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UNIDADE 2 Farmacodinâmica e fármacos autonômicos 1.0 INTERAÇÕES FARMACOLÓGICAS -Podem ocorrer por diferentes mecanismos, classificados em: farmacocinéticos, farmacodinâmicos e interações combinadas. Algumas interações farmacológicas são resultado de dois ou mais mecanismos. - Tais interações não estão restritas à associação de fármacos: podem ocorrer entre fármacos convencionais e medicamentos fitoterápicos, drogas de abuso (incluindo álcool e fumo), alimentos e solventes. - A resposta esperada a determinado tratamento farmacológico pode ser alterada por diversos fatores: a administração simultânea de outros fármacos, o que pode ser muito comum, principalmente para a população idosa, que geralmente necessita de tratamento para mais de uma comorbidade. 1.1 INTERAÇÕES FARMACOCINÉTICAS - São as mais frequentes, podendo ocorrer desde o processo de absorção até a excreção do fármaco. Assim, a absorção de fármacos no trato gastrointestinal (TGI) pode ser afetada pelo uso simultâneo de outros fármacos que possuem as seguintes características: Grande área de absorção no organismo; Capacidade de sofrer ligação ou quelação; Alteração do pH do estômago; Alteração da motilidade intestinal; Capacidade de afetar proteínas de transporte (como glicoproteína P e transportadores de ânions orgânicos). - A redução na extensão da absorção de um fármaco tem efeitos clínicos mais significativos do que a redução na taxa de absorção apenas, e pode resultar em concentrações subterapêuticas do fármaco na corrente sanguínea. - Alguns exemplos de fármacos que retardam a absorção no TGI de outros incluem a atropina e os opioides, posto que eles inibem o esvaziamento gástrico. Por outro lado, a metoclopramida promove o esvaziamento gástrico, acelerando a absorção gastrointestinal de outros fármacos administrados simultaneamente. Outro exemplo é a adição de epinefrina a injeções de anestésicos locais, o que resulta em uma vasoconstrição que retarda a absorção, prolongando o efeito anestésico local. - Um fármaco A pode interagir de modo físico ou químico com o fármaco B no intestino e inibir sua absorção intestinal. - A distribuição de fármacos pode ser afetada por interações farmacológicas que promovem competição pelo sítio de ligação às proteínas plasmáticas, deslocamento desses sítios nos tecidos e alterações nas barreiras celulares, como a inibição da glicoproteína P na barreira hematencefálica. - O metabolismo dos fármacos pode ser induzido ou inibido por farmacoterapia concomitante, podendo resultar em efeitos significativos para o tratamento. - Os efeitos máximos decorrentes de uma indução enzimática geralmente surgem com 7 a 10 dias de tratamento, sendo necessário o mesmo tempo, no mínimo, para retornar à normalidade após a interrupção do fármaco. - Quanto à inibição do metabolismo, os efeitos são observados mais rapidamente, podendo ser notados tão logo o inibidor atinja uma concentração tecidual suficiente. - A excreção renal de fármacos pode ser afetada por interações farmacológicas que promovem a inibição de transportadores envolvidos na secreção ativa de alguns fármacos nos túbulos renais, considerados um importante via de eliminação. Assim, alguns fármacos inibem a glicoproteína P, transportadores de ânions orgânicos e transportadores de cátions orgânicos, aumentando a concentração sérica do outro fármaco. - Outra forma de interação farmacológica no processo de excreção ocorre para fármacos que são ácidos fracos ou bases fracas, podendo a sua excreção ser influenciada por aqueles que afetem o pH da urina. 1.2 INTERAÇÕES FARMACODINÂMICAS - Quando um fármaco modifica a resposta dos tecidos-alvo ou não-alvo a outro fármaco”. As interações farmacodinâmicas são comuns na prática clínica. os efeitos colaterais podem ser diminuídos caso sejam tomadas medidas antecipadas. - Dois destes com efeitos farmacológicos semelhantes, que atuem ou não no mesmo receptor, ao serem administrados simultaneamente geralmente promovem uma resposta aditiva ou sinérgica. - Fármacos que promovem efeitos farmacológicos contrários podem diminuir a resposta do outro ou de ambos. 