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O traumatismo cranioencefálico (TCE) é uma
agressão ao cérebro, de origem física, causada por
uma força externa, que pode produzir lesão
anatômica ou comprometimento funcional do couro
cabeludo, crânio ou meninges, gerando um estado
temporário ou permanente de diminuição ou
alteração de consciência, que pode comprometer
parcial ou totalmente as habilidades cognitivas.
Funcionamento físico e o funcionamento
comportamental e/ou emocional do indivíduo.
LESÃO CEREBRAL PRIMÁRIA
É o trauma direto no cérebro e estruturas
vasculares associadas que ocorre na ocasião do
trauma original. São elas as:
e outras lesões mecânicas diretas no cérebro, sua
vasculatura e suas coberturas.
Fraturas do crânio
As fraturas do crânio podem resultar de trauma
contuso ou penetrante.
Fraturas lineares, geralmente resultantes de
trauma contuso, são responsáveis por
aproximadamente 80% das fraturas do crânio. As
fraturas lineares só podem ser diagnosticadas com
um estudo radiográfico.
Fraturas do crânio com afundamento um impacto
forte pode produzir uma fratura do crânio com
afundamento, na qual fragmentos de osso são
levados na direção ou para dentro do tecido cerebral
subjacente. frequentemente podem ser palpadas
durante uma avaliação física cuidadosa. Uma
fratura do crânio sem afundamento, fechada, por si
só tem pouca importância clínica, mas sua presença
aumenta o risco de um hematoma intracraniano.
Figura 01. Fratura linear e com afundamento. Fonte:
Google.
Sinais clínicos
Deve haver suspeita de fratura basilar do crânio
(fratura do assoalho do crânio) se o LCR estiver
drenando das narinas ou dos canais auditivos.
Equimose periorbital ("olhos de guaxinim") e
sinal de Battle, nos quais a equimose é observada
sobre a área mastoide atrás das orelhas
frequentemente ocorrem com fraturas basilares do
crânio, embora possam demorar várias horas após
a lesão para se tomarem aparentes. Se permitido, o
exame da membrana timpânica com um otoscópio
pode revelar sangue atras do tímpano, indicando
uma fratura basilar do crânio
Figura 02. Sinal de Battle e do Guaxinim. Fonte: Google.
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LESÕES DO CÉREBRO
Contusão X Concussão
Contusão – Costuma estar relacionada ao choque
direto da musculatura. O trauma fere o músculo e
causa algum dano.
Concussão – É o famoso nocaute, aqueles pacientes
que estão em uma briga levam um soco e caem
apagados. O cérebro na concussão ele não tem um
sangramento especifico, nem um hematoma
especifico, o cérebro chacoalha, o paciente apaga
(como se fosse um liga e desliga do cérebro). Tem a
ver com a aceleração e desaceleração rápida da
cabeça.
CONCUSSÃO CEREBRAL
O diagnóstico de uma "concussão" é feito quando
um doente lesionado apresenta uma alteração
temporária na função neurológica com subsequente
retorno ao normal. Outras alterações neurológicas
incluem o seguinte:
❑ Olhar vago.
❑ Respostas verbais e motoras demoradas.
❑ Confusão e incapacidade para concentrar a
atenção.
❑ Desorientação.
❑ Fala arrastada ou incoerente.
❑ Perda de coordenação.
❑ Emoções impróprias às circunstâncias.
❑ Déficit de memória.
❑ Incapacidade para memorizar e lembrar.
❑ Sintomas como: Dor de cabeça severa, tontura,
náusea e vômito.
Síndrome pós-concussão
Embora a maioria destes achados dure de várias
horas a alguns dias, alguns doentes apresentam
uma síndrome pós-concussão com dores de cabeça,
tontura e dificuldade de concentração por semanas,
e até mesmo meses, após uma concussão grave.
Golpes repetidos na cabeça, que resultam em
concussão, causam dano permanente que se
manifesta ao longo do tempo. Este dano leva
dificuldades de:
• Concentração e pensamento claro a longo
prazo;
• Dor de cabeça e tontura;
• Distúrbios do sono.
• Distúrbios do humor incluindo depressão,
ansiedade e irritabilidade.
Síndrome do impacto secundário
Também é importante investigar se o doente teve
uma concussão recentemente e, se a resposta for
positiva, se os sintomas desse episódio foram
completamente resolvidos. Doentes que sofreram
uma concussão e depois tiveram uma segunda
concussão, antes que os sintomas da primeira
estivessem completamente resolvidos, correm o
risco de uma deterioração repentina no estado
neurológico. Este fenômeno, tornou-se uma
preocupação especial em eventos desportivos onde
os atletas sofrem uma concussão e ficam ansiosos
para voltar à competição, muitas vezes antes de se
recuperarem totalmente dos efeitos do trauma
inicial.
Hematomas Intracranianos
Os hematomas intracranianos são divididos em três
tipos: epidurais, subdurais e intracerebral. Uma vez
que os sinais e sintomas de cada um deles
apresentam uma coincidência significativa, um
diagnóstico definitivo somente poderá ser feito após
um exame de TC ser realizado na unidade de
destino.
Figura 03. Tipos de hematomas intracranianos. Fonte:
Google.
Hematomas epidurais
Estes hematomas frequentemente resultam de um
impacto de velocidade relativamente baixa no osso
temporal, como o impacto de um soco ou bola de
beisebol. Uma fratura deste osso fino danifica a
artéria meníngea média, que resulta em
sangramento arterial que se acumula entre o crânio
e a dura-máter. Este sangue arterial de alta pressão
pode começar a dissecar ou separar a dura máter
da tábua interna do crânio, criando um espaço
epidural cheio de sangue. Este hematoma epidural
tem um formato característico de lente, como
observado no exame de TC, criado pela dura máter
mantendo o hematoma contra a tábua interna do
crânio.
Figura 04. Exame de TC de hematoma epidural.
Fonte: PHTLS.
