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1 Beatriz Machado de Almeida Gastro - DRGE Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) Refluxo gastroesofágico • Deslocamento, sem esforço, do conteúdo gástrico para o esôfago; • Ocorre normalmente, várias vezes ao dia (cerca de 30X); O Esfíncter esofagiano inferior (EEI) não é hermeticamente fechado, por mais que tenha esfíncter interno (ponto de hipertonia) junto com os pilares do diafragma (compressão). • Se não houver sintomas ou lesão: fisiológico. Doença de Refluxo Gastroesofágico • Sintomas OU lesão de mucosa; Não precisa ter lesão macroscópica da mucosa. Basta ter os sintomas típicos. Se o paciente tiver a clínica compatível com a doença do refluxo, mesmo na ausência de esofagite ou inflamação da mucosa, ele tem doença do refluxo. A endoscopia de um paciente com DRGE pode não ter nenhuma alteração, pois o paciente não precisa ter lesão. Por outro lado, o paciente pode estar assintomático e ter esofagite, tendo a DRGE. • Alta prevalência. • Evolução crônica: O paciente que tem doença do refluxo, muito provavelmente, sempre vai ter doença do refluxo. Ele pode ter períodos assintomáticos, mas o problema é que depois volta. • Recorrência frequente: É muito comum que depois do tratamento, o paciente volte a apresentar DRGE. • Alto impacto na qualidade de vida: Ex. restrições alimentares, incômodo. • Boa resposta ao tratamento: tratamento correto + adesão às mudanças do estilo de vida = boa resposta. Todo paciente que tem manifestações clínicas de DRGE têm dispepsia, mas nem todo paciente com dispepsia tem DRGE. A pirose (manifestação clínica mais típica da doença do refluxo) é uma manifestação de dispepsia. O diagnóstico sindrômico da DRGE é dispepsia. É importante diferenciar D.sindrômico de diagnóstico etiológico. Ex.: Paciente que tem síndrome de insuficiência cardíaca: dispneia aos esforços, ortopneia, dispneia paroxística noturna. Qual o diagnóstico etiológico? Cardiopatia isquêmica, miocardiopatia chagásica, cardiopatia hipertensiva? Etiologia • Lesões da mucosa por contato com conteúdo gástrico: Pode ser uma lesão química que, não necessariamente, vai se manifestar de forma macroscópica na endoscopia. Se o refluxo é fisiológico, o paciente tem doença por quê? Porque vai existir uma falha na defesa do esôfago. Defesa do esôfago: Esfíncter esofagiano inferior: é um ponto de hipertonia (maior tônus muscular), localizado perto da transição do esôfago para o estômago. Nesse mesmo nível anatômico, a gente tem os pilares do diafragma que também ajudam no mecanismo de continência. Ponto de hipertonia + pilar do diafragma = esfíncter esofagiano inferior (interno – esôfago / externo – diafragma). Outra coisa importante: Existe um nível de pressão que o esfíncter esofagiano inferior consegue lidar. Na hora que aumenta a pressão intragástrica, ela pode ser mais forte do que a força do E.E.inferior, e aí volta mais. Se o refluxo é fisiológico, para ter a DRGE ... ou tá tendo refluxo demais (que vai além das defesas do esôfago) ou as defesas do esôfago falham. Obs: A figura é errada, mas o desenho é bom. O anel muscular identificado na primeira imagem não existe. 2 Beatriz Machado de Almeida Gastro - DRGE O epitélio do esôfago é formado por uma célula grudada na outra (¨juntas venceremos¨), que se protegem contra a entrada de substâncias químicas entre elas. Existe uma produção de muco para a proteção, sendo necessária a vascularização, prostraglandinas para que isso funcione. Capacidade de regeneração das células para substituição de uma célula lesionada. Peritalse (quando o conteúdo gástrico volta, a peristalse é capaz de rebater). Na hora que essas coisas falham, o paciente pode ter a DRGE. • Falhas na defesa do esôfago ➢ Esfíncter interno (EEI), esfíncter externo (diafragma); ➢ Pressão intra-gástrica, secreção gástrica; ➢ Depuração do ácido no esôfago; ➢ Resistência do epitélio. Ex.:Hérnia de hiato: um dos tipos é quando existe um deslocamento do esôfago pra cima. É possível visualizar uma parte do estômago acima do diafragma. Isso significa que não tem mais a concordância anatômica entre o ponto de hipertonia (esfíncter esofagiano inferior) e o diafragma, o que deixa a zona fraca e faz com que o refluxo volte mais. Ex2.: Paciente com pressão intra-gástrica aumentada: Aquele paciente que enche demais o estômago em cada refeição; uso de roupas apertadas; obesidade. Ex3.: Paciente diabético que tem neuropatia: peristaltismo e esvaziamento do estômago lentificado. Ex.4: