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2 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 4 
2 IDEOLOGIA E SUBJETIVIDADE ................................................................ 5 
2.1 A construção conceitual de ideologia e subjetividade .......................... 6 
2.2 Principais abordagens teóricas .......................................................... 11 
2.3 Ideologia e subjetividade na prática da psicologia social ................... 16 
2.4 Cotidiano e constituição do sujeito na contemporaneidade ................ 19 
3 CULTURA, PERSONALIDADE E PERCEPÇÃO ...................................... 21 
3.1 O que é cultura? ................................................................................. 21 
3.2 O hibridismo cultural ........................................................................... 23 
3.3 Cultura, personalidade e percepção ................................................... 25 
3.4 Cultura e personalidade ..................................................................... 27 
3.5 Desenvolvimento da percepção através da mediação cultural ........... 30 
4 ASPECTOS SUBJETIVOS DA CULTURA HUMANA ............................... 33 
4.1 A subjetividade e os papéis sociais .................................................... 34 
4.2 Constituição do ser social ................................................................... 35 
5 FORMAS DE SUBJETIVAÇÃO À LUZ DA PSICOLOGIA SOCIAL .......... 37 
5.1 As relações de poder e a subjetivação ............................................... 38 
5.2 Subjetivação e poder no campo da psicologia social ......................... 42 
5.3 Poder e subjetivação na prática ......................................................... 46 
6 O DEBATE PÓS-MODERNO: PSICOLOGIA E SUBJETIVIDADE ........... 48 
6.1 Pós-modernidade e subjetividade a partir de Jean-François Lyotard . 48 
6.2 Pós-modernidade e produção de subjetividade ................................. 49 
6.3 A produção de subjetividade na pós-modernidade ............................ 51 
6.4 Contribuições de Deleuze, Guattari e Negri ....................................... 52 
 
3 
 
6.4.1 Félix Guattari (1930–1992) ........................................................... 53 
6.4.2 Gilles Deleuze (1925–1995) ......................................................... 54 
6.4.3 Antônio Negri (1933) .................................................................... 55 
7 BIBLIOGRAFIA ......................................................................................... 57 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
1 INTRODUÇÃO 
Prezado aluno! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um 
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é 
que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas 
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em 
tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que 
lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
2 IDEOLOGIA E SUBJETIVIDADE 
 
Fonte: http://genjuridico.com.br/ 
 
Falar sobre o nascimento do sujeito dentro do campo da psicologia implica 
reconhecê-lo como objeto de um discurso científico que profere uma ordem de 
verdades sobre as instâncias psicológicas que compõem o sujeito, como, por 
exemplo, o psiquismo, a cognição, a personalidade e a dimensão intrapsíquica das 
emoções e do desejo – onde opera a subjetividade. A partir disso, se instituem 
“realidades psíquicas”, universalizando-as e naturalizando-as por meio da matéria do 
corpo e da natureza (PRADO; MARTINS, 2007). 
O estudo da subjetividade e da ideologia, nesse contexto, busca compreender 
como as relações de poder e dominação entre indivíduos, instituições e estruturas 
sociais perfazem condições de possibilidades para que os sujeitos possam pensar o 
que pensam e sentir e desejar o que querem – o que contraria uma noção de 
subjetividade relacionada à ideia de essência para colocar em problematização as 
condições socio-históricas que constituem os sujeitos. 
 
6 
 
A palavra ideologia pode ser interpretada de diversas formas, bem como por 
diferentes vertentes teóricas. Ao longo do tempo, a ideologia ocupou concepções 
neutras, positivas e negativas. Nesses contextos, os movimentos se deram de acordo 
com o referencial teórico e a recepção da crítica de cada época, relacionando-se com 
a noção de sujeito, que também pode ser compreendida de diversas formas. 
A subjetividade, por sua vez, somente adentrou a ciência como espaço de 
saber no século XIX, tornando os estudos psicológicos um território próprio de 
pesquisa. A partir daí, passou a ser considerada um objeto de estudo dentro de um 
vasto campo de abordagens teóricas, epistemológicas e metodológicas. 
Ao tomarmos como base de discussão a perspectiva da psicologia social, a 
subjetividade passa a ser compreendida como uma construção histórica e social 
dentro de um jogo de relações de poder que orienta nossas práticas, pensamentos e 
desejos, relacionando o mundo externo com o mundo interno, tendo, portanto, 
importantes cruzamentos com o conceito de ideologia (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
Por ser íntima e singular em cada sujeito, a subjetividade diz respeito à maneira 
como cada ser percebe, sente, identifica e interpreta as sensações e os 
acontecimentos. Faz parte da subjetividade de cada sujeito: gosto, preferências, 
afinidades, maneira de ser, de seguir em frente, de paralisar. Ainda que na mesma 
família, no mesmo contexto social, no mesmo tempo presente, com a mesma carga 
genética, cada sujeito possui sua subjetividade que é única e formada conforme as 
crenças e os valores íntimos de cada um. 
2.1 A construção conceitual de ideologia e subjetividade 
A cultura é um conjunto de regras, normas, valores e ideologias que orientam 
modos de pensar, sentir e responder ao mundo que nos cerca dentro de um 
determinado território e espaço de tempo, constituindo os mais diversos tipos de 
sociedade. Não é à toa que a cultura tem importantes atravessamentos na nossa vida 
e é um campo vasto de pesquisa para a área da psicologia. 
O conceito de ideologia, por sua vez, é bastante vasto e complexo, podendo 
ter formulações distintas, com valorações diferentes ao longo da história, fazendo com 
que o termo seja mais bem aceito ou rejeitado ao longo dos anos. Entretanto, uma 
 
7 
 
coisa é certa, sua explicação e compreensão nunca têm uma repercussão de simples 
resolução, sendo, por vezes, uma temática que permite inúmeros equívocos e até 
discussões polêmicas no cenário social. Por ter importantes interfaces com a 
comunicação e as relações humanas, a psicologia social entende que estudar sobre 
ideologia é também um de seus papéis (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). 
Ademais, ainda que constitua um campo cercado de desacordos conceituais, a 
psicologia social, próxima à visão e à análise sociológica, compreende a necessidade 
de seu olhar crítico sobre o termo. 
O conceito de ideologia teve a sua origem como uma proposta de ciência, 
desenvolvida pelo filósofo francês Destutt, que atribuiu a origem das ideias às 
percepções sensoriais que conectam e codificam para nós o mundo externo 
relacionando-ocom o interno (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). Todavia, ao longo 
da história das ideias, o conceito de ideologia sofreu importantes modificações e 
rupturas que colocaram em discussão diferenças e controvérsias entre autores e 
disciplinas do conhecimento, perfazendo um jogo de relações de poder e modos de 
saber que permitiram, negaram e modelaram a concepção de ideologia conforme os 
interesses de cada época (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). 
A seguir, iremos recuperar algumas abordagens e contextos aos quais a 
ideologia foi historicamente relacionada produzindo efeitos e problematizações sobre 
questões que envolvem a psicologia social. O estudo da ideologia, nesse contexto, é 
vinculado ao estudo das relações de poder e dominação entre indivíduos, instituições 
e estruturas sociais que compõem o cenário de uma teoria social. Nesse sentido, 
busca-se problematizar a coesão e a padronização de sistemas de valores e crenças 
que se formam a partir de um consenso e de uma pluralidade de visões dentro de uma 
sociedade. 
Na perspectiva da psicologia social, o estudo da ideologia se direciona para o 
campo da linguagem como meio de ação e efeito social (GUARESCHI; ROSO; AMON, 
2016). Nessa ótica, ao atravessar as noções de visão, valores e normas consensuais 
que projetam interpretações distorcidas da realidade, faz-se necessário entender 
como o conceito de ideologia se relaciona com a compreensão de subjetividade e com 
os modos de subjetivação dentro do campo da psicologia social. 
 
8 
 
Partindo de uma análise arqueológica, podemos entender que a primeira 
problematização em relação à noção de subjetividade surgiu na filosofia moderna de 
Kant, a partir do questionamento das condições de possibilidades para a produção de 
verdades imutáveis, objetivas e universais. Tais questionamentos ganharam força a 
partir da compreensão da problemática de que quem produz o conhecimento são 
sempre sujeitos singulares, históricos e passíveis de cometer erros (PRADO; 
MARTINS, 2007). 
 A subjetividade emergiu, nessa perspectiva, em meio a um contexto filosófico 
e epistemológico que se traduz na relação com a produção do conhecimento, sendo 
concebido, inicialmente, como algo que deveria ser neutralizado para que pudesse 
acessar uma verdade absoluta. Com o passar dos anos, a subjetividade foi aceita pela 
comunidade científica como algo que faz parte do jogo de produção do conhecimento 
e que, portanto, não se oporia, necessariamente, ao critério de objetividade (PRADO; 
MARTINS, 2007). Nesse sentido, a subjetividade é concebida como uma forma de 
captação e compreensão da realidade de forma objetiva, que constitui, por sua vez, 
um padrão global de funcionamento que atravessa as dimensões afetivas, culturais, 
econômicas, políticas e sócio históricas de cada sujeito (TORRES; NEIVA, 2011). 
Podemos considerar, portanto, que a subjetividade é a forma pela qual 
significamos o mundo. Diversas pesquisas apontam que, além da subjetividade, o 
poder também aparece como um possível fator de contaminação da suposta 
neutralidade científica, que, inicialmente, havia motivado a tentativa de neutralizar a 
subjetividade (PRADO; MARTINS, 2007). 
Cabe ressaltar que Foucault (2002), juntamente com outros teóricos, fez uma 
importante crítica sobre a importância da indissociabilidade do tripé, saber, poder e 
subjetividade. Para o autor, os elementos do tripé andam juntos e estão 
correlacionados no tecido social, sendo constitutivos e constituintes das relações que 
estabelecemos. Nessa perspectiva, a subjetividade adentra a ciência como objeto 
construído pelo conhecimento e pelo campo em que decorrem as experiências do 
sujeito, não implicando diretamente uma ideia de interioridade, substância ou 
permanência, como havia sido compreendida em um primeiro momento (PRADO; 
MARTINS, 2007). 
 
9 
 
De acordo com essas percepções, a subjetividade, como resultante de forças 
sociais, históricas, políticas e econômicas, requer a compreensão de si enquanto 
articuladora de movimentos que decorrem do campo social e, portanto, passível à 
interferência do mundo e às possibilidades de transformação. Assim, o conceito se 
afasta de uma concepção biológica para ser vista a partir de um entendimento social. 
A subjetividade passa a ser entendida como pertencente à ordem dos efeitos e 
da exterioridade do ambiente, produzida entre as relações de saber e poder e dos 
sujeitos consigo mesmos. Dessa forma, é possível afirmar que tanto a subjetividade 
quanto a noção de interioridade são produções históricas e resultantes dos efeitos 
dessas relações. Fato que contraria, consequentemente, a ideia inicial de um suposto 
sujeito universal da razão, da cognição ou da consciência, totalmente autônomo e livre 
para decidir sobre si. 
Assim sendo, somos todos seres sociais imersos em relações históricas e 
localizadas em certas condições de possibilidades para ser quem se é (PRADO; 
MARTINS, 2007). Somado a isso, configura-se no tecido social outras possíveis 
ramificações sobre o conceito de subjetividade. 
Figueiredo e Santi (2008), por exemplo, compreendem a subjetividade como 
uma concepção individualizada de uma vida privada, a qual nomeiam como 
“subjetividade privatizada”. Isso coloca em discussão a noção de um “eu” individual 
que possibilita as condições necessárias para o nascimento da psicologia, que se 
preocupa com a construção do indivíduo moderno, estudando questões como a 
personalidade que advém da ideia de um eu privado que se sustenta em uma essência 
imutável e particular (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
A psicologia social, por outro lado, busca problematizar a concepção de 
subjetividade colocando em discussão as relações de poder e as técnicas de 
subjetivação. Ao colocar o indivíduo como objeto de conhecimento estudando 
questões relativas à adaptação, adequação e compreensão das formas de sentir, 
pensar e habitar o mundo, não estamos nos dirigindo apenas à subjetividade como 
aspecto relativo a uma essência ou a uma substância no mundo, mas a modos de 
subjetivação que criam desejos e incitam comportamentos (FIGUEIREDO; SANTI, 
2008). 
 
10 
 
A partir disso, a psicologia social compreende a subjetividade como uma 
ferramenta que orienta práticas e discursos de verdade, entendendo que a nossa 
visão e percepção são sempre atravessadas pelo filtro de interpretação da nossa 
subjetividade, interferindo diretamente nos nossos julgamentos. 
Os modos de subjetivação são concebidos como um conjunto de práticas que 
constituem o sujeito, sendo a subjetividade um efeito dessas práticas, que, 
consequentemente, orienta regimes de verdade pautados em relações de poder e 
saber que produzem sentidos, desejos e experiências (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
 
 
Fonte: https://www.ex-isto.com/ 
 
Assim, o sujeito não detém a verdade, mas é efeito de interações e práticas de 
relação de poder e saberes já existentes dentro de uma sociedade, e essas condições 
criam as possibilidades que revestem e constituem a sua subjetividade. O desejo é 
produzido a partir dos modos de subjetivação dado por um conjunto de práticas e 
relações que envolvem e tornam o “eu” o encontro dos acontecimentos que o rodeiam 
(FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
A experiência da subjetividade privatizada proposta por Figueiredo (1994) 
exemplifica a ideia de que nossos pensamentos são privados, que podemos pensar e 
decidir livremente sobre as nossas vidas, que podemos admitir ou negar sentimentos. 
 
