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ENSINO, PESQUISA E REALIDADE HISTÓRICA Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS Autor: André Marcos Vieira Soltau CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Dr. Malcon Anderson Tafner Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Norberto Siegel Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Prof.ª Hiandra B. Götzinger Montibeller Prof.ª Izilene Conceição Amaro Ewald Prof.ª Jociane Stolf Revisão de Conteúdo: Prof. Evandro André de Souza Revisão Gramatical: Profa. Márcia Maria Junkes Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI 907.2 S6911e Soltau, André Marcos Vieira. Ensino, Pesquisa e Realidade Histórica / André Marcos Vieira Soltau. Centro Universitário Leonardo da Vinci. Indaial : Grupo UNIASSELVI, 2010. 81 p. : il. ISBN 978-85-7830-263-4 1. Historiografia 2.Estudo e Ensino de História I. Centro Universitário Leonardo da Vinci. II. Núcleo de Ensino a Distância III. Título Copyright © UNIASSELVI 2010 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. André Marcos Vieira Soltau Historiador (UFSM/RS), Mestre em Educação – Linha de pesquisa Ensino e Formação de Educadores (UFSC/SC) com dissertação intitulada “Jovens Nômades em Fronteiras Fixas” (UFSC/SC - 2004) com abordagem na educação contemporânea e juventude. Desenvolve trabalhos de pesquisa tendo como recorte imagens, memória e juventude. Seus últimos trabalhos publicados foram: Palavra-Nômade: O Cinema Nacional em Pauta (Editora Cultura em Movimento, 2005) e Para Ler com Urgência (Editora Casa Aberta, 2009). Publicou também o caderno de estudos: História do Pensamento Político e Econômico (Editora Uniasselvi, 2009). Atualmente é Professor Universitário nas Disciplinas de História da Indumentária, Antropologia Cultural e Cultura Brasileira. Sumário APRESENTAÇÃO ......................................................................7 CAPÍTuLo 1 PArA que Serve A HiSTóriA? ........................................................9 CAPÍTuLo 2 o objeTo de eSTudo nA PeSquiSA HiSTóriCA ................................35 CAPÍTuLo 3 A SALA de AuLA e A PeSquiSA em HiSTóriA ....................................51 CAPÍTuLo 4 exerCÍCioS de PeSquiSA em HiSTóriA ............................................69 APRESENTAÇÃO Escrever sobre esse tema foi um grande e prazeroso desafio. Primeiro, porque acredito na ideia de que todo conhecimento novo é gerado a partir de um problema. Quando falamos de ensino e pesquisa, não podemos deixar de lembrar que são perguntas bem formuladas que movem o processo educativo. Segundo, porque tive a oportunidade de socializar com vocês muitas das experiências que vivi como professor de história nas últimas duas décadas. Ao estudar essa disciplina você, pós graduando, estará sendo desafiado a perguntar sempre. Afinal, o que a educação deveria deixar de legado às futuras gerações? Aprender a fazer boas perguntas. Afinal, novos conhecimentos surgem sempre com boas perguntas. O caderno está organizado em quatro capítulos. O primeiro capítulo – Para que serve a História? – tem como objetivo maior conhecer a trajetória do ensino de história e as permanências no currículo escolar bem como analisar o processo educativo nas aulas de história e seus desdobramentos sociais. O segundo capítulo – Objeto de Estudo na Pesquisa Histórica – tem como desafios delimitar um tema de pesquisa em histórica e discutir sobre a modernidade, a pesquisa e a verdade. O terceiro capítulo – A Sala de Aula e a Pesquisa em História – aprofunda os estudos diante da prática do ensino de história. Por fim, o quarto capítulo – Exercícios de Pesquisa em História – aponta os principais passos metodológicos na organização de um projeto bem como coloca a vocês os desafios para ousar fazê-los. Lembre-se que você deve exercitar a curiosidade de pesquisador. Só mudamos a prática em sala de aula quando fazemos alterações em nossa postura de vida. O Mundo produz o novo a partir de perguntas. Bons estudos!!! O autor. CAPÍTULO 1 PArA que Serve A HiSTóriA? A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Conhecer a trajetória do ensino de História e as permanências no currículo escolar. 3 Analisar o processo educativo nas aulas de História e seus desdobramentos sociais. 10 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA 11 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 ConTexTuALizAção Considerando um tema recorrente em rodas de conversa daqueles que não gostam de estudá-la na escola, iniciamos o estudo desta disciplina com um questionamento: para que serve a História? Com esse capítulo introduziremos o assunto por meio da própria história da disciplina, observando que assim, poderemos compreender melhor os elementos que permanecem ainda, no cotidiano de muitas aulas. Dividimos o capítulo nas seguintes seções: • Seção I – História do Ensino de História – na qual faremos uma breve análise da história do ensino de História dando maior ênfase no Brasil por considerarmos que muitos dos aspectos, aqui apresentados, são permanências em algumas situações educacionais do país. • Seção II – o Currículo em História e as Relações com a Vida dos Alunos – assunto extremamente relevante pois, trata das maneiras com que vinculamos (ou não) os conceitos da área de História com a vida da comunidade onde estuda o aluno. Assim apresentado, caro estudante de pós-graduação, podemos afirmar que o ensino de História tem, na sua trajetória histórica, desdobramentos que passam por múltiplos aportes teóricos e metodológicos. Aportes esses, fundamentais para nossos estudos nesse caderno, considerando-se que a preocupação em sua formação acadêmica exige atenção sobre os alunos de escolas de Ensino Fundamental e Médio que precisam sentir a necessidade de conhecer a sua história bem como a história de suas comunidades. Alguns desses desdobramentos são fundamentais para a compreensão da escola sob o ponto de vista social, político e cultural. A história do ensino de História tem sido uma preocupação de pesquisadores da História da Educação exatamente porque está muito próxima da organização do espaço, tempo e currículos nas disciplinas escolares. Assim sendo, repensar os currículos escolares, os livros didáticos e formação de futuros professores de História é de uma importância grande se considerarmos que, ao estudarmos juntos sobre o ensino de História, devemos ter em mente sempre, que o próprio objeto dessa disciplina é encontrado na trajetória e no olhar sobre o tempo. 12 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Portanto, este capítulo vai circular pela constituição do ensino de História ao longo do tempo para que você possa orientar seu olhar de pesquisador atuando dentro de instituições escolares. Cabe lembrá-lo pós-graduando, que a preocupação que se deve ter sempre como pesquisador é a de se ter olhares diversos sobre o ‘como’ ensinar, a seleção de conteúdos e, sobretudo, os objetivos ao se trabalhar a disciplina de História sem deixarmos de lado seus desdobramentos sociais diante da realidade. O tema que abordaremos nesse caderno de estudo tem como principal enfoque o estudo da cultura escolar e, sobretudo, fazendo um recorte no ensino de história com seus desdobramentos políticos, permanências de práticas e possíveis rupturas. Bom estudo! HiSTóriA do enSino de HiSTóriA A História, construída enquanto ciência no Modo de Civilização Moderno, nunca deixou de ser questionadapelas formas de interpretação dos acontecimentos. São dessas interpretações diversas que surgem aspectos políticos, econômicos e sociais que deixam em suspeita a possível neutralidade dessa ciência e sua narrativa dos fatos, personagens e consequências que legitimam ou não grupos sociais envolvidos. Utilizamos aqui o conceito de Modo de Civilização Moderno por considerarmos muito mais abrangente do que Modernidade. Ao denominarmos Modo de Civilização Moderno estamos ampliando a compreensão, fundamentado na razão e justificado na narrativa histórica. A racionalidade que orienta o pensamento científico se autoconfere em um estatuto de verdade, e por isso, de realidade. Dessa forma, este modo de civilização passa a ter uma unidade e uma orientação com dimensões universais: de humanidade. Entretanto, não podemos deixar de registra que a História, enquanto ciência, tem ampliado os caminhos de pesquisa e estudo. Nas últimas décadas do Século XX, novas abordagens e entendimentos constituíram um salto no processo de análise histórica, o que caracteriza um rompimento com tradições. Esse breve indicativo dos rompimentos, enquanto ciência, é para nos dedicarmos mais à consolidação da História enquanto disciplina escolar. Você não pode perder de vista que as disciplinas foram constituídas juntamente com a história da instituição escolar, mas as maneiras de ensinar História devem estar sempre vinculadas ao contexto e as características de determinada época. 13 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 Cabe considerarmos que o estudo das disciplinas escolares, apesar de ser um caminho de estudo vinculado à escola, não deve limitar nosso diálogo ao interesse da história dentro do espaço escolar. Você não pode perder de vista que as disciplinas foram constituídas juntamente com a história da instituição escolar, mas as maneiras de ensinar História devem estar sempre vinculadas ao contexto e as características de determinada época. Assim sendo, nosso estudo terá essa preocupação. No campo de estudo dessa temática tivemos um deslocamento que fugiu da análise de currículos e conteúdos para dar à História o status de disciplina escolar. No entanto, [...] as relações do ensino de história com outras dimensões, para além das questões historiográficas e metodológicas [...] não têm recebido tanta atenção dos pesquisadores. Abordagens que privilegiem [...] as práticas escolares presentes no ensino de história são raras [...]. (FONSECA, 2006, p. 26). A autora Fonseca chama a atenção dos leitores para a ausência de pesquisas sobre práticas cotidianas sobre o ensino de História e seus desdobramentos fora da escola. Questão muito importante se considerarmos que o discurso docente sobre mudanças metodológicas ocupa seminários e congressos sobre o tema; mas, as mudanças efetivas não são visíveis e, principalmente, as mudanças nas relações e realidades das comunidades são quase imperceptíveis. Outro aspecto a consideramos, nesse estudo, está em nosso cuidado com novos recortes teóricos que pouco são vistos em materiais didáticos ou prática docente no ensino de História. Os livros didáticos utilizados por estudantes de Ensino Fundamental e Médio estão alterando pouco a pouco seus recortes teóricos. Mas, pergunto a você, caro pós-graduando: esses novos olhares alteram significativamente a prática no ensino de História? Ou estão ainda, restritos aos autores de livros didáticos? Voltaremos ao tema no final deste capítulo, uma vez que se trata de um dado empírico que necessita de aprofundamento teórico para traçarmos considerações sobre o tema. Consideremos a situação do ensino de História no Brasil para o desenvolvimento de nossos estudos. Não é fácil questionar símbolos, personagens e datas oficiais que foram instituídas na memória histórica de nação. Os heróis, símbolos e datas foram instituídos por determinados grupos que desejaram a construção de uma determinada realidade. Como exemplo, podemos confrontar o dia 13 de maio (Abolição oficial da escravidão) e o dia 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra) instituído em 2003 como oficial. Exemplo de confronto de realidades distintas que se enfrentam na cena social e, ambos, com objetivos completamente distintos. 14 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Esse problema está posto para que você compreenda a necessidade de vincularmos o ensino de História e seus problemas com outros aspectos que não apenas as problemáticas de uma disciplina escolar e sim, as vinculações dessa com outros aspectos sociais que estão além dos muros escolares e são de natureza política, econômicas ou culturais. Caro pós-graduando: Chamo sua atenção para o tema abordado no parágrafo anterior e sua necessária compreensão pois, iremos tratá-lo com maior profundidade no capítulo II. Posteriormente, vamos pensar sua aplicabilidade no Capítulo IV, relacionando-o com os conceitos estudados nesse caderno. Sugiro para você o texto de JULIA, Dominique. “Disciplinas Escolares: objetivos, ensino e apropriação”. In: LOPES, Alice C. & MACEDO, Elizabeth.(org.). Disciplinas e Integração Curricular: História e Política. Rio de Janeiro. DP&A, 2002. p.37-71. O que temos que dar destaque é a constante discussão em torno do ensino de História e a necessidade de construirmos uma nação brasileira. Nesse sentido, a produção do conhecimento histórico, organização de temáticas e materiais didáticos para a construção do saber histórico estiveram sempre vinculados à construção de uma determinada cultura e identidade nacional. O Brasil do Século XIX era um estado, mas não se caracterizava como nação organizada. Varnhagen pode ser considerado um dos primeiros historiadores brasileiros que, sob sua escrita constituiu-se uma ideia de nação. Sua principal obra chamada de História Geral do Brasil publicada em 1854, pode ser considerada decisiva para fundar uma nação brasileira nos traços de um livro. Esse autor não narra a ideia de uma nação, ele acredita que existe efetivamente uma nação brasileira. A importância de sua obra está na influencia que exerceu em publicações didáticas nos anos que seguiram a sua publicação. Diz Piske (1997, p. 15) sobre esse autor: Os primeiros materiais didáticos surgem no Brasil por volta do final do Século XIX depois de constantes reclamações da ausência de livros que orientassem o ensino e, principalmente, que tivessem uma sintonia com a realidade de nosso país. 15 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 Ao falar do sentimento nativista, do estrangeiro explorador, da unificação nacional além e acima das desavenças eventuais, passa-se ao aluno uma visão de mundo que tem a ver com seu presente e não com o passado pretensamente narrado com objetividade [...] o mito da união nacional, do sentimento de brasilidade, destilado em doses históricas homeopáticas, não admite revisão na biografia de heróis [...] na história dos que fizeram o país do jeito que ele está, forte e unificado. Os primeiros materiais didáticos surgem no Brasil por volta do final do Século XIX depois de constantes reclamações da ausência de livros que orientassem o ensino e, principalmente, que tivessem uma sintonia com a realidade de nosso país. As discussões de políticos conservadores e membros da igreja Católica giravam em torno de reclamações sobre a ausência de textos com características nacionais. E, como pano de fundo destacava-se a importância do livro didático como formador de uma identidade de nação. O período republicano foi marcado pelo estímulo da constituição de uma nação forte. Inclusive podemos lembrar de pintores como Pedro Américo e Vitor Meirelles que foram responsáveis por uma vasta produção de imagens de fatos da históriaque posteriormente ilustraram os livros didáticos durante todo o Século XX. Como exemplo cito a obra de Pedro Américo “Independência ou Morte”. Figura 1 – Independência ou Morte (Pedro Américo – 1888) Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e2/ Independ%C3%AAncia_ou_Morte_2.jpg>. Acesso em: 27 jun. 2009. Para saber mais sobre os pintores comentados, acesse: www.museuvictormeirelles.org.br www.dezenovevinte.net 16 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Atividade de Estudos: Prezado Pós-graduando: Como desafio, procure um outro quadro pintado por Pedro Américo ou Vitor Meirelles que tem como tema um fato histórico do Brasil – século XIX. Você pode encontrar nas indicações de sites apresentadas no parágrafo anterior. Responda as seguintes questões: 1) Qual é a data do quadro? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Qual é o tema em questão? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) Você o considera fidedigno o tema retratado com o fato histórico em questão? Por quê? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Outro marco importante na história do material didático é o surge o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) que se torna uma referência na produção de pesquisas e material que consolidam a história do país. Criado em A grande missão do IHGB era elaborar uma história nacional, tendo a educação como seu campo de atuação. 17 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 1838, o Instituto é um defensor da tese de que nosso país é um pacífico lugar onde raças diversas convivem em harmonia e apresenta essa lógica como um dos elementos fundantes de nossa identidade nacional. A unificação da nação e o fim das separações entre povos é conquistado por heróis que entram para a história oficial com seus bravos atos em nome de uma pátria. A grande missão do IHGB era elaborar uma história nacional, tendo a educação como seu campo de atuação. O ensino de História era o foco de atuação. Os estudos feitos no Instituto – muitos deles por estrangeiros – tendo como tema o Brasil – eram transformados em conteúdos das aulas de História por meio de programas curriculares visualizados em manuais que chegavam às mãos dos alunos. Durante o Século XIX, as discussões sobre o papel da disciplina, material didático eram presentes, resultando em reformas curriculares na segunda metade desse século e no surgimento e fortalecimento dos IHGs em regiões. A atuação do IHGB na consolidação da História como disciplina escolar marca sua atuação em materiais que apresentam caminhos metodológicos para a formação de um determinado tipo de estudante, com postura de aceitação da nova ordem política. Caro pós-graduando, o livro de Fonseca “História e Ensino de História” aponta um dado interessante para nossos estudos. Diz a autora sobre o interesse dos pesquisadores brasileiros a respeito do tema que estamos analisando: Quanto aos recortes cronológicos, o período republicano domina inconteste, com cerca de 80% dos trabalhos, seguido pelo Império, com cerca de 20 %. O período colonial não foi contemplado no levantamento realizado até porque não se pode caracterizar a disciplina escolar História neste momento da História da educação no Brasil [...] os estudos consideraram [...] o surgimento da disciplina escolar [...] como o conjunto de conhecimentos dotados de organização próprias para apresentação desse conteúdo. (FONSECA, 2006, p. 30- 31, grifo meu). Escrever livros didáticos no início do período republicano era considerado um ato patriótico e formador de um panteão de heróis nacionais que alimentaram materiais publicados durante todo o século XX sendo questionados apenas na segunda metade deste. Um dos autores que podemos destacar foi Francisco José da Rocha Pombo, autor de livros para o ensino primário, o secundário e preparatório para o ensino superior. Sua atuação estava em todos os níveis de ensino e suas obras circularam no Brasil do início do Século XX até sua última publicação em 1970. Sua obra esteve em sintonia com a necessidade de estabelecer diálogos entre ciência e conhecimento escolar – característica fundante do Modo de Civilização Moderno, ou seja, ciência, razão e progresso. Escrever livros didáticos no início do período republicano era considerado um ato patriótico e formador de um panteão de heróis nacionais que alimentaram materiais publicados durante todo o século XX. 18 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Fonseca (2006, p. 37) afirma que “não podemos falar em ensino de História no Brasil antes das primeiras décadas do Século XIX”. Dessa afirmação da autora, podemos concordar em considerando-se que nomes como Varnhagen - no início desse século – e Rocha Pombo no final, foram importantes nomes na constituição da nação brasileira, bem como, do ensino de História e seus materiais didáticos. A constituição da História como disciplina escolar no Brasil – com objetivos definidos e caracterizada como conjunto de saberes originado da produção científica e dotado para seu ensino, de métodos pedagógicos próprios – ocorreu após a independência, no processo de estruturação de um sistema de ensino para o Império.