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Larissa Cardoso - @fococrmed Cirurgia da obesidade Introdução: Condições agravadas ou precipitadas pela obesidade: diabetes mellitus, esteato-hepatite não alcoólica, distúrbios cardiovasculares, neoplasias malignas, como cânceres colorretal, de próstata, de estômago, de mama e de endométrio, artropatias degenerativas, apneia do sono = limitações das atividades físicas rotineiras e da deambulação, inclusive com expectativa de vida reduzida e aumento da mortalidade. Etiologia: interação de genes, fatores ambientais, estilos de vida e distúrbios emocionais. - Obesidade secundária a doenças endócrinas (síndrome de Cushing, hipotireoidismo), desordens ginecológicas (síndrome de ovários policísticos), doenças genéticas estabelecidas (síndrome de Prader-Willi, síndrome de Bardet-Biedl), distúrbios psiquiátricos (bulimia, depressão) e uso de determinadas medicações (antidepressivos tricíclicos, paroxetina, valproato, sulfonilureias, glitazonas, insulina, betabloqueadores e neurolépticos). - Alteração dos genes: FTO (associado também com DM2). - Alimentos hipercalóricos de fácil acesso e preços em conta + inatividade física Patogênese: apetite exacerbado que não costuma ser saciado pela quantidade de ingesta calórica que satisfaz um indivíduo não obeso. - Grelina: hormônio orexígeno, produzido principalmente pelas células oxínticas do fundo e corpo gástrico. Induz o apetite, aumento da ingesta alimentar e redução do metabolismo e catabolismo de gorduras. Após a alimentação, deve haver redução dos níveis desse hormônio, mas não é observada nos obesos, permanecendo elevado e provocando apetite exacerbado. - Leptina: adipocina anorexígena, ou seja, produzida pelos adipócitos abarrotados de lipídios. Age no hipotálamo bloqueando a liberação do neuropeptídeo Y, inibindo o apetite e estimulando a secreção de alfa-MSH (promotor da saciedade). Relação direta entre peso corporal e níveis de leptina. Algumas variantes do gene MC4R, que codifica o receptor para a leptina, têm sido implicadas em formas graves de obesidade na infância. - GLP-1 e PYY: produzidos pelas células L neuroendócrinas da mucosa intestinal do íleo após a chegada do alimento, aumentados no pós-prandial, reduzindo a ingesta. Essa resposta está diminuída nos obesos, principalmente com DM2. Classificação: Larissa Cardoso - @fococrmed Indicações e critérios para a cirurgia: baseada em IMC, presença de comorbidades, tempo de doença e idade do paciente. Uma vez atingido o IMC de obesidade mórbida, a probabilidade de se alcançar um IMC abaixo de 35 kg/m2 apenas com terapia dietética é de apenas 3%, mesmo com a associação de medicamentos (sibutramina, orlistate). - IMC >40 kg/m2 - >35 kg/m2 + comorbidade (DM2, HAS, apneia do sono, dislipidemia, DAC, IAM, ICC, fibrilação atrial, AVC, cor pulmonale, síndrome de hipoventilação, asma grave não controlada, osteoartrose, hérnias discais, DRGE, colecistopatia calculosa, pancreatites de repetição, esteatose hepática, incontinência urinária de esforço na mulher, infertilidade, disfunção erétil, SOP, veias varicosas e hemorroidas, pseudotumor cerebral, estigmatização social e depressão). - Falência de tratamento clínico da obesidade por, pelo menos, dois anos com parecer por dois endocrinologistas atestando a refratariedade ao tratamento. - Obesidade grave instalada há mais de cinco anos. - Pacientes com IMC entre 30 e 34,9 kg/m2, portadores de DM tipo 2 refratário ao tratamento clínico, podem ser submetidos a procedimento bariátrico para um adequado controle metabólico de sua doença. - Faixa etária: entre 16 e 65 anos, com os menores de 18 necessitando de concordância dos pais e acompanhamento pelo pediatra (além de haver consolidação das cartilagens das epífises de crescimento dos punhos). Para os maiores de 65 devem ser estudados os riscos-benefícios. - Contraindicações absolutas: doenças cardíacas e pulmonares em estágio terminal (risco ASA IV) e hipertensão porta com varizes esofagogástricas, síndrome de Prader-Willi (desordem genética que justifica a obesidade e que não é curada com a cirurgia), Síndrome de Cushing (alto risco). - Precauções: não uso de drogas ilícitas ou alcoolismo, ausência de transtorno de humor grave, quadros psicóticos em atividade ou demenciais, acompanhamento pós-operatório com equipe multidisciplinar. Benefícios: - Redução ponderal em longo prazo Larissa