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OBRA PUBLICADA 
COM A COORDENAÇÃO 
CIENTÍFICA
•
Série Diaita
Scripta & Realia
ISSN: 2183-6523
Destina-se esta coleção a publicar textos resultantes da investigação de membros do 
projeto transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia. As obras consistem 
em estudos aprofundados e, na maioria das vezes, de carácter interdisciplinar sobre 
uma temática fundamental para o desenhar de um património e identidade culturais 
comuns à população falante da língua portuguesa: a história e as culturas da alimentação. 
A pesquisa incide numa análise científica das fontes, sejam elas escritas, materiais ou 
iconográficas. Daí denominar-se a série DIAITA de Scripta - numa alusão tanto à tradução, 
ao estudo e à publicação de fontes (quer inéditas quer indisponíveis em português, caso 
dos textos clássicos, gregos e latinos, matriciais para o conhecimento do padrão alimentar 
mediterrânico), como a monografias. O subtítulo Realia, por seu lado, cobre publicações 
elaboradas na sequência de estudos sobre as “materialidades” que permitem conhecer a 
história e as culturas da alimentação no espaço lusófono.
Nelson H.S. Ferreira é investigador em História e Culturas Antigas na UI&D Centro 
de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido 
investigação e publicado no âmbito da cultura popular, literaturas, línguas e 
história social e do pensamento antigo das regiões mesopotâmica e mediterrânea. 
Recentemente tem-se dedicado ao impacto antropológico da dependência económica 
da produção agrícola nas culturas Suméria e Romana e à história da ciência.
O presente livro apresenta a primeira tradução para português do livro I de uma das 
obras mais relevantes de Galeno de Pérgamo. Este tratado sobre as propriedades dos 
alimentos oferece uma visão geral do saber de Galeno sobre as ciências naturais, mais 
precisamente, no âmbito do domínio da medicina e do conhecimento empírico sobre 
as propriedades da comida e da fisiologia. Ao abordar a natureza das coisas, Galeno 
de Pérgamo tende a usar um processo analítico baseado na relação entre diferentes 
elementos que interagem em um sistema particular. Relativamente aos antigos hábitos 
alimentares e à saúde, este modo de obter informação e formular hipóteses tem 
potencial para gerar hierarquias e está atestado no De alimentorum facultatibus I, 
no qual os alimentos são avaliados considerando o resultado particular do seu efeito 
no metabolismo de um paciente. Em suma, este livro é um paradigma da ciência de 
Galeno e pode explicar por si só o impacto de Galeno na ciência moderna.
Esta obra inclui uma tradução do De alimentorum Facultatibus I, uma breve 
introdução ao contexto da produção intelectual de Galeno e um estudo sobre o texto 
antigo e as informações que este traz a propósito do conhecimento dos estudiosos 
antigos sobre a fisiologia e as propriedades dos alimentos.
Nelson H. S. Ferreira
(trad.)
Galeno de Pérgamo
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
COIMBRA UNIVERSITY PRESS
As faculdades 
dos alimentos 
livro i
Série Diaita
Scripta & Realia
ISSN: 2183-6523
Destina-se esta coleção a publicar textos resultantes da investigação de membros do 
projeto transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia. As obras consistem 
em estudos aprofundados e, na maioria das vezes, de carácter interdisciplinar sobre 
uma temática fundamental para o desenhar de um património e identidade culturais 
comuns à população falante da língua portuguesa: a história e as culturas da alimentação. 
A pesquisa incide numa análise científica das fontes, sejam elas escritas, materiais ou 
iconográficas. Daí denominar-se a série DIAITA de Scripta - numa alusão tanto à tradução, 
ao estudo e à publicação de fontes (quer inéditas quer indisponíveis em português, caso 
dos textos clássicos, gregos e latinos, matriciais para o conhecimento do padrão alimentar 
mediterrânico), como a monografias. O subtítulo Realia, por seu lado, cobre publicações 
elaboradas na sequência de estudos sobre as “materialidades” que permitem conhecer a 
história e as culturas da alimentação no espaço lusófono.
Nelson H.S. Ferreira é investigador em História e Culturas Antigas na UI&D Centro 
de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido 
investigação e publicado no âmbito da cultura popular, literaturas, línguas e 
história social e do pensamento antigo das regiões mesopotâmica e mediterrânea. 
Recentemente tem-se dedicado ao impacto antropológico da dependência económica 
da produção agrícola nas culturas Suméria e Romana e à história da ciência.
Série Diaita: Scripta & Realia
Estudos Monográficos
Estruturas Editoriais
Diaita: Scripta & Realia
Estudos Monográficos
ISSN: 2183-6523
Diretora
Main Editor
Carmen Soares
Universidade de Coimbra
Assistente Editorial
Editoral Assistant
Daniela Pereira 
Universidade de Coimbra
Comissão Científica 
Editorial Board
Andrew Dalby
Investigador Independente
Inmaculada Rodríguez Moreno
Universidad de Cádiz, España
Joaquim Pinheiro
Universidade da Madeira, Portugal
John Wilkins
University of Exeter, UK
Jorge Paiva
Universidade de Coimbra
Reina Marisol Troca Pereira
Universidade da Beira Interior, Portugal
Todos os volumes desta série são submetidos a arbitragem científica independente.
Capa - Desenho Cover - Picture
Gemma Sàinz i Rodríguez;
Daniel Rabassa Ubed
Conceção Gráfica Graphics
Rodolfo Lopes
Infografia Infographics
Nelson Ferreira
Impressão e Acabamento Printed by
KDP 
ISBN
978-989-26-1692-6
ISBN Digital
978-989-26-1693-3
DOI
https://doi.org/10.14195/978-989-26-1693-3
Depósito Legal Legal Deposit 
Título Title 
As faculdades dos alimentos, Livro I (De alimentorvm facvltatibvs i)
Galen. On the properties of foodstuffs. Book I (De alimentorvm facvltatibvs i)
Autor Author
Galeno de Pérgamo Galen of Pergamon
Tradução do grego, Introdução e comentário 
Translation from the Greek, Introduction and Commentary
Nelson Henrique da Silva Ferreira
orcid.org/0000-0003-2637-3211
Revisão Científica de terminologia botânica por Jorge Paiva
Editores Publishers
Imprensa da Universidade de Coimbra
Coimbra University Press
www.uc.pt/imprensa_uc
Contacto Contact 
imprensa@uc.pt
Vendas online Online Sales
http://livrariadaimprensa.uc.pt
Coordenação Editorial Editorial Coordination
Imprensa da Universidade de Coimbra
© Julho 2020
Trabalho publicado ao abrigo da Licença This work is licensed under
Creative Commons CC-BY (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/pt/legalcode)
Imprensa da Universidade de Coimbra
Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis 
http://classicadigitalia.uc.pt
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos 
da Universidade de Coimbra
A ortografia dos textos é da inteira responsabilidade do autor.
Projeto CECH-UC: UIDB/00196/2020 - Centro de Estudos 
Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra
Série DIAITA
Scripta & Realia
Autor Author
Galeno de Pérgamo Galen of Pergamon
As faculdades dos alimentos, Livro I (De alimentorvm 
facvltatibvs i)
Galen. On the properties of foodstuffs. Book I (De 
alimentorvm facultatibvs i)
Tradução do grego, Introdução e comentário 
Translation from the greek, Introduction and Commentary
Nelson Henrique da Silva Ferreira
Afiliação Affiliation
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra
Resumo
 
O presente livro apresenta a primeira tradução para português do livro I de uma das obras mais relevantes 
de Galeno de Pérgamo. Este tratado sobre as propriedades dos alimentos oferece uma visão geral do saber de 
Galeno sobre as ciências naturais, mais precisamente, no âmbito do domínio da medicina e do conhecimento 
empírico sobre as propriedades da comida e da fisiologia. Ao abordar a natureza das coisas, Galeno de Pérgamo 
tende a usar um processo analítico baseado na relação entre diferentes elementos que interagem em um sistemaparticular. Relativamente aos antigos hábitos alimentares e à saúde, este modo de obter informação e formular 
hipóteses tem potencial para gerar hierarquias e está atestado no De alimentorum facultatibus I, no qual os 
alimentos são avaliados considerando o resultado particular do seu efeito no metabolismo de um paciente. Em 
suma, este livro é um paradigma da ciência de Galeno e pode explicar por si só o impacto de Galeno na ciência 
moderna.
Este livro inclui uma tradução do De alimentorum Facultatibus I, uma breve introdução ao contexto da 
produção intelectual de Galeno e um estudo sobre o texto antigo e as informações que este traz a propósito do 
conhecimento dos estudiosos antigos sobre a fisiologia e as propriedades dos alimentos.
Palavras-chave
Ciência antiga, Galeno, faculdade nutricional, cereais, pães, medicina antiga, comida, saúde.
Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a 
Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto CECH-UC: UIDB/00196/2020
Abstract 
The present book offers the first translation into Portuguese of the book I of one of the most relevant 
works of Galen of Pergamon. This treaty on the properties of foodstuffs presents a general view on the 
knowledge of Galen on natural sciences, more precisely, his medical expertise and the empirical knowledge 
on the properties of foodstuffs and physiology. When approaching the nature of things, Galen of Pergamon 
tends to use an analytic process based on the relation between different elements interacting in a particular 
system. With respect to ancient eating habits and health, this way of collecting information and formulating 
hypotheses has a kind of potential for generating hierarchies and is attested to in De alimentorum facultatibus 
I, in which foodstuffs are evaluated considering the particular result expected on a subject’s metabolism. In 
sum, this work is a paradigm of Galen’s science and may explain by itself the impact of Galen in modern 
science.
This book includes a translation of De alimentorum facultatibus I, a brief introduction to the context of Galen’s 
intellectual production and a study on the ancient text and the information it brings regarding the knowledge 
of ancient scholars on physiology and the properties of foodstuff.
Keywords
Ancient science, Galen, De alimentorum facultatibus, cereals, breads, ancient medicine, foodstuff, health.
This research is financed by national funds through the Foundation for Science and Technology, 
FCT, I.P., in the framework of the CECH-UC project: UIDB/00196/2020
Autor
Nelson H.S. Ferreira é investigador em História e Culturas Antigas na UI&D Centro 
de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido 
investigação e publicado no âmbito da cultura popular, literaturas, línguas e história 
social e do pensamento antigo das regiões mesopotâmica e mediterrânea. Recentemente 
tem-se dedicado ao impacto antropológico da dependência económica da produção 
agrícola nas culturas Suméria e Romana, à história da ciência e à gestão de conhecimento. 
Atualmente é Professor de várias disciplinas na EU Business School Barcelona.
Ciência ID 0513-1A91-26B0
ORCID ID0000-0003-2637-3211
https://ub.academia.edu/NelsonHenriqueSFerreira
https://es.linkedin.com/in/nelson-ferreira-264b6586
Author
Nelson H.S. Ferreira does research in History and Ancient Cultures at the Research 
Unit Centre of Classical and Humanistic Studies of the University of Coimbra. He has 
been researching and publishing within the scope of Mesopotamian and Mediterranean 
regions’ popular cultures, literatures, languages and social history and ancient thought. 
Recently his research has been dedicated to the anthropological impact of the economic 
dependence of agricultural production in Sumerian and Roman cultures, to history of 
science and to Knowledge Management. He is lecturer of several courses at EU Business 
School Barcelona.
Science ID 0513-1A91-26B0
ORCID ID0000-0003-2637-3211
https://ub.academia.edu/NelsonHenriqueSFerreira
https://es.linkedin.com/in/nelson-ferreira-264b6586
(Página deixada propositadamente em branco)
Sumário
Prefácio 13
Notas preliminares 17
Siglas, abreviaturas e convenções 19
De alimentorvm facvltatibvs e o saber de Galeno
I. A medicina na Antiguidade 23
1.1. A literatura cuneiforme e a tradição assíria 25
1.2. O Antigo Egipto 33
1.3. A medicina grega 37
1.3.1. Dos filósofos naturalistas à criação do corpus hipocrático 37
1.3.2. O momento da “Medicina Hipocrática” 40
1.3.3. O Período Helenístico e as ciências médicas 43
1.4. O lugar da ciência médica no Império Romano 
1.4.1. A magna Grécia e a Roma Republicana 47
1.4.2. A prática médica na Roma Imperial 51
II. Galeno de Pérgamo 
2.1. Notas biográficas 55
2.2. A obra em contexto 59
III. A ciência de Galeno no De alimentorvm facvltatibvs. 63
3.1. O debate científico e a intertextualidade 67
3.2. A linguagem nos ensinamentos de Galeno – proposta para um estudo necessário 71
3.3. A metodologia do saber e o contexto cultural: o léxico 73
3.3.1 Os grãos 76
3.3.2 Outros produtos: apontamentos sobre a variação vocabular 84
IV. O alimento como matéria de estudo médico 87
4.1. Os quatro humores: os agentes do metabolismo no corpo humano 91
4.1.1. Humores húmidos (ou aquosos) 92
4.1.2. Humores secos (ou estéreis) 93
V. as faculDaDes Dos alimentos, livro i 95
5.1. Título 96
5.2. O método da exposição no livro I: a retórica do médico 97
5.3. Livro I 98
5.3.1. Estrutura 98
5.4. A hierarquia dos pães e dos grãos 100
5.4.1. O cereal 101
5.4.2. O produto 
5.4.2.1. Pães puros/impuros: a proporção do farelo 105
5.4.2.2. As misturas: os pães-de-trigo e os pães-de-mistura 107
Apêndice: sobre os cereais e os pães (sistematização) 
1. Cereais 112
2. Tipos de farinha para panificação: considerações gerais 116
3: Tipos de pães identificados 118
4: Pães de cevada vs. Pães de trigo 122
as faculDaDes Dos alimentos, livro i 
Introdução 125
Capítulo I 141
Capítulo II 167
Bibliografia 
Edições críticas e traduções 187
Bibliografia geral 187
Sítios consultados na internet 201
Index locorvm 203
Index nominvm 205
Index rervm 207
11
Prefácio
“1790: At a retrospective exhibition of his works in London, he is suddenly 
taken ill with chest pains and is thought to be dying, but recovers sufficiently to 
supervise the construction of a hero sandwich by a group of talented followers. Its 
unveiling in Italy causes a riot, and it remains misunderstood by all but a few critics.
1792: He develops a genu varum, which he fails to treat in time, and succumbs 
in his sleep. He is laid to rest in Westminster Abbey, and thousands mourn his 
passing. At his funeral, the great German poet Holderlin sums up his achievements 
with undisguised reverence: “He freed mankind from the hot lunch. We owe him 
so much.”
Woody Allen (1991), the Complete Prose of Woody Allen. Getting Even, p.181.
"Für eine pinipom, 
die in einer Wäscherei erschient"
À minha família
in memoriam 
Francesc Rodríguez Molinet
Luísa de Nazaré Ferreira
(Página deixada propositadamente em branco)
13
Prefácio
Prefácio
‘A ciência antiga está datada e, portanto, ultrapassada, pelo que não faz 
sentido investir recursos para a divulgação desta e tampouco redescobri-la.’ 
De uma maneira geral, este parece ser o mote que inspirou alguns decisores e 
regedores com impacto no financiamento da ciência europeia. Provavelmente 
a falta de transversalidade e interação dos vários campos científicos é a força 
motriz desta circunstância e acaba por aparentar um ainda remanescente 
provincianismo no pensamento social e político, que inevitavelmente se estende 
às academias que dão ares de um despercebido e desinteressado, mas ainda assim 
pesado, intelectualismo reacionário ao progresso, à mutação e às convergências 
das várias áreas do saber. Obviamente, deve ser reconhecida a inevitável e natural 
resistência de estruturas seculares que necessitam de tempo e de recursos paraproceder a uma transformação generalizada da relação estado/sociedade/ciência. 
Por outro lado, a constante subordinação a uma lista de prioridades dos 'Estados 
Sociais' que constantemente enfrentam desafios orçamentais de curto prazo, não 
ajuda a dotar os sujeitos envolvidos no desenvolvimento científico de ferramentas 
capazes de acelerar e melhorar o processo de evolução das academias e centros 
de saber. 
Note-se que a rudimentar análise, acima exposta, algo superficial e em 
grande medida injusta para muitos dos atores envolvidos quer do ponto de vista 
político, quer científico, roça apenas a verdadeira dimensão do problema e não 
reflecte propriamente uma realidade, mas a aparência da mesma gerada por uma 
certa desinformação mediática e falta de diálogo construtivo entre as diversas 
áreas do saber e a ainda insuficiente aproximação criativa aos vários setores que 
compõem a economia. Ora, as instituições de ensino e ciência, ainda que em 
grande medida banhadas pelo iluminismo inquisitivo da ciência e dedicadas 
à empresa do questionamento do universo natural e humano, quer seja por 
necessidade, quer por imposição contextual, acabam por resistir à unificação da 
ciência enquanto massa de saberes complementares e para a qual alertara já o 
próprio Galeno de Pérgamo, há cerca de dois milénios.
Apesar das limitações que lhe são impostas, não significa isto que a ciência 
nacional esteja de alguma forma emperrada; sucede antes avançar a solavancos 
e saltos, evitando um progresso natural e favorecendo desequilíbrios entre os 
vários campos científicos, não só no que à própria investigação diz respeito, mas 
também no impacto causado aos vários setores da sociedade e ao desenvolvimento 
de massa crítica de receção. Portanto, a sociedade e a ciência, tendencialmente, 
não evoluem como pares, pelo que são grandes os desentendimentos por parte 
14
Nelson H. S. Ferreira
da comunidade social sobre aquilo que é ciência e de que forma é útil a curto, 
médio e longo prazo. Tal circunstância apenas potencia maiores desequilíbrios e 
mais desentendimentos - terreno fértil para uma certa letargia dos responsáveis 
políticos.
Perante este cenário e seguindo a narrativa profetizada pela atuação e 
pensamento pré-memorizado de muitos dos ideários mediatizados - unicamente 
ao serviço de um sistema estanque e escudados em uma suposta economia do 
desenvolvimento que na verdade não entendem, dado que esta mesma se baseia 
em várias ciências –, algures num futuro não muito distante, poderemos gerar 
autênticos sábios conhecedores da anatomia humana, sem que estes reconheçam 
verdadeiramente em que medida um braço partido afeta a existência de um 
indivíduo; formar engenheiros capazes de desenvolver supercomputadores com 
a linguagem matemática do universo, mas sem a capacidade de criar ideias para 
a sua aplicação; ou linguistas capazes de decompor o discurso e palavra em 
signos a um quase ‘nível atómico’, mas que tenham olvidado ser o pensamento 
abstrato a fonte da palavra e, portanto, a génese do mais belo dos poemas, do 
mais espetacular jogo de cores e sombras de uma tela, ou da mais apaixonante 
das melodias. Tais futuros expoentes máximos do saber serão os responsáveis 
de formar as gerações seguintes. Nessa medida, qual o futuro que realmente 
nos espera, se a desumanização do saber tal qual a fazemos notar é, em última 
instância, a sua própria anulação?
Transcorridos 19 séculos desde o exercício do famoso médico, cujo trabalho 
apresentamos neste volume, obviamente muita coisa mudou e em escalas que 
o sábio antigo jamais poderia supor. Todavia, as pedras na engrenagem por 
suposta hierarquia de prioridades subsistem a um nível incompreensivelmente 
díspar com o estado atual do saber global.
Contudo, o facto de nos dias de hoje projetos como este terem o apoio 
das instituições, ainda que ténue, e o empenho de muitas pessoas dedicadas a 
divulgar o saber pelo saber, leva-nos a crer que o futuro da ciência, apesar de 
incerto, não é de todo cinzento e pode inclusive revelar-se risonho, ainda que 
dependente de profundas transformações sociais e políticas.
Objetivamente, qual é o ganho social e cultural gerado pela tradução, estudo 
e publicação de uma obra cujo conteúdo científico está já ultrapassado pelo 
saber moderno? O problema não reside tanto na subjetividade de uma resposta, 
eterna geradora de controvérsia e debate, cuja fação vitoriosa seria a que tivesse 
o melhor domínio da retórica produto/efeito e não tanto a detentora do melhor 
senso argumentativo. Ora, julgamos ser a própria pergunta o busílis do enigma, 
repetido vezes sem conta, quando em causa estão as ciências humanísticas ou as 
ciências de inquirição teórica. O mesmo é dizer que a pergunta não surge por 
uma duvidosa pertinência deste ou daquele saber, mas sim pela materialidade do 
mesmo. Se o suposto saber não se converte em um consumível ou num serviço, se 
não promove um desenvolvimento imediato de alguma das atividades humanas, 
15
Prefácio
nem estimula a curto prazo a economia de consumo, então, esse saber é ‘estético’. 
Isto é, uma inutilidade prática que fica bem em apontamentos de um discurso ou 
na sala de estar como um bibelô exótico trazido de um qualquer destino ao qual 
se vai de passeio turístico uma única vez. Na verdade, não importa se em causa 
está um tratado médico cujo saber científico está desatualizado e de pouco pode 
servir para um diagnóstico moderno ou se tratamos um estudo matemático da 
astrofísica teórica para encontrar a origem do universo e quiçá descobrir um deus 
arquiteto ou pôr em causa a existência do mesmo por A+B/C2. Se a pergunta 
está errada na sua essência, ou seja, se não podemos questionar a legitimidade 
e a necessidade de um estudo, como se pode separar o trigo do joio? Pois esta é 
a questão que deveria dar o mote a qualquer inquirição à ciência: filtro, há que 
filtrar, há que estudar, ensaiar, comparar, debater e fazer uso de todo e qualquer 
verbo que, para um autor como Galeno, servisse de motor da ação/reação para o 
entendimento do mundo, independente do seu momento histórico. Se realmente 
almejamos entender o universo em que vivemos e julgar todos os seus processos 
– sejam físicos, bioquímicos, matemáticos, sociais, humanos, administrativos, 
económicos ou, seguindo ‘a ordem do dia’, financeiros -, necessitamos da 
aplicação dos 6 sentidos do saber. Os quais, não podemos identificar e explicar 
sem recorrer a uma empolada metáfora ou dissecação que não teria espaço 
neste texto. Porém, poderíamos arriscar dizendo que os estudos no âmbito 
das humanidades representariam o 6º sentido ou a ‘sensação’, o mecanismo do 
entendimento abstrato. A ciência faz-se pelo complemento das várias áreas do 
saber e da mesma forma que o movimento mecânico do corpo humano perde 
equilíbrio, se um dos ouvidos não funciona de acordo, também a ciência se faz 
irregular e pouco assertiva no movimento, se alguma das suas áreas é esquecida.
4 de dezembro de 2016, Barcelona
(Página deixada propositadamente em branco)
17
Notas preliminares
Notas preliminares
Seguimos a numeração de parágrafos do texto grego estabelecido por 
Helmreich (1923), dado que esta é a edição de referência para o estudo e 
tradução que aqui se publica. Optámos por manter a numeração do editor de 
modo a facilitar a consulta do texto original por parte do leitor. No entanto, 
por uma questão de coerência com a própria tradução, houve alguma variação 
relativamente à numeração original, de modo a evitar divisão de palavras ou 
devido às mudanças sintáticas inerentes a uma tradução. Identificámos também 
os títulos de cada texto, seguindo os critérios do próprio editor, acrescentando em 
nota a versão grega. Pretendemos com a inclusão do texto grego e da numeração 
editorial tornar este trabalho mais acessível enquanto ferramenta de estudo. A 
propósito, notamos que os títulos de cada capítulo do livro I não podem ser 
atribuídos a uma escolha do próprio Galeno, antes correspondem a opções do 
editor,as quais optámos por seguir.
Dado o caráter técnico da obra que tratamos e na tentativa de preservar o 
sentido original do texto, optámos por, de maneira geral, identificar em nota de 
rodapé o léxico grego que compõe a massa crítica da obra que aqui tratamos, 
mais concretamente, palavras referentes a géneros alimentares ou botânicos. 
Não procedemos da mesma forma com o léxico cuja tradução direta para a 
língua portuguesa é possível e cujo significado é amplamente conhecido. A 
exceção é feita nos casos de aparente correspondência direta entre o léxico grego 
e o português, mas cujo étimo grego apresenta variedade de significados ou 
ambiguidade na possível interpretação. Tal sucede frequentemente com plantas, 
constituintes do aparelho digestivo e funções fisiológicas. Nesse sentido, notamos 
que, os referentes modernos para a terminologia antiga, botânicos e fisiológicos, 
seguem de uma maneira geral as notas de Powell (2003), pelo que as excepções 
são comentadas nas notas à tradução. 
Se em algum momento a linguagem usada na tradução aparenta 
desfasamento com a terminologia médica moderna, dever-se-á ao próprio texto 
grego, que reflete um outro contexto científico, ainda em génese, cuja língua não 
expressava ainda de forma objetiva, cristalizada e universal todos os conceitos 
que descrevia. Nesse sentido, tentamos aproximar-nos da realidade original, em 
vez de fazer uma adaptação que, em boa verdade, nem teria validade terapêutica, 
nem precisão histórica e tampouco teríamos a capacidade de respeitar o rigor 
inerente à ciência moderna. O estudo da história da ciência grega e romana 
é desenvolvido por filólogos de uma maneira geral, uma vez que a capacidade 
ler textos na língua original é imperativa para o entendimento dos mesmos. 
18
Nelson H. S. Ferreira
No entanto, o domínio hermeneútico do texto por si só não é suficiente para o 
entedimento dos textos já que o conhecimento expresso pode reflectir áreas do 
saber para as quais é necessária preparação técnica. A propósito caberá marcar o 
que escreveu Leven (2004):
“There is, however, in such works the notion that something may be missing 
in fully understanding medicine of a certain time and culture. Does a medical 
historian of ancient medicine need, in addition to his philological and historical 
skills, a medical education? And in what way is a ‘medical approach’ to ancient 
medicine useful? Is it possible to stand at the bedside of a Hippocratic patient 
as a clinician or reconstruct the ‘pathocoenosis’, as Mirko D. Grmek (f 2000) 
coined it, of ancient Greece? The present paper outlines the problem of 
applying present medical knowledge to ancient sources and touches on the 
topic of primary perception of disease and illness. An important aspect is 
that disease entities change in their socio-cultural setting. Examples ranging 
from the supposed Lupus erythematodes of the Assyrian king Esarhaddon to 
cases in the Hippocratic Epidemiae and plague descriptions of Greek authors 
illustrate the problem of retrospective diagnosis.”
As opções comentadas refletem o caráter académico desta obra, ainda que 
importe salientar que este trabalho se destina tanto ao leitor curioso como ao 
investigador de qualquer área do saber.
Parte deste estudo foi desenvolvida durante o ano letivo de 2012/2013, 
durante uma missão científica na Freie Universitat Berlin (Alemanha) suportada 
pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. 
A fase final do mesmo, foi concluída já sob o apoio da Fundação para a Ciência 
e Tecnologia, no âmbito da bolsa de investigação SFRH/BD/93806/2013.
Por último, devemos notar e agradecer o valioso contributo da Prof. Doutora 
Carmen Soares que valorizou este trabalho com o seu saber e critério. Do 
mesmo modo, agradecemos o contributo do Prof. Doutor Jorge Paiva (Biólogo), 
cujo conselho e revisão emprestou fundamento científico na área da botânica 
e permitiu uma mais ajustada aproximação à flora comentada por Galeno de 
Pérgamo. 
19
Prefácio
Siglas, abreviaturas e convenções
Cato Agr. – Cato. De Agri Cultura. (Mazzarino 2010).
CMG 6 – Galeni de alimentorum facultatibus libri iii. Corpus Medicorum Graecorum. 
(Helmreich 1923).
BNP – Cancik, Hubert; Schneider, Helmuth; Landfester, Manfred (eds.) 
(2007), Brill ’s New Pauly. Encyclopaedia of the Ancient World. Vol.1-10. 
Leiden, Brill.
BNP Supplements I – Landfester, Manfred, Egger, Brigitte (eds.) (2009), Brill ’s 
New Pauly Supplements I. Dictionary of Greek and Latin Authors and Texts. 
Vol.1-2. Leiden, Brill.
CDLI – Cuneiform Digital Library Initiative, http://cdli.ucla.edu/ 
Cic. Off. – Cicero. De Officiis. (Winterbottom 1994).
Col. – L. Iuni Moderati Columellae Res rustica. (Rodgers 2010).
ePSD – The electronic Pennsylvania Sumerian Dictionary Project
De alim. – De alimentorum facultatibus
ETCSL – The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature
GI – Montanari, Franco (ed.) (2004), GI – Vocabolario della língua greca. Torino, 
Loescher.
JB - UTAD Jardim Botânico - http://jb.utad.pt/
LSJ – Liddell, H.G., Scott, R. and Jones, H.S. (1968), Greek-English Lexicon, ed. 
9 with a Supplement, Oxford, Oxford University Press.
Met. – Aristotle. Vol. XVII. The metaphysics I. Books I-IX. (Goold, Tredennick 
1980).
MSL – Materials for the Sumerian Lexicon (Rome).
OCD – Simon, Hornblower; Spawforth, Antony (eds.) (1996), The Oxford 
Classical Dictionary. Oxford, Oxford University Press.
Plin. Nat. – Plinio. Naturalis Historia (Mayhoff 1967a–2002b)
HP. – Teofrasto, história das plantas (Silva 2016).
Var. R. - M. Terenti Varronis Rerum Rusticarum Libri Tres. (Goetz 1929).
Convenções gráficas:
() – texto subentendido acrescentado pelo tradutor.
[] – reconstrução do editor.
(Página deixada propositadamente em branco)
21
Prefácio
De alimentorum facultatibus e o 
saber de Galeno
(Página deixada propositadamente em branco)
23
Notas preliminares
I. A medicina na Antiguidade
“Notre sensibilité occidentale encore aujourd’hui, nos repères intérieurs 
habituels ont une double source: Jérusalem et Athénes. Plus exactement, notre 
héritage intellectuel et éthique, notre lecture de l’identité et de la mort nous 
viennent directement de Socrate et de Jésus de Nazareth. Aucun des deux ne fit 
profession d’être auteur, sans même parler de publication.”
Steiner, George (2006), Le Silence des livres, p.9.
Muito provavelmente, numa hipotética lista de celebridades da história 
das ciências naturais e médicas, Galeno de Pérgamo sucederia a Imhotep1 e a 
Hipócrates2 como o mais famoso médico da tradição antiga. De facto, o sábio 
grego deixou um legado que acabaria por constituir uma incontornável referência 
para as práticas terapêuticas ocidentais por mais de um milénio. Praticamente 
desde o momento em que foi dada a conhecer, a obra de Galeno terá servido de 
compêndio para terapias e acompanhamento de doentes convalescentes, tendo 
os mesmos textos permanecido autênticas autoridades para a instrução médica 
até ao período histórico moderno (finais do século XIV).
O recurso à obra de Galeno por parte daqueles que estudavam medicina, 
em detrimento de muitos autores que o antecederam, justificou-se pela 
maneira como este tentou abarcar nos seus escritos parte do debate ‘científico’ 
contemporâneo, contrastando informação e estendendo o debate sobre o objeto 
em estudo a outros autores. Dessa forma, a obra de Galeno fez-se uma autêntica 
enciclopédia médica ao reunir uma grande parte do saber médico do espaço do 
mediterrâneo antigo. A influência do sábio grego estender-se-ia por largo espaço 
temporal e geográfico, uma vez que a obra galénica terá sido lida, estudada, 
comentada e levada à prática em toda a vasta região da bacia do mediterrâneo, 
Europa do Norte, mesopotâmia, península arábica e golfo pérsico (moderno 
Irão) por mais de um milénio.
Maimónides (c.1135-1204), um dos grandes filósofos do período medieval 
e estudiosos da lei judaica (Halakhah; Twersky 2001, pp. 227-244), terá sido 
1 Para além dosfeitos arquitetónicos que a tradição antiga egípcia lhe atribui, o sábio egípcio 
terá sido considerado o grande cultor da medicina no antigo Egipto (Kolta & Hommel 1973 e 
Brandt-Rauf & Brandt-Rauf 1987). Tanto na mundividência egípcia antiga como helenística, 
Imhotep terá sido um personagem histórico e chegou a ser dignificado com culto (vide Kákosy 
1968). O culto a Imhotep chegou a ser associado à veneração da divindade Asclépio por parte 
dos antigos gregos (vide Frankfurter 1998, p. 64, 72 e 157).
2 Sobre a transmissão do saber hipocrático e a constituição do corpus que serviu de referência 
para autores antigos e modernos, vide Totelin 2013.
24
I. A medicina na Antiguidade
um dos mais célebres exemplos da intemporalidade e alcance geográfico de 
Galeno na ciência antiga e medieval, dada a profunda inspiração de Galeno na 
construcção da sua obra3. O estudioso cordovês terá sido um eminente médico 
estabelecido na cidade do Cairo e praticante dos princípios essenciais do saber 
galénico: a saúde como combinação da dieta correta e a virtude moral (Bos 1994; 
Schipperges 1996).4 Os contributos do filósofo judeu para as práticas médicas 
no período medieval mediterrâneo tiveram pouco paralelo, ainda que os seus 
trabalhos não tenham tido demarcável celebridade ao longo da história moderna 
– muito por culpa da maior relevância da demais obra para a filosofia e para os 
estudos hebraicos. Porém, é possível afirmar com alguma certeza que este sábio 
terá sido uma importante ‘voz galénica’, entre as muitas registadas à época, na 
divulgação da ciência médica e, como tal, um exemplo do impacto da obra de 
Galeno na cultura ocidental.
Em boa verdade, a influência dos tratados de Galeno no debate científico 
e na prática da medicina foi de tal ordem extensível no espaço e no tempo, 
que ainda no século XVI havia autores empenhados em diminuir-lhe o valor 
e questionar a pertinência das suas conclusões, nomeando-o de forma a notar 
a falibilidade das práticas galénicas. Exemplo disso mesmo terá sido o médico 
renascentista Paracelso (Powell 2003, p. 1 e Pagel 1964, p. 315). As tentativas 
de desacreditação do autor antigo, independentemente da validade científica das 
mesmas, confirmam de certa forma a relevância do sábio grego ao indiciarem 
que Galeno seria ainda um guia para alguns médicos de então. Provavelmente 
por esse motivo havia a necessidade, da parte de médicos e cientistas modernos, 
de criticar os saberes medicinais baseados nos tratados galénicos, fosse por 
estarem desatualizados no saber científico, fosse por simplesmente assentarem 
em bases provadas como erróneas. Ainda assim, o nome de Galeno não deixou 
de ser citado até aos princípios do século XVIII, principalmente pela medicina 
de caráter holístico e pela farmacologia tradicional.
3 Para exemplos da influência técnica de Galeno na obre de Maimónides, vide Bos 2009 e 
também Bos e Garofalo 2007.
4 Maimónides estudou medicina em Fez (Marrocos) entre c.1158-1165, depois de ter fugido 
de Córdoba por causa das perseguições levadas a cabo pelo regime muçulmano dos Almóades. 
Em c.1165 estabelece-se juntamente com a família na cidade do Cairo, onde inicia a prática 
médica como forma de subsistência. Sobre a vida e obra do sábio medieval, vide Seeskin (ed.) 
2005. Para uma análise da obra intelectual de Maimónides, vide Rudavsky 2010.
25
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
1.1. A escrita cuneiforme e a tradição assíria
Partindo da invenção da escrita enquanto referência cronológica para a 
história da medicina, é na antiga Suméria do 3º milénio a.C., atual sudeste 
iraquiano, que encontramos as primeiras notícias textuais referentes a 
enfermidades e métodos terapêuticos. O texto mais antigo conhecido foi 
descoberto nas ruínas da cidade suméria de Nippur e data do final do terceiro 
milénio. A tabuinha de argila contém um conjunto de prescrições terapêuticas 
e antecede em dois milénios àquela que é até hoje considerada a mais antiga 
coleção de textos do género descoberta até hoje, encontrada na cidade assíria 
de Niniveh. Datado do século VIII a.C., o conjunto de cerca de 800 tabuinhas 
contendo saber terapêutico teria sido reunida a mando do rei Ashurbanipal. 
(Bertman 2003).
No entanto, talvez seja sumamente anacrónico considerar as práticas de 
então como medicina per se, dado que o próprio entendimento da doença não 
se baseava em princípios exclusivamente bio-orgânicos ou psicossomáticos, mas 
antes num saber empírico montado através de observações analíticas e muitas 
vezes sustentado pela superstição religiosa ou pela práctica ritual. O padecimento 
poderia ser considerado o resultado da ação de demónios malignos5, do castigo dos 
deuses, de feitiços ou mesmo de sucessos naturais, ainda que frequentemente os 
fenómenos da natureza fossem explicados pelo mundo sobrenatural. No entanto, 
apesar da superstição inerente a tais conceções, a elaboração de diagnósticos 
e procedimentos terapêuticos não seria de todo aleatória e anárquica, dado 
que acarretaria um conjunto de procedimentos e metodologias coincidentes 
com especialização e prática de um determinado campo do saber. A literatura 
mesopotâmica sobrevivente, dedicada a essas questões, diferencia o diagnóstico6 
da terapia7 e divide-se em duas categorias: a literatura de diagnóstico e a 
literatura de instrução terapêutica ou de conduta.8 Neste ponto devemos notar 
que a literatura mesopotâmica não corresponde a um corpus escrito numa única 
língua e enquadrável numa única cultura, região ou período cronológico.
Apesar da ideia de ‘enfermidade’ não encaixar em critérios científicos atuais, 
certos textos sumérios e acádios dão-nos conta de formas de combate à doença 
5 Referimo-nos a ‘demónios’ num contexto pré-cristão, ou seja, como entidades espirituais 
da natureza.
6 Para textos acádios, refletindo diagnósticos e prognósticos, vide Scurlock 2014, pp. 13-271.
7 Para notícias textuais de várias terapias aplicadas a diferentes condições, vide Scurlock 
2014, pp. 359-645.
8 Para um estudo alargado da antiga medicina babilónica, vide Geller 2010.
26
I. A medicina na Antiguidade
que poderíamos, sob o prejuízo ocidental moderno, identificar como algo entre 
a superstição e o empirismo prático. Todavia, tal não invalida uma abordagem 
prática e material ao estado de saúde e às suas condicionantes. De facto, pode 
falar-se de uma especialização profissional – algo que implicaria ensino e 
preservação de conhecimentos -, uma vez que os responsáveis pelo diagnóstico 
e terapia do paciente tinham uma designação própria e generalizada: eram 
denominados por āšipu (cf. ePSD). Nesse sentido, estariam estabelecidos dois 
tipos de abordagem à enfermidade, que não se excluíram mutuamente, sendo 
até complementares: 
1ª) O tratamento pelo uso da razão e análise, refutados pela experiência e 
tradição. Esta metodologia terapêutica implicaria o uso de preparados ou subs-
tâncias (puras) para uso tónico ou ingestão e que poderiam incluir ingredientes 
derivados de animais, ervas ou minerais. Destas tarefas ocupar-se-iam especia-
listas a que anacronicamente chamaríamos de farmacêuticos ou boticários e que 
poderiam ser designados por asû (cf. ePSD). 9
2ª) O tratamento através da magia ou do ritual, que incluiria feitiços, rezas 
e rituais com o intuito de afastar o ‘mal mágico’, ganhar a benevolência dos 
deuses, derrotar demónios, curar um espírito enfermo ou potenciar o recobro 
através das artes mágicas.10
A possibilidade de complementaridade entre este tipo de tratamentos 
residiria na própria especificidade da noção de ‘doença’. Isto porque, se por 
um lado tanto a tradição popular como as crenças religiosas e superstições 
associavam o ‘mal’ intrínseco à doença ao plano sobrenatural e, por isso mesmo, 
inacessível ao humano e dependente de forças com capacidade de promover o 
equilíbrio/desequilíbrio; por outro lado, a experiência, a análise de vários casos 
similares e a verificação dos resultados da aplicação de determinados preparadosou substâncias teriam que inevitavelmente produzir algum tipo de razoamento 
empírico passível de ser preservado pela tradição popular ou por algum tipo de 
profissionais curandeiros, cuja eficiência seria essencial para a preservação das 
suas funções. De resto, chegaram a ser previstas sanções legais contra médicos 
em tratamentos e cirurgias mal sucedidas. O código de leis de Hammurabi (c. 
1754 a.C.) dá-nos conta disso:
215. šumma asum awīlam simmam kabtam ina karzilli siparrim īpušma awīlam 
ubtallit u lu nakkapti awīlim ina karzilli siparrim iptēma īn awīlim ubtallit, 10 
šiqil kaspam ileqqe.
9 Para um estudo de textos de caráter farmacológico, vide Scurlock 2014, pp. 273-294.
10 Para notícias de caráter holístico nas práticas médicas mesopotâmicas, vide Scurlock 2014, 
pp. 647-703.
27
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
216. šumma mār muškēnim, 5 šiqil kaspam ileqqe.
217. šumma warad awīlim, bēl wardim ana asîm 2 šiqil kaspam inaddin.
218. šumma asûm awīlam simmam kabtam ina karzilli siparrim īpušma awīlam 
uštamit u lu nakkapti awīlim ina karzilli siparrim iptēma īn awīlim uḫtappid, 
rittašu inakkisū.
219. šumma asûm simmam kabtam warad muškēnim ina karzilli siparrim īpušma 
uštamīt, wardam kīma wardim iriab.
220. šumma nakkaptašu ina karzilli siparrim iptēma īnšu uḫtapid(!), kaspam 
mišil šīmišu išaqqal. (Szlechter, ll. 215-20 (XLI [Rv. XVHI]:55-XLII [Rv. 
XIX]:35)
215. “Se um médico tiver feito uma incisão profunda com a faca de cirurgião 
num homem e lhe tiver salvado a vida; ou se tiver operado a órbita do olho de 
um homem e tiver curado a visão daquele, deverá receber dez šikil de prata.”
216. “Se (o doente) for filho de um trabalhador, ele (o médico) deve receber 
cinco šikil de prata.”
217. “Se for um escravo, o senhor do escravo deve dar ao médico dois šikil de 
prata.”
218. “Se um médico fizer uma incisão profunda com a faca de cirurgião 
num homem e tiver provocado a morte do homem, ou se tiver operado 
a órbita do olho de um homem e tiver deixado o homem cego, devem 
cortar-lhe a mão.”
219. “Se um médico tiver feito uma incisão profunda com a faca de cirurgião 
num trabalhador, escravo de um homem, e lhe tiver causado a morte, ele (o 
médico) deverá pagar ‘um escravo por escravo’.”
220. “Se (o médico) tiver operado a órbita do olho (do escravo) e lhe tiver 
destruído visão, (o médico) deverá pagar metade de seu valor em prata.” (Cf. 
trad. Richardson 2005) 
Sobre o conhecimento e preparação destes ‘médicos’ pouco ou nada se sabe, 
pois até aos dias de hoje não foram encontradas provas inequívocas da instrução 
a que teriam acesso ou exatamente quais as ferramentas físicas e intelectuais ao 
seu dispor.11 Porém, este excerto do código Hammurabi deixa claro tratar-se de 
uma atividade profissional remunerada e regulada por uma legislação específica, 
que visava garantir a eficiência do exercício da mesma. Algo que não só poderia 
dissuadir charlatães, como também potenciar o estudo e desenvolvimento de 
técnicas que permitissem um tratamento mais eficaz e, portanto, mais rentável e 
seguro tanto para o médico, como para o paciente.
As fontes sumérias dedicadas à terapêutica são algo escassas; com a exceção 
de alguns feitiços para a cura do envenenamento provocado por animais 
peçonhentos, praticamente não existem noticias que permitam reconstruir a 
11 A propósito do treino médico, vide Geller 2010, pp. 130-140.
28
I. A medicina na Antiguidade
prática medicinal ou a falta da mesma na antiga mesopotâmia do 3º e 2º milénio 
a.C. Alguns textos fragmentados vão dando conta da arte da cura, a maioria das 
vezes associada à divindade, porém, a informação aí contida é, frequentemente, 
apenas sugestão de uma terapêutica e não a descrição da mesma. Veja-se como 
exemplo o seguinte excerto de um hino sumério dedicado à deusa Ninisina:
10. nam-a-[zu] lu2 til3-le lu2 X X [...]
11. nin tu6 dug4-ga-[ni]-ta lu2 [X] sag9 [X X] X X kum2-mu 12 
10. As tuas capacidades curam o homem, [……] homem.
11. Senhora cujo feitiço [X] beneficia o homem e dá [...]13
O mesmo sucede em grande medida com as fontes acádias do 2º milénio 
a.C., cujo corpus textual debruçado sobre o tema médico se resume a pouco mais 
de uma centena de pequenas tábuas de argila com textos escritos em cuneiforme. 
Nesse sentido, a grande maioria das fontes escritas da antiga mesopotâmia 
sobre estes temas remontam aos impérios Neoassírio, Neobabilónico e Persa 
(século IX-IV a.C.), sendo a grande parte proveniente das antigas cidades Assur, 
Nineveh, Sippar, Babilónia e Uruk.14
Apesar de poucas e dispersas tanto no espaço geográfico onde foram 
encontradas. como nas cronologias a que pertencem, as provas literárias chegadas 
aos dias de hoje demonstram uma prática continuada da medicina desde o 
segundo milénio a.C., enquadrada num ambiente de especificidade técnica 
visível em listas lexicais bilingues.15 Repare-se que a ênfase dada a determinados 
términos técnicos, tais como aqueles que identificam o exorcista, não eliminam 
de todo uma prática ‘profissional’ da terapia racional enquadrável nas conceções 
culturais dos povos mesopotâmicos. A generalização terminológica notada 
na denominação do ‘médico exorcista’ teria mais a ver com a interpretação 
dos resultados por parte destes especialistas, pois ao eliminar a enfermidade, 
estariam de certa forma a dominar os espíritos naturais responsáveis pela 
mesma, independentemente de se ter simplesmente estancado uma hemorragia, 
tratado um desarranjo intestinal com fármacos ou alimentação, procedido a um 
exorcismo ritual ou rezado a um deus pela sua intervenção na cura. A propósito 
12 Fontes: ETCSL c.4.22.4; Sjöberg 1982.
13 Vide também ‘Letter from Inanaka to the goddess Nintinuga’, ll. 1-9; comp.t.: Ali 1964, 
pp. 137-143; ETCSL c.3.3.10. E também ‘A dog for Nintinuga’, ll.9, Ali 1964, pp. 144-48; 
ETCSL c.5.7.02.
14 Como exemplo de prescrição médica vide texto SBTU I, No. 44. da coleção de textos 
babilónicos do British Museum; Geller, pp.325-8.
15 Uma das mais antigas listas lexicais bilíngues em língua suméria e acádia dá nome a 
diferentes tipos de exorcistas: [maš]-maš = maš-ma-šu = exorcista; tígi = a-ši-pu = exorcista, 
(literalmente músico); ka-pirig = MIN (ditto) = exorcista; muš-DUla-la-ahDU = muš-la-la-ah-hu 
= encantador de serpentes; lú-gišgàm-šu-du7 = muš-s ̌i-pu = exorcista (MSL 11 102: 204–8). 
Para listas canónicas e análise mais pormenorizada sobre este tema vide Geller 2010, pp.45-50.
29
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
do exorcismo, haverá que considerar-se a definição preconcebida das sociedades 
com matriz judaico-cristã, dado que esta influencía profundamente a leitura 
cultural e filosófica das demais culturas e crenças, cujos conceitos não encaixam 
nos padrões conceptuais que servem de base cultural à ciência moderna ocidental.
Em resumo, as poucas fontes existentes sugerem uma certa profissionalização 
e até especialização dos médicos de então (Zuccini 2005, pp. 156-183). Claro 
está, dependendo isto de fatores regionais e cronológicos, dado que é necessário 
não tomar a mesopotâmia antiga como um identidade cultural única com uma 
cronologia linear e perfeitamente identificável. Algo que dificulta a redescoberta 
da medicina praticada naquela região ao longo de 3 milénios de história e o 
entendimento daquilo que seriam as próprias ‘teorias médicas’ das culturas que 
aí proliferavam. A falta de textos em escrita cuneiforme que apresentem teorias 
médicas não significa que estas não existissem. Haverá que considerar que os 
textos que nos chegaram – sejam literários, sejam administrativos – são textos 
de caráter objetivo e não reflexivo. Isto é, para memória ou recitação, pelo que 
a discussão sobre a ‘natureza das coisas’ estaria ausente das fontes escritas.16 
Apesar disso, é difícil imaginar que alguns dos saberes explanados nas terapias 
sobreviventes não tivessem por base um certo razoamento e especulação sobre 
o mundo natural. Inevitavelmente, o facto de estes textos se fundiremcom 
encantamentos e poções ‘mágicas’ tende a gerar um preconceito sobre a possível 
falta de critério científico. Porém, haverá que ter em atenção que esta ‘mistura’ se 
deve primeiramente à ténue, para não dizer praticamente inexistente, distinção 
entre o mundo natural e o mundo espiritual. A descoberta em Assur de um 
conjunto de textos sobre o exorcismo datados do século VII a.C. levou os estudiosos 
a considerar estar em causa a demonstração de que o exorcismo ritual (āšipu) não 
terá sido aplicado apenas em ‘tratamentos religiosos e rituais’; aparentemente 
também terá colaborado em terapias de caráter racional e baseadas em critérios 
médicos. De facto, tal como argumenta Maul (2004, pp.79-95) usando o 
exemplo da instrução de tratamento de uma enfermidade denominada por 
māmītu (maldição)17, o entendimento assírio-babilónico do processo causa/efeito 
de um padecimento demonstra que a terapia mágico-religiosa e a terapia médica 
constituem duas fazes concretas do tratamento, unidas para um entendimento 
global da doença e para um processo de cura de certa forma holístico, visando 
tratar todas as dimensões do ser tal como estas eram entendidas. Esta abordagem 
coincide com o entendimento do mundo natural, influência e constituição divina 
e espiritual do mesmo.18 Ora, o corpo humano e a sua relação com os elementos 
do cosmos fazem parte do mundo natural e este é inevitavelmente controlado 
16 Para os comentários médicos da antiga mesopotâmia vide Geller 2010, pp.140-160.
17 Sobre a formas de diagnóstico expressas no livro de instruções médicas neo-babilónicas, 
vide Heeßel 2004, pp. 97-116.
