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FISIOPATOLOGIA E TERAPIA NUTRICIONAL NAS DOENÇAS CARENCIAIS, 29/04/2023 09:43 Página 1 de 23 PULMONARES, ÓSSEAS, RENAIS E NEUROLÓGICAS AULA 1 Profª Ana Paula Garcia Fernandes dos Santos CONVERSA INICIAL Há alguns anos, “doença nutricional” era aquela caracterizada pela deficiência de macro e micronutrientes, como é o caso do beribéri, escorbuto, raquitismo, kwashiorkor e marasmo. Embora as doenças carenciais sejam mais raras atualmente, elas ainda existem – e, por vezes, pequenas alterações na dieta dos indivíduos já resultam em grandes benefícios e melhora do quadro clínico (Batista Filho; Batista, 2010). Diferente do que muitos acreditam, o excesso de peso também pode ocultar deficiências graves de nutrientes. Assim, a equipe multiprofissional tem um papel de suma importância no diagnóstico e no tratamento dessas doenças (Mahan; Raymond, 2018). Nesta aula, iremos discorrer sobre as principais doenças carenciais no Brasil e a importância da nutrição no manejo delas. TEMA 1 – DOENÇAS CARENCIAIS NO BRASIL No Brasil, assim como em vários países ao redor do mundo, a carência de micronutrientes é considerada um problema de saúde pública grave, acometendo principalmente mulheres e 29/04/2023 09:43 Página 2 de 23 crianças menores de cinco anos. Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento de deficiências nutricionais, destacam-se: dieta monótona, baixa ingestão de alimentos de origem animal, baixa prevalência do aleitamento materno, alimentação complementar inadequada e situação econômica de pobreza (Brasil, 2007). O Ministério da Saúde implementou uma série de medidas fundamentais, prescritas na Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), publicada na Revista de Saúde Pública de São Paulo em 2000, de modo a fomentar a segurança alimentar e nutricional da população, trabalhando na prevenção e controle de distúrbios nutricionais. Nas últimas décadas, o país desenvolveu uma série de ações para combater as doenças carenciais, como mapeamento da ocorrência da desnutrição, anemia, hipovitaminose A e deficiência de iodo; estabeleceu o Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A; o Programa Nacional de Suplementação de Ferro; e reforçou a obrigatoriedade da iodação do sal para consumo humano, monitorando o teor de iodo no sal nas indústrias (Jaime et al., 2011). Há ainda que se ressaltar a fortificação dos alimentos. O Brasil dispõe de alimentos fortificados com vitamina A no mercado, mas não optou como estratégia de saúde pública pela inexistência de dados epidemiológicos que embasassem de forma segura e justificassem a fortificação universal. No varejo, é possível encontrar farinha de trigo e milho com ferro e ácido 29/04/2023 09:43 Página 3 de 23 fólico, além da adição de iodo no sal (Brasil, 2013). A fortificação de alimentos vem sendo utilizada como recurso de baixo custo na prevenção de carências nutricionais em muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento (Marques et al., 2012). Apesar de os esforços terem resultado em redução significativa da incidência de deficiências nutricionais, elas ainda acometem uma grande parcela da população. TEMA 2 – DESNUTRIÇÃO PROTEICO- ENERGÉTICA (DPE) O corpo tem uma capacidade notável de suportar a privação de alimento. Nosso organismo realiza uma série de alterações metabólicas, permitindo que os indivíduos sobrevivam por ciclos de excessos e jejuns (Mahan; Raymond, 2018). A DPE é caracterizada por situações patológicas ocasionadas por falta de proteínas e calorias, ocorrendo mais frequentemente em crianças. Nessa faixa etária, a doença pode comprometer o crescimento e desenvolvimento adequado. No que se refere à sua etiologia, a DPE pode ser primária – consumo inadequado de nutrientes – ou secundária – causada por interferências na ingestão, absorção e utilização dos nutrientes (Cozzolino, 2016). As formas mais graves de DPE são denominadas marasmo e