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Serviço Social. CREAS. Edição 1 - ISSN 2176-7484. CDU 001.896 Copyright©2017 by Serviço Social para Concursos COMITÊ DE ELABORAÇÃO EDITOR GERAL Anderson F. Santos ÁREA DE CONHECIMENTO - SERVIÇO SOCIAL Maria do Carmo Guerra Laura Souza Fernando Marcos Vale Anderson F. Santos ÁREA DE CONHECIMENTO - SERVIÇO SOCIAL APLICADO Marcos Vale Luciano de Paiva Claudia Aparecida Gamboa NÚCLEO DE PESQUISA E LEVANTAMENTO DE DADOS Eduardo Bezerra Júnior Luciano Borges de Andrade NÚCLEO DE REVISÃO Maria de Lourdes Gontijo Anderson F. Santos As orientações contidas nesse curso/apostila, destinam-se a Assistentes Sociais; acadêmicos de Serviço Social; gestores; coordenadores; equipes técnicas e demais trabalhadores das unidades (CREAS) e serviços do SUAS. SUMÁRIO A Trajetória da Assistência Social.........................................................................................................................................08 INTRODUÇÃO MÓDULO I MÓDULO II Política de Assistência Social...................................................................................................................................................16 MÓDULO III Sistema Único de Assistência Social.....................................................................................................................................21 MÓDULO IV Reconhecimento da Assistência Social como política pública...................................................................................27 MÓDULO V CREAS: Papel no SUAS e competências..............................................................................................................................36 Território - Vulnerabilidade - Risco Proteções afiançadas pela Assistência Eixos norteadores do trabalho no CREAS Competências do CREAS e do órgão gestor MÓDULO VI Seguranças afiançadas no Suas para os usuários do CREAS......................................................................................50 MÓDULO VII Know-How do CREAS.................................................................................................................................................................54 MÓDULO VIII O processo de implantação do CREAS...............................................................................................................................59 MÓDULO IX Infraestrutura e identificação do CREAS.............................................................................................................................64 MÓDULO X Gestão dos processos de trabalho no CREAS..................................................................................................................70 MÓDULO XI Diretrizes de gestão do CREAS...............................................................................................................................................82 Planejamento do trabalho no CREAS Coordenação de RH e trabalho interdisciplinar Reuniões para estudos de casos, supervisão e assessoria Desenvolvimento do trabalho do Assistente Social no CREAS Acolhida Acompanhamento especializado Articulação em rede Registro da informação Acompanhamento de famílias e indivíduos (prontuários, PIA, relatórios) Informações para avaliar e monitorar serviços MÓDULO XII Monitoramento, avaliação e controle social do CREAS..............................................................................................86 Acolhimento social Serviço especializado em abordagem social PAEFI Atendimento psicossocial Atendimento em grupo Orientação jurídico-social Serviço de proteção a adolescentes em cumprimento de MSE LA e PSC MÓDULO XIII Atribuições da Ass. Social nos centros de referência...................................................................................................89 MÓDULO XIV Os serviços referenciados no CREAS...................................................................................................................................91 Entrevista Atendimento individual e em grupo Reunião técnica Estudo social e psicossocial Visita domiciliar Relatório técnico Relatório mensal Notificação obrigatória e compulsória Palestras e ações de sensibilização Cadastro único para programas sociais do Governo Federal Plano de Intervenção Familiar - PIA Encaminhamento - referência e contrarreferência MÓDULO XV Instrumental técnico do CREAS.........................................................................................................................................107 Equipe para acolhimento social e PAEFI Atribuições profissionais: coordenador, assistente social, psicólogo, educador social, orientador ju- rídico-social e auxiliar administrativo MÓDULO XVI Recursos humanos e atribuições profissionais............................................................................................................115 Consultoria técnica Cuidando do cuidador MÓDULO XVII Capacitação continuada........................................................................................................................................................124 Tipos de violência: intrafamiliar, doméstica, extrafamiliar, autoinfligida, autoagressão e fetal Natureza da violência: sexual, abuso sexual, exploração sexual, exploração do trabalho infantil, aban- dono, negligência, física, psicológica, discriminação e tráfico de pessoas MÓDULO XVIII Tipos e naturezas da violência.............................................................................................................................................126 MÓDULO XIX O trabalho com famílias e indivíduos no CREAS..........................................................................................................129 Metodologia de trabalho com famílias e indivíduos no CREAS Triagem Atendimentos emergenciais Acompanhamento familiar – etapa diagnóstica, interventiva e acompanhamento em grupos de cará- ter operativo MÓDULO XX Princípios de atendimento a famílias e indivíduos no CREAS................................................................................133 MÓDULO XXI Modalidades de atendimento no CREAS........................................................................................................................135 CREAS PAEFI Serviço Social na prática profissional Assistente Social e PAEFI O CREAS no Brasil O trabalho com famílias do PAEFI Matricialidade sociofamiliar no trabalho com famílias do PAEFI-CREAS MÓDULO XXII PAEFI - CREAS............................................................................................................................................................................145 INSTRUMENTAIS Instrumentais técnico-operativos do CREAS.................................................................................................................164 1. Cadastro de Atendimento Familiar. 2. Agendamento para atendimento/visita domiciliar. 3. Plano de Intervenção Familiar - PIF. 4. Avaliação do adolescente (MSE PSC). 5. Referência e Contrarreferência. 6. Encaminhamento. 7. Guia de Acolhimento Institucional - Adulto e Idoso. 8. Informe de Visita Domiciliar. 9. Declaração de Comparecimento. 10. Encaminhamento de adolescente para cumprimento de PSC. 11. Registro de Frequência para adolescente em cumprimento de PSC. 12. Avaliação da Instituição para adolescente em cumprimento de PSC. 13. Informativo de Atendimento para Conselho Tutelar. 14. Informativo de Atendimento na Instituição - CREAS. 15. Serviço Especializado em Abordagem Social. 16. Cadastro Familiar. 17. Registro de Evolução - Atendimento Individual e Familiar. 18. Ficha Intersetorial de Referência e Contrarreferência (com instruções de preenchimento). 19. Plano Individual de Atendimento - PIA (completo com orientações e todos os formulários para a sua construção). 20. Plano de Acompanhamento Familiar. 21. Relatório Social e psicológico (com orientações para sua elaboração). 22. Relatório Mensal das Famílias e Indivíduosinseridos no PAEFI (completo com orientações e todos os formulários para preenchimento). CONSOLIDADO! BIBLIOGRAFIA CONSULTADA No Campo da Assistência Social, o Assistente Social atua diretamente com as demandas sociais no interior dos Centros de Referência de Assistência Social intervindo através de seu papel profissional. O desenvolvimento inicia-se a partir da Constituição Federal de 1988, onde se dá a largada de um processo novo para a efetivação dos direitos estabelecidos, nos quais aprovam em 1993 a LOAS - Lei Orgânica de Assistência Social, que realiza a PNAS - Política Nacional de Assistência Social e prevê a implantação do SUAS - Sistema Único de Assistência Social. Apontado na Conferência Nacional de Assistência Social e no Conselho Nacional de Assistência Social, cria-se então o CRAS - Centro de Referência de Assistência Social e o CREAS - Centro de Referência de Assistência Social Especializada, que fomenta a Proteção Social Básica e fortalecimento de laços e vínculos violados, para materializa- ção dos objetivos do SUAS. O CREAS é uma unidade pública estatal, de abrangência municipal ou regional, referência para a oferta de trabalho social a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos – relacionada a maus tratos, abandono, abuso ou exploração sexual etc. – que demandam intervenções especializadas no âmbito do SUAS. Sua gestão e funcionamento compreendem um conjunto de aspectos, tais como: infraestrutura e recursos humanos compatíveis com os serviços ofertados, trabalho em rede, articulação com as demais unidades e serviços da rede socioassistencial, das demais políticas públicas e órgãos de defesa de direitos, além da organização de registros de informação e o desenvolvimento de processos de monitoramento e avaliação das ações realizadas. As orientações tratadas nesta apostila estão embasadas em marcos legais, normativas e regulações da política de Assistência Social. O processo de elaboração também foi enriquecido por outros mo- mentos coletivos, como entrevistas, oficinas e reuniões técnicas, que proporcionaram debates com representações diversas, como gestores da Política de Assistência Social e Assistentes Sociais atuan- tes no Centro de Referência Especializado de Assistência Social - CREAS. Foram igualmente importantes as contribuições, reflexões e sugestões oferecidas pelos mesmos pa- ra a composição e organização dos conteúdos, bem como os diversos debates realizados ao longo deste período de coleta de dados junto a três municípios e suas respectivas instituições (CREAS). O processo histórico da consolidação da Assistência Social como política pública e direito social teve início com a promulgação da Constituição Federal/1988, conhecida por Constituição Cidadã. Da mesma forma, a Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS (Lei 8.742 de 07/12/93), que mais do que uma norma legal é um conjunto de ideias, de concepção e de direitos que substitui a visão centrada na caridade e no favor, reafirma a Assistência Social como pertencente ao tripé da política de Seguridade Social (Saúde, Previdência e Assistência Social), devendo prover serviços e programas para cidadãos que vivenciam situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social e que deles necessitarem. INTRODUÇÃO 6 www.servicosocialparaconcursos.net Entretanto, o termo “Seguridade Social” não foi adotado pelos profissionais, sendo rotineiramente usado o termo “proteção social”. A proteção social, missão de todas as políticas públicas num projeto de Estado de direito, embora dever do Estado é também um dever da família e da comunidade. Assim, devemos apostar no empoderamento das famílias. Com esta proposta, pretende-se romper com o assistencialismo que não reconhece o direito, mas sim reforça as práticas filantrópicas e de caráter eventual e fragmentado. Avançando no processo, em 1997 e 1998, com a edição e reedição da Norma Operacional Básica da Assistência Social - NOB, busca-se concretizar os princípios e diretrizes da LOAS. Em 2003, a IV Conferência Nacional de Assistência Social consegue levar esta questão a termo, consolidando a implantação do Sistema Único da Assistência Social - SUAS. Em 2004, fortalecendo esse processo, surge a Política Nacional de Assistência Social - PNAS. Em 2005, a Norma Operacional Básica (NOB/SUAS), retoma as normas operacionais de 1997 e 1998 e constitui-se o novo instrumento de regulação dos conteúdos e definições da Política Nacional de Assistência Social, norteando o funcionamento do SUAS. Em 2006, é publicada a Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do SUAS - NOB-RH/SUAS, dando operacionalidade a um dos eixos estruturantes do SUAS, a Política de Recursos Humanos. Em 2009, é aprovada a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, organizando os serviços ofertados à população pelo Sistema Único de Assistência Social. Em 06 de julho de 2011, marcando de maneira significativa esta matéria em nosso país, a assistência social consolida-se como política pública com a aprovação da Lei 12.435/11 que altera a Lei no 8.742/93, que dispõe sobre a organização da Assistência Social. Feitas as devidas considerações, iniciaremos o estudo tratando sobre a trajetória da política de Assistência Social, um tema essencial para que se possa construir uma base para o estudos dos módulos posteriores. Vamos começar! 7 www.servicosocialparaconcursos.net Para compreender a forma de organização da Política de Assistência Social no Brasil, seus limites e suas contradições, é importante fazer uma análise de sua trajetória até a Constituição Federal de 1988, para entender como se deu esse processo de transformações que culminou com o seu reconhecimento como uma política pública, tornando-se um direito que, junto com a as políticas públicas de Saúde e Previdência Social, formam o tripé da Seguridade Social. No Brasil, até a década de 1930, não havia uma intervenção do Estado na área social, toda prática assistencial que existia até esse momento era desenvolvida pela Igreja Católica e por organizações de caridade. As práticas assistenciais tinham um caráter disciplinador, e não havia uma compreensão da pobreza como expressão da questão social, considerada uma disfunção (problema) individual e tratada como caso de polícia pelo aparato (órgão, sistema) repressor (coibição através da violência) do Estado. Somente a partir da Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas chega à presidência do país, que o Estado começa a assumir novas funções, deixando de ser apenas coercitivo (opressor, tirano e autoritário). O Estado passa a fazer a organização e a regulação das condições sociais e políticas para o desenvolvimento industrial e econômico, promovendo a ascensão de um projeto de urbanização e industrialização (FERREIRA, 2007). Dentre os feitos de seu governo, Getúlio Vargas criou as Caixas de Subvenções, onde o governo fornecia uma ajuda financeira às instituições filantrópicas e públicas, a fim de que as mesmas dessem assistência à população desassistida socialmente. Através da Lei nº 1.493/51, o Estado institucionalizou definitivamente as subvenções incluindo seus recursos ao Orçamento Geral da República. Além das Caixas de Subvenções, consolidou as Leis Trabalhistas visando à produtividade e o controle das greves e movimentos sociais (MESTRINER, 2008). As leis trabalhistas representaram um intercâmbio entre os trabalhadores assalariados e os empresários, além de trazer benefícios para essas duas classes. Essa consolidação trabalhista criou a carteira de trabalho, instituiu uma jornada de trabalho de oito horas, férias remuneradas, salário maternidade e criou a área de segurança e medicina do trabalho. (COUTO, 2006, p.103) Como se pode observar a consolidação das Leis trabalhistas foi muito importante para a classe trabalhadora, onde se garantiram direitos importantes como férias, redução da carga horária de trabalho e a garantia de um pouco mais de segurança, porémfoi também um grande ganho para o empresariado, pois com a criação das leis trabalhistas viu-se a possibilidade de manter a classe trabalhadora “domesticada”, evitando manifestações futuras por parte deles e mantendo-os sob controle. Importante ressaltar que nesse período só era considerado cidadão quem estava vinculado ao mercado formal de trabalho, e, portanto, somente esses teriam algum tipo de benefício previdenciário. O trabalho é dever de todos, o que implica crime o não trabalho. Assim, como que num movimento de punição, define que não merece garantia de atenção àquele que não trabalha e não produz. (MESTRINER, 2008, p.105) Quem não pertencia ao mercado formal de trabalho ficava a mercê da caridade e da benesse, não recebendo nenhuma atenção previdenciária, além de sofrer repressão por parte do Estado. A TRAJETÓRIA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL MÓDULO ICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 8 www.servicosocialparaconcursos.net Segundo Mestriner (2008), no ano de 1938 o Governo de Vargas cria também o Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS), que foi a primeira presença da assistência social na burocracia do Estado brasileiro, e tinha suas funções subsidiadas pelas organizações que prestavam amparo social. O CNSS tinha como uma de suas funções analisar as adequações das entidades sociais e de seus pedidos de subvenções e isenções. Somente em 1942 foi criada a primeira grande instituição federal de assistência social no Brasil, conhecida como a Legião Brasileira de Assistência Social (LBA). Getúlio Vargas cria esta instituição como forma de legitimar seu governo através da tática do assistencialismo como um mecanismo de dominação política. Ao colocar sua esposa Darcy Vargas no comando dessa instituição, fez com que a assistência social passasse a ser associada ao primeiro-damismo. Esse ato assegurou estatutariamente a presidência da LBA às primeiras-damas da república, ocorrendo a junção entre iniciativa privada e pública conformando assim a relação entre classes subalternas e Estado. (TORRES, 2002) Neste período, a assistência social como ação social é um ato de vontade e não direito de cidadania. Do apoio às famílias dos pracinhas, a LBA vai estender sua ação às famílias da grande massa não previdenciária. Passa a atender também famílias que sofrem em decorrência de calamidades, o que trouxe o vínculo emergencial a assistência social que perdura até os dias de hoje. (SPOSATI, 2007, p.20) Segundo Mestriner (2008), a LBA passa a realizar trabalhos a nível federal, estadual e municipal, ganhando uma ampla estrutura nacional e atuando em quase todas as áreas da assistência social. Implementavam centros sociais e regionais de grande relevância os quais eram uma extensão à proteção dada aos trabalhadores. E para realizar essas novas funções mobilizaram as escolas de Serviço Social. Nesse processo de expansão, procura mobilizar e coordenar as instituições sociais privadas e públicas, ao mesmo tempo em que, por meio de ações próprias, tenta suprir as defasagens apresentadas pelo sistema assistencial existente. Dessa forma, contribui para a organização, ampliação e interiorização da assistência social, levando à assimilação de princípios, métodos e técnicas do Serviço Social, bem como a contratação de profissionais da área, consolidando o ensino especializado. (MESTRINER, 2008, p.145) A junção entre a LBA e as escolas de Serviço Social foi importante para ambos, pois a LBA necessitava de profissionais e de uma atuação mais técnica do que a desenvolvida até então, e o Serviço Social enquanto profissão passava por um período de legitimação (legalização). Até 1964 manteve-se esse modelo de proteção social, e nesse mesmo ano ocorreu o Golpe Militar que teve como consequência a concentração do poder estatal nas mãos dos militares, forte burocratização, autoritarismo nas relações e mudanças nas relações de trabalho. (FERREIRA, 2007) O Estado militarista uniu-se às forças dominantes restringindo as políticas de massa. O governo, visando o desenvolvimento econômico do país, se utiliza da contenção salarial, o que elevou à desigualdade social, provocando ainda mais a pauperização da população. A questão social passa a ser controlada através da coerção (ato de reprimir, proibir) e da violência! Os conflitos sociais são reprimidos severamente, sendo vistos como caso de polícia. Neste contexto, a demanda social passa a ser atendida pelo binômio (expressão de dois termos) repressão x assistência, onde as ações assistenciais passam a ser utilizadas pelo aparato (sistema) estatal como forma de amenizar as condições de empobrecimento da população e em nome da segurança nacional, evitando que os trabalhadores realizassem alguma mobilização. O Estado procurou aliançar-se à elite para ampliar a ação assistencial através de programas, benefícios e serviços. 9 www.servicosocialparaconcursos.net A partir de 1966 foram criados o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), o Programa de Integração Social (PIS), Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o PRORURAL que possibilitou o início do processo de universalização das políticas sociais e a uniformização (estabelecimento de um padrão) de serviços. Criou-se também o Banco Nacional de Habitação (BNH) que foi uma das grandes reivindicações da classe trabalhadora, usavam-se recursos do FGTS, mais na verdade esse financiamento serviu mais para as classes médias e altas da sociedade do que para os trabalhadores que a reivindicaram. É durante esse período autoritário que se consolida o Estado Assistencial. Os serviços, programas e projetos da área social passam a ser criados de acordo com o problema, idade e necessidade da população, ou seja, através de práticas fragmentadas (separadas) e setoriais (por setores) que perduram até a atualidade. Em 1974 cria-se o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS), e ligado a ele a Secretaria de Assistência Social que será um importante instrumento para a criação de políticas voltadas ao ataque à pobreza. Através do MPAS houve uma maior valorização da assistência social, dando margens para vislumbrar a necessidade de fugir do caráter assistencialista que ela carrega ao longo dos anos. Estendeu-se a cobertura previdenciária a quase totalidade da população urbana e uma parte da rural, buscou-se um tratamento inovador para a área da assistência social, fugindo do caráter assistencialista e de simples complementação da previdência social. Durante o período da ditadura militar no Brasil, mesmo diante dos avanços obtidos na área social, ainda continuaram sendo realizadas práticas assistencialistas e de benemerência características de anos anteriores. Outro fator a ser observado é que as condições de vida da população continuaram as mesmas, a pauperização e desigualdade social ainda eram grandes, o que fez com que os trabalhadores e a sociedade de forma geral começassem a lutar por melhores condições de vida, e buscar seus direitos. Insatisfeitos com essa situação, os membros da sociedade mais prejudicados e pauperizados unem-se e começam a realizar movimentos contestatórios por todo o país. (MESTRINER, 2008 e FERREIRA, 2007). Diante de um cenário de grande mobilização e reivindicação de práticas inovadoras e eficazes na área social, iniciou-se um processo de discussões sobre a formulação de uma política pública de assistência social que fosse assegurada constitucionalmente. O período de 1980 a 1990 foi marcado por um processo de novas configurações nas áreas política e social, com constantes reformas e uma ampliação da democracia. Foram também realizados constantes debates sobre a assistência, com a realização de estudos e pesquisas a fim de se formular uma proposta de assistência social que realmente fosse efetiva. Foi então que, através da Constituição Federal de 1988, a assistência social começa a ganhar novos horizontes, passando a ser discutida como um direito do cidadão e cabendo ao Estado provê-la, em uma tentativade romper com a lógica da caridade e da benemerência. A Constituição Federal de 1988 possibilitou trazer uma nova concepção para a Assistência Social, redefinindo assim seu perfil histórico no país, passando a qualificá-la como uma política de seguridade social trazida no art. 194 da Constituição Federal: Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência à assistência social (BRASIL, 2003, p. 193). A Constituição Federal de 1988 foi aprovada no dia 5 de outubro e traz a Política de Assistência Social inscrita nos artigos 203 e 204: 10 www.servicosocialparaconcursos.net Art. 203. A Assistência Social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos: I- a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II- o amparo às crianças e adolescentes carentes; III- a promoção da integração ao mercado de trabalho; IV- a habilitação e a reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V- a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. A inserção da assistência social no tripé da seguridade social representou uma inovação, consolidando- a como uma política pública. A partir da Constituição Federal de 1988 passa-se a garantir os direitos básicos de cidadania, ampliando a cobertura dos serviços de assistência social principalmente às pessoas que até então estavam desprotegidas. Essa inserção, bastante inovadora, introduz o campo da assistência social como política social, dirigindo-se a uma população antes excluída do atendimento na ótica (perspectiva) dos direitos. Sua definição impõe compreender o campo assistencial como provisão (determinação legal) necessária para enfrentar as dificuldades que podem ser interpostas a qualquer cidadão e que deve ser cobertas pelo Estado. (COUTO, 2006, p.170) Já o artigo 204, vai falar sobre a organização da assistência social, sendo as ações voltadas para essa área custeadas pela seguridade social. Art. 204. As ações governamentais na área da assistência social serão realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art.195, além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes diretrizes: I- descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estaduais e municipais, bem como a entidades beneficentes e de assistência social; II- participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis (BRASIL, 2003, p. 13). Até a promulgação da Constituição Federal só tinha direito a acessar a política quem fazia parte do mercado formal de trabalho. Através da inserção da assistência social como política integrante da seguridade social há a possibilidade que pessoas consideradas das classes mais pauperizadas passassem a ter seus direitos sociais garantidos independentemente da sua inserção no mercado de trabalho. Passa a caber ao Estado prover as condições necessárias para que essas pessoas pudessem enfrentar as mais variadas expressões da questão social. Porém, ao instituir que a assistência social será prestada a quem dela necessitar é posto um limite, fazendo com que esta política não seja universal como deveria, sendo prestada a todos mesmo que não haja uma necessidade especifica, outro problema é que ao fragmentar as demandas e fazer a separação por grupos (crianças, adolescentes, idosos, etc.) perde-se a noção de classe essencial para a condução dessa política. 11 www.servicosocialparaconcursos.net A descentralização política e administrativa é bastante significativa para a organização e para que mais pessoas tenham acesso à assistência social, mas acaba abrindo possibilidades para o surgimento de instituições do Terceiro Setor. Essa inserção trouxe consigo também, a extinção da Legião Brasileira de Assistência e do Instituto Nacional de Previdência Social, sendo criado a partir de então o Instituto Nacional de Seguridade Social – (INSS). Dentre os avanços alcançados com a Constituição Federal de 1988, houve a responsabilização do Estado na condução das políticas sociais, já que anteriormente o papel do Estado sempre foi secundário, ou subsidiado por entidades filantrópicas. A população passa a participar da formulação das políticas e controlar as ações assistenciais. Para regulamentar todos os avanços alcançados através da Constituição Federal de 1988 foi preciso criar e aprovar leis orgânicas. Segundo Couto (2006), a primeira área da seguridade social que conseguiu regulamentar sua lei foi a Saúde em 19 de setembro de 1990 (Lei nº 8.080), já a Previdência Social teve sua lei orgânica (Lei nº 8.212) regulamentada em julho de 1991. A aprovação da Lei Orgânica da Assistência Social sofreu um atraso no desencadeamento do seu processo de discussão e elaboração de propostas, que só virá acontecer mais tarde através da intervenção das entidades e de profissionais de Serviço Social. (MESTRINER, 2008) Uma questão fundamental a se salientar e que contribui para entender este atraso é que a partir da década de 1990 consolida-se no Brasil o neoliberalismo, que trouxe consequências para o campo social, como o desmonte do processo de proteção social conquistado com a Constituição Federal de 1988. (SILVA, YAZBECK e GIOVANNI 2007). O neoliberalismo consiste na sustentação da tese segundo a qual o mercado é o principal e insubstituível mecanismo de regulação (controle, direção) social, onde a sua enfática defesa do Estado mínimo (propõe a não-intervenção em prol da liberdade individual e da competição entre os agentes econômicos). O propósito do neoliberalismo é combater as políticas macroeconômicas (consideradas como um todo individual) de matriz keynesiana e o combate à garantia dos direitos sociais, defendendo como meta a estabilidade monetária. (PEREIRA, SILVA e PATRIOTA, 2006) O Estado brasileiro a partir de então passa a buscar o desenvolvimento econômico e combater a inflação, transferindo suas responsabilidades com o campo social para organizações da sociedade civil, reduzindo assim sua intervenção. Passa a cumprir apenas funções básicas, deixando de lado ações que não fossem prioritárias e benéficas ao desenvolvimento econômico do país. Esse novo modelo trouxe consigo graves consequências para a sociedade, aumentando-se o índice de desemprego e da desigualdade. O neoliberalismo, no que diz respeito às políticas sociais, altera suas propostas, havendo corte nos gastos sociais, a desativação de programas e principalmente a redução do papel do Estado nesse campo. Descentralizar, privatizar e concentrar programas sociais públicos nas populações mais pauperizadas foi um dos vetores estruturais do neoliberalismo. Segundo Dahmer Pereira (2006), no Brasil o neoliberalismo começou a ser implantado no governo Collor, onde se iniciou o processo de desconstrução dos princípios universalizantes e distributivos da Seguridade Social trazidos com a Constituição Federal de 1988. A economia nacional passa a subordinar-se à economia internacional, havendo a desregulamentação do mercado de trabalho, dos direitos trabalhistas e sociais conquistados até o momento, e a política social passa a ter caráter minimalista. As áreas da Saúde, Previdência e Assistência Social foram distribuídas em três ministérios diferentes, sendo seus recursos unificados e subordinados à área econômica. 12 www.servicosocialparaconcursos.net O governo de Collor chegou a enviar uma proposta de Reforma Constitucional, que buscava a aberturada economia, a internacionalização da mesma, privatização. No campo das políticas sociais, sua proposta era de seletividade e focalização, como essa reforma não conseguiu ter uma ampla base hegemônica para sua realização, o presidente passou a direcionar essas ações através de emendas e vetos presidenciais, sendo eles direcionados principalmente a área da Seguridade Social. Com isso, em novembro de 1990 Collor, vetou o projeto de Lei Orgânica da Assistência Social, alegando falta de recursos para cobrir os gastos sociais e dos benefícios de prestação continuada (BPC). Em 1992 Collor foi afastado da presidência e quem assumiu seu lugar foi Itamar Franco que enfrentou um país com diversos problemas econômicos e sociais. Seu governo também estava voltado para o desenvolvimento da economia e o combate à inflação, sem romper com a condução política e econômica de seu antecessor (COUTO, 2006). Após o veto de Collor ao projeto de Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), o Ministério do Bem- Estar Social começou a promover encontros regionais em todo o país a fim de discutir-se essa Lei. Teve como principais participantes os representantes da sociedade civil, do Poder Legislativo, integrantes da LBA, da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG), entre outros. Esses encontros culminaram com a Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em junho de 1993, em Brasília, muitas discussões foram feitas, houve algumas reformulações na lei visando ganhos para assistência (MPES, 2010). Foi diante desse cenário de debates e grande pressão popular dos organismos de classe (dentre eles os Assistentes Sociais e do Ministério Público que ameaçou processar a União pelo descuido com a área) que finalmente, no dia sete de dezembro de 1993, foi sancionada pelo presidente Itamar Franco a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), Lei nº 8.742 que propõe mudanças estruturais e conceituais na assistência social pública. A LOAS vai prever a efetivação dos direitos nela garantidos através de serviços, programas e projetos de forma não contributiva, onde se responsabiliza o Estado por assegurar o acesso de toda a população a política de assistência social, definindo-se a responsabilidade de cada esfera do governo nesta área. Incorpora a concepção de mínimos sociais, exigindo a construção de uma ética em sua defesa, mostrando que a pobreza e a miséria não são solucionadas apenas com a concessão de benefícios. Vai estabelecer a descentralização político-administrativa entre os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, com comando único na realização das suas ações, sendo fundamental a participação da população na formulação das políticas e no controle social. Apesar de ainda haverem fatores que dificultem a compreensão da assistência social como direito, Inegavelmente, a LOAS não apenas introduz um novo significado para a Assistência Social, diferenciando-a do assistencialismo e situando-a como Política de Seguridade Social voltada à extensão da cidadania social dos setores mais vulnerabilizados da população brasileira, mas também aponta a centralidade do Estado na universalização e garantia dos direitos e de acesso aos serviços sociais qualificados, ao mesmo tempo em que propõe o sistema descentralizado e participativo na gestão da assistência social no país, sob a égide da democracia e da cidadania (YASBEK, 1997, p.9 apud COUTO 2006). O principal Benefício conquistado com a LOAS foi o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que prevê o pagamento de um salário mínimo mensal a pessoas com deficiência e aos idosos que não possuem meios de prover seu próprio sustento. O financiamento dos benefícios, serviços, programas e projetos previstos na Lei estão condicionados aos recursos da União, Estado e Municípios que compõem o Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS). 