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2 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NO SÉCULO XXI 1. A nova gerência pública (Derry Ormond & Elke Löffler) – RSP, abr- jun/1999 ........................................................................................... 02 a 32 2. Desafios da administração pública brasileira: governança, autonomia, neutralidade (Maria das Graças Rua) – RSP, set-dez/1997 ........... 33 a 52 3. O impacto do modelo gerencial na Administração Pública: um breve estudo sobre a experiência internacional recente (Fernando Luiz Abrucio) – ENAP, 1997 ................................................................... 53 a 101 4. A reforma do Estado e a concepção francesa do serviço público (Jacques Chevallier) – RSP, set-dez/1996 .................................. 102 a 125 5. A reforma administrativa francesa (Valdei Araújo) – ENAP, 1997............................................................................................... 126 a 149 6. A reforma administrativa da Nova Zelândia nos anos 80-90: controle estratégico, eficiência gerencial e accountability (Wagner Carvalho) – RSP, set-dez/1997 ....................................................................... 150 a 180 7. Fortalecer o serviço público e valorizar a cidadania: a opção australiana (Adriana de Sá Mesquita & Sílvia Pereira Ferreira) – RSP, set- dez/1997 ....................................................................................... 181 a 206 8. Reforma administrativa: o caso do Reino Unido (Marcelo Ernandez Macedo & Andréa Moraes Alves) – RSP, set-dez/1997............... 207 a 228 9. Reforma do setor público e participação sindical: o caso do sistema de pensão italiano (Lucio Baccaro & Richard M. Locke) – RSP, mai- ago/1997 ...................................................................................... 229 a 259 10. Metodologia para medir a satisfação do usuário no Canadá: desfazendo mitos e redesenhando roteiros (Geoff Dinsdale & D. Brian Marson & Faye Schmidt & Teresa Stuckland) – ENAP/00........... 260 a 400 11. Clinton e a reinvenção do governo federal: o National Performance Review (Flávio da Cunha Rezende) – RSP, jan-mar/1998.......... 401 a 448 12. Novos padrões gerenciais no setor público: medidas do governo americano (Bianor Scelza Cavalcanti & Roberto Bevilacqua Otero) – ENAP, 1997 ................................................................................... 449 a 480 66 RSP Revista do Serviço Público Ano 50 Número 2 Abr-Jun 1999 A nova gerência pública1 Derry Ormond e Elke Löffler 1. Introdução O termo nova gerência pública (New Public Management — NPM) é freqüentemente utilizado em muitos dos países-membro da OCDE, bem como no resto do mundo. O termo parece descrever uma tendência global em direção a um certo tipo de reforma administrativa, mas rapidamente se faz evidente — especialmente em conferências internacionais — que assume diversos significados em diferentes contextos administrativos, inclusive na comunidade acadêmica, onde ainda não se chegou a um acordo sobre o que significa o paradigma da nova gerência pública. Em todo caso, o termo é também relativamente equivocado porque seus elementos não são tão novos, razão pela qual tem sido acu- sado de vender “vinho velho em garrafas novas”. Exceto nos Estados Unidos, a gerência pública não foi um termo utilizado até os anos 80. Outrossim, as reformas na gerência pública estão avançando mediante uma ampla variedade de formas e em diversos contextos envolvendo preocupações e necessidades nacionais completamente diferentes. O processo de transformação dos países da Europa Central e Oriental é justamente um exemplo. Ainda que não se possa dizer a priori o que é a nova gerência pública, cabe assinalar que ela tem contribuído para a elaboração de uma visão mais econômica e gerencial da administração governamental. A OCDE/PUMA (ver Anexo 1) esteve entre as primeiras organizações que tentaram introduzir um conceito mais amplo de gerência pública, espe- cificamente vinculado às necessidades de microreforma e ajuste estrutu- ral, nos anos 80. A necessidade dessa abordagem abrangente pode ser Derry Ormond trabalhou na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 1962 a 1998, na área de gerência pública, o que originou a criação do Public Management Committee (PUMA). Elke Löffler trabalha na OCDE, desde 1997, no Serviço de Gerência Pública Traduzido por René Loncan 67 RSPexplicada pelo conjunto de desafios globais confrontados pelos países e que continuam sendo amplamente válidos no presente: • limitações fiscais ao crescimento do setor público versus a infini- dade de demandas efetivadas por cidadãos mais educados; • busca intensiva de formas mais efetivas para a implementação de políticas públicas; • manejo da incorporação a um mundo de interdependência acele- rada e de dinâmica imprevisível; • pressão crescente de grupos empresariais e da indústria a fim de promover um setor público mais direcionado aos negócios, aos investi- mentos e ao fornecimento eficiente de serviços; • mudança de valores que questionam a administração pública tan- to do interior quanto do exterior da mesma; • mudanças tecnológicas, especialmente em relação ao potencial para a difusão da informação; • mudanças nos perfis sócio-demográficos, especialmente com o envelhecimento das populações. Estas pressões têm colocado em questão não apenas as estruturas administrativas e a tomada de decisões políticas estabelecidas, mas também a forma de pensar acerca da administração pública e do serviço civil, e de como a mudança se faz possível. Uma onda de reformas da gerência pública tem tido lugar em todos os países-membro da OCDE, freqüentemente inspiradas e alimentadas pelo chamado paradigma da nova gerência pública. Por isso é legítimo abordar a questão sobre o que aproveitar e o que abandonar desse paradigma. Como uma introdução, este documento apresenta algumas obser- vações sobre a experiência prática do PUMA e a interação com os paí- ses-membro da OCDE, ao invés de discutir a nova gerência pública em qualquer classe de constructo formal. O que se pretende sustentar com este documento é o seguinte: 1) Estamos procurando identificar uma gerência pública que se adapte às necessidade atuais e que seja capaz de manejar os problemas do futuro. Isso inclui a capacidade para gerenciar efetivamente as orga- nizações públicas e conceber, orientar, implementar e avaliar as refor- mas. Em outras palavras, coincidindo com o ponto de vista que percebe o setor público como uma organização que aprende, que deveria melhorar constantemente, ao invés de procurar implementar um modelo particular de gerência pública — ainda que receba o nome de nova gerência públi- ca, reinvenção, reengenharia, gerência de qualidade total, new steering model ou qualquer outra denominação. 2) Não existem modelos pré-estabelecidos; a mudança deve enraizar-se na configuração específica da história, das tradições e estru- turas constitucionais e legais, nas forças político-administrativas, nas 68 RSPperspectivas econômicas e sociais e na posição internacional do país. Por outra parte, não existe solução única para o setor público como um todo. Diferentes partes da administração pública podem requerer diferentes sistemas de gerência pública, dependendo, por exemplo, de se tratar do fornecimento de um serviço de natureza redistributiva ou uma tarefa ver- dadeiramente autônoma. 3) A maioria dos elementos da nova gerência pública não são, realmente, novos no sentido de que inúmeros países implementaram no passado alguns destes elementos, de fato com outras denominações. Por exemplo, o estabelecimento de uma ampla variedade de agências na admi- nistração estatal alemã nos anos 70, por um lado tem sido interpretado à luz da tradição neocorporativa alemã e por outro como reação ao cresci- mento do setor público. O que é novo em relação à NPM é que o concei- to global tem evoluído a partir de um movimento orientado para a prática, que teve início de formaindependente em vários países. Igualmente, a disponibilidade da tecnologia moderna da informação nos permite agora produzir e analisar a classe de dados referentes ao desempenho que esta- va faltando nas reformas administrativas anteriores. 4) Os países que têm adotado um enfoque mais gradual no que se refere à NPM, agora se confrontam com um problema de estruturas duais no setor público: ilhas de reforma com orientação fazem a NPM coexistir com organizações públicas gerenciadas de forma tradicional. Esta situação gera tensões no processo de reformas, como resultado de estruturas de incentivo em conflito, e em alguns casos inclusive, chega a questionar o que tem sido obtido até o momento. Por exemplo, as reformas baseadas na NPM em nível municipal não podem concretizar o potencial pleno do au- mento da eficiência, se a supervisão municipal e o sistema intergovernamental de subsídios não permitirem uma determinada flexibilidade gerencial, o que pode desta forma sustentar argumentos oponentes à NPM. 5) Existem também importantes desafios concernentes à gestão de governo, que não estão, necessariamente, incluídos no debate sobre a NPM, alguns dos quais podem ter sido exagerados pelas reformas já realizadas, como por exemplo: • a permanência de tomada de decisões efetivas do governo central em um contexto de devolução e globalização; • gerência da ética no governo: • educação e responsabilidade cívica na sociedade; • novas relações com a sociedade civil e o setor privado; • as relações em processo de transformação entre o Executivo e o Legislativo; 6) Dessa forma, o que devemos deixar para trás são noções presas a dogmas, modelos e preconceitos da antiga e da nova administração 69 RSPpública. O modelo de uma nova gerência pública nunca existirá na reali- dade, assim como a administração pública weberiana nunca existiu em sua forma ideal. 7) Devemos manter um conjunto equilibrado de valores da gerên- cia pública. A gerência pública não deveria referir-se somente a promoção de valores econômicos. A tarefa que temos adiante é a de dar maior ênfase aos produtos e resultados efetivos, de acordo com os princípios legais e políticos da administração pública. O peso dado a estas diferentes racionalidades e suas relações será diferente de um país a outro, depen- dendo de sua tradição de governo e seus marcos políticos e legais. 2. A abrangência da nova gerência pública Devido a ambigüidade do termo, se faz necessário explicitar a classe de elementos que estão incluídos dentro do rótulo de NPM. Temos duas classes de conceitos fundamentais relativos à nova gerência pública. Primeiro, um conceito restrito percebe a nova gerência pública como sendo a união de duas correntes de idéias diferentes (Hood, 1991:5). Uma delas decorre da nova economia institucional, que discute novos princí- pios administrativos, tais como contestabilidade, a escolha do usuário, a transparência e uma focalização estreita nas estruturas de incentivos. A segunda corrente deriva da aplicação dos princípios gerenciais do setor empresarial privado ao setor público. Em termos práticos, essa concepção restrita da NPM implica numa ênfase da gerência de contratos, na introdução de mecanismos de mer- cado no setor público e na vinculação estabelecida entre o pagamento e o desempenho. A NPM pode, dentro dessa definição restrita, equiparar-se com numerosas reformas da gerência pública realizadas na Nova Zelândia, e em menor escala na Dinamarca e no Reino Unido. Grande parte das críticas que se fazem à NPM dizem respeito a sua relação com um paradigma claramente simplista, centrado exclusiva- mente na eficiência. Embora seja verdade que numerosos comentaristas admitem que essa versão da NPM pode funcionar em múltiplas situações nos países mencionados, eles têm dúvidas sobre a possibilidade de que essa versão da NPM possa ser transferida a outros países (ver, por exem- plo, Kickert, 1997). Apesar dessa classe de filosofia da NPM, com uma clara ênfase nos mercados e na privatização, que não poderia ser transfe- rível como um regime de governo, existem, porém, numerosos instrumentos que podem ter importância para outros países. Por exemplo, ainda que provavelmente, o mecanismo primário de governo da Espanha, como motivador, esteja apoiado na descentralização e na devolução mais do 70 RSPque na competência de mercado e na privatização, alguns elementos do tipo mercado têm sido introduzidos em setores específicos de políticas, especialmente em nível regional (OCDE, 1997a: 327-338). As Comuni- dades Autônomas de Catalunha e de Galícia agora passam recibos aos pacientes dos hospitais. A competência entre hospitais começa a se esta- belecer. As medidas do desempenho estão proliferando nas políticas de saúde e de educação, sendo ambas também responsabilidades regionais. Os governos locais também realizam experimentos com mecanismos do tipo mercado, tal como acontece na inovadora Administração Metropo- litana de Bilbao, que introduziu a cobrança aos usuários no departamento de bombeiros (para mais detalhes, ver OCDE, 1998). Segundo, um ponto de vista mais amplo sobre a NPM adotaria um enfoque mais pragmático, não percebendo-a desde uma perspectiva filosó- fica, senão como uma resposta racional a algumas das pressões enfren- tadas pelos governos. Considerando que devido à globalização as pressões são semelhantes em todos os países, caberia esperar que as respostas com- partilhassem certas características e como conseqüência, sejam, em algu- ma medida, convergentes. Porém dever-se-ia enfatizar (e talvez não tenhamos insistido nisso claramente no nosso trabalho no PUMA) que convergência não quer dizer uniformidade. Inclusive se as questões da reforma são convergentes, isso não implica que a implementação da NPM seja a mesma em todos os países. As diferenças entre um país e outro podem ser consideradas como o resultado de interesses políticos e de ideo- logias subjacentes à NPM (Pollitt, 1990), de dificuldades na operacionalização de princípios bastante abstratos tais como a transparência, de diferenças nos sistemas políticos e administrativos e na forma de adaptá-los, assim como de histórias obviamente diferentes. Uma comparação das pesquisas anuais por países realizada pelo PUMA ilustra como esses fatores podem gerar dinâmicas de reforma completamente diferentes nos países-membro da OCDE em matéria de velocidade, orientação e abrangência das reformas (OCDE, 1997b); ver também a página web do PUMA (http://www.oecd.org/puma/country). De toda forma, é possível distinguir um certo número de traços- chave das reformas da gerência pública nos países-membro da OCDE. O documento Governance in Transition (OCDE, 1995:28) identifica os seguintes temas comuns à reforma, formulados para se chegar a adminis- trações direcionadas para resultados: • devolver autoridade, outorgar flexibilidade; • garantir o desempenho, o controle e a responsabilidade; • desenvolver a competência e a escolha; • fornecer serviços adequados e agradáveis aos cidadãos; • melhorar a gestão dos recursos humanos; 71 RSP• explorar a tecnologia da informação; • melhorar a qualidade da regulamentação; • fortalecer as funções de governo no centro. Essa ampla definição não impõe um modelo apto para todas as circunstâncias e faz com que os princípios da NPM possam ser transfe- ríveis. Enquanto não existir um enfoque melhor, cada governo direcionado à reforma deverá considerar em que grau e como esses traços-chave podem ser incorporados no seus sistemas de gerência pública. Isso poderia implicar em reformas radicais seletivas da gerência pública ou reformas adicionais, com adaptações progressivas dependentes do marco institucio- nal de cada país. Em alguns países, talvez não seja necessária a implemen- tação de reformas com relação a determinados temas, porque já foram realizadas anteriormente (com uma denominação diferente) ou porque já existem estruturas equivalentes, tais como as agências na Suécia ou alguns órgãos semi-autônomos na França. Essa definição ampla e não prescritivada nova gerência pública permite identificar e avaliar diversos tipos de estratégias e caminhos para a reforma, ao mesmo tempo em que se reconhecem alguns princípios convergentes. Fazendo com que as práticas e experiências da nova gerência pública sejam transparentes, os governos têm a oportunidade de escolher entre diversas alternativas e de tomar decisões bem informadas sobre os instrumentos de políticas. 3. Alguns aspectos da nova gerência pública 3.1. Devolução de autoridade Em numerosos países existe um claro consenso em torno de um modelo centralizado de fornecimento de serviços que já não satisfaz as necessidades e as condições da gerência pública. Os esforços de reforma têm se centrado na devolução de autoridade no interior das agências públi- cas e/ou ministérios/departamentos e agências executoras, e/ou entre o governo central e os escalões inferiores de governo, o mercado e o terceiro setor. O processo de devolução tem se orientado pela premissa de que a flexibilidade gerencial é um pré-requisito, ou pelo menos uma medida complementar, para a consolidação fiscal a longo prazo. Essa posição baseia-se, no mínimo, em três conjuntos de argumentos clássicos: em primeiro lugar, para muitos serviços, a devolução resultaria potencial- mente num aumento da capacidade de resposta às demandas cidadãs; em segundo lugar, as vantagens no nível da informação aumentam a eficiência administrativa; e em terceiro lugar, a inovação se vê facilitada em nível local. No entanto, a devolução deve também ser comparada em 72 RSPrelação às economias de escala na produção de serviços públicos, aos custos potenciais dos efeitos da difusão entre diversas jurisdições e aos efeitos da competência governamental e da migração. A devolução de funções públicas criou uma nova dimensão qualita- tiva e atualizou o antigo debate entre centralização e descentralização. Os ambientes transformados colocam, novamente, a questão básica do fede- ralismo fiscal: que distribuição de funções e responsabilidades satisfaz me- lhor as necessidades de subsídios e corresponde, razoavelmente, à distribuição dos recursos fiscais? A nova questão (da gerência pública) diz respeito aos mecanismos apropriados para implementar os deslocamentos das funções públicas em direção a níveis inferiores de governo. Tradicio- nalmente, na maioria das federações européias as constituições exigem que uma parte substancial das leis federais sejam administradas pelos Estados. Esse tipo de descentralização administrativa encontra-se também sendo processada em outros países-membro da OCDE, onde os governos nacionais têm transferido numerosas funções em níveis subnacionais de governo. Uma ferramenta primordial para essa devolução é o manejo de mecanismos que conferem, aos níveis subnacionais de governo, novos espa- ços para a implementação de programas intergovernamentais. Esses novos espaços suscitam preocupação sobre a extensão e a certeza da apre- sentação de contas por resultados. As emergentes “associações para o desempenho” (performance partnerships) entre diversos níveis de governo prometem ser um instrumento de transformação das relações, altamente problemáticas, com as agências, em acordos contratuais que reduzem os seus custos e permitem o aumento da eficiência, podendo concretizar-se a partir da descentralização administrativa. Essa idéia básica é ilustrada no setor do mercado de trabalho canadense, onde o governo desse país redesenhou as responsabilidades federais e provinciais (Canada Employment Insurance Commission, 1997: 19-26). A parte II da Employment Insurance Act (EI) permite que as províncias e territórios desenhem e executem os seus próprios programas de emprego apoiados por fundos do EI, mediante acordos de associação com o Ministério de Desenvolvimento de Recursos Humanos. Os governos provinciais ou terri- toriais que preferirem não assumir a responsabilidade plena pelo desenho e execução das medidas e benefícios relativos ao emprego ativo, nos ter- mos da parte II da Lei, podem, alternativamente, optar pela formalização de acordos de co-gestão. Os acordos negociados até o presente refletem ambas modalidades. 3.2. Orçamento No caso da elaboração do orçamento, a flexibilidade pode ser introduzida em diversas etapas do ciclo orçamentário. O processo de formulação do orçamento depende em grande parte da estruturação da 73 RSPLei Orçamentária e do nível de detalhamento com que o Legislativo exer- ce o controle das despesas. Existem duas tendências principais que vi- sam outorgar maior flexibilidade, que podem ser identificadas nesta fase: em primeiro lugar, os países-membro da OCDE afastam-se cada vez mais do enfoque clássico, que parte da base em direção ao vértice para a formulação do orçamento, promovendo agora um exercício que parte do vértice e dirige-se à base (top-down), onde o Conselho de Ministros es- tabelece tetos fixos para o total dos gastos governamentais que deveria ser alocado a cada ministério. Esse novo processo promove o controle do governo sobre as despesas consolidadas e facilita a realocação de recur- sos. Em segundo lugar, em alguns dos países-membro, os Parlamentos não discutem as alocações individuais senão a direção e as tendências gerais das despesas do governo. Por exemplo, na Suécia, o Parlamento deve aprovar primeiro a divisão da despesa consolidada em 27 áreas de despesas, antes de aprovar as alocações individuais. No que diz respeito à implementação do orçamento, cabe distinguir diferentes níveis de flexibilidade para as transferências. O menor grau de flexibilidade corresponde, obviamente, ao caso no qual as transferências não estão permitidas em absoluto. Uma maior flexibilidade é possibilitada pelas estruturas institucionais nas quais as transferências são, via de regra, permitidas para determinadas categorias de despesas, tais como as de ope- ração e investimento. Alguns países-membro têm combinado todas as alocações para as operações das oganizações de governo dentro de um montante total para cada organização. Por exemplo, na Suécia as agências recebem atualmente uma única alocação de recursos para o financiamento de todos seus custos correntes, sem restrições na atribuição de insumos. Uma segunda opção de transferências diz respeito à redistribuição de recursos entre anos fiscais. Não há flexibilidade alguma quando as alocações não utilizadas devem ser devolvidas ao centro no final do ano fiscal. As disposições legais que permitem adiar a execução de todas as despesas até um certo limite especificado fazem possível essa flexibilidade gerencial. Até que ponto os países-membro da OCDE fizeram uso das diver- sas opções para flexibilizar o orçamento em nível central de governo? Recente pesquisa realizada entre os altos funcionários do orçamento (PUMA, 1998) sugere a existência de marcadas diferenças entre os paí- ses-membro da OCDE no que concerne ao número de itens de alocação e em nível de detalhamento do controle parlamentar do orçamento. A flexibilidade nas transferências existe, na maioria dos casos, para as contas de despesas correntes, e em menor grau para os custos de progra- mas. A maioria dos estados-membro da OCDE permite um certo grau de realocação dos recursos entre anos fiscais. Essa breve resenha da devolu- ção da autoridade orçamentária por parte dos governos centrais demonstra 74 RSPque todos os estados-membro da OCDE têm flexibilizado seus processos orçamentários, ainda que em graus variáveis. Em muitos estados-membro, nos quais as reformas da gerência pública têm adotado, em grande medida, a forma de um enfoque a partir da base em direção ao vértice, a devolução da autoridade orçamentária tem tido uma influência maior nos níveis infe- riores do governo do que nos níveis centrais. O monitoramento estatístico inicial do impacto da devolução da autoridade orçamentária sobre o desempenho fiscal sugere que flexibi- lidade gerencial tem uma influência considerável no sucesso do esforço de estabilização, entendido como a redução do déficit e da dívida a médio prazo, após ainiciação do esforço de consolidação. Isso tem sido plena- mente verificado no caso do sistema orçamentário sueco, onde o processo de formulação do orçamento tem experimentado mudanças fundamentais no decurso dos últimos quatro anos, em resposta à convicção das auto- ridades de que o processo orçamentário em si mesmo tinha contribuído, significativamente, para o estado de deterioração do equilíbrio orçamen- tário naquele país. Caberia esperar que os efeitos fiscais positivos da flexibilidade orça- mentária sejam ainda maiores no caso em que os países venham também a redefinir as relações entre as instâncias centrais e agências operativas. Um estudo do PUMA sobre a implementação da flexibilidade orçamen- tária em cinco países membros da OCDE — Austrália, França, Nova Zelândia, Suécia e o Reino Unido — destaca que à exceção da Suécia, todos os países têm enfrentado dificuldades para traçar uma clara linha divisória entre as responsabilidades das instituições centrais e as agên- cias operativas (OCDE, 1997c:14). 3.3. Gerência de pessoal De maneira similar à flexibilidade do orçamento, a devolução de autoridade na gerência de pessoal envolve também várias escolhas em termos dos elementos e graus de flexibilização. Tem se dado uma grande atenção à determinação do pagamento mas as flexibilidades da gerência de pessoal podem implicar, igualmente, muitos outros elementos, (OCDE, 1996a:17-22), tais como: • sistemas de classificação de cargos; • mobilidade; • termos dos processos de recrutamento/emprego; • acordos trabalhistas. A flexibilidade no pagamento é uma área complexa per se. O PUMA tem desenvolvido uma escala de avaliação que permite comparar as dife- rentes dimensões da flexibilidade no pagamento (OCDE, 1997d:101): 1) nível de negociação sobre o pagamento; 2) gerência descentralizada 75 RSPda folha de pagamento; 3) nível de flexibilidade dos ajustes anuais da folha de pagamento definida no nível central; 4) nível de flexibilidade na comparação do pagamento individual. À exceção de Nova Zelândia e Reino Unido, que têm atingido um elevado grau de descentralização, os outros países da OCDE têm adotado uma abordagem mais limitada em relação a flexibilidade do pagamento. Porém, em todos os países-membro o papel desempenhado pela agência central de pessoal continua sendo importante. Inclusive nos países onde foram implementadas mudanças abrangentes no sistema de pagamento no setor público (como por exemplo Nova Zelândia e Austrália), persiste a necessidade de acompanhamento e de garantir padrões comuns de ética no conjunto do serviço público. A devolução de autoridade na gestão de pessoal tem trazido bene- fícios indiscutíveis. Os órgãos centrais de gerência de pessoal informam que se tem verificado aumento da eficiência e da efetividade geral e se facilita a inovação (OCDE, 1995: 56). Essa apreciação confirma-se pela análise empírica. Em particular, ficou demonstrado que a flexibilidade, tanto na determinação da composição do staff como na negociação e determinação dos salários individuais, contribuiu para minimizar as taxas de crescimento do pagamento de salários (OCDE, 1997d:106). No entanto, em todos os países que têm devolvido a gerência de pessoal, o equilíbrio entre o controle e a flexibilidade continua sendo instável. Numerosos governos têm procurado assegurar-se de que retêm o con- trole sobre o montante geral das despesas públicas em matéria de remu- nerações, ainda que o detalhamento esteja sujeito a certas variações locais. Os sistemas centralizados para a determinação do pagamento no setor público encontram-se, freqüentemente, associados com a idéia de que eles facilitam mais o controle dos custos trabalhistas do que os sistemas de determinação do pagamento mais descentralizados. Outrossim, existem preocupações relativas ao equilíbrio entre per- mitir que os departamentos e agências desenvolvam suas próprias práticas de gerência de pessoal e manter um certo grau de unidade e um conjunto comum de valores em todo o serviço público. Algumas tentativas, que vi- sam fortalecer uma perspectiva coletiva, se refletem nos acordos centra- lizados para a designação e a gerência de funcionário civis do alto escalão e nos esforços realizados em alguns países para desenvolver a capacidade dos órgãos centrais em matéria de planejamento estratégico e políticas de recursos humanos em todos os serviços. O debate que gira em torno da definição dos aspectos essenciais e dos elementos comuns que deveriam ser mantidos no serviço público, bem como qual o grau desejável de devo- lução está longe de ter sido resolvido e continuará sendo uma questão chave na gerência pública nos próximos anos. 76 RSP3.4. Mecanismos tipo mercado A aplicação dos chamados mecanismos tipo mercado (MTM) no setor público tem sido objeto de uma atenção considerável. Novamente, isso não implica uniformidade, uma vez que “o conceito de MTM abrange todos os arranjos nos quais está presente, pelo menos, uma das caracte- rísticas significativas dos mercados — competência, fixação de preços, tomada de decisões dispersa, incentivos monetários etc.” (OCDE 1993:11). Fica evidente, que essa definição exclui os dois casos opostos do tradici- onal fornecimento público e da privatização total. Tomando-se em consi- deração a diversidade de MTMs é impossível discuti-los como um conjunto homogêneo, motivo pelo qual discutem-se aqui três classes de MTM: a contratação externa, a cobrança ao usuário, e os vouchers. 3.4.1. Contratação externa A contratação externa diz respeito à situação em que o setor público adquire, no setor privado, algo que tradicionalmente havia produzido internamente. Quando se permite que as operações internas participem também como licitações, fala-se de market testing. O incentivo que está implícito na contratação externa é simples. Estudos internacionais têm demonstrado, de forma consistente, que é pos- sível obter uma poupança sustentável de aproximadamente 20% contra- tando-se atividades externamente, enquanto são preservados ou melhorados os níveis de qualidade do serviço, tal como aparece na tabela a seguir: Poupança de custos por contratação externa (em porcentagem) Estados Unidos 20% Reino Unido 20% Austrália 15-20% Suécia 9-25% Islândia 20-25% Dinamarca 5-30% Fonte: PUMA (1998b:70). As práticas de contratação externa variam amplamente entre os estados-membro da OCDE. Não obstante, parece existir um amplo acordo em torno de que serviços de apoio tais como manutenção e limpeza, o fornecimento de alimentos e a impressão gráfica, entre outros, sejam candi- datos apropriados para a contratação externa. Os países-membro que contam com uma forte tradição de contratação externa, tais como a Austrá- lia, Nova Zelândia, Reino Unido, Estados Unidos e os países nórdicos 77 RSP(Dinamarca, Islândia), foram além da contratação externa de serviços de apoio, em áreas que poderiam ser consideradas inerentemente governa- mentais há pouco tempo atrás. Exemplos disso incluem os serviços de bombeiros nos Estados Unidos, os serviços carcerários no Reino Unido, serviços para os desempregados na Austrália, lares para tratamento de indivíduos com problemas comportamentais na Islândia, funções do escritório nacional de auditoria na Nova Zelândia (muitos desses casos são revisados numa recente publicação do PUMA: 1997a, Contracting Out Government Services). O PUMA publicou, recentemente, um Policy Brief com as melhores diretrizes práticas para a contratação de serviços governamentais, destacando os fatores-chave para uma contratação externa de sucesso. 3.4.2. Cobrança ao usuário Os países estão financiando, cada vez mais, os serviços governa- mentais mediante a cobrança ao usuário. O objetivo de cobrar do usuário não é apenas conseguir recuperar os custos, senão também fazer com que os serviços governamentais sejam mais eficazes e eficientes. Isso se consegue através da visibilidade clara de custos e benefícios dos serviços oferecidos aos usuários pelos fornecedores, impondo disciplina no que diz respeito às demandasao mesmo tempo em que promove a tomada de consciência sobre os custos e a orientação oferecida. Mas ainda, a cobrança ao usuário oferece um marco para o desenvolvimento dos mer- cados e da concorrência. Um exemplo clássico dos benefícios acarretados pela cobrança ao usuário é o do Australian Bureau of Statistics. Quando começaram a cobrar por suas publicações, registrou-se uma súbita queda da demanda, indicando que a relação dos que recebiam, gratuitamente, as publicações pelo correio continha um grande número de pessoas que realmente não queria a publicação. O mais interessante foi que entre os que manifesta- ram seu desejo de assinar a publicação, vários assinalaram que o fariam somente no caso em que o formato e os conteúdos fossem modificados de maneira determinada, para satisfazer suas exigências. Esse caso exem- plifica a margem de benefícios que pode ser obtida a partir da cobrança ao usuário — aumento da receita, aumento da apropriação por parte do usuário, melhores produtos. O PUMA elaborou algumas diretrizes para melhorar as práticas em matéria de cobrança ao usuário, assinalando os riscos que devem ser levados em consideração no momento de criar um sistema desse tipo (OCDE, 1998:7-11). As diretrizes esclarecem que a cobrança ao usuário constitui um exigente MTM, dado que para a sua otimização se faz 78 RSPnecessário um sistema de apresentação de contas progressivo, uma boa medição do desempenho e flexibilidade gerencial da organização pública para estabelecer e adaptar a cobrança. 3.4.3. Vouchers Em contraste com os MTMs considerados anteriormente, a intro- dução de esquemas de vouchers ou quase-vouchers tem se desenvol- vido muito pouco com relação à discussão teórica de suas vantagens e limitações. Os vouchers podem ser definidos como regimes nos quais os indivíduos recebem (mediante um pagamento ou por alocação) a titularidade de um bem ou um serviço que podem “fazer efetivo” mediante um determi- nado conjunto de fornecedores, quando eles o descontam em efetivo ou em formas equivalentes por parte de um órgão financiador (Cave, 1998: 3). Tradicionalmente, os vouchers têm assumido a forma de recibos de papel autorizando uma pessoa nomeada para receber um serviço espe- cífico, a partir de uma relação de fornecedores designados. As caracterís- ticas básicas dos vouchers são sua não-transferibilidade entre consumidores e sua falta de flexibilidade comparada com o dinheiro efetivo. As principais vantagens atribuídas aos vouchers são sua capaci- dade de melhorar a eficiência dos custos, induzindo processos concorrentes entre fornecedores. O segundo objetivo é a melhoria da eficiência da alocação, mediante a ampliação do leque de escolhas do consumidor. Em terceiro lugar, os vouchers para serviços públicos também oferecem a vantagem, para o governo, de orientar o consumo e redistribuir a renda. Embora os vouchers não tenham sido implementados em grande escala, eles têm suscitado um considerável interesse, particularmente como recurso para prover serviços fundamentais tais como educação, atendi- mento a crianças e anciãos bem como moradia. Os estudos sobre a utiliza- ção dos vouchers em programas de moradia para os pobres nos Estados Unidos e a introdução de quase-vouchers em casas de atendimento de enfermaria no Reino Unido, pesquisaram, em particular, as dificuldades de implementação e os benefícios que tinham sido discutidos superficialmente na prática, tais como a concorrência imperfeita para promover a demanda latente, o marco de regulamentação, etc. (ver OCDE, 1993: 43-53). Os resultados desses estudos de caso demonstraram que os vouchers levavam a um rápido ajuste no fornecimento, implicavam baixos custos administrativos e ofereciam uma correspondência satisfatória entre as preferências dos receptores e os serviços obtidos, sempre que houvesse mercados verdadeiramente competitivos, de fácil acesso, pequena margem para a apropriação de benefícios por parte de outros que não fossem os supostos receptores bem como informação acessível. No entanto, os vouchers, por si sós, não podem compensar a incerteza na previsão das apropriações, e portanto, os custos poderiam continuar sendo incontroláveis. 79 RSPEm síntese, no que diz respeito aos mecanismos tipo mercado, vários países têm dado uma ênfase especial aos MTMs visando gerar aumento de eficiência e melhoria do desempenho do setor público. Os MTMs têm sido, geralmente, reconhecidos como propiciadores de significativos ganhos de eficiência, em um período de tempo relativa- mente pequeno. 3.4.4. Contratação por desempenho Com a devolução de autoridade e a criação de mercados internos no seio do setor público, o conceito clássico de responsabilidade, baseado nas hierarquias e no controle dos insumos e dos processos, deixou de ser apropriado. Uma abordagem tem tentado esclarecer e formalizar as rela- ções entre indivíduos, organizações e níveis administrativos do setor público por meio dos chamados contrato por desempenho. Esta classe de quase-contrato é um acordo mútuo entre duas partes do setor público, nos quais uma parte (o principal ou o comprador) especifica um nível de recursos que é dado à outra parte (o vendedor ou agente) bem como o tipo, quantidade e qualidade do desempenho a ser produzido em um de- terminado período de tempo. Os contratos por desempenho não necessa- riamente determinam o uso dos recursos e dos processos. No entanto, eles oferecem a um setor público mais descentralizado um marco de responsabilidade potencialmente diferente. Em todos os casos em que existe devolução, existe também um espaço e uma necessidade potencial para os contratos por desempenho: entidade superior e empregado, uni- dades de serviço de apoio e unidades administrativas centrais, entre orga- nizações do setor público na esfera do Executivo e o Parlamento bem como entre diversos níveis de governo. Os contratos por desempenho podem apresentar-se sob diferentes formas, dependendo da estrutura da administração pública, do marco legal e do desenvolvimento da medição de desempenho em um país. Um projeto do PUMA em andamento, relativo à contratação por desempenho, examina o uso específico e os conteúdos dessa modalidade de contratação em vários países (para maiores informações, ver http://www.oecd.org/ puma/mgmtres/pac/performcon.htm). Estudos de caso em nove países permitiram realizar algumas observações preliminares relacionadas com suas práticas e seus resultados. Os contratos por desempenho entre minis- térios/departamentos e agências têm sido freqüentes enquanto que os acordos contratuais, que incluem diferentes níveis de governo, consti- tuem um fenômeno ainda emergente. Em grandes linhas, os contratos por desempenho podem ser consi- derados como uma ferramenta útil para promover uma gerência dirigida a resultados e à avaliação no setor público. Os contratos por desempenho 80 RSPobrigam a todas as partes envolvidas a especificar metas de desempenho, a revisá-las e, o que é mais importante, a estabelecer um diálogo entre elas. Em vários países está acontecendo um debate sobre se os contratos de desempenho legais que não geram obrigações poderiam e deveriam se trans- formar em contratos por desempenho legais geradores de obrigações. O risco é, no entanto, que a possível solução judicial dos conflitos resultasse em custos de transação mais elevados. Outra questão controvertida é se a implementação dos contratos por desempenho entre duas partes (que freqüentemente se colocam numa relação vertical) introduz uma nova hierarquização no setor público, que em última estância levaria a uma maior (e indesejável) fragmentação. A presente tendência a estabelecer mais associações no setor público pareceria assinalar uma virada na direção de uma coordenação melhorada ou de uma produção conjunta por meio de determinados tipos de contrato por desempenho horizontais. 4. Alguns problemas transversais A introdução de princípios econômicos e gerenciais ( do setor pri- vado) no setor público não somente modifica as organizações do setor públicoenvolvidas, mas também muda em profundidade a natureza do Estado como um todo. A nova situação representada pelos contratos e agências gera alguns problemas transversais referentes às relações no interior do Estado, mas que vão além na medida em que as relações entre o Estado, o mercado e a sociedade estão envolvidas. Por outro lado, os negociadores, freqüentemente, desconsideram a dimensão temporal das reformas da gerência pública. Isso significa não apenas que os problemas de implementação sejam subestimados. Freqüentemente, pode-se verificar a existência de um conhecimento inadequado sobre as diferentes etapas do processo de reforma, bem como da demanda por ele apresentada de soluções diferentes e de mudança das aptidões gerenciais. Muitas das implicações de longo prazo das reformas organizacionais e gerenciais só se tornam visíveis na atualidade. Em todo caso, fica evidente, para todos os países que implementaram elementos da nova gerência pública, que não há um caminho de volta em direção às antigas formas do Estado e da administração pública. O estudo de alguns dos principais problemas trans- versais demonstra que a nova gerência pública é muito mais exigente do que poderia sugerir uma olhada superficial aos princípios de gerência. 4.1. Responsabilidade (accountability) A questão mais discutida da nova gerência pública, sem dúvida, é a implicação para as relações de responsabilidade (accountability) entre os 81 RSPgerentes públicos e os empregados, os ministérios e os órgãos autônomos ou agências, entre a administração pública e as autoridades políticas, a adminis- tração pública e os cidadãos, o Legislativo e o poder Executivo do governo, e entre os setores público e privado para o fornecimento de serviços. A responsabilidade mantém uma relação estreita com a nova gerên- cia pública, já que seu crescimento tem sido um dos objetivos explícitos de todas as reformas administrativas. O ponto de vista estritamente ins- trumental da responsabilidade por parte da nova gerência pública — que se centra nos resultados — promoverá mecanismos de responsa- bilidade atentos aos objetivos da ação pública (Martin, 1997). Os mecanis- mos de responsabilidade correspondentes serão compatíveis com as idéias básicas da gerência de desempenho, que inclui a tarefa de estabelecer expectativas do desempenho, o registro da informação confiável a respeito do que foi alcançado, a necessidade de avaliar se as expectativas prévias foram satisfeitas, e a necessidade de oferecer retroalimentação sobre o desempenho alcançado, mantendo a responsabilidade por meio de incen- tivos positivos ou de sanções negativas. Os dilemas emergem do fato de que a responsabilidade poderia também ser considerada como uma finalidade em si mesma. Esse é o caso, especificamente, de países com Leis Administrativas, nos quais o funcionamento da administração pública baseia-se em princípios e proce- dimentos democraticamente legitimados, centrados mais nos insumos do que nos resultados. Essas duas posições podem não ser inerentemente incompatíveis, na medida em que a responsabilidade baseada nos insumos é capaz de melhorar quando se soma a ela o interesse com relação aos resultados. Não obstante, a ênfase colocada nos meios em oposição à ênfase colocada no objetivo, também estabelece limites à devolução da autoridade. Duas classes de conseqüências podem decorrer dessa situa- ção: a nova gerência pública poderia ter de realizar transações entre a eficiência e outros valores do setor público tais como a eqüidade, ou pode ser que a plena realização da nova gerência pública exija mudanças mais amplas no marco legal e institucional de alguns países. A área cinza entre a responsabilidade gerencial e a responsabilida- de política continua sendo, particularmente, problemática. No Reino Unido, em particular, há um permanente debate a respeito da responsabilidade ministerial em oposição à responsabilidade pública dos funcionários. En- quanto alguns comentaristas argumentam que o aumento da transparência do comportamento dos funcionários fortalece os princípios de responsabi- lidade política (Martin, 1997:4), outros afirmam que a disponibilidade de informação sobre o desempenho tem fortalecido a responsabilidade gerencial, mas simultaneamente, tem enfraquecido a responsabilidade política (Pollit, Birchall & Putnam, 1998:26). 82 RSPUma observação relevante nesse contexto é que “a reforma da gerência do serviço público não tem sido geralmente acompanhada de níveis significativos de reforma política” (Walsh, 1995:221). Os debates políticos continuam centrados nos insumos mais do que nos resultados e nos produtos, e a gerência por desempenho não está, suficientemente, integrada no processo orçamentário. 4.2. Ética As reformas na gerência pública têm afetado também a gerência do comportamento ético de várias maneiras. Os críticos da nova gerência pública fazem predições de aumento da corrupção no novo “Estado de contratos e de agências”, que outorga mais liberdade às organizações do setor público e aos empregados do setor, individualmente considerados. Outra linha de crítica afirma que a nova gerência pública promove unila- teralmente, valores econômicos em detrimento de outros valores tais como o bem comum. Esses argumentos baseiam-se em percepções individuais, quando não em preconceitos, mais do que nos fatos. Certamente, há pou- cos estudos empíricos, se é que os há, que comparam o comportamento ético antes e depois da implementação de reformas significativas na ge- rência pública. Não obstante, é evidente que tais reformas têm questionado os valores tradicionais do setor público. Um olhar mais atento às implica- ções da nova gerência pública em relação à gerência ética identifica, nesta área, os problemas abaixo (OCDE, 1996b:19-26): • As reformas incluíram mudanças no status das organizações do setor público em conseqüência da corporatização ou semiprivatização. Isso coloca a pergunta de em que medida as corporações públicas e organizações similares tendem a se encaixar dentro das mesmas diretrizes éticas e comportamentais que o centro do setor público. • As reformas levaram ao desenvolvimento de novas formas de organizações no setor público, tais como os órgãos (semi) autônomos. Estas novas agências, freqüentemente, têm utilizado sua liberdade gerencial para definir seus próprios parâmetros éticos. Essa tendência tem sido reforçada pelo incremento do recrutamento no setor privado, geralmente para os cargos de gerência ou para posições de liderança. Como conse- qüência, coloca-se a questão da possível ruptura da coerência do ethos anterior do serviço público e da sua possível e progressiva fragmentação. • O aumento da liberdade gerencial no seio das organizações públi- cas aumentou também as oportunidades para a configuração de um com- portamento irregular. O comportamento irregular não é um problema ético quando ele reflete mais uma inovação do que um desvio de conduta. O aumento da liberdade de ação, porém, passa a se constituir num problema 83 RSPético quando os sistemas de informação gerencial e as estruturas de respon- sabilidade não avançam no mesmo ritmo que a devolução de autoridade. Conseqüentemente, a devolução exige o estabelecimento de uma nova infra-estrutura ética. • As reformas tenderam a dissipar a fronteira entre o setor público e o setor privado. O aumento do intercâmbio entre os setores público e privado coloca novos e numerosos dilemas que devem ser assumidos em nível político. Por exemplo: a concorrência de mercado entre organiza- ções dos setores público e privado implica que o setor público também tem direito a revelar informações aos cidadãos no caso da existência de efeitos negativos para a concorrência? A necessidade de uma conduta ética no serviço público tem sido orientada pela globalização e intensificação do comércio internacional. Para responder a estes desafios, os países da OCDE desenvolveram doze prin- cípios, orientando os países a revisar as instituições, os sistemas e os mecanismos de que dispõempara promover a ética no serviço público (ver Anexo 2). Essa relação criada para a gerência da ética foi adotada como uma recomendação da OCDE em abril de 1998. Ela cria o marco adequa- do para a revisão das experiências nacionais, visando a promoção de um aprendizado recíproco no campo da gerência e da ética no serviço público. 