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AULA 3 RETENÇÃO DE PESSOAS Prof.ª Erika Gisele Lotz 2 CONVERSA INICIAL Quando se trata de reter talentos, é imprescindível que a organização adote um processo eficiente, eficaz e efetivo de gestão de desempenho. Mas não a gestão de desempenho voltada a métodos de gestão do passado. Assim, é fundamental olharmos para a nova estão de desempenho, aquela que identifica e valoriza os talentos, que promove as bases para a aprendizagem e o desenvolvimento. Uma gestão de desempenho alicerçada em critérios claros, construída por meio de parceria entre gestor e colaborador, em que a figura do chefe abre espaço a figura do mentor, que contribui para o fortalecimento das soft e hard skills. Olhando para esse tema, nesta abordagem apresentaremos algumas das práticas adotadas pela nova gestão de desempenho. Bons estudos! TEMA 1 – CLAREZA PARA DESEMPENHO E PRODUTIVIDADE: OKRS E KPIS Créditos: Vectorium/Shutterstock. Certa vez, um experiente arqueiro convidou seu aluno para assistir a uma demonstração. Ao chegarem diante de uma árvore, o arqueiro pegou uma flor e a colocou em um dos galhos da árvore. Em seguida, pegou o arco e a flecha e posicionou-se a uma distância de cem passos da árvore. Amarrou uma venda nos olhos e perguntou ao aluno: – Quantas vezes você já me viu praticar este esporte? – Todos os dias – respondeu o discípulo. – E sempre o vi acertar na rosa a uma distância de trezentos passos. De olhos vendados, o arqueiro esticou o arco e disparou. A flecha nem sequer atingiu a árvore, passando longe do alvo, a uma distância constrangedora. – O senhor errou! – espantou-se o discípulo. – Achei que queria me mostrar o poder de sua experiência! Ao que o arqueiro respondeu: – Eu lhe dei aqui a lição mais importante sobre o poder do pensamento! Ninguém consegue atingir aquilo que não pode ver. (Rangel, 2003, p. 99) Quando os temas são retenção e talentos, satisfação, comprometimento, engajamento e produtividade são palavras que recebem destaque. E para tal, é 3 essencial que exista forte alinhamento entre os ganhos percebidos pelo profissional e suas entregas alinhavadas aos objetivos estratégicos da organização. Nesse sentido, uma das práticas que tem se mostrado altamente eficaz, são os OKRs e KPIs, sejam os da organização, das áreas ou dos cargos. Por meio de OKRs e KPIs, os envolvidos têm a clareza do resultado a ser atingido e podem realizar uma análise fundamentada sobre o desempenho. E, para definir a entrega de cada cargo, é preciso olhar de forma sistêmica e contemplar: a) os objetivos estratégicos da organização; b) de que forma cada área, departamento ou time contribui para a realização desses objetivos; c) desenho a entrega de cada cargo, permitindo a produtividade e o desenvolvimento do negócio; então entram em cena os OKRs e os KPIs. 1.1 O que são OKRs? É a sigla para o termo em língua inglesa objective and key results, ou seja, objetivos e resultados chave. Os OKRs são instrumentos de comunicação interna, que promovem a integração de cada cargo, da área à qual esse cargo pertence, aos objetivos relacionados à visão e estratégia da organização. É uma abordagem descomplicada, bastante simples e flexível, porém altamente focada na eficiência. OKR é uma forma de alinhar internamente os objetivos da empresa, traduzindo em metas para executivos, departamentos, equipes, gestores e indivíduos (Appus). De forma simplificada, os OKRs são um conjunto de objetivos inter- relacionados que contribuem para a estratégia (objetivos macro) da organização. Tais objetivos podem ser alcançados de forma individual ou coletiva. Todos os colaboradores devem entender as suas metas e saber como alcançá-las, minimizando esforços desnecessários. Por isso, a metodologia OKR eleva a produtividade e reduz o stress no ambiente de trabalho, consequentemente aumentando a motivação de todos. (Siteware) Inspirada na Administração por Objetivos de Peter Drucker, OKR é “instrumento de gerenciamento criado por Andrew S. Grove e popularizada através da sua utilização pelos funcionários do Google. Trata-se de uma fórmula de dois componentes: os objetivos (O) da organização e os resultados-chave (KR), que são as metas que levarão a organização até esses objetivos” (Resultados Digitais). Os KRs devem ser escritos no formato SMART: específico, mensurável, atingível, relevante e temporal. O OKR tem estrutura simples, demostrada a seguir: https://coblue.com.br/okr/ https://coblue.com.br/okr/ 4 Quadro 1 – Objetivo e