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A s f ac ul da de s d os a lim en to s, L iv ro I Coimbra G al en o d e Pé rg am o OBRA PUBLICADA COM A COORDENAÇÃO CIENTÍFICA • Série Diaita Scripta & Realia ISSN: 2183-6523 Destina-se esta coleção a publicar textos resultantes da investigação de membros do projeto transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia. As obras consistem em estudos aprofundados e, na maioria das vezes, de carácter interdisciplinar sobre uma temática fundamental para o desenhar de um património e identidade culturais comuns à população falante da língua portuguesa: a história e as culturas da alimentação. A pesquisa incide numa análise científica das fontes, sejam elas escritas, materiais ou iconográficas. Daí denominar-se a série DIAITA de Scripta - numa alusão tanto à tradução, ao estudo e à publicação de fontes (quer inéditas quer indisponíveis em português, caso dos textos clássicos, gregos e latinos, matriciais para o conhecimento do padrão alimentar mediterrânico), como a monografias. O subtítulo Realia, por seu lado, cobre publicações elaboradas na sequência de estudos sobre as “materialidades” que permitem conhecer a história e as culturas da alimentação no espaço lusófono. Nelson H.S. Ferreira é investigador em História e Culturas Antigas na UI&D Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido investigação e publicado no âmbito da cultura popular, literaturas, línguas e história social e do pensamento antigo das regiões mesopotâmica e mediterrânea. Recentemente tem-se dedicado ao impacto antropológico da dependência económica da produção agrícola nas culturas Suméria e Romana e à história da ciência. O presente livro apresenta a primeira tradução para português do livro I de uma das obras mais relevantes de Galeno de Pérgamo. Este tratado sobre as propriedades dos alimentos oferece uma visão geral do saber de Galeno sobre as ciências naturais, mais precisamente, no âmbito do domínio da medicina e do conhecimento empírico sobre as propriedades da comida e da fisiologia. Ao abordar a natureza das coisas, Galeno de Pérgamo tende a usar um processo analítico baseado na relação entre diferentes elementos que interagem em um sistema particular. Relativamente aos antigos hábitos alimentares e à saúde, este modo de obter informação e formular hipóteses tem potencial para gerar hierarquias e está atestado no De alimentorum facultatibus I, no qual os alimentos são avaliados considerando o resultado particular do seu efeito no metabolismo de um paciente. Em suma, este livro é um paradigma da ciência de Galeno e pode explicar por si só o impacto de Galeno na ciência moderna. Esta obra inclui uma tradução do De alimentorum Facultatibus I, uma breve introdução ao contexto da produção intelectual de Galeno e um estudo sobre o texto antigo e as informações que este traz a propósito do conhecimento dos estudiosos antigos sobre a fisiologia e as propriedades dos alimentos. Nelson H. S. Ferreira (trad.) Galeno de Pérgamo IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS As faculdades dos alimentos livro i Série Diaita Scripta & Realia ISSN: 2183-6523 Destina-se esta coleção a publicar textos resultantes da investigação de membros do projeto transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia. As obras consistem em estudos aprofundados e, na maioria das vezes, de carácter interdisciplinar sobre uma temática fundamental para o desenhar de um património e identidade culturais comuns à população falante da língua portuguesa: a história e as culturas da alimentação. A pesquisa incide numa análise científica das fontes, sejam elas escritas, materiais ou iconográficas. Daí denominar-se a série DIAITA de Scripta - numa alusão tanto à tradução, ao estudo e à publicação de fontes (quer inéditas quer indisponíveis em português, caso dos textos clássicos, gregos e latinos, matriciais para o conhecimento do padrão alimentar mediterrânico), como a monografias. O subtítulo Realia, por seu lado, cobre publicações elaboradas na sequência de estudos sobre as “materialidades” que permitem conhecer a história e as culturas da alimentação no espaço lusófono. Nelson H.S. Ferreira é investigador em História e Culturas Antigas na UI&D Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido investigação e publicado no âmbito da cultura popular, literaturas, línguas e história social e do pensamento antigo das regiões mesopotâmica e mediterrânea. Recentemente tem-se dedicado ao impacto antropológico da dependência económica da produção agrícola nas culturas Suméria e Romana e à história da ciência. Série Diaita: Scripta & Realia Estudos Monográficos Estruturas Editoriais Diaita: Scripta & Realia Estudos Monográficos ISSN: 2183-6523 Diretora Main Editor Carmen Soares Universidade de Coimbra Assistente Editorial Editoral Assistant Daniela Pereira Universidade de Coimbra Comissão Científica Editorial Board Andrew Dalby Investigador Independente Inmaculada Rodríguez Moreno Universidad de Cádiz, España Joaquim Pinheiro Universidade da Madeira, Portugal John Wilkins University of Exeter, UK Jorge Paiva Universidade de Coimbra Reina Marisol Troca Pereira Universidade da Beira Interior, Portugal Todos os volumes desta série são submetidos a arbitragem científica independente. Capa - Desenho Cover - Picture Gemma Sàinz i Rodríguez; Daniel Rabassa Ubed Conceção Gráfica Graphics Rodolfo Lopes Infografia Infographics Nelson Ferreira Impressão e Acabamento Printed by KDP ISBN 978-989-26-1692-6 ISBN Digital 978-989-26-1693-3 DOI https://doi.org/10.14195/978-989-26-1693-3 Depósito Legal Legal Deposit Título Title As faculdades dos alimentos, Livro I (De alimentorvm facvltatibvs i) Galen. On the properties of foodstuffs. Book I (De alimentorvm facvltatibvs i) Autor Author Galeno de Pérgamo Galen of Pergamon Tradução do grego, Introdução e comentário Translation from the Greek, Introduction and Commentary Nelson Henrique da Silva Ferreira orcid.org/0000-0003-2637-3211 Revisão Científica de terminologia botânica por Jorge Paiva Editores Publishers Imprensa da Universidade de Coimbra Coimbra University Press www.uc.pt/imprensa_uc Contacto Contact imprensa@uc.pt Vendas online Online Sales http://livrariadaimprensa.uc.pt Coordenação Editorial Editorial Coordination Imprensa da Universidade de Coimbra © Julho 2020 Trabalho publicado ao abrigo da Licença This work is licensed under Creative Commons CC-BY (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/pt/legalcode) Imprensa da Universidade de Coimbra Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis http://classicadigitalia.uc.pt Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra A ortografia dos textos é da inteira responsabilidade do autor. Projeto CECH-UC: UIDB/00196/2020 - Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Série DIAITA Scripta & Realia Autor Author Galeno de Pérgamo Galen of Pergamon As faculdades dos alimentos, Livro I (De alimentorvm facvltatibvs i) Galen. On the properties of foodstuffs. Book I (De alimentorvm facultatibvs i) Tradução do grego, Introdução e comentário Translation from the greek, Introduction and Commentary Nelson Henrique da Silva Ferreira Afiliação Affiliation Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Resumo O presente livro apresenta a primeira tradução para português do livro I de uma das obras mais relevantes de Galeno de Pérgamo. Este tratado sobre as propriedades dos alimentos oferece uma visão geral do saber de Galeno sobre as ciências naturais, mais precisamente, no âmbito do domínio da medicina e do conhecimento empírico sobre as propriedades da comida e da fisiologia. Ao abordar a natureza das coisas, Galeno de Pérgamo tende a usar um processo analítico baseado na relação entre diferentes elementos que interagem em um sistemaparticular. Relativamente aos antigos hábitos alimentares e à saúde, este modo de obter informação e formular hipóteses tem potencial para gerar hierarquias e está atestado no De alimentorum facultatibus I, no qual os alimentos são avaliados considerando o resultado particular do seu efeito no metabolismo de um paciente. Em suma, este livro é um paradigma da ciência de Galeno e pode explicar por si só o impacto de Galeno na ciência moderna. Este livro inclui uma tradução do De alimentorum Facultatibus I, uma breve introdução ao contexto da produção intelectual de Galeno e um estudo sobre o texto antigo e as informações que este traz a propósito do conhecimento dos estudiosos antigos sobre a fisiologia e as propriedades dos alimentos. Palavras-chave Ciência antiga, Galeno, faculdade nutricional, cereais, pães, medicina antiga, comida, saúde. Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto CECH-UC: UIDB/00196/2020 Abstract The present book offers the first translation into Portuguese of the book I of one of the most relevant works of Galen of Pergamon. This treaty on the properties of foodstuffs presents a general view on the knowledge of Galen on natural sciences, more precisely, his medical expertise and the empirical knowledge on the properties of foodstuffs and physiology. When approaching the nature of things, Galen of Pergamon tends to use an analytic process based on the relation between different elements interacting in a particular system. With respect to ancient eating habits and health, this way of collecting information and formulating hypotheses has a kind of potential for generating hierarchies and is attested to in De alimentorum facultatibus I, in which foodstuffs are evaluated considering the particular result expected on a subject’s metabolism. In sum, this work is a paradigm of Galen’s science and may explain by itself the impact of Galen in modern science. This book includes a translation of De alimentorum facultatibus I, a brief introduction to the context of Galen’s intellectual production and a study on the ancient text and the information it brings regarding the knowledge of ancient scholars on physiology and the properties of foodstuff. Keywords Ancient science, Galen, De alimentorum facultatibus, cereals, breads, ancient medicine, foodstuff, health. This research is financed by national funds through the Foundation for Science and Technology, FCT, I.P., in the framework of the CECH-UC project: UIDB/00196/2020 Autor Nelson H.S. Ferreira é investigador em História e Culturas Antigas na UI&D Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido investigação e publicado no âmbito da cultura popular, literaturas, línguas e história social e do pensamento antigo das regiões mesopotâmica e mediterrânea. Recentemente tem-se dedicado ao impacto antropológico da dependência económica da produção agrícola nas culturas Suméria e Romana, à história da ciência e à gestão de conhecimento. Atualmente é Professor de várias disciplinas na EU Business School Barcelona. Ciência ID 0513-1A91-26B0 ORCID ID0000-0003-2637-3211 https://ub.academia.edu/NelsonHenriqueSFerreira https://es.linkedin.com/in/nelson-ferreira-264b6586 Author Nelson H.S. Ferreira does research in History and Ancient Cultures at the Research Unit Centre of Classical and Humanistic Studies of the University of Coimbra. He has been researching and publishing within the scope of Mesopotamian and Mediterranean regions’ popular cultures, literatures, languages and social history and ancient thought. Recently his research has been dedicated to the anthropological impact of the economic dependence of agricultural production in Sumerian and Roman cultures, to history of science and to Knowledge Management. He is lecturer of several courses at EU Business School Barcelona. Science ID 0513-1A91-26B0 ORCID ID0000-0003-2637-3211 https://ub.academia.edu/NelsonHenriqueSFerreira https://es.linkedin.com/in/nelson-ferreira-264b6586 (Página deixada propositadamente em branco) Sumário Prefácio 13 Notas preliminares 17 Siglas, abreviaturas e convenções 19 De alimentorvm facvltatibvs e o saber de Galeno I. A medicina na Antiguidade 23 1.1. A literatura cuneiforme e a tradição assíria 25 1.2. O Antigo Egipto 33 1.3. A medicina grega 37 1.3.1. Dos filósofos naturalistas à criação do corpus hipocrático 37 1.3.2. O momento da “Medicina Hipocrática” 40 1.3.3. O Período Helenístico e as ciências médicas 43 1.4. O lugar da ciência médica no Império Romano 1.4.1. A magna Grécia e a Roma Republicana 47 1.4.2. A prática médica na Roma Imperial 51 II. Galeno de Pérgamo 2.1. Notas biográficas 55 2.2. A obra em contexto 59 III. A ciência de Galeno no De alimentorvm facvltatibvs. 63 3.1. O debate científico e a intertextualidade 67 3.2. A linguagem nos ensinamentos de Galeno – proposta para um estudo necessário 71 3.3. A metodologia do saber e o contexto cultural: o léxico 73 3.3.1 Os grãos 76 3.3.2 Outros produtos: apontamentos sobre a variação vocabular 84 IV. O alimento como matéria de estudo médico 87 4.1. Os quatro humores: os agentes do metabolismo no corpo humano 91 4.1.1. Humores húmidos (ou aquosos) 92 4.1.2. Humores secos (ou estéreis) 93 V. as faculDaDes Dos alimentos, livro i 95 5.1. Título 96 5.2. O método da exposição no livro I: a retórica do médico 97 5.3. Livro I 98 5.3.1. Estrutura 98 5.4. A hierarquia dos pães e dos grãos 100 5.4.1. O cereal 101 5.4.2. O produto 5.4.2.1. Pães puros/impuros: a proporção do farelo 105 5.4.2.2. As misturas: os pães-de-trigo e os pães-de-mistura 107 Apêndice: sobre os cereais e os pães (sistematização) 1. Cereais 112 2. Tipos de farinha para panificação: considerações gerais 116 3: Tipos de pães identificados 118 4: Pães de cevada vs. Pães de trigo 122 as faculDaDes Dos alimentos, livro i Introdução 125 Capítulo I 141 Capítulo II 167 Bibliografia Edições críticas e traduções 187 Bibliografia geral 187 Sítios consultados na internet 201 Index locorvm 203 Index nominvm 205 Index rervm 207 11 Prefácio “1790: At a retrospective exhibition of his works in London, he is suddenly taken ill with chest pains and is thought to be dying, but recovers sufficiently to supervise the construction of a hero sandwich by a group of talented followers. Its unveiling in Italy causes a riot, and it remains misunderstood by all but a few critics. 1792: He develops a genu varum, which he fails to treat in time, and succumbs in his sleep. He is laid to rest in Westminster Abbey, and thousands mourn his passing. At his funeral, the great German poet Holderlin sums up his achievements with undisguised reverence: “He freed mankind from the hot lunch. We owe him so much.” Woody Allen (1991), the Complete Prose of Woody Allen. Getting Even, p.181. "Für eine pinipom, die in einer Wäscherei erschient" À minha família in memoriam Francesc Rodríguez Molinet Luísa de Nazaré Ferreira (Página deixada propositadamente em branco) 13 Prefácio Prefácio ‘A ciência antiga está datada e, portanto, ultrapassada, pelo que não faz sentido investir recursos para a divulgação desta e tampouco redescobri-la.’ De uma maneira geral, este parece ser o mote que inspirou alguns decisores e regedores com impacto no financiamento da ciência europeia. Provavelmente a falta de transversalidade e interação dos vários campos científicos é a força motriz desta circunstância e acaba por aparentar um ainda remanescente provincianismo no pensamento social e político, que inevitavelmente se estende às academias que dão ares de um despercebido e desinteressado, mas ainda assim pesado, intelectualismo reacionário ao progresso, à mutação e às convergências das várias áreas do saber. Obviamente, deve ser reconhecida a inevitável e natural resistência de estruturas seculares que necessitam de tempo e de recursos paraproceder a uma transformação generalizada da relação estado/sociedade/ciência. Por outro lado, a constante subordinação a uma lista de prioridades dos 'Estados Sociais' que constantemente enfrentam desafios orçamentais de curto prazo, não ajuda a dotar os sujeitos envolvidos no desenvolvimento científico de ferramentas capazes de acelerar e melhorar o processo de evolução das academias e centros de saber. Note-se que a rudimentar análise, acima exposta, algo superficial e em grande medida injusta para muitos dos atores envolvidos quer do ponto de vista político, quer científico, roça apenas a verdadeira dimensão do problema e não reflecte propriamente uma realidade, mas a aparência da mesma gerada por uma certa desinformação mediática e falta de diálogo construtivo entre as diversas áreas do saber e a ainda insuficiente aproximação criativa aos vários setores que compõem a economia. Ora, as instituições de ensino e ciência, ainda que em grande medida banhadas pelo iluminismo inquisitivo da ciência e dedicadas à empresa do questionamento do universo natural e humano, quer seja por necessidade, quer por imposição contextual, acabam por resistir à unificação da ciência enquanto massa de saberes complementares e para a qual alertara já o próprio Galeno de Pérgamo, há cerca de dois milénios. Apesar das limitações que lhe são impostas, não significa isto que a ciência nacional esteja de alguma forma emperrada; sucede antes avançar a solavancos e saltos, evitando um progresso natural e favorecendo desequilíbrios entre os vários campos científicos, não só no que à própria investigação diz respeito, mas também no impacto causado aos vários setores da sociedade e ao desenvolvimento de massa crítica de receção. Portanto, a sociedade e a ciência, tendencialmente, não evoluem como pares, pelo que são grandes os desentendimentos por parte 14 Nelson H. S. Ferreira da comunidade social sobre aquilo que é ciência e de que forma é útil a curto, médio e longo prazo. Tal circunstância apenas potencia maiores desequilíbrios e mais desentendimentos - terreno fértil para uma certa letargia dos responsáveis políticos. Perante este cenário e seguindo a narrativa profetizada pela atuação e pensamento pré-memorizado de muitos dos ideários mediatizados - unicamente ao serviço de um sistema estanque e escudados em uma suposta economia do desenvolvimento que na verdade não entendem, dado que esta mesma se baseia em várias ciências –, algures num futuro não muito distante, poderemos gerar autênticos sábios conhecedores da anatomia humana, sem que estes reconheçam verdadeiramente em que medida um braço partido afeta a existência de um indivíduo; formar engenheiros capazes de desenvolver supercomputadores com a linguagem matemática do universo, mas sem a capacidade de criar ideias para a sua aplicação; ou linguistas capazes de decompor o discurso e palavra em signos a um quase ‘nível atómico’, mas que tenham olvidado ser o pensamento abstrato a fonte da palavra e, portanto, a génese do mais belo dos poemas, do mais espetacular jogo de cores e sombras de uma tela, ou da mais apaixonante das melodias. Tais futuros expoentes máximos do saber serão os responsáveis de formar as gerações seguintes. Nessa medida, qual o futuro que realmente nos espera, se a desumanização do saber tal qual a fazemos notar é, em última instância, a sua própria anulação? Transcorridos 19 séculos desde o exercício do famoso médico, cujo trabalho apresentamos neste volume, obviamente muita coisa mudou e em escalas que o sábio antigo jamais poderia supor. Todavia, as pedras na engrenagem por suposta hierarquia de prioridades subsistem a um nível incompreensivelmente díspar com o estado atual do saber global. Contudo, o facto de nos dias de hoje projetos como este terem o apoio das instituições, ainda que ténue, e o empenho de muitas pessoas dedicadas a divulgar o saber pelo saber, leva-nos a crer que o futuro da ciência, apesar de incerto, não é de todo cinzento e pode inclusive revelar-se risonho, ainda que dependente de profundas transformações sociais e políticas. Objetivamente, qual é o ganho social e cultural gerado pela tradução, estudo e publicação de uma obra cujo conteúdo científico está já ultrapassado pelo saber moderno? O problema não reside tanto na subjetividade de uma resposta, eterna geradora de controvérsia e debate, cuja fação vitoriosa seria a que tivesse o melhor domínio da retórica produto/efeito e não tanto a detentora do melhor senso argumentativo. Ora, julgamos ser a própria pergunta o busílis do enigma, repetido vezes sem conta, quando em causa estão as ciências humanísticas ou as ciências de inquirição teórica. O mesmo é dizer que a pergunta não surge por uma duvidosa pertinência deste ou daquele saber, mas sim pela materialidade do mesmo. Se o suposto saber não se converte em um consumível ou num serviço, se não promove um desenvolvimento imediato de alguma das atividades humanas, 15 Prefácio nem estimula a curto prazo a economia de consumo, então, esse saber é ‘estético’. Isto é, uma inutilidade prática que fica bem em apontamentos de um discurso ou na sala de estar como um bibelô exótico trazido de um qualquer destino ao qual se vai de passeio turístico uma única vez. Na verdade, não importa se em causa está um tratado médico cujo saber científico está desatualizado e de pouco pode servir para um diagnóstico moderno ou se tratamos um estudo matemático da astrofísica teórica para encontrar a origem do universo e quiçá descobrir um deus arquiteto ou pôr em causa a existência do mesmo por A+B/C2. Se a pergunta está errada na sua essência, ou seja, se não podemos questionar a legitimidade e a necessidade de um estudo, como se pode separar o trigo do joio? Pois esta é a questão que deveria dar o mote a qualquer inquirição à ciência: filtro, há que filtrar, há que estudar, ensaiar, comparar, debater e fazer uso de todo e qualquer verbo que, para um autor como Galeno, servisse de motor da ação/reação para o entendimento do mundo, independente do seu momento histórico. Se realmente almejamos entender o universo em que vivemos e julgar todos os seus processos – sejam físicos, bioquímicos, matemáticos, sociais, humanos, administrativos, económicos ou, seguindo ‘a ordem do dia’, financeiros -, necessitamos da aplicação dos 6 sentidos do saber. Os quais, não podemos identificar e explicar sem recorrer a uma empolada metáfora ou dissecação que não teria espaço neste texto. Porém, poderíamos arriscar dizendo que os estudos no âmbito das humanidades representariam o 6º sentido ou a ‘sensação’, o mecanismo do entendimento abstrato. A ciência faz-se pelo complemento das várias áreas do saber e da mesma forma que o movimento mecânico do corpo humano perde equilíbrio, se um dos ouvidos não funciona de acordo, também a ciência se faz irregular e pouco assertiva no movimento, se alguma das suas áreas é esquecida. 4 de dezembro de 2016, Barcelona (Página deixada propositadamente em branco) 17 Notas preliminares Notas preliminares Seguimos a numeração de parágrafos do texto grego estabelecido por Helmreich (1923), dado que esta é a edição de referência para o estudo e tradução que aqui se publica. Optámos por manter a numeração do editor de modo a facilitar a consulta do texto original por parte do leitor. No entanto, por uma questão de coerência com a própria tradução, houve alguma variação relativamente à numeração original, de modo a evitar divisão de palavras ou devido às mudanças sintáticas inerentes a uma tradução. Identificámos também os títulos de cada texto, seguindo os critérios do próprio editor, acrescentando em nota a versão grega. Pretendemos com a inclusão do texto grego e da numeração editorial tornar este trabalho mais acessível enquanto ferramenta de estudo. A propósito, notamos que os títulos de cada capítulo do livro I não podem ser atribuídos a uma escolha do próprio Galeno, antes correspondem a opções do editor,as quais optámos por seguir. Dado o caráter técnico da obra que tratamos e na tentativa de preservar o sentido original do texto, optámos por, de maneira geral, identificar em nota de rodapé o léxico grego que compõe a massa crítica da obra que aqui tratamos, mais concretamente, palavras referentes a géneros alimentares ou botânicos. Não procedemos da mesma forma com o léxico cuja tradução direta para a língua portuguesa é possível e cujo significado é amplamente conhecido. A exceção é feita nos casos de aparente correspondência direta entre o léxico grego e o português, mas cujo étimo grego apresenta variedade de significados ou ambiguidade na possível interpretação. Tal sucede frequentemente com plantas, constituintes do aparelho digestivo e funções fisiológicas. Nesse sentido, notamos que, os referentes modernos para a terminologia antiga, botânicos e fisiológicos, seguem de uma maneira geral as notas de Powell (2003), pelo que as excepções são comentadas nas notas à tradução. Se em algum momento a linguagem usada na tradução aparenta desfasamento com a terminologia médica moderna, dever-se-á ao próprio texto grego, que reflete um outro contexto científico, ainda em génese, cuja língua não expressava ainda de forma objetiva, cristalizada e universal todos os conceitos que descrevia. Nesse sentido, tentamos aproximar-nos da realidade original, em vez de fazer uma adaptação que, em boa verdade, nem teria validade terapêutica, nem precisão histórica e tampouco teríamos a capacidade de respeitar o rigor inerente à ciência moderna. O estudo da história da ciência grega e romana é desenvolvido por filólogos de uma maneira geral, uma vez que a capacidade ler textos na língua original é imperativa para o entendimento dos mesmos. 18 Nelson H. S. Ferreira No entanto, o domínio hermeneútico do texto por si só não é suficiente para o entedimento dos textos já que o conhecimento expresso pode reflectir áreas do saber para as quais é necessária preparação técnica. A propósito caberá marcar o que escreveu Leven (2004): “There is, however, in such works the notion that something may be missing in fully understanding medicine of a certain time and culture. Does a medical historian of ancient medicine need, in addition to his philological and historical skills, a medical education? And in what way is a ‘medical approach’ to ancient medicine useful? Is it possible to stand at the bedside of a Hippocratic patient as a clinician or reconstruct the ‘pathocoenosis’, as Mirko D. Grmek (f 2000) coined it, of ancient Greece? The present paper outlines the problem of applying present medical knowledge to ancient sources and touches on the topic of primary perception of disease and illness. An important aspect is that disease entities change in their socio-cultural setting. Examples ranging from the supposed Lupus erythematodes of the Assyrian king Esarhaddon to cases in the Hippocratic Epidemiae and plague descriptions of Greek authors illustrate the problem of retrospective diagnosis.” As opções comentadas refletem o caráter académico desta obra, ainda que importe salientar que este trabalho se destina tanto ao leitor curioso como ao investigador de qualquer área do saber. Parte deste estudo foi desenvolvida durante o ano letivo de 2012/2013, durante uma missão científica na Freie Universitat Berlin (Alemanha) suportada pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. A fase final do mesmo, foi concluída já sob o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia, no âmbito da bolsa de investigação SFRH/BD/93806/2013. Por último, devemos notar e agradecer o valioso contributo da Prof. Doutora Carmen Soares que valorizou este trabalho com o seu saber e critério. Do mesmo modo, agradecemos o contributo do Prof. Doutor Jorge Paiva (Biólogo), cujo conselho e revisão emprestou fundamento científico na área da botânica e permitiu uma mais ajustada aproximação à flora comentada por Galeno de Pérgamo. 19 Prefácio Siglas, abreviaturas e convenções Cato Agr. – Cato. De Agri Cultura. (Mazzarino 2010). CMG 6 – Galeni de alimentorum facultatibus libri iii. Corpus Medicorum Graecorum. (Helmreich 1923). BNP – Cancik, Hubert; Schneider, Helmuth; Landfester, Manfred (eds.) (2007), Brill ’s New Pauly. Encyclopaedia of the Ancient World. Vol.1-10. Leiden, Brill. BNP Supplements I – Landfester, Manfred, Egger, Brigitte (eds.) (2009), Brill ’s New Pauly Supplements I. Dictionary of Greek and Latin Authors and Texts. Vol.1-2. Leiden, Brill. CDLI – Cuneiform Digital Library Initiative, http://cdli.ucla.edu/ Cic. Off. – Cicero. De Officiis. (Winterbottom 1994). Col. – L. Iuni Moderati Columellae Res rustica. (Rodgers 2010). ePSD – The electronic Pennsylvania Sumerian Dictionary Project De alim. – De alimentorum facultatibus ETCSL – The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature GI – Montanari, Franco (ed.) (2004), GI – Vocabolario della língua greca. Torino, Loescher. JB - UTAD Jardim Botânico - http://jb.utad.pt/ LSJ – Liddell, H.G., Scott, R. and Jones, H.S. (1968), Greek-English Lexicon, ed. 9 with a Supplement, Oxford, Oxford University Press. Met. – Aristotle. Vol. XVII. The metaphysics I. Books I-IX. (Goold, Tredennick 1980). MSL – Materials for the Sumerian Lexicon (Rome). OCD – Simon, Hornblower; Spawforth, Antony (eds.) (1996), The Oxford Classical Dictionary. Oxford, Oxford University Press. Plin. Nat. – Plinio. Naturalis Historia (Mayhoff 1967a–2002b) HP. – Teofrasto, história das plantas (Silva 2016). Var. R. - M. Terenti Varronis Rerum Rusticarum Libri Tres. (Goetz 1929). Convenções gráficas: () – texto subentendido acrescentado pelo tradutor. [] – reconstrução do editor. (Página deixada propositadamente em branco) 21 Prefácio De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno (Página deixada propositadamente em branco) 23 Notas preliminares I. A medicina na Antiguidade “Notre sensibilité occidentale encore aujourd’hui, nos repères intérieurs habituels ont une double source: Jérusalem et Athénes. Plus exactement, notre héritage intellectuel et éthique, notre lecture de l’identité et de la mort nous viennent directement de Socrate et de Jésus de Nazareth. Aucun des deux ne fit profession d’être auteur, sans même parler de publication.” Steiner, George (2006), Le Silence des livres, p.9. Muito provavelmente, numa hipotética lista de celebridades da história das ciências naturais e médicas, Galeno de Pérgamo sucederia a Imhotep1 e a Hipócrates2 como o mais famoso médico da tradição antiga. De facto, o sábio grego deixou um legado que acabaria por constituir uma incontornável referência para as práticas terapêuticas ocidentais por mais de um milénio. Praticamente desde o momento em que foi dada a conhecer, a obra de Galeno terá servido de compêndio para terapias e acompanhamento de doentes convalescentes, tendo os mesmos textos permanecido autênticas autoridades para a instrução médica até ao período histórico moderno (finais do século XIV). O recurso à obra de Galeno por parte daqueles que estudavam medicina, em detrimento de muitos autores que o antecederam, justificou-se pela maneira como este tentou abarcar nos seus escritos parte do debate ‘científico’ contemporâneo, contrastando informação e estendendo o debate sobre o objeto em estudo a outros autores. Dessa forma, a obra de Galeno fez-se uma autêntica enciclopédia médica ao reunir uma grande parte do saber médico do espaço do mediterrâneo antigo. A influência do sábio grego estender-se-ia por largo espaço temporal e geográfico, uma vez que a obra galénica terá sido lida, estudada, comentada e levada à prática em toda a vasta região da bacia do mediterrâneo, Europa do Norte, mesopotâmia, península arábica e golfo pérsico (moderno Irão) por mais de um milénio. Maimónides (c.1135-1204), um dos grandes filósofos do período medieval e estudiosos da lei judaica (Halakhah; Twersky 2001, pp. 227-244), terá sido 1 Para além dosfeitos arquitetónicos que a tradição antiga egípcia lhe atribui, o sábio egípcio terá sido considerado o grande cultor da medicina no antigo Egipto (Kolta & Hommel 1973 e Brandt-Rauf & Brandt-Rauf 1987). Tanto na mundividência egípcia antiga como helenística, Imhotep terá sido um personagem histórico e chegou a ser dignificado com culto (vide Kákosy 1968). O culto a Imhotep chegou a ser associado à veneração da divindade Asclépio por parte dos antigos gregos (vide Frankfurter 1998, p. 64, 72 e 157). 2 Sobre a transmissão do saber hipocrático e a constituição do corpus que serviu de referência para autores antigos e modernos, vide Totelin 2013. 24 I. A medicina na Antiguidade um dos mais célebres exemplos da intemporalidade e alcance geográfico de Galeno na ciência antiga e medieval, dada a profunda inspiração de Galeno na construcção da sua obra3. O estudioso cordovês terá sido um eminente médico estabelecido na cidade do Cairo e praticante dos princípios essenciais do saber galénico: a saúde como combinação da dieta correta e a virtude moral (Bos 1994; Schipperges 1996).4 Os contributos do filósofo judeu para as práticas médicas no período medieval mediterrâneo tiveram pouco paralelo, ainda que os seus trabalhos não tenham tido demarcável celebridade ao longo da história moderna – muito por culpa da maior relevância da demais obra para a filosofia e para os estudos hebraicos. Porém, é possível afirmar com alguma certeza que este sábio terá sido uma importante ‘voz galénica’, entre as muitas registadas à época, na divulgação da ciência médica e, como tal, um exemplo do impacto da obra de Galeno na cultura ocidental. Em boa verdade, a influência dos tratados de Galeno no debate científico e na prática da medicina foi de tal ordem extensível no espaço e no tempo, que ainda no século XVI havia autores empenhados em diminuir-lhe o valor e questionar a pertinência das suas conclusões, nomeando-o de forma a notar a falibilidade das práticas galénicas. Exemplo disso mesmo terá sido o médico renascentista Paracelso (Powell 2003, p. 1 e Pagel 1964, p. 315). As tentativas de desacreditação do autor antigo, independentemente da validade científica das mesmas, confirmam de certa forma a relevância do sábio grego ao indiciarem que Galeno seria ainda um guia para alguns médicos de então. Provavelmente por esse motivo havia a necessidade, da parte de médicos e cientistas modernos, de criticar os saberes medicinais baseados nos tratados galénicos, fosse por estarem desatualizados no saber científico, fosse por simplesmente assentarem em bases provadas como erróneas. Ainda assim, o nome de Galeno não deixou de ser citado até aos princípios do século XVIII, principalmente pela medicina de caráter holístico e pela farmacologia tradicional. 3 Para exemplos da influência técnica de Galeno na obre de Maimónides, vide Bos 2009 e também Bos e Garofalo 2007. 4 Maimónides estudou medicina em Fez (Marrocos) entre c.1158-1165, depois de ter fugido de Córdoba por causa das perseguições levadas a cabo pelo regime muçulmano dos Almóades. Em c.1165 estabelece-se juntamente com a família na cidade do Cairo, onde inicia a prática médica como forma de subsistência. Sobre a vida e obra do sábio medieval, vide Seeskin (ed.) 2005. Para uma análise da obra intelectual de Maimónides, vide Rudavsky 2010. 25 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 1.1. A escrita cuneiforme e a tradição assíria Partindo da invenção da escrita enquanto referência cronológica para a história da medicina, é na antiga Suméria do 3º milénio a.C., atual sudeste iraquiano, que encontramos as primeiras notícias textuais referentes a enfermidades e métodos terapêuticos. O texto mais antigo conhecido foi descoberto nas ruínas da cidade suméria de Nippur e data do final do terceiro milénio. A tabuinha de argila contém um conjunto de prescrições terapêuticas e antecede em dois milénios àquela que é até hoje considerada a mais antiga coleção de textos do género descoberta até hoje, encontrada na cidade assíria de Niniveh. Datado do século VIII a.C., o conjunto de cerca de 800 tabuinhas contendo saber terapêutico teria sido reunida a mando do rei Ashurbanipal. (Bertman 2003). No entanto, talvez seja sumamente anacrónico considerar as práticas de então como medicina per se, dado que o próprio entendimento da doença não se baseava em princípios exclusivamente bio-orgânicos ou psicossomáticos, mas antes num saber empírico montado através de observações analíticas e muitas vezes sustentado pela superstição religiosa ou pela práctica ritual. O padecimento poderia ser considerado o resultado da ação de demónios malignos5, do castigo dos deuses, de feitiços ou mesmo de sucessos naturais, ainda que frequentemente os fenómenos da natureza fossem explicados pelo mundo sobrenatural. No entanto, apesar da superstição inerente a tais conceções, a elaboração de diagnósticos e procedimentos terapêuticos não seria de todo aleatória e anárquica, dado que acarretaria um conjunto de procedimentos e metodologias coincidentes com especialização e prática de um determinado campo do saber. A literatura mesopotâmica sobrevivente, dedicada a essas questões, diferencia o diagnóstico6 da terapia7 e divide-se em duas categorias: a literatura de diagnóstico e a literatura de instrução terapêutica ou de conduta.8 Neste ponto devemos notar que a literatura mesopotâmica não corresponde a um corpus escrito numa única língua e enquadrável numa única cultura, região ou período cronológico. Apesar da ideia de ‘enfermidade’ não encaixar em critérios científicos atuais, certos textos sumérios e acádios dão-nos conta de formas de combate à doença 5 Referimo-nos a ‘demónios’ num contexto pré-cristão, ou seja, como entidades espirituais da natureza. 6 Para textos acádios, refletindo diagnósticos e prognósticos, vide Scurlock 2014, pp. 13-271. 7 Para notícias textuais de várias terapias aplicadas a diferentes condições, vide Scurlock 2014, pp. 359-645. 8 Para um estudo alargado da antiga medicina babilónica, vide Geller 2010. 26 I. A medicina na Antiguidade que poderíamos, sob o prejuízo ocidental moderno, identificar como algo entre a superstição e o empirismo prático. Todavia, tal não invalida uma abordagem prática e material ao estado de saúde e às suas condicionantes. De facto, pode falar-se de uma especialização profissional – algo que implicaria ensino e preservação de conhecimentos -, uma vez que os responsáveis pelo diagnóstico e terapia do paciente tinham uma designação própria e generalizada: eram denominados por āšipu (cf. ePSD). Nesse sentido, estariam estabelecidos dois tipos de abordagem à enfermidade, que não se excluíram mutuamente, sendo até complementares: 1ª) O tratamento pelo uso da razão e análise, refutados pela experiência e tradição. Esta metodologia terapêutica implicaria o uso de preparados ou subs- tâncias (puras) para uso tónico ou ingestão e que poderiam incluir ingredientes derivados de animais, ervas ou minerais. Destas tarefas ocupar-se-iam especia- listas a que anacronicamente chamaríamos de farmacêuticos ou boticários e que poderiam ser designados por asû (cf. ePSD). 9 2ª) O tratamento através da magia ou do ritual, que incluiria feitiços, rezas e rituais com o intuito de afastar o ‘mal mágico’, ganhar a benevolência dos deuses, derrotar demónios, curar um espírito enfermo ou potenciar o recobro através das artes mágicas.10 A possibilidade de complementaridade entre este tipo de tratamentos residiria na própria especificidade da noção de ‘doença’. Isto porque, se por um lado tanto a tradição popular como as crenças religiosas e superstições associavam o ‘mal’ intrínseco à doença ao plano sobrenatural e, por isso mesmo, inacessível ao humano e dependente de forças com capacidade de promover o equilíbrio/desequilíbrio; por outro lado, a experiência, a análise de vários casos similares e a verificação dos resultados da aplicação de determinados preparadosou substâncias teriam que inevitavelmente produzir algum tipo de razoamento empírico passível de ser preservado pela tradição popular ou por algum tipo de profissionais curandeiros, cuja eficiência seria essencial para a preservação das suas funções. De resto, chegaram a ser previstas sanções legais contra médicos em tratamentos e cirurgias mal sucedidas. O código de leis de Hammurabi (c. 1754 a.C.) dá-nos conta disso: 215. šumma asum awīlam simmam kabtam ina karzilli siparrim īpušma awīlam ubtallit u lu nakkapti awīlim ina karzilli siparrim iptēma īn awīlim ubtallit, 10 šiqil kaspam ileqqe. 9 Para um estudo de textos de caráter farmacológico, vide Scurlock 2014, pp. 273-294. 10 Para notícias de caráter holístico nas práticas médicas mesopotâmicas, vide Scurlock 2014, pp. 647-703. 27 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 216. šumma mār muškēnim, 5 šiqil kaspam ileqqe. 217. šumma warad awīlim, bēl wardim ana asîm 2 šiqil kaspam inaddin. 218. šumma asûm awīlam simmam kabtam ina karzilli siparrim īpušma awīlam uštamit u lu nakkapti awīlim ina karzilli siparrim iptēma īn awīlim uḫtappid, rittašu inakkisū. 219. šumma asûm simmam kabtam warad muškēnim ina karzilli siparrim īpušma uštamīt, wardam kīma wardim iriab. 220. šumma nakkaptašu ina karzilli siparrim iptēma īnšu uḫtapid(!), kaspam mišil šīmišu išaqqal. (Szlechter, ll. 215-20 (XLI [Rv. XVHI]:55-XLII [Rv. XIX]:35) 215. “Se um médico tiver feito uma incisão profunda com a faca de cirurgião num homem e lhe tiver salvado a vida; ou se tiver operado a órbita do olho de um homem e tiver curado a visão daquele, deverá receber dez šikil de prata.” 216. “Se (o doente) for filho de um trabalhador, ele (o médico) deve receber cinco šikil de prata.” 217. “Se for um escravo, o senhor do escravo deve dar ao médico dois šikil de prata.” 218. “Se um médico fizer uma incisão profunda com a faca de cirurgião num homem e tiver provocado a morte do homem, ou se tiver operado a órbita do olho de um homem e tiver deixado o homem cego, devem cortar-lhe a mão.” 219. “Se um médico tiver feito uma incisão profunda com a faca de cirurgião num trabalhador, escravo de um homem, e lhe tiver causado a morte, ele (o médico) deverá pagar ‘um escravo por escravo’.” 220. “Se (o médico) tiver operado a órbita do olho (do escravo) e lhe tiver destruído visão, (o médico) deverá pagar metade de seu valor em prata.” (Cf. trad. Richardson 2005) Sobre o conhecimento e preparação destes ‘médicos’ pouco ou nada se sabe, pois até aos dias de hoje não foram encontradas provas inequívocas da instrução a que teriam acesso ou exatamente quais as ferramentas físicas e intelectuais ao seu dispor.11 Porém, este excerto do código Hammurabi deixa claro tratar-se de uma atividade profissional remunerada e regulada por uma legislação específica, que visava garantir a eficiência do exercício da mesma. Algo que não só poderia dissuadir charlatães, como também potenciar o estudo e desenvolvimento de técnicas que permitissem um tratamento mais eficaz e, portanto, mais rentável e seguro tanto para o médico, como para o paciente. As fontes sumérias dedicadas à terapêutica são algo escassas; com a exceção de alguns feitiços para a cura do envenenamento provocado por animais peçonhentos, praticamente não existem noticias que permitam reconstruir a 11 A propósito do treino médico, vide Geller 2010, pp. 130-140. 28 I. A medicina na Antiguidade prática medicinal ou a falta da mesma na antiga mesopotâmia do 3º e 2º milénio a.C. Alguns textos fragmentados vão dando conta da arte da cura, a maioria das vezes associada à divindade, porém, a informação aí contida é, frequentemente, apenas sugestão de uma terapêutica e não a descrição da mesma. Veja-se como exemplo o seguinte excerto de um hino sumério dedicado à deusa Ninisina: 10. nam-a-[zu] lu2 til3-le lu2 X X [...] 11. nin tu6 dug4-ga-[ni]-ta lu2 [X] sag9 [X X] X X kum2-mu 12 10. As tuas capacidades curam o homem, [……] homem. 11. Senhora cujo feitiço [X] beneficia o homem e dá [...]13 O mesmo sucede em grande medida com as fontes acádias do 2º milénio a.C., cujo corpus textual debruçado sobre o tema médico se resume a pouco mais de uma centena de pequenas tábuas de argila com textos escritos em cuneiforme. Nesse sentido, a grande maioria das fontes escritas da antiga mesopotâmia sobre estes temas remontam aos impérios Neoassírio, Neobabilónico e Persa (século IX-IV a.C.), sendo a grande parte proveniente das antigas cidades Assur, Nineveh, Sippar, Babilónia e Uruk.14 Apesar de poucas e dispersas tanto no espaço geográfico onde foram encontradas. como nas cronologias a que pertencem, as provas literárias chegadas aos dias de hoje demonstram uma prática continuada da medicina desde o segundo milénio a.C., enquadrada num ambiente de especificidade técnica visível em listas lexicais bilingues.15 Repare-se que a ênfase dada a determinados términos técnicos, tais como aqueles que identificam o exorcista, não eliminam de todo uma prática ‘profissional’ da terapia racional enquadrável nas conceções culturais dos povos mesopotâmicos. A generalização terminológica notada na denominação do ‘médico exorcista’ teria mais a ver com a interpretação dos resultados por parte destes especialistas, pois ao eliminar a enfermidade, estariam de certa forma a dominar os espíritos naturais responsáveis pela mesma, independentemente de se ter simplesmente estancado uma hemorragia, tratado um desarranjo intestinal com fármacos ou alimentação, procedido a um exorcismo ritual ou rezado a um deus pela sua intervenção na cura. A propósito 12 Fontes: ETCSL c.4.22.4; Sjöberg 1982. 13 Vide também ‘Letter from Inanaka to the goddess Nintinuga’, ll. 1-9; comp.t.: Ali 1964, pp. 137-143; ETCSL c.3.3.10. E também ‘A dog for Nintinuga’, ll.9, Ali 1964, pp. 144-48; ETCSL c.5.7.02. 14 Como exemplo de prescrição médica vide texto SBTU I, No. 44. da coleção de textos babilónicos do British Museum; Geller, pp.325-8. 15 Uma das mais antigas listas lexicais bilíngues em língua suméria e acádia dá nome a diferentes tipos de exorcistas: [maš]-maš = maš-ma-šu = exorcista; tígi = a-ši-pu = exorcista, (literalmente músico); ka-pirig = MIN (ditto) = exorcista; muš-DUla-la-ahDU = muš-la-la-ah-hu = encantador de serpentes; lú-gišgàm-šu-du7 = muš-s ̌i-pu = exorcista (MSL 11 102: 204–8). Para listas canónicas e análise mais pormenorizada sobre este tema vide Geller 2010, pp.45-50. 29 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno do exorcismo, haverá que considerar-se a definição preconcebida das sociedades com matriz judaico-cristã, dado que esta influencía profundamente a leitura cultural e filosófica das demais culturas e crenças, cujos conceitos não encaixam nos padrões conceptuais que servem de base cultural à ciência moderna ocidental. Em resumo, as poucas fontes existentes sugerem uma certa profissionalização e até especialização dos médicos de então (Zuccini 2005, pp. 156-183). Claro está, dependendo isto de fatores regionais e cronológicos, dado que é necessário não tomar a mesopotâmia antiga como um identidade cultural única com uma cronologia linear e perfeitamente identificável. Algo que dificulta a redescoberta da medicina praticada naquela região ao longo de 3 milénios de história e o entendimento daquilo que seriam as próprias ‘teorias médicas’ das culturas que aí proliferavam. A falta de textos em escrita cuneiforme que apresentem teorias médicas não significa que estas não existissem. Haverá que considerar que os textos que nos chegaram – sejam literários, sejam administrativos – são textos de caráter objetivo e não reflexivo. Isto é, para memória ou recitação, pelo que a discussão sobre a ‘natureza das coisas’ estaria ausente das fontes escritas.16 Apesar disso, é difícil imaginar que alguns dos saberes explanados nas terapias sobreviventes não tivessem por base um certo razoamento e especulação sobre o mundo natural. Inevitavelmente, o facto de estes textos se fundiremcom encantamentos e poções ‘mágicas’ tende a gerar um preconceito sobre a possível falta de critério científico. Porém, haverá que ter em atenção que esta ‘mistura’ se deve primeiramente à ténue, para não dizer praticamente inexistente, distinção entre o mundo natural e o mundo espiritual. A descoberta em Assur de um conjunto de textos sobre o exorcismo datados do século VII a.C. levou os estudiosos a considerar estar em causa a demonstração de que o exorcismo ritual (āšipu) não terá sido aplicado apenas em ‘tratamentos religiosos e rituais’; aparentemente também terá colaborado em terapias de caráter racional e baseadas em critérios médicos. De facto, tal como argumenta Maul (2004, pp.79-95) usando o exemplo da instrução de tratamento de uma enfermidade denominada por māmītu (maldição)17, o entendimento assírio-babilónico do processo causa/efeito de um padecimento demonstra que a terapia mágico-religiosa e a terapia médica constituem duas fazes concretas do tratamento, unidas para um entendimento global da doença e para um processo de cura de certa forma holístico, visando tratar todas as dimensões do ser tal como estas eram entendidas. Esta abordagem coincide com o entendimento do mundo natural, influência e constituição divina e espiritual do mesmo.18 Ora, o corpo humano e a sua relação com os elementos do cosmos fazem parte do mundo natural e este é inevitavelmente controlado 16 Para os comentários médicos da antiga mesopotâmia vide Geller 2010, pp.140-160. 17 Sobre a formas de diagnóstico expressas no livro de instruções médicas neo-babilónicas, vide Heeßel 2004, pp. 97-116. 18 Sobre os fantasmas e espíritos na medicina babilónica vide Farber 2004, pp.117-134. 