kwashiorkor. Apesar de algumas semelhanças, cada doença tem suas especificações, conforme Quadro 1. Quadro 1 – Diferenças entre marasmo e kwashiorkor 29/04/2023 09:43 Página 4 de 23 Marasmo Kwashiorkor Déficit calórico e carência global Inanição Idade prevalente de 0 a 12 meses Edema ausente Lesões de pele raras Esteatose hepática mínima Carência de proteínas com ingestão calórica pouco alterada Possível consumo de carboidratos aumentado Idade prevalente de 24 a 48 meses Edema presente Lesões de pele frequentes Esteatose hepática intensa Fonte: Santos, 2021, com base em Cozzolino, 2016. Glicose é um nutriente obrigatório para o bom funcionamento do organismo. Durante o início do jejum, nosso corpo utiliza a glicose obtida do glicogênio. Após o esgotamento desse estoque, geralmente em 24 horas a glicose deve ser sintetizada novamente usando, nesse caso, a proteína como substrato. Nesse momento, os hormônios catabólicos (epinefrina, tiroxina e glucagon) estimulam a liberação da proteína muscular e de outros substratos para realizar a gliconeogênese. À medida que o jejum se prolonga, os músculos liberam glutamina e alanina para serem convertidos em glicose. Rapidamente, o organismo entra em um balanço nitrogenado negativo, ocasionando edemas, perda de massa muscular, fígado gorduroso, dermatose, além de comprometer os músculos cardíacos, sistema respiratório e imunológico (Cozzolino, 2016; Mahan; Raymond, 2018). 29/04/2023 09:43 Página 5 de 23 2.1 TERAPIA NUTRICIONAL NA DESNUTRIÇÃO A intervenção nutricional no paciente desnutrido tem como objetivo recuperar a função celular, restabelecer os estoques de massa magra e massa gorda, repor a perda tissular e evitar a síndrome de realimentação. O Quadro 2 descreve as principais estratégias para avaliar e tratar a desnutrição. Quadro 2 – Estratégias para avaliar e tratar a desnutrição Primeiro passo Identificar o risco nutricional Realizar inquérito nutricional Realizar inquérito socioeconômico Tratamento do episódio agudo Segundo passo Determinar e tratar as causas subjacentes e definir o alvo calórico e proteico Terceiro passo Considerar uma dieta enriquecida Monitorar a normalização das funções Corrigir as alterações bioquímicas Quarto passo Verificar necessidade de suporte nutricional e de outras vias de alimentação Fomentar o acúmulo normal de reservas Monitoramento Verificação do peso corporal Verificação do balanço hídrico Exames bioquímicos Fonte: Santos, 2021, com base em Silva; Melchert, 2019. 29/04/2023 09:43 Página 6 de 23 TEMA 3 – HIPOVITAMINOSE A Podemos separar as deficiências de vitamina A em dois grupos: 1. Deficiências primárias, ocasionadas pela ingestão inadequada; 2. Deficiências secundárias, que podem resultar da má absorção causada pela gordura dietética insuficiente, insuficiência biliar ou pancreática, transporte prejudicado por abetalipoproteinemia, hepatopatia, desnutrição proteico-calórica ou deficiência de zinco (Mahan; Raymond, 2018). Um dos impactos mais conhecidos da hipovitaminose A é o prejuízo no processo visual, dado que essa vitamina participa do grupo prostético das opsinas, proteínas sensíveis à luz na retina. Deficiência da vitamina A é a causa mais importante de cegueira e xeroftalmia nos países em desenvolvimento (Milagres; Nunes; Sant’ana, 2007; Queiroz, 2013). Não somente nos aspectos visuais, a deficiência dessa vitamina também está relacionada com problemas no crescimento, diferenciação celular, regulação genética dos indivíduos, além de falhas nas funções sistêmicas, caracterizadas por desenvolvimento embrionário prejudicado, aborto espontâneo, anemia e sistema imunocomprometido. Outra grave consequência é a queratinização das membranas mucosas que revestem o trato respiratório, canal alimentar, trato urinário, pele e epitélio do olho (Mahan; Raymond, 2018; Silva; 29/04/2023 09:43 Página 7 de 23 Melchert, 2019). O tratamento dessa hipovitaminose é feito com grandes doses administradas oralmente. São