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Geovana Sanches - TXXIV FARMACODINÂMICA Professores Maria Tereza, Claudia Becker e André Moura PRINCIPAIS CONCEITOS DA FARMACODINÂMICA A farmacodinâmica estuda o mecanismo de ação pelo qual um fármaco atua sobre as funções bioquímicas ou fisiológicas de um organismo vivo. Ou seja, estuda o sítio de ligação, o (s) local (is) onde ele age para proporcionar os seus efeitos. Estuda-se, portando, a interação fármaco-receptor. Além disso, estuda também os efeitos farmacológicos dos medicamentos: terapêuticos, colaterais e adversos (efeito colateral indesejado – reações adversas – RAM). Efeito colateral: qualquer efeito não intencional de um produto farmacêutico que ocorra em doses normalmente utilizadas em humanos relacionado com as propriedades farmacológicas do fármaco. É um efeito não pretendido (adverso ou benéfico), causado pelo medicamento utilizado em doses terapêuticas. Reação adversa a medicamento (RAM): qualquer resposta prejudicial ou indesejável, não intencional a um medicamento, que se manifesta após a administração de doses normalmente utilizadas no homem para profilaxia, diagnóstico ou tratamento de doença ou para modificação fisiológica. O fármaco não cria uma nova função no organismo, apenas modifica uma função pré- existente. Interação fármaco-receptor Os receptores são macromoléculas do organismo e a ligação com um determinado tipo receptor com o respectivo agonista (especificidade) produz uma resposta única. Os receptores existem em dois estados: ativo (R*) e inativo (R), que estão em equilíbrio reversível entre si, em geral favorecendo a reação para o estado inativo. - A ligação com agonistas desloca a reação para R* -> efeito biológico - Os antagonistas ocupam o receptor e estabilizam- no no estado inativo. Mecanismo de ação de fármacos Langley, em 1905, criou o conceito para substância receptiva: “Existem substâncias nas terminações nervosas ou nas células glandulares em que tanto a atropina (antagonista dos receptores muscarínicos) como a pilocarpina (agonista dos receptores muscarínicos) são capazes de formarem compostos”. Paul Ehlirch (1878), afirmou que a coloração em peças histológicas era decorrente da interação química entre 2 compostos. Ganhou o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1908. Clark (1926) e Gaddum (1926, 1937) propuseram a teoria de ocupação dos receptores, a qual afirma que a intensidade do efeito farmacológico é diretamente proporcional ao número de receptores ocupados. Essa teoria, apesar de ser importante, não explica todos os fenômenos que podem acontecer na interação entre um fármaco e o seu receptor. Certos fármacos não geram resposta máxima por mais que se eleve a concentração. Medicamentos de ação específica Os medicamentos podem agir em locais específicos em nosso organismo, mas também de maneira inespecífica. Exemplos de ações específicas são: • Canais iônicos à anestésicos locais (bloqueiam canais de sódio) • Enzimas à aspirina (inibe a COX) • Carreadores (proteínas transportadoras) à Fluoxetina (inibe a recaptação de serotonina) • Ácidos nucléicos, podendo afetar a transcrição gênica. • Receptores de membrana à diazepam, nicotina, propranolol, etc. • Receptores citoplasmáticos à cortisol, dexametasona, estrógeno, etc. Medicamentos de ação inespecífica São aqueles que não necessitam interagir com componentes celulares. Trata-se de uma minoria, classificando-se como exceções. • Antifiséticos (antiflatulento) à dimeticona ou simeticona (Luftal®); essa molécula é capaz de desfazer bolhas reduzir a formação das mesmas, reduzindo, dessa forma, os gases intestinais. • Antiácidos à Al(OH)3 , MG(OH)2 e NaHCO3; são bases que neutralizam o HCl do estômago • Laxativos à formadores de massa, aumentando o volume de fezes e, consequentemente, o peristaltismo, facilitando assim, a defecação à Plantago (Psyllium) – Metamucil® • Manitol à diurético; age osmoticamente nos túbulos renais. O manitol é filtrado no glomérulo, adentrando nos túbulos renais. Como ele não é reabsorvido, a concentração no interior dos túbulos renais aumenta e, consequentemente, a água passa do interstício para os túbulos, provocando o aumento da diurese. Geovana Sanches - TXXIV Biofármacos Uma porcentagem dos fármacos novos aprovados nos últimos anos são agentes biológicos terapêuticos, inclusive enzimas e anticorpos monoclonais desenvolvidos por engenharia genética. Esses fármacos têm propriedades farmacológicas nitidamente diferentes dos compostos farmacêuticos tradicionais, os quais são moléculas pequenas. Sendo assim, os estudos área da farmacodinâmica não estão relacionados aos biofármacos, de forma que os conceitos estudados devem ser aplicados apenas para essas moléculas simples, pequenas e estáveis (compostos farmacêuticos tradicionais). Relação dose-resposta A farmacodinâmica realiza o estudo quantitativo ou a relação dos efeitos biológicos e terapêuticos dos fármacos. Ao estudarmos a relação dose-resposta, é comum observarmos um gráfico como o abaixo, em que, à medida que se aumenta a concentração do fármaco, aumenta-se também a resposta. Essa resposta, entretanto, atinge um platô, ou seja, um ponto máximo, a partir do qual, mesmo que seja ministrado maior quantidade do fármaco, não ocorrerá aumento na resposta. Para melhor compreensão dos resultados registrados nesse gráfico, podem ser feitos experimentos laboratoriais. Os opióides, quando administrados em ratos, causam uma contração do músculo ano-coccígeo elevando a cauda desses animais. Esse efeito pode ser reproduzido conforme a dose do fármaco administrada e, a partir disso, podem ser construídas as curvas dose-efeito. Além desse experimento, há outras possíveis reações que também demostram a relação dose- efeito, os quais são feitos em preparação in vitro. Nesse experimento, utiliza-se uma porção de um vaso sanguíneo, a qual é coloca em uma preparação e mantida num tampão adequado e temperatura correta, permitindo que ela permaneça viva. Diferentes concentrações de fármaco são colocadas em contato com essa porção, podendo-se observar que o vaso, dependendo da substância, irá sofrer contração, movendo a alavanca a ele associado. Esse movimento pode ser mensurado em milímetros, permitindo a criação do gráfico de relação dose-efeito. Teoria de ocupação – Clark & Gaddum A partir desses modelos experimentais, Clark e Gaddum, propuseram a teoria de ocupação dos receptores. Essa teoria propõe que a resposta a um fármaco seja originada de um receptor ocupado por ele. Ou seja, quanto maior a quantidade de receptores ocupados, maior a resposta. Esse conceito tem suas bases na lei de ação das massas: a velocidade da reação é proporcional às concentrações em mol/L dos reagentes elevada aos seus coeficientes estequiométricos, isto é, quanto maior a quantidade de reagente, maior a velocidade da reação e, consequentemente, da formação de produto. Esse conceito é aplicável a qualquer reação reversível, tanto na direção direta quanto na inversa. Aspectos quantitativos da interação entre fármaco e receptor A curva dose-efeito é uma hipérbole retangular. Esse gráfico assemelha-se aos gráficos de quando se estuda a velocidade das reações, incluindo a reação de Michaelis-Menten: a velocidade de uma reação depende da velocidade máxima vezes a concentração do substrato, dividida pela constante de Michaelis somada à concentração do substrato. Geovana Sanches - TXXIV Como a curva nos dois gráficos é muito semelhante, por analogia, observou-se que, quando uma droga é administrada, ela atua com o seu receptor formando uma interação fármaco-receptor. A partir disso, tem-se o efeito farmacológico. A proposta de equação para esse cálculo foi que o efeito farmacológico, dividido pelo efeito máximo é igual a concentração da droga sobre a constante de dissociação somadoa concentração da droga. A mesma curva pode ser expressa em um gráfico semi-log, em que a concentração é expressa em logaritmo e, na ordenada, tem-se a porcentagem do efeito máximo. Nesse caso, a hipérbole quadrada se transforma em uma sigmóide. Esse gráfico é muito utilizado para demonstração de resultados em experimentos pois as quantidades de fármacos utilizada é muito pequena (como micromolar). Receptores Os sítios de ação são macromoléculas do organismo, onde as substâncias endógenas ou exógenas (fármacos) interagem e formam um complexo ligante-receptor que inicia alterações bioquímicas para promover uma resposta fisiológica ou farmacológica (transdução do sinal). Exemplo: noradrenalina à pode ser endógena (produzida pela glândula adrenal), mas também pode ser sintética, a qual é administrada no paciente. Forças de interação fármaco-receptor 1. Força de van der Waals: a mudança de densidade de elétrons em áreas de uma molécula ou em uma molécula como um todo resulta na geração de cargas positivas ou negativas transitórias. Essas áreas interagem com áreas transitórias de cargas opostas. Força da ligação: + 2. Ligações de Hidrogênio: os átomos de H ligados ao N ou O tornam-se mais positivamente polarizados, permitindo a sua ligação a átomos de polarização mais negativa, como O, N, ou S. Força da ligação: ++ 3. Ligação iônica: os átomos com excesso de elétrons (conferindo ao átomo uma carga negativa global) são atraídos por átomos com deficiência de elétrons (conferindo ao átomo uma carga positiva global). Força da ligação: +++ 4. Ligação covalente: dois átomos em ligação compartilham elétrons. Força da ligação: ++++ Interação fármaco-receptor O receptor é uma molécula grande quando comparado aos fármacos, que são pequenas moléculas. Exemplo 1: receptor muscarínico – possui três regiões para interação: hidrofóbica, aniônica e de ligação de hidrogênio. O receptor está formando complexo com a acetilcolina. Os aminoácidos de treonina (Thr192) e asparagina (Asn382) realizam interação hidrofóbica e ligação de hidrogênio com o grupo éster de Ach. Os aminoácidos de aspartato (Asp105), triptofano (Trp378) e tirosina (Tyr381), que interagem com o grupo amônio quaternário através da interação iônica. Há, ainda, interação das porções desprovidas de carga da acetilcolina com a as regiões hidrofóbicas do receptor. Exemplo 2: receptor adrenérgico e suas interações com a molécula de adrenalina. O resíduo aspartato (Asp113) interage por ligação iônica com o grupo amino protonado do substrato. O aminoácido fenilalanina (Phe290) faz interação hidrofóbica com o anel aromático do ligante. Geovana Sanches - TXXIV A partir da interação dos fármacos com seus receptores, surgiram os conceitos de agonistas e antagonistas. Há vários modelos que explicam a interação entre eles: 1. Modelo chave-fechadura A chave se liga à fechadura e a ligação entre eles provoca uma resposta biológica. As chaves podem ser: - Chave: Agonista natural = substância endógena - Chave modificada: Agonista modificado = substância sintética (fármaco), mas que se encaixa na fechadura (receptor) - Chave falsa: Antagonista = substância que se encaixa no receptor, mas bloqueia a resposta biológica. Exemplo: propranolol à interage com o receptor Beta- 1 no coração e impede a ação da noradrenalina, não promovendo, portanto, uma resposta biológica. Através dos 3 exemplos: chave, chave modificada e chave falsa pode-se distinguir: - Interação micromolécula-receptor: expressa pelo termo afinidade química, isto é, capacidade da micromolécula se ligar ao sítio complementar de interação. - Geração da resposta biológica: expressa pelo termo atividade intrínseca, isto é, capacidade do sistema ligante-receptor, uma vez ligado, desencadear uma determinada resposta biológica. 2. Modelo de Encaixe induzido Nesse modelo, observa-se que o fármaco não está pronto inicialmente; ao interagir com o receptor, ele promove uma mudança nessa proteína, que facilita o seu encaixe. Ou seja, o ligante promove uma modificação na estrutura tridimensional do receptor, ao mesmo tempo em que esse tem a propriedade de reconhecer uma ou um conjunto de conformações do(s) ligante(s). O ligante ao gerar uma mudança conformacional de seu receptor, pode estar induzindo- o a adotar a conformação responsável por seu reconhecimento, favorecendo a resposta biológica. Agonistas Os fármacos que se ligam aos receptores fisiológicos e simulam os efeitos dos compostos sinalizadores endógenos são conhecidos como agonistas. Esses fármacos possuem afinidade pelos seus receptores e têm atividade intrínseca ou eficácia (são capazes de ativá-los), gerando alteração metabólica celular que provoca uma resposta. Os agonistas, ao se ligarem ao receptor, estabilizando-o em determinada conformação, que, normalmente, é a conformação ativa (promove a transdução de sinal). D e R são as concentrações do fármaco e do receptor não ligados (livres); DR é a concentração do complexo agonista-receptor; R* indica a conformação ativa do receptor. Quando o fármaco se liga à mesma região de reconhecimento que a molécula endógena, diz-se que ele é um agonista primário. Os agonistas alostéricos (ou alotrópicos) ligam- se a uma região diferente do receptor, que também é conhecida como região alostérica ou alotrópica. Para ser um agonista, o fármaco deve apresentar: • Afinidade química pelo receptor; ● Especificidade de sítio de ligação; ● Reversibilidade de ligação; ● Atividade intrínseca ou eficácia. O antagonista pode apresentar as três primeiras características, mas a atividade intrínseca é uma exclusividade do agonista. Essas características dependem da estrutura química do fármaco. A estereoisomeria (levogiro e dextrogiro) dos fármacos pode levar a diferentes propriedades farmacodinâmicas. Exemplo: o antiarrítmico sotalol é prescrito na forma de uma mistura racêmica; os enantiômeros d e l são equipotentes como bloqueadores do canal de K+, mas o enantiômero l é muito mais potente como antagonista β-adrenérgico. Outras características da interação entre fármacos e receptores são a Dessensibilização, Tolerância e Taquifilaxia, os quais não são tão precisos, tendo em vista que cada autor os considera de maneira diferente. De modo geral, representam a redução do efeito de um fármaco, quando o mesmo é administrado de maneira contínua ou repetida. Um dos mecanismos que pode explicar isso é que a administração prolongada de um fármaco pode causar hiporregulação dos receptores (redução do n° de receptores) ou dessensibilização da resposta. Isso Geovana Sanches - TXXIV pode exigir ajustes das doses para manter a eficácia do tratamento. Exemplo: a administração crônica de nitrovasodilatadores para tratar angina resulta no desenvolvimento rápido de tolerância completa, um processo conhecido como taquifilaxia. Podemos considerar que dessensibilização e taquifilaxia são sinônimos e referem-se a quando a redução do efeito se desenvolve de modo rápido, muitas vezes em poucos minutos. Já a tolerância é usada para descrever uma diminuição mais gradual do efeito de um fármaco, que pode levar horas, dias ou semanas para se desenvolver. Todavia, como já mencionado anteriormente, a distinção desses termos não é muito precisa. Eficácia dos agonistas Stephenson, em 1956 propôs a teoria da eficácia, que descreve a força do complexo agonista- receptor em desencadear uma resposta tecidual. A eficácia revela a tendência do complexo fármaco-receptor a adotar o estado ativo (AR*), em vez do estado em repouso (AR). À medida que o fármaco se liga ao receptor ele é capaz de gerar uma resposta se causar mudança conformacional promovendo a ativação do receptor. Assim, não basta que haja a ligação, é necessária essa mudança, a qual facilitaa resposta. Há agonistas que, apesar de possuírem a mesma função, em uma mesma concentração, as capacidades de promoverem a mudança conformacional para AR* são diferentes. Ou seja, na mesma concentração, alguns conseguem ocupar maiores quantidades de receptores do que outros, gerando então uma resposta maior. Isso indica a eficácia do agonista em promover a resposta. A partir do conceito de eficácia, os agonistas podem ser assim classificados: Agonistas plenos ou totais: capazes de produzir resposta tecidual máxima. Tem eficácia de 100% ou igual a 1. Agonistas parciais: mesmo ocupando todos os receptores teciduais, sua eficácia é menor do que 100%, estando entre 0 e 1. Antagonistas: como não promovem uma resposta, sua eficácia igual a zero. Agonistas plenos x Agonistas parciais Agonista parcial é uma molécula que se liga ao sítio ativo de um receptor, mas só produz uma resposta parcial, mesmo quando todos os receptores estão ocupados (ligados) por ele. Se o agonista parcial e o pleno se ligam ao mesmo sítio no receptor, podemos afirmar que os agonistas parciais reduzem a resposta produzida pelos agonistas totais, pois parte desses receptores estarão ocupados pelos agonistas parciais (que não possuem a capacidade de desenvolver a resposta máxima). Exemplo: a morfina é um agonista total e a buprenorfina é um agonista parcial dos receptores opióides. Quando ocorre, por exemplo, uma depressão respiratória por morfina, o médico pode se utilizar da buprenorfina para reduzir a resposta causada pela morfina. A buprenorfina, com sua elevada afinidade pelo receptor opioide um, compete com os outros opioides plenos. Nesse caso, apesar da buprenorfina ser um agonista parcial, ele age como antagonista. Potência dos agonistas Para ilustrar o conceito de potência, utilizaremos o gráfico representado abaixo. Temos duas curvas referentes a dois agonistas diferentes. A curva mais a esquerda (x) promove a capacidade de resposta com doses menores do que o agonista y (curva da direita). Normalmente, essas comparações são feitas na EC50= concentração do agonista para atingir 50% da resposta máxima; ED50 ou DE50= dose do agonista para atingir 50% da resposta máxima. Nesse caso, o agonista x é mais potente que o agonista y pois o seu EC50 é menor. Portanto, a potência está associada a dose (e a eficácia está associada a capacidade de gerar resposta). Eficácia x Potência Geovana Sanches - TXXIV Os fármacos A, C e D são os que possuem maior eficácia, tendo em vista que são os que atingem uma resposta máxima. Já ao nos referirmos a qual dos agonistas possui maior potência, a resposta é o agonista B, o qual irá atingir 50% do efeito máximo em uma concentração menor do que os demais. Assim, o agonista B, apesar de ter menor eficácia que os demais fármacos, tem maior potência. As diferenças em potência e eficácia podem ser observadas, portanto, nas curvas dose-resposta. Na clínica, devemos levar em consideração principalmente a eficácia, tendo em vista que a dose é ajustável. Um fármaco com maior eficácia é terapeuticamente mais benéfico do que um fármaco mais potente. Agonistas inversos Ativação constitutiva do receptor: existe uma atividade intrínseca (“tônus”) do receptor, mesmo na ausência de um ligante endógeno ou de um agonista exógeno administrado. Conseguem uma resposta independente de agonistas. Exemplos: receptores de BZD (benzodiazepínicos), canabinoides, 5HT, dopamina, histamina, opióides, bradicinina, adenosina. O agonista inverso atua de modo a abolir essa atividade intrínseca (constitutiva) do receptor livre (não ocupado). Ele tem uma eficácia negativa (E < 0). Modelo de dois estados do receptor Admite a coexistência na membrana de receptores ativos (R*) e inativos (R). Um fármaco com maior afinidade para R* causará um deslocamento no equilíbrio para a conformação por R* (agonista). ● Agonista pleno ou total: alta afinidade por R*. Eficácia positiva = 1,0. ● Agonista parcial: a afinidade por R* é moderada e uma proporção menor de R* será ocupada. Eficácia entre 0 e 1. ● Agonista competitivo: o fármaco não apresenta nenhuma preferência por R ou R*. O equilíbrio R:R* não será alterado. Eficácia = 0. ● Agonista inverso: o fármaco tem maior afinidade por R, o equilíbrio será deslocado em direção a R. A resposta tecidual será contrária. Eficácia < 0. Atua de modo a abolir atividade extrínseca/ constitutiva do receptor livre. Diferença entre antagonista competitivo e agonista inverso A diferença entre o antagonista competitivo e o agonista inverso é que o antagonista competitivo não exerce nenhum efeito na ausência do agonista, enquanto um agonista inverso desativa os receptores constitutivamente ativos na ausência do agonista. No modelo de dois estados do receptor, os agonistas inversos comportam-se como antagonistas competitivos. O antagonista competitivo, ao se ligar ao ponto de ligação do agonista, irá antagonizar todos os tipos de agonistas, incluindo agonistas inversos. Regulação da atividade de um receptor com fármacos seletivos para sua conformação: nesse modelo, o receptor R pode existir em conformações ativar (Ra) e inativa (Ri) e os fármacos (L) que se ligam a uma dessas duas formas de receptor ou a ambas podem afetar o equilíbrio entre as duas conformações de R e o efeito final das reações controladas por esse receptor. Geovana Sanches - TXXIV A ativação dos receptores aumenta na presença de um agonista e diminui na presença de um agonista inverso. A adição de um antagonista competitivo desloca ambas as curvas. O antagonista sozinho não altera o nível de atividade constitutiva. Na presença de um agonista ou de um agonista inverso, o antagonista restaura o sistema no sentido do nível constitutivo da atividade. Antagonistas Os antagonistas são os fármacos que bloqueiam ou reduzem a ação de um agonista. Eles se ligam aos receptores (têm afinidade química), mas não capazes de ativá-los (não tem atividade intrínseca, eficácia zero), não causando nenhuma alteração célula e, portando, não há transdução de sinal. Entretanto, eles interferem na ligação do agonista. Agonista X Antagonista A. Receptor de membrana livre / receptor inativo não ligado. Há um sítio agonista de ligação e um sítio antagonista alostérico de ligação, caso esse não seja o mesmo que o sítio do agonista. B. Receptor ativado pelo agonista, com consequente resposta biológica C. Antagonismo competitivo: os antagonistas ocupam o sítio do agonista, impedindo a ligação do agonista D. Antagonismo alostérico: os antagonistas alostéricos ligam-se a um sítio alostérico, que é distinto do sítio agonista Antagonismo competitivo O antagonismo competitivo ocorre quando o agonista A e o antagonista I competem pelo mesmo local de ligação do receptor. As curvas de resposta ao agonista são desviadas pelo antagonista para a direita com uma relação dependente de concentração, de tal forma que a CE50 do agonista aumenta (p. ex. Lvs L’; L’’ e L’’’) com a concentração máxima do antagonista. No mesmo sítio há ligação do agonista e do antagonista. A linha verde do gráfico representa apenas o agonista, na ausência do antagonista (resposta máxima). Quando se administra o antagonista, representado pelas linhas vermelhas, quanto maior a concentração, é necessário maior quantidade do agonista para de obter a resposta máxima. Esse tipo de antagonismo permite, portanto, que o agonista recupere a sua resposta máxima. Exemplo: atenolol à antagonista competitivo dos receptores β1 Antagonismo não competitivo Quando o antagonista se liga ao mesmo local que o agonista, mas o faz de forma irreversível ou pseudo-irreversível (dissociação lenta, mas sem ligação covalente), ele causa um desvio na curva de dose- resposta para a direita, com depressão progressiva da resposta máxima àmedida que a concentração do antagonista (l) aumenta. Tem-se o sítio de ligação do agonista e também do antagonista, porém, por mais que se aumente a concentração do agonista, a resposta máxima não é mais obtida. Nesse caso, existe um desvio da curva da resposta do agonista que passa a ter uma redução progressiva da resposta máxima. Geovana Sanches - TXXIV Exemplo: fenoxibenzamina à antagonista não-competitivo irreversível dos receptores alfa- adrenérgicos (causa vasodilatação). Efeito alostérico É um tipo de interação de uma molécula com o receptor diferente do agonista que pode gerar um efeito de antagonismo ou de potencialização do efeito do agonista. Os efeitos alostéricos ocorrem quando um ligante alostérico I liga-se a um sítio diferente do receptor de forma a inibir a resposta. As concentrações crescentes do antagonista desviam as curvas progressivamente para a direita. Esse efeito alostérico é saturável, pois a inibição atinge um valor limitante quando o sítio alostérico está totalmente ocupado. A curva verde do gráfico representa a ação do agonista sem interação com o antagonista. Já as vermelhas, são as curvas dose-resposta quando se administra antagonista. Apesar de estar ligado em um sítio diferente, o antagonista causa uma inibição na resposta do agonista, de forma que concentrações crescentes do antagonista desviam a curva à direita. Os efeitos alostéricos de potencialização ocorrem quando um ligante alostérico P liga-se a um sítio diferente do receptor de forma a potencializar a resposta. As concentrações crescentes do ligante P desviam as curvas progressivamente para a esquerda, fazendo com que não seja necessário doses maiores do agonista/ redução da dose para produzir efeito. Esse efeito alostérico também é saturável. No gráfico vemos que a concentração de agonista para se atingir o efeito máximo diminui a medida que ele está associado a molécula potencializadora, ou seja, essa molécula favorece a ligação do agonista ao seu receptor, de modo que são necessárias doses menores do agonista para produzir o mesmo efeito. Antagonismo fisiológico O antagonismo fisiológico ocorre na presença de 2 agonistas em receptores diferentes, os quais tem respostas contrárias. Exemplo: adrenalina à receptores β2 à broncodilatação; porém, acetilcolina à receptores muscarínicos à broncoconstrição. OBS: o antagonismo farmacológico ocorre com 2 moléculas no mesmo receptor. Medicamentos que exemplificam o antagonismo fisiológico são: pilocarpina e noradrenalina na motilidade gastrointestinal. Antagonismo químico Substâncias que não reagem com os receptores do organismo, mas promovem reação química entre si, de forma que uma antagoniza a outra; ocorre inativação do efeito de uma das substâncias. Exemplos: - Protamina e Heparina – formam complexo inativo. - Agentes quelantes como o EDTA e penicilamina, que sequestram metais (As, Hg, Pb), diminuindo as ações tóxicas dos mesmos. FATORES QUE AFETAM A FARMACODINÂMICA A magnitude da resposta à mesma concentração de um único fármaco varia individualmente e determinado indivíduo pode nem sempre responder da mesma forma à mesma concentração de um fármaco. A reatividade do fármaco pode mudar em consequência de doença, envelhecimento (idade) ou administração pregressa do fármaco. Outros fatores que podem alterar a farmacodinâmica são os fatores genéticos, comorbidades e outros fármacos administrados (interação medicamentosa). As concentrações dos receptores podem variar, ou seja, sofrem um processo dinâmico: podem ser hiper-reguladas ou hipo-regulados (taquifilaxia) por fatores endógenos e exógenos. Fatores que afetam a resposta a determinada dose de um fármaco Geovana Sanches - TXXIV Curvas de distribuição das frequências e curvas dose- efeito No gráfico da esquerda temos a distribuição de frequências cumulativas. O gráfico associa a concentração do fármaco com a porcentagem de indivíduos que respondem a este medicamento. Desse gráfico, obtém-se a concentração do fármaco que em 99 a 100% dos indivíduos respondem, além da dose (ou concentração) que 50% da população responde. A partir desses dados, constrói-se o gráfico da direita, no qual podemos avaliar a dose que causa efeito em 50% da população e em 99% da população, comparando-se com a dose que mata 50% e 99% da população (experimental). Com isso, é possível calcularmos o índice terapêutico, que é a fração que relaciona DL50 e DE50. Com isso, há, ainda, o conceito de janela terapêutica: faixa de concentrações do fármaco no estado de equilíbrio, que alcança eficácia terapêutica com efeitos tóxicos mínimos. Assim, avaliamos qual a dose deve ser administrada à população, sabendo-se qual a margem de segurança. SINERGISMO Fármacos com mecanismos de ação diferentes, porém com o mesmo efeito farmacológico, podem ser usados em associação para obter efeitos sinérgicos aditivos e positivos. Essas interações positivas de dois fármacos podem permitir o uso de concentrações menores de cada um deles e, assim, reduzir os efeitos adversos dependentes da concentração. A expressão do sinergismo positivo refere-se aos efeitos super-aditivos dos fármacos usados simultaneamente. Exemplo: broncodilatadores como fenoterol (agonista β2) e ipratrópio (antagonista muscarínicos). Os fármacos combinados também podem apresentar sinergismo negativo ou efeitos subaditivos, no qual a eficácia da combinação terapêutica é menor da que seria esperada se os efeitos fossem aditivos. TIPOS DE RECEPTORES Receptores que alteram as concentrações dos ligantes endógenos Cocaína (inibe a recaptação de noradrenalina aumentando a noradrenalina na fenda sináptica); Selegilina (inibe a MAO tipo B aumentando a concentração de aminas como dopamina); Captopril (inibe a ECA, diminuindo a quantidade de angiotensina II); Aspirina (inibe a COX impedindo a síntese de PG). Receptores de fármacos associados aos processos extracelulares Heparina: interfere em vários cofatores da coagulação; Rivaroxabana: interfere no cofator Xa. Receptores utilizados por agentes anti-infecciosos Antibióticos, antivirais, antifúngicos a antiparasitários. Receptores que regulam o equilíbrio iônico Os receptores desses fármacos são bombas e transportadores iônicos expressos em células especializadas dos rins e TGI. Furosemida (inibe a reabsorção de Na, K, Cl na porção ascendente espessa da Alça de Henle, impedindo a reabsorção de sódio e, com isso, aumenta a diurese); Omeprazol (inibe a bomba de hidrogênio e potássio, diminuindo a produção de HCl no estômago). Vias intracelulares ativadas por receptores fisiológicos - vias de transdução de sinais A maior parte dos receptores de fármacos é representada por receptores fisiológicos expressos na superfície das células, que transduzem os sinais extracelulares em sinais intracelulares que alteram os processos celulares. Os receptores fisiológicos da superfície celular têm 2 funções principais: acoplar-se aos ligantes e propagar a mensagem, ou seja, a sinalização transmembrana e intracelular à um agonista interage com o receptor e, após a interação, há propagação da mensagem através de alterações bioquímicas na célula, levando a uma resposta biológica. Receptores fisiológicos GPCR (Receptores associados a proteína G) São uma família de receptores que reconhecem substâncias endógenas ou exógenas. Receptores β-adrenérgicos: são ativados por noradrenalina, epinefrina e dopamina. Quando há essa interação, há ativação de um sistema efetor ou transdutor de sinal. A noradrenalina ativa, por exemplo, a proteína Gs, que por sua vez ativa a enzima adenilciclase (AC). Além da noradrenalina endógena, tem-se os fármacos que atuam no mesmo receptor, como a Dobutamina (agonista β1) e o Propranolol (antagonista β1 e β2). Receptores colinérgicos muscarínicos: seu ligante fisiológicoé a acetilcolina. Um dos efetores pode ser a proteína Gi, com redução da atividade enzimática da adenilciclase. A atropina é um exemplo de fármaco que é antagonista muscarínico. Geovana Sanches - TXXIV Receptores dos eicosanoides: seus ligantes são prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos. Seus efetores são as proteínas Gs, Gi e Gq. Como exemplo de fármacos, temos Misoprostol (agonista de receptores de prostaglandinas) e Montelucaste (antagonista de receptores de leucotrienos) Receptores de trombina (PAR) Canais iônicos Existem receptores que formam canais iônicos, os quais são abertos quando há interação com agonistas. Receptores regulados por ligantes: acetilcolina em receptores nicotínicos (permite a entrada de sódio), GABA em receptores GABAa (permite a entrada de cloreto na célula). Exemplos de fármacos que também atuam nesses receptores são, respectivamente, nicotina e gabapentina. Receptores por voltagem: não há ligantes fisiológicos. São ativados pela despolarização da membrana. Exemplos de fármacos: lidocaína e verapamil. Enzimas transmembrana Receptores de tirosina-quinase: tem como ligantes fisiológicos a insulina, além de fatores do crescimento. Esses receptores atuam através de proteínas, algumas com domínio SH2, e uma cascata de cinases. Exemplos de fármacos: herceptina e imatinibe. GC (guanilil ciclase) acoplada à membrana: tem como ligantes fisiológicos os peptídeos natriuréticos e atuam através de GMPc. Um exemplo de fármaco é a Nesiritida. Tirosina-fosfatase Transmembranas, exceto enzimas Receptores de citocinas: tem como ligantes fisiológicos as interleucinas e outras citocinas. Atuam através de receptores Jak/STAT (promotores de transcrição gênica) e tirocinas-cinase solúveis. Como exemplo de fármacos temos interferonas e anaquinra. Receptores semelhantes ao Toll Receptores nucleares Receptores dos esteroides: liga-se ao estrogênio e testosterona e tem como efetor coativadores. Quando ativados, eles inibem ou estimulam a transcrição gênica. Fármacos: estrogênios, androgênios e cortisol. Receptores do hormônio tireóideo: liga-se ao hormônio tireóideo, o qual também pode ser administrado como fármaco. PPAR (receptor ativado pelo proliferador de peroxissomo) Enzimas intracelulares GC solúvel: ativada pelo óxido nítrico e pelo cálcio. Essa enzima catalisa uma reação que origina o GMPc. Um fármaco importante são os nitrovasodilatadores, utilizados em casos de angina pectoris. Receptores para mediadores químicos endógenos Agonistas: São moléculas que, ao interagirem com o receptor, ativam o mecanismo de transdução. Esse mecanismo pode ser através da abertura ou fechamento dos canais iônicos; ativação ou inibição enzimática; modulação os canais iônicos; transcrição do DNA. Antagonistas: interagem com o receptor, mas não promovem os mecanismos de transdução. Entretanto, eles têm efeito terapêutico através do bloqueio dos mediadores endógenos. CLASSIFICAÇÃO DOS RECEPTORES FARMACOLÓGICOS Quanto ao tempo de ação Rápidos: normalmente são os receptores associados a canais iônicos. Eles agem em milissegundos. Exemplos: receptores nicotínicos (associados a canais de sódio), GABA-A (associados a canais de cloreto), glutamatérgicos (associados a canais de sódio e cálcio). Intermediários: são os receptores acoplados à proteína G e sua ação ocorre em segundos ou minutos. Exemplos: receptores de catecolaminas, GABA-B, receptores muscarínicos. Lentos: são os receptores citoplasmáticos e nucleares de glicocorticóides, hormônios sexuais e tireoideanos. Ação ocorre em horas. Outra classificação Tipo 1- ionotrópicos: receptores ligados a canais iônicos. Tipo 2- metabotrópicos: receptores associados à proteína G, que promovem metabolismo dentro da célula (há produção de segundos mensageiros). Exemplos: receptores de adrenalina e de acetilcolina. Tipo 3- ligados à tirosina quinase: geralmente estimulam a transcrição gênica. Exemplo: receptor de insulina. Tipo 4- nucleares ou intracelulares: regulam a transcrição gênica (estimular ou inibir). Exemplo: receptor de corticoides (agonista: cortisol e dexametasona). Geovana Sanches - TXXIV RECEPTORES RÁPIDOS- IONOTRÓPICOS Os canais iônicos que se abrem quando os mediadores químicos endógenos se ligam à esses receptores. A entrada ou saída de íons (principalmente potássio, com a hiperpolarização da célula) provoca uma resposta celular. Controlam os eventos sinápticos mais rápidos do SN (ms). Ação principalmente de NTs rápidos, como receptor colinérgico nicotínico, receptores GABA-A e glutamatérgicos. A. Quando há despolarização da membrana, há mudança conformacional que permite a entra do íon. B. A acetilcolina age na subunidade alfa do receptor (geralmente são 2 moléculas de Ach para ativar esse receptor), o que provoca uma mudança na estrutura da proteína e, com a abertura do canal de sódio, é permitida a entrada desse íon. Exemplo: receptor nicotínico expresso na junção neuromuscular. A imagem refere-se a um receptor GABA-A. Quando o neurotransmissor endógeno se liga ao seu receptor, há a abertura dos canais de cloreto, com a entrada desse íon na célula. Sendo o cloreto um íon negativo, isso promove a hiperpolarização da membrana neuronal e, por conseguinte, a excitabilidade das sinapses neuronais. Uso de agonistas e antagonistas associados aos receptores com canais iônicos: 1. Receptor nicotínico localizado na placa motora que está envolvido com canais de sódio. • Agonista (acetilcolina, carbacol): a ação desses ligantes promove a abertura de canais de sódio, permitindo a entrada desse íon na célula. Com isso, há despolarização da placa, com aumento de cálcio presente. Ativa-se assim, a actina e miosina, causando a contração do músculo esquelético. • Antagonista (pancurônio): causa um relaxamento do músculo esquelético (miorrelaxante) pois, atuando no receptor nicotínico, ele impede a ação da acetilcolina (agonista endógeno). Dessa forma, toda a sequência que levaria a contração muscular não acontece. 