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Universidade Tiradentes - Medicina P3 Incontinência urinária e iatrogenia TUTORIA Incontinência urinária: Definida pela Sociedade Internacional de Continências como qualquer perda involuntária de urina. ● É uma condição altamente prevalente na população idosa. ● Uma das grandes síndromes geriátricas. ● Compromete a qualidade de vida dos afetados, familiares e cuidadores. ● Acarreta aumento dos custos em saúde e resultar em institucionalizações precoces. ● Condição subdiagnosticada e subtratada. 1. EPIDEMIOLOGIA: ● A prevalência de incontinência urinária em idosos é variável dentro da literatura. (Grande heterogeneidade da população, diferentes definições e questionários utilizados, ausência de seguimento a longo prazo e etc). ● O sexo feminino é o mais acometido (para todas as faixas etárias) devido a causas anatômicas. ● O envelhecimento aumenta tanto a prevalência quanto a gravidade dos casos. ● 30%-60% das mulheres idosas ● 10-35% dos homens idosos ● Até 80% dos institucionalizados têm incontinência urinária. ● Está associada a: ○ Aumento no risco de quedas e fraturas; ○ Infecções do trato urinário recorrentes; ○ Celulites; ○ Úlceras de pressão; ○ Disfunções sexuais; ○ Distúrbios do sono; ○ Isolamento social; ○ Depressão; ○ Estresse do cuidador; ○ Institucionalização precoce. ● A crença de que incontinência seria uma consequência natural do envelhecimento explica por que mais da metade dos idosos não procura auxílio médico. 2. FISIOLOGIA: ● O trato urinário inferior (TUI) tem por função o armazenamento e a eliminação da urina e é composto por bexiga, uretra e esfíncteres. ● A micção envolve a integração de nervos periféricos, medula e 1 Conhecer a incontinência urinária (fisiopatologia, etiologia, quadro clínico, epidemiologia, diagnóstico e consequências) centros encefálicos em córtex cerebral, ponte, bulbo e mesencéfalo. ● Estes centros superiores dirigem aos órgãos do trato urinário inferior influências neurológicas excitatórias e inibitórias e recebem aferências sensitivas. ● Centros controladores em áreas corticais (giros frontal e cingulado) e subcorticais promovem influência inibitória da micção em nível pontino e influência excitatória do esfíncter uretral externo, permitindo o controle voluntário. ● O centro pontino da micção (CPM) é essencial para a coordenação de todo o processo (modulação dos sistemas nervosos simpático e parassimpático). ● Na fase de esvaziamento vesical o CPM envia estímulos excitatórios para medula sacral e inibitórios para coluna toracolombar, enquanto na fase de enchimento esse processo se inverte. ● A inervação simpática do TUI emerge da medula toracolombar, fazendo sinapses nos plexos hipogástrico e mesentérico inferior, antes de prosseguir pelo nervo hipogátrico até os receptores beta-adrenérgicos (corpo vesical) e alfa- adrenérgicos (colo vesical e uretra proximal). ● Fibras nervosas simpáticas também dirigem-se a gânglios parassimpáticos na parede do detrusor, exercendo ali efeito inibitório. ● A ativação das eferências simpáticas toracolombares produz liberação de norepinefrina no TUI, resultando em relaxamento do músculo detrusor (receptores β3) e contração do esfíncter uretral interno (receptores α1). 2 ● A inervação parassimpática origina-se de neurônios localizados na coluna sacral da medula, sendo conduzida por meio de fibras pré-ganglionares pelo nervo pélvico até os gânglios do plexo pélvico. Este dá origem às fibras pós-ganglionares que se dirigem à bexiga. ● A acetilcolina liberada pela ativação desses neurônios produz contração do detrusor pela ativação dos receptores M2 e M3 muscarínicos. ● Na uretra proximal o estímulo parassimpático promove a liberação de óxido nítrico, o que leva ao relaxamento da musculatura lisa do esfíncter uretral interno. ● A ativação sacral parassimpática produz acetilcolina e óxido nítrico que resultam em contração detrusora e relaxamento da uretra proximal. ● A inervação somática do esfíncter uretral externo emerge do núcleo de Onuf, localizado no corno anterior de um ou mais segmentos da medula espinal sacral, e prossegue pelo nervo pudendo até o esfíncter estriado. ● Há evidências de que o esfíncter uretral externo também receba