O histórico clássico de um hematoma epidural é o
doente sofrer uma breve perda de consciência,
depois recobrar a consciência e, em seguida, sofrer
um declínio rápido na consciência. Durante o
período de consciência - o intervalo lúcido -, o
doente pode estar orientado, letárgico, confuso ou
pode reclamar de dor de cabeça. Entretanto, isso
pode ocorrer com outros tipos de hemorragias
intracranianas, tornando-o não específico para
hematoma epidural. Todavia, um doente que
experimenta um "intervalo lúcido seguido por um
declínio na CGS, corre risco de processo
intracraniano progressivo e precisa de avaliação de
emergência.
Hematoma subdural
Diferente do hematoma epidural, que é causado por
hemorragia arterial, um hematoma subdural
geralmente resulta de um sangramento venoso.
Neste caso, as veias de ligação são rompidas
durante um impacto violento na cabeça. O sangue
se acumula no espaço subdural, entre a dura-máter
e a membrana aracnoide subjacente.
Figura 05. Exame de TC de hematoma subdural. Fonte:
PHTLS.
Contusões cerebrais
As contusões cerebrais frequentemente levam de 12
a 24 horas para aparecerem nos exames de TC e,
desse modo, um doente com contusão cerebral
pode, a princípio, ter um exame de TC de crânio
normal. O dano ao próprio cérebro pode produzir
contusões cerebrais e, se este dano incluir lesão dos
vasos sanguíneos dentro do cérebro, também
provoca hemorragia na substância do cérebro, ou
hematomas intracerebrais.
Embora tipicamente seja o resultado de trauma
contuso, estas lesões também podem ocorrem de
trauma penetrante, tal como um ferimento por arma
de fogo no cérebro. No trauma contuso, as
contusões cerebrais podem ser múltiplas. As
contusões cerebrais resultam de um padrão
complexo de transmissão e reflexão de forças dentro
do crânio. Como resultado, as contusões
frequentemente ocorrem em locais distantes do
local do impacto, geralmente no lado oposto do
cérebro, a conhecida lesão em contragolpe.
Figura 06. Exame de TC de contusão. Fonte: Google.
Hemorragia subaracnoide
Hemorragia subaracnoide (HSA) é o sangramento
que ocorre abaixo da membrana aracnóide, que fica
sob o espaço subduralque recobre o cérebro. O
sangue no espaço subaracnoide não consegue
entrar no espaço subdural. Muitos dos vasos
sanguíneos do cérebro estão localizados no espaço
subaracnoide, assim a lesão destes vasos causará
sangramento subaracnóide, uma sobreposição de
sangue abaixo da membrana aracnóide na
superfície do cérebro. A HSA geralmente é
considerada como associada ao rompimento
espontâneo de aneurismas cerebrais que causam o
início repentino da pior dor de cabeça da vida do
doente. O doente de trauma geralmente reclamará
de:
• Dor de cabeça, que pode ser de natureza
grave.
• Náusea e vômito são comuns
• E tontura.
Além disso, a presença de sangue no espaço
subaracnóide pode causar sinais meningeos, como
dor e rigidez do pescoço, queixas visuais e fotofobia
(aversão à luz). Estes doentes também podem
desenvolver convulsões.
Figura 07. Exame de TC de Hemorragia Subaracnoide.
Fonte: Google.
Visto que o sangramento subaracnoide raramente
causa efeito em massa, ele não necessita de cirurgia
para descompressão de fato, doentes com HSA e
uma GCS de 13 ou mais geralmente passam muito
bem. Entretanto, isso pode ser um indicador de
lesão cerebral potencialmente grave e sua presença
aumenta o risco para outras lesões que ocupam
espaço no cérebro.
Lesão craniana penetrante
A natureza da lesão neurológica produzida depende
da área do cérebro lesionado. Ferimentos por arma
de fogo são particularmente destrutivos devido à
energia associada ao projétil. Em particular,
ferimentos por arma de fogo, que atravessar a linha
média e passam de um lado ao outro, envolvendo
assim os dois lados do cérebro, estão associados a
um resultado sombrio. Em circunstâncias raras,
como quando o projétil atravessa somente os lobos
frontais, o doente pode sobreviver, embora com
comprometimento significativo. O potencial de
sobrevivência também será melhor se o projétil
passar, de frente para trás, em um lado do cérebro.
Entretanto, o doente terá um déficit neurológico
significativo e persistente.
Figura 08. Lesão penetrante no cérebro. Fonte: Google.
Toda lesão cerebral penetrante resulta em fratura
aberta do crânio. O potencial para infecção
subsequente, se o doente sobreviver, é alto. Além
disso, lesões penetrantes do crânio também podem
danificar outros órgãos importantes, como os olhos,
ouvidos e rosto, levando ao prejuízo da função dos
órgãos envolvidos.
LESÃO CEREBRAL SECUNDÁRIA
Refere-se aos processos de lesão contínuos que são
ativados pela lesão primária. Os processos
fisiopatológicos são iniciados e continuam a lesionar
o cérebro durante horas, dias e semanas após o
traumatismo inicial. O foco primário no tratamento
pré-hospitalar (e hospitalar) do TCE é identificar e
limitar ou parar esses mecanismos de lesão
secundária. Os efeitos secundários são traiçoeiros
por natureza. Na maioria dos casos, pode haver
dano continuo significativo que não é
imediatamente aparente ou avaliado. Entender que
a lesão secundária provavelmente acorra como
resultado do trauma primário, podemos nos
preparar e intervir para corrigir ou impedir que
estas complicações ocorram.
Os mecanismos da lesão secundária incluem o
seguinte:
1. Efeito em massa e subsequente PIC elevada e
alteração mecânica do cérebro, que podem
levar à herniação, morbidade e mortalidade
significativas se não tratados.
2. Hipóxia, que resulta do fornecimento
inadequado de oxigênio para o cérebro
lesionado causada por falha ventilatória ou
circulatória ou efeito em massa.
3. Hipotensão e fluxo sanguíneo cerebral
inadequado, que podem causar fornecimento
inadequado de oxigênio para o cérebro. Baixo
fluxo sanguíneo cerebral também reduz o
fornecimento de substrato energético (p. ex.,
glicose) para o cérebro lesionado e resulta em
substrato inadequado (p. ex., glicose).
4. Mecanismos celulares, incluindo falha
energética, inflamação e cascatas "suicidas",
que podem ser acionados no nível celular e
podem levar à morte celular, chamada
apoptose.