1.2.1 Interações combinadas - Quando há o uso combinado de dois ou mais fármacos, apresentando efeitos tóxicos individuais sobre o mesmo órgão, tem-se uma toxicidade combinada que pode levar a uma lesão orgânica. - Alguns fármacos aumentam a toxicidade de outros, mesmo que esses não apresentem efeito tóxico intrínseco sobre o órgão/tecido. 2.0 FARMACODINÂMICA I - MODO DE AÇÃO DOS FÁRMACOS - A farmacodinâmica descreve os efeitos bioquímicos e fisiológicos dos fármacos, bem como dos seus mecanismos de ação. Dessa forma, as ações de grande parte dos fármacos se devem à sua interação com as macromoléculas do organismo, especialmente os receptores. - O receptor é o alvo farmacológico no qual o fármaco interage a fim de produzir uma resposta celular. Eles encontram-se nas superfícies das células, mas também em compartimentos intracelulares, como o núcleo. - Os fármacos agem alterando a velocidade ou amplitude de uma resposta celular do próprio organismo, em vez de desencadear reações que outrora não ocorriam. Muitos fármacos podem também interagir com aceptores, que são componentes do organismo (como proteínas plasmáticas), sem produzir uma resposta bioquímica ou fisiológica, mas resultando em uma alteração da farmacocinética do fármaco. 2.1 RECEPTORES FISIOLÓGICOS - São proteínas que normalmente agem como receptores para substâncias reguladoras endógenas. No entanto, os fármacos podem se ligar a esses receptores e produzir uma resposta semelhante às substâncias endógenas. Para esses fármacos, dá-se a denominação de agonistas. - Um agonista é considerado primário quando ligado ao mesmo sítio de reconhecimento que o agonista endógeno. Porém, quando essa ligação é em um sítio diferente do receptor, alostérico ou alotópico, ele é considerado um agonista alostérico ou alotópico. - Alguns fármacos podem mostrar uma eficácia parcial quando ligados ao sítio ativo do receptor, independentemente da concentração utilizada, sendo conhecidos como agonistas parciais. - Certos receptores podem exibir uma atividade típica mesmo com a ausência de uma substância reguladora, sendo que essa conformação inativa do receptor pode ser estabilizada por fármacos, considerados agonistas inversos. - Por outro lado, o fármaco pode ligar-se aos receptores fisiológicos e bloquear ou reduzir a ação de um agonista, sendo denominado de antagonista. - O antagonismo é decorrente, na maioria dos casos, da competição com um agonista pelo mesmo sítio de ligação do receptor; em outras vezes, decorre da combinação com o agonista, resultando em um antagonismo químico; ou ainda pela inibição indireta dos efeitos celulares ou fisiológicos do agonista. - Os agonistas parciais e inversos, na presença de um agonista pleno, comportam-se como antagonistas competitivos. - Um antagonista competitivo liga-se de forma reversível ao sítio do receptor, porém, ao contrário do agonista, não estabiliza a conformação necessária para a ativação do receptor e ainda bloqueia a ligação do agonista ao seu receptor. - - Um antagonista não-competitivo pode-se ligar tanto ao sítio ativo quanto a um sítio alostérico de um receptor. No entanto, quando ligado ao sítio ativo, sua ligação geralmente é irreversível, impedindo que o agonista se ligue mesmo em altas concentrações. Como essa ligação não pode ser modificada, esse tipo de antagonismo é não-competitivo. - Já o antagonista alostérico atua impedindo a ativação do receptor, mesmo quando o agonista está ligado ao sítio ativo. Dessa maneira, a ligação do antagonista alostérico no receptor pode ser reversível ou não, mas, quando ligado de forma irreversível, seu o efeito não diminui, mesmo após a eliminação do fármaco livre (não-ligado) do organismo, resultando em uma resposta máxima reduzida do agonista. - Um antagonista competitivo competir constantemente por sua ligação, diminuindo de modo efetivo a afinidade do receptor pelo seu agonista sem diminuir o número de receptores disponíveis.Por outro lado, um antagonista não-competitivo diminui o número de receptores disponíveis para ligação do agonista. 