Paciente com problema de regeneração do epitélio: paciente que fuma, bebe, usa anti- inflamatórios não hormonais (CASO). A própria peristalse do esôfago relaxa o esfíncter esofagiano inferior, com o controle do plexo mioentérico Manifestações clínicas Sintomas muito variáveis: Típicos, atípicos e extra- esofágicos. ❖ Típicos: ➢ Pirose e regurgitação; ➢ Piora após refeições em decúbito. Pirose ou azia: Varia de referência pra referência (geralmente caracterizadas como sinônimos). Dor em queimação no andar superior do abdome - Epigástrio que pode subir para o andar retroesternal. Azia – Dor em queimação do epigástrio – boca do estômago / Pirose – Dor na região retroesternal. A dor em região epigástrica é típica da DRGE, com ou sem subir pra região retroesternal. Uma das manifestações clínicas que está incluída no conjunto de sinais e sintomas da síndrome dispéptica é dor/desconforto em região superior do abdome. Portanto, a doença do refluxo, ao causar essa pirose/azia, faz parte do diagnóstico diferencial da síndrome dispéptica, sendo uma das causas mais comuns. Regurgitação: é quando o paciente sente que tem algum conteúdo voltando, podendo chegar até a boca (Gosto amargo/metálico). Piora quando ele deita por piora da gravidade ou após as refeições por conta do aumento da pressão intra-gástrica. Azia + Pirose + Sensação de regurgitação + piora ao deitar e após as refeições = Diagnóstico de doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). A endoscopia não é utilizada para fazer o diagnóstico da DRGE, e sim para investigar suas complicações. → O conteúdo do estômago pode subir até a boca, o que significa que ela faz uma irritação química no trajeto inteiro. A orofaringe tem uma relação anatômica/comum com a via respiratória, e isso pode fazer tosse, sinusite, asma de difícil controle ... ❖ Atípicos e extra-esofágicos: ➢ Tosse; rouquidão; faringite; bronquite; asma; pigarro; globus (sensação de bolo na garganta); roncos; laringite; sinusite; alterações dentárias. ➢ Podem ser os únicos sintomas. Quanto o paciente tem pirose, regurgitação e tosse crônica, fica fácil dizer que a tosse é por conta do Relação do estresse com DRGE: Certos tipos de alimentos são capazes de afrouxar o esfíncter esofagiano inferior (Ex: bebidas gaseificadas, frutas cítricas, alimentos gordurosos, chocolate, café, tomate). O estresse emocional afeta a defesa do organismo e a produção correta de prostaglandinas. Não é capaz de causar uma DRGE, mas é capaz de piorar sintomas. 3 Beatriz Machado de Almeida Gastro - DRGE refluxo. No momento que o paciente tem apenas a tosse crônica, fica difícil dizer o motivo. Manifestações de alarme Manifestações que não são pra existir na DRGE. ▪ Odinofagia (dor de garganta); ▪ Disfagia (dificuldade de deglutir); ▪ Sangramento; ▪ Anemia (por perda crônica de sangue); ▪ Perda ponderal. É necessário investigar os pacientes com essas manifestações, pois eles podem estar tendo complicações da DRGE. Supor complicações: quando o paciente tem sinais de alarme, história familiar de câncer de esôfago, estômago, surgimento da DRGE em idade avançada. Diagnóstico Sintomas clássicos permitem diagnóstico presuntivo sem a necesidade de exames complementares.Uma coisa é fazer o diagnóstico clínico. Outra coisa é saber se você vai ou não necessitar de exames complementares. Os exames, na presença dos sintomas clássicos, não são feitos para dar diagnóstico, e sim para pesquisar complicações ou ver se o paciente tem algum problema anatômico (ex.hérnia de hiato – doença de difícil controle). • EDA: Outras doenças (quando a gente acha que a síndrome dispéptica pode ser devido a uma úlcera, câncer), gravidade, complicações (mais temida – Esôfago de Barret); Caso o paciente já tenha 5 anos de diagnóstico de DRGE. • Esofagograma: Não é indicado de rotina (tá caindo em desuso); Disfagia, odinofagia. O paciente toma contraste via oral e aí se faz radiografia para observar a passagem do contraste. • Manometria esofágica (exame que mede a pressão): Indicações restritas (DRGE muito grave, que não melhora com nada); Avaliar E.E.inferior. Antes de fazer a cirurgia pra corrigir a DRGE, é necessário fazer a manometria pra ver se o esfíncter está realmente frouxo e tentar estimar a força necessária na fundoplicadura. • Phmetria prolongada: ¨padrão ouro¨, sintomas típicos sem resposta ao tratamento, manifestações atípicas (ex.pigarro crônico, tosse crônica, asma de difícil controle) sem esofagite na EDA, pré operatório (comprovação). É um padrão