(FONSECA ( 2006, p.42 ). Aconteceram importantes debates, no início do século XIX, em torno do ensino de História. O enfrentamento de diferentes correntes ideológicas foram a tônica desses conflitos de ideias. Grupos liberais e conservadores disputavam espaço político e, consecutivamente, estavam atentos para a difusão de suas ideias nos espaços de educação. Essas discussões apontavam uma preocupação maior com relação aos métodos e estilo literário na escrita do que propriamente fatos a relatar. Os fatos eram inquestionáveis e a escrita baseava-se sobretudo, em documentos oficiais. Portanto, cabia ao historiador estabelecer a ‘verdade’ dos fatos sendo imparcial em sua escrita com a utilização de teorias aceitas e comprováveis. Essa dinâmica de narrativa histórica perpetuou-se no período imperial a durante grande parte do período Republicano. Apenas nos anos 50 do século XX é que as classes trabalhadoras começam a ter acesso às escolas e a denominada visão positivista de História passa a ser questionada. A Década de 30 do século XX foi demarcada pela organização de ministérios, entidades e leis específicas que procuravam dar ao país um ar de nação civilizada. Na educação especificamente, houve todo um movimento no sentido de organizar leis que regulamentassem e dessem estrutura para o ensino no país. Essa tentativa de organização trouxe certa ordem e controle sobre as ações educacionaiscom decretos, leis e outros instrumentos legais que definiam algumas estratégias de ação. Dentre essas, determinavam disciplinas que tinham como tarefa primordial o ajustamento social diante do movimento revolucionário que iniciou em 1930. Disciplinas da área de humanas, como a História e Geografia foram importantes para a consolidação desse movimento que temia alguns movimentos – fossem eles da elite oligárquica ou de movimentos operários como o anarquismo ou o comunismo – ou até mesmo dos modernistas de 1922 que propuseram um país diferente do Governo de Vargas. As tentativas de oficialização e normalização 19 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 de algumas práticas foram necessárias para a sustentação do governo que procurava reconhecimento. Essa centralização do sistema de ensino colocou a disciplina de História no patamar de importância na unidade da nação. A partir dessa ação governamental, a disciplina de História consolidou-se como uma disciplina escolar. Junto a isso, reformas como a de Francisco Campos em 1931 retiravam toda a possibilidade de autonomia das escolas na definição de programas e métodos de ensino, que fiaram sob a responsabilidade do Ministério da Educação, recém criado. O que significava isso na prática? Que os conteúdos e métodos de ensino eram homogeneizados retirando a possibilidade de pensar os conteúdos de História – e de outras áreas – com um caráter regional. A disciplina de História ocupava lugar de destaque diante da preocupação do governo Vargas em estabelecer uma ordem política única. Tanto que as orientações direcionavam as preocupações com o estudo de biografias e episódios históricos não atentando para a necessidade de cada grupo regional. O ensino de História do Brasil era diminuto deixando claro que os interesses eram de nacionalização em detrimento de necessidades pedagógicas (FONSECA, 2006). O ensino de história ocupou-se nas duas décadas seguintes com os grandes acontecimentos mundiais tendo como preocupação o fortalecimento de uma forma de governo e dos heróis da pátria. No final dos anos 50 e início dos anos 60, a preocupação dos pesquisadores nas áreas de ciências humanas estava voltada para problemas brasileiros. Estudo que, como diz Piske (1997, p. 21): “[...] misturava pitadas de sociologia com aspectos de economia, passando pela ciência política e geografia. A história positivista ensinada nas escolas era considerada [...] uma visão reacionária da sociedade [...]”. Esse movimento pode ser vinculado às instituições de Ensino Superior e pouco alterou a situação no Ensino Fundamental e Médio. O ensino de História e os materiais didáticos mantiveram-se dentro de uma concepção teórica positivista. Posteriormente, com o golpe militar de 1964, essa caracterização aprofundou-se. Os fatos políticos e biografias de heróis continuaram povoando os livros didáticos e os planos de professores do ensino de História. Após 1964, todas as diretrizes governamentais estavam reforçando o caráter positivista na teorização da História e, consecutivamente, estavam definindo objetivos em sintonia com a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento – responsável pelo controle ideológico e repressor do novo regime no país. A disciplina de História ocupava lugar de destaque diante da preocupação do governo Vargas em estabelecer uma ordem política única. 20 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Vista dessa forma, a história tradicional adequava-se aos interesses do Estado autoritário, na medida em que apresentava o quadro de uma sociedade hierarquizada, cuja vida seria conduzida de cima para baixo e em que a ordem seria uma máxima a ser seguida pelos seus membros. Sem espaço para interpretação e a análise critica, não haveria como instrumentalizar o indivíduo para o questionamento da ordem.A reorganização do ensino de história teve, pois, conotações políticas, passando a ser competência dos órgãos públicos, tecnicamente aparelhados para os fins que se adequassem àquela doutrina. (FONSECA. 2006, p. 56). Diante de um quadro político autoritário, os movimentos de renovação do ensino de História e, com maior amplitude, da educação pública foram perseguidos, eliminados ou colocados no exílio. Lembremos, caro estudante, das disciplinas que surgiram nesse período para substituir Filosofia, Sociologia e História. A disciplina de História foi fundida com Geografia numa chamada Estudos Sociais, surgiram as disciplinas de Educação Moral e Cívica (EMC) no Ensino Fundamental, Organização Social de Política Brasileira (OSPB) no Ensino Médio e Superior - Estudo dos Problemas Brasileiros (EPB) . Todas disciplinas definidas pelas orientações da Doutrina de Segurança Nacional. As atividades cívicas voltavam-se para o culto aos símbolos e aos “heróis nacionais”, com momentos cívicos em homenagens ao hino, à bandeira e aos grandes feitos dos grandes nomes da pátria. As áreas das ciências humanas voltaram a ter uma forte evidência nos debates teóricos do país com o processo de redemocratização que aconteceram no final dos anos 70 e início dos anos 80. Nesse período fica mais clara a necessidade de repensar o ensino de História, bem como, toda a dinâmica da Educação no país. Surgem muitas publicações, pesquisas e material didático que se propõem a reescrever a história rompendo com as diretrizes dos governos militares que se sucederam, assim como, definir outras diretrizes teóricas para a História e suas interpretações. Os discursos de oposição entre os recortes positivistas e marxistas voltam à cena nacional no final da década de 70 quando começamos, enquanto país, a rediscutir e pensar em abertura política, fato que acontece apenas nos anos 80. Para tanto, temas como identidade nacional, nacionalismo, heróis e datas comemorativas passaram a ocupar os debates metodológicos sobre o ensino de História. Mas, o fator marcante naquele momento de debates riquíssimos foi o enfrentamento de grupos políticos de posição marcadamente de esquerda de um lado e do outro grupo de direita. As discussões estavam centradas em reconstruir o aluno, sua comunidade e família como sujeitos de sua própria história, tendo Temas como identidade nacional, nacionalismo, heróis e datas comemorativas passaram a ocupar os debates metodológicos sobre o ensino de História. 21 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 em vista que nos últimos anos de educação no país eles foram colocados como meros espectadores de fatos já ocorridos em torno de heróis – fatos e nomes descritos em livros didáticos utilizado em aulas de História. Prezados pós-graduandos, cito uma frase de Silva (1999) ao tratar do currículo e seus desdobramentos sociais. Diz o autor: “O currículo está centralmente envolvido naquilo que somos, naquilo que nos tornamos, naquilo que nos tornaremos. O currículo produz, o currículo nos produz”. (SILVA, 1999, p. 27). Nessa etapa dos estudos, podemos perceber que o currículo da disciplina de História muda o foco; mas, na prática parece reproduzir uma identidade centrada na exclusão (mesmo que assentados num discurso que se autodenomina inovador). Se o currículo produz, quais serão os desdobramentos sociais dessa mudança? É nesse período, final da década de 80, que tivemos muitos materiais publicados, nos quais foram utilizados uma organização do conteúdo com conceitos marxistas dentro de uma cronologia que utiliza o conceito de modos de produção como o orientador do currículo. Você pode considerar um rompimento radical com a escola positivista e adesão a novas maneiras de escrever sobre fatos da história do país como um grande avanço no ensino de História. Sem dúvida, tivemos muitas alterações. O que gostaria de problematizar com vocês alunos, está nofato de o foco mudar de fatos/causa/consequências para termos abrangentes utilizados nos livros didáticos sem uma preparação maior dos alunos de Ensino Fundamental e Médio. Ocorreu certa banalização de alguns conceitos a ponto de tornar o ensino de História tão dogmático quanto as ações do governo militar nos anos anteriores. Piske (1997, p.19) chama atenção para esse fato dizendo que “os livros vulgarizam a análise marxista transformando-os numa visão economicista de um historicismo primário”. E, cita um exemplo de atrocidade cometida com o conceito e, principalmente, com a formação do aluno: “há livros em que o faraó cria o modo de produção asiático, que de categoria teórica discutível vira algo concreto, palpável, fruto de um decreto do político todo-poderoso de plantão”. Assim, livros volumosos eram direcionados para alunos de Ensino Fundamental utilizando distorções conceituais e termos complicados para uma leitura didática em sala de aula. Resumiam-se muitas narrativas em uma luta constante entre duas classes fundamentais: os opressores e os oprimidos. Os livros vulgarizam a análise marxista transformando- os numa visão economicista de um historicismo primário. 22 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Como você pós-graduando considera essa fase do ensino de História observando os debates constantes entre positivismo e marxismo? Ao analisar o período em estudo, você percebe uma luta entre um regime autoritário que estava encerrando e uma possível abertura política. Mas, a polêmica que contribui em seus estudos está em sala de aula: a mudança de uma organização linear no ensino de História para uma organização centrada nos modos de produção do marxismo foi mera mudança de um modelo por outro? Ou realmente alterou a didática em aulas de História? Vocês e suas reflexões ficam com esse problema para resolver na evolução dos seus estudos. Após os debates calorosos da década de 80, o ensino de História recebeu uma explosão de materiais didáticos que, de um lado continuavam suas obras tradicionais adaptando-se ao processo de mudanças (tanto do regime político como das exigências do mercado); de outro lado surgem (já no início da década de 90) novas percepções que buscavam alterar a relação dos alunos e professores com a História. Mas, uma questão é importante chamar a atenção de vocês pós- graduandos: após um extenso debate entre positivistas e marxistas na década anterior, as preocupações em vincular as novas pesquisas da historiografia com o ensino de História ficaram muito mais evidentes. Inclusive em livros didáticos produzidos na década de 90. A incorporação de tendências como História das mentalidades e História do cotidiano foram vinculadas à inovação quando se tratava de ensino de História. O surgimento, nessa década, dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) contribuíram significativamente para a mudança de perspectiva dos professores no país, bem como, uma grande disputa editorial no mercado de livros didáticos. O encontro desses dois fatores – novas tendências historiográficas e um sistema centralizado no Ministério da Educação na seleção e definição de parâmetros educacionais – demarcou um contexto de mudanças no currículo do ensino de História, assim como, na produção de livros didáticos. Uma curiosidade dessa época foi o surgimento de muitos livros chamados paradidáticos. Esses livros, com uma narrativa diferenciada dos didáticos, chamaram o interesse de professores e foi um aliado na mudança de tendências lineares no ensino de História. Resta-nos, no entanto, considerar uma preocupação, ou seja: e, o ensino de História em sala de aula, mudou? Os programas curriculares, livros e manuais voltados para os professores, novas metodologias e abordagens não foram o suficiente para produzir mudanças, 23 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 assim como, a formação de novos professores deve ser alvo de preocupações, também. Em concordância com Fonseca (2006) podemos considerar que muitos discursos permanecem por mais de um século na prática do ensino de História: [...] as práticas escolares não são um retrato fiel dos planejamentos [...]. Os alicerces construídos desde o final do Século XIX, sustentados numa concepção tradicional de História, foram fortes o suficiente para manter um edifício, que apesar das reformas e das propostas de alteração na sua concepção, não se abala tão fortemente. (FONSECA, 2006, p. 68-69) Atividade de Estudos: 1) Após essa breve análise da história do ensino de História, relacione três elementos que você considera ainda presentes na prática do Ensino dessa disciplina na atualidade. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Faça uma breve análise dos três elementos selecionados. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) Aponte possíveis caminhos para mudar a realidade do ensino de História, hoje. _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 4) É importante lembrá-lo que essa atividade será de grande importância para a compreensão do Capítulo IV desse caderno. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 24 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ o CurrÍCuLo em HiSTóriA e AS reLAçõeS Com A vidA doS ALunoS Não é nossa preocupação aqui, nesse estudo, fazermos um estudo detalhado das teorias do currículo. É suficiente e necessário que façamos alguns esclarecimentos para a continuidade de nossos estudos sobre a área de História e sua relação com a estrutura escolar. Entre as perspectivas de estudo do currículo escolar, temos uma que faz a defesa da organização do conhecimento escolar em disciplinas. Há os que acreditam ser necessário que a escola esteja envolvida num processo amplo de reconstrução desses saberes, envolvendo a comunidade onde está inserida. Nos estudos que fizemos anteriormente, pudemos perceber que a organização curricular está assentada em disciplinas definidas em compartimentos estanques e hierarquizados que apontam relações de poder nesse campo. A organização curricular por disciplinas sempre foi hegemônica quando se tratava do tema. As diversas possibilidades apontadas para a reorganização dos currículos sejam integrados, inter, multi, poli ou transdisciplinares não rompem algumas barreiras que são históricas na organização curricular. Barreiras tais como o espaço, o tempo ou a própria metodologia de trabalho em sala de aula são permanências no histórico da educação. Ou como alguns teóricos chamam: currículo oculto. Em aulas de História, o que é oculto define, muitas vezes, as escolhas explícitasdo professor. Como exemplo, podemos dar quando o professor define o conteúdo conforme seu ponto de vista do assunto, tornando-se monólogo e não um processo educativo dialógico como acreditamos ser necessário quando se trata de ensinar História. Segundo Silva (1999) as fontes do currículo oculto são: as relações sociais na escola (apreensão de comportamentos sociais), a organização do espaço escolar, o ensino do tempo Em aulas de História, o que é oculto define, muitas vezes, as escolhas explícitas do professor. Como exemplo, podemos dar quando o professor define o conteúdo conforme seu ponto de vista do assunto, tornando-se monólogo e não um processo educativo dialógico como acreditamos ser necessário quando se trata de ensinar História. 