13 www.servicosocialparaconcursos.net Cria-se também o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) que passa a ter uma grande importância a partir de agora, pois terá como tarefa aprovar a Política Nacional de Assistência Social, normatizando suas ações e regulando a prestação de serviços tanto de natureza pública quanto privada na área da assistência social, zelará pela efetivação do sistema de descentralização, aprovará propostas orçamentárias da assistência social, dentre outras funções. Seus membros são nomeados pelo presidente da República tendo mandato de dois anos podendo ser prorrogado por mais dois. A regulamentação da LOAS significou um passo muito importante para Assistência Social no Brasil, mais não ficou somente nessa conquista, a partir dessa regulamentação novas necessidades foram surgindo e por isso viu-se a importância de criar uma Política Nacional para a área de assistência social, pois a LOAS é um instrumento legal que regulamentou os pressupostos trazidos na Constituição Federal, instituindo programas, serviços, benefícios e projetos destinados ao enfrentamento da questão social. A Política Nacional de Assistência Social virá para concretizá-los, buscando incorporar as demandas da sociedade no que tange à responsabilidade política, tornando claras suas diretrizes na efetivação da assistência social como direito de cidadania e responsabilidade do Estado. Mas, até a implementação da Política Nacional de Assistência Social que só virá ocorrer no ano de 2004, o país passou por um período difícil na área social. Segundo Couto (2006), no ano de 1994, assume a presidência do país Fernando Henrique Cardoso (FHC), que assim como os governantes anteriores priorizou o controle da inflação e a manutenção da estabilidade econômica, afirmava a necessidade de realizar uma reforma do Estado vinculada ao paradigma teórico neoliberal. Durante sua campanha, como forma de eleger-se, usou como discurso prioridades na saúde, educação, emprego e segurança, o que poderia ter levado o governo a privilegiar reformas sociais, cumprindo assim os preceitos constitucionais, mas foi totalmente o inverso. Para governar ele se utilizou do recurso de Medidas Provisórias, recurso esse garantido desde a Constituição Federal de 1988 para ser utilizado somente em caso de urgência. Buscava manter a sociedade sempre afastada das decisões do governo e apoiado pelo Congresso fez algumas mudanças no texto constitucional buscando assim garantir a implementação de seu plano econômico. No campo social destacou-se a criação do Programa Comunidade Solidária, que tinha como objetivo buscar estabelecer formas de atuação na área social do governo e formas de gerenciar os programas de ataque a fome e a pobreza. Mas, o descaso com a área foi tão grande que Fernando Henrique Cardoso chegou a ser denunciado pelo Tribunal de Contas da União. No balanço social desse governo os resultados foram desastrosos com aumento da concentração de renda, consequentemente aumentou-se a desigualdade social, aumentou o desemprego, por várias vezes houve a tentativa de acabar com alguns direitos trabalhistas conquistados ao longo dos anos. Uma as características desse momento foi, [...] a retomada da matriz da solidariedade, como sinônimo de voluntarismo e de passagem da responsabilidade dos programas sociais para a órbita da iniciativa privada, buscando afastar o Estado de sua responsabilidade central, conforme a Constituição Federal de 1988, na garantia desses direitos (COUTO, 2006, p.150). Diante desse quadro pode-se constatar que a partir do governo de Collor houve uma fragilização da proteção social no Brasil, através de programas com ações pontuais e fragmentadas, principalmente os voltados para erradicação da fome e miséria. Os governos que vieram após a Constituição Federal de 1988, foram tentando desconstruir os direitos garantidos constitucionalmente, evitando também a autonomia das classes menos favorecidas. No vasto campo de atendimento das necessidades sociais das classes empobrecidas administram-se favores. Décadas de clientelismo consolidaram uma cultura tuteladora,que não tem 14 www.servicosocialparaconcursos.net favorecido o protagonismo nem a emancipação dessas classes em nossa sociedade. A redução de custos tem significado uma deterioração na qualidade dos serviços, triagens mais severas e a opção por programas assistencialistas e seletivos de combate à pobreza, como o Programa Comunidade Solidária. Muito se fala sobre a busca da emancipação dos usuários, porém existe uma dualidade quando se fala nesse processo de emancipação, pois ao mesmo tempo que se prega esse discurso não é interessante para o governo e para a ordem vigente a emancipação dos mesmos. Na verdade, a emancipação desses usuários é praticamente impossível de acontecer, pois para que isso ocorra é necessário chegar à raiz do problema: a contradição entre as classes. O tempo todo se busca esconder esse problema, ocorrendo um deslocamento dos conflitos causados pelas contradições das classes sociais transferindo-os para o indivíduo. A Assistência Social tem como público alvo pessoas consideradas “carentes”, “necessitadas”, desempregadas, sendo elas dependentes dos serviços prestados, estes serviços por sua vez tem se tornando cada vez mais fragmentados, esse conjunto de fatores também impossibilita a emancipação que tanto se fala na Assistência Social. Foi somente com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva em 2002, que a situação social começa a dar indícios de mudanças no país, primeiramente com a aprovação da Política Nacional de Assistência Social e logo em seguida com a do Sistema Único de Assistência Social. No módulo II estaremos destacando os aspectos principais do processo de reconhecimento da Assistência Social como Política Pública. As informações apresentadas são muito importantes para complementar e consolidar o conteúdo estudado neste módulo! ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 15 www.servicosocialparaconcursos.net A primeira Política Nacional de Assistência Social foi aprovada em 1998, após cinco anos da regulamentação da LOAS, mas apresentou-se de forma insuficiente. Somente passadas duas décadas da aprovação da LOAS é que a Política Nacional de Assistência Social foi efetivamente aprovada (COUTO, YASBEK e RAICHELIS, 2010). O Ano de 2003 foi marcado pelo início do governo de Luís Inácio Lula da Silva, criou-se uma expectativa muito grande em relação a esse governo por se tratar da eleição de um partido político com forte apelo popular que pregava em seu discurso a democracia, e no qual se acreditava que poderia trazer mudanças significativas para o Brasil. O país no momento da posse se encontrava num cenário de crise com a redução dos direitos sociais, desregulação financeira, constantes privatizações, todos esses processos herdados de mandatos anteriores, mas principalmente do governo de Fernando Henrique Cardoso. Esta realidade acabou dificultando o mandato do novo presidente, sendo dificultadas as mudanças num primeiro momento (FERREIRA, 2007). Ainda segundo a autora, foi diante neste contexto – apesar da crise - que a assistência social começa a alcançar um novo patamar. Em dezembro de 2003 por meio do CNAS foi realizada em Brasília a IV Conferência Nacional de Assistência Social. Nela se aprovou uma nova agenda política no que diz respeito ao ordenamento da gestão participativa e descentralizada de assistência social no Brasil. Nessa conferência aprovou-se a Política Nacional de Assistência Social (PNAS) que prevê a construção e implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que será operacionalizado pela Norma OperacionalBásica (NOB/2005) conhecida também como NOB/SUAS, onde concretizará um modelo de gestão que possibilite a efetivação dos princípios e diretrizes da política de assistência social, conforme definido na LOAS. No ano de 2004, foi criado o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que em seu âmbito criou a Secretaria Nacional de Assistência Social (SNAS), que busca fortalecer e acelerar o processo de construção do SUAS. Em outubro desse mesmo ano, o MDS através da SNAS publicou a versão final da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), Resolução nº 145, sendo publicada no Diário Oficial da União em 28 de outubro de 2004 (CAPACITAÇÃO MDS, 2005). Esta política vai introduzir mudanças tanto nas referências conceituais, como em sua estrutura organizativa e na lógica de gerenciamento e controle das ações na área. A Política Nacional de Assistência Social tem como princípios: I - Supremacia do atendimento às necessidades sociais sobre as exigências de rentabilidade econômica; II - Universalização dos direitos sociais, a fim de tornar o destinatário da ação assistencial alcançável pelas demais políticas públicas; III - Respeito à dignidade do cidadão, à sua autonomia e ao seu direito a benefícios e serviços de qualidade, bem como à convivência familiar e comunitária, vedando-se qualquer comprovação vexatória de necessidade; POLÍTICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL MÓDULO IICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 16 www.servicosocialparaconcursos.net IV - Igualdade de direitos no acesso ao atendimento, sem discriminação de qualquer natureza, garantindo-se equivalência às populações urbanas e rurais; V - Divulgação ampla dos benefícios, serviços, programas e projetos assistenciais, bem como dos recursos oferecidos pelo Poder Público e dos critérios para sua concessão (PNAS, 2004, p.26). Como se pode observar reafirma-se aí a natureza não contributiva da assistência social, passando a ter como foco de atenção dessa política as necessidades e mais não o necessitado. A Política de Assistência Social passa a ser acessível a todos que dela necessitar, sem exceção ou discriminação, mas sendo ela passível também à disponibilidade de recursos, que na contracorrente das escolhas políticas e econômicas são cada vez mais escassas para as políticas sociais. O cidadão passa a ter sua dignidade reconhecida, devendo ele ser respeitado independente de sua situação econômica ou social, os serviços no campo da assistência social devem ser prestados a quem deles necessitar, deve- se haver a promoção da equidade no sentido de reduzir as desigualdades sociais e no enfrentamento de disparidades locais, além de se fazer uma ampla divulgação de serviços, programas, projetos e benefícios para que seja facilitado o acesso da população os mesmo (CAPACITAÇÃO MDS, 2005). Pode-se observar que mais uma vez não é levada em consideração a raiz do problema, a contradição entre as classes, nega-se também que as desigualdades sociais são fruto do capitalismo, em nenhum momento é abordado ou se questiona a ordem vigente e as consequências que ele traz. A PNAS prega a diminuição das desigualdades sociais, mas não procura acabar com elas, na verdade com suas propostas contribuem para manter a ordem vigente e a exploração, grande parte de suas propostas contribuem para solucionar problemas emergenciais e manter a classe subalterna “dócil”. Como forma de organização a PNAS será orientada segundo as seguintes diretrizes: I - Descentralização político-administrativa, cabendo à coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência social, garantindo o comando único das ações em cada esfera de governo, respeitando-se as diferenças e as características sócio territoriais locais; II - Participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis; III - Primazia da responsabilidade do Estado na condução da política de assistência social em cada esfera de governo; IV - Centralidade na família para concepção e implementação dos benefícios, serviços, programas e projetos (PNAS, 2004, p. 26-27). A descentralização político-administrativa reforça o papel das três esferas do governo na condução da Política de Assistência Social. A participação da população passa a ser feita através dos Conselhos e Conferências (Municipais, Estaduais e Nacional) onde a população ajuda a formular e controlar as ações na área da assistência social. A família passa a ser o principal foco para a elaboração dos serviços, programas e projetos e reforça-se ainda a responsabilidade do Estado na condução dessa política. A PNAS possibilita explicitar e tornar claras as diretrizes que vão efetivar a assistência social como direito de cidadania e responsabilidade do Estado, possuindo um modelo de gestão compartilhado, tendo suas atribuições e competências realizadas nas três esferas do governo. Ela reafirmar a 17 www.servicosocialparaconcursos.net necessidade de articulação com outras políticas e indicar que as ações a serem realizadas devem ser feitas de forma integrada para o enfrentamento da questão social (COUTO, YASBEK e RAICHELIS, 2010). A Política Pública de Assistência Social realiza-se de forma integrada às políticas setoriais, considerando as desigualdades socioterritoriais, visando seu enfrentamento, a garantia dos mínimos sociais, ao provimento de condições para atender contingências sociais e a universalização dos direitos sociais. Sob essa perspectiva, objetiva: I- Prover serviços, programas, projetos e benefícios de proteção social básica e, ou, especial para famílias, indivíduos e grupos que deles necessitarem; II- Contribuir com a inclusão e a equidade dos usuários e grupos específicos, ampliando o acesso aos bens e serviços sócio assistenciais básicos e especiais, em áreas urbana e rural; III- Assegurar que as ações no âmbito da assistência social tenham centralidade na família, e que garantam a convivência familiar e comunitária (PNAS, 2004, p.27). A intersetorialidade foi um dos pontos importantes trazidos com a PNAS, pois através da sua articulação com as demais políticas públicas visa-se o desenvolvimento de ações conjuntas destinadas ao enfrentamento das desigualdades sociais existentes e identificadas em determinadas áreas, além de realizar a proteção social básica e especial dos usuários. Com a junção entre as políticas públicas em torno de objetivos comuns passasse a orientar a construção das redes municipais. (COUTO, YASBEK e RAICHELIS, 2010). Os usuários da Política de Assistência Social passam a ser todos os cidadãos ou grupos que se encontram em alguma situação de vulnerabilidade e risco social, ou seja: [...] famílias e indivíduos com perda ou fragilidade de vínculos de afetividade, pertencimento e sociabilidade; ciclos de vida; identidades estigmatizadas em termos étnico, cultural e sexual; desvantagem pessoal resultante de deficiências; exclusão pela pobreza e, ou, no acesso às demais políticas públicas; uso de substâncias psicoativas; diferentes formas de violência advinda do núcleo familiar, grupos e indivíduos; inserção precária ou não inserção no mercado de trabalho formal e informal; estratégias e alternativas diferenciadas de sobrevivência que podem representar risco pessoal e social (PNAS, 2004, p.27). Como podemos observar ampliaram-se os usuários da política de assistência social, englobando agora não somente os usuários considerados tradicionais, como as pessoas mais pauperizadas, mas também pessoas que estão desempregadas, ou que se encontram no mercado informal de trabalho, usuários de drogas, entre outros. Além disso, essa nova política passa a ter como foco principal a família, crescem os programas, projetos e serviços voltados para ela buscando o fortalecimento da mesma, no enfrentamento de suasnecessidades sociais. Apesar de se ter ampliado os usuários da Política de Assistência Social como exposto acima, na verdade suas ações quase que em sua totalidade são voltadas para o núcleo familiar, sendo em sua maioria os programas, projetos e benefícios voltados para a mesma, deixando de lado os outros segmentos. A implantação da PNAS vai defini-la como política de proteção social aos que estão em situação de vulnerabilidade e risco social. A Proteção Social de Assistência Social consiste no conjunto de ações, cuidados, atenções, benefícios e auxílios ofertados pelo Sistema Único de Assistência Social para redução e preservação 18 www.servicosocialparaconcursos.net do impacto das vicissitudes sociais e naturais ao ciclo da vida, à dignidade humana e à família como núcleo básico de sustentação afetiva, biológica e relacional. (NOB/SUAS, 2005, p.16). O Sistema de proteção social segundo a PNAS divide-se em Proteção Social Básica e Proteção Social Especial de alta e média complexidade. A Proteção Social Básica vai destinar-se a famílias ou indivíduos em situação de vulnerabilidade social, tendo por objetivo prevenir situações de risco social através do desenvolvimento de potencialidades e aquisições, e por meio do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Prevê o desenvolvimento de serviços, programas e projetos locais de acolhimento e socialização das famílias, buscando incluir pessoas com deficiência, e inseri-las nas ações ofertadas (PNAS, 2004). Vão compor a proteção social básica os benefícios de prestação continuada e os benefícios eventuais. Os benefícios eventuais são destinados a famílias e indivíduos impossibilitados de arcar por conta própria com as situações de vulnerabilidade e riscos temporários advindos de nascimento ou morte de familiares. Outros benefícios eventuais podem ser criados, com a finalidade de atender às vítimas de calamidade pública, exemplos de benefícios eventuais são: o Auxilio natalidade e funeral. Dentre os programas da proteção social básica destacam-se o Programa de Atenção Integral as Famílias (PAIF), que tem como função a proteção das famílias, promovendo o acesso aos direitos e fortalecendo os vínculos familiares (PNAS, 2004), e o Programa Bolsa Família (PBF) que na atualidade está entre um dos principais programas de transferência de renda do governo. O Programa Bolsa Família foi criado em 2003 pelo governo do Presidente Lula. O programa faz parte do Fome Zero, que visa assegurar o direito à alimentação, procurando promover a segurança alimentar e contribuindo para a erradicação da fome, este programa está voltado para famílias que se encontram abaixo da linha da pobreza. Segundo Ferreira (2007), o PBF foi criado como forma de unificar quatro programas de transferência de renda oferecidos no governo do presidente Lula, são eles: o Auxilio Gás, Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Cartão Alimentação. O programa terá como objetivo “enfrentar o maior desafio da sociedade brasileira, que é o de combater a miséria e a exclusão social; promover a emancipação das famílias mais pobres” (MARQUES e MENDES, 2005 p.159 apud Ferreira, 2007). Os serviços, benefícios, programas e projetos de prestação social básica devem ser oferecidos nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), que são uma unidade pública estatal de base territorial, localizado em áreas de vulnerabilidade social dos municípios, ou então de forma indireta nas organizações de assistencial social que estão situadas na abrangência do CRAS (GIMENES, 2009). Segundo a PNAS (2004), a Proteção Social Especial é a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se estão em situação de risco pessoal e social, devido a situações de abandono, maus tratos físicos ou, psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio educativas, situação de rua, situação de trabalho infantil, entre outras. Essa proteção especial possui serviços de média e alta complexidade. Os serviços de média complexidade serão prestados nos Centros Especializados de Assistência Social (CREAS), para a família e indivíduos que tiveram seus direitos violados, mas que ainda possuem seus vínculos familiares mantidos. São realizados serviços de orientação e apoio sócio familiar, plantão social, abordagem na rua, dentre outros serviços. A diferença entre a Proteção Social Especial de Média Complexidade para a Proteção Social Básica é que esta última destina-se a um atendimento que se dirige as situações de violação de direitos. 19 www.servicosocialparaconcursos.net Os serviços de alta complexidade garantem a proteção integral aos indivíduos como moradia, alimentação, trabalho protegido para as famílias e para aqueles que se encontram em situação de ameaça e afastados do núcleo familiar. A PNAS trouxe novos avanços para a assistência social, além disso, ela colaborou significativamente para a construção e implementação do SUAS no ano seguinte a sua aprovação. O SUAS, assim com a PNAS, trará importantes contribuições para o campo da assistência social como veremos nos módulos seguintes. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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www.servicosocialparaconcursos.net Dando continuidade aos avanços conquistados no campo da assistência social no Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, tem-se a construção do Sistema Único de Assistência Social que representou uma grande mudança para a área no país. O marco inicial para a implementação do SUAS é julho de 2005, ocasião em que foi aprovada, por meio do Conselho Nacional de Assistência Social, a Norma Operacional Básica do SUAS (NOB/SUAS). O SUAS é um sistema não contributivo, descentralizado e participativo que regula e organiza os elementos contidos na Política Nacional de Assistência Social. Esse sistema vai apontar para uma ruptura com o assistencialismo, benemerência, ações fragmentadas e interesses eleitoreiros características de anos anteriores. A Norma Operacional Básica do SUAS (NOB-SUAS/2005) aponta como características necessárias para a construção do SUAS: ➪ A gestão compartilhada, o cofinanciamento e a cooperação técnica entre os três entes federativos. ➪ Divisão de responsabilidades entre os entes federativos para instalar, regular, manter e expandir as ações de assistência social como dever de Estado e direito do cidadão. ➪ Fundamenta-se nos compromissos da PNAS/2004; ➪ Orienta-se pela unidade de propósitos, principalmente quanto ao alcance de direitos pelos usuários; ➪ Regula em todo o território nacional a hierarquia, os vínculos e as responsabilidades do sistema cidadão de serviços, benefícios, programas, projetos e ações de assistência social, de caráter permanente e eventual, sob critério universal e lógica de ação em rede hierarquizada (âmbitos municipal, estadual e federal). ➪ Respeita a diversidade das regiões. ➪ Reconhece as diferenças e desigualdades regionais, considerando-as no planejamento e execução das ações. ➪ Articula sua dinâmica às organizações e entidades de assistência social reconhecidas pelo SUAS (DAHMER PEREIRA, 2006, p.9-10). No que se refere à proteção social, o SUAS terá como princípios fundamentais: ➪ Matricialidade sociofamiliar; ➪Territorialização; ➪ Proteção proativa; ➪ Integração à seguridade social; ➪ Integração às políticas sociais e econômicas. SISTEMA ÚNICO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL - SUAS MÓDULO IIICURSO ASSISTENTE SOCIALNO CREAS 21 www.servicosocialparaconcursos.net Vai indicar como garantias dessa proteção: ➪ Segurança de acolhida; ➪ Segurança social de renda; ➪ Segurança do convívio ou vivência familiar, comunitária e social; ➪ Segurança do desenvolvimento da autonomia individual, familiar e; ➪ Segurança de sobrevivência a riscos circunstanciais. (NOB/SUAS, 2005). No princípio de matricialidade familiar, a família é o núcleo básico da acolhida, devendo ela ser apoiada e ter acesso a condições que lhe possibilite o sustento. A territorialização vai passar a reconhecer os diversos fatores sociais e econômicos que levam uma família a uma situação de vulnerabilidade e risco social, além de orientar a proteção social da Assistência Social na perspectiva do alcance da universalidade de cobertura aos indivíduos e famílias. A proteção proativa é um conjunto de ações que vão buscar reduzir a ocorrência de riscos e danos sociais, já para a segurança de acolhida serão oferecidos espaços e serviços para a proteção social básica dos usuários que necessitarem dela, e a segurança social de renda que será feita por meio de bolsas- auxílios financeiros através de condicionalidades. A proteção social, como já mencionado, é dividida em duas partes: a proteção social básica e proteção social especial. Ambos os tipos de proteção tem como suposto a proteção social proativa e passam a considerar o usuário como um sujeito de direitos e não mais um objeto de intervenção como era visto anteriormente o que possibilitou a quebra com a situação de tutela (DAHMER PEREIRA, 2005). O SUAS vai implementar também o sistema de vigilância socioassistencial que consiste no desenvolvimento da capacidade e de meios de gestão que serão assumidos pelo órgão público gestor da assistência social para conhecer a presença de pessoas em situação de vulnerabilidade social, tendo como função: ➪ Produção e sistematização de informações; ➪ Criar indicadores e índices territorializados das situações de vulnerabilidade. Esse sistema de vigilância socioassistencial é responsável também por detectar as características das situações de vulnerabilidade que trazem algum risco ou dano para os cidadãos. O SUAS traz ainda a rede sócio assistencial como: Um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, que ofertam e operam benefícios, serviços, programas e projetos, o que supõe a articulação entre todas estas unidades de provisão de proteção social, sob a hierarquia de básica e especial e ainda por níveis de complexidade. (NOB/SUAS, 2005, p.20) De acordo com a PNAS/2004 e com a LOAS, os serviços são atividades continuadas que buscam a melhoria de vida da população e cujas ações são voltadas para as necessidades básicas da mesma. Os programas compreendem ações integradas e complementares, área de abrangência e tempo definidos para qualificar e potencializar os benefícios e serviços assistenciais. Os projetos se caracterizam como investimentos econômico-sociais nos grupos que estão em situação de pobreza e 22 www.servicosocialparaconcursos.net buscam a melhoria das condições de subsistência e também de vida. E finalmente, os benefícios, que podem ser de três tipos: benefícios de prestação continuada, benefícios eventuais e os benefícios de transferência de renda. O SUAS vai indicar a gestão compartilhada dos serviços, seu objetivo é transformar a política de Assistência Social em uma política federativa, havendo assim uma cooperação entre a União, Estados, Municípios e o Distrito Federal utilizando para isso instrumentos como convênios, consórcios, comissões de pactuação, dentre outros. Deve-se levar em consideração a subsidiariedade que pressupõe que as instâncias federativas mais amplas não devem realizar aquilo que pode ser feito pelas instâncias locais, ou seja, o Estado não precisa realizar o que os Municípios têm a capacidade de fazer e assim por diante. Além disso, o SUAS possui quatro tipos de gestão, a Estadual, Municipal, Distrito Federal e da União. Os níveis de gestão são caracterizados de três maneiras no caso dos Municípios: gestão inicial, básica e plena. ➪ .Gestão Inicial: Os municípios não estão habilitados a receber gestão básica ou plena e recebem recursos financeiros da União por intermédio do Fundo Nacional de Assistência Social. ➪..Gestão Básica: O município assume a gestão da proteção social básica, tendo como responsabilidade a organização da mesma prevenindo assim as situações de risco e vulnerabilidade social. ➪ Gestão Plena: O município tem a gestão total das ações de assistência social, sejam elas financiadas pelo Fundo Nacional de Assistência, ou as que são provenientes de isenção de tributos. Nessa gestão assume-se a responsabilidade de organizar a proteção social básica e especial no município. A gestão Estadual vai assumir a gestão da Assistência Social em seu âmbito de competência tendo como responsabilidade: ➪ Coordenar, monitorar e organizar o Sistema Estadual de Assistência Social; ➪ Prestar apoio aos municípios na implantação dos sistemas municipais de assistência social; ➪ Coordenar o processo de revisão do BPC no âmbito estadual; ➪ Prestar apoio técnico aos municípios na implementação do CRAS, entre outros. Já a gestão da União terá como alguma de suas responsabilidades coordenar a formulação da PNAS/2004 e do SUAS através da observação das propostas das Conferências Nacionais e as deliberações do Conselho Nacional de Assistência Social, deve definir as condições e o modo como aos direitos relativos a Assistência Social. E para realizar a gestão em todas essas áreas são utilizados instrumentos caracterizados como ferramentas de planejamento técnico e financeiro do SUAS e da PNAS/2004 nas três esferas do governo. São eles: ➪ Plano de Assistência Social; ➪ Orçamento; ➪ Monitoramento; 23 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ Avaliação; ➪ Gestão de Informação e; ➪ Relatório Anual de gestão. ✎ O Plano de Assistência Social é um instrumento de planejamento estratégico que vai organizar e nortear a PNAS/2004 na perspectiva do SUAS. Quando finalizado é submetido a provação no CNAS. ✎ O financiamento da Assistência Social é feito por meio do Orçamento Plurianual e anual que irão expressar a projeção das receitas e autorizar os limites de gastos nos projetos e outras atividades propostas. ✎ A gestão da informação vai ter como objetivo produzir condições para operações de gestão, monitoramento e avaliação do SUAS, esse sistema de informação é conhecido como REDE-SUAS. ✎ Relatório anual de gestão é utilizado para avaliar os resultados trazidos no Plano de Assistência Social, o relatório vai sintetizar e divulgar os resultados obtidos. (NOB/SUAS, 2005) O Financiamento do Sistema Único de Assistência Social vai apontar para: ➪ Descentralização político-administrativa: respeitando a autonomia dos entes federativos, mas mantendo o princípio de cooperação (cofinanciamento). ➪ Os Fundos de Assistência Social: os repasses só podem ocorrer via Fundo (Fundo a Fundo). ➪ O SUAS como referência: sistema descentralizado, participativo (controle social), territorializados e a família como foco de ação da Política de Assistência Social. ➪ Condições gerais para transferência dos recursos federais: ▪ Níveis de gestão; ▪ Comprovação de execução orçamentária; ▪ Acompanhamento e controle da gestão dos recursos através do Relatório Anual de Gestão; ▪ Manutenção do Cadastro Único atualizado e realimentado; ▪ Repasse dos recursos do Fundo Nacional de Assistência Social para os serviços, programas, projetos e benefícios, identificados entre os níveis de proteção básica e especial. ➪ Mecanismos de transferência: ▪ Repasse de recursos fundo a fundo, de forma sistemática e automática. ▪ Nova sistemática de convênios, com aplicativos informatizados para cofinanciamento de projetos eventuais. ➪ Critérios de partilha, como proteção social básica e especial,e de transferência. ➪ O cofinanciamento entre municípios, estados e União, respeitando-se os princípios de subsidiariedade e cooperação e a diversidade existente entre municípios (pequeno, médio e grande porte), metrópoles, estados e União (DAHMER PEREIRA, 2005, p. 14 - 15). O SUAS apesar de muito importante para a Assistência Social no país ainda tem grandes desafios para sua materialização e efetividade, diante da conjuntura em que vivemos muita das propostas trazidas por ele encontram grandes dificuldades em serem implementadas. 24 www.servicosocialparaconcursos.net Para finalizar este módulo reiteramos que a Política Nacional de Assistência Social e o SUAS trouxeram grandes avanços para a área da assistência social em nosso país como foi possível observar ao longo deste texto, mas ao analisá-los foi possível perceber que existem algumas contradições ao longo de suas propostas. Um dos pontos observados é que se acredita que através da prestação de serviços no campo da assistência social e da promoção da equidade haverá uma redução das desigualdades sociais, o que é um engano, pois a assistência social não é capaz de reduzi-las sendo isso uma tarefa da política econômica. Somente com a melhoria das condições financeiras da população através de uma distribuição de renda mais justa, com melhores salários, e com a igualdade entre as classes é que as desigualdades sociais começarão a se dissipar. A centralidade na família é um avanço da Política de Assistência Social, pois ela permite uma intervenção articulada e fortalece os vínculos familiares, mas ao focalizar na família acaba-se deixando de lado a concepção de classe, perde-se a noção de totalidade, de contradição, que é essencial para a condução da política, e reforça-se a responsabilidade da família no sentido da proteção. A articulação da assistência social com as demais políticas públicas é outro assunto abordado na PNAS. A intersetorialidade é fundamental, mas só será eficaz se todas as políticas setoriais tiverem a atenção devida. Mas não é o que se tem observado, as políticas públicas de forma geral estão bastante fragilizadas, a falta de recursos e o descaso do poder público são grandes, a saúde, a educação, a assistência social, a habitação e a previdência social estão cada vez mais precarizadas, o que dificulta a resolutividade e a articulação desses segmentos na realização de ações conjuntas. É um grande desafio - para a Política de Assistência Social junto com as demais políticas setoriais - a construção de uma rede eficiente, que garanta serviços de qualidade para a população, desenvolvendo respostas qualificadas frente às expressões da questão social. O agravamento da questão social trazida com o capitalismo e ampliada através do processo de reestruturação produtiva assumiu diferentes contornos na atualidade, havendo o acirramento das desigualdades sociais, o aumento da violência, desemprego e pauperização. O acesso às políticas públicas é cada vez mais seletivo e excludente, as ações realizadas através das políticas setoriais ainda não estão sendo suficientes para dar conta das demandas encontradas. O Estado tem cada vez mais se eximido de suas responsabilidades transferindo-as para o terceiro setor e para a população. Ao contrário do que é trazido na PNAS, cada vez mais são criadas instituições, ONGs, que realizam projetos e oferecem serviços para atender as demandas da população que o Estado não é capaz de suprir. A divisão do sistema de proteção social em básico e especial é uma forma encontrada para a organização do trabalho e garantir que mais cidadãos tenham acesso aos serviços, mas por outro lado colabora também para compartimentalização das demandas e sua fragmentação envolvendo mais uma vez o caráter de classe das mesmas. Os serviços, programas e projetos de acolhimento e socialização das famílias propostos até então são necessários, mas ainda insuficientes, é preciso criar novos projetos como uma das estratégias para que mais cidadãos tenham suas demandas atendidas. Enfim, ainda está longe para que os pressupostos trazidos com a PNAS e com o SUAS sejam realmente eficazes e consigam trazer mudanças significativas para a população a que se destinam, é preciso muito empenho, financiamento e responsabilidade por parte dos governantes para que as propostas feitas sejam realmente cumpridas e realizadas. 25 www.servicosocialparaconcursos.net O SUAS é uma política contraditória, pois ao mesmo tempo em que prega a emancipação dos sujeitos, o fim das desigualdades sociais, cria propostas que amenizam, mas não conseguem dar fim as mesmas e nem emancipam seus usuários. Tanto a PNAS quanto o SUAS são muito importantes e trazem propostas interessantes, mas é preciso ir além, é necessário ir ao foco do problema para que assim os problemas sociais, as desigualdades sejam dissipadas. Políticas como essas que buscam alcançar esses objetivos devem criar propostas e ações que visem o fim do capitalismo, causador de todos esses problemas, pois só com o fim da ordem vigente é que o fim das desigualdades sociais e a emancipação dos sujeitos serão possíveis. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 26 www.servicosocialparaconcursos.net A Constituição Brasileira de 1988 instituiu no Brasil um relevante marco no processo histórico de construção de um sistema de proteção social, afiançando (assegurando) direitos humanos e sociais como responsabilidade pública e estatal. Dessa forma, o conjunto das necessidades dos cidadãos brasileiros de âmbito pessoal e individual inscreveu-se (registrou-se) definitivamente nos compromissos e responsabilidades dos entes públicos1, inaugurando no país um novo paradigma (modelo). (SPOSATI, 2009). A Assistência Social foi definida pela Constituição Federal de 1988 como política pública de direitos e não-contributiva, passando a compor o Sistema de Seguridade Social ao lado das políticas da Saúde e da Previdência Social, constituindo-se em “Política de Proteção Social” articulada a outras políticas sociais destinadas à promoção e garantia da cidadania, configurando assim, um sistema de proteção social ”por meio do qual a sociedade proporcionaria a seus membros uma série de medidas públicas contra as privações econômicas e sociais. Sejam decorrentes de riscos sociais – enfermidade, maternidade, acidente de trabalho, invalidez, velhice morte –, sejam decorrentes das situações socioeconômicas como desemprego, pobreza ou vulnerabilidade, as privações econômicas e sociais devem ser enfrentadas, pela via da política da seguridade social, pela oferta pública de serviços e benefícios que permitam em um conjunto de circunstâncias a manutenção de renda, assim como o acesso universal à atenção médica e socioassistencial. (JACCOUD, 2009: 62) O reconhecimento da Assistência Social como política pública, dever do Estado e direito do cidadão que dela necessitar, rompeu, portanto, com paradigmas e concepções conservadoras de caráter benevolente e assistencialista. A Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS (Lei nº 8.742/1993) ratificou e regulamentou os artigos 203 e 204 da Constituição Federal, assegurando a primazia da responsabilidade do Estado na gestão, financiamento e execução da política de Assistência Social. Sua organização, em todo país, tem respaldo legal na diretriz da descentralização político- administrativa, coroando, portanto, o pacto federativo ao estabelecer responsabilidades e atribuições entre os três entes federados e considerar o comando único das ações em cada esfera de governo. No âmbito do financiamento, a LOAS previu sua estruturação tendo por base os fundos de assistência social nacional, dos Estados, DF e municípios – com gestão atribuída aos órgãos responsáveis pela política de assistência social na respectiva esfera federativa. Assegurou, ainda, o direito da participação direta e/ou representativa da população na elaboração, controle e avaliação das ações daassistência social, por meio dos Conselhos de Assistência Social – Nacional, do DF, Estaduais e dos municípios – e das respectivas Conferências, espaços democráticos e deliberativos. O artigo 3º da LOAS considera entidades e organizações de assistência social aquelas que prestam, sem fins lucrativos, atendimento e assessoramento aos beneficiários, bem como as que atuam na defesa e garantia de seus direitos2. 