chaves de resultados Fonte: Erika Gisele Lotz. A clareza dos OKRs deve ter três níveis: institucional, departamental e individual. Quadro 2 – Níveis de OKRS Nível Descrição Exemplo de OKRs Institucional Tem por finalidade inspirar e guiar a organização, assim como definir prioridades e estratégias para conquistá-las Objetivo 1: encantar nossos clientes Resultados-chave: KR 1: alcançar NPS de 80 ou superior (zona de excelência) KR 2: reduzir o churn1 para menos de 5% Departamental Tem por finalidade especificar a entrega de cada área, dado que os resultados do departamento impactam diretamente a performance e o desenvolvimento do negócio Objetivo 1: Ter equipes e engajadas Resultados-chave: KR 1: reduzir o turnover a 2% KR 2: aumentar o headcount2 em 10% KR 3: realizar quatro treinamentos específicos para cada área/ano KR 4: elevar a taxa de retenção para 75% Individual Tem por objetivo definir as entregas de cada cargo Exemplo de cargo de gerente comercial: Objetivo1: reduzir a taxa de churn em 15% Resultados-chave: KR 1: obter pontuação 90 no NPS3 KR 2: reduzir em 10% o turnover em customer success KR 3: realizar follow up mensal com 80% da base de clientes estratégicos Fonte: Erika Gisele Lotz. 1 Churn rate é a taxa que mede a rotatividade dos clientes na empresa. 2 A contagem de cabeças, em tradução literal, é o acompanhamento constante de quantos funcionários integram a equipe da empresa. (https://grougp.com.br/blog/headcount- rh/#:~:text=N%C3%A3o%20%C3%A9%20dif%C3%ADcil%20entender%20o,integram%20a%20equipe%20d a%20empresa). 3 Net Promoter Score, ou NPS, é uma métrica desenvolvida para medir o grau de satisfação e lealdade de clientes com sua empresa ou marca; é utilizado pelas maiores empresas do mundo como indicador de satisfação de seus clientes. (https://binds.co/pesquisas/pesquisa- nps/?utm_term=sistema%20nps&utm_campaign=Net+Promoter+Score&utm_source=adwords&utm_medium =ppc&hsa_acc=2258986377&hsa_cam=2084896789&hsa_grp=82469822768&hsa_ad=419863689585&hsa _src=g&hsa_tgt=kwd- 378780440284&hsa_kw=sistema%20nps&hsa_mt=b&hsa_net=adwords&hsa_ver=3&gclid=EAIaIQobChMI6 NCFu_zf7wIVFAyRCh1BTg9GEAAYAiAAEgK0XPD_BwE). EU QUERO ____________________, MENSURADO POR ____________________. objetivo resultado-chave OBJETIVO O que quero alcançar? Qual a entrega desejamos produzir? declaração concisa da direção desejada pela empresa. Um bom objetivo tem que ser vividamente descrito para que as pessoas possam imaginar o quão impactante será alcançá-lo RESULTADOS-CHAVE Como podemos mensurar? metas com impacto direto no atingimento do objetivo caso seja alcançado com sucesso 5 A partir da clareza dos objetivos estratégicos, é possível compor as metas e métricas de cada área ou departamento e realizar o mesmo em nível individual. As organizações que adotam OKRs utilizam ciclos que podem ser mensais, trimestrais, quadrimestrais ou semestrais, dependendo do modelo de negócio da empresa. Entretanto, recomenda-se que sejam ciclos curtos, em alinhamento com os pressupostos da gestão ágil, aceleram feedbacks e facilitam a aprendizagem. Talvez você esteja se perguntado: mas o que de tão importante diferem os OKRs das tradicionais metas e objetivos? OKRs são desvinculados da remuneraçãojustamente porque precisam ser agressivos e desafiadores – e este é um aspecto muito relevante. Além disso, as próprias equipes e indivíduos que constroem seus OKRs. Se eles fossem vinculados à remuneração, as pessoas escreveriam OKRs fáceis para serem batidos. Por serem agressivos, a marca de 70% já pode ser considerada como resultado atingido. A expressão moonshots é a visualização perfeita daquilo que se entende como agressivo e desafiador. Portanto, os KRs precisam mirar na lua e atingir 70% já é considerado um sucesso. 1.2 KPIs Crédito: buffaloboy/Shutterstock. Os OKRs são acompanhados dos KPIs, key performance indicators, ou em sua tradução, indicadores-chave de performance ou desempenho. KPIs “são medidas para verificar resultados. Esses indicadores são utilizados para avaliar a eficácia das ações tomadas em uma empresa a fim de alcançar suas metas e objetivos estabelecidos no planejamento estratégico” (Pipefy). Por meio de resultados mensuráveis é possível comparar os dados com ciclos anteriores. Tomemos por exemplo o índice de turnover, que assim como índice de satisfação dos funcionários e clima organizacional são exemplos de KPIs da área de RH. Observe os exemplos a seguir. https://www.shutterstock.com/pt/g/buffaloboy 6 Quadro 3 – Exemplos de KPIs OBJETO DE ANÁLISE