30 I. A medicina na Antiguidade pelos poderes divinos e espirituais, pelo que a superstição não implica uma total negação da racionalidade analítica e da inquirição dos fenómenos naturais, pelo contrário, enquadra-se no próprio entendimento e explicação do universo e seus constituintes.19 Isto é, a doença e o enfermo poderiam ser analisados do ponto de vista orgânico e físico, como um padecimento por uma interação do corpo como mundo natural (Zuccini 2005, pp. 64-86); porém, não seria de todo descartada a influencia que a espiritualidade da natureza das coisas teria tanto na enfermidade como na sua cura, dado que é elemento essencial do mundo material mesopotâmico. Apesar das poucas fontes para tão extenso espaço geográfico e cronológico, alguns textos cuneiforme parecem revelar que medicina tardo-Babilônica tem algumas similitudes com textos do corpus hipocrático no que refere ao diagnóstico, tratamento e relação com o paciente (vide Geller 2004, pp. 11-60 e Stol 2004, pp. 62-78).20 Apesar de não existirem provas materiais nesse sentido, é possível que tenham existido grandes intercâmbios de saber entre as culturas mesopotâmicas, Egipto e a Grécia arcaica, cuja tradição de contactos culturais poderá remontar, sem descontinuidade, aos períodos minoico e micénicos (vide infra 1.3.1).21 Afinal de contas, a imaginação, a lógica dedutiva e a observação são as características essenciais de toda a ciência antiga e estas parecem estar presente nas sociedades humanas desde, pelo menos, a génese da escrita e, por conseguinte, da história e este aspeto facilita o intercâmbio de saber. Até hoje não foi possível confirmar de forma segura ser a escrita a principal referência para a preservação e transmissão do saber médico mesopotâmico. No entanto, a literatura antiga tem um papel importante na identificação da atividade médica, não só quando estão em causa diagnósticos médicos ou textos rituais, mas também quando são narrados mitos ou histórias enquadradas numa moldura da realidade do quotidiano (vide Reventlow 2007, pp. 275-90). Portanto, exemplos como os textos bíblicos ou narrativas tradicionais ou rituais dos hebreus são importantes portadores de algumas notícias da prática médica como uma marca social e profissional; ainda que, apesar de notarem especializações e educação médica direcionada, não apresentem uma profunda pormenorização sobre a técnica e o saber destes sábios, cujo cohecimento e tradição podia ter origem na antiga babilónia. (Vide Zuccini 2005, pp. 1-33, 87-122, 184-229) A aparente transversalidade cultural dos antigos espaços do antigo mediterrâneo – pela matriz judaico-cristã, intercâmbios entre mesopotâmia, 19 Note-se que esta visão seria praticamente universal no espaço da antiga Mesopotâmia (Maul 2004, pp.79-95). 20 Sobre a antiga medicina mesopotâmica e os médicos que a praticariam, vide Haussperger 1997. 21 Sobre o possível intercâmbio de saber entre a antiga Grécia arcaica e clássica e a sociedade babilónica, vide Thomas 2004, pp.175-185. 31 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno região do levante, Egipto, Grécia Micénica, Cíclades dos 3º e 2º milénio a.C., globalização do saber helenístico ou Império Romano – determina a dificuldade de distinção entre o cultor e o recetor, pelo que não sabemos em que medida procedimentos médicos identificados em outras culturas e momentos históricos posteriores são originários dos locais com os registos de maior antiguidade; ou se na verdade estas culturas teoricamente mais jovens foram a influencia, cuja registo escrito tardio impede de comprovar. Esta questão faz-se bastante pertinente, principalmente quanto relativa ao reino do Antigo Egipto, dado que na antiguidade gozaria de fama pela qualidade dos seus médicos, relativamente aos seus vizinhos contemporâneos, antes do estabelecimento dos reinos helenísticos. (Página deixada propositadamente em branco) 33 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 1.2. O Antigo Egipto Não terá sido por acaso que alguns autores gregos antigos tenham associado o culto a Asclépio ao culto da deusa Ísis e ao culto da personagem histórica e sábio multifacetado, Imotep22 – equivalente egípcio ao deus Asclépio. O sincretismo do culto às divindades Imotep e Asclépio terá sido vincado durante o período helenístico e consequente governo ptolemaico da região do antigo Egipto (305-30 a.C.). Diodoro Sículo (c. século I a.C.) é um dos autores a refletir este sucesso, pois atribui à deusa Ísis o culto e prática da cura da enfermidade através dos sonhos (Diodorus Siculus 1.25). Notícias como essa reflete uma consciência por parte de autores gregos de que a medicina egípcia constituiria um saber muito antigo. Porém, tal e qual sucede para a região da antiga mesopotâmia, as notícias que nos chegam sobre as tradições médicas egípcias não nos permitem identificar uma ciência perfeitamente distanciada da superstição, ao contrário, o aspeto físico da doença está quase sempre associado ao mundo sobrenatural. Recorde-se que o saber egípcio preservado sob a forma escrita tem um vincado fundamento ritual/mágico, que por sua vez se reflete na abordagem holística ao mundo natural e corpóreo (Ritner 1993). Ainda assim e tal como comentamos a propósito da ciência médica mesopotâmica, havia entre os egípcios praticas médicas profissionalizadas e saberes testados pela experiência e análise, pelo que as matérias do universo físico eram encaradas de forma analítica e empírica, independentemente do plano espiritual e divino ser em última instância o regedor da mundividência física. Portanto, existia uma combinação entre o universo mágico-religioso e a conceção empírico-racional do mundo material23. Esta mistura entre o rito e a razão empírica é verificável no próprio conceito de ‘médico’ ou, melhor dizendo, na ausência desse conceito tal e qual o entendemos. Isto porque os responsáveis pela aplicação das várias terapêuticas seriam médicos, sacerdotes ou (e) feiticeiros (Ray 1975), não estando verdadeiramente vincada uma fronteira distintiva entre estes; claro está, sempre e quando houvesse alguma tentativa de diferenciação entre estas atividades, algo que nem sempre se verificaria. No entanto, em oposição à falta de informação para a antiga Mesopotâmia,há notícias de ter existido um treino efetivo para aqueles que se dedicavam à medicina. O treino para a disciplina médica remonta ao Reino Antigo (3ª-6ª dinastia, c. 22 Sobre Imotep enquanto entidade divina e histórica, vide também Wegner 2015. 23 Vide Zuccini 2005, pp. 34-63. 34 I. A medicina na Antiguidade 2686–2181 a.C.), coincidindo com a antiguidade das primeiras composições médicas egípcias chegadas até aos dias de hoje.24 De resto, a preparação destes autênticos profissionais da medicina seria de tal forma direcionado para a prática médica que havia inclusive médicos especializados em partes do corpo (‘especialista em ventre’, cirurgião dentário, etc) ou em determinados tipos de maleita. (Zuccini 2005, pp. 123-155) A aparente contradição entre a falta de conceptualização especifica da atividade médica e consequente distinção das demais artes através da profissionalização e da especialização técnica das mesmas pode residir no preconceito social atual, que tende a categorizar de forma cerrada os vários âmbitos de entendimento do saber antigo. Esse saber seria holístico, pelo que o mundo material só poderia ser entendido através da globalidade universal que o constitui, ou seja: física, divina e mística. Em boa verdade, um médico, sacerdote ou feiticeiro podia fazer coincidir as suas atividades com a prática médica, uma vez que o conceito de saúde física residia na terapia da matéria orgânica por fisioterapia ou farmacologia, energização espiritual (pela evocação da colaboração da entidade divina) e esconjuro do mal (espiritual ou divino) potenciador da enfermidade. Por comparação às culturas e estados vizinhos, a medicina egípcia terá sido altamente considerada, ao ponto de governantes de outras regiões recorrerem de alguma maneira ao Antigo Egipto de modo a encontrar respostas mais fiáveis para as suas maleitas. As relações entre os estados da Anatólia, Mesopotâmia e Egipto, marcam de forma recorrente o recurso dos altos dignitários dos estados orientais aos médicos do reino do Nilo. Do ponto de vista conceptual a prática médica egípcia não distaria tanto das demais, pelo que os egípcios se destacariam na experiência empírica e não tanto num fundamentado conhecimento anatómico e terapêutico. São consideráveis as notícias literárias de vários tipos de práticas médicas, instruções de procedimento para médicos, receitas de fármacos, aplicação de terapias farmacêuticas, informações sobre tipos de lesões e doenças, e todo um conjunto de matérias debruçadas sobre a saúde e bem-estar.25 No seu conjunto, este saber impressionaria qualquer pessoa oriunda de uma cultura cujo senso-comum e a tradição popular fossem os regedores dos procedimentos terapêuticos (Hebron 2013). Em boa verdade, existe uma inegável carga de racionalidade na inquirição e estudo médico, apesar da marcada presença do misticismo e da religiosidade das quais a medicina antiga egípcia também estaria dependente.26 Na verdade, a própria medicina grega, já depois de publicadas as 24 Vide Quack 2003. 25 Para notícias literárias preservadas em papiros médicos de várias épocas do Reino do Antigo Egipto, vide Brawanski 2001, 2004, 2006, Chapman 1992, Ralston 1977. 26 Sobre a racionalidade e irracionalidade da medicina egípcia, vide David 2004, pp.133-151 35 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno obras de sábios como Hipócrates ou Galeno, teve um profunda base mística e religiosa, além de uma basilar fundamentação holística, cujo nível de ciência não pode ser de maneira nenhuma menosprezado como arcaico pela modernidade, quando atualmente se debatem os efeitos da homeopatia, prática com pouco sustento científico pelos padrões ocidentais atuais. (Página deixada propositadamente em branco) 37 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 1.3. A medicina grega Ainda que o volume do corpus remanescente de obras de antigos pensadores gregos dedicados à medicina talvez fizesse prever uma prática médica continuada com repercussões em todo o espaço cultural helénico, a verdade é que os dados arqueológicos e as poucas noticias sobre a realidade do exercício da medicina não nos permite ter uma noção concreta daquilo que seria a medicina praticada na antiguidade. Os tratados hipocráticos e o enciclopedismo de Galeno, pela profunda inspiração filosófica e metodologia racional e analítica, facilmente são suscetíveis de serem observados sob prejuízos da parte dos críticos modernos. O entendimento pouco neutral de filólogos, historiadores ou mesmos investigadores das ciências naturais está positivamente influenciado pela abordagem científica de alguns dos sábios antigos e cujo procedimento inquisitivo tantos paralelismos tem com a ciência moderna. Na verdade, não é, de todo, mensurável o distanciamento entre o pensamento dos pensadores gregos e as aplicações práticas generalizadas dos seus conhecimentos e teorias às matérias sobre as quais se debruçavam. Para além das anedotas deixadas por autores antigos, poucos documentos há sobre reais prescrições de médicos comuns. Isto é, praticamente não há notícias de um diagnóstico descritivo e a consequente sentença terapêutica em função da enfermidade, de instruções de ação e metodologias de diagnóstico, de tratamentos de casos concretos ou de ferramentas direcionados para a terapia de determinadas maleitas. Em resumo e de uma maneira geral, faltam-nos testemunhos pormenorizados e sistemáticos de casos reais e de ‘médicos anónimos’ durante o exercício terapêutico que possam realmente dotar de algum realismo a nossa perceção da medicina na antiguidade. Ainda que, obviamente, tomemos como muito válidas as notícias legadas pela literatura. 1.3.1. DoS filóSofoS naturaliStaS à criação Do corpvs hipocrático A literatura helénica antiga tende a idealizar o antigo Egipto faraónico como a origem de muitas das tradições e saberes praticados pelos próprios gregos.27 Ora, a partir disto entender-se-á o porquê de também a medicina egípcia antiga figurar entre as práticas pioneiras atribuídas a este povo tão antigo aos olhos dos 27 Para a perspetiva grega das práticas médicas egípcias vide Jouanna 2004. 38 I. A medicina na Antiguidade gregos. No entanto, apesar da quantidade de textos de caráter médico egípcios chegados aos dias de hoje (vide supra 1.2)28, não haveria propriamente uma vincada divisão entre a conceção mágica e misteriosa e a abordagem analítica do mundo natural, tal como aquela cujo gérmen veio a ser verificado posteriormente nos primeiros filósofos gregos e cujos maiores testemunhos são os escritos ou ‘ditos’ atribuídos aos filósofos pré-socráticos. Contudo, nos períodos históricos antecedentes à produção do corpus hipocrático, livre de magia e superstição, a medicina grega não estaria muito distante da conceptualização espiritual e supersticiosa da antiga Mesopotâmia ou Antigo Egipto, pelo que poderíamos ser levados a julgar o saber grego antigo como algo mais independente das culturas vizinhas, do que aquilo que os próprios helenos julgariam ser. Ora, neste ponto, faz-se oportuno acrescentar que os achados arqueológicos e os textos referentes ao período micénico (c. século XVI-XI a.C.) e aos primórdios da Grécia arcaica pré-letrada (c. 800-479 a.C.)29 são muito parcos. As poucas exceções incluem algumas tabuinhas de argila anotadas com um grego arcaico em escrita linear-B e referindo-se a alguns tipos de ‘drogas’ (BNP vol.8, pp.573- 4); e também incluem notícias mitológicas dos poemas homéricos que notam os célebres médicos Asclépio e Quíron e as tradições associadas a estas figuras lendárias. Várias divindades e entidades sobre-humanas estariam associadas tanto às patologias como às curas das mesmas, pelo que a religião e o xamanismo constituiriam um importante pilar de sustentação para a medicina de então. Não é possível identificar de forma objetiva a natureza dicotómica da relação religião/ medicina, porém o motivo da mesma poderia residir na simbiose simbólicadas entidades divinas com os fenómenos naturais. Ainda que, por si só, este argumento não permita explicar os rituais associados a entes mitológicos, como sucederia com o deus Asclépio. Apesar de parcas e, portanto, pouco esclarecedoras, as notícias sobreviventes da prática médica nos períodos históricos minóico e micénico talvez tivessem coincidência com a conceção espiritual cósmica da região da Mesopotâmia.30 Os 28 São disso exemplo os manuais médicos escritos em papiro como o Ebers Papyrus (c. 1534 B.C.), o Berlin Medical Papyrus 3038 (dinastia XIX), o Edwin Smith Surgical Papyrus (c. século XVII a.C.) ou o London Medical Papyrus (P. BM 10059, c. 1350 B.C.). Vide Ritner 2000. 29 Não sendo este o espaço adequado para um debate do género, devemos notar as nossas reservas na adoção da ideia generalizada de uma ‘Grécia antecedente dos poemas homéricos’ absolutamente iletrada, cuja justificação reside na ausência de dados e não propriamente na apresentação de factos que comprovem a sua iliteracia e o total esquecimento da escrita; preconceito que serve de fundamento à teoria da tradição oral na elaboração dos poemas homéricos, algo com o qual não concordamos pela questionável argumentação sustentadora da mesma. 30 Sobre a prática médica na região micénica e minóica do Egeu do 2° milénio a.C. e os contactos médicos destas culturas com as culturas do Próximo Oriente Antigo, vide Arnott 2004, pp. 153-173. 39 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno dados apenas nos permitem conjeturar, pois o volume de vestígios arqueológicos e textos sobreviventes é categoricamente inferior ao das culturas suméria, babilónica ou assíria. Tal circunstância deixa aos académicos modernos pouca matéria sobre a qual especular. Além disso, tal défice é agravado por um aparente período de treva cultural de 3 séculos (séc. XI-VIII a.C.) nos espaços micénicos. Porém, cabe-nos alertar que uma suposta idade da treva tem mais que ver com os poucos dados arqueológicos relativos a esse período e o aparente abandono de algumas importantes cidades, do que com um efetivo colapso civilizacional. Isto é dizer que a treva reside na nossa mirada e não na realidade histórica, pelo que consideramos que o saber tradicional médico praticado por micénios ter-se-á prolongado no tempo até à época arcaica (séc. VIII-V a.C.), momento em que terá sofrido um novo impulso, potenciado pelas conceções do universo teorizadas e descritas pela filosofia pré-socrática. Em resumo, independentemente do aparente limitado conhecimento técnico, comparativamente ao período arcaico grego, não devemos de nenhuma maneira menosprezar o saber médico das culturas da idade do bronze pela simples ausência de dados. É difícil imaginar que a contemplação do mundo natural e os seus fenómenos tivessem partido do ‘nada’, sem que houvesse uma tradição prévia e um acumular de saber popular com profundas raízes nas culturas antecedentes aos chamados filósofos naturalistas gregos. Ainda que não possamos de maneira alguma saber exatamente até onde iria o racionalismo e a ciência aplicada à medicina tanto de minoicos como de micénios, é possível afirmar não ter existido uma treva antecedente de um posterior iluminismo. Dizer que a filosofia é a mãe de todas as ciências não é de todo um exagero. A própria palavra encerra em si a busca do conhecimento pelo conhecimento e o amor pela sabedoria, combustível essencial da ciência. Nesse sentido, o despertar da consciência filosófica escrita na formação das primeiras correntes de pensamento da Magna Grécia arcaica gerou uma autêntica revolução no juízo dos processos universais e na receção do conhecimento tradicional. O saber empírico deixa de ser simplesmente absorvido e transmitido, passando a ser questionado e reformulado. Este ‘iluminismo’, cuja ignição não podemos localizar ou identificar, não atinge a sociedade na sua globalidade – limitada pela difícil e lenta circulação de informação e pela própria natureza complexa da mesma –, e esteve circunscrito a uma elite de pensadores e de discípulos com acesso privilegiado ao saber escrito e oral. Todavia, esta evolução seria suficientemente importante para levar os sábios de então a olhar o mundo natural como resultado da interação entre os vários elementos do cosmos, ou seja, uma observação baseada na mecânica ação / reação do mundo natural, sem a pretensão do plano espiritual como o principal motor do mesmo. Ora, a observação dos processos naturais livre do preconceito da tradição popular promove uma especulação abrangente de todos os elementos da natureza, fossem estes materiais ou imateriais, visíveis ou invisíveis. Nesse sentido, fez-se 40 I. A medicina na Antiguidade inevitável a discussão da anatomia e a relação desta com o ambiente circundante e com os alimentos ou as drogas, pelo que nasceria assim o debate médico tal como o entenderíamos mais tarde. Segundo a tradição, Alcméon de Crotona e Empédocles debruçaram-se sobre a medicina, porém, não é claro se as intervenções destes se restringiam à análise das estruturas do corpo humano e à interação desta com a natureza enquanto mais um processo na explicação do cosmos, ou se realmente foram iatroi (ἰατροί) e exerceram medicina (BNP vol.8, pp. 573-4). Alcméon de Crotona é considerado por muitos dos autores modernos o pai da medicina e das suas mais antigas vertentes: anatomia, psicologia, fisiologia, embriologia, psiquiatria e ginecologia (Longrigg 1993 p.47). O filósofo pré-socrático é o único autor pré-hipocrático cujas teorias médicas sobreviveram, sendo Galeno e Aristóteles dois dos responsáveis de tal sucesso (Aristóteles, Metafísica 986a29ss).31 Para além de fragmentos e notícias transmitidas por autores posteriores, são poucas as informações factuais escritas chegadas até nós, que nos permitam reconstruir o saber de então.32 Por tal, ainda que historicamente esses sábios inquiridores do mundo natural estejam muito próximos da época de Hipócrates, não nos é possível estabelecer uma ponte credível entre a ciência dos séculos VIII, VII, VI a.C. e o posterior saber hipocrático. 1.3.2. O momento da “Medicina Hipocrática” A inquirição do mundo natural levada a cabo pelos filósofos pré-socráticos parece ter redundado num desenvolvimento exponencial da medicina, sendo os tratados médicos de Hipócrates a realização mais evidente disso mesmo, uma vez que o saber médico contido nestes textos expressa, de forma clara, uma natureza analítica e especulativa, sujeita ao ensaio e debate.33 No período de transição da época arcaica para o período clássico (século VI-V a.C.) uma maior organização estatal dentro do espaço helénico, a polis, terá favorecido a circulação de ideias e artífices, pelo que também os praticantes das artes médicas entraram num circuito de transações de saberes e serviços. Nesse sentido, é possível identificar uma classe médica profissional, os iatroi, dedicada à terapia 31 Sobre Alcmeón de Crotona e respetiva obra, vide Longrigg 1993, pp.46-81. Sobre a vida e obra deste filósofo pré-socrático, vide Huffman, Carl, “Alcmaeon”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/ archives/sum2013/entries/alcmaeon/> 32 Para um estudo geral da medicina grega pré-hipocrática, vide Nutton 2004, pp. 37-52. 33 Sobre os pré-socráticos e a constituição do corpus hipocrático, vide Longrigg 1993, pp. 82-103; sobre o corpus hipocrático e a construção da medicina grega, vide também Nutton 2004, pp. 53-71. 41 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno de enfermos, fosse por pagamento ou por puro interesse científico. Ora, caberá dizer que por volta do final da primeira metade do século V a.C. a prática médica dos iatroi era já bastante comum em todo o espaço grego, ainda que o acesso aos seus serviços pudesse ser algo exclusivo. Poder-se-ia, inclusive, considerar uma ‘certa competição’ entre os iatroi de então, quer fosse pelo saber quetransmitiam, quer fosse pela qualidade e pelos bons resultados das suas práticas. Além disso, reger-se-iam por um certo código ético e profissional, cujo derradeiro objetivo era a cura do paciente. A prova desta profissionalização remontaria pelo menos ao século VI a.C., pois por essa altura verifica-se o recurso a 'médicos públicos' que acompanhariam os exércitos em campanha. Como notámos, alguns destes médicos viajavam entre os vários estados e cidades, quer praticando, quer instruindo; ao passo que outros, pertencentes a famílias importantes de pensadores, estabeleciam-se em determinadas cidades e chegavam a ganhar fama ou mesmo a ‘criar escola’. Algumas dessas cidades acompanhariam a notoriedade dos seus médicos residentes, acabando por serem consideradas famosos centros para as práticas terapêuticas e para o estudo da medicina.34 Cós e Cnidos foram dois exemplos marcadamente importantes na tradição médica de então (BNP, vol.8, pp.574-5), sendo Hipócrates de Cós o seu médico mais famoso. Hipócrates de Cós (c. 469-370 a.C.), tal como o nome em uso identifica, seria originário da ilha de Cós. Segundo a tradição, terá professorado medicina em Atenas (c.420 a.C.) e, de acordo com uma lenda posterior, trabalhou durante a deflagração da grande epidemia naquela cidade, quando decorria a Guerra do Peloponeso.35 Preservam-se cerca de 130 textos atribuídos a este sábio, tendo sido cerca de metade compilados na Alexandria Ptolomaica durante o século III a.C., hoje designados por Corpus Hippocraticum (CH), e cujo volume corresponde ao cânone atualmente atribuído a Hipócrates36; os restantes textos são considerados fabricações posteriores, cuja autoria foi erroneamente atribuída a Hipócrates, não sendo possível, salvo algumas exceções, identificar os autores destes textos.37 Efetivamente, o corpus hipocrático não corresponde a todo um conjunto de textos atribuídos ao sábio de Cós. Ainda que nenhuma das obras possa ser seguramente identificada como tendo sido lavrada por Hipócrates, muitos textos podem ser atribuídos a um único autor com relativa segurança; já outros escritos limitam-se a seguir a forma de abordagem e as linhas de pensamento que se julga 34 Sobre a medicina grega nos séculos V e IV a.C., vide Nutton 2004, pp. 103-14. 35 BNP, vol.8, pp.574-5; Var. R 1.4.5.1-3. 36 Ainda assim, o cânone alexandrino não reúne unanimidade de opinião da parte da comu- nidade científica, pois não existe um total acordo quanto à autoria dos textos, pelo que o debate sobre esta questão continua vivo. 37 BNP Supplements I, vol.1, pp. 313-18. 42 I. A medicina na Antiguidade corresponder às do autor grego.38 Na verdade, não chega a existir propriamente aquilo que de forma objetiva se poderia nomear por ‘linha de pensamento médico’ e que seja correspondente a um determinado estilo metodológico ou corrente de pensamento científico identificável neste conjunto de aproximadamente 70 textos, cuja coleção original remontará a um período compreendido entre a segunda metade dos séculos V-IV a.C. Ainda assim, existe uma espécie de tronco comum aos textos deste corpus, identificável nas similitudes presentes na discussão de cada caso particular, como sejam a rejeição de causas sobrenaturais e o apoio na lógica e na dialética para a obtenção de conclusões pertinentes e defensáveis.39 O corpus hipocrático, mais do que definir a obra de um único autor, permite sugerir como alguns médicos trabalhariam sós ou em grupos na apresentação de seminários públicos, debates (cf. Hipócrates, De arte) e na elaboração de escritos aparentemente direcionados para especialistas, dada a natureza complexa da matéria e a forma aforística da exposição (cf. Aphorismi, De dentitione; BNP, vol.8, pp. 574-5).40 As incongruências entre estes textos não só se deve às diferentes autorias, mas também à origem dos saberes professados. Isto porque estes textos pertencem a distintas escolas de pensamentos, ainda que se destaquem as de Cós e Cnidos. Além disso, alguns destes textos não teriam sido produzidos nos mesmos períodos, podendo alguns datar dos inícios do século III a.C.41 Apesar da profissionalização e da circulação do saber médico, a ‘cura’ não era então um processo objetivo, claro e seguro. Havia demasiados fatores desconhecidos na função diagnóstico/ terapia/ cura, pelo que o apelo à divindade seria recorrente. Os deuses que curam e os cultos terapêuticos tiveram uma longa tradição na antiga Grécia, anterior mesmo à disseminação do culto de Asclépio, que se popularizou no final do século V a.C., provavelmente devido à grande praga que deflagrou em Atenas (vide Tucídides 2.47-54, 2.58, 3.87). Na verdade, a terapêutica de cariz religioso terá sido uma alternativa ou mesmo complemento ao tratamento secular, algo provavelmente mais recorrente no caso de queixas crónicas ou perturbações mentais. A popularidade destes ritos terá aumentado com a construção de grandes templos tais como os de Atenas ou de Epidauro. Evidentemente, a religião e a medicina não se auto-excluíam completamente, pelo que há notícias de médicos que participaram no culto a Asclépio ou foram 38 Para uma análise das linhas constituintes do corpus hipocrático e a orientação e as moti- vações dos autores que o constituem vide Langholf 2004, pp. 219-275. Para estudo exaustivo e apresentação dos tratados constituintes deste corpus, vide Craik 2015. 39 Sobre as teorias hipocráticas vide Nutton 2004, pp. 72-86. 40 Sobre o contexto profissional dos médicos na constituição do corpus hipocrático, vide Langholf 2004, pp. 219-275. 41 Para uma listagem completa dos textos que compõem o corpus hipocrático, vide BNP Supplements I, vol.1, pp. 313-318). 43 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno benfeitores de altares dedicados à divindade. O tratamento através dos sonhos, referido pelo próprio Hipócrates e com paralelo na Mesopotâmia antiga, é um exemplo disso (cf. Diodoro Sículo 1.25). Este tipo de terapia associada ao culto de Asclépio usaria tanto de unguentos herbários e práticas médicas, como de rituais de culto e adoração, conjugados com a interpretação do simbolismo atribuído aos sonhos.42 De resto, num contexto não urbano e de uma maneira geral, a intervenção mágica e sobrenatural seria comum e provavelmente mais recorrente do que a aplicação dos ensinamentos atribuídos a Hipócrates. Em boa verdade, não existem provas do abandono geral da superstição em favor da ciência puramente analítica – algo que realmente apenas se verificou de forma generalizada no espaço ocidental do século XX. Portanto, os principais concorrentes dos iatroi seriam os curandeiros e os eternos ‘vendedores da banha da cobra’. Ainda que, em contexto urbano, a regra aparenta ter sido o recurso à medicina com o suplemento ritual.43 1.3.3. o períoDo helenístico e aS ciênciaS méDicaS Aliada a uma profunda transformação do espaço político grego, assim como de toda a região antes governada pelo império persa, a expansão da cultura grega e contacto com outras culturas e saberes acabou por gerar o desenvolvimento de novos saberes, impulsionando rotas comerciais de um espaço que se estendia da Península Ibérica ao vale do Indo. As conquistas de Alexandre Magno (c. 356-323 a.C.) e os reinos herdados pelos generais macedónicos que lhe suce- deram redefiniram o mapa helénico de tal forma, que os grandes centros da cultura e saber grego passaram a encontrar-se no norte de África, na Anatólia e na Mesopotâmia. Esta nova realidade cultural fez viajar a ciência helenística por uma vasta região, o que acabaria por enriquecer e potenciar as suas várias vertentes, fosse por meio de fusão com tradições e práticas regionais, fosse pelo escrutínio de uma maior massa crítica. Pela mesma ordem de ideias, não existe grande margem para dúvida de que a medicina grega e os escritos hipocráticos tenham sido submetidos às mesmas circunstâncias, pelo que também os iatroi expandiram o seu mercado e viram as suas possibilidades de valorizaçãoprofis- sional incrementadas. 42 Sobre o estudo da interpretação dos sonhos enquanto matéria médica e religiosa na obra de Hipócrates e as similitudes com notícias semelhantes no espaço do próximo oriente antigo, vide van der Eijk 2004, pp. 187-218; vide também Pettis 2006. 43 Para uma análise da relação entre o exercício médico e o culto religioso através dos ‘contos sagrados’ de Aristides, vide Horstmanshoff 2004, pp. 325-341. Sobre o exercício médico baseado nos processos hipocráticos, vide Nutton 2004, pp. 87-102. 44 I. A medicina na Antiguidade Poder-se-ia dizer que durante os séculos III e II a.C. a inquirição da matéria médica foi potenciada. Sábios dedicados à medicina criaram escolas de estudo e debate por todo o espaço helenístico, formando dessa forma mais médicos e mais saberes fundamentados e debatidos, algo que inevitavelmente redundou em diferentes correntes de pensamento e metodologias. O saber hipocrático serviu de base de sustentação do debate desta fase histórica da ciência médica. No entanto, apenas podemos reconstruir as teorias médicas subsequentes ao tempo de Hipócrates através de notícias bastante posteriores à elaboração das mesmas. O facto de as fontes não serem contemporâneas dos acontecimentos levanta dúvidas sobre a consistência e exatidão das mesmas, até porque muitas vezes se baseiam em tradições e não tanto em dados factuais. Porém, todas elas tendem a coincidir em algo de forma inequívoca, pelo menos durante os séculos III e II a.C., a Alexandria ptolemaica, capital do reino Helenístico do Egipto antigo, foi o epicentro do debate e exercício científico.44 As notícias sobre a cidade egípcia tendem a gerar a ideia de um lugar ideal para os cientistas da antiguidade. No entanto, haverá que notar que esta não seria a realidade, ainda que seja uma ideia tentadora para o debate científico universal considerar um lugar idílico sem preconceitos e dogmas, onde se conjugariam perspetivas abertas e analíticas com todos os tipos de áreas de conhecimento. Alexandria seria uma cidade ‘do seu tempo’, sujeita a todas as limitações da sociedade e culturas que alojava, ainda que se distinguisse pelo empreendedorismo cultural e científico comparativamente a outros grandes centros cívicos. Apesar de as notícias serem fragmentadas, é possível identificar algumas das linhas orientadoras básicas das mais célebres academias através da informação legada por autores que tiveram contacto com as obras inspiradas nas diferentes escolas médicas. As principais correntes de que temos conhecimento seriam a dogmática e a empírica. Os médicos designados por dogmáticos seguiam uma linha especulativa sobre as causas da doença, favorecendo a ideia do desequilíbrio como fonte do problema e ao mesmo tempo como forma de promover o tratamento eliminando a raiz do mal-estar. Haverá que notar que a pobre definição que aqui apresentamos não se deve apenas ao caráter introdutório e, por isso, sucinto deste texto. Na verdade, sabe-se muito pouco de concreto sobre esta escola, até porque as definições que nos foram legadas pelos autores antigos além de pouco esclarecedoras sobre a conceção desta ‘corrente de pensamento’, tendencialmente não coincidem na caracterização desta. De facto, não chega a ser evidente tratar-se realmente de uma linha de pensamento científico ou de uma abordagem metodológica, mais dependente do médico que a praticava, do que de uma doutrina preestabelecida. 44 Sobre Alexandria como centro de inovação científica nas áreas da anatomia e processos de experimentação e estudo, vide Nutton 2004, pp. 128-139. 45 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno Já os médicos empíricos seguiam uma escola de pensamento mais claramente definida e que parece ter sido apresentada por oposição aos dogmáticos. Estes rejeitavam a demasiadamente elevada ênfase ‘nas causas’ em favor da comparação com outros casos patológicos, baseando-se dessa forma em terapias e intervenções que tivessem tido sucesso em casos semelhantes. Estes representariam uma espécie de fusão entre o conhecimento tradicional e a revisão do mesmo através da experimentação e comparação. Apesar de o corpus hipocrático ser uma fonte de saber importante e provavelmente ‘a referência médica’ neste período, a teoria dos quatro humores de Hipócrates esteve longe de ser a dominante.45 Este fenómeno não se deverá a um possível descrédito dado a Hipócrates, mas antes ao extenso e abrangente saber que a conquista de Alexandre Magno possibilitou, através dos intercâmbios culturais e, claro está, tradições e saberes científicos das várias regiões do império. Erasístrato de Alexandria, por exemplo, desenvolveu um entendimento ‘mecânico’ do corpo humano, talvez partindo de princípios da ciência que lhe era contemporânea. Não nos é possível saber até que ponto as teorias médicas dos territórios conquistados foram assimiladas ou tidas em conta pelos antigos sábios gregos. No entanto, é factual que além dos novos debates e revisões críticas de saberes postulados, passaram a ser acessíveis novas plantas, minerais e animais tanto do espaço asiático como da África oriental, o que terá favorecido novas perspetivas sobre as ciências naturais. Aparentemente, com a expansão do conceito de polis helenística terá havido uma certa homogeneização no que refere à integração da ciência médica na sociedade de então. Isto porque existem notícias marcando um exercício semelhante por parte dos médicos na vida pública das cidades ao longo de todo o espaço do Mediterrâneo oriental. Fazemos esta afirmação tendo em conta a realização de seminários médicos públicos, a presença de médicos em festivais, a existência de médicos municipais treinados em escolas médicas, determinadas regalias detidas pelos médicos de diferentes espaços políticos e geográficos do Mediterrâneo e as notícias de estímulos públicos para o estabelicimento destes profissionais em determinadas cidades.46 A Magna Grécia deixou de ser o centro do estudo da medicina, passando esse lugar a ser ocupado pelas cortes dos monarcas helenísticos, os grandes patronos da ciência de então. A corte ptolemaica terá sido o expoente máximo do patrocínio das ciências ao providenciar os dois principais centros de saber da antiguidade: o Museu e a Biblioteca de Alexandria.47 Este interesse por parte dos monarcas alexandrinos 45 BNP, vol.8, pp.577-8. 46 cf. I. Cret. IV 168, 218 b.c.; IG XIII, 1032, c. 200 b.c.; cf. IGXII i, 1032, line 10-15; Xenofonte, Mem. IV 2.5; (op. cit. Horstmanshoff 1990). Vide BNP, vol.8, pp. 577-8 47 Sobre a Alexandria helenística enquanto centro tradicional do saber, vide Harris, Ruffini (eds.) 2004. 46 I. A medicina na Antiguidade gerou grandes oportunidades para os médicos que aí se dirigiam a partir de todo o mundo grego e, mais tarde, romano. Nomes como Herófilo ou Erasístrato de Alexandria (c. 280 a.C.) desenvolveram aí estudos avançados em anatomia e provavelmente colaboraram na introdução da dissecação e a vivissecção na ciência médica de então. Possivelmente, a atividade destes médicos terá constituído um padrão seguido por outros profissionais e estudiosos, embora não existam provas inequívocas de que estas práticas se tivessem estendido a outras regiões e fossem divulgadas e desenvolvidas por outros médicos da bacia do Mar Mediterrâneo. Ainda assim, a ausência de dados não prova o seu contrário, pois a ideia de que o período histórico destes sábios e a sua localização foram os limites para a investigação da anatomia ou ensaios com base em seres humanos pode ser baseada em suposições erradas. Nutton (2004, p. 128), autor que nos serve de principal guia para esta breve introdução, inclina-se para o isolamento científico de Alexandria do século III a.C., no que às técnicas de estudo da anatomia dizia respeito. Consequentemente tende a considerar que a morte dos seus praticantes culminou também no grande hiato para o avanço destes estudos e práticas, mais tarde reavivadas,já no século II d.C. (Nutton 2004, pp. 212 -15). Porém, parece-nos que estas considerações se baseiam principalmente na ausência de fontes e não tanto em informações que confirmem um ocaso de quatro séculos. Seja como for, o período helenístico culminou numa importante evolução de várias ciências como por exemplo, a cirurgia, ajudada também pelo desenvolvimento de novos instrumentos e técnicas. Nesse sentido, também a farmacologia sofreu importantes incrementos, pelas novas matérias primas e pela confluência de experiências e debates gerados neste espaço dedicado ao saber e inquirição (Scarborough 2012, pp. 7-18).48 48 Sobre a medicina helenística, vide também Nutton 2004, pp. 140-156. 47 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 1.4. O lugar da ciência médica no Império Romano 1.4.1. a magna grécia e a roma republicana49 A influência grega na cultura romana fez-se sentir desde muito cedo, prova- velmente desde a fundação de Roma (c. VIII a.C.). A presença de colónias gregas na península itálica, anteriores inclusive ao periodo tradicional da fundação da cidade de Roma, e o importante impacto que a cultura etrusca viria a ter na elite cultural romana foram decisivas na criação da linha tradicional de pensamento científico, ainda que fundida no pragmatismo do povo da cidade das sete colinas. A prática médica entre os Etruscos não é sobejamente conhecida, resumindo- -se às noticias do I século a.C. de alguns nomes de médicos oriundos daquela região.50 Na verdade, para além da parca informação contida nas dispersas e tardias notícias desse género, pouco ou nada se sabe das práticas médicas dos povos autóctones da Península Itálica, pelo que existe a tendência de partir do princípio de que a influência médica das colónias gregas e dos seus iatroi se faria sentir de uma maneira geral por toda a Península Itálica, de acordo com aquilo que seria a presença cultural helénica. Apesar dos poucos dados que nos chegaram das práticas médicas propriamente ditas, alguns textos de autores da República romana denotam alguma da tradição em voga nas prescrições de determinados remédios para certos males. No entanto, é difícil enquadrar obras como o Res rustica de Varrão no contexto científico da tradição médica grega, dado que aparecem sob a forma de conselhos dogmáticos sem grande informação a propósito das fontes desse saber. Nesse sentido, na maioria das vezes não fica claro se a informação tem origem na tradição popular ou se se baseia em algum tratado médico ou teoria corrente à época. A propósito, caberá notar que o conceito de medicina terapêutica na antiguidade não obedeceu a critérios uniformes, dependentes de cultura, clima, região ou organização política. Na verdade, o próprio ‘saber medicinal’ teve mais a instrução prática e a tradição por base do que o conhecimento empírico submetido à reflexão e ao ensaio crítico. Isto porque o conhecimento médico e as instruções patentes na literatura do género não representam necessariamente uma prática estrita a estes saberes e generalizada por todo espaço da Península Itálica. De momento, a dificuldade em reconhecer a realidade prática nos ditos tratados prende-se com os dispersos achados arqueológicos, pouco válidos para a identificação de 49 Sobre o exercício médico no período romano, vide Scarborough 1970. 50 Sobre o impacto da medicina grega na Roma republicana, vide Nutton 2004, pp. 157-170. 48 I. A medicina na Antiguidade intervenções médicas ilustradas nos referidos textos (cf. Var. R. 1.69.2.1-69.4). À parte dos instrumentos que foram surgindo em sítios arqueológicos por todo o Mediterrâneo, as provas de estudos anatómicos ou conceção de fármacos são parcas, para não dizer praticamente inexistentes.51 Este é um dos principais motivos pelos quais o estudo profundo dos textos de caráter médico se torna imperativo, pois só através das pistas que estes nos dão poderemos compreender o alcance do conhecimento transmitido no ensino, na formação e no exercício da medicina. Isto é, em que medida este saber seria extensível a toda a classe médica. Poderia um médico de Roma, formado segundo os critérios científicos da antiguidade, ser equiparável quanto ao seu conhecimento básico a qualquer outro médico na extensão do império ou mesmo a algum colega que fosse inclusive do seu próprio bairro? Esta é uma pergunta cuja resposta mais óbvia é um ‘não redondo’. Porém, a consistência dos escritos e a evidência de que muitos dos autores conheciam o trabalho dos seus antecessores e mesmo dos seus contemporâneos provoca uma dúvida suficientemente marcada para aplicar reservas ao referido ‘não redondo’. Dentro do contexto referido, tal conhecimento poderia registar-se simplesmente através das receitas de fármacos com um determinado tipo de efeito, fosse para os humanos, fosse para os animais domésticos: Vbi uuae uariae coeperint fieri, bubus medicamentum dato quotannis, uti ualeant. pellem anguinam ubi uideris, tollito et condito: ne quaeras cum opus siet. eam pellem et far et salem et serpullum, haec omnia una conterito cum uino, dato bubus bibant omnibus. (Cato 73.1-4) “Quando as várias uvas começarem a mudar, dá medicação ao gado todos os anos, para que esteja saudável. Quando encontres pele de cobra, apanha-a e guarda-a, para que não a procures quando seja necessária. Essa pele (juntamente com) espelta, sal e tomilho, tudo macerado com vinho, dá-o de beber a todo o gado.”52 Este exemplo de Catão, a que poderiam acrescentar-se outros passos do mesmo autor ou de outros agrónomos latinos, foi bastante comum e corresponderia à forma mais imediata de divulgação e questionamento da ciência médica tradicional antiga. Este saber empírico algo popular não implicaria o auxílio de um médico, pelo que se faria acessível e prático a todos quantos tivessem contacto com este género de receita. Este tipo de textos apresentados como ‘manual’ ou ‘instrução’ poderia muitas vezes enquadrar-se dentro da literatura cujo objetivo seria a utilidade prática, conjugada com o conhecimento do mundo natural. Por tal, terá sido recorrente a divulgação 51 Para uma visão geral sobre a arqueologia da medicina greco-romana, vide Baker 2013. 52 Espelta, Triticum spelta L. Tomilho, Thymus sp. 49 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno de saberes de caráter médico sob a forma de enciclopédia. A propósito e nesse sentido, a História Natural de Plínio (cf. Plin. Nat. 29.6.12-21) seria o maior exemplo desse enciclopedismo utilitário. Em grande medida, o enquadramento de instruções médicas nestes textos pretenderia a divulgação de uma medicina doméstica, como fosse esta mais um saber entre outros para aplicação no quotidiano e em situações perfeitamente identificáveis e enquadráveis nas descrições feitas por autores como Catão-o-Antigo ou Plínio. Ora, aparentemente a abordagem romana tradicional, transmitida pela literatura, não parece estar muito de acordo com o saber médico grego. De resto, esta perspetiva estaria em perfeita harmonia com aquilo que era a crítica à influência helenística, segundo a posição dos cultores dos valores tradicionais romanos (mos maiorum), avessa ao pragmatismo e intelectualmente e moralmente corrupta. Catão-o-Antigo terá sido um dos expoentes máximos desta perspetiva pró- tradicional e anti-helenista, que teve uma certa continuidade nas obras de Varrão ou Plínio-o-Velho, onde as receitas médicas surgem como notas enciclopédicas úteis. Plínio crítica a adoção das práticas estrangeiras e os procedimentos dos médicos gregos, que encontrariam na cidade de Roma um autêntico setor de mercado em constante expansão e desmesuradamente aberto ao comércio global (cf. Plin. Nat. 29.5.6–11). As críticas do enciclopedista antigo teriam provavelmente fundamento real, pois seguramente haveria muitos charlatães inventando as mais mirabolantes teorias de modo a venderem um produto que se destacasse do dos demais (Nutton 2004, pp.187-9). Já Catão, não se estendendo em demasia,acaba por considerar a validade do trabalho médico ao notar que é importante ter alguns serviços disponíveis nos arredores da sua quinta, referindo a utilidade de ter um médico, já que poderia ser necessário o tratamento de algum dos membros da família ou de algum trabalhador (Cato 1.16.4.1-5). No entanto, estas notícias não chegam a ser suficientes para reconstruir um saber médico concreto e catalogável tal e qual seria exercido no seio da Roma republicana. Isto porque os dados literários são claramente seletos na informação transmitida e parece-nos difícil que, havendo a proximidade de tantas colónias gregas, o recurso aos iatroi não fosse recorrente. Dada a eficácia destes, em contexto antigo, não nos parece concebível que o pragmatismo romano não fosse listo em aproveitar tais serviços.53 E a notícia da atribuição de privilégios de cidadania e lugar para exercício de atividade àquele que teria sido o primeiro médico (medicus) grego em Roma (219 a.C.) dá conta desse facto, ainda que seja questionável.54 Não sabemos até que ponto tal exercício se faria a expensas públicas e quantos seriam os médicos a exercer oficialmente em Roma, mas é possível que 53 Sobre a língua grega na ciência médica latina, vide Langslow 2000, pp.76-129. Vejam-se as notícias da medicina como atividade económica em Cic.off. 1.42. 54 Cf. Cassius Hermina, fr. 26 Peter; BNP, vol.8, pp. 577-9. 50 I. A medicina na Antiguidade a proporção fosse equivalente à de outras cidades gregas da Península Itálica, ainda que a posição da elite cultural da República pareça indiciar o contrário. O status social da arte médica na Roma imperial seria aparentemente baixo no que à reverência da atividade diz respeito. Isto porque na sua maioria os médicos tinham nomes gregos, sendo ou libertos ou escravos, mesmo após a concessão de cidadania por parte de Júlio César a todos os médicos de Roma e tendo em conta o elogio de Cícero às artes médicas na sua obra De Officis (1.42.151). Contudo, os comentários negativos da aristocracia romana para com o saber de origem grega levam a crer que estes preferiam o saber tradicional e a instrução deixada pelos sábios romanos, como fossem Varrão ou Catão- o-Antigo, transmitidos na literatura latina, principalmente sobre a forma de instrução farmacológica (Hillman 2004). Apesar das grandes tensões políticas e sociais do final da República e do início do Império, alguns dos aspetos da sociedade e do saber romano fazem-se mais claros para a historiografia, muito provavelmente pela maior quantidade de notícias deste período, em proporção com os dois séculos anteriores. Talvez por isso as referências às duas teorias médicas passíveis de serem associadas a gregos a trabalhar no espaço romano se reportem a este período. Uma dessas correntes seria defendida pela escola dos Pneumatistas, fundada por Ateneu de Ataleia e que partia da teoria humoral hipocrática e impunha sobre esta o conceito de pneuma como o elemento com a capacidade de regular e organizar o restante sistema biológico humano (BNP, vol.8, pp.577-8). A outra escola, da qual temos substancialmente mais informação, seria a dos Metodistas (século I. d.C.), cujos principais interpretes dos seus ensinamentos seriam Tessalo de Trales, Temison de Laodiceia e subsequentemente Asclepíades da Bitínia (princípios do século I a.C.) (BNP, vol.8, pp.577-8). Este último terá gozado de grande reputação, tendo tratado muitos senadores romanos. A teoria de Asclepíades corresponderia a uma combinação do Atomismo com a mecânica ensinada por Erístrato, tendo obtido considerável sucesso, particularmente na reformulação simplificada de Tessalo, e terá sido reconhecida até ao final do século IV, atendendo às notícias que nos chegaram. Esta teoria enfatizava a necessidade de tratar não só os sintomas, mas também as causas da doença. Partindo do princípio de um universo atomista, os praticantes destas buscavam uma correlação simples entre os sintomas observáveis e as suas causas, procedendo a tratamentos alopáticos (BNP, vol.8, pp.801-2). Ambas as escolas marcaram o pensamento médico do período imperial, ainda que a defesa e o debate das escolas se tenham aparentemente diluído no ecletismo pragmático dos médicos do Império. Todavia, esta elação algo genérica baseia-se nos poucos autores médicos cuja obra chegou aos nossos dias, não tendo nós uma noção real do debate dedicado à ciência médica durante o período imperial; a não ser, claro está, através das notícias transmitidas pelo diálogo científico do próprio Galeno de Pérgamo. 