4.3 Eleição de políticas e instrumentos de políticas Os problemas de responsabilidade, bem como os dilemas não resolvidos em questão de ética, colocam e revelam o fato de que as refor- mas da gerência pública envolvem a interação de processos políticos, organizações, políticas públicas e instrumentos de políticas. Uma eleição mais racional dos instrumentos de políticas requer uma nova infra-estrutura institucional e capacidades gerenciais da parte dos políticos eleitos. Por exemplo, na Suécia, a revisão nacional do pro- cesso central de orçamento evidenciou que a expansão dos níveis de assessoria parlamentares ou a criação de um escritório de orçamento independente e responsável, junto ao Parlamento, ajudaria os políticos eleitos a dispor de mais informações relativas ao desempenho do Poder Executivo e a fazer melhor uso dessa informação. Uma pesquisa da OCDE sobre o papel do Legislativo no processo orçamentário revela que em todos os países da OCDE, os corpos políticos eleitos do nível central, freqüentemente, não se ajustaram às novas reali- dades na administração pública. As estruturas parlamentares, orçamen- tárias e regulamentadoras, bem como o controle parlamentar, continuam sem mudanças em grande parte, embora cada vez mais sejam percebidos 84 RSPcomo inadequados pelos parlamentares. Atualmente, observam-se qua- tro tipos de tendências: 1) mais declarações agregadas de políticas fiscais junto ao Legis- lativo, onde os níveis consolidados de rendas governamentais, despesas, déficit e dívidas são propostos de maneira geral; 2) aumento do papel dos comitês, incluindo uma divisão mais acentuada de responsabilidades entre o comitê orçamentário e os comi- tês setoriais; 3) melhorias nos relatórios apresentados ao Legislativo, podendo incluir um leque de medidas que a abrangem desde a simples atualização do formato da documentação orçamentária até a introdução de mudan- ças fundamentais no seu conteúdo; 4) mais recursos para o Legislativo através da promoção do staff não-político dos comitês, estabelecendo escritórios para dar assistência aos parlamentares e aumentando os fundos dos partidos políticos, com a finalidade de propiciar um grau mais elevado de conhecimento em maté- ria orçamentária. Da parte do Poder Executivo, os instrumentos tradicionais de políticas estão, geralmente, ligados às instituições ou ao contexto cultu- ral das áreas particulares das políticas públicas. Por exemplo, uma agência responsável pelo controle da poluição da saúde pública poderia considerar que a substituição de um instrumento como os incentivos econômicos por uma regulamentação direta seria difícil de ser aceita, ou sequer ser considerada objetivamente, em função da incerteza dos resultados e da percepção de perda de poder. Um estudo do PUMA sobre a escolha dos instrumentos de política desenvolveu um marco geral identificando e reunindo 22 instrumentos segundo as classes de recursos utilizados. Esses instrumentos agrupam-se nas cinco catego- rias abaixo (PUMA, 1997b:3): • financiados pela despesa nacional direta do orçamento nacional; • custos orçamentários indiretos ou intermitentes; • disposições impositivas especiais para alcançar objetivos programáticos; • créditos e seguros; • controle público não financiado ou influência da atividade privada. O marco sugere que os instrumentos de política podem ser anali- sados em termos de eficiência, efetividade, eqüidade, custos, intrusividade e responsabilidade (PUMA, 1997:3). Isso pode ser percebido como um tipo de ferramenta capaz de avaliar os custos e os benefícios de instru- mentos específicos que fazem parte de reformas, em andamento ou futuras, da gerência pública. 85 RSP5. Preocupações persistentes A NPM não é, em absoluto, um conceito simples. A decisão dos líderes políticos ou administrativos de introduzi-la no setor público envolve opções difíceis tais como que classes de elementos escolher dentro do menu da NPM e como combinar esses elementos. Como foi demonstra- do na discussão de alguns problemas transversais, a introdução da NPM leva também a uma série de problemas de segunda ordem que devem ser enfrentados. 5.1. Pré-requisitos para a introdução da NPM Na medida em que esses problemas aparecem, há uma maior conscientização da parte dos países de que a NPM não apenas requer uma concepção consistente da reforma, senão também uma bem funda- mentada gestão da mudança em todos os níveis e em todas as etapas do processo da reforma. Os obstáculos que vários países, incluindo aqueles pioneiros, têm enfrentado ao implementar as reformas, coloca também uma questão fundamental relativa à aplicabilidade geral das mesmas. Em especial, a experiência dos países da Europa Central e Oriental (CEEC) indica que devem cumprir-se algumas condições prévias para ser capaz de implementar com sucesso alguns conceitos da gerência moderna. Se não se conta com estruturas e sistemas fundamentais, é pouco provável que a NPM seja a resposta adequada. Por exemplo, oito anos depois do início da transição à democracia, a administração pública na CEEC continua enfrentando uma série de problemas estruturais. Um projeto europeu de pesquisa identificou quatro problemas principais na Bulgária, Hungria e Eslováquia (ver Erheijen, 1996: 8f; Erheijen, 1997:207-219): • fragmentação vertical e horizontal, conduzindo a ineficiência e à duplicação, bem como a atrasos no desenvolvimento e na implementação das políticas; • alta rotação entre os funcionários dos primeiros escalões do serviço civil, resultando num elevado nível de instabilidade da adminis- tração pública; • falta de capacidade para a elaboração das políticas agravada pelo alto nível de rotação entre os servidores públicos de maior hierarquia e a ausência de indução e de facilidades para o treinamento em serviço; • debilidade dos sistemas de responsabilidade, em função da falta de instituições básicas, tais como os escritórios de auditoria. Devido aos problemas estruturais dos países que fazem parte da CEEC, é inevitável ter dúvidas a respeito da viabilidade de algumas reformas no sentido da NPM. A fragmentação da administração num 86 RSPdeterminado número de unidades menores direcionadas a tarefas, prova- velmente agravará os problemas de coordenação já existentes. Cabe esperar, também, que a liberalização das condições de emprego, no estado atual do serviço civil desses países, levem ao aumento da politização, promovendo conseqüentemente a instabilidade, ao invés de reduzi-la. A introdução da NPM poderia, inclusive, incrementar o nível de corrupção, se não se elaboram mecanismos transparentes para a nomeação dos chefes executivos das agências. Em termos gerais, a experiência demonstra que a aplicação integral da NPM em sistemas de administração imaturos não é desejável em função da ausência de resultados positivos e também do surgimento de disfunções provocadas por tais reformas. O potencial au- mento de eficiência que se poderia alcançar, mediante a adoção das re- formas da NPM, certamente seria superado pelos custos resultantes dos problemas de coordenação e do aumento da instabilidade. 5.2. Gerenciando o processo de reforma À primeira vista, muitas reformas com a orientação da NPM pare- cem sugerir que o progresso normal de uma reforma da gerência pública segue um padrão racional, com uma primeira etapa de natureza conceitual e um subseqüente processo de implementação. Esse padrão simples de reformas administrativas baseia-se na idéia de que existe uma única forma ótima de se chegar aos objetivos, que toda a informação necessária sobre estratégias e instrumentos está disponível, que não existem riscos envolvi- dos e que os objetivos originais da reforma permanecem imutáveisno tempo. No decurso da primeira onda de reformas nos anos 80, ficou evi- denciado que as reformas direcionadas à NPM seguem diversos rumos, impulsionadas pela pressão de uma informação incompleta; e face à in- certeza a respeito das condições para atingir os objetivos, implicam assumir riscos e complicam-se pela modificação dos objetivos, por parte dos participantes envolvidos. A decisão em favor de uma ou outra estratégia de reforma baseia- se, geralmente, em alguns pressupostos relativos a sua superioridade em comparação com outras estratégias de reforma. Um país, por exemplo, pode necessitar escolher entre limitar, inicialmente, as reformas direcionadas à NPM, a determinados setores da administração pública, e um enfoque de reforma global desde o início. Envolvido nesta escolha está o enfoque de precaução, que permite aprender fazendo, e um enfoque radical que evita atrasos na implementação e implica em incerteza e ris- cos aumentados. Em geral, os agentes de mudança possuem escassa informação sobre as diversas conseqüências práticas vinculadas com as decisões adotadas e com os respectivos fatores de sucesso. 87 RSPEssa falta de informação envolve, automaticamente, um certo incremento do risco. Certamente, há esquemas disponíveis que conside- ram que o risco-médio de fracasso nas inovações organizacionais no setor privado chegam a 70-80%. Há motivos para pensar que o risco médio de fracasso é menor no setor público? Os problemas de imple- mentação que vários países têm enfrentado ao longo do processo de reforma administrativa demonstram a existência de poucas razões para ser otimista. Ao mesmo tempo, o exagero subjetivo do risco, que freqüen- temente surge em etapas críticas do processo de reforma, tem como conseqüência o debilitamento das reformas. Por conseguinte, é impor- tante para o sucesso da reforma da gerência pública que se desenvolva uma estratégia de manejo do risco, desde o início do processo, e se coloque em andamento mecanismos de monitoramento e avaliação das reformas. 6. Conclusões Após uma década e meia de reformas direcionadas à NPM em alguns países-membro da OCDE, existem muitos indicadores sobre o que aproveitar e o que abandonar desse enfoque. O debate ideológico realiza- do tem percebido a NPM como uma finalidade em si mesma, que define um estado desejável da administração pública em termos de estrutura, funcionamento e resultados. No entanto, a evolução da NPM demonstra que ela deve ser compreendida e utilizada como um conjunto de princípi- os capazes de constituir as bases para a solução de alguns problemas específicos, em determinados setores da administração pública, sendo os mesmos implementados adequadamente. Este ponto de vista sobre a NPM origina as seguintes sugestões: 1) Os países deveriam adotar um enfoque pragmático para as refor- mas da administração pública, ao invés de seguir dogmas ou modas nesse campo. A implementação da NPM em vários países tem demonstrado que, primeiramente, deve-se levar em consideração as circunstâncias na- cionais e locais, bem como a diversidade organizacional dentro de cada país. Um determinado conceito relativo à reforma poderia funcionar em um determinado setor de políticas mas não necessariamente em outro, uma vez que as estruturas e as culturas organizacionais são diferentes. 2) Existe a necessidade de identificar e de definir, claramente, uns poucos objetivos de reforma, que deverão estabelecer-se após uma cui- dadosa análise dos problemas enfrentados pela administração pública. Num segundo momento, deverão ser exploradas as possíveis alternativas, que serão avaliadas em termos de custos e benefícios. 3) É essencial incluir a dimensão humana no processo de reforma. Uma das razões clássicas pela qual numerosas reformas da gerência 88 RSPpública fracassaram no passado foi a falta de informação às pessoas sobre a direção da mudança, a fim de que elas pudessem contribuir com o processo e apoiá-lo adequadamente, quando as críticas aumentaram. 4) Ao se fazer a opção pela reforma, é preciso examinar se se cumprem os pré-requisitos necessários a uma implementação de sucesso. Por exemplo, antes do lançamento de uma política de contratação externa, deve-se ter a certeza de que existe um setor privado em funcionamento, de que os sistemas de responsabilidade funcionam bem e de que existe capacidade para gerenciar um contrato. 5) As capacidades de adaptação e de aprendizado devem existir no setor público. O estabelecimento de mecanismos de aprendizagem tais como as avaliações regulares, as pesquisas de opinião de cidadãos e empregados não constituem apenas um fator de sucesso para manejar toda a classe de processo de reforma da gerência pública, mas também são um incentivo para que os líderes políticos olhem além das reformas em andamento e demonstrem ter capacidade de resposta diante dos desafios do futuro. No presente período de intensas mudanças e de turbulência poten- cial, cada país terá que se perguntar quais são os desafios em relação ao seu próprio bom governo. A nova gerência pública pode ser utilizada como veículo para aproximar-se de algumas das respostas e para acessar outros problemas que exigem ser enfrentados. Notas 1 Versão corrigida do documento apresentado no III Congresso Internacional do CLAD sobre a Reforma do Estado e da Administração Pública, realizado em Madrid, Espanha, de 14 a 17 de outubro de 1998. Os pontos de vista expressos neste documento perten- cem aos autores e não, necessariamente, representam os da OCDE nem os do seu Serviço de Gerência Pública. O presente artigo foi publicado na Revista del CLAD, Reforma y Democracia, n.13, febrero/1999. 89 RSPReferências bibliográficas CANADA Employment Insurance Commission. (1997), Employment Insurance. Monitoring and Assessment Report. Ottawa: Ministry of Human Resources Development. CAVE, Martin. (1998), “Vouchers Programmes and their Role in Distributing Public Services”. Estudo apresentado no 19th Annual Meeting of Senior Budget Officials. Paris, 25-26 de maio (documento interno PUMA/SBO (98)7). HOOD, Christopher. (1991), “A Public Management for All Seasons”. Public Administration, v. 69, n.1 (spring), pp. 3-19. London. KICKERT, Walter. (1997), “Public Governance in the Netherlands: an Alternative to Anglo- Saxon Managerialism”. Public Administration, v. 75, n. 4, (winter), pp. 731-752. MARTIN , John. 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Em 1996, realizou um simpósio para ministros. Atualmente, as atividades do Comitê estão relacionadas com: políticas públicas e processos decisórios; regulamentação efetiva; gerência orça- mentária e financeira; problemas de desempenho; recursos humanos; ética no serviço público; pagamentos no setor público; interação com os cida- dãos e a sociedade civil; e relações entre os diferentes níveis de governo. O Serviço PUMA fornece ao Comitê informação, análises e avalia- ção; promove intercâmbios de experiências entre altos funcionários gover- namentais; e prepara relatórios e diretrizes para responsáveis pela elaboração das políticas. Ao proporcionar comentários bem informados solicitados por um país em particular, pode desempenhar um papel fundamental de apoio aos esforços nacionais para a reforma. A informação comparativa de- senvolvida oferece um ponto de referência a partir do qual os países podem avaliar como se localizam em relação a outros membros da OCDE, forne- cendo, assim, ferramentas para a mudança. O PUMA também trabalhou com a Europa Central e Oriental por meio do SIGMA (Support for Improvement in Governance and Management). Trata-se de uma iniciativa conjunta do Centro para a Coo- peração com Não-Membros (CCNM) e do Programa PHARE da União Européia, financiado fundamentalmente por PHARE. SIGMA apóia os esforços de reforma da administração pública em 13 países em transição. Desde 1990, o PUMA tem publicado mais de 6 relatórios sobre gerência pública. Mais informações podem ser obtidas no site: www.oecd.org/puma. 92 RSPAnexo 2 Princípios para gerenciar a ética no serviço público Texto da Recomendação da OCDE 1998 Prefácio 1) A observação de uma conduta impecável no serviço público passou a ser uma exigência crítica para os governos dos países-membro da OCDE. Os valores tradicionais do serviço público têm sido questionados pelas reformas da gerência pública que implicam numa maior atribuição de responsabilidades e de discricionariedade aos servidores públicos, pe- las pressões orçamentárias e pelas novas formas de fornecimento de serviços públicos. A globalização e os avanços no desenvolvimento das relações econômicas internacionais, incluindo o comércio e o investimen- to, exigem parâmetros de conduta no serviço público capazes de suscitar um amplo reconhecimento. A prevenção dos desvios de conduta é tão complexa como o fenômeno do desvio de conduta em si mesmo, sendo necessário contar com um leque de mecanismos integrados para alcan- çar o sucesso nesta área, incluindo sistemas bem fundamentados para gerenciar a ética. A crescente preocupação em torno do declínio da con- fiança no governo e da corrupção, levou os governos a reverem suas posições em relação ao comportamento ético. 2) Em respostas aos desafios anteriormente mencionados, os países da OCDE desenvolveram um conjunto de princípios expostos a seguir. Os doze princípios foram estabelecidos visando ajudar os países a revisar as instituições, os sistemas e os mecanismos de que dispõem para promover a ética no serviço público. São identificadas as funções de orientação, gerência ou controle em relação às quais podem ser comparados os siste- mas de gerência da ética. Esses princípios condensam a experiência dos países da OCDE, e refletem pontos de vista compartilhados em relação a uma gerência da ética bem fundamentada. Os países-membro encontra- ram suas próprias formas de equilibrar aspirações e concepções, visando concretizar um marco efetivo adequado as suas próprias circunstâncias. 3) Os princípios podem ser utilizados pela gerência em níveis nacionais e subnacionais de governo. Os líderes políticos podem utilizá-los para revisar os regimes de gerência da ética e avaliar em que medida a mesma é operacionalizada nas dependências governamentais. Os princípios 93 RSPpretendem ser um instrumento que os países adaptaram às suas condições nacionais. Eles não são suficientes em si mesmos, mas deveriam ser vistos como uma forma de integração da gerência da ética no contexto mais am- plo da gerência pública. Princípios para a gerência da ética no serviço público 1) Os parâmetros éticos para o serviço público deveriam ser claros. Os servidores públicos necessitam conhecer os princípios básicos e os parâmetros que se espera que eles apliquem em seus trabalhos e onde se encontram os limites de um comportamento aceitável. Uma declaração concisa, bem divulgada dos parâmetros de ética essenciais e dos princípios que orientam o serviço público, por exemplo, na forma de um código de conduta, pode cumprir essa diretriz, criando um consen- so compartilhado nas dependências governamentais e no seio da comu- nidade em geral. 2) Os parâmetros éticos deveriam estar refletidos num marco legal. O marco legal é a base para a comunicação dos parâmetros míni- mos e dos princípios de comportamento para todos os servidores públicos. As leis e os regulamentos deveriam estabelecer os valores fundamentais do serviço público e oferecer um marco de referência para a orientação, a pesquisa, a ação disciplinar e a efetivação dessa ação. 3) A orientação ética deveria estar à disposição dos servidores públicos. A socialização profissional deveria contribuir para o desenvolvi- mento dos conceitos e das aptidões, capacitando os servidores públicos a aplicar princípios éticos em circunstâncias concretas. O treinamento pro- picia a conscientização desde o ponto de vista ético e pode desenvolver as aptidões essenciais para a análise ética e o raciocínio moral. Uma assessoria imparcial pode contribuir para criar um contexto no qual os servidores públicos estejam mais propensos a enfrentar e a resolver tensões e problemas de índole ética. Mecanismos de orientação e de consulta interna deveriam estar à disposição dos servidores públicos para ajudá-los na aplicação de parâmetros éticos em seu trabalho. 4) Os servidores públicos deveriam conhecer seus direitos e obriga- ções caso seja descoberta alguma atuação incorreta. Esse conhecimento é necessário para o reconhecimento de uma atuação incorreta real ou suposta no serviço público. A esse respeito, deveriam incluir-se normas e procedimentos claros a serem seguidos pe- los funcionários e uma cadeia formal de responsabilidades. Os servidores 94 RSPpúblicos necessitam saber qual é a proteção a que poderão ter direito no caso em que seja descoberta uma atuação incorreta. 5) O compromisso político com a ética deveria reforçar o compor- tamento ético dos servidores públicos. Os líderes políticos são responsáveis pela manutenção de um eleva- do nível de honestidade na realização de suas tarefas oficiais. Seu compro- misso demonstra-se através do exemplo, levando a cabo ações que somente são possíveis em nívelpolítico, por exemplo, estabelecendo acordos em torno de disposições legislativas e institucionais capazes de reforçar o comportamento ético, gerando sanções contra as formas incorretas de procedimento, oferecendo apoio e recursos adequados para as atividades relacionadas com a ética em todas as dependências governamentais, e evitando a exploração de normas e leis éticas com objetivos políticos. 6) O processo de tomada de decisões deveria ser transparente e aberto ao escrutínio. O público tem direito de conhecer como as instituições públicas utilizam o poder e os recursos que lhes são confiados. O escrutínio públi- co deveria ser facilitado por processos transparentes e democráticos, supervisionado pelo Legislativo e acessível à informação pública. A trans- parência deveria ser promovida cada vez mais através de medidas tais como a abertura dos sistemas e o reconhecimento do papel desempenha- do por meios de comunicação ativos e independentes. 7) Deveria haver diretrizes claras para a interação entre os setores público e privado. Normas claras que definam os parâmetros éticos deveriam orien- tar os comportamento dos servidores públicos nas suas relações com o setor privado, por exemplo, no que diz respeito à procuradoria pública, à contratação externa ou às condições de emprego público. O incremento da interação entre os setores público e privado requer que se preste uma maior atenção aos valores do serviço público e que se exija dos partici- pantes externos o respeito desses valores. 8) Os gerentes deveriam demonstrar e promover um comporta- mento ético. Um ambiente organizacional no qual se promovam elevados níveis de comportamento através de incentivos apropriados para o desenvolvi- mento desse tipo de conduta, tais como condições adequadas de trabalho e uma efetiva avaliação do desempenho, exerce um impacto direto na prática cotidiana de valores e parâmetros de ética no serviço público. Os gerentes desempenham um papel importante neste aspecto, oferecendo uma liderança consistente e cumprindo o papel de modelo em termos de ética e de comportamento na sua relação profissional com líderes políti- cos, com outros servidores públicos e com os cidadãos. 95 RSP9) Políticas, procedimentos e práticas de gerência deveriam pro- mover um comportamento ético. As políticas e as práticas de gerência deveriam demonstrar o com- promisso da organização com os parâmetros éticos. Não é suficiente para os governos terem, somente, estruturas baseadas na norma ou no consen- timento. Os sistemas baseados, exclusivamente, no consentimento podem, inadvertidamente, estimular os servidores públicos a funcionar simplesmente no limite da ilegalidade, argumentando que já que não estão violando as leis, estão atuando eticamente. As políticas governamentais não deveriam apenas delinear os parâmetros mínimos a partir dos quais as ações dos funcionários não seriam toleradas, mas articular também claramente, um conjunto de valores do serviço público aos quais os empregados deve- riam aspirar. 10) As condições do serviço público e a gerência de recursos hu- manos deveriam promover uma conduta ética. As condições do emprego público, tais como as perspectivas de carreira, o desenvolvimento pessoal, uma remuneração adequada e polí- ticas de gestão dos recursos humanos deveriam criar um ambiente propí- cio ao comportamento ético. A adoção de princípios básicos, tais como o merecimento, de forma consistente nos processos cotidianos de recruta- mento e de promoção, contribuem para a operacionalização da integrida- de no serviço público. 11) Mecanismos adequados de responsabilidade deveriam insta- lar-se no seio do serviço público. Os servidores públicos deveriam ser responsáveis pelas suas ações junto a seus superiores, e de maneira mais geral, junto ao público. A responsabilidade deveria centrar-se na aceitação de norma e princípios éticos, bem como na obtenção de resultados. Os mecanismos de responsa- bilidade podem ser internos a uma agência, ou estarem em vigor para todas as dependências governamentais, ou podem ser colocados pela sociedade civil. Os mecanismos que promovem a responsabilidade podem ser desenhados para oferecer controles adequados, ao mesmo tempo em que permite uma apropriada flexibilidade gerencial. 12) Procedimento e sanções apropriadas deveriam existir para manejar os desvios de condutas. Os mecanismos para a detecção e a investigação independente das ações incorretas, tais como a corrupção, constituem uma parte necessária da infra-estrutura ética. É preciso contar com procedimentos e recursos confiáveis para monitorar, informar e investigar as transgressões das normas do serviço público, bem como para aplicar as correspondentes sanções administrativas ou disciplinares com o efeito de desestimular essas transgressões. Os gerentes deveriam capacitar-se para fazerem uso apro- priado destes mecanismos quando se faz preciso empreender ações. 96 RSPResumo Resumen Abstract A nova gerência pública Derry Ormond e Elke Löffler Os autores discorrem sobre o significado do conceito de nova gerência pública, oriundo do termo New Public Management (NPM), a partir do enfoque com que o mesmo é utilizado na prática em vários países-membro da OCDE. De certa forma, retratam a experiên- cia que ambos adquiriram no trabalho desenvolvido no PUMA (Public Management Committee), enquanto organismo dedicado aos problemas do governo, gerência e reforma do setor público e sua respectiva modernização administrativa. São abordados vários temas sob a ótica do novo paradigma, entre eles a devolução/descentralização de autoridade, a flexibilização do processo orçamentário e da gerência de pessoal, a adoção de mecanismos de mercado (contratação externa, cobrança ao usuário, vouchers e contratos por desempe- nho), bem como os problemas resultantes ligados à accountability, ética, escolha de políti- cas e instrumentos mais adequados. Os autores apontam os pré-requisitos para a introdução da NPM bem como a necessidade de um cuidadoso processo de gerenciamento da reforma. La nueva gerencia pública Derry Ormond e Elke Löffler Los autores discurren sobre el significado de nueva gerencia pública, oriundo del térmi- no New Public Management (NPM), a partir del enfoque con que el mismo es utilizado en la práctica en varios países miembros de la OCDE. De cierta manera, los autores retratan la experiencia que ambos adquirieron en el trabajo desarrollado en el PUMA (Public Management Committee), en su calidad de organismo dedicado a los problemas del gobierno, de la gerencia y reforma del sector público y de su respectiva modernización administrativa. Se abordan varios temas bajo la óptica del nuevo paradigma, entre ellos la delegación/ descentralización de autoridad, la adopción de mecanismos de mercado (contratación exter- na, cobro al usuario, vouchers y contratos por desempeño) y asimismo los problemas resultantes vinculados a la imputación de responsabilidad, a la ética, la elección de políticas e instrumentos más adecuados. Los autores indican los requisitos previos para la introducción del NPM y la necesidad de un cuidadoso proceso de gerencia de la reforma”. The new public management Derry Ormond e Elke Löffler The authors elaborate on the meaning of the concept of new public management (NPM), starting from the approach with which it is used in practice in several OECD member countries. They depict, somehow, the experience both of them acquired in the work they developed within PUMA (Public Management Committee), as an organisation devoted to government, management and public sector reform problems and their respective administrative modernisation. Several subjects are dealt with therein, under the optics of the new paradigm, amongst them the delegation/decentralisation of authority, the changes in the budgeting process and of personnel management aimed at rendering them more flexible, the adoption of market mechanisms (outsourcing, collection form users, vouchers and performance contracts), as well as the ensuing problemspertaining to accountability, ethics, and the choice of the most appropriate policies and instruments. The authors indicate the prerequisites for introducing NPM, as well as the need for a careful process of reform management.” Revista do Serviço Público Ano 50 Número 2 Abr-Jun 1999 Derry Ormond trabalhou na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 1962 a 1998, na área de gerência pública, o que originou a criação do Public Management Committee (PUMA). Elke Löffler trabalha na OCDE, desde 1997, no Serviço de Gerência Pública Contato com o autor: elke.loeffler@oecd.org 133 RSPDesafios da administração pública brasileira: governança, autonomia, neutralidade1 Maria das Graças Rua 1. Introdução O objetivo deste texto é contribuir para o debate do problema da neutralidade da burocracia versus o requisito da autonomia de decisão, elemento fundamental do modelo de administração pública gerencial. Este problema assume especial relevância frente aos objetivos de aumentar a governança do Estado e constitui um dos desafios centrais do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, particularmente no que diz respeito à forma de administração do chamado “núcleo estratégico” — responsável pela definição das leis e políticas públicas — e das “ativida- des exclusivas de Estado” — caracterizadas pelo exercício do poder de legislar e tributar, fiscalizando, regulamentando e transferindo recursos. Não ambiciono apresentar soluções. Ao contrário: pretendo somente iniciar um levantamento das graves dificuldades que o problema impõe. Para isto, organizei a discussão em quatro seções. Na primeira, apresento rapidamente os conceitos de governabilidade e governança, procurando chamar a atenção para o fato de que a distinção entre eles representa apenas um recurso analítico e argumento que: a) a atividade política está presente em ambos; e b) o modelo de administração pública burocrática exibe contradições não somente devido aos desafios colocados à atividade governamental pelas mudanças do mundo contemporâneo, mas também em razão das clivagens que estabelecem entre racionalidade instrumental e neutralidade burocrática, por um lado, e o exercício da autoridade e da decisão política, por outro. Na segunda seção, a partir das distinções clássicas de Max Weber entre política e administração, políticos e burocratas, procuro caracterizar a neutralidade burocrática e mostrar que representa, na realidade, apenas Revista do Serviço Público Ano 48 Número 3 Set-Dez 1997 Maria das Graças é socióloga, doutorada em Ciência Polí- tica pelo IUPERJ e professora do Departamento de Relações Internacionais da UnB 134 RSPum dos elementos de uma construção típico-ideal, cada vez mais distante de qualquer correspondência com o mundo real. E sustento que, ainda que a neutralidade burocrática fosse realmente possível, cabe indagar pelo menos sobre: a) como torná-la uma característica efetiva e consoli- dada do comportamento dos agentes da administração pública; e b) quais as suas conseqüências sob a ótica dos valores democráticos mais amplos. Em seguida, comento rapidamente o processo de mudança do modelo de administração pública; e apresento algumas das características do chamado Modelo de Administração Pública Gerencial que, em lugar da neutralidade, implicam elevado grau de autonomia por parte dos agentes burocráticos — em especial a flexibilidade, a descentralização e horizon- talização das estruturas e a participação dos atores sociais. Por fim, apresento algumas considerações finais, procurando mostrar que, da mesma maneira que a neutralidade, a autonomia burocrática apre- senta dificuldades e que a proposta da “autonomia imersa” ou “autonomia inserida” exibe implicações que merecem reflexão mais demorada. 2. Governabilidade, governança e administração pública burocrática Dentre os muitos e complexos desafios da reforma do Estado, um vem se destacando pela sua recente inclusão no debate político e acadê- mico: a capacidade do sistema político de responder satisfatoriamente às demandas da sociedade e de enfrentar os desafios da eficiência e eficácia da ação pública em contextos de complexidade e incerteza crescente. Nesse sentido, dois diferentes conceitos têm ocupado o centro da discus- são, cada um deles referindo-se a uma dimensão do problema. A primeira refere-se às condições sistêmicas do exercício do poder, e envolve as características do sistema político, a forma de governo, as relações entre os poderes, o sistema partidário, o sistema de interme- diação de interesses e outras (DINIZ, 1996). Trata-se da dimensão da governabilidade, cuja discussão remonta à década de 60 (HUNTINGTON, 1968; 1975; HABERMAS ,1987; O’CONNOR , 1973) A outra diz respeito à maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos econômicos e sociais, tendo em vista o desen- volvimento e envolve os modos de uso da autoridade, expressos mediante os arranjos institucionais que coordenam e regulam as transações dentro e fora dos limites da esfera econômica (MELO, 1996). Trata-se da dimensão da governança, cujo conceito — de formulação bastante recente — pode ser resumido como o conjunto das “condições financeiras e administrativas de um governo para transformar em realidade as decisões que toma” (BRESSER PEREIRA, 1997). 135 RSPEsta última dimensão mostra-se particularmente relevante no caso brasileiro, quando se tem em mente as constatações recentes de que, em lugar da suposta paralisia decisória, o que tem se observado é a incapaci- dade do governo no sentido de implementar as decisões que toma. Dessa forma, à hiperatividade decisória da cúpula governamental contrapõe-se a falência executiva do Estado, que não se mostra capaz de tornar efetivas as medidas que adota e de assegurar a continuidade das políticas formu- ladas (DINIZ, 1996). Neste sentido, vale assinalar que, ao contrário do que eventual- mente se supõe, refletir sobre os dois conceitos e/ou optar por um deles como elemento de recorte analítico não significa assumir a existência de qualquer disjuntiva entre uma dimensão propriamente política do processo de governo (governabilidade) e uma outra, restrita às rotinas de gerenciamento despolitizado (governança). Uma perspectiva desta natu- reza é exatamente o que pretendo questionar neste texto, uma vez que sustento, primeiro, que administração é política; e segundo, por implicação, a existência de um vínculo indissolúvel e de uma articulação dinâmica entre governabilidade e governança. Na realidade, a distinção entre as duas significa apenas um recurso de análise. A governança compreende duas importantes capacidades: a finan- ceira e a administrativa. A primeira refere-se à disponibilidade de recursos para realizar investimentos, assegurar a continuidade das polí- ticas em andamento e introduzir novas políticas públicas. A segunda diz respeito à disponibilidade de quadros executivos, ao estilo de gestão e aos limites impostos à ação administrativa. Neste sentido, Bresser Pereira (1997) assinala que, se nos anos 80 as tentativas de solucionar a crise do Estado privilegiavam as políticas de ajuste fiscal, nos anos 90 os esforços nesse sentido não bastam: é necessário que se combinem consistentemente com a busca da maximização da capacidade gerencial do Estado. De acordo com o mesmo autor, este último problema resulta de uma contradição intrínseca ao modelo de administração pública vigente no mundo ocidental moderno desde o século XIX: o modelo de adminis- tração burocrática: “...a administração pública burocrática, que Weber descreveu como uma forma de dominação ‘racional-legal’, trazia embutida uma contradição intrínseca. A administração burocrática é racional, nos termos da racionalidade instrumental, à medida em que adota os meios mais adequados (eficientes) para atingir os fins visados. É, por outro lado, legal, à medida em que define rigidamente os objetivos e os meios para atingi-los na lei. Ora, em um mundo em plena trans- formação tecnológica e social, é impossível parao administrador ser 136 RSPracional sem poder adotar decisões, sem usar de seu julgamento discricionário, seguindo cegamente os procedimentos previstos em lei”. (BRESSER PEREIRA, 1997:41). Talvez caiba acrescentar que enquanto a adoção dos “meios mais adequados para atingir os fins visados” supõe escolher entre alterna- tivas previamente estabelecidas e delimitadas pela autoridade legal, a definição dos “objetivos e os meios para atingi-los na lei” remete ao mundo da política, esfera na qual as próprias alternativas são construídas e as decisões são tomadas em resposta a interesses, necessidades e de- mandas freqüentemente conflituosos. Neste sentido, ao enfatizar a racionalidade enquanto ação instru- mental de adequação entre meios e fins, o modelo de administração buro- crática como mecanismo de dominação racional-legal implica uma dicotomia entre administração e política que é, ela própria, contraditória. Essas considerações remetem a uma das mais instigantes questões acerca da política administrativa e da reforma do Estado: o significado, a desejabilidade e os limites da neutralidade burocrática nas democracias contemporâneas. 3. Um (entre vários) paradoxos do governo no estado democrático Entre os diversos atores que transitam na esfera pública, dois assu- mem papéis especialmente relevantes e, de certa maneira, mais visíveis: os políticos e os burocratas.2 Idealmente, os políticos têm como missão promover o interesse público, isto é, o bem comum, contribuindo para o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar geral. Para isto, são investidos de autoridade decisória e supõe-se que venham a exercê-la conforme padrões univer- salistas. A realidade, entretanto, é bem distinta: o que leva os indivíduos ao exercício da atividade política freqüentemente é o desejo do poder, da glória e da riqueza e a capacidade de usar a autoridade para benefi- ciar interesses particulares, de grupos específicos, mesmo quando não se trata de vantagens estrita ou diretamente pessoais. Este é um dos paradoxos do governo. Esta tensão entre o ideal e o mundo real da política, entre o bem público e o interesse particular, tem sido objeto da reflexão política e do esforço de construção de mecanismos institucionais que configuram o que hoje conhecemos como democracia liberal: a regra da maioria, a separação e independência dos poderes, o mandato representativo limitado, as eleições livres e regulares, e outras. 137 RSPEmbora a discussão desse problema, no que diz respeito aos políticos, remonte ao século XVII, preocupações correspondentes aos burocratas são muito mais recentes, apesar das apreensões manifestadas por autores como Stuart Mill, já no século XIX. Isto se deve, em parte, ao fato de que a moderna burocracia é muito mais recente do que a moderna classe política, já que o modelo de administração pública burocrática, hoje generalizado nas sociedades oci- dentais, só veio substituir o modelo de administração pública patrimonialista no século XIX. Por outro lado, deve-se também ao fato de que o modelo de administração pública burocrática surge, tendo a neutralidade como um dos seus princípios. De fato, em “Burocracia”, Max Weber (1979) indica ser caracterís- tica do processo de burocratização e da burocracia o cumprimento “obje- tivo” das tarefas, significando isso, primordialmente, um cumprimento de tarefas a partir do conhecimento técnico especializado e segundo regras calculáveis e “sem relação com pessoas”. Este é o princípio do sine ira et studio: um comportamento de tal forma neutro que exclui dos negócios oficiais o amor, o ódio, as preferências, todos os elementos pessoais, irracio- nais e emocionais, que fogem ao cálculo. Nas sociedades contemporâneas, Weber constata ser essa a natu- reza específica da burocracia, louvada como sua virtude especial. E quanto mais complexa e especializada se torna a cultura moderna, tanto mais requer o perito despersonalizado e rigorosamente objetivo, em lugar do mestre das velhas estruturas sociais, que era movido pela simpatia e pelas preferências pessoais, pela graça e gratidão (1979: 250-251). E em A política como vocação (1979), Max Weber estabelece precisamente a diferença entre políticos e burocratas ao constatar que: “Tomar uma posição, ser apaixonado — ira et studium — é o elemento do político e, acima de tudo, o elemento do líder político. Sua conduta está sujeita a um princípio de responsabilidade (...) pessoal exclusiva pelo que ele faz (...)” (1979: 116-117). Já os burocratas se distinguem pela atribuição de executar conscien- ciosamente as determinações dos políticos, como se resultassem de suas próprias convicções, ainda que lhes pareçam erradas; o compromisso de evitar envolvimento com partidos ou líderes políticos, de modo a consti- tuir-se em instrumentos de qualquer governo legítimo; o dever de atuar como conselheiros desinteressados e imparciais na execução das decisões governamentais. De acordo com Weber, o princípio de responsabilidade que rege a ação do servidor público é exatamente o oposto daquele que caracteriza o político: 138 RSP“Sine ira et studio — sem ressentimento nem preconceito — ele administrará seu cargo. Daí não fazer precisamente o que o político, o líder bem como seu séquito, tem sempre e necessaria- mente de fazer, ou seja, lutar (...). Sem essa disciplina moral e essa omissão voluntária, no sentido mais elevado, todo o aparato cairia aos pedaços.” (1979: 116-117) Nesses termos, segundo Caiden (1996), o conceito de neutralidade é aparentemente muito simples, baseando-se nos princípios de: a) separação entre as carreiras políticas e administrativas e b) de despolitização do serviço público. Os políticos formulam os fins, decidem e ordenam; os burocratas se encarregam da provisão dos meios e executam as decisões de acordo com as ordens recebidas. Os políticos conquistam seus cargos mediante a competição na arena política, com base na sua competência política, sendo julgados pelos seus pares e pelo eleitorado. Os burocratas são selecionados mediante sua competência técnica em arena de competição administrativa, sendo julgados pelos seus pares e pelos seus superiores políticos. Os burocratas não se envolvem em atividades político-partidárias, nem expressam publicamente suas opiniões acerca da atividade política ou governamental. Portanto, administração e política são esferas distintas e separadas a partir da proibição legal de acúmulo ou superposição de funções. A atividade burocrática deve ser regida pelos critérios da expertise, confia- bilidade, confidencialidade, impessoalidade, imparcialidade, moralidade, entre outros. A esta altura, cabem diversas indagações. O que é que autoriza supor que o comportamento burocrático exiba tais características? Por que estariam os burocratas infensos ao paradoxo do governo acima mencio- nado? Seria a neutralidade burocrática apenas uma construção hipotética, um recurso conceitual? Ou seria efetivamente constatável no mundo das realidades efetivas? Aparentemente tão desejável, quais seriam as con- seqüências não antevistas da neutralidade burocrática? Em primeiro lugar, nada autoriza supor que haja uma “natureza” própria dos agentes burocráticos, capaz de torná-los distintos dos outros homens e de impedir que sejam maximizadores e ambicionem a glória, a riqueza e o poder. Assim sendo, os administradores públicos estariam submetidos ao paradoxo do governo, acima mencionado, da mesma ma- neira que os políticos. Na realidade, o próprio modelo de administração burocrática, com a sua ênfase nos controles, processos e rituais surgiu, em grande parte, como tentativa de resolver tal paradoxo, à medida que se destinava a cercear a corrupção, o nepotismo e o clientelismo típicos da administração pública patrimonialista. 