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5ºAula Teoria da instrumentação Objetivos de aprendizagem Ao término desta aula, vocês serão capazes de: • compreender e conceituar elementos fundamentais da teoria da instrumentação; • identificar em situações práticas da integração de tecnologias os elementos da teoria; • entender as relações que compõe o modelo de situações das atividades instrumentadas. Bem-vindos(as) a nossa aula de Teoria da Instrumentação! Nesta aula, discorremos sobre uma teoria que traz conceitos relacionados a passagem de conceitos como artefato para um instrumento. Os esquemas de uso e de esquemas de ação instrumentada são exercidos por um sujeito sobre um objeto e isso potencializa ao professor verificar. Vejamos os objetivos de aprendizagem e as seções de estudo que pretendemos desenvolver com essa aula. Bons estudos! Bons estudos! 30Tec. Dig. de Inf. e Com.no Ens. de Matemática 1. Seções de estudo Teoria da instrumentação: elementos e suas conceituações 1 - Teoria da instrumentação: elementos e suas conceituações A utilização das tecnologias na sociedade moderna é algo essencialmente indispensável para o funcionamento de serviços diversos como: transações bancárias, trocas de e-mails, armazenamento de dados em nuvens e nas relações sociais. No entanto, quando se pensa nesse avanço tecnológico como meio prático de agilizar ações humanas para o âmbito escolar, principalmente, o que tange o processo de ensino e aprendizagem da Matemática, notamos que a utilização das tecnologias nesse espaço não acontece no mesmo ritmo fora da escola. Cabem aqui vários questionamentos: faltam recursos, pessoas, formação para os professores utilizarem tecnologias no espaço escolar? Espaços? Motivação? Aquisição de computadores, softwares e outros aplicativos que possam subsidiar a prática do professor? Estaria o professor preparado para as tecnologias em sua prática pedagógica? Diversas pesquisas (BITTAR, 2010; ROCHA, 2014; NEVES, 2015) mostraram que as tecnologias podem se constituir como uma ferramenta importante de trabalho para o professor, corroborando para a elaboração de atividades que propiciem aos alunos desenvolver o raciocínio lógico, amenizar dificuldades de aprendizagem, compreensão de conceitos, representações etc. No entanto, é válido destacar que as tecnologias por si só não resolvem problemas relativos ao processo de ensino e aprendizagem. Tão pouco o professor ter domínio tecnológico, manusear com facilidade os computadores, reconhecer o funcionamento de diversos softwares e aplicativos, não será o suficiente se no processo de utilização não estiver atrelado um objetivo educacional para o uso e ainda não ter definido a intencionalidade de mudanças que esse uso possa acarretar ao longo do processo. É preciso ter a clareza de que o uso das tecnologias se dá mediante duas perspectivas de trabalho na prática pedagógica do professor: O termo inserção da tecnologia na educação é empregado para fazer referência ao uso mais comum que tem sido feito da mesma: os professores utilizam o laboratório de informática para dar uma aula ou outra, mas esse uso não está relacionado ao restante do processo de ensino e não provoca mudanças na aprendizagem do aluno. Dessa forma, esse uso parece, na maioria das vezes, artifi cial, desligado da prática pedagógica do professor: as atividades funcionam como atividades extraclasses, sem avaliação ou como um apêndice do curso habitual. Integrar a informática ao processo de ensino implica em usar este instrumento da mesma forma como são usados, por exemplo, o giz ou o livro didático. [...] dizemos que o professor integrou a informática à sua prática pedagógica quando ele faz uso deste instrumento em diversos momentos do processo de ensino, sempre que considera necessário e de forma a contribuir com o processo de aprendizagem do aluno. (BITTAR, 2010, p. 595-596). Notamos com essa distinção, que, no processo de inserção, o uso se dá em situações que não tem como finalidade específica atingir, por exemplo, a aprendizagem dos alunos. O professor, ao fazer uso da sala de tecnologias para propiciar um momento de jogos relacionados a algum conteúdo anteriormente trabalhado, como fixação ou ainda como espaço para distração, pode não estabelecer conexões com o trabalho de sala de aula. Na perspectiva de se fazer uso das tecnologias como um processo natural de se utilizar o livro didático, temos a integração, na qual a finalidade de aprendizagem dos alunos se sobressai bem como a preocupação em organizar situações