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Raiana Zacarias de Macêdo | 1 MIOPATIAS AUTOIMUNES SISTÊMICAS - Miopatia inflamatória idiopática Grupo diferenciado de doenças raras que acomete primariamente a musculatura esquelética, com possível acometimento cutâneo, pulmonar, cardíaco e trato gastrintestinal (distúrbio inflamatório muscular não supurativo – não tem infecção – caracterizado por fraqueza muscular proximal e elevação de enzimas musculares). MIOPATIAS INFLAMATÓRIAS IDIOPÁTICAS – eram chamadas assim antigamente, mas hoje a etiologia delas já é bem reconhecida. Eliótropo (patognomônico da doença) -> se trata de um rash típico da dermatomiosite que se caracteriza por uma lesão eritemato violácea no contorno palpebral bilateralmente. EPIDEMIOLOGIA · Incidência de 2 a 10 casos por milhão; · Curva de idade bimodal (10-15 anos / 45-55 anos) · Pode ocorrer em qualquer idade · Relação mulher: homem 2-3: 1 · Maior acometimento em negros que em brancos (EUA 3-4:1) - Miopatias inflamatórias: Maior grupo de miopatias potencialmente tratáveis em adultos e crianças. Qual a diferença entre dermatomiozite e polimiosite? A lesão cutânea. Se for um quadro muscular + lesão cutânea = dermatomiosite. Já se não houver lesão cutânea é polimiosite. Ambas vão dar fraqueza muscular proximal e simétrica. E possuem um quadro mais súbito/subagudo. Acomete entre 45 -55 anos. A miosite por corpúsculos de inclusão é mais rara, mais grave e não existe tratamento efetivo. Ela é o oposto da dermatomiozite e da polimiosite, vai acometer mais homens, vai dar uma fraqueza distal e assimétrica. Quadro mais brando, em homens com mais de 50 anos. Miosite autoimune necrotizante é induzida por estatinas. Paciente desenvolve um autoanticorpo produzido pelo estímulo da estatina e que começa a atacar o músculo. Tem uma perda de força muito mais rápida porque está acontecendo necrose, sendo muito grave. Síndrome de sobreposição (overlap myositis): individuo tem esclerodermia e faz uma sobreposição com polimiosite. Indivíduo que já tem uma doença autoimune e junto com ela faz uma miopatia inflamatória. Síndrome anti-sintetase que acontece na polimiosite nos pacientes que evoluem com quadro mais grave. Quais exames eu não posso deixar de solicitar em um paciente com suspeita de miopatia (ddx diferencial)? · TSH (hipotireoidismo pode dar um quadro de fraqueza proximal simétrica) · Anti-HIV (e outras sorologias) · Íons (hipocalcemia, hipomagnesemia) PATOGÊNESE Eu sempre lembro assim: dermato é pele, então a lesão é mais superficial. A polimiosite invade e destrói o músculo. Então se a gente tiver uma fibra muscular da dermato, só vai haver lesão na periferia da fibra. Já na polimiosite a agressão é direta, dentro da fibra. Na dermatomiosite é “tão cheia de não me toques” que ela não chega nem na fibra. Ela inflama o vaso que nutre a fibra. Então, no final das contas ela é uma doença vascular. O que vai estimular o processo de agressão é a expressão disfuncional principalmente do MHC (molécula de superfície que está expressa, mas que não deveria estar alí). A célula de defesa reconhece como não sendo do organismo e começa o processo de ataque contra a fibra muscular. Os pacientes que tem uma maior predisposição genética maior para doença costumam expressar um tipo de HLA do tipo Haplótipo 8.1 e vacinas, biológicos ou medicamentos podem ser o gatilho para esse tipo de paciente desenvolver a doença. Existe uma polarização celular para nós pensarmos em qual tipo de linfócito esta envolvido em cada uma. O linfócito T da: Dermatomiosite CD4 Polimiosite CD8 OBS: o D vem antes do P, então o o D – 4 e o P – 8 (para ajudar a decorar o par). Uma vez que esses linfócitos foram ativados por causa desse MHC disfuncional, vai iniciar os estímulo, produção de citocinas inflamatórias, quimiocinas e daí levando ao dano celular propriamente dito. Dermatomiosite -> é primariamente uma microangiopatia mediada por complemento. Na figura anterior