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Toxicologia dos Alimentos Objetivos: • Conhecimento das substâncias tóxicas presentes nos alimentos; • Estabelecimento das formas de evitar que estas sejam ingeridas em quantidades que representem risco à saúde. Toxicologia dos alimentos ANVISA (Brasil) – registro de aditivos, drogas, pesticidas e avaliação de risco à exposição humana. FAO (Food and Agriculture Organization – Internacional) – avaliação do risco para estabelecer padrões alimentares . FDA (Food and Drug Administration) (Estados Unidos) • No contexto de toxicologia de alimentos, os alimentos são definidos como misturas químicas complexas constituídas de substâncias nutritivas e não-nutritivas. • E estas podem ser consumidas in natura ou processadas. • Substâncias nutritivas os macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídios) e micronutrientes (vitaminas e minerais). • Substâncias não-nutritivas aquelas que não apresentam importância nutricional. Exemplo: no caso do café já foram identificadas mais de 600 substâncias não-nutrientes. Outras possibilidades de ocorrência de substâncias tóxicas em alimentos geração e/ou adicionamento durante o processamento, conservação e estocagem. As substâncias tóxicas podem agir no organismo como: 1- agentes tóxicos – que são capazes de produzir anormalidades fisiológicas e ou anatômicas em curto espaço de tempo, 2- agente antinutricional – substâncias tóxicas que agem como antienzimas, antivitaminas, ou sequestradores de minerais. A gravidade do quadro de intoxicação irá depender de fatores, tais como: • grau de toxidade da substância, • complexidade metabólica do ser intoxicado, • via de absorção, • tempo exposição, • quantidade da substância tóxica ingerida, • forma de excreção da substância tóxica. Aditivo: qualquer ingrediente adicionado ao alimento intencionalmente, sem propósito de nutrir, com o objetivo de modificar características físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante o processo de fabricação, processamento, preparação, tratamento, embalagem, acondicionamento, armazenagem, transporte ou manipulação de um alimento. • Diretos • Indiretos Conceitos Aditivo direto: intencionalmente adicionado e seu uso justifica-se por sua habilidade em conservar, melhorar características nutricionais/ organolépticas ou contribuir para a produção e processamento de alimentos. Ex: nitrato e nitrito em embutidos. Aditivos diretos podem ser considerados em 2 categorias: Aditivos Generally Recognized As Safe (GRAS): são isentos de regulamentação, a menos que uma revisão científica demonstre necessidade de reclassificação € Aditivos não-GRAS: utilização controlada e permitida somente para tipos especiais de produtos. Classificação de aditivos com base no nível de segurança Aditivo indireto: está presente no alimento não intencionalmente ou não desejável. Pode penetrar no alimento durante a sua produção, processamento, estocagem ou acondicionamento. Ex: resíduos de antibióticos na carne ou no leite. Contaminante: qualquer agente químico, físico ou biológico presente no alimento, sem finalidade específica, podendo causar dano ao organismo ao ser ingerido. 1- Substâncias tóxicas não-nutritivas de origem natural Dentre as substâncias tóxicas presentes nos alimentos, podem ser destacadas: • Glicosídeos cianogênicos – Ao serem hidrolisados liberam ácido cianídrico – HCN. É estimado que mais de 2000 espécies vegetais são cianogênicas. Se a concentração de cianeto nestes vegetais for superior a 20 mg por 100 g do produto, o risco de intoxicação é alto. Exemplo: linamarina presente na mandioca brava. Glicoalcalóides – são encontrados em diversas variedades de batatas. Produtos com concentrações próximas a 45 mg de agente ativo por 100 g de tubérculo causa intoxicação fatal em humanos. Os glicoalclóides são produzidos durante o crescimento da planta e no brotamento. Oxalatos – são sais resultantes de reações químicas do ácido oxálico associado ao potássio e sódio, formando sais hidrossolúveis, ou ao cálcio formando sais não hidrossolúveis. São encontrados em espinafre, ruibarbo, beterraba, cenoura, feijão, alface, amendoim e cacau. Altas ingestões podem provocar irritabilidade do Sistema Nervoso Central. Oxalato de cálcio obstrução nos túbulos renais surgimento de cálculos renais. 