2. Receptor GABA-A localizado no cérebro está envolvio com canais de cloreto (Cl-). • Agonista (GABA, diazepam): quando interagem com o receptor GABA-A, promovem a abertura do canal de cloreto, permitindo a entrada desse íon e, causando a hiperpolarização do neurônio, o que resulta na sedação ou redução da ansiedade. • Antagonista (flumazenil): ocupa o receptor GABA-A, impedindo a ação do agonista. Dessa forma, reverta a ação inibidora central. 3. Receptores de glutamato AMPA (ligados a canais rápidos de Na+) e NMDA (ligados a canais lentos de Ca²+ de alta permeabilidade e de Na+). O glutamato é, portanto, um neurotransmissor excitatório, pois promove a entrada de íons positivos na célula, com a despolarização da mesma. RECEPTORES INTERMEDIÁRIOS- METABOTRÓPICOS Receptores ligados à proteína G. A proteína 3 é composta por três subunidades (alfa, besta e gama), sendo que uma delas está associada ao difosfato de guanosina (GDP), de onde advém a denominação G destas proteínas. Quando há interação do agonista, o GDP é substituído pelo GTP. Tipos de proteína G G estimuladora (Gs) Ativa canais de cálcio, ativa a Adenil ciclase. Após a ativação da proteína Gs, algumas enzimas são ativadas, como a adenililciclase (produz AMPc como segundo mensageiro) e a fosfolipase C (produz DAG e IP3 como mensageiros). Geovana Sanches - TXXIV Síntese do segundo mensageiro monofosfato de adenosina cíclico (AMPc): o ATP, sob ação da enzima adenililciclase, perde dois fosfatos. O AMPc atua em diferentes alvos na maioria das células, sendo uma delas a proteína quinase A (PKA), resultando no relaxamento do músculo liso. Um outro exemplo são os receptores de dopamina D1 e D2, os quais promovem efeitos opostos. A dopamina, um agonista endógeno, interage com o receptor D1, que porsua vez ativa Gs. A subunidade alfa da Gs ativa a enzima adenililciclase, promovendo a síntese de AMPc. Por outro lado, quando a dopamina age no receptor D2, há a Gi, que inibe a enzima e, então, reduz a produção de AMPc. Dessa forma, tem-se um controle bidirecional de uma enzima-alvo por variantes da proteína G. No músculo cardíaco, o AMPc promove aumento da força de contração e frequência cardíaca (aumenta o débito cardíaco). No tecido adiposo, pode promover lipólise. No fígado, por sua vez, pode promover glicogenólise e aumento da glicose na corrente sanguínea (glicemia). G inibitória (Gi): ativa os canais de potássio e inibe a Adenil ciclase. Go: Inibe canais de cálcio. Gq Ativa a enzima fosfolipase C, o que promove a síntese dos segundos mensageiros DAG (Diacilglicerol) e IP3 (trifosfato de inositol). Hormônios e fatores de crescimento liberam Ca²+ de seus sítios de reserva intracelulares por uma via de sinalização, que começa com a ativação da Fosfolipase C (PLC). Existem 2 formas principais (PLC-β e PLC-🇾). Os receptores ligados à proteína G (GPCR) que se ligam à Gq ativam a PCL-β através da subunidade Gα e da liberação do dímero β🇾. A fosfolipase C (PLC) hidrolisa o fosfatidilinositol, gerando IP3 e DAG. O DAG ativa diretamente alguns membros da família PKC (proteína cinase C). O IP3, por sua vez, difunde-se ao retículo endoplasmático, onde ativa o receptor de IP3 da membrana do RE e provoca a liberação do cálcio armazenado em seu interior. A liberação de cálcio dessas reservas intracelulares aumenta os níveis de cálcio no citoplasma e ativa enzimas dependentes desse íon, inclusive PKC e enzimas sensíveis ao Ca²/ calmodulina (exemplo: MLCK - cinase da cadeia leve de miosina. DAG e IP3 promovem, portando, contração de músculo liso, ao contrário do segundo mensageiro AMPc. G12/13: diversas interações com transportadores de íons. Modulação dos receptores A figura A representa o processo normal de produção de segundos mensageiros. Após o desligamento do ligante, a subunidade alfa tende a retornar à seu estado basal. Isso ocorre através da hidrólise do GTP, cuja taxa é aumentada por proteínas RGS (regulador de sinalização da proteína G). Quando ocorre uma estimulação prolongada a um receptor, ele pode sofrer uma hiporregulação (dessensibilização). Essa reação é iniciada pelas GRK (cinase do receptor acoplado à proteína G), que fosforilam o segmento C-terminal do receptor, Geovana Sanches - TXXIV resultando no recrutamento de proteínas conhecidas como arrestinas (reguladoras da atividade de receptores). As arrestinas se ligam ao receptor na superfície interna, descolocando as proteínas G e, consequentemente, inibindo a sinalização (transdução de sinais). Rápida dessenbilização, ressensibilização e regulação para baixo de β-adrenoceptores Essa figura representa a resposta a um agonista β-adrenoceptor. Os números correspondem às fases da função do receptor na figura abaixo (dessenbilização, ressensibilização e regulação para baixo de β-adrenoceptores). 1. Interação do agonista com o receptor associado à proteína Gs, com produção de AMPc. 2. Fosforilação por uma cinase receptora acoplada a proteína G (GRK), impedindo a interação do receptor com Gs, e promovendo a ligação de uma proteína diferente, β arrestina (β-Arr), ao receptor. 3. Dissociação do agonista, com internalização do receptor. Há redução da afinidade da ligação β-Arr (redução da afinidade do receptor pela arrestina). 4. Desfosforilação de receptores por uma fosfatase (P’ase) 5. Retorno de receptores à membrana plasmática (ressensibilização) 6. A exposição repetida ou prolongada de células ao agonista favorece o transporte de receptores internalizadas para lisossomos, promovendo a regulação para baixo do receptor em vez da ressensibilização. Ocorre, portanto, down regulation, ou seja, degradação de receptores com diminuição na disponibilidade dos mesmos. Tipos de segundos mensageiros Sistema Guanililciclase A guanililciclase é uma proteína que está presente na forma solúvel, dentro do citoplasma (isoenzimas localizadas nos tecidos vascular e nervoso). Ela pode ser ativada pelo óxido nítrico, provocando a produção do GMPc (monofosfato de guanosina cíclico). O GMPc ativa a fosfocinase do tipo G (PKG), a qual influencia proteínas contráteis. Os vasos sanguíneos possuem, na túnica íntima, fileiras de células endoteliais e na túnica média, a musculatura lisa. As substâncias que são produzidas no endotélio influenciam o músculo liso da artéria. O óxido nítrico é um gás cuja síntese ocorre nas células endoteliais. Logo após sua produção, ele penetra nas fibras musculares lisas. A síntese do óxido nítrico é aumentada por agonistas como Acetilcolina, Histamina, Bradicinina e ATP. O óxido nítrico ativa a guanililciclase, que catalisa a reação de biotransformação do GTP no segundo mensageiro GMPc, aumentando sua síntese. Isso gera um relaxamento do músculo liso. Geovana Sanches - TXXIV As enzimas fosfodiesterases catalisam a reação de inativação do GMPc. Alguns fármacos, inibidores das fosfodiesterases do tipo 5 são vasodilatadores utilizados no tratamento de disfunção erétil. Quando as enzimas fosfodiesterases são inibidas, há um acúmulo de GMPc, mantendo-se a vasodilatação. Além disso, eles promovem ação de relaxamento dos corpos cavernosos. Exemplos: 1) Sildenafila (Viagra®): tempo de meia vida de aproximadamente 4h. Tem como principais efeitos adversos cefaléia, congestão nasal, alteração na visão, hipotensão, parada cardíaca, priapismo (ereção mantida) e anorgasmia (incapacidade de ter o orgasmo) 2) Vardenafila (Levitra® e Vivanza®): tempo de meia vida de aproximadamente 4-5h. Efeitos adversos comuns parecidos. 3) Tadalafila (Cialis®): tempo de meia vida de aproximadamente 17,5h. Tem como principais efeitos adversos congestão nasal, hiperemia conjuntival, infarto do miocárdio, etc. Vias de sinalização do GMPc Além da produção de GMPc pela ativação da proteína Gs, temos a produção do GMPc que é regulada por receptores da superfície celular com atividade intrínseca de GC (guanililciclase). Esses receptores de superfície têm como agonista o peptídeo natriurético (ANP), o qual é produzido nos átrios e secretado dos grânulos de armazenamento atriais depois da expansão do volume intravacular ou da estimulação por hormônios vasopressores. Quando há interação desse receptor com o ANP, há aumento no nível de GMPc. Os efeitos celulares do GPMc são produzidos pela PKG e pelas PDE reguladas pelo GMPc. RECEPTORES LENTOS – RECEPTORES LIGADOS A TIROSINA QUINASE Os receptores ligados a tirosina quinase apresentam função enzimática na porção intracelular (domínio intracelular). Eles respondem a mediadores proteicos e estão envolvidos no controle do crescimento e da diferenciação celulares, além da transcrição gênica. Agonistas: insulina, citocinas e fatores de crescimento, como EGF (fator de crescimento epidérmico); PDGF (fator de crescimento derivado de plaquetas); NGF (fator de crescimento neural); FGF (fator de crescimento do fibroblasto); VEGF (fator de crescimento do endotélio vascular) e efrinas (moléculas reguladoras do desenvolvimento de sistemas e órgãos, sendo encontrados também no tecido linfóide). Interação receptor-agonista O receptor tirosina-quinase é formado por uma porção extracelular (onde o agonista irá se ligar), porção transmembrana e porção interna, a qual tem função enzimática (cinase à fazem fosforilação). Uma vez que o agonista se liga, dois receptores se pareiam (formam dímeros) e um receptor fosforila o outro (autofosforilação). Uma vez que isso acontece, algumas proteínas do citoplasma são atraídas e se iniciam reações em cascata de cinase, levando a uma Geovana Sanches - TXXIV resposta celular, que nesse caso é uma transcrição gênica/síntese de proteínas. Exemplo 1: insulina. A estimulação do receptor de insulina resulta em fosforilação das moléculas de sinalização intracelular. Os sinais intracelulares provocam a translocação dos transportadores da glicose (GLUT4) de um compartimento endossômico, que ancora na membrana e se funde na membrana plasmática onde aumenta a captação de glicose. Pacientes com resistência a insulina apresentam, muitas vezes, problemas na sinalização necessária para produção do GLUT-4. Exemplo 2: fator de crescimento epidérmico (EGF). As alterações de conformação resultam na ativação dos domínios de tirosina-cinase citoplasmáticos e na fosforilação da tirosina das regiões intracelulares para formar os locais de ligação SH2. A molécula adaptadora Grb2 liga-se às moléculas de tirosina fosforiladas e ativa a cascata da Ras-MAPK (proteína-cinase ativada por mitógeno). Exemplo 3: citocina (interferona ou prolactina). A ligação de uma citocina causa dimerização do receptor e recruta Jak para as caudas citoplasmáticas do receptor. As Jak (Janus-cinase) fosforilam e provocam fosforilação dos STAT (transdutor de sinal e ativador da transcrição). Os STAT fosforilados transferem-se ao núcleo e regulam a transcrição. Existem proteínas conhecidas como SOCS (supressores da sinalização das citocinas), que inibem a via Jak- STAT. Exemplo 4: ativação da via do mTOR (promotor de transcrições). A sinalização por essa via estimula o crescimento, a proliferação e a sobrevivência das células por uma rede complexa de vias sinalizadoras. A sinalização por mTOR tem surgido como uma consideração importante na imunossupressão e no tratamento farmacológico do câncer. RECEPTORES LENTOS- CITOPLASMÁTICOS E NUCLEARES Os receptores citoplasmáticos e nucleares regulam a transcrição gênica, seja estimulando, seja inibindo. Seus principais agonistas são hormônios esteroidais (androgênios, estrogênios, glicocorticoides), hormônio da tireóide, vitamina D e ácido retinóico. Eles devem atravessar a membrana plasmática e, portanto, devem ser lipossolúveis. Após a ligação do agonista ao receptor intracelular, o composto droga-receptor migra para o núcleo, onde promoverá sua resposta biológica. Exemplo 1: hormônio esteroidal. A. Interação hormônio esteroidal ao receptor; B. Mudança conformacional do receptor (dissociação de uma proteína repressora chaperona) C. Complexo ligante-receptor dimerizado se conecta ao DNA, ativando ou inibindo a transcrição gênica Exemplo 2: ácido retinóico (triângulo amarelo). Tem-se um receptor hormonal nuclear (OR) em Geovana Sanches - TXXIV complexo com o RXR (receptor do ácido retinóico). Quando um agonista e um coativador ligam-se ao complexo, há uma alteração de conformação da hélice (barra preta) e a transcrição dos genes é estimulada. Quando os correpressores são ligados, não há ativação. Exemplo 3: tamoxifeno (fármaco). Na mama, ele atua como antagonista do receptor de estrogênio, impedindo a ativação do sistema. Por outro lado, no endométrio, o tamoxifeno é considerado um agonista. Devido a essas diferentes ações, esse fármaco recebe a designação de modulador seletivo do receptor de estrogênio. - Modo de ação do tamoxifeno: o fármaco atravessa a membrana plasmática e encontra seu receptor intracelular. Através de dímeros, o receptor migra para o núcleo, local onde impede a ação do estrogênio (na mama) ou age como o estrogênio (no endométrio). - Ele pode ser utilizado para prevenir o câncer de mama em pacientes que já o tiveram. Entretanto, ele pode provocar o aumento de pólipos no endométrio, aumentando as chances de câncer no mesmo. FÁRMACOS QUE INTERFEREM NA TRANSMISSÃO COLINÉRGICA SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO (SNA) e SISTEMA NERVOSO MOTOR (SNM) Breve histórico do Mecanismo Neuro-humoral Em 1905, T. R. Elliott postulou que os impulsos nervosos simpáticos liberavam pequenas quantidades de uma substância semelhante à epinefrina, que se conectavam com células efetoras. Ele considerou essa substância como uma etapa química no processo de transmissão. Também em 1905, Reid Hunter isolou a acetilcolina, o que fortaleceu o conceito de Elliott. Dixon, em 1907, impressionado pela correspondência entre os efeitos do alcaloide muscarina (substância extraída do cogumelo) e as respostas aos estímulos vagais, propôs o conceito de que o nervo vago liberava uma substância semelhante à muscarina, que agia como um transmissor químico dos seus impulsos. Nesse mesmo ano, Hunter descreveu as ações da acetilcolina e de outros ésteres. Em 1914, Henry Dale investigou as propriedades farmacológicas da Ach e de outros ésteres da colina, e distinguiu as suas ações nicotínicas e muscarínicas (princípio ativo do cogumelo Amanita muscaria). Ele introduziu o termo parassimpaticomimético para caracterizar os efeitos da muscarina, pois ela imitava os efeitos do SNP. Nesse mesmo ano, notou a breve duração dessa substância e propôs que uma esterase dos tecidos degradava rapidamente a Ach em ácido acético e colina, interrompendo, desse modo, sua ação. Otto Loewi, em 1921, conseguiu demonstrar pela primeira vez, a evidência da neurotransmissão, ou seja, a primeira evidência direta para a mediação química de impulsos nervosos pela liberação de agentes químicos específicos. Ele denominou a substância como Vagusstoff (substância vagal). Experimentos subsequentes, realizados por Loewi e outros autores, também esclareceram que uma substância aceleradora similar à epinefrina e chamada Acceleranstoff era o mediador químico liberado pelos impulsos nervosos simpáticos nas junções neuroefetoras. Em 1930, Henry Dale, em associação à outros autores, conseguiu demonstrar que a acetilcolina era neurotransmissor no músculo esquelético, assim como, no coração. Sistema nervoso autônomo O SNA é o principal regulador da constância do meio interno do organismo (homeostasia). Ele também pode ser denominado sistema nervoso visceral, vegetativo ou involuntário. Distribui-se por todo o Geovana Sanches - TXXIV organismo e regula as funções que ocorrem sem controle consciente. Na periferia, o SNA consiste em nervos, gânglios e plexos que inervam o coração, vasos sanguíneos, glândulas, outras vísceras e ainda músculos lisos em vários tecidos. Os nervos eferentes do SNA suprem todas as estruturas inervadas do organismo exceto os músculos esqueléticos, que são supridos pelos nervos somáticos ou motor. Os nervos autônomos pós-ganglionares geralmente não são mielinizados, enquanto os nervos motores aos músculos esqueléticos são mielinizados. Os gânglios do SNA situam-se fora do eixo cerebrospinal, ou seja, fora do SNC. Por outro lado, os nervos somáticos são desprovidos de gânglios periféricos, e sua sinapses localizam-se no interior do eixo cerebrospinal. Quando os nervos eferentes espinais são interrompidos, os músculos lisos e as glândulas geralmente retêm algum grau de atividade espontânea, enquanto os músculos esqueléticos desnervados são paralisados. O SNA possui dois componentes: Sistema Nervoso Simpático e Sistema Nervoso Parassimpático. Os centros vegetativos que comandam o simpático se localizam na região torácica (peito) e na medula lombar. Já os que comandam o parassimpático, no tronco cerebral (olhos, glândulas e órgãos inervados pelo N. vago) e na medula sacral (bexiga, partes do intestino grosso e órgãos geniturinários). Dos centros localizados no SNC partem fibras pré-ganglionares em direção a gânglios periféricos, tanto para SNS, como para SNP. Nos gânglios, as fibras pré-ganglionares fazem uma sinapse com as fibras pós- ganglionares, as quais inervaram os órgãos. As fibras pré-ganglionares do simpático são mais curtas e terminam nos gânglios do tronco simpático, nos gânglios do pescoço e do abdômen. As fibras pré-ganglionares do parassimpático podem ser muito maiores que asfibras pós-ganglionares, ficando próximas ou no interior do órgão efetor. Tanto as fibras pré-ganglionares do simpático, como as do parassimpático liberam o neurotransmissor acetilcolina (transmissão sináptica colinérgica). As fibras pós-ganglionares do simpático liberam o neurotransmissor noradrenalina (transmissão noradrenérgica ou adrenérgica), com exceção das glândulas sudoríparas (transmissão colinérgica). A medula da glândula supra-renal recebe fibras pré-ganglionares do simpático (colinérgica) liberando adrenalina na corrente sanguínea. Este órgão é uma espécie de combinação de gânglio e glândula hormonal. As fibras pós-ganglionares do parassimpático liberam acetilcolina. Na maioria das respostas, os efeitos do sistema nervoso simpático e parassimpático são contrários. Todavia, tanto o sistema parassimpático quanto o sistema simpático causam aumento da secreção salivar: SNA parassimpático leva a salivação fluida e abundante (resposta predominante); SNA simpático provoca uma salivação espessa e em menor quantidade. O sistema nervoso simpático controla o parassimpático e vice-versa, pois um pode reduzir a liberação de neurotransmissores do outro. Receptores colinérgicos Nicotínicos: são encontrados em células ganglionares do Simpático e Parassimpático e na medula da supra-renal. Muscarínicos: são encontrados em todos os órgãos-alvo inervados por fibras parassimpáticas pós- ganglionares e nas glândulas sudoríparas inervadas pelo sistema simpático. Existem diferentes subtipos de receptores muscarínicos (M1 a M5). O receptor M1, por exemplo, ativa a proteína Gq/11, a qual ativa a fosfolipase C (PLC). Com isso, aumenta-se a produção de IP3 e DAG, que promove o aumento nas concentrações de cálcio, Geovana Sanches - TXXIV com ativação da proteína quinase C (PKC). Para esse tipo de receptor, temos a Oxotremorina como agonista protótipo e a Pirenzepina como antagonista protótipo. Os receptores M1 estão localizados tipicamente nos gânglios autônomos e no SNC. O receptor M2, por sua vez, ativa Gi, causando inibição da adenilatociclase (AC) e abertura dos canais de potássio. Isso gera a hiperpolarização da célula. São encontrados tipicamente no coração. Não há um agonista utilizado na clínica para tal função. O receptor M3, localizado tipicamente no músculo liso, produz os mesmos efeitos de M1. O M4, tipicamente encontrado no SNC, tem efeitos iguais à M2. Por fim, M5, localizado também no SNC, têm efeitos iguais à M1. A maioria dos fármacos colinérgicos / parassimpatomiméticos / parassimpaticolíticos não possuem seletividade para receptores, com algumas exceções. Temos, também, diferentes subtipos de receptores nicotínicos. Os do subtipo “m” (Nm) estão localizados principalmente na junção neuromuscular esquelética. Quando ativados, há efeito excitatório, com despolarização da placa motora terminal e contração do músculo esquelético. O mecanismo envolvido é o aumento à permeabilidade a cátions (sódio e potássio). Tem-se como agonistas a acetilcolina, nicotina e o suxametônio. Já como antagonistas: atracúrio, vecurônio, d-tubocurarina, pancurônio, alfa-conotoxina e alfa-BTX. Há ainda o receptor nicotínico do subtipo “n”, localizado principalmente nos gânglios autônomos e na medula suprarrenal. Quando ativados, tem resposta excitatória, com despolarização e secreção de catecolaminas. O mecanismo envolvido também é o aumento da permeabilidade a cátions (Na e K). Os agonistas são a acetilcolina, nicotina, epibatidina e dimetilfenil-piperazínio. Já os antagonistas são o trimetafano e mecamilamina. Esses fármacos são pouco utilizados na clínica atualmente. TRANSMISSÃO COLINÉRGICA A síntese de acetilcolina ocorre na terminação nervosa e é catalisada pela enzima colina acetiltransferase, a qual permite a associação de acetilCoA com colina. Por outro lado, a degradação da acetilcolina é mediada pela enzima acetilcolinesterase, a qual hidrolisa a molécula, originando colina e acetato como produtos. Na fenda sináptica colinérgica, têm-se os seguintes passos: 1) A colina é transportada para dentro do terminal nervoso através de um carreador CHT1 (carreador dependente de Na+); 2) Colina + grupo acetil doado pela coenzima A é transformado em Ach através da enzima ChAT (colina-acetiltransferase); 3) Ach é transportada para dentro da vesícula de armazenamento através do VAch (transportador) para ser armazenada juntamente com outros neurotransmissores (cotransmissores ATP e VIP); 4) Quando a vesícula de armazenamento está pronta, ocorre sua movimentação para a membrana da terminação nervosa; 5) Na terminação nervosa da fenda pré-sináptica ocorre ancoragem → iniciação → fusão → exocitose da Ach; 6) A exocitose é auxiliada por proteínas, como a SNAP25 (proteína associada ao sinaptossoma). 7) Na fenda sináptica: a) Ach pode agir em receptores muscarínicos ou receptores nicotínicos na membrana pós-sináptica; b) Pode ser metabolizada pela AchE (acetilcolinesterase) em colina + grupo acetil (acetato); Fármacos que interferem na síntese e exocitose da acetilcolina Hemicolínio: inibe o sistema de transporte de colina para dentro do terminal nervoso (1). Vesamicol: inibe o transportador da Ach para a vesícula de armazenamento - VAch, ou seja, Ach não entra na vesícula de armazenamento (3) Toxina botulínica: hidrolisa a sinaptobrevina (proteína que intermedeia ancoragem, iniciação e exocitose de Ach), ou seja, inibe a liberação de Ach (5) Inibidores da AchE: inibem à enzima de degradação da acetilcolina (7b) Geovana Sanches - TXXIV FÁRMACOS PARASSIMPATICOMIMÉTICOS Os fármacos parassimpaticomiméticos (ou colinomiméticos) são drogas que mimetizam (imitam) ou prolongam o efeito do sistema nervoso parassimpático. Eles podem ser de ação direta (agonistas muscarínicos) ou de ação indireta (anticolinesterásicos). Colinomiméticos de ação direta (agonistas muscarínicos) A maioria dos fármacos colinomiméticos não apresentam seletividade sobre os subtipos de receptores. Eles podem apresentar seletividade para muscarínicos (nesse caso, atuando sobre M1- M5) ou nicotínicos. Os agonistas dos receptores muscarínicos são divididos em ésteres de colina e alcaloides. Alguns deles também apresentam atividade nicotínica. Exemplos de colinomiméticos de ação direta Acetilcolina: age tanto sobre receptores nicotínicos, como muscarínicos. Betanecol: com a substituição da metila do grupo acetil por uma amina (NH2), com criação de uma função amida, obtêm-se maior tempo de ação, pois a ação da colinesterase é dificultada. Tem ação preferencialmente muscarínica. Metacolina: percebeu-se que quando era adicionada uma metila (-CH3) no carbono próximo ao grupo acetil, obtinha-se uma molécula que interage preferencialmente com receptores muscarínicos. Carbacol: apresenta maior tempo de ação por apresentar grupo amida (dificuldade para degradação pela AchE) e tem preferência pelo receptor nicotínico (não apresenta metila). Pilocarpina: alcaloide obtido das folhas dos arbustos sul-americanos do gênero Pilocarpus. Tem ação com o receptor muscarínico. Muscarina: isolado do cogumelo Amanita muscaria. Promove efeitos semelhantes aos da acetilcolina (em relação ao sistema nervoso parassimpático). Cevimelina: agonista M1 e M3 Nicotina: apesar de ser uma molécula completamente diferente da acetilcolina, apresenta interação com o receptor nicotínico. Farmacocinética Administração: são administrados preferencialmente pela via oral, subcutânea e tópica na forma de colírio. Absorção: Ésteres de colina, como aminas quaternárias, são pouco absorvidos após administração VO, além de terem baixa capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, pois se apresentam na forma ionizada. A pilocarpina e a arecolina (aminas terciárias, com maior lipofilibilidade) são facilmente absorvidase podem atravessar a barreira hematoencefálica. Metabolização: acetilcolina e metacolina são mais sensíveis à ação da acetilcolinesterase (AchE). Excreção: rápida eliminação pela via renal. Farmacodinâmica Os parassimpaticomiméticos de ação direta são agonistas dos receptores muscarínicos, sendo esse o seu mecanismo de ação. Acetilcolina exógena A injeção intravenosa de uma pequena dose de Ach provoca queda transitória da pressão arterial decorrente da vasodilatação generalizada (mediada pelo NO endotelial vascular). Essa vasodilatação é acompanhada de taquicardia reflexa (normalmente a acetilcolina leva à bradicardia pela ação no receptor M2, porém, há esse reflexo). A vasodilatação generalizada provocada pela administração exógena de acetilcolina ocorre devido à estimulação de receptores muscarínicos, sobretudo M3, localizados nas células endoteliais vasculares. Caso o endotélio esteja lesado, como ocorre em várias condições fisiopatológicas, a Ach atuará predominantemente em receptores M3 localizados nas células musculares lisas vasculares subjacentes (e não nas células endoteliais), causando vasoconstrição. A Ach é muito pouco utilizada na clínica, pois não apresenta seletividade dos receptores (muscarínicos e nicotínicos), além de ser fortemente metabolizada pela AchE. Geovana Sanches - TXXIV Efeitos cardíacos da acetilcolina e de agonistas colinérgicos Quando a acetilcolina é utilizada em doses maiores dos que as promotoras do efeito vasodilatador, tem efeitos diretos nas funções cardíacas. Os efeitos cardíacos são mediados primariamente por receptores muscarínicos M2, os quais se acoplam a Gi/ Go. Os efeitos diretos incluem: ● Aumento da corrente de K no interior do músculo cardíaco, devido à ativação de canais K-Ach -> Hiperpolarização; ● Diminuição da corrente de cálcio devido à inibição dos canais de Ca ²+ do tipo L. A Ach que atua em receptores M2, mediada por Gi, também causa uma diminuição na síntese de AMPc. Essa diminuição se opõe e neutraliza o aumento de AMPc mediado por β1-adrenérgico/Gs, além de gerar uma inibição na liberação de NE (noradrenalina) dos terminais nervosos simpáticos. A inibição da liberação de NE é mediada por receptores M2 e M3 pré-sinápticos, que são ativados pela Ach liberada de terminais nervosos pós- ganglionares parassimpáticos adjacentes. No coração humano, há ainda receptores M2 pré-sinápticos que inibem a liberação de Ach nas terminações nervosas pós-ganglionares parassimpáticos. Efeitos colinérgicos periféricos A atividade colinérgica no SNA parassimpático , relacionados com os agonistas muscarínicos, tem os seguintes efeitos farmacológicos: • Cronotropismo e inotropismo negativos, ou seja, diminuição na frequência cardíaca e na força de contração do coração, respectivamente. • Diminuição na Pressão Arterial • Aumento nas secreções • Aumento no peristaltismo • Broncoconstrição • Miose • Contração do músculo ciliar Usos clínicos Acetilcolina é usada por via tópica para indução de miose durante a cirurgia oftálmica, instilada no olho em solução a 1%. Betanecol é útil no tratamento da retenção urinária, no esvaziamento inadequado da bexiga, quando não há obstrução orgânica, como retenção urinária pós-cirúrgica, na neuropatia autonômica diabética e em certos casos de hipotonia vesical miogênica ou neurogênica crônica. Também usada na estimulação da atividade gastrointestinal após cirurgia abdominal, embora existam outras opções. O betanecol apresenta seletividade para receptores envolvidos com a estimulação da salivação. Ele é apropriado no tratamento da paralisia abdominal pós-operatória Carbacol e pilocarpina são usados via tópica em glaucoma e na indução de miose durante cirurgia. • Num processo normal, o humor aquoso vai do processo ciliar para a rede trabecular. No glaucoma de ângulo fechado, a íris pressiona a rede trabecular, impedindo o fluxo normal do humor aquoso. • Um agonista colinérgico pode ser utilizado no tratamento de glaucoma pois eles promovem a contração do esfíncter da íris (abre o ângulo ocular), dos músculos ciliares longitudinal e circular. Com a contração dos músculos ciliares, é facilitada a drenagem do humor aquoso, reduzindo assim o glaucoma. A pilocarpina pode ser usada no tratamento da atonia da bexiga urinária. Cevimelina é um agonista seletivo M1 e M3 no epitélio das glândulas lacrimais e salivares. Tem ação sialogógica (estimula produção de saliva) de longa duração. Efeitos adversos dos colinomiméticos Relacionados à estimulação do parassimpático. • Cólica abdominal e diarréia (devido ao aumento do peristaltismo); • Aumento da salivação e sudorese; • Dispnéia (devido a broncoconstrição); • Bradicardia (devido a redução da atividade cardíaca); • Frequência urinária aumentada; • Náuseas/ êmese (ação da ACh na região de controle do vômito; • Dificuldade de acomodação visual (devido a miose); • Hipotensão. Geovana Sanches - TXXIV Contraindicações dos colinomiméticos • Doença cardiovascular acompanhada de bradicardia, hipotensão e hipertireoidismo (os agonistas muscarínicos podem provocar fibrilação atrial em pacientes hipertireoideos); • Úlcera péptica (no estômago, os agonistas muscarínicos aumentam a produção e liberação de HCl); • Obstrução urinária ou do TGI; • Asma e DPOC (o paciente com essas doenças já possui broncoconstrição). Obs.: a administração tópica (como colírio) para uso oftálmico traz poucos efeitos adversos e não tem grande importância nas contraindicações. Intoxicações causada pelos colinomiméticos A ingestão de plantas contendo pilocarpina, muscarina ou arecolina pode levar intoxicações. Nesses casos, o paciente apresenta respostas exacerbadas do SNA parassimpático. O tratamento da intoxicação é pela administração parenteral de atropina (antagonista muscarínico), medidas de suporte das funções respiratória e cardiovascular e intervenções para reverter o edema pulmonar. Parassimpaticomiméticos de ação indireta (anticolinesterásicos) Os parassimpaticomiméticos de ação indireta são moléculas que inibem a AChE (acetilcolinesterase) aumentando, dessa forma, os níveis de acetilcolina disponíveis. O primeiro descoberto foi a figostigmina, um alcaloide obtido da semente madura e seca de uma planta da África Ocidental, a Fava-de-calabar ou Fava- de-ordálio (Physostigma venenosum). A planta era usada em rituais de tribos nativas e, em 1877, Laqueur a utiizou no tratamento do glaucoma. Após conhecimento da sua estrutura química, foram obtidos novos fármacos, como a neostigmina, a qual é utilizado no tratamento de Miastenia Gravis (doença em que o paciente apresenta flacidez muscular). Além da neostigmina, desenvolveram-se os organofosforados (derivados fosforados), os quais possuem excelente efeito inseticida utilizados até hoje na lavoura. Exemplos são a parationa e a melationa. Na segunda guerra mundial, organofosforados com grande potencial tóxico foram usados como armas químicas: sarin, soman e tabun (denominados gases de nervos), além de DFP (diisopropilfluorofosfato). Altas doses causam convulsões, perda de consciência, paralisia e insuficiência respiratória, que podem levar a óbito. Enzimas colinesterases (ChE) A enzima AChE pode ser encontrada na forma solúvel na célula; em sinapses neuronais, ligadas na superfície externa da membrana celular ou associada à lâmina basal de áreas juncionais neuromusculares do músculo esquelético. Existem dois tipos de colinesterases: acetilcolinesterase (AChE) e butirilcolinesterase (BChE). A BChE é sintetizada no fígado e encontrada no plasma. As estruturas tridimensionais da AChE mostram que o centro ativo é quase centrossimétrico a cada subunidade, residindo na base de uma garganta estreita de cerca de 20 Å de profundidade. Na base da garganta, estão resíduos da tríade catalítica: em mamíferos,serina (Ser203), histidina (His447) e Glu 334 (aminoácidos importantes para a interação da ACh com a enzima). Exemplos de parassimpaticomiméticos de ação indireta 1. De ação curta • Edrofônio: utilizado principalmente no diagnóstico de miastenia gravis. Seu sítio de ação é a junção neuromuscular, mas sua ação é muito curta para ter uso terapêutico. 2. De ação média • Neostigmina: tem como sítio de ação a JNM. É utilizada por via intravenosa para reverter o bloqueio neuromuscular competitivo e por via oral no tratamento da miastenia gravis. Apresenta efeitos colaterais viscerais. • Fisostigmina: tem como sírio de ação a junção pós-ganglionar parassimpática. É utilizada na forma de colírio no tratamento do glaucoma. • Piridostigmina: tem como sítio de ação a JNM. É utilizada por via oral no tratamento da miastenia gravis; melhor absorvida do que a neostigmina e com duração mais prolongada. 3. Irreversível • Organofosforados: não são utilizados como medicamentos, e sim como insetidas. o O diflos é altamente tóxico, com ação muito prolongada, mas pode ser utilizado em forma de colírio para o tratamento do glaucoma. o Ecotiofato foi utilizado como colírio para o glaucoma e, ainda hoje, é utilizado em alguns países. Por ser de ligação irreversível, seu uso é complicado. Tem ação prolongada e pode causar efeitos sistêmicos. o Paration é um inseticida que é convertido em um metabólito ativo pela substituição do enxofre por oxigênio. Com frequência causa envenenamento em seres humanos. 