influências simpática e parassimpática. FASE DE ENCHIMENTO: ● Durante a fase de enchimento, a distensão da bexiga ativa neurônios sensitivos na parede vesical. ● Esses neurônios sensitivos levam impulsos aferentes a centros controladores supraespinais, produzindo a inibição do centro pontino da micção e ativação dos neurônios motores no núcleo de Onuf com consequente contração da musculatura estriada do esfíncter uretral externo via nervo pudendo. ● Simultaneamente ocorre ativação reflexa simpática e, através do nervo hipogástrico, contração da musculatura lisa da uretra. ● O parassimpático é inibido e o detrusor relaxa, permitindo o armazenamento da urina. FASE DE ESVAZIAMENTO: ● Os impulsos eferentes provenientes do CPM provocam inibição das fibras somáticas do núcleo de Onuf e relaxamento voluntário da musculatura estriada do esfíncter externo. ● Estes impulsos promovem também inibição simpática pré- ganglionar e estimulação parassimpática, resultando em contração do detrusor por meio dos receptores muscarínicos. 3. IMPACTO DO ENVELHECIMENTO: ● O envelhecimento torna o idoso mais suscetível a incontinência urinária. ■ Aumento nas fibras de colágeno na bexiga, acarretando diminuição da sua elasticidade; ■ Os receptores de pressão também se alteram, explicando o surgimento de 3 contrações intempestivas durante a fase de enchimento vesical; ■ Hiperatividade do detrusor foi encontrada em 21% de idosos saudáveis e continentes. ● A uretra torna-se mais fibrosa, menos flexível e com perda de sua densidade muscular. ● Na mulher, o hipoestrogenismo contribui para menor irrigação dos tecidos. A mucosa uretral se atrofia e resseca, tornando-se mais sensível a infecções, que favorecem irritação dos receptores de pressão. ● Na vagina, as carências hormonais, a diminuição de atividade sexual, assim como as sequelas do parto interferem na qualidade dos tecidos vaginais, no pH e na flora, favorecendo infecções. ● O períneo é fragilizado: envelhecimento muscular, carências hormonais, partos, gravidez, sequelas de intervenções uroginecológicas ou radioterapia pélvica. ● Alguns sintomas crônicos, tais como tosse e constipação intestinal, podem exercer pressão sobre essa fáscia muscular. ● No homem a hipertrofia benigna da próstata, ou adenoma de próstata, constitui o principal fator relacionado com alterações do fluxo urinário. (jato fraco, gotejamento terminal, aumento na frequência e noctúria.) ● O envelhecimento renal provoca diminuição do número de néfrons e redução da capacidade de concentrar urina. ● Há diminuição da secreção de hormônio antidiurético, que contribui para o aumento da frequência urinária. 4. CLASSIFICAÇÃO: ● É uma condição multifatorial que depende da integridade do trato urinário inferior e seu controle neurológico. ● Comorbidades clínicas e medicamentos podem influenciar a continência. ● Em idosos é comum a sobreposição de diversas causas. ● O reconhecimento de fatores de risco ou condições clínicas reversíveis pode, eventualmente, restaurar a continência ou ao menos, diminuir os sintomas. ■ Incontinência urinária transitória: ● Caracteriza-se pela perda de urina precipitada por insulto psicológico, medicamentoso ou orgânico, que cessa ou melhora após o controle do fator desencadeante. ● As causas de incontinência urinária: DIURAMID. ● “D”:O delirium, estado confusional agudo caracterizado por flutuação da consciência e desorientação de etiologia multifatorial extremamente prevalente entre idosos. Incontinência pode ser seu primeiro sinal. ● “I”: As infecções do trato urinário inferior por causar inflamação da mucosa vesical e consequente aumento da 4 aferência sensitiva, podem contribuir para bexiga hiperativa e incontinência urinária. ● “U”: uretrite e vaginite atrófica pode ser causado pela carência de estrógenos em idosas, gerando irritação local e risco aumentado de infecções, bexiga hiperativa e incontinência urinária. ● “R”: Condições com restrição de mobilidade, como artroses, paresias, imobilizações, outras como hipotensão postural e pós- prandial, calçados inapropriados e medo de cair podem dificultar a chegada ao toalete. ● “A”: condições que cursam com aumento do débito urinário tais como: ingesta excessiva de fluidos, diuréticos, distúrbios