25 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 (pontualidade, controle, divisão em aulas curtas), rituais (sessões cívicas, por exemplo), regras, regulamentos, normas e categorizações entre os alunos. Como estudamos na seção inicial desse capítulo, a área de História sempre esteve vinculada à maneiras de pensar e/ou organizar política e socialmente as sociedades humanas. Essa talvez seja uma das maiores dificuldades em integrar os saberes com a vida comunitária dos alunos de Ensino Fundamental e Médio. Inclusive por concordarmos com muitos teóricos curriculares quando afirmam que o currículo é algo construído socialmente e, portanto, sujeito à mudanças e alterações. Há um consenso no campo da teorização crítica de currículo quanto ao fato de que o conhecimento escolar é fruto de uma seleção cultural, condicionada por fatores de ordem diversa, socioculturais, político-econômicas, para além de critérios exclusivamente epistemológicos. Esse conhecimento é entendido como organização, para fins de ensino, por mecanismos de pedagogização, constituindo o conhecimento escolar. (MACEDO; LOPES, 2002, p. 75). Como definimos saberes necessários em aulas de História? Selecionamos com quais critérios? São perguntas que permanecem em quaisquer das disciplinas escolares. Em História temos outros vínculos necessários para nossa melhor compreensão, considerando-se que o objeto de estudo fundamental nessa área, é que a apropriação dos conhecimentos históricos se deem dentro e fora da escola. A seguir, apontamos para vocês algumas questões importantes no processo educativo da área de História no Ensino Fundamental e Médio. Essa possível dinâmica de atividades será melhor esclarecida no Capítulo IV desse caderno, quando trataremos do exercício de pesquisa em História, tanto para o aluno como para o professor. Vejamos: a) O momento inicial deve ser a realização do perfil da comunidade e também das turmas de alunos na escola onde se realizará o trabalho, tendo como objetivos levá-los a compreender a pesquisa como uma parceira fundamental 26 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA do ensino e da extensão dos conhecimentos estudados em sua vida, assim como, o ponto de partida e de chegada da realidade que o cerca. b) As aulas devem ser um encontro com diferentes áreas do conhecimento. Diante de nosso assunto, portanto, as aulas de História são o centro do processo educativo. Por exemplo: um grupo de professores desenvolve um trabalho sobre a história das cidades utilizando pinturas e desenhos de época; outro trabalha com os indisciplinados na História utilizando documentos de códigos civis de épocas; outro ainda, poderá abordar as transformações geográficas e ambientais do lugar e assim consecutivamente. Podemos promover diversos links com áreas afins, o que não significa, claro, que todos os colegas de trabalho estarão com você nesse projeto; assim como não significa, que deva abandonar a pesquisa de um determinado tema por avançar em outra disciplina escolar. c) Procuramos estabelecer uma dinâmica de aulas que se preocupe em fazer perguntas aos conhecimentos históricos. Propor aos jovens que levantem hipóteses e possíveis soluções. Por exemplo: O Brasil foi descoberto? E, se foi, por quem? Portugueses ou vikings? O que é descoberta? Estimula- se assim, o exercício da pesquisa, bem como, anula o medo do erro – fato comum entre alunos que são corrigidos pelo erro no final do processo sem que os professores considerem o processo que levou ele a dar aquela resposta e não outra. d) Desenvolver um trabalho que estabeleça relações com outros espaços e/ ou culturas. Temos como exemplos: grupos que estudam a história dos meios de comunicação em diferentes épocas e regiões; outro que estuda a história das relações da humanidade com a leitura. Deixemos assim a possibilidade e estímulo à curiosidade – comum entre crianças e jovens e com pouco espaço na organização escolar. e) Mediar o conhecimento histórico com a história da comunidade. Se temos um grupo que estuda a relação dos jovens estudantes com o cinema por que não montar, junto com os alunos, um documentário sobre a história do bairro com depoimentos de moradores, fatos curiosos da região ou levantamento arquitetônico do lugar? Continuando nosso estudo para depois podermos vincular com a prática educativa em aulas de História – que será melhor estudada nos capítulos III e IV desse caderno – chamo a atenção ao que Corazza (2001, p. 9-10, grifo meu) diz sobre o conceito de currículo: 27 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 [...] currículo é uma linguagem. Ao conceber um currículo como uma linguagem, nele identificamos significantes, significados, sons, imagens, conceitos, falas, línguas, posições discursivas, representações, metáforas, metonímias, ironias, invenções, fluxos, cortes... assim como o dotamos de um caráter eminentemente construcionista [...] dizemos que a natureza de sua discursividade é arbitrária e ficcional por ser histórica e socialmente construída. O currículo é, portanto, uma preocupação necessária nesse estudo, visto que ao pensarmos pesquisa e ensino na área de História, lidamos com práticas sociais e discursos que podem ser desvinculados de instituições escolares ou não, da mesma forma como os valores ou modos de subjetivação social, conforme aponta Corazza (2001, p.12), o currículo “nem quer saber se sua linguagem apenas ‘representa’ o mundo sãs coisas, mas também fabrica este mundo, as próprias coisas, e a modalidade das relações entre as coisas”. Ou seja, quando abordávamos anteriormente as ideias de Varnhagen ou Rocha Pombo escritas no século XIX, deixávamos claro esse conceito de currículo bem como nossa preocupação em repensar as aulas de História que concebem as listas de conteúdos como algo ingênuo ou desapegado de desdobramentos sociais. Ambos os escritores anteriores que estudamos, serviam a interesses políticos no país e, claro, suas ideias foram até a década de 50 do século passado, fabricantes de um país, construtores de um determinado tipo de sujeito dentro do espaço escolar. Os itens descritos anteriormente (o processo educativo da área de História no Ensino Fundamental e Médio, letras a – e) são uma tentativa de rompimento com algumas práticas no ensino de História. Práticas essas que têm os livros didáticos como única fonte de estudo, não permitindo o diálogo com a vida comunitária, o estímulo à criatividade e curiosidade dos alunos; não permite que vozes da comunidade escolar escrevam a história dos anônimos e não observa com olhos de pesquisador outras fontes que ensinam e não são consideradas na prática educativa – relembrando: cuidados com o currículo oculto e saiba que pode ser excelente material de pesquisa em aulas de história. O filme LINGUA DAS MARIPOSAS (1999. Direção de José Luis Cuerda) é um excelente material para quem quer pensar sobre o estímulo à pesquisa e curiosidade com crianças. Ambientado durante a GuerraCivil Espanhola, a história conta a relação de um menino com seu professor e todas as descobertas que fazem utilizando o entorno da escola. O trabalho do diretor José Luis Cuerda nos faz muitas perguntas. Dentre elas, quem educa quem nessa situação vivida pelos personagens? 28 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Assumir posturas diante de temáticas da realidade e construir conceitos, esses devem ser os princípios básicos no ensino de História. A realidade complexa e dinâmica exige isso. A educação tem importância fundamental nisso. As ciências humanas e, principalmente, os professores que atuam nos Ensino Fundamental e Médio têm em mãos o compromisso de estimular a pesquisa no ensino de História. Considero importante dialogar com vocês pós-graduandos sobre os desdobramentos do que fazem ou deixam de fazer em sala de aula quando se propõem a trabalhar conhecimentos históricos com jovens estudantes. Sua ação depende basicamente de duas coisas: primeiro como você concebe o processo educativo e segundo suas concepções do que seja ensinar e, sobretudo, o que ensinar em uma aula de História. Ambos os problemas passam por outro desdobramento, ou seja, a acirrada relação entre o saber e o poder. O ensino de História, assim como outras disciplinas, está vinculado à disciplinas científicas com futuros professores vindos de uma formação acadêmica e as preocupações que ocupam as mesas de debates nas academias hoje, passam pela melhor formação de licenciados. Por outro lado, há um ataque dos sistemas de ensino às universidades que se fecham em seu território de saber sem produzir alterações significativas nos ensinos Fundamentais e Médios. Essa divisão entre o saber científico e escolar produz muito mais problemas do que contribuições recíprocas para alterar as práticas educativas de professores que atuam com crianças e jovens. Esse discurso de competências repete-se em sala de aula e cabe ao professor de História – aqui no caso – definir o que estudar, livros a adotar ou objetos de estudo. O processo de diálogo do que se ensina com quem aprende é muito pequeno. A pesquisa juntamente com os alunos é uma possibilidade de mudanças? Vejamos algumas considerações sobre o processo de ensinar e aprender. Espero que ao final desse caderno de estudo, você possa responder a essa questão. Nos capítulos III e IV faremos um direcionamento dos seus estudos para possíveis práticas no ensino de História por meio da pesquisa. Assumir posturas diante de temáticas da realidade e construir conceitos, esses devem ser os princípios básicos no ensino de História. A realidade complexa e dinâmica exige isso. 29 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 Alguns elementos básicos no processo educativo estão em que professores percebam que ensinar não é apenas apresentar ou explicar determinado tema. Nesse sentido é bom rememorarmos o manual jesuíta Ratio Studiorum – datado de 1599. Nele, três eram os passos para uma boa aula: exposição do conteúdo dado pelo professor; questionamento e dúvidas levantados pelos alunos e finalmente exercícios para fixação do conteúdo. Ao aluno restava decorar para as provas. Observem que as funções em uma aula dessas são claras: um ensina, outro aprende e memoriza. Você poderá ter noções mais claras na leitura de: PETITAT, André. Produção da Escola – Produção da Sociedade: Análise Sócio - Histórica de Alguns Momentos Decisivos na Evolução Escolar no Ocidente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. Mas, observem também, que ao aplicar essa metodologia (que mesmo parecendo antiquada, ainda sobrevive em muitas salas de aula), estamos desconsiderando o processo histórico do conhecimento em estudo; assim como, a necessária contextualização para uma melhor conexão de quem ensina com quem aprende. Seria simples transmissão de informações. No caso da História, o professor ficará como única fonte dos saberes recebendo o status de detentor da verdade e ao aluno resta a repetição de datas, fatos e nomes. A clareza sobre o significado do que é ensinar e, fundamentalmente, disciplinas da área de humanas – como é a História – precisam de interação para que os alunos sejam estimulados a levantar hipóteses, questionar e buscar respostas. Princípios básicos para uma aula dinâmica e construção de novos conhecimentos. Vamos refletir sobre esse exemplo: Em uma aula sobre o Egito qual seria o interesse de alunos jovens sobre o tema? A pergunta parece evasiva, mas acompanhe meu raciocínio. Poderíamos abordar o assunto de diversas maneiras. Descrevo duas dessas para continuarmos nosso estudo sobre a importância da pesquisa no ensino de história e sua relação com as experiências de vida dos alunos. Manual jesuíta Ratio Studiorum: exposição do conteúdo dado pelo professor; questionamento e dúvidas levantados pelos alunos e finalmente exercícios para fixação do conteúdo. 30 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Recorte I: O professor separa um mapa histórico com uma representação do Egito Antigo e sua localização. Ao apresentar para a turma, destaca a importância do Rio Nilo para essa civilização e descreve as maneiras de cultivo da terra. Chama atenção dos alunos para a pirâmide de divisão política que está desenhada no livro didático. Vai explanando a realidade e situação de cada um dos grupos sociais do antigo Egito. Encerra a aula do dia com a lista de dinastias com seus respectivos faraós. Deixa como tarefa para os alunos o estudo de algumas páginas do material didático e o compromisso desses em responder questões no final do capítulo estudado. Avisa que na próxima aula será aplicado um teste, algumas questões retiradas das que devem fazer no livro didático. Recorte II: O professor começa as atividades estimulando a turma para levantar hipóteses sobre as formas de organização de poder no mundo hoje. Dá como exemplo dois casos atuais sobre a permanência de famílias no poder de países. Pergunta novamente ao grupo que semelhanças encontram com o trecho do livro didático que fala sobre a forma de transmissão do poder no Egito Antigo. A turma divide-se entre os que defendem a necessidade de renovação no poder e outros que ponderam sobre a necessidade de ampliar o tempo de governo em alguns casos para que percebamos as mudanças. A aula encerra com o professor dando como tarefa um quadro comparativo entre o sistema de governo no Egito Antigo e alguns ditadores contemporâneos. Indica alguns sites para pesquisa e avisa que na próxima aula será promovido um debate entre as diferentes opiniões. Atividade de Estudos: Caro pós-graduando utilize os exemplos apresentados anteriormente e responda: 1) Em qual dos exemplos estimulamos os questionamentos e a formulação de perguntas? Por quê? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 31 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 2) Por que o outro exemplo não escolhido para responder a questão anterior não possui esses estímulos às diversas possibilidades do aluno? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ________________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________ Continuando nossa linha de argumentação e utilizando um jogo de reflexões e perguntas, gostaria de ponderar com vocês pós-graduandos, os seguintes tópicos sobre o ensino e pesquisa em uma aula de História: • A origem da palavra saber vem do latim sapere – Ter gosto. O saber exige que tenhamos respostas para o saber o que, como, o porquê e para que se ensina? Você saberia responder essas questões para cada uma das situações descritas anteriormente? • O envolvimento do professor e aluno no processo educativo é fundamental para que exista uma reconstrução dos conceitos trabalhados em sala. Qual o nível de envolvimento de ambos nas situações apresentadas anteriormente? • Há uma necessidade de ‘provocar’ os alunos no processo de ensino. Provocar por meio de atividades que vinculem a vida do aluno com os conceitos estudados em um processo constante. Qual é o nível de ‘provocação’ nas duas situações? • Quais são as qualidades da mediação de cada um dos professores envolvidos considerando-se a necessidade de elaboração e construção de conceitos em ambas as situações? • Considero necessário um conjunto de relações entre o conhecimento apresentado e o já apreendido pelo aluno em situações de aprendizagem anteriores. Quais as relações estimuladas por ambos os professores? • No processo educativo há uma necessidade de síntese. Principalmente quando falamos de conceitos abstratos como tempo, por exemplo. Qual das situações estimula uma síntese apurada do conceito de poder? Por quê? 32 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA • Compreender é apreender um conceito e conseguir relacioná-lo com outros conceitos. Qual das duas situações permite uma melhor compreensão e ampliação diante do tema em estudo? Por quê? • Para apreender um conceito também é necessário relacioná-lo com outras maneiras de vê-lo. Quais as qualidades das relações que são provocadas pelos dois professores? • Ao falar com crianças e jovens sobre um tema distante na História, o nível de abstração é muito grande. Como torná-lo concreto a ponto dos alunos apreendê-lo? Nas situações apresentadas anteriormente, qual é a mais efetiva nesse aspecto? • Consideremos as possibilidades de aprender conceitos em cada encontro professor-aluno, ambos apreendem. As situações acima descrevem um encontro. Quais são as possibilidades de aprendizagem em ambas? • Cada um possui o seu ritmo de aprendizagem. As estratégias de apreensão são individuais ou coletivas? Afinal, para que mesmo serve a História? Algumas perguntas são recorrentes entre professores de História: o que ensinar? O que discutir? História é construção? Ensinar é produzir conceitos ou reproduzir os já existentes? A importância nessas perguntas está em ser, o professor-questionador, um inquieto pesquisador. Aquele que não formula perguntas, não pode ser um mediador em um processo educativo preocupado com a formação de alunos que saibam perguntar, que sejam pesquisadores, que construam seus próprios conceitos e concepções. O conteúdo de História não é o passado como muitos acreditam. O conteúdo que transversaliza o tema abordado em sala de aula é sempre o TEMPO. São as metodologias utilizadas capazes de construir conceitos com alunos? Ou melhor, somos capazes de construir com alunos de Ensino Fundamental e Médio a compreensão dos movimentos das sociedades no tempo histórico? O que deixamos claro em nosso início de conversa é que a escolarização direciona, muitas vezes, as leituras. Condicionando o aluno a reproduzir conceitos ao invés de construir os seus. Os livros e materiais didáticos, o espaço e estrutura dos prédios escolares, o controle e organização do tempo, as divisões do conhecimento em disciplinas com momentos estanques que não permitem o 33 Para que Serve a HiStória? Capítulo 1 diálogo podem ser adversário no processo educativo em História, mas também, podem ser objetos de estudo e pesquisa. Não apenas questionando as suas permanências, mas percebendo linhas de fuga, possíveis rupturas que permitam momentos de dúvidas e menos de reprodução. Encerro esse primeiro momento com Nikitiuk (1999, p. 18): Ler, escrever, apropriar-se da história escrita, história narrada, contributo para a educação geral e cultural [...] da história texto, pretexto, contexto. Por que ensiná-la? Talvez para legitimar a identidade. Na recordação histórica da comunidade. História é necessária para estudar o outro. Cabe ao professor permitir esse aprendizado que conviva com a diversidade. ALgumAS ConSiderAçõeS Finalizando esse primeiro capítulo, gostaria de deixar demarcado em seus estudos, caro pós-graduando, que a utilização da História da Educação nos serve para fazermos uma análise mais aprofundada dos desdobramentos que constituíram as práticas no ensino de História durante décadas na história deste país. Como você, pós-graduando, pode perceber em seus estudos, alguns momentos dessa história estão completamente emaranhados: a história do país confunde-se nas diretrizes educacionais e com alguns preceitos nacionalistas que regem o pensamento vigente no período em estudo. Para tanto, gostaria de chamar sua atenção para esse tema, pois lhe será útil na compreensão dos limites e possibilidades dentro do cotidiano de uma sala de aula – assunto tratado principalmente no capitulo III desse caderno. referênCiAS CORAZZA, Sandra Mara. O que Quer um Currículo? Pesquisas Pós-Críticas em Educação. Petrópolis: Vozes, 2001. FONSECA,Thaís Nívia. História e Ensino de História. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. 34 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA LOPES, Alice C.; MACEDO,Elizabeth. (Org.). Disciplinas e Integração Curricular: História e Política. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. MACEDO, Elizabeth; LOPES, Alice Casimiro. Disciplina e Integração Curricular: História e Políticas. Rio de janeiro: DP&A, 2002. NIKITIUK, Sonia. Repensando o Ensino de História. São Paulo: Cortez, 1999. PETITAT, André. Produção da Escola – Produção da Sociedade: Análise Sócio- Histórica de Alguns Momentos Decisivos na Evolução Escolar no Ocidente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. PISKE, Jaime. O Ensino de História e a Criação do Fato. São Paulo: Contexto, 1997. SILVA, Thomas Tadeu. O Currículo como Fetiche: A Poética e a Política do Texto Curricular. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. CAPÍTULO 2 o objeTo de eSTudo nA PeSqui- SA HiSTóriCA A partir da concepção do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Identificar as questões teóricas que envolvem o trabalho com Pesquisa histórica. 