4. Outros: tacrina, donepezil e rivastigmina. Esses medicamentos têm a capacidade de atravessar a Geovana Sanches - TXXIV barreira hematoencefálica, tendo ação no SNC. São utilizados no tratamento da doença de Alzheimer. A Acetilcolina, Edrofônio, Piridostigmina e Neostigmina são moléculas que apresentam nitrogênio quaternário. Isso facilita a interação com a enzima, mas dificulta a passagem pela barreira hematoencefálico, pois se tornam ionizadas e hidrossolúveis. O edrofônio permanece pouco tempo ligado a enzima. Por outro lado, a Fisostigmina, Tacrina e a Donepezila são aminas terciárias com maior lipossolubilidade e, portanto, maior ação no SNC. O mesmo ocorre com a Rivastigmina e Galantamina. Os organofosforados utilizados como armas químicas apresentam uma fórmula geral, associada a um grupo halogênio (flúor no DFP, Sarin e Soman), cianeto (no Tabun) ou tiocianato. Essas moléculas são extremamente tóxicas, não podendo ser utilizada para nenhuma atividade terapêutica ou como inseticida. Farmacocinética A neostigmina é pouco absorvida pelo TGI. Neostigmina e piridostigmina são degradados por esterases plasmáticas. A fisostigmina atravessa a barreira hematoencefálica e é rapidamente absorvida pelo TGI, pelo tecido cutâneo e pelas membranas mucosas. É metabolizada por hidrólise enzimática pelas esterases do plasma. Os anticolinesterásicos de ação no SNC, como os organofosforados, são lipossolúveis e podem acumular-se no cérebro. Tanto esterases, como isoformas CYP metabolizam os organofosforados. Farmacodinâmica (mecanismo de ação) A enzima acetilcolinesterase (AChe) apresenta três domínios distintos (locais de ligação) para os ligantes inibitórios. Esses domínios formam a base para diferenças específicas entre AChE e BChE. • Bolsa acila no centro ativo: ligação do grupo acetil com o resíduo de serina. o A ligação do acetil com a serina acaba rompendo a ligação que havia com a colina. Desse modo, há separação dos dois, que agora permanecem como colina e acetil. • Subsítio colina do centro ativo: onde há atração da colina pelos aminoácidos triptofano e glutamato. • Local aniônico periférico: aproximam algumas moléculas, principalmente as que apresentam nitrogênio quaternário (valência positiva). Ø Inibidores reversíveis Os inibidores reversíveis, como o edrofônio e a tacrina, ligam-se ao subsítio de colina na adjacência do Trp e do Glu. Os dois fármacos citados se atraem pela enzima através do nitrogênio quaternário das moléculas com o resíduo de glutamato (valência negativa). Os fármacos que possuem ligação carbamoiléster (carbono ligado a um nitrogênio), como a fisostigmina e a neostigmina, se ligam a serina da enzima. Eles são hidrolisados pela AChE, porém muito mais lentamente do que a acetilcolina, de forma que a enzima fica ocupada com a molécula e a ACh não consegue ocupá-la. Ao atuarem como substratos alternativos da ACh, as reações com a serina do centro ativo geram uma molécula carbamoil conjugada, que reside na bolsa acila. Em contraste com a enzima acetilada, a metilcarbamoil AChE e a dimetilcarbamoil AChE são muito mais estáveis e ocorre um desligamento mais Geovana Sanches - TXXIV rápido (o t½ para a hidrólise da dimetilcarbamoilenzima é de 15 a 30 minutos. Através desse mecanismo, o tempo de duração da inibição é de 3 a 4 horas. O sequestro da enzima em sua forma carbamilada impede, assim, a hidrólise da ACh catalisada pela enzima por tempo prolongado. Ø Inibidores irreversíveis Os inibidores organofosforados (DFP e ecotiofato), através do fósforo, produzem um conjugado estável (ligação covalente) com o resíduo de serina, gerando serina fosforilada ou fosfonilada, a qual é uma ligação irreversível. A estabilidade da enzima fosforilada aumenta ainda mais com o “envelhecimento”, que resulta da perda de um dos grupos alquila. Em geral, as enzimas que sofrem essa ligação não são recuperadas e novas enzimas devem ser sintetizadas pelas células a fim de retornar à função colinesterásica. Estudaram-se então, moléculas que fossem capazes de reativar as enzimas, a fim de tratar os pacientes que se intoxicam com essas moléculas. Assim, foram descobertas as “oxinas”. Fármacos nucleofílicos, como a pralidoxima (2- PAM), têm como função reativar a enzima de forma mais rápida do que a hidrólise espontânea. Esse fármaco ataca o fósforo (ataque nucleofílico), ou seja, a 2-PAM se liga ao fósforo do DFP e o retira da enzima; forma-se uma fosforiloxima, regenerando a enzima. Efeitos farmacológicos Os efeitos farmacológicos dos anticolinesterásicos são os mesmos dos agonistas muscarínicos: bradicardia, hipotensão, secreções excessivas, broncoconstrição, hipermotilidade gastrointestinal (diarréia), diminuição da pressão intraocular, miose. Quando aplicados localmente à conjuntiva, os fármacos anticolinesterásicos causam hiperemia conjuntival e constrição do músculo esfíncter da pupila em torno da margem pupilar da íris (miose) e do músculo ciliar (bloqueio do reflexo de acomodação, com consequente foco para visão de perto). A pressão intraocular, quando elevada, geralmente diminui em consequência da facilitação do efluxo do humor aquoso. Os anticolinesterásicos diferem dos agonistas muscarínicos, pois essas moléculas podem afetar, além dos receptores muscarínicos, os receptores nicotínicos. Isso ocorre por ação indireta, devido ao aumento de ACh disponível na fenda sináptica. Sendo assim, os anticolinesterásicos também afetam a junção neuromuscular e o sistema nervoso central. Na junção neuromuscular, aumenta o tônus do músculo esquelético, podendo causar fasciculação muscular (contrações visíveis, finas e rápidas). Normalmente, a ACh liberada é rapidamente hidrolisada pela AChE, de modo que o tempo de vida da ACh livre no interior da sinapse nervo-músculo gira em torno de 200 μs. Após inibição da AChE, o tempo de permanência da ACh na sinapse aumenta, permitindo difusão lateral do transmissor e sua religação a múltiplos receptores. Quando a Ach persiste na sinapse, ela também pode despolarizar o axônio terminal, resultando em disparo antidrômico do neurônio motor; esse efeito contribui para as fasciculações que envolvem toda a unidade motora. No SNC pode ocorrer excitação inicial, vômitos, fraqueza da musculatura (depois de fasciculações intensas), ansiedade,convulsões, depressão vasomotora. Pode ocorrer, ainda, inconsciência e insuficiência respiratória. Usos clínicos O edrofônio é usado no diagnóstico de miastenia gravis (para sua confirmação). A neostigmina é usada no tratamento de miastenia gravis, íleo paralítico e atonia da bexiga (aumenta o tônus vesical). A fisostigmina e ecotiofato são usados como colírio para o tratamento de glaucoma. A tacrina, donepezila e rivastigmina são usadas no tratamento da Doença de Alzheimer, na qual há deficiência de neurônios colinérgicos intactos, particularmente daqueles que se estendem a partir das áreas subcorticais, como o núcleo basal. Não cura a doença por completo, mas estudos apontaram que eles reduzem o progresso da mesma. Efeitos adversos e Intoxicações Os principais efeitos adversos estão relacionados ao aumento da atividade colinérgica, ou seja, aumento da concentração de acetilcolina na fenda sináptica. Os principais efeitos adversos são: cólica abdominal e diarreia; aumento da salivação (sialorreia) e sudorese; dispneia; bradicardia; aumento na frequência urinária; naúseas/êmese; dificuldade de acomodação visual e hipotensão. Existem casos de intoxicação acidental em decorrência de compostos organofosforados, como inseticidas para a agricultura. Há também casos de homicídios e suicídios com o uso dessas drogas. A enzima que tem sua atividade reduzida pelo organofosforado é a colinesterase. Um sintoma é a miose e também a sialorreia. O antídoto é a atropina. O diagnóstico das intoxicações se dá pela anamnese e determinação da atividade da ChE nas hemácias e no plasma (pseudocolinesterase). O tratamento é realizado por inibidores da acetilcolina, como a atropina e, para os organofosforados, o mais utilizando é a pralidoxima (reativador enzimático). Geovana Sanches - TXXIV FÁRMACOS PARASSIMPATICOLÍTICOS (ANTAGONISTAS MUSCARÍNICOS) Exemplos Alcaloides de ocorrência natural: Atropina e escopolamina ou hioscina (Buscopan®). Derivados sintéticos: homatropina (Espasmo Dimetiliv®); tropicamida (Mydriacyl®); pirenzepina (antagonista M1, não tem uso clínico, apenas para pesquisa); ipratrópio (Atrovent ® - usado em DPOC ou Asma, com efeito local pois tem nitrogênio quaternário que impede seu efeito no SNC); tiotrópio (Spiriva® - usado para broncodilatação, no processo de inalação); ciclopentolato (Cicloplégico ®); tolderodina (Detrusitol®LA); fesotorodina (Toviaz®); aclidínio (Bretaris Genuair ®- tratamento de DPOC); Darifenacina (Enablex ® - antagonista seletivo do receptor muscarínico M3). A grande maioria dos fármacos parassimpaticolíticos não possui seletividade para os sub-tipos de receptores muscarínicos, principalmente os de uso clínico. Esses medicamentos são derivados da atropina, sendo essa um alcaloide de beladona. A fesoterodina é um prófarmaco, convertida em um metabólico ativo 5-hidroximetil, pela atividade da esterase. A CYP2D6 converte tolterodinha ao mesmo metabólito. A atropina, escopolamina, tolterodina e fesoterodina possuem carbono assimétrico. Os fármacos de atropina e escopolamina ocorrem como misturas racêmicas. Na clínica, são usados somente os enantiômeros ® da tolderodina e da fesoterodina. Farmacocinética Os alcaloides da beladona e os derivados sintéticos e semissintéticos terciários (que contém aminas terciárias) são absorvidos rapidamente do trato GI, tendo em vista que são lipossolúveis. Eles também chegam à circulação depois da aplicação tópica nas mucosas do corpo. A absorção através da pele intacta é pequena. A absorção sistêmica dos antagonistas quaternários dos receptores muscarínicos administrados por via oral ou inalatória é limitada. Os derivados de amônio quaternário dos alcaloides da beladona também penetram mais lentamente nas conjuntivas oculares e os efeitos centrais são ausentes, porque os fármacos quaternários não atravessam a barreira hematencefálica. A atropina é eliminada pela urina e seu t1/2 gira em torno de 4h. Os efeitos do ipratrópio duram de 4 a 6h; os do tiotrópio persistem por 24h, possibilitando a administração 1vez/dia. Ambos possuem nitrogênio quaternário, tendo portanto ação local. Farmacodinâmica (mecanismo de ação) A atropina e os compostos semelhantes são antagonistas dos receptores muscarínicos. Eles competem com a ACh e com outros agonistas muscarínicos pelo local ortostérico da ACh no receptor muscarínico em junções parassimpáticas (e simpáticas colinérgicas), nos gânglios periféricos e no SNC. O antagonismo pela atropina é competitivo; assim, ele pode ser revertido se a concentração de ACh nos receptores muscarínicos aumentar suficientemente. A atropina é um medicamento utilizado para reduzir cólicas uterinas. Efeitos farmacológicos Glândulas exócrinas: inibição das secreções: saliva (atropina produz ressecamento da boca: xerostomia), lágrimas, brônquica e sudorípara. Coração: taquicardia por bloqueio dos receptores M2 nas células marca-passo SA, antagonizando o tônus parassimpático (vagal) ao coração. Não altera a pressão arterial (a maioria dos vasos não tem inervação colinérgica significativa) ou o débito cardíaco. Circulação: em doses clínicas, a atropina neutraliza completamente a vasodilatação periférica e a queda de pressão arterial acentuada causada pelos ésteres da colina (agonistas colinérgicos). Em doses tóxicas e ocasionalmente em terapêuticas, a atropina pode dilatar os vasos cutâneos, especialmente os da área do rubor (rubor atropínico). Essa pode ser uma reação compensatória que permite que a irradiação do calor compense o aumento da temperatura induzido pela atropina que pode acompanhar a inibição da sudorese. Oculares: midríase (dilata a pupila, podendo ser utilizada para realização de exame de fundo de olho) e paralisia da acomodação (ciclopegia) por relaxamento do músculo ciliar e do músculo do efincter pupilar da íris. A visão para perto é dificultada. Devido a esse efeito, são contra-indicados para pacientes portadores de glaucoma. Sistema Respiratório: broncodilatação e diminuição nas secreções traqueobrônquicas principalmente em pacientes com doenças respiratórias (asma e DPOC). Inibe as secreções do nariz, boca, faringe e brônquios e assim seca as membranas mucosas do trato respiratório. Geovana Sanches - TXXIV Sistema gastrointestinal: relaxamento do músculo liso com diminuição da motilidade gastrointestinal. Inibição da secreção ácida gástrica. Secreções: redução das secreções gástrica, salivar, do lacrimejamento e sudorese (fibras colinérgicas simpáticas). A pele torna-se quente e seca. Músculos lisos: diminuem o tônus normal e a amplitude das contrações dos ureteres e da bexiga. SNC: a atropina e principalmente escopolamina (maior permeação através da barreira hematoencefálica) produzem efeitos depressivos do SNC (sonolência, amnésia, fadiga e sono sem sonhos, com redução do sono REM). Também causa euforia e quando há uso abusivo, excitação, agitação, alucinações ou delirium. Tratamento: fisostigmina (anticolinesterásico de ação central). As funções fisiológicas dos diferentes órgãos variam na sua sensibilidade ao bloqueio dos receptores muscarínicos. Esse efeito não é decorrente das diferenças na afinidade da atropina pelos receptores muscarínicos pois a atropina não possui seletividade. Refere-se aos graus de regulação das funções dos diferentes órgãos terminais pelo tônus parassimpático, a “reserva” de receptores e mecanismos de sinalização, o envolvimento dos neurônios intramurais e reflexos. Usos clínicos • Pré-medicação para anestesia (resseca as secreções); • Distúrbios gastrointestinais. Exemplo: espasmo luftal. • Oftalmofolgia: hematropina e tropicamida para exame de fundo de olho; • Intoxicação por anticolinesterásicos, os quais aumentam as quantidades de acetilcolina no organismo; • Para facilitar a endoscopia, poispromove relaxamento dos músculos lisos; • Tratamento de úlcera péptica (pirenzepina). Atualmente não é mais utilizado para essa finalidade. • Asma: ipratrópio; • DPOC: ipratrópio, tiotrópio, aclidínio (molécula mais recente); • Incontinência urinária: darifenacina; • Doença de Parkinson: controle de efeitos extrapiramidais causados pelos fármacos antipsicóticos. Nesse caso, utilizam-se moléculas de efeito central. • Enurese noturna: reduz a pressão intravesical e a frequência de contrações; • Prevenção da cinetose (sensação de êmese causada por movimentos); • Tratamento de arritmia cardíaca em casos de bradicardia grave, como por exemplo em casos de intoxicação digitálica. Uso hospitalar. Efeitos Adversos e Contraindicações Os principais efeitos adversos são xerostomia (boca seca); constipação; visão turva; dispepsia e prejuízos cognitivos. São contraindicados em casos de obstrução do trato urinário; obstrução do trato gastrointestinal; glaucoma de ângulo fechado (ou pacientes que apresentam suscetibilidade para tal); pacientes com hiperplasia prostática benigna (mais suscetíveis à retenção urinária). A intoxicação atropínica deve ser tratada com anticolinesterásico de ação central, como a fisostigmina. MIORRELAXANTES Os miorrelaxantes que afetam as transmissões colinérgicas são divididos em duas classes: de ação central e de ação periférica. MIORRELAXANTES DE AÇÃO PERIFÉRICA Os miorrelaxantes de ação periférica, são aqueles que atuam diretamente na placa motora. Podem ser divididos em agentes despolarizantes e agentes não-despolarizantes. Na placa motora há receptores nicotínicos do tipo Nm. Os receptores nicotínicos Nm são pentâmeros compostos por 4 subunidades (α, β, γ e δ) em relação estequiométrica 2:1:1:1. Há um canal de cátion intrínseco à estrutura do receptor. A ligação simultânea de duas moléculas do agonista no receptor Nm resulta em uma alteração rápida de conformação, com abertura do canal iônico e consequente alteração na permeabilidade para íons. O canal, em geral, não é seletivo entre os cátions, embora seja altamente permeável para Na+, Geovana Sanches - TXXIV K+ e, em alguns casos, Ca²+. Nota-se que a maior parte da corrente é carregada pelos íons Na+. Receptor nicotínico Existem diferentes isoformas de receptores nicotínicos. O local de ação da acetilcolina geralmente ocorre na interface contendo a subunidade α. No músculo esquelético, temos receptores Nm. Já os receptores neuronais periféricos (Nn), podem assumir duas conformações: 2 subunidades α4 e 3 subunidades β2 OU 5 subunidades α7. Fármacos bloqueadores neuromusculares Os fármacos capazes de bloquear a transmissão neuromuscular podem agir na região pré- sináptica, inibindo a síntese ou a liberação de Ach (toxina botulínica). Também podem agir na região pós-sináptica, sítio de ação dos fármacos clinicamente importantes: bloqueando os receptores Nm de ACh OU Ativando receptores Nm de ACh, causando despolarização persistente. Os miorrelaxantes de ação periférica também são denominados miorrelaxantes cirúrgicos ou agentes bloqueadores neuromusculares. Isso pois, eles são muito utilizados como auxiliares em anestesias, pelo aspecto do relaxamento muscular que será trabalhado pelo cirurgião. São substâncias que bloqueiam a transmissão da junção neuromuscular e podem ser divididos em agentes despolarizantes e não-despolarizantes (antagonistas nicotínicos competitivos ou estabilizantes de membrana). Além dessa classsificação, também dividimos os miorrelaxantes de ação periférica de acordo com o tempo de duração: curta, intermediária ou longa. Exemplos de miorrelaxantes de ação periférica A Tubocurarina é o precurssor desses medicamentos, a partir do qual surgiram os demais fármacos. Breve histórico Curare é um termo genérico usado para vários venenos (obtido de plantas) usados em flechas na América do Sul. Essa substância era utilizada para imobilizar e paralisar animais selvagens utilizados como alimento. A morte resulta da paralisia dos músculos esqueléticos, principalmente os músculos da respiração. Na metade do século XIX, Claude Bernard mostrou que o local de ação do curare era a junção neuromuscular. O uso clínico teve início em 1932, para pacientes portadores de tétano ou distúrbios espásticos. Em 1935, King estabeleceu a estrutura química da tubocurarina e, em 1942, Griffth e Johson publicaram o primeiro ensaio com curare para produzir relaxamento muscular em anestesia geral. Estudos iniciais evidenciaram diferenças entre receptores nicotínicos encontrados na placa motora e receptores nicotínicos encontrados nos gânglios do SNA. Com isso, foram descobertos: Decametônio: molécula com 10 átomos de carbono entre os nitrogênios quaternários. Apresenta alta eficiência para bloquear os receptores nicotínicos da placa motora. Hexametônio: molécula com 6 átomos de carbono entre os nitrogênios quaternários com eficácia para bloqueio ganglionar. Não apresenta atividade bloqueadora neuromuscular, mas é particularmente eficaz como bloqueador ganglionar. Esse composto praticamente não é utilizado na clínica devido aos efeitos adversos (como age no gânglio, pode afetar o sistema parassimpático e simpático), mas foi o primeiro tratamento eficaz para hipertensão. Relaxantes musculares não-despolarizantes A tubocurarina é o protótipo do grupo. Esse medicamento é derivado da isoquinalina, um composto aromático. Outro fármaco derivado dessa molécula é o atracúrio. Também são relaxantes musculares não- despolarizantes os fármacos bloqueadores neuromusculares esteroidais (que contêm o anel esteroidal), como o pancurônio, pipecurônio, vecurônio e rocurônio. Geovana Sanches - TXXIV O gantacúrio, molécula baseada no fumarato, foi desenvolvido para um relaxamento muscular mais breve. Ele é degradado por dois mecanismos químicos: adução rápida de cisteína e hidrólise lenta da ligação éster adjacente ao cloro. Os dois processos são puramente químicos e não dependem de atividade enzimática. O processo de adução ocorre muito rápido, pois a cisteína muda a estereoquímica do gantacúrio, impedindo-o de se ligar ao receptor, o que explica a sua duração de ação curta. A adução de cisteína ocorre na ligação dupla central do fumarato. Farmacocinética Todos os fármacos são injetados por via parenteral (via intravenosa e intramuscular), pois a absorção após administração via oral é mínima. Após injeção, são encontrados em altas concentrações no sangue. Esses fármacos são ionizados e penetram muito pouco em membranas. Assim, não entram nas células, nem atravessam a barreira hematoencefálica. Os bloqueadores não-despolarizantes são mais seguros, porém, seu início de ação é mais lento (1 a 6 minutos). Por isso, muitas vezes utiliza-se a succinilcolina (miorrelaxante despolarizante), pois possui rápido início de ação (1,1 min). O tempo de recuperação do efeito miorrelaxante é muito variável para os não- despolarizantes (16 a 100 min). Os fármacos aminoesteróides (vecurônio e rocurônio) contém um grupo éster e são desacetilados no fígado. Com isso, a depuração dessas moléculas é mais demorada em pacientes com doença hepática. Esses fármacos também são excretados inalterados na bile. O gantacúrio é metabolizado por meio de adução de cisteína e hidrólise de éster de forma não enzimática. O atracúrio é inativado no plasma por hidrólise enzimática da porção éster ou de forma não- enzimática (eliminação de Hofmann). Farmacodinâmica (mecanismo de ação) Os miorrelaxantes não-despolarizantes são antagonistas competitivos dos receptores nicotínicos (Nm) na placa motora. Para que o músculo esquelético apresente uma resposta, é necessário que se alcance o limiar de excitabilidade, que no exemplo dado é de cerca de - 50mV. Quando há despolarização e o limiar é atingido, possibilita-sea propagação do potencial de ação e, consequentemente, a sequência para contração muscular. Na presença do Curare, o limiar de excitabilidade não é alcançado e não há despolarização suficiente. Assim, a membrana é estabilizada e não há contração muscular. Há, portanto, relaxamento. Relaxantes musculares despolarizantes Exemplos de relaxantes musculares despolarizantes são a succinilcolina ou suxametônio. A molécula de succinilcolina é formada através da associação de duas moléculas de acetilcolina e, por isso, promove despolarização. Para indução anestésica foi administrado por IV o tiopental e um relaxante muscularpara facilitar a incubação. Logo após a adm do miorrelaxante, o paciente exibiu fasciculações musculares transitórias que progrediram para paralisia generalizada em um minuto. O relaxante muscular que provavelmente foi utilizado é a Succinilcolina. Farmacocinética Possui rápido início de ação (1,1 min) e efeito ultra-curto, em torno de 8 minutos. A duração extremamente curta da ação da succinilcolina resulta da sua hidrólise por butirilcolinesterases sintetizadas no fígado e encontrada no plasma. Farmacodinâmica (mecanismo de ação) Interage com os receptores nicotínicos na placa motora (assim como a ACh), porém provoca despolarização persistente da membrana, provocando bloqueio ou dessensibilização dos receptores. > Fase I (despolarizante): A succinilcolina reage com o receptor nicotínico para abrir o canal e causar a despolarização da placa motora, que, por sua vez, se propaga para as Geovana Sanches - TXXIV membranas adjacentes, causando contração de unidades motoras musculares. Como a succinilcolina não é metabolizada imediatamente na sinapse, as membranas despolarizadas permanecem despolarizadas e não responsivas a impulsos subsequentes (estado de bloqueio despolarizante). > Fase II (dessensibilizante): Com a exposição contínua à succinilcolina, a despolarização inicial da placa motora diminui. Apesar da membrana tornar-se repolarizada, há uma dificuldade e, com isso, ela não se repolariza totalmente. Assim, a nova despolarização é dificultada, processo denominado dessensibilização. Efeitos farmacológicos dos miorrelaxantes de ação periférica SNC: Tubocurarina e outros que possuem o nitrogênio quaternário (são moléculas ionizadas) não afetam o SNC. Gânglios do SNA: Os bloqueadores neuromusculares afetam muito pouco os receptores nicotínicos ganglionares. - A tubocurarina produz bloqueio parcial nos gânglios autônomos e na medula suprarrenal, o que reduz a pressão arterial e causa taquicardia. - O pancurônio tem ação vagolítica (reduz efeito do vago que libera ACh) com subsequente taquicardia, provavelmente pelo bloqueio dos receptores muscarínicos (devido a presença de anel esteroidal). - A succinilcolina / suxametônio (despolarizante) pode provocar estimulação dos gânglios vagais e provocar bradicardia e também estimular gânglios simpáticos e provocar hipertensão e taquicardia. O bloqueio ganglionar pela tubocurarina e outros fármacos estabilizantes é revertido ou antagonizado pelas anti-ChE (ex. neostigmina). Usos terapêuticos dos miorrelaxantes de ação periférica Os miorrelaxantes de ação periférica, tanto de despolarizantes, como não-despolarizantes, são Adjuvantes da anestesia em cirurgia para promover o relaxamento da musculatura esquelética e para facilitar a intubação endotraqueal. Também são utilizados na prevenção do traumatismo que ocorre na eletroconvulsoterapia (há potencial de contração do músculo esquelético). Efeitos adversos dos miorrelaxantes de ação periférica ● Apnéia prolongada e paralisia respiratória devido a ação dessas moléculas no diafragma e outros músculos da respiração. Caso isso ocorra, deve-se fazer uma respiração assistida com pressão positiva de O2 e a manutenção das vias respiratórias até se obter a recuperação da respiração normal com anticolinesterásico ● Liberação de histamina (provocada pela tubocurarina, o que faz com que esse medicamento não esteja mais sendo utilizado na clínica) ● Hipotensão e taquicardia ● Os despolarizantes podem provocar dor, devido a intensa contração da musculatura na fase I. A reversão do bloqueio neuromuscular causado por um agente não-despolarizante pode ser revertida por anticolinesterásicos (impedem a degradação da acetilcolina, a qual se acumula na fenda sináptica e, por competição, conseguem retirar os antagonistas nicotínicos). Isso não é possível com a succinilcolina. Contra-indicação Não devem ser usados em pacientes com miastenia, tendo em vista que essa doença já é caracterizada por uma flacidez muscular. Interações medicamentosas ● Os anticolinesterásicos promovem redução dos efeitos dos miorrelaxantes. ● Há aumento do efeito dos miorrelaxantes pelos antibióticos aminoglicosídeos, como a gentamicina, que causam inibição da liberação de ACh do terminal pré-ganglionar por competição com o Ca²+. ● Aumento do efeito miorrelaxante pelos anestésicos inalatórios, os quais exercem efeito estabilizante na membrana pós- juncional, potencializando a atividade dos fármacos bloqueadores competitivos. Dantrolene O dantrolene é um outro exemplo de miorrelaxante de ação periférica. Ele também age na placa motora. Geovana Sanches - TXXIV Farmacocinética: a administração ocorre pelas vias oral e intravenosa e ele é pouco absorvido pelo TGI. Possui alta ligação às proteínas plasmáticas e sua meia vida gira em torno de 9 h. Farmacodinâmica: inibe a excitação da contração da musculatura esquelética através da diminuição da liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático, reduzindo a tensão gerada pelo músculo. Usos terapêuticos: utilizado em situações especiais, como na espasticidade resultante de distúrbio motoneurônio – reduz a capacidade de liberar o cálcio do retículo sarcoplasmático para contração; assim, mesmo que o estímulo seja gerado, não há contração pela falta do cálcio. Um outro uso é na hiperemia maligna, condição em que há intenso espasmo muscular e elevação da temperatura corporal. Efeitos adversos: fraqueza muscular; sedação; hepatotoxicidade. MIORRELAXANTES DE AÇÃO CENTRAL Os miorrelaxantes de ação central são antagonistas colinérgicos de receptores muscarínicos, localizados na região do corpo estriado, na qual há inter-neurônios que liberam acetilcolina, participando do controle do movimento juntamente com a dopamina. Alguns miorrelaxantes de ação central vem associados a outros princípios ativos na forma farmacêutica. O Beserol® , por exemplo, contém carisoprodol (miorrelaxante) associado a diclofenaco, paracetamol e cafeína. Outros, não vem associados, como o Coltrax®, que contém apenas tiocolquicósido (miorrelaxante). Esses medicamentos geralmente são mais conhecidos pois são de fácil acesso nas drogarias. Geralmente, as pessoas utilizam-nos para analgesia (devido às associações com analgésicos). O protótipo desses antagonistas muscarínicos é a atropina. Os outras fármacos, como a prociclidina, o triexifenidil, orfenadrina e benztropina, possuem estrutura em T que facilita a interação com receptores muscarínicos (facilita o acesso aos grupos farmacofóricos do receptor muscarínico). O carisoprodol tem uma estrutura química diferente dos demais, mas realiza o mesmo tipo de interação. Vias neuronais As vias extrapiramidais são vias neuronais que modulam as vias piramidais. Existem várias estruturas que compões as vias extrapiramidais, dentre as quais estão os gânglios da base. Os principais núcleos que compõem os gânglios da base são: núcleo caudado, putâmen, globo pálido (interna ou medial e externa ou lateral), substância negra (compacta e reticulada) e núcleo subtalâmico. O corpo estriado, constituído pelos núcleos caudado e putâmen, contém várias populações pequenas de interneurônios, incluindo neurônios que liberam ACh. Essesinterneurônios participam na intercomunicação entre as vias direta e indireta que controlam o movimento através da dopamina. A via nigroestriatal é uma das vias dopaminérgicas no cérebro. Ela se origina na substância negra do mesencéfalo e termina no corpo estriado. A dopamina controla a atividade dos interneurônios que liberam acetilcolina e, assim, essa via é muito importante para o controle da atividade motora somática. Na Doença de Parkinson, por exemplo, há destruição de neurônios dopaminérgicos e uma super- atividade de neurônios colinérgicos no estriado. Assim, para o tratamento da doença, além de ser necessário o aumento das quantidades de dopamina, associam-se antagonistas muscarínicos para reduzir a atividade colinérgica. Farmacocinética Os principais miorrelaxantes de ação central são: benzotropina, biperideno, carisoprodol, orfenadrina, prociclidina, tiocolquicósido e triexifenidil. Eles são bem absorvidos pelo trato gastrointestinal e atravessam a barreira hematoencefálica, tendo ação sobre o SNC. Farmacodinâmica (mecanismo de ação) São antagonistas dos receptores muscarínicos, inibindo a atividade colinérgica estriatal. Os agentes anticolinérgicos atuam ao modificar as ações dos neurônios colinérgicos estriatais, que regulam as interações dos neurônios dopaminérgicos das vias diretas e indiretas. Podem ser referidas, portanto, como drogas inibidoras da atividade colinérgica estriatal. Usos clínicos Tratamento auxiliar em dores provocadas por contraturas musculares. Geovana Sanches - TXXIV Tratamento da síndrome parkinsoniana, especialmente para controlar sintomas de rigidez e tremor; sintomas extrapiramidais como distonias agudas (espasmos nos músculos da face, pescoço e língua), acatisia (síndrome das pernas inquietas). Tratamento de síndromes parkinsonianas induzidas por neurolépticos (moléculas antipsicóticas que são antagonistas de dopamina) e outros fármacos similares. Efeitos adversos Periféricos: ressecamento da boca; visão turva; retenção urinária e constipação. SNC: sonolência; confusão mental; delírios; alucinações; tontura e alterações do humor. SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO – SISTEMA ADRENÉRGICO Diferenças funcionais entre simpático e parassimpático Os sistemas simpático e parassimpático, na maior parte das vezes possuem reações antagônicas. Atuam em conjunto, regulando as funções viscerais. Em condições extremas, um dos sistemas é ativado mais intensamente, reduzindo a atividade do outro. Parassimpático Costuma ser denominado pelos anatomistas como inervação crânio-sacral, pois os pares de nervos saem desses locais. Para os fisiologistas, o apelido para esse sistema é repouso e digestão, tendo em vista que, nesses momentos, predomina a atividade parassimpática. Nesse sistema, a fibra pré-ganglionar é longa e a pós-ganglionar é curta. Simpático Denominado pelos anatomistas como inervação toracolombar, tendo em vista que os nervos têm sua origem de T1 a L2. Já para os fisiologistas, o sistema pode ser apelidado como de luta ou fuga, pois nessas situações há predomínio da atividade simpática. Nesse sistema, a fibra pré-ganglionar é curta e a pós-ganglionar é longa, formando uma rede de gânglios para-vertebrais. Quando há estímulo, libera- se noradrenalina no órgão. Há uma exceção, pois na inervação simpática da glândula adrenal, a fibra pré-ganglionar é longa e o neurônio pós-ganglionar se encontra dentro da medula. Quando há estímulo, há secreção de adrenalina (maior parte) e noradrenalina, as quais, através da circulação sanguínea, podem atuar em todo o organismo. Quando ativado, o sistema simpático tem as seguintes funções: • ↑ atividade do sistema cardiovascular; o No coração (receptores beta 1) → ↑ contração (efeito inotrópico +); ↑ FC (efeito cronotrópico +); ↑ Vc NAV (aumento da velocidade de condução do nodo AV) o Ex.: um paciente em choque (com bradicardia) → administra-se medicação simpaticomimética. • ↑ alerta e a atividade mental; o Ex.: ação da cocaína → impede a recaptura da noradrenalina na fenda sináptica → aumento da atividade mental e alerta. • ↑ lipólise, gliconeogênese e glicogenólise hepática e muscular; o Em situações de luta ou fuga, é necessário glicose para aumentar o trabalho muscular. • ↑ sudorese • Broncodilatação (a partir do relaxamento da musculatura lisa brônquica); o Em situação de luta ou fuga há um aumento da atividade cardiovascular, para que mais sangue chegue à periferia. o Exemplo: em indivíduos asmáticos, é interessante utilizar um simpatomimético, levando o indivíduo à broncodilatação. • ↓ atividade do sistema digestório; • Vasoconstrição periférica ou vasodilatação; Quanto mais seletiva for a droga para os receptores, menores as chances de efeito colateral. Geovana Sanches - TXXIV Biossíntese das catecolaminas São sintetizadas a partir do aminoácido Tirosina (precursor). A tirosina entra na terminação nervosa a partir de um co-transportador de sódio. Na terminação, sofre ação enzimática da tirosina hidroxilase, com formação de DOPA. A DOPA sofre ação enzimática da DOPA descarboxilase e há formação da Dopamina. A Dopamina no citoplasma é carreada pelo transportador VMAT para dentro da vesícula sináptica. No interior da vesícula, a dopamina, por ação enzimática da dopamina β-hidroxilase, é convertida em noradrenalina + ATP + P. A noradrenalina deve ser sintetizada dentro da vesícula para que ela não seja destruída na terminação nervosa pela enzima MAO. Após formação da noradrenalina, esta é liberada a partir do momento que ocorre um potencial de ação → despolarização a partir da abertura de canais de sódio → influxo de cálcio → auxilia na exocitose na noradrenalina. Na fenda sináptica, a noradrenalina atua nos adrenoceptores (receptores adrenérgicos alfa e beta): - Na membrana pós-sináptica ou; - Pode se difundir e atingir o sangue ou; - Pode ser recapturada para dentro da vesícula via carreador NET e degradada pela MAO ou; - Pode ser recapturada pela ENT (proteína extraneuronal - degradada pela COMT). Na medula adrenal, a noradrenalina pode sofrer ação enzimática da N-metiltransferase Feniletanolamina, formando-se adrenalina. Essa enzima é expressa apenas na medula adrenal, sendo esse o único local em que ocorre essa conversão. Sendo assim, a tirosina dá origem a três catecolaminas (neurotransmissores): 1. Dopamina: grande síntese no rim e no SNC. a dopamina já é uma catecolamina, pois apresenta duas hidroxilas no anel benzênico e dois carbonos afastando a amina. 