3 Agentes produtores de flatulência - geralmente são oligossacarídeos que acumulam na parte final do trato intestinal. Estas substâncias são fermentadas por bactérias anaeróbicas levando a produção de gases como: dióxido de carbono, hidrogênio e metano. Estes gases causam diarreias, ruídos intestinais, cólicas e a ejeção de gases retais. Estudos demonstram que isto pode ocorrer devido à ingestão de diferentes tipos de feijão. Carcinógenos - alguns vegetais podem ser utilizados como chás medicinais, e dentre as substâncias ingeridas, algumas podem propiciar o surgimento de câncer. Por exemplo, a planta confrei, amplamente difundida no Brasil, a qual é atribuída propriedade nutricional e terapêutica, quando sob uso prolongado pode favorecer ao aparecimento de tumores na bexiga e fígado. 2- Substâncias não-nutritivas adicionadas aos alimentos Em razão das técnicas de produção, processamento e armazenagem pode ocorrer a contaminação química dos alimentos de forma direta ou indireta. As contaminações diretas decorrem da manipulação da matéria prima até o produto final. As contaminações de forma indireta decorrem de: • práticas utilizadas para a obtenção de matéria prima (uso de praguicidas e quimoterapêuticos veterinários); • contaminação do alimento por componentes da embalagem durante o período de armazenagem. Possibilidades de contaminação dos alimentos durante o processamento, conservação e armazenagem. Contaminação Direta Incontrolável A contaminação direta pode ocorrer de forma incontrolável ou pelo emprego em dosagens excessivas de aditivos. Dentre a forma incontrolável, podem ser citadas: • toxinas produzidas pelos microrganismos, • geração de compostos tóxicos nos alimentos, ex: compostos N-nitrosos • incorporação de metais tóxicos. Produção de toxinas por microrganismos Sobre os alimentos é estabelecida uma microbiota cuja constituição está relacionada a : • atividade aquosa • composição química do alimento • temperatura do ambiente de armazenagem • constituição química da atmosfera deste ambiente. Alguns microrganismos podem sintetizar toxinas. Fungos produzem micotoxinas como: aflatoxina, ocratoxinas, tricotecenos e zearalenonas. Principais características das micotoxinas Aflatoxina - são toxinas produzidas pelos fungos Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus. São identificadas como B1, B2, G1 e G2, de acordo com a fluorescência azulada e esverdeada, respectivamente, quando observadas sob luz ultravioleta. • B (blue) • G (green) A aflatoxina é extremamente tóxica e carcinógena. A intoxicação é chamada de aflatoxicose: falha do fígado devido à destruição das células parenquimatosas, o que pode ser acompanhado de hemorragias e alterações das funções nervosas em combinação com espasmos. Em humanos o processo de intoxicação pode ocorrer de forma gradual. Animais como cavalo, macaco, peru e pato são extremamente sensíveis. Ocratoxinas - são produzidas pelas espécies Aspergillus alutaceus, A. alliaceus e outras. Grãos de cereais e de leguminosas. Promovem acumulação de gordura no fígado e sérios danos renais, principalmente em suínos e cães. Normalmente, retardam a maturação sexual em galinhas e diminui a produção de ovos. . Tricotecenos - são toxinas produzidas por fungos do gênero Fusarium, que podem causar aos homens e animais problemas como: • vômitos, • hemorragias, • recusa do alimento, • necrose da epiderme, • redução do ganho de peso e da produção de ovos e leite, • interferência no sistema imunológico, • morte. Ocorrem em grãos como o milho, trigo, cevada e outros. Zearalenonas - é umtipo de toxina que pode ser produzida pelas espécies Fusarium roseun var. graminearum, Gibberella zeae, Fusarium tricintum e Fusariun moniliforme. Os principias produtos agrícolas infectados são o milho, sorgo, cevada, trigo, aveia e seus subprodutos. Em casos de intoxicações podem causar: hiperestrogenismo, aborto, natimortos, falso cio, prolapso retal e da vagina, infertilidade, e feminização dos machos com desenvolvimento de mamas. Mesma ação do hormônio feminino. Geração de compostos tóxicos nos alimentos Nitrosaminas e nitrosamidas • Nos alimentos e no organismo estas substâncias se originam de reações químicas denominada nitrosação. • Este processo pode envolver grupamentos, tais como: aminas, amidas, aminoácidos ou proteínas. • Para a ocorrência da nitrosação é necessária a presença de um agente nitrosante, NxOy, que pode ser formado no ambiente ou a partir de nitritos presentes nos alimentos. • Existem pesquisa para estabelecer os índices de toxidade para compostos N-nitrosos. • O que é conhecido são níveis de DL50 via oral para ratos. Incorporação de minerais tóxicos • Os compostos tóxicos minerais presentes nos alimentos geralmente são resultantes da contaminação ambiental. • Os principais minerais tóxicos que podem estar presentes são o arsênio, cadmo, mercúrio e o chumbo. Contaminação Direta – Emprego de Dosagens Excessivas de Aditivos Para os aditivos considerados seguros (GRAS) não há necessidade de aplicação de rigor quanto à limitação de dosagens, visto a baixa possibilidade de causar intoxicações. Ex: sal, açúcar, condimentos e os aditivos nutricionais (vitaminas, iodeto de potássio, cálcio, ferro, magnésio e fósforo). Os ativos não-GRAS requerem a necessidade da estipulação de índices tais como: o Limite Máximo Permitido – LMP; o nível de Ingestão Diária Admissível - IDS; e o nível de Ingestão Semanal Admissível – ISS. Caso ocorra a ultrapassagem destes índices é definido como um caso de contaminação direta. Possibilidades de contaminação dos alimentos durante o processamento, conservação e armazenagem. Contaminação indireta A contaminação indireta decorre dos processos empregados para a obtenção de matéria prima, tais como: promotores de crescimento, quimoterapêuticos veterinários e praguicidas. Além destas pode também ocorrer à contaminação do alimento devido a absorção de componentes da embalagem. Promotores de crescimento: substâncias administradas a animais visando o rápido crescimento e ganho de peso. Ex: fármacos e hormônios, que quando não empregados corretamente podem intoxicar o consumidor final. Contaminação indireta Quimoterapêuticas: antibióticos utilizados profilaticamente em animais produtores de alimentos evitando infecções. Não fazer uso de antibióticos nos períodos de carência antecessor ao abate, caso contrário o consumidor final poderá ser afetado. Praguicidas: resíduos de herbicidas, fungicidas, inseticidas ou raticidas. Atualmente, no Brasil são registradas cerca de sete marcas comerciais destinadas a controle de insetos em grãos, cujos princípios ativos são dos tipos: organofosforados, ou piretróides. Estas substâncias bloqueiam a troca de impulsos elétricos entre as células nervosas, o que gera paralisação de todas as atividades metabólicas dos insetos. Incorporação de compostos das embalagens: pH, presença de óleo, teor alcoólico, teor de lipídios, tempo de estocagem e temperatura, podem favorecer reações entre o alimento e a embalagem. Latas: a lata deve ser revestida internamente com filmes inorgânicos e orgânicos capazes de suportar variações de temperatura e permanecerem inertes ao alimento, de tal modo não propiciar o contato com a parte metálica da embalagem que pode ter por constituintes, substâncias, tais como: chumbo, cadmo e alumínio. Plásticos: deve ser observada a característica de emprego do plástico utilizado. A indústria petroquímica oferece uma variedade de plásticos e na produção destes podem estar envolvidas substâncias carcinógenas, tais como: cloreto de vinila (PVC) e estireno. Questões 1. Conceitue substâncias nutritivas e não-nutritivas. 2. Quais os objetivos da Toxicologia de Alimentos? 3. Os aditivos são sempre prejudiciais? Explique. 4. Que fatores determinam a gravidade do quadro de intoxicação alimentar? 5. O que as micotoxinas podem causar? Responda especificando cada uma. 6. Como acontecem as contaminações de forma indireta? 7. Cite exemplos de substâncias tóxicas não-nutritivas de origem natural. Padrões de segurança em Toxicologia de Alimentos Grupos que estabelecem os padrões de segurança Determinação de índices e limites para alguns aditivos. ANVISA (Brasil) – registro de aditivos, drogas, pesticidas e avaliação de risco à exposição humana. FAO (Food and Agriculture Organization – Internacional) – avaliação do risco para estabelecer padrões alimentares . FDA (Food and Drug Administration) (Estados Unidos) Limite máximo permitido É a quantidade de um aditivo ou contaminante (não-nutriente) presente no alimento e expressa em massa/massa ou massa/volume (mg/kg do alimento ou mg/L, se líquido), que pode ser ingerido por um indivíduo durante toda a sua vida, sem causar efeitos nocivos. Índices de toxicidade em alimentos LMP (Limite Máximo Permitido): Quantidade máxima do aditivo que pode estar presente no alimento sem que cause dano à população exposta. - expresso em ppm ou mg/kg - sempre provisório, tendência diminuir - não existe para substâncias presentes naturalmente. Exemplo: Corante Z LMP = 5 ppm • Presente em balas, sucos, gelatinas, etc • Questão se o LMP não for ultrapassado em nenhum dos produtos acima, podemos ingerir Ingestão Diária Aceitável - IDA É a quantidade de um aditivo ou contaminante no alimento que pode ser ingerida diariamente, durante toda a vida, sem risco apreciável à saúde, à luz dos conhecimentos toxicológicos disponíveis na época de sua avaliação. É expressa em mg/kg de peso corpóreo/dia. LISTA GRAS de ADITIVOS alimentares (geralmente reconhecidos como seguros). Parâmetros de segurança Ingestão diária aceitável (IDA): IDA= NOAEL FS • NOAEL: maior dose onde não se observa efeito tóxico nos animais de experimentação • FS: fator de segurança (fator de 100 para aditivos) 1. Avaliação toxicológica visando identificar efeitos decorrentes da exposição a níveis elevados e determinar a dose que não provoca efeitos adversos (NOAEL). 