3 Promover o debate em torno de temas fundamentais na construção de um projeto de pesquisa. 3 Analisar o mito da ciência moderna e seus estatutos de verdades bem como suas implicações na pesquisa e ensino de História. 36 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA 37 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 ConTexTuALizAção Considerando a história humana, podemos afirmar que sempre houve uma profunda capacidade em formular perguntas à realidade. Os seres humanos vivenciaram múltiplas experiências como sujeitos sociais e, sobretudo, como produtores de uma cultura que os fez também produtos dessa mesma cultura. E, a formulação de perguntas desenha as fronteiras culturais de cada comunidade. Perguntar-se sobre todos os aspectos da realidade histórica moveu – e ainda move – muitas pesquisas no sentido de compreender e elucidar importantes conceitos explicativos da realidade que nos cerca, assim como, descrever ou propor caminhos para as sociedades humanas. No mundo ocidental, sobretudo no Modo de CivilizaçãoModerno, a ciência ocupou um destaque importante, a ponto de ser considerada um novo mito que estabelece verdades e define os caminhos aceitáveis pela sociedade. À ciência moderna foi dado o papel de construtora de uma nova realidade. Cabia aos cientistas a tarefa de, por meio dos argumentos da razão, construir um caminho direcionado ao progresso. Não cabe nessa seção um maior aprofundamento sobre a predominância da ciência sobre a sociedade ocidental, mas é fundamental apontar duas questões que iremos desenvolver com maior propriedade nesse capítulo: • Na mesma proporção da imposição de métodos normativos da ciência para as sociedades ocidentais, temos a gradativa exclusão da pesquisa das práticas educativas nas instituições escolares. • A linguagem utilizada pela ciência foi estabelecendo verdades sem a compreensão por parte da maioria da sociedade, visto que os métodos e técnicas utilizados para a compreensão do mundo não permitem uma apropriação dessa linguagem – o que poderia acontecer pelo ensino. Observe na figura que segue as separações entre os grupos, o distanciamento entre o espaço escolar e a comunidade ao fundo, o conhecimento centrado no que está escrito inauguram um mito de que apenas a ciência pode educar. Os seres humanos vivenciaram múltiplas experiências como sujeitos sociais e, sobretudo, como produtores de uma cultura que os fez também produtos dessa mesma cultura. E, a formulação de perguntas desenha as fronteiras culturais de cada comunidade. 38 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Figura 2 – Representação das primeiras organizações escolares no início da Modernidade Fonte: RONAN, Colin. História Ilustrada da Ciência. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1987. v. III Ambas as questões apontadas anteriormente nos interessam nesse capítulo, visto que, a pesquisa em ciências sociais – aqui no caso a História – sofreu uma uniformidade em se tratando de métodos e técnicas de outras áreas para que fosse considerado um ramo científico. Debates recorrentes entre pesquisa quantitativa ou qualitativa ocupam os bancos universitários e serão úteis em nossos estudos considerando-se que diante dele, temos como pano de fundo a discussão e a validade da história como ciência. No ensino, a construção de novos conhecimentos é um campo de discussão 39 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 profundamente vinculado à validade da história como ciência se considerarmos que somos sujeitos históricos e parte da construção de uma realidade cultural. O que está um jogo nessa discussão pode ser resumido em algumas questões que contribuem para a continuidade de nossos estudos: • Se a ciência moderna exige objetividade, como lidamos com a pesquisa em História considerando-se que somos nós próprios os sujeitos da sociedade em estudo? • Mas, se vincularmos a necessidade de um método objetivo para o estudo das sociedades, não estaríamos deixando de lado a subjetividade presente no estudo e análise dos fenômenos sociais? • E qual é o limite de uma análise subjetiva de um fato histórico que não permita a imposição de uma determinada verdade? Poderíamos encerrar esse primeiro momento de nosso estudo considerando que a pesquisa nas ciências sociais caracteriza-se, sobretudo, por um processo de constantes escolhas diante de objetos de estudos – aqui, no caso da história – que são sempre dinâmicos com uma especificidade que deve ser considerada no ensino de história sem cairmos em anacronismos ou imposições de verdades, que muitas vezes são provisórias. Onde está a vinculação pesquisa-ensino? Em primeiro lugar, devemos lembrar sempre que o pesquisador dá sim uma intencionalidade ao seu trabalho, mas os grupos humanos dão significados às suas ações. Nesse sentido, as pesquisas encontram no ensino a ponta de difusão. Perceber na prática educativa em História todas as maneiras de explicar um determinado fato é de extrema importância para termos uma melhor compreensão do fenômeno histórico. Outra questão a ser considerada é a provisoriedade do objeto histórico. A análise, o estudo e explicação de um fato histórico podem encontrar diferentes versões em diferentes grupos ou contextos históricos como já estudamos no Capítulo I desse caderno de estudo. A cristalização da prática educativa diante do estudo da História não contribui nada no estímulo à pesquisas e construção de novos conhecimentos. Um terceiro aspecto a considerarmos é a relação sujeito-objeto na pesquisa, bem como no ensino de História. Suas escolhas culturais, sua classe social, seu 40 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA gênero, grupo etário ou outras categorias provocam o humano a procurar uma identificação específica. Essa situação coloca o pesquisador e/ou professor em História a ser também parte da observação, a ser também objeto de sua análise. Outra problemática a ser considerada nesse estudo é a controversa afirmação de que a pesquisa em ciências sociais é profundamente ideológica. A pesquisa científica é uma escolha vinculada a interesses e percepções de mundo construída na história pessoal do pesquisador. A escolha do objeto de estudo, os procedimentos metodológicos, os resultados de sua pesquisa e a possível aplicabilidade estão sim, tomadas de escolhas que ele faz diante de suas concepções pessoais. Se transpusermos para o ensino de História, podemos afirmar, por exemplo, que o livro didático é um ponto de vista sobre diversos fatos históricos. E, finalmente, concordamos com diversos autores de estudos sobre pesquisa, que a área de ciências sociais é da incompletude da pesquisa por consideramos que tratamos da dinâmica social e da multiplicidade de discursos sobre a sociedade. A pesquisa será sempre incompleta, passível de revisões antes, durante e após os trabalhos. Assim, iniciando esse estudo do capítulo II, estamos chamando atenção de início à fragilidade das afirmações aqui, presentes; bem como, reafirmando a importância de novos estudos que podem ser iniciados por vocês alunos desse programa. Voltaremos aos conceitos aqui estudados no Capítulo IV desse caderno. Vamos analisar as possibilidades de atuação no ensino de História tendo a pesquisa como um caminho metodológico possível. Como deLimiTAr um TemA? A história – nossa área em estudo aqui – possui uma grande dose de subjetividade em sua pesquisa e estudo. A interpretação de um fato histórico, sua descrição e os resultados desse possível discurso estão carregados de experiências de vida e de concepções que devem ser levados em consideração quando falamos do trabalho do pesquisador em História, bem como, do professor que trabalha com esse conhecimento. O livro didático é um ponto de vista sobre diversos fatos históricos. 41 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 Na definição de um tema para pesquisa em História e/ou para um projeto de trabalho com alunos de Ensino Fundamental e Médio, essa é uma questão que devemos levar em consideração. E diria que, ao pensarmos o conhecimento histórico como algo produzido, estamos vinculando os pesquisadores e os professores em um contexto que leva em consideração a prática social de cada um. Prática essa que influencia em suas escolhas e estudos. Ao definirmos um tema, portanto, é necessário destacarmos a importância da escolha teórica daquele que lida com História, pois se demarca assim as conversas estabelecidas com as fontes de pesquisa e/ou estudo. Em concordância com Vieira (2000, p. 30) ao dizer que “definir o tema é pensar o objeto e não apenas escolher o assunto”. A escolha de um tema é um passo importante que vincula- se com o restante do trabalho que virá. Os caminhos investigativos e os possíveisresultados virão das escolhas do profissional. O início de uma pesquisa histórica – seja ela com base em fontes históricas ou em práticas educativas com alunos – gera dúvidas que devem ser respondidas com a clareza das escolhas para trilhar o caminho. As dúvidas e hipóteses iniciais serão encaminhadas para resultados que serão necessariamente diferentes, dependendo das escolhas teóricas iniciais. O fato é que várias possibilidades de abordagem e pesquisa nessa área estão em jogo quando se trata de delimitar um tema. No momento em que o texto de estudado fala de subjetividade no processo educativo, considero importante chamar atenção para a origem etimológica de duas palavras: • ALUNO – A palavra “aluno” tem origem do latim, onde a corresponde a “ausente ou sem” e luno, que deriva da palavra lumni, significa “luz”. Portanto, aluno quer dizer sem luz, sem conhecimento. • PEDAGOGIA – soma das palavras gregas Paidos = criança; agogôs = caminho, o condutor. Portanto, pedagogo é aquele que conduz a criança para o conhecimento. Considerando essas duas origens etimológicas somadas ao discurso da modernidade e seu estatuto de verdade, podemos compreender um pouco melhor as dificuldades em estabelecer um processo educativo que estimule a pesquisa. A interpretação de um fato histórico, sua descrição e os resultados desse possível discurso estão carregados de experiências de vida e de concepções que devem ser levados em consideração quando falamos do trabalho do pesquisador em História, bem como, do professor que trabalha com esse conhecimento. 42 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Quando definimos um tema, estamos optando por uma área de interesse que pretendemos analisar. Muitas vezes essa escolha é bastante ampla e necessita de um recorte mais pontual, com maior precisão para que a formulação do problema a ser estudado seja mais específico. Não é tarefa fácil que exige uma descrição detalhada para que o recorte seja bem claro. Esse momento da pesquisa e/ou estudo, mesmo que seja muito provisório, exige um levantamento de interesses no tema. Precisamos sempre enunciar o tema de forma que o problema recorrente dessa primeira etapa permita o aprofundamento do tema escolhido. Quais seriam as características para que consideremos um tema/ problema de pesquisa e/ou estudo bem definido? • Procure fazer uma pergunta inicial. Além de permitir que visualize melhor o tema, também irá elucidar futuros caminhos para seu trabalho. Quer um exemplo: Quais os fatores que produzem a reprovação de alunos no 9º Ano do Ensino Fundamental na disciplina de História? • Esse questionamento deve ser elaborado de maneira que não gere imprecisão ou que tenha uma vastidão impossível de responder. Uma pergunta ampla irá produzir uma frustração nos resultados finais ou irá causar muitos problemas no caminho de pesquisa e/ou estudo. Seguindo nosso exemplo, o que seria uma pergunta vasta e difícil de responder: Quais os fatores mentais que interferem no aprendizado de alunos do 9º Ano do Ensino Fundamental que resultam em reprovações no aprendizado de História? • Há a necessidade de algumas delimitações no problema. Uma pergunta ampla inviabiliza a pesquisa. Portanto, deve-se restringir o estudo em um grupo e regiões específicas. Se quisermos estudar os alunos do 9º Ano do Ensino Fundamental, com certeza não saberemos a situação de todos os alunos de uma cidade. Precisamos delimitar o estudo aos alunos reprovados no ano anterior na disciplina de História em uma região/cidade específica. Pergunte-se também: • Há uma relevância na sua escolha? • Quais seriam os resultados sociais de sua escolha? • Você dará conta do volume de trabalho necessário para a pesquisa? • Quais são as possibilidades reais de realização do trabalho? 43 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 • O tempo que você possui é suficiente para atingir os objetivos? Em se tratando de desenvolver trabalho com alunos de Ensino Fundamental e Médio as respostas às questões apresentadas é fundamental se considerarmos os limitadores de um cotidiano escolar, bem como as exigências de Secretarias de Educação, pais e os próprios alunos. Faça sua escolha de forma que o tema/problema seja vinculado ao currículo de sua disciplina. Atividade de Estudos: Caro pós-graduando: 1) Aponte dois elementos sobre uma prática em sala de aula no Ensino Fundamental ou Médio que não dão conta de vincular o ensino com a pesquisa. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Faça uma análise de ambos tendo como referência a seguinte questão principal: quais os resultados advindos dessa escolha feita pelos professores de História? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 44 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA modernidAde, A PeSquiSA e A verdAde. exiSTe verdAde? Convém iniciarmos essa parte dos estudos com uma afirmação: nossa formação intelectual é assentada nos moldes do iluminismo e da ciência moderna. Quais as consequências disso? Somos inundados pela crença de que a ciência e o progresso são o caminho natural a ser trilhado tendo a razão como base para a afirmativa de verdades. O Triunfo e certa onipotência caracterizam, sem dúvida, o Modo de Civilização Moderno. Desde o século XVII, o chamado Século das Luzes, difunde-se argumentos da existência de um saber universal e uma racionalidade possível de iluminar lugares onde o progresso e a ciência não haviam ainda alcançado. Nomes como Kant, Locke, Voltaire, Rousseau, Descartes constituíram argumentos possíveis que, mais tarde, seriam utilizados para justificar barbáries e, com o uso da metáfora da iluminação, possibilitou que o modo de vida europeu ocupasse regiões com a justificativa de civilizar povos que viviam na escuridão. Instaura-se a Modernidade. O humano torna- se objeto de estudo. Começam as bases para as ciências humanas. Conforme ilustra a figura 3 de Escher. Figura 3 – Autorretrato (Escher). Representado o dilema moderno: o homem observa sua imagem e semelhança pelos olhos da ciência Fonte: Disponível em: <http://edmort.files.wordpress.com/2008/05/ escher-auto-retrato.jpg>. Acesso: 15 ago. 2009. O Triunfo e certa onipotência caracterizam, sem dúvida, o Modo de Civilização Moderno. Desde o século XVII, o chamado Século das Luzes, difunde- se argumentos da existência de um saber universal e uma racionalidade possível de iluminar lugares onde o progresso e a ciência não haviam ainda alcançado. 45 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 Nos séculos XVII e XVIII, portanto, quando se estruturam os fundamentos de um pensamento individualista e racionalista, em que a Modernidade não é ainda um modo de vida, mas como ideias, uma concepção ligada à de progresso.Podemos situar a juventude como alvo do projeto moderno, isto é, o jovem como projeto social que o vincula ao novo, ao futuro como valores modernos que se opõem à tradição constituindo assim, um sentido histórico ao tempo. Esse aspecto é interessantíssimo para nossos estudos se considerarmos que para educar jovens, instituições são criadas. Dentre elas, a escola. Tema que desenvolveremos melhor no capítulo III. A Modernidade é definida (BAUDRILLARD, 1982), como modo de civilização estendido em escala mundial, universalmente válido, fundamentado pela razão e justificado pela História. A racionalidade que orienta o pensamento científico se autoconfere um estatuto de verdade, e por isso de realidade, na medida em que opera através das abstrações opostas e idênticas, por meio de oposições binárias, da demonstração e da técnica, servindo como referência fundamental para organizar, segundo padrão evolutivo e hierarquizado baseado no tempo linear e em uma escala de progresso, as experiências dos indivíduos. Dessa forma, este modo de civilização passa a ter uma unidade e uma orientação com dimensões universais: de humanidade. Sobre conceitos de Modo de Civilização Moderno ver: BAUDRILLARD, Jean. Modernité. In: Biennale de Paris. La modernité ou l’esprit du temps. Paris, Editions L’Equerre, 1982, p. 28-31. Livro ainda não traduzido para o português. O autor possui muitas obras no país que exploram o mesmo conceito. Sugiro também do mesmo autor A Sociedade de Consumo. Lisboa/Portugal. Edições 70, 2008. O Modo de civilização Moderno está a mais de duzentos anos estabelecendo um único olhar para as questões mundiais. E quando digo olhar, estou novamente afirmando uma metáfora diante da nossa tradição cultural que espera da ciência maneiras de “olhar’ para o mundo. As próprias expressões utilizadas em nossos textos e/ou leituras que fazemos deixam à mostra o que digo a vocês alunos. Observem que palavras como esclarecer, clarificar, trazer à luz, desvelar ou representar nada mais são do que metáforas visionárias inauguradas pelos iluministas para direcionar olhares, instituir verdades por meio da ciência. A Modernidade é definida como modo de civilização estendido em escala mundial, universalmente válido, fundamentado pela razão e justificado pela História. 46 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Como já vimos no capitulo I, a História como ciência, não escapou dessa armadilha. Nessa parte do estudo cabe problematizarmos a existência de uma verdade, sobretudo nas ciências humanas. Para tanto, gostaria de caminhar como vocês pela própria história da racionalidade e suas imbricações com as ciências humanas. A ciência desloca seu interesse para algumas afirmações polêmicas em um período (ainda) com fortes intervenções e jugo religioso. O modelo Heliocêntrico – contrapõe-se ao modelo Geocêntrico que perdurou por séculos sendo defendido pela Igreja Católica. Uma crise metodológica permite o abandono da concepção de um mundo fechado e hierarquicamente organizado em que cada coisa tem seu lugar pré-determinado por Deus. Esta é substituída por um sistema explicativo que busca no próprio indivíduo os fundamentos das novas teorias científicas. Relembre que as tentativas de entender o universo dariam origem ao Heliocentrismo, desenvolvido por Nicolau Copérnico e Galileu Galilei, concepção de que o sol é o centro do sistema de planetas. A concepção de que a Terra, e não o sol, é o centro do sistema foi desenvolvida por Ptolomeu. René Descartes é um dos principais pensadores do racionalismo moderno e suas afirmações trouxeram aos homens a revelação de sua natureza racional, tirando deles crenças e preconceitos estabelecidos pela tradição religiosa e decretando a existência do Eu Pensante, garantindo a instituição da verdade através de um método. Eis a emergência do racionalismo. Sua obra confiava à sabedoria humana a função de iluminar pela razão, sua luz natural (conforme já discutimos na primeira parte desse texto). O pensamento cartesiano expõem a filosofia de organização das ideias, da hierarquia das ideias. A formulação do pensamento está ligada às regras que definem a estrutura das coisas, estão ligadas às analises das coisas, à descrição das coisas. O saber, portanto, é concebido como representação descritiva e conhecer é ordenar e analisar. Quando afirmamos no texto a palavra HOMENS denota afirmar que são homens mesmo. Às mulheres cabiam as tarefas caseiras e o não acesso aos conhecimentos produzidos. Seu aprendizado estava reservado às tarefas caseiras. 