recomendadas 200 milUI no diagnóstico em 24 horas, e uma terceira dose até quatro semanas subsequentes. Alguns estudos mostraram benefícios com tratamentos de doses únicas de 60 mil RAEs na redução da mortalidade infantil. Devemos ressaltar que, quando a deficiência é ocasionada por desnutrição, deve ser tratada para que o paciente possa se beneficiar das doses de vitamina A (Cozzolino, 2016; Silva; Melchert, 2019). As recomendações de ingestão de vitamina A estão descritas na Tabela 1. Tabela 1 – Recomendações de ingestão de vitamina A Estágio da vida Necessidade média estimada (EAR) ug/dia Ingestão dietética recomendada (RDA) ug/dia Lactentes (0-6 meses) - 400 (AI) Crianças (1-3 anos) 210 300 Homens (31-50 anos) 625 900 Mulheres (31-50 anos) 500 700 29/04/2023 09:43 Página 8 de 23 Gestantes (19-50 anos) 550 770 Lactantes (19-50 anos) 900 1300 Fonte: Santos, 2021, com base em Cozzolino, 2016. 3.1 FONTES DE VITAMINA A Alimentos de origem animal fornecem vitamina A pré- formada na forma ativa; já os de origem vegetal contêm precursores dessa vitamina, que são os carotenoides, em especial o B-caroteno (Cuppari, 2002). A Tabela 2 descreve alguns exemplos de alimentos-fonte. Nota-se que alimentos na cor alaranjada e vegetais verde- escuros estão entre os principais da lista. Tabela 2 – Conteúdo de vitamina A em alimentos Alimento Peso (g) Vitamina A (ER) Bife de fígado 100 10.700 Cenoura 72 3.800 Batata-doce 60 1.310 Suco de cenoura com laranja 100 1.081 Espinafre 95 739 Couve 90 502 29/04/2023 09:43 Página 9 de 23 Fonte: Cozzolino, 2016. Atenção Acompanhar exames bioquímicos, como o retinol sérico, é de suma importância durante o tratamento. Além disso, o profissional da nutrição deve estimular o consumo de alimentos- fonte e priorizar uma alimentação saudável e equilibrada. TEMA 4 – ANEMIAS CARENCIAIS Anemia é um estado em que a concentração de hemoglobina no sangue está anormalmente baixa ou o tamanho dos glóbulos vermelhos está alterado em consequência da carência de um ou mais nutrientes essenciais (Hoffbrand; Moss, 2018). Apesar de a ausência de vários nutrientes acentuar anemias carenciais, o ferro é o mais discutido na literatura. Isso se deve pela sua incidência, representando aproximadamente 90% de todos os tipos de anemia no mundo, segundo o documento Programa Nacional de Suplementação de Ferro: manual de condutas gerais, publicado em 2013 pelo Ministério da Saúde. Laboratorialmente podemos classificar as anemias em grandes grupos, pelos valores dos índices eritrocitários: Contagem de eritrócitos ou glóbulos vermelhos (GV); Hematócrito (Ht); Hemoglobina (Hb); Volume corpuscular médio (VCM); 29/04/2023 09:43 Página 10 de 23 Hemoglobina corpuscular média (HCM); Concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM). A Tabela 3 descreve os principais tipos de anemia e suas especificidades. Tabela 3 – Principais tipos de anemia Tipos Indicador laboratorial Causas Microcítica/hipocrômica VCM < 70 fL HCM < 27 pg Deficiência de ferro Talassemias Macrocítica/normocrômica VCM > 90 L HCM 27-32 pg Deficiência de ácido fólico Deficiência de vitamina B12 Anemia refratária Anemia mielotísica Anemia hemolítica Normocítica/normocrômica VCM 70-90 fL HCM 27-32 pg Anemia sideroblástica adquirida Hemorragias Início da deficiência de ferro Fonte: Santos, 2021. Nem todas as anemias estão ligadas diretamente com a nutrição, seja na sua causa ou tratamento. Portanto, nesta aula iremos focar as anemias relacionadas com deficiência de ferro, B12 e ácido fólico. Durante o manejo da anemia, o objetivo dietoterápico é 29/04/2023 09:43 Página 11 de 23 promover uma alimentação saudável, manter os níveis de ferro, folato e vitamina B12 adequados; corrigir os parâmetros hematológicos, além de promover a diversificação alimentar. Ainda, recomenda-se promover o consumo adequado de alimentos-fonte, além de melhorar a biodisponibilidade (Cuppari, 2002; Silva; Melchert, 2019). 