tudo isso se dá somente pelo fato de que existimos. Para Sartre não há nada antes, muito menos depois de existirmos: não há Deus, não há alma, não há espírito, não há imortalidade, só há isso que chamamos de existência individual: [...] existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Afirma que, se Deus existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem. [...] O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria, eis nosso ponto de vista. Não que acreditamos que Deus exista, mas pensamos que o problema não é de sua existência, é preciso que o homem se reencontre e se convença de que nada pode salvá-lo dele próprio, nem mesmo uma prova válida da existência de Deus (SARTRE, 1987, p. 22). Até as outras existências, das outras pessoas, elas só estão lá pelo fato de nós as captarmos através da nossa abertura existencial. Assim, o ser humano primeiro existe, depois se define como essência. Enquanto todos as outros objetos e coisas são o que são, sem uma definição própria, o ser humano existe. Sartre foi alvo e objeto de muitas críticas, e ainda o é, pela construção dessas ideias, principalmente pelo seu ateísmo. Mas observamos a motivação do autor exatamente em não dependermos de nada mais para sermos bons a não ser nossa própria vida. Essa concepção se dá na obra e conferência “O Existencialismo é um Humanismo” de 1946: “Humanismo, porque recordamos ao homem que não existe outro legislador a não ser ele próprio” (SARTRE, 1987, p. 21). Sem dúvida, a liberdade enquanto definição do homem, não depende de outrem, mas, logo que existe um engajamento, “sou forçado a querer, simultaneamente, a minha liberdade e a dos outros, não posso ter objetivo a minha liberdade a não ser que meu objetivo seja também a liberdade dos outros” (SARTRE, 1987, p. 199). Daí a grande relevância de Sartre no contexto da Ética. Ele lança uma teoria que fundamenta a liberdade e escolha fora de qualquer grande sistema metafísico, mas sim dentro do espectro da própria liberdade e escolha existencial. Ele nos diz acerca da questão da Liberdade e escolha: “Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva, ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade (SARTRE, 1987, p. 9). 109 Como nada nos condiciona, a não ser nossa própria existência e escolhas, nossa liberdade, segundo Sartre, é incondicional. Aliás, segundo Sartre, estamos a todo momento fazendo escolhas, pois até não escolher enquadra-se no rol de nossas escolhas. Assim, estamos sempre na condição de liberdade plena. Daí a afirmação de Sartre, de que é impossível não sermos livres, a liberdade é nossa essência prática. Escolhas a todo tempo, liberdade a todo tempo, essas definições apresentam Sartre não como um pensador da negação de Deus, ou um pensador niilista em que nada faz sentido no absurdo da existência, pelo contrário, a nossa essência em liberdade é que nos faz humanos, por isso o Existencialismo é um Humanismo. Nosso humanismo não reside somente na razão ou o esclarecimento técnico, mas sim em nossas escolhas, reside na nossa liberdade total, que claro, pode gerar algumas angústias. Mas aquém de tudo isso, segundo Sartre, estamos condenados sempre a sermos livres. Surge então outra perspectiva suscitada por Sartre, também no ambiente pós-guerra, acerca do nosso engajamento como pessoas livres: Para o filósofo, escolher seu tema é escolher seu público, para quem irá escrever. O escritor não escreve para sujeitos universais, de caráter universal, mas para sujeitos situados e engajados na história. O escritor é engajado pela sua consciência de estar situado no mundo na sua época quando faz o engajamento para si e para o plano refletido. [...] A implicação entre as duas se dá, pois a literatura é capaz de descrever as ambiguidades [...] e complexidade do homem por meio de sua linguagem imediata e não consciente de si, assim, a literatura mostra a densidade concreta do vivido; já a filosofia torna o vivido consciente por meio de noções, de conceitos, mas não tem a capacidade de descrever a totalidade do vivido, pois fala do homem enquanto sujeito-objeto, mas não estuda o homem como indivíduo (SARTRE, 1987 apud MOREIRA, 2012, p. 24). O engajamento político na vida de Sartre foi evidente, comprometendo-se publicamente com as causas de direitos civis, militou na política partidária em grande parte da sua vida, participou ativamente das mudanças culturais e sociais da França. Mas não somente pregava o engajamento político, mas também para com a humanidade. 3 TRADUÇÃO E RESPONSABILIDADE Em especial, no âmbito da tradução, Sartre falou muito e escreveu acerca do engajamento do escritor. Engajar-se é pertencer a algo, é se comprometer com o espectro da existência, é a escolha da singularidade existente. Daí surge outro componente essencial da ética de Sartre, que é a responsabilidade e engajamento, ambos como práticas e atividades também dos grandes intelectuais. 110 Implicações da ética de Sartre na tradução Conceito Implicações Existencialismo • A existência é a nossa condição primordial do existir, por isso Existencialismo. • As ideias de Sartre argumentam que o ser humano possui uma condição sui generis onde sua existência precede a sua essência. • Quer dizer, tudo isso que nós somos, toda nossa personali- dade, nossas ideologias, visões de mundo, tudo aquilo que nos define como pessoa, tudo isso se dá somente ao fato de que existimos. • Para Sartre não há nada antes, muito menos depois de existir- mos: não há Deus, não há alma, não há espírito, não há imortali-dade, só há isso que chamamos de existência individual. Liberdade • Sartre lança uma teoria que fundamenta a liberdade e escolha fora de qualquer grande sistema metafísico, mas dentro do espectro da própria liberdade e escolha existencial. • Ele nos diz acerca da questão da liberdade e escolha: “Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva, ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade (SARTRE, 1987, p. 9). Responsabilidade e engajamento • Engajar-se é pertencer a algo, é se comprometer com o es- pectro da existência, é a escolha da singularidade existente. • Daí surge outro componente essencial da ética de Sartre, que é a responsabilidade e engajamento, ambos como práticas e atividades também dos grandes intelectuais. Tabela 4 – Implicações da ética de Sartre na tradução Fonte: o autor Observamos a ética como não somente um código de condutas ou ideias, mas uma condição essencial para vivermos em sociedade. A ética é o próprio engajamento do indivíduo e seu entorno social. A liberdade é incondicional dentro dos limites da responsabilidade, dentro do horizonte do respeito. Pensar para um é pensar e agir por todos, essa é a mensagem essencial de Sartre. E essa mensagem essencial opera numa espécie de binômio responsabilidade-liberdade. Um está condicionado ao outro, o existir está condicionado ao agir. O engajamento é então tema essencial para Sartre, aplicando-se à literatura e tradução. 111 Problematizado e problematizador, o texto literário é, para Sartre, resultado de uma criação (artística) que, assim como a leitura, não se coloca como um ato alheio à percepção do mundo e à produção de sentidos. Desde que o leitor, assim como o autor, seres históricos que são, não se alienem a respeito da contemporaneidade em que vivem, segue-se que ter consciência de sua própria situação é uma tarefa essencial para que o desvendamento do mundo, proposto pela escrita sartriana (e embasado em uma filosofia da imaginação), ocorra, visto que as palavras, as coisas, as instituições, as ideias, o mundo, “adquirem estatutos distintos segundo as diferentes maneiras da intencionalidade humana, conforme as diferentes formas de a consciência se postar frente aos objetos” (DUARTE JR., 2008, p. 11). A tradução também não é um ato alheio, ela é pensada dentro de um campo existencial, e é pensada também para o público que ela se destina. Quando se fala em problematizado e problematizador, função essencial do texto dentro da existência, Sartre nos aponta para o engajamento crítico da literatura. Então, uma tradução, para Sartre, como reflexo de uma criação artística que não pode estar desprovida de engajamento, pois não é um ato alheio à percepção do mundo, muito menos à produção de sentidos. Mais do que isso, o engajamento é uma não alienação, visto que se trata de um autoconhecimento e desvelamento da consciência e do mundo, através da relação de intencionalidade com os objetos. Por isso é tão importante falar de engajamento em Sartre. Outro aspecto importante na ética do traduzir, então, é o que podemos pensar através de Sartre através da questão do engajamento. Engajar-se dentro de uma tradução seria algo correto? Para Sartre, sim. Devemos observar, porém, que não se trata de se engajar em alguma coloração política, muito menos levantar e propor ideologias, mas sim um engajamento pelo respeito e responsabilidade. Um engajamento que trata a responsabilidade de um como se fosse a responsabilidade com toda a humanidade. Esse tipo de engajamento, pelo respeito e responsabilidade, ecoará no texto como aquilo que Sartre defendeu como os maiores princípios éticos, e faz valer o sentido de nossa existência. O que estudamos até aqui? Vamos recapitular algumas ideias essenciais então! Lévinas nos traz uma importante questão no pós-guerra que é a questão da alteridade. A importância ética do outro se fundamenta não somente como uma mera formalidade, mas sim como nossa essência primordial da consciência. Ter consciência do outro que ajuda é formar sua própria consciência ética, e assim perceber que a alteridade é o principal atributo da ética e da filosofia. Antoine Berman, como um dos principais teóricos da ética na tradução de nossa história recente, aplica na sua obra o axioma ético fundamental de Lévinas. O título da obra de Berman já nos apresenta isso: o Albergue do longínquo. Do albergue observamos o acolhimento do outro, e do longínquo a ideia do estrangeiro a ser compreendido como alteridade. Nessa obra, três paradigmas a serem superados na ética da tradução, segundo Berman: etnocentrismo, o hipertextual, o platonismo na tradução. 112 O contrário da uma ética etnocêntrica na tradução é uma ética que pensa o diferente, o fora do padrão, pensa nos outros, a saber, os outros povos, culturas, línguas, como identidades a serem acolhidas, e não dominadas: não há melhor ou pior cultura, não há uma hegemonia ética do ocidente na tradução, nesse sentido. Da mesma forma uma tradução fundada na hipertextualidade e não na atividade poética, estaríamos, segundo Berman, utilizando de um platonismo na tradução, algo que deve ser evitado e combatido. Outro personagem visto aqui, de grande peso para a ética da tradução é Jean- Paul Sartre. Tentando dar forma também a um novo tempo no humanismo, Sartre parte do existencialismo e propõe uma importante teoria da responsabilidade e engajamento. Assim deve ser a tradução e os indivíduos engajados. Todos esses caminhos teóricos nos levaram até a tradução e sua relação com a alteridade e responsabilidade. Portanto, da metade do século XX até os nossos dias, a questão da responsabilidade com a tradução, com o autor e sua obra surge como questão essencial. O centro de gravidade ético de uma tradução passa pelo completo senso de engajamento com o original, dentro da sua poética original. Podemos considerar, em termos técnicos, se traduzimos de forma literal ou adaptada, mas não podemos deixar de considerar a singularidade envolvida numa obra, no seu entorno, na sua áurea. O mundo civilizado pós-guerra reagiu a qualquer violência, seja física ou simbólica, e reagiu produzindo ideias e obras éticas que nos apontaram novos rumos. A questão da responsabilidade é essencial nesse sentido e nos aproxima da ideia de ser humano e humanidade dentro do processo de tradução. Tabela 5 – Resumo geral da ética na tradução no pós-guerra Resumo geral da ética na tradução no pós-guerra Conceito Ideia geral Ética no pós-guerra • O movimento da ética no pós-guerra é um repúdio aos totalitaris- mos, à banalidade do mal, à razão instrumentalizada e tecnicista, é uma tentativa de retorno a reumanização. Alteridade em Lévinas • Uma das respostas também ao pós-guerra é a ética de Eman- nuel Lévinas que aposta na abertura para o outro como proces- so primeiro da filosofia, é uma abertura à alteridade. Ética na tradução de Antoine Berman • Berman traz as ideias essenciais de Lévinas, e aposta numa tra- dução ética como contrária ao etnocentrismo, contrária ao uso do hipertexto. • É uma aposta no poético conectado à alteridade. Sartre e a responsabilidade e engajamento • A influência de Sartre na ética da metade do século XX até os dias de hoje se fundamenta na ideia de uma liberdade com respon- sabilidade, o engajamento deve se dar na obra literária, e assim também na tradução e produção cultural. Fonte: o autor 113 Um dos objetivos desta unidade foi demonstrar como a alteridade da tradução é um compromisso ético importante desde sempre, mas de forma crucial a partir do mundo pós-guerra. Essa alteridade não é uma mera cortesia que fazemos para as pessoas, mas um compromisso com a humanidade para que atrocidades como as acontecidas no início do século XX não voltem a acontecer. Esse é o papel do tradutor ao se deparar com um texto e produzir sua tradução. Antes de finalizarmos, dois documentáriosque versam sobre a questão da tradução: Os autores aqui citados, do início do século XX, anteviram a desumanização que se realizaria de forma trágica nas duas grandes guerras, e abriram caminho para autores como Lévinas que propusessem uma teoria ética da alteridade em que o outro é peça fundamental. A ética de Lévinas demanda isso por habitarmos cada vez mais um isolamento e solipsismo, fruto da própria época em que vivemos. Mas como traduzir com alteridade, alguém poderia novamente perguntar no fechar dessa unidade. Novamente a resposta é honrar o autor e seu original, sua história, honrar aquele ao qual o texto se destina, ou seja, o público da obra, vivenciar as coisas e suas práticas pensando no alheio. Outro objetivo dessa unidade foi chamar atenção para o discurso da responsabilidade, a partir também do mundo pós-guerra, o tema necessário e a ética que Sartre desenvolve tendo como guia o engajamento da nossa liberdade, o engajamento da existência como se fosse um engajamento por toda humanidade. Para terminar essa unidade, gostaríamos de compartilhar uma última ideia crítica sobre a ética e a tradução. Segundo Kremer (2007, p. 4011-2): "American Tongues" – um documentário que investiga a diversidade linguística e cultural nos Estados Unidos e como a tradução é fundamental para a compreensão e respeito mútuo. "The Art of Translation" – um documentário que explora a história e o processo de tradução literária, incluindo os desafios éticos e literários que os tradutores enfrentam ao traduzir obras de diferentes gêneros e estilos. NOTA 114 É preciso ampliar os saberes éticos da tradução e rever a ética tradicional com base na ética proposta pelos estudos pó[s]- modernos da tradução. Uma ética relacionada com a visibilidade, com a coerência do que se diz com o que se faz, com a responsabilidade do tradutor, cujo comprometimento se dará a partir do momento em que se assumir como produtor de significados e não como mero transportador. Esse comprometimento ético e político pode ser viabilizado quando o caráter indiscutivelmente intervencionista da tradução for explicitado por meio de prefácios do tradutor e reconhecido por teóricos e leitores. O não apagamento do tradutor, passa a ser, nesse contexto, uma maneira de torná-lo responsável e comprometido com o saber ético pós-moderno. Um saber ético sem normas prescritas, mas normas inscritas em cada situação, em cada jogo de linguagem, em cada projeto de tradução. Um tradutor como produtor de significados e não como mero transportador, essa é a ideia essencial que tiramos ao estudar o avanço da ética nos pensadores do pós-guerra. Uma ética que se sustenta pela “visibilidade, com a coerência do que se diz com o que se faz, com a responsabilidade do tradutor”, sendo aqui o tradutor peça essencial nesse debate sobre a ética, não somente como parte envolvida, mas como atuante no processo. É um intervencionismo ético da tradução através de uma ferramenta muito importante a qual falaremos de forma detalhada na próxima unidade que é a utilização do prefácio. Mas esse é um assunto para uma próxima conversa. Por hora ressaltamos a ideia de não apagamento do tradutor, longe disso, o tradutor deve estar eticamente presente mais do que nunca. 