51 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 1.4.2. A Roma Imperial e a nova expansão da prática médica grega O Império Romano estendeu-se por toda a bacia do Mediterrâneo e com o domínio territorial deu-se uma certa globalização cultural e transversalidade do saber médico.55 A medicina grega, quer fosse praticada por gregos, por pessoas com nomes gregos ou por apoiantes de teorias de determinados sábios helénicos, chegou a todas as partes do império, criando um autêntico mercado da saúde pelo qual competiam médicos, artesãos de equipamento médico, lugares de peregrinação e até cidades. Dentro do corpo médico haveria profissionais especializados em doenças ou partes do corpo56: oftalmólogos, farmacêuticos, cirurgiões, especialistas em enfermidades femininas (ginecologia), veterinários (cf. Var. R. 2.7.16.1-5), artesãos, etc. O status quo dos archiatri57 variaria consoante a região, o seu estrato social original, a fama que tivessem obtido no exercício da arte, a escola médica que professassem, o lugar onde exercessem a atividade ou os pacientes ‘tipo’ que tratassem. Obviamente, os médicos da família imperial ou de senadores usufruiriam de maiores rendimentos e prestígio do que um simples médico de província ou um médico de escravos, ou mesmo um escravo médico. Todavia, não sabemos até que ponto poderia existir uma verdadeira diferença qualitativa no saber de todos os profissionais dedicados à medicina. Em algumas das províncias, principalmente as correspondentes a antigos reinos helenísticos, a situação assemelhar-se-ia um pouco ao período antecedente do império romano. No entanto, desta feita alguns dos médicos de famílias com tradição ou de escolas proeminentes poderiam emigrar para os grandes centros urbanos mais próximos de Roma ou para a própria Roma, como o próprio Galeno, de modo a obter sustento através de um saber especializado. Não obstante, a profissão médica também floresceu em outras grandes cidades mais distantes do coração do império, como Éfeso e Alexandria.58 Nesta última as grandes áreas da medicina continuaram em constante debate e estudo, além de que a situação privilegiada como grande porto do Mediterrâneo favorecia 55 Sobre a globalização potenciada pelo Império e o impacto na farmacologia, terapias e equipamentos e técnicas cirúrgicas, vide Nutton 2004, pp. 171-86. 56 A propósito de alguns achados arqueológicos de instrumentos médicos, vide Gilson 1983; vide também outros exemplos de instrumentos médicos encontrados perto de Roma em Nutton 2004, pp. 182-4. 57 O termo que identificaria estes médicos especialistas e profissionais. A propósito das atividades dos mesmos e do seu enquadramento na sociedade, vide Nutton 1977. 58 Para o desenvolvimento da profissão de médico no Império Romano, vide Fischer 1979. Vide Underwood (2018) a propósito das restribuições financeiras a médicos durante a antigui- dade tardia. 52 I. A medicina na Antiguidade a chegada de ideias e produtos, pelo que a farmacologia seria a área com um maior potencial de ganho. Apesar da situação privilegiada destes dois grandes centros cívicos, tais cidades não foram as únicas referências, além de Roma, para as práticas médicas no seio do império. Na verdade, existiria algo a que se poderia chamar de turismo médico, extensível a todos os espaços do império e que incluiria cidades, templos e outros complexos de edifícios de caráter ritual médico,fontes termais, fontes de água mineral às quais eram atribuídas propriedades medicinais e ainda espaços naturais tradicionalmente relacionados com atmosferas saudáveis e apaziguadores de espírito (Israelowich 2015, pp.110- 34). Salvo a isenção de impostos municipais e o acompanhamento dos acampamentos militares, o exercício da medicina deste período parece ter sido matéria do foro privado, com poucas intervenções ou suporte da parte do estado. Quer isto dizer terem sido raros os locais públicos dedicados ao seu exercício, pelo que, na sua maioria, os hospitais seriam aparentemente destinados a escravos, ou estariam inseridos em fortes ou grandes acampamentos militares onde haveria algum tipo de sistema médico organizado.59 Tome-se como exemplo de hospital as instalações militares encontradas no sítio arqueológico de Novaesium (c. 50 d.C., Neuss, Alemanha) para onde eram levados os doentes de modo a que lhes fossem prestados cuidados médicos diferenciados60 e que terá servido cerca de 5600 soldados cidadãos da 16ª legião romana (Nutton 2004, pp.178-81). Devemos acrescentar que os espaços dedicados ao culto religioso de divindades associadas à cura seriam também prolíferos em médicos, ainda que a existência destes complexos não fosse tão abundante quanto isso nas províncias romanas61 - tendo em conta a informação legada pela arqueologia. A ausência do estado nas matérias médicas redundaria na falta de controlo da qualidade da formação médica e dos socorros prestados, pelo que abundariam os charlatães e curandeiros que contribuiriam para uma certa descredibilização popular da atividade médica. A existência destes curandeiros significa que existiria mercado para os mesmos, pelo que superstição e ciência parecem ter convivido e até funcionado com uma certa complementaridade, tendo em conta as notícias deixadas pela literatura (cf. Col. 10.353-365). Isto mesmo depois de o Imperador Antonino Pio ter introduzido restrições baseadas na competência para o exercício da medicina (c. 150 d.C.), estando a seleção do pessoal médico (archiatros) a cargo do concelho local. No entanto, 59 Sobre um ‘sistema de cuidados sanitários’ associado ao exército Romano, vide Israelowich 2015, pp. 87-109. 60 Sobre algumas das enfermidades registadas na antiguidade, vide Nutton 2004, pp. 248- 272. 61 Sobre a relação medicina/religião no espaço do império romano, vide Nutton 2004, pp. 273-291. 53 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno as más práticas seriam inevitavelmente uma constante62, pelo que prevaleceria a querela entre o charlatão e o médico que haveria cumprido o curriculum tradicional e estaria preparado para um exercício profissional e ético, à luz dos valores científicos e morais dos sábios de então (Israelowich 2015, pp.11-43). Apesar do grau de descoberta ter sofrido um brusco abrandamento, o deba- te e o estudo científico helenístico não se esvaneceu com a formação do Império Romano. De facto, a discussão não terá de todo desaparecido, até pela inquirição necessária à instrução dos médicos.63 Por outro lado, há notícias de colégios e grupos de médicos em cidades como Tarso ou Benevento. Estes profissionais te- riam acesso a uma parte da literatura destas matérias em circulação no século II. De resto, Galeno seria um exemplo disso mesmo, dada a quantidade de autores que cita, comenta e critica, denotando um profundo conhecimento da literatura acessível à época. A dada altura a obra de Galeno passa a constituir o cânone de referência para o exercício e estudo da medicina, principalmente a partir do século IV d.C. A importância do autor não é equivalente no espaço grego e latino64, dado que assume mais relevância na parte oriental do império, não sendo tão influente na literatura latina que dava o primeiro plano à escola metodista.65 Note-se que a ciência médica era essencialmente definida como saber escrito através de tratados ou manuais, muitas vezes destinados àqueles que não tinham acesso a um medicus (BNP, vol.8, pp. 579-80). Por tal se justifica que, da mesma forma que a obra de Galeno e a de Hipócrates serviam de manuais para o saber medicinal, também autores como Catão-o-Antigo ou Plínio-o-Velho continuassem a servir de guias de saúde ao longo de toda a antiguidade tardia, como suportes à medicina de ‘autoajuda’ e até à veterinária.66 Portanto, é notório que a história da medicina antiga foi relatada pelos próprios médicos e teóricos que se dedicaram a este saber, tivessem eles em mente uma missão didática ou o debate científico.67 O derradeiro objetivo do médico romano seria a cura da enfermidade, fosse pelo benefício económico, pela empatia com ‘o outro’ ou pelo simples interesse científico. Por tal, a relação com o paciente, muito provavelmente semelhante para todos os profissionais médicos de então, seria uma peça fulcral para o diagnóstico, não tanto pelos sintomas aparentes, mas pelas causas ou 62 Para alguns contributos da epigrafia e numismática para a história da medicina, particu- larmente do século II, vide Benedum 1971. 63 A propósito do curriculum de estudos médicos no espaço do império, vide Marasco 2010, pp. 205-19 e Petit 2010, pp. 343-359. Para notícias legadas pelo próprio Galeno sobre este tema, vide López Férez 2010, pp. 361-399. 64 Sobre o corpus médico latino, vide Langslow 2000, pp. 41-75. 65 Sobre a escola metodista e as práticas dos seus seguidores no espaço imperial, vide Nutton 2004, pp. 187-201. 66 Cf. Col. 12.53.1. 67 Para um estudo da terminologia latina médica, vide Langslow 2000. 54 I. A medicina na Antiguidade historial que poderiam ter potenciado a enfermidade.68 A real relação médico/ paciente escapa-se-nos pela ausência de provas que não sejam fornecidas pela literatura médica ou pelos seus detratores. Mesmo essas notícias acabam por tender a identificar episódios circunstanciais, pelo que, para uma reconstrução do processo clínico desta época, resta-nos tomar como algo paradigmáticas as notícias transmitidas pelo mais celebre médico de então, Galeno de Pérgamo. 68 Vide Israelowich 2015, pp. 45-67. 55 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno II. Galeno de Pérgamo 2.1. Notas biográficas Galeno de Pérgamo (c. 129-216 d.C.) foi um dos mais profícuos estudiosos da Antiguidade e uma figura essencial na história da medicina ocidental. Apesar de, objetivamente, não ser possível a elaboração de uma biografia exaustiva e precisa de Galeno, haverá que notar a reduzida falta de tentativas comprometidas para a redação da mesma. O trabalho de Schlange-Schöningen (2001) é efetivamente uma das poucas e mais recentes exceções.69 Schlange-Schöningen dedica-se à personagem histórica de Galeno em função das peripécias descritas pelo próprio, porém enquadradas no contexto histórico, evitando cair no recurso exclusivo à obra do médico grego para a construção da sua biografia, como vem sendo recorrente nos estudos dedicados a Galeno. Não significa isto que Galeno seja de alguma forma ignorado, muito pelo contrário. No entanto, sucede que praticamente todos os dados biográficos partem da sua obra escrita e quase sempre são enquadrados no argumento da mesma, o que inevitavelmente cria a tendência de uma leitura da vida da personagem histórica em função da sua produção intelectual. Quatro séculos após o corpus hipocrático moldar definitivamente a medicina grega, estabelecendo um conjunto material contra o qual fosse possível ou reagir de forma favorável ou negativa, Galeno marca um novo momento fulcral na história da medicina. Através do exemplo, o autor grego impôs aos estudiosos que lhe sucederam a ideia daquilo que deveria ser a medicina, tendo a sua abordagem à ciência sido perpetuada por mais de um milénio (Nutton 2004, p. 216). O médico natural da cidade de Pérgamo terá vivido entre 129 e 210 d.C. e, ainda que de origem grega, passou grande parte da sua vida profissional em Roma, chegando a integrar a corte de Marco Aurélio como médico pessoal do imperadorromano (OCD, pp. 621-2).70 Deve notar-se, que entendemos como gregos todos os falantes nativos da lingua grega, cuja origem geográfica corresponderia ao espaço de antigas colónias gregas ou dos reinos helenísticos. O sucesso obtido enquanto médico dever-se-á em parte à auspiciosa origem de Galeno. Nascido no seio de uma família abastada na cidade de Pérgamo,71 espaço privilegiado para o estudo e com um importante lugar de 69 Sobre a vida e carreira de Galeno, vide também Nutton 2004, pp. 216-229. 70 Sobre a possível influência de Marco Aurélio na obra e pensamento de Galeno, vide Debru 2004. 71 Sobre a Pérgamo de Galeno, vide Pearcy 1985 56 II. Galeno de Pérgamo: culto a Asclépio,72 teria efetivamente um ambiente propício para a construção da carreira que o haveria de tornar célebre.73 Em boa verdade a importância de Pérgamo no ‘mapa médico’ do território imperial é um factor de grande relevo na carreira de Galeno, já que o complexo de culto ao deus da medicina seria um dos mais importantes do império, tendo sido patrocinado pelo próprio César. À data, apenas o templo de Asclépio em Epidauro o secundaria em tamanho e possivelmente em importância (vide Renberg 2006/2007). O pai de Galeno, Nícon, terá desempenhado um papel fulcral na educação humanística deste, uma vez que parece ter sido uma referência moral e intelectual. Tal está patente no afecto que Galeno parece ter nutrido por ele, conforme a constante referência textual à figura paternal. Nícon foi um homem de grande cultura, dado que terá sido um especialista experimentado em geometria, astronomia e arquitetura e parece ter também nutrido um especial gosto pela ciência natural e o ensaio, pois levou a cabo experiências com as suas plantações de modo a melhorar a qualidade das colheitas – isto por aquilo a que o próprio alude na sua obra escrita (cf. De alim. 6. 546.5; 6.552.1-15). Ainda que exista um largo debate acerca da personagem histórica de Nícon (Nutton 2005, p.217), há a ideia generalizada de que este teria obtido a cidadania romana, pelo que Galeno seria ele mesmo cidadão romano, ainda que em nenhum momento faça alusão a isso. Ora, este não é um dado de somenos importância, pois sendo cidadão romano, enquanto iatros ou medicus, Galeno teria uma receção positivamente diferente dos demais profissionais no seio da elite romana (vide supra). Algo que poderia ter contribuído para a sua popularidade enquanto sábio nas ciências médicas.74 Independentemente do seu status social dentro do império, Nícon teria grandes recursos económicos, de maneira que Galeno prosseguiu os seus estudos em Esmirna, Corinto e, finalmente, Alexandria. Além de que teve a oportunidade de estudar com sábios de Pérgamo como Escríon, Sátiro, Estratónico e Eficiano; e de Esmirna, como seja Pélops e ainda com toda a nata intelectual do grande centro do saber científico imperial na época: a Alexandria egípcia. Malogradamente, não se sabe muito dos seus professores, à parte de que estes professariam a medicina baseada nos preceitos hipocráticos e que teriam particular interesse na anatomia. Ainda que nos faltem informações sobre os saberes dos seus mestres, é inquestionável a preparação filosófica de Galeno, pois esta está impregnada quer na hermenêutica do seu pensamento escrito, quer nas estruturas das suas interrogações sobre as ciências naturais e empíricas. Além disso, só pelo treino 72 Sobre o culto Asclépio, vide Petsalis-Diomidis 2010. 73 Para um comentário mais elaborado debruçado na juventude e na educação de Galeno vide Schlange-Schöningen 2003, pp.61-99. 74 A propósito de Galeno e da sociedade do Império Romano vide Schlange-Schöningen 2003 pp. 291-306. 57 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno filosófico se explicaria o vasto saber que a obra deste exibe à luz da época em que terá vivido e tendo em conta as incontornáveis condicionantes técnicas e práticas. Por outro lado, o gosto pela filosofia em conjunto com as suas relações familiares poderão ter-lhe despertado uma especial sensibilidade para o saber humanístico e cuidado empático para com o padecimento humano, motor principal das artes médicas. E talvez por esse motivo tenha sido a medicina e os saberes que se lhe associam um dos seus principais objetos de estudo. Para além de um manifesto interesse pelos processos naturais, a empatia para com o padecimento dos demais, pode ter servido de estímulo para a ati- vidade do sábio de Pérgamo. Exemplo da manifesta humanidade de Galeno – especialmente se enquadrada numa sociedade antiga onde imperava aquilo a que hoje designaríamos por ‘terrível injustiça social’ – teria sido o, pelo menos aparente, sentimento de aversão tido por este para com a sua mãe. Tal atitude de reprovação está patente nos comentários à personalidade explosiva desta mulher, abusadora do marido e mal tratadora de escravos, pelo erro mais insignificante (cf. CMG 5. 40-50; Singer 1997, 107-8, 119-21; 6.755). O motor do empirismo de Galeno perante o universo e os seus constituintes processos naturais ter-se-á devido à formação filosófica que lhe é atribuída em Pérgamo, cidade de origem, complementada por uma estada educativa em Alexandria (c. 151-157 d.C.). Na sua cidade natal terá estudado com filósofos dos quatro principais setores de pensamento ocidental: estoicos, epicuristas, aristotélicos e platónicos. O contacto com estas doutrinas permitir-lhe-ia conhecer os debates e conflitos entre várias doutrinas, algo que seguramente lhe estimulou a dialética crítica e lhe potenciou a abordagem analítica à ciência. É na cidade egípcia de Alexandria que Galeno desenvolve o interesse pelos estudos anatómicos e cirúrgicos, muito provavelmente influenciado pelos mestres com quem teria contactado: Heracleano e Juliano de Alexandria.75 No entanto, é curiosa a pouca consideração pela cidade de Alexandria, registada nos seus escritos. O autor é por diversas vezes crítico severo da cidade e dos hábitos culturais e chega mesmo a considerar pedantes e entediantes alguns ensinamentos aí professados (Nutton 2005, p. 217). Não obstante as reticências para com a antiga capital do reino ptolemaico, o cosmopolitismo da cidade e o facto de ser o maior porto do mundo mediterrâneo tê-lo-ão posto em contacto com saberes que extravasariam o espaço da academia médica, e que Galeno, com a sua característica atitude observadora, saberia levar para o seu próprio campo de estudo. Tais saberes incluiriam os hábitos culturais de variados povos ou o contacto com diferentes tipos de ingredientes para potenciais fármacos, como fossem produtos minerais, vegetais e animais 75 Vide BNP vol.6, p. 155. 58 II. Galeno de Pérgamo: das várias partes do império e também do seu exterior.76 Além disso, Galeno terá também tido conhecimento das mais recentes técnicas cirúrgicas alexandrinas, o que explicaria o seu primeiro trabalho oficial depois do regresso a Pérgamo (c. 157), pois foi médico de uma tropa de gladiadores, cujo proprietário seria o sumo sacerdote da cidade (Mattern 2013, pp.81-98). Ora, o combate entre gladiadores gozava de grande popularidade por todo o império, servindo como adorno a festivais religiosos ou como benesse de campanha de políticos abastados. Nesse sentido, a boa saúde e a própria vida de um gladiador tinham grande valor económico, pelo que se disponibilizavam muitos recursos no cuidado destes atletas. Nesta tarefa, a função primária de Galeno consistiria em manter vivos os gladiadores após o combate, além de cuidar da sua dieta, sarar e fechar feridas – principalmente nos braços, coxas e nádegas – e supervisionar a sua saúde em geral. O médico grego ter-se-á destacado nestas funções, pois, segundo o próprio, apenas terão perecido dois gladiadores durante o período do seu primeiro exercício como médico, contrastando com o seu antecessor no mesmo cargo, que teria perdido 16 homens. O sucesso levá-lo-ia a ser reconduzido nas funções pelo sumo sacerdote seguinte e pelos seus trêssucessores (cf. CMG Suppl. 102-5).77 Apesar da popularidade de que terá gozado em Pérgamo, Galeno parte para Roma em 162 d.C.78 No entanto, e sem que os dados a propósito sejam de alguma maneira claros e esclarecedores, a verdade é que em 166 estava já de regresso à cidade Pérgamo para pouco tempo depois voltar a partir rumo à capital do império. Em 168 é chamado à Península Itálica pelos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero, quando estes preparavam uma campanha contra as tribos germânicas invasoras da região centro do Danúbio. Porém, uma vez regressado a Roma com o exército imperial, em consequência das cerimónias fúnebre de Lúcio Vero, acaba por abandonar a companhia do exército, ocupando-se da saúde do jovem e problemático filho de Marco Aurélio, Cómodo. Durante o período na corte, o médico grego ocupou-se dos seus escritos e do tratamento de inúmeros pacientes, ricos e pobres, escravos e cidadãos, vítimas dos devaneios assassinos de Cómodo e atletas lesionados (cf. CMG 5.10.2.494; 2.632.). O sábio de Pérgamo reclama não ter nunca cobrado pelas suas consultas e tão pouco ter-se feito pagar enquanto professor durante este período.79 Possivelmente terá permanecido em Roma até ao decurso da primeira década do século III, ainda que nesta fase a biografia do sábio de Pérgamo se 76 No âmbito da farmacologia do período imperial romano e do impacto do comércio das regiões mais orientais do império e extrafronteiras, vide Scarborough 1982, pp. 135-143. 77 A propósito do cuidado prestado a gladiadores por Galeno, vide Schlange-Schöningen 2003, pp. 101-137. 78 Sobre a primeira passagem de Galeno por Roma, vide Schlange-Schöningen 2003, pp. 139-172. 79 Sobre a segunda estadia de Galeno em Roma. vide Schlange-Schöningen 2003, pp. 173- 221. 59 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno torne difusa. De facto, apenas podem ser identificados esparsos acontecimentos e com datação problemática. Como nota Nutton (2004, p.226), alguns dos dados fornecidos pelo próprio Galeno são questionáveis, pois a dada altura, já avançado de idade, as notas biográficas deste poderiam confundir-se com leituras de outros autores. Nesse sentido, acaba por ser difícil considerar uma cronologia e lugar precisos para a velhice e morte de Galeno, pois as notícias são todas elas bastante tardias e pouco coincidentes. Apesar do variado conjunto de ciências a que se dedicou – como sejam filosofia, fisiologia, anatomia, cirurgia, teoria médica, terapia, farmacologia80 e estudos linguísticos (BNP vol.5, 654-61) –, foi na prática e na teorização da medicina que acabou por notabilizar-se, sendo nesta área uma referência incontornável até à época moderna (Durling 1961). A justificada fama dever-se-á à premissa a que, invariavelmente, os seus trabalhos e doutrinas se associavam: o homem e o seu bem-estar. A obra cujo primeiro livro aqui publicamos é disso manifesto exemplo. 2.2. A obra em contexto A Galeno podem atribuir-se, se não a inovação em determinadas metodologias e técnicas, pelo menos o feito de ter sido um dos primeiros a registá-las. Um desses exemplos é a escala de temperatura. Galeno é o primeiro autor a descrever um método de medição de temperatura pela comparação entre estados. Terá estabelecido aquilo que se poderia designar por temperatura neutra padrão ao juntar partes iguais de água a ferver e gelo. Tendo estabelecido assim o ‘estado nulo’, definiu a partir daí uma escala, acrescentando quatro graus de calor e quatro graus sobre esse ponto neutro. No entanto, o contributo direto de Galeno para a medição da temperatura acabou por se desvanecer, uma vez que o autor não descreveu ou desenvolveu um aparelho que pudesse pôr em prática os conceitos teóricos que expunha – isto partindo do principio de que não nos chegou notícia de tal objeto.81 Os ensinamentos de Galeno devem muito a um grande conjunto de predecessores – sejam médicos ou filósofos. A própria noção de ‘saúde’,82 enquanto produto de um equilíbrio entre influencias físicas opostas, poderia remontar pelo menos a Alcmeón de Crotona (c. VI-V a.C.) e ser subscrita por muitos dos autores hipocráticos anteriores a Galeno. Ora, Platão parte da física orgânica humana para 80 Para um estudo referente às práticas farmacológicas de Galeno, vide Touwaide 2012, pp. 19-62. 81 Sobre a medicina galénica, vide Nutton 2004, pp. 230-247. 82 Sobre a definição de saúde em Galeno vide Johnston 2006, pp.21-23. 60 II. Galeno de Pérgamo: a física cósmica para a relação de equilíbrio,83 já Aristóteles desenvolve o conceito de equilíbrio como μεσότης (mesotes), um estado intermédio ou equilibrado no qual cada órgão funcionaria adequadamente em função do equilíbrio e proporcionalidade dos elementos essenciais e seus constituintes: fogo, água, terra e ar. E como cada um dos elementos era caracterizado por diferentes qualidades, como húmido/ seco, quente/frio este conceito foi estendido a estas propriedades e materializado na interpretação dos vários tipos de bílis (Powell 2003, p. 11, vide também Tracy 1969, pp. 334-43). Esta abordagem predicadora de estados de equilíbrio tem vindo a ser recuperada pela medicina holística moderna, materializada em grande medida pela homeopatia amplamente praticada e publicitada nos dias de hoje, ainda que obedecendo a princípios orgânicos e anatómicos distintos e muitas vezes de fundamentação científica duvidosa. Apesar das várias referências da filosofia antiga e ciência natural passíveis de terem contribuído para o pensamento galénico, o corpus hipocrático foi o grande motor do pensamento e produção escrita do sábio de Pérgamo. De facto, tal é demonstrável pela própria obra escrita do autor. Entre c.170 e 190 d.C., além de outros estudos, Galeno ter-se-á dedicado à redação de comentários a 18 tratados hipocráticos, de maneira a aclarar os mesmos para os seus leitores, não se detendo de forma muito extensiva em análises críticas dos processos descritos. A falta de comentário crítico substancial a estes textos poderá indiciar a grande reverência e subordinação aos ensinamentos postulados pelo pensamento hipocrático. No entanto, não deve ser descartada a influência direta de outros ‘médicos’ na obra de Galeno, seja pelos mestres que Galeno foi encontrando, seja por autores que ouviu ou leu. Não é possível calcular com propriedade o impacto de outros pensadores na obra de Galeno, porque apenas conhecemos as leituras que ele próprio comenta, além de que muito raramente expressa de forma directa a coincidência do seu pensamento com a alguma instrução recebida de outro sábio ou corrente de pensamento. Obviamente, faz-nos falta ter acesso à biblioteca de Galeno.84 Quando nos referimos a uma biblioteca, imaginamos uma real ‘biblioteca física’ pejada de papiros ou pregaminhos que o autor pudesse consultar quando entendesse, independentemente dos autores citados por Galeno. Na verdade, imaginar essa biblioteca é um exercício teórico de grande valor para o entendimento do saber na antiguidade e da ciência de Galeno, sendo algo a que alguns autores contemporâneos se tem dedicado, numa tentativa de reconstrução arqueológica que, à falta de provas físicas e textos reais, obviamente ignoraria sempre aquilo que o próprio autor omite (Boudon-Millot 2008, pp. 7-18.) A intertextualidade é uma constante na obra de Galeno, porém 83 Sobre a obra de Platão na abordagem científica de Galeno, vide De Lacy 1972. Sobre a definição de saúde em Galeno vide Johnston 2006, pp.21-23. 84 Para a reconstrução da biblioteca de Galeno, vide Nutton 2009, pp.19-34. 61 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno esta intertextualidade não corresponde a uma informação linear passível de ser associada a um determinado autor antigo, para além daqueles que Galeno nomeia.85 O célebre filósofo de Pérgamo terá escrito na totalidade mais de 250 tratados de carácter médico, filosófico e filológico, todavia apenas se preservou aproximadamente um terso da obra supostamente lavradapelo autor. Destes tratados, uma grande porção está dedicada à anatomia, fisiologia e farmacologia.86 Muito provavelmente, a sobrevivência de tão grande e específico corpus dever-se-á ao constante recurso da medicina antiga e medieval às suas obras, pelo que seria mais comum a cópia e divulgação desses textos do que outros de carácter menos pragmático ou sem matéria médica de relevo. Recordamos que a obra de Galeno foi durante um milénio um dos principais compêndios, se não o maior, para a prática da medicina no espaço da bacia do Mediterrâneo antigo, com particular incidência no território bizantino, mesopotâmico e do Levante.87 Claro está que a marca deixada por Galeno na medicina ocidental não correspondeu em absoluto a inovações na ciência médica introduzidas por este. Na verdade, uma grande parte das ideias transmitidas não eram exclusivamente suas. Porém, a forma como este desenvolveu e descreveu essas mesmas teorias com frequentes comparações e considerações sobre determinadas técnicas ou metodologia científica e, por fim, o poder da sua capacidade analítica e expressão retórica impuseram a abordagem galénica na subsequente medicina em Bizâncio e próximo oriente, assim como ocidente medieval. Repare-se que a célebre a obra De Humani corporis fabrica (2a ed. 1551) do anatomista Andreas Vessalius (1514-1564) tem ainda a obra de galeno como uma das referências para o estudo da anatomia (Lamberg and Solinb 2002). No entanto, apesar da grande tradição assentada em textos galénicos, paradoxalmente, a reunião e compilação de manuscritos remonta apenas ao século XV,88 correspondendo não só a versões gregas, mas também a traduções em latim e ainda versões árabes e siríacas.89 Estas versões oriundas do próximo oriente remontariam a um cânone de 15 trabalhos traduzidos para língua árabe anterior ao século VI. Durante os séculos VII-X a maior parte dos seus trabalhos terão sido traduzidos para siríaco e árabe, dos quais é exemplo a obra de Hunayn 85 Ver também Singer 1997. 86 Para um estudo sobre os conhecimentos farmacológicos que precederam e influenciaram os estudos de Galeno, vide Fabricius 1972. 87 Sobre a medicina no Império Romano tardio, vide Nutton 2004, pp. 292-309. Sobre a medicina bizantina e dívida desta à tradição médica antiga, vide Temkin 1962 e também Allan 1988. 88 BNP Supplements I, vol.1, pp. 275-280. 89 Para um levantamento exaustivo de edições do corpus galénico, vide Fichtner 2011. 62 II. Galeno de Pérgamo: ibn Ishaq.90 A transição da filosofia e ciências naturais entre a antiguidade tardia e o período medieval europeu não foi de todo simples e natural, pelo que frequentemente a preservação dos tratados galénicos e o saber contido na obra do médico, datados no período imperial romano, é muitas vezes atribuído, aos grandes centros intelectuais muçulmanos, e donde teriam sido importadas a ciência com tradição na antiguidade e a própria ‘ciência nova’.91 Mais uma vez, Alexandria surge como um dos grandes baluartes do saber mediterrâneo (Pormann 2010, pp. 419-441) e principal ponto de distribuição de obras. Dado o caráter deste estudo e o extenso conjunto de tratados galénicos que abordam praticamente todas as questões do mundo natural92 e a sua relação com a saúde em debate nos séculos XI-XII, não nos deteremos em comentários a estes ou às teorias aí publicadas. Ainda que, efetivamente, o pensamento de Galeno apenas possa ser resumido a partir do conjunto da sua obra e da contextualização individual de cada um dos tratados, remetemos para futuras publicações e estudos dos tratados de Galeno a análise do saber que cada texto transporta em particular. 90 Vide Cooper 2016 e Overwien 2015. Para uma listagem completa das obras componentes do corpus galénico, vide BNP Supplements I, vol.1, pp. 275-280). Sobre traduções e edições sírias e árabes da obra galénica, vide Bergsträsser 1925, Bos & Tzvi, Langermann 2015 e Vagelpohl 2018. 91 A propósito, vide Jacquart 2004. 92 Sobre o conceito de natureza em Galeno, vide Jouanna 2002, pp. 287-311. 63 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno III. A ciência de Galeno no De alim. O esforço por questionar os fenómenos da natureza à luz de uma lógica aplicada ao estudo das ciências naturais é um fator recorrente no De alim. de Galeno. A busca pela pergunta correta e pela verdade que serviria de base à mesma conduziu o cientista de Pérgamo a um certo cuidado analítico e espírito crítico. Galeno tende a abordar o objeto de estudo medindo diversos fatores em correlação, pois não poucas vezes nota as sempre necessárias reticências relativamente àquilo que parece estar estabelecido, uma vez que um saber postulado se encontraria cristalizado por falta de inquirição geradora de uma verdade factual. Nesse sentido, a abordagem galénica aos problemas revela um espírito inquisitivo inerente à metodologia científica ao considerar cada elemento de uma dada experiência um motor de ação / reação em potência, cujo resultado é único. Portanto, quando um ensaio tem pessoas como objeto, também estas influem no resultado em função das suas características. “Ora, eu digo ‘para muitos’, cuidando não dizer ‘para todos’, porque é necessário aplicar-se critérios distintivos pelos quais as disposições daqueles que padecem de diarreia crónica serão identificadas.” (de alim. 6. 478.5-10) Neste caso, a experiência consiste em distinguir as várias causas que po- dem provocar o mesmo efeito em diferentes pacientes. Nesse sentido, um dado facto não implica necessariamente a mesma origem ou força motriz, pelo que é necessário inquirir-se sobre o que é o objeto em análise e qual é a sua com- posição (cf. de alim. 6. 478.10). Ou seja, cada elemento constituinte dos corpos e o contexto onde estes interagem são influentes, pelo que é pela análise das funções e relações de cada componente básico que se obtém a definição mais exata. Esta aproximação ao pormenor do objeto de estudo leva à extrapolação daquilo que é o resultado da experiência a partir da identificação e da dis- secação dos elementos básicos da matéria e da sua relação / função natural. Nesse sentido, o referencial para a análise necessita também de ser claramente concretizado, até para que as comparações entre objetos e sistemas em análise não sejam erróneas. É importante sublinhar que o estudo da natureza na antiguidade tem como principal base de sustento a comparação valorativa ou classificatória; isto pela falta de mecanismos técnicos analíticos precisos que pudessem por si só servir para caracterizar, medir e avaliar a experiência. Estes aspetos levam Galeno a repetir frequentemente a fórmula de análise a aplicar: 64 III. A ciência de Galeno no De alim. “(...) deve-se, desta forma e em cada ocasião, atentar naquilo que está a ser considerado, pois as coisas que são comparadas entre si foram alteradas apenas relativamente àquela circunstância especifica; uma vez que, quando misturadas, se compararam coisas que se diferenciam de si mesmas em muitos aspetos, assim como todas as coisas que foram particularmente consideradas sobre cada um deles.” (de alim. 6.490.1-10). Um dado objeto é esse mesmo objeto porque o seu percurso de existência assim o definiu. Portanto, um objeto concretiza-se em função do seu percurso, respeitando a seguinte função: f(x)= (O x T)/I.93 Este paradigma assenta sempre na mutabilidade das características de um objeto pelas interações e pelo tempo a que esteve sujeito às mesmas. De resto, este é o ponto de partida para o estudo global da matéria e da termodinâmica, à qual Galeno alude na discussão da transformação dos corpos sujeitos à temperatura, ainda que não aborde o assunto considerando a termodinâmica como um objeto representativo de um conceito científico em si mesmo. O autor expande o conselho ao alertar para o perigo do preconceito, pois os estados potenciais dependem de variáveis que transcendem a composição da experiência por diferentes e mutáveis elementos simples.Esses princípios mecânicos de influência transformadora poderiam incluir a atmosfera, o tempo cronológico, o clima, os hábitos culturais, a geografia, a condição física e o estado global dos corpos em interação, como seja a velhice e a juventude, cuja influência fisiológica é relevante em qualquer experiência. Veja-se como exemplo o comentário de Galeno relativo ao consumo do mel e ao preconceito gerado em torno das faculdades deste produto alimentar. (cf. de alim. 6.470.5-471.5) Galeno elenca um conjunto de fatores a ter em consideração na análise do efeito de determinado produto nas supostas disposições inatas do corpo humano, como sejam a atividade física, a cultura, as estações, os costumes, a natureza fisiológica e a idade. Dessa forma, marca o processo de transformação, pois produtos com características idênticas podem provocar diferentes reações em diferentes pessoas, exatamente por causa de fatores como os identificados nos seguintes passos: “Pois não é apropriado simplesmente dizer que os peixes das pedras são bem digeridos pela maior parte das pessoas, mas que existe gente que digere carne mais facilmente. Em vez disso, aqueles deviam definir o que cada grupo (de paciente) é.” (de alim. 6.172.1-10) ou 93 O = objeto em estudo; T= tempo transcorrido desde o primeiro momento de classificação do objeto até ao resultado final da experiência; I = interações). 65 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno “Ou seja, que a melicrate não limpa o estômago em todas as situações, nem um prato de lentilhas o congestiona, mas que existem algumas pessoas que, todavia, não sentem nenhum destes efeitos e até se deparam com o contrário;” (de alim. 6.458.10) Aqui o autor marca uma questão comentada ao longo de toda a obra, isto é, a diferente forma de reação do corpo humano, dependente de indivíduos, circunstâncias e propensão humoral. Portanto, é imperativa a análise global das circunstâncias à luz da individualidade de cada um dos seus elementos constituintes. Por tudo isto, podemos considerar que na sua globalidade, a decomposição das ideias sobre a matéria estabelece, de certa forma, um princípio de atuação científica de Galeno no De alim. E tal tem paralelo na metodologia epistemológica nas ciências modernas naturais no seu estado mais puro: a física e a química. De resto Galeno influiu por c. 1500 anos no pensamento bioquímico (Leicester 1961), sendo-lhe imputada autoridade neste saber. Resumindo, a análise e a experiência são essenciais para a conceptualização e o entendimento da natureza das coisas; ou seja a composição é o princípio básico da definição de algo. Uma coisa é tanto mais inteligível, quanto seja dividida e separada da matéria que lhe serve de base. “Ora, é a composição dos remédios (a fonte) para o entendimento de tais disposições e não propriamente o conhecimento dos remédios em si; isto é, sem conhecer de forma precisa as faculdades dos materiais usados, é impossível ajudar aqueles que deles necessitam, pois é necessário discutir as faculdades dos alimentos – tal como já foram discutidas as faculdades dos fármacos num outro espaço.” (de alim. 6. 478.10-479.5) Entenda-se que ao referir-se a remédios, o autor tem presente as características das substâncias que compõe os alimentos e que podem atuar como um conjunto ou individualmente nas funções orgânicas do corpo. Galeno acrescenta a isto o treino e a formação necessários para a obtenção do saber, pois o investigador deve insistir na busca do seu objetivo e no potenciamento da sua capacidade enquanto sábio, inquirindo o estabelecido e aprofundando o já conhecido. Ou seja, a confrontação com vários saberes e cenários é o princípio metodológico ideal (cf. de alim. 6.480.1-15.). Segundo Galeno, o estudo a partir do saber de outros sábios é insuficiente, se não for complementado pela insistência e investigação pessoal. O médico grego insiste particularmente neste aspeto em que, salientando também que o saber prévio possibilita uma melhor absorção de novas informações ou teo- rias. A experiência adquirida não é suficiente, pois as circunstâncias mutáveis alteram o objeto, pelo que há sempre alguma coisa a acrescentar ao saber 66 III. A ciência de Galeno no De alim. empírico (cf. de alim. 6.457.10-458.1). Da mesma forma, o princípio da insis- tência inquisitiva aumenta a atenção ao pormenor e favorece um maior cuidado e uma mais precisa contraposição entre características físicas dos alimentos e a consequência das mesmas para o metabolismo humano: “O conhecimento dessas propriedades é obtido com esforço, através de experiências por um largo período e pela natureza dos odores e sabores, cujas comidas em análise aparentam ter; e também através da consistência que adquiriram no que refere à viscosidade, à friabilidade e à porosidade; e também à solidez, à leveza e ao peso. Todas estas coisas levam ao entendimento, de tal modo que, ao chegar a um país estrangeiro e encontrando comida que nunca tinhas visto, terás um bom ponto de partida para o conhecimento das suas propriedades.” (de alim. 6.479.1-15) O autor estabelece o método analítico básico. Isto é, toda e qualquer matéria é analisável e deve ser considerada em função de todas as suas dimensões de ação / reação; no caso do uso da comida: odor, sabor, densidade, humidade, porosidade, massa e peso. 67 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 3.1. O debate científico e a intertextualidade Por tudo aquilo que já foi dito a propósito da abordagem científica de Galeno, entende-se como lógica a constante contraposição com outros autores antigos. Efetivamente essa é uma prática recorrente nos escritos do sábio de Pérgamo, quer seja para identificar o autor que antes tratou o assunto em debate e instruiu Galeno na sua própria conceção do problema, quer seja na crítica das ideias postuladas pela ‘comunidade científica’ ou geradas a partir do senso comum popular. Como não poderia deixar de ser, Hipócrates é presença constante nos comentários de Galeno, até porque, de uma maneira geral, a obra atribuída ao médico grego dá o mote para toda a discussão médica na antiguidade. Além disso, Galeno dedicou algumas das suas obras ao comentário e explicação de textos hipocráticos. Por esse motivo, de modo a justificar o seu próprio comentário sobre a dieta, Galeno lembra a obra do seu antecessor e comenta-a em função da autoria (cf. de alim. 6.473.5-474.5). No entanto, o sábio grego não se limita a comentar a atribuição correta de autoria a uma determinada obra ou a criticar determinado tema referido por algum autor. Galeno nota de certa forma o ‘estado da arte’ sobre o tema, nomeando aquele que seria o mais relevante autor e referência na antiguidade. Pode até dizer-se que Galeno leva a cabo um dos mais antigos levantamentos do estado de arte ‘científico’ conhecido. Existe, pois, um esforço em seguir ou pelo menos criar uma determinada linha de pensamento que sirva de ponto de partida ou suporte ao argumento da análise do objeto em questão. Neste caso é a ação dos alimentos na dieta humana (na sua globalidade) e a forma como cada elemento da comida atua sob o corpo humano. Contudo, não podemos deixar de notar que alguns dos comentários de Galeno relativamente a outros argumentos em voga têm por motor a retórica, que na mecânica de argumentação pela verdade tende por vezes à descontextualização de outros textos, de modo a construir uma teoria própria, seguindo um padrão comum à Segunda Sofística. Nesse sentido, é importante ter em atenção que o autor mais citado em De alim. é o próprio Galeno A crítica assume um papel importante na ciência galénica, ao assumir que não deve ser ignorado aquilo que já foi feito e tampouco podem ser ignoradas as lacunas deixadas ou a necessidade de atualizar o estudo. No de alim., Menesiteu é o principal alvo destes comentários (cf. de alim. 6.479.10-15), ainda que surjam outros nomes ao longo do texto. Veja-se como exemplo o comentário de Galeno68 III. A ciência de Galeno no De alim. à abordagem de Filótimo e Praxágoras94: “Filótimo acredita que um humor espesso, glutinoso e frio, a que ele próprio – assim como o seu mestre Praxágoras – chama ‘verde’, é gerado por todos os bolos de cevada. No entanto, isso não é assim, uma vez que a alfita nem tem viscosidade, tal como sucede com os granulados, nem valor nutricional. Porém, o bolo de cevada induziu-o em erro, ao ter sido mergulhado em vinho doce e siraion por bastante tempo – chama a estes bolos tripten, assim como o fazem os atenienses.” (de alim. 6.509.10-510.5) Existe uma leitura crítica que não visa de todo desacreditar um rival, mas antes promover um debate pela verdade ou, melhor dizendo, a verdade galénica. O médico grego faz uso do trabalho de outros cientistas como fonte, ao notar que o próprio Filótimo havia feito um levantamento de estudos, mas que apesar disso não lhe foi possível a correção devida, na medida em que ignorou questões de relevo. Algo que deveria ser evitado pelos investigadores seguidores do método mais acertado, ‘o científico’ (λογισμός, logismos, cf. de alim. 6.454.1-5). De facto, há um esforço notório de Galeno na apresentação do saber dos outros estudiosos de maneira a alimentar o debate (cf. de alim. 6.511.5-15; de alim. 6.510.15-511.5). A insistência e o estudo prévio são a chave não só para conceber a orientação da investigação a seguir, mas também para uma leitura eficaz dos dados recolhidos e para o desenvolvimento do ensaio experimental (cf. de alim. 6.454.15-455.1). O autor entende por ‘experiência’ (ἀπόδειξις) a observação pelo senso comum, ou seja, a definição através de um resultado que se vai fazendo sentir ao longo dos vários acontecimentos relativos a um mesmo tema. Tais critérios metodológicos implicam a negação do dogma, pelo que nem sempre um método funcional para um determinado caso é eficaz em outros casos de diferentes características e condições. É nesse sentido que Galeno justifica a crítica a outras doutrinas que procederiam a diferentes abordagens à matéria de estudo, como sejam os racionalistas e os empiristas (cf. de alim. 6.455.5-10). Galeno defendia o seu método científico como uma abordagem escolar com a sua assinatura (Brockmaan 2009). É por esse motivo que comenta frequentemente a coerência nos seus vários trabalhos, tentando ligá-los por um fio condutor comum – a ciência criteriosa –, e não repetindo explicações contidas noutros textos. Ao contrário, o célebre médico cria uma rede de referências infra texto e extratexto. Dessa forma, Galeno procura não romper a análise descritiva do objeto em estudo com comentários paralelos. O objetivo é não perder-se em comentários periféricos, mas ao mesmo tempo fundamentar o argumento de forma clara (cf. de alim. 6.458.5). 94 Praxágoras é frequentemente criticado quanto à doutrina e metodologia (Tieleman 2015). 69 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno O conhecimento não é construído em função de uma possível postulação absoluta, nem tampouco assumindo que mais tarde uma determinada descoberta será verificada como equívoca e consequentemente substituída por outra. A ciência contém em si o mote do debate, pelo que em cada estudo desenvolvido há uma certa abertura para a crítica e a análise externa, de modo a que a ‘verdade’ possa ser construída sob uma base sólida. Por esse motivo, por cada teoria ou estudo apresentados torna-se necessário ao cientista demonstrar a teoria pela apresentação de dados, processos de trabalho e um argumento que os relacione e explique. E é sobre estes elementos que é feita a crítica e não unicamente sobre o objeto final do ensaio. Nesse sentido, e salvaguardando as devidas distâncias culturais e técnicas, Galeno é o cientista por excelência, pois expõe-se à análise, ao apresentar os seus dados, as fontes, os métodos e os resultados finais. Finalmente, e posto isto, predispõe-se ao teste: “Tu podes testar a veracidade de toda a proposta que apresento aqui, ao ferver lentilhas ou repolho95 ou qualquer animal marinho, dos já indicados por mim, e depois dispor o cozinhado com azeite, garum e pimenta, e oferecer de beber a quem queiras, tal como uma dupla fervura de legumes. Então, constatarás que o intestino se move após o caldo, mas obstipa-se depois com a parte sólida.” (de alim. 6.462.1-5) Obviamente não podemos desconectar o saber e a metodologia de Galeno do seu tempo, pelo que não é transponível a conceptualização científica do autor de Pérgamo para a teoria científica moderna; até pela categorização a que tendencialmente estão sujeitos os diferentes campos da ciência dos dias de hoje. Todavia, existem certos elementos analíticos no pensamento científico de Galeno que correspondem, ou deveriam corresponder, às bases de fundamentação da ciência moderna. 