2.2 ESPECIFICIDADE DAS RESPOSTAS AOS FÁRMACOS - A afinidade de um fármaco por seu receptor pode ser medida pela força da interação reversível entre eles. - Essa afinidade e sua atividade intrínseca podem ser determinadas pela estrutura química da molécula do fármaco, a qual também contribui para a sua especificidade farmacológica. - Se um determinado fármaco interagir especificamente com um único tipo de receptor expresso em um número reduzido de células diferenciadas, ele será altamente específico. Do contrário, se interagir com um tipo de receptor expresso em todo o organismo, produzirá efeitos generalizados. - A esteroquímica também pode influenciar a especificidade de um fármaco. Eles podem apresentar diferentes propriedades farmacodinâmicas e farmacocinéticas. - A resistência farmacológica pode ocorrer tbm devido a mecanismos farmacocinéticos, que impedem a ligação fármaco-receptor, ou por expansão clonal de células neoplásicas, que possuem mutações dos receptores. - Nem todas as ações farmacológicas são mediadas pela interação dos fármacos com receptores macromoleculares. 3.0 FARMACODINÂMICA II - TEORIA DOS RECEPTORES/PAPEL DOS SEGUNDOS MENSAGEIROS - A partir da ideia de complementaridade foi possível aplicá-la em reações antígeno-anticorpo e para a interação entre o fármaco e seu receptor. A nível molecular, a energia livre do complexo fármaco-receptor é estabilizada através de interações intermoleculares, como interações hidrofóbicas, interações de van der Waals, ligações de hidrogênio e interações eletrostáticas. - O modelo chave-fechadura aplicado à interação entre o fármaco e seu receptor. Assim, a biomacromolécula, ou seja, o receptor, pode ser considerado como a fechadura; o sítio desse receptor, onde o fármaco irá interagir, é a “fenda” da fechadura; e as chaves são os ligantes do sítio receptor. Sabe-se que as ações de abrir a porta ou não são consideradas como as possíveis respostas biológicas dessa interação chave-fechadura. - Três diferentes tipos de chaves podem interagir com a fechadura: a chave original é o agonista natural (endógeno), a chave modificada é um agonista, que pode ser de origem sintética ou natural (fármaco) e a chave falsa é o antagonista, que também pode ser de origem sintética ou natural. - Dois fatores importantes para a interação do ligante ao receptor com o objetivo de desencadear a resposta biológica: AFINIDADE – traduz a capacidade do ligante em se complexar com o sítio ativo complementar do receptor. E ATIVIDADE INTRÍNSECA – traduz a capacidade do complexo ligante-receptor de desencadear uma certa resposta biológica. 3.1 TEORIA DOS RECEPTORES - Com o objetivo de ajudar a compreender como se dá a interação fármaco-receptor, algumas teorias foram formuladas. 3.1.1 Teoria da ocupação - Formulada por Clark e Gaddum, é baseada na afirmação de que o efeito farmacológico de um fármaco é diretamente proporcional ao número de receptores ocupados por ele. Acreditavam que a potência da atividade seria maior conforme fosse o número de receptores e, dessa forma, a ação máxima do fármaco seria obtida quando todos os receptores estivessem ocupados. - No entanto, essa teoria apresenta várias limitações. 