ouro que dificilmente é indicada, pois o diagnóstico da DRGE é clínico (pirose, azia, regurgitação). Pode ou não ser associada a impedância (avaliação do refluxo alcalino). Na prática clínica, o diagnóstico é confirmado através de um teste terapêutico. • Teste terapêutico: < 40 anos, sintomas típicos, ausência de sinais alarme (incluindo história familiar). TRATAR ... Melhorou? Diagnóstico! Complicações Apesar de ser uma doença com baixa mortalidade, existem complicações graves. • Esôfago de Barret – visível macroscopicamente ➢ Metaplasia intestinal; ➢ Epitélio escamoso → epitélio colunar, mais resistente; Substituição por um epitélio de duodeno. ➢ LESÃO PRÉ MALIGNA (30-125X mais risco de CA escamoso); ➢ Mucosa avermelhada; ➢ Vigilância endoscópica (2-3 anos. 6 meses de displasia). ❖ Metaplasia: é quando um epitélio é trocado por outro. É um epitélio saudável, mas no lugar errado; ❖ Displasia: é quando dentro do epitélio trocado começam a ocorrer mutações oncogênicas; Risco aumentando de câncer. • Úlcera péptica: pode levar a sangramento e anemia • Estenose: o conteúdo estomacal inflama a parede do esôfago, que acaba ficando mais estreita (fibrosada até), levando a disfagia, odinofagia, sangramento. Importante: Com que idade começou a doença do refluxo/azia/pirose? Com que idade começou a dispepsia do paciente? Dispepsia é coisa de gente nova/adulto jovem – 20-30 anos!!! Quando começa a partir de 40 anos, por si só, já é um sinal de alarme. 4 Beatriz Machado de Almeida Gastro - DRGE Tratamento • Eminentemente clínico; ➢ Medidas comportamentais e farmacoterapia. MEDIDAS COMPORTAMENTAIS NO TRATAMENTO DA DRGE ▪ Elevação da cabeceira da cama (15 cm); ▪ Moderar a ingestão dos seguintes alimentos, na dependência da correlação com sintomas: gordurosos, cítricos, café, bebidas alcóolicas, bebidas gasosas, menta, hortelã, produtos à base de tomate, chocolate; ▪ Cuidados especiais com medicamentos potencialmente ¨de risco¨, como colinérgicos, teofilina, bloqueadores de canal de cálcio, alendronato. ▪ Evitar deitar-se nas duas horas posteriores às refeições; ▪ Evitar roupas apertadas; ▪ Evitar refeições copiosas; ▪ Suspensão do fumo; ▪ Redução do peso corporal em obesos. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO • Antiácidos: medicamentos que vão combater o pH ácido, uma vez que o ácido já foi produzido. Ex. Hidróxido de alumínio, hidróxido de magnésio – não atuam na produção do ácido. Combatem o sintoma. Dose variável, a depender da concentração dos componentes. • Inibidores da bomba de prótons: Medicamentos que vão combater a produção de ácido clorídico. Ex. Omeprazol, lansoprazol, pantoprazol, rabeprazol, esomeprazol. Tratam a doença. Importante: O ácido clorídrico é produzido pela célula parietal a partir de 3 estímulos: Gastrina, histamina e acetilcolina com estímulo neurológico. Culminam na ativação de uma proteína que fica na membrana apical da célula parietal, que é a bomba de prótons. Essa proteína transmembrana vai pegar o hidrogênio e vai jogar na luz do estômago, onde o ácido clorídrico é formado. Eu posso agir nos estímulos de produção do Ác.clorídrico (Bloqueadores dos receptores H2 da histamina), porém os outros estímulos (grelina e acetilcolina) vão continuar funcionando – a bomba de prótons ainda vai ser ativada. A melhor opção é usar os Inibidores da bomba de prótons – 2-3 meses, 8-12 semanas - porque independente do estímulo, a produção de ácido vai ser diminuída. A diferença entre omeprazol, pantoprazol e esomeprazol é a mesma diferença de ir daqui até Feira de Santana de combi, de Ford ou de Mercedes. Os três te levam ao mesmo lugar ... a diferença é a rapidez, o conforto e o preço. • Procinéticos: estimula o peristaltismo. CIRURG IA É considerado o tratamento ¨definitivo¨, porém pode ter recorrência mesmo assim. • Fundoplicatura; Invasiva • Exceção: a resposta ao tratamento clínico é muito boa – verificar adesão. • Pacientes jovens (<40 anos) que não desejam terapia farmacológica (Inibidor da bomba de Próton) por tempo ilimitado; • Impossibilidade de tratamento clínico; • Falha do tratamento clínico? Geralmente, quando o paciente diz que o T.clínico falhou, é porque ele não está aderindo corretamente às medidas farmacológicas. Fundoplicatura: dá uns pontinhos no diafragma, libera o fundo do estômago, vasculatura, pega o fundo do estômago e dá uma volta no esfíncter esofagiano inferior e vai costurar. Criação de uma válvula (quando muito apertada, causa disfagia). Pode afrouxar e voltarem os sintomas.