47 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 Em sua obra O Discurso do Método, Descartes (1983, p. 40) escreve que “não existe tanta perfeição nas obras formadas por várias peças, e feitas pela mão de diversos mestres, como naquelas em que um só trabalhou” e, adiante, é contundente ao afirmar que “o método que ensina a seguir a verdadeira ordem e a enumeração daquilo que se procura contém tudo quanto dá certeza às regras da aritmética”. O plano cartesiano marca posições dos corpos no espaço através de coordenadas espaço e tempo e de uma linguagem lógica e as linhas retas da geometria do espaço e tempo tão presente na educação moderna. Figura 4 – Capa da Primeira edição do Discurso do Método de René Descartes Fonte: Disponível em: <http://cabalgandoaltigre.files. wordpress.com>. Acesso em: 14 ago. 2009. Dica de leitura: ARIÉS, P. História social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LCT Editora, 1981. 48 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA O Modo de Civilização Moderno impõe-se como homogêneo e o pensamento individualista e racionalista traça o progresso como meta. A Modernidade apresenta-se como era da produtividade. Durante os séculos XVII e XVIII o modo de vida, denominado de Modernidade, toma seu sentido para no século XIX e atinge todas as esferas da vida. (incluindo- se aqui o cinema e fotografia). O pensamento individualista e racionalista moderno bem como o reforço ao Estado como uma instância de poder dão à Modernidade o caráter de um modo de vida que liga a ela ideias de progresso e, com ele a miséria, a exploração econômica e a formação de grandes aglomerados de capital. Nessa composição, necessidades surgem, novos territórios vão sendo delineados com base na intensa urbanização e organização dos conhecimentos em disciplinas. A Modernidade torna-se um modelo cultural e com este, carrega outros modelos. O controle ao acesso dos saberes tornou-se um exercício de poder. A definição de verdades vai, pouco a pouco, definindo processos de exclusão e/ou reclusão. O capitalismo do século XIX vai definindo-se como um meio de produção, que, sobretudo caracteriza-se pela forte concentração de riquezas. Nos últimos trezentos anos a nova ciência é erguida e sistematizada sob a égide da racionalidade. Esses nomes encontraram nas ciências exatas os métodos e argumentos da lógica para estudar, analisar e explicar também os acontecimentos sociais, psicológicos, políticos ou econômicos. O que parecia ser um caminho de verdades estabelecidas pelas Exatas em detrimento das Humanas, tem no final do século XIX o crescimento do Positivismo de August Comte como caminho para estudo dos fenômenos humanos. Em outras palavras, a racionalidade chegou às Ciências Humanas a partir das Ciências Exatas e Naturais. Poderíamos resumir em alguns tópicos as diretrizes que comandaram as pesquisas em Ciências humanas durante boa parte do Século XIX e metade do Século XX. Vejamos: • A observação da realidade exige uma rigorosa quantificação de dados. • A observação deverá ser neutra e repetitiva estabelecendo padrões. • A preocupação é com a mais pura verdade em detrimento do senso comum. • Aceitam a existência de um sujeito– transcendental – com uma racionalidade que o leva a uma consciência pura que só é atingida pelo uso correto da razão. • A linguagem é um instrumento para representar e descrever o mundo. 49 O ObjetO de estudO na Pesquisa Histórica Capítulo 2 Atividade de Estudos: 1) Prezado Pós-graduando: Faça uma pesquisa e indique as principais características de uma aula de história que tem como base a racionalidade cartesiana e/ou o positivismo de August Comte. O resultado de seu trabalho pode gerar um bom debate em sala de aula com seus colegas. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Diante do exposto, podemos avançar no estudo percebendo que há uma verdade que se busca, que se almeja. É pelo uso da razão que conseguiríamos captar os elementos do mundo. Ou melhor, a verdade seria desvelada e apenas pelo uso da racionalidade científica é que conseguiríamos ter acesso às verdades do mundo. Enfim veríamos a realidade tal como ela realmente é. Num curso que estuda o ensino de História, você deverá estar se perguntando: afinal, por que estamos indo para esse caminho? Tomados pelos estudos específicos de sua área, os pesquisadores das Ciências Humanas desconfiaram dessa diretriz e as teorizações foram tomando outros rumos, afinal nosso objeto de estudo – aqui no caso a área de História – está em movimentos humanos, sendo assim, subjetivo demais para nos submetermos às determinações numéricas que nos levassem à algumas conclusões. A composição do pensamento epistemológico da ciência moderna – a razão, a consciência, o sujeito com a consciência desenvolvida, o progresso - deixa como legado para as ciências humanas alguns mitos apregoados no preceito iluminista de iluminar os homens e libertá-los da treva, das superstições, dos costumes da cultura oral, dos mitos e todo tipo de ignorância e irracionalidade. Esse estatuto 50 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA de verdade serviu por anos de história para a subjugação de povos e extermínio de outros. Em se tratando de materiais didáticos para o ensino de História (tema já estuda no capítulo I) ou prática do ensino de História desenvolvido na primeira metade do século XX, as interferências dos preceitos iluministas foram intensos. Não há contestação quando está nos livros - prática ainda presente na cultura dos moradores do interior do país, ou seja, se está escrito, nos resta aprender – ou quando o professor ensina. Paira no ar um estatuto de verdade que permaneceu por muitos séculos nas pesquisas e no ensino de história. ALgumAS ConSiderAçõeS Caro pós-graduando, fique atendo aos conceitos aqui estudados, pois lhe serão muito úteis nos próximos capítulos. Estudamos os limites presentes na contemporaneidade tendo em vista os resíduos da Modernidade ainda presentes na prática de pesquisa e ensino nas ciências Humanas. Os capítulos seguintes irão desafiar você a encontrar caminhos possíveis que possibilitem o acompanhamento das mudanças históricas ao mesmo tempo em que procure métodos possíveis que sensibilizem seus alunos para o conhecimento histórico. Boa sorte. referênCiAS ARIÉS, P. História social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LCT Editora, 1981. BAUDRILLARD, Jean. Modernité. In: Biennale de Paris. La modernité ou l’esprit du temps. Paris: Editions L’Equerre, 1982, p. 28-31. DESCARTES, R. Discurso do Método. In: Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983. VIEIRA, Maria do pilar de Araújo. A pesquisa em História. São Paulo: Ática, 2000. CAPÍTULO 3 A SALA de AuLA e A PeSquiSA em HiSTóriA A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Compreender a dinâmica da sala de aula e as possibilidades investigatórias no cotidiano de uma comunidade escolar. 3 Apresentar experiências de pesquisa e ensino em História no ambiente escolar. 52 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA 53 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 ConTexTuALizAção Prezado pós-graduando, começamos o aprofundamento dos conceitos estudados nos capítulos anteriores tendo a tarefa de percebê-los no cotidiano do espaço escolar e a finalidade é compreender sua dinâmica, limites e possibilidades de aplicabilidade em situações reais do processo educativo – aqui no caso com a disciplina de História. Como você já passou pelo estudo anterior, pode perceber que tivemos a preocupação em analisar no primeiro capítulo a história do ensino de História e no segundo os preceitos da ciência moderna com seus desdobramentos na pesquisa e ensino. A partir dessa etapa de estudo, você pós-graduando, terá uma compreensão melhor da necessidade e possibilidades de trabalhar com a iniciação em pesquisa com alunos de Ensino Fundamental e Médio assumindo seu papel nas possíveis mudanças do ensino, centrado no conteúdo, voltando sua prática para o ensino centrado na curiosidade e na pesquisa de seus alunos. A primeira dúvida que surge diante dessas discussões gira em torno da seguinte questão: como estabelecer um diálogo entre o programa oficial a ser cumprido, o livro didático adotado pela escola e a sua formação pessoal que teve acesso aos discursos que recomendam uma prática voltada para a realidade da comunidade onde atua? Aqui temos duas questões a considerarmos: • Não são ‘discursos iluminados’ que irão ‘ensinar’ a melhor maneira de atuar e o que ensinar. Desconfie de pacotes prontos que dão receitas de sucesso para o processo educativo. Dito isso, gostaria de afirmar para você, que estuda com esse caderno: é pela fala sobre limites, crenças e possibilidades de cada um em sua prática que vou procurar estabelecer o diálogo – mesmo que o módulo seja Educação a Distância. • Cuidado com discursos da moda que sempre estão presentes na educação. O que iremos discutir neste capítulo 3 e 4 os são caminhos investigativos no ensino de História. Afinal, qual sentido teria contar prática apenas no nível do discurso? Como estabelecer um diálogo entre o programa oficial a ser cumprido, o livro didático adotado pela escola e a sua formação pessoal que teve acesso aos discursos que recomendam uma prática voltada para a realidade da comunidade onde atua? 54 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA PrinCÍPioS báSiCoS no enSino de HiSTóriA Com esse propósito em mente, convido você, prezado estudante em pós- graduação, a acompanhar alguns princípios básicos que estarão presentes nos parágrafos que seguem. a) Conhecimento Linear e Hierarquicamente Organizado é um Equívoco Consideremos que o conhecimento linear e hierarquicamente organizado sob os moldes da Modernidade é um equívoco. Perceba os horários de aulas na escola onde trabalha e perguntem-se quais são os motivos que colocam um número grande de aulas para disciplinas da área de exatas e pouco tempo reservam para a área de humanas. Estranhe o fato de colocarem aquela aula de História no final do período – o que acontece em algumas situações – com o argumento deque a cabeça dos alunos já está cansada e para estudar História, não precisa raciocínio. Diferentemente da metáfora, muitas vezes utilizada do conhecimento organizado na imagem de uma árvore – onde a base de estudo é a raiz e os frutos são os resultados dos esforços do aluno que aprende – sintonizo com alguns autores que utilizam outra metáfora para representar o processo de apreensão do conhecimento. Não cabe aprofundarmos muito essa temática, mas indico alguns autores para que sua curiosidade seja aguçada também. Deleuze e Guatari chamam de rizoma – ideia de que o conhecimento transversaliza e quebra as fronteiras entre as áreas estanques – contrapondo-se às imagens anteriores do conhecimento arborescente; alguns autores que estão vinculados à nossa área como Lefebvre ou Michel de Certeau falam de conhecimento em rede e mais recentemente outro autor que aponta mudanças na maneira de ver esse processo é Boaventura de Souza e Santos que denomina de redes de subjetividade para falar de diferentes caminhos que segue o conhecimento. Sugiro o livro de: DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro. Editora 34, 1999. v. 1. O Livro trata do conceito de Rizoma – fundamental para a compreensão do conhecimento visto por diferentes caminhos. 55 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 b) Conhecimento, uma Complexa Rede Social O conhecimento é produzido diante de uma complexa rede social que envolve toda a comunidade onde está a escola. O dono do armazém, o pastor da igreja, o padre, a família dos alunos, os professores e funcionários da escola são exemplos de diferenças culturais que estão em um mesmo contexto sócio-histórico. Esse complexo espaço de relações sociais não consegue mais dialogar com a hierarquia do conhecimento que produz, por exemplo, reprovações pontuais em algumas disciplinas ou séries. Devemos considerar que esse contexto de diferenças é uma grande possibilidade de estudo para a área de História e para tanto, você pós-graduando, que atua em uma comunidade como professor, é necessário que esteja aberto para as múltiplas possibilidades de ensinar e aprender. O filme que indico, é um exercício de percepção da diferença. Vale a pena conferir: A Excêntrica Família de Antonia. Dirigido por Marleen Gorris em 1995. A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE ANTONIA - SINOPSE Definido como uma celebração da vida e da morte, esta co-produção entre Holanda, Bélgica e Inglaterra ganhadora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro vai além ao contar a história de uma encantadora geração de mulheres. Comandada por Antonia, a saga familiar atravessa três gerações, falando de força, de beleza e de escolhas que desafiam o tempo. Nesse universo conhecemos curiosos personagens, como o filósofo pessimista, a netinha superdotada, a filha lésbica, a avó louca, o padre herege, a amiga que adora procriar, a vizinha que sofre abusos sexuais e os muitos amigos que são acolhidos por sua generosidade diante da diferença. c) Material de Pesquisa em História Nosso material de trabalho em História deve ser as maneiras como as pessoas criam, incorporam, produzem novos conhecimentos. Estão nas ruas, bares, mercados, casas ou pontos de ônibus nossos instrumentos de pesquisa em História. Como vivem ou sobrevivem as famílias? Como percebem os entraves do poder? Como vivem com a violência urbana? O que pensam sobre o lazer em O conhecimento é produzido diante de uma complexa rede social que envolve toda a comunidade onde está a escola. 56 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA sua comunidade? Quais são os grupos existentes no bairro? Os jovens e crianças desse bairro têm acesso ao conhecimento dos livros, jornais, revistas? O que leem? Perceba caro pós-graduando, quanto material pode ser ricamente transformado em aula? Quanto material de pesquisa pode estimular alunos e mover seus interesses pela sua comunidade ao mesmo tempo em que o integra nas aulas de História. Fazer relações com o conteúdo é seu papel como professor, afinal, o estudo de seu município ou bairro deve ser sempre considerado. Um livro indicado para compreender as trajetórias teóricas das teorias curriculares é: SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: um Introdução às Teorias do Currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. A SALA de AuLA Como eSPAço PArA A dúvidA Você pós-graduando, lembra de como era sua turma no Ensino Fundamental? Como era você como aluno? Onde sentava? Como apelidou aquele professor que você detestava? Você o detestava ou sua disciplina? Quem era o maluco da sala? Quem sentava colado na mesa do professor? O que fazia você gostar ou detestar um professor? São todas perguntas que deixam à mostra as relações dentro de uma única sala de aula. Afinal, na maioria das salas de aula cheias de alunos tem aqueles que sentam no fundo (a turma da cozinha, como dizemos), os CDF (abreviatura que convém aqui não explicar) que sentam colados no quadro e tudo que o professor diz eles anotam, tem os que falam o tempo inteiro e também tem os que nunca falam (a não ser para dizer que estão presentes na aula). Uma turma em sala tem uma rica e profunda diversidade de comportamentos e, principalmente, histórias de vida. Todavia, essa breve narrativa informal é para que possamos refletir juntos sobre como essas relações passam despercebidas e, sobretudo, não são 57 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 aproveitadas para que as aulas de História sejam enriquecidas com os próprios exemplos vindos da história de vida dos alunos em uma turma. São exemplos que pretendo utilizar nesse capítulo. Por outro lado, esse rico material de estudo e pesquisa é ofuscado pela estrutura escolar que se preocupa muito com regras, determinações, limites e obrigações ao invés de preocupar-se com os conhecimentos da cultura de sua comunidade. Quer um exemplo: a cola escolar. Muito já se discutiu sobre a cola ser antiética enquanto outros pensam que é uma maneira cooperativa de estudar. Mas quero relatar uma experiência pessoal sobre a cola. Alguns anos atrás eu fui trabalhar em uma escola onde a sétima série orgulhava-se de ser a melhor turma em cola. Nenhum professor da escola negava, afinal, eles não participavam das aulas, mas tiravam boas notas. Propus então, um desafio aos adolescentes: vamos fazer a prova da cola? Todos poderiam colar sem que eu visse. Senão era Zero na nota da prova. A reação foi de espanto tanto dos alunos como da direção e colegas professores. Na semana seguinte levei adiante a ideia e preparei uma prova que começava assim: Veja em sua cola e responda: Quais são as principais diferenças entre capitalismo e socialismo? E no final da questão coloquei (se essa resposta não estiver em sua cola, retire ela do esconderijo, cole-a no caderno e complete-a). Resultados da experiência? • Os alunos foram pegos de surpresa com a proposta e desafiados a fazer uma cola melhor do que sempre faziam. Isso exigiu deles que estudassem o conteúdo, lessem os textos e resumissem em pequenas tiras de papel. • Ao estudar sempre as falhas ficam. A turma retirou a cola dos esconderijos, colou no caderno e completamos com uma aula excelente feita com diálogos riquíssimos. • A prova foi refeita com outro perfil tendo a revisão da cola como momento fundamental para que as notas e a compreensão do conteúdo fossem aprimoradas, além de estimular a pesquisa e o registro das considerações pessoais de cada um dos envolvidos no processo educativo. Por outro lado, esse rico material de estudo e pesquisa é ofuscado pela estrutura escolar que se preocupa muito com regras, determinações, limites e obrigações ao invés de preocupar-se com os conhecimentosda cultura de sua comunidade. 