3.1.2 Teoria da charneira - O intuito de explicar por que o agonista pode competir com o antagonista pelo sítio do receptor, embora não consiga deslocá-lo. Essa teoria baseia-se na hipótese que há dois centros no receptor farmacológico: um específico, que interage com os grupos farmacofóricos do agonista, e um inespecífico, que interage principalmente com os grupos apolares do antagonista. - Aqui, agonista e antagonista se ligam ao sítio específico, porém as forças envolvidas na ligação do receptor com o antagonista são maiores e, mesmo com um excesso de agonista, graças ao fato de o antagonista estar ligado fortemente, não é possível deslocá-lo. 3.1.3 Teoria do encaixe induzido - Baseada em sistemas enzimáticos. Baseia-se na hipótese que, ao se complexar, o substrato induz uma mudança na conformação do sítio ativo da enzima com a qual interage, sendo responsável pelo processo catalítico e podendo ser propagada às subunidades vizinhas. Esse processo pode ser extrapolado à interação de ligantes aos seus receptores. No entanto, para agonistas, a mudança conformacional no receptor pode, por exemplo, modificar a condutância de um canal iônico, como os benzodiazepínicos frente ao receptor GABAA. - O ligante possui a capacidade de induzir a modificação do sítio tridimensional de seu receptor biológico a fim de possibilitar seu reconhecimento e, simultaneamente, poder reconhecer uma ou várias conformações do ligante e selecionar a bioativa. No entanto, o receptor não irá permanecer o tempo inteiro na conformação apropriada para o encaixe do fármaco: ele retorna à sua forma original após dissociação. 3.2 SEGUNDOS MENSAGEIROS - Os receptores fisiológicos exibem duas funções principais: ligação às substâncias reguladoras endógenas e propagação da mensagem (como sinalização), o que evidencia a existência de, pelo menos, dois domínios dentro do receptor: o domínio de ligação e o domínio efetor. - As ações reguladoras de um receptor podem ser executadas diretamente no seu alvo celular, nas proteínas efetoras ou ainda podem ser difundidas por transdutores, ou seja, moléculas de sinalização celular intermediária. - A via de transdução de sinais ou sistema receptor-efetor é formado pelo receptor, seu alvo celular e as moléculas intermediárias envolvidas. - O alvo fisiológico final não é a proteína efetora celular proximal, mas pode ser uma enzima, um canal iônico ou uma proteína de transporte que sintetiza, transfere ou decompõe um segundo mensageiro. Os segundos mensageiros, quando propagados nas proximidades do local onde são sintetizados ou liberados, podem transmitir a informação para diferentes alvos. - O cálcio é um importante mensageiro que atua na regulação de várias respostas celulares, a exemplo da contração, secreção, metabolismo e atividade elétrica. 4.0 FARMACOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO - O sistema nervoso é dividido em sistema nervoso central (SNC), formado pelo cérebro e medula espinal, e sistema nervoso periférico (SNP), formado pelos tecidos neuronais que se encontram fora do SNC. Além disso, a porção motora (eferente) do sistema nervoso pode ser subdividida em autônoma e somática. · Sistema nervoso autônomo (SNA): também conhecido como sistema nervoso visceral, vegetativo ou involuntário, é responsável pela regulação de funções autônomas que não são controladas pelo consciente. Ele baseia-se em nervos, gânglios e plexos que inervam diversos tecidos periféricos, estando ligado a funções altamente necessárias para a vida, como débito cardíaco, distribuição do fluxo sanguíneo e digestão. · Sistema nervoso somático (SNS): é responsável pelas funções controladas pelo consciente, como respiração, movimentos e postura. O SNA e o SNS apresentam influxos sensoriais (aferentes) que fornecem informações do ambiente, tanto interno quanto externo, capazes de modificar o efluxo motor através de arcos reflexos. 