18 Sobre os fantasmas e espíritos na medicina babilónica vide Farber 2004, pp.117-134.
30
I. A medicina na Antiguidade
pelos poderes divinos e espirituais, pelo que a superstição não implica uma total 
negação da racionalidade analítica e da inquirição dos fenómenos naturais, pelo 
contrário, enquadra-se no próprio entendimento e explicação do universo e 
seus constituintes.19 Isto é, a doença e o enfermo poderiam ser analisados do 
ponto de vista orgânico e físico, como um padecimento por uma interação do 
corpo como mundo natural (Zuccini 2005, pp. 64-86); porém, não seria de todo 
descartada a influencia que a espiritualidade da natureza das coisas teria tanto 
na enfermidade como na sua cura, dado que é elemento essencial do mundo 
material mesopotâmico.
Apesar das poucas fontes para tão extenso espaço geográfico e cronológico, 
alguns textos cuneiforme parecem revelar que medicina tardo-Babilônica 
tem algumas similitudes com textos do corpus hipocrático no que refere ao 
diagnóstico, tratamento e relação com o paciente (vide Geller 2004, pp. 11-60 e 
Stol 2004, pp. 62-78).20 Apesar de não existirem provas materiais nesse sentido, 
é possível que tenham existido grandes intercâmbios de saber entre as culturas 
mesopotâmicas, Egipto e a Grécia arcaica, cuja tradição de contactos culturais 
poderá remontar, sem descontinuidade, aos períodos minoico e micénicos (vide 
infra 1.3.1).21 Afinal de contas, a imaginação, a lógica dedutiva e a observação 
são as características essenciais de toda a ciência antiga e estas parecem estar 
presente nas sociedades humanas desde, pelo menos, a génese da escrita e, por 
conseguinte, da história e este aspeto facilita o intercâmbio de saber. Até hoje 
não foi possível confirmar de forma segura ser a escrita a principal referência 
para a preservação e transmissão do saber médico mesopotâmico. No entanto, a 
literatura antiga tem um papel importante na identificação da atividade médica, 
não só quando estão em causa diagnósticos médicos ou textos rituais, mas 
também quando são narrados mitos ou histórias enquadradas numa moldura da 
realidade do quotidiano (vide Reventlow 2007, pp. 275-90). Portanto, exemplos 
como os textos bíblicos ou narrativas tradicionais ou rituais dos hebreus são 
importantes portadores de algumas notícias da prática médica como uma marca 
social e profissional; ainda que, apesar de notarem especializações e educação 
médica direcionada, não apresentem uma profunda pormenorização sobre a 
técnica e o saber destes sábios, cujo cohecimento e tradição podia ter origem na 
antiga babilónia. (Vide Zuccini 2005, pp. 1-33, 87-122, 184-229)
A aparente transversalidade cultural dos antigos espaços do antigo 
mediterrâneo – pela matriz judaico-cristã, intercâmbios entre mesopotâmia, 
19 Note-se que esta visão seria praticamente universal no espaço da antiga Mesopotâmia 
(Maul 2004, pp.79-95).
20 Sobre a antiga medicina mesopotâmica e os médicos que a praticariam, vide Haussperger 
1997.
21 Sobre o possível intercâmbio de saber entre a antiga Grécia arcaica e clássica e a sociedade 
babilónica, vide Thomas 2004, pp.175-185.
31
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
região do levante, Egipto, Grécia Micénica, Cíclades dos 3º e 2º milénio a.C., 
globalização do saber helenístico ou Império Romano – determina a dificuldade 
de distinção entre o cultor e o recetor, pelo que não sabemos em que medida 
procedimentos médicos identificados em outras culturas e momentos históricos 
posteriores são originários dos locais com os registos de maior antiguidade; 
ou se na verdade estas culturas teoricamente mais jovens foram a influencia, 
cuja registo escrito tardio impede de comprovar. Esta questão faz-se bastante 
pertinente, principalmente quanto relativa ao reino do Antigo Egipto, dado que 
na antiguidade gozaria de fama pela qualidade dos seus médicos, relativamente 
aos seus vizinhos contemporâneos, antes do estabelecimento dos reinos 
helenísticos.
(Página deixada propositadamente em branco)
33
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
1.2. O Antigo Egipto
Não terá sido por acaso que alguns autores gregos antigos tenham 
associado o culto a Asclépio ao culto da deusa Ísis e ao culto da personagem 
histórica e sábio multifacetado, Imotep22 – equivalente egípcio ao deus Asclépio. 
O sincretismo do culto às divindades Imotep e Asclépio terá sido vincado 
durante o período helenístico e consequente governo ptolemaico da região do 
antigo Egipto (305-30 a.C.). Diodoro Sículo (c. século I a.C.) é um dos autores 
a refletir este sucesso, pois atribui à deusa Ísis o culto e prática da cura da 
enfermidade através dos sonhos (Diodorus Siculus 1.25). Notícias como essa 
reflete uma consciência por parte de autores gregos de que a medicina egípcia 
constituiria um saber muito antigo.
Porém, tal e qual sucede para a região da antiga mesopotâmia, as notícias 
que nos chegam sobre as tradições médicas egípcias não nos permitem 
identificar uma ciência perfeitamente distanciada da superstição, ao contrário, 
o aspeto físico da doença está quase sempre associado ao mundo sobrenatural. 
Recorde-se que o saber egípcio preservado sob a forma escrita tem um 
vincado fundamento ritual/mágico, que por sua vez se reflete na abordagem 
holística ao mundo natural e corpóreo (Ritner 1993). Ainda assim e tal como 
comentamos a propósito da ciência médica mesopotâmica, havia entre os 
egípcios praticas médicas profissionalizadas e saberes testados pela experiência 
e análise, pelo que as matérias do universo físico eram encaradas de forma 
analítica e empírica, independentemente do plano espiritual e divino ser em 
última instância o regedor da mundividência física. Portanto, existia uma 
combinação entre o universo mágico-religioso e a conceção empírico-racional 
do mundo material23. Esta mistura entre o rito e a razão empírica é verificável 
no próprio conceito de ‘médico’ ou, melhor dizendo, na ausência desse 
conceito tal e qual o entendemos. Isto porque os responsáveis pela aplicação 
das várias terapêuticas seriam médicos, sacerdotes ou (e) feiticeiros (Ray 
1975), não estando verdadeiramente vincada uma fronteira distintiva entre 
estes; claro está, sempre e quando houvesse alguma tentativa de diferenciação 
entre estas atividades, algo que nem sempre se verificaria. No entanto, em 
oposição à falta de informação para a antiga Mesopotâmia,há notícias de 
ter existido um treino efetivo para aqueles que se dedicavam à medicina. O 
treino para a disciplina médica remonta ao Reino Antigo (3ª-6ª dinastia, c. 
22 Sobre Imotep enquanto entidade divina e histórica, vide também Wegner 2015. 
23 Vide Zuccini 2005, pp. 34-63.
34
I. A medicina na Antiguidade
2686–2181 a.C.), coincidindo com a antiguidade das primeiras composições 
médicas egípcias chegadas até aos dias de hoje.24 De resto, a preparação destes 
autênticos profissionais da medicina seria de tal forma direcionado para a 
prática médica que havia inclusive médicos especializados em partes do corpo 
(‘especialista em ventre’, cirurgião dentário, etc) ou em determinados tipos de 
maleita. (Zuccini 2005, pp. 123-155) 
A aparente contradição entre a falta de conceptualização especifica 
da atividade médica e consequente distinção das demais artes através da 
profissionalização e da especialização técnica das mesmas pode residir no 
preconceito social atual, que tende a categorizar de forma cerrada os vários 
âmbitos de entendimento do saber antigo. Esse saber seria holístico, pelo que 
o mundo material só poderia ser entendido através da globalidade universal 
que o constitui, ou seja: física, divina e mística. Em boa verdade, um médico, 
sacerdote ou feiticeiro podia fazer coincidir as suas atividades com a prática 
médica, uma vez que o conceito de saúde física residia na terapia da matéria 
orgânica por fisioterapia ou farmacologia, energização espiritual (pela evocação 
da colaboração da entidade divina) e esconjuro do mal (espiritual ou divino) 
potenciador da enfermidade.
Por comparação às culturas e estados vizinhos, a medicina egípcia terá sido 
altamente considerada, ao ponto de governantes de outras regiões recorrerem de 
alguma maneira ao Antigo Egipto de modo a encontrar respostas mais fiáveis 
para as suas maleitas. As relações entre os estados da Anatólia, Mesopotâmia e 
Egipto, marcam de forma recorrente o recurso dos altos dignitários dos estados 
orientais aos médicos do reino do Nilo. Do ponto de vista conceptual a prática 
médica egípcia não distaria tanto das demais, pelo que os egípcios se destacariam 
na experiência empírica e não tanto num fundamentado conhecimento anatómico 
e terapêutico. 
São consideráveis as notícias literárias de vários tipos de práticas médicas, 
instruções de procedimento para médicos, receitas de fármacos, aplicação de 
terapias farmacêuticas, informações sobre tipos de lesões e doenças, e todo 
um conjunto de matérias debruçadas sobre a saúde e bem-estar.25 No seu 
conjunto, este saber impressionaria qualquer pessoa oriunda de uma cultura 
cujo senso-comum e a tradição popular fossem os regedores dos procedimentos 
terapêuticos (Hebron 2013). Em boa verdade, existe uma inegável carga de 
racionalidade na inquirição e estudo médico, apesar da marcada presença do 
misticismo e da religiosidade das quais a medicina antiga egípcia também estaria 
dependente.26 Na verdade, a própria medicina grega, já depois de publicadas as 
24 Vide Quack 2003.
25 Para notícias literárias preservadas em papiros médicos de várias épocas do Reino do 
Antigo Egipto, vide Brawanski 2001, 2004, 2006, Chapman 1992, Ralston 1977.
26 Sobre a racionalidade e irracionalidade da medicina egípcia, vide David 2004, pp.133-151
35
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
obras de sábios como Hipócrates ou Galeno, teve um profunda base mística e 
religiosa, além de uma basilar fundamentação holística, cujo nível de ciência não 
pode ser de maneira nenhuma menosprezado como arcaico pela modernidade, 
quando atualmente se debatem os efeitos da homeopatia, prática com pouco 
sustento científico pelos padrões ocidentais atuais.
(Página deixada propositadamente em branco)
37
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
1.3. A medicina grega
Ainda que o volume do corpus remanescente de obras de antigos 
pensadores gregos dedicados à medicina talvez fizesse prever uma prática 
médica continuada com repercussões em todo o espaço cultural helénico, a 
verdade é que os dados arqueológicos e as poucas noticias sobre a realidade 
do exercício da medicina não nos permite ter uma noção concreta daquilo 
que seria a medicina praticada na antiguidade. Os tratados hipocráticos e o 
enciclopedismo de Galeno, pela profunda inspiração filosófica e metodologia 
racional e analítica, facilmente são suscetíveis de serem observados sob 
prejuízos da parte dos críticos modernos. O entendimento pouco neutral de 
filólogos, historiadores ou mesmos investigadores das ciências naturais está 
positivamente influenciado pela abordagem científica de alguns dos sábios 
antigos e cujo procedimento inquisitivo tantos paralelismos tem com a ciência 
moderna. Na verdade, não é, de todo, mensurável o distanciamento entre o 
pensamento dos pensadores gregos e as aplicações práticas generalizadas dos 
seus conhecimentos e teorias às matérias sobre as quais se debruçavam. Para 
além das anedotas deixadas por autores antigos, poucos documentos há sobre 
reais prescrições de médicos comuns. Isto é, praticamente não há notícias de 
um diagnóstico descritivo e a consequente sentença terapêutica em função 
da enfermidade, de instruções de ação e metodologias de diagnóstico, de 
tratamentos de casos concretos ou de ferramentas direcionados para a terapia 
de determinadas maleitas. Em resumo e de uma maneira geral, faltam-nos 
testemunhos pormenorizados e sistemáticos de casos reais e de ‘médicos 
anónimos’ durante o exercício terapêutico que possam realmente dotar de 
algum realismo a nossa perceção da medicina na antiguidade. Ainda que, 
obviamente, tomemos como muito válidas as notícias legadas pela literatura.
 
1.3.1. DoS filóSofoS naturaliStaS à criação Do corpvs hipocrático
A literatura helénica antiga tende a idealizar o antigo Egipto faraónico como 
a origem de muitas das tradições e saberes praticados pelos próprios gregos.27 
Ora, a partir disto entender-se-á o porquê de também a medicina egípcia antiga 
figurar entre as práticas pioneiras atribuídas a este povo tão antigo aos olhos dos 
27 Para a perspetiva grega das práticas médicas egípcias vide Jouanna 2004.
38
I. A medicina na Antiguidade
gregos. No entanto, apesar da quantidade de textos de caráter médico egípcios 
chegados aos dias de hoje (vide supra 1.2)28, não haveria propriamente uma 
vincada divisão entre a conceção mágica e misteriosa e a abordagem analítica do 
mundo natural, tal como aquela cujo gérmen veio a ser verificado posteriormente 
nos primeiros filósofos gregos e cujos maiores testemunhos são os escritos ou 
‘ditos’ atribuídos aos filósofos pré-socráticos. Contudo, nos períodos históricos 
antecedentes à produção do corpus hipocrático, livre de magia e superstição, 
a medicina grega não estaria muito distante da conceptualização espiritual e 
supersticiosa da antiga Mesopotâmia ou Antigo Egipto, pelo que poderíamos 
ser levados a julgar o saber grego antigo como algo mais independente das 
culturas vizinhas, do que aquilo que os próprios helenos julgariam ser. Ora, 
neste ponto, faz-se oportuno acrescentar que os achados arqueológicos e os 
textos referentes ao período micénico (c. século XVI-XI a.C.) e aos primórdios 
da Grécia arcaica pré-letrada (c. 800-479 a.C.)29 são muito parcos. As poucas 
exceções incluem algumas tabuinhas de argila anotadas com um grego arcaico 
em escrita linear-B e referindo-se a alguns tipos de ‘drogas’ (BNP vol.8, pp.573-
4); e também incluem notícias mitológicas dos poemas homéricos que notam 
os célebres médicos Asclépio e Quíron e as tradições associadas a estas figuras 
lendárias. Várias divindades e entidades sobre-humanas estariam associadas 
tanto às patologias como às curas das mesmas, pelo que a religião e o xamanismo 
constituiriam um importante pilar de sustentação para a medicina de então. Não 
é possível identificar de forma objetiva a natureza dicotómica da relação religião/
medicina, porém o motivo da mesma poderia residir na simbiose simbólicadas entidades divinas com os fenómenos naturais. Ainda que, por si só, este 
argumento não permita explicar os rituais associados a entes mitológicos, como 
sucederia com o deus Asclépio.
Apesar de parcas e, portanto, pouco esclarecedoras, as notícias sobreviventes 
da prática médica nos períodos históricos minóico e micénico talvez tivessem 
coincidência com a conceção espiritual cósmica da região da Mesopotâmia.30 Os 
28 São disso exemplo os manuais médicos escritos em papiro como o Ebers Papyrus (c. 
1534 B.C.), o Berlin Medical Papyrus 3038 (dinastia XIX), o Edwin Smith Surgical Papyrus 
(c. século XVII a.C.) ou o London Medical Papyrus (P. BM 10059, c. 1350 B.C.). Vide Ritner 
2000.
29 Não sendo este o espaço adequado para um debate do género, devemos notar as nossas 
reservas na adoção da ideia generalizada de uma ‘Grécia antecedente dos poemas homéricos’ 
absolutamente iletrada, cuja justificação reside na ausência de dados e não propriamente 
na apresentação de factos que comprovem a sua iliteracia e o total esquecimento da escrita; 
preconceito que serve de fundamento à teoria da tradição oral na elaboração dos poemas 
homéricos, algo com o qual não concordamos pela questionável argumentação sustentadora da 
mesma.
30 Sobre a prática médica na região micénica e minóica do Egeu do 2° milénio a.C. e os 
contactos médicos destas culturas com as culturas do Próximo Oriente Antigo, vide Arnott 
2004, pp. 153-173.
39
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
dados apenas nos permitem conjeturar, pois o volume de vestígios arqueológicos 
e textos sobreviventes é categoricamente inferior ao das culturas suméria, 
babilónica ou assíria. Tal circunstância deixa aos académicos modernos pouca 
matéria sobre a qual especular. Além disso, tal défice é agravado por um aparente 
período de treva cultural de 3 séculos (séc. XI-VIII a.C.) nos espaços micénicos. 
Porém, cabe-nos alertar que uma suposta idade da treva tem mais que ver com 
os poucos dados arqueológicos relativos a esse período e o aparente abandono de 
algumas importantes cidades, do que com um efetivo colapso civilizacional. Isto 
é dizer que a treva reside na nossa mirada e não na realidade histórica, pelo que 
consideramos que o saber tradicional médico praticado por micénios ter-se-á 
prolongado no tempo até à época arcaica (séc. VIII-V a.C.), momento em que 
terá sofrido um novo impulso, potenciado pelas conceções do universo teorizadas 
e descritas pela filosofia pré-socrática. Em resumo, independentemente do 
aparente limitado conhecimento técnico, comparativamente ao período arcaico 
grego, não devemos de nenhuma maneira menosprezar o saber médico das 
culturas da idade do bronze pela simples ausência de dados. É difícil imaginar 
que a contemplação do mundo natural e os seus fenómenos tivessem partido do 
‘nada’, sem que houvesse uma tradição prévia e um acumular de saber popular com 
profundas raízes nas culturas antecedentes aos chamados filósofos naturalistas 
gregos. Ainda que não possamos de maneira alguma saber exatamente até onde 
iria o racionalismo e a ciência aplicada à medicina tanto de minoicos como 
de micénios, é possível afirmar não ter existido uma treva antecedente de um 
posterior iluminismo.
Dizer que a filosofia é a mãe de todas as ciências não é de todo um exagero. 
A própria palavra encerra em si a busca do conhecimento pelo conhecimento 
e o amor pela sabedoria, combustível essencial da ciência. Nesse sentido, o 
despertar da consciência filosófica escrita na formação das primeiras correntes 
de pensamento da Magna Grécia arcaica gerou uma autêntica revolução no 
juízo dos processos universais e na receção do conhecimento tradicional. O 
saber empírico deixa de ser simplesmente absorvido e transmitido, passando a 
ser questionado e reformulado. Este ‘iluminismo’, cuja ignição não podemos 
localizar ou identificar, não atinge a sociedade na sua globalidade – limitada 
pela difícil e lenta circulação de informação e pela própria natureza complexa 
da mesma –, e esteve circunscrito a uma elite de pensadores e de discípulos 
com acesso privilegiado ao saber escrito e oral. Todavia, esta evolução seria 
suficientemente importante para levar os sábios de então a olhar o mundo 
natural como resultado da interação entre os vários elementos do cosmos, ou 
seja, uma observação baseada na mecânica ação / reação do mundo natural, sem 
a pretensão do plano espiritual como o principal motor do mesmo.
Ora, a observação dos processos naturais livre do preconceito da tradição 
popular promove uma especulação abrangente de todos os elementos da natureza, 
fossem estes materiais ou imateriais, visíveis ou invisíveis. Nesse sentido, fez-se 
40
I. A medicina na Antiguidade
inevitável a discussão da anatomia e a relação desta com o ambiente circundante 
e com os alimentos ou as drogas, pelo que nasceria assim o debate médico tal 
como o entenderíamos mais tarde. Segundo a tradição, Alcméon de Crotona 
e Empédocles debruçaram-se sobre a medicina, porém, não é claro se as 
intervenções destes se restringiam à análise das estruturas do corpo humano 
e à interação desta com a natureza enquanto mais um processo na explicação 
do cosmos, ou se realmente foram iatroi (ἰατροί) e exerceram medicina (BNP 
vol.8, pp. 573-4). Alcméon de Crotona é considerado por muitos dos autores 
modernos o pai da medicina e das suas mais antigas vertentes: anatomia, 
psicologia, fisiologia, embriologia, psiquiatria e ginecologia (Longrigg 1993 
p.47). O filósofo pré-socrático é o único autor pré-hipocrático cujas teorias 
médicas sobreviveram, sendo Galeno e Aristóteles dois dos responsáveis de tal 
sucesso (Aristóteles, Metafísica 986a29ss).31
Para além de fragmentos e notícias transmitidas por autores posteriores, 
são poucas as informações factuais escritas chegadas até nós, que nos permitam 
reconstruir o saber de então.32 Por tal, ainda que historicamente esses sábios 
inquiridores do mundo natural estejam muito próximos da época de Hipócrates, 
não nos é possível estabelecer uma ponte credível entre a ciência dos séculos 
VIII, VII, VI a.C. e o posterior saber hipocrático. 
1.3.2. O momento da “Medicina Hipocrática”
A inquirição do mundo natural levada a cabo pelos filósofos pré-socráticos 
parece ter redundado num desenvolvimento exponencial da medicina, sendo 
os tratados médicos de Hipócrates a realização mais evidente disso mesmo, 
uma vez que o saber médico contido nestes textos expressa, de forma clara, 
uma natureza analítica e especulativa, sujeita ao ensaio e debate.33 No período 
de transição da época arcaica para o período clássico (século VI-V a.C.) uma 
maior organização estatal dentro do espaço helénico, a polis, terá favorecido a 
circulação de ideias e artífices, pelo que também os praticantes das artes médicas 
entraram num circuito de transações de saberes e serviços. Nesse sentido, é 
possível identificar uma classe médica profissional, os iatroi, dedicada à terapia 
31 Sobre Alcmeón de Crotona e respetiva obra, vide Longrigg 1993, pp.46-81. Sobre a vida 
e obra deste filósofo pré-socrático, vide Huffman, Carl, “Alcmaeon”, The Stanford Encyclopedia of 
Philosophy (Summer 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/
archives/sum2013/entries/alcmaeon/>
32 Para um estudo geral da medicina grega pré-hipocrática, vide Nutton 2004, pp. 37-52.
33 Sobre os pré-socráticos e a constituição do corpus hipocrático, vide Longrigg 1993, pp. 
82-103; sobre o corpus hipocrático e a construção da medicina grega, vide também Nutton 2004, 
pp. 53-71.
41
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
de enfermos, fosse por pagamento ou por puro interesse científico. Ora, caberá 
dizer que por volta do final da primeira metade do século V a.C. a prática médica 
dos iatroi era já bastante comum em todo o espaço grego, ainda que o acesso aos 
seus serviços pudesse ser algo exclusivo. Poder-se-ia, inclusive, considerar uma 
‘certa competição’ entre os iatroi de então, quer fosse pelo saber quetransmitiam, 
quer fosse pela qualidade e pelos bons resultados das suas práticas. Além disso, 
reger-se-iam por um certo código ético e profissional, cujo derradeiro objetivo 
era a cura do paciente. A prova desta profissionalização remontaria pelo menos 
ao século VI a.C., pois por essa altura verifica-se o recurso a 'médicos públicos' 
que acompanhariam os exércitos em campanha.
Como notámos, alguns destes médicos viajavam entre os vários estados e 
cidades, quer praticando, quer instruindo; ao passo que outros, pertencentes a 
famílias importantes de pensadores, estabeleciam-se em determinadas cidades 
e chegavam a ganhar fama ou mesmo a ‘criar escola’. Algumas dessas cidades 
acompanhariam a notoriedade dos seus médicos residentes, acabando por serem 
consideradas famosos centros para as práticas terapêuticas e para o estudo da 
medicina.34 Cós e Cnidos foram dois exemplos marcadamente importantes na 
tradição médica de então (BNP, vol.8, pp.574-5), sendo Hipócrates de Cós o seu 
médico mais famoso.
Hipócrates de Cós (c. 469-370 a.C.), tal como o nome em uso identifica, 
seria originário da ilha de Cós. Segundo a tradição, terá professorado medicina 
em Atenas (c.420 a.C.) e, de acordo com uma lenda posterior, trabalhou durante 
a deflagração da grande epidemia naquela cidade, quando decorria a Guerra do 
Peloponeso.35 Preservam-se cerca de 130 textos atribuídos a este sábio, tendo sido 
cerca de metade compilados na Alexandria Ptolomaica durante o século III a.C., 
hoje designados por Corpus Hippocraticum (CH), e cujo volume corresponde ao 
cânone atualmente atribuído a Hipócrates36; os restantes textos são considerados 
fabricações posteriores, cuja autoria foi erroneamente atribuída a Hipócrates, 
não sendo possível, salvo algumas exceções, identificar os autores destes textos.37
Efetivamente, o corpus hipocrático não corresponde a todo um conjunto 
de textos atribuídos ao sábio de Cós. Ainda que nenhuma das obras possa ser 
seguramente identificada como tendo sido lavrada por Hipócrates, muitos textos 
podem ser atribuídos a um único autor com relativa segurança; já outros escritos 
limitam-se a seguir a forma de abordagem e as linhas de pensamento que se julga 
34 Sobre a medicina grega nos séculos V e IV a.C., vide Nutton 2004, pp. 103-14.
35 BNP, vol.8, pp.574-5; Var. R 1.4.5.1-3.
36 Ainda assim, o cânone alexandrino não reúne unanimidade de opinião da parte da comu-
nidade científica, pois não existe um total acordo quanto à autoria dos textos, pelo que o debate 
sobre esta questão continua vivo.
37 BNP Supplements I, vol.1, pp. 313-18.
42
I. A medicina na Antiguidade
corresponder às do autor grego.38 Na verdade, não chega a existir propriamente 
aquilo que de forma objetiva se poderia nomear por ‘linha de pensamento médico’ 
e que seja correspondente a um determinado estilo metodológico ou corrente 
de pensamento científico identificável neste conjunto de aproximadamente 
70 textos, cuja coleção original remontará a um período compreendido entre 
a segunda metade dos séculos V-IV a.C. Ainda assim, existe uma espécie de 
tronco comum aos textos deste corpus, identificável nas similitudes presentes na 
discussão de cada caso particular, como sejam a rejeição de causas sobrenaturais 
e o apoio na lógica e na dialética para a obtenção de conclusões pertinentes e 
defensáveis.39
O corpus hipocrático, mais do que definir a obra de um único autor, 
permite sugerir como alguns médicos trabalhariam sós ou em grupos na 
apresentação de seminários públicos, debates (cf. Hipócrates, De arte) e 
na elaboração de escritos aparentemente direcionados para especialistas, 
dada a natureza complexa da matéria e a forma aforística da exposição (cf. 
Aphorismi, De dentitione; BNP, vol.8, pp. 574-5).40 As incongruências entre 
estes textos não só se deve às diferentes autorias, mas também à origem dos 
saberes professados. Isto porque estes textos pertencem a distintas escolas de 
pensamentos, ainda que se destaquem as de Cós e Cnidos. Além disso, alguns 
destes textos não teriam sido produzidos nos mesmos períodos, podendo 
alguns datar dos inícios do século III a.C.41
Apesar da profissionalização e da circulação do saber médico, a ‘cura’ 
não era então um processo objetivo, claro e seguro. Havia demasiados fatores 
desconhecidos na função diagnóstico/ terapia/ cura, pelo que o apelo à divindade 
seria recorrente. Os deuses que curam e os cultos terapêuticos tiveram uma longa 
tradição na antiga Grécia, anterior mesmo à disseminação do culto de Asclépio, 
que se popularizou no final do século V a.C., provavelmente devido à grande 
praga que deflagrou em Atenas (vide Tucídides 2.47-54, 2.58, 3.87). Na verdade, 
a terapêutica de cariz religioso terá sido uma alternativa ou mesmo complemento 
ao tratamento secular, algo provavelmente mais recorrente no caso de queixas 
crónicas ou perturbações mentais. A popularidade destes ritos terá aumentado 
com a construção de grandes templos tais como os de Atenas ou de Epidauro. 
Evidentemente, a religião e a medicina não se auto-excluíam completamente, 
pelo que há notícias de médicos que participaram no culto a Asclépio ou foram 
38 Para uma análise das linhas constituintes do corpus hipocrático e a orientação e as moti-
vações dos autores que o constituem vide Langholf 2004, pp. 219-275. Para estudo exaustivo e 
apresentação dos tratados constituintes deste corpus, vide Craik 2015.
39 Sobre as teorias hipocráticas vide Nutton 2004, pp. 72-86.
40 Sobre o contexto profissional dos médicos na constituição do corpus hipocrático, vide 
Langholf 2004, pp. 219-275. 
41 Para uma listagem completa dos textos que compõem o corpus hipocrático, vide BNP 
Supplements I, vol.1, pp. 313-318).
43
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
benfeitores de altares dedicados à divindade. O tratamento através dos sonhos, 
referido pelo próprio Hipócrates e com paralelo na Mesopotâmia antiga, é um 
exemplo disso (cf. Diodoro Sículo 1.25). Este tipo de terapia associada ao culto 
de Asclépio usaria tanto de unguentos herbários e práticas médicas, como de 
rituais de culto e adoração, conjugados com a interpretação do simbolismo 
atribuído aos sonhos.42
De resto, num contexto não urbano e de uma maneira geral, a intervenção 
mágica e sobrenatural seria comum e provavelmente mais recorrente do que a 
aplicação dos ensinamentos atribuídos a Hipócrates. Em boa verdade, não 
existem provas do abandono geral da superstição em favor da ciência puramente 
analítica – algo que realmente apenas se verificou de forma generalizada no espaço 
ocidental do século XX. Portanto, os principais concorrentes dos iatroi seriam os 
curandeiros e os eternos ‘vendedores da banha da cobra’. Ainda que, em contexto 
urbano, a regra aparenta ter sido o recurso à medicina com o suplemento ritual.43
1.3.3. o períoDo helenístico e aS ciênciaS méDicaS
Aliada a uma profunda transformação do espaço político grego, assim como 
de toda a região antes governada pelo império persa, a expansão da cultura grega 
e contacto com outras culturas e saberes acabou por gerar o desenvolvimento de 
novos saberes, impulsionando rotas comerciais de um espaço que se estendia 
da Península Ibérica ao vale do Indo. As conquistas de Alexandre Magno (c. 
356-323 a.C.) e os reinos herdados pelos generais macedónicos que lhe suce-
deram redefiniram o mapa helénico de tal forma, que os grandes centros da 
cultura e saber grego passaram a encontrar-se no norte de África, na Anatólia 
e na Mesopotâmia. Esta nova realidade cultural fez viajar a ciência helenística 
por uma vasta região, o que acabaria por enriquecer e potenciar as suas várias 
vertentes, fosse por meio de fusão com tradições e práticas regionais, fosse pelo 
escrutínio de uma maior massa crítica. Pela mesma ordem de ideias, não existe 
grande margem para dúvida de que a medicina grega e os escritos hipocráticos 
tenham sido submetidos às mesmas circunstâncias, pelo que também os iatroi 
expandiram o seu mercado e viram as suas possibilidades de valorizaçãoprofis-
sional incrementadas.
42 Sobre o estudo da interpretação dos sonhos enquanto matéria médica e religiosa na obra 
de Hipócrates e as similitudes com notícias semelhantes no espaço do próximo oriente antigo, 
vide van der Eijk 2004, pp. 187-218; vide também Pettis 2006. 
43 Para uma análise da relação entre o exercício médico e o culto religioso através dos ‘contos 
sagrados’ de Aristides, vide Horstmanshoff 2004, pp. 325-341. Sobre o exercício médico baseado 
nos processos hipocráticos, vide Nutton 2004, pp. 87-102.
44
I. A medicina na Antiguidade
Poder-se-ia dizer que durante os séculos III e II a.C. a inquirição da matéria 
médica foi potenciada. Sábios dedicados à medicina criaram escolas de estudo 
e debate por todo o espaço helenístico, formando dessa forma mais médicos e 
mais saberes fundamentados e debatidos, algo que inevitavelmente redundou em 
diferentes correntes de pensamento e metodologias. O saber hipocrático serviu 
de base de sustentação do debate desta fase histórica da ciência médica. No 
entanto, apenas podemos reconstruir as teorias médicas subsequentes ao tempo 
de Hipócrates através de notícias bastante posteriores à elaboração das mesmas. 
O facto de as fontes não serem contemporâneas dos acontecimentos levanta 
dúvidas sobre a consistência e exatidão das mesmas, até porque muitas vezes se 
baseiam em tradições e não tanto em dados factuais. Porém, todas elas tendem 
a coincidir em algo de forma inequívoca, pelo menos durante os séculos III e II 
a.C., a Alexandria ptolemaica, capital do reino Helenístico do Egipto antigo, foi 
o epicentro do debate e exercício científico.44 As notícias sobre a cidade egípcia 
tendem a gerar a ideia de um lugar ideal para os cientistas da antiguidade. No 
entanto, haverá que notar que esta não seria a realidade, ainda que seja uma 
ideia tentadora para o debate científico universal considerar um lugar idílico sem 
preconceitos e dogmas, onde se conjugariam perspetivas abertas e analíticas com 
todos os tipos de áreas de conhecimento. Alexandria seria uma cidade ‘do seu 
tempo’, sujeita a todas as limitações da sociedade e culturas que alojava, ainda que 
se distinguisse pelo empreendedorismo cultural e científico comparativamente a 
outros grandes centros cívicos. 
Apesar de as notícias serem fragmentadas, é possível identificar algumas das 
linhas orientadoras básicas das mais célebres academias através da informação 
legada por autores que tiveram contacto com as obras inspiradas nas diferentes 
escolas médicas. As principais correntes de que temos conhecimento seriam a 
dogmática e a empírica. Os médicos designados por dogmáticos seguiam uma 
linha especulativa sobre as causas da doença, favorecendo a ideia do desequilíbrio 
como fonte do problema e ao mesmo tempo como forma de promover o 
tratamento eliminando a raiz do mal-estar. Haverá que notar que a pobre 
definição que aqui apresentamos não se deve apenas ao caráter introdutório e, 
por isso, sucinto deste texto. Na verdade, sabe-se muito pouco de concreto sobre 
esta escola, até porque as definições que nos foram legadas pelos autores antigos 
além de pouco esclarecedoras sobre a conceção desta ‘corrente de pensamento’, 
tendencialmente não coincidem na caracterização desta. De facto, não chega a 
ser evidente tratar-se realmente de uma linha de pensamento científico ou de 
uma abordagem metodológica, mais dependente do médico que a praticava, do 
que de uma doutrina preestabelecida. 
44 Sobre Alexandria como centro de inovação científica nas áreas da anatomia e processos de 
experimentação e estudo, vide Nutton 2004, pp. 128-139.
45
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
Já os médicos empíricos seguiam uma escola de pensamento mais claramente 
definida e que parece ter sido apresentada por oposição aos dogmáticos. Estes 
rejeitavam a demasiadamente elevada ênfase ‘nas causas’ em favor da comparação 
com outros casos patológicos, baseando-se dessa forma em terapias e intervenções 
que tivessem tido sucesso em casos semelhantes. Estes representariam uma 
espécie de fusão entre o conhecimento tradicional e a revisão do mesmo através 
da experimentação e comparação.
Apesar de o corpus hipocrático ser uma fonte de saber importante e 
provavelmente ‘a referência médica’ neste período, a teoria dos quatro humores 
de Hipócrates esteve longe de ser a dominante.45 Este fenómeno não se deverá 
a um possível descrédito dado a Hipócrates, mas antes ao extenso e abrangente 
saber que a conquista de Alexandre Magno possibilitou, através dos intercâmbios 
culturais e, claro está, tradições e saberes científicos das várias regiões do 
império. Erasístrato de Alexandria, por exemplo, desenvolveu um entendimento 
‘mecânico’ do corpo humano, talvez partindo de princípios da ciência que lhe 
era contemporânea.
Não nos é possível saber até que ponto as teorias médicas dos territórios 
conquistados foram assimiladas ou tidas em conta pelos antigos sábios gregos. 
No entanto, é factual que além dos novos debates e revisões críticas de saberes 
postulados, passaram a ser acessíveis novas plantas, minerais e animais tanto do 
espaço asiático como da África oriental, o que terá favorecido novas perspetivas 
sobre as ciências naturais. Aparentemente, com a expansão do conceito de polis 
helenística terá havido uma certa homogeneização no que refere à integração da 
ciência médica na sociedade de então. Isto porque existem notícias marcando um 
exercício semelhante por parte dos médicos na vida pública das cidades ao longo de 
todo o espaço do Mediterrâneo oriental. Fazemos esta afirmação tendo em conta 
a realização de seminários médicos públicos, a presença de médicos em festivais, 
a existência de médicos municipais treinados em escolas médicas, determinadas 
regalias detidas pelos médicos de diferentes espaços políticos e geográficos do 
Mediterrâneo e as notícias de estímulos públicos para o estabelicimento destes 
profissionais em determinadas cidades.46 A Magna Grécia deixou de ser o centro do 
estudo da medicina, passando esse lugar a ser ocupado pelas cortes dos monarcas 
helenísticos, os grandes patronos da ciência de então.
A corte ptolemaica terá sido o expoente máximo do patrocínio das ciências 
ao providenciar os dois principais centros de saber da antiguidade: o Museu e a 
Biblioteca de Alexandria.47 Este interesse por parte dos monarcas alexandrinos 
45 BNP, vol.8, pp.577-8.
46 cf. I. Cret. IV 168, 218 b.c.; IG XIII, 1032, c. 200 b.c.; cf. IGXII i, 1032, line 10-15; 
Xenofonte, Mem. IV 2.5; (op. cit. Horstmanshoff 1990). Vide BNP, vol.8, pp. 577-8
47 Sobre a Alexandria helenística enquanto centro tradicional do saber, vide Harris, Ruffini 
(eds.) 2004.
46
I. A medicina na Antiguidade
gerou grandes oportunidades para os médicos que aí se dirigiam a partir de todo 
o mundo grego e, mais tarde, romano. Nomes como Herófilo ou Erasístrato 
de Alexandria (c. 280 a.C.) desenvolveram aí estudos avançados em anatomia 
e provavelmente colaboraram na introdução da dissecação e a vivissecção 
na ciência médica de então. Possivelmente, a atividade destes médicos terá 
constituído um padrão seguido por outros profissionais e estudiosos, embora não 
existam provas inequívocas de que estas práticas se tivessem estendido a outras 
regiões e fossem divulgadas e desenvolvidas por outros médicos da bacia do Mar 
Mediterrâneo. Ainda assim, a ausência de dados não prova o seu contrário, pois a 
ideia de que o período histórico destes sábios e a sua localização foram os limites 
para a investigação da anatomia ou ensaios com base em seres humanos pode 
ser baseada em suposições erradas. Nutton (2004, p. 128), autor que nos serve de 
principal guia para esta breve introdução, inclina-se para o isolamento científico 
de Alexandria do século III a.C., no que às técnicas de estudo da anatomia dizia 
respeito. Consequentemente tende a considerar que a morte dos seus praticantes 
culminou também no grande hiato para o avanço destes estudos e práticas, 
mais tarde reavivadas,já no século II d.C. (Nutton 2004, pp. 212 -15). Porém, 
parece-nos que estas considerações se baseiam principalmente na ausência de 
fontes e não tanto em informações que confirmem um ocaso de quatro séculos.
Seja como for, o período helenístico culminou numa importante evolução 
de várias ciências como por exemplo, a cirurgia, ajudada também pelo 
desenvolvimento de novos instrumentos e técnicas. Nesse sentido, também a 
farmacologia sofreu importantes incrementos, pelas novas matérias primas e pela 
confluência de experiências e debates gerados neste espaço dedicado ao saber e 
inquirição (Scarborough 2012, pp. 7-18).48
48 Sobre a medicina helenística, vide também Nutton 2004, pp. 140-156.
47
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
1.4. O lugar da ciência médica no Império Romano
1.4.1. a magna grécia e a roma republicana49
A influência grega na cultura romana fez-se sentir desde muito cedo, prova-
velmente desde a fundação de Roma (c. VIII a.C.). A presença de colónias gregas 
na península itálica, anteriores inclusive ao periodo tradicional da fundação da 
cidade de Roma, e o importante impacto que a cultura etrusca viria a ter na elite 
cultural romana foram decisivas na criação da linha tradicional de pensamento 
científico, ainda que fundida no pragmatismo do povo da cidade das sete colinas. 
A prática médica entre os Etruscos não é sobejamente conhecida, resumindo-
-se às noticias do I século a.C. de alguns nomes de médicos oriundos daquela 
região.50 Na verdade, para além da parca informação contida nas dispersas e 
tardias notícias desse género, pouco ou nada se sabe das práticas médicas dos 
povos autóctones da Península Itálica, pelo que existe a tendência de partir do 
princípio de que a influência médica das colónias gregas e dos seus iatroi se faria 
sentir de uma maneira geral por toda a Península Itálica, de acordo com aquilo 
que seria a presença cultural helénica.
Apesar dos poucos dados que nos chegaram das práticas médicas propriamente 
ditas, alguns textos de autores da República romana denotam alguma da tradição 
em voga nas prescrições de determinados remédios para certos males. No entanto, 
é difícil enquadrar obras como o Res rustica de Varrão no contexto científico da 
tradição médica grega, dado que aparecem sob a forma de conselhos dogmáticos 
sem grande informação a propósito das fontes desse saber. Nesse sentido, na 
maioria das vezes não fica claro se a informação tem origem na tradição popular 
ou se se baseia em algum tratado médico ou teoria corrente à época. A propósito, 
caberá notar que o conceito de medicina terapêutica na antiguidade não obedeceu 
a critérios uniformes, dependentes de cultura, clima, região ou organização 
política. Na verdade, o próprio ‘saber medicinal’ teve mais a instrução prática 
e a tradição por base do que o conhecimento empírico submetido à reflexão e 
ao ensaio crítico. Isto porque o conhecimento médico e as instruções patentes 
na literatura do género não representam necessariamente uma prática estrita a 
estes saberes e generalizada por todo espaço da Península Itálica. De momento, 
a dificuldade em reconhecer a realidade prática nos ditos tratados prende-se 
com os dispersos achados arqueológicos, pouco válidos para a identificação de 
49 Sobre o exercício médico no período romano, vide Scarborough 1970.
50 Sobre o impacto da medicina grega na Roma republicana, vide Nutton 2004, pp. 157-170.
48
I. A medicina na Antiguidade
intervenções médicas ilustradas nos referidos textos (cf. Var. R. 1.69.2.1-69.4). 
À parte dos instrumentos que foram surgindo em sítios arqueológicos por todo 
o Mediterrâneo, as provas de estudos anatómicos ou conceção de fármacos são 
parcas, para não dizer praticamente inexistentes.51 Este é um dos principais motivos 
pelos quais o estudo profundo dos textos de caráter médico se torna imperativo, 
pois só através das pistas que estes nos dão poderemos compreender o alcance do 
conhecimento transmitido no ensino, na formação e no exercício da medicina. 
Isto é, em que medida este saber seria extensível a toda a classe médica. Poderia 
um médico de Roma, formado segundo os critérios científicos da antiguidade, 
ser equiparável quanto ao seu conhecimento básico a qualquer outro médico na 
extensão do império ou mesmo a algum colega que fosse inclusive do seu próprio 
bairro? Esta é uma pergunta cuja resposta mais óbvia é um ‘não redondo’. Porém, 
a consistência dos escritos e a evidência de que muitos dos autores conheciam o 
trabalho dos seus antecessores e mesmo dos seus contemporâneos provoca uma 
dúvida suficientemente marcada para aplicar reservas ao referido ‘não redondo’.
Dentro do contexto referido, tal conhecimento poderia registar-se 
simplesmente através das receitas de fármacos com um determinado tipo de 
efeito, fosse para os humanos, fosse para os animais domésticos:
Vbi uuae uariae coeperint fieri, bubus medicamentum dato quotannis, uti ualeant. 
pellem anguinam ubi uideris, tollito et condito: ne quaeras cum opus siet. eam pellem 
et far et salem et serpullum, haec omnia una conterito cum uino, dato bubus bibant 
omnibus. (Cato 73.1-4)
“Quando as várias uvas começarem a mudar, dá medicação ao gado todos os 
anos, para que esteja saudável. Quando encontres pele de cobra, apanha-a 
e guarda-a, para que não a procures quando seja necessária. Essa pele 
(juntamente com) espelta, sal e tomilho, tudo macerado com vinho, dá-o de 
beber a todo o gado.”52
Este exemplo de Catão, a que poderiam acrescentar-se outros passos 
do mesmo autor ou de outros agrónomos latinos, foi bastante comum e 
corresponderia à forma mais imediata de divulgação e questionamento da 
ciência médica tradicional antiga. Este saber empírico algo popular não 
implicaria o auxílio de um médico, pelo que se faria acessível e prático a todos 
quantos tivessem contacto com este género de receita. Este tipo de textos 
apresentados como ‘manual’ ou ‘instrução’ poderia muitas vezes enquadrar-se 
dentro da literatura cujo objetivo seria a utilidade prática, conjugada com o 
conhecimento do mundo natural. Por tal, terá sido recorrente a divulgação 
51 Para uma visão geral sobre a arqueologia da medicina greco-romana, vide Baker 2013.
52 Espelta, Triticum spelta L. Tomilho, Thymus sp.
49
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
de saberes de caráter médico sob a forma de enciclopédia. A propósito e nesse 
sentido, a História Natural de Plínio (cf. Plin. Nat. 29.6.12-21) seria o maior 
exemplo desse enciclopedismo utilitário. Em grande medida, o enquadramento 
de instruções médicas nestes textos pretenderia a divulgação de uma medicina 
doméstica, como fosse esta mais um saber entre outros para aplicação no 
quotidiano e em situações perfeitamente identificáveis e enquadráveis nas 
descrições feitas por autores como Catão-o-Antigo ou Plínio.
Ora, aparentemente a abordagem romana tradicional, transmitida pela 
literatura, não parece estar muito de acordo com o saber médico grego. De resto, 
esta perspetiva estaria em perfeita harmonia com aquilo que era a crítica à influência 
helenística, segundo a posição dos cultores dos valores tradicionais romanos (mos 
maiorum), avessa ao pragmatismo e intelectualmente e moralmente corrupta. 
Catão-o-Antigo terá sido um dos expoentes máximos desta perspetiva pró-
tradicional e anti-helenista, que teve uma certa continuidade nas obras de Varrão ou 
Plínio-o-Velho, onde as receitas médicas surgem como notas enciclopédicas úteis. 
Plínio crítica a adoção das práticas estrangeiras e os procedimentos dos médicos 
gregos, que encontrariam na cidade de Roma um autêntico setor de mercado em 
constante expansão e desmesuradamente aberto ao comércio global (cf. Plin. Nat. 
29.5.6–11). As críticas do enciclopedista antigo teriam provavelmente fundamento 
real, pois seguramente haveria muitos charlatães inventando as mais mirabolantes 
teorias de modo a venderem um produto que se destacasse do dos demais (Nutton 
2004, pp.187-9). Já Catão, não se estendendo em demasia,acaba por considerar 
a validade do trabalho médico ao notar que é importante ter alguns serviços 
disponíveis nos arredores da sua quinta, referindo a utilidade de ter um médico, já 
que poderia ser necessário o tratamento de algum dos membros da família ou de 
algum trabalhador (Cato 1.16.4.1-5).
No entanto, estas notícias não chegam a ser suficientes para reconstruir um 
saber médico concreto e catalogável tal e qual seria exercido no seio da Roma 
republicana. Isto porque os dados literários são claramente seletos na informação 
transmitida e parece-nos difícil que, havendo a proximidade de tantas colónias 
gregas, o recurso aos iatroi não fosse recorrente. Dada a eficácia destes, em 
contexto antigo, não nos parece concebível que o pragmatismo romano não fosse 
listo em aproveitar tais serviços.53 E a notícia da atribuição de privilégios de 
cidadania e lugar para exercício de atividade àquele que teria sido o primeiro 
médico (medicus) grego em Roma (219 a.C.) dá conta desse facto, ainda que seja 
questionável.54 Não sabemos até que ponto tal exercício se faria a expensas públicas 
e quantos seriam os médicos a exercer oficialmente em Roma, mas é possível que 
53 Sobre a língua grega na ciência médica latina, vide Langslow 2000, pp.76-129. Vejam-se 
as notícias da medicina como atividade económica em Cic.off. 1.42.
54 Cf. Cassius Hermina, fr. 26 Peter; BNP, vol.8, pp. 577-9.
50
I. A medicina na Antiguidade
a proporção fosse equivalente à de outras cidades gregas da Península Itálica, 
ainda que a posição da elite cultural da República pareça indiciar o contrário.
O status social da arte médica na Roma imperial seria aparentemente baixo 
no que à reverência da atividade diz respeito. Isto porque na sua maioria os 
médicos tinham nomes gregos, sendo ou libertos ou escravos, mesmo após a 
concessão de cidadania por parte de Júlio César a todos os médicos de Roma 
e tendo em conta o elogio de Cícero às artes médicas na sua obra De Officis 
(1.42.151). Contudo, os comentários negativos da aristocracia romana para com 
o saber de origem grega levam a crer que estes preferiam o saber tradicional 
e a instrução deixada pelos sábios romanos, como fossem Varrão ou Catão-
o-Antigo, transmitidos na literatura latina, principalmente sobre a forma de 
instrução farmacológica (Hillman 2004).
Apesar das grandes tensões políticas e sociais do final da República e do 
início do Império, alguns dos aspetos da sociedade e do saber romano fazem-se 
mais claros para a historiografia, muito provavelmente pela maior quantidade de 
notícias deste período, em proporção com os dois séculos anteriores. Talvez por 
isso as referências às duas teorias médicas passíveis de serem associadas a gregos 
a trabalhar no espaço romano se reportem a este período. Uma dessas correntes 
seria defendida pela escola dos Pneumatistas, fundada por Ateneu de Ataleia 
e que partia da teoria humoral hipocrática e impunha sobre esta o conceito de 
pneuma como o elemento com a capacidade de regular e organizar o restante 
sistema biológico humano (BNP, vol.8, pp.577-8). 