que contribuam para o desenvolvimento da construção de um saber em questão no processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, ao buscarmos pesquisas que discorressem sobre o processo de integração das tecnologias em uma viés de integração, encontramos a de Neves (2015), que teve como objetivo identificar e analisar, em um processo de formação continuada, fatores que pudessem desencadear e/ou limitar a prática reflexiva de um professor de matemática que buscou a integração de tecnologias em sua prática pedagógica. Nessa pesquisa, desenvolvida em uma escola pública da rede estadual, no estado de Mato Grosso do Sul, com um professor de matemática, notamos uma inquietação por parte do professor relacionado ao fato de não haver uma proximidade dos professores da mesma área no momento do planejamento e também nas formações continuadas das quais mencionava participar, para dialogar sobre os conteúdos que seriam trabalhados ao longo do bimestre, bem como de que recursos estavam à disposição para incrementar em suas aulas e de como os instrumentos tecnológicos poderiam auxiliá-lo em sua prática pedagógica. Isso nos mostra a necessidade de apresentarmos uma teoria que fornece elementos apropriados para a discussão de ações do professor mediado pelo uso das tecnologias no contexto escolar: a teoria da instrumentação. A teoria da instrumentação de Pierre Rabardel surgiu com o objetivo de estudar as ações dos sujeitos mediadas pelo uso de instrumentos em pesquisas de ergonomia cognitiva. Essa teoria tem se mostrado bastante útil para o estudo das ações de professores ao que diz respeito à de integração de tecnologias, uma vez que nos permite compreender todo o processo relativo as ações do professor para o manuseio de um instrumento de modo a propiciar a construção de um conhecimento matemático pelos alunos. A pertinência dessa teoria reside no fato de podermos compreender as relações que se estabelecem entre o sujeito com um objeto sobre o qual ele age, bem como entender os esquemas que são estabelecidos na prática. Esse objeto, na teoria, pode ser compreendido como um artefato. Na antropologia, a noção de artefato designa qualquer coisa que sofreu uma transformação, ainda que mínima, de origem humana. É assim compatível com um ponto de vista antropocêntrico. Outra vantagem é que não restringe o signifi cado às coisas materiais (do mundo físico). Também pode ser aplicado a 31 sistemas simbólicos, que são instrumentos às vezes. (RABARDEL, 1995. p. 39, tradução nossa). Nesse contexto, o autor explicita que o artefato corresponde a um meio material, pode ser uma pá, um apagador, uma calculadora, um software ou ainda meios simbólicos como a linguagem, geométrica, algébrica, utilização de símbolos nas diversas representações. Todavia, conhecer um artefato e ao que se destina o seu uso não significa ter conhecimentos suficientes para utilizá-lo. O professor pode, por exemplo, conhecer o software Geogebra, ter conhecimento de que com esse software é possível realizar o trabalho com diferentes conceitos geométricos, plotagem de gráficos e de outros conteúdos, mas não estar apto para orientar atividades de estudos a um grupo de alunos mediado pelo uso dessa tecnologia. O artefato pode ser compreendido pelas funções que ele assume, em termos do que ele produz ou permite produzir em termos de transformações que podem ocorrer com um objeto. Compete ao sujeito queirá utilizá-lo, compreender que esse artefato possui uma estrutura própria de funcionamento, com finalidades previamente definidas. Essa compreensão contribuirá para ajustar as ações que serão executadas por esse sujeito frente a esse objeto. Em termos de funcionalidade, para a utilização de um artefato o sujeito precisa agregar conhecimentos a atividade que se pretende desenvolver de modo a operar uma atividade com o artefato em jogo. Sobre esse aspecto é que se constituem na ação os esquemas de utilização, definidos por Rabardel (1999. p. 210), como “o conjunto estruturado dos caracteres generalizáveis das atividades de utilização dos instrumentos”. A conceituação de esquema é apresentada por Rabardel (1995, p. 75), como “um quadro de assimilação que atribui significação e exerce uma função que se manifesta essencialmente no planejamento”. Definido esquema de utilização é possível apresentar o conceito de instrumento: O instrumento consiste do artefato acrescido de um ou vários esquemas de utilização desse artefato, esquemas esses construídos pelo sujeito. [...] Um instrumento não existe “por si só”; o