139 RSPEntretanto, apesar do inegável avanço que representou neste sentido, ainda assim, os controles burocráticos têm se mostrado formalísticos e insuficientes diante das grandes tentações que um poder cada vez mais sólido e abrangente coloca aos que exercemos cargos administrativos. De fato, no mundo contemporâneo, o poder administrativo é capaz de sustentar ou de destruir instituições. Numa sociedade cada vez mais avançada tecnologicamente, onde a informação representa um recurso de poder inestimável, e onde os meios de execução das decisões são cada vez mais complexos, o destino dos líderes políticos encontra-se intimamente dependente do desempenho dos quadros administrativos. Na realidade, o equilíbrio de poder vem se alterando consistentemente em benefício dos administradores e em detrimento dos políticos (CAIDEN, 1996: 30). Contudo, enquanto os políticos são regulamente submetidos à ava- liação eleitoral, a burocracia, por definição, não apenas é politicamente irresponsável, como também deve ser protegida das turbulências do jogo político, mantendo-se estável e segura em suas posições através de suces- sivas mudanças de governo — já que os quadros administrativos são elementos constitutivos do Estado e não do governo. Nessas condições, como impedir que os agentes administrativos — da mesma forma como ocorre com os políticos — usem seus recursos de poder e sua autoridade em favor de interesses particulares e em detri- mento do bem público? Este ponto mostra-se tão mais importante quando se tem em mente que, no mundo real da política o próprio processo de representação de interesses não se limita às lideranças políticas e aos políticos autorizados pelo voto. Todavia, existem sérias restrições ao processo burocrático de representação de interesses, pois, conforme coloca Reis: “(...) discrimina contra interesses não organizados; tende a se limitar ao âmbito de setores funcionais particulares, (...) mostran- do-se incapaz de articular interesses intersetoriais; revela um ine- vitável conservadorismo, (...) porque a agregação de interesses lograda cristaliza a correlação de forças existente.” (1989: 103). Para solucionar o problema, têm sido propostos arranjos como a rotatividade dos cargos, com períodos de curta duração, de modo a evitar a personalização do poder; mecanismos de avaliação interna; comissões externas de avaliação e fiscalização; descentralização das decisões e ações; estabelecimento de instituições rivais que venham a competir pelo poder e cooperar quanto aos fins; processos de treinamento, que incluam a disseminação de normas de comportamento compatíveis com o interesse público; e a criação de mecanismos que tornem a burocracia dotada de responsiveness frente à sociedade, sujeita ao controle social. O problema tem sido como operacionalizar tais arranjos de maneira eficaz: não existe, para o controle da burocracia, uma engenharia política 140 RSPgeneralizadamente adotada, como aquela estabelecida com relação aos políticos nas democracias liberais. Assim, o princípio da neutralidade burocrática parece representar apenas um elemento da construção típico-ideal weberiana, muito distante do que se constata no mundo empírico. De fato, estudos recentes têm mostrado que, diversamente do que pretendia a separação analítica entre política e administração, fica claro que os agentes administrativos não são neutros, mas sim dotados de interesses próprios, que tentam maximizar. Agem como atores polí- ticos, mostrando-se capazes de mobilizar recursos políticos, como in- formação e apoio de grupos de interesse da sociedade. Além disso, possuem capacidade para desenvolver concepções próprias sobre as políticas governamentais e sobre o seu próprio papel no jogo político, independentemente de considerações de natureza estritamente técnica. Finalmente, são capazes não apenas de competir com os políticos, mas de efetivamente entrar em conflito com eles, visando não somente deci- sões favoráveis às suas propostas quanto a policies específicas, mas até mesmo disputando o controle do processo político (RUA, 1992; RUA e AGUIAR, 1995). Esses diversos aspectos do comportamento da burocracia têm se manifestado com regularidade em governos de diversos países demo- cráticos, não sendo possível descartar sua importância sob o argumento de que representam distorções características dos regimes autoritários ou das democracias ainda não consolidadas. Essas regularidades cha- mam a atenção de Peters, que introduz a hipótese do “governo burocrá- tico”, compreendida em termos da possibilidade de os agentes burocrá- ticos assumirem o controle do processo governamental, restando aos políticos apenas funções de legitimação das decisões burocráticas (PETERS, 1981). Desta forma, chega-se à última deste primeiro conjunto de questões: seria a neutralidade burocrática um valor absoluto, desejável em si mesmo? Ou implicaria conseqüências que imporiam a discussão acerca da sua desejabilidade ou conveniência? Esta discussão parece conduzir a um dilema. Sem qualquer sombra de dúvida, os valores implícitos no princípio da neutralidade burocrática são, considerados abstratamente sob a perspectiva ética, extremamente desejáveis. Sob a ótica dos valores demo- cráticos, de todos os matizes, não há como negar a importância do combate ao favoritismo, à patronagem, à venalidade, à discriminação, em favor do profissionalismo, do mérito e da imparcialidade. São esses valores que orientam padrões de conduta destinados a assegurar a previsibilidade essen- cial à realização dos fins individuais e coletivos sob o império da lei (calculabilidade a partir de normas universais estáveis). 141 RSPEntretanto, a experiência histórica tem mostrado que a contrapartida da neutralidade burocrática pode ser a irresponsabilidade política e a ausência de compromisso com valores democráticos. De fato, uma burocracia despolitizada, que se conduz como simples instrumento de exe- cução das ordens dos seus superiores, tanto pode servir à democracia, como pode ser importante recurso para a implantação de regimes ditato- riais e tirânicos, como mostram, entre outras, as experiências ainda re- centes do nazismo e das ditaduras latino-americanas. 4. A mudança do modelo de administração pública Na primeira metade da década de 70 iniciou-se uma grande crise econômica de escala mundial, cujo marco inicial mais visível foram as duas grandes crises do petróleo (1973 e 1979). Até então, o mundo capitalista vivia num período de altas taxas de desenvolvimento econô- mico e de um amplo consenso quanto ao papel do Estado de promover o crescimento econômico e o bem-estar social. No início dos anos 80, encerra-se esta fase de prosperidade vivida desde o fim da Segunda Guerra e inicia-se uma prolongada recessão, cujos efeitos são uma acen- tuada crise fiscal, acompanhada de uma crise do modo de intervenção do Estado e de uma crise de governabilidade. Além disso, um processo que vinha se desenvolvendo de maneira acentuada desde a Segunda Guerra — a globalização e as grandes trans- formações tecnológicas, especialmente nas áreas de microeletrônica e telecomunicações — assume uma dinâmica mais acelerada a partir do fim da década de 80. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e com a dissolução da União Soviética em 1991-1992 acabam-se as principais distinções políticas e econômicas entre o mundo ocidental, democrático e capitalista e o mundo oriental, autoritário e socialista. Nesse novo ambiente, aumenta a interdependência das nações, os Estados nacionais passam a dispor de menor capacidade regulatória, tor- nam-se mais vulneráveis às forças transnacionais (desde as corporações até os investidores individuais, desde os empreendimentos legítimos até o crime organizado), perdem boa parte do seu controle sobre os fluxos finan- ceiros e comerciais e sobre a tarefa de decidir autonomamente as suas políticas macroeconômicas. Embora a crise econômica e a crise fiscal pudessem ser contornadas com a redefinição do papel do Estado na economia e com o corte de políticas sociais, o mesmo não se aplicava à crise de governabilidade e aos desafios da globalização. Na verdade, não apenas o Estado passou a contar com menos recursos, mas também passou a dispor de menos poder efetivo. Logo, a solução não poderia se limitar àesfera econômica, mas deveria se estender ao modelo político-administrativo. 142 RSPDe fato, soluções econômicas não seriam suficientes para superar a inflexibilidade da burocracia: seu conservadorismo, sua relutância em se afastar dos precedentes, sua adesão à letra estrita da lei, seu comporta- mento refratário à inovação e sua generalizada conformidade aos padrões grupais. As mudanças em andamento impunham a presença de quadros criativos, flexíveis e capazes de inovar, competitivos e comprometidos em melhorar o seu desempenho, orientados para a sociedade em lugar de auto-referidos, dotados da motivação resultante da capacidade de acreditar no que estivessem realizando. É nesse contexto que se iniciam as medidas de modernização do setor público que, por longos e diversos processos de ensaio e erro, acaba- ram resultando no modelo que se convencionou chamar de administração pública gerencial. No final da década de 70 e início de 80 constatava-se a existência, nos países anglo-saxônicos, de uma opinião pública desfavorável à burocra- cia pública e ao mesmo tempo uma inclinação em valorizar o modelo de gestão adotado pelo setor privado. Com a eleição do governo conservador na Grã-Bretanha e republicano nos EUA, iniciou-se a implantação, no setor público, de formas de gestão importadas diretamente do setor privado, nas quais a ênfase recaía sobre o objetivo de cortar custos e aumentar a produtividade, e onde era possível observar a ausência da percepção das diferenças entre a atividade privada e a atividade pública (ABRUCIO, 1996). Basicamente, apesar dos diversos arranjos adotados em diferentes momentos e em experiências diversas, o modelo gerencial puro, importado diretamente do setor privado, exibia as seguintes características: a) uma lógica de completa separação entre a esfera da política e a esfera da administração; b) uma concepção estritamente econômica, baseada na avaliação técnica de custo/benefício; c) um princípio central: a eficiência, compreendida como eficiência operacional, que implica o aumento da consciência dos custos e requer uma rígida especificação de objetivos e controles; d) objetivo de produtividade e dinâmica da competição à maneira da concorrência no mercado; e e) público-alvo concebido como o conjunto dos consumidores, na sua condição de contribuintes. Pode-se discutir vários ângulos de cada uma dessas características. Entretanto, a fim de não alongar excessivamente o debate, basta apontar que alguns dos seus problemas decorrem, basicamente, do fato de que o modelo gerencial puro é totalmente apolítico — e por isso mostra-se ina- dequado à administração pública. Vale observar que a sua lógica de absoluta separação entre política e administração, curiosamente, é a mesma que orienta o modelo de 143 RSPadministração burocrática, mas também é a mesma que orienta todas as concepções que, por assim dizer, se baseiam na mística do mercado. Para estas, política e mercado devem ser não apenas esferas separadas, mas completamente estanques — e o mercado funcionaria tão melhor quanto menor fosse a ingerência da política. Esta visão totalmente ingê- nua e equivocada já foi suficientemente discutida e criticada por diversas vertentes do pensamento político. Aqui basta lembrar de que a política surge sempre que há conflito de interesses materiais ou ideais e tal conflito potencialmente se manifesta sempre que há mais de um indiví- duo desenvolvendo uma atividade qualquer ou simplesmente existindo (SCHMITTER, 1974).3 Assim, na segunda metade da década de 80, importantes mudanças começaram a ser introduzidas, a partir da percepção das diferenças entre a gestão do setor privado e do setor público. As duas principais transforma- ções foram: a) a priorização dos conceitos de flexibilidade, planejamento estratégico e qualidade, alternando a dinâmica interna das organizações públicas; e b) a orientação dos serviços públicos para as demandas e anseios dos cidadãos, sem abandonar o conceito empresarial da busca da eficiência (ABRUCIO, 1996). Na tentativa de encontrar uma solução que compatibilizasse as vantagens da administração gerencial com as características próprias do setor público, diversas propostas surgiram, dando origem a diferentes modelos. Não cabe aqui discuti-los. Vale apenas mencionar características centrais de alguns deles que, reunidas, compõem o que hoje se entende como modelo de administração pública gerencial e que têm orientado os esforços em direção à reforma administrativa no Brasil: a) O foco é o cidadão, e as atividades se orientam para a busca de resultados. b) O princípio da eficiência econômica cede espaço ao princípio da flexibilidade. c) Ênfase na criatividade e busca da qualidade; d) Descentralização, horizontalização das estruturas e organização em redes. e) Valorização do servidor, multiespecialidade e competição admi- nistrada. f) Participação dos agentes sociais e controle dos resultados. Diversos destes aspectos contemplam (ou podem contemplar) a dimensão política da administração pública. É o caso princípio da flexibilidade, que implica a tentativa de superar a rigidez burocrática e a orientação primária de maximização custo/benefício e de admitir a 144 RSPinteração com o ambiente social. O mesmo pode ser dito da descentra- lização e da horizontalização das estruturas, que implicam autonomia de gestão e tendem a romper com o princípio da hierarquia e com a ética da obediência situados na base da neutralidade e despolitização da burocracia. Por fim, é o caso, especialmente, da participação dos agentes sociais, que implicam as noções de gestão participativa e se baseiam nos conceitos de transparência, accountability, participação política, eqüidade e justiça. 5. Considerações finais: os dilemas da autonomia burocrática Nesse sentido, um conceito fundamental e freqüentemente pouco explicitado é o de autonomia. Em acepção ampla, pode ser entendido como a capacidade de um ator ou agência de formular preferências e executar decisões, sem sofrer constrangimentos decorrentes de relações de subordinação. Vale assinalar que, conforme coloca Bresser Pereira (1997:43), “o conceito de autonomia da burocracia pública não deve ser confundido com o de insulamento burocrático, ou seja, o isola- mento das agências estatais em relação às influências políticas”, proposto como recurso de separação entre a política e a administração e de despolitização da burocracia, de maneira a protegê-la do populismo econômico e do clientelismo. Mais precisamente, o conceito de autonomia da burocracia pública pode ser operacionalizado como a capacidade de ocupar posições centrais no governo; de formular preferências políticas; de ajustar os objetivos aos procedimentos já estabelecidos; a disponibilidade de qualificações para comando ou gerenciamento das atividades; e a capacidade de con- trolar a implementação das decisões públicas (ROSE:1974; PETERS: 1987). Estas capacidades podem se consolidar mediante o arranjo denomi- nado “autonomia imersa” ou “autonomia inserida” proposto por Peter Evans (1995:248), segundo o qual, para que as agências governamentais ganhem eficácia e sejam capazes de realizar transformações, devem estar imersas em uma densa rede de relações sociais que as vinculam aos seus aliados na sociedade a partir de objetivos de mudança. Para o autor esta seria a forma de assegurar a democracia, evitando que a burocracia venha a se tornar governo, em substituição aos políticos. Esta concepção apresenta diversos problemas. Em primeiro lugar, conquanto a idéia de autonomia governamental não ofereça dificuldades do ponto de vista conceitual, o mesmo não acontece com “autonomia imersa” ou “autonomia inserida”. Conforme colocam Tavares de Almeida e Moya (1997:121): 145 RSP“Não fica claro o que seja ‘autonomia inserida’ e no que ela se distinguiria das condições normais de operação dos governos nas democracias antigas e estáveis. A menos que se imagine que o governo não é senão o comitê executivo dos interesses predomi- nantes na sociedade, algumacapacidade de iniciativa autônoma e alguma sustentação político-parlamentar são traços típicos de todo governo democrático que não esteja à beira do colapso.” Eu acrescentaria que não apenas a sustentação político-parlamentar é típica desse tipo e condição de governo, como também o são os vínculos com as diversas coalizões de interesses que se constituem como atores políticos em sociedades minimamente inclusivas. Entretanto, quanto ao conceito de autonomia de Peters, acrescen- ta-se o arranjo de Peter Evans, tem-se o que o primeiro destes autores indica serem os pré-requisitos para um governo burocrático. Este é o dilema da autonomia burocrática: para atender aos imperativos da governança numa ordem em transformação, é necessário autonomia. Mas a autonomia — do mesmo modo que a neutralidade, embora por vias transversas — não assegura democracia, nem mesmo a autonomia imersa ou inserida, ao contrário do que pretende Peter Evans. Além disso, o conceito de autonomia imersa ou inserida tem subjacente o suposto de um conjunto de atores sociais forte e generalizadamente atuantes em busca de resultados da ação pública que satisfaçam seus interesses e demandas. Ou seja, não basta constituir buro- cracias autônomas: é necessário ter atores sociais envolvidos e mobilizados em torno da consecução de metas públicas. Pelo menos desde Schumpeter (1978) e, mais tarde, de Olson (1971; 1982), são conhecidas as dificuldades para que isso ocorra. Enquanto o primeiro enfatiza o problema da racionalidade política do cidadão médio, o segundo não deixa dúvidas quanto às dificuldades da ação coletiva — os elevados custos de organização e coordenação vis-à-vis, o caráter indivisível e não excludente dos bens públicos — nem quanto às nefastas conseqüências da hipertrofia dos pequenos grupos (OLSON, 1982 ). Na verdade, é possível sugerir que a resposta (mas não a solução) ao problema de Olson encontra-se em Michels: a provisão de bens públicos para os grandes grupos — inclusive o controle social — só ocorre efeti- vamente mediante a ação do empresário político — figura não necessaria- mente restrita aos políticos dotados de mandato eletivo. Em que medida isto seria diferente dos modelos tradicionais de atuação dos agentes públicos, não somente os políticos, mas também os burocratas? Ademais, supondo que sejam resolvidos os desafios da ação cole- tiva e haja organização dos atores sociais, coloca-se ainda, conforme mostra Michels (1982), o problema da oligarquização das organizações 146 RSPdemocráticas (não apenas partidos políticos, mas também associações, sindicatos, conselhos comunitários e setoriais, etc): em que medida as entidades organizadas da sociedade civil são, de fato, representantes dos cidadãos enquanto usuários dos bens públicos? Se a proposta da autonomia imersa se destina a resolver o problema da vinculação entre a administração pública e a sociedade de maneira a obter agilidade e eficácia, sem perda do controle democrático, uma questão central a ser enfrentada é a de como tornar generalizada e efetiva a participação dos atores sociais. Desta forma, a autonomia imersa pode levar a uma situação de fortalecimento dos laços dos agentes/agências burocráticas com clientelas específicas, impondo dificuldades à construção de consensos e estabele- cendo novos padrões de favorecimento político, em lugar da universalização das relações de cidadania. Por outro lado, pode representar um novo patamar no fortalecimento dos atores burocráticos, em prejuízo dos polí- ticos, quando é possível pensar que é a competição entre os dois tipos de atores — e não a assimetria e subordinação entre eles — que favorece a democracia (REIS, 1989). Assim, conforme procuro chamar a atenção em um outro artigo (RUA, 1997), Max Weber ensina que o grande drama da dominação moder- na situa-se no campo das relações entre os dominadores: os políticos e a burocracia. Particular destaque teria, na dinâmica dessas relações, a dis- tinção entre as éticas e os tipos de racionalidade característicos de cada um desses atores. Enquanto a burocracia seria orientada pela ética da obediência e pela racionalidade formal, sendo a competência técnica e o mérito as fontes da legitimidade burocrática, os políticos teriam como traços predominantes a ética da responsabilidade e a racionalidade subs- tantiva, fundamentos da legitimidade política. O efetivo dilema a ser enfrentado pelas democracias seria consi- derado o inexorável processo de complexificação e burocratização da sociedade moderna e dadas as características de cada um dos agentes do jogo político e os seus recursos de poder, como impedir que a burocracia venha a usurpar o poder e como assegurar que permaneça, sendo apenas um elo de ligação entre dominadores e dominados? Para Weber, a incapa- cidade de solucionar este problema estaria na base do declínio dos grandes impérios da história (WEBER: 1993). Isto, certamente, não pode ser esquecido quando do debate da autonomia burocrática, especialmente da autonomia imersa. Finalmente, se este debate sugere que o exercício da autonomia buro- crática implica a rejeição do princípio da neutralidade, deve ficar claro que isto significa descartar ambas as suas facetas: não somente a indiferença descompromissada, mas também o universalismo. Quais as conseqüências disso sobre a governabilidade e a governança democráticas? 147 RSPQuanto mais presentes se tornarem esses dilemas, maior será a relevância da discussão acerca das relações entre governança, neutrali- dade burocrática e autonomia para a reforma do Estado e da administração pública, onde o que está em jogo, em última instância, é a democracia enquanto valor maior. 148 RSPNotas 1 Agradeço a Evelyn Levy por ter me chamado a atenção para a relevância desta temática no âmbito da reforma administrativa brasileira. Este artigo representa uma versão mais elaborada de um outro que apresentei na Semana Max Weber, UnB, setembro de 1997. 2 Considero políticos aqueles cujas carreiras se baseiam no exercício do mandato político. E burocratas, em geral, aqueles cujas carreiras estão orientadas para o exercício de ativi- dades administrativas, com base no conhecimento técnico especializado. Nesse sentido, existem diversos outros atores públicos, como os magistrados e os militares, por exem- plo, cujos papéis e lógica de comportamento exibem efetivas distinções com relação aos políticos e aos burocratas propriamente ditos. 3 Pessoalmente, considero a definição do conceito de política proposto por Schmitter demasiado amplo e, portanto, pouco operacional. Em outros textos tenho sugerido que a política consiste no conjunto de instituições e processos destinados à solução pacífica dos conflitos em torno de bens públicos. Acrescento que mesmo esta defini- ção que proponho, é questionada por todos aqueles que compartilham os pressupos- tos da escola realista das relações internacionais, para a qual a “solução pacífica dos conflitos” exclui a guerra, que é considerada “a continuação da política por outros meios”. 149 RSPReferências bibliográficas ABRUCIO, Fernando Luiz. “O impacto do modelo gerencial na administração püblica: um breve estudo sobre a experiência internacional recente”. Brasília: ENAP (mimeo), 1996. BRESSER PEREIRA, Luiz C. “A reforma do Estado nos anos 90: lógica e mecanismos de controle”, Cadernos do MARE, no1, 1997. CAIDEN, Gerald E. “The concept of neutrality”. In H.K. Asmerom and Elisa P. Reis (Orgs.). Democratization and bureaucratic neutrality. New York: St. Martin’s Press, INC. ; London: MacMillan Press Ltd, 1996. DINIZ, Eli. “Governabilidade, ‘governance’ e reforma do Estado: considerações sobre o novo paradigma”, XX Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu (MG), 1996. EVANS, Peter. 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Petrópolis: Vozes, 1993. 151 RSPResumo Resumen Abstract Desafios da administração pública brasileira: governança, autonomia, neutralidade Maria das Graças Rua O objetivo deste texto é iniciar um levantamento da dificuldades impostas à reforma administrativa a partir da consideração do problema da neutralidade da burocracia versus o requisito da autonomia de decisão, elemento fundamental do Modelo de Administração Pública Gerencial. Tal problema assume especial relevância frente aos objetivos de au- mentar a governança do Estado e constitui um dos desafios centrais do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, particularmente no que diz respeito à forma de adminis- tração do chamado “núcleo estratégico” — responsável pela definição das leis e políticas públicas — e das “atividades exclusivas de Estado” — caracterizadas pelo exercício do poder de legislar e tributar, fiscalizando, regulamentando e transferindo recursos. Para isso, a discussão está organizada em quatro seções. Na primeira, são rapidamente apre- sentados os conceitos de governabilidade e governança, com ênfase no fato de que a distinção entre eles representa apenas um recurso analítico. Na segunda seção, a partir das distinções clássicas de Max Weber entre política e administração, políticos e burocratas, busca-se caracterizar a neutralidade burocrática e mostrar que representa, na realidade, apenas um dos elementos de uma construção típico- ideal, cada vez mais distante de qualquer correspondência com o mundo real. Em seguida, comenta-se rapidamente o processo de mudança do modelo de adminis- tração pública; e são apresentadas algumas das características do chamado Modelo de Administração Pública Gerencial que, em lugar da neutralidade, implicam elevado grau de autonomia por parte dos agentes burocráticos. Por fim, são tecidas algumas considerações, procurando mostrar que, da mesma maneira que a neutralidade, a autonomia burocrática apresenta dificuldades e que a pro- posta da “autonomia imersa” ou “autonomia inserida” exibe implicações que merecem reflexão mais demorada. Desafíos de la administración pública brasileña: gobernación, autonomía, neutralidad Maria das Graças Rua El objetivo de este texto es iniciar un inventario de las dificultades impuestas a la reforma administrativa a partir de la consideración del problema de la neutralidad de la burocracia versus el requisito de la autonomía de decisión, elemento fundamental del Mo- delo de Administración Pública Gerencial. Tal problema asume especial relevancia ante los objetivos de aumentar la gobernación del Estado, y constituye uno de los retos centrales del Plan Director de la Reforma del Aparato del Estado, particularmente en lo que se refiere a la forma de administración del llamado “núcleo estratégico” - responsable de la definición de las leyes y políticas públicas - y de las “actividades exclusivas del Estado”- caracterizadas por el ejercicio del poder de legislar y tributar, fiscalizando, reglamentando y transfiriendo recursos. Para ello, la discusión está organizada en cuatro secciones. En la primera se presentan repetidamente los conceptos de gobernabilidad y gobernación, con énfasis en el hecho de que la distinción entre ellos representa solamente un recurso analítico. En la segunda sección, a partir de las distinciones clásicas de Max Weber entre política y administración, políticos y burócratas, se trata de caracterizar la neutralidad burocrática y mostrar que representan, en realidad, solamente uno de los elementos de una construcción típica-ideal, cada vez más distante de cualquier correspondencia con el mundo real. Revista do Serviço Público Ano 48 Número 3 Set-Dez 1997 Maria das Graças é socióloga, doutorada em Ciência Polí- tica pelo IUPERJ e professora do Departamento de Relações Internacionais da UnB 152 RSPEn seguida, se comenta rápidamente el proceso de cambio del modelo de administración pública, y se presentan algunas de las características del llamado Modelo de Administración Pública Gerencial que, en lugar de la neutralidad, implican un elevado grado de autonomía por parte de los agentes burocráticos. Por último, se elaboran algunas consideraciones, tratando de mostrar que, de la misma forma que la neutralidad, la autonomía burocrática presenta dificultades, y que la propuesta de la “autonomía inmersa” o “autonomía insertada” exhibe implicaciones que merecen una reflexión más detenida. Challenges facing the brazilian public administration: governance, autonomy and neutrality Maria das Graças Rua The purpose of this article is to start a survey of the difficulties facing administrative reform in view of the problem of neutrality of the bureaucracy as opposed to the requirement for autonomy in decison-making, a key element in the Managerial Model of Public Administration. This problems becomes particularly relevant given the objective to increase State governance and constitutes one of the major challenges in the Sate Reform Master Plan, particularly with regard to the so called “strategic core”, which is responsible for establishing laws and public policies as well as those “activities exclusive to the State”, characterized by the exercise of the power to legislate and tax, inspect, regulate and transfer resources. The article has been organized in four sections. In the first,the concepts of governability and governance are briefly introduced, with special emphasis placed on the fact that a distinction between them merely serves an analysis purpose. In the second section, based on classical distinctions by Max Weber between politics and administration, politicians and bureaucrats, the article seeks to characterize bureauratic neutrality and to show that, in fact, it represents only one of the elements in a typically ideal construction, increasingly distant from the real world. The article then briefly discusses the change process in the model of public administration and some of the characteristics of the so called Managerial Model of Public Administration are described; these, instead of neutrality, involve a high degree of autonomy on the part of bureaucracy agents. In conclusion, the article seeks to evince that, just as in the case of neutrality, bureacratic autonomy involves certain difficulties and that the proposal for an “embedded autonomy” or “inserted autonomy” has implications that require a more careful study. 10 CadernosENAP O impacto do modelo gerencial na Administração Pública Um breve estudo sobre a experiência internacional recente Fernando Luiz Abrucio 2 O impacto do modelo gerencial na Administração Pública Um breve estudo sobre a experiência internacional recente CadernosENAP 3 Cadernos O impacto do modelo gerencial na Administração Pública Um breve estudo sobre a experiência internacional recente Fernando Luiz Abrucio ENAP Fernando Luiz Abrucio, 26 anos, doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP), pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), é professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). 4 ABRUCIO, Fernando Luiz. A164i O impacto do modelo gerencial na administração pública Um breve estudo sobre a experiência internacional recente. 52 p. (Cadernos ENAP; n. 10) ISSN: 0104-7078 1. Modelo gerencial-setor público 2. Administração pública - Brasil 3. Reforma Administrativa 4. Reforma do Estado I. Titulo II. Série CDD: 350-102 Cadernos ENAP é uma publicação da Fundação Escola Nacional de Administração Pública Editora Vera Lúcia Petrucci Coordenadora Editorial Norma Guimarães Azeredo Editoração eletrônica Acácio Valério da Silva Reis © ENAP, 1997 Tiragem: 1.500 exemplares Brasília, 1997 Fundação Escola Nacional de Administração Pública - ENAP Diretoria de Pesquisa e Difusão SAIS - Área 2-A 70610-900 - Brasília - DF Telefone: (061) 245 5890 — (061) 245 7878, ramal 210 Fax: (061) 245 2894 5 Sumário I. Introdução 6 II. Condições materiais e intelectuais para o surgimento do modelo gerencial 9 III. O desenvolvimento do modelo gerencial no setor público: a experiência anglo-americana 11 1. O modelo gerencial puro 13 2. Novos caminhos do modelo gerencial: flexibilidade de gestão, qualidade dos serviços e prioridade às demandas do consumidor (consumerism) 20 3. Public Service Oriented (PSO): a construção da esfera pública 26 4. Reinventando o governo: novos caminhos para a administração pública americana 29 IV. Conclusão: Os desafios para a administração pública do século XXI 37 Notas 42 Bibliografia 44 6 I. Introdução “O governo não pode ser uma empresa mas pode se tornar mais empresarial”. Gerald Caiden “(...) o setor público não está numa situação em que as velhas verdades possam ser reafirmadas. É uma situação que requer o desenvol- vimento de novos princípios. A administração pública deve enfrentar o desafio da inovação mais do que confiar na imitação. A melhora da gerência pública não é só uma questão de pôr-se em dia com o que está ocorrendo na iniciativa privada: significa também abrir novos caminhos”. Les Metcalfe & Sue Richards Em meados da década de 70, sobretudo a partir da crise do petróleo em 1973, uma grande crise econômica mundial pôs fim à era de prosperidade que se iniciara após a Segunda Guerra Mundial. Era o fim da “era dourada” — na precisa definição de Eric Hobsbawn (HOBSBAWN, 1995) —, período em que não só os países capitalistas desenvolvidos mas o bloco socialista e parte do Terceiro Mundo alcançaram altíssimas taxas de crescimento. A principal receita para o contínuo sucesso durante trinta anos foi a existência de um amplo consenso social a respeito do papel do Estado, o qual procurava garantir prosperidade econômica e bem-estar social. O tipo de Estado que começava a se esfacelar em meio à crise dos anos 70 tinha três dimensões (econômica, social e administrativa), todas interligadas. A primeira dimensão era a keynesiana, caracterizada pela ativa intervenção estatal na economia, procurando garantir o pleno emprego e atuar em setores considera- dos estratégicos para o desenvolvimento nacional — telecomunicações e petró- leo, por exemplo. O Welfare State correspondia à dimensão social do modelo. Adotado em maior ou menor grau nos países desenvolvidos, o Estado de bem- estar tinha como objetivo primordial a produção de políticas públicas na área social (educação, saúde, previdência social, habitação etc.) para garantir o supri- mento das necessidades básicas da população. Por fim, havia a dimensão relativa ao funcionamento interno do Estado, o chamado modelo burocrático weberiano, ao qual cabia o papel de manter a impessoalidade, a neutralidade e a racionalidade do aparato governamental. 7 Grosso modo, a redefinição do papel do Estado na economia e a tentativa de reduzir os gastos públicos na área social — tarefa esta nem sempre bem sucedida — foram as duas saídas mais comuns à crise das dimensões econômica e social do antigo tipo de Estado. Para responder ao esgotamento do modelo burocrático weberiano, foram introduzidos, em larga escala, padrões gerenciais na administração pública, inicialmente e com mais vigor em alguns países do mundo anglo-saxão (Grã-Bretanha, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia), e depois, gradualmente, na Europa conti- nental e Canadá. É neste último ponto — a passagem do modelo weberiano para o gerencial — que se concentra a discussão deste trabalho. Focalizo, primordialmente, o processo de surgimento e posterior desenvolvimento do modelo gerencial (managerialism ou public manage- ment) no campo da administração pública, analisando seus limites e potencia- lidades, bem como se ele pode ser considerado um novo paradigma mundial. Vale a pena fazer três observações antes de entrar nos pontos mais específicos do artigo. Embora tenha surgido em governos de cunho neoliberal (Thatcher e Reagan), o modelo gerencial e o debate em torno dele não podem ser circunscritos apenas a este contexto. Pelo contrário, toda a discussão sobre a utilização do managerialism na administração pública faz parte de um contexto maior, caracterizado pela prioridade dada ao tema da reforma administrativa, seja na Europa ocidental (CASSESE, 1989), seja no Leste europeu ou ainda no Terceiro Mundo (CAIDEN, 1991; KAUL & COLLINS, 1995). O modelo gerencial e suas aplicações foram e estão sendo discutidos em toda parte. Modelos de avaliação de desempenho, novas formas de controlar o orçamento e serviços públicos direcionados às preferências dos “consumidores”, métodos típicos do managerialism, são hoje parâmetros fundamentais a partir dos quais diversos países, de acordo com as condições locais, modificam as antigas estruturas administrativas. Aos que discordam totalmente do modelo gerencial, preferindo até nem discuti-lo, vai aqui a segunda observação. O fato incontestável no debate internacional sobre administração pública, considerado mesmo por aqueles que são ferrenhos críticos do managerialism, é que o modelo burocrático weberiano não responde mais às demandas da sociedade con- temporânea (POLLITT , 1990). Voltado cada vez mais para si mesmo, o modelo burocrático tradicional vem caminhando para o lado contrário dos anseios dos cidadãos. É a partir deste processo que o modelo gerencial começa a preencher um vácuoteórico e prático, captando as principais tendências presentes na opinião pública, entre as quais se destacam o con- trole dos gastos públicos e a demanda pela melhor qualidade dos serviços públicos. 8 Mas há ainda uma última observação que reforça a importância de se estudar as mudanças recentes na Administração Pública. Ao invés de se constituir em uma doutrina rígida e fechada, o managerialism tem apresentado um grande poder de transformação, incorporando as críticas à sua prática, e assim modificando algumas peças de seu arcabouço. Mais do que isso: as atuais transformações apontam para uma pluralidade de concepções organizacionais que ultrapassam o mero gerencialismo, de modo que não existe um paradigma global capaz de responder, tal qual uma “receita de bolo”, a todos os problemas enfrentados pela crise do modelo burocrático weberiano (HOOD, 1996).2 Neste contexto de pluralidade de concepções organizacionais, cabe ressaltar que foi o modelo gerencial, inicialmente em sua forma pura, o propulsor das primeiras mudanças no modelo burocrático weberiano. Somam-se a isso a força e a centralidade das propostas do managerialism, hegemônico em termos teóricos e práticos no atual estágio do debate acerca das reformas administrativas. O que não quer dizer que o modelo gerencial não tenha limites e fraquezas. De fato ele tem muitas, e tento, no curto espaço deste artigo, discuti-las, até porque é das insuficiências deste modelo que nascem novas práticas, as quais também se distanciam do antigo padrão burocrático. Trata-se, em suma, de reconstruir o setor público sob bases pós- burocráticas, bases estas que encontram no managerialism um de seus principais fundamentos. Este artigo está estruturado da seguinte maneira. Inicialmente faço um histórico das condições que propiciaram a ascensão do modelo gerencial, focalizando a experiência anglo-americana. Em seguida, descrevo as principais características do managerialism, comparando-as com as peças do antigo modelo weberiano. Adiante, concentrando-me mais na análise do caso inglês, mostro como ao longo da década de 80 e princípio da de 90 o modelo gerencial foi se modificando. Como resultado desta evolução, constato a existência, em termos típicos ideais, de três tendências básicas: o modelo gerencial puro, o consumerism e o Public Service Orientation (PSO). Continuo a discussão analisando a experiência americana atual e sua enorme influência no debate dentro do managerialism, concentrando-me, basicamente, no livro de David Osborne e Ted Gaebler (OSBORNE & GAEBLER, 1994), Reinventando o Governo, que se tornou uma das peças-chave do programa de governo do presidente Bill Clinton. Neste tópico, fica clara a modificação nos parâmetros iniciais do modelo gerencial. Na conclusão, traço, em primeiro lugar, um perfil das principais mudanças administrativas que têm afetado o setor público em escala global. Depois, à luz da experiência internacional, faço um brevíssimo comentário sobre o caso brasileiro. 9 II. Condições materiais e intelectuais para o surgimento do modelo gerencial Desde o final da década de 70, a reforma do Estado se tornou uma palavra de ordem em quase todo o mundo. O antigo consenso social a respeito do papel do Estado perdia forças rapidamente, sem nenhuma perspectiva de retomar o vigor. A introdução do modelo gerencial no setor público faz parte deste contexto. Mas quais foram as condições materiais e intelectuais que permitiram esta mudança? Em linhas gerais, quatro fatores sócio-econômicos contribuíram fortemente para detonar a crise do Estado contemporâneo. O primeiro foi a crise econômica mundial, iniciada em 1973, na primeira crise do petróleo, e retomada ainda com mais força em 1979, na segunda crise do petróleo. O fato é que a economia mundial enfrentou um grande período recessivo nos anos 80 e nunca mais retomou os níveis de crescimento atingidos nas décadas de 50 e 60. Neste momento de escassez, o Estado foi o principal afetado, entrando numa grave crise fiscal. A crise fiscal foi o segundo fator a enfraquecer os alicerces do antigo modelo de Estado. Após ter crescido por décadas, a maioria dos governos não tinha mais como financiar seus déficits. E os problemas fiscais tendiam a se agravar na medida em que se iniciava, sobretudo nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, uma revolta dos taxpayers (contribuintes) contra a cobrança de mais tributos, principalmente porque não enxergavam uma relação direta entre o acréscimo de recursos governamentais e a melhoria dos serviços públicos. Estava em xeque o consenso social que sustentara o Welfare State. Os governos estavam, ainda, sobrecarregados de atividades — acumuladas ao longo do pós-guerra —, “com muito a fazer e com poucos recursos para cumprir todos os seus compromissos” (PETERS, 1992: 305). Além disso, os grupos de pressão, os clientes dos serviços públicos e todos os beneficiários das relações neocorporativas então vigentes não queriam perder o que, para eles, eram conquistas — e que para os neoliberais eram grandes privilégios. O terceiro fator detonador da crise do Estado contemporâneo, portanto, se constituía naquilo que a linguagem da época chamava de situação de “ingovernabilidade”: os governos estavam inaptos para resolver seus problemas (HOLMES & SHAND, 1995: 552). Por fim, a globalização e todas as transformações tecnológicas que transformaram a lógica do setor produtivo também afetaram — e profundamente — o Estado. Na verdade, o enfraquecimento dos governos para controlar os fluxos financeiros e comerciais, somado ao aumento do 10 poder das grandes multinacionais resultou na perda de parcela significativa do poder dos Estados nacionais de ditar políticas macroeconômicas. Esta crise do Estado afetou diretamente a organização das burocracias públicas. Por um lado, os governos tinham menos recursos e mais déficits. Com efeito, o corte de custos virou prioridade. No que tange à Administração Pública isto teve dois efeitos. Primeiro, a redução dos gastos com pessoal era vista como uma saída necessária — os discursos das administrações de Thatcher e Reagan representaram o ponto máximo desta tendência. Segundo, era preciso aumentar a eficiência governamental, o que implicava, para boa parte dos reformadores da década de 80, uma modificação profunda do modelo weberiano, classificado como lento e excessivamente apegado a normas — leia-se: o modelo weberiano era ineficiente. Por outro lado, o Estado contemporâneo vinha perdendo seu poder de ação, especialmente se levarmos em conta os problemas da “governabili- dade” (governos sobrecarregados) e os efeitos da globalização. Portanto, surgia naquele momento não só um Estado com menos recursos; era um Estado nacional com menos poder. Para enfrentar esta situação, o aparato governamental precisava ser mais ágil e mais flexível, tanto em sua dinâmica interna como em sua capacidade de adaptação às mudanças externas. Corte de gastos — inclusive de pessoal —, aumento da eficiência e atuação mais flexível do aparato burocrático, tudo isto estava contido na cartilha do modelo gerencial, tal como era proposto pelos reformadores do começo da década de 80. O managerialism substituiria o modelo weberiano, introduzindo a lógica da produtividade existente no setor privado. No entanto, as condições materiais não eram suficientes para sustentar a defesa do managerialism. Havia também um contexto intelectual extremamente favorável às mudanças na Administração Pública. A ascensão do teorias extremamente críticas às burocracias estatais, como o public choice nos Estados Unidos e o ideário neoliberal hayekiano (principalmente na Grã-Bretanha), abriu espaço para o avanço do modelo gerencial como referência ao setor público. Mas a visão negativa a respeito da burocracia não se vinculava apenas a teorias intelectualmente mais elaboradas. De uma forma avassaladora, a perspectiva do senso comum contra a burocracia, normalmente anedótica, se expandia rapidamente no final da década de 70 e no começo da de 80. Nos Estados Unidos,o sentimento antiburocrático tomava a forma, na definição de Kaufman (1981), de uma epidemia generalizada. Contribuía ainda mais para piorar a imagem da burocracia o fato de ela ser classificada, à época, muito mais como um grupo de interesse do que como um corpo técnico neutro a serviço dos cidadãos. O thatcherismo se aproveitou bastante desta situação. Rayner, um dos seus principais ideólogos, dizia que “a ‘burocracia’ tem muitos amigos” (RAYNER, 1984: 8-9), uma 11 alusão às relações clientelistas e corporativas mantidas pelo corpo burocrático. Ao sentimento antiburocrático juntava-se a crença, presente em boa parte da opinião pública, de que o setor privado possuía o modelo ideal de gestão. A administração das empresas privadas tinha uma ótima reputação, apesar dos vários escândalos ocorridos no final da década de 70 — bancarrotas, corrupção (CAIDEN, 1991: 24). Não por acaso, Margareth Thatcher levou ao governo um administrador do setor privado (Dereck Rayner) para comandar seu plano de reforma administrativa.3 Mas este sentimento difuso contrário à burocracia estatal e favorável aos ideais da iniciativa privada precisou de um catalisador político para se impor. A vitória dos conservadores na Grã-Bretanha, em 1979, e dos republicanos nos Estados Unidos, em 1980, representou a vitória dos grupos que contestavam o antigo consenso social pró-Welfare State. Foi neste contexto de escassez de recursos públicos, enfraquecimento do poder estatal e de avanço de uma ideologia privatizante que o modelo gerencial se implantou no setor público. Coube aos conservadores ingleses e aos republicanos americanos a iniciativa nesse sentido, introduzindo, num primeiro momento, um modelo gerencial puro, em que prevalecia o ângulo meramente economicista (“cortar custos” como fim último) e o desconheci- mento da especificidade do setor público. Ao longo dos últimos quinze anos, entretanto, o managerialism sofreu um contínuo processo de transformação, como veremos a seguir. Da inicial perspectiva conservadora, o debate referente ao modelo gerencial tem avançado por terrenos cada vez mais dominados pelas temáticas republicana e democrática. III. O desenvolvimento do modelo gerencial no setor público: a experiência anglo-americana Os conceitos do managerialism invadiram o setor público dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha a partir da eleição dos governos conservadores. Era, inicialmente, uma maneira bem particular de se utilizar os instrumentos do modelo gerencial, por meio daquilo que chamo de gerencialismo puro, mais direcionado à redução de custos e ao aumento da eficiência e produtividade da organização, como explicarei mais adiante. O fato é que, naquele momento, as modificações no setor público estavam vinculadas a um projeto de reforma do Estado, caracterizado como um movimento de retração da máquina governamental a um menor número de 12 atividades. A palavra de ordem da primeira-ministra inglesa era “rolling back the state”, o que na prática significou a privatização de empresas nacionali- zadas no pós-guerra, desregulamentação, devolução de atividades governa- mentais à iniciativa privada ou à comunidade e as constantes tentativas de reduzir os gastos públicos (CAIDEN, 1991: 75-80; BUTLER, 1993: 398-399). Mas nos últimos anos o modelo gerencial não tem sido somente utilizado como mecanismo para reduzir o papel do Estado. O managerialism se acoplou, dentro de um processo de defesa da modernização do setor públi- co, a conceitos como busca contínua da qualidade, descentralização e avaliação dos serviços públicos pelos consumidores/cidadãos. Portanto, há atualmente mais de um modelo gerencial; ou, melhorando a argumentação, no embate de idéias proporcionado pela introdução do managerialism na administração pública surgiram diversas respostas à crise do modelo burocrático weberiano, todas defendendo a necessidade de se criar um novo paradigma organizacional. Na Grã-Bretanha havia um denominador comum no confronto entre as teorias de Administração Pública: o modelo burocrático Whitehall, que funcionava de forma similar ao weberiano, e que tinha vigorado por décadas, não dava mais conta dos problemas do serviço público inglês. O modelo gerencial puro foi o primeiro a apresentar, na prática, alternativas para modernização do setor público. Ao longo dos últimos anos, outras teorias apareceram, botando de cabeça para baixo os conceitos do modelo de Whitehall. Na tabela abaixo, comparo as três visões da administração pública inglesa que surgiram do debate sobre o managerialism aplicado ao governo. Comparo-as, mais especificamente, quanto aos principais objetivos (linha 2) e na sua relação com a sociedade, ou melhor, com seus públicos-alvos (linha 3). As teorias estão aqui separadas, da esquerda para a direita do quadro, em ordem cronológica de criação. Quadro I Respostas à crise do modelo burocrático inglês (Whitehall) Modelo gerencial puro Consumerism Public Service Orientation Economia/Eficiência Efetividade/Qualidade Accountability/Eqüidade (Produtividade) Taxpayers (contribuintes) Clientes/Consumidores Cidadãos 13 Em primeiro lugar, é preciso ficar claro que fiz uma rígida divisão entre as teorias apenas para facilitar a comparação entre elas. Na realidade, há um grau razoável de intercâmbio entre as teorias, principalmente no caso das duas últimas (consumerism e public service orientation). Existem até autores que não se enquadram exatamente nesta classificação. Ademais, esta classificação não vale para os autores americanos aqui estudados (BARZELAY, 1992; OSBORNE & GAEBLER, 1994). Entretanto, como ponto de partida para a discussão, esta classificação traz duas importantes constatações. A primeira, e mais óbvia, é que há uma modificação substancial ao longo do tempo, do gerencialismo puro ao public service orientation. A constatação mais importante, no entanto, é que embora haja diferenças entre as teorias, elas não são mutuamente excludentes. Ao contrário, o que se percebe é que há uma incorporação dos aspectos positivos de cada teoria. A passagem de uma teoria a outra é realizada através de uma crescente inclusão de temas. Como é, então, que ocorreram estas modificações no modelo gerencial (ou a partir dele)? É o que mostrarei a seguir. 