1 Entes Públicos são os órgãos do governo da administração pública. Engloba os entes políticos (entes federados: União, Estados, Distrito Federal e Municípios) mais as autarquias e fundações públicas de dir. público. Resumindo, são pessoas jurídicas de direito público. 2 Para maiores informações acessar a Resolução nº 191, de 10 de novembro de 2005, do Conselho Nacional de Assistência Social CNAS e o Decreto nº 6.308 de 14 de dezembro de 2007, que discorrem sobre a característica e conceito de entidades e organizações de assistência social. RECONHECIMENTO DA ASSISTÊNCIA COMO POLÍTICA PÚBLICA MÓDULO IVCURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 27 www.servicosocialparaconcursos.net A PNAS/20043 reorganiza projetos, programas, serviços e benefícios de assistência social, consolidando no país, o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, com estrutura descentralizada, participativa e articulada com as políticas públicas setoriais. Nesse sentido, demarca as particularidades e especificidades, campo de ação, objetivos, usuários e formas de operacionalização da Assistência Social, como política pública de proteção social. Com base na PNAS, foi aprovada, em 2005, a Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social (NOB/SUAS), que regulou a organização em âmbito nacional do Sistema Único de Assistência Social, sistema descentralizado e participativo, que regula e organiza a oferta de programas, projetos, serviços e benefícios socioassistenciais em todo o território nacional, respeitando as particularidades e diversidades das regiões, bem como a realidade das cidades e do meio rural. Em 2011, a Lei nº 12.435, de 6 de julho de 2011 (Lei do SUAS), assegurou-se definitivamente, no país, a institucionalidade do SUAS, garantindo avanços significativos, dentre os quais pode-se destacar o cofinanciamento federal operacionalizado por meio de transferência automática e o aprimoramento da gestão, serviços, programas e projetos de assistência social. A Lei do SUAS autoriza, ainda, que os recursos do cofinanciamento federal destinados à execução das ações continuadas de assistência social podem ser aplicados no pagamento dos profissionais que integrarem as equipes de referência, responsáveis pela organização e oferta dos serviços socioassistenciais. As categorias território, vulnerabilidade social e risco social são fundamentais para compreender os elementos diretamente relacionados às competências da assistência social e a organização do SUAS. Tais categorias devem ser compreendidas a partir de uma abordagem multidimensional que propicia a análise das relações entre as necessidades e demandas de proteção social em um determinado território e as possibilidades de respostas da política de assistência social, em termos de oferta de serviços, programas e benefícios à população. ✎ Vulnerabilidade Social: Materializa-se nas situações que desencadeiam ou podem desencadear processos de exclusão social de famílias e indivíduos que vivenciem contexto de pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso a serviços públicos) e/ ou fragilização de vínculos afetivos, relacionais e de pertencimento social, discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiência, dentre outras. (PNAS/2004) ✎ Risco Social: Relaciona-se com a probabilidade de um evento acontecer no percurso de vida de um indivíduo e/ou grupo, podendo, portanto atingir qualquer cidadão. Contudo, as situações de vulnerabilidade social podem culminar em riscos pessoais e sociais, devido às dificuldades de reunir condições para preveni-los ou enfrentá-los, assim, “as sequelas podem ser mais ampliadas para uns do que para outros.” (SPOSATI, 2001) 3 A primeira versão da PNAS foi aprovada pelo Conselho Nacional de Assistência Social no ano de 1998 e a última em 2004. TERRITÓRIO - VULNERABILIDADE - RISCO 28 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Território: A compreensão dos territórios onde vivem e convivem as famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade, risco pessoal e social, por violação de direitos, é fundamental, portanto, para o planejamento e a organização das ações do SUAS. Considerá-los e compreendê-los é trilhar um caminho para construir uma efetiva política garantidora de direitos. Para a compreensão do conceito de território, considera-se, ainda, o exposto por Milton Santos que afirma: Uma política efetivamente redistributiva, visando a que as pessoas não sejam discriminadas em função do lugar onde vivem, não pode, pois, prescindir do componente territorial. É a partir dessa constatação que se deveria estabelecer como dever legal – e mesmo constitucional – uma autêntica instrumentação do território que a todos atribua, como direito indiscutível, todas aquelas prestações sociais indispensáveis a uma vida decente [...] constituem um dever impostergável da sociedade como um todo e, neste caso, do Estado. (2007: 141). ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ Com base na PNAS (2004), pode-se ressaltar que, no âmbito de atuação da Assistência Social, as situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, se expressam na iminência ou ocor- rência de eventos como: violência intrafamiliar física e psicológica, abandono, negligência, abuso e exploração sexual, situação de rua, ato infracional, trabalho infantil, afastamento do convívio familiar e comunitário, idosos em situação de dependência e pessoas com deficiência com agravos decorrente de isolamento social, dentre outros. É importante ressaltar que o enfrentamento das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, não compete unicamente à política de assistência social, pelo contrário, sua com- plexidade exige a articulação e o desenvolvimento de ações complementares com outras políticas sociais e órgãos de defesa de direitos, para proporcionar proteção integral às famílias e aos indivíduos. Tanto o conceito de vulnerabilidade social quanto o de risco pessoal e social, por violação de direitos, devem ser compreendidos em um contexto sócio-histórico, econômico, político e cultu- ral, composto por diversidades e desigualdades que têm marcado a sociedade brasileira. É nesse contexto multidimensional que diversos fatores interagem, provocando situações de risco pessoal e social, por violações de direitos, que incidem sobre a vida de indivíduos, famílias e comunidades. Assim, as vulnerabilidades sociais e riscos sociais e pessoais, por violação de direitos se expressam e têm significados variados, de acordo com as características de cada território. Estes conceitos – território, vulnerabilidades sociais, riscos sociais e pessoais, violação de direitos – são fundamentais na definição dos usuários, das competências e ações no âmbito da prevenção e da atenção especializada no SUAS. 29 www.servicosocialparaconcursos.net ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ A proteção social, conforme destaca Sposati (2004), “se fundamenta na expansão de um padrão societário de civilidade que afiança um padrão básico de vida e respostas dignas a determinadas necessidades sociais” (p.43). Nessa direção, destaca-se que as ações de proteção social no âmbito da política de Assistência Social, dentre outros aspectos, visam a: Aquisições materiais, socioeducativas ao cidadão e cidadã e suas famílias para suprir suas necessidades de reprodução social e individual e familiar; desenvolver capacidades e talentos para a convivência social, protagonismo e autonomia. (NOB/SUAS 2005: 89) Assim, as ações desenvolvidas no âmbito da assistência social, visando à garantia dos direitos e ao desenvolvimento humano, devem afiançar seguranças socioassistenciais aos usuários expressas nas: ❶ Segurança de sobrevivência ou de rendimento e autonomia, segurança de convívio ou vivência familiar; ❷ Segurança de acolhida. Tais seguranças visam, principalmente, ao fortalecimento de vínculos, à autoestima, à autonomia, ao protagonismo, à participação e à capacidade de proteção das famílias, indivíduos e comunidades. É importante ressaltar que sua efetivação está associada a outras ações, pertinentes às demais políticas públicas que, de forma articulada e indissociável, visam garantir direitos aos cidadãos. PROTEÇÕES AFIANÇADAS PELA ASSISTÊNCIA 30 www.servicosocialparaconcursos.net Nessa direção, o SUAS organiza-se considerando dois níveis de proteção, quais sejam: Proteção Social Básica e Proteção Social Especial. A Proteção Social Básica (PSB) oferta um conjunto de serviços, programas e projetos e benefícios da Assistência Social que visa prevenir situações de vulnerabilidades e riscos pessoais e sociais, por violação de direitos, por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. O Centro de Referência da Assistência Social - CRAS é a unidade pública estatal, descentralizada, responsável pela organização e oferta de serviços de Proteção Social Básica. É a referência, no seu território de abrangência, da oferta da atenção às famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade social no âmbito do SUAS. Deve estar localizado nos municípios e no Distrito Federal em áreas de fácil acesso a estas famílias e indivíduos. Todo CRAS, obrigatoriamente, desenvolve “a gestão da rede socioassistencial de proteção social básica do seu território” (MDS, 2009, p.11) e oferta o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família PAIF. Em conformidade com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, além do PAIF, outros serviços podem ser ofertados ou referenciados ao CRAS. Proteção Social Especial A Proteção Social Especial (PSE) organiza a oferta de serviços, programas e projetos de caráter especializado, que tem por objetivo contribuir para a reconstrução de vínculos familiares e comunitários, o fortalecimento de potencialidades e aquisições e a proteção de famílias e indivíduos para o enfrentamento das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos. Na organização das ações de PSE é preciso entender que o contexto socioeconômico, político, histórico e cultural pode incidir sobre as relações familiares, comunitárias e sociais, gerando conflitos, tensões e rupturas, demandando, assim, trabalho social especializado. A PSE, por meio de programas, projetos e serviços especializados de caráter continuado, promove a potencialização de recursospara a superação e prevenção do agravamento de situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, tais como: ➪ violência física e psicológica; ➪ negligência; ➪ abandono; ➪ violência sexual (abuso e exploração); ➪ situação de rua; ➪ trabalho infantil; ➪ práticas de ato infracional; ➪ fragilização ou rompimento de vínculos; ➪ afastamento do convívio familiar, dentre outras. Alguns grupos são particularmente vulneráveis à vivência destas situações, tais como: ➪ crianças; ➪ adolescentes; ➪ idosos; 31 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ pessoas com deficiência; ➪ populações LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais); ➪ mulheres e suas famílias. As ações desenvolvidas na PSE devem ter centralidade na família e como pressuposto o fortalecimento e o resgate de vínculos familiares e comunitários, ou a construção de novas referências, quando for o caso. A centralidade na família pauta-se no seu reconhecimento como um “locus” privilegiado de atenção, cuidado e solidariedade, nos quais seus integrantes encontram apoio contra as vicissitudes e inseguranças da existência (PEREIRA-PEREIRA, 2006). Para tanto, a heterogeneidade da família deve ser compreendida a partir da variedade de formas e arranjos observados na realidade da sociedade contemporânea, bem como do contexto socioeconômico e cultural que imprime tensões variadas nas dinâmicas das relações entre seus membros e entre estes e o contexto social, seja no campo objetivo e/ou subjetivo. É importante destacar, todavia, que a família não é um bloco monolítico e também apresenta fragilidades por não estar livre de despotismos, violências, confinamentos, desencontros e rupturas (PEREIRA-PEREIRA, 2006), que podem gerar inseguranças e violações de direito entre seus membros. O olhar complexo às famílias permite compreender a gênese e os impactos das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, e as dificuldades de exercício das funções de proteção, cuidado, socialização, protagonismo e participação. Sob essas concepções, a Política de Assistência Social procura romper com as visões e práticas que, historicamente, responsabilizaram unicamente às famílias, e que tomaram a pobreza como justificativa para a organização de ações e serviços de caráter repressor e tutelador que, por vezes, se refletia na institucionalização de seus membros. Nessa direção, o objetivo da proteção social no âmbito da assistência social, a todos que dela necessitarem. “... não deve ser de pressionar as pessoas para que assumam responsabilidades além de suas forças e de sua alçada, mas oferecer-lhe alternativas realistas [...] o Estado tem que se tornar partícipe, notadamente naquilo que só ele tem como prerrogativa, ou monopólio – a garantia de direitos. (PEREIRA-PEREIRA, 2006, p.40). Ao localizar a família em seu contexto social, a PNAS reconhece o papel do Estado em propiciar- lhe apoio para o exercício do papel de cuidado e proteção, incluindo, além disso, seu acesso a direito e às diversas políticas públicas. A ação do Estado, nesse sentido, seria oferecer políticas e garantia de sustentabilidade às famílias, com o objetivo de fortalecê-las em suas funções de proteção e inclusão de seus membros, a partir da observação de suas necessidades e de todo o contexto em que vivem e se relacionam. Frente a isso, para a PSE, a definição e a organização dos serviços, programas e projetos devem considerar a incidência dos riscos pessoais e sociais, por violação de direitos em cada território e suas complexidades, assim como as especificidades do público atingido como, por exemplo, os ciclos de vida das famílias e indivíduos que necessitem de sua atenção. Estes serviços, programas e projetos requerem, portanto, organização técnica e operacional específica, por atenderem situações heterogêneas e complexas que demandam atendimentos e acompanhamentos personalizados. 32 www.servicosocialparaconcursos.net Considerando os níveis de agravamento, a natureza e a especificidade do trabalho social ofertado, a atenção na PSE organiza-se sob dois níveis de complexidade: Proteção Social Especial de Média Complexidade (PSE/MC) e Proteção Social Especial de Alta Complexidade.4 ❶ Proteção Social Especial de Média Complexidade Organiza a oferta de serviços, programas e projetos de caráter especializado que requerem maior estruturação técnica e operativa, com competências e atribuições definidas, destinados ao atendimento a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. Devido à natureza e ao agravamento destas situações, implica acompanhamento especializado, individualizado, continuado e articulado com a rede. No âmbito de atuação da PSE de Média Complexidade, constituem unidades de referência para a oferta de serviços: ➪ Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS): Unidade pública e estatal de abrangência municipal ou regional. Oferta, obrigatoriamente, o Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI). ➪ Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP): Unidade pública e estatal de abrangência municipal. Oferta, obrigatoriamente, o Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua. De acordo com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, a PSE de Média Complexidade inclui os seguintes serviços, nominados a seguir: ➪ Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI); ➪ Serviço Especializado em Abordagem Social; ➪ Serviço de Proteção Social a Adolescentes em Cumprimento de Medida Socioeducativa de Liberdade Assistida (LA), e de Prestação de Serviços à Comunidade (PSC); ➪ Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência, Idosas e suas Famílias; ➪ Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua. ❷ Proteção Social Especial de Alta Complexidade Tem como o objetivo ofertar serviços especializados, em diferentes modalidades e equipamentos, com vistas a afiançar segurança de acolhida a indivíduos e/ou famílias afastados temporariamente do núcleo familiar e/ou comunitários de origem. Para a sua oferta, deve-se assegurar proteção integral aos sujeitos atendidos, garantindo atendimento personalizado e em pequenos grupos, com respeito às diversidades (ciclos de vida, arranjos familiares, raça/ etnia, religião, gênero e orientação sexual). Tais serviços devem primar pela preservação, fortalecimento ou resgate da convivência familiar e 4 Muito embora conservem algumas especificidades nos dois níveis de complexidade, a oferta dos serviços especializados na PSE tem caráter continuado, devendo ser organizada em consonância com a realidade dos territórios, por meio de um desenho homogêneo que assegure uma padronização nacional no âmbito do SUAS, com flexibilidade para as necessárias adaptações locais, tendo em vista maior qualificação em sua oferta. 33 www.servicosocialparaconcursos.net comunitária ou construção de novas referências, quando for o caso adotando, para tanto, metodologias de atendimento e acompanhamento condizente com esta finalidade.5 De acordo com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais a PSE de Alta Complexidade inclui os seguintes serviços: ➪ Serviço de Acolhimento Institucional, nas seguintes modalidades: ▪ Abrigo institucional; ▪ Casa-Lar; ▪ Casa de Passagem; ▪ Residência Inclusiva. ➪ Serviço de Acolhimento em República; ➪ Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora; ➪ Serviço de Proteção em Situações de Calamidades Públicas e de Emergências. Assim como os serviços de PSE de Média Complexidade, a oferta dos serviços de acolhimento deve seguir os padrões técnicos estabelecidos em normativas do SUAS e observar dispositivos das legislações relacionadas. ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 35 www.servicosocialparaconcursos.net Considerando a definição expressa na Lei nº 12.435/2011, o CREAS é a unidade pública estatal de abrangência municipal ou regional que tem como papel constituir-se em lócus de referência, nos ter- ritórios, da oferta de trabalho social especializadono SUAS a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal ou social, por violação de direitos. Seu papel no SUAS define, igualmente, seu papel na rede de atendimento. O papel do CREAS no SUAS define suas competências que, de modo geral, compreendem: ➪ Ofertar e referenciar serviços especializados de caráter continuado para famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos, conforme dispõe a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais; ➪ Gestão dos processos de trabalho na Unidade, incluindo a coordenação técnica e administrativa da equipe, o planejamento, monitoramento e avaliação das ações, a organização e execução direta do trabalho social no âmbito dos serviços ofertados, o relacionamento cotidiano com a rede e o registro de informações, sem prejuízo das competências do órgão gestor de assistência social em relação à Unidade. O papel do CREAS e as competências decorrentes estão consubstanciados em um conjunto de leis e normativas que fundamentam e definem a política de assistência social e regulam o SUAS. De- vem, portanto, ser compreendidos a partir da definição do escopo desta política do SUAS, qual seja, afiançar seguranças socioassistenciais, na perspectiva da proteção social. ▪ Constituição Federal ▪ Lei nº 8.742/1993 ▪ Lei nº 12.435/2011 ▪ PNAS, NOB/SUAS ▪Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais ▪ Outras legislações e normativas, como ECA, Estatuto do Idoso, Planos Nacionais etc. Nessa direção, a oferta de serviços especializados pelo CREAS deve orientar-se pela garantia das se- guranças socioassistenciais, conforme previsto na PNAS e na Tipificação Nacional de Serviços Socioas- sistenciais: ✎ Segurança de Acolhida: Para sua garantia, o CREAS deve dispor de infraestrutura física adequada e equipe com capacidade técnica para a recepção e escuta profissional qualificada, orientada pela ética e sigilo e pela postura de respeito à dignidade, diversidade e não discriminação. A acolhida pressupõe conhecer cada família e indivíduo em sua singularidade, demandas e potencialidades e proporcionar informações relativas ao trabalho social e a direitos que possam acessar, assegu- rando-lhes ambiência favorecedora da expressão e do diálogo. Finalmente, a oferta de serviços CREAS: PAPEL NO SUAS E COMPETÊNCIAS MÓDULO VCURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 36 www.servicosocialparaconcursos.net pelo CREAS deve ter consonância com as situações identificadas no território, para que as famílias e indivíduos possam encontrar a acolhida necessária a suas demandas. ✎ Segurança de Convívio ou Vivência Familiar: Sua materialização, no CREAS, requer a oferta de serviços de forma continuada, direcionados ao fortalecimento, resgate ou construção de vínculos familiares, comunitários e sociais. Deve, ainda, contribuir para a prospecção dos sujeitos na elabo- ração de projetos individuais e coletivos de vida, com a perspectiva de possibilitar a vivência de novas possibilidades de interação familiares e comunitárias, bem como a participação social, o que implica, necessariamente, em propiciar acesso à rede. ✎ Segurança de Sobrevivência ou de Rendimento e de Autonomia: A atenção ofertada no CREAS deve nortear-se pelo respeito à autonomia das famílias e indivíduos, tendo em vista o empodera- mento e o desenvolvimento de capacidades e potencialidades para o enfrentamento e superação de condições adversas oriundas das situações vivenciadas. Nessa direção, o acompanhamento es- pecializado ofertado no CREAS deve contribuir para o alcance de maior grau de independência fa- miliar e pessoal e qualidade nos laços sociais, devendo, para tanto, primar pela integração entre o acesso a serviços, benefícios e programas de transferência de renda. A compreensão e a delimitação das competências do CREAS são determinantes para o desempenho efetivo de seu papel no SUAS, representando elemento fundamental, ainda para: ▪ Clarificar o papel do CREAS e fortalecer sua identidade na rede; ▪ Evitar sobreposição de ações entre serviços de naturezas e até mesmo áreas distintas da rede que, evidentemente, devem se complementar no intuito de proporcionar atenção integral às famí- lias e aos indivíduos; ▪ Evitar a incorporação de demandas que competem a outros serviços ou unidades da rede socio- assistencial, de outras políticas ou até mesmo de órgãos de defesa de direito; ▪ Qualificar o trabalho social desenvolvido. Frente ao exposto, e considerando o papel do CREAS e competências decorrentes, destaca-se que a este não cabe: ▪ Ocupar lacunas provenientes da ausência de atendimentos que devem ser ofertados na rede pe- las outras políticas públicas e/ou órgãos de defesa de direito; ▪ Ter seu papel institucional confundido com o de outras políticas ou órgãos, e por conseguinte, as funções de sua equipe com as de equipes interprofissionais de outros atores da rede, como, por exemplo, da segurança pública (Delegacias Especializadas, unidades do sistema prisional, etc.), ór- gãos de defesa e responsabilização (Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e Con- selho Tutelar) ou de outras políticas (saúde mental, etc.); ▪ Assumir a atribuição de investigação para a responsabilização dos autores de violência, tendo em vista que seu papel institucional é definido pelo papel e escopo de competências do SUAS. 37 www.servicosocialparaconcursos.net O reconhecimento do papel e a delimitação das competências do CREAS podem ser fortalecidos com o mapeamento da rede e construção de fluxos e protocolos intersetoriais de atendimento, com defi- nição de papéis e responsabilidades. Esta construção pode, inclusive, contribuir para identificar lacu- nas e, até mesmo, conflitos de papéis e competências na rede. De modo a evitar conflitos de papéis e de competências na rede, é importante, ainda, que o CREAS não seja instalado em imóveis compartilhados com órgãos de defesa de direitos e de responsabiliza- ção. Nessa direção, recomenda-se que serviços de “Disques” para denúncia de situações de violência e violação de direitos não compartilhem espaço físico com as Unidades CREAS. Devido à sua natureza pública, e de responsabilidade estatal, o CREAS não pode ser administrado por entidades e organizações privadas de assistência social. Dada à especificidade das situações atendidas, os serviços ofertados pelo CREAS não podem sofrer interrupções, seja por questões relativas à alternância de gestão ou qualquer outro motivo. Considerando os princípios e as diretrizes da PNAS e conceitos e parâmetros do SUAS, alguns eixos devem nortear a organização e o desenvolvimento do trabalho social nos serviços do CREAS. Além do desenvolvimento das atividades no âmbito dos Serviços ofertados, tais eixos devem consubs- tanciar, ainda, o processo de implantação, organização e funcionamento da Unidade. Estes eixos devem nortear, ainda, a concepção compartilhada pela equipe na atuação profissional para o desenvolvimento do trabalho social. São eles: 1. Atenção especializada e qualificação do atendimento; 2. Território e localização; 3. Acesso a direitos socioassistenciais; 4. Centralidade na família; 5. Mobilização e participação social; 6. Trabalho em rede. 1. Atenção especializada e qualificação do atendimento As situações acompanhadas pelo CREAS são complexas, envolvem violações de direitos, e são permeadas por tensões familiares e comunitárias, podendo acarretar fragilização ou até mesmo rup- turas de vinculações. O desempenho do papel do CREAS exige, portanto, o desenvolvimento de inter- venções mais complexas, as quais demandam conhecimentos e habilidades técnicas mais específicas por parte da equipe, além de ações integradas com a rede. As situações vivenciadas pelas famílias e indivíduos atendidos no CREAS podem ter repercussões dife- renciadas, que podem ser agravadas ou não em função de diversos aspectos (contexto de vida, acesso EIXOS NORTEADORES DO TRABALHO NO CREAS 38 www.servicosocialparaconcursos.net à redee direitos, ciclo de vida, deficiência, rede social de apoio, gênero, orientação sexual, deficiência, uso, abuso ou dependência de álcool ou outras drogas, condições materiais, etc.). Isso implica reco- nhecer que, diante das situações vivenciadas, cada família/indivíduo atendido no CREAS demandará um conjunto de atenções específicas, de acordo com suas singularidades, o que deverá orientar a construção do Plano de Acompanhamento Individual e/ou Familiar. As singularidades de cada situação deverão, inclusive, orientar a decisão conjunta, com cada família/indivíduo, das metodologias a serem utilizadas no trabalho social especializado, para a adoção das estratégias mais adequadas em cada caso, tendo em vista a construção de novas possibilidades de interação, projetos de vida e superação das situações vivenciadas. Nessa direção, algumas situa- ções poderão requerer atendimentos mais individualizados, enquanto outras demandarão interven- ções mais coletivas, com a participação de todos os familiares implicados na situação ou até mesmo a inclusão em atendimentos em grupo. O trabalho social especializado ofertado pelo CREAS exige que a equipe profissional seja interdiscipli- nar, contando com profissionais de nível superior e médio, habilitados e com capacidade técnica para o desenvolvimento de suas funções. Implica, ainda, em maior domínio teórico-metodológico por parte da equipe, intencionalidade e sistematicidade no acompanhamento a famílias/indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. Nesse sentido, numa perspectiva dialética, deve agregar instrumentos técnicos e operativos, bases teórico-metodológicas e ético-políticas, que pos- sam proporcionar uma aproximação sucessiva e crítica à realidade social, donde emergem as situações atendidas. É importante mencionar que a atenção especializada e a qualificação do atendimento ofertado no CREAS se expressam também por meio da prevenção do agravamento das situações atendidas. A esta prevenção concerne o conjunto de ações desenvolvidas na perspectiva da redução dos efeitos e consequências das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, vivenciadas pelos indi- víduos e famílias atendidos. Nessa direção, podem ser prevenidos, por exemplo, a perpetuação de ciclos intergeracionais de violência intrafamiliar ou até mesmo o agravamento da violência, a tal ponto que rupturas ou afastamento do convívio se mostrem as estratégias mais adequadas para assegu- rar proteção. Por fim, vale destacar que ações de capacitação e educação permanente, momentos de integração em equipe, trocas de experiência, estudos de caso e assessoria de profissional externo, dentre outras estratégias, são fundamentais para a qualificação crescente da atenção especializada e dos atendi- mentos ofertados nos CREAS. 2. Território e Localização do CREAS O território é um espaço contraditório, pois ao mesmo tempo é o lugar onde se produz e re- produz exclusão e violência e também onde se viabilizam oportunidades, onde as famílias e comuni- dade aglutinam forças e sinergia para o exercício da cidadania, na busca da efetivação dos seus direitos políticos e sociais. Esta visão plural de território permite compreendê-lo como espaço que conjuga vulnerabilidades e riscos aos quais a comunidade está exposta e potencialidades, cultura, história e valores; onde se configuram, por um lado, exclusão, perdas e isolamentos e, por outro, oportunidades, 39 www.servicosocialparaconcursos.net redes de solidariedade, movimentos sociais e organizações de defesa da cidadania oriundas das inici- ativas populares. É também nos territórios que se aportam serviços públicos de atenção que operam na proteção social e na garantia de direitos dos cidadãos(ãs). Nesse sentido, o território permite compreender a forma como as relações sociais se materializam num determinado espaço, as oportunidades e a exposição a riscos, que conformam potencialidades e vulnerabilidades próprias da dimensão territorial. Assim, as situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, que incidem nas famílias e indivíduos sofrem influência e se expressam diferen- temente nos territórios, de acordo com as realidades sociais, econômicas, políticas e culturais de um determinado contexto. Essas realidades locais possuem uma relação dialética com as bases organizacionais, estruturais e cul- turais da própria sociedade brasileira. Nessa direção, os territórios são microssistemas que retratam, em variações e intensidades distintas, a realidade do contexto brasileiro, seja nos aspectos de violação e/ou de promoção dos direitos aos cidadãos. O conhecimento do território favorece a compreensão da incidência e das nuances significativas e distintas dos riscos e fatores que contribuem para a ocorrência de determinadas situações violadoras de direitos. Favorece, ainda, a compreensão das potencialidades do local e da comunidade. Nessa direção, o desenvolvimento de ações planejadas, complementares e articuladas entre as áreas de PSE e de vigilância socioassistencial é fundamental para o conhecimento do território e de suas especifici- dades (cultura, valores, aspectos geográficos, econômicos, densidade populacional, fronteiras, etc.). Conforme a Lei nº 12.435/2011 (Lei do SUAS), a vigilância socioassistencial visa analisar territorial- mente a capacidade protetiva das famílias e nela a ocorrência de vulnerabilidades, ameaças, vitimiza- ções e danos. O registro de informações pelo CREAS a exemplo do registro das informações sobre situações de risco social e pessoal, por violação de direitos, previstas na Resolução CIT nº 4, de 24 de maio de 2011 são fundamentais para conhecer o território e alimentar a área de vigilância socioassis- tencial. Nessa perspectiva, é fundamental que o órgão gestor de Assistência Social realize diagnóstico que permita conhecer as especificidades dos territórios, incluindo informações sobre a incidência e as características dos riscos pessoais e sociais, por violação de direitos. Este diagnóstico deverá subsidiar o planejamento, a localização e a implantação de cada CREAS necessário na localidade. O mapeamento da rede de articulação sua localização, características, potencialidades e inclusive lacunas é também imprescindível para a composição deste diagnóstico, que também contribui para se delinear fluxos de articulação e desenvolver ações sinérgicas e complementares em rede. O mapeamento da rede, para o conhecimento do território, deve, necessariamente, considerar os CRAS existentes na localidade, Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, onde houver, e demais serviços socioassistenciais, das outras políticas públicas e órgãos de defesa de direitos, incluindo tanto a rede de natureza público-estatal, quanto pública não estatal e sem fins lu- crativos. 3. Acesso a direitos socioassistenciais De acordo com a PNAS, a PSE deve ser organizada de forma a garantir aos seus usuários o acesso ao conhecimento dos direitos socioassistenciais. Dessa forma, são direitos socioassistenciais a serem as- segurados nos serviços ofertados no CREAS: ✎ Atendimento digno, atencioso e respeitoso, ausente de procedimentos vexatórios e coercitivos; 40 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Acesso à rede de serviços com reduzida espera e de acordo com a necessidade; ✎ Acesso à informação, enquanto direito primário do cidadão, sobretudo àqueles com vivência de barreiras culturais, de leitura e de limitações físicas; ✎ Ao protagonismo e à manifestação de seus interesses; ✎ A convivência familiar e comunitária; ✎ A oferta qualificada de serviços. Estes direitos socioassistenciais devem ser assegurados aos cidadãos e cidadãs, usuários da política de Assistência Social, no usufruto do direito inscrito no ordenamento jurídico brasileiro. Observados os direitos socioassistenciais, o trabalho social ofertado no CREAS pauta-se na ética e no respeito à dignidade e diversidade, sem discriminaçõesou restrições decorrentes de condições socio- econômicas, nível de instrução formal, crença ou religião, diversidade sexual, raça e/ou etnia, idade, gênero, deficiência ou dependência de cuidados, procedência do meio urbano ou rural, etc. Seu cará- ter especializado exige a condução por profissionais devidamente habilitados e capacitados, que par- tilhem desta concepção. O trabalho social no CREAS deve ser orientado, ainda, pelo reconhecimento do protagonismo e da autonomia do usuário nas decisões e respostas às situações que vivenciam. Nesse sentido, não podem ser considerados meros objetos de intervenção, mas sujeitos autônomos e protagonistas, com possi- bilidades de acessar um conjunto de serviços e órgãos de defesa de direitos. Sujeitos com direito à escuta e que devem participar ativamente da construção de projetos e decisões que possam repercu- tir sobre sua trajetória de vida individual e familiar. Para tanto, é fundamental propiciar espaços e oportunidades de escuta, reflexão e fortalecimento do protagonismo, bem como encaminhamentos para sua inclusão em uma rede de proteção social, de modo a contribuir para a superação da situação vivida, muitas vezes relacionada, dentre outros aspec- tos, à falta de acesso a serviços e direitos assegurados nas normativas vigentes. O CREAS deve garantir a todo usuário o direito de ser informado sobre as normas de funciona- mento da Unidade e procedimentos que possam ser adotados ao longo do acompanhamento. Consi- derando demandas identificadas e encaminhamentos pertinentes, devem ser fornecidas, ainda, as in- formações necessárias sobre benefícios, serviços, competências e atribuições de cada órgão da rede, bem como as formas de acesso aos mesmos. Faz-se necessário, igualmente, a disseminação de infor- mações sobre os direitos socioassistenciais e os órgãos de defesa aos quais possam recorrer nas situ- ações que se sentirem destituídos dos mesmos (ouvidorias, conselhos de direitos, centros de defesa, defensorias públicas, dentre outros). Nessa direção, ainda, a orientação sociojurídica por parte do ad- vogado, que compõe a equipe do CREAS, pode contribuir, sobremaneira, para o acesso dos usuários ao sistema de defesa e responsabilização, quando for o caso. No que diz respeito aos direitos socioassistenciais, a infraestrutura do CREAS deve possibilitar o acesso às pessoas com mobilidade reduzida, tais como pessoas com deficiência e idosos, e dispor de condições para a acolhida dos usuários com dignidade, contando com salas para ofertar atendimento com privacidade e sigilo. Os registros de atendimentos, organizados de forma padronizada, devem ser arquivados, assegurando-se consulta aos mesmos apenas por profissionais autorizados. 