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Indaial – 2021 TGI e DCNT Prof.a Mariane Caroline Meurer 1a Edição NuTrIção ClíNICa: Elaboração: Prof.a Mariane Caroline Meurer Copyright © UNIASSELVI 2021 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: M598n Meurer, Mariane Caroline Nutrição clínica: TGI e DCNT. / Mariane Caroline Meurer. – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 186 p.; il. ISBN 978-65-5663-360-2 ISBN Digital 978-65-5663-355-8 1. Nutrição. – Brasil. 2. Saúde - Aspectos nutricionais. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 612.3 Olá, acadêmico, seja bem-vindo à disciplina de Nutrição Clínica! Este livro didático tem como propósito auxiliá-lo no processo de aprendizagem da ciência da Nutrição, que envolve diferentes conceitos e dinamismo acerca das doenças que acometem o trato gastrointestinal. Este livro didático servirá como guia, futuro nutricionista, saber como proceder em um atendimento em consultório, clínica ou hospital, adquirindo os conhecimentos necessários para diferenciar as doenças do trato gastrointestinal (TGI), obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes mellitus e síndrome metabólica, e compreender a dietoterapia envolvida em cada uma delas. O livro está dividido em três unidades, cada qual com objetivos, conteúdos, au- toatividades, dicas, sugestões e recomendações. Como sabemos, o Trato gastrointesti- nal (TGI) tem como função a absorção de água, eletrólitos e nutrientes e sofre desafios intensos para evitar que agente patogênicos causem danos e desequilíbrios importan- tes nos tecidos internos. Na Unidade 1, aprenderemos sobre a função do TGI, aprofun- daremos nas principais doenças que acometem esse sistema e a dietoterapia adequada para cada caso. O excesso de peso e a obesidade são fatores de risco para diversas doenças consideradas crônicas (DCNT). As DCNT são multifatoriais apresentando um desenvol- vimento silencioso e com muitas recidivas que se não prevenidas ou tratadas podem impactar de forma devastadora na vida do indivíduo e na saúde pública. Por isso, o estilo de vida e um processo de intervenções se fazem necessários nesses pacientes. Tendo em vista a importância da nutrição nesses casos, na segunda e na terceira unidade, você aprofundará os conhecimentos referentes às doenças cardiovasculares, como hipertensão e doença arterial coronariana, diabetes mellitus tipo 1 e 2, a síndrome metabólica, bem como a dietoterapia envolvida em cada uma dessas patologias. Desejamos uma ótima leitura! Prof.a Mariane Caroline Meurer APRESENTAÇÃO Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO QR CODE Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. ENADE LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conheci- mento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa- res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! SUMÁRIO UNIDADE 1 — NUTRIÇÃO CLÍNICA: TRATO GASTROINTESTINAL E DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS ....................................................................................... 1 TÓPICO 1 — FUNÇÕES DO TRATO GASTROINTESTINAL E DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL SUPERIOR ..............................................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3 2 DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL SUPERIOR....................................................5 2.1 REFLUXO GASTROESOFÁGICO ........................................................................................................... 5 2.1.1 Fisiopatologia do Refluxo Gastroesofágico ........................................................................... 5 2.1.2 Dietoterapia no Refluxo Gastroesofágico.............................................................................. 9 2.2 GASTRITE ...............................................................................................................................................12 2.2.1 Fisiopatologia da Gastrite .........................................................................................................12 2.2.2 Dietoterapia na Gastrite .......................................................................................................... 14 2.3 ÚLCERA GÁSTRICA .............................................................................................................................17 2.3.1 Fisiopatologia da Úlcera Gástrica ...........................................................................................17 2.3.2 Dietoterapia na Úlcera Gástrica ............................................................................................ 19 2.4 PANCREATITE ......................................................................................................................................22 2.4.1 Fisiopatologia na Pancreatite .................................................................................................232.4.2 Dietoterapia na Pancreatite ...................................................................................................25 2.5 CÁLCULO BILIAR ................................................................................................................................ 27 2.5.1 Fisiopatologia do Cálculo Biliar ..............................................................................................28 2.5.2 Dietoterapia no Cálculo Biliar .................................................................................................31 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 33 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 35 TÓPICO 2 — DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL INFERIOR ..................................37 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................37 2 SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL (SII) ....................................................................37 2.1 FISIOPATOLOGIA DA SII ...................................................................................................................... 37 2.2 DIETOTERAPIA NA SII ........................................................................................................................42 2.2.1 Fibras ............................................................................................................................................42 2.2.2 Glúten ..........................................................................................................................................43 3 COLITE ULCERATIVA E DOENÇA DE CROHN .................................................................. 44 3.1 FISIOPATOLOGIA DA COLITE ULCERATIVA ....................................................................................45 3.2 FISIOPATOLOGIA DA DOENÇA DE CROHN ....................................................................................46 3.3 DIETOTERAPIA NAS DII .....................................................................................................................46 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 50 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 52 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 53 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 55 UNIDADE 2 — NUTRIÇÃO CLÍNICA: OBESIDADE E DOENÇAS CARDIOVASCULARES ....... 67 TÓPICO 1 — OBESIDADE ..................................................................................................... 69 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 69 2 FISIOPATOLOGIA DA OBESIDADE ...................................................................................70 2.1 GENÉTICA ...............................................................................................................................................71 2.2 AMBIENTAL .......................................................................................................................................... 74 2.3 HORMÔNIOS E NEUROTRANSMISSORES ..................................................................................... 76 2.4 COMPORTAMENTO ALIMENTAR ...................................................................................................... 77 3 DIETOTERAPIA NA OBESIDADE .......................................................................................79 3.1 RESTRIÇÃO CALÓRICA ....................................................................................................................... 79 3.2 CETOGÊNICA ........................................................................................................................................ 81 3.3 LOW CARB ............................................................................................................................................82 3.4 VITAMINA D E OBESIDADE ...............................................................................................................82 3.5 MICROBIOTA INTESTINAL .................................................................................................................83 RESUMO DO TÓPICO 1 .........................................................................................................87 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 89 TÓPICO 2 — DOENÇAS CARDIOVASCULARES 1 ................................................................. 91 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 91 2 HIPERTENSÃO .................................................................................................................. 91 2.1 FISIOPATOLOGIA NA HIPERTENSÃO ...............................................................................................93 2.2 DIETOTERAPIA NA HIPERTENSÃO .................................................................................................96 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................105 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................107 TÓPICO 3 — DOENÇAS CARDIOVASCULARES 2 ..............................................................109 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................109 2 FISIOPATOLOGIA NA DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA .......................................... 110 3 DIETOTERAPIA NA DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA ............................................. 113 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................117 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 119 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 121 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................123 UNIDADE 3 — TRATO GASTROINTESTINAL E DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS NA NUTRIÇÃO CLÍNICA ...................................................................................127 TÓPICO 1 — DIABETES MELLITUS TIPO 1 .........................................................................129 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................129 2 FISIOPATOLOGIA DA DIABETES MELLITUS TIPO 1 ...................................................... 131 3 DIETOTERAPIA NA DIABETES MELLITUS TIPO 1 ..........................................................139 3.1 CONTAGEM DE CARBOIDRATOS ....................................................................................................140 3.2 MICROBIOTA ........................................................................................................................................141 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................................143 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................145 TÓPICO 2 — DIABETES MELLITUS TIPO 2 ........................................................................1491 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................149 2 FISIOPATOLOGIA NA DIABETES MELLITUS TIPO 2 ......................................................149 2.1 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO ................................................................................................... 152 3 DIETOTERAPIA NA DIABETES MELLITUS TIPO 2 .........................................................156 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................162 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................164 TÓPICO 3 — SÍNDROME METABÓLICA .............................................................................. 167 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 167 2 FISIOPATOLOGIA DA SÍNDROME METABÓLICA ............................................................ 167 3 DIETOTERAPIA NA SÍNDROME METABÓLICA ...............................................................170 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 177 RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................180 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................182 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................184 1 UNIDADE 1 - NUTRIÇÃO CLÍNICA: TRATO GASTROINTESTINAL E DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender as funções do trato gastrointestinal; • reconhecer a fisiopatologia envolvendo as doenças do sistema digestório; • conhecer a dietoterapia voltada para cada patologia do sistema digestório; • desenvolver o olhar clínico para as patologias do sistema digestório. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – FUNÇÕES DO TRATO GASTROINTESTINAL E DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL SUPERIOR TÓPICO 2 – DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL INFERIOR Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 FUNÇÕES DO TRATO GASTROINTESTINAL E DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL SUPERIOR 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 1 - UNIDADE 1 O trato gastrointestinal (TGI) tem como principal função a absorção de água, eletrólitos e nutrientes. Durante todo o tempo, o TGI sofre desafios intensos para evitar que agentes patogênicos atinjam o lúmen gastrointestinal e acessem tecidos internos. Por isso, as células epiteliais do TGI formam uma barreira seletivamente permeável, rigidamente regulada e especializada (SHEN, 2009). A parede do TGI começa no esôfago e termina no ânus, sofrendo alterações ao longo das várias regiões. Essa parede é composta por quatro camadas (túnicas) com uma rede de nervos interconectadas. As túnicas são chamadas de: túnica mucosa, túnica submucosa, túnica muscular e túnica serosa ou adventícia, formando, assim, o tecido epitelial (Figura 1) (SPENCE, 1991). FIGURA 1 – ANATOMIA DO ESTÔMAGO FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/captulo02-alimentosesistemadigestrio- 120425085859-phpapp02/95/captulo-02-alimentos-e-sistema-digestrio-80-1024. jpg?cb=1335344574>. Acesso em: 24 fev. 2021. 4 Esses tecidos epiteliais são essenciais para o funcionamento adequado de todo o organismo, fazendo sua cobertura e proteção, formando glândulas que desempenham funções específicas, realizam secreção e absorção de substâncias necessárias e protegem contra agentes físicos, químicos e patogênicos (VASILEVA et al., 2017). Como sabemos, o corpo humano é extensamente colonizado por bactérias, fungos e vírus coletivamente, essa colonização é conhecida como microbiota comensal. Esses micro-organismos são distribuídos ao longo da superfície do corpo, porém, o local de maior variedade é o TGI, mais especificamente o intestino (QIN et al., 2010). Via de regra o TGI é adaptado à colonização por bactérias comensais, pois estas ajudam na digestão e influenciam no desenvolvimento do sistema imunológico de mucosa. O problema é que a colonização bacteriana pode se tornar patogênica dependendo da bactéria presente e do comprometimento das células epiteliais de barreira ou imune (PETERSON; ARTIS, 2014) e isso pode acarretar doenças e distúrbios do TGI (Quadro 1). QUADRO 1 – ALGUMAS DOENÇAS QUE ACOMETEM O TGI Trato Gastrointestinal superior Trato gastrointestinal inferior • Refluxo gastroesofágico. • Gastrite. • Úlcera. • Pancreatite. • Cálculo biliar. • Síndrome do Intestino irritável. • Colite Ulcerativa. • Doença de Crohn. FONTE: O autor Assista aos vídeos disponíveis nos links a seguir: Digestive System, Part 1: https://www.youtube.com/watch?v=yIoTRGfcMqM Digestive System, Part 2: https://www.youtube.com/watch?v=pqgcEIaXGME Digestive System, Part 3: https://www.youtube.com/watch?v=jGme7BRkpuQ DICAS 5 2 DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL SUPERIOR As doenças do trato gastrointestinal superior são aquelas que acometem o estômago, pâncreas e anexos. Neste tópico, nós iremos focar apenas na doença do refluxo gastresofágico, gastrite, úlcera, pancreatite e cálculo biliar. Essas doenças apresentam fisiopatologias distintas, porém, com um deno- minador em comum, a nutrição. Neste tópico, iremos aprender a fisiopatologia de cada doença e a dietoterapia indicada para as doenças do TGI superior. 2.1 REFLUXO GASTROESOFÁGICO O esôfago é um tubo oco de aproximadamente 25 centímetros em comprimento que se estende da faringe até o estômago. A faringe é um tubo muscular de aproximadamente 12 centímetros que serve como entrada para o esôfago e trato respiratório. Basicamente, o esôfago é dividido em três partes: cervical, torácico e abdominal. Sua função primária consiste em transportar o alimento ingerido da faringe para o estômago (GAVAGHAN, 1999). 2.1.1 Fisiopatologia do Refluxo Gastroesofágico A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é um distúrbio comum em todo o mundo, com uma prevalência estimada de 18,1 a 27,8% na América do Norte (CLARRETT; HACHEM, 2018). Em 2006, estimou-se que no Brasil a prevalência estava em torno de 12% (NASI; MORAES-FILHO; CECCONELLO, 2006). Apesar de sua alta prevalência na população, muitos desses indivíduos não procuram atendimento médico em decorrência de suas características intermitentes e o fácil acesso à medicação não prescrita (ABRAHÃO JUNIOR, 2014). Entre os fatores de risco para o desenvolvimento da DRGE, incluem a idade avançada, índice de massa corpora (IMC) alto, tabagismo, ansiedade e/ou depressão e sedentarismo. Os hábitos alimentares inadequados também podem contribuir para a DRGE, incluindo a acidez dos alimentos, tamanho e horário das refeições (ZHENG et al., 2007; JAROSZ; TARAS- ZEWSKA, 2014). Sua fisiopatologia é multifatorial. Entre os mecanismos envolvidos estão o relaxamento prejudicado e transitório do tônus de repouso do esfíncter esofágico, retardo do esvaziamento gástrico, peristalse disfuncional, depuração inadequada do ácido esofágico, salivação reduzida, resistência da mucosa prejudicada e aumento da pressão intra-abdominal. O relaxamento do esfíncter esofágico expõe o esôfago ao ácido gástrico e outros conteúdos estomacais, como a pepsina, bile, fluido do intestino delgado e secreções pancreáticas, todos esses são prejudiciais à mucosa esofágica (KELLERMAN; KINTANAR, 2017). 6 Essa exposição repetida do esôfago ao suco gástrico provoca alterações na integridade da mucosae na composição celular, levando ao desenvolvimento de inflamação, tecido cicatricial e alterações na sensibilidade visceral. As complicações decorrentes incluem os sintomas esofágicos e extraesofágicos, desenvolvimento de estenose, dismotilidade e/ou carcinogênese (SPECHLER, 2003; GIORGIO et al., 2006) As manifestações clínicas típicas são pirose e regurgitação, as manifestações atípicas são dor torácica, tosse e manifestações otorrinolaringológicas (pigarro, rouquidão, laringite e asma) (Figura 2). Endoscopicamente, a classificação da DRGE pode ser: não erosiva, erosiva e complicada, quando ocorre ulcerações, estenose ou metaplasia intestinal (ABRAHÃO JUNIOR, 2014). FIGURA 2 – MANIFESTAÇÕES DA DOENÇA DO REFLUXO GASTROESOFÁGICO Legenda: DTOI – Dor Torácica de Origem Indeterminada. ORL – Otorrinolaringológicas. FONTE: Abrahão Junior (2014, p. 32) O rastreamento dos pacientes quanto aos “sintomas de alarme” associados à DRGE é importante, pois podem ser indicativos de necessidade de avaliação endoscópi- ca. Esses sintomas podem sugerir malignidade subjacente, quando a endoscopia pode ser recomendada, além disso, o exame torna-se importante para triagem de pacientes com alto risco de complicações (esôfago de Barrett, sintomas crônicos e frequentes, idade > 50 anos, caucasianos e com obesidade central). Dentre os “sintomas de alarme” 7 estão a disfagia (dificuldade para engolir), odinofagia (dor para engolir), anemia, sangra- mentos e perda de peso, que podem indicar a presença de complicações como este- noses, ulcerações, malignidade (KATZ; GERSON; VELA, 2013). Você deve se perguntar: como o diagnóstico é feito? O diagnóstico da DRGE é realizado através de anamnese detalhada, que pode ser complementada com exames de imagens específicos como endoscopia, radiológico contrastado do esôfago, cintilografia, manometria, pHmetria de 24 horas e teste terapêutico (FBG, 2003). O método de escolha para o diagnóstico das lesões causadas pelo refluxo gastroesofágico é o exame endoscópico, o qual apresenta uma sensibilidade de cerca de 60% e possui uma facilidade de execução e disponibilidade na maioria dos centros médicos. Através dele é possível avaliar a gravidade da esofagite e realizar biópsias quando necessário, como nos casos de complicações (estenose péptica, úlceras e esôfago de Barrett) (FBG, 2003). Através dessa avaliação ocorre uma classificação dos graus ou intensidade da esofagite. Porém, existem várias classificações e divergências nas interpretações quanto ao real significado dos achados como eritema, friabilidade e edema da mucosa esofágica, haja vista a baixa correlação entre esses achados endoscópicos e o exame histológico. As classificações usualmente empregas são a de Savary-Miller e a Los Angeles (FBG, 2003). Veja, nos Quadros 2 e 3, o descritivo de cada uma delas. QUADRO 2 – CLASSIFICAÇÃO ENDOSCÓPICA DE SAVARY-MILLER FONTE: FBG (2003, p. 5) 8 QUADRO 3 – CLASSIFICAÇÃO ENDOSCÓPICA DE LOS ANGELES FONTE: FBG (2003, p. 5) O tratamento da DRGE tem como objetivo o alívio dos sintomas, a cura das lesões da mucosa (quando presentes), e a prevenção de recorrências e complicações. Esse tratamento pode ser considerado clínico, cirúrgico ou endoscópico, para ser mais prático, a literatura sugere a divisão da abordagem terapêutica em medidas comportamentais e farmacológicas, e que fique claro ao paciente de que ele possui uma doença crônica (MORAES-FILHO et al., 2010). Várias classes de medicamentos podem ser utilizadas no tratamento da DRGE. As drogas de primeira escolha são os inibidores da bomba de prótons (IBP), que inibem a produção de ácido pelas células parietais do estômago, reduzindo assim a agressão ao esôfago. Os IBPs em dose plena são o tratamento de escolha inicial por um período de quatro a oito semanas, porém, se o paciente não apresentar melhora dos sintomas a dose é dobrada, sendo administrada antes do café da manhã e antes do jantar (HENRY, 2010). O tratamento cirúrgico é indicado para aqueles indivíduos que necessitam usar medicação ininterruptamente, intolerantes ao tratamento clínico prologado e nas formas de complicações da doença. Além disso, estudos sugerem que o tratamento cirúrgico deve ser indicado para as mulheres menopausadas e com osteoporose, visto que há uma possível interferência do uso do IBP na absorção de cálcio (HENRY, 2010). Os sintomas da DRGE não devem ser confundidos com os da dispepsia. A dispepsia é um desconforto epigástrico, sem azia ou regurgitação ácida e que possui duração superior a um mês, podendo estar associada a uma distensão abdominal ou plenitude gástrica, arrotos, náuseas e vômitos. A dispepsia é um distúrbio que pode ser tratado de forma diferente da DRGE e que pode também contar com a avaliação endoscópica, bem como teste para a H. pylori (DENT, 2004). ATENÇÃO 9 2.1.2 Dietoterapia no Refluxo Gastroesofágico Diante do exposto, como deve ser conduzida a dietoterapia para o paciente com DRGE? Como já citado anteriormente, há vários fatores de risco para o desenvolvimento da DRGE, os quais incluem idade, massa corporal excessiva, estilo de vida como tabagismo e inatividade física e a dieta, porém, o papel da dieta como fator de risco para a DRGE ainda não foi bem esclarecido e os resultados são contraditórios (JAROSZ; TARASZEWSKA, 2014). Estudos levantam a hipótese de que certos hábitos alimentares, como comer rápido grandes volumes ou comer antes de dormir podem contribuir para o aparecimento dos sintomas da doença, porém, nenhum deles conseguiu confirmar a influência desses hábitos na ocorrência ou agravamento dos sintomas. Jarosz e Taraszewska (2014) afirmam que não houve influência da regularidade e da velocidade das refeições ou entre as refeições na ocorrência dos sintomas de DRGE. Porém, os autores citam uma associação entre o baixo número de refeições (uma a duas refeições por dia) e os sintomas. Sabe-se que restringir o número de refeições ao longo do dia torna maior o volume das refeições mínimas realizadas, e isso pode piorar os sintomas da DRGE. Os autores levantam a hipótese de que a teoria da biomecânica esteja envolvida, a qual diz que o alongamento excessivo (por muitos anos) das paredes do estômago, devido ao volume da refeição e o acúmulo de ar no fundo do estômago durante a refeição, leva ao enfraquecimento dos mecanismos que regulam o esfíncter esofágico inferior. A literatura costuma listar alguns produtos como refluxogênicos, são eles: alimentos gordurosos, picantes ou azedos, frutas cítricas e sucos, alho, tomate e suco de tomate, chocolate, café, bebidas e produtos contendo hortelã-pimenta, bebidas carbonatadas e álcool. Vários mecanismos são pressupostos envolvendo o consumo desses alimentos e o agravamento dos sintomas da DRGE, como a diminuição da tensão do esfíncter esofágico inferior, retardo do esvaziamento gástrico, estímulo dos receptores sensoriais no esôfago e o aumento da secreção de ácido clorídrico (PEHL et al., 1999; RODRIGUEZ- STANLEY et al., 2000; MYKLEBUST et al., 2003; HAMPEL; ABRAHAM; EL-SERAG, 2005). Como vimos, estudos anteriores se concentraram em analisar os tipos de ali- mentos e bebidas em termos de sua fisiopatologia nos sintomas da DRGE. Recente- mente, tem sido colocado que padrões dietéticos, incluindo a composição de macro- nutrientes e comportamento alimentar estão envolvidos, e que podem fazer parte de uma abordagem mais prática para os pacientes (NEWBERRY; LYNCH, 2019). Confira no Quadro 4 a pressuposição de relação entre DRGE e a dieta. 10 QUADRO 4 – RELAÇÃO DRGE E DIETA Alvo dietético Mecanismo proposto dos sintomas da DRGE Alimentos específicos e bebidas Alimentos e bebidas ácidas Irritação direta da mucosa esofágica Carbonatação Aumento da distensão gástrica/ relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior. Café Redução do tônus do esfíncter esofágico inferior. Álcool Redução do tônus do esfíncter esofágico inferior/ Motilidade gástrica. Chocolate Redução dotônus do esfíncter esofágico inferior. Menta Redução do tônus do esfíncter esofágico inferior. Alimentos picantes Irritação direta da mucosa esofágica Macronutrientes Gorduras Redução do tônus do esfíncter esofágico inferior/ Motilidade gástrica. Carboidratos Redução do tônus do esfíncter esofágico inferior. Comportamento alimentar Comer tarde da noite Aumento da produção de ácido clorídrico Refeição volumosa Aumento da distensão gástrica/ relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior. Refeição com densidade calórica Aumento da distensão gástrica/ relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior. FONTE: Adaptado de Newberry e Lynch (2019) Na clínica é comumente recomendado que se evitem tipos específicos de bebidas para o tratamento da DRGE, porém, a maioria dessas recomendações é baseada em evidências limitadas. Bebidas ácidas, por exemplo, são cotadas por piorar a DRGE e demonstrou-se que os fluidos fisiologicamente ácidos reduzem o pH do conteúdo estomacal refluído e aumentam o tempo de depuração esofágica, contudo, na prática, a correlação dos sintomas com a ingestão de bebidas ácidas não é clara (GOMES; DANTAS, 2014). Além disso, costuma-se orientar os pacientes a evitar alimentos e temperos pi- cantes, porém, assim como nas bebidas, essas recomendações são baseadas em dados limitados e precisam ser personalizadas para cada indivíduo. Outro exemplo é a utili- zação da hortelã, uma pequena parcela dos pacientes relata gatilho do DRGE ao con- sumi-la. Em contrapartida, alimentos condimentados podem agir como irritante direto da mucosa esofágica, indicando que paciente sensíveis a esses temperos podem obter benefícios ao evitá-los (NEWBERRY; LYNCH, 2019). 11 Existem, também, hipóteses de que dietas ricas em gorduras, que incluem alimentos fritos ou gordurosos, podem piorar os sintomas da DRGE. A gordura é caloricamente densa e a digestão frequentemente requer a secreção de irritantes esofágicos potenciais (sais biliares, por exemplo) e mediadores neuro-hormonais do tônus do esfíncter esofágico inferior (ou seja, colecistoquinina). Porém, as pesquisas que relacionam o tipo de gordura e os sintomas da DRGE precisam avançar (NEWBERRY; LYNCH, 2019). Além das gorduras, outro macronutriente que tem sido explorado e que tem demonstrado resultados mais conclusivos é o carboidrato. Estudos tem relacionado a ingestão de amido e açúcar simples a DRGE. A ingestão de dissacarídeos e amido levam a uma fermentação pelas bactérias do cólon, e esse processo de fermentação mostrou induzir a liberação neuro-hormonal e relaxamento do esfíncter esofágico inferior, levando ao sintoma de azia, comum em pacientes com DRGE, porém, o inverso foi encontrado com o consumo de fibras (NEWBERRY; LYNCH, 2019). Morozov, Isakov e Konovalova (2018) analisou 36 pacientes que apresentavam DRGE não erosiva que consumiam < 20 g/dia de fibra alimentar. Esses pacientes foram suplementados com Psyllium, 5 g três vezes ao dia (que apresenta 12,5 g de fibras solúveis), diluído em 150 ml de água. Os autores concluíram que a modificação da dieta com adição de 12,5 g de fibra solúvel ao dia levou à diminuição da frequência dos sintomas de DRGE, aumento da pressão de repouso do esfíncter esofágico inferior e diminuição do número de refluxos gastroesofágicos. Esses achados são promissores e sugerem que as intervenções nutricionais podem ser eficazes no manejo da DRGE. Planos alimentares que reduzem os gatilhos comuns da DRGE, como a redução da ingestão de açúcares e gorduras saturadas e aumento da ingestão de fibras podem ser efetivas para pacientes que procuram um planejamento alimentar abrangente (NEWBERRY; LYNCH, 2019). Estudos já sugerem a adesão a uma dieta do tipo mediterrânea composta por alta ingestão de frutas, vegetais, grãos inteiros e gorduras insaturadas, a qual tem demonstrado menor incidência dos sintomas relacionados a DRGE (MONE et al., 2016). Quando analisamos a literatura, percebemos uma heterogeneidade no que se diz respeito à intervenção dietética na DRGE, porém, temas comuns são abordados. Deve- se ter em mente que o principal é a individualização da dieta com base nos sintomas, e a reintrodução de alimentos e hábitos deve ser realizada se houver controle ineficaz dos sintomas. Outro ponto importante, o tamanho da refeição, horários e composição dos macronutrientes parecem ser mais eficazes do que a eliminação do alimento, com foco na redução do volume da refeição, conteúdo de carboidratos (principalmente açúcar simples) e o horário de alimentação, tendo atenção aos padrões alimentares noturnos. Além disso, o estilo de vida deve ser modificado com a cessação do fumo, perda de peso e elevação da cabeceira da cama (NEWBERRY; LYNCH, 2019). 12 Um ponto importante a ser considerado em pacientes com DRGE é a utilização por tempo prolongado da classe de medicamentos inibidores da bomba de prótons. Apesar dos dados da literatura serem heterogêneos, já se sabe que o uso prologado dessa classe medicamentosa pode gerar deficiência de vitamina B12, hipomagnesemia, deficiência de ferro, demência, entre outros (HAASTRUP et al., 2018). Paciente, 27 anos, sexo masculino, sobrepeso (IMC de 29,9Kg/m2), engenheiro, diagnosticado com DRGE Los Angeles grau A, H. pylori negativo, relata sentir dores e regurgitação ao consumir iogurtes e pão. O médico gastroenterologista prescreveu Dexilant uma vez ao dia, após o almoço por três meses. Qual conduta nutricional poderia ser sugerida para esse paciente? • Como vimos, a dietoterapia deve ser individualizada, se o paciente relata desconforto no consumo de iogurtes e pão, estes devem ser excluídos da alimentação e reintroduzidos aos poucos quando os sintomas estiverem mais controlados. • A perda de peso deve ser incentivada, portanto, o déficit calórico deve ser realizado. • Paciente fará uso de IBP por tempo prolongado, por isso deve-se ter atenção ao consumo de fontes de vitamina B12, cálcio, magnésio e ferro. Se apresentar sinais e sintomas característicos de deficiência nutricional, exames de sangue podem ser solicitados para confirmação e início de suplementação deve ser realizado com doses adequadas. • Orientações gerais com relação a hábitos de vida saudáveis e elevação da cabeceira da cama devem ser realizadas. 2.2 GASTRITE Como vimos, o TGI é responsável pela digestão e absorção. Sempre que comemos algo, o alimento passa pelo esôfago e chega até o estômago, onde sofre ação do suco gástrico (ácido clorídrico e pepsina), que deve ser ácido para facilitar a absorção de vitaminas e minerais e proteger de bactérias patogênicas. Fatores que modifiquem esse ácido diminuem a qualidade da digestão e predispõem o indivíduo a sintomas como queimações, azia, gases e refluxo. 2.2.1 Fisiopatologia da Gastrite A mucosa do estômago, além de revesti-lo, protege as células contra o ácido, porém, quando a mucosa se encontra inflamada, o estômago reduz a produção de ácido, enzimas e muco protetor. A gastrite nada mais é do que a inflamação da mucosa do estômago, que se desenvolve como uma resposta do organismo a uma agressão à sua integridade, desencadeando sintomas característicos e processos diferentes nos quais é possível classificá-la em aguda ou crônica (CCD, 2018). INTERESSANTE 13 A classificação de gastrite aguda ou crônica concentra-se no curso do tempo, características histológicas, distribuição anatômica e mecanismos patológicos subjacentes. A Helicobacter pylori é a causa mais comum de gastrite em todo o mundo, porém, indivíduos H. pylori negativos com dispepsia funcional ou DRGE não erosivo também podem apresentar gastrite (AZER; AKHONDI, 2020). Outra causa é a gastrite autoimune associada a anticorpo antiparietal e antifator intrínseco sérico. É caracterizada por gastrite atrófica crônica limitada ao corpo e fundo do estômago que causa atrofia difusa acentuada das células parietais e principais (AZER; AKHONDI, 2020). A gastrite autoimune é crônica, em queas células T CD4+ têm como alvo as células parietais, levando à perda das células parietais e das células principais com eventual atrofia da mucosa. Essa perda das células parietais promove uma acloridria constante, fazendo com que as células G antrais produzam continuamente gastrina. Sem essas células parietais o ciclo de feedback fica comprometido e o resultado é um estado de hipergastrinemia. Além disso, a perda completa de células parietais leva à falta de produção de fator intrínseco que, se grave, pode resultar em anemia perniciosa. Essa hipergastrinemia leva à hiperplasia das células tipo enterocromafina. O ácido clorídrico é necessário para a absorção de ferro inorgânico, e pacientes que apresentam gastrite autoimune podem apresentar deficiência de ferro (HALL; APPELMAN, 2019). Além disso, a gastrite também pode ser dividia em erosiva e não erosiva. A gastrite do tipo erosiva é mais grave e consiste na inflamação e corrosão do revestimento gástrico, desenvolve-se subitamente (gastrite erosiva aguda) ou lentamente (gastrite erosiva crônica) normalmente em pessoas saudáveis. Já a gastrite não erosiva é caracterizada por alterações no revestimento gástrico que variam de desgaste (atrofia) até transformação do tecido gástrico em outro tipo de tecido intestinal (metaplasia) (VAKIL, 2020). Para entender melhor o sistema digestório sugere-se a leitura: • RODRIGUES, S. S.; FONSECA, C. C.; NEVES, M. T. D. Células endócrinas do sistema gastroenteropancreático: conceitos, distribuição, secreções, ação e controle. Arq. Ciên. Vet. Zool. UNIPAR, Umuarama, v. 8, n. 2, p. 171-180, 2005. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/235581967.pdf. • HUNT, R. H. et al. The stomach in health and disease. Gut, [S. l.], v. 64, n. 10, p. 1650-1668, 4 set. 2015. Disponível em: https://www.researchgate.net/ publication/281510130_The_stomach_in_health_and_disease. DICAS 14 As manifestações clínicas não são típicas na gastrite. Ocorre um início súbito de dor epigástrica, náuseas e vômitos, porém, muitas pessoas são assintomáticas ou desenvolvem sintomas dispépticos mínimos. Histórico de tabagismo, consumo de álcool, ingestão de anti-inflamatórios não esteroidais (AINES) ou esteroides, alergias, radioterapia ou distúrbios da vesícula biliar devem ser considerados na anamnese de um paciente com suspeita de gastrite, além disso, história de tratamento para doença inflamatória intestinal, distúrbios vasculíticos ou distúrbios gastrointestinais eosinofílicos pode exigir exploração se nenhuma causa de gastrite for aparente (AZER; AKHONDI, 2020). Como é feito o diagnóstico da gastrite? Com relação ao diagnóstico, as investigações laboratoriais, gastroscopia, exame histológico e microbiológico das biópsias são essenciais para o diagnóstico da gastrite e suas causas. Quando a gastrite está associada ao H. pylori, o tratamento promove um rápido desaparecimento da infiltração polimorfonuclear e na redução do infiltrado inflamatório crônico com a normalização da mucosa (AZER; AKHONDI, 2020). 2.2.2 Dietoterapia na Gastrite Basicamente, o tratamento será guiado conforme a tolerância do paciente e conforme os sintomas apresentados. Os achados mais comuns para a gastrite crônica e autoimune são os distúrbios hematológicos como a anemia (deficiência de ferro), sin- tomas neurológicos associados à deficiência de vitamina B12 (HERSHKO; IANCULOVICH; SOUROUJON, 2007; NEUMANN et al., 2013). Deve-se verificar se o paciente faz uso de medicamentos inibidores da bomba de prótons (IBPs) (omeprazol e similares), se sim, é necessária uma avaliação do estado nutricional através de exames bioquímicos. Os IBPs suprimem a secreção de ácido gástrico por meio da inibição da enzima H+/K+-ATPase na superfície secretora das células parietais. Por serem inibidores irreversíveis desta enzima, seu uso crônico é preocupante, pois essa redução da acidez gástrica pode promover complicações na absorção de nutrientes como é o caso do ferro, vitamina B12 e cálcio (LIMA; NETO FILHO, 2014), o que pode levar a inúmeras disfunções. Para a absorção de vitamina B12 é necessário o Fator Intrínseco (FI), um produto secretado pelas células parietais do estômago no íleo terminal após ser extraído pelo ácido gástrico (Figura 3). A B12 atua na função neurológica, produção de glóbulos vermelhos e síntese de DNA, é cofator para reações de conversão de ácido metilmalônico em succinil coenzima A; a conversão de homocisteína em metionina; e a conversão de 5-metiltetrahidrofolato em tetrahidrofolato (LANGAN; GOODBRED, 2017), portanto, sua deficiência gera prejuízos importantes à saúde. 