95 Brassica oleracea L. (Página deixada propositadamente em branco) 71 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 3.2. A linguagem nos ensinamentos de Galeno – proposta para um estudo necessário Tem sido dado pouco relevo ao caráter técnico da linguagem e à expressão literária da retórica galénica – considerando a extensão da obra do autor helénico –, pelo que haveria muito a dizer a propósito. Dado o caráter desta publicação não nos imiscuiremos nestas questões, uma vez que, tendo em conta a extensão e a variedade da obra do autor, a amostra que aqui traduzimos não é representativa do legado galénico.96 Apesar de por si só o de alim. não reflectir a riqueza hermenêutica e linguística da obra galénica e de não ser propriamente imperativo o conhecimento da mesma para uma leitura superficial do tratado abordado neste estudo, haverá que notar que o estudo da mecânica de exposição de Galeno é relevante não só para um melhor entendimento global dos textos que compõem o corpus que lhe é atribuído e, consequentemente, uma mais clara abordagem crítica às linhas orientadoras e abalizadoras do seu pensamento; mas também para a perceção de questões particulares, levantadas em obras concretas e que têm impacto no entendimento global da história antiga, como sejam as variantes e variáveis da língua grega escrita em uso na época de Galeno (Lillo 2016). São disso exemplo as marcas tanto de ‘aticismos’, como da koine, nos escritos do médico de Pérgamo. Os dados linguísticos passíveis de serem obtidos de uma obra tão extensa favorecem também o estudo da língua grega desde um ponto de vista menos estruturalista e mais reivindicativo da língua enquanto organismo vivo e dinâmico, mais dependente de circunstâncias sociais e regionais. De certa forma, a submissão a estas variáveis põe em causa aquilo que para alguns especialistas marcaria uma representação clara dos dialetos gregos à luz de uma definição gramatical cerrada, que tanto os antigos gramáticos bizantinos, como os estudiosos modernos, postularam como exata. A propósito Vela Tejada (2015) nota o aticismo moderado de Galeno por comparação à obra de um autor quase coetâneo, Plutarco. Repare-se que o próprio sistema proposicional, que parece ser um dos mais importantes elementos de contraste entre o aticismo e a koine, acaba por revelar-se pouco definidor daquilo que se esperaria ser uma marcada tendência dialetal à época. Vela Tejada (2015) apresenta exemplos daquilo que parecem ser elementos de ‘ionismos’ e que não têm paralelo nas variantes áticas, pelo que estes dados colocam a análise crítica da linguagem de Galeno acima dos habituais critérios classificatórios restritivos. Isto porque a conceção de uma 96 A propósito da retórica na obra de Galeno, vide Boudon-Millot 2004. 72 III. A ciência de Galeno no De alim. língua ou dialetos uniformemente estruturados e cristalizados é bastante falível e corresponde a um certo prejuízo dos gramáticos antigos e de muitos estudiosos modernos dedicados ao estudo da língua grega, que obviamente apenas pode ser analisada pelo recurso à literatura sobrevivente. Note-se que não houve durante o séculoII algo a que se pudesse chamar normativa linguística, pelo que cada autor pode quase corresponder à representação de uma língua própria. A linguagem de expressão tem um profundo impacto semântico, pois implica um determinado contexto sociolinguístico e reflete possíveis influências escritas que, obviamente, terão impacto na mecânica de análise do objeto em estudo ou debate. A propósito, deve notar-se que o argumento deve grande dependência à língua de transmissão do mesmo, dado que a retórica é por sí um instrumento da ciência do médico de Pérgamo. Tanto autores anteriores e contemporâneos de Galeno, como correntes de pensamento a que este autor tivesse acesso, moldaram-lhe a produção escrita, ainda que seja difícil, para não dizer inexequível, perceber em que medida outros pensadores e autores poderiam ter influído no pensamento galénico. Por vezes, a linguagem de Galeno parece ser um tanto ou quanto ambígua, algo que deveria contrastar com a abordagem científica que requer objetividade para um melhor entendimento das matérias em debate. Reconhece-se a duplicidade de sentido que algumas análises de Galeno acarretam, não tanto por uma dissimulada ambiguidade, mas por aquilo que parece ser uma certa resistência do autor grego em postular dogmas, principalmente quando estão em causa ideias que lhe são transmitidas, pelo que deixa uma certa abertura à argumentação contraditória (Roselli 2015). A propósito podem lembrar-se como exemplos semelhantes os comentários de Galeno a certas matérias tratadas por Menesiteu no De alim. I. O autor critica algumas das informações deixadas por Menesiteu sobre determinados produtos alimentares, porém, ao construir o seu próprio argumento para validar a instrução que pretende legar, usa os mesmos pressupostos postulados por Menesiteu. O exemplo mais paradigmático deste uso é o comentário sobre o cereal zeia (vide infra, cap. 5.4). Por norma, a retórica do autor molda formalmente os tratados que elabora, mais ainda se em causa está um objeto concreto de estudo, carente de definição. Por tal existem paralelismos estruturais entre as várias obras de Galeno. De facto, comparando a organização do De alimentorum facultatibus ao De symptomatum differentiis pode identificar-se uma metodologia formal semelhante, que expõe o argumento por etapas e mecânicas comuns (Lara Nava 2015). Contudo, haverá que notar que tal não é transponível para toda a obra de Galeno, pelo que a forma não é necessariamente um critério para o estudo da obra galénica como um conjunto representativo do seu pensamento. Resumindo, a ciência constrói-se pela busca da verdade, seja essa mesma ciência o correspondente moderno, seja o princípio filosófico antigo. Por tal, o questionamento e a análise de cada elemento que componha o mundo natural em 73 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno ação carece de uma medição e catalogação de modo a que todas as variáveis em correlação possam ser devidamente entendidas e, consequentemente, explicadas. Por esse motivo se faz tão necessário o entendimento da semântica da obra de Galeno, pois só conhecendo o valor que o próprio autor dava às palavras, podemos chegar a entender de forma exata o seu saber sobre as ciências naturais e humanas e, ao mesmo tempo, compreender a mecânica epistemológica e didática da sua obra. O entendimento global da obra à luz da linguagem pode depois ser aplicado no estudo de obras galénicas que não sobreviveram à passagem do tempo, mas sobre as quais existem fragmentos transmitidos por outros autores (García Novo 2015). O texto que aqui tratamos dota-se de recursos estilísticos e estruturas formais que contribuem para a maior clareza de exposição e debate do objeto científico, salientando o diálogo mudo estabelecido por Galeno com o leitor, ao constantemente recordar as matérias abordadas previamente e ao conectar dados de modo a potenciar uma completa absorção da temática em estudo. Muitos destes recursos correspondem a estratégias retóricas, como seja a construção circular do argumento, de modo a que o objeto final esteja em direta relação com o estado inicial do paciente ou com o problema em questão. (Página deixada propositadamente em branco) 75 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 3.3. A metodologia e o contexto cultural no De alim.: o léxico A metodologia expositiva no de alim. não assenta na terminologia técnica associada à arte culinária ou aos vários pratos concebíveis e conhecidos à época, temas refletidos no Diaita de Galeno ou na obra de Apício.97 Antes, Galeno usa uma terminologia específica, sem que por isso se possa considerar técnica, ao analisar as propriedades dos alimentos básicos ou dos preparados simples que tenham um determinado resultado metabólico.98 Ao longo do processo de estudo descrito no referido texto, uma das dificuldades com as quais Galeno parece ter-se debatido terá sido a ausência de léxico especializado e cristalizado para o estudo das ciências naturais e médicas. Este problema é identificável em áreas desde a botânica, à mineralogia, da química, à anatomia. Um exemplo claro é o uso do termo γαστήρ (gaster) que tanto pode designar o sistema gástrico, como o estômago, os intestinos ou mesmo todo o sistema digestivo (cf. de alim. 6.460.10). Ora, isto não terá tanto que ver com o conhecimento anatómico do autor, mas antes com a ambiguidade presente no léxico grego em uso, que carece de terminologia concreta e precisa para cada órgão e para as suas funções características individuais. Obviamente, isto não quer dizer que não existisse vocabulário médico especializado e que este não fosse amplamente usado, porém, faltaria uniformidade no critério de uso e cristalização vocabular equivalente nas várias regiões de língua grega. Galeno acaba por ser o grande expoente antigo da lexicografia médica, pois atualizou muitos dos vocábulos de caráter científico. Mantendo as devidas distâncias relativas a contextos cultural e científico, não seria exagero considerar que a obra deste autor é a que mais se aproxima da semântica científica da atualidade (Cortés Gabaudan 2015, pp. 129-178). A propósito, se qualquer discussão, para Platão (cf. Phdr. 237B), ou qualquer ensino fundamentado, de acordo com Aristóteles (cf. Analytica posteriora 1.1.71a), deve começar com uma definição, para Galeno a construção da ‘definição’ do objeto de estudo é uma ferramenta recorrente e fulcral na exposição científica. Ainda assim e apesar da influência destes autores para a descrição do estudo dos fenómenos naturais, a 97 Sobre a terminologia dos alimentos e da culinária em Apício vide Johnson 2006. Sobre a obra culinária de Apício, vide Ornellas e Castro 2015. 98 Para uma análise do discurso de Galeno em função do debate sobre léxico e semântica, vide Sluiter 2010, pp. 25-52. 76 III. A ciência de Galeno no De alim. ambiguidade e a falta de precedentes generalizados limitaram o valor do léxico técnico quase até aos dias de hoje. 3.3.1. Os grãos99 O livro I do De alim. oferece alguns exemplos das dificuldades implícitas pela falta de léxico cristalizado, pois é frequente Galeno referir-se a determinado nome que varia consoante a região ou mesmo tradição popular, ao tentar atribuir um significado cerrado a determinada palavra através da adjetivação.100 Isto porque, possivelmente, dependendo do contexto geográfico e cultural do leitor, o substantivo usado poderia não corresponder de forma inequívoca ao objeto descrito, pelo que o autor considera ser necessário rebater ambiguidades. Ora, veja-se o seguinte passo: “(...) como consequência de cada um ter sido misturado de uma determinada forma a suficiente (ambiente de) calor, frio e também seco ou húmido, estes acabam por ser doces, ou pungentes, ou salinos, ou ácidos, ou mesmo traventos ou amargos. ‘Salino’ não tem um outro significado que não seja ‘salgado’, pois as mesmas características são identificadas em ambas as palavras; e a igual classe de ‘rijo’e ‘travento’ é designada de ‘adstringente’.” (de alim. 6.474.10-475.5) As palavras referentes ao sal são ἁλυκός (alykos) e ἁλμυρὸν (halmyron), respetivamente, sendo que a primeira corresponde ao mineral ‘sal’ e a segunda forma ao adjetivo qualificador. Efetivamente, a necessidade de explicar algo aparentemente óbvio residiria na variação lexical vigente no espaço grego. Havendo coincidência de sentido em nome e adjetivo, o autor relaciona-os de maneira a possibilitar a identificação e ao mesmo tempo potenciar uma definição. E procede da mesma maneira com as palavras στρυφνός (stryfnos) e αὐστηρός (austeros). No entanto, neste exemplo o autor usa dois adjetivos associáveis que classificam uma classe à qual designa por στύφον (styfon). Tal maneira de expor o argumento dever-se-á muito provavelmente à mecânica retórica de Galeno (vide supra). Note-se que, apesar de gramaticalmente o adjetivo e o substantivo serem facilmente distinguidos, neste tipo de tratados a linha que separa os dois géneros gramaticais é ténue. Algo frequentemente identificável na referência a propriedades de substâncias ou órgãos: 99 Para uma das referências literárias mais antigas ao processo de tratamento do grão após a colheita, vide Farmer Instruction ll.81-109 (Civil 1994). 100 Para uma descrição técnica dos cereais da região mediterrânea e mesopotâmica, vide van Zeist 1984 e Charles 1984. 77 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno (...) tal como não são nem tranquilizantes, nem diuréticos, nem geradores de qualquer disposição corporal do género: quente, frio, seco ou húmido.” (de alim. 6.469.1) Neste passo o termo οὖρον (ouron) traduzir-se-ia à letra por ‘propriedade de urina’, porém, considerámos que a referência do autor tem como objeto as capacidades diuréticas. Ou seja, em causa está a capacidade de facilitar a secreção de urina, pelo que se transforma o substantivo em propriedade ou adjetivo. Se transpuséssemos o fenómeno para a língua portuguesa, dir-se-ia algo como ‘urinável’. O autor identifica a ambiguidade inerente à variedade lexical. De facto, parece notar a questão ao considerar que objetos comentados quer por si, quer por outros autores, correspondem às mesmas coisas em determinados passos, onde aparecem por outras palavras. Obviamente, para um autor que pretende expor a informação da forma mais didática possível, isto redunda na necessidade de esclarecer o leitor sobre a referida ambiguidade; mesmo quando, por causa do contexto cultural em discussão, Galeno não tem certezas sobre os substantivos que aborda. No caso comentado acima, Galeno trata a relação entre o adjetivo e o nome do material, que poderia servir como identificador das características do produto, estando seguro do significado dos substantivos. Porém, no exemplo seguinte, o autor reconhece não estar seguro da origem da palavra, algo que tem profunda influência na possibilidade de proceder-se a uma definição categórica: “Entre os romanos, assim como entre todos aqueles sobre os quais estes governam, o pão mais puro é chamado de silignis e depois deste semidalis. Embora o semidalis seja um antigo nome grego, silignis não é grego; todavia, eu não consigo dar-lhe qualquer outro nome.” (de alim. 6.483.10-484.1) Independentemente da etimologia de σίλιγνις (silignis), da qual não nos ocuparemos, o autor considera ser estrangeiro o nome para um produto comum em uso num determinado círculo de falantes, no qual o próprio estaria inserido. Porém, vê-se incapaz de identificar um outro termo que seja autóctone. Em causa não está o debate sobre a origem da palavra, mas antes o conhecimento do seu significado etimológico e a sua conexão original com um determinado objeto. É nesse âmbito que surge a discussão mais problemática do livro I do de alim. a distinção entre o grupo de cereais olyra, tife e zeia, dos quais se destaca a zeia, como o grão mais difícil de identificar.101 “Ora, é de admirar que aquele que reuniu a obra hipocrática intitulada Sobre a dieta, qualquer que tenha sido o autor, nem sequer mencionou a zeia. Uma vez 101 Sobre esta discussão, vide Wilkins 2005. 78 III. A ciência de Galeno no De alim. que, mesmo acreditando que a tife é chamada de zeia por algumas pessoas, ele devia tê-lo referido.” (de alim. 6.511.5-15) Neste passo o autor justifica a necessidade de debater sobre as designações de dois produtos, dado que são essenciais para a identificação perfeita do objeto em causa. Até como forma de definir um nome comummente aceite e que depois pudesse abranger todos os demais. Note-se que, a própria existência da zeia enquanto um cereal real é questionável, dado que o autor inclina-se para um juízo avesso a isso, tendendo a julgar que o vocábulo em causa designa um objeto usualmente chamado de outras formas. A dúvida relaciona-se com outros dois substantivos que designam, à partida, dois cereais diferentes, a olyra e a tife. Os três substantivos são comentados paralelamente ao longo do de alim.: “No entanto, (aqui) é mencionado um grão particular, a olyra, da mesma maneira que também a tife o é. Porém, Menesiteu diz que os dois nomes se referem a um único grão, quando escreve isto: ‘então, de entre as sementes, a cevada e o trigo são os mais adequados enquanto alimento, depois destes segue aquela que se designa de duas formas, embora seja a mesma coisa. Alguns chamam-lhe tife e outros olyra.’” (de alim. 6.512.5-15; cf. 6.511.15- 512.1, 6.522.5-522.10) Portanto, segundo Galeno, Menesiteu parece também não saber distinguir os dois cereais, pelo menos no que à designação diz respeito. Ou seja, dando conta de uma dificuldade de Menesiteu em distinguir os dois grãos, Galeno nota um problema generalizado, que os autores antigos resolveriam através de exposições ambíguas e abertas à interpretação. A variabilidade de usos que os grãos podem ter em diferentes espaços geográficos pode ser uma das causas na origem do enigma. Tampouco deve ser ignorada a questão cultural e a variedade de possíveis aplicações de um determinado cereal numa região tão vasta e plural. Diferentes usos poderiam perfeitamente gerar diferentes designações, mesmo quando está em causa o mesmo grão. A propósito de um outro grão (grão-de-bico), Galeno comenta a variedade de aplicações e explica o significado do adjetivo πολύχρηστος (polychrestos, polifacetado): “Sabemos ser esta semente polifacetada no estrito significado da palavra ‘po- lifacetada’. Pois é desta forma que nos referimos ao que é apropriado para numerosas condições do corpo e também àquilo que é útil para a gente, ainda que necessitem destes para uma aplicação concreta.” (de alim. 6.534-5-10) Portanto, trata-se de algo que pode ser utilizado e visto sob várias perspetivas, ‘algo que tem muitas utilidades’. Esta característica poderia perfeitamente ser reconhecida em outros grãos e, em outros casos que não o 79 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno do grão-de-bico, provocar uma variação do nome em função da sua aplicação. Nesse âmbito, veja-se também o seguinte comentário de Galeno a propósito de outras leguminosas: “O nome dolichos102 foi descrito em Diocles, juntamente com os nomes de outras sementes que nos servem de alimento; e também no Sobre a dieta de Hipócrates, acerca do qual eu já antes discuti. Ora, julgo referirem-se à semente da planta cultivada, que atualmente é nomeada de duas formas por muita gente e no plural. Pois alguns chamam-nas loboi, enquanto outros phaseoloi103, gerando uma palavra de quatro sílabas e, dessa forma, fazendo um nome diferente de phaselos104, que tem três. Alguns argumentam que phaselos é o mesmo que lathyros105, mas outros dizem ser uma variante deste.” (de alim. 6.541.15-542.5) Este comentário encaixa-se no perfil do problema que comentámos acima. Dependendo dos falantes, os vários vocábulos podem referir-se ao mesmo produto; por outro lado, a mesma palavra pode identificar diferentes leguminosas. Neste caso concreto dolichos, loboi,phaseoloi designam todos o mesmo género de produto: legumes que crescem com vagem. Porém, por vezes podem servir como identificadores genéricos que, em determinado contexto concretizam um produto de forma exclusiva. Os motivos para tal sucesso nem sempre são claros, e Galeno tampouco os esclarece. Podemos admitir que o uso de vocábulos genéricos para designar de forma exclusiva um único produto poderia depender dos seguintes fatores: a) o produto designado era o único consumido nessa região, pelo que não haveria ambiguidade; b) outros produtos do género poderiam ter nomes concretos, pelo que tam- pouco haveria ambiguidade, dado que a diferenciação seria feita em contexto; c) a ignorância dos falantes geraria equívocos pela falta de cristalização do léxico. No âmbito popular estas variações são perfeitamente inteligíveis e até têm paralelo com sucessos actuais em contexto popular. A designação tradicional de ‘feijão verde’, referente à vagem do feijão por maturar, serve de exemplo disto, dado que não raras vezes se chama simplesmente de ‘vagem’ e noutras de ‘feijão verde’, de certa forma errónea, pois não se trata do feijão, mas sim da vagem. Já na antiguidade estas leguminosas ocorrem muitas vezes designadas da mesma forma e independentemente da espécie por κυάμων (kyamon, Vicia Faba L.), normalmente identificando favas ou feijões, ainda que a diferença entre as 102 Δόλιχος, uma espécie de grão verde ou feijão miúdo, cuja referência é imprecisa, não sendo possível identificar exatamente qual a leguminosa em causa. 103 Λοβός e φασηόλος: tipos de vagem. 104 Φάσηλος, Vigna unguiculata (L.) Walp. [ = Vigna sinensis (L.) Savi ex Hauskn.]. 105 Λάθυρος, Lathyrus sativus L., chícharo. 80 III. A ciência de Galeno no De alim. várias espécies seja substancial (cf. de alim. 6.529.5-531.1). A propósito, note-se também a designação generalista, normalmente nome da espécie ou tipologia, atribuída a um produto em particular e que em outros espaços geográficos é denominado de forma exata e única: “O nome vícia é muito comum na nossa região, e só é chamado dessa maneira. Mas entre os atenienses é igualmente chamado de arakos e de lathyros.” (de alim. 6.551.10) É curiosa a necessidade de Galeno em notar a forma como os atenienses designam um produto. Provavelmente isto dever-se-á à intenção de remover a ambiguidade da discussão, notando a regra no dialeto ático. Também não podemos esquecer que a escrita deste autor está carregada de muitos ‘aticismos’, pelo que não só conheceria as variantes koine e ática, como estaria alerta para as diferenças entre ambos os dialetos. Portanto, sabia das discrepâncias lexicais entre ambas e da possibilidade de um leitor treinado apenas em uma das variantes não entender o tema em causa: “Filótimo acredita que um humor espesso, glutinoso e frio, a que ele próprio – assim como o seu mestre Praxágoras – chama ‘verde’, é gerado por todos os bolos de cevada. No entanto, isso não é assim, uma vez que a alfita nem tem viscosida- de, tal como sucede com os granulados, nem valor nutricional. Porém, o bolo de cevada induziu-o em erro, ao ter sido mergulhado em vinho doce e siraion por bastante tempo – chama a estes bolos tripten, assim como o fazem os atenienses. Pois a massa deste é equivalente à massa de trigo.” (de alim. 6.509.15-510.1) À letra ‘τριπτὴν’ (tripten) corresponderia a ‘amassado’. Já ao bolo de cevada Galeno chama de μᾶζα (mazda), sendo que uma das traduções possíveis seria simplesmente ‘bola de massa’, alqo que parece corresponder a uma designação um carácter geral em contexto grego.106 Nesse sentido, é de esperar uma ampla variação lexical na designação dos vários tipos de pães, formas de preparo e composições ao largo do espaço ocupado por todos os falantes de grego. Voltando às leguminosas, partindo do comentário aos phaseoloi, loboi, dolichos, o autor explica um outro exemplo equivalente ao fenómeno que apresentámos para os dias de hoje, relativamente às vagens: “A partir (da recomendação) de deixar grandes estacas de madeira junto destes e da afirmação de que se isto não for feito torna-se susceptível ao míldio, pode inferir-se que esta afirmação se refere àquilo agora chamado de phaseoloi e loboi. O próprio chama loboi aquilo que rodeia a semente das leguminosas como esta, 106 Vide García Soler 2014. 81 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno tal como a lentilha, o marroiço, a ervilha, o feijão e o tremoço. Pois, assim como a espiga envolve as sementes dos cereais, também a vagem guarda as próprias sementes do dolichos. De facto, acredito ser esse motivo das pessoas chamarem ‘vagem’ ao conjunto, tal como ao cereal chamam ‘espiga’, enquanto ‘um todo’. Ora, também sabemos muitas outras coisas com várias utilidades para os ho- mens e que receberam o nome de todo o género como (representante) de um conjunto, como (sejam) a cana com que escrevo e a tinta.” (de alim. 6.543.1-10) A última frase do exemplo que acabámos de citar explica a questão com um novo exemplo, aparentemente recorrente em contexto helénico: ἴσμεν δὲ καὶ ἄλλα πολλὰ τῶν ἐν πολλῇ χρήσει παρὰ τοῖς ἀνθρώποις ὄντων ὅλου τοῦ γένους τοὔνομα σφετερισάμενα, καθάπερ τὸν κάλαμον, ᾧ γράφομεν, καὶ τὸ μέλαν (de alim. 6. 543.10)107 O autor refere-se a κάλαμος (cana) e μέλας (preto), respetivamente. Κάλαμος (kalamos) corresponde literalmente a uma cana, porém, poderia designar toda uma variedade de objetos a cuja forma e matéria se equivaleria: uma flauta, uma cana de pesca, uma palha, um objeto de escrita ou mesmo uma flecha (cf. LSJ). O mesmo sucede com μέλας (melas), cujo significado é ‘preto’, mas que também pode identi- ficar a tinta. Desta forma, o autor sublinha a comum generalização que ocultaria o nome concreto do objeto, gerando a ambiguidade. Ou seja, o género pode muitas vezes designar um objeto em particular. Veja-se um outro exemplo deste uso: “O mesmo também refere, ao fazer menção ao chícharo-preto, as lentilhas, o grão-de-bico e o marroiço, mas ao ignorar o nome chícharo, gerou ambiguidade. Alguém pode dizer serem todos o mesmo género – chícharo, chícharo-preto e feijão-miúdo –, ainda que chamados por mais nomes, talvez como sucede com a coluna e o pilar; mas também em função da apresentação de certas diferenças específicas.” (de alim. 6.544.10-15) A ‘coluna’ e o ‘pilar’, κίων (kion) e στῦλος (stylos), respetivamente, geram um jogo de palavras que permite ao autor identificar dois substantivos que, em verdade, se referem ao mesmo objeto. Algo que, efetivamente também sucede na língua por- tuguesa. A ambiguidade é um problema para quem tenta sistematizar a informação, pelo que tem de ser resolvida de maneira a que a ideia seja concreta e inteligível. Na sequência do comentário anterior, Galeno prossegue com a exposição de dúvidas referentes ao género das leguminosas. Provavelmente, estes produtos alimentares são os que têm maior diversidade de nomenclaturas, quer pela similitude de aplicações que o género permite, quer pela variedade de usos. 107 Tradução. infra. 82 III. A ciência de Galeno no De alim. Isto é, se num determinado lugar se usam favas para fazer um prato típico, numa outra região pode ser usado o feijão-frade ou o grão-de-bico, consoante a tradição. Esta coincidência de usos pode muito bem ser a causa da ambiguidade; mesmo tratando-se de leguminosas fisicamente muito distintas, podem adquirir o mesmo nome em função dos usos, sabores ou faculdades do alimento. A propósito, voltamos a lembrar o exemplo popular da ‘vagem’ e do ‘feijão-verde’. Veja-se um outro exemplo apresentado por Galeno e que comenta a dificuldade para outros autores, como sejam Hipócrates e Diocles de Caristo: “Nesta exposição comparam-se ervilhas com feijões, (...), mas ao escrever so- bre o dolichos e o chícharo-negro, (Diocles) comenta em sequência que o doli- chos está dentro do mesmo género das sementes supracitadas e especialmente próximo do chícharo-negro. Uma vez que não menciona, de todo, o chícharoe o feijão-miúdo, há uma suspeita de ter sido aceite somente o nome dolichos. Porém, ainda que alguém inclua o feijão-miúdo na classe do chícharo, é ex- posto no passo anterior que o chícharo não pode ser chamado de dolichos.”108 (de alim. 6.543.10-545.5) Na verdade, Galeno não chega a encerrar o problema pela apresentação de uma sentença que marque definitivamente o nome respetivo de cada grão. Ao con- trário, notando o silêncio de outros dois autores a propósito da matéria, anuncia ele mesmo o abandono do debate, pois, afinal de contas, o que lhe interessa são as faculdades dos alimentos e não tanto a sua catalogação (cf. de alim. 6.545.5-10). A ortografia adquire também um papel relevante para a uniformidade dos nomes das coisas. O registo escrito é provavelmente o principal garante da cris- talização do léxico, pelo que se faz oportuno comentar a forma como o nome de determinado objeto é escrito. Algo que favorece a redução da ambiguidade e a busca pela uniformidade lexical, necessária para a ciência de então. Ora veja-se o seguinte exemplo: “Encontramos que a sílaba final do nome do Agrião-roxo (arakos) se escreve com kappa (k) n’ Os barcos de comércio de Aristófanes, onde este fala de agrião- roxo, trigo, ptisane, sêmola, joio e simidalis. A semente é muito parecida com a semente do chícharo e, de facto, muitos julgam tratar-se da mesma família. (...) Aqueles que são da nossa região chamam ao silvestre, que é esférico, duro, mais pequeno que o marroiço e, se encontra entre as plantas leguminosas, arachos, não pronunciando a sílaba final com ‘k’, mas sim com ‘ch’ (χ)...” (de alim. 6.541.1-10) Dessa forma associa a ortografia à nomenclatura regional e à confusão 108 Na verdade, parece-nos evidente pelo comentário do médico grego que esta leguminosa seria tão desconhecida para Galeno como é para nós. 83 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno de espécie. E de facto a ortografia é um elemento importante na definição do objeto, pelas possibilidades que oferece na desambiguação, pelo que Galeno imiscui-se na discussão da ortografia e do léxico, independentemente do contexto regional: “Em algumas versões zeia não é mencionado de nenhuma forma, ao passo que em outras versões em vez de ‘excelência’ está escrito ‘uso’, da maneira seguinte109 (...) No entanto, (aqui) é mencionado um grão particular, a olyra, da mesma maneira que também a tife o é. Porém, Menesiteu diz que os dois nomes se referem a um único grão, quando escreve isto: ‘(...) Depois destes segue-se aquela que se designa de duas formas, embora seja a mesma coisa. Alguns chamam-lhe tife e outros olyra.’” (de alim. 6.512.5-10) e expande o comentário para a consideração sobre a existência de determinadas espécies e sobre a variação do uso regional e prováveis causas da dúvida: “Neste passo, Menesiteu pôde demonstrar claramente querer chamar zeia ao tipo de semente que é semeada em regiões frias. No entanto, naquilo que me toca, ainda que não tenha visto todas as regiões frias, não ouvi falar de ninguém que tivesse conhecido a colheita de um cereal tão peculiar chamado pelos habitantes zeia ou zea de qualquer uma (das formas), pois surgem escritas de ambas as maneiras – em algumas a primeira sílaba termina em épsilon e iota, noutras apenas em épsilon. Ora, quando eu considero que é possível que os gregos nomeassem assim esta semente, mas os estrangeiros aplicassem um nome concreto a esta, então, tendo não só identificado a espiga, daquilo que para nós é a tife, em muitos campos de grão da Trácia e Macedónia, assim como toda a planta na Ásia, pergunto-me qual o nome que popularmente poderia ter entre aquelas gentes. Ora, todos me disseram que a planta, como um todo, assim como a sua semente, é chamada de ‘briza’. A primeira sílaba escreve-se e pronuncia-se com três letras: β (beta), ρ (ro) e ι (iota). A segunda sílaba (pronuncia-se e escreve-se) com ζ (zeta) e α (alfa) no primeiro caso e, ν (ny) corresponde obviamente (à desinência do) acusativo. O pão feito a partir deste grão tem um cheiro azedo e é negro, sendo muito fibroso, tal e qual Menesiteu o descreveu. Se aquele tivesse dito além disto que o pão deste grão também era negro, estaria mais inclinado em acreditar que este é o mesmo grão a que se referia como zeia. 109 Os termos em causa são ‘ταῖς ἀρεταῖς’ e ‘χρείαις’. 84 III. A ciência de Galeno no De alim. Ora, nos lugares mais tempestuosos da Bitínia, uma certa semente é chamada de zeopyros, sendo que a primeira sílaba não contém a letra ι (iota), em desacordo com a que está em Homero: ‘Trigo e zeia e a branca cevada espigada.110’” (de alim. 6.514.5-515.5) Neste único passo, Galeno aborda todas as variáveis que contribuem para ambiguidade e que temos vindo a comentar ao longo desta exposição. Da ortografia aos usos culinários, das faculdades à existência de diferentes, mas relacionáveis, espécies. Repare-se que βρίζα (briza) é provavelmente uma palavra de origem trácia e corresponderia ao centeio (Secale cereale L.). A dureza climatérica destas regiões justificaria o amplo cultivo desta planta, particularmente resistente ao frio e ao ambiente seco, pelo que se entenderia também a associação à zeia que supostamente identificaria as mesmas características em outras regiões111. (cf. de alim. 6.516.15-517.10) Já o nome ζεόπυρον (ζέα + πυρός), uma variedade de Triticum monococcum, que à letra poderia ser traduzido como ‘trigo do género zeia’, parece indicar a existência da zeia e dessa forma contradizer o próprio Galeno, quando este põe em causa a existência de tal grão enquanto espécie. Definitivamente, estas variantes dependem das atribuições regionais (cf. de alim. 6.513.10-516.1)112 e das práticas e tradições dos povos. E é nesse sentido que Galeno cita Heródoto, pois o historiador diz que aquilo que para os egípcios é olyra, é zeia para outros povos: “Heródoto diz no seu segundo livro: ‘Muita gente vive do trigo e da cevada, mas tal é motivo de grande crítica para qualquer egípcio que consiga assim o seu sustento; em vez disso, estes fazem os seus alimentos a partir da olyra, que certamente muitos outros chamam de zeia.’ (de alim. 6.16-10-15, Historiae 2.32) 3.3.2. Outros produtos: apontamentos sobre a variação vocabular Ainda que, de uma maneira geral, a obra de Galeno se ajuste à linguagem da koine grega, é possível identificar uma forte marca da variante da língua grega ática, assim como resquícios de ionismos tanto no léxico como em determinadas construções sintáticas. Quer tenha sido pela influência linguística das regiões por onde passou, quer pela linguagem de outros autores, o certo é que Galeno era consciente das diferenças entre os dialetos, principalmente a nível vocabular, 110 Od. 4.604. 111 Columella refere-se à zeia como um grão ao qual os gregos também se referem como carnicis ou tripharis (de arboribus 28.1). 112 Veja-se também o exemplo da junção de substantivos para a criação de um terceiro pro- duto, derivado de outros dois que o nomeiam, neste caso a φακοπτισάνη (fakoptisane) (de alim. 6.526.15-527.1) que, à letra, traduzir-se-ia por ‘lentilhas-ptisane’. 85 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno pelo que frequentemente tece comparações entre o grego da generalidade dos falantes (koine) e o grego ático (cf. de alim. 6.510.1-510.5). Da mesma forma, a variedade de práticas entre regiões e diferentes combinações de conceitos equiva- lentes levariam a designações diferentes para os mesmo produtos ou atividades, independentemente do léxico à disposição do falante. Retomando o exemplo referido anteriormente, o triphen, à letra, significaria ‘amassado’, porém, quando estivesse em causa um produto derivado de cevada o nome seria μᾶζα (mazda) e a julgar pelo uso lexical de Galeno, uma das tradu- ções possíveis seria ‘bola de massa’. Em boa verdade tratar-se-iam dos mesmos produtos, mas com uma designação dependente do dialeto regional. Por esse motivo, seria de esperar uma ampla variação lexicalna nomenclatura dos vários tipos de pães, formas de preparo e composições ao largo do espaço geográfico ocupado por todos os falantes de grego. Talvez por esse motivo o autor não se es- tenda demasiado no comentário às designações dos produtos, pois interessa-lhe mais identificar as matérias primas. Repare-se como Galeno remata a questão ao lembrar como até a palavra para comida pode conhecer muitas variações, independentemente dos falantes: “(...) Não importa se nos referimos a coisas ingeridas como “comestíveis” ou como “nutrientes”. Na verdade, algumas vezes (estas coisas) também são cha- madas ‘provisões’ (σιτίον) ou ‘comestíveis’ (βρῶμα), assim como Hipócrates escreveu em Epidemias (2.2.11).” (de alim. 6. 464.5-10) Σιτίον (sition) e βρῶμα (broma) são demonstrativos do espetro vocabular do grego antigo. Galeno argumenta que todos estes vocábulos significam o mesmo, não havendo a necessidade de clarificar qualquer tipo de dimensão especial relativa à palavra que escolha em um determinado momento, até porque todas as palavras são globalmente conhecidas dos recetores desta obra. O comentário pode ser simplesmente um apontamento retórico, que vise aligeirar a exposição. No entanto, não deve ser totalmente descartada a possibilidade de Galeno ter a necessidade de explicar o vocabulário e apresentar os sinónimos, de modo a que o leitor pudesse seguir sem dificuldade o conjunto da obra. Fosse esse o motivo, poderiam estar em causa leitores que não teriam o grego como língua materna ou com pouca literacia e, portanto, tendencialmente possuidores de um vocabulário reduzido. Em resumo, ‘o cientista antigo’ enfrentaria dificuldades consideráveis no estudo e postulação do saber sobre a nutrição, entre as quais estariam as limitações de uma língua não normalizada. Nem sempre uma palavra equivale a um único objeto, o que favorece a ambiguidade. De resto, esta obra denuncia vários exemplos disso mesmo. (Página deixada propositadamente em branco) 87 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 4. O alimento como matéria de estudo médico Os sábios antigos que se dedicaram à medicina seriam conscientes da alimentação como um catalisador de estados físicos, tal como um padecimento crónico ou obesidade. Da mesma forma, entenderiam que os excessos alimentares coincidiriam com a redução das capacidades intelectuais, mau temperamento e até do caráter da personalidade. (Gourevitch 1985). Na obra de Galeno, a desordem física e a mental são normalmente coincidentes, dado que o desequilíbrio dos humores é a razão para a descompensação fisiológica, uma vez que se considera que estas substâncias teóricas atuam tanto no aspeto físico como psíquico. Tal perspetiva corresponderia literalmente à expressão mens sana in corpore sano, sendo a alimentação um fator fulcral para tal estado, pelo menos desde um ponto de vista da medicina galénica. O texto que aqui tratamos terá sido redigido já num momento avançado da vida de Galeno, pelo que denota um longo percurso de estudo de práticas médicas e de treino em metodologias e ensino das mesmas. O alimento é estudado a partir da fusão das suas duas funções básicas: o suplemento nutricional (τροφή ou ἔδεσματα), necessário à subsistência e a droga farmacológica (φάρμακον), administrada para o tratamento de determinadas patologias. A terminologia usada pelo autor marca esta distinção, quando se refere ao alimento como trophe e ao produto com fins terapêuticos como pharmakon, quer sejam produtos preparados ou produtos simples, ou seja, em bruto. Compreender a nutrição implica conhecimento, ainda que rudimentar, do processo digestivo e da forma como é processada a absorção dos nutrientes; assim como o entendimento dos componentes químicos envolvidos e as funções destes na supressão das necessidades do corpo humano - conhecimento primitivo à epoca. Já compreender a farmacologia implica o conhecimento dos efeitos dos alimentos no corpo humano; assim como a identificação de um conceito de corpo material e da relação/reacção com os quatro ‘humores’, cuja própria noção transcende o aspeto físico e material (Hankinson 2005, pp. 232- 58). Repare-se que a preparação de fármacos a partir dos alimentos tem uma origem praticamente impossível de datar, uma vez que poderá remeter para tradições populares com origens pré-históricas. Prova disso são alguns textos cuneiformes (sumérios e acádios) que nos dão notícias de medidas exatas para a composição de determinados produtos com funções terapêuticas (Goltz 1974, p. 49). 88 4. O alimento como matéria de estudo médico Em contexto latino, podemos notar outros autores que dedicam alguma atenção à alimentação terapêutica, como sejam Varrão (c. 116 a.C. - 27 a.C.), Catão o Velho (c. 234 a.C. – 149 a.C.) e Plínio o Antigo (c. 23-79 d.C.) (Lelle & Gold 1994). Considerando os escritos de Catão, notamos a recomendação do consumo de um preparado composto por baga de zimbro e vinho tinto, de modo a resolver problemas com a secreção de urina. No mesmo registo usado por Galeno, Catão nota ainda que o mirtilo teria faculdades benévolas em caso de padecimento de cólicas ou indigestões: Vinum ad isciacos sic facito: de iunipiro materiem semipedem crassam concidito minutim; eam inferuefacito cum congio uini ueteris. ubi refrixerit, in lagonam confundito et postea id utito cyathum mane ieiunus; proderit. (Cato 123) “Então, prepara vinho para a gota: corta em pequenos bocados um pedaço grosso de madeira de zimbro113; ferve-o com um côngio114 de vinho velho e quando arrefeça, verte-o para uma jarra e, depois disto, toma um ciato115 pela manhã em jejum: será benéfico.” Estes conselhos repetem-se ao longo da obra do autor latino (cf. Cato 124- 127, 156.4-157.2, 157.8-9). A maioria dos casos consiste em terapias tradicionais e não tanto numa exposição de caráter inquisitivo e debate epistemológico. Ora, veja-se a propósito o exemplo anteriormente citado (Cato 73.1.2-5).116 O processo digestivo e a absorção dos nutrientes não terão sido pormenorizadamente conhecidos na antiguidade, pelas dificuldades que a simples observação empírica trazia para a descrição do processo. Note-se que era grande o desconhecimento das propriedades químicas dos alimentos, assim como a ignorância quanto às necessidades nutricionais do corpo humano, pelo que era o senso comum o motor de muitas das observações feitas pelos sábios da antiguidade. Já a farmacologia seria entendida desde um ponto de vista superficial, fomentando-se as considerações pela relação: ensaio/reação. Note- se que estas afirmações, aparentemente despectivas, são feitas com a intensão de sublinar a grande distância entre o saber antigo - ainda que obdiente a um método de estudo, inquirição e ensaio - e a ciência moderna. A diferença entre a tradição e a experiência residiria na observação dos casos de forma crítica, de modo a poder entender os fenómenos em questão e 113 Segundo Jorge Paiva (Biólogo), provavelmente, Juniperus foetidissima Willd. ou o Juni- perus phoenicea L. 114 Congius, medida romana para líquidos correspondente à oitava parte de uma ânfora. Cf. Congius, LS. 115 Cyathus (κύαθος), medida igual à duodécima parte do sextarius que corresponde à sexta parte de um côngio. 116 Cf. Cato 126.1.1-5. 89 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno consequentemente descrever os mesmos como uma verdade verificável: Οὐσῶν δὲ τῶν διὰ τοῦ λόγου κρίσεων οὐχ ἅπασιν ὁμοίως εὐπετῶν, ἐπειδὴ καὶ συνετὸν εἶναι χρὴ φύσει καὶ γεγυμνάσθαι κατὰ τὴν παιδικὴν ἡλικίαν ἐν τοῖς θήγουσι μαθήμασι τὸν λογισμόν, ἄμεινον | ἀπὸ τῆς πείρας ἄρξασθαι καὶ μάλισθ’, ὅτι διὰ ταύτης μόνης εὑρῆσθαι τὰς δυνάμεις τῆς τροφῆς οὐκ ὀλίγοι τῶν ἰατρῶν ἀπεφήναντο. (de alim. 6.454.15-455.10) Os alimentos com qualidades terapêuticas dividir-se-iam em duas categorias e depois em mais quatro subcategorias subordinadas àquelas. A primeira categoria poderia designar-se simplesmente por ‘venenos’. a) - o alimento permanece inalterado, porém provocamudanças ao corpo. b) - o alimento sofre mutações ao interagir com o aparelho digestivo, sendo essas alterações nocivas para o corpo, podendo provocar-lhe danos físicos e enfermidades. Devemos notar que a ideia de veneno não corresponde exatamente às dos dias de hoje, podendo um preparado semelhante ser usado para tratar efeitos de outros venenos, como seja a mordedura de serpente (cf. Cato 73.3). As outras duas subcategorias, difíceis de enquadrar em uma categoria especifica tal qual Galeno as divide, seriam os ‘fármacos não-venenosos’: a) – o produto aquece o corpo, porém não lhe provoca dano. b) – são assimilados depois de acturem sobre o corpo, pelo que podem ser considerados tanto comida, como fármacos. Dentro desta subcategoria existem as drogas frias e as drogas quentes. Estas últimas atuam como fármaco enquanto estão na corrente sanguínea, sendo que posteriormente transformam-se em nutriente.117 Parece-nos pertinente insistir na ideia de que sem os conhecimentos modernos sobre os constituintes orgânicos e químicos, a especulação sobre a natureza dos alimentos e os seus efeitos dependia muito da circunstância em que eram estudados os sintomas e das características próprias do indivíduo que os experimentasse.118 Tal terá levado à conclusão generalizada de que uma grande quantidade de alimentos teria algum tipo de efeito terapêutico. Talvez por isso Galeno, dando continuidade a uma tradição hipocrática, considere que todos os alimentos têm propriedades de ‘quente’ / ‘frio’ e ‘seco’ / ‘húmido’ e que estas produzem determinados efeitos em função da enfermidade e das propriedades dos alimentos. A propósito destas considerações, remetemos diretamente para a obra Sobre as drogas simples de Galeno, onde estas questões são abordadas pelo pensador grego. 117 De Simp. Medicament. Facultatibus K.I. 681; Helmreich p. 107; Singer 1997, p. 283; cf. Powell 2007, pp.5-8. 118 Para uma definição do conceito 'sintoma' (σύμπτωμα, ατος) na obra de Galeno vide Johnston 2006, pp.25-26. (Página deixada propositadamente em branco) 91 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 4.1. Os quatro humores: os agentes do metabolismo no corpo humano Quando considera os constituintes metabólicos e fisiológicos do corpo humano, Galeno segue a abordagem hipocrática. Nesse sentido, adota a teoria dos quatro humores, atribuindo-lhe nuances próprias. Em seguida e de maneira breve, resumimos em que consiste essa mesma teoria. Em conjunto, os quatro humores são os fatores responsáveis pelo equilíbrio e saúde do organismo (corpo e mente). Nutrem, protegem, limpam e fortalecem sem que de nenhuma maneira se percam as características únicas de cada um, uma vez que atuam individualmente, sendo o estado de saúde o somatório dos efeitos das suas propriedades. Quando existe harmonia de quantidade e as funções de cada humor se complementam entre si, atinge-se um estado de equilíbrio e ‘boa mistura’ ou eucrasia (εὐκρασία). Quando existe uma rutura do equilíbrio das funções gera-se a condição de dyscrasia ou ‘má mistura’ (δυσκρασία).119 De uma maneira geral, o conceito antigo de humores resumir-se-ia à ação dos agentes responsáveis pela nutrição, desenvolvimento e metabolismo em função dos quatro elementos naturais a que se associam: terra, ar, fogo e água. O próprio conceito de saúde derivaria do equilíbrio perfeito e da pureza destes quando conjugados com as ações fisiológicas. A manifestação física dos humores corresponderia a quatro fluídos corporais, originados durante a ‘segunda digestão’. Estes estariam relacionados com os elementos naturais e teriam uma função própria dentro da mecânica digestiva. No entanto, os ‘humores’ não correspondem exatamente a um conceito exato e cerrado de ‘fluídos corporais’, sendo tão abstrata a sua definição quanto o é a noção do estado saudável. Na verdade, chymos (χυμός) é um termo polissémico, podendo significar humor, sabor, aroma ou suco, pelo que enquanto conceito a sua definição é imprecisa se apenas for considerada a simples identificação lexical. De resto, essa ambiguidade seria latente quer em textos filosóficos, quer médicos (Demont 2002, pp.271-286). Tendo em conta os preceitos da medicina galénica, o estado saudável não depende apenas daquilo a que hoje chamaríamos de fisiologia e dos elementos materiais que a compõem, mas sim da conjugação de um corpo e de uma psique sãos. Posto isto, os quatro humores têm também um efeito psíquico e emocional, podendo aproximar-se do significado moderno da palavra humor. No entanto há que notar que a conceptualização moderna dos elementos que constituem 119 Sobre as alternativas à teoria dos quatro humores, vide Nutton 2004, pp. 202-215. 92 4. O alimento como matéria de estudo médico o funcionamento do corpo humano, apesar de coincidir com o léxico grego, não tem a mesma correspondência abstrata. De resto, os quatro humores têm a tendência para ou fortalecer características positivas, sejam do foro físico, sejam do foro mental; ou para realçar e potenciar aspetos negativos, quando em excesso. Os humores podem ainda ser espessos (pachychymos, παχύχυμος) em função do estímulo alimentar que lhes for dado. Diagrama 1. esquema da relação dos quatro humores em ambientes naturais 4.1.1. Humores húmidos (ou aquosos) São os humores correspondentes aos elementos naturais húmidos: Ar e Água. São de característica húmida e são os agentes metabólicos principais para a nutrição e crescimento do corpo. No âmbito fisiológico as funções destes humores resumem-se quase exclusivamente à nutrição. AR / SANGUÍNEO (αἷμα) – O ‘humor sanguíneo’ é o primeiro humor a ser gerado, recebendo a maior parte dos nutrientes que transporta diretamente para o processo de absorção através do sistema circulatório, pelo que é o mais rico dos humores. É de característica húmida e quente. Neste humor reside a essência de saúde e vitalidade, uma vez que nutre e é perfeitamente absorvido pelo sistema. Este fluído teórico seria também responsável por promover sensa- ções positivas, como sejam a alegria, o otimismo, o entusiasmo e o bem-estar 93 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno em general. No entanto, haverá que notar que este humor não corresponde ao sangue enquanto fluído. Isto é, não se trata do sangue que verte de feridas, uma vez que este fluído contem fleuma e bílis amarela e apenas corresponde a um fluído teórico (cf. de alim. 9.1.39). ÁGUA / FLEUMA (φλέγμα) – Também designado de ‘humor fleu- mático’ (φλέγματος χυμὸς). É o segundo a ser gerado e, por isso, o segundo quanto à quantidade de nutrientes transportada. É de características húmida e fria. Além da fleuma, este humor inclui os outros fluídos transparentes ou lívidos do corpo, como sejam os mucos, a saliva, o plasma, a linfa e os fluídos intestinais. No seu conjunto, estes fluídos húmidos e frios humedecem, nutrem, lubrificam, protegem e purgam o organismo. Por tal, seria atribuída ao humor fleumático a qualidade purgativa, que limparia as impurezas e ao mesmo tempo transportaria os nutrientes necessários à eliminação dos resíduos. Este humor reside essencialmente nas veias e sistema linfático. É também considerado fundamental para a manutenção do corpo. Além disso, a fleuma seria conside- rada a força motriz de emoções e comportamentos como a passividade, letargia, sensibilidade sensorial e emocional. 