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Tecnologia de Carnes e Derivados CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA – CNI Armando de Queiroz Monteiro Neto Presidente SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL – SENAI Conselho Nacional Armando de Queiroz Monteiro Neto Presidente SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL - SENAI Departamento Nacional José Manuel de Aguiar Martins Diretor Geral Regina Maria de Fátima Torres Diretora de Operações 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Confederação Nacional da Indústria Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Departamento Nacional Tecnologia de Carnes e Derivados Brasília 2010 Cristiane Marangoni Lisiane das Neves Barbosa © 2010. SENAI – Departamento Nacional É proibida a reprodução total ou parcial deste material por qualquer meio ou sistema sem o prévio consentimento do editor. Equipe técnica que participou da elaboração desta obra SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Departamento Nacional Setor Bancário Norte, Quadra 1, Bloco C Edifício Roberto Simonsen – 70040-903 – Brasília – DF Tel.:(61)3317-9000 – Fax:(61)3317-9190 http://www.senai.br Coordenador Projeto Estratégico 14 DRs Luciano Mattiazzi Baumgartner - Departamento Regional do SENAI/SC Coordenador de EaD - SENAI/SC em Chapecó- Franciela Salete Santim - SENAI/SC em Chapecó Coordenador de EaD – SENAI/SC em Florianópolis Diego de Castro Vieira - SENAI/SC em Florianópolis Design Gráfico Equipe de Desenvolvimento de Recursos Didáticos do SENAI/SC em Florianópolis Design Educacional, Diagramação, Ilustrações e Revisão Textual FabriCO Ficha catalográfica elaborada por Luciana Effting CRB 14/937 – SENAI/SC Florianópolis S311t Marangoni , Cristiane Tecnologia de carnes e derivados / Cristiane Marangoni, Lisiane das Neves Barbosa. Brasília: SENAI/DN, 2010. p. : il. color ; 30 cm. Inclui bibliografias. 1. Carne - Microbiologia. 2 . Carne - Indústria. 3. Carne – Legislação . 4. Carne - Embalagem. I. Barbosa , Lisiane das Neves. II. SENAI. Departamento Nacional. I II. Título. CDU 664.91 282 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Sumário Apresentação do Curso ............................................................................... 07 Plano de estudo ............................................................................................. 09 Unidade 1: Matéria Prima ........................................................................... 11 Unidade 2: Microbiologia de Carne e Derivados ................................ 53 Unidade 3: Legislação e Normas .............................................................. 85 Unidade 4: Obtenção, Abate e Desossa ................................................. 119 Unidade 5: Industrialização de Produtos Cárneos ............................. 163 Unidade 6: Embalagens e Envoltórios .................................................... 225 Sobre as Autoras ............................................................................................ 273 Referências ....................................................................................................... 25 7 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Este curso pretende dar formação na área da tecnolo- gia e ciência da carne e dos produtos cárneos. Numa perspectiva integrada, são abordados os processos de obtenção da carne, a bioquímica de transformação do músculo em carne e os diferentes processos de in- dustrialização. São estudadas as várias legislações que embasam a industrialização e as embalagens utiliza- das nos diversos produtos cárneos industrializados. Ao final do curso, você terá capacidade de enten- der a bioquímica de transformação do músculo em carne; conhecer e aplicar os princípios e elemen- tos fundamentais do processamento e controle de qualidade da carne de produtos cárneos; conhecer a legislação aplicável; definir as características de- terminantes da qualidade da carne e de diferentes produtos cárneos. O sistema de avaliação contemplará atividades de aprendizagem a ser desenvolvidas no decorrer dos estudos. Os estudos encontram-se subdivididos em seis uni- dades e contemplam diversos temas de tecnologia e industrialização de produtos cárneos. A primeira unidade apresenta um embasamento so- bre a composição da carne, seus macro e micronu- trientes, os fatores que influenciam na constituição muscular, bem como toda a bioquímica de transfor- mação do músculo em carne. Apresentação do Curso 83 Os microrganismos que podem estar presentes de forma desejável ou indese- jável nos produtos cárneos são apresentados na segunda unidade. As fases do crescimento microbiano, os fatores que o influenciam e as transformações oca- sionadas nos produtos cárneos são assuntos que complementam e deixam mais atrativo o estudo dessa unidade. A legislação que regulamenta a elaboração de produtos cárneos, os ingredien- tes e aditivos permitidos, bem como legislações pertinentes a embalagens, constituem os assuntos abordados de maneira clara e objetiva na unidade 3. As unidades 4 e 5 apresentam as etapas de condução, abate e desossa de bo- vinos, suínos, aves e pescados, e os diversos produtos cárneos que podem ser obtidos com a industrialização dessas matérias-primas. As embalagens e/ou os envoltórios, as funções, os tipos de material que com- põem as embalagens e as interações entre embalagens e produtos cárneos integram a unidade 6 desta obra. A sua participação será estimulada no decorrer do curso por meio de atividades de aprendizagem, curiosidades e diversas interações dos autores com o leitor sobre os temas estudados. Sejam bem-vindos ao curso a distância de Tecnologia em Carnes e Derivados. Desejamos a você um bom estudo! 9 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 8 Plano de Estudos Carga horária 100 h Ementa Estudo da composição da carne e dos fatores que influem na composição da carne; compreensão das características gerais do músculo; análise da química da contração muscular; análise da conversão do mús- culo em carne; explicitação dos tempos de instalação e resolução do rigor mortis; descrição da modificação da extensibilidade muscular ao longo do período post- mortem e fase do post rigor mortis; estabelecimento de relações entre pH e qualidade da carne; estudo das características físicas da carne; busca de compreensão acerca da contaminação da carne; caracterização dos microrganismos da carne; descrição do crescimento microbiano; descrição das fases de crescimento dos mi- crorganismos na carne; estudo dos fatores que afetam o crescimento microbiano em carnes; demonstração de como analisar a contaminação microbiana na carne; estudo dos fatores que causam a deterioração dos alimentos durante a estocagem; análise da Regulamen- to de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA); caracterização da rotulagem de produtos cárneos; apresentação dos ingredientes, aditivos e coadjuvantes tecnológicos; descrição do processo de abate de bovinos, suínos, aves e pescado; caracterização de produtos cárneos frescais, cozidos, emulsionados, formados, defumados, salgados, cura- dos, fermentados e empanados; compreensão das características geraisdas embalagens e dos tipos de materiais e suas funções. 103 Objetivos Objetivo Geral Apresentar a importância da tecnologia de obtenção de carnes para a elabora- ção de produtos cárneos industrializados. Objetivos Específicos Apresentar as matérias-primas que podem ser utilizadas na elaboração de industrializados. Apresentar os fatores microbiológicos que podem afetar a qualidade da car- ne e dos produtos cárneos industrializados. Apresentar as legislações e normas que regem o desenvolvimento de pro- dutos cárneos. Apresentar diferentes processos de abate e desossa de animais. Apresentar as principais formas de industrialização dos cortes obtidos de abate de animais. Apresentar as embalagens e os envoltórios que podem ser utilizados em produtos cárneos e suas funções. 11 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Objetivos de Aprendizagem Ao final desta unidade, você terá subsídios para: compreender os fatores que influenciam na composição da carne; conhecer a composição da carne e as carac- terísticas dos músculos que a compõem; saber como ocorre quimicamente a contra- ção muscular e as transformações que ocor- rem na conversão do músculo em carne; analisar os fatores que influenciam nas pro- priedades tecnológicas da carne. Aulas Acompanhe nesta unidade o estudo das seguintes aulas: Aula 1: Fatores que influem na composição da carne Aula 2: Composição da carne Aula 3: Características gerais do músculo Aula 4: A química da contração muscular 1Matéria Prima 123 Aula 5: Conversão do músculo em carne Aula 6: Tempos de instalação e resolução do rigor mortis Aula 7: Modificação da extensibilidade muscular ao longo do período post-mortem e fase de post rigor mortis Aula 8: pH e qualidade da carne Aula 9: Características físicas da carne Para Iniciar Seja bem-vindo à primeira unidade deste curso. Nela, você conhecerá os principais componentes da carne e verá que sua composição é vari- ável, de acordo com características de espécie, raça, sexo, idade, nutri- ção e localização anatômica. A carne é composta por cinco tecidos: muscular, epitelial, adiposo, nervoso e conjuntivo. O tecido que será mais estudado nesta unidade é o tecido muscular, o qual é dividido em três tipos: músculo esquelético, músculo liso e músculo cardíaco. A qualidade final da carne depende dessa composição e de fenômenos fisiológicos e bioquímicos que ocorrem antes do abate do animal, du- rante e após a instalação do rigor mortis. O músculo torna-se carne so- mente após a instalação do rigor mortis, e sua qualidade final depende das reações bioquímicas que ocorreram antes e após a morte do animal. Esta unidade contempla a estrutura, a composição e a funcionalidade do tecido muscular, bem como a bioquímica da transformação do mús- culo em carne. Para garantir uma melhor aprendizagem, também são abordados fatores que podem influenciar nas características finais da carne, como o pH e os momentos que antecedem o abate do animal. 13Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 12 Aula 1: Fatores que influem na composição da carne Nesta aula, você conhecerá alguns dos diversos fatores que influenciam na composição da carne, segundo Roça e Bonassi (1981): espécie, raça, sexo, idade, nutrição, localização anatômica e treinamento e exercício. Espécie: o efeito da espécie na composição da carne é o fator mais acen- tuado, porém, nos músculos com pouca gordura, a variação da composição química é pequena. Raça: depois da espécie, a raça é o fator intrínseco que mais afeta na com- posição química e bioquímica do músculo. Os bovinos de corte possuem maior quantidade de graxa intramuscular do que os bovinos de leite. Sexo: em geral, os machos possuem menor quantidade de graxa subcutânea do que as fêmeas. Idade: de maneira geral, ao aumentar a idade, aumentam quase todos os parâmetros químicos, com exceção da água. Animais jovens possuem pou- ca quantidade de graxas subcutâneas e intramusculares e não apresentam marmorização. Nutrição: em geral, o nível de alimentação sobre o crescimento de animais de carne se reflete na composição de diversos músculos. O teor de graxa intramuscular também é um reflexo do plano de nutrição. Localização anatômica: é o fator intrínseco mais complexo. Há variações na composição química dos músculos de diferentes localizações. Treinamento e exercício: a modificação mais acentuada ocorre no teor de mioglobina, que é relativamente mais alto nos músculos mais ativos do que nos músculos menos ativos. Dica De acordo com a região anatômica de onde o corte é extraído, observa- se uma variação na composição da carne. 143 Veja, na Tabela 1, os cortes provenientes de suíno, bovino e ave, bem como a composição físico-química desses cortes. Tabela 1: Variação da composição físico-química de acordo com o corte animal Animal Corte Água Proteína Gordura Cinzas Suíno Paleta 74,9 19,5 4,7 1,1 Lombinho 75,3 21,1 2,4 1,2 Chuleta 54,5 15,2 29,4 0,8 Presunto 75 20,2 3,6 1,1 Toucinho 40 11,2 48,2 0,6 Bovino Coxa 76,4 21,8 0,7 1,2 Lombo 74,6 22 2,2 1,2 Frango Músculo 73,3 20 5,5 1,2 peito 74,4 23,3 1,2 1,1 Fonte: Roça e Bonassi (1981) Nesta aula, você conheceu alguns dos diversos fatores que influenciam na com- posição da carne. Na próxima aula, estudará a composição da carne. Aula 2: Composição da carne Nesta aula, você verá com detalhes os principais componentes da carne: água, minerais, carboidratos, vitaminas, proteínas, gorduras. Os componentes majoritários da carne são a água, entre 60% e 80%, as proteí- nas, entre 16% e 22%, a gordura, entre 3% e 13%, além de cinzas, carboidratos, vitaminas, minerais. Veja, a seguir, detalhes sobre cada um desses componentes. Água A água é o componente mais abundante da carne, pois influi na sua qualidade, afetando a suculência, a textura, a cor e o sabor. Sendo a água o meio univer- sal das reações biológicas, sua presença influencia diretamente as reações que ocorrem na carne durante o armazenamento e seu processamento. Ela é um componente muito importante para a atividade muscular, uma vez que a pres- 15Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 14 são e a descompressão, a contração e o relaxamento somente são possíveis em presença da água. Sendo o componente majoritário da carne magra, a água auxilia principalmente nas funções de transporte de nutrientes, hormônios e produtos metabólitos. Atenção A água é o principal componente da carne, equivalendo entre 60% e 75% de seu peso. Minerais A carne possui quase todos os minerais de importância para a nutrição humana: o cálcio, o fósforo, o potássio, o enxofre, o sódio, o cloro, o ferro e o magnésio. O conteúdo de cinzas ou resíduo mineral fixo obtido após incineração da carne a 500-600 ºC fica em torno de 0,8 a 1,8%. Quantitativamente, o fósforo e o potássio são os mais importantes. O cálcio e o magnésio, por sua vez, desempenham importante papel na contração muscular. Já os compostos orgânicos do fósforo, com diversos ésteres do ácido fosfórico, intervêm nas modificações post-mortem, no processo de maturação e hidratação da carne. A carne pode ser considerada uma boa fonte de micronutrientes como zinco e ferro, sendo que o ferro proveniente da carne possui uma melhor biodisponibi- lidade que o proveniente dos alimentos vegetais. Para saber de que forma os minerais estão presentes nos diferentes tecidos cár- neos, veja a Tabela 2, que contém dados obtidos em pesquisas. Tabela 2: Quantidade de minerais presentes em diferentes tecidos cárneos Tecidos Ca (g/100g) Na (g/100g) K (g/100g) Fe (mg/100g) Carne bovina 0,013 0,084 0,33 3,0 Carne bovina assada- 0,07 0,3 3,2 Carne suína assada - 0,07 0,4 1,3 Carne de vitelo assada - 0,09 0,4 1,3 Carne de cordeiro assada - 0,08 0,3 2,1 Fonte: Seuβ (1991); Price e Schweigert (1994) 163 Carboidratos A carne é pobre em carboidratos, podendo ser cons- tituída de polissacarídeos (glicogênio) e monossaca- rídeos (glicose e frutose). Ela quase não possui car- boidratos porque o glicogênio se transforma quase totalmente em ácido lático durante o rigor mortis. O conteúdo de glicogênio varia com o tipo de músculo e a atividade. No animal vivo, está em tor- no de 1,5%, e após as modificações post-mortem fica em torno de 0,1%. As vísceras comestíveis são mais ricas em carboidratos do que a carne mus- cular. O fígado bovino possui de 2% a 4%, e o de suíno possui 1% de carboidratos. Quando a carne é assada, os carboidratos se combi- nam com aminoácidos livres, formando melanoidinas que dão sabor e odor característicos (ROÇA, 1993). Vitaminas A carne possui vitaminas hidrossolúveis do com- plexo B (tiamina, riboflavina e niacina), como as vitaminas B1, B2, B6 e B12. As vitaminas liposso- lúveis, por sua vez (A, D, E e K), encontram-se em quantidades importantes somente nas vísceras, principalmente no fígado. Em geral, a carne é pobre em vitamina C, entretanto, o fígado e os produtos derivados da carne possuem quantidades consideráveis dessa vitamina. A carne suína é importante fonte de vitamina B1, enquanto a carne de outros animais de abate con- tém essa vitamina em menores teores. A carne e os produtos derivados também possuem ácido nicotí- nico, pantatênico e fólico, (ROÇA, 1993). Para ver os teores de vitaminas presentes em al- guns cortes cárneos preparados, analise a Tabela 3. Rigor mortis é o estado de rigidez cadavérica, caracterizado pela estru- tura inextensível adquiri- da após uma reação entre actina e miosina, forman- do a actomiosina. 16 17Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados Tabela 3: Quantidade de vitaminas presentes em alguns cortes cárneos Alimentos B1 µg B2 µg B6 µg B12 µg A µg C mg Carne bovina magra assada 100 260 380 2,7 20 1 Carne suína magra assada 700 360 420 0,8 10 1 Carne de cordeiro magra assada 105 280 150 2,6 45 1 Carne de vitelo magra assada 70 350 305 1,8 10 1 Fonte: Seuβ (1991) Atenção A carne não pode ser considerada fonte de vitaminas, pois quando recebe cozimento ocorre a degradação dessas vitaminas. A perda por cocção chega a 10% para a vitamina A, 30% para a B1, 25% para a B2 e 40% para a vitamina C. O processo de fritura (alta temperatura em curto tempo) promove menos perdas das vitaminas termolábeis (ROÇA, 1993). Proteínas A carne é um alimento altamente proteico. Ela possui de 16% a 22% de proteína e apenas peque- nas quantidades de substâncias nitrogenadas não proteicas (aminoácidos-livres, peptídeos, nucleotí- deos e creatina). Encontram-se na carne proteínas de três formas: sarcoplasmáticas (enzimas e mioglobina); miofibrilares (actina, miosina, actomiosina; insolúveis (colágeno, elastina e reticulina). Vitaminas termolábeis são vitaminas que não resistem à ação do ca- lor, sendo parcialmente destruídas durante os processos de cura, de- fumação, preparo culi- nário, enlatamento e desidratação. Disponível em: <www.biomania. com.br/bio/conteudo. asp?cod=1375>. Acesso em: 29 out. 2010. 183 Uma característica positiva da carne é o teor de proteínas com alto valor biológico. O valor biológico de uma proteína está determinado pelo seu conteúdo em aminoácidos essenciais. As proteínas de origem animal possuem, devido à sua composição rica em aminoácidos, um valor biológico mais elevado que as proteínas de origem vegetal (ROÇA, 1993). Gorduras A gordura está armazenada no tecido epitelial animal de três formas, recebendo diferentes denominações: gordura extracelular: constituída pelos depósitos de tecido adiposo subcutâ- neo (no abdome sobre a pele) e demais depósitos no organismo animal; gordura intermuscular: localiza-se entre os músculos e se deposita junto do epimísio; gordura intramuscular: conhecida como marmorização. Constitui-se de fi- bras muito finas no tecido muscular e se deposita junto do perimísio. Na figura a seguir, você pode visualizar a forma como a gordura se apresenta nos tecidos. Extracelular Intermuscular Intramuscular Figura 1 - Formas de apresentação da gordura animal nos tecidos Dica A quantidade de gordura depositada varia de acordo com a idade do animal, com grupo racial ao qual pertence e com a nutrição à qual ele foi submetido. Considera-se também uma pequena quantidade de gordura presente no tecido muscular, a qual é encontrada formando pequenas gotículas no líquido interce- lular (FORREST et al., 1979). 19Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 18 Nesta aula, você conheceu os principais componentes da carne: água, minerais, carboidratos, vitaminas, proteínas, gorduras. Na próxima aula, aprenderá sobre os cinco tipos de tecido existentes e verá detalhes sobre o tecido muscular, que tem grande importância na carne. Aula 3: Características gerais do músculo Nesta aula, você aprenderá sobre os cinco tipos de tecidos existentes e verá detalhes sobre o tecido muscular, que tem grande importância na carne. A carne é composta por cinco tecidos: epitelial, adiposo, nervoso, conjuntivo e muscular. O tecido muscular compreende os componentes de maior importân- cia para a carne. 1 Tecido epitelial Dentre todos os tecidos presentes no corpo animal, o que se encontra em me- nor proporção é o epitelial. Esse tecido forma as camadas interna e externa da superfície do corpo do ani- mal e de alguns órgãos, como pele, fígado e rins. As principais funções desempenhadas pelo tecido epitelial compreendem: pro- teção, secreção, excreção, transporte, absorção e percepção sensorial. 2 Tecido adiposo O tecido adiposo é considerado a principal reserva energética dos animais e é formado por células chamadas adipócitos, que acumulam gordura em seu inte- rior. Esse tecido é considerado dinâmico, porque as gorduras são constantemente estocadas e mobilizadas. 203 3 Tecido nervoso O tecido nervoso está presente na proporção de 1% no corpo animal e divide- se em duas categorias: sistema nervoso central: inclui o cérebro e a espinha dorsal; sistema periférico: inclui fibras nervosas presentes em outras partes do corpo. 4 Tecido conjuntivo O tecido conjuntivo tem a função de conectar, conferindo conjunto e equilíbrio estrutural ao corpo. Contém duas proteínas fibrosas, cada qual com sua função: o colágeno e a elastina. Colágeno: quando aquecido, adquire forma semelhante à gelatina. Influencia na maciez da carne. Elastina: contém fibras que cedem bastante à tração e retornam à forma original quando cessa a força. 