A outra escola, da qual temos substancialmente mais informação, seria a dos 
Metodistas (século I. d.C.), cujos principais interpretes dos seus ensinamentos 
seriam Tessalo de Trales, Temison de Laodiceia e subsequentemente Asclepíades 
da Bitínia (princípios do século I a.C.) (BNP, vol.8, pp.577-8). Este último terá 
gozado de grande reputação, tendo tratado muitos senadores romanos. A teoria 
de Asclepíades corresponderia a uma combinação do Atomismo com a mecânica 
ensinada por Erístrato, tendo obtido considerável sucesso, particularmente na 
reformulação simplificada de Tessalo, e terá sido reconhecida até ao final do 
século IV, atendendo às notícias que nos chegaram. Esta teoria enfatizava a 
necessidade de tratar não só os sintomas, mas também as causas da doença. 
Partindo do princípio de um universo atomista, os praticantes destas buscavam 
uma correlação simples entre os sintomas observáveis e as suas causas, procedendo 
a tratamentos alopáticos (BNP, vol.8, pp.801-2).
Ambas as escolas marcaram o pensamento médico do período imperial, 
ainda que a defesa e o debate das escolas se tenham aparentemente diluído 
no ecletismo pragmático dos médicos do Império. Todavia, esta elação algo 
genérica baseia-se nos poucos autores médicos cuja obra chegou aos nossos dias, 
não tendo nós uma noção real do debate dedicado à ciência médica durante o 
período imperial; a não ser, claro está, através das notícias transmitidas pelo 
diálogo científico do próprio Galeno de Pérgamo.
51
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
1.4.2. A Roma Imperial e a nova expansão da prática médica grega
O Império Romano estendeu-se por toda a bacia do Mediterrâneo e com 
o domínio territorial deu-se uma certa globalização cultural e transversalidade 
do saber médico.55 A medicina grega, quer fosse praticada por gregos, por 
pessoas com nomes gregos ou por apoiantes de teorias de determinados sábios 
helénicos, chegou a todas as partes do império, criando um autêntico mercado da 
saúde pelo qual competiam médicos, artesãos de equipamento médico, lugares 
de peregrinação e até cidades. Dentro do corpo médico haveria profissionais 
especializados em doenças ou partes do corpo56: oftalmólogos, farmacêuticos, 
cirurgiões, especialistas em enfermidades femininas (ginecologia), veterinários 
(cf. Var. R. 2.7.16.1-5), artesãos, etc. O status quo dos archiatri57 variaria 
consoante a região, o seu estrato social original, a fama que tivessem obtido no 
exercício da arte, a escola médica que professassem, o lugar onde exercessem 
a atividade ou os pacientes ‘tipo’ que tratassem. Obviamente, os médicos 
da família imperial ou de senadores usufruiriam de maiores rendimentos e 
prestígio do que um simples médico de província ou um médico de escravos, 
ou mesmo um escravo médico. Todavia, não sabemos até que ponto poderia 
existir uma verdadeira diferença qualitativa no saber de todos os profissionais 
dedicados à medicina.
Em algumas das províncias, principalmente as correspondentes a 
antigos reinos helenísticos, a situação assemelhar-se-ia um pouco ao período 
antecedente do império romano. No entanto, desta feita alguns dos médicos 
de famílias com tradição ou de escolas proeminentes poderiam emigrar para os 
grandes centros urbanos mais próximos de Roma ou para a própria Roma, como 
o próprio Galeno, de modo a obter sustento através de um saber especializado. 
Não obstante, a profissão médica também floresceu em outras grandes cidades 
mais distantes do coração do império, como Éfeso e Alexandria.58 Nesta última 
as grandes áreas da medicina continuaram em constante debate e estudo, além 
de que a situação privilegiada como grande porto do Mediterrâneo favorecia 
55 Sobre a globalização potenciada pelo Império e o impacto na farmacologia, terapias e 
equipamentos e técnicas cirúrgicas, vide Nutton 2004, pp. 171-86.
56 A propósito de alguns achados arqueológicos de instrumentos médicos, vide Gilson 1983; 
vide também outros exemplos de instrumentos médicos encontrados perto de Roma em Nutton 
2004, pp. 182-4.
57 O termo que identificaria estes médicos especialistas e profissionais. A propósito das 
atividades dos mesmos e do seu enquadramento na sociedade, vide Nutton 1977.
58 Para o desenvolvimento da profissão de médico no Império Romano, vide Fischer 1979. 
Vide Underwood (2018) a propósito das restribuições financeiras a médicos durante a antigui-
dade tardia.
52
I. A medicina na Antiguidade
a chegada de ideias e produtos, pelo que a farmacologia seria a área com um 
maior potencial de ganho. Apesar da situação privilegiada destes dois grandes 
centros cívicos, tais cidades não foram as únicas referências, além de Roma, 
para as práticas médicas no seio do império. Na verdade, existiria algo a que se 
poderia chamar de turismo médico, extensível a todos os espaços do império 
e que incluiria cidades, templos e outros complexos de edifícios de caráter 
ritual médico,fontes termais, fontes de água mineral às quais eram atribuídas 
propriedades medicinais e ainda espaços naturais tradicionalmente relacionados 
com atmosferas saudáveis e apaziguadores de espírito (Israelowich 2015, pp.110-
34).
Salvo a isenção de impostos municipais e o acompanhamento dos 
acampamentos militares, o exercício da medicina deste período parece ter sido 
matéria do foro privado, com poucas intervenções ou suporte da parte do estado. 
Quer isto dizer terem sido raros os locais públicos dedicados ao seu exercício, pelo 
que, na sua maioria, os hospitais seriam aparentemente destinados a escravos, ou 
estariam inseridos em fortes ou grandes acampamentos militares onde haveria 
algum tipo de sistema médico organizado.59 Tome-se como exemplo de hospital 
as instalações militares encontradas no sítio arqueológico de Novaesium (c. 50 
d.C., Neuss, Alemanha) para onde eram levados os doentes de modo a que 
lhes fossem prestados cuidados médicos diferenciados60 e que terá servido cerca 
de 5600 soldados cidadãos da 16ª legião romana (Nutton 2004, pp.178-81). 
Devemos acrescentar que os espaços dedicados ao culto religioso de divindades 
associadas à cura seriam também prolíferos em médicos, ainda que a existência 
destes complexos não fosse tão abundante quanto isso nas províncias romanas61 
- tendo em conta a informação legada pela arqueologia.
A ausência do estado nas matérias médicas redundaria na falta de controlo 
da qualidade da formação médica e dos socorros prestados, pelo que abundariam 
os charlatães e curandeiros que contribuiriam para uma certa descredibilização 
popular da atividade médica. A existência destes curandeiros significa que 
existiria mercado para os mesmos, pelo que superstição e ciência parecem ter 
convivido e até funcionado com uma certa complementaridade, tendo em conta 
as notícias deixadas pela literatura (cf. Col. 10.353-365).
Isto mesmo depois de o Imperador Antonino Pio ter introduzido restrições 
baseadas na competência para o exercício da medicina (c. 150 d.C.), estando a 
seleção do pessoal médico (archiatros) a cargo do concelho local. No entanto, 
59 Sobre um ‘sistema de cuidados sanitários’ associado ao exército Romano, vide Israelowich 
2015, pp. 87-109.
60 Sobre algumas das enfermidades registadas na antiguidade, vide Nutton 2004, pp. 248-
272.
61 Sobre a relação medicina/religião no espaço do império romano, vide Nutton 2004, pp. 
273-291.
53
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
as más práticas seriam inevitavelmente uma constante62, pelo que prevaleceria 
a querela entre o charlatão e o médico que haveria cumprido o curriculum 
tradicional e estaria preparado para um exercício profissional e ético, à luz dos 
valores científicos e morais dos sábios de então (Israelowich 2015, pp.11-43).
Apesar do grau de descoberta ter sofrido um brusco abrandamento, o deba-
te e o estudo científico helenístico não se esvaneceu com a formação do Império 
Romano. De facto, a discussão não terá de todo desaparecido, até pela inquirição 
necessária à instrução dos médicos.63 Por outro lado, há notícias de colégios e 
grupos de médicos em cidades como Tarso ou Benevento. Estes profissionais te-
riam acesso a uma parte da literatura destas matérias em circulação no século II. 
De resto, Galeno seria um exemplo disso mesmo, dada a quantidade de autores 
que cita, comenta e critica, denotando um profundo conhecimento da literatura 
acessível à época.
A dada altura a obra de Galeno passa a constituir o cânone de referência 
para o exercício e estudo da medicina, principalmente a partir do século IV d.C. 
A importância do autor não é equivalente no espaço grego e latino64, dado que 
assume mais relevância na parte oriental do império, não sendo tão influente na 
literatura latina que dava o primeiro plano à escola metodista.65 Note-se que a 
ciência médica era essencialmente definida como saber escrito através de tratados 
ou manuais, muitas vezes destinados àqueles que não tinham acesso a um medicus 
(BNP, vol.8, pp. 579-80). Por tal se justifica que, da mesma forma que a obra de 
Galeno e a de Hipócrates serviam de manuais para o saber medicinal, também 
autores como Catão-o-Antigo ou Plínio-o-Velho continuassem a servir de guias 
de saúde ao longo de toda a antiguidade tardia, como suportes à medicina de 
‘autoajuda’ e até à veterinária.66 Portanto, é notório que a história da medicina 
antiga foi relatada pelos próprios médicos e teóricos que se dedicaram a este 
saber, tivessem eles em mente uma missão didática ou o debate científico.67 
O derradeiro objetivo do médico romano seria a cura da enfermidade, 
fosse pelo benefício económico, pela empatia com ‘o outro’ ou pelo simples 
interesse científico. Por tal, a relação com o paciente, muito provavelmente 
semelhante para todos os profissionais médicos de então, seria uma peça fulcral 
para o diagnóstico, não tanto pelos sintomas aparentes, mas pelas causas ou 
62 Para alguns contributos da epigrafia e numismática para a história da medicina, particu-
larmente do século II, vide Benedum 1971.
63 A propósito do curriculum de estudos médicos no espaço do império, vide Marasco 2010, 
pp. 205-19 e Petit 2010, pp. 343-359. Para notícias legadas pelo próprio Galeno sobre este tema, 
vide López Férez 2010, pp. 361-399.
64 Sobre o corpus médico latino, vide Langslow 2000, pp. 41-75.
65 Sobre a escola metodista e as práticas dos seus seguidores no espaço imperial, vide Nutton 
2004, pp. 187-201.
66 Cf. Col. 12.53.1.
67 Para um estudo da terminologia latina médica, vide Langslow 2000.
54
I. A medicina na Antiguidade
historial que poderiam ter potenciado a enfermidade.68 A real relação médico/
paciente escapa-se-nos pela ausência de provas que não sejam fornecidas pela 
literatura médica ou pelos seus detratores. Mesmo essas notícias acabam por 
tender a identificar episódios circunstanciais, pelo que, para uma reconstrução 
do processo clínico desta época, resta-nos tomar como algo paradigmáticas as 
notícias transmitidas pelo mais celebre médico de então, Galeno de Pérgamo.
68 Vide Israelowich 2015, pp. 45-67.
55
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
II. Galeno de Pérgamo
2.1. Notas biográficas 
Galeno de Pérgamo (c. 129-216 d.C.) foi um dos mais profícuos estudiosos 
da Antiguidade e uma figura essencial na história da medicina ocidental. Apesar 
de, objetivamente, não ser possível a elaboração de uma biografia exaustiva e 
precisa de Galeno, haverá que notar a reduzida falta de tentativas comprometidas 
para a redação da mesma. O trabalho de Schlange-Schöningen (2001) é 
efetivamente uma das poucas e mais recentes exceções.69 Schlange-Schöningen 
dedica-se à personagem histórica de Galeno em função das peripécias descritas 
pelo próprio, porém enquadradas no contexto histórico, evitando cair no recurso 
exclusivo à obra do médico grego para a construção da sua biografia, como vem 
sendo recorrente nos estudos dedicados a Galeno. Não significa isto que Galeno 
seja de alguma forma ignorado, muito pelo contrário. No entanto, sucede que 
praticamente todos os dados biográficos partem da sua obra escrita e quase 
sempre são enquadrados no argumento da mesma, o que inevitavelmente cria 
a tendência de uma leitura da vida da personagem histórica em função da sua 
produção intelectual. 
Quatro séculos após o corpus hipocrático moldar definitivamente a medicina 
grega, estabelecendo um conjunto material contra o qual fosse possível ou reagir 
de forma favorável ou negativa, Galeno marca um novo momento fulcral na 
história da medicina. Através do exemplo, o autor grego impôs aos estudiosos 
que lhe sucederam a ideia daquilo que deveria ser a medicina, tendo a sua 
abordagem à ciência sido perpetuada por mais de um milénio (Nutton 2004, 
p. 216). O médico natural da cidade de Pérgamo terá vivido entre 129 e 210 
d.C. e, ainda que de origem grega, passou grande parte da sua vida profissional 
em Roma, chegando a integrar a corte de Marco Aurélio como médico pessoal 
do imperadorromano (OCD, pp. 621-2).70 Deve notar-se, que entendemos 
como gregos todos os falantes nativos da lingua grega, cuja origem geográfica 
corresponderia ao espaço de antigas colónias gregas ou dos reinos helenísticos.
O sucesso obtido enquanto médico dever-se-á em parte à auspiciosa 
origem de Galeno. Nascido no seio de uma família abastada na cidade de 
Pérgamo,71 espaço privilegiado para o estudo e com um importante lugar de 
69 Sobre a vida e carreira de Galeno, vide também Nutton 2004, pp. 216-229.
70 Sobre a possível influência de Marco Aurélio na obra e pensamento de Galeno, vide 
Debru 2004.
71 Sobre a Pérgamo de Galeno, vide Pearcy 1985
56
II. Galeno de Pérgamo: 
culto a Asclépio,72 teria efetivamente um ambiente propício para a construção 
da carreira que o haveria de tornar célebre.73 Em boa verdade a importância de 
Pérgamo no ‘mapa médico’ do território imperial é um factor de grande relevo 
na carreira de Galeno, já que o complexo de culto ao deus da medicina seria um 
dos mais importantes do império, tendo sido patrocinado pelo próprio César. 
À data, apenas o templo de Asclépio em Epidauro o secundaria em tamanho e 
possivelmente em importância (vide Renberg 2006/2007).
O pai de Galeno, Nícon, terá desempenhado um papel fulcral na educação 
humanística deste, uma vez que parece ter sido uma referência moral e intelectual. 
Tal está patente no afecto que Galeno parece ter nutrido por ele, conforme a 
constante referência textual à figura paternal. Nícon foi um homem de grande 
cultura, dado que terá sido um especialista experimentado em geometria, 
astronomia e arquitetura e parece ter também nutrido um especial gosto pela 
ciência natural e o ensaio, pois levou a cabo experiências com as suas plantações 
de modo a melhorar a qualidade das colheitas – isto por aquilo a que o próprio 
alude na sua obra escrita (cf. De alim. 6. 546.5; 6.552.1-15). Ainda que exista um 
largo debate acerca da personagem histórica de Nícon (Nutton 2005, p.217), há a 
ideia generalizada de que este teria obtido a cidadania romana, pelo que Galeno 
seria ele mesmo cidadão romano, ainda que em nenhum momento faça alusão 
a isso. Ora, este não é um dado de somenos importância, pois sendo cidadão 
romano, enquanto iatros ou medicus, Galeno teria uma receção positivamente 
diferente dos demais profissionais no seio da elite romana (vide supra). Algo 
que poderia ter contribuído para a sua popularidade enquanto sábio nas ciências 
médicas.74
Independentemente do seu status social dentro do império, Nícon teria 
grandes recursos económicos, de maneira que Galeno prosseguiu os seus estudos 
em Esmirna, Corinto e, finalmente, Alexandria. Além de que teve a oportunidade 
de estudar com sábios de Pérgamo como Escríon, Sátiro, Estratónico e Eficiano; e 
de Esmirna, como seja Pélops e ainda com toda a nata intelectual do grande centro 
do saber científico imperial na época: a Alexandria egípcia. Malogradamente, 
não se sabe muito dos seus professores, à parte de que estes professariam a 
medicina baseada nos preceitos hipocráticos e que teriam particular interesse na 
anatomia. Ainda que nos faltem informações sobre os saberes dos seus mestres, 
é inquestionável a preparação filosófica de Galeno, pois esta está impregnada 
quer na hermenêutica do seu pensamento escrito, quer nas estruturas das suas 
interrogações sobre as ciências naturais e empíricas. Além disso, só pelo treino 
72 Sobre o culto Asclépio, vide Petsalis-Diomidis 2010.
73 Para um comentário mais elaborado debruçado na juventude e na educação de Galeno 
vide Schlange-Schöningen 2003, pp.61-99.
74 A propósito de Galeno e da sociedade do Império Romano vide Schlange-Schöningen 
2003 pp. 291-306.
57
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
filosófico se explicaria o vasto saber que a obra deste exibe à luz da época em que 
terá vivido e tendo em conta as incontornáveis condicionantes técnicas e práticas. 
Por outro lado, o gosto pela filosofia em conjunto com as suas relações familiares 
poderão ter-lhe despertado uma especial sensibilidade para o saber humanístico 
e cuidado empático para com o padecimento humano, motor principal das artes 
médicas. E talvez por esse motivo tenha sido a medicina e os saberes que se lhe 
associam um dos seus principais objetos de estudo. 
Para além de um manifesto interesse pelos processos naturais, a empatia 
para com o padecimento dos demais, pode ter servido de estímulo para a ati-
vidade do sábio de Pérgamo. Exemplo da manifesta humanidade de Galeno 
– especialmente se enquadrada numa sociedade antiga onde imperava aquilo a 
que hoje designaríamos por ‘terrível injustiça social’ – teria sido o, pelo menos 
aparente, sentimento de aversão tido por este para com a sua mãe. Tal atitude de 
reprovação está patente nos comentários à personalidade explosiva desta mulher, 
abusadora do marido e mal tratadora de escravos, pelo erro mais insignificante 
(cf. CMG 5. 40-50; Singer 1997, 107-8, 119-21; 6.755).
O motor do empirismo de Galeno perante o universo e os seus constituintes 
processos naturais ter-se-á devido à formação filosófica que lhe é atribuída em 
Pérgamo, cidade de origem, complementada por uma estada educativa em 
Alexandria (c. 151-157 d.C.). Na sua cidade natal terá estudado com filósofos 
dos quatro principais setores de pensamento ocidental: estoicos, epicuristas, 
aristotélicos e platónicos. O contacto com estas doutrinas permitir-lhe-ia 
conhecer os debates e conflitos entre várias doutrinas, algo que seguramente 
lhe estimulou a dialética crítica e lhe potenciou a abordagem analítica à ciência.
É na cidade egípcia de Alexandria que Galeno desenvolve o interesse 
pelos estudos anatómicos e cirúrgicos, muito provavelmente influenciado pelos 
mestres com quem teria contactado: Heracleano e Juliano de Alexandria.75 No 
entanto, é curiosa a pouca consideração pela cidade de Alexandria, registada 
nos seus escritos. O autor é por diversas vezes crítico severo da cidade e dos 
hábitos culturais e chega mesmo a considerar pedantes e entediantes alguns 
ensinamentos aí professados (Nutton 2005, p. 217). 
Não obstante as reticências para com a antiga capital do reino ptolemaico, o 
cosmopolitismo da cidade e o facto de ser o maior porto do mundo mediterrâneo 
tê-lo-ão posto em contacto com saberes que extravasariam o espaço da academia 
médica, e que Galeno, com a sua característica atitude observadora, saberia 
levar para o seu próprio campo de estudo. Tais saberes incluiriam os hábitos 
culturais de variados povos ou o contacto com diferentes tipos de ingredientes 
para potenciais fármacos, como fossem produtos minerais, vegetais e animais 
75 Vide BNP vol.6, p. 155.
58
II. Galeno de Pérgamo: 
das várias partes do império e também do seu exterior.76 Além disso, Galeno terá 
também tido conhecimento das mais recentes técnicas cirúrgicas alexandrinas, 
o que explicaria o seu primeiro trabalho oficial depois do regresso a Pérgamo (c. 
157), pois foi médico de uma tropa de gladiadores, cujo proprietário seria o sumo 
sacerdote da cidade (Mattern 2013, pp.81-98). Ora, o combate entre gladiadores 
gozava de grande popularidade por todo o império, servindo como adorno a 
festivais religiosos ou como benesse de campanha de políticos abastados. Nesse 
sentido, a boa saúde e a própria vida de um gladiador tinham grande valor 
económico, pelo que se disponibilizavam muitos recursos no cuidado destes 
atletas. Nesta tarefa, a função primária de Galeno consistiria em manter vivos os 
gladiadores após o combate, além de cuidar da sua dieta, sarar e fechar feridas 
– principalmente nos braços, coxas e nádegas – e supervisionar a sua saúde 
em geral. O médico grego ter-se-á destacado nestas funções, pois, segundo o 
próprio, apenas terão perecido dois gladiadores durante o período do seu primeiro 
exercício como médico, contrastando com o seu antecessor no mesmo cargo, que 
teria perdido 16 homens. O sucesso levá-lo-ia a ser reconduzido nas funções pelo 
sumo sacerdote seguinte e pelos seus trêssucessores (cf. CMG Suppl. 102-5).77
Apesar da popularidade de que terá gozado em Pérgamo, Galeno parte 
para Roma em 162 d.C.78 No entanto, e sem que os dados a propósito sejam 
de alguma maneira claros e esclarecedores, a verdade é que em 166 estava já de 
regresso à cidade Pérgamo para pouco tempo depois voltar a partir rumo à capital 
do império. Em 168 é chamado à Península Itálica pelos imperadores Marco 
Aurélio e Lúcio Vero, quando estes preparavam uma campanha contra as tribos 
germânicas invasoras da região centro do Danúbio. Porém, uma vez regressado 
a Roma com o exército imperial, em consequência das cerimónias fúnebre de 
Lúcio Vero, acaba por abandonar a companhia do exército, ocupando-se da 
saúde do jovem e problemático filho de Marco Aurélio, Cómodo. Durante o 
período na corte, o médico grego ocupou-se dos seus escritos e do tratamento 
de inúmeros pacientes, ricos e pobres, escravos e cidadãos, vítimas dos devaneios 
assassinos de Cómodo e atletas lesionados (cf. CMG 5.10.2.494; 2.632.). O sábio 
de Pérgamo reclama não ter nunca cobrado pelas suas consultas e tão pouco 
ter-se feito pagar enquanto professor durante este período.79
Possivelmente terá permanecido em Roma até ao decurso da primeira 
década do século III, ainda que nesta fase a biografia do sábio de Pérgamo se 
76 No âmbito da farmacologia do período imperial romano e do impacto do comércio das 
regiões mais orientais do império e extrafronteiras, vide Scarborough 1982, pp. 135-143.
77 A propósito do cuidado prestado a gladiadores por Galeno, vide Schlange-Schöningen 
2003, pp. 101-137.
78 Sobre a primeira passagem de Galeno por Roma, vide Schlange-Schöningen 2003, pp. 
139-172.
79 Sobre a segunda estadia de Galeno em Roma. vide Schlange-Schöningen 2003, pp. 173-
221.
59
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
torne difusa. De facto, apenas podem ser identificados esparsos acontecimentos 
e com datação problemática. Como nota Nutton (2004, p.226), alguns dos 
dados fornecidos pelo próprio Galeno são questionáveis, pois a dada altura, 
já avançado de idade, as notas biográficas deste poderiam confundir-se com 
leituras de outros autores. Nesse sentido, acaba por ser difícil considerar uma 
cronologia e lugar precisos para a velhice e morte de Galeno, pois as notícias são 
todas elas bastante tardias e pouco coincidentes.
Apesar do variado conjunto de ciências a que se dedicou – como sejam 
filosofia, fisiologia, anatomia, cirurgia, teoria médica, terapia, farmacologia80 
e estudos linguísticos (BNP vol.5, 654-61) –, foi na prática e na teorização 
da medicina que acabou por notabilizar-se, sendo nesta área uma referência 
incontornável até à época moderna (Durling 1961). A justificada fama dever-se-á 
à premissa a que, invariavelmente, os seus trabalhos e doutrinas se associavam: 
o homem e o seu bem-estar. A obra cujo primeiro livro aqui publicamos é disso 
manifesto exemplo.
2.2. A obra em contexto
A Galeno podem atribuir-se, se não a inovação em determinadas metodologias 
e técnicas, pelo menos o feito de ter sido um dos primeiros a registá-las. Um desses 
exemplos é a escala de temperatura. Galeno é o primeiro autor a descrever um método 
de medição de temperatura pela comparação entre estados. Terá estabelecido aquilo 
que se poderia designar por temperatura neutra padrão ao juntar partes iguais de 
água a ferver e gelo. Tendo estabelecido assim o ‘estado nulo’, definiu a partir daí 
uma escala, acrescentando quatro graus de calor e quatro graus sobre esse ponto 
neutro. No entanto, o contributo direto de Galeno para a medição da temperatura 
acabou por se desvanecer, uma vez que o autor não descreveu ou desenvolveu um 
aparelho que pudesse pôr em prática os conceitos teóricos que expunha – isto 
partindo do principio de que não nos chegou notícia de tal objeto.81
Os ensinamentos de Galeno devem muito a um grande conjunto de 
predecessores – sejam médicos ou filósofos. A própria noção de ‘saúde’,82 enquanto 
produto de um equilíbrio entre influencias físicas opostas, poderia remontar pelo 
menos a Alcmeón de Crotona (c. VI-V a.C.) e ser subscrita por muitos dos autores 
hipocráticos anteriores a Galeno. Ora, Platão parte da física orgânica humana para 
80 Para um estudo referente às práticas farmacológicas de Galeno, vide Touwaide 2012, pp. 
19-62.
81 Sobre a medicina galénica, vide Nutton 2004, pp. 230-247.
82 Sobre a definição de saúde em Galeno vide Johnston 2006, pp.21-23.
60
II. Galeno de Pérgamo: 
a física cósmica para a relação de equilíbrio,83 já Aristóteles desenvolve o conceito 
de equilíbrio como μεσότης (mesotes), um estado intermédio ou equilibrado no qual 
cada órgão funcionaria adequadamente em função do equilíbrio e proporcionalidade 
dos elementos essenciais e seus constituintes: fogo, água, terra e ar. E como cada 
um dos elementos era caracterizado por diferentes qualidades, como húmido/
seco, quente/frio este conceito foi estendido a estas propriedades e materializado 
na interpretação dos vários tipos de bílis (Powell 2003, p. 11, vide também Tracy 
1969, pp. 334-43). Esta abordagem predicadora de estados de equilíbrio tem 
vindo a ser recuperada pela medicina holística moderna, materializada em grande 
medida pela homeopatia amplamente praticada e publicitada nos dias de hoje, 
ainda que obedecendo a princípios orgânicos e anatómicos distintos e muitas vezes 
de fundamentação científica duvidosa.
Apesar das várias referências da filosofia antiga e ciência natural passíveis de 
terem contribuído para o pensamento galénico, o corpus hipocrático foi o grande 
motor do pensamento e produção escrita do sábio de Pérgamo. De facto, tal é 
demonstrável pela própria obra escrita do autor. Entre c.170 e 190 d.C., além de 
outros estudos, Galeno ter-se-á dedicado à redação de comentários a 18 tratados 
hipocráticos, de maneira a aclarar os mesmos para os seus leitores, não se detendo 
de forma muito extensiva em análises críticas dos processos descritos. A falta de 
comentário crítico substancial a estes textos poderá indiciar a grande reverência 
e subordinação aos ensinamentos postulados pelo pensamento hipocrático.
No entanto, não deve ser descartada a influência direta de outros ‘médicos’ 
na obra de Galeno, seja pelos mestres que Galeno foi encontrando, seja por 
autores que ouviu ou leu. Não é possível calcular com propriedade o impacto 
de outros pensadores na obra de Galeno, porque apenas conhecemos as leituras 
que ele próprio comenta, além de que muito raramente expressa de forma 
directa a coincidência do seu pensamento com a alguma instrução recebida de 
outro sábio ou corrente de pensamento. Obviamente, faz-nos falta ter acesso à 
biblioteca de Galeno.84 Quando nos referimos a uma biblioteca, imaginamos 
uma real ‘biblioteca física’ pejada de papiros ou pregaminhos que o autor pudesse 
consultar quando entendesse, independentemente dos autores citados por 
Galeno. Na verdade, imaginar essa biblioteca é um exercício teórico de grande 
valor para o entendimento do saber na antiguidade e da ciência de Galeno, 
sendo algo a que alguns autores contemporâneos se tem dedicado, numa 
tentativa de reconstrução arqueológica que, à falta de provas físicas e textos reais, 
obviamente ignoraria sempre aquilo que o próprio autor omite (Boudon-Millot 
2008, pp. 7-18.) A intertextualidade é uma constante na obra de Galeno, porém 
83 Sobre a obra de Platão na abordagem científica de Galeno, vide De Lacy 1972. Sobre a 
definição de saúde em Galeno vide Johnston 2006, pp.21-23.
84 Para a reconstrução da biblioteca de Galeno, vide Nutton 2009, pp.19-34.
61
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
esta intertextualidade não corresponde a uma informação linear passível de 
ser associada a um determinado autor antigo, para além daqueles que Galeno 
nomeia.85
O célebre filósofo de Pérgamo terá escrito na totalidade mais de 
250 tratados de carácter médico, filosófico e filológico, todavia apenas se 
preservou aproximadamente um terso da obra supostamente lavradapelo 
autor. Destes tratados, uma grande porção está dedicada à anatomia, fisiologia 
e farmacologia.86 Muito provavelmente, a sobrevivência de tão grande e 
específico corpus dever-se-á ao constante recurso da medicina antiga e medieval 
às suas obras, pelo que seria mais comum a cópia e divulgação desses textos 
do que outros de carácter menos pragmático ou sem matéria médica de relevo. 
Recordamos que a obra de Galeno foi durante um milénio um dos principais 
compêndios, se não o maior, para a prática da medicina no espaço da bacia 
do Mediterrâneo antigo, com particular incidência no território bizantino, 
mesopotâmico e do Levante.87
Claro está que a marca deixada por Galeno na medicina ocidental não 
correspondeu em absoluto a inovações na ciência médica introduzidas por este. 
Na verdade, uma grande parte das ideias transmitidas não eram exclusivamente 
suas. Porém, a forma como este desenvolveu e descreveu essas mesmas teorias 
com frequentes comparações e considerações sobre determinadas técnicas ou 
metodologia científica e, por fim, o poder da sua capacidade analítica e expressão 
retórica impuseram a abordagem galénica na subsequente medicina em Bizâncio 
e próximo oriente, assim como ocidente medieval. Repare-se que a célebre a 
obra De Humani corporis fabrica (2a ed. 1551) do anatomista Andreas Vessalius 
(1514-1564) tem ainda a obra de galeno como uma das referências para o estudo 
da anatomia (Lamberg and Solinb 2002).
No entanto, apesar da grande tradição assentada em textos galénicos, 
paradoxalmente, a reunião e compilação de manuscritos remonta apenas ao 
século XV,88 correspondendo não só a versões gregas, mas também a traduções 
em latim e ainda versões árabes e siríacas.89 Estas versões oriundas do próximo 
oriente remontariam a um cânone de 15 trabalhos traduzidos para língua árabe 
anterior ao século VI. Durante os séculos VII-X a maior parte dos seus trabalhos 
terão sido traduzidos para siríaco e árabe, dos quais é exemplo a obra de Hunayn 
85 Ver também Singer 1997.
86 Para um estudo sobre os conhecimentos farmacológicos que precederam e influenciaram 
os estudos de Galeno, vide Fabricius 1972.
87 Sobre a medicina no Império Romano tardio, vide Nutton 2004, pp. 292-309. Sobre a 
medicina bizantina e dívida desta à tradição médica antiga, vide Temkin 1962 e também Allan 
1988.
88 BNP Supplements I, vol.1, pp. 275-280.
89 Para um levantamento exaustivo de edições do corpus galénico, vide Fichtner 2011. 
62
II. Galeno de Pérgamo: 
ibn Ishaq.90 A transição da filosofia e ciências naturais entre a antiguidade 
tardia e o período medieval europeu não foi de todo simples e natural, pelo 
que frequentemente a preservação dos tratados galénicos e o saber contido na 
obra do médico, datados no período imperial romano, é muitas vezes atribuído, 
aos grandes centros intelectuais muçulmanos, e donde teriam sido importadas 
a ciência com tradição na antiguidade e a própria ‘ciência nova’.91 Mais uma 
vez, Alexandria surge como um dos grandes baluartes do saber mediterrâneo 
(Pormann 2010, pp. 419-441) e principal ponto de distribuição de obras.
Dado o caráter deste estudo e o extenso conjunto de tratados galénicos 
que abordam praticamente todas as questões do mundo natural92 e a sua relação 
com a saúde em debate nos séculos XI-XII, não nos deteremos em comentários 
a estes ou às teorias aí publicadas. Ainda que, efetivamente, o pensamento 
de Galeno apenas possa ser resumido a partir do conjunto da sua obra e da 
contextualização individual de cada um dos tratados, remetemos para futuras 
publicações e estudos dos tratados de Galeno a análise do saber que cada texto 
transporta em particular.
90 Vide Cooper 2016 e Overwien 2015. Para uma listagem completa das obras componentes 
do corpus galénico, vide BNP Supplements I, vol.1, pp. 275-280). Sobre traduções e edições sírias e 
árabes da obra galénica, vide Bergsträsser 1925, Bos & Tzvi, Langermann 2015 e Vagelpohl 2018.
91 A propósito, vide Jacquart 2004.
92 Sobre o conceito de natureza em Galeno, vide Jouanna 2002, pp. 287-311.
63
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
III. A ciência de Galeno no De alim.
O esforço por questionar os fenómenos da natureza à luz de uma lógica 
aplicada ao estudo das ciências naturais é um fator recorrente no De alim. de 
Galeno. A busca pela pergunta correta e pela verdade que serviria de base à 
mesma conduziu o cientista de Pérgamo a um certo cuidado analítico e espírito 
crítico. Galeno tende a abordar o objeto de estudo medindo diversos fatores 
em correlação, pois não poucas vezes nota as sempre necessárias reticências 
relativamente àquilo que parece estar estabelecido, uma vez que um saber 
postulado se encontraria cristalizado por falta de inquirição geradora de uma 
verdade factual. Nesse sentido, a abordagem galénica aos problemas revela um 
espírito inquisitivo inerente à metodologia científica ao considerar cada elemento 
de uma dada experiência um motor de ação / reação em potência, cujo resultado 
é único. Portanto, quando um ensaio tem pessoas como objeto, também estas 
influem no resultado em função das suas características.
“Ora, eu digo ‘para muitos’, cuidando não dizer ‘para todos’, porque é necessário 
aplicar-se critérios distintivos pelos quais as disposições daqueles que padecem 
de diarreia crónica serão identificadas.” (de alim. 6. 478.5-10)
Neste caso, a experiência consiste em distinguir as várias causas que po-
dem provocar o mesmo efeito em diferentes pacientes. Nesse sentido, um dado 
facto não implica necessariamente a mesma origem ou força motriz, pelo que 
é necessário inquirir-se sobre o que é o objeto em análise e qual é a sua com-
posição (cf. de alim. 6. 478.10). Ou seja, cada elemento constituinte dos corpos 
e o contexto onde estes interagem são influentes, pelo que é pela análise das 
funções e relações de cada componente básico que se obtém a definição mais 
exata. Esta aproximação ao pormenor do objeto de estudo leva à extrapolação 
daquilo que é o resultado da experiência a partir da identificação e da dis-
secação dos elementos básicos da matéria e da sua relação / função natural. 
Nesse sentido, o referencial para a análise necessita também de ser claramente 
concretizado, até para que as comparações entre objetos e sistemas em análise 
não sejam erróneas. 
É importante sublinhar que o estudo da natureza na antiguidade tem como 
principal base de sustento a comparação valorativa ou classificatória; isto pela 
falta de mecanismos técnicos analíticos precisos que pudessem por si só servir 
para caracterizar, medir e avaliar a experiência. Estes aspetos levam Galeno a 
repetir frequentemente a fórmula de análise a aplicar:
64
III. A ciência de Galeno no De alim.
“(...) deve-se, desta forma e em cada ocasião, atentar naquilo que está a ser 
considerado, pois as coisas que são comparadas entre si foram alteradas 
apenas relativamente àquela circunstância especifica; uma vez que, quando 
misturadas, se compararam coisas que se diferenciam de si mesmas em muitos 
aspetos, assim como todas as coisas que foram particularmente consideradas 
sobre cada um deles.” (de alim. 6.490.1-10).
Um dado objeto é esse mesmo objeto porque o seu percurso de existência 
assim o definiu. Portanto, um objeto concretiza-se em função do seu percurso, 
respeitando a seguinte função: f(x)= (O x T)/I.93 Este paradigma assenta sempre 
na mutabilidade das características de um objeto pelas interações e pelo tempo a 
que esteve sujeito às mesmas. De resto, este é o ponto de partida para o estudo 
global da matéria e da termodinâmica, à qual Galeno alude na discussão da 
transformação dos corpos sujeitos à temperatura, ainda que não aborde o assunto 
considerando a termodinâmica como um objeto representativo de um conceito 
científico em si mesmo. O autor expande o conselho ao alertar para o perigo do 
preconceito, pois os estados potenciais dependem de variáveis que transcendem 
a composição da experiência por diferentes e mutáveis elementos simples.Esses 
princípios mecânicos de influência transformadora poderiam incluir a atmosfera, 
o tempo cronológico, o clima, os hábitos culturais, a geografia, a condição física 
e o estado global dos corpos em interação, como seja a velhice e a juventude, cuja 
influência fisiológica é relevante em qualquer experiência. Veja-se como exemplo 
o comentário de Galeno relativo ao consumo do mel e ao preconceito gerado em 
torno das faculdades deste produto alimentar. (cf. de alim. 6.470.5-471.5)
Galeno elenca um conjunto de fatores a ter em consideração na análise 
do efeito de determinado produto nas supostas disposições inatas do corpo 
humano, como sejam a atividade física, a cultura, as estações, os costumes, a 
natureza fisiológica e a idade. Dessa forma, marca o processo de transformação, 
pois produtos com características idênticas podem provocar diferentes reações 
em diferentes pessoas, exatamente por causa de fatores como os identificados 
nos seguintes passos:
“Pois não é apropriado simplesmente dizer que os peixes das pedras são bem 
digeridos pela maior parte das pessoas, mas que existe gente que digere carne 
mais facilmente. Em vez disso, aqueles deviam definir o que cada grupo (de 
paciente) é.” (de alim. 6.172.1-10)
ou
93 O = objeto em estudo; T= tempo transcorrido desde o primeiro momento de classificação 
do objeto até ao resultado final da experiência; I = interações).
65
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
“Ou seja, que a melicrate não limpa o estômago em todas as situações, nem 
um prato de lentilhas o congestiona, mas que existem algumas pessoas que, 
todavia, não sentem nenhum destes efeitos e até se deparam com o contrário;” 
(de alim. 6.458.10) 
Aqui o autor marca uma questão comentada ao longo de toda a obra, isto 
é, a diferente forma de reação do corpo humano, dependente de indivíduos, 
circunstâncias e propensão humoral. Portanto, é imperativa a análise global 
das circunstâncias à luz da individualidade de cada um dos seus elementos 
constituintes. 
Por tudo isto, podemos considerar que na sua globalidade, a decomposição 
das ideias sobre a matéria estabelece, de certa forma, um princípio de atuação 
científica de Galeno no De alim. E tal tem paralelo na metodologia epistemológica 
nas ciências modernas naturais no seu estado mais puro: a física e a química. De 
resto Galeno influiu por c. 1500 anos no pensamento bioquímico (Leicester 
1961), sendo-lhe imputada autoridade neste saber. Resumindo, a análise e a 
experiência são essenciais para a conceptualização e o entendimento da natureza 
das coisas; ou seja a composição é o princípio básico da definição de algo. Uma 
coisa é tanto mais inteligível, quanto seja dividida e separada da matéria que lhe 
serve de base.
“Ora, é a composição dos remédios (a fonte) para o entendimento de tais 
disposições e não propriamente o conhecimento dos remédios em si; isto é, 
sem conhecer de forma precisa as faculdades dos materiais usados, é impossível 
ajudar aqueles que deles necessitam, pois é necessário discutir as faculdades 
dos alimentos – tal como já foram discutidas as faculdades dos fármacos num 
outro espaço.” (de alim. 6. 478.10-479.5)
Entenda-se que ao referir-se a remédios, o autor tem presente as características 
das substâncias que compõe os alimentos e que podem atuar como um conjunto 
ou individualmente nas funções orgânicas do corpo. Galeno acrescenta a isto 
o treino e a formação necessários para a obtenção do saber, pois o investigador 
deve insistir na busca do seu objetivo e no potenciamento da sua capacidade 
enquanto sábio, inquirindo o estabelecido e aprofundando o já conhecido. Ou 
seja, a confrontação com vários saberes e cenários é o princípio metodológico 
ideal (cf. de alim. 6.480.1-15.).
Segundo Galeno, o estudo a partir do saber de outros sábios é insuficiente, 
se não for complementado pela insistência e investigação pessoal. O médico 
grego insiste particularmente neste aspeto em que, salientando também que 
o saber prévio possibilita uma melhor absorção de novas informações ou teo-
rias. A experiência adquirida não é suficiente, pois as circunstâncias mutáveis 
alteram o objeto, pelo que há sempre alguma coisa a acrescentar ao saber 
66
III. A ciência de Galeno no De alim.
empírico (cf. de alim. 6.457.10-458.1). Da mesma forma, o princípio da insis-
tência inquisitiva aumenta a atenção ao pormenor e favorece um maior cuidado 
e uma mais precisa contraposição entre características físicas dos alimentos e a 
consequência das mesmas para o metabolismo humano:
“O conhecimento dessas propriedades é obtido com esforço, através de 
experiências por um largo período e pela natureza dos odores e sabores, cujas 
comidas em análise aparentam ter; e também através da consistência que 
adquiriram no que refere à viscosidade, à friabilidade e à porosidade; e também 
à solidez, à leveza e ao peso. Todas estas coisas levam ao entendimento, de tal 
modo que, ao chegar a um país estrangeiro e encontrando comida que nunca 
tinhas visto, terás um bom ponto de partida para o conhecimento das suas 
propriedades.” (de alim. 6.479.1-15) 
O autor estabelece o método analítico básico. Isto é, toda e qualquer matéria 
é analisável e deve ser considerada em função de todas as suas dimensões de 
ação / reação; no caso do uso da comida: odor, sabor, densidade, humidade, 
porosidade, massa e peso.
67
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
3.1. O debate científico e a intertextualidade
Por tudo aquilo que já foi dito a propósito da abordagem científica de 
Galeno, entende-se como lógica a constante contraposição com outros autores 
antigos. Efetivamente essa é uma prática recorrente nos escritos do sábio de 
Pérgamo, quer seja para identificar o autor que antes tratou o assunto em debate 
e instruiu Galeno na sua própria conceção do problema, quer seja na crítica 
das ideias postuladas pela ‘comunidade científica’ ou geradas a partir do senso 
comum popular.
Como não poderia deixar de ser, Hipócrates é presença constante nos 
comentários de Galeno, até porque, de uma maneira geral, a obra atribuída 
ao médico grego dá o mote para toda a discussão médica na antiguidade. 
Além disso, Galeno dedicou algumas das suas obras ao comentário e 
explicação de textos hipocráticos. Por esse motivo, de modo a justificar o seu 
próprio comentário sobre a dieta, Galeno lembra a obra do seu antecessor e 
comenta-a em função da autoria (cf. de alim. 6.473.5-474.5). No entanto, o 
sábio grego não se limita a comentar a atribuição correta de autoria a uma 
determinada obra ou a criticar determinado tema referido por algum autor. 
Galeno nota de certa forma o ‘estado da arte’ sobre o tema, nomeando aquele 
que seria o mais relevante autor e referência na antiguidade. Pode até dizer-se 
que Galeno leva a cabo um dos mais antigos levantamentos do estado de 
arte ‘científico’ conhecido. Existe, pois, um esforço em seguir ou pelo menos 
criar uma determinada linha de pensamento que sirva de ponto de partida 
ou suporte ao argumento da análise do objeto em questão. Neste caso é a 
ação dos alimentos na dieta humana (na sua globalidade) e a forma como 
cada elemento da comida atua sob o corpo humano. Contudo, não podemos 
deixar de notar que alguns dos comentários de Galeno relativamente a 
outros argumentos em voga têm por motor a retórica, que na mecânica de 
argumentação pela verdade tende por vezes à descontextualização de outros 
textos, de modo a construir uma teoria própria, seguindo um padrão comum 
à Segunda Sofística. Nesse sentido, é importante ter em atenção que o autor 
mais citado em De alim. é o próprio Galeno
A crítica assume um papel importante na ciência galénica, ao assumir que 
não deve ser ignorado aquilo que já foi feito e tampouco podem ser ignoradas as 
lacunas deixadas ou a necessidade de atualizar o estudo. No de alim., Menesiteu 
é o principal alvo destes comentários (cf. de alim. 6.479.10-15), ainda que surjam 
outros nomes ao longo do texto. Veja-se como exemplo o comentário de Galeno68
III. A ciência de Galeno no De alim.
à abordagem de Filótimo e Praxágoras94:
“Filótimo acredita que um humor espesso, glutinoso e frio, a que ele próprio 
– assim como o seu mestre Praxágoras – chama ‘verde’, é gerado por todos 
os bolos de cevada. No entanto, isso não é assim, uma vez que a alfita nem 
tem viscosidade, tal como sucede com os granulados, nem valor nutricional. 
Porém, o bolo de cevada induziu-o em erro, ao ter sido mergulhado em vinho 
doce e siraion por bastante tempo – chama a estes bolos tripten, assim como o 
fazem os atenienses.” (de alim. 6.509.10-510.5)
Existe uma leitura crítica que não visa de todo desacreditar um rival, mas 
antes promover um debate pela verdade ou, melhor dizendo, a verdade galénica. 
O médico grego faz uso do trabalho de outros cientistas como fonte, ao notar que 
o próprio Filótimo havia feito um levantamento de estudos, mas que apesar disso 
não lhe foi possível a correção devida, na medida em que ignorou questões de 
relevo. Algo que deveria ser evitado pelos investigadores seguidores do método 
mais acertado, ‘o científico’ (λογισμός, logismos, cf. de alim. 6.454.1-5). De facto, 
há um esforço notório de Galeno na apresentação do saber dos outros estudiosos 
de maneira a alimentar o debate (cf. de alim. 6.511.5-15; de alim. 6.510.15-511.5).
A insistência e o estudo prévio são a chave não só para conceber a orientação 
da investigação a seguir, mas também para uma leitura eficaz dos dados recolhidos 
e para o desenvolvimento do ensaio experimental (cf. de alim. 6.454.15-455.1). O 
autor entende por ‘experiência’ (ἀπόδειξις) a observação pelo senso comum, ou 
seja, a definição através de um resultado que se vai fazendo sentir ao longo dos 
vários acontecimentos relativos a um mesmo tema. Tais critérios metodológicos 
implicam a negação do dogma, pelo que nem sempre um método funcional 
para um determinado caso é eficaz em outros casos de diferentes características 
e condições. É nesse sentido que Galeno justifica a crítica a outras doutrinas 
que procederiam a diferentes abordagens à matéria de estudo, como sejam os 
racionalistas e os empiristas (cf. de alim. 6.455.5-10).
Galeno defendia o seu método científico como uma abordagem escolar 
com a sua assinatura (Brockmaan 2009). É por esse motivo que comenta 
frequentemente a coerência nos seus vários trabalhos, tentando ligá-los por um 
fio condutor comum – a ciência criteriosa –, e não repetindo explicações contidas 
noutros textos. Ao contrário, o célebre médico cria uma rede de referências infra 
texto e extratexto. Dessa forma, Galeno procura não romper a análise descritiva 
do objeto em estudo com comentários paralelos. O objetivo é não perder-se em 
comentários periféricos, mas ao mesmo tempo fundamentar o argumento de 
forma clara (cf. de alim. 6.458.5).
94 Praxágoras é frequentemente criticado quanto à doutrina e metodologia (Tieleman 2015). 
69
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
O conhecimento não é construído em função de uma possível postulação 
absoluta, nem tampouco assumindo que mais tarde uma determinada descoberta 
será verificada como equívoca e consequentemente substituída por outra. A 
ciência contém em si o mote do debate, pelo que em cada estudo desenvolvido há 
uma certa abertura para a crítica e a análise externa, de modo a que a ‘verdade’ 
possa ser construída sob uma base sólida. Por esse motivo, por cada teoria ou 
estudo apresentados torna-se necessário ao cientista demonstrar a teoria pela 
apresentação de dados, processos de trabalho e um argumento que os relacione 
e explique. E é sobre estes elementos que é feita a crítica e não unicamente 
sobre o objeto final do ensaio. Nesse sentido, e salvaguardando as devidas 
distâncias culturais e técnicas, Galeno é o cientista por excelência, pois expõe-se 
à análise, ao apresentar os seus dados, as fontes, os métodos e os resultados 
finais. Finalmente, e posto isto, predispõe-se ao teste:
“Tu podes testar a veracidade de toda a proposta que apresento aqui, ao ferver 
lentilhas ou repolho95 ou qualquer animal marinho, dos já indicados por mim, 
e depois dispor o cozinhado com azeite, garum e pimenta, e oferecer de beber a 
quem queiras, tal como uma dupla fervura de legumes. Então, constatarás que 
o intestino se move após o caldo, mas obstipa-se depois com a parte sólida.” 