hidreletrolíticos (hiperglicemia, hipercalcemia), insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência venosa periférica, hipoalbuminemia. ● “M”: lista de medicamentos que, por diversos mecanismos, afetam a continência. ● “I”: A impactação fecal também contribui para sintomas urinários, provavelmente por * irritação local ou compressão direta sob a parede vesical. ● “D”, corresponde aos diversos distúrbios psíquicos (depressão, demência, psicose) que podem interferir na capacidade do paciente em reconhecer e responder adequadamente à sensação de bexiga cheia. ● Esses fatores podem tanto precipitar a ocorrência de incontinência urinária como contribuir para as causas de incontinência estabelecida. ■ Incontinência urinária estabelecida: Incontinência urinária de estresse: ● Perda involuntária de urina que ocorre com o aumento da pressão intra-abdominal (tosse, espirro, atividade física) na ausência de contrações vesicais. ● É a principal causa em mulheres jovens. Mecanismos envolvidos são: ○ Hipermobilidade uretral: decorre do comprometimento do suporte anatômico dos órgãos pélvicos resultando em descenso e rotação do colo vesical e uretra proximal com incapacidade de fechamento adequado. Riscos: obesidade, partos vaginais, hipoestrogenismo e/ou cirurgias. ○ Deficiência esfincteriana intrínseca: é a perda do tônus do esfíncter uretral secundária a lesão neuromuscular (trauma cirúrgico) ou atrofia uretral. ● No homem é incomum. Quando presente, ocorre por deficiência esfincteriana intrínseca secundária a cirurgias prostáticas. Incontinência urinária de urgência: 5 ● É o tipo mais comum em idosos. ● Caracteriza-se pela perda de urina precedida ou acompanhada de um desejo imperioso de urinar (urgência). ● A perda urinária é variável. ● Acredita-se que resulte da hiperatividade do detrusor levando a contrações involuntárias durante a fase de enchimento vesical. ● Causas: transtornos neurológicos, anormalidades vesicais e idiopática. ● Em idosos, a hiperatividade do detrusor pode ocorrer em pacientes cuja contratilidade vesical está preservada e em pacientes com comprometimento da contratilidade da bexiga associado. “hiperatividade do detrusor com hipocontratilidade” é a mais frequente em idosos frágeis, cursa com volumes residuais pós-miccionais elevados. ● Bexiga hiperativa é uma síndrome que inclui urgência urinária com ou sem incontinência, frequência elevada (oito ou mais micções em 24 h) e noctúria (dois ou mais despertares pra urinar). Incontinência urinária por hiperfluxo ou transbordamento: ● Incontinência que decorre de inabilidade de esvaziamento vesical devido a hipocontratilidade do músculo detrusor, a obstruções uretrais ou ambos. ● Em homens idosos a causa mais frequente é a obstrução uretral secundária a hiperplasia prostática benigna. ● Na mulher é condição bem menos frequente. ● Em idosos de ambos os sexos, impactação fecal e hipocontratilidade vesical secundária a neuropatia autonômica (cistopatia diabética) ou medicamentos com ação anticolinérgica também são causas frequentes. Incontinência urinária mista: ● É a coexistência de mais de um tipo de incontinência no mesmo paciente. ● Condição frequente entre idosos, especialmente nas mulheres que apresentam hiperatividade do detrusor e deficiência esfíncteriana associadas. ● É a principal causa de incontinência urinária em idosas. Incontinência funcional: ● Incontinência atribuída a fatores externos ao trato urinário, tais como comprometimento cognitivo, fatores ambientais que dificultem a chegada ao toalete, limitações físicas e psíquicas. ● A classificação dos tipos de incontinência é útil para o diagnóstico e a estruturação da estratégia terapêutica a seguir. ● Em grande proporção de pacientes, os sintomas urinários coexistem. 5. ABORDAGEM: ● A avaliação do paciente com incontinência urinária deve ser sistemática e incluir anamnese detalhada, exame físico e avaliação complementar. Anamnese: ● Características da perda urinária, quantidade, gravidade e sintomas associados (frequência, noctúria, urgência, esforço, hesitação). 