5 Tecido muscular O tecido muscular compreende os componentes de maior importância para a carne. Ele está dividido em três tipos, que você pode visualizar na Figura 2: músculo esquelético estriado, ou voluntário; músculo cardíaco, ou involuntário estriado; músculo liso ou involuntário. Tecido muscular esquelético Tecido muscular cardíaco Tecido muscular liso Figura 2 - Tipos de tecido muscular Fonte: Dias e Schneider (2010) 21Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 20 Músculo esquelético estriado, ou voluntário Com exceção dos animais excessivamente gordos, os músculos esqueléticos com- preendem cerca de 35% a 60% do peso da carcaça, constituindo o principal com- ponente da carne. O músculo esquelético apresenta-se ligado a ossos, ligamentos e pele, e é o único cuja contração pode ser voluntariamente conduzida e controla- da, proporcionando o movimento dos vários segmentos do esqueleto e do corpo. Na Figura3, você pode visualizar um músculo inteiro (constituído por feixes musculares), recoberto por tecido conjuntivo denominado epimísio. Perceba que cada feixe muscular (conjunto de fibras musculares) é envolto pelo tecido conjuntivo chamado endomísio. Figura 3 - Esquema do músculo esquelético Fonte: Sarcinelli, Venturini e Silva (2007) A unidade estrutural do músculo esquelético é uma célula muito especializada denominada fibra muscular. As fibras musculares esqueléticas são células longas e afiladas, responsáveis pela forma estriada característica desse tipo de músculo. A forma, o tamanho e a composição desse tipo de músculo variam de acordo com a função que ele desempenha no animal vivo. As fibras musculares podem atingir até vários centímetros de comprimento, mas de modo geral não alcançam o comprimento total do músculo. Uma fibra muscular estriada típica mede entre 1 mm e 40 mm de comprimento e tem de 10 mm a 100 mm de diâmetro, dependendo da espécie e do músculo avaliado. Na Figura 4, você pode ver que as fibras são agrupadas paralelamente, forman- do feixes que se associam para formar os músculos. 223 Figura 4 - Unidades estruturais do músculo Fonte: Sarcinelli, Venturini e Silva (2007) A membrana lipoproteica que reveste as fibras musculares é chamada sarcolema. Ela é bastante elástica para suportar as distorções que ocorrem na contração e no relaxamento do músculo. Você verá isso a seguir, quando estudar os constituintes da fibra muscular. Músculo cardíaco, ou involuntário estriado O músculo cardíaco possui fibras com ramificações, constituídas por filamentos grossos (miosina) e finos (actina). Esse músculo possui como propriedade exclusiva a contratilidade rítmica que continua ininterruptamente desde o início da vida até a morte do animal. Essa contração é controlada por um mecanismo elétrico específico do coração, que, embora seja submetido a vários estímulos, é independente da vontade – de- pende do aparelho cardionector e é modulada pelo sistema nervoso central. 23Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 22 Músculo liso O músculo liso possui células longas e alinhadas (semelhantes ao músculo esquelético) com uma parte central grossa e extremidades estreitas e afiladas. Ele auxilia na manuten- ção e no equilíbrio fisiológico do corpo do animal. Encontra-se nas paredes das artérias, nos vasos linfáticos, no trato gastrointestinal e no aparelho reprodutivo. Sua contração é controlada pelo sistema nervoso autônomo, por isso ela não costuma ser voluntária. Constituintes da fibra muscular Sarcolema: esse nome deriva da junção das palavras gregas sarx ou sarkos, que significa músculo, e lema, que significa casca. Sarcolema é uma membrana lipoproteica que recobre cada fibra muscular e não difere essencialmente das membranas plasmáticas de outros tipos celulares. Ela é bastante elástica para suportar as deformações que ocorrem nas fases de contração, relaxamento e estiramento do músculo. Uma característica exclusiva do sarcolema é a forma- ção de invaginações ao longo de toda a superfície da fibra, formando uma rede de túbulos, chamados de túbulos transversais, ou túbulos T. Sarcoplasma: corresponde ao citoplasma de outras fibras musculares. É uma substância coloidal, constituída de uma típica matriz citoplasmática com 75% a 85% de água, gotículas de gordura, grânulos de glicogênio, e de organelas, assim como de miofibrilas peculiares ao músculo. Núcleos: o número de núcleos de uma fibra muscular esquelética varia de acordo com o seu comprimento, sendo que em uma fibra com vários centíme- tros de comprimento pode existir centenas deles, distribuídos regularmente em espaços de 5 mm ao longo do eixo longitudinal. Os núcleos são alongados na direção da fibra e normalmente se localizam logo abaixo do sarcolema, exceto nas fibras musculares esqueléticas de peixes, no centro das quais se localizam. Os principais componentes dos núcleos são: a membrana nuclear, o plasma nuclear, a cromatina e o nucléolo. Miofibrilas e miofilamentos: as miofibrilas são estruturas cilíndricas, compri- das e delgadas, com diâmetro de 1 mm a 2 mm, orientadas no sentido longitu- dinal da fibra muscular e que preenchem completamente seu interior. Uma fibra muscular com um diâmetro de 50 mm pode ter de 1.000 até 2.000 miofibrilas. As miofibrilas são formadas por um agrupamento ordenado de filamentos grossos e finos, paralelos entre si, cuja distribuição ao longo da miofibrila é responsável pela formação de bandas. Elas também se agrupam de modo que as bandas ou estrias ficam em sincronia, formando faixas claras e escuras que caracterizam o músculo estriado esquelético. As faixas claras receberam o nome de bandas I. A banda I é dividida ao meio por uma linha transversal escura chamada linha Z. 243 A unidade estrutural repetitiva da miofibrila, onde os eventos morfológicos do ciclo de contração e relaxamento do músculo ocorrem, é o sarcômero, defini- do como o segmento entre duas linhas Z sucessivas, incluindo, portanto, uma banda A e duas meias bandas I. Os comprimentos do sarcômero e da banda I variam de acordo com o estado de contração do músculo, enquanto o com- primento da banda A permanece constante. No centro da banda A, existe uma zona mais pálida, chamada faixa H, atravessada por uma estreita linha escura chamada linha M, que se localiza precisamente no centro da banda A. Na Figura 5, você visualiza a unidade estrutural representante da miofibrila, com suas bandas e linhas. Figura 5 - Unidade estrutural da miofibrila com suas bandas e linhas Fonte: Jiang (1998) Como você pôde ver na Figura 5, as miofibrilas contêm filamentos grossos e finos. Os filamentos grossos são compostos basicamente por miosina e cons- tituem a banda A do sarcômero. São também denominadas de filamentos de miosina. Os filamentos finos constituem a banda I do sarcômero e são compos- tos principalmente por actina. Proteínas reguladoras As principais proteínas reguladoras, em ordem decrescente de concentração na miofibrila, são: tropomiosina, troponina, as proteínas da linha M (creatina qui- nase, miomesina e proteína M), a actinina, proteína C e b actinina. As proteínas miosina e actina constituem de 75% a 80% das proteínas miofibri- lares, sendo a porção restante constituída pelas proteínas reguladoras da fun- ção muscular, atuando direta ou indiretamente no complexo adenosina trifosfa- to-actina-miosina. Miosina: a miosina constitui de 50% a 55% da proteína miofibrilar e se caracte- riza por sua grande proporção de aminoácidos carregados positiva ou negativa- mente. Seu pH isoelétrico é de 5,4. A molécula de miosina é grande e complexa. Tem forma de bastão e em uma de suas extremidades apresenta uma saliência globular ou cabeça. É na cabeça que ocorre a combinação com a actina. 25Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 24 Actina: a actina constitui de 20% a 25% das proteínas miofibrilares. Apresenta- se sobre a forma de estruturas longas e fibrosas formadas por duas cadeias de monômeros globulares torcidas uma sobre a outra, em hélice dupla. A actina é rica em prolina e seu ponto isoelétrico é de aproximadamente 4,7. Dica As proteínas actina e miosina reagem para formar o complexo actomiosina. A actinomiosina é a principal forma de proteína miofibrilar encontrada em músculo post-mortem. A rigidez que se desenvolve no músculo é devida à formação deste complexo. Na Figura 6, você pode visualizar a actina e a miosina interagindo para for- mar a actomiosina. Figura 6- Proteína actina e miosina interagindo para formar a actomiosina Fonte: Ganong (1999) Você visualiza a ligação do cálcio à troponina C na Figura 7. Ganong (1999) explica que, quando a fibra se encontra em repouso, as hastes da tropomiosina encontram-se em posição de bloqueio, encobrindo os locais ativos da actina,impedindo assim a formação da actomiosina. 263 Figura 7 - A ligação do cálcio à troponina C desloca as hastes de tropomiosina da sua posição de blo- queio, permitindo a interação entre a actina e a miosina Fonte: Ganong (1999) Durante a contração muscular, cada cabeça de miosina se liga a uma molécula de G-actina do filamento de actina. Dias e Schneider (2010) demonstram que a formação de pontes de ligação entre essas moléculas produz o complexo químico denominado actinomiosina. Na Figura 8 você pode visualizar os miofi- lamentos de actina e miosina. Figura 8 – Miofilamentos de actina e miosina Fonte: Dias e Schneider (2010) 27Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 26 A tropomiosina e a troponina representam, juntas, entre 16% e 20% das proteínas miofibrilares. A tropomiosina é responsável pela sensibilidade do sistema actomio- sina ao cálcio que deflagra a contração, e a troponina é a proteína receptora desse íon. Ambas estão associadas ao filamento de actina (GUIMARÃES; ADELL, 1995). Veja, no Quadro 1, um resumo das principais proteínas presentes no músculo e suas respectivas quantidades. Proteínas miofibrilares: 10,0 Filamentos grossos: Miosina 5,0 Proteína C 0,2 Proteína M 0,3 Filamentos finos: Actina 2,5 Tropomiosina 0,8 Troponina 0,8 β-actinina 0,1 Linha z: α-actinina 0,2 desmina 0,1 Proteínas sarcoplasmáticas: 7,0 Enzimas sarcoplasmáticas e mitocondriais 6,0 Mioglobina 0,6 Hemoglobina 0,2 Citocromo e flavoproteínas 0,2 Proteínas do estroma: 3,0 Colágeno e reticulina 1,5 Elastina 0,1 Outras proteínas insolúveis 1,4 Total de proteínas: 20,0 Quadro 1: Proteínas do músculo esquelético (g/100g de músculo) Fonte: Roça (1981) 283 A unidade estrutural do tecido muscular é o sarcômero, o qual é delimitado por duas linhas Z. O sarcômero constitui a unidade básica para os ciclos de contra- ção e relaxamento. Retículo sarcoplasmático e túbulos T: o conjunto de retículo sarcoplasmático (RS) e túbulos T formam um sistema de canais e cisternas, delimitado por mem- branas, formando uma rede ao redor de cada miofibrila, exibindo um padrão repetitivo e altamente especializado que apresenta uma relação constante com determinadas faixas de miofibrila. As membranas reticulares do RS são os locais de armazenamento do cálcio das fibras em repouso. Embora desempenhem funções em conjunto essas duas estruturas, originam-se de sistemas de membranas distintos, uma vez que o RS corresponde ao retículo endoplasmático de outros tipos celulares, enquanto que os túbulos T se originam do sarcolema e se comunicam com o espaço ex- tracelular. Na região entre as bandas A e I os túbulos longitudinais convergem para canais transversais de maior calibre chamados cisternas terminais. Os túbulos T estão associados ao sarcolema e são responsáveis pela contração uniforme de cada fibra muscular esquelética. Nos mamíferos, nas aves e em alguns peixes, as tríades se localizam entre as bandas A e I, existindo, portan- to, duas tríades por sarcômero, enquanto nos anfíbios só existe uma tríade por sarcômero, localizada sobre a linha Z. O volume ocupado pelo RS em uma fibra muscular é de cerca de 13% do volume total, podendo variar muito de uma fibra para outra. Os túbulos T ocupam somente 0,3% do volume da fibra. Lisossomos: são pequenas vesículas que servem como reservatório de diversas enzimas digestivas. Entre as enzimas proteolíticas, as catepsinas são um grupo importante, pois agem sobre algumas proteínas musculares, contribuindo para o amaciamento da carne durante a maturação. Mitocôndrias: são organelas que se localizam no sarcoplasma. São chamadas de “turbinas” da célula, porque “capturam” a energia procedente do metabolis- mo de carboidratos, lipídeos e proteínas da dieta, por meio do ciclo de Krebs e da cadeia respiratória, e a convertem, por meio da fosforilação oxidativa, em ligações fosfato da molécula de ATP. Há uma grande variação no número e no tamanho das mitocôndrias das fibras musculares. Complexo de Golgi: o Complexo de Golgi se localiza no polo do núcleo do sarcoplasma. É formado por um conjunto de vesículas planas, de constituição semelhante à da membrana do retículo sarcoplasmático. Sua principal função é concentrar e armazenar os produtos do metabolismo celular. 29Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 28 Tipos de fibras musculares Os músculos podem ser classificados em brancos ou vermelhos, de acordo com a intensidade de sua coloração, que por sua vez depende da proporção de fibras vermelhas e brancas existentes. Normalmente, os músculos são forma- dos por uma mistura de fibras vermelhas e brancas, sendo que as últimas estão sempre em maior proporção, mesmo nos músculos que são visivelmente ver- melhos. Os músculos também exibem fibras com características intermediárias entre os tipos vermelho e branco. O conteúdo maior de mioglobina das fibras vermelhas em relação às brancas é o responsável pela sua coloração. Na Tabela 4, você pode notar que as características estruturais, funcionais e meta- bólicas das fibras musculares vermelhas, intermediárias e brancas são diferentes. Tabela 4: Características das fibras musculares vermelhas, intermediárias e brancas de animais de abate Características Fibras vermelhas Fibras intermediárias Fibras brancas Cor Vermelha Vermelha Branca Conteúdo em mioglobina Alto Alto Baixo Diâmetro da fibra Pequeno Pequeno- intermediário Grande Velocidade de contração Lenta Rápida Rápida Tipo de contração Tônica Tônica Fásica Número de mitocôndrias Alto Intermediário Baixo Tamanho mitocondrial Grande Intermediário Pequeno Densidade capilar Alta Intermediário Baixa Metabolismo oxidativo Abundante Intermediário Escasso Metabolismo glicolítico Escasso Intermediário Abundante Conteúdo lipídico Alto Intermediário Baixo Conteúdo glicogênico Baixo Alto Alto Fonte: Forrest et al. (1979) Nesta aula, você aprendeu sobre os cinco tipos de tecidos existentes, com ênfase no tecido muscular, que tem grande importância na carne. Na próxima aula, aprenderá sobre o impulso nervoso responsável pela contração muscular e compreenderá o que é o rigor mortis. 303 Aula 4: A química da contração muscular Nesta aula, você aprenderá sobre o impulso nervoso responsável pela contra- ção muscular e compreenderá o que é o rigor mortis. O estímulo para a contração muscular é geralmente um impulso nervoso, que chega à fibra muscular por um nervo. O impulso nervoso propaga-se pela mem- brana das fibras musculares (sarcolema) e atinge o retículo sarcoplasmático, fazendo com que o cálcio ali armazenado seja liberado. Ao entrar em contato com as miofibrilas, o cálcio desbloqueia os sítios de ligação da actina e permite que esta se ligue à miosina, iniciando a contração muscular. Assim que cessa o estímulo, o cálcio é imediatamente rebombeado para o interior do retículo sarco- plasmático, o que faz cessar a contração (CARNEIRO; JUNQUEIRA, 2004). Para entender como ocorre quimicamente a contração muscular, analise atenta- mente a Figura 9. Figura 9 - Etapas que ocorrem na contração muscular a partir de um estímulo Fonte: Carneiro e Junqueira (2004) Rigor mortis 31Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 30 A energia para a contração muscular é suprida por moléculas de ATP produzi- das durante a respiração celular. O ATP atua tanto na ligação da miosina à acti- na como em sua separação, que ocorre durante o relaxamento muscular. Assim, quando falta ATP, a miosina mantém-se unida à actina, causando enrijecimento muscular. É o que acontece após a morte, produzindo-se o estado de rigidez cadavérica (rigor mortis). Reserva de energia A quantidade de ATP presente na célula muscular é suficiente para suprir ape- nas alguns segundos de atividade muscularintensa. A principal reserva de energia nas células musculares é uma substância denominada fosfato de crea- tina (fosfocreatina, ou creatina-fosfato). Dessa forma, podemos resumir que a energia é inicialmente fornecida pela respiração celular e é armazenada como fosfocreatina (principalmente) e na forma de ATP. Quando a fibra muscular necessita de energia para manter a contração, grupos fosfatos ricos em energia são transferidos da fosfocreatina para o ADP, que se transforma em ATP. Quan- do o trabalho muscular é intenso, as células musculares repõem seus estoques de ATP e de fosfocreatina pela intensificação da respiração celular. Para isso, utilizam o glicogênio armazenado no citoplasma das fibras musculares como combustível, como você pode ver na equação a seguir: Ao receber um estímulo nervoso, a fibra muscular mostra, em sequência, os seguintes eventos: 1 O retículo sarcoplasmático e o sistema T liberam íons Ca++ e Mg++ para o citoplasma. 2 Em presença desses dois íons, a miosina adquire uma propriedade ATPási- ca, isto é, desdobra o ATP, liberando a energia de um radical fosfato. 3 A energia liberada provoca o deslizamento da actina entre os filamentos de miosina, caracterizando o encurtamento das miofibrilas. Nesta aula, você aprendeu sobre o impulso nervoso responsável pela contração muscular e compreendeu o que é o rigor mortis. Na próxima aula, vai aprender que o músculo se transforma em carne após o rigor mortis, que é caracteriza- do pela estrutura inextensível adquirida após a reação entre actina e miosina, formando a actomiosina. 323 Aula 5: Conversão do músculo em carne Nesta aula, você vai aprender que o músculo se transforma em carne após o rigor mortis, que é caracterizado pela estrutura inextensível adquirida após a reação entre actina e miosina, formando a actomiosina. Mesmo após a morte do animal, as funções vitais do seu sistema muscular não cessam. Diversas modificações bioquímicas e estruturais ocorrem após o abate, sendo denominadas de “conversão do músculo em carne”. As modificações bioquímicas e estruturais ocorrem simultaneamente e são de- pendentes dos tratamentos ante-mortem, do processo de abate e das técnicas de armazenamento da carne. Após a sangria, há interrupção do fluxo sanguíneo. Como consequência, inter- rompe-se o aporte de nutrientes e a excreção de metabólitos. Assim, o oxigênio e o controle nervoso deixam de chegar à musculatura. Dessa forma, o tecido muscular (assim como outros tecidos) continua exercendo suas funções meta- bólicas, na tentativa de manter sua homeostase. Pergunta Você sabe o que é homeostase? Homeostase é a manutenção de uma condição de balanço em que todos os órgãos do animal trabalham fisiologicamente em harmonia: o ambiente interno é mantido dentro de uma faixa muito estreita de temperatura, pH, concentração de oxigênio e de gás carbônico. O músculo, então, passa a utilizar a via anaeróbica para obter energia para um pro- cesso contrátil desorganizado. Nesse processo, há transformação de glicogênio em glicose, e como a glicólise é anaeróbica, gera lactato e verifica-se a queda do pH. Com o gasto dos depósitos energéticos, o processo contrátil tende a cessar, formando um complexo irreversível denominado de actomiosina. Nesse estado, a musculatura atinge o rigor mortis, ou seja, os músculos transformam-se em carne. 33Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 32 O enrijecimento muscular ocorre quando a concentração de ATP não é mais suficiente para manter as miofibrilas em estado de relaxamento. Nesse ponto, actina e miosina interagem formando o complexo actomiosina de maneira irre- versível, responsável pelo endurecimento muscular. O encurtamento provocado pelo rigor mortis difere da contração normal porque se formam mais pontes cruzadas de actomiosina. Dica Durante a contração normal, ligam-se somente 20% dos sítios possíveis de ligação. Durante o rigor mortis, praticamente todos os sítios de ligação entre actina e miosina são utilizados, fazendo com que ocorra um significativo encurtamento do sarcômero. Você pode ver, no Quadro 2, os processos, os ingredientes e os produtos envol- vidos na etapa aeróbica e anaeróbica de conversão do músculo em carne. Método Aeróbico Anaeróbico Processos Glicólise â Ciclo de Krebs â Ca- deia Mitocondrial Transportadora de Elétrons Glicólise Ingredientes 1 Glicose + 36 Pi + 36 ADP + 6 O2 1 Glicose + 3 ADP + 3 Pi Produtos 36 ATP 6 CO2 42 H2O 3 ATP 2 Lactato 2 H+ 3 H2O Quadro 2: Processos, ingredientes e produtos envolvidos nos processos aeróbico e anaeróbico de con- versão do músculo em carne Fonte: Feijó (2010) Quando o rigor mortis está completo (momento que coincide com o esgota- mento do ATP), começa a haver ruptura da linha Z e de outras proteínas do citoesqueleto. A estrutura miofibrilar também começa a sofrer uma progressiva degradação, porém sem que se desfaçam as pontes de actomiosina. 