(de alim. 6.462.1-5)
Obviamente não podemos desconectar o saber e a metodologia de Galeno 
do seu tempo, pelo que não é transponível a conceptualização científica do 
autor de Pérgamo para a teoria científica moderna; até pela categorização a que 
tendencialmente estão sujeitos os diferentes campos da ciência dos dias de hoje. 
Todavia, existem certos elementos analíticos no pensamento científico de Galeno 
que correspondem, ou deveriam corresponder, às bases de fundamentação da 
ciência moderna.
95 Brassica oleracea L.
(Página deixada propositadamente em branco)
71
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
3.2. A linguagem nos ensinamentos de Galeno – proposta 
para um estudo necessário
Tem sido dado pouco relevo ao caráter técnico da linguagem e à expressão 
literária da retórica galénica – considerando a extensão da obra do autor 
helénico –, pelo que haveria muito a dizer a propósito. Dado o caráter desta 
publicação não nos imiscuiremos nestas questões, uma vez que, tendo em conta 
a extensão e a variedade da obra do autor, a amostra que aqui traduzimos não é 
representativa do legado galénico.96 
Apesar de por si só o de alim. não reflectir a riqueza hermenêutica e 
linguística da obra galénica e de não ser propriamente imperativo o conhecimento 
da mesma para uma leitura superficial do tratado abordado neste estudo, haverá 
que notar que o estudo da mecânica de exposição de Galeno é relevante não 
só para um melhor entendimento global dos textos que compõem o corpus 
que lhe é atribuído e, consequentemente, uma mais clara abordagem crítica 
às linhas orientadoras e abalizadoras do seu pensamento; mas também para 
a perceção de questões particulares, levantadas em obras concretas e que têm 
impacto no entendimento global da história antiga, como sejam as variantes e 
variáveis da língua grega escrita em uso na época de Galeno (Lillo 2016). São 
disso exemplo as marcas tanto de ‘aticismos’, como da koine, nos escritos do 
médico de Pérgamo. Os dados linguísticos passíveis de serem obtidos de uma 
obra tão extensa favorecem também o estudo da língua grega desde um ponto de 
vista menos estruturalista e mais reivindicativo da língua enquanto organismo 
vivo e dinâmico, mais dependente de circunstâncias sociais e regionais. De 
certa forma, a submissão a estas variáveis põe em causa aquilo que para alguns 
especialistas marcaria uma representação clara dos dialetos gregos à luz de uma 
definição gramatical cerrada, que tanto os antigos gramáticos bizantinos, como 
os estudiosos modernos, postularam como exata. A propósito Vela Tejada (2015) 
nota o aticismo moderado de Galeno por comparação à obra de um autor quase 
coetâneo, Plutarco. Repare-se que o próprio sistema proposicional, que parece 
ser um dos mais importantes elementos de contraste entre o aticismo e a koine, 
acaba por revelar-se pouco definidor daquilo que se esperaria ser uma marcada 
tendência dialetal à época. Vela Tejada (2015) apresenta exemplos daquilo que 
parecem ser elementos de ‘ionismos’ e que não têm paralelo nas variantes áticas, 
pelo que estes dados colocam a análise crítica da linguagem de Galeno acima 
dos habituais critérios classificatórios restritivos. Isto porque a conceção de uma 
96 A propósito da retórica na obra de Galeno, vide Boudon-Millot 2004.
72
III. A ciência de Galeno no De alim.
língua ou dialetos uniformemente estruturados e cristalizados é bastante falível 
e corresponde a um certo prejuízo dos gramáticos antigos e de muitos estudiosos 
modernos dedicados ao estudo da língua grega, que obviamente apenas pode ser 
analisada pelo recurso à literatura sobrevivente. Note-se que não houve durante 
o séculoII algo a que se pudesse chamar normativa linguística, pelo que cada 
autor pode quase corresponder à representação de uma língua própria.
A linguagem de expressão tem um profundo impacto semântico, pois 
implica um determinado contexto sociolinguístico e reflete possíveis influências 
escritas que, obviamente, terão impacto na mecânica de análise do objeto em 
estudo ou debate. A propósito, deve notar-se que o argumento deve grande 
dependência à língua de transmissão do mesmo, dado que a retórica é por sí 
um instrumento da ciência do médico de Pérgamo. Tanto autores anteriores 
e contemporâneos de Galeno, como correntes de pensamento a que este autor 
tivesse acesso, moldaram-lhe a produção escrita, ainda que seja difícil, para não 
dizer inexequível, perceber em que medida outros pensadores e autores poderiam 
ter influído no pensamento galénico.
Por vezes, a linguagem de Galeno parece ser um tanto ou quanto ambígua, 
algo que deveria contrastar com a abordagem científica que requer objetividade 
para um melhor entendimento das matérias em debate. Reconhece-se a 
duplicidade de sentido que algumas análises de Galeno acarretam, não tanto 
por uma dissimulada ambiguidade, mas por aquilo que parece ser uma certa 
resistência do autor grego em postular dogmas, principalmente quando estão 
em causa ideias que lhe são transmitidas, pelo que deixa uma certa abertura à 
argumentação contraditória (Roselli 2015). A propósito podem lembrar-se como 
exemplos semelhantes os comentários de Galeno a certas matérias tratadas por 
Menesiteu no De alim. I. O autor critica algumas das informações deixadas por 
Menesiteu sobre determinados produtos alimentares, porém, ao construir o seu 
próprio argumento para validar a instrução que pretende legar, usa os mesmos 
pressupostos postulados por Menesiteu. O exemplo mais paradigmático deste 
uso é o comentário sobre o cereal zeia (vide infra, cap. 5.4).
Por norma, a retórica do autor molda formalmente os tratados que elabora, 
mais ainda se em causa está um objeto concreto de estudo, carente de definição. 
Por tal existem paralelismos estruturais entre as várias obras de Galeno. De facto, 
comparando a organização do De alimentorum facultatibus ao De symptomatum 
differentiis pode identificar-se uma metodologia formal semelhante, que expõe o 
argumento por etapas e mecânicas comuns (Lara Nava 2015). Contudo, haverá 
que notar que tal não é transponível para toda a obra de Galeno, pelo que a 
forma não é necessariamente um critério para o estudo da obra galénica como 
um conjunto representativo do seu pensamento.
Resumindo, a ciência constrói-se pela busca da verdade, seja essa mesma 
ciência o correspondente moderno, seja o princípio filosófico antigo. Por tal, o 
questionamento e a análise de cada elemento que componha o mundo natural em 
73
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
ação carece de uma medição e catalogação de modo a que todas as variáveis em 
correlação possam ser devidamente entendidas e, consequentemente, explicadas. 
Por esse motivo se faz tão necessário o entendimento da semântica da obra 
de Galeno, pois só conhecendo o valor que o próprio autor dava às palavras, 
podemos chegar a entender de forma exata o seu saber sobre as ciências naturais e 
humanas e, ao mesmo tempo, compreender a mecânica epistemológica e didática 
da sua obra. O entendimento global da obra à luz da linguagem pode depois 
ser aplicado no estudo de obras galénicas que não sobreviveram à passagem do 
tempo, mas sobre as quais existem fragmentos transmitidos por outros autores 
(García Novo 2015).
O texto que aqui tratamos dota-se de recursos estilísticos e estruturas 
formais que contribuem para a maior clareza de exposição e debate do objeto 
científico, salientando o diálogo mudo estabelecido por Galeno com o leitor, ao 
constantemente recordar as matérias abordadas previamente e ao conectar dados 
de modo a potenciar uma completa absorção da temática em estudo. Muitos 
destes recursos correspondem a estratégias retóricas, como seja a construção 
circular do argumento, de modo a que o objeto final esteja em direta relação 
com o estado inicial do paciente ou com o problema em questão.
(Página deixada propositadamente em branco)
75
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
3.3. A metodologia e o contexto cultural no De alim.: 
o léxico
A metodologia expositiva no de alim. não assenta na terminologia técnica 
associada à arte culinária ou aos vários pratos concebíveis e conhecidos à época, 
temas refletidos no Diaita de Galeno ou na obra de Apício.97 Antes, Galeno usa 
uma terminologia específica, sem que por isso se possa considerar técnica, ao 
analisar as propriedades dos alimentos básicos ou dos preparados simples que 
tenham um determinado resultado metabólico.98
Ao longo do processo de estudo descrito no referido texto, uma das 
dificuldades com as quais Galeno parece ter-se debatido terá sido a ausência 
de léxico especializado e cristalizado para o estudo das ciências naturais 
e médicas. Este problema é identificável em áreas desde a botânica, à 
mineralogia, da química, à anatomia. Um exemplo claro é o uso do termo 
γαστήρ (gaster) que tanto pode designar o sistema gástrico, como o estômago, 
os intestinos ou mesmo todo o sistema digestivo (cf. de alim. 6.460.10). 
Ora, isto não terá tanto que ver com o conhecimento anatómico do autor, 
mas antes com a ambiguidade presente no léxico grego em uso, que carece 
de terminologia concreta e precisa para cada órgão e para as suas funções 
características individuais. Obviamente, isto não quer dizer que não existisse 
vocabulário médico especializado e que este não fosse amplamente usado, 
porém, faltaria uniformidade no critério de uso e cristalização vocabular 
equivalente nas várias regiões de língua grega. 
Galeno acaba por ser o grande expoente antigo da lexicografia médica, 
pois atualizou muitos dos vocábulos de caráter científico. Mantendo as devidas 
distâncias relativas a contextos cultural e científico, não seria exagero considerar 
que a obra deste autor é a que mais se aproxima da semântica científica da 
atualidade (Cortés Gabaudan 2015, pp. 129-178). A propósito, se qualquer 
discussão, para Platão (cf. Phdr. 237B), ou qualquer ensino fundamentado, de 
acordo com Aristóteles (cf. Analytica posteriora 1.1.71a), deve começar com uma 
definição, para Galeno a construção da ‘definição’ do objeto de estudo é uma 
ferramenta recorrente e fulcral na exposição científica. Ainda assim e apesar da 
influência destes autores para a descrição do estudo dos fenómenos naturais, a 
97 Sobre a terminologia dos alimentos e da culinária em Apício vide Johnson 2006. Sobre a 
obra culinária de Apício, vide Ornellas e Castro 2015.
98 Para uma análise do discurso de Galeno em função do debate sobre léxico e semântica, 
vide Sluiter 2010, pp. 25-52.
76
III. A ciência de Galeno no De alim.
ambiguidade e a falta de precedentes generalizados limitaram o valor do léxico 
técnico quase até aos dias de hoje.
3.3.1. Os grãos99
O livro I do De alim. oferece alguns exemplos das dificuldades implícitas 
pela falta de léxico cristalizado, pois é frequente Galeno referir-se a determinado 
nome que varia consoante a região ou mesmo tradição popular, ao tentar atribuir 
um significado cerrado a determinada palavra através da adjetivação.100 Isto 
porque, possivelmente, dependendo do contexto geográfico e cultural do leitor, 
o substantivo usado poderia não corresponder de forma inequívoca ao objeto 
descrito, pelo que o autor considera ser necessário rebater ambiguidades. Ora, 
veja-se o seguinte passo:
“(...) como consequência de cada um ter sido misturado de uma determinada 
forma a suficiente (ambiente de) calor, frio e também seco ou húmido, estes 
acabam por ser doces, ou pungentes, ou salinos, ou ácidos, ou mesmo traventos 
ou amargos. ‘Salino’ não tem um outro significado que não seja ‘salgado’, pois as 
mesmas características são identificadas em ambas as palavras; e a igual classe 
de ‘rijo’e ‘travento’ é designada de ‘adstringente’.” (de alim. 6.474.10-475.5)
As palavras referentes ao sal são ἁλυκός (alykos) e ἁλμυρὸν (halmyron), 
respetivamente, sendo que a primeira corresponde ao mineral ‘sal’ e a segunda 
forma ao adjetivo qualificador. Efetivamente, a necessidade de explicar algo 
aparentemente óbvio residiria na variação lexical vigente no espaço grego. 
Havendo coincidência de sentido em nome e adjetivo, o autor relaciona-os de 
maneira a possibilitar a identificação e ao mesmo tempo potenciar uma definição. 
E procede da mesma maneira com as palavras στρυφνός (stryfnos) e αὐστηρός 
(austeros). No entanto, neste exemplo o autor usa dois adjetivos associáveis que 
classificam uma classe à qual designa por στύφον (styfon). Tal maneira de expor 
o argumento dever-se-á muito provavelmente à mecânica retórica de Galeno 
(vide supra). Note-se que, apesar de gramaticalmente o adjetivo e o substantivo 
serem facilmente distinguidos, neste tipo de tratados a linha que separa os dois 
géneros gramaticais é ténue. Algo frequentemente identificável na referência a 
propriedades de substâncias ou órgãos:
99 Para uma das referências literárias mais antigas ao processo de tratamento do grão após a 
colheita, vide Farmer Instruction ll.81-109 (Civil 1994).
100 Para uma descrição técnica dos cereais da região mediterrânea e mesopotâmica, vide van 
Zeist 1984 e Charles 1984.
77
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
(...) tal como não são nem tranquilizantes, nem diuréticos, nem geradores de 
qualquer disposição corporal do género: quente, frio, seco ou húmido.” (de 
alim. 6.469.1)
Neste passo o termo οὖρον (ouron) traduzir-se-ia à letra por ‘propriedade 
de urina’, porém, considerámos que a referência do autor tem como objeto as 
capacidades diuréticas. Ou seja, em causa está a capacidade de facilitar a secreção 
de urina, pelo que se transforma o substantivo em propriedade ou adjetivo. Se 
transpuséssemos o fenómeno para a língua portuguesa, dir-se-ia algo como 
‘urinável’.
O autor identifica a ambiguidade inerente à variedade lexical. De facto, 
parece notar a questão ao considerar que objetos comentados quer por si, quer 
por outros autores, correspondem às mesmas coisas em determinados passos, 
onde aparecem por outras palavras. Obviamente, para um autor que pretende 
expor a informação da forma mais didática possível, isto redunda na necessidade 
de esclarecer o leitor sobre a referida ambiguidade; mesmo quando, por causa do 
contexto cultural em discussão, Galeno não tem certezas sobre os substantivos 
que aborda. No caso comentado acima, Galeno trata a relação entre o adjetivo 
e o nome do material, que poderia servir como identificador das características 
do produto, estando seguro do significado dos substantivos. Porém, no exemplo 
seguinte, o autor reconhece não estar seguro da origem da palavra, algo que tem 
profunda influência na possibilidade de proceder-se a uma definição categórica:
“Entre os romanos, assim como entre todos aqueles sobre os quais estes 
governam, o pão mais puro é chamado de silignis e depois deste semidalis. 
Embora o semidalis seja um antigo nome grego, silignis não é grego; todavia, 
eu não consigo dar-lhe qualquer outro nome.” (de alim. 6.483.10-484.1)
Independentemente da etimologia de σίλιγνις (silignis), da qual não nos 
ocuparemos, o autor considera ser estrangeiro o nome para um produto comum 
em uso num determinado círculo de falantes, no qual o próprio estaria inserido. 
Porém, vê-se incapaz de identificar um outro termo que seja autóctone. Em 
causa não está o debate sobre a origem da palavra, mas antes o conhecimento 
do seu significado etimológico e a sua conexão original com um determinado 
objeto. É nesse âmbito que surge a discussão mais problemática do livro I do de 
alim. a distinção entre o grupo de cereais olyra, tife e zeia, dos quais se destaca a 
zeia, como o grão mais difícil de identificar.101
“Ora, é de admirar que aquele que reuniu a obra hipocrática intitulada Sobre a 
dieta, qualquer que tenha sido o autor, nem sequer mencionou a zeia. Uma vez 
101 Sobre esta discussão, vide Wilkins 2005. 
78
III. A ciência de Galeno no De alim.
que, mesmo acreditando que a tife é chamada de zeia por algumas pessoas, ele 
devia tê-lo referido.” (de alim. 6.511.5-15)
Neste passo o autor justifica a necessidade de debater sobre as designações 
de dois produtos, dado que são essenciais para a identificação perfeita do objeto 
em causa. Até como forma de definir um nome comummente aceite e que depois 
pudesse abranger todos os demais. Note-se que, a própria existência da zeia 
enquanto um cereal real é questionável, dado que o autor inclina-se para um 
juízo avesso a isso, tendendo a julgar que o vocábulo em causa designa um objeto 
usualmente chamado de outras formas. A dúvida relaciona-se com outros dois 
substantivos que designam, à partida, dois cereais diferentes, a olyra e a tife. Os 
três substantivos são comentados paralelamente ao longo do de alim.:
 
“No entanto, (aqui) é mencionado um grão particular, a olyra, da mesma 
maneira que também a tife o é. Porém, Menesiteu diz que os dois nomes se 
referem a um único grão, quando escreve isto: ‘então, de entre as sementes, 
a cevada e o trigo são os mais adequados enquanto alimento, depois destes 
segue aquela que se designa de duas formas, embora seja a mesma coisa. 
Alguns chamam-lhe tife e outros olyra.’” (de alim. 6.512.5-15; cf. 6.511.15-
512.1, 6.522.5-522.10)
Portanto, segundo Galeno, Menesiteu parece também não saber distinguir 
os dois cereais, pelo menos no que à designação diz respeito. Ou seja, dando 
conta de uma dificuldade de Menesiteu em distinguir os dois grãos, Galeno 
nota um problema generalizado, que os autores antigos resolveriam através de 
exposições ambíguas e abertas à interpretação. A variabilidade de usos que os 
grãos podem ter em diferentes espaços geográficos pode ser uma das causas na 
origem do enigma. Tampouco deve ser ignorada a questão cultural e a variedade 
de possíveis aplicações de um determinado cereal numa região tão vasta e 
plural. Diferentes usos poderiam perfeitamente gerar diferentes designações, 
mesmo quando está em causa o mesmo grão. A propósito de um outro grão 
(grão-de-bico), Galeno comenta a variedade de aplicações e explica o significado 
do adjetivo πολύχρηστος (polychrestos, polifacetado): 
 “Sabemos ser esta semente polifacetada no estrito significado da palavra ‘po-
lifacetada’. Pois é desta forma que nos referimos ao que é apropriado para 
numerosas condições do corpo e também àquilo que é útil para a gente, ainda 
que necessitem destes para uma aplicação concreta.” (de alim. 6.534-5-10)
Portanto, trata-se de algo que pode ser utilizado e visto sob várias 
perspetivas, ‘algo que tem muitas utilidades’. Esta característica poderia 
perfeitamente ser reconhecida em outros grãos e, em outros casos que não o 
79
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
do grão-de-bico, provocar uma variação do nome em função da sua aplicação. 
Nesse âmbito, veja-se também o seguinte comentário de Galeno a propósito de 
outras leguminosas:
“O nome dolichos102 foi descrito em Diocles, juntamente com os nomes de outras 
sementes que nos servem de alimento; e também no Sobre a dieta de Hipócrates, 
acerca do qual eu já antes discuti. Ora, julgo referirem-se à semente da planta 
cultivada, que atualmente é nomeada de duas formas por muita gente e no 
plural. Pois alguns chamam-nas loboi, enquanto outros phaseoloi103, gerando 
uma palavra de quatro sílabas e, dessa forma, fazendo um nome diferente 
de phaselos104, que tem três. Alguns argumentam que phaselos é o mesmo que 
lathyros105, mas outros dizem ser uma variante deste.” (de alim. 6.541.15-542.5)
Este comentário encaixa-se no perfil do problema que comentámos acima. 
Dependendo dos falantes, os vários vocábulos podem referir-se ao mesmo 
produto; por outro lado, a mesma palavra pode identificar diferentes leguminosas. 
Neste caso concreto dolichos, loboi,phaseoloi designam todos o mesmo género 
de produto: legumes que crescem com vagem. Porém, por vezes podem servir 
como identificadores genéricos que, em determinado contexto concretizam um 
produto de forma exclusiva. Os motivos para tal sucesso nem sempre são claros, 
e Galeno tampouco os esclarece. Podemos admitir que o uso de vocábulos 
genéricos para designar de forma exclusiva um único produto poderia depender 
dos seguintes fatores:
a) o produto designado era o único consumido nessa região, pelo que não 
haveria ambiguidade;
b) outros produtos do género poderiam ter nomes concretos, pelo que tam-
pouco haveria ambiguidade, dado que a diferenciação seria feita em contexto;
c) a ignorância dos falantes geraria equívocos pela falta de cristalização do 
léxico.
No âmbito popular estas variações são perfeitamente inteligíveis e até têm 
paralelo com sucessos actuais em contexto popular. A designação tradicional de 
‘feijão verde’, referente à vagem do feijão por maturar, serve de exemplo disto, 
dado que não raras vezes se chama simplesmente de ‘vagem’ e noutras de ‘feijão 
verde’, de certa forma errónea, pois não se trata do feijão, mas sim da vagem. Já 
na antiguidade estas leguminosas ocorrem muitas vezes designadas da mesma 
forma e independentemente da espécie por κυάμων (kyamon, Vicia Faba L.), 
normalmente identificando favas ou feijões, ainda que a diferença entre as 
102 Δόλιχος, uma espécie de grão verde ou feijão miúdo, cuja referência é imprecisa, não 
sendo possível identificar exatamente qual a leguminosa em causa.
103 Λοβός e φασηόλος: tipos de vagem.
104 Φάσηλος, Vigna unguiculata (L.) Walp. [ = Vigna sinensis (L.) Savi ex Hauskn.]. 
105 Λάθυρος, Lathyrus sativus L., chícharo.
80
III. A ciência de Galeno no De alim.
várias espécies seja substancial (cf. de alim. 6.529.5-531.1). A propósito, note-se 
também a designação generalista, normalmente nome da espécie ou tipologia, 
atribuída a um produto em particular e que em outros espaços geográficos é 
denominado de forma exata e única:
“O nome vícia é muito comum na nossa região, e só é chamado dessa maneira. 
Mas entre os atenienses é igualmente chamado de arakos e de lathyros.” (de 
alim. 6.551.10)
É curiosa a necessidade de Galeno em notar a forma como os atenienses 
designam um produto. Provavelmente isto dever-se-á à intenção de remover 
a ambiguidade da discussão, notando a regra no dialeto ático. Também não 
podemos esquecer que a escrita deste autor está carregada de muitos ‘aticismos’, 
pelo que não só conheceria as variantes koine e ática, como estaria alerta para 
as diferenças entre ambos os dialetos. Portanto, sabia das discrepâncias lexicais 
entre ambas e da possibilidade de um leitor treinado apenas em uma das variantes 
não entender o tema em causa:
“Filótimo acredita que um humor espesso, glutinoso e frio, a que ele próprio – 
assim como o seu mestre Praxágoras – chama ‘verde’, é gerado por todos os bolos 
de cevada. No entanto, isso não é assim, uma vez que a alfita nem tem viscosida-
de, tal como sucede com os granulados, nem valor nutricional. Porém, o bolo de 
cevada induziu-o em erro, ao ter sido mergulhado em vinho doce e siraion por 
bastante tempo – chama a estes bolos tripten, assim como o fazem os atenienses. 
Pois a massa deste é equivalente à massa de trigo.” (de alim. 6.509.15-510.1) 
À letra ‘τριπτὴν’ (tripten) corresponderia a ‘amassado’. Já ao bolo de cevada 
Galeno chama de μᾶζα (mazda), sendo que uma das traduções possíveis seria 
simplesmente ‘bola de massa’, alqo que parece corresponder a uma designação 
um carácter geral em contexto grego.106 Nesse sentido, é de esperar uma ampla 
variação lexical na designação dos vários tipos de pães, formas de preparo e 
composições ao largo do espaço ocupado por todos os falantes de grego.
Voltando às leguminosas, partindo do comentário aos phaseoloi, loboi, 
dolichos, o autor explica um outro exemplo equivalente ao fenómeno que 
apresentámos para os dias de hoje, relativamente às vagens:
“A partir (da recomendação) de deixar grandes estacas de madeira junto destes 
e da afirmação de que se isto não for feito torna-se susceptível ao míldio, pode 
inferir-se que esta afirmação se refere àquilo agora chamado de phaseoloi e loboi. 
O próprio chama loboi aquilo que rodeia a semente das leguminosas como esta, 
106 Vide García Soler 2014.
81
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
tal como a lentilha, o marroiço, a ervilha, o feijão e o tremoço. Pois, assim como 
a espiga envolve as sementes dos cereais, também a vagem guarda as próprias 
sementes do dolichos. De facto, acredito ser esse motivo das pessoas chamarem 
‘vagem’ ao conjunto, tal como ao cereal chamam ‘espiga’, enquanto ‘um todo’. 
Ora, também sabemos muitas outras coisas com várias utilidades para os ho-
mens e que receberam o nome de todo o género como (representante) de um 
conjunto, como (sejam) a cana com que escrevo e a tinta.” (de alim. 6.543.1-10)
A última frase do exemplo que acabámos de citar explica a questão com um 
novo exemplo, aparentemente recorrente em contexto helénico:
ἴσμεν δὲ καὶ ἄλλα πολλὰ τῶν ἐν πολλῇ χρήσει παρὰ τοῖς ἀνθρώποις 
ὄντων ὅλου τοῦ γένους τοὔνομα σφετερισάμενα, καθάπερ τὸν κάλαμον, ᾧ 
γράφομεν, καὶ τὸ μέλαν (de alim. 6. 543.10)107
O autor refere-se a κάλαμος (cana) e μέλας (preto), respetivamente. Κάλαμος 
(kalamos) corresponde literalmente a uma cana, porém, poderia designar toda uma 
variedade de objetos a cuja forma e matéria se equivaleria: uma flauta, uma cana de 
pesca, uma palha, um objeto de escrita ou mesmo uma flecha (cf. LSJ). O mesmo 
sucede com μέλας (melas), cujo significado é ‘preto’, mas que também pode identi-
ficar a tinta. Desta forma, o autor sublinha a comum generalização que ocultaria o 
nome concreto do objeto, gerando a ambiguidade. Ou seja, o género pode muitas 
vezes designar um objeto em particular. Veja-se um outro exemplo deste uso:
“O mesmo também refere, ao fazer menção ao chícharo-preto, as lentilhas, 
o grão-de-bico e o marroiço, mas ao ignorar o nome chícharo, gerou 
ambiguidade. Alguém pode dizer serem todos o mesmo género – chícharo, 
chícharo-preto e feijão-miúdo –, ainda que chamados por mais nomes, talvez 
como sucede com a coluna e o pilar; mas também em função da apresentação 
de certas diferenças específicas.” (de alim. 6.544.10-15)
A ‘coluna’ e o ‘pilar’, κίων (kion) e στῦλος (stylos), respetivamente, geram um 
jogo de palavras que permite ao autor identificar dois substantivos que, em verdade, 
se referem ao mesmo objeto. Algo que, efetivamente também sucede na língua por-
tuguesa. A ambiguidade é um problema para quem tenta sistematizar a informação, 
pelo que tem de ser resolvida de maneira a que a ideia seja concreta e inteligível.
Na sequência do comentário anterior, Galeno prossegue com a exposição 
de dúvidas referentes ao género das leguminosas. Provavelmente, estes produtos 
alimentares são os que têm maior diversidade de nomenclaturas, quer pela 
similitude de aplicações que o género permite, quer pela variedade de usos. 
107 Tradução. infra.
82
III. A ciência de Galeno no De alim.
Isto é, se num determinado lugar se usam favas para fazer um prato típico, 
numa outra região pode ser usado o feijão-frade ou o grão-de-bico, consoante a 
tradição. Esta coincidência de usos pode muito bem ser a causa da ambiguidade; 
mesmo tratando-se de leguminosas fisicamente muito distintas, podem adquirir 
o mesmo nome em função dos usos, sabores ou faculdades do alimento. A 
propósito, voltamos a lembrar o exemplo popular da ‘vagem’ e do ‘feijão-verde’. 
Veja-se um outro exemplo apresentado por Galeno e que comenta a dificuldade 
para outros autores, como sejam Hipócrates e Diocles de Caristo:
“Nesta exposição comparam-se ervilhas com feijões, (...), mas ao escrever so-
bre o dolichos e o chícharo-negro, (Diocles) comenta em sequência que o doli-
chos está dentro do mesmo género das sementes supracitadas e especialmente 
próximo do chícharo-negro. Uma vez que não menciona, de todo, o chícharoe o feijão-miúdo, há uma suspeita de ter sido aceite somente o nome dolichos. 
Porém, ainda que alguém inclua o feijão-miúdo na classe do chícharo, é ex-
posto no passo anterior que o chícharo não pode ser chamado de dolichos.”108 
(de alim. 6.543.10-545.5)
Na verdade, Galeno não chega a encerrar o problema pela apresentação de 
uma sentença que marque definitivamente o nome respetivo de cada grão. Ao con-
trário, notando o silêncio de outros dois autores a propósito da matéria, anuncia 
ele mesmo o abandono do debate, pois, afinal de contas, o que lhe interessa são as 
faculdades dos alimentos e não tanto a sua catalogação (cf. de alim. 6.545.5-10).
A ortografia adquire também um papel relevante para a uniformidade dos 
nomes das coisas. O registo escrito é provavelmente o principal garante da cris-
talização do léxico, pelo que se faz oportuno comentar a forma como o nome de 
determinado objeto é escrito. Algo que favorece a redução da ambiguidade e a 
busca pela uniformidade lexical, necessária para a ciência de então. Ora veja-se 
o seguinte exemplo:
“Encontramos que a sílaba final do nome do Agrião-roxo (arakos) se escreve 
com kappa (k) n’ Os barcos de comércio de Aristófanes, onde este fala de agrião-
roxo, trigo, ptisane, sêmola, joio e simidalis. A semente é muito parecida com 
a semente do chícharo e, de facto, muitos julgam tratar-se da mesma família. 
(...) Aqueles que são da nossa região chamam ao silvestre, que é esférico, duro, 
mais pequeno que o marroiço e, se encontra entre as plantas leguminosas, 
arachos, não pronunciando a sílaba final com ‘k’, mas sim com ‘ch’ (χ)...” (de 
alim. 6.541.1-10)
Dessa forma associa a ortografia à nomenclatura regional e à confusão 
108 Na verdade, parece-nos evidente pelo comentário do médico grego que esta leguminosa 
seria tão desconhecida para Galeno como é para nós. 
83
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
de espécie. E de facto a ortografia é um elemento importante na definição do 
objeto, pelas possibilidades que oferece na desambiguação, pelo que Galeno 
imiscui-se na discussão da ortografia e do léxico, independentemente do 
contexto regional:
“Em algumas versões zeia não é mencionado de nenhuma forma, ao passo 
que em outras versões em vez de ‘excelência’ está escrito ‘uso’, da maneira 
seguinte109 (...)
No entanto, (aqui) é mencionado um grão particular, a olyra, da mesma 
maneira que também a tife o é. Porém, Menesiteu diz que os dois nomes se 
referem a um único grão, quando escreve isto: ‘(...) Depois destes segue-se 
aquela que se designa de duas formas, embora seja a mesma coisa. Alguns 
chamam-lhe tife e outros olyra.’” (de alim. 6.512.5-10)
e expande o comentário para a consideração sobre a existência de determinadas 
espécies e sobre a variação do uso regional e prováveis causas da dúvida:
“Neste passo, Menesiteu pôde demonstrar claramente querer chamar zeia ao 
tipo de semente que é semeada em regiões frias. No entanto, naquilo que 
me toca, ainda que não tenha visto todas as regiões frias, não ouvi falar de 
ninguém que tivesse conhecido a colheita de um cereal tão peculiar chamado 
pelos habitantes zeia ou zea de qualquer uma (das formas), pois surgem escritas 
de ambas as maneiras – em algumas a primeira sílaba termina em épsilon e 
iota, noutras apenas em épsilon. Ora, quando eu considero que é possível que 
os gregos nomeassem assim esta semente, mas os estrangeiros aplicassem um 
nome concreto a esta, então, tendo não só identificado a espiga, daquilo que 
para nós é a tife, em muitos campos de grão da Trácia e Macedónia, assim 
como toda a planta na Ásia, pergunto-me qual o nome que popularmente 
poderia ter entre aquelas gentes. Ora, todos me disseram que a planta, como 
um todo, assim como a sua semente, é chamada de ‘briza’. A primeira sílaba 
escreve-se e pronuncia-se com três letras: β (beta), ρ (ro) e ι (iota). A segunda 
sílaba (pronuncia-se e escreve-se) com ζ (zeta) e α (alfa) no primeiro caso e, ν 
(ny) corresponde obviamente (à desinência do) acusativo. O pão feito a partir 
deste grão tem um cheiro azedo e é negro, sendo muito fibroso, tal e qual 
Menesiteu o descreveu. Se aquele tivesse dito além disto que o pão deste grão 
também era negro, estaria mais inclinado em acreditar que este é o mesmo 
grão a que se referia como zeia.
109 Os termos em causa são ‘ταῖς ἀρεταῖς’ e ‘χρείαις’. 
84
III. A ciência de Galeno no De alim.
Ora, nos lugares mais tempestuosos da Bitínia, uma certa semente é chamada 
de zeopyros, sendo que a primeira sílaba não contém a letra ι (iota), em desacordo 
com a que está em Homero: ‘Trigo e zeia e a branca cevada espigada.110’” (de 
alim. 6.514.5-515.5) 
Neste único passo, Galeno aborda todas as variáveis que contribuem para 
ambiguidade e que temos vindo a comentar ao longo desta exposição. Da ortografia 
aos usos culinários, das faculdades à existência de diferentes, mas relacionáveis, 
espécies. Repare-se que βρίζα (briza) é provavelmente uma palavra de origem 
trácia e corresponderia ao centeio (Secale cereale L.). A dureza climatérica destas 
regiões justificaria o amplo cultivo desta planta, particularmente resistente ao 
frio e ao ambiente seco, pelo que se entenderia também a associação à zeia que 
supostamente identificaria as mesmas características em outras regiões111. (cf. de 
alim. 6.516.15-517.10) Já o nome ζεόπυρον (ζέα + πυρός), uma variedade de Triticum 
monococcum, que à letra poderia ser traduzido como ‘trigo do género zeia’, parece 
indicar a existência da zeia e dessa forma contradizer o próprio Galeno, quando 
este põe em causa a existência de tal grão enquanto espécie. Definitivamente, estas 
variantes dependem das atribuições regionais (cf. de alim. 6.513.10-516.1)112 e das 
práticas e tradições dos povos. E é nesse sentido que Galeno cita Heródoto, pois 
o historiador diz que aquilo que para os egípcios é olyra, é zeia para outros povos:
“Heródoto diz no seu segundo livro: ‘Muita gente vive do trigo e da cevada, 
mas tal é motivo de grande crítica para qualquer egípcio que consiga assim o 
seu sustento; em vez disso, estes fazem os seus alimentos a partir da olyra, que 
certamente muitos outros chamam de zeia.’ (de alim. 6.16-10-15, Historiae 2.32)
3.3.2. Outros produtos: apontamentos sobre a variação vocabular
Ainda que, de uma maneira geral, a obra de Galeno se ajuste à linguagem 
da koine grega, é possível identificar uma forte marca da variante da língua grega 
ática, assim como resquícios de ionismos tanto no léxico como em determinadas 
construções sintáticas. Quer tenha sido pela influência linguística das regiões 
por onde passou, quer pela linguagem de outros autores, o certo é que Galeno 
era consciente das diferenças entre os dialetos, principalmente a nível vocabular, 
110 Od. 4.604.
111 Columella refere-se à zeia como um grão ao qual os gregos também se referem como 
carnicis ou tripharis (de arboribus 28.1).
112 Veja-se também o exemplo da junção de substantivos para a criação de um terceiro pro-
duto, derivado de outros dois que o nomeiam, neste caso a φακοπτισάνη (fakoptisane) (de alim. 
6.526.15-527.1) que, à letra, traduzir-se-ia por ‘lentilhas-ptisane’.
85
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
pelo que frequentemente tece comparações entre o grego da generalidade dos 
falantes (koine) e o grego ático (cf. de alim. 6.510.1-510.5). Da mesma forma, a 
variedade de práticas entre regiões e diferentes combinações de conceitos equiva-
lentes levariam a designações diferentes para os mesmo produtos ou atividades, 
independentemente do léxico à disposição do falante.
Retomando o exemplo referido anteriormente, o triphen, à letra, significaria 
‘amassado’, porém, quando estivesse em causa um produto derivado de cevada o 
nome seria μᾶζα (mazda) e a julgar pelo uso lexical de Galeno, uma das tradu-
ções possíveis seria ‘bola de massa’. Em boa verdade tratar-se-iam dos mesmos 
produtos, mas com uma designação dependente do dialeto regional. Por esse 
motivo, seria de esperar uma ampla variação lexicalna nomenclatura dos vários 
tipos de pães, formas de preparo e composições ao largo do espaço geográfico 
ocupado por todos os falantes de grego. Talvez por esse motivo o autor não se es-
tenda demasiado no comentário às designações dos produtos, pois interessa-lhe 
mais identificar as matérias primas. Repare-se como Galeno remata a questão 
ao lembrar como até a palavra para comida pode conhecer muitas variações, 
independentemente dos falantes:
“(...) Não importa se nos referimos a coisas ingeridas como “comestíveis” ou 
como “nutrientes”. Na verdade, algumas vezes (estas coisas) também são cha-
madas ‘provisões’ (σιτίον) ou ‘comestíveis’ (βρῶμα), assim como Hipócrates 
escreveu em Epidemias (2.2.11).” (de alim. 6. 464.5-10) 
Σιτίον (sition) e βρῶμα (broma) são demonstrativos do espetro vocabular do 
grego antigo. Galeno argumenta que todos estes vocábulos significam o mesmo, 
não havendo a necessidade de clarificar qualquer tipo de dimensão especial 
relativa à palavra que escolha em um determinado momento, até porque todas 
as palavras são globalmente conhecidas dos recetores desta obra. O comentário 
pode ser simplesmente um apontamento retórico, que vise aligeirar a exposição. 
No entanto, não deve ser totalmente descartada a possibilidade de Galeno ter 
a necessidade de explicar o vocabulário e apresentar os sinónimos, de modo a 
que o leitor pudesse seguir sem dificuldade o conjunto da obra. Fosse esse o 
motivo, poderiam estar em causa leitores que não teriam o grego como língua 
materna ou com pouca literacia e, portanto, tendencialmente possuidores de um 
vocabulário reduzido.
Em resumo, ‘o cientista antigo’ enfrentaria dificuldades consideráveis 
no estudo e postulação do saber sobre a nutrição, entre as quais estariam as 
limitações de uma língua não normalizada. Nem sempre uma palavra equivale 
a um único objeto, o que favorece a ambiguidade. De resto, esta obra denuncia 
vários exemplos disso mesmo.
(Página deixada propositadamente em branco)
87
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
4. O alimento como matéria de estudo médico
Os sábios antigos que se dedicaram à medicina seriam conscientes da 
alimentação como um catalisador de estados físicos, tal como um padecimento 
crónico ou obesidade. Da mesma forma, entenderiam que os excessos 
alimentares coincidiriam com a redução das capacidades intelectuais, mau 
temperamento e até do caráter da personalidade. (Gourevitch 1985). Na obra de 
Galeno, a desordem física e a mental são normalmente coincidentes, dado que 
o desequilíbrio dos humores é a razão para a descompensação fisiológica, uma 
vez que se considera que estas substâncias teóricas atuam tanto no aspeto físico 
como psíquico. Tal perspetiva corresponderia literalmente à expressão mens sana 
in corpore sano, sendo a alimentação um fator fulcral para tal estado, pelo menos 
desde um ponto de vista da medicina galénica.
O texto que aqui tratamos terá sido redigido já num momento avançado da 
vida de Galeno, pelo que denota um longo percurso de estudo de práticas médicas 
e de treino em metodologias e ensino das mesmas. O alimento é estudado a 
partir da fusão das suas duas funções básicas: o suplemento nutricional (τροφή 
ou ἔδεσματα), necessário à subsistência e a droga farmacológica (φάρμακον), 
administrada para o tratamento de determinadas patologias. A terminologia 
usada pelo autor marca esta distinção, quando se refere ao alimento como 
trophe e ao produto com fins terapêuticos como pharmakon, quer sejam produtos 
preparados ou produtos simples, ou seja, em bruto.
Compreender a nutrição implica conhecimento, ainda que rudimentar, 
do processo digestivo e da forma como é processada a absorção dos nutrientes; 
assim como o entendimento dos componentes químicos envolvidos e as 
funções destes na supressão das necessidades do corpo humano - conhecimento 
primitivo à epoca. Já compreender a farmacologia implica o conhecimento dos 
efeitos dos alimentos no corpo humano; assim como a identificação de um 
conceito de corpo material e da relação/reacção com os quatro ‘humores’, cuja 
própria noção transcende o aspeto físico e material (Hankinson 2005, pp. 232-
58). Repare-se que a preparação de fármacos a partir dos alimentos tem uma 
origem praticamente impossível de datar, uma vez que poderá remeter para 
tradições populares com origens pré-históricas. Prova disso são alguns textos 
cuneiformes (sumérios e acádios) que nos dão notícias de medidas exatas para a 
composição de determinados produtos com funções terapêuticas (Goltz 1974, 
p. 49).
88
4. O alimento como matéria de estudo médico
Em contexto latino, podemos notar outros autores que dedicam alguma 
atenção à alimentação terapêutica, como sejam Varrão (c. 116 a.C. - 27 a.C.), 
Catão o Velho (c. 234 a.C. – 149 a.C.) e Plínio o Antigo (c. 23-79 d.C.) (Lelle 
& Gold 1994). Considerando os escritos de Catão, notamos a recomendação 
do consumo de um preparado composto por baga de zimbro e vinho tinto, de 
modo a resolver problemas com a secreção de urina. No mesmo registo usado 
por Galeno, Catão nota ainda que o mirtilo teria faculdades benévolas em caso 
de padecimento de cólicas ou indigestões:
Vinum ad isciacos sic facito: de iunipiro materiem semipedem crassam concidito 
minutim; eam inferuefacito cum congio uini ueteris. ubi refrixerit, in lagonam 
confundito et postea id utito cyathum mane ieiunus; proderit. (Cato 123)
“Então, prepara vinho para a gota: corta em pequenos bocados um pedaço 
grosso de madeira de zimbro113; ferve-o com um côngio114 de vinho velho e 
quando arrefeça, verte-o para uma jarra e, depois disto, toma um ciato115 pela 
manhã em jejum: será benéfico.”
Estes conselhos repetem-se ao longo da obra do autor latino (cf. Cato 124-
127, 156.4-157.2, 157.8-9). A maioria dos casos consiste em terapias tradicionais 
e não tanto numa exposição de caráter inquisitivo e debate epistemológico. Ora, 
veja-se a propósito o exemplo anteriormente citado (Cato 73.1.2-5).116
O processo digestivo e a absorção dos nutrientes não terão sido 
pormenorizadamente conhecidos na antiguidade, pelas dificuldades que a 
simples observação empírica trazia para a descrição do processo. Note-se que 
era grande o desconhecimento das propriedades químicas dos alimentos, assim 
como a ignorância quanto às necessidades nutricionais do corpo humano, pelo 
que era o senso comum o motor de muitas das observações feitas pelos sábios 
da antiguidade. Já a farmacologia seria entendida desde um ponto de vista 
superficial, fomentando-se as considerações pela relação: ensaio/reação. Note-
se que estas afirmações, aparentemente despectivas, são feitas com a intensão 
de sublinar a grande distância entre o saber antigo - ainda que obdiente a um 
método de estudo, inquirição e ensaio - e a ciência moderna.
A diferença entre a tradição e a experiência residiria na observação dos 
casos de forma crítica, de modo a poder entender os fenómenos em questão e 
113 Segundo Jorge Paiva (Biólogo), provavelmente, Juniperus foetidissima Willd. ou o Juni-
perus phoenicea L.
114 Congius, medida romana para líquidos correspondente à oitava parte de uma ânfora. Cf. 
Congius, LS.
115 Cyathus (κύαθος), medida igual à duodécima parte do sextarius que corresponde à sexta 
parte de um côngio.
116 Cf. Cato 126.1.1-5.
89
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
consequentemente descrever os mesmos como uma verdade verificável:
Οὐσῶν δὲ τῶν διὰ τοῦ λόγου κρίσεων οὐχ ἅπασιν ὁμοίως εὐπετῶν, ἐπειδὴ 
καὶ συνετὸν εἶναι χρὴ φύσει καὶ γεγυμνάσθαι κατὰ τὴν παιδικὴν ἡλικίαν ἐν 
τοῖς θήγουσι μαθήμασι τὸν λογισμόν, ἄμεινον | ἀπὸ τῆς πείρας ἄρξασθαι καὶ 
μάλισθ’, ὅτι διὰ ταύτης μόνης εὑρῆσθαι τὰς δυνάμεις τῆς τροφῆς οὐκ ὀλίγοι 
τῶν ἰατρῶν ἀπεφήναντο. (de alim. 6.454.15-455.10)
Os alimentos com qualidades terapêuticas dividir-se-iam em duas categorias 
e depois em mais quatro subcategorias subordinadas àquelas. A primeira 
categoria poderia designar-se simplesmente por ‘venenos’.
a) - o alimento permanece inalterado, porém provocamudanças ao corpo.
b) - o alimento sofre mutações ao interagir com o aparelho digestivo, sendo 
essas alterações nocivas para o corpo, podendo provocar-lhe danos físicos e 
enfermidades.
Devemos notar que a ideia de veneno não corresponde exatamente às dos 
dias de hoje, podendo um preparado semelhante ser usado para tratar efeitos de 
outros venenos, como seja a mordedura de serpente (cf. Cato 73.3).
As outras duas subcategorias, difíceis de enquadrar em uma categoria 
especifica tal qual Galeno as divide, seriam os ‘fármacos não-venenosos’:
a) – o produto aquece o corpo, porém não lhe provoca dano.
b) – são assimilados depois de acturem sobre o corpo, pelo que podem ser 
considerados tanto comida, como fármacos. Dentro desta subcategoria existem as 
drogas frias e as drogas quentes. Estas últimas atuam como fármaco enquanto estão 
na corrente sanguínea, sendo que posteriormente transformam-se em nutriente.117
Parece-nos pertinente insistir na ideia de que sem os conhecimentos 
modernos sobre os constituintes orgânicos e químicos, a especulação sobre a 
natureza dos alimentos e os seus efeitos dependia muito da circunstância em que 
eram estudados os sintomas e das características próprias do indivíduo que os 
experimentasse.118 Tal terá levado à conclusão generalizada de que uma grande 
quantidade de alimentos teria algum tipo de efeito terapêutico. Talvez por isso 
Galeno, dando continuidade a uma tradição hipocrática, considere que todos 
os alimentos têm propriedades de ‘quente’ / ‘frio’ e ‘seco’ / ‘húmido’ e que estas 
produzem determinados efeitos em função da enfermidade e das propriedades 
dos alimentos. A propósito destas considerações, remetemos diretamente para 
a obra Sobre as drogas simples de Galeno, onde estas questões são abordadas pelo 
pensador grego.
117 De Simp. Medicament. Facultatibus K.I. 681; Helmreich p. 107; Singer 1997, p. 283; cf. 
Powell 2007, pp.5-8.
118 Para uma definição do conceito 'sintoma' (σύμπτωμα, ατος) na obra de Galeno vide 
Johnston 2006, pp.25-26.
(Página deixada propositadamente em branco)
91
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
4.1. Os quatro humores: os agentes do metabolismo no 
corpo humano
Quando considera os constituintes metabólicos e fisiológicos do corpo 
humano, Galeno segue a abordagem hipocrática. Nesse sentido, adota a teoria 
dos quatro humores, atribuindo-lhe nuances próprias. Em seguida e de maneira 
breve, resumimos em que consiste essa mesma teoria. 
Em conjunto, os quatro humores são os fatores responsáveis pelo equilíbrio 
e saúde do organismo (corpo e mente). Nutrem, protegem, limpam e fortalecem 
sem que de nenhuma maneira se percam as características únicas de cada um, uma 
vez que atuam individualmente, sendo o estado de saúde o somatório dos efeitos 
das suas propriedades. Quando existe harmonia de quantidade e as funções de 
cada humor se complementam entre si, atinge-se um estado de equilíbrio e ‘boa 
mistura’ ou eucrasia (εὐκρασία). Quando existe uma rutura do equilíbrio das 
funções gera-se a condição de dyscrasia ou ‘má mistura’ (δυσκρασία).119
De uma maneira geral, o conceito antigo de humores resumir-se-ia à ação 
dos agentes responsáveis pela nutrição, desenvolvimento e metabolismo em 
função dos quatro elementos naturais a que se associam: terra, ar, fogo e água. 
O próprio conceito de saúde derivaria do equilíbrio perfeito e da pureza destes 
quando conjugados com as ações fisiológicas. 
A manifestação física dos humores corresponderia a quatro fluídos corporais, 
originados durante a ‘segunda digestão’. Estes estariam relacionados com os 
elementos naturais e teriam uma função própria dentro da mecânica digestiva. 
No entanto, os ‘humores’ não correspondem exatamente a um conceito exato 
e cerrado de ‘fluídos corporais’, sendo tão abstrata a sua definição quanto o é a 
noção do estado saudável. Na verdade, chymos (χυμός) é um termo polissémico, 
podendo significar humor, sabor, aroma ou suco, pelo que enquanto conceito 
a sua definição é imprecisa se apenas for considerada a simples identificação 
lexical. De resto, essa ambiguidade seria latente quer em textos filosóficos, quer 
médicos (Demont 2002, pp.271-286).