Efeito em massa
O espaço no interior do crânio é de tamanho fixo,
qualquer coisa que ocupe um espaço adicional
dentro da caixa craniana fará com que a PIC comece
a aumentar. Isto é chamado efeito em massa.
Todo este espaço dentro da caixa craniana é
ocupado pelo cérebro, sangue ou LCR. Se qualquer
outra massa, como um hematoma, edema cerebral
ou um tumor, ocupar esse espaço dentro da caixa
craniana, alguma outra estrutura será forçada a
sair.
Figura 04. Doutrina Monro-Kellie. Fonte: PHTLS.
A princípio, em resposta à massa em expansão, o
volume de LCR ao redor do cérebro é reduzido. O
volume de sangue na caixa craniana também é
reduzido de maneira semelhante, com o volume
principal de sangue venoso reduzido na cabeça,
desde que a pressão esteja baixa.
Com a redução de LCR e dos volumes sanguíneos,
a pressão na cabeça não aumenta durante as
etapas iniciais. Durante esta fase, se a massa em
crescimento for a única patologia intracraniana, os
doentes podem parecer assintomáticos. Uma vez
que a capacidade para forçar a saída de LCR e
sangue tenha sido esgotada, no entanto, a pressão
dentro da caixa craniana – PIC – começa a aumentar
rapidamente, forçando a alteração do cérebro e
várias síndromes de herniação, que podem
comprimir centros vitais e comprometer o
suprimento de sangue arterial para o cérebro. As
consequências deste movimento em direção ao
forame magno são descritas como as diversas
síndromes de herniação.
Figura 05. Tipos de Herniações. Fonte: PHTLS.
Podem ocorrer diferentes tipos de herniação
dependendo da localização do efeito de massa e de
quão rápido esse efeito se desenvolve.
1. Herniação cingulada.
2. Herniação central.
3. Herniação do úncus ou transtentorial.
4. Herniação das tonsilas cerebelares.
A hérnia de úncus resulta no mau funcionamento
do terceiro nervo craniano, que causa:
• Dilatação pupilar do lado da hérnia.
• Resulta na perda de função do trato motor no
mesmo lado, que causa fraqueza no corpo, do
lado oposto da lesão.
Na hérnia cingulada, o giro do cíngulo localizado ao
longo da superfície medial dos hemisférios
cerebrais, é forçado sob a foice, o divisor dural ente
os dois hemisférios. Isto pode provocar lesão nos
hemisférios cerebrais mediais e no mesencéfalo.
A hérnia tonsilar, ocorre conforme o cérebro é
empurrado para baixo na direção do forame magno
e empurra o cerebelo e a medula para sua frente.
Isso pode resultar nas amígdalas cerebelares e a
medula tornando-se mais encravadas no forame
magno, com a medula subsequentemente sendo
esmagada. Lesão na medula inferior resulta em
parada cardíaca e respiratória, um evento final
comum para doentes com herniação. O processo
que força o conteúdo da fossa posterior para dentro
do forame magno é conhecido como "coning".
Figura 06. Coning. Fonte: PHTLS.
As características clínicas das síndromes de
herniação podem ajudar a identificar um doente
que está com formação de hérnia:
• Dilatação ou letargia da pupila ipsilateral.
• Achados motores anormais.
• Fraqueza no lado oposto ao da hérnia.
• Reflexo de Babinski (extensão do hálux e
abertura em leque dos outros dedos quando
a sola do pé é estimulada).
Figura 07. Reflexo de Babinski. Fonte: Google.
Herniação mais extensiva pode causar destruição
das estruturas no tronco cerebral conhecidas como
núcleo vermelho ou núcleos vestibulares.
Isso pode resultar em postura decorticada, que
envolve a flexão das extremidades superiores e
rigidez com extensão das extremidades inferiores.
Figura 08. Posturas patológicas.
Um achado mais alarmante é a postura
descerebrada, na qual as extremidades estão
estendidas e pode ocorrer arqueação da coluna. A
postura descerebrada ocorre com a lesão e dano ao
tronco cerebral. Após a herniação,pode ocorrer um
evento terminal e as extremidades se tornam
flácidas e a atividade motora está ausente.
Nos estágios finais, a herniação sempre produz:
• Piora da hipóxia
• Níveis de dióxido de carbono
significativamente alterados.
• Padrões de ventilação anormais ou apnéia:
Ventilação de Cheyne-Stokes é um ciclo de
repetição de respirações lentas e superficiais que se
tornam mais profundas e mais rápidas e depois
retornam às respirações superficiais e lentas.
Períodos breves de apnéia podem ocorrer entre os
ciclos.
Hiperventilação neurogênica central refere-se a
respirações profundas, consistentemente rápidas e
respiração atáxica refere-se a esforços de ventilação
errática que não apresentam nenhum padrão
discernivel.
Figura 09. Possíveis tipos de padrões respiratórios após
TCE. Fonte: PHTLS.
A função respiratória espontânea cessa com a
compressão do tronco cerebral, um caminho final
comum para herniação.
Fenômeno de Cushing (tríade)
Conforme a hipóxia tecidual se desenvolve no
cérebro, reflexos são ativados em um esforço para
manter o suprimento de oxigênio para o cérebro.
Para controlar o aumento da PIC, o sistema nervoso
autônomo é ativado para aumentar a pressão
arterial, e consequentemente a PAM, em um esforço
para manter uma pressão de perfusão cerebral
normal. A pressão sistólica pode atingir até 250 mm
Hg. Entretanto, como os barorreceptores nas
artérias carótidas e arco aórtico sentem a pressão
arterial muito aumentada, mensagens são enviadas
ao tronco cerebral para ativar o sistema nervoso
parassimpático. Um sinal é então enviado pelo X
nervo craniano, o nervo vago, para desacelerar a
frequência cardíaca. Fenômeno de Cushing refere-
se a esta combinação ameaçadora de pressão
arterial muito aumentada e a bradicardia resultante
que pode ocorrer com a PIC gravemente aumentada.
Figura 10. Fenômeno de Cushing. Fonte: Google.
Estes traumas mecânicos e isquêmicos criam lesão
no cérebro, e também aumentam o edema cerebral.