343 Atenção Essa degradação é diferente entre as espécies de animais de açougue e pode ser responsável pelas diferenças de qualidade da carne. O final do rigor mortis, ou a resolução, é indicada pelo amaciamento das massas musculares e resulta de alterações causadas por degradação da estrutura da fibra muscular. Até esse momento, dois fenômenos são de extrema importância na transformação do músculo em carne: a queda do pH muscular; a resolução do rigor mortis. Atenção Do ponto de vista tecnológico, considera-se carne o músculo que tenha passado pelo rigor mortis. Analise, na Figura 10, a descrição dos processos envolvidos durante a transforma- ção do músculo em carne. Observe que, logo que cessa a circulação sanguínea, começam a ocorrer diversos processos até a conversão do músculo em carne. Figura 10 - Descrição dos processos envolvidos durante a conversão do músculo em carne e caracterís- ticas sensoriais Fonte: Prändl et al. (1994) 35Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 34 Nesta aula, você aprendeu que o músculo se transforma em carne após o rigor mortis, que é caracterizado pela estrutura inextensível adquirida após a reação entre actina e miosina, formando a actomiosina. Na próxima aula, aprenderá que a velocidade de instalação do rigor mortis varia conforme a espécie animal, a forma de abate e a temperatura ambiente. Aula 6: Tempos de instalação e resolução do rigor mortis Nesta aula, você aprenderá que a velocidade de instalação do rigor mortis varia conforme a espécie animal, a forma de abate e a temperatura ambiente. Após determinado tempo, o músculo transforma-se em carne e volta a tornar- se flexível, devido à ação das enzimas proteolíticas, as quais quebram os com- ponentes do sarcômero. Essa transformação é chamada cientificamente de re- solução do rigor mortis e pode variar de espécie para espécie, como você pode observar na Tabela 5. Tabela 5: Tempo de instalação e resolução do rigor mortis para diferentes espécies Espécie de animal Temp para instalação do rigor mortis Tempo para resolução do rigor mortis Bovino 6 a 12 h 2 a 6 dias Carneiro 6 a 12 h ND Suíno 15 min a 3 h 1 a 3 dias Peru < 1 h 5 a 24 h Frango < 30 min 4 a 6 h Peixe < 1h ND Fonte: Olivo (2006) 363 O teor de ácido láctico presente no músculo, no momento da morte do animal, é o que determinará a velocidade da instalação do rigor mortis e o pH final da carne. O valor final de pH depende diretamente da quantidade de glicogênio presente no músculo no momento da morte do animal. Normalmente, o pH fisiológico (in vivo) de aproximadamente 7,0 diminuirá para o pH final de 5,8 (post-mortem). Quando o pH estabiliza, não ocorre mais contração e relaxamento das miofibri- las, pois não há mais fornecimento de energia (ATP) pelo sistema homeostático. Apartir do momento em que não ocorre mais ATP, temos a instalação do rigor mortis, determinado pela união de grande parte das proteínas de actina e mio- sina, formando a actomiosina, caracterizando a rigidez da musculatura, a qual também pode ser chamada de rigidez cadavérica. Nesta aula, você aprendeu que a velocidade de instalação do rigor mortis varia conforme a espécie animal, a forma de abate e a temperatura ambiente. Na próxima aula, aprenderá que o rigor mortis promove o encurtamento dos sarcô- meros dos músculos e que a maciez da carne depende do tamanho alcançado pelos sarcômeros no rigor mortis. Aula 7: Modificação da extensibilidade muscular ao longo do período post- mortem e fase do post rigor mortis Nesta aula, você aprenderá que o rigor mortis promove o encurtamento dos sarcômeros dos músculos e que a maciez da carne depende do tamanho alcan- çado pelos sarcômeros no rigor mortis. 37Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 36 De acordo com as variações de tamanho do sarcômero, podemos ter varia- ções na maciez da carne durante o período post-mortem, conforme pode ser visualizado na Figura 11. Figura 11 - Variações na maciez da carne durante período post-mortem Fonte: Bridi (2006) Na Figura 11, você pôde visualizar as três variações na maciez da carne: Tempo 1 até 2: Desenvolvimento do rigor mortis Processo de formação das ligações actina-miosina; O músculo começa a perder a extensibilidade; Diminuição do tamanho do sarcômero. Tempo 2: Estabelecimento do rigor mortis Não existe mais energia nas células para desfazer as ligações actina-miosina; Perda completa da extensibilidade do músculo; O sarcômero atinge seu menor tamanho. Tempo 2 até 3: Resolução do rigor mortis – maturação da carne Processo enzimático; Hidrólise das proteínas celulares. Agora que você entendeu como ocorre a variação da extensibilidade muscular, você já pode estudar o que ocorre após o rigor mortis. 383 Durante a fase de post rigor mortis (resolução da rigidez cadavérica), ocorre uma diminuição gradual da rigidez do músculo esquelético até se atingirem valores próximos aos existentes no momento do abate do animal. A fase de post rigor mortis, essencial para a produção de carne macia e para o desenvolvimento do flavour, depende de vários fatores biológicos, físicos e tecnológicos. Esses fatores podem ser divididos em três grupos: 1 Fatores ante-mortem: espécie animal, raça, idade, sexo e tipo de músculo esquelético. 2 Fatores relacionados com o próprio abate do animal: o estresse, quer no transporte para o matadouro, quer na sua permanência no local ou no próprio abate. 3 Fatores post-mortem: tempo e temperatura de maturação, estimulação elé- trica e aplicação de alta pressão. Dica As principais mudanças post-mortem que ocorrem no músculo são a degradação do glicogênio e a ATP, que ocasionam decréscimo do pH até valores em torno de 5,5. Do ponto de vista físico da carne, ocorre primeiro a rigidez cadavérica, devido à formação de actomiosina, e depois ocorre a resolução do rigor mortis devido à atuação de enzimas endógenas. Nesta aula, você aprendeu que o rigor mortis promove o encurtamento dos sarcômeros dos músculos e que a maciez da carne depende do tamanho al- cançado pelos sarcômeros no rigor mortis. Na próxima aula, verá que um dos aspectos mais marcantes da transformação do músculo em carne é a queda do pH. Você aprenderá também o que são os defeitos cárneos PSE e DFD e suas principais características. 39Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 38 Aula 8: pH e qualidade da carne Nesta aula, você aprenderá que um dos aspectos mais marcantes da transfor- mação do músculo em carne é a queda do pH e seu valor final, influenciando na conservação e em propriedades tecnológicas da carne. Além disso, a aceleração do processo de degradação do glicogênio por causas endógenas ou exógenas frequentemente está associada a alterações na qualidade da carne. Você apren- derá também o que são os defeitos cárneos PSE e DFD e suas principais carac- terísticas. Tanto a genética como um manejo sob altas condições de estresse dos animais antes do abate podem provocar um desenvolvimento anormal do processo de queda do pH muscular depois do abate, o que leva a dois tipos de alterações na qualidade da carne, conhecidas como PSE e DFD. Na Figura 12, você pode analisar a modificação do pH em função das horas após abate. Observe que a carne pode ter diferentes quedas de pH, de acordo com fatores ante morte do animal. E de acordo com essa queda de pH, podem- se obter carnes com diferentes defeitos, denominados PSE ou DFD, que deter- minam a qualidade final do músculo. Figura 12 - Padrão de acidificação nas carnes normais, PSE e DFD Fonte: Velarde (2007) 403 A seguir, veja com detalhes o que são os defeitos cárneos PSE e DFD e suas principais características. Carnes PSE O termo PSE (pale, soft, exsudative) é originário da língua inglesa e é caracterís- tico de carnes pálidas, flácidas e exsudativas. A possível existência de uma carne com característica PSE é confirmada pela queda do pH na primeira hora depois do sacrifício, a qual possui pH abaixo de 5,8. A causa fundamental de desenvolvimento da alteração PSE parece ser uma maior velocidade da glicólise nos primeiros momentos post-mortem. A queda do pH causa a desnaturação das proteínas sarcoplasmáticas que precipitam sobre as proteínas miofibrilares, produzindo, assim, uma perda na capacidade de retenção de água da carne, com perda de líquido, o qual pode ser também chamado de exsudação. O fator crítico para a carne é a queda rápida do pH para 5,3/5,4, quando o meio se encontra ainda quente (38 ºC). Atenção O estresse imposto ao animal no período que antecede o abate estimula a glicólise, causando queda rápida de pH quando a temperatura corporal ainda permanece elevada. Esse fenômeno também pode ser correlacionado com a presença do gene Halotano na carne, o qual, ao ser exposto a fatores estressantes durante o transporte ao matadouro, como jejum, dieta hídrica e manejo de condução, determina uma liberação muito rápida de cálcio sarcoplasmático após a sangria. Como consequência desse estresse, temos uma carne pálida com baixa capacidade de retenção de água (CRA). O pH final das carnes PSE ficam em torno de 5,0 a 5,5. Na Figura 13, você pode ver, de maneira genérica, a ocorrência de PSE em car- nes e as características desse tipo de defeito cárneo. 41Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 40 Figura 13 - Fatores que favorecem o desenvolvimento da condição PSE Fonte: Honikel e Kim (1986) A água livre do músculo PSE, possivelmente, influencia a cor, embora ela se situe entre as células musculares, e não em seu interior. Os tecidos que contêm uma grande quantidade de água extracelular têm muitas superfícies refletivas (que refletem totalmente a luz), mas, segundo Forrest et al., (1979), só possuem uma capacidade limitada de absorção luminosa; entretanto, a intensidade da cor diminui muito. A desnaturação das proteínas sarcoplasmáticas é maior na carne PSE, como consequência da combinação de um baixo pH e uma temperatura elevada. Essas proteínas precipitam sobre as miofibrilares reduzindo, com isso, a estabilidade e sua capacidade de retenção de água. Em certa proporção, as proteínas miofibrila- res podem resultar também em uma desnaturação. A perda de transparência e a cor pálida da carne devem-se, portanto, à desnaturação parcial da carne. Pergunta Você sabe qual é o significado econômico da PSE? 423 Veja o que diz Olivo (2006): Aumento das perdas na cura (maturação) de até 5%; Aumento das perdas no cozimento de até 20%; Aumento da proporção de gelatina em enlatado de até 8%; Aumento de 6 a 10% das perdaspor exsudação na carne fresca; Palidez no lombo e duas tonalidades no pernil. Carnes DFD O termo DFD (dark, firm, dry) também é originário da língua inglesa e é caracte- rístico de carnes escuras, firmes e secas. Atenção A exposição do animal a uma situação de estresse por um longo período (brigas, transporte longo, jejum e dieta hídrica prolongada) pode resultar em uma carne DFD, com alta capacidade de retenção de água e pegajosa ao tato. A carne DFD tem um pH alto em virtude das insuficientes reservas de glicogê- nio no momento do abate. Dessa forma, o pH é alto (superior a 6,2) e o múscu- lo possui um potencial redox baixo. Comparando a carne PSE – indesejável pela falta de cor atrativa durante sua comercialização –, a carne DFD consiste em um problema mais sério, por estar sujeita a maior risco de alteração microbiana devido ao alto pH. A ausência de glicose na superfície das carnes DFD permite à microflora atacar e degradar antes os aminoácidos, dando lugar a compostos de odor intenso no processo de deterioração. Devido a essa ausência de glicose na superfície das carnes, de acordo com pesquisa realizada por Price e Schwei- gert (1994), as carnes DFD são mais suscetíveis a alterações microbianas, não só no estado fresco, mas também durante processos de cura, o que determina uma menor vida útil do produto que as utiliza. Dica A carne DFD tem um pH final mais elevado. Dessa forma, possui maior capacidade de retenção de água, sendo de grande valor para a indústria processadora, porém é de baixa aceitação pelo consumidor por conta de sua aparência firme e escura e por sua superfície seca, que pode caracterizar a carne como “velha”. 43Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 42 Quando o pH permanece inalterado após 24 horas do abate (pH ≥ 6,0), as proteí- nas miofibrilares se encontram muito acima de seu ponto isoelétrico. Nesse caso, a capacidade de retenção de água está muito alta e a água se mantém dentro da célula, unida às proteínas miofibrilares. Por isso, a luz incidente é pouco refletida, dando aparência escura à carne. A Figura 14 demonstra de forma genérica o que ocasiona o fenômeno DFD em carnes e o significado desse termo. Figura 14 - Forma de ocorrência de DFD em carnes Agora você já consegue responder às seguintes três perguntas: Por que a carne DFD é escura? Porque seu elevado pH a faz absorver mais luz que o normal. Por que a carne DFD é firme? Porque as fibras estão intumescidas pelo preenchimento com fluidos sarcoplasmáticos. Por que a carne DFD é seca? Porque a água endógena da carne está firmemente ligada às proteínas, não a deixando fluir para a superfície. A seguir, leia o que diz Olivo (2006) a respeito do significado econômico das carnes DFD. Falta de sabor e aroma, pior qualidade degustativa; Vida de prateleira inferior a dois dias a 0 ºC; Baixa atratividade devido a sua cor e textura; Menor capacidade de difusão do sal durante a cura. 443 Entretanto, a DFD também possui fatores positivos. Saiba quais são eles: Maior capacidade de retenção de água; Menor perda de água por exsudação (0,5%); Menores perdas no cozimento (5%). Nesta aula, você aprendeu que um dos aspectos mais marcantes da transfor- mação do músculo em carne é a queda do pH e seu valor final, influenciando na conservação e em propriedades tecnológicas da carne. Aprendeu também o que são os defeitos cárneos PSE e DFD e suas principais características. Na próxima aula, verá que as características físicas da carne consistem em proprie- dades mensuráveis, como cor, capacidade de retenção de água da carne fresca, maciez, suculência e palatabilidade. Aula 9: Características físicas da carne Nesta aula, você aprenderá que as características físicas da carne consistem em propriedades mensuráveis, como cor, capacidade de retenção de água da carne fresca (CRA), maciez, suculência e palatabilidade. A seguir, você verá essas propriedades com mais detalhes. Cor Em condições normais de conservação, a cor é o principal atrativo dos alimentos. 45Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 44 Atenção A cor da carne reflete a quantidade e o estado químico do seu principal pigmento, a mioglobina. A quantidade de mioglobina em um determinado corte de carne varia prin- cipalmente com a atividade física dos músculos que o compõem e de acordo com a maturidade fisiológica do animal ao abate. Alguns músculos são mais solicitados do que outros e, como consequência, apresentam grande proporção de fibras (células) vermelhas entre as fibras brancas, essas últimas sempre em maior número. Os bovinos terminados a pasto se exercitam mais e, geralmen- te, são abatidos mais velhos; assim, por exercício e maturidade, sua carne tem maior concentração de mioglobina e, consequentemente, maior saturação da cor vermelha do que a carne de bovinos confinados. Para determinar a cor objetiva em carnes, pode ser utilizado um colorímetro programado com um sistema L*.a*.b*, de acordo com a CIELAB (Comissão Inter- nacional de Iluminação/Cor), no qual o uso de * caracteriza os padrões determi- nados por essa Comissão. Pergunta Você sabe o significado de cada um dos termos do colorímetro? L*: mede a luminosidade ou porcentagem de refletância; varia de 0 (preto) a 100 (branco) e determina a cor da carne nos padrões de qualidade. Está situ- ado no eixo vertical do diagrama; a*: mede a variação entre as cores vermelha e verde e está situado no eixo horizontal; b*: mede a variação entre o amarelo e o azul; A razão a*/b* estima o teor de mioglobina em uma amostra. Na Figura 15, você vê as três variáveis que o colorímetro fornece, de acordo com o diagrama de Hunter. 463 Figura 15 - Colorímetro Fonte: Bridi (2006) Na Figura 16, você pode visualizar a leitura da cor do produto por meio do colorímetro. Figura 16 - Leitura do colorímetro Fonte: Bridi (2006) Existe uma relação inversa entre os valores de pH e de L*, sendo que quanto menor for o pH maior será o valor de L*. Veja, na Tabela 6, as faixas de valores de L*, pH inicial e pH final em peito de frango. 47Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 46 Tabela 6: Faixas de valores de L*, pH inicial e pH final em peito de frangoFonte: Venturini, Sarcinelli e Silva (2007) Classificação Valor de L* pH inicial pH final PSE > 53 6,10 (±0,5) 5,70 (±0,5) Normal 44 a 53 6,30 (±0,5) 5,80 (±0,5) DFD < 44 7,10 (±0,5) 6,50 (±0,5) Veja, nas figuras a seguir, a coloração de cortes de frango e bovino, respectivamente. Observe, na Figura 17, que quanto maior é o pH do peito de frango menor será sua medida de L*. Assim, para este caso, tem-se uma carne com características de DFD. Ocorre o mesmo quando o pH é menor: para este caso, temos uma L* maior e uma carne com características de PSE. Tabela 17: Influência da cor da carne de frango em função do pH final Filés de peito de frango L* = 54,6 L* = 53,5 L* = 50,5 L* = 47,2 L* = 44,1 L* = 41,3 pH = 5,6 pH = 5,7 pH = 5,8 pH = 6,1 pH = 6,2 pH = 6,3 Fonte: Venturini, Sarcinelli e Silva (2007) Na Figura 18, você pode visualizar de que forma os defeitos PSE e DFD podem influenciar na diferença de coloração dos recortes de carne bovina apresentados. Tabela 18 – Carne bovina apresentando defeito cárneo Normal PSE DFD L* de 44 a 53 L* > 53 L* < 44 483 Capacidade de retenção de água da carne fresca (CRA) A água é o maior constituinte da carne magra, sendo que o teor pode variar de 70% a 75%. Por isso, a habilidade de reter água é importante para a manutenção das propriedades funcionais da carne. Quando a umidade é perdida, o rendimen- to, a maciez, a textura, o sabor e os valores nutricionais são afetados negativa- mente. Dessa forma, a CRA é considerada um indicativo importante para prever o rendimento,o resultado econômico e a qualidade final do produto cárneo. A CRA tem sido definida como a habilidade da carne para reter parcial ou total- mente a água nela contida. Veja as três formas para medir ou indicar a CRA: 1 Sem aplicação de qualquer força; 2 Pela aplicação de força mecânica; 3 Pela aplicação de calor. Dica Como as propriedades funcionais da carne dependem do seu pH final, quanto maior for o valor L* menor será a CRA. Dessa forma, carnes DFD possuem maior CRA que carnes PSE. Maciez É um quesito de grande importância na avaliação ou apreciação por parte do consumidor. Muitos fatores podem influenciar a maciez da carne: genética, sexo, maturidade, promotores de crescimento, velocidade de resfriamento, taxa de queda de pH, pH final e tempo de maturação. Organolepticamente, a maciez de uma carne é sentida como um conjunto de im- pressões. Veja a seguir alguns exemplos dessas impressões dados por Feijó (2010). Consistência da carne: conforme o contato com a língua e as bochechas pode-se sentir se a carne é mole ou firme. Resistência à pressão dental: refere-se à força necessária para a penetração dos dentes na carne. Facilidade de fragmentação: é a capacidade dos dentes para cortar ou de- 49Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 48 sagregar as fibras musculares. Podem acontecer dois extremos: a carne ser tão fragmentável que partículas aderem-se à língua e às bochechas, dando a sensação de secura; ou a carne apresentar fibras demasiadamente unidas, quase sempre em virtude de excesso de tecido conjuntivo. Resíduo ou restos de mastigação: após o processo mastigatório, restos de carne, geralmente tecido conjuntivo originário de perimísio ou epimísio, permanecem na boca. Diversos fatores interferem na maciez da carne. Eles podem ser divididos em inerentes (ante-mortem) ou não inerentes (post-mortem) ao animal. Dica Avaliam-se como inerentes a genética, a fisiologia, a alimentação e o manejo do animal. Assim, como fatores de maciez inerentes ao animal, têm-se: Idade: com o aumento da idade do animal, há a formação de ligações cruzadas entre as moléculas de colágeno que as tornam indissolúveis e enrijecem a carne. Raça: o acúmulo de maior ou menor teor de colágeno sob a forma de peri- mísio (grão da carne) denota diferenças raciais quanto à maciez da carne. Gordura: a gordura intramuscular proporciona aumento da maciez por lubri- ficar a mastigação e diluir o teor de tecido conjuntivo da carne. Por fatores não inerentes ao animal têm-se aspectos como: uso ou não de pro- cessos visando ao amaciamento da carne; e distúrbios de refrigeração: Encurtamento pelo frio: quando um músculo é resfriado imediatamente após o abate, apresenta energia para contrair-se fortemente sob ação do resfriamento. Rigor pelo descongelamento: quando um músculo congela antes de atingir o rigor mortis, posteriormente, quando ocorre o descongelamento, ocorre o encurtamento pelo frio e uma excessiva perda de suco. Posição de resfriamento: evita o encurtamento e o respectivo endureci- mento, por ação física. 503 Eletroestimulação: uma corrente elétrica que, provocando contrações, faz com que os músculos consumam energia e no momento do resfriamento não possam contrair-se demasiadamente. Cocção: a maciez é dependente da temperatura e da velocidade de cozi- mento. Nas carnes bem cozidas, ocorre uma maior rigidez por um fenôme- no denominado “endurecimento proteico”, que é devido à coagulação das proteínas, principalmente as miofibrilares, já que com o calor o colágeno transforma-se em gelatina, favorecendo a maciez da carne. Enquanto a ação positiva do colágeno depende do fator tempo, o endurecimento miofibrilar tem na temperatura de cozimento o ponto crítico. Entre 57 ºC e 60 ºC, ocor- re o amaciamento do tecido conjuntivo sem que haja ação sobre as prote- ínas miofibrilares, ou seja, sem endurecer a carne. Com base nisso é que se recomenda o cozimento prolongado a temperaturas baixas para a carne rica em tecido conjuntivo e o contrário para aquelas pobres em colágeno. Suculência A suculência de um alimento está relacionada com o teor de umidade libe- rado nos primeiros movimentos mastigatórios. A sensação de suculência é maior se houver presença de gordura na carne, o que estimula a salivação e lubrifica o bolo mastigatório. A gordura intermuscular funciona como uma barreira contra a perda do suco muscular durante o cozimento, aumentando a retenção de água pela carne e, consequentemente, sua suculência. A suculência da carne depende também da perda de água durante o cozimento. Tem- peraturas de 80 ºC produzem maiores perdas que temperaturas ao redor de 60 ºC. Dica Quando a carne é assada, forma-se uma superfície (capa) de proteína coagulada que impede a perda de suco; quanto mais rápido o processo de aquecimento ocorrer, mais rápida será a formação dessa capa. Palatabilidade É resultante da combinação de impressões visuais, olfativas e gustativas que se manifestam a partir da cocção do alimento. Conhecem-se mais de mil compo- nentes responsáveis pelo aroma e pelo sabor da carne. 