Tendo em conta os preceitos da medicina galénica, o estado saudável não 
depende apenas daquilo a que hoje chamaríamos de fisiologia e dos elementos 
materiais que a compõem, mas sim da conjugação de um corpo e de uma psique 
sãos. Posto isto, os quatro humores têm também um efeito psíquico e emocional, 
podendo aproximar-se do significado moderno da palavra humor. No entanto 
há que notar que a conceptualização moderna dos elementos que constituem 
119 Sobre as alternativas à teoria dos quatro humores, vide Nutton 2004, pp. 202-215.
92
4. O alimento como matéria de estudo médico
o funcionamento do corpo humano, apesar de coincidir com o léxico grego, 
não tem a mesma correspondência abstrata. De resto, os quatro humores têm a 
tendência para ou fortalecer características positivas, sejam do foro físico, sejam 
do foro mental; ou para realçar e potenciar aspetos negativos, quando em excesso.
Os humores podem ainda ser espessos (pachychymos, παχύχυμος) em função 
do estímulo alimentar que lhes for dado.
Diagrama 1. esquema da relação dos quatro humores em ambientes naturais
4.1.1. Humores húmidos (ou aquosos)
São os humores correspondentes aos elementos naturais húmidos: Ar 
e Água. São de característica húmida e são os agentes metabólicos principais 
para a nutrição e crescimento do corpo. No âmbito fisiológico as funções destes 
humores resumem-se quase exclusivamente à nutrição. 
AR / SANGUÍNEO (αἷμα) – O ‘humor sanguíneo’ é o primeiro humor a 
ser gerado, recebendo a maior parte dos nutrientes que transporta diretamente 
para o processo de absorção através do sistema circulatório, pelo que é o mais 
rico dos humores. É de característica húmida e quente. Neste humor reside a 
essência de saúde e vitalidade, uma vez que nutre e é perfeitamente absorvido 
pelo sistema. Este fluído teórico seria também responsável por promover sensa-
ções positivas, como sejam a alegria, o otimismo, o entusiasmo e o bem-estar 
93
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
em general. No entanto, haverá que notar que este humor não corresponde ao 
sangue enquanto fluído. Isto é, não se trata do sangue que verte de feridas, uma 
vez que este fluído contem fleuma e bílis amarela e apenas corresponde a um 
fluído teórico (cf. de alim. 9.1.39).
ÁGUA / FLEUMA (φλέγμα) – Também designado de ‘humor fleu-
mático’ (φλέγματος χυμὸς). É o segundo a ser gerado e, por isso, o segundo 
quanto à quantidade de nutrientes transportada. É de características húmida 
e fria. Além da fleuma, este humor inclui os outros fluídos transparentes ou 
lívidos do corpo, como sejam os mucos, a saliva, o plasma, a linfa e os fluídos 
intestinais. No seu conjunto, estes fluídos húmidos e frios humedecem, nutrem, 
lubrificam, protegem e purgam o organismo. Por tal, seria atribuída ao humor 
fleumático a qualidade purgativa, que limparia as impurezas e ao mesmo tempo 
transportaria os nutrientes necessários à eliminação dos resíduos. Este humor 
reside essencialmente nas veias e sistema linfático. É também considerado 
fundamental para a manutenção do corpo. Além disso, a fleuma seria conside-
rada a força motriz de emoções e comportamentos como a passividade, letargia, 
sensibilidade sensorial e emocional.
4.1.2. Humores secos (ou estéreis)
Englobam os elementos naturais secos: Fogo e Terra. O organismo apenas 
necessita de pequenas quantidades destes, no entanto, são poderosos e essenciais 
catalisadores de processos digestivos em variadas circunstâncias.
FOGO / BÍLIS AMARELA (χολή) – Também designado de ‘humor 
colérico’, é o terceiro a ser gerado, pelo que tem um valor nutritivo inferior. 
Apenas uma pequena quantidade entra no processo digestivo e na circulação 
dos nutrientes pelo corpo. A restante parte é armazenada na vesícula biliar 
para uso em caso de necessidade. É de característica quentee seca. A bílis é de 
natureza quente e cáustica, pelo que teria propriedades digestivas, o que por sua 
vez lhe daria afinidade com outras secreções digestivas, dado ter propriedades 
metabólicas, sendo especialmente útil na absorção e excreção de gorduras. 
Nesse sentido estimularia os intestinos, pelo que atua como um laxante natural. 
Também teria a capacidade de atuar contra inflamações. Este humor seria 
também responsável por promover emoções de caráter intenso, como a excitação, 
a paixão, a irritação ou a ira.
TERRA / BÍLIS NEGRA (μέλαινα χολή) – Também designado de 
‘humor melancólico’ (μελαγχολικός) é o último a ser gerado, pelo que é o mais 
94
4. O alimento como matéria de estudo médico
pobre em nutrientes e apenas uma pequena porção entra no processo digestivo 
subsequente à sua formação. A restante parte é armazenada no baço para uso em 
caso de necessidade. É de característica fria e seca e corresponde ao sedimento 
normal do sangue. A sua principal qualidade é a de arrefecer e secar, pelo 
que é adstringente, condensador, coagulante e tem um efeito endurecedor no 
metalismo, necessário para as estruturas e tecidos sólidos do corpo. Ao solidificar 
a matéria, a bílis negra atua no sistema digestivo aguentando a matéria alimentar 
o tempo suficiente para que seja processada apropriadamente. De acordo com 
o nome que lhe atribuído, humor melancólico, a bílis negra provoca um estado 
melancólico e encoraja uma atitude reflexiva, como seja a prudência, a caução, o 
pragmatismo ou o pessimismo.120
120 Sobre o conceito ‘melancólico’ na medicina antiga e a evolução do termo na modernidade, 
vide Jouanna 2002, pp. 229-258.
95
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
A missão de definir um corpus da autoria de um autor tão reproduzido e 
replicado como Galeno é manifestamente hercúlea, quer pela quantidade 
de manuscritos de diferentes períodos e origens atribuídos a Galeno121; quer 
pelas incongruências e limitações que as notícias mais antigas sobre a sua obra 
apresentam. Tal explica o facto de a edição em 22 volumes do corpus galénico 
de Karl Gottlob Kühn de 1823 (Leipzig) não ter ainda sido superada (vide 
Kühn 2011), pelo que serve de paradigma para a edição de Helmreich (1923), 
cuja numeração seguimos para a tradução aqui publicada. Portanto, seguimos 
a divisão do editor alemão no que diz respeito ao texto da 1ª parte do De alim.
121 Para uma lista de recensões renascentistas do De alimentorum facultatibus vide Durling 
1961.
96
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
5.1. Título
Para o estudo e tradução do De alim., optámos pelo título ‘as faculdades dos 
alimentos’, não propriamente pela aproximação ao título latino atribuído pelo 
editor (De alimentorum facultatibus), mas porque a palavra portuguesa ‘faculdade’ 
parece-nos ser a que melhor preserva o termo grego original (δύναμις, dynamis, 
vide Johnston 2006, pp.28-30). A escolha em detrimento de ‘propriedades’, 
termo que também se adequaria ao contexto, tem que ver com o valor que esta 
palavra pode acarretar no léxico científico (cf. ‘propriedade’, Houaiss p. 1466). 
Isto porque para as ciências naturais modernas, o termo ‘propriedades’ pode 
implicar um conhecimento da matéria bem mais profundo do que aquele a 
que os sábios antigos teriam acesso. Mais precisamente, o entendimento dos 
próprios constituintes químicos e, no caso concreto do tratado De alim., noções 
exatas sobre os processos do metabolismo do sistema alimentar. Por outro lado, 
‘faculdades’ abrange um universo mais generalista e facilita o entendimento da 
‘capacidade’ de um determinado alimento provocar um efeito concreto no corpo, 
isto é, o seu potencial de acção/reação.122 Enfim, trata-se de uma definição que se 
adequaria ao empirismo científico antigo, que partia da observação do resultado 
e não tanto da composição original do mesmo. No entanto, devemos notar que 
qualquer escolha terminológica será sempre questionável em função de três 
variáveis: as possíveis leituras do critério científico de Galeno; o entendimento 
que possa ter a metodologia de Galeno à luz da ciência antiga e da ciência 
moderna; a semântica e a sinonímia da língua de receção, que no caso da língua 
portuguesa acaba por ser ambígua.
O termo δύναμις parece ter na obra de Galeno um valor semelhante àquele 
que lhe dá Aristóteles. O filósofo explica a palavra considerando-a ambígua. Por 
um lado, indica o ‘potencial de estimular uma determinada mudança’. Por outro 
lado, pode significar o potencial de alguma coisa passar de um estado a outro 
(cf. Arist. Met. 1048a26-30). O seu efeito ou ação, seria denominado pelas várias 
formas do verbo ἐνεργεῖν (energein), cuja tradução mais literal seria: atuar, estar 
em ação ou ato de energizar (cf. GI, p. 723 e Aris. Met. 1048a26-30). 
Seguimos na integra o estabelecimento do texto de Kuhn e os comentários 
de Durling123, pelo que não abordaremos questões de aparato crítico, até porque 
dados os estudos prévios a esta publicação, não estaríamos em condições de 
acrescentar valor aos mesmos.
122 Houaiss, p. ‘faculdade’: s.v. poder de efectuar uma acção física ou moral; potência; aptidão; 
destreza; capacidade; virtude; propriedade (...).
123 Para o estabelecimento dos textos vide também Durling 1967, 1981, 1991. 
97
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
5.2. O método de exposição no livro I: a retórica do médico
O autor inicia este tratado anunciando o objecto de estudo, ao mesmo tempo 
que justifica o propósito e relevância de tal trabalho, dado que a alimentação é 
um fator incontornável para o bem-estar humano:
“Na verdade, não usamos outro recurso de forma tão invariável, pois sem os 
alimentos é realmente impossível gozar de saúde ou mesmo (chegar a) estar 
doente. Consequentemente, é compreensível que a maior parte dos grandes 
médicos se tenha debruçado sobre o exame minucioso das faculdades dos 
alimentos.” (de alim. 6.453.1-5)
O método expositivo de Galeno nem sempre é homogéneo, tendo a tendência 
para variar entre a passagem do particular para o geral ou do excecional para o 
regular. Tendencialmente, esta forma pode gerar ambiguidades e dificultar a 
leitura do texto e, por vezes, faz-se necessário distinguir a explicação da matéria 
em estudo, da mecânica retórica inerente à Segunda Sofística, que Galeno 
praticou em grande medida de maneira a denunciar teorias rivais.
Nem sempre é possível identificar o tipo de linguagem usado por Galeno, 
quando lido à luz daquilo que são os conselhos médicos no âmbito popular. 
Tal ocorre porque a linha entre a tecnicidade e o discurso popular não seria 
tão marcada como nos dias de hoje, pois atualmente destingir-se-ia o discurso 
médico da ‘mezinha da avó do vizinho’ com facilidade. Isto não pode ser 
atribuído ao pouco cuidado linguístico ou científico de Galeno, mas antes ao 
ténue desenvolvimento do discurso e metodologia científica e, ao mesmo tempo, 
à necessidade de se fazer inteligível ao recetor. Porém, devemos notar que, muito 
possivelmente, o leitor, estudante ou ouvinte, não seria totalmente desprovido de 
cultura e informação sobre a matéria exposta.
O autor é capaz de auto corrigir-se ou questionar a sua própria exposição, 
quer por efeito de polimento retórico, quer para que a exposição se faça mais 
clara. Pode estabelecer um paralelismo imediato que, em boa verdade, acaba 
por ser desnecessário. No entanto, ao demonstrar a falta de necessidade desse 
mesmo paralelismo, Galeno está a sublinhar a informação que pretende passar. 
Isto é, aligeira o argumento através de paralelismos desnecessários, já que a 
informação é clara por si mesma. O objetivo seria levar o leitor a aceitá-la como 
óbvia, inquestionável e memorizável:
“Uma vez que se observou estes a digerirem pães crus melhor do que os atletas 
mais fortes, da mesma maneira que o fazem com a carne de boi ou de bode. Pois, 
posto isto, que necessidade há em lembrar ovelhas ou cabras?” (de alim. 6.486.10)
98
5. As faculdadesdos alimentos: Livro I
5.3. Livro I
A obra que aqui tratamos está pejada de informações e análises sobre 
materiais, hábitos culturais e biologia existente à época, apesar de o autor remeter 
muitas destas matérias para as suas obras anteriores. Ainda que este texto 
tenha tido uma função objetiva e pragmática – informar sobre as faculdades de 
alimentos e o seu efeito no metabolismo humano – deixa-nos várias notícias de 
hábitos e conceitos de que o autor estaria ao corrente, provavelmente conhecidos 
e amplamente praticados na época em que o texto teria sido redigido. Estes 
dados são na generalidade usados como um complemento ou suporte para 
o argumento e informação em exposição. Este uso dá-se de uma forma que 
poderíamos considerar descomprometida, pois pretende contextualizar e 
esclarecer a informação prestada. Deste exercício resulta um manancial de 
informações periféricas, como sejam o conhecimento de comportamentos 
animais ou geografia de determinada fauna, mas que em boa verdade servem de 
moldura ao objeto em estudo: os alimentos enquanto nutrição e drogas – no caso 
particular do livro I: os grãos secos.
5.3.1. estrutura
O principal critério do autor para a divisão da obra neste primeiro livro 
parece-nos ser o potencial dos alimentos para serem secos e transformados em 
farinha, ainda que sejam comentados todos os outros aspetos relacionados com 
as faculdades destes alimentos; os quais Galeno denominaria simplesmente por 
grãos ou sementes (σπέρμα). O facto de serem grãos secos, acaba por definir 
para Galeno uma categoria. Em causa não está tanto o conceito de espécie 
vegetal, mas antes o género alimentar, tal como o considera o sábio de Pérgamo. 
Haverá que ter em atenção que estes alimentos corresponderiam à principal 
fonte de sustento na antiguidade, não só pelo potencial produtivo, mas também 
pelas possibilidades de conservação. De resto, o porquê desta generalização e 
consequente referência como uma tipologia em si mesma, pode ser explicado 
pelo facto de estes grãos serem passíveis de conservação através da secagem.
Posto isto, o livro I do De alim., cuja tradução publicamos, poderá 
subdividir-se em duas partes:
- a primeira parte trata dos cereais, enquanto categoria distinguida por 
Galeno;
99
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
- a segunda parte trata dos restantes grãos, incluindo as leguminosas 
‘armazenáveis’ e outras sementes.
Ainda que os alimentos constituam o foco desta obra, o estudo aí desenvolvido 
não é sobre a culinária e tão pouco exclusivamente sobre dietética. O comentário 
às faculdades dos alimentos é desenvolvido a partir dos seus efeitos fisiológicos, 
atribuíveis a determinados comestíveis em função das diferentes condições 
dos pacientes, pelo que o argumento se situa entre a abordagem dietética e 
a farmacológica. Galeno começa por distinguir o alimento do fármaco e vai 
identificando alimentos que são ambas as coisas, ao mesmo tempo esclarecendo 
sobre os preceitos necessários para que determinado alimento se insira em um 
dos três grupos:
a) Alimento
b) Fármaco
c) Alimento e Fármaco
Dessa forma, Galeno resume a abordagem e dá o mote que servirá de base 
metodológica para toda a obra. O texto segue um esquema formal semelhante a 
outros tratados pelo autor. Poderíamos defini-lo da seguinte forma:
Prólogo (453-458)
Argumento: (458-459)
Preâmbulo (459-480)
Parte 1: cereais (480-523)
Parte 2: outros grãos (524-551)
Epílogo: (551-553)
Cólofon: (553)124
Com o cólofon ou sentença, Galeno encerra o primeiro livro, essencialmente 
dedicado aos grãos, com um conselho de saúde pública. Recomenda cuidado na 
seleção e produção das sementes e cereais, encerrando uma construção circular 
ao regressar à origem da qualidade do alimento, ou seja, à sua produção e 
processamento. Apesar desta estrutura, a apresentação das matérias não é rígida, 
pois os vários assuntos podem ser tratados ou simplesmente referenciados em 
função do exercício de retórica do autor e da mecânica argumentativa.
124 Cf. análise da estrutura formal da obra De symptomatum differentiis por Lara Nava 2015, 
pp.63-76.
100
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
5.4. A hierarquia dos pães e dos grãos
Na abordagem inquisitiva à natureza das coisas, Galeno de Pérgamo tende 
a usar um processo analítico com base na relação da faculdade/reacção dos 
diferentes elementos que interagem num determinado sistema. Através dessa 
metodologia, o médico antigo não só apresenta a aplicação de princípios também 
praticados na ciência moderna, como revela alguns pressupostos compartilhados 
pela comunidade científica antiga, usados no cultivo de ideias e construção de 
definições através de mecanismos de comparações valorativas. Essa forma de 
coleta de informações e produção de teses gera hierarquias de valor, estando este 
procedimento também atestado no tratado De alim I.
Se nos concentrássemos apenas nas fontes literárias, os derivados de cereais 
surgiriam como o primeiro e essencial alimento dos povos da antiguidade.125 
Um alimento básico deve ser entendido como um elemento que constitui a parte 
mais importante ou mesmo principal da dieta. Catão-o-Antigo especifica a 
quantidade de trigo e pão adequado para uma casa e por comparação relega 
todos os outros géneros alimentícios a um papel secundário (cf. Cato 56-58). 
Vegécio, ao escrever sobre o abastecimento do exército em campanha, refere os 
grãos juntamente com o vinho e sal, como as disposições cuja escassez deve ser 
evitada a todo o custo (vide Vegetius 3.3.).126
O valor do cereal resulta da conjugação das várias aplicações dos diferentes 
géneros cerealíferos, conciliadas com a relação produção/ quantidade/ consumo/ 
qualidade dos alimentos. Nesse sentido, os produtos derivados destas sementes 
assumem eles mesmos um valor em função do cereal ou cereais que lhes servem 
de ingrediente. Ora, sendo o pão um produto do quotidiano e o conhecimento 
básico quase de senso comum, seria provavelmente redundante comentar a 
importância que determinada cultura daria a um produto tão essencial. Mas a 
verdade é que o valor que lhe é atribuído pela cultura X depende do conhecimento 
e da interpretação que essa mesma cultura faz do valor sócio-económico do cereal 
e do pão; algo que não pode ser mensurável de forma concreta. Não podemos 
ignorar que a ciência nutricional, baseada em funções metabólicas e composições 
orgânicas é relativamente recente, pelo que saber o que comiam, ou pelo menos 
o que almejavam comer os antigos romanos pode dar-nos pistas tanto do saber 
empírico, como popular do povo da cidade das sete colinas; além de revelar os seus 
hábitos culturais que se refletiram na sociedade, na atividade económica e até no 
125 A propósito, vide Soares 2014a.
126 Vide exemplos narrados por Heródoto e discussão in Soares 2014b.
101
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
poder político instalado. Em última instância, o cereal pode até servir como um 
dos elementos identificadores da matriz da cultura romana, assim como de outras 
culturas da região da bacia do Mediterrâneo ou da Mesopotâmia antiga.
A hierarquia de um tipo de pão, ou melhor dizendo, a qualidade que 
lhe é atribuída por comparação com outros, gera-se a partir da própria 
hierarquia dos cereais e dos seus modos de processamento e preparação. 
Note-se que o entendimento de Galeno e da generalidade da população antiga 
tanto da qualidade como das propriedades deste ou daquele cereal não seria 
necessariamente coincidente com a realidade prática nos vários pontos do 
império. Isto é, partia de pressupostos baseados na tradição e num empirismo 
resultante da observação e da experiência. A propósito disto e antes de mais, 
devemos sublinhar que as considerações que fazemos nesta breve exposição 
têm por base o tratado de Galeno e não o processo de produção e qualificação 
‘per se’ na antiguidade. 
5.4.1. O cereal no De alim. I
Galeno reconhece a grande relevância do trigo (pyros, triticum vulgare) para 
a generalidade dos povosdo Mediterrâneo e por tal encontra óbvio o porquê 
da maior parte dos médicos dedicados ao estudo dos alimentos ter elaborado 
comentários acerca deste cereal (cf. de alim. 6.480.10-481.1). Ainda que o 
trigo seja entendido como uma única espécie, Galeno identifica uma grande 
variedade de características físicas, diferenciadoras de vários tipos de grão, que 
afetam a qualidade e o impacto da sua função nutritiva. É nesse sentido que é 
feita a gradação, tendo por base os efeitos provocados no corpo humano e não 
tanto as propriedades e qualidades globais que esta planta pode apresentar, quer 
seja no âmbito produtivo: custo de produção, necessidades especiais de cultivo 
(tipologia dos solos, quantidade de água, luminosidade requerida)127; quer nas 
suas características biológicas (resistência a pragas, desenvolvimento em função 
das condições meteorológicas, tempo de germinação, etc). De resto, nem sempre 
é claro se Galeno se refere a um tipo de cereal concreto ou a uma simples variante 
física do trigo. Na verdade, é constante a expressão dessa mesma dúvida por 
parte do autor no De alimentorum Facultatibus I.
A qualidade do trigo depende não só das suas características, mas também 
da função do produto final que gerará e, segundo Galeno, depende do resultado 
de 5 etapas básicas. A propósito destas considerações, devemos notar que o De 
127 Não nos debruçaremos sobre o cultivo dos cereais já que o próprio Galeno pouco se 
refere à produção, tecendo apenas alguns comentários analíticos generalizados (Cf. de alim. 6. 
552.1-553.5; de alim. 6. 553.5-553.1’).
102
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
alim. tem muito pouco de esquemático, pelo que os dados que apresentamos são 
uma reconstrução das notícias de Galeno e não uma paráfrase.
Analisando a semente propriamente dita, Galeno nota algo fulcral na 
identificação da propriedade do trigo e que influencia todo o restante processo. 
Isto é, que se é mais denso, é mais nutritivo (de alim. 6.481.1-5). Por oposição 
direta, se é menos denso, consequentemente, é menos nutritivo, por uma questão 
de proporção de matéria (de alim. 6.481.1-10). Tal consideração diz respeito ao 
corpo interior da semente, uma vez que o exterior poderia ser enganoso. Só 
através do teste se revela qualidade. (de alim. 6.481.10.1-15) Portanto, a análise 
superficial é reconhecida como útil, mas falível, pelo que objetivamente tem 
pouco valor para a avaliação particular da semente. É possível que o exame para 
a escolha da semente fosse mais criterioso na preparação de futuras colheitas. Ao 
passo que, para a produção de farinha, a análise ligeira ou pouco criteriosa seria 
possivelmente a regra. Nesse sentido, Galeno acaba por notar que nem sempre 
a escolha pela peneira poderia resultar na seleção da semente mais apropriada 
para obter farinha mais pura. Supomos, pois, que a classificação qualitativa da 
colheita de trigo dever-se-ia a uma análise posterior à escolha das sementes pela 
aparência. Isto é, uma vez escolhido o grosso das sementes, algumas seriam 
apartadas e abertas de modo a verificar-se a consistência da sua massa, servindo 
assim de padrão para a restante colheita. Obviamente, tal método não garantiria 
uma seleção perfeita e inequívoca, porém, será necessário ter-se em conta a 
‘peneira genética’ prévia, já que seriam semeadas sementes pré-selecionadas – 
ainda que não tenhamos exatamente a noção de que maneira e a que escala isto 
seria feito para o cultivo de cereais.128 De uma maneira geral, Galeno ignora 
o cultivo, pelo que trata apenas o produto final. Significaria isto que a seleção 
das sementes para cultivo não seria generalizada? Talvez o constante flagelo da 
fome na antiguidade, vincado no texto, possa dar uma resposta parcial a esta 
questão (cf. de alim. 6.517.15-518.5).129 Os territórios agrícolas correspondiam ao 
‘cesto’ do império, e dado que os grandes centros cívicos não tinham capacidade 
de produção cerealífera suficiente para as necessidades da população, haveria 
uma estrema dependência da importação do trigo. Este sistema levava a que 
por vezes os próprios agricultores, cuja produção era excedente, não tivessem 
trigo para consumo próprio (cf. de alim. 6.517.1-15).130 Ou seja, a carência reduz 
a seletividade, algo que o autor vai reforçando ao longo do texto (cf. de alim. 
128 Sobre o processamento das sementes e transformação em farinhas, vide Thurmond 2006.
129 Sobre a frequência de situações de fome generalizada no império romano vide Garnsey 
(1988, pp.8-39, 169-181, 271-277).
130 Zafrai (1994: 63-68) discute um exemplo paradigmático da importância dos cereais a ní-
vel macro e microeconómico na Palestina romana. Erdkamp (2005, pp. 258-330) nota a grande 
importância do cereal para a manutenção do próprio sistema sociopolítico. Vide Garnsey (1988, 
pp.69-86; 182-197; 218-243) sobre a distribuição e subministro das comunidades urbanas.
103
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
6.522.15-523.10).131 De resto, entre os autores antigos era de sentido comum 
a generalizada má qualidade e quantidade dos alimentos ao dispor dos mais 
pobres (cf. Col. 10pr.2).
A cevada é apresentada como equivalente ao trigo em níveis de consumo, 
porém, com uma qualidade relativamente inferior à do trigo, com exceção de 
quando os dois são de má qualidade. Neste último caso a cevada é ligeiramente 
melhor, provavelmente por ser menos nociva à digestão e excreção (cf. de alim. 
6.501.1-503.5; de alim. 6.506.5-506.15). Galeno aborda a cevada em função 
da qualidade do trigo, seja a propósito do valor nutritivo, seja no âmbito da 
produção do cereal, pois comenta a quantidade de impurezas por comparação 
entre os dois (cf. de alim. 6.552.1-553.5). Porém, não se estende numa comparação 
pormenorizada, antes descreve qualidades generalizadas, que depois servem 
como paradigma para as restantes características destes dois cereais – exceção 
feita à aparência física e ao potencial de excreção inerente a cada um destes grãos 
(vide tabelas I e II).
Tanto a distinção, como a classificação dos três cereais tife, olyra e zeia 
não é clara nos comentários de Galeno, talvez porque o próprio não os podia 
distinguir. De facto, isto poderia servir como um exemplo paradigmático da 
frágil cristalização de vocabulário botânico nos espaços do império. As dúvidas 
são materializadas pelas próprias dificuldades e deficiências de caracterização 
que outros autores demonstraram. Notamos que neste aspeto, Menesiteu pode 
ter servido de bode expiatório para a própria ignorância de Galeno, ainda que 
este vá marcando discordância relativamente a alguns tópicos (cf. de alim. 
6.510.15-514.10). O debate é expandido para outros autores, como Teofrasto 
(cf. de alim. 6.516.1-10), Heródoto (cf. de alim. 6.516.10-15), Dioscórides (cf. 
de alim. 6.516.15-517.5) ou o próprio Homero (cf. de alim. 6.522.1-522.10), 
demonstrando-se assim as discrepâncias nas classificações regionais e nos 
seus usos. Partindo da dificuldade de definição, o autor alarga o comentário, 
nomeando outros cereais que poderiam relacionar-se com estes, como sejam o 
setanius, a ‘cevada descascada’ (γυμνὴ κριθή) ou o zeopyros, sobre os quais Galeno 
não dá mais informações para além das regiões de uso e a sugestiva aparência 
com o grupo de características semelhantes: tife, olyra e zeia (cf. de alim. 6.520.5-
520.15).132 Galeno ora considera iguais os três cereais, ora os distingue em 
função dos hábitos das gentes, provavelmente retratados por terceiros autores, 
que ficam por identificar. Parece não haver dúvida de que a ambiguidade é 
causada essencialmente pelo vocabulário botânico não cristalizado, já que a 
dada altura, o autor reconhece esse mesmo problema. Até porque, em geral, as 
131 Sobre a produção moderna dos vários tipos de cereal no espaço mediterrâneo rural con-
temporâneo e antigo, vide o estudo de Halstead 2014.
132 Associada ao zeopyros Galeno refere a briza, mas não comenta a suas características (cf. de 
alim. 6.514.10-15; de alim. 6.517.15-519.10).104
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
sementes parecidas em aspeto e função redundariam num produto final muito 
semelhante, que enquanto objeto de estudo seria mais analisável (cf. de alim. 
6.520.10-521.5).
Portanto, o processo de seleção da semente para produção e a peneira da 
colheita é, obviamente, um momento fulcral para o controlo de qualidade de 
farinha. Mais do que obter a farinha perfeita, parece importar a obtenção da 
farinha ‘exata’. Isto é, uma farinha que corresponda à tipologia programada, de 
modo a poder servir os propósitos específicos para a panificação (diagrama I). 
Galeno dá notícias do processo de seleção da qualidade da colheita através da 
experiência de vida do seu pai (de alim. 6.552.1-553.10). Para além de identificar 
a importância do filtro da colheita, Galeno nota a negligência frequente 
daqueles que pretendem obter mais produto, sem olhar à qualidade, tendo isto 
consequências para a própria saúde do consumidor (cf. de alim. 6.553.1-553.10).
O autor assinala o pouco cuidado na produção e distribuição dos cereais 
por parte dos serviços públicos, naquilo que seria o princípio de redistribuição 
do sistema estatal romano.133 Ora, julgamos que a referência às más práticas não 
implica um desconhecimento do melhor modo de obter bom pão, descrito por 
Galeno. Antes, reflete algo bastante comum e com paralelo nos dias de hoje: 
a produção massiva em detrimento da qualidade – o lucro e a carência como 
motores.
O milhete é outro cereal de produção comum em praticamente todo 
espaço do Mediterrâneo e mesopotâmio antigos. A frequência do seu cultivo 
dever-se-á não tanto às suas qualidades como matéria prima alimentar, mas 
à maior resistência e produtividade em áreas de menor fertilidade e mais 
secas, comparativamente ao cultivo de outros cereais (cf. Cato 1.6.1). Note-se 
que na década de 90, este cereal era o mais cultivado na zona sul do Sahara, 
além de que se mantém também com uma produção bastante assinalável nas 
estepes russas (Spurr 1983). Devemos notar as dificuldades generalizadas do 
cultivo na antiguidade, independentemente do produto, tanto em técnica de 
amanho e cuidado com as sementes, como com a fertilidade dos campos. Os 
próprios ‘agrónomos romanos ilustres’ debatiam-se sobre o tipo de solo mais 
adequado para o cultivo, parecendo, no entanto, nem sempre haver uma perfeita 
consciência de como cuidar deste cereal. Columela é quem parece identificar 
melhor as necessidades desta cultura. Observa o agrónomo latino que este cereal 
se dá bem em terrenos soalheiros e soltos, mesmo até em areia, se regado, ou em 
ambiente húmido. Porém, não em solo seco e pobre (Col. 2.9.17). Neste âmbito, 
concorda com Catão que recomenda solos ricos em áreas húmidas (5.6.1), onde, 
caso não houvesse nevoeiro, se plantaria trigo, indiciando o autor a resistência 
133 Sobre as intervenções do governo romano no mercado e na compra de grãos para suprir 
as necessidades dos romanos, vide Temin 2013, pp. 29-52.
105
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
à humidade. 134 Deve notar-se que em causa estará a região da Península 
Itálica, um pouco em função daquilo que Plínio também mencionou (Nat. 
18.100-101). Mais adiante o mesmo autor nota que este cereal não se dá bem 
em regiões irrigadas no verão, contrariamente à maioria das plantações, pelo 
que em vez disso deveria receber pouca água – de certa forma, aproximando-se 
do comentário de Teofrasto (HP 8.7.3). A variedade de comentários denota a 
extensão do cultivo e a fácil adaptação deste cereal ao espaço mediterrâneo de 
terrenos mais elevados ou demasiado próximos de grandes extensões de água, 
pela humidade atmosférica. Galeno não compara diretamente o milhete com 
os demais cereais em debate, pelo menos no que toca às propriedades para a 
panificação, muito provavelmente pela sua baixa qualidade. Ainda assim, este 
cereal seria consumido por humanos. (cf. de alim. 6.523.10-524.1)
Realmente o milhete não aparenta ter sido o mais apreciado dos cereais 
para o consumo humano, antes foi, e ainda hoje é, uma fonte de alimento para 
o gado. Serviria de forragem aos animais de trabalho (Col. 6.3.3 e Cato 54.4 ). 
O próprio Columela dá instruções de como o preparar (cf. Col. 6.24.5). Tanto 
Diócles de Atenas135 como Celso referem-no como fármaco (cf. Plin. Nat. 22.30, 
Col. 6.12.4), porém, não há muita informação sobre a importância deste cereal 
para a preparação do pão.
5.4.2. O produto136
5.4.2.1. Pães puros/impuros: a proporção do farelo
Provavelmente, os pães de trigo de pior qualidade são aqueles cuja farinha 
se faz a partir de um trigo de qualidade inferior ou cuja farinha tenha sido moída 
juntamente com farelo. A menor qualidade reflete-se negativamente no valor 
nutritivo, mas quando esta classificação de ‘má qualidade’ depende de uma 
massa mais porosa ou dispersa, a digestão destes pães é mais fácil (cf. de alim. 
6.481.10.1-482.5).
Apesar de uma pior qualidade nutritiva significar sempre valor inferior 
enquanto produto de consumo, a digestão é fácil, algo que à partida poderia 
sugerir que este pão não seria totalmente depreciável. Isto claro, não fosse o 
processo de preparação do pão o derradeiro definidor de valor, já que é possível 
obter um pão fácil de digerir que ao mesmo tempo seja nutritivo. Pois, enquanto 
134 A propósito da instrução do seu cultivo, vide Col. 2.9-18 e Col. 11.2.75.
135 Célebre médico, também denominado por Diocles Medicus, que terá vivido e trabalhado 
em Atenas (c. séc. IV a.C.). Vide Kudlien (1963) e Thompson (1939).
136 A propósito de iconografia referente à confeção de pães e outros derivados de trigo, vide 
Wilson and Schörle 2009.
106
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
um mau cereal fácil de digerir não pode ser transformado em algo nutritivo; um 
trigo puro com a preparação adequada não só pode ser muito nutritivo, como 
de fácil digestão. Em causa, segundo a abordagem aparente de Galeno, está a 
densidade da matéria. O esforço de processamento de determinado produto é 
proporcional à quantidade de matéria e não ao seu volume. Portanto, quanto 
mais condensada estiver a farinha, maior a cozedura necessária. Eis o exemplo 
disso e o seu inverso, dado por Galeno:
“(...) Porém, com pães-de-farelo bastam uma pequena quantidade de fermento, 
uma leve levedação e um pequeno intervalo (de espera). Pois, enquanto os 
pães puros necessitam de um período maior de cozedura, os pães-de-farelo 
necessitam de um período mais curto.” (de alim. 6.482.10-15)
Aparentemente, existe um ganho entre a quantidade de material nutritivo 
necessário, o trabalho no processamento e a quantidade produzida. Apesar de 
haver um limite para essa proporcionalidade, ainda que Galeno não o identifique. 
Subentendemos que a menor densidade da matéria facilita, no entender do autor, 
uma reação mais rápida ao calor. Ao identificar um tipo de pão como o quarto 
da sua lista e, portanto, o pior, Galeno dá a entender que o motivo da sua má 
qualidade é o baixo teor nutritivo, no entanto não estende a discussão à matéria 
que compõe o produto e tampouco à sua preparação: 
“O quarto (pão da lista) deriva do grão mais rude e é o pior. É manifestamente 
o menos nutritivo e de todos os pães é o que move mais as entranhas.” (de alim. 
6.483.10-484.5)137
Neste passo somos levados a considerar que a má reação dos intestinos se 
deve à própria natureza da matéria que ao ter pouca nutrição, redunda numa 
maior rapidez de digestão e, consequentemente, em menor densidade e maior 
dispersão da própria excreção. Galeno parece considerar que a baixa densidade 
da matéria e a sua rápida digestão estão associadas também à forma como se dá 
a excreção.
Em consequência do que já comentámos, os pães feitos a partir de farinha 
mais pura, ainda que tendencialmente de melhor qualidade global, carecem 
de mais cuidado na preparação, de modo a favorecer uma melhor digestão. 
Partindo da comparação com os demais pães, Galeno comenta o melhor dos 
pães como o resultado de uma da boa preparaçãoque vise reduzir os efeitos 
prejudiciais da sua densidade e quantidade de matéria nutritiva (cf. de alim. 
6.482.5-10).
137 Por uma questão de clareza de exposição, decidimos chamar ‘pão-de-refugo’ ao quarto 
pão.
107
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
O autor leva a entender ser necessário esperar que a massa levede bem, 
de modo a perder a característica viscosa e mais espessa. Nesse sentido, só 
depois deveria cozinhar-se o pão, uma vez que é esta característica que o torna 
mais difícil de digerir. Nesse sentido e dado o elevado grau de fermentação, 
subentende-se que a quantidade de pão produzida a partir de uma farinha pura 
é maior do que a de farinha impura, pois crescerá pouco, se lhe for adicionado 
pouco fermento, já que contém menor substância e é já ‘inchado’ por natureza. 
Ora, considerando de forma global o comentário de Galeno a propósito dos 
pães feitos a partir de diferentes qualidades de farinha, fica claro que não é só a 
matéria prima o fator diferenciador, mas também o tempo de preparo. Porém, é 
neste ponto que a abordagem teórica de Galeno parece ignorar que o potencial 
de maior produção da farinha pura pode também reduzir a qualidade nutritiva 
do pão, uma vez que a tendência seria o acréscimo de mais fermento, de modo 
a otimizar o rendimento. Se o pão contém massa menos densa, tal como sucede 
com a farinha, também a qualidade nutritiva será menor, independentemente 
do tipo de cozedura. Galeno é apenas aparentemente omisso neste ponto, já que 
ainda assim considerará o pão resultante da farinha mais pura mais nutritivo, por 
entender que, mesmo crescendo ou sendo dividido em porções mais fermentadas, 
é o pão de melhor qualidade. Isto porque, comparativamente, este pão necessita 
de ser mais amassado e levedado, algo que implica maior densidade na massa, 
independentemente da forma como o pão cresça após o fermento. Neste caso, 
a pouca dispersão natural tem de ser compensada pelo trabalho, mas as suas 
qualidades intrínsecas não se perdem.
5.4.2.2. As misturas: os pães-de-trigo e os pães-de-mistura
Galeno varia entre a abordagem de um pão conceptual, ou seja, um produto 
teórico, em função de conjugações de matérias primas elas mesmas teóricas, e 
a análise a produtos reais, como certos tipos de pão que seriam produzidos na 
época. Pelo facto de nem sempre ser clara a relação entre o produto real e o 
hipotético, optámos por separar as designações na tabela III e IV.
A gradação do pão em função da pureza da farinha é subdividida e 
hierarquizada por Galeno com a lista de quatro pães: silignis, semidalis, pão-de-
mistura e o pão de refugo (cf. de alim. 6.483.10-484.5). Possivelmente, um dos 
grandes problemas na classificação das tipologias de pão e farinhas seria a falta de 
precisão generalizada, inerente à produção não profissional ou sujeita a reduzido 
controle crítico experimentado. Algo que explicaria a evocação de Galeno de 
‘produtos teóricos’. Isto é, nem sempre eram iguais as quantidades dos produtos 
misturados, pelo que inevitavelmente haveria grande variação no produto final. 
Todavia, o conhecimento das qualidades de cada produto, permitiria a concepção 
de uma receita de misturas em função das características pretendidas para o pão 
ou farinha. Ora, esse seria o caso dos pães-de-trigo feitos a partir de sobras de 
108
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
várias farinhas de trigo e de farinhas menos peneiradas e que depreendemos 
conter uma quantidade substancial de farelo (cf. de alim. 6.483.1-10).
A mistura inevitavelmente acarretaria a já referida variação das faculdades 
do produto, dado que a própria matéria prima seria distinta, dependendo da 
consistência e qualidade do trigo, da quantidade de farelo misturada na farinha 
e das diferentes quantidades de diferentes colheitas (cf. de alim. 6.483.5-15). 
Galeno parece referir-se ao mesmo género de pão, mas ao mesmo tempo 
acaba por diferenciá-los ao denominar de duas formas um pão que à partida 
corresponderia a um conceito geral de mistura (cf. de alim. 6.483.10-15). Num 
esforço de reunir e apresentar a informação disponível sobre o tema, talvez 
exagere na teorização, já que perde alguma conexão com o produto que trata. 
Chama autopyros ao pão provavelmente feito a partir de vários tipos de trigo, 
mas volta à referir-se ao mesmo produto por synkomistos (συγκομιστός) que à 
letra traduzir-se-ia por ‘algo misturado conjuntamente’. Não querendo fazer 
uma associação direta com aquilo que modernamente e em contexto português 
é conhecido por ‘pão-de-mistura’, optámos por este termo na nossa tradução 
por uma questão de maior proximidade semântica ao original grego. Haverá 
que salvar as devidas distâncias, pois o pão-de-mistura atual varia em função 
das diferentes quantidades de farinha ou massa sobrante de outros preparados. 
A tipologia das diferentes farinhas em si mesmas é invariável, algo que não 
sabemos ao certo em que medida sucederia com o alimento antigo.
Uma vez que aparentemente não existe um controlo dos tipos de farinha e 
peneira, a qualidade seria também ela variável. No entanto, esta tipologia bastante 
genérica de pão parece ser inequivocamente superior aquele que é o último pão da 
lista de Galeno (vide supra, de alim. 6.484.1-5). Porém, ao referir-se de maneira tão 
assertiva a um determinado tipo de pão cujo impacto nutritivo/digestivo seria de 
certa forma regular, é de supor que o autor considerasse um modo de preparação 
igual, algo que regularizaria determinados efeitos fisiológicos e estandardizaria 
um produto. Ainda que esta questão esteja omissa, podemos subentender que um 
padeiro experimentado soubesse pela consistência, cor e até textura da massa a 
quantidade em falta de uma determinada farinha de modo e uniformizar o produto 
para um resultado reproduzível (cf. de alim. 6.494.10-495.1).
Galeno não se estende em pormenores quanto ao modo de preparação 
dos pães, fosse por não os conhecer ou simplesmente por considerar não serem 
importantes para o caso. Seja qual for o motivo, a preparação é um aspeto fulcral 
para a qualificação (vide diagrama) (cf. de alim. 6.484.5-485.5).
No entanto, fica claro que a uniformidade e ponto de cozedura definem o 
bom pão. Ainda que a qualidade deste dependa dos propósitos do seu produtor, 
pois existem vários fatores a motivar a produção daquilo que à partida seria um 
pão de má qualidade. A poupança na matéria prima ou tempo de preparação 
poderiam ser dois dos motivos, ainda que, mesmo um pão de má qualidade 
pudesse ter um ‘consumidor alvo’ (cf. de alim. 6.486.1-5). Ou seja, não é só a 
109
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
necessidade ou a negligência que justificam o fabrico de um mau pão, pois até o 
pão não-levedado tem os seus apreciadores, mesmo sendo o pior no que respeita 
aos efeitos provocados (cf. de alim. 6.486.5-10). Este corresponderia a um 5º tipo 
de pão, ainda que Galeno apenas conte 4 e não informe de que tipo de farinha 
seria feito. Portanto, há dois níveis distintos de qualificação de pães: o tipo de 
farinha e o modo de preparação do pão. Algo é certo, este pão ‘por levedar’ 
(ἄζυμος, azymos) é altamente nutritivo, uma vez que alimenta o mais carente dos 
atletas, já que haveria gladiadores a alimentarem-se exclusivamente deste (cf. de 
alim. 6.488.1-15).
A forma de cozinhar o pão corresponde ao quarto nível de definição de 
qualidade. Todavia, não fica claro que defina a sua tipologia, cuja gradação 
Galeno faz depender do tipo de farinha. De resto, Galeno não hierarquiza 
os pães em função da cozedura. Na verdade, os tipos de cozedura, como os 
referidos acima, quando propositados, seriam escolhidos em função da maior/
menor nutrição, facilidade de digestão ou até especialidades de sabores (cf. de 
alim. 6.489.5-490.10).
Definitivamente, os kribanitai, ou pães feitos num kribanos,138 são melhores 
na generalidade (cf. de alim. 6.494.1-10), seguindo-se a estes os pães cozinhados 
num ipnos (cf. de alim. 6.489.5). A uniformidade da cozedura a que é submetidoo pão é o principal definidor de qualidade, pelo que quanto mais o método de 
cozedura favorecer a uniformidade da cozedura mais equilibrado será o produto 
final (cf. de alim. 6.489.5-490.10).
De certa forma é sugerido que os pães de cevada têm um estatuto próprio, 
pois não são incluídos na lista de gradação. Não é claro se esta ausência se deve 
à simples omissão de Galeno ou se tal implica que a classificação dos pães não 
depende tanto do género do cereal, mas sim do grau de pureza da farinha e do 
cuidado tido na sua preparação até ao momento da cozedura. O certo será que 
estes pães têm a mesma qualidade própria da cevada, quando comparada ao trigo 
(cf. de alim. 6.504.5-504.15). 
Tal como com a cevada, Galeno não se estende na distinção descritiva dos 
pães feitos a partir de outros cereais, como a tife, olyra ou zeia. Porém, acaba 
por mencionar o pão de zeia a partir do comentário de Menesiteu que o havia 
descrito como fibroso, negro e azedo (cf. de alim. 6.514.10-15). Ora, ao comentar 
o pão feito a partir da zeia e um pão de mistura com este cereal (zeopyros), Galeno 
contradiz a consideração que faz sobre a existência ou não da zeia (cf. de alim. 
6.520.5-520.15) ao localizar a produção deste pão em várias regiões (cf. de alim. 
138 Optámos por não relacionar com o klibanos, por não ser seguro este último objecto cor-
responder a um objecto efectivo ou a uma generalização cuja grafia sugere relação com o kribanos 
(vide o breve comentário de Cação 2009 a propósito do klibanos). Por outro lado, esta grafia não 
surge na obra; o manifesto apreço de Galeno por estas questões léxicais,leva-nos a considerar 
tratar-se de uma generalização por oposição a um objecto concreto perfeitamente identificado.
110
5. As faculdades dos alimentos: Livro I
6.515.5-516.1). Portanto, admite de alguma forma a existência deste enquanto 
espécie. Contudo, não deixa de ser estranho o consumo de cereal com qualidades 
tão pouco apreciáveis, pelo menos fazendo caso do comentário de Teofrasto 
citado por Galeno (cf. de alim. 6.516.1-10). Isto porque Teofrasto afirma que este 
cereal careceria de solos ricos para a sua produção, eliminando à partida a ideia 
de produção por carência, pois provavelmente esses solos seriam reservados para 
cereais mais apetecíveis, como fossem o trigo ou a cevada. Podemos identificar 
duas causas para esta contradição:
a) Galeno não define ele próprio a qualidade da zeia, deixando-se levar pela 
qualificação de outros autores. Nesse sentido, entender-se-ia o comentário de 
Teofrasto, já que este refere a zeia como um cereal apreciado pelos animais, além 
de o considerar muito parecida à olyra e à tife.
b) A quantidade de cereal gerada pelo cultivo seria proporcionalmente 
muito elevada, comparativamente com os demais cereais.
A imprecisão é marcadamente visível na abordagem a estes três cereais. 
Contudo, Galeno não se esquiva a avaliá-los, mais propriamente ao comparar 
o pão de olyra ao de tife, considerando o pão de olyra melhor na generalidade, 
apesar de dedicar maior atenção ao do tife (de alim. 6.517.15-519.10), Este último 
pão, quando fresco, é pouco inferior ao de trigo, pelo que segue o mesmo padrão 
da proporcionalidade de qualidade da generalidade dos cereais. Acrescentando-
se o efeito laxante ligeiro, quando comparado ao pão de cevada, mas equivalente 
ao pão feito a partir da farinha de milhete. (vide apêndice)
111
Prefácio
apêndice: cereais e pães
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Apêndice: cereais e pães
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115
De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
I.4 – Outro cereais mencionados para panificação
Milhete É considerado um alimento neutro, pelo que tem um valor nutricional 
reduzido e afecta pouco as funções fisiológicas (de alim. 6.523.15-524.5).
Aveia Seria pouco consumida por humanos e seria de difícil excreção (de alim. 
6.522.15-523.5).
116
Apêndice: cereais e pães
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De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno
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Apêndice: cereais e pães
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123
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
Sobre as faculdades dos alimentos
Livro I
(as sementes e os grãos)141
141 Título original: ΠΕΡΙ ΤΩΝ ΕΝ ΤΑΙΣ ΤΡΟΦΑΙΣ ΔΥΝΑΜΕΩΝ. 
(Página deixada propositadamente em branco)
125
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
1. Introdução
(6.453.1) Muitos de entre os melhores médicos escreveram acerca das 
faculdades142 dos alimentos, abordando o assunto com grande insistência, 
dado que é provavelmente o mais útil (saber) dentro da medicina. Na 
verdade, não usamos outro recurso de forma tão invariável, pois sem os 
alimentos é realmente impossível gozar de saúde ou mesmo (chegar a) estar 
doente (453.5).143 Consequentemente, é compreensível que a maior parte 
dos grandes médicos se tenham debruçado sobre o exame minucioso das 
faculdades dos alimentos. Alguns alegam (454.1) entender essas (faculdades) 
através da experiência individual, outros querem também aplicar uma 
metodologia científica144; nesse sentido, outros consideram ser este último 
(método) o mais importante. De facto, certamente, tal como (sucede) com 
os que escreviam sobre geometria e aritmética, se os seus (454.5) tratados 
sobre os alimentos concordassem em tudo, não seria necessário para mim 
ter o trabalho de escrever outra vez sobre as mesmas coisas (já) tratadas 
por outros autores. Porém, como ao apresentarem diferentes opiniões se 
levantou a suspeita sobre uns e outros [pois, de facto, não é presumível que 
todos falassem verdade], é forçoso inquirir e também (é necessário) que nos 
tornemos juízes imparciais do que está postulado. Pois é errado confiar mais 
num (autor) do que (454.10) em outros sem os pôr à prova. 
Uma vez que os ensaios preliminares145 são de um género dúbio [já que a 
partir da percepção ou do conhecimento palpável se faz toda a demostração 
e prova segura], é-nos também necessário fazer uso de uma ou de outra, ou 
de ambas as duas, para a projeção do objecto em análise.146 Mas, dado que o 
julgamento (454.15) pelo uso da razão não é o mesmo para toda a gente, uma 
vez que é necessário ser-se de natureza inteligente e treinado desde a infância em 
142 O termo usado é δύναμις (dynamis), sendo a mesma palavra usada pelo autor para indicar 
‘faculdades’ ou ‘propriedades’. Vide 5.1.