2. Noradrenalina: sintetizada nos nervos simpáticos autonômicos (nas terminações nervosas toracolombar) e no SNC. 3. Adrenalina: produzida pela glândula suprarrenal e um pequeno componente no SNC. A feniletilamina é uma estrutura básica das aminas simpatomiméticas, sendo que nas posições 3 e 4 do anel benzênico há hidroxilas, caracterizando as catecolaminas (epinefrina, norepinefrina e dopamina). As substituições nos carbonos alfa e beta alteram algumas propriedades da molécula. Pode haver substituições nos carbonos alfa e beta, que modificam algumas propriedades das moléculas. Dependendo da substituição no carbono β, pode haver diminuição da lipossolubilidade, levando a diminuição do efeito central da droga. Essas alterações podem ocorrer, ainda, no carbono α e no grupo amino. As enzimas biossintéticas são diferentemente expressas nos tecidos. Em neurônios dopaminérgicos do SNC, por exemplo, não há expressão das enzimas necessárias para que ocorra a formação de noradrenalina e, assim, é liberada a dopamina. Metiltirosina Inibe a tirosina hidroxilase, impedindo que ocorra a síntese de DOPA e, consequentemente, de noradrenalina. Guanetidina Impede a exocitose da noradrenalina. Não é mais utilizada. Reserpina Droga que inibe ou bloqueia a ação do VMAT. Assim, não há transporteda dopamina para dentro da vesícula. Exemplo: hipertenso com tônus simpático elevado → tratar com reserpina impede produção da noradrenalina → diminuição do tônus simpático → diminuição da PA. A reserpina foi o primeiro anti- hipertensivo utilizado, mas atualmente não é mais utilizada no tratamento de hipertensão. Cocaína e antidepressivos tricíclicos Inibe o transportador NET, fazendo com que a adrenalina permanece por mais tempo na fenda sináptica. O indivíduo fica agitado e apresenta midríase (dilatação da pupila), taquicardia, vasoconstrição periférica com aumento da pressão arterial e no SNC aumenta o grau de alerta. A cocaína causa dependência e por isso não é usada para tratar depressão. Geovana Sanches - TXXIV Armazenamento, liberação e metabolização da noradrenalina A NE é armazenada em vesículas juntamente com ATP. A dopamina é captada por proteína carreadora de monoamina vesicular (VMAT). No interior da vesícula ocorre a conversão de dopamina em noradrenalina. Liberada em consequência à despolarização da membrana da terminação nervosa: abertura de canais de cálcio à exocitose das vesículas sinápticas à atua em receptores pós-sinápticos e sofre modulação pré- sináptica e atua no receptor α2 pré-sináptico levando a feedback inibitório. Há receptação pela NET à dentro da vesícula, ela pode ser reutilizada ou ela sofre ação da MAO, degradando a noradrenalina. As catecolaminas são metabolizadas pela MAO A e B (monoaminoxidase). Pode ocorrer recaptura extraneuronal pela ENT e degradação pela COMT (catecol orto metil transferase). Classificação dos receptores adrenérgicos Os receptores adrenérgicos estão acoplados à proteína G sendo, portanto, metabotrópicos. Os receptores α1 associam-se à Gq; os α2 - Gi e β - Gs Os receptores α1 apresentam 3 subclasses e são principalmente pós-sinápticos: α1A; α1B; α1D. Os receptores α2, também apresentam 3 subclasses e são principalmente pré-sinápticos: α2A; α2B; α2C Já os receptores β, apresenta os seguintes subtipos: • β1 - músculo cardíaco • β2 - músculo liso • β3 - tecido adiposo Dica: temos 1 coração e 2 pulmões (receptores beta1 e beta2). Quando o sistema simpático está predominante, a noradrenalina estimula α1 e tem-se vasoconstrição com aumento da resistência periférica e aumento da pressão arterial. Entretanto, ao estimular β2, há vasodilatação. O efeito geral do estímulo nervoso simpático é representado pela ação em α1, com vasoconstrição periférica. Entretanto, esse sangue, em situação de luta e fuga, deve ser redirecionado para a musculatura esquelética, local onde ocorrerá a vasodilatação. Receptor α α2 acoplado a Gi à inibição da adenilato- ciclase à diminuição de AMPc à diminuição da quantidade de cálcio dentro da terminação nervosa; diminui a liberação de NOR (feedback negativo). Noradrenalina à α1 acoplada a proteína Gq → ligação do GTP na subunidade α → desacoplamento → α-GTP ativa fosfolipase C (enzima) → atua sobre fosfatidilinositol bifosfato → geração de 2 subprodutos: diacilglicerol (DAG) e IP3 → IP3 se liga ao receptor localizado no retículo endoplasmático → liberação de cálcio → Ca²+ no citoplasma se liga a calmodulina → complexo Ca²+ calmodulina → resposta na célula alvo: contração da musculatura lisa → vasoconstrição. → Ca²+ ajuda na ação do DAG → conversão PKCi (inativa) em PKCa (ativa) → trabalha junto com o complexo Ca²+ calmodulina → vasoconstrição. Geovana Sanches - TXXIV Receptor β Adrenalina → receptor β(2) acoplado a Gs (possui as subunidades alfa, beta e gama) → troca de GTP por GDP → GTP se liga à subunidade α → desacoplamento da subunidade α ligada ao GTP → ativação da adenilil ciclase → conversão do ATP em AMPc → APMc dentro da célula alvo leva ao relaxamento da musculatura lisa → vasodilatação/ broncodilatação. NE → β1 (cardiomiócito) acoplado a Gs → GTP substituído por GDP → GTP ligado a α → ativação da adenilil ciclase → conversão de ATP em AMPc → ativa proteína cinase A → fosforilação de algumas proteínas (como canal de Ca²+) → influxo de cálcio → contração da célula (aumenta a força de contração e frequência cardíaca). Efeitos aparentemente opostos da estimulação de AMPc • β1 → Gs → estimula adenilil ciclase → converte ATP em AMPc → ↑ contração no coração → AMPc estimula a função do marca-passo. • β2 → Gs → estimula adenilil ciclase → converte ATP em AMPc → na musculatura lisa pulmonar e vasculatura causa uma fosforilação da cinase da cadeia leve de miosina, gerando relaxamento da musculatura lisa. Receptores β2 e β3 adrenérgicos NE à receptores β2 e β3 associados a Gs à aumento de AMPc à lipólise; glicogenólise no fígado (aumento da glicose no sangue) e no músculo esquelético. FARMACOLOGIA ADRENÉRGICA Existem duas classes de drogas que alteram o sistema adrenérgico: • Drogas simpatomiméticas ou drogas adrenérgicas; • Drogas simpatolíticas ou antiadrenérgicas. DROGAS SIMPATOMIMÉTICAS OU FÁRMACOS ADRENÉRGICOS Essas drogas podem ser separadas quanto a sua estrutura química e quando ao mecanismo de ação. Estrutura química Catecolaminas (possuem o grupamento catecol): adrenalina, noradrenalina, dopamina, isoprenalina. Não-catecolaminas (atuam no receptor, mas não possuem a estrutura química que obedece ao espelhamento da adrenalina): efedrina, anfetamina, fenilefrina e metoxamina. Mecanismo de ação Ação indireta: aumentam a disponibilidade da noradrenalina ou adrenalina para estimular os receptores adrenérgicos. Existem: inibidores de captação (cocaína e anti-depressivos à inibe o NET); inibidores de degradação (inibidores da MAO- selegilina e COMT- entacapona); agentes de liberação (anfetamina e tiramina). Ação direta: se ligam diretamente aos receptores – são agonistas. Podem ser divididos em seletivos (pouco efeito colateral; seletividade não é absoluta, sendo que a chance de interação com outros receptores aumenta quando ingerem-se grandes quantidades. Um exemplo é a salbutamol, que é um broncodilatador, sendo agonista beta2) e não-seletivos (apresentam muitos efeitos colaterais, como as catecolaminas). Ação mista: se ligam tanto ao receptor, como levam a liberação indireta de noradrenalina. Exemplos: efedrina (atua em todos os receptores) e metaraminol. Fármacos que agem em receptor alfa e beta adrenérgico (agonistas) Adrenalina (ou Epinefrina) Liberada da medula supra-renal e interage com todos os receptores adrenérgicos: α1, α2, β1 e β2. Como resultado, eleva a pressão arterial e aumenta o débito cardíaco. O efeito varia conforme a dose, sendo que doses mais altas têm preferência por α1 • α1: vasoconstrição periférica • β1: aumento de frequência cardíaca e força de contração • β2: vasodilatação de alguns leitos vasculares (da musculatura esquelética). Usos terapêuticos No choque anafilático, a pressão arterial do indivíduo está baixa pois há uma intensa liberação de histamina (vasodilatodora). Assim, administra-se a adrenalina para que haja: broncodilatação (β2); vasoconstrição (α1); inibe liberação de histamina nos mastócitos (β2). Na crise asmática, pois o indivíduo se encontra extremamente dispneico. Não se faz o tratamento da asma com esse medicamento devido ao intenso efeito cardíaco. Na parada cardíaca, deseja-se que haja ação no coração e nos receptores α1 e β1. Geovana Sanches - TXXIV Para aumento do tempo de ação de anestésicos locais. Os dentistas, por exemplo, usam anestésico local + adrenalina (vasoconstrição), pois o tempo de ação do anestésico precisa ser prolongado, visto que há uma irrigação intensa da mucosa oral que provocaria rápida ação do anestésico (muita absorção dos vasos). Outra vantagem é o menor sangramento no local, permitindo melhor visualização da boca do paciente. Para o glaucoma (hipertensão intraocular), pode-se utilizar solução 2% , a qual promove a redução do humoraquoso. Vias de administração As possíveis vias de administração são: endovenosa, subcutânea, inalatória e IM. Ações • Broncodilatação; • Midríase: dilatação da pupila; • Efeitos metabólicos: glicogenólise (com o aumento de glicemia) e lipólise (com o aumento ácido graxo circulante); • Relaxamento TGI; • Relaxamento da bexiga O efeito das drogas é passageiro, pois há metabolização da adrenalina pela COMT e MAO. Efeitos adversos • Hipertensão; • Arritmias; • Tremores; • Aumento de glicemia. Noradrenalina (ou Norepinefrina) É liberada pelas terminações adrenérgicas simpáticas interagindo com os receptores α1, α2 e β1 na sinapse. Possui pouco efeito em β2. É o principal mediador de ação no receptor α1 - responsável pela manutenção da resistência periférica e da pressão arterial. Ação principal no sistema cardiovascular. Usos terapêuticos Pode-se utilizar no choque e em casos de hipotensão grave. Ação muito preponderante em α1 → droga vasopressora com aumento da pressão arterial. Deve- se ter cuidado com sua utilização, pois a NE causa vasoconstrição renal. Quando a hipotensão se estabiliza, opta-se por dopamina, a qual tem ação em receptor β cardíaco, mas promove vasodilatação renal. Efeitos colaterais • Pressão arterial: hipertensão • Rim: insuficiência renal aguda • Fluxo sanguíneo nas extremidades: diminuição causando cianose e isquemia. Fármacos que agem em receptores α adrenérgicos (agonistas α1 seletivos) Metoxamina Catecolamina de origem sintética, que tem baixo tempo de meia-vida. São vasopressores utilizados no controle da hipotensão arterial relacionada aos bloqueios do neuroeixo em anestesia obstétrica - por aumentar a RVP (resistência vascular periférica). Fenilefrina Agonista α1 protótipo. Não é uma catecolamina e, portanto, não é metabolizado pela COMT. Utilizado como descongestionante devido ao seu efeito vasoconstritor. Em caso de alergia e rinite há liberação de histaminas, que promovem a vasodilatação e sensação de nariz entupido. Uso nasal - Decadron®; via oral - Cimegripe®, Fluviral®, Resfenol®. Além disso, pode-se utiliza-la na insuficiência vascular no choque e ele é midriático, podendo ser utilizado na oftalmologia. Nafazolina É uma não catecolamina, utilizada como descongestionante nasal. Exemplo: Neosoro®. Fármacos que agem em receptores β adrenérgicos (agonistas) Dobutamina (β1 seletivo) É uma mistura racêmica (levógiro e dextrógiro), que se assemelha estruturalmente à dopamina. Utilizada para aumenta do débito cardíaco em pacientes com ICC: aumenta débito cardíaco (efeito inotrópico +, mas não efeito cronotrópico +) com discreta alteração na frequência cardíaca e não aumenta o consumo de O2 pelo miocárdio. Dopamina É o precursor imediato direto da noradrenalina e da epinefrina. É um importante neurotransmissor no SNC e está relacionado a Doença de Parkinson. Possui efeito diurético e natriurético (restabelece função renal após uso de NE). Dose alta (> 10 ug/Kg/min): seletividade para β1, aumentando débito cardíaco. Além de aumento da resistência vascular periférica (α1). Dose moderada (3,0 a 10,0 ug/kg/min): estimula receptores dopaminérgicos nos vasos sanguíneos renais (vasodilatação e aumento do fluxo). Consideração importante no choque cardiogênico – aumenta débito cardíaco e previne insuficiência renal. → inotropismo positivo em β1. Dose baixa (0,2 a 3,0 ug/kg/min): causa vasodilatação da arteríola aferente real (aumenta taxa de filtração glomerular) e leitos mesentéricos (D1). É utilizada no tratamento da insuficiência cardíaca congestiva (ICC) grave. Geovana Sanches - TXXIV Fármacos que agem em receptores β adrenérgicos – agonistas β2 Os fármacos β2 seletivos tem ação dose dependente (seletividade não absoluta), ou seja, quanto maior a dose, menor a seletividade. O aumento da seletividade foi proporcionado por modificações estruturais da molécula. Administração via inalatória, o que diminui a dose aplicada e colabora com diminuição do efeito cardíaco. Salbutamol Utilizado no tratamento da asma, sendo os fármacos de escolha de crise aguda (bombinha). Retarda o parto prematuro. Salmeterol Versão lipofílica com duração de ação prolongada (seletividade 50x em comparação com o Salbutamol). Utilizado na profilaxia da asma e DPOC. Apresenta efeito aditivo com ipratrópio (parassimpatolítico). Terbutalina Possui anel resorcinol em sua molécula e, portanto, não é metabolizado pela COMT à período de duração da ação mais extendido. Utilização no Broncoespasmo agudo; para o tratamento prolongado das doenças obstrutivas das vias aéreas e como tocolíticos (drogas para prevenção do parto prematuro). Fenoterol Tem rápido início de ação e não disponível nos EUA. Formoterol É de longa ação e está disponível em associação com glicocorticoides. Utilizado na profilaxia da asma. Efeitos adversos dos agonistas β2 • Efeitos reduzidos relacionados a via de escolha; • Tremor: apresenta tolerância, de forma que pacientes que utilizam o fármaco há muito tempo não tem mais tremores; • Taquicardia normalmente quando administrado via parenteral, além de aumentar glicemia e ácidos graxos. Fármacos que atuam de forma mista Drogas simpatomiméticas que atuam de forma mista, fazendo com que ocorra a exocitose da noradrenalina, aumentando-a na fenda sináptica, além se se ligar ao receptor. Efedrina É uma não catecolamina, proveniente de uma planta; em alguns países é utilizada como fitoterápico. É eficaz por via oral, aumentando débito cardíaco e resistência vascular periférica. Utilização • Uso broncodilatador menos comum, devido aos efeitos cardíacos; • ↑ PA em anestesia espinal; • Performance atlética e perda de peso (+ cafeína), devido ao aumento do metabolismo. • Superdosagem pode causar: alucinações, tremores, alterações de humor, tontura, taquicardia, hipertensão, morte súbita. A Pseudoefedrina pode ser utilizada como descongestionante nasal DROGAS SIMPATOLÍTICAS A maioria é antagonista dos receptores adrenérgicos. Exceção: clonidina (agonista α2). Antagonistas dos receptores α 1. Não seletivos: fenoxibenzamina e fentolamina 2. Seletividade por α1: prazosina, terazosina, doxazosina. 3. Seletivos por α2: yohimbina Antagonistas dos receptores β 1. Não seletivos (1ª geração) 2. Seletivos por β1 (2ª geração) 3. Não seletivos (3ª geração) 4. Seletivos por β1 Clonidina Cuidado: AGONISTA α2 seletivo, com efeito simpatolítico, pois diminui concentração de noradrenalina na fenda sináptica. Ação central: ↓ efluxo simpático e ↑ parassimpático. Ação periférica: ↓ liberação de NE. Utilização • Anti-hipertensivo; • Abstinência de opiaceos ou benzodiazepínicos Efeitos adversos • Boca seca e sedação • Disfunção sexual • Agregação plaquetária Antagonistas dos receptores α adrenérgicos Prazosina Tem um efeito muito maior em α1 seletivo do que em α2, promovendo vasodilatação. Fármacos relacionados: Doxazosina e terazosina Utilização • Tratamento da hipertensão • Hipertrofia benigna da próstata. Devemos lembrar da oposição de reflexos barorreceptores: ↑ FC e DC (pouco efeito). Ou seja, quando há vasodilatação muito intensa, com diminuição da resistência vascular periférica, há efeito reflexo barorreceptor de aumento de frequência cardíaca e débito cardíaco. Efeito adverso • Hipotensão postural Geovana Sanches - TXXIV • Cefaléia • Desânimo: antagonismo de receptor α, com efeito central, diminuindo o estado de alerta • Congestão nasal Deixaram de ser boas opções pois a vasodilatação induzida levava a ativação do SRAA (Sistema renina-angiotensina-aldosterona). Além disso, a administração por muitos anos não é benéfica, tendo em vista seus efeitos adversos. α1 bloqueadores Exemplos: Terazosina e Doxazosina • Alivia sintomas da hipertrofia prostática benigna;• Resistência à emissão de urina; • Antagonismo α1 produz relaxamento do músculo liso; • Efeito apoptótico; Antagonistas dos receptores α adrenérgicos – não seletivos Fentolamina É um antagonista reversível, ou seja, que se liga a alfa 1 e alfa 2. Sua utilização é pequena devido a não seletividade, mas pode ser utilizado para: • Disfunção erétil • Diagnóstico do feocromocitoma (tumor da medula adrenal). • Hipotensão postural Fenoxibenzamina Antagonista irreversível e não competitivo, ou seja, se liga ao receptor e não se desliga mais à receptor inutilizado. Utilização: • Tratamento pré-operatório do feocromocitoma. • Previnem os efeitos da adrenalina (crise hipertensiva) no organismo • “Dessensibilizar” o organismo contra catecolaminas circulantes. Alfametiltirosina Análogo da tirosina que inibe a enzima tirosina hidroxilase. Utilizada em pacientes com feocromocitoma inoperável (não há produção de noradrenalina e adrenalina). Antagonistas dos receptores β-adrenérgicos Antagonistas β não seletivos Utilizados na hipertensão, arritmia, enxaqueca . Exemplo: propranolol (antagoniza tanto β1, quanto β2). Antagonistas seletivos β1 Utilizados na hipertensão e na arritmia. Exemplos: Atenolol e metoprolol. São utilizados em doses 50 a 100 vezes inferior a necessária para bloquear β2. Utilizados em indivíduos HAS e função pulmonar comprometida. Antagonistas seletivos β2 Sem utilidade terapêutica. Exemplo: butoxamina à medicamento experimental. Antagonistas seletivos β3 Não há utilização clínica. Sistema cardiovascular - Hipertensão: não induz hipotensão postural, pois alfa adrenoceptores permanecem atuantes. Interessante para utilização em idoso. - Angina: diminui a dor retroesternal após exercício. - Arritmias cardíacas - IAM: propranolol tem efeito protetor no miocárdio, pois reduz o tamanho da área e acelera a recuperação – diminui o consumo de O2 no miocárdio isquêmico - Glaucoma (Timolol) SNC - Estados de ansiedade. - Enxaqueca: diminui a vasodilatação cerebral. Principais β-adrenérgicos • Antagonistas β1 e β2 (1ª geração ou não seletivos) o Propranolol (Inderal®) o Nadolol (Corcard®) • Antagonistas seletivos β1 (2º geração ou cardiosseletivos) o Atenolol (Atenol®) o Metoprolol (Selozok®, Seloken® e Lopressor®) o Bisoprolol (Concor®) • Antagonistas β1, β2 e α1 (3º geração ou vasodilatarores) o Carvedilol (Coreg®) Efeitos colaterais dos antagonistas β adrenérgicos • Broncoconstrição • Bradicardia • Insuficiência cardíaca • Hipoglicemia • Fadiga - ↓ DC → ↓ perfusão • Mascarar o reconhecimento da hipoglicemia Geovana Sanches - TXXIV Substâncias que inibem a síntese de noradrenalina Metildopa É um pró-fármaco, sendo que a metildopa é convertida em alfa-metil noradrenalina. Trata-se de falso neutrotransmissor, mais ativo em receptores α2 pré-sinápticos à retroalimentação auto-inibitória à ↓ liberação de NA à ↓ vasoconstrição à ↓ PA. Não metabolizada pela COMT. Ação central: ↓ efluxo neuronal adrenérgico. Utilizado para hipertensão na gravidez; causa uma sedação temporária e boca seca. Não é muito utilizada, pois centralmente leva a depressão e sonolência. Substâncias que inibem o armazenamento e a liberação Reserpina Proveniente da Rauwolfia serpentina, de origem indiana. É um anti-hipertensivo que não é mais utilizado. Ele bloqueia o transporte da noradrenalia e de outras aminas para as vesículas de armazenamento à NE acumula-se no citoplasma degradada pela MAO . Antigamente era associada a diuréticos. Atua também em neurônios serotoninérgicos e dopaminérgicos centrais. Efeito colateral: depressão. HIPERTENSÃO A hipertensão arterial sistêmica é doença crônica, sendo uma condição multifatorial caracterizada pela elevação sustentada dos níveis pressóricos maior igual a 140 para PAS e/ ou 90 mmHg para PAD. Frequentemente é agravada pela presença de outros fatores de risco, como: obesidade abdominal, dislipidemia, intolerância à glicose e/ou DM. Quando não tratada, a hipertensão está associada há eventos como: morte súbita; acidente vascular encefálico (AVE); infarto agudo do miocárdio (IAM); insuficiência renal (IR); insuficiência cardíaca (IC); e cegueira. Os fatores de risco para HAS podem ser divididos entre controláveis e não controláveis: Fatores de risco - Controláveis: • Ingestão de álcool; • Ingestão de sal: alguns indivíduos são sal sensíveis e outros não. Entretanto, preconiza- se a diminuição da ingestão de sal na dieta, independente se ele é ou não sal-sensível; • Sedentarismo; • Excesso de peso; • Fatores socioeconômicos: há maior incidência de hipertensão em classes econômicas menos favorecidas. Fatores de risco - Incontroláveis: • Idade: com a idade há enrijecimento da vasculatura à aumento da resistência vascular periférica à aumento da PA. • Etnia: negros ou afrodescendentes apresentam hipertensão mais severa quando comparado às outras etnias. • Genética: filhos de pais hipertensos tem maior probabilidade de serem hipertensos. ETIOLOGIA Geralmente a hipertensão arterial é assintomática até que haja lesão do órgão-alvo, o que dificulta o diagnóstico da doença. Primária ou essencial (95%) Origem desconhecida, porém, pode estar associada a fatores de risco (hereditariedade, obesidade, tabagismo, dislipidemia, estresse, sedentarismo, ingesta de sal). Secundária (5%) Há uma causa desencadeantes, como por exemplo, apnéia obstrutiva do sono, hiperaldosteronismo primário, feocromocitoma, Síndrome de Cushing e doença renovascular. CLASSIFICAÇÃO DA PA Classificação válida para medição casual ou no consultório, para pacientes a partir de 18 anos de idade. REGULAÇÃO NORMAL DA PA Tanto nos indivíduos normais quanto nos hipertensos, a PA é mantida pela regulação contínua do débito cardíaco (DC) e da resistência vascular periférica (RVP), exercida em 3 locais: arteríolas; vênulas pós-capilares e coração. O rim contribui através da regulação do volume de sangue. PA = DC X RVP DC = Vs X FC Volume sistólico → inotropismo (força) Frequência cardíaca → cronotropismo (ritmo) Resistência vascular periférica → tônus vascular com controle neural (SNS) humoral (ADR, SRA) local. Geovana Sanches - TXXIV TRATAMENTO DA HAS A abordagem terapêutica inclui medidas não farmacológicas (Mudanças no Estilo de Vida - MEV) e farmacológica (uso de anti-hipertensivos). O tratamento tem por objetivo reduzir a PA, proteger os órgãos-alvo e diminuir a morbimortalidade. Mudança no Estilo de Vida (MEV) • Perda de peso: a elevação do IMC e o aumento da circunferência abdominal (correspondente à gordura localizada no abdome) estão relacionados à fatores de risco para hipertensão.; • Abandono do tabagismo; • Prática de atividade física: melhora a atividade do sistema cardiovascular e leva a perda de peso; • Redução de bebidas alcoólicas; • Controlar dislipidemia e DM; • Adoção da dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) ou Dieta Mediterrânea. Dieta Dash Baseada na prevenção e queda da PA e foco na perda de peso. É uma dieta rica em potássio, cálcio, magnésio e fibras e contém quantidades reduzidas de colesterol, gordura total e saturada. Dieta Mediterrânea É baseada nos hábitos de países banhados pelo Mar Mediterrâneo, levando em consideração a longevidade. Possui quantidades generosas de azeite de oliva (fonte de gorduras monoinsaturadas - “gordura boa” e rica em ômega 9); carne vermelha em baixíssima quantidade, sendo a fonte de proteínas os peixes de águas frias. Ingestão moderada de vinho, sobretudo vinho tinto, o qual contém substâncias protetoras ao sistema cardiovascular. Tratamento farmacológico O medicamento anti-hipertensivo deve: • Ser eficaz por VO e ser bem tolerado; • Permitir a administração em menor n° possívelde tomadas diárias, com preferência para aqueles de dose única; • Iniciar com as menores doses efetivas preconizadas para cada situação clínica, podendo ser aumentada gradativamente; • Deve-se levar em conta quanto maior a dose, maior o risco e probabilidade de efeitos adversos. ABORDAGEM TERAPÊUTICA Classificação pelo mecanismo de ação • Fármacos simpatolíticos o Antagonistas β1 adrenérgicos o Antagonistas α1 adrenérgicos o Ação central • Inibidores do Sistema Renina Angiotensina Aldosterona (SRAA) o Inibidores da ECA o Bloqueadores de AT1 o Inibidores diretos de renina • Bloqueadores dos canais de cálcio • Vasodilatadores • Diuréticos DROGAS QUE ATUAM NA REDUÇÃO DIRETA OU INDIRETA DA ATIVIDADE SIMPÁTICA A primeira hipótese sobre a doença foi que os indivíduos hipertensos teriam um tônus simpático exacerbado, por isso, pois quando é deflagrado o sistema nervoso simpático, observa-se um aumento na pressão arterial. Sendo assim, a princípio foram desenvolvidos medicamentos que atuassem nesse sistema. Drogas de ação central: metildopa e clonidina (atua em receptor α2 diminuindo a liberação de noradrenalina). Drogas de ação indireta: reserpina (diminui a síntese de noradrenalina; foi o primeiro medicamento utilizado, mas que atualmente não tem mais muito uso, pois pode levar à depressão) e guanetidina (diminui liberação de noradrenalina). Drogas de ação direta (antagonistas α e β adrenérgicos): prazosina (α), propranolol (β) e labetalol (α/ β). Receptores SNS • β1: sobretudo nas fibras miocárdicas, causam aumento de FC (cronotropismo), contratilidade (inotropismo) e condução AV, aumento na secreção de renina (pela estimulação das células justaglomerulares renais) → produção produção de angiotensina II e aldosterona, potente efeito vasoconstritor; • β2: mais disseminados, predominam no músculo liso dos brônquios e vasos. Sua ativação resulta em broncodilatação, vasodilatação periférica (músculos estriados) e lipólise. Geovana Sanches - TXXIV • α1: musculatura lisa dos vasos sanguíneos periféricos. Quando estimulados causam vasoconstrição. • α2: terminação pré-sináptica. Quando estimulados diminuem a liberação de NE. Ação central Metildopa (Aldomet®) A metildopa é um pró-fármaco, convertido em α-metil noradrenalina na terminação nervosa. Esse fármaco tem tem ação em receptor α2, diminuindo o efluxo neuronal adrenérgico. É um falso neurotransmissor, pois trata-se de um agonista parcial (lembrar que agonistas parciais, na presença de agonistas plenos, funcionam como antagonistas). Ele é mais ativo em receptores α2 pré- sinápticos, que leva a uma retroalimentação auto- inibitória: ↓ liberação de NA → ↓ DC → ↓ vasoconstrição → ↓ PA. Não é metabolizada pela COMT, tendo maior tempo de meia vida. Indicações • HAS de estágio 2 e 3 • Causa redução da resistência vascular renal, podendo ser utilizada na HAS em pacientes com insuficiência renal • Hipertensão na gravidez - Classificação B (utilizada na pré-eclâmpsia) • HAS em afrodescendentes ou negros Efeitos colaterais • Sedação temporária, depressão, esquecimento, boca seca • Hipotensão postural, impotência • Retenção de sais e líquidos (pode ser utilizada em concomitância à diuréticos) Não tem boa tolerabilidade devido aos efeitos colaterais. Sendo assim, não é utilizada em HAS estágio 1 ou em monoterapia. Clonidina (Atensina®) É um agonista α2 seletivo, causando a diminuição na liberação de noradrenalina. Sua ação central consiste na diminuição do efluxo simpático e elevação do parassimpático. Já na ação periférica, leva a diminuição na liberação de noredrenalina. O fluxo sanguíneo renal é mantido. A clonidina não é utilizada em monoterapia. Sua indição é para pacientes com HAS de estágio 2 e 3 ou HAS em UTI. Farmacocinética • Boa absorção VO; é altamente lipossolúvel, o que propicia a passagem pela barreira hematoencefálica. • Concentração plasmática e efeito hipotensor máximo em 1 a 3 horas (VO). • Há emplastos de liberação transdérmica. Efeitos colaterais • Há retenção de sais e líquidos: ocorre devido a diminuição na liberação NE, causando vasodilatação e aprisionamento de líquidos. Devido a isso, é necessário associar a clonidina com diuréticos • Sedação, depressão, disfunção sexual • Bradicardia • Dermatite de contato • Interação com antidepressivos tricíclicos: ação da Clonidina em receptor α2 leva diminuição da liberação de NOR, enquanto esses antidepressivos diminuem a recaptação de NOR • Crise hipertensiva na suspensão abrupta. Ação direta - antagonista α adrenérgico Apresentam seletividade muito maior por α1 seletivo do que por α2. Prazosina (MinipressSR®); Doxazosina (Unoprost®); Terazosina (Hytrin®) Antagonismo reversível. Atua na fenda sináptica da musculatura lisa vascular e dos vasos de resistência bloqueado a ação da noradrenalina nos receptores α1 Fentolamina (Vigamed) Bloqueio α1 e α2. Utilização • HAS 1, 2 e 3 • Hipertrofia benigna da próstata • Insuficiência cardíaca Efeito adverso • Hipotensão postural: ocorre devido a queda da RVP • Cefaleia, desânimo, congestão nasal. Devido ao antagonismo α1, há uma vasodilatação intensa. A queda da pressão arterial associada a essa vasodilatação deflagra a oposição de reflexos barorreceptores: ↑ FC - taquicardia reflexa. Com isso, eles medicamentos deixaram de ser boas opções devido a vasodilatação induzida que levava a ativação SRAA. Seria necessário associar iECA, o que não é ideal (visar sempre a monoterapia). Ação direta - antagonista β adrenérgicos Antagonistas β não seletivos (β1 e β2) São as drogas de 1º geração. A principal contraindicação são os indivíduos asmáticos, pois deflagra broncoespasmo. Exemplos de fármacos: propranolol (Inderal®) e Nadolol (Corcard®). Obs.: há ainda antagonistas β1, β2 e α1, denominados drogas de 3° geração ou vasodilatadores. O principal exemplo é o Carvedilol (Coreg®). Geovana Sanches - TXXIV Antagonistas β1 seletivos São as drogas de 2º geração, ou cardiosseletivos. Exemplos de fármacos: atenolol (Atenol®), Metoprolol (Selozok®, Seloken® e Lopressor®) e Bisoprolol (Concor®). Causam ↓ FC (cronotropismo negativo), ↓ contratilidade e ↓ condução AV, ↓ secreção de renina (por diminuição na estimulação das células justaglomerulares renais) → ↓ produção de angiotensina II e aldosterona, Utilização dos antagonistas β adrenérgicos • HAS 1,2 e 3 • Arritmia cardíaca • Droga mandatória no IAM o Além do aporte de oxigênio e morfina, usa-se propranolol, p. ex, que ↓ DC → ↓ FC → ↓ consumo de O2 pelo miocárdio isquêmico melhorando zona de penumbra. • Enxaqueca: ↓ vasodilatação cerebral • Angina: ↓ dor retroesternal • Ansiedade (propranolol) Efeitos colaterais antagonistas β adrenérgicos • Broncoconstrição: cuidado com asmáticos, pois causa broncoespasmo; • Bradicardia: cuidado com portadores de doença de condução cardíaca; • Insuficiência cardíaca; • Alterações glicêmicas: pode mascarar o reconhecimento da hipoglicemia em indivíduos diabéticos, sobretudo os insulinodependentes; • Fadiga; • Disfunção erétil; • Elevação do LDL e redução do HDL; • Retirada das drogas deve ser gradual devido a hipertensão de rebote; • Respondem menos em indivíduos negros; • Cuidado com associação com bloqueadores de canal de cálcio como verapamil e diltiazem, pois estes também diminuem débito cardíaco. Ação indireta Reserpina É um anti-hipertensivo que foi utilizado na década de 50. Ela bloqueia o transporte de noradrenalina e de outras aminas para as vesículas de armazenamento (VMAT). A NE se acumula no citoplasma e é degradada pela MAO. O efeito sobre as vesículas é irreversível, ou seja, uma nova VMAT precisaria ser sintetizada para a síntese de NE voltar ao normal. Atua também em neurônios serotoninérgicos e dopaminérgicoscentrais, tendo como efeito colateral a depressão. Causa depleção de catecolaminas inclusive nos grânulos cromafins da medula adrenal, com diminuição na liberação de adrenalina e NE. Doses baixas mantém os reflexos simpáticos. A diminuição da pressão arterial se dá pela diminuição da resistência periférica e também do débito cardíaco. Seu uso deve ser associado a diuréticos. Efeitos colateral • Depressão (menor quantidade de noradrenalina liberada pelo neurônio); • Baixa tolerabilidade, pois seria necessário utilizar antidepressivo; • Hipotensão postural leve; • Sedação; ↓ concentração; Distúrbios do sono; • Diarreia. INIBIDORES DO SRAA Nem todos os indivíduos que apresentam HAS apresentam o tônus adrenérgico como causa da hipertensão. Eles podem ter, também, o SRAA exacerbado. Vale lembrar que é uma doença multifatorial. Fisiologia A renina é liberada pelas células justaglomerulares em situações em que a PA está diminuída: ↓ PA → ↓ perfusão renal → secreção de renina. Trata-se de uma tentativa do organismo em elevar a PA a longo prazo. A angiotensina II tem diversas ações que auxiliam no aumento da pressão arterial, como: • ↑ atividade simpática → ↑ PA • No córtex da glândula adrenal → secreção de aldosterona → ↑ reabsorção tubular de sódio e cloreto, excreção de K e retenção de H2O. • Vasoconstrição arteriolar → ↑ RVP → ↑PA • Secreção de ADH (hormônio anti-diurético) → ↑ reabsorção de H2O → ↑PA Sendo assim, inibidores da ação da angiotensina podem ser utilizados como fármacos anti- hipertensivos. Eles podem ser divididos em duas classes: 1. Inibidores da ECA: captopil, enalapril (enalaprilato) Além da conversão da angiotensina, a ECA tem ação de cininase II, a qual rompe a bradicinina em metabólitos inativos. Sendo assim, há aumento do t1/2 de vasodilatadores, o que contribui para a queda da PA. Geovana Sanches - TXXIV 2. Antagonistas de angiotensina: losartana, valsartana Cerca de 20% dos indivíduos com hipertensão primária, principalmente afrodescendentes, apresentam diminuição da atividade plasmática de renina. Por isso, não é o fármaco de escolha. Outros 20% dos indivíduos com hipertensão primária apresentam aumento da atividade plasmática de renina e, portanto, respondem positivamente aos inibidores de angiotensina. Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (iECA) Exemplos • Captopril (Capoten®); • Enalapril (Renitec®) - pró-fármaco; • Ramipril (Triatec®) - pró-fármaco; • Benazepril (Lotensin®); • Lisinopril (Zestril®); • Fosinopril (Monopril®). Efeitos Causam vasodilatação arteriolar, levando à diminuição da PA. Diminuem a ação da aldosterona, aumentando a eficácia (ação) dos diuréticos. Inibição da quebra de BK (bradicinina): aumenta t1/2 de vasodilatadores, causando vasodilatação. Há interação com AINES. Os AINEs são inibidores da Cox (inibe produção de prostaglandinas, responsáveis pela dor). Em contrapartida, o anti- hipertensivo está produzindo prostaglandina. Sendo assim, um AINE pode diminuir o efeito anti-hipertensivo com essa interação. Aumentam a sensibilidade periférica a insulina (BK). Determina melhor qualidade de vida depois dos ARA II (Antagonistas dos Receptores da Angiotensina II). Indicações • HAS 1, 2 e 3 – drogas muito utilizadas em monoterapia; • IC com fração de ejeção diminuída; • Cirrose hepática; • IAM: é uma droga mandatória, pois a angiotensina II tem ação pró-apoptótica e de remodelamento do coração; • DRC (doença renal crônica) inicial: impede evolução da disfunção renal; • Droga de escolha para diabéticos e hipertensos: retardam o declínio da função renal. Efeitos colaterais • Bem tolerado; • Tosse seca: relacionada ao acúmulo de bradicinina; • Hipotensão (em situações de hipovolemia); • Hiperpotassemia em pacientes com insuficiência renal (DM); • Alteração do paladar; • Vermelhidão cutânea; • Contraindicado na gravidez → risco de complicações fetais. Não é indicado para indivíduos negros ou afrodescendentes. Antagonistas de receptores de Angiotensina II (ARA II) ou Bloqueadores do receptor (BRA) Exemplos • Losartana (Cozaar®); • Valsartana (Diovan®); • Candesartana (Atacand®); • Telmisartana (Micardis®); • Olmesartana (Benicar®); Efeitos • Bloqueio dos receptores AT1, com diminuição dos efeitos da angiotensina II; • Eficientes em monoterapia ou não; • ↑ fluxo coronariano; • ↑ sensibilidade a insulina. Indicações • HAS 1, 2 e 3; • Indivíduos com alto risco cardiovascular; • IC; • Cirrose hepática; • Doença renal crônica: nefroproteção. Efeitos colaterais • Hipotensão; • Hipercalemia (aumento nas concentrações de potássio); • Tosse incomum; o Não ha acúmulo de bradicinina. Não devem ser utilizados em indivíduos negros ou em mulheres gravidas (não prescrever – risco D). Geovana Sanches - TXXIV Inibidores diretos de renina Alisquireno (Rasilez®) Indicada no tratamento de HAS 1, 2 e 3. Não é muito utilizado pois muitos estudos não constataram sua real segurança. Medicamento de baixa absorção e baixa biodisponibilidade (abaixo de 3%). É contraindicado quando se administram outros ISRA (inibidores do sistema renina angiotensina), pois o uso em concomitância ocasionaria uma hipotensão severa com taquicardia reflexa. Os principais efeitos colaterais são hipotensão e hipercalemia. Contraindicado na gravidez. BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO Atuam nos canais de cálcio do tipo L, levando ao relaxamento do músculo liso arteriolar → diminuição da RVP; há taquicardia reflexa (consequência da vasodilatação). Indicação: HAS 1, 2 e 3; Hipertensão na gestação (primeira opção é metildopa); IC; Angina; Idosos; Negros. Os bloqueadores dos canais de cálcio podem ser divididos em dois grupos: 1. Diidropiridinas: relaxamento do músculo liso arteriolar. • Nifedipino (Adalat®); • Anlodipino (Cordarex®); • Isradipino (Lomir®); • Nimodipino (Nimotop®); • Felodipina (Splendil®); • Nitrendipino (Nitrencord®). 