11 
 
A privacidade é altamente desejada e valorizada, atrelada ao desejo de sermos livres 
e donos do nosso próprio destino. Normalmente, temos a sensação de que o que 
vivemos não é vivido por mais ninguém, que o que sentimos ninguém mais sente e 
que os nossos pensamentos e ideias são sempre únicos e originais. 
As experiências da subjetividade privatizada se ligam, cada vez mais, à noção 
que os indivíduos têm da sua própria experiência de existência.Ao se explicitar no 
sujeito as condições históricas, sociais e políticas do seu contexto, é possível que ele 
seja capaz de reconhecer sua própria inscrição subjetiva, reconhecendo suas amarras 
e relações com o mundo. Sendo a política, nesse sentido, entendida como um 
conjunto de regras de convívio que orientam dinâmicas históricas de interações 
sociais, com atravessamentos no passado, no presente e no futuro de cada indivíduo. 
Logo, a psicologia social se ocupa do estudo de tudo que se refere à ideologia e à 
comunicação, bem como às estruturas, origens e funcionalidades que constituem e 
atravessam os modos de subjetivação, de ser e de estar no mundo. 
2.2 Principais abordagens teóricas 
O conceito de ideologia foi citado pela primeira vez no tratado filosófico do 
francês Destutt, Conde de Tracy, no final do século XVIII, com a compreensão de que 
o estudo das ideias e das sensações advém dos sentidos e das percepções sensoriais 
e são resultantes da interação entre os indivíduos e o ambiente social no qual estão 
inseridos (LÖWY, 1985; THOMPSON, 1995). 
A ideologia era configurada, nessa época, dentro da área da zoologia, 
relacionada ao estudo do comportamento dos organismos vivos. Partia da ideia de 
que somente somos capazes de conhecer o mundo por meio das ideias oriundas das 
nossas sensações. Assim, a ideologia era compreendida enquanto o estudo 
sistemático das ideias e sensações que amparam o conhecimento científico e as 
resoluções práticas que se dão a partir dele (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). A 
ciência das ideias seria, portanto, a mãe de todas as outras formas de fazer ciência, 
detendo o conhecimento da natureza humana e, por conseguinte, orientando a ordem 
social e política (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). 
 
12 
 
Todavia, essa concepção foi duramente atacada por Napoleão, que nomeou 
Destutt de Tracy e seus adeptos como ideólogos, afirmando que estes viviam em um 
mundo abstrato e distante da realidade e do poder político (GUARESCHI; ROSO; 
AMON, 2016). Logo, o sentido neutro do conceito de ideologia formulado por Destutt 
passou a carregar uma conotação negativa devido às afirmações de Napoleão. A 
partir daí a ideologia deixou de ser uma ciência das ideias para ser colocada apenas 
como uma “ideia”, irreal, ilusória e malvista. Sendo, na visão de Napoleão, uma 
vertente científica que deveria ser altamente combatida (GUARESCHI; ROSO; 
AMON, 2016). 
O termo foi retomado por Marx, sofrendo uma importante alteração conceitual, 
associando-se a um referencial teórico e a um programa político. Alguns autores 
compreendem, contudo, que a concepção de ideologia formulada por Marx não é 
objetiva e coerente ao longo de toda a sua obra. Em certas partes, assemelha-se à 
perspectiva de Napoleão, que via o conceito como algo equivocado e que coloca muito 
enfoque no âmbito das ideias e se afasta das condições de vida socio-históricas que 
originam essas ideias. Nesse sentido, existe uma crítica aos jovens hegelianos cujo 
pensamento tinha a intenção de opor ideias (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). 
Thompson (1995) percebia isso como uma concepção “polêmica” da ideologia. 
Marx também associou a questão da ideologia a uma consciência de classe, referindo-
se a ela como um sistema de ideias como a moral, a religião e as doutrinas políticas, 
o que está sempre atrelado aos interesses da classe dominante, que formula 
variações da realidade e que deturpa o que é visto, de modo a criar uma falsa 
consciência, cujo objetivo é manter relações de dominação. 
Outro sentido para a ideologia que também poderia ser extraído das obras de 
Marx diz respeito a um sistema de representações, símbolos, costumes, tradições, 
crenças e valores que orientam a vida social e sustentam relações de dominação por 
meio de um desvio para o passado e a invisibilização das questões de classe e das 
mudanças sociais para um futuro iminente (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016; 
THOMPSON, 1995). 
As três visões de Marx sobre o conceito de ideologia são orientadas por uma 
valorização negativa e crítica. Nesse sentido, sua perspectiva apresenta algumas 
semelhanças com a interpretação de Napoleão, como afirmar que o conteúdo da 
 
13 
 
ideologia é pautado em representações inadequadas e distantes da realidade social 
da população, formulando ideias ilusórias a fim de manter os interesses da classe 
dominante e a ordem intacta. 
Essas formulações ilusórias poderiam, na visão de Marx, ser facilmente 
desmentidas pela análise científica e crítica sobre as condições materiais de produção 
e de mudança social (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). Já autores como Löwy 
(1985) e Thompson (1995) demonstram que o termo ideologia sofreu mudanças a 
partir de Lenin e o movimento leninista, quando passou a se considerar a realidade 
social e/ou política como associada aos interesses e às posições das classes sociais, 
abrindo o campo de discussão para o reconhecimento de duas possibilidades de 
ideologia: a ideologia burguesa e a ideologia proletária. Essa diferenciação reduziu a 
valoração negativa do conceito de ideologia que ainda restava da concepção de Marx 
(LÖWY, 1985; THOMPSON, 1995). 
O filósofo Lukács se referiu a uma ideologia do proletariado tomando o 
conceito, em uma perspectiva generalista, como um conjunto de ideias que operam 
interesses de classe, não sendo articulado por um sentido ilusório a ser combatido, 
mas por um aspecto concreto da vida social (LÖWY, 1985; THOMPSON, 1995). 
Entretanto, tal concepção foi compreendida por Thompson (1995) como uma certa 
neutralização do conceito de ideologia. 
Por outro lado, Gramsci (1978) entendia o conceito de ideologia como a 
hegemonia que perfaz um caminho moral e intelectual, no qual a luta ideológica ocorre 
na apropriação ou na reapropriação de certos elementos e não a partir de uma disputa 
entre paradigmas opostos. Para tanto, o autor elaborou uma distinção entre duas 
modalidades de ideologia: a primeira entendida como ideologia historicamente 
orgânica, intrínseca a uma dada estrutura e com validação “psicológica”, que organiza 
o movimento das massas, e a ideologia arbitrária, pautada em racionalidades e 
desejos que formulariam movimentos individuais e polêmicas no campo social 
(GRAMSCI, 1978). 
Althusser (1974), por sua vez, relacionou a ideologia com o Estado, 
compreendendo-a enquanto uma concepção de mundo, que pode, em alguns níveis, 
ser ilusória. Esse autor também via a ideologia como parte da realidade concreta dos 
indivíduos em diálogo com as suas condições de existência, que se dão por meio dos 
 
14 
 
aparelhos ideológicos do Estado, os quais prescrevem práticas, leis e relações de 
poder. Dessa forma, as práticas sempre são regidas por ideologias, e a própria 
ideologia só existe na relação entre os sujeitos e do sujeito consigo mesmo, sendo ela 
constitutiva de quem se é. Essa abordagem pode ser considerada tanto neutra e 
positiva como negativa e crítica (GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). 
A partir desses movimentos, fica claro que o conceito de ideologia não fornece 
uma compreensão absoluta e que varia conforme o tempo, a história e os interesses 
de quem o articula, colocando em foco a condição histórica na qual o termo discorre. 
Dentro do campo da psicologia social, diversos autores operam com a visão crítica da 
ideologia, por meio da análise da linguagem, sem buscar avaliar se dado discurso é 
verdadeiro ou falso. Isto é, sem adotar a ideia de ideologia como falsa consciência 
(GUARESCHI; ROSO; AMON, 2016). 
O que se busca é identificar os meios linguísticos e discursivos que possibilitam 
condições para criar e manter relações de poder e modos de ser e estar no mundo. 
Foucault, importante pensador da psicologia social, por exemplo, compreendeu o 
conceito de ideologia como uma “[...] noção muito importante e ao mesmo tempo muito 
embaraçosa” (FOUCAULT, 2002, p. 27). Isso porque o termo pode ser representado 
de diversasformas e carregar uma avaliação que se modifica conforme a época e o 
contexto histórico, o que irá definir e compreender um dado significado e designar 
uma avaliação moral para a palavra em questão. Para pensar sobre ideologia, 
Foucault (2002) buscou compreender a visão marxista e fazer uma crítica ao modelo 
proposto por Marx. 
A ideologia aparece nas análises marxistas mais tradicionais como um termo 
negativo, tomando o conceito como o meio pelo qual o conhecimento é tido como algo 
velado pela existência, pelas relações sociais ou pelas formas políticas que são 
impostas pelo ambiente externo ao sujeito do conhecimento. Para Foucault (2002), 
entretanto, a “ideologia é a marca, o estigma destas condições políticas ou 
econômicas de existência sobre o sujeito de conhecimento que, de direito, deveria 
estar aberto à verdade” (FOUCAULT, 2002, p. 27). 
O posicionamento marxista tradicional impõe ao conceito de ideologia uma 
importante associação à ideia do véu que encobre uma verdade, ou seja, a relação 
de conhecimento é velada, encoberta pelas condições de existência, sendo esse véu 
 
15 
 
a própria ideologia que abafa a relação de conhecimento (TASSARA; ARDANS, 
2007). Contudo, Foucault (2002) parte de uma noção de ideologia em contraposição 
a Marx: 
 
O que pretendo mostrar [...] é como, de fato, as condições políticas, 
econômicas de existência não são um véu ou um obstáculo para o sujeito de 
conhecimento, mas aquilo através do que se formam os sujeitos de 
conhecimento e, por conseguinte, as relações de verdade. Só pode haver 
certos tipos de sujeitos de conhecimento, certas ordens de verdade e certos 
domínios de saber, a partir de condições políticas que são o solo em que se 
formam o sujeito, os domínios de saber e as relações com a verdade 
(FOUCAULT, 2002, p. 27). 
 
 
O que Foucault coloca em discussão é a necessidade de compreender os 
discursos da verdade que operam no cenário social e nas condições políticas, 
econômicas e culturais que tornam tais discursos possíveis de serem proferidos em 
determinados contextos, territórios e tempo histórico. 
Busca-se, portanto, entender como essas relações formam modos de 
subjetivação que fazem os sujeitos se reconhecerem enquanto tais, dentro de uma 
relação de jogos de poder, saberes e modos de ser que inscrevem nos sujeitos 
possibilidades de pensar e sentir o mundo ao seu redor. Dessa forma, o que seria 
considerado um obstáculo na posição marxista é compreendido por Foucault (2002) 
como um substrato que forma o sujeito nas relações com o domínio do saber e os 
discursos da “verdade”. 
Esse solo que germina a ideologia parte, portanto, das condições políticas em 
que se socializa o indivíduo, entendendo por política não uma noção partidária, mas 
um conjunto de regras e valores que orientam saberes e tipos de normatividade. 
Foucault permite que se compreenda a ideologia não somente como objeto de 
interpretação do mundo, mas como algo que também impõe uma venda na relação 
entre o sujeito e o objeto e na relação do sujeito com o conhecimento (TASSARA; 
ARDANS, 2007). 
O que é posto em questão na relação entre a visão marxista e a foucaultiana é 
o entendimento da ideologia como um véu que interpõe atos de dominação na relação 
entre objeto e sujeito e como uma venda que opera na relação entre sujeito e objeto, 
 
16 
 
que é um resultado constitutivo da formação da subjetividade que ocorre por meio da 
socialização, além de dificultar a compreensão do conhecimento. 
Podemos compreender, portanto, que a análise da ideologia e da subjetividade 
nos impõe a discussão do objeto e do sujeito, que, em primeiro momento, podem ser 
invisibilizados ou inacessíveis (TASSARA; ARDANS, 2005). Além disso, o jogo de 
relações de poder, saber e modos de ser que nos subjetivam e incitam práticas e 
formas de habitar o mundo nos permite reconhecer as condições da formação do 
sujeito enquanto tal e o seu campo de socialização que decorre dessas práticas. 
2.3 Ideologia e subjetividade na prática da psicologia social 
 
Fonte: https://www.ex-isto.com/ 
 
O conceito de subjetividade, inicialmente trabalhado no campo da psicanálise, 
passa para o domínio da psicologia ao se substancializar uma noção de interioridade, 
que, posteriormente, foi compreendida, em termos históricos, sociais e políticos, como 
capaz de produzir modos de subjetivação. 
Na contemporaneidade, o conceito se tornou objeto de estudo de diversas 
vertentes da psicologia de cunho crítico, que passaram a problematizar a ideia de 
“identidade”, colocando em discussão a multiplicidade das diferenças em um campo 
de normatividade (PRADO; MARTINS, 2007). Esse movimento ganhou força ao ser 
atrelado a uma perspectiva histórico- -política da subjetividade a partir do declínio do 
 