143 A propósito do conceito de doença na obra galénica, considerando a palavra νοσῶν vide 
Johnstoon 2006, p.23-26
144 Λογισμός (logismos), conhecimento técnico.
145 Ao longo do texto traduziremos ἀπόδειξις (apodeixis) de várias formas; consideramos 
que em contexto científico moderno o termo significaria a aquisição de conhecimento através 
da análise da experiência, ainda que o lexema grego possa contemplar uma sinonímia mais 
abrangente.
146 O autor refere-se às duas metodologias possíveis, referidas anteriormente (cf. de alim. 
454.1). Vide também nota de van der Eijk (1993) a este passo.
126
1. Introdução
saberes estimulantes (455.1) da sapiência, será melhor começar pela experiência, 
até porque muitos médicos declararam que as faculdades dos alimentos foram 
descobertas apenas por este meio.147 
Ora, por tudo isto prestaremos atenção aos Empíricos148 , que fizeram disso 
o seu objectivo ao pronunciarem-se vigorosamente contra (455.5) as coisas que se 
descobrem (unicamente) pela razão.149 Diócles, que era um dogmático, escreveu 
o texto seguinte no primeiro livro do seu Higiene para Pleistarco150:
“Aqueles que defendem que as coisas com os mesmos sabores, odores, 
humores151, ou outras coisas desse, género têm as mesmas propriedades caem no 
engano. (455.10) Pois, podem observar-se muitos efeitos resultantes diferentes, 
apesar de serem parecidos. Tampouco se pode assumir que todo o laxante, 
diurético ou seja qual for a sua propriedade, é assim porque é quente, frio ou 
salgado. Uma vez que, nem tudo o que é doce, picante ou salgado, ou outra coisa 
desse género, tem as mesmas propriedades. Por outro lado, deve reconhecer-se 
ser a natureza (dos objetos) um todo (456.1) que o explica, seja qual for o efeito 
que cada um produza. Ora, dessa forma, mais do que por qualquer outro motivo, 
qualquer (pessoa) pode afastar-se da verdade. Aqueles que pensam que para cada 
alimento deve ser atribuído um motivo pelo qual é nutritivo, laxante, diurético 
ou outra (456.5) coisa desse tipo, primeiro, parece estar inconsciente de que 
muitas das vezes essa informação não é necessária para o seu uso; e, segundo, que 
muitas coisas existentes num determinado momento aparentam na sua natureza 
alguns princípios, porém, não é por isso que admitem uma conceção (precisa) 
sobre a origem dos mesmos. Nesse sentido, às vezes, quando aqueles (médicos) 
se enganam, ao fazer suposições sobre coisas desconhecidas, inconsistentes ou 
pouco fiáveis, acreditam lograr definir a causa destas adequadamente (456.10). 
Portanto, não se deve dar crédito àqueles que procuram as respostas desta forma 
ou àqueles que pensam ser necessário ter uma explicação para tudo. Devemos 
antes crer naquilo que foi aprendido por uma longa experiência e devemos 
147 Por ‘experiência’ o autor entende a observação pelo senso comum, ou seja, a definição 
através de um resultado que se vai fazendo sentir ao longo dos vários acontecimentos relativos a 
um mesmo tema. Por vezes, o autor usa o mesmo termo para indicar um teste.
148 Ἐμπειρικῶν (empeirikon), neste passo em concreto o autor parece referir uma escola 
Empírica de médicos.
149 O autor refere-se aos Dogmáticos, escola a que se opunham os Empíricos.
150 Segundo o próprio Galeno, o autor grego da região da Eubeia e cujo produção intelectual 
é relativamente próxima à de Aristóteles (século IV a.C.), terá sido um dos mais relevantes 
exemplos da abordagem racionalista e dogmática. Galeno nota que, apesar do tipo de abordagem, 
o próprio Diócles não descarta o método empírico como forma de leitura de fenómenos naturais. 
Sobre Diócles de Caristo e a sua obra vide Hankinson 2002 e van der Eijk 2005, pp. 74-100.
151 Poderíamos também traduzir o nome θερμότης (thermotes) por paixões. Associa-se aos 
valores de ‘quente’ e ‘frio’ de que, segundo Galeno, se podem dotar os alimentos. Vide Johnston 
2006, p.48.
127
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
procurar a causa das coisas que o justificam; e como consequência disto, o que se 
disser será mais bem entendido e mais credível.”152
(456.15) Este passo de Diócles é de alguém que julga que as propriedades 
da comida são inteligíveis apenas pela experiência e não pela informação sobre as 
misturas ou os humores. Portanto, ele não reparou que também existe outro tipo 
de indicações a propósito das partes das plantas. Ora, eu refiro-me à indicação 
acerca das plantas, da mesma forma que (457.10) Mnesiteu153 proclamou diante 
de outros, ao demonstrarque algumas propriedades existem nas raízes das 
plantas, mas outras nos caules; assim como há outras nas folhas, nos frutos e nas 
sementes.
Por isso, agora toda a gente, ainda que pouco instruída, sabe que, da mesma 
maneira que a experiência ensina muitas outras coisas, também (lhes) dá a 
conhecer os alimentos que são digestivos ou indigestos, saudáveis ou insalubres, 
laxantes ou obstipantes. Todavia, caem num grande erro, ao usar um juízo 
nestas mesmas matérias, sem critérios de diferenciação, tal como demonstrei 
em Acerca das faculdades das drogas simples e no terceiro livro de Sobre as misturas; 
e, na realidade, os erros são os mesmo em cada caso. Por essa razão (458.1), 
não descrevo detalhadamente aqui, como (fiz) naqueles (textos), os critérios 
distintivos através dos quais, se alguém lhes tomar atenção, irá perceber mais 
claramente as faculdades (desses mesmos alimentos). Isto, já que por hábito 
escrevo uma só vez sobre cada assunto, e não me detenho com alíneas dos mesmos 
problemas em múltiplos tratados (458.5). Certamente, aquilo que costumo fazer 
não negligenciarei agora, ou seja, usarei este critério essencial somente sempre 
que seja possível combinar totalmente a consciência com a clareza.154 
Começarei por aquilo em que genericamente há acordo e que foi 
corretamente descrito por Erasístrato155. Ou seja, que a melicrate156 não limpa 
152 O médico cita Diócles de modo a demonstrar que este não fez ciência dentro dos pres-
supostos epistemológicos do próprio Galeno. O autor crê que se deve partir da experiência, mas 
que também é necessária uma abordagem analítica. Vide Smith (1979), pp.181-5.
153 Mnesiteu de Atenas (séc. IV a.C.), vide Powell 2013, p.156. Sobre a personagem histórica 
e a sua produção vide Bertier 1972.
154 O autor comenta a necessidade de coerência e intertextualidade na sua obra, tentando 
ligar os textos por um fio condutor comum – a ciência criteriosa –, não repetindo explicações 
contidas noutros textos, antes remetendo para aquelas. Dessa forma, Galeno procura não romper 
com o objeto e exposição do próprio estudo que tem em mãos ao fazer comentários paralelos.
155 Erasístrato de Céos (ca. 304-250 a.C.), avesso à ‘teoria humoral’ e cujos tratados médi-
cos foram um dos alvos preferenciais da crítica de Galeno, terá sido um proeminente médico 
alexandrino (Lloyd 1975). Apesar da fama que terá conhecido na antiguidade, juntamente com 
Herófilo, cofundador de uma academia médica em Alexandria (vide Longrigg 1988), nenhum 
tratado completo seu chegou aos nossos dias, pelo que conhecemos a sua obra principalmente 
pelos comentários de Galeno (Cosans 1997).
156 Μελίκρατον (melikraton), mistura de mel e água. Vide Powell 2003, p.157.
128
1. Introdução
o estômago em todas as situações, nem um prato de lentilhas o congestiona, 
mas que existem algumas pessoas (458.10) que, além de não sentirem nenhum 
destes efeitos, até se deparam com o contrário157; assim como se verifica que o 
estômago se esvazia após o melicrate e também depois de um prato de lentilhas. 
E, também, diz-se aparecerem pessoas a digerir bifes mais facilmente do que 
peixe das pedras158.
Eu próprio indago sempre sobre estes géneros de coisas. Começarei, pois, 
por aquele último: que tipo de sintomas ocorridos é para eles demonstrativo da 
difícil digestão do peixe das pedras? (458.15) Há realmente algum peso sobre o 
abdómen que surja como fosse chumbo, pedra ou barro a fazer pressão? (459.1) 
– já que é assim que alguns reportam a sensação deste género de digestão difícil. 
Ou a impressão de picada manifesta-se nela mesma, ao fazer-se óbvia; ou a 
flatulência ou a sensação incómoda de eructar? Tomando o exemplo individual, 
alguns afirmam que o arroto se faz gorduroso (459.5), outros que sentem uma 
sensação lacerante159 e ainda há outros a quem sucedessem ambas. 
Através de uma reflexão cuidada sobre as evidências físicas nestes (casos), 
encontrei grande acumulação de bílis amarela no estômago, relacionada com 
algum tipo de distúrbio160 ou constituição peculiar. Ora, refiro-me à ‘constituição 
peculiar’161 porque em algumas pessoas a bílis162, líquido que flui para o intestino 
desde o fígado, volta para o estômago; esta mistura é nociva (459.10) sempre que 
o calor inato seja picante, irritante ou seja também o que se poderia denominar 
por febril. De facto, similarmente, estas pessoas163 digerem com maior facilidade 
alimentos que são difíceis de desfazer, do que aqueles de fácil decomposição, 
dado que os que são de fácil digestão são prontamente alterados e corrompidos, 
enquanto aqueles que são de difícil digestão são processados com dificuldade 
157 Aqui o autor assinala uma questão comentada ao longo de toda a obra, isto é, a diferente 
forma de reação do corpo humano, dependente de indivíduos, circunstâncias e propensão 
humoral.
158 Não é claro para nós se o autor se refere a peixes que habitem as rochas de rios ou mar: 
ou a um tipo de peixe em concreto, cuja espécie não pode ser relacionada com o peixe-pedra 
(Synanceia verrucosa), altamente venenoso e ausente do mediterrâneo, pelo menos nos dias 
de hoje. Parece-nos que o autor se refere a peixes que tenham os baixios pedregosos como 
habitat. Provavelmente ser-lhes-ia associada uma maior robustez e quantidade de gorduras, 
como por exemplo o salmão, o que os faria de digestão mais difícil do que outros géneros 
de peixe.
159 Referir-se-á, provavelmente, à acidez.
160 Optámos por traduzir δυσκρασία (dyskrasia) por distúrbio e não por ‘destemperamento’ 
(vide GI, p. 602), como habitualmente é entendido, pela ambiguidade que o termo tem na língua 
portuguesa. Ainda que Galeno se refira comummente à temperatura corporal, cremos que neste 
passo o autor não foca claramente apenas aspectos relacionados com os humores quentes ou 
frios.
161 Κατασκευῆς ἰδιότητα.
162 Χολή.
163 O autor refere-se às pessoas que têm uma temperatura estomacal alta.
129
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
e difíceis de decompor.164 (460.1) Então, sempre que estes (alimentos) são 
submetidos a altas temperaturas, são mais processáveis do que se estivessem 
dentro de um estômago de temperatura moderada.165 Realmente, no sentido 
deste argumento, algumas pessoas digerem melhor um bife do que um peixe 
das pedras. 
De acordo com a exposição anterior, para algumas pessoas as lentilhas 
são mais perturbadoras do estômago do que restringentes (460.5). Como se 
demonstra no meu trabalho Sobre as propriedades das drogas simples166, de entre 
os medicamentos que preparamos, alguns são constituídos por capacidades e 
propriedades opostas entre si; e não são poucas as drogas que aparentam serem 
simples e, no entanto, são de uma natureza complexa. Este tipo de situação ocorre 
com muitos alimentos, (460.10) pois não só as lentilhas, mas também o repolho 
e o alimento marinho – geralmente aquela denominada por moluscos167 - têm 
uma natureza composta por propriedades opostas. Pois ‘o elemento sólido’168 de 
cada um é de passagem lenta e adstringente para o ventre169; porém o elemento 
líquido favorece a secreção170. A prova171 exata ocorre (como resultado) da fervura: 
quando fervidos, o líquido de cada um esvazia (461.1) o ventre, mas a parte sólida 
(do alimento) estringe-o. A propósito disso ouvir-se-ão alguns dizendo que, se 
antes de outros alimentos, se ingerir leguminosas que não foram bem fervidas, 
transferindo tudo de uma vez do recipiente da fervura para uma taça com óleo e 
164 A aparente contradição reside na forma como Galeno constrói o argumento, ao antecipar 
a consideração de que os alimentos de difícil decomposição são mais bem digeridos por 
estômagos cuja temperatura seja alta. Em seguida o autor explica o porquê, ao referir que as 
altas temperaturas reduzem a sua ‘resistência física’. 
165 Ao considerar que o produto previamente cozinhado se digere melhor, o autor grego 
parece ignorar as propriedades dos ácidos estomacais e a atuação que estes têm no processo 
digestivo. Ainda que, obviamente, esteja corretoem tal consideração.
166 Περὶ τῆς τῶν ἁπλῶν φαρμάκων δυνάμεως.
167 Ὀστρακόδερμος (ostrakodermos). Vide De alim. 6.745-5.
168 Τὸ στερεὸν ἑκάστου σῶμα.
169 De uma maneira geral, traduziremos γαστήρ (gaster) por ‘ventre’ por considerarmos que 
nem sempre é clara a referência do autor grego ao estômago ou aos intestinos, quando usa este 
termo; por vezes fica subentendida a indicação de todo o sistema digestivo.
170 Ἔκκρισις (ekkrisis).
171 A concepção científica deste tratado é substanciada pelo constante recurso à ‘prova’: 
Ἀπόδειξις (apodeiksis), pelo que Galeno manifestamente recorre tanto ao método empírico, 
como ao dogmático.
130
1. Introdução
molho de peixe172, estimular-se-á os intestinos173. Ao passo que outros preparam 
a chamada “dupla fervura” para adstringir o ventre. A confecção de tais legumes 
é a seguinte: fazendo a primeira fervura em água, remove-se todo o líquido do 
recipiente, substituindo-o por água limpa, na qual se ferve (o alimento sólido) 
uma segunda vez (461.10), de modo a que, se houver algum fluído da fervura 
anterior, este seja completamente eliminado. Pois a tudo o que é fervido em 
água sucede tomar parte da propriedade própria da água, ao mesmo tempo que 
liberta as suas faculdades no líquido (onde é fervido). Isto sucede a tal ponto que, 
usualmente, acontece ser-te174 possível perceber se o que foi fervido é um legume 
ou parte de um animal ou vegetal, quando as coisas são fervidas em molhos. 
(461.15) Pois o que foi fervido mostra a qualidade ou faculdade do molho 
através do sabor e do odor; enquanto o molho mostra a propriedade do que foi 
fervido nele. (462.1) Tu podes testar a veracidade de toda a proposta apresentada 
neste texto, ao ferver lentilhas ou repolho ou qualquer animal marinho, dos já 
indicados por mim, e depois dispor o preparado com azeite, garum e pimenta, e 
oferecer de beber (462.5) a quem queiras, tal como (fosse) uma dupla fervura de 
legumes. Então, constatarás que o intestino se move após (a ingestão) do caldo, 
mas depois obstipa-se com a parte sólida (do preparado). Por tal, não admira 
que por vezes ambas, as cólicas e a flatulência, ocorram depois de pratos deste 
tipo, quando são consumidos na íntegra, juntamente com os seus próprios sucos. 
Ora, gera-se aí um conflito entre ambos (os factores) (462.10): o elemento sólido 
restringe e retarda, enquanto a porção líquida estimula a excreção. Se o que 
está a causar aflição é expelido, o sintoma cessa. Enquanto este permanece (no 
interior), inevitavelmente, o ventre sofre de cólicas e flatulência até, finalmente, 
suceder a secreção dos elementos em contenda.175 (462.15) Portanto, uma vez que 
em algumas pessoas os ventres estão preparados para evacuar, (463.1) noutras (os 
ventres) são secos e segregam com dificuldade, cada um sofre sintomas relativos 
172 Γάρος, cujo equivalente latino seria garum, corresponderia a um molho de peixe feito à 
base de entranhas de peixe salgadas e fermentadas ao sol. Este era um produto muito usado 
como condimento culinário no período imperial romano, ao ponto de existir toda uma economia 
dependente deste produto (vide Curtis 1983). Optámos por manter a termo latino, por não ser 
claramente conhecida a tipologia deste alimento, nem tão pouco as variantes que poderia ter. 
Garum corresponde ao termo geral. Sobre o consumo do garum e aplicações culinárias vide 
Feldman 2003, pp. 130-7; sobre a confecção cf. Plut. Quaest. conv. 659b. Sobre a produção e 
distribuição do garum e outros molhos de peixe pelo império vide Curtis 1978. Para a ocorrência 
deste termo na literatura imperial vide Corcoran 1963.
173 Κοιλία (koilia), corresponderia a todo o trato intestinal. No entendimento antigo da 
fisiologia, agregaria todo o sistema excretor.
174 Galeno varia entre o diálogo coloquial e direto com o interlocutor e a narrativa formal. 
É possível que estas variações discursivas derivem de ‘lições’ públicas, mais tarde convertidas em 
discurso académico.
175 É comum a repetição de ideias sem que estas sejam necessariamente complementares. Do 
ponto de vista da retórica da exposição, o texto parece apresentar algumas deficiências na fluidez 
expositiva, que talvez se justifiquem por acréscimos posteriores ou erros de copistas.
131
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
a alimentos de acordo com a sua natureza particular, como se por vezes o ventre 
incrementasse a propriedade do líquido e outras vezes a do sólido. Pois quando 
há duas influências opostas, a vitória tem que ir para um dos dois e a derrota para 
o outro. (463.5) Isto sucede em função de certas condições do ventre, que não 
são da sua natureza, mas foram geradas num dado momento.176 
Ora, por vezes existe acumulação de fleuma177 no ventre e outras vezes 
bílis178. A propósito da própria fleuma, (há a dizer que) algum é ácida, outra doce 
e outra ainda não possui qualquer característica perceptível. Alguma (fleuma) é 
aquosa, outra espessa, outra (463.10) dura e outra fácil de dispersar.179 Quanto 
à bílis, alguma é amarela e outra pálida. De facto, um e outro tipo admitem 
grande variação, todavia, deixamos de parte outros tipos de bílis180 que surgem 
em corpos já enfermos; na verdade, cada um dos sucos mencionados, quer sejam 
preparados para (estimular) a evacuação, quer sejam para a obstipação do ventre 
(464.1), quando as partes sólidas chegam aos intestinos, complementados pelos 
seus característicos sucos, reforçam os humores com a mesma faculdade que 
eles mesmos (possuem), porém, contrariam os humores que têm propriedades 
opostas.
Antes dizia-se existirem duas classes de motivação para o ‘porquê’, no caso 
de estarem em causa os mesmos alimentos, estes aparentarem ser processados 
diferenciadamente dentro dos estômagos. Porém, agora alguém descobriu uma 
terceira (classe), como sejam a constituição natural e os elementos líquidos e 
sólidos daquilo que se come. Não importa se nos referimos a coisas ingeridas 
como “comestíveis” ou como “nutrientes”. Na verdade, algumas vezes também 
são chamados ‘provisões’ ou ‘comestíveis’181, assim como (464.10) Hipócrates 
escreveu em Epidemias (2.2.11)182:
“Os alimentos e as bebidas necessitam ser estudados ...” 
176 Subentende-se: ‘gerados por algum fator externo’.
177 Fluído segregado pelas membranas mucosas dos mamíferos e que no contexto galénico 
se associa ao princípio dos ‘humores’.
178 Χολή (chole).
179 Entenda-se por ‘dispersão’ a assimilação e distribuição dos fluídos por todo o sistema 
fisiológico, não sendo sempre claro e objetivo de que forma se divide e de que maneira se rela-
cionam cada um dos seus constituintes.
180 Como nota Powell (2003, p. 158), não é evidente a que se refere Galeno, quando fala em 
outros tipos de bílis. O autor grego distingue os tipos de bílis em função de uma gradação de 
cores e incluí o estado de saúde do indivíduo na construção de um critério diferenciador. Há 
uma certa questão relativa a causa/efeito que não é observada objectivamente por Galeno, isto 
é, o padecimento poder ser provocado por uma bílis doente e a enfermidade que derivaria numa 
bílis insalubre.
181 Σιτίον (sition) e βρῶμα (broma).
182 Ἐπιδημίαις (epidemiais).
132
1. Introdução
e outra vez, num outro passo:
“Trabalhos, alimentos, bebidas, sono e atividade sexual: tudo 
moderadamente!”183
Ora, neste momento, como aliás sempre digo, não devemos preocupar-nos 
com terminologia, nem afligir-nos com qual (palavra) usar, uma vez que são 
conhecidas de todos os gregos, embora seja importante procurar entender a 
questão (464.15).
(465.1) É manifesto que estes alimentos são ou de rápida ou de lenta 
passagem, seja por causa da nossa natureza mais elementar, seja por causa da 
inerente disposição do ventre, ou mesmo devido a uma ‘substância’184 particular. 
Digo ‘substância’ particular das coisas que são alimentos ou bebidas, uma vez 
que algumas são húmidas e outras secas; (465.5) algumas resistentes, enquanto 
outras são facilmente dispersáveis e fáceis de digerir; outras possuem maior 
pungência intrínseca,mas outras ainda têm acidez, são amargas, são doces, 
são salgadas, são duras ou têm acridez; ou outras, à parte de tudo isto, têm 
faculdades farmacológicas do mesmo género das drogas purgativas.185
Por exemplo: a atríplice, o beldro, a malva e a cabaça186, (465.10) por serem 
duras e húmidas, circulam mais rapidamente do que aqueles (alimentos) que não 
são assim, especialmente com as pessoas que fazem passeios amenos depois de 
comerem, assentando assim (a comida) tranquilamente. Pois a comida escorrega 
melhor se uma pessoa se mover, do que se estiver estendida em descanso.
Também as amoras e as cerejas doces se poderiam inserir nessa mesma 
classe e, além destas, também (465.15) os vinhos espessos doces. Os melões e as 
chamadas ‘meloas’ são bons para a excreção por causa da humidade e viscosidade 
(466.1) e têm uma capacidade moderadamente purgativa – mais os melões do 
que as meloas –, o que podes confirmar ao esfregar (estes frutos) numa parte 
suja do corpo, pois removerão imediatamente a sujidade deste. Estes produtos 
também estão entre aqueles que ajudam a urinar.187
183 Cf. Com um passo presente numa das coleções de textos retóricos sumérios e anterior 
em dois milénios ao texto de Galeno: (...)/ tur-bi kú-a mah-bi ti-la; “comer pouco é viver bem.”, 
vide Falkowitz 1980, p.161. Ainda a propósito dos conselhos de moderação na alimentação na 
antiga língua suméria: mah-bi kú-kú ŝà-gal-bi ì-hul-lu; “comer muito, ofende o estômago”, vide 
Falkowitz 1980, p.162.
184 O termo usado é οὐσία (ousia).
185 O particípio do verbo καθαίρω, que pode significar ‘purgar’, possivelmente implicará a 
indicação da depuração corporal, ainda que na maioria das vezes o uso deste verbo ou derivados 
corresponda simplesmente à excreção.
186 Ἀτράφαξυς, provavelmente: Atriplex rosea L., conhecida simplesmente por ‘atríplice’, 
JB. Βλίτον, Amaranthus blitum L. Bredos, Bredo-manso, Bredo-roxo, JB. Μαλάχη, provavel-
mente: Malva sylvestris L. Κολοκύνθη,Lagenaria siceraria (Molina) Standl.
187 Amoras, Rubus fruticosus L. (cf. Dioscórides 43.227); Cerejas, fruto de Prunus avium 
(L.) L.; Melões e meloas, frutos de Cucumis melo L..
133
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
(466.5) Também entre os (alimentos) húmidos estão as substâncias 
comestíveis aquosas, como sejam os chamados damascos, pêssegos e, de uma 
maneira geral, coisas que aparentam não ter importante qualidade de sabor ou 
odor. Uma vez que, se o ventre está predisposto para se esvaziar, escorregam 
facilmente e, se não, mantêm-se por digerir, não sendo (especialmente) prestáveis 
para essa função.188 Pois este tipo de alimento, que está de alguma forma entre 
o adstringente e o estimulante do estômago, inclina-se ligeiramente numa ou 
noutra direção, quando acontece o estômago não se esvaziar muito lentamente, 
nem ser muito lesto na excreção. (466.10) No entanto, na verdade por vezes estas 
comidas também estringem o ventre.189
Também o melícrate não só (466.15) não estimula o esvaziamento do 
sistema gástrico, como ainda leva à distribuição de alimentos que estejam 
misturados nele (467.1); isto para aquelas pessoas em que este é o primeiro a ser 
rapidamente distribuído190. E se não for logo distribuído, rapidamente incita à 
secreção – tal como a bílis amarela, porque contém em si algo irritante e daninho. 
Nesse sentido, alimentos e bebidas desse tipo estimulam a excreção intestinal, 
simplesmente por serem irritantes.191 (467.5)
Evidentemente, também se inclui na discussão a natureza primordial dos 
intestinos,192 como por exemplo aqueles a que alguns homens chamam de ‘barriga 
arredondada’193 ou tripas inchadas. Alguns dos alimentos que são purgativos 
188 Frutos do damasqueiro (Prunus armeniaca L.) e do pessegueiro [Prunus persica (L.) 
Batsch]. Comenta o autor a neutralidade de determinados alimentos, cujo efeito se verifica em 
função da própria disposição do sistema digestivo. No entanto, há que salientar que Galeno 
se refere a um alimento suave de sabor e odor, porém não tem em consideração o alto grau de 
açúcares contidos por estes frutos, pelo que teoricamente deveriam ser considerados estimulan-
tes energéticos da rápida digestão pela fermentação, ainda que em causa esteja o efeito laxante.
189 Dadas as propriedades destes alimentos, a possibilidade de serem adstringentes terá que 
ver com a natureza fisiológica do próprio consumidor; isto, claro está, seguindo as considerações 
feitas por Galeno. Devemos notar que a própria substância do alimento se alterou pela seleção 
genética implícita no cultivo continuado.
190 Trata-se do verbo ἀναδίδωμι, que neste contexto pode entender-se que se refere ao pro-
cesso de distribuição e assimilação dos nutrientes pelo corpo. De referir que ainda não era co-
nhecido de forma exata o processo de digestão e de que maneira os nutrientes eram processados 
e qual a sua função metabólica. Este passo é esclarecedor de algumas lacunas no conhecimento 
do funcionamento do sistema digestivo, considerando haver uma sequência de quatro processos, 
como sejam a ingestão, digestão, distribuição e secreção.
191 Pode também dizer-se esvaziamento gástrico, dado que o autor aborda a função gástrica. 
Porém o uso do termo κοιλία (koilia) provoca ambiguidade, uma vez que tendencialmente 
remete para o cólon e a excreção de fezes. Esta dualidade é comum ao longo deste trabalho, 
não sendo claro se o autor falha no entendimento do sistema digestivo ou se a língua grega não 
confere um significado exato e definitivo a cada termo dentro dos mesmos parâmetros da ciência 
moderna. Tendencialmente inclinamo-nos para a segunda opção. Vide estudo introdutório 3.1.
192 Ἔντερον (enteron), literalmente ‘tripas’.
193 Προγάστωρ (progastor), este termo refere-se essencialmente à barriga arredondada (GI, 
p.1761).
134
1. Introdução
para o estômago contêm em si faculdades mescladas (467.10), como sejam a 
escamónea194, a aboboreira e o heléboro-branco195 e outros desse género. Pois a 
natureza de tais coisas é uma mistura entre comida196 e fármaco, tal como se tu 
mesmo vertesses uma pequena porção de sumo de escamónea na água da fervura 
da cevada197. Ora, assim é ignorado pelos sentidos198, sem passar despercebido na 
sua função, pois seguramente fará uma limpeza ao estômago. Alguns (467.15) 
pensam que Hipócrates se referia a isto com... “Purgar com a comida é melhor...”199 
– mas outros julgam não ser inteligível só dessa forma, antes (468.1) parece-lhes 
que a afirmação também pode ter sido feita acerca daqueles alimentos que não 
têm nem valor nutritivo, nem propriedades purgativas para o (ser) animal. Na 
verdade, também (se diz) que muitas vezes estes atuam não só como comida, 
mas também objectivamente como fármaco, aquecendo, arrefecendo, secando 
e humedecendo-nos; nesse sentido, sempre que (468.5) um desses não atue 
no corpo humano, mas apenas o alimente, enquadrado nestas circunstâncias, 
não será definido como droga. Agora, alimentos que tais são de um número 
reduzido; mas, quaisquer que sejam, apenas se definem exatamente como 
‘comida’, quando não existe alteração nas qualidades do corpo do consumidor.200 
Pois, aquilo que tiver sido aquecido, arrefecido, secado ou humedecido (468.10) 
foi qualitativamente alterado; mas quando se extrai da comida uma massa como 
aquela que foi dispersa, então é aportado benefício a partir dessa (matéria), da 
mesma maneira que o é da comida por si mesma.201
De acordo com isto, coisas proporcionais nas misturas e sem alguma faculdade 
predominante são apenas alimento, e não fármaco, pois nem estimulam as 
194 Σκαμμωνία, Convolvulus scammonia, escamonia é uma planta nativa das regiões da bacia 
do mediterrâneo e à qual se atribui um princípio ativo purgativo. Relativamente à aboboreira, 
note-se que deve tratar-se, provavelmente, de uma Cucurbitácea, o meloeiro-bravo (fruto, me-
lão-amargo), Citrullus colocynthis (L.) Scrad. (Nota baseada na revisão de Jorge Paiva, Biólogo.
195 Ἑλλέβορος, Veratrum album (L.) Gueldenst. Vide JB, Veratrum album
196Ἔδεσμα (ατος), outro termo usado pelo autor para designar comida.
197 Πτισάνη (ptisane), uma espécie de cozedura de cevada (Hordeum vulgare L.), seja a água 
ou a papa resultante, e que seria muito valorizada pelos seus efeitos medicinais. Powell 2003. 
Não sendo preciso o conhecimento que temos deste preparado e das suas possiveis variadas 
versões, mais adiante optaremos por manter o nome original grego na tradução.
198 O autor referir-se-á ao mau sabor e odor, pelo que a mistura facilita a ingestão.
199 Esta citação refere-se ao passo da obra Sobre a nutrição: Ἐν τροφῇ φαρμακείη ἄριστον, 
ἐν τροφῇ φαρμακείη φλαῦρον, φλαῦρον καὶ ἄριστον πρὸς τί. “Purgar com a comida é melhor, 
purgar com a comida é mau; é mau ou bom (dependendo) de cada uma” (De alimento 19.1-2)
200 Este passo explica-se pela consideração de que a comida que apenas alimenta e não tem 
qualquer efeito exterior ou sintoma não é considerável para a denominação de fármaco ou droga, 
pelo que têm o efeito meramente fisiológico. Esta questão é debatida pelo autor em Sobre os fármacos.
201 É possível que o autor tenha presente o bolo-alimentar, não como o produto resultante da 
digestão, como hoje entendemos, mas antes como a massa exclusivamente nutritiva da comida 
depois de processada. Na prática, trata-se da mesma figura, porém, não é claro até que ponto 
Galeno o conceberia.
135
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
entranhas, (469.1) nem as obstipam, nem oprimem o estômago, nem o relaxam202; 
tal como não são nem tranquilizantes, nem diuréticos203, nem geradores de qualquer 
disposição corporal do género: quente, frio, seco ou húmido. Nesse sentido, para 
todos os efeitos, mantêm o corpo do (ser) animal nutrido, mas imutável, tal como 
este os absorveu. (469.5) Porém, existe neste ponto um determinado elemento 
diferenciador muito útil e que não terá sido descrito por Diócles, assim como não 
foi nenhum dos outros com os quais lidei até aqui.
Pois se o corpo de um homem tiver exatamente uma temperança média, 
este permanecerá nessa condição ao comer algo de temperança média.204 (469.10) 
Mas se a pessoa for (de ‘humor’) mais quente ou mais frio, mais seco ou mais 
húmido, pode sofrer dano ao alimentar um corpo destas características com 
comida e bebida que seja de temperança média. Pois cada corpo deste géne-
ro necessita de ser ‘desviado’ numa direção oposta daquela onde estava, após 
partir de uma condição (de temperança) equilibrada exata. Ora, tal (469.15) 
sucederá com alimentos que são o oposto da identificada ‘má temperança’. Em 
cada situação inversa, os opostos encontram-se à mesma distância do estado 
nuclear. (470.1) Como por exemplo, se o corpo partisse de três medidas da ‘boa 
mistura’205 e estado temperado para um estado quente, seria necessário também 
alterar o alimento na mesma proporção, (isto é,) de um estado de composição 
equilibrada para um estado mais frio. E se o corpo passar de um estado húmido, 
considerando as quatros dimensões206, os alimentos devem ser mais secos na 
mesma medida do que aquilo que é o medianamente equilibrado.
(470.5) Novamente, a propósito disto, é possível encontrar muitos homens 
tecendo os comentários mais contraditórios sobre os mesmos alimentos. Ora, re-
centemente, duas certas pessoas discutiam entre si, uma dizendo ser o mel saudável 
e a outra (argumentando) que faz mal. Cada uma fez o seu juízo de acordo com 
a forma como ela própria era afectada por esse produto, não considerando que, 
para além disso, não existe uma composição única desde o início (da ingestão) para 
toda a gente ou que se acaso existe, esta não permaneceria (470.10) inalterada até 
à velhice; assim como também não tomaram em conta as mudanças sazonais ou 
geográficas – nesse sentido, ignoram que os seus costumes e modos de vida também 
alteram as disposições inatas dos seus corpos. Indo direto ao assunto, pelo menos 
202 Desta feita o autor recorre ao termo στόμαχος (stomakos) para identificar a parte superior 
do ventre e não o próprio estômago, ainda que pelo contexto e pelo conhecimento anatómico 
que hoje temos, sabemos corresponder a este órgão.
203 À letra traduzir-se-ia por ‘propriedade de urina’ (οὖρον), porém considerámos que a 
referência do autor tem como objecto as capacidades diuréticas.
204 Isto é dizer se a pessoa em causa tiver tendencialmente um ‘humor temperado’, nem quente, 
nem frio; pelo que a comida que aporte as mesmas faculdades não levará a qualquer alteração.
205 Entende-se por ‘boa mistura’ o perfeito equilíbrio da conjugação das funções dos ‘quatro 
humores’.
206 Isto é dizer, estado quente, frio, húmido e seco.
136
1. Introdução
um desses homens que discutiam sobre (470.15) o mel era velho, ou seja, mais 
mucoso por natureza e sedentário no seu modo de vida e em todas as atividades 
(físicas) (471.1), e tampouco fazia exercício antes do banho, pelo que o mel seria 
benéfico para ele. Enquanto o outro era de natureza ‘biliar’, tinha trinta anos de 
idade e passava trabalhos nas suas atividades quotidianas. Ora, pois, no seu caso 
o mel seria rapidamente convertido em bílis e (471.5), por isso, seria mais nocivo.
Eu conheço ao menos uma pessoa que se queixava da zona da boca do 
estômago, pelo que julguei, partindo daquilo que me descrevia, que aí se 
acumulava fleuma.207 Ora, (para esses casos) aconselho a tomar alho-porro208 e 
beta209 com mostarda, pois ao eliminar-se a fleuma, o sistema gástrico esvazia-se 
melhor e é aliviado de (471.10) todos esses sintomas. Por outro lado, em outra 
ocasião a mesma pessoa, certa vez ao sofrer de uma indigestão e picadas no 
estômago depois de (consumir) carne picante, não só não lhe foi útil para as 
picadas tomar beta e mostarda, como ainda, na verdade, as piorou. E, depois 
disso, indagando como podia ter sido afectada tão intensamente por aquilo que 
anteriormente lhe trouxera benefício, veio até mim para saber a razão (471.15). 
De facto, é normal os Homens ignorantes, nestas coisas, enganarem-se 
sobre as práticas médicas. (472.1) Todavia, uma pessoa não deve concordar com 
os médicos que deixaram em aberto demasiadas questões relevantes. Pois não é 
apropriado simplesmente dizer que os peixes das pedras são bem digeridos pela 
maior parte das pessoas, mas que existe gente que digere carne mais facilmente. 
(472.5) Em vez disso, aqueles deviam definir o que cada grupo (de paciente) é.
Da mesma forma, também não é apropriado tecer comentários sobre o mel 
de uma forma superficial, mas antes (argumentar) tomando em consideração a 
característica (específica) que é benéfica ou nociva em certas idades, naturezas, 
estações, regiões ou estilos de vida. Por exemplo, aquilo que é mais prejudicial 
para as pessoas de natureza seca e quente, mas muito benéfico para as que 
são (de natureza) húmida e fria (472.10); assim como (considerar) qual é o 
comportamento (do alimento) em função da ‘constituição’ (de cada pessoa) 
motivada pela idade, natureza, estação e estilo de vida.
Ora, relativamente à atual discussão, parece ser realmente necessário 
examinar ambas as ‘composições’, as (das características) dos homens e as das 
faculdades dos alimentos. Ou seja, quanto destas há nos homens e como alguém 
as deve diagnosticar, como já foi exposto no meu tratado Sobre as misturas; (473.1) 
207 Pode assumir-se que Galeno se refere a algum problema epigástrico, tendo isto presente 
quando identifica a ‘boca do estômago’ (τὸ στόμα τῆς κοιλίας).
208 Πράσον, Allium ampeloprasum L. (variante de ampeloprasum), também conhecido por 
Alho-bravo, Alho-ordinário, Alho-de-Verão, Alho-françês, Alho-inglês, Chalotes, Porreta, 
Porro-hortense, Porro-pratense, Porros-bravos. (Cf. JB allium Porrum).
209 Τεῦτλον, Beta vulgaris L., ou acelga, beterraba. Provavelment Sinapis alba L., Mostarda-
-branca, ou Brassica nigra (L.) Koch, Mostarda-preta.
137
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
e da mesma maneira, em Sobre os fármacos, naquele trabalho que se debruça sobre 
as propriedades destes210. Porém, agora devemos comentaraqui as misturas211 dos 
alimentos, tal como foi escrito no livro Sobre o regime, tratado de Hipócrates, 
de acordo com alguns, mas segundo outros textos pertencentes a Filístion, a 
Aríston, a Eurífon (473.5)212 ou mesmo a Filetas – todos homens de idade.213 
Alguns manuscritos começam da forma seguinte: 
“Deve conhecer-se a propriedade de toda a comida e bebida, tal como são, 
ambas naturais e adquiridas, através do artifício.”
Mas noutros (manuscritos dizia) isto:
“Deve-se diagnosticar a disposição e natureza de cada estado assim como é”
Ora, quando esse texto é comentado por si só, (473.10) tem o título Sobre a 
dieta214, sendo a segunda parte de um conjunto que se divide em três secções. Mas 
quando as três secções são unidas, nesse caso reconhece-se como um trabalho 
único intitulado: Sobre a natureza do Homem e da Dieta215. Agora podemos talvez 
considerar o segundo texto, no qual há uma discussão conduzida por Hipócrates 
sobre a comida; já que o primeiro (texto) se afasta (474.1) muito do pensamento 
de Hipócrates. Pois este, de facto, está para além daquilo que alguém poderia 
considerar. Porém, seja qual for a pessoa a que pertence (o tratado), parece trazer 
de novo a ‘dieta’ para a discussão geral acerca dos alimentos.
Então, aquele que saiba que a cevada216 é de natureza fria e húmida, e 
também saiba como reconhecer as composições dos corpos, tanto as que (474.5) 
são naturais, como as geradas por uma dada circunstância, usará a cevada de 
maneira apropriada, não só no caso dos corpos sãos, mas também com aqueles 
(corpos) que estão enfermos; e a pessoa que conheça a composição deste (cereal), 
210 Galeno refere-se aos tratados: Sobre as misturas e Acerca das faculdades das drogas simples.
211 Ao falar-se em ‘composições’ ou ‘misturas’ estão em causa os vários elementos que compõe 
tanto o corpo humano como a comida, tendo esses elementos as características de quente ou 
frio, seco ou húmido.
212 Filístion de Locrios (inícios séc. IV a.C.) terá sido um eminente médico siciliano de quem 
se diz ter influenciado Platão (vide Repici 1990); Aríston é frequentemente mencionado nos 
trabalhos de Galeno (Powell 2003, p.161); Eurífon de Cnidos (c. V a.C.) terá sido um médico 
cujas posições sobre a nutrição são mencionadas no Anonymus Londinensis ou Papiro de Menon 
(vide Jones 2011); quanto à biografia de Filetas ter-se-á perdido no tempo (Powell 2003. p.161)
213 Aparentemente, Galeno refere-se ao texto hipocrático usualmente designado por Dieta I, 
II, III, IV. A propósito da referência de Galeno a este trabalho vide Powell 2003, p.160.
214 Vide Estudo introdutório 3.1.
215 Περὶ φύσεως ἀνθρώπου καὶ διαίτης.
216 Κριθή (krithe). 
138
1. Introdução
também aplicará bem um (composto) de cevada217 em cataplasmas.
(474.10) Como expliquei em Sobre os fármacos218, não só se deve reconhecer 
a composição primária de cada propriedade dos alimentos como a coisa mais 
importante, mas também as composições que derivam das primárias; de facto, há 
muitos (exemplos) destas ultimas – se não é que são todos (exemplos disso) -, que se 
relacionam com sabores e também alguns que estão associados aos cheiros. Ora, 
como consequência de cada um ter sido misturado de uma determinada forma 
a suficiente (atmosfera de) calor (474.15), frio e também secura ou humidade, 
estes acabam por tornar-se doces (475.1), ou pungentes, ou salinos, ou ácidos, 
ou mesmo traventos219 ou amargos. ‘Salino’ não tem um outro significado que 
não seja ‘salgado’, pois as mesmas características são identificadas em ambas 
as palavras220; e a igual classe de ‘rijo’ e ‘travento’ é designada de ‘adstringente’. 
Falou-se em grande medida sobre os sabores no quarto livro de (475.5) Acerca das 
faculdades das drogas simples, pelo que qualquer pessoa que siga o que aqui se diz, 
terá de ter lido aquele trabalho previamente, de modo a que eu não seja obrigado 
a dizer novamente as mesmas coisas sobre aqueles neste tratado.
Ora, enquanto algumas comidas, tal como disse acima, não exibem 
qualidade alguma digna de nota, (475.10) seja de cheiro ou de sabor – como 
aquelas a que realmente alguns se referem como ‘inerte’ ou ‘insípido’221 –, outros 
(alimentos) contém em si uma adstringência mais óbvia, ou doçura inata ou 
acridez; e ao passo que outros também parecem mais salgados, há ainda outros 
que tomam parte de uma pungência distinta. Então, está claro que alguns 
alimentos (476.1) como estes têm as mesmas faculdades dos fármacos que se lhes 
assemelham em sabor. Em Sobre os fármacos demonstrou-se as causas de alguns 
dos ‘adstringentes’ não produzirem os mesmo efeitos que os demais – no mesmo 
sentido que o ‘aloé vera’, o ‘cobre fundido’, o ‘sulfato de cobre’’, a ‘flor de cobre’, 
as ‘escamas de cobre’ e a ‘calcite’.222 (476.5) Pois em cada caso, como resultado de 
217 Ἄλευρον (aleuron), preparado à base de cevada.
218 Refere-se ao seu próprio trabalho: Περὶ φαρμάκων.
219 Αὐστηρός (austeros), à letra, ‘austero’, refere uma sensação de aperto na língua, talvez 
mais perceptível no consumo de fruta ainda verde. À boa maneira galénica, mas em contexto 
moderno e globalizado, poderíamos considerar exemplo disso a ingestão da banana verde.
220 As palavras em causa são ἁλυκός e ἁλμυρὸν respetivamente, sendo que a primeira 
corresponde ao mineral ‘sal’. Este comentário acaba por, aparentemente, fazer pouco sentido à 
luz do tratado médico, pois o autor debate-se mais com questões do léxico popular do com as 
substâncias em si mesmas, porém este é um tópico muito comum na obra do médico grego, que 
faz da busca pela razão e processo argumentativo da ciência, o seu principal mote (vide estudo 
introdutório 3.1). 
221 Respetivamente ἄποια (apoia) e ὑδατώδη (hydatude).
222 Ἀλόη, χαλκὸς κεκαυμένος, χάλκανθος, ἄνθος χαλκοῦ, λεπὶς, χαλκῖτις, respectivamente. 
Excluindo o aloé vera [Aloe vera (L.) Burm.f.], todos os restantes elementos são compostos do 
cobre. Tal como refere Powell (2003, p.161), estes foram listados e discutidos de forma mais 
detalhada no âmbito das suas propriedades farmacológicas por Dioscórides. O comentário 
de Galeno vem no seguimento das propriedades adstringentes destes materiais. Para um 
139
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
outras coisas terem sido misturadas à sua propriedade adstringente e faculdades 
próprias, alteram-se naquilo que são as suas funções particulares; tal como se tu 
mesmo misturasses escamónea com marmelo223, tal como de facto fazemos por 
vezes, quando raspamos à volta do caroço da fruta (de árvore)224, enchemos o 
buraco com escamónea, depois recheamos com uma pasta (476.10), cozinhamos 
e finalmente servimos como comida. Pois o que tiver sido preparado desta forma 
esvazia os intestinos sem perturbar o estômago, uma vez que a propriedade 
purgativa contida neste preparado, e que deriva do (resultado da mistura) da 
fruta com escamónea, persiste enquanto perdurar sobre a fruta a qualidade 
que é própria (da escamónea). Pois, de outro modo não pareceria agradável e 
adstringente e, por conseguinte, adequada para o estômago.
(476.15) Ora, sucede então que alguns alimentos contêm misturadas em 
si (477.1) propriedades ligeiras, que ou são purgativas ou provocam um outro 
efeito. Neste caso não se deve ter dúvidas de que as faculdades associadas aos 
seus sabores não produzem os mesmos efeitos que lhes são naturais. Pois tudo 
aquilo que tem uma qualidade adstringente, contando que existe por si só, 
contrai, restringe e arrefece as substâncias associadas a si. (477.5) Porém, por 
vezes a mesma substância pode conter componentes que são quentes e outros que 
são frios, como foi dito em Acerca das faculdades das drogas simples, uma vez que 
a natureza primordial as misturou dessa forma, tal como por vezes os médicos 
misturam píretro225 ou pimenta226, com uma das substâncias esfriantes.
Pois então, como eu dizia, isto que foi notado no trabalho Sobre os fármacos 
(477.10) é muito útil para o que agora está a ser exposto. Eu próprio administrei 
algumas vezes um poucode preparado de lentilhas e, antes de mim, Heraclides 
de Tarento227 dava-o frequentemente a muita gente, não só aos que estavam de 
boa saúde, mas também aos que apresentavam algumas queixas. Ora, primeiro 
(478.1) pomos muitas acelgas-bravas228, de seguida ou juntamos uma pequena 
quantidade de sal ou (uma porção) de garum, pois desta forma é mais purgante229. 
Porém, quando coadas as lentilhas e fervidas duas vezes, deitada fora a água da 
primeira (fervura) e misturado depois um pouco de sal ou garum, e adicionando 
comentário mais aprofundado deste passo vide Powell 2003, p.161. Para a tradução vide GI 
pp.2328. Devemos notar que, nem sempre é claro que o material a que se refere Galeno possa 
ter correspondência com os conceitos modernos, não só no que se refere à botânica, mas também 
quando estejam em causa minerais, sejam estes brutos ou compostos. 
223 Κυδωνία, Cydonia oblonga Mill., gamboeiro, marmeleiro, gamboa (fruto). Neste passo 
cremos referir-se ao fruto e não à planta. Vide JB, cydonia. Escamónia, Convolvulus scammonia (L.),
224 Μῆλον (melon), à letra corresponde à fruta colhida das árvores, vide GI, pp.1358.
225 Πύρεθρον, Tanacetum parthenium (L.) Sch. Bip., planta cuja raiz tem um sabor picante.
226 Πέπερι, Piper nigrum L., pimenta-negra.
227 Médico da Escola Empírica que terá atingido a fama na primeira metade do século I a.C. 
vide Powell 2003, p. 161.
228 Tεῦτλον, Beta vulgaris L., também podendo tratar-se de Beta maritima L. (Acelga-das-areias).
229 A propósito deste passo vide comentário de Powell 2003, p. 162.
140
1. Introdução
ainda uma pequena quantidade de algo (478.5) que estrinja – tanto quanto não 
afecte o sabor -, produzirás um bom e muito útil remédio e ao mesmo tempo 
um alimento para muitos pacientes de diarreia crónica. Ora, eu digo ‘para 
muitos’, cuidando não dizer ‘para todos’, porque é necessário aplicar-se critérios 
distintivos pelos quais as disposições daqueles que padecem de diarreia crónica 
serão identificadas.
(478.10) De uma maneira geral, uma coisa não pode ser testada empirica-
mente de forma apropriada, sem primeiro, pelo uso da razão, inquirir-se sobre 
a composição à qual se está a aplicar o exame, seja comida, bebida ou fármaco. 