15 FIGURA 3 – ABSORÇÃO E TRANSPORTE DE VITAMINA B12 FONTE: Adaptada de Langan e Goodbred (2017) Com relação ao uso de IBP e o cálcio, as evidências epidemiológicas sugerem uma associação entre o uso crônico de IBP e o risco de fraturas osteoporóticas, porém, os mecanismos ainda não estão elucidados, sendo necessárias mais pesquisas. Não se deve desencorajar o uso dessa classe de medicamentos em pacientes com indicações apropriadas, sendo que o princípio geral dessa terapia é a menor dose possível necessária para se atingir os objetivos terapêuticos, além disso o uso de suplementação de cálcio pode ser uma boa estratégia associada ao uso de IBPs (YANG, 2008). Com relação às plantas medicinais, alguns estudos apresentam a Maytenus ilicifolia como um potente agente antiúlcera e gastrite. O mecanismo ainda é desconhecido, mas pode estar relacionado a sua interferência na liberação e efetividade das substâncias secretagogas ácido-base. Promove uma potente redução da hipersecreção gástrica acompanhada por redução na liberação de óxido nítrico, sugerindo um importante papel do mecanismo óxido nítrico dependente, pois há a hipótese de que a inativação da bomba 16 H+/K+-ATPase e a modulação óxido nítrico dependente são os principais mecanismos de ação gastroprotetora. Estudos mostram que o triterpenos ativos da M. ilicifolia são capazes de estimular a produção de fatores de proteção como muco, ou de manter os níveis ótimos de prostaglandinas gástricas na mucosa (ANVISA, 2016). Segundo a Resolução CFN n° 556, de 11 de abril de 2015: Art. 2° O art. 3° da Resolução CFN n° 525, de 25 de junho de 2013, publicada no Diário Oficial da União, Seção 1, Edição de 28 de junho de 2013, página 141, passa a vigorar com as seguintes alterações: Art. 3° O exercício das competências do nutricionista para a prática da Fitoterapia como complemento da prescrição dietética deverá observar que: I- a prescrição de plantas medicinais e chás medicinais é permitida a todos os nutricionistas, ainda que sem título de especialista; II- a prescrição de medicamentos fitoterápicos, de produtos tradicionais fitoterápicos e de preparações magistrais de fitoterápicos, como complemento de prescrição dietética, é permitida ao nutricionista desde que seja portador do título de especialista em Fitoterapia, observado o disposto no § 4° deste artigo. § 4° Para a outorga do título de especialista em Fitoterapia, a Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN), atendido o dispos- to no § 1° deste artigo, adotará regulamentação própria, a ser amplamente divulgada aos interessados, prevendo os critérios que serão utilizados para essa titulação (CFN, 2015, p. 1). O QUE É GASTRITE NERVOSA? Que as doenças que acometem o estômago provocam desconfortos e incômodos já sabemos. Dores estomacais, queimação, acidez e refluxo são alguns dos sintomas relacionados a gastrite. Porém, a dúvida é: o que fazer em casos em que os fatores estresse e ansiedade desencadeiam os sintomas sem que de fato haja uma inflamação presente? O termo “gastrite nervosa” é bem comum e usado pela população, porém, não é correto. Como vimos, a gastrite trata-se de um processo inflamatório, por isso, quando o indivíduo apresenta uma inflamação no estômago emprega-se o termo gastrite. Essa patologia pode ocorrer por diversos motivos, como infecções bacterianas,medicamentos ou álcool. IMPORTANTE 17 2.3 ÚLCERA GÁSTRICA As úlceras pépticas (UP) têm como características lesões ulcerosas na mucosa gastroduodenal gerando dor epigástrica e causando até sangramentos gastrointestinais. Essa doença pode acometer o esôfago inferior, duodeno superior e porção inferior do estômago (DUNLAP; PATTERSON, 2019). O problema está na confusão que as pessoas fazem com as manifestações decorrentes de outras situações que também afetam o funcionamento do trato gastrointestinal como o estresse, e acabam chamando de gastrite nervosa, porém, se não há inflamação presente, não é gastrite. Várias são as causas possíveis para doenças que acometem o estômago e muitas delas podem ser provocadas por problemas emocionais. Muitas vezes, indivíduos submetidos a situações estressantes, seja na vida pessoal ou profissional, acabam manifestando esses sintomas. Um ponto importante a ser considerado é que mesmo que haja a manifestação dos sintomas e não se apresente uma gastrite real (por falta de inflamação), o cuidado com a alimentação é fundamental, afinal ela é o combustível que faz a magnífica máquina humana funcionar perfeitamente. Indivíduos que apresentam essas alterações gástricas (sem inflamação presente) e que promovem uma mudança na alimentação, relatam benefícios. Essas mudanças são: diminuição do consumo de refrigerantes, frituras, comidas gordurosas com molhos, café e chocolate. Apesar da gastrite nervosa não se tratar de uma inflamação no estômago, alguns tratamentos podem melhorar o quadro. Precisa ser identificado a causa do problema, seja ela alimentar ou psicológica e a intervenção adequada deve ser realizada. FONTE: <http://www.blog.saude.gov.br/index.php/promocao-da-saude/53566-o-que-e-a- gastrite-nervosa>. Acesso em: 23 fev. 2021. 2.3.1 Fisiopatologia da Úlcera Gástrica A UP ocorre em áreas expostas ao ácido e pepsina, sendo designada como uma ruptura na mucosa que reveste o estômago e se estende através da mucosa muscular. A UP clássica é definida como uma recorrência crônica, indicando uma cicatrização defeituosa da ferida. Os sintomas são periódicos, de forma aguda diminuem a intensidade e se repetem de tempos em tempos (SHIOTANI; GRAHAM, 2002; GRAHAM, 2014). Sua incidência é aumentada com a idade, ocorrendo, na maioria das vezes, em indivíduos com idade entre 25 e 64 anos. O tratamento, a avaliação correta e a detecção precoce previnem complicações relacionadas (DUNLAP; PATTERSON, 2019). 18 A mucosa de pacientes com UP é desequilibrada por infecções, ruptura de barreira ou hipersecreção de ácido gástrico. Os fatores de riscos associados ao desenvolvimento da UP incluem infecção por H. pylori, consumo de álcool, tabagismo, uso prolongado de anti-inflamatórios não esteroidais (AINES), jejum persistente, síndrome de Zollinger-Ellison, tratamento de câncer com inibidores da angiogênese e cirurgia bariátrica (KEMPENICH; SIRINEK, 2018). Além da dor, outros sinais e sintomas podem ser característicos da UP dependendo da localização da ferida e da idade do paciente. Os sinais e sintomas incluem: dor abdominal epigástrica, inchaço, plenitude abdominal, náusea e vômito, perda/ganho de peso, hematêmese, melena. Alguns sinais e sintomas que podem sugerir agravamento da UP são: perda de peso, disfagia progressiva, anemia significativa e êmese recorrente (MALIK; GNANAPANDITHAN; SINGH, 2020). Algumas complicações que também podem surgir incluem sangramento, perfuração, penetração e obstrução da saída gástrica, sendo que as úlceras grandes (>1 cm) localizadas no canal pilórico estão associadas a complicações (LAU et al., 2011; KAVITT et al., 2019). A mucosa gástrica exibe especificidades na estrutura e função, e possui mecanismos específicos de controle para garantir a homeostase e integridade (NIV; BANIC, 2014). As linhas de defesa envolvidas na proteção da mucosa gástrica são: a camada de muco, o epitélio da superfície de mucosa e toda a sua rede vascular (YANDRAPU; SAROSIEK, 2015). Agressões são constantemente neutralizadas por mecanismos de controle interligados para manter a integridade da barreira, são eles: o controle do fluxo sanguíneo da mucosa, a secreção de muco e bicarbonato, a renovação constante das células e o controle neuronal e hormonal dos mecanismos de defesa (NIV; BANIC, 2014). Dentre os fatores agressores podemos citar a secreção de ácido gástrico, a qual tem como função matar micro-organismos (como a H. pylori, por exemplo), auxiliar na digestão de proteínas, facilitar a absorção de nutrientes como ferro não heme, cálcio e vitamina B12. Quando ocorre um desequilíbrio nessa regulação, ocorrendo um aumento considerável de ácido e pepsina, ocorrem as úlceras (SCHUBERT, 2017). Outro fator agressor é o consumo de anti-inflamatórios não esteroidais (AINES), os quais tem como função a inibição das COX (COX-1 e COX-2). A inibição da COX tem impactos na microcirculação do TGI, pois quando ocorre uma lesão, essas moléculas aumentam o fluxo sanguíneo e a inibição da COX reduz esse fluxo sanguíneo compensatório, além disso induzem a expressão de moléculas 19 de adesão de neutrófilos no endotélio prejudicando mecanicamente o fluxo sanguíneo vascular. Por isso, a inibição da COX é um fator muito importante envolvido nos danos do TGI induzidos por AINEs (FIORUCCI; DISTRUTTI, 2011; BJARNASON et al., 2018; GARCÍA- RAYADO; NAVARRO; LANAS, 2018). Além disso, a infecção por H. pylori pode causar uma inflamação aguda, crônica e mista, estimulando as células de defesa. A infecção por H. pylori é conhecida como um fator de risco para carcinoma gástrico, porém, a maioria dos indivíduos não apresentam sintomas, e com a evolução da infecção isso pode acarretar em UP e gastrite (IENI et al., 2016; DIACONU et al., 2017). Para o tratamento da UP se faz necessário o uso de medicações. Os antagonistas seletivos dos receptores de histamina do tipo 2 (H2-RAs) são utilizados no tratamento de úlceras duodenais e gástricas, refluxo gastroesofágico e azia comum e são bem tolerados, porém, têm sido associados a lesões hepáticas aparentes (LIVERTOX, 2018). Os inibidores da bomba de prótons (IBP) são mais potentes na supressão da secreção de ácido gástrico e amplamente utilizados no tratamento de patologias gástricas, como o refluxo gastroesofágico e a úlcera péptica (LIVERTOX, 2019). 2.3.2 Dietoterapia na Úlcera Gástrica A dietoterapia na úlcera péptica é para prevenir a hipersecreção de ácido gástrico com o objetivo de reduzir a ferida e a dor na mucosa gástrica ou duodenal. Além disso, o foco se dá na cicatrização, sendo a investigação de possíveis carências nutricionais essenciais para um manejo dietético adequado, visto que esse paciente possui deficiências nutricionais individuais e pode vir a ter patologias associadas (VOMERO; COLPO, 2014). Muitos nutrientes são envolvidos no processo de cicatrização e sistema imunológico, dentre eles podemos citar o zinco, selênio, vitamina A, proteínas, entre outros. Veja no Quadro 5 as recomendações nutricionais para pacientes com úlcera péptica. 20 QUADRO 5 – RECOMENDAÇÕES NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM ÚLCERA PÉPTICA Características Recomendações Recomendações energéticas diárias Suficientes para manutenção ou recuperação do estado nutricional. 20-25 kcal/Kg: perda de peso 25-30 Kcal/Kg: manutenção 30-35 Kcal/Kg: ganho de peso Fase aguda Fase de recuperação Carboidratos (%) 50 – 60 50 – 60 Proteínas (g/kg de peso) 1.2 1.5 Lipídios (%) 25-30 25-30 Zinco (mg) 11 40 Selênio (µg) 55 400 Vitamina A (µg) 900 3000 Vitamina C (mg) 75 500 Vitamina B12 (µg) 2.4 2.4 Ácido fólico (µg) 400 400 Ferro (mg) 45 45 Fibras (g) 20 a 30 20 a 30 Probióticos (UFC/dia) 109 a 1011 bactérias ácido láticas 109 a 1011 bactérias ácido láticas FONTE: Vomero e Colpo (2014, p. 300) As fibras produzem efeitos fisiológicos diferentes no organismo. As fibras solúveis são responsáveis pelo aumento da viscosidade do bolo fecal, enquanto as fibras insolúveisaumentam o volume das fezes, reduzem o tempo de trânsito no intestino grosso e tornam a eliminação fecal mais fácil e rápida. Uma dieta rica em fibras para pacientes com UP é recomendada, pois as fibras atuam como tampões, reduzindo as concentrações dos ácidos biliares no estômago e o tempo de trânsito intestinal, resultando em menor distensão abdominal reduzindo o desconforto e a dor epigástrica (MAROTTA; FLOCH, 1993). Já que a literatura fala em fibras, será que podemos associar probióticos? Outra recomendação nutricional bem discutida na literatura é o uso de probióticos. O uso de probióticos na UP é devido ao tratamento da infecção por H. pylori, a qual desempenha um papel na patogênese da gastrite e da UP. Há a hipótese de que os probióticos apresentam agentes terapêuticos contra o H. pylori, porém, não erradicam a bactéria, apenas possuem a capacidade de reduzir a carga bacteriana e, consequentemente, a infecção (SUERBAUM; MICHETTI, 2002; SGOURAS et al., 2005; VASILJEVIC; SHAH, 2008). 21 Outro ponto importante para a erradicação da H. pylori é o uso de antioxidantes como a vitamina C, a qual mostrou ser mais eficientes em doses menores por um período mais prolongado. Assim, sugere-se que pacientes que apresentem H. pylori podem se beneficiar de uma suplementação de até 500 mg/dia de vitamina C por um período de três meses (ZOJAJI et al., 2009). Grandes estudos (1100 pacientes) demonstraram que a concentração plasmática de vitamina C foi 20% menor em indivíduos infectado por H. pylori do que em controles negativos. A infecção por H. pylori pode causar uma inativação irreversível da vitamina C ingerida no lúmen intestinal antes de sua absorção. Quando os níveis de pH intragástrico aumentam (hipocloridria) o ácido ascórbico é convertido na sua forma menos ativa (ácido desidroascrórbico), assim, o pH gástrico é um fator chave na depleção de vitamina C em pacientes com problemas gástricos (WARING et al., 1996; WOODWARD; TUNSTALL-PEDOE; MCCOLL, 2001; CAPURSO et al., 2003; FRANCESCHI, 2014). Pacientes infectados por H. pylori podem apresentar deficiência de vitaminas (vitamina C, vitamina A, α- tocoferol, vitamina B12 e ácido fólico) e alguns minerais essenciais. A vitamina B12, por exemplo, está ligada a outras proteínas e sua liberação está relacionada com o pH gástrico. Uso de antiácidos e um pH intragástrico modificado, causado pelo H. pylori, são os principais fatores de má absorção de vitamina B12 (FRANCESCHI, 2014). O β-caroteno é uma provitamina A, sua biodisponibilidade depende do estado de saúde do TGI, sendo que a hipo ou acloridria diminui significativamente a biodispo- nibilidade do β-caroteno. Há a hipótese de que o H. pylori reduz a biodisponibilidade do β-caroteno como consequência do lento movimento da micela contendo a vitamina através da membrana dos enterócitos devido à sua carga negativa extrema derivada de um meio não-ácido (FRANCESCHI, 2014). A deficiência de folato se dá por consequência da diminuição da concentração de vitamina C no suco gástrico e um aumento do pH intragástrico, clássico de uma infecção por H. pylori (FRANCESCHI, 2014). Segundo Vomero e Colpo (2014), ter uma alimentação balanceada é importante no tratamento da UP, dado que os alimentos podem prevenir, tratar ou até mesmo aliviar os sintomas que envolvem o desenvolvimento dessa patologia. Porém, poucos artigos trazem recomendações atualizadas acerca da dietoterapia na UP, sendo necessários estudos adicionais mais específicos no tratamento nutricional da UP. Veja, no Quadro 6, a classificação dos alimentos na dietoterapia da UP. 22 QUADRO 6 – ALIMENTOS PERMITIDOS, CONSUMO COM MODERAÇÃO E PROIBIDOS NA UP Grupo alimentar Permitidos Com moderação Proibidos Leite Leite, queijos magros, iogurtes e leite fermentado Queijos gordurosos (mascarpone, cream cheese, gorgonzola) - Oleaginosas Linhaça, castanha do Brasil e nozes - - Óleos Óleos vegetais e azeite de oliva - Alimentos fritos Frutas Maçã, mamão, melão, banana Laranja, abacaxi, acerola, maracujá Limão Vegetais Vegetais com folhas verdes escuras, cenoura, beterraba, feijão verde, espinafre, couve, rabanete, abobrinha, alho-poró Brócolis, couve-flor, repolho, pepino, cebola, pimenta vermelha Pimentas picantes (pimenta preta, pimentões) Legumes Sopa de feijão, lentilha, grão-de-bico e soja Feijão - Carnes Carne magra (boi, porco, frango, peixe) Carnes gordurosas, carnes de órgãos e salsichas - Doces - Doces concentrados Chocolate Bebidas Sucos naturais Sucos de frutas ácidas/cítricas Café, chá preto, refrigerantes / refrigerantes à base de cola Outros alimentos - Temperos, especiarias e condimentos industrializados (Ketchup, maionese, mostarda) Grãos de mostarda FONTE: Vomero e Colpo (2014, p. 300) 2.4 PANCREATITE O pâncreas humano é um órgão que exerce função de duas glândulas: glândula exócrina e glândula endócrina. A glândula exócrina é formada por células ácidas pancreáticas e células ductais que produzem enzimas digestivas e bicarbonato de sódio, respectivamente. O pâncreas exócrino tem como função principal secretar enzimas digestivas responsáveis pela digestão e absorção dos alimentos, e assimilação dos nutrientes em nosso organismo. A glândula endócrina é constituída de cinco tipos de células de ilhotas secretoras e secreta hormônios peptídicos responsáveis pela homeostase da glicose. As funções pancreáticas são reguladas por mecanismos neurócrino, endócrinos e parácrinos, sendo que um desequilíbrio tem impactos na saúde e na doença (LEUNG, 2010). 23 2.4.1 Fisiopatologia na Pancreatite Quais distúrbios acometem o pâncreas? Entre os distúrbios do pâncreas está a pancreatite. Ela pode ser dividida em aguda e crônica. A pancreatite aguda (PA) é uma inflamação do parênquima glandular do órgão retroperitoneal que leva à lesão com ou sem destruição do ácinos pancreáti- cos. Essa inflamação pode resultar em uma doença autolimitada ou desenvolver com- plicações com risco de vida. Já a pancreatite crônica (PC) é caracterizada por uma síndrome que consiste em disfunção das glândulas endócrinas e exócrinas que se desenvolvem secundaria- mente à inflamação progressiva e fibrose crônica dos ácinos pancreáticos com dano estrutural permanente. A recorrência da PA pode resultar em PC (HAMMAD; DITILLO; CASTANON, 2018). Há ainda uma subdivisão da PA em: pancreatite edematosa intersti- cial e pancreatite necrosante (BANKS et al., 2012). A pancreatite intersticial é definida pelo aumento do pâncreas no exame de imagem. Ocorre um borramento peripancreático que pode ser visto e constitui um sinal de inflamação. A maioria dos pacientes apresentam este tipo de pancreatite, sendo, na maioria dos casos, autolimitada. Já a pancreatite necrosante é caracterizada pela necrose pancreática e/ou peripancreática. É mais bem visualizada em cortes transversais de exame de imagem com contraste. Esta pancreatite está associada a um curso prolongado e mais grave da doença (BARTEL, 2019). A PC é caracterizada por fibrose e inflamação do pâncreas em indivíduos com fatores de risco genéticos, ambientais e outros como hipertrigliceridemia. A PC tem como característica a atrofia pancreática, fibrose, restrições ductais e distorções, calcificação, displasia, insuficiência exócrina, diabetes, e dor crônica (SINGH; YADAV; GARG, 2019). Com relação ao diagnóstico, a tomografia computadorizada (TC) com contraste é um teste inicial e deve ser realizada em todos os indivíduos com suspeita de PC. A amilase e a lipase são marcadores séricos para diagnosticar PA, mas não PC (SINGH; YADAV; GARG, 2019). Veja, na Figura 4, um esquema que auxilia no diagnóstico da PC. 24 FIGURA 4 – FLUXOGRAMA PARA DIAGNÓSTICO DA PC FONTE: Adaptada de Singh, Yadav e Garg (2019) Já o diagnóstico da pancreatite aguda precisa preencher três das seguintes características (BANKS et al., 2012): • dor abdominal consistente com pancreatite aguda (início agudo de dor epigástrica persistentee severa, geralmente com irradiação para as costas); • atividade da lipase sérica (ou atividade da amilase) pelo menos três vezes maior que o limite superior do normal; • achados característicos de pancreatite aguda na tomografia computadorizada com contraste (CECT) e, menos comumente, na ressonância magnética (MRI) ou ultrassonografia transabdominal. Fatores de risco são encontrados através da história clínica (uso crônico de álcool, tabaco, ou ambos. Histórico pessoal ou familiar de pancreatite), resultados de testes laboratoriais (hipertrigliceridemia, variantes genéticas), e imagem (câncer pancreático). Paciente apresentando sintomas sugestivos de pancreatite crônica (PC) Os sintomas incluem dor abdominal superior crônica ou recorrente, pancreatite aguda, pancreatite aguda recorrente, diabetes ou insuficiência exócrina. Imagem de tomografia computadorizada com contraste São encontradas calcificações pancreáticas ou alterações ductais pancreáticas características? Sim Não Com alta probabilidade da doença Não Com baixa probabilidade da doença Imagem de ressonância magnética com colangiopancreatografia por ressonância magnética São encontradas alterações ductais parenquimatosas ou pancreáticas características? Sim Não NãoCom alta probabilidade da doença Com baixa probabilidade da doença D iagn óstico de P C im provável Imagem de ultrassom endoscópico São encontradas alterações ductais parenquimatosas ou pancreáticas características? Sim Não Com baixa probabilidade da doença Diagnóstico de PC Consistente com diagnóstico de PC Determinação da etiologia da PC 25 2.4.2 Dietoterapia na Pancreatite Estudos mostram que 70-75% dos pacientes com pancreatite aguda apresen- tam a forma leve da doença, na qual a mortalidade é em torno de 1%. Esses indivíduos apresentam um bom estado nutricional, que usualmente não se modificam com a evo- lução da doença, porém, nos 25% que desenvolvem a forma grave da doença geralmen- te apresentam problemas nutricionais, pois sofrem uma intensa inflamação com reper- cussão metabólica, internação prolongada às vezes necessitando de terapia intensiva e com frequência apresentam sepse e necessidade de cirurgias (SBNPE, 2011a). A inflamação gera estresse oxidativo e catabolismo, causando grande mobili- zação de reservas energéticas, principalmente de massa magra, refletindo uma perda nitrogenada de grande proporção (SBNPE, 2011a). Os pacientes que apresentam a forma grave da doença ainda agravam com desnutrição pela dificuldade de manter a Terapia Nutricional (TN) por apresentarem condições diferentes: dor abdominal, íleo prolongado, necessidade de jejum para diversos exames ou operações (SBNPE, 2011a). Na PA leve o tratamento consiste em jejum, hidratação e o médico entrará com analgesia (antiespasmódicos). O jejum deve ser mantido até a melhora do quadro clínico, principalmente da dor, a realimentação geralmente ocorre em três a cinco dias. A hidratação deve ser vigorosa, visto que os pacientes apresentam hipovolemia em decorrência do sequestro de líquidos, portanto, a hidratação tem como objetivo melhorar a perfusão tecidual pancreática e tentar evitar a evolução para necrose (ROCHA et al., 2018). A TN artificial não é indicada em casos de PA leve se o paciente conseguir ingerir alimentos por via oral até cinco a sete dias após o início do quadro. A TN artificial só deve ser iniciada se não houver a possibilidade de o paciente receber alimentos por via oral após cinco a sete dias, e, em pacientes com PA grave, a TN deve ser iniciada assim que houver a estabilidade hemodinâmica (SBNPE, 2011a). Se a dor abdominal sugerir fortemente que a pancreatite aguda está presente, mas a atividade da amilase e/ou lipase sérica for menor que três vezes o limite superior do normal, como pode ser o caso com apresentação tardia, exames de imagem serão necessários para confirmar o diagnóstico. Se o diagnóstico de pancreatite aguda é estabelecido por dor abdominal e pelo aumento da atividade das enzimas pancreáticas séricas, geralmente não é necessário um CECT para o diagnóstico na sala de emergência ou na admissão ao hospital (BANKS et al., 2012). 26 Já na PA grave, a via de preferência deve ser a enteral (TNE), e quando houver impossibilidade de uso da via enteral a parenteral está indicada, ambas serão decididas em conjunto com a equipe multidisciplinar. Na via enteral o posicionamento jejunal é o mais recomendável (SBNPE, 2011a). O tipo de dieta indicado na PA é a oligomérica (baseada em peptídeos). A polimérica (padrão com proteínas intactas) deve ser tentada se tolerada. Não há evidências para recomendação do uso de TNE contendo imunonutrientes para pacientes com PA grave, porém, quando TNE jejunal, pode-se utilizar ômega-3 na fórmula TNE. Recomenda-se ainda alto teor de triglicerídeos de cadeia média para TNE jeju- nal na PA grave. O uso de probióticos ainda é controverso e não está recomendado para PA aguda (SBNPE, 2011a). Já na PC, 50% dos pacientes são desnutridos, os quais apresentam grandes riscos ao estado nutricional, pois a PC aumenta o requerimento nutricional devido ao processo inflamatório crônico que leva ao hipermetabolismo e o hipercatabolismo. Esse estresse é muito semelhante ao observado na sepse, o qual caracteriza-se, como já citado, por mudanças hiperdinâmincas com hipermetabolismo e catabolismo. As alterações hemodinâmicas incluem aumento do débito cardíaco, diminuição da resistência vascular sistêmica e aumento do consumo de oxigênio (SILVA; FRAN- GELLA, 2009). Além disso, a ingestão persistente alcoólica, característica desses pacientes, já leva à desnutrição. Outro ponto é a presença da dor, a qual impede a ingestão oral de nutrientes, e, durante o curso da doença, a secreção de enzimas digestivas é gradualmente reduzida (SBNPE, 2011b). Na PC a subnutrição grave é uma consequência, sendo que os fatores que a predispõem são: diminuição da ingestão alimentar, aumento da atividade metabólica, disfunção na absorção dos nutrientes, dor pós-prandial, diabetes e abuso contínuo de álcool (SILVA; FRANGELLA, 2009). As primeiras recomendações terapêuticas são a abstinência alcoólica e um fracionamento maior da dieta com menor volume. Além disso, a administração de enzimas pancreáticas associada a uma alimentação adequada se mostra eficiente na maioria dos casos. 27 Em pacientes que apresentam esteatorreia, a administração de triglicerídeo de cadeia média (TCM) é indicada. Quando não houver esteatorreia uma dieta normolipídica, rica em ácidos graxos de origem vegetal, é indicada. Na ausência de diabetes a dieta deve ser rica em carboidratos, caso a diabetes seja presente emprega-se o tratamento para DM1 (SILVA; FRANGELLA, 2009). Resumindo, a TN na PC tem como objetivo controlar a má absorção e melhorar a condição nutricional do paciente, evitando a evolução da desnutrição energético-proteica. O aconselhamento nutricional tem como base a ingestão fracionada de pequenas porções hipercalóricas (35 kcal/kg/dia), hiperproteica (1 a 1,5 g/Kg/dia), rica em carboidratos e pobre em gorduras (0,7 a 1,0 g/Kg/dia) com preferência para gordura vegetal (são mais bem toleradas) (SBNPE, 2011b). A princípio, a dieta normal com adição de enzimas pancreáticas é eficaz na me- lhora das condições clínicas e nutricionais do paciente com PC, sendo a “suplementa- ção via oral com proteína hidrolisada, rica em vitaminas lipossolúveis, micronutrientes com ou sem TCM, quando necessária” (SBNPE, 2011b, p. 5). A TNE é indicada na PC para os pacientes que se encontram em uma fase grave e tardia da lesão pancreática na qual a TN oral não está sendo satisfatória. As TN oral ou enteral estão contraindicadas em pacientes que apesentam estenose duodenal grave. Já a terapia nutricional parenteral (TNP) está indicada em pacientes com obstrução gástrica secundária à estenose duodenal e em caso de fístulas pancreáticas (SBNPE, 2011b). A nutrição na PC é pouco explicada na comunidadecientífica, sendo necessá- rios mais estudos para definição de condutas mais concretas visando melhorar a assis- tência a essa população, além de contribuir para a prevenção e controle da doença, bem como para o surgimento de novas terapias mais específicas e eficazes (SILVA; FRAN- GELLA, 2009). 2.5 CÁLCULO BILIAR Os cálculos biliares são conhecidos como colelitíase, e consistem em massas na vesícula biliar ou no trato biliar causadas por níveis anormalmente elevados de colesterol ou bilirrubina na bile (LAMMERT et al., 2016). Veja na Figura 5. 28 FIGURA 5 – CALCIFICAÇÃO DOS CÁLCULOS BILIARES Legenda: a) as cores das pedras representam a composição, incluindo pedras de colesterol (amarelo) e pedras de pigmento (marrom e preto); b) visão endoscópica de cálculos secundários de colesterol (com uma cor amarela típica) no ducto biliar durante a recuperação do cálculo com uma cesta de Dormia. FONTE: Adaptada de Lammert et al. (2016) 2.5.1 Fisiopatologia do Cálculo Biliar As causas da colelitíase são multifatoriais. Fatores que afetam a produção hepática de colesterol, função da vesícula biliar (estase ou inflamação), produção de ácido biliar ou absorção intestinal de colesterol e ácidos biliares podem contribuir para a formação dos cálculos. Esses fatores podem ser modificáveis ou não, conforme descrito no Quadro 7 (LITTLEFIELD; LENAHAN, 2019). QUADRO 7 – FATORES DE RISCO MODIFICÁVEIS OU NÃO MODIFICÁVEIS NA COLELITÍASE Fatores de risco modificáveis Fatores de risco não modificáveis Outros fatores de risco Dislipidemia Idade ≥ 40 anos Cirrose Dieta hipercalórica Etnia Doença de Crohn Dieta pobre em fibras Histórico familiar Hiperbilirruibinemia Medicações: ceftriaxone (Rocefin), estrogênios (contraceptivos orais, terapia hormonal), fibratos, diuréticos tiazídicos. Sexo feminino Síndrome metabólica Predisposição genética Obesidade Anemias hemolíticas (anemia falciforme) Fígado Cálculos do ducto biliar intra-hepáti- co (hepatolitíase) Contendo princi- palmente pigmento marrom e pedras de colesterol Ducto hepático esquerdo Ducto hepático direito Cálculos extra-hepá- ticos do ducto biliar (coledocolitíase) Pedras primárias são principalmente pedras de pigmento marrom, en- quanto as pedras secun- dárias são principalmente pedras de colesterol Ducto hepático comum Ducto císticoVesículaCálculos da vesícula biliar (colecistolitíase) Contendo pedras de coles- terol (ou pigmento preto) Ducto pancreático Ducto biliar comum Esfincter de Oddi Pâncreas Duodeno 29 Perda de peso rápida ou flutuação de peso Gestação Sedentarismo Lesão da medula espinhal Fumo Diabetes tipo 2 FONTE: Adaptado de Littlefield e Lenahan (2019) A classificação dos cálculos biliares é feita com base na composição e localização, 90% dos cálculos biliares são compostos de colesterol, porém, outros tipos de cálculos (< 10%) são representados por pedras de pigmento preto e marrom (SCHAFMAYER et al., 2006). Além disso, podem ser classificados em extra-hepáticos (coledocolitíase) e cálculos intra-hepáticos (hepatolitíase) (SHODA et al., 2001). A bile é um líquido verde-escuro e marrom-amarelado, o qual contém 90% de água. Colesterol, fosfolipídios e sais biliares são os três principais componentes lipídicos da bile, além disso, também contém quantidades pequenas de proteínas e sais inorgânicos. Com base na composição química e aparência, os cálculos são divididos em dois tipos: colesterol e cálculos biliares pigmentares com etiologias diferentes (LAMMERT et al., 2016). Os cálculos biliares de colesterol são formados como consequência de uma fa- lha na homeostase do colesterol biliar, quando o equilíbrio físico-químico da solubili- dade do colesterol na bile é perturbado. A Figura 6 mostra os defeitos primários para a formação de cálculos biliares de colesterol, os quais promovem a cristalização do co- lesterol e a formação dos cálculos (LYONS; WITTENBURG, 2006; WANG; AFDHAL, 2014). FIGURA 6 – FATORES ENVOLVIDOS NA FORMAÇÃO DE CÁLCULOS BILIARES DE COLESTEROL FONTE: Adaptada de Lammert et al. (2016) Fatores genéticos e genes litogênicos Hipomotilida- de da vesicula biliar Fatores intes- tinais Transição de fase rápida hipersecre- ção hepátca de colesterol Cálculos de colesterol 30 Já os cálculos pigmentares são resultados do metabolismo anormal da bilirru- bina. A bile de pacientes com cálculos pigmentares pretos ou marrons possui grandes quantidades de bilirrubina não conjugada. Os cálculos pretos são formados em precipitados complexos não infectados e facilitam seu crescimento em pedras. Alguns estudos têm demonstrado genes de sus- ceptibilidade para a formação de cálculos biliares pigmentares (LAMMERT et al., 2016). Veja, na Figura 7, os fatores envolvidos na formação de cálculos biliares pigmentares. FIGURA 7 – FATORES ENVOLVIDOS NA FORMAÇÃO DE CÁLCULOS BILIARES PIGMENTARES FONTE: Adaptada de Lammert et al. (2016) Quais são os sinais e sintomas que esses pacientes apresentam? Os pacientes que desenvolvem colelitíase apresentam um início súbito de dor na região epigástrica ou no quadrante superior direito do abdome. A dor geralmente é descrita como moderada a grave, estável e possui pico uma hora após o início. Geralmente, a cólica se resolve gradualmente e pode durar de cinco a seis horas (STINTON; SHAFFER, 2012). Outros sintomas importantes são dor na região subescapular direita e/ou om- bro, conhecida como sinal de Collins, dor nas costas, náuseas e vômitos. Pode ocorrer também anorexia, sensação de saciedade, incapacidade de comer alimentos gorduro- sos e diarreia crônica. Outro ponto importante é se os cálculos estiverem obstruindo o ducto biliar comum, neste caso, o indivíduo pode apresentar esteatorreia ou fezes gor- durosas e com odor fétido, isso ocorre como resultado da gordura não digerida no duo- deno por causa da falta de bile (ABRAHAM et al., 2014; SUSUMU; MICHIAKI; YOSHINORI et al., 2017). Fatores gené- ticos Hiper- secreção hepática de bilirrubina Estase biliar Infecção bac-teriana Cálculo bi- liar marrom 31 O diagnóstico é feito através de ultrassonografia, a qual é considerada padrão ouro para o diagnóstico de colelitíase. O diagnóstico de colelitíase pode ser eliminado se a ultrassonografia mostrar uma parede da vesícula biliar e ducto biliar comum normais. O diagnóstico positivo pode consistir em espessamento da parede da vesícula biliar (4 mm), aumento da vesícula biliar ou fluido ao redor (LITTLEFIELD; LENAHAN, 2019). O tratamento da colelitíase vai depender da sintomatologia e da ausência de complicações. O tratamento é multifatorial e inclui modificações do estilo de vida, dieta e medicamentos. Como manejo farmacológico pode-se realizar o controle da dor, antieméticos ou agentes de dissolução. Em indivíduos com dor recorrente o manejo cirúrgico é o mais indicado (LITTLEFIELD; LENAHAN, 2019). 2.5.2 Dietoterapia no Cálculo Biliar Todo mundo conhece alguém que sofre ou já sofreu com cálculos biliares, mas como que o nutricionista deve realizar o manejo dietético desse paciente? O excesso de peso aumenta os riscos de cálculo biliar, assim, a perda de peso pode ser interessante nesses indivíduos, porém, se essa perda for excessiva e rápida, isso pode promover o desenvolvimento dos cálculos e aumentar o risco de cálculos biliares assintomáticos se tornarem sintomáticos, isso por que a perda rápida de peso aumenta a proporção de colesterol e sais biliares na vesícula e promove a estase biliar resultando em uma redução nas contrações da vesícula biliar (CIAULA et al., 2019). Além disso, sabe-se que uma dieta rica em colesterol aumenta a saturação de colesterol biliar, aumentando o risco de formação de cálculos biliares. Estudos observacionais têm demonstrado que a ingestão de gordura saturada ou trans está associada a um aumento na incidência de cálculos biliares e que a maior ingestão de ácidos graxos poli ou monoinsaturados reduz esse risco, porém, mais pesquisassão necessárias para se determinar as quantidades e proporções ideais desses ácidos graxos mono e poli-insaturados (CIAULA et al., 2019). Já é bem consolidado na literatura que a ingestão de açúcares refinados, como a sacarose e frutose, está associada ao sobrepeso e obesidade e isso favorece os cálculos biliares. Todavia, estudos têm levantado a hipótese que, além de serem obesogênicos, os açúcares refinados são também litogênicos, porém, ainda não houve comprovação que o consumo de açúcar refinado promove a formação de cálculos biliares, mas é recomendado que os indivíduos com riscos de desenvolver colelitíase evitem a ingestão excessiva de açúcar refinado (CIAULA et al., 2019). 32 Outro ponto importante a se levar em consideração é o estilo da dieta. Tsai et al. (2004a), avaliaram em um estudo prospectivo de 20 anos, 80.898 mulheres e descobriram que o aumento de proteína vegetal estava associado a um menor risco de colecistectomia. Em 2006, os mesmos autores, encontraram que mulheres que aumentaram o consumo de frutas e vegetais tiveram a incidência dos cálculos biliares reduzida (TSAI, 2006). Esses achados sugerem que o consumo de uma dieta vegetariana equilibrada em proteína vegetal pode diminuir o risco de desenvolver cálculos biliares (CIAULA et al., 2019). Pensando na dieta vegetariana, chegamos à conclusão de que, consequen- temente, há um aumento no consumo de fibras, será que as fibras teriam influência benéfica na prevenção e controle dos cálculos biliares? Corroborando com a dieta vegetariana, há o aumento do consumo de fibras o qual é importante para os cálculos biliares. Acredita-se que a fibra atue no cólon intesti- nal, diminuindo a formação de ácido desoxicólico pelas bactérias do intestino e aumen- tando a síntese de ácido quenodesoxicólico, o qual, por sua vez, diminui a litogenicidade e tem sido utilizado terapeuticamente para promover a dissolução de cálculos biliares. Sendo assim, a recomendação de uma dieta rica em fibras se faz importante dentro de um plano alimentar para prevenção dos cálculos biliares (CIAULA et al., 2019). Outro ponto importante a ser demonstrado, é que o aumento do consumo de amendoim e outras nozes está associado a um risco menor de colecistectomia. As mulheres que consumiram cinco ou mais porções de nozes por semana tiveram um risco de 25% menor de ter uma colecistectomia em comparação a mulheres que raramente ou nunca comiam nozes (TSAI et al., 2004b). Como conclusão, Ciaula et al. (2019) sugerem que se deve manter o peso corporal adequado, a dieta deve ser semelhante às recomendadas para outras patologias (diabetes e hipertensão, por exemplo). A suplementação de vitamina C pode ser interessante, visto que esta participa como cofator para a enzima 7α-hidroxilase, uma etapa limitante da taxa de conversão do colesterol em ácidos biliares, prevenindo a formação dos cálculos biliares, promovendo a conversão de colesterol em sais biliares reduzindo a litogenicidade da bile. Além disso, é importante verificar o status do ferro e as deficiências que devem ser corrigidas. Em pacientes com cálculos biliares sintomáticos, os autores sugerem que uma dieta isenta de alimentos alergênicos seria viável (CIAULA et al., 2019). 33 Neste tópico, você aprendeu: • O TGI tem como principal função a absorção de água, eletrólitos e nutrientes. • Os tecidos epiteliais são essenciais para o funcionamento adequado de todo o organismo, fazendo sua cobertura, proteção, formação de glândulas – as quais promovem a secreção e absorção de substâncias necessárias – e proteção contra agentes físicos, químicos e patogênicos. • Os micro-organismos são distribuídos ao longo da superfície do corpo, porém, o local de maior variedade é o TGI, mais especificamente o intestino. • A colonização bacteriana pode se tornar patogênica e isso pode acarretar doenças e distúrbios do TGI. • Na DRGE, o relaxamento do esfíncter esofágico expõe o esôfago ao ácido gástrico e outros conteúdos estomacais, como a pepsina, bile, fluido do intestino delgado e secreções pancreáticas, todos prejudiciais à mucosa esofágica. • Na DRGE, a literatura costuma listar alguns produtos como refluxogênicos, são eles: alimentos gordurosos, picantes ou azedos, frutas cítricas e sucos, alho, tomate e suco de tomate, chocolate, café, bebidas e produtos contendo hortelã-pimenta, bebidas carbonatadas e álcool. • Na DRGE, planos alimentares que reduzem os gatilhos comuns, como a redução da ingestão de açúcares e gorduras saturadas e aumento da ingestão de fibras, podem ser efetivos para pacientes que procuram um planejamento alimentar abrangente. • A gastrite nada mais é do que a inflamação da mucosa do estômago, que se desenvolve como uma resposta do organismo a uma agressão à sua integridade, desencadeando sintomas característicos e processos diferentes, nos quais é possível classificá-la em aguda ou crônica. • As úlceras pépticas (UP) têm como características lesões ulcerosas na mucosa gastro- duodenal gerando dor epigástrica e causando até sangramentos gastrointestinais. • A dietoterapia na úlcera péptica serve para prevenir a hipersecreção de ácido gástri- co com o objetivo de reduzir a ferida e a dor na mucosa gástrica ou duodenal. Além disso, o foco se dá na cicatrização, sendo a investigação de possíveis carências nutri- cionais essenciais para um manejo dietético adequado, visto que esse paciente possui deficiências nutricionais individuais e pode vir a ter patologias associadas. RESUMO DO TÓPICO 1 34 • A pancreatite aguda (PA) é uma inflamação do parênquima glandular do órgão retroperitoneal que leva à lesão com ou sem destruição do ácinos pancreáticos. Essa inflamação pode resultar em uma doença autolimitada ou desenvolver complicações com risco de vida. • A pancreatite crônica (PC) é caracterizada por uma síndrome que consiste em dis- função das glândulas endócrinas e exócrinas que se desenvolvem secundariamente à inflamação progressiva e fibrose crônica dos ácinos pancreáticos com dano estru- tural permanente. • Na PA leve, o tratamento consiste em jejum, hidratação e o médico entrará com analgesia (antiespasmódicos). O jejum deve ser mantido até a melhora do quadro clínico, principalmente da dor, a realimentação geralmente ocorre em três a cinco dias. • Na PA grave, a via de preferência deve ser a enteral (TNE), e quando houver impossibilidade de uso da via enteral, a parenteral está indicada, ambas serão decididas em conjunto com a equipe multidisciplinar. Na via enteral o posicionamento jejunal é o mais recomendável. • A PC aumenta o requerimento nutricional devido ao processo inflamatório crônico que leva ao hipermetabolismo e o hipercatabolismo. • A TN na PC tem como objetivo controlar a má absorção e melhorar a condição nutricional do paciente, evitando a evolução da desnutrição energético-proteica. • As causas da colelitíase são multifatoriais. Fatores que afetam a produção hepática de colesterol, função da vesícula biliar (estase ou inflamação), produção de ácido biliar ou absorção intestinal de colesterol e ácidos biliares podem contribuir para a formação dos cálculos. • O excesso de peso aumenta os riscos de cálculo biliar, sendo assim, a perda de peso pode ser interessante nesses indivíduos, porém, se essa perda for excessiva e rápida, pode promover o desenvolvimento dos cálculos e aumentar o risco de cálculos bilia- res assintomáticos se tornarem sintomáticos. • É bem consolidado na literatura que a ingestão de açúcares refinados, como a sacarose e frutose, está associada ao sobrepeso e obesidade e isso favorece os cálculos biliares. 