Desse modo, o edema cerebral pode fazer com que a
lesão crie mais edema cerebral, que por sua vez leva
a uma lesão adicional e edema em um espiral
descendente que pode levar a herniação se não for
interrompida. Limitar essa lesão secundária e
interromper o seu ciclo de lesão é o objetivo
principal do tratamento do TCE.
Edema cerebral
Frequentemente ocorre no local da lesão cerebral
primaria. A lesão das membranas celulares
neuronais permite que o fluido intracelular se
acumule dentro dos neurônios danificados, levando
ao edema cerebral. Além disso, a lesão pode levar a
respostas inflamatórias que lesionam os neurônios
e os capilares cerebrais, que resultam em acúmulo
de fluidos dentro dos neurônios e também dentro
dos espaços intersticiais, ambos levando a edema
cerebral.
EPIDEMIOLOGIA
Sociedade em geral
• Afeta milhares de pessoas em todo mundo e é
classificado pela Organização Mundial de
Saúde (OMS) como um problema de saúde
pública.
• Maior incidência no sexo masculino com idade
entre 20-30 anos. Podendo ter relação com o
fato de que culturalmente os homens são os
principais condutores de veículos, sendo assim,
apresentam mais riscos de se envolverem em
acidentes, bem como os comportamentos de
risco serem praticados mais frequentemente
por homens do que por mulheres, sendo assim,
eles se expõem a situações de perigo diferentes.
• É o principal determinante de óbito e de
sequelas em politraumatizados.
• É responsável por 2/3 das mortes intra-
hospitalares, além de ser uma das principais
causas de incapacidades à longo prazo entre os
sobreviventes
• No Brasil, dados do SUS mostraram que se
estima a ocorrência de 100 mil óbitos anuais no
país.
Além disso, entre os anos de 2007-2017, mais
de um milhão de pessoas ficaram inválidas
devido aos traumas mecânicos, o que traz
muitas consequências socioeconômicas ao
país.
• Os acidentes de trânsito são causa mais
frequente de TCE (principalmente os acidentes
motociclísticos), seguidos pela queda de altura.
• As quedas de altura são mais frequentes nas
faixas etárias de crianças e idosos e os
acidentes de trânsito na faixa etária de adultos
jovens.
• Aproximadamente 30% das mortes por causas
externas incluem um diagnóstico de TCE.
• O TCE vem sendo denominado como “epidemia
silenciosa”, devido aos prejuízos que causa ao
indivíduo – em sua capacidade vital – e ao
Estado – na saúde pública e no setor
socioeconômicos – que, por muitas vezes, são
apenas notados à longo prazo e, devido a isso,
a sociedade caba por desconsiderar sua
importância.
Países de baixa e média renda
• A OMS estima que quase 90% das mortes por
lesões ocorram em países de baixa e média
renda, onde vive a maior parte da população, e,
das mortes por trauma, o TCE é a principal
causa.
• Em países de média e baixa renda, apontam
para acidentes de trânsito como a principal
causa do TCE (com destaque ao acidente
motociclístico), estando mais relacionados à
adultos jovens e possuindo um índice de
mortalidade maior. A questão etária pode estar
relacionada com os acidentes primeiramente
devido à autoconfiança e falta de experiência do
condutor do veículo, bem como uma educação
sobre o trânsito e fiscalizações ainda precárias,
o que faz com que os indivíduos apresentem
uma maior conduta de risco, como não usar
cinto de segurança, não usar capacete,
ultrapassar o limite de velocidade ou uso de
bebidas alcoólicas e drogas ilícitas antes de
dirigir.
• Além do mais, nesses países, vêm sendo
observado um crescimento na frota de
motocicletas e uma maior procura à compra de
automóveis, isso pode estar ocorrendo em razão
do surgimento e crescimento da classe média
nesses países e a disponibilidade de veículos
com preços mais baixos.
• Outro fator que corrobora para o índice de
mortalidade, é o acesso a cuidados médicos
adequados. Nesses países, a pobreza é muito
presente e os sistemas públicos de saúde
raramente são completamente eficientes,
devido à falta de material e a superlotação, isso
acaba fazendo com que certos cuidados sejam
negligenciados e alguns pacientes acabam
sofrendo graves consequências, principalmente
pelo fato de que os custos de tratamento
essencialmente aos pacientes com sequelas,
são muito elevados.
Países de alta renda
• Com relação aos países de alta renda, os dados
encontrados apontam para queda de altura
como principal causa do TCE, que estão mais
relacionados aos extremos de idade (crianças e
idosos), sendo os idosos os mais acometidos por
essa fatalidade. Isso pode estar relacionado à
maior perspectiva de vida desses países, dessa
maneira, consequentemente, eles possuem
uma quantidade maior de idosos em sua
população geral, bem como uma educação de
trânsito mais presente e divulgada, associada a
uma maior fiscalização.
• Logo, isso acaba por fazer com que a
quantidade dos acidentes por queda ultrapasse
os acidentes de trânsito. As causas para a
ocorrência dessas quedas são variáveis, mas
pode ser observado que parte das vezes está
relacionada às delimitações que a idade oferece
ao indivíduo. Ligados a isso, a solidão, a
depressão e o uso de álcool são fatores que
promovem o aumento do risco de queda nessa
população.
• Um fato que está mais relacionado à países de
baixa e média renda, que possuem a segurança
mais precária em comparação com os de alta
renda, é de que os homens se expõem mais a
situações de violência, de tal forma existem
lugares nos quais podem ser encontrados
dados como a agressão a homens ser a
principal causa do TCE.
• O TCE leve é o mais recorrente, seguido do TCE
grave.
FATORES DE RISCO
Idosos.
Crianças.
Homens entre 20-30 anos.
FISIOPATOLOGIA
O principal mecanismo do TCE pode ser classificadocomo:
(1) lesão cerebral focal, resultando em contusão,
laceração e hemorragia intracraniana por trauma
local direto;
(2) lesão cerebral difusa, causando lesão axonal
difusa e aumento do tamanho do cérebro (edema)
pelo mecanismo de aceleração/desaceleração.
O resultado da lesão cerebral é definido por dois
mecanismos ou estágios diferentes.
(a) lesão primária (ocorrida no momento do trauma);
(b) lesão secundária (sendo o processo patológico
iniciado no momento do trauma com manifestações
clinicas tardias.