51Unidade 1 Tecnologia de Carnes e Derivados 50 O aroma e o sabor da carne são sensações que podem ser influenciadas por fatores que antecedem o abate, como espécie, idade, sexo, raça, alimentação e manejo. O sabor e o aroma da carne são intensificados com a idade do animal, sendo que, em algumas espécies, a carne de machos inteiros apresenta sabor diferen- te. O sabor cárneo seria semelhante entre as espécies de açougue, entretanto o que as torna diferentes é o teor e a qualidade da gordura presente em cada espécie animal. Outros fatores, como pH final do músculo, condições de resfria- mento e armazenamento também afetam esse parâmetro sensorial. Nesta aula, você aprendeu que as características físicas da carne consistem em propriedades mensuráveis, como cor, capacidade de retenção de água da carne fresca (CRA), maciez, suculência e palatabilidade. Colocando em Prática Parabéns! Você finalizou a Unidade 1 deste curso. Para fixar o que você aprendeu até aqui, realize as atividades de aprendizagem que estão no Ambiente Virtual. Relembrando Nesta unidade, você estudou: que a água é o principal componente da carne; que o músculo é composto por cinco tecidos; as etapas da contração muscular; que o tempo de instalação e resolução do rigor mortis varia de acordo com a espécie animal; que as etapas que antecedem o abate são importantes para determinar a qualidade final da carne; as propriedades físicas da carne e viu como elas são percebidas pelo consumidor. 523 Saiba Mais A maior parte do tecido nervoso é formada pelos neurônios. Para saber mais sobre esse assunto, leia: MACHADO, A. B. M. Neuroanatomia funcional. Rio de Janeiro: Atheneu, 1979. As fibras elásticas são formadas por uma proteína chamada elastina. A elastina se caracteriza por formar fibras mais finas que as formadas pelo colágeno. Essas fibras cedem bastante à tração, mas retornam à forma original quando é cessada a força. A elastina confere a essas fibras elasticidade e resistência. Para saber mais, leia: OLIVO, R. O mundo do frango: cadeia produtiva da carne de frango. Criciúma: Palloti, 2006. O organismo animal possui mais de 600 músculos que variam em tamanho, forma e função. Para saber mais sobre esse assunto, leia: GUI- MARÃES, J. L.; ADELL, E. A. de A. Estrutura e bioquímica do músculo. Apostila do Laboratório de Carnes, DTA-FEA-UNICAMP, 1995. Alongue-se Aproveite que você terminou esta unidade para relaxar um pouco antes de iniciar os estudos da Unidade 2. Levante-se, beba alguma coisa, alimente-se com algo leve, se achar necessário e, antes de partir para as próximas atividades, alongue-se umpouco para garantir a concen- tração na próxima etapa dos estudos. Comece inspirando lentamente, pelo nariz, contando até cinco. Depois, solte o ar, assoprando-o pela boca, também contando até cinco. Repita essa respiração dez vezes ou mais, se achar necessário. Depois, movi- mente a cabeça, como em um sinal de “não”, mantendo 20 segundos de cada lado. Realize esse movimento três vezes ou mais, se desejar. Lem- bre-se de respirar lenta e profundamente enquanto faz este exercício. 53 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Objetivos de Aprendizagem Ao final desta unidade, você terá subsídios para: conhecer os microrganismos úteis, dete- riorantes e patógenos que podem estar presentes na matéria-prima cárnea; analisar os fatores que influenciam o cresci- mento microbiano em carnes; diagnosticar as alterações que os microrga- nismos podem ocasionar nas carnes. Aulas Acompanhe nesta unidade o estudo das seguintes aulas: Aula 1: Contaminação da carne Aula 2: Microrganismos da carne Aula 3: Crescimento microbiano Aula 4: Fases de crescimento dos microrga- nismos na carne Aula 5: Fatores que afetam o crescimento microbiano em carnes 2Microbiologia de Carne e Derivados 543 Aula 6: Como analisar a contaminação microbiana na carne Aula 7: Fatores que causam a deterioração dos alimentos durante a estocagem Para Iniciar Seja bem-vindo à unidade Microbiologia de Carnes e Derivados. Os microrganismos participam de quase todos os aspectos da existência humana, trazendo tanto efeitos benéficos como nocivos. Eles estão presentes em alimentos de diversas formas: como microrganismos úteis, deteriorantes ou patógenos. Esta unidade fala sobre como ocorre o crescimento microbiano em produtos cárneos, os fatores intrínse- cos e extrínsecos que contribuem para este crescimento, bem como os microrganismos que podem se desenvolver e as alterações que sua presença pode ocasionar em produtos cárneos. Bom estudo! Aula 1: Contaminação da carne Nesta aula, você estudará os fatores que contribuem para a contaminação por microrganismos: solo e água, plantas e utensílios, trato gastrointestinal, mani- puladores de alimentos, rações animais, estoques animais, ar e pó. A contaminação é definida como a presença de qualquer substância ou agente em quantidade que torna o produto inaceitável ou potencialmente perigoso ao consumidor. Os contaminantes incluem resíduos químicos alimentares acumulados nos teci- dos, excesso de aditivos, matérias estranhas, parasitas e microrganismos. Fontes de contaminações microbiológicas A partir de agora, você vai estudar as fontes de contaminações microbiológicas nas carnes, de acordo com Jay (2005). 55Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 54 Veja, a seguir, oito fontes naturais de contaminação microbiológica presentes em alimentos: Solo e água: podem entrar em contato na atmosfera pela ação do vento, posteriormente entrando em corpos d’água. Plantas e derivados: a maioria dos organismos de solo e água é que contaminam as plantas. Utensílios: quando carnes são acondicionadas em recipientes ou entram em contato com utensílios, pode-se esperar que alguns ou todos os orga- nismos presentes na superfície desses objetos contaminem a superfície de contato dos alimentos. Trato gastrointestinal: a biota do trato gastrointestinal é transferida para a água e para os alimentos quando águas poluídas são utilizadas para lavar alimentos crus. Manipuladores de alimentos: a microbiota das mãos e do vestuário ex- terno dos manipuladores de alimentos normalmente reflete o meio e os hábitos individuais. Fontes de contaminação estão localizadas nas cavidades nasais, boca, pele e trato gastrointestinal. Rações animais: constituem uma fonte de contaminação de salmonelas para os frangos e fonte de Listeria monocytogenes para animais de leite e de corte. Estoques animais: no caso de vacas leiteiras, os organismos encontrados no leite cru podem ser um reflexo da biota do úbere e da biota ambiental onde vivem os animais. Ar e pó: no ar, durante a manipulação de alimentos, são encontrados os microrganismos gram-positivos, além de mofos e leveduras. Atenção Uma das fontes potenciais de contaminação bacteriana da carne é o ar atmosférico. Logo após a remoção da pele, as carcaças estão sujeitas a essa contaminação, devido à deposição na carcaça de microrganismos da atmosfera da sala de matança. Nesta aula, você estudou os fatores que contribuem para a contaminação por microrganismos: solo e água, plantas e utensílios, trato gastrointestinal, mani- puladores de alimentos, rações animais, estoques animais, ar e pó. Na próxima aula, estudará as formas como os microrganismos podem estar presentes na carne como: úteis, deteriorantes e patógenos. 563 Aula 2: Microrganismos da carne Nesta aula, você estudará as formas como os microrganismos podem estar pre- sentes na carne como: úteis, deteriorantes e patógenos. Os microrganismos podem estar presentes na carne sob três formas: Microrganismos úteis: os microrganismos úteis são utilizados no preparo de ali- mentos e outros produtos industrializados. Ex.: Saccharomyces usado na cerveja; Lactobacillus usado em leite fermentado e Acetobacter usado no vinagre. Microrganismos deteriorantes: os microrganismos deteriorantes são aqueles res- ponsáveis pela deterioração dos alimentos. Ex.: bolores, leveduras e bactérias. Microrganismos patógenos: os microrganismos patogênicos causam doen- ças, desde um simples mal-estar, náuseas, cefaleia (dor de cabeça), diarreia, até uma paralisação respiratória e cardíaca. Nesta aula, você aprendeu que os microrganismos podem estar presentes na carne como microrganismos úteis, deteriorantes e patógenos. Na próxima aula, vai aprender como ocorre o crescimento microbiano. Aula 3: Crescimento microbiano Nesta aula, você vai aprender como ocorre o crescimento microbiano no caso de bactérias e fungos. O crescimento microbiano pode ocorrer pelo aumento da massa celular, de pro- teínas, de lipídeos, de sais e de água do protoplasma. Esse crescimento pode ser medido pela determinação de nitrogênio, de massa celular e de ácido nucleico. 57Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 56 As bactérias têm seu crescimento associado à multiplicação, relacionando-se a massa muscular e a concentração celular (microrganismo/volume). Os fungos não têm crescimento: permanecem em apenas um indivíduo, no qual aumenta o tamanho da colônia. O crescimento dos fungos é determinado pelo diâmetro da colônia. Em processos fermentativos com produção de gás, usa-se a medida de massa celular ou densidade celular. Em processos nos quais se utiliza a resistência ao calor, utiliza-se a concentração celular para medir o crescimento. Dica Das muitas espécies que podem ser encontradas inicialmente em um alimento, apenas poucas têm capacidade fisiológica de multiplicar-se massivamente nas condições concretas que o alimento oferece e que o meio ambiente permite. Veja, na Figura 19, os fatores que podem contribuir para o estresse microbiano. Figura 19 - Fatores de estresse microbiano Fonte: Jay (2005) Nesta aula, você aprendeu sobre o crescimento microbiano no caso de bactérias e fun- gos. Na próxima aula, vai aprender de que forma ocorre esse crescimento microbiano. 583 Aula 4: Fases de crescimento dos microrganismos na carne Nesta aula, você vai aprender que, quando uma cultura microbiana se desen- volve em um sistema fechado, pode-se confeccionar uma curva de crescimento dividida em diferentes fases: lag, log, estacionária e de declínio. Na Figura 20, você pode visualizar uma curva de crescimento e suas quatro fases: lag, log, estacionária e dedeclínio. Figura 20 - Curva de crescimento padrão, em um sistema fechado Fonte: Alvarenga (2009) Veja, com detalhes, cada uma das fases de crescimento dos microrganismos na carne: Lag: é um período variável, no qual ainda não há um aumento significativo da população microbiana: o número de organismos permanece pratica- mente inalterado. Essa fase é observada quando as células sofrem traumas físicos (choque térmico, radiações) ou químicos (produtos tóxicos) ou quan- do são transferidas de um meio rico para outro de composição mais pobre, devido à necessidade de síntese de várias enzimas. Assim, durante este período, observa-se um aumento na quantidade de proteínas, no peso seco e no tamanho celular. 59Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 58 Log, ou exponencial: nesta fase, as células estão plenamente adaptadas, absorvendo os nutrientes, sintetizando seus constituintes, crescendo e se duplicando. Pode-se dizer que nesta fase os microrganismos se encontram na plenitude de suas capacidades, em um meio cujo suprimento de nu- trientes é superior às necessidades do microrganismo. Nesse momento, a quantidade de produtos finais de metabolismo ainda é pequena. A taxa de crescimento exponencial é variável, de acordo com o tempo de geração do organismo. Geralmente, procariotos crescem mais rapidamente que euca- riotos. Nesta fase, realizam-se as medidas de tempo de geração. Geralmen- te, ao final da fase log, as bactérias passam a apresentar fenótipos novos, decorrentes do processo de comunicação denominado quorum sensing. Estacionária: nesta fase, os nutrientes estão escassos e os produtos tóxicos estão se tornando mais abundantes. A velocidade de crescimento dos mi- crorganismos vai diminuindo até atingir a fase em que o número de novos microrganismos é igual ao número de microrganismos que morrem. As causas dessa parada de crescimento devem-se ao acúmulo de metabólitos tóxicos, ao esgotamento de nutrientes e ao esgotamento de O2. Na fase estacionária, são sintetizados vários metabólitos secundários, como antibió- ticos e enzimas. Nessa etapa, ocorre também a esporulação das bactérias. Declínio: Nesta fase, a quantidade de microrganismos que morrem se torna progressivamente superior à quantidade de microrganismos que surgem. Dica Os microrganismos se alimentam secretando enzimas no alimento onde eles se encontram. O número e o tipo de enzimas que eles possuem determina qual constituinte alimentar eles podem quebrar e também até qual ponto das cadeias eles quebram. Alguns microrganismos não têm habilidade de liberar enzimas para quebrar compostos: eles vivem às costas dos produtos de degradação criados por outros microrganismos. Essa relação chama-se simbiose. Nesta aula, você aprendeu as quatro fases em que se dá crescimento micro- biano. Na próxima aula, você vai entender o que pode afetar no crescimento microbiano. 603 Aula 5: Fatores que afetam o crescimento microbiano em carnes Nesta aula, você vai aprender que o crescimento dos microrganismos é grande- mente afetado pelas condições físicas e químicas do ambiente onde se encon- tram, sendo que estas podem influir positiva ou negativamente de acordo com o microrganismo em questão. Você verá os fatores intrínsecos e extrínsecos que influenciam no crescimento microbiano em carnes. Podem ser encontradas diversas espécies de microrganismos em alimentos, porém poucas espécies têm capacidade fisiológica de multiplicar-se massiva- mente nas condições que o alimento oferece e que o meio ambiente permite. O ambiente externo se relaciona com o microambiente em que o microrganismo existe. Existem muitos tipos de microambientes com diversas condições em um alimento. As reações catalisadas por enzimas naturalmente presentes em ali- mentos resultam na produção de calor, uso de O2 atmosférico, liberando CO2 e outros gases. Estas e outras alterações afetam os processos dos sistemas micro- bianos. O microambiente em um sistema líquido é menos heterogêneo do que aquele de um alimento sólido. Desta forma, os organismos que não possuem habilidade de sobreviver ao estresse oferecido em ambientes desfavoráveis morrem, e os que respondem rapidamente às mudanças sobrevivem. Os principais fatores que interferem na multiplicação microbiana são temperatura de estocagem, umidade e oxigênio, além da forma física da carne (carcaça, partes, moída). Os fatores intrínsecos que interferem na multiplicação microbiana compreen- dem as propriedades físicas e a composição química do alimento: umidade, pH, disponibilidade de nutrientes e presença ou ausência de substâncias inibidoras. Os fatores extrínsecos que interferem na multiplicação microbiana compreendem fatores próprios do ambiente onde se estoca o alimento: temperatura, umidade relativa, oxigênio, aeróbios estritos, microaerófilos, anaeróbios estritos, anaeró- bios aerotolerantes, aeróbios ou anaeróbios facultativos e pressão osmótica. Veja, em detalhes, esses fatores que afetam na qualidade da carne: 61Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 60 Fatores intrínsecos Umidade: essencial a qualquer microrganismo, embora as necessidades sejam variadas. A redução da disponibilidade de água constitui método de preser- vação. O nível de requerimento de água para multiplicação é expresso, geral- mente, como atividade de água ou aw (pressão do vapor em equilíbrio com a solução/pv da água, variando de 0 a 1). A aw da carne fresca é usualmente 0,99 ou maior, próximo ao ótimo para a maioria dos microrganismos. Os organismos que vivem em ambientes em que a disponibilidade de água é baixa desenvol- vem mecanismos para extrair água do ambiente, pelo aumento da concentração de solutos internos, seja bombeando íons para o interior ou sintetizando ou concentrando solutos orgânicos (solutos compatíveis), que podem ser açúcares, alcoóis ou aminoácidos (prolina, betaine, glicerol) (SILVA, 1999). pH: o crescimento e a sobrevivência dos microrganismos é muito influenciado pelo pH do meio ambiente, e cada espécie tem a capacidade de crescer dentro de um intervalo (mínimo, ótimo e máximo) específico de pH. A carne possui o pH final de 5,4 a 5,6, que permite o crescimento de fungos, leveduras e bactérias lácticas. Na Figura 21, você pode perceber que as diferentes espécies de microrganismos têm diferentes tolerâncias de pH, e que esses pHs específicos refletem a adapta- ção do organismo ao seu ambiente natural. Observe, no entanto, que há determi- nadas espécies que estão adaptadas para crescer a vários valores da escala de pH. Figura 21 - Distribuição de alguns microrganismos, de acordo com o pH Fonte: Madigan, Martinko e Parker (2003) 623 Na Figura 22, você pode observar que a maioria dos microrganismos tem pH ótimo de crescimento próximo ao neutro (pH = 7,0). Perceba que as bactérias possuem três grandes faixas de desenvolvimento, sendo que as acidófilos crescem a baixos valores de pH (1-5,5), os alcalifílicas desenvolvem-se a valores elevados de pH (8,5-11,5) e os neutrófilos preferem pH 5,5-8. Os fungos preferem ambientes ligeiramente ácidos, sendo o seu pH ótimo entre 4 e 6. As leveduras crescem melhor entre pH 4,0 e 4,5. Figura 22 - Escalas de pH de crescimento aproximadas de alguns microrganismos transmitidos por alimentos Fonte: Massaguer (2005) Disponibilidade de nutrientes: a carne é, geralmente, rica em proteína e pobre em carboidratos, favorecendo o crescimento dos microrganismos proteolíticos, como as leveduras. De modo geral, a carne constitui um excelente meio para a multiplicação e o crescimento dos microrganismos. Dica Os carboidratos são consumidos no início da deterioração de alimentos ricos em amido. Poucos microrganismos intervêm, pois devem possuir a enzima amilase para atacar o amido cru, que é mais difícil de ser atacado pelos microrganismos doque o amido cozido. Presença ou ausência de substâncias inibidoras: substâncias inibidoras: (teci- dos protetores – pele e tegumentos). Substâncias bacteriostáticas praticamente inexistem em condições naturais; são substâncias adicionadas durante processo. 63Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 62 Dica As “bactérias intrínsecas” estão presentes internamente nos tecidos de animais, podendo atingir os tecidos antes ou após a morte; geralmente são provenientes do trato gastrintestinal. Fatores extrínsecos Temperatura: cada microrganismo tem sua temperatura ótima de crescimen- to: a máxima e a mínima. Nesta faixa de temperatura, podemos determinar as temperaturas mínima, ótima e máxima (temperaturas cardeais) para cada mi- crorganismo. A maioria cresce bem entre 15 ºC e 40 ºC. O congelamento mata ou causa injúria à maioria das bactérias na carne. Há decréscimo da contagem bacteriana com o congelamento. A temperatura menor que 5 ºC restringe o crescimento da maioria das bactérias espoliativas e as patogênicas. Portanto, essa é a temperatura crítica de refrigeração. Na Figura 23, você pode observar que, à medida que há um aumento da tem- peratura, as reações químicas e enzimáticas na célula tendem a tornar-se mais rápidas, acelerando a taxa de crescimento. Entretanto, em determinadas tempe- raturas, inicia-se o processo de desnaturação de proteínas e ácidos nucleicos, inviabilizando a sobrevivência celular. Figura 23 - Temperaturas cardeais dos microrganismos Fonte: Madigan, Martinko e Parker (2003) 643 Entre os diferentes microrganismos observa-se uma ampla variedade de faixas de temperatura, nas quais para alguns o ótimo encontra-se entre 5 °C e 10 °C, enquanto para outros é de 90 °C a 100 °C. Dessa forma, os microrganismos podem ser classificados em quatro grupos, de acordo com os ótimos de tempe- ratura: psicrófilos, mesófilos, termófilos e hipertermófilos. A Figura 24 apresenta essas quatro classificações de microrganismos, suas temperaturas ótimas de desenvolvimento e um exemplo de microrganismo para cada classe. Figura 24 - Tipos de microrganismos em relação à temperatura Fonte: Madigan, Martinko e Parker (2003) Veja, a seguir, a classificação de microrganismos proposta por Jay (2005), de acordo com a temperatura em que crescem: Psicrófilos: crescem abaixo dos 20 ºC, sendo a sua temperatura ótima de 15 ºC ou mais baixa. Uma das características deste grupo é o fato de crescerem entre os 0 ºC e os 10 ºC, o que permite, por exemplo, que possam crescer em alimentos armazenados no frigorífico. Alguns microrganismos crescem a tem- peraturas inferiores a 0 ºC e em alimentos congelados. Ex.: Flavobacterium. Mesófilos: crescem entre os 20 ºC e os 45 ºC. Perceba que a temperatura do corpo humano é de 37 ºC. Assim, neste grupo, inclui-se a maioria dos mi- crorganismos patogênicos. Ex.: E. coli. Termófilos: crescem a temperaturas superiores a 45 ºC, sendo a temperatu- ra ótima entre 50 ºC e 60 ºC. Algumas bactérias são capazes de sobreviver à fervura, mesmo que não sejam capazes de crescer (termodúricos). Muitos dos formadores de esporos suportam a ebulição durante 15 minutos, devido aos seus resistentes endósporos. Ex.: Thermococcus. Temperatura (°C) 65Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 64 Hipertermófilos: estes microrganismos têm crescimento ótimo acima de 100 °C. Sua faixa de desenvolvimento pode variar de 80 °C a 113 °C. Ex.: Pyrodictium brockii. Dica Durante o crescimento e o desenvolvimento, a pele dos animais adquire grande população de microrganismos. Essa população inclui contagens (log10 ufc/cm²) de 5,0 a 9,0 de aeróbios mesófilos, de 3,0 a 6,0 de Enterobacteriaceae, 1,0 a 5,0 de E. coli, 5,0 a 6,0 de esporos de bacilus, 1,0 a 3,0 de fungos e 6,6 de Salmonella dublin. Umidade relativa: está intimamente relacionada com a temperatura de refrige- ração do produto cárneo. A umidade relativa deve ser baixa na temperatura de refrigeração para evitar o efeito “suar”, o qual facilita a espoliação da carne. Os microrganismos requerem diferentes umidades relativas para seu desenvolvi- mento. As bactérias necessitam de umidade relativa elevada para multiplicação acima de 90%, as leveduras, entre 87% e 92%, e os fungos, em torno de 84%. Oxigênio: os microrganismos apresentam uma grande diversidade em relação à sua capacidade de usar o oxigênio livre para a respiração celular. Na maior parte das células, o oxigênio atmosférico é necessário para o processo da respiração. No entanto, algumas células não têm o sistema enzimático para a respiração em presença do oxigênio e, por conseguinte, necessitam usar uma forma anaeróbia de respiração ou fermentação. Dessa forma, os microrganismos são classificados em grupos fisiológicos atendendo ao seu comportamento em relação ao oxigênio: Aeróbios estritos (ex.: Mycobacterium, Legionella, fungos filamentosos): necessitam da presença de oxigênio para crescer e podem fazê-lo em uma atmosfera com 21% de oxigênio. Microaerófilos (ex.: Helicobacter pylori, Campylobacter jejuni): necessitam de oxigênio como os aeróbios, mas só conseguem crescer com concentrações de oxigênio menores do que as que existem na atmosfera (< 21%); crescem melhor com concentrações de oxigênio entre 1 e 15%. Anaeróbios estritos (ex.: Clostridium botulinum): não crescem na atmosfera, obtêm energia por processos que não envolvem a utilização de oxigênio (usam processos fermentativos ou respiração anaeróbia). Nesses organis- mos, a presença de oxigênio atmosférico leva à formação de metabolitos tó- xicos como o peróxido de hidrogênio e o radical superóxido (O2-). Pequenas quantidades de oxigênio atmosférico são letais para estes microrganismos. 