1. O modelo gerencial puro O modelo gerencial puro foi o primeiro a ser implantado no caso inglês, como também ocorreu, com algumas ligeiras modificações, na experiência americana do governo Reagan. Porém, algumas tentativas anteriores de implantar o modelo gerencial tinham ocorrido. No caso inglês, o relatório da Comissão Fulton, que funcionou de 1966 a 1968, já enumerava alguns dos problemas existentes no modelo burocratizado do Whitehall. No diagnóstico apresentado, eram destacadas a falta de preparação gerencial do civil service britânico, a excessiva hierarqui- zação e a falta de contato entre os burocratas e a comunidade que eles serviam (DREWRY & BUTCHER, 1991: 51-54). Sobretudo os dois primeiros pontos influenciaram a reforma implementada posteriormente por Thatcher. Mas havia antecedentes de propostas gerenciais não só na Grã- Bretanha. No Canadá, por exemplo, houve a Comissão Glassco (1961-1963), que, inclusive, foi montada antes da Comissão Fulton. Com uma clara visão gerencial, a Comissão Glassco questionava todos os conceitos administrati- vos tradicionais (CAIDEN, 1991: 56). Outro antecedente importante, e que é pouco discutido na literatura, é o das comissões e organismos internacionais que nas décadas de 60 e 70 propunham reformas administrativas para os 14 países em desenvolvimento, defendendo a implantação de um modelo menos burocratizado e com instrumentos gerenciais (CAIDEN, idem: 54). Todavia, é nos Estados Unidos que a discussão gerencial tem mais tradição. O debate entre o Public Service orientation versus o Public Management orientation existe desde o século passado (MARTIN, 1993), quando Woodrom Wilson escreveu seu célebre artigo (The study of admin-istration), em 1887, defendendo a separação entre a política e a administração. O modelo gerencial, no entanto, não conseguiu se tornar hegemônico nos EUA, principalmente porque a burocracia americana foi sendo edificada, ao longo do século XX, para evitar a interferência das políticas de patronagem que eram comuns no final do século XIX. Por isso, a opção preferencial foi por um modelo que preservasse a neutralidade e a impessoalidade do Estado, características estas que eram centrais no tipo burocrático weberiano. A discussão gerencial renasce com vigor nos Estados Unidos dentro do debate orçamentário travado ao longo da década de 70. Já nos anos 60 o problema do controle mais racional dos gastos públicos ganhava importância, como demonstrara o presidente Lyndon Johnson ao introduzir o Planning Programming Budget (PPB) em todas as agências do governo federal (CARTER, KLEIN & DAY, 1992: 7). Mas foi na década seguinte que a questão se tornou mais premente. Isto porque era um momento em que não só o Estado demonstrava estar entrando em uma crise fiscal estrutural, mas em que houve também o aumento de exemplos de má gestão pública — sobretudo o da bancarrota da prefeitura de Nova York — que apontavam para a necessidade urgente de se reformular, em termos gerenciais, as finanças públicas. E é sob o signo da questão financeira, tanto nos Estados Unidos como na Grã-Bretanha, que o modelo gerencial puro foi implantado. O managerialism seria utilizado no setor público para diminuir os gastos em uma era de escassez e para aumentar a eficiência governamental. Em suma, o gerencialismo puro tinha como eixo central o conceito de produtividade (POLLITT, 1990: 2). Não por acaso um dos livros fundamentais àquela época chamava-se “Fazendo mais com menos” (Doing more with less) — UKELES, 1982. O primeiro passo do modelo gerencial puro foi procurar cortar cus- tos e pessoal. Neste caso, o governo britânico foi muito mais bem sucedido do que o americano. O governo Reagan de fato não conseguiu reduzir os gastos sociais — ao contrário, naquele período eles cresceram 16% com relação ao PIB (POLLITT, 1990: 90). Pouco também foi feito em termos de corte de pessoal. O grande triunfo dos republicanos no sentido de atenuar os problemas financeiros do governo federal foi diminuir as transferências de recursos para os estados e os diversos poderes locais (POLLITT, idem: 96). Desta forma, os governos subnacionais se viram com menos recursos e 15 tiveram, portanto, que inovar em suas administrações. Conseqüentemente, as principais tentativas de elaborar um novo paradigma para a gestão pública americana surgiram a partir do estudo das experiências dos governos locais, como mostrarei mais adiante. O sucesso britânico em cortar gastos públicos, no entanto, tem de ser relativizado. Os principais cortes efetuados ocorreram no civil service (que reúne a maior parte dos funcionários do Poder Central) e no total de empregados das empresas estatais (em conseqüência das privatizações), como mostra a Tabela II. Já no importante contingente de servidores do National Health Service (NHS), não houve redução de funcionários no período 1978-1990, mas sim, um pequeno incremento. Aconteceu, ainda, uma ínfima redução da burocracia sediada no poder local. O que se pode dizer, portanto, é que o governo Thatcher teve imensa dificuldade de cortar os funcionários da área social, assim como de reduzir o efetivo que atua na “ponta” do sistema, no âmbito local. O ponto central do modelo gerencial puro é a busca da eficiência. Para tanto, parte do pressuposto de que é preciso modificar as engrenagens do modelo weberiano. A burocracia tradicional (Whitehall para os ingleses) é definida como uma organização com estrutura rígida e centralizada, voltada ao cumprimento dos regulamentos e procedimentos administrativos e em que o desempenho é avaliado apenas com referência à observância das normas legais e éticas. Contra essa visão de administração pública, o governo Thatcher propunha: a) definição clara das responsabilidades de cada funcionário dentro das agências governamentais (BUTLER, 1993: 399); b) clara definição dos objetivos organizacionais, analisados em sua substância e não enquanto processo administrativo; c) aumento da consciência a respeito do “valor dos recursos” (value money) públicos, procurando maximizar a relação financeira entre os recursos iniciais e os gastos realizados para a produção de políticas, ou seja, incorporando o valor da eficiência na lógica de funcionamento da burocracia. Para cumprir cada um destes objetivos foram implementados determinados instrumentos gerenciais. No primeiro momento foi dada maior atenção aos instrumentos de racionalização orçamentária, que deveriam possibilitar a incorporação de uma maior “consciência dos custos” (cost consciousness) no serviço público (METCALFE & RICHARDS, 1989: 50). As técnicas de avaliação de desempenho e controle orçamentário foram usadas para atingir este fim. A principal iniciativa neste sentido foi o Financial Management Iniciative (FMI).4 16 Tabela I Evolução do quadro de pessoal na Grã-Bretanha (base mil) 1 7 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 978-79 9-80 0-81 1-82 2-83 3-84 4-85 5-86 6-87 7-88 8-89 9-90 Civil Service 7 7 6 6 6 6 6 5 5 5 5 5 34 19 97 78 58 36 21 97 98 87 74 67 Forças 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 Armadas 26 30 35 41 34 33 36 34 31 28 24 19 NHS 9 9 9 9 1 1 9 9 9 9 9 9 23 43 79 98 9 9 98 93 81 76 77 68 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 11 10 7 5 10 10 7 7 7 4 6 5 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 194 202 218 222 211 189 162 131 117 95 81 59 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 325 368 343 306 274 300 320 326 352 377 379 269 1 1 1 1 1 1 1 1 1 8 7 7 843 818 785 656 538 444 396 124 49 56 81 9 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 3 4 5 90 85 85 81 17 26 18 18 9 6 6 6 6 6 6 6 5 5 5 5 5 565 592 551 374 208 118 59 698 644 446 369 146 Fonte: Baseado em CLARKE (1993: 5) Fundamentais em um momentode escassez de recursos, estas técnicas orçamentárias deram impulso à implementação das outras reformas administrativas (CAIDEN, 1991: 85). Depois foram adotados, em larga escala, os instrumentos de avaliação de desempenho organizacional. Afinal, se o Total do Governo Central Total local Indústrias nacionalizadas Total do setor público Empresas Públicas (National Health Service) Outros Setores do Governo Central 17 objetivo era alcançar uma maior eficiência, havia a necessidade de se ter mecanismos objetivos de mensuração da performance governamental. Entre estes mecanismos utilizados, um bom exemplo é o chamado escrutínio de Rayner, concebido pelo condutor das reformas de Thatcher para conhecer os principais problemas da administração pública e definir critérios de mensuração de eficiência (METCALFE & RICHARDS, 1989: 26). O governo inglês adotou três mecanismos para definir claramente as responsabilidades, tanto das agências governamentais como dos funcionários públicos. No âmbito organizacional, duas saídas institucionais foram encontradas. A primeira foi a adoção da Administração por Objetivos (Man- agement by Objectives), pela qual se procurou traçar linhas claras de ação às agências, o que tornaria possível uma avaliação de desempenho baseada na comparação entre os resultados obtidos e o que fora previamente determinado. A descentralização administrativa constituiu-se em uma outra opção organizacional importante. Seu objetivo precípuo foi aumentar a autonomia das agências e dos departamentos. É importante notar que a descentralização era concebida a partir de uma definição clara dos objetivos de cada agência, os quais deveriam ser cumpridos sob a vigilância e controle do Poder Cen- tral. Desta forma, apesar da propaganda governamental favorável à descentralização, o que acontecia era uma desconcentração de poderes. À estrutura extremamente hierárquica característica do modelo Whitehall foi contraposto um modelo em que se procurava delegar autoridade (empowerment) aos funcionários. Dentro do contexto da cultura gerencial, era preciso criar mais gerentes, com habilidade e criatividade para encontrar novas soluções, sobretudo para aumentar a eficiência governamental. Assim, a delegação de autoridade era uma resposta no primeiro momento institucional, e que com o tempo poderia transformar a cultura da burocracia. Mas, ao enfatizar em demasia a estratégia da eficiência, o modelo gerencial puro poderia estar jogando para segundo plano outros valores fundamentais na atuação dos gerentes. Em particular, a flexibilidade para decidir e inovar. Os critérios de medição da eficiência poderiam se tornar tão rígidos e portanto ineficazes, nos termos do managerialism — quanto às regras e procedimentos do modelo burocrático weberiano. METCALFE e RICHARDS (1989: 62-63) estabelecem uma importante diferença entre a eficiência operacional e a adaptativa, que refina o debate sobre a avaliação de desempenho das organizações. O primeiro tipo de eficiência é vinculado ao incremento da “consciência dos custos” e portanto deve estar atrelado a uma rígida especificação de objetivos e controles. A 18 eficiência adaptativa, por sua vez, responde ao critério da flexibilidade, sendo útil a instituições que sofrem processos de mudança. Diante da atual realidade do Estado contemporâneo, pressionado pela globalização e pelas mudanças tecnológicas, com menos poder e recursos, de fato a eficiência adaptativa é um valor mais importante para a administração pública, capaz de dotá-la da flexibilidade necessária para responder melhor às demandas internas e externas. O aumento da “consciência de custos”, resultado da eficiência operacional, também é importante, porém limitado se for um objetivo em si mesmo. O enfoque apenas da eficiência governamental possui outro problema: a avaliação da efetividade dos serviços públicos não recebe a devida importância. Efetividade é entendida aqui como o grau em que se atingiu o resultado esperado (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 381). Portanto, a efetividade não é um conceito econômico — como a eficiência pura — mas de avaliação qualitativa dos serviços públicos. Recupera-se, com o conceito de efetividade, a noção de que o governo deve, acima de tudo, prestar bom serviços. É a ótica da qualidade que começa a ser incorporada pelo modelo gerencial, como discutiremos na próxima seção. A valorização do conceito de efetividade também traz novamente à tona o caráter político da prestação dos serviços públicos, uma vez que são os usuários dos equipamentos sociais que de fato podem avaliar a qualidade dos programas governamentais. E aqui enfocamos um dos calcanhares de Aquiles do modelo gerencial puro: a subestimação do conteúdo político da administração pública. Em sua perspectiva inicial, o modelo gerencial era proposto como uma tecnologia neutra destinada a modificar o funcionamento e a cultura do setor público (GRAY & JENKINS, 1995: 81). Desta maneira, alguns gerencialistas mais radicais afirmavam que não existe diferença conceitual entre a administração da empresa privada e a administração pública (MURRAY, 1975). Outros aceitavam que há determinadas diferenças entre ambas; contudo, propunham reformas ao setor público como se ele fosse uma organização homogênea — a burocracia vista caricaturalmente. O fato é que a administração pública se constitui num sistema organizacional em que, internamente, há diferentes tarefas e valores pertencentes a um contexto complexo de relações com a esfera política, a qual nunca pode ser negligenciada, pois caso isso ocorra, aumenta a possibilidade de os processos de reforma administrativa fracassarem (GRAY & JENKINS, idem: 85). O modelo gerencial puro, na verdade, tem como base a separação entre a política e a administração. Assim, caberia aos reformadores implantar o managerialism na administração pública independentemente do que ocorre na política. Essa perspectiva, entretanto, contradiz o próprio desenvolvi- 19 mento do modelo gerencial na Grã-Bretanha, pois foi o forte apoio político obtido pelos conservadores que propiciou o avanço das reformas. Ao longo das décadas de 80 e 90 os integrantes do governo inglês enfrentaram dificuldades políticas, e somente a reconstrução da base de apoio às mudanças ou a reformulação, ainda que parcial, das propostas puderam re- mover os obstáculos. Em termos comparativos, para reforçar a argumentação acima basta lembrar de outra tentativa de reforma baseada no gerencialismo puro que fracassou sobretudo por razões políticas. Trata-se da experiência americana no período Reagan. Michel Crozier demonstra claramente que foram os obstáculos existentes no âmbito do Congresso, por um lado, e os erros da estratégia de negociação, por outro, as causas responsáveis pelo malogro da implementação do modelo gerencial puro naquele país (CROZIER, 1992: 125- 133). A experiência latino-americana recente igualmente dá base a essa hipótese, visto que as reformas administrativas mais bem sucedidas dependeram fortemente de apoio político e construção de novos incentivos institucionais (HAGGARD, 1996). Gerald Caiden observa, ademais, que as reformas administrativas apoiadas em técnicas gerenciais não servem apenas ao aumento per se do desempenho organizacional. As reformas devem melhorar a performance do setor público de acordo com objetivos públicos, ou seja, politicamente definidos (CAIDEN, 1991: 30). Os gerencialistas puros, por fim, não consideraram que a especificidade do setor público dificulta a mensuração da eficiência e a avaliação do desempenho tal qual ocorre na iniciativa privada. Na gestão pública, estão em jogo valores como eqüidade e justiça que não podem ser medidos ou avaliados por intermédio dos conceitos do managerialism puro (MAYORDOMO, 1990: 278-280). Esta “despolitização” da administração pública, aliada à ênfase no conceito de eficiência governamental, fez com que Christopher Pollitt (1990), um dos maiores críticos do modelo gerencial inglês, classificasse o managerialism como um “neotaylorismo”,isto é, uma proposta calcada na busca da produtividade e na implantação do modelo de gestão da empresa privada no setor público. Pollitt reconhece, no entanto, que o modelo gerencial puro obteve alguns êxitos. O principal deles é que a ênfase na questão financeira de fato elevou a consciência da burocracia inglesa sobre os custos das políticas públicas (POLLITT, 1990: 85). Este valor foi incorporado por todos os gover- nos que têm realizado reformas administrativas nos últimos anos. Isto mostra que a busca da eficiência governamental, embora em si não resolva todos os problemas da burocracia, é um legado positivo do modelo gerencial puro. 20 A discussão em torno do modelo gerencial se tornou complexa e ganhou novos rumos a partir da metade da década de 80. Basicamente, duas transformações foram operadas no gerencialismo puro. Uma ligada à dinâmica intra-organizacional, priorizando os conceitos da flexibilidade, planejamento estratégico e qualidade. A outra transformação foi mais radical e muito mais importante para remodelar o managerialism. Trata-se da adoção de serviços públicos voltados para os anseios dos clientes/consumi- dores. É neste ponto que o modelo gerencial traz à tona o aspecto público da administração pública, sem no entanto abandonar o conceitual empresarial vinculado à eficiência e à busca da qualidade dos serviços. 2. Novos caminhos do modelo gerencial: flexibilidade de gestão, qualidade dos serviços e prioridade às demandas do consumidor (consumerism) As críticas mais pertinentes feitas ao modelo gerencial puro na Grã- Bretanha buscavam não a volta ao modelo burocrático weberiano, mas sim a correção do managerialism no sentido de incorporar novos significados. A ênfase na flexibilidade da gestão foi uma das mudanças introduzidas. A estratégia da eficiência, se levada às últimas conseqüências, pode petrificar a ação do gerente público, tal como mostramos no item anterior. O caso do Orçamento público é paradigmático. O estrito enfoque no controle orçamentário dificulta a adaptação a alterações que impliquem um redirecionamento do gasto público. No limite, a ótica da eficiência acredita que há uma solução racional única para os problemas orçamentários. No entanto, como bem observam METCALFE e RICHARDS (1989: 303), “o orçamento público é um problema contínuo sem uma solução permanente”. No caminho da flexibilização da gestão pública, também podemos citar a passagem da lógica do planejamento para a lógica da estratégia (CRO- ZIER, 1992: 93). Na primeira, prevalece o conceito de plano, o qual estabelece, a partir de uma racionalidade técnica, o melhor programa a ser cumprido. Já na lógica de estratégia, são levadas em conta as relações entre os atores envolvidos em cada política, de modo a montar cenários que permitam a flexibilidade necessária para eventuais alterações nos programas governamentais. A utilidade da lógica de estratégia vai além da confecção dos programas governamentais. O contexto maior da reforma administrativa se beneficia igualmente do conceito de estratégia, sobretudo porque a maioria 21 dos Estados contemporâneos passa por três grandes crises: a fiscal; a decisória, uma vez que o quadro institucional mais atrapalha do que favorece a implementação de reformas; e, por fim, a de confiança, pois a população desconfia, cada vez mais, dos governos e de suas políticas. É neste ambiente que Michel Crozier propõe a utilização da estratégia, que não leva só em conta os objetivos dos programas e das reformas propostas, mas principalmente requer um acompanhamento das reações da sociedade e dos funcionários públicos frente às ações do governo (CROZIER, idem: 93-94).5 A busca da qualidade dos serviços públicos é outro conceito que o modelo gerencial vem incorporando. Desde a metade da década de 80, o governo britânico vem se utilizando do referencial da qualidade na avaliação de resultados das agências e dos programas. Isto ocorreu, em primeiro lugar, por causa das críticas contra a ênfase dada inicialmente à mensuração da eficiência e não da efetividade dos serviços públicos. Neste sentido, Norman Flynn afirma que “a imposição arbitrária da diminuição dos custos pode conduzir mais à redução do nível (de qualidade) dos serviços do que a um aumento de produtividade” (FLYNN, 1990:113). É interessante notar que mesmo no setor privado houve, ao longo da década de 80, uma modificação no que se refere à antiga visão meramente quantitativa de avaliar o sucesso e o desempenho dos empregados e da organização. Foi na iniciativa privada que nasceu a abordagem da administração da qualidade total (Total Quality Management — TQM), que posteriormente foi introduzida no setor público. Nas empresas privadas, a razão da mudança foi o aumento da concorrência e do nível de exigência dos consumidores. Desta maneira, os empresários tiveram que elevar a qualidade de seus produtos para sobreviver no mercado. Portanto, a busca permanente da qualidade tem uma relação direta com o direcionamento da produção para os anseios dos consumidores. No setor público aconteceu um fenômeno semelhante. A introdução da perspectiva da qualidade surgiu quase no mesmo momento em que a administração pública voltava suas atenções aos clientes/consumidores. Essa talvez tenha sido uma das principais revoluções no modelo gerencial. Sue Richards, importante especialista na área de Public Management, acredita inclusive que houve uma mudança de paradigma com a recente ênfase dada pelo setor público às preferências do consumidor. Para Richards, depois da Segunda Guerra mundial surgiram dois paradigmas na administração pública. O primeiro foi aquele vinculado à visão política da burocracia, que deveria estar atrelada à consecução de objetivos politicamente determinados. Esse primeiro paradigma, a meu ver, é o modelo burocrático weberiano. O segundo paradigma foi o da eficiência, associado, sobretudo, aos métodos gerenciais do setor privado — tal como foram 22 aplicados pelo modelo gerencial puro. O novo paradigma, na opinião de Richards, resultaria da síntese entre os antigos valores do serviço público (ou do modelo weberiano) e a orientação para uma melhor performance do setor público como um todo. Em suma, seria uma perspectiva voltada à satisfação do público, intitulada paradigma do consumidor (consumer para- digm) (apud CLARKE, 1993: 7). De fato, a administração pública inglesa vem implementando uma estratégia direcionada cada vez mais às demandas dos consumidores. Um importante organismo do governo britânico, o Local Government Training Board, definiu qualidade como aquilo que dá a satisfação ao consumidor. Além disso, esse mesmo órgão fez uma lista dos passos necessários para garantir a qualidade do serviço público, na qual o conhecimento das necessidades dos consumidores estava no topo (apud CLARKE, idem: 16). Mas o programa do governo inglês mais importante no sentido de priorizar o consumidor é, sem dúvida, o Citizen’s Charter. Baseado no princípio de que os serviços públicos devem estar mais direcionados às necessidades definidas pelo público diretamente afetado (BUTLER, 1993: 402), o Citizen’s Charter consiste na implantação de programas de avaliação de desempenho organizacional de acordo com dados recolhidos juntos aos consumidores. A importância do programa aumenta na medida em que ele tem sido uma das referências da atual gestão do primeiro-ministro John Major, que, na defesa do Citizen’s Charter, disse que os “serviços públicos têm o dever especial de responder às necessidades dos seus consumidores e clientes” (CLARKE, 1993: 24). A estratégia voltada à satisfação dos consumidores é reforçada pelo governo britânico através da adoção de três medidas que fazem parte de uma estratégia para tornar o poder público mais leve, ágil e competitivo, desmon- tando assim o antigo modelo burocrático. A primeira dessas medidas é a descentralização. Como já afirmei anteriormente, na Grã-Bretanha ocorre uma descentralização administrativa (desconcentração) e não uma verdadeira des- centralizaçãopolítica. Não obstante, tem ocorrido uma significativa delegação de autoridade, partindo do princípio de quanto mais próximo estiver o serviço público do consumidor, mais fiscalizado pela população ele o será. A descentralização, no entanto, não basta para aumentar o poder do consumidor. É preciso que haja opções caso determinado equipamento social não esteja funcionando a contento. Neste sentido, o governo britânico tem procurado incrementar a competição entre as organizações do setor público. Quando não há competição entre os serviços, existe uma situação de monopólio e, portanto, os consumidores não têm alternativa de escolha. O Citizen’s Charter enfatiza muito este aspecto, estabelecendo uma relação lógica entre a competiti- vidade e o aumento da qualidade dos serviços públicos (CLARKE, idem: 24). 23 A terceira medida é a adoção de um novo modelo contratual para o serviços públicos. Esse modelo possui três dimensões (CLARKE, idem: 20): a) Extensão das relações contratuais no fornecimento de serviços públicos entre o setor público, o setor privado e o voluntário/não lucrativo, criando uma nova estrutura de pluralismo institucional, contraposta ao antigo modelo de monopólio estatal; b) Extensão das relações contratuais para dentro do setor público, envolvendo descentralização, delegação e mecanismos de quasi market; c) Desenvolvimento de contratos de qualidade entre os provedores de serviço e os consumidores/clientes. A criação de relações contratuais origina-se de três pressupostos. O primeiro é de que numa situação de falta de recursos, como a atual, a melhor forma de aumentar a qualidade é introduzir relações contratuais de competição e de controle. O segundo, quase como conseqüência do primeiro, é de que a forma contratual evita a situação de monopólio. Por fim, o último pressuposto refere-se à maior possibilidade que os consumidores têm de controlar e avaliar o andamento dos serviços públicos a partir de um marco contratual. O modelo contratual de prestação de serviços públicos não se res- tringe somente ao caso inglês. A partir de um estudo das principais inovações gerenciais na Europa, Norman Flynn observa a existência de importantes arran- jos contratuais também na Suécia e na França. Em todos estes casos, porém, Flynn ressalta um problema fundamental deste modelo: o difícil equaciona- mento da relação entre as agências autônomas, o respectivo ministério que controla cada uma delas e o Ministério das Finanças.6 Aqui se encontra um sério obstáculo ao princípio da descentralização administrativa (desconcen- tração) presente tanto no gerencialismo puro como no consumerism. Este obstáculo é fruto de um paradoxo cuja origem é a escassez de recursos públicos: essa mesma situação cria a necessidade do aumento da autonomia gerencial das agências e igualmente requer o fortalecimento do controle orçamentário estrito sob a batuta do Ministério das Finanças. Assim, de um lado as agências movem-se pela lógica do output e, por outro, o Poder Central preocupa-se a todo instante em controlar os inputs financeiros do sistema, temendo o descontrole (FLYNN, 1996: 11). Nesta queda de braço, o vencedor via de regra é o ministro das Finanças e suas preocupações. O modelo gerencial, deste modo, pode ficar subordinado aos problemas de curtíssimo prazo e não à construção de uma nova cultura organizacional e de novos arranjos institucionais. Embora tenha avançado muito com relação ao modelo gerencial puro, o consumerism recebeu várias críticas, particularmente no terreno em 24 que mais transformou os conceitos, isto é, na relação entre o governo como prestador de serviços públicos e a população. A crítica mais geral é direcionada ao conceito de consumidor de serviços públicos. Em primeiro lugar, com relação à diferença que existe entre o consumidor de bens no mercado e o “consumidor” dos serviços públicos. Como aponta Pollitt, é mais complexa a relação do prestador de serviço público com o consumidor, já que ela não obedece ao puro modelo de decisão de compra vigente no mercado. Aliás, há determinados serviços públicos cujo caráter é compulsório, isto é, não existe a possibilidade de escolha, como provam a utilização em determinados momentos dos hospitais e dos serviços policiais (POLLITT, 1990: 125). Para vários autores,7 o conceito de consumidor deve ser substituído pelo de cidadão. Isto porque o conceito de cidadão é mais amplo do que o de cliente/ consumidor, uma vez que a cidadania implica direitos e deveres e não só liberdade de escolher os serviços públicos (STEWART & WALSH, 1992: 507). Na verdade, a cidadania está relacionada com o valor de accountabil- ity, que requer uma participação ativa na escolha dos dirigentes, no momento da elaboração das políticas e na avaliação dos serviços públicos. Desta forma, mecanismos como os do Citizen’s Charter — cujo nome não corres- ponde à realidade, pois este programa é direcionado ao consumidor — só enfatizam um aspecto da cidadania, o de controlar as políticas públicas. O consumidor é, no mais das vezes, um cidadão passivo. O conceito de consumidor também não responde adequadamente ao problema da eqüidade, valor fundamental na administração pública. A primeira pergunta não respondida pelo consumerism é quem são os consumidores/clientes? Em grande medida, são aqueles que se organizam para atuar onde os serviços são prestados — o que, no limite, pode se constituir num grupo de interesse. Os burocratas, por sua vez, poderão fazer de tudo, inclusive atos discricionários, para atender ao grupo organizado de consumidores, já que os funcionários públicos dependem, no modelo gerencial, da avaliação dos clientes para obter avanço profissional, melhoria de salários e até, em último caso, para manter o próprio emprego. Entre a avaliação dos consumidores e os atos dos funcionários devem haver normas e regras que permitam garantir o interesse público (FREDERICKSON, 1992: 18). A possibilidade de os consumidores se transformarem em grupo de interesse se torna maior ainda numa era de escassez de recursos públicos, como a que vivemos. Os que se organizarem mais podem se tornar “mais consumidores do que os outros”. Assim, os consumidores mais fortes podem se constituir em “clientes preferenciais do serviço 25 público”. Ou como argumenta Clarke, “quando os recursos são limitados, o problema não é satisfazer os consumidores, mas quais consumidores (satisfazer)?”.8 O problema da eqüidade na prestação dos serviços públicos pode se tornar ainda maior quando há competição entre os equipamentos sociais. Isto porque a unidade de serviço público que obtiver a melhor classificação na competição receberá provavelmente mais recursos, seus funcionários melhorarão seus rendimentos (através de incentivos por produtividade), e portanto os mesmos consumidores que o aprovaram tenderão a utilizar este serviço continuadamente. A premiação reflete, sem dúvida, um círculo vir- tuoso, saudável como técnica para tornar o Estado mais capaz de responder às demandas da população. Mas, por outro lado, os equipamentos sociais que não conseguirem as melhores avaliações dos consumidores caminharão para um círculo vicioso, ou seja, receberão menos recursos, os seus funcionários não terão incentivos financeiros e ficarão desmotivados, e seus consumi- dores continuarão insatisfeitos. O pressuposto do modelo da competição é de que os consumidores podem escolher a unidade de serviço público cuja qualidade for maior. Contudo, esse pressuposto nem sempre é verdadeiro, pois nem todos os consumidores têm a possibilidade de escolher, de fato, o equipamento social que lhes agradar, em virtude da existência de obstáculos geográficos e financeiros os quais dificultam o acesso a todas as unidades de serviço público. Ademais, se todos os consumidores (ou boa parte deles) escolherem um número limitado de equipamentos sociais, estes ficarão lotados e tenderão, também, a perder qualidade. Enquanto isso, as unidades do serviço público que tiveram inicialmente uma má avaliação, ficarão abandonadase com uma subutilização que por si só já resultará em desperdício de recursos públicos. O modelo da competição pode levar àquilo que a Ciência Política denomina de jogo de soma-zero. Isto é, o equipamento social vencedor (aprovado pela população) no começo do jogo, “leva tudo” (takes all), ganhando todos os incentivos para continuar sendo o melhor. Já a unidade de serviço público que obtiver as piores “notas” dos consumidores, “perde tudo”, o que resultará indiretamente na aplicação de incentivos para que este equipamento social continue sendo o pior. Neste jogo, o maior perdedor é o princípio da eqüidade na prestação dos serviços públicos, transformando alguns consumidores em mais cidadãos do que os outros. Para tentar introduzir os conceitos de accountability e eqüidade na prestação de serviços públicos, alguns autores criaram o Public Service Orientation (PSO), tendência que resumo rapidamente a seguir. 26 3. Public Service Oriented (PSO): a construção da esfera pública Procurarei neste item resumir a discussão existente na corrente do Public Service Oriented (PSO).9 Aqui serei mais breve do que nos outros tópicos por duas razões. A primeira é que a PSO faz parte de um debate muito recente na Grã-Bretanha e, portanto, seus conceitos ainda estão em uma fase de amadurecimento. Como conseqüência disso, a PSO se constitui mais como uma tendência que levanta novas questões e põe em xeque antigos valores do que como uma corrente com um arcabouço teórico fechado. Uma outra observação é necessária. O Public Service Orientation (PSO), embora retome temas pouco discutidos ao longo da década de 80, não propõe a volta a um modelo pré-gerencial, burocrático weberiano. A PSO procura encontrar novos caminhos abertos pela discussão gerencial, explorando suas potencialidades e preenchendo boa parte de suas lacunas. Toda a reflexão realizada pelos teóricos do PSO leva aos temas do republicanismo e da democracia, utilizando-se de conceitos como account- ability, transparência, participação política eqüidade e justiça, questões praticamente ausentes do debate sobre o modelo gerencial. É interessante notar, contudo, que o “objeto” que gerou a corrente do PSO foi “criado” pelo modelo gerencial. Trata-se da problemática da descentralização, a partir da qual foram formulados quase todos os conceitos do PSO. A visão da descentralização destes autores, no entanto, é extremamente crítica quanto ao modelo implementado pelo governo britânico. O argumento de Hambleton (1992) resume a posição do PSO com relação à descentralização. “A justificativa central para defender o governo local não é que ele é um bom meio para prover os serviços (públicos) necessários, o que de fato ele é, mas que ele (o governo local) torna os cidadãos capazes de participar das deci- sões que afetam suas vidas e de suas comunidades” (HAMBLETON, 1992: 11). Portanto, o PSO defende as virtudes políticas da descentralização. No modelo gerencial puro, a descentralização era valorizada como meio de tornar mais eficazes as políticas públicas. Já no consumerism, o processo de descentralização era saudável na medida em que ele aproximava o centro de decisões dos serviços públicos dos consumidores, pensados como indivíduos que têm o direito de escolher os equipamentos sociais que lhes oferecer melhor qualidade. O ponto que aqui distingue o PSO das outras correntes é o conceito de cidadão. Pois, enquanto o cidadão é um conceito com conotação coletiva — pensar na cidadania como um conjunto de 27 cidadãos com direitos e deveres —, o termo consumidor (ou cliente) tem um referencial individual, vinculado à tradição liberal, a mesma que dá, na maioria das vezes, maior importância à proteção dos direitos do indivíduo do que à participação política, ou então maior valor ao mercado do que à esfera pública (POLLITT , 1990: 129). Ao trazer de volta para o debate os conceitos de accountability e de participação dos cidadãos, o Public Service Orientation (PSO) rebate os argumentos dos conservadores ingleses. Para estes, as demandas por partici- pação política sempre foram equiparadas às formas neocorporativas de atua- ção que vigoravam no final da década de 70 (POLLITT, idem: 138). Os teóricos do PSO resgatam os ideais de participação política dentro de um conceito mais amplo, o de esfera pública, que se utiliza da transparência como proteção contra novas formas particularistas de intervenção na arena estatal, como o são o clientelismo e o corporativismo. Portanto, é a partir do conceito de esfera pública (public domain) que é estruturado o conjunto de idéias do Public Service Orientation (PSO). Esfera pública vista como local de aprendizagem social. Isto é, a esfera pública não é só o locus por excelência da participação dos cidadãos, mas sobretudo onde os cidadãos aprendem com o debate público. O conceito de esfera pública como locus de transparência e de aprendizado social deve estar presente também na organização interna da administração pública, sobretudo no momento de elaboração das políticas públicas. O planejamento estratégico, por exemplo, não pode estar confinado à burocracia. Os objetivos políticos definidos pelo planejamento estratégico devem ser discutidos e revelados num processo de debate público (POLLITT, idem: 150). Outro conceito caro ao modelo gerencial, o de competição entre agências públicas, é repensado pelo Public Service Orientation (PSO). Não que a competição seja negada como princípio utilizável no setor público; mas o que é mais ressaltado pela PSO é a possibilidade de cooperação entre as agências de modo a obter um melhor resultado global na oferta de serviços públicos. Desta forma, o princípio da eqüidade, fundamental dentro do PSO, pode ser garantido. Por fim, o Public Service Orientation tem como uma de suas idéias- chave a conjugação entre a accountability e o binômio justiça/eqüidade. Para tanto, é preciso que no processo de aprendizado social na esfera pública se consiga criar uma nova cultura cívica, que congregue políticos, funcionários e cidadãos. Para destacar as diferenças entre o modelo de administração adotado na iniciativa privada e aquele que deve ser adotado no setor público, Stewart e Ranson (1988) fizeram o seguinte quadro: 28 Quadro II. Comparação entre o modelo de administração privada e o modelo de administração do setor público, segundo a teoria do PSO Modelo do Setor Privado Modelo do Setor Público Escolha individual no mercado Escolha coletiva na política Demanda e preço Necessidade de recursos públicos Caráter privado da decisão empresarial Transparência da ação pública A eqüidade do mercado A eqüidade dos recursos públicos A busca de satisfação do mercado A busca da justiça Soberania do consumidor Cidadania Competição com instrumento Ação coletiva como meio político do mercado Estímulo: possibilidade de o Condição: consumidor pode consumidor escolher modificar os serviços públicos Fonte: Adaptado de STEWART & RANSON (1988: 15). Embora faça fortes críticas ao modelo gerencial puro e ao consum- erism, o fato é que o Public Service Orientation (PSO) não joga fora as idéias desenvolvidas no seio do Public Management. Afinal, as discussões sobre eficiência, qualidade, avaliação de desempenho, flexibilidade gerencial, planejamento estratégico, entre as principais, não são negadas, mas há a tentativa de aperfeiçoá-las dentro de um contexto em que o referencial da esfera pública é o mais importante. Ademais, o modelo do PSO foi pensado dentro dos parâmetros do poder local, onde os cidadãos tenderiam a controlar mais a qualidade dos serviços públicos. Mas, como conceber a coordenação do serviço público no âmbito nacional? E quais as medidas que devem ser tomadas para atenuar as desigualdades regionais — menores no caso inglês, mas enormes em paísescomo o Brasil —, e garantir assim uma verdadeira eqüidade? Estas são respostas que o modelo do PSO ainda não oferece. Uma das principais origens desta deficiência encontra-se na concepção extremamente otimista com relação à possibilidade dos cidadãos resolverem na esfera local todos os problemas do setor público (Pollitt, 1990: 1550). A complexidade do mundo contemporâneo e da democracia representativa — que não pode ser meramente substituída pela democracia direta — demandam respostas mais abrangentes e articuladas. 29 Entretanto, a PSO tem uma grande virtude, que é dizer não só como o setor público deve ser mas principalmente o que ele deve ser. Essa é uma das principais lacunas da experiência do modelo gerencial implantado nos últimos anos, como apontam Malcom Holmes e David Shand (1995: 556). Portanto, a PSO tenta reconstruir o setor público mais do que mudá-lo cosmeticamente. No outro lado do Atlântico, os americanos também têm repensado o setor público no sentido de dizer o que ele deve ser, tentando reinventar o governo. 