Estágios de lesão
O TCE pode ser divido em dois estágios: o primeiro
estágio da lesão cerebral após o trauma craniano é
caracterizado por lesão tecidual e desregulação do
fluxo sanguíneo encefálico e do seu metabolismo.
Nesse quadro que se parece com isquemia tecidual,
ocorre o acumulo de ácido lático proveniente da
glicólise anaeróbia, aumento da permeabilidade da
membrana celular e consequentemente edema
tecidual. Desde o momento que o metabolismo
anaeróbico não é mais adequado para a
manutenção do gasto energético celular encefálico,
o estoque de adenosina trifosfato (ATP) é esgotado e
começa a ocorrer falha das bombas iônicas. No
segundo estágio da lesão no traumatismo craniano
a cascata é iniciada pela despolarização terminal da
membrana junto com a liberação excessiva de
neurotransmissores excitatórios (glutamato e
aspartato), ativação de receptores N-Metil-D-
Aspartato (NMDA) e abertura dos canais de sódio e
cálcio-dependentes. Como consequência da
abertura dos canais iônicos, ocorre um influxo de
íons sódio e cálcio que desencadeia uma
autodigestão (catabolismo) dos processos
intracelulares. O influxo de íons cálcio ativa as
peroxidases lipídicas, proteases e fosfolipases os
quais por sua vez aumentam a concentração
intracelular de ácidos graxos livres e radicais livres.
COMPLICAÇÕES
As complicações de longo prazo incluem epilepsia
pós-traumática, hidrocefalia comunicante,
síndrome pós-traumática ou pós-concussiva,
hipogonadismo hipogonadotrópico, encefaJopatia
traumática crônica e doença de Alzheimer.
Síndrome pós-concussiva
Os sintomas que compõem essa síndrome podem
ser somáticos, cognitivos e psicossociais.
Somáticos
• Cefaleia;
• Tontura e sensação de cabeça vazia;
• Distúrbios visuais;
• Anosmia.
Cognitivo
• Dificuldade de concentração
Psicossociais
• Dificuldades emocionais: depressão,
alteração de humor, irritabilidade fácil,
perda de motivação e abulia;
• Mudança de personalidade;
• Perda de libido.
O tratamento é direcionado aos sintomas
predominantes.
Encefalopatia traumática crônica
Engloba um espectro de sintomas que vão de formas
leves a graves (demência pugilística). Há algumas
semelhanças com a doença de Alzheimer, incluindo
a presença de arranjos neurofibrilares e o
desenvolvimento de angiopatia amiloide. As
mudanças no eletroencefalograma ocorrem em
cerca de 1/3 a metade dos lutadores profissionais
de boxe.
As características clinicas incluem alterações
cognitivas, como lentidão do pensamento e déficits
de memória, mudança de personalidade com
comportamento explosivo, ciúme doentio, paranoia
e abuso de bebidas alcoólicas. Além disso, pode
causar distúrbios motores, como disfunção
cerebelar, sintomas de parkinsonismo e disfunção
piramidal.
CONDUTAS DIAGNÓSTICAS
AVALIAÇÃO PRIMÁRIA
❑ Via aérea → língua – ventilações barulhentas
– vomito/hemorragia/edema.
❑ Respiração → frequência ventilatória –
profundidade - eficiência da ventilação.
❑ Circulação → pressão arterial adequada –
hemorragias – choque.
❑ Exposição/Ambiente → outros problemas
potencialmente fatais.
❑ Incapacidade → Escala de Glasgow.
Figura 11. Escala de Coma de Glasgow.
HISTÓRIA DO TRAUMA
É de suma importância conhecer o mecanismo e a
gravidade do trauma, assim como os dados sobre a
consciência (perda de consciência, amnésia lacunar
e rebaixamento do nível de consciência), para guiar
as condutas subsequentes. Deve-se obter um
histórico SAMPLE do paciente, através do
acompanhante ou pessoas que estavam por perto.
Sintomas
Alergias
Medicamentos
Passado clínico
Líquidos ou alimentos ingeridos na última hora.
Eventos.
Exame físico
Inspeção do crânio: evidência de fratura de base
de crânio ('olhos de guaxinim", sinal de Battle,
rinorreia/otorreia liquórica, hemotímpano ou
laceração do conduto auditivo externo).
Avaliar fraturas de face (fraturas de Le Pon), edema
periorbital e proptose;
Exame da coluna vertebral.
Exame neurológico
• Exame do nível de consciência: avaliado pela ECG;
• Exame motor: se cooperativo, avaliar a força nos 4
membros; se não cooperativo, avaliar movimentos
nas extremidades ao estimulo doloroso;
• Exame objetivo de nervos cranianos e avaliação
das pupilas;
• Exame de sensibilidade: se cooperativo, avaliar
sensibilidade tátil nos principais dermátomos; se
não cooperativo, avaliar reação à dor em diversos
pontos;
• Reflexos: checar reflexo cutâneo plantar; se houver
dúvida de lesão medular, checar o tônus anal em
repouso e avaliar contração esfinctérica voluntária
e reflexo bulbo cavernoso.
Categorização clínica do risco de lesão
intracraniana
Baixo risco de lesão intracraniana
Engloba pacientes que estão em ECG 15,
assintomáticos ou com cefaleia, vertigem,
hematoma subgaleal e laceração, abrasão ou
contusão de couro cabeludo, sem que haja critérios
de alto risco ou risco moderado.
Nesses casos, recomenda-se observação domiciliar
com instruções escritas sobre TCE. Não está
indicada TC.
Risco moderado de lesão intracraniana
Inclui pacientes com ECG menor ou igual a 14 ou
com ECG 1Se com história de alteração ou perda de
consciência, cefaleia progressiva, intoxicação por
drogas ou álcool, crises convulsivas pós-
traumáticas, história do trauma não confiável,
menores de 2 anos de idade, amnésia lacunar,
sinais de fratura de base de crânio, lesão facial
grave, politraumatismo grave, traumatismo com
grande energia cinética envolvida, antecedente de
distúrbio de coagulação ou uso de anticoagulantes,
possibilidade de fratura com afundamento ou
penetração e suspeita de abuso infantil. Nesses
casos, recomendam-se TC e observação intra-
hospitalar, a fim de excluir qualquer deterioração
neurológica.