115 Tradução e Ética: Sobre ética da tradução como uma prática social de reflexão consciente Daniel Antonio de Sousa Alves INTRODUÇÃO A epígrafe escolhida para enquadrar esta reflexão teórica foi retirada do terceiro episódio da quinta temporada da comédia televisiva The Office (US), intitulada em inglês "Business Ethics". Na epígrafe, é mostrada uma fala do personagem Oscar que, durante um seminário sobre ética no meio corporativo, protesta ao ser deparado com uma visão restrita de ética como um sistema de regras fechadas. Em seu protesto, o personagem tenta elevar a discussão, chamando atenção para a existência de diferentes concepções sobre o que constitui a noção de correto e para a complexidade em torno desse debate. Este texto buscará promover uma discussão teórica sobre ética, trazendo-a para o contexto dos Estudos da Tradução e tentando evitar o estabelecimento de regras fechadas descrito no parágrafo anterior (não assumindo, portanto, a postura deôntica), mas adotando uma postura relativista que reflete sobre como um mesmo objeto pode ser observado a partir de visões concorrentes. Na busca por essa reflexão, este texto debaterá sobre como o processo de construção de significados a partir de um texto- fonte necessariamente abre múltiplas possibilidades de interpretação e sobre como essas interpretações podem abrir (também múltiplas) possibilidades para a formulação de projetos tradutórios – aqui entendidos como os sistemas subjacentes às escolhas tradutórias que levam à construção de qualquer texto-alvo. É necessário reconhecer, no entanto, que mesmo uma discussão relativista, como a aqui proposta, tem suas limitações. Contextos mais influenciados por pressões de mercado, como o de editoras comerciais, por exemplo, tendem a ser menos receptivos a discussões que não levem a uma aceleração nos processos de tomadas de decisões – o que talvez seja uma razão por trás da existência de diversos materiais sobre ética e tradução que adotam um viés deôntico e que tendem a limitar o leque de fatores a serem considerados nas discussões sobre o tema. Ambientes acadêmicos, por outro lado, tendem a ser mais abertos a discussões que privilegiam a reflexão e o debate, reconhecendo a multiplicidade de fatores que pode influenciar um determinado objeto ou processo. A partir desse contraste de contextos, este trabalho reconhece, de antemão, os diferentes locais para a promoção de diferentes debates e não se propõe a avançar sobre contextos em que uma lógica deôntica possa ser mais aplicável. Ao se localizar dessa forma, este texto busca inserção em contextos nos quais há espaço para discussões sobre como um mesmo texto-fonte pode levar à construção de diferentes interpretações, com diferentes LEITURA COMPLEMENTAR 116 nuances e diferentes possibilidades de tradução. Para atingir seus objetivos, este texto está organizado em quatro seções, contando com esta introdução; a saber: i) Considerações sobre ética, na qual são discutidos conceitos iniciais e feitas considerações sobre ética inserida em um contexto dos Estudos da Tradução; ii) Ética da tradução e projetos tradutórios, na qual são apresentadas reflexões sobre políticas tradutórias e suas construções e sobre a importância delas para a construção de textos-alvo; por fim, iii) Considerações finais, na qual são retomadas possíveis leituras e feitas considerações sobre outras discussões acerca do tema ética. Essa última seção também reconhece a existência de outras abordagens sobre ética no contexto dos Estudos da Tradução e faz indicações de outros trabalhos que apontam caminho Considerações sobre ética Ao longo de todo o livro, Singer (2011) ressalta a característica de a ética de ser, por si só, um tema abrangente, com várias ramificações e implicações filosóficas, apontando não haver consensos sobre o que é ética, sobre o que não é ética, tampouco sobre a própria existência de uma dicotomia entre o ético e o não-ético. O autor pontua que a simples definição de o que constitui ética é alvo de diferentes percepções e muitas vezes é confundida com um debate sobre a defesa da moralidade, às vezes permeado por discursos religiosos. Para os fins deste trabalho – que não se propõe a uma discussão sobre ética pura e não faz, portanto, uma revisão abrangente das mais diferentes concepções sobre ética –, será adotada a definição de Singer (2011, p. 284-5) de ética como uma prática social que visa a promover a reflexão consciente sobre os comportamentos e os interesses de indivíduos em relação aos seus grupos sociais e às expectativas sociais desse grupo. Nessa visão promovida por Singer (2011, p. 285), a reflexão sobre os motivos que levam um comportamento a ser consideradocomo desejável (ou não desejável) em um dado contexto social passa a ter relevância equiparável à do próprio comportamento sob escrutínio. Para o autor, simplificar ética a uma mera visão de ‘o que é correto’, sem a devida análise dos motivos subjacentes – tanto daqueles por trás tanto do próprio comportamento, quanto daqueles por trás dos valores sociais que levam tal comportamento a ser considerado correto – pode levar a situações de negação da capacidade do indivíduo em avaliar seu contexto social e seu raio individual de ação. Singer (2011, p. 270) faz tal defesa da ética como uma prática social que preza pela reflexão consciente se amparando na ideia de que não há absolutos (tampouco uma divisão estanque) em uma discussão entre o correto e o errado, muitas vezes cabendo ao indivíduo a decisão de como agir frente a uma situação concreta. Em sua argumentação, o autor aponta que, embora haja uma expectativa idealizada de uma confluência entre a) o que uma sociedade valoriza como positivo; b) o que a lei dessa sociedade preconiza como comportamento desejável; e c) o que um indivíduo que faz parte dessa sociedade decide fazer frente a uma dada situação, a relação entre essas três variáveis nem sempre é pacífica – o que reforça a importância da discussão consciente acerca do contexto da ação do indivíduo. Nessa argumentação, Singer (2011) apoia-se em Henry David Thoreau e em Robert Paul Wolff para discutir os conflitos resultantes de situações em que os três fatores mencionados no parágrafo anterior não confluem segundo essa expectativa idealizada (ou mesmo em que tal há uma grande divergência entre os três). Discussões sobre desobediência civil e resistência pacífica trazem bons exemplos, nos mais diferentes âmbitos, que podem ser usados para 117 justificar a importância de se privilegiar a reflexão consciente sobre ações e comportamentos dos indivíduos em suas sociedades, em detrimento de uma simples colocação de ‘o que é correto’. Em se tratando de uma discussão de ética em um contexto dos Estudos da Tradução, igualmente se pode valorizar a reflexão consciente em detrimento de uma colocação absoluta de ‘o que é uma boa tradução’, também se levando em consideração que há muitos fatores e perspectivas envolvidos. Um fator a ser aqui destacado é o papel desempenhado pelo(a) próprio(a) leitor(a) na construção do texto-fonte e as implicações disso para a construção de textos-alvo. Segundo Bassnett (1980), um dos grandes avanços dos estudos literários no século XX é a mudança no paradigma do(a) leitor(a), que deixa de ser um(a) consumidor(a) passivo(a) dos textos e passa a ser visto(a) como sujeito ativo(a) no processo de comunicação, chegando a ter status de coprodutor(a) do texto. Com essa mudança de paradigma, ainda de acordo com Bassnett (1980), os estudos literários deixam de lado a ideia de que um texto tem uma leitura única, correta e invariável e passam a abraçar as diferentes possibilidades de interpretação que decorrem da ação dos(as) diferentes leitores(as). Essa propriedade das narrativas literárias também é ressaltada por Fludernik (1996), que discute como textos permitem que leitoras e leitores ativamente construam significados, fazendo associações e interpretações relacionadas aos seus esquemas individuais de percepção da realidade. A discussão sobre o papel do(a) leitor(a) na construção do texto não se limita à literatura. Costa Val (2004) abordando as noções texto, textualidade e textualização – baseando-se na linguística textual de Beaugrande e Dressler (1981) – também ressalta que o significado não é algo imanente ao texto, mas construído por meio de um processo dialógico e interativo. A autora trabalha com uma definição de textualidade como “um princípio geral que faz parte do conhecimento textual dos falantes e que os leva a aplicar a todas as produções lingüísticas que falam, escrevem, ouvem ou leem um conjunto de fatores capazes de textualizar essas produções” (COSTA VAL, 2004, p. 114 – grifo da autora). Emblemática dessa mudança de postura em relação à construção de significados é a fala da autora ao introduzir os conceitos de coesão e coerência: Autores(as), como Nietzsche (1901), por exemplo, discutem como aquilo que classificamos como realidade é fruto de uma interpretação, moldada por uma perspectiva. Nietzsche (1901) ressalta a impossibilidade da existência de uma verdade absoluta (ou de fatos que existam por si próprios) e aponta a perspectiva e a interpretação – associadas aos interesses pessoais do indivíduo – como cernes das percepções humanas acerca da realidade. O perspectivismo de Nietsche implica a aceitação da multiplicidade de interpretações como pressuposto da realidade e convida à reflexão sobre o papel da pessoa que interpreta a realidade e sobre suas eventuais agendas (já que, para o autor, a interpretação também é uma forma de estrutura de poder) acerca de todas as coisas que percebemos como reais. Trazendo esse perspectivismo para o contexto dos Estudos da Tradução, admitir que um mesmo texto-fonte abre múltiplas possibilidades de leitura igualmente válidas, implica aceitar que cada texto-fonte pode abrir espaço para múltiplas possibilidades de tradução, também igualmente válidas. Além disso, entender a interpretação como uma ação associada às agendas do indivíduo, pode ser vista 118 como um convite para a compreensão e para a discussão crítica sobre as motivações subjacentes à tradução como uma ação social. Para Bassnett (1980), uma consequência, para o campo disciplinar, de se aceitar a multiplicidade de significados como algo inerente a qualquer texto é a diminuição da importância das tentativas de categorização “entre traduções, versões, adaptações e [d]o estabelecimento de uma hierarquia de ‘correção entre essas categorias’” (BASSNETT, 1980, p. 84). Para a autora, a diferenciação entre as categorias citadas deriva, em primeiro lugar, da noção de leitor(a) como sujeito passivo e, em segundo lugar, da noção de significado como propriedade imanente do texto e não como um produto do dialogismo intrínseco ao processo de leitura e produção de significados. Dando sequência às discussões sobre fatores a serem considerados em uma discussão sobre ética vista no contexto dos Estudos da Tradução, este texto passa a se concentrar na construção de textos-alvo a partir de projetos tradutórios, ainda evitando o maniqueísmo de certo versus errado e evitando o estabelecimento de hierarquias de correção ou de avaliação de traduções (em termos qualitativos). Trata-se aqui de uma tentativa de reforçar a discussão sobre a possibilidade de inúmeras leituras e de construções tradutórias a partir disso, mas reconhecendo que uma escolha de tradução (feita em detrimento de outra) pode abrir espaço para diferentes construções de textos- alvo. A próxima seção parte desse dialogismo implícito a leituras de textos (e também à produção de traduções) para abordar a construção de projetos tradutórios e seu papel construção dos textos-alvo. Pressupor que textos-fonte abrem múltiplas possibilidades de interpretação e, consequentemente, podem ser traduzidos de diferentes formas, também tem como consequência a necessidade de se promover uma visão da ética da tradução que supere aquilo que Kremer (2007) chama de ética da igualdade. Kremer (2007) – que classifica essa ética da igualdade como uma postura ilusionista que tenta se impor como absoluta e universal – critica a noção equivocada de que a atividade do(a) tradutor(a) pode ser isenta e apagada de motivações políticas, além de criticar a expectativa de que traduções sejam meras reproduções de textos originais, que, por sua vez, são vistos como sacralizados e imutáveis no tempo. Essa ética da igualdade, associada à condição de invisibilidade de tradutores e tradutoras, gera, segundo Kremer (2007, p. 4004), um contexto propício para a realização de interferências veladas pois “[cria-se] no leitor a expectativa de estar lendo o texto “original”sem mediações, quando de fato, [o tradutor] está manipulando o texto sem assumir sua interferência”. Kremer (2007), tanto em sua discussão teórica quanto no estudo de caso que promove – ao analisar o caso de uma tradução de Dom Casmurro para a língua inglesa que ignora grandes passagens do texto-fonte, excluindo capítulos sem que sejam feitas quaisquer ressalvas ou anúncios, informando essa decisão ao público-alvo –, ressalta a necessidade de reconhecer que toda tradução, por mais despretensiosa que possa parecer, é uma forma de intervenção política, na qual o(a) tradutor(a) se coloca como agente, consciente ou não, da promoção de ideias que ocorre em qualquer contato entre línguas e culturas. Mais do que simplesmente reescrever textos de uma língua A em uma língua B, tradutores têm um papel histórico e social na mediação cultural, com reflexos sobre o fluxo de informações, sobre a construção de imagens culturais e sobre o estabelecimento de relações de convencimento entre diferentes agentes. Nesse cenário, Kremer (2007) defende – como alternativa ao que ela denomina como ética 119 da igualdade – uma ética pós-moderna, que promova a visibilidade de tradutores(as) e permita aos(às) leitores(as) avaliar a coerência entre a proposta construída na política tradutória e a forma que o texto traduzido efetivamente assume. Segundo Kremer (2007, p. 4011-2): Ao convidar tradutores(as) a explicitarem seus saberes éticos, Kremer (2007) mostra uma preocupação em garantir que o público-alvo das traduções possa ter meios para saber as visões e posturas subjacentes à construção dos textos traduzidos a que tem acesso. Trata-se de uma posição que encontra amparo em autores como, por exemplo, Antoine Berman (1995) e Sherry Simon (1996). Berman (1995) defende que todas as possibilidades de tradução são válidas, desde que o processo decisório por trás delas seja franco/aberto, e enfatiza que todas traduções significativas são baseadas em projetos de tradução, por ele definidos como objetivos articulados, que envolvem desde a posição do(a) tradutor(a) até as demandas e características específicas do texto a ser traduzido. Esses projetos seriam, portanto, o princípio norteador por trás de todo o processo decisório de uma tradução, constituindo o sistema subjacente a todas as escolhas realizadas na construção de um texto-alvo. Simon (1996, p. 35), também amparada em Berman (1995), ressalta a necessidade de reconhecer “o projeto tradutório como uma influência formativa sobre o texto final”, defendendo que tradutores e tradutoras construam suas posições, sem se basear em ideias pré- determinadas, mas com foco nas questões efetivamente trabalhadas em cada situação de tradução. Infelizmente, a morte prematura de Antoine Berman – em 1991, aos 48 anos – não nos possibilitou que o autor desenvolvesse mais trabalhos sobre como percebia as possibilidades para a efetiva promoção dessa ética da diferença, como bem ressalta Venuti (1998). Um ponto importante a ser considerado a partir das discussões de Kremer (2007), Berman (1995) e Simon (1996) é não haver normas prescritas para a construção de um projeto de tradução. Trata-se de algo a ser construído a partir das características individuais de cada tarefa de tradução, analisada dentro de seu contexto específico, pois, como explica Berman (2002), citado por Sousa et al (2011, p. 84), “todo texto a ser traduzido apresenta uma sistematicidade própria que o movimento de tradução encontra, enfrenta e revela”. Assim, entendendo que não há projetos de tradução que possam ser considerados universalmente corretos para quaisquer casos e que um mesmo projeto de tradução pode ser alterado quando colocado em um contexto diferente, defende-se aqui uma postura acerca de ética semelhante à de Singer (2011). Promove-se, portanto, uma ética da tradução que se constitua como uma prática social que estimula a reflexão ativa sobre as traduções, analisadas em função de projetos de tradução (ou das linhas de raciocínio construídas por trás das decisões de tradução) que venham a ser publicados em conjunto com os textos traduzidos. Trata- se de uma perspectiva sobre a ética da tradução que pode permitir, pelo lado do(a) analista, acesso a indícios sobre os esquemas individuais de percepção da realidade de cada tradutor(a) – utilizando aqui os termos de Fludernik (1996) –, podendo até mesmo permitir a discussão acerca dos mecanismos de interpretação de cada leitor(a)/ tradutor(a). Já pelo lado do(a) consumidor(a) do texto-alvo, essa mudança pode permitir uma localização mais clara dos textos-alvo nos seus contextos de recepção, com 120 implicações até mesmo para a percepção dos trabalhos de tradutores(as) enquanto produtores(as) de conhecimento. O fato de se tratar de uma postura que não prescreve modelos para a construção de projetos de tradução não deve, no entanto, ser visto como um fator impeditivo ou desestimulador do debate sobre o tema. Pelo contrário, é importante que o campo disciplinar aproveite essa abertura para desenvolver discussões que estimulem a reflexão sobre as práticas de tradução, visando a entender os raciocínios desenvolvidos para a construção de textos-alvo. Outro ponto de igual importância é a discussão sobre como tornar tais projetos públicos e como ampliar o debate em torno desses projetos, reconhecendo as diferentes possibilidades leitura abertas por um texto-fonte e analisando as diferentes possibilidades de tradução em função das discussões explicitadas por tradutores(as) em torno dos valores subjacentes às suas decisões de tradução e as limitações que eles(as) percebem em relação aos seus trabalhos. Dentre os trabalhos que podem indicar caminhos nesse sentido, podem ser feitas algumas indicações. Simon (1996, p. 35), por exemplo, destaca tradutoras feministas como “Barbara Godard, Suzanne Jill Levine, Susanne de Lotbinière-Harwood ou Luise von Flotow, em suas formas personalizadas de escrita crítica”. Trata-se, segundo a autora, de trabalhos que desenvolvem uma postura ética ao apresentar as posições subjacentes às suas traduções. Outra indicação de meios para explicitar os projetos tradutórios ou princípios que guiam tarefas de tradução é dada por Venuti (1995, p. 311) que, ao defender uma maior visibilidade dos trabalhos de tradutores e tradutoras por meio do desenvolvimento de práticas inovadoras de tradução (que fujam à norma do apagamento e da invisibilidade), sugere a apresentação de “discussões lógicas sofisticadas para essas práticas em prefácios, teses, palestras, entrevistas”. Por fim, Alves, Braga e Liparini (2016) também se colocam neste debate, discutindo os processos decisórios por trás da construção de um texto-alvo, que, segundo os autores, tem pressupostos ideológicos controversos. Os autores citam Baker (2014, p. 23) para argumentar que, ao abrir, para a comunidade acadêmica, o debate sobre tais processos decisórios, criam-se as condições para uma maior compreensão sobre os “papéis que tradutores(as) e intérpretes desempenham em suprimir ou promover aspectos relativos às experiências vividas por grupos marginalizados”. Fonte: ALVES, D. A. de S. Tradução e ética: sobre ética da tradução como uma prática social de reflexão consciente. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 1, jan./mar., 2021. Disponível em: https://periodicos. ufpel.edu.br/ojs2/index.php/rle/index. Acesso em: 31 maio 2021. 121 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • A questão da responsabilidade na ética da tradução, e a relevância de pensarmos os sistemas éticos que versam sobre isso. • Como a obra de Jean-Paul Sartre estabelece a responsabilidade, e como ela fomenta o pensar sobre a tradução. • As ideias de responsabilidade e engajamento de uma tradução, e como elas se refletem na obra de alguns pensadores. 122 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: “Em Sartre, a liberdade é precisamente o Ser da consciência: nela, o ser humano é o seu próprio passado –bem como o seu devir – sob a forma de nadificação. Sendo consciência de Ser (liberdade), há para o ser humano um determinado modo de situar-se frente ao passado e ao futuro como sendo e não sendo ambos ao mesmo tempo. A liberdade humana, da perspectiva sartriana, é a escolha irremediável de certos possíveis: o homem não é, mas faz-se. Não há futuro previsível e nem ao menos algumas cartas marcadas de antemão. Há, isso sim, o movimento através do qual o Ser do homem faz-se isso ou aquilo – escolhas que, por seu turno, serão feitas a partir de certas situações, jamais encerradas em algum tipo de determinismo”. Fonte: YAZBEK, A. C. A concepção de liberdade em Sartre. Vol. 6, nº 1, 2005, p. 142. Acerca da obra de Sartre e suas implicações na ética da tradução e crítica, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Sartre estabelece o Humanismo fundado na existência, responsável e engajado. b) ( ) Sartre estabelece o Iluminismo fundado na existência, responsável e engajado. c) ( ) Sartre estabelece o Humanismo fundado na transcendência, responsável e engajado. d) ( ) Sartre estabelece o Humanismo fundado na existência, teológico e engajado. 