4.1 DEFICIÊNCIA DE FERRO A deficiência de ferro atinge principalmente crianças e gestantes em razão do aumento das necessidades desse mineral, decorrente da rápida expansão de massa celular vermelha e pelo crescimento acentuado dos tecidos nessa fase da vida (Mahan; Raymond, 2018). Suas manifestações englobam: palidez, intolerância ao exercício, fraqueza muscular, taquicardia, irritabilidade, cefaleia, unhas coiloníquias e prejuízo do crescimento. A Tabela 4 descreve as recomendações de ingestão de ferro. Tabela 4 – Recomendações de ingestão de ferro Estágio da vida Necessidade média estimada (EAR) mg/dia Ingestão dietética recomendada (RDA) mg/dia Lactentes (0-6 meses) 0,27 - Crianças (1-3 3 7 29/04/2023 09:43 Página 12 de 23 anos) Homens (19-70 anos) 6 8 Mulheres (19-50 anos) 8,1 18 Gestantes (19-50 anos) 22 27 Lactantes (19-50 anos) 6,5 9 Fonte: Cozzolino, 2016. O teor de ferro na alimentação é determinado pela sua quantidade nos alimentos e pela sua biodisponibilidade. A quantidade de ferro dietético absorvida varia em razão das quantidades de ferro heme e não heme da dieta. O ferro heme pode ser encontrado em fontes como carne vermelha, peixes e frango, tendo alta biodisponibilidade. Já o ferro não heme pode ser encontrado em cereais, tubérculos, vegetais e leguminosas (Hoffbrand; Moss, 2018). Sabe-se que o ácido ascórbico é o facilitador mais efetivo da absorção de ferro; assim, é recomendado consumir sucos cítricos durante o consumo de alimentos fonte de ferro nas refeições. Em contrapartida, a ingestão de alimentos fonte de fitatos, oxalatos e compostos fenólicos pode dificultar a 29/04/2023 09:43 Página 13 de 23 absorção do ferro (Mahan; Raymond, 2018). Entre outros fatores que influenciam negativamente estão a má absorção intestinal e a baixa acidez gástrica (Martins et al., 2015). A Tabela 5 descreve alguns alimentos fonte de ferro. Tabela 5 – Conteúdo de ferro em alimentos Alimento Peso (g) Ferro (mg) Marisco 100 22 Ostra 100 8,5 Fígado de galinha 100 8,5 Tofu 124 6,7 Carne de boi 85 2,2 Vagem 80 1,75 Fonte: Cozzolino, 2016. 4.2 DEFICIÊNCIA DE VITAMINA B12 A deficiência de vitamina B12 ocasiona duas complicações importantes: anemia megaloblástica e neuropatia. Pacientes com gastrite atrófica, insuficiência pancreática, imunossuprimidos e bariátricos podem apresentar essa deficiência, definida laboratorialmente como < 150 pg/mL (Cozzolino, 2016; Cuppari, 2002). Alimentos de origem animal são as únicas fontes naturais 29/04/2023 09:43 Página 14 de 23 dessa vitamina, como produtos lácteos, carne, fígado, peixes e ovos. É importante ressaltar que a maioria das recomendações encontradas na literatura foi baseada em quantidades fornecidas por via parenteral para pacientes com anemia perniciosa decorrente de problemas de absorção dessa vitamina. Assim, acreditamos que esses valores superestimam as recomendações normais, uma vez que não consideram a circulação enteropática da vitamina. 4.3 DEFICIÊNCIA EM FOLATO A deficiência de folato, assim como da vitamina B12, resulta em uma anemia megaloblástica, definida pela liberação de eritrócitos imaturos na circulação em virtude de falha no processo normal de maturação da medula óssea. As causas estão relacionadas com baixa ingestão, aumento da demanda do organismo, gravidez, lactação ou má absorção de folato. No que se refere à ingestão, podemos adquirir esse composto pela dieta – como brócolis, espinafre, grãos, feijão e laranja – ou por síntese microbiana no intestino. No Brasil, é obrigatório adicionar ácido fólico nas farinhas de trigo e milho comercializadas no país (Cozzolino, 2016). TEMA 5 – DISTÚRBIOS POR DEFICIÊNCIA DE IODO De acordo com o documento Carências de micronutrientes, publicado pelo Ministério da Saúde em 2007, deficiência de iodo 29/04/2023 09:43 Página 15 de 23 é um grave problema de saúde pública em muitos países, sendo a causa mais comum de danos cerebraisno mundo. Essa condição pode acarretar baixa estatura, apatia, atraso no