4.1 DIVISÕES DO SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO - Pode ser dividido, anatomicamente, em duas grandes porções: simpática (toracolombar) e parassimpática (craniossacral). Os neurônios, em cada uma das porções, são originados dentro do SNC e formam as fibras eferentes pré-ganglionares, as quais terminam em gânglios motores. As fibras pré-ganglionares simpáticas partem do SNC por meio dos nervos espinais torácicos e lombares, ao passo que as fibras pré-ganglionares parassimpáticas partem do SNC pelos nervos cranianos e pelas raízes nervosas espinais. Grande parte das fibras pré-ganglionares simpáticas são curtas e, com isso, terminam em gânglios localizados nas cadeias paravertebrais. - A acetilcolina (ACh) é o neurotransmissor de todas as fibras autônomas pré-ganglionares, da maior parte das fibras pós-ganglionares parassimpáticas e de poucas fibraspós-ganglionares simpáticas. Os neurônios que liberam ACh são denominados de colinérgicos. Alguns nervos pós-ganglionares parassimpáticos utilizam o óxido nítrico (NO), sendo conhecidos como nitrérgicos. Já as fibras pós-ganglionares simpáticas utilizam, majoritariamente, a norepinefrina (NE) como neurotransmissor, sendo denominadas adrenérgicas. No entanto, algumas dessas fibras podem liberar ACh em vez de NE. 4.2 FUNÇÕES GERAIS DO SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO - O SNA simpático e a medula suprarrenal a ele associada não são essenciais para a vida em um ambiente controlado. Em circunstâncias de estresse ele é totalmente necessário, posto que o grau de atividade desse sistema varia de acordo com a circunstância, ajustando-se a determinado ambiente ou situação. Então, frente à uma situação de perigo/estresse, o organismo é preparado para uma “luta ou fuga” e, a frequência cardíaca acelera, a pressão arterial e a glicemia se elevam, o fluxo sanguíneo é desviado de regiões como a pele e a região esplâncnica para os músculos esqueléticos e os bronquíolos e pupilas se dilatam. - Na ausência do sistema simpático algumas funções passam a ser limitadas, não sendo possível regular a temperatura corporal quando a temperatura ambiente sofre variação, a concentração de glicose no sangue não sobe em uma urgência e não há reações instintivas ao ambiente externo, entre outros. - O SNA parassimpático não atua de forma contínua, sendo organizado para realizar descargas limitadas e localizadas, com o intuito de conservar energia e manter a função dos órgãos durante períodos de pouca atividade. No entanto, o sistema parassimpático é essencial para a vida. Entre suas funções, vale ressaltar a redução da frequência cardíaca, diminuição da pressão arterial, estimulação dos movimentos e secreções gastrointestinais e esvaziamento da bexiga e do reto, além de ajudar na absorção de nutrientes e proteção da retina contra a luz excessiva. 4.3 CONSIDERAÇÕES FARMACOLÓGICAS - Os fármacos podem alterar muitas funções autônomas através da mimetização ou bloqueio das ações dos transmissores químicos, sendo úteis em diversas condições clínicas. Cada etapa envolvida no processo de neurotransmissão representa um local possível de intervenção terapêutica. No entanto, diversos fármacos utilizados para outros alvos apresentam efeitos indesejáveis sobre a função autonômica. 5.0 ADRENÉRGICOS/ANTIADRENÉRGICOS - Na fase final da neurotransmissão simpática ocorre a liberação de norepinefrina (NE), um neurotransmissor, em sítios pós-sinápticos com ativação dos adrenoceptores. Ademais, frente a diferentes estímulos, como o estresse, a medula suprarrenal libera um hormônio, a epinefrina, que é transportado até os tecidos-alvo. - Os fármacos com ações semelhantes à epinefrina e à NE são denominados fármacos simpatomiméticos. Alguns desses são agonistas diretos, atuando diretamente nos adrenoceptores, e outros são agonistas indiretos, e dependem do aumento das ações de catecolaminas endógenas. Certos fármacos possuem ambas as ações. - Os agonistas indiretos apresentam dois mecanismos de ação diferentes: o primeiro consiste no deslocamento de catecolaminas armazenadas na terminação nervosa adrenérgica ou na diminuição da depuração de NE liberada; o segundo baseia-se na inibição da recaptação de catecolaminas que já foram liberadas ou na inibição do metabolismo enzimático da NE. Sendo assim, a tiramina, por sua