Cardoso - @fococrmed - Cura ou atenuação de uma ou mais comorbidades Avaliação pré-operatória: - Cardiovacular: doença coronariana aterosclerótica; quando há diagnóstico de doença isquêmica do miocárdio, a revascularização miocárdica se encontra indicada. - Pulmonar: apneia obstrutiva do sono (devem ser tratados com Ventilação Não Invasiva com Pressão Positiva), que pode causar disfunção ventricular esquerda; síndrome de hipoventilação alveolar (síndrome de Pickwick) em indivíduos com IMC > 60kg/m2 pletóricos e/ou cianóticos, apresentando maior morbimortalidade cirúrgica; TVP. - Renal: repercussões decorrentes do DM e da HAS – medir níveis de ureia e creatinina e a filtração glomerular; rabdomiólise pode ocorrer no pós-operatório imediato quando o tempo operatório for prolongado (> 4 horas) e o IMC elevado. - Endócrina: 30% dos pacientes obesos mórbidos são portadores de diabetes tipo 2 – controle da glicemia no pré, intra e pós-operatório. - Dermatológica: doenças fúngicas da pele, principalmente em áreas de dobras; pigmentação venosa de MMII sugere doença venosa. - Hepatobiliar: risco para colelitíase – colecistectomia profilática em cirurgias restritivas; emagrecimento rápido (como acontece após cirurgias bariátricas) também predispõe a litíase biliar. - Hepatologia: esteatose hepática e a esteato-hepatite não alcoólica – restrição calórica no pré- operatório. Técnicas cirúrgicas: - Laparoscopia é a técnica mais empregada atualmente, pois diminui a incidência de hérnias incisionais e reduz o tempo de internação hospitalar. ➢ Cirurgias restritivas: redução da capacidade de armazenamento do estômago = distensão gástrica precoce impulsos aferentes para o hipotálamo = saciedade precoce. Problema: ingestão de substâncias líquidas altamente calóricas. - Gastroplastia tipo Mason: abandonada por pouca perda de peso em longo prazo, estenose gástrica. Tubo gástrico vertical, que formava um reservatório de pequeno volume (aproximadamente 30 ml), sendo posicionado um anel na via de saída desse reservatório para retardar o esvaziamento gástrico. - Gastrectomia em manga laparoscópica (Sleeve/GML): tubo vertical através da retirada da grande curvatura e do fundo gástrico. Perda ponderal superior e a uma maior redução do apetite por redução dos níveis de grelina e aumento do GLP-1. Em superobesos (ou super-superobesos), após uma perda ponderal inicial induzida por essa operação, realiza-se a segunda etapa definitiva, que consiste na derivação biliopancreática. Vantagens: maior simplicidade técnica, menor tempo cirúrgico, menor incidência de complicações, menor custo preservação do piloro, redução dos níveis de grelina, sem necessidade de ajustes periódicos, redução na incidência de hérnias internas, sem componente disabsortivo, possibilidade de se acrescentar um segundo procedimento com o tempo caso o primeiro seja malsucedido. Larissa Cardoso - @fococrmed Indicações: doença inflamatória intestinal, anemia crônica, osteoporose, deficiência de B12, risco cirúrgico elevado, super-superobesos, doenças graves com imunossupressão e uso crônico de glicocorticoides. Complicações: deiscência na linha de grampeamento (febre, taquicardia, leucocitose) = drenagem por cateter + dieta zero + nutrição parenteral total + antibioticoterapia + stent para prevenir contaminação da cavidade peritoneal; refluxo gastroesofágico por aumento da pressão no tubo gástrico. - Banda gástrica ajustável (BGA): limitar aquantidade de ingesta de alimentos no estômago proximal, mas depende muito da aderência do paciente e da atuação da equipe multidisciplinar. Baixa morbidade, um menor número de complicações nutricionais, reversibilidade e possibilidade de ajuste gradual, no entanto, há elevação significativa dos níveis de grelina (aumenta a probabilidade de falência terapêutica com ingestão de líquidos de alto valor calórico). Complicações: deslocamento com sintomas de intolerância alimentar e refluxo gastroesofágico, obstrução estomacal aguda; broncopneumonia; TEP; erosão da parede gástrica (pouco frequente) com dor abdominal ou infecção no implantável. - Balão intragástrico (BIG): via endoscópica, método provisório (máx de 6 meses), adjuvante no tratamento da perda ponderal, principalmente no preparo pré-operatório de pacientes com superobesidade (IMC > 50 kg/m2) associada a condições agravadas e/ou desencadeadas pela obesidade. Complicações: migração, ruptura, obstrução intestinal alta e úlceras gástricas – uso de IBP). ➢ Cirurgias mistas: bolsa gástrica com via de saída de pequeno calibre, pode ser utilizado um anel de silicone chamado silastic (Fobi-Capella) ou a própria sutura no local da anastomose gastrojejunal (Wittgrove). Alças do by-pass: alça biliopancreática medindo 50 cm a partir do ângulo de Treitz, e a alimentar medindo entre 120 e 150 cm. - Bypass gástrico em Y de Roux: componente principal restritivo, diminuindo o volume de ingestão para algo em torno de 20 a 30 ml, e um componente disabsortivo, resultado de uma alça de jejuno (40cm após o ângulo de Treitz) em y de Roux de, no mínimo, 75 cm de comprimento, anastomosada com o neoestômago. O jejuno proximal, o duodeno e parte do estômago que sobrou constituem um braço do Y com comprimento de 80 a 120 cm para um IMC de aproximadamente 40 kg/m2 e de 150 cm para um IMC de 50 kg/m2. Uso do anel não é mais recomendado. Melhora da função das células beta pancreáticas e um aumento na produção de GLP-1 (aumento da secreção de insulina e anorexígeno) e redução dos níveis de grelina (orexígeno). Indicação: diabéticos, DRGE, síndrome metabólica. Complicações: eventos coronarianos, deiscência de anastomose com peritonite/abcesso (se gastrojejunal, há drenagem de secreção biliosa), falência orgânica múltipla, obstrução intestinal de alças de delgado, hérnia de Petersen (alça intestinal penetra nos espaços virtuais criados pela confecção da gastrojejunostomia = obstrução instestinal, estrangulamento e catástrofe abdominal = cirurgia de emergência), colecistite calculosa. Dumping, tratamento com octreotide – análogo da somatostatina subcutâneo) e desidratação; deficiências de ferro, cálcio, B12, B1 (beribéri, encefalopatia de Wernicke, encefalopatia de Korsakoff) – reposição via parenteral. Fatores de risco: sexo masculino, presença de comorbidades, instituições com pouca experiência. OBS: Mini Gastric Bypass: anastomose direto com segmento distal do jejuno = elevadas taxas de refluxo biliar alcalino. Larissa Cardoso - @fococrmed ➢ Cirurgias disabsortivas: mecanismo principal é fazer com que o alimento encontre o suco biliopancreático apenas na alça comum, diminuindo o tempo de atuação das enzimas digestivas no bolo alimentar. Perda ponderal intensa com uma série e complicações nutricionais. - Derivação biliopancreática (Scopinaro): hemigastrectomia distal horizontal + anastomose com o íleo + jejunoileostomia em segmento terminal = reduzido tempo de contato entre secreção biliopancreática com o alimento. Complicações: aumento da incidência de litíase biliar = colecistectomia profilática; supercrescimento bacteriano na alça biliopancreática longa; desnutrição proteica e déficit nutricional. - Switch duodenal: reduzida incidência de úlceras anastomóticas devido à preservação do piloro. 1ª parte: GML, deixando piloro e 2 cm do duodeno, com volume gástrico remanescente de 250 ml em indivíduos com IMC < 50 kg/m2 e de 150 ml em superobesos ou em super-superobesos = perda ponderal para facilitar 2ª etapa, que é a colocação da alça biliopancreática distalmente no íleo. Complicações: desnutrição proteica com hospitalização e nutrição parenteral por 2/3 semanas, carência de vitaminas lipossolúveis (encefalopatia de Wernicke) = suplementação com complexos vitamínicos, deficiências de ferro e cálcio (hiperparatireoidismo secundário), odor desagradável das fezes e flatulência, maior suscetibilidade a colelitíase sem possibilidade de CPRE = colecistectomia e apendicectomia e de supercrescimento bacteriano ou úlcera de boca anastomótica (uso de bloqueadores H2) em alça biliopancreática longa. Geralmente escolha para superobesos e super-superobesos. OBS: Complicação mais temida: deiscência de anastomose com extravasamento de conteúdo gastrintestinal para a cavidade peritoneal = peritonite e sepse abdominal com taquicardia e taquipneia. Menor índice de complicações em videolaparoscopia. Cuidados pós-operatórios: - Reposição volêmica: pacientes com peso elevado necessitam de um volume maior de líquidos para manter o balanço hídrico adequado. - Analgesia: cirurgias abertas provocam mais dor e podem complicar funções respiratórias em indivíduos com restrição torácica = retenção de secreções respiratórias, atelectasia, pneumonia no pós-operatório. - Profilaxia para TEP e TVP: compressão intermitente e uso de heparina de baixo peso molecular.