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Exame de Urina O exame de urina é utilizado para determinar os caracteres físicos e químicos e para verificar a presença e as características de estruturas celulares e de outra origem. O teste fornece indicações do estado geral de saúde da pessoa, bem como do estado do trato urinário. O método da tira reagente é comumente usado para medir pH, cetonas, proteína, glicose, bilirrubina, urobilinogênio e hemoglobina. A amostra também é centrifugada, e o sedimento é então examinado microscopicamente para determinar a presença e o tipo de células, de cilindros, cristais e, ou microrganismos, ou de outra origem. Coleta da urina A primeira urina da manhã, por ser mais concentrada, é recomendada para o exame de urina, o que garante a detecção de substâncias e elementos figurados que podem estar ausentes em amostras aleatórias mais diluídas. A análise da urina deve ser realizada em, no máximo, 2 horas após a coleta do material. Caso esse tempo não possa ser cumprido, a amostra deve ser refrigerada. Não há prazo preestabelecido para armazenar a urina refrigerada como preservativo. A amostra deve estar na temperatura de 15 a 25°C antes de se proceder aos testes. Tiras reagentes Nas últimas décadas foram desenvolvidos vários sistemas analíticos simplificados capazes de fornecer rapidamente uma série de parâmetros na urina. Os mais comuns são as tiras reagentes, que possuem substâncias químicas fixadas a uma tira plástica, revelando a positividade dos testes por modificações de cor. São encontradas no comércio tiras simples (para pesquisa de um único parâmetro na urina) e múltiplas (que permitem a avaliação simultânea de vários componentes). Para obtenção de resultados confiáveis com as tiras reagentes devem ser tomadas certas precauções: as tiras não devem ser expos- tas à luz direta do sol, ao calor, à umidade e a substâncias voláteis. Devem ser armazenadas no frasco original, conforme as informações de cada fabricante. Deve-se retirar somente a quantidade de tiras necessárias para a bateria de exames; em seguida, o frasco deve ser fechado hermeticamente. Quando as áreas reagentes não apresentarem a mesma cor “negativa” impressa na escala cromática que acompanha o produto, as tiras deverão ser descartadas. O uso das tiras é realizado como se segue: • Submergir (por no máximo 1 segundo) completamente as áreas reagentes da tira em urina recentemente emitida (se a urina estiver refrigerada, deixar adquirir a temperatura ambiente), bem misturada e sem centrifugar. • Eliminar o excesso de urina, encostando a borda lateral da tira ao frasco que contém a amostra. • No tempo apropriado, comparar a cor das áreas reagentes com a escala cromática correspondente. Fazer a leitura em local com boa iluminação. Cor A cor da urina emitida por indivíduos normais varia de amarelo-citrino a amarelo-âmbar fraco, segundo a concentração dos pigmentos urocrômicos e, em menor medida, da urobilina, da uroeritrina, das uroporfirinas, das riboflavinas etc. Quando em repouso, a urina escurece, provavelmente devido à oxidação do urobilinogênio. Vários fatores e constituintes podem alterar a cor da urina, incluindo substâncias ingeridas e atividade física, assim como diversos compostos presentes em situações patológicas. O exame da cor da urina deve ser realizado com o emprego de uma boa fonte de luz, olhando-se através de recipiente de vidro transparente contra um fundo branco. As cores comumente encontradas são: amarelo-clara ou incolor. É encontrada em pacientes poliúricos, com diabetes melito, diabetes insípido, insuficiência renal avançada, elevado consumo de líquidos, medicação diurética e ingestão de álcool. amarelo-escura ou castanho. É frequente nos estados oligúricos, em caso de anemia perniciosa, estados febris, início da icterícia (presença anormal de bilirrubina), exercício vigoroso e ingestão de argirol, mepacrina, ruibarbo e furandantoínas. alaranjada ou avermelhada. É comum em presença de hematúria, hemoglobinúria, mioglobinúria, icterícias