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G es tã o de R em un er aç ão e B en ef íc io s em c ar go s e sa lá rio s W ill ia n B ue no Gestão de Remuneração e Benefícios em Cargos e Salários Willian Bueno G es tã o de R em un er aç ão e B en ef íc io s em c ar go s e sa lá rio s W ill ia n B ue no Gestão de Remuneração e Benefícios em Cargos e Salários Willian Bueno G estão de Rem uneração e B enefícios em Cargos e Salários W illian B ueno Código Logístico 58458 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6467-0 9 7 8 8 5 3 8 7 6 4 6 7 0 Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários IESDE BRASIL S/A 2019 Willian Bueno Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B944g Bueno, Willian Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários / Willian Bueno. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE Brasil, 2019. 118 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6467-0 1. Administração de pessoal. 2. Salários. I. Título. 19-56617 CDD: 658.32 CDU: 005.954.6/.955 © 2019 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Jacob Lund/BK_graphic/1599686sv/Shutterstock Willian Bueno Especialista em Direito do Trabalho e Gestão Estratégica de Pessoas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Bacharel em Administração pela Faculdade Padre João Bagozzi. Profissional multidisciplinar de Recursos Humanos, com atuação em consultoria de RH (Human Resources Business Partner) e nas áreas específicas de remuneração e benefícios há 10 anos. É autor de artigos científicos na área de administração e gestão de pessoas. Atualmente, é especialista de remuneração em uma empresa nacional de grande porte. Sumário Apresentação 7 1 Gestão de remuneração 9 1.1 Princípios de gestão de remuneração 9 1.2 Sistemas de remuneração 11 2 Plano de remuneração e carreira 17 2.1 Elaboração de um plano de remuneração e carreira 17 2.2 Diagnóstico organizacional 22 3 Análise, descrição e avaliação de cargos 27 3.1 Análise de cargos: coleta de dados 27 3.2 Caracterização e diferenciação de cargos 30 3.3 Diretrizes para a descrição de cargos 31 3.4 Modelos de descrição de cargos 33 3.5 Métodos de avaliação de cargos 42 4 Pesquisa de remuneração 49 4.1 Tipos de pesquisa de remuneração 49 4.2 Etapas de elaboração da pesquisa 51 4.3 Interpretação e aplicação da pesquisa 55 5 Estrutura salarial 59 5.1 Métodos de elaboração de tabelas salariais 59 5.2 Tipos de tabelas salariais 62 5.3 Atualização de tabelas salariais 65 6 Gestão de benefícios 69 6.1 Origem dos benefícios sociais 69 6.2 Tipos de benefícios 70 6.3 Modelos de gestão de benefícios 75 7 Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 79 7.1 Tipos de remuneração variável: ICP e ILP 79 7.2 PLR: participação nos lucros e resultados 82 7.3 Bônus e gratificações 83 7.4 Remuneração variável na prática 84 8 Avaliação de desempenho e remuneração 91 8.1 Objetivos da avaliação de desempenho 91 8.2 Métodos de avaliação 94 8.3 Desempenho e remuneração 95 9 Política de remuneração 99 9.1 Importância da política de remuneração 99 9.2 Elaboração e comunicação das diretrizes de remuneração 100 10 Remuneração estratégica 107 10.1 Remuneração e estratégia empresarial 107 10.2 Engajamento, atração e retenção de talentos 108 10.3 Remuneração e carreira por competências 110 10.4 Remuneração e transformações do ambiente organizacional 111 Gabarito 115 Apresentação Você provavelmente já ouviu falar no termo remuneração. Esse é um elemento de fundamen- tal importância na administração empresarial e é por meio dele que definimos todos os ganhos de um indivíduo decorrentes de sua prestação de serviços. É muito comum associarmos remuneração a salário, visto que este corresponde à parcela de ganho mais percebida em relações funcionais. Nesta obra, conheceremos a gestão de remuneração além do salário e nos aprofundaremos em todos os temas que permeiam a administração de cargos, salários e benefícios. Além disso, conheceremos os fundamentos das principais práticas adotadas para reconhecimento e recom- pensa no ambiente organizacional. Cada capítulo é destinado à compreensão conceitual dos fundamentos da administração de remuneração e à aplicação prática desses conhecimentos no contexto organizacional. Os temas foram organizados e elaborados em uma ordem lógica, a fim de permitir um entendimento mais gerencial e oportunizar condições de aplicá-los não apenas nas rotinas do departamento de Recursos Humanos, mas também no contexto estratégico das empresas. As informações e os dados apresentados nesta obra levam em consideração o cenário atual de um mercado extremamente dinâmico e competitivo, que exige cada vez mais dos executivos e administradores das empresas. Nesse contexto, apresentamos a gestão de remuneração como uma ferramenta estratégica para melhoria dos resultados organizacionais, aproximando os interesses da empresa com as aspirações individuais de cada profissional que faz parte dela. Em suma, objetiva-se ampliar o diálogo sobre o sistema de remuneração e caracterizá-lo como uma ferramenta estratégica de gestão empresarial, contribuindo no desenvolvimento de pro- fissionais, estudantes e entusiastas do tema. Bons estudos! 1 Gestão de remuneração Neste capítulo, você vai conhecer alguns princípios fundamentais de gestão de remuneração que lhe servirão de base para o entendimento de todo o nosso estudo. Vamos começar com algu- mas reflexões conceituais dos termos remuneração e salário. Na sequência, você entenderá o que é um sistema remuneratório e como ele funciona na prática. No contexto atual de transformações econômicas e sociais, o tema gestão de remuneração tem tido maior importância no ambiente organizacional. As empresas deixaram de pensar apenas no quesito salário e passaram a se preocupar com todo o contexto de reconhecimento e recompensa de seus empregados. Já os profissionais não buscam apenas um valor financeiro em troca de seus servi- ços – eles querem suprir outras necessidades. As relações de trabalho mudaram. Por isso, a gestão de remuneração é, sem dúvida, uma das tarefas mais desafiadoras dentro das organizações. 1.1 Princípios de gestão de remuneração Você já deve ter ouvido falar do termo remuneração – e é muito natural que o associemos à palavra salário. Contudo, remuneração e salário não são sinônimos. É importante que primeiramente façamos uma análise epistemológica desses termos. A palavra salário vem do latim salarium argentum, que significa “pagamento em sal”. Isso porque o trabalho nem sempre foi remunerado. Inicialmente, no Império Romano, havia a troca de prestação de serviços por sal (que era uma iguaria na época) e podia ser trocado por alimento, vestimenta e outros itens (RIBEIRO, 2006). O termo remuneração também vem do latim, da palavra remuneratio, que foi originada do verbo remuneror, e significa recompensar. Sua origem está na Antiguidade, mais precisamente no reinado de Nabucodonosor, no qual os trabalhadores recebiam incentivos para desenvolver suas ta- refas (MARTINS, 2008). Como percebemos, a etimologia desses termos está atrelada ao contexto histórico das rela- ções de trabalho. A contrapartida recebida pelos trabalhadores em decorrência de sua mão de obra passou por muitas transformações ao longo das sociedades. Em nosso estudo não nos aprofunda- remos na história dos modelos remuneratórios, mas é importante apresentarmos alguns exemplos para melhor entendimento – e também para oportunidade de estudo complementar. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários10 Conforme Franco (2008), inicialmente havia a troca de mãode obra por mercadorias diver- sas, na sequência essa troca passou a ser realizada por moedas. No século XVI, os pagamentos em moedas eram realizados com base no número de peças produzidas pelo trabalhador. Já no contex- to norte-americano da virada do século XX, o sistema de pagamentos era baseado no tempo de execução de tarefas. Finalmente, durante o capitalismo percebemos que o salário se torna a forma principal de pagamento pela exploração de mão de obra. Essa abordagem trazida pelo capitalismo foi amadurecida durante a sociedade moderna, que buscou conciliar empresa com produção e pessoas com remuneração. Nos dias de hoje, a remuneração tem um conceito bem mais amplo, por isso é também necessário que façamos uma reflexão conceitual para diferenciar remuneração e salário em um contexto atual. Para Chiavenato (2004, p. 259), “a remuneração constitui tudo quanto o empregado aufere como consequência do trabalho que realiza em uma organização”, inclusive o salário. Lacombe (2005) traz uma definição bem apurada de remuneração: A soma de tudo o que é periodicamente pago aos empregados por serviços prestados: salários, gratificações, adicionais (por periculosidade, insalubridade, tempo de serviço, trabalho noturno e horas extras), bem como todos os benefí- cios financeiros, como prêmios por produtividade, participação nos resultados e opção de compra de ações entre outros. (LACOMBE, 2005, p. 147) Em nossa legislação, os termos são tratados de maneira diferenciada. Você pode consultar a Consolidação das Leis Trabalhistas, no artigo 457, e verificar que: “Compreendem-se na remune- ração do empregado, para todos os efeitos legais, além do salário devido e pago diretamente pelo empregador, como contraprestação do serviço, as gorjetas que receber” (BRASIL, 1953). Logo percebemos que remuneração é um termo mais aberto, é o gênero que se refere à totalidade de ganhos do empregado decorrentes da relação de trabalho. Salário é apenas uma das espécies desse gênero, assim como benefícios, gorjetas, premiações e outros itens que podem fazer parte de uma remuneração. Figura 1 – Conceito de remuneração Salário Adicionais Prêmios Benefícios Gratificações Recompensas Remuneração Fonte: Elaborada pelo autor. O conjunto de itens de uma remuneração forma o que chamamos de sistema de remunera- ção, como exemplificado na Figura 1. Gestão de remuneração 11 A gestão de remuneração é basicamente a maneira como esse sistema é planejado e admi- nistrado. Você vai notar que cada empresa possui um sistema remuneratório diferente e ele pode assumir variados formatos, conforme estudaremos na próxima seção. 1.2 Sistemas de remuneração A composição de um sistema de remuneração considera inicialmente a estratégia de atração e retenção de profissionais na organização. A variedade de modelos de remuneração tem crescido devido à necessidade de encontrar soluções que aproximem o vínculo da empresa com o empregado. Outro fator importante em um sistema remuneratório é o conjunto de nor- mas coletivas que regem determinada categoria profissional. Os sindicatos e as entidades de classe convencionam o piso salarial da categoria e podem determinar também o pagamento de adicio- nais, incentivos e benefícios, conforme negociação coletiva. Todos esses itens compõem o conceito de remuneração total ou total compensation, como é usualmente chamado no mercado. A remuneração total é composta de três itens: remuneração básica, incentivos salariais e benefícios. Figura 2 – Composição da remuneração total BenefíciosRemuneração básica Remuneração total Incentivos salariais Fonte: Elaborada pelo autor com base em Chiavenato, 2004, p. 257-258. Segundo Chiavenato (2004), o principal componente da remuneração total é a remuneração básica ou pagamento fixo que o empregado recebe de maneira regular. Esse salário fixo pode ser determinado como salário por hora trabalhada ou salário mensal. O valor a ser praticado como remuneração básica deve respeitar o salário mínimo nacional e, como já mencionado, o mínimo previsto em instrumento de negociação coletiva. Os benefícios são o conjunto de convênios, programas e facilidades que a empresa oferta a seus empregados. Podemos citar como exemplo os planos de saúde, o seguro de vida, as bolsas de estudo, entre outros. Estudaremos mais a fundo esse tema no Capítulo 6 desta obra. Já os incentivos salariais são modelos de recompensas que levam em consideração o desem- penho profissional e organizacional. São definidos em ofertas de bônus, prêmios e participação nos resultados da empresa. Os incentivos podem ser praticados a curto ou a longo prazo, dependendo da abordagem que a empresa decidiu adotar. Também estudaremos esses conceitos mais a fundo no Capítulo 7 desta obra. Apresentados os principais componentes do sistema remuneratório, podemos avançar no en- tendimento da combinação equilibrada dessas formas de remuneração. Nesse contexto, vamos nos Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários12 aprofundar um pouco mais nos diferentes modelos adotados pelas empresas atualmente. Segundo Wood Jr. e Picarelli Filho (2004), podemos classificar oito modelos tradicionais de remuneração: • Remuneração funcional: modelo com foco na remuneração básica determinada pela função (cargo) e ajustada ao mercado. Este é o modelo de remuneração mais tradicional em que todos os que estão lotados nos mesmos cargos recebem a mesma composição salarial. • Salário indireto: modelo com foco em benefícios e incentivos salariais. Empresas que pautam sua estratégia de remuneração em modelos de salário indireto tendem a ser mais criativas na elaboração dos pacotes de benefícios e também nas premiações. • Remuneração por habilidades: neste modelo os indivíduos são remunerados por suas habilidades, ou seja, por aquilo que sabem fazer. Baseia-se nas capacitações requeridas do profissional e não necessariamente no cargo que ocupa dentro da empresa. É comumente destinado aos níveis mais operacionais das empresas. • Remuneração por competências: é um pouco mais amplo que o modelo anterior. Aqui são considerados o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes para definição da remuneração total do profissional, ou seja, pessoas com cargos iguais podem receber remunerações diferentes dependendo do tipo de competência requerida. É um modelo comumente destinado aos demais níveis tático e estratégico das empresas. Vamos nos aprofundar nesse tema no Capítulo 10 desta obra. • Previdência complementar: pode ser considerado tanto um benefício quanto um incen- tivo salarial e está sempre atrelado a um programa de previdência privada. É um modelo de remuneração em que a empresa complementa a aposentadoria de seus empregados por meio de contribuições mensais ou subsídio de programa previdenciário. É cada vez mais utilizado para retenção de profissionais, uma vez que seus efeitos são a longo prazo. • Remuneração variável: com foco em incentivos salariais, a remuneração variável é nor- malmente realizada por meio de comissões, participação nos lucros e bônus. Este modelo vincula o pagamento de uma recompensa ao atingimento de uma meta individual. • Participação acionária: modelo em que é oferecida ao empregado a copropriedade da empresa por meio da venda ou da distribuição de parte das ações. Neste modelo, o indiví- duo não é apenas um empregado da empresa, ele passa a ser um parceiro. • Alternativas criativas: estes modelos focados em benefícios e incentivos salariais compreendem todos os esforços criativos das empresas de recompensar seus empregados, com bônus, premiações e condições diferenciadas conforme critérios e estratégia adotados para determinada ocasião. Se você analisar o sistema de remuneração da empresa em que trabalha ou de alguma organização com a qual tenha contato, vai conseguir identificar esses modelos presentes nas mais variadas práticas. Além disso, vai perceber que eles estão combinados de maneira a atender à estratégia eàs necessidades organizacionais. Normalmente eles estão equilibrados conforme mostra a Figura 3. Gestão de remuneração 13 Figura 3 – Combinação das formas de remuneração Reconhecimento: alternativas criativas. Desempenho: remuneração variável e/ou participação acionária. Parcela fixa complementar: salário indireto e/ou previdência complementar. Parcela fixa base: remuneração funcional ou remu- neração por habilidades e/ou por competências. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Wood Jr. e Picarelli Filho, 2004, p. 52. A Figura 3 demonstra um sistema remuneratório e exemplifica como os modelos de remu- neração estão equilibrados. Na base da pirâmide, temos os modelos que compõem a parcela fixa de remuneração – em outras palavras, esse é o salário mensal que o empregado receberá baseado na estratégia que a empresa adotou para remunerá-lo: remuneração funcional, por habilidade e/ou por competências. Na sequência, temos os salários indiretos e/ou a previdência privada que complementam a parcela fixa de remuneração – comumente esses dois blocos compõem a maior parte da remuneração individual. No topo da pirâmide, temos os modelos destinados às estratégias de desempenho e reconhecimento dos profissionais – remuneração variável e/ou participação acionária e as alternativas criativas de recompensa. O entendimento da estratégia organizacional, e também do posicionamento da empresa no mercado, vai determinar em qual dos blocos precisaremos despender mais esforços. Se o perfil profissional que a empresa quer atrair está em busca de incentivos salariais, então a empresa deverá realizar a gestão de remuneração baseada em modelos de remuneração complementar ou de desempenho e reconhecimento. Mas se o mercado para determinada área demonstra o pagamento de altos salários, então a empresa deverá focar seus recursos nos modelos de parcelas fixas de remuneração. É importante que os sistemas elaborados gerem flexibilidade a fim de que esse tema contri- bua para os objetivos estratégicos organizacionais e também na motivação dos empregados. Vamos nos aprofundar mais nesse quesito no Capítulo 10 desta obra. Considerações finais Neste capítulo, fizemos uma breve reflexão conceitual do nosso objeto de estudo, o que nos permitiu entender a diferença entre remuneração e salário. Esse entendimento foi fundamental para analisarmos os aspectos de um sistema remuneratório e, também, o equilíbrio dos modelos de remuneração que compõem esse sistema. Tais conhecimentos são base para que possamos nos aprofundar nos próximos temas. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários14 Ampliando seus conhecimentos • Recomendamos a leitura do primeiro capítulo da obra Salário mínimo: uma história de luta. Nele, o autor resgata um pouco da história do salário mínimo no Brasil, sua institui- ção, desenvolvimento e paradigmas atuais. Leitura recomendável para aprofundamento na história dos salários em nosso país. PAIM, P. O salário mínimo no Brasil: uma história de “altos e baixos”. In: PAIM, P. Salário mínimo: uma história de luta. Brasília, DF: Senado Federal, 2005. p. 13-27. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/180154/SalMinimo.pdf?sequen- ce=1. Acesso em: 22 mar. 2019. • Neste livro, o autor resume de maneira prática as principais alterações na legislação traba- lhista em virtude da última reforma. No capítulo 18 ele aborda os temas: salário, prêmios, bônus e gratificações. Leitura recomendada para entendimento do contexto de remune- ração na legislação atual. MELEK, M. A. Trabalhista! O que mudou?: reforma trabalhista 2017. Curitiba: Estudo Imediato, 2017. • O filme a seguir retrata a disputa entre três vendedores de uma empresa imobiliária para alcançar uma meta instituída pelos seus patrões. Os dois vendedores que atingirem o estipulado receberão recompensas bem atrativas – e o terceiro será desligado. Filme reco- mendado para refletir sobre as relações de trabalho frente ao contexto de reconhecimento e recompensa. O SUCESSO a qualquer preço. Direção: James Foley. EUA: New Line Cinema, Zupnik Cinema Group II e GGR, 1992. 1 arquivo de vídeo em formato avi (100 min), son., color. Atividades 1. Qual é a importância de entendermos a diferença fundamental entre salário e remuneração? 2. Como funciona um sistema de remuneração? 3. Que modelos de remuneração podem ser utilizados por empresas que tenham foco em atin- gimento de metas e desempenho? Gestão de remuneração 15 Referências BRASIL. Lei n. 1.999, de 1º de outubro de 1953. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 7 out. 1953. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L1999.htm#art1. Acesso em: 22 mar. 2019. CHIAVENATO, I. Recursos humanos: o capital humano das organizações. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2004. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2008. LACOMBE, F. Recursos humanos: princípios e tendências. São Paulo: Saraiva, 2005. MARTINS, S. P. Direito do trabalho. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2008. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários. 11. ed. São Paulo: LTR, 2005. RIBEIRO, A. L. Gestão de pessoas. São Paulo: Saraiva, 2006. WOOD JR, T.; PICARELLI FILHO, V. Remuneração e carreira: por habilidades e por competências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. 2 Plano de remuneração e carreira Agora que já conhecemos os princípios básicos da gestão de remuneração, vamos nos aprofun- dar um pouco mais no estudo do plano de remuneração e carreira. Neste capítulo, você conhecerá de maneira prática como funciona essa ferramenta de gestão, poderá analisar as etapas de elaboração do plano e refletirá sobre as melhores práticas para implantá-la. Além disso, explanaremos os conceitos de diagnóstico e mudança organizacional, pois um plano de remuneração é também um projeto empresarial que gera transformação. No contexto de mercado atual, as empresas têm buscado práticas de gestão que garantam seu equilíbrio econômico e potencializem sua competitividade. Essa não é uma tarefa simples. Empresas sustentáveis procuram soluções sólidas e criativas que otimizem seus resultados de ma- neira coerente – é quase uma fórmula mágica. Estabelecer um plano de remuneração e carreira é uma prática cada vez mais necessária. Essa ferramenta de gestão – quando implantada corretamen- te – apoia a organização no alcance do tão desejado equilíbrio interno e externo, com práticas jus- tas e adequadas ao mercado, que valorizam seu capital intelectual e aumentam sua produtividade. 2.1 Elaboração de um plano de remuneração e carreira Você provavelmente já ouviu falar nos termos plano de remuneração, plano de carreira ou plano de cargos e salários. O mercado utiliza diversas no- menclaturas para essa ferramenta, que consiste na organização das estruturas funcionais determinando as diretrizes de gestão de cargos e remuneração. É por meio de um plano como esse que os colaboradores ficam sabendo que caminhos podem trilhar em suas carreiras dentro da organização. O plano também é útil para a empresa organizar suas estruturas funcionais e determinar, por exemplo, como as estrutu- ras hierárquicas vão funcionar, como os cargos serão chamados e quanto se deve pagar para cada empregado. Elaborar um plano de remuneração não é uma tarefa simples e exige profundo entendimen- to da estratégia organizacional, bem como do mercado em que a empresa atua e a expectativa de seus empregados com relação às carreiras. A remuneração é um assunto complexo, pois depende de inúmeros fatores. Há uma variedade de políticas e procedimentos de remuneração. A construção do plano de remuneração requer cuidados, pois provoca forte impacto nas pes- soas e no desempenho da organização pelos efeitos e consequências. O desenho do sistema de remuneração oferece dois desafios principais: de um lado, deve capacitar a organização a alcançar seus objetivos estratégicos e, de outro lado, deve ser moldado e ajustado às características únicas da organização e do am- bienteexterno que a envolvem. (CHIAVENATO, 2014, p. 245) Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários18 Quando uma organização se propõe a implementar uma ferramenta como essa, é necessário construir critérios que atendam às funcionalidades da empresa. Nesse contexto, precisamos enten- der que cada empresa possui um modelo operacional, ou seja, uma ordem racional de funciona- mento e que um plano de remuneração precisa estar sistematizado a fim de atender a esse modelo. Dessa maneira, a estrutura de cargos precisa ser aderente às reais necessidades da orga- nização, precisa estar voltada ao seu negócio. Lembre-se de que um plano de remuneração é uma ferramenta que a empresa utiliza para desdobrar sua estratégia na gestão de recursos e pessoas. É importante ressaltar que uma empresa que possui uma ferramenta como essa gera maior transpa- rência para seus empregados. Existem muitas vantagens em implantar um plano de remuneração. Podemos, de maneira macro, citar três aspectos positivos: custos, engajamento e gestão (CARREIRA MULLER, 2016). Figura 1 – Vantagens de um plano de remuneração e carreira GestãoEngajamentoCustos Fonte: Elaborada pelo autor com base em Carreira Muller, 2016, p. 7. Quando falamos em custos, abordamos as questões salariais e também de efetividade das estruturas funcionais da empresa. Os salários praticados devem estar de acordo com o posiciona- mento da empresa frente ao mercado. Se ela deseja, por exemplo, atrair profissionais robustos para uma determinada área, precisará praticar salários acima da média de mercado. A empresa que possui um plano de remuneração bem estruturado sabe exatamente em quais áreas deve investir e também busca informações de mercado para ser mais competitiva. Sabendo quanto deve pagar, a empresa consegue realizar seu planejamento orçamentário e custear sua estrutura salarial. A estrutura funcional em uma empresa é a maneira como ela está organizada para cumprir o modelo operacional. É nesse contexto que os administradores definirão se precisam, por exemplo, de uma área de marketing em sua companhia e saber quantos profissionais precisarão atuar nesse departamento. Um plano de remuneração auxilia os gestores nessa definição, pois é por meio da estruturação de cargos e do dimensionamento de atividades que serão definidos os recursos huma- nos, ou headcounts, como usualmente é denominado esse termo, necessários. O headcount é um indicador que auxilia, de forma estratégica, na iden- tificação mais detalhada de, por exemplo, quais são as equipes que têm mais representatividade no montante da folha de pagamento. Plano de remuneração e carreira 19 Além disso, estruturas bem organizadas tendem a ser mais enxutas e geram equilíbrio finan- ceiro para a organização. Um plano favorece a adequação de rotatividade de empregados a níveis saudáveis. Vamos estudar um pouco mais sobre cargos e funções no próximo capítulo: “Análise, descrição e avaliação de cargos”. Outra vantagem que um plano de remuneração gera é o engajamento. Segundo uma pes- quisa realizada pela Michael Page (2017), cerca de 74% dos brasileiros pensam em mudar de emprego, o que demonstra a necessidade de gerar engajamento nos profissionais a fim de que permaneçam na empresa. Um plano de remuneração contribui para esse cenário, pois torna a gestão empresarial mais transparente. Com isso, o colaborador sabe exatamente as regras e os critérios que levam a avanços em sua carreira dentro da organização, bem como conhece as di- retrizes para progressão salarial. Profissionais ainda planejam movimentar sua carreira, em especial por conta de pouca perspectiva de crescimento – e não porque não gostavam do local de trabalho ou não estavam satisfeitos com o valor que recebiam –, o que sugere que eles podem até estar felizes com a atual posição que ocupam, mas a falta de perspectiva leva à desmotivação. (CARREIRA MULLER, 2016, p. 7) Um plano de carreira bem estruturado gera perspectiva para que os profissionais saibam exatamente como a empresa em que atuam funciona e possam conciliar seus objetivos de carreira individual com as oportunidades que encontram no ambiente local. Há ainda uma vantagem macro que precisamos explanar: a melhoria na gestão e/ou gover- nança. A implantação de um plano de remuneração e cargos e salários traz uma linguagem única para toda a empresa: os gestores ficam alinhados para tomadas de decisão com relação às carreiras em suas equipes com os mesmos critérios. Antes de implantar um plano de remuneração e carreira, é necessário fazer uma reflexão sobre a manutenção do equilíbrio interno e externo. O plano deve gerar credibilidade na empresa, as pessoas precisam ter a percepção de que ele é justo e está pautado em princípios de equidade. A equidade interna obedece ao princípio da justiça distributiva, que fixa os salários de acordo com as contribuições ou os insumos que os colaboradores trocam com a organização [...] O modelo de justiça distributiva salienta que as pessoas ficam satisfeitas quando percebem que são pagas equitativamente em relação aos colegas com trabalho similar. Por outro lado, a equidade exter- na obedece ao modelo do mercado de trabalho, que fixa os salários conforme as ocupações similares de outras organizações do mesmo ramo de atividade. A equidade externa alinha os salários da organização com os do mercado de tra- balho. A organização precisa balancear os dois tipos de equilíbrio para manter consistência em sua estrutura salarial. (CHIAVENATO, 2014, p. 245) Segundo Pontes (2005), o equilíbrio interno é obtido pela correta avaliação dos cargos e pela construção da estrutura hierárquica. Já o equilíbrio externo é conseguido com a adequação salarial da organização diante do mercado de trabalho, conforme Figura 2. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários20 Figura 2 – Equilíbrio interno e externo Equilíbrio interno Avaliação de cargos Estruturas hierárquicas Equilíbrio externo Adequação salarial Mercado Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2005, p. 33. O maior desafio da gestão de remuneração é gerar esse equilíbrio de maneira coerente, aten- dendo às necessidades da empresa e dos colaboradores. Agora que já entendemos as vantagens de implantar um plano de remuneração e também já sabemos que o equilíbrio interno e o externo são a base para sua construção, podemos analisar como funcionam as etapas ideais de implantação do plano. Existem diversos modelos possíveis, porém neste estudo vamos utilizar o modelo sugerido por Pontes (2005). A seguir, vamos conhecer brevemente cada uma das etapas e continuaremos discutindo esses temas até o final desta obra. • Planejamento e discussão do plano: nesta etapa, é realizado o desenho conceitual do plano e, com isso, são entendidas as necessidades da empresa e é elaborada uma proposta inicial. Para viabilizar o projeto, é construído um comitê gestor com representantes da alta administração da empresa. Essa proposta é discutida, avaliada e aprovada. • Análise de cargos: nas análises de cargos, são construídas as estruturas funcionais. Por meio de entrevistas, faz-se a coleta de dados e informações das atividades realizadas na empresa, a definição e a descrição de cargos. Nessa fase, são desenhadas as estruturas hierárquicas e também a divisão dos cargos por grupos funcionais. • Avaliação dos cargos: aqui os cargos identificados e descritos são avaliados. Essa avaliação visa definir quais deles são mais importantes para a empresa e classificar um “peso” para cada posição. A avaliação de cargos gera um ranking com o tamanho destes na estrutura. • Pesquisa salarial: a pesquisa salarial é uma avaliação de cargos específicos em outras empresas e tem como objetivo entender quanto o mercado está pagando a determinadas funções. Para realizar a pesquisa, é inicialmente necessário definir e contatar as empresas desejadas, elaborar uma metodologia para coleta e tabulação dos dados e realizar uma análiseestratégica das informações recebidas. • Estrutura salarial: nesta etapa, são definidos os métodos matemáticos para construção das estruturas e/ou tabelas salariais, com base na estrutura de cargos já construída e na pesquisa de mercado já realizada. Plano de remuneração e carreira 21 • Política de remuneração: determina os critérios que a empresa vai utilizar para definição de salário admissional, promoções horizontais e verticais, reavaliação de cargos e reajus- tes salariais. Além disso, temos a definição de adicionais salariais, pacote de benefícios e outras regras específicas de cada organização. • Carreiras profissionais: esta etapa tem como base todas as etapas anteriores, são avalia- dos os temas inerentes à sucessão de cargos, os programas de desempenho e de treina- mento e desenvolvimento. • Incentivos salariais: por meio do plano de remuneração, também são definidas as estra- tégias de incentivos salariais: ofertas de bônus, prêmios e participação nos resultados da empresa, como vimos rapidamente no capítulo anterior. A implantação de um sistema de remuneração deve ser realizada com a mesma organização de outros projetos empresariais. Ainda em conformidade com Pontes (2005), podemos exemplifi- car um cronograma de projeto para tal ação, conforme o Quadro 1. Quadro 1 – Exemplo de cronograma do projeto de implantação Etapas mês 1 mês 2 mês 3 mês 4 Discussão do projeto com gerências Aprovação do projeto Análise de cargos Avaliação dos cargos Pesquisa salarial Definição de estrutura salarial Cálculo de custo para adequação dos salários vigentes à nova estrutura e alternativas de implantação Definição de política de remuneração Aprovação do projeto Divulgação aos funcionários Implantação do projeto Fonte: Pontes, 2005, p. 37. Como você pode notar, um plano de remuneração e carreira está muito além de um documento formal da empresa. Viabiliza a estratégia organizacional e dialoga com outras ferra- mentas de gestão de pessoas, como o plano de sucessão e avaliação de desempenho, treinamento e desenvolvimento. É de suma importância que os conceitos instituídos reflitam a realidade da empresa. Agora que já sabemos o que é e como funciona um plano de remuneração e carreira, vamos nos aprofundar um pouco mais no diagnóstico organizacional e nas mudanças que uma ferramenta como essa pode gerar. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários22 2.2 Diagnóstico organizacional Como pudemos aprender anteriormente, um plano de remuneração e carrei- ra tem etapas complexas e distintas, desde sua idealização até seu desenvolvimento, implantação e manutenção. Por essa razão, para viabilizá-lo é necessário um com- pleto entendimento do contexto atual e do funcionamento da empresa. É importante que o primeiro passo antes de estruturar um plano seja fazer um diagnóstico preciso de qual é o melhor processo para gestão de cargos e salários da empresa, para então identificar qual é a realidade possível e alcançável. Isto porque um plano de carreira deve estar coerente e alinhado com as possibilida- des de aplicação pela empresa. (CARREIRA MULLER, 2016, p. 30) A esse processo de conhecimento das possibilidades da empresa damos o nome de diag- nóstico organizacional. Lima (2009, p. 65) entende o termo da seguinte forma: “Diagnóstico organizacional é um conjunto de fatores externos, organizacionais e individuais que precisam ser investigados para que se conheça a real situação de uma empresa”. Não vamos nos aprofundar nas questões conceituais do termo, mas é importante que saibamos que essa análise é a base da implantação de um sistema de remuneração. Grande parte das empresas gostariam de pagar os mais altos salários para obter os melho- res profissionais e consequentemente os melhores resultados. Contudo, essa lógica na prática não funciona tão bem assim. Por isso, o plano de carreira precisa estar alinhado às possibilidades da empresa. Sem um diagnóstico organizacional não saberemos quão arrojados ou conservadores precisaremos ser nas estratégias de remuneração e carreira. Segundo Fernandes (2013), há três parâmetros que a organização pode seguir ao trabalhar os temas de carreira e remuneração, conforme mostra a Figura 3. Figura 3 – Parâmetros de análise do diagnóstico organizacional Respeitar as características do negócio, atentando para o setor e para a cultura. Observar macroprocessos organizacionais, sobretudo os críticos. Vincular entregas e capacidades à lógica de progressão de carreira. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Fernandes, 2013, p.143-144. Veja, a seguir, mais detalhes sobre cada parâmetro. • Respeitar as características do negócio, atentando para o setor e para a cultura: é de suma importância que levemos em consideração o setor de atuação e o desenvolvimento do negócio em si. Empresas mais maduras tendem a ter um crescimento menor do que em- presas emergentes. Empresas emergentes têm um olhar muito forte para a tecnologia e as carreiras nessas empresas tendem a ser mais velozes. Portanto o plano de remuneração e Vídeo Plano de remuneração e carreira 23 carreira precisa acompanhar essa velocidade. Entender e respeitar a cultura é outro fator de extrema relevância. A cultura não inibe o que deve ser feito, mas direciona como as ações devem ser desmembradas – por melhor que seja seu plano, ele precisa ser aderente às crenças e aos valores da organização, caso contrário está fadado ao fracasso. • Observar macroprocessos organizacionais: as carreiras devem ser estruturadas segundo a natureza de macroprocessos da empresa, a fim de preservar e fomentar o desenvolvi- mento em áreas críticas do negócio. Podemos exemplificar esse parâmetro analisando o setor securitário: empresas de resseguros (“seguradora das seguradoras”) demandam profissionais com alto nível técnico e de especialização, que normalmente são encontra- dos prontos no mercado. Dessa forma, essa seria uma área crítica em que o incentivo ao desenvolvimento de profissionais internos deve ser avaliado. • Vincular entregas e capacidades à lógica de progressão de carreira: para cada eixo e nível de complexidade são determinadas entregas desejáveis e competências necessárias, ou seja, sabemos exatamente o que precisa ser feito em cada nível de carreira e também que conhecimentos, habilidades e atitudes os profissionais precisam ter. A progressão profissional é estabelecida com uma lógica dentro do plano de remuneração e carreira. Nesse modelo ideal, a empresa pode oportunizar seus talentos em sintonia com sua es- tratégia, sabendo exatamente o momento de retê-los e o momento de liberá-los. Se todo esse sistema fizer sentido, essa progressão em tempos e movimentos pode inclusive ser acordada em um plano de desenvolvimento individual (PDI). O diagnóstico ambiental é, sem dúvida, uma etapa muito importante na gestão de remune- ração. Além do entendimento do contexto atual, também precisamos ter ciência de que a implan- tação de um sistema de remuneração pode suceder a um processo de mudança organizacional ou ser, ela mesma, vista como um processo de mudança. É por causa dessa dupla condição que vamos agora entender o tema “mudança organizacional”. Conforme Wood Jr e Picarelli Filho (2004), “mudança organizacional é qualquer transfor- mação de natureza estratégica, estrutural, cultural, tecnológica, humana ou de qualquer outro fator capaz de gerar impacto na organização”. Processos de mudança são geralmente complexos e visua- lizados a longo prazo, sendo assimilados paulatinamente ao dia a dia da empresa. Se entendermos o plano de remuneração e carreira como um processo de mudança, precisamos ter ciência de que há um período para maturação desses conceitos na prática empresarial: os adminis- tradores e os colaboradores precisarão de um tempo para internalizar os modelos propostos. Antes da implantação do plano, é importante fomentar uma reflexão sobre o momento que a empresa vive e se é oportuno gerar um processo de mudança. Essa respostavirá do diagnóstico organizacional e do entendimento do ciclo pelo qual a empresa está passando. Mudanças são cons- tantes, momentos de inércia são meramente transitórios. Assim, o sucesso de um plano de remuneração e carreira vai estar atrelado à compreensão da funcionalidade da empresa, bem como de seus macroprocessos e interesses. A implantação de um modelo como esse deve respeitar os aspectos culturais, entendendo que organizar o sistema de cargos e remuneração é também gerar uma grande mudança organizacional. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários24 Considerações finais Por meio dos aprendizados deste capítulo, pudemos notar que o plano de remuneração e carreira vai muito além de uma prática corporativa. Trata-se de uma ferramenta de gestão ampla que reflete a realidade da empresa e permite a organização das carreiras, das estruturas organiza- cionais, dos cargos, dos salários e de todo o sistema remuneratório. A viabilização dessa ferramenta só é possível por meio de uma análise profunda do ambiente interno e externo da empresa. Pudemos aprender que o entendimento do diagnóstico e das mu- danças organizacionais é indispensável para a implementação do plano de remuneração e carreira. Nos próximos capítulos, vamos nos aprofundar ainda mais em cada item do plano de remu- neração e carreira. Iniciaremos um estudo técnico de cada componente do sistema de remuneração. Ampliando seus conhecimentos • Recomendamos a leitura da obra Análise e diagnóstico organizacional: teoria e prática, de Mendonça, Ferreira e Neiva, para que possamos refletir sobre os impactos de um plano de remuneração e carreira na transformação organizacional. As autoras discorrem sobre cultura e processos de mudança, fornecendo pressupostos teóricos e diretrizes gerais para a análise e o diagnóstico da empresa, bem como para processos de mudança. A parte I desse livro, que compreende os três primeiros capítulos, ajudará você no entendimento do processo de diagnóstico organizacional. MENDONÇA H.; FERREIRA, M. C.; NEIVA, E. R. (org.). Análise e diagnóstico organiza- cional: teoria e prática. 1. ed. São Paulo: Vetor, 2016. • Neste artigo, o consultor Paulo Saliby (especialista em remuneração e sócio fundador da SalibyRH) explica de maneira prática quais dimensões se devem levar em conta na hora de efetivar o planejamento e a definição de um plano de remuneração. A leitura é indicada para maior entendimento e fortalecimento dos conceitos que abordamos neste capítulo, já que o autor utiliza exemplos práticos e dá algumas dicas importantes na implantação de um projeto de remuneração e carreira nas empresas. SALIBY, P. Como escolher a melhor estratégia de remuneração para o meu negócio? [s. l.]: SEBRAE, 2018. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/ como-escolher-a-melhor-estrategia-de-remuneracao-para-o-meu-negocio,504dca 017749e410VgnVCM1000003b74010aRCRD. Acesso em: 23 mar. 2019. • Neste filme, Bobby Walker (personagem de Ben Affleck) é surpreendido com a demissão da empresa em que trabalhava. Diante disso, precisa se reinventar e traçar um novo plano de car- reira. O filme é indicado para que possamos refletir sobre o protagonismo de carreira, pois, por mais que as empresas disponibilizem aos seus colaboradores planos de remuneração e Plano de remuneração e carreira 25 carreira bem estruturados, há sempre o risco do desemprego – e os profissionais precisam estar cientes de que são os principais responsáveis pelas suas trajetórias. A GRANDE virada. Direção: John Wells. EUA: The Weinstein Company; Battle Mountain Films; Spring Creek Productions; Company Men Productions, 2011. 1 DVD (104 minutos). Atividades 1. Explique brevemente quais são as principais vantagens de estabelecer um plano de remune- ração e carreira em uma organização. 2. A política de remuneração é uma diretriz que apresenta vários critérios para gestão de re- muneração dentro das organizações, porém outros quesitos precisam ser avaliados e de- senvolvidos antes de sua elaboração. Explique brevemente quais são as etapas anteriores à elaboração de uma política de remuneração. 3. De que maneira um plano de remuneração e carreira pode transformar uma organização? Referências CARREIRA MULLER. Guia prático: plano de carreira e remuneração. Indaiatuba, SP: Carreira Muller, 2016. Disponível em: http://carreira.com.br/wp-content/uploads/2016/10/Guia-Plano-de-Carreira-e- Remuneracao.pdf. Acesso em: 23 mar. 2019. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FERNANDES, B. R. Gestão estratégica de pessoas com foco em competências. 1. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2013. LIMA, S. Gestão do conhecimento e relacionamento: poderosos ativos para as empresas. 1. ed. São Paulo: Burarama Conteúdos, 2009. MICHAEL PAGE. Estudo de remuneração 2017. Campinas; Curitiba; Porto Alegre; Recife; Rio de Janeiro; São Paulo: Michael Page, 2017. Disponível em: http://www.michaelpage.com.br/sites/michaelpage.com.br/ files/Estudo_de_Remuner%C3%A7%C3%A3o_MP_2017.pdf. Acesso em: 23 mar. 2019. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários. 11. ed. São Paulo: LTR, 2005. WOOD JR, T.; PICARELLI FILHO, V. Remuneração e carreira: por habilidades e por competências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. 3 Análise, descrição e avaliação de cargos Neste capítulo, abordaremos as técnicas de análise, descrição e avaliação de cargos. O cargo é um quesito fundamental na gestão de remuneração, por isso é muito importante que você conheça os conceitos inerentes ao tema. Também conheceremos alguns formatos de descrição e avaliação de cargos para que tenhamos uma percepção mais apurada de como esses modelos funcionam na vida prática das empresas. Todo cargo existente em uma empresa tem uma razão para estar ali. Cada vez mais os admi- nistradores buscam soluções para tornar suas empresas mais produtivas. Conhecer sua estrutura funcional e saber exatamente para que cada pessoa exerce a função que ocupa é uma dessas so- luções. O correto dimensionamento de mão de obra gera maior efetividade no quadro funcional. Por essa razão, a análise, a descrição e a avaliação dos cargos é um processo muito importante, que rompe as barreiras das ferramentas de RH e se torna uma necessidade empresarial. A admi- nistração de cargos não é apenas uma prática do plano de remuneração e carreira, é também uma necessidade fundamental para o correto funcionamento das organizações. 3.1 Análise de cargos: coleta de dados A primeira etapa para descrição, análise e avaliação de cargos é a coleta de dados. Esse é o momento em que entenderemos mais a fundo como a empresa funciona e quais são os macroprocessos de cada área, bem como os cargos que compõem essas estruturas. Conforme Pontes (2013), há quatro métodos tradicionais para a coleta de dados: observação local; questionário; entrevista; métodos combinados. Vamos nos aprofundar um pouco mais em cada um desses métodos, pois a coleta de dados será definida conforme carac- terística da empresa e maior aderência do método a essa cultura. • Método da observação local: é um método bem rudimentar de levantamento de dados. Trata-se da observação e do registro da execução das tarefas. É normalmente utilizado para atividades simples, repetitivas e operacionais. Podemos utilizar a observação local para áreas de baixa complexidade em que as tarefas sejam sempre executadas da mesma maneira, seguindo um processo padrão. Da observação dessas atividades é elaborado um relatório que vai ajudar a descrever o cargo. Vantagens: propicia uma melhor compreensão das tarefas, dos processos envolvidos e dos cargos relacionados; permite verificar in loco as responsabilidades do indivíduo, bem como as condições do ambiente de trabalho; o empregado não precisa necessariamente parar suas atividades para que os dados sejam coletados. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários28 Desvantagens:o método exige bastante tempo de dedicação, o que pode encarecer o processo e torná-lo mais moroso; as observações normalmente precisam ser revisadas visto que o analista de cargos nem sempre tem domínio sobre as técnicas daquele deter- minado processo, mesmo que seja simples; o método se restringe às tarefas repetitivas e operacionais. • Método do questionário: é indicado para todos os níveis de cargo da organização. Trata-se de um questionário padrão a ser preenchido pelas áreas (gestores ou colaboradores) a fim de colher informações com relação às tarefas desempenhadas e também os pré-requisitos para exercício da função. O questionário deve ser simples, didático e de fácil entendimento. É necessário deixar bem claros os objetivos da pesquisa e também estabelecer critérios comuns para preenchimento das informações. Antes de utilizar esse método, é necessário avaliar o nível de maturação da empresa para decidir se serão os gestores ou os colaboradores que preencherão as informações. Recomenda-se que o líder de cada área faça esse trabalho. Por isso, antes de promover o preenchimento é importante orientar todos os envolvidos para que as informações sejam obtidas com uma linguagem padrão. Vantagens: o método proporciona agilidade na obtenção das informações; é extremamen- te econômico; abarca todas as áreas da organização. Desvantagens: normalmente as informações precisam ser revisadas, visto que podem vir incompletas ou incorretas; dificilmente as informações do questionário serão fidedignas às especificações do cargo – como o preenchimento é realizado por muitas pessoas, os dados estão sujeitos a intervenções do entendimento de cada indivíduo. • Método da entrevista: sem dúvida este é o método que gera maior qualidade na obtenção dos dados. É realizada uma entrevista com o ocupante do cargo ou com o gestor da área para identificar todas as funções exercidas, bem como as tarefas de responsabilidade daquela posição. A entrevista possibilita um maior entendimento da realidade e gera maior transparência no processo de coleta. Para que esse método funcione, é necessário estruturar bem a pauta da conversa para que todas as informações sejam colhidas. Podemos ordenar a entrevista em quatro etapas: inicialmente uma contextualização de todo o processo para que o entrevistado saiba exatamente as razões desse trabalho; depois, são obtidos os dados das execuções de tarefas – o entrevistado lista de maneira verbal todas as atividades que exerce na área, e essas informações devem ser anotadas e criticadas pelo entrevistador; no terceiro passo da entrevista, é feita a análise das especificações do cargo que se pretende entender, quais os requisitos técnicos para exercer aquelas funções, o nível de escolaridade e experiência necessários; e para encerrar a entrevista, fazem-se as considerações sobre a conversa e a explicação de que aqueles dados serão transcritos em uma descrição de cargo formal. A entrevista deve ser realizada no local de trabalho para que o entrevistado fique mais à vontade e possa demonstrar exemplos da atividade no ambiente em que ela é realizada. Análise, descrição e avaliação de cargos 29 Vantagens: possibilita esclarecimentos com o ocupante do cargo; os dados são mais fide- dignos; pode ser aplicado em todas as áreas da organização. Desvantagens: se a entrevista for mal estruturada, o entrevistado pode não ter boas percepções do processo, gerando descrédito; o custo é bem elevado, há um investimen- to alto de tempo e também necessidade de mão de obra qualificada para a condução das entrevistas. • Métodos combinados: a combinação dos métodos já descritos é uma solução bem eficaz para minimizar as desvantagens de cada um. É importante avaliar bem onde cada método se encaixa e qual é o momento mais oportuno para utilizar cada um deles. No Quadro 1, a seguir, há algumas combinações possíveis para que nos sirvam de exemplos dos métodos elencados anteriormente. Quadro 1 – Métodos combinados para a coleta de dados Combinações Forma de aplicação Descrição Vantagens Questionário + entrevista Ocupante do cargo O ocupante responde ao questionário e o analista faz uma entrevista tendo por base as informações declaradas no questionário. Diminui o tempo da entrevista e melhora a qualidade das informa- ções coletadas pelo questionário.Gerência A gerência responde ao questionário sobre o cargo ocupado pelo subordinado e o analista faz uma entrevista tendo por base as informa- ções declaradas no questionário. Analista de cargos Com base em um questionário não preen- chido que serve como roteiro, o analista en- trevista o ocupante do cargo e preenche o questionário. Facilita a estruturação da entrevista. Questionário + observação local Gerência e ocupante do cargo A gerência responde ao questionário sobre o cargo ocupado pelo subordinado e o analista observa o trabalho executado pelo ocupante. Diminui o tempo de observação do local. Analista de cargos Com base em questionário não preenchido que serve como roteiro, o analista observa o trabalho executado pelo ocupante e preenche o questionário. Estrutura melhor o que deve ser observado pelo analista. Observação local + entrevista Ocupante do cargo Inicialmente o analista observa o trabalho realizado pelo ocupante do cargo e, após, realiza uma rápida entrevista com o próprio ocupante. Elimina as dúvidas surgi- das com a observação. Ocupante do cargo e gerência Inicialmente o analista observa o trabalho realizado pelo ocupante do cargo e, após, rea- liza uma rápida entrevista com o gerente. Fonte: Adaptado de Pontes, 2013, p. 75. A análise de cargos é um momento muito importante para a construção de um plano de remuneração e carreira. Por isso, a escolha do método precisa corresponder às características das áreas analisadas e aos recursos disponíveis para o projeto. Lembre-se de que existe uma lógica para os cargos dentro de uma organização e é essencial que a avaliação consiga refletir essa lógica por meio da correta coleta de dados. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários30 3.2 Caracterização e diferenciação de cargos Agora que já conhecemos as maneiras mais usuais para análise de cargos, ve- remos mais detalhadamente o processo de caracterização e diferenciação de cargos. Esse processo é definido pela elaboração de um documento que conterá a descrição das funções exercidas pelo cargo e a especificação dos pré-requisitos para desem- penho dessas funções. Conforme Franco (2008, p. 67), “o processo de descrição de cargos visa fazer um registro consistente sobre as diversas atividades e tarefas que constituem o conjunto de atribuições e responsabilidades de cada cargo na empresa”. É por meio das descrições que as empresas elaboram seus catálogos de cargos, nos quais é possível acessar todas as especificidades das atividades desempenhadas na empresa, bem como os requisitos mínimos para exercício dessas funções. Inicialmente é necessário diferenciar a descrição da especificação de cargo. A descrição é a relação de tarefas e responsabilidades do ocupante diante de seu cargo; já a especificação de cargo é o combinado de requisitos que o ocupante precisa ter para desempenhar as funções previstas. Há algumas regras gerais para descrever e especificar cargos. Segundo Pontes (2013), a descrição deve ser clara e elaborada de forma simples, explicando os detalhes para que não gere nenhuma dúvida. Além disso, é importante ressaltar que a descrição e a especificação se referem ao cargo e não à pessoa – é muito comum a pessoalidade interferir na elaboração da descrição, por isso precisamos ter muita atenção nesse quesito. Cada tarefa deve ser iniciada por um verbo que defina bem a atividade e é importante desenvolver o texto de descrição respondendo a três perguntas bases: “o que faz?”; “como faz?”; “para quê faz?”. Para facilitar o entendimento dessa construção, vamos utilizar nosso objeto de estudo como exemplo: • Oque faz: descrever cargos. • Como faz: a partir de dados obtidos por meio de entrevistas com gerentes e ocupantes. • Para quê faz: para oferecer uma síntese padronizada e clara das tarefas componentes desse cargo. Dessa maneira, o texto da descrição dessa atividade seria: “Descrever cargos a partir de dados obtidos por meio de entrevistas com os ocupantes, para oferecer uma síntese padronizada e clara das tarefas componentes desse cargo”. As atividades, em geral, são descritas por ordem de importância, porém pode ser que, para que haja maior sentido e melhor entendimento, as tarefas sejam organizadas por ordem cronológica. A organização desses itens fica a critério livre. As descrições de cargo normalmente possuem alguns itens fundamentais que permitirão a compreensão completa daquela posição na empresa. Segundo Franco (2008), uma descrição de cargo precisa conter: Vídeo Análise, descrição e avaliação de cargos 31 • Título do cargo: nomenclatura utilizada para distinguir um cargo do outro e classificar cada cargo conforme natureza e característica da empresa. • Código do cargo: comumente as empresas que possuem sistemas informatizados atri- buem um código numérico para cada cargo, facilitando a administração do catálogo de cargos na empresa. • Missão do cargo: descreve-se na missão do cargo uma única frase que resume o que o cargo tem de mais importante; em outras palavras, justifica o motivo da existência do cargo na empresa. • Área ou departamento: é importante informar a que estrutura aquele cargo pertence, pois pode haver cargos iguais na empresa, mas que estão distribuídos em áreas dife- rentes. Por exemplo, um analista administrativo pode ter ocorrência em uma área de marketing e também em uma área financeira – por isso a descrição da área ou depar- tamento é fundamental. • Hierarquia: essa informação é útil para entender o nível de subordinação daquela posi- ção. É comum em descrições de cargo constar o desenho do organograma de que aquele determinado cargo faz parte. • Descrição: certamente essa é a informação mais importante do documento. Aqui estão elencadas todas as tarefas e as responsabilidades do cargo, conforme vimos anteriormente. • Especificação: pré-requisitos necessários para desempenho da função, como tempo de experiência e conhecimento, escolaridade exigida, formações técnicas desejáveis, entre outros. • Outras informações: o documento pode conter também informações que demonstrem que houve participação de outras pessoas na elaboração, bem como a data de publicação e as últimas datas de revisão. É importante que façamos uma reflexão para entendermos a utilização prática de uma descrição de cargos. Por meio dessa ferramenta, podemos entender a importância de cada cargo na empresa e estabelecer a remuneração adequada para tal. A descrição também serve de insumo para treinamento e desenvolvimento, demonstrando dados importantes na construção de programas nesse sentido. No processo de recrutamento e seleção, também utilizamos a descrição de cargo, buscando profissionais que correspondam às especificações definidas. Além disso, há um maior entendimento das carreiras dos colaboradores dentro da empresa e um melhor relacionamento entre os cargos, otimizando os resultados esperados pela organização. 3.3 Diretrizes para a descrição de cargos Agora que já conhecemos os conceitos basilares de um sistema de remune- ração e também entendemos a logística de um plano de remuneração e carreira, vamos nos aprofundar um pouco mais na descrição e avaliação de cargos. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários32 Inicialmente é importante que entendamos a diferença entre os termos tarefa, função e cargo. Segundo Pontes (2013), tarefa é a atividade executada por um indivíduo em uma organi- zação, função é o agregado de tarefas atribuído a cada indivíduo e cargo é o agregado de funções substancialmente idênticas quanto à natureza das tarefas executadas e especificações exigidas. Podemos dizer que o termo função está diretamente relacionado com o serviço a ser execu- tado e cargo é o conjunto dessas funções somadas, desde que sejam similares no que diz respeito às exigências que se faz para alguém executar essas tarefas. Vamos exemplificar utilizando uma aplicação prática. A Figura 1 demonstra um exemplo de diferenciação dos termos. Figura 1 – Cargo, função e tarefa Cargo: é o conjunto de funções substancialmente idênticas quanto à natureza das tarefas executadas e às especificações exigidas dos ocu- pantes. Exemplo de cargo: secretária Função: é o agregado de tarefas atribuídas a cada indivíduo na organização. Funções da secretária: serviços de secretaria escolar, serviços financeiros e administrativos. Tarefa: é a atividade executada por um indivíduo na organização. Tarefas da secretária: atendimento a alunos, emissão de documen- tos, controle de pagamentos, entre outros. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2013, p. 44. É importante que essa diferenciação fique bem clara, pois é muito comum os termos serem utilizados como sinônimos – porém não são. O cargo sempre será definido pelo conjunto de funções similares executadas por um indivíduo e é por meio do cargo que definiremos o que esse indivíduo precisa ter ou saber para executar suas funções. Para que uma empresa possa funcionar, é necessário que as pessoas estejam posicionadas em seus devidos cargos e esses cargos estejam definidos conforme a estrutura organizacional. É como se a empresa fosse uma grande máquina e cada peça desse sistema fosse um cargo: essa engrena- gem precisa ter seu tamanho correto e desempenhar sua função nas especificidades adequadas para que a grande máquina se movimente. Conforme Hay Group (2017), há uma lógica para os cargos e as responsabilidades nas organizações. Primeiramente é necessário entender a formulação estratégica da empresa, a maneira que a organização escolhe para competir no mercado. Depois disso, na execução estratégica, Análise, descrição e avaliação de cargos 33 entendemos o modelo operacional, a forma pela qual a organização opta para entregar produtos e serviços ao mercado e alocar seus recursos e, finalmente, como cargos, equipes e organizações estão estruturados para realizar a estratégia. Figura 2 – Lógica de organização dos cargos Estrutura organizacional (cargos, equipes e responsabili- dades) Execução estratégica (modelo operacional) Formulação estratégica (posicionamento da empresa no mercado) Fonte: Elaborada pelo autor com base em Hay Group, 2017. Toda essa organização é feita por meio de uma análise dos cargos existentes na empresa. Nessa análise, os cargos são caracterizados e diferenciados, sendo, então, elaborada uma descrição que contém todas as tarefas inerentes ao cargo e também os pré-requisitos para que um indivíduo possa realizar as funções descritas. Depois desse processo, os cargos são avaliados e medidos. É nesse momento que descobriremos o tamanho dessa posição na empresa e determinaremos seu “peso” na estrutura organizacional: quanto se pagará, que tipo de critérios serão estabelecidos, entre outros quesitos que estudaremos a seguir. 3.4 Modelos de descrição de cargos Como você pôde perceber, existe uma série de recomendações para elaboração de uma descrição de cargos e por isso também há diversos modelos praticáveis. A seguir vamos conhecer alguns modelos de descrição de cargos elaborados por Carreira Muller (2018). Por meio desses modelos, conseguiremos ter um en- tendimento maior de como esse processo funciona na prática. O primeiro modelo que vamos analisar é a descrição de um cargo que não possui caráter espe- cialista, nem de gestão, conforme exposto na Figura 3. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários34 Figura 3 – Modelo 1 de descrição de cargo Cargo: Analista Operações Código: 0001 Departamento: Operações Área: Planejamento Papel: este cargo tem como missão principal responder pelocumprimento das linhas conforme programação e eventuais necessidades. Atividades Específicas: 1. Viabilizar as linhas programadas com eficácia, observando padrões de pontualidade, qualidade, segurança e regularidade. 2. Organizar viagens extras e especiais, com base em análise de demanda. 3. Controlar toda a frota em circulação, decidindo a retirada em operação de embarcações por ciclos de manuten- ção, junto com o superior. 4. Identificar eventos mais impactantes na operação, bem como programar a necessidade de embarcações e via- gens extras. 5. Reduzir a ocorrência de viagens improdutivas e a incidência de atrasos de viagens. Atividades Comuns: 1. Conhecer a visão, missão e valores da empresa, bem como os procedimentos internos e políticas preestabeleci- das. 2. Participar de treinamentos internos e externos, atendendo à orientação ou à solicitação efetuada pelo superior imediato, buscando o conhecimento e/ou especialização de assuntos inerentes aos negócios da empresa, área de atuação ou cargo exercido, bem como o aprimoramento e atualização técnica, visando ao desenvolvimento profissional e pessoal. 