4. Reinventando o governo: novos caminhos para a administração pública americana O presidente americano Ronald Reagan e a primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher elegeram-se com um programa de governo muito parecido, inclusive no que se refere à reforma administrativa. Ambos propunham, inicialmente, a implantação de um modelo gerencial puro, com ênfase no corte de custos e no aumento da eficiência. Thatcher foi, em grande medida, bem sucedida em seu programa de reformular o aparato burocrático. Reagan não. Uma pergunta, portanto, fica no ar: qual a razão do fracasso do governo Reagan em implementar o modelo gerencial puro nos Estados Unidos? A primeira razão do fracasso de Reagan, na verdade, refere-se a um obstáculo que outros presidentes anteriormente tentaram ultrapassar mas não conseguiram. Trata-se da tensão existente entre aumentar a flexibilidade e, ao mesmo tempo, procurar manter as salvaguardas políticas contra a patronagem (NIGRO, 1982). O fato é que a constituição da burocracia pública americana se deu em um contexto marcado pelo combate à politização da administração. No final do século passado e começo deste, na chamada Era Progressista, políticos como Woodrow Wilson, Theodore Roosevelt e Louis Brandeis (OSBORNE & Gaebler, 1994: 14) combateram esta politização, e deixaram para as futuras gerações o conceito de que a administração pública deveria ter mecanismos protetores contra a patronagem. Esta idéia permeia toda a cultura administrativa do setor público americano. O curioso é que os Estados Unidos sempre foram o país por excelência dos business, das técnicas “revolucionárias” da administração privada. Um dos livros que mais influenciou as administrações privadas e públicas em vários lugares do mundo, sobretudo na Grã-Bretanha, foi o In search of excellence: lessons from America’s best — run companies, de 30 Peters e Waterman (1982). Embora tenha sido muito discutido como meio de modificar a burocracia americana, suas idéias gerencialistas puras nunca foram implantadas de fato no governo federal dos EUA. E aqui entra a segunda razão para o insucesso reaganiano. O governo nos Estados Unidos é extremamente descentralizado, ao contrário do bri- tânico. O poder local tem uma enorme autonomia e os governos estaduais também são fortes o suficiente para definirem um padrão de políticas públi- cas. É neles e a partir de suas culturas administrativas que as transformações no setor público ganham corpo. Isto se tornou mais verdadeiro em virtude dos recentes cortes de subsídios federais efetuados pelo presidente Reagan. Assim, os governos subnacionais se viram mais compelidos a moldar seu destino político-administrativo. Apesar da força da patronagem local nos EUA até pelo menos o come- ço deste século, a tradição democrática e republicana — o ideal de self gov- ernment, como já falava Tocqueville das comunidades americanas do século XIX —, sempre esteve presente nos contextos subnacionais de governo. Atual- mente, são eleitas 504.404 autoridades em solo americano, uma para cada 182 eleitores (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 77). Portanto, a segunda razão para o fracasso da implantação de um modelo gerencial puro nos Estados Unidos é que o managerialism teve que conviver com padrões de democratização do setor público incompatíveis com os padrões gerenciais mais ortodoxos. Isto não quer dizer que o managerialism não tenha força nos EUA. Aliás, foi lá que nasceu o chamado Public Management, que nunca se tornou hegemônico, mas algumas das suas técnicas gerenciais estão sendo utilizadas pragmaticamente há muito tempo, quando servem aos interesses da comuni- dade. Frente à escassez das últimas décadas, os governos locais têm procu- rado inovar e estabelecer novas respostas, incorporando grande parte do arsenal de conceitos do managerialism. Só que se procurou encontrar um modelo que respondesse aos ditames da democratização, da busca da efici- ência e do aumento da qualidade dos serviços públicos. Em suma, nos EUA se tentou criar, desde o início, um modelo híbrido. Além da tentativa de se constituir um modelo híbrido (gerencialismo mais democratização), a experiência americana recente tem outra peculiaridade. Ela se refere à busca do novo significado que deve ter o setor público, ou, nos termos de Michael Barzelay (1992), a criação de um novo modelo organizacio- nal, o qual ele denomina de paradigma pós-burocrático. Como na Public Service Orientation desenvolvida na Grã-Bretanha, o objetivo tem sido o de dizer o que deve ser o governo e não simplesmente como ele deve ser. É a procura de um novo paradigma de governo, e não somente de administração pública. A obra de David Osborne e Ted Gaebler, Reinventando o governo (1994), é o marco na nova discussão da administração pública americana. 31 Trata-se de discutir os fundamentos do governo no que se refere à adminis- tração pública. Para tanto, é estruturado um modelo híbrido e eclético de análise, incorporando conceitos que estiveram separados no desenvolvimento do modelo gerencial inglês, tais como a implantação de uma administração por objetivos — ou por missões —, a mensuração do desempenho das agên- cias através dos resultados, a busca da qualidade total como método adminis- trativo, a ênfase no cliente, a transferência do poder aos cidadãos e tentar garantir a eqüidade. A discussão de Osborne e Gaebler começa subvertendo o ideal que impulsionou o gerencialismo na Grã-Bretanha no início da década. Em vez de propor o “rolling back the state” thatcheriano, os autores propõem uma re- definição da atividade governamental. “Nosso problema fundamental é o fato de termos o tipo inadequado de governo. Não necessitamos de mais ou menos governo: precisamos de melhor governo. Para sermos mais precisos, precisamos de uma melhor atividade governamental” (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 25). A atividade governamental é entendida como algo com uma natureza específica, que não pode ser reduzida ao padrão de atuação do setor privado. Entre as grandes diferenças, a motivação principal dos comandantes do setor público é a reeleição, enquanto os empresários têm como fim último a busca do lucro; os recursos do governo provêm do contribuinte — que exigem a realização de determinados gastos —, e na iniciativa privada os recursos são originados das compras efetuadas pelos clientes; as decisões governamentais são tomadas democraticamente e o empresário decide sozinho ou no máximo com os acionistas da empresa — a portas fechadas; por fim, o objetivo de ambos é diverso, isto é, o governo procura fazer “o bem” e a empresa “fazer dinheiro” (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 21-23). Esta diferenças implicam, necessariamente, em procurar novos caminhos para o setor público, tornando- o sim mais empreendedor, mas não transformando-o em uma empresa. Ao contrário também da epidemia generalizada contra a burocracia que vigorou nos EUA no começo da década de 80 (KAUFMAN, 1981), o Reinventando o governo não coloca a culpa dos problemasgovernamentais em seus funcionários; o problema não está nas pessoas, mas no sistema (OSBORNE & GAEBLER, idem: XV). É a reforma das instituições e dos incentivos que tornará a burocracia apta a responder novas demandas. A reforma do sistema significa, ao mesmo tempo, a introdução de métodos voltados para a produção qualitativa de serviços públicos com a prioridade dada aos clientes e cidadãos como razões últimas do setor público, o que quer dizer não só que eles devem ser bem atendidos, mas que devem ser também chamados a participar do governo, definindo os destinos de suas co- munidades. A maioria dos exemplos do livro de Osborne e Gaebler mostra que 32 a melhor resposta para tornar melhor um serviço público é chamar a comu- nidade a participar de sua gestão, seja fiscalizando, seja trabalhando volun- tariamente na prestação de serviços — constituindo-se numa resposta adequada tanto para a questão da eficiência como para o problema da transparência. Portanto, a modernização do setor público deve caminhar pari passu com o aumento da accountability. Mas a reinvenção do governo deve ser realizada ainda garantindo o princípio da eqüidade. Desta maneira, a introdução de mecanismos geren- ciais, tais como são propostos no livro, não é incompatível com a busca de justiça redistributiva, um conceito que por muito tempo foi abandonado no debate sobre reforma administrativa. Osborne e Gaebler propõem dez princípios básicos para reinventar o governo, listados a seguir: 1 — Competição entre os prestadores de serviço; 2 — Poder aos cidadãos, transferindo o controle das atividades à comunidade; 3 — Medir a atuação das agências governamentais através dos resultados; 4 — Orientar-se por objetivos, e não por regras e regulamentos; 5 — Redefinir os usuários como clientes; 6 — Atuar na prevenção dos problemas mais do que no tratamento; 7 — Priorizar o investimento na produção de recursos, e não em seu gasto; 8 — Descentralização da autoridade; 9 — Preferir os mecanismos de mercado às soluções burocráticas; 10 — Catalisar a ação do setores público, privado e voluntário. Não se trata aqui de comentar ponto por ponto a lista exposta acima, mas de discutir, rapidamente, algumas das idéias do Reinventando o gover- no. A primeira refere-se ao conceito de governo catalisador, que “navega em vez de remar”. O intuito desse conceito não é tornar o Estado mínimo, mas redirecionar a atividade governamental. Inclusive, os autores renegam o conceitual privatista, típico do neoliberalismo. “A privatização é uma res- posta, não a resposta”, afirmam Osborne e Gaebler. O sentido do governo catalisador é reformular as relações Estado/ mercado e governo/sociedade. Neste sentido, o governo catalisador se aproxi- ma das idéias de Pollitt (1990: 149-150), que conceitualiza a relação pública entre cidadãos e governo como uma parceria e não como uma dependência. Indo para outra discussão do Reinventando o governo, encontramos um referencial interligado ao anterior, qual seja, o tratamento da população 33 como cliente e como cidadão. Cliente dos serviços públicos, que deseja a melhor qualidade possível dos equipamentos sociais. E cidadão que quer e tem como dever participar das decisões da comunidade, e por isso a descen- tralização da autoridade é um objetivo fundamental para alcançar esse grau de accountability. Em suma, não há uma antinomia entre os conceitos de cliente e cidadão, eles são complementares, e fazem parte da reinvenção do governo em sua relação com a sociedade. No que tange à gestão da burocracia, são basicamente dois os instru- mentos propostos. O primeiro é a orientação administrativa por missões. A partir dela, o governo pode ser mais flexível, como também torna-se mais fácil a avaliação de cada agência, comparando-se o objetivo inicialmente formulado com o resultado efetivamente alcançado. A orientação por mis- sões, portanto, é um mecanismo que congrega os ideais do Consumerism (flexibilidade) com os da corrente gerencial mais preocupada com a avalia- ção de resultados. Entretanto, a discussão em torno da avaliação de resultados na obra de Osborne e Gaebler toma um rumo diferenciado daquele proposto pelo geren- cialismo puro. Para os dois autores, a avaliação da eficiência não pode ser dissociada da avaliação da efetividade. Pois, se a eficiência mede o custo do que foi produzido, a efetividade mede a qualidade dos resultados (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 381). Desta maneira, “quando medimos a eficiência, podemos saber quanto nos custa alcançar uma produção determinada; ao medir a efetivi- dade, sabemos se nosso investimento valeu a pena. Nada mais tolo do que fazer com eficiência o que não deveria continuar a ser feito” (idem: 381). Osborne e Gaebler tentam definir a relação entre eficiência e efetivi- dade a partir dos objetivos do governo. E concluem: “Não há dúvida de que o público quer um governo mais eficiente, mas ele deseja ainda mais um governo efetivo” (OSBORNE & GAEBLER, idem: 382). Há mais dois pontos do Reinventando o governo que gostaria de comentar. Um é a definição da competição como um dos valores fundamentais de um setor público reconstruído. A competição seria uma forma de melhorar a qualidade do governo, uma vez que garante o controle dos serviços públicos pela população. Competição, para os autores, não é um conceito que só tem validade no contexto do setor privado. O ambiente competitivo, na verdade, serve para acabar com o monopólio — que tanto pode reinar no setor público como no privado — e encorajar a inovação organizacional. Por isso, Osborne e Gaebler afirmam que para resolver os problemas da prestação de serviços públicos, “a questão não é público versus privado, mas competição versus monopólio” (OSBORNE & GAEBLER, idem: 80). Cabe uma observação aqui que toca num ponto não resolvido pela idéia de reinventar o governo. Na opinião dos autores, a competição entre 34 os serviços públicos tem que ocorrer mantendo-se o princípio da eqüidade. Há, no entanto, uma grande dificuldade para alcançar tal objetivo. A preocupação é louvável, mas de fato Osborne e Gaebler não apresentam uma resposta institucional para o dilema competição ou eqüidade — que quer eles queiram ou não, apresenta-se na realidade como um gigantesco dilema. Por fim, uma das questões mais instigantes levantadas pelo Reinven- tando o governo é o peculiar conceito de planejamento estratégico elaborado pelos autores. Na literatura internacional, o planejamento estratégico — ou a lógica da estratégia, nos termos de Crozier (1992) — refere-se à possibilidade mais flexível de gestão frente às constantes mudanças do mundo contem- porâneo. Portanto, é uma visão de mais curto prazo. Para Osborne e Gaebler, contudo, o planejamento estratégico procura antecipar o futuro, prevendo tendências de mais longo prazo. Mas a antecipação de tendências futuras não pode ser uma atividade confinada à burocracia. O planejamento estratégico tem que envolver a so- ciedade e ser incorporado à cultura dos funcionários. Para Osborne e Gaebler, não é o planejamento estratégico que importa, mas sim o pensa- mento estratégico e a conduta estratégica. “O elemento importante não é o plano, mas sim, a atividade do planejamento. Ao criar consenso em torno de uma determinada visão de futuro, a organização ou a comunidade promovem em todos os seus membros uma percepção comum a alcançar” (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 256). A este conjunto de princípios apresentados pelo Reinventando o governo, muitas críticas foram feitas. Uma das principais trata da dificuldade de lidar com os aspectos institucionais mais gerais da administração pública americana. Isto não se verifica, porém, pois eles enfatizaram, em determi- nada passagem do livro, os obstáculos político-institucionais presentes nos EUA, sobretudo a fraqueza dos partidos e a natureza do presidencialismo, e acreditam que o contexto político é fundamental. Comentando a respeito das pressões contrárias à reforma administrativa nos Estados Unidos, Osborne e Gaebler deixam claraa influência institucional. “Quando os partidos políticos (americanos) eram mais fortes, eles, às vezes, podiam superar essas pressões (contrárias às reformas). Um pre- sidente podia definir uma plataforma coerente, de longo prazo, e usar a disciplina partidária para obrigar os legisladores a cooperar, dando-lhes a cobertura política para isso. (“Sei que meus eleitores não gostam da idéia, mas fiz isso pelo presidente”). Nos sistemas parlamentaristas ainda é o que acontece. Nos Estados Unidos, contudo, (hoje) os partidos políticos são tão débeis que os congressistas funcionam em larga medida como indivíduos, levantando fundos próprios, obtendo êxito ou insucesso conforme sua 35 reputação e a maneira como votam. Por isso, não há praticamente qualquer incentivo para olhar além dos interesses de curto prazo do eleitorado. E, num sistema eleitoral dominado pelo dinheiro, isso significa, muitas vezes, a predominância dos interesses de curto prazo dos principais contribuintes da campanha eleitoral” (OSBORNE & GAEBLER, 1994: 258). Em resumo, os incentivos institucionais são fundamentais para a realização de qualquer reforma administrativa. Ninguém pode acusar Osborne e Gaebler de não terem dado atenção à esfera política. A maior crítica ao Reinventando o governo foi feita por Charles Goodsell, em seu texto Reinvent government or Rediscover it? (1993), no qual ele afirma que Osborne e Gaebler estão tentando apenas retomar alguns temas abandonados pelo debate gerencial na década de 80, mas mesmo assim não conseguiram entender a natureza da administração pública da gestão democrática. Como contraponto, Goodsell apresenta o seu decálogo definidor do que deve ser uma administração pública democrática. 1 — Através de seus representantes eleitos, os cidadãos, e não os empresários, devem estar a cargo do governo; 2 — A função de governo é servir o interesse público, não criar reservas de mercado ou alimentar “egos empresariais”; 3 — O governo tem que operar sob as regras da Constituição e das leis, e não a partir de missões comandadas por particulares; 4 — O governo pode entrar em associações com entidades privadas, sempre e quando for o sócio principal; 5 — O governo deve ser flexível e inovador, porém também deve ser suscetível à prestação de contas ao público; 6 — O governo deve buscar resultados, todavia sem atropelar aqueles que vão desempenhar as tarefas, ou seja, os funcionários públicos; 7 — No governo, a conduta dos gerentes deve se submeter ao ideal de igualdade de oportunidades; 8 — É importante simplificar regras, contanto que se respeite a integridade dos processos legais; 9 — A flexibilização orçamentária é aceitável, mas não a redução de controles destinados a proteger os recursos públicos; 10 — Os problemas políticos devem ser solucionados com criativi- dade, sem no entanto dar vantagens a quem pode se beneficiar das mudanças (Goodsell, 1993). É fundamental tecer alguns comentários a respeito do decálogo elaborado por Goodsell. Em primeiro lugar, a contraposição que ele faz pressupõe a caracterização da obra de Osborne e Gaebler como um exercício 36 de gerencialismo puro, o que a meu ver é um tremendo engano. Osborne e Gaebler consideram imprescindíveis os conceitos de eqüidade, accountability e participação dos cidadãos no governo a fim de reconstruir o setor público. Ade- mais, defendem a reinvenção do governo, e não sua substituição pelo mercado. Além disso, Goodsell não percebe que com a crise do Estado con- temporâneo em todas as suas dimensões — as quais descrevi na introdução —, é necessário repensar a relação do Estado com a sociedade e do governo com os cidadãos. É preciso redirecionar a atividade governamental, tentando conjugar no setor público qualidade com eficiência, flexibilidade organiza- cional com accountability, criatividade com busca de eqüidade. Estas com- binações de valores de fato não são fáceis de serem obtidas; contudo, o desafio é exatamente este: encontrar novas saídas através da imitação do que deu certo (inclusive no setor privado) e tentar sempre inovar. Tudo isto numa era de escassez, rápidas mudanças sociais (no padrão de emprego, por exemplo) e tecnológicas, globalização e, como já foi dito antes, falta de um consenso totalmente estruturado acerca de qual deve ser o papel do Estado. O problema de Goodsell é que ele se agarra ao antigo modelo de Estado, e seu correspondente no âmbito administrativo, o modelo buro- crático weberiano. Num momento de incertezas como o atual, a adoção dos padrões de valores que realmente deram certo em uma época de prosperidade tem uma certa lógica. Mas, infelizmente, tais padrões não respondem às dificuldades atuais. É preciso encontrar novas saídas, e Osborne e Gaebler apresentam um eclético conjunto de princípios que nos instigam a refletir sobre quais caminhos devem ser utilizados pelo setor público no futuro. O comentário mais pertinente sobre o Reinventando o governo foi feito por Grant Jordan (1994). Entre as várias críticas endereçadas ao livro, uma se destaca. Para Jordan, os autores só contam os casos de sucesso e não analisam situações em que não foram encontradas respostas satisfatórias. Assim, perde-se o nexo explicativo, ou seja, não podemos saber como sair de situações realmente complicadas. Com isso, os valores enunciados pelos autores, como qualidade e redirecionamento da atividade governamental, podem se tornar apenas e tão somente truísmos, aceitos por todos, mas que ninguém sabe de fato como im- plementá-los, sobretudo se tentarmos transportar o estudos de casos feitos nos EUA para outras realidades, historicamente distintas. Aqui está o grande problema do livro de Osborne e Gaebler. Eles conseguem enunciar uma conjugação de valores importantes para reinventar o governo, mas não criam um arcabouço teórico que explique e possibilite a implementação de reformas no setor público. Para isso, o melhor caminho talvez seja aumentar os estudos comparativos, ressaltando as similitudes e as peculiaridades dessa revolução pós-burocrática que toma conta não só dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha mas de uma gama enorme de países. 37 IV. Conclusão Os desafios para a administração pública do século XXI O impacto da crise da burocracia weberiana e da implementação do modelo gerencial em vários lugares transformou o atual debate na área de administração pública. A reforma administrativa ligada ao managerialism entrou na ordem do dia. Como nota B.G. Peters, “mesmo quando a noção de ‘privatização’ tem conotações negativas, como na Escandinávia, a expressão ‘modernização’ aparece como positiva para a maioria dos cidadãos” (1992: 307). O modelo gerencial, no entanto, não é um corpo teórico fechado. Ele vem sofrendo uma série de mudanças e sendo adaptado aos países em que fincou raízes. Mas mesmo assim não é possível dizer que o managerialism se constitui num novo paradigma, no sentido de Thomas Kuhn, ou seja, um modelo que substitui por completo o antigo padrão burocrático weberiano. Na verdade, o que mostram estudos comparados como os realizados por Hood (1996), Cassese (1989) e Flynn (1996) é que as respostas administrativas dos vários países perpassam por técnicas gerenciais de diversos matizes, democratização da relação entre o Estado e a sociedade e mesmo a manutenção de determinados elementos burocráticos weberianos. Trata-se de um pluralismo organizacional sob bases pós-burocráticas vinculadas aos padrões históricos (institucionais e culturais) de cada nação. Nesta nova situação, o gerencialismo cumpre um importante papel, mas não se transforma num paradigma. Apresento a seguir, de forma sucinta, as principais tendências de modificação no antigo padrão burocrático weberiano, vinculadas a estruturas pós-burocráticas profundamente influenciadas pelo debate em torno do modelo gerencial. a) Incentivo à adoção de parcerias com o setor privado e com as organizações não governamentais (ONGs); b) Ampla introdução de mecanismos de avaliação de desempenho individual e de resultados organizacionais,atrelados uns aos outros, e baseados em indicadores de qualidade e produtividade; 38 c) Maior autonomia às agências governamentais e, dentro delas, aos vários setores, horizontalizando a estrutura hierárquica; d) Descentralização política, apoiada no princípio de que quanto mais perto estiver do cidadão o poder de decisão com relação às políticas públicas, melhor será a qualidade da prestação do serviço e, de fundamental importância, maior será o grau de accountability. Os governos também têm atuado no sentido de implantar políticas de coordenação entre as várias esferas administrativas; e) Estabelecimento do conceito de planejamento estratégico, adequado às mudanças no mundo contemporâneo e capaz de pensar, também, as políticas de médio e longo prazo; f) Flexibilização das regras que regem a burocracia pública, principalmente o Direito Administrativo, com efeitos inclusive em países com modelos extremamente burocratizados, como a Espanha, a França e a Itália (D’ALBERTI, 1992). A negociação coletiva, a introdução de ganhos de produtividade e novos critérios de promoção têm flexibilizado a administração de pessoal no setor público. Como aponta o último relatório do Banco Mundial sobre o mundo do trabalho, a globalização vai obrigar também o Estado a mudar suas políticas de pessoal. “Muitos governos estão se dando conta de que uma exposição maior à concorrência internacional requer burocracias flexíveis que funcionem bem. Para serem empregadores eficazes e assegurar serviços de alta qualidade, os governos necessitam reformar suas políticas de remuneração, seleção e promoção de pessoal (...)” (RELATÓRIO DO BANCO MUNDIAL, 1995: 109). g) Mesmo com a flexibilização da política de pessoal, a profissionalização do servidor público continua sendo prioridade, como bem o demonstra o caso italiano, em que 2/3 das reformas administrativas ocor- reram na área de Recursos Humanos, sobretudo nos Planos de Carreira (CASSESE, 1989). Robin Butler, alto funcionário da burocracia inglesa, escre- veu recentemente que a manutenção do conceito de carreira no serviço públi- co é um dos objetivos primordiais de qualquer governo (BUTLER, 1993: 404). Além disso, as políticas de motivação têm recebido grande atenção, uma vez que pouca atenção foi dada a esta área no início da implantação do modelo gerencial. Como argumenta Pollitt, o managerialism “enfatizava mais o controle de pessoal do que o seu desenvolvimento; mais à avaliação do que o estímulo; mais no (controle) dos recursos do que na formação moral dos funcionários” (POLLITT, 1990: 60). Atualmente, há também uma revalorização da questão da ética no serviço público (GREEN, 1994; DENHARDT, 1994). 39 h) Desenvolvimento das habilidades gerenciais dos funcionários, em particular os de nível médio e os do alto escalão burocrático. Neste sentido, os funcionários precisam possuir uma grande versatilidade, atuando em vários funções. As principais funções são a de administrador, vinculada à capacidade de trabalhar com os regulamentos rotineiros; a de produtor, ligada ao aumento da produtividade com qualidade; a de inovador, capaz de encon- trar novas respostas e modernizar o fluxo de decisões; e a de integrador, habilitado à congregar seu grupo a atuar em conjunto na busca de um obje- tivo. Este conceitos são relacionados no quadro abaixo. Quadro III: As funções do dirigente público Fonte: apud METCALFE & RICHARDS (1989: 72). A grande pergunta que fica é como esta discussão pode ajudar no entendimento do caso brasileiro. O quadro administrativo brasileiro é mar- cado por uma multiplicidade de situações, um modelo híbrido muito peculiar. Em primeiro lugar, a estrutura administrativa brasileira é influenciada por um lado, pelo Direito Administrativo ibérico e francês, o que resulta em uma rigidez organizacional maior — um maior engessamento, como se diz nos dias atuais. Por outro ângulo, no entanto, a influência americana advinda do modelo presidencialista, que dá uma configuração peculiar ao organograma do Executivo, e sobretudo ao federalismo, que torna mais consorciativo o Estado brasileiro, resulta em um maior grau de flexibilidade e politização do nosso sistema administrativo. O híbrido administrativo brasileiro também é formado pela convi- vência entre setores administrativos atrelados a uma burocracia meritocrá- tica, outros nichos dominados pelo patrionialismo e cartorialismo (princi- palmente no nível subnacional e nos escalões mais baixos do Governo Federal), e ainda outra parcela do Estado preenchida pelo sistema de spoil INTEGRADOR INOVADOR ADMINISTRADOR PRODUTOR Regularidade de procedimento Estabilidade Mudanças Melhora de resultados 40 system, no seu sentido mais moderno, que politiza o alto escalão do orga- nograma estatal, podendo ou não levar em conta a racionalidade técnica.10 Por fim, a Administração Pública brasileira moderna é dividida em Direta e Indireta, sendo a segunda historicamente mais autônoma, com salá- rios melhores e mais flexível, enquanto a Administração Direta é a menos permeada por padrões meritocráticos, bem como a que oferece horizontes profissionais menos promissores aos seus funcionários. Mudanças que não levem em conta este hibridismo a fim de alterá-lo de fato podem, na verdade, acentuar as tensões dentro do modelo. Ora, na primeira vez que se tentou uma reforma administrativa com cunho gerencial no País, a partir do Decreto-Lei 200 em 1967, a tensão dentro do modelo foi exacerbada. É lógico que é importante ressaltar seus aspectos positivos, entre os quais a sua originalidade e sentido inclusive vanguardista no cenário internacional — como salienta um dos maiores especialistas em Administração Pública no mundo, Gerald Caiden (1991) —; sua ênfase na descentralização e flexibilidade administrativa; a introdução do espírito gerencial em alguns segmentos da Administração Pública. No entanto, o arranjo institucional montado pelo Decreto-Lei 200 não deu conta do caráter híbrido de nosso modelo administrativo, aumentando parcela de seus problemas. Um deles é o conflito entre a Administração Direta e Indireta. Segundo Luciano Martins (1995), este conflito cresceu ainda mais com a reforma de 1967, pela seguinte razão: “A ausência de regras institucionais claras, como por exemplo, nos contratos de gestão europeus, para regulamentar os vínculos entre o Poder Executivo do governo e a administração do setor paraestatal e das empresas controladas pelo Estado, introduziu uma espécie de tensão permanente nesse relacionamento, quando não efeitos desastrosos para ambos os lados” (MARTINS, 1995: 21). Atualmente, os aspectos do híbrido administrativo brasileiro estão envoltos pelas regras da Constituição de 1988, que tornou a legislação referente à burocracia muito mais rígida, às vezes garantindo até a efetivação das boas características do antigo modelo weberiano, mas que, infelizmente, muitas outras vezes serviu apenas para defender o corporativismo do corpo de funcionários públicos e não aos interesses do cidadão. Ademais, o modelo weberiano não responde mais a uma série de dilemas administrativos postos ao Estado-nação, como tentei demonstrar ao longo do texto. Neste sentido, o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado é um grande avanço, partindo da experiência internacional, mais particularmente da vertente gerencial inglesa, e apontando para a necessidade de se construir uma Administração Pública condizente com as mudanças ocorridas no mundo. Não há espaço aqui para comentar mais pormenoriza- 41 damente o Plano Diretor, nem é este o intuito do trabalho. Mas ressalto que, apesar do progresso representado pela proposta, ela tem, em termos gerais, dois grandes problemas. Primeiro, transforma o modelo gerencial inglês, que per si já não é monolítico, em paradigma global de mudança, devendo ser transportado assim à realidade brasileira. Porém, o que há hoje é um pluralis- mo organizacional no setor público, adequando-se desta maneira às respostas administrativas às especificidadesdas nações. Não existe uma resposta única, e precisamos aprender com diversas experiências para adequá-las ao nosso modelo híbrido. É este o desafio. Segundo, a atual proposta não dá conta do hibridismo da estrutura administrativa brasileira. Novamente, não posso desenvolver aqui a contento este ponto, mas é possível citar dois problemas não tocados pelo Plano Diretor: os efeitos da organização federativa na Administração Pública e o dimensionamento dos cargos em comissão, base do spoil system do País, e responsável pelo enfraquecimento da burocracia meritocrática do alto escalão. Mesmo com esses problemas, o Plano Diretor pode caminhar para a construção de uma Administração Pública pós-burocrática, passo fundamental para melhoramos a performance do Estado. E mais: pode realizar, se bem conduzido politicamente, algo inédito em nossa história administrativa: refor- mar profundamente a Administração Pública em um período democrático, contrastando com as duas outras grandes reformas deste século, a do Estado Novo e o Decreto-Lei 200, ambas implementadas por regimes autoritários. 42 Notas 1 Agradeço a leitura atenta do texto feita pelo ministro Luiz Carlos Bresser Pereira e pelos alunos do curso de gestores da ENAP (turma de 1996). Incorporei, na medida do possível, as críticas, mas as responsabilidades pelos eventuais erros são todas minhas. 2 Christopher Hood mostra, na verdade, que no panorama atual a pluralidade de respostas não exclui inclusive dinâmicas burocráticas weberianas para determinados problemas da Administração Pública (HOOD, 1996: 171). 3 É interessante observar que várias pessoas ligadas a interesses empresariais participaram dos debate sobre as reformas das burocracias públicas nos Estados Unidos e Grã-Bretanha. A Comissão Grace montada pelo governo Reagan para repensar o papel do Estado, por exemplo, possuía diversos líderes empresariais preocupados em recomendar que o setor privado poderia exercer muito melhor certas atividades do que o setor público (POLLITT, 1990: 137). 4 Outras técnicas de avaliação de desempenho e controle orçamentário são a cost-benefit analysis (CBA), o planning programming budgeting (PPB) e o zero-based budgeting (ZBB). 5 Para Crozier, enquanto a antiga visão de planificação estatal implicava em alcançar o melhor resultado técnico, a lógica da estratégia procura alcançar o equilíbrio entre as demandas dos atores envolvidos, principalmente levando em conta a representatividade e o poderio de cada grupo (CROZIER, idem: 93-94). 6 FLYNN, 1996: 10-11. Dos textos utilizados aqui, este é o que melhor consegue mostrar, ao mesmo tempo, as similitudes entre as diversas experiências européias e o caráter pluralista das atuais reformas admi- nistrativas. De modo que sua conclusão aponta para a força e importância do modelo gerencial, mas ressaltando o diferente uso das técnicas ge- renciais e a subordinação destas às peculiaridades institucionais e cul- turais de cada país. 7 Ver, entre outros, WALSH, 1991; POLLITT, 1990; CLARKE, 1993; STEWART & RANSON, 1988; FREDECKSON, 1992. 43 8 CLARKE, 1993: 22. 9 Pollitt (1990) faz um excelente resumo das idéias do Public Service Orientation (PSO) e dele eu faço uso em quase toda a discussão realizada nesta parte do artigo. 10 Faço uma diferenciação não usual na literatura brasileira entre patrimonialismo e spoil system, no sentido mais moderno desta palavra. O primeiro refere-se à apropriação privada dos cargos públicos, apenas e tão somente, levando quase sempre à irracionalidade da ação estatal nestes setores. O segundo também é um preenchimento político dos cargos públicos, vinculado ao alto escalão e à busca do apoio aos projetos do Executivo no Legislativo num nível mais macro, e que por vezes pode levar à racionalidade da ação estatal, uma vez que a eficiência dos ocupantes destes cargos será relevante na barganha política. Um exemplo disso é qualidade dos ocupantes de boa parte dos DAS, como mostram os excelentes estudos de BEN SCHENEIDER (1994) e de BRESSER PEREIRA (1996), cargos estes quase sempre preenchidos pelo spoil system. Em suma, o patrimonialismo e o spoil system podem ter efeitos diferentes; no entanto, o que os iguala é o seu caráter político, a possibilidade de des- continuidade administrativa presente em suas lógicas e, principalmente, o enfraquecimento da burocracia meritocrática que eles trazem em seu bojo. Talvez seja este último aspecto o mais deletério de todos. 44 Bibliografia AUCOIN, P. 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Porque foi contruída no curso da evolução histórica, a “concepção francesa do serviço público” repousa, na realidade, sobre a combinação e a fusão de três dimensões:funcional, axiológica e jurídica:1 ela se caracteriza pela extensão da esfera da gestão pública, pela especificidade dos valores que governam seu funcionamento e pela particularidade das regras jurídicas que a ela se aplicam; ora, a reforma do Estado não atinge nenhum destes aspectos. Ela não visa resolver o sensível problema da delimitação da área de ação dos serviços públicos. É verdade que a circular do dia 26 de julho de 19952 fizera desta delimitação seu primeiro “objeto prioritário”. Tratava-se de tornar claras as funções do Estado e a área de ação dos serviços públicos”, notadamente definindo, “domínio por domínio, a fronteira entre as funções que pertencem às pessoas públicas e aquelas que podem remontar a protagonistas privados”; mas este objetivo desapareceu do documento de trabalho,3 cujas diretrizes determinaram a abertura, em março de 1996, de uma extensa composição entre as diferentes pessoas envolvidas nesta supressão que, sem dúvida, resultou dos movimentos sociais que agitaram o setor público, em dezembro de 1995. A reforma do Estado não tem Revista do Serviço Público Ano 47 Volume 120 Número 3 Set-Dez 1996 Jacques Chevallier é professor da Universidade de Paris II, Panthéon — Assas. RSP 35 mais a ambição de promover uma nova axiologia aplicável ao público, mas antes pretende aprofundar e ampliar as referências tradicionais; também não modifica a própria essência do regime administrativo, mesmo se ela pretende inverter a regra segundo a qual o silêncio da administração provoca uma decisão implícita de recusa. Ainda mais explicitamente, o documento de trabalho indica que não se trata “nem de modificar o estatuto da função pública”, “nem de atacar os princípios do serviço público”. A reforma do Estado pretende, ao contrário, ser “fiel aos princípios fundamentais da nossa tradição republicana”: na França, o Estado identificar-se- ia, com efeito, à República, e este “Estado Republicano”, “responsável pela coesão social da nação, pela igualdade de acesso de todos aos grandes serviços públicos, pelo respeito ao direito, pela defesa dos interesses da França no mundo”, não poderia ser posto em causa; tratar-se-ia apenas, então, “de adaptar os serviços públicos às exigências do mundo moderno.” A continuidade em relação à circular Rocard de 23 de fevereiro de 1989,4 segundo a qual os serviços públicos deveriam ser capazes de assegurar o cumprimento “das funções primordiais do Estado, ou seja, a defesa dos valores republicanos, a defesa do interesse geral e a promoção do progresso econômico e social”, é, neste aspecto, surpreendente. 2) Convém, no entanto, ir além desta primeira apreciação. Por um lado porque a reforma do Estado não pode ser dissociada dos movimentos paralelos de reforma que afetam alguns serviços públicos, particularmente sob a pressão das diretrizes européias: a reforma das telecomunicações que foi adotada em junho de 1996 é um bom exemplo disto; a reforma do Estado intervém num contexto no qual os serviços públicos são constrangidos a um processo de redefinição que destrói seus modos de organização e de funcionamento, o que não deixa de lhe conferir um colorido singular. Por outro lado, porque ela mesma atinge alguns aspecto – talvez menos visíveis mas não menos essenciais – da “concepção francesa do serviço público”: afora os elementos anteriormente evocados, esta concepção implica, com efeito, em uma certa visão da relação entre a administração e a sociedade, do exercício do poder no interior do Estado (hierarquia) e da arquitetura administrativa (unidade), que é precisamente a meta da reforma do Estado; também o impacto do movimento em curso sobre o serviço público não poderia ser subestimado. a) Sob este aspecto, a reforma do Estado apresenta-se, aparentemente, como representante da política de modernização administrativa que foi desenvolvida na França, como em outros países ocidentais, a partir do início dos anos oitenta.5 Pondo em questão as estruturas axiológicas e práticas sobre as quais repousava a ação RSP 36 pública, a crise do Estado-provedor provocou, com efeito, a retomada do reformismo administrativo: esta retomada foi expressa de início pelo surgimento de novas temáticas (produtividade, avaliação, no- vas tecnologias, inovação, transparência...); em seguida, estas diversas dimensões foram integradas a uma problemática global de reforma sustentada pela idéia de modernização. Diversas variantes desta política foram sucessivamente elaboradas: o caminho da “qualidade”, asseverado pelo governo Chirac em 1986, visava melhorar as performances dos serviços públicos, inspirando-se acentuadamente em métodos de gestão privada; a “renovação do serviço público”, expedida pelo governo Rocard em 1989, apoiava- se em funcionários instituídos como motores de mudança e sobre o desenvolvimento do diálogo social nos serviços; quanto à reforma do Estado, conduzida pelo governo Juppé em 1995, ela coloca em primeiro plano o administrado — “melhor servir os cidadãos” aparece como o objetivo primeiro de uma reforma que visa “situar o usuário no centro da administração”, “o cidadão no coração do serviço público”. A ordem das prioridades é, então, evolutiva; mas, além destas diferenças, perfilam-se fortes elementos de continuidade: trata-se ainda de buscar uma maior eficácia administrativa, atenuando-se a rigidez interna e externa inerente à concepção tradicional do serviço público, fortemente marcada pela racionalidade burocrática. Este reformismo não é exclusivo da França: em toda parte as administrações públicas confrontaram-se com os mesmos desafios e foram forçadas a adaptar seus modos de organização e de ação;6 se estas políticas variam em função dos contextos nacionais e dos equilíbrios partidários, elas se caracterizam por uma convergência evidente de inspiração e envolvem implicações idênticas (abrandamento dos métodos de gestão, responsabilização dos dirigentes, melhoria do serviço prestado aos usuários). b) Não deveríamos, todavia, ir tão longe nesta via, sob o risco de resvalar num esquema determinista (haveria uma única trajetória de reforma) e um pouco fatalista (a sucessão dos rumos das reformas testemunharia, ao mesmo tempo, a amplitude das resistências e a dificuldade de fazer as coisas evoluírem). As políticas de modernização administrativa não são uma simples repetição literal de um processo recorrente: cada uma delas deve ser considerada na sua singularidade: ademais, elas contribuem para a reformulação do problema da reforma administrativa, uma vez que o conduzem em novas direções. Se, então, a reforma do Estado se situa no prolongamento das polít icas precedentes de modernização, em especial da “renovação do serviço público”, isto RSP 37 não significa que ela não apresente elementos próprios, que devem ser postos em evidência. Uma das dificuldades da análise provém do caráter bastante heterogêneo de uma reforma cujos objetivos se situam em níveis muito diferentes, mais do que da necessidade de se detalhar as múltiplas medidas pontuais,7 relativas, por exemplo, à simplificação e à qualidade, ou de se interessar pelas reformas setoriais, visando melhor organizar a ação pública numa série de áreas como a saúde, a cultura, o ensino superior ou a pesquisa; nós nos deteremos às orientações de conjunto, que testemunham inflexões não negligen- ciáveis no que concerne à condução da mudança (I), à relação administrativa (II), ao estatuto dos agentes (III) e à arquitetura administrativa (IV). Uma questão permanece colocada, questão que constitui, sem dúvida, o ponto cego da reforma, a saber, qual vem a ser o lugar do serviço público na economia e na sociedade, o que será conveniente evocar na conclusão. I – A condução da mudança A maneira de se conduzir o processo de mudança adminis- trativa não constitui um simples problema de método ou de estratégia de reforma: ela constitui, na realidade, o revelador da lógica que preside a construção do serviço público. É por este motivo que o estilo autoritário, que por muito tempo prevaleceu na Françaem matéria de reforma administrativa, era indissociável da concepção tradicional do estatuto dos funcionários: os funcionários eram tidos como sujeitados, não dispondo, enquanto tal, de um direito de consideração, fiscalização e controle das regras que comandam o funcionamento administrativo;8 e, desde então, sofrem o impacto das reformas decididas sem sua participação — e na verdade con- tra eles — na medida em que a problemática clássica da reforma administrativa era, durante a terceira República, do tipo deflacionista. Desde os anos oitenta, uma nova visão da modernização adminis- trativa foi apresentada: é claro que esta modernização não pode ser levada a cabo sem a adesão e a participação ativa dos agentes; ela deve ocorrer com, e mesmo pelos agentes. Este novo estilo con- sensual de reforma mostra que os funcionários perderam a condição de sujeitados para tornar-se protagonistas, devendo estar totalmente envolvidos nas grandes decisões concernentes ao serviço público. Há, assim, congruência entre o estilo de reforma adotado (autoritário/ consensual) e a própria concepção do que é o serviço público. RSP 38 O processo em curso é caracterizado por alguns elementos significativos. 1) De início, a existência de uma vigorosa força política. Isto é, a bem dizer, uma característica geral das políticas de modernização administrativa que surgiram a partir dos anos oitenta no mundo ocidental (por exemplo, o programa Next Steps no Reino Unido em 1988, o programa Reform 88 nos Estados Unidos no governo Reagan, ou ainda o projeto “Reinventar o Estado” no governo Clinton): em todos estes casos, o que se elaborou foi um programa global de reforma, resultado do trabalho de especialistas, elevado à condição de prioridade da ação governamental. Do mesmo modo, na França, a política da “renovação do serviço público”, fortemente inspirada pelos trabalhos da associação “Serviços públicos” e concebida em estreita relação com os trabalhos da comissão “Eficácia do Estado”, foi promovida pelo governo Rocard à condição de “grande canteiro de obras da ação governamental; e sua aplicação concreta foi garantida pela organização de um trabalho interministerial contínuo e de uma condução administrativa assegurada pela Direção Geral da Administração e da Função Pública (DGAFP). A reforma do Estado foi ainda mais longe no sentido de um voluntarismo, em função da definição de um calendário e do estabelecimento de estruturas ad hoc encarregadas de assegurar o acompanhamento. Um calendário: a circular do primeiro-ministro de 26 de julho de 1995, definindo as orientações de conjunto foi seguida, no dia 14 de setembro, de um seminário governamental, durante o qual foram examinadas as “notas estratégicas” que os ministros haviam sido encarregados de redigir e determinar os principais eixos de um “plano trienal” de reforma; após a elaboração, em março de 1996, do documento de trabalho preparatório colocado em discussão, a versão definitiva foi concluída no fim de junho.9 Estruturas ad hoc: um decreto de 13 de setembro de 199510 criou, com duração de três anos, um “comitê interministerial” e também uma comissão encarregada de elaborar todas as propostas de reforma, coordenar a preparação das decisões governamentais e zelar por sua execução. A criação destas estruturas especializadas encarregadas de conduzir a reforma cria, evidentemente, problemas de distribuição das atribuições com as estruturas existentes, em especial com a DGAFP. Este voluntarismo faz lembrar a abordagem top-down clássica que, por muito tempo, dominou, em se tratando de reforma administrativa; ele também evoca a configuração tradicional das relações entre o poder político e a administração, na qual a RSP 39 administração é transformada em “bode expiatório” e alvo das reformas determinadas pelos governantes; esta configuração esteve muito presente no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde a política de modernização foi incluída no rol das ofensivas contra a administração, tendo surgido de uma verdadeira campanha de difamação dos funcionários. As condições nas quais a reforma do Estado foi anunciada (em julho), e a insistência do novo Presidente da República em asseverar a necessidade do restabelecimento do leadership político11 sobre a administração, prenunciava uma reativação do estilo autoritário de reforma; mas o movimento social de dezembro de 1995 produziu um reajuste e o retorno a um modelo mais consensual, ao preço de se ultrapassar os prazos fixados no início para a elaboração da reforma.12 2) Seguindo esta reorientação, um processo de concertação desenvolveu-se em torno dos eixos da reforma: o documento de trabalho elaborado em março serviu de base a um vasto debate nas repartições, mas também com os sindicatos e, mais amplamente com os eleitos, associações e especialistas; o objetivo desta concertação era permitir “validar e tornar mais pontuais os diagnósticos, enriquecer as proposições, escolher soluções mais adequadas, refletir a respeito dos meios de executá-las.”13 Por este viés, os sindicatos de funcionários foram reintegrados, in extremis, em um processo de reforma do qual haviam sido, ao contrário do que tinha se passado na “renovação do serviço público”,14 excluídos no início; e a negociação com eles deve continuar no plano da execução. Estas flutuações mostram que a posição dos sindicatos de funcionários das estruturas administrativas continua ambígua e que o problema de seu envolvimento no processo de modernização em curso permanece. Pelo menos quatro posições são possíveis a este respeito: ou a modernização se efetua contra os sindicatos, cuja influência se pretende diminuir, utilizando-se especificamente todos os recursos do gerenciamento participativo;15 ou ela é decidida sem eles, partindo do postulado de que são, por essência, hostis à mudança; ou, ainda, ela é conduzida com a participação deles, buscando integrá- los ao movimento; inversamente, a idéia de uma modernização conduzida pelos sindicatos de funcionários corresponde a uma visão ultrapassada do sindicalismo que figurava, no início do século, no centro da doutrina dita “sindicalismo integral”. A oscilação da reforma do Estado entre a exclusão e o envolvimento dos sindicatos testemunha uma dificuldade persistente em avaliar corretamente o fato sindical na função pública; e, neste caso, para que os sindicatos fossem integrados ao processo em curso, tornou-se necessário manifestar sua existência por meio de ações diretas nas ruas. RSP 40 Inversamente, e mesmo que a circular de 26 de julho de 1995 advertisse ser “a força ativa ” dos agentes públicos no empreendi- mento da reforma “uma condição indispensável para o sucesso”, os próprios funcionários foram, neste momento, muito pouco envolvidos na reforma do Estado, enquanto que a “renovação do serviço público” havia feito deles “os personagens principais das evoluções a serem executadas”. Sem dúvida a “recusa” e a “execução” da reforma do Estado devem, segundo o documento de trabalho, ser “assunto da competência de todos”, um chamamento feito à “mobilização” dos agentes: trata-se de “fazer com que cada funcionário assuma o risco da responsabilidade”; mas este anseio permanece, presentemente, como mera “boa intenção”, enquanto não se definem as condições e o modo de se efetuar este envolvimento. 