O QUE MEDIR? COMO CALCULAR RESULTADO Área de RH O número de profissionais que deixaram a empresa no período mensal Total de desligamentos mensais ÷ pelo total de funcionários 5 ÷ 120= 0, 041 Cargo de gestor comercial O número de conversão de leads em clientes no trimestre Total de leads ÷ pelo total de novos clientes reais 1500 ÷ 250 = 6 Fonte: Erika Gisele Lotz. Os KPIs têm por objetivo mensurar o que tem sido feito, os resultados, e, por meio da criação de números, promover insights a respeito da performance da organização, área ou do profissional. Os números apontam para resultados reais, permitindo assim avaliar as estratégias e rapidamente identificar quais ações são necessárias para alteração da rota, quais estratégias têm tido boa resposta em relação aos objetivos estabelecidos, seja pela organização, área ou cargo. Assim como as OKRs, os KPIs são pontuais e concisos, permitindo aos gestores avaliar o desempenho de processos internos e de pessoas e áreas. Por esse motivo, considerar OKRs e KPIs ao realizar o acompanhamento de performance do colaborador é de grande valia para identificar áreas de força e oportunidades de desenvolvimento. Vamos imaginar que uma determinada organização, que venha sofrendo com a dificuldade de dar continuidade aos projetos em virtude da rotatividade de pessoal, adote o seguinte OKR: Objetivo Assegurar a continuidade dos processos por meio da retenção de pessoas KR 1 Reduzir a 5 % o índice de turnover KR 2 Elevar o nível de satisfação dos profissionais em 90 % na pesquisa de clima No decorrer do trimestre a empresa reduziu a 3 % o índice de turnover e obteve 92 % no índice geral de aprovação, de acordo com a pesquisa de clima, ou seja, o desempenho foi acima do projetado. Agora, tomemos por exemplo os OKRs do cargo de gestor comercial de uma organização que identificou na pandemia uma oportunidade de romper barreiras geográficas e angariar clientes em todo país. Objetivo Angariar clientes em todo território nacional KR 1 Aumentar os leads em 70% KR 2 Realizar 40 conferências para apresentação de produtos on-line/mês 7 Ao final do ciclo de três meses de revisão de OKRs, suponhamos que o vendedor aumentou o número de leads em 60% e conseguiu realizar uma média de 25 videoconferências para apresentação de produtos. Embora ele tenha aumentado o número de leads, o desempenho ficou aquém do projetado, o mesmo ocorreu em relação ao KR2. Assim, o gestor, ao acompanhar o desempenho desse profissional, pôde, em companhia deste, identificar oportunidades de redesenhar estratégias, desenvolver competências e também projetar um plano de desenvolvimento que proporcione a aquisição de novos comportamentos, conhecimentos e habilidades. Que darão conta, não apenas do gap em relação a entrega passada, mas, sim, de fortalecer o profissional a enfrentar desafios futuros. OKrs e KPIs não estão apenas relacionados a metas agressivas e à produtividade. Eles apresentam estreita relação com a gestão de desempenho, pois como é possível avaliar e gerir o desempenho critérios claros de resultados de performance? Saiba mais Ficou interessado nos OKRs? Então leia o texto intitulado OKR: o que é, como a metodologia pode ajudar sua empresa e exemplos para você implementar, disponível: <https://resultadosdigitais.com.br/blog/o-que-okr/>. Aprofunde seus conhecimentos em OKRs e KPIs: <https://www.appus.com/blog/gestao-de-pessoas/diferenca-entre-okr-e- kpi/#:~:text=J%C3%A1%20que%20os%20OKRs%20definem,essas%20metas%20com %20os%20KPIs> e <https://www.siteware.com.br/blog/metodologias/metodologia-okr/>. Acesso em: 2 jul. 2021. TEMA 2 –GESTÃO DE DESEMPENHO E A RETENÇÃO DE TALENTOS Para compreender o que, de fato, é a gestão de desempenho e o seu papel na retenção de talentos é importante compreender o que é gestão e o que é desempenho. 2.1 Gestão de desempenho Ao tomarmos a definição clássica de gestão, o planejamento, a organização, a direção e o controle se configuram como as ações estruturantes, os pilares de sustentação da gestão, como ilustra o quadro a seguir. 