3. Atender às normas de segurança, higiene, disciplinares ou de outra natureza, estabelecidas pela empresa, se- guindo o regulamento estabelecido e as orientações do superior imediato, sanando qualquer dúvida a respeito, visando efetuar o cumprimento do regulamento vigente e incentivar, sendo exemplo de conduta para outros colaboradores da área em que atua. 4. Responsabilizar se e comprometer se pelo bom ambiente de trabalho, de modo que todos possam participar e contribuir para a otimização dos resultados propostos. 5. Prestar atendimento e realizar outras atividades profissionais correlatas e inerentes ao cargo exercido, conforme orientação e/ou solicitação do superior imediato. Escolaridade | Descrição dos requisitos acadêmicos JR PL SR Grau de Instrução Mínimo Superior Completo Superior Completo Superior Completo Grau de Instrução Desejável Superior Completo Superior Completo MBA Área de Estudo Administração Administração Administração Experiência Profissional | Experiência desejada para desempenho das funções JR PL SR Tempo 1 a 2 anos 2 a 4 anos 4 a 6 anos (Continua) Análise, descrição e avaliação de cargos 35 Vivência Profissional | Vivência desejada para desempenho das funções JR PL SR Custos e Orçamentos Desejável Desejável Desejável Competências Técnicas JR PL SR Idioma: Inglês Desejável Desejável Exigido Informática: MS Office Desejável Desejável Exigido Orçamento Desejável Exigido Exigido Políticas e Procedimentos Desejável Exigido Exigido Competências Comportamentais JR PL SR Análise Crítica x x x Comunicação x x x Planejamento x x x Iniciativa x x x Orientador x Liderança x Aprovações: RH: _____________________________ Gerência: _____________________________ Diretoria: _____________________________ Fonte: Carreira Muller, 2018, p. 4. A Figura 3 apresenta um modelo bastante usual, em que há o agrupamento dos diferentes níveis de cargo (Júnior, Pleno e Sênior) em uma mesma descrição. Nesse exemplo, temos a descrição de atividades específicas da função e também de responsabilidades comuns a todos os cargos da empresa, ou seja, condutas transversais que todos devem seguir. Nesse modelo, as competências técnicas e comportamentais são avaliadas de maneira separada e são utilizadas como critérios diferenciadores entre os níveis. O modelo 2, disposto na Figura 4, também é um modelo de um cargo base que não possui caráter de gestão. Veja com atenção os critérios apresentados. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários36 Figura 4 – Modelo 2 de descrição de cargo Cargo: Analista de Recursos Humanos Área: Recursos Humanos Missão: finalidade prioritária da posição. Motivo da existência do cargo na organização. Este cargo tem como missão principal contribuir na administração dos subsistemas da área de Recursos Humanos, envolvendo: departamento de pessoal, recrutamento e seleção e administração de benefícios, bem como prestar atendimento aos colaboradores para esclarecimento de dúvidas, visando ao cumprimento da legislação vigente e procedimentos internos. Atividades: atividades sob sua responsabilidade 1. Efetuar o apontamento de horas por meio das marcações de ponto eletrônico, registrando atestados e tratando divergências identificadas, para garantir a veracidade dos dados integrantes à folha de pagamento dos colabora- dores. 2. Desenvolver atividades inerentes à rotina trabalhista e relações trabalhistas, tais como: folha de pagamento, férias, rescisão contratual, homologações no sindicato, cálculo de encargos trabalhistas e administração de estagiários, visando ao pleno atendimento às exigências legais 3. Realizar o recrutamento e seleção de pessoal, captando candidatos, efetuando análise prévia por meio de contato telefônico e entrevista presencial, juntamente com a área solicitante. 4. Efetuar a integração de novos colaboradores, preparando os documentos necessários para admissão e fornecendo orientações inerentes às políticas de RH e procedimentos internos, a fim de garantir a integração deles no ambien- te de trabalho. 5. Administrar benefícios concedidos pela empresa aos empregados, providenciando a entrega e levantando informa- ções necessárias para manutenção (inclusões, alterações e exclusões), com a finalidade de assegurar o pagamen- to dos benefícios aos colaboradores. 6. Efetuar o levantamento de informações para composição dos indicadores de RH, tais como: absenteísmo e entre- vistas de desligamento, a fim de subsidiar a Diretoria. 7. Representar a empresa. 8. Prestar atendimento e suporte aos empregados e gestores, fornecendo informações e orientações aos assuntos relacionados à folha de pagamento, procedimentos e normas internas. 9. Participar de treinamentos e seminários que propiciem o aprimoramento e o aperfeiçoamento do conhecimento para assuntos ligados aos negócios da empresa, do próprio setor de atuação ou cargo exercido, objetivando me- lhoria contínua dos processos, bem como desenvolvimento profissional e pessoal. Formação: JR PL SR Grau de Instrução Mínimo Superior em andamento Superior Completo Superior Completo Grau de Instrução Desejável Superior Completo Superior Completo MBA Área de Estudo Administração, Psicolo- gia, Gestão de RH. Administração, Psico- logia, Gestão de RH. Administração, Psico- logia, Gestão de RH. Experiência: JR PL SR Tempo 1 a 2 anos 2 a 4 anos 4 a 6 anos Área/Cargo Recursos Humanos Recursos Humanos Recursos Humanos (Continua) Análise, descrição e avaliação de cargos 37 Conhecimentos: JR PL SR Gestão de Pessoas x x x Idioma: Inglês x x x Informática: MS Office x x x Legislação: Trabalhista e Previdenciá- ria x x x Técnicas de Recrutamento e Seleção x x x Segurança do Trabalho x x x Treinamentos: JR PL SR Legislação Trabalhista: Atualizações x x x Departamento Pessoal x x x Informática: MS Office x x x Técnicas e Ferramentas de Recruta- mento e Seleção x x x Comunicação x x x Revisão e Aprovação: Revisão nº: 001 Data: 01/02/2019 Natureza da revisão: descrição inicial Fonte: Carreira Muller, 2018, p. 6. Podemos verificar que nesse modelo não se faz distinção de competência técnica ou com- portamental, ambas estão dispostas no mesmo bloco. O que percebemos de diferente é que, além da formação acadêmica (graduação), o cargo exige treinamentos e atualizações na área de atuação. O documento ainda possui data de aprovação e revisão, o que sugere que de tempos em tempos essas atividades são revisitadas e a descrição, atualizada. O modelo 3, disposto na Figura 5, é um exemplo de descrição para cargos com especificida- des técnicas mais apuradas. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários38 Figura 5 – Modelo 3 de descrição de cargo Cargo: Desenvolvedor Área: Software Alfa Responsabilidades específicas: 1. Participar da análise e definição dos requisitos de software. 2. Auxiliar nas atividadesde soluções tecnológicas e propor novas tecnologias. 3. Fornecer suporte na definição dos componentes de software. 4. Realizar a integração de componentes ao sistema. 5. Auxiliar nas atividades de desenvolvimento de soluções de sistemas de apoio aos projetos desenvolvidos pelo INDT, tais como: provas de conceito, integração de sistemas/hardware e programas, testes, distribuição e arqui- tetura de projetos de software. 6. Desenvolver para os módulos de sistemas e interface com o usuário. Quando atuar em papéis específicos no projeto: Líder: 1. Liderar tecnicamente a equipe... 2. Verificar necessidade de... 3. Verificar necessidade de... Arquiteto: 1. Avaliar requisitos funcionais e de qualidade do sistema e interligá-los às soluções tecnológicas. 2. Analisar viabilidade tecnológica e identificar riscos técnicos. Responsabilidades comuns: 1. Praticar as orientações de segurança do trabalho, com base nas instruções e cursos de treinamento realizados pela área de Segurança, para a garantia das condições ambientais e de trabalho na empresa. 2. Participar de treinamentos internos e externos sempre que orientado ou solicitado pelo superior imediato, visan- do ao desenvolvimento profissional e pessoal por meio de aprimoramento e atualização técnica. 3. Responsabilizar se e comprometer se pelo bom ambiente de trabalho, de modo que todos possam participar e contribuir para a otimização dos resultados propostos. 4. Manter se atualizado quanto às mudanças e evoluções ocorridas na área, por meio da leitura de publicações especializadas, participações em cursos, seminários, congressos ou feiras, visando ao aperfeiçoamento profis- sional e ao conhecimento de inovações tecnológicas. Requisitos básicos: JR PL SR Formação Em curso Graduação completa Pós-graduação Área de estudo Engenharia de Computação Engenharia de Computação Engenharia de Computa- ção Tempo de experiência Não requerido 2 anos 4 anos Vivências 2 anos em pesquisa e áreas afins 5 anos em pesquisa e áreas afins e publicações 5 anos em pesquisa e áreas afins e publicações interna- cionais Liderança técnica Não requerido Sim Sim (Continua) Análise, descrição e avaliação de cargos 39 Habilidades Comportamentais: JR PL SR Satisfação do cliente 1 2 2 Aprendizagem contínua 2 2 2 Trabalho em equipe 2 2 2 Execução 3 3 4 Iniciativa 2 3 4 Comunicação 1 2 3 Visão estratégica 1 3 4 Gerenciamento de projetos 1 3 4 Legenda: 1. Raramente Presente 2. Eventualmente Presente 3. Permanentemente Presente 4. Marcante Habilidades Técnicas: JR PL SR Documentation 1 2 2 Rich UI 2 2 2 Kernel 2 2 2 Compilers 3 3 4 Device drivers 2 3 4 API Design 1 2 3 Legenda: 1. Raramente Presente 2. Eventualmente Presente 3. Permanentemente Presente 4. Marcante Idioma: Fala Escrita Leitura Inglês Avançado Avançado Avançado Espanhol Básico Intermediário Intermediário Aprovações: RH: ______________________________ Gerência: ______________________________ Diretoria: ______________________________ Fonte: Carreira Muller, 2018, p. 7. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários40 Além de uma criteriosidade maior para descrição dos requisitos e habilidades, o modelo exposto na Figura 5 utiliza uma escala de avaliação desses itens, demonstrando uma diferenciação entre os níveis de cargo (JR/PL/SR). Descrições de cargos especializados tendem a ser mais robustas para abarcar todos os pré-requisitos necessários ao desempenho da função. Por fim, o modelo 4, apresentado na Figura 6, traz a descrição de um cargo de gestão. Figura 6 – Modelo 4 de descrição de cargo Identificação: Cargo: Gerente Projetos Nível: 3ª Gerência Área: Projetos Organograma: Gerente de Projetos Diretor-geral Supervisor de Projetos Assistente de Projetos Analista (JR/PL/SR) Missão do Cargo: Este cargo tem como missão principal gerir a equipe de projetos, desenvolver e implementar melhorias nos pro- cessos, preservando a segurança, o meio ambiente, a qualidade do produto e otimizando a eficiência da fábrica. Responsabilidades de Gestão: Aplicar e fazer cumprir a missão, visão, valores e princípios da organização em sua área. Praticar a liderança de pessoas, mobilizando os esforços das equipes subordinadas para o alcance dos objetivos e estratégias da organização, criando oportunidades para o desenvolvimento contínuo e compatibilizando os interesses estratégicos da organização com os interesses dos profissionais liderados, a fim de promover a moti- vação para resultados de qualidade e produtividade. Responder pelos colaboradores alocados em sua área, aplicando, em parceria com a área de Recursos Humanos, todas as políticas, programas, técnicas e procedimentos estabelecidos quanto a recrutamento e seleção, políticas de remuneração e benefícios, treinamento e desenvolvimento pessoal, promoção de ambiente saudável e favorável à produtividade. Tomar decisões, considerando objetivos e estratégias empresariais, prioridades e valores, bem como potenciais efeitos da decisão tomada na estratégia da organização, objetivando a compreensão global de uma situação e a geração de soluções. Praticar a gestão integrada de processo, integrando projetos e planos de ação de sua área com as demais estra- tégias da organização, planejando as atividades de sua área considerando as demais áreas e gerindo os recursos, objetivando ganhos de produtividade e qualidade das operações. Promover a gestão de mudança, propondo novos projetos e tecnologias nas estratégias empresariais, identificando necessidades de mudanças frente aos desafios do negócio e gerenciando o processo de mudança, por meio de participação de seu planejamento e condução. Promover a organização e estabelecer relações “ganha/ganha” com os stakeholders (qualquer pessoa ou empresa que tenha interesse, ou seja, afetada pelas ações da organização), buscando o equilíbrio dos interesses nas nego- ciações em que participa, objetivando resultados satisfatórios para todas as partes envolvidas. (Continua) Análise, descrição e avaliação de cargos 41 Buscar continuamente o autodesenvolvimento profissional e pessoal, mantendo o conhecimento mínimo necessá- rio e exigido para participação do processo estratégico e desenvolvimento de suas atividades, bem como adquirin- do novos conhecimentos para o desempenho de suas funções e implantação das estratégias. Relacionar se com o mercado, fornecendo feedback e representando a empresa com a preocupação em preservar a imagem da organização, bem como propor e implementar ações de melhoria em função de informações obtidas no mercado. Responsabilidades Específicas do Cargo: Atuar na gestão das equipes de projetos mecânico, civil, elétrico e de automação, direcionando as prioridades, orientando, esclarecendo as dúvidas e acompanhando a execução dos trabalhos, a fim de garantir o atendimento da demanda, conforme padrões de qualidade e prazos estabelecidos. Realizar a gestão do custo do projeto, utilizando planilha específica de monitoramento e efetuando follow-up sema- nal com o sistema SAP, com o intuito de garantir o cumprimento da meta de custo do projeto. Gerenciar o projeto de reforma da fábrica, definindo os responsáveis por cada especialidade e área da fábrica, com o objetivo de assegurar que todos os itens estão sendo acompanhados, para a qualidade dos trabalhos e o cumprimento do cronograma definido. Participar de grupos de melhorias para fluxo de pessoas, processos e produtos, por meio de brainstorming com equipes multidisciplinares, discutindo e identificando oportunidades de melhorias para a fábrica, a fim de buscar a melhoria contínua das atividades desenvolvidas. Atuar na elaboração do plano diretor da empresa para ampliação da fábrica, buscando evitar desperdícios e retraba- lhos, visando documentar o objetivo traçado e apresentar aos responsáveis o processo predefinido. Participar de reuniões gerenciais, semanalmente, para conhecimento das principais ocorrências, a fim de compar- tilhar as melhores práticas e interagircom os demais gestores da empresa. Indicadores de Resultados: • Cumprimento do cronograma de projetos. • Cumprimento do orçamento previsto de projetos. Requisitos do Cargo: Formação Escolar – Mínima: Ensino Superior; Desejável: Pós-Graduação. Experiência – Acima de 8 anos em gestão de equipe e gestão de projetos. Requisitos: 1. Assertividade 2. Criatividade e inovação 3. Empreendedorismo 4. Gerenciamento de crises 5. Liderança 6. Negociação 7. Orientação para resultados 8. Gerenciamento de projetos Revisão e Aprovação: Revisão nº: 001 Data: 01/02/2019 Natureza da revisão: descrição inicial Fonte: Carreira Muller, 2018, p. 10. Podemos notar que essa descrição exposta na Figura 6 é bastante completa, demonstrando o organograma da área para que se tenha noção dos graus de subordinação do cargo e também as Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários42 responsabilidades específicas da área e as de gestão. Há ainda a definição dos indicadores a serem geridos e entregues por essa posição e também o agrupamento dos requisitos técnicos e compor- tamentais em um único bloco. É importante salientar que não existe uma regra geral para o formato ideal de uma descrição de cargo. A escolha do modelo vai depender dos objetivos, das características da empresa e princi- palmente da estratégia que esta for adotar no momento de elaborar seu catálogo de cargos. 3.5 Métodos de avaliação de cargos Depois de analisar e descrever os cargos, inicia-se a etapa de avaliação. A avaliação das posições determina a importância dos cargos para a empresa, e os critérios podem ser definidos sob vários pontos de vista. Vamos, agora, entender um pouco mais desse processo e conhecer os modelos mais usuais de avaliação de cargos. Avaliar cargos e definir sua importância na estrutura organizacional é uma tarefa bastante desafiadora e que precisa estar embasada em critérios seguros e justos. Independentemente do modelo a ser adotado, é importante que ao final do processo de avaliação tenhamos as seguintes garantias, conforme Franco (2008): • Não haja interferências pessoais na hierarquização dos cargos na estrutura. É sempre im- portante lembrar que estamos avaliando cargos e não os indivíduos que os ocupam. • As réguas de avaliação sejam as mesmas para todos os cargos. É necessário estabelecer um padrão nos critérios adotados. • A real percepção de todos os envolvidos com relação aos ganhos de avaliar cargos e organizá-los. Ao fim do processo, é importante que toda a empresa perceba que a hie- rarquização foi construída de maneira idônea e alinhada aos objetivos organizacionais. Comumente os cargos são avaliados pelo que chamamos de áreas de avaliação, que são cri- térios de pesagem e diferenciação entre as posições. Franco (2008) divide essas áreas em: • Área mental: determinará os conhecimentos necessários, técnicos e práticos. Alguns fatores comumente medidos: instrução, conhecimento, experiência, iniciativa e complexidade das tarefas. • Área de responsabilidades: determinará que tipo de responsabilidades são atribuídas ao cargo. Os fatores mais comuns avaliados são: responsabilidades por erros, supervisão, materiais, valores e decisões. • Área física: determinará a razão do esforço físico e da energia que o ocupante do cargo deverá mobilizar. Os fatores comumente avaliados são: esforço físico, concentração visual, monotonia das tarefas e habilidade manual. • Área de condições de trabalho: determinará o nível de dedicação e adaptação do cargo considerando a penosidade e a periculosidade. Os fatores mais comuns a serem avaliados são: ambiente de trabalho e riscos de trabalho. Vídeo Análise, descrição e avaliação de cargos 43 As principais áreas para avaliação de cargos são as áreas “mental” e de “responsabilidades”. Normalmente as metodologias utilizadas partem desses princípios. Existem basicamente dois grandes métodos de avaliação de cargos que as empresas utilizam atualmente: métodos não quantitativos e métodos quantitativos. Há um terceiro método conhe- cido como sistêmico, desenvolvido por grandes consultorias que têm direitos de uso reservados. O Quadro 1 demonstra um resumo dos principais métodos. Quadro 1 – Métodos de avaliação Método Tipo/Modelo Não quantitativos (globais) 1. Escalonamento 2. Grau predeterminado Quantitativos (analíticos) 1. Pontos Sistêmicos 1. Metodologia Hay 2. Metodologia Towers 3. Metodologia Mercer 4. Metodologia Carreira Muller Fonte: Adaptado de Franco, 2008, p. 82. A seguir, vamos conhecer rapidamente cada um desses métodos e entender a usualidade de cada modelo no contexto organizacional. O escalonamento é o método mais simples em que os cargos são comparados de maneira global e hierarquizados conforme dificuldades, responsabilidades e requisitos.O escalonamento pode ser simples, sem um critério muito preciso e hierarquizado por meio de um consenso em comitê de avaliação próprio. O escalonamento também pode ser por comparação binária ou por comparação de pares. Nessa modalidade, é construída uma matriz que compara os graus de im- portância entre os cargos e determina um sinal (+) ou (-) para cada posição; ao final, são somadas as quantidades de sinais para determinar a pesagem do cargo. Tabela 1 – Método pontos por escalonamento CARGO An al is ta d e cu st os An al is ta d e la bo ra tó rio A rq ui vi st a A ud ito r i nt er no A ux ili ar d e pe ss oa l Co m pr ad or Da til óg ra fo En ge nh ei ro d e pr oc es so s Es to qu is ta M ot or is ta Se le çã o de p es so al Se cr et ár ia p or tu gu ês Se cr et ár ia b ilí ng ue Te le fo ni st a TOTAL Analista de custos + + - + - + - + + + + + + 11 Analista de laboratório - + - + - + - + + - + - + 8 Arquivista - - - - - + - - - - - - + 3 Auditor interno + + + + + + - + + + + + + 13 Auxiliar de pessoal - - + - - + - - + - - - + 5 Comprador + + + - + + - + + + + + + 12 (Continua) Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários44 CARGO An al is ta d e cu st os An al is ta d e la bo ra tó rio A rq ui vi st a A ud ito r i nt er no A ux ili ar d e pe ss oa l Co m pr ad or Da til óg ra fo En ge nh ei ro d e pr oc es so s Es to qu is ta M ot or is ta Se le çã o de p es so al Se cr et ár ia p or tu gu ês Se cr et ár ia b ilí ng ue Te le fo ni st a TOTAL Datilógrafo - - - - - - - - - - - - + 2 Engenheiro de processos + + + + + + + + + + + + + 14 Estoquista - - + - + - + - + - - + + 6 Motorista - - + - - - + - - - - - + 4 Seleção de pessoal - + + - + - + - + + + - + 10 Secretária português - - + - + - + - + + - + + 7 Secretária bilíngue - + + - + - + - + + - + + 9 Telefonista - - - - - - - - - - - - - 1 Fonte: Adaptada de Franco, 2008, p. 82. O método de graus predeterminados se baseia na descrição prévia de graus crescentes em dificuldades, e os cargos-chave são classificados conforme esses graus. O Quadro 2 apresenta um esquema com alguns exemplos de graus e classificação de cargos. Quadro 2 – Método graus predeterminados Grau 1 Cargos simples e não especializados. Grau 2 Cargos operacionais em nível de auxílio. Grau 3 Cargos especializados de baixa complexidade. Grau 4 Cargos especializados de média complexidade. Grau 5 Cargos especializados de alta complexidade. Grau 6 Cargos de liderança em nível de coordenação. Grau 7 Cargos de liderança em nível de gerência. Grau 8 Cargos de liderança em nível executivo. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Franco, 2008, p. 85. O sistema de pontos é o método mais usual entre as empresas, pois permite que um nú- mero grande de cargos seja avaliado por meio de alguns fatores predefinidos. Esses fatores são determinados conforme as áreas de avaliação que vimos anteriormente. Para cada fator é definida uma relação de quesitos, e os cargos são pontuados por cada quesito que possuem. Quanto mais complexo um cargo for, maior será sua pontuação em quesitos.Por meio dessa somatória final, é realizado um ranqueamento de todos os cargos. Inicialmente é necessário definir quais são os fatores de avaliação e a pontuação para cada um deles. A Tabela 2 apresenta uma exemplificação de fatores e quesitos a serem avaliados e sua respectiva pontuação. Análise, descrição e avaliação de cargos 45 Tabela 2 – Sistema de pontos Classificação Descrição Pontos Escolaridade A Ensino fundamental 20 B Ensino médio incompleto 32 C Ensino médio completo 50 D Superior incompleto 80 E Superior completo 126 F Especialização 200 Experiência A Sem experiência 20 B Até 1 ano 29 C De 2 a 3 anos 43 D De 4 a 5 anos 63 E De 6 a 7 anos 93 F De 8 a 9 anos 136 G Acima de 10 anos 200 Complexidade A Atividades operacionais, simples e repetitivas com instruções detalhadas e sob supervisão direta. 20 B Atividades operacionais de média complexidade atuando como suporte dos níveis de análise e gestão. Trabalha sob supervisão moderada. 32 C Atividades técnicas de baixa complexidade e que necessitam de mínima baga- gem de conhecimentos e habilidades para a execução do trabalho. 50 D Atividades técnicas de alta complexidade e habilidade para a execução do traba- lho. O profissional é autônomo tecnicamente. 80 E Atividades de gestão dos recursos materiais, humanos, processos, prazos e desafios para a realização do trabalho. Operacionaliza as decisões estratégicas. 126 F Atividades são de gestão dos recursos materiais, humanos, processos, prazos e desafios para a realização do trabalho. Participa e auxilia nas decisões estratégi- cas. Gerencia um número amplo de processos. 200 Autoridade administrativa A Não tem autoridade administrativa. 20 B Tem autoridade administrativa em nível de profissional especialista. 43 C Tem autoridade administrativa em nível de coordenação. 93 D Tem autoridade administrativa em nível de gerência. 200 (Continua) Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários46 Classificação Descrição Pontos Nível de atuação A Auxílio 20 B Sistematização 43 C Análise 93 D Gestão 200 Fonte: Elaborada pelo autor. No exemplo da Tabela 2, temos cinco fatores definidos com base nas áreas de avaliação: escolaridade, experiência, complexidade, autoridade administrativa e nível de atuação. Cada fator possui uma relação de quesitos com suas respectivas pontuações. Ao avaliar o cargo, precisamos classificá-lo conforme grau de avaliação de cada quesito. Veja na Tabela 3 um exemplo de cargos classificados com base nos fatores da Tabela 2. Tabela 3 – Ranqueamento de cargos Cargos KH técnico Fatores de avaliação PontosKH prático Nível complex. Lib. ação Magnitude 1 Administrador / Presidente F F F D D 936 2 Diretor administrativo financeiro F D F D D 863 3 Gerente nacional de vendas E E F D D 819 4 Gerente de contas F D E D D 789 7 Gerente geral de produto E D E D D 716 8 Coordenador de controladoria E E E C D 638 9 Coordenador de logística E D E C D 608 10 Coordenador de marketing E D E C D 608 11 Coordenador de produto E D E C D 608 15 Coordenador regional de vendas E D E C D 608 16 Coordenador de treinamento E C E C D 588 17 Supervisor interno de vendas E D D B D 512 18 Analista comercial SR E E D B C 435 19 Analista de contabilidade E E D B C 435 20 Analista de controladoria E E D B C 435 24 Analista de marketing e planejamento E D D B C 405 25 Especialista em desenvolvimento de mercado E D D B C 405 26 Analista de departamento pessoal E D C B C 376 30 Analista de marketing E C D A C 362 34 Analista financeiro (contas a receber) E D C A C 353 35 Analista de compras E C C A C 332 36 Analista de suporte e infraestrutura de TI E C C A C 332 (Continua) Análise, descrição e avaliação de cargos 47 Cargos KH técnico Fatores de avaliação PontosKH prático Nível complex. Lib. ação Magnitude 37 Analista fiscal E C C A C 332 38 Auxiliar financeiro E C C A B 283 39 Técnico de atendimento de vendas E C B B A 264 40 Técnico de produtos E C B B A 264 41 Faturista D C C A B 236 42 Controlador de estoque C C C B B 230 45 Assistente de vendas projetos D B C A A 199 46 Promotor de vendas C B C A B 193 51 Cozinheiro B C B A B 170 52 Auxiliar de expedição (expedição) A B C A B 163 53 Auxiliar de expedição (separação) A B C A B 163 60 Conferente II A B B A A 121 61 Conferente I A B A A A 109 62 Embalador A B A A A 109 63 Separador I A B A A A 109 64 Auxiliar de Cozinha A A A A A 100 Fonte: Elaborada pelo autor. Nessa avaliação hipotética, os cargos da empresa foram avaliados conforme os fatores inicialmente definidos e receberam uma pontuação de acordo com a somatória de quesitos. Perceba que o cargo com maior pontuação foi administrador/presidente da empresa e o com menor pontuação foi o cargo de menor complexidade, auxiliar de cozinha. Os métodos sistêmicos foram elaborados por grandes consultorias da área de remuneração e são métodos próprios e licenciados por essas empresas. Normalmente são muito parecidos com o sistema de pontos, porém cada um possui sua particularidade. Como você pode notar, existem diversos modelos de avaliação de cargos. Não há uma regra específica para definição do melhor método, é sempre importante avaliar qual deles é mais afim à necessidade da empresa. Considerações finais Neste capítulo, pudemos explorar de maneira prática todos os itens relacionados ao cargo: sua análise, descrição e avaliação. A compreensão de todo esse sistema é fundamental para a próxima etapa de nossos estudos do plano de remuneração e carreira, pois abordaremos os temas relacionados aos salários desses cargos. Pudemos perceber que um cargo não é apenas uma nomenclatura utilizada na organização, mas sim um componente fundamental do sistema de remuneração e que tem grande importância na definição das estruturas organizacionais, de sua efetividade e consequentemente nos resultados obtidos pelas empresas. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários48 Ampliando seus conhecimentos • Você já deve ter ouvido falar na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). O Ministério do Trabalho publicou, em 1977, uma relação das atividades profissionais desempenhadas no Brasil e uma breve descrição de suas atividades. Essa classificação é utilizada em várias determinações legais de nosso país. Por isso a leitura e o conhecimento do sistema de CBOs é bem importante. MINISTÉRIO DO TRABALHO. Classificação Brasileira de Ocupações – CBO. Informações gerais. Brasília, DF: [201-]. Disponível em: http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/ informacoesGerais.jsf;jsessionid=HrS4J7FG2lOddMkYXn94tkE6.slave18:mte-cbo. Acesso em: 24 mar. 2019. • Citamos na subseção de métodos de avaliação de cargos o método sistêmico, idealizado por algumas grandes consultorias da área de remuneração. Como estudo complementar, é importante o conhecimento dessas empresas, pois em um contexto empresarial elas possuem forte atuação. As principais são: KORN FERRY. Los Angeles, USA: 2019. Disponível em: https://www.kornferry.com/. Acesso em: 24 mar. 2019. WILLIS TOWERS WATSON. Soluções: grupo de consultoria internacional. London, UK: 2018. Disponível em: https://www.towerswatson.com/pt-BR/Services/our-solutions/ global-services-and-solutions. Acesso em: 24 mar. 2019. MERCER. New York, USA: 2019. Disponível em: https://www.mercer.com/. Acesso em: 24 mar. 2019. CARREIRA MULLER. Indaiatuba, SP: 2018. Disponível em: http://carreira.com.br/. Acesso em: 24 mar. 2019. Atividades 1. Explique e exemplifique a diferença entre tarefa, função e cargo. 2. Quais perguntas devem ser respondidas na descrição de um cargo? Exemplifique. 3. Qual é o método de avaliação de cargos mais utilizado e como ele funciona? Referências CARREIRA Muller. Guia prático: modelos de descrição de cargos. Indaiatuba, SP: Carreira Muller, 2018. Disponível em: http://conteudo.carreira.com.br/modelos-de-descricao-cargos-2018/. Acesso em: 24 mar. 2019. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba:Iesde Brasil, 2008. HAY GROUP. Treinamento: gestão de carreira e recompensa. São Paulo: Hay Group, 2017. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários: carreiras e remuneração. 16. ed. São Paulo: LTR, 2013. 4 Pesquisa de remuneração Neste capítulo, vamos conhecer o processo de pesquisa de remuneração e entender como essa coleta de dados auxilia as organizações na construção de suas estratégias em gestão de pessoas. Os resultados de uma pesquisa de remuneração geram uma série de reflexões e tomadas de deci- são que nortearão o posicionamento de mercado das empresas. Por essa razão, é fundamental nos aprofundarmos em todos os quesitos dessa etapa do sistema de remuneração. Pesquisar seu mercado de atuação é uma das necessidades mais latentes para posiciona- mento estratégico de uma empresa. É necessário entender o que seus concorrentes e mercados de referência estão praticando e em que velocidade estão se desenvolvendo para definir a posição em que a organização quer se estabelecer nessa corrida empresarial. Olhar para fora é uma maneira de alcançar o equilíbrio externo e interno da empresa e garantir maiores resultados e competitividade. 