hemolíticas, porfirinúrias e no emprego de anilina, eosina, fenolftaleína, rifocina, sulfanol, tetranol, trional, xantonina, beterraba, vitamina A, derivados de piridina, nitrofurantoína, fenindiona e contaminação menstrual. Marrom-escura ou enegrecida (“cerveja preta”). Ocorre no carcinoma de bexiga (“borra de café”), na glomerulonefrite aguda, na meta-hemoglobinúria, na alcaptonúria (ácido homogentísico), nas febres palustres, no melanoma maligno e com o uso de metildopa ou levodopa, metronidazol, argirol e salicilatos. azulada ou esverdeada. Deve-se a infecção por pseudomonas, icterícias antigas, tifo, cólera, ou pela utilização de azul de Evans, azul de metileno, riboflavina, amitriptilina, metocarbamol, cloretos, indican, fenol e santonina (em pH ácido). esbranquiçada ou branco-leitosa. Está presente na quilúria, na lipidúria maciça, na hiperoxalúria primária, na fosfatúria e em enfermidades purulentas do trato urinário. Aspecto Em geral, a urina normal e recentemente emitida é límpida. Nas urinas alcalinas, é frequente o aparecimento de opacidade por precipitação de fosfatos amorfos – ocasionalmente carbonatos – na forma de névoa branca. A adição de algumas gotas de ácido acético dissolve os fosfatos e os carbonatos. A urina ácida normal também pode mostrar-se opaca devido à precipitação de uratos amorfos, cristais de oxalato de cálcio ou de ácido úrico. Muitas vezes, o aspecto da urina ácida lembra pó de tijolo, o que é provocado pelo acúmulo de pigmento róseo de uroeritrina na superfície dos cristais. A uroeritrina é um componente normal na urina. A turvação provocada pelos uratos pode ser dissolvida por aquecimento da urina a 60°C. A turvação costuma ser causada por leucócitos, hemácias, células epiteliais ou bactérias. Os leucócitos formam precipitados semelhantes aos provocados pelos fosfatos, mas não se dissolvem pela adição de ácido acético; a presença de leucócitos é confirmada pela sedimentoscopia. A bacteriúria produz opalescência uniforme que não é removida pela acidificação; de modo geral, estas urinas apresentam cheiro amoniacal devido ao desdobramento da ureia pelas bactérias. A presença de hemácias (hematúria) promove turvação, que é confirmada microscopicamente. Espermatozoides e líquido prostático causam turvação, que pode ser clarificada por acidificação ou aquecimento. O líquido prostático normalmente contém alguns leucócitos e outros elementos. A mucina pode causar filamentos e depósito volumoso, sobretudo nos estados inflamatórios do trato urinário inferior ou do trato genital. Algumas vezes, a urina apresenta aspecto turvo devido à existência de coágulos sanguíneos, pedaços de tecido, lipídios, levedura, pequenos cálculos, pus, material fecal, talco, antissépticos, cremes vaginais e contrastes radiológicos. É ainda causa de turvação a presença de linfa e glóbulos de gordura. O aspecto da urina é observado após sua ho- mogeinização. A urina apresenta-se límpida, opaca, leitosa, levemente turva, turva ou fortemente turva. Além disso, é importante para o diagnóstico a presença de componentes anormais, como coágulos, muco ou pedaços de tecido. Densidade A densidade é uma função direta, mas não proporcional, do número de partículas na urina. A concentração de solutos na urina varia com a ingestão de água e solutos, o estado das células tubulares e a influência do hormônio antidiurético (HAD) sobre a reabsorção de água nos túbulos distais. A incapacidade de concentrar ou diluir a urina é uma indicação de enfermidade renal ou deficiência hormonal (HAD). Em condições normais (dieta e ingestão de líquidos habituais), o adulto de ambos os sexos produz urinas com densidades de 1,010 a 1,025 g/L em um período de 24 horas. Para uma amostra de urina ao acaso, a densidade pode variar de 1,002 a 1,030 g/L. densidade urinária aumentada. É encontradaem caso de amiloidose renal, diabetes pancreático, enfermidade de Addison, hipersecreção descontrolada de HAD (mixedema, porfiria, abscesso cerebral, meningite tuberculosa), nefropatia