2. Não diidropiridinas: diminuem o débito cardíaco, através do cronotropismo e inotropismo negativo. Podem ser utilizadas na HAS associada a cardiopatia, angina e arritmias cardíacas. Os principais efeitos colaterais são a bradicardia, disfunção sistólica. É contraindicado o uso de associado a β-bloqueador. • Fenilalquilamina: Verapamil (Dilacoron®) • Benzodiazepina: Diltiazem (Cardizem®) Efeitos colaterais dos bloqueadores dos canais de cálcio Os efeitos diferem conforme a apresentação (liberação imediata ou não) e quanto à farmacodinâmica (diidropiridinas ou não). Os principais efeitos colaterais são: • Cefaléia; • Rubor (vasodilatação); • Tontura; • Refluxo gastroesofágico; • Constipação intestinal. VASODILATADORES DIRETOS Minoxidil Ativação dos canais de K+, levando a hiperpolarização da célula. Assim, não há deflagração de potencial de ação e, consequentemente, não há vasoconstrição. Ele diminui a RVP, acionamento dos barorreceptores e aumento do tônus do SNS (taquicardia reflexa). Indicado no tratamento de Hipertensão grave e refratária, sempre em associação: βbloqueador, diurético e iECA. O minoxidil de uso tópico pode ser utilizado tanto em homens, como em mulheres, para queda de cabelo, pois um de seus efeitos colaterais é a hipertricose ou hirsutismo. Efeitos colaterais • Hipotensão; • Hipertricose (hirsutismo); • Taquicardia reflexa; • Retenção de líquido. Hidralazina O mecanismo de ativação exato não é conhecido, mas há ativação dos canais de K+, com diminuição da resistência vascular periférica (RVP). Indicada no tratamento de HAS 2 e 3, grave e refratária a outras drogas. Pode ser utilizado na emergência. Efeitos colaterais • Hipotensão; • Anorexia, náusea, vômito e diarréia; • Cefaléia; • Palpitação; • Não utilizar em DAC (Doença Arterial Coronariana): a taquicardiareflexa é tão intensa que pode desencadear IAM nesses indivíduos. • Síndrome lúpica. VASODILATADORES INDIRETOS Nitroprussiato de sódio Causa uma vasodilatação não seletiva, ou seja, do aspecto arterial e venoso. A administração deve ser intravenosa e contínua, sendo utilizada apenas na emergência. Ela diminui a demanda de O2, podendo ser utilizada no IAM. A indução de hipotensão deve ser controlada. Uma vantagem desse medicamente é que quando se para a indução, a pressão arterial começa a subir, pois o t1/2 do nitroprussiato de sódio é muito curto e seu efeito hipotensor também. Avaliar risco de intoxicação por cianeto (CN), especialmente em pacientes idosos com IR. Deve-se proteger o medicamento da luz, pois ele é fotossensível. Efeitos colaterais • Hipotensão grave; • Retenção compensatória de Na+ e H2O; • Taquicardia reflexa; • Intoxicação por cianeto → acidose metabólica, arritmias cardíacas e morte. Geovana Sanches - TXXIV Resumidamente... DIURÉTICOS O volume do líquido extracelular (LEC) é determinado principalmente pela quantidade total de Na+ no organismo, o qual depende do balanço entre a sua ingestão na dieta e a sua excreção. Quando o Na+ se acumula, o LEC aumenta. A maioria dos diuréticos diminuem a excreção de sódio e, assim, diminuem o volume de líquido extracelular. Sendo assim, há aumento do fluxo urinário devido ao aumento na excreção de solutos. FISIOLOGIA RENAL Funções do rim Filtração do volume de líquido extracelular por meio dos glomérulos renais: os néfrons regulam com precisão o volume de líquido do corpo e sua quantidade de eletrólitos por meio dos processos de secreção e reabsorção nos túbulos renais. Regulação da osmolalidade (número de moles por quilo de água) do líquido corporal, controlado pelo sistema vasopressina: mecanismo homeostático que opera ao ajustar o equilíbrio de água, ou seja, a taxa de captação de água e a taxa de excreção sem soluto pelos rins. O ramo ascendente espesso e o túbulo contorcido distal transportam NaCl ativamente e são impermeáveis a água, por isso produzem uma urina diluída e são chamados de segmentos diluentes do néfron. O líquido no túbulo contorcido distal é hipotônico. Nos ductos coletores são feitos os ajustes finais na composição de eletrólitos, processo modulado pela aldosterona (reabsorção de sódio e excreção de potássio). A vasopressina (ou hormônio anti-diurético ou ADH) também modula a permeabilidade à água nessa parte do néfron. As porções mais distais do ducto coletor passam pela medula renal, onde o líquido intersticial é significativamente hipertônico. Na ausência de ADH, o sistema de ductos coletores é impermeável à água, e a urina excretada é muito diluída (diabetes insipidus nefrogênica). Na presença de ADH, o sistema de ductos coletores é permeável à água, que é reabsorvida. Mecanismo geral de transporte do epitélio renal 1. Bomba Na+ K+ - ATPase: reabsorve o sódio, retira o sódio que vai para o capilar peritubular (interstício); localiza-se na membrana celular basolateral. Quando o Na+ é reabsorvido, o K+ é excretado, mas ele pode retornar ao capilar peritubular por meio de diferentes sistemas dependendo do local do néfron. Uma vez que a ATPase Na+ K+ reabsorveu o Na+, a concentração de Na+ na célula é menor e isso facilita a entrada de Na+ na célula por meio de sistemas de transporte que existem na membrana luminal ou membrana celular apical. São eles: a. Canal de Na+ → nos túbulos proximais; b. Simporte → o Na+ carrega consigo ânions como Cl-, glicose, aminoácidos, fosfatos; c. Sistema antiporte → conforme o Na+ entra na célula, o H+ se direciona para o fluido tubular. À medida que há transporte de Na+ para o interstício, há atração da água. Geovana Sanches - TXXIV A reabsorção de Na+ varia de acordo com o local do néfron, isso faz com que a eficácia e potência dos diuréticos varie. DIURÉTICOS Os diuréticos são agentes que aumentam o débito urinário (taxa de fluxo da urina). Isso ocorre através do aumento da eliminação de Na+, Cl- (ou outro ânion) e, consequentemente, da água no organismo. Uma vez que há aumento da diurese, temos os seguintes efeitos: • ↓ volemia • ↓ retorno venoso • ↓ débito cardíaco (leva a redução da PA) • ↓ volume sistólico • ↓ RVP (alguns diuréticos) → ↓ DC → PA Devido aos seus efeitos, os diuréticos podem ser usados em caso de HAS, emergência hipertensiva, IC aguda e crônica, IR aguda e crônica, síndrome nefrótica e cirrose hepática. DIURÉTICOS QUE AGEM NOS TÚBULOS PROXIMAIS Os túbulos proximais são a porção dos néfrons que mais reabsorvem Na+. Esses diuréticos também são chamados de inibidores da anidrase carbônica. Medicamentos Acetazolamida (Diamox ®) – VO; Diclorfenamida – VO; Metazolamida – VO; Dorzolamida – colírio. Farmacocinética Acetazolamida Apresenta 100% de biodisponibilidade e t1/2 de 6 a 9 horas. É bem eliminada pela via renal. É uma sulfonamida não bacteriostática com estrutura química e atividade farmacológica nitidamente diferente das sulfonamidas bacteriostáticas. O grupo sulfonamida interage com a enzima, de forma que esse medicamento é um inibidor da anidrase carbônica. Metazolamida Apresenta 100% de biodisponibilidade e t1/2 de 14h. Sua eliminação ocorre a partir do metabolismo (75%) e via renal (25%). Dorzolamida Trata-se de uma solução oftálmica, indicado para reduzir a pressão intraocular elevada e para o tratamento do glaucoma. A administração tópica do Cloridrato de Dorzolamida permite que os efeitos ocorram diretamente no olho em doses mais baixa (portanto, com menor exposição sistêmica). Anidrase Carbônica A anidrase carbônica é uma metaloenzima de zinco que possui papel fundamental na reabsorção de NaHCO3 e na secreção ácida. Ela é encontrada principalmente nas células do túbulo proximal, nas membranas luminal e basolateral (anidrase carbônica tipo IV), bem como no citoplasma (anidrase carbônica tipo II). Também está envolvida na secreção de ácido no sistema de ductos coletores - local de ação secundário para os inibidores da enzima. A direção predominante da reação é estabelecida pelo pH. A anidrase carbônica também é encontrada no olho (contribui na formação de HCO3 no humor aquoso), mucosa gástrica, pâncreas, SNC e eritrócitos. Célula do túbulo proximal • Bomba ATPase Na+ K+ → leva o Na+ para o interstício e o K+ para o interior da célula. Posteriormente, o K+ retorna para o interstício. • Sistema de simporte → transporta o HCO3 (bicarbonato) e o Na+ para o interstício. O HCO3 é proveniente de uma reação catalisada pela anidrase carbônica. Uma vez que a bomba criou o gradiente favorável para a penetração do Na+ na célula, o Na+ entra na célula em troca do H+, o qual vai para o lúmen e formará a urina. No lúmen, o H+ se encontra com HCO3 e forma o H2CO3 (ácido instável), degradando-se em água e gás carbônico. Nas células do túbulo proximal , há um outro sistema simporte importante, o qual transportam conjuntamente glicose e Na+ do lúmen para o interior da célula. O transportador utilizado é o SGLT2. Geovana Sanches - TXXIV A operação contínua do antiportador Na+/ H+ mantém uma baixa concentração de prótons na célula, de modo que o H2CO3 é ionizado espontaneamente para formar H+ e HCO3, criando um gradiente eletroquímico para o HCO3 atravessar a membrana basolateral. Aproximadamente 65% de NaCl filtrados nos glomérulos são reabsorvidos no túbulo proximal. Também são reabsorvidos HCO3-, glicose, aminoácidos e outros solutos orgânicos. O CO2 é lipofílico. Nota-se que os diuréticos inibidores da anidrase carbônica que agem principalmente no túbulo proximal não são os diuréticos mais eficazes, pois agem na enzima e não no sistema de antiporte. MoA dos Inibidores da anidrase carbônica Os inibidores da anidrase carbônica inibem as enzimas ligadasà membrana citoplasmática. Aumentam a excreção de bicarbonato acompanhado por sódio, potássio e água, levando a uma urina alcalina e em leve acidose metabólica. Um inibidor da anidrase carbônica não permite a formação de HCO3 e H+. Sendo assim, o H+ não é trocado pelo Na+ pelo sistema antiporte e o Na+ fica retido no filtrado, onde reage com o HCO3, gerando sais. Assim, o filtrado fica em hipertônico (concentração maior) e então, a água não é reabsorvida. Conclui-se, portanto, que, devido a não reabsorção de Na+, tem-se maior volume de filtrado e, consequentemente, maior volume de urina. Mesmo com alto grau de inibição da anidrase carbônica, 65% do HCO3 é recuperado da excreção, provavelmente porque a acidose metabólica resultante reduz a carga de HCO3 filtrada; a reação não catalisada entre CO2 e H2O é suficiente para alcançar a reabsorção de HCO3. Indicações clínicas • Glaucoma de ângulo aberto: o humor aquoso possui alta concentração de HCO3. Esses medicamentos aumentam a excreção de HCO3, diminuindo a produção de humor aquoso e, portanto, diminuem a pressão intraocular. Podem ser usados no glaucoma secundário e no pré-operatório do glaucoma de ângulo agudo fechado para reduzir a pressão intraocular antes da cirurgia. • Para alcalinizar a urina, no tratamento da alcalose metabólica; • Alguns tipos de epilepsia (como crises de ausência), em parte, devido a produção de acidose metabólica. A inibição da anidrase carbônica parece retardar as descargas excessivas, paroxísticas (intensificação ou recorrência súbitas) e anormais dos neurônios do SNC. • A acetazolamida pode proporcionar alívio sintomático em pacientes com doença das grandes altitudes ou mal das montanhas, provavelmente devido a indução da acidose metabólica. Os inibidores da anidrase carbônica não são medicamentos frequentemente utilizados no tratamento da hipertensão. Efeitos colaterais • Acidose metabólica; • Hipocalemia: ocorre com todos diuréticos que agem antes dos túbulos coletores; • Cólica ureteral e formação de cálculos, devido à precipitação de sais de fosfato de cálcio na urina alcalina; • Tontura e parestesias (sugerindo uma ação dos inibidores da anidrase carbônica no SNC); • Derivados da sulfonamida podem provocar depressão da medula óssea, toxicidade cutânea, lesões renais e reações alérgicas. • Agravamento da acidose metabólica ou respiratória. São contraindicados para pacientes com acidose hiperclorêmica ou doença pulmonar obstrutiva crônica grave. DIURÉTICOS QUE AGEM NA ALÇA DE HENLE Os diuréticos de alça atuam no ramo ascendente espesso da Alça de Henle. • Bomba Na+ K+: envia Na+ para o interstício e K+ para o interior da célula. • Sistema simporte K+ Cl-: envia ambos os íons para o interstício, porém o K+ é recuperado. Membrana luminal • Sistema simporte: carrega 1 Na+, 1 K+ e 2 Cl- do lúmen-urina para o interior da célula, através do transportador NKCC2. • Potencial elétrico + no lúmen → o K+ volta para o filtrado criando um potencial elétrico +. Com isso, há reabsorção de cátions divalentes (como Mg2+ e Ca2+) por meio da via paracelilar, ou seja, através das junções entre as células. Aproximadamente 25 a 30% de NaCl filtrados são reabsorvidos pela porção ascendente da alça de Henle, que é impermeável à água, sendo denominado segmento diluidor do néfron. Geovana Sanches - TXXIV Esses diuréticos criam um volume de urina muito grande. Exemplos • Furosemida (Lasix ®)- VO e injetável o Pode causar tolerância • Bumetanida (Burinax ®)- VO e injetável • Piretamida (Arelix ®)- VO • Torasemida (Demadex ®)- VO • Ácido etacrínico - VO ou etacrinato de sódio (solução injetável) São altamente eficazes, pois, cerca de 25% da carga de Na+ é reabsorvida pelo ramo ascendente espesso da alça de Henle, local de ação desses medicamentos. Farmacocinética Ligam-se extensamente à proteínas plasmáticas, o que limita a sua liberação por filtração nos túbulos renais. São secretados de modo eficiente pelo sistema de transporte de ácidos orgânicos no túbulo. Aproximadamente 65% da furosemida é excretada inalterada na urina e o restante é conjugado com ácido glicurônico nos rins. Pacientes com doença renal têm o t1/2 de eliminação da furosemida prolongadao. Bumetanida e a torsemida sofrem metabolismo hepático significativo, de forma que a presença de doenças hepáticas pode aumentar o t1/2 desses fármacos. A biodisponibilidade oral de furosemida varia (10-100%). Em contraste, as disponibilidades orais da bumetanida e da torsemida são elevadas. À medida que a concentração do diurético de alça diminui no lúmen tubular, os néfrons começam a reabsorver avidamente o Na+, o que frequentemente anula o efeito geral do diurético sobre o Na+ total do corpo. Esse fenômeno de “retenção de Na+ pós diurético” pode ser superado pela redução da ingestão dietética de Na+ ou pela administração mais frequente do diurético de alça. Sendo assim, o médico deve orientar o paciente a ingerir menos Na+ ou aumentar a dosagem do diurético. Mecanismo de ação Os diuréticos de alça agem no ramo ascendente da alça de Henle, sendo que as sulfonamidas favorecem a ação desses medicamentos nos túbulos. Agem no segmento espesso da Alça de Henle ascendente, inibindo o co-transportador (simporte) Na+/K+/Cl- na membrana luminal. Alguns autores propõem que esses diuréticos se fixam no local de ligação do Cl-, localizado no domínio transmembrana do simportador. Também inibem a reabsorção de Ca2+ e Mg2+, pois impedem a diferença de potencial transepitelial (inibe a retrodifusão do K+ para dentro do lúmen tubular) que constitui a força peopulsora para a reabsorção de cátions. Os inibidores do simporte de Na+/ K+/ 2 Cl- interferem no segmento diluidor, comprometendo a capacidade do rim de excretar urina diluída e impedem a produção de um interstício medular hipertônico. Os diuréticos de alça são poderosos estimulantes da liberação de renina. Esse efeito ocorre por causa da interferência no transporte de NaCl, a grande depleção do volume e ativação reflexa do SNS, que propicia a liberação da enzima. Indicações clínicas • Edema pulmonar agudo: além das propriedades diuréticas, os diuréticos de alça possuem ação vasodilatadora, pois estimulam a síntese de prostaglandina nos rins e no pulmão aumentando, de forma aguda, a capacitância venosa sistêmica. Essa ação reduz a pressão de enchimento do ventrículo esquerdo e contribui para o alívio do edema pulmonar, mesmo antes que a diurese ocorra. • Insuficiência cardíaca crônica: diminui o volume do LEC • Cirrose hepática complicada por ascite; • Síndrome nefrótica (edema devido a proteinúria); • Edema associado a insuficiência renal (usa-se doses mais altas); • Emergências hipertensivas, embora não seja utilizado normalmente para tratar hipertensão; • Hipercalcemia e hipercalemia: pela excreção de Ca2+ e K+; • Superdosagem de um fármaco: os diuréticos de alça podem ser usados para induzir diurese forçada e facilitar a eliminação renal mais rápida do fármaco. Efeitos colaterais • Hipocalemia e alcalose metabólica: ao aumentar a oferta de Na+ no néfron distal, ocorre excreção de H+ e K+. Também há perda de Cl-, mas não de bicarbonato (HCO3-), o que aumenta a concentração plasmática de bicarbonato, que associado à redução do volume plasmático, provoca alcalose metabólica hipoclorêmica. • Depleção de magnésio: a hipomagnesemia pode ser um fator de risco para arritmias cardíacas. • Deplação de cálcio: devido a perda de cálcio, devem ser evitados em mulheres com osteopenia na pós-menopausa. • Em altas doses, os inibidores do simporte Na+/ K+/ 2Cl- podem inibir o transporte de eletrólitos em vários tecidos. Esse efeito é clinicamente Geovana Sanches - TXXIV importante na orelha interna, causando ototoxicidade (zumbido, comprometimento da audição, surdez, vertigem esensação de ouvido entupido), principalmente em pacientes com comprometimento auditivo preexistente. • Raramente: reações alérgicas e surdez (dose e uso de fármacos ototóxicos, como aminoglicosídeos - gentamicina); pois os diuréticos de alça promovem entrada de aminoglicosídeos no ouvido interno, aumentando seu potencial ototóxico. • Hiponatremia ou depleção do volume do LEC (hipovolemia) associado à hipotensão, principalmente em idosos. • Hiperuricemia (gota aguda): redução da excreção renal do ácido úrico pode ocorrer devido a: o Aumento da reabsorção do ácido úrico no túbulo proximal em consequência da redução do volume circundante promovida pelo diurético; o Competição entre o diurético e o ácido úrico pelos mecanismos secretores de ácidos orgânicos no túbulo proximal, levando à redução da secreção tubular de ácido úrico. • Hiperglicemia: inibição da secreção de insulina por ativação dos canais KATP nas células das ilhotas pancreáticas. • Aumentar os níveis plasmáticos de LDL e TG, enquanto reduz os de HDL. • Exantemas na pele, fotossensibilidade, parestesias, depressão da medula óssea e distúrbio no trato GI. Interações medicamentosas • Aminoglicosídeos, carboplatina, paclitaxel: sinergismo de ototoxicidade • Anticoagulantes: aumento da atividade anticoagulante; • Glicosídeos digitálicos: aumento de arritmias induzidas por digitálicos • Lítio: aumento dos níveis plasmáticos de Li+ • Propranolol: aumento dos níveis plasmáticos de propranolol; • Sulfonilureias: hiperglicemia; • AINE: resposta diurética reduzida; • Probenecida: resposta diurética reduzida; • Diuréticos tiazídicos: sinergismo da atividade diurética de ambos fármacos, levando aprofunda diurese; • Anfotericina B: aumento do potencial de nefrotoxicidade e intensificação do desequilíbrio eletrolítico. DIURÉTICOS QUE AGEM NOS TÚBULOS DISTAIS Túbulos distais • Bomba Na+/ K+ ATPase: Na+ para o interstício e K+ para dentro. Isso faz com que o Na+ do lúmen saia do lúmen e vá para dentro da célula (ação sistema simporte Na+ Cl-). • Receptores do paratormônio (PTH): PTH → receptor → síntese de canais de Ca²+ → entrada de Ca²+ para dentro da célula . • Sistema antiporte Ca2+ Na+: na tentativa de recuperar Na+ para dentro da célula, há uma troca (Ca²+ para o interstício e Na+ para dentro da célula). • Sistema ATPase H+ Ca2+: favorece a reabsorção do Ca2+. Aproximadamente 5% de NaCl filtrados são reabsorvidos no túbulo distal. Também é impermeável à água. Os diuréticos que agem nesse local causam diurese menos intensa quando comparado aos diuréticos de alça. Exemplos - Tiazidas • Bendroflumetiazida • Hidroclorotiazida (Clorana ®, Diuretic ®) • Ciclopentiazida • Clortalidona (Higroton ®) • Xipamida • Indapamida (natrilix ®) • Metolazona Farmacocinética As sulfonamidas, por serem ácidos orgânicos, são secretados no túbulo proximal pela via secretora de ácidos orgânicos. Essa estrutura favorece a ação desses medicamentos nos túbulos. Como as tiazidas devem ter acesso ao lúmen tubular para inibir o simporte de Na+/ Cl-, fármacos como a probenecida podem reduzir a resposta diurética das tiazidas ao competir pelo transporte no túbulo proximal. Mecanismo de ação Sítio de ação: porção cortical do ramo ascendente da alça de Henle e túbulo distal. Geovana Sanches - TXXIV Reduzem a reabsorção de sódio e de cloreto por inibir o cotransporte Na+/ Cl- (simporte) no início do túbulo distal. A expressão do simportador é regulada pela aldosterona. As tiazidas são moderadamente eficazes (a carga filtrada de Na+ é de apenas 5%) já que cerca de 90% da carga filtrada de Na+ é reabsorvida antes de começar o túbulo distal. Os inibidores do simporte Na+/ Cl- aumenta a excreção de K+ e de H+. Também são vasodilatadores e possuem ação inibidora da anidrase carbônica. Reabsorção de cálcio nos túbulos renais 70% do Ca2+ filtrado é reabsorvido no túbulo proximal por difusão passiva por meio de uma via paracelular. Também ocorre reabsorção de Ca2+, no ramo ascendente espesso da alça de Henle (RAE). O Ca2+ remanescente é reabsorvido no túbulo distal por meio de uma via transcelular. Há um influxo passivo de Ca2+ ao longo da membrana luminal através de canais de Ca2+, seguido de extrusão de Ca2+ ao longo da membrana basolateral por uma Ca2+ - H+ - ATPase. Além disso, o Ca2+ atravessa a membrana basolateral por um permutador de Na+/Ca2+ (antiportador) nos túbulos distais e nos túbulos coletores. A inibição do simportador Na+/Cl- na membrana luminal diminui os níveis intracelulares de Na+, aumentando a saída basolateral de Ca2+, mediante um aumento na troca de Na+/Ca2+. Além disso, a diminuição da concentração de Cl- favorece a entrada de Cl- por canais basolaterais (hiperpolarização), o que facilita a entrada apical do íon Ca2+. Indicações clínicas • Hipertensão, estágios 1, 2 e 3. Possuem efeitos aditivos ou sinérgicos quando combinados com outras classes de agentes anti- hipertensivos. • Edema associado a doenças cardíacas (ICC), doença hepática (cirrose hepática) e doença renal (síndrome nefrótica, insuficiência renal crônica e glomerulonefrite aguda) • Edema graves • Osteoporose: reabsorvem o Ca2+ • Hipercalciúria (prevenção dos cálculos renais contendo cálcio causados por hipercalciúria) • Diabetes insipidus nefrogênico Efeito paradoxal: pacientes com deficiência na secreção de vasopressina pela neurohipófise ou com redução de sinalização pelo receptor de vasopressina V2 das células principais do ducto coletor são incapazes de reabsorver água no néfron terminal e produzem grandes volumes de urina hipotônica, podem ser tratados com o agonista de vasopressina exógeno, a desmopressina. Obs.: diabetes insipidus central: secreção hipofisária deficiente de vasopressina A ação natriurética (com diminuição do volume de líquido extracelular, do volume plasmático e da taxa de filtração glomerular) causados pelos tiazídicos, podem produzir um efeito compensatório, aumentando a reabsorção de NaCl e água no túbulo proximal (local que não depende da vasopressina) com redução do volume liberado no túbulo distal. Diminui a capacidade do rim de secretar urina hipotônica e diminui a depuração de água livre. Juntamente com restrição dietética de solutos urinários (Na+ e proteínas) pode reduzir a carga de solutos que precisa ser excretada diariamente, reduzindo indiretamente o volume urinário. Os pacientes com diabetes insípido nefrogênico não respondem à desmopressina; entretanto, paradoxalmente, os diuréticos tiazídicos podem produzir redução do fluxo urinário nessa situação. O uso de AINEs (indometacina) também está indicado porque aumentam as quantidades de sódio e água que são reabsorvidos pelo rim devido a redução na síntese de PG. Efeitos colaterais • Hipotensão - efeito vasodilatador • Hiponatremia • Hipocloremia • Hipomagnesemia • Aumento de ácido úrico plasmático (contraindicado na gota): aumento da reabsorção tubular proximal e diminuição de secreção tubular. Competem com o ácido úrico pelo processo de secreção tubular ativa • Hiperglicemia (baixas doses podem ser prescritas para diabéticos): inibição da secreção de insulina por ativação dos canais de KATP nas células das ilhotas pancreáticas • Aumento do colesterol LDL, colesterol total e TG plasmático (uso prolongado) • Os diuréticos tiazídicos são contraindicados para pessoas hipersensíveis às sulfonamidas. • Disfunção erétil - reversível • Alcalose metabólica hipopotassêmica (hipocalemia): os tiazídicos podem aumentar a secreção de K+ e de H+ por meio de um aporte de Na+ ao ducto coletor, resultando, assim, em desenvolvimento de alcalose metabólica hipopotassêmica. Obs.: sempre irá ocorrer hipocalemia com o uso de diuréticos que atuam antes dos túbulos coletores → na região dos túbulos coletores há ação de aldosterona que aumenta a síntese dabomba de Na+ e K+, assim Geovana Sanches - TXXIV como os canais de Na+. Quando há ação da aldosterona há uma reabsorção de Na+ e excreção de K+. Interações medicamentosas • Os diuréticos tiazídicos podem reduzir os efeitos de anticoagulantes e da insulina. • Aumentam os efeitos de anestésicos, glicosídeo digitálicos, lítio, diuréticos de alça e vitamina D. • A efetividade dos diuréticos tiazídicos pode ser reduzida por AINE, inibidores não seletivos ou seletivos da COX-2 e sequestrante de ácidos biliares. Em uma interação potencialmente letal, a depleção de K+ induzida por tiazídicos pode contribuir para arritmias ventriculares fatais associadas a fármacos que prolongam o intervalo QT (ex: quinidina). DIURÉTICOS QUE AGEM NOS TÚBULOS E DUCTOS COLETORES ou DIURÉTICOS POUPADORES DE POTÁSSIO (K+) Ductos coletores Nos ductos coletores há uma baixa permeabilidade à água na ausência de hormônio antidiurético (ADH). Na presença de ADH, por sua vez, as aquaporinas são inseridas dentro da membrana apical, aumentando acentuadamente a permeabilidade à água (AQP 2, canais de água de aquaporinas apicais; AQP 3, 4, canais de água de aquaporina basolaterais; V2, receptor de V2 de vasopressina). • ADH → V2 → AMPc → aumento da expressão de aquaporinas. • Células principais: receptor para aldosterona (promove síntese da ATPase de Na+ e K+ → canais de Na+ na membrana luminal → recuperação Na+ e excreção de K+). A difusão de Na+ para dentro da célula por meio do canal epitelial de sódio (CENa) produz um potencial negativo no lúmen, que impulsiona a reabsorção de Cl- e o efluxo de K+ • Células intercaladas: o Cl pode ser trocado pelo HCO3 que pode ser recuperado para o interstício. Os mineralocorticóides (como a aldosterona) causam a retenção de Na+ e água e aumentam a excreção de K+ e H+ por meio de sua ligação com receptores citosólicos específicos. O complexo aldosterona-receptor sofre translocação para o núcleo, onde regula a expressão de diversos produtos gênicos, denominados AIP (proteína induzida por aldosterona): 1. Ativação dos canais de Na+ ligados à membrana; 2. A remoção do canal de Na+ (CENa) da membrana é inibida; 3. Síntese de novos canais de Na+ 4. Ativação da Na+ - K+ - ATPase ligada a membrana 5. Redistribuição da Na+ - K+ - ATPase do citosol para a membrana 6. Síntese de novo de Na+ - K+ - ATPase 7. Mudança na permeabilidade das junções compactas 8. A produção mitocondrial de ATP é aumentada Antagonistas da aldosterona: possuem anel esteroidal (efeito adverso hormonal). Farmacocinética Diferente dos inibidores de Na+, a eficácia clínica dos antagonistas dos receptores de aldosterona depende dos níveis endógenos de aldosterona. A espironolactona é metabolizada extensamente (incluindo o efeito de primeira passagem), sofre recirculação entero-hepática e se liga altamente às proteínas. É metabolizada a diversos compostos ativos (incluindo canrenona). O t1/2 da espironolactona é prolongado em até 9 horas em pacientes com cirrose. A eplerenona é eliminada principalmente por meio do metabolismo pela CYP3A4 a metabólitos inativos, com t1/2 de cerca de 5 horas. Aproximadamente 3% de NaCl filtrados são reabsorvidos no túbulo coletor, local de ação da aldosterona e vasopressina. Exemplos - Espironolactona • Aldactone® • Aldazida® associado a hidroclorotiazida • Lasilactona® associado a furosemida Mecanismo de ação da espironolactona e da eplerenona Antagonistas competitivos dos receptores de aldosterona. Inibe a retenção de Na+ e reduz o efeito secretor de K+. Diferentemente do complexo MR-aldosterona, o complexo MR-espironolactona e o complexo MR- eplerenona não são capazes de induzir a síntese das AIP (proteína induzida por aldosterona). São os únicos diuréticos que não exigem acesso ao lúmen tubular para induzir a diurese. Geovana Sanches - TXXIV Especificidade da eplerenona para o receptor mineralocorticóide A espironolactona tem afinidade pelos receptores de progesterona e de androgênio e, portanto, induz efeitos colaterais como ginecomastia, impotência e irregularidades menstruais. Devido ao seu grupo 9,11-epóxido, a eplerenona tem afinidade muito baixa pelos receptores de progesterona e de androgênio (< 1% e < 0,1%, respectivamente), quando comparada com espironolactona. A eplerenona se liga especificamente ao receptor mineralocorticoide, onde atua como antagonista da aldosterona. Essa especificidade evita o efeito adverso de ginecomastia associado com a espironolactona. Usos clínicos • Administrados juntamente com diuréticos espoliadores de potássio (tiazídicos e Alça) para tratamento de edema e da hipertensão. • Hiperaldosteronismo primário (Síndrome de Conn) e secundário devido a cirrose hepática complicada por ascite. • Espironolactona e eplerenona acrescentado à terapia-padrão, reduz morbidade e mortalidade em pacientes com IC que apresentam redução da fração de ejeção. • Espironolactona (não eplerenona) é usada da acne e hirsutismo devido a redução da síntese de esteróides e antagonista de hormônio testosterona. Efeitos colaterais • Hipercalemia • Diarreia, gastrite, sangramento gástrico e úlceras pépticas (espironolactona) • Ginecomastia, impotência, diminuição da libido e distúrbios menstruais (espironolactona) • Atrofia testicular (espironolactona) • No SNC: sonolência, letargia, ataxia, confusão e cefaléia • Exantemas de pele e, em raros casos, discrasias sanguíneas • Acidose metabólica • Inibidores fortes da CYP3A4 podem aumentar os níveis plasmáticos de eplerenona. OUTROS DIURÉTICOS POUPADORES DE K+ • Triantereno - Iguassina® associado a furosemida • Amilorida o Moduretic® associado a hidroclorotiazida o Diupress® associado a clortalidona o Diurisa® associado a furosemida Apesar de não possuirem um grande efeito diurético, são poupadores de K+. Assim, podem ser associados a diuréticos que espoliam o K+ Farmacocinética Esses fármacos são bases orgânicas, que são transportados pelo mecanismo secretor de bases orgânicas no túbulo proximal. A amilorida é eliminada predominantemente pela excreção urinária do fármaco intacto. O triantereno é metabolizado no fígado a um metabólito ativo, o sulfato de 4-hidroxitriantereno, que é excretado na urina; portanto, sua toxicidade pode ser potencializada na presença de doença hepática e insuficiência renal. Em comparação ao triantereno, a amilorida apresenta uma maior potência relativa, menor biodisponibilidade oral e maior t1/2. Mecanismo de ação A amilorida e o triantereno bloqueiam os canais de sódio (CENa) na membrana luminal das células principais na parte final dos túbulos distais e nos ductos coletores ao se ligarem a um local no poro do canal, reduzindo a quantidade de Na+ disponível para o transporte através da membrana basolateral. Desse modo, inibem a reabsorção de Na+ e reduzem a excreção de K+. Reduzem também a troca de Na+ /H+ e, dessa forma, inibem a excreção de H+, levando a alcalinização da urina. O bloqueio do canal de Na+ nos túbulos e ductos coletores aumenta apenas levemente as taxas de excreção de Na+ e Cl- (aproximadamente 3% da carga filtrada). O bloqueio dos canais de Na+ hiperpolariza a membrana luminal, levando ao aumento da reabsorção de íons positivo, o que reduz as taxas de excreção de K+, H+, Ca2+ e Mg2+. A redução do volume pode aumentar a reabsorção de ácido úrico no túbulo proximal; dessa forma, a administração crônica de amilorida e triantereno pode reduzir a excreção de ácido úrico. Indicações clínicas • Administrados juntamente com diuréticos espoliadores de potássio → a coadministração aumenta a resposta dos diuréticos tiazídicos e de alça • A amilorida também é útil no tratamento do Diabetes Insipidus nefrogênico induzido pelo lítio, pois bloqueia o transporte de Li+ para dentro das células do túbulo coletor. Efeitoscolaterais • Hipercalemia • Acidose metabólica • Erupções cutâneas Contraindicações • Exige monitorização da calemia Geovana Sanches - TXXIV • Uso conjunto de inibidores da enzima conversora da angiotensina ou uso de suplementos de K+. DIURÉTICOS OSMÓTICOS Exemplos • Manitol 20% (Equiplex ®) - injetável • Uréia - injetável • Isossorbida - VO • Glicerina - VO Mecanismo de ação Agem modificando o conteúdo do filtrado, aumentando a osmolalidade (número de moles por quilo de água) do filtrado à impede que a água vá no sentido contrário. Os diuréticos osmóticos são filtrados no glomérulo, mas não são reabsorvidos devido ao seu tamanho molecular. Exercem seu efeito nos locais permeáveis à água: túbulo proximal, ramo descendente da Alça de Henle e túbulos coletores. Esses diuréticos limitam a osmose da água no espaço intersticial e, portanto, reduzem a concentração luminal de Na+ a ponto de cessar a sua reabsorção efetiva. Ao extrair água dos compartimentos intracelulares, os diuréticos osmóticos expandem o volume do LEC, reduzem a viscosidade do sangue e inibem a liberação de renina. Esses efeitos aumentam o fluxo sanguíneo renal, enquanto o aumento no fluxo sanguíneo da medula renal remove o NaCl e a ureia da medula, reduzindo a toxicidade medular. A redução da tonicidade medular produz uma redução na extração de água do ramo descendente delgado, que, por sua vez, limita a concentração de NaCl no líquido tubular que entra no ramo ascendente delgado. Este último efeito reduz a reabsorção passiva de NaCl no ramo ascendente delgado. Os diuréticos osmóticos aumentam a excreção urinária de quase todos os eletrólitos, incluindo Na+, K+, Ca2+, Mg2+, Cl-, H2O e fosfato. Indicações clínicas • Controlar a pressão intracraniana em pacientes com traumatismos cranioencefálicos. • Prevenção da insuficiência renal aguda • Glaucoma aguda • Promover a excreção renal na superdosagem de brometos, barbitúricos, salicilatos e lítio • Tratamento da síndrome de desequilíbrio da diálise • O manitol é usado para reduzir o edema cerebral antes e depois da neurocirurgia • Manitol em pó, usado por inalação, pode auxiliar no diagnóstico da hiperreatividade brônquica. Efeitos colaterais • Hiponatremia, que pode provocar cefaleia, náuseas e vômitos • Os diuréticos osmóticos são contraindicados para pacientes que estão anúricos por causa de doença renal grave • A glicerina é metabolizada e pode provocar hiperglicemia. FREIO DIURÉTICO Os diuréticos provocam redução no Na+ total do corpo, porém existem mecanismos compensatórios renais, um fenômeno conhecido como freio diurético. Os fenômenos incluem: • Ativação do SNS • Ativação do eixo renina-angiotensina- aldosterona • Redução da pressão arterial (que diminui a natriurese de pressão) • Hipertrofia das células epiteliais renais • Alterações nos hormônios natriuréticos, como o peptídeo natriurético atrial. ANTIANGINOSOS ANGINA Angina é uma palavra latina que significa “sufocar”. Trata-se de uma síndrome clínica caracterizada por dor ou desconforto em quaisquer das seguintes regiões: tórax, epigástrio, mandíbula, ombro, dorso ou membros superiores. É uma sensação de dor ou pressão torácica associada à isquemia transitória do miocárdio, ou seja, uma dor decorrente da deficiência ou falta de sangue no músculo cardíaco. Para que o tecido cardíaco funcione de maneira adequada deve haver um equilíbrio entre oferta (ou suprimento) de O2 e nutrientes ao miocárdio e o consumo (ou demanda) dos mesmos. A angina caracteriza-se pela diminuição da oferta de oxigênio ao miocárdio. Nas situações em que