Prévia do material em texto
Coordenação Editorial e Revisão Juliana Cury Rodrigues Copyright © 2020 by Paulo Caroli Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Caroli. Avenida Itajaí, 310 – Bairro Petrópolis Porto Alegre, RS, Brasil – 90470- 140 www.caroli.org/editora contato@caroli.org Preparação Gabriela Müller Projeto Gráfico, Diagramação e Capa Vanessa Lima Desenvolvimento de eBook Loope Editora www.loope.com.br Dados Internacionais de Catálogo na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Caroli, Paulo Diagrama de Fluxo Cumulativo : uma ferramenta valiosa para melhorar o fluxo de trabalho / Paulo Caroli. – São Paulo: Editora Caroli, 2020. ISBN 978-65-86660-01-2 1. Administração da produção 2. Planejamento da produção 3. Administração de projetos I. Título 20-1461 CDD 658.51 Índices para catálogo sistemático: 1. Administração da produção http://www.caroli.org/editora mailto:contato@caroli.org http://www.loope.com.br E AGRADECIMENTOS u agradeço a todas pessoas com quem trabalhei e aprendi na minha vida profissional. Especialmente às várias equipes de desenvolvimento de software que participei, tenha sido como desenvolvedor, testador, gestor ou como agile coach. Ao longo da minha carreira, fui responsável pela gestão de vários projetos. Os anos de gestão, somados aos de experiência sob diferentes óticas — dados pelos distintos papéis que assumi durante minha trajetória —, me ajudaram a evoluir e esclarecer muitos conceitos. Dentre eles, o que compartilho nesta obra. Quando comecei a ser gestor, eu costumava gerenciar, conduzir e orientar as pessoas sobre o trabalho a ser feito. Alguns anos se passaram e eu mudei. Percebi que deveria gerenciar o trabalho, e não as pessoas. Meu foco principal como gestor passou a ser os itens de trabalho. Eu ficava atento a cada um deles. Em relação às pessoas, eu tentava ajudá-las com capacitação e autonomia para realizarem o trabalho. Mais anos se passaram e eu mudei de novo. Cheguei à conclusão de que não deveria gerenciar as pessoas ou os itens de trabalho. Mas, sim, o fluxo do trabalho! Não se engane: o foco principal são as pessoas, sempre! Pessoas sempre em primeiro lugar. Devemos entender suas necessidades e expectativas, devemos ajudá-las a colaborar para realizar um ótimo trabalho e para maximizar a eficiência do fluxo de trabalho. Porém, independente de onde estava o foco principal, eu senti muita necessidade de entender e melhorar esse fluxo de trabalho. Imagine você olhando uma foto da sua equipe na festa de comemoração do produto entregue. Você logo se olha na foto, depois os seus colegas. Primeiro como estava a sua aparência e suas roupas. Depois, as pessoas ao seu redor. Agora, imagine um fotógrafo profissional quando tira uma foto. Ele olha as pessoas, mas presta muita atenção no enquadramento, no plano de fundo, em todo o resto. Assim como um plano de fundo, como algo que precisa de olhos atentos e analíticos, é o fluxo de trabalho, a sincronização entre processo, produto e pessoas. Esse plano de fundo faz a diferença entre uma foto boa e uma foto maravilhosa. Então, foque principalmente as pessoas, mas preste atenção em tudo que acontece ao redor delas, como o fluxo de trabalho! Boa leitura! SUMÁRIO PREFÁCIO UMA FERRAMENTA VALIOSA INTERPRETANDO O CFD Itens de trabalho A FAZER / FAZENDO / FEITO QUANDO ESTARÁ PRONTO? A regra de três MUDANÇA NO ESCOPO TRABALHO EM ANDAMENTO (WIP) TEMPO DE ATRAVESSAMENTO (LEAD TIME) TAXA DE TRANSFERÊNCIA (THROUGHPUT) LEI DE LITTLE Vamos para as contas Então, como funciona isso? TEMPO DE CICLO (CYCLE TIME) Tempo de Ciclo e Taxa de Transferência ESTABILIZANDO O SISTEMA Sistema Puxado Sistema Estável ESTABILIDADE NO SISTEMA CONSIDERAÇÕES FINAIS Onde encontrar mais SOBRE A EDITORA CAROLI SOBRE O AUTOR DEIXE A SUA AVALIAÇÃO Q PREFÁCIO ue honra escrever o prefácio de um livro