35 AUTOATIVIDADE 1 A parede é composta por quatro camadas (túnicas) com uma rede de nervos interconectadas. As túnicas são chamadas de: I- Túnica média. II- Túnica submucosa. III- Túnica muscular. IV- Túnica serosa ou adventícia. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a afirmativa II está correta. b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.c) ( ) Todas as afirmativas estão corretas. d) ( ) Nenhuma das afirmativas está correta. 2 O problema é que a colonização bacteriana pode se tornar _________________________ dependendo da bactéria presente e do comprometimento das células epiteliais de barreira ou imune e isso pode acarretar doenças e distúrbios do TGI. Escolha a alternativa que preenche a lacuna. a) ( ) Patogênica. b) ( ) Comensal. c) ( ) Benéfica. d) ( ) Nenhuma das alternativas. 3 Os IBPs são considerados seguros e indicados para o tratamento de várias doenças relacionadas à secreção ácida gástrica, como: refluxo gastroesofágico, úlceras gástricas e duodenais, infecção por Helicobacter pylori e na prevenção e tratamento de danos causados pelo uso de anti-inflamatórios não esteroidais. Essa classe de fármacos reduz a secreção gástrica. Como agem os inibidores da bomba de prótons (IBPs), como o omeprazol e similares? a) ( ) Inibindo a enzima H+/K+-ATPase na superfície secretora das células parietais. b) ( ) Inibindo a enzima amilase no estômago. c) ( ) Inibindo a inflamação da mucosa gástrica. d) ( ) Nenhuma das alternativas. 36 4 Os IBPs também apresentam efeito no status da vitamina B12, pela falta redução da secreção ácida. A falta de ácido gástrico causa a redução da capacidade digestiva de liberar vitamina B12 dos alimentos e, como consequência, reduz a quantidade de vitamina B12 absorvida na mucosa intestinal. Para a absorção de vitamina B12, se faz necessário: 5 A pancreatite aguda (PA) é uma inflamação do parênquima glandular do órgão retroperitoneal que leva à lesão com ou sem destruição do ácinos pancreáticos. O diagnóstico é clínico com suporte em exames laboratoriais e eventualmente exames de imagem. No tratamento da pancreatite aguda qual é o tratamento mais indicado? 6 Até a melhora do quadro clínico, principalmente da dor, a realimentação geralmente ocorre em três a cinco dias. Na pancreatite aguda o tipo de dieta indicado na terapia nutricional enteral é: 37 DOENÇAS DO TRATO GASTROINTESTINAL INFERIOR 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 TÓPICO 2 - As doenças do trato gastrointestinal inferior são aquelas que acometem o intestino, dentre elas, neste tópico, iremos destacar a Síndrome do Intestino Irritável (SII), colite ulcerativa e doença de Crohn (DC). A SII é fator de risco para muitas doenças graves, como o câncer do TGI. Por ser uma doença crônica é de difícil diagnóstico e o mesmo, na maioria das vezes, acontece tardiamente. Trata-se de uma patologia funcional do intestino, apresenta recidivas e é definida por critérios diagnósticos dos sinais e sintomas e ausência de causas orgânicas (SILVA et al., 2020). Veremos, a seguir, toda a fisiopatologia e a die- toterapia envolvendo a SII. Já as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), como a colite ulcerativa e a doença de Crohn, são um problema de saúde pública em muitos países, variando sua incidência conforme a região. São caracterizadas por apresentarem uma recorrência e envolverem o sistema imunológico, o qual tem como alvo o intestino, gerando um processo inflamatório crônico (ZALTMAN, 2007). Siga sua leitura para aprender as fisiopatologias e dietoterapias envolvendo as doenças do trato gastrointestinal inferior. 2 SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL (SII) A prevalência da SII é de aproximadamente 11%, sendo caracterizada por um distúrbio funcional do intestino, não estando associada a anormalidades estruturais ou bioquímicas que possam ser detectáveis pelas ferramentas diagnósticas de rotina atuais (ENCK et al., 2016). 2.1 FISIOPATOLOGIA DA SII Atualmente tem sido descrita como um distúrbio de interações entre intestino- cérebro, com fisiopatologia heterogênea e incompletamente compreendida. A interação alterada entre intestino-cérebro, hipersensibilidade visceral, sofrimento psicossocial e distúrbios motores gastrointestinais são considerados importantes na SII, ou pelo menos para uma parte dos pacientes com SII. 38 Os fatores que contribuem para sua etiologia vêm aumentando nos últimos anos, sendo que a ativação imune intestinal, aumento da permeabilidade intestinal, alteração de microbiota e hipersensibilidade alimentar pode contribuir para os sintomas de alguns pacientes com SII. Veja, na Figura 8, os fatores que contribuem para a SII (BARBARA et al., 2012; POSSERUD et al., 2013; TAP et al., 2017). FIGURA 8 – FATORES PATOFISIOLÓGICOS NA SII FONTE: Adaptada de Algera, Colomier e Simrén (2019) Possui como sintomas dor abdominal ou desconforto abdominal, irregularidade nas fezes e distensão abdominal. Muitos indivíduos têm sua qualidade de vida preju- dicada, pois os sintomas podem ser debilitantes, de leves a moderados. Geralmente, a SII está associada a outras comorbidades somáticas como síndrome de dor, bexiga hiperativa e enxaqueca, depressão, ansiedade e sensibilidade visceral. Além disso, exis- te uma distinção entre os subtipos de SII: SII com dor ou desconforto e constipação predominante (SII-C); SII com diarreia (SII-D); SII mista (SII-M); e SII não subtipo (SII-U) (ENCK et al., 2016). 39 QUADRO 8 – CLASSIFICAÇÃO DOS SUBTIPOS DE SII SII subtipo Frequência de fezes SII-C > 25% constipação, < 25% de diarreia SII-D > 25% diarreia, < 25% constipação SII-M > 25% constipação e > 25% diarreia SII-U < 25% constipação e < 25% diarreia FONTE: Adaptado de Defrees e Bailey (2017) Como visto no Quadro 8, a SII-C é definida como tendo mais de 25% dos movimentos intestinais classificados na escala de Bristol como 1 ou 2 e com menos de 25% das fezes categorizadas como 6 ou 7, também, na escala de Bristol. Já a SII-D é classificada como mais de 25% das fezes categorizadas como 6 ou 7 na escala de Bristol e menos de 25% classificada como 1 ou 2 (DEFREES; BAILEY, 2017). Trata-se de uma doença multifatorial, por isso a patogênese é complexa e a fisiopatologia molecular ainda não está bem elucidada. Alterações funcionais foram descritas, como: alteração na sensibilidade visceral, alterações funcionais do cérebro, motilidade intestinal e disfunções secretoras, comorbidades somáticas e psiquiátricas. Além do mais, anormalidades gastrointestinais como ativação imune, disbiose intestinal, funções mucosas prejudicadas, sensibilização de nervos, plasticidade pós-infecciosa, expressão alterada e liberação de mediadores mucosos e imunológicos e perfis de expressão gênicas, também estão associados com a SII (ENCK et al., 2016). Porém, mesmo que sua patogênese e fisiopatologia permaneçam indetermi- nadas, existem potenciais mecanismos envolvidos na disfunção intestinal, sensação visceral e geração dos sintomas. As evidências são crescentes e sugerem que a barreira epitelial, a microbiota intestinal, os antígenos alimentares e os ácidos biliares provocam respostas anormais nos reguladores das funções sensório-motoras, incluindo eixo hipotálamo-pituitária- adrenal (HPA), o sistema imunológico, o eixo intestino-cérebro e o sistema nervoso entérico (ENCK et al., 2016). Existem também outros fatores, como a depressão e ansiedade, que são conhecidos por responder a sintomas abdominais e fatores psicossociais (estresse) que influenciam as funções fisiológicas intestinais, como motilidade e sensibilidade visceral (ENCK et al., 2016). 40 O diagnóstico da SII é feito através dos critérios de Roma IV, os quais requerem que o paciente tenha sintomas de dor abdominal recorrente, em média pelo menos um dia por semana nos três meses anteriores, com início dos sintomas pelo menos seis meses antes da apresentação. Os critérios também exigem que o paciente tenha dor abdominal em associação com pelo menos dois dos seguintes critérios (DEFREES; BAILEY, 2017): • defecação (melhora ou piora da dor); • mudança na frequência das fezes; • mudança na forma das fezes (aparência). QUADRO 9 – CRITÉRIOS ROMA IV Duração Frequência Sintomas ≥ 3 meses de sintomas persistentes, com início de 6 meses dos sintomas pelo menos antes do diagnóstico. ≥ 1 dia por semana. Dor abdominalrecorrente com pelo menos 2 dos seguintes critérios: 1- relacionado à defecação; 2- associado à mudança na frequência das fezes; 3- associado à mudança na forma das fezes. FONTE: Adaptado de Defrees e Bailey (2017) FIGURA 9 – ESCALA DE BRISTOL FONTE: <https://bit.ly/3qP0PwY>. Acesso em: 24 fev. 2021. 41 O paciente pode utilizar o aplicativo Bristol Stool Chart® (disponível para Android e IOS) para criação de gráficos baseados na classificação da escala de Bristol. PRINT DO APLICATIVO FONTE: O autor A terapia farmacológica tem como objetivo alterar os distúrbios dos hábitos intestinais e/ou dor visceral. Dentre eles, podemos citar os antiespasmódicos, baixas doses de antidepressivos, laxativos ou aceleradores de motilidade e antidiarreicos (ENCK et al., 2016). Outro tratamento interessante na SII é a terapia. Estudos sugerem que os sintomas abdominais influenciam a ansiedade e depressão (bottom-up) e os fatores psicossociais influenciam, por sua vez, os fatores fisiológicos como função motora, limiar sensorial e reatividade ao estresse do intestino (top-down) (FOND et al., 2014; HUNGIN et al., 2015). Diante do exposto, pode-se concluir que apesar de sua fisiopatologia não estar bem elucidada, a SII envolve diversas áreas, como mostra a Figura 10. INTERESSANTE 42 FIGURA 10 – SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL E CAUSAS MULTIFATORIAIS FONTE: Adaptada de Enck et al. (2016) 2.2 DIETOTERAPIA NA SII A SII é descrita como um distúrbio de interações intestinais, sendo que a falta da compreensão completa dos mecanismos fisiopatológicos impediu o desenvolvimento de tratamentos eficazes, e também levou a uma abordagem de tratamento direcionada por sintomas, em vez da patologia subjacente (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). 2.2.1 Fibras As fibras dietéticas são carboidratos não digeríveis (celulose, amido resistente e glucanos), que formam os materiais estruturais de cereais, frutas, vegetais e legumes. As fibras são divididas em dois grupos, com base na sua solubilidade: fibras solúveis e insolúveis. As solúveis formam um gel que interage com as bactérias intestinais e en- curta o trânsito do TGI. Essas bactérias da microbiota intestinal, produzem metabólitos Genética e epigenética Avaliação, emoção, enfrentamento e apoio social Estressores ex- ternos (fatores psicossociais) Ativação cerebral e modulação neuroen- dócrina Eixo intesti- no-cérebro Resposta ao estresse Qualidade de vida com- prometida Estressores in- ternos (alimen- tos e microorga- nismos) Manifestações gastrointestinais e extra- gastrointestinais 43 chamados de ácidos graxos de cadeia curta, que ligam o microbioma intestinal ao me- tabolismo do hospedeiro. Já as fibras insolúveis não alteram o TGI. Além da solubilidade, as fibras influenciam na fisiologia intestinal através da sua fermentabilidade, viscosidade e capacidade de volume/ligação. Alguns estudos demonstram que a alta ingestão de fi- bras insolúveis aumenta o conteúdo de água e volume fecal, resultando em um trânsito gastrointestinal acelerado, o que explica a vantagem de pacientes com SII do tipo cons- tipação consumir esse tipo de fibra. Porém, o consumo de fibras pode levar a inchaço, distensão abdominal e flatulência, sendo esse problema menor proeminente com fibras solúveis do que com insolúveis (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). O psyllium ganha destaque em pacientes que apresentam constipação. Seu mecanismo de ação ainda não está bem elucidado, mas há a hipótese que não se relacione apenas ao aumento do volume das fezes, mas sim ao aumento da produção de ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato, os quais apresentam efeitos anti- inflamatórios na mucosa colônica ou até mesmo promovem alterações na microbiota intestinal contribuindo na SII (CAMILLERI, 2018). 2.2.2 Glúten Apesar de pacientes com SII apresentarem ausência de marcadores para doença celíaca, há evidências de que esses pacientes se beneficiam de uma dieta isenta de glúten. O mecanismo que envolve o glúten e SII ainda não está claro, mas há a hipótese de que o glúten afeta a expressão do mRNA epitelial do intestino delgado da proteína de barreira aumentado a permeabilidade da mucosa do intestino delgado em pacientes com SII-D (CAMILLERI, 2018). Muito se tem falado dos FODMAPs, será que uma dieta isenta em FODMAPs pode ser interessante para pacientes com SII? A intolerância alimentar é um dos fatores que mais causam sintomas em pacientes com SII. Esses pacientes tendem a desencadear seus sintomas após consumo de determinados alimentos, que incluem normalmente legumes, vegetais, alimentos com lactose, gordurosos, frutas com caroço e adoçantes artificiais (HADJIVASILIS, 2019). Uma dieta baixa em FODMAPs é recomendada para pacientes com SII. FODMAPs é o acrônimo derivado do inglês de Fermentable Oligossacarides, Disaccharides, Monosaccharides And Polyols. São carboidratos de cadeia curta que são absorvidos de forma incompleta no intestino delgado. Esses carboidratos, então, entram no cólon, onde são fermentados causando a produção de gás no TGI inferior (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). NOTA 44 Além disso, são osmoticamente ativos, aumentando a água no lúmen intestinal, o que, somado ao mecanismo de fermentação, pode resultar em distensão luminal, levando a sintomas como dor abdominal, diarreia, flatulência e distensão abdominal (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). A lactose é um dissacarídeo composto de glicose e galactose, sendo um FODMAPs quando não digerido no intestino delgado. A digestão da lactose ocorre no intestino delgado, onde indivíduos tem ou não a persistência da enzima lactase – a qual realiza a digestão da lactose – no lúmen intestinal, e é regulada geneticamente (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). Estudos investigam o uso de dieta baixa ou isenta em lactose para pacientes com SII, enfatizam que é importante considerar a intolerância à lactose na investigação diagnóstica de pacientes com suspeita de SII. Porém, não há evidências suficientes para recomendar uma dieta baixa ou isenta em lactose para todos os pacientes com SII, ela deve ser individualizada e verificada a sintomatologia do paciente (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). Pacientes com SII se beneficiam de uma dieta baixa em FODMAPs, porém, ela é muito restritiva, sendo necessário acompanhamento com nutricionista experiente para prevenção de deficiências nutricionais e perda de peso desnecessária (HADJI- VASILIS, 2019). Como conclusão, as experiências clínicas evidenciam que o manejo nutricional para pacientes com SII é complexo. A literatura traz resultados conflitantes nos estudos que envolveram a dietoterapia para SII, e não se sabe os efeitos a longo prazo das terapias propostas. No momento, a ciência está voltada para a dieta com baixo teor de FODMAPs e a dieta isenta em glúten para apenas alguns pacientes, sendo necessárias mais pesquisas para elucidar os mecanismos e desenvolver opções de tratamentos melhores e mais individualizadas para os pacientes com SII (ALGERA; COLOMIER; SIMRÉN, 2019). 3 COLITE ULCERATIVA E DOENÇA DE CROHN A colite ulcerativa é uma doença inflamatória difusa não específica, de causa desconhecida e que afeta continuamente a mucosa colônica proximal do reto e muitas vezes forma erosões e/ou úlceras (MATSUOKA et al., 2018). Quando o intestino grosso é amplamente afetado durante um longo período de tempo, aumenta o risco de desenvolver câncer. Frequentemente, ocorrem ciclos de recidiva e remissão que podem ser acompanhados por complicações extraintestinais (KORNBLUTH; SACHAR, 2010). 45 A Doença de Crohn (DC) é uma doença inflamatória crônica desconhecida, na qual áreas descontínuas são afetadas por uma inflamação granulomatosa transmural (afeta todas as camadas da parede, da mucosa até a serosa) e/ou fístula, afetando qualquer região do TGI (da boca ao ânus), porém, a região mais acometida é o intestino grosso, delgado e a região perianal (MATSUOKA et al., 2018). 3.1 FISIOPATOLOGIA DACOLITE ULCERATIVA Na fase inicial, a mucosa é hiperêmica, apresenta grânulos, com coloração avermelhada e friável, sangra com facilidade, pouco muco, pode apresentar pontos hemorrágicos que se tornam purulentos e posteriormente formam ulcerações. As úlceras estão alinhadas ao eixo do cólon, ilhas isoladas de mucosa formam protuberâncias criando pseudopólipos, os quais podem se unir e formar pontes mucosas (BARBOSA; RODRIGUES, 2012; TURNER, 2010). Na fase aguda, é possível observar a presença de células inflamatórias como mastócitos, macrófagos, neutrófilos e linfócitos dos tipos CD4+ e CD8+, os quais, pela sua citotoxicidade, estão relacionados ao dano de mucosa (NEUMAN, 2007). O agravamento da doença e sua cronicidade pode provocar uma atrófica da mucosa, tornando-a achatada e lisa, o espessamento mural e as estenoses não ocorrem, a superfície serosa é normal, porém, os mediadores inflamatórios presentes podem danificar a musculatura e perturbar a função neuromuscular levando a uma dilatação do cólon e ao megacólon tóxico (TURNER, 2010). A literatura científica levanta a hipótese de que os pacientes com colite ulcerativa apresentam um aumento da permeabilidade do epitélio intestinal, consequência das ulcerações, que levam a uma diminuição da função de barreira. Essa diminuição de função de barreira, somada à inflamação contribuem para a patogênese das doenças inflamatórias intestinais (DII), pois permitem uma maior exposição a antígenos e ativação do sistema imunológico, promovendo a liberação de citocinas pró-inflamatórias como TNF, o qual induz uma disfunção de barreira epitelial por desregular as junções oclusivas (EDELBLUM, 2009; HYUN; MAYER, 2007). O tratamento farmacológico é do tipo piramidal, no qual é utilizado como base o ácido 5-aminossalicílico (5-ASA) e, posteriormente, se necessário, esteroides e imuno- moduladores, que vão intensificar a eficácia do tratamento, dentre eles podemos citar: infliximab (IFX), inibidores da calcineurina (ciclosporina A, tacrolimus) ou procedimentos cirúrgicos, dependendo do grau da doença (KORNBLUTH; SACHAR, 2010). 46 O tratamento farmacológico tem como objetivo atuar no bloqueio ou ativação de diferentes células e mediadores participantes da inflamação, para interrompê-la ou man- ter a remissão da doença. Seis classes distintas de medicamentos estão disponíveis para o tratamento das DII: aminossalicilatos, antibióticos, corticoides, tiopurinas, antagonistas do ácido fólico como o metotrexato e imunobiológicos (SALES-CAMPOS et al., 2015). O principal método de diagnóstico é a endoscopia digestiva, além disso testes so- rológicos (marcadores inflamatórios) e exames radiológicos complementam o diagnóstico e o acompanhamento (CURY, 2015, p. 41). Entre os exames de imagem sugeridos para o diagnóstico da colite ulcerativa estão a endoscopia com biópsia, a qual é suficiente para confirmar o diagnóstico e dar início à terapia medicamentosa em pacientes que apresen- tam a primeira crise de colite ulcerativa (OSTERMAN; LICHTENSTEIN, 2010, p. 1985). A colonoscopia não é indicada em pacientes com a colite na forma ativa, pois há o risco de perfuração. Porém, quando passada a fase ativa se torna uma ferramenta interessante para estabelecer a extensão da doença e excluir a possibilidade de Doença de Crohn ou outras que possam complicar a colite ulcerativa (OSTERMAN; LICHTENSTEIN, 2010, p. 1985). 3.2 FISIOPATOLOGIA DA DOENÇA DE CROHN Fatores ambientais podem estar relacionados com a DC, como: tabaco, exposição a antibióticos na infância, contraceptivos orais, anti-inflamatórios não esteroidais (AINES) e fatores dietéticos (TORRES et al., 2017). O diagnóstico é feito através de exames de imagem, os quais possibilitam classificar a gravidade da doença. Esses indivíduos devem ser avaliados com endoscopia digestiva mais baixa e imagens transversais para avaliar a extensão da doença, é importante que todo o intestino passe por uma avaliação coerente e correta, pois a DC pode afetar diversas áreas do TGI superior, as quais possuem implicações prognósticas e terapêuticas (PITA; MAGRO, 2018). 3.3 DIETOTERAPIA NAS DII O padrão dietético ocidental mudou consideravelmente. Esse padrão é dominado pelo alto consumo de açúcar refinado, frutose industrial, desequilíbrio entre o balanço ômega-6:ômega-3, aumento do consumo de fast foods, alta ingestão de carne vermelha, margarina, gorduras trans, redução do consumo de frutas e legumes (fibras), os quais favoreceram consideravelmente a incidência de DII (HOU; ABRAHAM; EL-SERAG, 2011; ANDERSEN et al., 2012; RICHMAN; RHODES, 2013; CHAPMAN-KIDDELL et al., 2010). 47 Alguns estudos já tentaram relacionar o consumo de proteínas de origem animal versus proteína de origem vegetal verificaram que as proteínas de origem vegetal au- mentaram as bactérias benéficas ao hospedeiro e promoveu a redução das patogênica, aumentando a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), melhorando a barreira intestinal e reduzindo a inflamação. Porém, o consumo de proteínas de origem animal fez o inverso, aumentou o conteúdo de bactérias patogênicas, reduziu as benéficas, consequentemente, reduziu a produção de AGCC e aumentou a produção de N-óxido de trimetilamina (TMAO, do inglês, trimethylamine N-oxide) favorecendo o aparecimento de doenças cardiovasculares e doença inflamatória intestinal (SINGH et al., 2017). Sabe-se que pacientes com DII têm uma alta tendência a apresentarem uma diversidade microbiana intestinal menor, e como consequência uma menor quantidade de bactérias benéficas, gerando concentrações reduzidas de butirato (um AGCC), o qual junto com outros AGCC pode promover um efeito anti-inflamatório (LÓPEZ et al., 2016). A microbiota intestinal, através da fermentação de prebióticos, tem a capacidade de pro- duzir AGCC como acetato, propionato e butirato. Pacientes com DII apresentam conteúdos fecais de AGCC reduzidos. Dentre os benefícios dos AGCC pode-se citar: 1) inibição da ade- são de micro-organismos patogênicos nas células intestinais; 2) favoreci- mento de secreção de bacteriocinas (substância antimicrobiana) por célu- las epiteliais do cólon; 3) favorecer o crescimento de bactérias benéficas; 4) proporciona efeitos anti-inflamatório para as células epiteliais através da inibição da ativação de NF-kB e PPARγ e limitando a produção de IL-1β, IL-6 e TNF- α; 5) aumento da síntese de mucina através do estímulo do fator de crescimento epidérmico (EGFR, do inglês Epidermal growth factor receptor) favorecendo a homeostase intestinal (EOM et al., 2018). O que já se sabe é que há benefícios claros em uma dieta rica em frutas, legumes, óleo de peixe (ômega-3), grãos integrais, azeite de oliva, a qual vai oferecer micronutrientes como vitamina D, ácidos graxos essenciais, vitaminas, minerais e fibras. Esses alimentos irão manter uma microbiota saudável e, consequentemente, um epitélio intestinal saudável (TOMASELLO et al., 2016). Corroborando, Hou, Abraham e El-Serag (2011), em uma revisão sistemática, concluíram que a alta ingestão de gorduras totais, ácidos graxos poli-insaturados (PUFA, do inglês, polyunsaturated fatty acids), ácidos graxos ômega-6 e carne foram associados ao risco aumentado de desenvolver DII. Em contrapartida, a ingestão de vegetais, fibras e frutas foi associada a redução desse risco. NOTA 48 Como vimos, a dieta ocidental favorece mais a inflamação piorando o quadro das DII. Partindo desse pressuposto, como deve ser a dietoterapia na DII? Muito tem se estudado com relação a dietoterapia nas DII, com o objetivo de controlar e manter a sua remissão. Porém os mecanismos e componentes ainda levantam contradições. Por isso, não há uma intervenção dietética padrão ouro, os profissionais da saúde promovem as que julgarem melhores, baseadas nas evidências científicas disponíveis (HASKEY; GIBSON, 2017). Certo, então o profissional nutricionista deve guiar sua conduta baseado no que existe de evidência científica disponível.Mas e se o paciente se encontra ou na fase ativa ou na fase de remissão da doença, o que deve ser ajustado na dietoterapia? • Fase ativa da doença ◦ redução de alimentos crus e ricos em fibras; ◦ se o paciente estiver com diarreia, assegurar a ingestão de líquidos (água sem gás, chás naturais sem cafeína, bebidas isotônicas e água de coco, são bem toleradas); ◦ alimentos provenientes de carboidratos com menor teor de fibras (arroz branco, batata, legumes como cenoura, chuchu e abobrinha sem sementes), carnes magras cozidas, sopas e caldos são indicados na fase aguda; ◦ dar preferência aos temperos naturais (cebola, alho e ervas), evitar condimentos picantes e molhos prontos (AMBROGINI JUNIOR; LIMA, 2015). • Fase de remissão da doença ◦ dieta normal com caráter anti-inflamatório; ◦ rica em antioxidantes; ◦ rica em fibras; ◦ gorduras monoinsaturadas; ◦ reintrodução de alimentos menos tolerados pode acontecer nessa fase, porém, a dieta deve se manter balanceada e saudável sem comprometer o estado nutricio- nal (AMBROGINI JUNIOR; LIMA, 2015). • Glutamina Em estados hipercatabólicos demonstra necessidades metabólicas aumenta- das. Para o enterócito é um nutriente importante, pois auxilia na melhora das células mucosa, reduz a translocação bacteriana e preserva os níveis de imunoglobulina A (IgA) intestinal e extraintestinal. Em modelos animais demonstrou exercer um papel anti-inflamatório e protetor contra as lesões intestinais, reduzindo os danos e melhorando o curso da doença (AMBROGINI JUNIOR; LIMA, 2015). 49 • Vitamina D Pacientes com DII comumente apresentam deficiência de vitamina D, esses pacientes correm o risco de baixa densidade óssea e aumento de fraturas, pois somado à hipovitaminose D, ainda há a doença de longa data e exposição frequente a esteroides. Assim, os níveis de vitamina D devem ser verificados e, se necessário, suplementados. Além disso, a vitamina D tem um papel no sistema imunológico inato, agindo como imunomodulador e reduzindo a inflamação na DII (REICH et al., 2014). Segundo Gubatan e Moss (2018), a vitamina D tem um papel importante de proteção da saúde intestinal, sua deficiência é prevalentemente associada a DII e agrava seus fatores. A suplementação e seus benefícios na DII ainda não são claras, sendo que mais pesquisas são necessárias para orientar e medir os metabólitos de vitamina D e sua absorção em pacientes com DII. • Ômega-3 Os ácidos graxos da classe ômega-6, como o ácido araquidônico e linoleico, por exemplo, têm propriedades inflamatórias, enquanto os ácidos graxos ômega-3, ácido alfa-linolênico, eicosapentaenoico e docosahexaenoico possuem efeitos anti- -inflamatórios. Os possíveis mecanismos do ômega-3 são: melhora da função de barreira, ex- pressão diminuída de citocinas, inibição de eicosanoides inflamatórios como prosta- glandinas E2 e leucotrienos B4, expressão diminuída de moléculas de adesão e altera- ções de microbiota intestinal (LEWIS; ABREU, 2017). • Micronutrientes Em pacientes com DII é comum encontrar deficiência de micronutrientes, principalmente naqueles já submetidos à ressecção intestinal. O consumo de micronutrientes é recomendado para se alcançar as demandas, sendo que a atenção deve estar voltada para o consumo de alimentos que são fontes das respectivas necessidades. Os erros ou carências nutricionais de micronutrientes devem ser revertidos com fontes alimentares ou suplementos nutricionais adequados (AMBROGINI JUNIOR; LIMA, 2015). 50 INTESTINO Gabriela Dors Trata-se de um órgão endócrino, que possui 10 vezes mais bactérias e 100 ve- zes mais material genético do que o número de células do organismo. Evidências cien- tíficas já apontam que o intestino, através dos hormônios sintetizados no TGI, tem res- ponsabilidade pelo comportamento alimentar. Buscou-se conhecer afundo o tema, para desenvolver novas estratégias para combater a epidemia da obesidade, porém, o conhecimento da microbiota e sua impor- tância para a saúde humana é recente. As bactérias intestinais não colonizam o intestino de forma uniforme, pois apresentam diferentes atividades dependendo do local colonizado. Essas bactérias desempenham função de proteção ao hospedeiro. Sendo as- sim, o intestino dispõe de três linhas eficientes na defesa e que se comunicam entre si: microbiota intestinal, barreira mucosa e o sistema imune entérico. O TGI é colonizado inicialmente pelo parto, principalmente o parto normal, o qual favorece o contato direto com a microbiota fecal da mãe. Depois, há o contato com o ambiente e com a amamentação, podendo então essas bactérias sofrerem influência pelo uso de leite industrializado quando a mãe não consegue amamentar. Além disso, a administração de antibióticos em excesso ou de forma incorreta promovem uma seleção natural e enfermidades diarreicas são causadas pelo desequilíbrio bacteriano intestinal. Outro ponto importante é o fato de as bactérias intestinais agirem em nutrientes, permitindo um melhor desempenho intestinal, sendo o principal deles o carboidrato, o qual é fermentado no cólon e formam os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) absorvidos na mucosa, como o butirato e o popionato. O butirato age nos mediadores da inflamação e no geral os AGCC podem inibir a expressão de citocinas pró-inflamatórias. Porém, o problema está quando acontece um desequilíbrio da microbiota. Isso pode acarretar perda de efeitos imunes importantes, associando então a um núme- ro de doenças inflamatórias e imunomediadas, além de permeabilidade intestinal e constipação. LEITURA COMPLEMENTAR 51 O desequilíbrio na microbiota gera a quebra de peptídeos e reabsorção de toxi- nas de maneira inadequada, induzindo o surgimento de patologias, já que as funções da microbiota intestinal estão disfuncionais. As causas da disbiose são inúmeras, mas podemos citar a idade, estresse, disponibilidade de material fermentável, má digestão, tempo de trânsito intestinal, pH intestinal, sistema imunológico do hospedeiro. Para reestabelecer esse equilíbrio microbiano, pode-se utilizar a dieta, por meio da ingestão de probióticos, prebióticos e simbióticos ou usando medicamentos. FONTE: Adaptado de <https://institutoanapaulapujol.com.br/iappmais/intestino/>. Acesso em: 23 fev. 2021. 52 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • A interação alterada entre intestino-cérebro, hipersensibilidade visceral, sofrimento psicossocial e distúrbios motores gastrointestinais é considerada importante na SII ou, pelo menos, para uma parte dos pacientes com SII. • Alguns estudos demonstram que a alta ingestão de fibras insolúveis aumenta o con- teúdo de água e volume fecal, resultando em um trânsito gastrointestinal acelerado, o que explica a vantagem de pacientes com SII do tipo constipação consumir esse tipo de fibra. • Apesar de pacientes com SII apresentarem ausência de marcadores para doença celíaca, há evidências de que eles se beneficiam de uma dieta isenta de glúten. • Uma dieta baixa em FODMAPs é recomendada para pacientes com SII, pois esses carboidratos entram no cólon, onde são fermentados, causando a produção de gás no TGI inferior. • A Colite Ulcerativa é uma doença inflamatória difusa não específica, de causa des- conhecida e que afeta continuamente a mucosa colônica proximal do reto e muitas vezes forma erosões e/ou úlceras. • A Doença de Crohn é uma doença inflamatória crônica desconhecida, na qual áreas descontínuas são afetadas por uma inflamação granulomatosa transmural (afeta to- das as camadas da parede, da mucosa até a serosa) e/ou fístula, afetando qualquer região do TGI (da boca ao ânus), porém, a região mais acometida é o intestino grosso, delgado e a região perianal. • O padrão dietético de alto consumo de açúcar refinado, frutose industrial, desequilí- brio entre o balanço ômega-6:ômega-3, aumento do consumo de fast-foods, alta in- gestão de carne vermelha, margarina, gorduras trans, redução do consumo de frutas e legumes (fibras), os quais favoreceramconsideravelmente a incidência de DII. • Há benefícios claros em uma dieta rica em frutas, legumes, óleo de peixe (ômega-3), grãos integrais, azeite de oliva, pois oferece micronutrientes como vitamina D, ácidos graxos essenciais, vitaminas, minerais e fibras. Esses alimentos irão manter uma mi- crobiota saudável e, consequentemente, um epitélio intestinal saudável. 53 AUTOATIVIDADE 1 Muitas vezes o paciente possui sintomas dor abdominal ou desconforto abdominal, irregularidade nas fezes e distensão abdominal, os quais prejudicam a sua qualidade de vida, pois os sintomas podem ser debilitantes, de leves a moderados. Geralmente, a SII está associada a outras comorbidades somáticas como síndrome de dor, bexiga hiperativa e enxaqueca, depressão, ansiedade e sensibilidade visceral. Além disso, existe uma distinção entre os subtipos de SII. Sobre a classificação dos subtipos de SII, analise as asserções a seguir: I- SII-C possui como frequência de fezes >25% constipação, <25% de diarreia II- SII-D possui como frequência de fezes >25% diarreia, <25% constipação III- SII-M possui como frequência de fezes >25% constipação e <25% diarreia IV- SII-U possui como frequência de fezes <25% constipação e <25% diarreia Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a alternativa II está correta. b) ( ) Apenas a alternativa III está incorreta. c) ( ) As alternativas II, III e IV está incorreta. d) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 Alguns estudos demonstram que a alta ingestão de fibras insolúveis aumenta o conteúdo de água e volume fecal, resultando em um trânsito gastrointestinal acelerado, o que explica a vantagem de pacientes com SII do tipo constipação consumir esse tipo de fibra. Porém, o consumo de fibras pode levar a inchaço, distensão abdominal e flatulência, sendo esse problema menor proeminente com fibras solúveis do que com insolúveis. Qual a fibra que ganha destaque em pacientes que apresentam constipação? a) ( ) Goma guar. b) ( ) Betaglucana. c) ( ) Psyllium. d) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 3 A intolerância alimentar é um dos fatores que mais causam sintomas em pacientes com SII. Esses pacientes tendem a desencadear seus sintomas após consumo de determinados alimentos, que incluem normalmente legumes, vegetais, alimentos com lactose, gordurosos, frutas com caroço e adoçantes artificiais. Qual dieta é recomendada para pacientes com SII? 54 4 Na fase inicial, a mucosa é hiperêmica, apresenta grânulos, com coloração avermelha- da e friável, sangra com facilidade, pouco muco, pode apresentar pontos hemorrágicos que se tornam purulentos e posteriormente formam ulcerações. Qual doença é? a) ( ) SII. b) ( ) Colite ulcerativa. c) ( ) Doença de Crohn. d) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 5 Muito tem se estudado com relação a dietoterapia nas DII, com o objetivo de controlar e manter a sua remissão. Porém os mecanismos e componentes ainda levantam contradições. Por isso, não há uma intervenção dietética padrão ouro. Descreva o que é importante levar em consideração na na fase ativa e na fase de remissão da DII: 55 REFERÊNCIAS ABRAHAM, S. et al. Surgical and nonsurgical management of gallstones. Am Fam Physician., [S. l.], v. 89, n. 10, p. 795-802, 2014. Disponível em: http://files.bvs.br/ upload/S/0047-2077/2015/v102n6/a4558.pdf. Acesso em: 24 fev. 2021. ABRAHÃO JUNIOR, L. J. Doença do refluxo gastroesofágico. JBM, Rio de Janeiro, v. 102, n. 6, p. 31-36, nov./dez. 2014. ALGERA, J.; COLOMIER, E.; SIMRÉN, M. The Dietary management of patients with irritable bowel syndrome: a narrative review of the existing and emerging evidence. 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CHAMADA 68 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 69 TÓPICO 1 — OBESIDADE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A obesidade vem sendo, de longe, um dos maiores problemas de saúde pública do país. Souza, França e Cavalcante (2017) apontaram através do Global Burden of Disease Brasil – GBD que a obesidade, glicemia de jejum e uso de álcool aumentaram significativamente, sendo consistente com dados da maioria dos países do mundo. O excesso de peso e a obesidade são fatores de risco para inúmeras doenças como as cardiovasculares (as quais iremos discutir mais para frente, nesta unidade), diabetes, câncer de cólon, de reto e de mama, cirrose e outras (ANS, 2017). Trata-se de uma doença multifatorial que apresenta recidivas e é muitas vezes silenciosa, que, se não prevenida ou tratada, impacta de forma devastadora a vida do indivíduo e a saúde pública (ANS, 2017). Dados do IBGE mostram que a proporção de obesos na população de 20 anos ou mais de idade do país mais que dobrou, entre 2003 e 2019, passando de 12,2% para 26,8%, sendo que entre as mulheres subiu de 14,5% a 30,2% (CAMPOS, 2020). A obesidade sofre influência da globalização e do marketing exacerbado em cima de alimentos processados, além disso, tem o consumismo, a necessidade de pra- zeres rápidos e respostas imediatas, tornando a obesidade uma questão social. Assim, podemos concluir que existe uma complexa relação entre o corpo, saúde, alimento e sociedade, que varia conforme as inserções sociais e concepções acerca do tema em que cada indivíduo está inserido (BRASIL, 2014). 70 O Ministério da Saúde decidiu aderir à rede de estudos da Carga Global de Doenças (Global Burden of Disease – GBD) com o objetivo de inserir o Brasil nas estimativas e análises da carga de doença. O estudo GBD é publicado há cerca de 20 anos, representando um esforço científico com o objetivo de quantificar a redução da saúde em decorrência de doenças, lesões e fatores de risco por idade, sexo e tempo (SOUZA; FRANÇA; CAVALCANTE, 2017). 