desenvolvimento cerebral e prejuízos à capacidade motora, sendo o cretinismo e o bócio as consequências mais conhecidas. A deficiência de iodo pode ser manifestada nas diferentes faixas da vida, em especial no período fetal e em recém-nascidos. O iodo foi o segundo micronutriente reconhecido como essencial para a saúde, no ano de 1850. Ele tem papel fundamental para o adequado funcionamento da glândula tireoide, uma vez que é parte constituinte dos hormônios tireoidianos. Quando a ingestão de iodo não é suficiente nem adequada, comprometem-se a tireoide e a produção dos hormônios tireoidianos. Ressalta-se que nenhuma outra glândula endócrina é tão dependente de um micronutriente quanto a tireoide. A Tabela 6 descreve as recomendações de ingestão de iodo. Tabela 6 – Recomendações de ingestão de iodo Estágio da vida Ingestão dietética recomendada (RDA) ug/dia Lactentes (0-6 meses) - Crianças (1-3 anos) 90 Adultos 150 29/04/2023 09:43 Página 16 de 23 (19-70 anos) Gestantes (19-50 anos) 220 Lactantes (19-50 anos) 290 Fonte: Cozzolino, 2016. Quando falamos sobre iodo, é comum que as pessoas remetam ao bócio. Essa condição é conhecida há muito tempo, inclusive pode ser encontrada refletida na arte pictórica das antigas civilizações. Utiliza-se esse termo para caracterizar uma situação em que a glândula tireoide tem tamanho acima do normal. Isso acontece nas pessoas com deficiência de iodo, porque não conseguem produzir hormônios tireoidianos em quantidade suficiente. Os baixos níveis desses hormônios no sangue aumentam a secreção da tirotrofina (TSH), numa tentativa de fazer a tireoide produzir mais dos seus hormônios. O bócio pode comprometer a respiração, com compressão da traqueia, asfixia, dor local, problemas na deglutição, além da invasão do mediastino. O cretinismo também é muito relacionado com a deficiência de iodo. Sua manifestação ocorre pela redução da síntese dos hormônios tireoidianos durante o período fetal, traduzindo-se em sério comprometimento do sistema nervoso central e retardo mental irreversível. O cretinismo pode ser definido de duas formas: 29/04/2023 09:43 Página 17 de 23 1. Neurológico, a forma mais comum do quadro, caracterizado pelo déficit neurológico, incluindo tetraplegia; 2. Mixedematoso, em que ocorre a privação de iodo na infância, prejudicando o desenvolvimento pubertário. 5.1 FONTES DE IODO O Brasil não dispõe de dados precisos do conteúdo de iodo, uma vez que sua concentração nos alimentos pode ser bastante variada, dependendo do local onde foi produzido. Entretanto, sabemos que a maior concentração desse micronutriente encontra-se nos oceanos; assim, as fontes de origem animal são usualmente os produtos do mar: sardinhas, atum, ostras e moluscos. Podemos também encontrar iodo no leite e demais produtos lácteos, além de ovos provenientes de regiões onde os animais são alimentados com rações enriquecidas (Catarino; Duarte, 2011; Cozzolino, 2016). Apesar de a quantidade de iodo requerida pelo organismo humano ser mínima, o fato de não poder ser estocado no organismo por longos períodos faz com que pequenas quantidades sejam necessárias diariamente (Cuppari, 2002; Macedo et al., 2012). Desse modo, o estímulo ao consumo do sal iodado é necessário como estratégia de prevenção e controle da deficiência, não devendo ser encarado como potencial fator de risco para elevação no consumo de sódio, dado que uma dieta normossódica permite atender às recomendações de iodo para a população (Mahan; Raymond, 29/04/2023 09:43 Página 18 de 23 2018). Aliás, por décadas a iodação do sal tem sido a estratégia usada em muitos países desenvolvidos, onde as doenças por deficiência de iodo já foram controladas. Em casos bem específicos, utilizam-se outras estratégias no tratamento dessa deficiência, como o uso de cápsulas de iodo, iodação da água ou fortificação de outros alimentos (Brasil, 2007). Uma vez que a iodação do sal é o método de escolha para prevenir as consequências