6ª) Ao falarmos sobre a caracterização do contrato como empresarial é incorreta: a) quando um empresário, como um produtor rural devidamente inscrito na Justa Comercial, adquire insumos agrícolas, sementes, fertilizantes ou outros visando fomentar a atividade empresarial, os bens adquiridos têm o objetivo de aplicação naquela atividade, pelo que, logicamente, não pode ser aquele tratado como destinatário final. Todavia, existindo vulnerabilidade do produtor rural em relação ao empresário vendedor ou mesmo em comparação à instituição financeira com quem emprestou os montantes necessários, mitiga-se a regra geral e possibilita-se a aplicação das regras específicas (e mais benéficas) previstas na legislação consumerista. b) quando um empresário estabelece um vínculo negocial com outro, a resolução de eventuais pendências, a discussão do contrato ou sua execução podem ir além do âmbito civil ou empresarial imaginado por eles no momento da negociação, incluindo o microssistema consumerista. Nesses casos, haverá uma gama de novos direitos materiais e processuais que devem inclusive ser antecipados pelos empresários envolvidos, já que acarretam a imposição de riscos e custos extraordinários. c) no campo do direito material (em caso de decretação de nulidade), a transmutação do contrato empresarial em contrato de consumo implica a vedação (recusa de venda) de determinadas práticas, como a venda casada, a recusa ao atendimento (o conteúdo do contrato, por exemplo), a adequação de produtos a determinadas normas, mudanças em relação ao termo contratual e as possibilidades de indenização ou ressarcimento, ou ainda a devolução em dobro em caso de cobranças indevidas, como previsto nos arts. 39 e 42 do Código de Defesa do Consumidor. d) no âmbito do processo, o reconhecimento da relação de consumo pode implicar a nulidade da cláusula de eleição de foro, já que o empresário consumidor poderá ajuizar a ação em sua sede, na regra do art. 101, I, do Código; ainda, no campo das provas, é possível a inversão do ônus probatório, conforme art. 6º, VIII, do Código, o que implica em custos adicionais aos envolvidos, como a necessidade de provas complexas, perícias e outras, que, se não produzidas, poderão acarretar maiores dificuldades para comprovação da sua tese processual; por fim, e talvez mais grave, o art. 28 do Código de Defesa do Consumidor possibilita a desconsideração da personalidade jurídica pelo simples inadimplemento de uma obrigação, pelo não pagamento, por exemplo, de uma indenização.