17 
 
conceito de identidade que se consome pela cristalização de uma noção sedimentada 
na noção do “idêntico”, padronizado pelas práticas de poder que operam no tecido 
social (PRADO; MARTINS, 2007). Essa questão política envolve jogos de 
normalização, formas de reconhecimento de si e dos outros, assim como modos de 
subjetivação que exigem um posicionamento crítico e uma resistência a práticas de 
opressão exercidas pelo Estado (PRADO; MARTINS, 2007). 
Contudo, nem sempre os exemplos são tão facilmente identificáveis a partir de 
rotulações específicas. Quando nascemos, temos a impressão de que somos únicos, 
que não existe ninguém com as mesmas qualidades e defeitos, assim como não é 
possível existir alguém com a mesma vida e rotina que a nossa. Passamos a acreditar 
em determinadas religiões, verdades, grupos sociais, valores e costumes, mas 
quando esse padrão de realidade com o qual estamos acostumados entra em crise, 
passamos a duvidar dos nossos conjuntos de regras e valores que ditam as 
“verdades" que assumimos para as nossas vidas. 
Somos compelidos a buscar novos caminhos e a repensar as escolhas que 
tomamos para a nossa vida, assim como os filtros a partir dos quais avaliamos e 
julgamos o que é certo ou errado. A perda de uma referência coletiva abre espaço 
para o que Figueiredo e Santi (2008) chamaram de subjetividade privatizada, 
contestando quem somos, o que sentimos, desejamos e julgamos ser certo ou errado. 
Essa discussão teórica ganhou espaço e repercussão positiva no tecido social no 
período do Renascimento (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
Passamos a acreditar que somos donos de nossas opiniões e capazes de 
tomar decisões de forma autônoma e individual e a desenvolver uma reflexão moral e 
ética sobre determinados assuntos, buscando novos valores e novas crenças, 
valorizando nossa liberdade e individualidade. Esse contexto foi fortemente marcado 
pelo pensamento de Descartes com as suas conhecidas frases “penso, logo existo” e 
“a verdade reside no homem, dá-se para ele” (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
 Nesse período, as condições de possibilidades foram constituídas para que se 
tornasse possível uma crise de subjetividade privatizada, na qual nossas verdades 
são postas à prova dia após dia, sendo contrariadas a cada nova descoberta. Revendo 
com frequência nossas verdades, crenças e culturas e instaurando uma sensação de 
insegurança frente ao futuro e ao controle de nossas vidas, gradualmente, passamos 
 
18 
 
a questionar até que ponto realmente estamos no controle de nós mesmos, abrindo 
as condições necessárias para uma crise da subjetividade privatizada em meio a um 
mundo globalizado, dentro de moldes e estereótipos, em uma rede de relações que 
se estabelecem por meio do consumo e do capital (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). Já 
não sabemos com exatidão se escutamos determinada música, comemos certa 
comida ou vestimos tal roupa porque gostamos ou apenas porque fazem parte do 
nosso círculo social, determinados para nós como algo que está na moda, que é bom 
ou legal de ser utilizado. Ainda que a subjetividade privatizada nos faça crer que 
somos únicose que temos o pleno controle de nossas escolhas e senso de justiça 
próprio, nossos gostos e desejos ainda são similares aos de grande parte da 
população. 
Assim, aos poucos, passamos a entender que não somos tão únicos e que a 
liberdade se constitui numa ilusão alimentada pelo desejo social incutido em nós. O 
que consequentemente pode acarretar perda de referências, sentimentos de 
desamparo e insegurança, abrindo caminho para patologias sociais como depressão 
e ansiedade. Assumimos papéis sociais, nos adaptamos aos meios em que estamos, 
nos esforçamos para sermos profissionais competentes, para não sermos demitidos, 
nos encaixar em padrões de beleza e não sermos excluídos. 
Nos relacionamos por situações de interesses sociais, econômicos, culturais e 
políticos, e, com o advento da globalização e com o mundo cada vez mais 
homogêneo, dividimos as pessoas entre “normais” e “anormais”, boas e más, certas 
e erradas (FIGUEIREDO, 1994). 
A partir do declínio das crenças liberais e dos ideais do romantismo, instaurou-
se a suspeita de que nossa singularidade e liberdade são ilusórias, abrindo espaço 
para a construção de saberes e pesquisas científicas que colocam em foco a previsão 
e o controle do comportamento humano, da qual decorre as percepções de 
sociedades disciplinares e de controle, conforme propostas por Foucault e Deleuze, 
respectivamente (FIGUEIREDO, 1994). Ao mesmo tempo, emergiram condições para 
críticas a esse sistema por meio de problematizações teóricas e práticas de 
subjetividade que buscaram resistir ao regime disciplinar e que orientaram diversas 
escolas contemporâneas com importantes interfaces com a clínica e a educação 
(FIGUEIREDO, 1994). 
 
19 
 
Como afirma Figueiredo (1994, p. 36), “por um lado, a ciência moderna 
pressupõe sujeitos livres e diferenciados — senhores de fato e de direito da natureza; 
de outra procura conhecer e dominar esta própria subjetividade, reduzir ou mesmo 
eliminar as diferenças individuais”. A psicologia social, nesse contexto, busca 
entender as condições de possibilidades para se pensar o que se pensa, desejar o 
que se quer e sentir o que se sente, colocando em discussão as relações de poder, 
os jogos de verdade e os tipos de normatividade de cada contexto, local e período 
histórico. 
Ao serem reconhecidos os movimentos que acompanham o termo ideologia e 
os modos de subjetivação que se dão pelo âmbito social no qual estamos imersos, é 
possível visualizar como esses discursos compõem e orientam as nossas vidas. O 
que, por conseguinte, possibilita ações de resistência a modos de objetivação e 
subjetivação dentro de um jogo de identificação e reconhecimento de si. 
Afirmar a diversidade significa, portanto, reconhecer as multiplicidades de 
formas de existência de ser e estar no mundo, ultrapassando situações de opressão, 
quaisquer que sejam elas. A problematização dessas questões permite a quebra de 
dicotomias discursivas como corpo e mente, biológico e cultural, individual e social ou 
o “eu” e os “outros”. 
Pudemos concluir que cada território e momento histórico proporciona novos 
dilemas que não dizem respeito apenas sobre o sujeito posto em questão, mas sobre 
a cultura e a sociedade, o que excede e constitui um jogo de relações de poder e 
saber. Dessa forma, a subjetividade não implica uma noção de essência, mas uma 
produção contínua que se dá por meio dos encontros com o mundo e com os outros, 
sendo efeito e produzindo efeitos. 
2.4 Cotidiano e constituição do sujeito na contemporaneidade 
No cotidiano, os sujeitos podem experimentar qual a melhor forma de exercer 
seu existir de forma singular, conforme as oportunidades contínuas que emergem no 
esquema frequente do repetir do cotidiano. Assim, na cotidianidade, os sujeitos 
expressam seu sentido de viver, suas crenças e ideologias, seus desejos e 
potencialidades. É na cotidianidade que a subjetividade dos sujeitos entra em prática. 
 
20 
 
O existir de todos os sujeitos é atravessado pelo cotidiano. O cotidiano diz 
respeito a cada momento comum na rotina diária dos sujeitos, desde as tarefas mais 
simples, como despertar, se vestir, comer, até as mais complexas, como planejar 
tarefas, viabilizar sua concretização, atender a todas as demandas diárias. E tudo isso 
em meio a uma enxurrada de emoções e sentimentos atravessados pelo cotidiano, 
emoções e sentimentos das socializações. 
Assim, podemos entender o cotidiano também como uma ferramenta. 
Poderíamos exemplificá-lo como um palco teatral, no qual a cada ensaio, ou 
espetáculo propriamente dito, se cria a possibilidade de fazer algo novo, ainda que 
dentro de uma métrica de tempo, fala atuações e acontecimentos entrecruzados. O 
cotidiano está, dessa forma, consolidado ao existir de todos os sujeitos. Não sendo 
possível dissociá-los, os modos de existir dos sujeitos e o cotidiano se ajustam e 
complementam objetivando plenitude para constituição de conhecimentos. 
George Lukács (1885-1971), filósofo húngaro, desenvolveu sua teoria 
influenciado pelo pensamento de Marx e Weber e propõe um aprofundamento sobre 
aspectos pouco explorados nas obras desses influenciadores. Lukács propõe uma 
transição entre consciência coletiva e consciência individual, em decorrência do 
capitalismo, geradores de forças no cotidiano. 
Agnes Heller (1929-), autora e filósofa húngara, foi aluna de George Lukács e 
participou de seu círculo de estudos sobre estética e ontologia do ser social, ou seja, 
a sua condição de singular, em sua singularidade com relação ao social. Heller (2004) 
desenvolveu seu pensamento sobre a teoria do cotidiano pensando nas possibilidades 
do universo que contribui para a formação do ser social, referindo sobre o despertar 
de uma consciência e atitude ética e política atuando para e na vida social possibilitam 
uma vida reflexiva. 
Com o auxílio desses pensadores, podemos entender o cotidiano como um 
ciclo constante, em uma infinita sucessão de acontecimentos que se relacionam entre 
si. Embora aparentemente caóticos, conectam o que é vivido com a vida social. 
Veroneze (2013) refere sobre o pensamento de Heller sobre a impossibilidade de 
separação entre o existir de cada sujeito e a cotidianidade, onde o viver está intrínseco 
ao cotidiano. Assim, o cotidiano se desenvolve em sua cotidianidade conforme a 
existência subjetiva de cada sujeito. 
 
21 
 
3 CULTURA, PERSONALIDADE E PERCEPÇÃO 
 
Fonte: https://aempreendedora.com.br/ 
 
De forma sintética, pode-se dizer que cultura é tudo o que é criado pelas 
sociedades humanas (incluindo crenças, hábitos, moral, leis, arte, etc.) com o intuito 
de satisfazer suas necessidades e de conviver em sociedade. Ou seja, de acordo com 
Barroso (2017), é por meio da cultura que os seres humanos aprendem a habitar o 
mundo e a conviver da forma como convivem. Além disso, a cultura diferencia a 
espécie humana das demais existentes no planeta, por ser exclusividade dessa 
espécie. 
3.1 O que é cultura? 
A antropologia estuda o fenômeno do homem, a mente do homem, seu corpo, 
sua evolução, origens, instrumentos, artes ou grupos – não simplesmente em si 
mesmos, mas como elementos ou aspectos de um padrão geral ou de um todo. 
Para enfatizar esse fato, os antropólogos tomaram uma palavra de uso corrente 
para nomear o fenômeno e difundiram seu uso. Essa palavra é cultura. Quando se 
fala como se houvesse apenas uma cultura, como em cultura humana, isso se refere 
muito amplamente ao fenômeno do homem; por outro lado, quando se fala sobre uma 
 
22 
 
cultura ou sobre culturas da África, a referência ocorre em relação às tradições 
geográficas e históricas específicas, casos especiais do fenômeno homem. 
Assim, a cultura se tornou uma maneira de falar sobre o homem e sobre casos 
particulares do homem quando visto sob uma determinada perspectiva. Quando se 
fala de pessoas que pertencem a diferentes culturas, estamos, portanto,nos referindo 
a um tipo de diferença muito básico entre elas, sugerindo que há variedades 
específicas do fenômeno humano. 
A cultura é dinâmica e se recicla incessantemente, incorporando novos 
elementos, abandonando antigos, mesclando os dois e transformando-os num terceiro 
com novo sentido. Tratamos, portanto, do mundo das representações, incorporadas 
simbolicamente na complexidade das manifestações culturais. 
Cultura não é acessório da condição humana, mas sim o essencial. O ser 
humano é humano porque produz cultura, dando sentido à experiência objetiva, 
sensorial. É o que diz o conceito de “cultura” defendido por Geertz (1989), segundo o 
qual o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, 
sendo a cultura essas teias e sua análise. 
A cultura é pública porque o significado também é. Fica marcado, portanto, o 
caráter eminentemente social das identidades. Ainda aqui, os membros escolhem 
aderir ao conjunto de práticas e crenças vinculadas a tal identidade, “[...] a mais 
essencial de todas as criações ou invenções modernas [...]”, como afirma o sociólogo 
polonês Bauman (2008). 
Daí a importância da interação social do “outro” na construção dos espaços 
simbólicos onde expressamos nossa existência humana em termos de múltiplas 
identidades. Portanto, quando se diz que “fulano é sem cultura”, a referência é sempre 
onde nossos pés pisam. Ou seja, pressupõe-se que essa pessoa não se adeque aos 
princípios, valores, comportamentos e atitudes específicos da cultura em que estamos 
inseridos e que compartilhamos no dia a dia. Já no senso comum, isso também pode 
significar que a pessoa em questão possui pouco estudo, uma vez que a referência, 
nesse caso, passa a ser a erudição e o acesso aos saberes mais elaborados. 
 