do Paulo Caroli, profissional e pessoa que admiro muito e tenho o privilégio de ter contato constantemente. Quero, primeiramente, agradecer a confiança do Caroli, espero contribuir à altura! Escrever o prefácio de um livro sobre Diagrama de Fluxo Cumulativo é também uma estima para mim. Considero-o uma ferramenta simples, mas muito poderosa! Infelizmente, ainda é pouco utilizada pelos profissionais de desenvolvimento de produtos de software. A primeira vez que vi um CFD foi no curso Zen of Agile Management, com o David Anderson, no ano de 2009, em Recife. Sim, acredite, o David Anderson em pessoa esteve em Recife nos dias 29 e 30 de janeiro de 2009 no programa Recife Summer School, e eu caí de paraquedas no curso dele. Eu nunca tinha ouvido falar dele e o nome do curso era uma incógnita. Mas, naquela época, eu trabalhava como analista de negócios no CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife – e alguns colaboradores foram convidados a participar do curso. Como sempre fui faminta por conhecimento, confirmei minha presença! Foram dois dias muito intensos, de foco total para conseguir entender todo o conteúdo que o David trouxe, incluindo o diagrama. Para ter uma ideia do conteúdo, você pode acessar o meu LinkedIn (www.linkedin.com/ in/deapinto/) e ver a recomendação que ele deixou lá para mim em 2009. Saí do curso pensando: “Eu sabia que desenvolvimento de software poderia ser gerenciado de uma maneira diferente, mas não sabia como e, https://www.linkedin.com/in/deapinto/ agora, eu sei!” A minha cabeça ficou a mil na época, estava muito entusiasmada e coloquei em prática tudo o que eu aprendi em todas as oportunidades que tive. Aprender a utilizar o CFD foi um dos desafios que eu tive na época. Demorou para eu entender o poder do diagrama. Primeiro, precisei entender como elaborar um; eu sempre fiz isso de maneira manual, como o Caroli sugere fazermos neste livro, e reforço a sugestão dele. Depois, precisei ter disciplina para coletar os dados do fluxo de trabalho periodicamente por um período de tempo considerável para, então, começar a perceber o comportamento do fluxo no decorrer do tempo. E o terceiro passo foi, a partir do entendimento do comportamento do fluxo através do CFD, propor melhorias nele e começar a fazer previsões de entrega dos itens de trabalho de maneira empírica. Este livro ensina de uma maneira fácil como elaborar e interpretar um CFD no decorrer de um período de tempo. O Caroli, mais uma vez, nos mostra que é possível abordar um assunto novo de maneira lúdica. Esta obra é uma excelente introdução para o assunto. Se você seguir o passo a passo que o autor descreve, vai entender muito rapidamente como pode utilizar o CFD em fluxos de trabalho simples e, então, vai poder utilizá-lo em contextos mais complexos. Além de aprender como criar um diagrama, você também vai entender como interpretá-lo, seguindo um caminho bem mais rápido do que o meu em 2009, quando praticamente não existia literatura sobre o assunto. Por fim, utilizar um bar com garrafas de whisky como exemplo para explicar conceitos como Sistema Estável, Taxa de Transferência e Tempo de Atravessamento só poderia vir de uma mente focada em pensar sobre como abordar um assunto de forma que também divirta o aprendiz. Aproveite! Andrea Pinto, agile coach na Accenture | Solutions IQ 1. 