4. Centralidade na família 41 www.servicosocialparaconcursos.net Na Assistência Social, os riscos sociais também são entendidos no campo das relações humanas e, por essa via, são advindos dos processos de convivência e de (in)sustentabilidade de vínculos sociais (SPOSATI, 2004). As fragilizações e rupturas que incidem no universo familiar podem se associar a situações que violam direitos, em especial, das crianças, adolescentes, jovens, mulheres, idosos e pes- soas com deficiência, observadas nas diferentes camadas da sociedade brasileira. Assim, é importante se reconhecer que o próprio contexto social, político, cultural e econômico – marcado, por vezes, pela dificuldade de acesso a direitos, pela desigualdade social estrutural, violência urbana, consumismo, desemprego, miséria e exclusão – pode ter relação com os riscos observados no território onde as famílias vivem e convivem, imprimindo tensões sobre as relações familiares e co- munitárias. Nesse sentido, o CREAS, ao organizar suas ações tendo como foco a família, deve compreender a com- posição da mesma, suas relações de convivência, estratégias de sobrevivência, os diferentes arranjos familiares e a relação com o contexto social, evitando, desta forma, sua categorização a partir de mo- delos convencionais e conservadores que tipificam as famílias em “estruturadas” e “ desestruturadas”. O trabalho social com centralidade na família no CREAS visa ao fortalecimento da sua função de proteção e atenção a seus membros, prevenindo, mediando e fortalecendo condições para a su- peração de conflitos. Essa perspectiva é fundamental para prevenir a recorrência e/ou agravamento de processos que gerem e/ou acentuem situações de violência, abandono, negligência ou qualquer outro tipo de situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. Nessa direção, o trabalho social proposto pelo CREAS deve primar pelo acesso das famílias e indivíduos a direitos socioassisten- ciais e inclusão na rede, tendo em vista o empoderamento e a potencialização de seus recursos e capacidade de proteção. Conforme a PNAS a família é um núcleo afetivo, vinculado por laços consanguíneos, de aliança ou de afinidade e está organizada em torno das relações geracionais e de gênero. A centralidade na família implica, ainda, reconhecer que esta pode se configurar como um espaço contraditório, onde o lugar da proteção pode ser também o da violência e da violação de direitos. Nesse contexto, o empoderamento das famílias e de cada um de seus membros para o enfrentamento das situações poderá resultar na reconstrução das relações familiares ou, até mesmo, na construção de novas referências familiares e comunitárias, quando esta se mostrar a melhor alternativa para se assegurar proteção. As violações de direitos incidem de maneira diferenciada nos membros da família, com reper- cussões que podem ser agravadas ou não em função do ciclo de vida, gênero, orientação sexual, defi- ciência, alcoolismo e/ou uso de drogas, condições materiais, contexto cultural, dentre outras, cabendo ao CREAS considerar e reconhecer essas singularidades na definição e organização da(s) metodolo- gia(s) e intervenções. Assim, o trabalho social no CREAS com centralidade na família deve considerar as potencialidades do conjunto dos seus membros e de cada indivíduo, compreendendo as singularidades e particularidades das situações vivenciadas por cada sujeito, para proporcionar apoio e proteção, tendo em vista a su- peração das fragilidades e violações que se expressam no âmbito das relações familiares e comunitá- rias. A centralidade na família no trabalho social no CREAS implica no reconhecimento da autonomia da família e de cada um de seus membros na construção de sua trajetória e projetos de vida. Nessa pers- pectiva, devem ser consideradas as especificidades de gênero e dos ciclos de vida dos integrantes das 42 www.servicosocialparaconcursos.net famílias atendidas, compreendendo suas potencialidades, necessidades humanas e peculiaridades, sob a ótica do direito assegurado ao cidadão(ã) no ordenamento jurídico brasileiro. Esta compreensão deve repercutir, inclusive, na definição de intervenções e metodologias que, por vezes, poderá impossibilitar a inserção de algum(s) membro(s) da família no acompanhamento, de modo a resguardar a proteção, a confiança e o desejo dos demais membros. Isto pode ser conside- rado, por exemplo, no atendimento do possível autor(a) da agressão que implique em ameaça e risco à efetividade do atendimento dos demais membros. 5. Mobilização e Participação Social O trabalho social no CREAS deve primar pela participação social dos usuários e pela realização de ações que propiciem intervenções nos territórios voltadas à mobilização social para a prevenção e o enfrentamento de situações de risco pessoal e social, por violação de direitos. No que diz respeito às intervenções no território, pode-se destacar ações como campanhas intersetoriais de mobilização para a prevenção e o enfrentamento de situações de risco pessoal e so- cial, por violação de direitos, organizadas a partir de um esforço coletivo da rede, envolvendo a socie- dade civil organizada, as diversas políticas e os órgãos de defesa de direitos. O CREAS, por intermédio desua coordenação e equipe, poderá incentivar, apoiar e participar da realização destas ações, que podem ser realizadas em diversos formatos. Quanto à participação social dos usuários, ressalte-se que esta deve também orientar e per- mear o trabalho social no CREAS, uma vez que constitui importante instrumento para o conhecimento e a defesa coletiva de direitos e, por conseguinte, para o exercício do protagonismo. Nessa direção, cabe destacar as possibilidades: dos usuários participarem e/ou organizarem associações, movimen- tos sociais e populares, comissões locais; de participação nas instâncias de controle social, como con- selhos de direito e de políticas públicas, que são importantes espaços de decisão e deliberação. 6. Trabalho em Rede O trabalho em rede tem como objetivo integrar as políticas sociais, na sua elaboração, execu- ção, monitoramento e avaliação, de modo a superar a fragmentação e proporcionar a integração das ações, resguardadas as especificidades e competências de cada área. Nessa direção, o trabalho em rede pode ser compreendido como: Um processo que cria e mantém conexões entre diferentes organizações, a partir da compreensão do seu funcionamento, dinâmicas e papel desempenhado, de modo a coordenar interesses distintos e fortalecer os comuns (MDS, 2009, p.21). Trabalho em rede pressupõe articulação entre instituições e agentes que atuam em um determinado território e compartilham objetivos e propósitos comuns. Para que haja sinergia e a dinâmica neces- sária para manter vivo o trabalho coordenado e complementar, é importante que exista um processo contínuo de circulação de informação, com abertura para o diálogo permanente, capacidade para re- ver processos e fluxos de trabalho, compromisso com o fazer coletivo e postura de cooperação indivi- dual e institucional e de superação de vaidades. Além dos aspectos apontados, o desenvolvimento de ações integradas em rede requer, ainda: 43 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ Reconhecimento mútuo da missão e respeito ao trabalho de cada componente da rede; ➪ Conquista de legitimidade; ➪ Respeito ao ritmo e ao tempo histórico de cada instituição e da rede; ➪ Instrumentos operacionais que possam facilitar as conexões, como reuniões, encontros, conta- tos periódicos, fluxos e protocolos pactuados, etc. Regido pelo princípio da intersetorialidade e da incompletude institucional, o órgão gestor de Assistência Social deve buscar a articulação em rede para fortalecer a complementaridade das ações dos CREAS com os diversos órgãos envolvidos no acompanhamento às famílias e aos indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. Para tanto, deve primar pela articulação que almeje o acesso dos usuários aos demais serviços, projetos e programas que integram o SUAS e às outras políticas públicas, considerando a complexidade destas situações, que exigem atenções para além das proporcionadas pelo CREAS. Nessa perspectiva, também devem ser considerados os órgãos de defesa de direitos que têm o obje- tivo de promover a defesa e o cumprimento dos direitos, bem como a investigação e a responsabili- zação dos autores de violência, quais sejam: Conselhos Tutelares, Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Organizações da Sociedade Civil (Centros de Defesa, Fóruns de Defesa de Direitos), Delegacias, entre outros. O trabalho em rede, coordenado pelo órgão gestor de Assistência Social, pode ser fortalecido com a elaboração de fluxos de articulação e protocolos intersetoriais de atendimento, com definição de res- ponsabilidades, considerando a realidade, os recursos existentes e o respeito ao papel e às competên- cias de cada órgão da rede. Este processo, a ser realizado com a participação dos diversos componentes da rede, contribui, ainda, para: ➪ Clarificar papéis, responsabilidades e competências; ➪ Otimizar recursos, potencialidades e oportunidades do território; ➪ Identificar lacunas na rede; ➪ Desenvolver estratégias para o acompanhamento integrado às famílias e aos indivíduos; ➪ Estabelecer acordos e pactuações institucionais e políticas; ➪ Redimensionar o trabalho e a atuação da rede, a partir dos resultados obtidos; tendo sempre como norte a intencionalidade e os objetivos comuns. Por fim, destaca-se que tanto o órgão gestor quanto o CREAS, no desempenho de suas competências, devem estar atentos ao conjunto dos eixos apresentados, visando ao efetivo desempenho do papel do CREAS no SUAS e na rede de atendimento. Competências do CREAS e do órgão gestor da política de Assistência Social COMPETÊNCIAS DO CREAS E DO ÓRGÃO GESTOR 44 www.servicosocialparaconcursos.net Para que o papel do CREAS e o exercício de suas competências possam se concretizar de modo efetivo e qualificado nos territórios é fundamental compreender as distinções entre as competências do CREAS e as do órgão gestor de Assistência Social. Nessa perspectiva, abaixo apresentamos e distinguimos de forma mais detalhada as competências do CREAS e do órgão gestor, tendo em vista o efetivo cumprimento, por parte da Unidade, de seu papel no território. Competências do Órgão Gestor (Municipal ou do DF) da política de Assistência Social e do CREAS ➪ Definição e planejamento da implantação das unidades CREAS e dos serviços a serem ofertados e referenciados, considerando a realidade do território de abrangência, dados de vigilância socio- assistencial e possibilidades de participação dos usuários. ➪ Oferta e referenciamento de serviço (s) especializado (s), conforme definição do órgão gestor. ➪ Elaboração do Plano Municipal de Assistência Social, contemplando, conforme o caso: ▪ Planejamento da implantação do CREAS; ▪ Localização da Unidade, organização de sua infraestrutura, definição, composição e capacita- ção de seus recursos humanos; ▪ Serviços a serem ofertados pelo CREAS e por Unidades Referenciadas, quando for o caso; ▪ Mecanismos para o monitoramento e avaliação da Unidade e serviços ofertados ou referenci- ados; ▪ Planejamento e implementação de medidas voltadas à melhoria da Unidade e qualificação da atenção ofertada. ➪ Fornecimento de subsídios e informações ao órgão gestor que contribuam para: ▪ Elaboração do Plano Municipal de Assistência Social; ▪ Planejamento, monitoramento e avaliação da Unidade e dos serviços ofertados pelo CREAS; ▪ Organização e avaliação dos serviços referenciados aos CREAS; ▪ Planejamento de medidas voltadas à qualificação da Unidade e da atenção ofertada no âmbito dos serviços do CREAS. ➪ Planejamento do processo de mapeamento das entidades e organizações privadas do SUAS que componham a rede socioassistencial, e de sua relação com o CREAS na localidade; ➪ Planejamento, monitoramento e avaliação do referenciamento ao CREAS dos serviços de PSE de média complexidade prestados por entidades e organizações privadas da rede socioassistencial do SUAS; ➪ Construção de fluxos de articulação e processos de trabalho entre CREAS e Unidades Referenci- adas. ➪ Relacionamento cotidiano com Unidades referenciadas para acompanhamento dos casos, con- forme fluxos de encaminhamento e processos de trabalho previamente definidos. ➪ Organização de espaços e oportunidades para troca de informações, discussão de casos e acom- panhamento dos encaminhamentos realizados às Unidades referenciadas. ➪ Planejamento e Monitoramento da implementação do Protocolo de Gestão Integrada de servi- ços, benefícios e transferência de renda na localidade. 45 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ Acompanhamento das Famílias do PETI e do PFB, em especial daquelas em Situação de Descum- primento de Condicionalidades por motivos relacionados a situações de risco pessoal e social, por violação de direitos; ➪ Acompanhamentos das famílias do BPC, quando em situação de risco pessoal e social, por viola- ção de direitos, e articulação com o INSS para fins de concessão, quando for o caso; ➪ Alimentação periódica do SICON com registrodo acompanhamento familiar efetivado. ➪ Gestão administrativa, financeira e orçamentária dos recursos da assistência social, assegurando na lei orçamentária anual a destinação de recursos à Unidade CREAS; ➪ Provimento de RH e infraestrutura para o CREAS, com acessibilidade, equipamentos e mobiliários necessários; ➪ Suporte material e técnico à oferta dos serviços prestados pelo CREAS. ➪ Encaminhamento ao órgão gestor de demandas relativas a recursos para o desenvolvimento dos serviços, melhoria e adequação da infraestrutura da Unidade, capacitação da equipe, assessora- mento e suporte técnico ao CREAS e, quando couber, das necessidades de ampliação dos recursos humanos, em função das demandas do território. ➪ Monitoramento da utilização de materiais, comunicando demandas de reposição ao órgão ges- tor. ➪ Coordenação de macroprocessos, incluindo a construção e pactuação de fluxos de referência e contrarreferência com a rede socioassistencial, das outras políticas e órgãos de defesa de direitos. ➪ Participação na construção de fluxos de articulação com a rede socioassistencial e com as demais políticas e órgãos de defesa de direitos. ➪ Desenvolvimento de trabalho em rede na atenção cotidiana, por meio da articulação com a rede socioassistencial, outras políticas e órgãos de defesa de direitos, conforme fluxos pactuados, quando for o caso. As informações acima apresentadas têm como objetivo elucidar que as competências do órgão gestor e do CREAS, embora correlatas e complementares, não devem se confundir. De modo geral, cabe ao órgão gestor o desempenho dos macroprocessos relativos à gestão das ações de PSE na loca- lidade, inclusive do CREAS e de seus serviços. À Unidade CREAS, por sua vez, cabe organizar e operacionalizar a oferta de serviços especializados, o que se materializa por meio da acolhida aos usuários, dos atendimentos e acompanhamentos realiza- dos e do relacionamento cotidiano com a rede. Por conseguinte, cabe ao CREAS, ainda, toda a gestão dos processos de trabalho da unidade. Destaca-se que, para além das competências mencionadas, a elaboração de relatórios sobre os aten- dimentos e acompanhamentos das famílias/indivíduos constitui uma importante competência do CREAS. Estes relatórios podem dispor de informações sobre as seguranças afiançadas, o progresso em relação às famílias e aos indivíduos acompanhados e, quando couber, de outras informações, obser- vando-se, necessariamente, sua pertinência, relevância e benefício para os usuários. Porém, cabe ao CREAS, quando necessário e/ou solicitado, o encaminhamento ao sistema de defesa e responsabilização de relatórios que versem sobre o atendimento e acompanhamento às famílias e aos indivíduos, resguardando-se o que dispõe o código de ética e as orientações dos respectivos con- selhos de categoria profissional. Quando da sua elaboração, os profissionais devem, necessariamente, 46 www.servicosocialparaconcursos.net observar a função de proteção social da Assistência Social, bem como o papel do CREAS e suas com- petências que, de modo algum, poderão ser confundidos com o papel dos órgãos do sistema de defesa e responsabilização, a exemplo de delegacias e órgãos do Poder Judiciário. Competências do órgão gestor de Assistência Social para a efetivação do papel do CREAS O órgão gestor é o responsável, na localidade, pela organização e gestão do SUAS, incluindo o CREAS, que por sua vez, é uma unidade vinculada à área de PSE do órgão gestor. Em caso de ausência, na estrutura do órgão gestor, de departamento, superintendência ou coordenação responsável pela PSE, uma pessoa ou equipe de referência da Secretaria de Assistência Social ou congênere deverá responder pelo desempenho desta função. Nessa direção, a gestão e as ações estruturadoras das Unidades e serviços de PSE de Média Comple- xidade constituem competências do órgão gestor da política de assistência social, por meio da área responsável pela PSE. Devem ser realizadas com a participação efetiva de suas equipes, visando esta- belecer processos que garantam o planejamento das ações, definindo as bases organizacionais e de gestão da PSE na localidade, para compor, integrar e articular a rede socioassistencial. Ajustes e redimensionamentos desta organização e de fluxos de referência e contrarreferência e de articulação intersetorial, quando se fizerem necessários, devem ser planejados e mobilizados pelo ór- gão gestor da assistência social, com o apoio da coordenação e equipe do CREAS. Estes ajustes serão particularmente propiciados pelo exercício das competências do órgão gestor relativas ao monitora- mento e à avaliação da Unidade e da oferta dos Serviços. Nessa direção, destaca-se a importância dos dados de vigilância socioassistencial e as informações e dados disponibilizados pelo CREAS, que repre- sentam subsídios fundamentais para o monitoramento e a avaliação, tendo em vista a crescente qua- lificação da oferta dos serviços à população. Assim, as Unidades CREAS devem realizar os devidos registros dos atendimentos e acompanhamentos, bem como das situações identificadas no território, de modo a subsidiar e contribuir com o trabalho da vigilância socioassistencial por parte do órgão gestor. Estas informações subsidiarão tanto o plane- jamento da implantação do CREAS quanto a qualificação do atendimento às situações identificadas e prevenção de novas ocorrência ou agravamentos. Frente à existência, em algumas localidades, de rede de proteção social anterior ao SUAS de natureza pública-estatal e/ou pública não-estatal, sem fins lucrativos –, cabe ao órgão gestor planejar e regula- mentar processos de reordenamento de Unidades e serviços, tendo como referência os parâmetros do SUAS e da Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. No que diz respeito em particular ao CREAS, o reordenamento pode incluir desde o planeja- mento de alteração de Unidade responsável pela oferta de serviço para atender aos dispositivos da Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais – até adequações em infraestrutura física e recursos humanos, capacitações; e revisão em nomenclaturas e concepções que fundamentam as competên- cias e funcionamento das unidades, oferta dos serviços e função da equipe. É importante ressaltar que todo processo de reordenamento requer planejamento e envolvimento das equipes e unidades relacionadas, de modo a se evitar descontinuidade das ações e perda da qua- lidade já acumulada na oferta da atenção. No que diz respeito ao CREAS, pode ser identificada, ainda, a necessidade de referenciamento de unidades que ofertem serviços que, segundo a Tipificação Naci- onal de Serviços Socioassistenciais, podem ser ofertados por unidades específicas referenciadas. 47 www.servicosocialparaconcursos.net Ao órgão gestor cabe assegurar, no caso de oferta de serviços pelas entidades e organizações da rede socioassistencial privada do SUAS, que as parcerias firmadas observem o necessário alinha- mento com os parâmetros do Sistema e as normativas relacionadas. No caso de unidades referencia- das ao CREAS, os instrumentos que firmem esta parceria devem, inclusive, prever este referencia- mento, incluindo o respeito a fluxos de relacionamento com estas unidades e mecanismos que asse- gurem o atendimento aos usuários encaminhados pelo CREAS. Cabe ao órgão gestor atentar-se para a garantia de infraestrutura física condizente e capaz de com- portar o desenvolvimento das atividades de cada serviço ofertado no CREAS, observados os aspectos dispostos neste documento. Constitui também responsabilidade do órgão gestor a composição dos recursos humanos da Unidade e a capacitação continuamente das equipes, tendo como referência os parâmetros da NOB-RH/SUAS. A composição dos recursos humanos deverá assegurar ao CREAS equipe própria, habilitada e capacitada para o desempenho de suas ações. A partir dos parâmetros da NOB-RH/SUAS, os recursos humanos de cada CREAS deverão ser dimensionados considerando os serviçosofertados pela Unidade, demanda por atendimento/acom- panhamento e capacidade de atendimento das equipes. Assim, o órgão gestor poderá agregar serviços e ampliar a capacidade de atendimento das unidades. Porém, esta ampliação deve ser consequência de um planejamento de gestão, com previsão das adequações necessárias para comportá-la e permi- tir, inclusive, a identificação da demanda por ampliação do quantitativo de CREAS na localidade. A área da vigilância socioassistencial, vinculada ao órgão gestor de Assistência Social, também contribui para o dimensionamento do quantitativo das Unidades CREAS, capacidade de atendimento, equipe e serviços a serem ofertados em determinada localidade, compatibilizando-os à realidade dos territórios. Nessa direção, o órgão gestor ao desenvolver a vigilância socioassistencial, cria capacida- des e meio técnicos para conhecer o território e a presença de riscos pessoais e sociais, por violação de direitos. Conforme apresentado, compete ao órgão gestor, ainda, o planejamento financeiro e orçamentário que assegure a destinação de recursos para a adequada estruturação e funcionamento das unidades, composição das equipes e qualificação dos trabalhos desenvolvidos. A interlocução do órgão gestor com outras políticas públicas setoriais e órgãos de defesa de direitos será particularmente importante para o desenvolvimento de ações integradas em rede. Esta interlocução poderá também contar com o apoio e subsídios da coordenação e equipe do CREAS que, devido ao cotidiano profissional, conhe- cem as lacunas, as potencialidades e as necessidades para o aperfeiçoamento do trabalho em rede. Considerando que os fluxos de articulação estabelecem formas e meios para viabilizar o enca- minhamento e o atendimento dos usuários na rede, é importante que sejam delineados, pactuados e, se possível, institucionalizados. A construção e a pactuação de fluxos de articulação e protocolos in- tersetoriais de atendimento constituem processo que, necessariamente, envolve os órgãos de defesa de direitos e as diversas políticas públicas, além da política de Assistência Social. Destaca-se, ainda, que estes instrumentos podem contribuir, sobremaneira, para o reconhecimento e desempenho efe- tivo do papel e das competências da política de Assistência Social e do CREAS na rede. Visando estabelecer conexões de trabalho em rede, no processo de elaboração de fluxos e protocolos deve-se considerar a rede de articulação existente e suas características instituições, áreas de atuação, competências que lhe são atribuídas para prestar o atendimento, especificidade do trabalho em rela- ção ao público atendido, natureza do atendimento prestado, limites institucionais, etc. Destaca-se, ainda, a importância da articulação entre as Unidades CRAS e CREAS. Além da definição destes fluxos e de parâmetros para o relacionamento cotidiano entre estas Unidades e suas equipes, 48 www.servicosocialparaconcursos.net será preciso, nos municípios com mais de uma unidade CRAS e/ou mais de uma Unida de CREAS, a definição de quais unidades se relacionam entre si, considerando as Unidades existentes e os respec- tivos territórios de abrangência. Nas localidades que contarem com Unidade(s) de Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro POP e Serviços de Acolhimento será igualmente necessário e importante definir também os desenhos de relacionamento no território com a Unidade(s) CREAS existente(s). ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 49 www.servicosocialparaconcursos.net A Política de Assistência Social apresenta como um de seus objetivos a garantia da proteção social, a qual “consiste no conjunto de ações, cuidados, atenções, benefícios e auxílios ofertados pelo SUAS para redução e prevenção do impacto das vicissitudes sociais e naturais ao ciclo da vida, à digni- dade humana e à família como núcleo básico de sustentação afetiva, biológica e relacional”. Na pers- pectiva do Sistema Único de Assistência Social, a proteção social tem como pressuposto a garantia das seguranças de acolhida, de renda, do convívio ou vivência familiar, comunitária e social, do desenvol- vimento da autonomia individual, familiar e social, e, de sobrevivência a riscos. No que se refere às seguranças que devem ser afiançadas pelos serviços de proteção social de Assistência Social, o CREAS busca garantir, por meio da execução de seus serviços, três delas: ✎ Segurança de acolhida; ✎ Segurança de convívio ou vivência familiar, comunitária e social; ✎ Segurança de desenvolvimento de autonomia individual, familiar e social. As outras duas seguranças, a de renda e a de sobrevivência a riscos circunstanciais são garantidas a partir de benefícios e de programas de transferência de renda, os quais são ofertados pelas institui- ções da proteção social básica, sendo que o CREAS busca sua garantia através do encaminhamento das famílias às instituições que executam a Proteção Social Básica. Para que a segurança de acolhida seja garantida na execução dos serviços ofertados pelo CREAS, a Tipificação define que é preciso afiançar as seguintes provisões para o usuário(a): Ser acolhido em condições de dignidade em ambiente favorecedor da expressão e do diálogo; ser estimulado a expressar necessidades e interesses; ter reparados ou minimizados os danos por vivências de violações e riscos sociais; ter sua identidade, integridade e história de vida pre- servadas; ser orientado e ter garantida efetividade nos encaminhamentos (CONSELHO NACIO- NAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL, 2009, p. 20-21). O que se percebe no CREAS em relação à garantia desta segurança é que a equipe proporciona um ambiente favorecedor da expressão e do diálogo. No entanto, a estrutura física não dispõe de condi- ções apropriadas de sigilo, de modo que, o usuário pode não se sentir à vontade para se expressar. O usuário e sua família são estimulados a expressar suas necessidades e interesses, tendo sua identi- dade, integridade e história de vida preservadas pelos profissionais que os atendem, no entanto, con- forme já referido, há limites no que se refere às condições físicas para garantia do sigilo. As famílias sempre são orientadas, porém, a equipe nem sempre consegue garantir a efetividade dos encaminhamentos realizados. Em relação à segurança de as famílias e sujeitos terem reparados ou minimizados os danos por vivências de violações e riscos sociais, não existem dados ou levantamentos a respeito de quanto, ou, em que medida os serviços contribuem ou não para que os danos sejam reparados ou minimizados. A equipe do CREAS atualmente não utiliza um instrumento formal para que esta avaliação seja realizada com a participação da família. Entretanto, a equipe analisa que os MÓDULO VICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS SEGURANÇAS AFIANÇADAS NO SUAS PARA USUÁRIOS DO CREAS 50 www.servicosocialparaconcursos.net serviços vêm contribuindo para a reparação ou minimização de danos causados pela vivência de situ- ações de violência, a partir das avaliações técnicas que são realizadas no processo de acompanha- mento das famílias, e, principalmente através do retorno dado pela família no decorrer do acompa- nhamento ou mesmo após o encerramento deste. A acolhida junto ao serviço é realizada com os sujeitos que comparecem ao CREAS, momento em que o profissional que realiza a acolhida se apresenta, apresenta o CREAS e os serviços ofertados, e é iniciado o processo de conhecimento da situação vivenciada pela família. O processo de escuta do usuário e sua família é privilegiado em detrimento da preocupação com o preenchimento de instru- mentos ou formulários de coleta de dados, que poderão ser preenchidos no decorrer do acompanha- mento da família. Na metodologia de trabalho com grupos e famílias o espaço de acolhimento é fundamental, não há acolhimento sem que o sujeito possa ser compreendido no emaranhado de suas relações sociais. Um espaço de escuta e um espaço de fala será propiciado e construído numarelação de horizontalidade na qual é imprescindível o diálogo, o respeito às singularidades e a valorização dos projetos de vida das pessoas (FERNANDES, 2006, p. 147). São realizadas entrevistas individuais e/ou coletivas (com a família), a fim de se ter uma maior aproxi- mação com a situação identificada como demanda para intervenção junto ao CREAS. A visita domiciliar também é um instrumento utilizado, juntamente com técnicas de observação e escuta sensível. Cumpre ressaltar que a visita domiciliar “funciona como uma atividade profissional investigativa ou de atendimento aos usuários dentro do seu próprio meio social ou familiar, logo, uma atividade que apro- xima o assistente social da realidade do indivíduo” (SPEROTTO, 2009, p. 60). A visita domiciliar, por ser realizada no espaço vivido da família, permite uma maior aproximação com o cotidiano dos sujeitos, e, consequentemente do território onde vivem. Permite o reconhecimento das fragilidades e poten- cialidades de resistência da família, e, da rede social com a qual a família conta, para o enfrentamento das diversas expressões da questão social vivenciadas cotidianamente, sem perder de vista o caráter coletivo destas expressões. Este reconhecimento pode ser importante no planejamento do processo interventivo, o qual deve ser construído com a ativa participação da família. A visita domiciliar não pode prescindir da observação e da escuta sensível, para que o maior número de elementos e fenômenos sejam desvendados no conhecimento da situação vivida pela família. “A observação, [...] indica a acuidade atenta aos detalhes dos fatos e relatos apresentados durante a vi- sita” (AMARO, 2003, p.13-14). A escuta sensível, que é chamada também de escuta reflexiva, permite identificar outras situ- ações de vulnerabilidade que não são apresentadas inicialmente pelo usuário. Muitas vezes o usuário busca o serviço para superar uma situação de risco social e nem mesmo identifica que existe uma multiplicidade de questões que agravam as suas condições de vida” (SPEROTTO, 2009, p. 34). Salienta-se que a observação e a escuta sensível nos atendimentos realizados pela equipe, propiciam a realização de uma prática reflexiva junto à família. Isto possibilita que a intencionalidade ética, in- trínseca a toda ação profissional se materialize, no enfrentamento das expressões da questão social vivenciadas coletivamente pela classe trabalhadora. A observação e escuta sensível são importantes na materialização das seguranças que devem ser afiançadas pela proteção social de Assistência Social. No que se refere à segurança de convívio ou vivência familiar, comunitária e social que também deve ser ofertada pelos serviços oferecidos no CREAS, esta é assegurada a partir das seguintes provisões 51 www.servicosocialparaconcursos.net aos usuários: “ter acesso a serviços socioassistenciais e das políticas públicas setoriais, conforme ne- cessidades; ter assegurado o convívio familiar, comunitário e social” (CONSELHO NACIONAL DE ASSIS- TÊNCIA SOCIAL, 2009, p. 21). No que se refere ao acesso aos demais serviços socioassistenciais, este é sempre garantido, principal- mente devido a articulação dos CRAS e do CREAS, bem como, às atividades desenvolvidas conjunta- mente. Referente a esta segurança de desenvolvimento da autonomia, o serviço PAEFI, deve afiançar aos su- jeitos usuários as seguintes provisões: ✎ Ter vivência de ações pautadas pelo respeito a si próprio e aos outros, fundamentadas em prin- cípios éticos de justiça e cidadania; ✎ Ter oportunidades de superar padrões violadores de relacionamento; ✎ Poder construir projetos pessoais e sociais e desenvolver a autoestima; ✎ Ter acesso à documentação civil; ✎ Ser ouvido para expressar necessidades e interesses; ✎ Poder avaliar as atenções recebidas, expressar opiniões e reivindicações; ✎ Ter acesso a serviços do sistema de proteção social e indicação de acesso a benefícios sociais e programas de transferência de renda; ✎ Alcançar autonomia, independência e condições de bem estar; ✎ Ser informado sobre seus direitos e como acessá-los; ✎ Ter ampliada a capacidade protetiva da família e a superação das situações de violação de direi- tos; ✎ Vivenciar experiências que oportunizem relacionar-se e conviver em grupo, administrar conflitos por meio do diálogo, compartilhando modos não violentos de pensar, agir e atuar; ✎ Ter acesso a experiências que possibilitem lidar de forma construtiva com potencialidades e limites. (CONSELHO NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL, 2009, p. 21) Várias destas provisões a equipe busca afiançar para as famílias usuárias, com a participação das mes- mas na condição de sujeitos de direitos. Algumas destas provisões são trabalhadas coletivamente, e, reforçadas nos atendimentos individuais ou familiares, como: ✎ Vivência pelos usuários de ações pautadas pelo respeito, fundamentadas em princípios éticos, de justiça e cidadania; ✎ Estímulo a superação de padrões violadores de relacionamento; ✎ Estímulo aos usuários para a construção de projetos pessoais e sociais; ✎ Encaminhamentos necessários para acesso à documentação civil; ✎ Ouvir os usuários, incitando-os a expressar suas necessidades e interesses; ✎ Encaminhamento aos serviços de proteção social – porém, a garantia de acesso a equipe nem sempre consegue garantir, tendo em vista que implica na possibilidade e condições de atendimento de outras instituições; 52 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Indicação de acesso a benefícios e programas de transferência de renda; ✎ Informações acerca de direitos e de como acessá-los; ✎ Desenvolvimento de atividades que estimulem a vivência de experiências que oportunize a con- vivência em grupo, a administração de conflitos por meio do diálogo, o compartilhamento de mo- dos não-violentos de agir; ✎ Estímulo de vivência de experiências que possibilitem aos usuários lidar de forma construtiva com possibilidades e limites. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 53 www.servicosocialparaconcursos.net O Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, estabelece que o Centro de Refe- rência Especializado de Assistência Social - CREAS “...