2 Leia o trecho a seguir: “O conceito de ato, com efeito, contém numerosas noções subordinadas que devemos organizar e hierarquizar: agir é modificar a figura do mundo, é dispor de meios com vistas a um fim, é produzir um complexo instrumental e organizado de tal ordem que, por uma série de encadeamentos e conexões, a modificação efetuada em um dos elos acarrete modificações em toda série e, para finalizar, produza um resultado previsto. Mas ainda não é isso que nos importa. Com efeito, convém observar, antes de tudo, uma ação é por princípio intencional” Fonte: SARTRE, J. P. O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 536). Observe e analise as assertivas abaixo acerca da obra de Sartre: 123 I- Sartre apresenta uma teoria fundada na liberdade como principal elemento da existência, somos sempre livres. II- O pensador fundamenta a razão como tema central de nossas ações, estabelecendo o progresso e avanço iluminista. III- Sartre traz o Existencialismo como fonte do Humanismo, estabelecendo a responsabilidade com centro da ética. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Leia o trecho a seguir: “A realidade-humana é livre porque não é o bastante, porque está perpetuamente desprendida de si mesmo, e porque aquilo que foi está separado por um nada daquilo que é e daquilo que será. E, por fim, porque seu próprio ser presente é nadificação na forma do ‘reflexorefletidor’. O homem é livre porque não é si mesmo, mas presença a si. O ser que é o que é não poderia ser livre. A liberdade é precisamente o nada que tendo sido no âmago do homem e obriga a realidade humana a fazer-se em vez de ser. Fonte: SARTRE, J. P. O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 545. Acerca da obra de Sartre, sobre a teoria ética da tradução e crítica, assinale V para verdadeiro e F para falso. ( ) Liberdade é um tema central em Sartre, inclusive não podemos nunca deixarmos de sermos livres. ( ) Iluminismo é o tema central em Sartre, vivemos o progresso da ciência e tecnologia, vivemos o progresso da razão. ( ) A existência fundamenta o engajamento que devemos ter frente ao próximo, fundamenta também nossa responsabilidade. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 124 4 Leia o trecho a seguir: [...] a consciência não passa de um vazio transparente que se alimenta de sua intencionalidade, e isso de um modo tão radical que o tema da intencionalidade ostenta uma dimensão ontológica. A consciência é consciência de..., ela é intencional, e, nesse sentido, o para si é o que não é e não é o que é. A vida da consciência consiste em tender a algo que ela não é, buscando como coincidir plenamente com o outro que não ela mesma, com um intencionado; assim, ela é o que não é. Mas ela não é o outro, não é aquilo do qual tem consciência, visto que, sendo consciência, esgota-se na distância e não consegue abandonar-se; e, assim, ela não é o que é enquanto intencional. Fonte: BORNHEIM, G. Sartre: metafísica e existencialismo. São Paulo: Perspectiva, 1971, p. 54). Descreva a ideia de Existencialismo em Sartre, e como a escolha fundamenta seu Humanismo. Liste ainda as características do Existencialismo: 5 Leia o texto a seguir: “[...] Como vimos, para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, ou tão pouco de dentro, que ele possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonado, sem qualquer ajuda de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de fazer-se até o mínimo detalhe. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, ou seja, ser nada do ser. Se começássemos por conceder o homem como algo pleno, seria absurdo procurar nele depois momentos ou regiões psíquicas em que fosse livre: daria no mesmo buscar o vazio em um recipiente que previamente preenchemos a borda. O homem não poderia ser ora livre, ora escravo: é inteiramente e sempre livre, ou não o é”. Fonte: SARTRE, J. P. O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 545. Como a liberdade se relaciona com engajamento em Sartre? Disserte com objetivo de responder essa questão e liste as principais características desses aspectos: REFERÊNCIAS 125 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Conceito de Iluminismo. Trad. Zeljko Loparic e Andréa M. A. C. Loparic. 2. ed. São Paulo: Victor Civita, 1983. ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. ALBÉRÈS, R. M. Jean-Paul Sartre. Trad. Heitor Martins. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1958. ALVES, D.; BRAGA, C.; LIPARINI, T. Translation and ethics: making translation choices ideologies that underlie the source text. Letras & Letras, v. 32, n. 1, p. 403-419, 21 ago. 2016. Disponível em: https://doi.org/10.14393/LL63-v32n1a2016-21. Acesso em: 3 abr. 2023 ALWAZNA, R. Ethical aspects of translation: striking a balance between following translation ethics and producing a tt for serving a specific purpose. English Linguistics Research. Volume 3, n. 1, 2014. ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. 17. Reimp., São Paulo: Companhia das letras, 1999. ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução: Antônio Castro. São Paulo: Atlas, 2009. ARROJO, R. Fidelity and the gendered translation. TTR – Traduction, Terminologie, Redaction, v. 1, n. 2, p. 147-63, 1994. BAKER, M. The Changing Landscape of Translation and Interpreting Studies. In: BER- MANN, S.; PORTER, C. A companion to translation studies. John Wiley & Sons, Ltda., Oxford, UK, 2014, p. 15-27. BASSNETT, S. Translation studies. London and New York: Routledge, 1980. BERMAN, A. Pour une critique des traductions: John Donne, Paris: Gallimard. 1995. 126 BERMAN, A. A prova do estrangeiro: cultura e tradução na Alemanha romântica – Herder, Goethe, Schlegel, Novalis, Humboldt, Schleiermacher, Hölderlin. Trad. de Maria Emília Pereira Chanut. Bauru: EDUSC, 2002. BERMANN, S.; WOOD, M. Nation, language and the ethics of translation. New Jer- sey: Princeton University Press, 2005. BERMAN, A. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Trad. M. H. C. Torres, M. Furlan e A. Guerini. Rio de Janeiro: 7 Letras,2007. BERMAN, A. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Florianópolis: Copiart, 2013. BOURDIEU, P. Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, R. (Org.). Pierre Bourdieu – Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. CASTRO, M. de S. C. Tradução, ética e subversão: desafios práticos e teóricos. Dis- sertação de Mestrado em Letras do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC- -Rio, 2007. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. CHESTERMAN, A. Memes of translation: the spread of ideas in translation theory. Amsterdam: John Benjamins, 1997. CECCANTINI, J. L. T.; PEREIRA, R. F.; ZANCHETTA JR., J. Pedagogia Cidadã. Cadernos de formação: Língua Portuguesa. v. 1. São Paulo: UNESP, Pró-Reitoria de Gradua- ção, 2004. p. 113-128. DANCY, J. An ethic of prima facie duties. In: SINGER, P. (org.). A companion to ethics. 29. ed. Oxford: Blackwell, 2012. p.219-29. Disponível em: ddh_bib_inter_universal.htm. Acesso em: 11 jan. 2023. DEGUY, J. Sartre: une écriture critique. Paris: Presses Universitaires du Septentrion, 2010. DELEUZE, G. Diferença e repetição. São Paulo: Graal, 2006. DERRIDA, J. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar da hospitali- dade. Trad. de Antonio Romane. São Paulo: Escuta, 2003. DRUGAN, J.; TIPTON, R. Translation, ethics and social responsibility. The Transla- tor, Volume 23:2, 2017. pp.119-125. 127 DUARTE JR., J. O que é realidade. São Paulo: Brasiliense, 2008. FURLAN, M. A teoria de tradução de Lutero. In: Annete Endruschat & Axel Schönberger, 2004. GALLO, S. Filosofia: experiência do pensamento. São Paulo: Scipione, 2013, p. 281. GRZIBOWSKI, S. Fenomenologia da corporeidade em Lévinas. In: RIBEIRO JÚNIOR, N. et al. Amor e justiça em Lévinas. São Paulo: Perspectiva, 2018. p. 87-97. HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. Trad. Paulo Menezes. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. HEIDEGER, M. “Phénoménologie et science de l’être”. In: Cahier de l’Herne. Paris: de l’Herne. 1983. HELENE C. T. M. Método de análise e crítica de tradução de Antoine Berman: au- torresenha do seu livro por uma crítica da tradução: John Donne. Tradução em revista (on-line), v. 2021, p. 191-213, 2021. HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. HORKHEIMER, M.; Adorno, T. W. (1983). Conceito de Iluminismo. In: W. Benjamin, M. Horkheimer, T. W. Adorno, J. Habermas. Textos Escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, p. 89-116. KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2011. KREMER, L. M. S. Desvendando saberes: o caso da tradução de “Dom Casmurro” para o inglês. In: VII Congresso Nacional de Educação – EDUCERE. Anais, Paraná, nov. 2007, p. 4003-14. LEVI, P. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988. LÉVINAS, E. Totalidade e infinito. Lisboa: Edições 70, 1988. LÉVINAS, E. Da existência ao existente. Campinas: Editora Papirus, 1998. LÉVINAS, E. De outro modo que ser ou para lá da essência. Lisboa: Universitária, 2011. 128 MEDEIROS, C. L. Filologia e tradução no primeiro romantismo alemão. Revista da Abralin, v. 16, p. 169-189, 2017, p. 170. MARTINDALE, C. Thinking through reception: Introduction. In: MARTINDALE, C.; THO- MAS, R. (ed.). Classics and the uses of reception. Malden: Blackwell Publishing, 2006. p. 1-13. MÉSZAROS, I. A obra de Sartre: busca da liberdade. São Paulo: Ensaio, 1991. MIDGLEY, M. The origin of ethics. In: SINGER, P. (Org.). A Companion to Ethics. 29. ed. Oxford: Blackwell, 2012. p. 3-13. MOORE, G. E. Princípios éticos. Tradução de L. J. Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1975. MILL. S. Utilitarismo: introdução, tradução e notas de Pedro Galvão. Porto. Porto Editora, 2005. MOREIRA, M. F. Em torno da literatura engajada: Sartre e o debate estético. Mono- grafia (Bacharelado e Licenciatura em Filosofia). Departamento de Filosofia da Univer- sidade de Brasília. Brasília-DF, 2012. Disponível em: https://www.sabedoriapolitica.com. br/products/em-torno-da-literatura-engajada-sartre-e-o-debate-estetico-resenha/. Acesso em: 3 abr. 2023. MORENO, S.; OLIVEIRA, P. Da servilidade da tradução subversiva: servir a quem, por quê? Alfa, v. 44, n. esp., p. 134-55, 2000. NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. 2. ed. Tra- dução de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. NORD, C. Skopos, loyalty, and translational conventions. Target, v. 3, n. 1, p. 91- 109, 1991. NOUDELMANN, F. Que nous disent aujourd’hui Jean-Paul Sartre et Simone de Be- auvoir? O drama da existência: estudos sobre o pensamento de Sartre. São Paulo: Humanitas, 2003. OLIVEIRA, M. C. C. A construção das éticas de tradução de textos literários a partir da experiência: a interação entre a academia e a sociedade. Gragoatá, n. 31, p. 97-106, 2011. OLIVEIRA, M. C. C. de. Ética em tradução, frutos de posturas estéticas e políticas. In: Sentidos dos lugares. Encontro Regional da ABRALIC, 2005. Rio de Janeiro: ABRA- LIC, 2005. p.1-9. 129 OLIVEIRA, M. C. Ética na tradução, fruto de posturas estéticas e políticas. Sentidos dos lugares – Anais do Encontro Regional da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Rio de Janeiro: ABRALIC. CD-ROM. 2005. OLIVEIRA, M. C. Escritores brasileiros e a ética da tradução: o caso de Érico Verissimo. Lugares dos discursos – Anais do X Encontro Internacional da Associação Brasi- leira de Literatura Comparada. Rio de Janeiro: ABRALIC. CD-ROM. 2006. OLIVEIRA, P. Conhecimento e valor: a ética em primeira pessoa de Wittgenstein e suas implicações para os estudos da tradução. Tradução em Revista, n. 7, p. 1-12, 2009. OLIVEIRA, P. Language conception and translation: from the classic dichotomy to a continuum within the same framework. International Colloquium Schleiermacher: 1813-2013: Two centuries of reading Friedrich Schleiermacher’s seminal text On the different methods of Translating. VII Translation Studies Conference in Portugal. Lisboa, 2013. OLIVEIRA, P. Qual ética? In: ESTEVES, L.; VERAS, V. (Orgs.). Vozes da tradução, éticas do traduzir. São Paulo: Humanitas, 2014. p. 257-74. O’NEILL, O. Kantian ethics. In: SINGER, P. (Org.). A companion to ethics. 29. ed. Ox- ford: Blackwell, 2012. p. 175-85. ONU. (2023) Carta das Nações Unidas. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/ carta-das-nacoes-unidas. Acesso em: 31 mar. 2023. PYM, A. On translator ethics: principles for mediation between cultures. Amsterdam: John Benjamins, 2012. RIBEIRO, R. J. Ética, ação política e conflitos na modernidade. Danilo Santos de Miranda (org.) Ética e cultura. São Paulo: Perspectiva, 2004. RÓNAI, P. A tradução vivida. Rio de Janeiro: Educom, 1976. RÓNAI, P. A tradução vivida. Rio de Janeiro: Educom, 1981. RÓNAI, P. A tradução vivida. Rio de Janeiro: Educom, 1990. SARTRE, J.-P. La nausée. Paris: Gallimard, 1938. SARTRE, J.-P. Présentation des Temps modernes. In: SARTRE, J.-P. Situations, II. Paris: Gallimard, 1948. 130 SARTRE. J.-P. O existencialismo é um humanismo. A imaginação: questão de método. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. Tradução de Rita Cor- reira Guedes, Luiz Roberto Salinas Forte, Bento Prado Júnior. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. SARTRE, J.-P. O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 536). SCHERER-WARREN, Ilse. Das mobilizações às redes de movimentos sociais. Revista Sociedade e Estado, Brasília, v. 21, p. 109-130, 2006. SILVA, F. Palavra do professor. In: ALVES, I.; JACOBELIS, P.; BELO, R.; SOUZA, T. (Org.). Sociedad, n. 7, p. 74–76, 2004. VÁZQUEZ AYORA, G. Introducción a la traductología. Georgetown University Press, 1977. VENUTI, L. Escândalos da tradução: por uma ética da diferença. Trad. de Laureano Pelegrin et al. Bauru: EDUSC, 1998. VENUTI, L. The translator’s invisibility: a history of translation. New York: Routledge, 1995. VENUTI, L. Escândalos da tradução: por uma ética da diferença. Tradução Laureano Pelegrini. Bauru,EDUSC, 2002. VENUTI, L. The Translator’s Invisibility: a history of translation. WERLE, M. A. A questão do fim da arte em Hegel. São Paulo: Hedra, 2011. WHITING, C. The case for “engaged” literature. In: Yale French studies, n. 1, p. 84-89, 1948. YAZBEK, A. C. A concepção de liberdade em Sartre. Vol. 6, nº 1, 2005, p. 142. 131 A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • observar as questões ético-práticas no universo da tradução; • distinguir exemplos históricos da complexidade ética de algumas traduções; • analisar a prática da tradução e a ética contemporâneas; • investigar as refl exões e conclusões sobre ética e a tradução. Com o objetivo de reforçar os conhecimentos adquiridos, a cada tema de aprendizagem desta unidade, você encontrará autoatividades planejadas a partir do conteúdo trabalhado. TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – REFLEXÕES E CONCLUSÕES SOBRE ÉTICA E A TRADUÇÃO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 132 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 133 TÓPICO 1 — TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Seguiremos, agora, num primeiro momento, com uma análise mais detalhada da ética na tradução de Berman, trazendo mais exemplos práticos para nosso campo de estudos, detalhando mais e mais o que seria a prática da tradução e as questões éticas dentro de um mundo contemporâneo. Para tanto, um resgate e exemplo histórico se faz necessário. Abordaremos um estudo de caso importante na história da ética da tradução que é aquilo que na Idade Média se convencionou como o Cisma do Oriente. Houve lá também um debate ético teológico acerca da tradução. Utilizaremos isso para aprofundar o assunto do traduzir e a abertura responsável da linguagem e a prática da tradução e a ética contemporânea, dentro dos sistemas éticos contemporâneos. Finalizaremos nosso debate com reflexões e conclusões sobre ética e a tradução, pensando a ética, escrita e civilização. Progredimos ou não nas questões éticas da tradução? Ou esse é um desafio em atualização? Vamos lá! 2 A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E AS QUESTÕES ÉTICAS Observamos na parte inicial de nosso material uma apresentação histórico- filosófica do que seria a ética e como ela se desenvolveu em seus primórdios dentro do mundo helênico, e como ela caminhou também como parte do pensamento da filosofia e como parte de uma espécie de avanço civilizatório. Os mais variados sistemas éticos apontam para a resolução das questões práticas: ou estudando as questões em si mesmas (éticas deontológicas), ou estudando as questões éticas pelas suas consequências (éticas teleológicas). Assim, num primeiro momento, estudamos como Aristóteles, Kant e utilitaristas poderiam pensar a questão da tradução em seu prisma ético. Estudamos também acerca da poética da tradução e suas implicações éticas. Se há uma primazia da poética acerca da ética, ou se há uma primazia da ética sobre a poética. Para tratar desse assunto trouxemos à discussão as ideias do Romantismo Alemão, a obra de Nietzsche e de Deleuze, além da relação deles com a tradução. 134 Seguimos nosso debate, num segundo momento, tratando da questão da alteridade na ética da tradução. Para tanto, perpassamos o momento histórico e filosófico do pós-guerra, e como esse pós-guerra trouxe à luz o pensamento de sistemas éticos como o de Emmanuel Levinas, entre outros grandes pensadores que também pensaram a alteridade e responsabilidade como o filósofo Jean-Paul Sartre. Introduzimos também algumas ideias iniciais e práticas acerca de um importante pensador da ética na tradução que é Antoine Berman, e como ele utilizou das ideias de Levinas e construiu uma espécie de guia da alteridade na tradução, fugindo daquilo que ele chamou de etnocentrismo, hipertextual e platônico no processo de traduzir. Se pensarmos num mundo ideal, onde vislumbrássemos uma tradução perfeita, poderíamos dizer que essa tradução perfeita se daria num texto traduzido exatamente igual ao original, só que em outra língua. Esse é o grande desafio do tradutor, aliado, obviamente, com a questão ética do texto traduzido. É no exercício e prática da tradução que sentimos de fato os desafios éticos que tal atividade nos propõe. E se traduzirmos errado? E se alterarmos o sentido? Se deturparmos sem saber o significado de uma obra? Se comprometermos um personagem? São várias questões e desafios que se colocam. Vamos observar, a partir desse momento, o que mais Antoine Berman pode nos auxiliar neste processo de ética na tradução. Já sabemos que Berman se apoia na ética de Levinas, colocando o respeito e a alteridade como critérios essenciais de uma ética na tradução. A eticidade, para Berman, reside no respeito pelo original: O fundamento da avaliação de uma tradução consiste em dois critérios: poeticidade e eticidade. A eticidade “reside no respeito, ou melhor, num certo respeito pelo original” (1995: 92). Partimos do seguinte axioma: a tradução é tradução-da-letra, do texto enquanto letra. Que isto é a essência última e definitiva da tradução ficará claro pouco a pouco. Existe um belíssimo texto de Alain (1934: 56-7) que faz alusão a isso: “Tenho a ideia de que sempre se pode traduzir um poeta, inglês, latino ou grego, exatamente palavra por palavra, sem acrescentar nada, e conservando inclusive a ordem, até encontrar o metro e mesmo a rima. Eu, raramente, conduzi o experimento até este ponto; é necessário tempo, digo, meses, e uma rara paciência. Chega- se inicialmente a uma espécie de mosaico bárbaro; os fragmentos estão mal juntados; o cimento os liga, mas não os harmoniza. Resta a força, o brilho, até mesmo uma violência, e provavelmente mais do que o necessário. É mais inglês que o inglês, mais grego que o grego, mais latim que o latim [...] (BERMAN, 2013, p. 2). A poeticidade e a eticidade andam juntas como critério de apreciação correta de uma tradução, pois tanto a poeticidade como a eticidade revelam a quebra com uma tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica. Como isso se dá na ética da tradução proposta por Berman, por mais que não seja exatamente um sistema ético clássico? 