4.1.2. Humores secos (ou estéreis) Englobam os elementos naturais secos: Fogo e Terra. O organismo apenas necessita de pequenas quantidades destes, no entanto, são poderosos e essenciais catalisadores de processos digestivos em variadas circunstâncias. FOGO / BÍLIS AMARELA (χολή) – Também designado de ‘humor colérico’, é o terceiro a ser gerado, pelo que tem um valor nutritivo inferior. Apenas uma pequena quantidade entra no processo digestivo e na circulação dos nutrientes pelo corpo. A restante parte é armazenada na vesícula biliar para uso em caso de necessidade. É de característica quentee seca. A bílis é de natureza quente e cáustica, pelo que teria propriedades digestivas, o que por sua vez lhe daria afinidade com outras secreções digestivas, dado ter propriedades metabólicas, sendo especialmente útil na absorção e excreção de gorduras. Nesse sentido estimularia os intestinos, pelo que atua como um laxante natural. Também teria a capacidade de atuar contra inflamações. Este humor seria também responsável por promover emoções de caráter intenso, como a excitação, a paixão, a irritação ou a ira. TERRA / BÍLIS NEGRA (μέλαινα χολή) – Também designado de ‘humor melancólico’ (μελαγχολικός) é o último a ser gerado, pelo que é o mais 94 4. O alimento como matéria de estudo médico pobre em nutrientes e apenas uma pequena porção entra no processo digestivo subsequente à sua formação. A restante parte é armazenada no baço para uso em caso de necessidade. É de característica fria e seca e corresponde ao sedimento normal do sangue. A sua principal qualidade é a de arrefecer e secar, pelo que é adstringente, condensador, coagulante e tem um efeito endurecedor no metalismo, necessário para as estruturas e tecidos sólidos do corpo. Ao solidificar a matéria, a bílis negra atua no sistema digestivo aguentando a matéria alimentar o tempo suficiente para que seja processada apropriadamente. De acordo com o nome que lhe atribuído, humor melancólico, a bílis negra provoca um estado melancólico e encoraja uma atitude reflexiva, como seja a prudência, a caução, o pragmatismo ou o pessimismo.120 120 Sobre o conceito ‘melancólico’ na medicina antiga e a evolução do termo na modernidade, vide Jouanna 2002, pp. 229-258. 95 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 5. As faculdades dos alimentos: Livro I A missão de definir um corpus da autoria de um autor tão reproduzido e replicado como Galeno é manifestamente hercúlea, quer pela quantidade de manuscritos de diferentes períodos e origens atribuídos a Galeno121; quer pelas incongruências e limitações que as notícias mais antigas sobre a sua obra apresentam. Tal explica o facto de a edição em 22 volumes do corpus galénico de Karl Gottlob Kühn de 1823 (Leipzig) não ter ainda sido superada (vide Kühn 2011), pelo que serve de paradigma para a edição de Helmreich (1923), cuja numeração seguimos para a tradução aqui publicada. Portanto, seguimos a divisão do editor alemão no que diz respeito ao texto da 1ª parte do De alim. 121 Para uma lista de recensões renascentistas do De alimentorum facultatibus vide Durling 1961. 96 5. As faculdades dos alimentos: Livro I 5.1. Título Para o estudo e tradução do De alim., optámos pelo título ‘as faculdades dos alimentos’, não propriamente pela aproximação ao título latino atribuído pelo editor (De alimentorum facultatibus), mas porque a palavra portuguesa ‘faculdade’ parece-nos ser a que melhor preserva o termo grego original (δύναμις, dynamis, vide Johnston 2006, pp.28-30). A escolha em detrimento de ‘propriedades’, termo que também se adequaria ao contexto, tem que ver com o valor que esta palavra pode acarretar no léxico científico (cf. ‘propriedade’, Houaiss p. 1466). Isto porque para as ciências naturais modernas, o termo ‘propriedades’ pode implicar um conhecimento da matéria bem mais profundo do que aquele a que os sábios antigos teriam acesso. Mais precisamente, o entendimento dos próprios constituintes químicos e, no caso concreto do tratado De alim., noções exatas sobre os processos do metabolismo do sistema alimentar. Por outro lado, ‘faculdades’ abrange um universo mais generalista e facilita o entendimento da ‘capacidade’ de um determinado alimento provocar um efeito concreto no corpo, isto é, o seu potencial de acção/reação.122 Enfim, trata-se de uma definição que se adequaria ao empirismo científico antigo, que partia da observação do resultado e não tanto da composição original do mesmo. No entanto, devemos notar que qualquer escolha terminológica será sempre questionável em função de três variáveis: as possíveis leituras do critério científico de Galeno; o entendimento que possa ter a metodologia de Galeno à luz da ciência antiga e da ciência moderna; a semântica e a sinonímia da língua de receção, que no caso da língua portuguesa acaba por ser ambígua. O termo δύναμις parece ter na obra de Galeno um valor semelhante àquele que lhe dá Aristóteles. O filósofo explica a palavra considerando-a ambígua. Por um lado, indica o ‘potencial de estimular uma determinada mudança’. Por outro lado, pode significar o potencial de alguma coisa passar de um estado a outro (cf. Arist. Met. 1048a26-30). O seu efeito ou ação, seria denominado pelas várias formas do verbo ἐνεργεῖν (energein), cuja tradução mais literal seria: atuar, estar em ação ou ato de energizar (cf. GI, p. 723 e Aris. Met. 1048a26-30). Seguimos na integra o estabelecimento do texto de Kuhn e os comentários de Durling123, pelo que não abordaremos questões de aparato crítico, até porque dados os estudos prévios a esta publicação, não estaríamos em condições de acrescentar valor aos mesmos. 122 Houaiss, p. ‘faculdade’: s.v. poder de efectuar uma acção física ou moral; potência; aptidão; destreza; capacidade; virtude; propriedade (...). 123 Para o estabelecimento dos textos vide também Durling 1967, 1981, 1991. 97 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 5.2. O método de exposição no livro I: a retórica do médico O autor inicia este tratado anunciando o objecto de estudo, ao mesmo tempo que justifica o propósito e relevância de tal trabalho, dado que a alimentação é um fator incontornável para o bem-estar humano: “Na verdade, não usamos outro recurso de forma tão invariável, pois sem os alimentos é realmente impossível gozar de saúde ou mesmo (chegar a) estar doente. Consequentemente, é compreensível que a maior parte dos grandes médicos se tenha debruçado sobre o exame minucioso das faculdades dos alimentos.” (de alim. 6.453.1-5) O método expositivo de Galeno nem sempre é homogéneo, tendo a tendência para variar entre a passagem do particular para o geral ou do excecional para o regular. Tendencialmente, esta forma pode gerar ambiguidades e dificultar a leitura do texto e, por vezes, faz-se necessário distinguir a explicação da matéria em estudo, da mecânica retórica inerente à Segunda Sofística, que Galeno praticou em grande medida de maneira a denunciar teorias rivais. Nem sempre é possível identificar o tipo de linguagem usado por Galeno, quando lido à luz daquilo que são os conselhos médicos no âmbito popular. Tal ocorre porque a linha entre a tecnicidade e o discurso popular não seria tão marcada como nos dias de hoje, pois atualmente destingir-se-ia o discurso médico da ‘mezinha da avó do vizinho’ com facilidade. Isto não pode ser atribuído ao pouco cuidado linguístico ou científico de Galeno, mas antes ao ténue desenvolvimento do discurso e metodologia científica e, ao mesmo tempo, à necessidade de se fazer inteligível ao recetor. Porém, devemos notar que, muito possivelmente, o leitor, estudante ou ouvinte, não seria totalmente desprovido de cultura e informação sobre a matéria exposta. O autor é capaz de auto corrigir-se ou questionar a sua própria exposição, quer por efeito de polimento retórico, quer para que a exposição se faça mais clara. Pode estabelecer um paralelismo imediato que, em boa verdade, acaba por ser desnecessário. No entanto, ao demonstrar a falta de necessidade desse mesmo paralelismo, Galeno está a sublinhar a informação que pretende passar. Isto é, aligeira o argumento através de paralelismos desnecessários, já que a informação é clara por si mesma. O objetivo seria levar o leitor a aceitá-la como óbvia, inquestionável e memorizável: “Uma vez que se observou estes a digerirem pães crus melhor do que os atletas mais fortes, da mesma maneira que o fazem com a carne de boi ou de bode. Pois, posto isto, que necessidade há em lembrar ovelhas ou cabras?” (de alim. 6.486.10) 98 5. As faculdadesdos alimentos: Livro I 5.3. Livro I A obra que aqui tratamos está pejada de informações e análises sobre materiais, hábitos culturais e biologia existente à época, apesar de o autor remeter muitas destas matérias para as suas obras anteriores. Ainda que este texto tenha tido uma função objetiva e pragmática – informar sobre as faculdades de alimentos e o seu efeito no metabolismo humano – deixa-nos várias notícias de hábitos e conceitos de que o autor estaria ao corrente, provavelmente conhecidos e amplamente praticados na época em que o texto teria sido redigido. Estes dados são na generalidade usados como um complemento ou suporte para o argumento e informação em exposição. Este uso dá-se de uma forma que poderíamos considerar descomprometida, pois pretende contextualizar e esclarecer a informação prestada. Deste exercício resulta um manancial de informações periféricas, como sejam o conhecimento de comportamentos animais ou geografia de determinada fauna, mas que em boa verdade servem de moldura ao objeto em estudo: os alimentos enquanto nutrição e drogas – no caso particular do livro I: os grãos secos. 5.3.1. estrutura O principal critério do autor para a divisão da obra neste primeiro livro parece-nos ser o potencial dos alimentos para serem secos e transformados em farinha, ainda que sejam comentados todos os outros aspetos relacionados com as faculdades destes alimentos; os quais Galeno denominaria simplesmente por grãos ou sementes (σπέρμα). O facto de serem grãos secos, acaba por definir para Galeno uma categoria. Em causa não está tanto o conceito de espécie vegetal, mas antes o género alimentar, tal como o considera o sábio de Pérgamo. Haverá que ter em atenção que estes alimentos corresponderiam à principal fonte de sustento na antiguidade, não só pelo potencial produtivo, mas também pelas possibilidades de conservação. De resto, o porquê desta generalização e consequente referência como uma tipologia em si mesma, pode ser explicado pelo facto de estes grãos serem passíveis de conservação através da secagem. Posto isto, o livro I do De alim., cuja tradução publicamos, poderá subdividir-se em duas partes: - a primeira parte trata dos cereais, enquanto categoria distinguida por Galeno; 99 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno - a segunda parte trata dos restantes grãos, incluindo as leguminosas ‘armazenáveis’ e outras sementes. Ainda que os alimentos constituam o foco desta obra, o estudo aí desenvolvido não é sobre a culinária e tão pouco exclusivamente sobre dietética. O comentário às faculdades dos alimentos é desenvolvido a partir dos seus efeitos fisiológicos, atribuíveis a determinados comestíveis em função das diferentes condições dos pacientes, pelo que o argumento se situa entre a abordagem dietética e a farmacológica. Galeno começa por distinguir o alimento do fármaco e vai identificando alimentos que são ambas as coisas, ao mesmo tempo esclarecendo sobre os preceitos necessários para que determinado alimento se insira em um dos três grupos: a) Alimento b) Fármaco c) Alimento e Fármaco Dessa forma, Galeno resume a abordagem e dá o mote que servirá de base metodológica para toda a obra. O texto segue um esquema formal semelhante a outros tratados pelo autor. Poderíamos defini-lo da seguinte forma: Prólogo (453-458) Argumento: (458-459) Preâmbulo (459-480) Parte 1: cereais (480-523) Parte 2: outros grãos (524-551) Epílogo: (551-553) Cólofon: (553)124 Com o cólofon ou sentença, Galeno encerra o primeiro livro, essencialmente dedicado aos grãos, com um conselho de saúde pública. Recomenda cuidado na seleção e produção das sementes e cereais, encerrando uma construção circular ao regressar à origem da qualidade do alimento, ou seja, à sua produção e processamento. Apesar desta estrutura, a apresentação das matérias não é rígida, pois os vários assuntos podem ser tratados ou simplesmente referenciados em função do exercício de retórica do autor e da mecânica argumentativa. 124 Cf. análise da estrutura formal da obra De symptomatum differentiis por Lara Nava 2015, pp.63-76. 100 5. As faculdades dos alimentos: Livro I 5.4. A hierarquia dos pães e dos grãos Na abordagem inquisitiva à natureza das coisas, Galeno de Pérgamo tende a usar um processo analítico com base na relação da faculdade/reacção dos diferentes elementos que interagem num determinado sistema. Através dessa metodologia, o médico antigo não só apresenta a aplicação de princípios também praticados na ciência moderna, como revela alguns pressupostos compartilhados pela comunidade científica antiga, usados no cultivo de ideias e construção de definições através de mecanismos de comparações valorativas. Essa forma de coleta de informações e produção de teses gera hierarquias de valor, estando este procedimento também atestado no tratado De alim I. Se nos concentrássemos apenas nas fontes literárias, os derivados de cereais surgiriam como o primeiro e essencial alimento dos povos da antiguidade.125 Um alimento básico deve ser entendido como um elemento que constitui a parte mais importante ou mesmo principal da dieta. Catão-o-Antigo especifica a quantidade de trigo e pão adequado para uma casa e por comparação relega todos os outros géneros alimentícios a um papel secundário (cf. Cato 56-58). Vegécio, ao escrever sobre o abastecimento do exército em campanha, refere os grãos juntamente com o vinho e sal, como as disposições cuja escassez deve ser evitada a todo o custo (vide Vegetius 3.3.).126 O valor do cereal resulta da conjugação das várias aplicações dos diferentes géneros cerealíferos, conciliadas com a relação produção/ quantidade/ consumo/ qualidade dos alimentos. Nesse sentido, os produtos derivados destas sementes assumem eles mesmos um valor em função do cereal ou cereais que lhes servem de ingrediente. Ora, sendo o pão um produto do quotidiano e o conhecimento básico quase de senso comum, seria provavelmente redundante comentar a importância que determinada cultura daria a um produto tão essencial. Mas a verdade é que o valor que lhe é atribuído pela cultura X depende do conhecimento e da interpretação que essa mesma cultura faz do valor sócio-económico do cereal e do pão; algo que não pode ser mensurável de forma concreta. Não podemos ignorar que a ciência nutricional, baseada em funções metabólicas e composições orgânicas é relativamente recente, pelo que saber o que comiam, ou pelo menos o que almejavam comer os antigos romanos pode dar-nos pistas tanto do saber empírico, como popular do povo da cidade das sete colinas; além de revelar os seus hábitos culturais que se refletiram na sociedade, na atividade económica e até no 125 A propósito, vide Soares 2014a. 126 Vide exemplos narrados por Heródoto e discussão in Soares 2014b. 101 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno poder político instalado. Em última instância, o cereal pode até servir como um dos elementos identificadores da matriz da cultura romana, assim como de outras culturas da região da bacia do Mediterrâneo ou da Mesopotâmia antiga. A hierarquia de um tipo de pão, ou melhor dizendo, a qualidade que lhe é atribuída por comparação com outros, gera-se a partir da própria hierarquia dos cereais e dos seus modos de processamento e preparação. Note-se que o entendimento de Galeno e da generalidade da população antiga tanto da qualidade como das propriedades deste ou daquele cereal não seria necessariamente coincidente com a realidade prática nos vários pontos do império. Isto é, partia de pressupostos baseados na tradição e num empirismo resultante da observação e da experiência. A propósito disto e antes de mais, devemos sublinhar que as considerações que fazemos nesta breve exposição têm por base o tratado de Galeno e não o processo de produção e qualificação ‘per se’ na antiguidade. 5.4.1. O cereal no De alim. I Galeno reconhece a grande relevância do trigo (pyros, triticum vulgare) para a generalidade dos povosdo Mediterrâneo e por tal encontra óbvio o porquê da maior parte dos médicos dedicados ao estudo dos alimentos ter elaborado comentários acerca deste cereal (cf. de alim. 6.480.10-481.1). Ainda que o trigo seja entendido como uma única espécie, Galeno identifica uma grande variedade de características físicas, diferenciadoras de vários tipos de grão, que afetam a qualidade e o impacto da sua função nutritiva. É nesse sentido que é feita a gradação, tendo por base os efeitos provocados no corpo humano e não tanto as propriedades e qualidades globais que esta planta pode apresentar, quer seja no âmbito produtivo: custo de produção, necessidades especiais de cultivo (tipologia dos solos, quantidade de água, luminosidade requerida)127; quer nas suas características biológicas (resistência a pragas, desenvolvimento em função das condições meteorológicas, tempo de germinação, etc). De resto, nem sempre é claro se Galeno se refere a um tipo de cereal concreto ou a uma simples variante física do trigo. Na verdade, é constante a expressão dessa mesma dúvida por parte do autor no De alimentorum Facultatibus I. A qualidade do trigo depende não só das suas características, mas também da função do produto final que gerará e, segundo Galeno, depende do resultado de 5 etapas básicas. A propósito destas considerações, devemos notar que o De 127 Não nos debruçaremos sobre o cultivo dos cereais já que o próprio Galeno pouco se refere à produção, tecendo apenas alguns comentários analíticos generalizados (Cf. de alim. 6. 552.1-553.5; de alim. 6. 553.5-553.1’). 102 5. As faculdades dos alimentos: Livro I alim. tem muito pouco de esquemático, pelo que os dados que apresentamos são uma reconstrução das notícias de Galeno e não uma paráfrase. Analisando a semente propriamente dita, Galeno nota algo fulcral na identificação da propriedade do trigo e que influencia todo o restante processo. Isto é, que se é mais denso, é mais nutritivo (de alim. 6.481.1-5). Por oposição direta, se é menos denso, consequentemente, é menos nutritivo, por uma questão de proporção de matéria (de alim. 6.481.1-10). Tal consideração diz respeito ao corpo interior da semente, uma vez que o exterior poderia ser enganoso. Só através do teste se revela qualidade. (de alim. 6.481.10.1-15) Portanto, a análise superficial é reconhecida como útil, mas falível, pelo que objetivamente tem pouco valor para a avaliação particular da semente. É possível que o exame para a escolha da semente fosse mais criterioso na preparação de futuras colheitas. Ao passo que, para a produção de farinha, a análise ligeira ou pouco criteriosa seria possivelmente a regra. Nesse sentido, Galeno acaba por notar que nem sempre a escolha pela peneira poderia resultar na seleção da semente mais apropriada para obter farinha mais pura. Supomos, pois, que a classificação qualitativa da colheita de trigo dever-se-ia a uma análise posterior à escolha das sementes pela aparência. Isto é, uma vez escolhido o grosso das sementes, algumas seriam apartadas e abertas de modo a verificar-se a consistência da sua massa, servindo assim de padrão para a restante colheita. Obviamente, tal método não garantiria uma seleção perfeita e inequívoca, porém, será necessário ter-se em conta a ‘peneira genética’ prévia, já que seriam semeadas sementes pré-selecionadas – ainda que não tenhamos exatamente a noção de que maneira e a que escala isto seria feito para o cultivo de cereais.128 De uma maneira geral, Galeno ignora o cultivo, pelo que trata apenas o produto final. Significaria isto que a seleção das sementes para cultivo não seria generalizada? Talvez o constante flagelo da fome na antiguidade, vincado no texto, possa dar uma resposta parcial a esta questão (cf. de alim. 6.517.15-518.5).129 Os territórios agrícolas correspondiam ao ‘cesto’ do império, e dado que os grandes centros cívicos não tinham capacidade de produção cerealífera suficiente para as necessidades da população, haveria uma estrema dependência da importação do trigo. Este sistema levava a que por vezes os próprios agricultores, cuja produção era excedente, não tivessem trigo para consumo próprio (cf. de alim. 6.517.1-15).130 Ou seja, a carência reduz a seletividade, algo que o autor vai reforçando ao longo do texto (cf. de alim. 128 Sobre o processamento das sementes e transformação em farinhas, vide Thurmond 2006. 129 Sobre a frequência de situações de fome generalizada no império romano vide Garnsey (1988, pp.8-39, 169-181, 271-277). 130 Zafrai (1994: 63-68) discute um exemplo paradigmático da importância dos cereais a ní- vel macro e microeconómico na Palestina romana. Erdkamp (2005, pp. 258-330) nota a grande importância do cereal para a manutenção do próprio sistema sociopolítico. Vide Garnsey (1988, pp.69-86; 182-197; 218-243) sobre a distribuição e subministro das comunidades urbanas. 103 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno 6.522.15-523.10).131 De resto, entre os autores antigos era de sentido comum a generalizada má qualidade e quantidade dos alimentos ao dispor dos mais pobres (cf. Col. 10pr.2). A cevada é apresentada como equivalente ao trigo em níveis de consumo, porém, com uma qualidade relativamente inferior à do trigo, com exceção de quando os dois são de má qualidade. Neste último caso a cevada é ligeiramente melhor, provavelmente por ser menos nociva à digestão e excreção (cf. de alim. 6.501.1-503.5; de alim. 6.506.5-506.15). Galeno aborda a cevada em função da qualidade do trigo, seja a propósito do valor nutritivo, seja no âmbito da produção do cereal, pois comenta a quantidade de impurezas por comparação entre os dois (cf. de alim. 6.552.1-553.5). Porém, não se estende numa comparação pormenorizada, antes descreve qualidades generalizadas, que depois servem como paradigma para as restantes características destes dois cereais – exceção feita à aparência física e ao potencial de excreção inerente a cada um destes grãos (vide tabelas I e II). Tanto a distinção, como a classificação dos três cereais tife, olyra e zeia não é clara nos comentários de Galeno, talvez porque o próprio não os podia distinguir. De facto, isto poderia servir como um exemplo paradigmático da frágil cristalização de vocabulário botânico nos espaços do império. As dúvidas são materializadas pelas próprias dificuldades e deficiências de caracterização que outros autores demonstraram. Notamos que neste aspeto, Menesiteu pode ter servido de bode expiatório para a própria ignorância de Galeno, ainda que este vá marcando discordância relativamente a alguns tópicos (cf. de alim. 6.510.15-514.10). O debate é expandido para outros autores, como Teofrasto (cf. de alim. 6.516.1-10), Heródoto (cf. de alim. 6.516.10-15), Dioscórides (cf. de alim. 6.516.15-517.5) ou o próprio Homero (cf. de alim. 6.522.1-522.10), demonstrando-se assim as discrepâncias nas classificações regionais e nos seus usos. Partindo da dificuldade de definição, o autor alarga o comentário, nomeando outros cereais que poderiam relacionar-se com estes, como sejam o setanius, a ‘cevada descascada’ (γυμνὴ κριθή) ou o zeopyros, sobre os quais Galeno não dá mais informações para além das regiões de uso e a sugestiva aparência com o grupo de características semelhantes: tife, olyra e zeia (cf. de alim. 6.520.5- 520.15).132 Galeno ora considera iguais os três cereais, ora os distingue em função dos hábitos das gentes, provavelmente retratados por terceiros autores, que ficam por identificar. Parece não haver dúvida de que a ambiguidade é causada essencialmente pelo vocabulário botânico não cristalizado, já que a dada altura, o autor reconhece esse mesmo problema. Até porque, em geral, as 131 Sobre a produção moderna dos vários tipos de cereal no espaço mediterrâneo rural con- temporâneo e antigo, vide o estudo de Halstead 2014. 132 Associada ao zeopyros Galeno refere a briza, mas não comenta a suas características (cf. de alim. 6.514.10-15; de alim. 6.517.15-519.10).104 5. As faculdades dos alimentos: Livro I sementes parecidas em aspeto e função redundariam num produto final muito semelhante, que enquanto objeto de estudo seria mais analisável (cf. de alim. 6.520.10-521.5). Portanto, o processo de seleção da semente para produção e a peneira da colheita é, obviamente, um momento fulcral para o controlo de qualidade de farinha. Mais do que obter a farinha perfeita, parece importar a obtenção da farinha ‘exata’. Isto é, uma farinha que corresponda à tipologia programada, de modo a poder servir os propósitos específicos para a panificação (diagrama I). Galeno dá notícias do processo de seleção da qualidade da colheita através da experiência de vida do seu pai (de alim. 6.552.1-553.10). Para além de identificar a importância do filtro da colheita, Galeno nota a negligência frequente daqueles que pretendem obter mais produto, sem olhar à qualidade, tendo isto consequências para a própria saúde do consumidor (cf. de alim. 6.553.1-553.10). O autor assinala o pouco cuidado na produção e distribuição dos cereais por parte dos serviços públicos, naquilo que seria o princípio de redistribuição do sistema estatal romano.133 Ora, julgamos que a referência às más práticas não implica um desconhecimento do melhor modo de obter bom pão, descrito por Galeno. Antes, reflete algo bastante comum e com paralelo nos dias de hoje: a produção massiva em detrimento da qualidade – o lucro e a carência como motores. O milhete é outro cereal de produção comum em praticamente todo espaço do Mediterrâneo e mesopotâmio antigos. A frequência do seu cultivo dever-se-á não tanto às suas qualidades como matéria prima alimentar, mas à maior resistência e produtividade em áreas de menor fertilidade e mais secas, comparativamente ao cultivo de outros cereais (cf. Cato 1.6.1). Note-se que na década de 90, este cereal era o mais cultivado na zona sul do Sahara, além de que se mantém também com uma produção bastante assinalável nas estepes russas (Spurr 1983). Devemos notar as dificuldades generalizadas do cultivo na antiguidade, independentemente do produto, tanto em técnica de amanho e cuidado com as sementes, como com a fertilidade dos campos. Os próprios ‘agrónomos romanos ilustres’ debatiam-se sobre o tipo de solo mais adequado para o cultivo, parecendo, no entanto, nem sempre haver uma perfeita consciência de como cuidar deste cereal. Columela é quem parece identificar melhor as necessidades desta cultura. Observa o agrónomo latino que este cereal se dá bem em terrenos soalheiros e soltos, mesmo até em areia, se regado, ou em ambiente húmido. Porém, não em solo seco e pobre (Col. 2.9.17). Neste âmbito, concorda com Catão que recomenda solos ricos em áreas húmidas (5.6.1), onde, caso não houvesse nevoeiro, se plantaria trigo, indiciando o autor a resistência 133 Sobre as intervenções do governo romano no mercado e na compra de grãos para suprir as necessidades dos romanos, vide Temin 2013, pp. 29-52. 105 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno à humidade. 134 Deve notar-se que em causa estará a região da Península Itálica, um pouco em função daquilo que Plínio também mencionou (Nat. 18.100-101). Mais adiante o mesmo autor nota que este cereal não se dá bem em regiões irrigadas no verão, contrariamente à maioria das plantações, pelo que em vez disso deveria receber pouca água – de certa forma, aproximando-se do comentário de Teofrasto (HP 8.7.3). A variedade de comentários denota a extensão do cultivo e a fácil adaptação deste cereal ao espaço mediterrâneo de terrenos mais elevados ou demasiado próximos de grandes extensões de água, pela humidade atmosférica. Galeno não compara diretamente o milhete com os demais cereais em debate, pelo menos no que toca às propriedades para a panificação, muito provavelmente pela sua baixa qualidade. Ainda assim, este cereal seria consumido por humanos. (cf. de alim. 6.523.10-524.1) Realmente o milhete não aparenta ter sido o mais apreciado dos cereais para o consumo humano, antes foi, e ainda hoje é, uma fonte de alimento para o gado. Serviria de forragem aos animais de trabalho (Col. 6.3.3 e Cato 54.4 ). O próprio Columela dá instruções de como o preparar (cf. Col. 6.24.5). Tanto Diócles de Atenas135 como Celso referem-no como fármaco (cf. Plin. Nat. 22.30, Col. 6.12.4), porém, não há muita informação sobre a importância deste cereal para a preparação do pão. 5.4.2. O produto136 5.4.2.1. Pães puros/impuros: a proporção do farelo Provavelmente, os pães de trigo de pior qualidade são aqueles cuja farinha se faz a partir de um trigo de qualidade inferior ou cuja farinha tenha sido moída juntamente com farelo. A menor qualidade reflete-se negativamente no valor nutritivo, mas quando esta classificação de ‘má qualidade’ depende de uma massa mais porosa ou dispersa, a digestão destes pães é mais fácil (cf. de alim. 6.481.10.1-482.5). Apesar de uma pior qualidade nutritiva significar sempre valor inferior enquanto produto de consumo, a digestão é fácil, algo que à partida poderia sugerir que este pão não seria totalmente depreciável. Isto claro, não fosse o processo de preparação do pão o derradeiro definidor de valor, já que é possível obter um pão fácil de digerir que ao mesmo tempo seja nutritivo. Pois, enquanto 134 A propósito da instrução do seu cultivo, vide Col. 2.9-18 e Col. 11.2.75. 135 Célebre médico, também denominado por Diocles Medicus, que terá vivido e trabalhado em Atenas (c. séc. IV a.C.). Vide Kudlien (1963) e Thompson (1939). 136 A propósito de iconografia referente à confeção de pães e outros derivados de trigo, vide Wilson and Schörle 2009. 106 5. As faculdades dos alimentos: Livro I um mau cereal fácil de digerir não pode ser transformado em algo nutritivo; um trigo puro com a preparação adequada não só pode ser muito nutritivo, como de fácil digestão. Em causa, segundo a abordagem aparente de Galeno, está a densidade da matéria. O esforço de processamento de determinado produto é proporcional à quantidade de matéria e não ao seu volume. Portanto, quanto mais condensada estiver a farinha, maior a cozedura necessária. Eis o exemplo disso e o seu inverso, dado por Galeno: “(...) Porém, com pães-de-farelo bastam uma pequena quantidade de fermento, uma leve levedação e um pequeno intervalo (de espera). Pois, enquanto os pães puros necessitam de um período maior de cozedura, os pães-de-farelo necessitam de um período mais curto.” (de alim. 6.482.10-15) Aparentemente, existe um ganho entre a quantidade de material nutritivo necessário, o trabalho no processamento e a quantidade produzida. Apesar de haver um limite para essa proporcionalidade, ainda que Galeno não o identifique. Subentendemos que a menor densidade da matéria facilita, no entender do autor, uma reação mais rápida ao calor. Ao identificar um tipo de pão como o quarto da sua lista e, portanto, o pior, Galeno dá a entender que o motivo da sua má qualidade é o baixo teor nutritivo, no entanto não estende a discussão à matéria que compõe o produto e tampouco à sua preparação: “O quarto (pão da lista) deriva do grão mais rude e é o pior. É manifestamente o menos nutritivo e de todos os pães é o que move mais as entranhas.” (de alim. 6.483.10-484.5)137 Neste passo somos levados a considerar que a má reação dos intestinos se deve à própria natureza da matéria que ao ter pouca nutrição, redunda numa maior rapidez de digestão e, consequentemente, em menor densidade e maior dispersão da própria excreção. Galeno parece considerar que a baixa densidade da matéria e a sua rápida digestão estão associadas também à forma como se dá a excreção. Em consequência do que já comentámos, os pães feitos a partir de farinha mais pura, ainda que tendencialmente de melhor qualidade global, carecem de mais cuidado na preparação, de modo a favorecer uma melhor digestão. Partindo da comparação com os demais pães, Galeno comenta o melhor dos pães como o resultado de uma da boa preparaçãoque vise reduzir os efeitos prejudiciais da sua densidade e quantidade de matéria nutritiva (cf. de alim. 6.482.5-10). 137 Por uma questão de clareza de exposição, decidimos chamar ‘pão-de-refugo’ ao quarto pão. 107 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno O autor leva a entender ser necessário esperar que a massa levede bem, de modo a perder a característica viscosa e mais espessa. Nesse sentido, só depois deveria cozinhar-se o pão, uma vez que é esta característica que o torna mais difícil de digerir. Nesse sentido e dado o elevado grau de fermentação, subentende-se que a quantidade de pão produzida a partir de uma farinha pura é maior do que a de farinha impura, pois crescerá pouco, se lhe for adicionado pouco fermento, já que contém menor substância e é já ‘inchado’ por natureza. Ora, considerando de forma global o comentário de Galeno a propósito dos pães feitos a partir de diferentes qualidades de farinha, fica claro que não é só a matéria prima o fator diferenciador, mas também o tempo de preparo. Porém, é neste ponto que a abordagem teórica de Galeno parece ignorar que o potencial de maior produção da farinha pura pode também reduzir a qualidade nutritiva do pão, uma vez que a tendência seria o acréscimo de mais fermento, de modo a otimizar o rendimento. Se o pão contém massa menos densa, tal como sucede com a farinha, também a qualidade nutritiva será menor, independentemente do tipo de cozedura. Galeno é apenas aparentemente omisso neste ponto, já que ainda assim considerará o pão resultante da farinha mais pura mais nutritivo, por entender que, mesmo crescendo ou sendo dividido em porções mais fermentadas, é o pão de melhor qualidade. Isto porque, comparativamente, este pão necessita de ser mais amassado e levedado, algo que implica maior densidade na massa, independentemente da forma como o pão cresça após o fermento. Neste caso, a pouca dispersão natural tem de ser compensada pelo trabalho, mas as suas qualidades intrínsecas não se perdem. 5.4.2.2. As misturas: os pães-de-trigo e os pães-de-mistura Galeno varia entre a abordagem de um pão conceptual, ou seja, um produto teórico, em função de conjugações de matérias primas elas mesmas teóricas, e a análise a produtos reais, como certos tipos de pão que seriam produzidos na época. Pelo facto de nem sempre ser clara a relação entre o produto real e o hipotético, optámos por separar as designações na tabela III e IV. A gradação do pão em função da pureza da farinha é subdividida e hierarquizada por Galeno com a lista de quatro pães: silignis, semidalis, pão-de- mistura e o pão de refugo (cf. de alim. 6.483.10-484.5). Possivelmente, um dos grandes problemas na classificação das tipologias de pão e farinhas seria a falta de precisão generalizada, inerente à produção não profissional ou sujeita a reduzido controle crítico experimentado. Algo que explicaria a evocação de Galeno de ‘produtos teóricos’. Isto é, nem sempre eram iguais as quantidades dos produtos misturados, pelo que inevitavelmente haveria grande variação no produto final. Todavia, o conhecimento das qualidades de cada produto, permitiria a concepção de uma receita de misturas em função das características pretendidas para o pão ou farinha. Ora, esse seria o caso dos pães-de-trigo feitos a partir de sobras de 108 5. As faculdades dos alimentos: Livro I várias farinhas de trigo e de farinhas menos peneiradas e que depreendemos conter uma quantidade substancial de farelo (cf. de alim. 6.483.1-10). A mistura inevitavelmente acarretaria a já referida variação das faculdades do produto, dado que a própria matéria prima seria distinta, dependendo da consistência e qualidade do trigo, da quantidade de farelo misturada na farinha e das diferentes quantidades de diferentes colheitas (cf. de alim. 6.483.5-15). Galeno parece referir-se ao mesmo género de pão, mas ao mesmo tempo acaba por diferenciá-los ao denominar de duas formas um pão que à partida corresponderia a um conceito geral de mistura (cf. de alim. 6.483.10-15). Num esforço de reunir e apresentar a informação disponível sobre o tema, talvez exagere na teorização, já que perde alguma conexão com o produto que trata. Chama autopyros ao pão provavelmente feito a partir de vários tipos de trigo, mas volta à referir-se ao mesmo produto por synkomistos (συγκομιστός) que à letra traduzir-se-ia por ‘algo misturado conjuntamente’. Não querendo fazer uma associação direta com aquilo que modernamente e em contexto português é conhecido por ‘pão-de-mistura’, optámos por este termo na nossa tradução por uma questão de maior proximidade semântica ao original grego. Haverá que salvar as devidas distâncias, pois o pão-de-mistura atual varia em função das diferentes quantidades de farinha ou massa sobrante de outros preparados. A tipologia das diferentes farinhas em si mesmas é invariável, algo que não sabemos ao certo em que medida sucederia com o alimento antigo. Uma vez que aparentemente não existe um controlo dos tipos de farinha e peneira, a qualidade seria também ela variável. No entanto, esta tipologia bastante genérica de pão parece ser inequivocamente superior aquele que é o último pão da lista de Galeno (vide supra, de alim. 6.484.1-5). Porém, ao referir-se de maneira tão assertiva a um determinado tipo de pão cujo impacto nutritivo/digestivo seria de certa forma regular, é de supor que o autor considerasse um modo de preparação igual, algo que regularizaria determinados efeitos fisiológicos e estandardizaria um produto. Ainda que esta questão esteja omissa, podemos subentender que um padeiro experimentado soubesse pela consistência, cor e até textura da massa a quantidade em falta de uma determinada farinha de modo e uniformizar o produto para um resultado reproduzível (cf. de alim. 6.494.10-495.1). Galeno não se estende em pormenores quanto ao modo de preparação dos pães, fosse por não os conhecer ou simplesmente por considerar não serem importantes para o caso. Seja qual for o motivo, a preparação é um aspeto fulcral para a qualificação (vide diagrama) (cf. de alim. 6.484.5-485.5). No entanto, fica claro que a uniformidade e ponto de cozedura definem o bom pão. Ainda que a qualidade deste dependa dos propósitos do seu produtor, pois existem vários fatores a motivar a produção daquilo que à partida seria um pão de má qualidade. A poupança na matéria prima ou tempo de preparação poderiam ser dois dos motivos, ainda que, mesmo um pão de má qualidade pudesse ter um ‘consumidor alvo’ (cf. de alim. 6.486.1-5). Ou seja, não é só a 109 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno necessidade ou a negligência que justificam o fabrico de um mau pão, pois até o pão não-levedado tem os seus apreciadores, mesmo sendo o pior no que respeita aos efeitos provocados (cf. de alim. 6.486.5-10). Este corresponderia a um 5º tipo de pão, ainda que Galeno apenas conte 4 e não informe de que tipo de farinha seria feito. Portanto, há dois níveis distintos de qualificação de pães: o tipo de farinha e o modo de preparação do pão. Algo é certo, este pão ‘por levedar’ (ἄζυμος, azymos) é altamente nutritivo, uma vez que alimenta o mais carente dos atletas, já que haveria gladiadores a alimentarem-se exclusivamente deste (cf. de alim. 6.488.1-15). A forma de cozinhar o pão corresponde ao quarto nível de definição de qualidade. Todavia, não fica claro que defina a sua tipologia, cuja gradação Galeno faz depender do tipo de farinha. De resto, Galeno não hierarquiza os pães em função da cozedura. Na verdade, os tipos de cozedura, como os referidos acima, quando propositados, seriam escolhidos em função da maior/ menor nutrição, facilidade de digestão ou até especialidades de sabores (cf. de alim. 6.489.5-490.10). Definitivamente, os kribanitai, ou pães feitos num kribanos,138 são melhores na generalidade (cf. de alim. 6.494.1-10), seguindo-se a estes os pães cozinhados num ipnos (cf. de alim. 6.489.5). A uniformidade da cozedura a que é submetidoo pão é o principal definidor de qualidade, pelo que quanto mais o método de cozedura favorecer a uniformidade da cozedura mais equilibrado será o produto final (cf. de alim. 6.489.5-490.10). De certa forma é sugerido que os pães de cevada têm um estatuto próprio, pois não são incluídos na lista de gradação. Não é claro se esta ausência se deve à simples omissão de Galeno ou se tal implica que a classificação dos pães não depende tanto do género do cereal, mas sim do grau de pureza da farinha e do cuidado tido na sua preparação até ao momento da cozedura. O certo será que estes pães têm a mesma qualidade própria da cevada, quando comparada ao trigo (cf. de alim. 6.504.5-504.15). Tal como com a cevada, Galeno não se estende na distinção descritiva dos pães feitos a partir de outros cereais, como a tife, olyra ou zeia. Porém, acaba por mencionar o pão de zeia a partir do comentário de Menesiteu que o havia descrito como fibroso, negro e azedo (cf. de alim. 6.514.10-15). Ora, ao comentar o pão feito a partir da zeia e um pão de mistura com este cereal (zeopyros), Galeno contradiz a consideração que faz sobre a existência ou não da zeia (cf. de alim. 6.520.5-520.15) ao localizar a produção deste pão em várias regiões (cf. de alim. 138 Optámos por não relacionar com o klibanos, por não ser seguro este último objecto cor- responder a um objecto efectivo ou a uma generalização cuja grafia sugere relação com o kribanos (vide o breve comentário de Cação 2009 a propósito do klibanos). Por outro lado, esta grafia não surge na obra; o manifesto apreço de Galeno por estas questões léxicais,leva-nos a considerar tratar-se de uma generalização por oposição a um objecto concreto perfeitamente identificado. 110 5. As faculdades dos alimentos: Livro I 6.515.5-516.1). Portanto, admite de alguma forma a existência deste enquanto espécie. Contudo, não deixa de ser estranho o consumo de cereal com qualidades tão pouco apreciáveis, pelo menos fazendo caso do comentário de Teofrasto citado por Galeno (cf. de alim. 6.516.1-10). Isto porque Teofrasto afirma que este cereal careceria de solos ricos para a sua produção, eliminando à partida a ideia de produção por carência, pois provavelmente esses solos seriam reservados para cereais mais apetecíveis, como fossem o trigo ou a cevada. Podemos identificar duas causas para esta contradição: a) Galeno não define ele próprio a qualidade da zeia, deixando-se levar pela qualificação de outros autores. Nesse sentido, entender-se-ia o comentário de Teofrasto, já que este refere a zeia como um cereal apreciado pelos animais, além de o considerar muito parecida à olyra e à tife. b) A quantidade de cereal gerada pelo cultivo seria proporcionalmente muito elevada, comparativamente com os demais cereais. A imprecisão é marcadamente visível na abordagem a estes três cereais. Contudo, Galeno não se esquiva a avaliá-los, mais propriamente ao comparar o pão de olyra ao de tife, considerando o pão de olyra melhor na generalidade, apesar de dedicar maior atenção ao do tife (de alim. 6.517.15-519.10), Este último pão, quando fresco, é pouco inferior ao de trigo, pelo que segue o mesmo padrão da proporcionalidade de qualidade da generalidade dos cereais. Acrescentando- se o efeito laxante ligeiro, quando comparado ao pão de cevada, mas equivalente ao pão feito a partir da farinha de milhete. (vide apêndice) 111 Prefácio apêndice: cereais e pães 112 Apêndice: cereais e pães I.1 A q ua li da de d o tr ig o pa ra pa ni fi ca çã o, d en so v s. p or os o: c on si st ên ci a, n ut ri çã o e ap ar ên ci a M as sa F( de ns id ad e) N ut ri çã o A pa rê nc ia Fa re lo m is tu ra - do (π ιτ υρ ία ς) – F( pr op or ci on al ) Pu re za da fa ri nh a Vo lu m e F( nu tr iç ão ) P ot en ci al di ge st iv o Po te nc ia l e x- cr et ór io D en so (d e a lim . 6. 48 1. 1; 48 3. 5- 15 ) Su pe rio r (d e a lim . 6. 48 1. 1- 5; 48 3. 5- 15 ) am ar el ad o (d e al im . 6 .4 81 .1 - 10 ; 5 22 .1 -1 0) In fe rio r Su pe rio r M ai s p eq ue no (d e a lim . 6. 48 1. 1- 10 ) S u p er io r (= to do s c e r e a is (d e al im . 6. 52 0. 15 - 52 1. 5) In fe rio r ( = to do s o s c e- re ai s ( de al im . 6. 52 0. 15 - 52 1. 5) Po ro so (d e a lim . 6. 48 1. 1- 5; 48 3. 5- 15 ) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 1. 1- 5; 48 3. 5- 15 ) es br an qu iç ad o (d e a lim . 6. 48 1. 1- 10 ; 52 2. 10 -1 5) Su pe rio r In fe rio r di sp er so In fe rio r (= to do s os ce re ai s (d e a lim . 6. 52 0. 15 - 52 1. 5) Su pe rio r (= to do s o s c e- re ai s ( de al im . 6. 52 0. 15 - 52 1. 5) 113 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno I. 2 A q ua li da de d a ce va da pa ra pa ni fi ca çã o: c on si st ên ci a, n ut ri çã o e ap ar ên ci a 1 39 M as sa F (d en sid ad e) N ut riç ão A pa rê nc ia Fa re lo m ist ur ad o – F (p ro po rci on al) Pu re za d a fa rin ha Vo lu m e F (n ut riç ão ) Po te nc ia l di ge st iv o Po te nc ia l ex cr et ór io D en so (d e a lim . 6 .5 04 .1 0- 15 ) Su pe rio r ( de al im . 6. 50 4. 10 -1 5; 6. 52 2. 5) E sb ra nq ui ça do (d e a lim . 6 .5 22 .5 ; 50 4. 10 -5 06 .5 ) F = tr ig o (d e a lim . 6. 50 1. 1- 50 3. 5) F = tr ig o F = tr ig o Su pe rio r (= to do s os ce re ai s de al im . 6. 52 0. 15 - 52 1. 5) In fe rio r ( = to do s os ce re ai s d e a lim . 6. 52 0. 15 -5 21 .5 ) Po ro so In fe rio r (d e a lim . 6. 50 4. 10 -1 5) am ar el ad o (d e al im . 6 .5 04 .1 0- 15 ) F = tr ig o (d e a lim . 6. 50 6. 5- 15 ) F = tr ig o F = tr ig o In fe rio r (= to do s os ce re ai s de al im . 6. 52 0. 15 - 52 1. 5) Su pe rio r ( =t od os os ce re ai s d e a lim . 6. 52 0. 15 -5 21 .5 ) 13 9 G ale no n ot a a av ali aç ão su pe rfi cia l c om o u m m ét od o d e v er ifi ca çã o p ou co fi áv el, p oi s b as eia -s e n a a pa rê nc ia ex te rn a, pe so e co r. ( cf. d e a lim . 6 .4 81 -1 5) 114 Apêndice: cereais e pães i. 3 a q u a li D a D e D a tI fe , o ly r a e z e a p a r a a pa n if ic a ç ã o : c o n Si St ê n c ia , n u t r iç ã o e a pa r ê n c ia M as sa F (d en sid ad e) N ut riç ão A pa rê nc ia Fa re lo m ist ur ad o – F( pr op or cio na l) Pu re za da fa rin ha Vo lu m e F (n ut riç ão ) Po te nc ia l di ge st iv o Po te nc ia l ex cr et ór io tif e (= tr ig o? ) (d e a lim . 6. 52 2. 1- 10 ); (d e a lim . 6. 52 2. 10 ; 5 20 .5 -1 5; 51 7.1 5- 51 9.1 0) D en so (m ai s pe qu en o c / tr ig o) (d e a lim . 6. 52 2. 5) Su pe rio r am ar el ad o (a ve rm el ha do c / tr ig o) (d e a lim . 6. 52 2. 1) In fe rio r Su pe rio r M ai s pe qu en o Su pe rio r (= to do s o s ce re ai s 5 20 .1 5- 52 1. 5) In fe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) Po ro so (m ai s pe qu en o c / tr ig o) (d e a lim . 6. 52 2. 5) In fe rio r es br an qu iç ad o Su pe rio r In fe rio r di sp er so In fe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) Su pe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) oly ra (d e a lim . 6 .5 22 .1 ) (= ti fe? ) (= ti fe? ) br an co (d e a lim . 6. 52 2. 1) (= ti fe? ) (= ti fe? ) (= ti fe? ) Su pe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) In fe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) (= ti fe? ) (= ti fe? ) (= ti fe?) (= ti fe? ) (= ti fe? ) In fe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) Su pe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) ze ia (= oly ra ? H es ío do d e al im . 6 .5 16 .1 0) ? ? ? ? ? ? Su pe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) In fe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) ? ? ? ? ? ? In fe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) Su pe rio r ( =t od os os ce re ai s 52 0. 15 -5 21 .5 ) 115 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno I.4 – Outro cereais mencionados para panificação Milhete É considerado um alimento neutro, pelo que tem um valor nutricional reduzido e afecta pouco as funções fisiológicas (de alim. 6.523.15-524.5). Aveia Seria pouco consumida por humanos e seria de difícil excreção (de alim. 6.522.15-523.5). 116 Apêndice: cereais e pães II . T ip os d e fa ri nh a pa ra pa ni fi ca çã o: c on si de ra çõ es g er ai s C er ea l N ut riç ão : f (Q ua lid ad e -d en sid ad e) G ra u de co ns um o C on su m o R eg iõ es o nd e e ra m re gu la rm en te co ns um id os Q ua lid ad e r ud e Tr ig o A lto (> ce va da ) A lto (= ce va da ) (d e a lim . 6 .5 04 .5 -1 5) A lim en to bá sic o To da s a s r eg iõ es d o im pé rio G er a c om id a p ou co nu tr iti va e de d ifí ci l di ge st ão Sê m ol a d e Tr ig o (D e a lim . 6. 49 6. 5- 49 7. 5) A lto (< Tr ig o) (d e a lim . 6. 49 6. 5- 49 7. 5) C ev ad a A lto (< Tr ig o) A lto (= Tr ig o) (d e al im . 6 .5 10 .1 5- 51 1. 1) A lim en to bá sic o To da s a s r eg iõ es d o im pé rio G er a c om id a p ou co nu tr iti va e de d ifí ci l di ge st ão (> ru de Tr ig o) Z eia ?? ? < T rig o < ce va da < T rig o (d e al im . 