23 
 
3.2 O hibridismo cultural 
 
Fonte: https://sites.google.com/ 
 
A cultura em seu sentido antropológico, por outro lado, transcende a noção de 
refinamento intelectual (cujo adjetivo é “culto”, e não “cultural”). A cultura permite 
traduzir melhor a diferença entre nós e os outros e resgata a nossa humanidade no 
outro e a do outro em nós mesmos (DAMATTA, 1997). 
 Ao seguirmos essa perspectiva, tornamo-nos mais respeitosos com relação ao 
outro, pois este outro nada mais é do que nosso espelho, refletindo a unidade na 
diversidade. Para além da tolerância, perseguimos a convivência e a harmonia. Logo, 
é muito importante trazer o conceito de hibridismo cultural de Canclini (2011), pois ele 
é pioneiro ao pensar o conceito de hibridismo cultural sob um viés político que se 
estabelece por meio de interações entre as culturas de elite e indígena. Para o autor, 
o processo de hibridação garantiria a sobrevivência da cultura indígena e levaria a um 
processo de modernização da cultura de elite. 
O hibridismo cultural, para o autor, traz consigo a ruptura da ideia de pureza. É 
uma prática multicultural possibilitada pelo encontro de diferentes culturas. Nesse 
sentido, são apontados pelo autor dois processos principais que, segundo ele, 
possibilitaram a desarticulação cultural na América Latina: o descolecionamento e a 
desterritorialização. 
Ambos os processos foram fundamentais para a expansão dos gêneros 
“impuros”, que, de acordo com ele, são a expressão máxima do hibridismo cultural. O 
descolecionamento dá sentido, sobretudo, ao fim da produção de bens culturais 
colecionáveis, resultando na quebra de divisões entre cultura elitista, popular e 
massiva. 
 
24 
 
O descolecionamento seria possibilitado pelo uso de recursos tecnológicos 
como a fotocopiadora, o videocassete e o videogame, que destituiriam as referências 
que ancoravam o sentido das coleções. Eles permitem que um bem cultural seja 
reproduzido e disponibilizado mais facilmente para a população. Já o processo de 
desterritorialização, segundo fator responsável pela desarticulação cultural na 
América Latina, não é entendido, conforme tenciona Canclini (2011), tendo como 
ponto de alicerce apenas as questões geográficas. Ele é fundamentado, sobretudo, 
pela transnacionalização dos mercados simbólicos, ocasionada pela descentralização 
das empresas e a disseminação dos produtos pela eletrônica e telemática. 
As culturas hoje se encontram mescladas, dialogam entre si e, para muitos 
estudiosos, têm se tornado homogeneizadas, recebendo assim, uma nova 
nomenclatura – “culturas” –, não sendo mais possível referir-se a elas como algo 
heterogêneo. Esse fator foi possibilitado pela intensificação do processo de 
globalização, que proporcionou o encurtamento das distâncias e a propagação, em 
escala mundial, da narrativa dos meios de comunicação, grandes responsáveis por 
ligarem pessoas das mais diversas partes do mundo. Contudo, o fato é que essa 
homogeneização é possibilitada, principalmente, pela uniformização do consumo. 
Apesar do processo de globalização, que busca a mundialização do espaço 
geográfico – tentando, por meios de comunicação, criar uma sociedade homogênea 
–, aspectos locais continuam fortemente presentes. A cultura é um desses aspectos: 
várias comunidades continuam mantendo seus costumes e tradições. 
Podemos definir, portanto, “culturas híbridas” como um rompimento entre as 
barreiras que separa o que é tradicional e o que é moderno, entre o culto, o popular e 
o massivo. Em outras palavras, culturas híbridas consistem na miscigenação entre 
diferentes culturas, ou seja, uma heterogeneidade cultural presente no cotidiano do 
mundo moderno. Essa miscigenação une traços distintos de diferentes visões de 
mundo, formando, assim, uma nova cultura, que resultará na elaboração de signos de 
identidades. Esse processo dá origem a uma identidade própria de um povo, uma 
cultura local. 
Contudo, nossas identidades culturais, em qualquer forma acabada, estão à 
nossa frente. “Estamos sempre em processo de formação cultural [...]” (HALL, 2003). 
O mesmo autor afirma que a cultura é uma produção que possui seus recursos, sua 
 
25 
 
matéria-prima e seu “trabalho produtivo”. Cuche (2002) aponta que, da mesma forma 
como a cultura, “[...] a identidade se constrói, desconstrói e se reconstrói, segundo as 
situações [...]”. Ela está incessantemente em movimento; cada mudança social a leva 
a se reformular de modo diferente. 
3.3 Cultura, personalidade e percepção 
Os seres humanos são os únicos seres vivos que desenvolvem fenômenos 
culturais. A cultura nos diferencia do restante das espécies (BARROSO, 2017). 
Estudar a cultura engloba diversos aspectos, já que ela atua, inclusive, no 
desenvolvimento dos processos psicológicos. Através de um resgate histórico, é 
possível observar que até a década de 1970 a cultura era vista sob uma ótica 
mentalista, sendo entendida como um conjunto de crenças compartilhadas. A partir 
desse período, o conceito de cultura passou a ser compreendido de uma forma mais 
concreta, sendo visto como um conjunto de costumes ou práticas compartilhadas. Ou 
seja, pode-se presumir que para estudar cultura é preciso tratar de comportamento. 
Sendo assim, Baum (2006) define cultura como um comportamento operante 
(voluntário), que inclui tanto aspectos verbais quanto não verbais, aprendido por 
alguém que pertence a um grupo (sociedade). Para compreender melhor, vale 
relacionar os fenômenos culturais com a carga genética. Os traços culturais são 
transmitidos dentro de uma sociedade (através da educação e da imitação) como uma 
herança social, perpassando gerações, o que ocorre de maneira análoga a um 
conjunto gênico, ou seja, semelhante a uma herança biológica (BARROSO, 2017). 
Complementando esse conceito, Barroso (2017) afirma que é através da 
cultura que os seres humanos aprendem a conviver e a habitar o mundo da forma 
como habitam. A aprendizagem cultural se dá por meio do processo de socialização 
do sujeito e abarca o desenvolvimento da linguagem e da compreensão de símbolos. 
De uma forma geral, de acordo coma autora, pode-se entender que tudo o que é 
criado pelas sociedades humanas, como crenças, hábitos, moral, leis, arte, entre 
outros, com o intuito de satisfazer suas necessidades e de conviver em sociedade, 
pode ser considerado cultural. 
 
26 
 
Tendo em vista o exposto, destacam-se dois pré-requisitos para que uma 
cultura exista (BAUM, 2006): 
 
 A existência da sociedade: sem um grupo de pessoas organizadas de 
maneira cooperativa, não há sociedade, logo não há cultura. 
 A capacidade de aprendizagem dessa sociedade: a capacidade de os 
membros desse grupo aprenderem uns com os outros, visto que é dessa 
forma que a cultura é transmitida. 
 
A partir dessa discussão, compreende-se que os fenômenos culturais são de 
grande impacto em uma sociedade, atingindo cada uma das pessoas que a compõe. 
Para compreender como esse impacto ocorre, resgatam-se as contribuições de 
Bronfenbrenner (2011) acerca do desenvolvimento humano. Para esse autor, o 
desenvolvimento humano é fruto da interação de quatro níveis do sistema ecológico: 
microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema. 
Esses níveis funcionam como um conjunto de estruturas encaixadas, com 
planos mais próximos à pessoa em desenvolvimento e mais afastados dela (da 
maneira como funciona um conjunto de bonecas russas, uma dentro da outra). O nível 
mais interno, marcado pelo contato imediato com a pessoa em desenvolvimento, 
como a casa ou a sala de aula, é o microssistema. O próximo nível, o mesossistema, 
refere-se às relações que dois ou mais ambientes imediatos (microssistemas) 
estabelecem entre si, como a escola e a família, e que impactam na pessoa em 
desenvolvimento. O terceiro nível, chamado de exossistema, diz respeito a ambientes 
em que a pessoa em desenvolvimento não interage diretamente, mas que, mesmo 
assim, a impactam, como é o caso do ambiente de trabalho dos pais. E, por fim, o 
macrossistema, que diz respeito a um ambiente mais amplo, como a cultura da qual 
aquela pessoa em desenvolvimento faz parte. 
Quanto à compreensão de processos psicológicos, destaca-se que eles podem 
ser divididos em processos psicológicos básicos e superiores. Entre os básicos estão 
a memória (capacidade de lembrar), a percepção (capacidade de reconhecer algo ou 
uma situação), o raciocínio (capacidade de resolver ou de pensar sobre algo) e a 
atenção (capacidade de estar centrado em algo). Já os processos psicológicos 
 
27 
 
superiores são mais complexos, englobam o pensamento, a linguagem e o 
comportamento volitivo (que envolve vontade). Esses últimos, em especial, são 
enfatizados por Vygotski (1991), por estarem fortemente relacionados ao âmbito 
cultural, já que a única forma de serem desenvolvidos é por intermédio da socialização 
e aquisição da linguagem (BARRETO, 2005; NASCIMENTO; OLIVEIRA, 2017; 
MARTINS, 2004; VYGOTSKI, 1991). 
Os fenômenos culturais relacionam-se aos processos psicológicos à medida 
em que um é produto e, ao mesmo tempo, produtor do outro. A cultura impacta no 
desenvolvimento de cada ser humano que compõe a sociedade e, simultaneamente, 
é impactada pelas próprias pessoas, visto ser fruto da capacidade de aprendizagem 
de quem nela está inserido. Sendo assim, cultura é, por definição, um processo 
dinâmico (BARROSO, 2017; BAUM, 2006; BRONFENBRENNER, 2011; MARTINS, 
2004). Na sequência você estudará as relações entre cultura e personalidade. 
3.4 Cultura e personalidade 
 
Fonte: https://culturaegestao.com.br/ 
 
O termo personalidade vem do latim, persona, que remete a uma máscara 
utilizada por personagens teatrais. Entretanto, remontando a sua origem, observa-se 
que a compreensão desse conceito sempre foi mais ampla, sendo ligada ao 
entendimento de ser humano e de suas relações com o mundo (MARTINS, 2004). 
Pela compreensão da psicologia, a personalidade é composta pelos 
pensamentos, respostas emocionais e comportamentos que são característicos de 
 
28 
 
uma pessoa e organizados de uma forma dinâmica. Por ter essa organização 
dinâmica, pressupõe-se a existência de um todo coerente (organizado) e não estático, 
sensível às mudanças e adaptável ao ambiente em que a pessoa está (GAZZANIGA; 
HEATHERTON; HALPERN, 2018). 
Concomitante a isso, há evidências de aspectos biológicos envolvidos no 
desenvolvimento da personalidade. Ou seja, é sabido que há uma carga genética 
determinante na personalidade, entretanto, ainda assim, observa-se que a expressão 
desses componentes não é fixa, mas sim adaptativa (algumas características, 
herdadas biologicamente, serão desenvolvidas, enquanto outras não). Essa 
característica adaptativa diz respeito à noção de que a personalidade vai se 
desenvolvendo a partir da interação da pessoa com o meio em que está inserida, logo, 
está relacionada à cultura (GAZZANIGA; HEATHERTON; HALPERN, 2018). 
Martins (2004) complementa esse raciocínio, destacando que a formação do 
ser humano e de sua personalidade representa um processo que sintetiza outros 
fenômenos produzidos pela história humana, de forma que a construção da 
personalidade dos indivíduos está no cerne da construção da humanidade como um 
todo. Assim, pode-se dizer que a personalidade é um atributo do indivíduo, mas, ao 
mesmo tempo, um fruto da interação do indivíduo com o meio. 
Há diversas teorias que tratam da personalidade, trazendo diferentes olhares 
para o mesmo fenômeno. Uma das principais teorias enfatiza cinco grandes fatores 
para descrever a personalidade, é a teoria chamada de Big Five ou Cinco Grande 
Fatores (CGF). Esses fatores são usados com frequência no estudo da personalidade, 
por demonstrarem validade mesmo quando aplicados em diferentes países/culturas 
(GAZZANIGA; HEATHERTON; HALPERN, 2018). 
No Brasil, os termos utilizados para cada um dos fatores (tendo em vista que 
são termos traduzidos do inglês), não são uma unanimidade entre os pesquisadores. 
Em geral, os fatores têm sido organizados da seguinte forma (ANDRADE, 2008): 
 
 Abertura (openness to experience, intellect): descreve a complexidade, 
abertura e profundidade da mente humana. Pessoas com alta pontuação 
geralmente são francas, imaginativas, espirituosas, originais e artísticas. 
 
29 
 
 Conscienciosidade (conscientiousness): analisa a cautela, a confiança, 
responsabilidade e a organização dos indivíduos. 
 Extroversão (extraversion): considera o quanto um indivíduo é ativo, 
entusiasmado, dominante, sociável, eloquente e falante. 
 Amabilidade (agreeableness): considera os aspectos relativos à 
agradabilidade, amabilidade e afetuosidade. 
 Neuroticismo (neuroticism): avalia a instabilidade emocional, 
considerando nervosismo, sensibilidade, tensão e preocupação dos 
indivíduos. 
 
Essa teoria ajuda na compreensão do que compõe a personalidade, como ela 
se expressa e pode ser observada. Entretanto, a personalidade não é fixa, nem 
predeterminada (mas sim dinâmica), sendo impactada pelo meio em que a pessoa 
está inserida. Nesse sentido, quando se trata da relação entre personalidade e cultura, 
alguns pontos devem ser destacados. 
De acordo com Gazzaniga, Heatherton e Halpern (2018), a cultura influencia a 
personalidade, pois dita os comportamentos e reações adequados dentro de 
diferentes situações. Além disso, a cultura também impacta na forma como a pessoa 
percebe ou interpreta determinadas situações, já que ela serve como um referencial 
(a pessoa sempre avalia as situações a partir do seu referencial cultural). 
Francisco (2013) afirma que não se pode estudar a personalidade de maneira 
isolada da cultura. O autor reforça o entendimento de que a personalidade, nessa 
perspectiva, é resultado das interações sociais da pessoa com o meio. Ou seja, é 
construída por intermédio das relações com os outros e com o mundo. Ela é entendida 
como resultado da atividade subjetiva (singular a cada pessoa), condicionada pelo 
ambiente concreto e cultural do qual a pessoa fazparte. Sendo assim, destaca-se o 
entendimento de que a personalidade tem componentes individuais, singulares, e 
componentes coletivos, que dizem respeito à sociedade na qual a pessoa está 
inserida, isto é, aos aspectos culturais. Nesse sentido, a cultura pode ser entendida 
como o ponto em comum entre a pessoa (esfera individual) e a sociedade (esfera 
coletiva). 
 