4.1 Tipos de pesquisa de remuneração Como já vimos anteriormente, dois fatores são de extrema importância em um sistema de remuneração: o equilíbrio interno e o equilíbrio externo. O equilí- brio interno pode ser obtido por meio da análise, descrição e avaliação de cargos. Existem ainda outras práticas que garantem essa estabilização, vamos conhecê-las no decorrer deste estudo. Já o equilíbrio externo é obtido pela análise do ambien- te externo da empresa. Nesse contexto, são analisadas as práticas de gestão dos concorrentes e dos mercados em que a organização atua. Essa tarefa é realizada por meio de uma pesquisa de remuneração. Os salários devem obedecer a um duplo equilíbrio, interno e externo. Em outros termos, deve haver compatibilidade de salários na organização (equilíbrio in- terno) e no mercado (equilíbrio externo). O equilíbrio interno é garantido pela avaliação e classificação de cargos. O equilíbrio externo é obtido por pesquisas salariais para verificar o que o mercado de trabalho está pagando. A pesquisa salarial se baseia em amostras de cargos que representam os demais cargos da organização e em amostras de empresas que representam o mercado de traba- lho. (CHIAVENATO, 2014, p. 258) A pesquisa de remuneração é um trabalho mais amplo que a pesquisa salarial, pois são verificados todos os aspectos do sistema remuneratório – e não apenas salários –, como também estrutura de cargos, benefícios, salários indiretos, práticas de gestão, entre outros. Segundo Carreira Muller (2015), existem algumas vantagens fundamentais no processo de pesquisa de remuneração: Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários50 • Diagnóstico salarial: o diagnóstico dos salários pagos pelo mercado referência avaliará a saúde (rentabilidade) da remuneração da empresa. • Política salarial: a pesquisa apoiará a construção das diretrizes de gestão de remuneração da empresa e apoiará no processo de atração e retenção de profissionais. • Práticas de remuneração: a pesquisa trará conhecimento da remuneração mensal, in- centivos (como PLR e bônus) e benefícios praticados no segmento e na região de atuação da empresa. • Indicadores: acompanhamento dos indicadores, práticas e tendências do mercado brasileiro. • Atualização de salários: a pesquisa possibilita a definição da estrutura salarial da empre- sa, bem como a manutenção dos salários praticados. • Objetivos estratégicos: valer-se de informações suficientes (provenientes do ambiente externo da empresa) para que a implantação de um programa de gestão de remuneração e carreira ocorra de maneira mais eficiente. Lembre-se de que a gestão de remuneração e carreira é um tema estratégico nas organiza- ções, e uma pesquisa assertiva é fundamental para uma atuação mais competitiva. [...] é justamente isso que a pesquisa de remuneração traz aos negócios: a pos- sibilidade de ter acesso a dados que apresentam o comportamento de empresas que farão com que você extraia informações de maneira inteligente e, baseado nelas, consiga colocar em prática uma gestão e remuneração mais estratégica. (CARREIRA MULLER, 2015, p. 5) A qualidade da pesquisa de remuneração está diretamente relacionada à metodologia uti- lizada. A amostra e os dados coletados precisam refletir o real cenário no qual a empresa está posicionada. De nada adianta uma tabulação com diversas empresas e muitos dados se essas infor- mações não forem relativas ao mercado de referência da organização. Como o principal aspecto a ser avaliado em uma pesquisa de remuneração é o salário, vamos nos ater um pouco mais nas tipologias e nos quesitos da pesquisa salarial. Segundo Franco (2008), existem dois tipos de pesquisa salarial: a pesquisa tradicional, que se baseia em comparações pelas nomenclaturas de cargos, e a pesquisa elaborada, que é feita por meio de avaliação e classificação de cargos. Na primeira, as análises dos aspectos de remuneração são realizadas cargo a cargo para que se obtenham as informações de cada um deles. Na segunda, as verificações são feitas por meio do desenho da curva salarial de cada empresa pesquisada e comparada à curva salarial da empresa em questão. Pontes (2013) também demonstra duas metodologias de coletas de dados que devem ser considerados antes de iniciar uma pesquisa salarial. O método mais comum é a pesquisa de salá- rios por cargo com incidência de frequência. Nesta são analisados puramente os salários recebidos na empresa e a frequência de cargos pesquisados. Pesquisa de remuneração 51 O outro método é mais específico e se dá por uma curva de maturidade. Nele se realiza a análise dos cargos e salários atrelados a algum critério específico de pesquisa ou fator de avalia- ção, como o tempo de formação acadêmica: quanto se paga para um engenheiro recém-formado e quanto se paga para outro engenheiro com mais tempo de formação. A escolha do critério de pesquisa dependerá dos objetivos da empresa na análise externa. Essa metodologia normalmente é utilizada para pesquisas mais direcionadas. Segundo Hay Group (2017, p. 28), as pesquisas salariais têm por objetivo “obter informações necessárias à comparação das estruturas de remuneração da empresa com os níveis praticados pelo mercado”. O valor agregado da pesquisa está diretamente relacionado à sua metodologia, podendo ser comparado, de maneira mais objetiva, aos salários por cargo, ou realizando uma compara- ção mais apurada, que leva em consideração as descrições desses cargos e seus respectivos posi- cionamentos na estrutura organizacional. Para essa segunda metodologia se exige mais tempo e maior investimento. As pesquisas salariais podem ser feitas por iniciativa própria da organização com seu conta- to direto ao mercado selecionado ou podem ser feitas por meio de uma empresa especializada que poderá apoiar a organização na tabulação e na interpretação desses dados. 4.2 Etapas de elaboração da pesquisa Independentemente do método selecionado, é importante conhecermos as etapas fundamentais de uma pesquisa de remuneração. Pontes (2013) define al- gumas fases a serem consideradas na elaboração da pesquisa, conforme mostra a Figura 1. Figura 1 – Fases da pesquisa salarial 1. Seleção dos cargos a serem pesquisados. 2. Seleção das empresas participantes. 3. Preparação do manual de coleta de dados. 4. Coleta de dados. 5. Tabulação dos dados. 6. Análise do resultado e recomendações. 7. Relatório aos participantes. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2013, p. 257. curva de matu- ridade: prioriza a experiência do profissional, com o cargo em segundo plano, para base de remuneração. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários52 Na seleção dos cargos que serão pesquisados, temos uma decisão muito importante a ser tomada: quais cargos devemos incluir na pesquisa.Essa definição não pode ser muito excessiva, o ideal é que sejam selecionados em torno de cinquenta cargos – se a pesquisa envolver todos os níveis da organização, esse número poderá ser maior. Segundo Chiavenato (2014, p. 274), “para não precisar trocar informações a respeito de todos os cargos, torna-se necessário selecionar os cargos de referência ou cargos amostrais (benchmark jobs)”. Ainda segundo o autor, para essa seleção são levados em consideração três critérios: • Pontos da curva: é importante que o cargo represente os vários pontos da curva (ou da reta salarial) da organização. • Setores: vários setores de atividade da organização devem ser representados na seleção dos cargos amostrais. • Mercado: a seleção dos benchmark jobs deve levar em consideração a facilidade do mer- cado em identificá-los. É importante que os cargos selecionados sejam representativos, tanto interna quanto exter- namente. São cargos universais que podem ser facilmente comparáveis entre as empresas a serem pesquisadas. A seleção também deve conter cargos de todas as classes salariais. A Figura 2 demons- tra alguns critérios a serem considerados para a seleção dos cargos. Figura 2 – Seleção de cargos Seleção dos cargos Número não excessivo Representativos de todas as classes salariais da estrutura salarial Que não apresentam grande variedade de tarefas Específicos Representativos interna e externamente Universais Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2013, p. 258. A etapa seguinte é a seleção das empresas participantes. Segundo Chiavenato (2014, p. 275), “da mesma forma, para não precisar trocar informações com todas as empresas do mercado, torna-se necessário selecionar empresas amostrais”. As empresas selecionadas formarão o universo de abrangência de mercado e serão o referencial da organização para tomadas de decisão nas questões remuneratórias. O principal critério para definição do mercado de referência é a disputa de mão de obra: com quais empresas e em que nível a organização concorre por profissionais? Essa é uma refle- xão necessária antes de segmentar a pesquisa. Chiavenato (2014) cita alguns critérios a serem avaliados na seleção do universo da pesquisa. Veja na Figura 3. Pesquisa de remuneração 53 Figura 3 – Critérios para seleção de empresas Localização geográfica Empresas que operam na mesma área territorial Tamanho Empresas do mesmo tamanho ou características. Política salarial Empresas cuja política salarial (mais ousada ou mais conservadora) seja inte- ressante para a organização. Ramo de atividade Empresas que atuam no mesmo ramo de negócio. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Chiavenato, 2014, p. 259. Além dos itens citados anteriormente, é necessário avaliar os níveis de cargo que estão sendo comparados. Segundo Carreira Muller (2015), devem-se também levar em consideração as estru- turas hierárquicas da empresa, olhar mais de um cenário. Os cargos dos níveis operacionais e administrativos de áreas de apoio, como RH, financeiro e fiscal, costumam concorrer no mercado regional, não necessaria- mente em empresas do mesmo segmento ou porte. Os cargos das áreas comerciais e técnicas, por sua vez, tendem a concorrer em um contexto regional mais amplo, porém, mais restrito no que diz respeito ao segmento de atuação da empresa. Já os cargos de níveis de gestão estão sujeitos a uma competição mais ampla, muitas vezes considerando oportunidades em cidades mais distantes, outros estados e até mesmo outros países. Por conta disso, variáveis como porte, faturamento e origem do capital passam a ser mais relevantes. (CARREIRA MULLER, 2015, p. 8) Depois de selecionadas as empresas, passamos para a etapa de preparação do manual de coleta de dados. Essa é uma etapa bem criteriosa, pois nesse momento serão definidas as infor- mações que a empresa tem interesse em colher em seu mercado de referência. É elaborado um questionário com a listagem de todos os cargos que estão sendo pesquisados e procura-se saber as médias salariais pagas para cada um deles, as datas-base de acordo e reajuste sindical, os benefícios praticados e as demais questões do sistema de remuneração – a esse questionário damos o nome de caderno de coletas. O tamanho e a criteriosidade do questionário vai depender dos interesses da empresa e das empresas de que ela tem maior carência. O caderno de coletas deve ser simples e conter informações relativas a seu preenchimento. Podem ser utilizadas ferramentas padrão, como planilhas e tabelas, ou tecnologia on-line, como plataformas e ferramentais específicos de pesquisa. É recomendável que nesse material constem informações de apresentação da empresa e também uma relação das empresas que se pretende contatar. A Figura 4 demonstra um resumo de um caderno de coletas padrão. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários54 Figura 4 – Caderno de coletas Conteúdo do caderno de coletas GabaritosApresentação Informações sobre benefí- cios e política salarial Relação dos cargos pesquisados Informações sobre data-base e reajustes salariais Relação das empresas participantes Informações sobre remuneração Instrução para preenchimento Descrições de cargo simplificadas Organograma Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2013, p. 261. Depois de elaborado o formato do caderno e/ou formulário, é o momento de ir para a práti- ca: a etapa de coleta de dados. As empresas que participarão devem ser previamente convidadas e, se necessário, pode ser feita uma visita presencial para explicar sobre os objetivos da pesquisa e dar as orientações necessárias. Como estamos tratando de informações criteriosas, é importante que o contato com as participantes seja bem pessoal, gerando confiabilidade na pesquisa e principalmen- te com a garantia de que as respondentes devolvam os formulários preenchidos. Depois da aplicação da pesquisa e do retorno dos dados, temos a etapa de tabulação dos dados, que é o tratamento estatístico das informações recebidas. A qualidade dessa etapa vai de- pender muito do formato utilizado no caderno de coletas. Os resultados dos itens de remunera- ção normalmente são organizados por média ou incidência de frequência, como o percentual de empresas que possuem plano de saúde ou a média do valor praticado em vale-alimentação. Já os salários são organizados de maneira mais específica, comumente por mediana e quartis. Para entendermos esses termos, vamos resgatar alguns conceitos de estatística. Mediana é uma medida mais robusta que a média, é o valor do meio em uma sequência ordenada de dados, que separa a metade maior e a metade menor de uma amostra. Já os quartis representarão em uma amostra uma medida de localização não central. Eles dividem os dados ordenados em quatro pares ou conjuntos, chamados primeiro quartil (Q1), segundo quartil (Q2), terceiro quartil (Q3). Q1 é o valor que faz com que 25% das observações sejam menores e 75% das observações sejam maiores; Q2 é a mediana; Q3 é o valor que faz com que os 75% das observações sejam menores e os 25% das observações sejam maiores (FRANCO, 2012). Vamos estudar esses temas mais a fundo no próximo capítulo. Por ora é importante entender que as informações de salário são colhidas com mais criteriosidade e a definição dos quartis e da mediana servirá de referência para o estabelecimento da tabela e estrutura salarial. Por isso a coleta de dados precisa ser preparada para a realização desse tipo de análise. A análise dos dados e a devolutiva às empresas respondentes são as últimas etapas da pesquisa. Na análise de dados, a empresa interpreta as informações recebidas e elabora sua es- tratégia de atuação no sistema remuneratório – vamos nos ater mais nessa análise na próxima seção deste capítulo. Já na devolutiva às empresas que participaram da pesquisa, é encaminhada uma tabulação muito parecida com a que a empresa patrocinadora tabulou para sua análise. Pesquisa de remuneração 55 É importantedivulgar essas informações para gerar credibilidade ao trabalho. Lembre-se de que a empresa precisará atualizar essa pesquisa esporadicamente e para isso contará com a contri- buição das empresas respondentes. 4.3 Interpretação e aplicação da pesquisa Uma pesquisa de qualidade é aquela definida com o método mais adequado às necessidades da empresa, com um mercado referência bem selecionado e um caderno de coleta elaborado de maneira coerente. Precisamos entender o que fazer com esses dados quando eles retornam e verificar a melhor maneira de tratar essas informações dentro da empresa. Devemos sempre lembrar que uma pesquisa de mercado não define as regras e diretrizes da empresa, ela apenas gera uma referência para que a organização decida que tipo de estratégia adotará na remuneração dos cargos pesquisados. É nesse momento de análise que se decide que tipo de salário será aplicado, por exemplo. Como verificamos, uma pesquisa serve como guia que permite o alinhamento da remune- ração e práticas para a organização. Quatro macroitens podem ser avaliados na interpretação e aplicação dos resultados de uma pesquisa, conforme Carreira Muller (2015): • Se a remuneração da organização está alinhada ao mercado: aqui são avaliadas as tabelas salariais praticadas na empresa e sua relação com o resultado da mediana e dos quartis de mercado. A empresa passa a definir, por exemplo, em quais áreas quer trabalhar com maior competitividade (acima da mediana e do Q3) e em quais posições quer ter uma abordagem salarial em um primeiro quartil (Q1). Lembre-se: a empresa não precisa ado- tar a mesma estratégia salarial para todas as áreas e cargos, tudo dependerá do tipo de profissional que se deseja atrair e reter e o quanto ela compete por essa mão de obra. • Se os programas de incentivo de curto prazo (PLR/bônus) estão adequados ao mercado: definir práticas de remuneração variável, bonificação ou participação de resultados tam- bém é uma decisão baseada no equilíbrio interno e externo. Assim como na análise de salários, a definição desses itens possui uma referência de mercado, tanto na decisão de praticar ou não esse tipo de remuneração quanto no “como” construir essas metodologias. • Se o pacote de benefícios oferecido pela organização é competitivo: em uma realidade de mercado em que os profissionais não avaliam apenas o salário nominal que receberão, mas também o total de recompensas e facilidades a que terão acesso, é importante conhe- cer o que o mercado tem praticado em relação a benefícios e recompensas. • Se o dimensionamento da sua mão de obra está alinhado ao segmento da empresa: este é um item bem importante da análise dos resultados da pesquisa de remuneração. Por meio da incidência dos cargos na pesquisa, é possível presumir a força de trabalho que as outras empresas utilizam para realizar suas tarefas. Pode ser que a performance de al- gumas áreas internas esteja comprometida pelo excesso ou pela falta de mão de obra. As reflexões possíveis por meio dos dados coletados auxiliam a empresa nesse diagnóstico. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários56 A pesquisa de remuneração é uma ferramenta muito poderosa para elaboração de uma es- tratégia de remuneração. Mas é importante sempre lembrarmos que a construção da estratégia não pode ser baseada apenas nos dados de mercado, é necessário tomar decisões levando em conta a visão, os valores, a cultura e os objetivos da organização. Considerações finais Como pudemos perceber neste estudo, a pesquisa de remuneração é uma ferramenta técnica de coleta de dados, mas que possui uma função extremamente estratégica. Vimos a importância de definir um instrumento de avaliação coerente e assertivo para garantia de resultados ricos em informações que vão subsidiar a definição de práticas internas nos quesitos de remuneração e o posicionamento da empresa no mercado. A pesquisa salarial é o item base para nosso próximo estudo, a definição de estruturas salariais. Ampliando seus conhecimentos • A revista Exame publicou uma pesquisa realizada pela empresa PageGroup com 6 mil funcionários de 513 cargos diferentes. O objetivo era analisar os profissionais, em 14 se- tores da economia, que tiveram mais aumento de salário. Recomenda-se a leitura dessa publicação para verificar na prática os itens de análise e avaliação de uma pesquisa, além de conhecer um panorama atual dos salários no Brasil. PATI, C. Pesquisa mostra as três carreiras campeãs de aumento salarial no Brasil. Exame, São Paulo, 15 jan. 2019. Carreira - Você S/A. Disponível em: https://exame.abril.com. br/carreira/pesquisa-mostra-as-tres-carreiras-campeas-de-aumento-salarial-no-brasil/. Acesso em: 24 mar. 2019. • A rede social (2010) retrata a história do criador do Facebook, Mark Zuckerberg (inter- pretado por Jesse Eisenberg). O filme mostra a vida desse rapaz que, de um simples ana- lista de sistemas, passa a ser um bilionário dono da rede social mais utilizada no mundo. Recomenda-se a obra para a reflexão sobre a competitividade de mercado e o posiciona- mento de uma empresa frente a seus concorrentes. Uma pesquisa de mercado está atre- lada ao conhecimento do ambiente externo da organização e esse filme retrata bem os aspectos de competitividade e segurança da informação. A REDE social. Direção: David Fincher. EUA: Sony Pictures, 2010. 1 vídeo (120 min), color. Pesquisa de remuneração 57 Atividades 1. Cite duas vantagens da realização de uma pesquisa de remuneração e exemplifique. 2. Qual é a diferença entre pesquisa de remuneração e pesquisa de salário? 3. Por que é importante realizar uma devolutiva às empresas respondentes, uma vez que elas são concorrentes da empresa patrocinadora da pesquisa? Referências CARREIRA Muller. Guia prático: pesquisa salarial. Indaiatuba, SP: Carreira Muller, 2015. Disponível em: http://www.resolution.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Guia_Pratico_Pesquisa_Salarial_Resolution. pdf/. Acesso em: 24 mar. 2019. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2008. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 2. ed. Curitiba, PR: Iesde Brasil, 2012. HAY GROUP. Gestão de carreira e recompensa. São Paulo: Hay Group, 2017. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários: carreiras e remuneração. 16. ed. São Paulo: LTR, 2013. 5 Estrutura salarial Agora que já conhecemos as principais características do processo de pesquisa de remunera- ção, vamos nos aprofundar em uma etapa de extrema relevância na gestão de remuneração e carreira nas empresas: a definição dos salários a serem pagos. Vamos entender a lógica de construção das estruturas salariais e sua usualidade na atração e na retenção de profissionais, bem como sua interfe- rência no posicionamento de mercado e na sustentabilidade financeira da empresa. Toda empresa precisa de profissionais qualificados e engajados para atingir seus resultados, e esses profissionais são cada vez mais cotados no mercado. Ter uma estrutura salarial justa e atra- tiva é uma prática muito importante para a retenção desses talentos. Um sistema de remuneração justo, com práticas alinhadas aos interesses da empresa e às expectativas dos colaboradores, é uma maneira eficaz de garantir esse equilíbrio. 5.1 Métodos de elaboração de tabelas salariais Depois de avaliados os cargos e realizada a pesquisa de remuneração, inicia- -se o processo de elaboração da estrutura salarial. A estrutura ou tabela salarial é um agrupamento de diferentes cargos em classes, às quais são atribuídas faixas de salários que servirão como base para a remuneração dos colaboradores na empresa. Na elaboração das tabelas salariais, são considerados dois fatores: (1) a es- truturação dos cargos previamente avaliados, conforme vimos no Capítulo 3; e (2) a pesquisa de remuneração realizada no mercado referência, tema que estudamosno Capítulo 4. O resultado desses dois processos é o insumo básico para determinar os salários a serem pagos na empresa. Além dos conhecimentos necessários para a avaliação de cargos e também para a tabulação da pesquisa, a estrutura salarial envolve o entendimento de alguns conceitos e termos técnicos que foram organizados no Quadro 1. Quadro 1 – Definição de termos utilizados na estrutura salarial Termos Conceitos Estrutura salarial É a organização de uma progressão salarial em função da crescente valorização dos cargos resultantes do processo de avaliação e pesquisa de mercado. Classe ou grau É o resultante de um agrupamento de cargos equivalentes e que terão tratamento salarial igual. Faixa salarial Corresponde a cada valor intermediário entre o mínimo e o máximo da classe/grau. Salário mínimo da classe/grau É a referência do menor salário da classe/grau. Corresponde ao valor mínimo que um empregado pode perceber em um cargo enquadrado na classe/grau. Vídeo (Continua) Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários60 Termos Conceitos Salário médio da classe/grau É o valor médio entre o menor salário e o maior salário da classe/grau. Corresponde ao valor da curva de referência na classe/grau, quando essa se encontra na média da faixa salarial, que é comumente aplicada. Salário máximo da classe/grau É a referência do maior salário da classe/grau. Corresponde ao valor máximo que um empregado pode perceber em um cargo enquadrado na classe/grau. Amplitude da faixa Corresponde à diferença monetária ou percentual entre o salário máximo e o salário mínimo da classe/grau. Fonte: Adaptado de Pontes, 2013, p. 291. As classes de uma tabela salarial definirão a importância do cargo na empresa de acordo com a posição que ele tem na organização. Normalmente as classes são definidas no momento da avaliação dos cargos. Durante esse processo, há uma avaliação e o ranqueamento dos cargos com maior ou menor peso para a empresa, conforme vimos no Capítulo 3. Já as faixas salariais vão determinar o salário a ser praticado pelo ocupante do cargo. Para um mesmo cargo podemos praticar diferentes salários, isso vai depender dos critérios que serão utilizados para transição nas faixas salariais. A definição das classes de uma estrutura salarial dependerá da quantidade de cargos exis- tentes na estrutura organizacional. Os cargos são organizados por grupos de equivalência, ou seja, cargos com graus de importância terão classes salariais comuns. Quanto mais cargos agrupados em um mesmo critério, menor será a quantidade de classes. O Quadro 2 demonstra um exemplo de agrupamento de cargos e definição de classes. Quadro 2 – Agrupamento de cargos em classe Classe Cargos 1 Operador de caixa Auxiliar de copa 2 Auxiliar de cozinha Auxiliar de serviços gerais 3 Assistente de atendimento Assistente de laboratório 4 Atendente Assistente de laboratório 5 Assistente acadêmico Assistente administrativo Fonte: Elaborado pelo autor. Já a definição da quantidade de faixas salariais dependerá da referência de valores obtidos por meio da pesquisa de remuneração. É nesse momento que temos a definição dos salários mí- nimo, médio e máximo. Lembra que na tabulação da pesquisa separamos os salários por quartis Estrutura salarial 61 e mediana? Pois bem, o Q1 (primeiro quartil) é a base para definição do salário mínimo, o Q2 ou mediana é base para definição do salário médio e o Q3 (terceiro quartil) é a base para definição do salário máximo. A Tabela 1 exemplifica a definição das faixas salariais. Tabela 1 – Faixas salariais Classe Amplitude de pontos Cargos Faixas salariais em reais A B C D E 1 100 - 116 Operador de caixa 1.225 1.281 1.340 1.402 1.462 Fonte: Elaborada pelo autor. Perceba que a faixa A é o salário mínimo da classe e também pode ser o Q1 da pesquisa salarial. Já a faixa C é o salário médio, ou a mediana da referência de mercado. A faixa E é o salário máximo a ser praticado, ou Q3 da referência de mercado. Podemos utilizar esse mesmo exemplo para avaliar a amplitude da faixa salarial, ou seja, a diferença (monetária ou em percentual) entre o maior e o menor salário. No caso do operador de caixa, a amplitude é de 19% e a diferença monetária, R$ 237,00 (R$ 1.462,00 – R$ 1.225). A ampli- tude também pode ser calculada entre classes: podemos analisar, por exemplo, a diferença entre o maior salário da empresa e o menor salário. A relação entre os salários de cada classe precisa ter uma ordem lógica. Quanto mais rele- vante a classe, maiores os salários praticados. Por isso, é necessário encontrar um equilíbrio ma- temático nessa estrutura: o salário máximo de uma classe deve estar próximo do salário mínimo da classe seguinte. Existem métodos estatísticos que podem ser utilizados nessa relação: trata-se da progressão geométrica e da progressão aritmética. Não nos deteremos nesses cálculos, porém é importante saber que a sequência que nos dará o intervalo dos grupos salariais é definida por essa lógica. Veja a seguir a fórmula para conhecimento. 1ª Fórmula: progressão geométrica a a n n 1 1− 2ª Fórmula: progressão aritmética R a a n n� � � 1 1 Em que: R = razão an = último termo a1 = primeiro termo n = número de termos totais Em continuidade ao nosso exemplo, a Tabela 2 demonstra a relação entre os salários de uma e outra classe: Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários62 Tabela 2 – Relação salarial entre classes Classe Cargos Faixas A B C D E 1 Operador de caixa 1.225 1.281 1.340 1.402 1.462 Auxiliar de copa 2 Auxiliar de cozinha 1.268 1.326 1.387 1.451 1.513 Auxiliar de serviços gerais Fonte: Elaborada pelo autor. Nesse exemplo, o valor de R$ 1.462,00 corresponde à faixa E da classe 1 (salário máximo da classe) e o valor de R$ 1.268,00 corresponde à faixa A da classe 2 (salário mínimo da classe). Perceba que o salário máximo da classe 1 é maior que o salário mínimo da classe 2 e isso acontece pela sobreposição de faixas. A sobreposição de faixas está presente toda vez que os salários de uma classe su- peram os salários dos grupos mais elevados na estrutura. [...] As sobreposições devem existir para compensar o desempenho superior de um empregado em relação a outro que está em um grau inferior. Vale ressaltar que a sobreposição de faixa precisa ser comedida, para que não haja grandes dificuldades na admi- nistração salarial da empresa. (FRANCO, 2008, p. 127) Podemos observar que a definição das classes e faixas está intimamente relacionada com as referências de salário de mercado obtidas por meio da pesquisa de remuneração. Esse é um item fundamental para elaboração da estrutura salarial, pois determinará o grau de adequação dos salários praticados pela empresa aos do mercado. Essa decisão envolve muitos fatores, visto que, além do posicionamento estratégico e da atração de profissionais, os salários praticados pre- cisam estar condizentes com a receita disponível para folha de pagamento. Portanto, a empresa não precisa praticar os salários resultantes da pesquisa; ela pode determinar um percentual de atuação com referência no mercado – essa dinâmica também é chamada de curva de referência. Uma empresa pode, por exemplo, decidir que trabalhará 20% acima da curva média de mer- cado, tendo uma política salarial mais agressiva, ou então pode trabalhar 15% abaixo da curva de mercado, tendo uma política salarial menos atrativa. A empresa também pode decidir para quais grupos de cargo terá uma abordagem mais ou menos agressiva – tudo isso dependerá de sua estra- tégia empresarial e da busca pelo equilíbrio interno e externo. Deve-se levar em consideração também o pacote de benefícios e o modelo de remuneração variável praticados pela empresa. Lembre-se do que estudamos no Capítulo 1: o salário é a remu- neração básica do colaborador, há de se considerar benefícios e incentivos salariais na composição da sua remuneração total. 5.2 Tipos de tabelas salariais A elaboração da tabela salarialdependerá do método de avaliação utilizado para classificação dos cargos. Vamos relembrar os métodos que estudamos no Capítulo 3 e na sequência definiremos os tipos possíveis de estrutura salarial para cada método. Vídeo Estrutura salarial 63 Conforme já abordado, existem basicamente dois grandes métodos de avaliação de cargos que as empresas utilizam atualmente: métodos não quantitativos e métodos quantitativos. As tabelas salariais utilizadas pelas empresas são desdobramentos desses dois métodos. Para relembrarmos, vejamos a organização desses métodos no Quadro 3. Quadro 3 – Métodos de avaliação Método Tipo/modelo Não quantitativos (globais) 1. Escalonamento 2. Grau predeterminado Quantitativos (analíticos) 1. Pontos Fonte: Adaptado de Franco, 2008, p. 82. A construção da estrutura salarial para os sistemas de avaliação não quantitativos (escalona- mento ou grau predeterminado) é bem simples, uma vez que o número de classes já foi determi- nado pela divisão de cargos por graus. Basta, então, definir as faixas salariais com base na pesquisa de mercado e nos métodos matemáticos que acabamos de conhecer. Vamos relembrar, por meio da Tabela 3, a exemplificação que utilizamos quando falamos de avaliação de cargos, só que agora com os salários inseridos. Tabela 3 – Tabela salarial Graus Descrição Mínimo em reais Médio em reais Máximo em reais Grau 1 Cargos simples e não especializados 2.075 3.200 3.720 Grau 2 Cargos operacionais em nível de auxílio 3.530 4.100 4.760 Grau 3 Cargos especializados de baixa complexidade 4.480 5.200 6.024 Grau 4 Cargos especializados de média complexidade 5.590 6.500 7.550 Grau 5 Cargos especializados de alta complexidade 6.880 8.000 9.300 Grau 6 Cargos de liderança em nível de coordenação 8.350 9.700 11.270 Grau 7 Cargos de liderança em nível de gerência 9.980 11.600 13.480 Grau 8 Cargos de liderança em nível executivo 11.790 13.700 15.920 Fonte: Elaborada pelo autor com base em Franco, 2008, p. 298. Já a construção da estrutura salarial para os sistemas de avaliação quantitativos (avaliação de cargos por pontos) é um pouco mais trabalhosa. Pontes (2013) define seis etapas para elaboração desse tipo de tabela: • 1ª Etapa – Cálculo do ajustamento da curva de referência: obtido pelo processo de ajus- tamento entre as variáveis salário e pontos. • 2ª Etapa – Determinação do número de classes do plano: determinar quantos agrupa- mentos de cargos em classe teremos na tabela. Supondo-se que a pontuação englobe cargos avaliados entre 100 e 186 pontos e que o número de graus desejados seja oito, a determinação dos pontos pelas classes poderá ser calculada por progressão aritmética ou geométrica. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários64 Tabela 4 – Determinação do número de classes do plano Classe Amplitude de pontos 1 100 - 116 2 117 - 136 3 137 - 159 4 160 - 186 5 187 - 218 Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2013, p. 302. • 3ª Etapa – Cálculo do ponto médio das classes: nesta etapa, deve ser calculada a média entre os pontos mínimos e máximos de cada grau, conforme Tabela 5, a seguir. Tabela 5 – Cálculo do ponto médio das classes Classe Ponto médio 1 108 2 127 3 148 4 173 5 202 Fonte: Elaborada pelo autor. • 4ª Etapa – Cálculo do salário médio das classes: nesta etapa, temos a definição do ponto de referência de cada faixa salarial. Estamos assumindo que a referência será situada no centro da faixa salarial. O cálculo pode ser realizado por meio de equação do ajustamento da curva de referência (método estatístico) ou utilizando a mediana definida na pesquisa salarial, conforme demonstrado na Tabela 6. Tabela 6 – Cálculo do ponto médio das classes Classe Amplitude de pontos Salário médio em reais Faixa C 1 100 - 116 1.340 2 117 - 136 1.387 3 137 - 159 1.563 4 160 - 186 1.766 5 187 - 218 2.048 Fonte: Elaborada pelo autor. • 5ª Etapa – Cálculo das faixas salariais: é a definição dos pontos mínimos e máximos da faixa salarial. Eles podem ser obtidos por meio do cálculo de um fator baseado em uma amplitude predeterminada, 15% entre uma faixa e outra, por exemplo. Ou pode-se utilizar a aplicação dos quartis, Q1 como salário mínimo e Q3 como salário máximo, conforme a Tabela 7. Estrutura salarial 65 Tabela 7 – Cálculo das faixas salariais Classe Amplitude de pontos Faixas salariais em reais A B C D E 1 100 - 116 1.225 1.281 1.340 1.402 1.462 2 117 - 136 1.268 1.326 1.387 1.451 1.513 3 137 - 159 1.352 1.454 1.563 1.680 1.806 4 160 - 186 1.500 1.628 1.766 1.916 2.079 5 187 - 218 1.740 1.888 2.048 2.222 2.411 Fonte: Elaborada pelo autor. • 6ª Etapa – Enquadramento dos cargos nas classes: os cargos devem ser enquadrados nas classes em função dos pontos recebidos no momento da avaliação, como apresentado na Tabela 8. Tabela 8 – Enquadramento dos cargos nas classes Classe Amplitude de pontos Cargos Faixas salariais em reais A B C D E 1 100 - 116 Operador de caixa 1.225 1.281 1.340 1.402 1.462 Auxiliar de copa 2 117 - 136 Auxiliar de cozinha 1.268 1.326 1.387 1.451 1.513 Auxiliar de serviços gerais 3 137 - 159 Assistente de atendimento 1.352 1.454 1.563 1.680 1.806 Assistente de laboratório 4 160 - 186 Atendente 1.500 1.628 1.766 1.916 2.079 Assistente de laboratório 5 187 - 218 Assistente acadêmico 1.740 1.888 2.048 2.222 2.411 Assistente administrativo Fonte: Elaborada pelo autor. Como pudemos perceber, a construção da tabela salarial por meio da metodologia de avaliação por pontos é um processo que exige conhecimentos técnicos e estatísticos bem específicos. Como o objetivo deste estudo é apenas conhecer os tipos de tabelas salariais, bem como os métodos e as diretrizes para elaboração e atualização, não vamos nos aprofundar nos cálculos. Contudo é importante que tenhamos uma visão gerencial de toda essa arquitetura salarial para que possamos ler e interpretar tabelas salariais em nosso cotidiano. 5.3 Atualização de tabelas salariais A elaboração e implantação da estrutura salarial é algo bastante desafiador, há um esforço bem grande em conciliar a estratégia da empresa com o equilíbrio de mer- cado. O grande objetivo desse processo é garantir uma política salarial competitiva e Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários66 que seja financeiramente viável para a empresa – o sucesso dessa prática se dará pela revisão e atuali- zação esporádica das estruturas salariais. É comum que a ausência de problemas imediatos gere um certo conforto, contudo, quando se trata de estruturas salariais, não podemos permitir que as informações fiquem defasadas. Por essa razão, é de suma importância que se estabeleça um calendário anual para que esse tema seja revisado. Comumente, as empresas revisam suas tabelas salariais levando em consideração alguns fato- res: (a) inflação sobre os salários praticados; (b) índice de reajuste proposto pelos acordos coletivos das classes profissionais; e (c) atualização da pesquisa salarial. Veja, a seguir, por que esses fatores devem receber atenção. a. Inflação sobre os salários praticados: a estrutura salarial da empresa deve sempre ter como referência os salários praticados pelo mercado, independentemente da política sa- larial adotada. Sabemos que a inflação tem grande influência sobre as finanças de uma organização, contudo os salários não crescem na mesma proporção desse índice. Por isso, utilizá-lo pode gerar um grau de defasagem a longo prazo. b. Índice de reajuste proposto pelos acordos coletivos das classes profissionais: anualmen- te os sindicatos estabelecem, nas convenções e nos acordos coletivos, um percentual de reajuste salarial a ser aplicado em todos os salários da categoria, e essa determinação precisa ser cumprida pela empresa. Contudo, no momento da aplicação do reajuste, a organização pode ou não atualizar as tabelas salariais com o mesmo índice. É importan- te esclarecermos que reajustar salários individuais ou de categorias específicas não é fator determinantepara atualizar as tabelas. Uma coisa é o salário individual do profissional, outra coisa é a estrutura salarial base da empresa. Vale novamente a reflexão de que a estrutura salarial precisa estar adequada com o mercado, e o reajuste sindical nem sempre acompanha o mercado. c. Atualização da pesquisa salarial: as empresas também podem, esporadicamente, atualizar a pesquisa salarial para entender como o mercado referência se comportou com relação aos salários praticados e analisar a necessidade de atualização ou não de suas referências internas. Quando se trata de atualização de estrutura salarial, essa sem dúvida é a alternativa mais adequada. Por isso, é fundamental que a pesquisa de remuneração seja um processo estruturado na empresa com ocorrência cíclica. Como pudemos refletir, a atualização das estruturas salariais é um processo de extrema impor- tância – e é necessário estarmos cientes de que não apenas os salários mudam, mas também todos os processos de gestão que estão correlacionados a estes, tais como: promoções e méritos, avaliação de desempenho, processo orçamentário, atração e retenção de talentos etc. Assim, o cenário ideal para atualização das estruturas salariais é a realização de pesquisas recorrentes gerando insumos e embasamento para as tomadas de decisão que afetam diretamente a competitividade e o resultado da empresa. Estrutura salarial 67 Considerações finais Por meio do estudo das estruturas salariais, pudemos perceber que existe uma lógica no estabelecimento de salários em uma empresa – não apenas no quesito estatístico e matemático, mas também nos impactos positivos que uma tabela competitiva e financeiramente viável pode gerar nos resultados de uma empresa. A construção e a implantação da política salarial é um processo de muita responsabilidade, desde a análise da pesquisa de remuneração até a escolha do método e atualização. Esse é um tema que exige atenção e precisa estar em pauta nos comitês de gestão de pessoas nas organizações. Por isso, é fundamental que saibamos realizar a leitura e a interpretação de todo o contexto técnico e estratégico. Ampliando seus conhecimentos • Este estudo elaborado em 2018 demonstra uma perspectiva de tendências e salários no Brasil, trazendo sinais da gradual recuperação do mercado de trabalho. É interessante ob- servar as tabelas salariais apresentadas no estudo, fruto de uma pesquisa salarial nacional e construídas com base nos conceitos que abordamos neste capítulo. HAYS. Análise de tendências e salários do Brasil 2018. Campinas, SP; São Paulo; Rio de Janeiro: Hays, 2018. Disponível em: https://www.hays.com.br/cs/groups/hays_common/@br/ @content/documents/digitalasset/hays_2134023.pdf. Acesso em: 24 mar. 2019. • A obra Administração salarial: a remuneração por competências como diferencial contri- buirá para as suas reflexões acerca das possibilidades de implantar dados, conceitos em fins remuneratórios. Aborda, de forma didática, o desenvolvimento das práticas de admi- nistração salarial e propõe uma metodologia para construir um sistema por competências. HIPOLITO, J. A. M. Administração salarial: a remuneração por competências como dife- rencial. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2001. • Este livro é um informe pronunciado por Karl Marx, em junho de 1865, nas sessões do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, e expõe os elementos essenciais para a construção da teoria da mais-valia. A leitura é recomendada para conhecimento das primeiras discussões sobre o estabelecimento de salários e reflexão sobre práticas salariais em um contexto histórico. MARX, K. Salário, preço e lucro. Trad. de: Paulo Ferreira Leite. 4. ed. São Paulo: Centauro, 2002. Atividades 1. Descreva quais fatores iniciais precisam ser considerados na elaboração de uma estrutura salarial. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários68 2. Como são definidos os salários mínimos e máximos a serem pagos para um determinado cargo na empresa? 3. Qual é a importância de realizar a atualização das tabelas salariais? Referências CARREIRA Muller. Guia prático: pesquisa salarial. Indaiatuba, SP: Carreira Muller, 2015. Disponível em: http://carreira.com.br/carreira_estudo/ebook-guia-pratico-da-pesquisa-salarial/. Acesso em: 24 mar. 2019. CARREIRA Muller. Correção de tabelas salariais. Indaiatuba, SP: Carreira Muller, 2016. Disponível em: http://carreira.com.br/correcao-de-tabela-salarial/. Acesso em: 24 mar. 2019. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2008. HAY GROUP. Gestão de carreira e recompensa. São Paulo: Hay Group, 2017. MERCER. Pesquisa de remuneração total 2018. São Paulo: Mercer Brasil, 2018. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários: carreiras e remuneração. 16. ed. São Paulo: LTR, 2013. WOOD JR, T.; PICARELLI FILHO, V. Remuneração e carreira: por habilidades e por competências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. 6 Gestão de benefícios Neste capítulo, abordaremos um tema de extrema relevância para o sistema de remuneração: os benefícios. Conheceremos a origem dos benefícios sociais e como foram difundidos no contexto empresarial. Também faremos uma breve reflexão sobre os tipos de benefícios e os modelos usuais de gestão. É importante que tenhamos ciência dessas práticas, pois cada vez mais as empresas têm utilizado os benefícios e as facilidades como estratégia de atração e retenção de talentos. O tema benefícios e facilidades tem tido considerável importância nas estratégias de remu- neração das empresas. Pontes (2013) reforça a importância desse componente, caracterizando-o como salário indireto no sistema de remuneração estratégica. Os profissionais não buscam apenas empresas que paguem os melhores salários, mas que também forneçam condições benéficas para o colaborador e seus familiares: um plano de saúde adequado, acesso a um programa de previdência complementar e insumos básicos como alimenta- ção e transporte. Empresas inteligentes têm investido recursos e energia nesse tema. Elas utilizam alternativas que geram segurança e qualidade de vida a seus empregados, práticas que aumentam os níveis de engajamento e tornam as organizações mais competitivas e responsáveis. 6.1 Origem dos benefícios sociais Os benefícios surgiram com o desenvolvimento empresarial após a Revolução Industrial. Inicialmente eram tidos como resultado de uma visão paternalista e uni- lateral, em que as empresas tinham preocupação em reter profissionais e diminuir rotatividade. Nesse contexto, podemos atrelar o desenvolvimento dessa prática listando algumas causas possíveis, conforme mostra a Figura 1. Figura 1 – Causas da origem e do desenvolvimento de benefícios Competição entre as organizações para atrair e manter talentos. Uma nova atitude das pessoas quanto aos benefícios sociais. Exigências dos sindicatos e dos contratos coletivos de trabalho. Exigências da legislação trabalhista e previdenciária. Meios lícitos de deduções de impostos e obrigações tributárias. Contribuição para o bem-estar dos colaboradores e da comunidade. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Chiavenato, 2014, p. 306. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários70 A partir dos anos 1980, as empresas americanas e europeias passaram a se dedicar a outros aspectos além da remuneração fixa. A competição para atração de profissionais no mercado fez com que as empresas buscassem diferenciais além do salário direto – e é nesse momento da história que percebemos uma mudança na abordagem de benefícios. Por outro lado, os profissionais passaram a valorizar outros aspectos além de salário no- minal e avaliar sua entrada e permanência nas empresas conforme os benefícios, tangíveis e intangíveis, oferecidos para eles e seus familiares. Os órgãos de classe, sindicatos e representantes dos trabalhadores passaram a exigirem negociações coletivas que benefícios além dos já oferecidos fossem mais difundidos e disponi- bilizados para os empregados. Em paralelo, o governo elaborou algumas iniciativas de incentivo fiscal para potencializar essa prática nas organizações. Atualmente os benefícios são usados como atrativos para as empresas reterem seus pro- fissionais. Explica Chiavenato (2014, p. 288) que “não basta remunerar as pessoas pelo seu tem- po dedicado à organização, isso é necessário, mas insuficiente”, corroborando a importância dos investimentos no pacote de benefícios. O autor pontua, ainda, que a remuneração fixa criada no século XX era somente para compensar o trabalho rotineiro e repetitivo existente, pois a época era de estabilidade e permanência. Mas, hoje, a remuneração fixa não tem esse poder de motivar o profissional, além de não ter a capacidade de estruturar os funcionários a partir dos interesses es- tratégicos da empresa. Assim, esse tipo de compensação não aumenta o comprometimento destes com a organização (CHIAVENATO, 2014). O que inicialmente era apenas um complemento na remuneração dos indivíduos, hoje é uma poderosa ferramenta. Benefícios não são apenas importantes para atração e retenção, mas também para gerar qualidade de vida e segurança aos colaboradores – o que obviamente tem reflexos nos resultados e na competitividade da empresa. 6.2 Tipos de benefícios Existem diversos tipos de benefícios e facilidades que podem fazer parte do pacote de remuneração indireta de uma empresa. Segundo Franco (2008, p. 139), “a remuneração indireta pode ser representada por pacotes de benefícios que não estão diretamente vinculados ao salário fixo ou variável, mas que compõem a remuneração total”. A seguir vamos conhecer brevemente os mais usuais. 6.2.1 Planos de saúde e odontológico Os planos de saúde/odontológicos ou convênios médicos são os benefícios mais comuns nas empresas. Depois da folha de pagamento, esta é a maior despesa com pessoal dentro de uma organização. • Modelos: existem três modelos usualmente praticados pelas empresas: (1) Medicina de Grupo: contratação de uma operadora de saúde que disponibilizará planos e rede creden- ciada para o atendimento médico dos colaboradores; (2) Seguro-saúde: contratação de Vídeo Gestão de benefícios 71 uma seguradora de saúde que disponibilizará, além dos planos, a possibilidade de reem- bolso para atendimentos que são realizados fora de sua rede credenciada; (3) Planos de Autogestão: modalidade em que a empresa contrata uma parceira (medicina de grupo ou seguradora) devidamente certificada pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) para administrar um plano próprio, sem utilizar os produtos disponibilizados no mercado. • Práticas comuns: normalmente as empresas estabelecem regras de subsídio dos benefí- cios, seja de maneira integral ou parcial, dependendo do critério adotado pela organiza- ção. Há ainda a possibilidade de extensão do plano aos dependentes legais do colaborador e ainda a continuidade no convênio depois do término do vínculo empregatício. • Importância na gestão de remuneração: planos de saúde empresariais são importantes para melhoria da qualidade de vida dos colaboradores. Ter um convênio médico gera maior segurança para o indivíduo. Além disso, a empresa pode estabelecer programas de gestão de saúde e atrelar o benefício ao controle de absenteísmo, prevenção de patologias e incentivo a uma vida mais saudável e equilibrada. Estender o benefício aos dependentes também é uma boa estratégia, pois demonstra a preocupação da empresa com o contexto familiar de seus empregados. O plano de saúde é sem dúvida um dos benefícios que mais gera engajamento e retenção nas organizações. 6.2.2 Alimentação A alimentação é um insumo básico no pacote de benefícios de uma empresa. Existe inclusi- ve um programa de incentivo fiscal do Governo Federal para que as empresas lhe disponibilizem recursos. • Modelos: existem cinco modelos usuais quando pensamos em alimentação: (1) restau- rante próprio na empresa; (2) vale-alimentação; (3) vale-refeição; (4) cesta básica; (5) con- vênios com restaurantes. • Práticas comuns: normalmente as empresas praticam um único modelo de benefício, subsidiando integral ou parcialmente as despesas com alimentação. Também podem combinar os modelos de benefício, disponibilizando, por exemplo, um restaurante local para alimentação diária e um valor mensal como vale-alimentação. • Importância na gestão de remuneração: no modelo de restaurante próprio, a empresa tem mais autonomia e amplitude para trabalhar com o benefício e cuidar de fato da ali- mentação de seus colaboradores. O acompanhamento nutricional permite que ações de incentivo a uma alimentação mais saudável sejam realizadas, e isso tem forte impacto na saúde e na qualidade de vida dos empregados. 6.2.3 Transporte O transporte, assim como a saúde e a alimentação, é um insumo básico e está relacionado à locomoção dos empregados até seus locais de trabalho. Por isso, a empresa tem certa responsabi- lidade nesse item. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários72 • Modelos: podemos citar quatro modelos usuais do benefício transporte: (1) vale-trans- porte: regulamentado pela Lei Federal n. 7.619/871, o empregador é obrigado a custear o transporte do empregado; (2) transporte fretado: disponibilização de transporte coletivo próprio, ônibus ou van, para locomoção dos empregados até a empresa; (3) carro: algu- mas empresas disponibilizam carros para certos cargos, normalmente posições de chefia e executivos; (4) reembolso de combustível. • Práticas comuns: no caso do vale-transporte, as empresas seguem o que está determi- nado no dispositivo legal, disponibilizam os créditos em cartão ou ficha (depende do sistema de mobilidade urbana da localidade), subsidiam o benefício e podem descontar do empregado até 6% de seu salário a título de coparticipação no benefício. Já no caso do transporte fretado, a empresa esquematiza uma rota que seja comum ao maior núme- ro de colaboradores possível e disponibiliza transporte coletivo em horários e caminhos preestabelecidos. Ela pode ou não subsidiar integralmente o benefício. Normalmente essa prática acontece na indústria para atender o público operacional dos turnos de trabalho ou em empresas localizadas em regiões que o transporte público não abrange. Há empre- sas que disponibilizam carros para seus empregados, entre os quais colaboradores que viajam pela empresa ou fazem representação comercial e executivos. Em relação a estes últimos, a prática é cada vez mais comum e, nesse caso, o benefício tem um sentido muito mais de status do que de necessidade de locomoção. Por fim, o reembolso de combustível, que pode estar atrelado à necessidade de viagens e/ou utilização de veículo próprio. • Importância na gestão de remuneração: o transporte é um benefício básico que gera segurança para os empregados, mas pode ser utilizado como ferramenta estratégica de atração, principalmente para o público executivo. 6.2.4 Seguro de vida É um dos benefícios mais comuns nas empresas. Trata-se de um tipo de seguro que garante ressarcimento econômico aos familiares em caso de falecimento do empregado. • Modelos: os modelos praticados pelas empresas se diferem na determinação do capital segurado. Em alguns, são utilizados múltiplos salariais e, em outros, valores fixos para o ressarcimento econômico. Há ainda a diferenciação de coberturas, seguro para morte natural, morte acidental, invalidez total ou permanente, entre outros. • Práticas comuns: comumente as empresas subsidiam integralmente o benefício, sem participação do funcionário. Há ainda algumas práticas que estendem o seguro para os familiares dos empregados. • Importância na gestão de remuneração: o seguro de vida traz tranquilidade e segurança para o participante. É um benefício que exige menos investimento econômico, mas que gera valor agregado na percepção dos colaboradores. 1 Você podeconferir a Lei Federal n. 7.619/87 pelo link: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7619.htm. Acesso em: 24 mar. 2019. Gestão de benefícios 73 6.2.5 Previdência complementar Programas de previdência privada ou previdência complementar são produtos financeiros que têm por objetivo complementar a renda do colaborador no momento de sua aposentadoria. • Modelos: existem dois modelos possíveis do benefício: (1) previdência complementar aberta, realizada por meio de parcerias com entidades financeiras independentes com produtos PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) e VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), que são as modalidades de plano de previdência complementar – após um pe- ríodo, permitem acumulação de recursos (período de diferimento) e proporcionam aos colaboradores participantes, ao fim do período de acumulação, uma renda mensal, que poderá ser vitalícia ou por prazo determinado; (2) previdência complementar fechada, realizada por meio de parcerias com entidades financeiras independentes ou com a fun- dação de uma instituição própria para administração dos planos – é o caso dos fundos de pensão, por exemplo. • Práticas comuns: existem diversos formatos de benefício. Os mais comuns se caracte- rizam pelo subsídio da empresa e coparticipação do empregado. Dessa maneira, o valor mensal a ser depositado no programa é formado por contribuições do colaborador, que podem ser definidas por um percentual de seu salário, e uma contrapartida da empresa, que comumente é o mesmo valor pago pelo empregado. As regras do benefício são ins- tituídas para cumprimento do objetivo previdenciário, isto é, a política de previdência privada é desenhada para que o colaborador tenha acesso aos valores somente na apo- sentadoria. Além disso, fatores como faixa etária e total de renda são considerados para definição das melhores práticas. • Importância na gestão de remuneração: este é um benefício que tem crescido muito no Brasil, principalmente porque a Previdência Social já não é suficiente para manter a renda dos trabalhadores na aposentadoria. Enquanto estratégia de remuneração indireta, um programa de previdência complementar é uma excelente ferramenta para atração e retenção de talentos. É um benefício que exige investimentos econômicos consideráveis por parte da empresa. 6.2.6 Incentivo à educação Trata-se da concessão de bolsas de estudos como incentivo à educação dos colaboradores. • Modelos: educação regular – graduação, especialização, mestrado ou doutorado – e edu- cação continuada – cursos de extensão, cursos profissionalizantes, idiomas, entre outros. • Práticas comuns: normalmente as empresas vinculam a concessão de bolsas de estudo às necessidades técnicas das áreas de atuação, subsidiando-as integral ou parcialmente. Pode-se atrelar o incentivo ao plano de desenvolvimento individual do colaborador, a fim de que a formação faça sentido tanto para a atividade da empresa quanto para a carreira do indivíduo. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários74 • Importância na gestão de remuneração: este é um item bastante importante, pois, além de gerar engajamento, traz um retorno positivo para a empresa, sendo uma maneira de esta investir e ampliar seu capital intelectual. É um benefício que exige investimentos eco- nômicos, por isso precisa ser desenhado com um foco estratégico. 6.2.7 Outros Além dos benefícios listados, podemos relacionar uma série de outras ações que as empresas têm realizado. Abaixo uma breve listagem dessas práticas usuais. • Farmácia: subsídio para compra de medicamentos. • Clube de vantagens: parceria com empresas para oferecer descontos aos colaboradores na aquisição de produtos e serviços diversos. • Estacionamento: subsídio para estacionamento ou oferta de estacionamento gratuito. • Check-up: check-up médico anual para ações de prevenção e diagnóstico de saúde dos colaboradores. • Academia: subsídio e incentivo à prática de atividade física, seja em academia, seja para esportes específicos. • Massagem e terapias: disponibilização de espaços e momentos na empresa para reali- zação de massagens e atendimento terapêutico, psicológico e de relaxamento, visando aumentar a qualidade de vida no trabalho. • Complemento auxílio-doença: salário extra para complementar a renda do colaborador na ocasião do afastamento por auxílio-doença. • Ampliação de licenças: extensão de licenças para além do prazo legal: licença-maternida- de, licença-paternidade, licença de óbito, entre outras. • Creche: disponibilização de creche em espaço próprio da empresa ou ajuda de custo men- sal para subsídio de creche ou babá. • Cultura: disponibilização de vale-cultura ou descontos e ingressos para espetáculos de arte, música, dança e teatro. • Entretenimento: promoção de ações de entretenimento e cultura dentro da empresa. • Salas de convivência: disponibilização de espaços para descanso e socialização dos empregados. • Home-office: possibilidade de realizar o expediente de trabalho em casa no modelo teletrabalho. • Day-off: concessão de folgas em datas específicas (aniversário, por exemplo) ou como contrapartida por atingimento de metas e objetivos. • Casual day: possibilidade de utilizar vestimenta menos formal em dias específicos. • Horário flexível: mobilidade na escala de trabalho sem a necessidade de seguir horários específicos, apenas cumprir a jornada diária estabelecida. • Empréstimo consignado: concessão de empréstimo para desconto em folha de pagamen- to via instituição financeira parceira ou diretamente com a empresa. Gestão de benefícios 75 • Crédito extra: disponibilização de cartões com função crédito como contrapartida para metas e objetivos atingidos. • Alternativas criativas: compreendem todos os esforços criativos das empresas de recom- pensar seus empregados, com bônus, premiações e condições diferenciadas conforme cri- térios e estratégia adotados para determinada ocasião. 6.3 Modelos de gestão de benefícios A administração de benefícios é, sem dúvida, um grande desafio para as empresas. É necessária uma gestão bem eficaz para que o sistema se torne susten- tável. Além disso, a composição do pacote de benefícios deve fazer sentido para as necessidades da empresa e o perfil de seus funcionários. Nesse contexto, podemos destacar dois modelos usuais de gestão de be- nefícios. O primeiro deles é a abordagem tradicional em que cada benefício é administrado de maneira isolada sem uma visão sistêmica; já o segundo trata do pacote de benefícios flexíveis (em rede) e possibilita que o colaborador escolha o tipo de benefício que deseja ter dentro das possibilidades que a empresa lhe oferece. A grande tendência nesse caso é a flexibilização dos benefícios. Na forma mais tradicional, os benefícios variam de acordo com o nível hierárquico. Na forma flexibilizada, cada colaborador escolhe o “pacote” de benefícios de acordo com suas necessidades e preferências, com base nas alternativas disponíveis. A flexi- bilização maximiza o investimento da empresa em benefícios, proporcionando uma alocação mais racional de recursos e um aumento do valor percebido pelo colaborador. (WOOD JR.; PICARELLI, 2004, p. 52) Chiavenato (2014) destaca dois pontos de atenção na hora de construir o pacote de benefícios: o primeiro deles é o princípio do retorno do investimento que considera que as liberalidades concedi- das pela empresa precisam lhe trazer alguma vantagem – seja no aumento de produtividade, elevação de moral, melhora da qualidade, retenção de talentos ou qualquer outro indicador. O outro ponto é o princípio da mútua responsabilidade, em que pessoas cooperam entre si para um bem comum e nesse caso ele é aplicado no patrocínio do benefício – muitas empresas pagam o valor total, contudo é sempre importante que o colaborador participe, mesmo que com uma parcela mínima. Existem três abordagens na estratégia de remuneração que podem ser utilizadas para defini- ção do modelo de benefícios. Veja quais são elasna Figura 2. Figura 2 – Abordagens para definição de modelo de benefícios Abordagem de pacificação Abordagem comparativa de benefícios Abordagem de benefícios mínimos Fonte: Elaborada pelo autor com base em Chiavenato, 2014, p. 311. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários76 Na abordagem de pacificação, os benefícios são definidos conforme necessidade e expectati- va dos colaboradores. Já na abordagem comparativa, o pacote de benefícios é desenhado com base na pesquisa de remuneração do mercado referência, ou seja, são oferecidos benefícios muito pare- cidos com os dos concorrentes. Por fim, na abordagem de benefícios mínimos são disponibilizados apenas os produtos previstos em lei ou por meio de convenção ou acordo coletivo de trabalho. Bons exemplos práticos da utilização dessas abordagens são os pacotes de benefícios fle- xíveis – que vêm ganhando notoriedade nas práticas de gestão de remuneração. Nesse modelo, a empresa avalia os benefícios mínimos e os que oferece por liberalidade (independentemente da abordagem de pacificação ou comparativa) e estabelece um total em dinheiro ou em pontos por cargo/empregado. Os colaboradores têm, então, a possibilidade de escolher os benefícios a que vão aderir com esse total em dinheiro/pontos conforme suas reais necessidades. Não há uma receita específica para administração de benefícios ou um modelo ideal de competitividade. O que deve ser considerado na escolha da abordagem – ou até mesmo na combi- nação delas – é o equilíbrio entre as necessidades das pessoas e as possibilidades da empresa. Considerações finais Pudemos refletir, por meio deste estudo, sobre a importância dos benefícios no sistema de remuneração. Eles têm efeitos tangíveis e intangíveis que estão relacionados ao grau de satisfação com a empresa, engajamento no trabalho, percepção de respeito e segurança, qualidade de vida, entre outros. Por essa razão, esse item tem tido especial atenção nos investimentos das empresas, tendo sido usado inclusive como moeda de troca nas negociações coletivas de trabalho. Alternativas criativas são cada vez mais comuns e essa ferramenta tem mudado as relações com o ambiente de trabalho, por isso devemos sempre acompanhar essas iniciativas, que têm uma contribuição importante para a melhoria dos resultados da empresa e geram bem-estar aos cola- boradores e à comunidade. Ampliando seus conhecimentos • A revista Exame publicou um estudo em nível nacional que demonstra os principais in- centivos oferecidos pelas empresas a seus colaboradores. A leitura é importante para cor- roborar o entendimento de que essa é uma prática cada vez mais utilizada para atração e retenção de talentos nas organizações. SALOMÃO, K. Os principais benefícios oferecidos por empresas brasileiras. Exame, São Paulo, 17 set. 2015. Negócios. Disponível em: https://exame.abril.com.br/negocios/os- -principais-beneficios-oferecidos-por-empresas-brasileiras. Acesso em: 24 mar. 2019. Gestão de benefícios 77 • A revista Valor econômico publicou recentemente uma matéria que retrata as dificuldades das empresas em manter os planos de saúde empresariais, visto que o setor de saúde tem tido índices de inflação médica bastante altos – o que exige maiores investimentos na área e adoção de alternativas criativas pelas organizações. A leitura é recomendada por fomen- tar uma reflexão sobre os esforços necessários para que as empresas possam realizar uma gestão eficaz de benefícios de maneira sustentável. MACIEL, L. Os malabarismos das empresas para cortar custos com plano de saúde. Valor econômico, São Paulo, 20 jun. 2018. Disponível em: https://www.valor.com.br/empre- sas/5609355/os-malabarismos-das-empresas-para-cortar-custos-com-plano-de-saude. Acesso em: 24 mar. 2019. • Em entrevista à revista Valor econômico, a diretora de recursos humanos da Google Brasil, Mônica Santos, fala sobre as práticas de gestão de pessoas adotadas pela empresa que fi- zeram com que fosse uma das mais desejadas para se trabalhar no Brasil. Recomendamos assistir ao vídeo por demonstrar as alternativas criativas elaboradas para retenção e atra- ção de talentos no quesito benefícios e facilidades. COMO É TRABALHAR no Google. [S. l.: s. n.], 2014. 