o tecido trabalha mais, há maior demanda e o sistema circulatório deverá fornecer as quantidades adequadas de sangue e nutrientes para o tecido. Caso o suprimento sanguíneo não seja adequado à demanda, o coração entrará em sofrimento e começará a produzir mediadores químicos responsáveis pela ativação, principalmente, de terminações nervosas nociceptivas, desencadeando dor ou desconforto. Dentre os metabólitos produzidos destacam-se o K+, PG e prostaciclinas. Também ocorre redução do pH por produção excessiva de ácido láctico, com aumento da liberação de H+. O aporte sanguíneo ao tecido cardíaco ocorre principalmente pelas artérias coronárias direita, esquerda e descendente anterior esquerda, sendo o Geovana Sanches - TXXIV tônus vascular das artérias um fator importante para perfusão cardíaca adequada e para que haja um suprimento dentro das necessidades de atividade do tecido. Quanto mais sangue chega ao coração, mais força o coração deverá fazer para bombear o volume para as artérias. Fatores que alteram o suprimento de oxigênio O fluxo sanguíneo coronariano é determinado por: • Pressão de perfusão: determinada pela resistência. • Resistência coronariana o Metabólitos que dilatam as arteríolas coronarianas aumentam a perfusão do tecido o Atividade autonômica: aumenta a força e frequência de contração. Entretanto, a NA e adrenalina estimulam receptores presentes nas células endoteliais, o que resulta na produção de mediadores químicos que promovem dilatação as arteríolas coronarianas o Aterosclerose: pode obstruir totalmente ou parcialmente o fluxo sanguíneo o Trombose intra-coronária: pode ser proveniente do rompimento da placa de ateroma. Fatores que alteram a demanda de oxigênio • Frequência cardíaca • Contratilidade • Estresse da parede ventricular o Pré-carga: volume de sangue na parede cardíaca o Pós-carga: o ventrículo, quando cheio, lança o sangue na grande circulação, o que eleva o estresse da parede ventricular. CLASSIFICAÇÃO DA ANGINA Estável crônica Está relacionada ao esforço, ocorrendo em função de atividades extenuantes ou moderadas. Os episódios anginosos podem ser precipitados por: exercício; frio; estresse emocional (como em um susto). Variante ou Vasoespástica Ocorre geralmente durante o repouso ou por exercício mínimo. Causada por espasmos das artérias coronárias, frequentemente associada a doença ateromatosa, pois a obstrução compromete a perfusão do miocárdio. Nem toda situação de angina está relacionada ao infarto. Instável Síndrome da coronária aguda de isquemia miocárdica. Em geral estão envolvidos trombos plaquetários e fibrina associados a placa ateromatosa rompida, mas sem oclusão completa do vaso. Ocorre por ruptura e reparo das placas ateroscleróticas. MANEJO DA ANGINA - ANTIANGINOSOS • Fármacos para alívio da crise; • Fármacos para prevenção de crises. NITRATOS ORGÂNICOS Os nitratos orgânicos, ou nitrovasodilatadores, aliviam os efeitos da angina em um tempo baixo. • Nitrito de Amila (via inalatória) – em desuso • Nitroglicerina ou trinitrato de gliceril • Dinitrato de isossorbida • Mononitrato de isossorbida (5-mononitrato de isossorbida) • Propatilnitrato: atua principalmente em vasos cerebrais • Óxido nítrico (não é nitrato) – na forma de gás, tem efeitos locais. Utilizado no tratamento da hipertensão pulmonar e não é muito indicado para a hipertensão cardíaca e angina. Na estrutura molecular dos nitratos há o óxido nitroso, o qual é metabolizado a óxido nítrico. O NO, por sua vez, desencadeia os efeitos da classe. Geovana Sanches - TXXIV Biossíntese e efeitos do óxido nítrico Contração: o Ca2+ combina-se com a calmodulina para formar um complexo Ca2+-CaM, o qual converte a enzima cinase das cadeias leves de miosina em sua forma (MLCK*). Esta última fosforila as cadeias leves de miosina, iniciando, assim, a interação da miosina com a actina. Relaxamento → o NO é um gás lipossolúvel produzido nas células endoteliais; quanto maior a produção do NO, maior a concentração do gás na fibra lisa. O NO age na enzima guanilil ciclase que catalisa GTP em GMPc, o qual é responsável pela ativação da proteína quinase dependente deAMPc (PKG). A PKG fosforila MLCK em uma posição que impede a ativação pela Ca2+-CaM e causa relaxamento. O sistema de contração vascular pode ser levado em consideração com fatores que promovem a contração e ao relaxamento. A complacência vascular é resultado do equilíbrio entre esses fatores. A produção de NO pelas células endoteliais dependem de uma enzima chamada de óxido nítrico sintase (NOS) e do aminoácido L-arginina. L-arginina + O2 → NO + citrulina A enzima NOS está estrategicamente ancorada à membrana da célula endotelial, o que favorece a presença de grandes quantidades de NO próximo à camada muscular do vaso e às células sanguíneas circulantes. Em resposta a agonistas, como a bradicinina, ocorre a fosforilação da enzima NOS, determinando sua translocação para o citosol. Este mecanismo provavelmente tem um papel na regulação da produção de NO in situ e na sua atividade biológica. O NO produzido na célula endotelial difunde- se rapidamente para a célula muscular e para o lúmen vascular. A difusão rápida e a facilidade com que esta molécula penetra em outras células, graças ao seu pequeno tamanho e à sua característica lipofílica, são cruciais para o entendimento das suas atividades biológicas. Caso haja muita citrulina ou L-arginina intracelular, há uma contra regulação na célula que impede a produção de NO. No interior da célula muscular, o NO interage com o ferro do grupo heme da enzima guanilato ciclase, acarretando uma alteração da conformação desta enzima, tornando-a ativa (GCa). A GCa catalisa a saída de dois grupamentos fosfato da molécula de guanosina trifosfato (GTP), resultando na formação de guanosina monofosfato cíclica (GMPc). O aumento da concentração de GMPc na célula muscular resulta no relaxamento desta célula. O mecanismo pelo qual o NO é removido da GC após ocorrer a vasodilatação necessária é desconhecido. Sabe-se que a produção de GMPc é interrompida segundos após a remoção do NO da enzima guanilato ciclase. As enzimas fosfodiesterases catalisam a reação de inativação do GMPc. Alguns fármacos, inibidores das fosfodiesterases do tipo 5 (sildenafila, vardenafila e tadalafila), são vasodilatadores utilizados no tratamento da disfunção erétil. Efeitos farmacológicos dos nitratos orgânicos (em doses terapêuticas) Dilatação de grandes artérias coronárias Sem alterar a autorregulação dos pequenos vasos coronarianos; Redistribuição do fluxo coronariano para áreas isquêmicas (circulação colateral). Vasodilatação periférica Maior ação nas veias do que nas arteríolas, resultando em redução na pré-carga e em menor intensidade na pós-carga. Efeitos colaterais • Hipotensão ortostática • Taquicardia reflexa (atenção) • Cefaleia pulsátil • Tontura (vertigem) • Rubor na face, palma da mão e planta do pé • Síncope Geovana Sanches - TXXIV Tolerância A exposição contínua ou frequente aos nitratos orgânicos pode levar à tolerância. O fenômeno de tolerância tem sido atribuído à depleção celular dos estoques dos radicais de sulfidrila (-SH) existentes na parede arterial. Intoxicação por nitratos (NPS) A utilização do nitroprussiato, sobretudo, pode levar a intoxicação devido ao cianeto. O cianeto rapidamente forma um complexo com a metahemoglobina, originando a ciano-hemoglobina à não há transporte de O2. O nitroprussiato é metabolizado no fígado pelo tiossulfato, originando o tiocianato que será eliminado pelo sistema urinário. Pacientes com alguma deficiência nessa metabolização podem sofrer intoxicação. Substâncias que potencializam os nitratos orgânicos Inibidores da fosfodiesterase 5: o GMPc não é metabolizado, ocasionando aumento na concentração de GMPc e maior efeito sobre o relaxamento. Esse relaxamento pode levar a uma hipotensão grave, levando ao óbito. Inibidores da enzima fosfodiesterase (FDEs) • Sildenafil (Viagra®) - t1/2: 4 h • Vardenafil (Levitra®)- t1/2: 4 a 5 h • Tadalafil - t1/2: 17,5 h Esses medicamentos são usados no tratamento de: Hipertensão pulmonar; Disfunção erétil; Insuficiência cardíaca; e, em alguns casos, DPOC. Principais efeitos colaterais: Cefaleia ; Congestão nasal; alteração da visão (cores azul e verde); Hipotensão; Parada cardíaca. Tipos de fosfodiesterases (PDEs) Existem 11 tipode de PDEs, os quais degradam AMPc e GMPc. PDE-5: musculatura lisa do corpo cavernoso, no músculo esquelético, no músculo liso visceral e vascular, tecidos cerebelar e pancreático, nas plaquetas, nos rins e nos pulmões. PDE-2, 3, 4 e 5: coração. PDE-6: retina. PDE-11: músculo esquelético. Alguns autores apontam que o uso dos inibidores de PDEs após isquemia severa tem a capacidade de controlar mecanismos que promovem o estresse oxidativo. Assim, eles são protetores para o tecido cardíaco. MANEJO - ANGINA ESTÁVEL Alívio da crise Devem-se utilizar nitratos orgânicos, como: • Nitroglicerina: eficácia e início imediato • Dinitrato de isossorbida - mononitrato (metabólito ativo): usado para prevenção da angina devido a ação bastante longa Prevenção de crises • Nitratos de liberação prolongada ou de longa duração. • β-bloqueadores, sendo os seletivos β1 mais tolerados • Antagonistas de Ca2+: diidropiridinas (amlodipina) - efeito mais significativos nos vasos periféricos do que nos tecidos cardíacos. • Hipolipêmicos: estatinas • Antiagregantes plaquetários e fibrinolíticos: AAS e/ ou clopidogrel. MANEJO - ANGINA VASOESPÁSTICA Alívio de crises • Nitratos • Bloqueadores de canais de Ca2+ o Diidropiridinas (amlodipina, nifedipina), Verapamil ou diltiazem É contraindicado o uso de β-bloqueadores, pois podem causar vasoconstrição coronariana FARMACOLOGIA APLICADA À INSUFICIÊNCIA CARDÍACA (IC) INSUFICIÊNCIA CARDÍACA CRÔNICA Paciente sofreu um infarto agudo do miocárdio (IAM) → morte das células por isquemia → sobrevive → morte de algumas fibras cardíacas → substituição por tecido conjuntivo (sem capacidade contrátil) → redução da força de contração cardíaca → diminuição do débito cardíaco → coração não desempenha a função de bomba propulsora adequadamente. Outras causas de ICC: hipertensão não controlada com hipertrofia de ventrículo esquerdo; disfunções em valvas cardíacas; doença de Chagas. A IC é uma síndrome cardiovascular definida como incapacidade do coração de geral um adequado débito cardíaco para atender às necessidades metabólicas dos tecidos. Assim, o principal marcador do quadro de ICC é a redução do débito cardíaco. Quando há redução do débito cardíaco, alguns mecanismos regulatórios são acionados para tentar melhorar o quadro do paciente. Entretanto, alguns desses mecanismos acabam por piorar as funções cardiopulmonares e renais do paciente. • Disfunção diastólica o ICFEP: fração de ejeção preservada ou ICFEN (FE normal) → dificilmente é usado cardiotônicos • Disfunção sistólica o ICFER: fração de ejeção reduzida → paciente candidato a usar agentes cardiotônicos. Geovana Sanches - TXXIV Fisiopatologia Redução de DC → barorreceptores arteriais (aórticos e carotídeos) menos ativados → maior ativação do centro vasomotor do bulbo → fibras simpáticas mais ativadas → aumento da descarga de noradrenalina no coração (β1, principalmente e β2), vasos (α1) e rins (β1). As ações causadas por esses mecanismos compensatórios são: • Coração → ↑ FC e ↑ força de contração. • Vasos → vasoconstrição → ↑ RVP (aumento de pós-carga) • Rins → hiperativação do SRAA; ativação de receptores envolvidos com transporte de eletrólitos, o que aumenta a retenção de sódio e água; estresse oxidativo; liberação de citocinas inflamatórias. A longo prazo, esses mecanismos sobrecarregam o coração e causam lesão cardíaca; também pode haver doença renal crônica (DRC) associada. Redução do DC → ↓ fluxo sanguíneo renal (FSR) → ↓ taxa de filtração glomerular (TFG) → aparelho justaglomerular libera reninana corrente sanguínea → aumento da ativação do SRAA. Devemos lembrar que a ativação desse sistema também é realizada pela hiperestimulação aos receptores renais β1. • Coração A angiotensina II, via receptores AT1, e a aldosterona, via receptores MR, promovem remodelagem cardíaca. • Vasos Ação da angiotensina II em receptores AT1 promove vasoconstrição, ocasionando aumento da RVP (pós-carga). • Rins Ação da angiotensina II sobre os receptores AT1 e da aldosterona sobre os receptores de mineralocorticóides (MR). O estímulo a esses receptores estimula a reabsorção de Na+ e H2O → ↑ volemia → ↑ retorno venoso (pré-carga). Em excesso, a angiotensina II e aldosterona estimulam o estresse oxidativo, processo inflamatório, fibrose renal → a longo prazo causa DRC. FARMACOTERAPIA Um tratamento farmacológico para a ICC deve promover redução da carga adrenérgica; redução da pós-carga (promovendo vasodilatação); redução do SRAA; ajudar os rins a eliminar mais Na+ e H2O ; prevenir a remodelagem cardíaca. • β-bloqueadores: protegem o coração da descarga adrenérgica, diminuindo arritmias, fibrose cardíaca e fibrose cardíaca → diminuição da morbidade, mortalidade e hospitalização. • Bloqueadores de canal de Ca2+: faz vasodilatação • Vasodilatador direto: hidralazina; pode ser interessante para pacientes com RVP muito alta, mas em caso de Chagas não. • β-bloqueadores com atividade vasodilatadora: carvedilol → diminui a RVP, reduzindo-se o trabalho cardíaco. • Inibidores da ECA: inibe SRAA, causando vasoconstrição; redução da lesão renal por excesso de angiotensina e aldosterona; diminuição da remodelagem cardíaca. • Bloqueador de receptor AT1 (BRA): losartana, valsartana, candesartana. o Quando utilizamos iECA e BRA, o paciente, ainda assim, pode apresentar edema. Assim, pode-se associar, por exemplo, furosemida. • Diurético poupador de K+ antagonista de receptores mineralocorticoides, como espironolactona → reduz a remodelagem cardíaca e hipertrofia cardíaca. Tratamento convencional • β-bloqueador • Vasodilatador • Inibidor SRAA • Diuréticos • Antiagregante plaquetário: utilizado para pacientes com lesão endotelial, os quais apresentam risco de agregação plaquetária e de evento isquêmico. • Nitrato orgânico: vasodilatadores coronarianos e venosos. • Antiarrítmico • Anticoagulante • Ômega 3: alguns estudos apontaram que ele reduz hospitalização e complicações dos pacientes com IC. Atualmente, evita-se o uso de cardiotônicos, pois são altamente tóxicos para o paciente (risco de intoxicação). Geovana Sanches - TXXIV CARDIOTÔNICOS Cardiotônicos são fármacos que aumentam a força de contração cardíaca, sendo, portanto, agentes inotrópicos positivos. Digitálicos É o grupo de cardiotônicos mais antigo. São eficazes, porém podem levar à intoxicação, sendo pouco utilizados atualmente. Esses fármacos são obtidos através da planta Digitalis, popularmente conhecida como dedaleira. Dependendo da estrutura química, podem ser classificados em glicosídeos cardíacos ou deslanosídeos. Glicosídeos cardíacos • Digoxina: Digitalis purpúrea (usado na veterinária) • Digitoxina: Digitalis lanata o Fármaco de escolha para humanos • Ouabaína: Strophantus gratus (não tem utilização terapêutica). Fisiologia da contração do cardiomiócito 1. Bomba Na+ K+ ATPase: retira 3 Na+ em troca de 2 K+. 2. Trocador Ca2+ Na+: retira Ca2+ em troca de Na+. 3. Canal de Ca2+ (voltagem dependentes) 4. Bomba de Ca2+: transporta ativamente o Ca2+ do citoplasma para dentro do retículo 5. Canal de Ca2+ do Retículo Sarcoplasmático (RS) Sístole Os estímulos elétricos do nodo sinusal e sistema de condução elétrico cardíaco promovem a abertura de canais de Ca2+ voltagem dependentes. Com isso, há influxo de Ca2+, o qual estimula os canais de Ca2+ do RS a se abrirem, levando ao aumento do Ca2+ intracelular (processo de liberação de cálcio dependente de cálcio). Esse Ca2+ ativa a maquinaria contrátil (filamentos de actina e miosina) e leva à contração do miócito (sístole). Enquanto o Ca2+ intracelular estiver elevado, estará ocorrendo a sístole. Para que ocorra a diástole, portanto, os níveis de Ca2+ intracelular devem diminuir. Diástole A bomba de Na+ e K+ mantém a concentração de Na+ intracelular baixa e a extracelular alta. Assim, há grande diferença de concentrações entre esses dois meios. Graças a essa diferença, o trocador Ca2+ e Na+ age, diminuindo o Ca2+ intracelular. Com isso, há menor interação entre os filamentos de actina e miosina, ocorrendo a diástole. O Ca2+ que veio do LEC precisará sair por meio do trocador e por bombas de Ca2+ presentes na membrana na célula. Já o Ca2+ que saiu do retículo sarcoplasmático, precisa retornar a este, o que se faz por meio de bombas de Ca2+. Mecanismo de ação dos digitálicos Os digitálicos são inibidores da bomba Na+ K+ ATPase. Ao inibirem a bomba Na+ K+ ATPase, há aumento da concentração intracelular de Na+, com consequente inibição do trocador de Ca2+ e Na+. Com o aumento de Ca2+ intracelular, há maior força de contração e mais Ca2+ será transportado para o retículo sarcoplasmático (aumento do armazenamento, permitindo que maiores quantidades de íon sejam liberadas em uma nova sístole). Esses fármacos promovem, portanto, inotropismo positivo (aumentam força de contração). Os digitálicos conseguem atravessar a barreira hematoencefálica e atuam em núcleos no SNC, sobretudo núcleos que controlam a atividade nervosa simpático e atividade vagal. Os digitálicos inibem a atividade nervosa simpática (reduzem descarga adrenérgica no coração). Além disso, atuam aumentando o tônus vagal e a atividade nervosa parassimpática. Esses fármacos promovem, portanto, cronotropismo negativo (reduzem FC). Quando o digitálico aumenta o DC, estimula a ativação de barorreceptores, os quais inibem o centro vasomotor diminuindo a atividade nervosa simpática e aumentando a atividade nervosa parassimpática. Os bloqueios atrioventriculares podem ser intensificados pelo uso de digitálicos por aumentarem a descarga colinérgica, isto é, parassimpática no coração. Parâmetros farmacocinéticos dos digitálicos Os parâmetros farmacocinéticos são desvantajosos, visto o baixo índice terapêutico: a faixa sérica desejada é de 0,5 a 2,2 ng/mL e a partir de 2,5 ng/ mL, o digitálico tem efeito tóxico no organismo. Risco de intoxicação digitálica Na maior parte das vezes, os pacientes que usam digitálicos são idosos. Tendo em vista que muitos deles apresentam prejuízo na metabolização e Geovana Sanches - TXXIV excreção renal de drogas, há maior risco de intoxicação. Os pacientes com IC graves podem apresentar Doença Renal Crônica. Assim, a excreção da digoxina fica diminuída, aumentando o t1/2 do digitálico → maior risco de intoxicação. O t1/2 é longo (36 a 40 horas), por isso, em caso de intoxicação não é possível esperar o fármaco ser excretado. Quando a concentração do K+ no LEC está aumentada, a bomba de Na+ e K+ adquire uma conformação que geralmente não é apta a ligação da digoxina. Por outro lado, a redução do K+ pode desencadear hipocalemia, assim a bomba Na+ e K+ pode estar mais apta para se ligar ao digitálico, aumentado risco de intoxicação digitálica. Sinais e sintomas da intoxicação digitálica • Anorexia • Náusea e vômito • Diarreia • Desorientação e alucinações • Convulsões • Arritmias (bradiarritmias) Os digitálicos aumentam a qualidade de vida do paciente com IC, mas não reduzem a mortalidade. É necessário monitorar o K+, função renal e concentração da digoxina em pacientes que fazem uso de digitálico. Em caso de intoxicação por digoxina há a possibilidade de administração de K+, pois desloca a digoxina que estava ligada na bomba. ANTIARRÍTMICOS ELETROFISIOLOGIA CARDÍACA O coração apresenta automatismo, ou seja, capacidade do coraçãode gerar seus próprios impulsos nervosos e ritmicidade. Isso é desencadeado pelo nodo sinusal (ou sinoatrial), o qual é nosso marcapasso natural e é constituído por fibras autoexcitáveis. O repouso do nodo sinusal parte de aproximadamente -55mV, estando próximo do limiar de excitabilidade. A fase de repouso é caracterizada pela entrada lenta e espontânea de Na+ através dos canais. Com isso, facilmente o limiar de excitabilidade é atingido, entrando-se na fase de despalorização. A despolarização ocorre pela entrada de Ca2+ e Na+ (de forma menos significativa). A repolarização, por sua vez, é feita pelo efluxo do K+. Sistema de condução As correntes elétricas causadas a partir da despolarização do nodo sinusal se propagam por todas as fibras atriais através das junções comunicantes, até chegarem às fibras de Purkinje. Essas, por sua vez, estimulam a musculatura ventricular, promovendo a sístole. Há um atraso na condução de corrente elétrica no nodo atrioventricular, o qual garante que o átrio contraia antes do ventrículo à evento fisiológico. Entretanto, há pacientes com bloqueio atrioventricular, os quais apresentam um atraso muito maior do que o fisiológico. Potencial de ação do músculo ventricular • Fase 0: no repouso, o músculo ventricular apresente cerca de -90 mV de carga elétrica. Quando há um impulso elétrico, há despolarização, causada pela rápida entrada de Na+ para dentro da célula (abertura de canais de Na+ voltagem dependentes - canais rápidos de Na+). • Fase 1: fechamento dos canais de Na+ e abertura dos canais de K+. A saída de K+ promove a repolarização breve. • Fase 2: logo que o efluxo de K+ se inicia, há abertura de canais de Ca2+ , promovendo a entrada desse íon. Isso gera o platô. • Fase 3: com o fechamento dos canais de cálcio e contínuo efluxo de K+, há repolarização. • Fase 4: repouso Geovana Sanches - TXXIV Ritmicidade - Refratariedade • PRE: período refratário efetivo → os canais iônicos estão inativos. • RRP: período refratário relativo A perda ou encurtamento desses períodos predispõe a membrana a perder o seu ritmo e surgimento de arritmias cardíacas. ARRITMIAS CARDÍACAS São alterações na formação e/ ou propagação da excitação que resultam em sequência alterada de excitação atrial, ventricular ou da transmissão átrio- ventricular. As arritmias cardíacas podem alterar débito cardíaco, parâmetros hemodinâmicos, perfusão de tecidos, além de aumentarem o risco de morte súbita no paciente. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS Fármacos utilizados para restabelecer o ritmo cardíaca, tratando as taquiarritmias. Classificação Classe MoA Ia Bloqueio dos canais de Na+ - dissociação intermediária Ib Bloqueio dos canais de Na+ - dissociação rápida Ic Bloqueio dos canais de Na+ - dissociação lenta II Antagonistas do receptor β- adrenérgico III Bloqueio dos canais de K+ IV Bloqueio dos canais de Ca2+ V Miscelânea de fármacos CLASSE I- Bloqueadores de canais de Na+ Os bloqueadores de canais de sódio atuam na fase de repouso do nodo sinoatrial, promovendo uma entrada ainda mais lenta de Na+ → necessário mais tempo para atingir limiar de excitabilidade. Com isso, temos: • ↓ automaticidade das células do nodo sinusal • ↓ FC Os diferentes subgrupos da classe I estão relacionados ao tempo de dissociação da droga com o canal iônico. Classe Ia Bloqueio moderado dos canais de Na+ (dissociação intermediária) e bloqueio dos canais de K+. Essas drogas raramente são prescritas. Exemplos • Quinidina (Quinicardine®) • Procainamida (desuso) • Disopiramida (desuso) Classe Ib Bloqueio leve dos canais de Na+, pois há dissociação rápida. Exemplos • Lidocaína (IV): usado em hospitais em arritmias graves, que não responderam a outros antiarrítmicos. o Pode ser usado como anestésico local. • Mexiletina (desuso) • Fenitoína (VO e IV): é um recurso antiarrítmico, mas é usado principalmente como anticonvulsivante Classe Ic Bloqueio forte dos canais de Na+, pois apresentam dissociação lenta. Exemplos • Encainida (VO) • Flecainida (VO e IV) • Morizina • Propafenona (VO e IV): responde bem em arritmias atriais e supraventriculares. Geovana Sanches - TXXIV CLASSE II - Antagonistas β adrenérgicos Utilizados no tratamento de arritmias causadas por descarga simpática excessiva no coração, a qual causa taquicardia. Antagonistas β1 e β2 • Propranolol Antagonistas β1 • Atenolol • Metoprolol • Acebutalol • Bisoprolol CLASSE III - Bloqueadores de canais de K+ Prolongam o platô e a repolarização, prolongando o período refratário da célula. Exemplos • Amiodarona (VO e IV): o principal mecanismo de ação é o bloqueio de canais de potássio, mas além disso, ela também tem ações de classe I, II e IV. • Ibutilida • Dofetilida • Sotalol (classe II e III) - VO Efeitos colaterais - Amiodarona A infusão intravenosa é bem tolerada, porém em doses altas podem causar descompensação hemodinâmica e hipotensão. Essas reações não são raras e os pacientes devem ser constantemente acompanhados: • Fibrose pulmonar • Retinopatia • Hepatotoxicidade • Neuropatias • Distúrbios de coloração cinza-azulada da pele • Pró-arritmia • Disfunção tireoidiana: é o principal efeito adverso. A molécula do fármaco apresenta dois átomos de iodo e o paciente pode desenvolver hipotireoidismo (mais comum) ou hipertireoidismo • Inibe a conversão periférica de T4 (hormônio ativo) em T3 CLASSE IV - Bloqueadores de canal de Ca2+ Diminuem a frequência de despolarização da fase 0. Exemplos • Verapamil • Diltiazem Cuidado ao usar esses medicamentos que tenham disfunção sistólica, pois o uso desses pode levar a prejuízo ainda maior da contratilidade, levando à piora no quadro do paciente. Não se deve associar amiodarona com bloqueadores dos canais de Ca e nem com β- bloqueador. CLASSE V - Miscelânea de fármacos Adenosina Agonista de receptores purinérgicos, sendo que no coração encontram-se principalmente P1. Há também P2, o qual é receptor de ADP (P2Y12). Quando se administra adenosina, ela atuará no subtipo A1 de receptor purinérgico do miocárdio: aumento da condução dos canais de K+ nas células do nódulo sinusal e AV, reduzindo a automaticidade das células. Indicações • Taquicardia supraventriculares Digitálicos Aumentam a ação colinérgica e diminuem a frequência cardíaca. • Digoxina • Cedilanide Atropina Bloqueia receptores M2, tendo efeito anticolinérgico → diminui ação bradicárdica da Ach. É usado em bradiarritmia. FARMACOLOGIA ASSOCIADA À COAGULAÇÃO SANGUÍNEA HEMOSTASIA Complexo mecanismo desencadeado pelo organismo para coibir uma hemorragia. Esse processo tem como finalidade manter a homeostasia da volemia, ou seja, manter o volume de sangue em aproximadamente 5L. Para que esse processo tenha sucesso, é necessário que construa um tampão (trombo hemostático) na altura da lesão vascular, para que não ocorra trombose ou isquemia distal (lado arterial) ou embolia pulmonar (lado venoso). A resposta deve ser proporcional e reversível. Geovana Sanches - TXXIV Um sangramento no organismo ou a formação de trombos (trombose) são marcadores de um desequilíbrio na hemostasia. MECANISMOS DE HEMOSTASIA • Vasoconstrição → tentativa de minimizar a perda de sangue; o tempo de vasoconstrição é proporcional ao grau de lesão. • Formação do tampão hemostático primário (rico em plaquetas) • Formação do tampão hemostático secundário (rede de fibrinas) • Retração • Fibrinólise Vasoconstrição A vasoconstrição ocorre imediatamente após a lesão de um vaso sanguíneo, com a finalidade de reduzir o fluxo sanguíneo. Para que ela ocorra, há contração miogênica local, a qual é atribuída ao mecanismo neurogênico. Além disso, as células endoteliais circunvizinhasà lesão secretam endotelina, a qual é um potente vasoconstritor. Células endoteliais Quando há uma lesão vascular, as células endoteliais sofrem alterações, adquirindo fenótipo pró-coagulante (sem lesão o fenótipo é anticoagulante). Na lesão ocorrerá exposição das proteínas da MEC, sendo que o colágeno e Fator de Von Willebrand permitem a agregação plaquetária. Fatores liberados pelas células endoteliais e sua relação com a homeostasia • Prostaciclina: proporciona vasodilatação e inibição da agregação plaquetária; • Fator de Von Willebrand: aderência plaqueta- colágeno e transporte de VIII C • Antitrombina III: liga-se à trombomodulina Essa ligação ativa a proteína C, a qual inibe a coagulação sanguínea. • Ativador do plasminogênio tecidual: converte o plasminogênio em plasmina, levando a fibrinólise. Hemostasia primária As plaquetas aderem à fibrila de colágeno e, para que a adesão seja estável, é importante a interação com o fator de Von Willebrand. Após a adesão ao colágeno, a plaqueta é ativada (sofre mudança estrutural) e degranular, liberando ADP e TXA2. Esssas substâncias podem se ligar a ela mesma ou à plaqueta circunvizinha. O conteúdo dos grânulos é responsável por ativar outras plaquetas presentes na circulação sanguínea. Assim, outras plaquetas vão ser recrutadas e vão aderir às plaquetas unidas ao colágeno formando um aglomerado. As plaquetas agregam-se umas às outras por intermédio de pontes de fibrinogênio, as quais apresentam múltiplos sítios de ligação GPIIbIIIa. Com isso, ocorre a agregação plaquetária. A agregação plaquetária leva à formação de um coágulo reversível, friável e rico em plaquetas. • O abciximabe (anticorpo monoclonal) se liga ao GPIIbIIIa, local de ligação do fibrinogênio. Assim, impede a agregação plaquetária. Os receptores relacionados à adesão plaquetária (seja para epinefrina, ADP, tromboxano, trombina ou prostaciclina) convergem para uma maior expressão de GPIIb IIIa. Os receptores de membrana das plaquetas incluem os receptores de glicoproteína GPIa (colágeno) e GPI (FvW). Citoplasma das plaquetas • Moléculas de actina e miosina: permite a contração da plaqueta levando a retração do coágulo • Trombostenina: proteína contrátil • Resíduos de RE e do aparelho de Golgi: sintetizam enzimas e armazenam Ca2+ • Mitocôndrias capazes de formar ATP e ADP • Proteína estabilizadora de fibrina Hemostasia secundária O tampão hemostático primário é “fraco”. Para fortalece-lo e torna-lo mais estável, desencadeia-se a Geovana Sanches - TXXIV hemostasia secundária, na qual há ativação dos seguintes mecanismos: • Coagulação • Anticoagulação • Fibrinólise Ocorre uma cascata de eventos enzimáticos, que deflagra o tampão hemostático secundário. Formação do complexo ativador da protrombina O complexo ativador da protrombina é formado a partir de uma cascata de zimogênios (forma inativa das enzimas) que quando ativadas causam reações sucessivas, em cascata, dos processos de coagulação. As reações não são estequiométricas, ou seja, um fator Xa = 40 unidades IIa. Cada protease ativa o fator seguinte da coagulação culminando com a formação de trombina (fator IIa). A trombina cliva pequenos peptídeos de fibrinogênio, permitindo sua polimerização e formação do coágulo de fibrina. Cascata de coagulação Via intrínseca: todos os componentes da coagulação estão no sangue. Pode ser chamada de via de contato ou via in vitro (pois o sangue coagula a partir do contato com o vidro, sem necessidade de outros fatores). • Início → traumatismo do sangue ou exposição do colágeno • XIIa atua sobre o XI (cininogênio de alto peso molecular -HMW) e acelerada pela pré- calicreína. • Ativação do fator X - fator VIII • Propagação VIIIa e IXa (deficiência desses fatores = hemofilia A e B) • Ativação do XIII (ligações cruzadas nos filamentos de fibrina) • A protrombina e outros zimogênios são continuamente formados pelo fígado na presença de vitamina K • Trombocitopenia • Os fatores V e VIII atuam como cofatores: aceleram a velocidade de transformação de X para Xa e de II para IIa Via extrínseca: alguns dos componentes encontram-se fora do sangue (via in vivo). É iniciada por um trauma tecidual, através da exposição do fator tecidual ou tromboplastina (FT), que apresenta receptor para o VIIa (Ca2+). Com isso, há ativação auto catalítica do fator VII, formando VIIa. O complexo FT-FVIIa ativa fator X, formando Xa, o qual ativa o fator Va. Em conjunto, Xa + fosfolipídeos do FT + fosfolipídeos das plaquetas + Va, são o complexo ativador da protrombina (II). A protrombina, por sua vez, ativa a trombina (IIa), a qual ativa o fator V. Tanto a via extrínseca da coagulação, quanto a via intrínseca acabam na via comum, a qual se inicia no fator Xa, com a conversão da protrombina em trombina. A principal ação da trombina será a conversão do fibrinogênio em fibrina, a qual sofre polimerização à formação do tampão hemostático secundário. Maneiras da trombina interferir na cascata de coagulação → Propriedades coagulantes • Converte fibrinogênio solúvel em fibrina, a qual forma fibras poliméricas insolúveis . • Ativa o fator XIII que estabelece ligações cruzadas entre as fibrinas. • Amplifica a cascata da coagulação ao ativar os fatores V e VIII. • Ativa as plaquetas de modo significativo. Geovana Sanches - TXXIV → Propriedades anticoagulantes Liga-se aos receptores nas células endoteliais intactas liberando: • PGI2 (prostaciclina): antiagregante plaquetário • Óxido nítrico (NO): vasodilatação • t-PA (ativador do plasminogênio): forma plasmina, a qual degrada as fibras de fibrina. • PAI-1 (inibidor plasmático de t-PA). Controle da coagulação sanguínea A coagulação deve ocorrer rapidamente e, no entanto, permanecer confinada à área de lesão. Em cada ponto da cascata de coagulação, mecanismos de retro-alimentação e determinados fatores inibitórios ou ativadores produzem um delicado balanço entre ativação e inibição. MECANISMOS ANTICOAGULANTES Fatores endoteliais superficiais • Células endoteliais intactas têm textura lisa que impede a via intrínseca devido a camada do glicocálice. • Proteína (PTN) ligada à membrana, chamada trombomodulina. o Trombomodulina + trombina → ativa proteína C → inativa fatores Va e VIIa o Vitamina K e proteína S são cofatores para ativação da proteína C. • Lesão endotelial: ativa fator XIIa Antitrombina III (ATIII) • A antitrombina III é uma α2 globulina (proteína plasmática). É o principal inibidor da cascata de coagulação, atuando por meio da inibição da trombina (IIa) e remoção dos fatores IX, X, XI e XII. Além disso, tem atividade potenciada pela heparina (1000x). o A heparina tem pouca atividade anticoagulante, sendo que a ação anticoagulante ocorre quando está ligada à ATIII. o Mastócitos e basofilos no tecido conjuntivo pericapilar sintetizam grande quantidade de heparina. SISTEMA FIBRINOLÍTICO Plasmina A plasmina é produzida a partir do plasminogênio tecidual (tPA) na célula endotelial. O tPA é liberado das células endoteliais em resposta a estase (oclusão vascular) e se liga a fibrina e fibrinogênio pelos resíduos de lisina. As células endoteliais circunvizinhas percebem a diferença no fluxo sanguíneo e, a partir do tPA, há conversão do plasminogênio em plasmina. A plasmina, por sua vez, degrada o coágulo de fibrina, liberando os produtos de degradação. O plasminogênio é sintetizado na forma inativa e somente deve ser ativado dentro do coágulo. Caso contrário, quando se iniciasse a formação do coágulo, imediatamente se desencadearia a fibrinólise. Quando há plasmina livre, tem-se também o α2 antiplasmina, que se liga a essa plasmina para evitar ação lítica sobre um coágulo que está se formando distalmente. O tPA é inativado por proteases circulantes(inibidor do ativador do plasminogênio I - PAI-1). Inibidores fibrinolíticos Antiplasmina • Inativa rapidamente a plasmina. Atua lentamente na plasmina sequestrada no coágulo de fibrina. • Inativa lentamente os fatores XI e XII. Inibidor do Ativador do Plasminogênio 1 (PAI-1) • Inibe a função do Ativador do Plasminogênio Tecidual (tPA) • Também apresenta alguma atividade inibitória sobre a plasmina, trombina, proteína C, fator XII e calicreína. BALANÇO HEMOSTÁTICO No organismo, há um equilíbrio entre os fatores pró e anticoagulantes. FARMACOLOGIA DA CASCATA DE COAGULAÇÃO • Antiagregantes plaquetárias: preventivos e curativos • Antagonistas de vitamina K: sem essa vitamina, não temos a síntese de vários fatores da coagulação. Exemplo: warfarina • Heparinas: atividade antitrombina III • Inibidores diretos de trombina Geovana Sanches - TXXIV • Trombolíticos ou fibrinolíticos: utilizados apenas em emergências. Os fármacos atuam na cascara de coagulação, pois há situações em que ocorre uma coagulação indesejada ou para facilitação da coagulação. Desordens da coagulação → Redução da coagulação • Anticoagulantes • Antiagregantes plaquetários • Trombolíticos Facilitação na coagulação • Reposição dos FC VII, IX e vit K • Inibidores do plasminogênio TROMBOSE Trombose ou Doença tromboembólica tem diversas consequências graves, como IAM; acidente vascular cerebral; trombose venosa profunda; embolia pulmonar. Os