é uma unidade pública e estatal, que oferta ser- viços especializados e continuados a famílias e indivíduos em situação de [...] violação de direitos (vi- olência, cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto, etc.).” Enquanto unidade pública estatal, conforme publicado na Capacitação para Implementação do Sis- tema Único de Assistência Social – SUAS e do Programa Bolsa Família – PBF, o CREAS: ➪ Articula, coordena e opera a referência e contrarreferência com a rede de serviços socioassis- tenciais, demais políticas públicas e SGD; ➪ Oferta orientação e apoio especializado e continuados a indivíduos e famílias com direitos viola- dos; ➪ Tem a família como foco de suas ações, na perspectiva de potencializar sua capacidade de pro- teção e socialização de seus membros. 1. OBJETIVOS DO CREAS Os serviços especializados ofertados nos CREAS têm como objetivos: ✎ Prestar atendimento interdisciplinar especializado aos indivíduos e famílias com direitos violados em decorrência de situações de violência vivenciadas; ✎ Contribuir para a proteção dos indivíduos e famílias em situação de violência; ✎ Fortalecer os vínculos afetivos entre os membros das famílias; ✎ Potencializar a capacidade protetiva das famílias; ✎ Articular as redes sociais de apoio das famílias; ✎ Favorecer a inclusão dos indivíduos e famílias no sistema de garantia de direitos e rede de ser- viços, conforme necessidades; ✎ Propiciar a responsabilização dos autores de violência; ✎ Prevenir o agravamento e a reincidência das situações de violência doméstica/intrafamiliar. 2. PROTEÇÃO SOCIAL ESPECIAL E NÍVEIS DE COMPLEXIDADE ➪ PROTEÇÃO SOCIAL ESPECIAL: Destina-se às famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e/ou psíquicos, abuso sexual,uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas socioeducativas, situação de rua, trabalho infantil, dentre outras. Estas requerem acompanhamento individual e maior flexibilidade nas soluções protetivas. MÓDULO VIICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS KNOW-HOW DO CREAS 54 www.servicosocialparaconcursos.net Há uma estreita interface com o Sistema de Garantia de Direitos. Esse serviço envolve: ➪ PROTEÇÃO SOCIAL ESPECIAL DE MÉDIA COMPLEXIDADE: Famílias e indivíduos com seus direitos vi- olados, mas cujos vínculos familiares e comunitários não foram rompidos. Estão inseridos neste nível de proteção os seguintes serviços: ▪ Serviços de orientação e apoio sociofamiliar; ▪ Plantão social; ▪ Abordagem de rua; ▪ Cuidados no domicílio; ▪ Serviço de habilitação e reabilitação na comunidade das pessoas com deficiência; ▪ Medidas socioeducativas em meio aberto (PSC e LA), CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). ➪ PROTEÇÃO SOCIAL ESPECIAL DE ALTA COMPLEXIDADE: Serviços de proteção integral (moradia, ali- mentação, higienização, trabalho protegido) para famílias e indivíduos que se encontram sem refe- rência e/ou em situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e/ou comunitá- rio. São eles: ▪ Atendimento Integral Institucional; ▪ Casa Lar; ▪ República; ▪ Casa de Passagem; ▪ Albergue; ▪ Família Substituta; ▪ Família Acolhedora; ▪ Medidas Socioeducativas Restritivas e Privativas de Liberdade (semiliberdade, internação provi- sória e sentenciada); ▪ Trabalho Protegido. 3. AÇÕES DESENVOLVIDAS NO CREAS ✎ Abordagem em vias públicas; ✎ Acompanhamento e controle dos encaminhamentos; ✎ Articulação com a rede de garantia dos direitos da criança e do adolescente; ✎ Articulação com a rede de proteção; ✎ Atendimento e acompanhamento a adolescentes em cumprimento de LA e PSC; ✎ Atendimento às famílias inseridas no PETI; ✎ Atendimento e prestação de serviços a pessoas em situação de rua; ✎ Atendimento e prestação de serviços à pessoas com deficiência e a idosos; ✎ Oferta de serviços terapêuticos; ✎ Atendimento psicossocial e jurídico; ✎ Desenvolvimento de medidas de proteção; ✎ Visitas domiciliares; 55 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Entrevista individual e familiar; ✎ Identificação e cadastramento da rede de serviços local e regional; ✎ Monitoramento da presença de situação de violação dos direitos da criança e do adolescente em vias públicas; ✎ Orientação e encaminhamento; ✎ Produção de material educativo; ✎ Referenciamento e encaminhamento. 4. EQUIPE MÍNIMA DO CREAS A Equipe Mínima que deve compor o CREAS deve ser assim dimensionada: ➪ Composição da equipe em municípios em gestão básica: ▪ Coordenador: 1 ▪ Assistente Social: 1 ▪ Psicólogo: 1 ▪ Educadores Sociais: 2 ▪ Auxiliar administrativo*: 1 ▪ Advogado: 1 ▪ Estagiários: Conforme atividades desenvolvidas e definição da equipe técnica. ➪ Composição da equipe em municípios em gestão plena e serviços regionais: ▪ Coordenador: 1 ▪ Assistente Social: 2 ▪ Psicólogo: 2 ▪ Educadores Sociais: 4 ▪ Auxiliar administrativo: 2 ▪ Advogado: 1 ▪ Estagiários: Conforme atividades desenvolvidas e definição da equipe técnica. * Esses profissionais desempenharão, prioritariamente, ações de busca ativa para abordagem em vias públicas e locais identificados pela incidência de situações de risco ou violação de direitos de crianças e adolescentes. A quantidade de educadores sociais deve ser proporcional à demanda e ao porte do município/gestão conforme dados acima apresentados. Além dos profissionais acima citados, podem ser contratados outros profissionais necessários ao de- senvolvimento das atividades de acordo com a demanda apresentada de cada município. Dada a complexidade das situações atendidas, o CREAS deve contar com profissionais capacitados e em número suficiente para prestar atendimento de qualidade aos usuários, realizando acompanha- mento individualizado de cada caso, coordenando reuniões de grupos e usuários e provendo encami- nhamentos, sempre que necessário, aos demais serviços da rede de proteção social e do sistema de garantia de direitos. 56 www.servicosocialparaconcursos.net O atendimento prestado deverá possibilitar a superação das situações de violação de direitos inicial- mente detectados, o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários e a inserção autônoma das famílias na sociedade. 5. PÚBLICO-ALVO De acordo com a Política Nacional de Assistência Social - PNAS o público-alvo (usuários) do CREAS são cidadãos e grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade e riscos, tais como: ✎ Famílias e indivíduos com perda ou fragilidade de vínculos de afetividade, pertencimento e so- ciabilidade; ciclos de vida; ✎ Identidades estigmatizadas em termos étnico, cultural e sexual; ✎ Desvantagem pessoal resultante de deficiências; ✎ Exclusão pela pobreza e, ou, no acesso as demais políticas públicas; ✎ Uso de substâncias psicoativas; ✎ Diferentes formas de violência advinda do núcleo familiar, grupos e indivíduos; ✎ Inserção precária ou não inserção no mercado de trabalho formal e informal; ✎ Estratégias e alternativas diferenciadas de sobrevivência que podem representar risco pessoal e social. Direcionando o público para a Proteção Social Especial de Média Complexidade, a PNAS define: “...fa- mílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos vínculos familiar e comunitário não foram rompidos.” A Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais estabelece como usuários do CREAS, famílias e indivíduos que vivenciam violações de direitos por decorrência de: ✎ Violência física, psicológica e negligência; ✎ Violência sexual: abuso e/ou exploração sexual; ✎ Afastamento do convívio familiar devido à aplicação de medida socioeducativa ou medida de proteção; Tráfico de pessoas; ✎ Situação de rua e mendicância; ✎ Abandono; ✎ Vivência de trabalho infantil; ✎ Discriminação em decorrência da orientação sexual e/ou raça/etnia; ✎ Outras formas de violação de direitos decorrentes de discriminações/submissões a situações que provocam danos e agravos a sua condição de vida e os impedem de usufruir autonomia e bem estar; ✎ Descumprimento de condicionalidades do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil - PETI em decorrência de violação de direitos. Todos os serviços executados pelos CREAS são direcionados ao atendimento de famílias e indivíduos que vivenciam situações de violência que os colocam em risco. Tendo em vista a complexidade das 57 www.servicosocialparaconcursos.net situações decorrentes dos conflitos e crises instalados, faz-se necessário detalhar as naturezas de atendimento, conforme o público alvo definido para os CREAS: ✎ Crianças e adolescentes submetidos à violação de direitos, em decorrência de abuso ou explo- ração sexual, exploração do trabalho infantil, abandono, negligência, violência física, psicológica e fetal; ✎ Mulheres em situação de violação de direitos em decorrência de violência sexual, física ou psi- cológica; ✎ Idosos submetidos à violação de direitos em decorrência de violência física, psicológica e negli- gência/abandono; ✎ Adultos que vivenciam situações de preconceito em decorrência do “grupo racial/étnico” a que pertencem ou pela sua orientação sexual, e por serem vítimas de violência doméstica/intrafamiliar; ✎ Adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto de liberdade assistida e/ou de prestação de serviços à comunidade; ✎ Famílias do PETI em descumprimento de condicionalidades: quando esgotadas as intervenções de Proteção Social Básica por meio do CRAS e a violação de direitos vier associada às situações de violência, como a negligência extrema; ✎ Pessoas em situação/trajetória de rua; ✎ Famílias com idosos em Centro Dia por período temporário de aproximadamente três meses e enquanto existir a possibilidade de reincidência das situações de violência; ✎ Famílias com usuários de substânciaspsicoativas que vivenciam situações de violência. Estas famílias são público alvo dos CREAS quando o uso de substâncias psicoativas por um ou mais de seus membros decorrer ou resultar em situações de violência aos usuários ou a toda família. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 58 www.servicosocialparaconcursos.net O processo de implantação do CREAS é orientado pelas normativas, regulações e pactuações vigentes na política de Assistência Social. A implantação precisa considerar o diagnóstico socioterrito- rial com dados sobre a incidência de situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, o levantamento das demandas e o mapeamento dos serviços, programas e projetos existentes no terri- tório. Cabe ao órgão gestor de Assistência Social a realização desse diagnóstico que antecede a implantação do CREAS e que permite analisar a incidência das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos registradas pelos órgãos de proteção, defesa e responsabilização e diversos outros aspectos, tais como: ✎ Cultura e valores locais que favorecem a ocorrência e/ou recorrência das situações de violação; ✎ Porte do município; ✎ Densidade populacional; ✎ Extensão territorial; ✎ Fronteiras intermunicipais, interestaduais e internacionais; ✎ Malha rodoviária, dentre outros. As informações que compõem o diagnóstico devem retratar a realidade e podem ser extraídas: ✎ Das estatísticas oficiais; ✎ Do banco de dados do órgão gestor da Assistência Social, de serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas setoriais; ✎ Dos conselhos de políticas públicas e de direitos e das organizações não governamentais. Para além destas informações, a composição do diagnóstico poderá contemplar relatos e considera- ções das lideranças comunitárias, dos profissionais que já atuam nos territórios; dentre outras fontes de informações que estejam disponíveis e que contribuam para a compreensão do território e sua dinâmica. Nessa direção, para a composição do diagnóstico socioterritorial é importante considerar as potenci- alidades do território e sua dinâmica, no sentido de inibir e/ou resistir às situações de violação de direitos e a capacidade de organização que emerge dos coletivos na construção de estratégias afirma- tivas de cidadania. Esses fatores devem ser relacionados com os aspectos econômicos, culturais, polí- ticos, históricos e sociais que compõe o cenário local. O diagnóstico é determinante para a definição do número de CREAS necessários para atender as de- mandas observadas em cada município/DF, bem como da abrangência de cada Unidade, e das áreas para sua implantação. O PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DO CREAS MÓDULO VIIICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 59 www.servicosocialparaconcursos.net Destaca-se que um ponto significativo do diagnóstico é o mapeamento dos serviços de PSE de Média Complexidade já existentes. Essas informações contribuirão para apontar o(s) serviço(s) que deve(m) ser ofertado(s) pelo CREAS, os serviços que poderão ser prestados por unidades específicas referenci- adas no território de abrangência do CREAS e, inclusive, serviços de PSE de Média Complexidade que devem ser reordenados, para atender aos parâmetros do SUAS. O número de CREAS a ser implantado no município/DF deve considerar a projeção da demanda a ser atendida. Além disto, o porte do município também constitui uma referência importante para dimen- sionar o número de CREAS a ser implantado em cada localidade, conforme os parâmetros de referên- cia abaixo. ➪ Pequeno Porte: De 20.001 a 50.000 - Implantação de pelo menos 01 CREAS. ➪ Médio Porte: De 50.001 a 100.000 - Implantação de pelo menos 01 CREAS. ➪ Grande Porte: Metrópoles e DF A partir de 100.001 - Implantação de 01 CREAS a cada 200.000 habitantes. Éimportante mencionar que o quadro acima apresenta parâmetros de referência, sendo o diagnóstico socioterritorial e os dados de vigilância socioassistencial fundamentais para a definição mais apropri- ada do quantitativo de unidades CREAS necessárias, considerando a realidade de cada território. Res- salte-se, ainda, que estes parâmetros de referência constituem metas a serem alcançadas por meio de um processo de gradativa implementação do SUAS no país. ETAPAS PARA A IMPLANTAÇÃO DO CREAS O órgão gestor de Assistência Social é o responsável pela coordenação do processo de plane- jamento que conduzirá à implantação do CREAS, definindo etapas, metas, responsáveis, recursos e prazos, com a devida previsão no Plano Municipal/DF de Assistência Social e no orçamento público, a ser submetido à aprovação do Conselho de Assistência Social. Para a implantação do CREAS algumas etapas são necessárias, tendo em vista o cumprimento das exigências para instalação da Unidade em determinado território e a oferta de serviço(s). As etapas apontadas a seguir constituem recomendações que não necessariamente precisam ocorrer na ordem apresentada, pois a implantação está condicionada à realidade local e autonomia do município/DF na condução do processo. Etapas que podem compor o planejamento da implantação do CREAS: ▪ Elaboração de diagnóstico socioterritorial que permita identificar: ▪ Particularidades do território (história; cultura; aspectos geográficos – rodovias, fronteiras, exten- são; movimentos sociais; rede pré-existente; densidade populacional etc.); ▪ Dados da incidência de situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, e suas especi- ficidades: identificação de demandas, avaliação de relevância e pertinência de implantação da Uni- dade; ▪ Mapeamento da rede de serviços, programas e projetos que poderá ser articulada ao CREAS; ▪ Identificação do quantitativo de Unidades CREAS necessárias, considerando a realidade local, o quantitativo de Unidade (s) já existente (s), se for o caso, e o quantitativo a implantar; 60 www.servicosocialparaconcursos.net ▪ Definição do território de abrangência de cada Unidade CREAS, no caso de municípios com mais de uma Unidade; ▪ Definição dos serviços que cada Unidade CREAS deverá ofertar, considerando a oferta obrigatória do PAEFI em todas as Unidades e a possibilidade de oferta dos demais, conforme avaliação e pla- nejamento gestão local; ▪ Definição dos serviços que serão referenciados a cada Unidade CREAS, considerando a rede exis- tente no território; ▪ Levantamento de custos e planejamento financeiro-orçamentário para a manutenção do CREAS e do (s) serviço (s) ofertado(s); ▪ Elaboração de projeto técnico-político da Unidade, que aborde aspectos de seu funcionamento interno, serviço (s) ofertado (s), metodologia de trabalho que será adotada pela equipe, relaciona- mento com os usuários e com a rede; ▪ Definição de local com infraestrutura adequada e localização estratégica para implantação do CREAS; ▪ Organização de equipamentos, mobiliário e materiais necessários ao efetivo funcionamento do CREAS; A partir da definição do número de Unidades a serem implantadas, faz-se importante a verificação dos custos para a implantação e o planejamento da sua manutenção. Com base no quantitativo de Unidades que serão implantadas, será preciso definir a área de abran- gência de cada CREAS e mapear sua rede de articulação (CRAS, demais unidades da rede socioassis- tencial, demais políticas públicas setoriais e órgãos de defesa de direito). É fundamental conhecer os serviços ofertados na rede, suas características, critérios de acesso, horá- rios de funcionamento, sistemáticas de atendimento, dentre outras informações que poderão colabo- rar para a articulação e integração do trabalho. Também devem ser reconhecidos os movimentos e os grupos organizados que atuam na área de abrangência do CREAS, pois essas iniciativas podem, poste- riormente, articular-se para somar ao trabalho em rede. No processo de planejamento e implantação do CREAS faz-se necessário envolver outras instâncias, de modo a abranger ações para: ✎ Elaborar ou revisar o Plano de Assistência Social, incluindo orçamento, ações e atividades que serão realizadas para a implantação ou expansão de CREAS no território, bem como apresentá-lo, discuti-lo e aprová-lo no Conselho de Assistência Social; ✎ Discutir o planejamento e a construção de fluxos de articulação com os demais serviços e uni- dades da rede socioassistencial, órgãos de defesa de direitos e outras políticas públicas setoriais; ✎ Socializar informações sobre o processo de implantação e/ou expansão dos CREAS junto a à rede de articulação, com o intuito de dar publicidade a suas competências, atribuições e finalidades, a fim de construir possibilidades de trabalho em conjunto. Em relação à equipe será necessário prever recursos para a admissão e capacitação e realizar estudo para definir o quadro de profissionais necessários para suprir a demanda, a partir das referências pre- vistas na NOB-RH/SUAS, considerando a capacidade de atendimento da Unidade. A capacitação deve ser processual, ou seja, planejada e executada de forma a garantir a formação continuada à equipe. 61 www.servicosocialparaconcursos.net Tendo em vista as especificidades do trabalho desenvolvido nos CREAS e as particularidades do terri- tório em que está localizado, é importante que o órgão gestor planeje e adote medidas para garantir segurança aos profissionais e aos usuários no desenvolvimento das ações, seja no interior da unidade, seja no território. LOCALIZAÇÃO DO CREAS O CREAS deve ter localização estratégica, prioritariamente de fácil acesso à população a ser atendida, devendo-se observar a disponibilidade de transporte público e a proximidade dos locais de maior concentração do público a ser atendido. Apenas por meio de uma análise local, o órgão gestor poderá definir a melhor localização para a im- plantação do CREAS. Entretanto, a fim de assegurar a facilidade de acesso aos usuários, sugere-se que: ✎ Em Municípios/DF com 1 (um) CREAS: A localização da Unidade seja preferencialmente em área central, com facilidade de acesso e maior circulação da população, e/ou em localidade estratégica para facilitar a articulação com a rede (CRAS, Poder Judiciário, Conselho Tutelar, etc.). A área central geralmente é onde está concentrada a infraestrutura municipal de transportes, fato este que facilita o acesso da população, além de unidades e órgãos da rede que devem manter articulação com o CRE- AS. Essa proximidade propicia uma ambiência favorável para o CREAS desenvolver um trabalho em rede, além de permitir aos usuários residentes em áreas distantes e/ou rural o acesso ao conjunto destes equipamentos com otimização de tempo e redução de custo, além da própria circulação da família; ✎ Em Municípios/DF com mais de 1 (um) CREAS: A localização da Unidade seja em territórios com maior incidência de situações de risco pessoal e social, com violação de direitos. Podem também cons- tituir referência para a implantação destas unidades: a territorialização e localização dos equipamen- tos da rede essencial de articulação do CREAS (territorialização dos CRAS, rede socioassistencial, Saúde Mental, Poder Judiciário, Conselho Tutelar, entre outros); e a divisão administrativa do município, quando for o caso; observada a facilidade de acesso por parte dos usuários. Uma maior proximidade das famílias aos CREAS abre um campo favorável para que o trabalho atinja seus objetivos. A localização estratégica no território colabora para que o CREAS torne-se referência para a população e/ou comunidade. Essa referência contribui para estabelecer um canal de comunicação e confiança com as famílias, que identificam na Unidade um espaço de proteção no meio em que vivem e convi- vem. Além de localização estratégica e a facilidade de acesso a meio de transporte público, é importante assegurar àsequipes do CREAS possibilidades e meios para o deslocamento no território, sempre que necessário. Finalmente, deve ser publicizado à população as formas de acesso, a oferta de serviços, o endereço e o horário de funcionamento da Unidade. 62 www.servicosocialparaconcursos.net ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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www.servicosocialparaconcursos.net A elaboração deste módulo foi particularmente subsidiada pela promoção de entrevistas, debates e construções que envolveram, além da equipe do DPSE, a equipe da Coordenação-Geral de Serviços de Vigilância Social do Departamento de Gestão do SUAS da Secretaria Nacional de Assistência Social (SNAS/MDS) e do Departamento de Gestão da Informação da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação (SAGI/MDS). ▪▪▪ O efetivo reconhecimento do CREAS como unidade pública estatal de referência para o desen- volvimento de trabalho social especializado com famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos, perpassa aspectos como sua infraestrutura, necessária identificação e recursos humanos. A sua especificidade, associada às demandas complexas que são foco da sua ação, determina a necessidade de planejar e organizar o seu funcionamento de modo a atender requisitos mínimos para o desenvolvimento do trabalho. INFRAESTRUTURA DO CREAS Para promover uma acolhida adequada e escuta qualificada aos usuários, o ambiente físico do CREAS deve ser acolhedor e assegurar espaços para a realização de atendimentos familiar, individual e em grupo, em condições de sigilo e privacidade. Para isso, recomenda-se que seja implantado em edifica- ção que disponha dos espaços essenciais para o desenvolvimento das suas atividades, não devendo, portanto, ser implantado em local improvisado. Para que o ambiente seja acolhedor, além da postura ética, de respeito à dignidade, diversidade e não-discriminação a ser compartilhada por toda a equipe, o espaço físico do CREAS deve contar com condições que assegurem: ➪ Atendimento em condições de privacidade e sigilo; ➪ Adequada iluminação, ventilação, conservação, salubridade e limpeza; ➪ Segurança dos profissionais e público atendido; ➪ Acessibilidade a pessoas com deficiência, idosos, gestantes e crianças, dentre outros; ➪ Espaços reservados e de acesso restrito à equipe para guarda de prontuários. Em caso de regis- tros eletrônicos, devem igualmente ser adotadas medidas para assegurar o acesso restrito aos prontuários, dados e informações; ➪ Informações disponíveis em local visível sobre: serviços ofertados, situações atendidas e horário de funcionamento da Unidade. INFRAESTRUTURA, IDENTIFICAÇÃO E RECURSOS HUMANOS DO CREAS MÓDULO IXCURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 64 www.servicosocialparaconcursos.net A infraestrutura física do CREAS deve ser compatível com os serviços ofertados, recursos humanos disponíveis e capacidade instalada para atendimento às demandas que emergem no seu território de abrangência. Os espaços do CREAS devem, portanto, dispor de quantidade e dimensões suficientes, sendo a infraestrutura ampliada sempre que necessário. ESPAÇOS ESSENCIAIS Constituem espaços essenciais que todo CREAS deve dispor: ➪ Espaço para recepção; ➪ Salas específicas para uso da coordenação, equipe técnica ou administração; ➪ Salas de atendimento (individual, familiar e em grupo), em quantitativo condizente com o(s) serviço(s) ofertado(s) e a capacidade de atendimento da Unidade. Além dos espaços essenciais, as Unidades CREAS poderão contar com outros espaços, dependendo das possibilidades e necessidades apresentadas (almoxarifado ou similar, espaço externo para ativi- dade de convívio etc.). Para o bom funcionamento do CREAS é importante observar se o seu espaço físico oferece dimensões e ambientes necessários aos serviços que serão ofertados, pois instalações inadequadas podem impli- car prejuízos ao desenvolvimento das ações, exigindo mudança ou adequação do local. O ideal é que o planejamento da implantação ou adequação dos CREAS inclua a previsão de funcionamento em imóvel próprio e adequado, para que, no futuro, a Unidade não precise ser deslocada para outro local. Ao fixar-se em determinado local, o CREAS torna-se referência para as famílias e os indivíduos do seu território de abrangência. Assim, mudanças de local de funcionamento da Unidade podem acarretar em dificuldades de acesso por parte dos usuários atendidos e até mesmo em descontinuidade do atendimento, principalmente se a unidade for deslocada para um local distante. Nos casos em que for necessária a mudança, que esta seja realizada de modo planejado, sendo os usuários comunicados previamente, de forma a não comprometer o seu reconhecimento como refe- rência no território e para assegurar a continuidade dos acompanhamentos realizados. Frente à sua representatividade no território, é importante que o CREAS seja implantado em imóvel exclusivo. Todavia, o compartilhamento do imóvel será permitido desde que se assegure ao CREAS placa de identificação e espaços exclusivos para a realização de suas atividades. Nessa direção, o CREAS poderá compartilhar com outras Unidades e serviços os seguintes espaços: ➪ Entrada ou porta de acesso; ➪ Copa ou Cozinha; ➪ Almoxarifado ou similar, desde que os materiais do CREAS sejam guardados com reserva; ➪ Espaço externo; ➪ Banheiros. 65 www.servicosocialparaconcursos.net No que diz respeito ao compartilhamento dos banheiros é preciso observar se o quantitativo é sufici- ente para atender as demandas, inclusive os banheiros adaptadosàs pessoas com mobilidade redu- zida como as pessoas com deficiência e idosos. O endereço também poderá ser compartilhado, desde que seja afixada a placa de identificação do CREAS em local de fácil visualização. Em algumas localidades o CREAS poderá estar localizado em núcleos mais ampliados de atendimento à população, onde se agregam diversos serviços da assistência social, da educação, da saúde, dentre outros. Esta estratégia pode facilitar o acesso da população a diversos serviços que funcionam no mesmo local. Entretanto, caso o CREAS funcione nesse conglomerado, o órgão gestor de Assistência Social deverá atentar-se para a necessidade de assegurar a exclusividade dos espaços essenciais à Unidade, conforme já mencionado, bem como a sua identificação. Para além do espaço físico, o desenvolvimento das ações no CREAS exige a disponibilização de equi- pamentos e recursos materiais essenciais que toda Unidade deve dispor e, ainda, equipamentos e materiais desejáveis que possam contribuir para qualificar as ações e assegurar a sua efetividade. No quadro abaixo se apresenta exemplos de equipamentos e recursos materiais que o órgão gestor de Assistência Social deve disponibilizar aos CREAS. EQUIPAMENTOS E RECURSOS MATERIAIS ESSENCIAIS ➪ Mobiliário, computadores, telefone (s); ➪ Acesso à internet; ➪ Material de expediente e material para o desenvolvimento de atividades individuais e coletivas (pedagógicos, culturais, esportivos etc.); ➪ Veículo para utilização pela equipe; ➪ Arquivos, armários ou outros, para guarda de prontuários físicos, em condições de segurança e sigilo; ➪ Impressora; ➪ Bancos de dados necessários ao desenvolvimento das atividades do(s) serviço(s). EQUIPAMENTOS E RECURSOS MATERIAIS DESEJÁVEIS ➪ Material multimídia, tais como: TV, equipamento de som, aparelho de DVD, máquina fotográfica, máquina copiadora, filmadora, projetor etc.; ➪ Acervo bibliográfico; ➪ Mural com informações de interesse dos usuários, como: horário de atendimento e funciona- mento da Unidade; endereços de serviços da rede de articulação do CREAS etc. Em relação aos equipamentos e recursos materiais, destaca-se que o CREAS necessita de condições de conectividade para que tenha mais agilidade nos processos de trabalho e maior integração e arti- culação com a rede, para isso, se faz necessário linha telefônica e computadores com acesso à inter- net. Outro item relevante para o desempenho das atividades do CREAS é o veículo. Com ele a equipe realiza as visitas domiciliares necessárias, acompanha famílias e indivíduos em áreas afastadas no território, 66 www.servicosocialparaconcursos.net participa de reuniões e encontros com a rede e realiza os deslocamentos necessários para o trabalho de abordagem de rua e/ou busca ativa. ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO FÍSICO Os espaços do CREAS devem ser organizados de forma a favorecer a acolhida, a expressão e o diálogo entre equipe e usuários, bem como garantir atendimento em condições de privacidade, sigilo e digni- dade. Esses espaços devem, ainda, estar adaptados para atendimento a usuários nos diferentes ciclos de vida, e oferecer acessibilidade às pessoas com mobilidade reduzida, a exemplo de pessoas com deficiência, idosos e gestantes. Para isso, a Unidade deve contar com espaços com acessibilidade que permitam a circulação com segurança, além de mobiliários e materiais próprios e específicos para promover o atendimento, considerando as particularidades e necessidades dos usuários. Nessa direção, no CREAS deve-se assegurar as seguintes condições para acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida: ➪ Acesso principal adaptado com rampas e rota acessível desde a calçada até a recepção do CREAS; ➪ Rota acessível aos principais espaços do CREAS (recepção, sala de atendimentos e sala(s) de uso coletivo); ➪ Rota acessível ao banheiro; ➪ Banheiros adaptados. É importante mencionar que as condições de acessibilidade devem incluir, também, meios para o acesso de pessoas com outras dificuldades e deficiências, a exemplo da deficiência visual, auditiva etc., de modo a superar barreiras arquitetônicas e atitudinais que, por vezes, impossibilitam o acesso ao CREAS. Nessa direção, é imprescindível que no âmbito da Unidade se possa contar com suportes como, por exemplo, treinamento para auxiliar pessoas com deficiência visual; placas de identificação em Braile; suporte eventual de profissional com domínio de LIBRAS, ou capacitação de profissional nesta língua; dentre outras medidas que possam ser adotadas. Para assegurar as condições de acessibilidade no CREAS, recomenda-se consultar e observar as nor- mativas relacionadas abaixo: ➪ NBR 9050 referente à acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos; ➪ Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida; ➪ Decreto nº 5.296, de 02 de dezembro, de 2004 que regulamenta a Lei nº 10.098/2000. Abaixo, apresentamos o detalhamento dos espaços físicos que compõem a Unidade CREAS: ✎ Recepção: É o ambiente destinado à acolhida das famílias e indivíduos. É onde, geralmente, se dará o primeiro contato das famílias com a equipe e a Unidade. Deve possuir uma organização que favoreça contato de forma respeitosa, evitando exposições desnecessárias. Esse espaço deve dispor de mobiliário necessário para os profissionais que trabalham na recepção (balcão ou mesa etc.) e mobiliário para acomodar os usuários enquanto aguardam atendimento, 67 www.servicosocialparaconcursos.net como cadeiras ou sofás. O espaço da recepção pode acomodar também um espaço para as crian- ças, como, por exemplo, um cantinho com tapete emborrachado e brinquedos. Na recepção é importante manter informações afixadas em local visível sobre os serviços ofertados pelo CREAS e horário de funcionamento da Unidade. Outra estratégia de comunicação que pode ser veiculada na recepção é a utilização de um mural para divulgar as atividades desenvolvidas, como por exemplo: eventos e reuniões; endereços de outros serviços socioassistenciais, dos órgãos de defesa de direitos e dos demais serviços que compõe a rede de articulação do CREAS. Podem também ser afixados cartazes que versam sobre os direitos socioassistenciais, campanhas de en- frentamento às situações de violação de direitos, dentre outras. É importante que todas as informações disponibilizadas tenham uma linguagem simples e acessível. ✎ Sala de Atendimento Individual e Familiar: Destinada ao atendimento individual e familiar, seu ambiente deve garantir privacidade, para que as famílias e indivíduos possam dialogar com os pro- fissionais em condições de sigilo. Desta forma, não se recomenda a utilização de divisórias para divisão de salas, o que, possivelmente, não garante uma acústica capaz de assegurar o sigilo no atendimento. Além do mobiliário necessário, como mesa e cadeiras, é recomendável que nestas salas se tenha disponível material socioeducativo e informativo para ser utilizado nas atividades desenvolvidas. Recomenda-se que as salas utilizadas para atendimento disponham também de mo- biliário infantil. Destaca-se que esses espaços devem ter acesso restrito, não se caracterizando como um espaço comum e de circulação livre, devendo ser utilizado, de forma privativa, pelos usuários em atendi- mento e profissionais do CREAS. ✎ Sala para Atividades em Grupo: Destinada à realização de atividades coletivas, pode ser utilizada para o desenvolvimento de trabalhos com famílias, grupos e até com a comunidade. Recomenda- se que possam acomodar no mínimo 15 pessoas e possuam mobiliário de fácil deslocamento, com o intuito de organizar o local para o desenvolvimento de atividades com pequenos grupos ou gru- pos mais numerosos. A flexibilidade do mobiliário colabora para viabilizar um espaço mais ade- quado à realização das atividades que, dependendo da técnica de trabalho, podeexigir arranjos distintos no ambiente, seja para aproximar os componentes do grupo, seja para garantir maior cir- culação dos participantes, dentre outras situações. ✎ Salas específicas para uso da Coordenação, equipe técnica ou administração: Destinada às ati- vidades da coordenação e atividades administrativas pertinentes à equipe. Este é o espaço comum à equipe do CREAS, onde podem ser guardados os arquivos com registros e relatórios de gestão da Unidade e relatórios e prontuários das famílias, observados os devidos cuidados em relação à se- gurança e sigilo das informações e o manuseio apenas por pessoas autorizadas da equipe. Para a maior segurança, recomenda-se que os arquivos disponham de chaves. Essa sala deve comportar os equipamentos e mobiliários necessários (mesas, cadeiras, computador). Este espaço pode ser utilizado, ainda, para a elaboração de relatórios, reuniões de equipe, estudos etc. ✎ Banheiros: O CREAS deve possuir no mínimo 2 (dois) banheiros coletivos, feminino e masculino, assegurando-se banheiros com acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, em quanti- dade compatível com a demanda de usuários e o número de trabalhadores. ✎ Copa ou Cozinha: Importante espaço de apoio à equipe que também pode ser utilizado para preparo de café e, quando couber, para a preparação de lanches destinados aos usuários, quando no decorrer do desenvolvimento de atividades em grupo. 