3) Um interesse em racionalizar o processo de mudança aparece, enfim, através de duas novas idéias. A primeira é a avaliação. Esta via se aplica, de imediato, ao passado: a primeira ambição do documento de trabalho era avaliar as ações de modernização introduzidas ao longo dos últimos anos — providência que já fora adotada após o ano de 1993, com a instalação da comissão Sérieyx encarregada de realizar um balanço dos projetos de serviço na administração;16 não se trata mais de pretender fazer do passado uma tabula rasa, mas de partir do que já foi feito. A generalização à total idade dos serviços descentral izados dos modos de gestão dos créditos de funcionamento, experimentados nos quadros dos centros de responsabilidade,é a tradução concreta deste método. Mas a idéia de avaliação diz respeito também às novas ações que serão lançadas, função que adquire, deste então, apoio na comissão para a reforma do Estado. A segunda é a experimentação. Não há dúvidas de que a reforma do Estado privilegia a via top-down em relação à bottom- up, muito apreciada nos anos oitenta, momento em que as políticas de modernização apoiavam-se freqüentemente sobre as iniciativas tomadas, quer na periferia do aparelho (especialmente nos serviços descentralizados), quer por administrações inovadoras (equipamento, telecomunicações), num esforço de extensão e generalização:17 todavia, no plano da execução, busca-se modificar pouco a pouco os métodos de trabalho, os procedimentos, as organizações, justamente através da experimentação; e os fundos para a reforma do Estado são chamados a contribuir no financiamento destas inovações. A condução do processo de mudança confirma, então, a evo- lução que ocorreu, desde os anos oitenta, nas representações do ser- RSP 41 viço público e na definição dos protagonistas envolvidos na moder- nização administrativa. A inflexão estratégica que se produziu após dezembro demonstra claramente que os funcionários e suas organi- zações tornaram-se os personagens principais deste processo, sem a adesão e o envolvimento dos quais toda reforma corre o risco de fracassar. II – A relação administrativa Com a relação administrativa nós nos encontramos no ponto central daquilo que constitui a especificidade do serviço público: enquanto as organizações privadas são “introvertidas”, quer dizer, constituem o seu próprio fim, as organizações públicas são, por sua parte, “extrovertidas”, isto é, colocadas a serviço de interesses que as ultrapassam, de modo que toda reforma administrativa visa, desta forma, a uma melhor satisfação do “administrado”, restando, porém, um equívoco quanto a se saber se o “administrado” se refere aos usuários ou ao público em geral.18 Este objetivo estava presente em diversos programas de modernização executados desde os anos oitenta, porém de maneira variável. A política da qualidade visava muito claramente melhorar a prestação dos serviços públicos. A “renovação do serviço público” recorreu a um caminho um pouco mais complexo: sendo o objetivo melhorar o funcionamento dos serviços públicos em geral, tratava- se de responder às aspirações dos funcionários tanto quanto “satisfazer os usuários’, e a transformação das relações de trabalho (o primeiro ponto e o mais desenvolvido da circular de 23 de fevereiro de 1989) era claramente transformado em objetivo prioritário e em ferramenta da mudança; inversamente, a parte concernente aos usuários era muito mais decepcionante, a “política de acolhimento e de serviço” preconizada pela dependência do desenvolvimento da informação do público, da personalização das relações, da simplificação das formalidades e trâmites, da associação dos usuários, às tarefas. A reforma do Estado modifica a ordem das prioridades, conforme uma orientação esboçada após o ano de 1993:19 “levar mais em conta as necessidades e as expectativas dos cidadãos” figura como segundo item (logo após a clarificação das funções do Estado) na circular de 26 de julho de 1995; e o documento de trabalho insiste em sua ambição de “recolocar o usuário no centro da administração” ou ainda “ situar o cidadão no coração do serviço RSP 42 público”. Antes de examinar as expressões concretas desta ambição, deve-se investigar se a concepção mesma do administrado se encontra modificada. 1) A reforma administrativa está à procura de um novo perfil do administrado sobre o qual se apoiar, representação necessária à administração levando-se em conta a lógica de extroversão que domina seu funcionamento. Este perfil não pode mais ser o do submisso, que evoca o modelo clássico de relações fundadas sobre a unilateralidade, nem mesmo o do simples usuário, na medida em que o usuário pode ser um “usuário cativo”,20 o que nos remete ao modelo precedente. Viu-se, desta forma, emergir vários novos perfis do usuário que implicam representações diferentes do administrado e desembocam em diferentes perspectivas de reformas: o usuário protagonista, dotado de um poder de intervenção no andamento dos serviços (de onde decorre o tema da participação); o usuário parceiro, capaz de se colocar como um interlocutor de serviços (daí o tema da transparência); o usuário cliente, cujas aspirações devem ser satisfeitas pelos serviços públicos (donde o tema da qualidade). Todos estes perfis permanecem, todavia, equívocos, na medida em que a participação pode ser ilusória, a parceria uma aparência enganosa e a clientela manipulada. Um novo personagem tende a emergir a partir do início dos anos noventa, o do cidadão: figura sintetizante, cuja tendência é absorver e ultrapassar os aspectos precedentes; figura que implica o reconhecimento dos direitos (fenômeno de “juridicização” concomitante ao movimento mais geral de retorno ao direito); figura, enfim, que faz surgir uma dimensão suplementar na relação administrativa, a dimensão propriamente cívica, que vai além da simples imposição de obrigações ou concessão de prestações. Não obstante, esta figura, também, não escapa aos equívocos: na França, a cidadania esteve tradicionalmente ligada à nacionalidade e situada na ordem política; sua promoção no terreno administrativo traz o risco de alimentar uma certa “politização” do ato administrativo. Sua utilização supõe, portanto, não apenas uma disjunção entre cidadania e nacionalidade, mas ainda uma considerável ampliação de uma noção que não caracterizaria apenas uma relação do tipo político, mas repercutiria também nos processos mais gerais de integração “social”. Mais do que pretender condensar a relação administrativa numa figura única, convém sublinhar a existência de figuras múltiplas, que apontam para uma diversidade de modos de relações possíveis com os serviços públicos, frente aos quais nós somos ora submissos, ora devedores, ora usuários, ora clientes, ou ainda cidadãos... RSP 43 A reforma do Estado tende a assimilar e a fundir as figuras do usuário e do cidadão: o documento de trabalho fala, com simplicidade, na mesma página,21 em “recolocar o usuário no centro da administração” e “ situar o cidadão no coração do serviço público” (se esperaria antes o contrário); as categorias de usuário e de cidadão definem-se, portanto, mutuamente numa relação paradigmática de substituição, como se pudéssemos recorrer indiferentemente a uma ou outra. A idéia, bem francesa, de codificar a totalidade dos direitos dos usuários cidadãos num documento único — que figurou na cir- cular de 26 de julho de 1995 (item 2.1) — foi, no entanto, abandonada: tal documento, em relação ao qual o documento de 1992 constituiu uma prefiguração, corria o risco de ser muito geral, muito abstrato e, no limite, pouco operante; de todo modo, este documento teria sido meramente uma reprodução do “código da administração”, cuja elaboração figura no programa geral de codificação anunciado pela circular de 30 de maio de 1996.22 2) O arsenal de reformas pretendidas se inspira numa vontade de ampliação do serviço público. A circular de 26 de julho de 1995 desejava acrescentar aos três princípios tradicionais de “neutra- lidade” (curiosamente substituto do princípio de “mutabilidade” que era, no entanto, a terceira “lei de Rolland”), “igualdade, continuidade”, não menos do que oito novos princípios: “qualidade, acessibilidade, simplicidade, rapidez, transparência, mediação, participação, responsabilidade”; deste modo, ela sobrecarregou excessivamente, de uma só vez, — e não sem redundância (todos estes princípios originavam-se de um modo ou de outro da idéia de qualidade) e contradição — a barca do serviço público, correndo o risco de diluir a especificidade de seu regime.23 O documento de trabalho é menos ambicioso e menos loquaz: coloca em primeiro plano apenas os novos princípios de “qualidade, acessibilidade, simplicidade”,24 sendo a reforma do Estadoinspirada, de modo geral, em “princípios de simplicidade, de responsabilidade e de eficácia”,25 para finalmente deter-se no capítulo 1 nos princípios de “simplici- dade” (que englobam a “acessibilidade”) e de “qualidade”. Acham-se, assim, senão esquecidos ao menos diminuídos, os temas da participação e da transparência que haviam sido privilegiados (o primeiro nos anos sessenta, o segundo nos anos setenta) como pontas de lança e vetores da transformação das relações com o público: nenhuma nova medida foi considerada com respeito à participação, tendo, ademais, a Força Operária se declarado, em 9 de abril de 1996, diante da comissão de modernização dos serviços públicos, hostil a qualquer forma de “co-gestão”, tanto quanto à presença de usuários nas instâncias administrativas de RSP 44 decisão; e, com relação à transparência, é apenas previsto que o acesso aos documentos administrativos será melhorado e clarificado, os poderes do mediador achando-se, por outro lado, reforçados — estando estas medidas significativamente ligadas ao tema da qualidade. A passagem destes temas ao segundo plano revela uma percepção nova dos presumidos anseios do público. Os dois objetivos de simplicidade e de qualidade aparecem indissociáveis desde que adotemos uma acepção ampla de qualidade: uma administração de qualidade é, de início, uma administração simples e acessível; é, portanto, como conseqüência de uma definição restrita da qualidade (a saber, a qualidade das próprias prestações) que esta distinção é feita aqui. a) A simplicidade é um tema enganosamente simples, na medida em que procedimentos e formalidades são indispensáveis para assegurar a proteção dos direitos dos administrados.26 Muitas medidas essenciais são previstas nesta direção. A primeira é a extensão das decisões implícitas de aceitação. Sabemos que a regra estabelecida em 1864, segundo a qual o silêncio mantido pela administração faz surgir uma decisão implícita de recusa ao final de um prazo de quatro meses, foi elevada à condição de regra geral do direito administrativo: apenas uma lei poderia derrogá-la; e o desenvolvimento progressivo, especialmente a partir dos anos cinqüenta, de textos prevendo decisões implícitas de aceitação,27 suscitou inflamadas reações tanto da administração como do juiz administrativo, em nome da proteção do direito de terceiros, do imperativo da seguridade jurídica e da defesa do interesse geral. O seminário de 14 de setembro de 1995 decidiu, sem contrariar a regra precedente, desenvolver amplamente o número de casos nos quais “o silêncio mantido pela administração valerá como aceitação”,28 notadamente a cada vez que há um regime prévio de autorização administrativa. Na realidade, o objetivo essencial desta medida é obrigar a administração a responder às demandas que lhe são endereçadas: a circular de 9 de fevereiro de 1995, relativa ao tratamento das reclamações endereçadas à administração, já ressaltava, com veemência, que uma “resposta explícita é sempre preferível à ausência de reação”, a fim de prevenir o recurso à via de contenda; a fórmula é aplicada a todas as situações nas quais a administração é envolvida por demandas da parte dos administrados. Em seguida, aparece a redução do número de autorizações prévias. Também aqui, o princípio foi decidido pelo seminário governamental de 14 de setembro de 1995, tendo uma circular de 15 de maio de 1996 29 convidado os ministros a preparar o inventário dos regimes aplicáveis nos seus setores e a fornecer propostas de supressão. A RSP 45 circular de 15 de maio de 1996 relativa à execução do plano de reforma do Estado julgou as proposições insuficientes para que os objetivos fixados fossem atingidos: proposições complementares são requisitadas aos ministros, e o princípio de “séries sucessivas de supressões e transformações” de agora até o fim de 1997 foi conservado, com o objetivo de “suprimir o maior número possível de regimes,”30 e simplif icar aqueles que forem mantidos, particularmente através da extensão do princípio do acordo implícito e da descentralização do poder de decisão. Enfim, a vontade de conter a proliferação de textos e de aumentar sua legibilidade conduziu, por um lado, à imposição de que, ao menos experimentalmente,31 os novos textos fossem acompanhados de um “estudo de impacto” dotados de uma análise precisa das vantagens visadas e das múltiplas incidências do texto (circular de 21 de novembro de 1995)32 e, por outro lado, levou à elaboração de um programa geral de codif icação do conjunto das leis e regulamentações num prazo de cinco anos (circular de 30 de maio de 1996). O documento de trabalho prevê, mais amplamente, para assegurar uma maior proximidade com o público, a introdução de uma nova função, a de “facilitador administrativo”, assim como a polivalência dos serviços públicos, tema presente desde os anos setenta. b) Quanto à qualidade, o documento de trabalho prevê, além de medidas pontuais, a elaboração, conforme o modelo dos Citi- zen’s Charts britânicos, “cartas de qualidade em cada administração” que comportem objetivos numéricos de qualidade e instrumentos de medida da satisfação dos usuários. A influência do modelo britânico faz vir à tona equívocos nascidos de um tema que pode significar, quer, na versão dura, identificação com o privado e o tratamento do administrado como “cliente”, quer, na versão suave, melhoramento da prestação de serviços, de modo que o problema reside na possibilidade de se definir normas ou padrões de qualidade e indicadores de realização. A reforma do Estado não acarreta, portanto, uma transfor- mação profunda da relação administrativa como demonstra o refluxo dos temas da participação e da transparência, cujas potencialidades eram muito mais promissoras: fora de uma catalogação de medidas pontuais úteis, ela pretende apenas prolongar e ampliar as políticas em curso (simplificação, qualidade), buscando elevar o nível de satisfação do público. RSP 46 III – O estatuto dos agentes A reforma do Estado se curva, por sua vez, ao tema da “gestão de recursos humanos” (GRH) que se impôs desde os anos oitenta como um tema consensual por excelência e como um dos objetivos privilegiados da reforma administrativa. A administração pública não extrairia todo o partido possível do excepcional potencial humano que possui:33 ela deveria renovar profundamente suas relações com os seus agentes, passando de uma “administração de pessoal” baseada exclusivamente em preocupações jurídicas e orçamentárias, a uma autêntica “gestão de recursos humanos”, levando em conta os aspectos organizacionais e pessoais. Na mesma linha da “renovação do serviço público” que preconizava uma “gestão mais dinâmica de pessoal”, o documento de trabalho estabelece como segundo objetivo a “renovação da gestão de recursos humanos.” 1) Confrontada com o problema da possibilidade de uma gestão de recursos humanos no setor público, a reforma do Estado não consegue dissipar as grandes incertezas que pesam sobre este ponto. A gestão de recursos humanos foi, com efeito, introduzida em empresas privadas como um dos instrumentos de seu gerenciamento; trata-se de saber se a sua transposição aos serviços públicos é possível, especialmente tendo em conta a existência de um estatuto da função pública, comandado por uma lógica diferente. Como foi notado com precisão,34 uma autêntica gestão de recursos humanos suporia a reunião de duas condições. Por um lado, uma diferenciação das carreiras segundo as performances dos interessados, pela recompensa do mérito e pela sanção de carências, o que exigiria não apenas a implantação de um sistema de avaliação real destas performances, como também a possibilidade de se extrair conclusões concretas: ora, esta diferenciação é incompatível tanto com o estatuto da função pública, baseado na idéia de igualdade, como com a existência de instâncias (as comissões administrativas paritárias) que lutam por uma homogeneização cada vez maior das carreiras. Por outro lado, é necessária uma responsabilização dos quadrosde funcionários, que lhes permita gerir as carreiras dos empregados sob sua autoridade, mas que também os exponha a recompensas ou sanções segundo os resultados obtidos; ora, os interessados não estão prontos a assumir as conseqüências de tal responsabilização. Sem estas duas condições, a gestão de recursos humanos na administração corre o risco de se encerrar num plano quase que exclusivamente retórico, ou então limitar-se a ser mero coadjuvante, não tocando o essencial. RSP 47 A reforma do Estado visa renovar a função pública, porém “sem pôr em questão os princípios fundadores, particularmente o estatuto geral da função pública”, e sem ameaçar a existência de instâncias paritárias, que são uma das aquisições essenciais do estatuto de 1946, cuja discussão seria pouco recomendável; ela visa, no entanto, no plano da afirmação da gestão descentralizada de pessoal, desenvolver comissões administrativas paritárias locais. Não há dúvidas de que as comissões nacionais serão mantidas, com uma função de harmonização; mas vemos aparecer aí uma brecha no sistema de gestão de carreiras e um esboço de diferenciação que os sindicatos de funcionários se empenharão, sem sombra de dúvidas, em reabsorver. A descentralização de uma série de decisões relativas aos agentes, e a experimentação de um novo espaço de trabalho nos quadros dos “contratos de serviço” chamados a tomar o lugar dos centros de responsabilidade, é claramente o elemento mais apto a produzir mudanças, rompendo com um igualitarismo estrito. 2) As modalidades de gestão de recursos humanos não apresentam qualquer aspecto realmente original: elas se situam em continuidade direta com as reformas anteriormente empreendidas. A gestão preventiva de empregos, que visa adaptar a estrutura dos empregos à evolução das funções e assegurar a alocação ótima dos empregos em função das necessidades, deve ser “melhor organizada e generalizada” a partir de uma melhor previsão das necessidades do Estado: a esse respeito, um documento metódico deve ser elaborado no segundo semestre de 1996, seguido de um esquema diretor por ministério em 1997. Seria isto suficiente para assegurar, no futuro, a alocação ótima dos empregos, imposta pela rarefação dos recursos orçamentários? Podemos duvidar disto: há mais de quinze anos 35 que se fala em gestão preventiva dos empregos, e a administração sempre foi incapaz de prever a evolução das funções administrativas e organizar os remanejamentos necessários de um setor a outro, que não fosse sempre à última hora, sob o império da necessidade; a France Télécom encontra-se frente a um grave problema de inadaptação da estrutura dos empregos, que não foi capaz de prever nem de gerir de maneira satisfatória. A ênfase na formação contínua não é nova: o novo acordo assinado em 22 de fevereiro de 1996 se situa na mesma linha dos acordos anteriores de 29 de junho de 1989 e 10 de julho de 1992: ele simplesmente se restringe a aumentar os recursos financeiros consagrados à formação contínua (3,8 % da massa salarial em 31 de dezembro de 1998), aumentar a duração mínima de formação reconhecida a cada funcionário (cinco dias para as categorias A e RSP 48 B, seis dias para a categoria C), reforçar o aspecto avaliativo (ficha individual de formação para cada agente, curso anual de formação, balanço profissional a pedido de agentes que totalizam mais de dez anos de serviços efetivos...), assim como assegurar a gestão descentralizada dos créditos de formação. Este acordo constitui o plano de ação do Estado neste domínio, para os próximos três anos. A renovação dos procedimentos anunciados de notação e de entrevista individual foi largamente estimulada ao longo dos últimos anos, sem que os resultados tivessem sido tão convincentes. Toda alteração do sistema de notação, quaisquer que sejam os defeitos freqüentemente apresentados,36 choca-se com a hostilidade dos sindicatos, na medida em que isto é percebido por eles como uma tentativa de reduzir a co-gestão das carreiras, de restaurar a autoridade hierárquica e de recriar perfis de carreira diferenciados através do questionamento do sistema de repartição e, portanto, de comprometer o poder sindical.37 Quanto à fórmula de entrevista de avaliação, cujo estatuto permanece equívoco (é paralela ou articulada aos procedimentos de notação?), ela não poderia tomar o seu lugar; a personalização da relação hierárquica que ela envolve é, além disto, excessivamente subordinada às tradições burocráticas para que não suscite resistências. A idéia de favorecer a mobilidade e a polivalência profissionais através do reagrupamento em fileiras, também não é nova: há muito tempo denuncia-se a atomização como um fator de rigidez e de esclerose da função pública. Aí estaria situado o elemento indiscutivelmente mais suscetível de abalar as estruturas do edifício: o exemplo dos PTT mostra que a resistência que uma tal medida suscita pode ser superada, mas ao preço de um constante diálogo social, e somente se esta medida é percebida como favorável pelos interessados, ou seja, ligada a uma reforma de qualificações, a uma reordenação da pirâmide” e ao aumento das remunerações;38 ora, se o documento de trabalho fala sobre “renovar o regime das remunerações”, os contornos desta renovação não se desenham com clareza e o contexto de rarefação de recursos acaba por reduzir as conseqüências positivas para os interessados. A reforma do Estado pretende flexibilizar e fornecer maior espaço de trabalho em matéria de gestão de pessoal, suprimindo certas intransigências presentes na aplicação do estatuto; a gestão descentralizada dos recursos humanos aparece como um meio privi- legiado para a realização deste objetivo. No entanto, as prováveis resistências que os sindicatos oporão a medidas que coloquem em RSP 49 questão o poder por eles adquirido provavelmente atenuarão o impac- to das medidas pretendidas. Reencontramos, assim, o último aspecto. IV – A arquitetura administrativa A idéia central da reforma do Estado a respeito da arquitetura administrativa é distinguir claramente as funções ditas “estratégicas”, pertencentes ao Estado central, e as funções “operacionais” de execução, que devem se originar de estruturas periféricas (serviços descentralizados, estabelecimentos públicos, e mesmo parceiros privados): como indica o documento de trabalho, “não pertencem ao Estado central, de maneira genérica, tarefas relativas a assuntos de gestão ou de prestação de serviços. Estas devem ser de responsa- bilidade dos serviços operadores, serviços descentralizados de competência nacional ou territorial ou estabelecimentos públicos.”39 Esta orientação compartilha da mesma orientação das reformas que, em inúmeros países ocidentais40 levou a distinguir, conforme o modelo aplicado no Reino Unido após o relatório Next Steps de 1988,41 as responsabilidades de elaboração de políticas, distribuídas pelos departamentos ministeriais, das tarefas de gestão, confiadas a “agências” autônomas: a França permaneceu à margem deste movimento, ainda que “centros de responsabilidade” tenham sido instituídos em caráter experimental, no âmbito da “renovação dos serviços públicos — mas sua fonte de inspiração foi totalmente diferente daquela 42 — e que estruturas explicitamente qualificadas de “agências” tenham sido criadas, particularmente no domínio so- cial e em questões do meio ambiente;43 mas uma série de relatórios havia preconizado recentemente que o recurso a esta fórmula constituía um meio de transformação das estruturas administrativas.44 Além das críticas suscitadas pelas condições nas quais estas operações de reestruturação foram conduzidas,45 e pelos efeitos perversos que freqüentemente produziram,46 convém notar que o postulado segundo o qual a distinção entre funções estratégicas e operacionais garantiria uma boa gestão é cada vez mais contestado nos países que o puseram em ação: a idéia de que seria possível estabelecer uma linha de demarcação clara entre a elaboração e a execução, ou ainda entre política (encarregada de definiras orientações) e a administração (encarregada de executá-las) parece não apenas irrealista mas também custosa e, no limite, contrária ao imperativo de eficácia; ela privaria a política dos meios de ação necessários, implantando uma forma de “governo à distância”, e RSP 50 impossibilitaria um controle real sobre os serviços que se tornaram autônomos. Também o modelo das agências autônomas foi parcialmente questionado em certos países que o haviam executado:47 em última instância, a gestão dos assuntos públicos seria mais eficaz quando da responsabilidade dos ministérios integrados, nos quais se articula a orientação política e a execução, e não repartidos em departamentos centrais e agências executivas. Podemos, então, perguntar pelo fundamento da concepção da arquitetura administrativa sobre a qual se assenta a reforma do Estado. Este postulado determina um conjunto de mudanças que visam consolidar cada um destes níveis ou pólos da ação pública. 1) Do lado das funções operacionais, a reforma do Estado preconiza “um poderoso movimento de delegação de responsa- bilidades”;48 ela se situa, neste ponto, no centro da política de “renovação do serviço público” que elevou a descentralização à condição de “regra geral da repartição de atribuições e de meios” nos serviços do Estado (art. 1 da carta da descentralização de 1 de julho de 199249) e conferiu aos serviços descentralizados uma maior liberdade de gestão (especialmente pela utilização em seu benefício da fórmula dos centros de responsabilidade). Trata-se, segundo o documento de trabalho, de “concluir, garantir e comandar a descen- tralização”, particularmente através de novas transferências de res- ponsabilidade na direção dos serviços descentralizados, e da afir- mação de sua autonomia de gestão: é previsto que o modo de gestão dos créditos de funcionamento presentemente utilizados pelos centros de responsabilidade será estendido à totalidade dos serviços descen- tralizados e que, mais além, serão experimentadas novas flexibiliza- ções no âmbito dos “contratos de serviço”. Por outro lado, e sobretu- do, medidas de simplificação da organização territorial, já projetadas, serão implantadas; uma tal simplificação é evidentemente in- dispensável tendo-se em conta a complexidade do sistema francês de organização territorial. Para além destas medidas, convém assinalar que a unidade dos processos de descentralização (territorial ou funcional), assim como sua freqüente superposição, são, deste momento em diante, percebidas claramente; passamos, assim, para uma visão global da descentralização, inserida numa problemática centro/periferia. As funções operacionais podem ainda ser confiadas a estruturas personalizadas (estabelecimentos públicos), mesmo a outros personagens (coletividades territoriais, organizações profissionais): o Estado adentra, então, a lógica de uma parceria que, nos termos do documento de trabalho, constituiria, em inúmeros domínios, “o meio RSP 51 mais eficaz de mobilizar as vontades e os meios”. Em se tratando da gestão personalizada, o desenvolvimento atual da fórmula das agências demonstra a preocupação em extrair todas as conseqüências da lógica da personalização inerente ao estatuto do estabelecimento público, através da atribuição de uma autonomia de gestão aumentada. Quanto à atração de parceiros de fora, evoca-se irresistivelmente a lógica da privatização: o Estado deve em realidade procurar “confiar a terceiros o cuidado com funções das quais ele não seria necessariamente o melhor executor”; e esta lógica esteve efetivamente presente, especialmente no Reino Unido, através da fórmula do market test- ing, toda vez que se pretendia distinguir funções estratégicas de funções operacionais. Reencontramos, por este viés, o item 1 da cir- cular de 26 de julho de 1995, a respeito da clarificação do campo do serviço público; mas nenhum elemento de clarificação incidiu sobre os critérios de avaliação da oportunidade de evocar a iniciativa privada. 2) Do lado das funções estratégicas (o documento de trabalho fala, aliás, explicitamente de um “Estado estrategista”), encontramos um conjunto de medidas que visam tornar o Estado central mais eficaz. Esta abertura é nova em relação à “renovação do serviço público” que apresentava somente a idéia de avaliação das políticas públicas, mas também em relação ao reformismo administrativo tradicional, que, afinal, pouco se ocupava com a parte mais sedimentada do Estado central; isto é, incontestavelmente, um dos pontos centrais da reforma. Convém, todavia, não exagerar a respeito de sua novidade, uma vez que se trata, antes de mais nada, de uma síntese de elementos que até o momento se encontravam dispersos, por exemplo, no que se refere às condições dos recursos ao direito,50 aos procedimentos de preparação orçamentária, à elaboração e avaliação de política públicas, à tutela de empresas públicas, ao “enxugamento” das estruturas ou, ainda, à renovação da gestão pública; a ênfase colocada sobre a política patrimonial do Estado é, inversamente, específica. O elemento mais interessante, que não deixa de nos espantar, é a ênfase dada ao reforço das capacidades de elaboração das políticas públicas, que conduz à reativação da concepção, tradicional na França, de um Estado “cérebro da sociedade”: o Estado encontra- se, com efeito, referendado no seu papel de previsão — a função “estatística e estudos econômicos” deve ser racionalizada — pros- pectiva, mas também de planificação, através da reforma pretendida do Comissão Geral do Plano: o Estado “estrategista” não é, portanto, de modo algum, um “Estado modesto”, mas, como dizia o presidente da República,51 um Estado “forte”, capaz de construir um projeto RSP 52 de desenvolvimento e de manter a coesão social. Podemos nos perguntar se esta visão, tão gaulliana, é ainda compatível com o processo de internacionalização em curso. A reforma do Estado impele o movimento de fragmen- tação do Estado, perceptível a partir dos anos oitenta, ainda antes, pela delegação sistemática de responsabilidades de gestão e de autonomização dos serviços gestionários; ela pretende, no entanto, paralelamente, preservar a coerência das políticas públicas através de um reforço da capacidade estratégica do Estado central: uma tensão existe, assim, entre dois movimentos contraditórios, fundados na aposta gerencial da dissociação entre o operacional e o estratégico. Por todos estes aspectos, a reforma do Estado atinge, verdadeiramente, a concepção tradicional do serviço público: • a condução da mudança tende a promover um estilo con- sensual de gestão no interior das estruturas administrativas; • a relação administrativa é modificada pela promoção da figura do usuário cidadão; • a função dos agentes é flexibilizada pela introdução da gestão descentralizada de recursos humanos; • por fim, a arquitetura administrativa deve ser reordenada em torno dos pólos estratégico/operacional. O ponto cego continua sendo, todavia, o problema da posição do serviço público na economia e na sociedade. A reforma do Estado não dá, com efeito, respostas claras a este problema, a despeito das afirmações teóricas sobre a importância dos serviços públicos e o apego à “concepção francesa do serviço público”. No que concerne à posição dos serviços públicos com relação ao mercado, convém lembrar que uma ligação estreita foi estabelecida na França entre serviço público e monopólio: consideramos por muito tempo que o serviço público implicava o monopólio; supunha-se que os interesse coletivos, que justificaram sua instituição, não poderiam ser protegidos senão na ausência de concorrência. A regressão dos monopólios públicos, ao menos no domínio econômico, sob a pressão européia, coloca a questão de se saber como garantir a realização das finalidades do serviço público num contexto de concorrência. Segundo o documento de trabalho, o Estado deve “zelar ao mesmo tempo pelo cumprimento dos objetivos do serviço público e pelo respeito a regras leais de concorrência”; é um pouco comoa quadratura do círculo, ainda que a “função de regulação” seja “organizada com cautela”; o dispositivo previsto pela lei das telecomunicações servirá, evidentemente, sobre este ponto, como referência. RSP 53 Quanto ao lugar dos serviços públicos na sociedade, um con- junto de questões permanece referentes ao grau de especificidade dos serviços com relação às outras atividades sociais,52 às finalidades que lhes são destinadas, à esfera a eles destinada. Ainda sobre todos estes pontos, a reforma do Estado não traz elementos de resposta: mas poderia fazê-lo, uma vez que estas questões são, por essência, abertas, e dependem, antes de mais nada, de uma dinâmica social e política. Notas 1 CHEVALLIER, J., Le service public, 3ª ed. Paris: PUF, 1994, Col. "Que sais-je?" 2 Circular de 26 de julho de 1995 relativa à preparação e à execução da reforma do Estado e dos serviços públicos, JO de 28 julho de 1995, p. 11217. 3 “Réflexion préparatoire à la reforme de l'Etat", Documento de trabalho publicado em 8 de março de 1996, 81p. 4 Circular de 23 de fevereiro de 1989 relativa à renovação do serviço público, JO de 24 de fevereiro de 1989, p. 2526. 5 CHEVALLIER , J., “A política francesa de modernização administrativa”, In L'État de droit-Mélanges en l'honneur de Guy Braibant, Paris: Dalloz, 1996, pp. 69-87. 6 Ver "Les administrations en Europe: d'une modernisation à l'autre", RFAP, nº 75 julho setembro de 1995. 7 THOENIG, J., C. fala a respeito destas "medidas muito heteróclitas" relativas a um verdadeiro "inventário à Prevert" (Reforma da administração e reforma do Estado, In Revue politique et parlementaire, n. 982, março/abril 1996, p.56). 8 CHEVALLIER , J., “Os funcionários e a modernização administrativa”, Revue ad- ministrative, n. 271, janeiro de 1993, pp. 5 e seguintes. 9 Esta versão permanece fiel às orientações definidas no documento de trabalho de março (ver a apresentação feita pelo primeiro-ministro na Ouest France, no dia primeiro de julho, e a entrevista do Ministro da Função Pública do mesmo dia): ele prevê tornar a administração "mais simples", particularmente pela supressão de um certo número de autorizações administrativas e da multiplicação de casos nos quais a não resposta da administração vale como um acordo tácito, "mais próximo” dos cidadãos, pela reafirmação da desconcentração, "mais moderna e mais responsável, por uma série de medidas destinadas a favorecer uma maior eficácia de ação pública: no que concerne aos agentes, o ponto essencial reside na elaboração de uma "nova forma de avaliação individual". 10 Decreto n. 95 1007 de 13 de setembro de 1995, relativo ao comitê inter- ministerial para a reforma do Estado e à comissão para a reforma do Estado, JO de 14 de setembro de 1995, p. 13558. 11 Trata-se, segundo J. Chirac (Le Monde, 6 de maio de 1995) de "reencontrar o equilíbrio dos poderes que o general de Gaulle havia desejado": "pouco a pouco o poder político diluiu-se em favor da administração que é, por natureza, RSP 54 conservadora e reticente a mudanças"; "é necessário restabelecer a primazia do poder político, ficando a administração destinada às funções de proposição e execução que lhe são próprias". 12 Na origem, o plano trienal deveria ser publicado no final de dezembro; após a etapa intermediária e nova do documento de trabalho submetido à consulta dos interesses, os prazos foram ampliados, primeiro para abril, depois para junho, e, por fim, o excesso de formalismo acabou sendo abandonado. 13 Réflexion préparatoire, p. 5. 14 A circular de 23 de fevereiro de 1989 insistia sobre a necessidade da "proteção do pessoal e de suas organizações sindicais" para a estratégia da reforma; de fato, as posições dos sindicatos relativas à "renovação do serviço público" foram elencadas a partir da adesão à desconfiança. 15 Os ciclos de qualidade vieram, assim, abalar as estruturas oficiais de participação, sobre as quais se apóia o poder sindical na função pública. 16 L'État dans tous ses projets – un bilan des projets de service dans l'administration, Paris: A documentação francesa, 1994. 17 Isto foi visto com os ciclos de qualidade (CHEVALLIER, J., “Le discours de la qualité administrative”, RFAP n. 46, 1988, pp. 21 e segs.) ou ainda com as novas práticas de descentralização da gestão de créditos ou da avaliação de agentes (CURAPP, L'évaluation dans l'administration, Paris: PUF, 1993). Como assinala justamente J. C. THOENIG (op. cit. p. 57), a reforma administrativa é antes de tudo "um assunto de dinâmica de terreno, ou seja, de confrontação entre experimentações e situações diversificadas": trata-se de "impelir o terreno a tomar iniciativas, fornecer-lhe autonomia e avaliar os resultados deste modo obtidos", mais do que lhe dizer, "em seu lugar, o que se deve fazer" ou de enunciar "medidas que ele já utiliza". 18 A nuance é importante na medida que os serviços públicos podem ser levados, em nome de um "interesse geral" do qual o Estado é o único juiz, a tomar medidas eventualmente contrárias aos interesses específicos e categorias dos seus usuários – o que leva a legitimar a primazia da oferta (administrativo) sobre a demanda (social). 19 O relatório Picq (L'Etat en France: Servir une nation ouverte sur le monde, Paris: A documentação francesa, 1995, col. "Rapports officiels") pretendia, também ele, "situar os cidadãos no centro da administração". 20 CHEVALLIER, J., “Figures de l'usager”, In Psychologie et science administrative, Paris: PUF, 1985, pp. 44 e segs. 21 Réflexion préparatoire, p. 5. 22 Circular de 30 de maio de 1996, relativa à codificação dos textos legislativos e regulamentares, JO de 5 de junho de 1996, p. 8263. 23 O documento dos serviços públicos de 1992 acrescentara: transparência, participação, simplificação. 24 Réflexiom préparatoire, p. 4. 25 Réflexion préparatoire, p. 4. 26 Ver BULLINGER, M., ed., “Von der bürokratischen Verwaltung Smanagement zum” (“De l’administration bureaucratique au management administratif”) – Colóquio franco-alemão, Friburgo 26-27, junho 1992, Verwaltung 2000 1993 (ver especialmente as contribuições de R. Drago, M. Le Clainche, J., Chevallier, M. Fromont, D. Truchet). 27 Ver MONNIET, M., Les décisions implicites d'acceptation de l'administration, Paris: LGDJ 1992, e também Fromont, M., op cit. RSP 55 28 COLLIN DEMUMIEUX , M., “Quelques éléments nouveaux sur les décisions implicites d'acceptation”, Les Petites affiches, 1996. 29 Circular de 15 de maio de 1996, relativa à execução do plano de reforma do Estado: redução do número de autorizações e declarações administrativas prévias, JO de 27,28,29 de maio de 1996, p. 7922. 30 Só devem ser mantidos regimes fundados no interesse público indiscutível e atual, justificando uma intervenção administrativa prévia. 31 A experimentação iniciou em 1º de janeiro de 1996 para a totalidade dos projetos de lei (exceto as leis de finanças), devendo ser feito um balanço ao final do primeiro semestre; após o dia 1º de julho de 1996, ela foi estendida para a totalidade dos decretos regulamentares no Conselho de Estado, e uma avaliação global deve ocorrer no fim de 1996. 32 Circular de 21 de novembro de 1995, relativa à experimentação de um estudo de impacto acompanhando os projetos de lei e de decreto no Conselho de Estado, JO de 1º de dezembro de 1995, p. 17566. 33 Segundo o documento de trabalho, “Os funcionários são a principal riqueza do Estado” p. 4. 34 VERRIER, P. E., “Les spécificités du management public: le cas de la gestion des ressources humaines”, Politiques et management public nº. 4, 1989, pp. 47 e segs. 35 Sobretudo com o modelo CHEOPS: ver Badeyan G. “Un nouvel instrument pour la politique de l'emploi dans la fonction publique”: CHEOPS, Bulletin RCB, nº 50, setembro 1982, p.15 e segs., e também: “Notion et connaissance des effectifs dans la fonction publique: la diversité des points de vue” In Revue administrative, n 232, 1986, p. 393 e segs. Ver o suplemento “ La gestion prévisionnelle des persolnels”, In Cahiers français,nº 197, julho-setembro 1980, sobre a função pública. 36 Ver por exemplo VERRIER, P. E., “Y a-t-il de mauvais fonctionnaires? Remarques sur l'infaillibilité administrative et la notation”, "Politiques et management public", 1989, n. 2, pp. 81 e segs., GONZALES, J., “En finir avec la notation des fonctionnaires”, Regards sur l'actualité, setembro/outubro de 1989, pp. 23 e segs. 37 RANGEO, F., “La notation des fonctionnaires en question”, Politiques et man- agement public nº. 2, 1992, pp. 193 e segs. 38 Mesmo neste contexto, as oposições podem ressurgir na fase de aplicação; é por isto que a despeito das vantagens concedidas, o procedimento de reclas- sificação suscitou o descontentamento social da PTT (BARREAU, J., La reforme des PTT – quel avenir pour le service public? Paris: La Découverte, 1995). 39 Réflexion préparatoire, p. 31. 40 Ver “La réforme de gestion: agences gouvernementales et administrations centrales”, Revue internationale des sciences administratives nº. 4, 1995. 41 O relatório preconizava a transformação dos serviços prestadores de serviços e cuja atividade pudesse ser individualizada em "agências de execução" (Exe- cutive Agencies), dispondo de maior autonomia de gestão, e dirigidas por um Chief Executive, nomeado por um período de cinco anos e pessoalmente responsável por seu desempenho (ver particularmente STEVENS, A., “Les agences d'exécution et leur impact sur le Civil Service”, in RFAP, n. 55, 1990, pp. 485 e segs.): em 1992, 75 agências deste tipo já haviam sido criadas, 300 000 agentes, praticamente a metade do Civil Service nelas trabalhava; quando a aplicação do programa estiver concluída, 79% dos funcionários estarão vinculados a 173 agências. RSP 56 42 Não apenas os centros de responsabilidades instalados em caráter experimen- tal (209 em 1º de janeiro de 1994) beneficiam-se de uma flexibilização orçamentária, mas, sobretudo, a fórmula beneficia quase que exclusivamente os serviços descentralizados. 43 BRAUD, C., “La notion d’agence en France: réalité juridique ou mode administra- tive?”. Les Petites affiches n. 104, 30 agosto de 1995, pp. 4 e segs. Do modo como é atualmente concebida na França, a agência é simplesmente uma variante do estabelecimento público que se caracteriza pela injeção de competências técnicas, pela introdução de dispositivos de avaliação e sanção dos resultados, enfim, por uma autonomia de gestão nos aspectos financeiro e de pessoal. 44 O relatório Blanc do XI plano (1993) faz dela uma meio privilegiado de descentralização funcional: o Conselho invoca a si mesmo no relatório de 1993 para "aprofundar uma reflexão sobre as agências"; enfim, o relatório Picq incita a "criar novas agências para gerir de outro modo o serviço público". 45 Para B. HOGWOOD (“Les familles de Whitehall: les administrations centrales et les types d'agences en Grande-Bretagne” , RISA, op. cit. pp. 587 e segs.), "a iniciativa Next Steps não foi bem definida, nem executada". 46 Ver por exemplo HOOD, C., “L'évolution de la gestion publique au Royaume- Uni et la suppression des privilèges de la fonction publique”, RFAP n. 70, 1994, pp. 295 e segs. 47 Particularmente na Dinamarca (T.B. Jorgensen e C. A. Hansen) e nos Países Baixos (W. Kickert e F. Verhaak) RISA, op . cit. 48 Réflexion preparatoire, p. 31. 