2. Cálculo da dose que o homem pode ingerir por toda a vida sem risco a saúde. Aditivo e praguicida – IDA Contaminantes – Ingestão diária ou semanal tolerável (IDTM, ISTM) 3. Regulamentação para garantir que a IDA não será excedida. Avaliação toxicológica de substâncias químicas presentes nos (aditivos ou contaminantes) 3 estágios: Critérios para Avaliação: Exigências de testes não é a mesma para todos os aditivos. Fatores que influenciam: • Toxicidade esperada (estrutura química); • Níveis de exposição; • Ocorrência natural dos alimentos; • Uso em alimentos tradicionais; • Conhecimento de efeito no homem. Critérios para Avaliação: Dados importantes e relevantes: • Metodologia de fabricação; • Presença de impurezas; • Destino dos alimentos; • Níveis de emprego nos alimentos; • Estimativa da ingestão diária. Avaliação toxicológica de substâncias químicas Evidências que podem dispensar estudos toxicológicos detalhados e ensaios a longo prazo: 1. Os metabólitos formados pelo aditivo se encontram naturalmente presentes no organismo, em concentrações superiores àquelas que derivam do uso do aditivo; 2. Aditivo contribui com apenas uma pequena quantidade de metabólitos também formados por componentes naturais do alimento. 3. Composto não é absorvido pelo organismo. 4. Quando o aditivo, antes da absorção, é degradado a compostos bem conhecidos e reconhecidamente seguros. Tipos de IDA: • Incondicional. Ex. sacarina e seus sais (0-5 mg/kg/dia) • Temporária.Ex. galato de octila* (0-0,1 mg/kg/dia) • Não-especificada. Ex. celulose microcristalina, sorbitol • De grupo. Ex. sorbatos (0-25 mg/kg/dia) *O galato de octila é o éster de 1-octanol e ácido gálico. Como aditivo alimentar, é utilizado sob o número E E311, como antioxidante e conservante. Contaminação Química de Alimentos Fontes: • Poluição Industrial do ambiente: HG, Cd... • Agricultura: Praguicidas, fármacos veterinários e fertilizantes • Processamento de alimentos: Nitrosaminas • Contaminação fúngica: Micotoxinas Impacto na sociedade Intoxicação Aguda níveis elevados Intoxicação crônica acúmulo, carcinógenos Aspectos econômicos • Exportação de alimentos sistemas de controle • Rejeição de alimentos perda econômica Avaliação toxicológica de contaminantes • Toxicologista • Nutricionista • Epidemiologista • Administrador • Legislador Níveis seguros de ingestão Concentrações seguras nos alimentos Contaminantes Químicos Limites toxicológicos 1. PTWI (Ingestão Semanal Tolerável Provisória) 2. PMTDI (Ingestão Diária Máxima Tolerável Provisória) 3. MTDI (Ingestão Diária Máxima Tolerável) 4. IDA (Ingestão Diária Aceitável) 5. “Irreducible Level” PTWI (Ingestão Semanal Tolerável Provisória) • Limite toxicológico utilizado para contaminantes que se acumulam no organismo; • Valor que representa exposição semanal tolerável daqueles contaminantes inevitavelmente associados com o consumo de alimentos, por outro lado, sadios e nutritivos; • (ex: metais tóxicos - Hg, Cd, Pb). MTDI (Ingestão Diária Máxima Tolerável) • Limite toxicológico utilizado para contaminantes que não se acumulam no organismo; • O valor representa permissibilidade de exposição como resultado da ocorrência da substância no alimento e na água; • (ex: poliestireno) PMTDI (Ingestão Diária Máxima Tolerável Provisória) • A partir de 1982, o JECFA*, estabeleceu uma faixa para aqueles elementos-traço que são nutrientes essenciais e constituintes inevitáveis do alimento; • O menor valor representa o nível de essencialidade e o maior limite toxicológico; • (ex: Cu, Zn) JECFA: Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives “IRREDUCIBLE LEVEL” Quando a concentração de uma substância não pode ser eliminada do alimento sem implicar no descarte total do mesmo comprometendo, assim, a disponibilidade do alimento. Ingestão Diária Estimada IDE= C x I onde: C= concentração da substância química no alimento I= quantidade ingerida em 1 dia do alimento Questões: 1- Como pode ser calculado o IDA? O que significa este índice? 2- O que é Limite Máximo permitido? 3- Quais os órgãos responsáveis pela determinação e verificação dos índices e limites de aditivos nos alimentos? 4- Relacione os índices de contaminantes vistos e seus conceitos.