2. O Uma ferramenta valiosa Diagrama de Fluxo Cumulativo é uma ferramenta valiosa de gerenciamento para: rastrear e prever a realização de itens do trabalho; indicar a necessidade de agir sobre o fluxo e o processo de melhoria. O Diagrama de Fluxo Cumulativo (ou, em inglês, Cumulative Flow Diagram, abreviado para CFD) fornece uma representação gráfica do andamento do trabalho no sistema, esclarecendo gargalos e alertando sobre possíveis instabilidades nele. É uma ferramenta simples, porém muito informativa, que descreve o trabalho em andamento (WIP – Work in Progress, em inglês), a taxa de entrada, taxa de saída, Tempo de Atravessamento, Taxa de Transferência, o tempo decorrido, trabalho completo, trabalho restante e escopo total do trabalho. A seguir, uma sequência que mostra CFDs nas primeiras dez semanas de um projeto.CFD NA SEMANA 2 CFD NA SEMANA 5 CFD NA SEMANA 7 CFD NA SEMANA 10 A INTERPRETANDO O CFD baixo está um CFD com muitos de seus parâmetros. Cada um deles será explicado em detalhes nas próximas páginas. PARÂMETROS DE FLUXO EM UM DIAGRAMA DE FLUXO CUMULATIVO Antes de tudo, você deve entender como o CFD é construído. O CFD apresentado foi baseado em uma tabela atualizada semanalmente. Na próxima página temos um exemplo dela que corresponde ao CFD acima. tempo escopo WIP pronto semana 1 20 0 0 semana 2 18 2 0 semana 3 17 3 0 semana 4 15 3 2 semana 5 14 4 2 semana 6 14 3 3 semana 7 14 2 4 semana 8 12 2 5 semana 9 11 2 5 semana 10 10 2 6 Essa tabela descreve o fluxo de trabalho do sistema como: escopo → WIP → pronto; ou, em outras palavras, a fazer → fazendo → feito. Muitas ferramentas constroem o CFD automaticamente para você, poupando o trabalho manual para a criação do mesmo. Entretanto, para seu aprendizado, recomendo que construa um CFD simulando o que acontece em um projeto real. O CFD apresentado neste artigo foi gerado pelo Excel. Você pode fazer o download deste modelo em www.caroli.org/livro/diagrama-de-fluxo-c umulativo. http://www.caroli.org/livro/diagrama-de-fluxo-cumulativo ITENS DE TRABALHO O número em cada célula da tabela exibida representa a quantidade de itens de trabalho naquela etapa para tal semana. É importante esclarecer que o item de trabalho é uma unidade que faz sentido para quem vai ler o CFD. Exemplos comuns deles na área de desenvolvimento de software são: funcionalidades, pontos de função, histórias, pontos de histórias, bugs, tarefas etc. Outra consideração essencial é que não se misture diferentes itens de trabalho em um mesmo CFD. Ou seja, um CFD de funcionalidades deve conter somente elas, enquanto que um CFD de pontos de histórias deve conter somente esse tipo de item. A A FAZER / FAZENDO / FEITO pesar de os CFDs poderem e serem comumente usados para fluxos de trabalho com muitas fases, recomendo começar com um simples fluxo “a fazer / fazendo / feito” para entender completamente o CFD. Depois, quando já tiver dominado e sentir a necessidade de mais dados, considere dividir a etapa “fazendo” em um fluxo de trabalho mais detalhado. A quantidade de trabalho em relação aos itens “a fazer / fazendo / feito” é descrita no CFD na imagem abaixo. A FAZER / FAZENDO / FEITO NO CFD Q QUANDO ESTARÁ PRONTO? uando todo o trabalho estará pronto? Essa é a pergunta mágica que todo mundo tenta responder. Ao usar o CFD, há duas maneiras simples de responder a essa questão: graficamente ou matematicamente. Neste momento específico (representado pela seta azul na semana 6), você sabe a quantidade de trabalho que está pronto e o tempo decorrido. Com esses dois parâmetros, pode desenhar a linha da taxa de conclusão. Você tem que responder a questão estendendo a linha da taxa de conclusão até que ela alcance o total da linha do escopo de trabalho. Apesar de ser possível fazer isso graficamente, prefiro fazer matematicamente, utilizando a regra de três. 1 A REGRA DE TRÊS "A regra de três, na matemática, é uma forma de se descobrir uma quantidade que tenha para outra já conhecida a mesma relação que têm entre si entre outros dois valores numéricos conhecidos."1 Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Regra_de_tr%C3%AAs>. Acesso em: fev. 2020. https://pt.wikipedia.org/wiki/Regra_de_tr%C3%AAs A MUDANÇA NO ESCOPO linha do escopo é a linha horizontal que computa o total de itens de trabalho. Essa linha é claramente definida e deve