A observação domiciliar pode ser feita para
pacientes com ECG >14 na entrada, mas sem
alterações posteriores, com TC normal e se houver
um responsável que possa trazê-lo em caso de
necessidade. Manter o paciente em observação
intra-hospitalar e com TC, se necessário, é tão
sensível em detectar hematomas intracranianos
quanto realizar TC inicialmente, porém, o custo-
efetivo é menor do que realizar a TC e liberar os
casos em que o paciente esteja normal.
Alto risco de lesão intracraniana
Inclui os casos de pacientes com rebaixamento do
nível de consciência, excluindo-se uso de drogas ou
álcool, anormalidades metabólicas, estado pós-
·ictal, crise convulsiva pós-traumática, déficit focal,
lesão penetrante no crânio ou fratura com
afundamento, presença de sinais de fístula
liquórica, lesão de
nervos cranianos, antecedentes de doenças
neurológicas e uso de válvulas para hidrocefalia ou
de anticoagulante. Recomenda-se realizar TC de
crânio, internação hospitalar, considerar
craniotomia exploradora nos casos de rápida
deterioração neurológica e avaliara necessidade de
monitoração de pressão intracraniana (PIC).
EXAMES COMPLEMENTARES
Exames de imagem
Tomografia computadorizada de crânio
Sempre sem contraste e com janela óssea. As
indicações são:
• Todos os pacientes com ECGs 14;
• Pacientes com ECG igual a 15, aos quais se
recomenda TC nos casos com moderado ou com
alto risco de lesão intracraniana, isto é, em
traumatismos com grande energia cinética
(p.ex., acidente com vítima fatal),pacientes
alcoolizados, com distúrbio de coagulação ou
uso de anticoagulantes, perda de consciência
no local do acidente, amnésia lacunar e crise
convulsiva;
• Situações especiais incluem os menores de 2
anos de idade, suspeita de abuso infantil e
pacientes que serão submetidos à anestesia
geral e, portanto, ficarão com menos
parâmetros neurológicos de avaliação.
A TC é repetida com urgência nos casos de
deterioração neurológica (perda de dois ou mais
pontos na ECG e desenvolvimento de hemiparesia
ou assimetria pupilar), cefaleia persistente ou
progressiva, crises convulsivas ou elevação da PIC
sem causa aparente.
Radiografia de coluna
• Coluna cervical: deve ser visualizada
radiograficamente desde a transição cranio
cervical até a junção de C7-Tl. A precaução com
a coluna (colar cervical) deve ser mantida até
que seja excluído qualquer tipo de lesão
cervical;
• Coluna torácica e lombos sacral: deve ser
solicitada na vigência de suspeita de lesão,
tanto pela história do trauma quanto pelo
exame clínico.
Radiografia de crânio
Tem pouca utilidade atualmente, visto que a TC é
soberana para a avaliação de TCE.
Ressonância magnética
Geralmente, a ressonância magnética (RM) não é
um exame apropriado em casos de TCE agudo. Pode
ser útil no seguimento tardio de paciente
estabilizado, para avaliar lesão de tronco cerebral e
alterações na substância branca.
CONDUTAS TERAPÊUTICAS
Condutas específicas no atendimento de
emergência
Hipotensão e hipóxia devem ser evitados/corrigidos
o mais rápido possível. A pressão arterial média
(PAM) deve ser mantida >90 mmHg, por meio da
infusão de líquidos.
Orientações no traumatismo cranioencefálico
leve {ECG 13a15)
• Repouso no leito e cabeceira a 30 a 45°;
• Avaliação neurológica a cada 2 horas;
• ECG e pupilas;
• Dieta zero até estar alerta, depois iniciar
com líquidos e avançar de acordo com a
tolerabilidade;
• Analgésicos leves e antieméticos.
Orientações no traumatismo cranioencefálico
moderado (ECG 9 a12)
As orientações são as mesmas do TCE leve, exceto
por manter em dieta zero os pacientes que
necessitem de intervenção cirúrgica.
Em pacientes com TC normal ou pouco alterada,
realizada antes das 6 primeiras horas do trauma, o
exame deve ser repetido nas próximas 24 horas ou
antes, se houver piora clínica.
Orientações no traumatismo cranioencefálico
grave (ECG 3 a 8)
Após a avaliação segundo recomendações do ATLS
e a ressuscitação do paciente na sala de emergência,
quando esta é necessária, o paciente deve ser
prontamente encaminhado para a realização de TC
desde que as condições clínicas o permitam.
Contudo, existem casos nos quais algumas medidas
devem ser
tomadas antes da realização da TC, seja por motivos
clínicos (instabilidade hemodinâmica) ou por
indisponibilidade de tomógrafo, e na vigência de
deterioração neurológica grave determinada por
sinais de HIC grave (anisocoria, déficit focal,
deescerebração, decorticação). Para esses casos, as
medidas preconizadas incluem sedação e
hiperventilação leves, uso de manitol ou solução
salina hipertônica e, eventualmente, trepanação
exploradora.
Entubação orotraqueal
Indica-se assegurar as vias aéreas, geralmente por
encubação orotraqueal (EOT), de pacientes com
ECG menor ou igual a 8 que sejam incapazes de
manter vias aéreas pérvias ou permaneçam em
hipóxia mesmo com oxigênio suplementar. As
indicações formais são:
• ECG::> 8;
• Necessidade de hiperventilação;
• Trauma maxilo facial severo;
• Necessidade de uso de relaxantes
musculares ou sedação.
Deve-se ter atenção para entubação de pacientes
com suspeita de fratura de base de crânio, sendo
que, nesses casos, indica-se EOT. Vale lembrar que
pacientes entubados são incapazes de verbalizar, o
que pode interferir na avaliação da ECG. Em muitos
pacientes com trauma facial grave, a realização de
cricotireoidostomia ou traqueostomia é necessária.
Sedação e uso de relaxantes musculares (cintes
de monitoração da PIC)
A sedação deve ser feita com midazolam e fentanil.