6 ● O diário miccional: registro da ingesta de líquidos, frequência, volume urinário, episódios de perda e circunstâncias a ela associadas nas 24 h. Realizado ambulatorialmente pelo paciente ou cuidador ou mesmo em nível hospitalar. Auxilia no diagnóstico e planejamento da terapêutica. ● Informações adicionais como dor, hematúria, infecções recorrentes, prolapsos de órgãos pélvicos em mulheres, cirurgias prévias, radiação pélvica, suspeita de fístulas devem ser investigadas. ● Atenção especial às comorbidades clínicas e à lista de medicamentos utilizados pelo paciente. Exame físico: ● Avaliação cognitiva, da mobilidade e funcionalidade do paciente; ● Exame neurológico detalhado que inclua avaliação de reflexos, sensibilidade, integridade das vias sacrais (reflexo bulbocavernoso) ● Toque retal para avaliação do tônus esfincteriano, presença de massas, fecalomas (em ambos os sexos) e avaliação prostática em homens ● Exame pélvico, inspeção de prolapsos e atrofia genitais em mulheres ● Teste de estresse: simples, pode ser realizado no consultório e pode documentar incontinência urinária de estresse. A paciente deve estar na posição supina, com a bexiga cheia e tossir vigorosamente. Se ocorrer perda simultânea sugere deficiência esfincteriana intrínseca, se a perda ocorrer alguns segundos após sugere contração detrusora induzida pela tosse. Exames laboratoriais: ● Todos os pacientes com queixa de incontinência urinária devem realizar um sumário de urina para investigação de sinais de infecção, hematúria e glicosúria. ● Pacientes selecionados deverão realizar dosagem de eletrólitos, glicemia, ureia e creatinina de acordo com a suspeita clínica. Medida do volume residual pós- miccional: (VRPM) ● É útil para excluir retenção urinária significativa. ● Pode ser realizada por cateterização vesical ou ultrassonografia. ● Embora não seja necessária em todos os pacientes, aqueles com alto risco de retenção urinária como os portadores de diabetes, doenças neurológicas, sinais de hesitação miccional, antecedentes de retenção urinária e uso de anticolinérgicos devem realizá-la. ● Recomendado por um método não invasivo antes da introdução de tratamento farmacológico ou cirúrgico. 7 ● Valor maior que 200 mℓ está associado a esvaziamento vesical inadequado. Estudo urodinâmico: ● É um exame caro e invasivo; ● Objetivo avaliar a qualidade das contrações vesicais e dos esfíncteres uretrais. ● Compreende as seguintes etapas: cistometria, medida da pressão de perda sob esforçoe urofluxometria. ● É indicada antes de procedimentos cirúrgicos ou minimamente invasivos do trato urinário inferior ou na avaliação de sintomas de bexiga hiperativa após falha no tratamento inicial. Cistoscopia: ● Deve ser realizada quando houver suspeita de fístulas ou de outras patologias associadas (presença de hematúria, dor ou desconforto pélvico). 6. TRATAMENTO: 7. QUADRO CLÍNICO: ● Incontinência urinária de esforço: ○ Liberação involuntária de urina (tossir, espirrar ou rir;) ○ Vazamento de uma pequena a moderada quantidade de urina. ● Incontinência urinária de urgência: ○ Frequente e incontrolável necessidade súbita de urinar; ○ Pode vazar uma quantidade de urina moderada a grave. ● Incontinência urinária por transbordamento: ○ Vazamento de uma pequena quantidade de urina; ○ Jato urinário fraco; ○ Necessidade de se esforçar ao urinar; ○ Sensação de que a bexiga não está vazia; ○ Necessidade urgente de urinar muitas vezes durante a noite; ○ Vazamento de urina durante o sono. ● Incontinência urinária funcional: ○ A deficiência física ou intelectual o impede a pessoa de ir até o banheiro urinar a tempo. ● Dos idosos que participaram, 68% mulheres; 71% incontinente e 43% relatando que a funcionalidade pélvica interrompeu a vida útil. ● Foram relatados impactos nas emoções, limitação física e social e limitação do desempenho da tarefa. ● Limitação de tarefas longe de casa, como viagens; ● Sentimentos de depressão e ansiedade ou nervosismo. ● Sentimentos de receio, preocupação, baixa autoestima e frustração, culminando com a autoexclusão do convívio social. ● Passam a se preocupar com a disponibilidade de banheiro; ● Envergonham-se com o odor de urina e tentam segurá-la. ● Favorece problemas econômicos, por implicar consumo de materiais estratégicos de proteção, como fraldas e absorventes. ● Problemas sociais como o isolamento social; ● Desconforto físico. ● As estratégias como uso de