obstrutiva, nefropatia vasomotora, obesidade, oligúria funcional (estados febris, desidratação, terapia com diuréticos e hipoproteinemia), politraumatismo, pós-operatório e síndrome hepatorrenal. densidade urinária diminuída. É frequente no alcoolismo agudo, no aldosteronismo primário, na anemia falciforme, no diabetes insípido, nas fases inicial e final da insuficiência renal crônica, na pielonefrite crônica e na tuberculose renal. pH O pH urinário reflete a capacidade do rim em manter a concentração normal dos íons hidrogênio no líquido extracelular. Para conservar um pH constante no sangue (ao redor de 7,4), o glomérulo excreta vários ácidos produzidos pela atividade metabólica, como ácidos sulfúrico, fosfórico, clorídrico, pirúvico, lático e cítrico, além de corpos cetônicos. Os ácidos são excretados, principalmente, com o sódio. Nas células tubulares, os íons hidrogênio são trocados pelo sódio presente no filtrado glomerular, e a urina torna-se ácida. Os íons hidrogênio são também excretados como íons amônio. Normalmente, o pH da urina varia entre 4,6 e 8,0. Níveis abaixo ou acima destes valores não são fisiologicamente possíveis. • pH urinário baixo. Várias condições determinam a acidez urinária (pH baixo), dentre as quais: acidose metabólica (acidose diabética, diarreias graves e desnutrição), acidose respiratória, clima quente, dieta proteica, fenilcetonúria, intoxicação pelo álcool metílico, intoxicação pelo salicilato, medicações acidificantes (cloreto de amônio), tuberculose renal e urina matinal. • pH urinário elevado. A alcalinidade urinária (pH alto) é comum na acidose tubular renal, na alcalose metabólica e/ou respiratória, no aldosteronismo primário, na deficiência potássica, na dieta vegetariana, com o uso de diuréticos que inibem a anidrase carbônica, em infecções urinárias provocadas por bactérias que desdobram a ureia em amônia (Proteus mirabilis), na síndrome de Addison, na urina pós-prandial e na urina vespertina. A demora na análise da urina não refrigerada pode modificar o pH pela ação de bactérias. Na conduta diante de problemas clínicos específicos, o pH urinário deve ser mantido constantemente elevado ou diminuído, seja por meio de regimes dietéticos e/ou medicamentos. O efeito de certas drogas também depende do pH uri-nário: • Situações que exigem urinas ácidas: tratamento dos cálculos urinários de fosfato amoníaco-magnesiano, fosfato ou carbonato de cálcio; nas infecções do trato urinário e, de modo especial, naquelas causadas por germes desdobradores da ureia; durante o tratamento com mandelato de metenamina, tetraciclina e nitro-furantoínas, as quais têm maior efeito terapêu-tico em urinas ácidas. • Situações que exigem urinas alcalinas: tratamento dos cálculos urinários de ácido úrico ou cistina; no controle das intoxicações por salicilatos; durante o tratamento com sulfonamidas (para prevenir a precipitação de cristais da droga no trato urinário), estreptomicina, cloranfenicol e canamicina. O pH é determinado pelo emprego dos indicadores vermelho de metila e azul de bromotimol, que permitem a diferenciação de valores de meia unidade entre 5 e 9. Este teste compõe as tiras reagentes encontradas no comércio. Proteínas Tiras reagentes. A presença de proteínas na urina é detectada pela modificação da cor de uma área na fita reativa impregnada com azul de tetrabromofenol tamponado ou com tetraclorofenol-tetrabtomossulftaleína tamponado em pH ácido. A área apresenta cor amarela, que se modifica para verde ou azul em presença de proteínas. A intensidade de cor é proporcional à quantidade de proteínas presentes. Permanecendo inalterado o pH, as proteínas provocam uma pseudoviragem do indicador (erro proteico de indicador). O fenômeno “erro proteico de indicador” é mais ou menos pronunciado segundo o número de grupos amino livres nas diversas frações proteicas. É mais intenso para a albumina e débil para as globulinas, glicoproteínas, mucoproteínas etc. As proteínas de Bence Jones não mostram, na prática, erro proteico. As