Ora, é a composição dos remédios (a fonte) para o entendimento de tais disposi-
ções (478.14) e não propriamente os conhecimentos dos remédios por si só; isto 
é, (479.1) sem conhecer de forma precisa as faculdades dos materiais usados, é 
impossível ajudar aqueles que deles necessitam, pois é necessário discutir as fa-
culdades dos alimentos – tal como já foram discutidas as faculdades dos fármacos 
num outro espaço. O conhecimento dessas propriedades é obtido com esforço, 
através de ensaios por um largo período de tempo (479.5) e pela natureza dos 
odores e sabores, cujas comidas em análise aparentam ter; e também através da 
consistência que adquiriram no que se refere à viscosidade, à friabilidade e à 
porosidade; e também à solidez, à leveza e ao peso. Todas estas coisas conduzem 
ao entendimento, de tal modo que, ao chegar a um país estrangeiro e ao te 
deparares com alimentos que nunca tinhas visto (479.10), terás um bom ponto 
de partida para o conhecimento das suas propriedades. Aquilo que Mnesiteu 
escreveu sobre raízes, caules, folhas, frutas e sementes não admite uma distinção 
muito segura, se os diferencias através de uma análise conceptual, de modo que 
consequentemente possas compreendê-los. Nesse sentido, eu entendi analisar 
cada um dos alimentos separadamente e detalhadamente, (480.1) ainda que a 
discussão seja muito longa. Enfim, mais tarde deverei ser capaz de fazer, num 
outro trabalho mais pequeno, a sinopse (disto), que será útil para aqueles que 
aprenderam já a técnica. Pois só a prática intensiva e o treino conduzem o artesão 
à perfeição. É por isso que argumento (480.5) estar correta a maioria das pessoas 
que diz que a melhor instrução se adquire através da experiência pessoal e que 
é impossível para alguém tornar-se um sabedor ou um especialista em outra 
qualquer arte (somente) através de um livro. Isto (que escrevo) são conselhos 
para aqueles que previamente estudaram e aprenderam; e não uma instrução 
completa para aqueles que não sabem (já disto). Nesse sentido, se alguns destes a 
quem falta instrução (480.10) desejam atender de forma cuidada àquilo que está 
escrito claramente e em detalhe, tal como eu próprio faço, lucrarão muitíssimo, 
especialmente se não hesitarem em lê-lo muitas vezes.
141
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
Capítulo I
2. Sobre o trigo230
Tal como seria de esperar, suponho que a maior parte dos médicos começou 
a discussão em causa pelos cereais (480.15), uma vez que este grão tem muitos 
usos (481.1) tanto para os gregos como para a maior parte dos estrangeiros. 
Os mais nutritivos destes grãos são os densos, sendo o conjunto da matéria 
compositiva compacta, de maneira que é difícil dividi-los mordendo-os. Portanto, 
estes aportam ao corpo uma grande quantidade de nutrientes numa pequena 
massa (de alimento). Enquanto os seus antónimos (481.5), que são facilmente 
quebrados ao trincar e que depois de mordidos parecem pouco densos e porosos, 
fornecem poucos nutrientes numa massa grande. Se quiseres pesar uma igual 
porção de cada um, notarás que os mais densos são bem mais pesados. Além 
disso, estes últimos são de cor mais amarelada que os menos densos. Porém, 
deve-se testar a natureza destes (481.10) não só examinando a simples aparência 
exterior, mas também dividindo-os e partindo-os, tal como já expliquei. Pois, 
apesar de muitos parecerem amarelados e compactos a partir do seu exterior, 
por dentro veem-se pouco densos, porosos e esbranquiçados. Estes últimos 
têm mais farelo231 e, se alguém os peneirar depois de moídos em farinha muito 
fina e fizer da sobrante aquilo a que se dá (481.15) o nome de pães-de-farelo232, 
examinando-os, verá (482.1) que, além de pouco nutritivos, desfazem-se em 
muitos pedaços no estômago e, consequentemente, descem facilmente.233 Ao 
mesmo tempo, porque o farelo comparte faculdades purgativas, como seria de 
esperar, provoca uma rápida eliminação dos resíduos, uma vez que os intestinos 
são incitados à excreção. 
(482.5) Os (pães) que são o oposto disto são muito puros, pelo que a mais 
pequena porção tem um peso elevado e, de todos os pães, são aqueles que 
‘descem’ mais lentamente.234 De facto, observarás também que a massa destes é 
realmente pegajosa, uma vez que quando é derramada na sua totalidade não se 
divide, algo que é característico da matéria viscosa. Evidentemente, por causa 
230 Περὶ πυρῶν (peri puron), Triticum spp. O plural usado pelo autor remete para as diferentes 
espécies de cereais e as suas variadas aplicações.
231 Πιτυρίας (piturias), farelo do trigo.
232 Ἄρτος πιτυρίας (artos piturias), pão ou bolo à base do farelo da farinha refinada.
233 Ao referir-se a muitos resíduos, Galeno estará a afirmar que facilmente se desfasem em 
várias partículas no estômago, pelo que a digestão se faz mais facilmente.
234 Em causa está o seu processamento e circulação pelo sistema digestivo até ao momento 
da excreção.
142
Capítulo I
disso necessita ter mais levedura e ser mais amassada (482.10) e, não deve ser 
cozida imediatamente após fermentar e levedar.235 Porém, com pães-de-farelos 
basta uma pequena quantidade de fermento, uma leve fermentação e um certo 
tempo (de espera). Pois, enquanto os pães puros necessitam de um período maior 
de cozedura, aos pães-de-farelo basta um período mais curto. Entre aquilo que 
é mais puro e aquilo que é mais impuro há, então, uma pequena dimensão onde 
está a maior ou menor pureza (482.15), sendo realmente designada pura por 
alguns e impura por outros.
(483.1) Ora, existe precisamente um tipo a ‘meio-termo’ de pães chamados 
pães-de-trigo236. Então, os antigos médicos chamavam-lhe pão-de-mistura237, 
uma vez que era feito de misturas de preparados (de grão), evidentemente 
quando a farinha com farelo não era apartada da (já) peneirada.De facto, 
em consequência (483.5) e por essa razão são comummente chamados de 
pães-de-trigo, uma vez que o próprio trigo é transformado em pão como uma 
mistura de um conjunto (diferenciado); e pães-de-mistura porque, quando 
estão a ser preparados, se lhes junta todo o tipo de massa sem qualquer 
distinção. Porém, entre os próprios pães que aparentam ter sido precisamente 
confecionados a meio-termo disto, ou seja, entre os pães feitos a partir do 
farelo e os pães muito puros, existe uma variação assinalável (483.10), de 
acordo com a natureza do próprio trigo. Pois os pães gerados a partir do trigo 
mais denso e pesado são melhores, enquanto os que são feitos com grão mais 
poroso e leve são pobres.
Entre os romanos, assim como entre todos aqueles sobre os quais estes 
governam, o pão mais puro é o chamado de (483.15) silignis238 e depois deste está 
o semidalis239. Embora o semidalis seja um antigo nome grego, silignis não é grego; 
todavia, (484.1) eu não consigo dar-lhe qualquer outro nome. Ora, o silignis é de 
todos o que mais alimenta, seguindo-se a este o semidalis e, em terceiro, está o 
intermédio pão-de-mistura. O quarto (pão da lista) deriva do grão mais rude e 
é o pior; é manifestamente o menos nutritivo e de todos os pães é o que revolve 
mais (484.5) as entranhas.
235 Será necessário esperar que a massa levede até ficar no ponto, de modo a perder a carac-
terística viscosa e mais espessa e só depois o pão deveria ser cozinhado.
236 Αὐτόπυρος (autopyros) seria um pão feito a partir de vários tipos de trigo.
237 Συγκομιστός (sykomistos), à letra traduzir-se-ia por ‘algo misturado conjuntamente’. Não 
querendo fazer uma associação direta com aquilo que modernamente e em contexto português 
é conhecido por ‘pão-de-mistura’, optámos por traduzir dessa forma por uma questão de maior 
proximidade semântica ao original grego.
238 Siligninis farinha de trigo ou farinha flor. Corresponderia a uma farinha mais refinada e 
limpa.
239 Σεμίδαλις (semidalis), farinha de trigo fina. A gradação é dada pelo autor, já que não nos 
é possível considerar através léxico de que maneira um tipo de farinha é melhor do que o outro, 
dada a falta do contexto histórico. De notar que não fomos capazes de detectar a ocorrência 
deste étimo no contexto da literatura latina. Vide GI, 1909,
143
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
Os melhores pães para a boa digestão são aqueles que foram bem levedados, 
bem amassados e cozinhados a fogo médio num forno de barro tapado240. Quando 
lhe é induzido um fogo forte, (o pão) queima logo e gera-se um aspecto de casca 
de barro; logo, o pão acaba por ser (484.10) de má qualidade em dois aspectos: 
por dentro fica cru e torna-se indigesto, e a côdea fica torrada e seca, como se 
fosse barro. Sob um lume mais baixo que o fogo médio, o pão não é devidamente 
cozinhado e fica completamente cru, principalmente o miolo. Aqueles que são 
cozidos de forma uniforme e em lume moderado por um período mais largo 
(485.1) são bem digeridos pelo estômago e também são mais adequados para as 
ações consequentes e levadas a cabo depois da digestão.241 Obviamente, os piores 
pães são aqueles aos quais nada disto se aplica.
Tendo-se identificado o excelente e o deplorável de ambos pães, é agora fácil 
para qualquer pessoa (485.5) entender sem a minha ajuda que alguns pães estão 
mais próximos ora do melhor (que há), ora do pior; já outros estão apartados 
desses extremos; e também que outros, tal como foi dito, se posicionam a meio 
termo de ambos (os tipos de pão). De facto, de acordo com o que dizia antes 
sobre o mel, ou seja, que não deve dizer-se simplesmente que é bom ou mau 
para a saúde, mas antes que é bom para aquelas pessoas de natureza fleumática 
(485.10), isto é, uma (condição natural) que seja antes húmida ou fria em 
vez de uma natureza temperada, ainda que seja apenas mais fria e de pouco 
humidade, ou húmida sem ser muito fria. E também que este é inadequado para 
composições quentes e ainda mais se, além de quentes, são também secas. Ora, 
além disto, um pão que nem tenha sido (486.1) bem cozido, nem bem levedado é 
apropriado para um atleta; um que tenha sido bem cozido é apropriado para uma 
pessoa normal ou um idoso; e um que não tenha sido fermentado em absoluto242 
não é adequado para ninguém. Mas se for adicionado queijo243 ao pão, - tal 
como aquele usualmente preparado pelos camponeses que celebram os festivais 
e ao qual (486.5) os próprios chamam de ‘não-levedado’, - existe um certo risco 
para seja que pessoa for, até para a gente de constituição muito forte, tal como 
os ceifeiros e os cavadores, mais dotados pela natureza. Uma vez que foram 
observadas pessoas a digerirem pães crus melhor do que os atletas mais fortes, 
da mesma maneira que o fazem com a carne de boi ou de bode. Pois, posto isto, 
que necessidade há em lembrar ovelhas ou cabras? (486.10)
Em Alexandria também se come carne de burro e ainda há quem (coma) 
carne de camelo. Pois, apesar do hábito contribuir para a digestão destes produtos, 
240 Κρίβανος (kribanos) mais do que um forno estará em causa um recipiente de barro, o 
qual se submeteria ao lume. No entanto, notamos a possível ambiguidade que o termo poderia 
acarretar. Cf. GI, pp. 1197-8.
241 O mesmo é dizer: a excreção.
242 Ἄζυμος, algo que não passou pelo processo de fermentação.
243 Τυρός (tyros).
144
Capítulo I
na verdade, acima de tudo é a pequena quantidade ingerida e a capacidade 
de esvaziamento244 do corpo, como um todo, que necessariamente sustentam 
aqueles que trabalham ao longo do dia nos seus afazeres. Pois estas carnes 
(486.15) empobrecidas saem do estômago não só meio-digeridas, mas ainda, por 
vezes, como um suco complemente por digerir (487.1), depois destas pessoas se 
meterem ao trabalho após uma refeição. É por isso que mais tarde estes padecem 
de enfermidades complicadas e morrem antes de chegar à velhice. Ignorando 
este facto, muitos dos que os observam a comer e a digerir o que nenhum de 
nós é capaz de suportar e digerir, congratulam-nos pela sua resistência física 
(487.5). Além disso, uma vez que se gera um sono profundo naqueles que 
levam a cabo trabalhos pesados, isso ajuda-os a digerir com maior facilidade, 
pelo que consequentemente são menos afligidos por alimentos prejudiciais. 
Porém, se os obrigamos a ficar acordados por muitas noites sucessivas, adoecem 
imediatamente. Nesse sentido, estas pessoas têm apenas uma vantagem na 
digestão (487.10) dos alimentos difíceis.245
Na verdade, os atletas consomem alimentos fáceis de digerir246, mas os mais 
pesados entre eles comem alimentos gordos e densos. As pessoas referem-se 
especialmente desta maneira aos lutadores de pancrácio247 e boxe. Uma vez 
que todo o seu treino se destina a competições onde por vezes (487.15) têm de 
praticar luta livre ou pancrácio durante todo o dia, pelo que (488.1) necessitam 
comida que seja tanto difícil de desfazer como de distribuir. Tais alimentos 
têm sucos consistentes e densos, especialmente os que derivam da (carne de) 
porco e de pães, se estes forem preparados como se descreveu (previamente), 
e os atletas profissionais consomem-nos exclusivamente. Se realmente pessoas 
comuns sem treino (488.5) se alimentam destas comidas, rapidamente padecem 
de um mal pletórico, tal como, se um homem que se exercita subsiste de vegetais 
e sucos de cevada, rapidamente ficará em más condições e com todo o corpo 
esgotado. O suco dos pães, como aqueles que eu disse que os atletas consomem, 
se algum de nós, gente comum, os comer, é denso e insípido, do tipo (488.10) a 
que, por costume, chamamos concretamente ‘cru’. Ora, agora dá-se o caso de a 
fleuma ser cru e frío, mas não denso, já que contêm uma considerável quantidade 
de humidade, assim como de gazes que produzem flatulência. Aquilo a que 
se chama especificamente de cru é isto e parece-se com aquilo que às vezes 
244 Vide Durling 1982.
245 Entende-se a capacidade de dormir mais e melhor como o fator que potencia a digestão, 
pelo que nãoé atribuída a estas pessoas qualquer capacidade física especial, uma vez que são 
as circunstâncias que geram o comportamento digestivo. Curioso é o facto de este comentário 
contrariar a ideia de que algum movimento estimula a digestão (vide supra), ficando claro que 
isso apenas se aplica em circunstâncias alimentares normais.
246 É provável que o autor se refira à ingestão de hidratos de carbono.
247 Uma modalidade de arte marcial especialmente violenta, uma vez que havia uma certa 
liberdade na tipologia de golpes. Vide BNP, vol.9, pp.447-8.
145
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
surge na urina e se assemelha ao pus. Todavia, enquanto o pus cheira mal e 
é viscoso, (489.1) o suco cru assemelha-se a este apenas na consistência e cor, 
não sendo nem malcheiroso nem viscoso; e, na verdade, não surge apenas na 
urina de pacientes febris, por causa da quantidade de sucos crus dos quais (já) 
falei, mas também em pessoas saudáveis que se dedicam a trabalhos duros e que 
consomem alimentos que são resistentes e difíceis de digerir. (489.5)
Discutir-se-á mais tarde sobre outras comidas, mas sobre os pães, uma vez 
que iniciamos primeiro a discussão sobre estes, comentemos imediatamente 
aquilo que já se disse. Os melhores (dos pães) são os kribanitai248, quando 
cozinhados e previamente preparados para serem cozidos da maneira que 
descrevi. (489.10) Aqueles que são cozidos num ipnos249 seguem-se a estes, sendo 
que tiveram o mesmo tipo de preparação. Mas uma vez que não são cozinhados 
no interior de um recipiente de barro como o kribanos, são inferiores a este. 
Aqueles que são cozinhados em brasas de carvão, seja nas brasas quentes ou 
num recipiente de barro como o kribanos, são todos de qualidade questionável 
por serem cozinhados de maneira inadequada (489.15), uma vez que a côdea 
fica tostada e o miolo cru. E é chamado de ‘pão feito na brasa’ por ser cozinhado 
no meio das brasas, razão pela qual traz (490.1) um (elemento) desagradável: a 
cinza. Sendo assim, de todos os pães estes são os que têm mais probabilidades 
de serem os piores no correspondente à maneira de serem cozinhados, ainda 
que levem os mesmos ingredientes. No entanto, deve-se, desta forma e em cada 
ocasião, atentar naquilo que está a ser considerado, pois as coisas comparadas 
entre si foram alteradas apenas relativamente àquela característica concreta; 
(490.5) uma vez que foram comparadas coisas que se diferenciam entre si em 
muitos aspectos quando misturadas; o mesmo serve para todas as coisas que 
foram ditas sobre cada uma delas de forma particular. 
Posto isto, por fim foi dito o suficiente sobre as diferenças entre os pães.
248 Traduzido à letra: cozinhados num kribanos. GI p.1197.
249 Ἴπνιος (ipnios), forno. Supõe-se que o autor se refere ao mesmo tipo de cozedura do pão 
kribanitos, porém cozinhado diretamente no forno, sem um recipiente que o proteja e sujeito à 
fuligem.
146
Capítulo I
3. Sobre os pastéis250
(490.10) Pois agora talvez seja o momento de falar sobre outros pastéis 
feitos por algumas pessoas a partir de farinha-de-trigo quente. Aqueles que são 
chamados de tagenitai pelos atenienses e teganitai por nós251, gregos asiáticos, 
são preparados somente com azeite. Põe-se o óleo numa frigideira e leva-se 
a um fogo sem fumo252 e, quando estiver quente, (490.15) verte-se dentro a 
farinha-de-trigo embebida numa grande quantidade de água. Ora, de facto, 
(491.1) quando cozinhada em óleo, rapidamente ganha ponto e endurece, 
fazendo lembrar o queijo suave solidificado em cestas de vime. Chegada a essa 
fase, gira-se imediatamente, virando a parte de cima para baixo, ficando em 
contacto com a frigideira e trazendo o que anteriormente estava de baixo (491.5) 
para cima, uma vez esteja bem cozinhada. Quando a parte de baixo já está 
pronta, gira-se outra vez, provavelmente duas ou três vezes, até que lhes pareça 
que toda (a massa) foi efetivamente cozinhada. 
Está claro que este produto tem um suco espesso, adstringente do estômago 
e gerador de ‘humores crus’253. É por esse motivo que alguns misturam mel com 
este alimento (491.19) e também há quem lhe misture sal marinho. Ora, este 
(bolo) pertence ao género, ou espécie ou ao que quer que lhe queiram chamar, 
de bolo-espalmado. Tal como as gentes do campo e os trabalhadores da cidade 
(pobres), muitos outros fazem bolos-espalmados a partir do que tenham 
à mão. Por tal, aqueles doces por levedar, que são cozinhados num kribanos, 
imediatamente removidos e (491.15) postos em mel quente para que se embebam 
totalmente nele (492.1), são também um tipo de bolo-espalmado; e assim se faz 
com todos os pratos elaborados com mel.
250 Περὶ πεμμάτων, (pemma) corresponderia a um largo conjunto de produtos feitos à base 
da massa de cereais. A propósito da variedade e versatilidade dos pastéis na culinária Romana, 
vide Solomon 1978.
251 Um pastel frito em óleo (provavelmente) refinado de azeitona.
252 Por oposição fogo das brasas, que apesar de altas temperaturas tem uma chama baixa e 
gera muito fumo.
253 Χυμῶν ὠμῶν (chymon omon) ou sucos crus. Nem sempre é clara a distinção entre sucos e 
humores no tratado de Galeno, uma vez que no texto grego o termo tem ambos os significados. 
Vide Powell 2013, p. 165.
147
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
4. Sobre oS boloS254
São reconhecidos dois géneros de bolos. Aos de melhor qualidade 
chamam-lhes rhyemata255 (492.5) e aos de qualidade inferior lagana256. Ora, tudo 
o que seja feito como estes e como os do tipo semidalis é de ‘processamento 
lento’, produz um suco denso e obstipante na passagem do alimento para o 
fígado, provoca inchamento do baço e gera pedra nos rins; porém, são bastante 
nutritivos, se bem digeridos e transformados em sangue de forma apropriada.257 
Os alimentos preparados com mel têm (492.10) propriedades compositivas258, 
uma vez que o próprio mel tem um suco fino que torna fina qualquer substância 
que seja associada com este.
De facto, estes bolos aos quais se acrescentou mais mel a quando da sua 
preparação e que foram cozinhados por um largo período de tempo, naturalmente, 
são menos lentos a ‘passar’ e dão origem a um suco que é uma mistura entre o 
fino e o denso e em pessoas saudáveis são melhores para o fígado, rins (492.15) 
e baço do que aqueles que foram preparados sem a adição de mel. (493.1) No 
entanto, são danosos para pessoas com obstipações259, seja devido a inflamação 
ou a endurecimento; por vezes, chegam a ser muito daninhos, principalmente 
todos aqueles cuja farinha é algo densa, pois o suco destes não só retrai e dificulta 
a passagem devido à sua densidade, (493.5) mas também, ao moldar-se dentro 
das extremidades apertadas dos órgãos, produz um bloqueio difícil de romper. 
Por fim, dessa maneira este problema gera nos pacientes uma certa sensação de 
mal-estar pesado, o que requere o auxílio de comidas e bebidas depurativas. Ora, 
isto foi já discutido em outro lugar: Sobre a dieta que depura260. 
(493.10) Contudo, nada preparado desta maneira afecta o tórax ou os 
pulmões. Mais tarde serão tratados os alimentos que geram densidade e ‘humor 
espesso’. Agora, o atual estudo requere ter presente as outras coisas que fui 
discutindo até ao momento, especialmente tudo o que esteja relacionado com as 
propriedades dos pães, dado que os consumimos (493.15) continuamente. E não 
é inoportuno recordar, sumariamente, o que foi dito até aqui sobre estes. 
(494.1) Ora, o melhor dos pães para um homem que nem é jovem, nem se 
exercita, é aquele que foi mais bem levedado e tem mais sal, que foi amassado 
254 Περὶ ἰτρίων.
255 Ῥύημα (rhyema), um tipo bolo-de-mel, que provavelmente seria fofo e pouco prensado, 
por oposição aos bolos-espalmados.
256 Λάγανα (lagana), um tipo de bolo fino e estendido ou provavelmente espalmado.
257 O processo de digestão e absorção dos alimentos, culmina, segundo Galeno, no forneci-
mento de sangue.
258 Isto é, são dados a misturar propriedades e a gerar outras. O adjetivo grego usado é 
μικτός, que à letrasignifica ‘misturado’.
259 Ἐμφράξεω̆ς (emphrakseus), vide Johston 2006, p.42.
260 Περὶ τῆς λεπτυνούσης διαίτης. 
148
Capítulo I
pelo padeiro por mais tempo, até estar devidamente preparado para cozer e 
que tiver sido cozido num kribanos a fogo moderadamente quente, da maneira 
que descrevi anteriormente. Que seja o sabor o critério distintivo (494.5) a ter 
em maior consideração para a levedura e para o sal; pois numa destas misturas 
intensas, o sabor desagradável indica que não é saudável. Então, sempre que se 
sinta o mau gosto na mistura, é melhor aumentar a quantidade de ambos.
5. Sobre o pão leve261
(494.10) Tantas quantas pessoas se propõem a fazer ‘pão ligeiro’, observam 
que, embora o alimento seja menos nutritivo, evita o dano pela constipação 
um tanto ou quanto melhor. Pois, acima de tudo, este pão é menos espesso e 
denso, uma vez que tem uma natureza mais próxima do elemento ‘ar’ do que 
do elemento ‘terra’. A leveza deste manifesta-se através do seu peso (leve) e pelo 
facto de não se afundar quando metido dentro de água, antes (494.15) flutua à 
maneira da cortiça.
É importante que se saiba que muitas das nossas gentes do campo cozem 
um preparado a partir de uma mistura de trigo (495.1) e leite e que este alimento 
pertence ao grupo dos ‘aderentes’. Ainda que todas essas comidas sejam saudáveis 
e nutritivas, pela razão (já referida) causam dano àqueles que as consomem 
continuamente, produzindo obstrução no fígado e gerando pedras nos rins. Uma 
vez que (495.5) o ‘humor cru’ é adicionado à composição pegajosa, sempre que 
as vias dos rins sejam já estreitas por natureza em algumas pessoas, quando um 
humor muito espesso e viscoso se demora aí, certamente produzirá pedra do 
género daquela formada nos vasos onde aquecemos água e do género daquela 
que se gera à volta das pedras de muitas das fontes quentes naturais.262 (495.10) 
Na verdade, a própria composição dos rins também contribui bastante para isto, 
dado que o calor contido nestes é do tipo ardente e pungente. As pedras que se 
desenvolvem aquando do padecimento de gota também são desse género, pois 
invariavelmente sucede que tudo o que é supérfluo para o corpo vai para os 
pontos mais débeis e produz efeitos nos mesmos de acordo com a sua própria 
natureza. Retomarei este assunto na discussão (495.15) sobre o leite e todos os 
seus derivados, assim como (496.1) sobres os alimentos espessos, uma vez que 
existem outras comidas com estas faculdades.
261 Περὶ πλυτοῦ ἄρτου.
262 Ou seja, pedra do género calcário. 
149
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
6. Sobre a sêmola263
A sêmola inclui-se na família dos ‘trigos’. Esta terá um suco bastante nutritivo 
e (496.5) espesso se, sendo cozida apenas em água, for tomada juntamente com 
oinomelito264 ou vinho doce ou vinho adstringente265 – o momento apropriado da 
aplicação é específico de cada um – e se lhe for adicionado sal e azeite. Por vezes 
também se lhe junta vinagre266. Os médicos comentam que a sêmola preparada 
desta forma é temperada ‘à ptisana’267. Todavia, alguns (médicos) dizem que o 
paciente é alimentado com ptisane (496.10) feita a partir da sêmola; e alguns dos 
médicos mais velhos, como Diocles ou Filótimo, chamam à sêmola preparada 
dessa forma ‘ptisane trigueiro’268. Posto isto, é por essa razão que é raro o emprego 
desse nome pelos mais velhos, tal como sucede com o trigo da primavera. Então, 
referem-se simplesmente a este pelo nome de ‘trigo’.269 É dito em (496.15) Sobre 
a dieta de Hipócrates que os pães preparados a partir da sêmola, ainda que muito 
nutritivos, são inferiores no que toca à excreção. Também se diz que (497.1) o 
semidalis e a sêmola fervida são espessos e nutritivos.270 Portanto, que se tenha 
presente (a necessidade d)a atenção a ter com o uso excessivo destes por parte 
de pessoas cujo fígado se obstrua facilmente ou cujos rins sejam propensos a 
desenvolver pedras.
É necessário prestar-se especial atenção às papas de aveia271 (497.5) feitas a 
partir da chamada ‘sêmola lavada’272. Pois, de facto, aquilo corresponde ao suco da 
sêmola depois de misturada com água, mas, ainda que careça de muita fervura, 
engana aqueles que a preparam e julgam já ter sido suficientemente cozinhada; tal 
(pode) provocar um mal considerável a pessoas enfermas, as mesmas para quem 
foram preparadas primeiramente, dado que se faz rapidamente dura e densa por 
263 Περὶ χόνδρου, chondros poder-se-ia traduzir por ‘granulado de trigo’, que de certa forma 
tem correspondência com o termo ‘sêmola’, ainda que este possa adquirir outros sentidos em 
português, como a fécula extraída da farinha de arroz ou um produto extraído da batata. 
264 Οἰνομέλιτος (oinomelitos), preparado à base da mistura de duas porções de vinho jovem 
com uma de mel, dissolvido. Por vezes este preparado poderia ser fervido. Vide Powell 2003, 
p.166.
265 Apesar da tradução literal, escapasse-nos o entendimento preciso do tipo de vinho a que 
se refere Galeno. É possível que em causa estivesse um vinho verde ou um vinho mais ácido ou 
avinagrado.
266 Ὄξος (oksos), vinagre.
267 Com πτισάνης (ptisanes), o autor referir-se-á ao nome do método de preparação, cuja 
motivação do nome não fomos capazes de identificar. A propósito vide comentário explicativo 
de Jones 2006, p.60-61.
268 Πτισάνην πυρίνην (ptisanen purinen).
269 Este comentário (496.8-15) visa esclarecer o leitor sobre a aplicação de um tempero que 
poderia ser conhecido por um determinado nome (à moda ptisane), mas que, em boa verdade, 
genericamente não teria um nome específico. 
270 Vide Hipócrates, Περὶ διαίτης (De diaeta) 11.42.
271 Ῥοφήμα (rhophema).
272 ‘Πλυτοῦ χόνδρου’ (plytou chondrou).
150
Capítulo I
ser viscosa. Nesse sentido, os que a cozinham, depois de terem misturado (497.10) 
a sêmola com uma grande quantidade de água, devem fervê-la, condimentada 
com endro273, sobre carvão por um longo período, até que esteja bem cozinhada 
e, já nessa fase, acrescentar-lhe também sal. Não fará mal, se também tiveres 
misturado azeite exatamente no início (do processo).
Porém, tome-se isto como uma questão subordinada à aplicação terapêutica 
e não ao presente objecto que está em análise. Para aqueles que são saudáveis, 
sempre que necessitem de sopa de aveia274 (497.15) por causa de uma severa irri-
tação do estômago (498.1) ou pela passagem de demasiada substância biliar, ou 
algo desse género, uma vez fervida a sêmola até ao ponto de estar bem desfeita 
e tendo sido mexida até que se pareça ao suco refinado de ptisane, então aí, pode 
dar-lhes (o preparado) a beber. O tempero é o mesmo que o da sêmola lavada.
(498.5) 7. Sobre o trigo ferviDo em água275
Se eu, a dada altura, não tivesse comido trigo fervido da forma (que 
explicarei) de seguida, não imaginaria quais alimentos (feitos) a partir deste 
seriam úteis a alguém. Nem mesmo por fome, alguém o usaria (preparado) 
assim, já que, se houver abundância de trigo, pode (sempre) fazer-se pão com 
este. À refeição as pessoas comem coisas tais como grão-de-bico276 (489.10) 
fervido ou também assado e outras comidas, das chamadas sobremesas, que 
lhes venha de apetite277, preparando-as da mesma maneira (que este prato), mas 
ninguém come simplesmente trigo fervido dessa forma. É por essa razão que 
não esperaria que alguém comesse trigo fervido. Porém, quando passeava pelo 
campo, não muito afastado da cidade com dois companheiros da minha idade, 
(498.15) eu próprio aproximei-me de alguns camponeses que tinham feito a sua 
refeição e cujas mulheres estavam a ponto de fazer pão – uma vez que estava a 
ponto de acabar. Então, ali mesmo, um deles (499.1) pôs o trigo todo de uma 
vez num pote e ferveu-o. Depois temperaram-no com uma quantidade razoável 
de sal e ofereceram-nos de comer. Sem grande hesitação, aceitamos a oferta, já 
que vínhamos de caminhar e estávamos famintos. Então, comemos com real 
273 Ἄνηθον, Anethum graveolens L., também vulgarmente conhecido por aneto ou funcho-
-bastardo. Vide http://naturdata.com/Anethum-graveolens-4622.htm274 Avena sativa L.
275 Περὶ πυρῶν ἡψημένων ἐν ὕδατι.
276 Semente de Cicer arietinum L.
277 O termo τράγημα (tragema) pode também significar ‘frutos secos’. Optámos por usar o 
termo mais geral ‘sobremesa’ por indicar algo que se segue à refeição como capricho. De resto, o 
próprio autor explica mais adiante o conceito. Vide infra.
151
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
satisfação, porém sentimos um torpor no estômago, como parecesse termos barro 
sobre (499.5) o ventre. Ao longo do dia seguinte não tivemos apetite por causa de 
uma indigestão, pelo que não fomos capazes de comer nada, estávamos cheios de 
gazes, sofríamos de dores de cabeça e tínhamos a visão turva. E tampouco havia 
qualquer atividade intestinal, o único remédio para a indigestão. Mais tarde, 
perguntei aos rústicos se eles próprios alguma vez tinham comido trigo fervido 
e que disposição apresentavam. Aqueles (499.10) disseram que o comiam muitas 
vezes, pela mesma carência que nós tínhamos tido, e que o trigo preparado 
dessa forma era uma comida pesada e difícil de digerir. É evidente que isto 
poderia ser calculado até por alguém que não o tivesse experimentado. Pois, 
como disse anteriormente, quando a farinha de trigo é ingerida, não se digere 
facilmente, a não ser que tenha sido preparada com sal e fermento, misturada 
(499.15), amassada e cozinhada num kribanos. Pois como pode alguém não ter 
em consideração (500.1) que o trigo que não é processado da forma adequada é 
indigesto? Na verdade, o trigo comido desta forma tem um grande potencial, se 
for bem digerido, nutre bastante o corpo e induz uma energia notável naqueles 
que o consumam.
8. Sobre o amiDo278
(500.5) Este é preparado a partir do trigo e tem a faculdade de amolecer 
as partes mais duras. Esta consequência é comum a todas as substâncias que, 
sendo de composição seca, não têm faculdades adstringentes, nem ácidas, 
nem possuem qualquer outra manifesta propriedade. Como seria de esperar, 
chamam-lhes ‘inerte’, uma vez que não motivam qualquer sensação. Ora, 
englobado no conjunto das substâncias húmidas (500.10), este (produto) é tal e 
qual a água. O (pão de) amido é semelhante aos pães-leves, fornecendo ao corpo 
menor quantidade de nutrientes do que outros pães, além disso, não é quente279; 
ora, enquanto este não é quente, outros pães há que são quentes. Contudo, não 
devemos compará-lo com o trigo fervido em água, que é claramente (500.15) 
quente e, quando digerido, é muito nutritivo, apesar de ser resistente e de difícil 
digestão, como já foi dito.
278 Περὶ ἀμύλου.
279 O autor não se refere à temperatura, mas sim aos ‘humores quentes’. Vide estudo 
introdutório cap.4.1.
152
Capítulo I
(501.1) 9. Sobre a cevaDa280
Este cereal também é muito útil ao homem, embora não tenha o mesmo 
potencial do trigo281, pois enquanto este último é manifestamente ‘quente’, a 
cevada não só está longe de ser ‘quente’ – tal como (501.5) alguns alimentos 
que estão entre o ‘quente’ e o ‘frio’, como sejam o amido e o ‘pão leve’ –, 
como, efetivamente, aparenta ser de natureza fria em todas as formas de 
emprego, seja quando é preparado pão a partir desta ou quando se cozinha 
a ptisane ou mesmo quando se prepara sêmola. E também se diferencia da 
natureza do trigo no que corresponde à estrutura dos (501.10) sucos que 
cada pessoa produz, pois o trigo gera um suco denso e viscoso, enquanto a 
cevada produz um suco fino e limpo. A cevada nunca aquece o corpo, seja 
qual for o modo de preparação e, mesmo preparada de muitas maneiras, 
não tem nem qualidade húmida, nem seca. No entanto, a sêmola de cevada 
assada é (501.15) manifestamente ‘seca’, ao passo que a ptisane (de cevada) 
faz-se húmida quando preparada de maneira correta, ou seja, sempre que 
for expandida em fervura por um largo período, depois for transformada 
em fluído por uma longa e suave (segunda) fervura e, finalmente, (502.1) 
for então adicionado vinagre, uma vez tenha atingido a capacidade máxima 
de crescimento. Quando preparada de forma minuciosa, deve adicionar-
se bastante sal refinado, logo antes de comer. E se adicionares azeite 
precisamente no início (da preparação), não haverá qualquer problema para 
a fervura. Porém, não deves adicionar nada mais, à exceção (502.5) de uma 
pequena quantidade de alho porro e endro no início. 
Ora, tenho reparado que a ptisane é muito mal preparada por todos os 
cozinheiros, já que estes a processam amassando-o com um almofariz282 enquanto 
ainda húmus, em vez de a preparar em fervura ao lume. E outros acrescentam 
amido para que a ptisane aparente (502.10) ter sido suficientemente liquefeita 
através da fervura. Evidentemente, este género de ptisane é um importante 
causadorade flatulência e é difícil de digerir.
Portanto, está bem ter presente o que disse a propósito de uma boa prepa-
ração. Tendo antecipadamente embebido a ptisane crua em água por um curto 
momento e depois despejada num almofariz, é necessário amassá-la com as 
mãos enquanto se usa algo (502.15) duro, como aquilo a que se dá no nome 
de spartos283, a partir do qual se fazem as ‘proteções dos cascos’ dos animais de 
280 Περὶ κριθῶν. Cevada, Hordeum vulgare L.
281 A propósito deste comentário vide Powell 2003, pp.167-68.
282 θύεια (thyeia) corresponderia a um recipiente onde poderiam ser prensadas ou moídas 
pequenas quantidades dos mais variados produtos. Sobre o uso do almofariz em contexto de 
produção romano vide Thurmond (2006, pp. 32-37)
283 Vide GI, p.1948.
153
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
carga284. Haverá que providenciar que a intensidade de prensa seja suficiente 
para remover (503.1) a casca; já que, quando a cevada é peneirada, a pele fina 
envolvente não é removida totalmente; consequentemente, (haverá que) ensopá-
-la e depois amassá-la num almofariz. Mas se estes materiais brutos não saírem, 
uma vez fervido, então a pitsane ficará mais limpa (503.5), pelo que não fará mal 
algum.
O pior preparado de pitsane é o seguinte: quando os cozinheiros reúnem 
num almofariz com água a cevada por cozinhar e, depois de o terem fervido 
por um curto período, acrescentam um pouco daquilo a que chamam mosto 
e vinho-novo fervido.285 Alguns também acrescentam mel e cominho a isto, 
gerando uma papa, em vez de pitsane (503.10). Todavia, a pitsane bem preparada 
fornece o que Hipócrates disse ser necessário quer para homens saudáveis quer 
para enfermos: 
“Pois a qualidade glutinosa...” 
diz 
“...é suave, uniforme e agradável; escorreita, moderadamente húmida, não 
provoca sede, é facilmente excrescida – se houver necessidade disso, e nem é 
adstringente nem provoca distúrbios incómodos; e nem (503.15) incha a barriga, 
isto porque foi inchada pela fervura, ao ponto de crescer até ao limite possível”.286
(504.1) No presente tratado, isto é o quanto basta ser dito sobre as faculdades 
da pitsane que não tenha que ver com fins terapêuticos, antes com a explicação 
das faculdades dos alimentos por si só. Ainda assim, ao longo deste texto ensi-
naremos alguns (usos terapêuticos).
284 Em causa não está uma ferradura, tal como a entendemos para proteção dos cascos dos 
animais de trabalho, tratar-se-ia antes de uma espécie de sandália, cujo material da base não po-
deríamos identificar de forma inequívoca pelo contexto, mas que provavelmente corresponderia 
a uma madeira como a da videira, ou um arranjo de vime, cuja flexibilidade, durabilidade e custo 
de produção parecem adequar-se ao contexto. 
285 Resumindo: qualquer derivado de trigo não cozinhado é nocivo e de difícil digestão.
286 Ou seja, a massa torna-se menos densa e, seguindo a lógica de Galeno, mais fácil de 
processar pelo aparato digestivo..
154
Capítulo I
(504.5) 10. Sobre oS pãeS De cevaDa287
Agora é o momento oportuno para passar ao comentário sobre os pães 
de cevada, que as pessoas confecionam tanto quanto os (pães) de trigo. Ora, 
na verdade são mais friáveis que os de trigo, mas também mais do que os de 
mistura e ainda muito mais do que o tiphinos288, uma vez que nãocontêm 
viscosidade (504.10), como sucede com os pães de trigo. Obviamente, estes 
fornecem pouca nutrição ao corpo, principalmente quando feitos a partir 
de cevada de (qualidade) inferior, com a qual Hipócrates aconselhou a nem 
sequer preparar pitsane, pois nem fervida liberta de si suco quanto baste. 
Os melhores grãos de cevada são aqueles que se tornam brancos depois 
de joeirados e possuem uma certa densidade e peso, tanta quanta podem 
(504.15) ter os grãos de cevada. Ora, é também certo que aqueles que estão 
completamente cheios289 e têm uma aparência externa mais estreita são 
melhores do que aqueles que são ‘secos’ e enrugados. Deves, pois, tomar 
isto como característica comum a todas as sementes, excepto quando (505.1) 
as sementes tenham muito mais massa do que é normal e sejam ao mesmo 
tempo mais tenras e mais porosas. Também deves entender que estas últimas 
têm demasiada humidade e são inferiores às referidas anteriormente. É 
por esse motivo que não é boa ideia usá-las após a colheita, mas tendo-as 
depositado (505.5) num lugar seco, de modo a deixá-las dissipar alguma da 
humidade em excesso e torrá-las um pouco, até que estejam moderadamente 
secas e contraídas. Pois bem, de todas as ervas, sementes e frutos que 
tiverem sido colhidas e depositadas no solo, primeiro desaparece a pequena 
quantidade de humidade em excesso contida nelas e, depois disso, também 
perdem (505.10) alguma da humidade natural própria.290 Pois sempre que 
contenha uma substância que seja mais seca do que deveria ser, embora seja 
inferior àquela que atingiu a condição ideal, não é, todavia, completamente 
má; pelo contrário, é até mais útil para determinadas disposições, como 
aquelas necessitadas (de equilíbrio) através do elemento seco. Todavia, o grão 
depositado por um período mais longo é inferior quanto às suas qualidades. 
A premissa disto é: sempre que (a farinha) for dividida (505.15) terá algo 
semelhante a um pó fino solto. De facto, entenda-se que o descrito (506.1) até 
aqui a propósito destas coisas serve para todas (as demais). Pois, na verdade, 
287 Περὶ κριθίνων ἄρτων.
288 Τίφινος (tiphinos) corresponderá a um tipo de pão feito a partir de trigo de qualidade 
inferior, aquilo que se poderia chamar de ‘pão-de-refugo’.
289 Isto é, densos por oposição a ocos.
290 Não é exata a barreira que separa aquilo que Galeno define como ‘humidade em excesso’ 
e ‘humidade natural. No que se refere à ‘humidade em excesso’ ficaria a faltar não só o critério 
que a define, como as causas geradoras da mesma, sob o ponto de vista do autor. Neste passo o 
autor identifica o processo de secagem de cereais.
155
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
não me agrada dizer as mesmas coisas sobre os mesmos objetos; exceptuando 
se a dado momento é necessário simplesmente fazer um breve sumário.
Agora, retorno aos pães de cevada (506.5), sobre os quais se debruçava 
esta análise, e volto ao comentário, uma vez que existem diferenças entre 
estes comparativamente com aqueles que foram referidos há pouco e os pães 
de trigo. Todos estes são muito menos nutritivos que os pães de trigo. Porém, 
enquanto aqueles feitos a partir da melhor cevada padecem dessa inferioridade 
(comparativa), aqueles que derivam de cevada porosa e leve são equiparáveis 
aos pães de farelo. Mas ao passo que os pães deste tipo de cevada descem 
melhor pelo estômago (506.10), também os outros pães de cevada (o fazem) 
comparavelmente com os pães de trigo. No que refere ao melhores e aos piores 
- e, entre estes, aqueles outros produtos de cevada -, estes preparados ajustam-se 
ao que foi notado a propósito dos pães de trigo.
11. Sobre a alfita291
(506.15) A melhor alfita deriva dos grãos de cevada que tenham sido mo-
deradamente secados. Todavia, por vezes, quando as pessoas não têm (acesso 
a) muitos grãos deste tipo, fazem-na (507.1) a partir de outros. Toda a alfita 
bem preparada tem um cheiro adocicado, especialmente aquela que (é feita) da 
melhor cevada-nova292 com a base não muito seca. Muita gente que goza de 
boa saúde tem o costume de regá-la com siraion293, vinho doce ou vinho com 
mel diluído em água (507.5) ou mesmo, por vezes, somente com água; e (tem 
o costume) de bebê-lo duas ou três horas antes do banho no verão. Esta gente 
diz ter a sensação de apaziguamento da sede como um único trago. Mas quando 
bebida com vinho seco, a alfita esvazia o estômago.
Em algumas regiões as pessoas usam a alfita para preparar pão, tal como 
eu vi (fazer) em Chipre; ainda que, no entanto, ali se cultive essencialmente 
trigo. Os antigos (507.10) também costumavam cultivar alfita para homens em 
cumprimento de serviço militar. Porém, nos dias de hoje os militares romanos 
291 Περὶ ἀλφίτων. Optámos por transliterar o termo grego uma vez que a possível tradução 
é algo ambígua. Ainda que alguns autores traduzam o termo neste contexto por ‘refeição de 
cevada’ ou simples farinha, podemos também entende-lo como ‘grumos de cevada’ ou ‘sêmola de 
cevada’ (vide GI, p. 142), Powell 2003, p.168.
292 Νέων κριθῶν (krithon) à letra significa ‘cevada jovem’ e corresponde ao estado anterior à 
maturação, segundo o autor, quando as suas propriedades não estão ainda no auge e o processo 
de seca natural não tenha atingido o ponto máximo.
293 Σίραιον (siraion), vinho novo fervido ou vinho jovem, isto é, prévio à total fermentação. 
Poderia corresponder àquilo que vulgarmente se designa por ‘vinho doce’.
156
Capítulo I
já não usam a alfita, acreditando na ideia feita de que esta os enfraquece.294 Isto 
porque fornece uma pequena quantidade de nutrientes ao corpo, suficiente para 
um indivíduo normal que não faça exercício, mas inadequada para aqueles que 
levam a cabo algum género de treino.
Da alfita, quando a esta tenha sido adicionada água, fazem-se os bolos 
de cevada (507.17), sobre os quais (508.1) falaremos de seguida; uma vez que 
Filótimo, quando discutiu a alfita de forma profunda no primeiro livro Sobre a 
comida, apesar de tudo, deixou por definir aquilo que seria mais útil entre estes 
cereais.
12. Sobre o oS boloS De cevaDa295
Antes de se proceder à prova, deve-se ser capaz de distinguir (508.5) 
a propriedade de cada alimento da sua natureza. Pois, para qualquer homem 
inteligente, o facto de estar em causa a mais fina farinha branca, livre de todo 
o farelo, não significará de forma absoluta ser mais rapidamente processada 
no estômago e, nesse sentido e em grande medida, ser melhor digerida e 
mais facilmente distribuída e que nutrirá de forma mais pronta, como se 
todo o conjunto fosse absorvido (508.10) e imputado ao corpo que está a ser 
alimentado? E tanto quanto contenha farelo e outras impurezas, tal como 
acontece no exterior do seu corpo, evidentemente este não se dissolveria em água 
e pela mesma razão não se dissolveria no estômago, uma vez ensopada, e seria 
completamente indivisível e indigesta, como era antes de ser ingerida? Pois esta 
nem pode ser bem processada, nem bem distribuída, por não se adaptar (508.15) 
completamente à abertura das artérias, ao descer desde estômago e intestinos. 
Ora, disto se depreende que haverá mais material fecal originado por esta e que 
‘descerá’ rapidamente (509.1); ambas as coisas por causa da sua massa, dada a 
densidade e, além disso, pelo material poroso que no seu conjunto tem uma 
propriedade purgativa.
Posto isto, é evidente para qualquer um que se tenha inquirido sobre estas 
questões, que o (509.5) bolo de cevada é tão inferior ao pão de cevada na nutrição 
do corpo, como este é inferior ao pão de trigo. Pois, embora a cevada naturalmente 
contenha por si só uma razoável quantidade de farelo, a cevada torrada tem a 
mesma quantidade na sua forma mais seca e menos quebrável; além disso, é mais 
seca e a parte da qual o corpo obtém sustento é mais resistente. Nesse sentido, 
o bolo de cevada é de pior digestão do que o pão de cevada (509.10) e deixa as 
294 Sobre a dieta dos militares romanos vide Davies 1971, pp. 122-142.
295 Περὶ μάζης. Galeno não esclareceexatamente em que se diferencia isto do pão de cevada.
157
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
entranhas cheias de gás e, se ficar aí dentro por muito tempo, causa distúrbios 
(digestivos). Porém, este desce melhor se tiver sido misturado e amassado por 
um período mais largo. E se (acaso) alguém o tomar com mel, dessa forma será 
ainda mais rapidamente estimulado à secreção gástrica.
Filótimo acredita que um humor espesso, glutinoso e frio (509.15), a que 
ele próprio – assim como o seu mestre Praxágoras296 – chama ‘verde’, é gerado 
por todos os bolos de cevada. No entanto, isso não é assim, uma vez que (510.1) 
a alfita297 nem tem viscosidade, tal como sucede com os granulados, nem valor 
nutricional. Porém, o bolo de cevada induziu-o em erro, ao ter sido mergulhado 
em vinho doce e siraion por bastante tempo – chama a estes bolos tripten298, 
assim como o fazem os atenienses. Pois a massa deste, que é equivalente à massa 
de trigo, pode tornar-se (510.5) maleável e é glutinosa, se tiver sido amassada 
por mais tempo e se lhe for misturado um fluído espesso ao ser preparado. Tal 
como amassar por um largo período juntamente com um fluído espesso produz 
uma massa batida de aparência viscosa, mesmo que seja farinha de painço; pelo 
mesmo motivo o suco da ptisane tem uma aparência viscosa, ainda que em si 
mesmo não contenha nada glutinoso, nem nada (510.10) que o faça pegajoso. Pelo 
contrário, tem características purgativas e solventes, uma vez que, factualmente, 
até remove sujidade da nossa pele. Além disso, se o deres a engolir a alguém 
e estimulares o vómito, este limpará o ardor do estômago e expelirá tudo na 
golfada, incluindo a própria (ptisane).
296 Praxágoras de Cós (c. IV a.C.) terá sido uma figura relevante no campo da medicina 
antiga (Powell 2003, p.169). Além de mestre de Filótimo, também terá tido Herófilo como 
discípulo. 