2 FISIOPATOLOGIA DA OBESIDADE De uma forma geral, a obesidade é um desequilíbrio energético de longo prazo devido a um desequilíbrio entre a quantidade de calorias consumida com a quantidade de calorias gastas. Se pensarmos na evolução, o ser humano e seus predecessores sobreviveram a períodos de subnutrição, portanto, a seleção natural contribuiu para um genótipo que favorece a alimentação em excesso, baixo gasto energético e inatividade física (BLÜHER, 2019) (Figura 1). Ou seja, seres humanos que suportavam longos períodos de fome, armazenavam e mobilizavam energia de forma mais eficientes podem ter se reproduzido mais do que aqueles que não eram adaptados dessa forma, isso levou a uma super- representação de variantes genéticas que promoveram a capacidade de comer rápido, absorver calorias em um grau mais elevado e expandir os estoques de energia no tecido adiposo de forma eficiente. O problema é que os tempos mudaram e a supernutrição surgiu ameaçando a saúde, invertendo o quadro no qual mais pessoas morrem de sobrepeso e obesidade do que de baixo peso e desnutrição (BLÜHER, 2019). IMPORTANTE 71 FIGURA 1 – FATORES QUE INFLUENCIAM NA OBESIDADE FONTE: Adaptada de Blüher (2019) 2.1 GENÉTICA Como você já sabe a obesidade está aumentando de forma exponencial em todo o mundo, afetando tanto países desenvolvidos como os em desenvolvimento, gerando um impacto significativo na saúde pública e na economia. Você já sabe também que a obesidade favorece inúmeras doenças como Diabetes Mellitus tipo 2, dislipidemia, doença arterial coronariana (que iremos ver mais à frente), acidente vascular cerebral, hipertensão, refluxo gastroesofágico (que vimos na Unidade 1), vários tipos de câncer, doenças hepáticas (doença hepática gordurosa não alcoólica – DHGNA; cirrose; carcinoma hepatocelular), além de afetar o sono, causar depressão e doenças musculoesqueléticas (ROHDE et al., 2019) (Figura 2). 72 FIGURA 2 – OBESIDADE E OS ÓRGÃOS E SISTEMAS FONTE: Adaptada de Schetz et al. (2019) O aumento da prevalência da obesidade durante os últimos 50 anos se dá pela interação complexa de mudanças ambientais (ambiente obesogênico) e a predisposição genéticado indivíduo. Estudos têm correlacionado muito os fatores ambientais, como o sedentarismo e o alto consumo de alimentos com alta densidade energética somado a um gasto energético reduzido, porém, há sim uma forte influência da genética na obesidade (ROHDE et al., 2019). Os fatores ambientais contribuem para a variabilidade da etiologia da obesidade, isto é, devido à variabilidade individual substancial induzida por interações gene- ambiente, e isso somado a nutrição inadequada, sedentarismo e intervenções para perda de peso induzem alterações dinâmicas nas assinaturas epigenéticas, modulando a atividade do gene (ROHDE et al., 2019). Os genes atuam na manutenção de peso e gordura corporal estáveis durante o tempo, controlando vias eferentes (leptina, nutrientes, sinais nervosos, e outros), de mecanismos centrais (neurotransmissores hipotalâmicos) e de vias aferentes (insulina, catecolaminas, sistema nervoso autônomo (SNA). Ou seja, o balanço energético (energia ingerida e energia gasta) parece depender cerca de 40% da herança genética, afetando o apetite e o gasto energético (MARQUES-LOPES et al., 2004). • Transtorno de humor • Estigma social • Inflamação crônica • Imunidade alterada • Aumento do risco de infecção • Doença cardiovascular crônica • Aumento do débito cardíaco • Monitoramento padrão menos confiável • Risco de ressuscitação com fluidos insuficiente • Aumento do VO2, produção de CO2 e esforo pra respirar • Complacência e capacidade residual funcional reduzida • Apneia obstrutiva do sono e sídrome de hipoventilação/via aérea difícil • Doença hepática gordurosa não- alcoólica • Metabolismo alterado de drogas • Dislipidemia induzida pela nutrição • Doença renal crônica • Risco aumentado de lesão renal aguda • Farmacocinética alterada • Dosagem de drogas adaptada • Aumento da massa gorda (fonte de energia) • Sarcopenia oculta • Hiperglicemia/Dislipidemia • Alvos calóricos e proteicos baseados no peso ajustado 73 A maioria dos indivíduos com obesidade apresenta a obesidade multifatorial atribuída pela interação entre múltiplos genes (poligênica). Mais de 870 SNPs (do inglês, Single Nucleotide Polymorphisms) – uma variação na sequência de DNA que afeta somente uma base (Adenina, Timina, Citosina ou Guanina) – foram identificados em larga escala. Os avanços recentes têm mostrado que os loci associados à obesidade carregam genes envolvidos nas vias que afetam neurocircuitos da regulação do apetite e da saciedade (BDNF, MC4R e NEGR), secreção e ação da insulina (TCF7L2, IRS1), adipogênese e metabolismo lipídico (FTO, RPTOR, MAP2K5) (ROHDE et al., 2019). Falar de todos os genes individualmente levaria tempo e precisaria de uma unidade só para isso, além disso, muitas pesquisas ainda estão sendo feitas para elucidar todos os mecanismos envolvidos com cada um deles. Mas que tal conhecermos o gene FTO? O FTO (do inglês, Fat mass- and obesity-associated gene) é fortemente ligado a indicadores antropométricos como o IMC, por exemplo. Além disso, desempenha um papel fundamental na regulação do desenvolvimento do tecido adiposo e funções no tamanho e composição corporais. Evidências de estudos experimentais apontam que o FTO é altamente expresso em áreas cerebrais importantes para a regulação do con- sumo de energia e do sistema de recompensa, ou seja, está associado ao controle do apetite e saciedade. O FTO faz parte de uma via que medeia a neuroregulação da ingestão de alimentos, com o bloqueio do sinal da leptina, então levanta-se a hipótese de que polimorfismos nesse gene pode estar associado ao controle alimentar no hipotálamo associado a transtornos alimentares como o da Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) (HORVATH, 2017). Por ser altamente expresso em regiões-chave no cérebro, como o hipotálamo, os polimorfismos no FTO podem influenciar a maneira como as células percebem os níveis de aminoácidos, e estudos mostram evidências de que os indivíduos com SNPs suscetíveis no FTO não apenas consomem mais alimentos, mas também mostram alteração na preferência de nutrientes, sugerindo que o FTO pode influenciar a composição dos macronutrientes da dieta. Sendo assim, o FTO pode revelar novos alvos terapêuticos na batalha contra a epidemia da obesidade (LOOS; YEO, 2013). Estimativas apontam que a obesidade observada na população se deve a diferenças genéticas interindividuais, variando de 40 a 70%. Por muitos anos, a identificação dos genes associados a características da obesidade foi dificultada por uma compreensão limitada da arquitetura genética do genoma humano e das vias biológicas implicadas na obesidade. Em 2005, com a abordagem de associação do genoma, a qual foi uma abordagem livre de hipóteses possibilitada INTERESSANTE 74 por avanços na tecnologia de genotipagem de alto rendimento, aumentou o ritmo de descoberta do gene. Os estudos de associação do genoma (GWAS, do inglês, genome-wide association studies) identificaram aproximadamente 2.000 loci genéticos com associações robustas para mais de 300 características e doenças comuns, incluindo pelo menos 75 loci de suscetibilidade à obesidade. O FTO foi o primeiro gene identificado por meio de GWAS, e continua sendo o loci com o maior efeito no índice de massa corporal (IMC) e risco de obesidade, mais amplamente replicado com vários traços de obesidade ao longo da vida através de diversos ancestrais (LOOS; YEO, 2013). 2.2 AMBIENTAL Você já parou para pensar que o ambiente em que vivemos pode ter influência na obesidade? Estudos epidemiológicos identificaram vários fatores de risco modificáveis para obesidade e doença cardiovascular (DCV), como: consumo de bebidas açucaradas, alimentos fritos, dieta de má qualidade e estilo de vida sedentário. Esses fatores ambientais modificam o risco genético de obesidade e doenças relacionadas (HEIANZA; QI, 2018). O primeiro ponto que vamos conversar é sobre o estresse. Se olharmos a evolução humana, faz sentido que o estresse afete os processos metabólicos. Esse sistema de estresse evoluiu para nos ajudar a lidar com situações de risco de vida, que nos tempos ancestrais envolviam considerável esforço metabólico. O sistema de resposta ao estresse libera glicose na corrente sanguínea para que nossos músculos tenham energia para fugir (ou lutar) de predadores e outras ameaças. Porém o que vemos atualmente são estressores psicológicos (brigas, trabalho, preocupações financeiras) em vez de físicos, porém, nosso corpo responde como se o estresse fosse físico, nos deixando em uma situação de excesso de energia que tende a ser depositado na forma de gordura corporal (TOMIYAMA, 2019). O estresse e a obesidade estão ligados por mudanças que tem como objetivo acomodar os efeitos do estresse, em vez de alterar o evento estressante real. Ou seja, os caminhos que levam do estresse à obesidade são esforços do indivíduo para lidar com os aspectos emocionais negativos do estresse (Figura 3), que pode ser agudo ou crônico (TOMIYAMA, 2019). 75 FIGURA 3 – VIAS DE CONEXÃO DO ESTRESSE E OBESIDADE FONTE: Tomiyama (2019, p. 3) Outro ponto importante é o sedentarismo. A atividade física e o estilo de vida sedentário podem modificar o risco genético de obesidade, um exemplo é a relação entre o genótipo FTO e a obesidade, a qual é atenuada entre pessoas com altos níveis de atividade física (HEIANZA; QI, 2018). Evidências (estudo com mais de 200.000 adultos) sugerem interações entre variantes genéticas e atividade física na adiposidade, o efeito de aumento do IMC foi atenuado em até 30% nos indivíduos fisicamente ativos em comparação com os não ativos (GRAFF et al., 2017). Isso demonstra, que a atividade física e o comportamento sedentário podem modificar o risco genético de obesidade, ganho de peso e doenças cardiovasculares (HEIANZA; QI, 2018). Além disso, a atividade física contribui para o gasto energético diário, e quanto maior o balanço energético negativo, maior é a perda depeso. Esse aumento do gasto energético pode ser obtido pelo aumento da atividade física através de exercícios supervisionados ou não, atividade ocupacional, trabalho doméstico, cuidados pessoais, deslocamento e atividades de lazer. Os mecanismos envolvidos são a aceleração da quebra das principais reservas energéticas do organismo, ou seja, glicogênio e triacilgliceróis, levando à perda de peso (PETRIDOU; SIOPI; MOUGIOS, 2019). O exercício acelera a glicogenólise no músculo e no fígado; glicólise, o ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa no músculo; lipólise no tecido adiposo e músculo; oxidação de ácidos graxos no músculo. Todo esse processo ocorre por meio da secreção estimulada de hormônios e mudanças nas concentrações de substratos que levam à ativação de enzimas que catalisam etapas importantes nas vias catabólicas citadas anteriormente (PETRIDOU; SIOPI; MOUGIOS, 2019). Petridou, Siopi e Mougios (2019) apontam em sua revisão que o exercício é indispensável para o controle da obesidade, porém, é uma ferramenta subestimada visto que os indivíduos dão preferências a outros meios como medicamentos e cirurgias. Os Estresse Obesidade Estigma do peso Cognição • Função executiva • Auto regulação Fisiologia • Eixo Hipotalâmico- pituitária-adrenal • Circuito de recompensa • Microbioma Comportamento • Comer • Atividade física • Dormir Bioquímica • Leptina e grelina • Neuropeptídeo Y 76 autores colocam que os profissionais de saúde devem entender melhor que o exercício é um “medicamento” importante e explorar suas características únicas, indo além da contribuição para a perda de peso e gordura corporal, manutenção do peso corporal e redução de gordura e aptidão física na obesidade, contribuindo para o bem-estar mental, social e melhora da qualidade de vida. Além disso, o exercício é capaz de combater a inflamação crônica de baixo grau que está associada à obesidade. 2.3 HORMÔNIOS E NEUROTRANSMISSORES A ingestão de energia (alimentação) é metabolizada e usada para alimentar o metabolismo basal, a termogênese e o gasto de energia (atividade física), quando ocorrem excessos acontece o armazenamento como forma de gordura nas células adiposas para uso posterior (GREENWAY, 2015). Como vimos, o peso corporal é influenciado por fatores como: genética, ambiental e comportamental, mas sabemos que fatores hormonais também exercem um papel importante, e qual será esse papel? O sistema neuro-hormonal é complexo e desempenha uma importância bio- lógica fundamental no balanço energético e fornecimento de nutrientes. Os sinais en- volvidos na regulação homeostática da ingestão de alimentos, balanço energético e corporal são centralizados no núcleo arqueado do hipotálamo, tronco cerebral caudal e partes do córtex e sistema límbico. Neuropeptídeos e hormônios envolvidos na regula- ção do apetite funcionam centralmente no hipotálamo, como o neuropeptídeo Y (NPY) e o AgRP (do inglês, agouti-related peptide), os quais são orexígenos (estimulam a fome), pró-opiomelanocortina (POMC) é orexígena (suprime a fome) (GREENWAY, 2015). O hipotálamo processa sinais periféricos que transmitem informações sobre a in- gestão de alimentos de curto prazo (disponibilidade de nutrientes) ou balanço de energia de longo prazo (estoque de energia) para atingir a homeostase energética. É criado um ciclo de feedback entre o cérebro e a periferia (trato gastrointestinal, pâncreas, fígado, músculo e tecido adiposo). Os sinalizadores de curto prazo são os hormônios orexígenos como a grelina e o polipeptídeo inibidor gástrico; os anorexígenos incluem o peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP1), peptídeo YY (PYY) e colecistoquinina (CCK) do trato gas- trointestinal; os anorexígenos do pâncreas como polipeptídio pancreático (PP), amilina e insulina; e os anorexígenos dos adipócitos como a leptina (GREENWAY, 2015). A insulina reduz a ingestão alimentar de forma central, mas causa ganho de peso quando age perifericamente. O hipotálamo interage com as vias de recompensa, no sistema cortiço-límbico, associadas à palatabilidade (visão, olfato e sabor) dos alimentos. Essas vias de recompensa hedônica podem substituir o sistema homeostático e aumentar o desejo por alimentos considerados ricos em energias mesmo se houver 77 uma saciedade fisiológica e que os estoques estejam repletos de energia. Outros neurotransmissores cerebrais também desempenham papel importante nas vias de recompensa e na mediação do impulso do prazer para comer, como os mecanismos dopaminérgicos, opioidérgicos e canabinoides (GREENWAY, 2015). Vamos relembrar alguns hormônios envolvidos nos mecanismos de fome e saciedade? • Via orexígena (NAVES, 2014): ◦ Grelina: produzida nos rins, intestino, placenta, hipófise, no hipotálamo e no estôma- go. Regula a ingestão alimentar, mecanismos de recompensa, além de ser modula- dora do estresse e combater o envelhecimento. ◦ Neuropepetídeo Y: é um hormônio orexígeno mais potente. Promove um balanço energético positivo, estimulando o aumento da ingestão alimentar, a diminuição do gasto energético e o aumento da lipogênese. • Via anorexígena (NAVES, 2014): ◦ Leptina: produzida nos adipócitos, parece informar o hipotálamo o ta- manho das suas reservas de gordura corporal, sendo responsável pela redução do consumo alimentar e pelo aumento do gasto energético. ◦ Insulina: esse hormônio parece ser responsável por informar a ade- quação das reservas energéticas ao hipotálamo, sendo importante para a regulação do peso corporal a longo prazo. ◦ PYY: responsável pela inibição do apetite e importante para o término da refeição. NOTA 2.4 COMPORTAMENTO ALIMENTAR Um outro ponto importante é o comportamento alimentar na obesidade. Como vimos anteriormente, o estresse e a obesidade estão interligados e a literatura coloca que o estresse agudo ativo às respostas adaptativas, mas o estresse prolongado leva a desgastes dos sistemas regulatórios provocando alterações biológicas que enfraquecem os processos adaptativos ao estresse aumentando a suscetibilidade a doenças. Ou seja, quanto mais prolongada e intensa a situação estressante, menor o senso de domínio e adaptabilidade do organismo, por isso a resposta ao estresse e o risco de desregulação homeostática persistem (YAU; POTENZA, 2013). 78 Uma das homeostases perdidas é a do comportamento alimentar, e isso tem sido estudado há muitos anos. Yau e Potenza (2013) sugerem diferenças individuais na resposta à ingestão de alimentos, sugerindo que há relação com o tipo específico de estressor, duração da provocação do estresse e variações nos níveis de saciedade e fome no início dos estudos. Outro ponto importante e complexo é entender quais alimentos são selecionados ou evitados sobre estresse. Tanto em humanos quanto em animais, observa-se uma mudança na escolha por alimentos mais prazerosos e saborosos, favorecendo os com alto teor de gordura e açúcares. Achados sugerem que o estresse pode promover padrões alimentares irregulares e fortalecer as redes de alimentação hedônica, e esses efeitos são exacerbados em indivíduos com sobrepeso e obesos (YAU; POTENZA, 2013). Além do estresse, existem também os fatores psicológicos que provocam sofrimento no paciente obeso devido ao preconceito social e a discriminação contra a obesidade, como as características do seu comportamento alimentar. Outros problemas existentes são a depreciação da imagem física, a preocupação opressiva com a obesidade, tornando o paciente obeso inseguro devido a sua instabilidade de manter a perda de peso, além disso, há a falta de confiança, sensação de isolamento em decorrência da inabilidade da família e dos amigos em entender o problema, humilhação devido ao intenso preconceito e discriminação ao qual esses indivíduos são submetidos, remete a uma grande carga psicológica (BERNARDI; CICHELERO; VITOLO, 2005). Evidências apontam que esses indivíduos buscam a comida para resolver ou compensar problemas dos quais, às vezes,não tem nem consciência. Esses pacientes podem apresentar dificuldades em obter prazer em relações sociais (pela rejeição ou discriminação que os levam ao isolamento), porém, esse sentimento contribui para que o obeso enxergue a comida como uma importante fonte de prazer e que, devido ao preconceito, restringe suas relações afetivas e sociais, tornando um ciclo vicioso, no qual há o ganho progressivo de peso e uma solidão cada vez maior (BERNARDI; CICHELERO; VITOLO, 2005). A abordagem terapêutica multiprofissional tem como objetivo interromper o ciclo vicioso e avaliar as intensas demandas psicológicas causadas pela história clínica pregressa do paciente, se houve restrições alimentares e pressão social para ser magro. A pressão social e as restrições podem levar a dietas extremamente restritivas, as quais desencadeiam reações psicológicas e fisiológicas que favorecem o aumento do peso e a obesidade (BERNARDI; CICHELERO; VITOLO, 2005). 79 3 DIETOTERAPIA NA OBESIDADE Agora que já entendemos que a obesidade é uma doença multifatorial e complexa, vamos compreender como a nutrição, através da dietoterapia, pode auxiliar esses indivíduos na busca pela perda de peso e melhor qualidade de vida. 3.1 RESTRIÇÃO CALÓRICA O gasto energético é variável e sofre influência das mudanças no peso corporal, e o equilíbrio entre a energia ingerida (calorias) e a demanda de energia corporal é fundamental para o controle do peso corporal (GREENWAY, 2015). O equilíbrio energético é integrante de modelos quantitativos de mudança de peso corporal fornecendo informações úteis sobre a perda e recuperação de peso. Mas para entendermos melhor, precisamos esclarecer alguns conceitos básicos (GREENWAY, 2015). O gasto energético total (GET) engloba o gasto energético em repouso (GER, a energia necessária para as funções celulares), o não GER (energia gasta durante a atividade física) e o efeito térmico do alimento (energia gasta para processar o alimento ingerido). A manutenção do peso corporal reduzido está associada a mudanças no gasto de energia, podendo favorecer o ganho ou a perda de peso. A perda de peso induzida pela dieta promove uma redução do GET, GER e não GER, e isso se dá, pois há uma redução na massa corporal e aumento da eficiência metabólica, ou seja, se menos massa total deve ser movida durante a atividade física, a mesma atividade terá um menor gasto energético reduzindo assim o não GER se os níveis de atividade física são mantidos os mesmos (GREENWAY, 2015) (Figura 4). 80 FIGURA 4 – GASTO ENERGÉTICO E ATIVIDADE FÍSICA FONTE: Adaptada de Hill, Wyatt e Peters (2012) Na prática clínica, é importante que a comunicação entre os profissionais da nutrição e da educação física esteja alinhada, pois, além da modificação dietética, vimos que é necessária modificação de carga de treino para que o indivíduo se mantenha em uma perda de peso constante. A restrição alimentar ou calórica é utilizada comumente para o tratamento da obesidade. Essa restrição gera a perda de peso, mas, como vimos, produz diminuições compensatórias em outros componentes que fazem parte do balanço energético, ou seja, reduz o gasto energético e das reservas de energia corporal e aumento da fome. Como a necessidade energética reduz com a perda de peso, uma estratégia é combinar um nível mais baixo de gasto de energia com uma menor ingestão energética, porém na prática não é o ideal. O aumento da atividade física serve para aumentar então o gasto energético total, permitindo uma ingestão energética razoável para o nível de peso corporal e exigindo uma menor restrição alimentar. Assim, os indivíduos que se envolvem em volumes maiores de atividades físicas, possuem uma restrição calórica adequada para o seu peso e têm sucesso na manutenção da perda de peso no longo prazo (HILL; WYATT; PETERS, 2012). 81 3.2 CETOGÊNICA Nesta etapa, precisaremos resgatar um pouco dos conceitos da bioquímica da nutrição, tudo bem? A insulina ativa vias que armazenam energia derivada dos carboidratos, porém, quando há ausência ou escassez de carboidratos da dieta o nível de insulina é reduzido e lava à redução da lipogênese e do acúmulo de gordura. O baixo consumo drástico de carboidratos (abaixo de 50 g/dia) promovem uma baixa nas reservas de glicose, tanto para a oxidação normal da gordura por meio do fornecimento de oxaloacetato no ciclo de Krebs como para o fornecimento de glicose para o sistema nervoso central (SNC). O SNC não utiliza gordura como energia, somente glicose, e após três a quatro dias sem carboidratos o SNC é forçado a encontrar fontes de energia alternativas derivadas da superprodução de acetil coenzima A (CoA), isso leva à produção dos corpos cetônicos (acetoacetato, ácido β-hidroxibutírico e acetona) na matriz mitocondrial e no fígado (PAOLI et al., 2013). Os corpos cetônicos são usados pelos tecidos como fonte de energia por meio de uma via que leva à formação a partir do β-hidroxibutirato de duas moléculas de acetil CoA, utilizadas finalmente no ciclo de Krebs (PAOLI et al., 2013). Há fortes evidências de que a dieta cetogênica é eficaz para a perda de peso, porém não há um consenso na literatura sobre os mecanismos pelos quais isso acontece. Paoli et al. (2013) sugerem que o efeito da dieta cetogênica na perda de peso pode ser causado por: • Redução do apetite devido ao maior efeito de saciedade das proteínas, efeitos sobre os hormônios de controle do apetite e a uma possível ação supressora de apetite direta dos corpos cetônicos. • Redução da lipogênese e aumento da lipólise. • Redução do quociente respiratório de repouso e, portanto, maior eficiência metabólica no consumo de gorduras. • Aumento dos custos metabólicos da gliconeogênese e do efeito térmico das proteínas. 82 3.3 LOW CARB As dietas com baixo teor de carboidratos (LCD, do inglês, Low Carb Diet) (Quadro 1) tem como hipótese a redução da insulina (que já vimos que produz um estado anabólico de armazenamento de gordura), melhora a função cardiometabólica e induz a perda de peso. Ainda se debate no meio científico sobre os mecanismos das LCD que induzem a perda de peso. A questão que devemos nos atentar é que, ao reduzir carboidratos da dieta, a ingestão de proteína e gorduras aumenta para compensar. A hipótese que se levanta então é que as proteínas e gorduras aumentam a saciedade e produzem menos hipoglicemia concomitante, e isso reduz a fome e a ingestão geral de alimentos e produz um déficit calórico. Apesar das controvérsias, as revisões sistemáticas trazem que as dietas com baixo teor de carboidratos são tão eficazes, para a perda de peso em comparação a outras dietas (OH; GILANI; UPPALURI, 2020). QUADRO 1 – TEOR DE CARBOIDRATOS Muito baixa em carboidratos ou Very low- carbohydrate. (< 10% carboidratos) ou 20-50 g/dia. Baixa em carboidratos. (< 26% carboidratos) ou menos que < 130 g/dia. Moderada em carboidratos. 26%-44%. Alta em carboidratos. 45% ou mais. FONTE: Adaptado de Oh, Gilani e Uppaluri (2020) Nordmann et al. (2006), em uma revisão sistemática, compararam ensaios clínicos randomizados com intervenções dietéticas por pelo menos seis meses. Entre as intervenções dietéticas continham: dietas de baixo teor de carboidratos e isocalóricas com dietas de baixo teor de gordura e restrição energética na perda de peso, pressão arterial e perfil lipídico. Os autores concluíram que as dietas com baixo teor de carboidratos e sem restrição calórica parecem ser tão eficazes quanto dietas com baixo teor de gordura e restrição calórica na indução da perda de peso por pelo menos até um ano. 3.4 VITAMINA D E OBESIDADE Indivíduos com obesidade apresentam níveis séricos de 25(OH)D (vitamina D) mais baixo do que pessoas com peso normal, e esses níveis de vitamina D estão inversamente relacionados com o peso corporal, índice de massa corporal (IMC) e massa gorda (WALSH; BOWLES; EVANS, 2017). 83 As causas da hipovitaminose D podem ser diversas na obesidade. Pode haverum menor consumo de alimentos fontes devido à alimentação inadequada, menor exposição à luz solar já que esses pacientes são mais sedentários e às vezes possuem dificuldades de se locomover, ou síntese cutânea prejudicada de vitamina D. Outro fato importante a se pensar é a distribuição de 25(OH)D em um volume maior de tecido corporal total, já que ela pode ser sequestrada pelo tecido adiposo, reduzindo assim sua biodisponibilidade (WALSH; BOWLES; EVANS, 2017). Estudos mostram que as pessoas obesas precisarão de doses (Quadro 2) mais altas do que os indivíduos com peso normal para atingir os mesmos níveis séricos de vitamina, sendo que a dose de manutenção deva ser semelhante, já que a depuração metabólica não é afetada pela obesidade (WALSH; BOWLES; EVANS, 2017). QUADRO 2 – DOSES DE VITAMINA D Dose usual 800 UI Dose mínima 200 UI Dose máxima (UL) 4.000 UI FONTE: Adaptado de Pujol (2020) Segundo a resolução CFN n° 656/2020, na prescrição dietética de suplementos alimentares, o nutricionista deve respeitar os limites do Nível de Ingestão Superior Tolerável (UL, do inglês, Tolerable Upper Intake Level) e, em casos não contemplados, considerar critérios de eficácia e segurança com alto grau de evidências científicas. 3.5 MICROBIOTA INTESTINAL O meio científico tem levantado a hipótese de que a microbiota intestinal pode constituir um fator ambiental relevante na patogênese da obesidade e isso tem levado a investigações das comunidades microbianas dos indivíduos obesos. Ley et al. (2005) analisaram a microbiota intestinal de camundongos deficientes em leptina nos principais níveis de filos. Os resultados indicam que os dois filos mais abundantes foram os Firmicutes (60-80%) e Bacteroidetes (20-40%) (ABENAVOLI et al., 2019). ATENÇÃO 84 Gomes, Hoffmann e Mota (2018) concluem em sua revisão que: • A obesidade é caracterizada pela presença de disbiose intestinal, devido ao distinto perfil do microbioma que existe entre obesos e não obesos. • A disbiose altera o funcionamento da barreira intestinal e do GALT (do inglês, gut- associated lymphoid tissues) permitindo a passagem de componentes estruturais de bactérias, como os LPS (do inglês, lipopolysaccharide) o qual ativa vias inflamatórias que podem contribuir para o aparecimento de resistência à insulina e presença de citocinas inflamatórias. • A disbiose pode alterar a produção de peptídeos gastrointestinais relacionados à saciedade, contribuindo para o aumento da ingestão alimentar e um ciclo autossustentável. • O metabolismo lipídico pode ser alterado pelas mudanças observadas no microbioma intestinal, resultando em estímulo para aumentar a adiposidade corporal. Pegando o gancho na questão metabólica, a literatura levanta que a microbiota intestinal pode influenciar na maior extração calórica alimentar e na adiposidade. Alguns grupos bacterianos possuem aparatos próprios capazes de otimizar o aproveitamento do que é consumido. Essa atividade metabólica da microbiota intestinal pode facilitar a extração calórica de substâncias ingeridas na dieta e ajudar no acúmulo de calorias no tecido adiposo (NAVES, 2014). Como vimos, há um desequilíbrio microbiano em pacientes obesos. Para restaurá-lo precisa haver uma remodelação dietética importante, com a inclusão de probióticos e prebióticos. O prebióticos permitem mudanças na composição e na atividade da microbiota gastrointestinal, aumentando, por exemplo, bifidobactérias benéficas. Os probióticos, por sua vez, demonstram umas mudanças metabólicas em tecidos, afetando o metabolismo energético, lipídico e de aminoácidos (NAVES, 2014). Assim, o uso de probióticos e prebióticos é uma estratégia interessante para os indivíduos obesos, porém, ainda se tem muito a avançar e mais pesquisas são necessárias para maiores comprovações dos efeitos de cepas bacterianas específicas na obesidade. DADOS DA PESQUISA DO IBGE MOSTRAM AUMENTO DE OBESIDADE NO BRASIL Sophie Deram Em 2019, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) coletou dados que demonstram o aumento da prevalência de obesidade em adultos brasileiros. Esses dados alertam para a necessidade de formulação de novas políticas públicas para o combate a obesidade e o excesso de peso no Brasil. 85 Trata-se de uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em conjunto com o ministério da saúde, que coletam informações de interesse para a área da saúde. Ela tem como objetivo avaliar as questões de saúde de forma mais ampla, e tem como base três eixos principais: o desempenho do sistema nacional de saúde, condições de saúde da população e doenças crônicas não transmissíveis e seus fatores de risco. Ela inclui dados antropométricos, como o índice de massa corporal (IMC), usado para definir o excesso de peso da população. Os resultados apresentados pela PNS são alarmantes, visto que 60,3% da população adulta do Brasil tem o IMC maior de 25 kg/m2, sendo classificada com excesso de peso. A maior prevalência está no sexo feminino, no qual 62,6% das mulheres estão com sobrepeso e 57,5% dos homens, sendo que essa prevalência aumenta com a idade. Os dados da PNS trazem reflexões importantes que apesar dos esforços e investimento para prevenir e tratar a obesidade os números só crescem, e isso tem acontecido no mundo todo. E quais seriam os motivos desse fracasso? Como vimos ao longo dessa unidade, a obesidade é uma doença complexa e não existe uma solução simples. O problema é que existem crenças de que para o tratamento e controle é “só fechar a boca e fazer exercícios físicos”, que claro são fatores importantes, mas não os únicos. Esse pensamento desconsidera os fatores genéticos, ambientais, psicológicos e fisiológicos envolvidos com a obesidade. Já sabemos que dietas restritivas podem atrapalhar mais do que ajudar, pois o corpo entende como uma privação e passa a trabalhar para garantir a sobrevivência e poupar mais, aumentando o apetite e reduzindo o metabolismo, favorecendo o reganho de peso levando o paciente ao famoso e temido efeito sanfona. Além do mais há o estigma de que o paciente obeso é preguiçoso, guloso e sem força de vontade. E esse preconceito vem da família, de profissionais da saúde e do próprio paciente, levando a dietas restritivas e a tomar remédios para emagrecer por conta própria, gerando consequências negativas e o risco do desenvolvimento de transtornos alimentares. Neste texto, a nutricionista Sophie Deram, propõem um novo olhar para a obesidade e sugere 7 dicas: 1- Foco na saúde: que a saúde é mais importante que o número na balança, sugere que o indivíduo esqueça as preocupações com o peso e o corpo e invista em um estilo de vida mais saudável. 2- Não fazer dietas restritivas: pode até funcionar para a perda de peso, mas não é sustentável a longo prazo e traz consequências negativas para a saúde. 86 3- Coma melhor e não menos: restringir não é a solução, Sophie sugere adotar uma alimentação mais caseira, variada e com alimentos de todos os grupos alimentares. 4- Ouça seus sinais de fome e saciedade: conecte-se com o seu corpo, em vez de sugerir recomendações de porções e quantidades de alimentos. Preste atenção aos sinais internos, coma respeitando a sua fome e saciedade. 5- Faça as pazes com a comida e o corpo: não classifique os alimentos como “bons” e “ruins”. Nenhum deles será responsável pelo seu ganho de peso por si só e não existe alimento milagroso. Deixe as crenças de lado e permita-se comer com prazer e sem culpa. 6- Cozinhe mais: o que se vê é que os indivíduos passaram a cozinhar menos e a consumir mais industrializados. Cozinhar nos aproxima do alimento e contribui para aumentar o consumo de alimentos in natura. 7- Todos precisam participar: todos devem estar envolvidos no tratamento da obesidade, pois é multifatorial e pode atingir a todos. FONTE: Adaptado de <https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/sophie-deram/2020/10/28/dados- da-pesquisa-do-ibge-mostram-aumento-de-obesidade-no-brasil.htm>. Acessoem: 26 fev. 2021. 87 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • A obesidade é um dos maiores problemas de saúde pública do país. • O excesso de peso e a obesidade são fatores de risco para inúmeras doenças crônicas. • A obesidade sofre influência da globalização e do marketing exacerbado em cima de alimentos processados, além disso, tem o consumismo, a necessidade de prazeres rápidos e respostas imediatas, tornando a obesidade uma questão social. • De uma forma geral a obesidade é um desequilíbrio entre a quantidade de calorias consumida com a quantidade de calorias gastas. • O aumento da prevalência da obesidade durante os últimos 50 anos se dá pela inte- ração complexa de mudanças ambientais (ambiente obesogênico) e a predisposição genética do indivíduo. • A maioria dos indivíduos com obesidade, apresentam a obesidade multifatorial atri- buída pela interação entre múltiplos genes (poligênica). • O estresse e a obesidade estão ligados por mudanças que têm como objetivo acomodar os efeitos do estresse, em vez de alterar o evento estressante real. • A atividade física e o estilo de vida sedentário podem modificar o risco genético de obesidade, um exemplo é a relação entre o genótipo FTO e obesidade, a qual é atenuada entre pessoas com altos níveis de atividade física. • Os sinais envolvidos na regulação homeostática da ingestão de alimentos, balanço energético e corporal são centralizados no núcleo arqueado do hipotálamo, tronco cerebral caudal e partes do córtex e sistema límbico. • O hipotálamo processa sinais periféricos que transmitem informações sobre a ingestão de alimentos de curto prazo (disponibilidade de nutrientes) ou balanço de energia de longo prazo (estoque de energia) para atingir a homeostase energética. • Evidências apontam que esses indivíduos buscam a comida para resolver ou com- pensar problemas dos quais, às vezes, não tem nem consciência. 88 • O gasto energético é variável e sofre influência das mudanças no peso corporal, e o equilíbrio entre a energia ingerida (calorias) e a demanda de energia corporal é fundamental para o controle do peso corporal. • Há fortes evidências de que a dieta cetogênica é eficaz para a perda de peso, porém não há um consenso na literatura sobre os mecanismos pelos quais isso acontece. • Ainda se debate no meio científico sobre os mecanismos das LCD que induzem a perda de peso. A questão que devemos nos atentar é que ao reduzir carboidratos da dieta, a ingestão de proteína e gorduras aumenta para compensar. • Indivíduos com obesidade apresentam níveis séricos de 25(OH)D (vitamina D) mais bai- xo do que pessoas com peso normal, e esses níveis de vitamina D estão inversamente relacionados com o peso corporal, índice de massa corporal (IMC) e massa gorda. • A microbiota intestinal pode constituir um fator ambiental relevante na patogênese da obesidade e isso tem levado a investigações das comunidades microbianas dos indivíduos obesos. • O uso de probióticos e prebióticos é uma estratégia interessante para os indivíduos obesos. 89 AUTOATIVIDADE 1 A obesidade é caracterizada por um excesso de tecido adiposo. A medida clinica mais utilizada para caracterizá-la é o índice de massa corporal (IMC, peso em kg dividido pelo quadrado da altura em metros), com escalas por idade e pode sofrer influência genética. Qual gene é fortemente ligado a indicadores antropométricos como o IMC? a) ( ) FTO. b) ( ) MC4R. c) ( ) RPTOR. d) ( ) SNPs. 2 O ambiente em que vivemos pode ter influência na obesidade. Estudos epidemio- lógicos identificaram vários fatores de risco modificáveis para obesidade e doença cardiovascular (DCV), quais são eles? I- Consumo de bebidas açucaradas. II- Consumo de frituras. III- Sedentarismo. IV- Frutas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas o item I está correta. b) ( ) Os itens III e IV estão corretas. c) ( ) Os itens I, II e III estão corretos. d) ( ) Todos os itens estão incorretos. 3 A ingestão de energia (alimentação) é metabolizada e usada para alimentar o metabolismo basal, a termogênese e o gasto de energia (atividade física), quando ocorrem excessos acontece o armazenamento como forma de ______________ nas ______________ para uso posterior. Assinale a alternativa que completa as lacunas. a) ( ) Gordura; células musculares. b) ( ) Gordura; células adiposas. c) ( ) Glicose; células musculares. d) ( ) Glicose; células adiposas. 4 Há fortes evidências de que a dieta cetogênica é eficaz para a perda de peso, porém não há um consenso na literatura sobre os mecanismos pelos quais isso acontece. Alguns autores sugerem que o efeito da dieta cetogência na perda de peso pode ser causado por: 90 5 As causas da hipovitaminose podem ser diversas na obesidade, como um menor consumo de alimentos fontes devido à alimentação inadequada e também à distribuição dessa vitamina em um volume maior de tecido corporal total, já que pode ficar sequestrada no tecido adiposo. Que vitamina é essa? a) ( ) Vitamina A. b) ( ) Vitamina D. c) ( ) Vitamina B12. d) ( ) Vitamina C. 6 A microbiota intestinal pode constituir um fator ambiental relevante na patogênese da obesidade e isso tem levado a investigações das comunidades microbianas dos indivíduos obesos. Quais os filos bacterianos mais abundantes na microbiota do indivíduo obeso? 91 DOENÇAS CARDIOVASCULARES 1 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 2 - A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é umas das causas mais comuns de doen- ças cardiovasculares, afetando 20% da população adulta nas sociedades industrializadas. É um fator de risco para o desenvolvimento de doença coronária, acelera o pro- cesso de aterosclerose e pode ser determinante para o surgimento de morbidade e mor- talidade cardiovascular associada à doença coronária, insuficiência cardíaca congestiva, acidente vascular encefálico (AVE) e doença renal terminal (SANJULIANI, 2002). Caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos ≥ 140 e/ou 90 mmHg. No Brasil, a HAS atinge 32,5% dos indivíduos adultos, mais de 60% são idosos e contribui para 50% das mortes por doença cardiovascular (DCV), tendo impacto na produtividade do trabalho e na renda familiar, com gastos estimados em US$ 4,18 bilhões entre 2006 e 2015 (MALACHIAS et al., 2016). 2 HIPERTENSÃO Como vimos, a HAS é caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos ≥ 140 e/ou 90 mmHg (Quadro 3). Frequentemente assintomática, costuma evoluir com alterações estruturais e/ ou funcionais em órgãos-alvo, como coração, rins e vasos. É um dos principais fatores de risco modificável com associação independente para DCV, doença renal crônica (DRC) e morte prematura. Está associada a fatores de risco metabólicos para doenças do sistema cardiocirculatório e renal, como dislipidemia, obesidade, intolerância à glicose e diabetes mellitus. Os fatores de risco envolvidos com o desenvolvimento da HAS são (BARROSO et al., 2020): • Genética: podem influenciar os níveis de pressão arterial (PA) entre 30-50%, porém, ainda não foram identificados dados uniformes das variantes genéticas envolvidas. 