urinas que se destinam a esse teste e que apresentam macro-hematúria devem ser centrifugadas. O teste deve ser realizado conforme indicado anteriormente, com a avaliação proposta pelo fabricante. Os valores de referência vão de 10 a 140 mg/L. O resultado é semiquantitativo e expresso em cruzes ou em mg/dL: Resultados falso-positivos são encontrados em caso de urinas muito alcalinas (pH >9), eliminação de polivinilpirrolidona (expansor do plasma), alcaloides em geral e compostos com radicais de amônio quaternário (detergentes). Resultados falso-negativos ocorrem na proteinúria de Bence Jones, na globinúria predominante e com urinas conservadas em ácidos minerais fortes. Glicose Os açúcares são componentes normais da urina. Por serem moléculas pequenas, a glicose e outros açúcares são facilmente filtrados através dos glomérulos. Para evitar a perda, os carboidratos são reabsorvidos por mecanismos de transporte ativo nos túbulos proximais. O mecanismo é bastante eficiente e remove quase toda a glicose normalmente filtrada pelo glomérulo. Quando a concentração de glicose plasmática ultrapassa 180 mg/ dL, a capacidade de reabsorção é excedida e o açúcar passa para a urina. Mesmo com teores normais de glicose sanguínea, algum açúcar pode ser encontrado na urina, pois é impossível que os túbulos sejam totalmente eficientes em sua capacidade de reabsorção. Quantidades significativas de glicose são detectadas na urina quando há elevadas concen- trações de glicose no sangue, como ocorre no diabetes. A glicose também é encontrada na urina em certas enfermidades do túbulo proximal (síndrome de Fanconi e nefropatia tubular avançada), que podem impedir a capacidade de absorção. Cetonas As cetonas são formadas por três substâncias: acetoacetato, β-hidroxibutirato e acetona. A excessiva formação desses compostos por distúrbios no metabolismo dos carboidratos e lipídios provoca o aumento na concentração sanguínea (cetonemia) com a consequente excreção urinária (cetonúria). Ocorre redução das cetonas por volatização em urinas não analisadas logo após a coleta e/ou não refrigeradas. Urobilinogênio O urobilinogênio, um pigmento biliar resultante da degradação da hemoglobina, é formado no intestino a partir da redução da bilirrubina pelas bactérias intestinais. Parte do urobilinogênio é reabsorvida pelo intestino, caindo no sangue e sendo levada ao fígado. Ao passar pelos rins, é filtrada pelos glomérulos. Encontra-se grande quantidade de urobilinogênio na urina nas hepatopatias e nos distúrbios hemolíticos. A demora da pesquisa em urinas não refrigeradas provoca a diminuição do urobilinogênio por oxidação e conversão em urobilina. Bilirrubina A bilirrubina conjugada pode estar presente na urina de pacientes portadores de enfermidade hepatocelular ou icterícia obstrutiva devido ao seu extravasamento para a circulação. É importante salientar que muitas vezes a bilirrubinúria precede a icterícia clínica, pois o umbral renal (limite reabsorvido), no adulto se encontra entre 2 e 4 mg/dL. A icterícia oca-sionada pela grande destruição de hemácias não produz bilirrubinúria, pois a bilirrubina sérica está presente na forma não conjugada (insolúvel em água) e, assim, não pode ser excretada pelos rins. Hematúria, Hemoglobinúria e Mioglobinúria Hematúria consiste na presença de um número anormal de hemácias na urina; pode ser glomerular, tubulointersticial ou doença pós-renal. Hematúria maciça, que resulta em urina cor-de-rosa, vermelha ou marrom, pode ocorrer em caso de infecções do trato urinário, cálculo renal, tumor do trato urinário, rim policístico e glomerulonefritepós- estreptocócica. A maioria dos casos apresenta hematúria microscópica. A presença de cilindros eritrocitários é a evidência definitiva de sangramento parenquimal renal. Hemoglobinúria indica a presença de hemoglobina em solução na urina e reflete hemólise intravascular, que ocorre durante episódios de síndrome hemolítico-urêmica, púrpura trombocitopênica trombótica (PTT), hemoglobinúria paroxística noturna, reações