8 Quadro 4 – Pilares que compõem o processo de gestão Função Base de atuação Descrição Planejar Ideias Definir objetivos Estabelecer planos Programar atividades Cria a visão do que deseja alcançar Identifica possíveis obstáculos que possam surgir pelo caminho Desenha estratégias para atingir objetivos e ultrapassar obstáculos Estabelece sprints Organizar Coisas Agrupar atribuições em órgãos e cargos Identificar e definir processos Dividir as tarefas Designar atividades Alocar recursos (materiais, tecnológicos, informações e de capital humano) Estuda processos e desenha fluxos Busca problemas em processos não em pessoas Coloca o talento certo no cargo certo Prioriza atividades Dirigir Pessoas Designar pessoas Coordenar ações Comunicar Liderar Desenvolver time Exerce a influência positiva e ética Realiza acompanhamento de performance Cultiva e fortalece a cultura do aprendizado Acompanha o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) Controlar Resultados Definir padrões Monitorar desempenho Avaliar desempenho Estabelecer ações corretivas Acompanha resultados por meio da análise acurada e atenta de métricas Avalia resultados dos sprints e faz correção de rotas Analisa indicadores e estabelece estratégias de melhoria contínua Fonte: Erika Gisele Lotz. De acordo com Souza et al. (2009, p. 24), desempenho é a ação intencional, decorrente da aplicação de potenciais e competências, que permitem o alcance de resultados desejados. Devido à influência de variáveis distintas, o indivíduo não pode ser responsabilizado isoladamente pelos resultados obtidos. Ao juntamos gestão á desempenho, temos o “acompanhamento sistemático da contribuição de cada membro da organização, de suas áreas e do todo” (Leme, 2014, p. 23). 2.2 A nova gestão de desempenho A nova gestão de desempenho olha para a agilidade, a necessidade e o formato altamente flexível e dinâmico das empresas 4.0. É inegável que, sobretudo nos últimos 10 anos, temos assistido a profundas transformações no modelo das organizações, devido ao excepcional avanço tecnológicos. Um novo modelo de organização se popularizou e revolucionou as relações com o consumo, com o consumidor: as startups. As inovações das empresas do 9 Vale do Silício têm chacoalhado as práticas de RH, trazendo a necessidade de repensar os modelos tendo em vista afilosofia do RH centrada em talento e o perfil das novas gerações, a exemplo dos millenials, e a rapidez com que as transformações ocorrem. A “velocidade interativa dessa nova realidade torna processos anuais ou semestrais obsoletos, pois não mais representam a velocidade com que as coisas acontecem no trabalho e no mercado, portanto processos que antes eram anuais passam a ser semestrais, trimestrais ou até mais frequentes” (Mello, 2019, p. 20). O quadro a seguir apresenta um olhar comparativo entre o modelo tradicional e a nova gestão de desempenho. Quadro 5 – Tradicional X OKRs Fonte: Erika Gisele Lotz. A nova gestão de desempenho adota ciclos de avaliação curtos que permitem acompanhamento dos resultados, leitura do cenário e tomada de ações precisas para reajuste de rota e desenvolvimento, o que assegura qualidade das TRADICIONAL •Estabelece “o que” deve ser feito •Eixo top – down – de cima para baixo, os níveis hierárquicos superiores criam e os demais níveis cumprem •Privado e restrito, dado que cada setor ou área responde por objetivos e metas que se restringem á equipe correlata •Avaliação sujeita a diversos pontos frágeis, tais como a falta de memória do gestor e o vício da tendencia central •Ciclos anuais de avaliação de desempenho e rodadas de feedback •Olhar para entregas do passado •Avaliação de desempenho atrelada á remuneração, ganha mais quem bate meta •Apetite moderado ao risco, estabelecimento de metas mais fáceis para serem batidas e as pessoas se motivarem a ganhar mais. OKRS •Estabelece o que deve ser feito e como deve ser feito •Eixos múltiplos: de baixo para cima e lateral , dado que o nível estratégico cria o objetivo geral e todos os demais departamentos ou áreas (equipes e indivíduos) criam seus próprios OKRs no sentido de contribuir para o objetivo geral •Público e transparente, os OKRs de todos os setores e indivíduos são abertos para toda a organização •Avaliação realizada em ciclos mensais ou trimestrais, ciclos curtos com o objetivo de acompanhar as entregas e gerar o maior valor possível ao cliente interno, cliente externo e organização •Conversas abertas, fluidas, com vistas a oportunidades de melhorias e estratégias de desenvolvimento que permitirão lidar com desafios futuros •O acompanhamento de performance é desvinculado de retorno financeiro individual, é totalmente voltado ao desenvolvimento •A avaliação de desempenho é realizada tendo por base critérios objetivos, que oferecem informações para efeito de progressão de carreira, bônus e demais incentivos financeiros. •Os objetivos e metas são agressivos e desafiadores, dados que são estabelecidos em conjunto, profissional e gestor, visando a alta performance e o desenvolvimento. 