68 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Espaço Externo: São ambientes de convívio para utilização no desenvolvimento de atividades coletivas, incluindo as atividades abertas à comunidade. O mobiliário também deve ser móvel para adequá-lo de acordo com a atividade realizada e com o número de pessoas participantes. ✎ Almoxarifado ou similar: Espaço para a guarda de materiais de expediente, de higiene e limpeza, materiais socioeducativos a serem utilizados nas atividades desenvolvidas com as famílias e indiví- duos nos atendimentos, dentre outros. Na ausência deste espaço, estes materiais podem ser aco- modados em armários nas salas de atendimento ou até mesmo na sala administrativa, quando a utilização desses espaços for considerada adequada. Em caso de compartilhamento deste espaço com outra unidade, recomenda-se que os materiais do CREAS sejam guardados em armários espe- cíficos ou similar com chaves para acesso exclusivo de profissionais do CREAS. Os espaços sugeridos não devem limitar ou esgotar as possibilidades de organização da estrutura física do CREAS. É possível agregar outros espaços para qualificar o funcionamento dessa Unidade. De todo modo, é fundamental que a privacidade de alguns de seus ambientes seja assegurada, tendo em vista a realização dos atendimentos e outras atividades que exijam sigilo. IDENTIFICAÇÃO Independente da(s) fonte(s) de financiamento é fundamental que todos os CREAS tenham afixado placa de identificação em local visível, de modo a dar visibilidade a Unidade e garantir seu fácil reco- nhecimento e identificação pelos usuários, pela rede e pela comunidade, em todo o território nacional. Quando no município ou DF houver mais de um CREAS, para cada Unidade poderá ser acrescido um nome fantasia para melhor identificação e localização pelos usuários. O nome fantasia pode fazer re- ferência ao bairro ou território onde esteja implantado. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 69 www.servicosocialparaconcursos.net Este módulo tem como objetivo abordar aspectos mais particularmente relacionados à competência do CREAS de gestão dos processos de trabalho na Unidade, incluindo, dentre outros aspectos, a coor- denação dos recursos humanos e do trabalho em equipe interdisciplinar, o registro de informações, o trabalho social para a execução dos serviços e o relacionamento com a rede de atendimento. Nessadireção, destacam-se, ainda, diversos aspectos que têm implicações na gestão dos processos de tra- balho, como o planejamento, o monitoramento e a avaliação do trabalho desenvolvido no CREAS. ▪▪▪ PLANEJAMENTO DO TRABALHO NO CREAS Falar de gestão dos processos de trabalho requer, necessariamente, que se aborde o planejamento do trabalho no CREAS. A partir de dados e informações do monitoramento e da avaliação, que apon- tem ações necessárias para o aprimoramento, o planejamento deve explicitar a proposta da Unidade e dos Serviços ofertados, considerando, objetivos e metas a atingir em um determinado período de tempo, bem como os meios e recursos necessários para seu alcance. Essa reflexão ajuda a equipe a: ➪ Compreender a complexidade das situações atendidas; ➪ Discutir os referenciais teórico-metodológicos e as estratégias de intervenção adotadas; ➪ Discutir as técnicas e os instrumentos utilizados; e ➪ Discutir a necessidade de aprimoramentos e mudanças. Consequentemente, o planejamento sistemático permitirá à equipe “a crítica dos processos e dos efeitos da ação planejada, com vistas ao embasamento do planejamento de ações posteriores” (BAP- TISTA, 2000, p.15). Em outro nível, o planejamento coordenado pelo órgão gestor visa à organização do CREAS e dos serviços na rede socioassistencial, de modo a assegurar observância e alinhamento com as diretrizes, objetivos e metas do SUAS. É fundamental que o planejamento do CREAS esteja alinhado ao planejamento do órgão gestor e que ambos estejam direcionados ao crescente aprimoramento da gestão e qualificação da oferta dos ser- viços. Frente ao exposto, o planejamento deve ser participativo, dinâmico e contínuo, de modo a perpassar todos os processos de trabalho do CREAS e possibilitar mudanças, ajustes e medidas corretivas. Para tanto, recomenda-se que a equipe incorpore no seu cotidiano profissional reuniões para planejar e GESTÃO DOS PROCESSOS DE TRABALHO DO CREAS MÓDULO XCURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 70 www.servicosocialparaconcursos.net acompanhar as atividades, discutir aspectos pertinentes e relevantes da Unidade e dos serviços, vi- sando ao aperfeiçoamento, à qualificação e à revisão das ações desenvolvidas. A equipe do CREAS precisa atentar-se para o cotidiano de trabalho no espaço institucional, não per- mitindo que a rotina impossibilite a revisão das práticas adotadas. Assim, deve prevenir a mecanici- dade e a rotina acrítica do trabalho, para não empobrecer as intervenções realizadas. Para isso, é ne- cessário estabelecer uma agenda institucional de reuniões periódicas com o objetivo de debater, ana- lisar e refletir sobre sua atuação e procedimentos adotados. COORDENAÇÃO DOS RECURSOS HUMANOS E TRABALHO EM EQUIPE INTERDISCIPLINAR NO CREAS Inicialmente, é importante mencionar que o trabalho interdisciplinar, base da atuação do CREAS, requer a adoção de estratégias que possibilitem a participação e o compartilhamento de con- cepções por todos os componentes da equipe. Ao compartilhar diretrizes e princípios, o trabalho in- terdisciplinar não dilui as competências e atribuições de cada profissional. Nesse sentido, é fundamen- tal considerar os distintos olhares e contribuições das diferentes áreas de formação, além da experi- ência profissional de cada integrante e sua função no CREAS. A gestão dos processos de trabalho da equipe técnica abre um campo favorável para a troca de infor- mações, experiências e conhecimentos, fundamental para a qualificação das ações desenvolvidas na Unidade. A troca de conhecimentos entre os profissionais e o estudo intersorial das situações atendidas poten- cializa a capacidade de responder às demandas complexas, observada no cotidiano da Unidade. Dessa forma, o trabalho em equipe interdisciplinar, tendo por base objetivos comuns, poderá integrar os profissionais e contribuir para qualificar e dinamizar as ações e as rotinas de trabalho da Unidade. A atuação em equipe, deve considerar os princípios éticos de cada profissão e o respeito ao sigilo profissional no CREAS. Para tanto, cabe a cada profissional, junto com a Coordenação, quando for o caso, avaliar os aspectos que podem ser compartilhados com a equipe para integrar as ações, de modo a evitar exposições desnecessárias da vida e das situações vivenciadas pelos usuários. Nessa perspec- tiva, ainda, é importante que a coordenação do CREAS, em conjunto com a equipe, avalie e defina as informações que irão compor os relatórios (de acompanhamento familiar, de atividades da Unidade, relatórios para o órgão gestor de Assistência Social, para os órgãos de defesa de direitos, quando for o caso, dentre outros) e, igualmente, a troca de informações de uma forma geral com a rede, obser- vadas as questões relativas à ética profissional. O desenvolvimento do trabalho em equipe interdisciplinar, o efetivo funcionamento da Uni- dade e a operacionalização da execução dos serviços especializados demandarão também a coorde- nação dos recursos humanos. Nessa direção, é importante que os profissionais tenham clareza quanto ao papel e competências do CREAS, bem como dos Serviços ofertados. É igualmente importante que haja compreensão da função e das atribuições dos profissionais da equipe. As rotinas administrativas precisam ser amplamente conhecidas, bem como os procedimentos, instrumentos e sistemática ado- tada para o registro de informações. Finalmente, no que diz respeito à coordenação dos recursos humanos e ao trabalho em equipe inter- disciplinar, é importante que sejam viabilizados momentos de integração e reflexão em equipe que contribuam para o aprimoramento do trabalho desenvolvido. Cabe destacar que a coordenação do CREAS tem papel preponderante no que diz respeito à gestão dos processos de trabalho e coordena- ção da equipe da unidade. 71 www.servicosocialparaconcursos.net Abaixo, apresentam-se algumas atividades que podem ser adotadas no CREAS, visando a melhoria do trabalho em equipe e do desenvolvimento do trabalho social. REUNIÕES EM EQUIPE As reuniões de equipe tem como objetivo debater e solucionar os problemas identificados no trabalho, de natureza técnica-operativa ou de relacionamento interprofissional. Dentre outros aspectos, estes momentos também devem ser utilizados para se avaliar e reavaliar as ações desenvolvidas na Unidade, para planejar e organizar atividades de atendimento, revisar instrumentos de registro utilizados e as sistemáticas de preenchimento, monitorar as ações e os resultados obtidos, reorganizar fluxos inter- nos de trabalho, discutir e definir estratégias de articulação e de trabalho em rede, dentre outros aspectos. Recomenda-se que nessas reuniões sejam elaboradas pautas com os assuntos que serão discutidos, para dar direção e objetividade ao encontro. Também é importante o registro das discussões e dos encaminhamentos tomados em grupo, podendo ser anotados em ata, para que as decisões sejam monitoradas e possam subsidiar o planejamento das próximas reuniões. Finalmente, destaca-se a importância da participação de toda a equipe nas reuniões, com periodici- dade semanal, quinzenal ou mensal. Estas reuniões devem ser institucionalizadas como atividade co- tidiana e periódica no CREAS. 1. Reuniões para estudos de casos Estes momentos tem como objetivo reunir a equipe para estudar, analisar e avaliar as particularidades e especificidades das situações atendidas, de modo a ampliar a compreensão e possibilitar a definição de estratégias e metodologias de atendimento mais adequadas, além de serviços da rede que deverão ser acionados, tendo em vista o aprimoramento do trabalho. Nessas reuniões, busca-se discutir determinados casos e situações em acompanhamento, sendo tam- bém um momento para que a equipe reavalie suas ações, dimensione os resultados do atendimento e redefina estratégias e procedimentos. A periodicidade dos estudos de casos deve ser definida pela dinâmica do trabalho institucional da equipe e complexidadedas situações atendidas. Porém, é importante que sejam agendados previa- mente, para garantir a presença do maior número de membros da equipe da Unidade. Essas reuniões também poderão incluir a participação de outros profissionais da rede que estejam acompanhando o caso. Nessa hipótese, deve-se planejar a atividade de forma mais criteriosa, de modo a evitar exposição desnecessária de informações e dos usuários atendidos. 2. Supervisão e assessoria de profissional externo A supervisão e assessoria de profissional externo permite uma maturação da equipe em relação ao processo de trabalho, bem como pode promover espaço de troca de experiência e aprendizagem que conduza à maior clarificação e transparência das funções e possibilidades de atuação de cada profis- sional. É um momento de reflexão do grupo que pode ser utilizado para o aperfeiçoamento profissio- nal, das metodologias de trabalho e do acompanhamento especializado pela equipe do CREAS. 72 www.servicosocialparaconcursos.net A supervisão e assessoria de profissional externo pode agregar aporte teórico-metodológico, contri- buindo para a ampliação de conhecimentos e reflexão da equipe em relação ao acompanhamento dos casos mais complexos. Deve ser realizada, necessariamente, com a assessoria de profissional especializado na área afeta às demandas da equipe, que não integra a equipe do CREAS. Este profissional pode ser do quadro funci- onal do órgão gestor de Assistência Social ou ser contrata do especificamente com esta finalidade. A supervisão é importante para a qualificação da atenção ofertada, representando possibilidade de aperfeiçoamento metodológico, técnico-operacional e relacional da equipe do CREAS. O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS O desenvolvimento do trabalho social pelos Serviços do CREAS pressupõe escuta qualificada e compreensão da situação vivenciada por cada família/indivíduo, considerando seu contexto de vida familiar, social, histórico, econômico e cultural. A construção de projetos de vida e de novas possibili- dades de relacionamento, com superação das situações adversas vivenciadas; a perspectiva do traba- lho em rede para a atenção integral e o acesso a direitos; o desenvolvimento de potencialidades; e a ressignificação de vivências devem nortear a elaboração do Plano de Acompanhamento Individual e/ou Familiar. A elaboração do Plano de Acompanhamento junto com as famílias e indivíduos é essen- cial para guiar o trabalho social no CREAS, bem como para delinear, junto aos usuários, a construção de novas perspectivas de vida. O desenvolvimento do Plano de Acompanhamento implica na realização de atendimentos continua- dos, que podem ser realizados em formatos diversos (individual, familiar, em grupo, com grupos de famílias) considerando as situações vivenciadas e as singularidades de cada família/indivíduo em acompanhamento, além de ações que oportunizem o fortalecimento da autonomia e o acesso a direi- tos. Implica, portanto, na realização de encaminhamentos e na articulação de processos de trabalho em rede para a atenção integral das famílias/indivíduos. Frente a essas considerações, do ponto de vista metodológico faz-se importante compreender o tra- balho social no CREAS a partir de três principais dimensões: Acolhida, Acompanhamento Especializado e Articulação em Rede. Atuando de forma complementar, estas três dimensões devem organizar e orientar o trabalho social especializado desenvolvido no âmbito dos Serviços do CREAS. 1. Acolhida Como importante dimensão inerente ao trabalho social nos Serviços do CREAS, a acolhida deve ser compreendida sob duas perspectivas: a acolhida inicial das famílias/indivíduos e a postura acolhedora necessária ao longo de todo o período de acompanhamento. A acolhida inicial tem como objetivo identificar as necessidades apresentadas pelas famílias e indiví- duos, avaliar se realmente constitui situação a ser atendida nos Serviços do CREAS e identificar de- mandas imediatas de encaminhamentos. Esse momento irá nortear as primeiras ações do profissional, bem como contribuirá para o início da construção de vínculo de referência e de confiança, lançando as bases para a construção conjunta do Plano de Acompanhamento. Poderá ser realizada por meio de diversas metodologias e se utilizar de diferentes técnicas. Como tem a finalidade de favorecer a aproximação dos usuários com o Serviço, possibilitar o início do estudo de cada situação e lançar as bases para a elaboração do Plano de Acompanhamento, os procedimentos para a acolhida inicial poderão demandar mais de um encontro com a família/indivíduo. 73 www.servicosocialparaconcursos.net A postura acolhedora, de respeito à dignidade e não discriminação deve permear todo o trabalho social desenvolvido no CREAS, desde os momentos iniciais até o desligamento das famílias e indiví- duos. Assim, é importante compreender que a acolhida se materializa também por meio da organiza- ção de um ambiente receptivo que expresse respeito e atitude ética dos profissionais. Nesse sentido, a equipe precisa estar preparada para acolher os usuários considerando a complexidade de cada situ- ação, suas singularidades e demandas. 2. Acompanhamento Especializado Compreende atendimentos continuados e uma gama de possibilidades para seu desenvolvimento, segundo as demandas e especificidades de cada situação (atendimentos individuais, familiares e em grupo; orientação jurídico-social; visitas domiciliares, etc.). Proporciona espaço de escuta qualificada e reflexão, além de suporte social, emocional e jurídico-social às famílias e aos indivíduos acompa- nhados, visando ao empoderamento, enfrentamento e construção de novas possibilidades de intera- ção familiares e com o contexto social. Tem como ponto de partida a elaboração do Plano de Acom- panhamento. Construído de forma conjunta com cada família/indivíduo, o Plano de Acompanhamento deve delinear estratégias que serão adotadas no decorrer do acompanhamento especializados, bem como os com- promissos de cada parte, em conformidade com as especificidades das situações atendidas. A periodicidade dos atendimentos e a duração do acompanhamento especializado serão avaliadas pela equipe técnica do CREAS, considerando as demandas observadas e acordos firmados com os usu- ários. 3. Articulação em rede Identificadas as demandas cujo atendimento ultrapassem as competências do CREAS, as famílias e indivíduos devem ser encaminhados para acessar serviços, programas e benefícios da rede socioassis- tencial, das demais políticas públicas e órgãos de defesa de direitos. Estes encaminhamentos devem ser monitorados, no sentido de verificar seus desdobramentos, e discutidos com outros profissionais da rede que também atendam a família ou indivíduo. Para facilitar a intersetorialidade, necessária à efetivação do trabalho social no CREAS, é importante que a equipe conheça efetivamente a rede existente no seu território de atuação, incluindo, por exem- plo, visitas para conhecer o funcionamento dos serviços e Unidades que a compõem, objetivos, pú- blico atendido, atividades desenvolvidas, horários de funcionamento, equipes profissionais, dentre outras informações que permitam estabelecer e fortalecer o desenvolvimento de ações articuladas e complementares. Para qualificar a atenção às famílias, a articulação em rede pode comportar, ainda, o planejamento e desenvolvimento de atividades em parceria, além de estudos de casos conjuntos, dentre outras estra- tégias. Nessa direção, destacam-se, inclusive, as ações de intervenção no território, voltadas à preven- ção e ao enfrentamento de situações de risco pessoal e social, por violação de direitos. Estas podem se materializar, por exemplo, na forma de campanhas organizadas pelos órgãos gestores das diferen- tes áreas, envolvendo os órgãos de defesa de direitos. Devem considerar os temas relevantes, de acordo com as situações presentes nos territórios, e se utilizar delinguagem, instrumentos e meto- dologias adequadas para abordar cada temática. Estas ações poderão incluir a participação dos profissionais do CREAS em atividades diversas (eventos, encontros, palestras, exposições de vídeos, debates, entre outras estratégias que envolvam a rede, a 74 www.servicosocialparaconcursos.net comunidade e/ou grupos). A participação da equipe do CREAS nas atividades direcionadas ao atendi- mento deste objetivo podem ser realizadas tanto na própria Unidade, quanto em outros espaços da comunidade, como escolas, centros comunitários, associações, espaços culturais, dentre outros. Frente à complexidade das situações vivenciadas pelas famílias e indivíduos atendidos, a articulação em rede é vital para o sucesso das ações desenvolvidas no trabalho social no CREAS. É particularmente importante a articulação do CREAS com: ➪ CRAS; ➪ Gestão do Cadastro Único para Programas Sociais e dos Programas de Transferência de Renda e Benefícios (PETI, Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada BPC); ➪ Serviços de Saúde, em especial a Saúde Mental; ➪ Órgãos de Defesa de Direitos (Conselho Tutelar, Ministério Público, Poder Judiciário, Defensoria Pública, Delegacias Especializadas); ➪ Rede de Educação; ➪ Serviços de Acolhimento; ➪ Trabalho e geração de renda. A articulação do CREAS com outros atores da rede, para além dos elencados acima, pode qualificar ainda mais o atendimento ofertado (serviços das demais políticas públicas; Instituições de Ensino Su- perior; entidades que atuem na defesa de direitos; movimentos sociais, etc.). Na articulação com a rede é importante fortalecer a identidade do CREAS, clarificando papéis e deli- mitando competências, de modo a assegurar o desenvolvimento de ações complementares e sinérgi- cas. A clarificação do papel e das competências do CREAS na rede é fundamental para se prevenir que os serviços ofertados sejam chamados a assumir funções para além daquelas que lhe concernem. O órgão gestor de assistência social tem papel preponderante na interlocução com outras políticas e órgãos de defesa de direitos e na institucionalização da articulação do CREAS com a rede, inclusive, por meio da construção e pactuação de fluxos de articulação e protocolos intersetoriais de atendi- mento. ➪ Articulação no âmbito do SUAS O CREAS deve trabalhar de forma articulada com a rede socioassistencial, de modo a viabilizar o acesso dos usuários a outros serviços, programas, projetos e benefícios do SUAS. Para tanto, devem ser esta- belecidos processos de trabalho articulados com a rede socioassistencial no seu território de abran- gência, incluindo parcerias de trabalho, definição de formas de encaminhamentos, fluxos, troca de informação e pactuação de protocolos de atendimento. A articulação na rede socioassistencial se traduz por meio de conexões entre as Unidades do SUAS para que, de forma complementar e continuada, possam atender às demandas dos indivíduos e famí- lias. Nesse sentido, recomenda-se a definição de fluxos para o relacionamento entre essas Unidades, com vistas ao atendimento integrado, evitando a fragmentação e/ou a sobreposição das ações. A adoção de fluxos deve subsidiar a prática cotidiana de encaminhamentos e relacionamento entre as Unidades do SUAS no acompanhamento a famílias e indivíduos. Para potencializar esta articulação 75 www.servicosocialparaconcursos.net podem ser utilizadas diversas estratégias, a exemplo de reuniões entre as instituições da rede, capa- citações comuns e realização de eventos para a integração entre as equipes. É importante que o CREAS articule-se com o CRAS, o Centro de Referência Especializado para Popula- ção em Situação de Rua (Centro POP), onde houver, e os demais serviços que integram a PSE de Alta Complexidade, preferencialmente por meio de fluxos e procedimentos para encaminhamentos, pre- viamente definidos, de acordo com as particularidades e necessidades de cada caso. Na mesma direção, é fundamental que o CREAS mantenha estreita articulação com a coordenação ou pessoa responsável pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), tendo em vista a orga- nização de fluxos e procedimentos para o acompanhamento especializado às famílias com crianças e adolescentes identificadas em situação de trabalho, conforme previsto nas normativas do Pro- grama. Esta articulação, também, é fundamental para garantir a inserção no PETI das crianças e ado- lescentes identificadas em situação de trabalho pelo Serviço Especializado em Abordagem Social, quando este for ofertado pelo CREAS. Destaca-se que a identificação da situação de trabalho infantil será seguida da inclusão da família no acompanhamento pelo PAEFI, dentre outras ações necessárias. Em relação aos Serviços de Acolhimento, o CREAS tem papel fundamental no acompanhamento dos casos que envolvam situações de violência, tendo em vista o fortalecimento da função protetiva das famílias, na perspectiva da garantia do direito à convivência familiar e comunitária. Em função disso, a relação do CREAS com esses Serviços requer fluxos e procedimentos descritos e institucionalizados em âmbito local, com a definição das competências e responsabilidades de cada um. Quando da rein- serção familiar, é importante prever a possibilidade da continuidade do acompanhamento no CREAS, de modo a evitar novo afastamento do convívio familiar e, por conseguinte, o retorno ao Serviço de Acolhimento. O órgão gestor de Assistência Social tem papel relevante de coordenador do processo de articulação entre as unidades da rede socioassistencial do território de abrangência do CREAS, incluindo tanto as de natureza pública estatal quanto aquelas de natureza pública não estatal. ➪ Articulação para a integração entre serviços, benefícios e transferência de renda no âmbito do SUAS A expansão de benefícios e programas de transferência de renda no Brasil nos últimos anos represen- tou um importante avanço no que diz respeito à garantia do direito à renda. No entanto, a realidade cada vez mais mostra que os riscos e vulnerabilidades sociais que atingem famílias e indivíduos ex- põem desafios e demandas multifacetadas que extrapolam a dimensão da renda, demonstrando que, para respostas efetivas, é necessária a oferta da renda, simultânea e articuladamente, à oferta de serviços socioassistenciais. Nessa perspectiva, o trabalho social desenvolvido no CREAS precisa fundamentar-se no que dispõe o Protocolo de Gestão Integrada de Serviços, Benefícios e Transferência de Renda no âmbito do SUAS, de modo a garantir o acompanhamento prioritário às famílias com membros beneficiários do BPC, famílias inseridas no Programa Bolsa Família (PBF) e no PETI, quando expostas a situações de risco pessoal e social, por violação de direitos. Além de seguir as orientações dispostas no Protocolo quanto ao acompanhamento das famílias já be- neficiárias dos programas de transferência de renda e benefícios socioassistenciais, os profissionais do CREAS deverão promover condições para o acesso das famílias acompanhadas que ainda não são be- neficiárias e que apresentem o perfil necessário. 76 www.servicosocialparaconcursos.net Frente a isto, destaca-se que devem ser efetivados os devidos encaminhamentos para inclusão no Cadastro Único para Programas Sociais, bem como para o acesso ao BPC, quando contemplado o per- fil, sem prejuízo do acesso a outros benefícios socioassistenciais e programas de transferência de renda que possam ser viabilizados na realidade local, considerando demandas identificadas. ➪ Articulação Intersetorial com a rede das demais políticas públicas A intersetorialidade pressupõe uma forma de gestão das políticas públicas que visa superar a fragmen- tação dos conhecimentos e das estruturas sociais para produzir efeitos mais significativos na vida da população. Representa a articulação de poderes, setores e saberes para enfrentar e responder, de formar integrada e com objetivos comuns, as questõessociais, considerando suas complexidades e expressões nos diferentes territórios. O processo de construção da intersetorialidade exige um contínuo diálogo entre as diferentes áreas e pactuações de caráter coletivo, que devem considerar a diversidade, as particularidades, os limites e as especificidades de cada área, visando estabelecer nexos de interdependência e complementari- dade. Para tanto, é necessário criar espaços de comunicação, negociação, mediação e estratégias, no sentido de estabelecer convergência nas ações e nos resultados esperados. A articulação intersetorial não está unicamente sob a governabilidade do CREAS e do órgão gestor da política de Assistência Social, depende, sobretudo, de um investimento político das diferentes áreas e das três esferas de Governo. É importante destacar que o Poder Executivo Municipal, Estadual e do DF tem o papel de articulador político entre as diversas áreas, com o objetivo de mobilizar, articular e criar as condições favoráveis para efetivar as ações intersetoriais. Além disso, tem o papel de mobili- zar os órgãos de defesa de direitos para a construção conjunta de fluxos que possam contribuir para a qualificação da oferta da atenção pelo CREAS. Nessa direção, ao identificar a rede de serviços no seu território de abrangência e as possibilidades e necessidades do trabalho intersetorial para atender as famílias e indivíduos, a equipe do CREAS, em conjunto com a equipe do órgão gestor de Assistência Social, precisa discutir possibilidades de insti- tucionalização de fluxos com as diversas áreas. Ao órgão gestor cabe buscar o diálogo no âmbito da gestão das demais políticas para estabelecer pactuações, fluxos e procedimentos institucionalizados que qualifiquem a relação do CREAS no acompanhamento das situações vivenciadas pelas famílias e indivíduos, como, por exemplo, questões relacionadas à saúde mental, uso de crack e outras drogas; violência, dentre outras. É importante ressaltar que os serviços especializados ofertados pelos CREAS somamse às ações das demais políticas públicas (saúde, educação, trabalho e outras), na perspectiva de ampliar a capacidade das famílias e individuos no enfrentamento e superação das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, não se sobrepondo ou confundindo-se com os serviços de competência das ou- tras políticas. Quando, por exemplo, o Serviço Especializado em Abordagem Social, ofertado no CREAS, identificar pessoas com necessidades relacionadas às áreas de saúde, educação, habitação, prepara- ção e acesso ao trabalho, faz-se necessário promover articulações no âmbito dessas políticas para garantir o atendimento dessas demandas. Para fortalecer a articulação intersetorial, sugere-se que, em âmbito local, sejam realizadas, perma- nentemente, reuniões com a rede para a revisão e o aperfeiçoamento dos fluxos definidos. 77 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ Articulação com os órgãos de defesa de direitos Os órgãos de defesa de direitos têm papel importante na garantia do acesso à justiça e a mecanismos jurídicos de proteção legal de direitos, tendo em vista assegurar a sua defesa e exigibilidade, bem como tomar as medidas relativas à responsabilização quando da violação de direitos. Em função das especificidades das suas competências, tem papel importante na rede de atendimento a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. Conforme já abordado, cabe ao órgão gestor de Assistência Social coordenar a definição do processo de articulação do CREAS com os órgãos de defesa de direitos, visando estabelecer um canal de comu- nicação claro e objetivo, onde sejam clarificadas as competências da Unidade, para evitar solicitações e demandas de trabalho que não são compatíveis com as suas atribuições. No processo de articulação, a construção de fluxos locais entre o CREAS e os órgãos de defesa de direito são importantes para definir os acessos e os encaminhamentos a serem adotados por ambos. Um importante papel do CREAS é informar as famílias e aos indivíduos em situação de violação de direitos, quais órgãos podem ser acessados a partir das especificidades de suas demandas, assim como promover os encaminhamentos necessários. Para tanto, a equipe do CREAS precisa conhecer a locali- zação desses órgãos, suas competências, procedimentos e rotinas de acesso. Destacamos abaixo, alguns órgãos de defesa de direitos que, em razão de sua finalidade e competên- cia, compõem a rede de articulação do CREAS: ▪ Poder Judiciário; ▪ Ministério Público; ▪ Defensoria Pública; ▪ Conselho Tutelar; ▪ Delegacias/Delegacias Especializadas; ▪ Serviços de assessoramento jurídico e assistência judiciária; ▪ ONGs que atuam com defesa de direitos, a exemplo dos Centros de Defesa. REGISTRO DA INFORMAÇÃO O registro de informação constitui procedimento a ser adotado pelo CREAS para gerar conhecimento e instrumentalizar a gestão, o monitoramento e a avaliação. No que diz respeito, particularmente, aos registros de acompanhamento familiar, é imprescindível manter registros de frequência, permanên- cia, desligamento e atividades desenvolvidas. Os registros devem ser realizados por meio de instrumentais que permitam armazenar um conjunto de informações pertinentes ao trabalho social desenvolvido, tais como: ações realizadas, situações atendidas, instrumentos, métodos e procedimentos adotados, encaminhamentos realizados e resul- tados atingidos. Algumas das informações ficarão restritas à Unidade, como os registros sobre o acompanhamento familiar em prontuários, enquanto outros dados e informações importantes para o monitoramento e/ou avaliação das ações realizadas, precisam ser compartilhados com o órgão gestor que, por sua 78 www.servicosocialparaconcursos.net vez, deverá agregá-los e sistematizá-los. Para viabilizar esta sistematização, as informações proveni- entes das ações e serviços ofertados pelo CREAS, bem como pelas unidades específicas referenciadas, devem ser consolidadas e enviadas periodicamente ao órgão gestor. Recomenda-se, quando possível, que os registros e os fluxos de informação sejam organizados de forma padronizada e informatizada, com o intuito de agilizar e otimizar o processo de gestão, monito- ramento e avaliação. O registro e acesso a informações deve observar a questão ética, a necessidade de segurança e sigilo de determinadas informações, além das recomendações dos conselhos de cate- goria profissional, sempre que couber. 1. Informações sobre o acompanhamento das famílias e indivíduos As informações sobre o acompanhamento das famílias e indivíduos no CREAS contribui para a organi- zação e sistematização das informações de cada situação acompanhada, devendo ser registradas em instrumentais adequados a este fim. Sua utilização deve ser restrita à equipe do CREAS que deverá atentar-se ao sigilo e privacidade necessários, de acordo com o código de ética dos profissionais im- plicados no acompanhamento. Para o registro de informações sobre o acompanhamento, pode-se adotar diferentes instrumentais, dentre os quais: ➪ Prontuários: Para registro de informações sobre o trabalho social desenvolvido no CREAS, reco- menda-se a adoção de prontuário, preferencialmente padronizado. Podem ser registrados: ▪ os dados socioeconômicos e o histórico das famílias; ▪ os eventos decorrentes dos riscos pessoais e sociais, por violação de direitos; ▪ o acesso a programas, benefícios e serviços; ▪ as informações sobre a evolução do acompanhamento familiar; ▪ os encaminhamentos realizados e aspectos do acompanhamento dos encaminhamentos; ▪ o desligamento das famílias/indivíduos. As informações registradas no prontuário podem ser coletadas nas visitas domiciliares, nos atendi- mentos individuais, familiares e em grupo realizados; nas discussões de caso; dentre outros momen- tos. ➪ Plano de Acompanhamento Individual e/ou Familiar: No âmbito dos serviços ofertados noCREAS é necessário, ainda, que, para cada família/ indivíduo, seja traçado o Plano de Acompanhamento. Nesse instrumento, faz-se necessário o apontamento de objetivos, estratégias e recursos que possam con- tribuir para o trabalho social, considerando as particularidades e o protagonismo de cada família e indivíduo. Construído gradualmente e de forma participativa ao longo da vinculação e acompanha- mento, deve ser continuamente revisto pela equipe. O Plano tem a função de, instrumentalmente, organizar a atuação interdisciplinar no CREAS, delineando, operacional e metodologicamente, o cami- nho a ser seguido por todos os profissionais, possibilitando o monitoramento e a avaliação dos resul- tados alcançados com os usuários. Portanto, é fundamental garantir a sua dinamicidade, reformula- ções e aprimoramento, baseados nas intervenções realizadas, nos resultados alcançados e no pro- cesso vivenciado por cada indivíduo ou família. 79 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ Relatórios: Para além dos prontuários e do Plano de Acompanhamento, a elaboração de relató- rios é realizado pela equipe do CREAS, sempre que necessário. Os relatórios podem dispor de infor- mações sobre as ações desenvolvidas e os progressos em relação às famílias e aos indivíduos acom- panhados. Quando couber, poderá também dispor de outras informações, observada a pertinência, relevância e benefício para os usuários. Os relatórios sobre o acompanhamento, todavia, não devem se confundir com a elaboração de “laudos periciais”, que constituem atribuição das equipes interpro- fissionais dos órgãos de defesa e responsabilização. Cabe ao CREAS, tão somente e quando necessário e/ou solicitado por estes órgãos, o encaminhamento de relatórios com informações gerais sobre os atendimentos realizados, resguardando-se o que dispõe o código de ética e as orientações dos res- pectivos conselhos de categoria profissional, bem como observando a função de proteção social da Assistência Social. Conforme dispõe o Protocolo de Gestão Integrada de Serviços, Benefícios e Transferência de Renda no âmbito do SUAS (2009), o acompanhamento prioritário às famílias em descumprimento de condi- cionalidades deve ser realizado pelo CREAS, quando verificada situações de risco pessoal e social, e de violação de direitos. Nesses casos, é importante que os registros decorrentes deste acompanhamento sejam lançados no Sistema de Gestão e Condicionalidades do Programa Bolsa Família (SICON), ferra- menta eletrônica disponibilizada pelo MDS. O acompanhamento das famílias em descumprimento de condicionalidades pelo CREAS e o registro no SICON orientam-se pelos parâmetros estabelecidos no mencionado Protocolo. INFORMAÇÕES PARA MONITORAR E AVALIAR SERVIÇOS O registro das informações realizado no CREAS constitui importante meio para conhecer e ana- lisar os riscos sociais e pessoais, por violação de direitos, existentes no território. Nessa perspectiva, a disponibilização de algumas destas informações ao órgão gestor de Assistência Social torna-se funda- mental para o planejamento, o monitoramento e a avaliação de ações, sobretudo, para subsidiar a área de vigilância socioassistencial que retroalimentará o CREAS com o conhecimento produzido em seu âmbito. De modo a instrumentalizar e contribuir com o órgão gestor, um conjunto de informações devem ser encaminhadas pelo CREAS com organização e periodicidade definidas, tais como: número de famílias e indivíduos em acompanhamento e caracterização das situações acompanhadas; número de encami- nhamentos realizados; número de novos acompanhamentos e desligamentos; demandas reprimidas; rede existente e necessária; principais dificuldades; dentre outras. Para a disponibilização de informações ao órgão gestor, é importante observar orientações de norma- tivas de âmbito nacional em vigor como, por exemplo, a Resolução CIT Nº 4, de 24 de maio de 2011, que institui parâmetros nacionais para o registro das informações relativas aos serviços ofertados nos CRAS e CREAS. As informações encaminhadas pelo CREAS ao órgão gestor, além de essenciais para o monitoramento e avaliação das ações em âmbito local, são imprescindíveis para alimentação e preenchimento de sis- temas de âmbito municipal, estadual e nacional. Como exemplo, pode-se mencionar: os sistemas da Rede SUAS e o formulário eletrônico específico sobre os CREAS, disponibilizado anualmente pelo MDS em razão do Censo SUAS/ CREAS8, instrumento de monitoramento nacional. 