vez, atua pelo primeiro mecanismo, enquanto a cocaína e os antidepressivos tricíclicos atuam pelo segundo. - Os fármacos simpatomiméticos diretos e indiretos causam muitos ou todos os efeitos típicos das catecolaminas endógenas. No entanto, os efeitos dos fármacos diretos dependem de sua afinidade com os subtipos dos adrenoceptores, bem como da expressão desses receptores em seus tecidos-alvo. 5.1 ADRENOCEPTORES - Os adrenoceptores são receptores acoplados à proteína G. Cada proteína G é composta pelas subunidades α, β e γ, sendo que sua classificação é baseada nas subunidades α distintivas. Para a função adrenoceptora, as proteínas G de maior importância são a Gs (estimuladora da adenilil ciclase), Gi e Go (inibidoras da adenilil ciclase) e Gq e G11 (acoplamento de receptores α à fosfolipase C). - A dopamina, uma catecolamina endógena, também produz diversos efeitos biológicos ao interagir com seus receptores específicos, os quais são importantes na região cerebral e diferem dos receptores α e β. - Os subtipos de adrenoceptores foram revelados por clonagem molecular, e hoje tem-se o conhecimento de subtipos de receptores α, β e de dopamina. Os subtipos de receptores α são: α1 (α1A, α1B, α1D) e α2 (α2A, α2B, α2C). Já os receptores β apresentam três subtipos (β1, β2 e β3), enquanto os receptores do tipo dopamina apresentam cinco (D1-D5). O subtipo de receptor α1 é encontrado na maioria dos músculos lisos vasculares, no músculo dilatador pupilar, no músculo liso pilomotor, na próstata e no coração. Já o subtipo α2 é encontrado nos neurônios pós-sinápticos do SNC, plaquetas, terminais nervosos adrenérgicos e colinérgicos, alguns músculos lisos vasculares e adipócitos. Quanto aos receptores β, o subtipo β1 encontra-se distribuído no coração e nas células justaglomerulares; β2 nos músculos lisos respiratórios, uterinos e vasculares, músculo esquelético e fígado; e β3 na bexiga e nos adipócitos. 5.2 AGONISTAS E ANTAGONISTAS DOS RECEPTORES ADRENÉRGICOS - Os fármacos agonistas e antagonistas dos receptores adrenérgicos são a base para o tratamento da hipertensão, da asma e do infarto do miocárdio. Os fármacos α1-agonistas aumentam a resistência vascular periférica e, com isso, aumentam ou mantém a pressão arterial. Já os fármacos β1-agonistas aumentam a frequência cardíaca e a força de contração do miocárdio, levando ao aumento do débito cardíaco. - Os β2-agonistas, por sua vez, provocam relaxamento do músculo liso vascular, brônquico e gastrointestinal. - Os antagonistas dos receptores adrenérgicos inibem a interação da NE, da epinefrina e de outros simpatomiméticos com os receptores α e β. Os antagonistas dos receptores α apresentam efeitos clínicos importantes no sistema cardiovascular, causando vasodilatação, redução da pressão arterial e diminuição da resistência periférica. Os antagonistas dos receptores β agem diminuindo a frequência cardíaca e a contratilidade do miocárdio, sendo que muitos deles apresentam efeito anestésico local ou estabilizador de membrana. 6.0 COLINÉRGICOS/ANTICOLINÉRGICOS - A farmacologia colinérgica aborda as propriedades da acetilcolina (ACh), um neurotransmissor com diversas ações fisiológicas importantes que envolvem a junção neuromuscular (JNM), o SNA e o SNC. Os fármacos com atividades colinomiméticas e anticolinérgicas são amplamente utilizados devido aos seus efeitos na cognição e no comportamento, bem como na JNM, coração, olhos, pulmões e os tratos genitourinário e gastrointestinal. - A acetilcolinesterase (AChE) é a enzima responsável pela degradação da acetilcolina, além de também representar um importante alvo terapêutico. 