10 entregas, desenvolvimento de competências e habilidades, fortalece a cultura da qualidade e a cultura do foco em resultados, cultiva a dinâmica de times e alinha olhares de profissionais e áreas ao objetivo da organização, tendo em vista a mais elevada satisfação e excelência de entrega ao cliente. TEMA 3 – GIG ECONOMY, MILLENIALS E GESTÃO ÁGIL E por que cada vez mais as organizações têm adotado o novo modelo de gestão de desempenho? Essa resposta nos remete a um cardápio variado, em que podemos citar a dinâmica do mercado de trabalho e o crescimento de profissionais da gig economy; as expectativas e características dos millenials e os métodos de gestão ágil. 3.1 Profissionais gig, ou trabalhadores da gig economy O termo gig economy refere-se a um sistema de livre mercado no qual as empresas tradicionais contratam empreiteiros independentes, freelancers e trabalhadores de curto prazo para executar tarefas individuais, atribuições ou empregos. O termo vem do mundo das artes cênicas em que músicos, comediantes entre outros são pagos por suas aparições individuais, chamados de “shows”. (Thoughtco) Os trabalhadores gig são profissionais autônomos, com contratos de trabalho não regidos pela CLT. Cada vez mais as organizações têm realizado contratos por projetos, com períodos breves e definidos. Uma vez que tais profissionais não gozam de um contrato de trabalho longo e duradouro, os ciclos de acompanhamento de performance são atrelados aos sprints do projeto. 3.2 Millenials Se as gerações anteriores, a exemplo da Geração X, investiam grande para construir carreira em uma única organização ao longo de boa parte da vida e décadas, em busca da tão sonhada estabilidade de emprego, com os millenials e depois deles, a Geração Z, o foco é outro. Os millenials são nervosos explica Josh Bersin, da consultoria Bersin by Deloitte, os pois se consideram fiéis a uma organização e se dedicam a ela mais de sete (SETE!) meses da sua vida. Estão dispostos a “deixar o emprego ao primeiro sinal de tédio e falta de desafios, o que torna seus currículos colchas de pequenos retalhos. Ansiosos pois, crescidos numa realidade de jogos eletrônicos, redes sociais e junk food, dependem muito 11 mais de novidades e estímulos externos para se manterem motivados” (Mello, 2019, p. 10). Uma pesquisa realizada pela Global Human Capital Trends (2015), da Bersin by Deloitte constatou que: • + 80% dos millennials querem dar feedbacks e avaliar a performance dos seus gestores. • + 66% dos millennials querem usar sua criatividade no trabalho. • + Acreditam que seus colegas de time são as pessoas mais importantes no trabalho. • + Esperam feedback semanal e progressos de carreira em ciclos breves e no mais tardar anuais. 3.3 Modelos de gestão ágil Os métodos ágeis são uma alternativa à gestão tradicional de projetos, eles nasceram nos braços do desenvolvimento de software, mas hoje podem ser aplicados a qualquer tipo de projeto (inclusive os que não se remetem ao software). Os métodos ágeis vêm ajudando muitas equipes a encarar a imprevisibilidades dentro de um projeto por meio de entregas incrementais e ciclos iterativos. As metodologias ágeis passaram a ser uma alternativa aos métodos tradicionais, também conhecidos como métodos pesados ou clássicos (Cultura Ágil). Por meio dos modelos ágeis de gestão, a exemplo do Scrum, Kanban, Lean, Design Thinkin, SMART, entre outros, os processos passam a ser dinâmicos e interativos, simples e diretos, com o foco em: a) objetividade da entrega; b) correção da rota no momento que o desvio acontece; e c) no aprendizado imediato, que ocorre por meio de desenvolvimento incremental, ou seja, de melhoria contínua; cooperação entre equipe e cliente (ciclo de feedback constante); entregas rápidas e de alta qualidade; flexibilidade de escopo do projeto; criação de valor progressiva e de acordo com as necessidades do cliente; adaptabilidade às mudanças e alto nível de inovação (Neil Patel). Dessa maneira o acompanhamento de performance ágil segue os mesmos critérios. https://www.culturaagil.com.br/iterativo-e-incremental-suas-definicoes/ https://neilpatel.com/br/blog/feedback-o-que-e/ 12 Saiba mais Para saber mais sobre a gig economy acesse <https://www.thoughtco.com/gig- economy- 4588490#:~:text=%20Key%20Takeaways%3A%20Gig%20Economies%20%201%20I n,they%20suffer%20from%20relatively%20low%20pay%2C...