80 www.servicosocialparaconcursos.net Recomenda-se, nesse sentido, que as informações a serem encaminhadas ao órgão gestor, tais como aquelas necessárias ao preenchimento dos sistemas existentes, sejam mensalmente organizadas, o que implica na necessidade de definir instrumentos próprios e profissional (is) responsável (is) por fazer a sistematização. ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 81 www.servicosocialparaconcursos.net Ao considerar os princípios e diretrizes que marcam a Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS, o Sistema Único da Assistência Social – SUAS, a Política Nacional de Assistência Social – PNAS e a Norma Operacional Básica – NOB/SUAS para a construção deste Protocolo, destacam-se a matricialidade so- ciofamiliar e a territorialidade. Entretanto, para a gestão do CREAS, enfatiza-se ainda a atuação em rede e as ações de prevenção terciária. MATRICIALIDADE SOCIOFAMILIAR Enfocar a família como elemento fundamental e estruturante das políticas públicas é um avanço que precisa ser concretizado na operacionalização do atendimento no Centro de Referência Especializado de Assistência Social. Conforme previsto na PNAS, as intervenções dos CREAS devem ter seu foco na família, incluindo nos atendimentos o maior número possível de seus membros. É necessário compreender que as políticas focalizadas no indivíduo, nem sempre são capazes de construir resultados positivos e qualitativos de enfrentamento das situações de violência e risco social. Não é somente o indivíduo que passa pela situação de risco social que necessita de apoio e assistência, mas também toda sua família. Cabe salientar que embora a metodologia proposta tenha como fundamento a matricialidade socio- familiar, deve-se considerar que os CREAS possuem como clientela típica, grupos de pessoas que resi- dem em conjunto e muitas vezes possuem laços de consanguinidade, mas que nunca exercem as fun- ções básicas do que se denomina família. Esses grupos familiares vivenciam, na maioria das vezes, múltiplas violações de direitos, por toda sua existência, o que certamente compromete a construção do papel protetivo e de promoção de seus membros. Além disso,a análise técnica especializada, prin- cipalmente no campo social e psicológico, demonstra possibilidades quase inexistentes de que os su- jeitos desses grupos venham a desempenhar tais atribuições, mesmo que a médio e longo prazo. Essa conjuntura deve ser considerada, pois tais grupos serão atendidos pela assistência social por longos períodos. O trabalho com as famílias deve pautar-se em abordagem psicossocial. O campo de atuação dos pro- fissionais dos CREAS é o conjunto das relações familiares, sendo o foco do trabalho a superação da violação de direitos decorrente de situações de violência doméstica/intrafamiliar, com fortalecimento de vínculos e a mudança dos fatores que contribuem para as situações de crise. Além da atuação com foco na família e no fortalecimento de vínculos deste grupo, é imprescindível o fortalecimento de vínculos comunitários. Consiste no desenvolvimento de ações que priorize as rela- ções comunitárias de troca e de solidariedade, fortalecendo os vínculos entre as diversas famílias do território. Esta ação pode ser construída em articulação com o Centro de Referência de Assistência Social - CRAS. DIRETRIZES DE GESTÃO DO CREAS MÓDULO XICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 82 www.servicosocialparaconcursos.net O CREAS precisa ser visto como um espaço onde, por meio de trabalho conjunto (profissional, família e comunidade) oportuniza-se que o núcleo familiar desenvolva o controle de sua própria situação, criando condições de pensar em ações e estratégicas que propiciarão a proteção de seus membros. Desta forma, a família é visualizada como detentora de saberes, informações e capacidades que estão envoltas pela crise vivenciada, que a coloca em situação de risco naquele momento. Esta matéria consta do volume II deste Protocolo de Gestão do CREAS - Metodologia para o Trabalho com Famílias e Indivíduos. TERRITORIALIDADE O território é definido como base de organização, que estabelece hierarquia e complexidade. O território de abrangência do CREAS é constituído pela delimitação territorial de cada uma das regi- ões administrativas do Município, tendo equipes de referência para microterritórios. A formação das equipes mínimas de referência para os microterritórios leva em consideração à área de abrangência, o total da população, a demanda de atendimento para a Proteção Social Especial e a complexidade de casos para atendimento. A atuação do CREAS, por meio de equipes de referência para o território, viabiliza o vínculo dos pro- fissionais com as famílias e a compreensão da dinâmica local, facilitando a referência e contrarrefe- rência com o CRAS e o atendimento concomitante das duas Proteções quando assim a situação de- mandar. ARTICULAÇÃO DA REDE E ATUAÇÃO INTERSETORIAL A trajetória das políticas públicas parte de ações setorizadas, paralelas e divergentes em direção a atuação em rede, exigindo dos profissionais uma abertura consciente e diferenciada no agir. Segundo Bourguignon, o “...termo rede sugere a ideia de articulação, conexão, vínculos, ações complementa- res, relações horizontais entre parceiros, interdependência de serviços para garantir a integralidade da atenção aos segmentos sociais vulnerabilizados ou em situação de risco social e pessoal.” Rede pode ser definida como uma teia de vínculos, relações e ações entre indivíduos e organizações e se constitui como um somatório de ações simultâneas e diferenciadas, nas quais em geral muitos participam, empreende, colaboram e exercem sua cidadania. A ação em rede desconstrói aquele paradigma da ação assistencialista, focalizada e restrita de algumas instituições ou organizações não governamentais. Então a partir da rede cada instituição é convidada a colocar a sua cor, o seu sabor e o seu sal. E para construir algo mais saboroso, mais consistente. E não é só alguém que chega para dar alguma coisa à rede, não é alguém que chega só para levar alguma coisa da rede. Mas alguém que chega dentro dessa rede para compartilhar desafios, utopias, projetos, ações e celebrações. Normalmente, as redes sociais são constituídas por temáticas e por territorialidades. As práticas das redes temáticas são fundamentadas tendo como foco questões específicas, que justificam sua estru- turação e em torno da quais participam os agentes envolvidos. As intervenções das redes territoriais são formadas em um determinado território, isto é, contexto, de confluência dos agentes e parceiros. 83 www.servicosocialparaconcursos.net Segundo Maria do Carmo Brant de Carvalho, trabalhar em rede exige novas habilidades e competên- cias dos profissionais: comunicativa, relacional e articuladora, assentadas em um olhar multidimensi- onal, multisetorial e transdisciplinar. A autora esclarece que esta postura implica em “parar de olhar curto”, isto é, que ao olhar do assistente social, do psicólogo, do advogado, dentre outros profissionais, seja acrescido o olhar do cidadão. Para que a atuação em rede seja eficaz no sentido de superar a fragmentação das ações, possibilitando uma abordagem integral da situação, os atores sociais envolvidos devem ter compromisso, comple- mentaridade, corresponsabilidade, estratégias bem concretas e um plano comum, com objetivos e re- sultados a serem alcançados. Segundo Selma Marques Magalhães, a “...incompletude é uma característica inerente a qualquer ins- tituição. Portanto, é de fundamental importância a interlocução entre os profissionais que atuam nos diferentes espaços institucionais, não só para conhecerem melhor o trabalho que cada um desen- volve, como também para avaliar dificuldades e limitações de cada contexto de trabalho”. Em se tra- tando do atendimento a indivíduos e famílias que vivenciam situações de violência, a atuação em rede propicia que os diversos atores envolvidos, entre eles os próprios indivíduos e famílias além dos pro- fissionais, possam agir no processo de enfrentamento da questão, identificando e reconhecendo a existência da violência, procedendo a notificação e realizando o acompanhamento de toda família com o amparo legal. Assim, uma das atribuições do CREAS, junto às famílias e indivíduos com direitos violados em decor- rência de situações de violência, é a intervenção articulada em rede, principalmente no que se refere ao Sistema de Garantia de Direitos, visando “...ao combate à violência, à melhoria na qualidade do atendimento e ao desenvolvimento de estratégias de prevenção.” Esta questão é referendada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, afirmando que em virtude da complexidade das situações atendidas, a articulação com os demais serviços da rede socioassistencial, das demais políticas públicas e do SGD constitui um dos pilares fundamentais sobre os quais deve se fundamentar o atendimento no CREAS. Para tanto, é fundamental mapear a rede de serviços e definir fluxos de referência e contrarreferência. No que diz respeito ao Sistema de Garantia de Direitos, é de primordial importância que a articulação aconteça nos diferentes níveis de gestão, com a definição de fluxos que facilitem os acessos e os en- caminhamentos e evitem demandas de trabalho inadequadas ou incompatíveis com as atribuições e princípios do CREAS. Em se tratando de trabalho em rede, cumpre ressaltar não apenas a intervenção do CREAS, mas tam- bém do CRAS. Este último, enquanto unidade pública de proteção social básica, em sua área de abran- gência, atua identificando indivíduos e famílias em situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social, sendo a “porta de entrada” para o acesso dos usuários à rede socioassistencial. Muitas vezes, para o atendimento integral da família, de forma efetiva, é necessário o atendimento compartilhado e con- comitante nos dois níveis de proteção social, básica e especial, ou seja, CRAS e CREAS. Além da importante relação intrínseca e sistemática entre CRAS e CREAS, ressalta-se a relevância que as políticas de assistência social articuladas permanentemente às outras políticas,assim como saúde, educação, habitação entre outras, evitando-se abordagens dicotomizadas de situações que são ver- dadeiramente transdisciplinares. 84 www.servicosocialparaconcursos.net AÇÕES DE PREVENÇÃO TERCIÁRIA Falar de ações em rede perpassa pelas diversas possibilidades de atuação dos serviços e políticas pú- blicas buscando potencializar esforços e garantir resultados no que se refere à prevenção a violência. As ações de prevenção da violência são categorizadas em três níveis, conforme Azevedo e Guerra (1995) in Ferrari (2002): ➪ Prevenção primária – dirigida a toda população – por meio do desenvolvimento de estratégias, programas e campanhas „para reduzir a incidência ou o índice de ocorrência de novos casos‟. ➪ Prevenção secundária – quando se identifica da população de risco, a necessidade de interven- ções específicas que cada caso acaba determinando. ➪ Prevenção terciária – quando vítimas e agressores precisam de trabalho especializado para aten- dimento e tratamento das consequências advindas desse tipo de violência. Embora as ações de prevenção aconteçam de forma primária, secundária ou terciária, apenas esta última é uma das atribuições dos CREAS. A prevenção terciária, foco de ação do CREAS, é realizada através de ações junto aos indivíduos e fa- mílias com violação de direitos em decorrência de situações de violência, visando minimizar ou reduzir as consequências do referido fenômeno, bem como evitar as reincidências. Considerando os fatores determinantes da violência, tais como os sociais, econômicos, políticos, cul- turais e psicológicos, os atendimentos de caráter psicossocial prestados pelos CREAS são efetivas ações de prevenção, de nível terciário, podendo ser operacionalizados por meio de grupos direciona- dos aos diversos segmentos da clientela público alvo do CREAS. As ações de prevenção, por meio do atendimento psicossocial, objetivam desenvolver “... a consciên- cia de direitos e responsabilidades, para que os cidadãos possam exercer a cidadania e serem agentes transformadores de sua própria realidade, especialmente em relação à violência e suas múltiplas ex- pressões.” Devem ainda estimular a participação das famílias e das comunidades no questionamento das situações que vivenciam sensibilizá-los quanto a necessidade de rever valores, resgatar e fortale- cer vínculos, bem como instrumentalizar famílias e profissionais para serem multiplicadores da cultura da não violência. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 85 www.servicosocialparaconcursos.net Com base na organização e sistematização de informações, a coordenação do CREAS e o órgão gestor de Assistência Social tem a função de monitorar e avaliar as ações realizadas, aperfeiçoando e/ou redimensionando as mesmas, no sentido de qualificar a prestação do(s) serviço(s) ofertado(s). O monitoramento e a avaliação são ferramentas de gestão distintas que operacionalmente relacio- nam-se entre si e têm como objetivo, respectivamente, acompanhar o desenvolvimento das ações e avaliar seus resultados, incluindo o impacto das ações na vida das famílias/indivíduos acompanhados pelo CREAS. O monitoramento pode ser realizado a partir da coleta de dados quantitativos e qualitativos, de forma sistemática, que permita a análise de informações e auxilie no gerenciamento das ações realizadas. Subsidia o planejamento e permite avaliar ações, bem como redimensionar o trabalho. Por meio de sua realização sistemática, é possível verificar a necessidade de mudanças de rumo e altera- ções no planejamento e nos procedimentos adotados, visando garantir a qualidade do trabalho social desenvolvido. A avaliação permite aferir se as ações propostas e definidas no planejamento atingiram os re- sultados esperados. Por isto, precisa ser abrangente e não uma ação unilateral, somente da coorde- nação da Unidade e/ou do órgão gestor. Em relação ao CREAS, cabe à coordenação da Unidade o acompanhamento e monitoramento cotidi- ano das rotinas de trabalho e das ações planejadas, bem como a avaliação contínua dos resultados obtidos nos processos de trabalho, incluindo as ações desenvolvidas no(s) serviço(s). Por sua vez, ao órgão gestor compete a responsabilidade pelo monitoramento e a avaliação que per- mitam identificar e viabilizar os aprimoramentos necessários na Unidade, na oferta do(s) serviço(s) e no trabalho em rede, considerando as normas e os parâmetros do SUAS, a intencionalidade da atenção e a qualificação do atendimento prestado. Nessa perspectiva e por meio de análises mais amplas que considerem também a realidade na qual se insere a Unidade, é necessário que os processos de monitoramento e avaliação do órgão gestor per- mitam, inclusive: ➪ Monitorar resultados ao longo do tempo; ➪ Analisar relações e integração entre a oferta de serviços, benefícios e programas de transferência de renda; e ➪ Identificar pactuações intersetoriais necessárias para fortalecer as possibilidades de atuação em rede. Para o desempenho de seu papel, contudo, o órgão gestor precisa ser instrumentalizado com um con- junto de informações encaminhadas pela coordenação do CREAS com organização e periodicidade definidas entre si. MONITORAMENTO, AVALIAÇÃO E CONTROLE SOCIAL DO CREAS MÓDULO XIICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 86 www.servicosocialparaconcursos.net A partir do exposto, é importante mencionar a relevância da construção de um ambiente facilitador da avaliação conjunta dos processos de trabalho e das ações desenvolvidas no CREAS. Nesse sentido,para além dos profissionais da Unidade, o processo avaliativo poderá envolver os usuários e, até mesmo, representantes da sua rede de articulação, para que, de fato, se possa mensurar a efetividade dos resultados alcançados e as necessidades de aperfeiçoamento. A gestão democrática e a avaliação participativa dos serviços inerentes à política de Assistência Social têm por finalidade, também, dar maior transparência à gestão e facilitar o diálogo com trabalhadores, usuários e colaboradores. Por fim, ressalta-se a importância de se realizar o monitoramento e a avaliação de modo integrado à área de vigilância socioassistencial, com vistas a zelar pelo padrão de qualidade na oferta dos serviços socioassistenciais e analisar a adequação entre a oferta de serviços e as necessidades de proteção social especial da população. Os instrumentais de registro devem contemplar os dados e informações necessárias ao processo de monitoramento e avaliação, incluindo as articulações em rede e as parce- rias realizadas para o aten- dimento aos usuários. Medidas que podem qualificar o processo de monitoramento e avaliação do CREAS: ➪ Padronização dos instrumentais de registro e coleta de da- dos e informações; ➪ Desenvolvimento de ferramentas para armazenamento, sis- tematização e análise dos dados e informações; ➪ Seleção/construção de indicadores, a partir dos objetivos da Unidade e do (s) Serviço (s) ofertado (s); ➪ Participação dos usuários no processo de monitoramento e avaliação, com possibilidades de realizar proposições. ➪ Integração com as ações da vigilância socioassistencial. CONTROLE SOCIAL Prevista na LOAS, a participação da população na política de Assistência Social acontece, primordial- mente, no âmbito dos Conselhos de Assistência Social (CAS), órgãos deliberativos de composição pa- ritária, instituídos nas três esferas de governo e vinculados ao Poder Executivo. Este canal de participação e envolvimento da sociedade viabiliza o envolvimento político dos movi- mentos sociais, das organizações sociais, dos trabalhadores e, principalmente, dos usuários da Assis- tência Social, que ganham voz no processo de efetivação da política, enquanto direito de cidadania. Nas respectivas esferas de governo, os CAS são responsáveis pelo controle social que, dentre outras coisas, envolve: ➪ A normatização de ações e a regulação da prestação de serviços; ➪ O zelo pela efetivação do SUAS; ➪ A apreciação e aprovação da proposta orçamentária da Assistência Social; ➪ A aprovação de critérios de transferência de recursos para os Estados, Municípios e Distrito Fe- deral; 87 www.servicosocialparaconcursos.net ➪ O acompanhamento e a avaliação da gestão dos recursos, bem como o desempenho dos pro- gramas, projetos e serviços. Nessa direção, aos CAS cabe realizar o controle social do CREAS, ou seja, acompanhá-lo e fiscalizá-lo desde a sua implantação, de modo a garantir o seu pleno funcionamento nas diversas localidades. Observada a intersetorialidade do CREAS com outras políticas públicas e órgãos de defesa de direitos, ao CAS cabe, ainda, articular-se com os conselhos das demais políticas públicas e os conselhos de direitos existentes, com o objetivo de fortalecer a integração das ações de acompanhamento a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 88 www.servicosocialparaconcursos.net O CRAS – Centro de Referência de Assistência Social - é uma unidade singular da proteção básica, ou seja, uma unidade que se diferencia das demais, pois é a única unidade que desempenha as funções de gestão de proteção básica no seu território e de oferta do Programa de Atenção Integral a Família - PAIF. O CRAS tem como público alvo uma população em situação de vulnerabilidade social decor- rente da pobreza, privação e/ou, fragilização de vínculos afetivos e que vivenciam situações de discri- minação etária, étnica, de gênero ou por deficiência. O CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social - é uma unidade estatal responsá- vel pela oferta de orientação e apoio especializados e continuados a indivíduos e famílias com seus direitos violados. Para isso, envolve um conjunto de profissionais e processos de trabalho que devem ofertar apoio e acompanhamento especializado. O principal objetivo é o resgate da família, potencia- lizando sua capacidade de proteção aos seus membros. ATRIBUIÇÕES DOS PROFISSIONAIS DA ASSISTÊNCIA SOCIAL NOS CENTROS DE REFERÊNCIAS. São inúmeras as atribuições do Assistente Social nos Centros de Referências (CRAS/CREAS), porém podemos elencar algumas, como: ✎ Execução das atividades inerentes ao CRAS/CREAS, de acordo com as instruções do Sistema Único de Assistência Social - SUAS, visando propiciar condições de inclusão e programa social, bem como o fortalecimento dos vínculos de pertencimento comunitário e familiar; ✎ Identificar situações de vulnerabilidade e risco social local; ✎ Propiciar atendimento sócio assistencial aos grupos sociais e famílias considerando a situação social diagnosticada, a rede de proteção instalada e as potencialidades locais; ✎ Prevenir situações de violação de direitos, tais como: abandono, negligência, violência ou mar- ginalização e criminalidade, potencializadas pela pobreza, exclusão social e baixa estima; ✎ Fortalecer as relações familiares e comunitárias; ✎ Realizar estudos e pesquisas. Quando as pessoas precisam de atendimento social, buscam os CRAS/CREAS, que contam com uma equipe multiprofissional. Eles prestam serviços de proteção social básica/especializada, respectiva- mente, e encaminham, se necessário, para outros atendimentos. O objetivo é prevenir o risco social, fortalecendo os vínculos familiares, comunitários e promovendo a inclusão das famílias e dos cidadãos nas políticas públicas, no mercado de trabalho, na vida em comunidade. O Pró-jovem Adolescente, que é um Serviço Socioeducativo diretamente vinculado ao território do CRAS, isto é, referenciado ao CRAS, visa contribuir para fortalecer as condições de autonomia das fa- mílias e dos jovens, para que possam gerir seu processo de segurança social. ATRIBUIÇÕES DA ASSISTÊNCIA SOCIAL NOS CENTROS DE REFERÊNCIA MÓDULO XIIICURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 89 www.servicosocialparaconcursos.net Também, integra-se as estratégias do CREAS, no sentido de complementar o trabalho de fortaleci- mento de vínculos com as famílias, de modo a proporcionar alternativas emancipatórias para o en- frentamento da vulnerabilidade social decorrente das condições de pobreza e de desigualdades soci- ais, as quais afligem milhares de famílias nas diversas regiões do Brasil. No CRAS a presença dos assistentes sociais é fundamental e sua intervenção profissional é de grande importância para a instituição, mas principalmente para a vida dos usuários, pois através do seu exer- cício profissional esses profissionais buscam a garantia dos direitos dos usuários. A partir da Constituição Federal de 1988 a assistência social passou a ser direito do cidadão e dever do Estado, mas ao longo dos anos o gasto com as políticas sociais tem sido cada vez menor. As políticas sociais estão subordinadas a política econômica o que interfere nos serviços públicos que são prestados à população o que reflete também nas condições de trabalho dos profissionais que trabalham na área social (CAVALCANTE, PREDES 2010) como é o caso dos assistentes sociais que tra- balham no CRAS. Os assistentes sociais no seu dia-a-dia de trabalho estão inseridos em uma realidade contraditória onde em meio ao aumento da demanda por serviços sociais há a redução do financiamento das polí- ticas sociais promovidas pelo processo de reforma do Estado. Identifica-se também que seu exercício profissional e suas condições de trabalho estão cada vez mais precarizadas. (CAVALCANTE, PREDES 2010) A Assistência Social historicamente é uma política que absorve um grande número de assistentes so- ciais, e esse crescimento é notório após a implementação da Política Nacional de Assistência Social. ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ 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........................................................................................................................................................................................................................................................ 90 www.servicosocialparaconcursos.net O acesso para atendimento nos CREAS acontece pela identificação do serviço especializado de abor- dagem social, por meio de encaminhamentos dos serviços socioassistenciais, sistema de garantia de direitos, disque denúncias ou ainda a procura espontânea realizada pela população. ▪▪▪ ACOLHIMENTO SOCIAL Embora não esteja tipificado nacionalmente, é essencial, neste Protocolo de Gestão dos CREAS, dis- correr sobre o Acolhimento Social, visto que a porta de entrada para o atendimento se dá também por outros meios, além do Serviço Especializado de Abordagem Social (próximo item deste módulo), previsto na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (2009). Assim, o acolhimento social se constitui em um serviço de referência para que a população seja orientada sobre as ações disponibili- zadas pelos CREAS. A partir desta ação acontecem os encaminhamentos e/ou atendimentos de urgên- cia/emergência. Os indivíduos e famílias em situação de risco por violação de direitos também chegam aos CREAS por meio de procura espontânea ou por encaminhamentos do Sistema de Garantia de Direitos (Conselhos Tutelares, Varas Especializadas, Delegacias) e outros serviços da Rede de Proteção Social, sendo aten- didos pelo acolhimento social. A equipe responsável por este serviço realiza a triagem, realizando a interlocução direta com o usuário que chega ao CREAS e verificando a pertinência do atendimento no serviço. A triagem tem como objetivo a identificação das necessidades primárias dos usuários, para o início de procedimentos de atendimento e acompanhamento. No contexto do acolhimento social no CREAS se torna necessário conceituar e diferenciar emergência e urgência. Estes conceitos normalmente estão associados à área da saúde. O Conselho Federal de Medicina define urgência como “...a ocorrência imprevista de agravo à saúde com ou sem risco po- tencial de vida, cujo portador necessita de assistência médica imediata” e emergência como “...a cons- tatação médica de condições de agravo à saúde que impliquem em risco iminente de vida ou sofri- mento intenso, exigindo portanto, tratamento médico imediato” Trazendo esta matéria para a assistência social, o conceito de emergência é normalmente associado a questões complexas, de risco, e que exigem intervenção imediata. As questões de urgência também envolvem situações de risco, mas as intervenções podem se dar em curto prazo. Assim, as situações de urgência não podem ser adiadas, devem ter intervenções rápidas, mas com caráter menos imediato que nas situações de emergência. Os atendimentos emergenciais, assim como os de urgência, fazem parte da rotina diária dos CREAS. A equipe responsável realiza a acolhida, a entrevista inicial, identifica as demandas, presta orientações e agiliza a tomada de decisão para proteção das vítimas de violência. OS SERVIÇOS REFERENCIADOS NO CREAS MÓDULO XIVCURSO ASSISTENTE SOCIAL NO CREAS 91 www.servicosocialparaconcursos.net Os atendimentos do acolhimento social são realizados por meio de acolhida e escuta qualificada, vi- sando levantamento da situação, o que subsidiará a proposição de plano de intervenção familiar ou individual, de responsabilidade do PAEFI. A acolhida e a escuta qualificadaconstituem-se no princípio básico do atendimento no CREAS. O aco- lhimento é uma ação técnico-assistencial que pressupõe a mudança da relação profissional/usuário através de parâmetros técnicos, éticos, humanitários e de solidariedade. Implica em postura capaz de acolher, escutar e dar respostas mais adequadas aos usuários, [prestando] um atendimento com re- solutividade e responsabilização, orientando, quando for o caso, o indivíduo e a família em relação a outros serviços [da rede], para a continuidade [do atendimento] e estabelecendo articulações com esses serviços, para garantir a eficácia desses encaminhamentos. O acolhimento social deve ser fonte de informações qualitativas e quantitativas capazes de desvelar e sistematizar as demandas das famílias, subsidiando tomada de decisão em relação à implantação e implementação de ações e intervenções de Proteção Social Especial de Média Complexidade nos ter- ritórios. SERVIÇO ESPECIALIZADO EM ABORDAGEM SOCIAL Outra possibilidade de acesso ao CREAS para famílias e indivíduos em situação de risco por violação de direitos é o serviço especializado em abordagem social, que acontece por meio do deslocamento de profissionais, em roteiros prévios ou não. Este serviço atende também as solicitações da Central de Atendimento e Informações 156 (comunicação entre os cidadãos e a Prefeitura Municipal), articu- lando, quando necessário, com outros serviços da rede. Deve ser executado, numa primeira etapa, por educadores sociais, preferencialmente em duplas, e de acordo com a complexidade da situação identificada, os educadores poderão solicitar a intervenção dos técnicos. Este serviço tem como objetivo primordial a identificação de trabalho infantil, exploração sexual, po- pulação em situação de rua entre outras situações de violação de direitos por situação de violência, realizando o atendimento e encaminhamentos necessários. Conforme descrito na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, este serviço deve ser ofer- tado “...de forma continuada e programada, com a finalidade de assegurar trabalho de abordagem e [...] buscar a resolução de necessidades imediatas e promover a inserção na rede de serviços socioas- sistenciais e das demais políticas públicas na perspectiva da garantia de direitos.” O serviço especializado em abordagem social deve estar atento às demandas de articulação com o sistema de garantia de direitos e outros órgãos, quando se tratar de exploração sexual e outras formas de exploração do trabalho infantil, além da necessidade de inclusão das famílias no Programa de Erra- dicação do Trabalho Infantil – PETI. As abordagens que visam à identificação de situação de exploração sexual e trabalho infantil devem ser realizadas por técnicos e educadores sociais, tendo em vista as demandas apresentadas que exigem intervenções especializadas, podendo contar com a participação de profissionais de outras políticas públicas ou do sistema de garantia de direitos. A abordagem social para identificação de indivíduos em situação de rua deve se dar à luz da Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua (2008). A referida Política aponta como princípio a promoção e garantia da cidadania e dos direitos humanos, respeito à dignidade do ser humano, sujeito de direitos civis, políticos, sociais, econômicos e culturais, o direito ao usufruto, per- manência, acolhida e inserção na cidade, a não discriminação por motivo de gênero, orientação sexual, origem étnica ou social, nacionalidade, atuação profissional, religião, faixa etária e situação migratória 92 www.servicosocialparaconcursos.net e a supressão de todo e qualquer ato violento e ação vexatória, inclusive os estigmas negativos e pre- conceitos sociais em relação à população em situação de rua. Situação de rua, conforme consta na Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua (2008), segundo “... a definição de cientistas sociais como Alcock (1997) e Castel (1998), [...] relaciona-se com situação extrema de ruptura de relações familiares e afetivas, além de ruptura total ou parcial com o mercado de trabalho e de não participação social efetiva.” O Manual do Entrevistador do Cadastro Único (2010) corrobora com esta definição de população em situação de rua, dizendo que esta população “... forma um grupo heterogêneo, mas que tem em comum a condição de pobreza absoluta, vínculos familiares interrompidos ou fragilizados, e inexistência de moradia convencional regular, sendo obrigado a utilizar a rua como espaço de moradia e sustento, por condição temporária ou de forma permanente”. No que se refere ao atendimento a esta população, o serviço especializado de abordagem social deve realizar os seguintes procedimentos: ▪ Atendimento social em caráter emergencial e acompanhamento do retorno familiar, quando pos- sível; ▪ Orientação e encaminhamento aos serviços socioassistenciais e às demais políticas públicas, bem como ao Conselho Tutelar ou ao Sistema de Garantia de Direitos – SGD; ▪ Quando da identificação de população de rua sem referências familiares, encaminhamento ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Central de Resgate Social. Quando se tratar de criança e adolescente, estes devem ser encaminhados para o Centro de Con- vivência Criança quer Futuro. SERVIÇO DE PROTEÇÃO E ATENDIMENTO ESPECIALIZADO A FAMÍLIAS E INDIVÍDUOS – PAEFI A intervenção com famílias e indivíduos que se encontram com direitos violados em decorrência de situações de violência acontece através do Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos – PAEFI (Tipificação Nacional de Serviços Assistenciais, 2009) e é realizado pelas equipes de referência para famílias e territórios, com a contribuição da equipe de acolhimento social, quando necessário. A referida Tipificação descreve este serviço como sendo “... de apoio, orientação e acompanhamento a famílias com um ou mais de seus membros em situação de ameaça ou violação de direitos. Compre- ende atenções e orientações direcionadas para a promoção de direitos, a preservação e o fortaleci- mento de vínculos familiares, comunitários e sociais e para o fortalecimento da função protetiva das famílias...” Para discorrer sobre o PAEFI, são necessárias algumas análises preliminares quanto aos termos aten- dimento e acompanhamento. Atendimento é um procedimento de escuta qualificada e identificação de demandas do usuário, via- bilizando a realização das intervenções pertinentes aos serviços da Política Nacional de Assistência Social (2004). O atendimento dos CREAS deve estar voltado, além da atenção emergencial, para a redução de danos sofridos pelos sujeitos, visto que a mudança de condições subjetivas geram, man- tém ou facilitam à dinâmica da violência. 