6.1 Receptores colinérgicos - São divididos em duas grandes classes: muscarínicos e nicotínicos. Os receptores muscarínicos são expressos nos gânglios autônomos, em todas as fibras pós-ganglionares parassimpáticas, em algumas pós-ganglionares simpáticas e no SNC. Eles são ligados à proteína G e apresentam 5 subtipos, M1–M5, os quais podem ser reunidos em dois grupos distintos: aqueles que estimulam a fosfolipase C (M1, M3 e M5) e os que inibem a adenilil ciclase e ativam os canais de K+ (M2 e M4). Desses subtipos, pode-se destacar: · M1 (neuronais): produzem a excitação lenta dos gânglios. São bloqueados de modo seletivo pelo fármaco pirenzepina; · M2 (cardíacos): medeiam a inibição pré-sináptica e provocam a diminuição da frequência cardíaca e da força de contração. São bloqueados de modo seletivo pelo fármaco galamina; · M3 (glandulares): responsáveis pela secreção, contração dos músculos lisos das vísceras e relaxamento vascular. O fármaco cevimelina é um agonista seletivo deste receptor.- Os receptores nicotínicos da ACh são assim denominados porque podem também ser estimulados pelo alcaloide “nicotina”. Esses receptores são canais iônicos controlados por ligantes que se interpõem pós-sinapticamente na JNM e nos gânglios autônomos periféricos. No SNC, os receptores nicotínicos controlam a liberação de outros neurotransmissores, como o glutamato e a dopamina, pelas estruturas pré-sinápticas. Tem-se, até o momento, 17 tipos diferentes de receptores nicotínicos, os quais foram designados como α (10 tipos), β (4 tipos), γ, δ e ε (1 tipo de cada). 6.2 AGONISTAS E ANTAGONISTAS MUSCARÍNICOS - São também conhecidos como parassimpatomiméticos, pois seus principais efeitos no organismo se assemelham aos decorrentes da estimulação parassimpática. São antagonistas competitivos - Dentre os efeitos cardiovasculares dos agonistas muscarínicos, tem-se a diminuição da frequência e débito cardíaco, vasodilatação generalizada e queda acentuada da pressão arterial. Sobre a musculatura lisa, ocorre contração do músculo liso do intestino, dos brônquios e da bexiga e aumento da atividade peristáltica. Quanto às secreções, ocorre estimulação de glândulas exócrinas. Levam à constrição da pupila e contração do músculo ciliar, provocando diminuição da pressão intraocular de modo a permitir que o seu principal uso seja no tratamento do glaucoma. - Os principais efeitos dos antagonistas muscarínicos são: inibição de secreções, o que deixa a pele e boca muito secas; taquicardia; dilatação da pupila (midríase) e paralisia de acomodação, devido ao relaxamento do músculo ciliar; relaxamento da musculatura lisa (intestino, brônquios, trato biliar e bexiga); inibição da motilidade gastrointestinal e da secreção ácida do estômago ; e efeitos sobre o SNC, que incluem principalmente os excitatórios e também sedativos, além dos efeitos antiemético e antiparkinsoniano. 6.3 AGONISTAS E ANTAGONISTAS NICOTÍNICOS - Os agonistas nicotínicos atuam nos receptores neuronais (ganglionares e do SNC) ou nos receptores musculares estriados (placa motora). - Os efeitos dos agonistas nicotínicos incluem: taquicardia, aumento da pressão arterial, efeitos variáveis sobre a motilidade e as secreções gastrointestinais, aumento das secreções brônquica, salivar e sudorípara. Além disso, a nicotina também provoca efeitos importantes no SNC, uma vez que ela age por estimulação dos gânglios seguida de bloqueio por despolarização. - Os antagonistas nicotínicos, que atuam como bloqueadores ganglionares, são clinicamente obsoletos, sendo utilizados atualmente apenas para o estudo experimental da função autônoma. - Os antagonistas dos receptores nicotínicos utilizados atualmente na prática clínica são os bloqueadores neuromusculares não despolarizantes. 7.0 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES - Os fármacos bloqueadores neuromusculares atuam na região pré-sináptica, inibindo a produção ou liberação de ACh, ou na região pós-sináptica, bloqueando ou ativando os receptores de ACh, sendo que essa ativação causa uma despolarização contínua na placa motora terminal. Esses agentes bloqueadores neuromusculares podem, então, ser classificados em despolarizantes e não despolarizantes. 