297 Sobre a alfita vide supra.
298 ‘Τριπτὴν’, à letra corresponderia a ‘amassado’. Notar que ao bolo de cevada Galeno chama 
μᾶζα (Mazda), sendo que uma das traduções possíveis seria ‘bola de massa’. Nesse sentido, é de 
esperar uma ampla variação lexical na designação dos vários tipos de pães, formas de preparo e 
suas composições no diverso espaço ocupado por todos os falantes de grego.
158
Capítulo I
(510.15) 13. Sobre a tIfe, a olyra e a zeIa299
Menesiteu posiciona a tife como a terceira (em qualidade), depois do 
trigo e (511.1) da cevada. Diócles discute-a de forma negligente, pelo facto de 
privilegiar a brevidade de escrita à exatidão da exposição. Nesse sentido (e em 
resumo), Diócles escrevia como se abreviasse a discussão sobre o trigo, a cevada 
e muitas outras coisas. Praxágoras e Menesiteu escreveram sobre estes cereais 
(511.5) de forma um pouco mais completa do que Diócles, porém, também estes 
(autores) foram omissos em algumas coisas. Já Filótimo escreveu o bastante sobre 
algumas matérias, aquém do necessário relativamente a outras e, no entretanto, 
esqueceu completamente outras coisas, como seja a zeia. Claro está, tal como 
(fez) o seu mestre Praxágoras. Contudo, além de não ter ignorado nada dos 
comentários de Praxágoras, Filótimo trabalhou sobre estes e (511.10) fez-lhes 
muitos acrescentos. Ora, é de admirar que aquele que reuniu a obra hipocrática 
intitulada Sobre a dieta, qualquer que tenha sido o autor (do conjunto), nem sequer 
mencionou a zeia. Ainda que mesmo acreditando que a tife é chamada de zeia 
(apenas) por algumas pessoas, o autor devia tê-lo referido. Porém, é conveniente 
interpolar os escritos destes imparcialmente.
(511.15) Então Diocles escreveu o seguinte no primeiro livro do (512.1) 
Saúde para Pleistarcos300, no qual também discutiu as faculdades dos alimentos:
“no que toca a excelência, depois da cevada e do trigo seguem-se, particu-
larmente de entre o resto, a olyra, a tife, a zeia, o painço301 e o milhete302.”
Em algumas versões a zeia não é mencionada de nenhuma forma, ao passo 
que em outros passos em vez de (512.5) ‘excelência’ está escrito ‘uso’, da maneira 
seguinte303:
“no uso, depois da cevada e do trigo seguem-se, particularmente de entre o 
resto, a olyra, a tife, o milho-painço e o milhete.”
299 Περὶ τιφῶν καὶ ὀλυρῶν καὶ ζειῶν. Segundo as sugestões de Jorge Paiva, Biólogo, 
possivelmente a correspondência seria a seguinte. Τίφη (tife), Triticum monococcum L., Trigo-
-candial. Ὄλυρα (Olyra), Triticum spelta L., Espelta. Ζειά (zeia), Triticum dicoccum (Schrank) 
Schübl., Escanha. Optámos por manter o nome original grego, dado que a tradução literal ao 
contexto moderno é pouco ajustada à realidade antiga, sendo que Galeno considera estas espé-
cies como equivalentes. A própria zeia parece corresponder ao mesmo tipo de trigo designado 
por olyra, pelo que em causa estarão variantes lexicais e não tanto espécies de sementes.
300 Πρὸς Πλείσταρχον Ὑγιεινῶν. 
301 Μέλινος (melinos), Setaria italica (L.) P. Beauv., Mélinos, Milho-dos-pássaros, Milho-
-painço também designado por milho-paniço. Vide JB Setaria itálica.
302 Κέγχρος, Panicum miliaceum L., Milho-alvo, Milho-miúdo, vulgarmente chamado de 
milheto. Vide JB Panicum miliaceum.
303 Os termos usados são ἀρεταῖς (aretais) e χρείαις (chreiais), respectivamente.
159
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
No entanto, (aqui) é mencionado um grão em particular, a olyra, da mesma 
maneira que também a tife o é. Porém, Menesiteu diz que os dois nomes se 
referem a um único grão, quando (512.10) escreve isto:
“então, de entre as sementes, a cevada e o trigo são os mais adequados 
enquanto alimento. Depois destes segue-se aquela a que se designa de duas 
formas, embora seja a mesma coisa. Alguns chamam-lhe tife e outros olyra.”
E, seguidamente a isto, escreve:
“... e depois destes vêm a zeia, o milho-painço e o milhete.”
Ora, Diocles contentou-se em dizer apenas isto (que foi citado) a propósito 
de tife e olyra (512.15). No entanto, mais tarde Menesiteu também os referiu num 
outro trabalho, quando escreveu sobre o trigo e a cevada (513.1) e, imediatamente 
a seguir, sobre a tife, dando-lhes estes nomes da seguinte maneira:
“enquanto a tife é a melhor entre as outras sementes, pois nutre de forma 
adequada e é digerida sem grandes problemas, ninguém que coma um bom 
bocado de pão de zeia terá boa saúde; e tampouco ninguém que não esteja 
acostumado a comê-lo, mesmo que apenas consuma uma (513.5) quantidade 
pequena, pois (a zeia) é pesada e indigesta. Todavia, aqueles que vivem numa 
região de mau tempo são obrigados a obter desta o seu sustento e a semeá-la, pois 
é resistente ao frio. De facto, estas gentes acostumaram-se a primeiro consumir 
uma pequena quantidade (de zeia), tanto porque tem um cheiro desagradável e 
porque há escassez de boas colheitas nestas regiões; mas depois, o facto de ser 
ao mesmo tempo (513.10) o alimento (habitual) faz com que os seus corpos se 
adaptem melhor a esta. Generalizando, deve dizer-se que a zeia é pesada e difícil 
de digerir, mas é vigorosa e cheia de fibra.”
Neste passo, Menesiteu pôde demonstrar claramente querer chamar zeia 
ao tipo de semente que é semeada em regiões frias. No entanto, naquilo que me 
toca (513.15), ainda que não tenha visto todas as regiões frias (514.1), (ainda) não 
ouvi falar de ninguém que tivesse conhecido a colheita de um cereal tão peculiar 
chamado pelos habitantes zeia ou zea; de qualquer uma (das formas), pois surgem 
escritas de ambas as maneiras – em algumas a primeira sílaba termina em épsilon 
e iota, noutras apenas em épsilon. Ora, quando eu considero a possibilidade de 
os gregos nomearem assim esta semente, mas os estrangeiros aplicarem (514.5) 
um nome concreto a esta, então, tendo não só identificado a espiga, daquilo 
que para nós é a tife em muitos campos de grão da Trácia e Macedónia, assim 
como (identificada) a planta inteira na ásia (helénica), pergunto-me qual o nome 
que popularmente poderia ter entre aquelas gentes (estrangeiras). Ora, todos 
160
Capítulo I
me disseram que (514.10) a planta, como um todo, assim comoa sua semente, 
é chamada de ‘briza’304. A primeira sílaba escreve-se e pronuncia-se com três 
letras: β (beta), ρ (ro) e ι (iota). A segunda sílaba (pronuncia-se e escreve-se) com 
ζ (zeta) e α (alfa) no primeiro caso e, ν (ny) corresponde obviamente (à desinência 
do) acusativo. O pão feito a partir deste grão tem um cheiro azedo e é negro, 
(514.15) sendo muito fibroso, tal e qual Menesiteu o descreveu. Se aquele tivesse 
dito, além disto, que o pão deste grão também era negro, estaria mais inclinado 
em acreditar que este é o mesmo grão a que se referia como zeia.
(515.1) Ora, nos lugares mais tempestuosos da Bitínia,305 uma certa semente 
é chamada de zeopyros306 , sendo que a primeira sílaba não contém a letra ι (iota), 
em desacordo com a que está em Homero:
“o trigo e a zeia e a branca cevada espigada.”307 
(515.5) O pão feito a partir desta é muito melhor que o da Macedónia e 
Trácia. Provavelmente, tal como o nome zeopyros é a junção de ambos os nomes, 
zeia e pyros, esta substância será como que um meio termo de ambos, uma vez que 
será resultante de uma mistura destes. De qualquer forma, é tão inferior ao trigo, 
como é superior à briza trácia. Os nomes (515.10) das cidades onde surge este tipo 
de grão são Niceia, Prusa, Crateia, Claudiópolis e Juliópolis; contudo, Dorileia, 
que é uma cidade no extremo mais distante da Frígia, também tem o cultivo deste 
tipo de grão na sua região, assim como outras cidades vizinhas. Pode-se também 
notar que o pão deste cereal (515.15) é melhor do que o de briza da Trácia e 
Macedónia (516.1), tanto quanto é pior relativamente ao pão de trigo.
É feita menção à zeia no sétimo livro de Causa das plantas de Teofrasto, 
onde é dito o seguinte:
“Dos cereais semelhantes ao trigo e à cevada, como sejam a zeia, o tife, 
a olyra, a aveia e o aegilops, a zeia é o mais forte e o que mais desgasta o solo 
(516.5), pois tem muitas raízes e profundas e muitos talos e grossos. Porém o 
grão destes é muito leve e agradável a todos os animais.”308
304 Βρίζα, provavelmente uma palavra de origem trácia e corresponderia ao centeio, Secale 
cereale L. A dureza climatérica destas regiões justificaria o amplo cultivo desta planta, particu-
larmente resistente ao frio e ao tempo seco.
305 Região norte-oriental da Anatólia, atual Turquia, de onde se destacaram cidades como 
Nicomédia e Niceia.
306 Ζεόπυρον (ζέα + πυρός), uma variedade de Triticum monococcum L., que à letra poderia ser 
traduzido como ‘trigo do género zeia’, correspondendo, portanto, à designação de grão de zeia.
307 Odisseia 4.604.
308 Aegilops neglecta Req. ex Bertol., Trigo-de-perdiz, vide De causis plantarum 4.6.1; 4.6.3; 
4.16.1; 5.15.5 (Silva, Paiva 2016).
161
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
E novamente, de acordo com isto:
“a tife é a mais leve de todos. De facto, tem um único talo, que é a razão 
desta desenvolver-se em solo pobre e não, como sucede com a zeia, num solo rico 
e benfazejo.”
Depois disto, juntando-os a todos escreve:
(516.10) “bem, ambos, zeia e tife, são muito parecidas com o trigo.”
Portanto, isto é aquilo que Teofrasto escreveu sobre a zeia. 
Heródoto diz no seu segundo livro:
“Muita gente vive do trigo e da cevada, mas tal é motivo de grande critica 
para qualquer egípcio que consiga o seu sustento assim; em vez disso, estes 
fazem os seus alimentos a partir da olyra, (516.15) a que certamente muitos 
outros chamam de zeia.”309 
Dioscórides escreve o seguinte no seu segundo livro de Sobre os materiais310:
“Há dois tipos de zeia: (517.1) ora, um é chamado simples e o outro é 
chamado duplo-grão, uma vez que tem o par de sementes unidos por duas cascas. 
É mais nutritivo e salutar que a cevada, mas quando transformado em pão é menos 
nutritivo que o trigo. A farinha grossa, com a qual se faz as papas de aveia e que 
provém tanto da zeia como do trigo (517.5), é mais densa do que a farinha de trigo 
refinada. E é também relativamente nutritiva e fácil de digerir; todavia, aquela 
que é feita a partir da zeia é algo adstringente para o estômago, principalmente se 
tiver sido previamente torrada. A olyra pertence ao mesmo grupo da zeia, mas em 
quantidade esta não é tão nutritiva. Da mesma forma, esta também é panificada 
e se faz farinha grossa com ela311. As papas312 preparam-se com a farinha (517.10) 
fina de zeia. As papas são como uma sopa leve, apropriada para crianças. Também 
se fazem cataplasmas com estas sementes. Já o tragos313 é mais parecido à sêmola na 
forma, mas é muito menos nutritivo que a zeia, porque contém muitas impurezas 
e por esse motivo é difícil de digerir; no entanto, relaxa a barriga.”
309 Histórias 2.32
310 Περὶ ὕλης.
311 Κρίμνον (krimnon); optámos por traduzir este termo por farinha grossa ao longo deste 
texto, em vez de preservar o nome original grego. Apesar de o termo português ser algo vago 
para aquilo que seria a especificidade da palavra grega original, entendemos que a sua tradução 
facilita o entendimento do contexto.
312 Traduzimos a palavra ἀθήρα, GI pp. 87.
313 Τράγος (tragos), vide Powell 2003, pp.169-70 e GI p. 2137. 
162
Capítulo I
Posto isto, já basta de zeia.
(517.15) A maneira de diferenciar a olyra da tife foi objecto de inquirimento 
por parte de Menesiteu. (518.1) Pois existe muita quantidade de cada um deles na 
Ásia, principalmente nos territórios interiores de Pérgamo, já que os camponeses 
fazem usualmente pão a partir destes cereais, porque o trigo é levado para as 
cidades.314 
Depois dos pães de trigo, os melhores são os que são feitos de olyra, sempre e 
quando sejam (518.5) de boa qualidade; depois vêm os de tife. Porém, este último 
não fica a trás da olyra quando esta é de má qualidade. Quando a tife é de boa 
qualidade, os pães quentes são mais fortes que os de olyra, mas quando deixados 
para o dia seguinte, são inferiores; pois embora estes tenham uma massa mais 
viscosa são, de facto e vincadamente, sólidos, especialmente quando (518.10) 
preparados com pouco cuidado. De tal modo que, em um ou dois dias – e muito 
mais se depois disso – alguém que coma este pão julgará ter barro assente no 
estômago. Porém, enquanto estão quentes são avidamente procurados pelos 
habitantes, que os comem com queijo da região, a que chamam ozygalaktinos315. 
Este queijo deve ser macio e o pão deve manter (418.15) ainda o calor do forno. 
O pão aquecido (519.1) desta forma é muito apreciado não só pelos camponeses, 
mas também pelos habitantes das cidades. Já o pão de três ou quatro dias não é 
agradável até mesmo para os camponeses, é mais difícil de digerir e é de descida 
mais lenta pela barriga; ao passo que o pão fresco não provoca esses (519.5) 
sintomas. Embora seja muito inferior ao pão de cevada em efeitos laxantes, não 
fica atrás do pão de milhete; e além disso, quando fresco, nutre aceitavelmente o 
corpo, pelo que não fica a dever muito ao pão de trigo.
O grão da tife tem uma casca exterior como (519.10) a olyra e a cevada, mas 
quando é moido num almofariz, é transformado em massa e é-lhe dada uma 
grande variedade de empregos. Na verdade, quando fervido em água, é comido 
da mesma forma daquele (preparado) a que as pessoas do campo chamam 
apothermos, quando adicionamos aquilo a que chamamos mosto e outros chamam 
siraion316. Por vezes é também comido fervido em sal, tal como eu próprio disse 
já ter comido trigo.
(519.15) Ao esmagar-se o quanto baste os melhores (grãos) da colheita 
de olyra, faz-se aquilo a que se chama (520.1) tragos e a que muita gente dá 
314 Uma referência ao sistema económico imperial. Os territórios agrícolas correspondiam ao 
‘cesto’ do império, pelo que não tendo as cidades produção cerealífera, havia uma extrema depen-
dência da importação do trigo. Este sistema levava a que por vezes os próprios agricultores, cuja 
produção fosse excedente, não tivessem trigo para consumo próprio. Sobre o sistema económico 
imperial romano vide Mattingly & Salmon (eds.) 2010.
315 Ὀξυγαλάκτινος, à letra: queijo de leite acre.
316 Σίραιον, vinho novo fervido, aindaque neste passo pareça indicar um outro produto.
163
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
uso fervendo-o em água e, depois de decantada a água, vertendo-lhe vinho 
novo fervido, vinho doce ou vinho com mel. E também põem pinhões317 pré-
demolhados em água, de modo a que a tenham absorvido tanto quanto possível. 
Alguns dizem que este grão é da mesma espécie, mas não da mesma (520.5) 
semente da olyra.
Existem muitos outros cereais relacionáveis, mas nenhum tem precisamente 
a mesma forma daqueles que têm sido discutidos. Alguns estão entre a cevada e 
a tife, outros entre a tife e a olyra, e outros ainda entre o trigo e a olyra. Alguns 
são de natureza muito próxima, como sejam a olyra, (520.10) a cevada, a tife ou o 
trigo; tal como são outros, como sejam o milhete com casca e o milhete aberto; 
outros ainda há que têm nomes simples como o setanius318 da itália ou nomes 
compostos como a chamada ‘cevada descascada’ na Capadócia e o zeopyros na 
Bitínia.
Por tudo isto, é melhor deixar esta discussão, não só sobre (520.15) os 
nomes, mas também sobre as sementes, e passar à informação simples e aplicável 
a todas. Ora, aquelas que contêm mais substância numa pequena massa (521.1), 
sendo esta espessa e densa, são de melhor digestão e mais nutritivas, contudo, 
não são facilmente excretadas. Aqueles cereais que são o oposto disto e têm 
uma composição macia e porosa e as partes são como o farelo, embora sejam 
mais bem expelidos, são menos nutritivos. E sobre estes últimos, todos aqueles 
que (521.5) são malcheirosos e têm um certo sabor desagradável, obviamente, 
produzem ‘maus humores’ e são de difícil digestão. O peso e a quantidade de 
farinha indicam que existe mais matéria num punhado pequeno, quando pesado 
na balança. Pois bem nas sementes com matéria condensada, extrai-se mais 
(substância) de um punhado pequeno.
(521.10) Antes de os consumir e introduzi-los no corpo, há que indagar 
sobre as diferenças entre o quente e o frio através da cor e sabor e utilidade 
quando aplicados externamente. Depois de os tomar, há, para aqueles que os 
comeram [e que os guardam na barriga], um diagnóstico preciso e uma sensação 
consciente (521.15) no estômago de que aquilo que foi consumido é ou quente 
ou frio ou não tem (522.1) nenhum desses dois efeitos.
O branco é a cor natural da cevada e da olyra, enquanto a cor do trigo 
é amarelada. A tife é mais arruivada que o trigo. Contudo, o corpo deste é 
condensado num estado mais denso, o que provavelmente (522.5) contribui para 
a pequenez dos grãos, dado que são de tamanho inferior comparativamente com 
o trigo. Na verdade, há quem também inclua este grão na família do trigo. E 
aquilo que foi dito por Homero a propósito dos cavalos, quando Heitor lhes diz: 
317 Sementes do pinheiro-manso (Pinus pinea L.)
318 Vide IL, p. 1182.
164
Capítulo I
“...primeiro depositou diante de vós trigo delicioso.”319
(522.10) Comenta-se que isto foi dito sobre os grãos de tife, pois são trigo 
miúdo e os cavalos comem-no sem más consequências, porém, aquilo que é 
realmente trigo já não o podem comer sem sofrer dano. De facto, pode chamar-
se à tife trigo-miúdo convictamente, uma vez que se assemelha ao trigo em cor, 
densidade e propriedade quente.
(522.15) 14. Sobre a aveia320
Encontra-se este cereal em grande quantidade na Ásia, e especialmente na 
Mísia321 situada para lá de Pérgamo, onde também se cultiva muito a tife e a olyra 
(523.1). Ora, trata-se de alimento para as bestas de carga e não para as pessoas, a 
não ser, em momentos de fome extrema, quando então são forçadas a fazer pão a 
partir deste grão. À parte da fome, quando tenha sido fervido em água, come-se 
com vinho-doce, vinho-novo fervido ou vinho com mel, tal como com a tife; e 
tem em comum com esta ser relativamente (de humor) quente (523.5). Contudo, 
não é tão dura como a tife. Por esse motivo fornece menos sustento e o pão feito 
a partir deste é desagradável, entre outras coisas. Não estringe nem estimula as 
entranhas; nesse aspecto, antes está no ‘entremeio’.322 
319 Il. 8.188.
320 Περὶ βρόμου, GI, p. 446.
321 Região do norte da Anatólia, a ocidente da Bitínia.
322 O curto comentário sobre este cereal, cuja abundância de cultivo é notada pelo próprio 
autor, dever-se-á à raridade do seu consumo por humanos. Note-se que Galeno exclui por 
completo o comentário sobre a dieta animal neste tratado.
165
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
15. Sobre o milhete e o elymos, também chamaDoS painço323
(523.10) Por vezes faz-se pão a partir destes, quando é difícil obter os ce-
reais mencionados acima, no entanto, é pouco nutritivo, insípido e, obviamente, 
friável e esboroa-se, como se não tivesse nada de gordura ou oleosidade.324 Como 
seria de esperar, resseca um estômago húmido. Porém, em ambiente rural, depois 
de se ferver farinha deste grão, as pessoas misturam banha (523.15) de porco ou 
azeite e comem-no.
O milhete é superior ao elymos em todos os aspectos. Na verdade, é (524.1) 
um alimento mais agradável, fácil de digerir, provoca menos obstipação e é mais 
nutritivo. Por vezes, os camponeses comem a farinha deste cereal com leite, de-
pois de o ferver, como fazem com a farinha de trigo. Está claro que, quanto ao 
gerar de humores sãos e em tudo o resto, este alimento é tanto superior a outras 
comidas - quando estas sejam consumidas sem mais nada –, (524.5) tanto quanto 
o leite é superior às propriedades naturais de ambos (os cereais) na produção de 
humores saudáveis e em tudo o demais. Por ‘tudo o demais’ quero dizer digestão, 
esvaziamento gástrico, distribuição e, uma vez ingeridos, melhor sabor e prazer. 
Portanto, com estes cereais nada é agradável,325 particularmente o elymos no nosso 
caso asiático. Por outro lado, em outras regiões, (524.10) tal como a Itália, fazem-
-se muito mais agradáveis.326
323 Περὶ κέγχρου καὶ ἐλύμου, ὃν καὶ μελίνην ὀνομάζουσι. A tradução destes termos é algo 
problemática, uma vez que podem designar todos a mesma espécie ou cada um identificar uma 
espécie não correspondente com as descrições científicas, nem com o nome popular atual. Tal 
problema não reside tanto na identificação científica das espécies antigas e a sua catalogação 
em contexto moderno, mas antes com a ambiguidade de que eram dotados estes ‘termos’ na 
antiguidade, não havendo uma sistematização e catalogação inequívoca de cada espécie e a 
sua consequente cristalização lexical. Neste caso concreto as três espécies, em contexto grego, 
correspondem à espécie Setaria italica (L.) P. Beauv., Mélinos, Milho-dos-pássaros, Milho-
-painço 
324 Sobre a produção moderna dos vários tipos de cereal no espaço mediterrâneo rural con-
temporâneo e antigo, vide o estudo de Halstead 2014.
325 Entenda-se quando consumidos sem leite ou aditivos.
326 Este passo de Galeno parece ser algo contraditório, pois o autor revela o consumo destes 
cereais e até sua qualidade relativa a outras comidas, porém, não deixa de os considerar desagra-
dáveis como alimento. De notar a diferenciação qualitativa do cereal face à região e clima onde 
é produzido.
(Página deixada propositadamente em branco)
167
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
Capítulo II
16. Sobre os bagos327
Chamam ‘bagos’ aos grãos dos quais não se produz pão: feijões, ervilhas, 
grão de bico, lentilhas, tremoços, arroz, ervilhaca, chícharo, agrião-roxo, 
chícharo-preto, feijão-frade, feno-grego, ervilhaca-miúda e (524.5) quaisquer 
outros como estes.328 Mais adiante falarei sobre as propriedades de todos, sobre 
o conhecimento de como usá-los sem que façam mal.
(525.1) 17. Sobre o arroz329
Todos dizem usar-se este grão para adstringir os intestinos, fazendo uma 
fervura como se faz com a sêmola. Porém, este é menos digestivo e menos 
nutritivo que a sêmola; e, da mesma maneira, (525.5) fica muito atrás da sêmola 
no que toca ao (sabor) aprazível.
18. Sobre aS lentilhaS330
Ninguém faz pão a partir destas, dado que não contêm óleos e são friáveis 
e, além disso, têm uma casca adstringente; o corpoproduz um suco espesso e é 
327 Ὄσπριον (osprion), nada tem que ver com cereal, tendo em conta os elementos que 
Galeno insere neste grupo. Não é certa a classificação destes produtos na antiguidade, ainda que 
Galeno designe desta forma todos os grãos dos quais não se faz o pão. A propósito vide Powell 
2003, pp. 170-1.
328 Aqui, e seguindo os comentários de Jorge Paiva, Biólogo, o substantivo 'feijão' é usado 
de forma genérica, são sendo uma referência às sementes do feijoeiro-comum (Phaseolus vulgaris 
L.) espécie nativa do Continente Americano. Ervilhas (Pisum sativum L.), grão-de-bico (Cicer 
arietinum L.), lentilhas (Lens culinaris Medik.), tremoços (Lupinus albus L.), arroz (Oryza sativa 
L.), ervilhaca [Lathyrus ochrus (L.) DC.], chícharo (Lathyrus sativus L.), agrião-roxo (Lathyrus an-
nuus L.), chícharo-preto [Lathyrus niger (L.) Bernh.], feijão-frade [Vigna unguiculata (L.) Walp.], 
feno-grego (Trigonella foenum-graecum L.), ervilhaca-miúda (Vicia sativa subsp. nigra (L.) Ehrh.).
329 Περὶ ὀρύζης, Oryza sativa L.. De notar que Galeno não inclui o arroz entre os cereais. 
O pouco espaço dedicado por Galeno a este grão dá a entender o reduzido uso do mesmo na 
região do Mediterrâneo antigo. Algo expectável, dadas as condições climatéricas e de solo que 
este tipo de cultivo requere.
330 Περὶ φακῶν. Lentilhas, sementes de Lens culinaris Medik. Sobre o cultivo e processamento 
da lentilha no espaço rural do Mediterrâneo rural contemporâneo e antigo vide comentários de 
Halstead 2014, pp. 24–5, 29, 68, 74-76, 79–80, 85, 90, 103, 134-6, 143, 147-52, 163, 205–11, 
231, 236–7, 291.
168
Capítulo II
como que terroso e escasso, e tem uma qualidade austera, (525.10) em grande 
medida partilhada pela casca. Como disse anteriormente, o seu suco é o oposto 
de adstringente. Por esse motivo, se depois de fervidas em água, se servem 
preparadas com sal ou molho de peixe e também azeite, o efeito é laxante. No 
entanto, se fervidas duas vezes, da forma já descrita, a sopa preparada a partir das 
lentilhas tem a faculdade oposta (525.15) ao suco (destas): seca os fluxos gástricos 
e aumenta a pressão no conjunto do esófago, dos intestinos e do estômago. Por 
essa razão (526.1) é um prato desadequado para aquelas pessoas que padecem de 
cólicas e disenteria. A sopa de lentilhas, que tenham sido descascadas, perde o 
forte efeito adstringente e, claro está, o mesmo é dizer tudo o que isso implica. E 
também é mais nutritiva que a sopa de lentilhas com casca, uma vez que produz 
um humor espesso e é de passagem lenta. Porém, não seca os (526.5) fluxos 
gástricos como o fazem as (lentilhas) com casca. Ora, é provável que quem usa 
excessivamente estes preparados tenha aquilo a que se dá o nome de elefantíase331 
e sofra o aparecimento de úlceras; pois é comum a comida espessa e seca gerar 
um fluído do tipo biliar.
As lentilhas são uma comida benéfica apenas para pessoas que tenham 
algum distúrbio (526.10) hidrópico332 do corpo; da mesma forma que são 
nocivas para aquelas (pessoas) de carne seca e ressequida. Nesse sentido, 
embora ser (alguém) extremamente seco (de carnes) favoreça uma aparência 
saudável, está demonstrado que ‘o desejável’ é ser o oposto disso. As lentilhas 
não são apropriadas durante o período de menstruação, quando é gerado 
o sangue espesso e viscoso, mas são bastante úteis para o chamado ‘fluxo 
feminino’333. (526.15) No que toca a esta propriedade, já que a ptisane tem 
um efeito oposto, um preparado da mistura dos dois, chamado por (527.1) 
algumas pessoas fakoptisane334, é melhor, quando não se misturam ambos em 
partes iguais, antes se acrescenta menos ptisane, de maneira que, quando se 
faça a massa (disto), esta cresça bastante. É que ao serem fervidas por um curto 
período, as lentilhas incham.
331 Ἐλέφαντας (elefantas) corresponderia literalmente ao vocábulo ‘elefantíase’, porém não 
teria o mesmo significado atribuído pela medicina moderna. Neste contexto, o autor referir-
-se-ia a uma pele dura e rugosa, com uma aparência semelhante à lepra. A associação com o 
elefante dever-se-á à pele rugosa deste paquiderme. Vide Powell 2003, p.171.
332 Ὑδατώδης ...καχεξία (hydatodes...kacheksia) à letra poderia traduzir-se como ‘problemas 
de águas’, ou seja, problemas de retenção de líquidos.
333 É possível que esteja em causa uma hemorragia, deduzível pelo contexto, já que se refere 
antes à menstruação. É difícil identificar a que estado se refere o autor, já que a expressão grega 
que utiliza é pouco precisa: ῥῷ γυναικείῳ. Descontextualizado, talvez pudéssemos considerar 
que o autor se refere ao fluxo vaginal e aos fluídos das moscosas.
334 Φακοπτισάνη (fakoptisane), à letra, traduzir-se-ia por ‘lentilhas-ptisane’. Jorge Paiva, biólogo, 
considera que este ptisane corresponderia a água de cevada (Hordeum vulgare L.) não fermentada 
que se misturava com as lentilhas, de modo a atenuar a toxicidade destas. Isto porque as sementes 
das leguminosas são ligeiramente tóxicas por conterem alcalóides são solúveis em água.
169
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
Na verdade, no que toca a este alimento, a preparação (527.5) é a mesma 
da ptisane, excepto quando se adicionam saturelha335 e poejo336, pois (nesse caso) 
fica mais apetitoso e mais fácil de digerir; já a ptisane não fica boa com isto, mas 
melhora com aneto337 e alho-porro338. 
Regularmente o aumento de humores espessos ocorre mais com pratos de 
lentilhas, quando são comidos com alimentos corados. Pois, de facto, produz 
(528.5) densidade no sangue e um certo aspecto biliar. É por isso que também 
não devem ser consumidas em excesso. Especialmente quando o corpo da pessoa 
é atrabilioso, de fluídos espessos ou, de uma maneira geral, tem um ‘humor 
enfermo’. A propósito dos alimentos, deves também ter presente as mesmas coisas 
relativamente às regiões, estações e composições, cortando nos alimentos que 
produzem um estado atrabiliário durante o outono; contudo, deves alimentar-te 
(528.10) deles no inverno; tal como no verão deves consumir alimentos húmidos 
e de (humor) frio. No entanto, na primavera, dado tratar-se de uma mistura 
(climatérica) moderada, deve-se consumir alimentos de faculdades moderadas.
Porém, não existe um tipo de alimento de composição moderada. Isto 
porque alguns são moderados simplesmente porque na sua totalidade não 
têm elementos que sejam (de composição) extrema; já outros atingem uma 
característica moderada como resultado de uma mistura (528.15) de extremos 
de valores iguais, tal como quando se mistura lentilhas com ptisane, de acordo 
com aquilo que eu disse anteriormente (529.1). Nesse sentido, Heraclides, o 
tarentino, costumava dá-los não só a pessoas de condição saudável, mas também 
àqueles que se encontram doentes, uma vez que estes alimentos estão numa 
situação equilibrada, por serem compostos por (substâncias) opostas, sendo 
por isso que este (preparado) é menos laxante que a acelga-brava339, mas mais 
estimulante à excreção que as lentilhas. Está claro que (529.5) o humor derivado 
deste e distribuído pelo corpo é uma mistura de faculdades tanto das lentilhas, 
como da acelga-brava.
335 Θύμβρα, Satureia Thymbra L., trata-se de um tipo de erva aromática.
336 Βλήχων, Mentha Pulegium L., erva aromática. Vide JB Mentha Pulegium.
337 Ἄνηθον, Anethum graveolens L.
338 Πράσον, Allium ampeloprasum L. (Allium porrum L.), alho-porro.
339 Τεῦτλον, beta marítima L. (Acelga-das-areias) ou, mais provavelmente, Beta vulgaris L. 
(Acelga, Beterraba). Provavelmente esta planta seria usada como condimento.
170
Capítulo II
19. Sobre aS favaS340
Existem também muitos usos para estes (bagos), uma vez que se preparam 
sopas a partir das favas: as (sopas) fluidas (servidas) em malgas e as (sopas) densas 
(servidas)em pratos. Também (529.10) existe um terceiro preparado, a partir da 
mistura com ptisane. Os nossos gladiadores comem grandes quantidades desta 
comida cada dia, gerando nos seus corpos uma condição de carne mais maciça. 
Isto é, não de (carne) compacta e densacomo a dos suínos, mas antes carne de 
alguma forma mais fibrosa.341
Este alimento tem o potencial de gerar gazes, mesmo que tenha sido 
cozinhado por um largo período e (529.15) independentemente de como tenha 
sido preparado; porém, a ptisane elimina o efeito flatulento durante o tempo de 
cozedura. Mas para aqueles que atentam e estudam a disposição que acompanha 
(530.1) cada alimento, percebe-se que ocorre uma sensação de tensão, como 
uma acumulação de gazes por todo o corpo, particularmente quando não se está 
acostumado a esta comida ou se a comem mal preparada.
(530.5) As favas são de uma composição que não é densa, nem pesada, mas 
sim esponjosa e leve com uma ligeira propriedade purgativa, como a da ptisane. 
Em qualquer circunstância, a farinha feita a partir destas aparenta limpar a 
sujidade da pele. Ora, sabendo isto, os mercadores de escravos usam farinha 
de favas e as mulheres usam-na diariamente para limpar-se, tal como outras 
mulheres usam (530.10) natrão342 ou soda, ou produtos de limpeza em geral. 
Também esfregam a cara com farinha de favas, tanto como o fazem com ptisane, 
para remover ‘pontos-negros’ e também as chamadas ‘borbulhas’. Por causa desta 
faculdade não existe demora na passagem pelo sistema gástrico, como (sucede 
com) aqueles alimentos glutinosos e de sucos espessos que não têm propriedades 
purgativas, do género (530.15) a que dizemos pertencerem a aveia, a espelta, a 
semidalis e o amido.343
340 Περὶ κυάμων. Corresponde à Vicia Faba L., designada normalmente por fava ou feijão, 
ainda que em contexto culinário contemporâneo a diferença seja substancial. Optámos por tra-
duzir por fava, apesar de que por vezes pareça ser ambígua a referência a esta leguminosa, pelo 
que ocasionalmente podemos traduzir por outro tipo de leguminosas de vagem.
341 Parece ser um lugar-comum a comparação entre a carne de porco e a carne humana. Vide 
estudo introdutório 4.
342 Νίτρον, carbonato de sódio. Era comum usar-se este mineral para limpar a sujidade ou 
simplesmente remover gorduras. Ainda hoje é um componente comum de muitos tipos de sabão. 
O natrão egípcio, pelo que se sabe, seria usado pelos egípcios essencialmente para o processo 
de embalsamento e desidratação dos cadáveres. No entanto, foi usado pelos antigos gregos na 
preparação de vários tipos de drogas. Cf. Epidemiarum Liber II (2.6, 2.9, 2.29; 5.134, 5.138L.), 
De internis affectionibus 26, 31, 51 (7.236, 7.248, 7.294.), e os tratados hipocráticos: Epidemiarum 
5.69, 5.244; 6.66 (6.430L.); De ulceribus 14, 17–18 (6.416, 422L.); De haemorrhoidibus VII 
(6.442L.); De fistulis 1 (6.454L.); De natura mulieri 97 (7.414L.); De morbis mulierum I, 23, 63, 
75, 78 (8.62, 8.130, 8.166, 8.178L.); De superfetatione 33, 35 (7.504, 7506L.).
343 Aveia (Avena sativa L.), espelta (Triticum spelta L.),
171
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
Enquanto a sopa de favas produz flatulência, estas ainda se tornam mais 
(flatulentas) (531.1), se são comidas depois de fervidas por completo. Porém, 
evitam a flatulência, quando assadas – na verdade, alguns comem-nas como 
fossem sobremesa. No entanto, enquanto nutrição tornam-se mais difíceis de 
digerir, de passagem lenta e distribuem um humor espesso pelo corpo (531.5). 
Todavia, as verdes, quando comidas antes de amadurecer e secar, têm aquilo 
que é característica comum de todas as frutas que comemos antes de estarem 
bem maduras, ou seja, alimentam o corpo com nutriente húmido e, portanto, 
produzem mais resíduos, não só nos intestinos, mas em todo o aparelho (gástrico). 
Por isso, é natural que alimentos destes sejam menos nutritivos e (531.10), mais 
laxantes. 
Muitos homens comem favas verdes - tanto cruas, como fervidas – com 
carne de porco, como (o fazem) com vegetais; e no campo, comem-nas com 
carne de cabra e ovelha. (A propósito), ao serem conscientes do seu potencial 
flatulento, quando preparam uma sopa de lentilhas, as gentes adicionam-lhe 
cebola. (531.15) Porém algumas pessoas (532.1) juntam cebola e lentilhas cruas, 
sem as cozinhar conjuntamente. Isto porque em todas as comidas o potencial 
flatulento é corrigido ao adicionar-se coisas que aqueçam e liquidifiquem. 
20. Sobre os feijões egípcios344
(532.5) Tal como o feijão egípcio difere muito em tamanho do (feijão) da 
nossa região, também é de uma natureza mais húmida e mais geradora de resí-
duos. Ora, se de facto recordares aquilo que foi dito sobre a digestão, excreção, 
distribuição e nutrição com alimentos do mesmo género, então já não neces-
sitarás atender a nada mais sobre o (532.10) feijão egípcio, uma vez que podes 
recorrer ao que aprendeste sobre a nossa fava. 
344 Περὶ κυάμου Αἰγυπτίου. Os feijões egípcios são referidos por questões dietéticas. Cf. 
De victu acutorum 21 (2.502L) e também Kuhn and Fleischer 1986–9. Jorge Paiva, Biólogo, 
considera que os feijões egípcios são as sementes de Nelumbo nucifera Gaertn., Fava-da-grécia, 
Lótus a que Teofrasto chama fava-do-egipto (Teofrasto, HP 4.7).
172
Capítulo II
21. Sobre aS ervilhaS345
As ervilhas são realmente semelhantes no seu todo substancial às favas; 
porém, se comidas da mesma forma, são diferentes daquelas de duas maneiras 
(532.15): não provocam flatulência ao mesmo nível das favas e não têm faculdades 
purgativas. Nesse sentido, estas são de passagem mais lenta nos intestinos do 
que as favas.
22. Sobre o grão-de-bico346
Não é muito usual as pessoas da cidade (533.1) fazerem sopa de grão-de-bico, 
no entanto, vi isso acontecer algumas vezes no campo, da mesma maneira que 
também vi farinha de grão-de-bico cozinhada com leite.347 Pois o grão-de-bico 
não se desfaz como as favas, pelo que aquilo chamado de ‘moído’348 é feito a 
partir deste (grão). As pessoas estão acostumadas (533.5) em muitas regiões a 
comer grão-de-bico, depois deste ter sido fervido em água; alguns comem-no 
sem mais, outros temperando-o com uma quantidade moderada de sal. Entre 
nós faz-se uma coisa do género de farinha de queijo seco, e polvilha-se o 
grão-de-bico com isto. Na verdade, sucede ser o grão-de-bico menos flatulento 
que as favas, mas é mais nutritivo que estas (533.10) e julga-se ser excitante e 
incitar à atividade sexual e ao mesmo tempo ser um gerador de sémen. Nesse 
sentido, como consequência disto também se dá a comer grão-de-bico a cavalos 
reprodutores. Ora, também contém propriedades purgativas superiores à dos 
feijões, de tal forma que um pouco deste grão desfaz naturalmente as pedras nos 
rins. O grão-de-bico que faz isto é negro e (533.15) pequeno e é especialmente 
produzido na Bitínia e é chamado ‘carneiro’349. É preferível beber apenas o seu 
suco, depois de ter sido fervido em água.
(534.1) As pessoas usam o grão-de-bico mesmo antes de amadurecer, 
enquanto ainda está verde, tal como com as ervilhas. Explicou-se já o argumento 
completo comum a todos os frutos verdes, no momento do comentário às favas. A 
propósito, considera também o que deve ser subentendido sobre o grão-de-bico 
345 Περὶ πισῶν. Sobre o cultivo e processamento de ervilhas no espaço rural do Mediterrâneo 
antigo e contemporâneo vide as referências de Halstead 2014, pp. 19, 24, 73, 70, 89, 130-4, 163, 
168, 207, 211, 230–39, 291.
346 Περὶ ἐρεβίνθων.
347 Sobre o cultivo do grão-de-bico na Grécia rural atual e antiga, vide Halstead 2014, pp. 
24, 27–9, 68-72, 205-9, 235–6, 349.
348 Ἐρεγμός, GI p. 842.
349 Κριοί (krioi) não nos foi possível identificar a origem de tal nome. Traduzimos no singu-
lar, de forma a ajustar ao nome colectivo português.
173
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
assado a partir (534.5) daquilo que foi dito sobre as favas assadas. Pois todas as 
coisas assadas, ainda que evitem a flatulência, tornam-se mais difíceis de digerir, 
mais adstringentes e fornecem ao corpo uma nutrição mais espessa.
23. Sobre oS tremoçoS350
Sabemos ser esta semente polifacetada, provavelmente no estrito (534.10) 
significado da palavra ‘polifacetada’,351 dado que é desta forma que nos referimos 
ao que é apropriado para numerososestados do corpo e também àquilo que é 
útil para toda a gente, embora estes (grãos) também sejam de aplicação útil em 
circunstâncias concretas. Pelo menos naquilo que se refere a este (sinónimo), o 
tremoço mostra ser uma leguminosa útil para muitos propósitos. Pois quando 
é fervido e depois mergulhado (534.15) em água doce até que o líquido remova 
todas as características desagradáveis inatas, é comido assim, acompanhado com 
garum ou com molho de vinagre e, à parte disto, também é moderadamente 
temperado com sal (535.1) – ao contrário da cevada e outros grãos que são 
preparados de variadas maneiras. É duro e terroso quanto à sua composição, pelo 
que é difícil de digerir e potencia um humor espesso a partir do qual não se gera 
um bom fluxo venal, ao que concretamente se chama: acumulação de ‘humor 
cru’. (535.5) Todavia, uma vez perdido o amargor natural durante a preparação, 
faz-se como as comidas ‘livres de qualidades’, no que refere à sintomatologia 
(provocada), pois nem é adequado para estimular a excreção, nem para restringir 
o fluxo intestinal; como sucede com os alimentos adstringentes, dado que são 
de passagem lenta, difíceis expelir por depuração e naturalmente de difícil 
passagem. Ora, assim (535.10) se referem os médicos ao tipo de alimentos 
que não têm qualidades no que toca ao estímulo da excreção nos intestinos e 
tampouco ao seu restringimento.
Na verdade, estas qualidades não se verificam enquanto de alimento, 
mas sim enquanto fármaco.352 Os (alimentos) sem faculdades evidentes são 
chamados, acertadamente, ‘inertes’353 pelos médicos; nesse sentido, no que 
refere às diferenças de humidade (536.1), secura, densidade, viscosidade 
e passagem lenta ou rápida, pertencem ao estado intermédio. De facto, os 
líquidos e fluidos passam rapidamente; os secos e duros, como o tremoço, 
são o oposto. Os que se encontram entre estas condições (opostas) (536.5) 
350 Θέρμος, Lupinus albus l., tremoço vulgar.
351 Πολύχρηστος (polychrestos), à letra ‘algo que tem muitas utilidades’.
352 O autor distingue aquilo que é ingerido como alimento, daquilo que é tomado como for-
ma de combater algum tipo de problema de saúde ou estimular alguma propriedade fisiológica.
353 Ἄποιος (apoios), que não tem qualquer efeito.
174
Capítulo II
nem potenciam uma vincada rapidez de excreção, nem lentidão. De facto, 
este pressuposto é universalmente entendido em relação a todas (as comidas). 
Sendo que, da mesma forma: todos os (alimentos) de composição húmida 
nutrem pouco o corpo, porque também (o líquido) se evapora rapidamente 
e se dispersa, pelo que em pouco tempo torna-se necessária mais nutrição; 
porém, a comida dura e terrosa (536.10) fornece nutrição mais estável e menos 
dispersa. E, se contém algum elemento glutinoso, produz tudo isto da forma 
mais óbvia. Está claro que não é fácil digerir alimentos que tais e também 
não se convertem facilmente em sangue, tal como não se assimilam as partes 
sólidas dos animais. E, se é assim, também não fornecem nutrientes de forma 
rápida. Contudo, quando são processados e preparados eficazmente, (536.15) 
estes alimentam o corpo com uma boa nutrição. 
24. Sobre a alforba354
Alguns chamam a esta semente alforba, mas também chifre-de-bói ou 
chifre-de-cabra.355 Manifestamente é um dos alimentos mais caloríferos e, 
enquanto alimento, prestam às pessoas a mesma serventia dos tremoços. (537.5) 
Ora, estas tomam-na com garum de modo a estimular as entranhas e até são 
mais adequadas para esse efeito que os tremoços, já que na sua composição 
não têm nada comprometedor para a passagem (regular). Como os tremoços, 
também se comem acompanhadas com vinagre e com garum. Muitos também 
tomam a alforba e os tremoços com vinho, garum e azeite e, alguns, também 
a acompanham com pão; e para estas pessoas esta última é um prato (537.10) 
de pleno direito, que revolve menos as estranhas e não afecta a cabeça – como 
sucede com a alforba tomada com garum que afecta algumas pessoas -, nem 
molesta o esófago, na medida em que a alforba (sem acompanhamento) provoca 
estes efeitos em algumas pessoas. Algumas pessoas usam feijão-frade e chícharo-
preto, cozinhados da mesma maneira; a propósito deste exemplo devo adicionar 
como argumento a aplicação igual a todos os alimentos deste género.
(537.15) A alforba é comida por algumas pessoas mesmo antes de desenvolver 
semente, (538.1) demolhando-a em vinagre e garum. Outros derramam azeite 
sobre esta e comem-na com pão como aperitivo, e outros ainda (o fazem) com 
vinagre e garum. Quando consumida em grandes quantidades, isto pode afectar 
a cabeça e ainda mais se não for acompanhada com pão. Para algumas pessoas 
(538.5) também molesta o esófago. 
354 Περὶ τήλεως, Trigonella foenum-graecum L., também conhecido por feno-grego.
355 Tradução literal de βούκερας (boukeras) e αἰγόκερας (aigokeras). 
175
Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I
O suco da alforba que tenha sido fervida, quando tomado com mel, é 
bom para remover dos intestinos todos os fluidos nocivos, uma vez que é um 
lubrificante delicado e tem um ‘humor quente’ suave. Ora, (exatamente) por 
ter faculdades purgativas, promove a limpeza dos intestinos. (538.10) O mel 
a misturar deve corresponder a uma pequena porção para que não se torne 
indigesto. Em caso de dores persistentes no peito e não havendo febre, deve 
ferver-se tâmaras com alforba e, depois de espremido o suco e misturado com 
bastante mel, ferver outra vez tudo isto em carvão até que esteja moderadamente 
espesso. Deve tomar-se isto frequentemente antes das refeições.
(538.15) 25. Sobre o feijão-fraDe e o chícharo-preto356
As pessoas também comem estas sementes, tal como o fenacho357, 
embebendo-as em água (539.1) até à base do rebento, antes de as demolhar 
em garum, de modo a estimular os intestinos. No entanto, estas têm um suco 
nutritivo e, uma vez distribuídas, digerem-se melhor que o fenacho. 
Eu sei que um certo jovem, que exerce (539.5) a arte da medicina em 
Alexandria, somente usou isto como alimento, diariamente, e durante quatro 
anos – isto é, falo do fenacho, do feijão-frade, do chícharo-preto e do tremoço358. 
Por vezes também usou azeitonas de Mênfis359, vegetais e alguns frutos que são 
comidos sem serem cozinhados. Pois a predisposição era a de nem acender o 
fogo. Então, ao longo de todos esses anos, aquele (médico) manteve-se saudável 
(539.10) e aguentou a condição física num (estado) não inferior ao estado original. 
Ele comia-os com garum, isto é, adicionando-lhe por vezes somente azeite, por 
vezes também vinho e ocasionalmente também vinagre. Porém, outras vezes, 
comia-os somente com sal, tal como se faz com os tremoços.
Ora, discutiu-se acerca da dieta saudável na extensão do (meu) estudo 
conservação da saúde360 (539.15) e por seu turno também inquirir-se-á 
resumidamente sobre isso no presente texto (540.1). Por fim, (resumindo) agora
356 Περὶ φασήλων καὶ ὤχρων. Feijão-frade, Vigna unguiculata (L.) Walp.; chícharo-preto 
Lathyrus niger (L.) Bernh.
357 Τήλη (tele), Trigonella foenum-graecum L., também conhecido como feno grego. 
358 θέρμος, Lupinus albus L., tremoço-branco.
359 Antiga capital do Baixo Egipto antigo, ainda que exista a possibilidade de esta referência 
indicar uma outra cidade ou região, dado que este nome era usual no Antigo Egipto.
360 Τῶν Ὑγιεινῶν, De Sanitate Tuenda.
176
Capítulo II
aquilo que eu já disse sobre o feijão-frade e o chícharo preto: de certa maneira 
estes (alimentos) estão a meio caminho entre as comidas que produzem humores 
saudáveis e entre os alimentos geradores de humores malsãos; (entre) aqueles 
que são facilmente digeridos e aqueles de difícil digestão; entre aqueles que são 
de passagem lenta e aqueles que são rápidos; entre aqueles que são flatulentos 
e aqueles que não o são; entre aqueles que nutrem pouco e (540.5) aqueles que 
alimentam bem. Pois não têm, de todo, qualquer propriedade ativa, como outras 
comidas teriam propriedades ardentes, adstringentes, salgadas, doces ou sucos 
cáusticos.

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