absorventes, fraldas, antecederem a ida ao banheiro ou a troca de roupa íntima para conter a perda de urina durante a sua rotina diária. ● Tornam-se uma condição de estigma, uma ameaça, pois é um 8 2. Entender o impacto da incontinência urinária na qualidade de vida sintoma que é associado com sujeira. ● Limitação em níveis físicos, como a prática de esportes e o ato de carregar utensílios ou objetos ● Interfere negativamente sobre o estado emocional e vida sexual do indivíduo, pelo constrangimento e medo de se relacionar com seu parceiro por apresentar perdas urinárias. ● Desconforto social e higiênico . ● Odor desagradável, o que pode levá-lo ao constrangimento. 1. Link:https:// revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/ index.php/scientiamedic 2. Link: a/article/view/36769 3. Link:http://www.seer.unirio.br/ index.php/cuidadofundamental/ article/view/6581/pdf_1 4. Link:https:// revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/ index.php/scientiamedica/article/ view/32831/17846 5. Link:https://www.scielo.br/j/ reeusp/a/ yFxrVGDnRy5sfVdv6R5zGqs/? lang=pt 6. Link:https://revistas.pucsp.br/ index.php/kairos/article/view/ 31451/21924 7. Link:https://repositorio.ufpb.br/ jspui/handle/tede/5117#preview- link0 8. Link:http://www.revenf.bvs.br/ scielo.php? script=sci_arttext&pid=S1518- 19442011000400014 ● Iatrogenia: Os efeitos adversos das intervenções médicas, constituem-se em eventos não intencionais que resultam em dano, complicações, incapacidade, aumento do tempo de internamento e morte. ● O envelhecimento aumenta a prevalência de multimorbidade e, consequentemente, do aumento no consumo de fármacos. Torna- se lógica a expectativa de serem encontradas maiores reações adversas e/ou interações medicamentosas nessa faixa etária. ● Por esses motivos, a iatrogenia passou a ser considerada uma das síndromes geriátricas. ● Outro fator predisponente é o fato de um paciente ser assistido por múltiplos profissionais, de diversas especialidades, que prescrevem intervenções e medicamentos e não se comunicam entre si. ● Todo sinal ou sintoma de instalação subsequente ao início de novo medicamento ou ao aumento de dose deve levantar a suspeita. ● Anti-hipertensivos, diuréticos e hipnóticos podem, por exemplo, provocar hipotensão ortostática e/ou quedas e induzir à progressiva imobilidade. ● Consumo excessivo ou a retirada abrupta de fármacos, contribuem constantemente para o desenvolvimento de estados confusionais agudos, como no caso dos benzodiazepínicos. ● Deve-se pensar em efeito adverso de medicamentos quando o paciente idoso apresentar, de forma aguda ou subaguda, declínio funcional, confusão mental, déficit cognitivo, distúrbios comportamentais, sintomas depressivos, queixas de tonturas, alterações da marcha e do equilíbrio, quedas repetidas, incontinência urinária e/ou fecal. ● As síndromes extrapiramidais também estão relacionadas com o uso de medicamentos e a sua ocorrência é mais comum em idosos. 9 3. Definir iatrogenia e seus tipos Diversos fatores têm interferência no aumento da incidência das chamadas “doenças iatrogênicas” ou “doenças iatrofarmacogênicas”. Tais causas podem ser assim relembradas: 1 – Rápido desenvolvimento da indústria farmacêutica; 2 – Propaganda intensiva, apoiada por indústria de alto poder econômico; 3 – Uso abusivo de remédios pelo povo; 4 – Grande desenvolvimento da cirurgia, criando novas síndromes 5 – Falta de preparo dos médicos em conhecimentos de psicologia médica. IATROGENIAS MEDICAMENTOSAS: 1. Absorção ● A deficiência de vitamina B12 é comum na gastrite atrófica e entre idosos que utilizam cimetidina, ranitidina, omeprazol, pantoprazol e metformina. ● Pode causar parestesias, depressão e alterações cognitivas. ● Essas drogas e anticonvulsivantes como a fenitoína, fenobarbital e carbamazepina podem provocar deficiência de absorção de ácido fólico, outra causa de anemia. ● Você pode firmar o diagnóstico de deficiência de vitamina B12 e ácido fólico a partir de exames laboratoriais simples. ● Na impossibilidade de fazê-los, o tratamento de prova vale a pena. ● A reposição da vitamina B12 não deverá se feita por via oral – pois a absorção está prejudicada – e sim por via intramuscular. ● Outro problema de absorção comum entre idosos é não respeitar o intervalo de duas horas entre a ingestão de sulfato ferroso e drogas com as quais ele forma complexos que impedem sua absorção, como levotiroxina, levodopa e quinolonas. 