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LOMBALGIA LAYANE SILVA (1) avaliar se há algum grau de comprometimento neurológico, ou seja, se o paciente tem alguma síndrome compressiva neurológica, que normalmente está associada à déficit de força ou de sensibilidade; (2) diferenciar se o paciente tem alguma dor visceral que está sendo referida na coluna lombar. Existem algumas etiologias para dor lombar (lombalgia) que também podem estar associadas a cervicalgia (dor cervical), e podem ser divididas em: mecânicas, inflamatórias, infecciosas, metabólicas, tumorais e dor visceral referida na coluna lombar. Então entre os cuidados que o médico deve ter estão: Exemplo: se o paciente refere dor lombar, associada a perda ponderal de 20 kg em 2 meses e icterícia - ele não tem uma dor miofascial, mas sim um câncer de pâncreas. Exemplo: se o paciente tem uma dor lombar e refere uma massa pulsátil abdominal, ele não tem uma mialgia mas sim um aneurisma de aorta. Exemplo: outra queixa frequente é o paciente que chega com quadro de lombalgia associado a hematúria, que é decorrente de litíase renal, e não de um quadro de dor muscular ou da coluna vertebral. Portanto, as síndromes viscerais podem dar dor referida na coluna lombar e devem ser bem diferenciadas para que o diagnóstico não prejudique o paciente. Etiologia Espondiloartroses Estenose espinhal Hérnia de disco lombarização (alteração da coluna lombar), espondilólise/listese (escorregamento de uma vértebra sobre outra), estenose espinhal (estreitamento do canal vertebral fazendo com que a coluna seja comprimida) e escoliose congênita. Degenerativas: são as patologias mais comuns, entre elas: À nível populacional é o quadro mais comum, trata-se da artrose da coluna vertebral e tem sido cada vez mais prevalente porque a população está envelhecendo. Consiste em um estreitamento da coluna vertebral que pode ser causada por um processo degenerativo, pois pode- se ter por exemplo um osteófito na coluna vertebral comprimindo a região do canal medular, causando muita dor e por vezes sintomas compressivos neurológicos. Síndromes discogênicas: conhecida como hérnia de disco, tem se tornado cada vez mais prevalente, não pelos sintomas discais mas sim pela facilidade de realizar a ressonância magnética, portanto, cada vez mais há o diagnóstico. Normalmente, considera-se hérnia de disco quando há uma deslocamento discal extruso, isto é o disco vertebral não está mais contido pelo seu envelope (extruso). O quadro de hérnia de disco não causar dor lombar, a hérnia de disco compressiva provoca sintomas de irradiação tanto para os membros superiores quanto para os inferiores, causando perda de força e de sensibilidade. Apenas 5 a 10% dos casos de lombalgia estão associadas a patologias graves, portanto, na grande maioria das vezes é uma patologia que é facilmente solucionada e tende a melhorar com o tempo. Atualmente, está entre as 10 principais patologias que levam o doente ao pronto socorro, ficando atrás apenas de cefaléia, visto que 90% adultos têm pelo menos um episódio durante a sua vida. Em geral, 90 a 95% das lombalgias agudas são situações banais, ou seja, não é uma patologia que compromete a qualidade de vida do paciente, sendo que 85% são idiopáticas. Portanto, dificilmente será encontrado um diagnóstico primário para o quadro de lombalgia porque boa parte é de etiologia mecânica associado a musculatura paravertebral, causando dor muscular (mialgia) e não existe nenhum exame de imagem específico que vai diagnosticar - geralmente a mialgia é diagnóstico de exclusão. Além disso, o quadro de lombalgia, em sua maioria, é autolimitado em 4-6 semanas, ou seja, independente do tratamento a dor irá melhorar após esse período, mas o ideal é reduzir o tempo da doença. Epidemiologia I. MECÂNICAS Anomalias congênitas: são as patologias que nasceram com o paciente, como espinha bífida, sacralização ou Importante! Os sintomas de hérnia discal que chamam atenção são dor + perda de força + déficit de sensibilidade. Se o paciente refere que tem hérnia de disco na coluna lombar associada a dor, em geral, esse sintoma pode não ter relação com a hérnia de disco. Por outro lado, se esse LAYANE SILVA Espondilite anquilosante Artrite reumatóide Dor miofascial (fibromialgia) A fibromialgia geralmente é uma doença de difícil