1 vídeo (4 min e 44 seg). Publicado pelo canal Valor Econômico. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gg4GH- Goqu3o. Acesso em: 24 mar. 2019. Atividades 1. Escolha três benefícios e discorra sobre a importância deles na gestão de remuneração e carreira. 2. Como funciona o modelo de benefícios flexíveis? 3. Quais são as abordagens de estratégia de remuneração que podem ser utilizadas para defini- ção do modelo de benefícios? Explique brevemente cada uma delas. Referências CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2008. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários: carreiras e remuneração. 16. ed. São Paulo: LTR, 2013. WOOD JR, T.; PICARELLI FILHO, V. Remuneração e carreira: por habilidades e por competências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. 7 Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo Em continuidade ao estudo dos componentes do sistema de remuneração, abordaremos neste capítulo as práticas inerentes aos incentivos salariais que compõem a remuneração total do colaborador. Também assimilaremos o conceito de remuneração variável, reconhecendo os mo- delos aplicáveis e seu contexto prático: regras gerais de elegibilidade, formas, ciclos de pagamento, aspectos legais, entre outros. Esse é um tema bastante difundido nas organizações, principalmente nas empresas de mé- dio e grande porte. Por isso, é fundamental que conheçamos esses conceitos. 7.1 Tipos de remuneração variável: ICP e ILP A remuneração variável e os incentivos a curto e longo prazo têm mudado significativamente a maneira como o mercado se comporta quanto à remunera- ção. O que anteriormente era uma prática muito comum apenas na área de ven- das, passou a ser difundida em todas as áreas das organizações. As empresas entenderam que poderiam remunerar seus colaboradores com base no atingimento de metas – o que seria benéfico tanto para a organização, pois melhoraria seu resultado, quanto para o colaborador, que passaria a ter acesso a recursos além de seu salário fixo. Os incentivos também aumentam o grau de comprometimento dos empregados, visto que, para o recebimento dos adicionais, os objetivos definidos precisam ser atingidos. Remuneração variável é a parcela da remuneração total creditada periodicamente – trimes- tral, semestral ou anualmente – a favor do colaborador. Antes de dialogarmos sobre os tipos de re- muneração variável, é importante resgatarmos um conceito trabalhado no primeiro capítulo deste livro. Quando estudamos a composição do sistema remuneratório, pudemos notar que a remune- ração percebida pelo colaborador é formada pela soma de três quesitos: remuneração básica ou salário-base, incentivos e benefícios, conforme a Figura 1. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários80 Figura 1 – Remuneração total Salário + adicionais fixos SB Salário-base Incentivos Salário + adicionais fixos TD Total em dinheiro Incentivos Benefícios Salário + adicionais fixos RT Remuneração total Fonte: Elaborada pelo autor. Quando falamos em remuneração variável, estamos nos referindo aos incentivos salariais que compõem o total em dinheiro pago aos colaboradores. Segundo Franco (2008 p. 138), “na remuneração variável a pessoa é remunerada em função da sua contribuição para o resultado da empresa e para a continuidade do negócio”. Assim sendo, podemos dizer que a parcela de incentivos salariais é baseada na contratação de metas e objetivos do empregado, enquanto a parcela de salário fixo é um reflexo do valor acordado em contrato de trabalho. A remuneração variável não é novidade. Sempre foi muito comum oemprego desse tipo de remuneração para profissionais de vendas (bônus e comissões), executivos (bônus), e pessoal operacional (prêmios), no entanto mais recen- temente passou a ser mais adotada para todos os profissionais da empresa [...] A remuneração variável, desde que interligada aos objetivos empresariais, é a principal modalidade de remuneração estratégica, porque incentiva o “ganha- -ganha” organizacional. (PONTES, 2013, p. 377) Remunerar com base em metas predefinidas pode ser uma maneira muito inteligente de otimizar os resultados e os recursos de uma organização, contudo é uma prática que exige geren- ciamento contínuo e transparência. Se todos trabalham para o atingimento de metas e objetivos, é importante que todos conheçam claramente os resultados de seu trabalho. Nesse contexto, o compliance (agir de acordo com as regras) e a segurança da informação se tornam aspectos importantes para o controle de incentivos salariais. Sua má administração pode gerar risco para a empresa, enquanto sua gestão eficaz potencializa os ganhos empresariais. A maioria das organizações paga seus colaboradores na base de salários men- sais, pois isso reduz riscos tanto para o empregador quanto para o colaborador. Outras optam por valores flexíveis para cargos elevados, como presidentes e diretores (em função dos resultados operacionais) e vendedores (na base de comissões de vendas). A Apple adota a remuneração flexível para obter vanta- gens para a empresa e para os funcionários, pois eles preferem salários baixos em troca de ações da companhia. Claro, muitos deles ficaram milionários ou bilionários desde a década de 1980. Os gerentes de lojas da Walmart trabalha- ram durante anos em troca de salários baixos e ações da companhia e não se arrependeram. Ficaram ricos. (CHIAVENATO, 2014, p. 261) Ainda em conformidade com Chiavenato (2014), podemos citar quatro macro-objetivos na instituição de um programa de remuneração variável: (1) alinhar a remuneração variável com Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 81 a conquista de resultados; (2) avaliar o desempenho em uma base quantitativa e mensurável; (3) atrelar a remuneração variável ao desempenho tanto individual quanto coletivo; (4) garantir o foco na criação de valor no longo prazo, recompensando ao mesmo tempo as metas tangíveis de curto prazo. A Figura 2 ilustra a remuneração total. Figura 2 – Remuneração total Desempenho individual e coletivo Apuração em base quantitativa Objetivos Foco em curto e longo prazo Conquista de resultados Fonte: Elaborada pelo autor com base em Chiavenato, 2014, p. 285. Entendidos os conceitos e o contexto de remuneração variável, podemos então definir dois tipos (ou dois modelos) aplicáveis: o ICP, incentivo a curto prazo, e o ILP, incentivo a longo prazo. Os incentivos de curto prazo (ICPs) são pagamento feitos em um intervalo ou frequência não superior a doze meses. Normalmente são utilizadas para essa prática de remuneração a parti- cipação nos lucros ou resultados e a bonificação anual. Vamos conhecer melhor esses programas nas seções seguintes do capítulo. Já os incentivos de longo prazo (ICP) são instituídos para estimular o colaborador a alcançar metas e resultados em um tempo também maior. São práticas comuns: stock options, bônus diferi- do e previdência privada. Veja, a seguir, a descrição de cada uma delas. • Stock options: é um modelo muito comum nos Estados Unidos que trata da possibilidade de o colaborador comprar um lote de ações da empresa por determinado valor. O direito da compra é estabelecido por um prazo previamente determinado. • Bônus diferido: é um bônus com valor predefinido de recebimento postergado, corri- gido ou não por algum índice (inflação, por exemplo). São programas que remuneram os participantes por um período superior a 12 meses, dependendo do desempenho do colaborador elegível e/ou da performance da empresa. Normalmente, os critérios de performance (ou retenção) são estabelecidos no início do ciclo (de 3 a 5 anos) e avalia- dos no fim do período. A remuneração concedida ao executivo pela organização depen- derá do cumprimento de regras predeterminadas. • Previdência privada: já conhecemos esse modelo no capítulo anterior, quando tratamos de benefícios. Além de benefício, a previdência complementar também pode ser caracte- rizada como incentivo a longo prazo, uma vez que sua natureza é monetária e seus objeti- vos previdenciários são alcançados em um longo período de tempo. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários82 Os ILPs são utilizados em estratégias específicas de retenção, principalmente no âmbito exe- cutivo. Já os ICPs são práticas mais comuns e extensivas a todos os níveis profissionais da estrutura organizacional. Vamos conhecer mais detalhadamente esses modelos a seguir. 7.2 PLR: participação nos lucros e resultados A participação nos lucros é um sistema pelo qual as empresas distribuem anualmente certa proporção de seus lucros ou resultados para seus colaboradores. É a forma mais comum de remuneração variável, visto que no Brasil há uma legis- lação que ampara essa prática. A participação nos lucros ou resultados (PLR) foi prevista no texto da Constituição de 1988, no artigo 621 da CLT e ratificada pela Lei n. 10.101, de 20001. A intenção do legislador era incentivar as empresas a aplicar essa prática por meio de acordos coletivos ou comis- sões escolhidas pelas partes, enfatizando o princípio do “ganha-ganha”. Antes da legislação, as empresas que já tinham o hábito de distribuir seus lucros acabavam pagando um valor menor para seus empregados em virtude da incidência de encargos trabalhistas no montante a ser distribuído. Diante desse cenário, o dispositivo legal flexibilizou a incidência de impostos, o que fez com que esse tipo de programa fosse cada vez mais comum. Outro fator anterior à legislação e que inibia a PLR era o risco de caracterização do “direito de habitualidade” – se a empresa alcançasse os resultados em um ano e no outro não, corria o risco de ser obrigada a realizar o pagamento, mesmo não tendo essa margem em lucro. A legislação foi bem positiva para que os trabalhadores não ficassem sem esse tipo de remuneração variável. O processo macro da PLR é bem simples: inicialmente a empresa precisa negociar e forma- lizar a prática com os colaboradores – e com representação sindical da categoria. São definidas, então, as apurações de lucro e resultado da empresa, desenhadas as metas para esse atingimento e desdobrada essa estratégia para toda a organização. A Figura 3 demonstra um processo para a participação nos resultados da empresa. Figura 3 – Processo para a participação nos resultados da empresa Não há pagamento Distribuição dos lucros ou resultados Lucro ou resultado da empresa Positivo Resultado da equipe Negativo Positivo Negativo Não há pagamento Fonte: Elaborada pelo autor com base em Pontes, 2013, p. 398. 1 Veja o texto da Lei na íntegra em: http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/LEIS/L10101.htm. Acesso em: 25 mar. 2019. Vídeo Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 83 Perceba que, apesar de todos os empregados participarem do programa, as metas podem ser desenhadas por áreas e a apuração pode ou não gerar o pagamento. Na prática, cada trabalhador representa um resultado diferente e o pagamento também poderá ser com valores diferenciados. Há alguns pontos complementares que comumente geram dúvidas. Vale um breve esclarecimento: • Obrigatoriedade: a PLR é um tipo possível de remuneração variável e não necessaria- mente uma obrigatoriedade da empresa. Só existe exigência legal caso haja previsão em Acordo Coletivo de Trabalho. • Natureza salarial: como vimos, a PLR é um tipo de incentivo salarial, não sendo ca- racterizada como salário fixo. Por não se tratar de salário, não incidem sobre essa parcela tributos, encargos previdenciários ou trabalhistas. • Plano de PLR: é um documento que descreve todasas metas, regras e indicadores de desempenho que implicam o pagamento dos valores. Todos os colaboradores são elegí- veis e esse plano deve ser negociado entre a empresa e o representante dos trabalhadores, normalmente sindicato. • Periodicidade: normalmente a apuração das metas é anual, porém o pagamento pode ser realizado em mais de uma parcela. De acordo com a lei, deve ocorrer no máximo duas vezes por ano. A PLR é um tema relativamente novo no Brasil, por isso nem todas as empresas possuem um programa estruturado de distribuição. Esse tipo de remuneração variável é muito importante, visto que é um incentivo de curto prazo que serve de instrumento eficaz para integração entre o capital e o trabalho, estimulando a produtividade da organização. 7.3 Bônus e gratificações A prática de bonificação é muito comum nas empresas, visto que seu paga- mento é comumente associado ao atingimento de alguma meta ou objetivo propos- to, o que facilita a gestão de performance e promove a meritocracia. Segundo Pontes (2013 p. 382), “bônus é uma forma de remuneração variável que tem como base um plano de resultados a ser atingido”. Normalmente a bonifi- cação é realizada anualmente, o valor apurado é oferecido aos colaboradores elegíveis ao programa em função da sua contribuição nos resultados da empresa. O desempenho pode ser medido por critérios de lucratividade, aumento de participação no mercado, melhoria de processos e produtividade, entre outros. Comumente são estabelecidas metas físicas (atingimento de clientes ou quantidade de venda de produtos), metas financeiras, de qualidade e também de inovação. Há alguns modelos que inserem questões de desenvol- vimento humano e organizacional, como a pesquisa de clima organizacional e engajamento, a avaliação de desempenho, as competências individuais, entre outros. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários84 Existem dois modelos comumente utilizados nos programas de bonificação: (1) plano tradi- cional de metas definidas e; (2) plano de bônus flexível (economic value added - EVA). 1. Plano tradicional de metas definidas: esse modelo se baseia na definição de um valor piso e de um valor teto para recebimento do bônus. Há uma régua definida para atin- gimento dos objetivos atrelado ao valor monetário já estabelecido. Nesse modelo, não se punem os baixos desempenhos da companhia, nem se reconhecem os desempenhos acima das métricas propostas, visto que o plano estabelece um valor definido e limitado. 2. Plano de benefício flexível (EVA): diferencia-se do primeiro modelo por estabelecer me- tas flexíveis que não possuem piso ou teto para pagamento. EVA (economic value added) é um modelo de gestão e remuneração por incentivos. Segundo Chiavenato (2014 p. 289), “o objetivo é maximizar o valor criado pela empresa pela mudança da cultura corporativa para que os gerentes pensem, ajam e sejam recompensados como se fossem acionistas da empresa”. Por meio desse modelo, os gerentes podem analisar cadeias de valor e determinar metas e objetivos para a empresa. É como se eles fossem coproprietários da organização. Se o executivo ou gerente atinge a meta estabelecida, ele ganha a bonificação programada; se ele não atinge, fica com saldo devedor para o próximo ciclo; e se ele supera, fica com saldo credor na próxima apuração. O primeiro modelo é o mais usual, visto que há uma previsibilidade e controle muito maior. Já o segundo pode proporcionar elevação de resultados bem mais significativos para a empresa, porém exige uma sinergia efetiva entre todos os gerentes e administradores da organização. A prática de bonificação é algo positivo para as empresas, pois, conforme Pontes (2013 p. 382), “permite maior controle dos indicadores, melhoria contínua dos processos, otimização de custos, clareza nas metas da empresa e individuais, além de criar maior comprometimento dos profissionais no alcance das metas”. 7.4 Remuneração variável na prática Como pudemos perceber, existem vários modelos de remuneração variável (RV) e suas aplicações estão diretamente relacionadas às estratégias da empresa. Como a maior parte dos incentivos a curto ou longo prazo estão relacionados ao atingimento de objetivos, vamos exemplificar um sistema prático de apuração de metas para distribuição de RV. Neste exemplo (Figura 4), vamos analisar um modelo de bonificação anual de uma empresa fictícia (Grupo WB Indústrias) – lembrando que o bônus anual é um incentivo de curto prazo. Esses mesmos conceitos podem ser aplicados em um bônus diferido (incentivo a longo prazo) ou em uma PLR. Vídeo Figura 4 – Programa de bonificação anual do Grupo WB Indústrias Bônus atrelado à entrega de metas negociadas no início de cada ano fiscal. Objetivos do programa Para apoiar o atingimento das metas previstas no Planejamento Estratégico do Grupo WB Indústrias, foi definida a remuneração variável. Na busca pela eficiência, a estratégia de remuneração deve ser ancorada na realidade de ne- gócio e nas necessidades de seus colaboradores. Com isso, os objetivos do plano são: • ser parte integrante do ciclo de gestão do desempenho; • garantir a competitividade da remuneração diante dos desafios da organização; • otimizar o investimento em capital humano; • manter o equilíbrio interno e a competitividade externa; • orientar comportamentos e reconhecer diferentes performances. Público elegível São elegíveis à remuneração variável: gestores que atuam nas funções de pre- sidente, diretor, gerente e coordenador. Cargos Presidente Diretor Gerente Coordenador Premissas para avaliação de metas e resultados • Alinhamento com a estratégia: as metas devem estar alinhadas com as es- tratégias da organização e ter significado e impacto diante dos desafios do Grupo WB Indústrias. • Abrangência: as metas serão desdobradas para o público-alvo, visando ao envolvimento e ao comprometimento de todos. • Indicadores: as metas devem ser baseadas em indicadores. Elas devem ser objetivas, mensuráveis e avaliadas por uma única escala conhecida por to- dos os envolvidos. (Continua) (Continua) Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 85 Figura 4 – Programa de bonificação anual do Grupo WB Indústrias Bônus atrelado à entrega de metas negociadas no início de cada ano fiscal. Objetivos do programa Para apoiar o atingimento das metas previstas no Planejamento Estratégico do Grupo WB Indústrias, foi definida a remuneração variável. Na busca pela eficiência, a estratégia de remuneração deve ser ancorada na realidade de ne- gócio e nas necessidades de seus colaboradores. Com isso, os objetivos do plano são: • ser parte integrante do ciclo de gestão do desempenho; • garantir a competitividade da remuneração diante dos desafios da organização; • otimizar o investimento em capital humano; • manter o equilíbrio interno e a competitividade externa; • orientar comportamentos e reconhecer diferentes performances. Público elegível São elegíveis à remuneração variável: gestores que atuam nas funções de pre- sidente, diretor, gerente e coordenador. Cargos Presidente Diretor Gerente Coordenador Premissas para avaliação de metas e resultados • Alinhamento com a estratégia: as metas devem estar alinhadas com as es- tratégias da organização e ter significado e impacto diante dos desafios do Grupo WB Indústrias. • Abrangência: as metas serão desdobradas para o público-alvo, visando ao envolvimento e ao comprometimento de todos. • Indicadores: as metas devem ser baseadas em indicadores. Elas devem ser objetivas, mensuráveis e avaliadas por uma única escala conhecida por to- dos os envolvidos. (Continua) (Continua) Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários86 Metas globais As metas globais foram definidas considerando o atingimento de cinco fato- res: caixa operacional; receita líquida; qualidade; inovação; pesquisa de clima. Cada uma das metas possui um peso na composição do resultado global e também uma régua commínimo esperado, meta e desafio. Objetivos Peso Mínimo esperado Meta Desafio Caixa operacional (R$ mil) 30,00% 83,27 92,52 111,03 Receita líquida (R$ mil) 30,00% 1.244,29 1.309,78 1.440,76 Qualidade (%) 20,00% Mínimo último resultado Aumentar em 1pp o último resultado Aumentar 2pp a meta proposta Inovação (projetos específicos) 10,00% 80,00% 100,00% Não se aplica Pesquisa de clima (%) 10,00% 82,00% 84,00% 86,00% Metas individuais Cada participante do programa analisará, com a sua chefia, o desdobramento das metas globais e seu grau de responsabilidade para atingimento delas. Em seguida, será firmado um acordo de metas individuais. Composição do bônus O bônus corresponde ao pagamento do valor de cinco salários nominais para atingimento integral de todas as metas. O bônus será pago mediante atingimento das metas globais (metas gerais da empresa) e do atingimento das metas individuais (acordo específico de me- tas individuais acrescido do resultado da avaliação de desempenho), tal como mostra a Figura 4. Metas globais Acordo específico de metas individuais Avaliação de desempenho + As metas globais representam 50% do valor do bônus e as metas individuais compõem os outros 50%. (Continua) Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 87 Apuração de bônus anual Cargo Gerente de produção Salário R$ 30.000,00 Bônus possível (cinco salários nominais) R$ 150.000,00 Atingimento de metas globais 100% Atingimento de metas indivi- duais 80% Racional do cálculo de paga- mento (% atingimento metas globais x 50%) + (% atingimento metas individuais x 50%) x 5 salários nominais Cálculo de pagamento 100% x 50% + 80% x 50% x 150.000,00 Bônus a ser pago R$ 135.000,00 Fonte: Elaborada pelo autor. O programa de bônus exemplificado se baseia na combinação do atingimento das metas glo- bais da empresa com as metas individuais dos participantes. O valor teto a ser recebido é de cinco salários nominais e será definido conforme percentual de atingimento das metas. A utilização de múltiplos salariais como referência de pagamento para remuneração variável é uma prática bem comum no mercado. Perceba que na definição das metas globais da empresa existem pesos determinados para cada fator de avaliação. É como se cada critério desses tivesse um grau de importância no atingimento dos resultados como um todo. A ponderação de metas é também uma prática bastante comum. Podemos analisar, ainda nesse exemplo, que o bônus está baseado em uma elegibilidade de cargos, ou seja, apenas indivíduos específicos da organização participam do programa. Outra prá- tica bastante comum é a utilização da avaliação de desempenho para compor as metas individuais: não se avaliam apenas os resultados alcançados, mas também as competências e os desempenhos do profissional. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários88 Portanto, é importante analisar um programa de remuneração variável na prática, pois nos permite ter maior propriedade e entendimento dos conceitos anteriormente apresentados. Ressaltando que esse é um caso fictício, cada empresa elabora seu programa de remuneração va- riável, seja ICP, seja ILP, conforme sua estratégia remuneratória. Considerações finais Neste capítulo, pudemos conhecer um pouco mais do contexto em que a remuneração variá- vel está posicionada. Trata-se de um dos componentes mais expressivos do sistema remuneratório e pode contribuir de maneira muito significativa nos resultados das organizações. Pudemos conhecer os modelos mais usuais de incentivo a curto e longo prazo, bem como apreciar uma exemplificação de como tudo isso acontece na prática. Os incentivos salariais têm sido cada vez mais difundidos nas empresas. Por isso, é fundamental que tenhamos os conheci- mentos necessários para entendimento desses modelos, seja no âmbito acadêmico, na elaboração prática de um programa de bonificação ou simplesmente como empregado que participa de um programa de PLR, por exemplo. Esse é um tema que merece estudo e compreensão, dada sua importância no contexto empresarial. Ampliando seus conhecimentos • A leitura da legislação que dispõe sobre as regras dos programas de PLR é fundamental para maior aprofundamento dos temas apresentados neste capítulo. BRASIL. Lei n. 10.101, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 20 dez. 2000. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/leis/L10101.htm. Acesso em: 26 mar. 2019. • Indica-se este artigo para que se conheçam as maneiras criativas de reconhecimento e recompensa que algumas empresas estão utilizando além dos programas de remu- neração variável. MELHO, L. O que 8 empresas fazem para premiar (e mimar) funcionários. Exame, São Paulo, 13 set. 2016. Disponível em: https://exame.abril.com.br/negocios/o-que- -7-empresas-fazem-para-premiar-e-mimar-funcionarios/. Acesso em: 26 mar. 2019. • Este livro apresenta alguns cases de empresas que tiveram bons resultados e lucros, mas que fizeram isso de maneira sustentável e humana. A indicação da leitura é para gerar um maior entendimento do princípio “ganha-ganha”, citado neste capítulo, e Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 89 também para estimular a reflexão sobre a importância dos valores humanos no atin- gimento das metas e dos objetivos organizacionais. MURARO, R. M. Mais lucro: valores humanos na construção de empresas. 1. ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 2006. Atividades 1. Quais são os itens de composição da remuneração total? Explique cada um deles. 2. Que desafios as empresas enfrentavam antes de instituída a legislação dos programas de participação nos lucros e resultados (PLR)? 3. Quais são as vantagens de instituir um programa de remuneração variável? Referências CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2008. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários: carreiras e remuneração. 16. ed. São Paulo: LTR, 2013. 8 Avaliação de desempenho e remuneração Como pudemos notar no capítulo anterior, a remuneração variável está intimamente ligada ao nível de performance dos profissionais no atingimento de metas e resultados. Por isso, é impor- tante que conheçamos os métodos de avaliação de desempenho. Neste capítulo, vamos estudar os conceitos de desempenho e performance, conhecer as me- todologias mais comuns para medição desses fatores e, por fim, refletir sobre a relação entre de- sempenho e gestão de remuneração. 8.1 Objetivos da avaliação de desempenho Atrelar remuneração ao desempenho é uma das estratégias que as empresas têm utilizado para alcance e melhoria de seus resultados. É importante que um sistema de remuneração esteja relacionado ao comportamento dos colaboradores dentro de uma organização – e a avaliação de desempenho é uma ferramenta bas- tante eficaz nesse contexto. Uma das principais responsabilidades das organizações é remunerar o funcionário a partir da perspectiva do desempenho. Com o passar do tempo, essa responsabilidade tornou-se uma tarefa importante, entrando em um contexto estratégico no apri- moramento das relações de trabalho (MARRAS, 2002). Você já deve ter ouvido falar em avaliação de performance ou desempenho. Trata-se da mé- trica de atuação da empresa e de seus colaboradores nos objetivos organizacionais preestabeleci- dos. Essa é uma prática bem difundida nas organizações, uma metodologia comum incorporada ao portfólio de ferramentas de gestão de uma empresa. Na vida pessoal, os indivíduos têm a necessidade de medir sua performance ou desempenho em relação às suas atividades e compromissos corriqueiros – e nas empresas isso não é diferente. Conforme Chiavenato (2014 p. 210), “elas sempre se defrontam com a necessidade de avaliar os mais diferentes desempenhos: financeiro, humano, operacional, técnico, em vendase marketing”, além de medir a qualidade dos produtos e serviços prestados, bem como seus índices de produtivi- dade, satisfação do cliente, apuração de lucros e resultados e, claro, o desempenho humano. Inicialmente a avaliação de desempenho estava relacionada a objetivos puramente indus- triais, vinculados apenas à produtividade, contudo esse panorama foi se transformando ao longo do tempo. Hoje, segundo Borinelli (2006), há uma ligação direta entre a avaliação de desempenho (e seus processos) e os resultados que os gestores (e demais envolvidos) esperam alcançar. Por isso, os instrumentos de medição estão relacionados à apuração de tarefas, às competências, às habili- dades, à produção e aos comportamentos previamente estipulados. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários92 Por meio desse processo, os colaboradores obtêm informações sobre a expectativa da em- presa em relação a seu trabalho. Com isso, eles podem aferir seu próprio desempenho, adminis- trar suas recompensas e identificar as áreas em que podem melhorar (HOURNEAUX JUNIOR; CORRÊA, 2007). Nesse contexto, podemos classificar duas abordagens de medida de desempenho: uma ba- seada em comportamento e outra, em resultados. Os indicadores baseados em comportamento medirão os níveis de conhecimento do profissional em relação à matéria, serviço ou produto em que atua; também avaliarão as competências necessárias para desempenho de suas funções e a adequação desse perfil à execução das tarefas. Essas medidas possuem um grau menor de avaliação sendo mensuradas a longo prazo, uma vez que se fazem necessários períodos de tempo maiores para efetiva medição. Já os indicadores baseados em resultado possuem uma mensurabilidade su- perior e são orientados a curto prazo – são avaliados os índices de produtividade, entregas realiza- das, satisfação de clientes, entre outros. Figura 1 – Abordagens de medidas de desempenho Indicadores de comportamento Indicadores de resultado Fonte: Elaborada pelo autor. Como podemos notar na Figura 1, sugere-se um equilíbrio entre as duas abordagens de medida de desempenho para que a avaliação tenha um grau maior de assertividade e reflita um resultado factível à atuação dos profissionais. Medir e avaliar desempenho é uma tarefa que exige muita coerência, principalmente se ela for atrelada ao sistema de remuneração para reconhecimen- to e recompensa. Além das abordagens de medida, é importante que diferenciemos as de desempenho de performance. Embora sinônimas no dicionário, as palavras desempenho e performance têm sentidos muito diferentes no mundo corporativo. Enquanto o desempenho está atrelado ao cumprimento de objetivos, sejam eles comportamentais ou de resultados, a performance tem um viés relacionado ao futuro e à melhoria desses indicadores – é como se na avaliação de desempenho tirássemos uma fotografia do cenário atual e na gestão de performance entendêssemos os esforços necessários para aqueles resultados, já prospectando ações que possam otimizar esse contexto em uma fotografia futura. O modelo de gestão que fala em metas e resultados, competências e compor- tamentos gera o que se chama de gestão de performance. Uma coisa é avaliar desempenho, gestão por objetivos e outra avaliar por competências e escala de observação comportamental. A somatória gera a gestão de performance. Um mede o grau de concretização face aos objetivos definidos e outro mede os comportamentos, o envolvimento, os valores, as atitudes que o profissional tem para obter os resultados (PATTO, 2014, p. 25). Avaliação de desempenho e remuneração 93 Há alguns objetivos macros para que a gestão de performance e a avaliação de desempenho ocorram de maneira constante nas organizações. Lacombe (2005) sugere os seguintes itens orga- nizados na Figura 2. Figura 2 – Objetivos da avaliação de desempenho Estratégia organizacional • Estabelecer objetivos para as equipes atrelados à estratégia da organização. Conhecimento e reconhecimento • Garantir que a organização conheça e reconheça diferenciadamente a contribuição de cada pessoa ou equipe (planos de carreira e promoções e prêmios de desempenho). Valorização do capital humano Crescimento individual e organizacional • Permitir o tratamento dos recursos humanos como um recurso básico da organização e cuja produtividade pode ser desenvolvida indefinidamente, dependendo, obviamente, da forma de administração. • Fornecer oportunidades de crescimento e condições de efetiva participação a todos os membros da orga- nização, tendo em vista, de um lado, os objetivos organizacionais e, de outro, os objetivos individuais. Avaliação comparativa • Avaliar os resultados obtidos no ciclo anterior em face dos objetivos estabelecidos. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Lacombe, 2005, p. 124. No que concerne à gestão de remuneração, a avaliação de desempenho ou a gestão de performance é extremamente contingencial. Ela varia de pessoa para pessoa, pois sempre estará vinculada aos fatores condicionantes que influenciam os resultados. Nesse contexto, você per- ceberá que o volume do esforço estará sempre condicionado à percepção de valor das recom- pensas, sejam elas tangíveis ou não. Podemos, então, definir alguns fatores que determinarão os graus de performance: valor das recompensas, competências individuais, esforços individuais, percepção de que as recompensas dependem de seu esforço e ciência de seu papel na empresa, conforme demonstra a Figura 3. Figura 3 – Fatores que afetam a gestão de performance Valor das recompensas Clareza das responsabilidades do cargo Competências individuais Esforço individual Percepção de esforço x recompensa Desempenho Fonte: Elaborada pelo autor com base em Chiavenato, 2014, p. 211. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários94 Podemos notar que a gestão de performance por meio da avaliação de desempenho está in- timamente relacionada às percepções do indivíduo em relação a seu papel e suas competências na organização. Ele medirá seus esforços para alcance de recompensas, por isso atrelar desempenho ao sistema de remuneração é uma prática que pode gerar resultados expressivos. 8.2 Métodos de avaliação Agora que já entendemos um pouco melhor o contexto e o objetivo da gestão de performance, é importante que conheçamos alguns modelos e métodos de avalia- ção de desempenho. Quando atrelados ao sistema de remuneração, esses modelos geram dados quantitativos que servirão de base para um programa de remuneração variável, por exemplo. Chiavenato (2014) descreve seis modelos ou componentes de uma avaliação de desempenho: • Autoavaliação do desempenho: este modelo é praticado em organizações mais abertas e democráticas. Trata-se de um processo em que o próprio indivíduo avalia seus índices de eficiência e eficácia com base em diretrizes e parâmetros designados pela liderança ou pela empresa. Normalmente o funcionário preenche um questionário dando notas ou frequências para as competências avaliadas e que ele julga possuir ou desenvolver. As em- presas utilizam a autoavaliação para identificar a percepção de seus colaboradores sobre o próprio trabalho e normalmente combinam esse método a algum outro para ampliar a avaliação de desempenho de uma área específica ou da empresa como um todo. • Avaliação do gerente ou líder: este modelo é praticado em organizações que querem ge- rar maior liberdade e flexibilidade para que cada gerente seja realmente gestor de seu pes- soal. Nesse tipo de processo, o líder avalia sua equipe com o apoio de ferramentas, meios e critérios disponibilizados pela empresa para constante avaliação e comunicação de re- sultados. As empresas que utilizam a avaliação do gerente ou líder normalmente treinam seus gestores para que tenham domínio dos critérios adotados e competências avaliadas, podendo, então, identificar e avaliar esses quesitos em suas equipes. Os questionários a serem preenchidos devem conter informações fáceis de seremjustificadas para evitar critérios subjetivos ou até favoritismo, uma vez que o gestor é quem mede integralmente a performance de seus liderados. • Avaliação interativa: é um modelo não estruturado e flexível em que o gerente e o subor- dinado realizam a avaliação juntos. O gerente funciona como um elemento de guia e de orientação e o colaborador avalia seu desempenho com base na retroação fornecida pelo seu líder. As empresas que utilizam esse modelo promovem avaliações menos formais e priorizam o diálogo entre líder e liderado. Normalmente o momento da avaliação é uma conversa sem muito roteiro para resgatar as metas anteriormente acordadas e entender como o indivíduo atingiu ou não os objetivos, pautando sempre a opinião do gestor sobre a referida performance. • Avaliação da equipe de trabalho: a própria equipe de trabalho avalia como um todo cada membro do grupo, propondo ferramentas e estímulos para melhoria contínua de Vídeo Avaliação de desempenho e remuneração 95 cada indivíduo. Normalmente essa avaliação ocorre por meio do preenchimento de um questionário on-line para garantir a impessoalidade dos resultados e promover maior en- gajamento dos respondentes que ficam mais à vontade para avaliar, uma vez que não precisam ser identificados. • Avaliação 360º: é um modelo dinâmico e circular em que todos os elementos que man- têm interação com o indivíduo o avaliam, e o indivíduo também tem a oportunidade de avaliar os outros componentes do processo. Todos os funcionários ao redor do indivíduo avaliado (como em uma abrangência de 360º) participam da avaliação, isto é, gerente, subordinados, clientes internos e externos etc. Assim como na avaliação da equipe de trabalho, nesse modelo normalmente se utiliza uma ferramenta on-line que traz mais se- gurança para o processo, tornando a avaliação impessoal e trazendo o real crivo do grupo. • Avaliação para cima: é um modelo específico de avaliação do gerente ou líder. Ao contrá- rio da avaliação do subordinado pelo seu gestor, nesse processo a equipe pode demonstrar suas percepções sobre a contribuição do líder no atingimento de seus resultados. A ava- liação para cima é individual e pouco utilizada. Normalmente está combinada a algum outro método ou é realizada quando se tem uma demanda específica de avaliação do líder por sua equipe. Os modelos podem ser realizados tanto de maneira isolada como de forma combinada, de- pendendo dos objetivos da organização em promover uma avaliação de desempenho. 8.3 Desempenho e remuneração Como pudemos notar, existe uma forte relação entre desempenho e remune- ração. Muitas empresas utilizam critérios de performance como gatilho para alguns componentes do sistema remuneratório. Vamos conhecer a seguir alguns exemplos dessa prática. O salário por produção é um exemplo clássico da relação do desempenho com remuneração. Segundo Chiavenato (2014, p. 243), esse tipo de salário “refere-se à quantidade ou ao número de peças ou obras produzidas pela pessoa, abrange os sistemas de incentivos (comis- sões ou porcentagens) e prêmios de produção (gratificações por produtividade ou pelos negócios efetuados)”. A comissão de vendas é uma outra espécie de remuneração baseada no desempenho. Nesse caso, temos a apuração de metas e objetivos comerciais das quais o colaborador recebe um per- centual do montante de vendas ou um valor nominal previamente estipulado a título de comissão. Os prêmios são outro exemplo da utilização da performance para recompensa dos indiví- duos. As premiações podem ter natureza monetária ou podem ser promovidas por meio de be- nefícios e vantagens (tangíveis e intangíveis). O fator gerador de um prêmio pode estar atrelado a algum tipo de meta atingida ou contribuição realizada pelo colaborador. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários96 Os programas de bonificação, como vimos no capítulo anterior, são baseados no atingi- mento de objetivos e metas previamente estipulados. Esses programas têm forte aderência aos cri- térios de performance e são um dos modelos mais utilizados para remuneração por desempenho. Além desses tipos de remuneração, podemos ainda citar as políticas salariais que preveem a aplicação de méritos e promoções baseadas nos resultados da avaliação de desempenho do cola- borador. Muitas empresas utilizam a gestão de performance para determinar os avanços verticais e horizontais de carreira e também os aumentos salariais de seus colaboradores. Todos esses exemplos fazem parte do que chamamos de remuneração por resultados, que é uma classificação de estratégia de remuneração em que o trabalhador é remunerado em função dos padrões, metas e objetivos atingidos. Segundo Lacombe (2005), é importante que toda a empresa esteja em sintonia e, também, que os seus departamentos trabalhem em sinergia para que todos tenham o mesmo norte. Para Wood Jr. e Picarelli Filho (2004), as vantagens desse tipo de estratégia estão no reforço do trabalho em grupo, na participação dos empregados na gestão da empresa, no incentivo e nas buscas por inovações e soluções criativas ao negócio, no aumento de qualidade e produtividade, bem como na redução de resistência a mudanças e na redução de desperdícios e custos. Uma pesquisa analisou padrões de governança corporativa de 132 empresas brasileiras, entre 2010 e 2014, e trouxe um panorama da geração de valor dos modelos de remuneração bra- sileiros (LINS; MALVESSI, 2015). Essa pesquisa demonstrou que 44% das empresas nacionais utilizam a avaliação de desempenho para reajustar a remuneração fixa de seus colaboradores, ou seja, a gestão de performance é o critério mais utilizado para concessão de méritos salariais e promoções. Além disso, a pesquisa avaliou os indicadores utilizados para definir a remuneração variável de curto e longo prazos e mais uma vez a avaliação de desempenho foi o fator líder nesse contexto, com 58% das empresas no ICP e 48% no ILP. Os dados apresentados e todas as informações trabalhadas ao longo deste capítulo demons- tram a relevância da avaliação de desempenho na gestão de remuneração e reforçam a necessidade de os princípios de meritocracia orientarem a gestão de performance e consequentemente o paga- mento de recompensas. Considerações finais Como pudemos notar, a compreensão dos objetivos, métodos e aplicação da avaliação de desempenho é fundamental para que possamos relacionar a gestão de performance com a gestão de remuneração. Essa é uma abordagem estratégica da maneira de remunerar e recompensar os profissionais potencializando os resultados da empresa. Os temas que estudamos neste capítulo são complementares aos conceitos de remuneração variável que estudamos anteriormente, visto que os modelos de incentivo a curto e longo prazos estão pautados no atingimento de metas e objetivos organizacionais. Avaliação de desempenho e remuneração 97 Além disso, esses conhecimentos são prévios para melhor entendimento dos capítulos seguintes, em que abordaremos os modelos de políticas de remuneração e remuneração estratégica. São abordagens em que o desempenho, a meritocracia e a performance também têm forte influência. Ampliando seus conhecimentos • Esta obra é um lançamento de 2017 e demonstra a necessidade de todo gestor conhecer e utilizar ferramentas como o KPI para monitorar a performance dentro de uma em- presa. Leitura indicada para complementar a compreensão da gestão de performance além da avaliação de desempenho individual dos colaboradores, em um contexto mais empresarial. FRANCISCHINI, A. S. N.; FRANCISCHINI, P. G. Indicadores de desempenho. 1. ed. São Paulo: Alta Books, 2017. • Este filme norte-americano é baseado no livro Moneyball: the art of winning an unfair game, de Michael Lewis, e conta a história do gerente-geral de um time de beisebol que cria uma equipe competitiva em meio a uma situação financeira desfavorável, usando uma sofisticada análise estatística dos jogadores. O filme é indicado para fomentar a re- flexãosobre esse método estatístico de avaliação de desempenho e o reflexo que a correta mensuração de performance trouxe para os resultados da equipe. O HOMEM que mudou o jogo. Direção: Bennett Miller. Produção: Michael De Luca e Brad Pitt. EUA: Sony Pictures, 2012. 1 vídeo (133 min), son., color. Atividades 1. Qual é a importância do instrumento de avaliação de desempenho para os colaboradores de uma empresa? 2. Por que a avaliação de desempenho é contingencial para a gestão de remuneração? 3. Cite alguns exemplos de componentes do sistema remuneratório que são influenciados pela avaliação de desempenho e gestão de performance. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários98 Referências BORINELLI, M. L. Estrutura conceitual básica de controladoria: sistematização à luz da teoria e da prá- xis. Orientador: Wellington Rocha. 2006. 341 f. Tese (Doutorado em Ciências Contábeis) – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, USP, São Paulo, 2006. Disponível em: https://www.teses.usp. br/teses/disponiveis/12/12136/tde-19032007-151637/publico/Tesemarcioborinelli.pdf. Acesso em: 27 mar. 2019. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. HOURNEAUX JUNIOR, F.; CORRÊA, L. H. A influência do fator humano na mensuração e avaliação de desempenho organizacional: estudo de casos de empresas do setor químico. In: EnANPAD, 31., 2007, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: 2007. Disponível em: http://www.anpad.org.br/admin/pdf/ESO-A1359. pdf. Acesso em: 27 mar. 2019. LACOMBE, F. Recursos humanos: princípios e tendências. São Paulo: Saraiva, 2005. LINS, J.; MALVESSI, O. Remuneração executiva e geração de valor: práticas de remuneração e desempenho em empresas de capital aberto no Brasil. [S. l.]: PwC; FGV, 2015. Disponível em: http://www.oscarmalves- si.com.br/downloads/artigos/169/Remun-Exec-e-geracao-de-valor-1ed-OMalvessi-FGV-EAESP-e-JLins- PwC-3-2015.pdf. Acesso em: 16 abr. 2019. MARRAS, J. P. Administração da remuneração. 1. ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. PATTO, J. Remuneração variável: como recompensar seu time pelo resultado. São Paulo: Endeavor Brasil, 2014. WOOD JR, T.; PICARELLI FILHO, V. Remuneração e carreira: por habilidades e por competências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. 9 Política de remuneração Agora que já conhecemos quase todos os elementos do sistema de remuneração, abordare- mos um tema bastante relevante nas empresas: a política de remuneração. Depois de desdobrada a estratégia empresarial e estabelecida a lógica dos cargos, salários e benefícios, chega o momento de demonstrar para toda a empresa as diretrizes vigentes para admi- nistração desses temas. Neste capítulo, vamos entender a importância de uma política de remune- ração e também conhecer os principais pontos de atenção na elaboração e na comunicação de um instrumento como esse. Diante de um cenário político-econômico que fortalece práticas de corrupção e fraude, as empresas têm se preocupado cada vez mais com instrumentos que assegurem o cumprimento das normas legais, dos dispositivos regulamentares e dos direcionadores estabelecidos para o ne- gócio e suas atividades. Nesse contexto, a implementação de políticas empresariais ganha especial importância, uma vez que essa prática é uma maneira de organizar todos os temas referentes à administração e à gestão, além de comunicar e dar ciência a todos os stakeholders das diretrizes de funcionamento da empresa. 9.1 Importância da política de remuneração Depois de realizado todo o estudo referente à administração de cargos, salários e demais componentes do sistema de remuneração, é importante criar mecanismos que garantam a aplicabilidade desses planejamentos. Uma política de remuneração existe exatamente para isso: é um documento oficial da empresa que descreve todas as diretrizes do processo remuneratório. Segundo Chiavenato (2014 p. 248), “a política salarial é um aspecto particular das políticas de GP da empresa”. O maior objetivo de uma política de remuneração é estabelecer norteadores à adminis- tração de remuneração, que estejam alinhadas aos valores da empresa, à estratégia institucional, à complexidade dos cargos e às práticas de mercado, possibilitando o correto posicionamento salarial em processos de novas contratações, além de garantir o equilíbrio e a equidade interna das áreas, assim como adequação ao orçamento de pessoal. É por meio da política que a empresa comunica de que maneira conduzirá todos os pro- cessos remuneratórios, tornando-se uma forma de estreitar a relação entre empregador e empre- gado. Por essa razão, o primeiro princípio de uma política de remuneração é ser praticável. Tudo o que for proposto, escrito e divulgado deve ser executável no dia a dia. Lembre-se de que esse é um documento oficial da organização e pode ser usado contra ou a favor dela. Conforme Franco (2008, p. 129), “a política salarial de uma empresa abre espaço para uma série de possibilidades, entre elas as questões relacionadas ao gerenciamento de carreiras, seja por stakeholders: são os interessados na gestão da empresa e/ou nos projetos dela. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários100 parte do empregador ou do empregado”. Se as regras estão claras, é possível desenvolver planos de desenvolvimento individuais, gerenciar meritocracia e também organizar o quadro de pessoal, seja pela volumetria e demanda da área, seja pela gestão de performance – como vimos no capítulo an- terior. Assim, a elaboração de um instrumento normativo é uma prática de gestão fundamental que amplia os cenários possíveis em uma instituição, principalmente no desdobramento de carreiras. Uma reflexão importante na elaboração do dispositivo é de que ele gere credibilidade e con- fiança entre empregador e empregado. Por isso, é ideal que um comitê gestor, de maneira imparcial e equilibrada, conduza as definições e as regras que determinarão os movimentos de remuneração e carreira dentro da empresa. Obviamente que muitas organizações gostariam de obter e manter os melhores resultados para praticar salários atrativos e competitivos. Contudo, mais importante que isso é o fato de esta- belecer uma percepção de importância e responsabilidade para os colaboradores, demonstrar que existe uma preocupação em alcançar práticas de remuneração e procedimentos justos, alinhados ao equilíbrio interno e externo da empresa. 9.2 Elaboração e comunicação das diretrizes de remuneração Como podemos notar, a política de remuneração é um instrumento muito relevante para a gestão de pessoas nas empresas. O processo de elaboração deve ser realizado por meio de um comitê gestor, que analisará todos os conceitos e práticas de gestão de remuneração já existentes na empresa, organizando-os de modo a dis- ponibilizar diretrizes claras e objetivas do tema a todos os líderes e colaboradores. Para que possamos compreender de maneira mais prática a elaboração do conteúdo de uma política de remuneração, vamos dividir os temas em cinco grupos: objetivos da política, estrutura organizacional, administração de cargos, administração de salários e administração de benefícios. 9.2.1 Objetivos da política de remuneração Esta é a parte inicial do documento em que devem ser explanados os objetivos do programa de remuneração. É importante estabelecer uma relação entre a política e a estratégia da empresa, tornar claro que as diretrizes da gestão de remuneração e carreira surgem do desdobramento da estratégia empresarial. Importante também ressaltar o alinhamento da política à complexidade dos cargos e às práticas de mercado, possibilitando o correto posicionamento salarial em processos de novas contratações e garantindo o equilíbrio e a equidade interna das áreas, assim como adequação ao orçamento de pessoal e equilíbrio financeiro – como vimos no início deste capítulo. Nessa etapa, também é definido o nível de distribuição ou aabrangência da política, que é a descrição do público-alvo a quem o documento se destina. É importante delimitar a abrangência em virtude das diversas categorias profissionais existentes em uma organização. Pode ser que um determinado grupo tenha condições muito específicas e as regras gerais acabem não sendo aplicadas. Vídeo Política de remuneração 101 Deve-se elaborar um glossário com os termos técnicos que serão utilizados no documento: como os temas de remuneração não são comuns a todos, faz-se necessária essa breve explicação. Além disso, é recomendável verificar os documentos internos e/ou externos utilizados como refe- rência na política e citá-los para consulta e leitura complementar. Lembre-se de que a política de remuneração se relaciona com outros instrumentos normativos, como diretrizes orçamentárias, política de recrutamento e seleção, código de ética ou conduta, entre outros. 9.2.2 Estrutura organizacional Antes de abordar os temas de cargos e salários, é interessante explicar brevemente a estrutu- ra organizacional da empresa, como todas as áreas e cargos estão organizados e também como eles se relacionam. Essa abordagem é a base para o entendimento de toda a política. Por isso, é impor- tante descrever, mesmo que brevemente, o modelo operacional da empresa. 9.2.3 Administração de cargos Nesta etapa, a política deve abordar as regras para administração de cargos na empresa. Inicialmente é fundamental explicar as premissas utilizadas para definição dos cargos, se eles estão organizados em níveis ou em famílias e como estão distribuídos na estrutura. Também é possível indicar os conceitos de administração de carreira na organização, se há, por exemplo, possibilida- des de carreira em “Y” ou em linha hierárquica e estabelecer as perspectivas de trilhas de carreira possíveis na empresa. É por meio da política que a empresa pode definir a obrigatoriedade (ou não) da descrição de cargo. É interessante explanar a aplicação desse documento na gestão de pessoas, fazendo uma conexão com outros subsistemas de gestão, como a definição de responsabilidades e a contribuição nos processos de recrutamento e seleção. Vale refletir se é interessante abordar o método utilizado para definição de cargos na empresa. Outro ponto importante é demonstrar como a empresa fará o controle do quadro de pessoal ou quadro de vagas. Todas as áreas possuem um dimensionamento de mão de obra e é bem oportuno utilizar a política para demonstrar as regras de movimentação e expansão dessa força de trabalho. Pode-se também falar sobre as regras de abertura de novas vagas ou possível substituição de cargos/vagas já existentes. 9.2.4 Administração de salários A etapa de administração de salários pode contemplar as regras de salário fixo e também de incentivos salariais. Dependendo da complexidade da empresa, é importante avaliar se os temas inerentes à remuneração variável, aos bônus e aos incentivos a curto e longo prazo estarão no do- cumento ou se cada tema fará jus a uma política exclusiva. Tratando-se do salário fixo, o primeiro assunto que pode ser abordado é o “salário admis- são”. A política determinará as regras salariais inerentes às novas contratações. Normalmente as empresas utilizam o mínimo da faixa salarial ou um percentual médio de 10% abaixo do salário referência do cargo. Há ainda algumas organizações que permitem a contratação acima do ponto médio da faixa. Todas essas regras precisam estar bem claras no dispositivo. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários102 Conforme Pontes (2013), também devem ser definidas as regras para movimentação de car- reira na empresa: avanço horizontal e avanço vertical. • Avanço horizontal: também conhecido por “mérito”, é o aumento salarial dentro da faixa estabelecida para aquela posição, sem mudança de cargo. Normalmente ele é motivado quando há uma evolução nas competências do profissional acrescido de bons resultados e desempenho, porém não há necessidade ou possibilidade de elevação do cargo. Em geral, o avanço horizontal obedece a um prazo mínimo de seis meses entre um aumento e outro, e os aumentos são limitados entre 10 e 15%. • Avanço vertical: ocorre toda vez que o colaborador, após ter adquirido as competên- cias necessárias e ter tido um bom desempenho na gestão de performance, conquista o direito de ser promovido a um novo cargo. Normalmente as empresas estabelecem regras de tempo e valor para as promoções. É definido um período mínimo entre um avanço e outro e também um percentual máximo para reajuste salarial. O período mí- nimo para uma nova promoção, conforme políticas gerais das empresas, é de um ano e o percentual máximo para aumento salarial é em média 25%. Não há uma diretriz legal para esses quesitos, por isso cada empresa aplica o que é mais factível e coerente para sua realidade. Há ainda empresas que trabalham com escalonamento salarial, prática em que o colaborador, assim que promovido, recebe aumentos salariais progressivos para alcançar a faixa inicial do cargo em um tempo específico, como o escalonamento salarial a cada 120 dias durante 1 ano para efetivação do novo salário. Há ainda a reclassificação ou enquadramento salarial, que ocorre quando são atribuídas mais funções ou tarefas mais complexas, que pela proporcionalidade exijam uma elevação nos valores de salário. Outro quesito fundamental a ser abordado nessa etapa é o reajuste salarial. É comum que reajustes ocorram anualmente por meio da data-base sindical que estabelece um percentual a ser aplicado nos salários atuais a fim de equipará-los à inflação do período. O reajuste sindical pode, ou não, ser utilizado para reajustar as tabelas salariais – depende da estratégia da empresa. O ideal é que o reajuste da data-base seja aplicado apenas aos salários dos profissionais atuantes e, para atualização das tabelas e estruturas, seja realizada nova pesquisa de mercado. Os índices utilizados pelo sindicato podem não ser os mesmos que afetam o mercado, por isso, para as estruturas não inflacionarem ou deflacionarem, é interessante utilizar parâmetros distintos. 9.2.5 Administração de benefícios Esta etapa pode ou não fazer parte da política de remuneração. É necessário validar com o comitê gestor se as diretrizes de benefícios serão abordadas no mesmo instrumento que os demais itens. Política de remuneração 103 As regras específicas de benefícios são complexas e o que se percebe em geral é que cada be- nefício acaba recebendo uma política exclusiva. Podemos utilizar como exemplo o plano de saúde: há empresas que possuem regras de elegibilidade tão específicas e procedimentos de administração tão particulares que se faz necessária uma normativa para explanar apenas esse tema. Mesmo que a organização não aborde os benefícios em detalhes na política de remuneração, é interessante demonstrar as regras gerais ou ao menos as diretrizes da empresa enquanto estraté- gia e abordagem de benefícios, como estudamos anteriormente. Além desses temas gerais que abordamos, a política de remuneração pode conter outras normativas, como as regras da empresa em caso de viagens a trabalho ou transferências de cidade e domicílio. Também é oportuno falar sobre as alçadas e processos de aprovação para todos os itens que explanamos aqui. Não há uma regra geral, cada empresa formatará o instrumento na medida de sua necessidade e estratégia. Finalizado o processo de elaboração da política, inicia-se o momento de divulgação. Normalmente as empresas já estão habituadas a escrever e compartilhar políticas ou normativas. Em geral os documentos são públicos a todos os colaboradores e ficam disponíveis em algum di- retório interno. Quanto à remuneração, um trabalho pedagógico precisa ser realizado previamente, pois o tema exige conhecimento básico de alguns conceitos. Por essa razão, o ideal é realizar alguma ação com os gestores da empresa antes de divulgar a todo o grupo. É de suma importância que os líderes conheçame entendam as normativas, já que eles serão os principais agentes no desdobramento da gestão de remuneração e carreira na empresa. Nesse contexto, são muito bem-vindos workshops, treinamentos ou simples reuniões para abordar os temas. Assim, a comunicação é um processo tão importante quanto a elaboração. É o momento em que a empresa gerará perspectiva em seus colaboradores. Por isso, quanto mais claras e coe- rentes forem as ações relacionadas à divulgação, menos ruídos e resistências a empresa sofrerá. Lembre-se: a gestão de remuneração e carreira tem impactos muito significativos no clima, na cultura e na identidade organizacional. Considerações finais Verificamos neste capítulo que a política de remuneração é a principal maneira de dialogar com todos os colaboradores e líderes da empresa sobre o programa de remuneração. Entendemos, também, a importância e a relevância de estabelecer os instrumentos normativos e os cuidados necessários para sua implementação e divulgação. Perceba que todos os quesitos que estudamos até este capítulo são tratados na política de re- muneração. Por isso é fundamental que, antes de normatizar esses temas, a empresa tenha visitado todos os conceitos de cargos, salários, benefícios, mercado, entre outros. A política salarial é uma normativa que traz diretrizes do programa de remuneração já desenvolvidos pela empresa. workshops: são reuniões de inte- ressados em dado assunto a fim de se aprofundarem no tema discutido. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários104 Ampliando seus conhecimentos • A Lei complementar n. 131, de 27 de maio de 2009, acrescenta dispositivos à Lei Complementar n. 101, de 4 de maio de 2000, que estabelece normas de finanças pú- blicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal e dá outras providências, a fim de determinar a disponibilização, em tempo real, de informações pormenorizadas so- bre a execução orçamentária e financeira da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. BRASIL. Lei complementar n. 131, de 27 de maio de 2009. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 28 maio 2009. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp131.htm. Acesso em: 3 abr. 2019. • Em virtude da Lei da Transparência (Lei complementar n. 131/09) sancionada pelo Governo Federal (BRASIL, 2009), as empresas paraestatais são obrigadas a divulgar seus gastos on-line e em tempo real. No pacote de informações a serem divulgadas, está a es- trutura remuneratória. Algumas dessas empresas divulgam, além dos gastos, a política vigente no que concerne a salários e remuneração. Recomenda-se a leitura para conheci- mento prático de uma política de remuneração. Apesar de não serem empresas do setor privado, as metodologias e os conteúdos são muito similares aos abordados neste estudo. SENAR – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. Política: cargos e remuneração. Setor de Recursos Humanos. Salvador, BA: 2014. Disponível em: http://m.sistemafaeb.org.br/ fileadmin/user_upload/Arquivos_internos/RH/POLITICA_SENAR__11_14_-_.pdf. Acesso em: 3 abr. 2019. SESC – Serviço Social do Comércio. Política de remuneração. Fecomércio-RS. Rio Grande do Sul: 2016. Disponível em: http://transparencia.sesc.com.br/wps/wcm/connect/1d880f2b- 4f62-46d2-bf40-9df9e1720e3f/POL%C3%8DTICA+DE+REMUNERA%C3%87%C3%83O. pdf?MOD=AJPERES&CACHEID=1d880f2b-4f62-46d2-bf40-9df9e1720e3f. Acesso em: 3 abr. 2019. Atividades 1. Cite três importantes razões para o estabelecimento de uma política de remuneração nas organizações. 