135 Berman desenvolveu uma abordagem ética da tradução que enfatiza a responsabilidade do tradutor em relação ao texto original e à cultura de origem. A ética da tradução de Berman se baseia em quatro princípios fundamentais: Respeito pelo texto original: Segundo Berman, o tradutor deve respeitar o texto original e sua estrutura, estilo e linguagem. Isso significa que o tradutor deve evitar a simplificação ou adaptação excessiva do texto para que ele se encaixe nas convenções ou expectativas da cultura de destino. Busca pela equivalência: Berman argumenta que o objetivo da tradução não é apenas transmitir o significado literal do texto, mas também capturar a intenção, o tom e o estilo do autor. Portanto, o tradutor deve buscar uma equivalência entre o texto original e a tradução, levando em consideração a cultura de origem e destino. Atenção à cultura de origem: Berman enfatiza a importância de o tradutor ter conhecimento da cultura de origem do texto, bem como do contexto histórico, social e político em que o texto foi escrito. Isso permitirá que o tradutor compreenda as referências culturais e contextuais no texto original e as transmita adequadamente na tradução. Responsabilidade ética: por fim, Berman destaca a responsabilidade ética do tradutor em relação ao texto original, à cultura de origem e à cultura de destino. Isso significa que o tradutor deve estar ciente do impacto potencial da tradução e de como ela pode ser interpretadapelos leitores. O tradutor deve, portanto, estar comprometido em transmitir o texto original de forma precisa e fiel, sem comprometer sua integridade ou a intenção do autor. A ética da tradução de Berman enfatiza a importância do respeito pelo texto original, da busca pela equivalência, da atenção à cultura de origem e da responsabilidade ética do tradutor. Através desses princípios, Berman defende uma abordagem ética da tradução que visa preservar a integridade e a riqueza da literatura e da cultura em todo o mundo. Berman também descreveu o fim do etnocentrismo necessário para uma boa tradução. Ele discutiu o etnocentrismo em sua obra A tradução e a letra, ou o albergue do longínquo. Ele argumenta que o etnocentrismo é um problema comum na tradução, onde um tradutor pode julgar a cultura de origem do texto como inferior a sua própria cultura, levando a uma tradução que não é fiel ao texto original. O etnocentrismo, segundo Berman, pode ser encontrado em muitas formas de comunicação intercultural, não apenas na tradução. Ele argumentou que o etnocentrismo é uma manifestação do preconceito cultural, em que as pessoas tendem a julgar outras culturas com base em suas próprias normas culturais e valores. Antoine Berman nos diz que a solução para o etnocentrismo na tradução é a "desautomatização", um processo que envolve uma compreensão mais profunda da cultura de origem do texto, e uma tentativa de evitar julgamentos pré-concebidos 136 baseados na cultura do tradutor. Ele acreditava que os tradutores devem se esforçar para entender a cultura de origem do texto, e para trazer a complexidade e a riqueza dessa cultura para a tradução. Em suma, Berman reconheceu o etnocentrismo como um problema comum na tradução, e defendeu a necessidade de os tradutores reconhecerem suas próprias tendências etnocêntricas, e trabalharem para superá-las por meio da compreensão e respeito pelas culturas de origem do texto: Nesta figura, a tradução se caracteriza por três traços. Culturalmente falando, ela é etnocêntrica. Literariamente falando, ela é hipertextual. E filosoficamente falando, ela é platônica. A essência etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução recobre e oculta uma essência mais profunda, que é simultaneamente ética, poética e pensante. Em suas regiões mais profundas, o traduzir está ligado à ética, à poesia e ao pensamento (BERMAN, 2013, p. 22). Berman também lança um pensar sobre o fim do hipertextual na tradução. De forma geral, o hipertextual é um termo que se refere às conexões entre diferentes textos que podem ser estabelecidas por meio de referências, citações, alusões, intertextualidade e outras formas de interconexão. Para Berman, a tradução, como a tradição a vê, é um ato hipertextual por excelência, pois envolve a busca por essas conexões entre o texto original e o texto traduzido. Ele argumenta que o tradutor deve estar ciente dessas conexões e trabalhar para preservá-las na tradução, a fim de manter a integridade e a riqueza do texto original, mas sem se submeter totalmente ao hipertextual. Berman cita importante contribuição de São Jerônimo: São Jerônimo define assim a essência da tradução: "sed quasi captivos sensus in suam linguam uictoris iure transposuit" e "non uerbum e uerbo, sed sensum exprimere de sensu" [mas os sentidos, como que capturados, trasladou-os à sua língua, como um direito de vencedor] e [não traduzir uma palavra a partir de outra palavra, mas o sentido a partir do sentido] (BERMAN, 2013, p. 21). Berman também enfatiza que o hipertextual é uma das características distintivas da literatura em relação a outros tipos de texto. A literatura é permeada por referências, alusões e citações que estabelecem conexões entre diferentes textos e épocas, e é através dessas conexões que a literatura adquire sua profundidade e complexidade. Na perspectiva de Berman, porém, a tradução literária é uma forma de criar novas conexões hipertextuais, uma vez que o texto traduzido pode ser entendido como um novo ponto de conexão entre o texto original e a cultura da língua de chegada. Portanto, a tradução não deve ser vista como uma simples transposição de um texto de uma língua para outra, mas como um processo criativo que envolve a criação de novas conexões entre culturas e épocas. 137 Destarte, Berman enfatiza a importância do hipertextual na tradução literária, mas que não devemos somente nos submeter ao hipertextual, e destaca que o trabalho do tradutor envolve a busca por essas conexões e a criação de novas conexões hipertextuais entre textos e culturas. Por isso, Berman desenvolveu uma abordagem crítica que valoriza a especificidade da língua e da cultura de origem do texto, buscando preservar suas singularidades em vez de homogeneizá-lo na língua de destino. Outro desafio, em suma, proposto por Berman é o fim do legado do platonismo na tradução. Berman faz referência ao platonismo ao defender que a tradução deve buscar transmitir não apenas o sentido das palavras, mas também a sua essência, sua verdadeira natureza. Segundo ele, o texto é um objeto estético que deve ser preservado em sua forma e não apenas em seu conteúdo. A tradução não pode se limitar a uma mera transferência de informações de uma língua para outra, mas deve considerar aspectos como a sonoridade, a musicalidade, a sintaxe e a estrutura do texto original. Berman chama essa abordagem de "tradução enquanto criação", pois acredita que a tradução deve ser vista como uma obra em si mesma, com suas próprias peculiaridades e singularidades: Não existe a tradução (como postula a teoria da tradução), mas uma multiplicidade rica e desconcertante, fora de qualquer tipologia, as traduções, o espaço das traduções, que cobre o espaço do que existe em todo e qualquer lugar para traduzir. Assim, a tradutologia não ensina a tradução, mas, sim, desenvolve de maneira transmissível (conceitual) a experiência que a tradução na sua essência plural (BERMAN, 2013, p. 21). Assim, ao se referir ao platonismo, Berman destaca que a tradição da tradução sempre buscou uma certa importância da essência e da verdadeira natureza das coisas, que devem ser buscadas através da tradução. Para ele não deve a tradução ser somente isso, ela não é apenas uma tarefa técnica, mas um ato criativo que requer sensibilidade e habilidade por parte do tradutor para transmitir as nuances e os significados sutis do texto original. A tradução não deve ser apenas uma questão de transposição de palavras de uma língua para outra, mas uma prática culturalmente situada que envolve a interpretação e a transmissão de significados. Surge também, como dissemos acima, a questão da ética atada com a poeticidade. A poeticidade é um dos conceitos-chave de Berman em relação à tradução. Ele a define como a qualidade poética presente em um texto original que deve ser transmitida para o texto traduzido. A poeticidade não se refere apenas a aspectos formais, como a escolha de palavras ou a estrutura da frase, mas também aos significados implícitos e às associações culturais que o texto original evoca. Vejamos: no seu romance Eu, o Supremo, Roa Bastos cita este provérbio: 138 A cada dia le basta su pena, a cada ano su dano. Poder-se-ia, certamente, procurar um equivalente francês. Mas escolhi uma tradução ao mesmo tempo literal e livre: A cbaque jour suffit sapeine, à chaque annéesa déveine. [A cada dia basta seu sofrimento, a cada ano seu lamento] O duplo jogo aliterativo do original, díalpena, anoldano, desaparece, mas para ser substituído por uma outra aliteração peine/ déveine. Não se trata, pois, de uma tradução palavra por palavra "servil", mas da estrutura aliterativa do provérbio original que reaparece sob uma outra forma. Tal me parece ser o trabalho sobre a letra: nem calco, nem (problemática) reprodução, mas atenção voltada para o jogo dos significantes. Assim é a tradução: experiência. Experiência das obras e do ser-obra, das línguas e do ser-língua. Experiência,ao mesmo tempo, dela mesma, da sua essência. Em outras palavras, no ato de traduzir está presente um certo saber, um saber sui generis. A tradução não é nem uma subliteratura (como acreditava-se no século xvi), nem uma subcrítica (como acreditava-se no século xrx). Também não é uma linguística ou uma poética aplicadas (como se acredita no século XX). A tradução é sujeito e objeto de um saber próprio. Mas a tradução (quase) nunca considerou sua experiência como uma palavra inteira e autônoma, como o fez (ao menos desde o Romantismo) a literatura (BERMAN, 2013, p. 23). No entanto, a poeticidade não pode ser isolada da eticidade, como também já observamos. A eticidade se refere ao conjunto de valores éticos e culturais que estão presentes em um texto original e que devem ser levados em consideração na prática da tradução. Isso significa que o tradutor não pode simplesmente escolher as palavras que parecem mais poéticas ou que melhor se adéquam à estrutura da frase. Ele deve considerar também as implicações culturais e os valores éticos presentes no texto original, a fim de transmitir seu significado de maneira fiel e respeitosa. Vejamos outro exemplo destacado pelo autor: Quando no início do Processo, Vialatte traduz ... un homme assisprh de lafenêtre ouverte et arme d 'un livre dont z/détacha son regarden voyant entrer Joseph K., [1976: 260] [...um homem sentado perto da janela aberta e armado de um livro do qual desprendeu os olhos ao ver Joseph K. entrar.] onde Lortholary e Goldschmidt traduzem mais literalmente ...un homme assis prês de lafenêtre, un livre à Ia main. Levant les yeux... (Lortholary) [1983: 30] [um homem sentado perto da janela, um livro na mão. Levantando os olhos...] ...un homme assisprh de lafenêtre ouverte, un livre à Ia main et qui leva les yeux à cet instant..., (Goldschmidt) [1983: 32]13 [um homem sentado perto da janela aberta, um livro na mão e que levantou os olhos neste momento...] a diferença pode parecer mínima, mas entre "armado de um livro" e "um livro na mão", entre "desprendeu os olhos" e "levantou os olhos", há toda uma distância entre literarização e literalidade. Aplicada a cada frase da obra, o "leve" toque de literatura de Vialatte acaba produzindo um "outro" Kafka, e, evidentemente, apagando sua língua (BERMAN, 2013, p. 34). 139 Assim, Berman acredita que a tradução deve ser vista como uma prática ética e estética que busca transmitir a poeticidade e a eticidade do texto original. O tradutor deve ter um conhecimento profundo da cultura de origem do texto e da cultura de destino, além de ser sensível às nuances linguísticas e culturais que envolvem a prática da tradução. A tradução é uma prática culturalmente situada que envolve a transmissão de significados e valores éticos e estéticos. Berman defende então uma abordagem crítica e reflexiva sobre a tradução, destacando a importância da consideração do contexto cultural e social tanto do texto de partida quanto do texto de chegada, é a tradução um processo complexo de reconstrução do sentido e da mensagem do texto em um novo contexto cultural e linguístico. Por isso os tradutores devem estar cientes da relação entre as línguas e culturas envolvidas no processo de tradução e de considerarem as diferenças de valores, históricas e políticas que podem afetar a compreensão e a interpretação do texto. Todo esse aparato e sistema de visões sobre a tradução, Berman chamou de uma tradução “não servil”. A saber, uma tradução não servil, portanto, não se preocupa apenas em transmitir o significado literal do texto original, mas também leva em consideração o contexto cultural e histórico em que o texto foi escrito, bem como as nuances linguísticas e literárias do idioma original. Isso significa que a tradução deve ser fiel ao espírito do texto original, mas não necessariamente à sua letra. ATENÇÃO Segundo Berman, a tradução não servil envolve uma abordagem criativa e interpretativa que valoriza tanto o texto original quanto a cultura e a língua de chegada. Em outras palavras, a tradução não deve ser uma mera transferência de palavras e significados, mas uma recriação do texto original em uma nova língua, preservando sua qualidade estética e literária. Berman consolidou a noção de "ética da tradução", na importância da fidelidade ao texto original e da preservação de sua "alteridade" cultural, ou seja, a singularidade e especificidade cultural do texto original. 140 Tabela 1 – Princípios éticos na tradução segundo Antoine Berman Princípios éticos na tradução segundo Antoine Berman ATIVIDADE TAREFA Respeito pelo texto original O respeito pelo original é aquilo de mais tocante e crucial na obra de Berman, por isso o tradu- tor deve trabalhar sempre a estrutura, o estilo, a linguagem. Nunca simplificar, nunca somente adaptar, mas sim se esforçar para traduzir aquilo que o original tem de mais essencial. Deve, tam- bém, se desprender da cultura destino ao qual o texto se desloca. Busca pela equivalência Capturar o tom, o estilo, as nuances, e não so- mente transmitir o sentido literal do texto, esta é a busca pela equivalência descrita por Berman. Essa equivalência é uma espécie de justa medida entre o texto original e aquela à qual a obra se destina. Atenção à cultura de origem O tradutor deve desempenhar um trabalho com- plexo de pesquisa, criação, buscando o contexto histórico, social e político no original do texto. Isso possibilitará a compreensão das referências culturais e de estilo envoltas no texto. Isso deve ser transmitido na tradução. Responsabilidade ética A responsabilidade ética deve ser destacada, a mesma que se dá ao tradutor em relação ao texto original, à cultura de origem e à cultura de destino. O tradutor, devemos ressaltar, deve estar ciente do impacto potencial da tradução e de como ela pode ser interpretada pelos leitores. O tradutor deve, portanto, estar comprometido em transmitir o texto original de forma precisa e fiel, sem comprometer sua integridade ou a intenção do autor, e sem comprometer a conexão ética com o texto. Fonte: o autor Um adendo que devemos fazer à teoria de Berman e seus apontamentos éticos na tradução, perpassa pela função do prefácio como ambiente de interlocução entre a obra original e o ofício da tradução. A história do prefácio remonta à Grécia antiga, onde era comum incluir um prólogo antes de uma peça de teatro. Essa prática se espalhou para Roma e, eventualmente, para a literatura em geral. Na Idade Média, os prefácios eram escritos por estudiosos ou monges e eram usados para explicar o propósito do livro e fornecer informações adicionais sobre o autor ou a obra. No Renascimento, os prefácios se tornaram mais comuns e começaram a 141 incluir opiniões pessoais sobre a obra ou o autor. Durante o século XVIII, o prefácio se tornou uma forma de os autores defenderem suas obras e responderem a críticas. Com o surgimento da imprensa moderna e a popularização do livro como forma de entretenimento, o prefácio também se tornou uma ferramenta de marketing, com editores e autores usando-o para promover o livro. Figura 1 – Prefácio na Idade Média Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Livro#/media/Ficheiro:Gutenberg_bible_Old_Testament_Epistle_of_St_ Jerome.jpg. Acesso em: 11 abr. 2023. 142 No século XIX, o prefácio se tornou um lugar comum para autores incluírem agradecimentos e dedicatórias, e também para fazerem comentários sobre a natureza da literatura e do processo de escrita. Hoje em dia, o prefácio continua sendo um elemento importante em muitos livros, com autores, editores e outros escritores usando-o para fornecer informações sobre o contexto da obra, para dar a sua opinião sobre o que está sendo apresentado ou para agradecer às pessoas que ajudaram na criação do livro. Isso se dá de forma muito recorrente e concreta na tradução. Por isso é um espaço ético e de alteridade entre as obras. O prefácio em uma tradução é uma parte decisivado livro, pois pode fornecer informações valiosas sobre a tradução em si, o tradutor e o autor original. O prefácio pode dar ao leitor uma compreensão mais profunda da obra e do processo de tradução. Em uma tradução literária, o prefácio pode explicar as decisões tomadas pelo tradutor ao escolher como traduzir certas palavras ou expressões, além de dar um contexto cultural e histórico da obra original. Também pode fornecer informações sobre o autor original e a importância da obra na literatura mundial. Além disso, o prefácio pode ser usado para esclarecer as diferenças entre a língua original e a língua para a qual o livro foi traduzido. Isso pode ser útil, por exemplo, se a língua original tiver nuances culturais ou expressões idiomáticas que não sejam facilmente traduzidas para outra língua. O prefácio também pode ser uma oportunidade para o tradutor compartilhar suas reflexões pessoais sobre a obra, como as dificuldades encontradas durante o processo de tradução, as escolhas que teve que fazer e sua visão geral do texto traduzido, daí sua grande relevância ética. O prefácio em uma tradução pode ajudar o leitor a compreender melhor a obra, a tradução e o processo de tradução, além de proporcionar um contexto mais completo para a leitura. Essa prática não é somente essencial em Berman, como em qualquer autor que pense a ética na tradução. 