58 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Não que eu tenha sido conivente com a mentira ou reforcei uma atitude comportamental desviante. O que canalizei foram três aspectos: primeiro: adolescentes querem desafiar e ser desafiados; segundo: chamei atenção deles para os conteúdos obrigatórios para a série; terceiro: conquistei a confiança da turma que começou a estudar sem exigência de punições ou regras rígidas de comportamento. Em contrapartida, se a opção fosse outra e optasse pela vigilância e punição priorizando o conhecimento estanque e segmentado, os resultados poderiam ser outros. Vejamos alguns: • A turma incluiria o conteúdo de História em um pacote já conhecido por eles. Colariam para se livrar logo do julgo do professor. • O professor desconfiaria que colaram, mas como não tem provas suficientes para acusar ou anular a prova, repetiria a nota nos documentos oficiais. Um finge que aprende, outro finge que ensina. • O estimulo à pesquisa e construção de conhecimento seria praticamente nulo. • E a relação professor/aluno seria turbulenta. O que é um impedimento para que o processo educativo seja saudável. O simples detalhe dessa experiência que divido com vocês está de fato, não no que conseguimos ver em uma sala de aula, mas naquilo que não vemos. O sentido dado àquilo que não vemos pode fazer grandes diferenças quando o desejo é estimular jovens para o ensino de História. Como já afirmei anteriormente, nosso instrumento de trabalho na disciplina de História está em todos os cantos do bairro onde fica a escola. Nesse aspecto, cabe um breve retorno aos capítulos anteriores para ampliarmos esse debate. O eterno mito da Modernidade em torno do saber científico e o endeusamento da teoria em detrimento do senso comum. Voltemos ao Século XIX e a construção da História como ciência bem como as diretrizes para o ensino de história que começava suas primeiras experiências. O fracionamento do conhecimento em diversas ciências e sua hierarquização entre os conhecimentos fundamentais e os conhecimentos periféricos também coloca em prática dentro das escolas a oposição entre teoria e prática. Apesar das tentativas em algumas teorias de associá-las, esse momento da história gerou uma prática social, sobretudo no ensino, que estabelece muito espaço para a teoria reservando a ela o compromisso de preparar para o que está por vir. 59 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 Consecutivamente, disciplinas consideradas teóricas estão em primeiro lugar na escolha de horários e número de horas a trabalhar. O discurso defende teoria – prática enquanto que o que seria ideal é prática – teoria – prática. Assim diz Alves (2002, p. 113): A conseqüência direta de tudo isto, no pensar pedagógico, especialmente no campo curricular, é que se criou e se passou a desenvolver um modelo e uma realidade nos quais a ‘construção’ de conhecimento se dá de modo linear e hierarquizado, com uma antecedência claramente estabelecida de disciplinas teóricas (formadores do campo científico específico) sobre as disciplinas práticas, sempre subordinadas, quer quanto ao lugar posterior ocupado, quer pelo tempo geralmente dedicado ao seu desenvolvimento. Vale ressaltar que essa escolha também ocorre no nível interno de cada uma das disciplinas com consequências que já conhecemos. Em História, vemos poucas possibilidades de colocar em prática os conceitos e nos apegamos em conteúdos sequenciais com divisões que nem sempre satisfazem a quem ministra aulas e nem quem as assiste. No exemplo dado anteriormente, sobre a turma de sétima série e a cola, você pós-graduando, consegue ver aplicabilidade dos conceitos de socialismo/ capitalismo no método utilizado na prova? Ou você não conseguiu ver quais os desdobramentos desse exemplo para a continuidade dos estudos com a turma? Cabe explicar. Após a revisão do conteúdo, prova refeita com outro caráter, resumo feito no caderno, propus aos alunos uma questão-desafio sobre o que vivenciaram, observe. Caros alunos (atividade em duplas): Após viverem a experiência da prova da cola, pergunto: Separem da experiência três situações que podemos associar com capitalismo. Separem outras três situações que podemos associar com o socialismo. JUSTIFIQUE SUAS RESPOSTAS. 60 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Atividade de Estudos: Fica o desafio a você prezado Pós-graduando: 1) Responda a atividade anterior como atividade de estudo nessa seção e, sendo estudante em outro nível de estudo, faça uma relação da experiência relatada com o seu desafio diário em sala de aula. Boa sorte! ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Cabe destacar nessa seção outro aspecto que gera possibilidades e/ou desafios diante do que dissemos até o momento. O tempo demarcado da escola e seu espaço individualizado. Ambos podem ser aliados ou inimigos nas aulas. Você quer assistir um filme sobre Período Medieval? O tempo de 50 minutos não permite. E, se assim tentar, qual é a relação do filme com o professor da aula seguinte? Há uma necessidade emergente: mais tempo. Você planeja uma aula-passeio ao museu? O tempo dos outros professores é fundamental. Convida todos para um projeto integrado no passeio. Qual é mesmo a relação do museu com o professor de Matemática? Ou qual é mesmo o objetivo em História quando o museu que levaremos é de História Natural e o conteúdo é Mundo contemporâneo? Outra necessidade emergente: falta planejamento claro que envolva o grupo de professores. 61 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 Estudos sobre a História da Ciência deixam claro que nossa relação com o espaço e o tempo está determinada pela nossa cultura. Estabelecemos práticas que são materializadas nas relações sociais, econômicas, políticas e em nossas representações simbólicas. Portanto, não estamos caindo numa explicação simplificada de que somos modelados pelo espaço em que vivemos ou pelo tempo em que vivemos. O que nos interessa aqui é problematizar o nosso entendimento sobre o tempo e o espaço – tendo o recorte na instituição escolar como escolha assim como as repercussões em um recorte menor: as aulas de História. Espaço e tempo são indissociáveis quando consideramos que ao falar de um espaço, ele só adquire sentido se estiver associado a um determinado tempo. Assim, se falarmos de tempo, ele desenrola-se em um espaço. Pense comigo prezado pós-graduando: sua memória – que retorna o um tempo – só tem sentido quando você pensa em um espaço. Lembre da casa de seus pais. Pode até sentir o cheiro na memória, mas é a organização da cozinha que vai fazer você relembrar o gosto do café, onde era feito, como sua mãe preparava a mesa. Tempo e espaço imbricados. Livro fundamental para compreender a organização do tempo e espaço na sociedade disciplinar é: FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 28 ed. São Paulo:Vozes, 2004. Na organização escolar, ambos são grandes vilões quando se trata de redimensionar a prática educativa. Impossibilidades e limites causam impedimentos diante da emergência de mudanças. Quando falamos da Modernidade, colocamos a razão como um dos princípios da nova era, os jovens eram projetos de futuro e às escolas cabia a obrigação de prepará-los. Todas as mudanças vinculadas ao sistema de produção capitalista e a busca desenfreada por lucro, colocaram espaço e tempo em mudança. Ou melhor, as compreensões sobre eles é que mudaram radicalmente. Tempo e espaço foram compactados. Tempos demarcados por relógios mecânicos e espaços institucionais começam a fazer parte da vida em sociedade. Fábricas, quartéis, conventos, hospícios, hospitais e escolas apresentam-se como a nova ordem disciplinadora. O tempo passa mais rápido num espaço cada vez menor. Lembre-se (como já apresentamos nos dois capítulos iniciais) que o contexto histórico a que nos referimos aqui é o mesmo em que surgem novos 62 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA pensamentos sobre o mundo, as ciências exatas e naturais dão as diretrizes para a Modernidade dizendo que só tem validade se for quantificado (no caso do espaço geometrizado). Só assim teríamos o estatuto de cientificidade. Ligado a isso, a disciplinarização do conhecimento continuava seu curso sob a afirmação de que tudo que existe deve ser separado em partes para ser melhor compreendido. (lembre da citação feita anteriormente do Livro de Descartes que trata exatamente desse tema.). As disciplinas que vão surgindo dão a nova ordem para o mundo do aprendizado e do conhecimento. Prezado pós-graduando, sendo você um atento leitor deve ter combinado tudo isso dentro da instituição escolar a qual você trabalha. Temos a disciplinarização do conhecimento, o surgimento do relógio mecânico, a compactação do tempo. E somado a isso, a hierarquização das disciplinas priorizando a teoria e a prática. Atividade de Estudos: 1) Proponho a você, caro pós-graduando, que analise a rotina de uma escola. Encontre nela alguns elementos que podem ser considerados permanências em seus rituais, práticas e papéis sociais no espaço educativo. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Quanto ao problema em realizar uma simples visita a um museu ou assistir a um filme com seus alunos de História, veja a história e seja corajoso para promover mudanças possíveis na contemporaneidade. Eis o nosso desafio. Volte ao título dessa seção e responda: a sala de aula não é um eterno convite à dúvida? Incluía você também. Os caminhos que escolhemos nem sempre são os apropriados e estamos sempre revendo nossa prática. Aproveite para fazer as suas pesquisas. 63 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 No capítulo I desse caderno de estudos estudamos as permanências de todas essas práticas no ensino de História. O desafio aqui, está em encontrarmos possíveis rupturas, linhas de fuga para estimular a pesquisa e tornar as aulas de história atrativas. Continuamos problematizando, mas quero agora levantar mais algumas possibilidades sobre o tempo e o espaço escolar, focando nosso interesse em aulas de História. Vejamos: • Não confunda o currículo com grade curricular. O próprio termo grade é um indicativo da maneira com que tratamos o conhecimento. Aprisionamos em uma grade uma lista de conteúdos. Em História, essa prática é bastante usual. Confundimos uma listagem de conteúdos com a necessidade de estudar conceitos com alunos de Ensino Fundamental e Médio. Exemplifico para ficar mais claro: se queremos estudar a Independência do Brasil (1822) com alunos de 6ª Série/sétimo ano, não é falando sobre o assunto que vamos sensibilizá-los. Mas, se o caminho metodológico que definirmos começar pelo estudo da situação do Brasil no panorama mundial atual, analisando nossos costumes culturais, a indústria cultural e dependências econômicas de nosso país, os resultados podem ser outros. Ao fazermos o caminho contrário, ou seja, começar por temáticas ou questões em que nossos alunos vivam, chegaremos às discussões sobre Independência no século XIX com maior tranquilidade e menos conflitos com o grupo, além de estimularmos a pesquisa e análise do momento histórico em que eles vivem. Sem deixarmos de mencionar que não estaremos estudando um fato histórico apenas, e sim, um conceito: o que significa independência? • Uma armadilha que a grande maioria dos professores cai são as datas comemorativas. A chamada pedagogia de eventos. Algumas dessas datas saem direto dos livros didáticos ou da história oficial (lembra das discussões no Capítulo I?). Como profissionais licenciados em História, podemos citar muitas. Fico apenas em uma para não alongar o texto. As outras ficam com vocês pós-graduandos: O dia 13 de maio é reservado à abolição da escravatura e sua princesa branca. Uma data oficial coberta de contradições, mas comemorada por mais de um século no país. Por que não se comemora o dia 20 de novembro - Dia Nacional da Consciência Negra. Enumeraríamos ainda o Dia do Índio, Tiradentes, República. Reveja sua prática diante dessa prática recorrente, mas principalmente, repense sobre elas com seus alunos, estimule a dúvida, promova a pesquisa. Quer outro exemplo? 22 de abril de 1500: quem descobriu mesmo o Brasil? Alunos de 6º e 7º anos gostam muito desses debates. Não confunda o currículo com grade curricular. O próprio termo grade é um indicativo da maneira com que tratamos o conhecimento. Uma armadilha que a grande maioria dos professores cai são as datas comemorativas. A chamada pedagogia de eventos. 64 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA • O Livro didático é uma faca de dois gumes. De um lado dá acesso à leitura para alunos carentes economicamente. De outro lado, direciona o ensino de História. Lembremos que um livro é o ponto de vista de um autor (exatamente como esse caderno que vocês estudam e expressa o meu ponto de vista). Portanto, lembrem sempre que há uma errônea representação social de que o que está nos livros é verdade. Utilizar um livro como referência única não estimula a pesquisa, não aguça a curiosidade e, muito menos, permite que alunos possam mediar diversos pontos de vista. Portanto, utilize várias fontes. Estimule seus alunos a buscar novas versões na internet, em outras obras, em jornais. Promova debates que deixem explícitas as opiniões dos alunos sobre temas polêmicos. • Avaliar exige que abandonemos modelos. Modelo de aluno, modelo de aprendizagem, modelo comportamental são limitadores para compreender melhor os alunos. Resistir à tentação de modelar os alunos em função dos próprios ideais e respeitar suas possibilidades. Nesse sentido, em aulas de História, devemos apontar com maior clareza nossos critérios de avaliação considerando sempre o objetivo principal que é produzir/construir conceitos e não reproduzir fatos/ causas/consequências ou heróis. Caro pós-graduando, o que a educação deveria deixar de legado às futuras gerações? Que aprendam a fazer boas perguntas. Afinal, novos conhecimentos surgem sempre com boas perguntas. Sabem aquelafase em que toda criança passa? Por que isso? Por que aquilo? É a partir dessa fase que aprendemos a levantar poeira e construir nossos próprios conceitos. Amplie essa possibilidade em qualquer momento da vida ou oportunidade de aprender. Ensinar exige espaço de construção própria. Deixem os alunos levantarem voos com perguntas singulares e criativas. Dê espaço prazeroso para a dúvida. No próximo capítulo aprofundaremos mais as questões levantadas nessa seção. A proposta do capítulo IV é pensar metodologicamente um projeto de pesquisa com alunos de Ensino Fundamental e Médio. O Livro didático é uma faca de dois gumes. De um lado dá acesso à leitura para alunos carentes economicamente. De outro lado, direciona o ensino de História. Avaliar exige que abandonemos modelos. Modelo de aluno, modelo de aprendizagem, modelo comportamental são limitadores para compreender melhor os alunos. 65 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 ALunoS, imAginário e ConSTrução de novoS SAbereS Caros pós-graduandos, essa seção é breve mas não breve que não permita o desenvolvimento de um tema fundamental para nossos estudos. Quero iniciar citando uma das últimas frases do livro de Fonseca (2006, p. 105), onde diz a autora: Os professores dos ensinos fundamental e médio, por mais que conheçam sua matéria e que dominem os métodos de ensino, ainda refletem muito pouco sobre a natureza do conhecimento que têm em mãos, como vem se constituindo, com que objetivos tem sido ensinado, a que interesses tem servido, que funções pode agregar. E, quero incluir nessa lista de vácuos, no ensino de História um outro assunto muito importante para nosso estudo e, principalmente, para repensarmos nossa prática: os alunos e sua realidade sócio-cultural. Para tanto, gostaria de contar a vocês duas experiências como professor de História em uma escola de Ensino Fundamental para que ficasse mais clara a minha preocupação. Ambas as experiências que serão relatadas, servem também para que vocês pós-graduandos, que já atuam no ensino de História percebam melhor as possibilidade dos alunos e estimulem a construção de novos saberes sem pré-conceitos. Experiência I: Tive um aluno na 5ª Série do Ensino Fundamental muito diferente por alguns fatores: seu nome era o mesmo de um faraó egípcio; sua curiosidade era sem limites; lia muito mais do que a média de sua turma e apresentava trabalhos muito complexos. Nenhuma novidade, afinal todos temos em nossas histórias como professores um aluno com nome diferente ou genial em suas intervenções. Mas o que me chamou atenção desde o momento em que cheguei à escola era a maneira com que os professores o tratavam. Ele incomodava muito e nos conselhos de classe sempre havia um comentário que causava um estouro de reclamações. Todos giravam em torno de um problema principal: ele perguntava demais. Chamo atenção para o fato de que o problema que gerava reclamações deveria ser o maior motivo de elogios (sob meu ponto de vista). A experiência que vivi com esse aluno foi, sem dúvida, uma das mais marcantes para que eu levasse anos refletindo sobre a importância da pesquisa e estímulo à curiosidade. Os professores dos ensinos fundamental e médio, ainda refletem muito pouco sobre a natureza do conhecimento que têm em mãos, como vem se constituindo, com que objetivos tem sido ensinado, a que interesses tem servido, que funções pode agregar. 66 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Numa das feiras organizadas na escola, para exposição de trabalhos dos alunos, o menino colocou uma mesa maior do que uma carteira de aula. Sobre essa mesa ele colocou uma toalha branca muito alinhada. Sobre a toalha colocou apenas um objeto curioso feito por ele. O objeto era um copo plástico grande, virado com o gargalo para baixo. Acima do copo maior, ele colou um copo plástico pequeno. Dentro desse copo menor, colocou dois grãos de feijão. Essa era sua experiência. Ele pegou uma prancheta, sentou do outro lado da mesa e esperou. Cada pessoa que chegava para ver sua experiência pegava o objeto e fazia a mesma pergunta: - Para quê serve isso? - Para aguçar a curiosidade científica! Respondia ele acompanhado de risos. Encerrada a feira, a professora da disciplina que era responsável pela organização e por avaliar os trabalhos, decidiu dar ZERO para o trabalho do menino com a justificativa de que seu trabalho não tinha nada de científico e seu argumento final era de que parecia mais um trabalho feito na última hora. Experiência II: Dois meninos estudantes da 6ª Série do Ensino Fundamental eram inseparáveis e vorazes criadores de geringonças de todo tipo. Um deles veio de uma cidade distante com uma cultura muito diferente do bairro onde morava. O outro era filho do dono de um ferro velho na comunidade. Cada semana eles apresentavam novidades criativas. A situação que narro aqui foi uma das mais geniais e polêmicas. Juntando materiais no ferro velho do pai de um e as experiências vindas da família do outro, eles montaram uma rádio-pirata que funcionava no pátio da escola. Antes do horário de aula e no intervalo, os dois dirigiam-se para o fundo do ginásio de esportes e transmitiam suas ideias, recados, liam livros e convidavam colegas para tocar violão ou flauta. Claro que a notícia espalhou e os aparelhos de rádio começaram a multiplicar na escola. Esse fato chamou atenção da diretora da escola que imediatamente chamou os meninos que confirmaram a façanha. Os pais foram chamados, ambos foram suspensos por três dias e a rádio foi abolida. O argumento da direção da escola era de que se não tivéssemos controle sobre um fato desses, qual seria a nossa autoridade? E caso encerrado. A escola moderna é sua eficiência, seu pragmatismo foi eficiente. Assisti a morte da iniciação científica em um espaço que deveria estimular a dúvida, a curiosidade ou a pergunta. O que parece uma cena de ficção acontece todos os dias nos espaços educativos. 