92 • Idade: o envelhecimento leva a um enrijecimento progressivo e da perda de complacência das grandes artérias, e aí a PA torna-se um problema mais significante. • Sexo: nas faixas etárias mais jovem a PA é mais elevada entre os homens, mas na sexta década de vida, a PA entre as mulheres costuma ser mais elevada e a prevalência de HAS maior. • Etnia: é um fator de risco importante para HAS, mas as condições socioeconômicas e hábitos de vida são mais relevantes na prevalência de HAS, do que a etnia. • Sobrepeso/obesidade: existe uma relação direta, contínua e linear entre o excesso de peso (sobrepeso/obesidade) e os níveis de PA. • Ingestão de sódio e potássio: a literatura científica mostra que a ingestão de sódio está associada a DCV e AVE, quando a ingestão média é superior a 2 g de sódio, o equivalente a 5 g de sal de cozinha. De maneira inversa,o aumento na ingestão de potássio reduz os níveis pressóricos. Deve ser salientado que o efeito da suplemen- tação de potássio parece ser maior naqueles com ingestão elevada de sódio. • Sedentarismo: há uma associação direta do sedentarismo, a elevação da PA e da HAS. • Álcool: há uma prevalência maior nos indivíduos que ingeriram seis ou mais doses ao dia, o que equivale a 30 g de álcool/dia – uma garrafa de cerveja (600 ml) ou duas taças de vinho (250 ml) ou uma dose de destilado (60 ml). • Outros fatores: drogas ilícitas e automedicação têm potencial em elevar a PA ou dificultar o seu controle. QUADRO 3 – CLASSIFICAÇÃO DA PA CONFORME MEDIÇÃO NO CONSULTÓRIO Classificação* PAS (mHg) PAD (mmHg) PA ótima < 120 e < 80 PA normal 120 – 129 e/ou 80 – 84 Pré-hipertensão 130 – 139 e/ou 85 – 89 HA estágio 1 140 – 159 e/ou 90 – 99 HA estágio 2 160 – 179 e/ou 100 – 109 HA estágio 3 ≥180 e/ou ≥ 110 Legenda: HA: hipertensão arterial; PA: pressão arterial; PAS: pressão arterial sistólica; PAD: pressão arterial diastólica. *A classificação é definida de acordo com a PA no consultório e pelo nível mais elevado de PA, sistólica ou diastólica. **A HA sistólica isolada, caracterizada pela PAS ≥ 140 mmHg e PAD < 90 mmHg, é classificada em 1, 2 ou 3, de acordo com os valores da PAS nos intervalos indicados. ***A HA diastólica isolada, caracterizada pela PAS < 140 mmHg e PAD ≥ 90 mmHg, é classificada em 1, 2 ou 3, de acordo com os valores da PAD nos intervalos indicados. FONTE: Barroso et al. (2020, p. 30) 93 2.1 FISIOPATOLOGIA NA HIPERTENSÃO A PA é determinada pelo produto do débito cardíaco (DC) e da resistência vascular periférica (RVP), em pacientes normais e naqueles que apresentam HAS existe um aspecto de variação do DC com respostas concomitantes da RVP para um determinado nível de PA (SANJULIANI, 2002). O DC sofre influência da contratilidade e relaxamento do miocárdio, do volume sanguíneo circulante, do retorno venoso e da frequência cardíaca. Já a RVP sofre influ- ência de alguns mecanismos vasoconstritores e vasodilatadores como o sistema nervoso simpático, sistema renina-angiotensina e modulação endotelial. Além disso, a RVP de- pende da espessura da parede das artérias, existindo um aumento ao estímulo vasocons- tritor nos vasos nos quais há um espessamento das paredes (SANJULIANI, 2002). O sistema renina-angiotensina é muito importante para o controle fisiológico da PA e do equilíbrio hidroeletrolítico. Quando sua atividade está aumentada e é persistente se relaciona com a HAS. Muitos estudos mostram que o uso de medicamentos inibidores da enzima con- versora de angiotensina (IECA) e/ou com bloqueadores dos receptores angiotensinérgi- cos do tipo 1 (BRA) são eficazes no tratamento da HAS e de disfunções cardiovasculares e renais (LACERDA et al., 2020). Assim, a angiotensina II exerce efeitos pró-hipertensivos ligando-se ao seu receptor do tipo 1 (AT1): vasoconstrição sistêmica e renal, aumento do débito cardíaco, retenção renal de sódio e água, estímulo à secreção de aldosterona pelas adrenais, hipertensão glomerular, proteinúria, hipertrofia cardíaca, hipertrofia e hiperplasia da musculatura lisa vascular, disfunção endotelial e resistência à insulina. Outro ponto importante é que a angiotensina II estimula respostas inflamatórias e a fibrose tecidual, contribuindo para as lesões de órgãos na HAS (LACERDA et al., 2020). Como vimos, existe uma influência genética na HAS. Existem polimorfismos funcionais em genes do sistema renina-angiotensina relacionados a HAS. Pacientes com alelo D do gene da ECA apresentam maior formação de angiotensina II no coração, nos vasos sanguíneos e no tecido renal (LACERDA et al., 2020). Outro ponto importante que devemos considerar são os fatores dietéticos e ambientais. O sódio e potássio interferem com os níveis pressóricos, indivíduos que ingerem menos sódio e mais potássio apresentam PA mais baixa, porém, a influência dietética sobre a PA depende da sensibilidade individual ao sódio. Indivíduos obesos que possuem hipertensão, por exemplo, demonstram maior sensibilidade ao sódio enquanto os hipertensos que apresentam perda de massa renal desenvolvem sensibilidade ao sódio como resposta para manter a excreção de sódio induzida pela pressão. Assim, redução do sal na dieta pode provocar redução da PA sistólica reduzindo assim o risco de lesão em órgãos alvo (LACERDA et al., 2020). 94 Falando de obesidade, já se sabe que essa doença é um fator de risco para a HAS, pois promove um aumento da insulina e leptina circulantes. A hiperinsulinemia pode causar HAS por alterações nas estruturas e na função da musculatura lisa vascular e disfunção endotelial (LACERDA et al., 2020). Embora a hiperinsulinemia possa aumentar agudamente a reabsorção tubular renal de sódio e a atividade do sistema nervoso simpático (SNS), esses efeitos não se traduzem realmente em aumento da PA em humanos, portanto, não aumentam o risco de hipertensão na ausência de obesidade coexistente e/ou síndrome metabólica. Os efeitos metabólicos da RI (hiperglicemia e dislipidemias) podem interagir sinergicamente com a hipertensão pré-existente agravando a lesão vascular e renal, exacerbando a hipertensão (VALENZUELA et al., 2020). Leia mais sobre a HAS acessando o link: https://www.medicina.ufmg.br/ wp-content/uploads/sites/7/2020/09/Ebook-Hipertensão-Arterial-Sistêmica- Medpencil-Medicina-em-Desenho.pdf Entenda circulação e pressão arterial assistindo aos vídeos: • Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=X9ZZ6tcxArI • Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=ZVklPwGALpI Para o diagnóstico de um paciente com HAS é necessária uma avaliação que inclui a confirmação do diagnóstico, a suspeita e a identificação de causa secundária, além da avaliação do risco cardiovascular (CV). As lesões de órgão-alvo (LOA) e as doenças associadas também devem ser investigadas. Fazem parte dessa avaliação: a medida da pressão arterial (PA) no consultório e/ou fora dele, utilizando-se técnica adequada e equipamentos validados e calibrados, a obtenção de história médica (pessoal e familiar), a realização de exame físico e a investigação clínica e laboratorial. Propõem-se avaliações gerais a todos os hipertensos e avaliações complementares apenas para grupos específicos (BARROSO et al., 2020). O tratamento medicamentoso tem como objetivo primordial a proteção CV que consiste em administração de medicamentos anti-hipertensivos. A redução da PA é a primeira meta, a fim de reduzir os desfechos CV e mortalidades associadas à HAS. O uso dos medicamentos pode ser iniciado como monoterapia ou com combinação de fárma- cos (BARROSO et al., 2020), e é realizada pelo médico. Diversas opções medicamento- sas envolvem o tratamento da HAS, e, por esse motivo, encontram-se dificuldades na uniformização das condutas resultando em um insucesso ao tratamento. DICAS 95 Estudos e diretrizes de HAS sugerem classes medicamentosas preferenciais para o tratamento, que incluem o chamado “trio de ouro”: um inibidor do sistema renina-angiotensina (iSRA) (inibidor da enzima conversora de angiotensina ou um bloqueador do receptor de angiotensina II), um bloqueador do canal de cálcio (BCC) ou um diurético tiazídico/tipo tiazídico (TIAZ). Veja o Quadro 4 de medicamentos anti- hipertensivos disponíveis. QUADRO 4 – MEDICAMENTOS ANTI-HIPERTENSIVOS DISPONÍVEIS Bloqueadores adrenérgicos Alfabloqueadores Betabloqueadores Alfa-beta bloqueadores Inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) Bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRAs) Bloqueadores dos canais de cálcio Di-idropiridinas Não di-idropiridinas Alfa-agonistas de ação central Vasodilatadores diretos Diuréticos Diuréticos de alça Diuréticos poupadores de potássio Diuréticos tiazídicos ou do tipo tiazida. FONTE: Adaptado de Bakris (2019) Caso a meta pressórica não seja atingida com o mínimo de medicamentos possível, o uso de três fármacos (“trio de ouro”) deve compreender preferencialmenteos seus componentes. Se, ainda assim, a PA não for controlada com o uso dessas três classes, utilizando hidroclorotiazida, o controle pode ser melhorado substituindo por outro TIAZ de longa duração e mais potente (clortalidona ou indapamida). Assim, Feitosa et al. (2020) propuseram o octeto medicamentoso para tratamento da hipertensão arterial, como mostra a Figura 5. 96 FIGURA 5 – O OCTETO MEDICAMENTOSO PARA O TRATAMENTO DA HAS Legenda: TIAZ: diurético tiazídico/tipo tiazídico; iSRA: inibidor do sistema renina-angiotensina; BCC: bloqueador do canal de cálcio; βB: betabloqueador; α2A: agonista alfa-2 central; α1B: bloqueador alfa-1 adrenérgico; VD: vasodilatador arterial direto. *Caso não haja controle da pressão arterial com TIAZ, iSRA e BCC, e o TIAZ for hidroclorotiazida, substituir o TIAZ por clortalidona ou indapamida. Se a taxa de filtração glomerular for <30 mL/min, substituir TIAZ por diurético de alça, como furosemida. †Se não houver tolerância à espironolactona, especialmente por efeitos antiandrogênicos, considerar substituir esta medicação por amilorida. ‡βB está indicado como escolha inicial caso existam indicações específicas, tais como angina, pós-infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, arritmia ou controle da frequência cardíaca. FONTE: Feitosa et al. (2020, p. 271). 2.2 DIETOTERAPIA NA HIPERTENSÃO Para o tratamento da HAS já se está bem estabelecido o papel dos hábitos de vida, mas também não podemos desconsiderar as interações com os tratamentos médicos anti-hipertensivos. Em alguns casos, a mudança do estilo de vida é considerada o tratamento de primeira linha contra a HAS. Segundo as diretrizes da ESC e ESH (do inglês, European Society of Cardiology e European Society of Hypertension, respectivamente) um estilo de vida saudável é o único tratamento necessário para pessoas com hipertensão leve durante os três a seis meses após o diagnóstico, caso a HAS não seja controlada, se adiciona o tratamento farmacológico somente após esse período (VALENZUELA et al., 2020). Os benefícios de um estilo de vida saudável não podem ser negligenciados ao se considerar o tratamento farmacológico, ambos têm que caminhar juntos, porém a intervenção no estilo de vida é a pedra angular para o controle da HAS independente do tratamento médico recebido (VALENZUELA et al., 2020). Veja como um estilo de vida inadequado pode levar ao aumento da PA (Figura 6). 97 FIGURA 6 – ESTILO DE VIDA E HAS FONTE: Adaptada de Valenzuela et al. (2020) Exercício físico Adiposidade visceral ↑ liberação de adipocitocina (como leptina, resistina e TNF) ↑ infiltração de macrófagos ↑ atividade do nervo simpático renal Controle do peso corporal Resistência à insulina ↑ da glicemia ↑ da insulinemia Sistema RAA ↑ atividade do eixo vasoconstritor ↑ reabsorção de sódio ↓ natriurese ↑ pressão sanguínea Padrão dietético Sincronia circadiana Manejo do estresse Estrutura vascular Refração e rarefação ↑ rigidez arterial ↑ resistência vascular ↓ volume do vaso Função vascular e status oxidativo ↑ produção de EROS ↓ disponibilidade do óxido nitrico Inflamação ↑ células pró-inflamatórias ↑ moléculas pró-inflamatórias (como PCR e TNF) Função autonómica ↑ tônus SNS ↓ função dos baroreceptores Falando de dieta, será mesmo que é só reduzir o sódio e a HAS irá se estabilizar? Continue a leitura e vamos descobrir juntos. Muito se fala da carga dietética ácida, e isso se dá, pois o excesso de ácidos deve ser excretado pelos rins para manter o equilíbrio ácido-base. Uma alta carga ácida pode aumentar o risco de hipertensão, visto que há uma sobrecarga renal, devido a uma alta carga ácida proveniente da dieta a qual solicita mecanismos adaptativos para aumentar a excreção de ácidos, e no caso de uma doença renal crônica pode levar a uma lesão renal, aumentando o risco para a HAS. Nesse caso, uma dieta caracterizada pela redução na ingestão de sal, aumento no consumo de frutas, tubérculos, raízes e vegetais levará a um aumento no magnésio e diminuição na relação sódio-potássio (VALENZUELA et al., 2020). 98 Além disso, devemos nos atentar ao padrão dietético ocidental. Evidências científicas apontam que as populações não ocidentalizadas têm baixas taxas de hipertensão e prevalência muito baixa de aumentos relacionados à idade na PA e DCV em geral, apesar de não receberem tratamento farmacológico, o que fornece dados importantes do papel dos fatores de estilo de vida na prevenção da HAS. Essas baixas taxas de HAS estão associadas a estilos de vidas mais tradicio- nais, como padrão alimentar não ocidentalizado, atividade física regular, ciclo natural de sono/vigília (ciclo circadiano regulado) e exposição ao sol (Figura 7) (VALENZUELA et al., 2020). 99 FI G U RA 7 – P AD RÕ ES D IE TÉ TI CO S E EF EI TO S N A SA Ú D E FO N TE : A da pt ad a de V al en zu el a et a l. (2 02 0) P o p u la ç ã o n ã o o c id e n ta l P o p u la ç ã o o c id e n ta l E st ilo d e v id a s e d e n tá ri o • B ai xo g as to e n er gé tic o A ti v id a d e f ís ic a r e g u la r • A lto g as to e n er gé tic o P a d rõ e s a li m e n ta re s n ã o o c id e n ta li za d o s • A lto c on su m o de f ru ta s, t u bé rc u lo s, ra íz es e v eg et ai s • B ai xo c on su m o de a lim en to s pr oc es sa do s P a d rõ e s a li m e n ta re s o c id e n ta li za d o s • D ie ta h ip er ca ló ric a • A lto c on su m o de c ar n e pr oc es sa da , ál co ol , a çú ca r, gr ão s re fin ad os e al im en to s u ltr a pr oc es sa do s • R az ão p ro po rç ão d e só di o pa ra po tá ss io E fe it o s e m p a râ m e tr o s d e sa ú d e • Ta xa d e h ip er te n sã o • N ív el d e ad ip os id ad e • N ív el s an gu ín eo d e gl ic os e e in su lin a • Li pí di os s an gu in eo s • In fla m aç ão • A tiv id ad e do S N S S in c ro n ia c ir c a d ia n a • C ic lo d or m ir- ac or da r r eg u la r • C om er d u ra nt e o di a • E xp os iç ão a o so l • A tiv id ad e fí si ca d iu rn a R u p tu ra c ir c a d ia n a • C ic lo d or m ir- ac or da r i rr eg u la r • P ad rã o al im en ta r i rr eg u la r • In at iv id ad e fí si ca • A lto u so d e te la s a n oi te C o m p o rt a m e n to p si c o ss o c ia l • E st re ss e ps ic os so ci al c rô n ic o 100 Pegando os Estados Unidos como exemplo, uma dieta norte-americana típica é rica em gorduras saturadas, ácidos graxos ômega 6, carboidratos de alta carga glicêmica e aditivos químicos artificiais e isso é um retrocesso no combate as DCV, principalmente a HAS (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020). DIFERENÇA ENTRE ÍNDICE GLICÊMICO (IG) E CARGA GLICÊMICA (CG) Índice glicêmico (IG) Carga glicêmica (CG) O IG expressa o aumento da glicose no sangue após o consumo de um alimento fonte de carboidratos, comparando com o consumo de um alimento controle, em ge- ral a glicose ou pão branco, e foi proposto com a finalidade de classificar os alimentos a partir das respostas glicêmicas (RG), ou seja, a capacidade que o alimento tem de aumentar a glicemia. A CG indica a qualidade e quantidade de carboidratos dentro de uma porção con- sumida de nutrientes pela dieta. Fornece resultado do efeito glicêmico da dieta como um todo, pois avalia a porção de carboidra- to disponível dos alimentos e o IG, forne- cendo uma noção mais real do efeito glicê- mico de diferentes porções alimentares. FONTE: Adaptado de Pujol (2017) Em 1990, teve origem a dieta DASH, a qual muitos já devem ter ouvido falar. DASH é a sigla em inglês de Dietary Approach to Stop Hypertension, os estudos iniciaram em 1992 pelo National Institute of Health(NIH), que começou a financiar os projetos de pes- quisa para verificar se intervenções dietéticas específicas eram úteis para o tratamento da hipertensão. As pesquisas demonstraram que as modificações no estilo de vida foram capazes, por si só, de diminuir a pressão arterial sistólica em cerca de 6 a 11 mmHg (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020). Mas o que compõem a dieta DASH? Um plano alimentar DASH prioriza o consumo de alimentos minimamente processados e frescos. Têm muita semelhança com padrões dietéticos recomendados para a saúde cardiovascular. Seguem as recomendações da dieta DASH (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020): • Legumes: cerca de cinco porções por dia. • Frutas: cerca de cinco porções por dia. • Carboidratos: cerca de sete porções por dia. • Laticínios com baixo teor de gordura: cerca de duas porções por dia. • Produtos de carne magra: cerca de duas ou menos porções por dia. • Nozes e sementes: 2 a 3 vezes por semana. NOTA 101 Os carboidratos devem ser inclusos na dieta, para fornecer energia. Dietas com muito baixo teor de carboidratos podem levar à diminuição da ingestão calórica, mas podem culminar no erro de aumento de gorduras prejudiciais como a saturada e trans. Os carboidratos inclusos na dieta DASH são: vegetais verde-escuros, grãos in- tegrais (ex.: milho, aveia, tubérculos e raízes), frutas, leguminosas (feijão, lentilha, grão- -de-bico) (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020). As gorduras têm sofrido forte investigação há algum tempo no desenvolvimento de doenças crônicas. As gorduras são classificadas como “boas” e “ruins”. As “boas”, ou mono e poli-insaturadas, fornecem ácidos graxos essenciais que promovem saúde, e estão inclusas na dieta DASH como: azeite, abacate, nozes, sementes de linhaça, peixes ricos em ômega 3. Já as gorduras “ruins”, ou saturadas e trans, não devem fazer parte de um plano alimentar DASH, são elas: margarina, óleos vegetais hidrogenados, frituras (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020). Na dieta DASH, as proteínas vegetais são mais recomendadas (leguminosas, soja, nozes e sementes). A proteína animal, quando presente, é composta principalmente de carnes magras, laticínios com baixo teor de gordura, ovos e peixes. Deve-se ter atenção às carnes processadas e curadas, as quais não são recomendadas por mostrarem causar HAS e por possuírem em sua composição substâncias cancerígenas (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020). Outro ponto importante da dieta DASH é a inclusão de alimentos ricos em potássio, cálcio e magnésio, os quais são excelentes preventivos da disfunção endotelial e promovem o relaxamento do músculo liso endotelial. Entre eles destacam-se: bananas, laranjas e espinafre (ricos em potássio), laticínios e vegetais verde-escuros (ricos em cálcio), grãos inteiros, vegetais folhosos, nozes e sementes (ricos em magnésio) (CHALLA; AMEER; UPPALURI, 2020). Como vimos, a orientação nutricional é muito efetiva na diminuição da PA, principalmente quando é realizada por uma equipe multidisciplinar em que o profissional nutricionista está presente. Na atenção primária, a consulta com nutricionista mostrou ser mais efetiva na melhora da qualidade da dieta (BARROSO et al., 2020). A consulta com o nutricionista deve conter os seguintes aspectos: anamnese alimentar com avaliação da rotina de consumo, número de refeições, horários, alimentos ingeridos e quantidades, além da frequência de consumo de alimentos cardioprotetores. 102 Avaliação antropométrica: medida de peso e altura, medida da circunferência abdominal e cálculo do índice de massa corporal. Prescrição e orientação da dieta com base no diagnóstico médico e exames laboratoriais. Acompanhamento das mudanças dietéticas e evolução antropométrica. Participação em ações com a população (BARROSO et al., 2020). Além disso, o nutricionista pode promover ações coletivas, como: a orientação nutricional deve ser centrada nas mudanças de impacto na diminuição da PA: perda de peso, aumento do consumo de frutas e vegetais e diminuição do consumo de sódio. Atualmente, a utilização de recursos tecnológicos gratuitos na área de nutrição representa um importante recurso de informação em larga escala, e seu uso deve ser incentivado (BARROSO et al., 2020). Exemplo de cardápio DASH simplificado: COMPOSIÇÃO DE MACRONUTRIENTES Caloria 1977 Carboidrato 203,02g (40,8%) Proteína 165,38g (33,2%) Lipídio 57,47g (26%) Para ajudar no controle do estresse: Comece o seu dia agradecendo ou fazendo uma meditação Café da manhã 1 iogurte desnatado 2 colheres de sopa de aveia em flocos 1 unidade de banana Importante: Lembre-se de tomar água. Lanche da manhã 1 unidade de maçã 3 unidades de Castanha do Pará sem sal Almoço 1 filé médio de frango grelhado 4 colheres de sopa de arroz integral cozido 3 colheres de sopa de legumes variados cozidos IMPORTANTE 103 Lanche da tarde 1 copo de vitamina de abacate (1 copo de leite desnatado + ¼ de abacate maduro + 1 fio de mel) Importante: Lembre-se de tomar água Jantar 1 filé de peixe assado ou grelhado 2 colheres de sopa cheias de batata doce cozida sem sal picada 3 colheres de sopa de grão-de-bico cozido 3 colheres de sopa de legumes variados cozidos Ceia 1 kiwi 3 colheres de chá de semente de linhaça FONTE: O autor HIPERTENSÃO AFETA UM EM CADA QUATRO BRASILEIROS ADULTOS Paula Laboissière No ano de 2017 foram contabilizadas oitenta e quatro mortes por hora, 829 mortes por dia e mais de 302 mil em todo o ano. Esses números são referentes mortes em decorrência de doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral no Brasil, que tem como o principal fator de risco a hipertensão arterial. O Ministério da saúde afirma que a pressão alta afeta um em cada quatro brasileiros adultos. O dia 26 de abril foi instituído como o Dia Nacional de Combate a Hipertensão, quando os órgãos de saúde, como o ministério, alertam para o consumo excessivo de sódio (presente no sal) aumenta o risco para a hipertensão e doenças cardiovasculares. O alerta vem por causa do dado de que dois terços do consumo de sal pela população brasileira vêm do sal adicionado direto no prato, e que o brasileiro consome mais que o dobro (quase 12g) da quantidade recomendada pela Organização mundial da saúde (OMS). No combate a hipertensão o ministério da saúde recomenda a adoção de um estilo de vida saudável desde a infância até a terceira idade, realização de exames periódicos pelo menos uma vez ao ano e a prática de exercício físico. 104 No sistema único de saúde (SUS) há o fornecimento, de forma gratuita, de medicamentos para hipertensão nas unidades básicas de saúde, e em 31 mil unidades farmacêuticas credenciadas ao programa Farmácia Popular. Para retirar o remédio é preciso apresentar documento de identidade, CPF e receita médica dentro do prazo de validade (120 dias). FONTE: Adaptado de <https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2019-04/hipertensao- afeta-um-em-cada-quatro-brasileiros-adultos>. Acesso em: 26 fev. 2020. 105 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é umas das causas mais comuns de doenças cardiovasculares, afetando 20% da população adulta nas sociedades industrializadas. • É caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos ≥ 140 e/ou 90 mmHg. • Os fatores de risco envolvidos com o desenvolvimento da HAS são: genética, idade, sexo, etnia, sobrepeso/obesidade, ingestão de sódio e potássio, sedentarismo, álcool e outros fatores. • A PA é determinada pelo produto do débito cardíaco (DC) e da resistência vascular periférica (RVP), em pacientes normais e nos que apresentam HAS existe um aspecto de variação do DC com respostas concomitantes da RVP para um determinado nível de PA. • O sistema renina-angiotensina é muito importante para o controle fisiológico da PA e do equilíbrio hidroeletrolítico. • Existem polimorfismos funcionais, em genes do sistema renina-angiotensina relacio- nados a HAS. • A obesidade é um fator de risco para a HAS,pois promove um aumento da insulina e leptina circulantes. • Para o diagnóstico de um paciente com HAS é necessária uma avaliação que inclui a confirmação do diagnóstico, a suspeita e a identificação de causa secundária, além da avaliação do risco cardiovascular (CV). • O tratamento medicamentoso tem como objetivo primordial a proteção CV que consiste em administração de medicamentos anti-hipertensivos. • Para o tratamento da HAS já se está bem estabelecido o papel dos hábitos de vida, mas também não podemos desconsiderar as interações com os tratamentos médicos anti-hipertensivos. • Evidências científicas apontam que as populações não ocidentalizadas têm baixas ta- xas de hipertensão e prevalência muito baixa de aumentos relacionados à idade na PA e DCV em geral, apesar de não receberem tratamento farmacológico, o que fornece dados importantes do papel dos fatores de estilo de vida na prevenção da HAS. 106 • Os estudos com a dieta DASH iniciaram em 1992 pelo National Institute of Health (NIH), que começou a financiar os projetos de pesquisa para verificar se intervenções dietéticas específicas eram úteis para o tratamento da hipertensão. • Um plano alimentar DASH prioriza o consumo de alimentos minimamente proces- sados e frescos. • A orientação nutricional é muito efetiva na diminuição da PA, principalmente quan- do é realizada por uma equipe multidisciplinar em que o profissional nutricionista está presente. 107 AUTOATIVIDADE 1 A avaliação inicial de um paciente com HAS inclui a confirmação do diagnóstico, a suspeição e a identificação da causa secundária e a avaliação do risco cardiovascular. Sendo assim, o diagnóstico da HAS é caracterizado por elevação sustentada de níveis pressóricos de: a) ( ) 120 – 129 e/ou 80 – 84 mmHg. b) ( ) 130 – 139 e/ou 85 – 89 mmHg. c) ( ) ≥ 140 e/ou 90 mmHg. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 2 A PA é determinada pelo produto do ____________________ e da ____________________. Assinale a alternativa que completa as lacunas. a) ( ) Débito periférico; resistência vascular cardíaca. b) ( ) Débito cardíaco; resistência vascular periférica. c) ( ) Débito cardíaco; resistência vascular cardíaca. d) ( ) Débito periférico; resistência vascular periférica. 3 A pressão arterial sofre alterações por meio do exercício físico e da dieta, sendo que intervenções contribuem para o seu controle. Evidências sugerem que o ganho de peso, consumo de álcool, alta ingestão ou deficiência de minerais específicos relacionados à dieta contribuem para a hipertensão. Quais minerais estão envolvidos com os níveis pressóricos? a) ( ) Zinco e potássio. b) ( ) Sódio e ferro. c) ( ) Sódio e potássio. d) ( ) Cobre e Cálcio. 4 A redução da PA é a primeira meta a fim de reduzir a mortalidade associada à HAS. O uso dos medicamentos pode ser iniciado como monoterapia ou com combinação de fármacos, e é realizada pelo médico. Qual o objetivo do tratamento medicamentoso da HAS? a) ( ) Proteção CV. b) ( ) Proteção hepática. c) ( ) Proteção cerebral. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 108 5 Em 1990, teve origem a dieta DASH. Um plano alimentar DASH prioriza o consumo de alimentos minimamente processados e frescos. Têm muita semelhança com padrões dietéticos recomendados para a saúde cardiovascular. Quais alimentos compõem a dieta DASH? I- Legumes, frutas, carboidratos, laticínios, carne magra, nozes e sementes. II- Apenas legumes e frutas. III- Somente carboidratos, nozes e sementes. IV- Apenas proteínas magras e laticínios com baixo teor de gordura. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a afirmativa II está correta. b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão incorretas. c) ( ) Todas as afirmativas estão corretas. d) ( ) Nenhuma das afirmativas está correta. 6 Diversas opções medicamentosas envolvem o tratamento da HAS, e, por esse mo- tivo, encontram-se dificuldades na uniformização das condutas resultando em um insucesso ao tratamento. Estudos e diretrizes de HAS sugerem classes medicamen- tosas preferenciais para o tratamento, que incluem o chamado “trio de ouro”. O “trio de ouro” é composto por quais medicamentos? 7 Nos últimos tempos, os carboidratos dietéticos receberam publicidade negativa com relação ao emagrecimento, principalmente pelas dietas ricas em proteínas para a perda de peso. Descobertas apontam que os carboidratos podem ser piores que as gorduras saturadas e elevarem os riscos para DCV em pessoas com obesidade, dia- betes e resistência à insulina. A quantidade e o tipo de carboidratos a ser recomen- dados em dietas saudáveis tem sido alvo de questionamentos, pois a maioria dos carboidratos consumidos são de má qualidade, ou seja, com alto IG e CG, baixo teor de fibras e alta densidade energética. Qual é a diferença entre carga glicêmica (CG) e índice glicêmico (IG)? 109 TÓPICO 3 - DOENÇAS CARDIOVASCULARES 2 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 Segundo as estimativas do Global Burden of Diseases (GBD), a prevalência glo- bal de Doença Arterial Coronariana (DAC) foi de 154 milhões em 2016, representando 32,7% da carga global de doenças cardiovasculares e 2,2% da carga global de doenças (BAUERSACHS et al., 2019). Trata-se de uma doença silenciosa e progressiva que, sem tratamento e pre- venção adequados, acaba levando a eventos cardiovasculares, hospitalização, proce- dimentos de revascularização que representam um gasto econômico significativo, com hospitalização, medicamentos e perda de produtividade (BAUERSACHS et al., 2019). A DAC é subjacente a um espectro de condições que dependem dos graus de estenose, das consequências hemodinâmicas da estenose e das características da pla- ca e do nível de isquemia miocárdica. Os resultados da DAC são eventos CV adversos maiores (MACE, do inglês, major adverse CV events) como morte CV, infarto do miocár- dio (IM), acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, hospitalização, incapa- cidade e redução das atividades diárias (BAUERSACHS et al., 2019). As taxas de sobrevivência em pacientes com DAC melhoraram nos Estados Unidos da América (EUA), por exemplo, a mortalidade ajustada por idade, entre 1980 e 2002, foi aproximadamente reduzida à metade em pacientes do sexo masculino (de 900 a 400 por 100.000) e do sexo feminino (de 500 a 250 por 100.000) com DAC. Já na Alemanha, a mortalidade ajustada caiu de aproximadamente 300 para 140 por 100.000, entre 1990 e 2015. Outro ponto importante observado foi a qualidade de vida geral dos pacientes, as mudanças observadas foram específicas ao gênero, quando as mulheres relataram uma qualidade de vida mais alta do que os homens nos dois a quatro anos após um evento CV. Além disso, observaram que pacientes com depressão tiveram um risco maior de morte e admissão pode IM em comparação com os que tinham DAC sem depressão (BAUERSACHS et al., 2019). É importante destacar que, além das condições CV, as condições musculoes- queléticas também são frequentes em pacientes com DAC, esses pacientes podem vir a apresentar artrite e dores articulares, levando a incapacidade substancial (BAUERSA- CHS et al., 2019). 110 2 FISIOPATOLOGIA NA DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA Por muito tempo, a DAC (também conhecida como doença aterosclerótica) foi considerada resultante do acúmulo de lipídios na parede arterial. Porém, nas últimas décadas, houve um aumento nos estudos do campo vascular que forneceram mais detalhes à definição inicial da doença aterosclerótica (BARBALHO et al., 2015). Trata-se de uma doença caracterizada pela inflamação crônica da parede da artéria e, como consequência, a formação de placas envolvendo células inatas do sistema imune, responsáveis pelo depósito de substâncias constituintes destas placas, principalmente lipídios, cálcio e células inflamatórias. Assim, as lesões decorrentes são uma série de respostas celulares e moleculares altamente específicas, dinâmicas e inflamatórias (BARBALHO et al., 2015) (Figura 8). FIGURA 8 – DOENÇA CORONARIANA FONTE: <https://imeb.com.br/wp-content/uploads/2017/06/Doen%C3%A7a-isqu%C3%AAmica-do-cora%C3%A7%C3%A3o.jpg>. Acesso em: 26 fev. 2021. 111 Os fatores de riscos envolvidos na formação das placas aterogênicas estão relacionadas ao estilo de vida (dieta aterogênica, sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo de álcool), além disso, fatores com resistência à insulina (RI) ou diabetes mellitus, hipertensão arterial, hipertrigliceridemia, baixos níveis de HDL colesterol e LDL oxidado, alterações nos valores de homocisteína, proteína C reativa (PCR), fator VII de coagulação do ativador tecidual do plasminogênio e do PAI-1 (BARBALHO et al., 2015). Nos pacientes que já tem uma predisposição, a aterosclerose se desenvolve por meio de influência das condições que traumatizam o endotélio, como envelheci- mento, tabagismo, hipertensão arterial, hipercolesterolemia, diabetes e obesidade, os quais estão envolvidos com o dano endotelial o qual estimula uma reação inflamatória ou proliferativa na parede vascular (BARBALHO et al., 2015). O processo inflamatório envolvido tem a capacidade de aumentar o risco para hipertensão arterial e diabetes tipo 2, além de promover elevação das citocinas inflamatórias envolvidas diretamente com o recrutamento de monócitos e infiltração de macrófagos na parede arterial, formando assim a placa de ateroma. Esse processo é lento e assintomático, os sinais demoram anos para se manifestar, por isso é importante um monitoramento dos marcadores bioquímicos através do exame de PCR, por exemplo, o qual é um importante marcador (BARBALHO et al., 2015). A HAS tem relação com o aumento do estresse oxidativo e desencadeamento do processo inflamatório dos vasos. Além da HAS, como citado anteriormente, a hiperglicemia também se relaciona com o desenvolvimento da aterosclerose por diferentes mecanismos. A formação de produtos de glicação avançada (AGE, do inglês, Advanced Glycation Endproducts) levam à síntese de interleucina 6 (IL-6), à ativação de macrófagos e ao estresse oxidativo, que provoca o aumento da produção de PCR, contribuindo para a inflamação (BARBALHO et al., 2015). Os AGES são mediadores de lesão endotelial, inflamação e alterações lipídicas como a oxidação do LDL, por exemplo. Essa condição torna o LDL altamente aterogêni- co, pois os macrófagos envolvidos com a formação da placa têm receptores scavenger para captação de LDL oxidada, e com o tempo esses macrófagos tornam-se células es- pumosas. Além disso os AGES estão envolvidos na expressão do gene MCP-1, da molé- cula 1 de adesão intercelular (ICAM-1), molécula de adesão da célula vascular 1 (VCAM-1) e PAI-1, que, como vimos anteriormente, estão envolvidos diretamente na formação da placa de ateroma, esses eventos são seguidos pelo recrutamento de células inflamató- rias nas paredes dos vasos. Uma outra propriedade aterogênica dos AGES é a interferência na produção de óxido nítrico (NO, do inglês, nitric oxide), pois promove a diminuição da atividade do óxido nítrico sintase – uma família de enzimas que catalisam a produção de óxido nítrico (NO) a partir da L-arginina. Sabemos que o óxido nítrico tem um importante papel na regeneração endotelial, na vasodilatação e na inibição da agregação plaquetária, portanto a deficiência de produção promove uma piora na disfunção endotelial e na formação da placa (BARBALHO et al., 2015). 112 Como já citado, a obesidade também tem um papel importante na formação da doença aterosclerótica. Isso acontece devido ao aumento da produção de tecido adiposo visceral o qual está associado diretamente aos níveis de PCR, o qual é proporcional ao acúmulo de tecido adiposo visceral e aos componentes da RI. Assim, o aumento do tecido adiposo visceral está diretamente correlacionado com o desenvolvimento da aterosclerose. Ou seja, a RI, o aumento do IMC (obesidade, principalmente a visceral) e a aterosclerose estão relacionados com a resposta exacerbada dos eventos inflamatórios do endotélio vascular (BARBALHO et al., 2015). Para compreender didaticamente a formação da placa de ateroma, assista ao vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WVGMCCNSuW8. Como já vimos, a aterosclerose pode ser assintomática por muitos anos, os sinais e sintomas desenvolvem quando as lesões já impedem o fluxo sanguíneo. Pode haver desenvolvimento de sintomas isquêmicos transitórios (angina estável por esforço, episódios isquêmicos transitórios e claudicação intermitente), quando as placas estáveis crescem e reduzem o lúmen arterial em < 70% (THANASSOULIS, 2019). A vasoconstrição pode alterar uma lesão que não limita o fluxo sanguíneo para uma estenose grave ou completa e podem surgir sintomas de angina instável ou infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico isquêmico ou dor em repouso nos membros inferiores pode se desenvolver quando placas instáveis se rompem e causam oclusão aguda de artéria principal, com superposição de trombose ou embolia. Apesar disso, a aterosclerose também pode causar morte súbita, sem nenhum sintoma pregresso (THANASSOULIS, 2019). O diagnóstico depende dos sintomas. Pacientes sintomáticos com sinais e sintomas de isquemia devem ser avaliados para determinar o grau e a localização da oclusão vascular, com exames invasivos e não invasivos, dependendo o órgão comprometido. Também devem ser avaliados para determinar a existência de fatores de risco para aterosclerose: história e exame físico; perfil lipídico de jejum; níveis de hemoglobina A1C (THANASSOULIS, 2019). DICAS 113 Pacientes com doença documentada em um local (exemplo, artérias periféri- cas) devem ser investigados para identificação da doença em outros locais, como nas artérias coronárias e carótidas, e para isso pode ser utilizado exames de imagens não invasivos que avaliarão a morfologia e características da placa: ultrassonografia vascu- lar tridimensional; tomografia computadorizada (TC); angiografia por RMN. Alguns exames invasivos também podem ser utilizados: ultrassonografia intravascular, que utiliza um transdutor de ultrassom na ponta de um cateter para gerar imagens da luz e da parede da artéria; angioscopia, que utiliza cateteres especiais de fibra óptica que podem visualizar diretamente a superfície arterial; termografia das placas, usada para detectar o aumento da temperatura nas placas com processo inflamatório em atividade; tomografia de coerência óptica, que utiliza laser com luz infravermelha para geração de imagens; e elastografia, usada para identificar placas moles ricas em lipídios (THANASSOULIS, 2019). O tratamento envolve mudanças drásticas no estilo de vida, como dieta, interrupção do tabagismo e atividade física, além disso, tratamento medicamentoso de fatores de risco diagnosticados (diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia, por exemplo), utilização de medicamentos antiplaquetários, estatinas, inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) e betabloqueadores (THANASSOULIS, 2019). 3 DIETOTERAPIA NA DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA Agora que já entendemos um pouco da fisiopatologia da DAC, vamos começar a discutir a dietoterapia, que envolve essa doença complexa e com vários fatores de risco. Como já vimos, mudanças no estilo de vida são primordiais no controle da doen- ça, porém, na alimentação, muitas alterações são necessárias, como: menor consumo de gordura saturada, exclusão de gordura trans, menos carboidratos refinados, maior consu- mo de frutas, verduras, fibras, ingestão moderada de álcool (THANASSOULIS, 2019). As modificações dietéticas são requisitos básicos para o controle da hiperco- lesterolemia e redução do peso, sendo essenciais para todos os pacientes. Além disso, uma restrição energética se faz importante no controle do peso (THANASSOULIS, 2019). Os ácidos graxos trans são altamente aterogênicos, sendo necessária sua exclusão completa do plano alimentar. Pequenas reduções na ingestão de gorduras não parecem diminuir ou estabilizar a aterosclerose, se faz necessária alterações mais efetivas que limitam a ingestão de gorduras para 20 g/dia, em que6 a 10 g são de gorduras poli e monoinsaturadas, principalmente o ômega 3. A gordura saturada precisa ser restrita a ≤ 2 g por dia (THANASSOULIS, 2019). 