2.1 UM ESTUDO DE CASO – O CISMA DO ORIENTE Que tal botar um pouco em prática nessa bagagem sobre a ética na tradução até aqui? Que tal visualizar a realidade histórica de uma tradução? Em termos de ética e tradução, devemos observar que ela não é um simples pensar teórico e não prático que se coloca. A história é nossa melhor guia nesse sentido, em demonstrar as situações concretas em que a tradução impactou intensamente uma grande comunidade de indivíduos. E se por uma opção ou um erro de tradução comprometêssemos a existência de todo um império? 143 Há um grande exemplo histórico entre muitos outros que poderíamos abordar, que versa sobre um dos fatos mais relevantes da Idade Média, e tem origem também numa questão de tradução. Sim, numa questão ética sobre a tradução. É o chamado Cisma da Igreja Católica, que conforme o pesquisador Souza (2020) nos apresenta, trata-se de um evento de grandes complexidades envolto também numa questão de tradução. É no Cisma que há uma separação entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Ortodoxa. Tal acontecimento se deu em 1054 d.C., e concretizou uma série de eventos e acontecimentos que deram origem à igreja que hoje chamamos de Ortodoxa. O Cisma do Oriente, também conhecido como Grande Cisma do Oriente, ocorreu no século XI e dividiu a Igreja Cristã em duas partes: a Igreja Católica Romana no Ocidente e a Igreja Ortodoxa no Oriente. Ele foi causado por uma série de questões teológicas, políticas e culturais que foram se acumulando por séculos, conforme (SOUZA, 2020). Entre as principais causas do cisma estavam as diferenças teológicas entre as igrejas do Ocidente e do Oriente, como a questão da Trindade e a natureza da Eucaristia. Também houve diferenças políticas, incluindo a relação entre o papa em Roma e os líderes da Igreja no Oriente, bem como diferenças culturais e linguísticas entre as duas regiões. O cisma foi oficialmente declarado em 1054, quando o papa Leão IX e o patriarca Miguel I de Constantinopla se excomungaram mutuamente, separando formalmente as duas igrejas. A partir desse ponto, a Igreja Católica Romana se tornou a principal denominação cristã no Ocidente, enquanto a Igreja Ortodoxa se tornou a principal denominação no Oriente. Embora as duas igrejas tenham permanecido separadas desde então, houve alguns esforços para reconciliá-las ao longo dos anos. Em 1965, o papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras I de Constantinopla revogaram as excomunhões mútuas de 1054, o que foi um passo significativo em direção à reconciliação. No entanto, ainda há diferenças teológicas, litúrgicas e culturais significativas entre as duas igrejas, como também nos aponta a fortuna crítica desse período (SOUZA, 2020). Essa separação entre as Igrejas trazia de forma escancarada uma luta pelo poder. A luta era pelo primado da Igreja, a saber, quem detém a verdade ética, cultural, simbólica e ritualística? Desde o início da Igreja como instituição, houve o primado do poder advindo de Roma, e essa tradição acabou se impondo nas outras regiões onde a Igreja Católica também prosperou, como em Antioquia, Alexandria, Jerusalém e Constantinopla: De fato, o chamado cisma de 1054, que deu origem a Igreja ortodoxa, não pode e nem deve ser compreendido como um ato arbitrário e isolado, mas sim como consequência de diversos fatores que atingiram o cume no século XI, devido, basicamente, a uma questão primordial: o primado de jurisdição do bispo de Roma. Na verdade, na constituição daquilo que se chamava pentarquia, ou seja, o governo da Igreja a partir dos cinco bispos das maiores igrejas – à época, 144 Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém – o bispo de Roma, hoje o papa, já gozava de uma primazia, mas apenas de honra, visto que era compreendido como o “primeiro entre os pares”. Gozando dessa primazia, poderia intervir em conflitos e discussões dos demais patriarcados, mas apenas se consultado. O fato é que, ao longo dos séculos, alguns dos bispos de Roma começaram a confundir o que era apenas um primado de honra com um poder de decisão sobre a Igreja inteira – não mais “o primeiro entre os pares”, mas “o primeiro sobre os pares” – até culminar nas excomunhões mútuas, no século XI (SOUZA, 2020, p. 113-114). Como em qualquer instituição feita por seres humanos, a Igreja Católica também sofreu uma luta pelo poder, desde suas origens mais remotas. O Cisma do Oriente representa historicamente esse fato, a saber, a luta pelo poder e designações da Igreja cristã. E a luta pelo poder é também uma luta pelo significado, pelo primado de uma tradição, pela força de uma palavra. No Cisma da Igreja, uma das frentes na briga pelo poder simbólico estava (e ainda está, de certa forma) na concepção daquilo que é chamado “Santíssima Trindade”, ou seja, a concepção daqueles três entes fundamentais na crença cristã, e que se tornou objeto de estudo, tradução e objeto de cizânia entre as partes: No decorrer dos primeiros séculos, porém, os próprios costumes e aspectos culturais motivaram a algumas diferenças entre as igrejas do Ocidente e do Oriente. O Tratado contra os francos, escrito atribuído a Fócio (810/820-893), que fora eleito patriarca de Constantinopla e, depois, não reconhecido pelo bispo de Roma, acusava os ocidentais de introduzirem a expressão filioque – “e do Filho” – na profissão de fé, ao falar do Espírito Santo (SOUZA, 2020, p. 110); de usarem pão ázimo na celebração da missa, de não jejuarem durante a quaresma, entre outros (NAVARRO, 1995, p. 97). Um dos motivos de separação da Igreja estava, então, na expressão chamada “filioque”, que simplesmente quer dizer “e do Filho” e que compõe o credo cristão: “Toda pessoa que deseja estudar teologia cristã em algum momento se deparará com a questão do Espírito Santo” e mais ainda: “e, consequentemente, esbarrar-se-á com a antiga discussão acerca da processão desse Espírito. Afinal, ele procede do Pai, do Filho, do Pai e do Filho ou do Pai do Filho, ou ainda, de nenhum desses” (NAVARRO, 1995, p. 98). A questão está então de onde procede o Espírito Santo, dentro da doutrina cristã. Buscou-se então os textos mais antigos para se resolver teologicamente a questão. O problema do filioque, por assim dizer, foi então um dos principais fatores que levaram ao Cisma do Oriente. A controvérsia do filioque envolve a frase "filioque" em latim, que significa "e do Filho", que foi adicionada ao Credo Niceno-Constantinopolitano na liturgia ocidental da Igreja Católica Romana no século XI. A frase se refere à crença de que o Espírito Santo procede não apenas do Pai, mastambém do Filho. 145 A Igreja Ortodoxa Oriental, por outro lado, acredita que o Espírito Santo procede apenas do Pai e não do Filho. A controvérsia em torno do filioque se intensificou ao longo dos séculos, com as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Oriental tendo opiniões divergentes sobre o assunto. Esse problema teológico e de tradução foi um dos vários fatores que contribuíram para o Cisma do Oriente, mas não foi o único. Questões políticas e culturais também desempenharam um papel importante na divisão entre as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Oriental (NAVARRO, 1995). Essa questão teológica desencadeou uma corrida aos textos originais, para ver se no texto em grego antigo, de onde os textos sagrados foram resgatados, se nesse texto antigo está presente ou não a expressão “e do filho”. Ou melhor, se no texto grego original foi traduzido corretamente a expressão “e do filho”? A expressão “filioque” foi então criada em um “cisma de tradução”, desenvolvido em Neceia, antiga Turquia, bem como em Constantinopla, sendo um dos textos escritos em grego antigo ainda em uso na Igreja Latina e tomado como texto canônico. Ou seja, em resumo, a questão teológica envolvida na tradução pergunta se traduzimos “e filho” ou “e do filho”, sendo esse “do” crucial na interpretação da doutrina cristã. Eis os textos originais para termos uma ideia, primeiramente em grego antigo, logo depois em sublinhado a sua tradução. Καὶ εἰς τὸ Πνεῦμα τὸ Ἅγιον, τὸ κύριον, τὸ ζωοποιόν, τὸ ἐκ τοῦ Πατρὸς ἐκπορευόμενον E no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit E no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai e do Filho (NAVARRO, 1995, p. 97). A tese histórica que se coloca, é da possibilidade da inserção “do pai” de forma premeditada, ou até mesmo uma possível tradução deturpada de um trecho original nunca encontrado. Frequentemente diz-se que o primeiro caso conhecido da inserção da palavra Filioque na versão latina do Credo niceno- constantinopolitano ocorreu no Terceiro Concílio de Toledo (589) e que a sua inclusão a partir daí se espalhou espontaneamente por todo o Império dos Francos. No século IX, o Papa Leão III, ainda que aceitando a doutrina da procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho, se opôs à adoção da cláusula Filioque. Em 1014, porém, o canto do credo – com a Filioque – foi adotado na celebração da missa em Roma (NAVARRO, 1995, p. 97). 146 É impressionante, se não fosse trágico, como a inserção de uma breve palavra, de duas letras, “do”, como ela influenciou na separação de uma instituição milenar. Essa questão leva ao extremo o que podemos pensar de uma ética da tradução, de como poderíamos utilizar essa gama de autores aqui estudados, como os Sistemas Éticos poderiam nortear a visão desse tradutor ou tradutora que ou inseriu um termo, ou mesmo deu sua interpretação ao trecho. Isso se tomarmos em conta o fato de que o texto foi realmente alterado. Se não foi, a outra parte, ou seja, aqueles que não acreditam nessa versão do credo, teriam razão. Aristóteles, certamente, não chamaria essa atitude ou erro do tradutor de uma ação virtuosa. Pelo contrário, foi uma tradução que na prática desencadeou um conflito teológico, distanciando-se de qualquer viés de mediania ou moderação, foi uma ação, que se realmente aconteceu, determinou a cisão trágica de um grupo de pessoas. Da mesma forma, o Sistema ético de Kant teria condenado veementemente tal alteração ou deturpação de um texto sagrado, se ela realmente aconteceu, sendo algo totalmente negado e abolido pelo uso universal de nossas capacidades racionais, algo que teria sido rechaçado pelo Imperativo Categórico. O Sistema Ético utilitarista também condenaria tal ação, pois vai contra a um bem maior e convivência em sociedade, vai contra os ideais de um bem maior para um maior número de pessoas, ideal de ação pregado pelo utilitarismo. O exemplo do Cisma da Igreja nos faz meditar a amplitude que pode galgar um problema de tradução, seja pela supressão, acréscimo ou mesmo alteração de um original. Aqui não se vê o tão aclamado respeito pelo original, pelo contrário, é a deturpação da autoria, o descaso com o original. Talvez algo dessa amplitude não acontecesse nos dias de hoje, mas fica o exemplo histórico de como um texto pode influenciar e mudar os rumos de uma sociedade. Fica o exemplo de como o desrespeito com a autoria pode gerar um fato tão trágico, como as guerras santas entre as duas igrejas através da história. 2.2 TRADUZIR E A ABERTURA RESPONSÁVEL DA LINGUAGEM Esses exemplos práticos, de como a tradução nos coloca em situações delicadas e complexas nos faz meditar sobre tudo aquilo que já comentamos sobre a abertura responsável da linguagem. Mas agora, daremos um enfoque àquele autor que trouxe essas ideias de forma inovadora, e acabou por influenciar alguns dos pensadores da tradução aqui descritos, como Levinas, Berman e Sartre. Estamos falando de Martin Heidegger e sua abertura para a linguagem como teoria do ser. 147 Figura 2 – Martin Heidegger Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger#/media/Ficheiro:Heidegger_2_(1960).jpg. Acesso em: 11 abr. 2023. Martin Heidegger (1889-1976) foi um filósofo alemão que teve um impacto significativo no desenvolvimento da fenomenologia, da ontologia e da hermenêutica. Ele nasceu em Messkirch, na Alemanha, em uma família católica e estudou teologia, filosofia e literatura na Universidade de Freiburg e na Universidade de Marburg. Durante seus estudos, Heidegger foi influenciado por filósofos como Edmund Husserl, Friedrich Nietzsche e Immanuel Kant. Em 1927, publicou sua obra-prima, Ser e tempo, que é considerada uma das mais importantes obras filosóficas do século XX. No início de sua carreira, Heidegger se envolveu com o Partido Nazista e foi reitor da Universidade de Freiburg entre 1933 e 1934. Ele foi removido do cargo em 1934 e, posteriormente, se distanciou do Partido Nazista. Durante a Segunda Guerra Mundial, Heidegger foi convocado para servir no exército alemão, mas foi dispensado por motivos de saúde. Após a guerra, ele se recusou a se desculpar por seu envolvimento com o Partido Nazista e, em vez disso, tentou justificar suas ações em termos filosóficos. 148 As obras de Heidegger continuaram a influenciar a filosofia e outros campos, como a literatura, a teologia e a psicologia. Ele foi um importante crítico da tecnologia moderna e defendeu uma forma de existência autêntica, que ele chamou de "Dasein". Algumas de suas obras mais conhecidas incluem Contribuições à filosofia; Identidade e diferença; A origem da obra de arte e Os conceitos fundamentais da metafísica. Heidegger faleceu em 1976, na cidade de Friburgo, na Alemanha. Heidegger cunhou uma ideia essencial aqui que é a abertura da linguagem. A “abertura responsável da linguagem" é um conceito mais amplo que pode ter diferentes interpretações, dependendo do contexto em que é usado. Geralmente, isso se refere à prática de se comunicar de maneira clara, honesta e respeitosa, evitando o uso de palavras ou frases que possam ser ofensivas ou prejudiciais para outras pessoas ou grupos. Heidegger elevou esse conceito a sua ideia de ser. Exemplos de práticas de abertura responsável da linguagem incluem evitar estereótipos e generalizações, usar termos inclusivos para se referir a todas as pessoas e evitar linguagem que possa ser considerada discriminatória ou ofensiva. Portanto, traduzir e praticar a abertura responsável da linguagem são duas atividades diferentes, mas ambas são importantes para garantir uma comunicação eficaz e respeitosa em diferentes contextos e culturas. Mas o que seria o ser e a abertura da linguagem para Heidegger e como ele se enquadra nessa visão? Para Martin Heidegger, o ser é a questão fundamental da filosofia, bem como da linguagem. Ele acreditava que a tradição filosófica ocidental,desde os pré-socráticos até os filósofos modernos, havia negligenciada a questão do ser e se concentrado apenas nos entes (seres existentes) individuais. Heidegger argumentava que o ser é a condição prévia para que qualquer ente exista, e que entender o ser é fundamental para entender a natureza da realidade. Ele via o ser como um mistério que não pode ser explicado ou reduzido a qualquer outra coisa, e acreditava que a tarefa da filosofia era explorar esse mistério. ATENÇÃO Heidegger desenvolveu uma abordagem radicalmente nova da filosofia, que ele chamou de "ontologia fundamental" ou seja, o fundamental estudo do ser. Sua ontologia não se preocupa com as categorias tradicionais da filosofia, como a mente e o corpo, a razão e a emoção, mas com a questão do ser. Para Heidegger, a ontologia fundamental é uma investigação do modo como o ser se revela para nós. O ser é a questão fundamental da filosofia e é um mistério que não pode ser explicado ou reduzido a qualquer outra coisa. Sua ontologia fundamental é uma abordagem radicalmente nova da filosofia, que se concentra na questão do ser em si mesmo. 149 Martin Heidegger também desenvolveu, como antecipamos, um conceito de "abertura da linguagem", que se refere à maneira como a linguagem nos permite acessar e compreender o mundo ao nosso redor e se estabelece como também a abertura do ser. Para Heidegger, a linguagem não é apenas um conjunto de palavras e regras gramaticais, mas um meio através do qual experimentamos a realidade. Ele argumenta que a linguagem nos permite nomear e conceituar o mundo, o que por sua vez nos permite dar significado a nossa existência. A abertura da linguagem é, portanto, um processo pelo qual a linguagem nos permite transcender nossas experiências imediatas e compreender o mundo de uma maneira mais profunda e significativa. Heidegger também se preocupa com o fato de que a linguagem pode se tornar limitante ou reduzir nossa compreensão do mundo, se usada de maneira inadequada ou imprecisa. Ele acredita que a linguagem pode se tornar um obstáculo para nossa compreensão da realidade se estivermos presos em conceitos e categorias pré- existentes, ou se usarmos palavras e frases que obscurecem o verdadeiro significado das coisas. A abertura da linguagem é fundamental para nossa compreensão da realidade e de nós mesmos como seres humanos. Ele argumenta que devemos usar a linguagem de maneira cuidadosa e responsável, a fim de obter uma compreensão mais profunda e autêntica do mundo: Para alcançar esta dimensão, é necessário operar uma destruição (retomo o conceito de Heidegger) da tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução. Em suas linhas gerais, este trabalho de destruição é, além disso, idêntico à "destruição" heideggeriana, ela mesma seguida, na trajetória deste pensador, por um imenso trabalho de "tradução". Entretanto, esta destruição – se ela não quiser ser uma simples operação ideológica ou teórica – deve ser precedida de uma análise do que há por destruir. A este trabalho, que é simultaneamente análise e destruição (crítica no sentido schlegeliano), chamaremos: a analítica da tradução. A analítica da tradução é a crítica do etnocentrismo, do hipertextualismo e do platonismo da figura tradicional da tradução – no Ocidente (BERMAN, 2013, p. 23). Heidegger não é conhecido por ter uma teoria completa da tradução, mas ele escreveu algumas reflexões sobre o assunto em seus escritos filosóficos. Para Heidegger, a tradução não é apenas uma questão de transferir palavras ou frases de uma língua para outra, mas envolve uma compreensão mais profunda do ser e da linguagem. Para Heidegger, a linguagem é a casa do ser, ou seja, a linguagem é a estrutura em que a existência humana é revelada e compreendida. Assim, a tradução não deve ser vista como uma tarefa mecânica de transferência de significados entre línguas, mas como um processo de compreensão da linguagem como um todo. Heidegger acreditava que a tradução poderia ser uma forma de revelar as possibilidades ocultas da língua de origem e da língua de destino, e que isso poderia levar a uma compreensão mais profunda da existência humana. 