mudar apenas quando itens de trabalho são adicionados ou removidos do escopo de trabalho. O escopo total do CFD deve computar todos os itens de trabalho do sistema, estejam eles prontos, em andamento ou ainda a fazer. Se um novo item surge, ele deve ser adicionado no escopo de trabalho total e a linha total deve ser ajustada. Dessa forma, a nova linha torna fácil identificar quando um trabalho é adicionado. A linha de escopo também monitora quando itens de trabalho são removidos. Esse cenário é ilustrado na figura a seguir. O ESCOPO FOI REDUZIDO O TRABALHO EM ANDAMENTO (WIP) trabalho em andamento (WIP) é o número de itens de trabalho atualmente em andamento. Por exemplo, o cenário da figura abaixo tem um Kanban com WIP de um: três itens de trabalho estão na fase “a fazer”, um está sendo trabalhado (WIP) e quatro itens já estão feitos. QUADRO KANBAN: A FAZER / FAZENDO / FEITO No CFD, o WIP em um momento é a altura da linha vertical para a área WIP em um dado momento. A próxima figura representa o WIP na semana 5. WIP NO CFD O TEMPO DE ATRAVESSAMENTO (LEAD TIME) Tempo de Atravessamento (Lead Time, em inglês) é o tempo entre o item de trabalho ser adicionado no sistema (fase “fazendo”) e ele sair do sistema (trabalho completado, a fase “feito”). Para o quadro Kanban — “a fazer/fazendo/feito” apresentado anteriormente —, o Tempo de Atravessamento é o tempo que leva para completar o item de trabalho, ou seja, o tempo do item na etapa “fazendo”. Como acontece frequentemente, mais de um item estará em andamento na fase “fazendo”. Por esta razão, normalmente a questão a ser respondida é: em média, quanto tempo leva para concluir um item de trabalho? A resposta para essa pergunta é descrita no CFD. A imagem seguinte mostra uma linha horizontal representando o Tempo de Atravessamento: quanto tempo leva para um item de trabalho passar pelo sistema? Ou, em outras palavras, quanto tempo leva para um item de trabalho ir da fase “fazendo” para a fase “feito” (da área verde para a azul escuro no CFD)? TEMPO DE ATRAVESSAMENTO NO CFD A TAXA DE TRANSFERÊNCIA (THROUGHPUT) Taxa de Transferência (Throughput, em inglês) é a vazão, ou quantidade por tempo — itens/Δt —, dos itens de trabalho passando pelo sistema. No CFD, a Taxa de Transferência é descrita pelo ângulo da linha dos itens de trabalho concluídos (a linha entre as áreas cinza e azul escura). Abaixo, duas imagens com duas marcas no CFD, comparando dois momentos distintos: o segundo tem uma Taxa de Transferência menor. TAXA DE TRANSFERÊNCIA NO CFD NO MOMENTO 1 TAXA DE TRANSFERÊNCIA NO CFD NO MOMENTO 2 O LEI DE LITTLE Lei de Little: O número médio de itens de trabalho em um sistema estável é igual à sua taxa de conclusão multiplicada pelo tempo médio no sistema. (John Little, 1961) texto acima é de A proof for the Queuing Formula2, de John Little (1961) e é conhecido como a Lei de Little. John Little estudou e provou a relação entre o WIP e o Tempo de Atravessamento. Como se vê, é uma simples equação de primeiro grau. Ao resolvê-la, é possível encontrar o tempo médio para os itens de trabalho em seu sistema. Meu bar de whisky mostra um bom exemplo de sistema estável para ilustrar como se pode aplicar a Lei de Little para entender e monitorar o WIP, a Taxa de Transferência e o Tempo de Atravessamento. Eu e minha esposa temos um acordo: o lado direito do bar é meu e o lado esquerdo é dela. Eu só bebo whisky. No meu lado do bar, cabem doze garrafas de whisky. Sempre que uma acaba, eu a removo do bar. Então, abro uma nova e a adiciono a ele. Meu bar é um sistema estável: a taxa de entrada das garrafas é igual à taxa de saída delas. O número de garrafas de whisky no meu bar é constante: doze garrafas. Por ano, eu termino, em média, seis garrafas de whisky. Então, qual é o tempo médio que uma garrafa de whisky permanece no meu bar? VAMOS