114 Quando os níveis circulantes de ácido graxo ômega 6, ácido araquidônico (AA) diminuem, os níveis circulantes e a incorporação da membrana celular dos ácidos graxos ômega 3 (DHA e EPA) aumentam. Essa mudança no perfil ácidos graxos resulta em uma secreção hepática reduzida de lipoproteínas ricas em triglicerídeos e diminuição na hipertrigliceridemia (BÄCK, 2017). Como vimos, na lesão aterosclerótica, os macrófagos infiltrantes sofrem uma troca de mediado lipídico quando o ômega 3 e AA competem como substrato para as enzimas biossintéticas do mediado lipídico, gerando a série 5 do leucotrieno B (LT), que atua como inibidores da sinalização de LTB4 pró-inflamatória. Além disso, DHA e EPA servem como substrato para, por exemplo, as resolvinas de mediadores de pró-resolução especializados (SPMs) das séries D e E, respectivamente. No total, essa troca de mediador lipídico desviará a balança da inflamação para a pró- resolução, inibirá a progressão da placa e aumentará a estabilidade da placa. Embora o tromboxano derivado de EPA (TX) A3 das plaquetas exiba ações agregadoras mais fracas em comparação com seu análogo derivado de AA TXA2, as duas prostaciclinas, PGI2 e PGI3, são antiagregantes e vasodilatadoras. Além disso, o último equilíbrio é, portanto, inclinado para um perfil benéfico pela suplementação de ômega 3 (Figura 9) (BÄCK, 2017). 115 FIGURA 9 – MECANISMO DE AÇÃO DO ÔMEGA 3 NA ATEROSCLEROSE FONTE: Adaptada de Bäck (2017) Em um manejo dietético no qual o aumento dos carboidratos serve para com- pensar a diminuição das gorduras saturadas, eleva os níveis de triglicerídeos plasmáti- cos e reduz os níveis de HDL, por isso, a deficiência calórica deve ser compensada com proteínas e gorduras insaturadas, em vez de carboidratos, porém, deve-se incentivar o consumo de carboidratos complexos (ex.: verduras e grãos integrais). ↓ Triglicerídeos ↑DHA 22:6 (ω-3) ↑EPA 20:5 (ω-3) ↑AA 20:4 (ω-6) Fígado Placa aterosclerótica ↑ resolvinas(- série D e E) Macrófago Pró- resolução Pró- aterogênico Instabili- dade da placa Progres- são da placa Endotélio Plaquetas Vasodilatação anti-agregação Agregação plaquetária 116 O consumo de frutas e verduras (cinco porções ao dia) parece ter influência na redução do risco de aterosclerose. O mecanismo envolvido ainda precisa ser esclarecido, não se sabe se é decorrente da redução de gordura saturada, ou aumento da ingestão de fibras e vitaminas (THANASSOULIS, 2019). Que o consumo de fibras é importante é inegável, mas você sabe qual a relação do consumo de fibras com o manejo da DAC? Vamos ver de forma resumida a seguir. As fibras insolúveis são resistentes à hidrólise por enzimas do intestino delgado em humanos, mas são utilizadas e fermentadas por bactérias intestinais em ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) no intestino grosso. Os AGCC levam a alterações na microbiota intestinal, contribuindo para efeitos hipocolesterolêmicos da fibra solúvel. Além disso, a fibra adiciona volume à dieta, adsorve e sequestra o colesterol, diminuindo a absorção hepática e aumenta a excreção através da bile e dos lipídios fecais e dos ácidos biliares (SOLIMAN, 2019). A microbiota intestinal também pode estar relacionada com a DAC. Estudos demonstram que a fosfatidilcolina ou L-carnitina dietética (proveniente de alimentos de origem animal, principalmente carne vermelha) é metabolizada pela microbiota intestinal em trimetilamina (TMA) no intestino, a TMA é transportada para o fígado e oxidada pela flavina mono-oxigenase 3 (FMO3), levando à produção de TMAO (N-óxido de trimetilamina). A TMAO acelera o desenvolvimento da aterosclerose, promovendo um influxo de colesterol, inibindo o efluxo de colesterol, bloqueando a via de ácidos biliares e/ ou causando ativação excessiva de plaquetas. Assim, a TMAO pode ser considerado um biomarcador de risco para DCV e promotor de doenças ateroscleróticas (MA; LI, 2018). Polifenóis, prebióticos e probióticos são considerados a estratégia dietética dos três “P”, cujo objetivo é regular a composição da microbiota intestinal e/ou suas atividades metabólicas/imunológicas. Os polifenóis são metabólitos secundários das plantas que possuem atividades biológicas importantes, como: anti-inflamatória, antioxidante e anticarcinogênica (PIECZYNSKA et al., 2020). Os produtos naturais contêm grande quantidade de polifenóis que possuem funções como proteção ao sistema CV e redução das respostas inflamatórias, porém, a maioria deles não pode ser absorvido diretamente pelo intestino delgado, por isso sua biodisponibilidade e impacto na saúde do hospedeiro depende da função da microbiota intestinal e da conversão de seus componentes, e essa conversão é realizada pelas bactérias intestinais (PIECZYNSKA et al., 2020). 117 HIPERCOLESTEROLEMIA FAMILIAR: DOENÇA AFETA NÍVEL DE COLESTEROL NO SANGUE Jornal da USP A American Heart Association (AHA) em uma pesquisa recente aprofundou os conhecimentos a respeito da hipercolesterolemia familiar, uma doença hereditária que afeta o processo de remoção do colesterol do sangue. Essa condição pode desencadear 20 vezes mais distúrbios cardíacos e pode atingir pessoas que possuem a doença 20 anos mais cedo que a população em geral. Os resultados desse estudo são de mais de duas décadas de pesquisas. Uma em cada 250 pessoas será afetada pelo problema na população em geral. O componente genético, faz com que nas famílias afetadas uma em cada duas pessoas desenvolvam a doença. Geralmente, várias gerações da mesma família apresentam colesterol alto, e possuem antecedentes de problemas do coração, como infarto e angina, de 10 a 15 anos antes da população em geral. Isso acontece, pois, o colesterol apresenta níveis altos desde o nascimento do indivíduo, o valor pode variar de duas a quatro vezes mais alto do que o normal, e é essa exposição precoce que leva a problemas cardíacos mais cedo. No Brasil, o programa Hipercol Brasil, realiza o diagnóstico genético e de trata- mento de pessoas com a doença, e nos últimos 10 anos houve avanços nos estudos da doença por conta desse programa. O Hipercol já avaliou 5 mil pessoas, a maioria do estado de São Paulo, e diagnosticou 1,5 mil casos, encaminhando o paciente para o tratamento no Incor. Além disso, o programa ainda conta com a triagem em cascata, que consiste em convidar a família da pessoa que teve o diagnóstico positivo a fazer o teste genético também, e isso acaba identificando o problema em outras pessoas e expandindo o tratamento. Esse processo é importante, pois trata-se de uma doença silenciosa, e que pode ser tratada quando identificada, seja através de medicações preventivas a fim de reduzir o colesterol, associada a dieta. O LDL-c, conhecido popularmente como colesterol ruim, tem seu valor normal em torno de 110 mg/dL, em uma pessoa com hipercolesterolemia esse valor pode alcançar o valor de 300 mg/dL. LEITURA COMPLEMENTAR 118 Outra maneira de identificar o risco de o indivíduo desenvolver problemas car- díacos é através de uma tomografia cardíaca, onde pode se identificar placas ateros- cleróticas, que entopem as artérias em pessoas assintomáticas. Esse exame detecta a calcificação nos vasos, sendo diretamente proporcional, quanto mais cálcio, mais placas e quanto mais placas, maior o risco de infarto. Se identificado em uma pessoa com idade biológica de 40 anos uma coronária repleta de cálcio, isso equivale a uma idade vascular de alguém de 70 anos. O programa Hipercol identificou que 20% dos pacientes já tiveram algum tipo de evento vascular no passado, além disso já estão tratando a terceira geração de algumas famílias e o tratamento foi gradualmente evoluindo. FONTE: Adaptado de <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/01/01/hiper- colesterolemia-familiar-doenca-afeta-nivel-de-colesterol-no-sangue.htm?cmpid=copiaecola>.Acesso em: 26 fev. 2021. 119 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A doença arterial coronariana é silenciosa e progressiva que, sem tratamento e pre- venção adequados, acaba levando a eventos cardiovasculares, hospitalização, pro- cedimentos de revascularização que representam um gasto econômico significativo, com hospitalização, medicamentos e perda de produtividade. • É importante destacar que além das condições CV, as condições musculoesqueléticas também são frequentes em pacientes com DAC, esses pacientes podem vir a apresentar artrite e dores articulares, levando a incapacidade substancial. • A DAC é caracterizada pela inflamação crônica da parede da artéria e, como consequência, a formação de placas, envolvendo células inatas do sistema imune as quais são responsáveis pelo depósito de substâncias constituintes destas placas, principalmente lipídios, cálcio e células inflamatórias. • Os fatores de riscos envolvidos na formação das placas aterogênicas estão relacio- nados ao estilo de vida (dieta aterogênica, sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo de álcool). • O processo inflamatório envolvido na DAC é lento e assintomático, os sinais demo- ram anos para se manifestar, por isso é importante um monitoramento dos marca- dores bioquímicos. • O diagnóstico depende dos sintomas. Pacientes sintomáticos com sinais e sin- tomas de isquemia devem ser avaliados para determinar o grau e a localização da oclusão vascular, com exames invasivos e não invasivos, dependendo o órgão comprometido. Também devem ser avaliados para determinar a existência de fato- res de risco para aterosclerose: história e exame físico; perfil lipídico de jejum; níveis de hemoglobina A1C. • O tratamento da DAC envolve mudanças drásticas no estilo de vida como dieta, interrupção do tabagismo e atividade física, além disso, tratamento medicamentoso de fatores de risco diagnosticados (diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia, por exemplo), utilização de medicamentos antiplaquetários, estatinas, inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) e betabloqueadores. • As modificações dietéticas são requisitos básicos para o controle da hipercolestero- lemia e redução do peso, sendo essenciais. 120 • Os ácidos graxos trans são altamente aterogênicos, sendo necessária sua exclusão completa do plano alimentar. • O consumo de frutas e verduras (cinco porções ao dia) parece ter influência na redução do risco de aterosclerose. • A fibra adiciona volume à dieta, adsorve e sequestra o colesterol, diminuindo a absorção hepática e aumenta a excreção através da bile e dos lipídios fecais e dos ácidos biliares. • Polifenóis, prebióticos e probióticos são considerados a estratégia dietética dos três “P”, que tem como objetivo regular a composição da microbiota intestinal e/ou suas atividades metabólicas/imunológicas. 121 AUTOATIVIDADE 1 Trata-se de uma doença caracterizada pela inflamação crônica da parede da artéria e, como consequência, a formação de placas envolvendo células inatas do sistema imune, as quais são responsáveis pelo depósito de substâncias constituintes destas placas, principalmente lipídios, cálcio e células inflamatórias. Que doença é essa? a) ( ) Doença arterial coronariana. b) ( ) Insuficiência cardíaca. c) ( ) Infarto agudo do miocárdio. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 2 Os pacientes que já têm uma predisposição à aterosclerose se desenvolvem por meio de influência das condições que traumatizam o endotélio, como: I- Envelhecimento, tabagismo, hipertensão arterial, hipercolesterolemia, diabetes e obesidade. II- Envelhecimento, tabagismo, hipertensão arterial, hipercolesterolemia, diabetes e atividade física. III- Apenas envelhecimento. IV- Apenas hipertensão arterial. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a afirmativa III está correta. b) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas. c) ( ) Apenas a afirmativa I está correta. d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas. 3 A diabetes mellitus promove complicações vasculares que são a principal causa de morbimortalidade nos países desenvolvidos. Entre as explicações, de como a hiperglicemia crônica produz danos celulares e teciduais na doença cardiovascular está a formação de produtos que são mediadores de lesão endotelial, inflamação e alterações lipídicas, como a oxidação do LDL. Quais produtos são esses? a) ( ) AGES. b) ( ) Óxido nítrico. c) ( ) Proteína C reativa. d) ( ) Molécula de adesão da célula vascular 1. 122 4 Mudanças no estilo de vida são primordiais no controle da doença, porém na alimentação muitas alterações são necessárias, como: I- Menor consumo de gordura saturada, exclusão de gordura trans, menos carboidratos refinados, maior consumo de frutas, verduras, fibras, ingestão moderada de álcool. II- Menor consumo de gordura saturada, consumo moderado de gordura trans, menos carboidratos refinados, maior consumo de frutas, verduras, fibras, ingestão moderada de álcool. III- Maior consumo de gordura saturada, exclusão de gordura trans, menos carboidratos refinados, maior consumo de frutas, verduras, fibras, ingestão moderada de álcool. IV- Maior consumo de gordura saturada, consumo moderado de gordura trans, menos carboidratos refinados, menor consumo de frutas, verduras, fibras, ingestão moderada de álcool. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a afirmativa I está correta. b) ( ) Apenas a afirmativa II está correta. c) ( ) Apenas a afirmativa III está correta. d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas. 5 Os ____________________________ leva a alterações na microbiota intestinal, contribuindo para efeitos hipocolesterolêmicos da fibra solúvel. Assinale a alternativa que comple- ta a lacuna. a) ( ) Lactobacillus. b) ( ) AGCC. c) ( ) Polifenóis. d) ( ) Probióticos. 6 ____________________________, ___________________________ e ___________________________ são considerados a estratégia dietética dos três “P”, que tem como objetivo regular a composição da microbiota intestinal e/ou suas atividades metabólicas/imunológicas. Assinale a alternativa que completa as lacunas. a) ( ) Polifenóis, prebióticos e proteínas. b) ( ) Polifenóis, peptídeos e probióticos. c) ( ) Polifenóis, prebióticos e probióticos. d) ( ) Polifenóis, proteínas e prebióticos. 7 A aterosclerose pode ser assintomática por muitos anos, os sinais e sintomas desenvolvem quando as lesões já impedem o fluxo sanguíneo, por isso o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível. O que envolve o tratamento da aterosclerose? 8 Os polifenóis são metabólitos secundários das plantas que possuem atividades biológicas importantes. Quais são essas atividades biológicas? 123 REFERÊNCIAS ABENAVOLI, L. et al. Gut microbiota and obesity: a role for probiotics. Nutrients, [S. l.], v. 11, n. 11, p. 2690-0, 7 nov. 2019. ANS – AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR (Brasil). Diretoria de Normas e Habilitação dos Produtos. Gerência-Geral de Regulação Assistencial. Gerência de Monitoramento Assistencial. Coordenadoria de Informações Assistenciais. Manual de diretrizes para o enfretamento da obesidade na saúde suplementar brasileira. Rio de Janeiro: ANS, 2017. BÄCK, M. Omega-3 fatty acids in atherosclerosis and coronary artery disease. Future Science Oa, [S. l.], v. 3, n. 4, nov. 2017. BAKRIS, G. L. Tratamento farmacológico da hipertensão arterial. Manual MSD, Kenilworth, 2019. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/distúrbios- do-coração-e-dos-vasos-sangu%C3%ADneos/hipertensão-arterial/tratamento- farmacológico-da-hipertensão-arterial. Acesso em: 26 fev. 2021. BARBALHO, S. M. et al. 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Acesse o QR Code abaixo: 129 TÓPICO 1 — DIABETES MELLITUS TIPO 1 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO A diabetes tipo 1 (DM1) é uma doença heterogênea, trata-se de uma destruição das células beta pancreáticas, ocasionando a deficiência absoluta de insulina. Alguns casos se atribuem a uma destruição autoimune mediada de células beta (tipo 1a), enquanto uma minoria de casos resulta de destruição idiopática ou falha de células beta (tipo 1b) (MAAHS et al., 2010). 5 a 10% do total de casos de diabetes do mundo é proveniente da DM1, sendo maiscomum em crianças e adolescentes, apesar do diabetes tipo 2 (DM2) ser mais frequentemente diagnosticado na juventude (MAAHS et al., 2010). Assim como outras doenças crônicas, o DM é um importante e crescente pro- blema de saúde, independente do grau de desenvolvimento dos países. A Internatio- nal Diabetes Federation (IDF) estimou que 8,8% da população mundial com 20 a 79 anos de idade (424,9 milhões de pessoas) vivia com diabetes. Segundo as projeções, em 2045 628,6 milhões de pessoas podem apresentar DM. No Brasil, as projeções para 2045 são de 20,3 milhões (18,6 a 22,1) de pessoas com diabetes (entre 20 a 79 anos) (DIRETRIZES [...], 2019). Um dado interessante é sobre o aumento da prevalência estar associado a fatores como: rápida urbanização, transição epidemiológica, transição nutricional, estilo de vida sedentário, excesso de peso, crescimento e envelhecimento populacional e a maior sobrevida dos indivíduos com diabetes. Cerca de 79% dos casos vivem em países em desenvolvimento e é nesses países que ocorrerá o maior aumento dos casos de DM nas próximas décadas (DIRETRIZES [...], 2019). A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a glicemia elevada é o terceiro maior fator de causa de mortalidade prematura, superada apenas por pressão arterial aumentada e uso de tabaco (DIRETRIZES [...], 2019). Estudos epidemiológicos tentam elucidar a história natural e a patogênese do DM, baseando-se apenas nas alterações glicêmicas apesar da grande variedade de ma- nifestações clínicas e condições associadas. Nas últimas décadas foram sugeridos me- canismos etiológicos diferentes, como genéticos, ambientais e imunológicos, os quais possuem papel importante no curso clínico e no aparecimento de complicações do DM (DIRETRIZES [...], 2019). 130 É importante que tenhamos informações sobre a incidência (frequência de novos casos) e a prevalência (casos existentes) para que possamos determinar a carga que o DM representa no sistema de saúde. A incidência dá informações do risco médio da população adquirir a doença, servindo também de parâmetro para a avaliação do impacto produzido por medidas de prevenção. A prevalência nos indica a magnitude da carga atual que a doença repre- senta para os serviços de saúde e para a sociedade, serve também como preditor da futura carga que as complicações crônicas do DM representarão (DIRETRIZES [...], 2019). Em 2015, houve um óbito a cada oito segundos em decorrência do DM, sendo que a idade era de 20 a 79 anos. A doença cardiovascular é a principal causa de óbito entre as pessoas com DM, responsável por metade dos óbitos por diabetes na maioria dos países. O DM também é responsável por 10,7% da mortalidade mundial por todas as causas, ou seja, é maior que a soma de óbitos causados por doenças infecciosas (HIV/ AIDS, tuberculose e malária) (DIRETRIZES [...], 2019). Em regiões mais carentes, onde faltam recursos médicos, os indivíduos com diabetes tipo 1 tendem a morrer precocemente por complicações metabólicas agudas (por falta de insulina, por exemplo) ou infecções (tuberculose), já indivíduos com DM2, nesses locais, têm a doença cerebrovascular (hipertensão) uma das principais causas de óbito (DIRETRIZES [...], 2019). A maioria dos países despendem de 5 a 20% do seu gasto total com saúde para o tratamento do DM, visto que esses pacientes fazem uma maior utilização dos serviços de saúde, perdem a produtividade, requerem cuidados prolongados para tratar compli- cações crônicas como: insuficiência renal, cegueira, problemas cardíacos e pé diabético. O elevado custo torna o DM um importante desafio para os sistemas de saúde e um obstáculo para o desenvolvimento econômico sustentável (DIRETRIZES [...], 2019). 131 2 FISIOPATOLOGIA DA DIABETES MELLITUS TIPO 1 Antes de começarmos a discutir a fisiopatologia da DM1, é importante resgatar alguns conceitos de bioquímica e fisiologia. Por isso, assista ao vídeo clicando disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4CRK3VAtojc. Agora que já resgatamos alguns conceitos, podemos continuar. Como sabemos, a DM1 tem um caráter multifatorial, tendo como base a pre- disposição genética, a qual, quando sofre ação de fatores ambientais, desencadeia agressões contra as células β pancreáticas (NEVES et al., 2017). Nos Estados Unidos, indivíduos com parentes de primeiro grau com DM1 tem risco de 1 em 20 de desenvolver DM1 ao longo da vida, em comparação com o risco de 1 em 300 ao longa da vida para a população em geral. Irmãos de crianças com início de DM1 antes dos 5 anos de idade têm um risco cumulativo de diabetes três a cinco vezes maior aos 20 anos, em comparação com irmãos de crianças diagnosticadas entre 5 e 15 anos de idade. Assim, o início do DM1 antes dos 5 anos é um marcador de alto risco familiar e sugere um papel importante para os fatores genéticos (MAAHS et al., 2010). Falando dos genes agora, existem múltiplos genes implicados na suscetibilidade (e resistência) ao DM1, os mais importantes são os antígenos leucocitários humano (HLA) no cromossomo 6, em particular de classe II, sendo que dois haplótipos de suscetibilidade na região HLA de classe II são considerados os principais marcadores de suscetibilidade para DM1 (MAAHS et al., 2010). Pesquisas têm sugerido uma tendência temporal recente de menos genótipos HLA de alto risco em jovens diagnosticados com DM1, levantando a hipótese de uma influência maior dos fatores ambientais no desenvolvimento de DM1 nas últimas décadas (MAAHS et al., 2010). Existem também associações, bem elucidadas, entre DM1 e outras doenças autoimunes, como doença autoimune de tireoide, doença de Addison, doença celíaca e gastrite autoimune. Essa associação de doenças autoimunes está relacionada a genes dentro do complexo principal de histocompatibilidade (MAAHS et al., 2010). Como vimos, os fatores ambientais podem ser bem atuantes no desenvolvimento da DM1. Pesquisas demonstram que os fatores ambientais no início da vida parecem desencadear o processo imunomediado em indivíduos geneticamente suscetíveis. Além disso, esses mesmos estudos evidenciaram que os fatores não genéticos desempenham um papel no desenvolvimento de DM1 em estudos de migração, aumento da incidência em populações geneticamente estáveis e estudos de gêmeos (MAAHS et al., 2010). DICAS 132 Esses fatores ambientais que iniciam a destruição das células β pancreáticas ainda são desconhecidos, porém, há hipóteses de que fatores nutricionais possam estar envolvidos como: leite de vaca, amamentação, glúten, vitamina D e E. Sugere-se que a introdução precoce de leite de vaca em bebês pode contribuir para o desenvolvimento de DM1 na infância, mas as pesquisas são ambíguas e podem depender da suscetibilidade genética. Outro ponto é a introdução de cereais ricos em glúten ou outros alimentos na infância, alterando o risco de autoimunidade e desenvolvimento de DM1. Em contrapartida, a suplementação de vitamina D e E na infância parece estar associada à redução do risco de DM1, exercendo assim um fator protetor. Porém, todas essas evidências ainda estão sendo discutidas, necessitando de evidências mais firmes na influência dos fatores nutricionais na etiologia da DM1 (MAAHS et al., 2010). Como vimos, os fatores genéticos e ambientais exercem influência na perda progressiva da massa de células β-pancreáticas e/ou alteram sua função que se manifesta clinicamente como hiperglicemia, levando ao desenvolvimento de complicações como mostra a Figura 1 (SKYLER et al., 2016). 133 FIGURA 1 – FATORES GENÉTICOS E AMBIENTAIS NA FISIOPATOLOGIA DO DIABETES FONTE: Adaptada de Skyler et al. (2016) Fatores de risco genéticos e ambientais levam à inflamação, autoimunidade e estresse metabólico, isso afeta a massa e a função das células β-pancreáticas, fazendo com que os níveis de insulina sejam incapazes de responder suficientemente às demandas de glicose, levando a níveis altos de hiperglicemia, configurando assim o DM (SKYLER et al., 2016). GenesAmbiente ex: vírus, microbioma, ativ. Física, fatores dietéticos Inflamação e autoimunidade Inflamação e estresse metabólico Destruição das células beta Disfunção da célula beta Hiperglicemia Diabetes (tipo 1, tipo 2, outras formas) Complicação Complicações microvasculares Retinopatia Nefropatia Neuropatia Complicações macrovasculares Doença arterial coronariana Doença arterial periférica Derrame 134 No DM1 a secreção anormal de insulina pode ocorrer bem antes do diagnóstico, sendo que um declínio gradual começa pelo menos dois anos antes do diagnóstico e acelerando próximo ao diagnóstico. As células β-pancreáticas apresentam um declínio em sua sensibilidade à glucose, podendo ocorrer um período de tempo semelhante. Então, à medida que a resposta insulínica inicial declina, a resposta insulínica posterior torna-se maior, indicando um possível mecanismo compensatório (SKYLER et al., 2016). Agora vamos conversar um pouco do diagnóstico do DM1. O diagnóstico do DM1 geralmente é realizado em pacientes jovens (crianças, adolescentes ou adultos jovens) que apresentam sintomas de hiperglicemia grave (poliúria, polidipsia, polifagia, noctúria e perda de peso inexplicada). Esses sintomas podem evoluir rapidamente e progredir para cetose, desidratação e acidose metabólica, caracterizando cetoacidose diabética (CAD) especialmente na presença de estresse agudo (CONITEC, 2019). Os valores glicêmicos acima dos valores de referência, mas ainda abaixo dos valores diagnósticos de DM, denomina-se pré-diabetes. A resistência à insulina já está presente e, na ausência de medidas de combate aos fatores de risco, evolui frequentemente para a doença manifesta e associa-se ao risco aumentado de doença cardiovascular e complicações. As categorias de tolerância à glicose são definidas com base nos seguintes exames: glicemia em jejum, teste de tolerância oral a glicose (TTOG) e hemoglobina glicada (HbA1c). Além disso, ainda pode ser solicitado autoanticorpo e peptídeo C (DIRETRIZES [...], 2019) (Quadro 1). QUADRO 1 – ESTÁGIOS DO DM1 E SUAS CARACTERÍSTICAS Estágios 1 2 3 Autoimunidade Anticorpos positivos Anticorpos positivos Anticorpos positivos Níveis glicêmicos para diagnóstico Normoglicemia: glicemia de jejum, TOTG e HbA1c normais. Disglicemia: níveis glicêmicos alterados, compatíveis com pré- diabetes (jejum entre 100 e 125 mg/dL, 2h no TOTG entre 140 e 199 mg/dL, ou HbA1c entre 5,7 e 6,4%). Hiperglicemia evidente e de início recente, critérios clássicos para diagnóstico de DM (glicemia de jejum ≥ 126mg/dL, 2h no TOTG ≥ 200mg/dL, ou HbA1c ≥ 6,5%*). Sintomas Ausentes Ausentes Presentes Legenda: HbA1c – hemoglobina glicada; TOTG – teste oral de tolerância à glicose; DM – Diabetes mellitus. *Em pacientes sintomáticos, deve-se preferir diagnóstico pelas dosagens diretas de glicemia em vez da determinação de HbA1c. FONTE: Diretrizes [...] (2019, p. 20) 135 Após o diagnóstico inicial e a estabilização metabólica, alguns pacientes com DM1 mantêm a capacidade de produzir insulina endógena. A manutenção dessa baixa secreção insulínica é importante, pois está asso- ciada a uma menor incidência de retinopatia e hipoglicemia menos grave em estágios avançados da doença. Por isso, com o objetivo de preservar a secreção de insulina após o início da doença tem se tornado um alvo terapêutico e pode envolver terapia intensiva com insulina, tecnologias mecânicas ou intervenção imunológica para se interromper a destruição das células β-pancreáticas (ATKINSON; EISENBARTH; MICHELS, 2014). O peptídeo C é secretado pelas células β em uma proporção de um para um com a insulina, e essa análise, após o início da doença, mostra que a perda é mais rápida no primeiro ano após o diagnóstico do que no segundo ano, sendo que crianças e adoles- centes perdem a produção de insulina endógena em uma taxa maior do que adultos com DM1 (ATKINSON; EISENBARTH; MICHELS, 2014). Com o avanço da ciência, já existem vários métodos para otimização metabóli- ca por meio da terapia com insulina. Existe a possibilidade de injeções diárias, análogo de insulina de ação prolongada fornecendo insulina basal e uma insulina de ação rápida, administrada antes das refeições com base na quantidade de carboidratos consumidos. Uma tecnologia interessante, porém, com alto custo, são as bombas de infusão contínua de insulina, que controlam de forma mais eficaz os níveis de glicose (ATKIN- SON; EISENBARTH; MICHELS, 2014). Estudos mostram que pacientes adultos com DM1, que fizeram uso da bomba de infusão, apresentaram níveis mais baixos de hemoglobina glicada (HbA1C), atingindo níveis desejados de HbA1C. Além disso, preparações e sistemas de aplicação de insulina foram aprimora- dos, houve avanços para o controle glicêmico e diminuição da hipoglicemia que incluem: medição de HbA1C no local de atendimento, relatórios de automonitoramento de glicose no sangue e monitores de glicose contínuos em tempo real, reduzindo hipoglicemia e a HbA1C (ATKINSON; EISENBARTH; MICHELS, 2014). 136 • Glicemia em jejum: coletada em sangue periférico após jejum calórico de no mínimo 8 horas; • TOTG: previamente à ingestão de 75 g de glicose dissolvida em água, coleta-se uma amostra de sangue em jejum para determinação da glicemia; coleta-se outra, então, após duas horas da sobrecarga oral. Importante reforçar que a dieta deve ser a habitual e sem restrição de carboidratos pelo menos nos três dias anteriores à realização do teste. Permite avaliação da glicemia após sobrecarga, que pode ser a única alteração detectável no início do DM, refletindo a perda de primeira fase da secreção de insulina; • Hemoglobina glicada (HbA1c): oferece vantagens ao refletir níveis glicêmicos dos últimos três a quatro meses e ao sofrer menor variabilidade dia a dia e independer do estado de jejum para sua determinação. Vale reforçar que se trata de medida indireta da glicemia, que sofre interferência de algumas situações, como anemias, hemoglobinopatias e uremia, nas quais é preferível diagnosticar o estado de tolerância à glicose com base na dosagem glicêmica direta. Outros fatores, como idade e etnia, também podem interferir no resultado da HbA1c (DIRETRIZES [...], 2019, p. 23). O tratamento da DM1 é basicamente o uso da insulina, que é imprescindível e deve ser instituído assim que o diagnóstico for feito. O Control and Complications Trial (DCCT) demonstrou que o tratamento intensi- vo do DM1 com três ou mais doses diárias de insulina (com diferentes tipos de ação), ou com o sistema de infusão contínua (bomba de infusão), é eficaz na redução das compli- cações crônicas advindas do mau controle glicêmico (DIRETRIZES [...], 2017). O objetivo do tratamento do DM1 é manter as metas glicêmicas dentro dos limites da normalidade. Esquemas terapêuticos diferentes podem ser adotados no tratamento, mas, na prática, a reposição insulínica é feita com uma insulina basal (que tem a função de evitar a lipólise e a liberação hepática de glicose no período interalimentar), uma insulina durante as refeições (bolus de refeição) e doses de insulina necessárias para corrigir as hiperglicemias pré-prandiais ou no período interalimentar (bolus de correção) (DIRETRIZES [...], 2017). A escolha do esquema terapêutico deve levar em consideração as caracterís- ticas das insulinas, idade, estágio puberal, horário da escola/trabalho, atividade física, padrão de alimentação e a aceitação do esquema proposto pelo indivíduo ou pela fa- mília (SBD, 2012). NOTA 137 Existem diversos tipos de insulinas, as insulinas humanas como a insulina regular (R) e a insulina intermediária (NPH – Neutral Protamine Hagedorn), os análogos de insulina, os análogos de insulina de ação ultrarrápida, análogos de ação prolongada, vamos entender cada uma delas no Quadro 2: QUADRO 2 – INSULINAS Tipo Início da ação Pico Duração Horário para injeção Bolus Ultrarrápidas (análogos ultrarrápidos) • Apidra® (Glulisina) • Humalog®(Lispro) • NovoRapid® (Asparte) 10-15 minutos 1-2 horas 2-5 horas Utilizada junto às refeições. Deve ser injetada imediatamente antes das refeições. Rápida (Insulina Humana regular) • Humulin® N • Novolin® N 30 minutos 2-3 horas 6 horas e 30 minutos Utilizada junto às refeições ao dia. Deve ser injetada entre 30 e 45 minutos antes do início das refeições. Basal Ação intermediária (NPH – humana) • Humulin® N • Novolin® N 1-3 horas 5 – 8 horas Até 18 horas Frequentemente, a aplicação começa uma vez ao dia, antes de dormir. Pode ser indicada uma ou duas vezes ao dia. Não é específica para refeições. Longa duração (Análogos lentos) • Lantus® (Glargina) • Levemir® (Detemir) • Tresiba® (Degludeca) 90 minutos Sem pico Lantus: até 24h Levemir: de 16 a 24h Degludeca: >24h Frequentemente, a aplicação começa uma vez ao dia, antes de dormir. Levemir pode ser indicada uma ou duas vezes ao dia. Tresiba é utilizada sempre uma vez ao dia, podendo variar o horário de aplicação. Não é específica para refeições. Pré- misturadas Insulina pré-misturada regular • Homulin® 70/30 • Novolin® 70/30 10-15 minutos (componente R) e 1 a 3 horas (componente N) 30% da dose como insulina R e 70% da dose como insulina N 30% da dose como insulina R e 70% da dose como insulina N Aplicada junto a uma ou mais refeições ao dia. Deve ser injetada 30 a 45 minutos antes do início das refeições. 138 Insulina Pré-misturada análoga • NovoMix® 30 • Humalog Mix® 25 • HumalogMix® 50 O número indica o percentual de ultrarrápida na mistura, o restante tem o perfil de ação compatível com insulina N Insulina ultrarrápida e insulina N (de acordo com a proporção do produto: 25, 30 ou 50% da dose de ultrarrápida) Insulina ultrarrápida e insulina N (de acordo com a proporção do produto: 25, 30 ou 50% da dose de ultrarrápida Aplicada junto a uma ou mais refeições ao dia. Deve ser injetada de 0 a 15 minutos antes do início das refeições. FONTE: <https://www.diabetes.org.br/publico/diabetes/insulina>. Acesso em: 1° mar. 2021. Quando o paciente compreende como a insulina funciona ele é capaz de planejar refeições, lanches e exercícios. O tratamento insulinêmico deve ser ajustado quanto ao estilo de vida e às necessidades do controle glicêmico. Devemos sempre lembrar que o uso é individual e não, o planejamento terapêutico não será acertado de primeira, requerendo assim paciência do paciente e do médico (INSULINA, 2021). A insulina humana (NPH e Regular) é produzida em laboratório, a partir da terapia de DNA recombinante. A insulina regular é idêntica à humana na sua estrutura, já a NPH é associada a duas substâncias (protamina e zinco), que promovem um efeito mais prolongado (INSULINA, 2021). Basicamente, a insulina é injetável, não podendo ser tomada em pílulas ou cápsulas, pois os sucos digestivos interferem na sua eficácia (INSULINA, 2021). As insulinas análogas são produzidas a partir da insulina humana e modifica- das de modo a terem ação mais curta ou ação mais prolongada. Ainda podem ser pré-misturadas insulina NPH + insulina Regular, na proporção de 70/30, análogos de ação prolongada + análogos de ação rápida (Humalog® Mix 25 e 50, Novomix® 30) (INSULINA, 2021). Elas podem ser apresentadas em frascos de 100 ml ou em canetas, onde os refis contêm três ml, ou podem vir em canetas de aplicação descartáveis. Além disso, como já comentamos, existe a bomba de infusão de insulina que possui outro sistema (INSULINA, 2021). 139 3 DIETOTERAPIA NA DIABETES MELLITUS TIPO 1 Estudos clínicos e epidemiológicos mostram que a terapia nutricional é importante no tratamento do DM1, porém, é importante deixar claro que embora apresente pequenas diferenças, a composição indicada para portadores da doença assemelha-se à da recomendação para a população em geral (LOTTENBERG, 2008). O DM está diretamente relacionado ao metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios, por isso a nutrição desempenha um importante papel no seu controle. Antes do aparecimento da terapia insulínica, acreditava-se que a restrição de diversos alimentos seria uma forma eficaz de tratamento, pois prevenia a elevação da glicemia, porém, essa conduta provocava desnutrição grave gerando morte precoce nos indivíduos (LOTTENBERG, 2008). A abordagem nutricional individualizada precisa ser efetiva, pois requer mudanças no estilo de vida e objetivos que possam resultar em intervenções dietéticas complexas. Para essa individualização é necessário conhecer aspectos relacionados ao contexto de produção e do consumo de alimentos, cultura, regionalidade, composição dos nutrientes e preparo das refeições. Por isso, o nutricionista é o profissional habilitado para implementar intervenções e educação nutricional para indivíduos com DM. Muitos estudos tentam identificar a melhor composição de nutrientes para indi- víduos com DM, porém, não há proporção ideal aplicável, sendo necessário, então, que macro e micronutrientes sejam prescritos de forma individualizada. Assim, as recomen- dações são semelhantes às para população geral, considerando a faixa etária (Quadro 3). QUADRO 3 – RECOMENDAÇÕES DIETÉTICAS PARA DIABETES MELLITUS Macronutrientes Ingestão recomendada diária Carboidratos (CHO) 45 a 60% Sacarose Máximo de 5 a 10% do VET Frutose Não se recomenda adição aos alimentos Fibra alimentar Mínimo 14g/ 1.000kcal Gordura total (GT) 20 a 35% do VET; dar preferência para ácidos graxos monoinsaturados e poli-insaturados; limitar os saturados em até 10% e isenta de trans Proteína 15 a 20% do VET Micronutrientes Ingestão recomendada diária Vitaminas e minerais Seguem as recomendações da população sem diabetes Legenda: VET – Valor Energético Total (considerar as necessidades individuais, utilizando parâmetros semelhantes aos da população sem diabetes, em todas as faixas etárias). FONTE: Diretrizes [...] (2019, p. 98) 140 3.1 CONTAGEM DE CARBOIDRATOS Como sabemos, os carboidratos são os macronutrientes que mais afetam a glicemia, e quase 100% são convertidos em glicose em um tempo que varia de 15 minutos a duas horas. Antigamente, antes de 1980, dietas restritas em carboidratos eram prescritas para indivíduos com diabetes, a partir de 1980, as coisas mudaram e uma dieta contro- lada em gordura, mas rica em carboidratos “complexos” e fibras alimentares, foi estimu- lada (SBD, 2016). Assim foi desenvolvida a metodologia de contagem de carboidratos, a qual é uma estratégia nutricional que promove uma maior flexibilidade na alimentação e de acordo com o estilo de vida da pessoa diabética. Tem como objetivo encontrar o equilíbrio entre a glicemia, a quantidade de carboidratos ingerida e a quantidade de insulina necessária (SBD, 2016). Todos os pacientes com DM podem utilizar a contagem de carboidratos, porém, é necessário motivação, disciplina, trabalho em equipe e compromisso com o método durante toda a implementação, o que pode ser trabalho no início (SBD, 2016). O nutricionista definirá qual o valor calórico necessário ao dia e também defi- nirá quanto de carboidratos precisa ser consumido diariamente e em cada refeição. É importante que o paciente anote o que consome, para que se conheça as quantidades e a qualidade da distribuição, lembrando de levar em consideração a atividade física e o estilo de vida do indivíduo (SBD, 2016). Depois, é necessário medir as glicemias antes de cada refeição e duas horas depois, para verificar o efeito dos alimentos e da medi- cação sobre a taxa glicêmica. Conhecendo a quantidade de carboidratos ingeridas e o efeito daquele alimento nas taxas glicêmicas, o paciente consegue saber a quantidade de insulina aplicar para se manter na meta glicêmica. Isso traz autonomia para fazer es- colhas alimentares em ambientes sociais, como festas, casamentos, confraternizações etc. (SBD, 2016). Para entender mais sobre contagem de carboidratos assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=JGN3mOOvVwU.DICAS 141 3.2 MICROBIOTA Siljander, Honkanen e Knip (2019) hipotetizam que a microbiota intestinal pode contribuir para o desenvolvimento de DM1 por meio de duas fases: o processo começa no nascimento e termina com o aparecimento dos primeiros autoanticorpos associados ao DM1. Durante essa fase, é importante um treinamento bem-sucedido do sistema imunológico em desenvolvimento para estabelecer a autotolerância e controlar as respostas inflamatórias. Se durante esse processo a microbiota intestinal sofre um desequilíbrio nas proporções de Bacteroides, Bifidobacteria e Eschericia coli, a maturação do sistema imunológico fica comprometida e aumenta a suscetibilidade a doenças imunomediadas (SILJANDER; HONKANEN; KNIP, 2019). O segundo ponto que os autores colocam é a fase de soroconversão para DM1, que parece ser caracterizada por uma diversidade microbiana reduzida e uma disbiose intestinal pró-inflamatória. Sendo esse um desafio para a ciência, a qual ainda precisa explorar os mecanismos por trás dessa propagação da inflamação intestinal local em direção à autoimunidade (SILJANDER; HONKANEN; KNIP, 2019). O processo ainda será logo, estudos terão que ser aprofundados e a ciência ain- da está no início dos entendimentos sobre o papel do microbioma intestinal no desen- volvimento de DM1 e doenças imunomediadas (SILJANDER; HONKANEN; KNIP, 2019). 