artefato se transforma em um instrumento para um determinado sujeito quando este o incorpora às suas atividades. (BITTAR, 2011, p. 160). O instrumento é proposto como uma entidade na qual o sujeito, ao pensarmos aqui especificamente no professor, elabora esquemas próprios para se utilizar de um artefato. A medida que o sujeito faz uso desse instrumento, ele cria novas estratégias para o manuseio, aperfeiçoa seus esquemas e assim modifica esquemas anteriormente construídos de modo a adequar as suas novas necessidades (BITTAR, 2011). Esse processo de transformação do artefato em instrumento é chamado de gênese instrumental e ocorre pela atribuição de um ou mais esquemas de utilização ao artefato. O processo de gênese instrumental não é único e nem definitivo, mas um processo de construção que se inicia com o artefato e está propenso ao desenvolvimento dos esquemas de utilização, que pode ocorrer também através do reinvestimento de esquemas já constituídos. Esses esquemas desenvolvidos pelos sujeitos podem ser divididos de duas formas para a compreensão da teoria – esquemas de uso e esquemas de ação instrumentada. Os esquemas de uso são referentes as atividades relacionadas diretamente ao artefato; e os esquemas de ação instrumentadas são relativos às atividades ligadas ao objeto de ação, nas quais o artefato é um meio de ação. A construção desse processo de gênese instrumental também é percebida por duas dimensões: a instrumentalização e a instrumentação. As elaborações instrumentais que são dirigidas para o próprio sujeito é a dimensão da instrumentação, e a voltada para o artefato é a dimensão da instrumentalização. Esses elementos nos permitem maior compreensão das relações dos alunos com as ferramentas tecnológicas no que concerne o estudo da utilização de tecnologias no contexto escolar (TSUJI JUNIOR, 2016, p. 5-6). A instrumentalização concerne a emergência e a evolução dos componentes artefato do instrumento: seleção, reagrupamento, produção e instituição de funções, transformações do artefato [...] que prolongam a concepção inicial dos artefatos. A instrumentação é relativa a emergência e a evolução dos esquemas de utilização: sua constituição, seu funcionamento, sua evolução assim como a assimilação de artefatos novos aos esquemas já constituídos (RABARDEL, 1999, p. 210, tradução nossa). Desse modo, quando pensamos no uso das tecnologias para o espaço escolar, o professor ao fazer a escolha de um determinado software é quem irá determinar os momentos oportunos para mediar o ensino mais voltado aos conteúdos ou ainda com mais ênfase na utilização do instrumento. Sobre esse aspecto, o professor aparece como uma figura importante capaz de criar situações que instiguem os alunos a novas descobertas, que elaborem conjecturas, elaborem estratégias que contribuam no processo de construção do conhecimento matemático em questão. É válido mencionar que o professor elaborará esquemas que o ajudarão a conduzir o processo de ensino e aprendizagem do conteúdo mediado pelas tecnologias. Em outra perspectiva de investigação e estudo, temos os alunos também vivenciando um processo de construção de esquemas de ação, vivenciando a passagem de um artefato para um instrumento, principalmente quando pensamos na etapa de familiarização com um software, por exemplo. Em um primeiro contato com o software, o aluno não tem conhecimentos técnicos relativos ao seu funcionamento, logo se caracteriza por um artefato. À medida que vai atribuindo significados e criando esquemas de utilização em sua manipulação, o aluno não se encontra no mesmo estágio do primeiro contato com o que se caracterizou como um artefato. Há uma outra relação com o software, transformada pelos esquemas de ação exercidos sobre o manuseio o que leva a se caracterizar por um instrumento. Desse modo, quando o sujeito executa uma ação diretamente relacionada ao artefato, como abrir o software ou localizá-lo no computador, temos esquemas de uso. Outra 32Tec. Dig. de Inf. e Com.no Ens. de Matemática noção emergente dessa teoria são os esquemas de ação instrumentada, relacionados as tarefas que serão executadas mediados pelo objeto da ação. Um aluno, incumbido de construir um quadrado em um software, precisará reconhecer que ferramentas fará uso no software e assim mobilizar esquemas de ação instrumentada. Com isso, é possível concluir que em um primeiro contato com um aplicativo de celular, por exemplo, o sujeito vivencia esquemas de ação instrumentada e a partir do momento que tem o domínio de uso e passa a