30 
 
Como foi visto, a cultura está fortemente relacionada ao desenvolvimento da 
personalidade humana. Pode-se dizer que a personalidade é um aspecto individual, 
singular, mas, ao mesmo tempo, fruto de uma relação social representada pela 
cultura. Ainda que a personalidade tenha componentes genéticos e individuais, ela se 
expressa na sociedade e é desenvolvida por meio das relações que a pessoa 
estabelece (FRANCISCO, 2013; MARTINS, 2004). Para finalizar este capítulo, na 
sequência você estudará o desenvolvimento da percepção, da infância à idade adulta, 
com ênfase na mediação cultural desse processo psicológico. 
3.5 Desenvolvimento da percepção através da mediação cultural 
Nesta parte do capítulo insere-se a discussão sobre o desenvolvimento, em 
específico, do processo psicológico da percepção. Inicialmente, retoma-se a breve 
descrição de percepção feita anteriormente, para servir como um pontapé para a 
reflexão que se segue. 
A percepção pode ser entendida como a capacidade de reconhecer algo ou 
uma situação (NASCIMENTO; OLIVEIRA, 2017). Essa descrição, entretanto, não é 
suficiente para a compreensão de como se dá o desenvolvimento desse processo 
psicológico, da infância à idade adulta, com ênfase na mediação cultural. Para que 
isso seja possível, é importante diferenciá-lo da sensação, visto que comumente 
esses dois conceitos são confundidos. 
A sensação pode ser entendida como um processo de detecção de estímulos 
físicos e de transmissão desses estímulos para o cérebro. Ela compreende o processo 
pelo qual os cinco sentidos (visão, tato, paladar, olfato e audição) apreendem 
informações do ambiente. Ou seja, a sensação é o primeiro contato de um estímulo 
com o organismo (FELDMAN, 2015; GAZZANIGA; HEATHERTON; HALPERN, 2018). 
Já a percepção funciona de uma forma um pouco mais complexa. Para 
perceber algo é necessário que o sujeito analise e interprete aquele estímulo. Sendo 
assim, a percepção compreende o processamento, a organização e a interpretação 
de um estímulo sensorial. Pode-se dizer que a percepção é um passo além da 
sensação, é quando o organismo se relaciona com o meio de uma forma consciente 
 
31 
 
e constrói uma informação útil e significativa sobre aquela experiência (FELDMAN, 
2015; GAZZANIGA; HEATHERTON; HALPERN, 2018). 
Pode-se dizer, tendo em vista o que foi discutido, que a relação entre organismo 
e ambiente inicia pela sensação, através dos cinco sentidos, estabelecendo um 
primeiro contato do organismo com o meio, e passa para a percepção quando o 
organismo interpreta e organiza o estímulo (FELDMAN, 2015; GAZZANIGA; 
HEATHERTON; HALPERN, 2018). 
Piovesan (1970) destaca que a sensação é um fenômeno relativamente 
constante dentro da espécie humana (visto que depende apenas dos sentidos), já o 
processo de percepção é essencialmente variável de sociedade para sociedade. Ou 
seja, a percepção é mediada pela cultura em que a pessoa está inserida. 
A partir do exposto, torna-se evidente que o fenômeno da percepção é mediado 
pela cultura. Entretanto, ainda se faz necessário compreender como essa mediação 
ocorre ao longo da vida das pessoas, da infância até a idade adulta. Para isso, 
destacam-se as contribuições de Pimenta e Caldas (2014), que realizaram um estudo 
sobre o desenvolvimento da percepção na infância. 
De acordo com a perspectiva apresentada pelas autoras, quando um bebê 
nasce, o organismo, sob a perspectiva biológica, está estruturado (mesmo que ainda 
precise se desenvolver, a partir do nascimento o bebê já possui o aparato biológico 
necessário). Porém, para além do aspecto biológico, o bebê quando nasce precisa 
ser humanizado. Nesse sentido, o desenvolvimento do bebê ocorre em duas linhas: a 
primeira, relativa ao desenvolvimento biológico e a segunda, relativa ao 
desenvolvimento histórico-cultural, relacionado ao seu processo de humanização. 
A humanização do bebê ocorrerá através da interação social (ou seja, através 
da relação desse bebê com as outras pessoas que compõem a sociedade em que ele 
está inserido). A partir dessas interações, à medida em que o bebê cresce, vai 
desenvolvendo a capacidade de interpretar os estímulos do ambiente, isto é, de dar 
significado para os estímulos com os quais tem contato. 
O desenvolvimento da percepção ocorre a partir da mediação cultural, e inicia 
na infância. Entretanto, diferente do que comumente se pensa, o desenvolvimento (de 
uma forma global) não encerra no período caracterizado como infância, apesar de ter 
seu ápice nesse momento. 
 
32 
 
O desenvolvimento humano ocorre de forma contínua, durante todo o ciclo vital, 
sendo atualizado e modificado à medida em que interage com novos estímulos 
(PIMENTA; CALDAS, 2014). Nesse sentido, destaca-se que os processos 
psicológicos, tais como a percepção, são processos cerebrais, ou seja, tem base 
biológica, mas o seu desenvolvimento é mediado essencialmente pela interação do 
indivíduo com o contexto no qual se desenvolve. Por meio da interação com as 
pessoas, com os instrumentos, com os símbolos, entre outras construções produzidas 
por aquela cultura. É essa interação que produzirá a informação que servirá como 
referencial quando um determinado indivíduo captar um estímulo e o interpretar 
(PIMENTA; CALDAS, 2014). 
Diante do exposto, destaca-se a importância da cultura como mediadora do 
desenvolvimento humano. Como visto ao longo do capítulo, o desenvolvimento dos 
processos psicológicos é impactado pelas interações do organismo com o meio 
cultural do qual faz parte. Em específico, destaca-se o fenômeno da percepção, que 
diz respeito ao processo de sensação e interpretação de um estímulo do ambiente. A 
percepção é desenvolvida desde a infância, perpassando todo o ciclo vital, tendo 
como base as interações entre o organismo e o meio, com ênfase no meio histórico-
cultural (FELDMAN, 2015; GAZZANIGA; HEATHERTON; HALPERN, 2018; 
PIMENTA; CALDAS, 2014). 
 
 
 
Fonte: http://canaldaimprensa.com.br/ 
http://canaldaimprensa.com.br/
 
33 
 
4 ASPECTOS SUBJETIVOS DA CULTURA HUMANA 
A literatura sobre o assunto em questão concorda em que não se pode pensar 
a essência humana fora das relações sociais. Ela resulta do conjunto de suas relações 
totais, uma vez que o ser humano se constrói à medida que ativa esse complexo de 
relações. Nesse sentido, os aspectos subjetivos da cultura humana contribuem e 
colaboram para a constituição do sujeito social, bem como seu universo psíquico e a 
relativização dos papéis sociais. Trata-se sobretudo de compreender como os as 
vivências e práticas sociais favorecem a formação e constituição do ser social. 
Ainda antes de nascermos somos seres em relação com o mundo. Primeiro 
somos gerados pelo imaginário materno, cultivados por meio da noção de mundo 
desse imaginário. Logo ao nascermos, iniciamos nossa jornada social. Somos 
atravessados pelas demandas familiares, somos frustrados por tais demandas ou 
temos sanado nossos desejos. Ou seja, nos constituímos na relação com o mundo 
influenciado pelas relações anteriores a nossa constituição. 
O sujeito enquanto ser social reflete seu universo psíquico por meio do seu 
comportamento, expressando sua subjetividade conforme seu modo de agir. 
Atravessado por suas escolhas e implicações ao mesmo tempo em que se relaciona 
com o mundo. Genuíno, efetivo, autêntico, assim o ser social é captado e 
dialeticamente integrado ao viver. Possui capacidade inerente de transmutar a própria 
natureza e a si mesmo sincronicamente. Dessa forma, o ser social se constitui comoser criador, não somente por sua capacidade de pensar, mas também por sua 
capacidade de agir de forma consciente e racional (BARUS-MICHEL, 2004). 
O ser social se constitui de acordo com sua natureza relacional, assim sendo, 
a partir das relações com outros sujeitos, tomando para si a realidade vivenciada por 
culturas anteriores ao seu existir. Desfruta da oportunidade de experimentar o 
manuseio dos instrumentos e dos aprendizados cultivados pelas gerações anteriores, 
com o objetivo de adaptar, aprimorar ou mesmo perpetuar os conhecimentos. As 
relações sociais também são prévias e inerentes a todo sujeito. Por exemplo, seu 
histórico familiar, a história do local em que vive os acontecimentos sociais, entre 
outros, colocam o sujeito em constante movimento e transformação na construção do 
ser social. O universo interior de todos os sujeitos se forma de acordo com questões 
 
34 
 
provindas da cultura humana, ou seja, muitas das formas de agir e pensar de todo 
sujeito surgem de acordo com movimentos vindos de sua relação com o mundo e são 
importadas para a estruturação do ser social. Assim, o ser social está em constante 
formação por meio das relações sociais provindas do tempo presente ou do passado. 
E se disponibiliza por meio da conexão com sua própria subjetividade e com a 
subjetividade inerente às vivências sociais. Passa adiante sua herança social em 
progressiva vinculação com o mundo exterior e com a continuidade da movimentação 
da cultura humana (BARUS-MICHEL, 2004). 
4.1 A subjetividade e os papéis sociais 
Como vimos, o sujeito não está alheio aos preceitos sociais. Por estar em 
constante movimento constitutivo, se disponibiliza subjetiva e intrinsecamente. 
Articula, combina e se reinventa enquanto ser social, na busca por novas 
aprendizagens e modos de viver. Portanto, se aproximam reciprocamente os 
processos de constituição do psiquismo e do ser social, por meio da subjetivação das 
experiências relacionais. Logo, a dimensão afetiva está ativamente implicada na 
construção de ambos aspectos do desenvolvimento do sujeito. 
A personalidade é característica própria e singular de cada sujeito, constituindo 
uma forma de sentir, pensar e atuar que o torna único e incomparável. Possui três 
fatores que se entrecruzam em sua constituição: a estruturação genética básica, as 
influências do meio e o modo como o sujeito interpreta os acontecimentos. A 
estruturação genética básica se refere às características hereditárias herdadas da 
família, como os aspectos físicos, a cor da pele, olhos e cabelos, e aspectos 
emocionais, como tendência a oscilações de humor, fantasias e também transtornos 
graves, como a esquizofrenia. 
 As influências do meio se referem às contribuições das relações sociais para 
o desenvolvimento do ser e o modo como o sujeito interpreta os acontecimentos, 
utilizando suas ferramentas potenciais, reunindo as características genéticas e o seu 
desenvolvimento social, relacionando de uma forma ao instrumentalizar para uma 
melhor fluência do seu modo de viver. A personalidade tem seu início estrutural ainda 
no útero materno. A maneira como a mãe sente e reage sobre a gestação começa a 
 
35 
 
contribuir para a formação da personalidade. Ainda nos primeiros anos de vida, a 
criança se constitui enquanto sujeito, atribuindo sentido e relacionando seu existir no 
mundo. 
O modo como o mundo se apresenta para a criança, no início com a 
representação da família, seguida da escola e das demais relações sociais, vai definir 
o desenvolvimento da personalidade da criança. Vygotsky e Alexander (1996) referem 
sobre uma personalidade social construída conforme as relações ao longo da 
existência do sujeito. Dessa forma, podemos compreender que a constituição e 
formação da personalidade é atemporal, pois se desenvolve de acordo com o viver de 
cada ser. Todas as relações, vivências e percepções do mundo que nos rodeia 
atribuem significado, influenciando significativamente na formação da personalidade. 
E esta se coloca na seleção e atuação dos papéis sociais, conforme afinidade e 
preferências únicas a cada ser social. 
Sendo os papéis sociais criativos, estão implicados a vivenciar fenômenos 
transicionais, e dessa forma criam uma flexibilidade de atuação. Tanto a história 
individual, como os afetos, os valores e a posição que o sujeito ocupa colaboram para 
a constante formação e desenvolvimento das subjetividades do universo psíquico, 
assim como refletem a relativização dos papéis sociais (LEONTIEV, 1998). 
4.2 Constituição do ser social 
Em um processo lento e atravessado por múltiplos fatores, o sujeito se constitui 
progressivamente e de maneira não linear, desde sua formação biológica até seu 
posicionamento enquanto ser social. Influenciado por sua hereditariedade histórica, 
compreende formas diversas de ser, pensar, se comunicar e agir. 
Desde a necessidade de manutenção da sua existência, em meio a luta para 
se manter vivo e protegido, assim como a sua família, o sujeito se adapta ao meio em 
que vive e ainda promove transformações propagando adaptações. É em meio a esse 
movimento que os sujeitos adquirem um “corpo social”, implicado no desenvolvimento 
de capacidades especificas para a sobrevivência social (MORIN, 1999). 
Até mesmo o desenvolvimento de aptidões motoras, a complexidade da 
linguagem, a afinação dos sentidos como visão, audição, olfato, gustação, tato e 
 
36 
 
principalmente a propriocepção, que é a capacidade de perceber, interpretar e reagir 
a acontecimentos de acordo com as sensações percebidas em seu corpo orgânico, 
são processos desenvolvidos a partir do viver social. É possível afirmar que nossas 
habilidades são melhores, ou menos estruturadas, de acordo com nossa participação 
e implicação como seres sociais. 
Da mesma forma, pensamentos, sentimentos, emoções e desejos são 
compostos diante das relações sociais. Apropriando-se da realidade, por meio das 
relações com os demais seres sociais, os sujeitos se apropriam da oportunidade do 
encontro para afinar seu modo de ser e acabam, muitas vezes, constituindo novos 
modos. 
Podemos dizer que o desenvolvimento orgânico, moral e emocional são 
instrumentos, ferramentas para a constituição e articulação do ser social. Cada sujeito 
escolhe a forma como manuseará cada instrumento e quais passará adiante, dando 
continuidade, dessa maneira, ao fluxo constante de construção de si e de outros seres 
sociais. 
Assim se dá a constituição do ser por meio do social, em um movimento 
constante de apropriação, trocas e afinações. Algumas conexões promovem 
mudanças mais profundas e podem tocar com profundidade a constituição do ser, 
como grandes tragédias e perdas, que podem ser distantes, próximas, coletivas, 
individuais, reais, eminentes, por exemplo, em questões relacionadas à segurança, 
com o aumento da criminalidade, devido a furtos, assaltos, latrocínios e assassinatos, 
ou só existentes no imaginário de cada sujeito. Outras mudanças podem acontecer 
sutilmente, sem que exista uma reflexão sobre algum ocorrido, mudança de hábitos 
ou preferências, como ocorre, por exemplo, com a diminuição da necessidade de sono 
ao longo dos anos. 
 