diagnóstico e tratamento, visto que o paciente não tem resposta a nenhum tipo de terapia medicamentosa. Nesses quadros podem haver outros fatores envolvidos, principalmente psicológicos, como pacientes depressivos, com síndrome metabólica associada, perda de peso, descontrole do colesterol e da glicemia e outros agravantes. IV. METABÓLICAS Osteoporose Doença muito prevalente na atualidade que leva à fragilidade óssea por compressão vertebral - nota-se que o corpo vertebral sofreu compressão que pode ser causa de dor crônica em um paciente com osteoporose. paciente refere formigamento nos MMII e perda de força muscular na perna esquerda, é possível que ele tenha algum grau de compressão neurológica por conta dessa hérnia de disco. Curiosidade! A ressonância da região cervical raramente indica “normalidade”, é comum o aparecimento de abaulamento ou degeneração discal - dificilmente essas condições causam sintomas compressivos. Traumatismos: também pode ser traumático quando o paciente cai e sente dor lombar. II. INFLAMATÓRIAS As causas inflamatórias geralmente seguem em acompanhamento do reumatologista, entre elas: III. INFECCIOSAS Bacteriana: discite Tuberculose: corpo vertebral São causas importantes de serem diagnosticadas, pois a infecção na coluna vertebral podem evoluir de forma gravíssima, levando a déficits neurológicos permanentes. Principalmente os quadros bacterianos podem ter uma evolução ruim pois acometem o disco intervertebral, podendo causar déficit neurológico, associado a febre e perda ponderal. A tuberculose, causado pelo bacilo de Koch, é uma infecção na qual a Mycobacterium tuberculosis pode atingir o corpo vertebral, associada a déficit neurológico, conhecido como doença de Pott. No raio-X, observa-se o acometimento de T2 em um quadro inflamatório, secundário a uma infecção. Osteomalacia Doença de paget Hiperparatireoidismo Esse procedimento é realizado quando o disco está comprimido, assim, ele é inflado com um balão e é preenchido com enxerto ósseo para tentar restaurar a altura do corpo vertebral e reduzir o quadro de dor - não é abordada a região entre as vértebras, apenas uma das vértebras. O hiperparatireoidismo é uma condição que também pode levar à fragilidade óssea. V. TUMORAIS VI. DOR VISCERAL REFERIDA NA COLUNA LOMBAR Quando o paciente com dor lombar chega ao pronto- socorro é importante diferenciar se o paciente tem uma dor lombar clássica que é seguida com analgesia e um atestado médico de 48 horas, ou se o paciente tem déficit Caracterização LAYANE SILVA ANAMNESE Local Duração dos sintomas Irradiação Características Intensidade 0-10 Frequência Modo e tempo de início Fatores de agravamento e de alívio Sintomas associados Importante pedir ao paciente para apontar em que local ele sente a dor, que pode ser paravertebral ou na região da loja renal, por exemplo - para diferenciar se a dor é miofascial ou tem alguma evidência de compressão neurológica. Em geral, os sintomas que duram mais do que 6 semanas são mais preocupantes, assim, se por exemplo um paciente refere que dormiu mal e teve um torcicolo na noite anterior, trata-se de um quadro simples de cervicalgia. Já, se o paciente refere que tem mais de 3 semanas com dor sem melhora ou evoluindo com piora, é importante ficar atento. Trata-se do principal sintoma de compressão neurológica, no qual o paciente refere que tinha dor na cervical mas a dor irradia para todo o membro superior ou inferior. O paciente deve classificar a dor de 0 a 10, considerando 10 como a pior dor que ele já sentiu e 0 a ausência de dor. Essa escala é importante para a avaliação seriada se a dor está melhorando ou piorando com o tempo. Questionar quantas vezes por dia, semana oumês que o paciente sente lombalgia, ou seja, qual a frequência com que essa dor se apresenta. Informar quando e como a dor começou, pois o paciente pode por exemplo referir que teve dor após começar a treinar na academia (período em que há maior tendência a manifestar dor muscular) ou ter um histórico de trauma antes do início da dor. Em casos de paciente com estenose lombar, por exemplo, ao pegar um carrinho de compras e realizar a flexão lombar, há uma tendência a melhorar o quadro de dor - assim, o paciente pode referir melhora e da irradiação em alguns movimentos o que indica algumas suspeitas. Principalmente