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AULA 5 FARMACOLOGIA APLICADA I Profª Carina Mattedi A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 2 CONVERSA INICIAL O Sistema Nervoso Autônomo (SNA) é responsável pela regulação de funções corporais sem a participação consciente do cérebro, sendo responsável por regular as funções neurovegetativas, como os sistemas respiratório, cardiovascular, renal, digestório e endócrino. Este sistema é responsável por manter a homeostase do organismo a cada momento diante de diferentes situações às quais ele é exposto. Os principais neurotransmissores autonômicos são acetilcolina (ACh) e noradrenalina (NA) ou norepinefrina (NE). Os neurônios ganglionares são essencialmente colinérgicos, liberam ACh, e a transmissão ganglionar ocorre principalmente por meio de receptores nicotínicos da ACh. Neurônios pós-ganglionares do SNA simpático são principalmente noradrenérgicos, liberando NA, enquanto neurônios do SNA parassimpático são principalmente colinérgicos e atuam sobre receptores muscarínicos. Esta aula aborda a farmacologia do SNA colinérgico, as principais drogas que atuam neste sistema e suas aplicações clínicas. TEMA 1 – SÍNTESE E LIBERAÇÃO DE ACETILCOLINA E RECEPTORES COLINÉRGICOS A ACh é o principal neurotransmissor do sistema nervoso autônomo. Este neurotransmissor é liberado pelos neurônios pré-ganglionares simpáticos e parassimpáticos, neurônios pós-ganglionares simpáticos que inervam a maioria das glândulas sudoríparas e todos os neurônios pós-ganglionares parassimpáticos. A síntese desse neurotransmissor ocorre no neurônio pré-sináptico por meio de colina e acetil-CoA pela ação da enzima acetiltransferase. A ACh sintetizada é então armazenada em vesículas sinápticas. A figura 1 ilustra a síntese de ACh. Com a chegada de um potencial de ação, os canais de cálcio dependentes de voltagem se abrem, e esse processo favorece a liberação do conteúdo das vesículas por exocitose. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 3 A ACh é então liberada na fenda sináptica, onde fica disponível para ligação com seus receptores muscarínicos e nicotínicos nas células pós-ganglionares, ou é metabolizada pela enzima acetilcolinesterase presente na fenda sináptica. A ligação da ACh ao seu receptor induz uma resposta fisiológica, como o início de um impulso nervoso na fibra pós-ganglionar ou a ativação de enzimas específicas mediadas por segundos mensageiros. A metabolização desse neurotransmissor ocorre de forma rápida pela ação da enzima acetilcolinesterase. A acetilcolinesterase é a enzima responsável pela hidrólise e inativação da ACh na fenda sináptica do SNA e do sistema nervoso central (SNC), atuando ainda no sistema nervoso somático (SNS). Essa enzima pode ser encontrada nas membranas pré e pós-sinápticas e no retículo endoplasmático rugoso. Outras classes de colinesterases são chamadas de pseudocolinesterases e estão localizadas em diversos órgãos, como cérebro e fígado. Um exemplo de pseudocolinesterase é a butirilcolinesterase. A acetilcolina, diferentemente de outros neurotransmissores, não sofre recaptação. Depois de ser clivada em colina e acetato, a colina pode ser recuperada por transporte ativo. Dessa forma, essa molécula pode participar de um novo processo de síntese. O SNA parassimpático apresenta dois tipos de receptores, os chamados receptores colinérgicos, nicotínicos e muscarínicos. Os receptores nicotínicos são canais iônicos. Um canal iônico permite a passagem de sinais elétricos provenientes de uma fibra motora para uma fibra muscular. Após a ligação da ACh liberada na fenda pré-sináptica e sua ligação com o receptor nicotínico, ocorre uma mudança na conformação do canal, induzindo sua abertura e permitindo a passagem de moléculas de cargas positivas para o interior da célula. A estrutura de um receptor nicotínico é formada por cinco subunidades: duas alfa, uma beta, uma gama e uma ômega. Os sítios de ligação da ACh estão localizados nas subunidades alfa. Existem dois tipos de receptores nicotínicos, conhecidos por NN e NM, localizados nos corpos celulares da fibras pós- ganglionares do SNA e nas junções neuromusculares, respectivamente. São ações nicotínicas: Estimulação dos gânglios simpáticos e parassimpáticos; Estimulação da medula suprarrenal, com liberação de Adrenalina e Noradrenalina; Contração do músculo esquelético. