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A psicologia na promoção do “bem viver” indígena Profª Me. Madalena Oliveira Psicóloga/Psicanalista/Grad. Filosofia G oo gl e I m ag e ns genocídios assassinatos de lideranças usurpação de territórios desvalorização das culturas originárias supressão de direitos manipulação ideológica pelo sistema educacional oficial ausência de políticas públicas efetivas. Principais causas de sofrimento entre os indígenas Principais efeitos uso de álcool e outras drogas altas taxas de suicídio identidade fragilizada (“vergonha de ser índio”, principalmente entre jovens) violência intrafamiliar em decorrência do alcoolismo prostituição “doenças de branco” como a depressão medicalização como resposta principal da medicina convencional. Indígenas em contexto urbano problemas decorrentes da moradia nas periferias das grandes cidades preconceito generalizado ausência de políticas públicas diferenciadas. abrange as múltiplas afecções do corpo e da alma que mutilam a vida de diferentes formas. qualifica-se pela maneira como se é tratado e como se trata o outro na intersubjetividade, face a face ou anônima retrata a vivência cotidiana das questões sociais dominantes em cada época histórica, especialmente a dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade. Sawaia 1999 p.104 O sofrimento ético-político • a atuação aponta na direção de garantir a esses povos o direito ao ‘bem viver’ • não é possível a neutralidade. • a atuação é sempre política • evitar atitudes etnocêntricas ‘Saúde mental’ • denominação ausente nas cosmologias indígenas • há que se investigar sobre conceitos correlatos que favoreçam a interlocução e o cuidado com os que sofrem. É necessário superar a ideia de que sabemos o que é melhor para o outro, as iniciativas devem contar com o protagonismo das comunidades, elaboradas desde o tempo indígena e de seus modos de viver. (Stock, 2011) ‘Bem viver’ como parâmetro para a ‘saúde mental’ das populações indígenas Povos indígenas consideram a ‘saúde mental’ como um patamar de bem viver muito além de uma vivência estritamente pessoal, individualizada, incluindo o bem estar comunitário como condição de bem estar pessoal. Noção de bem viver é considerada um princípio ético-moral, legada pelos indígenas andinos, mas que também encontra expressões próprias em comunidades indígenas brasileiras. ‘Bem viver’ como parâmetro para a ‘saúde mental’ das populações indígenas O pilar do bem viver é reconhecer-se como parte de uma grande comunidade de sujeitos humanos relacionados entre si e com tudo mais, num mundo interdependente. A condição do bem viver é saber relacionar-se, é sentir-se parte de tudo e de todos, é usufruir a vida que decorre das relações de troca e dependência com o entorno. [...] Aí entram como sujeitos tanto os humanos como todos os elementos da natureza (o ar, a chuva, a água, o Sol, a Lua, as montanhas, os animais, as plantas…), bem como os mortos e os espíritos. As relações entre estes conjuntos de sujeitos são de respeito e troca, tendo como pressuposto incontornável a dependência mútua. Cândido Grzybowski (2012). Sociólogo Bem Viver paradigma que tem garantido a coesão das comunidades indígenas e que pode ajudar as sociedades neoliberais contemporâneas a superar o caos em que vivem. um ideal de vida plena, intrinsecamente associado à descolonização do poder e do saber e à desmercantilização da vida cotidiana. [...] o paradigma do Viver Bem ensina-nos não a viver melhor, mas sim a viver bem com menos. Ele precisa ser um marco na educação. Precisamos criar uma ética de Viver Bem e reconstruir um pensamento e uma forma de vida mais comunitária, com outras formas de repensar as relações interpessoais e a economia, um equilíbrio entre a cultura e a Mãe Terra. Katu Arkonada Cientista político especializado em América Latina pressupõe uma vida comunitária em harmonia com a natureza, simplicidade, reciprocidade, valorização da sabedoria dos anciãos, a experiência cotidiana do sagrado e a celebração da vida. Quando as condições objetivas do modo de vida tradicional não estão garantidas, como é o caso da maioria dos indígenas brasileiros, rompe-se com a possibilidade do bem viver e prevalece o sofrimento: aparecem sintomas de depressão, ansiedade, uso