em quadro associados a patologias viscerais, portanto, é importante afastar câncer, litíase renal, litíase biliar, entre outros - assim, questionar perda de peso, febre, massa abdominal pulsátil para diferenciar se há presença de uma patologia subjacente além da dor lombar. neurológico ou alguma patologia associada ao quadro. Esses quadros serão diferenciados com anamnese e exame físico, através das seguintes características: EXAME FÍSICO Marcha Identificar a zona álgica Sensibilidade É importante avaliar a marcha do paciente, existem paciente que tem por exemplo o quadro de “pé caído”, isto é, ela tem sinal compressivo de L4, que impede a dorsiflexão do pé, que se reflete na marcha. Geralmente a zona álgica é identificada através dos dermátomos, e quando o paciente tem perda de sensibilidade, eles podem ser usados para identificar qual a provável raiz acometida. Perceber a irradiação Desvios e assimetrias Dor à palpação e percussão Provas de lesão radicular (Lasegue, Bragard....) Se por exemplo o paciente sente perda de sensibilidade (dormência) na região do de dedo médio, isto pode indicar um acometimento da raiz de C7. Assim, é possível diferenciar se é uma quadro central ou periférico de acometimento nervoso, testando a sensibilidade térmica, dolorosa, proprioceptiva e tátil. Deve-se palpar e percutir as regiões mais importantes para avaliar se o paciente tem algum déficit ou apenas uma dor miofascial. Basicamente, o Lasegue consiste em realizar uma prova de hiperextensão do nervo ciático, assim é feito um teste com o paciente na posição horizontal, no qual é feita a flexão do quadril e elevação do membro inferior e o paciente pode piorar os sintomas de irradiação na face posterior da coxa. Importante! O sinal de Lasegue será positivo se no momento em que é feita extensão do membro inferior, o paciente referir que a perna está dormente, o que indica compressão medular. Provas motoras: classificar força de 0 a 5 Reflexos Cada grupo muscular terá um miótomo específico, através do qual deve-se classificar a força de 0 (ausência de força) a 5 (força mantida). Tanto a hiporreflexia quanto a hiperreflexia podem ter significado patológico. Na grande maioria das vezes, a lombalgia é um quadro simples, 85% das vezes será autolimitada e o diagnóstico idiopático - a exceção é o quadro de síndrome da cauda equina. Esta é a compressão de raízes da cauda equina - quanto à anatomia a partir de L4 não há mais tronco medular, apenas raízes que juntas formam a cauda equina. Assim, se há um sítio compressivo maciço a partir de L2 pode hvaer um bloqueio de toda a cauda equina, causando a síndrome da cauda equina, que cursa com dor lombar e perianal, aumento da frequência urinária (incontinência urinária), perda do tônus do esfíncter anal (incontinência fecal) e “anestesia em sela” – que consiste em um quadro de dormência na região genital/perianal. Síndrome da cauda equina LAYANE SILVA Lesão neurológica Suspeita de patologia subjacente Sintomatologia arrastada Tratamento ineficaz RM: é o padrão-ouro para a grande maioria das patologias e deve ser solicitada se: Se o paciente apresenta perda de força muscular ou alteração de sensibilidade para investigar presença de algum sítio compressivo; Principalmente se há associação com febre ou crescimento de massa para investigar suspeita de processo tumoral ou infeccioso. Se os sintomas não melhoram mesmo com o tratamento há mais de 6 semanas. Se, mesmo com o tratamento adequado, nota-se que o paciente está perdendo mais força muscular e piorando o quadro doloroso. Exames laboratoriais: hemograma, PCR - solicitados na suspeita de patologias subjacentes como processo infeccioso ou tumoral. Esse diagnóstico leva o paciente para um tratamento urgentemente cirúrgico, quanto mais rápido for retirado o sítio compressivo, maior a chance do paciente voltar a ter déficit neurológico. Portanto, a abordagem deve ser feita em no máximo 48 horas para que o paciente recupere os déficits neurológicos. (1) paciente tem um quadro de lombalgia que não necessita de observação, apenas medicação e alta; (2) paciente necessita de pelo menos um exame complementar; (3) paciente necessita de acompanhamento ambulatorial, ou seja, ele deve retornar após 48 horas do início do uso do medicamento. Para diferenciar os quadros preocupantes, a