37 
 
5 FORMAS DE SUBJETIVAÇÃO À LUZ DA PSICOLOGIA SOCIAL 
 
Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/ 
 
A construção dos sujeitos como algo a ser buscado por todos, o encontro de 
uma melhor versão de si mesmo, especialmente na atualidade. Porém, construir-se a 
si mesmo é mais complexo do que meramente buscar metas e sentidos de vida, como 
se fosse algo completamente desprovido de conexão com tudo aquilo que cerca e 
forma as pessoas a cada minuto. Tornar-se alguém só acontece nas relações entre o 
sujeito e sua cultura, e isso implica que, para ser alguém, será necessário estar em 
relações de poder. Assim, subjetivar-se, ou tornar-se sujeito, não é tarefa isolada, que 
se dá apenas na própria intimidade, mas, sim,um jogo de forças entre aquilo que é 
imposto e aquilo que (não) é aceito. 
A psicologia social se ocupa de conceitos que visam analisar as relações entre 
os indivíduos e a forma como adquirem uma consciência sobre si mesmos, a sua 
subjetivação. Contudo, por vivermos em sociedade devemos pensar que a construção 
de si mesmo só pode acontecer no contato do indivíduo com outros e com as 
estruturas que formam a sociedade. Tais estruturas são todas formadas com base em 
relações de poder, entre aqueles que o detêm e aqueles que obedecem, mesmo sem 
saber que o fazem. Por isso torna-se importante estudar os conceitos de poder e 
subjetivação nas diferentes visões de filósofos e sociólogos que primeiro 
questionaram tais relações e compreender qual a importância desses conceitos para 
a área de psicologia social. 
 
38 
 
5.1 As relações de poder e a subjetivação 
O conceito de poder foi definido e redefinido ao longo dos séculos englobando 
diferentes dimensões a partir da visão de cada movimento social e filosófico que fez 
tal revisão. Assim, definir poder foi uma tarefa sobre a qual filósofos e sociólogos se 
debruçaram desde a Antiguidade Clássica, sempre reestruturando o termo de acordo 
com o contexto histórico de cada período. 
Por volta do século IV a. C., Platão estudou a política e definiu que ela deveria 
ser exercida por reis e rainhas dotados de razão e mais capazes que o restante da 
população para governar de forma vertical, tomando decisões de cima para baixo. Já 
na Modernidade, Nicolau Maquiavel lançou uma obra revolucionária para o século 
XVI, defendendo a violência e a coerção como formas de exercer o poder e impor a 
vontade dos governantes sobre um povo indisciplinado. Mudamos então da razão e 
da moral à força (MACKENZIE, 2011). 
Após o lançamento da obra O Príncipe, de Maquiavel, houve modificações 
profundas na Europa, com revoluções e surgimento de um novo sistema econômico, 
o capitalismo. Tais alterações também fizeram mudar a ideia que pensadores tinham 
sobre poder e autoridade. Dentre os autores que questionaram as bases 
estabelecidas sobre a autoridade política está o filósofo Thomas Hobbes, com sua 
obra Leviatã, publicada em 1651. Nessa obra, Hobbes defende a ideia de que os seres 
humanos não possuem livre arbítrio, uma vez que seríamos todos movidos pelas 
nossas paixões e estas guiariam nossa capacidade de raciocinar e prever o 
desenrolar dos acontecimentos. Logo, a única liberdade que teríamos seria aquela 
definida por nossos desejos, mas que termina tão logo é barrada por impedimentos 
externos ao sujeito. 
O poder seria então conseguir o objeto de desejo a qualquer custo, mas isso 
acarretaria caos social. De acordo com Mackenzie (2011), para Hobbes os sujeitos 
concedem ao Estado seu próprio poder de escolha e de tomada de decisões por meio 
de um contrato social que garante certa paz e a preservação da vida na luta individual 
pela satisfação de seus desejos. O Estado é aquele que governa acordos sociais que 
garantem harmonia e a estrutura social e, em troca, os sujeitos alienam-se de seu 
poder político. 
 
39 
 
Avançando no tempo e na concepção de poder, já no século XIX o filósofo e 
sociólogo Karl Marx discutiu as relações de poder no âmbito do sistema capitalista. 
Para ele, o poder se coloca como uma relação de dominação a partir da economia e 
do controle dos meios de produção. O capitalismo aprofundou a distinção entre as 
classes sociais, gerando disputas pela propriedade da produção, especialmente pela 
classe trabalhadora, que entrega sua força de trabalho em troca de um retorno muito 
baixo. É nessa luta pelo direito aos frutos do trabalho que se estabelecem as relações 
de poder (MACKENZIE, 2011). 
Na virada do século XIX para o século XX, Max Weber, jurista e economista 
alemão, munido de uma visão influenciada por Maquiavel, estabeleceu uma ideia de 
poder que foi empregada largamente do longo do século XX. Para ele, os líderes 
devem tomar decisões que protejam a cultura e os valores da nação. Assim, “o poder 
é a capacidade de impor sua vontade a outros, mesmo se eles resistem” (WHIMSTER, 
2009, p. 302). 
O poder então passa a ser equivalente à dominação. Em seguida, o século XX 
viu florescer muitas vertentes sociológicas e filosóficas, incluindo o construtivismo 
estruturalista na sociologia e a análise histórico-crítica na filosofia. Os representantes 
desse movimento são respectivamente Pierre Bourdieu e Michel Foucault. Para 
Foucault, a compreensão de um poder vertical que se emprega para subjugar as 
pessoas e mantê-las dentro da classe à qual pertencem não faz mais tanto sentido 
como antes. Para o filósofo, o poder está agora descentralizado e se instala em todas 
as relações: “ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma o saber, produz 
discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo 
social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir” 
(FOUCAULT, 2000, p. 8). 
O poder não é mais algo que é adquirido com um cargo, e sim uma forma de 
exercer dominância. As relações de poder são administradas por diferentes atores e 
de diferentes formas. Se antes havia um monarca que ditava as regras, agora a 
sociedade criou instituições que se retroalimentam na execução do poder, incluindo a 
polícia, a igreja, a escola e as administrações locais. Além disso, Foucault chama a 
atenção para um poder que passa a ser exercido de forma disciplinar, por meio dos 
saberes que definem o que é “normal" para os sujeitos. Dessa norma que controla a 
 
40 
 
todos, nascem diversas ciências, entre elas a psicologia (HENNIGEN; GUARESCHI, 
2006). Por sua vez, Bourdieu discorre acerca do poder simbólico, que tem a 
capacidade de fabricação da realidade por meio da instituição de valores e crenças 
que formam os sujeitos. Para o sociólogo, cada um traz em si uma herança social, isto 
é, capitais culturais e sociais pertencentes à classe social dominante, que perpetua 
seus valores e suas crenças por meio de agentes que divulgam os símbolos dessa 
cultura dominante. Tais agentes são figuras públicas, celebridades, intelectuais, entre 
outros (BRAGHIN, 2017). 
O pensador entende ainda que cada sujeito internaliza normas de 
comportamento a partir de tais crenças e valores, constituindo um habitus. Ademais, 
transitamos por diferentes campos — político, econômico, profissional, religioso, 
acadêmico etc. — e cada um deles vai delimitar suas regras, exercendo um poder 
sobre os sujeitos, os quais se enquadram dentro de uma hierarquia de forma a acolher 
as normas dominantes como se fossem suas próprias (ÁLVARO; GARRIDO, 2006). 
Portanto, como você pode ver por esse brevíssimo resumo, o poder é uma força que 
se estabelece nas relações, sejam elas entre cidadãos e um governo ou entre sujeitos 
e instituições que tentam manter uma hierarquia dominante por meio de símbolos de 
autoridade, sem necessariamente usar a força bruta para fazer valer seus desígnios. 
O sujeito, ser de relações, o qual modifica e é modificado por suas experiências, 
tem a capacidade de se moldar a partir dos contatos com o tecido social, construindo 
incessantemente então a subjetividade, isto é, as características que delimitam o 
sujeito. Ao processo de construir-se sujeito denominamos subjetivação. E a 
subjetivação acontece diariamente nas lutas estabelecidas nas relações de poder 
(MANSANO, 2009) 
De acordo com Jacó-Vilela, Ferreira e Portugal (2006), a subjetividade é uma 
capacidade de reflexão a respeito de uma experiência de “eu”, de ser alguém em 
contato com outros “eus”. Contudo, essa busca por fazer-se sujeito, por definir 
identidades a cada encontro e dar sentido à própria existência é recente. Até pelo 
menos o Renascimento não havia busca por sentidos individuais e dúvidas a respeito 
do significado das ações e das relações entre as pessoas. 
 
 
41 
 
Na Antiguidade, haviaa busca por conhecer os limites e por seguir os 
ensinamentos dos mestres, não a busca por si mesmo, por um eu diferente dos outros. 
As figuras de referência clássicas, os heróis, não buscavam a si mesmos, buscavam 
feitos, batalhas, coisas no mundo físico para atingir o espiritual, mas não passavam 
por desencontros psíquicos. 
O advento do Cristianismo também envolveu uma figura que buscava algo, mas 
essa busca era por sua alma ser salva do mal. Entra em cena, então, a figura do santo. 
A vida, até o Renascimento, é coletiva, pautada pelo senso de comunidade e não no 
indivíduo. As regras eram as da igreja; as massas não eram educadas e as 
experiências eram todas partilhadas. Não havia a noção de privado, apenas da coisa 
pública. A sexualidade, por exemplo, não era algo privado, fechada entre paredes, até 
mesmo porque eram poucos os que tinham paredes. A partir da invenção da imprensa 
e da possibilidade de publicar um volume maior de exemplares, começa-se a 
vislumbrar uma modificação na esfera da interiorização. É claro que muitos anos se 
passaram até esse acesso ser (um pouco) facilitado às massas, o que só ocorreu de 
fato quando, pós- -Revolução Industrial, foi preciso educar as massas para servirem 
de força de produção. Com o advento dos romances, com a proliferação do público 
leitor e com a possibilidade da aquisição de um livro para uma leitura silenciosa, 
iniciou-se, entre outros fatores, um marco no processo de interiorização dos sujeitos. 
Desse modo, a literatura deu um pontapé inicial não apenas na vida privada, 
mas também na construção de novos espaços, como jardins privados, bares fechados 
para certo público, espaços reservados a homens e a mulheres, entre outros (JACÓ-
VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006). Com isso, foram lançados os dados para o 
surgimento da ciência psicológica — afinal, como controlar sujeitos que agora 
possuem vidas privadas e que pensam a respeito de suas relações com o mundo e 
com o Estado? E assim como a pedagogia, a psicologia se estabeleceu inicialmente 
como uma forma de controle e poder dos Estados. Um poder disciplinar, conforme 
Foucault. Aliás, Foucault não tinha por objetivo estudar o poder por si só, mas sim 
compreender como se constituem os modos de subjetivação, os quais são 
perpassados pelas relações de poder. Assim, para o filósofo, no mundo atual a 
construção da subjetividade se dá no interior daquilo que é tido como regra nas 
 