67 A SAlA de AulA e A PeSquiSA em HiStóriA Capítulo 3 Se há uma necessidade de explicar, prefiro fazer citando Larrosa ao analisar os escritos de Nietzsche e suas repercussões na educação: Sujeito moderno não é outra coisa senão outra ficção, ou outra fábula, ou outra fantasia configuradora de identidade, segundo a qual certos homens do ocidente têm constituído aquilo que são, o que sabem, o que podem e o que esperam. (LARROSA, 2004, p. 82). Se não tivermos momentos de estudo e reflexão como esse que realizamos, agora, como esse caderno permite, estaremos assistindo ao triunfo da ciência moderna positiva formando um sujeito racional, mecanicamente atuante com sua curiosidade apreendida por fórmulas e regras sociais que não permitem a diferença diante do conhecimento. Sugiro a coleção PENSADORES E EDUCAÇÃO - Editora Autêntica. Repleta de títulos que estimulam e aprofundam os estudos sobre diversas maneiras de perceber questões educacionais na história da humanidade ocidental analisando pensadores e escolas filosóficas, sociológicas e políticas. referênCiAS ALVES, Nilda (Org.) O Sentido da Escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de janeiro: Editora 34, 1999. v. 1. FONSECA, Thais Nívia de Lima e. História e Ensino de História. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 28 ed. São Paulo: Vozes, 2004. LARROSA, Jorge. Nietzsche e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: uma Introdução às Teorias do Currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. Se não tivermos momentos de estudo e reflexão como esse que realizamos, agora,como esse caderno permite, estaremos assistindo ao triunfo da ciência moderna positiva formando um sujeito racional, mecanicamente atuante com sua curiosidade apreendida por fórmulas e regras sociais que não permitem a diferença diante do conhecimento. 68 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA CAPÍTULO 4 exerCÍCioS de PeSquiSA em HiSTóriA A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Apontar os principais passos metodológicos na organização de um projeto com alunos de ensino fundamental e médio. 3 Organizar um projeto de pesquisa em história a ser aplicado no processo educativo de sala de aula. 70 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA 71 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 ConTexTuALizAção Convém iniciarmos essa última parte do caderno de estudo com algumas considerações fundamentais que já receberam contribuições dos capítulos anteriores e que exigem alguns comentários para que você, pós-graduando, possa considerar as possibilidades e dificuldades na realização de um projeto de pesquisa em História. Muitas são as ciladas quando falamos de projeto de pesquisa, assim como a pluralidade de abordagens teóricas. Um diálogo entre você, pós-graduando, e essas delimitações no seu trabalho é de extrema importância. Portanto, seguem algumas considerações: • Desenvolver um projeto de pesquisa – independente do nível de ensino – é encontrar um objeto ou um conhecimento que surgiu a partir de uma dúvida, uma pergunta vinda do aluno ou de sua comunidade. Lembre sempre que todo conhecimento novo surge de uma pergunta e, a pesquisa, é o esforço para encontrar possíveis respostas. • Quando falamos de estágio ou de trabalho de conclusão de curso não vinculamos esse ato a uma pesquisa. Ou melhor, não damos a ele a importância de um projeto de pesquisa com o caráter de cientificidade exigido pela ciência. O mesmo pré-conceito aparece quando alunos de Ensino Fundamental e Médio realizam pesquisas para feiras internas nas escolas. Devemos pensar como um ato de iniciação à pesquisa e, portanto, um exercício de ensino com uso da pesquisa. • Quando se utiliza o termo pesquisa no ensino, veicula-se a procura de informações em livros ou internet sobre um tema definido com antecipação. O fato é que fazer pesquisa exige muito mais do que copiar informações. Fazer pesquisa com alunos é encontrar meios diversos de responder às perguntas simples, levantar hipóteses sobre preocupações comunitárias ou simplesmente, levar alguns limites aos alunos, à sério, quando não entendem um determinado tema enfocado em sala. • Uma das determinações da ciência moderna é que os conhecimentos resultantes de uma pesquisa devem ser novos. Sob o ponto de vista acadêmico, a pesquisa sofre exigências – muitas delas burocráticas – que delimitam o que é válido e o que não é para a ciência. Na pesquisa com alunos de Ensino Fundamental e Médio, o conhecimento novo demanda a resolver problemas que produzam resultados para a comunidade onde está a escola. Desenvolver um projeto de pesquisa – independente do nível de ensino – é encontrar um objeto ou um conhecimento que surgiu a partir de uma dúvida, uma pergunta vinda do aluno ou de sua comunidade. 72 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA • Outra necessidade para que os caminhos sejam válidos é o registro do trabalho. Tanto para os que estão envolvidos na pesquisa, como para os alunos que virão com as turmas posteriores naquela escola; para que não repitam os erros ou trabalhem para encontrar as mesmas respostas já pesquisadas em anos anteriores. O registro é a maneira que temos para promover outras pesquisas, organizar um banco de informações acessíveis a todos, assim é uma maneira eficiente de criar uma disciplina de estudo com nossos alunos. • Uma pesquisa realizada com alunos deve ser comunicada ao maior número de pessoas. Dê preferência para o grupo de pessoas que estão envolvidas e interessadas na solução encontrada pelos alunos pesquisadores. Afinal, qual seria a validade de estimular a pesquisa no ensino e não contribuir com a melhoria das condições de vida de uma comunidade? • Lembre-se que a pesquisa é uma escolha política – sobretudo na área de História, não pode ser diferente – e, assim sendo, também é uma escolha ética. Esse argumento deve ser dito para termos sempre em mente que as escolhas nem sempre são aceitas com a facilidade com que esperamos. • Segundo Beillerot, podemos fazer distinção entre três tipos de procedimentos metodológicos em pesquisa: a) métodos comparativos – aqui cabe vincular com o ensino de História e como exemplo, poderíamos citar um conceito como Tempo e compará-lo com outros povos, outras comunidades mundiais para que os alunos percebam o uso do tempo em sua comunidade; b) métodos de análise – novamente vinculando com o Ensino de História, poderíamos associar com o uso prático de um conceito trabalhado em história e aplicável na comunidade como por exemplo, o poder; e c) o método da pesquisa-ação – as pessoas envolvidas no trabalho vivenciam o que está em estudo. No ensino de História podemos utilizar como exemplo, o trabalho desenvolvido sobre as condições sociais da comunidade onde está inserida a escola. Os alunos envolvidos, ao mesmo tempo em que percebem sua realidade, procuram alternativas de mudá-la. (BEILLEROT, apud ANDRÉ, 2001, p. 87). E, dando continuidade a uma contextualização abrangente para o capítulo que segue, gostaria de deixar para vocês estudantes de pós-graduação, algumas dicas sobre a importância da pesquisa no ensino de História. Como seu aluno concluiu o Ensino Fundamental e Médio? Quais são as suas limitações? Ele escreve bem? expressa-se em público com facilidade? 73 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 Tem capacidade de elaborar boas perguntas? Como ele se relaciona com o conhecimento? Por obrigação ou por curiosidade? São sem dúvida, perguntas pertinentes que servem para que compreendamos melhor a importância do estimulo à pesquisa no ensino – aqui a nós interessa em História. O ensino baseado no estímulo à pesquisa tem sido um demonstrador em desenvolver nos alunos a capacidade de análise e de investigação. Os alunos que são estimulados à pesquisa desde cedo em sua capacidade de gerar dúvidas tornam-se críticos diante do mundo e, principalmente, sabem estudar e sistematizar suas descobertas. Sobre esse aspecto sugiro o documentário: Nascidos em Bordéis (Zana Briski, Ross Kauffman. 2004). Premiado nos mais importantes festivais internacionais, incluindo Sundance e a International Documentary Association, essa co-produção EUA/ India é assinada por dois cineastas que narram sua experiência em Calcutá, quando conheceram de perto a vida dos filhos de prostitutas que trabalham na área dos bordéis da cidade. A sensibilidade das crianças com vida dura e a fotografia. Essa é tônica do trabalho dos dois cineastas. O filme ganhou o Oscar de melhor documentário. Como crianças que vivem em situação de risco social podem realizar coisas maravilhosas? Acredito que é uma lição sobre o estímulo à curiosidade. Outro aspecto que devemos considerar está na maneira que um tema surge para pesquisa em sala de aula. O que deve ser privilegiado se considerarmos os limitadores que uma listagem de conteúdos nos obriga? Num primeiro momento arriscaria afirmar a vocês, estudantes em pós-graduação, que não importa tanto o tema e sim, a capacidade do professor em produzir uma cultura entre os alunos que estimule à dúvida, o diálogo, à curiosidade. Assim sendo, como professor, você estará promovendo a pesquisa. E finalmente, poderíamoselucidar outra questão fundamental para essa prática no estímulo à pesquisa. O trabalho de pesquisa deve ser contínuo e exige a participação do maior número de colegas e professores nessa prática. Considere que esse é um longo e delicado trabalho que pode ir, muitas vezes, na contramão de uma cultura que tem no conhecimento mastigado os interesses dos alunos. Conhecimento que encontram na televisão, na internet ou na cópia de livros. O trabalho de pesquisa deve ser contínuo e exige a participação do maior número de colegas e professores nessa prática. 74 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Dito isso, em nossa contextualização, podemos afirmar novamente que um trabalho com pesquisa é importante para promover a dúvida, a curiosidade e, principalmente, um mundo feito com jovens que pensam antes de reproduzir qualquer informação. Indico para vocês, pós-graduandos, o livro organizado por: COSTA, Marisa Vorraber. Caminhos investigativos: Novos olhares na pesquisa em Educação. Porto Alegre. Editora Mediação, 1996. É um livro preocupado com as questões metodológicas e se propõem a oferecer saídas possíveis e possibilidades que se contraponham à mesmice no ensino. Como dizem seus autores na introdução, não é um livro que aponta um caminho certo, e sim, reflete sobre invenção de novos caminhos afinal, “sempre que se produz um novo conhecimento, também se inventa um novo e peculiar caminho”. Boa leitura! A PeSquiSA e o enSino de HiSTóriA Prezados pós-graduandos, a relação professor-aluno possui uma história que gera cotidianamente o encontro de diferentes concepções de mundo. Da parte dos alunos, temos comentários, hábitos e opiniões que deixam à mostra a vida em sua comunidade. Os professores, por sua vez, convivem com uma formação acadêmica que estimula pouco a pesquisa e, muito menos, a percepção de uma vida em comunidade. Essas afirmações nos servem aqui, para percebermos os limitadores do lugar social onde atuamos e da construção de um conhecimento no qual estamos envolvidos com ideias, opiniões e realidades que podem ser um impedimento, assim como, podem se transformar em excelente objeto para nossas pesquisas. Se considerarmos alunos e professores como sujeitos sociais e, assim sendo, munidos de uma história pessoal, podemos também pensar que ambos podem utilizar a oportunidade do encontro propiciado em aulas de História para repensar o meio social onde esse encontro acontece. Sem esquecermos, é claro, que as relações de poder são objetos de pesquisa em História. Se considerarmos alunos e professores como sujeitos sociais e, assim sendo, munidos de uma história pessoal, podemos também pensar que ambos podem utilizar a oportunidade do encontro propiciado em aulas de História para repensar o meio social onde esse encontro acontece. 75 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 Convém lembrar que Currículo não pode ser desvinculado de relações de poder na sociedade. Assim afirma Silva (2001, p. 23-24): As relações sociais no interior das quais se realizam as práticas de significação não são simplesmente relações sociais; elas são mais do que isso: são relações de poder. Os diferentes grupos sociais estão situados de forma simétrica relativamente ao processo de produção cultural. Aqui entendido como processo de produção de sentido [...] pensar o currículo como ato político consiste precisamente em destacar seu envolvimento em relações de poder. Dito assim, o conhecimento histórico é um ponto de vista particular sobre um determinado contexto. Em História, estudamos a construção de uma determinada realidade. Estudo que geralmente chega ao conhecimento do aluno de ensino fundamental e médio por meio do livro didático – que nada mais é do que o ponto de vista do seu autor sobre fatos históricos. Esse é o problema trazido pelo caderno que vocês pós- graduando, estão estudando: pensar o ensino de História estreitamente vinculado à pesquisa no sentido de romper com um ensino centrado no professor e suas escolhas. O ensino realizado por meio da pesquisa deve permitir que professor e aluno realizem descobertas, reflexões e produzam conhecimentos como sujeitos da história desse encontro de duas ou mais perspectivas de mundo. Sujeitos que produzem significação para todo o conhecimento que o currículo escolar promove como tema e, principalmente, analisam nas aulas de História as relações de poder que estão em jogo no processo educativo no ensino de História. Dessas afirmações podemos completar dizendo que o papel cristalizado do professor como o detentor dos saberes e do aluno como o receptor desse processo cai por terra. O que a pesquisa pode contribuir no ensino de História é corroborar na criação de uma nova cultura de estudo por meio da qual o diálogo é o caminho. Os procedimentos apreendidos por um professor de História possuem, na sua trajetória, uma especialização que esconde a incapacidade para ver o aluno como alguém que possui uma trajetória de vida e, assim sendo, já possui alguns valores e escolhas construídos. Cabe a nós, como professores de uma disciplina que compõem a área das ciências humanas, não sermos excludentes ou termos a pretensão de afirmar teoricamente que é função de nossa disciplina ensinar aos alunos e a comunidade a verem o mundo a partir de nosso ponto de vista. Se procedermos assim, estaremos substituindo o ensino positivista do século XIX pelo o ensino sectário do século XXI. O ensino realizado por meio da pesquisa deve permitir que professor e aluno realizem descobertas, reflexões e produzam conhecimentos como sujeitos da história desse encontro de duas ou mais perspectivas de mundo. 76 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA Melhor dizendo, você poderá reforçar uma lógica Kantiana de pesquisa, ou seja, uma grande separação entre os sujeitos e o objeto de estudo. Em História, é impossível pensarmos um procedimento que estimula a pesquisa no ensino sem levarmos em consideração que o objeto de estudo está estreitamente vinculado com os sujeitos envolvidos – aqui no caso professores e alunos. Voltando ao tema dos capítulos anteriores, gostaria de citar Matos (1997), quando analisa nossa cultura ocidental, ainda banhada pelos preceitos iluministas. Veja: “O Iluminismo corresponde ao Século XVIII (O Século das Luzes) e sua filosofia da ilustração [...] que traçaria o projeto de um saber universal, uma racionalidade capaz de ‘esclarecer’, ‘clarificar’, ‘iluminar’”. (MATOS,1997, p. 120). Ao citar a autora, cabe lembrá-los do quanto esse preceito iluminista ainda ocupa nossas preocupações a ponto de acharmos messianicamente que devemos ensinar as comunidades sobre o bem viver. Cuidado com sua prática. Quando pensamos em construir um processo de pesquisa, devemos então, levar em consideração que relações de poder, entre sujeitos, estão em jogo. Nosso objeto de estudo é dinâmico e não obedece a uma rigidez. No ensino de História, o conhecimento é construído no diálogo entre professor e aluno, seguindo uma lógica que leva em consideração os conflitos na realidade em que ambos vivem. O processo educativo nas aulas de História deve ser ativo se considerarmos que os sujeitos desse processo estão constantemente fazendo escolhas. Portanto, estimule os alunos de Ensino Fundamental e Médio para a leitura, ao comparativo de situações; a narrativa de situações cotidianas com o que tem vínculo com o assunto abordado; pesquisa em internet ou jornais sobre o tema. Como exemplo, vamos analisar brevemente um tema: a Revolução Industrial do Século XVIII na Europa. Façamos apenas um recorte no tema. Os desdobramentos sociais pós-industrialização foram grandes. A inexistênciade leis que protegessem o trabalhador dava a essas condições insalubres de trabalho, salários muito baixos e jornadas de trabalhos que se estendiam por quase 20 horas. Proponha aos alunos uma reflexão sobre o tema com três perguntas básicas a serem resolvidas para a próxima aula: Estimule os alunos de Ensino Fundamental e Médio para a leitura, ao comparativo de situações; a narrativa de situações cotidianas com o que tem vínculo com o assunto abordado; pesquisa em internet ou jornais sobre o tema. 77 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 • Quais são as condições de trabalho dos seus pais, hoje? • Procure conhecer leis que determinam os direitos dos trabalhadores, hoje. • Quais os tipos de organização que, hoje, defendem os trabalhadores? Sobre o contexto da Revolução Industrial, sugiro o filme baseado no romance de Vitor Hugo, Os Miseráveis (1998. Direção Bille August). Condenado a dezenove anos de prisão por roubar um pedaço de pão, homem (Liam Neeson) foge da cadeia e recomeça a vida em uma pequena cidade. Mas um policial (Geoffrey Rush) transferido para o vilarejo o reconhece e começa a persegui-lo. O filme apresenta os desdobramentos da Revolução Industrial: miséria e violência. Com essas três questões, você estaria como professor, estimulando os alunos a pesquisarem, comparar o Século XVIII com o Século XXI, ampliando os horizontes de percepção dos alunos e fazendo-os observarem o mundo do trabalho na atualidade. Além disso, este trabalho pode levar a discussão de outros assuntos em sala de aula, tais como: novas profissões hoje, organizações políticas de trabalhadores, consolidação das Leis do trabalho no Brasil, e assim por diante. A partir dessas argumentações, podemos vincular com uma escolha muito importante: o professor está se colocando juntamente com os alunos nas descobertas. O processo educativo é enriquecido e o pesquisador está se colocando como ser político procurando saídas para o futuro e, ao mesmo tempo, está se colocando como sujeito de conhecimento [...]