Sociedade de Coluna desenvolveu red flags que são sinais de alarme que informam se: Assim, se o paciente tiver algum dos sinais abaixo, vale a pena fazer um exame complementar ou um seguimento ambulatorial para investigar grau de comprometimento neurológico ou alguma doença associada. Sinais de alarme RX: solicitado em caso de trauma ou se o paciente tem alguma deformidade ou suspeita de deformidade (escoliose, hiperlordose, hipercifose); TC: solicitada se histórico de trauma; Exames complementares Repouso relativo (48 horas) Exercício Agentes físicos TENS (transcutaneous electrical nerve stimulation) Ultrassom Compressa de água morna Acupuntura Em quadros simples de lombalgia, mesmo autolimitado, é necessário tratar para reduzir a duração da lombalgia. Quanto ao tratamento não farmacológico está indicado: No repouso relativo o paciente pode passar pelas atividades habituais mas deve ser afastado da atividade física e atividades laborais por 48 horas - pois existem estudos que mostram que mais de 48 horas de repouso é prejudicial ao paciente por sair da sua rotina. Após a melhora da dor é importante exercitar a amplitude articular, flexibilidade e recuperação do potencial muscular - ou seja, deve iniciar atividade física de maneira gradual, evitando inicialmente exercícios extenuantes. Existem medidas que auxiliam principalmente em quadros de lombalgia mecânica associada à mialgia, são elas: Tratamento não farmacológico Tratamento farmacológico Importante! Em quadros agudos devem ser utilizadas todas as medidas possíveis para solucionar, ou seja, se o paciente chegar com o braço quebrado, deve-se aplicar Morfina, Dipirona, anti-inflamatório e Tramadol - e depois deve-se desescalonar essas medicações. Já, a dor crônica precisa de escalonamento de medicação, inicialmente é usada Dipirona, se não melhorar, Tramadol, seguido da Morfina. Quando o paciente chega à emergência com um quadro agudo pode-se utilizar as seguintes medicações: Analgésicos: Paracetamol ou Dipirona (analgésicos fracos) - a analgesia pode ser feita de diversas formas, poderia também ser utilizado por exemplo o Ibuprofeno. AINES: Celocoxibe ou Diclofenaco - podem ser utilizados durante um período autolimitado, de no máximo 10 dias. LAYANE SILVA Atualmente, também é possível realizar esse procedimento por via endoscópica, assim é possível entrar com a câmera e visualizar o sítio compressivo discal e retirar somente o pedaço do disco que está extruso causando compressão. Opióides: Codeína ou Tramadol (opióides fracos) Analgesia local: Lidocaína Relaxante muscular: Ciclobenzaprina Antidepressivos: Amitriptilina ou Duoloxetina - se transtornos miofasciais como fibromialgia podem ser usados antidepressivos tricíclicos ou inibidores da recaptação da serotonina. Antiepiléticos: Pregabalina ou Gabapentina - se sintomas neurológicos compressivos e dor neuropática. Corticóides: Betametasona ou Prednisona - utilizados nos casos de hérnia discal. Importante! Em geral, a hérnia discal fica bem próxima a raiz descendente, e o processoinflamatório leva a um ciclo compressivo, comprimindo a raiz e causando sintomas neurológicos. Quando há interrupção do processo inflamatório o paciente tende a melhorar, por isso são utilizados os corticoides na tentativa de realizar descompressão farmacológica da raiz acometida. Exceto na síndrome da cauda equina que é um quadro raro onde há compressão súbita que necessita de cirurgia. Paciente refratário ao tratamento conservador; Sinais de síndrome da cauda equina; Déficit neurológico progressivo. As indicações de tratamento cirúrgico incluem: Se o paciente iniciou atividade física e realizou o tratamento farmacológico de forma adequada e não teve melhora, após pelo menos 6 meses. Em casos da síndrome da cauda equina será necessário um tratamento cirúrgico de urgência. Se o paciente estava com força muscular grau 4 no membro e, após tratamento conservador com corticoterapia, evolui com piora para força muscular grau 2 na reavaliação. Tratamento cirúrgico Todas essas indicações visam a cirurgia para realizar a descompressão neurológica por via aberta através da retirada das lâminas posteriores do ângulo vertebral para descomprimir a raiz, além de fazer uma artrodese, isto é unir uma vértebra na outra para evitar que haja movimento gerando um novo sítio compressivo.