90 ANOS DE INSULINA Em 1921, três cientistas canadenses chamados Frederick G. Banting, Charles H. Best e James Collip, trabalhando em um laboratório da Universidade de Toronto, descobriram a insulina, um hormônio proteico retirado das ilhotas pancreáticas bovinas que se mostrava eficaz em reduzir a glicemia de cães pancreatectomizados. Em 1922, 15ml desse extrato pancreático foi injetado no adolescente Le- onard Thompson, o qual era portador de diabetes e se apresentava em estado clínico extremamente crítico, porém, sem que se obtivesse resposta em reduzir glicosúria e cetonúria, e produzindo um abscesso estéril no local da aplicação. Ja- mes Collip então conseguiu purificar o extrato pancreático e uma segunda dose foi administrada no jovem Leonard Thompson, o qual teve seu metabolismo regulari- zado e sua vida restituída. Desde então a insulina nos conta uma trajetória brilhante na história da medicina, e o detalhe importante é o espaço de tempo curto em que uma pesquisa básica e seu uso imediato, na beira do leito do paciente. Porém, atualmente vivemos na era da medicina baseada em evidência, de grandes estudos clínicos, 142 nos quais medicamentos e tratamentos são prescritos baseados em estatística e médias. Muitas vezes os estudos clínicos são feitos em ambientes controlados e demonstram eficácia, porém, quando se extrapola para a vida real não conseguem ser reproduzidos. Mas esses resultados geram evidências que se transformam em diretrizes, posicionamentos e recomendações da sociedade científica. Atualmente a tecnologia com toda a sua capacidade computacional, algoritmos e ferramentas de busca está envolvida em um desenvolvimento mais rápido da genômica. E isso pode mudar completamente a forma com se faz ciência. A insulina então contribuiu para se questionar sobre o método científico atual, pois se em 11 de janeiro de 1922 vigorassem os atuais critérios para uso clínico de uma substância, a insulina só teria sido liberada para uso oito a dez anos após e Leonard Thompson não teria contado a mesma história. FONTE: Adaptado de <https://www.diabetes.org.br/publico/ultimas/400-%2090-anos-de- insulina>. Acesso em: 1° mar. 2021. 143 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • A diabetes tipo 1 (DM1) é uma doença heterogênea, trata-se de uma destruição das células beta pancreáticas ocasionando a deficiência absoluta de insulina. • O DM é um importante e crescente problema de saúde, independente do grau de desenvolvimento dos países. • A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a glicemia elevada é o terceiro maior fator de causa de mortalidade prematura superada apenas por pressão arterial aumentada e uso de tabaco. • A maioria dos países despendem de 5 a 20% do seu gasto total com saúde para o tratamento do DM. • A DM1 tem um caráter multifatorial, tendo como base a predisposição genética. • Existem múltiplos genes implicados na suscetibilidade (e resistência) ao DM1, os mais importantes são o antígeno leucocitário humano (HLA). • Existem, também, associações bem elucidadas entre DM1 e outras doenças au- toimunes, como doença autoimune de tireoide, doença de Addison, doença celíaca e gastrite autoimune. • Os fatores genéticos e ambientais exercem influência na perda progressiva da massa de células β-pancreáticas e/ou alteram sua função que se manifesta clinicamente como hiperglicemia. • No DM1 a secreção anormal de insulina pode ocorrer bem antes do diagnóstico, sen- do que um declínio gradual começa pelo menos dois anos antes do diagnóstico e acelerando próximo ao diagnóstico. • Após o diagnóstico inicial e a estabilização metabólica, alguns pacientes com DM1 mantêm a capacidade de produzir insulina endógena. • Já existem vários métodos para otimização metabólica por meio da terapia com insulina. • Existe a possibilidade de injeções diárias, análogo de insulina de ação prolongada fornecendo insulina basal e uma insulina de ação rápida, administrada antes das refeições com base na quantidade de carboidratos consumidos. 144 • O tratamento da DM1 é basicamente o uso da insulina, o qual é imprescindível e deve ser instituído assim que o diagnóstico for feito. • O objetivo do tratamento do DM1 é manter as metas glicêmicas dentro do limite da normalidade. • A terapia nutricional é importante no tratamento do DM1. • O DM1 está diretamente relacionado ao metabolismo dos carboidratos, proteínas e lipídios por isso a nutrição desempenha um importante papel no seu controle. • A abordagem nutricional individualizada precisa ser efetiva, pois requer mudanças no estilo de vida e objetivos que possam resultar em intervenções dietéticas complexas. • Estudos tentam identificar a melhor composição de nutrientes para indivíduos com DM, porém, não há uma proporção ideal aplicável. • A contagem de carboidratos é uma estratégia nutricional que promove maior flexibilidade em sua alimentação, de acordo com o estilo de vida da pessoa diabética. • A microbiota pode contribuir para o aparecimento do DM1. 145 AUTOATIVIDADE 1 Como sabemos, a DM1 tem um caráter multifatorial, tendo como base a predisposição genética, a qual, quando sofre ação de fatores ambientais, desencadeia agressões contra as células β pancreática. Existem múltiplos genes implicados na suscetibilidade (e resistência) ao DM1, os mais importantes são: a) ( ) PDCA. b) ( ) HLA. c) ( ) BLA. d) ( ) DLA. 2 O aparecimento de outras doenças autoimunes contra outros órgãos e tecidos são mais frequentes e ocorrem em 20% a 30% dos portadores de DM1, que tem relação especialmente com o aumento da idade, duração do diabetes e sexo feminino. Quais são essas doenças? I- Doença autoimune de tireoide. II- Doença de Addison. III- Doença celíaca. IV- Gastrite autoimune. V- Doença de Parkinson. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a alternativa I está correta. b) ( ) Apenas as alternativas II e V estão corretas. c) ( ) As alternativas I, II, III e IV estão corretas. d) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 3 Quando a massa e a função das células β-pancreáticas são afetadas, fazem com que os níveis de _____________________ sejam incapazes de responder suficientemente às demandas de glicose, levando a níveis altos de hiperglicemia, configurando assim o DM. Assinale a alternativa que preenche corretamente a lacuna. a) ( ) Leptina. b) ( ) Insulina. c) ( ) Adiponectina. d) ( ) Cortisol. 146 4 O DM pode ser diagnosticado por meio da realização de exames laboratoriais e um conjunto deles é importante para determinar a tolerância à glicose. As categorias de tolerância à glicosesão definidas com base em quais exames? 5 O DM1 tem um caráter multifatorial, tendo como base a predisposição genética, a qual, quando sofre ação de fatores ambientais, desencadeia agressões contra as células β pancreáticas. Com base no seu caráter multifatorial, classifique V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) Após o diagnóstico inicial e a estabilização metabólica, alguns pacientes com DM1 mantêm a capacidade de produzir insulina endógena. ( ) Existe a possibilidade de injeções diárias, análogo de insulina de ação prolongada fornecendo insulina basal e uma insulina de ação rápida, administrada antes das refeições com base na quantidade de lipídios consumidos. ( ) As bombas de infusão contínua de insulina, controlam de forma menos eficaz os níveis de glicose. ( ) Estudos mostram que pacientes adultos com DM1 que fizeram uso da bomba de infusão, apresentaram níveis mais baixos de hemoglobina glicada (HbA1C), atingindo níveis desejados de HbA1C. ( ) A contagem de carboidratos, é uma estratégia nutricional que promove uma menor flexibilidade na alimentação. Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA: a) ( ) V; F; F; V; F. b) ( ) F; F; F; V; F. c) ( ) F; F; F; F; F. d) ( ) V; V; V; F; F. 6 Esquemas terapêuticos diferentes podem ser adotados no tratamento da DM1, mas, na prática, a reposição insulínica é feita com uma insulina basal, uma insulina duran- te as refeições (e doses de insulina necessárias para corrigir as hiperglicemias pré- -prandiais ou no período interalimentar (bolus de correção). De acordo com o expos- to, qual insulina é produzida em laboratório, a partir da terapia de DNA recombinante? 7 O tratamento da DM1 é basicamente o uso da insulina, que é imprescindível e deve ser instituído assim que o diagnóstico for feito. Quais características o esquema terapêutico insulinêmico deve levar em consideração? I- As características das insulinas. II- A idade. III- O estágio puberal. IV- O horário da escola/trabalho. V- A atividade física. VI- O padrão de alimentação e a aceitação do esquema proposto pelo indivíduo ou pela família. 147 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As características I, II e III estão corretas. b) ( ) As características IV, V e VI estão incorretas. c) ( ) Apenas a característica VI está incorreta. d) ( ) Todas as características estão corretas. 8 O peptídeo é secretado pelas células β em uma proporção de um para um com a insu- lina e pode ser analisado. A análise do peptídeo, após o início da doença, mostra que a perda é mais rápida no primeiro ano após o diagnóstico do que no segundo ano, sendo que crianças e adolescentes perdem a produção de insulina endógena em uma taxa maior do que adultos com DM1. De acordo com o exposto, qual é o peptídeo? 9 A compreensão de como a insulina funciona torna o paciente capaz de planejar refeições, lanches e exercícios. O tratamento insulinêmico deve ser ajustado quanto ao estilo de vida e às necessidades do controle glicêmico. Devemos sempre lembrar que o uso é individual e não, o planejamento terapêutico não será acertado de primeira, requerendo, assim, paciência do paciente e do médico. De acordo com o exposto, quais insulinas são produzidas a partir da insulina humana e modificadas de modo a terem ação mais curta ou ação mais prolongada? a) ( ) Insulinas análogas. b) ( ) Análogos lentos. c) ( ) NPH humana. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 148 149 DIABETES MELLITUS TIPO 2 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 TÓPICO 2 - As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são consideradas causas importantes de morbidade e mortalidade no mundo. O Estudo de Carga Global de Doença coloca que as DCNT correspondiam, em 1990, por 43% dos anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (Disability Adjusted Life Years – DALY), e, em 2010, passou a representar 54% (COSTA et al., 2017). A Organização Mundial da Saúde (OMS), coloca que o impacto humano e socioeconômico das DCNT afeta o progresso das Desenvolvimento do Milênio, sendo suas consequências impactadas nos países de baixa e média renda e populações em vulnerabilidade (COSTA et al., 2017). A diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma DCNT e é considerada uma epidemia, que corresponde por, aproximadamente, 90% dos casos de diabetes. As estimativas são alarmantes, no ano de 2030, 439 milhões de indivíduos podem ser diagnosticados com DM2, acredita-se ainda que 50% dos DM2, atualmente, desconhecem que têm a doença instalada (COSTA et al., 2017). Não podemos esquecer que o envelhecimento da população, a prevalência da obesidade e do sedentarismo e os processos de urbanização estão envolvidos com o aumento da incidência e prevalência do DM2 em todo o mundo. Indivíduos com DM2 geram um alto custo social e financeiro ao paciente e ao sistema de saúde, pois o DM2 está associado a complicações graves como insuficiência renal crônica, amputação de membros inferiores, cegueira, doença cardiovascular (DCV), entre outras. Essas complicações acarretam em prejuízos à autonomia e qualidade de vida dos indivíduos (COSTA et al., 2017). 2 FISIOPATOLOGIA NA DIABETES MELLITUS TIPO 2 Como vimos no Tópico 1, o indivíduo está constantemente sujeito a oscilações na concentração plasmática de glicose, já que os níveis glicêmicos aumentam após uma refeição e diminuem progressivamente durante o intervalo entre as refeições (BARREIROS, 2015). O sistema de regulação e contrarregulação é complexo, baseado em hormônios sensíveis a situações extremas, com o objetivo de sempre manter a glicose em concen- tração adequada assegurando a homeostase do organismo (BARREIROS, 2015). 150 Quando o nível de glicose aumenta no sangue (após uma refeição), as células β pancreáticas promovem o aumento da insulina, esse aumento estimula a gliconeogênese e a glicólise com consequente produção de glicogênio e piruvato. Porém, quando o nível plasmático de glicose cai, sintomas de alerta são acionados e mecanismos de contrarregulação envolvem outras respostas hormonais, nas quais as células β pancreáticas reduzem a síntese de insulina, mas o nível de glicose continua caindo, e aí entra um incremento na secreção de glucagon pelas células α pancreáticas, o qual estimula a produção hepática de glicose via glicogenólise (quebra de glicogênio) e via gliconeogênese (convertendo ácido lático, aminoácidos e glicerol). Porém, quando esses sistemas falham, ocorrem o DM (BARREIROS, 2015). A inflamação pode ser considerada um fator comum entre o DM1 e DM2, que leva à destruição das células β pancreáticas. No DM1, por exemplo, as células β danificadas liberam autoantígenos que se apresentam ao T-helper via células apresentadoras de antígenos. Citocinas ativas de liberação de T auxiliares que aumentam a inflamação, por sua vez induzem espécies reativas de oxigênio (ROS, do inglês reactive oxygen specie) e Fas, levando à apoptose das células β. Da mesma forma, no DM2, os tecidos adiposos liberam citocinas que aumentam a inflamação e afetam a sinalização da insulina nas células β via ativação das vias JNK (do inglês c-Jun NH2-terminal kinase) e NF-κB (do inglês, Nuclear factor-κB) (Figura 2) (TAN et al., 2019). FIGURA 2 – INFLAMAÇÃO E DM Legenda: APC - Célula apresentadora de antígeno; TNF-α /-β - fator de necrose tumoral α e β; MCP-1 - proteína quimioatrativa de monócitos-1; IL-6 – interleucina-6; IL1β - interleucina-1β; PAI- 1 - inibidor-1 do ativador do plasminogênio; RI – Resistência à insulina. FONTE: Tan et al. (2019) 151 O DM2 corresponde a 90-95% dos casos de DM. É mais comum no adulto depois dos 40 anos, mas pode ocorrer em populações com elevada prevalência da doença. Trata-se de uma doença silenciosa, que passa despercebida durante anos, e seu diagnóstico só é feito quando surgem complicações ou valores alterados nos exames de sangue (BARREIROS, 2015). Está associada à história familiar, envelhecimento, estilo de vida, sedentarismo e obesidade abdominal. É caracterizada pela resistênciaperiférica à insulina, princi- palmente nas células musculares, além disso, uma produção de glicose pelo fígado e alteração na secreção pancreática de insulina (BARREIROS, 2015). Nos estágios iniciais, os indivíduos apresentam níveis de insulina normais ou pouco elevados em jejum, mas que gradualmente atingem concentrações despropor- cionalmente elevadas em relação à glicose no sangue. Esse fato compromete as células β pancreáticas até que não tenha insulina suficiente para absorção de glicose pelas cé- lulas corporais e se inicie a síntese hepática de glicose aumentando cada vez mais sua concentração sanguínea (BARREIROS, 2015). Para identificar essas alterações, é necessário fazer um rastreamento que consiste em um conjunto de procedimentos que tem como objetivo diagnosticar o DM2 ou a condição de pré-diabetes em indivíduos assintomáticos. Isso é importante para a saúde pública, pois a possibilidade de diagnóstico e tratamento precoce, minimiza os riscos de complicações cardiovasculares, por exemplo (DIRETRIZES [...], 2019). Esse procedimento de rastreamento deve ser realizado em uma população de alto risco, selecionada de acordo com os escores dos questionários como Finnish Diabetes Risk Score (FINDRISC) ou o da Associação Americana de Diabetes (American Diabetes Association – ADA), ambos já validados. Se não houver a possibilidade de aplicação dos questionários, o rastreamento pode ser feito em indivíduos acima de 45 anos, ou qualquer idade, com sobrepeso/obesidade, hipertensão arterial ou história familiar de DM2 (DIRETRIZES [...], 2019). Outros fatores de risco que devem ser levados em consideração são a história prévia de diabetes gestacional, uso de medicações como corticoides, diuréticos tiazídicos, antipsicóticos e atentar-se para a presença de comorbidades associadas ao DM2 como periodontite, infecções micóticas, hepatite C e infecções virais crônicas. Se fatores de risco cardiovasculares forem identificados, estes devem ser tratados corretamente (DIRETRIZES [...], 2019). Os exames realizados para o diagnóstico de DM2 podem ser usados no rastre- amento como: glicemia de jejum, glicemia de duas horas pós-sobrecarga ou hemoglo- bina glicada (HbA1c). 152 A glicemia de duas horas pós-sobrecarga diagnostica mais casos que os outros testes, mas é o menos utilizado. Quando mais de um teste é feito e ocorrem resultados diferentes confirmados, considera-se aquele que diagnostica o DM2 ou o pré-diabetes (DIRETRIZES [...], 2019). Confira no Quadro 4 os critérios diagnósticos para o DM2. QUADRO 4 – CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA DM2 Glicose em jejum (mg/dL) Glicose 2 horas pós sobrecarga com 75g de glicose (mg/ dL) Glicose ao acaso (mg/ dL) HbA1c (%) Observações Normoglicemia < 100 < 140 - < 5,7 OMS emprega valor de corte de 110 mg/ dL para normalidade da glicose em jejum. Pré-diabetes ou risco aumentado para DM ≥ 100 e < 126* ≥ 140 e <200# - ≥ 5,7 e < 6,5 Positividade de qualquer dos parâmetros confirma diagnóstico de pré- diabetes. Diabetes estabelecido ≥ 126 ≥ 200 ≥ 200 com sintomas inequívocos de hiperglicemia ≥ 6,5 Positividade de qualquer dos parâmetros confirma diagnóstico de DM. Método de HbA1c deve ser o padronizado. Na ausência de sintomas de hiperglicemia, é necessário confirmar o diagnóstico pela repetição de testes. Legenda: OMS: Organização Mundial da Saúde; HbA1c: hemoglobina glicada; DM: diabetes mellitus. * Categoria também conhecida como glicemia de jejum alterada. # Categoria também conhecida como intolerância oral à glicose. FONTE: Diretrizes [...] (2019, p. 24) 2.1 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO O tratamento farmacológico do diabetes mellitus tipo 2, também pode ser feito através de insulinoterapia, porém, os esquemas de aplicação podem variar. Em alguns pacientes, os níveis de glicemias não controlados adequadamente com a modificação no estilo de vida e hipoglicemiantes orais não insulínicos, possuem a necessidade de acrescentar a insulina quando a glicemia permanecer sem controle, mesmo quando há a utilização de três fármacos ou mais (BRUTSAERT, 2019). 153 Os esquemas insulínicos variam de uma única injeção/dia de insulina de ação longa ou intermediária (geralmente ao ir dormir) até esquemas com múltiplas doses, utilizados para pacientes dom DM1, mas, geralmente, prefere-se utilizar o esquema mais simples e eficaz. Como esses pacientes podem apresentar uma resistência à insulina, alguns precisam de doses mais altas (> 2 U/Kg/dia), e uma complicação comum é o ganho de peso, pela redução da perda de glicose na urina e à melhora na eficiência metabólica (BRUTSAERT, 2019). Além da insulina, os pacientes DM2 contam com o auxílio de hipoglicemiantes orais, que são praticamente a base do tratamento do DM2 associados aos agonistas do receptor de peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1). Os hipoglicemiantes orais podem aumentar a secreção pancreática de insulina (secretagogos), sensibilizar tecidos periféricos à ação da insulina (sensibilizadores), alterar a absorção gastrointestinal de glicose e aumentar a glicosúria. Sendo que os fármacos com diferentes mecanismos de ação podem ser combinados, apresentando uma ação sinérgica (BRUTSAERT, 2019). As sulfonilreias são da classe secretagogos, ou seja, estimulam a secreção de insulina pelas células β pancreáticas e podem também melhorar a função periférica e a sensibilidade hepática à insulina reduzindo assim a toxicidade da glicose (BRUT- SAERT, 2019). A utilização das sulfonilreias está bem estabelecido há décadas, mas apre- senta riscos de hipoglicemia, principalmente, em idoso e multimórbidos (PFEIFFER; KLEIN, 2014). Essa hipoglicemia, causada por fármacos de longa ação pode persistir por dias após a interrupção do tratamento, ocasionalmente pode causar incapacidades neurológicas permanentes e levar a morte. Indivíduos que utilizam as sulfonilreias em monoterapia acabam precisando de outros fármacos para atingir uma glicemia normal, sugerindo que as sulfonilreias podem esgotar a função das células β (BRUTSAERT, 2019). Além disso, essa classe medicamentosa promove um ganho de peso e parece perder a eficácia mais rapidamente que a metformina (PFEIFFER; KLEIN, 2014). Os secretagogos de insulina de ação rápida, trabalham de forma semelhante às sulfonilreias estimulando a secreção de insulina, o diferencial é que apresentam ação mais rápida e podem estimular mais a secreção de insulina durante as refeições do que em outros momentos. Sendo assim, são eficazes em reduzir a hiperglicemia pós- prandial e parecem causar menor risco de hipoglicemia. Os indivíduos que fazem uso dos secretagogos podem ganhar peso, porém, menos do que aqueles que fazem uso de sulfonilreias (BRUTSAERT, 2019). 154 Já as biguanidas agem de forma diferente, reduzindo a glicemia plasmática por diminuírem a produção hepática de glicose (gliconeogênese e glicogenólise). Elas sensibilizam perifericamente a insulina, mas essa captação periférica de glicose pode ser resultado da redução de glicose decorrente dos seus efeitos hepáticos. Também possuem a capacidade de diminuir os níveis de lipídios e, consequentemente, diminuir a absorção de nutrientes no trato gastrointestinal (TGI), aumentar a sensibilidade das células β pancreáticas à glicose circulante e reduzir as concentrações de PAI-1, exercendo um efeito antitrombótico. A metformina é um medicamento da classe das biguanidas, e é tão eficaz quanto as sulfonilreias na redução da glicose plasmática, raramente causa hipoglicemia e pode ser utilizada com segurança com outros fármacos e insulina, ela não causa ganho de peso, promove uma perda ponderal por suprimir o apetite, porém, os efeitos colaterais sobre o TGI são dispepsia e diarreia, que podem até desaparecer com o tempo. Além disso, causa má absorção de B12 (BRUTSAERT, 2019). A classe das tiazolidinedionas (TZD) tem como objetivo reduzir a resistência periférica à insulina, mas seu mecanismo específico aindanão é bem elucidado. Sugere-se que esse fármaco se liga a um receptor nuclear primário presente nas células adiposas como o PPAR-γ (proliferadores do peroxissoma gama), que está envolvido na transcrição de genes que regulam o metabolismo da glicose e dos lipídios. A classe das TZD aumenta a concentração de colesterol HDL, reduzem triglicerídeos, podem apresentar efeitos anti-inflamatórios e antiateroscleróticos (BRUTSAERT, 2019). Os efeitos colaterais das TZD podem ser edema periférico, especialmente em pacientes que utilizam insulina e pode agravar a insuficiência cardíaca em pacientes suscetíveis. Demonstra ganho de peso substancial (> 10 Kg) em alguns indivíduos (BRUTSAERT, 2019). Existem também os inibidores da α-glicosidase, sendo que a acarbose é o principal inibidor da -glicosidase retardando a digestão dos carboidratos, a absorção da glicose e reduzindo os níveis de glicose pós-prandial (UPADHYAY et al., 2018). Essa classe de medicamentos inibe competitivamente enzimas intestinais que hidrolisam os carboidratos da alimentação, sendo assim, os carboidratos são digeridos e absorvidos mais lentamente, reduzindo assim as concentrações pós-prandiais de glicose (BRUTSAERT, 2019). Através do seu mecanismo de ação não causam hipoglicemia (UPADHYAY et al., 2018). O problema está na sua eficácia e nos efeitos adversos, visto que os inibidores da α-glicosidase são menos eficazes que outros fármacos e os pacientes abandonam o tratamento por apresentarem dispepsia, flatulência e diarreia. Porém, são fármacos seguros e podem ser usados em associação a outros fármacos orais e insulina (BRUTSAERT, 2019). 155 Outra classe de medicamentos são os inibidores da dipeptil peptidase 4 (DPP- 4), que são uma enzima da membrana plasmática amplamente expressa em todo o organismo, principalmente nos linfócitos T circulantes, pâncreas exócrino, TGI e cérebro. A DPP-4 afeta polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e peptídeo semelhante ao glucagon (GLP-1), mas também outras moléculas como o polipeptídeo pancreático (PP), quimiocinas e substância P. O mecanismo de ação resumido é a inibição da degradação enzimática das incretinas, incluindo GLP-1 e GIP, aumentando o nível de GLP-1 bioativo endógeno, consequentemente, aumenta a secreção de insulina de forma dependente da glicose (UPADHYAY et al., 2018). Um dos efeitos colaterais é o aumento do risco de pancreatite, mas, de qualquer forma, são considerados seguros e bem tolerados (BRUTSAERT, 2019). A glicose é filtrada pelos rins e é reabsorvida no túbulo convoluto proximal. A quantidade de glicose filtrada aumenta linearmente com o aumento da concentração de glicose circulante até que o máximo de transporte de glicose seja alcançado. Essa reabsorção ocorre via cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT2), que são proteínas transportadoras ligadas à membrana de alta capacidade e baixa afinidade. Os SGLT2 são responsáveis por até 90% da reabsorção de glicose e atuam independentemente da insulina. Em pacientes com DM2 os SGLT2 são regulados positivamente, resultando em um aumento de 20% no transporte máximo de glicose, aumentando, então, a reabsorção de glicose (UPADHYAY et al., 2018). Os inibidores de SGLT2, bloqueiam o SGLT2 no túbulo proximal do rim, bloque- ando assim a reabsorção de glicose, causando glicosúria e diminuindo a glicemia. O pro- blema está nos efeitos colaterais mais comuns – infecções geniturinárias –, principal- mente infecções fúngicas, hipotensão ortostática e cetoacidose diabética em pacientes DM1 e DM2 (UPADHYAY et al., 2018; BRUTSAERT, 2019). Outra classe são os agonistas de GLP-1, os quais aumentam a secreção insulino- dependente da glicose e desaceleram o esvaziamento gástrico. Esses agonistas podem reduzir o apetite, promover perda ponderal e estimular a proliferação das células β pancreáticas. Os efeitos adversos são relacionados ao TGI, como náuseas e vômitos, e também causam um ligeiro aumento do risco de pancreatite (BRUTSAERT, 2019). E, por último, os análogos da amilina. A amilina é liberada junto com a insulina pelas células β pancreáticas, portanto, quando há disfunção nas células β pancreáticas ocorre deficiência de amilina e insulina. A amilina reduz o esvaziamento gástrico, diminuindo a taxa de absorção dos alimentos, possivelmente também aumenta a saciedade e diminui a ingestão calórica (UPADHYAY et al., 2018). Assim, os seus análogos mimetizam a amilina, ajudando a regular e controlar as concentrações da glicemia (BRUTSAERT, 2019). 156 Leia mais sobre os tratamentos para o DM2 acessando os artigos indicados a seguir: • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3952010/ • https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28920861/. 3 DIETOTERAPIA NA DIABETES MELLITUS TIPO 2 Que os fatores dietéticos são muito importantes no controle e prevenção do DM já sabemos, porém, apesar de todo o progresso nas orientações dietéticas baseadas em evidências, alguns desafios e controvérsias existem (FOROUHI et al., 2018). Saber o que comer e manter o padrão alimentar ideal é um desafio, por isso a ideia de fazer uma dieta para uma doença crônica, como o DM, pode afastar muitas pessoas. A terapia nutricional foi estabelecida para guiar uma abordagem sistemática, baseada em evidências, para o controle do DM através da dieta, sua eficácia foi comprovada, mas ocorrem dificuldades importantes nesse processo (FOROUHI et al., 2018). A maioria das diretrizes recomendam o início da farmacoterapia após as primeiras mudanças nutricionais e de estilo de vida (introdução da prática de atividade física), porém, isso não é seguido, visto que a maioria dos médicos não têm expertise em intervenções nutricionais tornando uma barreira para orientar esse paciente de forma eficaz (FOROUHI et al., 2018). Outro ponto importante é que conversar sobre nutrição com o paciente consome muito tempo, é claro que muitos locais contam com uma equipe multidisciplinar com nutricionistas, médicos e educadores físicos, mas longe desses grandes centros a realidade é outra, o paciente sai da consulta médica com um plano alimentar padrão impresso, ou apenas com a prescrição dos medicamentos sem nem receber orientações sobre alimentação (FOROUHI et al., 2018). Outro problema complexo é aumentar a ingestão para cinco porções/dia de frutas e vegetais, como é recomendado pela maioria das diretrizes. O custo dessas cinco porções/dia pode comprometer a renda familiar em até 52% em países de baixa renda. Puxando o gancho pelo valor dos alimentos, um mercado de alimentos rotulados “para diabéticos” foi estabelecido, onde os produtos são caros e não são mais saudáveis, podendo até muitas vezes serem piores que os alimentos normais (FOROUHI et al., 2018). Diante do abordado anteriormente, é de suma importância o papel do profissional nutricionista no tratamento do paciente com DM2 e, para isso, é importante conhecer a dietoterapia que envolve o DM2. DICAS 157 Vimos, no Tópico 1, a dietoterapia relacionada ao DM1, e a dietoterapia relacionada ao DM2 não é diferente, pois a Sociedade Brasileira de Diabetes traz as recomendações dietéticas para pacientes com DM de uma forma geral, sendo que as recomendações são semelhantes às para a população em geral, como podemos rever no Quadro 5. QUADRO 5 – RECOMENDAÇÕES DIETÉTICAS PARA DIABETES MELLITUS Macronutrientes Ingestão recomendada diária Carboidratos (CHO) 45 a 60% Sacarose Máximo de 5 a 10% do VET Frutose Não se recomenda adição aos alimentos Fibra alimentar Mínimo 14g/ 1.000kcal Gordura total (GT) 20 a 35% do VET; dar preferência para ácidos graxos monoinsaturados e poli-insaturados; limitar os saturados em até 10% e isenta de trans Proteína 15 a 20% do VET Micronutrientes Ingestão recomendada diária Vitaminas e minerais Seguem as recomendações da população sem diabetes Legenda: VET – Valor energético total (considerar as necessidades individuais, utilizando parâmetros semelhantes aos da população sem diabetes, em todas as faixasetárias). FONTE: SBD (2019) A American Diabetes Association concluiu que não há uma composição ideal de macronutrientes para todas as pessoas com DM, devendo prestar atenção às metas individuais recomendadas (FOROUHI et al., 2018). Dietas de baixo teor de carboidratos e índice glicêmico para controle de peso, ganharam popularidade, especialistas citam que uma dieta pobre em carboidratos e baixa ingestão de gordura saturada é a melhor (FOROUHI et al., 2018), porém, devemos lembrar de analisar o indivíduo como um todo, levando em consideração sua rotina, hábitos de vida e medicamentos utilizados. Corroborando com o citado anteriormente, Ojo et al. (2018), em uma revisão sistemática e metanálise, demonstraram que as dietas com baixo índice glicêmico são mais eficazes no controle da hemoglobina glicada (HbA1c) e da glicose em jejum, em comparação com as dietas controle em pacientes com DM2. Sabemos que o consumo excessivo de carboidratos processados e de alto índice glicêmico, leva ao aumento da secreção de insulina, que, por sua vez, promove a oxidação da gordura, facilita a lipogênese “de novo” e promove o armazenamento de gordura, ao mesmo tempo que favorece a inflamação, resistência à insulina e estresse oxidativo (PUJOL, 2017). 158 Quando o carboidrato dietético é restrito, a insulina diminui, os processos metabólicos mudam e favorecem a oxidação de gordura, como consequência esses indivíduos apresentam melhora no perfil lipídico, melhora dos processos lipotóxicos que prejudicam as funções das células β pancreáticas e a ação da insulina (PUJOL, 2017). A perda de peso para pacientes com DM2 é recomendada, visto que a gordura visceral, principalmente, está relacionada ao aparecimento de DM2. Porém, é necessário prestar atenção quanto à estratégia dietética a ser utilizada, devido a fatores como: adesão ao longo do tempo, a qualidade da dieta com baixo teor de carboidratos e gorduras (FOROUHI et al., 2018) Assim, a melhor abordagem nutricional para o paciente com o DM2 é uma avaliação individual bem-feita e um foco na alimentação que mais permite ao indivíduo limitar a ingestão calórica e melhorar a qualidade dos macronutrientes, evitando os carboidratos refinados, por exemplo (FOROUHI et al., 2018). Chester et al. (2019) em um estudo de revisão colocaram que o DM2 é uma condição complexa, em que a adesão do paciente ao plano alimentar é de extrema importância. Os autores analisaram três dietas (low carb e cetogênica, vegana e mediterrânea), e verificaram que todas as três mostraram uma melhora no controle glicêmico e perda de peso, porém, a dieta mediterrânea é mais moderada, inclui todos os grupos alimentares e, consequentemente, se torna mais fácil de o indivíduo manter ao longo prazo. A dieta mediterrânea possui as características desejadas, como: baixo teor de carboidratos refinados, alto teor de fibras, moderado teor de gorduras (principalmente monoinsaturadas) e teor moderado a alto de vegetais e proteínas. A adesão às práticas dietéticas saudáveis, como a dieta mediterrânea, pode atrasar o processo de DCNT, incluindo DM2 (ESPOSITO; GIUGLIANO, 2014). Nos últimos anos, houve um crescente foco na microbiota intestinal como um fator importante no desenvolvimento de doenças inflamatórias. Já se sabe que a microbiota intestinal se relaciona com a nutrição, ambiente e genética do hospedeiro para o desenvolvimento de distúrbios metabólicos relacionados à obesidade. Woldeamlak, Yirdaw e Biadgo (2019) enfatizam que a disbiose microbiana do trato gastrointestinal aumenta a captação de energia e expressão de um fenótipo obeso. Mudanças na razão Bateroidetes/Firmicutes associam-se à maior expressão de genes microbianos que codificam enzimas relacionadas ao metabolismo dos carboidratos. O microbioma de pessoas obesas difere do microbioma de indivíduos magros e são caracterizados por uma prevalência mais baixa de Bateroidetes e mais alta de Firmicutes. 159 Essa alteração na razão Bateroidetes/Firmicutes é um fator ambiental que fornece material genético para uma capacidade aumentada de captar energia da die- ta. Essa maior captação de energia promove a lipogênese e aumenta o número e o tamanho das gotículas de lipídeos nos tecidos extra intestinais (WOLDEAMLAK; YIR- DAW; BIADGO, 2019). As alterações no perfil da microbiota e consequentemente no perfil de fermen- tação do microbioma alteram a permeabilidade intestinal e a homeostase energética, o que causa endotoxemia, inflamação de baixo grau e obesidade. Isso tudo acarreta uma hiperglicemia, hiperlipidemia que favorece a obesidade e pode levar em últimos casos a uma resistência à insulina (WOLDEAMLAK; YIRDAW; BIADGO, 2019). Assim, é importante uma reintegração da microbiota intestinal por meio da uti- lização de prebióticos e probióticos no tratamento do paciente com DM2. Sendo impor- tante a detecção precoce e uma triagem adequada para se identificar o processo de dis- biose e melhorar a sobrevida desse indivíduo (WOLDEAMLAK; YIRDAW; BIADGO, 2019). PESSOAS COM DIABETES TÊM O DOBRO DE RISCO PARA INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO Marcelo Bertoluci Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes há a necessidade de um bom controle da doença para prevenir complicações cardiovasculares. As doenças cardiovasculares são as complicações decorrentes do diabetes que mais levam a óbito, sabia? O International Diabetes Federation (IDF) coloca que 80% dos pacientes com diabetes tipo 2 morrem por causas relacionadas a problemas cardíacos, sendo que esse índice é superior aos óbitos ligados ao HIV, à tuberculose e ao câncer de mama. Indivíduos diabéticos conseguem reduzir o risco de infarto com mudanças no estilo de vida, que incluem: alimentação saudável, atividade física, parar de fumar, fazer exames periódicos e utilizar medicações preventivas prescritas pelo médico que o acompanha. O médico endocrinologista Dr. Marcello Bertoluci, explica que a incidência de complicações cardiovasculares é grande no diabetes devido ao aumento dos níveis de glicose no sangue que, somados ao colesterol e a pressão arterial promovem a formação de placas de colesterol que danificam e entopem as artérias. 160 Esses níveis muito altos de glicose no sangue, promovem uma série de eventos como: o colesterol se torna mais agressivo, formando mais placas nas artérias coronárias, favorece a maior produção de coágulos que também podem obstruir as artérias, e isso gera falta de oxigênio para o tecido e o tecido sadio morre, sendo substituído por uma cicatriz, que dependendo da extensão pode ser fatal ou deixar sequelas irreversíveis, como uma insuficiência cardíaca, por exemplo, explica o Dr. Marcelo. Tudo isso somado aos fatores que elevam o risco como hipertensão, colesterol alto, obesidade, sedentarismo, tabagismo e o histórico familiar de infarto agudo do miocárdio se potencializam quando a pessoa tem diabetes e devem ser controlados com rigor, sendo necessário acompanhamento médico periódico. É importante salientar que os sintomas do infarto agudo do miocárdio podem ser diferentes nas pessoas com DM. Os sinais clássicos nesses indivíduos como a dor forte no peito irradiando para o braço podem não ser muito evidentes. Em algumas pessoas a falta de ar (dispneia) surgida sem explicação, sensação de mal- estar generalizado com sudorese, náuseas e vômitos, um desmaio inexplicado e até mesmo uma descompensação do controle da glicose podem ocorrer. Isso acontece por conta de outra complicação do diabetes, a neuropatia autonômica, uma disfunção que afeta o sistema nervoso simpático e parassimpá- tico, isso faz com que as pessoas sintam menos dor e o quadro clínico do infarto fique mascarado. É importante orientar o paciente que, se sintomas estranhos sur- girem repentinamente ele deve procurar ajuda imediata em uma unidade médica de emergência. Outra complicação que devemos nos atentar é o acidente vascular cerebral (AVC). No AVC os sinais mais comuns são perda ou diminuição súbita da força ousurgimento de dormência em apenas um lado do corpo, como braço ou perna. Podem ocorrer também fala arrastada, confusão mental com troca de palavras, desvio na boca, ou desmaio. O paciente que apresenta esses sintomas precisa de atendimento imediato, pois a reversão tardia do fluxo sanguíneo cerebral pode deixar sequelas irreversíveis ou ser fatal. A Insuficiência vascular periférica é outra complicação vascular que pode ocorrer. As artérias que nutrem os membros inferiores são obstruídas levando à gangrena e a amputações de membros inferiores, por isso o paciente com diabetes deve fazer exames periódicos dos pés. 161 O Dr. Marcello enfatiza que, na população em geral, essas complicações vasculares afetam mais os homens do que as mulheres, porém, quando se trata de diabetes essas diferenças desaparecem. Homens e mulheres acabam tendo incidências semelhantes de infarto agudo do miocárdio e AVC, mas representam o dobro quando comparados a pessoas sem diabetes. E vale salientar que quando ocorre em mulheres elas tendem a ser mais graves, com maior mortalidade. FONTE: Adaptado de <https://www.diabetes.org.br/publico/noticias/2041-pessoas-com- diabetes-tem-o-dobro-de-risco-para-infarto-agudo-do-miocardio>. Acesso em: 1° mar. 2021. 