O uso de bloqueadores neuromusculares deve ser
feito quando a sedação for insuficiente. O uso
rotineiro de sedação e bloqueadores
neuromusculares em neuro-trauma pode levar a
aumento da incidência de pneumonia, longo
período em centro de terapia intensiva e sepse. Seu
uso deve ser reservado para casos com evidência
clínica de HIC ou, se for necessário, remoção do
paciente.
Hiperventilação
A hiperventilação antes da monitoração da PIC deve
ser realizada se houver sinais de herniação
transtentorial ou déficit neurológico progressivo não
atribuível a causas extracranianas. Não deve ser
utilizada profilaticamente, pelo risco de causar
isquemia. A alcalose aguda aumenta a ligação do
cálcio à proteína, de modo que pacientes
hiperventilados podem desenvolver hipocalcemia
ionizada com tetania. Quando houver indicação, a
hiperventilação deve ter como alvo uma PC02
entre30 e 35 mmHg.
Manitol
O uso de manitol antes da monitoração da PIC
deve ser reservado para pacientes que estejam
hemodinamicamente estáveis e com sinais de
herniação
transtentorial ou déficit neurológico progressivo
não atribuível a outras causas extracran1anas.
As indicações na sala de emergência são:
• Evidência de HIC;
• Evidência de efeito de massa e déficit focal);
• Deterioração neurológica súbita antes da
realização de TC;
• Após TC, se houver lesão intracraniana
associada à HIC;
• Avaliação da viabilidade de pacientes sem
função de tronco cerebral;
• Observação da possibilidade de retomo de
reflexos de tronco.
As contraindicações são:
• Fazer uso profilático, pois o manitol interfere no
volume intravascular;
• Usar em caso de hipotensão ou hipovolemia
(usar hiperventilação em paciente hipotenso);
• Uma contraindicação relativa é que o manitol
pode interferir na coagulação;
• Antes de causar diurese, o manitol aumenta
transitoriamente o volume intravascular, o que
é prejudicial aos pacientes com insuficiência
cardíaca.
A dose indicada é 1,4g/kg em 20 minutos, quando
ocorre o pico de ação, e volume idêntico ao de
manitol deve ser feito com cristaloides.
Pacientes com outras lesões sistêmicas
associadas
A hipotensão (definida como PAS <90 mmHg)
duplica a mortalidade. A combinação hipotensão e
hipóxia (apneia, cianose ou Pa02<60 mmHg) triplica
a mortalidade, aumentando o risco de maus
resultados.
Pacientes com lavado peritoneal diagnóstico (LPD)
francamente positivo e/ou instabilidade
hemodinâmica devem ser levados imediatamente
para a sala de cirurgia, para tratamento simultâneo
de outras lesões. Se o paciente tem déficits
neurológicos focais, deve-se realizar trepanação
exploradora na sala de cirurgia, simultaneamente
ao tratamento de outras lesões. Se for TCE grave
sem sinais localizatórios ou se a primeira
trepanação for negativa, ou, ainda, se não houver
exame neurológico previamente à cirurgia, indica-se
aferir a PIC com cateter ventricular. Se a PIC for
normal, é improvável que haja lesões cirúrgicas e
deve-se manter a monitoração.
Trepanações exploradoras
Em pacientes com trauma, a tríade de alteração do
nível de consciência, anisocoria com perda do
reflexo à luz e hemiparesia contralateral é muito
provavelmente consequência de compressão de
tronco por herniação transtentorial, a qual ocorre,
na maioria das vezes, por hematoma intracraniano
extra axial. A trepanação exploradora tem apenas
20% de resultados satisfatórios.
Esse procedimento é inicialmente diagnóstico, pois
o sangramento não pode ser contido e a maioria dos
hematomas agudos está coagulada o suficiente para
impedira drenagem pelo orifício de trepanação. As
indicações para esse procedimento incluem
pacientes que necessitem de cirurgia de emergência
de outros sistemas,nos quais não tenha sido
possível a realização de TC, e critérios clínicos
baseados na deterioração do exame neurológico. As
indicações na sala de emergência são raras e
incluem os pacientes que estão evoluindo
rapidamente para óbito por herniação transtentorial
ou compressão de tronco que não estabiliza com
manitol nem com hiperventilação. Nesses casos,
têm-se pacientes com rebaixamento súbito da
pontuação na ECG, pupila fixa e dilatada e paralisia
ou descerebração.
Técnica
• Posicionamento: coxim sob os ombros, cabeça
voltada para o lado contrário a ser abordado;
• Escolha do lado a ser abordado: deve-se iniciar
pela trepanação temporal no lado ipsilateral à
dilatação pupilar (estará correto em 85%dos
hematomas extradurais e outras coleções extra
axiais); se ambas as pupilas estiverem
dilatadas, usar o lado em que houve dilatação
primeiro; se as pupilas estiverem iguais e não
se sabe o lado que dilatou primeiro, usar o lado
com trauma externo evidente; senão houver
dicas localizatórias, iniciar pelo lado esquerdo;
• Procedimento: as trepanações são feitas ao
longo do trajeto de uma eventual craniotomia.
Deve-se marcar a pele; iniciar pelo arco
zigomático menos de 1 cm à frente do tragus
(para poupar o ramo do nervo facial e o ramo
anterior da artéria temporal); seguir
superiormente e fazer curva posterior ao nível
do ápice do pina 4a 6 cm atrás do pina, e seguir
superiormente 1 a 2 cm ao lado da linha média
ipsilateral; curvar anteriormente até alinha do
cabelo.
Localização das trepanações
• Primeira trepanação temporal: acima da fossa
média, superior ao arco zigomático, dá acesso à
fossa média, que é o local mais comum de
hematoma extra dural (HED);
• se não houver HED, a dura-máter é aberta se
estiver com coloração azulada ou se houver
grande suspeita de coleção nesse lado;
• Se o resultado for negativo, fazer a trepanação
temporal contralateral;
• Se o resultado for negativo, outras trepanações
devem ser feitas se a TC ainda não puder ser
realizada;
• Proceder à trepanação frontal ipsilateral;
• As trepanações subsequentes devem ser feitas
na região parietal e, por último, na fossa
posterior do primeiro lado a ser tentado.
TIPOS DE LESÕES
Fraturas do crânio
Tabela 01. Diferenciação de fraturas lineares dos
achados normais da radiografia. Fonte: Bertolucci.