42 
 
diferentes disciplinas, dentro de um controle sobre os corpos dos sujeitos — como 
devem ser, o que devem vestir, como sua sexualidade deve ser exercida. 
O sujeito é, então, “derivado de práticas sociais, econômicas, culturais, 
políticas: ele não faz a história, é construído pela mesma” (JACÓ- -VILELA; 
FERREIRA; PORTUGAL, 2006, p. 66). Ao mesmo tempo, se consideramos o conceito 
de poder de Bourdieu, os sujeitos se fazem na aceitação/negação dos valores e das 
crenças impostas pelas classes dominantes por meio de diferentes símbolos. É 
sabido, por exemplo, que a classe médica tem alto prestígio em nossa sociedade, 
estando hierarquicamente acima de outras profissões. Seus símbolos, como o jaleco, 
o consultório particular, os fármacos, entre outros, representam o saber da classe, a 
qual não precisa dominar pela força, uma vez que os sujeitos internalizaram tais 
símbolos como sendo a expressão de um poder que deve ser respeitado. 
Da mesma forma, na atualidade a posse de certos instrumentos tecnológicos 
de determinadas marcas demarca onde você se instala na engrenagem do poder 
econômico e qual seu valor dentro dessa sociedade capitalista. Assim, não basta 
apenas dominar pelas disciplinas, o domínio se dá também pelas identificações da 
cultura capitalista que vai aos poucos minando a reflexão, introduzindo novamente os 
sujeitos na engrenagem que move a economia, o consumo. Portanto, a subjetividade 
é construída hoje por todos os mecanismos que se colocam à disposição do poder — 
a mídia, os saberes, a ciência. 
Os questionamentos do papel na sociedade e do propósito de vida, servem 
para mascarar que na verdade os sujeitos ainda são combustíveis dentro do sistema 
econômico em que vivem. Se a subjetividade criada nesse embate não sai como a 
classe dominante espera, aquela pessoa, então não há visibilidade para esse sujeito, 
que deixa de ser considerado como tal, uma vez que se encontram a margem da 
sociedade (SILVA, 2013). 
5.2 Subjetivação e poder no campo da psicologia social 
A psicologia social é uma área que estuda o impacto das relações sociais sobre 
os indivíduos. Se todas as relações sociais acontecem no campo do poder, e este 
influencia a subjetivação, logo teremos que para a psicologia social atitudes, crenças, 
 
43 
 
valores, comportamentos e processos de grupo serão atravessados por essa 
subjetividade construída em relações desiguais. É comum falarmos em obediência e 
também em influência social, mas muitos manuais de psicologia social abordam tais 
construtos de forma individual, sempre com o olhar para o indivíduo e raras vezes 
voltando-se para as relações em si. Mas, isso acontece por influência da psicologia 
social norte-americana, que se volta mais ao cognitivismo e menos às relações de 
dominação como vemos nos estudos latino-americanos. Portanto, dentro da área 
psicológica, encontraremos muitos mais estudos que tratam sobre a influência social 
e experimentos de obediência e autoridade. 
No âmbito da influência social, Torres e Neiva (2011) afirmam que há três 
formas de influência: 
 a direta, de uma pessoa para a outra; 
 a de modificação indireta de normas, costumes e atitudes; 
 as influências sutis da cultura que moldam os sujeitos e 
perpetuam valores sem questionamentos. 
 
De toda maneira, qualquer uma das formas de influenciar o outro estão 
baseadas no poder que há entre os indivíduos ou entre indivíduo e sociedade. Nesse 
sentido, os pesquisadores John French Jr. e Bertram Raven publicaram em 1959 uma 
teoria sobre as bases do poder social, chegando inicialmente a cinco tipos de poder, 
e acrescentando um sexto tipo em 1965. Examinemos a seguir cada um deles 
(RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2009): 
 
 Poder de recompensa: quando um agente influencia outras pessoas a mudarem 
seus comportamentos mediante uma recompensa. Quanto maior a recompensa, 
maior o poder do agente. Exemplo disso seria uma empresa com uma péssima cultura 
organizacional e ambientes não saudáveis de trabalho, com prazos impraticáveis e 
chefes que assediam seus subalternos, que podem fazer com que seus empregados 
continuem se comportando de forma submissa por bônus anuais na folha de 
pagamento. 
 Poder de coerção: acontece quando o poder se estabelece por meio de punições 
e violências de variados tipos. Retomando o exemplo da empresa, um chefe verbal e 
 
44 
 
psicologicamente violento faz com que seus empregados continuem agindo de 
determinada forma por sua truculência e por sanções que pode impor a eles, como a 
demissão. Porém, esse tipo de poder se estabelece até o ponto em que aqueles que 
sofrem a coerção aceitam, isto é, caso os funcionários tomem alguma atitude e este 
chefe seja demitido, ele não mais terá poder sobre eles. 
 Poder de legitimidade: quando a tradição legitima a posição de certa pessoa, isso 
confere a ela maior poder, que decorre da crença do grupo de que ela deve 
naturalmente exercê-lo. Um exemplo pode ser um chefe de uma igreja, que tem seu 
poder legitimado por seu posto tradicionalmente imbuído de autoridade. 
 Poder de referência: quando identificamos alguém como uma influência (positiva 
ou negativa), conferimos a tal pessoa o poder de estabelecer regras de 
comportamento. Pode-se mencionar aqui líderes de seitas, que por inúmeras 
identificações conseguem cometer atrocidades sem serem questionados por muito 
tempo. 
 Poder de conhecimento ou de perícia: é um poder que se confere a alguém quando 
quese torna um especialista em alguma área. O maior exemplo é o da relação entre 
médico e paciente. Muitas vezes, o paciente nem mesmo compreende porque faz tal 
tratamento, mas como foi o médico instruiu, ele deve saber o que está fazendo, afinal, 
tem o conhecimento. 
 Poder de informação: manifesta-se quando a modificação de comportamentos 
ocorre por reconhecimento de alguma informação dada pelo agente, e não 
necessariamente pela figura do agente. Como exemplo, pode-se citar a mudança de 
hábitos alimentares por meio da compreensão de como atuam os açúcares e 
carboidratos em nosso organismo. Porém, em tempos de fake news, nem toda 
informação é de fato válida para embasar decisões. 
 
Além disso, as modalidades de poder foram classificadas por French e Raven em dois 
grupos de influência (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2009): 
 
 
 Influência independente: quando o poder que se estabelece é o de informação, 
não é necessária a figura do agente influenciador, pois quem de fato altera o 
 
45 
 
comportamento do influenciado são os argumentos, que provocarão insights, 
que por sua vez possibilitarão a ação. 
 Influência dependente: 
 Pública — a influência depende da figura do influenciador, mas a 
modificação dos comportamentos se dá apenas de forma externa, 
pública, ou seja, internamente o influenciado não aceita tais mudanças 
(acontece quando há poder por coerção ou por recompensa); 
 Privada — a influência depende da figura do influenciador, a partir da 
percepção do influenciado, e as mudanças geradas pela influência são 
mais duradouras e não exigem a presença do agente que exerce o poder 
(inclui os poderes de referência, de conhecimento e legítimo). 
 
Assim, a influência e os diferentes tipos de poder exercidos por grupos e governos 
podem moldar as atitudes e pensamentos dos mais variados grupos. Se pensarmos 
em ditaduras, o mais provável é que pela mera coerção os cidadãos somente se 
comportem de determinada maneira para evitar punições, e não por aceitação das 
regras. Já na sociedade em que estamos vivendo, é muito mais fácil que figuras de 
referência, as quais ainda possuem a legitimidade do poder, influenciem de acordo 
com seus valores e crenças. 
Celebridades, políticos e cientistas hoje têm inserção nos lares e podem produzir 
mudanças privadas. A questão é se essas mudanças serão de fato benéficas para a 
coletividade ou não. Assim, com a influência diária de diversos agentes de poder, cada 
sujeito vai se moldando, se construindo, produzindo sua subjetividade. Com poderes 
de referência, legitimidade, informação e conhecimento, o sistema reforma as 
estruturas culturais e de valores para atender agendas econômicas que necessitam 
dos sujeitos subjugados, conformados com aquilo que lhes é demandado. 
Na pós-modernidade, o alcance da mídia e da influência é tão ramificado que 
valores individualistas passam a sobrepujar os comunitários. Não mais pensamos em 
prosperar com a vizinhança, em melhorar o bairro, a escola. Cada vez mais pensamos 
em obter o prazer da gratificação fugaz da recompensa dos cliques, das compras e 
do conhecimento facilmente à disposição, mas que não mais temos a paciência de 
 
46 
 
procurar. A sociedade prefere receber o que já foi filtrado por alguma referência, 
escancarando a alienação em que vive. 
Nesse sentido, Silva (2013) nos recorda que após a Terceira Revolução Industrial, 
a tecnológica, a subjetividade se viu ainda mais confusa. Não há mais nada fixo. Os 
postos de trabalho não oferecem mais segurança, nem mesmo a separação entre 
público e privado. O crescimento é desenfreado, a globalização aproximou fronteiras 
e ao mesmo tempo juntou o lar com o trabalho, diminuindo as horas de lazer e 
descanso. Como se não bastasse, a pandemia de covid-19 escancarou ainda mais 
esse cenário. Não sabemos mais onde termina a casa e começa o trabalho, sempre 
ali, à espreita no aplicativo de mensagens ou de e-mail. E se não acompanharmos 
essas modificações edificadas por aqueles que comandam a produção e a economia, 
o que acontecerá? Seremos excluídos, e nada exerce maior controle na sociedade 
atual do que a vergonha de não pertencer ao grupo que está em alta, ou não se 
encaixar no modelo exigido pelo mercado (SILVA, 2013). Portanto, poder e 
subjetivação andam de mãos dadas, sendo influenciados por diversos fatores, mas 
sempre com vistas ao pertencimento às redes sociais de determinada cultura. 
5.3 Poder e subjetivação na prática 
A psicologia social se coloca como um campo reflexivo que pode perpassar 
diversas outras áreas da psicologia, além de ter suas próprias aplicações, 
especialmente na pesquisa. Então, a seguir veremos possíveis diálogos entre essa 
área e a psicologia escolar, a psicologia organizacional, a psicologia comunitária e 
também a pesquisa. No âmbito da escola, o psicólogo social tem por objetivo iniciar e 
conduzir um processo de mudança que parte da reflexão e conscientização das 
necessidades e vulnerabilidades sociais. Assim se constrói a cidadania, 
compreendendo sua realidade e pensando a melhor forma de agir em prol dos 
objetivos do seu grupo (ZANELLA, 2013). 
Para que isso ocorra, é papel dos profissionais da psicologia na escola o debate 
sobre as relações sociais entre os diversos atores nesse contexto. Além disso, é 
imperativo que haja um questionamento a respeito da submissão e da influência de 
cada um dos subgrupos encontrados na escola. Nesse sentido, as relações de 
 
47 
 
coerção entre professores e alunos e seu subproduto, a coerção entre alunos, deve 
ser questionada e modificada, especialmente por meio de influência de informação. 
Projetos, rodas de conversa, debates, palestras, acolhimento, formações, entre 
outras possibilidades devem ser promovidas, distribuindo-se o poder entre aqueles de 
quem se pede a mudança. A escola ainda é um reduto de relações desiguais, espelho 
de nossa sociedade, e nesse âmbito é preciso estabelecer novas formas de interação, 
uma vez que “às relações de dominação/submissão contrapõem-se as relações de 
cooperação, marcadas por laços de solidariedade e pelo compromisso com uma 
sociedade não exclusora” (ZANELLA, 2013, p. 227). E, é a cooperação que 
esperamos, pois se na escola são aprendidos modos de ser sujeito, e esses modos 
se dão nas relações de dominação/submissão, estamos apenas preparando alunos 
para perpetuar modelos hierárquicos que irão reproduzir assim que saírem portões 
afora. 
No campo da psicologia organizacional, vemos uma aproximação de conceitos da 
psicologia social, uma vez que ambas beberam da mesma fonte para se organizar. 
Atitudes, valores, crenças e poder são alguns dos temas trabalhados também em 
organizações. Em relação ao poder e à construção de um sujeito que trabalha e se 
identifica enquanto alguém que tem uma função e um papel social, o trabalho da 
psicologia social tem grande relevância (GOMIDE JR.; OLIVEIRA; SIQUEIRA, 2011). 
Além da identificação das fragilidades das empresas, a atuação da psicologia 
social nesse contexto busca oferecer espaço de diálogos que levem a mudanças, 
especialmente as produzidas de forma interna e independente. Outro âmbito de 
atuação da psicologia social se dá na forma de pesquisas, tentando demonstrar a 
validade ou não dos conceitos estudados pela área. A compreensão dos conceitos de 
poder e subjetivação fornece ao psicólogo com atuação social uma visão mais 
aprofundada das relações que se estabelecem em diferentes contextos de trabalho. 
A psicologia social dá grande ênfase aos grupos, e é exatamente nesse campo que 
as discussões abordadas neste capítulo mais fazem sentido. Trabalhar com grupos é 
compreender como as alianças se formam e como acontece a dominação e a 
construção da identidade, tanto individual quanto coletiva. 
 
 
 
48 
 
 
 
6 O DEBATE PÓS-MODERNO: PSICOLOGIA E SUBJETIVIDADE 
6.1 Pós-modernidade e subjetividade a partir de Jean-FrançoisLyotard 
O período histórico conhecido como pós-modernidade tem suas características 
iniciais situadas no pós-Segunda Guerra. Nesse período, ocorreram inúmeras 
transformações nos campos da política, da economia e da ciência. Tais 
transformações acabaram desencadeando uma crise de valores sociais e culturais. O 
pensador Jean-François Lyotard (1924–1998) foi um dos mais importantes filósofos 
da França na discussão sobre a pós-modernidade. É nessa fase do pós-guerra que 
ele vê a abertura para um potencial de inventividade subjetiva que acaba tornando-se 
uma crítica ao capitalismo. 
 