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 4 Figura 1 – Síntese, armazenamento e degradação de ACh Crédito: Elias Dahlke. Os receptores colinérgicos muscarínicos são receptores acoplados à proteína G, e a estrutura consiste em sete segmentos helicoidais transmembrana, unidos por pontes peptídicas intra e extracelulares. A resposta tecidual após a ativação desses receptores depende do subtipo de receptor e pode envolver diferentes sistemas de segundos mensageiros ou sinalizações intracelulares. São inúmeros os mecanismos envolvidos na transmissão de um sinal gerado pela ocupação de um receptor colinérgico. A ativação de receptores M1, por exemplo, ativa uma proteína Gq, que, por sua vez, ativa uma fosfolipase C. Na sequência, ocorre a produção dos segundos mensageiros trifosfato de Inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG). IP3 induz o aumento de cálcio intracelular, que pode alterar a atividade de enzimas ou causar hiperpolarização, secreção ou contração. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 5 De forma diferente, a ativação de receptores M2 ativa uma proteína Gi, que inibe adenilcilclase e aumenta a condutância de íons potássio, o que induz uma resposta de redução da velocidade de contração no coração. Já foram identificados cinco tipos de receptores muscarínicos, M1, M2, M3, M4 e M5, que estão distribuídos em diversos órgãos, como glândulas, coração, pulmões e SNC. São ações muscarínicas: Estimulação de glândulas exócrinas; Estimulação das secreções; Estimulação da contração muscular lisa; Estimulação da musculatura circular da íris e dos músculos da acomodação visual; Relaxamento dos esfíncteres; Redução dos batimentos cardíacos. TEMA 2 – DROGAS COLINÉRGICAS DE AÇÃO DIRETA Drogas colinérgicas são substâncias que imitam as ações do neurotransmissor endógeno ACh. Estas moléculas causam ou acentuam os efeitos decorrentes da estimulação parassimpática e, por isso, podem ser chamadas de parassimpaticomiméticas. Essas drogas podem ser classificadas em drogas de ação direta e de ação indireta. As drogas de ação direta são chamadas de agonistas colinérgicos ou agonistas colinomiméticos e apresentam ação direta sobre os receptores da ACh, produzindo uma resposta farmacológica em um órgão efetor. Agonistas colinérgicos estimulam o SNA parassimpático ao mimetizarem a ação da ACh, principalmente sobre os receptores muscarínicos. Os seus efeitos farmacológicos incluem efeitos nicotínicos e muscarínicos periféricos. Essas drogas são classificadas de acordo com a origem e composição química, sendo divididas em dois grupos: ésteres da colina e alcaloides naturais. 2.1 Ésteres da colina A classe ésteres da colina inclui a ACh e seus congêneres sintéticos. São exemplos de drogas deste grupo: A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 6 Acetilcolina; Metacolina; Carbacol; Betanecol. Essas drogas apresentam na sua estrutura química uma amônia quaternária, o que confere baixa lipossolubilidade. A figura 2 apresenta a estrutura química da ACh. O parâmetrolipossolubilidade tem uma influência importante no processo de absorção. Drogas lipossolúveis atravessam facilmente as barreiras biológicas e são facilmente absorvidas. Os ésteres da colina apresentam carga elétrica, são altamente hidrofílicos, são fracamente absorvidos e não atingem o SNC. Figura 2 – Estrutura da ACh Fonte: Mattedi, 2021, com base em Golan, 2012. Ainda com relação à farmacocinética, são drogas que sofrem hidrólise no trato gastrointestinal (TGI) pela ação da acetilcolinesterase, sendo a ação dessa enzima maior sobre a ACh, atuando de maneira mais resistente sobre as outras drogas desse grupo. O carbacol e o betanecol apresentam maior resistência à hidrólise em função da presença de um grupamento químico chamado carbamoil em suas moléculas. A figura 3 indica essa estrutura em comparação com um análogo do grupo. Esta resistência à ação da enzima aumenta a duração de ação dessas drogas. O carbacol apresenta ainda ação nicotínica aumentada em relação às outras drogas desse grupo e não pode ser usado de modo sistêmico. Seu uso é restrito ao tratamento local na oftalmologia para indução de miose e redução da pressão intraocular. O betanecol apresenta efeitos muscarínicos que se assemelham aos do carbacol, atuando mais especificamente sobre o TGI e bexiga. Produz pouca ação sobre o sistema cardiovascular. É utilizado principalmente para o tratamento da retenção urinária pós-operatória ou de origem neurológica. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 7 As drogas desse grupo ainda variam de acordo com a ação sobre os receptores colinérgicos. A ACh atua de maneira similar sobre receptores nicotínicos e muscarínicos. Metacolina e betanecol são menos ativos para receptores nicotínicos. Figura 3 – Estrutura do carbacol Fonte: Mattedi, 2021, com base em Golan, 2012. De uma forma geral, os agonistas de ação direta apresentam pouca especificidade nas suas ações e, em função disso, a utilidade clínica dessas drogas é limitada. Em função da multiplicidade de ações, que implica em diversos efeitos no organismo, a própria ACh não tem aplicação terapêutica. Além disso, a estimulação parassimpática em vários órgãos induz uma série de efeitos adversos, o que justifica o reduzido uso clínico. Os efeitos farmacológicos da ACh são curtos em função da rápida metabolização pela acetilcolinesterase. No sistema cardiovascular, causa vasodilatação e redução da resistência periférica, o que resulta em redução da pressão arterial. No sistema respiratório, produz bronco constrição e aumento da secreção. A ACh aumenta o tônus da musculatura do TGI, induz redução da capacidade da bexiga e miose local e estimula secreções glandulares. 2.2 Alcaloides naturais O segundo grupo de agonistas colinérgicos corresponde aos alcaloides de origem natural e podem ser representados pelas drogas: Muscarina; Pilocarpina; Nicotina. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 8 A pilocarpina e a nicotina são drogas mais bem absorvidas, sendo esta última ainda absorvida pela pele. A distribuição dessas drogas é ampla e a excreção ocorre principalmente pela via renal. A pilocarpina é o alcaloide presente no jaborandi (Pilocarpus jaborandi) e seus efeitos são qualitativamente similares aos da ACh, sobressaindo-se os efeitos sobre as glândulas sudoríparas, salivares e gástricas. A pilocarpina possui ações menos intensas sobre o sistema cardiovascular e é capaz de atravessar a barreira hematoencefálica, ativando regiões como o córtex cerebral. Tem uso clínico como agente antiglaucomatoso, sendo encontrada em colírios, em diferentes concentrações. A muscarina foi utilizada para a caracterização dos receptores muscarínicos. Esta droga não exerce efeitos sobre os receptores nicotínicos e está presente em algumas espécies de fungos. É bem absorvida pelo TGI e apresenta potência maior do que a ACh, atravessa a barreira hematoencefálica, provocando excitação cortical cerebral. A muscarina não sofre ação da acetilcolinesterase, possuindo ação prolongada, e uma intoxicação com esta droga pode ser tratada com atropina. A nicotina é o alcaloide natural presente no tabaco e uma droga conhecida por causar dependência. Atua diretamente sobre o SNA, estimulando neurônios pós-ganglionares, da mesma forma que a ACh, não estimulando diretamente os órgãos efetuadores autonômicos. A nicotina atua sobre os sistemas simpático e parassimpático simultaneamente, agindo sobre os receptores nicotínicos. Em níveis baixos, esta droga estimula o SNA simpático, induzindo uma sensação de força e euforia. Em níveis mais altos, ocorre um bloqueio simpático, favorecendo a atuação do sistema parassimpático e gerando uma sensação agradável de bem-estar. O uso contínuo da nicotina leva a uma situação de desconforto quando as doses são suspensas e, em casos mais graves, pode caracterizar uma crise de abstinência, com sintomas característicos, como irritação e insônia. A nicotina penetra bem pelas membranas e pele intacta. É utilizada terapeuticamente em protocolos de interrupção de fumantes sobre a forma de goma ou adesivo cutâneo. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 9 TEMA 3 – DROGAS COLINÉRGICAS DE AÇÃO INDIRETA As drogas colinérgicas de ação indireta também são chamadas de agonistas indiretos e atuam inibindo a hidrólise a ACh pela ação da acetilcolinesterase. Como resultado dessa inibição, há um prolongamento da vida da ACh nas fendas pré-sinápticas e maior estimulação do sistema nervoso parassimpático. A acetilcolinesterase é uma enzima que especificamente hidrolisa a ACh, formando acetato e colina. Este processo implica no término da ação do neurotransmissor. A enzima é encontrada na fenda sináptica e seus inibidores (fármacos anticolinesterásicos ou inibidores da colinesterase) promovem ações colinérgicas indiretamente, pois previnem a degradação da ACh. O que ocorre, então? A ação dessa enzima implica acúmulo de ACh na fenda sináptica, com indução de respostas em todos os receptores colinérgicos do SNA, bem como nas junções neuromusculares (JNMs). A inibição da enzima nas JNMs resulta em paralisia da musculatura esquelética, mas esses efeitos são pouco observados nas doses terapêuticas usuais. As drogas colinérgicas de ação indireta podem ser classificadas em reversíveis e irreversíveis. Como são drogas que têm uma ação indireta, os efeitos são condicionados à presença de ACh endógena. 