162 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são consideradas uma causa impor- tante de morbidade e mortalidade no mundo. • A Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma das DCNT e considerada uma epidemia, que corresponde por aproximadamente 90% dos casos de diabetes. • O DM2 corresponde a 90 a 95% dos casos de DM. É mais comum em adultos depois dos 40 anos, mas pode ocorrer em populações com elevada prevalência da doença. • Não podemos esquecer que o envelhecimento da população, a prevalência da obe- sidade e do sedentarismo e os processos de urbanização estão envolvidos com o aumento da incidência e prevalência do DM2 em todo o mundo. • O indivíduo está constantemente sujeito a oscilações na concentração plasmática de glicose. • Quando o nível de glicose aumenta no sangue (após uma refeição), as células β pan- creáticas promovem o aumento da insulina, este aumento estimula a gliconeogênese e a glicólise com consequente produção de glicogênio e piruvato. • A inflamação pode ser considerada um fator comum entre o DM1 e DM2, o que leva à destruição das células β pancreáticas. • Está associada à história familiar, envelhecimento, estilo de vida, sedentarismo e obesidade abdominal. • Nos estágios iniciais, os indivíduos apresentam níveis de insulina normais ou pouco elevados em jejum, mas que gradualmente atingem concentrações desproporcional- mente elevadas em relação a glicose no sangue. • Os exames realizados para o diagnóstico de DM2 podem ser usados no rastreamento como: glicemia de jejum, glicemia de duas horas pós-sobrecarga ou hemoglobina glicada (HbA1c). • O tratamento farmacológico do diabetes mellitus tipo 2, também pode ser feito através de insulinoterapia, porém, os esquemas de aplicação podem variar. • Além da insulina, os pacientes DM2 contam com o auxílio de hipoglicemiantes orais. 163 • Saber o que comer e manter o padrão alimentar ideal é um desafio, por isso a ideia de fazer uma dieta para uma doença crônica como o DM pode afastar muitas pessoas. • A maioria das diretrizes recomendam o início da farmacoterapia após as primeiras mudanças nutricionais e de estilo de vida (introdução da prática de atividade física), porém, isso não é seguido. • A dietoterapia relacionada ao DM2 não é diferente da DM1, pois a Sociedade Brasileira de Diabetes traz as recomendações dietéticas para pacientes com DM de uma forma geral, sendo que as recomendações são semelhantes às da população em geral. • Não há uma composição dietética ideal para pessoas com DM, devendo prestar atenção às metas individuais recomendadas. • Quando o carboidrato dietético é restrito a insulina diminui, os processos metabólicos mudam, e favorecem a oxidação de gordura, como consequência esses indivíduos apresentam melhora no perfil lipídico, melhora dos processos lipotóxicos que preju- dicam as funções das células β pancreáticas e a ação da insulina. • A perda de peso para pacientes com DM2 é recomendada, visto que a gordura visceral, principalmente, está relacionada ao aparecimento de DM2. • A dieta mediterrânea possui as características desejadas, como: baixo teor de carboidratos refinados, alto teor de fibras, moderado teor de gorduras (principalmente monoinsaturadas) e teor moderado a alto de vegetais e proteínas. • Já se enfatiza que a disbiose microbiana do trato gastrointestinal aumenta a captação de energia e expressão de um fenótipo obeso. • É importante uma reintegração da microbiota intestinal por meio da utilização de prebióticos e probióticos no tratamento do paciente com DM2. 164 AUTOATIVIDADE 1 Com o envelhecimento da população, a prevalência da obesidade e do sedentarismo e os processos de urbanização estão envolvidos com o aumento da incidência e prevalência do DM2 em todo o mundo. Indivíduos com DM2 geram um alto custo social e financeiro ao paciente e ao sistema de saúde, pois o DM2 está associado a complicações. De acordo com o exposto, quais as complicações graves em que o DM2 está envolvido? 2 O sistema de regulação e contrarregulação é complexo, baseado em __________________ sensíveis a situações extremas, com o objetivo de sempre manter a glicose em con- centração adequada assegurando a homeostase do organismo. Assinale a alternati- va que preenche a lacuna corretamente. a) ( ) Citocinas. b) ( ) Hormônios. c) ( ) Células. d) ( ) Mucosa. 3 A inflamação é um fator comum entre os dois tipos de DM, na DM2, em específico, o tecido adiposo libera citocinas que aumentam a inflamação e afetam a sinalização de insulina, nas células especializadas em secretar insulina. De acordo com o exposto, quais células importantes a inflamação destrói, no caso da DM? a) ( ) Células de defesa. b) ( ) Células β pancreáticas. c) ( ) Células langerhan. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 4 A DM2 é uma doença silenciosa, que passa despercebida durante anos, e seu diag- nóstico só é feito quando surgem complicações ou valores alterados nos exames de sangue. De acordo com o exposto, qual é a principal característica metabólica da DM2? 165 5 Para identificar as alterações do DM2, é necessário fazer um rastreamento que con- siste em um conjunto de procedimentos que tem como objetivo diagnosticar o DM2 ou a condição de pré-diabetes em indivíduos assintomáticos. Isso é importante para a saúde pública, pois a possibilidade de diagnóstico e tratamento precoce, minimiza os riscos de complicações cardiovasculares, por exemplo. De acordo com o exposto, o procedimento de rastreamento do DM2 deve ser realizado em qual população? a) ( ) Baixo risco. b) ( ) Médio risco. c) ( ) Alto risco. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 6 Fatores de risco devem ser levados em consideração no diagnóstico do DM2, como: a história prévia de diabetes gestacional, uso de medicações como corticoides, diuréticos tiazídicos, antipsicóticos e atentar-se para a presença de comorbidades associadas ao DM2 como periodontite, infecções micóticas, hepatite C e infecções virais crônicas. Se fatores de risco cardiovasculares forem identificados, estes devem ser tratados corretamente, porém exames laboratoriais também devem ser solicitados. Quais exames são realizados para o diagnóstico de DM2? Analise as alternativas a seguir: I- Glicemia de jejum. II- Glicemia de 2 horas pós-sobrecarga. III- Hemoglobina glicada (HbA1c). Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O item I está correto. b) ( ) O item III está incorreto. c) ( ) Todas os itens estão corretos. d) ( ) Nenhum dos itens está correto. 7 O tratamento farmacológico do DM2 pode ser feito através da insulina, com variação nos esquemas de aplicação. Porém, em alguns pacientes, os níveis da glicemia não são controladosadequadamente havendo a necessidade de combinar fármacos. Além da insulina, os pacientes DM2 contam com o auxílio de qual classe medicamentosa? a) ( ) Inibidores da bomba de prótons. b) ( ) Hipoglicemiantes orais. c) ( ) Anticoagulantes. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 166 8 Quando o __________________ dietético é restrito à __________________ diminui, os processos metabólicos mudam, e favorecem a oxidação de __________________, como consequência esses indivíduos apresentam melhora no perfil __________________, melhora dos processos lipotóxicos que prejudicam as funções das células β pancreáticas e a ação da insulina. Assinale a alternativa que melhor responde as lacunas: a) ( ) Carboidrato; insulina; gordura; lipídico. b) ( ) Proteína; insulina; gordura; lipídico. c) ( ) Carboidrato; insulina; gordura; glicêmico. d) ( ) Carboidrato; glicose; gordura; lipídico. 9 Dietas de baixo teor de carboidratos e índice glicêmico para controle de peso ganha- ram popularidade no controle da DM2. Porém, qual é a melhor abordagem nutricional para o paciente com DM2? 10 As alterações no perfil da microbiota e consequentemente no perfil de fermentação do microbioma alteram a permeabilidade intestinal e a homeostase energética, o que causa endotoxemia, inflamação de baixo grau e obesidade. Isso tudo acarreta uma hiperglicemia, hiperlipidemia que favorece a obesidade e pode levar em últimos casos a uma resistência à insulina. É importante uma reintegração da microbiota intestinal por meio da utilização de quais substâncias no tratamento do paciente com DM2? a) ( ) Probióticos e prebióticos. b) ( ) Antibióticos. c) ( ) Hipoglicemiantes. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 167 TÓPICO 3 - SÍNDROME METABÓLICA 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 Nos últimos anos, a Síndrome Metabólica (SM) foi alvo de muitos estudos. Foi definida como um grupo de fatores de risco inter-relacionados de origem metabólica que contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCV) e DM2 (PENALVA, 2008). São considerados fatores de risco metabólico: dislipidemia aterogênica (hipertrigliceridemia, níveis elevados de apolipoproteína B, LDL colesterol com partículas pequenas e densas, níveis baixos de HDL colesterol), hipertensão arterial, hiperglicemia e um estado pró-inflamatório e pró-trombótico (PENALVA, 2008). Outro ponto importante, não é apenas a quantidade de gordura corporal, mas também a sua distribuição. Quando a gordura é acumulada no abdômen, caracteriza-se obesidade central ou androide, frequentemente associado ao DM2 e outros problemas metabólicos, como hipertensão arterial e dislipidemia (altos níveis de triglicerídeos e baixos níveis de HDL), doença cardiovascular aterosclerótica (COSTA; PAULA, 2006). Os estudos hipotetizam que a resistência à insulina seja a ligação entre os fatores que integram a SM, e foi Reaven (1998 apud COSTA; PAULA, 2006) que descreveu a associação entre esses fatores denominando de síndrome X e que incluía a intolerância à glicose, hipertensão arterial, dislipidemia e doença cardiovascular aterosclerótica, porém, com o passar dos anos, esse conceito foi ampliado e agora outras comorbidades fazem parte desse contexto, recebendo o nome de SM. 2 FISIOPATOLOGIA DA SÍNDROME METABÓLICA Os mecanismos que envolvem a SM são complexos e ainda precisam ser totalmente elucidados. Discute-se se os componentes individuais da SM representam patologias distintas ou manifestações de um mecanismo patogênico comum (ROCHLANI et al., 2017). Os fatores ambientais e o estilo de vida, como o consumo excessivo de calorias e a falta de atividade física podem ser os principais contribuintes. 168 Como já vimos, o acúmulo de gordura visceral, no abdômen, demonstra ser um gatilho primário para a maioria das patologias envolvidas na SM, confirmando a importância da ingestão calórica excessiva como um dos principais fatores. De todos os mecanismos propostos, a resistência à insulina, a ativação neuro-hormonal e a inflamação crônica parecem ser os principais pilares na iniciação, progressão e transição de SM para DCV (ROCHLANI et al., 2017) (Figura 3). FIGURA 3 – PILARES DA SÍNDROME METABÓLICA FONTE: Rochlani et al. (2017) Se regatarmos alguns mecanismos das aulas de bioquímica, vamos lembrar que a insulina aumenta a captação de glicose no músculo e no fígado e inibe a lipólise e a gliconeogênese hepática. Quando ocorre a resistência à insulina no tecido adiposo, prejudica a inibição da lipólise mediada pela insulina, aumentando consequentemente os ácidos graxos livres (AGL) circulantes, os quais, por sua vez, vão inibir ainda mais o efeito antilipolítico da insulina (ROCHLANI et al., 2017). Os AGL inibem a proteína quinase no músculo, reduzindo assim a captação de glicose. Em contrapartida aumentam a ativação da proteína quinase no fígado, promovendo gliconeogênese e lipogênese, gerando assim um estado hiperinsulinêmico para manter a euglicemia (glicemia normal). Porém, eventualmente, essa compensação falha e a secreção de insulina diminui, pois os AGL são lipotóxicos para as células β pancreáticas, reduzindo então a secreção de insulina (ROCHLANI et al., 2017). 169 Outro fator que a resistência à insulina contribui, é para o desenvolvimento de hipertensão, pois há perda do efeito vasodilatador da insulina e vasoconstrição causada pelos AGL. Além disso, aumentam a ativação simpática e reabsorção de sódio nos rins. A resistência à insulina também causa aumento da viscosidade do sangue, indução de um estado pró-trombótico e liberação de citocinas pró-inflamatórias do tecido adiposo, contribuindo para o surgimento de DCV (ROCHLANI et al., 2017). Você percebe que a hiperinsulinemia causa um efeito cascata, desequilibrando vários sistemas? Por isso é importante olhar para o paciente como um todo, e entender os mecanismos envolvidos por trás de cada patologia. Vamos continuar. Como citado anteriormente, os depósitos de gordura visceral exercem um importante papel na patogenia da SM. Esses depósitos contribuem para a resistência à insulina, muito mais do que a gordura subcutânea, pois a lipólise visceral leva a um aumento do suprimento de AGL para o fígado através da circulação esplênica. O aumento dos AGL promove o aumento da síntese de triglicerídeos e apolipoproteína B contendo LDL de muito baixa densidade, rica em triglicerídeos no fígado. Esse aumento de colesterol LDL pequeno e denso e a redução do HDL são efeitos indiretos da resistência à insulina causada por metabolismo lipídico alterado no fígado DCV (ROCHLANI et al., 2017). Quando se descobriu que o tecido adiposo, ou, mais especificamente, os adipócitos, possuíam propriedades endócrinas e imunológicas, isso forneceu percepções mais novas do mecanismo envolvido na SM (ROCHLANI et al., 2017). As pesquisas demonstraram que o tecido adiposo visceral libera adipocinas relacionadas a SM e DCV. Por exemplo, a leptina controla a homeostase energética mediada pelo hipotálamo. A obesidade aumenta os níveis de leptina, os quais estão relacionados ao aumento do risco cardiovascular. Já a adiponectina é anti-inflamatória e antiaterogênica e seus efeitos são os opostos da leptina. A adiponectina diminui a reatividade vascular e a proliferação do músculo liso e melhora a estabilidade da placa, por isso foi considerada um fator protetor contra DM, hipertensão e infarto agudo do miocárdio. Quando ocorre um aumento do tecido adiposo, isso se correlaciona com um desequilíbrio entre os níveis reduzidos de adiponectina e níveis mais elevados de leptina, aumentando o risco de DCV (ROCHLANI et al., 2017). A obesidade e a resistência à insulina estão associadas ao aumento de angio- tensina II, que também é produzida pelo tecido adiposo. A angiotensina II leva à geração de espécies reativas de oxigênio (EROS), que promove uma infinidade de efeitos nega- tivos incluindo a oxidação de LDL, lesão endotelial, agregação plaquetária, ativação de fatores de transcriçãoque promovem um ciclo vicioso de inflamação, dano endotelial que contribuem para o desenvolvimento de hipertensão, dislipidemia, DM, hipertrofia cardíaca e DCV (ROCHLANI et al., 2017). 170 Como podemos perceber, a ativação de várias vias pró-aterogênicas conver- gem em uma via comum final de inflamação que leva a manifestações clínicas da SM. 3 DIETOTERAPIA NA SÍNDROME METABÓLICA A nutrição é um fator ambiental de fundamental importância no tratamento da SM. Como vimos, a SM é resultado de um consumo de calorias desproporcional, por isso as modificações no estilo de vida são fundamentais no gerenciamento dos fatores de riscos. Um importante ponto é a redução e manutenção do peso corporal ideal, bem como modificações dietéticas como baixa ingestão de gorduras saturadas, trans, colesterol, sódio e açúcar simples, os quais já são bem conhecidos por contribuir para dislipidemias, hiperglicemia e hipertensão (ROCHLANI et al., 2017). Por isso, a adesão a um plano alimentar saudável é fundamental para o trata- mento da SM. Como vimos anteriormente, a SM é multifatorial, ou seja, em decorrência de doenças de cunho metabólico, assim o plano alimentar deve ser individualizado e favorecer perda de peso sustentável de 5% a 10% do peso corporal inicial. O profissional nutricionista deve estabelecer as necessidades individuais a partir de uma avaliação nutricional minuciosa e determinar os parâmetros antropométricos (IMC, circunferência abdominal e composição corporal quando possível) (SBC, 2005). Timóteo (2018) revisou dietas com restrições mais intensas de alguns macronu- trientes (low carb, mediterrânea e low fat) e concluiu que em todas as dietas é possível uma perda de peso, principalmente nos primeiros seis meses, porém, nas dietas low carb isso é um pouco mais significativo. O autor observa um pequeno aumento de peso a partir dos 12 meses, com estabilização até dois anos. Fatores de risco, como coleste- rol HDL e triglicerídeos, parecem responder mais favoravelmente a uma dieta baixa em carboidratos (low carb) ou mediterrânea, bem como os outros parâmetros relacionados à resistência à insulina (TIMÓTEO, 2018). O autor enfatiza o que já citamos anteriormente, que os maiores benefícios são obtidos pelos indivíduos que mantêm a adesão dietética alta em longo prazo. Por isso, é válido considerar a análise do padrão dietético habitual de cada indivíduo e identificar o que ele poderá manter a longo prazo, considerando suas preferências pessoais no plano alimentar proposto, muito antes de considerar determinada composição dietética padrão (TIMÓTEO, 2018). O sucesso do tratamento vai depender mais de um padrão dietético de compo- sição moderada em macronutrientes, associado a um consumo energético moderado mantido em associação com exercícios físicos e intervenções comportamentais quan- do necessárias (TIMÓTEO, 2018). 171 Além do plano alimentar, alguns suplementos alimentares promovem efeitos benéficos à saúde além do valor nutricional básico, e são denominados de nutracêuticos. Vários compostos naturais derivados de extratos de plantas, ervas, óleos essenciais, especiarias apresentam benefícios no manejo da SM (ROCHLANI et al., 2017). Um desses produtos é a curcumina, derivada da Curcuma longa, apresenta atividades anti-inflamatórias e antioxidantes, suprimindo a cascata inflamatória pela redução da expressão de citocinas pró-inflamatórias. Interrompe a sinalização da leptina, aumentando a expressão de adiponectina, auxiliando na SM (ROCHLANI et al., 2017). O alho (Allium sativum), tempero muito usado na nossa culinária, também apre- senta propriedades medicinais antioxidantes e antitrombóticas, demonstrando melhora em perfis lipídicos como colesterol e triglicerídeos. Os organossulfurados presentes no alho, apresentam efeito anti-inflamatório (ROCHLANI et al., 2017). A canela (Cinnamomum verum), também de uso tradicional na nossa culinária, possui polifenois que têm propriedades antitrombóticas e sensibilizantes à insulina, hipolipemiantes, anti-inflamatórias e antioxidantes, benéficas na SM. Os estudos ainda não elucidaram as vias mecanicistas envolvidas no processo, mas levantam a hipótese de que o extrato da canela pode regular a expressão do gene de adipócitos para melhorar o transporte de glicose (via GLUT4) e sinalização da insulina (ROCHLANI et al., 2017). Outro ponto importante para se pensar em modular em um paciente com SM, é a microbiota. Como já vimos nas unidades anteriores, o microbioma intestinal tem sido relacionado com a etiopatogênese de várias doenças, desde as intestinais (doenças inflamatórias intestinais, câncer de cólon) às neurológicas (doença de Parkinson e au- tismo). Porém, o papel das bactérias intestinais em doenças metabólicas ainda não está bem definido. Uma das fortes razões é que os fatores que são os motores centrais de um dismetabolismo também são impulsionadores da composição da microbiota intesti- nal: dieta e estilo de vida (DABKE; HENDRICK; DEVKOTA, 2019). Em 2007 iniciaram as evidências para uma teoria centrada no intestino da SM, com uma série de estudos (humanos e roedores) mostrando que o consumo de uma dieta rica em gordura levava a um desequilíbrio na barreira intestinal, o qual facilitava a passagem do conteúdo do lúmen intestinal (antígenos alimentares, subprodutos bacterianos e bactérias) e lipopolissacarídeo bacteriano (LPS), na circulação sistêmica. 172 A inflamação de baixo grau causada foi denominada de endotoxemia metabólica por seu efeito inibitório sobre a função normal da glicemia. Surgiram, então, os primeiros relatos de ativação bacteriana de LPS de receptores Toll-like (TLR) levando a uma resposta imune inata que prejudicou a sensibilidade à insulina (DABKE; HENDRICK; DEVKOTA, 2019). • LPS: as bactérias Gram-negativas apresentam em sua superfície celular os LPS que funcionam como antígenos, estimulando a resposta imune do hospedeiro (MORAES et al., 2014). • TLR: a identificação dos Toll-Like Receptors (TLR) permitiu entender como nosso organismo reconhece antígenos (como o LPS) e como ocorrem as reações pró-inflamatórias e distúrbios metabólicos. Vários TRLs (TRL 1, 3, 5, 6, 7, 9 e 10) têm sido descritos como mecanismos para gerar inflamação e resistência à insulina, destacando-se especialmente as descobertas relativas ao TRL2, TRL4 e TLR5 (MORAES et al., 2014). Em um paciente que ingere uma dieta rica em gordura e pobre em fibras, por exemplo, promove um desequilíbrio bacteriano chamado disbiose intestinal. Isso resulta em concentrações anormais de metabólitos que interrompem a integridade das jun- ções apertadas mediadas por GLP-2. Essa perda de integridade das junções apertadas, torna o epitélio intestinal mais permissivo ao lipopolissacarídeo microbiano (LPS), trimetialmina (TMA) e outros metabólitos que conseguem atingir a circulação sanguínea e contribuem para a infla- mação crônica do fígado e tecido adiposo, relacionada ao desenvolvimento de DCV, re- sistência à insulina e outras condições associadas à SM (DABKE; HENDRICK; DEVKOTA, 2019) (Figura 4). DICAS 173 FIGURA 4 – INTERAÇÃO ENTRE MICROBIOTA INTESTINAL COM A BARREIRA EPITELIAL EM DOENÇAS METABÓLICAS FONTE: Adaptada de Dabke, Hendrick e Devkota (2019) 174 Como vimos, as evidências científicas mostram que as alterações microbianas intestinais levam à obesidade e SM, diretamente ou como consequência dos distúrbios na microbiota intestinal, causando inflamação, a qual, por sua vez, promove o desenvol- vimento de SM. Os metabólitos derivados da microbiota como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) participam dessa inflamação de baixo grau, assim como no apetite e regula- ção da ingestão energética (SANTOS-MARCOS; PEREZ-JIMENEZ; CAMARGO, 2019). Ácidos graxos de cadeia curta: os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) são compostos orgânicos que podem ser obtidos endogenamente (meta- bolismo de gorduras e carboidratos) ou exogenamente (absorção de pro- dutos formados pela fermentaçãobacteriana de carboidratos) sendo essa a principal fonte de AGCC no organismo (VINOLO, 2010). Os AGCC abun- dantes encontrados no intestino são o acetato, propionato e o butirato e sua produção no intestino está relacionada a diversas funções intestinais como motilidade, absorção e fonte energética para os colonócitos (OLIVEI- RA, 2014). A disbiose presente em pacientes com SM promove uma redução de espécies bacterianas com importante atividade sacarolítica, sugerindo uma redução na capaci- dade de degradação de carboidratos em pacientes com SM, causando assim uma redu- ção na produção de dois AGCC como propionato e acetato. A redução de acetato pode reduzir a abundância de bactérias benéficas, as quais consomem acetato e produzem butirato (SANTOS-MARCOS; PEREZ-JIMENEZ; CAMARGO, 2019). Essa redução nas taxas bacterianas produtoras de AGCC, e uma menor disponi- bilidade desses ácidos influenciam diretamente o eixo intestino-cérebro. Já foi relatado que os AGCC induzem liberação de moléculas como GLP-1 (do inglês, glucagon-like peptide-1) ou grelina, que agem a nível cerebral modulando a ação da insulina e do ape- tite, influenciando assim no desenvolvimento da obesidade e SM (SANTOS-MARCOS; PEREZ-JIMENEZ; CAMARGO, 2019). Assim, as alterações da microbiota intestinais em indivíduos com SM produzem uma capacidade reduzida de degradar carboidratos em AGCC, o que está relacionado com o grau de disfunção metabólica do hospedeiro. Uma dieta rica em carboidratos, baixo teor de gorduras e alta ingestão de fibras ou uma dieta com alto teor de gorduras boas, como a dieta mediterrânea, que apresen- tam um alto consumo de frutas e vegetais, é benéfica para restaurar a microbiota de indivíduos com SM que se encontram em disbiose. NOTA 175 Como podemos ver na Figura 5, as estratégias nutricionais atuam em diferentes órgãos e tecidos e têm se mostrado capaz de reduzir a inflamação e a resistência à insulina, e, consequentemente, melhorando a SM (SANTOS-MARCOS; PEREZ-JIMENEZ; CAMARGO, 2019). FIGURA 5 – EFEITOS DAS ESTRATÉGIAS NUTRICIONAIS SOBRE A MICROBIOTA EM NÍVEL SISTÊMICO FONTE: Adaptada de Santos-Marcos, Perez-Jimenez e Camargo (2019) Acúmulo de gordura Ganho de peso Ingestão de alimentos Cél. Treg anti-inflamatórias Oxidação de ácidos graxos Captação de glicose Citocinas inflamatórias Translocação bacteriana Akkermansia muciniphila Proteínas de junção apertada Estruturas vilosas Citocinas inflamatórias Translocação bacteriana Insulina Glucagon Citocinas anti-inflamatórias Citocinas pró-inflamatórias Oxidação de ácidos graxos Captação de glicose Oxidação de ácidos graxos Cél. NKT Colesterol e LDL Gliconeogênese 176 Além disso, a suplementação de probióticos e prebióticos aumentam a produção de AGCC e se torna uma alternativa válida para o tratamento da SM com modulação da microbiota intestinal. Porém, é importante ressaltar o que já viemos falando desde o início do tópico: não podemos generalizar. É importante observar o indivíduo como um todo, visto que ocorrem diferenças entre as populações, variabilidade genética e histórico alimentar (SANTOS-MARCOS; PEREZ-JIMENEZ; CAMARGO, 2019). 177 SÍNDROME METABÓLICA E COVID-19: ONDE AS VIAS SE CRUZAM Luciano R. Giacaglia Até uns meses atrás a pandemia global do novo coronavírus (COVID-19) parecia estar longe de uma solução, e agora com a chegada da vacina já vemos uma luz de esperança. Porém, ainda há a inexistência de medicamentos claramente eficazes e a falta de conhecimento amplo sobre todas a epidemiologia e fisiopatologia que envolve a doença. O motivo da elevada proporção de contaminação, inesperada e rápida disseminação por todo planeta, a presença de manifestações sintomáticas amplas e desfechos graves ainda precisam ser mais bem estudadas. O diabetes mellitus (DM), a hipertensão arterial (HAS) e a idade avançada são fatores de risco para a pior evolução clínica e maior letalidade, com um desfecho desfavorável da doença com a resistência periférica à insulina (RI), presente na patologia da SM. Já se sabe que existe uma correlação entre o DM com uma maior morbimor- talidade em infecções virais, bacterianas e fúngicas, por isso recomenda-se que essa população específica se vacine com a pneumocócica e H1N1, por exemplo. Existe um ponto importante a se considerar, visto que o DM é mais prevalente na população idosa, que é mais suscetível e que apresenta outras comorbidades como DCV e renal. A hiperglicemia crônica compromete vários órgãos, que chamamos de ór- gãos-alvo, os quais são essenciais para a manutenção da homeostase do organismo, incluindo aqui além das complicações cardiovasculares, renais e neuronais, a micro- anginopatia pulmonar, que compromete a troca gasosas alveolar, já comprometida pelo COVID-19. A hiperglicemia apresentada por esses pacientes também está ligada com uma menor capacidade eritrocitária de captação e difusão do oxigênio para os tecidos, esse processo é secundário à glicação da hemoglobina, modificando a estrutura terciária desta proteína carreadora de oxigênio. E ainda, a hiperglicemia compromete tanto a resposta imune inata como a imunidade celular adaptativa linfo-monocitária, importantíssimas para o combate do COVID-19 e outros micro-organismos oportunistas. LEITURA COMPLEMENTAR 178 A hiperglicemia aumenta o risco trombótico, pois aumenta a osmolaridade sanguínea, pela fragilidade crônica do endotélio e por disfunção das células plaquetárias, que adquirem um maior poder de agregação. Porém, estamos falando da SM, então o foco é na resistência à insulina (RI), independente da presença de hiperglicemia. A RI intensifica-se quando ocorre um estresse agudo, independente da sua existência prévia, pois há a liberação de hormônios contrarreguladores. No COVID-19, o que chama atenção é a elevação desproporcional da RI do que se esperaria apenas pelo estresse da infecção viral. A hipótese dos pesquisadores com relação a isso, é que na infecção do COVID-19 ocorre uma liberação exacerbada de citocinas inflamatórias, e isso somado ao uso de corticosteroides ou drogas vasoativas nas UTIS, os quais tem ação anti-insulina. A insulina possui outras ações, além de apenas transportar a glicose par adentro da célula. Ela é fundamental para a geração de óxido nítrico, promovendo melhor perfusão tecidual, a qual está comprometida na RI. A insulina é capaz de frear a geração de citocinas pró-inflamatórias, e sabemos que no COVID-19 ocorre a tempestade de citocinas, gerando um quadro grave em um paciente que já está inserido em um quadro inflamatório em decorrência da RI. A RI compromete a capacidade fibrinolítica e aumenta o risco de fenômenos tromboembólicos. Frequentemente é encontrado, em pacientes que evoluem para um quadro de Síndrome da Angústica Respiratória do Adulto (ARDS), depósitos de fibrina nos espaços aéreos e no parênquima pulmonar. Existe um grande número de pacientes com SM e obesidade, com o avanço do COVID-19 ficou claro que a obesidade é um fator de risco para complicações. Um estudo no Reino Unido observou que 72% dos pacientes internados em UTI por COVID-19 apre- sentavam obesidade ou sobrepeso. Inclusive, dos pacientes internados em UTI, apre- sentando índice de massa corpórea (IMC) >30 kg/m2, o índice de mortalidade chegou a taxas de 60,9%. Devemos lembrar que a obesidade limita o atendimento clínico, pois há a necessidade de leitos especiais, maior número de profissionais para mudança de decúbito e realização de procedimentos, maior dificuldade de intubação orotraqueal e maior dificuldade de acesso venoso. Além disso, dificulta a imunidade de memória (linfócitos T CD8+), diminuindo a capacidade de resposta ao vírus e reduzindo a eficácia da vacinação específica, então se espera algo semelhando nos casos de COVID-19. Sabemos que nem todo paciente que apresenta RI é obeso, mas o conteúdo adiposo corporal reduz a mobilidade do indivíduo, favorece os quadros trombóticos, compromete a expansão da caixa torácicaaumentando a resistência ao fluxo de ar nas vias aéreas. O acúmulo de gordura visceral, em tecidos ectópicos, parece estar envolvido na piora do quadro inflamatório. 179 A RI também exerce efeitos na hipertensão arterial, os efeitos da hiperinsuline- mia nos túbulos renais são exacerbados, promovendo o aumento da taxa de reabsor- ção de sódio. Esse efeito aliado à menor concentração de óxido nítrico, ao aumento da conversão de angiotensinogênio em angiotensina, promovido pelos adipócitos viscerais hipertrofiados e, finalmente, pelo espessamento da camada muscular média dos va- sos sanguíneos, determinada pelo estímulo da insulina na via trófica das MAP-quinase/ mTOR, contribuem ainda mais para o incremento dos níveis pressóricos. A retenção hidrossalina promovida pela hiperinsulinemia poderia ser um fator agravante no quadro respiratório pela sobrecarga volumétrica, especialmente em pacientes com comprome- timento da função miocárdica. Outro ponto importante de se destacar é que os pacientes obesos, com maior componente de gordura corporal, principalmente os idosos, apresentam hipovitaminose D a qual é agravada pelo isolamento domiciliar, com menor exposição solar. Estudos já tem demonstrado o papel da vitamina D na imunidade, e sua deficiência tem sido associada a maior risco de infecções respiratórias por agentes infecciosos. Porém, o excesso de vitamina D pode ocasionar efeitos deletérios para os rins e para o sistema cardiovascular, por isso sua reposição deve ser realizada com responsabilidade. Em pacientes com SM, os aspectos sociais contribuem para a piora do quadro clínico. Esses indivíduos apresentam transtorno de humor frente à nova situação e a necessidade de isolamento por longos períodos, ocorrem também distúrbios do sono; adoção de uma dieta de pior qualidade, pobre em vegetais e legumes; aumento do con- sumo de alimentos industrializados; redução das consultas de rotina, para ajustes me- dicamentosos; baixa atividade física, e sabemos que atividade física melhora a respos- tas imunológica, aumenta a sensibilidade à insulina e traz outros benefícios. FONTE: Adaptado de <https://www.diabetes.org.br/sindrome-metabolica-e-covid-19-onde-as- vias-se-cruzam/>. Acesso em: 1° mar. 2021. 180 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A SM foi definida como um grupo de fatores de risco inter-relacionados, de origem metabólica que contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCV) e DM2. • São considerados fatores de risco metabólico: dislipidemia aterogênica (hipertriglice- ridemia, níveis elevados de apolipoproteína B, LDL colesterol com partículas peque- nas e densas, níveis baixos de HDL colesterol), hipertensão arterial, hiperglicemia e um estado pró-inflamatório e pró-trombótico. • Quando a gordura é acumulada no abdômen, caracteriza-se a obesidade central ou androide, frequentemente associada ao DM2 e outros problemas metabólicos, como hipertensão arterial e dislipidemia (altos níveis de triglicerídeos e baixos níveis de HDL), doença cardiovascular aterosclerótica. • Os mecanismos que envolvem a SM são complexos e ainda precisam ser totalmente elucidados. • Os fatores ambientais e o estilo de vida, como o consumo excessivo de calorias e a falta de atividade física podem ser os principais contribuintes. • De todos os mecanismos propostos, a resistência à insulina, a ativação neuro- hormonal e a inflamação crônica parecem ser os principais pilares na iniciação, progressão e transição de SM. • Quando ocorre a resistência à insulina no tecido adiposo, prejudica a inibição da lipólise mediada pela insulina, aumentando consequentemente os ácidos graxos livres (AGL) circulantes, os quais, por sua vez, vão inibir ainda mais o efeito antilipolítico da insulina. • A resistência à insulina contribui para o desenvolvimento de hipertensão, pois há perda do efeito vasodilatador da insulina e vasoconstrição causados pelos AGL. • Os depósitos de gordura contribuem para a resistência à insulina, muito mais do que a gordura subcutânea, pois a lipólise visceral leva a um aumento do suprimento de AGL para o fígado através da circulação esplênica. • O tecido adiposo visceral libera adipocinas relacionadas à SM e DCV. • A SM é resultado de um consumo de calorias desproporcional, por isso as modificações no estilo de vida são fundamentais no gerenciamento dos fatores de riscos. 181 • O profissional nutricionista deve estabelecer as necessidades individuais a partir de uma avaliação nutricional minuciosa e determinar os parâmetros antropométricos (IMC, circunferência abdominal e composição corporal quando possível). • O sucesso do tratamento vai depender mais de um padrão dietético de composição moderada em macronutrientes, associado a um consumo energético moderado mantido em associação com exercícios físicos e intervenções comportamentais quando necessárias. • As evidências científicas mostram que as alterações microbianas intestinais levam à obesidade e SM, diretamente ou como consequência dos distúrbios na microbiota in- testinal causando inflamação, a qual, por sua vez, promove o desenvolvimento de SM. 182 AUTOATIVIDADE 1 A Síndrome Metabólica (SM) tem sido muito estudada e foi definida como um grupo de fatores de risco inter-relacionados de origem metabólica que contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCV) e DM2. De acordo com o exposto, quais são os fatores de risco metabólicos envolvidos na SM? 2 O acúmulo de gordura visceral, no abdômen, demonstra ser um gatilho primário para a maioria das patologias envolvidas na SM, confirmando a importância da ingestão calórica excessiva como um dos principais fatores. A gordura acumulada no abdômen é considerada uma gordura: a) ( ) Androide. b) ( ) Ginoide. c) ( ) Ginecoide d) ( ) Androgenética 3 A resistência à insulina, a ativação neuro-hormonal e a inflamação crônica parecem ser os principais pilares na iniciação, progressão e transição de SM para DCV. De acordo com o exposto, a insulina aumenta a capacidade de captação de glicose no músculo e fígado e: a) ( ) Inibe a lipólise e a gliconeogênese hepática. b) ( ) Estimula a lipólise e inibe a gliconeogênese hepática. c) ( ) Inibe a lipólise e a gliconeogênese no músculo. d) ( ) Nenhuma das anteriores. 4 A descoberta de que o tecido adiposo e suas células (adipócitos) desempenhavam propriedades endócrinas e imunológica, favoreceu percepções sobre o mecanismo envolvido na SM. Essas pesquisas demonstraram que o tecido adiposo visceral libera adipocinas relacionadas a SM e DCV. Quais adipocinas o tecido adiposo visceral libera relacionadas à SM e DCV? I- Adiponectina. II- Leptina. III- Angiotensina. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Os itens I e III estão corretos. b) ( ) Apenas o item I está correto. c) ( ) Os itens I e II estão corretos. d) ( ) Todas os itens estão corretos. 183 5 A SM é multifatorial, ou seja, em decorrência de doenças de cunho metabólico, sendo assim, o plano alimentar deve ser individualizado e favorecer uma perda de peso sustentável. Quantos % deve ser essa perda de peso? a) ( ) 5% a 10%. b) ( ) 5% a 15%. c) ( ) 5% a 20%. d) ( ) 5% a 25%. 6 Os maiores benefícios do tratamento da SM são objetivados pelos indivíduos que mantêm uma adesão dietética alta em longo prazo. De acordo com o exposto, do que depende o sucesso do tratamento na SM? 7 Vários compostos naturais derivados de extratos de plantas, ervas, óleos essenciais, especiarias apresentam benefícios no manejo da SM. Quais alimentos podemos utilizar para reduzir a inflamação e melhorar o perfil antioxidante na SM? I- Curcuma longa. II- Allium sativum. III- Cinnamomum verum. IV- Capsicum annuum. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas o item I está correto. b) ( ) Os itens II e III estão incorretos. c) ( ) Os itens I, II e III estão corretos. d) ( ) Todas os itens estão corretos. 8 As alterações microbianas intestinais levam à obesidadee SM, diretamente ou como consequência dos distúrbios na microbiota intestinal (disbiose), causando inflamação, a qual, por sua vez, promove o desenvolvimento de SM. De acordo com o exposto, qual é o perfil dietético que causa disbiose intestinal? 9 A disbiose presente em pacientes com SM promove uma redução de espécies bacterianas com importante atividade sacarolítica, sugerindo uma redução na capacidade de degradação de carboidratos em pacientes com SM, causando assim uma redução na produção de ácidos graxos de cadeia curta. De acordo com o exposto, o que são os ácidos graxos de cadeia curta? 184 REFERÊNCIAS ATKINSON, M.; EISENBARTH, G. S.; MICHELS, A. W. Type 1 diabetes. The Lancet, [S. l.], v. 383, n. 9911, p. 69-82, jan. 2014. 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