%20More%20>. Acesso em: 2 jul. 2021. TEMA 4 – PRÁTICAS INOVADORAS CENTRADAS EM TALENTOS Benchmark é um ótimo recurso para o aprendizado, e portanto, olhar para práticas inovadoras de organizações ágeis é uma ótima estratégia para coletar informações e transformá-las em práticas no momento de repensar o acompanhamento de performance nas nossas organizações. O quadro a seguir apresenta práticas adotadas por empresas altamente inovadoras, com elevado employer branding e que adotam o RH centrado em talentos Quadro 6 – Práticas inovadoras Fonte: Erika Gisele Lotz. É importante observar que a mudança de práticas de acompanhamento e avaliação de performance não se restringema empresas do Vale do Silício. Até mesmo organizações consideradas baluartes da meritocracia tradicional, como a General Eletric GE, utilizam o feedback fluido e têm avançado a práticas ágeis de gestão de desempenho. Clareza de propósito é a expressão-chave para a nova gestão de desempenho. Qual é o objetivo da avaliação e desempenho? Municiar o RH de informações para tomar decisões a respeito de mérito e promoções? Ou identificar oportunidades de desenvolvimento dos profissionais e construir estratégias para elevar a performance? Quando a resposta é: os dois, aí é importante ir adiante NETFLIX •Não adota prática de avaliação de desempenho. Os colaboradores apenas passam por rodada de feedbacks do tipo começar, parar, continuar duas vezes ao ano FACEBOOK •Adota ferramenta interna de feedback e elogios instantâneos, em que qualquer funcionário pode dar e pedir feedbacks para qualquer outro ADOBE •Adota o processo de cadência de check-ins entre gestor e colaborador, com foco em performance, cultura e valores GOOGLE •Adota a prática das OKRs, metas ágeis redefinidas trimestralmente e que não afetam diretamente remuneração do colaborador 13 com a reflexão. Será que o mesmo instrumento é eficaz para esses dois objetivos? Não estaríamos utilizando a mesma rede para pescar peixes de tamanhos bem distintos? E por quê? Processos que levam à tomada de decisão sobre carreira, bônus e promoções e processos que alicerçam desenhos de programas e estratégias de crescimento e desenvolvimento têm clientes finais diferentes, explica Mello (2019, p. 13). A nova gestão de desempenho trata, portanto, de forma clara e precisa tais resultados a luz de processos diferentes, como ilustra o quadro a seguir. Quadro 7 – Propósitos diferentes, processos diferentes. Fonte: Erika Gisele Lotz. Portanto, ao olharmos o tema pelas lentes da retenção de talentos, é fundamental a clareza sobre o propósito da avaliação de desempenho. Pois se os clientes são diferentes, questiona o autor, “como vamos como vamos fazer um processo de avaliação comum aos dois objetivos?”. Faz sentido criarmos um mesmo carro para atender aos mercados de luxo e de serviços de vigilância? Colocarmos uma sirene na Mercedes, e bancos de couro reguláveis eletronicamente numa viatura policial? Como somos grandes fãs do design centrado no usuário (UCD), queremos que nossas ferramentas - e os processos que dão vida a elas – sejam otimizadas para quem mais deve extrair valor delas. (Mello, 2019, p. 15). TOMADA DE DECISÃO CLIENTE FINAL EMPRESA É uma forma de saber quem a empresa tem que priorizar na alocação dos seus recursos escassos, como bônus, participações acionárias, promoções e treinamentos. Aqui temos um conjunto de estímulos extrínsecos. Gera reunião de apresentação e resultados. CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO CLIENTE FINAL COLABORADOR É ele que irá receber elementos construtivos (inputs, feedbacks, coaching de performance) que o permitam se desenvolver, planejar sua carreira e crescer. Aqui temos um conjunto de motivadores, portanto intrínsecos. Gera reunião de feedbacks e feedfowards, acordos de desempenho, identificação de desafios e formas de ultrapassá-los. 14 Assim, é essencial que a abordagem adotada pela organização para avaliar desempenho e promover desenvolvimento leve em consideração os eixos da entrega e dos comportamentos, mas que contemple também aspectos como potencial e o quanto chave o profissional é para a empresa. O quadro a seguir apresenta os sinalizadores mais marcantes de cada processo. Quadro 8 - Acompanhamento de performance e avaliação de desempenho. ACOMPANHAMENTO DE PERFORMANCE AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO Objetivo: Crescimento e desenvolvimento Objetivo: Tomada de decisão sobre promoções, realizar ranqueamento de performance Práticas Práticas • Elaboração de um instrumento que dialogue com os comportamentos requeridos para o exercício