Fraturas do crânio
Fraturas do crânio fechadas e com afundamento,
podem precisar de intervenção neurocirúrgica.
Fraturas do crânio abertas podem predispor o
doente à meningite. Se a dura-máter for dilacerada,
pode extravasar tecido cerebral ou LCR por uma
fratura aberta do crânio. Por causa do risco de
meningite, estes ferimentos requerem avaliação
neurocirúrgica imediata.
Fraturas com afundamento (abertas ou
fechadas)
Os critérios para redução dessas fraturas em
adultos são:
• Mais que 8 a 10 mm de depressão ou maior
que a espessura do crânio;
• Déficit relacionado ao tecido adjacente;
• Fraturas abertas.
O tratamento deve ser mais conservador quando a
fratura está no trajeto de seios venosos. Não há
evidência de que a redução da fratura diminua o
risco de epilepsia pós-traumática.
Os critérios em crianças são:
• Evidência de penetração durai;
• Fins estéticos;
• Déficit neurológico focal pertinente ao local
do afundamento.
As fraturas tipo "bola de pingue-pongue" ocorrem
geralmente em neonatos em virtude da elasticidade
do crânio. Nenhum tratamento deve ser empregado
quando ocorrem na região temporo-parietal, na
ausência de lesão cerebral, pois a deformidade é
corrigida com o crescimento. As indicações para
tratamento cirurgico são:
• Presença de fragmentos ósseos no
parênquima;
• Déficit neurológico associado;
• Sinais de HIC;
• Sinais de fístula liquórica para a gálea;
• Problemas para o seguimento em longo
prazo.
Fraturas de base de crânio
A radiografia simples e os critérios clínicos são
sensíveis. A TC com janela óssea, os cortes finos e o
corte coronal ajudam no diagnóstico. Os achados
que sugerem esse tipo de fratura são:
pneumoencéfalo, opacificação dos seios e fraturas
da placa cribiforme.
O diagnóstico clínico é sugerido pelo encontro de
alguns sinais:
• Rino ou otorreia liquórica;
• Hemotimpano ou laceração do canal
auditivo externo;
• Sinal de Battle: equimose retroauricular;
• “Olhos de guaxinim": equimose
periorbitária;
• Lesão dos nervos cranianos VII e/ou VIII
(relacionado à fratura do osso temporal), 1e
II (fratura da fossa anterior) e VI (fratura do
clivus).
Deve-se ter atenção com a sondagem nasogástrica,
que pode ser colocada dentro do crânio e que está
associada ao óbito em 64°/o dos casos. O uso de
antibióticos profiláticos é controverso, mesmo que
haja fistula. Alguns orientam o tratamento igual ao
de uma fratura aberta contaminada, ou seja, com
antibiótico de amplo espectro (p.ex., ciprofloxacino)
por 7 a 10 dias.
Esse tipo de fratura não requer tratamento por ela
própria. O manejo específico inclui:
Aneurismas traumat1cos;
• Fístula traumática carotidocavernosa;
• Meningite ou abscesso cerebral;
• Deformidades estéticas;
• Paralisia facial pós-traumática.
Fraturas do osso temporal
Embora seja geralmente mista, existem dois tipos
básicos de fratura do osso temporal:
• Fratura longitudinal: a mais comum (70 a
90%), ocorrendo geralmente pela sutura
petroescamosa, paralela e através do meato
acústico externo. Em geral, passa entre a
cóclea e os canais semicirculares, poupando
os nervos VII e VIII, mas rompendo a cadeia
ossicular;
• Fratura transversa: é perpendicular ao
meato acústico externo, geralmente
atravessa a cóclea e pode distender o gânglio
geniculado, resultando em déficits do VIII e
VII nervos.
O protocolo de tratamento ode paralisia facial
periférica pós-traumática inclui:
• Uso de corticosteroide independentemente
do tempo de aparecimento dessa condição;
• Casos de aparecimento imediato da paralisia
unilateral são candidatos em potencial à
descompressão cirúrgica, se não houver
resposta com uso de esteroides. A
eletroneuromiografia (ENMG) só se altera
após 72 horas.
Fraturas do clivus
São altamente mortais e incluem 3 categorias:
• Longitudinais: podem estar associadas às
lesões dos vasos vertebrobasilares;
• Transversas: podem causar lesões da
circulação anterior;
• Oblíquas.
CONDUTAS EDUCACIONAIS
Preventivas
Países de renda alta possuem queda de altura por
idosos homens como causa principal do TCE, o que
aponta para a necessidade de uma política
preventiva voltada à esse público (por meio de
avaliação regular de equilíbrio e visão) e os países
de renda média ou baixa possuírem acidentes de
trânsito por homens adultos jovens como a causa
principal do TCE, o que aponta para a necessidade
de uma política com enforque na educação no
trânsito e maior fiscalização das medidas de
segurança, bem como campanhas nacionais que
alertem sobre a gravidade do TCE na vida das
pessoas (inclusive à longo prazo).
PROGNÓSTICO
Nas lesões cerebrais primárias como nas contusões,
hemorragias, lacerações e outras lesões mecânicas
diretas no cérebro, sua vasculatura e suas
coberturas, como o tecido neural não se regenera
bem, existe uma expectativa mínima de recuperação
da estrutura e da função perdida devido à lesão
primária. Também existe pouca possibilidade de
reparo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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lesão cerebral no traumatismo
cranioencefálico. Rev. Assoc. Med. Bras. São
Paulo, v. 55, n. 1, p. 75-81, 2009. Disponível em:
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em: 26 de janeiro de 2021.
BERTOLUCCI. Paulo Henrique Ferreira. Neurologia
Diagnóstico e Tratamento. 2ª edição. Barueri, São
Paulo:Manole, 2016.
CAVALCANTI, Camilla de Andrade Tenório et al. A
epidemiologia do Trauma Cranioencefálico no Brasil
e no mundo: uma revisão sistemática. As Ciências
Biológicas nas Dimensões Humanista, Crítica e
Reflexiva 2. p. 1-388–416, Editora Atena,
2020. Disponível em:
<https://www.atenaeditora.com.br/post-
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PHTLS. Atendimento Pré-Hospitalar no
Trauma. 8ª edição. 2017.