manusear de forma automatizada até como recurso para outras situações, temos os esquemas de uso. Observamos que os esquemas são elementos que impulsionam a transformação de um artefato para um instrumento e desse modo encontramos em Rabardel (1995), três polos que compõem as situações de uso de um instrumento: o sujeito, o instrumento e o objeto. Essa tríade é definida como situações de atividades instrumentadas (IAS) Além das interações diretas sujeito-objeto (dS-O), muitas outras interações devem ser consideradas: interações entre o sujeito e o instrumento (S-I), interações entre o instrumento e o objeto no qual ele permite atuar (I-O) e, fi nalmente, interações sujeito-objeto mediadas por um instrumento (S-OM). Além disso, este todo é jogado em um ambiente composto de todas as condições que o sujeito deve levar em consideração em sua atividade fi nalizada. Cada um dos pólos e cada uma das interações que acabamos de examinar são eles mesmos susceptíveis de estar em interação com o meio ambiente assim defi nido (RABARDEL, 1995, p. 42-43). Figura 1: Modelo das Situações de Atividades Instrumentadas. Fonte: Rabardel (1995, p.43). Esse modelo apresentado por Rabardel (1995) expõe a possibilidade que a teoria da instrumentação tem de analisar tarefas mediadas pelo uso de tecnologias em um processo de transformação de um artefato para instrumento a partir dos esquemas de ação instrumentada exercido pelo sujeito ou ainda pelos esquemas de uso. Fica evidente, nessa tríade, que o instrumento é o polo que se interpõe ao sujeito e objeto. Na prática, em um movimento em que o professor (sujeito) opta por se fazer uso de uma determinada ferramenta (software – instrumento), em sala de aula, os objetivos definidos a serem alcançados em sua utilização podem se caracterizar como o objeto da ação. Desde a escolha do software até a sua efetiva utilização, o professor estabelecerá relações bipolares, perpassando o processo de transformação do artefato para instrumento, constituição de esquemas de ação instrumentada e esquemas de uso, bem como da instrumentalização e instrumentação no processo de integração tecnológica. A teoria da instrumentação não tem como enfoque o estudo do processo de ensino e aprendizagem paraa sala de aula. No entanto, ao se discutir o processo de integração das tecnologias para o contexto escolar, vemos, nessa teoria, a potencialidade de se compreender nas relações de um sujeito com o instrumento tecnológico, por ora considerado um recurso ou ferramenta como subsídio à prática do professor, as diferentes situações que possam influenciar tanto o processo de ensino quanto de aprendizagem de conceitos nas ações. Todas as noções aqui evidenciadas pela teoria da instrumentação, vão ao encontro de outras discussões pertinentes ao processo de integração da tecnologia na prática pedagógica do professor: a base de conhecimentos. Discorreremos sobre esse assunto na próxima aula. Retomando a aula Chegamos ao fi nal da aula 5. Vamos recordar os principais tópicos abordados na nessa aula? Vamos lá! 1 - Teoria da Instrumentação: elementos e suas conceituações Aprendemos que a teoria da instrumentação proposta por Rabardel(1995) oferece elementos teóricos não só para a análise de dados em uma pesquisa, como também para compreender o processo de apropriação de um sujeito com um instrumento tecnológico, a partir dos esquemas de uso que são exercidos pelo sujeito sobre o objeto. BITTAR, M. A abordagem instrumental para o estudo da integração da tecnologia na prática pedagógica do professor de Matemática. Educar em Revista, Curitiba, v. 1/2011, p. 157- 171, 2011. RABARDEL, P. Les hommes et les technologies: une approche cognitive des instruments contemporains. Paris: Armand Colin, 1995. RABARDEL, P. Éléments pour une approche instrumentale en didactique des mathématiques. In: BAILLEUL, M. (Ed.). Actes de la Xème Ecole d’Été en Didactiques des BITTAR, M. Mathématiques. Houlgate: Vale a pena ler Vale a pena 33 Minhas anotações IUFM de Caen, 1999. p. 202213. Lobo da. (Org.). Educação Matemática, tecnologia e formação de professores: algumas reflexões. 1 ed. Campo Mourão-PR: FECILCAM, 2010, v. 1, p. 31-57. TSUJI JUNIOR, N.. Um estudo do processo de gênese instrumental vivenciados por alunos do 9º ano do Ensino Fundamental.In: XX EBRAPEM - Encontro Brasileiro de Estudantes de Pós-Graduação em Educação Matemática, 2016, Curitiba. ANAIS XX EBRAPEM GD6 - Educação Matemática, Tecnologias e Educação à Distância, 2016. Tec. Dig. de Inf. e Com.no Ens. de Matemática Minhas anotações