150 Para Heidegger, a linguagem é a "casa do ser" também por aquilo que encontramos em sua principal obra. Em sua obra Ser e tempo, Heidegger argumenta que a linguagem é a forma pela qual os seres humanos se relacionam com o mundo e com os outros seres humanos, aquilo que já trouxemos como abertura. Através da linguagem, os seres humanos são capazes de dar significado às coisas e de se comunicar uns com os outros. Para ele, a linguagem é a "casa do ser", pois é a partir dela que podemos habitar e compreender o mundo. Além disso, Heidegger argumenta que a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas também é um modo de ser. A forma como usamos a linguagem reflete nossa compreensão do mundo e nossa relação com ele. Assim, a linguagem é uma parte essencial da nossa existência e da nossa compreensão do ser. Heidegger também enfatizou a importância da cultura e da história na tradução, argumentando que a tradução é sempre influenciada pelo contexto cultural e histórico em que ocorre. Ele acreditava que a tradução não deve ser vista como uma forma de estabelecer uma linguagem universal, mas como uma forma de revelar as diferenças culturais e históricas que existem entre as línguas. Ele via a tradução como uma atividade que envolve uma compreensão profunda da linguagem como um todo e de sua relação com a existência humana, a cultura e a história. Embora ele não tenha desenvolvido um Sistema ético de tradução, suas reflexões filosóficas sobre o assunto oferecem insights importantes sobre a importância da tradução como uma forma de compreensão e comunicação entre diferentes culturas e línguas. Daí a grande importância de trazermos as ideias de Heidegger para o ambiente da tradução, uma vez que já pudemos aqui observar a amplitude de suas ideias reverberando tanto na produção ética de Levinas, como em toda obra de Berman. Heidegger influenciou muito o trabalho de tradução como abertura da linguagem e abertura de um processo de busca pelo outro na língua. Todas essas ideias são de grande relevância para pensarmos uma ética na tradução. Nesse percurso que estamos trilhando, cabe ainda um estudo sobre duas correntes éticas de grande importância no universo da tradução dos séculos XX e XXI. A ética pragmática e o neopositivismo ético. Vamos a elas no próximo tema de aprendizagem! 151 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • Como Antoine Berman desenvolveu sua teoria da ética na tradução de forma mais específica, e como a responsabilidade pelo original destaca essa ética como oposição ao etnocêntrico, hipertextual e platônico. • A observar um caso histórico notório de como diferentes intepretações na tradução podem desencadear questões complexas e de luta por narrativas, em especial, a questão da tradução no Cisma da Igreja. • A análise da abertura do texto como uma abertura do ser da linguagem no pensamento de Martin Heidegger, e como isso impactou nas éticas da alteridade no decorrer dos séculos XX e XXI. 152 AUTOATIVIDADE 1 “Para Berman, em seu texto Pour une critique des traductions: John Donne, o fundamento da avaliação de uma tradução consiste em dois critérios: poeticidade e eticidade. A eticidade “reside no respeito, ou melhor, num certo respeito pelo original” (1995: 92)”. Partimos do seguinte axioma: a tradução é tradução da letra, do texto enquanto letra. Que isto é a essência última e definitiva da tradução ficará claro pouco a pouco. Existe um belíssimo texto de Alain (1934: 56-57), que faz alusão a isso: “Tenho a ideia de que sempre se pode traduzir um poeta, inglês, latino ou grego, exatamente palavra por palavra, sem acrescentar nada, e conservando inclusive a ordem, até encontrar o metro e mesmo a rima. Eu, raramente, conduzi o experimento até este ponto; é necessário tempo, digo,meses, e uma rara paciência. Chega-se inicialmente a uma espécie de mosaico bárbaro; os fragmentos estão mal juntados; o cimento os liga, mas não os harmoniza. Resta a força, o brilho, até mesmo uma violência, e provavelmente mais do que o necessário. É mais inglês que o inglês, mais grego que o grego, mais latim que o latim...” Acerca da teoria ética da tradução de Berman, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do etnocentrismo, do hipertextual e do platonismo. b) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do egocentrismo, do hipertextual e do platonismo. c) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do etnocentrismo, do extratextual e do platonismo. d) ( ) Berman definiu a ética na tradução como uma fuga do etnocentrismo, do hipertextual e do aristotelismo. 2 Leia o trecho a seguir: No seu romance Eu, o Supremo, Roa Bastos cita este provérbio: “A cada dia le basta su pena, a cada ano su dano”. Poder-se-ia, certamente, procurar um equivalente francês. Mas escolhi uma tradução ao mesmo tempo literal e livre: “A cbaque jour suffit sapeine, à chaque annéesa déveine". [A cada dia basta seu sofrimento, a cada ano seu lamento]. O duplo jogo aliterativo do original, díalpena, anoldano, desaparece, mas para ser substituído por uma outra aliteração peine/déveine. Não se trata, pois, de uma tradução palavra por palavra "servil", mas da estrutura aliterativa do provérbio original que reaparece sob outra forma. Tal me parece ser o trabalho sobre a letra: nem calco, nem (problemática) reprodução, mas atenção voltada para o jogo dos significantes. Assim é a tradução: experiência. Experiência das obras e do ser-obra, das línguas e do ser-língua. Experiência, ao mesmo tempo, dela mesma, da sua essência. Em outras 153 palavras, no ato de traduzir está presente um certo saber, um saber sui generis. A tradução não é nem uma subliteratura (como acreditava-se no século XVI), nem uma subcrítica (como acreditava-se no século XRX). Também não é uma linguística ou uma poética aplicadas (como se acredita no século XX). A tradução é sujeito e objeto de um saber próprio. Mas a tradução (quase) nunca considerou sua experiência como uma palavra inteira e autônoma”. Acerca da obre de Berman sobre a ética na tradução assinale a alternativa correta: a) ( ) Berman fala de uma tradição não servil da tradução. b) ( ) Berman fala de uma tradição servil da tradução. c) ( ) Berman fala de uma tradição disjuntiva da tradução. d) ( ) Berman fala de uma tradição niilista da tradução. 3 Nesta figura, a tradução se caracteriza por três traços. Culturalmente falando, ela é etnocêntrica. Literariamente falando, ela é hipertextual. E filosoficamente falando, ela é platônica. A essência etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução recobre e oculta uma essência mais profunda, que é simultaneamente ética, poética e pensante. “Em suas regiões mais profundas, o traduzir está ligado à ética, à poesia e ao pensamento” (BERMAN, 1995, p. 22). Para alcançar esta dimensão, é necessário operar uma destruição (retomo o conceito de Heidegger) da tradição etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução. Em suas linhas gerais, este trabalho de destruição é, além disso, idêntico à "destruição" heideggeriana, ela mesma seguida, na trajetória deste pensador, por um imenso trabalho de "tradução". Entretanto, esta destruição – se ela não quiser ser uma simples operação ideológica ou teórica – deve ser precedida de uma análise do que há por destruir. A este trabalho, que é simultaneamente análise e destruição (crítica no sentido schlegeliano), chamaremos: a analítica da tradução. A analítica da tradução é a crítica do etnocentrismo, do hipertextualismo e do platonismo da figura tradicional da tradução – no Ocidente. Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: John Donne, Paris: Gallimard. 1995. Acerca da obra ética de Berman, assinale a alternativa correta: a) ( ) O correto é a junção da política com a poética, ampliando o espaço criativo da tradução. b) ( ) O correto é a junção da ética com a poética, ampliando o espaço criativo da tradução. c) ( ) O correto é a junção da ética com a política, ampliando o espaço criativo da tradução. d) ( ) O correto é a junção da ética com a poética, ampliando o espaço destrutivo da tradução. 154 4 Leia o trecho a seguir: ‘Quando no início do Processo, Vialatte traduz... un homme assisprh de lafenêtre ouverte et arme d 'un livre dont z/détacha son regarden voyant entrer Joseph K., [1976: 260] [...um homem sentado perto da janela aberta e armado de um livro do qual desprendeu os olhos ao ver Joseph K. entrar.] onde Lortholary e Goldschmidt traduzem mais literalmente ...un homme assis prês de lafenêtre, un livre à Ia main. Levant les yeux... (Lortholary) [1983: 30] [um homem sentado perto da janela, um livro na mão. Levantando os olhos...] ...un homme assisprh de lafenêtre ouverte, un livre à Ia main et qui leva les yeux à cet instant..., (Goldschmidt) [1983: 32]13 [um homem sentado perto da janela aberta, um livro na mão e que levantou os olhos neste momento...] a diferença pode parecer mínima, mas entre "armado de um livro" e "um livro na mão", entre "desprendeu os olhos" e "levantou os olhos", há toda uma distância entre literarização e literalidade. Aplicada a cada frase da obra, o "leve" toque de literatura de Vialatte acaba produzindo um "outro" Kafka, e, evidentemente, apagando sua língua’ (BERMAN, 2013, p. 34). Fonte: BERMAN, A. Pour une critique des traductions: John Donne, Paris: Gallimard. 1995. Descreva em resumo os quatro princípios fundamentais da ética na tradução de Berman: 5 Leia o trecho a seguir: “De fato, o chamado cisma de 1054, que deu origem a Igreja ortodoxa, não pode e nem deve ser compreendido como um ato arbitrário e isolado, mas sim como consequência de diversos fatores que atingiram o cume no século XI, devido, basicamente, a uma questão primordial: o primado de jurisdição do bispo de Roma. Na verdade, na constituição daquilo que se chamava pentarquia, ou seja, o governo da Igreja a partir dos cinco bispos das maiores igrejas – à época, Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém – o bispo de Roma, hoje o papa, já gozava de uma primazia, mas apenas de honra, visto que era compreendido como o “primeiro entre os pares”. Gozando dessa primazia, poderia intervir em conflitos e discussões dos demais patriarcados, mas apenas se consultado. O fato é que, ao longo dos séculos, alguns dos bispos de Roma começaram a confundir o que era apenas um primado de honra com um poder de decisão sobre a Igreja inteira – não mais “o primeiro entre os pares”, mas “o primeiro sobre os pares” – até culminar nas excomunhões mútuas, no século XI” (SOUZA, 2020, p. 113-114). SOUZA, N. História da igreja: notas introdutórias. Petrópolis: Vozes, 2020. Apresente como os Sistemas Éticos poderiam tentar resolver a ética na tradução na questão do Cisma da Igreja: 155 A PRÁTICA DA TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA 1 INTRODUÇÃO O século XX nos trouxe grandes questões acerca da tradução, em especial, as correntes pragmáticas e neopositivistas, que depositaram metodologias diversas na questão da tradução, bem como na ética da tradução. São duas perspectivas que apelam para duas questões importantes na contemporaneidade que é a noção do aprendizado pela prática e a inserção da linguística como meio essencial de visualização da tradução. O pragmatismo se inseriu em diversas áreas do conhecimento, em especial na pedagogia e psicologia, e ampliou o escopo de atuação da experiência prática na vida do conhecimento, bem como no horizonte de como devemos aprender e ensinar qualquer coisa, inclusive a questão de como deve ser uma tradução e sua ética. Já o neopositivismo introduziu uma meditação de como a linguística cumpre papel essencial na tradução,sendo pensada a mesma como um sistema racional, próximo de um modelo analítico de compreensão das coisas. Daí a tradução cada vez mais conectada com a ideia de uma formalidade que deve ser cumprida. 2 A TRADUÇÃO E A ÉTICA CONTEMPORÂNEA Como uma exposição final dos sistemas éticos que integram o ecossistema do traduzir, devemos dedicar algumas páginas aos sistemas éticos pragmáticos e neopositivistas que muito influenciam o pensar sobre a tradução nas últimas décadas, dentro daquilo que chamamos de ética contemporânea. Tanto o Pragmatismo como o Neopositivismo são importantes nesse movimento. Vamos a eles! Primeiramente o Pragmatismo e a sua ética. A palavra "pragmatismo" tem origem no termo grego "pragma", que significa "ação" ou "coisa a ser feita". O sufixo "-ismo" é utilizado para indicar uma doutrina, teoria ou sistema de pensamento. Não é comum se referir ao pragmatismo na Grécia Antiga, como aqui estudado brevemente, já que o termo "pragmatismo" é de origem mais recente. No entanto, alguns filósofos gregos antigos, como Aristóteles, podem ter defendido ideias que se assemelham ao pragmatismo de certa forma, também como vimos aqui. UNIDADE 3 TÓPICO 2 - 156 Aristóteles, por exemplo, enfatizava a importância da experiência e da observação empírica na busca pelo conhecimento. Ele acreditava que o conhecimento só podia ser obtido através da experiência e que a teoria deveria estar sempre relacionada à prática. Além disso, Aristóteles valorizava a aplicação prática do conhecimento e enfatizava a importância da ética na vida cotidiana. Para ele, o conhecimento tinha uma função prática na sociedade e deveria ser utilizado para melhorar a vida das pessoas. Já o pragmatismo filosófico é uma corrente filosófica mais recente, com inspiração grega, mas que surgiu nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX, com pensadores como Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey. Em linhas gerais, o pragmatismo propõe que a verdade de uma ideia ou conceito deve ser avaliada a partir de sua utilidade prática e dos resultados que ela produz na experiência humana. Segundo essa perspectiva, as ideias e teorias são importantes na medida em que produzem resultados concretos e positivos na vida das pessoas. Para os pragmatistas, a verdade não é uma questão de correspondência entre uma ideia e um fato, mas sim uma questão de adequação às necessidades e demandas práticas da vida. Eles defendem que o conhecimento deve ser voltado para a ação e que a filosofia deve ter uma função prática na sociedade. O pragmatismo destaca a importância do método científico e experimental na busca pelo conhecimento, pois para os pragmatistas, a ciência é a melhor forma de se obter conhecimento confiável e verificável sobre o mundo. O pragmatismo filosófico valoriza a experiência prática, a utilidade e a eficácia na busca pelo conhecimento e na resolução de problemas. Assim também a ética pragmática. Ela é uma abordagem filosófica, que se concentra na resolução de problemas éticos práticos, em vez de se preocupar com teorias ou princípios abstratos. Ela se baseia na ideia de que a ética deve ser vista como uma ferramenta para ajudar as pessoas a resolverem problemas cotidianos, em vez de um conjunto de regras rígidas que devem ser seguidas sem exceção. Essa abordagem considera que a moralidade é moldada pelas circunstâncias e que as decisões éticas devem levar em conta o contexto específico em que são tomadas. Isso significa que, para a ética pragmática, não existe uma única resposta "certa" para uma situação ética, mas sim uma solução que melhor se adapte às necessidades da situação. A ética pragmática também enfatiza a importância da colaboração e do diálogo na resolução de problemas éticos, pois reconhece que diferentes pessoas podem ter perspectivas diferentes sobre uma situação e que todas as perspectivas devem ser consideradas na busca pela solução mais adequada. Vejamos mais a frente como esse pragmatismo se conecta com as ideias éticas e aplicações na tradução. Mas antes, vamos introduzir outro pensamento ético importante que é o neopositivismo ético. 157 O neopositivismo ético é uma corrente filosófica que surgiu no século XX e que se baseia na ideia de que o conhecimento só pode ser obtido através da observação empírica e da análise lógica dos dados. Esta corrente enfatiza a importância da clareza e precisão na linguagem, e rejeita conceitos vagos ou metafísicos que não possam ser definidos em termos concretos. Daí sua importância no processo de tradução. Em termos éticos, o neopositivismo enfatiza a importância do empirismo e da análise lógica na formulação de teorias éticas. De acordo com esta corrente, as questões éticas só podem ser resolvidas através de uma análise precisa e objetiva dos fatos relevantes. Os juízos éticos não são considerados verdadeiros ou falsos, mas sim como expressões de preferência ou desaprovação. O neopositivismo ético também rejeita a ideia de que a ética tem uma base metafísica ou religiosa, e enfatiza que as teorias éticas devem ser baseadas em fatos observáveis e verificáveis. Em vez de tentar descobrir uma verdade absoluta, a ética neopositivista busca fornecer um conjunto de regras e princípios que possam ser aplicados de forma consistente e objetiva. De forma geral, o neopositivismo ético tem como objetivo fornecer uma base objetiva e científica para a ética, e enfatiza a importância da clareza e precisão na linguagem e na análise lógica dos dados. Alguns dos autores mais importantes do neopositivismo ético incluem: Rudolf Carnap – foi um dos fundadores do Círculo de Viena, que foi uma importante influência no desenvolvimento do neopositivismo. Ele escreveu extensivamente sobre a lógica e a filosofia da ciência, bem como sobre questões éticas. A. J. Ayer – filósofo britânico que também fez parte do Círculo de Viena. Ele é conhecido por seu livro Language, truth and logic, que é um dos trabalhos mais importantes do neopositivismo. Ayer também escreveu sobre ética, e defendeu uma forma de subjetivismo ético baseada na expressão de emoções e atitudes. C. L. Stevenson – filósofo americano que se destacou no desenvolvimento da ética emotivista, que é uma forma de subjetivismo ético que enfatiza a expressão de emoções e atitudes. Ele escreveu extensivamente sobre ética, e seu livro Ethics and language é uma das obras mais importantes do neopositivismo ético. H. L. A. Hart – foi um filósofo britânico que escreveu sobre filosofia do direito e ética. Ele defendeu uma forma de legalismo ético, que enfatiza a importância da lei na definição de normas éticas. Esses autores foram importantes no desenvolvimento do neopositivismo ético e contribuíram para o desenvolvimento de diferentes abordagens éticas dentro desta corrente filosófica. 158 G. E. Moore – filósofo britânico do início do século XX, que desempenhou um papel importante no desenvolvimento do movimento filosófico conhecido como neopositivismo. 