49 Decreto n. 92.601 de 1º de julho de 1992, sobre o protocolo de descentralização, JO de 4 de julho de 1992, p. 8898. 50 Os termos da circular Juppé de 26 de julho de 1995 se aproximam, neste ponto, dos da circular Rocard de 25 de maio de 1988. 51 No seu discurso de 3 de fevereiro de 1996, J. Chirac insistia na idéia de que o "Estado não deve ser modesto. São seus servidores que possuem o dever da modéstia. Já o Estado, ele deve ser grande. 52 A confrontação com a noção européia de "serviço universal" contribuiu para melhor esclarecer suas implicações. Ver, por exemplo, Debene, M., "Sur le service universel: renouveau du service public ou nouvelle mystification?", In Actualité juridique Droit administratif, março de 1996, pp. 183 e segs. e também "Le service public et la construction communautaire", Revue française de droit administratif, 1995, n.3. RSP 57 Resumo Resumen Abstract A reforma do Estado e a concepção francesa do serviço público Jacques Chevallier O artigo pretende avaliar os efeitos da reforma do Estado sobre a concepção francesa tradicional do serviço público, a qual repousaria sobre três dimensões: a funcional, relativa à extensão da esfera da gestão pública, a axiológica, pertinente aos valores que governam seu funcionamento e a jurídica, associada ao conjunto de leis que a ela se aplicam. O autor sustenta que a iniciativa de reforma do Estado teve repercussão nos seguintes aspectos: a condução da mudança, pela promoção de um estilo consensual de gestão no interior das estruturas administrativas; a relação administrativa, modificada pela promoção da figura do usuário-cidadão; o estatuto dos agentes, flexibilizado pela introdução da gestão descentralizada de recursos humanos e a arquitetura administrativa, reordenada em torno dos pólos estratégico e operacional. O autor afirma que a reforma do Estado não contempla um ponto fundamental, qual seja, o problema da posição do serviço público em relação à economia e à sociedade. La reforma del Estado y la concepción francesa de los servicios públicos Jacques Chevallier El artículo pretende evaluar los efectos de la reforma del Estado desde el punto de vista de la concepción francesa tradicional del servicio público, la cual estaría basada en tres puntos: la funcional, que se refiere al alcance de la gestión pública, la axiológica, pertinente a los valores que gobiernan su funcionamiento y la jurídica, asociada al conjunto de leyes a las cuales se aplica. El autor sostiene que la iniciativa de la reforma del Estado repercutió en los siguientes aspectos: la conducción al cambio, tras la promoción de un estilo consensual de gestión en el interior de las estructuras administrativas; la relación administrativa, modificada por la promoción de la figura del usuario-ciudadano; el estatuto de los agentes, flexibilizado por la introducción de una gestión descentralizada de recursos humanos y la arquitectura administrativa, reordenada alrededor del polo estratégico y del operacional. El autor sostiene que la reforma del estado no contempla un punto fundamental que es el problema de la posición del servicio público con relación a la economía y a la sociedad. The reform of the State and the French concept of public service. Jacques Chevallier The article aims at the evaluation of the effects of the reform of the State on the traditional French concept of public service, which is based on three aspects: the functional aspect, relating to the size of the public management domain; the axiological aspect, which has to do with the values that govern its operation; and the legal aspect, associated with the set of laws that are applicable to it. The author argues that the State reform initiative made an impact in the following aspects: the management of the change, by promoting a management style, within 1 Texto para discussãoENAP A reforma administrativa francesa Valdei Araújo 20 2 Texto para discussãoENAP A reforma administrativa francesa Valdei Araújo 20 Brasília — DF outubro/1997 3 Texto para Discussão é uma publicação da Fundação Escola Nacional de Administração Pública Editora Vera Lúcia Petrucci Coordenador Editorial Flávio Carneiro Alcoforado Supervisora de Produção Gráfica Fatima Cristina Araujo Revisão Marluce Moreira Salgado Editoração eletrônica Danaé Carmen Saldanha de O. Alves © ENAP, 1997 Fundação Escola Nacional de Administração Pública — ENAP SAIS — Área 2-A 70610-900 — Brasília - DF Telefone: (061) 245 6189 Fax: (061) 245 2894 Brasília - DF ARAÚJO, Valdei. A663r A reforma administrativa francesa: da crise da função pública a uma nova racionalidade da ação coletiva, uma difícil transição. Coord. de Sonia Fleury. Brasília: FGV/ EBAP/ENAP, 1997. 26f.(Textopara discussão, 20) 1. Reforma Administrativa - França 2. Reforma do Estado - França 3. Administração Pública I. Programa de Estudos e Pesquisas em Reforma do Estado e Governança II. Título III. Série CDD 353.073 4 A reforma administrativa francesa: da crise da função pública a uma nova racionalidade da ação coletiva, uma difícil transição1 I - O Estado contra a sociedade Com o fim da segunda guerra mundial, o Estado francês desenvolveu enormes esforços para elevar o país no nível das nações industriais do Oci- dente. O caminho para atingir o estágio industrial passaria pelo fortalecimento do Estado nos moldes keynesianos. Com De Gaulle, iniciou-se a construção da legitimidade do modelo a partir do princípio de monopólio estatal da ação coletiva, ou seja, o Estado representa a única instância legítima de ação pública, encarnando dessa forma a “Vontade Geral”. Paralelamente ao fortalecimento do Estado, fortalecia-se uma “casta” burocrática, legitimada pelo saber técnico. A partir da década de 70, esse modelo será criticado por diversos seto- res da sociedade francesa, que viam nele um verdadeiro “leviatã”, inibindo a participação social na gestão das questões comuns. O Estado ossificado pelo excesso de controles, corporativização, etc. chocava-se contra a sociedade que se transformava rapidamente. O modelo francês de Estado mostrou-se plena- mente eficaz no que se refere ao desenvolvimento industrial, em especial, durante os “trinta gloriosos” do pós-guerra. Entretanto, simultaneamente ao processo de industrialização, ocorreram a burocratização e a formalização das relações sociais, a ponto de constituir um dos fatores das revoltas sociais do ano de 1968. Segundo Michel Crozier,2 a sociedade francesa perdeu algumas ocasiões propícias à modernização do Estado. A primeira, ocorrida durante o governo de Georges Pompidou que, contando com a maioria parlamentar obtida em 1968 pelos gaullistas e com a opinião pública favorável a mudanças, poderia ter iniciado um profundo processo de transformação do Estado. Pompidou optou, entretanto, por uma estratégia meramente quantitativista, que pre- servou e mesmo ampliou a intervenção do Estado, e que não resistiu à pri- meira vaga da crise do petróleo em 1973. A segunda oportunidade, de que nos fala Crozier, ocorreu em maio de 1974, no governo de Valéry Giscard d’Estaing. Possuindo igualmente * Bacharel em História, mestrando do curso de História da UERJ e pesquisador da EBAP/FGV/RJ. Valdei Araújo* 5 maioria parlamentar, embora menos ampla que Pompidou, Giscard d’Estaing contava com grande apoio da opinião pública,3 mas preferiu continuar a política industrial de Pompidou. Omitiu-se nos planos social e econômico, perdendo assim a oportunidade para uma ampla transformação cultural que fora aberta pela crise do pensamento marxista junto às elites intelectuais do país. Com a vitória de François Mitterand em 1981, fechava-se o ciclo de oportunidades dadas à direita francesa para modernizar o Estado e a sociedade. Nos dois primeiros anos de governo socialista, foi ampliada, sensivelmente, a presença do Estado na economia e na sociedade. Diversas empresas foram nacionalizadas, e outras empresas públicas criadas. No final deste período, houve um enorme crescimento do déficit público que obrigou os socialistas reverem sua política, iniciando um período menos “ideológico” e timidamente reformista. Nas palavras de Crozier: “Chamada ao poder contra a austeridade dos tecnocratas, a esquerda não fazia senão agravar esta paixão quantitativista que pervertia as elites francesas.”4 Apesar da manutenção e ampliação do Estado tecnocrático, a esquerda tomou algumas iniciativas no âmbito da Reforma, em especial, no processo de descentralização e desconcentração, assim como no que se referia à moderniza- ção do serviço público. Com Jacques Chirac, em 1986, a direita tem novamente a chance de empreender reformas visando modernizar a sociedade. Na administração Chirac, a França experimenta a tentativa de estabelecer o “liberalismo por decreto”. A falta de conhecimento da realidade social, somada à incapacidade de comunicar-se com os agentes afetados, acabou por levar Chirac aos impasses representados pelas manifestações estudantis e a greve dos funcionários da SNCF,5 em 1986. A instabilidade política francesa — depois de 1981, três mudanças de maioria parlamentar em sete anos — resultou na ausência de um programa de reforma administrativa coeso e contínuo. Na verdade, tem-se preferido falar mais de uma modernização do que de uma reforma administrativa. Um dos marcos da reforma francesa é a crise da gestão pública. Como todos sabemos a crise da gestão pública é um fenômeno hoje universal que se torna visível a partir da década de 70, especificamente com a crise do petróleo. Com o fim do conflito Leste/Oeste em 1989, esta crise torna-se mais evidente e vêm-se reforçadas suas conotações ideológicas. No caso francês, ao lado desta crise mundial, os analistas identificam uma crise específica, a saber, a falência do modelo de Estado. Dentre os países industrializados do Ocidente, o Estado francês é, sem dúvida, um dos que mais intervém na vida social, econômica e política. O modelo político administrativo que caracteriza a especificidade francesa nasce nos anos posteriores à II Guerra Mundial, articulando a tradição de intervenção do Estado-providência à lógica do novo regime estabelecido pela Quinta República. Este modelo pode ser caracterizado, em linhas gerais: 6 — pela prioridade dada às funções de concepção e decisão sobre as de execução e avaliação das políticas públicas; — pela clientelização da sociedade pelo Estado, que impõe seu modo de organização aos diversos atores sociais; — pelo desequilíbrio entre informação ascendente e descendente, encobrindo o jogo real das políticas públicas.6 Segundo Crozier,7 o princípio que legitima o Estado francês tem acento na hierarquização das funções e dos níveis, só concebível se imaginarmos que o Estado sozinho encarne o interesse geral da sociedade. No âmbito da função pública, este modelo pressupõe a existência de um funcionário autônomo e im- parcial, legitimado por seu estatuto e capacidade técnica para gerir o destino coletivo e mediar os conflitos de interesses da sociedade civil. Além dos problemas de modelo, tipicamente francês, podemos apon- tar como causas do processo de reforma administrativa a convergência de três fenômenos, a saber: — a crise do Estado providência; — a necessidade de redução dos gastos públicos; — as exigências diante da adaptação à integração européia.8 Além dos fatores acima referidos, Luc Rouban nos chama a atenção para a relação entre a crise do setor público na França e as transformações profundas nas formas de legitimação do poder típicas da Quinta República. O descrédito dos homens públicos e a crítica à atividade partidária indica, clara- mente, um deslocamento dos lugares de organização dos conflitos. Os sintomas da crise são antigos, e os remédios têm sido muitas vezes formulados de maneira correta, mas dissolvem-se diante da racionalidade do modelo. Um interessante exemplo deste paradoxo podemos encontrar na expe- riência das administrações por missão.9 O conceito foi formulado por Edgar Pisani num artigo de 1956, e tinha como objetivo renovar a ação do Estado. As administrações por missão deveriam colaborar para a renovação da vida admi- nistrativa através da criação agências incumbidas de tarefas específicas. Estas agências tiveram, de fato, um importante papel no planejamento regional, na consultoria e no financiamento em matéria de urbanização, auxílio aos poderes locais, desenvolvimento da pesquisa, etc. Compostas por funcionários de origens diversas, destacados de seus quadros originais, assim como de empregados não- estatutários, recrutados em função de suas habilidades profissionais, estas organi- zações atuavam ora como consultoria ora como especialistas em engenharia finan- ceira. Públicas ou para-públicas,as agências eram quase todas de direito privado. O sucesso inicial das agências logo foi escurecido pela crescente burocra- tização e rotinização dos procedimentos. Foi o que aconteceu com o DGRTS, agência que tinha por função criar formas inovadoras de financiamento à pesquisa que pudessem superar os procedimentos tradicionais do CNRS.10 Após o êxito inicial, seus procedimentos tornaram-se tão rotineiros quanto os do CNRS. 7 Enquanto em países como a Inglaterra as reformas se concentram sobre a bandeira da privatização, na França, o problema manifesta-se, principalmente, pela crise da função pública e em questões como a descentralização/desconcentração de poderes. Neste último caso, procura-se avaliar as conseqüências da especi- ficidade do modelo unitário como um desafio a mais para estas políticas. Confor- me afirmam Claisse & Meininger, a delegação de poderes não tem o mesmo sentido em um Estado unitário ou no centro de um Estado Federal.11 Esse fenô- meno é apenas um exemplo de situações diversas que surgem da dialética entre as fórmulas “universais” de reforma e as realidades histórico-culturais de cada país ou localidade. Ao analisarmos as diversas reformas somente como reflexos de movimentos globais, corremos o risco de simplificar uma realidade extremamen- te matizada e complexa. Somente através de uma confrontação entre as aborda- gens sistêmica e culturalista, é possível encontrar um compromisso heurístico, minimizando as distorções que uma análise ortodoxa poderia trazer. II - A sociedade contra o Estado 1. A crise da função pública Em 1981, a palavra-chave da reforma administrativa era democratiza- ção. Acreditava-se que o Estado estaria cada vez mais presente na vida social, e, por conseqüência, precisaria gerar novos instrumentos de intervenção adminis- trativa. Entretanto, devido à cultura autoritária — “herdada dos governos anteri- ores”— os funcionários não estavam preparados para a democratização cres- cente da administração. Dentro da ótica socialista, o Estado francês, controlado desde o fim da II Guerra pela “direita”, havia incorporado uma cultura autoritá- ria e antidemocrática que era preciso superar. Segundo Martine Bellon,12 a administração deveria se adaptar aos novos tempos que viriam após maio de 1981. Essa adaptação deveria caminhar em duas direções básicas: afirmar a responsabilidade dos funcionários e contribuir, através de uma maior participação, para o aperfeiçoamento e eficácia da administração, da qualidade dos serviços prestados aos usuários e das relações entre estes e a administração. O diagnóstico dos problemas da administração focalizavam dois desafios estruturais a serem superados:13 1) A existência de uma profunda crise econômica e social, que tem como principal conseqüência a expansão da intervenção estatal e a necessida- de de administração; 2) A atitude autoritária dos governos anteriores que moldaram os com- portamentos e multiplicaram as oportunidades de conflitos entre funcionários e usuários. 8 Para enfrentar estes desafios, o governo socialista direcionou seus esforços para uma política de descentralização administrativa. Em linhas gerais, a descentralização prevista na lei de 2 de março de 1982 previa três orientações fundamentais: 1) Atribuía às coletividades locais (comunas, departamentos, regiões) o poder de livremente administrarem-se, tendo sido o Poder Executivo transferi- do do prefeito para os representantes eleitos das regiões e dos departamentos.14 2) Tornou as autoridades eleitas plenamente responsáveis, mediante a supressão do controle, a priori, dos prefeitos (que passam a se chamar comis- sários da República). 3) Deu às coletividades locais maiores possibilidades de intervenção econômica. De forma complementar a descentralização, foram tomadas medidas no sentido da desconcentração de atividades. Para isto, atribuiu-se ao comis- sário da República uma dupla missão: como depositário da autoridade do Estado, ele zela pelo respeito às leis e interesses nacionais; como represen- tante do Primeiro Ministro e de cada um dos demais ministros, coordena os serviços do Estado nos departamentos e nas regiões. Durante a gestão socialista, realizaram-se grandes esforços para democratizar o ingresso à alta função pública, com o objetivo de torná-la acessível a toda sociedade. Apesar das intenções, as medidas tomadas leva- ram a um agravamento da crise. Houve uma abertura da alta função para seto- res menos favorecidos da sociedade, ampliando-se os privilégios da função pública a todo o pessoal não-estatutário. Durante o processo ocorreu um sensível aumento dos poderes sindicais, assim como a promoção a postos de responsabilidade de funcionários militantes, não originados da alta função. Foi necessária a criação de uma nova casta de funcionários capazes de gerir o Estado, uma espécie de núcleo operacional dentro da alta função pública, agora ampliada de forma inoperante. Segundo Crozier: “A chegada de novos homens não impediu que fosse detonada uma crise da gestão que trouxe de volta os membros dos grandes corpos de funcionários no governo Fabius. Nesse ínterim, havia-se acentuadamente aumentado a rigidez dos estatutos administrativos com a entrada potencial na função pública de cerca de 700.000 auxiliares e não-estatutários. Havia se tornado mais difícil ainda a adaptação ao mundo exterior de um sistema que o peso sindical e o enfraqueci- mento da autoridade tornavam prisioneiros de suas dificuldade internas.”15 Nos seus primeiros esforços em direção a reforma administrativa, a gestão socialista mostrou-se bastante relutante em questionar o “poder do Estado”, acreditava-se que a democratização poderia se dar através de movi- mentos internos, não havendo iniciativas reais no sentido de gerar maior parti- cipação da sociedade civil na gestão da república. 9 No decorrer da década de 80, a crise da função pública agravou-se. Podemos observar os seguintes problemas: — defasagem na formação profissional; — congelamento das carreiras; — contestação das hierarquias; — falta de atratividade do setor público; — evasão de quadros altamente qualificados; — politização dos funcionários. Nas funções ocupadas por pessoal com alto nível de conhecimento técnico, a falta de atratividade da carreira pública leva a uma progressiva migração para o setor privado (em 1989, 5% dos engenheiros deixaram o serviço público).16 Como já foi dito acima, na França, o Estado Nacional constitui-se, enquanto único, poder legítimo na estruturação da vida social. Nesta sua mis- são, o Estado conta com seu braço secular: a função pública. Dentro desta concepção hegeliana, o Estado, entendido como realização máxima da razão, demanda um corpo burocrático homogêneo, imparcial, sábio, que esteja acima das paixões irracionais e dos interesses mesquinhos da sociedade civil. Dois movimentos questionaram os pilares do tipo descrito acima, de um lado, a crítica à administração enquanto poder tecnocrático, decorrente de um movimento mais amplo que questiona o discurso da neutralidade técnica; de outro, a crescente organização da sociedade civil, que mais consciente dos mecanismos de tomada de decisão, passa a reivindicar um maior controle e transparência das medidas governamentais. Além disso, a politização crescente dos funcionários desde o pós- guerra tem tornado evidente, para a sociedade francesa, que a administração não pode mais arrogar-se o direito de única detentora dos saberes/poderes da gestão coletiva. O sistema francês de função pública está fundado na noção de carrei- ra. O indivíduo escolhe uma profissão específica que é “o serviço do Esta- do”, este engajamento materializa-se na noção de carreira. Toda a vida profis- sional do funcionário público é organizada em função de regras gerais cujo caráter impessoal visa garantir a igualdade dos funcionários diante de possí- veis arbitrariedades dos seus superiores. O recrutamento faz-se através de concursos, nos quais é cobrado o domínio de conhecimentos gerais; a ascen- são tem comocritério a antigüidade, e a remuneração evolui em função de uma escala pré-determinada. Este conjunto de princípios, que formam o cerne da administração pública “tradicional”, tem sido duramente questionado, inclusive pelos próprios funcionários. Busca-se transformar este quadro em duas direções: a reorientação da formação do funcionário, a fim de que se torne mais especializada, e a personalização das tarefas, o que implica o estabelecimento de novos critérios de responsabilidade.17 10 O funcionalismo é recrutado com base em concursos cujos progra- mas, fixados em nível nacional, contemplam conhecimentos gerais. Neces- sário em nível de formação inicial, este método de seleção tem levado os funcionários a duvidar de sua capacidade de responder aos novos desafios trazidos pelo rápido desenvolvimento tecnológico e a especialização de seus domínios de intervenção. A fim de suprir esta brecha de formação, tem-se insistido na necessida- de de programas de formação contínua. Um acordo neste sentido foi assinado em 29 de junho de 1989 entre o ministro encarregado da função pública e cinco organizações sindicais, por um prazo de cinco anos. O financiamento destas ações ficou a cargo de cada ministério que deveria contribuir inicialmente com 1,2% da massa salarial, elevando-se a 2% em 1992. O modelo clássico de administração, adotado na França, pode ser clara- mente definido como weberiano. Neste sentido, considera-se como uma medi- da eficaz aquela que se enquadra nas normas e regulamentos preestabelecidos. Este postulado tem sido questionado em nome da flexibilização da gestão, cujo paradigma é inquestionavelmente a gestão privada. Os funcionários são convocados a modificar sua escala de valores, buscando novas formas de atua- ção que permitam conciliar a efetividade do direito com a qualidade da gestão. Da mesma forma, busca-se conciliar a especialização da formação neces- sária diante das novas demandas, com a manutenção da formação geral. Pois, se por um lado, as novas tecnologias exigem um funcionário especializado, por outro, a formação geral é indispensável ao exercício da inovação. A formação contínua é vista, como foi dito acima, como a solução para este dilema. Essencialmente, buscou-se realizar a formação contínua em quatro domínios prioritários:18 1) Gestão de recursos humanos; 2) Auxílio à gestão de mudanças no quadro dos “projetos de serviço” (em particular a comunicação externa e interna); 3) A preparação dos gestores à introdução de novas tecnologias e pro- cedimentos administrativos. 4) Iniciação às políticas e ao direito comunitário. 2. Os quadros superiores da função pública Outra característica marcante da crise da função pública é a preocu- pação com a “alta função”, ou como alguns preferem dizer, os “quadros supe- riores da função pública. A política de renovação, lançada em 1989, acredita- va que a modernização deveria passar pela transformação dos papéis atribuí- dos às diferentes categorias funcionais. Como vimos acima, a política dos primeiros anos do governo socialista, na intenção de democratizar o “acesso” à função pública, acabou por aprofundar a crise de identidade do setor. 11 Entre os anos de 1991-1993, o pesquisador francês do CNRS, Luc Rouban,19 realizou uma pesquisa quantitativa junto aos quadros superiores da função pública. Nesta pesquisa, o autor pôde mapear alguns dos principais problemas do setor. Rouban observa que a discussão do papel atribuído aos quadros superio- res pode ser avaliada de dois ângulos. O primeiro, estritamente administrativo, diz respeito ao sentido da modernização do setor público, caso se entenda a reforma meramente como a generalização de práticas de gerência pública, sendo que a transformação dos funcionários em gerentes é fundamental. Por outro lado, pode-se entender a reforma como a construção de uma administra- ção adaptada aos sistemas políticos em devir, ou seja, às conseqüências da união européia, da desregulamentação mundial, e a descentralização, etc. A estes itens, Piganiol20 acrescenta a política de desconcentração, o progresso tecnológico, a descoberta do usuário; o anseio pela modernização por parte dos próprios funcionários; a crise econômica e a evolução do papel do Estado. Segundo Rouban: “D’un côté, la prestation du service public s’est dissociée de la citoyenneté au nom du rendement financier, mais de l’autre, elle s’est chargée de nouvelles demandes d’imputation, à mesure que le personnel politique perdait de sa légitimité. Dans bien des cas, les administrations constituent le dernier rempart contre la dislocation de mécanismes démocratiques inadaptés à la vie moderne, qu’il s’agisse de parer à la dualisation sociale ou à la barbarie communautaire. Du statut social des fonctionnaires, et plus particulièrement de celui réservé aux cadres supérieurs, dépendra donc la capacité de réponse collective aux nouveaux enjeux.” 21 Perguntados sobre a existência de congruência entre a remuneração e as responsabilidades na função exercida, os funcionários responderam: Respostas Grandes corpos Total Administrações Total Serviços Total administrativos centrais desconcentrados Sim, totalmente 24,2 12,9 6,7 37,7 58,1 48,9 Sim, em grande parte 33,9 36 31 Não, muito pouca 24,2 31,7 34,7 37,1 49,7 60,7 Não, nenhuma 12,9 18 26 Sem resposta 4,8 1,4 1,7 Percebeu-se, ainda, uma sensível variação por faixa de idade. Os funcio- nários entre 41 e 50 anos estão mais descontentes, 26,9% “Não, Nenhuma” , contra 15,9% para os com menos de 40 anos. 12 Outro aspecto relevante constatado pela pesquisa diz respeito à poli- tização da alta função pública. O princípio da imparcialidade e neutralidade característico do modelo burocrático-legal, e tido como princípio sagrado da Quinta República, é cada vez mais uma lembrança distante. Atualmente, obser- va-se uma crescente politização da alta função. A pergunta “Você acha que a função pública é mais politizada, nem mais nem menos politizada, ou menos politizada que há alguns anos”. Obteve-se as seguinte cifras: 47,5% consideram a função pública mais politizada, 44,9% não vê alteração, 5,6% consideram menos politizada. Para Rouban, alguns fatores podem ser apontados como causas desta politização, a saber, menor significado do Estado e do serviço público entre os funcionários, vontade política de acompanhar a execução de certos projetos; reação à vontade dos eleitos de controlar mais de perto o trabalho administrativo; resposta à politização crescente de todos os debates na sociedade francesa.22 A nova forma de relacionamento com a esfera política gera progressiva- mente uma sensação de aparelhamento do Estado por parte dos funcionários, o que põe, em cheque, seu potencial de autonomização diante das demandas tanto dos políticos quanto da sociedade civil. 3. A política de privatização Em 1981, com o governo socialista de Mitterand, teve início um amplo processo de nacionalizações, o primeiro desde os anos iniciais do governo De Gaule entre 1945-1946. Os efeitos desta política mostraram-se desastrosos num contexto altamente recessivo como o de início dos anos 80, o que fez com que o governo socialista revisse sua política econômica. Entretanto, o inchamento do setor público permaneceu uma realidade pouco combatida. Somente com a coali- zão liberal de 1986 iniciou-se uma política de privatizações. A opinião pública que em 1981 era amplamente favorável às nacionalizações, em 1986, a situação se inverteu a favor das privatizações. Podemos apontar três fatores que contribuíram para a mudança da opi- nião pública em favor da política de privatização:23 1) Renascimento do liberalismo com as experiências Reagan e Thatcher. A reforma do estado inglês teve um forte impacto na opinião pública francesa, seguida pela publicação de manuais e breviários liberais. 2) Dificuldade cada vez maior do Estado em resolver as questões essenciais da vida coletiva, o que leva ao questionamento de sua presença em áreas não-essenciais. 3) Crescimento excessivo do setor público. No momentodas privatiza- ções de 1986-1987, o setor público da economia recobria mais de 650 socie- dades, empregando aproximadamente dois milhões e duzentas mil pessoas. 13 Estava presente em setores como: eletrônica, automóveis, farmácia, equipa- mento de segurança, vidros, informática, metais não-ferrosos, química, arma- mento, transportes aéreos, crédito, carvão, correios, transportes ferroviários, eletricidade, telecomunicações, etc... O texto da lei de privatizações de 2 de julho de 1986 previa em seu artigo 4o que: “Será transferido do setor público ao setor privado, no mais tardar até março de 1992, a propriedade das participações majoritárias detidas direta- mente ou indiretamente pelo Estado nas empresas que aparecem na lista anexa.” Ao todo a lista comportava 65 empresas. Podemos identificar três objetivos24 básicos da política francesa de privatizações: 1) A reestruturação da economia, liberando as empresas dos encargos administrativos, a fim de torná-las mais competitivas; 2) Criação de uma ampla participação acionária da população; 3) Obtenção de recursos complementares, por parte do Estado (esti- mou-se a receita a ser obtida pelo processo de privatização em torno de 70 milhões de francos). Os efeitos das privatizações junto aos funcionários das empresas privatizadas podem ser observados principalmente quanto às transformações advindas da mudança do “status” de funcionário de uma grande empresa públi- ca. Em teoria, a privatização não produz efeitos sob o estatuto funcional, já que os empregados de empresas públicas não são considerados funcionários públicos, nem mesmo de uma categoria mais ampla como a de agentes públi- cos. Eles são submetidos em quase sua totalidade ao direito privado. Portanto, a transferência de empresas do setor público para o setor privado não acarreta mudança alguma no estatuto jurídico funcional. É ver- dade que os empregados das empresas públicas possuíam salários e vanta- gens superiores aos praticados no setor privado, não em função do caráter público destas empresas, mas da sua importância e tamanho. Com a passa- gem para o setor privado isto não se modifica substancialmente, não haven- do grandes alterações salariais. Se do ponto de vista jurídico a mudança não apresenta traumas profundos, do ponto de vista sociológico a situação é, substancialmente, outra. Por um lado, a precariedade do emprego é maior no setor privado, há menos estabilidade. Em algumas empresas públicas a estabilidade de fato era quase tão grande quanto na função pública propriamente dita. Os casos de demissão eram extremamente raros, com exceção de empresas em crise como a Renault. O que ocorre é que, com a passagem para o setor privado, o estatuto jurídico do setor se faz presente mais integral- mente, sem as mediações corporativas tradicionalmente instaladas nas empresas, o que provocou forte reação dos sindicatos. 14 4. Políticas de avaliação A crescente queda do PIB, a partir de 1989, e o acirramento da crise fiscal, na virada da década de 80 (vide gráficos 1 e 2), levaram, dentre outros fatores, a uma nova onda de discussão sobre a reforma administrativa. Gráfico 1: Evolução do PIB, em volume, depois de 1982 Fonte: http:/www.tresor.finances.fr/oat/fr/rap0596/ev1.html Gráfico 2: Déficit do orçamento do Estado em execução (em milhões de francos) Fonte: http:/www.tresor.finances.fr/oat/fr/rap0596/ev2.html#1 Dentre as temáticas levantadas, a questão da avaliação destaca-se. A discus- são sobre a avaliação de políticas públicas na França é relativamente recente, mais recente ainda são as primeiras experiências neste sentido. As primeiras iniciativas sérias são dos anos 80, especificamente a partir de 1986. Refletindo essa despreo- cupação com a questão da avaliação, Sylvie Trosa25 constata a ausência de um con- ceito francês de avaliação. A autora propõe então a seguinte definição: -2 -1 0 1 2 3 4 5 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1990 1991 1992 1993 1994 1995 -350 -300 -250 -200 -150 -100 -50 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 15 “A avaliação procura pôr em evidência as relações de causalidade entre objetivos, implícitos ou explícitos, e os efeitos reais, os impactos das políticas públicas. A avaliação deve ser entendida mais como um mecanismo de compreensão do que de julgamento.”26 A mesma autora define como meta da avaliação a organização de um debate sobre os objetivos da ação pública e a reflexão sobre as condições e mei- os de organização deste debate, que deve reunir especialistas, intelectuais, e todos os atores sociais envolvidos nas políticas. Pela definição da autora, a avali- ação deixa de ser somente uma verificação do cumprimento de objetivos, para se tornar mecanismo de sua formulação. Mais que uma rotina burocrática, a avalia- ção passa a ser vista como uma produção de saberes, não só sobre a realização de objetivos, mas sobre as situações relacionais envolvidas na sua execução. Ainda segundo Trosa, a avaliação repousa sobre duas bases, a primeira é a produção rigorosa de informações sobre hipóteses levantadas pelos gestores, a segunda, um trabalho de clarificação e melhor definição dos problemas públicos a partir da evidenciação da concepção de cada ator da política a ser avaliada.27 Somente em 1990, através do decreto de 22 de janeiro, relativo a avalia- ção de políticas públicas, criou-se um dispositivo institucional organizando uma atividade de avaliação com vocação geral e permanente. Pode-se depreender do texto do decreto que a avaliação tem por objetivo verificar se os meios jurídicos, administrativos ou financeiros empregados permitem produzir os efeitos espera- dos da política e atender aos objetivos que lhes são atribuídos. 28 O modelo de avaliação implícito nesta definição de princípios supõe que os objetivos das políticas estejam suficientemente explícitos para possibilitar a análise. Na realidade, o que se observa é que um dos principais entraves às políti- cas de avaliação têm sido os objetivos confusos e insuficientemente definidos. Segundo Nioche,29 o novo dispositivo de avaliação pode ser incluído dentro de uma política mais ampla de melhoria dos serviços públicos em- preendida pelo Primeiro Ministro M. Rocard em 1988. Esta política tinha como prioridades, estabelecidas em uma carta de Rocard aos ministros em 23 de fevereiro de 1989, a renovação das relações de trabalho no seio da função pública, melhoria do atendimento e do serviço aos usuários, desen- volvimento da responsabilidade pela descentralização orçamentária e a mensuração dos resultados e o desenvolvimento da avaliação das políticas públicas nos âmbitos individuais e organizacionais. À primeira vista, pelo conceito e intenções anunciadas, a avaliação estaria sendo entendida num âmbito gerencial, entretanto, uma das conseqüências diretas desta abordagem seria a conexão da política de avaliação com os procedimentos orçamentários, visando à redução do déficit público. Paradoxalmente isto não irá ocorrer, já que, na estrutura dos dispositivos não está prevista a articulação dos procedimentos avaliadores com as esferas de decisão orçamentária. A interpreta- ção da estrutura montada leva-nos, facilmente, a concluir que, na verdade, ocorre 16 um fortalecimento do Executivo em detrimento dos demais poderes, em especial do Parlamento. Vejamos a estrutura do processo: A estrutura estabelecida pelo decreto de 22 de Janeiro de 1990 é com- posta de três elementos principais: o Comitê Interministerial de Avaliação (CIME); o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Avaliação (FNDE) e o Con- selho Científico de Avaliação (CSE). O CIME, integrado pelos principais ministros, é presidido pelo Primei- ro Ministro. O Comitê coordena as iniciativas governamentais em matéria de avaliação. Os projetos de avaliação são propostos pelos ministros, podendo ser sugeridos pelo Conselho de Estado ou pelo Tribunal de Contas. O CIME perma- nece soberano na escolha das avaliações financiadas pelo FNDE. O FNDE assegura o financiamentodas avaliações decididas pelo CIME; estas representam 4/5 de suas receitas anuais, o 1/5 restante é reservado a avaliações solicitadas pelo Conselho Econômico e Social, desde que tenham parecer favorável do CSE. O CSE é constituído de 11 pessoas, escolhidas em função de sua com- petência científica, nomeados pelo Presidente da República para um mandato de seis anos, não podendo ser renovado. O CSE produz dois pareceres sobre cada processo de avaliação. O primeiro parecer sobre os métodos é dado antes da adoção dos projetos pelo CIME. O segundo parecer é dado após a realização dos trabalhos de avaliação, e trata da qualidade de sua execução. O relatório da avaliação e o segundo parecer são divulgados simultaneamente para o CIME, que então decide pela publicação ou não da avaliação.30 Além de produzir pareceres, o CSE está encarregado de organizar a documentação, a pesquisa e a formação em matéria de avaliação. O Comissariado Geral do Plano31 é o responsável hierárquico pelos diversos dispositivos criados para a avaliação. 8. Deliberação do CIME sobre a seqüência da avaliação 1. Proposição dos objetos de avaliação pelo CIME e por equipes de avaliação 2. Avaliação dos projetos 3. Primeiro parecer do CSE sobre a metodologia a ser aplicada 4. Decisão do CIME sobre financiamento dos projetos pelos créditos do FNDE 5. Realização do projeto por uma equipe de avaliação 6. Segundo parecer do CSE sobre os resultados da avaliação 7. Publicação da avaliação e do parecer do CSE 17 Embora os relatórios que precederam o decreto de 22 de janeiro de 1990 insistissem sobre a composição plural e autônoma da política de avaliação, em particular os relatórios Deleau (1986) e Viveret (1989), o projeto, que veio à luz, constitui, de fato, um monopólio da avaliação dominado pelo Poder Executivo. Em 1993, o CSE somava dois anos de atividades. Neste período produziu 15 pareceres sobre projetos de avaliação, além de ter produzido para a Presidência da República um estudo comparativo sobre os processos de avaliação em outros países e os realizados na França. Neste trabalho, formula-se uma doutrina “france- sa” de avaliação, cuja singularidade é o conceito de “instância de avaliação”. O conceito de “instância de avaliação”, criado pelo CSE, tem gerado um vivo debate sobre sua pertinência. A “instância de avaliação” é constituída para executar e dirigir o projeto de avaliação. Ela deve associar os diversos atores administrativos relacionados com a política avaliada, os usuários (externos), os utilizadores (internos) da política e os especialistas do setor. Esta composição deve construir os pareceres a partir de um amplo debate onde as conclusões deverão refletir uma decisão colegiada. Procura-se, dessa forma, ultrapassar a dicotomia demandas científicas versus necessidades políticas de um lado, e a oposição entre avaliação interna e externa de outro. Segundo Nioche, claramente contrário ao mecanismo, pode-se evocar duas origens para a noção de “instância avaliadora”. A primeira, tipicamente fran- cesa, evoca a experiência dos grupos de pilotagem dos “estudos prioritários” da RCB (Rationalisation des Choix Budgétaires), criados a partir de 1976. A outra inspiração vem de uma corrente do movimento avaliador, denominado nos EUA, segundo os autores e variantes, Stake-holders evaluation, Naturalistic Evaluation, Utilisation-focused evaluation, ou ainda Fourth generation evaluation. Esta abordagem procura compreender a avaliação como um processo de constituição de uma realidade pela negociação entre os atores envolvidos na política. O avaliador é um negociador, procurando fazer surgir uma opinião cole- giada, sob a qual se construirá o julgamento da política em questão.32 Concluindo pelo caráter incipiente do modelo criado em 1990, Nioche aponta algumas questões sobre a avaliação na França: 1) A avaliação é uma atividade em desenvolvimento, mas sem reconhe- cimento institucional. 2) Os trabalhos existentes são dispersos e geralmente com pouco rigor metodológico. 3) Não existe uma instituição especializada: a avaliação é uma atividade marginal. 4) A administração do Estado é, ela mesma, a principal requisitora e fornecedora de avaliações. O Parlamento não é nem requisitor nem utilizador de avaliações, e o Tribunal de Contas começa timidamente a se interessar. 5) O papel da avaliação no debate público e no processo de decisão ainda é medíocre. 18 A contradição entre a circular de 23 de fevereiro de 1989, que estabe- lecia o postulado de independência dos avaliadores, com o decreto de 1990, que cria um mecanismo puramente governamental, não passou despercebido aos membros do CSE. A fim de resolver essa contradição, o CSE propôs, como condição, que a avaliação, mesmo quando solicitada por uma administra- ção particular, devia ser gerida por uma instância autônoma e independente, obedecendo os seguintes critérios: 1) Composição equilibrada — presença da administração, dos usuários, dos experts. 2) Liberdade de trabalho — somente a instância de avaliação é responsá- vel pelo relatório de avaliação. 3) Distinção entre a instância e o lugar de negociação — os membros da instância de avaliação não devem representar o organismo ao qual estão ligados. O Conselho científico deve incentivar que a escolha recaia sobre indivíduos capazes de entrar num processo de trabalho coletivo.33 III - Em busca de uma racionalidade do bem comum? Nos últimos 25 anos, a França tem realizado esforços com o objetivo de conciliar Estado e sociedade na construção de um modelo singular e apto aos tem- pos modernos. O modelo surgido no pós-guerra, tecnocrático e monopolizador, tendia a desprezar a sociedade, vista como espaço do senso comum e do interesse egoísta. A crítica liberal ao Estado tecnocrático, em especial aquela oriunda dos países de língua inglesa, tende a ver a sociedade meramente como um ajuntamento de indivíduos e grupos de interesses, cada qual voltado unicamente para suas neces- sidades. Nesta versão, o Estado é encarado simplesmente como mais um ator num jogo onde a regra é lucrar sempre. Apesar de toda retórica liberal, muitas vezes importada, o caminho de reforma, adotado pela França, está, sem dúvida, longe daquele considerado ideal pelos arautos do Estado mínimo. A velocidade das reformas deixa a desejar, não se tem feito esforços significativos no sentido de ampliar a participação e o controle da sociedade civil sobre a administração. O Estado e mais especifica- mente o Executivo agem ainda como detentores da “Vontade Geral”, presos a um modelo estreito de democracia representativa. Pouco se tem feito no sentido de controlar a corporativização do serviço público. Os mecanismos de avaliação, além de não estarem conectados com os procedimentos orçamentários, valori- zam, excessivamente, os atores internos (técnicos, funcionários) em detrimento do cidadão/usuário. A política de privatização quase que se limitou a reverter as nacionalizações realizadas no início da década de 80. A crescente politização dos funcionários deixa evidente que a universalidade/imparcialidade da tecnocracia é cada vez mais um mito, entretanto, essa mesma politização, rever- 19 tida em corporativização, impede que o modelo fundado neste mito seja trans- formado. O peso da “história nacional” talvez seja o maior desafio aos reformadores franceses. A identidade entre Estado e nação é um fato que dura mais de 200 anos na França. O questionamento desta identidade, envolta na mística revolucionária, é condição primeira para a construção de uma nova racionalidade/ética da ação cole- tiva, que possa conceber a sociedade civil como agente capaz de partilhar com o Estado a gestão da república. A busca desta “racionalidade do bem comum” deverá estar, entretanto, para além da dicotomia maniqueísta que opõe Estado e sociedade. 20 Notas 1 Este artigo foi realizado com o financiamento da ENAP Escola Nacional de Administração Pública. Constitui um dos produtos da pesquisa sobre burocracia estatal, do Programa de Pesquisase Estudos sobre Reforma do Estado e Governança, mantido pela FGV/EBAP, sob a coordenação da professora Sonia Fleury, doutora em Ciência Política, professora do curso de Mestrado em Administração Pública da EBAP-FGV, coordenadora do Programa de Estudos e Pesquisas sobre Reforma do Estado e Governança, mantido pela FGV/EBAP. Contou, ainda, com a contribuição especial dos seguintes pesquisadores: Adriana Mesquita, Sílvia Ferreira e Wagner Carvalho. 2 Crozier: 1989, p. 19. 3 Crozier: 1989, p. 22. 4 Crozier: 1989, p. 26. 5 Companhia responsável pelo transporte ferroviário francês. 6 Rouban: 1990, p. 528-529. 7 Crozier: 1989, p. 56. 8 Claisse & Meininger: 1995, p. 442. 9 O exemplo é dado por Crozier: 1989, p. 76-77. 10 Centre Nacional de Recherche Scientifique, órgão de fomento a pesquisa científica. 11 Claisse & Meininger: 1995, p. 444. 12 Em 1984, era chefe da missão permanente — renovação e futuro da Administração —, pelo Ministério do Serviço Civil e das Reformas Administrativas (França). 13 Bellon: 1984, p. 23. 14 Bellon: 1984, p. 23. 15 Crozier: 1989, p. 79. 16 Rouban: 1990, p. 531. 17 Montricher: 1991, p. 435-436. 18 Montricher: 1991, p. 435. 21 19 Rouban: 1994, p. 181-195. 20 Piganiol: 1994, p. 198-199. 21 Rouban: 1994, p. 182. 22 Rouban: 1994, p. 189. 23 Bourdon (et alli): 1989, p. 126. 24 Bourdon (et alli): 1989, p. 133. 25 Sylvie Trosa era relatora geral adjunta do Conselho Científico de Avalição em 1993, quando escreveu o artigo infra-referido. 26 Trosa: 1993, p. 242. 27 Trosa: 1993, p. 242. 28 Nioche: 1993, p. 210. 29 Nioche: 1993, p. 211. 30 Nioche: 1993, p. 210-211. 31 Órgão encarregado da elaboração do Plano Qüinqüenal. 32 Nioche: 1993, p. 213. 33 Trosa: 1993, p. 243. 22 Referências bibliográficas BELLON, Martine. 