PARA AS CONTAS WIP = T x L, ou seja, o número médio de itens de trabalho em um sistema estável (WIP) é igual à taxa média de conclusão (T) x tempo médio no sistema (L). Doze garrafas = seis garrafas/ano x L. Dessa forma, provamos que o tempo médio que uma garrafa fica no bar é de dois anos. É contraintuitivo: você viu a fórmula e teve a resposta! Mas você provavelmente tinha em mente que o resultado era dois meses – meses, não anos! Essa é uma confusão comum. Quando lê que uma média de seis garrafas são terminadas por ano, você deve ter feito um simples cálculo: seis garrafas por ano é iguala uma garrafa a cada dois meses. Seriam dois meses para uma dada garrafa se no bar coubesse apenas uma garrafa. Pense: o consumo de whisky não é apenas de uma garrafa, todas estão abertas e sendo consumidas. Se apenas um copo é servido, uma garrafa tem seu conteúdo diminuído, enquanto as outras onze não se movem. Porém, o bar tem doze garrafas abertas. ENTÃO, COMO FUNCIONA ISSO? Ter menos garrafas no bar significa que cada garrafa terminará mais rápido. Como descrito, por ano, seis garrafas são esvaziadas. No entanto, o bar comporta doze garrafas, isso certamente afeta o tempo médio de espera. Por um momento, esqueça da Lei de Little. Vou contar outro episódio. Whisky é bom para o coração. Por esta razão, eu bebo uma pequena quantidade todo dia. Para essa comparação, considere que o meu hábito de beber é bem constante. No último verão, fui para uma casa de praia, onde passei dois meses. Levei algumas roupas, meu laptop para trabalhar remotamente e escrever sobre este tópico, e uma garrafa de whisky. Como o carro estava cheio, eu não ia levar todo o bar – escolhi uma garrafa lacrada e a levei comigo. Na mosca! Aquela garrafa estava vazia em exatos dois meses. Então, o que aconteceu? É simples, e John Little provou isso muito bem. O WIP, ou trabalho em andamento, na casa de praia era de apenas uma garrafa. A Taxa de Transferência era a mesma: seis garrafas por ano. Mais uma vez, em uma conta simples: WIP = T x L ou, em outras palavras, número médio de itens de trabalho em um sistema estável (WIP) é igual à taxa média de conclusão (T) x tempo médio no sistema (L). Usando os termos do bar de whisky: WIP = uma garrafa T = seis garrafas/ano L = ? Uma garrafa = seis garrafas/ano x L Dessa forma, o tempo médio que uma garrafa fica no bar é de dois meses (1/6 de um ano). WIP = T x L: o Tempo de Atravessamento médio é diretamente proporcional ao WIP, e esta relação é a Taxa de Transferência. Como provado no exemplo do bar de whisky, menos WIP significa entrega mais rápida de itens de trabalho (garrafas de whisky). Ok, eu tenho certeza que você já está cansado de matemática nesse momento. O CFD mostra a mesma coisa. A próxima figura mostra o CFD tanto com a representação do WIP como com a do Tempo de Atravessamento em dois diferentes momentos. Nela, você verá a questão principal da Lei de Little: WIP menor representa Tempo de Atravessamento mais curto. LEI DE LITTLE NO CFD O CFD apresentado foi tirado de um projeto real, provando o ponto explicado até aqui: uma vez que o WIP foi reduzido, o Tempo de Atravessamento médio também o foi. 2 Little, J. D. C. A Proof for the Queuing Formula: L= λW (1961). Disponível em: <https://www.js tor.org/stable/167570>. Acesso em: abr. 2020. https://www.jstor.org/stable/167570 O TEMPO DE CICLO (CYCLE TIME) Tempo de Ciclo (Cycle Time, em inglês) é a frequência, ou intervalo de tempo, de término do item de trabalho. No exemplo do meu bar de whisky, considere que a cada dois meses eu termino uma garrafa. Nesse caso, o Tempo de Ciclo é de dois meses por garrafa. TEMPO DE CICLO E TAXA DE TRANSFERÊNCIA No CFD, o Tempo de Ciclo, similar à Taxa de Transferência, é descrito pelo ângulo da linha dos itens de trabalho concluídos (a linha entre as áreas azul escura