2.1 SISTEMAS ÉTICOS CONTEMPORÂNEOS Vamos detalhar então mais essas duas correntes éticas contemporâneas que também influenciam o pensar ético sobre a tradução. Vejamos primeiro o pragmatismo de John Dewey e sua obra. John Dewey (1859-1952) foi um filósofo, educador e psicólogo americano, considerado uma das figuras mais influentes da educação progressista no século XX. Ele nasceu em Burlington, Vermont e estudou na Universidade de Vermont e na Universidade Johns Hopkins. Em 1894, ele se tornou professor de filosofia na Universidade de Chicago, onde fundou a Escola de Educação da Universidade. Dewey acreditava que a educação deveria ser prática e democrática, ensinando aos alunos habilidades que poderiam ser aplicadas em suas vidas diárias e preparando-os para serem cidadãos participativos em uma sociedade democrática. Ele também enfatizava a importância da experiência e da reflexão na aprendizagem. Dewey escreveu extensivamente sobre educação, filosofia, psicologia e política,e sua obra influenciou muitos campos diferentes. Ele também foi um defensor ativo do movimento progressista em sua época, trabalhando em questões como reforma social, direitos das mulheres e dos trabalhadores, e direitos civis. Dewey morreu em 1952, mas sua obra continua a ser estudada e debatida por acadêmicos e educadores até hoje. E em termos de ética e tradução? O que ele nos legou? Dewey defendia que a experiência é a base de aprendizagem e formação do ser humano. Ele acreditava que a educação deveria ser centrada nas experiências vividas pelos alunos, e que o conhecimento deveria ser construído a partir da reflexão sobre essas experiências. John Dewey apresenta a experiência como a base de aprendizagem e de formação do ser humano. A práxis se calca nas situações da vida que exigem reflexão conduzindo a uma decisão pessoal com intencionalidade. Dewey afirma que o progresso moral no sentido de uma conduta mais racional e social é condição indispensável da moral, mas destaca que não é tudo. Segundo Dewey, a aprendizagem não é um processo passivo de absorção de informações, mas sim uma atividade ativa, na qual o aluno interage com o ambiente e constrói seu próprio conhecimento. Para ele, a educação deveria preparar os alunos para lidar com situações reais e desafiadoras, e não apenas para memorizar fatos e informações. Dewey (l979, p. 76) enfatiza que: “Cabe ao educador, no exercício de sua função, selecionar as coisas que, dentro da órbita da experiência existente, tenham 159 possibilidade de suscitar novos problemas, os quais, estimulando novos modos de observação e julgamento, ampliarão a área para experiências posteriores”. E o autor complementa: “No continuum das experiências vivenciadas pelo aluno que o conduzem a adquirir um hábito, para que o hábito seja ético deve haver motivo ético que se distingue de impulso” (DEWEY, 1979 p. 51). Dewey também enfatizava a importância da interação social na aprendizagem, defendendo que os alunos aprendem melhor quando trabalham em grupo e colaboram uns com os outros. Além disso, ele acreditava que a educação não deveria ser limitada ao ambiente escolar, mas integrada à vida cotidiana dos alunos. Figura 3 – John Dewey Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Dewey#/media/Ficheiro:John_Dewey_cph.3a51565.jpg. Acesso em: 11 abr. 2023. Para ele a experiência é a base da aprendizagem e formação do ser humano, e a educação deve ser centrada nas vivências dos alunos e na construção do conhecimento a partir da reflexão sobre essas experiências. Para John Dewey, moralidade é uma questão prática e experimental, que se relaciona com as ações e decisões tomadas pelos indivíduos em suas vidas cotidianas. Ele via a moralidade como um processo social e educacional, que se desenvolve a partir da interação entre as pessoas em suas comunidades. Dewey argumentava que 160 a moralidade não é algo fixo e imutável, mas sim algo que evolui com o tempo e as mudanças na sociedade. Ele acreditava que a moralidade não pode ser baseada em regras absolutas ou princípios universais, mas sim em uma compreensão empírica das necessidades e interesses dos indivíduos em uma determinada situação. Dewey também enfatizava a importância da experiência na formação da moralidade. Ele argumentava que as pessoas aprendem a ser morais através da experimentação e reflexão sobre suas ações e as consequências dessas ações para si mesmas e para os outros. Para ele a moralidade é um processo dinâmico e prático, que se baseia na experiência e na interação social, e que está em constante evolução de acordo com as mudanças na sociedade. A tradução, por sua vez, na visão da ética pragmática, envolve a transferência de significado de uma língua para outra. Ela desempenha um papel fundamental na comunicação intercultural e pode influenciar significativamente a compreensão e o relacionamento entre as pessoas de diferentes culturas. Do ponto de vista da ética pragmática, a tradução envolve uma série de questões éticas complexas. Por exemplo, um tradutor pode precisar tomar decisões éticas sobre como transmitir nuances culturais e contextuais de uma língua para outra. Eles também podem precisar lidar com questões de poder e hierarquia em relação aos autores originais e seus trabalhos. Além disso, a ética pragmática pode ser usada para analisar a qualidade e a precisão da tradução, bem como a sua adequação para diferentes públicos e contextos sociais. Isso pode envolver questões como a escolha de palavras e frases, a inclusão ou exclusão de informações e a adaptação do texto para diferentes culturas e expectativas sociais. Em suma, a ética pragmática é uma abordagem útil para a análise da tradução e pode ajudar os tradutores a tomar decisões éticas informadas em relação à transferência de significado entre diferentes línguas e culturas. Assim como na ética pragmática, em voga nas últimas décadas, a ética neopositivista também contribui para o debate contemporâneo da tradução. Entre suas principais vozes está Moore. George Edward Moore foi um filósofo britânico nascido em 1873 e falecido em 1958. Ele é conhecido como um dos principais representantes da escola de filosofia analítica e é mais conhecido por sua defesa do intuicionismo ético. Moore estudou na Universidade de Cambridge, onde se tornou amigo de Bertrand Russell, que se tornou uma grande influência em sua vida e trabalho. Depois de se formar em Cambridge, Moore lecionou filosofia na Universidade de Cambridge e, mais tarde, na Universidade de Londres. 161 Figura 6 – G. E. Moore Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Edward_Moore#/media/Ficheiro:1914_George_Edward_Moo- re_(cropped).jpg. Acesso em: 11 abr. 2023. Em 1903, Moore publicou um livro chamado Princípios éticos, que foi uma obra importante na história da ética. Nesse livro, Moore argumentou que o bem não pode ser definido em termos de qualquer outra coisa. Em vez disso, o bem é uma qualidade simples e indefinível, que é conhecida através da intuição moral. Ele também defendeu que os valores éticos são objetivos e independentes da vontade humana. Em seu trabalho posterior, Moore se concentrou na análise da linguagem e na filosofia da matemática. Ele argumentou que a matemática é uma disciplina puramente dedutiva e que seus axiomas são verdadeiros por definição. Moore teve uma grande influência em filósofos posteriores, como Ludwig Wittgenstein e J. L. Austin, e sua defesa do intuicionismo ético continua a ser uma posição importante na ética contemporânea. O neopositivismo de Moore, conforme (PEQUENO, 2003) também conhecido como empirismo lógico, foi uma corrente filosófica que surgiu na Europa Central na década de 1920 e que teve grande influência na filosofia da ciência e na filosofia da linguagem, como rapidamente nós expusemos aqui. Moore é frequentemente considerado como um dos fundadores do neopositivismo, embora ele próprio não tenha se identificado como tal. Em sua filosofia, Moore defendia a ideia de que o conhecimento filosófico deveria ser baseado na observação e na experiência, em contraposição à tradição filosófica anterior, que frequentemente se concentrava em questões abstratas e metafísicas. 162 De acordo com Moore (1975), a filosofia deveria se concentrar na análise cuidadosa dos conceitos e proposições que usamos em nossas discussões e investigações científicas. Ele argumentou que muitos dos problemas filosóficos surgem de confusões semânticas ou erros lógicos que podem ser evitados por meio da análise rigorosa da linguagem: Para Moore, a análise é o húmus da filosofia e o objetivo final desta é a clarificação dos conceitos. De posse da acuidade e do rigor analítico, sua função consiste, pois, em tornar explícito o que se afigura difuso, nebuloso, intransparente. Assim, acrescenta ele, a capacidade de analisar sem descanso, a necessidade de observar as diferentes perspectivas, constituem o exercício essencial do filosofar. O primeiro passo de toda atitudepensante consiste em analisar, pois somente assim poder-se-ia oferecer uma representação adequada da realidade. O procedimento de Moore, convém alertar, não repousa na mera exegese das palavras, mas na análise dos conceitos e das proposições que os manifestam. Eis por que, de posse dessa démarche analítica, podemos, mediante o refinamento da análise, aceder com mais segurança ao universo dos fatos. Moore busca um caminho para conhecer de modo mais límpido as entranhas da realidade, os objetos do mundo. Isto o permite erigir as bases de uma filosofia destituída de todo desejo de doutrinamento moral. O que importa, para ele, não é o fato moral em si, mas o enunciado que o traduz ou que o torna inteligível. Antes de interrogar sobre o valor das ações, as regras de conduta e seus critérios de justificação, deve- se clarificar o discurso normativo, seus enunciados de base, seus termos constitutivos (PEQUENO, 2003, p. 21). Embora Moore tenha sido uma figura importante no desenvolvimento do neopositivismo, ele também teve diferenças significativas com outros filósofos neopositivistas. Por exemplo, conforme Pequeno (2003), Moore rejeitava a ideia de que a filosofia deveria se concentrar exclusivamente em questões científicas ou empiricamente verificáveis e argumentava que a filosofia também poderia abordar questões metafísicas e éticas. O neopositivismo de Moore pode ser caracterizado como uma abordagem filosófica que valoriza a análise rigorosa da linguagem e a base empírica do conhecimento, mas que também reconhece a importância de questões metafísicas e éticas na filosofia. Daí a importância de se saber um pouco da ética de Moore, tão importante para a tradição analítica da tradução. A filosofia da linguagem se preocupa com o estudo do conceito de significado nos vários sentidos da palavra. Todavia, os significados das palavras e sentenças morais, muitas vezes, determinam a lógica das inferências onde aparecem. Assim, um estudo dos significados das palavras e sentenças morais, ou do que as pessoas querem dizer quando as dizem, deve nos tornar capazes de investigar as propriedades lógicas do que elas dizem é autossuficiente e que implicações isso tem e que argumentos são bons e quais não são. Assim, a filosofia da linguagem aplicada à linguagem moral, deve ser capaz de prover uma estrutura lógica para o pensar moral. 163 Moore argumentou que a ética é uma questão de discernimento intuitivo entre o que é bom e o que é mau. Ele afirmou que existem coisas que são boas em si mesmas, independentemente de quaisquer outras considerações, e que essas coisas são o que tornam outras coisas boas: A análise do problema moral a partir de uma abordagem lingüística começa a se constituir de forma mais vigorosa e sistematizada no início do século XX, precisamente a partir de 1903, com a publicação da obra Principia Ethica de George Moore. Moore inaugura a filosofia moral de inspiração analítica cuja influência seria marcante durante a primeira metade daquele século. Antes de investigar a natureza do universo moral, a filosofia deveria analisar o conteúdo dos termos empregados nos enunciados prescritivos. A esta nova modalidade de abordagem que toma a linguagem como paradigma de toda investigação possível no campo da moral deu-se o nome de teoria ética ou meta-ética. Sob este nome designa-se o estudo concernente às formas lingüísticas das proposições prescritivas e à significação dos predicados morais. Trata-se, pois, de elucidar o sentido dos conceitos éticos e a maneira como são lingüisticamente expressos em um enunciado. A importância da linguagem para a ética é representada pelo significado que as proposições morais assumem nas interações e embates que marcam o universo axiológico dos indivíduos. A análise do fenômeno moral torna-se um estudo sobre a matéria simbólica do nosso modo de “ser-no-mundo-moral-pela- linguagem (PEQUENO, 2003, p. 2). Para Moore, o bem é algo intrínseco e não pode ser reduzido a qualquer outra coisa. Ele argumentou que o bem não pode ser definido em termos de qualquer outra propriedade, como a felicidade, a virtude ou a utilidade. Em vez disso, ele defendeu que o bem é uma propriedade indefinível que é discernida intuitivamente. Moore influenciou decisivamente a pesquisa analítica em ética, na medida em que seu projeto teórico tenta evidenciar as articulações possíveis da experiência moral a partir da avaliação das condições formais e do conteúdo proposições normativas. Examinar o que se passa no terreno da moral significa inicialmente interrogar sobre o que nós queremos dizer quando atribuímos, por exemplo, o predicado bom ou justo para designar um evento, um comportamento, uma decisão. Moore abre caminho para que o problema da justificação ética seja formulado no âmbito da análise dos enunciados morais. Com isso, a análise semântica dos enunciados de valor, empreendida por ele na supracitada obra, fornecerá novas ferramentas ao tratamento dos problemas referentes à justificação lógica das expressões normativas (PEQUENO, 2003, p. 25). Em resumo, a ética analítica de Moore sustenta que o bem é uma propriedade intrínseca que é discernida intuitivamente e que a moralidade é uma questão de fato objetiva. A teoria de Moore foi uma das primeiras tentativas de fornecer uma fundamentação objetiva para a ética e influenciou significativamente o desenvolvimento da ética analítica no século XX. E a questão da tradução? 164 O neopositivismo, como uma corrente filosófica que valoriza a análise rigorosa da linguagem, tem uma abordagem específica em relação à tradução. Segundo os neopositivistas, a tradução pode ser vista como um processo de equivalência entre as expressões linguísticas em diferentes idiomas, onde a tarefa do tradutor é encontrar a correspondência mais próxima possível entre as palavras, estruturas e significados das duas línguas. Para os neopositivistas, a tradução é um processo importante na comunicação entre pessoas que falam idiomas diferentes, e é fundamental para a transmissão de conhecimento científico e filosófico. No entanto, eles também reconhecem que a tradução tem seus limites, já que nem sempre é possível encontrar uma correspondência exata entre as expressões linguísticas de diferentes idiomas. Além disso, os neopositivistas enfatizam a importância da precisão na tradução, pois a ambiguidade e a imprecisão na linguagem podem levar a mal-entendidos e erros conceituais. Eles argumentam que a tradução precisa levar em consideração o contexto em que as expressões linguísticas são usadas, bem como as nuances culturais e históricas que podem afetar seu significado. Os neopositivistas então veem a tradução como um processo de equivalência entre as expressões linguísticas em diferentes idiomas, que é fundamental para a comunicação e transmissão de conhecimento, mas que também tem limites e requer precisão. São as éticas pragmáticas e neopositivistas essenciais para observarmos os debates contemporâneos em torno da ética na tradução. A pragmática, pelo fato de apontar a grande importância e onipotência do prático, influenciou muito a tradução no seu quesito do fazer, e não elaborar sistemas ideias infindáveis, ou seja, é no fazer que o tradutor desenvolve sua ética. Já o neopositivismo ampliou o debate em termos da linguística como um arranjo formal da linguagem, e como observar isso nos torna melhores tradutores, tentando extrair dos textos seus padrões mais objetivos possíveis. São essas duas vertentes que pensam de sobremaneira a tradução e seu componente ético mais relevante. 165 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tema de aprendizagem, você aprendeu: • A analisar como temas da ética contemporânea se destacam no trabalho do tradutor, como a ética pragmática e a ética neopositivista, e suas ressonâncias na prática da tradução e seu componente ético. • A observar a ética pragmática como aquela que parte da prática para assim se desenhar como um sistema moral, e como elaadota a prática também como fundante no ofício da tradução. • A analisar como a ética neopositivista se destaca como um pensamento mais analítico acerca da linguagem, e como isso se desenvolve na tradução, em especial na aproximação mais objetiva da linguagem. 166 AUTOATIVIDADE 1 Leia o trecho a seguir: “[...] cada experiência afeta para melhor ou para pior as atitudes que contribuem para a qualidade das experiências subsequentes, estabelecendo certas preferencias e aversões, tornando mais fácil ou difícil agir nessa ou naquela direção. Além disso, toda a experiência exerce, em algum grau, influência sobre as condições objetivas sob as quais novas experiências ocorrem [...] A educação tradicional não teve que enfrentar tal problema, pôde ignorar sistematicamente essa responsabilidade. O ambiente escolar de carteira, quadro-negro e um pequeno pátio era considerado suficiente. Não havia exigência de que o professor conhecesse intimamente as condições físicas, históricas, econômicas, ocupacionais etc da comunidade local [...]. Um sistema educacional baseado na necessária conexão entre educação e experiência, se fiel aos seus princípios, deve, ao contrário, levar todas estas coisas em consideração constantemente [...]”. (DEWEY, 2011, p. 41). Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Editora Vozes, 2011. Em relação aos conceitos relacionados ao pragmatismo, analise as afirmações e assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer coisa. b) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer eu. c) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer felicidade. d) ( ) O pragmatismo advém da ideia de “pragma”, que quer dizer “o útil”. 2 “[...] a feição de uma comunidade em miniatura ensinando em situações de comunicação de umas a outras pessoas, de cooperação entre elas, visando a propósitos comuns [...] ao mesmo tempo em que um pequeno sistema social com o trabalho de todas as demais instituições: a família, os centros de recreação, as organizações da vida cívica, religiosa, econômica, política. [...] aprender por experiência em oposição à aprendizagem através de textos e professores, a aquisição de habilidade e técnicas como meio para atingir fins que correspondem às necessidades diretas e vitais do aluno em oposição à sua aquisição através de exercício e treino, aproveitar ao máximo as oportunidades do presente se opõe à preparação para um futuro mais ou menos remoto; o contato com um mundo em constante processo de mudança em oposição a objetivos e materiais estáticos” (DEWEY, 2011, p. 22). Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Editora Vozes, 2011. 167 Com base no texto acima e nas discussões realizadas, analise as sentenças a seguir: I- A ética pragmática versa sobre o conhecimento prático da moralidade. II- Os pragmáticos buscam coisas ideias. III- Os pragmáticos buscam coisas reais, que somente existem na prática. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Leia o trecho a seguir: “[...] O problema da educação tradicional não foi o fato de os educadores serem responsáveis por proporcionar o ambiente, mas o de não levarem em consideração a capacidade e os propósitos de seus alunos [...]. O educador deve estudar as capacidades e necessidades do grupo particular de indivíduos com o qual ele está lidando e, ao mesmo tempo, deve organizar as condições que disponibilizem as matérias ou conteúdos de forma a proporcionar experiências que satisfaçam a essas necessidades e desenvolva essas capacidades. Através dessa educação inconsciente, o indivíduo gradualmente vem a partilhar os recursos intelectuais e morais que a humanidade conseguiu juntar. Ele se torna um herdeiro desse capital acumulado da civilização. A mais formal e técnica educação no mundo não pode se distanciar sem custos desse processo geral. Ela pode apenas organizá-lo, ou diferenciá-lo em alguma direção particular” (DEWEY, 2011, p. 59). Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Editora Vozes, 2011. Com base nas contribuições de Dewey, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A tradução pragmática observa os textos na sua realidade. ( ) A tradução pragmática observa os textos em seu aspecto mais sagrado. ( ) A ética pragmática associa a prática ao real. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 168 4 Leia o trecho a seguir: “[...] cada experiência afeta para melhor ou para pior as atitudes que contribuem para a qualidade das experiências subsequentes, estabelecendo certas preferencias e aversões, tornando mais fácil ou difícil agir nessa ou naquela direção. Além disso, toda a experiência exerce, em algum grau, influência sobre as condições objetivas sob as quais novas experiências ocorrem [...] A educação tradicional não teve que enfrentar tal problema, pôde ignorar sistematicamente essa responsabilidade. O ambiente escolar de carteira, quadro-negro e um pequeno pátio era considerado suficiente. Não havia exigência de que o professor conhecesse intimamente as condições físicas, históricas, econômicas, ocupacionais etc da comunidade local [...]. Um sistema educacional baseado na necessária conexão entre educação e experiência, se fiel aos seus princípios, deve, ao contrário, levar todas estas coisas em consideração constantemente [...]”. (DEWEY, 2011, p. 41). Fonte: DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Editora Vozes, 2011. Descreva o pragmatismo filosófico. 5 Leia o trecho a seguir: “Partindo da distinção – e por vezes da complementaridade – entre o que designamos como bem/bom (adjetivo) e isto que tomamos como o bem/o bom (substantivo), Moore acrescenta um novo elemento ao debate. O bom, segundo Moore, não é de forma alguma indefinível; ele é o substantivo ao qual se aplica o adjetivo bom. Certos atributos como honestidade, solidariedade, simpatia, podem ser considerados como convenientes ao que é bom, ou mesmo como elementos constitutivos de sua definição. Portanto, isso que chamamos o bom nada mais é do que substantivo ao qual se pode aplicar o predicado bom. É neste sentido que ele se torna passível de definição. Assim, diz Moore, “o bom é definível, enquanto bom em si mesmo não o é”3. A propriedade das coisas boas não é suficiente para definir o que é bom, posto que ela não é inteiramente idêntica à propriedade de ser bom. Se isso fosse possível, dever-se-ia dar razão ao naturalismo. Para Moore, o naturalismo tenta justificar sua posição mediante um raciocínio sofístico do tipo “se bom é definido como sendo outra coisa que não ele mesmo, então se torna impossível provar que uma definição é má ou de recusar alguma”4. O naturalismo postula uma definição daquilo que é, a rigor, indefinível. Segundo Moore, seu erro consiste em reduzir o bem a uma forma substancial”. Fonte: PEQUENO, M. J. P. Moore e os pressupostos da meta- ética. Ethic@ (UFSC), Florianópolis - SC, v. 2, n. 1, p. 21-34, 2003. Resuma a ética analítica de Moore. 169 TÓPICO 3 - REFLEXÕES E CONCLUSÕES SOBRE ÉTICA E A TRADUÇÃO 1 INTRODUÇÃO Importante agora fazermos uma reflexão final daquilo que aqui foi abordado, tentando fazer um fechamento geral e síntese da questão da ética na tradução. Foi relevante estudarmos o desenvolvimento dos sistemas éticos desde a antiguidade, pois desde lá está colocada a questão da tradução e da ética. Por isso o mapa que aqui desenhamos, para ver como a Filosofia se colocou acerca do tema, o como esses sistemas poderiam no responder a questões essenciais da tradução. Outro passo importante foi falar da alteridade e do mundo pós-guerra, e como essa nova mentalidade moldou o pensar da ética e datradução, e como a importância do outro começa a tomar conta do ambiente teórico em nossa atividade do traduzir. Ainda de grande importância foi tomarmos ciência da obra de Antoine Berman, sendo ele um dos autores mais ovacionados nos dias de hoje acerca do traduzir e sua ética, influenciado também pela questão do respeito e alteridade das obras. Vejamos como podemos fazer uma reflexão final e fechamento dessas ideias! 2 REFLEXÕES E CONCLUSÕES Nossa última temática versará sobre uma reflexão final, mas claro, não definitiva acerca da ética na tradução. Desde seus primórdios, a ética representa um conjunto de ações particulares, que se tornam coletivas na medida em que se realizam como uma cultura de ações e hábitos de uma determinada comunidade. Foi assim desde as primeiras culturas homo sapiens, e não seria diferente dentro de uma comunidade de práticas como é a tradução. Os gregos fundamentaram isso e produziram uma cultura escrita e detalhada sobre a ética, trazendo os primeiros grandes tratados e fundamentações sobre essa área formalizada como parte da Filosofia. UNIDADE 3 170 É correto então pensar num grupo de pessoas, numa coletividade que vê a tradução como uma atividade que deve ser guiada também pelos princípios e pressupostos éticos daquilo que seria o correto. É o que chamamos de uma ética da tradução, e ela deve percorrer de forma concreta todos os instantes dessa atividade. Vejamos agora, em resumo, como a ética pode nos ajudar a atravessar essa barreira que há tempos percorremos entre a civilização e a barbárie, entre a boa a má tradução, entre a boa e má ação! 2.1 ÉTICA, ESCRITA E CIVILIZAÇÃO O que a ética e seus sistemas nos ensinaram acerca da tradução? O que nos coloca numa espécie de trilha civilizatória e o que nos afasta disso? A ética nos ensinou que podemos observar a ação humana através do seu conteúdo em si, bem como através da consequência dessa ação: a primeira é a ética deontológica, a segunda a ética teleológica. As éticas deontológicas vão observar uma ação em si mesma, como já observamos, sem mirar suas consequências. O deontológico, versa, em resumo, acerca de nossa consciência em si: devemos ser responsáveis, corretos, justos no nosso texto, não por pensar no leitor final, mas porque há um mandamento na nossa consciência que assim se posiciona. Devemos fazer o correto porque é o correto aquilo que se apresenta para a nossa consciência. Porém, há outros autores, devotos da teleologia, que dizem estar na consequência de nossas ações aquilo que as justificam. Ou seja, devemos pensar numa tradução que resulte a concretização de uma consequência: atingir a um público, ser feliz, ser poético etc. É através das éticas deontológicas e teleológicas que orbitam as ideias e fundamentos práticos da tradução. Essa bagagem teórica e prática da ética podemos vislumbrar naquilo que chamamos de sistemas éticos através da história, e todos esses sistemas podem ser aplicados na atividade da tradução. No sistema ético de Aristóteles podemos pensar a tradução dentro de uma ética teleológica, cujo fim é a busca da felicidade. Essa felicidade se concretiza na maior felicidade possível que é aquela que se assenta no meio social, que é a coletividade. Essa felicidade maior é o exercício virtuoso de certos hábitos, como a justiça, responsabilidade, e, principalmente, a mediania da ação e da temperança. Essas seriam ações virtuosas de uma tradução. Observamos também o sistema deontológico de Kant, que nos oferece indicações concretas sobre o agir do tradutor. Kant nos diz que a razão universal (que é para todos) e o entendimento regulam nossas ações em si, dentro da nossa consciência 171 e aponta para aquilo que ele chama de Imperativo Categórico como guia de nossas ações. Assim se faz na prática da tradução, a saber, devemos utilizar nosso aparato racional para julgar se aquilo que estamos traduzindo é possível de se concretizar conforme o Imperativo Categórico. Outro sistema ético estudado aqui, que versa sobre a tradução, é o utilitarismo. Com sua visão teleológica de uma ação voltada para o bem comum em sociedade, o utilitarismo influenciou muitos pensadores da ética criando seu próprio sistema. Um bem maior para o maior número de pessoas, é isso que podemos trazer para o ambiente da tradução e é isso que devemos marcar como influência maior do utilitarismo. Dentro das últimas décadas, há que se lembrar dos sistemas pragmáticos e neopositivistas, que cada um a sua maneira observa a tradução como um conjunto de regras que advém da prática (pragmáticos) e a tradução como fruto de um pensamento analítico da linguagem (neopositivistas). São sistemas muito em voga nos dias de hoje. Hão de ser lembrados também os pensamentos éticos menos sistemáticos, que apontaram o primado da poética sobre a ética, principalmente, no advento do século XX, através de Nietzsche, Deleuze, entre outros, que colocaram o trágico e poético como norte moral e guia criativo a prático na arte de traduzir. O ambiente pós-guerra transformou o que pensávamos acerca da alteridade, responsabilidade e respeito. Autores de grande renome apontaram um caminho de não aceitar nunca mais as mazelas do autoritarismo, da supressão de direitos fundamentais, esses autores, como Hanna Arendt, Primo Levi, a Escola de Frankfurt, esses autores revelaram a chave de mudança social que deveria vir com a alteridade. Por isso, o ambiente da tradução também absorveu essas ideias, dando vazão a novas teorias que levassem em conta todo rigor ético possível, na medida de retomarmos uma nova humanidade, ou um resgate dos ideais humanos assim por dizer. Um dos grandes autores da alteridade, como aqui visto, e levado para o horizonte da tradução, foi Emmanuel Levinas. Este autor apresentou a alteridade não como uma mera formalidade ética, mas descreveu o papel do “outro” na formação da nossa consciência, e a ética como mãe de todos os conhecimentos. É através da ética que devemos moldar o mundo, e colher assim mais justiça e respeito em nossas relações. Assim também deve ser na tradução, ou seja, traduzir tendo o outro como principal norte ético. Jean-Paul Sartre foi outro pensador que nos fez olhar para questões elementares da ética, como responsabilidade e engajamento, dentro do espectro existencial. Trouxemos assim, para o ambiente da tradução, os valores humanistas de Sartre, dando o enfoque exatamente para esse engajamento e responsabilidade de nosso existir: consequências necessárias da nossa liberdade de escolha. 172 São esses alguns pensadores da História da ética que podemos relacionar diretamente com a prática da tradução. Em especial, são autores e pensadores que influenciaram uma das principais vozes na ética da tradução no século XX e XXI, que é Antoine Berman. Observamos aqui que Berman vai contra três fatores tradicionais do ato de traduzir: a ideia do etnocentrismo, a hipertextualidade e o platonismo na tradução. Contra o etnocentrismo no ato de traduzir, Berman argumenta que a tradução sempre foi vista como a adequação de uma língua diferente àquela considerada dominante e culturalmente mais aceita naquele período histórico, por diversos fatores. O etnocentrismo é então pressupor que há culturas superiores, e que as inferiores devem a essa se submeter. É afirmar um povo como central, e os outros como periféricos. Berman acredita então que devemos quebrar essa perspectiva etnocêntrica, tão nociva, há vários séculos, para a tradução. Outro dano histórico, apontado por Berman, é a primazia do hipertextual. Traduzir um texto, através de um modelo ou de uma forma já consolidada, ou melhor, traduzir um texto a partir da forma do outro, esta é a crítica apontada por Berman. Cada texto, segundo ele, deve ter uma tradução e experiência únicas. A noção errônea do hipertextual se conecta também com a errada tradição do platonismo, segundo Berman. Não há essências eternas, não há uma forma ideal de se traduzir um texto. Mashá sim formas criativas que vão se formando e moldando de maneira individual. Todos esses autores e propostas éticas, por mais diversos que sejam, nos apontam uma barreira muito bem estruturada acerca do civilizado, banindo qualquer expectativa de barbárie. A ética é fundamental para moldar uma civilização e negar a barbárie, pois ela fornece as diretrizes e os valores pelos quais as pessoas devem se guiar em suas ações e decisões. A ética é um conjunto de princípios morais que orienta as escolhas e comportamentos individuais e coletivos. Através da ética, a sociedade estabelece um padrão moral e de conduta que deve ser seguido pelos seus membros. Esses princípios podem ser baseados em ideias como justiça, igualdade, respeito, responsabilidade e empatia, e sua observância é essencial para garantir uma convivência pacífica e harmônica entre as pessoas. Quando os indivíduos e as instituições agem de acordo com esses valores éticos, a civilização é fortalecida, pois a confiança e o respeito mútuos se desenvolvem. Além disso, a ética também pode ajudar a prevenir conflitos e 173 violência, uma vez que as pessoas são incentivadas a resolver suas diferenças de forma pacífica e justa. Por outro lado, quando os princípios éticos são ignorados ou violados, a barbárie pode surgir. A falta de ética pode levar a comportamentos desonestos, desrespeitosos e injustos, que prejudicam não apenas os indivíduos afetados diretamente, mas também a sociedade como um todo. A ausência de valores éticos pode levar a um estado de caos e desordem, onde prevalecem a violência, a corrupção e a injustiça. A ética é talvez a única ferramenta para moldar uma civilização justa, pacífica e harmônica, negando a barbárie e promovendo valores positivos que beneficiam todos os membros da sociedade. Isso se dá também na tradução. Continuamos em consonância com a voz de Berman (2013, p. 23): Ora, a tradução, com seu objetivo de fidelidade, pertence originariamente à dimensão ética. Ela é, na sua essência, animada pelo desejo de abrir o Estrangeiro enquanto estrangeiro ao seu próprio espaço de língua. Isto não significa, em absoluto, que historicamente tenha sido sempre assim. Pelo contrário, o objetivo apropriador e anexionista que caracteriza o Ocidente sufocou quase sempre a vocação ética da tradução. A "lógica do mesmo" quase sempre prevaleceu. Isso não impede que o ato de traduzir obedeça a uma outra lógica, a da ética. Por isto, retomando a bela expressão de um trovador, falamos que a tradução é, na sua essência, o "albergue do longínquo". Como eu estava dizendo: abrir o Estrangeiro ao seu próprio espaço de língua. Abrir é mais que comunicar: é revelar, manifestar. Dissemos que a tradução é a "comunicação de uma comunicação". Mas é mais do que isso. Ela é, no âmbito das obras (que aqui nos ocupam), a manifestação de uma manifestação. Por quê? Porque a única definição possível de uma obra só pode ser feita em termos de manifestação. Numa obra, é o "mundo" que, cada vez de uma maneira diferente, se manifesta na sua totalidade. Fica então uma última pergunta e uma necessidade de resposta: a ética nos dá civilização em termos de tradução? A ética, e isso não temos dúvida, é uma parte essencial da vida em sociedade e pode ser vista como uma base moral para a construção de uma civilização, uma civilização que deve espelhar nossas traduções. Através da ética, os indivíduos são incentivados a seguir princípios e valores que são considerados bons e desejáveis para a convivência pacífica e harmoniosa em uma sociedade, em qualquer autor de sistema ético que possamos estudar, e assim também na produção de um texto. Para terminar, colocamos como sugestão uma lista de séries, documentários e breve sinopse de alguns livros que tratam o assunto de forma não tão acadêmica, e que podem nos ajudar a entender a complexidade da ética em meio a tradução. 174 Séries: "The Interpreter" – uma série coreana que explora as complexidades da tradução e interpretação em contextos políticos e diplomáticos. "Borgen" – uma série dinamarquesa que aborda questões éticas e morais na política e na comunicação, incluindo tradução e interpretação em situações de crise. "Narcos" – uma série americana que retrata a luta contra o narcotráfico na Colômbia e as dificuldades enfrentadas pelos tradutores e intérpretes que trabalham no meio. "The Americans" – uma série americana que segue a vida de espiões soviéticos disfarçados de americanos durante a Guerra Fria e as complexidades da tradução e interpretação em contextos de espionagem. "The Translation" – uma série turca que aborda a história de uma tradutora que enfrenta dilemas éticos e pessoais enquanto trabalha em um grande projeto de tradução. "Translators" – uma série francesa que retrata a história de nove tradutores que são contratados para traduzir o último livro de um famoso autor americano e precisam trabalhar juntos para encontrar soluções para os desafios éticos e literários que enfrentam. DICA Documentários: "The Linguists" – um documentário que segue dois linguistas que viajam pelo mundo para documentar línguas em extinção e a importância da tradução na preservação da diversidade cultural. "Lost in Translation" – um documentário que investiga as implicações éticas e culturais da tradução em diferentes contextos, desde a interpretação em tribunais até a tradução de obras literárias. "Interpreters" – um documentário que segue a vida de intérpretes em situações de conflito armado e como eles enfrenta desafios éticos e morais ao trabalhar com militares e jornalistas em zonas de guerra. "Speaking in Tongues" – um documentário que explora a importância da educação bilíngue e a ética da tradução em ambientes escolares multiculturais. "American Tongues" – um documentário que investiga a diversidade linguística e cultural nos Estados Unidos e como a tradução é fundamental para a compreensão e respeito mútuo. "The Art of Translation" – um documentário que explora a história e o processo de tradução literária, incluindo os desafios éticos e literários que os tradutores enfrentam ao traduzir obras de diferentes gêneros e estilos. 175 A ética nos dá civilização, pois fornece um conjunto de princípios morais que orientam as escolhas e comportamentos individuais e coletivos. Esses princípios podem incluir ideias como justiça, igualdade, respeito, responsabilidade e empatia, e são fundamentais para a construção de uma sociedade justa e equitativa, e são fundamentais para traduzirmos com rigor, mas também com virtude. DICA Livros e sinopses: "Found in Translation: How Language Shapes Our Lives and Transforms the World", de Nataly Kelly e Jost Zetzsche – um livro que explora a importância da tradução em nossas vidas cotidianas e como a ética é fundamental para o sucesso da tradução. "Translation and Ethical Engagement: Advocacy, Social Justice, and Responsibility in Mediation", de Aftab Ahmad – um livro que analisa as questões éticas na mediação e na tradução em ambientes multiculturais e multilíngues, com foco na justiça social e na responsabilidade. "Translation and Confl ict: A Narrative Account" de Mona Baker – um livro que aborda a ética da tradução em situações de confl ito, incluindo a tradução de documentos políticos e a interpretação em julgamentos de crimes de guerra. "Translation and the Challenge of Revision" de Nicole Nolette – um livro que analisa a ética da revisão de traduções e os desafi os que os revisores enfrentam ao trabalhar com tradutores. "The Ethics of Translation", de Christina Schäff ner e Kelly Washbourne – um livro que aborda as questões éticas na tradução em uma ampla variedade de contextos, incluindo a tradução literária, a interpretação e a tradução em situações de crise. "Translation and Identity in the Americas", de Gentzler Edwin – um livro que aborda a relação entre tradução, identidade cultural e questões éticas em contextos das Américas. "In Other Words: A Coursebook on Translation",