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Os governos destes países realizaram uma tentativa de mudança, tanto da dimensão institucional quanto da ideológica, visando a uma reorganização do setor público: mudança institucional no sentido de que seria necessário alterar tanto a estrutura como o funcionamento do setor público, possibilitando um acréscimo de sua autonomia, maior eficiência na consecução dos resultados, e ao mesmo tempo e em contrapartida, um maior controle daquele setor por parte da sociedade. Na dimensão ideológica, por repre- sentar uma mudança no paradigma que tem orientado a burocracia esta- tal: a chamada “burocracia weberiana” deveria dar lugar a uma “buro- cracia gerencialista”,com a conseqüente introdução de práticas típicas de mercado na administração pública. Esse movimento parece ter-se universalizado: tanto os governos de países que dispõem de setores públicos considerados grandes — como a Suécia — mas também governos de países com pequenos setores estatais — como a Inglaterra — têm conduzido reformas de Estado de natureza e objetivos similares. Essa tendência reformista do Estado cursa, em paralelo, e mesmo decorre das grandes transformações que tiveram origem a partir do fim da Guerra Fria, sendo potencializada pelo desmoronamento do comunismo e da crise do Estado de Bem-Estar. A superação da polarização Norte- Sul gerou um padrão bem mais monocórdico, facilitando a implantação Mestrando em administração pública da EBAP/FGV/RJ, analista do Banco Central do Brasil Revista do Serviço Público Ano 48 Número 3 Set-Dez 1997 6 RSPde padrões universais de consumo e orientados segundo as forças de mercado. Os Estados, segundo os teóricos reformistas, acham-se despreparados para as novas pressões desse ambiente globalizado e por isto precisam ser repensados.2 O diagnóstico e a justificativa que nortearam — e ainda norteiam — esse movimento de reformas também são comuns: o setor público caracteriza-se por ser “inchado”, ineficiente, abrangendo áreas da eco- nomia às quais poderiam ser assumidas pela iniciativa privada e, princi- palmente, pelo setor estatal considerado como o maior responsável pelo déficit público. Em outro nível, presume-se que o setor privado é, geral- mente, mais eficiente que o público na produção de bens e serviços. Daí, uma atividade somente deve ser realizada pelo Estado, quando houver uma razão bastante persuasiva que justifique tal finalidade.3 Mudanças dessa natureza envolvem um enorme esforço, o qual não se resume somente em uma vontade política dos novos governantes, mas pressupõe uma correlação de forças políticas majoritárias, que for- neça a sustentação necessária para a aprovação de profundas alterações na ordem constitucional-legal. Caracteristicamente, esses processos são normalmente lentos e dependentes de acordos e alianças políticas; o que indica, para sua viabilização, uma continuidade das práticas políticas pos- tas em ação. O processo político, assim, precisa ser dimensionado para mais de um período legislativo, o que significa que a fração política domi- nante deve ter, como um dos principais objetivos, a necessidade de se manter uma continuidade no poder, ou seja, de antemão, está prevista a necessidade de reeleição. Esta foi a concepção básica das reformas na Inglaterra, e assim também ocorreu na Nova Zelândia. Outros países tentaram a mesma solu- ção, tais como Austrália, Dinamarca, Suécia. Desta forma, uma variável que parece importante para a concretização das reformas é a que repre- senta a manutenção da correlação das forças políticas reformistas — bloco político dominante bastante sólido que consegue reeleger-se por vários mandatos consecutivos e dar continuidade ao processo. Países que conse- guiram implementar reformas consideradas radicais — Inglaterra e Nova Zelândia — apresentaram essa característica.4 Até que ponto essa variá- vel pode ser considerada como determinante para o aspecto da “radicalidade reformista” é um aspecto que precisa ser melhor avaliado. Na Nova Zelândia, as reformas ocorreram a partir de 1984, com a chegada ao poder do Partido Trabalhista, sendo consolidadas com a reeleição em 1987. Esse processo teve continuidade e mesmo foi intensificado a partir de 1990, com a vitória eleitoral do Partido Nacional. Antes mesmo, e ao longo dos anos 70 e 80, organizações intergovernamentais como Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Fundo Monetário 7 RSPInternacional (FMI) indicaram a necessidade de privatização das empresas estatais e de uma mudança drástica no setor público. Essa receita reformista requeria forte redução dos custos financeiros, diminuição do número de em- pregados do setor estatal e chamava atenção para a questão da irresponsabilidade que imperava no setor público. Essas duas organizações, fortemente influenciadas pela abordagem teórica da Public Choice, também propiciaram treinamento para os burocratas do setor econômico e fiscal do Estado, o que explica a origem das propostas desses burocratas para a refor- ma administrativa, como se verá mais adiante. Em sua primeira parte, o artigo discute a situação da Nova Zelândia no período pré-reforma, delimitando um ponto de partida que permite pos- teriormente, a comparação do panorama anterior com o cenário atual, ou seja, avaliar os resultados da reforma. Em seguida, estudam-se as formas incrementadas no nível da bu- rocracia dirigente, e, especialmente, os contratos de gestão entre os exe- cutivos-chefe e os ministros e a assunção de responsabilidades pela con- secução dos resultados contratados. Posteriormente, procurar-se-á mostrar como ocorrem, hoje, na Nova Zelândia, as contratações no serviço público, e de uma forma geral, estudar a questão da política de recursos humanos e seus subsistemas: seleção, qualificação, avaliação de performance e indicadores de desempenho. Por último, traça-se um perfil da Nova Zelândia pós-reforma, e, de forma resumida, discute-se o ferramental teórico que deu suporte às re- formas naquele país. Dentro deste escopo, e baseado na literatura dispo- nível, procuraremos responder algumas questões, tais como: quais as van- tagens e desvantagens da política de avaliação periódica dos contratos de gestão entre executivos e ministros? Com a implementação desses me- canismos, os ministros tornaram-se, efetivamente, mais capacitados para exercer controle sobre os departamentos e agências? E os altos executi- vos, responsáveis pelos departamentos, tornaram-se mais responsáveis perante os ministros? 2. O modelo administrativo anterior a 1984 O modelo administrativo neozelandês obteve êxito, no século XIX, no desmonte do aparato burocrático colonial e na subseqüente substitui- ção deste aparato por um novo modelo de administração de caráter estatizante. Essa nova administração, baseada no modelo weberiano, possibilitou a eliminação dos abusos e vícios coloniais, permitindo uma escalada na ascensão social, melhorou a qualificação dos funcionários através de políticas de qualificação e garantiu condições de trabalho sufi- cientemente estáveis.5 8 RSPO êxito inicial do novo modelo acabou por constituir uma cultura hostil às mudanças que, com o passar do tempo, e em decorrência da aceleração do ritmo das transformações econômicas, sociais e políticas, — mas precisamente com a crise dos anos 70 — passou a ameaçar a estabilidade e sobrevivência do próprio sistema. Fez-se necessário, mais uma vez, empreender esforços para renovar aquele modelo administrati- vo, tarefa agora dificultada por atitudes e procedimentos já ossificados pela tradição. Até os anos 70, a economia neozelandesa logrou um respeitável crescimento e estabilidade econômica, graças a uma balança de paga- mentos amplamente favorável, fruto da exportação de matérias-primas e da possibilidade de captação de crédito para a cobertura dos gastos go- vernamentais. Com a degradação da economia mundial estas condições desapareceram, a balança comercial apresentou seus primeiros déficits, a inflação sofreu sensível elevação, assim como a taxa de desemprego. O setor público, pouco adaptado às situações adversas, passou a apre- sentar seguidos déficits orçamentários, escala crescente de endividamento, fatores estes evidenciados na desvalorização da moeda. Três revisões sucessivas no sentido de compatibilizar os pagamen- tos e receitas do setor público foram realizadas na década de 60 e 70, não resultando, entretanto, em mudanças significativas. Especialmente a partir dos anos 80, organizações de caráter intergovernamental, tais como o FMI e a OCDE reforçaram a necessida- de de uma revisão do setor público. As principais dificuldades apontadas por essas organizações em relação ao setor público eram: — crescimento doscustos financeiros; — gerência financeira irresponsável; — aumento do empreguismo. A área de recursos humanos também era problemática. Antes dos anos 80, a Nova Zelândia não dispunha de um sistema formal de acompa- nhamento da performance dos altos escalões das burocracias estatais. Os executivos chefes eram escolhidos a partir de uma lista de servidores públicos mais experientes. Esta escolha poderia ser objeto de veto pelos ministros, mas, tradicionalmente, esta prerrogativa raramente era utiliza- da. Os executivos selecionados, geralmente com média de idade em tor- no de 45-50 anos, permaneciam nestes departamentos até a idade de 60 anos, constituindo o chamado “quadro permanente”.6 Apesar das tentativas de reorganização mencionadas, o setor pú- blico continuou a se expandir. O gasto público total, na Nova Zelândia, apesar de ter apresentado, neste período, taxa de elasticidade superior a 1 (um) em relação ao PIB, ficou, em contrapartida, abaixo da média dos países da OCDE.7 (Tabela 1) 9 RSPTabela 1: Indicadores econômicos governamentais anteriores às reformas Déficit em conta Déficit fiscal Gasto Emprego no corrente — % — % PIB governamental Setor Público — do PIB total — % PIB % da força de trabalho Austrália 3,9 4,2 38,6 17,4 Dinamarca 4,0 9,2 61,2 30,2 Nova Zelândia 6,0 8,9 35,3 24,9 Suécia 3,3 7,1 66,3 32,9 Média OCDE 0,3 4,2 45,8 18,0 1 - 1982 para Dinamarca, Suécia; 1983 para Austrália; 1984 para Nova Zelândia. 2 - Emprego no Setor Público: 1984 para todos os quatro países. (Retirado e adaptado de: SCHWARTZ, 1994, op.cit., p. 53) Antes das reformas atuais, existiam três tipos de empresas públi- cas — SOE’s:8 a) departamento do governo: assessoria, regulamentação e fun- ções comerciais, tais como Serviço Postal, Serviço Florestal, Ministérios do Trabalho, Desenvolvimento e Energia. b) companhias governamentais com responsabilidade limitada, regidas pelo Companies Act, de 1955, tendo, usualmente, o Ministro das Finanças como único acionista. Exemplos dessas companhias: Air New Zealand, Bank of New Zealand, Petrocorp e a Shipping Corporation. c) corporações públicas estabelecidas sob o Acts of Parliament, tais como Housing Corporation, a Railways Corporation e o Rural Bank. As SOE’s estavam envolvidas em uma grande diversidade de ati- vidades, como seguros, atividades bancárias, construção civil, habitação, atividades florestais, turismo, comércio, radiodifusão, telecomunicação, transporte, produção de energia e sua distribuição, manufaturas, produ- ção primária, pesquisa e desenvolvimento, assessoria e serviços. Em al- guns casos, tais como distribuição de energia e serviços de telecomunica- ção, grandes empresas públicas desfrutavam de monopólio; em outros casos, como atividades bancárias e seguros, elas competiam diretamente com o setor privado. Obviamente, com o Estado envolvido em tão extensa lista de atividades, ele se tornara responsável por um impacto importante em toda performance da economia. Este nível de intervenção foi o res- ponsável, segundo Boston, por uma taxa de crescimento econômico abai- xo dos padrões internacionais: em termos de renda per capita, o país, que detinha o terceiro lugar na classificação internacional até o início dos anos 50, caiu para vigésimo quinto lugar na metade dos anos 80. 10 RSP3. Os objetivos e os princípios da reforma No final de 1985 o governo anunciou as principais linhas que nor- teariam a reorganização administrativa do setor público. Em setembro de 1986 foi introduzida a legislação State-Owned Enterprises Bill, dando início à execução efetiva da reforma. O Treasure estimou que, para o período 1986/1987 as medidas iriam reduzir o gasto do governo em torno de 900 milhões de dólares neozelandeses; para 87/88, em 1.200 milhões de dólares e 1.400 milhões de dólares para o período de 88/89.9 De acordo com Richardson, os objetivos da reforma buscaram me- lhorar a performance e garantir controle social, transparência e respon- sabilização sobre os atos dos agentes estatais — accountability, confor- me abaixo especificado: — melhorar a relação custo-efetividade da produção de bens e serviços pelo setor estatal; — melhorar a qualidade desses bens e serviços; — tornar o setor público provedor de bens e serviços mais respon- sável perante as necessidades dos consumidores; — dar aos representantes eleitos maior controle sobre os recursos que foram utilizados. Richardson10 cita os seguintes princípios que nortearam das refor- mas: controle estratégico, clareza na definição dos objetivos, descentra- lização, accountability, competição e presunção sobre maior eficiência do setor privado. Boston11 enumera oito princípios, que, por sua abrangência, englo- bam e explicam melhor a dinâmica das reformas. São eles: 1) Separação das funções comerciais das não-comerciais. A justificativa baseia-se no conflito, na definição e execução do ob- jetivos. Quando uma agência possui objetivos conflitantes, geralmente, ne- nhum desses objetivos é bem realizado. A forma de resolver tal problema foi separar as atividades comerciais das não-comerciais. O principal resul- tado tem sido remover as funções comerciais dos departamentos do gover- no, e colocá-las em corporações públicas independentes. De acordo com Richardson12, a separação das atividades comerciais das não-comerciais alcança outro objetivo: deixa claro, de um lado, o núcleo do setor estatal e de outro, o setor empresarial do governo. Estes dois setores necessitam de diferentes estruturas organizacionais e regimes de accountability. 2) Separação entre as funções administrativa e de assessoria. Este princípio relaciona-se à proibição de que as agências respon- sáveis pela administração e implementação das políticas forneçam consultoria aos ministros em matéria de políticas públicas. Noutro aspecto argumenta-se que os ministros devem dispor sempre de uma fonte alternativa de consultoria; ou seja, para cada visão de um problema, uma 11 RSPconsultoria diversa. Por exemplo, na área de proteção ambiental, uma mesma agência não deverá fornecer consultoria nas áreas de conservação e desenvolvimento, ou em eficiência e eqüidade. 3) Princípio do “quem usa paga” (user-pays). Este princípio afirma a necessidade de se cobrar o preço real pelos serviços e bens produzidos pelos departamentos e agências do Estado, no que se refere à comercialização intragoverno. Ele visa eliminar uma prá- tica arraigada no serviço público, de se fazer um preço especial, sempre mais baixo, ou mesmo não se cobrar, quando o cliente era um órgão do próprio Estado. Os objetivos deste princípio são: a) tornar claro para o administrador público que nada mais é de graça, e encorajar uma mudança de comportamento; b) sendo o preço o mesmo, tanto o setor público quanto o privado, ambos são forçados a avaliar o quanto o serviço é realmente importante, o que proporciona economia; c) aumentar a renda auferida com a prestação do serviço; d) evitar desperdício, já que somente irá comprar aquele que real- mente necessitar do serviço ou do produto. 4) Transparência na concessão de subsídios. Desde a entrada em vigor do State-Owned Enterprises Act, de 1986, o principal objetivo das nove corporações públicas foi operar com a filosofia de sucesso gerencial, visando à obtenção de lucros. Ou seja, deverão ser “lucrativas e eficientes como as empresas que não são de propriedade da Coroa”, e ao mesmo tempo, serem “boas empregadoras”, exibindo “um senso de responsabilidadesocial”.13 No caso de o governo necessitar de bens e serviços de uma em- presa governamental (SOE), de natureza não-lucrativa, tal como a extensão de energia elétrica, ou de estradas de rodagem para áreas não economi- camente rentáveis, ele deverá fazer um contrato formal com a empresa prestadora dos serviços. O que se deseja é que serviços que necessitam ser subsidiados, sejam claramente definidos e publicamente abertos, ou seja, deve haver transparência no processo.14 5) Neutralidade competitiva. Este princípio relaciona-se ao anterior. O seu objetivo é garantir uma competição justa entre as empresas do Estado e as empresas privadas. Ele garante que as empresas públicas deverão ser livres de entraves e controles burocráticos que as possam prejudicar na livre competição de mercado, e, ao mesmo tempo, garante uma igualdade de competição, não permitindo a elas privilégios especiais, tais como a manutenção de direitos de monopólio, garantia de clientela ou financiamento subsidiado. Exige, também, que as novas SOE’s adquiram seus bens e ativos do governo, após uma apropriada avaliação mercadológica. Isto tem provo- cado bastante controvérsia, porque diferentemente da avaliação de uma 12 RSPpropriedade, que é relativamente fácil de ser feita, a avaliação de recur- sos naturais, tais como um reserva hídrica ou de carvão, uma reserva florestal, é bem mais complexa, e, sendo mal conduzida, pode impactar negativamente a performance e a estrutura de preços da empresa.15 6) Descentralização e aumento do poder discricionário do admi- nistrador. A descentralização do processo decisório tem sido um elemento básico para conferir maior eficiência, adaptabilidade e responsabilidade à burocracia, na reforma neozelandeza. Os administradores públicos detêm agora grande responsabilidade pelas decisões a respeito de compras, estabelecimento de preços, inves- timentos, delegação de autoridade para níveis de competência, etc.16 7) Melhoramento da accountability. Ao lado do movimento pelo aumento da autonomia gerencial acha- se a questão da eficiência, eficácia e transparência dos controles finan- ceiros das agências públicas — accountability, em relação ao Parla- mento e ao Executivo.17 Na Nova Zelândia, a accountability é assegurada através de du- plo acompanhamento: ministerial e parlamentar, visando verificar até que ponto a agência ou departamento cumpriu seus objetivos. As formas que facilitam esse processo podem ser resumidas da seguinte forma: a) as agências governamentais devem estabelecer objetivos claros e específicos, indicadores de performance em conjunto com o ministro ao qual seja subordinada; b) o relatório da agência deve estabelecer a relação entre o que foi realizado e o que foi estabelecido anteriormente; c) regime de incentivos e sanções para os administradores; d) reforma do Parlamento, concedendo-lhe maiores poderes para manter investigações e dotando-o de recursos para melhorar seu quadro de staff.18 8) Assistência durante o período de transição. A reorganização administrativa do Estado não foi realizada sem trau- mas: alterou a vida de milhares de empregados públicos, com desemprego e aumento de preços ao consumidor. Compreendendo esta situação, e para minimizar os custos sociais decorrentes das mudanças, o governo introdu- ziu várias medidas de caráter transitório. As mais importantes compuseram o Permanent Staff Deployment Package, negociado com representações de classe do setor público no final de 1986. Aos empregados considerados como excessivos na formação das novas SOE’s, foram oferecidos quatro opções: aposentadoria precoce, retreinamento, recolocação em outro setor do governo, demissão voluntária, sendo que esta última forma foi oferecida pela primeira vez na história do serviço público da Nova Zelândia.19 13 RSPO maior impacto da estratégia de corporatização foi sentida pelas comunidades cuja economia se baseava na extração de carvão, no setor de minas de carvão e pelos trabalhadores do setor florestal, gerando um clima de revolta, nestas regiões.20 Mesmo assim, apesar de todo sofrimento que decorreu das reformas, a opinião pública, pesquisada no início de 1987, dava suporte às medidas saneadoras. Isto foi confirmado pela reeleição, em agosto de 1987, do governo trabalhista, o qual conseguiu ampla maioria. 4. O processo e as etapas da reforma administrativa Na Nova Zelândia as empresas governamentais (State-Owned Enterprises — SOE) têm sido, há muito tempo, ineficientes na utilização dos recursos públicos e na ausência de accountability. Até recentemen- te, as reformas tinham sido realizadas de forma esporádica e limitadas no seu escopo. Entretanto, com a eleição do gabinete trabalhista, em julho de 1984, esta situação foi bastante alterada. O governo trabalhista transfor- mou a administração da economia e implementou uma vasta reforma em vários campos da política pública, como política monetária e cambial, po- lítica salarial e de relações industriais, política de impostos, política co- mercial e política externa. Estas mudanças na estrutura, organização e administração do Es- tado têm sido particularmente dramáticas e, sem dúvida, são as mais sig- nificativas reformas desde a ocorrida em 1912.21 4.1. As reformas do governo trabalhista: 1984 a 1990 O processo de reforma teve início no primeiro dia do governo Lange, com a introdução da política de flutuação da moeda neozelandesa, o dólar da Nova Zelândia. Essa medida acelerou o processo geral de desregula- mentação econômica, o que incluiu também a remoção dos controles e desburocratização das importações. No entanto, a principal meta do gover- no neste primeiro período foi a reforma administrativa do setor público.22 Três grandes iniciativas, neste sentido, foram anunciadas pelo go- verno durante o primeiro gabinete trabalhista, no período 1984-1987: a) comercialização de muitas funções realizadas pelas organiza- ções estatais; b) separação, onde possível, das atividades comerciais dos departa- mento, das não-comerciais, e a transferência das atividades comerciais para “corporações públicas”. Em abril de 1987, nove novas SOE’s, co- brindo uma larga escala de atividades comerciais — bancos, telecomuni- cações, serviços postais, etc., foram estabelecidas como companhias de estatuto de responsabilidade limitada, incorporadas sob o Companies Act, de 1955. A Tabela 2 detalha estas mudanças. 14 RSP Fonte: Robert Gregory, The Reorganization of the Public Sector. In Boston, op. cit., 1987, p.425 * State Owned Enterprise (SOE) Tabela 2: A reforma do setor estatal na Nova Zelândia (em vigor a partir de abril de 1987). Agências Eliminadas NZ Forest Service Dept. of Lands and Survey Commission for the Environment NZ Post Office Departamentos do Governo Ministry of Forestry Dept. of Conservation Dept. of Survey & Land Information Ministry of the Environment Outras Parlamentary Commission Funções transferidas para outras agências Historic Places Trust Dept. of Internal Affairs Wildlife Div. Dept. of Internal Affairs Civil Aviation Ministry of Transport Eletricity Div. Ministry of Energy Mines Div. Ministry of Energy States Services Commission Government Office Accommodation Board Novas Agências Empresas de propriedade do Estado * Forest Corp. Land Corp. NZ Post Post Office Bank Post Office Telecom Airways Corp. Electricity Corp. Coal Corp. Government Property Services 15 RSPCada uma dessas companhias tem o conjunto de diretores nome- ados pelo governo. Dois acionistas — shareholders — o ministro das finanças e um outro ministro designado tornam-se responsáveis perante o Parlamento pelo acompanhamento de toda a performance das empre- sas. Em adição, cinco corporações foram alteradas, a partir da legisla- ção existente desde 1986 — o State-Owned Enterprise Act, que pos- sibilitou uma maior uniformidade, tanto da estrutura institucional como da política de controle. Foram afetados diretamente cerca de 60 mil servidores públicos — aproximadamente 25% da força de trabalho do governocentral — e realizada a transferência de bens públicos do Es- tado para novas corporações.23 c) o governo anunciou um plano para introduzir importantes mu- danças no sistema de fixação de salário no setor público. A nova política procura caminhar de um sistema de pagamento centralizado para um sistema comparável ao do setor privado, de caráter descentralizado, com um sistema baseado na barganha ou negociação. Além destas, outras medidas importantes foram introduzidas: a) os administradores seniores ganharam bastante autonomia para utilização dos recursos; b) os monopólios de algumas SOE’s foram eliminados ou reduzidos; c) novos pacotes de empregos para economistas e analistas finan- ceiros foram introduzidos; algumas funções desempenhadas pelos depar- tamentos governamentais passaram a ser desempenhadas pelo setor pri- vado, a partir de contratações. Durante este período, importantes iniciativas foram planejadas: — reorganização dos governos locais, com a transferência de ati- vidades comerciais sendo contratadas pela iniciativa privada. — remodelação total da estrutura da administração do governo central, visando à formação de um núcleo do serviço público. O planeja- mento previa, por exemplo, de dez a doze ministérios, agrupados através de afinidades funcionais, tais como administração econômica, desenvol- vimento social, ambiente, comércio, recursos nacionais e administração do setor público. Estes teriam a finalidade de produção e organização das informações, fornecer consultoria ao ministro, propor legislação e regula- mentações, preparar propostas orçamentárias. — estabelecimento de novas agências para implementar a política do governo. Cada agência seria operada de forma separada, com direto- ria independente, mas todas sujeitas à orientação do governo. Este arran- jo, permitiria aos ministros, livres da administração do dia-a-dia, dedica- rem maior tempo às questões políticas e ao conjunto de prioridades. O ritmo das reformas foi consideravelmente diminuído após a reelei- ção do gabinete trabalhista, em 1987, dando origem ao epíteto ‘pause for a 16 RSPcup of tea’ referindo-se ao Primeiro-Ministro Lange. O processo somente foi acelerado novamente após 1990, com a renovação do gabinete e substitui- ção do governo trabalhista pelo governo do Partido Nacional. 4.1.1. A dinâmica e a lógica da reforma O governo trabalhista, por ocasião das eleições de 1984, foi bas- tante evasivo no que tange às reformas: o Policy Document, documento do Partido Trabalhista de 1984, dedicou menos que uma página relaciona- da diretamente aos serviços prestados pelo Estado, e na sua maior parte, endossava os arranjos organizacionais existentes, baseados no sistema de pagamento fixo e centralizado. Isto reafirmou a confiança do Partido em um ativo papel do Estado no desenvolvimento social e econômico do país. Entretanto, ele também sugeria importantes mudanças a serem fei- tas, como, por exemplo, iniciar e implementar novas idéias para melhorar serviços, aumentar a eficiência e, onde fosse apropriado, elevar a produ- tividade, dar maior flexibilidade e independência administrativa para gerenciar o pessoal do Estado. Posições pró-reformas também ficaram evidenciadas nos escritos e em entrevistas de políticos mais antigos do partido, os quais se manifes- tavam favoráveis a mudanças significativas na estrutura do serviço públi- co e no sistema de accountability financeira. Outras manifestações no mesmo sentido foram feitas pelos partidos de oposição, por comentaris- tas políticos, por experts em direito constitucional, e pela comunidade acadêmica.24 Outra área favorável às mudanças estava dentro do próprio gover- no: eram os técnicos e especialistas do Treasure, que lamentavam a po- breza da economia e recomendavam políticas de mudanças, fornecendo sugestões como: — perseguir uma política macroeconômica; — liberação comercial; — desregulamentação do trabalho; — significativa redução do papel do Estado; — maior ênfase na assistência e ao bem-estar; — reforma do setor público; — venda das melhores empresas do governo (SOE). A base filosófica que orientou esse movimento era essencialmente ligada ao liberalismo econômico — individualismo, preferência pelo setor privado, limitado papel do Estado, confiança na competição de mercados livres e a escolha dos consumidores como forma de satisfazer às necessidades e desejos humanos. Os principais objetivos eram: alocação economicamente racional do recursos, rápido crescimento econômico, expansão da liberda- de dos indivíduos e um sistema de bem-estar mais eqüitativo. 17 RSPNo Economic Management, editado logo após as eleições de julho de 1984, afirmava-se a posição dos especialistas do Treasure, principal- mente, no que tangia às deficiências dos outros departamentos do governo: — a maioria dos departamentos do governo não tinham objetivos claramente definidos; — a maioria dos departamentos não possuíam um plano de admi- nistração claramente especificado; — os administradores tinham pouca liberdade para introduzir mu- danças em seus departamentos visando alcançar seus objetivos. Faltava autonomia para, dentro de um determinado limite orçamentário, decidir como produzir melhores resultados; — muita ênfase no controle das entradas — inputs, em vez de se enfatizar a consecução dos resultados — outputs; — não existiam mecanismos efetivos de controle e avaliação de performances para os administradores dentro dos departamentos. Além disto, havia outros fatores que estimularam o gabinete do Partido Trabalhista a executar as reformas, tais como: a) a crise de confiança pela qual passava a moeda nacional, o déficit fiscal que alcançava a cifra de 9% do PIB, o déficit no comércio externo e o enorme peso da dívida externa; b) o pensamento, em alguns setores do governo, de que, a menos que se tornassem as SOE’s mais eficientes, as propostas de privatização acabariam tendo de ser aprovadas, devido às pressões da comunidade empresarial. 4.2. Os principais instrumentos legais da reforma Três instrumentos ou diplomas legais transformaram as relações, e alteraram o status dos administradores, tanto nas agências estatais quanto nas empresas públicas: o primeiro dele, o State Owned Enterprise Act, de 1986, como citado anteriormente, separou as atividades comerciais mantidas pelo Estado das atividades de regulação e controle, corporatizando-as em nove grandes empresas comerciais (vide Tabela 2). Isto resultou, segundo Laking,25 na redução de cerca de 52 mil empregos no serviço público — de 88.000 em 1985 para 36.000 em 1993. Uma parte dessa força de trabalho foi aproveitada pelas novas empresas, mas uma quantidade considerável de pessoal ficou desempregada. O segundo, o State Sector Act de 1988, e o Public Finance Act de 1989, editados após o período de reeleição e conseqüente fortaleci- mento do governo trabalhista, estabeleceram novas formas de gestão e disciplina para o trabalho, e visaram ao setor não-comercial do Estado. O State Sector Act regulamentou e introduziu novas formas e prerroga- tivas, tanto para a questão dos direitos trabalhistas quanto para a questão 18 RSPsalarial do serviço público, similares as linhas traçadas pelo Industrial Relations Act, de 1987, que regulamentou o setor privado. Alterou radi- calmente as relações trabalhistas dos administradores públicos, que pas- saram a compor uma classe administrativa, a Senior Executive Service (SES). O Public Finance Act, de 1989, alterou a orientação dos contro- les financeiros realizados sobre as agências: de um sistema de controles baseado nas entradas ou input-oriented para um baseado nos resultados alcançados, ou seja, output/outcome-oriented controls. Apesar de o gabinete trabalhista se mover em direção a uma filo- sofia de livre-mercado, ele se esquivou de executar um programa mais efetivo de privatização como o que foi perseguido, por exemplo, pela Grã- Bretanha e França. A razão disto decorre, em parte, da influência que exerceu a ala esquerda do governo trabalhista, e parte, pelo desejode evitar medidas que provocassem rachas políticos dentro do Partido. A entrada no poder do Partido Nacional, eleito em 1990, provocou uma intensificação das mudanças, principalmente através da ênfase na responsabilidade fiscal. Para isto, foi editado o Fiscal Responsability Act, em 1994, quarto diploma legal, tendo como princípio básico a redu- ção total do débito público para níveis prudentes, ou seja, que o gasto total do governo em cada ano fiscal deveria ser inferior às receitas totais no mesmo exercício fiscal.26 4.3. A reforma gerencial: controle estratégico, especificação de objetivos e responsabilização Visando retificar as deficiências na gerência do setor público, já apon- tadas anteriormente, foi realizada uma série de mudanças, cuja ênfase con- centrava-se na clarificação dos relacionamentos cadeia hierárquica. O ob- jetivo era evitar situações em que ocorressem conflitos de interesse, tal como uma agência responder hierarquicamente a mais de um ministro. O setor público necessitava de uma estrutura que possibilitasse a especificação da performance desejada, uma apropriada delegação da tomada de decisão, acompanhamento dos contratos de gestão e uma cui- dadosa aplicação de incentivos e sanções. De acordo com o State Sector Act (1988) e o Public Finance Act (1989), cada departamento deve preparar, anualmente, um detalhado pla- no corporativo,27 que especifique seus outcomes e outputs e os indica- dores de performance requeridos, baseados em critérios de qualidade, quantidade, prazos, etc. Três conceitos, aqui, merecem destaques: outcomes, outputs e inputs. Os outcomes poderiam ser expressos como sendo os propósitos das atividades do governo. Clareando o conceito, o outcome representa o nível de abstração necessário que fornece aos ministros condições de 19 RSPconcentrar seus esforços na dimensão estratégica e, conseqüentemente, ao conjunto de prioridades visando a uma boa alocação dos recursos pú- blicos. Os outputs podem ser expressos em termos dos bens e dos servi- ços produzidos pelos departamentos do governo. Este conceito é tão im- portante na Nova Zelândia, que é considerado como central na compre- ensão da accountability. Os outputs de um determinado departamento são determinados pelo ministro e especificados em um contrato formal acordado entre o ministro e o executivo-chefe do departamento. Além disto, toda a alocação orçamentária dos departamentos é realizada com base nesses outputs. A ênfase nos inputs, ou seja, os recursos utilizados para produzir os outputs, era a prática adotada anteriormente, que resul- tou em uma enormidade de controles sobre a utilização desses recursos. Com a mudança de ênfase, de input para output, os executivos-chefes dos departamentos passaram a gozar de uma grande liberdade para utili- zação dos recursos. Para isto, foi necessário deixar bem clara a linha de autoridade e responsabilidade entre a burocracia e o Executivo: as relações entre os executivos-chefes dos departamentos e os ministros foram simplificadas e pautadas pela accountability. Cabe ao ministro a tarefa de determinar as prioridades departamentais, especificar os outcomes desejados e os outputs que os departamentos devem alcançar. Além disto, deve monitorar a consecução dos resultados e a performance dos departa- mentos sob sua responsabilidade. De outra parte, os ministros são res- ponsáveis pela escolha dos outcomes e dos outputs e respondem pelos seus atos diretamente ao Primeiro-Ministro e ao Parlamento. Ao execu- tivo-chefe cabe garantir o alcance dos resultados requeridos pelo minis- tro, e, por outra parte, é o responsável direto por qualquer falha na conse- cução dos objetivos departamentais. 4.3.1. Os contratos de gestão baseados em performance Os contratos de gestão baseados na performance constituem uma forma inovadora, havendo poucos países no mundo que utilizam este ins- trumento de controle gerencial. Eles representam uma forma prática e funcional de, a partir da definição e especificação dos outcomes e outputs dos departamentos, cristalizá-los na forma de um contrato formal, nego- ciado entre o ministro e um executivo-chefe. De acordo com o ‘Guidelines for Preparing Chief Executives Performance Agreements’, desenvol- vido em 1989 pela SSC,28 o contrato de performance tem o propósito de definir, claramente, a responsabilidade e accountability entre as partes contratadas, principalmente no que se refere ao relacionamento entre o executivo-chefe e um ou mais ministros. Três níveis devem ser considerados e incluídos na elaboração de um contrato de performance: 20 RSPa) nível pessoal: um contrato de performance pessoal entre o mi- nistro e o executivo-chefe, o qual deve registrar os objetivos e as tarefas prioritárias e consensuais entre ambos, visando facilitar o relacionamento pessoal e direto durante a vigência do contrato; b) nível departamental: um contrato operacional no nível de depar- tamento, consistente com os elementos básicos do plano corporativo, en- volvendo a produção de outputs e demais requisitos administrativos que foram contratados; c) nível geral: um contrato geral de administração, que prescreve uma consistência entre as ações e os objetivos de todos os departamen- tos, incluindo as responsabilidades do executivo-chefe e os suportes rela- tivos ao interesse público. Visando desenvolver mecanismos que melhorassem a performance e minimizassem os comportamentos oportunísticos, foi criada uma nova estrutura de incentivos para a carreira dos executivos-chefes: a) forma de pagamento, fixada em contrato por tempo determinado; b) possibilida- de de renegociação desses contratos; c) incremento salarial baseado na performance. A alocação dos executivos-chefes passou a ser centralizada pelo Senior Executive Service (SES), podendo os mesmos serem contrata- dos por um período que varia entre dois e cinco anos de contrato. A performance é avaliada anualmente pela State Services Commission (SSC), e a remuneração e promoção na carreira dependem da habilidade individual para alcançar os outputs contratualmente fixados durante as negociações com os ministros.29 É também responsabilidade da SSC a fixação da remuneração dos administradores. Os critérios para fixação da remuneração, a cargo da SSC, giram em torno do nível de responsabi- lidade, na importância da função e na quantidade de trabalho a ser reali- zado. As condições de contrato para cada função, apesar de serem nego- ciadas entre a SSC e o chefe-executivo, devem estar de acordo com as linhas básicas traçadas pelo governo.30 Isto significa que os ministros podem agora concentrar-se na for- mulação estratégica maior, e ficam livres da estressante tarefa de nego- ciação contratual com os executivos-chefes, o que, como foi dito acima, está a cargo da SSC. Antes de outubro de 1990, quando a eleição do governo do Partido Nacional, poucos executivos-chefes alcançaram as metas negociadas com os ministros. No período de 1989-1990, somente 15 dos 30 executivos entrevistados por Whitcombe31 satisfizeram as cláusulas contratadas. Em 1991, Kim Bolger afirmara que somente uns poucos executivos-chefes ainda mantinham contatos com os ministros e atendiam à solicitação legal 21 RSPde apresentar o plano estratégico dos seus departamentos. Esta situação parece ter sido alterada no decorrer do ano de 1991. Cerca de dois terços dos ministros entrevistados afirmaram ter firmado contrato de performance com seus executivos. Apesar de todo o otimismo sobre contrato de performance, certos ministros não estão convencidos dos benefícios que tal instrumento acar- reta para a consecução dos resultados do governo. Consideram que os contratos não garantem uma boa performance, e além disto, baseiam-se na quantificação da performance, deixando de lado a dimensão qualitati- va, que reside, justamente, no relacionamento entre ministro e executivo- chefe. Outro fator que compromete a realização dos objetivos é o fre- qüente turnover dos executivos-chefes, que reduzem a eficiência e efetividade do processo gerencial,ocasionado por trocas ministeriais de- vidas a mudanças no governo. 4.3.2. As relações de trabalho no setor público Atualmente, todo o pessoal contratado pelo Estado é regido pelo Employment Contracts Act, a mesma legislação que vige no setor priva- do. Desta forma, os executivos-chefes de cada departamento têm auto- nomia e liberdade para nomear, demitir e promover seus funcionários. Os contratos podem ser firmados individual ou coletivamente, por departa- mento, e as negociações sobre condições contratuais são conduzidas, in- dividualmente, departamento por departamento. Por outro lado, a forma de incremento salarial está sendo alterada: a fórmula clássica de incre- mentos anuais está sendo abandonada, para dar lugar a um sistema de bônus baseado em performance. Novas formas de contratação e novos sistemas de recompensa têm sido experimentados. Por exemplo, existem possibilidades de uma grande flexibilização em termos de horas por dia de trabalho e empregos ocasionais. Segundo os reformadores, estes mecanismos beneficiam o empregador, pela economia que proporcionam, e agradam alguns empre- gados, que não dispõem de todo o horário diário para dedicar-se ao servi- ço público, seja por terem outras atividades fora do Estado, seja pela necessidade de uma maior assistência aos filhos. 5. A situação atual Em um curto espaço de tempo, a Nova Zelândia tornou-se uma nação transformada: as condições vigentes até 1984, ano que marcou o início de uma década de grandes reformas do mercado, iniciadas com a eleição do governo trabalhista de David Lange, desapareceram: de uma 22 RSPdas economias mais protecionistas tornou-se uma das mais abertas e produtivas. O núcleo do serviço público, drasticamente reduzido, conta atual- mente com apenas 38% departamentos, cobrindo uma variedade de fun- ções: implementação de políticas, serviços, operações comerciais.32 A Nova Zelândia começou seguindo a trilha percorrida pela Aus- trália, através de uma reforma microeconômica em 198433: desregula- mentação econômica, tendo como ponto central a flutuação do dólar australiano. Desde o advento da Lei de Contratos de Trabalho, que começou a vigorar em 1991, a Nova Zelândia experimentou transformações no rela- cionamento empregador-empregado e grandes avanços na produtividade da mão-de-obra. Sentenças judiciais com abrangência nacional deixaram de existir e a posição protegida dos sindicatos foi eliminada. Todos os trabalhadores passaram a estar empregados sob contratos individuais ou coletivos. Devido ao superávit orçamentário alcançado — em torno de 2 a 3% do Produto Interno Bruto — além de um Banco Central com grande credibilidade, de uma conta corrente aproximando-se do equilíbrio e de um sistema industrial que realmente relaciona os aumentos de salários a ganhos em produtividade, os neozelandeses estão muito menos sujeitos a ter de enfrentar nova escalada de taxas de juros. O crescimento do nível de empregos é o indicador mais óbvio do sucesso do mercado de trabalho. Este nível está crescendo em 4% ao ano — seu maior percentual em quase sete anos. À medida em que o crescimento do Produto Interno Bruto de 6,1% aquece a economia, cres- ce o número de empregos e os salários sobem em quase todos os setores da Nova Zelândia. Os principais dados estão representados nas tabelas 3, 4, 5 e 6, abaixo. Alguns indicadores macroeconômicos indicam, entretanto, a ne- cessidade de cuidados especiais: o déficit da conta corrente, que é de cerca de 1,4% do PIB, tende a aumentar substancialmente e a dívida externa líquida pode estourar a curto prazo. A dívida pública acumula- da, no entanto, permanece alta, em torno de 39% da economia, o que, entretanto, poderá ser revertido com a entrada de recursos oriundos de uma forte campanha de privatização. Além disto, sua inflação é baixa e estável — em torno de 1 a 2 % ao ano — e seu orçamento tende a um superávit. 23 RSPTabela 3: Indicadores sociais — comparação entre o período pré-reforma e o pós-reforma. (o Brasil está presente como fator comparativo) Percentagem da Taxa de mortalidade Analfabetismo Percentagem do gasto Países população com infantil de adultos em serviços sociais acesso a serviços em relação à despesa médicos total 1980 1994 1980 1994 1980 1994 1980 1994 Austrália 99 - 11 6 <5% <5% 45,5 57,5 Nova Zelândia - 100 13 7 <5% <5% 57,0 69,1 Japão - 100 8 4 <5% <5% - 59,2 Coréia - 100 32 12 <5% <5% 22,0 32,0 Brasil - - 74 56 17 17 32,3 36,7 Dados: Banco Mundial. Relatório sobre o desenvolvimento mundial - 1996. Tabela 4: Indicadores econômicos — comparação entre o período pré-reforma e o pós-reforma. (O Brasil está presente como fator comparativo) Taxa média de Taxa média de Taxa média anual Superávit/déficit Países crescimento anual(%) crescimento anual(%) de inflação global das exportações das importações (como % do PNB) 1980/90 1990/94 1980/90 1990/94 1973/84 1990/94 1984 1994 Austrália 5,8 8,1 4,9 5,1 10,4 1,2 -2,5 -2,9 Nova Zelândia 3,6 5,4 4,6 5,5 13,6 1,2 -9,5 0,8 Japão 6,0 3,3 4,9 -6,7 4,5 1,1 - -1,6 Coréia 13,7 7,4 11,2 7,7 5,9(**) 6,3 -2,3(*) 0,3 Brasil 6,1 6,6 -1,5 8,5 71,4 1.231,5 -3,6 -4,0 Dados: Banco Mundial. Relatório Sobre o Desenvolvimento Mundial - 1996. Tabela 5: Força de trabalho x desemprego Força de trabalho Valores Médios Unidade 1993 1994 1995 Força total de trabalho 1000 1.643,4 1.693,2 1.728,0 Homens 1000 928,8 949,1 968,8 Mulheres 714,6 744,2 759,3 Taxa de desemprego % 10,2 9,5 6,9 Homens % 10,7 9,6 6,9 Mulheres % 9,7 9,4 6,9 Fonte: Nova Zelândia: http://www.govt.nz 24 RSP O sistema fiscal da Nova Zelândia foi simplificado, e a alíquota mais alta do imposto de renda de pessoas físicas é agora de 33%, alinha- da com a alíquota do imposto de renda de pessoas jurídicas. Alegar que as reformas na Nova Zelândia não foram dolorosas seria faltar com a verdade. O povo experimentou queda em seu padrão de vida e muitos trabalhadores perderam seus empregos como resultado das mudanças estruturais. 6. Suportes conceituais da reforma Reformas administrativas não constituem processos inovadores, tí- picos da atualidade: de fato, como afirma Kettl,34 “if there is anything more ageless than government itself, it is the effort to improve it”. No entanto, a reforma atual diferencia-se das demais em, pelo me- nos, dois pontos: primeiro, por seu caráter universal, ou seja, constituir um movimento no qual todos os países estão se engajando; segundo, por apre- sentar, de forma homogênea, a mesma base conceitual, qual seja: o movi- mento gerencialista, a teoria da Public Choice e a teoria Principal-Agente. Tabela 6: Indicadores econômicos, sociais e demográficos da Nova Zelândia em comparação com alguns países que também passaram por reformas. (O Brasil está presente como fator comparativo) (*) - média dos últimos 5 anos. (**) - após o plano Real . Fonte: Nova Zelândia: http://www.govt.nz ; Banco Mundial - Relatório sobre o Desenvolvimento