2. Quais são os principais itens a serem abordados na política com relação à administração de salários? 3. Quais são os cuidados necessários para divulgação e implementação da política de remu- neração? Política de remuneração 105 Referências CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FRANCO, J. O. Cargos, salários e remuneração. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2008. PONTES, B. R. Administração de cargos e salários: carreiras e remuneração. 16. ed. São Paulo: LTR, 2013. 10 Remuneração estratégica Chegamos ao último capítulo de nosso estudo. Agora que já conhecemos todas as caracte- rísticas do sistema de remuneração, vamos refletir sobre alguns aspectos complementares relacio- nando remuneração a temas organizacionais de grande relevância. Iniciaremos refletindo sobre os efeitos da gestão de remuneração na estratégia empresarial e entendendo o quanto os executivos responsáveis pelo direcionamento de um negócio precisam estar conscientes do nosso tema de estudo. Também explanaremos a relação entre remuneração e os índices de engajamento, atração e retenção. Por fim, vamos falar sobre competências organizacionais e conhecer as abordagens possíveis em remuneração, entendendo também os efeitos dessa dinâmica nas transformações organizacionais. Em um cenário dinâmico e de transformações constantes, as empresas têm muitos desafios para ampliar seus negócios e gerir seus recursos. Por isso, é fundamental utilizar as ferramentas corretas e de maneira assertiva, garantindo o equilíbrio organizacional interno e externo – não há espaço para desperdícios na corrida por bons resultados. Para Silva (2005, p. 121), “os processos de remuneração podem ser uma das principais fontes disponíveis para uma empresa que busca aumento na eficácia e no desempenho organizacional”. Todavia, o que se percebe é uma má utilização desse recurso, dada sua relevância no reforço de comportamentos cruciais para todos aqueles que contribuem no atingimento de resultados. Gestão de remuneração é gestão empresarial, e sua administração tem fortes efeitos na competitividade da empresa. 10.1 Remuneração e estratégia empresarial Os executivos responsáveis pela estratégia das empresas têm dois grandes desafios: o primeiro deles é tornar a estratégia comum a todos os líderes e colabo- radores, o segundo é estimular atitudes que tornem essa estratégia factível. Como pudemos notar ao longo do nosso estudo, o sistema de remuneração é um fator organizacional intimamente relacionado com a estratégia empresarial. É por meio dele que a empresa pode demonstrar seus objetivos estratégicos e desdobrar ações que permitam o desenvolvimento do negócio e das pessoas. É fundamental que entendamos o cenário empresarial: um sistema dinâmico, sujeito a diver- sas transformações e com competitividade acirrada. Nesse contexto, a disputa por talentos é muito grande: as organizações querem as pessoas certas, nos lugares certos, no tempo certo. Pessoas cons- tituem o ativo mais valioso das empresas, o capital humano. Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários108 Conforme Ribeiro e Oliveira (2002), as estratégias de remuneração são desenvolvidas para fidelizar capital humano. O novo modelo empresarial requer mais agilidade e efetividade. Por isso, é fundamental que a gestão de remuneração seja moderna e com foco na competitividade do negócio. Segundo Silva (2005), os antigos sistemas de remuneração têm os organogramas e as estruturas existentes como parâmetro de estruturas de cargos e salários. Eles não consideram o quanto o funcionário contribuiu individualmente no resultado do negócio. Isso significa que os modelos remuneratórios tradicionais estão dissociados da estratégia empresarial. Novos modelos e novas percepções precisam ser pensados e gerados. A remuneração não deve ser interpretada como um custo na organização, mas, sim, como uma ferramenta de aperfei- çoamento que associará os interesses individuais com os objetivos empresariais. As profundas transformações que as empresas vêm sofrendo exigem novos sis- temas de remuneração. Em ambientes caracterizados por formas modernas de organização do trabalho – como celularização, multifuncionalidade e poucos níveis hierárquicos – não faz sentido recompensar a contribuição individual ou coletiva apenas com base em descrições de atividades edefinição de responsa- bilidades. (WOOD JR.; PICARELLI FILHO, 2004, p. 50) Segundo Hay Group (2004, p. 11), a remuneração deve ser tratada na estratégia empresarial por três razões: “a diferenciação em ambientes competitivos exige pessoas capazes de superar re- sultados. Desafios, filosofia de gestão e reconhecimento determinam comportamentos de alta per- formance. A estratégia de remuneração é um forte diferencial na busca de resultados sustentados”. É importante refletirmos sobre os efeitos da competitividade de mercado no perfil profissio- nal desejado pelas empresas, visto que a remuneração estratégica é uma ponte entre esses dois fato- res. Os indivíduos estão alinhados às novas realidades das organizações e esperam ser remunerados pelos seus conhecimentos, habilidades, competências e pelos resultados que trazem à organização. Já a estratégia empresarial estabelece uma visão de futuro e define o planejamento, a estru- tura e o estilo da empresa. Portanto, remunerar de maneira estratégica é harmonizar interesses gerando diferenciais competitivos. O sistema de remuneração é tão parte do planejamento organizacional e tem tanta interfe- rência sobre a competitividade do negócio que é difícil interpretá-lo como um fator isolado. Desse modo, podemos concluir que a remuneração não é apenas parte da estratégia empresarial, ela é um de seus fundamentos. 10.2 Engajamento, atração e retenção de talentos A remuneração tem forte relação com os índices de engajamento, atração e retenção de talentos. Muitos estudos são realizados para identificar o real im- pacto do sistema de remuneração nesses itens, pois outros fatores organizacionais também influenciam de maneira positiva ou negativa. Quando se trata de engajamento, é possível verificar por uma pesquisa de clima ou por um diagnóstico de cultura organizacional o quanto os itens de remuneração estimulam ou não a performance dos profissionais. Vídeo Remuneração estratégica 109 No que tange à atração de talentos, é oportuno averiguar, nos processos seletivos, o quanto estão adequadas as pretensões salariais dos candidatos ao salário de admissão praticado – uma pesquisa de remuneração pode fornecer esse mesmo dado, como já vimos anteriormente. É de extrema relevância também verificar com os profissionais que saem da empresa as razões que lhes fizeram tomar essa decisão, analisando o quanto o sistema de remuneração tem influência na perda de capital humano. Lembre-se de que remuneração não é o único fator de retenção em uma empresa. Pessoas querem mais do que salários, suas motivações vão muito além dos ganhos em decorrência da prestação de serviços. Uma pesquisa realizada pela Mercer (2018) fez um paralelo entre o que os profissionais almejam e o que as empresas oferecem. Quando se trata de carreira, 75% dos profissionais querem se sentir seguros para desenvolver suas carreiras nas empresas em que atuam, em contrapartida apenas 28% das empresas oferecem ferramentas e mecanismos no sistema de remuneração que geram essa perspectiva. Essa pode ser uma das interferências do sistema de remuneração na retenção de profissio- nais. Por isso é importante que as diretrizes estejam bem divulgadas e internalizadas na empresa. A retenção está intimamente ligada às perspectivas do profissional. Portanto trabalhar remune- ração de maneira clara e contundente é uma forma de contribuir para a retenção de talentos. Outra pesquisa, realizada pela Carreira Muller (2016), investigou as principais estratégias para retenção de profissionais nas organizações. O estudo demonstrou que 93% das empresas in- vestem em recrutamento interno e plano de sucessão, 76% em possibilidades de carreira e 59% em meritocracia. Esses dados traduzem a importância de utilizar a gestão de remuneração e carreira para gerar perspectiva dentro das organizações e fidelizar o capital humano. Ainda na temática de retenção, podemos analisar uma pesquisa realizada pela Hay Group (2018) que avaliou as razões pelas quais os profissionais saem das empresas. A principal razão é a melhor oferta em nível superior (53% dos casos) e quanto a isso as empresas não têm muita ação, pois o profissional está tomando a decisão baseado na sua própria trilha de carreira. O que chama atenção é a questão subsequente da pesquisa: 39% dos profissionais saem das empresas por falta de oportunidade e acabam optando por melhores ofertas em mesmo nível, ou seja, eles não têm a perspectiva de desenvolvimento na carreira e escolhem mudar de empresa nas mesmas condições de remuneração. Os dados apresentados nos demonstram o grau de importância de um programa de remuneração na retenção de talentos e diminuição dos níveis de rotatividade. Bons salários e boas condições não são suficientes, contudo são fatores primordiais. Empresas bem organizadas que conseguem gerar perspectiva de carreira são mais propícias à fidelização de capital humano e obviamente se tornam mais competitivas. Quando se trata de engajamento, é importante avaliarmos o real papel do programa de remuneração. O engajamento ou a motivação são fatores intrínsecos que podem ser estimulados – não necessariamente gerados. Por isso, não podemos acreditar que uma remuneração mais agressiva é sinônimo de profissionais mais felizes e estimulados. Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários110 A recompensa é o elemento fundamental na condução das pessoas em termos de retribuição, retroação ou reconhecimento do seu desempenho na organi- zação. Deve funcionar como um reforço positivo ao elevado desempenho e sustentar, na medida do possível, a permanência e o engajamento das pessoas na organização. A motivação das pessoas é fundamental nas organizações bem-sucedidas. (CHIAVENATO, 2014, p. 253) Como estudamos nos capítulos anteriores, a remuneração variável está intimamente rela- cionada à gestão de performance, e é nesse contexto que o programa de remuneração pode ser associado ao engajamento. Trata-se de um estímulo ao bom resultado seguido de um retorno ao bom desempenho. Por essa razão, é importante pensarmos no reconhecimento e na recompensa como uma ferramenta na retenção e motivação do capital humano, e não necessariamente como um gerador de engajamento. 10.3 Remuneração e carreira por competências Antes de falarmos sobre a relação entre remuneração e competências, é im- portante que conheçamos o conceito fundamental de competência. Para essa tarefa, vamos utilizar a definição de Parry (1996), que resume o conceito de competências como sendo um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes relacionados, que afetam uma atividade e que se correlacionam com a performance do trabalho, poden- do ser melhorados por meio de treinamento e autodesenvolvimento. No contexto de remuneração, as recompensas se baseiam nas competências que o indiví- duo precisa possuir ou desenvolver para execução de suas tarefas e funções. Segundo Chiavenato (2014), a remuneração está intimamente relacionada com a aquisição de competências do funcio- nário, assim como com ele ser capaz de realizar, com sucesso, atividades complexas. O grande desafio da remuneração e carreira por competências é definir de maneira clara a conexão entre os temas. Se analisarmos os conceitos de competências, perceberemos que esse quesito está mais relacionado com outros subsistemas de recursos humanos, como treinamento e desenvolvimento ou recrutamento e seleção. Contudo, há uma lógica que sustenta a remuneração por competências e ela está baseada na agregação de valor: se considerarmos que as competências agregam valor ao negócio, então os in- divíduos que desenvolvem maiores e melhores competências merecem ser recompensados por tal. No Capítulo 3, conhecemos alguns modelos de descrição de cargo. Se revisitarmos o estudo, notaremos que essas descrições traziam campos para preenchimento de conhecimentos e habili- dades necessários para o desempenho de determinada função. Conforme Wood Jr. e Picarelli Filho (2004), alguns modelosde remuneração, surgidos no início da década de 1990, estabeleceram a possibilidade de vincular um incremento monetário para cada um desses conhecimentos ou habi- lidades descritos e medidos. Esses modelos foram os embriões da remuneração por competências. Atualmente muitas empresas utilizam as competências para definição de sua estrutura re- muneratória. Segundo Hipólito (2001), essa prática é importante para estimular os colaboradores na busca por conhecimentos e habilidades. Todavia, tais competências podem não ser utilizadas Vídeo Remuneração estratégica 111 integralmente nas atividades da empresa. Ela não precisa de todos os colaboradores em seu potencial máximo. O importante é estimular o crescimento do capital intelectual agregando valor a seu negócio e remunerar por competências é uma alternativa bastante interessante. Podemos analisar essa relação por uma outra ótica. Segundo Fernandes (2013), a analogia entre competência e sistema de remuneração também se dá no dimensionamento de mão de obra. Para que a empresa saiba o tamanho e o peso de sua estrutura organizacional, é importante que ela entenda os níveis de complexidade e os eixos de carreira de cada área. Em outras palavras, a empresa precisa interpretar seu modelo operacional e entender em que áreas deverá posicionar profissionais de maior senioridade e em que lugares poderá contar com uma força de trabalho mais intermediária. Essa volumetria de pessoal está muito relacionada à arquitetura de cargos da empresa, e essas variáveis de níveis e eixos de carreira serão resultantes das definições de competências organizacionais. É um grande desafio utilizar competências no complexo de remuneração. O próprio concei- to de competências ainda precisa ser mais difundido na realidade empresarial para que possa ser mais bem utilizado, seja nos processos de treinamento ou recrutamento, seja para recompensar e reconhecer profissionais com melhores habilidades. 10.4 Remuneração e transformações do ambiente organizacional Como pudemos notar ao longo deste estudo, a gestão de remuneração tem um papel fundamental na estratégia empresarial. Todas as ações do siste- ma remuneratório têm um efeito direto nas transformações do ambiente or- ganizacional, na estratégia empresarial, no engajamento, na atração e na re- tenção ou no crescimento do capital humano por meio do desenvolvimento de competências. De acordo com Wood Jr. e Picarelli Filho (2004, p. 51), a remuneração é um “catalisador para a convergência de energias na organização”. E, quanto mais esse processo remuneratório se enquadra no contexto e na estratégia do negócio, mais harmonia de interesses é gerada. Todos esses processos causam inúmeras transformações organizacionais, que têm efeitos na cultura, no clima e na identidade institucional. Quando tratamos da arquitetura de cargos em uma empresa, estamos interpretando e or- ganizando seu modelo operacional. Qualquer tipo de alteração nessa estrutura tem um impacto direto na vida das pessoas. Uma simples mudança de nomenclatura em um cargo já pode trazer efeitos, positivos ou não, na percepção dos colaboradores – contribuindo diretamente para o clima organizacional. A organização de salários também pode gerar grandes expectativas na empresa. Por isso, é fundamental que os temas de remuneração e carreira sejam conduzidos de maneira coerente e assertiva. Ainda em conformidade com Wood Jr. e Picarelli Filho (2004, p. 86), “a implantação de um sistema de remuneração pode suceder a um processo de mudança organizacional ou ser, ela Vídeo Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários112 mesma, vista como um processo de mudança”. Essa dinâmica pode ocorrer de várias maneiras, sendo motivada pela empresa ou sendo parte da reação a algum fator externo. Importante salientarmos que uma mudança organizacional só acontece quando as condutas e os pensamentos mudam. A raiz de toda transformação está na maneira de agir e pensar dos in- divíduos – e essa alteração não acontece do dia para a noite, é um processo complexo, longo e que vai sendo efetivado sutilmente ao dia a dia da empresa. Os efeitos na fidelização do capital humano e na melhoria da competitividade da empresa se dão pelo fortalecimento do sistema remuneratório. Essa dinâmica leva tempo e exige investi- mentos; em contrapartida, gera perspectiva a todos os colaboradores e líderes da empresa que, por meio de práticas coerentes e alinhadas aos interesses individuais e organizacionais, permanecem na empresa e utilizam suas competências e engajamento para melhores resultados empresariais. Em suma, a gestão de remuneração é mais que um processo organizacional – é um modelo mental. Considerações finais Refletimos, por meio deste último capítulo, sobre as relações do sistema de remuneração com aspectos organizacionais de grande relevância. O que se percebe, em geral, é que a gestão de remuneração não é o único fator da estratégia empresarial – e também não é a única responsável pelo engajamento, pela atração e pela retenção de talentos, tudo isso está conectado. Vimos também a relevância de sua utilização para o desenvolvimento e a fidelização do capital humano e a agregação de valor gerada pelo uso das competências como fatores de reconhe- cimento e recompensa. Em suma, a remuneração estratégica faz parte de um contexto organizacional de adminis- tração de negócios e atua como ferramenta para maior competitividade de mercado e alinhamento dos interesses individuais com os interesses empresariais. Remuneração não é um tema que deve ficar nas planilhas do departamento de recursos hu- manos, é uma pauta executiva e precisa ser pensada em um contexto tático e estratégico. Ampliando seus conhecimentos • Neste livro, a autora dá luz à relevância das competências individuais e trata esse atributo como fator de destaque competitivo nos negócios. Ela também trata do valor de se fazer o que gosta, com foco no desenvolvimento das capacidades dos colaboradores nas organi- zações. Recomendamos a leitura para compreender melhor a utilização das competências individuais e organizacionais em um contexto de negócio. BERGAMINI, C. Competência, a chave do desempenho. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2012. • O filme conta a história de um ladrão que rouba e implanta pensamentos subconscientes nas pessoas enquanto elas dormem. A trama narra um projeto habilidoso para incutir uma ideia na mente de um empresário e mudar suas decisões com relação à sua empresa. Remuneração estratégica 113 Esse projeto envolve uma estratégia bem precisa e detalhada e também conta com o recru- tamento de indivíduos com capacidades igualmente precisas para realização do grande plano. A obra é recomendada para reflexão sobre os aspectos de engajamento e compe- tências no resultado de uma estratégia empresarial. A ORIGEM. Direção: Christopher Nolan. EUA: Warner Bros, 2010. 1 vídeo (148 min), color. Atividades 1. Qual é a principal relação da remuneração com o contexto de engajamento em uma orga- nização? 2. Quais as razões para que a remuneração seja tratada no contexto da estratégia empresarial e não apenas como um processo organizacional? 3. Como a implementação de um sistema de remuneração afeta as transformações e as mudan- ças organizacionais? Referências CARREIRA Muller. Atração e retenção. Indaiatuba, SP: Carreira Muller, 2016. 26 p. 1 arquivo digital em formato PDF. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. FERNANDES, B. R. Gestão estratégica de pessoas com foco em competências. 1. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2013. HAY GROUP. Remuneração variável. Câmara Suíça. [S. l.: s. n.], 15 jun. 2004. Disponível em: http://www. swisscam.com.br/files_legais/HayGroup_rt.pdf. Acesso em: 17 abr. 2019. HAY GROUP. Tendências de RH 2018. [S. l.: s. n.], mar. 2018. 55 p. 1 arquivo digital em formato PDF. HIPÓLITO, J. A. M. Administração salarial: remuneração por competência como diferencialcompetitivo. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2001. MERCER. 2018 global talent trends study: unlocking growth in the human age. New York, USA: Marsh & McLennan, 2018. 52 p. 1 arquivo digital em formato PDF. PARRY, S. B. The quest for competencies. Training, Minneapolis, USA, v. 33, n. 7, p. 48-54, jul. 1996. RIBEIRO, A. R. B.; OLIVEIRA, J. A. Remuneração variável: uma nova forma de motivar e fidelizar talento. Revista Tendências do Trabalho, Rio de Janeiro, n. 331, p. 4-7, 2002. SILVA, M. O. Gestão de pessoas através do sistema de competências, estratégias, processos, desempenho e remu- neração: fundamentos e aplicação. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005. SILVA, M. O. Sistemas modernos de remuneração. 1. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005. WOOD JR., T.; PICARELLI FILHO, V. Remuneração e carreira: por habilidades e por competências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. Gabarito 1 Gestão de remuneração 1. Salário e remuneração são termos distintos: remuneração é o total da contrapartida recebida pelo empregado em troca de sua mão de obra, salário é uma das espécies de remuneração, um dos componentes remuneratórios que o trabalhador pode receber. É de suma importância entender a diferença fundamental entre os dois termos para que se possa ter a compreensão do conceito de sistema de remuneração, que é a base de estudo da gestão de remuneração. 2. Um sistema de remuneração é formado pela junção de três componentes: remuneração básica, benefícios e incentivos salariais. Esses componentes são combinados de maneira equilibrada, a fim de cumprir os objetivos estratégicos de remuneração da empresa. 3. Modelos com foco em incentivos salariais: remuneração variável, prêmios, participação acionária, bônus e outras alternativas criativas. 2 Plano de remuneração e carreira 1. Podem-se listar três principais vantagens: custo, engajamento e gestão. A otimização do custo está relacionada com o pagamento de remunerações adequadas ao mercado e ao ambiente interno e também à efetividade das estruturas funcionais na empresa. O engajamento se manifesta com a clareza aos colaboradores das práticas de remune- ração adotadas. Assim, o colaborador passa a ter uma perspectiva real de sua carreira naquela organização. Já a vantagem da gestão está no conceito de governança, em que todos os gestores passam a ter os mesmos critérios, ou seja, falam a mesma linguagem no que concerne à gestão de remuneração. 2. Inicialmente se tem o planejamento e a discussão do plano, no qual as diretrizes concei- tuais do projeto serão apresentadas e aprovadas com a alta administração. Na sequência, a análise e a avaliação dos cargos. Nessas duas etapas, os cargos são descritos, analisados e “pesados”. Por meio desse trabalho, é construída a estrutura organizacional e também rea- lizado um ranking para classificação dos cargos. Por fim, pesquisa salarial e construção da estrutura salarial são as duas etapas anteriores à política de remuneração. Nesse momento, é realizada uma abordagem de mercado para entender as práticas de remuneração de ou- tras empresas e também são elaboradas, com base na estratégia interna, as tabelas salariais da empresa em questão. 116 Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários 3. Um plano de remuneração não só pode gerar muitas mudanças na organização como ele mesmo pode ser a mudança. A organização de cargos e salários, a implantação de políticas, a interface com outros processos de gestão, como sucessão de cargos, programas de desem- penho e de treinamento e desenvolvimento, são exemplos das interferências que um projeto como esse pode gerar. 3 Análise, descrição e avaliação de cargos 1. Tarefa é a atividade executada por um profissional na empresa, função é a somatória das tarefas executadas e cargo é o conjunto de funções similares quanto à natureza das tarefas executadas e às especificações exigidas. Como exemplo podemos citar o cargo de caixa, que possui a função de atendimento ao cliente e/ou de cobrança, tendo como tarefas as atividades de conferência de pagamento, verificação de produtos e atendimento ao cliente, entre outras. 2. “O que faz?”; “como faz?” e “para quê faz?”. Como exemplo, podemos descrever o cargo de caixa ‒ o que faz: atender o público; como faz: por meio da cobrança e do recebimento de valores; para quê faz: para garantir o correto pagamento dos produtos/serviços comer- cializados. 3. O método de avaliação mais utilizado é o sistema de pontos. Os cargos são ranqueados con- forme classificação e pontuação de quesitos e fatores padrão preestabelecidos. 4 Pesquisa de remuneração 1. As vantagens são: 1. elaborar um diagnóstico salarial que definirá o quão saudável é a prática de remuneração da empresa – por meio desse diagnóstico saberemos se os salários pagos são competitivos e; 2.estabelecer política salarial com as regras internas para administração de cargos e salários que são definidas com referência nas avaliações internas e nas informações de mercado e contribuirão para reter e atrair talentos. 2. Pesquisa de remuneração é a coleta de dados externos completa de todos os itens de remu- neração, pesquisa de salário é uma parte da pesquisa de remuneração, cujo foco são apenas os salários praticados no mercado. 3. Para gerar credibilidade no trabalho desenvolvido e para garantir que essas empresas parti- ciparão de uma nova pesquisa no momento da atualização desses dados. 5 Estrutura salarial 1. O primeiro fator a ser considerado é a estruturação dos cargos previamente avaliados na eta- pa de avaliação e pesagem dos cargos e o segundo fator é a análise dos salários de mercado referência, obtidos por meio da pesquisa de remuneração. Esses dois itens são os insumos para elaboração das estruturas salariais. Gabarito 117 2. Com base nos resultados da pesquisa salarial, tendo menção aos quartis e à mediana. O Q1 (primeiro quartil) será referência para definir o menor valor na faixa salarial de determinada classe, a mediana será referência para o salário médio e o Q3 (terceiro quartil) será referência para o maior salário. 3. A atualização esporádica da estrutura é importante para manter a política salarial da em- presa referenciada nos movimentos de mercado. Uma política salarial só será competitiva e economicamente viável se for frequentemente revisitada e atualizada. 6 Gestão de benefícios 1. Plano de saúde: é o benefício mais comum nas empresas e tem uma relevância muito alta. Além de gerar segurança para os colaboradores, ainda pode abranger seus familiares e me- lhora a qualidade de vida da mão de obra das empresas. Previdência complementar: como estratégia de remuneração indireta, a previdência gera maiores garantias no momento da aposentadoria dos colaboradores – o que pode aumentar o índice de atração e retenção da empresa. Incentivo à educação: por meio do subsídio educacional, a empresa tam- bém consegue gerar retenção de talentos e investir em seu capital intelectual, tornando-se mais competitiva. 2. Neste modelo mais contemporâneo, os benefícios são disponibilizados aos colaboradores e estes podem escolher ou montar o seu pacote conforme lhes é mais oportuno, atendendo às suas necessidades e particularidades. É comum também se utilizar da segmentação de cargos e hierarquização nesse modelo de gestão de benefícios. 3. A abordagem de pacificação define os benefícios conforme necessidade e expectativa dos funcionários, a abordagem comparativa de benefícios define a estratégia conforme práticas do mercado de referência da empresa e a abordagem de benefícios mínimos oferta apenas os itens constantes em dispositivos legais, como convenções e acordos coletivos de trabalho. 7 Remuneração variável e incentivos a curto e longo prazo 1. Em ordem: (a) salário-base: formado pelo salário de contratação mais adicionais fixos; (b) total em dinheiro: composto do salário base mais incentivos salariais (remuneração variável – incentivos de curto ou longo prazo); (c) remuneração total: formada pelo totalem dinheiro acrescido dos benefícios. 2. Risco de obrigatoriedade do pagamento, mesmo se não atingidas as metas de resultado em virtude do “direito de habitualidade” e incidência fiscal de encargos trabalhistas sobre os valores a serem distribuídos. 3. Promover maior controle dos indicadores, melhoria contínua dos processos, otimização de custos, clareza nas metas da empresa e individuais, além de criar maior comprometimento dos profissionais no alcance das metas. 118 Gestão de remuneração e benefícios em cargos e salários 8 Avaliação de desempenho e remuneração 1. É por meio desse processo que os colaboradores obtêm informações sobre a expectativa da empresa em relação a seu trabalho. Com isso, podem medir seu próprio desempenho, admi- nistrar suas recompensas e identificar as áreas em que podem melhorar. 2. Porque há uma variação no desempenho de pessoa para pessoa. Os fatores que condicionam e influenciam seus resultados são determinados pela percepção de valor e esforço para con- quista de recompensas. 3. Os componentes influenciados pela avaliação de desempenho e gestão de performance fa- zem parte de uma estratégia remuneratória conhecida como remuneração por resultados. São eles: salário por resultados, comissão de vendas, prêmios, programas de bonificação e políticas salariais baseadas em meritocracia. 9 Política de remuneração 1. A política é um instrumento formal, importante para estabelecer diretrizes organizacio- nais da gestão de remuneração para todos os colaboradores e líderes. Ela também tem sua contribuição na gestão de carreiras e na melhor percepção dos colaboradores na relação empresa x empregado. 2. Quanto à administração de salários, é importante que a política aborde as regras de “salário admissão”, avanço horizontal e vertical, necessidade e regras de enquadramento, bem como atualização e reajuste de salários e tabelas salariais. 3. Inicialmente é fundamental que exista um comitê gestor para elaboração do documento. Antes de divulgar a normativa nos canais internos da empresa, é importante instruir todos os líderes com relação ao conteúdo e aos conceitos do documento, visto que eles são os prin- cipais agentes de desdobramento dessas regras. 10 Remuneração estratégica 1. A maneira mais fácil de associar remuneração com engajamento é a recompensa por performance, utilizada nos modelos de remuneração variável e de incentivos salariais. Obvia- mente, remuneração também tem relação com a motivação dos colaboradores, contudo seus efeitos práticos são vistos nos estímulos por meio de recompensas baseadas em resultados. 2. Dado o cenário empresarial de constantes transformações, pode-se considerar: exigência de pessoas com melhores e maiores competências; reconhecimentos baseados em performance e comportamentos; fator diferencial na competitividade e busca de resultados sustentáveis. 3. A implementação de um sistema de remuneração pode ser a própria mudança organizacional, gerada intencionalmente pela empresa ou motivada por uma reação a um fator externo. Todos os itens do sistema de remuneração geram impactos e transformações organizacionais. G es tã o de R em un er aç ão e B en ef íc io s em c ar go s e sa lá rio s W ill ia n B ue no Gestão de Remuneração e Benefícios em Cargos e Salários Willian Bueno G es tã o de R em un er aç ão e B en ef íc io s em c ar go s e sa lá rio s W ill ia n B ue no Gestão de Remuneração e Benefícios em Cargos e Salários Willian Bueno G estão de Rem uneração e B enefícios em Cargos e Salários W illian B ueno Código Logístico 58458 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6467-0 9 7 8 8 5 3 8 7 6 4 6 7 0 Página em branco Página em branco