e cinza). Abaixo, as mesmas duas imagens utilizadas no capítulo Taxa de Transferência, comparando dois momentos distintos; já o segundo com Tempo de Ciclo maior. TEMPO DE CICLO NO CFD NO MOMENTO 1 TEMPO DE CICLO NO CFD NO MOMENTO 2 Tipicamente a Taxa de Transferência é descrita em quantidade de itens por unidade de tempo (no exemplo do meu bar, seis garrafas por ano). Já o Tempo de Ciclo é descrito em termos de tempo por item (no mesmo exemplo, dois meses por garrafa). O Tempo de Ciclo e a Taxa de Transferência são parâmetros de fluxo recíprocos, equivalentes e inversos. Novamente, eu vou utilizar o meu bar e a Lei de Little para demonstrar, matematicamente, a afirmação. No capítulo anterior eu apresentei a fórmula da Lei de Little em termos de WIP, Taxa de Transferência e Tempo de Atravessamento, como segue: WIP = Taxa de Transferência x Tempo de Atravessamento Abaixo está uma fórmula da Lei de Little com o parâmetro Tempo de Ciclo, ao invés de Taxa de Transferência: WIP x Tempo de Ciclo = Tempo de Atravessamento Ambas as fórmulas têm os parâmetros WIP e Tempo de Atravessamento. A diferença, na segunda, é o parâmetro Tempo de Ciclo em vez da Taxa de Transferência, posicionado no lado oposto da equação, demonstrando que o Tempo de Ciclo e a Taxa de Transferência são recíprocos. De volta ao exemplo anterior, vamos considerar um cenário mais simples: um bar com apenas uma garrafa (WIP = 1); eu termino uma garrafa em dois meses (Tempo de Atravessamento = dois meses). Calculando a Taxa de Transferência: WIP = Taxa de Transferência x Tempo de Atravessamento Taxa de Transferência = WIP / Tempo de Atravessamento Taxa de Transferência = uma garrafa / dois meses A Taxa de Transferência é uma garrafa em dois meses. Calculando o Tempo de Ciclo: WIP x Tempo de Ciclo = Tempo de Atravessamento Tempo de Ciclo = Tempo de Atravessamento / WIP Tempo de Ciclo = dois meses / uma garrafa O Tempo de Ciclo é de dois meses por garrafa. Logo, com os mesmos valores dos parâmetros WIP e Tempo de Atravessamento, temos os seguintes resultados: O Tempo de Ciclo é de dois meses por garrafa. A Taxa de Transferência é uma garrafa em dois meses. Esses resultados são equivalentes, ou seja: Dois meses por garrafa ↔ uma garrafa em dois meses Tempo de Ciclo = 1 / Taxa de Transferência O resultado obtido também demonstra que a medida de Taxa de Transferência é o inverso da medida do Tempo de Ciclo. A medida de Taxa de Transferência é de itens de trabalho por período de tempo, enquanto que a medida de Tempo de Ciclo é intervalo de tempo por item de trabalho. E ESTABILIZANDO O SISTEMA Sempre que uma garrafa termina, ela é removida do bar. Então, uma nova é aberta e colocada no bar. sta frase descreve como as garrafas de whisky são removidas e adicionadas ao bar. Nela, encontramos dois conceitos de sistema importantes: Sistema Puxado e Sistema Estável. SISTEMA PUXADO O Sistema Puxado descreve o movimento de itens de trabalho guiados pela demanda. No exemplo do bar, uma garrafa terminada abre uma vaga. Assim, cria uma demanda para uma nova garrafa ser aberta e colocada no bar. Essencialmente, o movimento dos itens de trabalho é guiado pela demanda vigente: uma garrafa é removida do bar, abrindo espaço para uma nova que será prontamente adicionada, ocupando o espaço vazio. SISTEMA PUXADO A manufatura lean descreve o Sistema Puxado em relação a um produto, que é puxado pelo sistema em vez de empurrado por ele. Um exemplo de um Sistema Empurrado seria adicionar garrafas ao bar sem que nenhuma garrafa tenha sido removida dele. Basicamente, novas garrafas seriam adicionadas sem qualquer demanda (espaço no bar) ter sido criada. SISTEMA EMPURRADO Nos anos 80, a Ford Motors e a Toyota eram grandes exemplos de Sistemas Empurrados e Sistemas Puxados, respectivamente. Seguindo um Sistema Empurrado, a Ford produzia grandes