trombos podem ser classificados em: 1. Trombos brancos • Antiplaquetários e fibrinolíticos • Característicos do lado arterial • Há muitas plaquetas 2. Trombos vermelhos • Anticoagulante, como heparina e varfarina • Característicos do lado venoso Obs.: o risco de trombose cresce 26% a cada duas horas de vôo (pressurização + ar condicionado), o que não ocorre em viagens via terra. FARMACOLOGIA DAS DROGAS QUE ATUAM NO SANGUE Droga ideal • Deve impedir a trombose patológica e limitar a lesão de reperfusão • Resposta normal à lesão vascular e limitar o sangramento • Preservar o complexo iniciador (FT- VIIa) com atenuação da fase de propagação do coágulo • Risco: aumento de sangramento FÁRMACOS ANTIPLAQUETÁRIOS As plaquetas desempenham papel crítico na doença tromboembólica. Os fármacos antiplaquetário são utilizados tanto para a prevenção quanto para o tratamento de doenças tromboembólicas. Eles agem sobre alguma das etapas da formação do tampão hemostático primário. Os inibidores plaquetários incluem: • Salicilatos • Inibidores da fosfodiesterase • Bloqueadores de ADP • Inibidores da glicoproteína GPIIb IIIa Ácido acetilsalicílico – Aspirina® É a droga antiagregante plaquetária mais utilizada, pois apresenta boa segurança e um bom custo-benefício. MoA O principal efeito do AAS nas plaquetas é a inibição da formação de TXA2, a partir do ácido aracdônico pela acetilação irreversível da enzima cicloxigenase (COX). Tendo em vista que a plaqueta não possui núcleo, ela não sintetizará outra COX. • Altera equilíbrio entre TXA2 (plaqueta) e PGI2 (endotélio) • Inibe a COX - não seletiva • PGI2: o endotélio sintetiza novas enzimas para regeneração da COX 1 e via COX 2 (pois ele possui núcleo). Utilização • Prevenção e tratamento do IAM • Prevenção e tratamento de acidentes vasculares encefálicos • Dose: 100 mg (e não 500 mg como é usada para cefaleia). Eventos adversos • Relacionados a dose: a maioria gastrointestinal • Pode produzir ou induzir broncoespasmo em asmáticos (limitação de uso) O uso de AAS deve ser suspendendido de 7 a 10 dias antes de cirurgias, pois haverá tempo de novas plaquetas surgirem a partir da medula óssea, evitando uma grande hemorragia durante a cirurgia. Dipiridamol (Persantin®) e Cilostazol São inibidores da fosfodiesterase e impedem a decomposição do AMPc nas plaquetas. O aumento intracelular de AMPc leva a diminuição da agregação plaquetária, pois diminui a expressão de GPIIbIIIa. Geovana Sanches - TXXIV Os níveis de AMPc na plaqueta são regulados por TXA2 e PGI2. Utilização • Adjuvante da varfarina na prevenção de complicações tromboembólicas pós- operatórias a próteses valvares cardíacas. • Em combinação com a aspirina em isquemia vascular cerebral. Efeitos adversos Os efeitos adversos limitam sua utilização terapêutica. • Hipotensão • Desconforto abdominal • Erupções cutâneas Clopidogrel, Ticlopidina e Prasugrel São pró-fármacos antagonistas do receptor P2Y12 (ADP). Eles bloqueiam irreversivelmente o receptor para ADP nas plaquetas, reduzindo a agregação plaquetária. São considerados como as principais alternativas à aspirina na prevenção de eventos tromboembólicos em pacientes aterogênicos. Efeito aditivo ao AAS. A ticlopidina tem um efeito demorado- de 3 a 5 dias para surgir. Utilização • Associação de Clopidogrel + AAS na síndrome coronariana aguda reduz a mortalidade Efeitos adversos • Ticlopidina: neutropenia e agranulocitose, o que limita o uso. • Clopidogrel: aumento da possibilidade de sangramentos. Abciximabe, Eptifibatide e Tirofiban São bloqueadores da glicoproteína GPIIB IIIa. Abciximabe é um anticorpo monoclonal; Epifibatide e o Tirofiban são pequenas moléculas antagonistas de GPIIb IIIa. Essas substâncias impedem a interação do fibrinogênio com a glicoproteína. Utilização • Tratamento de síndromes coronarianas agudas (na vigência do infarto) • Prevenção da isquemia cardíaca aguda enquanto o paciente está sob procedimento angioplástico Efeitos adversos • Reações de hipersensibilidade ao uso de abciximabe • Sangramento para os antagonistas. FÁRMACOS ANTICOAGULANTES Nos estados hipercoaguláveis, o risco de formação de trombos é elevado e o tratamento farmacológico tem o objetivo de impedir a formação patológica de coágulos. Os anticoagulantes podem ser utilizados no tratamento e prevenção. Anticoagulantes parenterais • Inibidores indiretos da trombina- Heparina • Inibidores diretos da trombina- Lepirudina Anticoagulantes enterais • Antagonistas da vitamina K- Varfarina • Anticoagulante oral de ação direta • Inibidor direto da trombina • Inibidor direto do fator Xa. ANTICOAGULANTES PARENTERAIS Mecanismos endógenos de anti-coagulação • PGI2 e NO inibem a ativação das plaquetas • ATIII inibe as enzimas da via extrínseca, intrínseca e comum • Sulfato de heparan sintetizado pelo endotélio (1000x ação de ATIII aumentada) • PTN C + PTN S → degradação dos fatores Va e VIIa • TFPI fração lipoproteica do plasma ligado às células endoteliais. Inibidores indiretos da trombina 1. Heparina não fracionada A heparina não fracionada (de alto peso molecular) foi por muitos anos a única opção dos clínicos ao escolher um anticoagulante parenteral. Ela é extraída da mucosa intestinal suína. Atualmente, podem ser administradas formas mais seletivas de heparina: • Heparina de baixo peso molecular (HBPM) • Fondaparinux (pentassacarídeo sintético) Mecanismo de ação A heparina não fracionada se liga à antitrombina III e age inibindo os fatores Xa e IIa. Heparina + antitrombina III → alteração da conformação → expõe o sítio ativo da antitrombina → aumenta 1000x a capacidade de ligação à trombina. O t1/2 é curto e ela é metabolizada por heparinase no fígado quando degradada por células endoteliais. A heparina atua como cofator, sendo liberada intacta para ligar-se a molécula de ATIII. Farmacocinética • Apresenta grande variabilidade individual (depende da quantidade de ATIII que o indivíduo produz). • Início de ação imediato. • Liga-se às proteínas plasmáticas. • Em casos de emergência usa-se IV ou subcutânea (injeção em bolus, ou seja, não é necessária uma administração lenta) • Exige monitoração: o tempo de sangramento deve ser acompanhado para que não ocorra hemorragia.• Não atravessa a placenta e não tem sido associada a malformações fetais. Geovana Sanches - TXXIV Utilização • Fármaco de primeira escolha na TVP, embolia pulmonar ou IAM • Tratamento inicial de pacientes com angina estável • Angioplastia ou colocação de stent • Cirurgia com derivação cardiopulmonar Toxicidade • Sangramento é o principal efeito adverso e, caso ocorra, deve-se suspender o uso da droga. O efeito anticoagulante desaparece em horas. • Idosos e pacientes com insuficiência renal são mais propensos à hemorragia • Heparinoterapia a longo prazo pode levar ao desenvolvimento de osteoporose e reações de hipersensibilidade • TIH = trombocitopenia induzida por heparina: estado hipercoagulável sistêmico que pode ocorrer em 0,5% dos pacientes, com tratamento mínimo de 7 dias. Deve-se suspender a heparina e administrar inibidor direto da trombina ou fondaparinux. 2. Heparina fracionada (HBPM) - Enoxaparina, Dalteparina e Tinzaparina Inibem acentuadamente o fator Xa. Farmacocinética • Há menor ligação inespecífica às proteínas plasmáticas • Resposta anticoagulante mais previsível, menor variabilidade • SC - não há necessidade de monitoramento Utilização • Complicações isquêmicas associadas à angina estável • Prevenção de tromboembolia venosa Toxicidade • Sangramento • Menor risco de TIH e osteoporose 3. Fondaparinux É um pentassacarídeo sintético, alternativo de HBPM. Faz a inativação do fator Xa. Potencial menor de reações de hipersensibilidade, com menor tendência de TIH. t1/2: 15 horas após administração SC com dose única diária. Não há antídoto, o que limita o uso clínico. Utilização • Aprovado para trombofilaxia na cirurgia de quadril e joelho • Mostra-se efetivo na prevenção de TVP. Toxicidade • Sangramento Reversão da ação da Heparina: Sulfato de protamina Mistura de polipeptídeos básicos isolada do esperma de salmão. Administração intravenosa de antagonista específico. A dose é estimada a partir da dose de heparina administrada → deve ser administrada em dose equimolar, pois o sulfato de protamina possui efeito anticoagulante próprio à interage com plaquetas, fibrinogênio, proteínas plasmáticas. Inibidores diretos da trombina: Lepirudina, Bivalirudina, Argatrobana, Desirudina Há ligação direta no local ativo da trombina, independente de ATIII. Lepirudina é uma forma recombinante de hirudina, proteína derivada das sanguessugas. É um inibidor bivalente; se liga ao sítio catalítico da IIa e ao local de reconhecimento do substrato. Desirudina: usada em cirurgia de substituição de quadril. Argatrobana: moléculas pequenas e se ligam ao local ativo da IIa. Pode ser utilizada em pacientes com TIH. ANTICOAGULANTES ENTERAIS Administrados via oral. Antagonista da vitamina K- Varfarina Descoberta em 1920 e utilizada inicialmente como rodenticida (dicumarol), um veneno de rato. Inibe a síntese de fatores da coagulação dependentes de vitamina K, sendo eles: II, VII, IX, X e também as proteínas C e S (são sintetizados no fígado inativos e exigem CO2, O2 e vit. K reduzida para reação de carboxilação). Farmacocinética Tem início de ação lento, pois é necessário que haja remoção dos fatores de coagulação já sintetizados II, VII, IX e X. Efeito anticoagulante resulta de um equilíbrio entre a síntese parcialmente inibida e a degradação inalterada dos 4 fatores da coagulação dependentes de vitamina K. A biodisponibilidade é baixa e há alta taxa de ligação às proteínas plasmáticas (97 a 99%). Baixo volume de distribuição. Biotransformação e eliminação: o fármaco é uma mistura racêmica de 2 enantiômeros, observação Geovana Sanches - TXXIV útil para compreender a estereosseletividade de várias interações medicamentosas. Os metabólitos são secretados na urina e nas fezes. Uso clínico • Trombose arterial e venosa; profilaxia e tratamento de TVP ou TEP • Tratamento profilático de pacientes com fibrilação atrial para prevenção de trombos murais (que estejam em uso de AAS). • Pacientes com próteses valvares cardíacas. • Adjuvante na oclusão de artérias coronarianas. Efeitos adversos • Risco de hemorragia Contraindicação • Gravidez (devido ao risco de defeito congênito e aborto) • Tendências hemorrágicas de qualquer tipo • Doenças renais ou hepáticas graves • Alcoolismo crônico • Deficiência de vitamina K • Hipertensão maligna Antídoto • Interromper a terapia no caso de sangramentos leves • Administrar vitamina K em casos de sangramentos graves. Interações farmacológicas com os anticoagulantes orais → Potencialização do efeito anticoagulante Aumenta possibilidade de sangramento. • Doença hepática interfere com a síntese dos anticoagulantes: fatores da coagulação não são produzidos • Fármacos que inibem a /s enzimas do P450 (2C9): Amiodarona, Clopidogrel, Fluoxetina, Metronidazol • Fármacos que inibem a função plaquetária: AINES • Fármacos que deslocam a varfarina do seu sítio de ligação a albumina plasmática: alguns AINES e hidrato de cloral. • Fármacos que inibem a secreção de vitamina K: cefalosporinas • Fármacos que diminuem a disponibilidade de vitamina K: antibióticos de amplo espectro - efeito pequeno a não ser que tenha uma deficiência diabética concomitante. → Diminuem o efeito anticoagulante Pode levar a formação de um trombo. • Alimentos ricos em vitamina K antagonizam o efeito anticoagulante (antagonismo competitivo). • Deve-se ter um controle dos alimentos fontes de vitamina K, mantendo um limiar adequado • Inibe a absorção da varfarina: colestiramina • Drogas que induzem as enzimas P450 (2C9): rifampicina, barbitúricos, carbamazepina. → Interação com os 4Gs Aumenta a chance de sangramento. • Fitoterápicos com efeito anticoagulante: alfafa, angélica, semeste de anis, arnica, aipo, boldo, camomila, castanha-da-índia, dente-de- leão, Gengibre, Ginkgo biloba, salsa, tamarindo, salgueiro, urtiga, álamo e sálvia. • Fitoterápicos com propriedades anticoagulantes ou fibrinolíticas: alho (garlic) e Ginseng. Vitamina K nos distúrbios hemorrágicos Vitamina K - Koagulation (alemão) à vitamina lipossolúvel encontrada nos vegetais verdes. Confere atividade biológica a protrombina e aos fatores VII, IX, X. • K1: fitonadiona - alimentos • K2: menaquinonas - bactérias • K3: menadiona- composto sintético a ser convertido em K2 no intestino. • K1 e K2: requerem sais biliares para serem absorvidas. Uso clínico • Estoque baixo no organismo • Tratamento e/ou prevenção de sangramento: o Por tratamento excessivo com anticoagulante oral (varfarina) o Em bebês para prevenir a doença hemorrágica do RN o Para deficiências de vitamina K em adulto (ausência de bile na icterícia obstrutiva). Anticoagulantes orais de ação direta 1. Dabigatrana Inibidor direto da Trombina (IIa). Bloqueio competitivo e reversível do local ativo de trombina livre ou ligada ao coágulo. Bloqueia a conversão de fibrinogênio em fibrina. É um pró-fármaco que é ativado no plasma. Baixa disponibilidade via oral (6%). Utilização • Tratamento do tromboembolismo venoso agudo (heparina prévia) • Não exige monitoramento. 2. Rivaroxabana, apixabana e edoxabana Inibidor direto do fator Xa. Inibem Xa livre ou associado ao coágulo, diminuindo a geração e trombina. Biodisponibilidade de 80% - rivaroxabana. Utilização • Prevenção de AVE em pacientes com fibrilação atrial; TVP e TEP • Não exige monitoramento roteiro a coagulação. Geovana Sanches - TXXIV FIBRINOLÍTICOS Drogas usadas apenas na vigência da formação de um trombo. Os agentes fibrinolíticos ou trombolíticos são as únicas substâncias que efetuam a lise de trombos e levam a restauração da perfusão tecidual. Esses fármacos facilitam a conversão do plasminogênio em plasmina. O ativador de plasminogênio tecidual (t-PA)- ativador endógeno de plasminogênio é liberado pelas células endoteliais em resposta à estase produzida pela oclusão vascular e encontra-se co-localizado à fibrina. Variantes recombinantes do tPA- Alteplase, Reteplase e Tenecteplase • Tenecteplase é “resistente” a inibição por PAI- 1 • t1/2 plasmática mais longo • Ativa preferencialmente o plasminogênio que está ligado à fibrina • Estado lítico generalizado, levando a sangramentos (principal toxicidade) Uso terapêutico • IAM (↓ 60% da mortalidade - Δt = 3 horas). Não é recomendado administrar se o IAM ocorreu há mais de 12 horas, pois o trombo já está estabelecido. • TVP • Embolia pulmonar Contraindicações dos fibrinolíticos → Absolutas (não usar nunca) • Hemorragia intracraniana anterior a 3 meses • Lesão vascular cerebral estrutural conhecida • Neoplasia intracraniana conhecida • AVE isquêmico nos últimos 3 meses • Suspeita de dissecção aórtica • Sangramento ativo (exceto menstruação) • Trauma craniano → Relativas (relação custo-benefício) • HAS não controlada • RCP traumática ou prolongada • Sangramento interno recente (últimas 3 semanas) • Punção vascular não compressível • Gravidez • Uso corrente de Varfarina ANTIINFLAMATÓRIOS INFLAMAÇÃO A inflamação é a capacidade do organismo de desencadear uma resposta inflamatória, sendo fundamental à sobrevivência, em vista dos patógenos e lesões ambientais, embora em algumas situações e doenças a resposta inflamatória possa ser exagerada e persistente, sem qualquer benefício aparente (exemplo artrite reumatóide). O processo inflamatório é desencadeado por vários estímulos, como agentes infecciosos, isquemia, interações Ag-Ac, lesão térmica e agentes físicos. Macroscopicamente, caracteriza-se pelos sinais cardinais ou flogísticos: rubor, tumor, calor, dor e perda de função. Independente da causa, a inflamação caracteriza-se pelo extravasamento e infiltração de leucócitos no tecido inflamado. Os principais benefícios da inflamação são a reparação tecidual e defesa do organismo. Por outro lado, os malefícios incluem a destruição tecidual, com proliferação de tecido conjuntivo, neoformação vascular e fibrose, resultando na formação de tecido cicatricial. CASCATA DA INFLAMAÇÃO AÇÃO DAS PROSTAGLANDINAS Estômago- PGE2 • ↓ prótons - [H+] • ↑ síntese de muco o Citoproteção gástrica • ↑ perfusão sanguínea Vasos • Formação de TXA2 → ativação das plaquetas → agregação plaquetária • Relaxamento do músculo liso vascular (vasodilatação) Rins • Auxilia na perfusão medular / perfusão sanguínea Geovana Sanches - TXXIV • Adaptação à sobrecarga de sal e deficiência de água • Auto regulação do fluxo sanguíneo renal (PGE2 e PGI2) tem ação oposta à vasoconstrição imposta por NE e Angiotensina II Processo cicatricial • Auxiliam no processo de cicatrização. Pós evento cirúrgico é comum a prescrição de anti-inflamatório para diminuir a dor e o edema. Entretanto, ele deve ser suspenso após um período de tempo, pois caso haja continuidade da administração do anti-inflamatório há prejuízo na formação de tecido cicatricial. Endotélio- PGI2 • Inibe agregação plaquetária quando o vaso está íntegro • Vasodilatação Útero • Processo de nidação • Início do trabalho de parto (contração do miométrio) Hipotálamo • Febre - PGE2 Terminações nociceptivas periféricas • Hiperalgesia (sensibilização das terminações nociceptivas periféricas) PAPEL FISIOLÓGICO DAS CICLOXIGENASES (COXs) NA HEMOSTASIA FISIOPATOLOGIA DAS COXs COX 1- constitutiva Responsável pelo controle de homeostasia: citoproteção gastrointestinal; atividade plaquetária; função renal; resposta inflamatória na fase aguda (menor expressão do que a COX 2). COX 2- induzida Sua expressão é induzida pelo processo inflamatório e, portanto, ela é encontrada apenas no tecido inflamatório. É responsável pelos sinais flogísticos, como dor e calor. COX 2- constitutiva Está relacionada com função renal e vasodilatação coronariana. ANTI-INFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDAIS OU NÃO HORMONAIS: AINES Para ser considerado um AINE, o fármaco precisa apresentar três características: efeito analgésico, efeito antipirético, efeito anti-inflamatório. Nem todos os agentes possuem as 3 ações em graus semelhantes; o AAS, por exemplo, tem baixo efeito anti-inflamatório. Trata-se de um MIP, ou seja, medicamento vendido sem prescrição médica. Os AINES representam um grupo heterogêneo de fármacos. Embora a maioria deles sejam ácidos fracos, nem sempre são quimicamente relacionados. São altamente lipofílicos e compartilham o mecanismo de ação (inibição da COX), efeitos terapêuticos e efeitos indesejáveis. Mecanismos de ação Inibidores da COX1 e COX2. Existem fármacos não seletivos e seletivos para a COX 2. Reduzem a síntese de prostaglandinas (PGs). Ação antipirética • Reduz a temperatura corporal elevada. • Inibe a produção de PG induzida pelos pirógenos. • Inibe a resposta no SNC à PGE2 - hipotálamo (controle da temperatura corporal - equilíbrio entre perda e produção de calor). • COX 2 pode ter participação pois é induzida por IL-1 no endotélio vascular cerebral. Ação analgésica e anti-inflamatória • Inibição da síntese de prostanóides (PGE2 e PGI2) que sensibilizam nociceptores e produzem vasodilatação. • Reduz indiretamente o edema. • Não é reduzido o acúmulo de células inflamatórias. • AINEs utilizados para dor leve ou moderada (1 a 3 - dor leve; 4 a 6 - dor moderada) o Dores moderadas a fortes → associar a opióide ou apenas opióide. • Eficazes: artrite, bursite, dores de origem muscular. Ação antiagregante plaquetária Trata-se de um efeito colateral dos anti- inflamatórios, mas, no caso da aspirina, utilizada para efeito terapêutico. • Inibição da síntese do tromboxano. • Inibem a ativação plaquetária e consequente agregação plaquetária. • Prolongam o tempo de sangramento. • Dose de aspirina de 100 mg → inibe a COX de forma irreversível e por isso, é o único AINE utilizado como antiagregante plaquetário. CLASSIFICAÇÃO QUÍMICA Ácido carboxílico • Ácido salicílico e ésteres: Aspirina • Ácido acético Geovana Sanches - TXXIV o Ácido Fenilacético: Diclofenaco o Ácidos carbo e Heterocíclico: Indometacina e Etodolac • Ácido propiônico: Cetoprofeno, Naproxeno e Ibuprofeno • Ácido Fenâmico Ácidos enólicos • Pirazolonas: Fenilbutazona • Oxicams: Meloxicam e Piroxicam Não acídicos Nabumetona e Nimesulida (prescriva como anti- inflamatório). Coxibs Seletivos para COX 2. Exemplos: Celecoxib, Rofecoxib, Valdecoxib, Etoricoxib, Parecoxib e Lumiracoxib. EXEMPLOS Formas farmacêuticas: comprimidos, injeções, géis, cremes. FÁRMACO NOME COMERCIAL Aceclofenaco Proflam® Ácido mefenâmico Ponstan® Cetoprofeno Profenid® Diclofenaco Voltaren®, Cataflan® Diflunisal Dolobid® Dipirona Novalgina®, Anador® Etodolaco Flancox® Fenilbutazona Butazona cálcica® Fenoprofeno Trandor® Flurbiprofeno Strepsils® Ibuprofeno Alivium® Indometacina Indocid® Meloxicam Movatec® Naproxeno Flanax® Piroxicam Feldene® Tenoxicam Tilatil® Celocoxibe Celebra® Cetorolaco Cetrolac® Ácido acetilsalicílico Aspirina® Nimesulida Nisulid® Paracetamol ou Acetaminofeno Tylenol® UTILIZAÇÃO • Artrite reumatoide (não reduzem a progressão da doença) • Osteoartrite • Dor ou inflamação músculo esquelética; • Dor pós-operatória; • Cefaléia; • Dor odontológica; • Dismenorreia • Alívio sintomático da febre; • Antiagregante plaquetário (ácido salicílico) Efeitos adversos tipicamente associados aos AINEs • Gastrointestinais o Dispepsia / dor o Úlceras o Sangramentos, perfuração • Plaquetas o Diminuição de agregação o Aumento do sangramento • Hepático o Alterações enzimáticas • Renal o Diminuição da filtração glomerular (pode evar à insuficiência renal aguda) Efeitos indesejáveis comuns• Carga de efeitos colaterais indesejáveis é alta • Efeitos gastrointestinais intensos (perfurações, úlceras ou hemorragias), náuseas e vômito • Largamente utilizados por idosos em uso crônico (15% de morte iatrogênica) • Uso crônico pode levar a nefrite, síndrome nefrótica ou insuficiência renal aguda (reduz PGE2 e PGI2 - mantém a taxa de filtração renal fluxo sanguíneo renal) • Efeitos hepáticos, baço, sangue e medula óssea • Broncoespasmo em pacientes sensíveis à Aspirina SALICILATOS Exemplos: AAS, aspirina, melhoral, buferin e associações. A Aspirina é o mais antigo dos AINES, sendo o único AINE que atua de forma irreversível, acetilando o resíduo serina do sítio ativo da COX 1 e da COX 2. São utilizados nos resfriados para baixar a temperatura e para reduzir dores de cabeça e musculares. Efeitos indesejáveis dos salicilatos • Distúrbios na homeostasia principalmente em decorrência de uma ação sobre a agregação plaquetária. (Cuidado com o uso crônico como ação antiplaquetária e outro AINE – ibuprofeno - AAS primeiro e depois o outro AINE). • Salicilismo – ingestão repetida de altas doses • Tinido (zumbido no ouvido) • Vertigem, náuseas e vômitos • Síndrome de Reye: distúrbio hepático associado a encefalopatia, principalmente em Geovana Sanches - TXXIV crianças, consequente a infecção viral aguda prévia. • Envenenamento pode ser fatal com alterações no equilíbrio ácido-básico e eletrolítico à acidose e depressão respiratória. PARACETAMOL (ACETOMINOFEN) Ação antipirética e analgesia + fraca ação antiinflamatória. Não compartilha os efeitos adversos gástricos ou plaquetários de outros AINES (COX 3 “splicing” alternativo). Semelhante à dipirona. Em doses terapêuticas apresenta poucos efeitos colaterais, levando a reações cutâneas alérgicas. No uso crônico, já risco de lesão renal. Em doses tóxicas (2 a 3 x a dose terapêutica máxima), ocorre hepatotoxicidade grave e fatal, com necrose hepática, o que é causada pelo metabolismo tóxico N-acetil-p-benzoquinona imina por inativação por acetilcisteína. Há, ainda, toxicidade renal, com necrose. INIBIDORES SELETIVOS DA COX 2 Apresenta eficácia similar a outros AINES e segurança/ tolerância superior a dos AINES não seletivos; tem maior segurança gastrointestinal demonstrada em estudos clínicos. Prescrito em grupos de alto risco, como idosos e em indivíduos que apresentam ulceração e sangramento digestivo ou intolerância. Sem ações plaquetárias relevantes à não substituem o AAS. Efeitos renais semelhantes aos dos demais AINES. Aumento de cardiotoxicidade associado ao uso (inibição da COX 2 → redução da síntese de PGI2 → vasoconstrição da artéria coronária podendo levar a um IAM). REDUTORES DE LIPÍDEOS LIPÍDEOS Os lipídeos são moléculas insolúveis, ou escassamente solúveis em água, essenciais para a biogênese das membranas e a manutenção da integridade das membranas. Também atuam como fonte de energia, precursores de hormônios e moléculas de sinalização. Para facilitar seu transporte pelo ambiente relativamente aquoso do sangue, os lipídios não polares, como os ésteres de colesterol e os triglicerídeos (TGs), são acondicionados dentro de lipoproteínas. Concentrações aumentadas de determinadas lipoproteínas na circulação estão fortemente associadas à aterosclerose. Grande parte da prevalência de doenças cardiovasculares podem ser atribuídas às concentrações sanguíneas elevadas de partículas de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) ricas em colesterol, bem como de lipoproteínas ricas em TGs e concentrações diminuídas de lipoproteínas de alta densidade (HDL). Lipídios de maior relevância • Fosfolipídeos • Colesterol: precursor dos hormônios esteroidais, ácidos biliares e vitamina D, constituinte da membrana plasmática (fluidez na membrana e ativação de enzimas) • Triglicérides (TG): forma de armazenamento energético depositados nos tecidos adiposo e muscular. • Acídos graxos: lipídeos importantes pois compõem os triglicérides. Ácidos graxos saturados Não apresentam duplas ligações entre seus átomos de carbono. São mais frequentes na alimentação: láurico, mirístico, palmítico e esteárico (que variam de 12 a 18 átomos de carbono). Ácidos graxos monoinsaturados O principal exemplo é o ácido oleico (18 carbonos). Ácidos graxos poliinsaturados Os ácidos graxos poliinsaturados são diferenciados de acordo com a presença da primeira dupla ligação entre os carbonos, a partir do grupo hidroxila. Ø Ômega 3: eicosapentaenóico - EPA; docosahexaenoico - DHA. Ø Ômega 6: ácido linoleico e araquidônico. Não podem ser obtidos pela síntese celular, mas podem ser sintetizados a partir dos ácidos linoleico e α-linolênico presentes na dieta. • Lipídeos compostos: Fosfatidilcolina (lecitina); Fosfatidiletanolamina (cefalina); Monoacilglicerol; Diacilglicerol; Triacilglicerol Biossíntese dos androgênios e estrogênios O colesterol é o precursor de diversos hormônios, como: progesterona, corticosteróides (aldosterona e cortisol), testosterona e estradiol. O éster de colesterol contém um grupo éster na região da hidroxila do colesterol, sendo essa reação de substituição catalisada pela enzima acil-transferase com a coenzima A. Nas lipoproteínas, são encontrados ésteres de colesterol e não colesterol. LIPOPROTEÍNAS As lipoproteínas não são consideradas compostos químicos, mas sim uma família de partículas que transportam lipídios, sobretudo TG e colesterol, entre órgãos e tecidos. A estrutura básica das lipoproteínas é comum, variando o tamanho e a proporção entre seus componentes. Uma partícula lipoproteica é composta por um centro contendo lipídios apolares (TG e ésteres de colesterol) e uma membrana de fosfolipídeos que constitui o limite externo da partícula e sua interface Geovana Sanches - TXXIV com o plasma. Nessa membrana estão inseridas várias apoproteínas, que diferem segundo o tipo de partícula. Apolipoproteínas ou apoproteínas se associam aos lipídios de superfície e ao cerne (centro) hidrofóbico. Elas proporcionam estabilidade estrutural à partícula de lipoproteína e atuam como ligantes de receptores de superfície celular específicos ou como cofatores de reações enzimáticas. Comparação entre as lipoproteínas • Tamanho: quilomícron > VLDL > LDL > HDL • Peso: HDL > LDL > VLDL > quilomícron O quilomícron é maior e mais leve por apresentar alta proporção de lipídios (especialmente TG). À medida que o tamanho da partícula diminui, aumenta a densidade, pois a proporção relativa de proteínas (apoproteínas) aumenta. Quilomícrons Os quilomícrons são sintetizados pelos enterócitos. Após secreção, ao entrar em contato com as partículas de HDL no plasma, adquirem a apolipoproteína apoC-II, o que é essencial para a interação dos quilomícrons com a lipoproteína lipase (LPL). A apoB-48 também é importante. Quando os quilomícrons e as partículas de VLDL adquirem apoC-II podem se ligar à LPL, enzima lipolítica que hidrolisa os TGs do cerne da lipoproteína. Na circulação, os quilomícrons são metabolizados na superfície luminal capilar dos tecidos que sintetizam LPL, incluindo o tecido adiposo, os músculos esqueléticos e cardíaco e o tecido mamário durante a lactação. Os ácidos graxos livres resultantes são captados e usados pelos tecidos adjacentes. Durante a hidrólise inicial dos TGs de quilomícrons pela LPL, a apoA-I e os fosfolipídios se desprendem da superfície dos quilomícrons e permanecem no plasma. As HDL nascentes (precursora) recolhem essas substâncias. Os remanescentes de quilomícrons desprendem-se da superfície capilar, são sequestrados pela interação da apoE com proteoglicanas de sulfato de heparana na superfície dos hepatócitos e processados pela lipase hepática, reduzindo ainda mais o conteúdo de TGs remanescentes. VLDL (Very Low Density Lipoproteins) São sintetizadasbasicamente no fígado para exportação de TG para os tecidos, especialmente para o tecido adiposo. A apoB-100, a apoE, apoC-I, C-II e C-III são sintetizadas constitutivamente pelo fígado e incorporadas às VLDL antes da secreção, porém a maior parte dessas apoproteínas é adquirida a partir da HDL plasmática após a secreção de VLDL pelo fígado. Ao passar pelos capilares, boa parte dos TGs são retirados pela enzima lipase lipoproteica, de modo que a partícula fica menor, mais densa e mais rica em colesterol. Esta forma intermediária é conhecida como IDL (intermediate density lipoprotein). Cerca de 40 a 60% da VLDL e IDL que contém apoB-100 são depuradas do plasma pelo fígado por meio de uma interação mediada por apoB-100 e apoE com os receptores de LDL e com as proteínas relacionadas com o receptor de LDL. A LPL e a HL convertem o restante das IDL em LDL rela remoção de TGs adicionais. As apoproteínas C, a apoE a apoA-V se redistribuem nas HDL. A apoE e apoC-II perdem sua afinidade pela partícula e são transferidas para as HDL, deixando apenas apoB100 na LDL. Geovana Sanches - TXXIV Metabolismo intravascular das lipoproteínas contendo apoB100 A principal função das proteínas contendo apoB consiste em fornecer ácidos graxos na forma de TG ao tecido muscular para uso na biogênese do ATP e ao tecido adiposo para armazenamento. Vale lembrar que a lipoproteína lipase medeia a hidrólise dos TG, mas não dos ésteres de colesterol do cerne da partícula de lipoproteína. Quilomícrons e VLDL Essas partículas são sintetizadas e secretadas por mecanismos semelhantes no enterócito e hepatócito, respectivamente. Os triglicerídeos são sintetizados no retículo endoplasmático e são transferidos pela proteína de transferência microssômica de TG (PAM ou PTM) até o local do retículo endoplasmático onde a apoB-100 recém sintetizada está disponível para formar a VLDL nascente (precursora) ou a apoB-48 (sintetizada nos enterócitos) para formar os quilomícrons. Os quilomícrons são formados no intestino e transportam TGs provenientes da dieta. As partículas de VLDL são formadas no fígado e transportam TGs sintetizado endogenamente. LDL (Low Density lipoproteins) As LDL são resultantes do catabolismo das VLDL, com conversão das IDL através da hidrólise de TG e perda de apoproteínas. São ricas em ésteres de colesterol, e são a principal forma de distribuição de colesterol aos vários tecidos, sendo este necessário para síntese de membranas e hormônios. Contém apoB-100 (ponto de interação dos os receptores de LDL). As LDL são captadas pelas células mediante receptores de membrana especiais, produzidos pela célula à medida de sua necessidade de importar colesterol. O fígado capta a LDL que não foi captada por outros órgãos. A falta dos receptores de LDL é responsável pela hipercolesterolemia familiar, uma doença caracterizada por aterosclerose intensa e precoce. A ligação da apoproteína B100 a receptores LDL nos hepatócitos ou outras células promove a internalização das LDL em vesículas endocíticas e fusão dessas vesículas com lisossomas. Os receptores de LDL são reciclados para a superfície celular, enquanto as partículas de lipoproteínas são hidrolisadas a aminoácidos, liberando colesterol livre. O colesterol intracelular possui 3 efeitos reguladores sobre a célula: • Diminui a atividade da HMG coA redutase • Ativa a ACAT (acetilCoA colesterol aciltransferase) • Inibe a transcrição de gene que codifica o receptor de LDL (diminui captação adicional de colesterol pela célula). HDL (High Density Lipoproteins) Originam-se basicamente do fígado (maior quantidade) e intestino na forma de bicamadas discóides de fosfolipídeos. Possuem apoAI, apoCII e apoE. São as menores lipoproteínas e chegam a ter 57% de proteínas (contra 1% dos quilomícrons). No plasma, captam colesterol não esterificado e o incorporam em seu centro hidrofóbico, entregando-o aos hepatócitos para catabolismo. Agem, portanto, como “lixeiros” de colesterol (transporte reverso de colesterol). O transportador de membrana ABCA1 facilita a transferência de colesterol livre das células para as HDL, que depois é esterificado pela lecitina colesterol- aciltransferase. Geovana Sanches - TXXIV Os ésteres de colesterol esterificado (ou ésteres de colesteril) dessas partículas são trocados por TG derivados de qualquer uma das lipoproteínas (quilomícrons, VLDL, lipoproteínas remanescentes e LDL). Essa troca, que é mediada pela proteína de transferência de ésteres de colesteril (CETP), é responsável pela remoção de cerca de ⅔ do colesterol associado às HDL nos seres humanos. As principais apolipoproteínas das HDL são a apoAI e a apoAII. A apoAI é o principal determinante estrutural das HDL e participa na formação e na interação da partícula com o seu receptor (receptor de depuração classe B, tipo 1 - SR-B1). Mutações no gene da apoAI que causam deficiência de HDL estão associadas à aterogênese acelerada. A função da apoAII ainda não está bem esclarecida, mas acredita-se que a apoAII pode ser ateroprotetora. A concentração de HDL é inversamente relacionada à incidência de aterosclerose coronária, talvez refletindo sua eficiência em remover colesterol. LP(a) Constituída por uma partícula de LDL que possui uma segunda apoproteína, apo(a), além da apo B100. A apo(a) da LP(a) está estruturalmente relacionada com o plasminogênio e parece ser aterogênica. Ela contém ésteres de colesteril e sua via catabólica não é conhecida. APOLIPOPROTEÍNAS → apo A-I • Síntese: fígado e intestino • Função: estrutural nas HDL, cofator de LCAT; ligante do receptor de ABCA1; transporte reverso de colesterol → apo B-100 • Síntese: intestino • Função: proteína estrutural de VLDL, IDL, LDL, ligante do LDRL → apoB-48 • Síntese: intestino • Função: proteína estrutural dos quilomícrons → apoC-I • Síntese: fígado • Função: ativador da LCAT; modula a ligação dos remanescentes ao receptor → apoC-II • Síntese: fígado • Função: cofator da LPL → apoC-III • Síntese: fígado • Função: modula a ligação dos remanescentes ao receptor → apoE • Síntese: fígado, encéfalo, pele, gônadas, baço • Função: ligante do LDLR e dos receptores ligados aos remanescentes; transporte reverso do colesterol (HDL com apoE) → apo(a) • Síntese: fígado • Função: modulador da fibrinólise CICLOS DE TRANSPORTE DE LIPÍDIOS NO PLASMA As lipoproteínas participam de 3 ciclos básicos de transporte de lipídios no plasma: 1. Ciclo exógeno: as gorduras são absorvidas no intestino e chegam ao plasma, sob a forma de quilomícrons, e, após degradação pela LPL, ao fígado ou a tecidos periféricos. 2. Ciclo endógeno: as gorduras do fígado se direcionam aos tecidos periféricos; a VLDL é secretada pelo fígado e, por ação da LPL, transforma-se em IDL e, posteriormente, em LDL, que carrega os lipídios ( principalmente o colesterol) para os tecidos periféricos. 