prejudicial de álcool e outras substâncias, impulso ao suicídio. A garantia do território é essencial para o bem viver das comunidades. B e m V iv e r Luta pela terra condição básica para a conquista do bem viver e garantia de saúde mental das comunidades indígenas. Ao se reconhecer a interdependência entre as condições objetivas de vida e a produção de subjetividade, na gênese do sofrimento psíquico, não há como furtar-se ao compromisso ético-político com as lutas dos povos indígenas pela observância de seus direitos. Técnica e política precisam caminhar juntas. B e m V iv e r Psicologia abordagem crítica face aos problemas sociopolíticos e psicossociais, não em seu ocultamento sistemático ou negação. numa perspectiva emancipatória, libertadora, seus conhecimentos teóricos e metodológicos devem ser contextualizados a partir de uma inversão epistemológica de que “seja a realidade quem convoque os conceitos e não estes que convoquem a realidade”. Cuellar, 2012, p. 85 A inserção do psicólogo nas comunidades deve estar comprometida com a mudança social e a construção coletiva de conhecimentos sobre a realidade. Trata-se de superar definitivamente a lógica da tutela, instaurando uma ética do cuidado pautada na escuta e no protagonismo dos sujeitos, visando a construção conjunta das soluções. Freitas, 1998 Desconhecimento das populações indígenas quanto às possibilidades de atuação dos psicólogos, o que pode dificultar essa relação. A complexidade da relação intercultural é maior porque se trata de outra cosmologia, outro universo cultural. Linguagem como barreira – diferentes culturas/diferentes idiomas. Problemas a serem enfrentados pela Psicologia e pelos psicólogos no atendimento aos povos indígenas Conseguir identificar o grau de contato das populações indígenas com a sociedade, para estabelecimento de parâmetros culturais que favoreçam o contato. Falta de articulação entre as instâncias governamentais que promovem as políticas públicas; planejamento articulado entre as esferas federal, estadual e municipal. Falta de articulação entre os profissionais de Saúde para o trabalho em rede. Problemas a serem enfrentados pela Psicologia e pelos psicólogos no atendimento aos povos indígenas Falta de infraestrutura (móvel e imóvel) para o trabalho das equipes que hoje atendem a Saúde Indígena, gerando frustração para ambos: técnicos e indígenas. Falta de atenção das Secretarias de Educação para o problema do alcoolismo entre os professores indígenas. Enfoques epistemológicos distintos: cultura branca enfatiza a dimensão lógico-epistêmica cultura nativa enfatiza a dimensão mito-simbólica. Necessário desenvolver estudos e criar referências para a atuação dos psicólogos nesse campo. Problemas a serem enfrentados pela Psicologia e pelos psicólogos no atendimento aos povos indígenas Necessidades da Psicologia e dos psicólogos para a criação de Redes de Atenção aos Povos Indígenas Necessidades de Instrumentalização Intercultural Necessidades de Integração e Comunicação Apreender a cultura indígena em questão, para se garantir uma atuação criteriosa e cuidadosa. Considerar a construção da subjetividade das populações indígenas, evitando-se as imposições culturais da sociedade nacional. Estudar sobre as questões específicas que enfrentam as comunidades para conferir legitimidade às ações, respeitando a diversidade étnico-cultural das populações com as quais se venha a trabalhar. Compreender e respeitar o conceito saúde-doença do ponto de vista dasculturas em questão: compor, não impor. NECESSIDADES DE INSTRUMENTALIZAÇÃO INTERCULTURAL Divulgar as possibilidades de intervenção no campo da Psicologia para os indígenas. O psicólogo pode se situar entre a figura do pajé (que cuida da saúde) e do ancião (que cuida da educação). Estabelecer objetivos comuns entre os profissionais implicados em cada região, para efetivação de uma rede de atenção local, e definir as funções e responsabilidades de cada um dos atores dessa rede. • Dar continuidade ao atual processo de reflexão, enfatizando o trabalho multiprofissional e interdisciplinar. • Promover encontros sistemáticos entre os diversos profissionais que atuam junto aos povos indígenas, para trocas de experiências e produções coletivas. Necessidades de Integração e Comunicação