quantidades de carros que ficavam nos pátios das fábricas e lojas esperando pelos clientes. Por outro lado, a Toyota focava na manufatura rápida de um carro customizado a cada nova demanda, assim que um cliente fazia uma nova compra, seguindo, portanto, um Sistema Puxado. SISTEMA ESTÁVEL John Little formulou a Lei de Little de maneira simples e direta. Dessa forma, ele alcançou um resultado notável que permitiu muitas melhorias nas teorias e ferramentas de sistemas, fluxos e filas. Porém, em sua declaração, há um ponto muito importante: "em um sistema estável”. Por isso, ele definiu em sua pesquisa e em seus trabalhos sobre medições e melhorias de processos como é um sistema estável. Um sistema estável é um sistema no qual a taxa de entrada se iguala à taxa de saída . O bar de whisky é um sistema estável: a taxa de entrada de garrafas no bar é a taxa de saída das mesmas. Simples assim!O ESTABILIDADE NO SISTEMA CFD é seu melhor aliado para estabilizar o sistema. Nele, você pode claramente visualizar as taxas de entrada e saída. As próximas três imagens retratam: 1) a taxa de entrada, isto é, a taxa na qual os itens estão sendo adicionados ao sistema; 2) a taxa de saída ou a taxa na qual os itens estão saindo do sistema; e 3) um sistema estável, em que a taxa de entrada se iguala à taxa de saída. TAXA DE ENTRADA NO CFD TAXA DE SAÍDA NO CFD SISTEMA ESTÁVEL NO CFD Enquanto as taxas de entrada e saída não forem iguais, o sistema estará instável. As próximas duas imagens mostram dois momentos em que isso ocorre. No primeiro, a taxa de entrada está maior do que a taxa de saída, fazendo com que o WIP aumente e o sistema fique em risco de sobrecarga. Na segunda imagem, a taxa de saída é maior do que a de entrada, fazendo com que o WIP diminua e o sistema fique em risco de ficar sem itens de trabalho. SISTEMA INSTÁVEL: SOBRECARGA SISTEMA INSTÁVEL: REDUÇÃO DE ITENS DE TRABALHO Nestes CFDs, você pode, mais uma vez, perceber a Lei de Little: reduzir o WIP reduz o Tempo de Atravessamento. Note que o modelo do CFD tem dados de um projeto real. Períodos instáveis acontecem. Dessa forma, o ponto principal é que o CFD é uma ferramenta para perceber e agir sobre a instabilidade. As duas figuras seguintes demonstram o projeto-modelo. Ele começou estável, passou por um momento de instabilidade, no qual o time agiu sobre ele, e, então, seguiu para outro período estável. PERÍODOS ESTÁVEIS NO CFD PERÍODO INSTÁVEL NO CFD O CONSIDERAÇÕES FINAIS CFD é uma ferramenta simples e muito valiosa. Nele você consegue enxergar vários parâmetros do fluxo de trabalho, a partir dos quais é possível melhorar a eficiência do seu processo. Entretanto, às vezes, chegar ao simples pode ser complicado. Pelo menos foi para mim: levei bastante tempo (e muitas garrafas de whisky) para elaborar este conteúdo. Espero que você tenha devorado este livro em poucas horas e que o mantenha por perto para consultar quando necessário. CFD é uma dentre várias outras ferramentas que podem te ajudar na busca pela eficiência e pela melhoria contínua. Assim, para ser coeso e sucinto, decidi compartilhar neste livro somente este assunto. Outra escolha: decidi compartilhar um CFD para um processo simples (a fazer / fazendo / feito). A minha expectativa é que, após compreender o CFD de um processo simples, você estará melhor equipado para decidir se e quando usar o diagrama para fluxos e processos mais complicados (por exemplo, com várias etapas). ONDE ENCONTRAR MAIS Quer encontrar mais sobre o assunto que tratamos aqui? No site do livro você encontra a planilha de exemplo dele e também os links para outros materiais relacionados ao assunto. Acesse em: www.caroli.org/livro/diagrama-de-fluxo-cumulativo A melhor forma de aprender é criando um diagrama para um projeto real. Um dos treinamentos da Caroli.org tem um jogo que simula