663 Anaeróbios aerotolerantes (ex.: bactérias lácticas): são organismos que utilizam, exclusivamente, processos metabólicos anaeróbios (fermentação). Crescem na presença de oxigênio, pois produzem catálase e/ou superóxido dismutase (ao contrário dos anaeróbios). Aeróbios ou anaeróbios facultativos (ex.: Escherichia coli, Saccharomyces cerevi- siae): crescem tanto em presença quanto em ausência de oxigênio. No entanto, crescem melhor em presença do que em ausência de oxigênio, não sendo de- pendentes do oxigênio atmosférico. Usam preferencialmente o oxigênio para a respiração aeróbia, mas em um meio pobre em oxigênio utilizam processos bioenergéticos como a fermentação ou a respiração celular anaeróbia. Pressão osmótica: uma solução de sal pode ser tóxica ao microrganismo, dependendo da concentração e da tolerância que o microrganismo tem pelo sal. De acordo com Jay (1965), o crescimento de algumas bactérias é inibido em concentrações baixas como 2%, porém outras bactérias, leveduras e fungos são capazes de crescer em concentrações salinas elevadas, incluindo o ponto de saturação. Esses microrganismos são denominados halotolerantes, onde estão muitas espécies de micrococos e Bacillus. Alguns microrganismos (halófilos) só podem crescer em meios que contém concentrações de sal elevadas e morrem rapidamente quando colocados em meios com menos de 10% de cloreto de sódio. O sal, em baixas concentrações, faz a carne inchar e reter água, mas em altas concentrações as proteínas são precipitadas e retêm menos água. Na Figura 25, você pode visualizar a taxa de crescimento microbiano de diver- sos microrganismos versus o percentual de cloreto de sódio. Figura 25 - Classes de organismos, em relação à salinidade Fonte: Adaptado de Madigan et al. (2003) 67Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 66 No Quadro 3, você pode verificar a concentração de sal limitante para o cresci- mento microbiano. % de sal Microrganismos 5 Clostridium botulinum tipo E, Pseudomonas fluorescens 6 Shigella, Kebsiella 8 E. coli, salmonelas, Bacillus cereus, Clostridiumbotuli- num tipo A, Clostridium perfringens 10 Clostridium botulinum tipo B, Vibrio parahaemolyticus 15 Bacillus subtilis, estreptococcus 18 Staphylococcus aureus 25 Espécies de Penicillium e de Aspergillus 26 Halobacterium halobium, Bacterium prodigiosum, espé- cies de Spirillium Quadro 3: Concentração de sal limitante para o crescimento microbiano Fonte: Prändl et al. (1994) A condição de congelamento ou descongelamento afeta a estrutura do tecido muscular da carne e influencia na absorção de sal. No Quadro 4, você pode per- ceber que a quantidade de sal que penetra nesses músculos que foram conge- lados ou descongelados é cerca de 20% maior que na carne fresca. Tempo de imersão em salmoura a 25% (horas) Não congelado Congelado e descongelado 5 1,5 2,2 10 2,1 2,7 20 3,0 3,6 60 4,5 5,6 Quadro 4: Conteúdo do sal no músculo de suíno curado sem congelamento prévio e curado após con- gelamento e descongelamento (%) Fonte: Lawrie (1984) 683 Nesta aula, você viu os fatores intrínsecos (umidade, pH, disponibilidade de nu- trientes, presença ou ausência de substâncias inibidoras) e extrínsecos (tempe- ratura, umidade relativa, oxigênio, aeróbios estritos, microaerófilos, anaeróbios estritos, anaeróbios aerotolerantes, aeróbios ou anaeróbios facultativos, pressão osmótica) que influenciam no crescimento microbiano em carnes. Na próxima aula, vai aprender a identificar uma carne contaminada. Aula 6: Como analisar a contaminação microbiana na carne Nesta aula, você vai aprender a identificar uma carne contaminada analisando as mudanças químicas e físicas que ela pode apresentar. A contaminação microbiana da carne pode ser determinada de várias formas. Dentre elas, é importante citar: método de suabe de superfície determinada; método de reação de redução de corantes por enzimas microbianas. Veja, a seguir, que as carnes podem sofrer processos de mudanças químicas e físicas. Mudanças químicas da carne As enzimas hidrolíticas endógenas e microbianas são responsáveis pela de- gradação das proteínas, dos lipídeos, dos carboidratos e de outras moléculas complexas da carne. As primeiras degradações são realizadas pelas enzimas endógenas, seguidas pelas alterações ocasionadas pelos microrganismos. Proteases: os produtos finais da ação microbiana sobre a carne dependem da disponibilidade de oxigênio. Quando este está presente, as proteínas são degradadas em peptídeos simples e aminoácidos. Em anaerobiose, as prote- ínas são degradadas em compostos sulfurados, que possuem odor desagra- 69Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 68 dável, geralmente, incluindo a amônia. Lipases: as lipases hidrolisam os triglicerídeos e fosfolípides em glicerol, ácidos graxos e bases nitrogenadas. A lipólise extensiva pode acelerar a oxidação lipídica. Enzimas de carboidratos: estas enzimas quase não existem na carne e atuam so- bre os carboidratos intencionalmente adicionados durante processo. Em produtos emulsionados, há formação de ácidos orgânicos, inicialmente com o ácido láctico. Mudanças físicas da carne As alterações físicas que ocorrem nas carnes são produzidas por microrganis- mos que ocasionam as seguintes alterações nos alimentos: alterações de cor: o aparecimento de pigmentos oxidados na carne é resul- tado, na maioria das vezes, da ação de algumas bactérias que transformam a mioglobina e oximioglobina em metamioglobina e outras formas, resultando nas cores: cinza, marrom ou verde, as quais são inaceitáveis pelos consumi- dores; alterações de odor; alterações de sabor; alterações de maciez: o aumento da maciez e o aparecimento de odor ca- racterístico de deterioração na carne pode ser resultado da ação de enzimas microbianas em adição a enzimas endógenas presentes nos tecidos. Formas de deterioração em carnes A deterioração consiste no momento em que a carne torna-se imprópria ao consumo. Essa deterioração pode ser aeróbia ou anaeróbia, e pode ser causada por invasão de insetos, reações enzimáticas e oxidativas intrínsecas da carne. Deterioração aeróbia: a deterioração da carne por bactérias e leveduras ae- róbias geralmente resulta na formação de limo, odores, sabores indesejáveis e alterações na coloração. Os tipos de microrganismo, temperatura e aw são fatores que afetam essas características. A deterioração da carne por fungos resulta em superfícies pegajosas. A dete- rioração aeróbia está limitada à superfície, podendo ser removida por toalete. Entretanto, o crescimento extensivo pode levar a contaminações profundas, particularmente dos ossos e dos tecidos conjuntivos. Deterioração anaeróbia: a deterioração anaeróbia ocorre no interior da carne, em produtos embalados a vácuo nos quais o O2 está ausente ou limitado. Este 703 tipo de deterioração é causado por bactérias anaeróbias ou aeróbias facultati- vas. Como resultado, há formação e acumulação de ácidos orgânicos por ação das enzimas bacterianas. O osso é uma porta de entrada muito importante para esse tipo de contaminação. Cortes de carnes empacotados a vácuo desenvol- vem, algumas vezes, essa deterioração em que as bactérias produtoras de H2S geralmente estão envolvidas. Nesta aula, você aprendeu a identificar uma carne contaminada analisando as mudanças químicas e físicas que ela pode apresentar. Na próxima aula, verá que durante a estocagem também é possível ocorrer contaminação. Aula 7: Fatores que causam a deterioração dos alimentos durante a estocagem Nesta aula, você verá que durante a estocagem também pode ocorrer contami- nação dos alimentos. Você conhecerá os fatores que deterioram os alimentos para, assim, poder evitá-los. São diversos os fatores que podem ocasionar deterioração dos alimentos. Vejamos alguns: alterações físicas ou químicas (luz UV, umidade, oxigênio, mudanças na tem- peratura); contaminação (por microrganismos, insetos ou sujidades); forças mecânicas (danos causados por impacto, vibração, compressão ou abrasão); furtos, fraudes ou adulterações. 71Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 70 A embalagem proporciona uma barreira entre o alimento e o ambiente. Ela controla a transmissão de luz, a taxa de transferência de calor, transferência de umidade e gases, o crescimento de microrganismos e o acesso pelos insetos. Além disso, são fundamentais para proteger os alimentos contra choques mecâ- nicos, contaminações, perdas e para facilitar o transporte do alimento. Além de proteger o alimento, a embalagem deve atrair o consumidor, fornecer informações a respeito do alimento e instruir o consumidor sobre o fabricante, como preparar o alimento, suas formas de conservação etc. Os alimentos estão em constante atividade biológica, o que se manifesta por meio de alterações de natureza química, física, microbiológica ou enzimática que, com o passar do tempo, ocasionam a deterioração da qualidade do alimento. A perda de qualidade ocasiona um limite de aceitabilidade de produto, o qual está associado à sua vida de prateleira. O termo vida de prateleira pode ser definido como o período decorrido entre a produção e o consumo de um pro- duto alimentício. Durante esse período, a qualidade do produto é mantida e sua aceitabilidade pelo consumidor é satisfatória. Dica O consumidor normalmente avalia o alimento pela sua aparência no ponto de venda e, após consumi-lo, por suas características sensoriais. Outros aspectos de qualidade, como valor nutricional, contaminação microbiológica e aspectos toxicológicos, também são de extrema importância, mas o consumidor nem sempre tem capacidade para avaliá-los. Os principais fatores ambientais que devem ser controlados para prolongar a vida útil de um alimento são: temperatura, umidade e oxigênio. A embalagem pode e deve agir como umabarreira entre alguns desses fatores externos e o alimento, sem afetá-lo. A seguir, veja as principais alterações associadas à qualidade e à vida de prate- leira quando os alimentos são acondicionados em embalagens plásticas. 723 Reações de escurecimento não enzimático (ou reação de Maillard) Ocorrem entre aminoácidos e açúcares redutores, resultando na formação de compostos voláteis, muitas vezes desejáveis para o aroma do alimento, e de melanoidinas, polímeros nitrogenados de coloração escura que alteram a cor característica do alimento. A velocidade de reação de Maillard é afetada por fatores como atividade de água, temperatura, pH, natureza do carboidrato e do aminoácido, catalisadores, presença de dióxido de enxofre e de outros inibidores. A embalagem pode minimizar o escurecimento enzimático ao reduzir a passa- gem do vapor da água do ambiente para o produto. Contudo, a embalagem não tem influência direta sobre a reação de escurecimento não enzimático. O aumento na taxa de escurecimento não enzimático é proporcional à tempe- ratura. A reação é lenta a baixas temperaturas e sua velocidade praticamente duplica a cada aumento de 10 °C entre os 40 °C e os 70 °C (ROBERTSON, 1992). De acordo com Bobbio e Bobbio (1992), a reação de Maillard pode ser praticamen- te inibida pela adição de dióxido de enxofre (SO2) que, entretanto, pode acarretar sabor e odor desagradáveis, bem como a destruição da vitamina B1 no alimento. Reações de escurecimento enzimático Em determinadas frutas e hortaliças destinadas ao processamento industrial, como maçãs, bananas, batatas, champignon e alface, as enzimas são colocadas em contato com substratos fenólicos, ocasionando no produto o desenvolvi- mento de zonas de pigmentação escura, que correspondem ao fenômeno de escurecimento enzimático. Enzimas oxidantes como as peroxidases, quando expostas ao ar, atuam sobre substâncias com grupos fenólicos produzindo quinonas. Da oxidação das quinonas surgem as melanoidinas, que conferem uma coloração marrom-escura ao alimento. Na presença de ácido ascórbico, as quinonas voltam a sua forma antiga, de compostos fenólicos, e o ácido ascórbico é oxidado. Quando todo ácido ascór- bico é consumido, o escurecimento enzimático pode reaparecer. Para impedir a coloração marrom, podem ser utilizados métodos como a aplica- ção de SO2, sulfitos, ou acidulantes como o ácido cítrico, ácido málico e ácido ascórbico, fazendo com que o pH do produto seja inferior a 3 (FENNEMA, 1985). 73Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 72 Reações químicas de oxidação de lipídeos Os lipídeos correspondem aos óleos e às gorduras, que são solúveis em solven- tes orgânicos e raramente em água. Eles constituem o principal componente do tecido adiposo, e juntamente com as proteínas e carboidratos, o principal componente estrutural de todas as células vivas. Segundo Fennema (1985), os lipídios têm participação importante em sabor, textura, suculência, odor e valor nutricional dos produtos cárneos. Os lipídeos são formados pela ligação entre ácidos alifáticos monocarboxílicos (ácidos graxos) podendo ser saturados (ligações simples na cadeia carbônica) ou insaturados (ligações duplas ou triplas entre átomos de carbono e hidrogênio). A oxidação de ácidos graxos ocorre com maior facilidade naqueles de cadeia in- saturada como os óleos vegetais e gorduras animais. No entanto, ácidos graxos saturados são oxidados, muito embora isso requeira sua exposição à ambientes a temperaturas altas por longo tempo e ricos em oxigênio. A oxidação é mais intensa, quanto mais insaturado for o lipídio. No processo de oxidação mais comum, a autoxidação, há formação de peróxi- dos e sua decomposição em compostos de baixo peso molecular voláteis, os quais são responsáveis pelo sabor e odor de ranço, que tornam os alimentos inaceitáveis para o consumo. Dica A oxidação pode ser catalisada por luz, temperatura, íons metálicos, pigmentos, grau de insaturação dos lipídios, substâncias contendo porfirinas, lipoxigenases, atividade de água e concentração de oxigênio. Na autoxidação, o início da rancificação é caracterizado por uma fraca absorção de oxigênio e nenhuma alteração sensorial. É o início da formação dos radicais livres pela ação de catalisadores como calor, luz ou traços de metais. Na segunda fase, de propagação, os radicais livres reagem com outras molé- culas de lipídios para formar hidroperóxidos. Nessa etapa, há um aumento do consumo de oxigênio e começam a ser perceptíveis as alterações sensoriais. Na terceira fase, ocorre a decomposição dos hidroperóxidos em compostos de baixo peso molecular como aldeídos, cetonas e alcoóis entre outros, os quais são os principais responsáveis pelo desenvolvimento de odor e sabor de ranço 743 que reduzem a vida de prateleira do alimento. Nesse estágio, ocorrem também alterações de cor e de viscosidade devido à polimerização dos radicais livres por meio de reações entre si que produzem compostos não reativos e respon- sáveis pelo escurecimento do produto alimentício (BOBBIO; BOBBIO, 1992). A rancificação pode ainda ocorrer por hidrólise, que também é caracterizada pelo desenvolvimento de sabores e odores desagradáveis no alimento. A atividade de água do produto também interfere na velocidade de reação de oxidação. A quantidade de oxigênio disponível para a oxidação dos alimentos está di- retamente relacionada com a taxa de permeabilidade a gases do material de embalagem. A taxa de permeabilidade a gases depende do tipo de material, da espessura e das condições de estocagem como temperatura e umidade relativa. A disponibilidade total de oxigênio para a oxidação dos alimentos não está apenas relacionada à passagem desse gás por meio da embalagem, mas tam- bém à quantidade de oxigênio presente no espaço livre da embalagem, que pode ser função do tipo de processo ou sistema de acondicionamento. Para ali- mentos altamente sensíveis à oxidação, o oxigênio do espaço livre pode acarre- tar uma alteração inaceitável no produto, mesmo que não haja permeação por meio da embalagem. Por isso, muitas vezes são necessárias embalagens a vácuo ou inertizadas. Dica Embalagens com baixa permeabilidade ao vapor de água, ao oxigênio, e com pouca transparência à luz ultravioleta protegem os alimentos nelas contidos da deterioração devido às reações de oxidação de gordura. Oxidação e degradação de pigmentos A qualidade de um alimento é avaliada pelo consumidor pelas suas caracte- rísticas estéticas, destacando-se a cor, resultante de pigmentos naturais ou da adição de compostos sintéticos específicos. O consumidor espera ver nos alimentos, frescos ou processados, uma aparência natural que os torne atraentes. Quando isso não ocorre, pode haver rejeição do produto, pois a ausência do aspecto natural os leva a interpretar que tais alimentos estejam deteriorados, foram processados em condições inadequadas ou, possivelmente, foram adulterados. Na Figura 26, você pode ver as transformações dos pigmentos presentes na carne em função da deterioração. 75Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 74 Figura 26 - Mudanças químicas da mioglobina durante as reações de cura Fonte: Price e Schweigert (1994) Atenção A oxidação de pigmentos põe fim à vida de prateleira de produtos alimentícios, como é o caso de carnes frescas, em que a perda de coloração vermelho-púrpura do pigmento implica na rejeição do produto pelo consumidor. As carnes frescas constituem importante componente de muitas dietas, e sua cor vermelha se deve à presença do pigmento heme, denominado mioglobina. A mioglobina é uma proteína complexa que constitui o músculo, contida no interior das células dos tecidos. A alteração de cor em carnes frescas é reversível e dinâmica, com as três formas de pigmento: oximioglobina, mioglobinareduzida e metamioglobina. A embalagem a vácuo aplicada à carne fresca leva à formação da mioglobina reduzida, de coloração vermelho-púrpura, devido à ausência de oxigênio ao redor do produto. A mioglobina reduzida é um composto estável, que na pre- sença de alta concentração de oxigênio reverte a oximioglobina. 763 A coloração vermelho-escura dos produtos cárneos curados crus, como lingui- ças frescas, provém da formação do pigmento nitrosilmioglobina, com base na reação do pigmento do músculo com o nitrito do sal de cura. Nos produtos curados cozidos, a exemplo de presunto, salame e salsicha, a parte proteica do pigmento ligada ao sal de cura é desnaturada durante o cozimento, resultando na formação de um composto róseo brilhante, o nitrosohemocroma. Ambos os pigmentos são instáveis na presença do ar, sendo oxidados pelo oxigênio, re- sultando na formação de porfirinas oxidadas, de cor verde, amarela ou sem cor. Assim, as embalagens a vácuo ou em atmosfera modificada podem minimizar os problemas de cor em produtos cárneos curados. Diversos tipos de bactérias são capazes de enverdecer o pigmento da carne curada. Trata-se de bactérias acidoláticas halotolerantes capazes de crescer a baixa temperatura. As mais implicadas nessas alterações são do gênero Leuco- nostoc ou Lactobacillus viridescens, de natureza heterofermentativa. Oxidação e perda de aromas O sabor e o aroma são aspectos essenciais na aceitabilidade de alimentos, mas são difíceis de serem controlados. Os ingredientes de um produto, seu processo de fabricação, o material de em- balagem e as condições de estocagem podem causar modificações no sabor/ odor e reduzir sua intensidade ou permitir o aparecimento de componentes de sabor/odor estranho. As moléculas grandes de compostos do aroma e do sabor solubilizam-se facil- mente na gordura e nos óleos presentes nos alimentos. Devido a essa afinidade, os produtos gordurosos retêm os componentes do aroma e do sabor de um alimento, liberando-os gradativamente. O problema de odor estranho também é crítico nos alimentos gordurosos. Devido à maior afinidade desses alimentos com os componentes do aroma e sabor, eles são também muito susceptíveis à absorção de aromas indesejáveis, provenientes do próprio material de embalagem ou do ambiente de distribuição e estocagem. A embalagem exerce um papel importante na manutenção do sabor e do aroma e, consequentemente, em sua qualidade e em sua vida de prateleira. Eles po- dem ser alterados por causa da perda de aroma característico por meio da per- meação pela embalagem, pela oxidação dos compostos do aroma pelo oxigênio do ar, que permeia a embalagem, e/ou absorção de aromas indesejáveis por meio da permeação pelo material da embalagem. 77Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 76 A alteração do aroma advém tanto da perda parcial de todos os componentes enfraque- cendo-os, como da perda dos mais permeáveis, descaracterizando-o completamente. Dica A melhor maneira de proteger um alimento dessas alterações de aroma e sabor é utilizar um material de embalagem com propriedades de barreira ao aroma e ao oxigênio. Perda de valor nutritivo Grande quantidade das reações de perda de nutrientes se dá durante o proces- samento e na estocagem, sendo que as alterações ficam limitadas aos compo- nentes mais vulneráveis, como é o caso de determinadas vitaminas. O valor nutritivo e algumas vezes a integridade de proteínas pode ser modifica- da por calor e oxidação. A oxidação de proteínas resulta na formação de produ- tos de degradação, que reduz o valor nutritivo do alimento. As proteínas podem reagir com lipídeos para formar complexos que podem afetar a textura de alimentos e o valor nutritivo das proteínas. Além disso, a reação de Maillard pode resultar na perda de propriedades nutricionais, princi- palmente na perda do aminoácido lisina (ROBERTSON, 1992). Para alimentos secos, as proteínas podem interagir com carboidratos nas re- ações de escurecimento não enzimático, sendo que o controle adequado de umidade, na produção e no armazenamento do alimento, minimiza os efeitos dessa reação e consequente perda de valor proteico. No que se refere à destruição de vitaminas, o valor nutritivo dos alimentos pode ser seriamente prejudicado pelo processamento térmico, por reações de oxi- dação e pela influência da luz, que catalisa as reações de oxidação. Portanto, a embalagem também tem influência na perda do valor nutritivo dos alimentos, ao controlar a passagem de vapor de água, oxigênio e luz. No Quadro 5, você pode verificar a estabilidade das vitaminas frente aos efeitos de agentes ambientais, como oxigênio, luz e temperatura. 783 Nutriente Oxigênio Luz Temperatura Vitamina A I I I Vitamina B6 E I I Vitamina B12 I I E Biotina E E I Vitamina C I I I Carotenos I I I Vitamina D I I I Ácido fólico I I I Inositol E E I Vitamina K E I E Niacina E E E Ácido pantotênico E E I Riboflavina E I I Tiamina I E I Tocoferol I I I Quadro 5: Estabilidade geral de vitaminas frente aos efeitos ambientais E = Estável I = Instável Fonte: Robertson (1992) Alterações devido ao ganho de umidade A absorção de umidade pelo sal de cozinha leva à redução de sua livre fluidez, e o produto torna-se pegajoso devido à maior coesão entre suas partículas. O mesmo ocorre com produtos salgados, como carne seca e pescados salgados. O aumento no teor de umidade por causa da quantidade de sal favorece o desen- volvimento microbiano no alimento. As faixas de aw podem variar de 0 a 1,0. No Quadro 6, você pode ver as faixas de atividade de água e crescimento de microrganismos em alimentos. 79Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 78 Faixa de aw Microrganismos geralmente inibidos nesta faixa de aw Alimentos que geral- mente apresentam esta faixa de aw 1,00 – 0,95 Pseudomonas, Escherichia, Proteus, Shigella, Bacillus, Clostridium perfringens, algumas leveduras Alimentos altamente pe- recíveis como carnes, pei- xes e alimentos contendo 40% (p/p) de sacarose ou 7% de cloreto de sódio. 0,95 – 0,91 Salmonella, Vibrio paraha- emolyticus, clostridium botulinum, serratia, Lactobacillus, Pediococcus, alguns fungos e leveduras. Carnes curadas cozidas (presunto), alimentos contendo 55% (p/p) de sacarose ou 12% de clo- reto de sódio. 0,91 – 0,87 Muitos fungos e Micrococcus. Embutidos fermenta- dos (salame), alimentos contendo 65% (p/p) de sacarose ou 15% de clo- reto de sódio. 0,87 – 0,80 Maioria dos fungos, Staphylococcus aureus e a maioria de Saccharomyces. A maioria dos sucos con- centrados, leite condensa- do, chocolate, xaropes de frutas hortaliças contendo 15-17% de umidade. 0,80 – 0,75 Maioria das bactérias halo- fílicas e fungos micotoxigê- nicos do gênero Aspergillus Geleia, marmelada, frutas cristalizadas. 0,75 – 0,65 Fungos xenófilos e Saccharomyces bisporus Aveia e produtos simila- res (em torno de 10% de umidade). 0,65 – 0,60 Leveduras osmofílicas e alguns fungos Frutas desidratadas, com 15- 20% de umidade, algumas balas e caramelos e mel. < 0,50 Não há proliferação microbiana Massas, em torno de 12% de umidade e temperos, em torno de 10% de umidade. Quadro 6: Faixas de atividade de água e crescimento de microrganismos em alimentos Fonte: Robertson (1992) 803 Alterações devido à perda de umidade A perda de umidade de produtos alimentícios pode acarretar-lhes alterações físicas, químicas e sensoriais. Em alguns alimentos, como carnes processadas e alimentos pastosos, a perda de umi- dade leva ao endurecimento do produto, deixando-o seco, e à diminuição de seu peso. As perdas econômicas por causa da perda de peso também podem ser altas. Os materiais de embalagem utilizados para aumentara vida de prateleira des- ses alimentos caracterizam-se por alta permeabilidade a gases, para permitir o suprimento de oxigênio necessário à respiração, e por permeabilidade ao vapor de água intermediária, para minimizar a perda de peso e a desidratação superfi- cial, sem causar alterações fisiológicas relacionadas à transpiração. Crescimento microbiológico Microrganismos podem causar mudanças desejáveis e indesejáveis na quali- dade de alimentos. Algumas vezes, são introduzidos como parte essencial do processamento e da preservação do alimento. Mas há casos em que o seu cres- cimento deteriora o produto alimentício, não sendo, portanto, desejado. Bactérias, fungos e leveduras são os principais microrganismos encontrados em alimentos. O crescimento de microrganismos no alimento passa por três fases: adaptação (conhecida como fase lag), crescimento acelerado (conhecida como fase logarítmica, já que o crescimento é exponencial) e, a seguir, a população se mantém constante (conhecida como fase estacionária). Eventualmente, a morte dos microrganismos excede o crescimento e, então, entra-se na fase de declínio. Atenção De acordo com a natureza das alterações que podem ocorrer com o produto durante o armazenamento, os alimentos podem ser divididos em três classes: perecíveis, semiperecíveis e não perecíveis ou estáveis. Alimentos perecíveis são os susceptíveis à deterioração microbiológica e preci- sam ser mantidos refrigerados ou congelados (0 °C a 7 °C ou de -112 °C a -18 °C) para prolongar sua vida de prateleira. 81Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 80 Os alimentos semiperecíveis são os que possuem inibidores naturais do cres- cimento microbiano, como queijos e ovos, ou são aqueles que sofreram algum tipo de tratamento para preservá-los por mais tempo, por exemplo, a pasteu- rização, a defumação, a cura, a salga, a acidificação etc. Esses alimentos apre- sentam aw entre 0,88 e 0,96, faixa que facilita a deterioração microbiana, sendo necessária a combinação de métodos de preservação, como o resfriamento. Os alimentos estáveis são considerados não perecíveis à temperatura ambiente. Ali- mentos processados como os produtos cárneos podem ser estáveis se forem esteri- lizados. Apesar de sua vida útil ser limitada por reações químicas deteriorativas, que ocorrem à temperatura ambiente, o hermetismo, a resistência mecânica e a barreira a gases, vapor de água e odores da embalagem utilizada podem proteger o alimento e reduzir a velocidade de deterioração, prolongando sua vida de prateleira. Atenção Além da deterioração do produto, o crescimento microbiano pode ocasionar risco à saúde pública, devido ao fato de alguns microrganismos serem patogênicos. O desenvolvimento microbiano em alimentos pode ocasionar doenças alimenta- res, as quais podem ser divididas em dois grupos: as infecções e as intoxicações. As infecções são causadas pela ingestão de células viáveis de microrganismos patogênicos que, no interior do organismo, colonizam órgãos ou tecidos, com consequente reação deles à sua presença. As intoxicações são provocadas pela ingestão de toxinas produzidas pelos microrganismos patogênicos nos alimentos e os sintomas estão relacionados a problemas intestinais, como diarreia e vômitos. A seguir, você verá os principais microrganismos que causam infecção ou into- xicação, seja devido ao elevado número de células ou à presença de toxinas que se produzem nos alimentos. Clostridium botulinum: é um microrganismo Gram-positivo que se desenvolve em meio anaeróbio, produtor de esporos e toxinas que podem ser letais. É encontra- do com frequência no solo, na água, em legumes, verduras, frutas, fezes humanas e excrementos animais. Essa toxina tem ação neurotrópica e a característica de ser letal por ingestão. É letal na dose de 1/100 a 1/120 ng. Ao contrário do esporo, a toxina é termolábil, sendo destruída à temperatura de 65 ºC a 80 ºC por 30 minu- tos, a 100 ºC por cinco minutos, ou a 121 ºC por três minutos (OLIVEIRA, 2006). 823 Clostridium perfringens: é um microrganismo Gram-positivo que se desen- volve em meio anaeróbio, produtor de esporos e sobrevive em altas tempe- raturas. É encontrado em sedimentos marinhos, no solo, no trato intestinal de seres humanos e outros vertebrados e em insetos. A maioria dos surtos está associada a carnes aquecidas ou reaquecidas inadequadamente como carnes cozidas, tortas de carne, molhos com carne, peru ou frango. Os esporos sobrevivem às temperaturas normais de cozimento, germinam e se multiplicam durante o resfriamento lento, armazenamento em temperatura ambiente e/ou inadequado reaquecimento. Bacillus cereus: é um microrganismo anaeróbio facultativo, forma esporos e é resistente ao calor. A contaminação é proveniente do solo e ocorre por meio de cereais, batata, arroz, entre outros. Listeria monocytogenes: é uma bactéria anaeróbia facultativa, encontrada no solo e na água e ocorre em frutas, hortaliças, produtos cárneos e de laticí- nios. Ela pode ser destruída pela pasteurização. Salmonella: é um microrganismo anaeróbio facultativo, que ocorre em locais onde não há higiene e sanitização adequada. Sobrevive à temperatura de refri- geração e congelamento e pode ser destruída pelo aquecimento acima de 60 °C. Atenção O gênero Salmonella é possivelmente o mais perigoso da carne, considerando-se as estatísticas das toxinfecções alimentares. A população de Salmonellas presente no rúmen e nas fezes de bovinos no momento do abate depende, entre outros fatores, da alimentação e distância de transporte. A proporção de Salmonella no rúmen aumenta com a distância de transporte do animal do campo ao abatedouro, devido ao maior contato dos animais com material fecal. Campylobacter jejuni: é um microrganismo anaeróbio facultativo, não formador de esporos. Possui temperatura ótima de crescimento de 42 ºC a 45 ºC, podendo ser destruído com a pasteurização. A principal fonte de contaminação são as aves. 83Unidade 2 Tecnologia de Carnes e Derivados 82 Staphylococcus aureus: é um microrganismo anaeróbio facultativo, Gram- positivo não formador de esporos. A bactéria pode ser destruída pelo calor, porém sua toxina permanece até temperaturas entre 60 e 70 ºC. Cresce em ambiente salino e pode ser contraído pela ingestão de leite cru que não tenha sofrido tratamento térmico adequado. São necessárias baixas tempe- raturas (5 ºC) para prevenir seu crescimento (OLIVEIRA, 2006). Fungos: são microrganismos aeróbios, formadores de esporos. Dica Quando os fungos crescem, não se dividem em dois, como as bactérias, mas projetam filamentos que se ramificam e crescem para formar uma massa chamada micélio, o qual produz muitos esporos em sua superfície. Alguns fungos produzem micotoxinas, como o Aspergillus flavus, produtor da aflatoxina em amendoim. As condições necessárias para seu desenvolvimento compreendem presença de nutrientes e temperatura ambiente (25 ºC ± 5 ºC), sendo que a maioria deles é destruída a 100 ºC (OLIVEIRA, 2006). O processamento de alimentos visa garantir sua inocuidade e preservar o pro- duto frente à contaminação, evitando o crescimento de microrganismos, princi- palmente patogênicos, após o processo. O princípio básico de preservação dos alimentos consiste em destruir os microrganismos ou controlar seu crescimento. Sob o aspecto microbiológico, se os produtos alimentícios forem devidamente processados, caberá à embalagem a função de protegê-los contra os fatores extrínsecos, como o oxigênio e o vapor de água. Nesta aula, você aprendeu que durante a estocagem também pode ocorrer contaminação dos alimentos e conheceu os fatores que deterioram os alimen- tos para, assim, poder evitá-los. Colocando em Prática Parabéns! Você finalizou a Unidade 2 deste curso. Para fixar o que vocêaprendeu até aqui, realize as atividades de aprendizagem que estão no Ambiente Virtual. 843 Relembrando Nesta unidade, você estudou as fontes de contaminação microbioló- gica, os microrganismos que podem se desenvolver na carne, a forma como ocorre esse crescimento e os fatores intrínsecos e extrínsecos que influenciam nesse crescimento. Também estudou as alterações que a presença de microrganismos pode ocasionar aos produtos cárneos e às diversas alterações que po- dem ocorrer nesses produtos. Alongue-se Agora que você terminou a Unidade 2, descanse um pouco. Levante- se, beba alguma coisa, alimente-se com algo leve, se achar necessário. Depois, inspire lentamente, pelo nariz, contando até cinco. Solte o ar, assoprando-o pela boca, também contando até cinco. Repita essa res- piração dez vezes ou mais, se desejar. Agora, alongue um pouco o pescoço, fazendo um movimento como se fosse encostar a orelha no ombro. Mas mantenha os ombros para- dos, baixos, e movimente somente a cabeça. Mantenha-se pelo menos 20 segundos nessa posição e realize o movimento três vezes de cada lado ou mais, se desejar. 85 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Objetivos de Aprendizagem Ao final desta unidade, você terá aprendi- do diversos aspectos legais que permitirão a você avaliar de maneira mais crítica os processos de abate e industrialização de produtos cárneos, além de aspectos funda- mentais de rotulagem de cárneos. Aulas Nesta unidade, serão abordados os seguin- tes temas: Aula 1: Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA) Aula 2: Rotulagem de produtos cárneos Aula 3: Ingredientes, aditivos e coadjuvan- tes tecnológicos 3Legislação e Normas 863 Para Iniciar A partir de agora, você vai estudar algumas das principais legislações às quais a indústria cárnea deve atender. Você vai começar conhecen- do um pouco sobre o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), de 1952, mas que até hoje é responsável por normas extremamente importantes para a área. É claro que, após o RIISPOA, tivemos diversas outras legislações importantes publicadas, e é por isso que conversaremos sobre mais algumas. No entanto, é importante salientar que o regulamento completo trata de uma diversidade imensa de temas, no entanto, selecionamos apenas alguns que, neste momento, julgamos bem importantes para conversar com você. Além de falarmos sobre as legislações aplicadas diretamente aos pro- dutos no que diz respeito aos seus processos de fabricação e formu- lações, que você verá com mais detalhes na Unidade 5, quando fala- remos dos processos de industrialização, nesta unidade estudaremos também algumas regras básicas para o uso de aditivos e aspectos legais bastante importantes no que diz respeito à rotulagem de alimen- tos. Bom estudo! Aula 1: Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA) Nesta aula, você vai aprender o que é o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA) e o que ele estabelece sobre instalações e equipamentos; condições higiênicas; inspeção industrial e sanitária de carnes e derivados; padrões de identidade e qualidade de carnes e produtos cárneos; e registro de produtos. 87Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 86 O RIISPOA é o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal, publicado pelo Ministério da Agricultura em 23 de março de 1952. Apesar de ser um regulamento já publicado há bastante tempo, o RIIS- POA continua com validade total e sendo aplicado diariamente para regulamen- tar os processos produtivos da indústria de produtos de origem animal, entre as quais está a indústria cárnea, foco do nosso estudo. O RIISPOA estabelece as normas que regulam, em todo o território nacional, a inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal, estando sujeitos à inspeção, os estabelecimentos processadores de carnes e derivados, de leite e derivados, de pescado e derivados, de ovos e ovoprodutos e os de produtos de abelhas e derivados. No entanto, seu estudo será focado nos estabelecimentos de carnes e derivados. Por isso, é bastante importante que você conheça o que diz o artigo 8 do RIISPOA: Entende-se por estabelecimento de produtos de origem animal qualquer instalação ou local nos quais são abatidos ou industrializados animais produtores de carnes, bem como onde são recebidos, manipulados, elaborados, transformados, preparados, conservados, armazenados, depositados, acondicionados, embalados e rotulados com finalidade industrial ou comercial, a carne e seus derivados, o pescado e seus derivados [...] (BRASIL, 1952, p. 2). Qualquer estabelecimento que desenvolva uma ou mais das atividades supracita- das está submetido a essa regulamentação, devendo cumpri-la na sua totalidade. Quando falamos de legislação, é importante salientar que, além da obrigatorieda- de no seu cumprimento, seguindo-se essas definições, busca-se também garantir a qualidade e a segurança microbiológica dos produtos oferecidos aos clientes. Instalações e equipamentos É claro que, além das exigências legais com os padrões dos produtos em rela- ção às condições higiênico-sanitárias, composição dos produtos, uso de ingre- dientes e aditivos, rotulagem, entre outros, a condição física do estabelecimen- to também deve atender a alguns padrões. Veja o que estabelece o artigo 33 do RIISPOA (BRASIL, 1952, p. 8-9). Os estabelecimentos de produtos de origem animal devem satisfazer às seguintes con- dições básicas e comuns, respeitadas as peculiaridades de ordem tecnológica cabíveis: 883 “I – dispor de área suficiente para construção das instalações industriais e demais dependências; II – dispor de luz natural e artificial abundantes, bem como de ventilação suficiente em todas as dependências; III – possuir pisos convenientemente impermeabilizados com material adequado, devendo ser construídos de modo a facilitar a coleta das águas residuais e sua drenagem para a rede de esgoto; IV – as paredes e separações deverão ser revestidas ou impermeabilizadas, como regra geral, até 2 m (dois metros) de altura no mínimo, e total ou parcialmente quando necessário com azulejos brancos vidrados e, em casos especiais, a juízo do DIPOA, com outro material adequado; a parte restante será convenientemente rebocada, caiada ou pintada; V – possuir forro de material adequado em todas as dependências onde se realizem trabalhos de recebimento, manipulação e preparo de matérias-primas e produtos comestíveis; VI – dispor de dependências e instalações adequadas para industrialização, conservação, embalagem e depósito de produtos comestíveis, separadas por meio de paredes totais das destinadas ao preparo de produtos não comestíveis; VII – dispor de mesas de aço inoxidável para os trabalhos de manipulação e preparo de matérias-primas e produtos comestíveis, montadas em estrutura de ferro, tolerando-se alvenaria revestida de azulejo branco ou mármore e também mesas de madeira revestidas de chapas metálicas inoxidáveis; VIII – dispor de caixas, bandejas, gamelas, tabuleiro, e quaisquer outros recipientes, de aço inoxidável; os tanques, segundo sua finalidade, podem ser de alvenaria, convenientemente revestidos de azulejos brancos; IX – dispor de rede de abastecimento de água para atender suficientemente às necessidades do trabalho industrial e às dependências sanitárias, e, quando for o caso, dispor de instalações para tratamento de água [...]”. 89Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 88 Reflita Observe que, assim como fazemos em casa, na indústria também devem existir áreas separadas para cadaatividade e para o armazenamento de cada tipo de produto, tudo isso para garantir que, por exemplo, um produto químico utilizado para limpeza não possa contaminar uma embalagem que posteriormente será usada para embalar o produto cárneo. Com todo esse cuidado, busca-se garantir a qualidade do produto que chega diariamente à mesa do consumidor. “[...] X – dispor de água fria e quente abundante, em todas as dependências de manipulação e preparo, não só de produtos comestíveis, como de não comestíveis; XI – dispor de rede de esgoto em todas as dependências, ligada a tubos coletores e estes ao sistema geral de escoamento, dotada de canalizações amplas e de instalações para retenção e aproveitamento de gorduras, resíduos e corpos flutuantes, bem como para depuração artificial, se for necessário, como desaguadouro final em curso de água caudaloso e perene ou em fossa séptica; XII – dispor de rouparia, vestiários, banheiros, privadas, mictórios e demais dependências necessárias, em número proporcional ao pessoal, instaladas separadamente para cada sexo, completamente isolados e afastados das dependências onde são beneficiados produtos destinados à alimentação humana; [...]” (BRASIL, 1952, p. 9). “[...] XIII – possuir pátios e ruas pavimentadas, bem como áreas destinadas à secagem de produtos; XIV – dispor de sede para a Inspeção Federal, que a juízo do DIPOA, compreenderá salas de trabalho, laboratórios, arquivos, vestiários banheiros e instalações sanitárias; XV – possuir janelas basculantes e portas de fácil abertura, de modo a ficarem livres os corredores e passagens, providas de telas móveis à prova de moscas, quando for o caso; XVI – possuir instalações de frio com câmaras e antecâmaras que se fizerem necessárias em número e com área suficiente segundo a capacidade do estabelecimento; [...]” (BRASIL, 1952, p. 9). 