da função e para as entregas do cargo • Autoavaliação4 • Avaliação do gestor • Rodadas de feedback e feedfoward • Adoção de escalas quantitativas • Comparação entre performances • Ranqueamento de performance tendo em vista KPIs Fonte: Erika Gisele Lotz. Caso a empresa decida por adotar um instrumento único, a ser aplicado no mesmo momento, é imprescindível que deixe muito claro quais itens de avaliação se destinam a qual propósito. A nova gestão de desempenho, é fluida e ágil. Os atores, abordam e enfrentam problemas, conversam abertamente sobre desafios, são parceiros e comungam e objetivos comuns, que quando atingidos promovem ganhos mútuos. Para tanto, há que se acompanhar as transformações do mercado e os reflexos nas oportunidades de desenvolvimento e manutenção e elevação da performance e sobretudo, na retenção dos talentos da organização. TEMA 5 – ACOMPANHAMENTO DE PERFORMANCE, FEEDFOWARD E PDI E TRILHA DE DESENVOLVIMENTO “Só encontramos no mundo o que procuramos” (Henry David Thoreau). Muitas organizações adotam a prática da avaliação de desempenho como aspecto formal e como fim nela mesma. Contudo, o acompanhamento de performance é apenas o primeiro passo, cuja jornada segue por feedback e feedfoward e pela construção e acompanhamento do Plano de Desenvolvimento Individual (PDI). 4 A autoavaliação clarifica, reforça e fortalece a ideia dos critérios de desempenho na mente do profissional. 15 5.1 Acompanhamento de performance Acompanhar, em latim companio, de cum panis, companhia e aquele com quem se repartia o pão (cum, com; panis, pão). Acompanhar remete a estar junto, seguir na mesma direção e compartilhar do mesmo sentimento. Eis aí a essência do processo de acompanhamento de performance. O acompanhamento e performance é formativo, apreciativo e deve ocorrer em ciclos curtos, durante o processo de trabalho. Tem objetivo de contribuir com o desempenho do profissional, destacar pontos de força e identificar oportunidades e desenvolvimento tendo em vista os desafios que o profissional irá enfrentar no próximo ciclo de atividades. Aprendizagem é a palavra-chave deste processo; é um processo de mudança de comportamento obtido por da experiência construída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais. A aprendizagem é fruto da interação entre estruturas mentais e o meio ambiente. Se os resultados obtidos se distanciam dos desejados, o que pode ser fito de forma diferente da próxima vez? O que se pode aprender? De que maneira esta situação sinaliza oportunidades de desenvolvimento de competências? Somente acompanhando é que pode gerar influência positiva e, ao sinal de inconformidades, ajustar o leme e seguir viagem. Em outras palavras, acompanhar significa também garantir que a direção está correta. 5.2 Feedback Feedback literalmente significa: alimentar (feed) e retroceder (back). Trata- se de uma das práticas que mais contribuem para o desenvolvimento dos profissionais nas organizações. É imperativo que seja ofertado com cuidado, pois uma fala descuidada ou “um único detalhe perdido ou palavra mal comunicada pode estragar tudo” e colocar o engajamento, a motivação e comprometimento a perder, explica Hermann (2016, p. 15). Um modelo de feedback que tem ganhado notoriedade no âmbito organizacional é o Feedback SCI, desenvolvido pelo The Center for Creative Leadership (Centro de Liderança Criativa), com o propósito de construir e ampliar a capacidade de liderança nas organizações. O modelo, que acompanha a metodologia da Comunicação Não Violenta (CNV), afasta o julgamento, olha para 16 os fatos e rata a comunicação de forma clara e compassiva e encontra sustentação em três pilares: situação, comportamento e impacto. • Situação: qual o contexto? A partir de fatos, a situação é trazida, de forma objetiva, o que especificamente ocorreu, afastandojulgamentos e apreciações valorativas. O foco está nos fatos. • Comportamento: qual a resposta comportamental do profissional? Novamente descrever a reação, isento de julgamentos, portanto adjetivações aqui podem comprometer a clareza da narrativa. • Impacto: qual o efeito de tal comportamento? Esta etapa apresenta o impacto gerado a partir daquele comportamento. Vamos a um exemplo: na reunião de diretoria você apresentou resultados alcançados pelo setor de vendas nos últimos 30 dias e o índice de satisfação dos clientes. Os números apresentados na ocasião não condizem com os números apresentados em relatório pelo SAC. Observei que ocorreu um equívoco, mas não posso afirmar em qual das bases. Sinto-me bastante apreensivo com nossa credibilidade, pois todos os gestores estavam presentes e isso pode levar a replicarem estratégias que precisam ser realinhadas. É fundamental no sentido de lidar com aquilo que é em despeito daquilo que poderia ter sido. A beleza do fato de lidar com a realidade é que ela permite identificar o que é importante fazer para modificar os resultados. O feedback contribui para a tomada de decisão sobre estratégias para superar os obstáculos e atingir os resultados desejados (Vasconcellos, 1995). 