transfusionais hemolíticas, hemólise por toxinas bacterianas (sepse), veneno de cobra ou aranha, malária e queimaduras severas. Exercícios extenuantes podem ser seguidos de hemoglobinúria. A hemoglobina leve aparece na urina quando a capacidade de ligação da haptoglobina plasmática está saturada. A hemoglobina é metabolizada pelas células re- nais em ferritina e hemossiderina, detectadas na urina quando se usa o corante azul da Prússia. Quantidades apreciáveis de sangue, detectadas pela visualização da amostra, são denominadas macro-hematúria. Chamamos de micro-hematúria quando as hemácias são encontradas somente no exame microscópico do sedimento urinário. Devido à importância do estabelecimento do diagnóstico diferencial entre hemoglobinúria e hematúria, a análise do sedimento urinário revela, em se tratando de hematúria, a presença de hemácias intactas, enquanto na hemoglobinúria não são encontradas hemácias ou, se existirem, estão em número reduzido. Como a hemoglobinúria é um achado incomum, um teste positivo para a hemoglobina com um sedimento urinário normal deve ser mais bem investigado. Urinas muito alcalinas ou com densidade urinária muito baixa (<1,007) podem provocar hemólise dos eritrócitos, liberando o conteúdo de hemoglobina na urina. A presença de hemoglobina é considerada hematúria quando é conhecida a sua origem, apesar da grande dificuldade em distingui-la da hemoglobinúria verdadeira. Nitrito O teste para detecção de nitritos na urina é uma prova indireta para o diagnóstico precoce de bacteriúria significativa e assintomática. Os microrganismos comumente encontrados nas infecções urinárias, como Escherichia coli, Enterobacter, Citrobacter, Klebsiella e espécies de Proteus, contêm enzimas que reduzem o nitrato da urina a nitrito. O nitrito ingerido em medicamentos ou na alimentação não é eliminado como tal. A prova para detecção do nitrito é útil para o diagnóstico precoce das infecções da bexiga (cistite) e da pielonefrite, na avaliação da terapia com antibióticos, na monitoração de pacientes com alto risco de infecção do trato urinário e na seleção de amostras para cultura de urina. Para obtenção de resultados aceitáveis, esta prova deve ser realizada com as seguintes precauções: • Os germes nitrato-redutores necessitam de quantidade suficiente de substrato (sem nitra- to não se forma nitrito). Isto é conseguido mediante a ingestão de alimentos contendo nitrato na véspera do teste (cenoura, couve, espinafre, carne, saladas etc.). • O incubador mais favorável é a bexiga; utilizar, portanto, a primeira urina da manhã, que tenha permanecido, no mínimo, 4 horas na bexiga. • A prova deve ser realizada o mais depressa possível após a emissão da urina. • A urina não deve conter antibióticos ou sulfonamidas. Nesses casos, suspender a terapia por 3 dias antes da prova. Leucócito-Esterase Os leucócitos neutrófilos contêm muitas esterases que catalisam a hidrólise de um éster para produzir o álcool e o ácido correspondente. O nível de esterase na urina está correlacionado com o número de neutrófilos presentes. Os eritrócitos e as células do trato urinário não modificam o teor de esterase. O teste deve ser confirmado pela análise microscópica do sedimento urinário. Sedimentoscopia A sedimentoscopia é a parte do exame de urina que mais dados fornece, proporcionando uma visão do que ocorre nos néfrons que a formaram. Para obter-se um bom sedimento, três condições são necessárias: (a) que a urina seja recente, (b) que a urina seja concentrada e, (c) que a urina seja ácida. Urina de baixa concentração e pH alcalino resultam em pronta dissolução dos elementos formados. Quando a urina permanece por longo tempo em repouso, há possibilidade de sua alcalinização e consequente desintegração celular. Obtenção do sedimento • Transferir uma alíquota de 10 mL de urina para um tubo de centrifugação cônico (tubo falcon. • Centrifugar a 1.500 a 2.000 rpm durante 5 minutos. • Desprezar o sobrenadante, deixando aproximadamente 0,2 mL de urina e o sedimento