903 Atenção A manutenção de baixas temperaturas nos ambientes de processamento e armazenamento se faz necessária, já que, como você sabe, o frio é um grande aliado na conservação dos alimentos. “[...] XVII – possuir jiraus, quando permitidos, com pé direito mínimo de 2,50 m (dois metros e cinquenta centímetros) desde que não dificultem a iluminação e arejamento das salas contíguas; XVIII – possuir escadas que apresentem condições de solidez e segurança, construída de concreto armado, de alvenaria ou metal, providas de corrimão e patamares após cada lance de 20 (vinte) degraus e inclinação de 50 (cinquenta) graus em qualquer dos seus pontos; as escadas em caracol só serão toleradas como escadas de emergência; XIX – possuir elevadores, guindastes ou qualquer outro aparelhamento mecânico, que ofereça garantias de resistência, segurança e estabilidade; XX – dispor de equipamento necessário e adequado aos trabalhos, obedecidos os princípios da técnica industrial, inclusive para aproveitamento e preparo de subprodutos não comestíveis; XXI – serão evitadas as transmissões, porém, quando isso não for possível, devem ser instaladas de forma a não prejudicarem os trabalhos da dependência, exigindo-se conforme o caso, que sejam embutidos; XXII – possuir refeitórios convenientemente instalados, nos estabelecimentos onde trabalham mais de 300 (trezentas) pessoas; XXIII – possuir canalizações em tubos próprios para a água destinada exclusivamente a serviços de lavagem de paredes e pisos, e a ser utilizada por meio de mangueiras de cor vermelha; a água destinada à limpeza de equipamento, empregada na manipulação de matérias- primas e produtos comestíveis, será usada por meio de mangueiras de cor branca ou preta; XXIV – só possuir telhados de meias águas quando puder ser mantido o pé direito à altura mínima da dependência ou dependências correspondentes; XXV – dispor de dependências para armazenamento do combustível usado na produção de vapor; XXVI – dispor de dependências para administração, oficinas, depósitos diversos, embalagem, rotulagem, expedição e outras necessárias” (BRASIL, 1952, p. 9-10). 91Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 90 Além dessas definições, os estabelecimentos de carnes e derivados devem satis- fazer ainda outras condições. Veja o que estabelece o artigo 34 do RIISPOA (BRASIL, 1952, p. 10-11): 1 Ser construído em centro de terreno afastado dos limites das vias públicas preferentemente 5 m (cinco metros) na frente e com entradas laterais que permitam a movimentação de veículos de transporte; 2 Ter os seguintes pés-direitos: sala de matança de bovinos – 7m (sete me- tros), da sangria à linha do matambre, e daí por diante no mínimo 4 m (qua- tro metros); nas demais dependências, o pé direito será fixado por ocasião do exame dos projetos apresentados ao DIPOA; 3 Dispor de currais cobertos, de bretes, banheiros, chuveiros, pedilúvios e demais instalações para recebimento, estacionamento e circulação de ani- mais, convenientemente pavimentados ou impermeabilizados, com declive para a rede de esgoto, providos de bebedouros e comedouros; 4 dispor de dependências e instalações adequadas para necropsias, com forno crematório anexo, designado, para efeito deste regulamento, “De- partamento de Necropsias”; 5 Dispor de locais apropriados para separação e isolamento de animais doentes; 6 Dispor, no caso de matadouro-frigorífico, de instalações e aparelhagem para desinfecção de vagões e outros veículos utilizados no transporte de animais; 7 Localizar os currais de recebimento de animais, cocheiras, pocilgas, apris- cos e outras dependências, que por sua natureza produzem mau cheiro, o mais distante possível dos locais onde são recebidos, manipulados ou pre- parados produtos utilizados na alimentação humana; 8 Dispor, de acordo com a classificação do estabelecimento e sua capacidade, de dependência de matança, conforme o caso, separadas para as várias espécies, de triparia, graxaria para o preparo de produtos gordurosos comestíveis e não comes- tíveis, salsicharia em geral, conserva, depósito e salga de couros, salga, ressalga e secagem de carne, seção de subprodutos não comestíveis e de depósitos diversos, bem como de câmaras frias, proporcionais à capacidade do estabelecimento; 9 Dispor de aparelhagem industrial completa e adequada, como sejam máquinas, aparelhos, caminhões, vagonetas, carros, caixas, mesas, truques, tabuleiro e outros, utilizados em quaisquer das fases do recebimento e industrialização da matéria-prima e do preparo de produtos, em número e qualidade que satisfaçam à finalidade da indústria; 923 10 Dispor de carros metálicos apropriados, pintados de vermelho e que- possam ser totalmente fechados, destinados unicamente ao transporte de matérias-primas e produtos condenados, dos quais constem, em caracteres bem visíveis, a palavra “condenados”; 11 Possuir instalações adequadas para o preparo de subprodutos não comestíveis; 12 Possuir, de acordo com a natureza do estabelecimento, depósitos para chifres, cascos, ossos, adubos, crinas, alimentos para animais e outros produtos e subpro- dutos não comestíveis, localizados em pontos afastados dos edifícios onde são manipulados ou preparados produtos destinados à alimentação humana; 13 Possuir digestores em número e capacidade suficientes de acordo com as possibilidades diárias de matança; 14 Dispor, conforme o caso, de instalações e aparelhagem adequadas para o apro- veitamento de glândulas de secreção interna e preparo de extratos glandulares; 15 Dispor de caldeiras com capacidade suficiente para as necessidades do estabelecimento; 16 Dispor de instalações de vapor e água em todas as dependências de ma- nipulação e industrialização; 17 Dispor de dependências de industrialização de área mínima com 20 m2 (vinte metros quadrados). Condições higiênicas É claro que, para garantir a segurança alimentar daqueles produtos oferecidos àpopulação, é fundamental que sejam feitas algumas exigências no que diz res- peito ao aspecto higiênico-sanitário do processo. A carne é uma matéria-prima bastante sujeita a alterações de ordem microbiológica, justamente porque pode ser considerada um substrato rico em diversos nutrientes para o crescimento de microrganismos. Assim, há de se ter um cuidado extremo na manutenção da hi- giene e das boas práticas de fabricação durante o processamento e a obtenção dos produtos, mas também na higienização da indústria e dos equipamentos, visando a garantir não só a qualidade dos produtos, mas também a segurança de quem vai consumi-los. Por esse motivo, os artigos 77, 78 e 79 do RIISPOA definem que todas as de- pendências e equipamentos dos estabelecimentos devem ser mantidos em con- dições de higiene, antes, durante e após a realização dos trabalhos industriais. 93Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 92 Além disso, os equipamentos e utensílios devem ser higienizados de modo a evitar a contaminação cruzada entre aqueles utilizados no acondicionamento de produtos comestíveis daqueles utilizados no acondicionamento de produ- tos não comestíveis. De acordo com esses artigos do regulamento, os pisos, as paredes, os equipamentos e os utensílios devem ser higienizados diariamente, respeitando-se as particularidades de cada indústria, pelo emprego de substân- cias previamente aprovadas pelo órgão competente (BRASIL, 1952, p. 21-22). Dica Contaminação cruzada é a transferência de microrganismos de um alimento, equipamento ou utensílio contaminado para outro. No entanto, é importante lembrar que não basta higienizar: são necessários mais alguns cuidados básicos como, por exemplo, lembrar-se sempre que, du- rante os procedimentos de higienização, nenhuma matéria-prima ou produto pode permanecer no local onde está sendo realizada a operação de limpeza, já que o contato com os produtos químicos ou até mesmo com a água ou os resíduos que estão sendo removidos no processo pode contaminar o produto acabado ou as matérias-primas. Além disso, visando a garantir a higiene do estabelecimento e a manutenção da segurança alimentar, todo estabelecimento deve possuir um programa de controle de pragas e vetores. No entanto, para que se consiga assegurar a higiene e segurança dos alimentos, a pre- ocupação não pode ficar apenas envolvida com a estrutura física do estabelecimento. Atenção Para a garantia da higiene e da segurança dos alimentos, é fundamental que se pense também nas pessoas que trabalham com alimentos. Os cuidados durante a manipulação e com as práticas de higiene de cada fun- cionário são fundamentais para atingirmos esses objetivos, pois, caso contrário, todos os outros cuidados serão insuficientes para garantir a qualidade e segu- rança do produto final. 943 É por esse motivo que o RIISPOA também faz algumas exigências em relação a essa questão. Inicialmente, é fundamental que todas as pessoas envolvidas no processo, que desenvolvam alguma atividade industrial, usem uniformes próprios à ativida- de e devidamente higienizados. Além disso, é óbvio que todos os funcionários, de forma direta ou indireta com as atividades industriais, devem cumprir práticas de higiene pessoal e operacional que preservem a inocuidade dos produtos. Dica Inocuidade alimentar é um conceito que, no âmbito das ciências alimentares, significa que no alimento ou nas matérias-primas do produto final não se encontram produtos químicos ou biológicos capazes de produzir efeitos prejudiciais à saúde humana. Fonte: Wikipédia (2010). Além disso, de acordo com o artigo 83 (BRASIL, 1952, p. 22), é terminantemente proibido o consumo e a guarda de alimentos, bem como o depósito de pro- dutos, roupas, objetos e materiais estranhos às finalidades do setor onde se realizem trabalhos industriais. Também é proibido, de acordo com os artigos 84 e 85 (BRASIL, 1952, p. 22), a prática de qualquer hábito que possa causar contaminações nos alimentos, como fumar, cuspir ou outras práticas anti-higiênicas. Todos os funcionários que trabalham na indústria de produtos de origem ani- mal devem estar em boas condições de saúde e dispor de atestado fornecido por médico do trabalho ou autoridade sanitária oficial. Nos atestados de saúde de funcionários envolvidos na manipulação de produtos, deve constar a de- claração de que eles estão “aptos a manipular alimentos”, sendo que aquele funcionário envolvido na manipulação de produtos deve ser imediatamente afastado do trabalho sempre que fique comprovada a existência de doenças que possam contaminar os produtos, comprometendo sua inocuidade. Inspeção industrial e sanitária de carnes e derivados Neste tópico, você vai estudar de maneira mais detalhada, principalmente, a inspeção ante mortem e a inspeção post mortem. A inspeção ante mortem consiste na avaliação da documentação que acompanha os lotes, bem como no exame clínico e o acompanhamento dos animais. De acor- do com os artigos 107 e 108, quando houver suspeita de alguma doença, a Inspe- 95Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 94 ção Federal deve proceder principalmente isolando os animais suspeitos e mantendo o lote sob observação enquanto se aguarda definição do setor competente respon- sável pela sanidade animal do Ministério da Agricultura sobre os procedimentos a serem adotados e determinando a imediata limpeza e desinfecção de todos os locais, equipamentos e utensílios que possam ter tido contato com resíduos dos animais ou qualquer outro material que possa ter sido contaminado, atendendo as recomenda- ções estabelecidas pelo setor competente (BRASIL, 1952, p. 26). Além disso, segundo o artigo 110, é proibida a matança de qualquer animal que não tenha permanecido pelo menos 24 horas em descanso, jejum e dieta hídri- ca nos depósitos do estabelecimento (BRASIL, 1952, p. 26). Nota Na unidade seguinte, você verá o que é a etapa de jejum, descanso e dieta hídrica, tão importante do ponto de vista sanitário e para a qualidade final da carne e dos produtos cárneos. No entanto, de acordo com o artigo 111, além do exame por ocasião da chegada ao estabelecimento, os lotes ainda devem ser examinados no dia do abate, tudo isso visando a garantir a qualidade higiênico-sanitária do processo (BRASIL, 1952, p. 27). Pergunta Você sabe o que acontece com os animais que foram “reprovados” na inspeção ante mortem por apresentarem algum problema? Qual é o destino deles? São encaminhados para o abate normalmente? Ou será que voltam para o produtor? É justamente por esse motivo que o artigo 130 define a matança de emergên- cia, que é o abate dos animais que chegam ao estabelecimento doentes, ago- nizantes, com fraturas, contusão generalizada, hemorragia, hipo ou hipertemia, decúbito forçado, sintomas nervosos e outros estados, a juízo da Inspeção Federal (BRASIL, 1952, p. 30). Após esse abate de emergência, são considerados impróprios para o consumo humano, de acordo com artigo 133, os animais que se enquadrem nos casos de condenação previstos no RIISPOA ou por outras razões justificadas pela Inspe- ção Federal (BRASIL, 1952, p. 30). 963 Link No âmbito deste curso, não entraremos nos detalhes que levam um animal a ser considerado impróprio para o consumo após o abate, no entanto, caso você queira saber um pouco mais sobre esse assunto, consulte o RIISPOA completo no portal do Ministério da Agricultura na internet: <http://www.agricultura.gov.br/>. Após a realização da etapa de abate, é realizada mais uma inspeção. De acor- do com o artigo 147, a inspeção post mortem consiste no exame de todos os órgãos e tecidos, abrangendo a observação e apreciação de seus caracteres ex- ternos, sua palpação e abertura dos linfonodos correspondentes, além de cortes sobre o tecido dos órgãos, quando necessário(BRASIL, 1952, p. 32). A inspeção post mortem de rotina deve obedecer à seguinte sequência, respeitadas as particularidades de cada espécie, conforme prevê o artigo 148 (BRASIL, 1952, p. 32): I – observação dos caracteres sensoriais e físicos do sangue por ocasião da sangria e durante o exame de todos os órgãos; II – exame de cabeça, músculos mastigadores, língua, glândulas salivares e gânglios linfáticos correspondentes; III – exame da cavidade abdominal, órgãos e gânglios linfáticos correspondentes; IV – exame da cavidade torácica, órgãos e gânglios linfáticos correspondentes; V – exame geral da carcaça, serosas e gânglios linfáticos cavitários, inframusculares, superficiais e profundos acessíveis, além da avaliação das condições de nutrição e engorda do animal. Após esse exame, de acordo com o artigo 152, toda a carcaça, as partes de carcaça e os órgãos com lesões ou anormalidades que possam torná-los impró- prios para o consumo devem ser convenientemente assinalados pela Inspeção Federal e diretamente conduzidos ao Departamento de Inspeção Final, onde são julgados após exame completo. Aqueles condenados ficam sequestrados pela inspeção federal e são conduzidos à graxaria, por meio de chutes, carri- nhos especiais ou outros recipientes apropriados e devidamente identificados para este fim (BRASIL, 1952, p. 32). 97Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 96 Nota Chutes: canaletas apropriadas que são utilizadas para condução dos produtos. Após a divisão da carcaça em duas metades ao longo da coluna vertebral, ainda se realiza mais uma inspeção, devendo ser examinadas esterno, costelas, vér- tebras e a medula espinhal, respeitadas as particularidades de cada espécie, conforme o artigo 155 (BRASIL, 1952, p. 33). Outra causa de condenação de carcaças, partes de carcaça ou órgãos, de acor- do com o artigo 165, é a verificação de áreas extensas contaminadas por fezes durante a evisceração, desde que não seja possível a remoção completa da parte contaminada. Dica Conforme você está vendo nesta unidade, o processo de abate é cercado de cuidados e inspeções, sempre visando a garantir a qualidade e segurança daqueles produtos que chegam à mesa do consumidor. Padrões de identidade e qualidade de carnes e produtos cárneos Na próxima unidade, que tratará da industrialização de produtos cárneos, você terá a oportunidade de estudar também aspectos legais sobre os produtos, principalmente os padrões de identidade e qualidade de cada um deles. Assim, aqui serão abordadas principalmente algumas dessas definições apenas para aqueles produtos que são considerados matéria-prima ou carne in natura. O artigo 17 define carne de açougue como “as massas musculares maturadas e de- mais tecidos que as acompanham, incluindo ou não a base óssea correspondente, procedentes de animais abatidos sob inspeção veterinária (BRASIL, 1952, p. 3). Ainda de acordo com o artigo 17 “entendem-se por miúdos, os órgãos e vísceras dos animais de açougue, usados na alimentação humana (miolos, língua, coração, fígado, rins, rumem, e retículo), além dos mocotós e rabada” (BRASIL, 1952, p. 3). 983 Registro de produtos De acordo com o artigo 794, todos os produtos de origem animal entregues ao comércio devem estar identificados por meio de rótulos registrados, aplicados sobre as matérias-primas, os produtos, os vasilhames ou os continentes, quer quando diretamente destinados ao consumo público, quer quando se destinem a outros estabelecimentos que os vão beneficiar (BRASIL, 1952, p. 124). Dica Isso quer dizer que, para que uma empresa possa produzir qualquer produto, ela já deve ter, antecipadamente, informado a formulação e a descrição do processo produtivo, bem como a rotulagem do seu produto ao DIPOA e/ou ao Serviço de Inspeção Federal e obtido a devida aprovação para tal. Nesta aula, você aprendeu o que é o RIISPOA e o que ele estabelece sobre instalações e equipamentos; condições higiênicas; inspeção industrial e sanitária de carnes e derivados; padrões de identidade e qualidade de carnes e produtos cárneos; e registro de produtos. O RIISPOA ainda estabelece algumas exigências específicas no que se refere à rotulagem dos produtos, que você estudará na próxima aula. Aula 2: Rotulagem de produtos cárneos Nesta aula, você aprenderá o que o RIISPOA estabelece para a rotulagem de produtos cárneos. Quando se trata de rotulagem de produtos cárneos, há inúmeras exigências que devem ser seguidas. Elas estão expostas em forma de normas descritas, inicial- mente, no RIISPOA, que você estudou na aula anterior. 99Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 98 No entanto, para complementar as exigências apresentadas pelo RIISPOA, com o passar do tempo foram sendo publicados outros regulamentos, de maneira a tornar a declaração cada vez mais correta e clara para o consumidor, visando a garantir que ele tenha segurança em relação a tudo o que for consumir. Entre esses regulamentos, pode-se citar a Instrução Normativa nº 22, de 24 de novembro de 2005, que aprova o Regulamento Técnico para Rotulagem de Produtos de Origem Animal Embalados. No entanto, as exigências constantes no RIISPOA que aqui foram apresentadas continuam tendo validade, com a diferença de que são complementadas por aquelas constantes na IN nº 22 (BRASIL, 2005). Assim, a IN nº 22 (BRASIL, 2005) apresenta algumas outras definições que com- plementam as exigências do RIISPOA. Veja quais são: Rótulo ou rotulagem: é toda inscrição, legenda, imagem ou toda matéria des- critiva ou gráfica, escrita, impressa, estampada, gravada, gravada em relevo ou litografada ou colada sobre a embalagem do produto de origem animal. Embalagem: é o recipiente, o pacote ou a embalagem destinada a garantir a conservação e facilitar o transporte e o manuseio dos produtos de origem animal. Embalagem primária ou envoltório primário: é a embalagem que está em contato direto com os produtos de origem animal. Embalagem secundária ou pacote: é a embalagem destinada a conter a(s) embalagem(ns) primária(s). Embalagem terciária ou embalagem: é a embalagem destinada a conter uma ou várias embalagens secundárias. Produto de origem animal embalado: é todo o produto de origem animal que está contido em uma embalagem pronta para ser oferecida ao consumidor. Consumidor: é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto de origem animal. Ingrediente: é toda substância, incluídos os aditivos alimentares, que se em- prega na fabricação ou no preparo dos produtos de origem animal, e que está presente no produto final em sua forma original ou modificada. Matéria-prima: é toda substância que, para ser utilizada como alimento, necessi- ta sofrer tratamento e/ou transformação de natureza física, química ou biológica. Matéria-prima alimentar: é toda substância de origem vegetal ou animal, em estado bruto, que, para ser utilizada como alimento, necessita sofrer tratamento e/ou transformação de natureza física, química ou biológica. 