6 .5 10 .1 5- 51 1. 1) C on su m o po r ca rê nc ia (d e al im . 6 .5 15 .1 5- 51 6. 1) R eg iõ es fr ia s ( de a lim . 6 .5 11 .1- 51 4. 10 ) E gi pt o (H er ód ot o. H ist or ia e 2 .3 2) (D e a lim . 6 .5 16 .1 0- 15 ) 117 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno T ife o u Br iz a* (β ρί ζα ) ( de al im . 6 .5 14 .1- 10 ; 6 .5 17 .1 5- 51 9. 15 ) < ce va da < T rig o (d e al im . 6 .5 10 .1 5- 51 1. 1) < ce va da < T rig o (d e al im . 6 .5 10 .1 5- 51 1. 1) C on su m o po r ca rê nc ia em ve z d e t rig o ve nd id o pa ra as ci da de s ( de al im . 6 .5 17 .1- 15 ) R eg iõ es d a T rá ci a, M ac ed ón ia , A sia M en or ; P ru sa , C ra te ia , C la ud ió po lis , J ul ió po lis R eg iã o de Pé rg am o (d e a lim . 6 .5 17 .1 5- 51 8. 5) ; M ísi a ( de a lim . 6 .5 22 .5 -5 23 .1 ); N ice ia (d e a lim . 6 .5 15 .5 -5 16 .1 ) O lyr a * < ce va da < O lya < Tr ig o (d e a lim . 6 .5 17 .1- 51 9. 10 ) < ce va da < T rig o (d e al im . 6 .5 10 .1 5- 51 1. 1) C on su m o po r ca rê nc ia (d e al im . 6 .5 17 .1 5- 51 8. 5) A ve ia In fe rio r ( de a lim . 6. 52 2. 5- 52 3. 5) (p ar a an im ai s?) < Z ei a, ti fe , O ly ra < ce va da < tr ig o (d e al im . 6 .5 22 .5 -5 23 .5 ) C on su m o po r ca rê nc ia (d e al im . 6 .5 22 .5 - 52 3. 5) A sia M en or , M ísi a ( de a lim . 6. 52 2. 5- 52 3. 5) 118 Apêndice: cereais e pães II I.1 : T ip os d e pã o li st ad os (p ro pr ie da de s p or c om pa ra çã o) : h ip ot ét ic os C at eg or ia s de p ão e bo lo s Fa rin ha Pr oc es sa m en to (W P = F. (d )) Fe rm en ta çã o (F . ( de ns id ad e) ) C oz ed ur a Po te nc ia l ex cr et ór io D ig es tã o / di st rib ui çã o (a p rio ri) Va lo r nu tr ic io na l (a p rio ri) Q ua nt id ad e d e pr od ut o / v al or nu tr ic io na l ‘p ão p ur o’ (id ea liz ad o) Fa rin ha d e tr ig o de ns o, al ta m en te re fin ad a? (d e a lim . 6. 48 2. 5- 10 ) M ai or tr ab al ho (d e a lim . 6 .4 82 .5 - 10 ) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 2. 10 -1 5) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 2. 10 - 15 ) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 2. 5- 10 ) In fe rio r (D e a lim . 6. 48 2. 5- 10 ) Su pe rio r (d e a lim . 6. 48 2. 5- 10 ) Su pe rio r ( de al im . 6 .4 82 .5 - 10 ) Pã o lig ei ro (d e a lim . 6. 49 4. 10 - 49 5. 1) di sp er sa (d e a lim . 6. 49 4. 10 - 49 5. 1) Li ge ira m en te ex ci ta nt e (d e a lim . 6. 49 4. 10 - 49 5. 1) Su pe rio r (d e a lim . 6. 49 4. 10 - 49 5. 1) In fe rio r (d e a lim . 6. 49 4. 10 - 49 5. 1) In fe rio r ( de al im . 6 .4 94 .1 0- 49 5. 1) 119 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno II I. 2: T ip os d e pã o li st ad os (p ro pr ie da de s p or c om pa ra çã o) : r ea is C at eg or ia s d e pã o e b ol os Fa rin ha Pr oc es sa m en to (W P = F. (d )) Fe rm en ta çã o (F . (d en sid ad e) ) C oz ed ur a Po te nc ia l ex cr et ór io D ig es tã o / di st rib ui çã o (a p rio ri) Va lo r nu tr ic io na l (a p rio ri) Q ua nt id ad e d e pr od ut o / v al or nu tr ic io na l Si lig ni s (σ ίλ ιγ νι ς) (d e a lim . 6. 48 3. 10 - 48 4. 5) Fa rin ha d e tr ig o de ns o re fin ad a M ai or tr ab al ho Su pe rio r In fe rio r In fe rio r Su pe rio r Su pe rio r Se m id al is (σ εμ ίδ αλ ις ) (d e a lim . 6. 48 3. 10 - 48 4. 5) Fa rin ha d e tr ig o de ns o re fin ad a (li ge ira m en te in fe rio r a o sil ig ni s?) M ai or tr ab al ho (li ge ira m en te in fe rio r a o sil ig ni s) Su pe rio r (li ge ira m en te in fe rio r a o sil ig ni s) In fe rio r (li ge ira m en te in fe rio r a o sil ig ni s) In fe rio r ( < sil ig ni s) Su pe rio r (< si lig ni s) (d e a lim . 6. 49 6. 5- 49 7. 5 Su pe rio r ( < sil ig ni s) Ar to s p itu ria s Ἄ ρτ ος πι τυ ρί ας (P ão de fa re lo ) Fa rin ha d e fa re lo d e t rif o (d e a lim . 6. 48 1. 10 - 48 2. 5) In fe rio r ( de al im . 6 .4 81 .1 0- 48 2. 5) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 3. 10 -1 5) (d e a lim . 6. 48 1. 10 - 48 2. 5) E xc ita nt e (d e a lim . 6. 48 1. 10 - 48 2. 5) Su pe rio r (d e a lim . 6. 48 1. 10 - 48 2. 5) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 1. 10 - 48 2. 5) In fe rio r (d e a lim . 6. 48 1. 10 -4 82 .5 ) 120 Apêndice: cereais e pães 4º p ão (ti fin os ?, de al im . 6 .5 04 .5 ) (d e a lim . 6. 48 3. 10 - 48 4. 5) G er ad o a pa rt ir de g rã o de q ua lid ad e in fe rio r. Pe ne ira ne gl ig en te ? E xc ita nt e In fe rio r < pã o- de - fa re lo Ba ix o va lo r nu tr ic io na l (o p io r do s p ãe s) (d e a lim . 6. 48 4. 1- 5) In fe rio r ( ?) Au to py ro s Αὐ τό πυ ρο ς ou ? συ γκ ομ ισ τό ς (p ão fe ito a p ar tir d e m ist ur as ?) Vá rio s t ip os de fa rin ha e pe ne ira (d e a lim . 6. 48 3. 5- 15 ) M ed ia na , va riá ve l ( de al im . 6 .4 83 .5 - 15 ) 121 De alimentorum facultatibus e o saber de Galeno II I. 3: P ãe s r ef er id os – a us en te s d a li st ag em h ie rá rq ui ca 14 0 C at eg or ia s d os p ãe s e bo lo s Pr oc es sa m en to (W P = F. (d )) Fe rm en ta çã o (F . (d en sid ad e) ) Po te nc ia l ex cr et ór io D ig es tão / di st rib ui çã o (a pr io ri) Va lo r n ut ric io na l ( a pr io ri) Q ua nt id ad e d e Pr od uç ão / va lo r nu tr ic io na l Ti fin os (d e a lim . 6 .5 04 .5 - 50 4. 15 E xc ita nt e D ifí ci l Pã o ‘p or le ve da r’ (ἄ ζυ μο ς) ? ø ? M ui to d ifí ci l A lto ? Pã o cr u ? ø ? M ui to d ifí ci l A lto ? Pã o de ce va da (d e a lim . 6 .5 01 .1- 50 3. 5) = C er ea l = C er ea l = C er ea l = C er ea l = C er ea l = C er ea l 14 0 I gn or ám os o p ão fe ito a pa rti r d a b riz a, po rq ue é m en cio na do ci rc un sta nc ia lm en te , c ita nd o M en es ite u. (c f. D e a lim . 6 .5 14 .1 0- 15 ; 5 15 .5 -5 16 .1 ) 122 Apêndice: cereais e pães IV : P ãe s d e ce va da v s. P ãe s d e Tr ig o Pã es d e c ev ad a ( de a lim . 6 .5 06 .5 -5 06 .1 5) Pã es d e T rig o (d e a lim . 6 .5 06 .5 -5 06 .1 5) N ut riç ão - + M ai s f ác il de d ig er ir + - Pã es d e c ev ad a p or os a ( de a lim . 6 .5 06 .5 -5 06 .1 5) Pã o de fa re lo d e a lim . 6 .5 06 .5 -5 06 .1 5) N ut riç ão = = M ai s f ác il de d ig er ir + - 123 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I Sobre as faculdades dos alimentos Livro I (as sementes e os grãos)141 141 Título original: ΠΕΡΙ ΤΩΝ ΕΝ ΤΑΙΣ ΤΡΟΦΑΙΣ ΔΥΝΑΜΕΩΝ. (Página deixada propositadamente em branco) 125 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I 1. Introdução (6.453.1) Muitos de entre os melhores médicos escreveram acerca das faculdades142 dos alimentos, abordando o assunto com grande insistência, dado que é provavelmente o mais útil (saber) dentro da medicina. Na verdade, não usamos outro recurso de forma tão invariável, pois sem os alimentos é realmente impossível gozar de saúde ou mesmo (chegar a) estar doente (453.5).143 Consequentemente, é compreensível que a maior parte dos grandes médicos se tenham debruçado sobre o exame minucioso das faculdades dos alimentos. Alguns alegam (454.1) entender essas (faculdades) através da experiência individual, outros querem também aplicar uma metodologia científica144; nesse sentido, outros consideram ser este último (método) o mais importante. De facto, certamente, tal como (sucede) com os que escreviam sobre geometria e aritmética, se os seus (454.5) tratados sobre os alimentos concordassem em tudo, não seria necessário para mim ter o trabalho de escrever outra vez sobre as mesmas coisas (já) tratadas por outros autores. Porém, como ao apresentarem diferentes opiniões se levantou a suspeita sobre uns e outros [pois, de facto, não é presumível que todos falassem verdade], é forçoso inquirir e também (é necessário) que nos tornemos juízes imparciais do que está postulado. Pois é errado confiar mais num (autor) do que (454.10) em outros sem os pôr à prova. Uma vez que os ensaios preliminares145 são de um género dúbio [já que a partir da percepção ou do conhecimento palpável se faz toda a demostração e prova segura], é-nos também necessário fazer uso de uma ou de outra, ou de ambas as duas, para a projeção do objecto em análise.146 Mas, dado que o julgamento (454.15) pelo uso da razão não é o mesmo para toda a gente, uma vez que é necessário ser-se de natureza inteligente e treinado desde a infância em 142 O termo usado é δύναμις (dynamis), sendo a mesma palavra usada pelo autor para indicar ‘faculdades’ ou ‘propriedades’. Vide 5.1. 143 A propósito do conceito de doença na obra galénica, considerando a palavra νοσῶν vide Johnstoon 2006, p.23-26 144 Λογισμός (logismos), conhecimento técnico. 145 Ao longo do texto traduziremos ἀπόδειξις (apodeixis) de várias formas; consideramos que em contexto científico moderno o termo significaria a aquisição de conhecimento através da análise da experiência, ainda que o lexema grego possa contemplar uma sinonímia mais abrangente. 146 O autor refere-se às duas metodologias possíveis, referidas anteriormente (cf. de alim. 454.1). Vide também nota de van der Eijk (1993) a este passo. 126 1. Introdução saberes estimulantes (455.1) da sapiência, será melhor começar pela experiência, até porque muitos médicos declararam que as faculdades dos alimentos foram descobertas apenas por este meio.147 Ora, por tudo isto prestaremos atenção aos Empíricos148 , que fizeram disso o seu objectivo ao pronunciarem-se vigorosamente contra (455.5) as coisas que se descobrem (unicamente) pela razão.149 Diócles, que era um dogmático, escreveu o texto seguinte no primeiro livro do seu Higiene para Pleistarco150: “Aqueles que defendem que as coisas com os mesmos sabores, odores, humores151, ou outras coisas desse, género têm as mesmas propriedades caem no engano. (455.10) Pois, podem observar-se muitos efeitos resultantes diferentes, apesar de serem parecidos. Tampouco se pode assumir que todo o laxante, diurético ou seja qual for a sua propriedade, é assim porque é quente, frio ou salgado. Uma vez que, nem tudo o que é doce, picante ou salgado, ou outra coisa desse género, tem as mesmas propriedades. Por outro lado, deve reconhecer-se ser a natureza (dos objetos) um todo (456.1) que o explica, seja qual for o efeito que cada um produza. Ora, dessa forma, mais do que por qualquer outro motivo, qualquer (pessoa) pode afastar-se da verdade. Aqueles que pensam que para cada alimento deve ser atribuído um motivo pelo qual é nutritivo, laxante, diurético ou outra (456.5) coisa desse tipo, primeiro, parece estar inconsciente de que muitas das vezes essa informação não é necessária para o seu uso; e, segundo, que muitas coisas existentes num determinado momento aparentam na sua natureza alguns princípios, porém, não é por isso que admitem uma conceção (precisa) sobre a origem dos mesmos. Nesse sentido, às vezes, quando aqueles (médicos) se enganam, ao fazer suposições sobre coisas desconhecidas, inconsistentes ou pouco fiáveis, acreditam lograr definir a causa destas adequadamente (456.10). Portanto, não se deve dar crédito àqueles que procuram as respostas desta forma ou àqueles que pensam ser necessário ter uma explicação para tudo. Devemos antes crer naquilo que foi aprendido por uma longa experiência e devemos 147 Por ‘experiência’ o autor entende a observação pelo senso comum, ou seja, a definição através de um resultado que se vai fazendo sentir ao longo dos vários acontecimentos relativos a um mesmo tema. Por vezes, o autor usa o mesmo termo para indicar um teste. 148 Ἐμπειρικῶν (empeirikon), neste passo em concreto o autor parece referir uma escola Empírica de médicos. 149 O autor refere-se aos Dogmáticos, escola a que se opunham os Empíricos. 150 Segundo o próprio Galeno, o autor grego da região da Eubeia e cujo produção intelectual é relativamente próxima à de Aristóteles (século IV a.C.), terá sido um dos mais relevantes exemplos da abordagem racionalista e dogmática. Galeno nota que, apesar do tipo de abordagem, o próprio Diócles não descarta o método empírico como forma de leitura de fenómenos naturais. Sobre Diócles de Caristo e a sua obra vide Hankinson 2002 e van der Eijk 2005, pp. 74-100. 151 Poderíamos também traduzir o nome θερμότης (thermotes) por paixões. Associa-se aos valores de ‘quente’ e ‘frio’ de que, segundo Galeno, se podem dotar os alimentos. Vide Johnston 2006, p.48. 127 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I procurar a causa das coisas que o justificam; e como consequência disto, o que se disser será mais bem entendido e mais credível.”152 (456.15) Este passo de Diócles é de alguém que julga que as propriedades da comida são inteligíveis apenas pela experiência e não pela informação sobre as misturas ou os humores. Portanto, ele não reparou que também existe outro tipo de indicações a propósito das partes das plantas. Ora, eu refiro-me à indicação acerca das plantas, da mesma forma que (457.10) Mnesiteu153 proclamou diante de outros, ao demonstrarque algumas propriedades existem nas raízes das plantas, mas outras nos caules; assim como há outras nas folhas, nos frutos e nas sementes. Por isso, agora toda a gente, ainda que pouco instruída, sabe que, da mesma maneira que a experiência ensina muitas outras coisas, também (lhes) dá a conhecer os alimentos que são digestivos ou indigestos, saudáveis ou insalubres, laxantes ou obstipantes. Todavia, caem num grande erro, ao usar um juízo nestas mesmas matérias, sem critérios de diferenciação, tal como demonstrei em Acerca das faculdades das drogas simples e no terceiro livro de Sobre as misturas; e, na realidade, os erros são os mesmo em cada caso. Por essa razão (458.1), não descrevo detalhadamente aqui, como (fiz) naqueles (textos), os critérios distintivos através dos quais, se alguém lhes tomar atenção, irá perceber mais claramente as faculdades (desses mesmos alimentos). Isto, já que por hábito escrevo uma só vez sobre cada assunto, e não me detenho com alíneas dos mesmos problemas em múltiplos tratados (458.5). Certamente, aquilo que costumo fazer não negligenciarei agora, ou seja, usarei este critério essencial somente sempre que seja possível combinar totalmente a consciência com a clareza.154 Começarei por aquilo em que genericamente há acordo e que foi corretamente descrito por Erasístrato155. Ou seja, que a melicrate156 não limpa 152 O médico cita Diócles de modo a demonstrar que este não fez ciência dentro dos pres- supostos epistemológicos do próprio Galeno. O autor crê que se deve partir da experiência, mas que também é necessária uma abordagem analítica. Vide Smith (1979), pp.181-5. 153 Mnesiteu de Atenas (séc. IV a.C.), vide Powell 2013, p.156. Sobre a personagem histórica e a sua produção vide Bertier 1972. 154 O autor comenta a necessidade de coerência e intertextualidade na sua obra, tentando ligar os textos por um fio condutor comum – a ciência criteriosa –, não repetindo explicações contidas noutros textos, antes remetendo para aquelas. Dessa forma, Galeno procura não romper com o objeto e exposição do próprio estudo que tem em mãos ao fazer comentários paralelos. 155 Erasístrato de Céos (ca. 304-250 a.C.), avesso à ‘teoria humoral’ e cujos tratados médi- cos foram um dos alvos preferenciais da crítica de Galeno, terá sido um proeminente médico alexandrino (Lloyd 1975). Apesar da fama que terá conhecido na antiguidade, juntamente com Herófilo, cofundador de uma academia médica em Alexandria (vide Longrigg 1988), nenhum tratado completo seu chegou aos nossos dias, pelo que conhecemos a sua obra principalmente pelos comentários de Galeno (Cosans 1997). 156 Μελίκρατον (melikraton), mistura de mel e água. Vide Powell 2003, p.157. 128 1. Introdução o estômago em todas as situações, nem um prato de lentilhas o congestiona, mas que existem algumas pessoas (458.10) que, além de não sentirem nenhum destes efeitos, até se deparam com o contrário157; assim como se verifica que o estômago se esvazia após o melicrate e também depois de um prato de lentilhas. E, também, diz-se aparecerem pessoas a digerir bifes mais facilmente do que peixe das pedras158. Eu próprio indago sempre sobre estes géneros de coisas. Começarei, pois, por aquele último: que tipo de sintomas ocorridos é para eles demonstrativo da difícil digestão do peixe das pedras? (458.15) Há realmente algum peso sobre o abdómen que surja como fosse chumbo, pedra ou barro a fazer pressão? (459.1) – já que é assim que alguns reportam a sensação deste género de digestão difícil. Ou a impressão de picada manifesta-se nela mesma, ao fazer-se óbvia; ou a flatulência ou a sensação incómoda de eructar? Tomando o exemplo individual, alguns afirmam que o arroto se faz gorduroso (459.5), outros que sentem uma sensação lacerante159 e ainda há outros a quem sucedessem ambas. Através de uma reflexão cuidada sobre as evidências físicas nestes (casos), encontrei grande acumulação de bílis amarela no estômago, relacionada com algum tipo de distúrbio160 ou constituição peculiar. Ora, refiro-me à ‘constituição peculiar’161 porque em algumas pessoas a bílis162, líquido que flui para o intestino desde o fígado, volta para o estômago; esta mistura é nociva (459.10) sempre que o calor inato seja picante, irritante ou seja também o que se poderia denominar por febril. De facto, similarmente, estas pessoas163 digerem com maior facilidade alimentos que são difíceis de desfazer, do que aqueles de fácil decomposição, dado que os que são de fácil digestão são prontamente alterados e corrompidos, enquanto aqueles que são de difícil digestão são processados com dificuldade 157 Aqui o autor assinala uma questão comentada ao longo de toda a obra, isto é, a diferente forma de reação do corpo humano, dependente de indivíduos, circunstâncias e propensão humoral. 158 Não é claro para nós se o autor se refere a peixes que habitem as rochas de rios ou mar: ou a um tipo de peixe em concreto, cuja espécie não pode ser relacionada com o peixe-pedra (Synanceia verrucosa), altamente venenoso e ausente do mediterrâneo, pelo menos nos dias de hoje. Parece-nos que o autor se refere a peixes que tenham os baixios pedregosos como habitat. Provavelmente ser-lhes-ia associada uma maior robustez e quantidade de gorduras, como por exemplo o salmão, o que os faria de digestão mais difícil do que outros géneros de peixe. 159 Referir-se-á, provavelmente, à acidez. 160 Optámos por traduzir δυσκρασία (dyskrasia) por distúrbio e não por ‘destemperamento’ (vide GI, p. 602), como habitualmente é entendido, pela ambiguidade que o termo tem na língua portuguesa. Ainda que Galeno se refira comummente à temperatura corporal, cremos que neste passo o autor não foca claramente apenas aspectos relacionados com os humores quentes ou frios. 161 Κατασκευῆς ἰδιότητα. 162 Χολή. 163 O autor refere-se às pessoas que têm uma temperatura estomacal alta. 129 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I e difíceis de decompor.164 (460.1) Então, sempre que estes (alimentos) são submetidos a altas temperaturas, são mais processáveis do que se estivessem dentro de um estômago de temperatura moderada.165 Realmente, no sentido deste argumento, algumas pessoas digerem melhor um bife do que um peixe das pedras. De acordo com a exposição anterior, para algumas pessoas as lentilhas são mais perturbadoras do estômago do que restringentes (460.5). Como se demonstra no meu trabalho Sobre as propriedades das drogas simples166, de entre os medicamentos que preparamos, alguns são constituídos por capacidades e propriedades opostas entre si; e não são poucas as drogas que aparentam serem simples e, no entanto, são de uma natureza complexa. Este tipo de situação ocorre com muitos alimentos, (460.10) pois não só as lentilhas, mas também o repolho e o alimento marinho – geralmente aquela denominada por moluscos167 - têm uma natureza composta por propriedades opostas. Pois ‘o elemento sólido’168 de cada um é de passagem lenta e adstringente para o ventre169; porém o elemento líquido favorece a secreção170. A prova171 exata ocorre (como resultado) da fervura: quando fervidos, o líquido de cada um esvazia (461.1) o ventre, mas a parte sólida (do alimento) estringe-o. A propósito disso ouvir-se-ão alguns dizendo que, se antes de outros alimentos, se ingerir leguminosas que não foram bem fervidas, transferindo tudo de uma vez do recipiente da fervura para uma taça com óleo e 164 A aparente contradição reside na forma como Galeno constrói o argumento, ao antecipar a consideração de que os alimentos de difícil decomposição são mais bem digeridos por estômagos cuja temperatura seja alta. Em seguida o autor explica o porquê, ao referir que as altas temperaturas reduzem a sua ‘resistência física’. 165 Ao considerar que o produto previamente cozinhado se digere melhor, o autor grego parece ignorar as propriedades dos ácidos estomacais e a atuação que estes têm no processo digestivo. Ainda que, obviamente, esteja corretoem tal consideração. 166 Περὶ τῆς τῶν ἁπλῶν φαρμάκων δυνάμεως. 167 Ὀστρακόδερμος (ostrakodermos). Vide De alim. 6.745-5. 168 Τὸ στερεὸν ἑκάστου σῶμα. 169 De uma maneira geral, traduziremos γαστήρ (gaster) por ‘ventre’ por considerarmos que nem sempre é clara a referência do autor grego ao estômago ou aos intestinos, quando usa este termo; por vezes fica subentendida a indicação de todo o sistema digestivo. 170 Ἔκκρισις (ekkrisis). 171 A concepção científica deste tratado é substanciada pelo constante recurso à ‘prova’: Ἀπόδειξις (apodeiksis), pelo que Galeno manifestamente recorre tanto ao método empírico, como ao dogmático. 130 1. Introdução molho de peixe172, estimular-se-á os intestinos173. Ao passo que outros preparam a chamada “dupla fervura” para adstringir o ventre. A confecção de tais legumes é a seguinte: fazendo a primeira fervura em água, remove-se todo o líquido do recipiente, substituindo-o por água limpa, na qual se ferve (o alimento sólido) uma segunda vez (461.10), de modo a que, se houver algum fluído da fervura anterior, este seja completamente eliminado. Pois a tudo o que é fervido em água sucede tomar parte da propriedade própria da água, ao mesmo tempo que liberta as suas faculdades no líquido (onde é fervido). Isto sucede a tal ponto que, usualmente, acontece ser-te174 possível perceber se o que foi fervido é um legume ou parte de um animal ou vegetal, quando as coisas são fervidas em molhos. (461.15) Pois o que foi fervido mostra a qualidade ou faculdade do molho através do sabor e do odor; enquanto o molho mostra a propriedade do que foi fervido nele. (462.1) Tu podes testar a veracidade de toda a proposta apresentada neste texto, ao ferver lentilhas ou repolho ou qualquer animal marinho, dos já indicados por mim, e depois dispor o preparado com azeite, garum e pimenta, e oferecer de beber (462.5) a quem queiras, tal como (fosse) uma dupla fervura de legumes. Então, constatarás que o intestino se move após (a ingestão) do caldo, mas depois obstipa-se com a parte sólida (do preparado). Por tal, não admira que por vezes ambas, as cólicas e a flatulência, ocorram depois de pratos deste tipo, quando são consumidos na íntegra, juntamente com os seus próprios sucos. Ora, gera-se aí um conflito entre ambos (os factores) (462.10): o elemento sólido restringe e retarda, enquanto a porção líquida estimula a excreção. Se o que está a causar aflição é expelido, o sintoma cessa. Enquanto este permanece (no interior), inevitavelmente, o ventre sofre de cólicas e flatulência até, finalmente, suceder a secreção dos elementos em contenda.175 (462.15) Portanto, uma vez que em algumas pessoas os ventres estão preparados para evacuar, (463.1) noutras (os ventres) são secos e segregam com dificuldade, cada um sofre sintomas relativos 172 Γάρος, cujo equivalente latino seria garum, corresponderia a um molho de peixe feito à base de entranhas de peixe salgadas e fermentadas ao sol. Este era um produto muito usado como condimento culinário no período imperial romano, ao ponto de existir toda uma economia dependente deste produto (vide Curtis 1983). Optámos por manter a termo latino, por não ser claramente conhecida a tipologia deste alimento, nem tão pouco as variantes que poderia ter. Garum corresponde ao termo geral. Sobre o consumo do garum e aplicações culinárias vide Feldman 2003, pp. 130-7; sobre a confecção cf. Plut. Quaest. conv. 659b. Sobre a produção e distribuição do garum e outros molhos de peixe pelo império vide Curtis 1978. Para a ocorrência deste termo na literatura imperial vide Corcoran 1963. 173 Κοιλία (koilia), corresponderia a todo o trato intestinal. No entendimento antigo da fisiologia, agregaria todo o sistema excretor. 174 Galeno varia entre o diálogo coloquial e direto com o interlocutor e a narrativa formal. É possível que estas variações discursivas derivem de ‘lições’ públicas, mais tarde convertidas em discurso académico. 175 É comum a repetição de ideias sem que estas sejam necessariamente complementares. Do ponto de vista da retórica da exposição, o texto parece apresentar algumas deficiências na fluidez expositiva, que talvez se justifiquem por acréscimos posteriores ou erros de copistas. 131 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I a alimentos de acordo com a sua natureza particular, como se por vezes o ventre incrementasse a propriedade do líquido e outras vezes a do sólido. Pois quando há duas influências opostas, a vitória tem que ir para um dos dois e a derrota para o outro. (463.5) Isto sucede em função de certas condições do ventre, que não são da sua natureza, mas foram geradas num dado momento.176 Ora, por vezes existe acumulação de fleuma177 no ventre e outras vezes bílis178. A propósito da própria fleuma, (há a dizer que) algum é ácida, outra doce e outra ainda não possui qualquer característica perceptível. Alguma (fleuma) é aquosa, outra espessa, outra (463.10) dura e outra fácil de dispersar.179 Quanto à bílis, alguma é amarela e outra pálida. De facto, um e outro tipo admitem grande variação, todavia, deixamos de parte outros tipos de bílis180 que surgem em corpos já enfermos; na verdade, cada um dos sucos mencionados, quer sejam preparados para (estimular) a evacuação, quer sejam para a obstipação do ventre (464.1), quando as partes sólidas chegam aos intestinos, complementados pelos seus característicos sucos, reforçam os humores com a mesma faculdade que eles mesmos (possuem), porém, contrariam os humores que têm propriedades opostas. Antes dizia-se existirem duas classes de motivação para o ‘porquê’, no caso de estarem em causa os mesmos alimentos, estes aparentarem ser processados diferenciadamente dentro dos estômagos. Porém, agora alguém descobriu uma terceira (classe), como sejam a constituição natural e os elementos líquidos e sólidos daquilo que se come. Não importa se nos referimos a coisas ingeridas como “comestíveis” ou como “nutrientes”. Na verdade, algumas vezes também são chamados ‘provisões’ ou ‘comestíveis’181, assim como (464.10) Hipócrates escreveu em Epidemias (2.2.11)182: “Os alimentos e as bebidas necessitam ser estudados ...” 176 Subentende-se: ‘gerados por algum fator externo’. 177 Fluído segregado pelas membranas mucosas dos mamíferos e que no contexto galénico se associa ao princípio dos ‘humores’. 178 Χολή (chole). 179 Entenda-se por ‘dispersão’ a assimilação e distribuição dos fluídos por todo o sistema fisiológico, não sendo sempre claro e objetivo de que forma se divide e de que maneira se rela- cionam cada um dos seus constituintes. 180 Como nota Powell (2003, p. 158), não é evidente a que se refere Galeno, quando fala em outros tipos de bílis. O autor grego distingue os tipos de bílis em função de uma gradação de cores e incluí o estado de saúde do indivíduo na construção de um critério diferenciador. Há uma certa questão relativa a causa/efeito que não é observada objectivamente por Galeno, isto é, o padecimento poder ser provocado por uma bílis doente e a enfermidade que derivaria numa bílis insalubre. 181 Σιτίον (sition) e βρῶμα (broma). 182 Ἐπιδημίαις (epidemiais). 132 1. Introdução e outra vez, num outro passo: “Trabalhos, alimentos, bebidas, sono e atividade sexual: tudo moderadamente!”183 Ora, neste momento, como aliás sempre digo, não devemos preocupar-nos com terminologia, nem afligir-nos com qual (palavra) usar, uma vez que são conhecidas de todos os gregos, embora seja importante procurar entender a questão (464.15). (465.1) É manifesto que estes alimentos são ou de rápida ou de lenta passagem, seja por causa da nossa natureza mais elementar, seja por causa da inerente disposição do ventre, ou mesmo devido a uma ‘substância’184 particular. Digo ‘substância’ particular das coisas que são alimentos ou bebidas, uma vez que algumas são húmidas e outras secas; (465.5) algumas resistentes, enquanto outras são facilmente dispersáveis e fáceis de digerir; outras possuem maior pungência intrínseca,mas outras ainda têm acidez, são amargas, são doces, são salgadas, são duras ou têm acridez; ou outras, à parte de tudo isto, têm faculdades farmacológicas do mesmo género das drogas purgativas.185 Por exemplo: a atríplice, o beldro, a malva e a cabaça186, (465.10) por serem duras e húmidas, circulam mais rapidamente do que aqueles (alimentos) que não são assim, especialmente com as pessoas que fazem passeios amenos depois de comerem, assentando assim (a comida) tranquilamente. Pois a comida escorrega melhor se uma pessoa se mover, do que se estiver estendida em descanso. Também as amoras e as cerejas doces se poderiam inserir nessa mesma classe e, além destas, também (465.15) os vinhos espessos doces. Os melões e as chamadas ‘meloas’ são bons para a excreção por causa da humidade e viscosidade (466.1) e têm uma capacidade moderadamente purgativa – mais os melões do que as meloas –, o que podes confirmar ao esfregar (estes frutos) numa parte suja do corpo, pois removerão imediatamente a sujidade deste. Estes produtos também estão entre aqueles que ajudam a urinar.187 183 Cf. Com um passo presente numa das coleções de textos retóricos sumérios e anterior em dois milénios ao texto de Galeno: (...)/ tur-bi kú-a mah-bi ti-la; “comer pouco é viver bem.”, vide Falkowitz 1980, p.161. Ainda a propósito dos conselhos de moderação na alimentação na antiga língua suméria: mah-bi kú-kú ŝà-gal-bi ì-hul-lu; “comer muito, ofende o estômago”, vide Falkowitz 1980, p.162. 184 O termo usado é οὐσία (ousia). 185 O particípio do verbo καθαίρω, que pode significar ‘purgar’, possivelmente implicará a indicação da depuração corporal, ainda que na maioria das vezes o uso deste verbo ou derivados corresponda simplesmente à excreção. 186 Ἀτράφαξυς, provavelmente: Atriplex rosea L., conhecida simplesmente por ‘atríplice’, JB. Βλίτον, Amaranthus blitum L. Bredos, Bredo-manso, Bredo-roxo, JB. Μαλάχη, provavel- mente: Malva sylvestris L. Κολοκύνθη,Lagenaria siceraria (Molina) Standl. 187 Amoras, Rubus fruticosus L. (cf. Dioscórides 43.227); Cerejas, fruto de Prunus avium (L.) L.; Melões e meloas, frutos de Cucumis melo L.. 133 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I (466.5) Também entre os (alimentos) húmidos estão as substâncias comestíveis aquosas, como sejam os chamados damascos, pêssegos e, de uma maneira geral, coisas que aparentam não ter importante qualidade de sabor ou odor. Uma vez que, se o ventre está predisposto para se esvaziar, escorregam facilmente e, se não, mantêm-se por digerir, não sendo (especialmente) prestáveis para essa função.188 Pois este tipo de alimento, que está de alguma forma entre o adstringente e o estimulante do estômago, inclina-se ligeiramente numa ou noutra direção, quando acontece o estômago não se esvaziar muito lentamente, nem ser muito lesto na excreção. (466.10) No entanto, na verdade por vezes estas comidas também estringem o ventre.189 Também o melícrate não só (466.15) não estimula o esvaziamento do sistema gástrico, como ainda leva à distribuição de alimentos que estejam misturados nele (467.1); isto para aquelas pessoas em que este é o primeiro a ser rapidamente distribuído190. E se não for logo distribuído, rapidamente incita à secreção – tal como a bílis amarela, porque contém em si algo irritante e daninho. Nesse sentido, alimentos e bebidas desse tipo estimulam a excreção intestinal, simplesmente por serem irritantes.191 (467.5) Evidentemente, também se inclui na discussão a natureza primordial dos intestinos,192 como por exemplo aqueles a que alguns homens chamam de ‘barriga arredondada’193 ou tripas inchadas. Alguns dos alimentos que são purgativos 188 Frutos do damasqueiro (Prunus armeniaca L.) e do pessegueiro [Prunus persica (L.) Batsch]. Comenta o autor a neutralidade de determinados alimentos, cujo efeito se verifica em função da própria disposição do sistema digestivo. No entanto, há que salientar que Galeno se refere a um alimento suave de sabor e odor, porém não tem em consideração o alto grau de açúcares contidos por estes frutos, pelo que teoricamente deveriam ser considerados estimulan- tes energéticos da rápida digestão pela fermentação, ainda que em causa esteja o efeito laxante. 189 Dadas as propriedades destes alimentos, a possibilidade de serem adstringentes terá que ver com a natureza fisiológica do próprio consumidor; isto, claro está, seguindo as considerações feitas por Galeno. Devemos notar que a própria substância do alimento se alterou pela seleção genética implícita no cultivo continuado. 190 Trata-se do verbo ἀναδίδωμι, que neste contexto pode entender-se que se refere ao pro- cesso de distribuição e assimilação dos nutrientes pelo corpo. De referir que ainda não era co- nhecido de forma exata o processo de digestão e de que maneira os nutrientes eram processados e qual a sua função metabólica. Este passo é esclarecedor de algumas lacunas no conhecimento do funcionamento do sistema digestivo, considerando haver uma sequência de quatro processos, como sejam a ingestão, digestão, distribuição e secreção. 191 Pode também dizer-se esvaziamento gástrico, dado que o autor aborda a função gástrica. Porém o uso do termo κοιλία (koilia) provoca ambiguidade, uma vez que tendencialmente remete para o cólon e a excreção de fezes. Esta dualidade é comum ao longo deste trabalho, não sendo claro se o autor falha no entendimento do sistema digestivo ou se a língua grega não confere um significado exato e definitivo a cada termo dentro dos mesmos parâmetros da ciência moderna. Tendencialmente inclinamo-nos para a segunda opção. Vide estudo introdutório 3.1. 192 Ἔντερον (enteron), literalmente ‘tripas’. 193 Προγάστωρ (progastor), este termo refere-se essencialmente à barriga arredondada (GI, p.1761). 134 1. Introdução para o estômago contêm em si faculdades mescladas (467.10), como sejam a escamónea194, a aboboreira e o heléboro-branco195 e outros desse género. Pois a natureza de tais coisas é uma mistura entre comida196 e fármaco, tal como se tu mesmo vertesses uma pequena porção de sumo de escamónea na água da fervura da cevada197. Ora, assim é ignorado pelos sentidos198, sem passar despercebido na sua função, pois seguramente fará uma limpeza ao estômago. Alguns (467.15) pensam que Hipócrates se referia a isto com... “Purgar com a comida é melhor...”199 – mas outros julgam não ser inteligível só dessa forma, antes (468.1) parece-lhes que a afirmação também pode ter sido feita acerca daqueles alimentos que não têm nem valor nutritivo, nem propriedades purgativas para o (ser) animal. Na verdade, também (se diz) que muitas vezes estes atuam não só como comida, mas também objectivamente como fármaco, aquecendo, arrefecendo, secando e humedecendo-nos; nesse sentido, sempre que (468.5) um desses não atue no corpo humano, mas apenas o alimente, enquadrado nestas circunstâncias, não será definido como droga. Agora, alimentos que tais são de um número reduzido; mas, quaisquer que sejam, apenas se definem exatamente como ‘comida’, quando não existe alteração nas qualidades do corpo do consumidor.200 Pois, aquilo que tiver sido aquecido, arrefecido, secado ou humedecido (468.10) foi qualitativamente alterado; mas quando se extrai da comida uma massa como aquela que foi dispersa, então é aportado benefício a partir dessa (matéria), da mesma maneira que o é da comida por si mesma.201 De acordo com isto, coisas proporcionais nas misturas e sem alguma faculdade predominante são apenas alimento, e não fármaco, pois nem estimulam as 194 Σκαμμωνία, Convolvulus scammonia, escamonia é uma planta nativa das regiões da bacia do mediterrâneo e à qual se atribui um princípio ativo purgativo. Relativamente à aboboreira, note-se que deve tratar-se, provavelmente, de uma Cucurbitácea, o meloeiro-bravo (fruto, me- lão-amargo), Citrullus colocynthis (L.) Scrad. (Nota baseada na revisão de Jorge Paiva, Biólogo. 195 Ἑλλέβορος, Veratrum album (L.) Gueldenst. Vide JB, Veratrum album 196Ἔδεσμα (ατος), outro termo usado pelo autor para designar comida. 197 Πτισάνη (ptisane), uma espécie de cozedura de cevada (Hordeum vulgare L.), seja a água ou a papa resultante, e que seria muito valorizada pelos seus efeitos medicinais. Powell 2003. Não sendo preciso o conhecimento que temos deste preparado e das suas possiveis variadas versões, mais adiante optaremos por manter o nome original grego na tradução. 198 O autor referir-se-á ao mau sabor e odor, pelo que a mistura facilita a ingestão. 199 Esta citação refere-se ao passo da obra Sobre a nutrição: Ἐν τροφῇ φαρμακείη ἄριστον, ἐν τροφῇ φαρμακείη φλαῦρον, φλαῦρον καὶ ἄριστον πρὸς τί. “Purgar com a comida é melhor, purgar com a comida é mau; é mau ou bom (dependendo) de cada uma” (De alimento 19.1-2) 200 Este passo explica-se pela consideração de que a comida que apenas alimenta e não tem qualquer efeito exterior ou sintoma não é considerável para a denominação de fármaco ou droga, pelo que têm o efeito meramente fisiológico. Esta questão é debatida pelo autor em Sobre os fármacos. 201 É possível que o autor tenha presente o bolo-alimentar, não como o produto resultante da digestão, como hoje entendemos, mas antes como a massa exclusivamente nutritiva da comida depois de processada. Na prática, trata-se da mesma figura, porém, não é claro até que ponto Galeno o conceberia. 135 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I entranhas, (469.1) nem as obstipam, nem oprimem o estômago, nem o relaxam202; tal como não são nem tranquilizantes, nem diuréticos203, nem geradores de qualquer disposição corporal do género: quente, frio, seco ou húmido. Nesse sentido, para todos os efeitos, mantêm o corpo do (ser) animal nutrido, mas imutável, tal como este os absorveu. (469.5) Porém, existe neste ponto um determinado elemento diferenciador muito útil e que não terá sido descrito por Diócles, assim como não foi nenhum dos outros com os quais lidei até aqui. Pois se o corpo de um homem tiver exatamente uma temperança média, este permanecerá nessa condição ao comer algo de temperança média.204 (469.10) Mas se a pessoa for (de ‘humor’) mais quente ou mais frio, mais seco ou mais húmido, pode sofrer dano ao alimentar um corpo destas características com comida e bebida que seja de temperança média. Pois cada corpo deste géne- ro necessita de ser ‘desviado’ numa direção oposta daquela onde estava, após partir de uma condição (de temperança) equilibrada exata. Ora, tal (469.15) sucederá com alimentos que são o oposto da identificada ‘má temperança’. Em cada situação inversa, os opostos encontram-se à mesma distância do estado nuclear. (470.1) Como por exemplo, se o corpo partisse de três medidas da ‘boa mistura’205 e estado temperado para um estado quente, seria necessário também alterar o alimento na mesma proporção, (isto é,) de um estado de composição equilibrada para um estado mais frio. E se o corpo passar de um estado húmido, considerando as quatros dimensões206, os alimentos devem ser mais secos na mesma medida do que aquilo que é o medianamente equilibrado. (470.5) Novamente, a propósito disto, é possível encontrar muitos homens tecendo os comentários mais contraditórios sobre os mesmos alimentos. Ora, re- centemente, duas certas pessoas discutiam entre si, uma dizendo ser o mel saudável e a outra (argumentando) que faz mal. Cada uma fez o seu juízo de acordo com a forma como ela própria era afectada por esse produto, não considerando que, para além disso, não existe uma composição única desde o início (da ingestão) para toda a gente ou que se acaso existe, esta não permaneceria (470.10) inalterada até à velhice; assim como também não tomaram em conta as mudanças sazonais ou geográficas – nesse sentido, ignoram que os seus costumes e modos de vida também alteram as disposições inatas dos seus corpos. Indo direto ao assunto, pelo menos 202 Desta feita o autor recorre ao termo στόμαχος (stomakos) para identificar a parte superior do ventre e não o próprio estômago, ainda que pelo contexto e pelo conhecimento anatómico que hoje temos, sabemos corresponder a este órgão. 203 À letra traduzir-se-ia por ‘propriedade de urina’ (οὖρον), porém considerámos que a referência do autor tem como objecto as capacidades diuréticas. 204 Isto é dizer se a pessoa em causa tiver tendencialmente um ‘humor temperado’, nem quente, nem frio; pelo que a comida que aporte as mesmas faculdades não levará a qualquer alteração. 205 Entende-se por ‘boa mistura’ o perfeito equilíbrio da conjugação das funções dos ‘quatro humores’. 206 Isto é dizer, estado quente, frio, húmido e seco. 136 1. Introdução um desses homens que discutiam sobre (470.15) o mel era velho, ou seja, mais mucoso por natureza e sedentário no seu modo de vida e em todas as atividades (físicas) (471.1), e tampouco fazia exercício antes do banho, pelo que o mel seria benéfico para ele. Enquanto o outro era de natureza ‘biliar’, tinha trinta anos de idade e passava trabalhos nas suas atividades quotidianas. Ora, pois, no seu caso o mel seria rapidamente convertido em bílis e (471.5), por isso, seria mais nocivo. Eu conheço ao menos uma pessoa que se queixava da zona da boca do estômago, pelo que julguei, partindo daquilo que me descrevia, que aí se acumulava fleuma.207 Ora, (para esses casos) aconselho a tomar alho-porro208 e beta209 com mostarda, pois ao eliminar-se a fleuma, o sistema gástrico esvazia-se melhor e é aliviado de (471.10) todos esses sintomas. Por outro lado, em outra ocasião a mesma pessoa, certa vez ao sofrer de uma indigestão e picadas no estômago depois de (consumir) carne picante, não só não lhe foi útil para as picadas tomar beta e mostarda, como ainda, na verdade, as piorou. E, depois disso, indagando como podia ter sido afectada tão intensamente por aquilo que anteriormente lhe trouxera benefício, veio até mim para saber a razão (471.15). De facto, é normal os Homens ignorantes, nestas coisas, enganarem-se sobre as práticas médicas. (472.1) Todavia, uma pessoa não deve concordar com os médicos que deixaram em aberto demasiadas questões relevantes. Pois não é apropriado simplesmente dizer que os peixes das pedras são bem digeridos pela maior parte das pessoas, mas que existe gente que digere carne mais facilmente. (472.5) Em vez disso, aqueles deviam definir o que cada grupo (de paciente) é. Da mesma forma, também não é apropriado tecer comentários sobre o mel de uma forma superficial, mas antes (argumentar) tomando em consideração a característica (específica) que é benéfica ou nociva em certas idades, naturezas, estações, regiões ou estilos de vida. Por exemplo, aquilo que é mais prejudicial para as pessoas de natureza seca e quente, mas muito benéfico para as que são (de natureza) húmida e fria (472.10); assim como (considerar) qual é o comportamento (do alimento) em função da ‘constituição’ (de cada pessoa) motivada pela idade, natureza, estação e estilo de vida. Ora, relativamente à atual discussão, parece ser realmente necessário examinar ambas as ‘composições’, as (das características) dos homens e as das faculdades dos alimentos. Ou seja, quanto destas há nos homens e como alguém as deve diagnosticar, como já foi exposto no meu tratado Sobre as misturas; (473.1) 207 Pode assumir-se que Galeno se refere a algum problema epigástrico, tendo isto presente quando identifica a ‘boca do estômago’ (τὸ στόμα τῆς κοιλίας). 208 Πράσον, Allium ampeloprasum L. (variante de ampeloprasum), também conhecido por Alho-bravo, Alho-ordinário, Alho-de-Verão, Alho-françês, Alho-inglês, Chalotes, Porreta, Porro-hortense, Porro-pratense, Porros-bravos. (Cf. JB allium Porrum). 209 Τεῦτλον, Beta vulgaris L., ou acelga, beterraba. Provavelment Sinapis alba L., Mostarda- -branca, ou Brassica nigra (L.) Koch, Mostarda-preta. 137 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I e da mesma maneira, em Sobre os fármacos, naquele trabalho que se debruça sobre as propriedades destes210. Porém, agora devemos comentaraqui as misturas211 dos alimentos, tal como foi escrito no livro Sobre o regime, tratado de Hipócrates, de acordo com alguns, mas segundo outros textos pertencentes a Filístion, a Aríston, a Eurífon (473.5)212 ou mesmo a Filetas – todos homens de idade.213 Alguns manuscritos começam da forma seguinte: “Deve conhecer-se a propriedade de toda a comida e bebida, tal como são, ambas naturais e adquiridas, através do artifício.” Mas noutros (manuscritos dizia) isto: “Deve-se diagnosticar a disposição e natureza de cada estado assim como é” Ora, quando esse texto é comentado por si só, (473.10) tem o título Sobre a dieta214, sendo a segunda parte de um conjunto que se divide em três secções. Mas quando as três secções são unidas, nesse caso reconhece-se como um trabalho único intitulado: Sobre a natureza do Homem e da Dieta215. Agora podemos talvez considerar o segundo texto, no qual há uma discussão conduzida por Hipócrates sobre a comida; já que o primeiro (texto) se afasta (474.1) muito do pensamento de Hipócrates. Pois este, de facto, está para além daquilo que alguém poderia considerar. Porém, seja qual for a pessoa a que pertence (o tratado), parece trazer de novo a ‘dieta’ para a discussão geral acerca dos alimentos. Então, aquele que saiba que a cevada216 é de natureza fria e húmida, e também saiba como reconhecer as composições dos corpos, tanto as que (474.5) são naturais, como as geradas por uma dada circunstância, usará a cevada de maneira apropriada, não só no caso dos corpos sãos, mas também com aqueles (corpos) que estão enfermos; e a pessoa que conheça a composição deste (cereal), 210 Galeno refere-se aos tratados: Sobre as misturas e Acerca das faculdades das drogas simples. 211 Ao falar-se em ‘composições’ ou ‘misturas’ estão em causa os vários elementos que compõe tanto o corpo humano como a comida, tendo esses elementos as características de quente ou frio, seco ou húmido. 212 Filístion de Locrios (inícios séc. IV a.C.) terá sido um eminente médico siciliano de quem se diz ter influenciado Platão (vide Repici 1990); Aríston é frequentemente mencionado nos trabalhos de Galeno (Powell 2003, p.161); Eurífon de Cnidos (c. V a.C.) terá sido um médico cujas posições sobre a nutrição são mencionadas no Anonymus Londinensis ou Papiro de Menon (vide Jones 2011); quanto à biografia de Filetas ter-se-á perdido no tempo (Powell 2003. p.161) 213 Aparentemente, Galeno refere-se ao texto hipocrático usualmente designado por Dieta I, II, III, IV. A propósito da referência de Galeno a este trabalho vide Powell 2003, p.160. 214 Vide Estudo introdutório 3.1. 215 Περὶ φύσεως ἀνθρώπου καὶ διαίτης. 216 Κριθή (krithe). 138 1. Introdução também aplicará bem um (composto) de cevada217 em cataplasmas. (474.10) Como expliquei em Sobre os fármacos218, não só se deve reconhecer a composição primária de cada propriedade dos alimentos como a coisa mais importante, mas também as composições que derivam das primárias; de facto, há muitos (exemplos) destas ultimas – se não é que são todos (exemplos disso) -, que se relacionam com sabores e também alguns que estão associados aos cheiros. Ora, como consequência de cada um ter sido misturado de uma determinada forma a suficiente (atmosfera de) calor (474.15), frio e também secura ou humidade, estes acabam por tornar-se doces (475.1), ou pungentes, ou salinos, ou ácidos, ou mesmo traventos219 ou amargos. ‘Salino’ não tem um outro significado que não seja ‘salgado’, pois as mesmas características são identificadas em ambas as palavras220; e a igual classe de ‘rijo’ e ‘travento’ é designada de ‘adstringente’. Falou-se em grande medida sobre os sabores no quarto livro de (475.5) Acerca das faculdades das drogas simples, pelo que qualquer pessoa que siga o que aqui se diz, terá de ter lido aquele trabalho previamente, de modo a que eu não seja obrigado a dizer novamente as mesmas coisas sobre aqueles neste tratado. Ora, enquanto algumas comidas, tal como disse acima, não exibem qualidade alguma digna de nota, (475.10) seja de cheiro ou de sabor – como aquelas a que realmente alguns se referem como ‘inerte’ ou ‘insípido’221 –, outros (alimentos) contém em si uma adstringência mais óbvia, ou doçura inata ou acridez; e ao passo que outros também parecem mais salgados, há ainda outros que tomam parte de uma pungência distinta. Então, está claro que alguns alimentos (476.1) como estes têm as mesmas faculdades dos fármacos que se lhes assemelham em sabor. Em Sobre os fármacos demonstrou-se as causas de alguns dos ‘adstringentes’ não produzirem os mesmo efeitos que os demais – no mesmo sentido que o ‘aloé vera’, o ‘cobre fundido’, o ‘sulfato de cobre’’, a ‘flor de cobre’, as ‘escamas de cobre’ e a ‘calcite’.222 (476.5) Pois em cada caso, como resultado de 217 Ἄλευρον (aleuron), preparado à base de cevada. 