93 www.servicosocialparaconcursos.net O atendimento pode ser pontual, sendo encerrado na resolução de uma questão específica e não de- mandando um retorno. Por outro lado, o atendimento pode ser processual, dando início ao acompa- nhamento familiar. Neste contexto, atendimento familiar ou individual é a atenção dirigida ao indivíduo e grupo familiar, com o objetivo de prestar apoio psicossocial e/ou jurídico-social, processo de intervenção do técnico na dinâmica do indivíduo e de sua família. O foco de atendimento deve estar voltado para a família, por tratar-se de forma tecnicamente adequada de atuar sobre a realidade de seus membros. Esta ação envolve técnicas e instrumentos diversos que vão da acolhida a entrevista, entre outros. Conforme aponta o artigo 20 do Protocolo de Gestão Integrada de Serviços, Benefícios e Transferên- cias de Renda no âmbito do Sistema Único de Assistência Social – SUAS: O acompanhamento consiste no conjunto de intervenções desenvolvidas em serviços continuados, com objetivos estabelecidos, que possibilitem à família acesso a um espaço onde possa refletir sobre a sua realidade, construir novos projetos devida e transformar suas relações – sejam elas familiares ou co- munitárias. O acompanhamento psicossocial tem como objetivo, ainda, proporcionar uma reflexão e avaliação permanente acerca das metas, objetivos e compromissos pactuados no Plano de Intervenção Familiar. Durante o acompanhamento, e a partir de uma interação ativa, tem-se a possibilidade de construir um conhecimento mais aprofundado sobre a família: seus recursos, sua história, seus vínculos, suas redes sociais de apoio, o contexto sócio-histórico e cultural no qual está inserida, sua relação com o mesmo, etc. Além disso, o acompanhamento continuado e cotidiano das ações, por parte dos profis- sionais de referência para as famílias e territórios, tendo em vista os resultados que desejam ser al- cançados e o impacto que as intervenções venham a ter no indivíduo ou na família atendida, diante das situações de crise. Tratar do termo acompanhamento remete ao monitoramento das famílias e indivíduos com direitos violados em decorrência de situações de violência vivenciadas, constituindo importante etapa do pro- cesso de intervenção dos CREAS. O monitoramento é realizado por meio de processos presenciais ou à distância, sendo sempre uma ação que se propõe a implementar a intervenção realizada. Em última análise, por intermédio do monitoramento das ações e encaminhamentos propostos pelos CREAS para os indivíduos e famílias, pretende-se a superação da situação que originou o atendimento e o consequente desligamento com posterior encaminhamento para o CRAS de referência do territó- rio no qual esta família ou indivíduo reside. A metodologia de intervenção com famílias e indivíduos assumida pelos CREAS, propõe que todas as naturezas de violação de direitos em decorrência de violências vivenciadas sejam atendidas através do PAEFI, pelas equipes de referência. A intervenção com as famílias e indivíduos é realizada de forma integrada pela equipe de cada microterritório, realizando discussão de casos com toda a equipe do CREAS, sempre que necessário. É preciso articular o atendimento interdisciplinar e intersetorial, com o objetivo de garantir às famílias a eficácia e eficiência dos atendimentos adequados. 94 www.servicosocialparaconcursos.net ATENDIMENTO PSICOSSOCIAL Levando-se em conta que a metodologia de intervenção proposta para o CREAS é a psicossocial, é importante salientar que é um instrumento fundamental para possibilitar o acesso aos direitos dos indivíduos e famílias em situação de violência. A abordagem psicossocial “...busca analisar e intervir na construção mútua entre sujeitos e sociedade... “... se ocupa do vínculo social, as relações entre indivíduos e grupos, grupos e instituições, a dinâmica dos grupos sociais, as redes sociais e os processos de transformação social.” Cabe ressaltar, que quando falamos de processos de transformação social, estamos falando dos efei- tos terapêuticos do atendimento psicossocial sobre as famílias. Sem dúvida, a abordagem psicossocial, pode e deve ter efeitos terapêuticos sendo que ela se distingue da psicoterapia pela forma de inter- venção e objetivos. A psicoterapia tem o seu lugar na atenção à saúde. Leia-se por efeito terapêutico qualquer intervenção que provoque mudanças de comportamento, de compreensão, de atitudes nas pessoas, alterando assim a dinâmica da família. No CREAS, o atendimento psicossocial configura-se com um conjunto de atividades e ações psicossoci- oeducativas de apoio, de caráter especializado e de cunho transformador que possibilitam mudanças de comportamento ou de atitude, visando à superação da situação de violência vivenciada. As ações devem ser potencializadoras de autonomia, favorecendo a participação na rede social ampli- ada. Objetivam a redução de danos ao sujeito e a sua família e a mudança nas condições subjetivas que geram, mantém ou facilitam as situações de violência. Nessa perspectiva, o atendimento deve focar no fortalecimento do núcleo familiar, proporcionando outros elementos que permitam à família estabelecer novas relações de cuidado e atenção entre seus membros. O atendimento psicossocial implica na capacidade, não só operacional e técnica da equipe em conduzir os casos, mas na necessidade de conhecimento de como o fenômeno da violação de direitos se expressa e se manifesta. O atendimento psicossocial é entendido como o conjunto de procedimentos técnicos especializados, composto pelos diferentes olhares de cada área do conhecimento que integra a equipe do CREAS. ATENDIMENTO EM GRUPO O CREAS deve priorizar como metodologia de ação, o atendimento em grupo, seja ele composto pelo grupo familiar (núcleo familiar e/ou família extensa), de multifamílias ou de indivíduos com direitos violados em decorrência de situações de violência: ➪ Grupo familiar: objetiva proporcionar um espaço de discussão acerca de questões vivenciadas pelos indivíduos de uma mesma família. ➪ Grupo multifamílias: reúne famílias com vivências semelhantes. ➪ Grupo de indivíduos: objetiva proporcionar o espaço de convivência e o compartilhamento de experiências com vistas a ampliar as possibilidades de expressão do sujeito no mundo. Os atendimentos em grupo são desenvolvidos com diversidade metodológica, visando o fortaleci- mento da função protetiva do grupo familiar, a reflexão e a elaboração do cotidiano e da dinâmica familiar, a superação e transformação das condutas de violação. As intervenções em grupo podem ser desenvolvidas pelos profissionais das diversas áreas de atuação do CREAS. Em algumas situações, 95 www.servicosocialparaconcursos.net mesmo que exista a inclusão em grupo, tendo em vista a complexidade da violência vivenciada, há necessidade de atendimento individual para abordar questões específicas e possibilitar apoio, assim como pode acontecer por solicitação do usuário. A periodicidade e a duração dos grupos devem ser avaliadas pelos técnicos de acordo com as neces- sidades sociais e emocionais dos indivíduos e das famílias. O serviço deve promover ações em grupo, para desencadear processos coletivos, que fortaleçam socialmente e emocionalmente o público alvo. Podem ter objetivos distintos e/ou complementares tais como: orientação, temáticos, educativos, en- tre outros. Devem trabalhar as consequências da violação de direitos, relações familiares conflituosas, fortalecimento da autoestima, cuidados parentais, regras e limites, saúde, cidadania, sexualidade, en- tre outros temas demandados pelas famílias. A metodologia deve ter como objetivo conhecer a família e as diversas possibilidades de vínculos e apoio que seu contexto oferece, para que o trabalho psicos- social seja possível e sustentável. Algumas questões sobre a família devem acompanhar, em todos os momentos, o profissional: Quais são os padrões de conduta da família? Quem faz o quê, para quem e como? Quais são seus códigos e regras? Em que contexto essa família está inserida? É importante lembrar que todas as ações desenvolvidas pela equipe do PAEFI devem estar em estreita articulação com os demais serviços. Circularidade da Metodologia do Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos 96 www.servicosocialparaconcursos.net ORIENTAÇÃO JURÍDICO-SOCIAL O atendimento realizado pelo PAEFI junto às famílias pode indicar a demanda de orientação jurídico- social, executada por um profissional com formação na área de Direito. Este profissional faz parte da equipe interdisciplinar do CREAS. Prioritariamente, a orientação jurídico-social tem a função de acolher através de escuta qualificada, atendendo àqueles indivíduos que de acordo com o plano de intervenção apresentam demanda para este serviço, visando romper o ciclo da violência e receber orientações e encaminhamentos acerca de seus direitos. De acordo com análise do caso, a família receberá as orientações e, se houver necessidade, poderá ser encaminhada para atuação da Defensoria Pública Estadual, visandoà proposição de ação judicial. É por meio da Defensoria Pública que será possível o fortalecimento do direito de defesa e do acesso à justiça em favor da infância, da juventude, ou do indivíduo em situação de violação de direitos. Ra- tificando, o direito de peticionar mediante a defesa (atuação técnico-judicial), e a possível responsa- bilização (ação judicial) é de competência da Defensoria Pública Estadual e/ou escritórios modelos. Desta forma os diversos atores e serviços, que integram o sistema de garantia de direitos, formam uma rede interrelacionada de ações para a proteção dos indivíduos e famílias. Assim, a orientação jurídico-social tem como função atender famílias e indivíduos com direitos violados e de acordo com avaliação do caso, proceder às orientações e encaminhamentos necessários, visando à proteção e promoção do indivíduo. Porém, para que haja o atendimento eficiente e integrado, há necessidade de que os três eixos do sistema de garantia de direitos - Proteção, Defesa e Controle - atuem de forma articulada. No eixo Defesa, a parceria com a Defensoria Pública é essencial, para que se garanta o acesso ao devido pro- cesso legal e o direito a defesa principalmente no que se refere aos crimes praticados contra a criança e o adolescente, por ação ou omissão; como também em relação aos adolescentes autores de atos infracionais com medida socioeducativa em meio aberto, cujas famílias não apresentam condições materiais de arcar com as despesas da defesa judicial, e ainda no que se refere às mulheres e idosos com direitos violados. As áreas de atuação da orientação jurídico-social são: ✎ Direito da mulher e de vítimas de violência doméstica/intrafamiliar– direcionado à solução das questões relativas à repressão dos atos de violência praticados contra a mulher (Lei 11.340/Lei Ma- ria da Penha); ✎ Direito da criança e do adolescente – garantir os direitos em casos de violência sexual, agressões, danos, violações e em situações de ato infracional (Constituição Federal de 1988; Lei 8.069/90-ECA; Decreto Lei 5.452/1943 - Dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho; Portaria 20/2001-Se- cretaria de Inspeção do Trabalho; ✎ Decreto 6.481/12 junho de 2008-trata das piores formas de trabalho infantil; Resolução nº113, de 19 de abril de 2006 do CONANDA e Normativas Internacionais); ✎ Direito da Família – em casos de tutela, guarda de crianças e adolescentes, reconhecimento de paternidade e maternidade, separação, divórcio, regulação de alimentos e visitas, interdição. Este procedimento será disponibilizado somente para o público alvo do CREAS. (Código Civil) e de forma incidental; 97 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Direito da Pessoa Idosa – defesa dos direitos da pessoa idosa, principalmente nos casos de vio- lência familiar ou doméstica (Lei nº10.741/2003 – Estatuto do Idoso; Constituição Federal de 1988 - BPC); ✎ Direito da Pessoa com Deficiência – defesa e proteção de crianças, adolescentes e adultos com deficiência (Estatuto da Criança e do Adolescente; Constituição Federal de 1988; Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; A Proteção das Pessoas com Deficiência no Código Civil; Leis e Decretos referente ao tema); ✎ Proteção aos Direitos Humanos – voltado a população em situação de rua (Constituição Federal de 1988); É necessário conhecimento relativo à Lei Orgânica da Assistência Social; Política Nacional da Assistên- cia Social/Sistema Único da Assistência Social; Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária; Plano Nacional de Enfrentamento a Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes; Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo. Na proposta de orientação jurídico-social no CREAS, deverão acontecer as ações de prevenção com o objetivo de levar à população a divulgação e conhecimento dos postulados legais, possibilitando in- formações sobre direitos e deveres de acordo com os marcos legais. A orientação jurídico-social também deverá instrumentalizar a equipe do CREAS quanto à legislação referente aos direitos de crianças, adolescente, mulheres, idosos, pessoas com deficiência e adultos. O CREAS, enquanto serviço especializado tem como uma de suas diretrizes, conforme já descrito an- teriormente, a matricialidade sociofamiliar. Isto significa que os procedimentos devem focar a família em sua integralidade, com exceção dos indivíduos com vínculo familiar rompido. Porém, para efeitos didáticos e de detalhamento da operacionalização do serviço neste Protocolo, estaremos tratando os referidos procedimentos de acordo com as naturezas de violência vivenciadas pelos indivíduos que compõem o núcleo familiar e que deram origem ao atendimento. 1. Atendimento às vítimas de violência doméstica/intrafamiliar, com apoio, orientação, encaminhamen- tos e responsabilização O atendimento aos indivíduos e famílias vítimas de violência doméstica/intrafamiliar, deve propiciar o fortalecimento dos vínculos, contribuindo para a reconstrução das relações familiares e o restabeleci- mento da função protetiva da família, visando assim à superação das situações de violência que origi- naram o atendimento. Deve ainda contribuir com a defesa e resgate dos direitos violados, na prevenção do agravamento da situação, na potencialização dos recursos dos indivíduos e famílias, no fortalecimento dos vínculos comunitários e das redes sociais de apoio e nos encaminhamentos para a responsabilização dos auto- res de violência. Para tanto, o CREAS deve proceder: ✎ Identificação do fenômeno da violência, avaliando a situação de crise, a gravidade do caso e a pro- babilidade de risco, operando a proteção imediata ao indivíduo, prevenindo a continuidade da viola- ção de direitos. 98 www.servicosocialparaconcursos.net ✎ Atendimento dos casos de violência contra a criança, o adolescente e mulher, procedendo-se o preenchimento da notificação obrigatória e compulsória, fazendo o atendimento e encaminhamento de acordo com os respectivos protocolos e Redes de Proteção e de Atenção. ✎ Às orientações necessárias, inclusive jurídicas, que contribuam para a reflexão acerca da situação vivenciada, visando à responsabilização e proteção de vítimas de violência. ✎ Aos encaminhamentos necessários, em articulação com a rede de serviços. ✎ Oferta de atendimento psicossocial continuado, favorecendo a expressão do indivíduo/família, a construção de estratégias de enfrentamento e reconstrução de relacionamentos intrafamiliares base- ados em interações positivas e favorecedoras do desenvolvimento. ✎ Identificados ao longo do atendimento, que possam colocar em risco a integridade física e psíquica do vitimizado, para aplicação de medidas pertinentes. ✎ Encaminhamento das situações de abuso e exploração sexual, de acordo com análise técnica, ao serviço especializado de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual - CREAS. 2. Atendimento às famílias com crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, e famílias que apresentam dificuldades no cumprimento das condicionalidades do PETI Combater o Trabalho Infantil é uma questão de direitos humanos. A Constituição Federal, em seu art. 7º, inciso XIII, que proíbe todo e qualquer tipo de trabalho aos menores de 16 anos, exceto àqueles em condição de aprendiz, a partir de 14 anos. Diante desta questão, o CREAS, por meio do PAEFI: Oferta atendimento especializado de apoio, orientação e acompanhamento das famílias, buscando a promoção dos direitos e o fortalecimento da função protetiva da família. Tem, portanto, papel fundamental de modo a contribuir para a retirada imediata da criança e do adolescente da situação de trabalho. Contribui, também, para o cumprimento das condicionalidades por meio do trabalho social com as famílias, quando os motivos do descumprimento se referirem a quaisquer situações de risco pessoal e social, dentre as quais a própria reincidência de trabalho infantil. O CREAS, por meio do ServiçoEspecializado em Abordagem Social, monitora o território, identificando as situações de trabalho infantil, entre outras formas de negligência, abuso e exploração de crianças e adolescentes. Diante de situações de exploração de trabalho infantil, este serviço realiza a articula- ção com o PAEFI para as intervenções junto à família, visando à retirada das crianças e adolescentes da situação encontrada. Conforme descrito nas Orientações Técnicas Gestão do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no SUAS, o CREAS, por meio do PAEFI: Procederá o acompanhamento familiar por no mínimo 3 meses, com vistas a contribuir para a ime- diata retirada de crianças e adolescentes do trabalho [...] Após intervenção do PAEFI, a família deve ser encaminhada ao CRAS para o devido acompanhamento no território pelo PAIF. A mesma publicação também reitera a questão afirmando que: 99 www.servicosocialparaconcursos.net A primeira abordagem visando ao acompanhamento familiar junto às famílias com crianças/ado- lescentes retirados do trabalho deve ser realizada pelo PAEFI [...], contrarreferenciando essa família ao CRAS, no momento em que for desligada. Durante um período médio de 3 meses de acompanhamento, alguns procedimentos e intervenções devem ser realizados pelo PAEFI, com a família identificada com crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. Cumpre ressaltar a necessidade de inclusão ou da atualização da família no Ca- dastro Único para Programas Sociais do Governo Federal. Também deve ser pactuado com a família o Termo de Responsabilidade, com assinatura em formulário próprio e o preenchimento do Formulário de Operações PETI - FOP de inclusão. Ainda durante o acompanhamento pelo PAEFI, deverá ser realizada pelo CRAS a inclusão das crianças e adolescentes no SCFV, a partir do contrarreferenciamento feito CREAS. O CRAS, por sua vez, deverá encaminhar para o CREAS, mensalmente e em data preestabelecida, a frequência das crianças e ado- lescentes no SCFV, para inserção dos dados no SISPETI – Sistema de Controle e Acompanhamento da Frequência no Serviço Socioeducativo do PETI, pelo setor competente. O PAEFI deverá pactuar o Plano de Intervenção - PIF com a família, utilizando o formulário específico adotado pelos CREAS. O PIF deverá prever ações de orientação e acompanhamento que permitam que a família retome sua função protetiva, realizando o imediato afastamento das crianças e adoles- centes do trabalho e o cumprimento das demais condicionalidades do PETI. Em se tratando de Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, os CREAS, por meio do PAEFI, tam- bém devem prestar atendimento às famílias que apresentam dificuldades no cumprimento das con- dicionalidades do Programa por situações de risco em decorrência de violação de direitos, após esgo- tadas as intervenções de Proteção Básica através do CRAS e a violação de direitos vier associada às situações de violência, como a negligência extrema. O Protocolo de Gestão Integrada de Serviços, Benefícios e Transferências de Renda (2009), em seu Art. 23, afirma que após: Verificação de que o descumprimento de condicionalidade decorre de situação de risco social rela- cionados a não retirada da criança ou adolescente do trabalho infantil, mendicância, situação de rua e violência (física, sexual ou psicológica), deverão ser adotados os seguintes procedimentos iniciais: I – Contato inicial com a família, se necessário por meio de visita domiciliar ou abordagem de rua, realizando inicialmente um diagnóstico da situação e os encaminhamentos para outros serviços da rede socioassistencial, das demais políticas públicas e do Sistema de Garantia de Direitos (SGD); II – Notificar a situação ao Conselho Tutelar a fim de viabilizar a aplicação de medias protetivas necessárias. §1º Nos casos em que a causa do descumprimento das condicionalidades for a permanência da criança ou do adolescente de até 16 anos no trabalho infantil, a família poderá ser acompanhada pelo CRAS quando constatado a retomada do cumprimento das condicionalidades e sanada a necessidade do acompanhamento pelo CREAS. §2º Nas situações de violência/discriminação contra a criança e o adolescente, o atendimento pelo CREAS também terá como objetivo o encaminhamento de relatório para os órgãos compe- tentes, quando identificado a manutenção da situação de risco. 100 www.servicosocialparaconcursos.net §3º Na situação de exploração sexual comercial/abuso sexual da criança ou do adolescente, o CREAS deverá comunicar a situação ao Conselho Tutelar para que além da aplicação de medidas protetivas necessárias, sejam desencadeados procedimentos necessários junto ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e às Delegacias Especializadas; §4º Se ao longo do atendimento às famílias com situações de violência intrafamiliar contra a criança e o adolescente, o CREAS identificar a manutenção da situação risco, deverá comunicar às autoridades regulamentadas pelo Sistema de Garantia de Direitos, por meio de relatório. §5º Se ocorrer o afastamento da criança ou adolescente do convívio familiar, o CREAS em par- ceria com o serviço de acolhimento, dará continuidade ao acompanhamento da família tendo em vista a reintegração ao convívio familiar, comunicando periodicamente ao Conselho Tutelar e, por meio de relatórios, à autoridade judiciária. §6º O Gestor Municipal do Programa Bolsa Família – PBF deverá registrar no Sistema de Condi- cionalidades (SICON) o motivo de descumprimento quando se tratar de criança ou adolescente afastado do convívio familiar e for aplicada medida protetiva ou quando se tratar de adolescente e for aplicada medida socioeducativa. §7º Reinserida a criança ou o adolescente no convívio familiar e sanada a necessidade de acom- panhamento pelo CREAS e profissionais do serviço de acolhimento, a família continuará o acom- panhamento no CRAS por pelo menos 6 meses. Cabe ressaltar o descumprimento das condicionalidades do PETI pode constituir situações reveladoras do alto grau de vulnerabilidade e risco. São condicionalidades do PETI: ✎ Matrícula e frequência escolar mensal mínima de 85% para crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos, 11 meses e 29 dias; ✎ Matrícula em SCFV com frequência mensal mínima de 85% para crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos, 11 meses e 29 dias; ✎ Acompanhamento do calendário vacinal, do crescimento e do desenvolvimento das crianças menores de 7 anos; ✎ Pré-natal para gestantes e acompanhamento de nutrizes, sem limite de idade, desde que façam parte da composição familiar, informada no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal; ✎ Afastamento das crianças e adolescentes do trabalho infantil. O acompanhamento das famílias em descumprimento das condicionalidades do PETI devido a situa- ções de risco por violação de direitos, pelo PAEFI, prevê a atualização do Cadastro Único, o preenchi- mento do formulário de recurso e demais relatórios e documentos necessários ao registro no SICON – Sistema de Condicionalidades do Programa Bolsa Família, do Governo Federal. Estas famílias conti- nuarão sendo acompanhadas pelo PAEFI até a superação dos fatores geradores do descumprimento das condicionalidades, quando serão contrarreferenciadas ao CRAS para continuidade do acompanha- mento. Outra questão importante diz respeito à mudança de endereço de famílias acompanhadas pelo CREAS. O CREAS de origem deverá informar o novo endereço da família ao CREAS de destino, encaminhando 101 www.servicosocialparaconcursos.net os documentos pertinentes após a sua localização pelo CREAS que está recebendo a família. Este CREAS, que passará a acompanhar a família, deverá adotar os procedimentos pertinentes no que se refere à atualização do Cadastro Único, entre outros. Caso a família não seja localizada em seu novo endereço, após um período de 30 dias, o CREAS de referência do antigo endereço da família deverá solicitar o bloqueio do benefício de transferência de renda junto aosetor competente. Decorridos 30 dias após o bloqueio, e esgotadas as possibilidades de localização da família, o CREAS deverá solicitar o desligamento da família do PETI. Além do motivo citado no parágrafo anterior, famílias beneficiárias do PETI serão desligadas do pro- grama quando o adolescente completar 16 anos ou a família mudar de município. Em qualquer motivo de desligamento, o CREAS deverá encaminhar ao setor competente o cadastro único atualizado e o FOP de desligamento da família. Em demais situações, a criança ou adolescente somente será desligado do PETI, mediante parecer técnico emitido pelos profissionais do PAEFI que acompanham a família, em conjunto com a equipe do PAIF, do CRAS de referência da família, validado pelo gerente de Proteção Social Especial e pelo Conselho Tutelar. Caso exista necessidade, estas situações também podem ser encaminhadas para discussão da Rede de Proteção local e para a Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil, visando parecer conclusivo para o desligamento. Fluxo de Atendimento às famílias com crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, e famílias que apresentam dificuldades no cumprimento das condicionalidades do PETI 102 www.servicosocialparaconcursos.net SERVIÇO DE PROTEÇÃO SOCIAL A ADOLESCENTES EM CUMPRIMENTO DE MEDIDA SOCIOEDUCATIVA DE LIBERDADE ASSISTIDA (LA) E DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE (PSC) O atendimento a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto de Liber- dade Assistida e Prestação de Serviços à Comunidade e suas famílias é orientado por meio do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo – SINASE, que é o conjunto ordenado de princípios, regras e critérios, de caráter jurídico, político, pedagógico, financeiro e administrativo, que envolve desde o processo de apuração de ato infracional até a execução da medida socioeducativa. Embora as medidas socioeducativas tenham um caráter jurídico, sancionatório e restritivo de direitos, a principal questão a ser considerada é a sua natureza pedagógica. Assim, vê-se que a responsabiliza- ção dos(as) adolescentes faz parte da dimensão educativa das medidas socioeducativas, a qual deve propiciar, o quanto possível, a apropriação da própria realidade pessoal e social. O SINASE persegue a ideia de ações socioeducativas baseadas nos princípios dos direitos humanos, visando assim, transformar a problemática vivenciada pelos adolescentes em oportunidades de mu- danças. Sobremaneira, as intervenções do Serviço de Proteção Social a Adolescentes em Cumprimento de LA ou PSC, além de estarem condicionadas à formação da cidadania e não ao caráter sancionatório, de- vem considerar as demandas sociais, psicológicas e pedagógicas destes, possibilitando a inclusão so- cial e o pleno desenvolvimento. Para tal, as demais políticas públicas, tais como saúde, educação entre outras, devem ser acionadas, propiciando o acesso a direitos e a oportunidades de superação da situ- ação vivenciada. Considera-se que: As medidas socioeducativas podem ser compreendidas em três distintas dimensões, as quais estão interrelacionadas: trata-se de uma responsabilização individual, em razão da prática de uma con- duta sancionada pelo Estado; trata-se da possibilidade de vivência de tal processo de responsabili- zação como apropriação, ou compreensão acerca do ato praticado, seu significado pessoal e social; e também se trata de um processo de aquisições de direitos sociais, em geral violados, ou não garantidos até então. Cumpre esclarecer que Medida Socioeducativa de LA – Liberdade Assistida, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 118: Será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente. §1º A autoridade designará pessoa capacitada para acompanhar o caso, a qual poderá ser reco- mendada por entidade ou programa de atendimento. §2º A liberdade assistida será fixada pelo prazo mínimo de seis meses, podendo a qualquer tempo ser prorrogada, revogada ou substituída por outra medida, ouvido o orientador, o Ministério Pú- blico e o defensor. A aplicação desta medida tem como objetivo: Estabelecer um processo de acompanhamento, auxílio e orientação ao adolescente. Sua interven- ção e ação socioeducativa deve estar estruturada com ênfase na vida social do adolescente (família, escola, trabalho, profissionalização e comunidade) possibilitando, assim, o estabelecimento de re- lações positivas que é base de sustentação do processo de inclusão social a qual se objetiva. 103 www.servicosocialparaconcursos.net Em relação à Medida Socioeducativa de PSC – Prestação de Serviços à Comunidade, segundo a mesma Lei, em seu artigo 117: Consiste na realização de tarefas gratuitas de interesse geral, por período não excedente a seis meses, junto a entidades assistenciais, hospitais, escolas e outros estabelecimentos congêneres, bem como em programas comunitários ou governamentais. Parágrafo único. As tarefas serão atribuídas conforme as aptidões do adolescente, devendo ser cumpridas durante jornada máxima de oito horas semanais, aos sábados, domingos e feriados ou em dias úteis, de modo a não prejudicar a frequência à escola ou à jornada normal de trabalho. Para viabilizar o cumprimento desta medida, o CREAS deve articular/mapear uma rede de entidades, sensibilizando-as para acolher os adolescentes para o cumprimento da medida. Os serviços/entidades aos quais os adolescentes são encaminhados devem ser de relevância comunitária, buscando uma ação pedagógica que privilegie a descoberta de novas potencialidades direcionando construtivamente seu futuro. Conforme transcrito na Lei Nº 12.594/2012, em seu art. 14, cabe à direção do programa, neste caso ao CREAS: Selecionar e credenciar entidades assistenciais, hospitais, escolas ou outros estabelecimentos con- gêneres, bem como os programas comunitários ou governamentais, de acordo com o perfil do so- cioeducando e o ambiente no qual a medida será cumprida. Se o Ministério Público impugnar o credenciamento, ou a autoridade judiciária considerá-lo inadequado, instaurará incidente de im- pugnação, com a aplicação subsidiária do procedimento de apuração de irregularidade. O atendimento a adolescentes, por meio do Serviço de Proteção Social a Adolescentes em Cumpri- mento de Medida Socioeducativa de LA e de PSC, executado no CREAS, deve priorizar ações que via- bilizem o cumprimento da medida, imprimindo ao adolescente a capacidade de reflexão acerca do ato infracional cometido e possibilitar que a medida aplicada produza motivação social e participação so- lidária na reorganização de seu projeto de vida. Tanto na Prestação de Serviços à Comunidade quanto na Liberdade Assistida, o atendimento do ado- lescente tem início após a audiência de apresentação ao Juiz, que determina a medida socioeducativa a ser cumprida, mediante sentença judicial. O encaminhamento do adolescente, contendo a medida aplicada, é enviado ao CREAS por meio do Sistema PROJUDI – Processo Judicial Digital. O acesso a este Sistema é realizado pelo Coordenador do CREAS, mediante senha individual e permite a visualização do processo em sua íntegra, bem como a inserção das informações necessárias quanto à execução da medida. Assim, o PROJUDI substitui o fluxo de documentos em forma física, passando a ser em meio eletrônico. A acolhida do adolescente no CREAS é uma fundamental dimensão deste Serviço. Conforme descrito nas Orientações Técnicas – versão preliminar (MDS), “... é importante estabelecer uma relação de empatia com o(a) adolescente, demonstrando confiança, credibilidade e segurança, que são essenciais para a construção de vínculos”. Ainda no que se refere a acolhida, o mesmo docu- mento complementa dizendo que “... a atenção a esta dimensão não se refere apenas ao momento inicial de chegada do(a) adolescente e sua família ao Serviço, deve estar presente no cotidiano dotrabalho a ser desenvolvido.” 104 www.servicosocialparaconcursos.net No primeiro atendimento, em se tratando de PSC, além do acolhimento, o adolescente e seu respon- sável recebem esclarecimentos quanto à medida socioeducativa, o número de horas a serem cumpri- das, locais disponibilizados para o cumprimento e como será realizado o acompanhamento pelo CREAS. Para o encaminhamento do adolescente deve-se levar em consideração o território de resi- dência do adolescente, o tempo de execução da medida, as potencialidades e habilidades do adoles- cente bem como a disponibilidade de locais para o cumprimento da medida. O encaminhamento do adolescente ao local para prestação de serviço deve acontecer mediante for- mulário padrão (vide volume III deste Protocolo), a ser preenchido pelo equipe de referência do Ser- viço, após contato prévio do técnico. Além do formulário de encaminhamento para o cumprimento da PSC, o adolescente deverá levar os formulários para o registro da frequência e para as avaliações, tanto dele mesmo quanto da instituição (modelos destes formulários encontrados no volume III deste Protocolo). Assim, o CREAS deve acompanhar sistematicamente o cumprimento da medida, monito- rando a frequência, a participação e o desempenho do adolescente. A prestação de serviços à comunidade deve ter jornada máxima de 8 horas semanais e não pode im- plicar em prejuízos a frequência à escola ou a jornada normal de trabalho. Outros procedimentos também são necessários neste encontro, tais como: preenchimento do cadas- tro de atendimento social, encaminhamentos para aquisição de documentação pessoal e inserção na rede formal de ensino, quando necessário. É importante salientar os encaminhamentos para a Prote- ção Social Básica, para a inserção no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Demais encaminhamentos também podem ser realizados, como tratamento à dependência química, atendi- mento psicológico ou psiquiátrico, profissionalização, entre outros, de acordo com a necessidade. Para o atendimento, é condição indispensável a elaboração, contando com a participação do adoles- cente e dos pais ou responsáveis, do instrumento Plano Individual de Atendimento (PIA), em formulá- rio padrão. A elaboração deste constitui-se numa importante ferramenta no acompanhamento da evolução pessoal e social do adolescente e na conquista de metas e compromissos pactuados com esse adolescente e sua família durante o cumprimento da medida socioeducativa. Cabe destacar aqui, dois artigos da Lei Nº 12.594/2012: Art. 52 [...] Parágrafo único. O PIA deverá contemplar a participação dos pais ou responsáveis, os quais têm o dever de contribuir com o processo ressocializador do adolescente [...] Art. 54. Constarão do plano individual, no mínimo: I – os resultados da avaliação interdisciplinar; II – os objetivos declarados pelo adolescente; III – a previsão de suas atividades de integração social e/ou capacitação profissional; IV – atividades de integração e apoio à família; V – formas de participação da família para efetivo cumprimento do plano individual; e VI – as medidas específicas de atenção à sua saúde. 105 www.servicosocialparaconcursos.net O plano deve prever as medidas socioassistenciais e psicossociais necessárias ao atendimento do ado- lescente, mencionando inclusive as propostas e programas realizados para integração da família ou dos referenciais parentais do adolescente no acompanhamento da medida. O PIA deve ser encaminhado para a Vara da Infância e da Juventude – Adolescentes em Conflito com a Lei, via PROJUDI, num prazo de 15 dias do ingresso do adolescente no CREAS, conforme prevê o Art. 56 da Lei Nº 12.594/2012. Ainda segundo a mesma lei, em seus artigos 41 e 42, a autoridade judiciária dará vistas ao PIA num prazo de 3 dias, bem como o defensor e o Ministério Público poderão requerer, mediante fundamentação, a avaliação ou complementação do referido plano. O acompanhamento do adolescente é realizado pela equipe de referência do Serviço e acontece em encontros periódicos, seja por meio de atendimentos individuais ou intervenções em grupo. O aten- dimento individual é organizado por meio de metas, procedimentos e objetivos, devendo fundamen- tar-se nas seguintes áreas: jurídica, saúde, psicológica, social e pedagógica. No que se refere às inter- venções em grupo, são programados encontros com os grupos de adolescentes e famílias, cuja tônica é a motivação social e a participação solidária na reorganização de projeto de vida, enquanto sujeito social, assim como no fortalecimento dos vínculos familiares. Nos encontros são priorizadas as discussões e ações acerca dos seguintes temas: Gravidez na adoles- cência; Drogadição; Família; Cidadania; Estatuto da Criança e do Adolescente – Direitos e Deveres; limites; e outros temas elencados de acordo com a necessidade identificada. ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................................................................................................................