no tubo de centrifugação. • Ressuspender o sedimento com a urina remanescente, mediante leves batidas no fundo do tubo de centrifugação. Exame microscópico do sedimento • Retirar 0,02 mL do sedimento ressuspendido e homogeneizado e colocar em uma lâmina, cobrindo-a com uma lamínula 22 × 22 mm. • Contar os elementos figurados em 10 campos microscópicos com aumento de 100 vezes expressar a média dos resultados. Os critérios para as quantidades arbitradas são: • Os leucócitos e as hemácias devem ser observados com o aumento de 400 vezes, e a média dos resultados deve ser expressa da seguinte maneira: – Por campo microscópico: observar 10 campos microscópicos, calcular a média e expressar o número de elementos por campo microscópico. – Piúria maciça: quando o campo estiver tomado por um dos elementos figurados, impe- dindo a visualização dos outros elementos. – Hematúria maciça: quando o campo estiver tomado por um dos elementos figurados, impedindo a visualização dos outros elementos. – Por mililitro: observar, no mínimo, 10 campos microscópicos, calcular a média e ex- pressar o número de elementos por mililitro, multiplicando pelo fator 5.040. – Em caso de outros elementos, como muco, leveduras, cristais, espermatozoides e tricomonas, seguir os mesmos critérios para quantidades arbitradas (ver adiante). • Para bactérias, quando presentes, adotar: – Bacteriúria aumentada: acima de 99 por campo (400 vezes). – Bacteriúria moderamente aumentada: de 11 a 99 por campo (400 vezes). – Raras bactérias: de 1 a 10 por campo (400 vezes). – Ausente. Critérios para as quantidades arbitradas Os critérios para expressar os resultados das observações em quantidades arbitradas são os descritos a seguir: Células epiteliais Algumas células epiteliais encontradas no sedimento urinário resultam da descamação normal das células velhas (<2, com aumento de 400 vezes), enquanto outras representam lesão epitelial por processos inflamatórios ou doenças renais. São de três tipos: Células escamosas. São as mais comumente encontradas na urina e com menor significado. Provêm do revestimento da vagina, da uretra feminina e das porções inferiores da uretra masculina. Células transicionais ou caudadas. O cálice renal, a pélvis renal, o ureter e a bexiga são revestidos por várias camadas de epitélio transicional. Em indivíduos normais, poucas células transicionais são encontradas na urina e representam descamação normal. O número dessas células aumenta após cateterismo urinário ou outros procedimentos de instrumentação. Indicam, também, processos que necessitam maiores investigações, como o carcinoma renal. Células dos túbulos renais. Pequena quantidade de células dos túbulos renais aparece na urina de indivíduos saudáveis e representa a descamação normal do epitélio velho dos túbulos renais. Recém-nascidos têm mais células de túbulos renais na urina que crianças mais velhas e adultos. As células dos túbulos contornados distal e proximal são encontradas na urina como resultado de isquemia aguda ou doença tubular renal tóxica (necrose tubular aguda por metais pesados ou fármacos). O sedimento urinário pode conter número aumentado de células dos túbulos coletores em vários tipos de doenças renais, como na nefrite, na necrose tubular aguda, em caso de rejeição a transplante renal e envenenamento porsalicilatos. Quando as células aparecem como fragmentos intactos do epitélio tubular, indicam necrose isquêmica do epitélio tubular, traumatismo, choque ou sepse. Quando ocorre a passagem de lipídios pela membrana glomerular, como nos casos de nefrose lipídica, as células do túbulo renal absorvem lipídios e são conhecidas como corpos adiposos ovais. Em geral, são vistas em conjunto com gotículas de gordura que flutuam no sedimento. No exame do sedimento com luz polarizada, destacam-se ima- gens características nas gotículas que contêm colesterol (cruz-de-malta). Leucocitúria Os leucócitos podem entrar na urina através de qualquer ponto ao longo do trato urinário ou de secreções genitais. São