218 Refere-se ao seu próprio trabalho: Περὶ φαρμάκων. 219 Αὐστηρός (austeros), à letra, ‘austero’, refere uma sensação de aperto na língua, talvez mais perceptível no consumo de fruta ainda verde. À boa maneira galénica, mas em contexto moderno e globalizado, poderíamos considerar exemplo disso a ingestão da banana verde. 220 As palavras em causa são ἁλυκός e ἁλμυρὸν respetivamente, sendo que a primeira corresponde ao mineral ‘sal’. Este comentário acaba por, aparentemente, fazer pouco sentido à luz do tratado médico, pois o autor debate-se mais com questões do léxico popular do com as substâncias em si mesmas, porém este é um tópico muito comum na obra do médico grego, que faz da busca pela razão e processo argumentativo da ciência, o seu principal mote (vide estudo introdutório 3.1). 221 Respetivamente ἄποια (apoia) e ὑδατώδη (hydatude). 222 Ἀλόη, χαλκὸς κεκαυμένος, χάλκανθος, ἄνθος χαλκοῦ, λεπὶς, χαλκῖτις, respectivamente. Excluindo o aloé vera [Aloe vera (L.) Burm.f.], todos os restantes elementos são compostos do cobre. Tal como refere Powell (2003, p.161), estes foram listados e discutidos de forma mais detalhada no âmbito das suas propriedades farmacológicas por Dioscórides. O comentário de Galeno vem no seguimento das propriedades adstringentes destes materiais. Para um 139 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I outras coisas terem sido misturadas à sua propriedade adstringente e faculdades próprias, alteram-se naquilo que são as suas funções particulares; tal como se tu mesmo misturasses escamónea com marmelo223, tal como de facto fazemos por vezes, quando raspamos à volta do caroço da fruta (de árvore)224, enchemos o buraco com escamónea, depois recheamos com uma pasta (476.10), cozinhamos e finalmente servimos como comida. Pois o que tiver sido preparado desta forma esvazia os intestinos sem perturbar o estômago, uma vez que a propriedade purgativa contida neste preparado, e que deriva do (resultado da mistura) da fruta com escamónea, persiste enquanto perdurar sobre a fruta a qualidade que é própria (da escamónea). Pois, de outro modo não pareceria agradável e adstringente e, por conseguinte, adequada para o estômago. (476.15) Ora, sucede então que alguns alimentos contêm misturadas em si (477.1) propriedades ligeiras, que ou são purgativas ou provocam um outro efeito. Neste caso não se deve ter dúvidas de que as faculdades associadas aos seus sabores não produzem os mesmos efeitos que lhes são naturais. Pois tudo aquilo que tem uma qualidade adstringente, contando que existe por si só, contrai, restringe e arrefece as substâncias associadas a si. (477.5) Porém, por vezes a mesma substância pode conter componentes que são quentes e outros que são frios, como foi dito em Acerca das faculdades das drogas simples, uma vez que a natureza primordial as misturou dessa forma, tal como por vezes os médicos misturam píretro225 ou pimenta226, com uma das substâncias esfriantes. Pois então, como eu dizia, isto que foi notado no trabalho Sobre os fármacos (477.10) é muito útil para o que agora está a ser exposto. Eu próprio administrei algumas vezes um poucode preparado de lentilhas e, antes de mim, Heraclides de Tarento227 dava-o frequentemente a muita gente, não só aos que estavam de boa saúde, mas também aos que apresentavam algumas queixas. Ora, primeiro (478.1) pomos muitas acelgas-bravas228, de seguida ou juntamos uma pequena quantidade de sal ou (uma porção) de garum, pois desta forma é mais purgante229. Porém, quando coadas as lentilhas e fervidas duas vezes, deitada fora a água da primeira (fervura) e misturado depois um pouco de sal ou garum, e adicionando comentário mais aprofundado deste passo vide Powell 2003, p.161. Para a tradução vide GI pp.2328. Devemos notar que, nem sempre é claro que o material a que se refere Galeno possa ter correspondência com os conceitos modernos, não só no que se refere à botânica, mas também quando estejam em causa minerais, sejam estes brutos ou compostos. 223 Κυδωνία, Cydonia oblonga Mill., gamboeiro, marmeleiro, gamboa (fruto). Neste passo cremos referir-se ao fruto e não à planta. Vide JB, cydonia. Escamónia, Convolvulus scammonia (L.), 224 Μῆλον (melon), à letra corresponde à fruta colhida das árvores, vide GI, pp.1358. 225 Πύρεθρον, Tanacetum parthenium (L.) Sch. Bip., planta cuja raiz tem um sabor picante. 226 Πέπερι, Piper nigrum L., pimenta-negra. 227 Médico da Escola Empírica que terá atingido a fama na primeira metade do século I a.C. vide Powell 2003, p. 161. 228 Tεῦτλον, Beta vulgaris L., também podendo tratar-se de Beta maritima L. (Acelga-das-areias). 229 A propósito deste passo vide comentário de Powell 2003, p. 162. 140 1. Introdução ainda uma pequena quantidade de algo (478.5) que estrinja – tanto quanto não afecte o sabor -, produzirás um bom e muito útil remédio e ao mesmo tempo um alimento para muitos pacientes de diarreia crónica. Ora, eu digo ‘para muitos’, cuidando não dizer ‘para todos’, porque é necessário aplicar-se critérios distintivos pelos quais as disposições daqueles que padecem de diarreia crónica serão identificadas. (478.10) De uma maneira geral, uma coisa não pode ser testada empirica- mente de forma apropriada, sem primeiro, pelo uso da razão, inquirir-se sobre a composição à qual se está a aplicar o exame, seja comida, bebida ou fármaco. Ora, é a composição dos remédios (a fonte) para o entendimento de tais disposi- ções (478.14) e não propriamente os conhecimentos dos remédios por si só; isto é, (479.1) sem conhecer de forma precisa as faculdades dos materiais usados, é impossível ajudar aqueles que deles necessitam, pois é necessário discutir as fa- culdades dos alimentos – tal como já foram discutidas as faculdades dos fármacos num outro espaço. O conhecimento dessas propriedades é obtido com esforço, através de ensaios por um largo período de tempo (479.5) e pela natureza dos odores e sabores, cujas comidas em análise aparentam ter; e também através da consistência que adquiriram no que se refere à viscosidade, à friabilidade e à porosidade; e também à solidez, à leveza e ao peso. Todas estas coisas conduzem ao entendimento, de tal modo que, ao chegar a um país estrangeiro e ao te deparares com alimentos que nunca tinhas visto (479.10), terás um bom ponto de partida para o conhecimento das suas propriedades. Aquilo que Mnesiteu escreveu sobre raízes, caules, folhas, frutas e sementes não admite uma distinção muito segura, se os diferencias através de uma análise conceptual, de modo que consequentemente possas compreendê-los. Nesse sentido, eu entendi analisar cada um dos alimentos separadamente e detalhadamente, (480.1) ainda que a discussão seja muito longa. Enfim, mais tarde deverei ser capaz de fazer, num outro trabalho mais pequeno, a sinopse (disto), que será útil para aqueles que aprenderam já a técnica. Pois só a prática intensiva e o treino conduzem o artesão à perfeição. É por isso que argumento (480.5) estar correta a maioria das pessoas que diz que a melhor instrução se adquire através da experiência pessoal e que é impossível para alguém tornar-se um sabedor ou um especialista em outra qualquer arte (somente) através de um livro. Isto (que escrevo) são conselhos para aqueles que previamente estudaram e aprenderam; e não uma instrução completa para aqueles que não sabem (já disto). Nesse sentido, se alguns destes a quem falta instrução (480.10) desejam atender de forma cuidada àquilo que está escrito claramente e em detalhe, tal como eu próprio faço, lucrarão muitíssimo, especialmente se não hesitarem em lê-lo muitas vezes. 141 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I Capítulo I 2. Sobre o trigo230 Tal como seria de esperar, suponho que a maior parte dos médicos começou a discussão em causa pelos cereais (480.15), uma vez que este grão tem muitos usos (481.1) tanto para os gregos como para a maior parte dos estrangeiros. Os mais nutritivos destes grãos são os densos, sendo o conjunto da matéria compositiva compacta, de maneira que é difícil dividi-los mordendo-os. Portanto, estes aportam ao corpo uma grande quantidade de nutrientes numa pequena massa (de alimento). Enquanto os seus antónimos (481.5), que são facilmente quebrados ao trincar e que depois de mordidos parecem pouco densos e porosos, fornecem poucos nutrientes numa massa grande. Se quiseres pesar uma igual porção de cada um, notarás que os mais densos são bem mais pesados. Além disso, estes últimos são de cor mais amarelada que os menos densos. Porém, deve-se testar a natureza destes (481.10) não só examinando a simples aparência exterior, mas também dividindo-os e partindo-os, tal como já expliquei. Pois, apesar de muitos parecerem amarelados e compactos a partir do seu exterior, por dentro veem-se pouco densos, porosos e esbranquiçados. Estes últimos têm mais farelo231 e, se alguém os peneirar depois de moídos em farinha muito fina e fizer da sobrante aquilo a que se dá (481.15) o nome de pães-de-farelo232, examinando-os, verá (482.1) que, além de pouco nutritivos, desfazem-se em muitos pedaços no estômago e, consequentemente, descem facilmente.233 Ao mesmo tempo, porque o farelo comparte faculdades purgativas, como seria de esperar, provoca uma rápida eliminação dos resíduos, uma vez que os intestinos são incitados à excreção. (482.5) Os (pães) que são o oposto disto são muito puros, pelo que a mais pequena porção tem um peso elevado e, de todos os pães, são aqueles que ‘descem’ mais lentamente.234 De facto, observarás também que a massa destes é realmente pegajosa, uma vez que quando é derramada na sua totalidade não se divide, algo que é característico da matéria viscosa. Evidentemente, por causa 230 Περὶ πυρῶν (peri puron), Triticum spp. O plural usado pelo autor remete para as diferentes espécies de cereais e as suas variadas aplicações. 231 Πιτυρίας (piturias), farelo do trigo. 232 Ἄρτος πιτυρίας (artos piturias), pão ou bolo à base do farelo da farinha refinada. 233 Ao referir-se a muitos resíduos, Galeno estará a afirmar que facilmente se desfasem em várias partículas no estômago, pelo que a digestão se faz mais facilmente. 234 Em causa está o seu processamento e circulação pelo sistema digestivo até ao momento da excreção. 142 Capítulo I disso necessita ter mais levedura e ser mais amassada (482.10) e, não deve ser cozida imediatamente após fermentar e levedar.235 Porém, com pães-de-farelos basta uma pequena quantidade de fermento, uma leve fermentação e um certo tempo (de espera). Pois, enquanto os pães puros necessitam de um período maior de cozedura, aos pães-de-farelo basta um período mais curto. Entre aquilo que é mais puro e aquilo que é mais impuro há, então, uma pequena dimensão onde está a maior ou menor pureza (482.15), sendo realmente designada pura por alguns e impura por outros. (483.1) Ora, existe precisamente um tipo a ‘meio-termo’ de pães chamados pães-de-trigo236. Então, os antigos médicos chamavam-lhe pão-de-mistura237, uma vez que era feito de misturas de preparados (de grão), evidentemente quando a farinha com farelo não era apartada da (já) peneirada.De facto, em consequência (483.5) e por essa razão são comummente chamados de pães-de-trigo, uma vez que o próprio trigo é transformado em pão como uma mistura de um conjunto (diferenciado); e pães-de-mistura porque, quando estão a ser preparados, se lhes junta todo o tipo de massa sem qualquer distinção. Porém, entre os próprios pães que aparentam ter sido precisamente confecionados a meio-termo disto, ou seja, entre os pães feitos a partir do farelo e os pães muito puros, existe uma variação assinalável (483.10), de acordo com a natureza do próprio trigo. Pois os pães gerados a partir do trigo mais denso e pesado são melhores, enquanto os que são feitos com grão mais poroso e leve são pobres. Entre os romanos, assim como entre todos aqueles sobre os quais estes governam, o pão mais puro é o chamado de (483.15) silignis238 e depois deste está o semidalis239. Embora o semidalis seja um antigo nome grego, silignis não é grego; todavia, (484.1) eu não consigo dar-lhe qualquer outro nome. Ora, o silignis é de todos o que mais alimenta, seguindo-se a este o semidalis e, em terceiro, está o intermédio pão-de-mistura. O quarto (pão da lista) deriva do grão mais rude e é o pior; é manifestamente o menos nutritivo e de todos os pães é o que revolve mais (484.5) as entranhas. 235 Será necessário esperar que a massa levede até ficar no ponto, de modo a perder a carac- terística viscosa e mais espessa e só depois o pão deveria ser cozinhado. 236 Αὐτόπυρος (autopyros) seria um pão feito a partir de vários tipos de trigo. 237 Συγκομιστός (sykomistos), à letra traduzir-se-ia por ‘algo misturado conjuntamente’. Não querendo fazer uma associação direta com aquilo que modernamente e em contexto português é conhecido por ‘pão-de-mistura’, optámos por traduzir dessa forma por uma questão de maior proximidade semântica ao original grego. 238 Siligninis farinha de trigo ou farinha flor. Corresponderia a uma farinha mais refinada e limpa. 239 Σεμίδαλις (semidalis), farinha de trigo fina. A gradação é dada pelo autor, já que não nos é possível considerar através léxico de que maneira um tipo de farinha é melhor do que o outro, dada a falta do contexto histórico. De notar que não fomos capazes de detectar a ocorrência deste étimo no contexto da literatura latina. Vide GI, 1909, 143 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I Os melhores pães para a boa digestão são aqueles que foram bem levedados, bem amassados e cozinhados a fogo médio num forno de barro tapado240. Quando lhe é induzido um fogo forte, (o pão) queima logo e gera-se um aspecto de casca de barro; logo, o pão acaba por ser (484.10) de má qualidade em dois aspectos: por dentro fica cru e torna-se indigesto, e a côdea fica torrada e seca, como se fosse barro. Sob um lume mais baixo que o fogo médio, o pão não é devidamente cozinhado e fica completamente cru, principalmente o miolo. Aqueles que são cozidos de forma uniforme e em lume moderado por um período mais largo (485.1) são bem digeridos pelo estômago e também são mais adequados para as ações consequentes e levadas a cabo depois da digestão.241 Obviamente, os piores pães são aqueles aos quais nada disto se aplica. Tendo-se identificado o excelente e o deplorável de ambos pães, é agora fácil para qualquer pessoa (485.5) entender sem a minha ajuda que alguns pães estão mais próximos ora do melhor (que há), ora do pior; já outros estão apartados desses extremos; e também que outros, tal como foi dito, se posicionam a meio termo de ambos (os tipos de pão). De facto, de acordo com o que dizia antes sobre o mel, ou seja, que não deve dizer-se simplesmente que é bom ou mau para a saúde, mas antes que é bom para aquelas pessoas de natureza fleumática (485.10), isto é, uma (condição natural) que seja antes húmida ou fria em vez de uma natureza temperada, ainda que seja apenas mais fria e de pouco humidade, ou húmida sem ser muito fria. E também que este é inadequado para composições quentes e ainda mais se, além de quentes, são também secas. Ora, além disto, um pão que nem tenha sido (486.1) bem cozido, nem bem levedado é apropriado para um atleta; um que tenha sido bem cozido é apropriado para uma pessoa normal ou um idoso; e um que não tenha sido fermentado em absoluto242 não é adequado para ninguém. Mas se for adicionado queijo243 ao pão, - tal como aquele usualmente preparado pelos camponeses que celebram os festivais e ao qual (486.5) os próprios chamam de ‘não-levedado’, - existe um certo risco para seja que pessoa for, até para a gente de constituição muito forte, tal como os ceifeiros e os cavadores, mais dotados pela natureza. Uma vez que foram observadas pessoas a digerirem pães crus melhor do que os atletas mais fortes, da mesma maneira que o fazem com a carne de boi ou de bode. Pois, posto isto, que necessidade há em lembrar ovelhas ou cabras? (486.10) Em Alexandria também se come carne de burro e ainda há quem (coma) carne de camelo. Pois, apesar do hábito contribuir para a digestão destes produtos, 240 Κρίβανος (kribanos) mais do que um forno estará em causa um recipiente de barro, o qual se submeteria ao lume. No entanto, notamos a possível ambiguidade que o termo poderia acarretar. Cf. GI, pp. 1197-8. 241 O mesmo é dizer: a excreção. 242 Ἄζυμος, algo que não passou pelo processo de fermentação. 243 Τυρός (tyros). 144 Capítulo I na verdade, acima de tudo é a pequena quantidade ingerida e a capacidade de esvaziamento244 do corpo, como um todo, que necessariamente sustentam aqueles que trabalham ao longo do dia nos seus afazeres. Pois estas carnes (486.15) empobrecidas saem do estômago não só meio-digeridas, mas ainda, por vezes, como um suco complemente por digerir (487.1), depois destas pessoas se meterem ao trabalho após uma refeição. É por isso que mais tarde estes padecem de enfermidades complicadas e morrem antes de chegar à velhice. Ignorando este facto, muitos dos que os observam a comer e a digerir o que nenhum de nós é capaz de suportar e digerir, congratulam-nos pela sua resistência física (487.5). Além disso, uma vez que se gera um sono profundo naqueles que levam a cabo trabalhos pesados, isso ajuda-os a digerir com maior facilidade, pelo que consequentemente são menos afligidos por alimentos prejudiciais. Porém, se os obrigamos a ficar acordados por muitas noites sucessivas, adoecem imediatamente. Nesse sentido, estas pessoas têm apenas uma vantagem na digestão (487.10) dos alimentos difíceis.245 Na verdade, os atletas consomem alimentos fáceis de digerir246, mas os mais pesados entre eles comem alimentos gordos e densos. As pessoas referem-se especialmente desta maneira aos lutadores de pancrácio247 e boxe. Uma vez que todo o seu treino se destina a competições onde por vezes (487.15) têm de praticar luta livre ou pancrácio durante todo o dia, pelo que (488.1) necessitam comida que seja tanto difícil de desfazer como de distribuir. Tais alimentos têm sucos consistentes e densos, especialmente os que derivam da (carne de) porco e de pães, se estes forem preparados como se descreveu (previamente), e os atletas profissionais consomem-nos exclusivamente. Se realmente pessoas comuns sem treino (488.5) se alimentam destas comidas, rapidamente padecem de um mal pletórico, tal como, se um homem que se exercita subsiste de vegetais e sucos de cevada, rapidamente ficará em más condições e com todo o corpo esgotado. O suco dos pães, como aqueles que eu disse que os atletas consomem, se algum de nós, gente comum, os comer, é denso e insípido, do tipo (488.10) a que, por costume, chamamos concretamente ‘cru’. Ora, agora dá-se o caso de a fleuma ser cru e frío, mas não denso, já que contêm uma considerável quantidade de humidade, assim como de gazes que produzem flatulência. Aquilo a que se chama especificamente de cru é isto e parece-se com aquilo que às vezes 244 Vide Durling 1982. 245 Entende-se a capacidade de dormir mais e melhor como o fator que potencia a digestão, pelo que nãoé atribuída a estas pessoas qualquer capacidade física especial, uma vez que são as circunstâncias que geram o comportamento digestivo. Curioso é o facto de este comentário contrariar a ideia de que algum movimento estimula a digestão (vide supra), ficando claro que isso apenas se aplica em circunstâncias alimentares normais. 246 É provável que o autor se refira à ingestão de hidratos de carbono. 247 Uma modalidade de arte marcial especialmente violenta, uma vez que havia uma certa liberdade na tipologia de golpes. Vide BNP, vol.9, pp.447-8. 145 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I surge na urina e se assemelha ao pus. Todavia, enquanto o pus cheira mal e é viscoso, (489.1) o suco cru assemelha-se a este apenas na consistência e cor, não sendo nem malcheiroso nem viscoso; e, na verdade, não surge apenas na urina de pacientes febris, por causa da quantidade de sucos crus dos quais (já) falei, mas também em pessoas saudáveis que se dedicam a trabalhos duros e que consomem alimentos que são resistentes e difíceis de digerir. (489.5) Discutir-se-á mais tarde sobre outras comidas, mas sobre os pães, uma vez que iniciamos primeiro a discussão sobre estes, comentemos imediatamente aquilo que já se disse. Os melhores (dos pães) são os kribanitai248, quando cozinhados e previamente preparados para serem cozidos da maneira que descrevi. (489.10) Aqueles que são cozidos num ipnos249 seguem-se a estes, sendo que tiveram o mesmo tipo de preparação. Mas uma vez que não são cozinhados no interior de um recipiente de barro como o kribanos, são inferiores a este. Aqueles que são cozinhados em brasas de carvão, seja nas brasas quentes ou num recipiente de barro como o kribanos, são todos de qualidade questionável por serem cozinhados de maneira inadequada (489.15), uma vez que a côdea fica tostada e o miolo cru. E é chamado de ‘pão feito na brasa’ por ser cozinhado no meio das brasas, razão pela qual traz (490.1) um (elemento) desagradável: a cinza. Sendo assim, de todos os pães estes são os que têm mais probabilidades de serem os piores no correspondente à maneira de serem cozinhados, ainda que levem os mesmos ingredientes. No entanto, deve-se, desta forma e em cada ocasião, atentar naquilo que está a ser considerado, pois as coisas comparadas entre si foram alteradas apenas relativamente àquela característica concreta; (490.5) uma vez que foram comparadas coisas que se diferenciam entre si em muitos aspectos quando misturadas; o mesmo serve para todas as coisas que foram ditas sobre cada uma delas de forma particular. Posto isto, por fim foi dito o suficiente sobre as diferenças entre os pães. 248 Traduzido à letra: cozinhados num kribanos. GI p.1197. 249 Ἴπνιος (ipnios), forno. Supõe-se que o autor se refere ao mesmo tipo de cozedura do pão kribanitos, porém cozinhado diretamente no forno, sem um recipiente que o proteja e sujeito à fuligem. 146 Capítulo I 3. Sobre os pastéis250 (490.10) Pois agora talvez seja o momento de falar sobre outros pastéis feitos por algumas pessoas a partir de farinha-de-trigo quente. Aqueles que são chamados de tagenitai pelos atenienses e teganitai por nós251, gregos asiáticos, são preparados somente com azeite. Põe-se o óleo numa frigideira e leva-se a um fogo sem fumo252 e, quando estiver quente, (490.15) verte-se dentro a farinha-de-trigo embebida numa grande quantidade de água. Ora, de facto, (491.1) quando cozinhada em óleo, rapidamente ganha ponto e endurece, fazendo lembrar o queijo suave solidificado em cestas de vime. Chegada a essa fase, gira-se imediatamente, virando a parte de cima para baixo, ficando em contacto com a frigideira e trazendo o que anteriormente estava de baixo (491.5) para cima, uma vez esteja bem cozinhada. Quando a parte de baixo já está pronta, gira-se outra vez, provavelmente duas ou três vezes, até que lhes pareça que toda (a massa) foi efetivamente cozinhada. Está claro que este produto tem um suco espesso, adstringente do estômago e gerador de ‘humores crus’253. É por esse motivo que alguns misturam mel com este alimento (491.19) e também há quem lhe misture sal marinho. Ora, este (bolo) pertence ao género, ou espécie ou ao que quer que lhe queiram chamar, de bolo-espalmado. Tal como as gentes do campo e os trabalhadores da cidade (pobres), muitos outros fazem bolos-espalmados a partir do que tenham à mão. Por tal, aqueles doces por levedar, que são cozinhados num kribanos, imediatamente removidos e (491.15) postos em mel quente para que se embebam totalmente nele (492.1), são também um tipo de bolo-espalmado; e assim se faz com todos os pratos elaborados com mel. 250 Περὶ πεμμάτων, (pemma) corresponderia a um largo conjunto de produtos feitos à base da massa de cereais. A propósito da variedade e versatilidade dos pastéis na culinária Romana, vide Solomon 1978. 251 Um pastel frito em óleo (provavelmente) refinado de azeitona. 252 Por oposição fogo das brasas, que apesar de altas temperaturas tem uma chama baixa e gera muito fumo. 253 Χυμῶν ὠμῶν (chymon omon) ou sucos crus. Nem sempre é clara a distinção entre sucos e humores no tratado de Galeno, uma vez que no texto grego o termo tem ambos os significados. Vide Powell 2013, p. 165. 147 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I 4. Sobre oS boloS254 São reconhecidos dois géneros de bolos. Aos de melhor qualidade chamam-lhes rhyemata255 (492.5) e aos de qualidade inferior lagana256. Ora, tudo o que seja feito como estes e como os do tipo semidalis é de ‘processamento lento’, produz um suco denso e obstipante na passagem do alimento para o fígado, provoca inchamento do baço e gera pedra nos rins; porém, são bastante nutritivos, se bem digeridos e transformados em sangue de forma apropriada.257 Os alimentos preparados com mel têm (492.10) propriedades compositivas258, uma vez que o próprio mel tem um suco fino que torna fina qualquer substância que seja associada com este. De facto, estes bolos aos quais se acrescentou mais mel a quando da sua preparação e que foram cozinhados por um largo período de tempo, naturalmente, são menos lentos a ‘passar’ e dão origem a um suco que é uma mistura entre o fino e o denso e em pessoas saudáveis são melhores para o fígado, rins (492.15) e baço do que aqueles que foram preparados sem a adição de mel. (493.1) No entanto, são danosos para pessoas com obstipações259, seja devido a inflamação ou a endurecimento; por vezes, chegam a ser muito daninhos, principalmente todos aqueles cuja farinha é algo densa, pois o suco destes não só retrai e dificulta a passagem devido à sua densidade, (493.5) mas também, ao moldar-se dentro das extremidades apertadas dos órgãos, produz um bloqueio difícil de romper. Por fim, dessa maneira este problema gera nos pacientes uma certa sensação de mal-estar pesado, o que requere o auxílio de comidas e bebidas depurativas. Ora, isto foi já discutido em outro lugar: Sobre a dieta que depura260. (493.10) Contudo, nada preparado desta maneira afecta o tórax ou os pulmões. Mais tarde serão tratados os alimentos que geram densidade e ‘humor espesso’. Agora, o atual estudo requere ter presente as outras coisas que fui discutindo até ao momento, especialmente tudo o que esteja relacionado com as propriedades dos pães, dado que os consumimos (493.15) continuamente. E não é inoportuno recordar, sumariamente, o que foi dito até aqui sobre estes. (494.1) Ora, o melhor dos pães para um homem que nem é jovem, nem se exercita, é aquele que foi mais bem levedado e tem mais sal, que foi amassado 254 Περὶ ἰτρίων. 255 Ῥύημα (rhyema), um tipo bolo-de-mel, que provavelmente seria fofo e pouco prensado, por oposição aos bolos-espalmados. 256 Λάγανα (lagana), um tipo de bolo fino e estendido ou provavelmente espalmado. 257 O processo de digestão e absorção dos alimentos, culmina, segundo Galeno, no forneci- mento de sangue. 258 Isto é, são dados a misturar propriedades e a gerar outras. O adjetivo grego usado é μικτός, que à letrasignifica ‘misturado’. 259 Ἐμφράξεω̆ς (emphrakseus), vide Johston 2006, p.42. 260 Περὶ τῆς λεπτυνούσης διαίτης. 148 Capítulo I pelo padeiro por mais tempo, até estar devidamente preparado para cozer e que tiver sido cozido num kribanos a fogo moderadamente quente, da maneira que descrevi anteriormente. Que seja o sabor o critério distintivo (494.5) a ter em maior consideração para a levedura e para o sal; pois numa destas misturas intensas, o sabor desagradável indica que não é saudável. Então, sempre que se sinta o mau gosto na mistura, é melhor aumentar a quantidade de ambos. 5. Sobre o pão leve261 (494.10) Tantas quantas pessoas se propõem a fazer ‘pão ligeiro’, observam que, embora o alimento seja menos nutritivo, evita o dano pela constipação um tanto ou quanto melhor. Pois, acima de tudo, este pão é menos espesso e denso, uma vez que tem uma natureza mais próxima do elemento ‘ar’ do que do elemento ‘terra’. A leveza deste manifesta-se através do seu peso (leve) e pelo facto de não se afundar quando metido dentro de água, antes (494.15) flutua à maneira da cortiça. É importante que se saiba que muitas das nossas gentes do campo cozem um preparado a partir de uma mistura de trigo (495.1) e leite e que este alimento pertence ao grupo dos ‘aderentes’. Ainda que todas essas comidas sejam saudáveis e nutritivas, pela razão (já referida) causam dano àqueles que as consomem continuamente, produzindo obstrução no fígado e gerando pedras nos rins. Uma vez que (495.5) o ‘humor cru’ é adicionado à composição pegajosa, sempre que as vias dos rins sejam já estreitas por natureza em algumas pessoas, quando um humor muito espesso e viscoso se demora aí, certamente produzirá pedra do género daquela formada nos vasos onde aquecemos água e do género daquela que se gera à volta das pedras de muitas das fontes quentes naturais.262 (495.10) Na verdade, a própria composição dos rins também contribui bastante para isto, dado que o calor contido nestes é do tipo ardente e pungente. As pedras que se desenvolvem aquando do padecimento de gota também são desse género, pois invariavelmente sucede que tudo o que é supérfluo para o corpo vai para os pontos mais débeis e produz efeitos nos mesmos de acordo com a sua própria natureza. Retomarei este assunto na discussão (495.15) sobre o leite e todos os seus derivados, assim como (496.1) sobres os alimentos espessos, uma vez que existem outras comidas com estas faculdades. 261 Περὶ πλυτοῦ ἄρτου. 262 Ou seja, pedra do género calcário. 149 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I 6. Sobre a sêmola263 A sêmola inclui-se na família dos ‘trigos’. Esta terá um suco bastante nutritivo e (496.5) espesso se, sendo cozida apenas em água, for tomada juntamente com oinomelito264 ou vinho doce ou vinho adstringente265 – o momento apropriado da aplicação é específico de cada um – e se lhe for adicionado sal e azeite. Por vezes também se lhe junta vinagre266. Os médicos comentam que a sêmola preparada desta forma é temperada ‘à ptisana’267. Todavia, alguns (médicos) dizem que o paciente é alimentado com ptisane (496.10) feita a partir da sêmola; e alguns dos médicos mais velhos, como Diocles ou Filótimo, chamam à sêmola preparada dessa forma ‘ptisane trigueiro’268. Posto isto, é por essa razão que é raro o emprego desse nome pelos mais velhos, tal como sucede com o trigo da primavera. Então, referem-se simplesmente a este pelo nome de ‘trigo’.269 É dito em (496.15) Sobre a dieta de Hipócrates que os pães preparados a partir da sêmola, ainda que muito nutritivos, são inferiores no que toca à excreção. Também se diz que (497.1) o semidalis e a sêmola fervida são espessos e nutritivos.270 Portanto, que se tenha presente (a necessidade d)a atenção a ter com o uso excessivo destes por parte de pessoas cujo fígado se obstrua facilmente ou cujos rins sejam propensos a desenvolver pedras. É necessário prestar-se especial atenção às papas de aveia271 (497.5) feitas a partir da chamada ‘sêmola lavada’272. Pois, de facto, aquilo corresponde ao suco da sêmola depois de misturada com água, mas, ainda que careça de muita fervura, engana aqueles que a preparam e julgam já ter sido suficientemente cozinhada; tal (pode) provocar um mal considerável a pessoas enfermas, as mesmas para quem foram preparadas primeiramente, dado que se faz rapidamente dura e densa por 263 Περὶ χόνδρου, chondros poder-se-ia traduzir por ‘granulado de trigo’, que de certa forma tem correspondência com o termo ‘sêmola’, ainda que este possa adquirir outros sentidos em português, como a fécula extraída da farinha de arroz ou um produto extraído da batata. 264 Οἰνομέλιτος (oinomelitos), preparado à base da mistura de duas porções de vinho jovem com uma de mel, dissolvido. Por vezes este preparado poderia ser fervido. Vide Powell 2003, p.166. 265 Apesar da tradução literal, escapasse-nos o entendimento preciso do tipo de vinho a que se refere Galeno. É possível que em causa estivesse um vinho verde ou um vinho mais ácido ou avinagrado. 266 Ὄξος (oksos), vinagre. 267 Com πτισάνης (ptisanes), o autor referir-se-á ao nome do método de preparação, cuja motivação do nome não fomos capazes de identificar. A propósito vide comentário explicativo de Jones 2006, p.60-61. 268 Πτισάνην πυρίνην (ptisanen purinen). 269 Este comentário (496.8-15) visa esclarecer o leitor sobre a aplicação de um tempero que poderia ser conhecido por um determinado nome (à moda ptisane), mas que, em boa verdade, genericamente não teria um nome específico. 270 Vide Hipócrates, Περὶ διαίτης (De diaeta) 11.42. 271 Ῥοφήμα (rhophema). 272 ‘Πλυτοῦ χόνδρου’ (plytou chondrou). 150 Capítulo I ser viscosa. Nesse sentido, os que a cozinham, depois de terem misturado (497.10) a sêmola com uma grande quantidade de água, devem fervê-la, condimentada com endro273, sobre carvão por um longo período, até que esteja bem cozinhada e, já nessa fase, acrescentar-lhe também sal. Não fará mal, se também tiveres misturado azeite exatamente no início (do processo). Porém, tome-se isto como uma questão subordinada à aplicação terapêutica e não ao presente objecto que está em análise. Para aqueles que são saudáveis, sempre que necessitem de sopa de aveia274 (497.15) por causa de uma severa irri- tação do estômago (498.1) ou pela passagem de demasiada substância biliar, ou algo desse género, uma vez fervida a sêmola até ao ponto de estar bem desfeita e tendo sido mexida até que se pareça ao suco refinado de ptisane, então aí, pode dar-lhes (o preparado) a beber. O tempero é o mesmo que o da sêmola lavada. (498.5) 7. Sobre o trigo ferviDo em água275 Se eu, a dada altura, não tivesse comido trigo fervido da forma (que explicarei) de seguida, não imaginaria quais alimentos (feitos) a partir deste seriam úteis a alguém. Nem mesmo por fome, alguém o usaria (preparado) assim, já que, se houver abundância de trigo, pode (sempre) fazer-se pão com este. À refeição as pessoas comem coisas tais como grão-de-bico276 (489.10) fervido ou também assado e outras comidas, das chamadas sobremesas, que lhes venha de apetite277, preparando-as da mesma maneira (que este prato), mas ninguém come simplesmente trigo fervido dessa forma. É por essa razão que não esperaria que alguém comesse trigo fervido. Porém, quando passeava pelo campo, não muito afastado da cidade com dois companheiros da minha idade, (498.15) eu próprio aproximei-me de alguns camponeses que tinham feito a sua refeição e cujas mulheres estavam a ponto de fazer pão – uma vez que estava a ponto de acabar. Então, ali mesmo, um deles (499.1) pôs o trigo todo de uma vez num pote e ferveu-o. Depois temperaram-no com uma quantidade razoável de sal e ofereceram-nos de comer. Sem grande hesitação, aceitamos a oferta, já que vínhamos de caminhar e estávamos famintos. Então, comemos com real 273 Ἄνηθον, Anethum graveolens L., também vulgarmente conhecido por aneto ou funcho- -bastardo. Vide http://naturdata.com/Anethum-graveolens-4622.htm274 Avena sativa L. 275 Περὶ πυρῶν ἡψημένων ἐν ὕδατι. 276 Semente de Cicer arietinum L. 277 O termo τράγημα (tragema) pode também significar ‘frutos secos’. Optámos por usar o termo mais geral ‘sobremesa’ por indicar algo que se segue à refeição como capricho. De resto, o próprio autor explica mais adiante o conceito. Vide infra. 151 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I satisfação, porém sentimos um torpor no estômago, como parecesse termos barro sobre (499.5) o ventre. Ao longo do dia seguinte não tivemos apetite por causa de uma indigestão, pelo que não fomos capazes de comer nada, estávamos cheios de gazes, sofríamos de dores de cabeça e tínhamos a visão turva. E tampouco havia qualquer atividade intestinal, o único remédio para a indigestão. Mais tarde, perguntei aos rústicos se eles próprios alguma vez tinham comido trigo fervido e que disposição apresentavam. Aqueles (499.10) disseram que o comiam muitas vezes, pela mesma carência que nós tínhamos tido, e que o trigo preparado dessa forma era uma comida pesada e difícil de digerir. É evidente que isto poderia ser calculado até por alguém que não o tivesse experimentado. Pois, como disse anteriormente, quando a farinha de trigo é ingerida, não se digere facilmente, a não ser que tenha sido preparada com sal e fermento, misturada (499.15), amassada e cozinhada num kribanos. Pois como pode alguém não ter em consideração (500.1) que o trigo que não é processado da forma adequada é indigesto? Na verdade, o trigo comido desta forma tem um grande potencial, se for bem digerido, nutre bastante o corpo e induz uma energia notável naqueles que o consumam. 8. Sobre o amiDo278 (500.5) Este é preparado a partir do trigo e tem a faculdade de amolecer as partes mais duras. Esta consequência é comum a todas as substâncias que, sendo de composição seca, não têm faculdades adstringentes, nem ácidas, nem possuem qualquer outra manifesta propriedade. Como seria de esperar, chamam-lhes ‘inerte’, uma vez que não motivam qualquer sensação. Ora, englobado no conjunto das substâncias húmidas (500.10), este (produto) é tal e qual a água. O (pão de) amido é semelhante aos pães-leves, fornecendo ao corpo menor quantidade de nutrientes do que outros pães, além disso, não é quente279; ora, enquanto este não é quente, outros pães há que são quentes. Contudo, não devemos compará-lo com o trigo fervido em água, que é claramente (500.15) quente e, quando digerido, é muito nutritivo, apesar de ser resistente e de difícil digestão, como já foi dito. 278 Περὶ ἀμύλου. 279 O autor não se refere à temperatura, mas sim aos ‘humores quentes’. Vide estudo introdutório cap.4.1. 152 Capítulo I (501.1) 9. Sobre a cevaDa280 Este cereal também é muito útil ao homem, embora não tenha o mesmo potencial do trigo281, pois enquanto este último é manifestamente ‘quente’, a cevada não só está longe de ser ‘quente’ – tal como (501.5) alguns alimentos que estão entre o ‘quente’ e o ‘frio’, como sejam o amido e o ‘pão leve’ –, como, efetivamente, aparenta ser de natureza fria em todas as formas de emprego, seja quando é preparado pão a partir desta ou quando se cozinha a ptisane ou mesmo quando se prepara sêmola. E também se diferencia da natureza do trigo no que corresponde à estrutura dos (501.10) sucos que cada pessoa produz, pois o trigo gera um suco denso e viscoso, enquanto a cevada produz um suco fino e limpo. A cevada nunca aquece o corpo, seja qual for o modo de preparação e, mesmo preparada de muitas maneiras, não tem nem qualidade húmida, nem seca. No entanto, a sêmola de cevada assada é (501.15) manifestamente ‘seca’, ao passo que a ptisane (de cevada) faz-se húmida quando preparada de maneira correta, ou seja, sempre que for expandida em fervura por um largo período, depois for transformada em fluído por uma longa e suave (segunda) fervura e, finalmente, (502.1) for então adicionado vinagre, uma vez tenha atingido a capacidade máxima de crescimento. Quando preparada de forma minuciosa, deve adicionar- se bastante sal refinado, logo antes de comer. E se adicionares azeite precisamente no início (da preparação), não haverá qualquer problema para a fervura. Porém, não deves adicionar nada mais, à exceção (502.5) de uma pequena quantidade de alho porro e endro no início. Ora, tenho reparado que a ptisane é muito mal preparada por todos os cozinheiros, já que estes a processam amassando-o com um almofariz282 enquanto ainda húmus, em vez de a preparar em fervura ao lume. E outros acrescentam amido para que a ptisane aparente (502.10) ter sido suficientemente liquefeita através da fervura. Evidentemente, este género de ptisane é um importante causadorade flatulência e é difícil de digerir. Portanto, está bem ter presente o que disse a propósito de uma boa prepa- ração. Tendo antecipadamente embebido a ptisane crua em água por um curto momento e depois despejada num almofariz, é necessário amassá-la com as mãos enquanto se usa algo (502.15) duro, como aquilo a que se dá no nome de spartos283, a partir do qual se fazem as ‘proteções dos cascos’ dos animais de 280 Περὶ κριθῶν. Cevada, Hordeum vulgare L. 281 A propósito deste comentário vide Powell 2003, pp.167-68. 282 θύεια (thyeia) corresponderia a um recipiente onde poderiam ser prensadas ou moídas pequenas quantidades dos mais variados produtos. Sobre o uso do almofariz em contexto de produção romano vide Thurmond (2006, pp. 32-37) 283 Vide GI, p.1948. 153 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I carga284. Haverá que providenciar que a intensidade de prensa seja suficiente para remover (503.1) a casca; já que, quando a cevada é peneirada, a pele fina envolvente não é removida totalmente; consequentemente, (haverá que) ensopá- -la e depois amassá-la num almofariz. Mas se estes materiais brutos não saírem, uma vez fervido, então a pitsane ficará mais limpa (503.5), pelo que não fará mal algum. O pior preparado de pitsane é o seguinte: quando os cozinheiros reúnem num almofariz com água a cevada por cozinhar e, depois de o terem fervido por um curto período, acrescentam um pouco daquilo a que chamam mosto e vinho-novo fervido.285 Alguns também acrescentam mel e cominho a isto, gerando uma papa, em vez de pitsane (503.10). Todavia, a pitsane bem preparada fornece o que Hipócrates disse ser necessário quer para homens saudáveis quer para enfermos: “Pois a qualidade glutinosa...” diz “...é suave, uniforme e agradável; escorreita, moderadamente húmida, não provoca sede, é facilmente excrescida – se houver necessidade disso, e nem é adstringente nem provoca distúrbios incómodos; e nem (503.15) incha a barriga, isto porque foi inchada pela fervura, ao ponto de crescer até ao limite possível”.286 (504.1) No presente tratado, isto é o quanto basta ser dito sobre as faculdades da pitsane que não tenha que ver com fins terapêuticos, antes com a explicação das faculdades dos alimentos por si só. Ainda assim, ao longo deste texto ensi- naremos alguns (usos terapêuticos). 284 Em causa não está uma ferradura, tal como a entendemos para proteção dos cascos dos animais de trabalho, tratar-se-ia antes de uma espécie de sandália, cujo material da base não po- deríamos identificar de forma inequívoca pelo contexto, mas que provavelmente corresponderia a uma madeira como a da videira, ou um arranjo de vime, cuja flexibilidade, durabilidade e custo de produção parecem adequar-se ao contexto. 285 Resumindo: qualquer derivado de trigo não cozinhado é nocivo e de difícil digestão. 286 Ou seja, a massa torna-se menos densa e, seguindo a lógica de Galeno, mais fácil de processar pelo aparato digestivo.. 154 Capítulo I (504.5) 10. Sobre oS pãeS De cevaDa287 Agora é o momento oportuno para passar ao comentário sobre os pães de cevada, que as pessoas confecionam tanto quanto os (pães) de trigo. Ora, na verdade são mais friáveis que os de trigo, mas também mais do que os de mistura e ainda muito mais do que o tiphinos288, uma vez que nãocontêm viscosidade (504.10), como sucede com os pães de trigo. Obviamente, estes fornecem pouca nutrição ao corpo, principalmente quando feitos a partir de cevada de (qualidade) inferior, com a qual Hipócrates aconselhou a nem sequer preparar pitsane, pois nem fervida liberta de si suco quanto baste. Os melhores grãos de cevada são aqueles que se tornam brancos depois de joeirados e possuem uma certa densidade e peso, tanta quanta podem (504.15) ter os grãos de cevada. Ora, é também certo que aqueles que estão completamente cheios289 e têm uma aparência externa mais estreita são melhores do que aqueles que são ‘secos’ e enrugados. Deves, pois, tomar isto como característica comum a todas as sementes, excepto quando (505.1) as sementes tenham muito mais massa do que é normal e sejam ao mesmo tempo mais tenras e mais porosas. Também deves entender que estas últimas têm demasiada humidade e são inferiores às referidas anteriormente. É por esse motivo que não é boa ideia usá-las após a colheita, mas tendo-as depositado (505.5) num lugar seco, de modo a deixá-las dissipar alguma da humidade em excesso e torrá-las um pouco, até que estejam moderadamente secas e contraídas. Pois bem, de todas as ervas, sementes e frutos que tiverem sido colhidas e depositadas no solo, primeiro desaparece a pequena quantidade de humidade em excesso contida nelas e, depois disso, também perdem (505.10) alguma da humidade natural própria.290 Pois sempre que contenha uma substância que seja mais seca do que deveria ser, embora seja inferior àquela que atingiu a condição ideal, não é, todavia, completamente má; pelo contrário, é até mais útil para determinadas disposições, como aquelas necessitadas (de equilíbrio) através do elemento seco. Todavia, o grão depositado por um período mais longo é inferior quanto às suas qualidades. A premissa disto é: sempre que (a farinha) for dividida (505.15) terá algo semelhante a um pó fino solto. De facto, entenda-se que o descrito (506.1) até aqui a propósito destas coisas serve para todas (as demais). Pois, na verdade, 287 Περὶ κριθίνων ἄρτων. 288 Τίφινος (tiphinos) corresponderá a um tipo de pão feito a partir de trigo de qualidade inferior, aquilo que se poderia chamar de ‘pão-de-refugo’. 289 Isto é, densos por oposição a ocos. 290 Não é exata a barreira que separa aquilo que Galeno define como ‘humidade em excesso’ e ‘humidade natural. No que se refere à ‘humidade em excesso’ ficaria a faltar não só o critério que a define, como as causas geradoras da mesma, sob o ponto de vista do autor. Neste passo o autor identifica o processo de secagem de cereais. 155 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I não me agrada dizer as mesmas coisas sobre os mesmos objetos; exceptuando se a dado momento é necessário simplesmente fazer um breve sumário. Agora, retorno aos pães de cevada (506.5), sobre os quais se debruçava esta análise, e volto ao comentário, uma vez que existem diferenças entre estes comparativamente com aqueles que foram referidos há pouco e os pães de trigo. Todos estes são muito menos nutritivos que os pães de trigo. Porém, enquanto aqueles feitos a partir da melhor cevada padecem dessa inferioridade (comparativa), aqueles que derivam de cevada porosa e leve são equiparáveis aos pães de farelo. Mas ao passo que os pães deste tipo de cevada descem melhor pelo estômago (506.10), também os outros pães de cevada (o fazem) comparavelmente com os pães de trigo. No que refere ao melhores e aos piores - e, entre estes, aqueles outros produtos de cevada -, estes preparados ajustam-se ao que foi notado a propósito dos pães de trigo. 11. Sobre a alfita291 (506.15) A melhor alfita deriva dos grãos de cevada que tenham sido mo- deradamente secados. Todavia, por vezes, quando as pessoas não têm (acesso a) muitos grãos deste tipo, fazem-na (507.1) a partir de outros. Toda a alfita bem preparada tem um cheiro adocicado, especialmente aquela que (é feita) da melhor cevada-nova292 com a base não muito seca. Muita gente que goza de boa saúde tem o costume de regá-la com siraion293, vinho doce ou vinho com mel diluído em água (507.5) ou mesmo, por vezes, somente com água; e (tem o costume) de bebê-lo duas ou três horas antes do banho no verão. Esta gente diz ter a sensação de apaziguamento da sede como um único trago. Mas quando bebida com vinho seco, a alfita esvazia o estômago. Em algumas regiões as pessoas usam a alfita para preparar pão, tal como eu vi (fazer) em Chipre; ainda que, no entanto, ali se cultive essencialmente trigo. Os antigos (507.10) também costumavam cultivar alfita para homens em cumprimento de serviço militar. Porém, nos dias de hoje os militares romanos 291 Περὶ ἀλφίτων. Optámos por transliterar o termo grego uma vez que a possível tradução é algo ambígua. Ainda que alguns autores traduzam o termo neste contexto por ‘refeição de cevada’ ou simples farinha, podemos também entende-lo como ‘grumos de cevada’ ou ‘sêmola de cevada’ (vide GI, p. 142), Powell 2003, p.168. 292 Νέων κριθῶν (krithon) à letra significa ‘cevada jovem’ e corresponde ao estado anterior à maturação, segundo o autor, quando as suas propriedades não estão ainda no auge e o processo de seca natural não tenha atingido o ponto máximo. 293 Σίραιον (siraion), vinho novo fervido ou vinho jovem, isto é, prévio à total fermentação. Poderia corresponder àquilo que vulgarmente se designa por ‘vinho doce’. 156 Capítulo I já não usam a alfita, acreditando na ideia feita de que esta os enfraquece.294 Isto porque fornece uma pequena quantidade de nutrientes ao corpo, suficiente para um indivíduo normal que não faça exercício, mas inadequada para aqueles que levam a cabo algum género de treino. Da alfita, quando a esta tenha sido adicionada água, fazem-se os bolos de cevada (507.17), sobre os quais (508.1) falaremos de seguida; uma vez que Filótimo, quando discutiu a alfita de forma profunda no primeiro livro Sobre a comida, apesar de tudo, deixou por definir aquilo que seria mais útil entre estes cereais. 