Necessidades de Integração e Comunicação Fortalecer as redes eletrônicas já existentes como a Lista de Discussão na Internet e o Grupo de Estudos Transdisciplinares Psicologia e Tradições Nativas. Usar o termo nativo ou a denominação pela etnia, evitando o uso do termo “índio” que é carregado de sentidos negativos. Ampliar o debate sobre essa temática às nossas redes de contato, como: família, trabalho e amigos, com a finalidade de multiplicar novas representações desses grupos sócio- culturais no imaginário social. Por meio da escuta, o Psicólogo pode contribuir para a criação de relações mais horizontais entre a sociedade nacional e as comunidades indígenas, promovendo o protagonismo desses indígenas e atuando no fortalecimento de sua identidade e autoestima. Contribuir para fomentar diálogos e superar preconceitos, atuando na administração/resolução de conflitos interculturais. Contribuir para a criação de políticas públicas que considerem a diversidade cultural e a subjetividade dos povos indígenas. Contribuições da Psicologia e dos psicólogos no atendimento aos povos indígenas Atuar nas equipes de Saúde, com particular enfoque na Saúde Mental, contribuindo para o enfrentamento do uso abusivo de álcool e outras drogas e na melhoria da qualidade de vida nas comunidades. Atuar na capacitação das equipes de Saúde sobre os processos psicossociais e ajudar na identificação das melhores práticas/estratégias, por meio da construção de sentidos compartilhados. Contribuições da Psicologia e dos psicólogos no atendimento aos povos indígenas Contribuições da Psicologia e dos psicólogos no atendimento aos povos indígenas Dar suporte emocional aos membros das equipes multiprofissionais de saúde para lidar com as limitações/frustrações do atendimento às comunidades indígenas. Realizar ações conjuntas com os educadores indígenas, assessorando atividades de capacitação, diagnóstico e estudos, contribuindo com a melhoria da qualidade da educação indígena. Manter um contato com a sociedade nacional sem perder a integridade cultural e étnica. Apoiar as lutas dos povos indígenas, especialmente pelo direito à terra e à implantação de projetos estruturantes que promovam o desenvolvimento sustentável das aldeias. Apoiar a educação indígena diferenciada, expressa pela CF, que garante uma educação bilíngue e a valorização étnica e cultural. Promover saúde mental a partir de um enfoque psicossocial, com base nos determinantes sócio-históricos dos problemas enfrentados hoje pelas diversas comunidades. Superar relações históricas de dominação. Fortalecer os laços familiares e comunitários. RECOMENDAÇÕES AOS PSICÓLOGOS Inserir a temática indígena nos espaços de debate e formulação de políticas públicas, como Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, da Saúde, da Assistência, da Educação. Torná-los presentes na formulação de políticas locais. Incentivar a participação de lideranças indígenas nesses espaços e na relação com pesquisadores. Contribuir nas discussões interdisciplinares, especialmente sobre a natureza dos processos psicossociais e a ética nas relações interculturais. Tratar de modo diferenciado cada etnia, em função de sua cultura particular. R E C O M E N D A Ç Õ E S A O S PS I C Ó L O G O S ACOSTA, ALBERTO. O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos. Autonomia literária/Editora Elefante. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Especial de Saúde Indígena. Departamento De Atenção à Saúde Indígena. Coordenação-Geral de Atenção Primária à Saúde Indígena. Documento orientador sobre a gestão da atenção psicossocial nos DSEI. Brasília, DF: 2014. CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DE SÃO PAULO. Povos indígenas e psicologia: a procura do bem viver. Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. – São Paulo: CRP SP, 2016. ______________________________. Psicologia e Povos Indígenas. São Paulo: CRP SP, 2010. CREPOP – Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas. Referências técnicas para atuação da(o)s psicóloga(o)s em Questões Relativas a Terra. Conselho Federal de Psicologia (CFP). Brasília: CFP, 2013. CUELLAR, E. B. Del discurso encantador a la praxis liberadora. Psicología de la Liberación. 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