encontrados menos de quatro, com aumento de 400 vezes. O aumento no número de leucócitos (>4 por campo) que apresentam ou não fenômenos degenerativos (granulações grosseiras no citoplasma, inclusão de bactérias etc.) na urina é chamado piúria. A piúria pode expressar-se pela eliminação de leucóci- tos isolados ou aglutinados, ou pelo aparecimento na urina de cilindros hialinos com inclusão de leucócitos. Pode resultar de infecções bacterianas ou de outras doenças renais ou do trato urinário. As infecções que compreendem pielonefrite, cistite, prostatite e uretrite podem ser acompanhadas de bactérias ou não, como no caso da infecção por Chlamydia. A piúria também está presente em patologias não infecciosas, como a glomerulonefrite, o lúpus eritematoso sistêmico e os tumores. Os leucócitos (piócitos) podem apresentar-se agrupados e, neste caso, devem ser expressos como grumo piocitário. Hematúria Normalmente, as hemácias são encontradas na urina de pessoas normais em pequenas quantidades (menos de 3, com aumento de 400 vezes). Todas as hemácias presentes na urina se originam do sistema vascular. O número aumentado de hemácias na urina representa rompimento da integridade da barreira vascular, por lesão ou doença, na membrana glomerular ou no trato geniturinário. As condições que resultam em hematúria incluem várias doenças renais, como glomerulonefrites, pielonefrites, cistites, cálculos, tumores e traumatismos. Qualquer condição que resulte em inflamação ou comprometa a integridade do sistema vascular pode resultar em hematúria. A possibilidade de contaminação menstrual deve ser considerada em amostras coletadas de mulheres. A presença de hemácias e também de cilindros na urina pode ocorrer após exercícios intensos. Às vezes, é necessária a pesquisa de hemácias dismórficas para diferenciar a hematúria de origem glomerular daquela de origem não glomerular. A presença de hemácias dismórficas sugere sangramento de origem glomerular. As hemácias não dismórficas (com morfologia normal) são encontradas em urina de pacientes com patologias extra-glomerulares. A pesquisa necessita de microscopia de contraste de fase. Cilindrúria Consiste em moldes mais ou menos cilíndricos do túbulo contornado distal e do ducto coletor. O principal componente dos cilindros é a proteína de Tamm-Horsfall, uma glicoproteína secretada (25 a 50 mg/d) somente pelas células tubulares renais. Essa proteína é a maior fração da uromuco-proteína. Os cilindros formados pela polimeriza- ção das fibrilas de Tamm-Horsfall são elementos do sedimento urinário que tomam a forma dos túbulos onde são produzidos. Cilindrúria é o nome dado à presença de cilindros urinários. Seu aparecimento é explicado pela presença de fatores promotores de cilindrúria em urinas anormais: albumina, estase urinária, fragmentos celulares, velo- cidade de filtração glomerular reduzida, pH ácido, presença de certas proteínas (de Bence Jones, mioglobina, hemoglobina etc.) e osmolalidade entre 200 e 400 mOsm/kg. O tamanho dos cilindros pode variar em função do diâmetro do túbulo no qual foram formados. Cilindros largos indicam a formação em túbulos renais dilatados ou em túbu- los coletores. A presença de muitos cilindros céreos largos indica prognóstico desfavorável. Assim, os tipos de cilindros encontrados no sedimento representam diferentes condições clínicas. Muco O muco é uma proteína fibrilar formada pelo epitélio tubular renal e pelo epitélio vaginal. Não é considerado clinicamente significativo. O aumento da quantidade de filamentos de muco na urina feminina está comumente associado com contaminação vaginal. Cristalúria Os cristais presentes na urina são classificados, de acordo com o pH, em cristais de urina ácida, neutra ou alcalina: • Urina com pH ácido: oxalato de cálcio, ácido úrico e urato amorfo. • Urina com pH neutro: biurato de amônio, carbonato de cálcio, oxalato de cálcio e fosfato triplo. • Urina com pH alcalino: fosfato triplo, biurato de amônio, carbonato de cálcio, fosfato de cálcio e fosfato amorfo.