5.3 Feedfoward Agora é hora de olhar para frente, para as possibilidades. É então que entra em cena o feedfoward, termo cunhado por Marshall Goldsmith, coach norte- americano e um dos mais influentes especialistas em gestão, segundo a American Management Association. O feedfoawrd tem por objetivo gerar acompanhamento sistêmico e, principalmente, de alavancar o processo de desenvolvimento. Acompanha e expande o potencial do processo de feedback, pois segmenta e clarifica o que fazer para alcançar o objetivo desejado. O feedforward é livre de julgamentos e busca contribuir de forma ativa para o desenvolvimento de todos no ambiente de trabalho, oportunizando: • Escolher uma mudança de comportamento que faça diferença positiva na vida. 17 • Descrever esse comportamento para os colegas. • Pedir duas sugestões para essa mudança de comportamento. • Ouvir as sugestões e tomar notas sem fazer comentários. • Agradecer pelas sugestões. • Perguntar aos outros os que eles gostariam de ver acontecer e de mudar. O feedfoward completa o processo de aprendizagem, instiga olhar para a frente, para o campo das possibilidades, para os aprendizados e as ações a serem tomadas para produzir resultados diferentes da próxima vez. 5.4 Plano de desenvolvimento individual O PDI é um documento, que pode seguir a lógica dos 5 Ws e 2 Hs, que têm por objetivo registrar as ações a serem empreendidas para fortalecer determinada competência. E note que o PDI não se debruça somente aos pontos de melhoria, mas também ao fortalecimento dos pontos fortes do profissional. Os pontos fortes são núcleos doadores de força e por isso é fundamental que sejam nutridos. O PDI pode incluir estratégias de mentoring, de coaching, leituras, filmes, cursos para desenvolvimento de competências técnicas entre outros. Vale enfatizar que é fundamental que PDI seja acompanhado pelo gestor, como apoiador para o desenvolvimento do profissional. 18 REFERÊNCIAS APPUS. Disponível em: <http://www.appus.com>. Acesso em: 27 jun. 2021. AGENDOR. ORV Vendas. Disponível em: <https://www.agendor.com.br/blog/okr- vendas/; https://coblue.com.br/blog/okr-exemplos/>. Acesso em: 27 jun. 2021. BOCK L. O que o google faz de diferente. Um novo jeito de trabalhar para ser uma das empresas mais bem sucedidas do mundo. Sextante, 2015 COENS T.; JENKINS M. Abolishing Performance Appraisals: Why They Backfire and What to do Instead. Disponível em: <https://www.bkconnection.com/static/ Abolishing_Performance_Appraisals_EXCERPT.pdf>. Acesso em: 27 jun. 2021. CULTURA ÁGIL. O que são métodos ágeis? Disponível em: <https://www.culturaagil.com.br/o-que-sao-metodos-ageis/>. Acesso em: 27 jun. 2021. HILL, N. As 16 leis do sucesso: o livro que mais influenciou líderes empreendedores em todo o mundo. Barueri: Faro Editorial, 2017. LOTZ, E. G. Recrutamento e seleção de talentos. Rota desenvolvida para o curso de gestão de pessoas. LOTZ E. G.; BURDA J. A. Recrutamento e seleção de talentos. Curitiba: Editora InterSaberes, 2015. NEIL PATEL. Metodologia Ágil. Disponível: <https://neilpatel.com/br/blog/metodologia- agil/>. Acesso em: 27 jun. 2021. PULAKOS, E. D. Seleção de Métodos de Avaliação. Um guia para a implementação de avaliações formais para construir uma força de trabalho de alta qualidade. 2005. PIPEFY. Disponível em: <https://www.pipefy.com/>. Acesso em: 27 jun. 2021. RESULTADOS DIGITAIS. O que é OKR. Disponível em: <https://resultadosdigitais.com.br/blog/o-que-okr/>. Acesso em: 27 jun. 2021. SITEWARE. Metodologia OKR. Disponível em: <https://www.siteware.com.br/blog/metodologias/metodologia-okr/>. Acesso em: 27 jun. 2021. THOUGHTCO. Dig Economy: Definition and Pros and Cons. Disponível em: <https://www.thoughtco.com/gig-economy- 4588490#:~:text=%20Key%20Takeaways%3A%20Gig%20Economies%20%2 https://www.agendor.com.br/blog/okr-vendas/ https://www.agendor.com.br/blog/okr-vendas/ 19 01%20In,they%20suffer%20from%20relatively%20low%20pay%2C...%20Mor e%20>. Acesso em: 2 jul. 2021.