3. Transporte reverso do colesterol: as gorduras, principalmente o colesterol dos tecidos, retorna para o fígado; as HDL nascentes captam colesterol não esterificado dos tecidos periféricos pela ação da lecitina-colesterol aciltransferase (LCAT), formando as HDL maduras; por meio da CETP (Proteína de Transferência de Ésteres de Colesterol), ocorre também a transferência de ésteres de colesterol da HDL para outras lipoproteínas, como as VLDL. AGL: ácidos graxos livres; HPL: lipase hepática; LCAT: lecitina-colesterol aciltransferase; CETP: proteína de transferência de ésteres de colesterol DISLIPIDEMIAS Tabela - valores referenciais, conforme a avaliação do risco cardiovascular estimado, para adultos acima de 20 anos • LDL-C: colesterol da lipoproteína de baixa densidade; • Não-HDL-c: colesterol não HDL o Não-HDLc = CT – HDLc A utilização do não-HDL-c tem a finalidade de estimar a quantidade de lipoproteínas aterogênicasGeovana Sanches - TXXIV circulantes no plasma, especialmente em indivíduos com TG elevados. Lipídios c/ jejum (mg/ dL) s/ jejum (mg/dL) Risco cardiovascular estimado Colesterol total (CT) < 190 < 190 Desejável HDL-c > 40 > 40 Desejável TG < 150 < 175 Desejável < 130 < 130 Baixo LDL-C < 100 < 100 Intermediário < 70 < 70 Alto < 50 < 50 Muito alto < 160 <160 Baixo Não-HDL-c < 130 < 130 Intermediário < 100 < 100 Alto < 80 < 80 Muito alto As dislipidemias podem ser classificadas como primária ou secundária. Dislipidemias primárias As formas primárias se devem a uma combinação de dieta e genética (classificação de Fredrickson). Tipo I: hiperquilomicronemia familiar Tipo IIA: hipercolesterolemia familiar à mutação genética no receptor de LDL (defeito em um único gene); alto risco de cardiopatia isquêmica. Tipo IIB: hiperlipidemia familiar combinada (mista) à elevação das partículas de VLDL e LDL. Tipo III: disbetalipoproteinemia familiar à Distúrbio raro e genético, caracterizado pelo aumento acentuado das IDL. É altamente aterogênica. Tipo IV: hipertrigliceridemia familiar à aumento de VLDL. Tipo V: hipertrigliceridemia familiar mista à umento de VLDL e quilomícrons. Dislipidemias secundárias É decorrente de estilo de vida inadequado, de certas condições mórbidas ou de medicamentos. Principais causas: DM; Alcoolismo; Síndrome nefrótica; Insuficiência renal crônica; Hipotireoidismo; Hepatopatia ; Administração de fármacos como isotretinoína, tamoxifeno, ciclosporina e inibidores de proteases (usado para tratar a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana). ATEROSCLEROSE O ateroma é uma doença focal da túnica íntima das artérias de tamanhos médio e grande. As lesões evoluem durante décadas, de forma que quando aparecem os sintomas a doença já está avançada. O endotélio sadio produz NO e outros mediadores que protegem contra o ateroma, porém, o excesso de LDL pode lesionar o endotélio, levando a um processo de aterogênese. Fatores envolvidos na aterogênese • Disfunção endotelial com alteração da biossíntese de prostaciclina (PGI2). • Lesão do endotélio leva a expressão de moléculas de adesão, o que leva a fixação e a migração de monócitos da luz para a íntima. • Partículas de LDL são transportadas para a parede do vaso. As células endoteliais, monócitos/macrófagos geram radicais livres que oxidam LDL, produzindo peroxidação lipídica. • A LDL oxidada é captada pelos macrófagos (células espumosas) através de receptores “depuradores”, que são ativados e passam a liberar citocinas pró-inflamatórias. Peroxidação lipídica Geovana Sanches - TXXIV O processo de peroxidação lipídica desestrutura a membrana das células, gerando disfunções. LDL e Aterosclerose Os níveis elevados de LDL representam o principal fator de risco para o desenvolvimento de aterosclerose. A LDL migra para o espaço subendotelial e sofre transformação química em LDL oxidada por meio de peroxidação lipídica e fragmentação da apoB100. A LDL oxidada exerce vários efeitos deletérios sobre a função vascular: (A) A LDL oxidada promove quimiotaxia dos monócitos para o espaço subendotelial e inibe a saída dessas células desse espaço tecidual. (B) Os monócitos e macrófagos residentes ligam-se à LDL oxidada por meio de um receptor de depuração (SR-A), resultando na formação de células espumosas repletas de lipídios. (C) A LDL oxidada pode causar diretamente lesão das células endoteliais e disfunção endotelial. Também pode causar necrose das células espumosas, com liberação de numerosas enzimas proteolíticas capazes de provocar lesão da íntima. Aterogênese • Coleções subendoteliais de células espumosas e de linfócitos T formam estrias gordurosas; • Plaquetas, macrófagos e células endoteliais ativados liberam citocinas e fatores de crescimento, causando proliferação de músculo liso e deposição de componentes do tecido conjuntivo. Essa resposta inflamatória fibroproliferativa compõe a placa de ateroma (densa capa fibrosa sobre um centro repleto de lipídios). Caso a placa se rompa, há o risco de formação de uma trombose. • A presença de um grande número de macrófagos predispõe à ruptura da placa, enquanto o músculo liso vascular e as proteínas da matriz estabilizam a placa. Prevenção da aterosclerose • Tratamento da HAS; • Tratamento da DM; • Redução da LDL; • Inibidores da ECA: melhoram a função endotelial e prolongam a vida de pacientes com doença ateromatosa; • Aumento da biossíntese de NO; • Aumento de HDL (há alguns grupos farmacológicos que exercem esse papel, mas exercícios regulares também aumentam HDL). TRATAMENTOS PARA DISLIPIDEMIAS Tratamento não medicamentoso 1. Medidas no controle da hipercolesterolemia e hipergliceridemia: terapia nutricional; substituição parcial de ácidos graxos saturados por mono e poliinsaturados; substituição dos ácidos graxos trans da dieta, que aumentam a concentração plasmática de LDL-c e causam intensa indução da lesão aterosclerótica; controle de peso corporal; redução da bebida alcoólica; redução da ingesta de carboidratos. 2. Ingestão de ácidos graxos ômega 3 3. Ingestão de probióticos 4. Mudanças no estilo de vida: dieta, atividade física, cessação do tabagismo Mudanças no estilo de vida podem causar redução modesta na LDL-c e aumento na HDL-c. A maioria dos pacientes é incapaz de obter reduções significativas de LDL-c apenas com modificações do estilo de vida, sendo necessário o tratamento farmacológico. Nesse caso, a primeira opção contra a hipercolesterolemia é o tratamento com inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima A (HMG-CoA) redutase (estatinas). Entretanto, para combater a hipertrigliceridemia, as dietas e exercícios físicos são as principais formas. Niacina e fibratos são os mais eficazes na redução dos TG. Ácidos graxos ômega 3 (óleo de peixes) em doses adequadas também podem ser úteis. A redução dos TG é um benefício secundário das estatinas, cujo benefício primário é a redução do LDL-c. Tratamento medicamentoso O tipo de dislipidemia define a escolha da classe farmacológica. As recomendações dependem do grupo de risco cardiovascular a que o paciente pertence, sendo que o tempo de reavaliação é de 3 a 6 meses. Sempre deve-se associar medicamentos com modificações do estilo de vida. Para pacientes de risco moderado ou baixo, iniciar o tratamento apenas com medidas do estilo de vida. Após, se necessário, associar medicamentos para obtenção das metas definidas do LDL-c. Classes de redutores de lipídios • Estatina • Fibratos • Inibidores da absorção de colesterol • Resinas ligantes de ácidos biliares • Ácido nicotínico e seus derivados (Niacina) • Derivados de óleo de peixe – ômega 3 Geovana Sanches - TXXIV • Novos Fármacos: alirocumabe e evolocumabe; lomitapida Segundo a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e prevenção da aterosclerose, o médico deverá seguir o protocolo: (A) Ação predominante na hipercolesterolemia • Estatina; • Ezetimiba (Inibidor da absorção de colesterol); • Resinas (ligantes de ácidos biliares). (B) Ação predominante na hipertrigliceridemia isolada • Fibratos: primeira escolha • Ácido nicotínico: em segundo lugar ou em associação com fribaots. • Ácidos graxos ômega 3: em associação ou isoladamente. (C) Ação na hiperlipidemia mista: a taxa sérica deve orientar o tratamento farmacológico. • Taxas acima de 500 mg/dL: inicia-se o tratamento com um fibrato, adiciona-se, se necessário, ácido nicotínico e/ou ômega 3. Nessa situação, a meta prioritária é a redução do risco de pancreatite. Para redução adicional de colesterolemia, pode-se adicionar uma estatina e/ou outros redutores, evitando-se o uso de genfibrozila em associações de fibratos e estatinas. • Taxas de TG abaixo de 500 mg/dL: inicia-se o tratamento com estatina isoladamente e,se necessário, associando-se a ezetimiba, priorizando-se a meta de LDL-c ou não HDL-c. ESTATINAS As estatinas são inibidores competitivos específicos e reversíveis da enzima HMG-Coa Redutase, impedindo dessa forma a síntese de colesterol. As estatinas que possuem o anel lactona fechado (Mevastatina, Lovastatina e Sinvastatina) são considerados pró-fármacos, ou seja, são inativos e devem ser hidrolisados no TGI à é necessário que esse anel se abra para o aparecimento do sítio de ligação da enzima. Esses pró-fármacos devem ser ingeridos, de preferência, a noite, porque a síntese hepática de colesterol ocorre predominantemente nesse período, sendo máxima entre meia-noite e 2h da manhã. O tempo de meia-vida (t1/2) dessas formulações é de 4h ou menos. A absorção de lovastatina é aumentada quando o fármaco é ingerido com alimento e, portanto, os pacientes devem ser incentivados a toma- la a noite com a refeição. Fluvastatina, Atorvastatina e principalmente Rosuvastatina são estatinas de longa duração. São moléculas maiores e administradas em comprimidos revestidos, de liberação prolongada. Eles devem ser ingeridos inteiros, uma vez ao dia (a qualquer hora), por via oral, com água, com ou sem alimentos, o que melhora a adesão do paciente ao tratamento. O t1/2 mais longo dessas estatinas podem contribuir para sua maior eficácia na redução do colesterol. Farmacocinética As estatinas possuem baixa exposição sistêmica, devido a um extenso efeito de primeira passagem pelo fígado. A maior hidrofilicidade e rápida biotransformação hepática constituem vantagem, pois o fígado é o órgão-alvo das estatinas para a redução do colesterol e, por outro lado, reduz a possibilidade de efeitos sistêmicos. Graças ao sistema transportador de ânions orgânicos (OAT), mesmo compostos relativamente mais hidrofílicos, como a pravastatina e a rosuvastatina, podem ser captados e, desta forma, acessam seu metabolismo hepático. Uma característica comum às estatinas é a via primária de eliminação biliar, com uma pequena porcentagem de eliminação renal. Com exceção da pravastatina, todas as estatinas possuem alto grau de ligação proteica, o que reduz a exposição sistêmica. Lovastatina, sinvastatina e atorvastatina são metabolizadas pelo sistema do citocromo (CYP) 450 3A4. Fluvastatina é metabolizada pela via 2C9 e a cerivastatina por ambas, 2C9 (ou 2C8) e 3A4. Pravastatina e rosuvastatina não são metabolizadas significativamente pela via da CYP. O uso concomitante de duas drogas metabolizadas pela CYP3A4 leva à competição pela via, resultando em concentrações aumentadas de ambas. Inibidores da CYP 3A4 (ciclosporina, eritromicina, cetoconazol, fluoxetina, fluvoxamina) podem causar interação com consequente rabdomiólise. Mecanismo de ação As estatinas são inibidoras da enzima 3-hidroxi- 3-metilglutaril-coenzima A (HMG-CoA) redutase. Dessa forma, as estatinas diminuem a síntese de colesterol no fígado, os níveis plasmáticos de colesterol e lipoproteínas e aumentam o número de receptores de LDL na superfície do hepatócitos, com consequente aumento da captação e do catabolismo do LDL. OBS.: o anel lactona, quando aberto, possui estrutura similar ao HMG-Coa presente na enzima alvo. Geovana Sanches - TXXIV Mecanismo de redução das LDL As estatinas inibem competitivamente a HMG CoA redutase. A diminuição das concentrações celulares de colesterol leva à ativação da protease e clivagem da proteÍna de ligação do elemento regulador de esteróis (SREBP), que é um fator de transcrição normalmente encontrado no citoplasma. A SREBP clivada difunde-se para o núcleo e favorece o aumento da transcrição do gene do receptor de LDL. O aumento dos receptores de LDL melhora a captação de LDL, diminuindo as concentrações de colesterol no plasma. A eficácia das estatinas é baixo para os pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigota, que tem uma resposta muito atenuada às doses usuais de estatinas, porque ambos os alelos do gene do receptor de LDL codificam receptores de LDL disfuncionais. Efeitos das estatinas sobre a concentração de triglicérides e de HDL-C Níveis de triglicerídeos acima de 250 mg/dL são reduzidos pelas estatinas, de modo semelhante à redução percentual do LDL-C. Em pacientes com níveis elevados de LDL-C e níveis apropriados de HDL-C de acordo com o sexo (40- 50 mg/dL para homens; 50-60 mg/dL para mulheres) foi observado um aumento de 5 a 10% dos níveis de HDL-C, independentemente da dose ou da estatina administrada. Efeitos pleiotrópicos das estatinas • Propriedades anti-inflamatórias; • Ações imunomoduladoras; • Anti-trombogênica (diminuição da coagulação); • Melhora da disfunção endotelial (melhora da resposta vasodilatadora do endotélio ao NO); • Melhora da estabilidade das placas aterosclerósticas (diminuição da infiltração de macrófagos e inibição da proliferação do músculo liso vascular). Usos clínicos O uso de estatina está indicado em terapias de prevenção primária de doença arterial e prevenção secundária de infarto do miocárdio e de AVC (exemplo: angina pectoris) como primeira opção (Grau de Recomendação: I – existe consenso e evidência em favor da indicação; Nível de Evidência: A – múltiplos ensaios clínicos controlados, aleatorizados). As estatinas devem ser oferecidas a pacientes com história conhecida de DCVAS (doença cardiovascular aterosclerótica) clínica ou com níveis elevados de LDL-C superiores ou iguais a 190 mg/dL. Pacientes homozigotos para hipercolesterolemia familiar não têm receptores de LDL-C funcionais e, dessa forma, se beneficiam muito menos do tratamento com esses fármacos. Porém, algumas estatinas foram aprovadas para uso em crianças com HFhe (hipercolesterolemia familiar heterozigota). A atorvastatina, a lovastatina e a sinvastatina são indicadas para crianças a partir de 11 anos de idade. A pravastatina foi aprovada para crianças a partir de 8 anos. Efeitos adversos • Distúrbios gastrointestinais; • Aumento das enzimas hepáticas no plasma; • Rash cutâneo; • Angiodema; • Sintomas musculares: mialgia, sensibilidadem rigidez, câimbras, fraqueza e fadiga localizada ou generalizada; • Rabdomiólise: miosite grave com necrose muscular, mioglobinúria e insuficiência renal aguda, podendo levar ao óbito. Os mecanismos que explicam a rabdomiólise não estão totalmente esclarecidos. Entretanto, as estatinas causam deficiência intracelular de ubiquinona. A coenzima Q10 (CoQ10), a ubiquinona, atua na oxidação de nutrientes para produzir ATP. Sua principal função é servir como transportador de elétrons para a mitocôndria. Esta é uma etapa muito importante no desempenho da função do músculo esquelético e cardíaco. A redução da CoQ10 resulta em diminuição da fosforilação oxidativa, necessária para o processo normal de respiração celular do miócito. Outros eventos: indução de apoptose celular, um danças nos canais de cloreto diminuindo a hiperpolarização da membrana da célula muscular e alterações da permeabilidade da membrana. Segundo as Diretrizes de dislipidemias, são critérios para redução da dose ou suspensão das estatinas: aumento das transaminases e aumento da creatinofosfoquinase, dependendo de outras condições. Deve-se manter a monitorização, principalmente em pacientes com sintomas clínicos sugestivos de lesão hepática. A função hepática deve ser avaliada antes de iniciar o tratamento. Os níveis de creatinocinase (CK) no plasma devem ser mensurados em pacientes com queixas musculares. Os inibidores da HMG-CoA redutase também podem aumentar o efeito da varfarina. Dessa forma, é importante avaliar frequentemente a relação normalizada internacional (INR). Esses medicamentos são contraindicados na gravidez e lactação. Interações medicamentosas As interações mais comuns das estatinas ocorrem com os fibratos – particularmente com a Geovana Sanches - TXXIVgenfibrozila (38%) – e com a ciclosporina (4%), a digoxina (5%), a varfarina (4%), os antibióticos macrolídeos (3%) e os antifúngicos azólicos (1%). Outros fármacos que aumentam o risco de miopatia induzida por estatinas são a niacina (raramente), os inibidores da protease do HIV, a amiodarona e a nefazodona (antidepressivo). A genfibrozila, o fármaco mais comumente associado à miopatia induzida por estatinas, inibe a captação das formas ativas de hidroxiácido das estatinas nos hepatócitos pela transportador (OAT) e interfere na transformação da maioria das estatinas pelas glicuronidases. A coadministração de genfibrozila quase duplica a concentração plasmática de hidroxiácidos das estatinas. Em 2016, a FDA retirou a aprovação de combinações de estatinas contendo fibratos ou niacina. FIBRATOS Exemplos: Bezafibrato; Ciprofibrato; Genfibrozila; Fenofibrato; Cloribrato. O nome de fibrato vem de ácido fíbrico (estrutura circundada em vermelho), pois esses medicamentos, com exceção da genfibrozila, são derivados halogenados (cloro) desse ácido. A genfibrozila geralmente é administrada em uma dose de 600 mg, tomada 2 vezes/dia, 30 minutos antes das refeições pela manhã e à noite. O fenofibrato está disponível em comprimidos de 48 e 145 mg ou em cápsulas contendo 67, 134 e 200 mg. Farmacocinética Os fibratos sofrem absorção rápida e eficiente (> 90%) quando tomados com uma refeição, porém a sua absorção é menos eficiente quando tomados com estômago vazio. Mais de 95% desses fármacos no plasma está ligado à proteína, quase exclusivamente à albumina. As t 1/2 dos fibratos variam de 1,1 (genfibrozila) a 20 horas (fenofibrato: é um pró-fármaco, éster, hidrolisado no intestino). Os fármacos se distribuem amplamente por todo o corpo. Os fibratos são excretados predominantemente como conjugados glicuronídeos (60-90%) na urina, com aparecimento de quantidades menores nas fezes. A excreção desses fármacos é comprometida na presença de insuficiência renal. Mecanismo de ação Os fibratos são agonistas de receptores de transcrição nuclear - PPARα (receptores alfa ativados da proliferação dos peroxissomas. São substâncias reguladoras de genes controlados por lipídeos). Aumentam a transcrição dos genes para lipase de lipoproteínas, da apoA1 e da apoA5 e reduzem a transcrição da Apo CIII. O aumento da atividade da LPL (lipoproteína lipase) muscular proporciona maior hidrólise intravascular dos TG e aumento da oxidação dos ácidos graxos. O aumento da síntese da apoA1 e apoA5 no fígado aumenta a produção de HDL. A redução da ApoC-III hepática, inibidor da lipólise (inibe a LPL), potencializa o aumento de atividade da LPL. A ativação do PPARα também proporciona: (a) elevação da expressão de SR-B1 (receptor de depuração classe B, tipo 1) nos hepatócitos, aumentando o transporte reverso de colesterol (via HDL). (b) redução modesta dos níveis de LDL, pois aumento na oxidação dos ácidos graxos reduz VLDL e, por consequência, LDL. Esses efeitos favorecem a diminuição das concentrações plasmáticas de triglicérides (aumenta a oxidação dos ácidos graxos no músculo estriado e no fígado) e o aumento dos níveis plasmáticos de colesterol HDL. Usos terapêuticos Hipertrigliceridemias: os pacientes com hiperlipoproteinemia tipo III (disbetalipoproteinemia) estão entre os que têm resposta mais sensível aos fibratos. Observa-se uma redução drástica dos níveis elevados de triglicerídeos e colesterol e os xantomas túbero eruptivos palmares podem regredir por completo. A angina e a claudicação intermitente (desconforto reproduzível de um grupo muscular que é induzido por atividade física e é aliviado com repouso, sendo um indicador de doença arterial periférica) também melhoram. Fármacos de escolha para o tratamento da hipertrigliceridemia grave e da síndrome de quilomicronemia. Reduzem as taxas séricas de TG de 30 a 60%. Aumentam o HDL-C de 7 a 15%. Sua ação sobre o LDL- C é variável, pode diminuir ou não ou até aumentá-lo. Efeitos adversos Miosite rara, mas pode ser grave (rabdomiólise) se associada com mioglobinúria e insuficiência renal aguda. Pode causar prurido, queda de cabelo, rash cutaneo e risco elevado para formação de cálculos biliares. Geovana Sanches - TXXIV A insuficiência renal é uma contraindicação relativa para o uso de agentes de ácido fíbrico, assim como a disfunção hepática. Os fibratos não devem ser utilizados por crianças nem por gestantes. Associação de redutores de lipídeos A interação de estatinas com fibratos aumenta o risco de miopatia e rabdomiólise. A genfibrozila inibe a captação hepática das estatinas pela OATP1B1 e compete pelas mesmas glicuronosil-transferases que metabolizam a maioria das estatinas. Portanto, os níveis de ambos os fármacos podem ser elevados quando forem coadministrados. Em 2016, a FDA retirou a aprovação para o uso de fenofibrato junto com a terapia com estatinas para a redução do risco de doença cardiovascular aterosclerótica. Os fibratos podem aumentar os efeitos da varfarina. Por isso, a INR deve ser monitorizada. RESINAS LIGANTES DE ÁCIDOS BILIARES Exemplos: Colestiramina, colestipol e colesevelam. São administrados por via oral em preparações granuladas. As formas de colestiramina (4 g/dose) e de colestipol (5 g/dose) em pó ou misturadas com um líquido (água ou suco) podem ser ingeridas como pasta, ou misturadas com gelo picado no liquidificador. São resinas volumosas, poliméricas, trocadoras de cátions, insolúveis em água e de paladar desagradável. Os sequestradores de ácidos biliares exibem cargas altamente positivas e se ligam a ácidos biliares de carga negativa, retende-os. Mecanismo de ação As resinas ligam-se aos ácidos biliares no lúmen intestinal, impedindo sua reabsorção. Devido ao seu grande volume, as resinas também não são absorvidas. A diminuição de ácidos biliares diminui a circulação êntero-hepática de ácidos biliares, aumentando a síntese hepática de ácidos biliares. Isto diminui a concentração de colesterol nos hepatócitos e como consequência ocorre um aumento da expressão do receptor de LDL e depuração das LDL circulantes. Porém, esse efeito pode ser parcialmente compensado pela síntese aumentada de colesterol provocada pela suprarregulação da HMG-CoA-redutase. A inibição da atividade da redutase por uma estatina aumenta consideravelmente a eficácia das resinas. Para melhorar a eficácia dos sequestradores de ácidos biliares, sua administração deve ser programada para que esteja no intestino delgado após a refeição, ou seja, após o esvaziamento da vesícula biliar. Usos clínicos Hipercolesterolemia (quando não são indicadas as estatinas ou em associação). Deve-se observar que as resinas não são eficazes em pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigota, pois não apresentam receptores funcionais; mas são úteis em pacientes com estados heterozigotos combinados com deficiência de receptores. Apresentam baixa toxicidade pois as resinas não são absorvidas. É o único fármaco liberado para mulheres no período reprodutivo sem método anticoncepcional efetivo, e durante os períodos de gestação e amamentação (Grau de Recomendação: IIa – existe divergência, mas a maioria aprova; Nível de Evidência: A- múltiplos ensaios clínicos controlados, aleatorizados). Efeitos adversos Constipação intestinal (principalmente em idosos) e distensão abdominal ou diarreias. Interferência com a absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). No caso da vitamina K, ocorre uma diminuição dos fatores de coagulação dependentes de vitamina K e aumenta o tempo de protrombina, sangramentos e hematomas). Monitoramento é exigido em pacientes que usam anticoagulante. Interferência com a absorção de fármacos com cargas (cátions, ânions) ou neutros, como: digoxina, varfarina, tiazídicos, furosemida tetraciclina, tiroxina, estatinas, entre outros.Os fármacos devem ser tomados uma hora antes ou 4 a 6 horas depois da resina. Pode haver aumento dos níveis de TG, secundário ao estímulo da síntese hepática de VLDL. Como consequência, seu uso deve ser evitado na hipertrigliceridemia, particularmente se houver níveis acima de 400 mg/dL. INIBIDORES DA ABSORÇÃO INTESTINAL DE ESTERÓIS- EZETIMIBA A ezetimiba está disponível em comprimidos de 10mg, que podem ser tomados a qualquer hora do dia, com ou sem alimento. Esse medicamento representa um grupo de fármacos que inibem a absorção intestinal de fitoesterois e do colesterol. Geovana Sanches - TXXIV Farmacocinética Administrada por via oral. É absorvida no intestino, em seu local de ação. A ezetimiba é rapidamente conjugada no intestino a um glicuronídeo ativo, alcançando níveis sanguíneos máximos em 12 a 14 horas. Sofre circulação êntero-hepática e possui meia- vida de 22 horas. Cerca de 80% do fármaco é excretado nas fezes. As concentrações plasmáticas de ezetimiba aumentam de modo significativo quando o fármaco é administrado com fibratos e diminuem quando administrados com sequestradores de ácidos biliares, como a colestiramina . Desse modo, a ezetimiba não deve ser administrada com colestiramina. Transporte de colesterol e ácidos graxos O colesterol é captado das micelas através de um canal regulador (NPC1L1). Uma fração do colesterol é bombeada de volta à luz pela ABCG5/G8, uma proteína da membrana plasmática dependente de ATP. O colesterol restante é convertido em ésteres de colesterol pela ACAT (acetil- CoA: colesterol acil- transferase). Os triglicerídios são captados na forma de ácidos graxos e monoglicerídios, que são reesterificados pela DGAT (diacilglicerol aciltransferase). Mecanismo de ação A ezetimiba diminui o transporte de colesterol das micelas para os enterócitos através da inibição seletiva da captação de colesterol por uma proteína denominada NPC1L1. Deste modo a ezetimiba diminui em cerca de 50% a absorção intestinal de colesterol, sem reduzir a absorção de triglicérides ou de vitaminas lipossolúveis. Também reduz o colesterol LDL ao inibir a produção hepática de VLDL. Ocorre também uma redução da incorporação do colesterol aos quilomícrons, o que diminui a liberação de colesterol no fígado pelos remanescentes de quilomícrons, diminuindo a aterogênese. Esse fato estimula a expressão de genes hepáticos que regulam a expressão dos receptores de LDL e por conseguinte, ocorre um aumenta a depuração do LDL-C do plasma. A ezetimiba também pode aumentar uma síntese compensatória de colesterol, que pode ser inibida com a associação de estatina. Usos clínicos Hipercolesterolemia (quando não são indicadas as estatinas ou em associação com estatina). A ezetimiba diminui o LDL-C em cerca de 17%. Devido a esse efeito modesto, a ezetimiba frequentemente é usada como adjunto no tratamento com estatinas (Grau de Recomendação: IIa – existe divergência, mas a maioria aprova; Nível de Evidência: C – consenso de especialistas). Efeitos adversos Diarréia, dor abdominal e cefaleia. ÁCIDO NITOTÍNICO, NIACINA OU VITAMINA B3 A niacina é administrada por via oral. Dispõe- se de comprimidos de niacina cristalina de venda livre em uma variedade de concentrações – em comprimidos de 50 a 500 mg. A dose pode ser aumentada de modo gradativo a cada sete dias, até uma dose diária total de 1,5 a 2 g. O rubor, efeito comum da niacina, é minimizado se a terapia for iniciada com doses baixas (100-250 mg, 2 vezes/dia) e o fármaco for tomado depois de uma refeição. A niacina (ácido nicotínico, vitamina B3) é uma vitamina hidrossolúvel e substrato na síntese de NAD e NADP, que são cofatores importantes no metabolismo intermediário. No organismo, ela é convertida em nicotinamida, que é incorporada ao cofator nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+). O t1/2 é de cerca de 60 minutos, exigindo a administração em 2 a 3 doses diárias. Mecanismo de ação Com doses na faixa de gramas, a niacina inibe fortemente a lipólise no tecido adiposo, reduzindo assim a produção de ácidos graxos livres. A niacina estimula um receptor acoplado à proteína Gi que inibe a produção de AMP cíclico nos adipócitos. Inibe o transporte dos ácidos graxos livres dos tecidos periféricos ao fígado, reduzindo a síntese hepática de triglicérides. Ao inibir tanto a síntese quanto a esterificação dos ácidos graxos, aumenta a degradação da apo B e diminui a produção de lipoproteínas contendo apo-B. A redução da síntese de triglicerídeos diminui a produção hepática de VLDL, responsável pelos níveis reduzidos de LDL. A niacina também aumenta a atividade da LPL, promovendo a depuração dos quilomícrons e dos triglicerídeos VLDL. A Niacina também diminui o catabolismo das apo AI nas HDL, elevando sua meia-vida, a principal apolipoproteina das HDL. Usos clínicos É o fármaco mais eficaz para aumentar HDL-c. Indicada para pacientes com hiperlipidemia combinada familiar em associação com uma estatina e baixos níveis de HDL. Reduz o LDLc em 5 a 25%; aumenta o HDL-C em 15 a 35%; e diminui o TG em 20 a 50%. A niacina também é o único fármaco que reduz os lipídeos diminuindo significativamente os níveis de Lipoproteína(a). Geovana Sanches - TXXIV O ácido nicotínico pode, excepcionalmente, ser utilizado em pacientes com HDL-C baixo isolado, mesmo sem hipertrigliceridemia associada, e como alternativa aos fibratos e estatinas ou em associação com esses fármacos em portadores de hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia ou dislipidemia mista (Grau de Recomendação: IIa; Nível de Evidência: A). Efeitos adversos Hepatotoxicidade, miopatia, doença péptica, náusea, prurido, hiperglicemia (exige monitorização), redução da sensibilidade à insulina e aumento de ácido úrico (pode reativar a gota). O problema mais frequente e limitador do uso da niacina é o flushing cutâneo (enrubescimento, rubor e prurido na face e na parte superior do tronco) devido a liberação das prostaglandinas D2 e E2 na pele; exantemas cutâneos e acantose nigricans. Depois de 2 a 4 semanas com doses altas (até 2 g), deve-se determinar os níveis de transaminases, albumina sérica, glicose em jejum e ácido úrico. Após ser alcançado uma dose estável, a monitorização pode ser realizada a cada 3 a 6 meses. O uso concomitante de niacina e estatina pode causar miopatia. A FDA retirou a indicação para o uso de niacina junto com a terapia com estatina . Este medicamento não deve ser utilizado por mulheres grávidas sem orientação médica - Categoria de risco na gravidez: C. ÁCIDOS GRAXOS POLI-INSATURADOS (PUFA) – ÔMEGA 3 A dose oral diária recomendada para pacientes com hipertrigliceridemia grave é de 3 a 4g/dia, tomada com alimentos. Os ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 – ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosa- hexaenoico (DHA) – são encontrados em fontes marinhas tais como atum, alabote e salmão. O óleo de peixe é rico em PUFA; também encontramos em algumas plantas e nozes. Cerca de 4 g de PUFA ômega-3 marinhos por dia diminuem a concentração de triglicerídeos séricos em 25 a 30% com pequenos aumentos no LDL-C e no HDL-C. Cápsulas de óleo de peixe de venda livre ou sujeitas à prescrição (EPA/DHA) podem ser usadas para suplementação, pois é difícil consumir PUFA ômega-3 suficiente somente com a dieta. Mecanismo de ação Não está esclarecido. O PUFA diminui a biossíntese de triglicérides. Os ácidos graxos ômega-3 reduzem as concentrações plasmáticas de triglicerídeos porque diminuem a síntese hepática de VLDL. O provável mecanismo de redução dos triglicerídios envolve a regulação de fatores de transcrição nucleares, incluindo SREBP-1c e PPARα, produzindo uma redução na biossíntese de triglicerídios e um aumento da oxidação de ácidos graxos no fígado. Há evidências epidemiológicas de que comer peixe regularmente reduz a cardiopatiaisquêmica, e a suplementação da dieta com PUFA melhora a sobrevida de pacientes que tiveram infarto do miocárdio. Porém, existem conflitos na literatura. No ensaio clínico ORIGIN, não foi constatada nenhuma redução adicional do risco de doença cardiovascular aterosclerótica associada ao uso de ácido graxo ômega-3 versus monoterapia com estatinas, levando a questionar o uso comum de suplementos de óleo de peixe para “cardioproteção” pelos consumidores. Usos clínicos Prevenção de eventos recorrentes de infarto do miocárdio; tratamento de hipergliceridemia ( Valores acima de 500 mg/dL de triglicérides no plasma). Efeitos adversos Dor abdominal, náusea, diarreia e o gosto de peixe. Pode aumentar o risco de sangramentos naqueles que estão tomando simultaneamente anticoagulantes ou antiplaquetários. INIBIDORES DA PCSK-9 Alirocumabe e Evolocumade: Anticorpos monoclonais totalmente humanizados. Utilizados via subcutânea, a cada 2 semanas ou 1 vez/mês, dependendo da dose e da indicação. Os inibidores da PCSK9 reduzem os níveis de LDL-c de maneira dependete da dose em até 70% quando usados como monoterapia, ou em até 60% em pacientes que já estejam recebendo terapia com estatinas. Mecanismo de ação A PCSK9 é uma enzima sintetizada no núcleo celular e secretada pelos hepatócitos, liga-se aos receptores de LDL (LDLR), favorecendo sua degradação lisossômica. Assim, a inibição da PCSK9 previne a ligação do LDLR à PCSK9 e a subsequente degradação lisossomal do LDLR, aumentando a densidade de receptor na superfície do hepatócito e a depuração das partículas circulantes de LDL. É recomendado a associação de um anticorpo para PCSK9 e uma estatina. Inibindo a HMG-CoA- redutase, as estatinas reduzem o colesterol da célula, ativando, a SREBP e suprarregulando a transcrição de genes sob o seu controle, incluindo genes para o LDLR e a PCSK9. Na presença de anticorpo para PCSK9, a PCSK9 é complexada pelo AbPCSK9 e se torna inativa, possibilitando um aumento na presença de LDLR na membrana do hepatócito e um aumento na reciclagem do LDLR usado para a membrana. Portanto, a combinação de uma estatina com AbPCSK9 pode Geovana Sanches - TXXIV exercer um maior efeito de redução das LDL do que a estatina isoladamente. Usos clínicos O uso dos inibidores da PCSK9 em geral é seguro e bem tolerado. É empregado na terapia adjuvante da dieta e terapia com estatinas de tolerância máxima em pacientes adultos com hipercolesterolemia familiar homozigota e heterozigota e ou com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida que exija uma redução adicional dos níveis de LDL. Efeitos adversos À semelhança de outros anticorpos monoclonais, observa-se um ligeiro aumento no risco de infecções, incluindo nasofaringite, infecções do trato urinário ou das vias respiratórias superiores. É descrita a ocorrência de náuseas, fadiga e aumento da incidência de reações no local da injeção (vermelhidão, prurido, edema ou sensibilidade/dor). Os inibidores da PCSK9 não devem ser usados durante a gravidez, visto que está prevista a sua transferência através da placenta. Não se sabe a quantidade do fármaco que estará presente no leite materno, portanto o seu uso durante a lactação não é recomendado. Devido ao alto custo, deve-se verificar o custo- efetividade. Recomenda- se o tratamento com as doses máximas toleradas de estatinas e ezetimiba antes de iniciar o uso de inibidores da PCSK9. INIBIDOR DA PROTEÍNA DE TRANSFERÊNCIA DE TRIGLICÉRIDES MICROSSOMAL – LOMITAPIDA A lomitapida é administrada via oral, com água e sem alimento (ou pelo menos 2h após o jantar), visto que a administração concomitante pode aumentar o risco de efeitos adversos do TGI. O fármaco é metabolizado pela CYP3A4 e o seu uso está contraindicado com inibidores da mesma. Mecanismo de ação Lomitapida inibe a proteína de transferência de triglicérides microssomal (PTM), reduzindo a formação de quilomícrons no intestino e VLDL pelo fígado. Uso clínico Adjuvante da dieta para reduzir o nível de LDL- C, colesterol total, apo B e lipoproteínas não HDL-C em pacientes com HFho. A lomitapida reduz o nível de LDL em até 50% e deve ser usada em combinação com terapia com estatinas de tolerância máxima. Efeitos adversos Diarreia, vômito, existe a preocupação para uma possível hepatotoxicidade. A lomitapida pode ser embriotóxica e as mulheres com potencial de engravidar devem ter um teste de gravidez negativo antes de iniciar o tratamento e precisam usar um método efetivo de contracepção durante o tratamento.