o fluxo de trabalho das tarefas necessárias para criar as funcionalidades de um produto digital. Nesse treinamento, os participantes criam um Diagrama de Fluxo Cumulativo e conversam sobre assunto relacionado a melhorias do fluxo de trabalho. Confira mais em: www.caroli.org/treinamentos http://www.caroli.org/livro/diagrama-de-fluxo-cumulativo http://www.caroli.org/treinamentos SOBRE A EDITORA CAROLI Para leitores e autores que buscam e compartilham conhecimento de forma ágil, a Editora Caroli é uma editora-butique – todos os livros são escritos, lidos, editados e/ou revisados por Paulo Caroli, que auxilia na produção, divulgação e distribuição de livros e e-books. Diferentemente das editoras tradicionais, a Editora Caroli dá acesso ao conhecimento na sua essência, disponibilizando o texto das novas obras via e-books gratuitos, além de apoiar eventos e entidades de ensino, presenteando-os com livros impressos. Em www.caroli.org você encontra este e outros conteúdos de qualidade. Aproveite, pois os livros e e-books em WIP estão disponíveis gratuitamente. http://www.caroli.org WIP (WRITING IN PROGRESS) A Editora Caroli apresenta uma nova proposta de trabalho, aproximando os autores dos seus leitores desde o início da geração do conteúdo. Por que esperar o autor terminar de escrever para saber se o conteúdo é bom? No mundo atual, isso não faz mais sentido. Por isso, a Editora Caroli promove o compartilhamento (gratuito sempre que possível) do WIP por meio dos formatos e-book (pdf, mobi e epub). Dessa forma, leitores têm acesso rápido a novas ideias e podem fazer parte da evolução da obra. Para os autores, é uma forma efetiva de feedback e motivação para a geração do conteúdo. SOBRE O AUTOR © Openspace PAULO CAROLI é apaixonado por inovação, empreendedorismo e produtos digitais. Ele é engenheiro de software, autor, palestrante e um excelente facilitador. Consultor principal da Thoughtworks e cofundador da AgileBrazil, Paulo possui mais de vinte anos de experiência em desenvolvimento de software, trabalhando em diversas corporações no Brasil, na Índia, nos Estados Unidos e em outros países da América Latina e da Europa. Em 2000, ele descobriu o Extreme Programming e, desde então, concentrou sua experiência em processos e práticas da Agile & Lean. Ele ingressou na ThoughtWorks em 2006 e ocupou os cargos de Agile Coach, Trainer, Project e Delivery Manager. Ele é bacharel em informática e mestre em Engenharia de Software, ambos pela PUC-Rio. Acompanhe o autor em: www.caroli.org http://www.caroli.org paulocaroli paulocaroli Paulo.Caroli DEIXE A SUA AVALIAÇÃO Se você você chegou aqui, é porque acabou de ler o livro. Parabéns! Muito obrigado por compartilhar e por ler o conteúdo que desenvolvi aqui. Autores vivem e morrem pelas avaliações que recebem dos leitores. Então, se você gostou deste livro, ficarei extremamente feliz em receber uma avaliação 5 estrelas pela sua leitura! Caso você tenha alguma crítica, por favor envie um e-mail para paulo@ caroli.org e me diga o que melhorar. O maior benefício do e-book é a facilidade com que consigo adicionar conteúdo e corrigir eventuais erros para que a sua experiência de leitura seja cada vez melhor. Muito obrigado! mailto:paulo@caroli.org Folha de Rosto Créditos Agradecimentos Sumário Prefácio Uma ferramenta valiosa Interpretando o CFD Itens de trabalho A fazer / Fazendo / Feito Quando estará pronto? A regra de três Mudança no escopo Trabalho em Andamento (WIP) Tempo de atravessamento (Lead Time) Taxa de transferência (Throughput) Lei de Little Vamos para as contas Então, como funciona isso? Tempo de Ciclo (Cycle Time) Tempo de Ciclo e Taxa de Transferência Estabilizando o sistema Sistema Puxado Sistema Estável Estabilidade no sistema Considerações finais Onde encontrar mais Sobre a Editora Caroli Sobre o autor Deixe a sua avaliação