da deficiência de iodo, é importante que todos os indivíduos consumam apenas o sal iodado e saibam armazená-lo corretamente para reduzir o risco de perda de iodo. Alguns fatores podem interferir no uso correto do sal de cozinha (Brasil, 2007; Silva; Melchert, 2019). Na visão da nutrição, ao encontrarmos pacientes com deficiência de iodo, recomenda-se monitorar sua concentração urinária, taxa de bócio, níveis de TSH e de tiroglobulina séricos. O profissional deve estimular uma dieta equilibrada, variada e seguindo as recomendações dietéticas para a população saudável. Atenção A forma de preparo dos alimentos também é um fator importante na ingestão do iodo. A cocção e a fritura ocasionam perda significativa desse micronutriente. NA PRÁTICA 29/04/2023 09:43 Página 19 de 23 Para reforçar as informações descritas, vamos trabalhar um caso clínico relacionado com as doenças abordadas. Quadro 3 – Caso clínico de doenças carenciais S# Paciente A. P., 4 anos, com diagnóstico médico de anemia por deficiência de ferro. Paciente acompanhada da mãe. Mãe apresenta como queixa principal que a paciente “se alimenta sempre dos mesmos alimentos” (sic), porém “consome em quantidades suficientes” (sic). Mãe relata preocupação e dúvidas sobre quais alimentos pode ofertar para a filha após o diagnóstico da anemia. Também refere que a filha apresenta sinais de cansaço e irritação ao longo do dia. Paciente não tem alergias nem intolerâncias alimentares. A mãe refere ingestão hídrica de aproximadamente um litro por dia. Refere urina de cor clara e evacuações em consistência normal uma vez ao dia. O# Peso: 17,5 kg; altura: 102 cm. Fonte: Santos, 2021. Com base nas informações, responda: 1. Que outras informações pertinentes você investigaria no caso? 2. Descreva os diagnósticos em nutrição que você aplicaria. 3. Quais recomendações nutricionais você faria para a paciente? 4. Quais são os potenciais problemas que a paciente irá enfrentar se a condição progredir? 5. Cite quais políticas públicas estão relacionadas com a prevenção da doença-base descrita. FINALIZANDO 29/04/2023 09:43 Página 20 de 23 Apesar de a incidência das doenças carenciais ter diminuído nos últimos anos, ainda representam uma parcela importante da população mundial. As deficiências de vitamina A, ferro e iodo, conforme descritas, têm uma série de manifestações clínicas e consequências para a saúde, além de representarem um grave problema de saúde pública. O nutricionista, por meio das políticas públicas, atua na prevenção e no controle dessas deficiências associadas com a alimentação e a nutrição. Deve-se, ainda, considerar que os profissionais da atenção básica fomentam a alimentação saudável e identificam riscos nutricionais, prezando pela garantia da segurança alimentar e nutricional da população. Dado o exposto, entende-se que a nutrição é fundamental na prevenção, manejo e monitoramento de deficiências nutricionais. Ainda, atua como requisito básico para promover e proteger a saúde, enfrentando a atual situação epidemiológica do país. REFERÊNCIAS BATISTA FILHO, M.; BATISTA, L. Transição alimentar/nutricional ou mutação antropológica. Ciências e Cultura, São Paulo , v. 62, n. 4, p. 26-30, out. 2010. BRASIL. Secretaria de Políticas de Saúde. Política Nacional de Alimentação e Nutrição do Setor Saúde. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 34, n. 1, p. 104-108, 2000. 29/04/2023 09:43 Página 21 de 23 _____. Ministério da Saúde. Cadernos de atenção básica: carências de micronutrientes. Brasília, DF, 2007. _____. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Programa Nacional de Suplementação de Ferro: manual de condutas gerais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. 24 p. CATARINO, R. M.; DUARTE, G. Deficiência de iodo e suas implicações na área da saúde. Bepa, [S.l.], v. 8, n. 86, p.19-27, 2011. COZZOLINO, S. Biodisponibilidade de nutrientes. 5. ed. 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