nós temos a via do complemento, que quando é ativado na sua fração C3, a gente tem a ativação do MAC (complexo de ataque a membrana). O MAC ataca a membrana e provoca um dano capilar. Então quem sofre é o capilar que está levando sangue para a fibra muscular. Se o sangue não chega na fibra, ela necrosa. Dermatomiosite amiopática (sine miosite) -> lesões cutâneas típicas sem evidencias de miopatia. Geralmente quem está muito presente na periferia da fibra é a aldolase. Então ela sobe mais quando eu tenho lesão da periferia do feixe. Enquanto que a CPK sobre mais quando eu tenho necrose mais central. O HIV e o HTLV podem ser etiologia de polimiosite e miosite por corpúsculos de inclusão. QUADRO CLÍNICO - Sintomas constitucionais Febre (mais comum na dematomiosite juvenil), fadiga, perda ponderal (distúrbio inflamatório sistêmico, malignidade, disfagia). Sempre investigar para câncer. - Sintomas musculoesqueléticos Fraqueza muscular: Insidioso, bilateral, simétrico, indolor, proximal. Cintura pélvica: Subir escadas, levantar de uma cadeira. Cintura escapular: Elevar os braços acima da cabeça, pentear o cabelo. Disfagia de transferência, rouquidão: Músculo estriado da laringe (pior prognóstico). Sequelas: Atrofias e contraturas musculares. MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS Dermatomiosite erupções cutâneas antes, durante ou após o quadro miopático (na artrite psoriásica as lesões de pele também podem aparecer antes, durante ou depois do quadro). Patognomônico: Heliótropo (eritema heliotrópico) e pápulas de Gottron (acomete principalmente regiões extensoras). - Heliótropo Os pacientes costumam ter uma alta fotossensibilidade na face. Posso pensar em Lupus? Não! Porque a área acometida não poupa o sulco nasogeniano. Poiquilodermia -> lesões que misturam áreas hipercromicas, áreas hipocromicas e áreas de atrofia cutânea. Acomete face lateral da coxa. Se o paciente tiver um Raynoud e essa dilatação capilar periungueal, ele será secundário. No primário o capilar é fininho. - Mãos de mecânico Lesão descamativa em face lateral dos dedos. Sindrome antissintetase (mais grave): Anti-Jo-1 positivo, febre, artrite, mãos de mecânico, pneumopatia intersticial, fenômeno de Raynaud. - Calcinose Mais comum na dermatomiosite crônica da infância. Relacionada com doença ativa crônica ou com atraso terapêutico. Complicações: ulceração cutânea com infecção secundária, contraturas articulares. - Pulmão Acometimento extra-muscular mais frequente (até 80% em algum estágio da doença). Eles inflamam normalmente o parênquima. Ver vidro fosco -> pensar em doença acometendo pulmão. O tratamento vai ser imunossupressor. Paciente com dispneia tem que pedir TC sem contraste. Se a suspeita for de câncer, tem que por contraste. Se já houver fibrose o tratamento com imunossupressor não surte mais efeito. O paciente pode fazer um cor pulmonale -> hipertensão pulmonar, coração tenta bombear pro pulmão e não consegue. - Articulações Poliartralgia e poliartrite (leves, geralmente no início da doença). Na dermatomiosite, poliartrite simétrica, não erosiva, não deformante. Artropatia deformante (20% dos pacientes) síndromes de sobreposição (esclerodermia) e síndromes anti-sintetase. - Manifestações gastrointestinais Disfagia superior (transferência), dismotilidade esofágica (10-30%), perfuração intestinal secundária à vasculite. - Manifestações cardíacas Bloqueios de condução, arritmias, miocardite (maioria assintomática; ICC em minoria). - Manifestações vasculares Livedo reticular, vasculite cutânea (úlceras), fenômeno de Raynaud (20-40%) – mais comum na esclerodermia. MALIGNIDADE E MIOPATIAS AUTOIMUNES O câncer é mais comum na dermatomiosite do que na polimiosite. Mas tenho que investigar câncer SEMPRE! O risco de câncer é maior nos 3 primeiros anos de doença. Investigar TODOS os pacientes !!! (investigação guiada pela anamnese, exame físico e faixa etária). O rastreamento é anual nos 3 primeiros anos e depois de 2 em