2. Distribuição: ● O envelhecimento provoca aumento da proporção de tecido adiposo, mesmo em idosos magros. ● Benzodiazepínicos como diazepam, clonazepam, alprazolam e bromazepam são lipossolúveis e se difundem amplamente no tecido adiposo. ● Isto acarreta duas consequências principais: ○ a) a concentração de equilíbrio da droga será mais elevada que a de adultos; ○ b) sua eliminação será mais lenta; após a interrupção do tratamento, grande quantidade de droga estará armazenada no tecido adiposo. ● Estes são alguns dos motivos pelos quais os idosos têm mais efeitos colaterais de benzodiazepínicos que os adultos. ● Efeitos colaterais: Sedação leve, que aumenta o risco de quedas e fraturas. ● Medicamentos de tarja preta são contraindicados para idosos, em qualquer dose ou duração de tratamento. ● O envelhecimento se acompanha de redução da água corporal total e da massa muscular (sarcopenia). Isto pode provocar aumento da concentração sérica de drogas hidrossolúveis, como o lítio, a cimetidina, paracetamol, a digoxina e o álcool. ● Em outras palavras: doses pequenas dessas substâncias atingem concentrações mais elevadas que em adultos. ● Drogas que se ligam à albumina (levotiroxina, fenitoína,warfarin 10 e, novamente, digoxina) permanecem inativas enquanto ligadas. No entanto, durante doenças subagudas e crônicas, nas quais ocorre redução da albumina sérica, há aumento da fração livre (e ativa) da droga. 3. Metabolismo: ● Com o envelhecimento, a redução do fluxo sanguíneo hepático (de até 50% aos 85 anos) e redução da capacidade de metabolização aumentam a meia-vida – o tempo necessário para a redução em 50% da concentração sérica da droga – de algumas drogas. A duração do efeito, portanto, vai aumentar. Por este motivo, doses mais baixas que as habituais serão suficientes para a utilização crônica de benzodiazepínicos (proibidos para idosos!), antidepressivos tricíclicos (como amitriptilina e nortriptilina), propranolol, teofilina, warfarin, paracetamol, salicilatos e fenitoína. Você tem visto idosos utilizando concomitantemente dois desses medicamentos? 4. Excreção: ● A redução do ritmo de filtração glomerular (RFG) aumenta o tempo necessário para a eliminação renal de algumas drogas frequentemente utilizadas por idosos. ● É o caso dos aminoglicosídeos (que são nefrotóxicos e devem ser evitados em idosos), inibidores da enzima de conversão da angiotensina (IECA), metformina (contraindicada para diabéticos com redução moderada do RFG) e novamente da digoxina. ● Idosos praticamente nunca deverão utilizar digoxina na mesma dosagem de adultos. ● Para se ter uma ideia do RFG de idosos, não podemos nos basear no resultado da dosagem de creatinina; ela está falsamente baixa em pessoas com perda de massa muscular (sarcopenia). ● Já o “clearance de creatinina”, um excelente indicador do RFG. ● Valores de 30 a 60 mL/min indicam redução moderada do RFG, requerendo ajuste de dose de diversos medicamentos. ● A redução da reserva fisiológica que acompanha o envelhecimento torna os sistemas do organismo mais sensíveis aos efeitos das drogas. ● A insuficiência renal leve é muito comum em idosos hipertensos e diabéticos. ● Também é comum entre aqueles com insuficiência cardíaca (que provoca redução da perfusão renal) ou em uso de diuréticos (que provoca redução do volume circulante e, portanto, da perfusão renal). ● Drogas de nefrotoxicidade moderada, como anti- inflamatórios não-esteroides (ex. diclofenaco, ibuprofeno, nimesulida), devem ser utilizadas com cautela nesses pacientes. ● O cérebro envelhecido também é mais frágil. Medicamentos sedativos ou que provocam efeitos anticolinérgicos frequentemente pioram a cognição de idosos, inclusive aqueles sem demência. ● O envelhecimento se associa à disfunção de barorreceptores. Anti-hipertensivos podem provocar hipotensão ortostática. ● Com o envelhecimento sentimos menos sede. Uma boa dica é orientar os idosos a tomar líquidos mesmo sem sede, em quantidade suficiente para manter a urina clara. Link : Saúde do Idoso (unasus.gov.br) /- 11