 
Fonte: https://id.pinterest.com/ 
 
 
49 
 
A pós-modernidade, para Lyotard, significa a liberação de uma tendência, 
sobretudo positiva, ainda que, sob algumas perspectivas, complicada. No livro A 
condição pós-moderna (1979), o autor destaca a crise das metanarrativas modernas 
de emancipação, seja do homem, da razão ou da moral. Isto é: a crise da legitimação 
dos discursos e práticas por meio de um referencial estável e de um princípio de ordem 
universal. François se refere à pós-modernidade como a um tempo em que há a 
possibilidade de vínculos sociais não mais subordinados à unificação logocêntrica 
característica da era moderna, o que está longe de significar a dissolução da 
sociabilidade. No fim das metanarrativas, o que importa não é mais a legitimação de 
acordo com critérios universalistas, mas a dispersão ou as particularidades de 
enunciados pragmáticos (NASCIMENTO, 2011). 
6.2 Pós-modernidade vs. Modernidade Líquida 
A seguir, você vai se familiarizar melhor com a pós-modernidade enquanto linha 
de pensamento questionadora. Depois disso, você vai estudar a produção de 
subjetividade na pós-modernidade. 
A pós-modernidade é uma linha de pensamento que propõe questionamentos 
às noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, bem como à ideia 
de progresso ou emancipação universal, aos sistemas únicos, às grandes narrativas 
ou aos fundamentos definitivos de explicação. Essa corrente enxerga o mundo como 
contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, composto por um conjunto de 
culturas ou interpretações desunificadas. Isso gera certo grau de ceticismo em relação 
à objetividade da verdade, da história e das regras, assim como em relação às 
idiossincrasias e à coerência de identidades (NICOLACI-DA-COSTA, 2004). 
Existem dois meios de interpretar as transformações que ocorreram durante a 
pós-modernidade. O primeiro diz respeito às condições contemporâneas de produção 
de conhecimento. De modo geral, o debate da pós-modernidade em torno da primeira 
ideia compreende as transformações desse período como decorrentes da utilização 
intensa das tecnologias da informática e do acesso cada vez mais amplo e rápido às 
informações. As tecnologias da informação estão no cerne do rompimento com a 
forma moderna de produção de conhecimento. Já para o segundo meio de 
 
50 
 
interpretação, a pós-modernidade decorre de um modelo de capitalismo tardio ou 
neoliberal em que a produção está organizada em torno do consumo de bens 
materiais, de informação e de cultura (GONÇALVES, 2007). 
A pós-modernidade surge para desconstruir os conceitos e ideias propagadas 
pela modernidade, rompendo com a lógica do passado e introduzindo, por meio de 
transformações ideológicas, uma nova visão de mundo e sociedade (ARAUJO; 
VIERA, 2015). 
A palavra “desconstruir” diz muito sobre o que propõe a pós-modernidade. Além 
disso, você pode inferir que a concepção e a maneira como se percebe e pratica a 
educação também estão em processo de desconstrução. Dessa forma, a pragmática 
da pós-modernidade não é pautada em um fim teleológico ou em um bem maior (não 
se busca uma sociedade igualitária ou o paraíso), pois estes já não têm efeitos de 
verdade prática. Ela é pautada na maximização da eficiência, que pode ser traduzida 
em: mais poder. 
Nesse sentido, a abordagem do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925–
2017) se difere da de Lyotard na medida em que o primeiro procura explicar as 
relações sociais a partir (principalmente, mas não unicamente) da sociologia, 
deixando a análise discursiva, a linguagem, para segundo plano. Bauman prefere 
chamar a contemporaneidade de modernidade líquida, e não de pós-modernidade. 
Para ele, não há uma clara ruptura, e sim uma mudança na continuação da 
modernidade (SIQUEIRA, 2014). 
Originando-se sobretudo na dimensão cultural, o conceito de pós-modernismo 
(ou pós-modernidade) buscou abranger um número cada vez maior de dimensões na 
sociedade, trazendo a visão de que as sociedades industriais sofreram uma grande 
transformação (SÁ, 2006). Contudo, a pós-modernidade nega a materialidade como 
definição daquilo que de fato é o real, mas atribui à realidade o sentido que os sujeitos 
podem dar às coisas. 
A forma como esse sentido é dado varia, e cada linha de pensamento tem sua 
própria maneira de explicar a construção da realidade. Contudo, o fundamental é essa 
experiência do mundo como algo que precisa de sentido, pois nele mesmo não há 
nenhum. 
 
51 
 
6.3 A produção de subjetividade na pós-modernidade 
Na medida em que as necessidades capitalistas foram se revelando, foi preciso 
criar um novo modelo de sujeito: um indivíduo que atendesse às necessidades de 
organização social, cultural e econômica. Na era moderna, havia determinadas 
relações entre sujeito e dimensões sociais capazes de construir uma subjetividade 
peculiar àquele tempo. Já na pós-modernidade, por meio de modos de subjetivação 
característicos, se constrói um sujeito perpassado por uma subjetividade 
individualizada (GONÇALVES, 2007). 
Na psicologia, o conceito de indivíduo muitas vezes se apresenta como um a 
priori não problematizado, tanto nas suas formulações teóricas quanto em seus 
desdobramentos prático-profissionais. Muitas discussões travadas sob o suporte de 
dicotomias como indivíduo/sociedade, natural/social e inato/adquirido pressupõem a 
existência de um indivíduo naturalizado e desenvolvem-se sem uma reflexão devida 
sobre esses pressupostos. 
A categoria indivíduo é a representação básica da subjetividade pós-moderna. 
Ela se caracteriza por uma exacerbação da “liberdade” individual, que desconsidera 
as condições concretas disponíveis para o seu exercício. A liberdade é o valor 
principal, a partir do qual todos os outros valores são avaliados; ela é a referência para 
a sabedoria no que diz respeito às normas supraindividuis que devem ser mantidas 
(MANCEBO, 2002). Se na modernidade a humanidade abria mão de certo grau de 
liberdade em troca de uma segurança relativa, no pós-moderno ela prefere a liberdade 
em detrimento de qualquer estabilidade. 
A subjetividade provoca algumas transformações nas relações entre os 
sujeitos. Os princípios comunitários, por exemplo, atravessam uma profunda crise. Se 
ao longo da modernidade as práticas coletivas e classistas ganharam fôlego, diante 
do estímulo neoliberal de competição, elas se afogam. Outra característica é a 
crescente valorização da interioridade e a busca de felicidade individual em detrimento 
do bem coletivo e do outro (GONÇALVES, 2007). 
O indivíduo é apenas um dos modos de subjetivação possíveis. Cada época e 
cada sociedade põem em funcionamento alguns desses modos. Porém, essa 
categoria detém o modelo hegemônico de organização da subjetividade na pós-
 
52 
 
modernidade. Em outros termos, um dos universais da modernidade ocidental é a 
suposição dominante de que o homem, na sua constituição mais íntima, é o centro e 
o fundamento do mundo. 
Ao longo dos tempos, construiu-se a expectativa de cultivo e respeito à 
interioridade, por meio da proteção da privacidade, e instituiu-se uma nítida separação 
entre as esferas públicas e privadas da vida. No entanto, a produção de subjetividade 
foi longa e continua sofrendo modificações intensas até a atualidade (MANCEBO, 
2002). O pós-modernismo,portanto, ignora a dimensão perdida do sujeito, pois 
enfatiza o caráter de multiplicidade e flexibilidade da subjetividade, buscando tirá-la 
de qualquer substancialismo a priori ou intrínseco. O sujeito pós-moderno acredita, 
sim, num indivíduo fundamentalmente positivo, em que determinações variadas 
convivem sem serem hierarquizadas. 
6.4 Contribuições de Deleuze, Guattari e Negri 
Existe uma relação peculiar entre os processos de subjetivação e o modo de 
funcionamento do sistema capitalista. O segundo cada vez mais se entrelaça ao 
primeiro. Além disso, ao contrário dos marxistas e progressistas, os capitalistas 
procuram investir cada vez mais no novo nicho da subjetivação, expropriando-o e lhe 
impondo ostensivamente uma lógica de correlação de valor. Daí o entendimento de 
que o capitalismo promove como sua principal estratégia de expansão a captura dos 
processos de subjetivação (SOARES, 2016). 
Na era moderna, o capitalismo conheceu sua forma baseada na produção e 
nas teorias econômicas liberais. A revolução industrial e tecnocientífica trouxe em seu 
bojo um mundo de estabilidade, visto por meio de discursos científicos unificados e 
universalizados. Além disso, para garantir a sustentabilidade das necessidades 
produtivas do capital industrial, surgiram técnicas disciplinares, originadas a partir do 
séc. XVIII (GONÇALVES, 2007). 
A seguir, você pode conhecer alguns dos principais pensadores da pós-
modernidade. 
 
 
 
53 
 
6.4.1 Félix Guattari (1930–1992) 
 
 
Fonte: http://www.oexplorador.com.br/ 
 
Foi um filósofo francês, psicanalista e militante revolucionário. Produziu muitos 
textos, militou política e ativamente tanto nas organizações tradicionais como na 
maioria dos grupos alternativos importantes do seu tempo. Além disso, criou uma série 
de movimentos e dispositivos políticos que tiveram papel fundamental na tentativa de 
transformação dos períodos moderno e pós-moderno. 
Guattari (1992) atribuía às tecnologias de comunicação, especialmente às mais 
recentes, como as mídias eletrônicas, a informática e a telemática, o papel de operar 
na heterogênese do humano, contribuindo para a produção de novas subjetividades. 
O filósofo francês afirmava que esse movimento se dava a partir de componentes 
semiológicos significantes que se manifestavam por meio da família, da educação, do 
meio ambiente, da religião, da arte, do esporte; ou por meio de elementos fabricados 
pela indústria dos media, do cinema, etc.; e também por dimensões semiológicas a-
significantes. 
Nesse sentido, entram em cena máquinas informacionais de signos, 
funcionando paralela ou independentemente pelo fato de produzirem e veicularem 
significações e denotações que escapam às axiomáticas propriamente linguísticas. 
Quando Guattari criou a concepção de produção de subjetividade capitalista, o filósofo 
 
54 
 
procurava construir um termo que pudesse designar não apenas as sociedades 
qualificadas como capitalistas, mas também setores do “terceiro mundo”, do 
capitalismo “periférico” e ainda das economias ditas socialistas. Ou seja, ele agrupou 
tais sociedades sob a designação de capitalistas porque enxergava nelas uma 
semelhança na maneira de produzir e conduzir a economia e a subjetividade dos 
indivíduos (GUATTARI, 1992; CAMARGO; GUATTARI, 2014). 
 
6.4.2 Gilles Deleuze (1925–1995) 
 
 
Fonte: https://www.ex-isto.com/ 
 
Foi um filósofo francês que utilizou o cinema para expor sua forma de 
pensamento, criando os conceitos de imagem-movimento e imagem-tempo. Foi ele 
quem teorizou as instâncias do atual e do virtual (já elaboradas por outros 
pensadores). 
Ao apresentar questões constituintes da sociedade de controle, Deleuze (1992) 
assinalou que o controle em meio aberto operava instantaneamente, por modulações 
velozes, produzindo subjetividades endividadas e empresariais. O filósofo afirmava 
que tudo uma hora ou outra se tornaria mercado, investimento e marketing. Ainda 
salientava o quanto as marcas ganhariam a expressão de signos das relações e dos 
corpos, mediando processos de subjetivação pautados na racionalidade empresarial. 
 
55 
 
O mercado seria o agenciador das maneiras de viver e pensar, a partir da compra e 
venda de serviços a todo instante. 
O pensador se referiu também a uma visão clichê de uma solução de marketing, 
mercado e utilitarismo na sociedade de controle, materializada no neoliberalismo, 
racionalidade que criou solo para a emergência da vigilância como tecnologia eficaz 
da gestão dos corpos, operando pelo capitalismo (LEMOS; REIS JÚNIOR, 2016). 
 
6.4.3 Antônio Negri (1933) 
 
 
Fonte: https://razaoinadequada.com/ 
 
É um filósofo político marxista italiano. Entre os temas centrais da obra de 
Negri, estão o marxismo e a globalização, o anticapitalismo, o pós-modernismo, o 
neoliberalismo, a democracia, o comum e a multidão. 
Sua produção constitui uma análise altamente original do capitalismo tardio. 
Negri (1992) concebe a subjetividade como algo que se baseia num primado coletivo, 
sendo fundamento do que se denomina poder constituinte ou poder da multidão. Esse 
pensador constrói as bases para o desenvolvimento de uma teoria política afirmativa 
de uma proposição coletiva, como opção na construção de estratégias de 
 
56 
 
enfrentamento ao processo de captura engendrado pelas entidades denominadas 
transcendentais, entre elas o Estado e o próprio capitalismo. Trata-se, no cenário da 
modernidade e no processo de afirmação do capitalismo, da imposição de um poder 
constituído transcendente em oposição a um poder constituinte imanente. Quando 
constata a existência de uma dimensão heterogênea como uma das características 
da multidão, Negri (1992) discute a produção de subjetividade em seus escritos, 
afirmando que essa produção acontece na estreita relação entre o poder constituinte 
e o tempo. 
 
 
 
 
Fonte: https://blog.portalpos.com.br/ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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