dois anos caso o paciente não tiver sintomas. Como eu lembro que o anti-Mi 2 é o anticorpo da dermatomiosite? A dermato é cheia de Mimimi. O anti-SRP indica lesão grave dadoença. Anti-Jo-1 é da polimiosite – síndrome anti-sintetase. Anti-SRP relacionado com acometimento cardíaco. A biópsia muscular é o padrão ouro (mas não preciso dela para fazer o diagnóstico). Essencial ao diagnóstico (padrão nem sempre típico). Exclusão de distrofias, miopatias metabólicas ou vacuolares. Escolha adequada (“nem muito, nem pouco...”) – acaba só pedindo para casos mais difíceis que não respondem ao tratamento. - Como maximizar o rendimento da biópsia? Biopsiar um músculo que está claramente fraco. Não biopsiar músculo recentemente submetido à ENMG (risco de artefatos pelo estímulo). Ressonância magnética pode auxiliar para direcionar a biópsia em casos difíceis (áreas de músculo inflamado aumentam o sinal em imagens ponderadas em T2 – área de edema/inflamação). Na eletroneuromiografia: Irritabilidade de miofibrilas de repouso e na inserção da agulha: · Potenciais de fibrilação; · Recrutamento precoce; · Descargas repetitivas complexas (de alta frequência); · Ondas pontiagudas positivas; Contração: potenciais polifásicos, de baixa amplitude e curta duração. A fibra está tão inflamada que não consegue manter um padrão nas fases, nem contrair muito e quando consegue não mantém sua duração normal. - RNM · Indicações (idealmente, de corpo inteiro). Documentação de miosite ou surtos de atividade de doença em um paciente com achados de CK, ENMG ou biopsia normal · Confirmação de dermatomiosite amiopática · Diferenciação de miosite ativa crônica da inativa crônica · Orientação do local de biopsia · Esclarecimento diagnóstico em casos atípicos Deltoide, bíceps, glúteos e quadríceps (cervicais extensores mais acometidos que flexores). Músculos da face e oculomotores são poupados na polimiosite! - Outros exames complementares · TC de tórax sem contraste (dispneia) · Ecocardiograma transtorácico (dispneia) · Prova de função pulmonar (espirometria) – padrão restritivo Se ela é súbita eu vou pensar em necrotizante. Se é subaguda eu penso em dermatomiosite e polimiosite. Se ela é crônica, arrastada, eu penso em corpúsculos de inclusão. Se for proximal e simétrico eu vou pensar em dermatomiosite e polimiosite. Se for distal e assimétrico corpúsculo de inclusão. Se a enzima muscular subir muito rápido a gente pensa em necrotizante. Se ela esta normal ou só um pouco alterada eu penso em corpúsculo de inclusão. O rash típico vai estar presente na dermatomiosite. A ENMG tem um padrão miopático com baixa amplitude e curta duração. Auto anticorpos: para dermatomiosite Anti-Mi 2 e pra polimiozite Anti- Jo 1. TRATAMENTO Se o paciente está com um quadro agudo de miopatia inflamatória, a droga de escolha é o corticoide. A gente faz 1mg/kg, podendo chegar até 100mg de dose máxima. Pode ser pela PREDNISONA oral ou por pulsoterapia venosa (METILPREDNISOLONA 1000mg/dia por 3 dias). Como decidir se vou fazer a pulsoterapira ou a droga oral? A pulsoterapia imunossuprime em uma pancada, no mesmo dia. Você toma pela manhã, a noite já está com o efeito máximo. Já o corticoide oral é algo mais arrastado, podendo passar até 30 dias para fazer o efeito. Se for um quadro mais grave é melhor a pulsoterapia, mas se for um quadro mais brando eu faço o corticoide oral sem desespero. Se terminar o tratamento com o corticoide e o paciente não melhorou, eu posso usar Azetioprina, Metotrexato, Micofenolato ou Ciclosporina. Se ele não respondeu eu associo o corticoide com a imunoglobulina e se ainda assim ele não respondeu eu posso tentar o Rituximabe. Caso não haja resposta com nada disso, rever diagnóstico. O tratamento para corpúsculo de inclusão é fisioterapia, não há medicamento. Quando eu trato o câncer, por vezes, eu curo a doença. Anti Jo 1 (+ grave). OBS: AUMENTO POLICLONAL EM GAMA GLOBULINA EU PENSO EM DOENÇA AUTOIMUNE (GAMAGLOBULINA = ANTICORPO).