7.1 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES NÃO DESPOLARIZANTES - Os representantes mais importantes dessa classe hoje em dia são: pancurônio, vecurônio, cisatracúrio e mivacúrio, os quais diferem-se, principalmente, quanto à duração da sua ação, sendo o pancurônio de longa duração, o vecurônio e cisatracúrio com efeito intermediário e o mivacúrio de curta duração. - O principal efeito colateral da tubocurarina é a queda da pressão arterial e o broncoespasmo em indivíduos predispostos. Os demais fármacos causam menos hipotensão. No entanto, o pancurônio também tem como efeito colateral uma taquicardia modesta devido ao bloqueio dos receptores muscarínicos no coração. - Quanto ao mecanismo de ação dos agentes não despolarizantes, eles atuam como antagonistas competitivos dos receptores nicotínicos presentes na placa terminal. Tais agentes também causam uma manifestação conhecida como “fadiga tetânica”, a qual se dá pela inibição da liberação da ACh durante a estimulação repetitiva do nervo motor, decorrente do bloqueio de autorreceptores pré-sinápticos facilitadores. - Embora alguns bloqueadores neuromusculares não despolarizantes possam causar efeitos autônomos, os principais são decorrentes da paralisia motora. Os primeiros efeitos desses fármacos ocorrem nos músculos extrínsecos do olho, levando a uma visão dupla; nos músculos da face e da faringe, o que causa dificuldade para deglutir; e dos membros. Quanto aos músculos envolvidos na respiração, esses são os últimos a serem comprometidos e os primeiros a se recuperarem. 7.2 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES DESPOLARIZANTES - O suxametônio, único fármaco despolarizante em uso clínico, atua semelhantemente a ACh, posto que sua estrutura consiste em duas moléculas de ACh ligadas por seus grupos acetil, apresentando um metabolismo rápido por ser hidrolisado pela colinesterase do plasma, o que diminui o seu tempo de ação. No entanto, seu tempo de ação, após administração por via intravenosa, é suficiente para tornar a região de placa motora de fibras musculares inexcitável. - Dessa maneira, a recuperação do paciente após a retirada do suxametônio é mais rápida quando comparada aos fármacos não despolarizantes, o que faz com que esse agente ainda seja utilizado apesar dos seus efeitos colaterais. SINTETIZANDO - Na administração simultânea de dois ou mais fármacos, podem ocorrer interações farmacológicas, sendo mais frequentes as farmacocinéticas. Porém, as interações também podem ocorrer entre fármacos convencionais e medicamentos fitoterápicos. - As ações da maioria dos fármacos ocorrem pela sua interação desses com macromoléculas no organismo, especialmente os receptores. Desse modo, a ligação dos fármacos agonistas nos receptores fisiológicos produzem uma resposta semelhante às substâncias endógenas, enquanto os fármacos antagonistas se ligam aos receptores fisiológicos e reduzem ou bloqueiam a ação de um agonista. - Para o fármaco desencadear uma resposta biológica ao se ligar ao seu receptor, é necessário que ele tenha afinidade, ou seja, tenha a capacidade de se complexar com o sítio ativo complementar do receptor, além de sua atividade intrínseca, que é a capacidade do complexo ligante-receptor de desencadear essa resposta biológica. - Dentre as teorias dos receptores, destaca-se a teoria do encaixe induzido em que se considera que o fármaco possui a capacidade de induzir a modificação do sítio tridimensional de seu receptor biológico a fim de possibilitar o seu reconhecimento, assim como o receptor tem a capacidade de selecionar a conformação bioativa do fármaco. - O sistema nervoso autônomo (SNA) é responsável pela regulação de funções autônomas que não são controladas pelo consciente, sendo dividido em simpático e parassimpático. Vale considerar que os fármacos podem alterar muitas funções autônomas através da mimetização ou bloqueio das ações dos transmissores químicos. image1.png