12. Sobre o oS boloS De cevaDa295 Antes de se proceder à prova, deve-se ser capaz de distinguir (508.5) a propriedade de cada alimento da sua natureza. Pois, para qualquer homem inteligente, o facto de estar em causa a mais fina farinha branca, livre de todo o farelo, não significará de forma absoluta ser mais rapidamente processada no estômago e, nesse sentido e em grande medida, ser melhor digerida e mais facilmente distribuída e que nutrirá de forma mais pronta, como se todo o conjunto fosse absorvido (508.10) e imputado ao corpo que está a ser alimentado? E tanto quanto contenha farelo e outras impurezas, tal como acontece no exterior do seu corpo, evidentemente este não se dissolveria em água e pela mesma razão não se dissolveria no estômago, uma vez ensopada, e seria completamente indivisível e indigesta, como era antes de ser ingerida? Pois esta nem pode ser bem processada, nem bem distribuída, por não se adaptar (508.15) completamente à abertura das artérias, ao descer desde estômago e intestinos. Ora, disto se depreende que haverá mais material fecal originado por esta e que ‘descerá’ rapidamente (509.1); ambas as coisas por causa da sua massa, dada a densidade e, além disso, pelo material poroso que no seu conjunto tem uma propriedade purgativa. Posto isto, é evidente para qualquer um que se tenha inquirido sobre estas questões, que o (509.5) bolo de cevada é tão inferior ao pão de cevada na nutrição do corpo, como este é inferior ao pão de trigo. Pois, embora a cevada naturalmente contenha por si só uma razoável quantidade de farelo, a cevada torrada tem a mesma quantidade na sua forma mais seca e menos quebrável; além disso, é mais seca e a parte da qual o corpo obtém sustento é mais resistente. Nesse sentido, o bolo de cevada é de pior digestão do que o pão de cevada (509.10) e deixa as 294 Sobre a dieta dos militares romanos vide Davies 1971, pp. 122-142. 295 Περὶ μάζης. Galeno não esclareceexatamente em que se diferencia isto do pão de cevada. 157 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I entranhas cheias de gás e, se ficar aí dentro por muito tempo, causa distúrbios (digestivos). Porém, este desce melhor se tiver sido misturado e amassado por um período mais largo. E se (acaso) alguém o tomar com mel, dessa forma será ainda mais rapidamente estimulado à secreção gástrica. Filótimo acredita que um humor espesso, glutinoso e frio (509.15), a que ele próprio – assim como o seu mestre Praxágoras296 – chama ‘verde’, é gerado por todos os bolos de cevada. No entanto, isso não é assim, uma vez que (510.1) a alfita297 nem tem viscosidade, tal como sucede com os granulados, nem valor nutricional. Porém, o bolo de cevada induziu-o em erro, ao ter sido mergulhado em vinho doce e siraion por bastante tempo – chama a estes bolos tripten298, assim como o fazem os atenienses. Pois a massa deste, que é equivalente à massa de trigo, pode tornar-se (510.5) maleável e é glutinosa, se tiver sido amassada por mais tempo e se lhe for misturado um fluído espesso ao ser preparado. Tal como amassar por um largo período juntamente com um fluído espesso produz uma massa batida de aparência viscosa, mesmo que seja farinha de painço; pelo mesmo motivo o suco da ptisane tem uma aparência viscosa, ainda que em si mesmo não contenha nada glutinoso, nem nada (510.10) que o faça pegajoso. Pelo contrário, tem características purgativas e solventes, uma vez que, factualmente, até remove sujidade da nossa pele. Além disso, se o deres a engolir a alguém e estimulares o vómito, este limpará o ardor do estômago e expelirá tudo na golfada, incluindo a própria (ptisane). 296 Praxágoras de Cós (c. IV a.C.) terá sido uma figura relevante no campo da medicina antiga (Powell 2003, p.169). Além de mestre de Filótimo, também terá tido Herófilo como discípulo. 297 Sobre a alfita vide supra. 298 ‘Τριπτὴν’, à letra corresponderia a ‘amassado’. Notar que ao bolo de cevada Galeno chama μᾶζα (Mazda), sendo que uma das traduções possíveis seria ‘bola de massa’. Nesse sentido, é de esperar uma ampla variação lexical na designação dos vários tipos de pães, formas de preparo e suas composições no diverso espaço ocupado por todos os falantes de grego. 158 Capítulo I (510.15) 13. Sobre a tIfe, a olyra e a zeIa299 Menesiteu posiciona a tife como a terceira (em qualidade), depois do trigo e (511.1) da cevada. Diócles discute-a de forma negligente, pelo facto de privilegiar a brevidade de escrita à exatidão da exposição. Nesse sentido (e em resumo), Diócles escrevia como se abreviasse a discussão sobre o trigo, a cevada e muitas outras coisas. Praxágoras e Menesiteu escreveram sobre estes cereais (511.5) de forma um pouco mais completa do que Diócles, porém, também estes (autores) foram omissos em algumas coisas. Já Filótimo escreveu o bastante sobre algumas matérias, aquém do necessário relativamente a outras e, no entretanto, esqueceu completamente outras coisas, como seja a zeia. Claro está, tal como (fez) o seu mestre Praxágoras. Contudo, além de não ter ignorado nada dos comentários de Praxágoras, Filótimo trabalhou sobre estes e (511.10) fez-lhes muitos acrescentos. Ora, é de admirar que aquele que reuniu a obra hipocrática intitulada Sobre a dieta, qualquer que tenha sido o autor (do conjunto), nem sequer mencionou a zeia. Ainda que mesmo acreditando que a tife é chamada de zeia (apenas) por algumas pessoas, o autor devia tê-lo referido. Porém, é conveniente interpolar os escritos destes imparcialmente. (511.15) Então Diocles escreveu o seguinte no primeiro livro do (512.1) Saúde para Pleistarcos300, no qual também discutiu as faculdades dos alimentos: “no que toca a excelência, depois da cevada e do trigo seguem-se, particu- larmente de entre o resto, a olyra, a tife, a zeia, o painço301 e o milhete302.” Em algumas versões a zeia não é mencionada de nenhuma forma, ao passo que em outros passos em vez de (512.5) ‘excelência’ está escrito ‘uso’, da maneira seguinte303: “no uso, depois da cevada e do trigo seguem-se, particularmente de entre o resto, a olyra, a tife, o milho-painço e o milhete.” 299 Περὶ τιφῶν καὶ ὀλυρῶν καὶ ζειῶν. Segundo as sugestões de Jorge Paiva, Biólogo, possivelmente a correspondência seria a seguinte. Τίφη (tife), Triticum monococcum L., Trigo- -candial. Ὄλυρα (Olyra), Triticum spelta L., Espelta. Ζειά (zeia), Triticum dicoccum (Schrank) Schübl., Escanha. Optámos por manter o nome original grego, dado que a tradução literal ao contexto moderno é pouco ajustada à realidade antiga, sendo que Galeno considera estas espé- cies como equivalentes. A própria zeia parece corresponder ao mesmo tipo de trigo designado por olyra, pelo que em causa estarão variantes lexicais e não tanto espécies de sementes. 300 Πρὸς Πλείσταρχον Ὑγιεινῶν. 301 Μέλινος (melinos), Setaria italica (L.) P. Beauv., Mélinos, Milho-dos-pássaros, Milho- -painço também designado por milho-paniço. Vide JB Setaria itálica. 302 Κέγχρος, Panicum miliaceum L., Milho-alvo, Milho-miúdo, vulgarmente chamado de milheto. Vide JB Panicum miliaceum. 303 Os termos usados são ἀρεταῖς (aretais) e χρείαις (chreiais), respectivamente. 159 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I No entanto, (aqui) é mencionado um grão em particular, a olyra, da mesma maneira que também a tife o é. Porém, Menesiteu diz que os dois nomes se referem a um único grão, quando (512.10) escreve isto: “então, de entre as sementes, a cevada e o trigo são os mais adequados enquanto alimento. Depois destes segue-se aquela a que se designa de duas formas, embora seja a mesma coisa. Alguns chamam-lhe tife e outros olyra.” E, seguidamente a isto, escreve: “... e depois destes vêm a zeia, o milho-painço e o milhete.” Ora, Diocles contentou-se em dizer apenas isto (que foi citado) a propósito de tife e olyra (512.15). No entanto, mais tarde Menesiteu também os referiu num outro trabalho, quando escreveu sobre o trigo e a cevada (513.1) e, imediatamente a seguir, sobre a tife, dando-lhes estes nomes da seguinte maneira: “enquanto a tife é a melhor entre as outras sementes, pois nutre de forma adequada e é digerida sem grandes problemas, ninguém que coma um bom bocado de pão de zeia terá boa saúde; e tampouco ninguém que não esteja acostumado a comê-lo, mesmo que apenas consuma uma (513.5) quantidade pequena, pois (a zeia) é pesada e indigesta. Todavia, aqueles que vivem numa região de mau tempo são obrigados a obter desta o seu sustento e a semeá-la, pois é resistente ao frio. De facto, estas gentes acostumaram-se a primeiro consumir uma pequena quantidade (de zeia), tanto porque tem um cheiro desagradável e porque há escassez de boas colheitas nestas regiões; mas depois, o facto de ser ao mesmo tempo (513.10) o alimento (habitual) faz com que os seus corpos se adaptem melhor a esta. Generalizando, deve dizer-se que a zeia é pesada e difícil de digerir, mas é vigorosa e cheia de fibra.” Neste passo, Menesiteu pôde demonstrar claramente querer chamar zeia ao tipo de semente que é semeada em regiões frias. No entanto, naquilo que me toca (513.15), ainda que não tenha visto todas as regiões frias (514.1), (ainda) não ouvi falar de ninguém que tivesse conhecido a colheita de um cereal tão peculiar chamado pelos habitantes zeia ou zea; de qualquer uma (das formas), pois surgem escritas de ambas as maneiras – em algumas a primeira sílaba termina em épsilon e iota, noutras apenas em épsilon. Ora, quando eu considero a possibilidade de os gregos nomearem assim esta semente, mas os estrangeiros aplicarem (514.5) um nome concreto a esta, então, tendo não só identificado a espiga, daquilo que para nós é a tife em muitos campos de grão da Trácia e Macedónia, assim como (identificada) a planta inteira na ásia (helénica), pergunto-me qual o nome que popularmente poderia ter entre aquelas gentes (estrangeiras). Ora, todos 160 Capítulo I me disseram que (514.10) a planta, como um todo, assim comoa sua semente, é chamada de ‘briza’304. A primeira sílaba escreve-se e pronuncia-se com três letras: β (beta), ρ (ro) e ι (iota). A segunda sílaba (pronuncia-se e escreve-se) com ζ (zeta) e α (alfa) no primeiro caso e, ν (ny) corresponde obviamente (à desinência do) acusativo. O pão feito a partir deste grão tem um cheiro azedo e é negro, (514.15) sendo muito fibroso, tal e qual Menesiteu o descreveu. Se aquele tivesse dito, além disto, que o pão deste grão também era negro, estaria mais inclinado em acreditar que este é o mesmo grão a que se referia como zeia. (515.1) Ora, nos lugares mais tempestuosos da Bitínia,305 uma certa semente é chamada de zeopyros306 , sendo que a primeira sílaba não contém a letra ι (iota), em desacordo com a que está em Homero: “o trigo e a zeia e a branca cevada espigada.”307 (515.5) O pão feito a partir desta é muito melhor que o da Macedónia e Trácia. Provavelmente, tal como o nome zeopyros é a junção de ambos os nomes, zeia e pyros, esta substância será como que um meio termo de ambos, uma vez que será resultante de uma mistura destes. De qualquer forma, é tão inferior ao trigo, como é superior à briza trácia. Os nomes (515.10) das cidades onde surge este tipo de grão são Niceia, Prusa, Crateia, Claudiópolis e Juliópolis; contudo, Dorileia, que é uma cidade no extremo mais distante da Frígia, também tem o cultivo deste tipo de grão na sua região, assim como outras cidades vizinhas. Pode-se também notar que o pão deste cereal (515.15) é melhor do que o de briza da Trácia e Macedónia (516.1), tanto quanto é pior relativamente ao pão de trigo. É feita menção à zeia no sétimo livro de Causa das plantas de Teofrasto, onde é dito o seguinte: “Dos cereais semelhantes ao trigo e à cevada, como sejam a zeia, o tife, a olyra, a aveia e o aegilops, a zeia é o mais forte e o que mais desgasta o solo (516.5), pois tem muitas raízes e profundas e muitos talos e grossos. Porém o grão destes é muito leve e agradável a todos os animais.”308 304 Βρίζα, provavelmente uma palavra de origem trácia e corresponderia ao centeio, Secale cereale L. A dureza climatérica destas regiões justificaria o amplo cultivo desta planta, particu- larmente resistente ao frio e ao tempo seco. 305 Região norte-oriental da Anatólia, atual Turquia, de onde se destacaram cidades como Nicomédia e Niceia. 306 Ζεόπυρον (ζέα + πυρός), uma variedade de Triticum monococcum L., que à letra poderia ser traduzido como ‘trigo do género zeia’, correspondendo, portanto, à designação de grão de zeia. 307 Odisseia 4.604. 308 Aegilops neglecta Req. ex Bertol., Trigo-de-perdiz, vide De causis plantarum 4.6.1; 4.6.3; 4.16.1; 5.15.5 (Silva, Paiva 2016). 161 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I E novamente, de acordo com isto: “a tife é a mais leve de todos. De facto, tem um único talo, que é a razão desta desenvolver-se em solo pobre e não, como sucede com a zeia, num solo rico e benfazejo.” Depois disto, juntando-os a todos escreve: (516.10) “bem, ambos, zeia e tife, são muito parecidas com o trigo.” Portanto, isto é aquilo que Teofrasto escreveu sobre a zeia. Heródoto diz no seu segundo livro: “Muita gente vive do trigo e da cevada, mas tal é motivo de grande critica para qualquer egípcio que consiga o seu sustento assim; em vez disso, estes fazem os seus alimentos a partir da olyra, (516.15) a que certamente muitos outros chamam de zeia.”309 Dioscórides escreve o seguinte no seu segundo livro de Sobre os materiais310: “Há dois tipos de zeia: (517.1) ora, um é chamado simples e o outro é chamado duplo-grão, uma vez que tem o par de sementes unidos por duas cascas. É mais nutritivo e salutar que a cevada, mas quando transformado em pão é menos nutritivo que o trigo. A farinha grossa, com a qual se faz as papas de aveia e que provém tanto da zeia como do trigo (517.5), é mais densa do que a farinha de trigo refinada. E é também relativamente nutritiva e fácil de digerir; todavia, aquela que é feita a partir da zeia é algo adstringente para o estômago, principalmente se tiver sido previamente torrada. A olyra pertence ao mesmo grupo da zeia, mas em quantidade esta não é tão nutritiva. Da mesma forma, esta também é panificada e se faz farinha grossa com ela311. As papas312 preparam-se com a farinha (517.10) fina de zeia. As papas são como uma sopa leve, apropriada para crianças. Também se fazem cataplasmas com estas sementes. Já o tragos313 é mais parecido à sêmola na forma, mas é muito menos nutritivo que a zeia, porque contém muitas impurezas e por esse motivo é difícil de digerir; no entanto, relaxa a barriga.” 309 Histórias 2.32 310 Περὶ ὕλης. 311 Κρίμνον (krimnon); optámos por traduzir este termo por farinha grossa ao longo deste texto, em vez de preservar o nome original grego. Apesar de o termo português ser algo vago para aquilo que seria a especificidade da palavra grega original, entendemos que a sua tradução facilita o entendimento do contexto. 312 Traduzimos a palavra ἀθήρα, GI pp. 87. 313 Τράγος (tragos), vide Powell 2003, pp.169-70 e GI p. 2137. 162 Capítulo I Posto isto, já basta de zeia. (517.15) A maneira de diferenciar a olyra da tife foi objecto de inquirimento por parte de Menesiteu. (518.1) Pois existe muita quantidade de cada um deles na Ásia, principalmente nos territórios interiores de Pérgamo, já que os camponeses fazem usualmente pão a partir destes cereais, porque o trigo é levado para as cidades.314 Depois dos pães de trigo, os melhores são os que são feitos de olyra, sempre e quando sejam (518.5) de boa qualidade; depois vêm os de tife. Porém, este último não fica a trás da olyra quando esta é de má qualidade. Quando a tife é de boa qualidade, os pães quentes são mais fortes que os de olyra, mas quando deixados para o dia seguinte, são inferiores; pois embora estes tenham uma massa mais viscosa são, de facto e vincadamente, sólidos, especialmente quando (518.10) preparados com pouco cuidado. De tal modo que, em um ou dois dias – e muito mais se depois disso – alguém que coma este pão julgará ter barro assente no estômago. Porém, enquanto estão quentes são avidamente procurados pelos habitantes, que os comem com queijo da região, a que chamam ozygalaktinos315. Este queijo deve ser macio e o pão deve manter (418.15) ainda o calor do forno. O pão aquecido (519.1) desta forma é muito apreciado não só pelos camponeses, mas também pelos habitantes das cidades. Já o pão de três ou quatro dias não é agradável até mesmo para os camponeses, é mais difícil de digerir e é de descida mais lenta pela barriga; ao passo que o pão fresco não provoca esses (519.5) sintomas. Embora seja muito inferior ao pão de cevada em efeitos laxantes, não fica atrás do pão de milhete; e além disso, quando fresco, nutre aceitavelmente o corpo, pelo que não fica a dever muito ao pão de trigo. O grão da tife tem uma casca exterior como (519.10) a olyra e a cevada, mas quando é moido num almofariz, é transformado em massa e é-lhe dada uma grande variedade de empregos. Na verdade, quando fervido em água, é comido da mesma forma daquele (preparado) a que as pessoas do campo chamam apothermos, quando adicionamos aquilo a que chamamos mosto e outros chamam siraion316. Por vezes é também comido fervido em sal, tal como eu próprio disse já ter comido trigo. (519.15) Ao esmagar-se o quanto baste os melhores (grãos) da colheita de olyra, faz-se aquilo a que se chama (520.1) tragos e a que muita gente dá 314 Uma referência ao sistema económico imperial. Os territórios agrícolas correspondiam ao ‘cesto’ do império, pelo que não tendo as cidades produção cerealífera, havia uma extrema depen- dência da importação do trigo. Este sistema levava a que por vezes os próprios agricultores, cuja produção fosse excedente, não tivessem trigo para consumo próprio. Sobre o sistema económico imperial romano vide Mattingly & Salmon (eds.) 2010. 315 Ὀξυγαλάκτινος, à letra: queijo de leite acre. 316 Σίραιον, vinho novo fervido, aindaque neste passo pareça indicar um outro produto. 163 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I uso fervendo-o em água e, depois de decantada a água, vertendo-lhe vinho novo fervido, vinho doce ou vinho com mel. E também põem pinhões317 pré- demolhados em água, de modo a que a tenham absorvido tanto quanto possível. Alguns dizem que este grão é da mesma espécie, mas não da mesma (520.5) semente da olyra. Existem muitos outros cereais relacionáveis, mas nenhum tem precisamente a mesma forma daqueles que têm sido discutidos. Alguns estão entre a cevada e a tife, outros entre a tife e a olyra, e outros ainda entre o trigo e a olyra. Alguns são de natureza muito próxima, como sejam a olyra, (520.10) a cevada, a tife ou o trigo; tal como são outros, como sejam o milhete com casca e o milhete aberto; outros ainda há que têm nomes simples como o setanius318 da itália ou nomes compostos como a chamada ‘cevada descascada’ na Capadócia e o zeopyros na Bitínia. Por tudo isto, é melhor deixar esta discussão, não só sobre (520.15) os nomes, mas também sobre as sementes, e passar à informação simples e aplicável a todas. Ora, aquelas que contêm mais substância numa pequena massa (521.1), sendo esta espessa e densa, são de melhor digestão e mais nutritivas, contudo, não são facilmente excretadas. Aqueles cereais que são o oposto disto e têm uma composição macia e porosa e as partes são como o farelo, embora sejam mais bem expelidos, são menos nutritivos. E sobre estes últimos, todos aqueles que (521.5) são malcheirosos e têm um certo sabor desagradável, obviamente, produzem ‘maus humores’ e são de difícil digestão. O peso e a quantidade de farinha indicam que existe mais matéria num punhado pequeno, quando pesado na balança. Pois bem nas sementes com matéria condensada, extrai-se mais (substância) de um punhado pequeno. (521.10) Antes de os consumir e introduzi-los no corpo, há que indagar sobre as diferenças entre o quente e o frio através da cor e sabor e utilidade quando aplicados externamente. Depois de os tomar, há, para aqueles que os comeram [e que os guardam na barriga], um diagnóstico preciso e uma sensação consciente (521.15) no estômago de que aquilo que foi consumido é ou quente ou frio ou não tem (522.1) nenhum desses dois efeitos. O branco é a cor natural da cevada e da olyra, enquanto a cor do trigo é amarelada. A tife é mais arruivada que o trigo. Contudo, o corpo deste é condensado num estado mais denso, o que provavelmente (522.5) contribui para a pequenez dos grãos, dado que são de tamanho inferior comparativamente com o trigo. Na verdade, há quem também inclua este grão na família do trigo. E aquilo que foi dito por Homero a propósito dos cavalos, quando Heitor lhes diz: 317 Sementes do pinheiro-manso (Pinus pinea L.) 318 Vide IL, p. 1182. 164 Capítulo I “...primeiro depositou diante de vós trigo delicioso.”319 (522.10) Comenta-se que isto foi dito sobre os grãos de tife, pois são trigo miúdo e os cavalos comem-no sem más consequências, porém, aquilo que é realmente trigo já não o podem comer sem sofrer dano. De facto, pode chamar- se à tife trigo-miúdo convictamente, uma vez que se assemelha ao trigo em cor, densidade e propriedade quente. (522.15) 14. Sobre a aveia320 Encontra-se este cereal em grande quantidade na Ásia, e especialmente na Mísia321 situada para lá de Pérgamo, onde também se cultiva muito a tife e a olyra (523.1). Ora, trata-se de alimento para as bestas de carga e não para as pessoas, a não ser, em momentos de fome extrema, quando então são forçadas a fazer pão a partir deste grão. À parte da fome, quando tenha sido fervido em água, come-se com vinho-doce, vinho-novo fervido ou vinho com mel, tal como com a tife; e tem em comum com esta ser relativamente (de humor) quente (523.5). Contudo, não é tão dura como a tife. Por esse motivo fornece menos sustento e o pão feito a partir deste é desagradável, entre outras coisas. Não estringe nem estimula as entranhas; nesse aspecto, antes está no ‘entremeio’.322 319 Il. 8.188. 320 Περὶ βρόμου, GI, p. 446. 321 Região do norte da Anatólia, a ocidente da Bitínia. 322 O curto comentário sobre este cereal, cuja abundância de cultivo é notada pelo próprio autor, dever-se-á à raridade do seu consumo por humanos. Note-se que Galeno exclui por completo o comentário sobre a dieta animal neste tratado. 165 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I 15. Sobre o milhete e o elymos, também chamaDoS painço323 (523.10) Por vezes faz-se pão a partir destes, quando é difícil obter os ce- reais mencionados acima, no entanto, é pouco nutritivo, insípido e, obviamente, friável e esboroa-se, como se não tivesse nada de gordura ou oleosidade.324 Como seria de esperar, resseca um estômago húmido. Porém, em ambiente rural, depois de se ferver farinha deste grão, as pessoas misturam banha (523.15) de porco ou azeite e comem-no. O milhete é superior ao elymos em todos os aspectos. Na verdade, é (524.1) um alimento mais agradável, fácil de digerir, provoca menos obstipação e é mais nutritivo. Por vezes, os camponeses comem a farinha deste cereal com leite, de- pois de o ferver, como fazem com a farinha de trigo. Está claro que, quanto ao gerar de humores sãos e em tudo o resto, este alimento é tanto superior a outras comidas - quando estas sejam consumidas sem mais nada –, (524.5) tanto quanto o leite é superior às propriedades naturais de ambos (os cereais) na produção de humores saudáveis e em tudo o demais. Por ‘tudo o demais’ quero dizer digestão, esvaziamento gástrico, distribuição e, uma vez ingeridos, melhor sabor e prazer. Portanto, com estes cereais nada é agradável,325 particularmente o elymos no nosso caso asiático. Por outro lado, em outras regiões, (524.10) tal como a Itália, fazem- -se muito mais agradáveis.326 323 Περὶ κέγχρου καὶ ἐλύμου, ὃν καὶ μελίνην ὀνομάζουσι. A tradução destes termos é algo problemática, uma vez que podem designar todos a mesma espécie ou cada um identificar uma espécie não correspondente com as descrições científicas, nem com o nome popular atual. Tal problema não reside tanto na identificação científica das espécies antigas e a sua catalogação em contexto moderno, mas antes com a ambiguidade de que eram dotados estes ‘termos’ na antiguidade, não havendo uma sistematização e catalogação inequívoca de cada espécie e a sua consequente cristalização lexical. Neste caso concreto as três espécies, em contexto grego, correspondem à espécie Setaria italica (L.) P. Beauv., Mélinos, Milho-dos-pássaros, Milho- -painço 324 Sobre a produção moderna dos vários tipos de cereal no espaço mediterrâneo rural con- temporâneo e antigo, vide o estudo de Halstead 2014. 325 Entenda-se quando consumidos sem leite ou aditivos. 326 Este passo de Galeno parece ser algo contraditório, pois o autor revela o consumo destes cereais e até sua qualidade relativa a outras comidas, porém, não deixa de os considerar desagra- dáveis como alimento. De notar a diferenciação qualitativa do cereal face à região e clima onde é produzido. (Página deixada propositadamente em branco) 167 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I Capítulo II 16. Sobre os bagos327 Chamam ‘bagos’ aos grãos dos quais não se produz pão: feijões, ervilhas, grão de bico, lentilhas, tremoços, arroz, ervilhaca, chícharo, agrião-roxo, chícharo-preto, feijão-frade, feno-grego, ervilhaca-miúda e (524.5) quaisquer outros como estes.328 Mais adiante falarei sobre as propriedades de todos, sobre o conhecimento de como usá-los sem que façam mal. (525.1) 17. Sobre o arroz329 Todos dizem usar-se este grão para adstringir os intestinos, fazendo uma fervura como se faz com a sêmola. Porém, este é menos digestivo e menos nutritivo que a sêmola; e, da mesma maneira, (525.5) fica muito atrás da sêmola no que toca ao (sabor) aprazível. 18. Sobre aS lentilhaS330 Ninguém faz pão a partir destas, dado que não contêm óleos e são friáveis e, além disso, têm uma casca adstringente; o corpoproduz um suco espesso e é 327 Ὄσπριον (osprion), nada tem que ver com cereal, tendo em conta os elementos que Galeno insere neste grupo. Não é certa a classificação destes produtos na antiguidade, ainda que Galeno designe desta forma todos os grãos dos quais não se faz o pão. A propósito vide Powell 2003, pp. 170-1. 328 Aqui, e seguindo os comentários de Jorge Paiva, Biólogo, o substantivo 'feijão' é usado de forma genérica, são sendo uma referência às sementes do feijoeiro-comum (Phaseolus vulgaris L.) espécie nativa do Continente Americano. Ervilhas (Pisum sativum L.), grão-de-bico (Cicer arietinum L.), lentilhas (Lens culinaris Medik.), tremoços (Lupinus albus L.), arroz (Oryza sativa L.), ervilhaca [Lathyrus ochrus (L.) DC.], chícharo (Lathyrus sativus L.), agrião-roxo (Lathyrus an- nuus L.), chícharo-preto [Lathyrus niger (L.) Bernh.], feijão-frade [Vigna unguiculata (L.) Walp.], feno-grego (Trigonella foenum-graecum L.), ervilhaca-miúda (Vicia sativa subsp. nigra (L.) Ehrh.). 329 Περὶ ὀρύζης, Oryza sativa L.. De notar que Galeno não inclui o arroz entre os cereais. O pouco espaço dedicado por Galeno a este grão dá a entender o reduzido uso do mesmo na região do Mediterrâneo antigo. Algo expectável, dadas as condições climatéricas e de solo que este tipo de cultivo requere. 330 Περὶ φακῶν. Lentilhas, sementes de Lens culinaris Medik. Sobre o cultivo e processamento da lentilha no espaço rural do Mediterrâneo rural contemporâneo e antigo vide comentários de Halstead 2014, pp. 24–5, 29, 68, 74-76, 79–80, 85, 90, 103, 134-6, 143, 147-52, 163, 205–11, 231, 236–7, 291. 168 Capítulo II como que terroso e escasso, e tem uma qualidade austera, (525.10) em grande medida partilhada pela casca. Como disse anteriormente, o seu suco é o oposto de adstringente. Por esse motivo, se depois de fervidas em água, se servem preparadas com sal ou molho de peixe e também azeite, o efeito é laxante. No entanto, se fervidas duas vezes, da forma já descrita, a sopa preparada a partir das lentilhas tem a faculdade oposta (525.15) ao suco (destas): seca os fluxos gástricos e aumenta a pressão no conjunto do esófago, dos intestinos e do estômago. Por essa razão (526.1) é um prato desadequado para aquelas pessoas que padecem de cólicas e disenteria. A sopa de lentilhas, que tenham sido descascadas, perde o forte efeito adstringente e, claro está, o mesmo é dizer tudo o que isso implica. E também é mais nutritiva que a sopa de lentilhas com casca, uma vez que produz um humor espesso e é de passagem lenta. Porém, não seca os (526.5) fluxos gástricos como o fazem as (lentilhas) com casca. Ora, é provável que quem usa excessivamente estes preparados tenha aquilo a que se dá o nome de elefantíase331 e sofra o aparecimento de úlceras; pois é comum a comida espessa e seca gerar um fluído do tipo biliar. As lentilhas são uma comida benéfica apenas para pessoas que tenham algum distúrbio (526.10) hidrópico332 do corpo; da mesma forma que são nocivas para aquelas (pessoas) de carne seca e ressequida. Nesse sentido, embora ser (alguém) extremamente seco (de carnes) favoreça uma aparência saudável, está demonstrado que ‘o desejável’ é ser o oposto disso. As lentilhas não são apropriadas durante o período de menstruação, quando é gerado o sangue espesso e viscoso, mas são bastante úteis para o chamado ‘fluxo feminino’333. (526.15) No que toca a esta propriedade, já que a ptisane tem um efeito oposto, um preparado da mistura dos dois, chamado por (527.1) algumas pessoas fakoptisane334, é melhor, quando não se misturam ambos em partes iguais, antes se acrescenta menos ptisane, de maneira que, quando se faça a massa (disto), esta cresça bastante. É que ao serem fervidas por um curto período, as lentilhas incham. 331 Ἐλέφαντας (elefantas) corresponderia literalmente ao vocábulo ‘elefantíase’, porém não teria o mesmo significado atribuído pela medicina moderna. Neste contexto, o autor referir- -se-ia a uma pele dura e rugosa, com uma aparência semelhante à lepra. A associação com o elefante dever-se-á à pele rugosa deste paquiderme. Vide Powell 2003, p.171. 332 Ὑδατώδης ...καχεξία (hydatodes...kacheksia) à letra poderia traduzir-se como ‘problemas de águas’, ou seja, problemas de retenção de líquidos. 333 É possível que esteja em causa uma hemorragia, deduzível pelo contexto, já que se refere antes à menstruação. É difícil identificar a que estado se refere o autor, já que a expressão grega que utiliza é pouco precisa: ῥῷ γυναικείῳ. Descontextualizado, talvez pudéssemos considerar que o autor se refere ao fluxo vaginal e aos fluídos das moscosas. 334 Φακοπτισάνη (fakoptisane), à letra, traduzir-se-ia por ‘lentilhas-ptisane’. Jorge Paiva, biólogo, considera que este ptisane corresponderia a água de cevada (Hordeum vulgare L.) não fermentada que se misturava com as lentilhas, de modo a atenuar a toxicidade destas. Isto porque as sementes das leguminosas são ligeiramente tóxicas por conterem alcalóides são solúveis em água. 169 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I Na verdade, no que toca a este alimento, a preparação (527.5) é a mesma da ptisane, excepto quando se adicionam saturelha335 e poejo336, pois (nesse caso) fica mais apetitoso e mais fácil de digerir; já a ptisane não fica boa com isto, mas melhora com aneto337 e alho-porro338. Regularmente o aumento de humores espessos ocorre mais com pratos de lentilhas, quando são comidos com alimentos corados. Pois, de facto, produz (528.5) densidade no sangue e um certo aspecto biliar. É por isso que também não devem ser consumidas em excesso. Especialmente quando o corpo da pessoa é atrabilioso, de fluídos espessos ou, de uma maneira geral, tem um ‘humor enfermo’. A propósito dos alimentos, deves também ter presente as mesmas coisas relativamente às regiões, estações e composições, cortando nos alimentos que produzem um estado atrabiliário durante o outono; contudo, deves alimentar-te (528.10) deles no inverno; tal como no verão deves consumir alimentos húmidos e de (humor) frio. No entanto, na primavera, dado tratar-se de uma mistura (climatérica) moderada, deve-se consumir alimentos de faculdades moderadas. Porém, não existe um tipo de alimento de composição moderada. Isto porque alguns são moderados simplesmente porque na sua totalidade não têm elementos que sejam (de composição) extrema; já outros atingem uma característica moderada como resultado de uma mistura (528.15) de extremos de valores iguais, tal como quando se mistura lentilhas com ptisane, de acordo com aquilo que eu disse anteriormente (529.1). Nesse sentido, Heraclides, o tarentino, costumava dá-los não só a pessoas de condição saudável, mas também àqueles que se encontram doentes, uma vez que estes alimentos estão numa situação equilibrada, por serem compostos por (substâncias) opostas, sendo por isso que este (preparado) é menos laxante que a acelga-brava339, mas mais estimulante à excreção que as lentilhas. Está claro que (529.5) o humor derivado deste e distribuído pelo corpo é uma mistura de faculdades tanto das lentilhas, como da acelga-brava. 335 Θύμβρα, Satureia Thymbra L., trata-se de um tipo de erva aromática. 336 Βλήχων, Mentha Pulegium L., erva aromática. Vide JB Mentha Pulegium. 337 Ἄνηθον, Anethum graveolens L. 338 Πράσον, Allium ampeloprasum L. (Allium porrum L.), alho-porro. 339 Τεῦτλον, beta marítima L. (Acelga-das-areias) ou, mais provavelmente, Beta vulgaris L. (Acelga, Beterraba). Provavelmente esta planta seria usada como condimento. 170 Capítulo II 19. Sobre aS favaS340 Existem também muitos usos para estes (bagos), uma vez que se preparam sopas a partir das favas: as (sopas) fluidas (servidas) em malgas e as (sopas) densas (servidas)em pratos. Também (529.10) existe um terceiro preparado, a partir da mistura com ptisane. Os nossos gladiadores comem grandes quantidades desta comida cada dia, gerando nos seus corpos uma condição de carne mais maciça. Isto é, não de (carne) compacta e densacomo a dos suínos, mas antes carne de alguma forma mais fibrosa.341 Este alimento tem o potencial de gerar gazes, mesmo que tenha sido cozinhado por um largo período e (529.15) independentemente de como tenha sido preparado; porém, a ptisane elimina o efeito flatulento durante o tempo de cozedura. Mas para aqueles que atentam e estudam a disposição que acompanha (530.1) cada alimento, percebe-se que ocorre uma sensação de tensão, como uma acumulação de gazes por todo o corpo, particularmente quando não se está acostumado a esta comida ou se a comem mal preparada. (530.5) As favas são de uma composição que não é densa, nem pesada, mas sim esponjosa e leve com uma ligeira propriedade purgativa, como a da ptisane. Em qualquer circunstância, a farinha feita a partir destas aparenta limpar a sujidade da pele. Ora, sabendo isto, os mercadores de escravos usam farinha de favas e as mulheres usam-na diariamente para limpar-se, tal como outras mulheres usam (530.10) natrão342 ou soda, ou produtos de limpeza em geral. Também esfregam a cara com farinha de favas, tanto como o fazem com ptisane, para remover ‘pontos-negros’ e também as chamadas ‘borbulhas’. Por causa desta faculdade não existe demora na passagem pelo sistema gástrico, como (sucede com) aqueles alimentos glutinosos e de sucos espessos que não têm propriedades purgativas, do género (530.15) a que dizemos pertencerem a aveia, a espelta, a semidalis e o amido.343 340 Περὶ κυάμων. Corresponde à Vicia Faba L., designada normalmente por fava ou feijão, ainda que em contexto culinário contemporâneo a diferença seja substancial. Optámos por tra- duzir por fava, apesar de que por vezes pareça ser ambígua a referência a esta leguminosa, pelo que ocasionalmente podemos traduzir por outro tipo de leguminosas de vagem. 341 Parece ser um lugar-comum a comparação entre a carne de porco e a carne humana. Vide estudo introdutório 4. 342 Νίτρον, carbonato de sódio. Era comum usar-se este mineral para limpar a sujidade ou simplesmente remover gorduras. Ainda hoje é um componente comum de muitos tipos de sabão. O natrão egípcio, pelo que se sabe, seria usado pelos egípcios essencialmente para o processo de embalsamento e desidratação dos cadáveres. No entanto, foi usado pelos antigos gregos na preparação de vários tipos de drogas. Cf. Epidemiarum Liber II (2.6, 2.9, 2.29; 5.134, 5.138L.), De internis affectionibus 26, 31, 51 (7.236, 7.248, 7.294.), e os tratados hipocráticos: Epidemiarum 5.69, 5.244; 6.66 (6.430L.); De ulceribus 14, 17–18 (6.416, 422L.); De haemorrhoidibus VII (6.442L.); De fistulis 1 (6.454L.); De natura mulieri 97 (7.414L.); De morbis mulierum I, 23, 63, 75, 78 (8.62, 8.130, 8.166, 8.178L.); De superfetatione 33, 35 (7.504, 7506L.). 343 Aveia (Avena sativa L.), espelta (Triticum spelta L.), 171 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I Enquanto a sopa de favas produz flatulência, estas ainda se tornam mais (flatulentas) (531.1), se são comidas depois de fervidas por completo. Porém, evitam a flatulência, quando assadas – na verdade, alguns comem-nas como fossem sobremesa. No entanto, enquanto nutrição tornam-se mais difíceis de digerir, de passagem lenta e distribuem um humor espesso pelo corpo (531.5). Todavia, as verdes, quando comidas antes de amadurecer e secar, têm aquilo que é característica comum de todas as frutas que comemos antes de estarem bem maduras, ou seja, alimentam o corpo com nutriente húmido e, portanto, produzem mais resíduos, não só nos intestinos, mas em todo o aparelho (gástrico). Por isso, é natural que alimentos destes sejam menos nutritivos e (531.10), mais laxantes. Muitos homens comem favas verdes - tanto cruas, como fervidas – com carne de porco, como (o fazem) com vegetais; e no campo, comem-nas com carne de cabra e ovelha. (A propósito), ao serem conscientes do seu potencial flatulento, quando preparam uma sopa de lentilhas, as gentes adicionam-lhe cebola. (531.15) Porém algumas pessoas (532.1) juntam cebola e lentilhas cruas, sem as cozinhar conjuntamente. Isto porque em todas as comidas o potencial flatulento é corrigido ao adicionar-se coisas que aqueçam e liquidifiquem. 20. Sobre os feijões egípcios344 (532.5) Tal como o feijão egípcio difere muito em tamanho do (feijão) da nossa região, também é de uma natureza mais húmida e mais geradora de resí- duos. Ora, se de facto recordares aquilo que foi dito sobre a digestão, excreção, distribuição e nutrição com alimentos do mesmo género, então já não neces- sitarás atender a nada mais sobre o (532.10) feijão egípcio, uma vez que podes recorrer ao que aprendeste sobre a nossa fava. 344 Περὶ κυάμου Αἰγυπτίου. Os feijões egípcios são referidos por questões dietéticas. Cf. De victu acutorum 21 (2.502L) e também Kuhn and Fleischer 1986–9. Jorge Paiva, Biólogo, considera que os feijões egípcios são as sementes de Nelumbo nucifera Gaertn., Fava-da-grécia, Lótus a que Teofrasto chama fava-do-egipto (Teofrasto, HP 4.7). 172 Capítulo II 21. Sobre aS ervilhaS345 As ervilhas são realmente semelhantes no seu todo substancial às favas; porém, se comidas da mesma forma, são diferentes daquelas de duas maneiras (532.15): não provocam flatulência ao mesmo nível das favas e não têm faculdades purgativas. Nesse sentido, estas são de passagem mais lenta nos intestinos do que as favas. 22. Sobre o grão-de-bico346 Não é muito usual as pessoas da cidade (533.1) fazerem sopa de grão-de-bico, no entanto, vi isso acontecer algumas vezes no campo, da mesma maneira que também vi farinha de grão-de-bico cozinhada com leite.347 Pois o grão-de-bico não se desfaz como as favas, pelo que aquilo chamado de ‘moído’348 é feito a partir deste (grão). As pessoas estão acostumadas (533.5) em muitas regiões a comer grão-de-bico, depois deste ter sido fervido em água; alguns comem-no sem mais, outros temperando-o com uma quantidade moderada de sal. Entre nós faz-se uma coisa do género de farinha de queijo seco, e polvilha-se o grão-de-bico com isto. Na verdade, sucede ser o grão-de-bico menos flatulento que as favas, mas é mais nutritivo que estas (533.10) e julga-se ser excitante e incitar à atividade sexual e ao mesmo tempo ser um gerador de sémen. Nesse sentido, como consequência disto também se dá a comer grão-de-bico a cavalos reprodutores. Ora, também contém propriedades purgativas superiores à dos feijões, de tal forma que um pouco deste grão desfaz naturalmente as pedras nos rins. O grão-de-bico que faz isto é negro e (533.15) pequeno e é especialmente produzido na Bitínia e é chamado ‘carneiro’349. É preferível beber apenas o seu suco, depois de ter sido fervido em água. (534.1) As pessoas usam o grão-de-bico mesmo antes de amadurecer, enquanto ainda está verde, tal como com as ervilhas. Explicou-se já o argumento completo comum a todos os frutos verdes, no momento do comentário às favas. A propósito, considera também o que deve ser subentendido sobre o grão-de-bico 345 Περὶ πισῶν. Sobre o cultivo e processamento de ervilhas no espaço rural do Mediterrâneo antigo e contemporâneo vide as referências de Halstead 2014, pp. 19, 24, 73, 70, 89, 130-4, 163, 168, 207, 211, 230–39, 291. 346 Περὶ ἐρεβίνθων. 347 Sobre o cultivo do grão-de-bico na Grécia rural atual e antiga, vide Halstead 2014, pp. 24, 27–9, 68-72, 205-9, 235–6, 349. 348 Ἐρεγμός, GI p. 842. 349 Κριοί (krioi) não nos foi possível identificar a origem de tal nome. Traduzimos no singu- lar, de forma a ajustar ao nome colectivo português. 173 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I assado a partir (534.5) daquilo que foi dito sobre as favas assadas. Pois todas as coisas assadas, ainda que evitem a flatulência, tornam-se mais difíceis de digerir, mais adstringentes e fornecem ao corpo uma nutrição mais espessa. 23. Sobre oS tremoçoS350 Sabemos ser esta semente polifacetada, provavelmente no estrito (534.10) significado da palavra ‘polifacetada’,351 dado que é desta forma que nos referimos ao que é apropriado para numerososestados do corpo e também àquilo que é útil para toda a gente, embora estes (grãos) também sejam de aplicação útil em circunstâncias concretas. Pelo menos naquilo que se refere a este (sinónimo), o tremoço mostra ser uma leguminosa útil para muitos propósitos. Pois quando é fervido e depois mergulhado (534.15) em água doce até que o líquido remova todas as características desagradáveis inatas, é comido assim, acompanhado com garum ou com molho de vinagre e, à parte disto, também é moderadamente temperado com sal (535.1) – ao contrário da cevada e outros grãos que são preparados de variadas maneiras. É duro e terroso quanto à sua composição, pelo que é difícil de digerir e potencia um humor espesso a partir do qual não se gera um bom fluxo venal, ao que concretamente se chama: acumulação de ‘humor cru’. (535.5) Todavia, uma vez perdido o amargor natural durante a preparação, faz-se como as comidas ‘livres de qualidades’, no que refere à sintomatologia (provocada), pois nem é adequado para estimular a excreção, nem para restringir o fluxo intestinal; como sucede com os alimentos adstringentes, dado que são de passagem lenta, difíceis expelir por depuração e naturalmente de difícil passagem. Ora, assim (535.10) se referem os médicos ao tipo de alimentos que não têm qualidades no que toca ao estímulo da excreção nos intestinos e tampouco ao seu restringimento. Na verdade, estas qualidades não se verificam enquanto de alimento, mas sim enquanto fármaco.352 Os (alimentos) sem faculdades evidentes são chamados, acertadamente, ‘inertes’353 pelos médicos; nesse sentido, no que refere às diferenças de humidade (536.1), secura, densidade, viscosidade e passagem lenta ou rápida, pertencem ao estado intermédio. De facto, os líquidos e fluidos passam rapidamente; os secos e duros, como o tremoço, são o oposto. Os que se encontram entre estas condições (opostas) (536.5) 350 Θέρμος, Lupinus albus l., tremoço vulgar. 351 Πολύχρηστος (polychrestos), à letra ‘algo que tem muitas utilidades’. 352 O autor distingue aquilo que é ingerido como alimento, daquilo que é tomado como for- ma de combater algum tipo de problema de saúde ou estimular alguma propriedade fisiológica. 353 Ἄποιος (apoios), que não tem qualquer efeito. 174 Capítulo II nem potenciam uma vincada rapidez de excreção, nem lentidão. De facto, este pressuposto é universalmente entendido em relação a todas (as comidas). Sendo que, da mesma forma: todos os (alimentos) de composição húmida nutrem pouco o corpo, porque também (o líquido) se evapora rapidamente e se dispersa, pelo que em pouco tempo torna-se necessária mais nutrição; porém, a comida dura e terrosa (536.10) fornece nutrição mais estável e menos dispersa. E, se contém algum elemento glutinoso, produz tudo isto da forma mais óbvia. Está claro que não é fácil digerir alimentos que tais e também não se convertem facilmente em sangue, tal como não se assimilam as partes sólidas dos animais. E, se é assim, também não fornecem nutrientes de forma rápida. Contudo, quando são processados e preparados eficazmente, (536.15) estes alimentam o corpo com uma boa nutrição. 24. Sobre a alforba354 Alguns chamam a esta semente alforba, mas também chifre-de-bói ou chifre-de-cabra.355 Manifestamente é um dos alimentos mais caloríferos e, enquanto alimento, prestam às pessoas a mesma serventia dos tremoços. (537.5) Ora, estas tomam-na com garum de modo a estimular as entranhas e até são mais adequadas para esse efeito que os tremoços, já que na sua composição não têm nada comprometedor para a passagem (regular). Como os tremoços, também se comem acompanhadas com vinagre e com garum. Muitos também tomam a alforba e os tremoços com vinho, garum e azeite e, alguns, também a acompanham com pão; e para estas pessoas esta última é um prato (537.10) de pleno direito, que revolve menos as estranhas e não afecta a cabeça – como sucede com a alforba tomada com garum que afecta algumas pessoas -, nem molesta o esófago, na medida em que a alforba (sem acompanhamento) provoca estes efeitos em algumas pessoas. Algumas pessoas usam feijão-frade e chícharo- preto, cozinhados da mesma maneira; a propósito deste exemplo devo adicionar como argumento a aplicação igual a todos os alimentos deste género. (537.15) A alforba é comida por algumas pessoas mesmo antes de desenvolver semente, (538.1) demolhando-a em vinagre e garum. Outros derramam azeite sobre esta e comem-na com pão como aperitivo, e outros ainda (o fazem) com vinagre e garum. Quando consumida em grandes quantidades, isto pode afectar a cabeça e ainda mais se não for acompanhada com pão. Para algumas pessoas (538.5) também molesta o esófago. 354 Περὶ τήλεως, Trigonella foenum-graecum L., também conhecido por feno-grego. 355 Tradução literal de βούκερας (boukeras) e αἰγόκερας (aigokeras). 175 Sobre as faculdades dos alimentos. Livro I O suco da alforba que tenha sido fervida, quando tomado com mel, é bom para remover dos intestinos todos os fluidos nocivos, uma vez que é um lubrificante delicado e tem um ‘humor quente’ suave. Ora, (exatamente) por ter faculdades purgativas, promove a limpeza dos intestinos. (538.10) O mel a misturar deve corresponder a uma pequena porção para que não se torne indigesto. Em caso de dores persistentes no peito e não havendo febre, deve ferver-se tâmaras com alforba e, depois de espremido o suco e misturado com bastante mel, ferver outra vez tudo isto em carvão até que esteja moderadamente espesso. Deve tomar-se isto frequentemente antes das refeições. (538.15) 25. Sobre o feijão-fraDe e o chícharo-preto356 As pessoas também comem estas sementes, tal como o fenacho357, embebendo-as em água (539.1) até à base do rebento, antes de as demolhar em garum, de modo a estimular os intestinos. No entanto, estas têm um suco nutritivo e, uma vez distribuídas, digerem-se melhor que o fenacho. Eu sei que um certo jovem, que exerce (539.5) a arte da medicina em Alexandria, somente usou isto como alimento, diariamente, e durante quatro anos – isto é, falo do fenacho, do feijão-frade, do chícharo-preto e do tremoço358. Por vezes também usou azeitonas de Mênfis359, vegetais e alguns frutos que são comidos sem serem cozinhados. Pois a predisposição era a de nem acender o fogo. Então, ao longo de todos esses anos, aquele (médico) manteve-se saudável (539.10) e aguentou a condição física num (estado) não inferior ao estado original. Ele comia-os com garum, isto é, adicionando-lhe por vezes somente azeite, por vezes também vinho e ocasionalmente também vinagre. Porém, outras vezes, comia-os somente com sal, tal como se faz com os tremoços. Ora, discutiu-se acerca da dieta saudável na extensão do (meu) estudo conservação da saúde360 (539.15) e por seu turno também inquirir-se-á resumidamente sobre isso no presente texto (540.1). Por fim, (resumindo) agora 356 Περὶ φασήλων καὶ ὤχρων. Feijão-frade, Vigna unguiculata (L.) Walp.; chícharo-preto Lathyrus niger (L.) Bernh. 357 Τήλη (tele), Trigonella foenum-graecum L., também conhecido como feno grego. 358 θέρμος, Lupinus albus L., tremoço-branco. 359 Antiga capital do Baixo Egipto antigo, ainda que exista a possibilidade de esta referência indicar uma outra cidade ou região, dado que este nome era usual no Antigo Egipto. 360 Τῶν Ὑγιεινῶν, De Sanitate Tuenda. 176 Capítulo II aquilo que eu já disse sobre o feijão-frade e o chícharo preto: de certa maneira estes (alimentos) estão a meio caminho entre as comidas que produzem humores saudáveis e entre os alimentos geradores de humores malsãos; (entre) aqueles que são facilmente digeridos e aqueles de difícil digestão; entre aqueles que são de passagem lenta e aqueles que são rápidos; entre aqueles que são flatulentos e aqueles que não o são; entre aqueles que nutrem pouco e (540.5) aqueles que alimentam bem. Pois não têm, de todo, qualquer propriedade ativa, como outras comidas teriam propriedades ardentes, adstringentes, salgadas, doces ou sucos cáusticos.