3.1 Anticolinesterásicos reversíveis Os anticolinesterásicos reversíveis são drogas que inativam temporariamente a acetilcolinesterase, formando associações não covalentes com a enzima ou ligações covalentes que são facilmente hidrolisadas. Representantes deste grupo são as drogas: Edrofônio; Tacrina; Neostigmina; Fisostigmina. A ação dessas drogas pode durar desde alguns minutos até algumas horas. A fisostigmina é facilmente absorvida, enquanto o edrofônio e neostigmina apresentam mais dificuldades em atravessar as barreiras biológicas, em função da A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 10 presença de uma amônia quaternária na sua estrutura. A figura 4 mostra as estruturas químicas dessas substâncias. O metabolismo dessas drogas ocorre principalmente no fígado, por enzimas microssomais hepáticas, podendo, ainda, serem excretadas de forma inalterada na urina. Figura 4 – Estrutura dos anticolinesterásicos reversíveis Fonte: Mattedi, 2021, com base em Golan, 2012. A fisostigmina pode ser utilizada clinicamente no tratamento de atonia de bexiga e intestino, pois atua aumentando a motilidade desses órgãos. Ometabólito da fisostigmina é capaz de potencializar a atividade colinérgica em todo o organismo, podendo ser utilizada no tratamento de intoxicação por drogas anticolinérgicas, como a atropina. Em doses elevadas, a fisostigmina pode causar convulsões, redução da pressão arterial e bradicardia. O edrofônio é uma droga de ação mais curta, sendo rapidamente absorvido e eliminado pelo sistema renal. É usado no diagnóstico de miastenia grave, uma doença autoimune caracterizada pela presença de anticorpos contra o receptor nicotínico nas JNMs. A ação desses anticorpos resulta na diminuição do número de receptores funcionais para a ACh nas placas motoras do músculo esquelético. A neostigmina atua de forma similar à fisostigmina. No entanto, sua estrutura mais polar implica baixa absorção pelo TGI e SNC. Tem uma duração de ação intermediaria, em geral de 30 minutos a duas horas. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 11 O uso clínico da neostigmina é para estimular a bexiga e o TGI, podendo, ainda, ser usada no tratamento da miastenia grave e como antagonista dos bloqueadores musculares competitivos. Por causar uma estimulação colinérgica generalizada, os efeitos adversos incluem redução da pressão arterial, salivação, náusea, dor abdominal e rubor. A tacrina foi o primeiro anticolinesterásico utilizado como adjuvante no tratamento da doença de Alzheimer. Pacientes nesta condição apresentam uma deficiência de neurônios colinérgicos no SNC e essa informação instigou os farmacologistas no desenvolvimento de fármacos que pudessem contribuir no tratamento. A tacrina, um anticolinesterásico reversível de ação mais prolongada, foi inicialmente aprovada para o tratamento paliativo das formas mais leves e moderadas do Alzheimer. No entanto, foi substituída por outros fármacos em função da sua hepatotoxicidade. É importante ainda considerar que esses fármacos podem retardar o avanço da doença, mas não evitam a progressão. 3.2 Anticolinesterásicos irreversíveis Os anticolinesterásicos irreversíveis correspondem aos inseticidas organofosforados e gases químicos desenvolvidos para guerras como armas químicas. São chamados de irreversíveis, pois não recuperam a enzima. A ligação que ocorre é covalente e há a formação de uma enzima fosforilada, que não pode ser regenerada por hidrólise. O resultado é um aumento de longa duração nos níveis de ACh em todos os locais onde ela é liberada. Muitas dessas drogas são extremamente tóxicas. Entre os organofosforados estão o paration; o isofluorato e o ecotiofato. Os agrotóxicos são compostos por substâncias químicas ou produtos biológicos que são desenvolvidos para matar ou dificultar o crescimento de pragas. Agindo sobre processos vitais, eles também afetam a saúde humana, podendo apresentar efeitos agudos ou crônicos. Os efeitos dos inseticidas organofosforados podem durar semanas e até meses. São drogas que apresentam alta lipossolubilidade, o que favorece o processo de absorção pelo TGI, mucosas e pulmões. A metabolização ocorre no plasma ou pelo sistema microssomal hepático e a excreção é predominantemente renal nas 24 primeiras horas. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 12 Os inibidores da colinesterase produzem efeitos muscarínicos semelhantes aos induzidos pelos agonistas colinérgicos de ação direta, uma vez que apenas estimulam uma maior reposta parassimpática, mantendo uma maior concentração de ACh. Podem, ainda, estimular os receptores nicotínicos de forma indireta nos gânglios, induzindo vasodilatação. Algumas ações centrais dessas drogas são confusão, ataxia, convulsões e problemas respiratórios. O ecotiofato se liga covalentemente à colinesterase por meio do seu grupo fosfato, inativando a enzima de tal forma que o restabelecimento da sua atividade necessita da síntese de novas moléculas. Após a modificação covalente da enzima, ocorre a liberação de um de seus grupos etila. Este processo é conhecido como “envelhecimento” e torna impossível a reativação enzimática por agentes como a pralidoxima, que são usados para quebrar a ligação entre o fármaco e a enzima. As ações do ecotiofato incluem estimulação colinérgica generalizada, paralisia da função motora e convulsões. O ecotiofato provoca miose, com uso clínico para o tratamento do glaucoma, e tem uso terapêutico para isso. É pouco utilizado em função dos efeitos adversos associados. A intoxicação por drogas anticolinesterásicas ocorre em função do uso de doses excessivas ou da exposição a quantidades tóxicas de organofosforados. Os sintomas de intoxicação podem ser muscarínicos, nicotínicos e centrais e variam desde cefaleia, visão borrada e salivação até taquicardia, queda da pressão arterial, colapso respiratório e morte. TEMA 4 – DROGAS ANTICOLINÉRGICAS Antagonista colinérgico é um termo geral para os fármacos que se ligam aos colinoceptores muscarínicos ou nicotínicos e previnem os efeitos da ACh ou de outros agonistas colinérgicos. Os fármacos deste grupo apresentam maior aplicação clínica, especialmente os inibidores de receptores muscarínicos. Por essa razão, são também conhecidos por fármacos antimuscarínicos ou parassimpaticolíticos. O termo “anticolinérgicos” não é o mais apropriado para este grupo, embora seja muito utilizado por diferentes autores. Os antagonistas da ACh podem ser: A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 13 Drogas antimuscarínicas; Bloqueadores ganglionares; Bloqueadores neuromusculares. Os antimuscarínicos interrompem os efeitos de uma inervação parassimpática, deixando as ações da estimulação simpática sem oposição. Os bloqueadores ganglionares atuam nos gânglios e ligam-se preferencialmente aos receptores nicotínicos nos gânglios simpáticos e parassimpáticos. Os bloqueadores neuromusculares são drogas que interferem com a transmissão dos impulsos eferentes aos músculos esqueléticos, sendo empregados como adjuvantes para indução de relaxamento durante anestesia. Ao bloquear os receptores muscarínicos, os fármacos antimuscarínicos causam inibição das funções ligadas à ativação desses receptores. Podem, ainda, bloquear os poucos neurônios simpáticos colinérgicos. Apresentam pouca ação sobre as JNMs ou gânglios autonômicos, uma vez que não atuam sobre receptores nicotínicos. A atropina é um dos principais representantes desse grupo. É uma amina terciaria da beladona com alta afinidade pelos receptores muscarínicos. Essa droga atua central e perifericamente, competindo com a ACh pelo seu receptor e impedindo a sua ligação. Nos olhos, a atropina causa midríase persistente e cicloplegia, que é a incapacidade de focar a visão para perto. No TGI, pode ser usada como antiespasmódico. No sistema cardiovascular, atua de forma dose dependente, em que baixas doses reduzem a frequência cardíaca, enquanto doses mais altas aumentam. Ao bloquear receptores muscarínicos nas glândulas, a atropina produz xerostomia. Tem uso clínico para tratamento de intoxicação por organofosforados. A escopolamina produz efeitos periféricos similares aos da atropina. Contudo, essa droga tem maior ação no SNC, bem como duração de ação mais longa. É um dos fármacos anticinetóticos mais eficazes e pode induzir sedação. O uso terapêutico é limitado à prevenção da cinetose e de náuseas e emeses pós- cirúrgicas. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 14 TEMA 5 – JUNÇÃO NEUROMUSCULAR Junção neuromuscular (JNM) é uma estrutura localizada na junção de um axônio motor e fibras musculares esqueléticas, local em que ocorrem sinapses. O terminal pré-sináptico contémvárias zonas ativas. A membrana pós-sináptica é chamada de placa motora terminal, apresenta dobras na superfície e alta quantidade de receptores nicotínicos. A ACh liberada pelas vesículas da membrana pré-sináptica induz um aumento na permeabilidade da membrana pós-sináptica, por meio do influxo de íons sódio ou potássio. A despolarização de membrana mediada pela ACh é chamada de potencial de placa terminal ou PPT. O PPT se dissemina para as partes adjacentes da fibra, e quando sua amplitude atinge o limiar de excitação, inicia-se um potencial de ação, que se propaga para o restante da fibra e desencadeia uma contração muscular. Os fármacos são capazes de bloquear a transmissão neuromuscular, os quais agem na região pré-sináptica, inibindo a síntese e liberação de ACh, ou na região pós-sináptica, que é o local de ação de grande parte das drogas dessa classe com indicação clínica. Essas drogas com ação pós-sináptica são estruturalmente parecidas com a ACh e atuam como antagonistas tipo não despolarizantes ou como agonistas tipo despolarizantes nos receptores da placa motora da JNM. As drogas com ação pós-sináptica têm maior importância clínica, sendo o curare o primeiro fármaco conhecido capaz de bloquear a JNM. Ele era utilizado durante a caça com objetivo de paralisar a presa. Trata-se de uma preparação com muitos elementos, incluindo venenos de plantas e animais. A mistura era fervida em água e depois evaporada até formar uma pasta escura e espessa. A potência do veneno era então testada contando o número de saltos que um sapo daria depois de ser flechado. Entre os fármacos não despolarizantes podemos citar pancurônio, vecurônio, rocurônio, atracúrio e o cisatracúrio. Eles bloqueiam competitivamente a ACh nos receptores nicotínicos. Esses fármacos impedem a despolarização da membrana da célula muscular e inibem a contração muscular. São drogas empregadas como estratégia para diminuir a duração do bloqueio neuromuscular durante a anestesia. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 15 São administrados por via intravenosa ou intramuscular, não sendo eficazes por via oral. Esses fármacos possuem duas ou mais aminas quaternárias na sua estrutura, que dificultam a absorção. Entre os efeitos adversos podemos citar redução da pressão arterial, liberação de histamina, taquicardia e depressão respiratória. As drogas bloqueadores despolarizantes atuam por despolarização da membrana plasmática da fibra muscular, de forma semelhante à ACh. São mais resistentes à degradação pela acetilcolinesterase, e, por isso, a despolarização das fibras musculares é mais persistente. Um representante desse grupo é o suxametônio ou succinilcolina, que lentamente se difunde para a placa terminal e persiste por tempo suficiente para provocar perda da excitabilidade elétrica. O mecanismo envolve inicialmente a abertura de canais de sódio associados ao receptor nicotínico, resultando na despolarização do receptor e induzindo as chamadas fasciculações, que são contrações musculares transitórias. A despolarização contínua origina uma repolarização gradual quando o canal de sódio se fecha. Em função disso, ocorre resistência à despolarização e paralisia. A duração de ação da succinilcolina irá depender da sua difusão na placa motora e hidrólise pela colinesterase plasmática. A deficiência dessa enzima pode levar o paciente a um quadro de paralisia prolongada. A succinilcolina é administrada por via endovenosa, tem curta duração de ação, pois é distribuída e hidrolisada rapidamente. Seu efeito desaparece rapidamente após ser descontinuada. É utilizada para intubação endotraqueal durante indução da anestesia e para tratamento de choque eletroconvulsivo. Entre os efeitos adversos dessa droga estão: hiperpotassemia, bradicardia, aumento da pressão intraocular, paralisia prolongada e hipertermia maligna. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com 16 REFERÊNCIAS GOLAN, D. E. et al. Princípios de Farmacologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. SILVERTHORN, D. U. Fisiologia humana: uma abordagem integrada. Porto Alegre: ArtMed, 2017. WHALEN, K. Farmacologia ilustrada. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. A luno: LU A N A S A B R IN A C O S T A D A C O S T A E m ail: luana10.sabrina@ gm ail.com