. A recuperação que faz do passado não tem condições de ser totalmente objetiva porque a subjetividade do pesquisador está presente. Nesse sentido, o conhecimento do passado é uma representação mas não arbitrária, porque é construída a partir de evidências. A compreensão desse passado pode ser questionada, modificar a compreensão do presente que por sua vez, pode também modificar a compreensão do passado. ( VIEIRA; PEIXOTO; KHOURI, 2000, p. 68-69). Para encerrarmos essa parte, quero lembrá-los que o processo histórico do ensino em História sempre esteve ligado com as relações de poder. Como romper com essa lógica? Permitindo que o ensino de História esteja aberto para o diálogo na produção de novos conhecimentos e não tenha a linearidade de conteúdos – fatos – causas – consequências e heróis. 78 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA O conhecimento histórico não é algo acabado com temáticas devidamente cristalizadas e fechadas. A percepção do passado pode ser revista se voltarmos aos textos anteriores desse caderno para relembrar que a verdade é construída conforme as relações de poder existente em determinadas épocas. A última parte desse estudo propõe que você, caro pós-graduando, exercite o processo educativo em suas aulas de História. Estimule a pesquisa lembrando que ser professor de História é estar aberto para múltiplas possibilidades sem esperar que o conteúdo pré-definido seja um caminho sem reflexões. Atividade de Estudos: 1) Proponho aqui, um desafio para você estudante de pós- graduação. Faça um comparativo entre sua resposta no Capítulo I (Atividade de estudo desenvolvida no final da primeira seção) e suas reflexões após os estudos até aqui, desenvolvidos, tendo a seguinte pergunta como referência: • É possível mudar a realidade do ensino de História utilizando a pesquisa como a escolha metodológica? Por quê? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Como deSenvoLver um ProjeTo Com oS ALunoS? Se você atua com alunos de Ensino Fundamental e Médio sabe quantos limitadores possuímos na atuação em escolas. O tempo de aula, o espaço limitado, salas cheias e os conteúdos que impõem um ritmo. Sem falar nos livros 79 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 didáticos que são distribuídos aos alunos que demarcam caminhos nem sempre estimulantes. Com os textos desse caderno, percebem o quanto já é produzido para mudar o ensino de História, ao mesmo tempo em que observamos o quanto há por ser feito? Quero convidá-los para marcar mais um traço nesse longo caminho. Vamos pensar um projeto com alunos de Ensino Fundamental e Médio? Mesmo que muitos achem que o resultado é mais importante no projeto, quero considerar que falamos de processo educativo em aulas de história, portanto, o processo é muito mais rico do que os resultados finais. Principalmente, a fase inicial é uma das mais importantes. Por quê? Porque uma fase de exploração do assunto pode trazer dificuldades para todo o processo e resultar em conhecimentos distorcidos e/ou equivocados. A fase inicial de um projeto pode ser resumida nos seguintes tópicos: • Pesquisa de fontes que podem ser exploradas com os alunos durante a pesquisa; essas fontes podem ser compostas de sites interessantes, livros disponíveis em bibliotecas da escola ou públicas, fontes de pesquisa oral, ou seja, pessoas da comunidade que podem ser entrevistadas sobre o tema entre outros. • Definição clara de um objeto de pesquisa com os conceitos trabalhados em sala a serem aplicados; se você está trabalhando com alunos um conteúdo específico, é sua responsabilidade ver o que está antes do conteúdo, ou melhor, o conceito que está por trás do assunto tratado. Se o conteúdo é segunda Guerra Mundial, não são os fatos que interessam apenas, e sim, o conceito de imperialismo. • Comece o trabalho com a humildade necessária para um bom trabalho; analise os limites para a realização dele e defina um passo por vez ou defina apenas um passo para não gerar frustrações no final. • Comece a conversa com a turma de alunos sempre de um conhecimento próximo deles, sensibilize-os para o assunto deixando-os seguros do que vão pesquisar. De que adianta você começar um trabalho sobre Idade Média sem estabelecer um vínculo do tema com algo que lhes seja familiar, conhecido? Se o assunto é Idade Média você poderia, por exemplo, vincular o tema com a estrutura fundiária do Brasil, hoje. Mesmo que muitos achem que o resultado é mais importante no projeto, quero considerar que falamos de processo educativo em aulas de história, portanto, o processo é muito mais rico do que os resultados finais 80 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA • Não se esqueça de lembrar aos alunos que o conhecimento é sempre provisório e move-se. Essa dinâmica cultural é parte do processo de pesquisa. Você e os alunos podem ter surpresas, durante o trabalho. • O tema não é tudo. É necessário que exista um recorteclaro, um problema a ser resolvido no final do trabalho. Se você escolheu como tema, por exemplo, a Independência do Brasil, será necessária fazer uma pergunta para esse tema. Não podemos pesquisar o que já parece ser fato consumado oficialmente. Mas podemos cercar o tema decidindo que vamos utilizar entrevistas com pessoas com mais de 60 anos e levantar a seguinte pergunta: O que as pessoas nessa faixa etária pensam sobre a Independência de nosso país? Assim, delimitamos um grupo de pessoas e uma pergunta como base. Não é demais lembrá-los de que a escolha do tema depende da postura do professor de História. Não é simplesmente uma escolha de assunto, mas escolha de caminhos diversos que podem conduzir sua turma para caminhos também diversos. Pense também que os alunos – iniciando-se na pesquisa – querem que as respostas sejam imediatas e cabe a você professor observar cuidadosamente o processo de apreensão de novos conhecimentos, limites e possibilidades da turma para que novos projetos sejam desenvolvidos. A produção do conhecimento sempre foi para a humanidade um momento de relacionamento dos seres humanos com o mundo em que vivem. É por meio dessa relação que construímos determinadas compreensões de mundo. Portanto, toda forma de conhecimento sistematizado é o ponto de vista de alguém que um dia ousou perguntar. Essa seria a maior lição para alunos do Ensino Fundamental e Médio: procurar caminhos que investiguem novos conhecimentos num mundo onde as informações são tão diversas e abundantes. Após o momento inicial com a turma, estaremos mapeando caminhos a seguir durante o trabalho de pesquisa. Um projeto de pesquisa deve responder algumas perguntas para que tenha existência. E, por que não aproveitar essa oportunidade para provocar a reflexão com os alunos? Veja as perguntas e na sequência pensemos como aproveitar esse momento, também para uma aula sobre a experiência humana, com a pesquisa e solução de problemas aparentemente simples. • O que queremos pesquisar? A resposta a essa questão vai estimular os alunos a definirem um tema, levantarem hipóteses e pensar caminhos. • Por que estamos pesquisando esse tema? Novamente essa resposta é um Essa seria a maior lição para alunos do Ensino Fundamental e Médio: procurar caminhos que investiguem novos conhecimentos num mundo onde as informações são tão diversas e abundantes. 81 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 estímulo para que a turma de alunos encontre justificativas para a escolha do tema. • Mas, para que estamos pesquisando esse tema? Eis um exemplo de como podemos envolver definitivamente os alunos, afinal uma pesquisa tem que ter um propósito, um objetivo que só o grupo poderá encontrar e visualizar aplicabilidade dos resultados no futuro. • Como pesquisar? Tendo essa resposta, os alunos sentirão segurança no trabalho e irão ver os caminhos para se chegar aos possíveis resultados. • Quem e quando acontecerá? Aqui dividimos tarefas e definimos prazos para os resultados parciais e totais. Defina equipes de trabalhos, tarefas específicas, coordenadores dos grupos. • Com que recursos? Cada grupo deverá ter claro o que tem a disposição e, principalmente o que falta para atingir os objetivos. Por exemplo: entrevista com moradores? É necessário um gravador. Levantamento de dados do IBGE? Precisa de acesso à internet. E assim consecutivamente. Esse instante do trabalho com pesquisa é fundamental para envolver todos, seduzir os alunos para a metodologia escolhida e também promover o processo de aprendizagem com vontade e coragem para aprender. Esse momento é o encontro do processo com a construção do novo conhecimento. Ou melhor, é o instante em que o caminho confunde-se com a curiosidade. O ensino e a pesquisa encontram-se para a construção de sujeitos do conhecimento. Mas, em se tratando de uma turma de alunos, será que todos pensam assim? Será que em se tratando do tema escolhido todos têm as mesmas hipóteses? Esse é o próximo passo que poderá gerar um excelente debate na turma. A formulação de hipóteses. Essa etapa poderá ser muito útil para que o professor também faça um levantamento do perfil do grupo de alunos diante do tema, afinal nesse momento, todos devem expressar suas opiniões. As possíveis lacunas no conhecimento, equívocos, como também, preconceitos podem vir à tona nos debates. Estimule a fala de todos para que tenhamos um bom panorama dos diversos pontos de vista sobre o assunto. É o olhar dos alunos-pesquisadores em diálogo com a realidade a ser estudada. Relembro a você pós-graduando que o questionamento sobre a verdade, estudado anteriormente, serve de base, neste momento, para a continuidade de nossos estudos. Afinal, em História as verdades não são absolutas e assim argumentando, estaremos permitindo que diversas opiniões formulem um 82 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA momento singular no processo educativo. Ao estimular a problematização diante de um tema, estamos dando voz aos sujeitos, reformulando caminhos e, como professor, revendo outros para que os conceitos sejam retrabalhados em outras ocasiões. Das hipóteses levantadas com os alunos devemos levar em consideração os seguintes aspectos para que fiquem registradas: • Devem ser hipóteses claras que não permitam ambiguidades. Por exemplo: se os alunos levantarem como hipótese que os sem-terra de hoje tem uma realidade igual aos servos na Idade Média, podemos considerar digna de registro? Ou uma hipótese dessas permite ambiguidades quando compara épocas e realidades históricas diferentes? Se a questão estiver com formulação diferente podemos repensar: os servos da Idade Média poderiam ser considerados os sem-terra daquela época? Essa questão, parece-me que permite um comparativo muito bom, em se tratando de estruturas fundiárias diferentes em período histórico diferente, sem cairmos em anacronismos. • As hipóteses, apesar de claras, devem ser bastante específicas. Seguindo o exemplo anterior, poderíamos ter uma hipótese dita assim: os servos possuíam um poder econômico baixo, portanto eram analfabetos. É apropriado dizer assim? Considerando-se que vinculam diretamente o poder econômico com analfabetismo? Inclusive lembremos que os reis também eram analfabetos em sua maioria. • Discuta as hipóteses que possuam uma forte carga de valores morais. Se um aluno disser que os reis eram maus por que prejudicavam os servos, o que temos aqui é um exemplo de juízo de valor que pode transformar-se em um caminho maniqueísta durante todo o trabalho. A metodologia que estudamos aqui, nesse caderno, deve ser necessariamente dialógica. Seu objetivo maior é a construção de conceitos com os alunos. Esse momento de levantamento de hipóteses deve ser de problematização de todas as afirmativas para que o professor aproveite ao máximo as falas que virão à tona bem como redimensione os próximos passos. Prezado pós-graduando, observe que estamos aproveitando cada momento. Todo momento do trabalho é também eficiente para que faça observações sobre os alunos e sua comunidade, avalie os caminhos que você como professor, escolhe a todo momento e desenvolva a pesquisa para chegar a novos conhecimentos para o grupo. O próximo passo é a escolha metodológica. Resumiria esse momento nos seguintes elementos: 83 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 • Defina um número claro de amostragem para que o trabalho não seja genérico demais ou exaustivo a ponto de não ser concluído. No exemplo que citamos anteriormente, se procura ouvir membros da comunidade na faixa etária acima dos 60 anos sobre a Independência do Brasil, procure dados aproximados sobre o número de idosos no município. Essa tarefa pode ser delegada aum grupo sensibilizado com o grupo escolhido. • Na coleta de dados, é fundamental definir qual será a técnica escolhida para captar as informações. No caso anterior, se a escolha que você fez foi o método da história oral, é importante que os alunos sejam orientados no sentido de fazer perguntas claras e que estabelecem um respeito com a pessoa que irão entrevistar. A organização e análise dos dados serão complicadas se não estiver claro o objetivo e quais dados interessam. Se o método é de entrevista, lembre-se que podem vir outras informações que não estavam no objetivo do trabalho; portanto, oriente os alunos para serem objetivos na seleção e organização. Como todos os outros, esse é um momento que serve ao professor para estimular outros aspectos que não são necessariamente objetivos do trabalho com pesquisa. Esse é o momento que estimulamos os alunos na iniciação do pensamento histórico bem como, na sistematização do apreendido. O que está em jogo aqui não é mais a fixação de um determinado conteúdo e sim, despertando o interesse do aluno. O passo seguinte para o professor, em seu planejamento, será vincular os resultados do trabalho das entrevistas realizadas pelos alunos, aos dados e as possíveis hipóteses levantadas pelo grupo com o conhecimento de um determinado contexto histórico. Continuando nosso exemplo, podemos vincular os resultados das entrevistas com o pensamento vigente no século XIX sobre a independência e as maneiras encontradas pelo governo imperial brasileiro para implantar um modelo de nação. O provável é que muito do que se fez politicamente no século XIX e parte do século XX, ainda persiste nas representações dos idosos de hoje. Cabe pesquisarmos, claro. Todo o processo aqui, apresentado está sob avaliação. Cabe ao professor ver em cada um deles, maneiras de conhecer melhor os alunos sem ficar restrito às provas, que por anos foram utilizadas no ensino de História como objetos de exclusão e fixação de nomes de heróis, fatos, causas e consequências, que pouco contribuem para o aprendizado dos conceitos históricos. E como parte final desse processo, você e os alunos devem socializar os resultados para o maior número de pessoas na comunidade. Esse momento 84 enSino, PeSquiSA e reALidAde HiSTóriCA exige um cuidadoso preparo para que o trabalho dos alunos seja valorizado bem como os envolvidos – seja como pesquisador ou pesquisado – estejam cientes do caminho longo a ser percorrido pelo pesquisador na busca de novos conhecimentos. O produto final nunca deve ser encarado como o final de uma etapa e sim como o redimensionamento da prática do professor tendo as observações realizadas em todo o processo como material de apoio para um novo caminho. Na socialização dos resultados é fundamental que: • Fique clara a visualização de todo caminho percorrido, as escolhas e as vinculações feitas. Deixe também claro que esse resultado é um dos resultados e não simplesmente o resultado. • O trabalho desenvolvido com os alunos é uma via de mão dupla. Lembre de dar voz a todos os envolvidos: alunos, entrevistados, fontes bibliográficas ou orais, fornecedor dos recursos para realização dos trabalhos. Esse é o retorno social exigido pelo pesquisador. Aproveite esse momento para dialogar com os alunos sobre essa situação sem personalismos. • Utilizar linguagem diversificada para expor o trabalho. Utilizar imagens, desenhos, fotos, trechos de entrevistas, citação de autores que sejam convenientes ao tema, opinião dos alunos e pais sobre o tema, entre outros recursos. • E finalmente, quando você e os alunos apresentam o trabalho dessa forma, estão fazendo história com a comunidade, mostrando as implicações advindas de uma escolha metodológica no processo educativo que está longe de ter apenas o livro didático, o quadro negro e a voz do professor como fonte. ALgumAS ConSiderAçõeS Para encerrar gostaria de fazer uma breve retrospectiva de nosso estudo apontando algumas questões. O processo metodológico que utiliza a pesquisa para as aulas de História rompe com uma tradição: aulas de História que utilizavam apenas livros ou manuais – como vimos no primeiro capítulo – voltados para a formação de um determinado ponto de vista sobre o mundo. E como parte final desse processo, você e os alunos devem socializar os resultados para o maior número de pessoas na comunidade. 85 ExErcícios dE PEsquisa Em História Capítulo 4 Quando estimulamos aqui, a pesquisa com alunos de Ensino Fundamental e Médio, estamos como professores de História, rompendo com o exercício de fixação, com o livro didático e com a cópia. O que está em jogo não é simplesmente um método de História e sim, a suspensão de uma verdade absoluta – como abordamos no capítulo II – que moveu por séculos a ciência moderna. O trabalho aqui, proposto, também rompe com barreiras que perduram desde o século XVII na educação. Tempos fixados pelo relógio mecânico, espaços organizados para a vigilância em detrimento da curiosidade ou salas de aula sem a vivacidade nos olhos de jovens estudantes. A escola, essa velha senhora de século, necessita abrir-se para o novo e, são os professores os responsáveis pelas mudanças ou permanências. O currículo – trabalhado no capítulo I – está ainda organizado em grades que não permitem um tempo para o trabalho de conceitos e confundem listagem de conteúdos em detrimento de conceitos. O ensino de História ainda sofre as consequências dessa realidade com conteúdos em excesso que devem ser vencidos para vestibulares – que estão a caminho da falência – ou de cadernos cheios de informações. Resta lembrá-los de Guimarães Rosa que disse um dia: “Mestre é aquele que de repente, aprende”. Creio ser urgente uma prática educativa que utilize as diversas linguagens desnaturalizando a ideia de que cabe ao professor a condução do processo. Em pesquisa com alunos de Ensino Fundamental e Médio, é o diálogo que constrói novos caminhos. referênCiAS BEILLEROT, J. A “pesquisa”: esboço de uma análise. In: ANDRÉ, A. (Org.). O papel da pesquisa na formação e na prática dos professores. Campinas: Papirus, 2001. p. 71-90. MATOS, Olgária. A polifonia da Razão. São Paulo: Scipione, 1997. SILVA, Tomaz Tadeu da. O currículo como fetiche. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. VIEIRA, Maria do Pilar Araújo; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha; KHOURY, Yara Maria Aun. A pesquisa em História. São Paulo: Ática, 2000. (Série Princípios).