1003 Aditivo alimentar: é qualquer ingrediente adicionado intencionalmente aos pro- dutos de origem animal, sem propósito de nutrir, com o objetivo de modificar as características físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante a fabricação, o processamento, a preparação, o tratamento, a embalagem, o acondicionamento, a armazenagem, o transporte ou a manipulação de um produto de origem animal. Isso implicará direta ou indiretamente fazer com que o próprio aditivo ou seus produtos se tornem componentes do produto de origem animal. Essa definição não inclui os contaminantes ou as substâncias nutritivas que sejam incorporadas ao produto de origem animal para manter ou melhorar suas propriedades nutricionais. Alimento: é toda substância, elaborada, semielaborada ou bruta que se destina ao consumohumano, incluídas as bebidas, o chiclete e quaisquer outras subs- tâncias utilizadas na fabricação, na preparação ou no tratamento dos alimentos, porém sem incluir os cosméticos, o tabaco e as substâncias utilizadas unica- mente como medicamentos. Alimento in natura: é todo alimento de origem animal ou vegetal para cujo consumo imediato se exija apenas a remoção da parte não comestível e os tra- tamentos indicados para a sua perfeita higienização e conservação. Alimento enriquecido: é todo alimento que tenha sido adicionado de substân- cia nutriente com a finalidade de reforçar o seu valor nutritivo. Produto de origem animal: é toda substância de origem animal, elaborada, semielaborada ou bruta, que se destine ou não ao consumo humano. Produto de origem animal comestível: é toda substância de origem animal, elaborada, semielaborada ou bruta, que se destina ao consumo humano. Produto de origem animal não comestível: é toda substância alimentícia de origem animal, elaborada, semielaborada ou bruta, que se destine ou não ao consumo animal. Produto ou substância alimentícia: é todo o alimento derivado de matéria- prima alimentar ou de alimento in natura, ou não, de outras substâncias permi- tidas, obtido por processo tecnológico adequado. Denominação de venda do produto de origem animal: é o nome específico e não genérico que indica a verdadeira natureza e as características do produto de origem animal comestível ou alimento. Será fixado no regulamento técnico especí- fico que estabelecer os padrões de identidade e qualidade inerentes ao produto. Fracionamento do produto de origem animal: é a operação pela qual o pro- duto de origem animal é dividido e acondicionado, para atender a sua distribui- ção, comercialização e disponibilização ao consumidor. 101Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 100 Lote: é o conjunto de produtos de um mesmo tipo, processados pelo mesmo fabricante ou fracionador, em um espaço de tempo determinado, sob condições essencialmente iguais. País de origem: é aquele onde o produto de origem animal foi produzido ou tendo sido elaborado em mais de um país, onde recebeu o último processo substancial de transformação. Painel principal: é a parte da rotulagem onde se apresenta, de forma mais rele- vante, a denominação de venda e marca ou o logotipo, caso existam. Painel frontal: é a parte do painel principal imediatamente colocado ou mais facilmente visível ao comprador, em condições habituais de exposição à venda. Considera-se, ainda, parte do painel frontal as tampas metálicas que vedam as garrafas e os filmes plásticos ou laminados utilizados para vedação de vasilha- mes em forma de garrafa ou de corpo. Painel lateral: é a parte do painel principal, contíguo ao painel frontal, onde deverão estar dispostas as informações de natureza obrigatória. Painel secundário: é a parte do rótulo, não habitualmente visível ao compra- dor, nas condições de exposição à venda, onde deverão estar expressas às infor- mações facultativas ou obrigatórias, a critério da autoridade competente, bem como as etiquetas ou outras informações escritas que constam da embalagem. Destaque: aquilo que ressalta uma advertência, frase ou texto. Quando feito por escrito, deverá manter fonte igual ao texto informativo de maior letra excluindo a marca, em caixa-alta e em negrito, quando deverá ser feito de forma clara e legível. Atenção Apesar de serem muitas informações e de serem até mesmo um pouco cansativas, é fundamental que você conheça essas definições para poder entender de forma mais clara as exigências em relação à rotulagem dos produtos cárneos. Além da IN nº22 (BRASIL, 2005), atualmente há também o Ofício Circular nº 31, de 14 de dezembro de 2009, que dita os Procedimentos Operacionais Padroni- zados para o Registro de Produtos de origem Animal (POP) rotulagem, que tem como principal objetivo complementar as exigências das legislações publicadas anteriormente. 1023 O Ofício Circular nº 31 (BRASIL, 2009) trata, entre outros, das responsabilidades tanto da empresa quanto dos Serviços de Inspeção Federal (SIF), dos Serviços de Inspeção de Produtos Agropecuários das Superintendências Estaduais (SI- PAG) e das Divisões de Inspeção da Coordenação Geral de Inspeção (CGI/DI- POA). Trata também dos procedimentos para encaminhamento de solicitações de registro de produtos e diretamente ligado ao assunto que estamos tratando, das características do rótulo e da embalagem. Como você está estudando o assunto “rotulagem de produtos cárneos”, veja, a seguir, algumas exigências que devem ser atendidas. A seguir, você verá algumas normas básicas definidas na IN 22 (BRASIL, 2005), que descreve que os rótulos devem, obrigatoriamente, conter, de forma clara e legível, as seguintes indicações: denominação de venda do produto em caracteres destacados, com no mínimo 1/3 (um terço) da maior inscrição do rótulo, uniformes em corpo e cor, sem intercalação de desenhos ou outros dizeres, apresentado no painel principal do produto; lista de ingredientes em ordem decrescente de quantidade, sendo os aditivos ci- tados com função, nome e número do Sistema Internacional de Numeração (INS); conteúdo líquido, indicado no painel principal do rótulo de acordo com o regulamento técnico específico; identificação da origem; nome ou razão social e endereço do estabelecimento produtor; nome ou razão social e endereço do importador, no caso de produtos de origem animal importado; carimbo oficial da Inspeção Federal; categoria do estabelecimento, de acordo com a classificação oficial quando do registro do mesmo no DIPOA; CNPJ; conservação do produto; marca comercial do produto; data da fabricação, prazo de validade e identificação do lote; composição do produto; indicação da expressão: Registro no Ministério da Agricultura SIF/DIPOA sob nº_____/_____; instruções sobre o preparo e uso do produto de origem animal comestível ou alimento, quando necessário. 103Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 102 Uma exigência fundamental para que o consumidor possa fazer a escolha em relação ao produto é a declaração da lista de ingredientes. De acordo com a IN 22 (BRASIL, 2005), com exceção de produtos de origem animal com um único ingrediente, deverá constar no rótulo uma lista de ingredientes conforme se especifica a seguir: a) todos os ingredientes deverão constar em ordem decrescente da res- pectiva proporção. É importante salientar que essa informação foi comple- mentada pelo Ofício Circular 31 (BRASIL, 2009), que define que a ordem decrescente deve ser mantida, no entanto, devem ser declarados primeiro as matérias-primas e ingredientes e, por último, os aditivos, mesmo que em quantidades inferiores aos outros dois; b) quando um ingrediente for um produto de origem animal elaborado com dois ou mais ingredientes, este ingrediente composto, definido em um regu- lamento técnico específico, pode ser declarado como tal na lista de ingre- dientes, sempre que venha acompanhado imediatamente de uma lista, entre parênteses, de seus ingredientes em ordem decrescente de proporção; c) quando para um ingrediente composto for estabelecido um nome em um re- gulamento técnico específico, e represente menos que 25% do produto de origem animal, não será necessário declarar seus ingredientes, com exceção dos aditivos alimentares que desempenhem uma função tecnológica no produto acabado; d) a água deve ser declarada na lista de ingredientes, exceto quando for- mar parte de salmouras, xaropes, caldas, molhos ou outros similares, e esses ingredientes compostos forem declarados como tais na lista de ingredientes não será necessário declarar a água e outros componentes voláteis que se evaporem durante a fabricação; e) quando se tratar de produtos deorigem animal desidratados, concen- trados, condensados ou evaporados, que necessitam de reconstituição para seu consumo, por meio da adição de água, os ingredientes podem ser enumerados em ordem de proporção (m/m) no produto de origem animal reconstituído. Nesses casos, deverá ser incluída a seguinte expressão: “Ingredientes do produto preparado segundo as indicações do rótulo”. Outra informação bastante importante para o consumidor é em relação ao prazo de validade. De acordo com a IN 22 (BRASIL, 2005), esta declaração deve seguir a seguinte indicação: 1043 a) deve ser declarado o prazo de validade; b) do prazo de validade deve constar, pelo menos: o dia e o mês para produtos que tenham prazo de validade não superior a três meses; o mês e o ano para produtos que tenham prazo de validade superior a três meses. Se o mês de vencimento for dezembro, bastará indicar o ano, com a expressão “fim de...”; c) o prazo de validade deverá ser declarado por meio de uma das seguintes expressões: “consumir antes de...”; “válido até...” ; “validade...” ; “val.:...” ; “vence...” ; “vencimento...” ; “vto.:...”; ou “venc:....”. d) as expressões estabelecidas no item c deverão ser acompanhadas de: prazo de validade; ou uma indicação clara do local onde consta o prazo de validade; ou de uma impressão por meio de perfurações ou marcas indeléveis do dia e do mês ou do mês e do ano. Além disso, a IN 22 (BRASIL, 2005) trata de algumas situações específicas, nas quais são obrigatórias algumas declarações especiais. Por exemplo, naqueles pro- dutos nos quais no processo tecnológico for adicionado gordura vegetal deverá ser indicado, no painel principal do rótulo, logo abaixo do nome do produto, em caracteres uniformes em corpo e cor sem intercalação de dizeres ou desenhos, letras em caixa-alta e em negrito, a expressão: “CONTÉM GORDURA VEGETAL”. Da mesma maneira, em relação à composição do produto, o RIISPOA (BRASIL, 1952) também faz algumas definições, como, por exemplo, em relação aos coran- tes e aromatizantes utilizados. Isso porque, conforme o artigo 811, o uso de co- rantes e aromatizantes artificiais, em produtos de origem animal obriga a declara- ção expressa no rótulo “colorido artificialmente” ou “aromatizado artificialmente”. 105Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 104 Além disso, de acordo com o artigo 801 do RIISPOA (BRASIL, 1952) e com a IN 22 (2005), os produtos de origem animal embalados não devem apresentar des- crição ou rótulo que utilize vocábulos, sinais, denominações, símbolos, emble- mas ou outras representações gráficas que possam tornar as informações falsas, incorretas, insuficientes ou que possam induzir o consumidor a equívoco, erro, confusão ou engano em relação à verdadeira natureza, composição, rendimen- to, procedência, tipo, qualidade, quantidade, validade, características nutritivas ou forma de uso do produto. Além disso, os rótulos dos produtos de origem animal não podem indicar propriedades medicinais ou terapêuticas. Reflita E por que você acha que essas exigências são tão importantes? Você acredita que se não fosse obrigatória a declaração de todas essas informações o consumidor teria como saber realmente tudo que está contido no produto? Dessa maneira, ele pode escolher sem medo, consciente do que está levando para a sua casa. Rotulagem nutricional A alimentação não é simplesmente o ato de ingerir um alimento, mas o ato de obter substrato para as reações orgânicas básicas que ocorrem no interior das células dos seres vivos (CASTILLO, 2006). Levando em consideração o citado anteriormente, considerando também que a rotulagem nutricional facilita ao consumidor conhecer as propriedades nutri- cionais dos alimentos, contribuindo para um consumo adequado deles, entre outros fatores, é que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regula- menta a declaração de nutrientes na rotulagem dos alimentos no Brasil. Atenção A rotulagem nutricional dos alimentos é obrigatória a 100% dos produtos alimentícios que sejam embalados na ausência do cliente e prontos para serem oferecidos aos consumidores. Para tal, têm-se principalmente duas resoluções, a RDC 359 e a RDC 360, ambas de 23 de dezembro de 2003, que normatizam essa declaração. 1063 A Resolução RDC 360 (BRASIL, 2003) não se aplica: às bebidas alcoólicas; aos aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia; às especiarias; às águas minerais naturais e às demais águas de consumo humano; aos vinagres; ao sal (cloreto de sódio); ao café, à erva-mate, ao chá e outras ervas sem adição de outros ingredientes; aos alimentos preparados e embalados em restaurantes e estabelecimentos comerciais, prontos para o consumo; aos produtos fracionados nos pontos de venda a varejo, comercializados como pré-medidos; às frutas, aos vegetais e às carnes in natura, refrigerados e congelados; aos alimentos com embalagens cuja superfície visível para rotulagem seja menor ou igual a 100 cm2. Esta exceção não se aplica aos alimentos para fins especiais ou que apresentem declarações de propriedades nutricionais. Atenção Assim, de acordo com a listagem anterior, você pode perceber que a carne e os produtos cárneos não foram citados, ou seja, estão entre os alimentos que cumprem a obrigatoriedade de declaração nutricional. Vale destacar que não são apenas os produtos industrializados que devem cumprir essa exigência, mas também a carne in natura. Além disso, a RDC 360 (BRASIL, 2003) também traz algumas outras definições importantes. Conheça-as: Rotulagem nutricional: é toda descrição destinada a informar ao consumidor sobre as propriedades nutricionais de um alimento, compreendendo: a) a declaração de valor energético e nutrientes; b) a declaração de propriedades nutricionais (informação nutricional complementar). 107Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 106 Declaração de nutrientes: é uma relação ou enumeração padronizada do con- teúdo de nutrientes de um alimento. Declaração de propriedades nutricionais (informação nutricional complemen- tar): é qualquer representação que afirme, sugira ou implique que um produto possui propriedades nutricionais particulares, especialmente, mas não somente, em relação ao seu valor energético e conteúdo de proteínas, gorduras, carboi- dratos e fibra alimentar, assim como ao seu conteúdo de vitaminas e minerais. Nutriente: é qualquer substância química consumida normalmente como com- ponente de um alimento que: a) proporciona energia; e/ou b) é necessária ou contribua para o crescimento, desenvolvimento e a manutenção da saúde e da vida; e/ou c) cuja carência possa ocasionar mudanças químicas ou fisiológicas características. Carboidratos ou hidratos de carbono ou glicídios: são todos os mono, di e polissacarídeos, incluídos os poliois presentes no alimento, que são digeridos, absorvidos e metabolizados pelo ser humano. Açúcares: são todos os monossacarídeos e dissacarídeos presentes em um ali- mento que são digeridos, absorvidos e metabolizados pelo ser humano. Não se incluem entre estes os poliois. Fibra alimentar: é qualquer material comestível que não seja hidrolisado pelas enzimas endógenas do trato digestivo humano. Gorduras ou lipídeos: são substâncias de origem vegetal ou animal, insolúveis em água, formadas de triglicerídeos e pequenas quantidades de não gliceríde- os, principalmente fosfolipídeos. Gorduras saturadas: são os triglicerídeos que contém ácidos graxos sem du- plas ligações, expressos como ácidos graxos livres. Gorduras monoinsaturadas: são os triglicerídeos que contêm ácidos graxos com uma dupla ligação cis, expressos como ácidos graxos livres. Gorduras poliinsaturadas: são os triglicerídeos quecontêm ácidos graxos com duplas ligações cis-cis separadas por grupo metileno, expressos como ácidos graxos livres. Gorduras trans: são os triglicerídeos que contêm ácidos graxos insaturados com uma ou mais dupla ligação trans, expressos como ácidos graxos livres. 1083 Proteínas: são polímeros de aminoácidos ou compostos que contêm polímeros de aminoácidos. Porção: é a quantidade média do alimento que deveria ser consumida por pes- soas sadias, maiores de 36 meses, em cada ocasião de consumo, com a finalida- de de promover uma alimentação saudável. Consumidores: são pessoas físicas que compram ou recebem alimentos com o objetivo de satisfazer suas necessidades alimentares e nutricionais. Alimentos para fins especiais: são os alimentos processados especialmen- te para satisfazer necessidades particulares de alimentação determinadas por condições físicas ou fisiológicas particulares e/ou transtornos do metabolismo e que se apresentem como tais. Incluem-se os alimentos destinados aos lactentes e às crianças de primeira infância. A composição desses alimentos deverá ser essencialmente diferente da composição dos alimentos convencionais de natu- reza similar, caso existam. A RDC 360 (BRASIL, 2003) define como obrigatória a declaração das quantida- des presentes nos alimentos dos seguintes nutrientes: carboidratos, proteínas, gorduras totais, gorduras saturadas, gorduras trans, fibra alimentar e sódio. Dica Vitaminas e minerais só podem ser declarados desde que constem no anexo desta regulamentação, e se estiverem presentes em quantidade igual ou maior a 5% da Ingestão Diária Recomendada (IDR) por porção indicada no rótulo. Além destes, a RDC 360 (BRASIL, 2003) também estabelece como obrigatória a declaração do valor energético correspondente à porção de referência estabele- cida na tabela de informação nutricional, a própria porção de referência, o %VD, unidades de medida, além de também estabelecer um formato para a declara- ção dessas informações. A definição da legislação é que a informação nutricional deve aparecer agrupa- da em um mesmo lugar, estruturada em forma de tabela, com os valores e as unidades em colunas. Essa tabela pode ser apresentada no formato horizontal ou vertical. Caso o espaço não seja suficiente, pode ser utilizada a forma de de- claração linear, ou seja, o uso da tabela é dispensado e a informação nutricional pode ser declarada como um “texto corrido”. 109Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 108 Também de acordo com a RDC 360 (BRASIL, 2003), existem algumas situações nas quais a informação nutricional poderá ser suprimida, ou seja, será expres- sa como “zero” ou “0” ou “não contém” para valor energético e/ou nutrientes quando o alimento contiver quantidades menores ou iguais às estabelecidas como “não significativas”, como você pode ver no Quadro 7. Valor energético/ nutrientes Quantidades não significativas por porção (expressa em g ou ml) Valor energético Menor ou igual a 4 kcal ou 17 kJ Carboidratos Menor ou igual a 0,5 g Proteínas Menor ou igual a 0,5 g Gorduras totais (*) Menor ou igual a 0,5 g Gorduras saturadas Menor ou igual a 0,2 g Gorduras trans Menor ou igual a 0,2 g Fibra alimentar Menor ou igual a 0,5 g Sódio Menor ou igual a 5 mg Quadro 7: Situações em que dados da informação nutricional poderão ser suprimidos Fonte: RDC 360 de 23 de dezembro de 2003 – Anvisa (BRASIL, 2003) (*) Será declarado como “zero”, “0” ou “não contém” quando a quantidade de gorduras totais, gorduras saturadas e gorduras trans atendam a condição de quantidades não significativas e nenhum outro tipo de gordura seja declarado com quantidades superiores a zero. Atenção Também é importante salientar que as quantidades mencionadas devem ser as correspondentes ao alimento tal como se oferece ao consumidor, ou seja, já pronto ou não para o consumo. Podem-se declarar, também, informações do alimento preparado, desde que se indiquem as instruções específicas de preparação e que tais informações se refiram ao alimento pronto para o consumo. 1103 No entanto, para que a empresa possa fazer essa importante declaração, pri- meiro deve conhecer o seu produto. Os dados utilizados para isso podem ser oriundos de valores médios de resultados de análises físico-químicas dos pro- dutos ou, caso não seja possível, embasados em dados de literatura, tabelas de composição, entre outros, desde que se avalie com bastante critério a consis- tência e coerência deles. Porém, como você pôde ver até agora, a RDC 360 (BRASIL, 2003) traz inúmeras exigências, porém não traz 100% das definições para atendimento de tal. As- sim, a RDC 359, também de 23 de dezembro de 2003, foi publicada juntamente para complementar algumas informações importantes. Entre estas, destaca-se a necessidade de estabelecer os tamanhos das porções dos alimentos embalados para fins de rotulagem nutricional. Da mesma maneira como a resolução anterior que você estudou, a RDC 359 (BRASIL, 2003) também traz consigo algumas importantes definições, a saber: Porção: é a quantidade média do alimento que deveria ser consumida por pes- soas sadias, maiores de 36 meses de idade em cada ocasião de consumo, com a finalidade de promover uma alimentação saudável. Medida caseira: é um utensílio comumente utilizado pelo consumidor para medir alimentos. Unidade: cada um dos produtos alimentícios iguais ou similares contidos em uma mesma embalagem. Fração: parte de um todo. Fatia ou rodela: fração de espessura uniforme que se obtém de um alimento. Prato preparado semipronto ou pronto: alimento preparado, cozido ou pré- cozido que não requer adição de ingredientes para seu consumo. Assim, para que essa declaração se torne clara e padronizada a todos os fabrican- tes de alimentos, para efeito de declaração na rotulagem nutricional, estabele- ceu-se a medida caseira e sua relação com a porção correspondente em gramas ou mililitros detalhando-se os utensílios geralmente utilizados, suas capacidades e dimensões aproximadas, conforme você pode observar no Quadro 8. 111Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 110 Medida caseira Capacidade ou dimensão Xícara de chá 200 cm3 ou ml Copo 200 cm3 ou ml Colher de sopa 10 cm3 ou ml Colher de chá 5 cm3 ou ml Prato raso 22 cm de diâmetro Prato fundo 250 cm3 ou ml Quadro 8: Medida caseira e sua relação com a porção correspondente em gramas ou mililitros Fonte: RDC 359 de 23 de dezembro de 2003 – Anvisa (BRASIL, 2003) Dica É importante que você saiba que essas são indicações de declaração de porção, mas não são as únicas formas permitidas. As outras formas de declaração de medidas caseiras, como fatia, rodela, fração ou unidade, devem ser as mais apropriadas para o produto específico, do qual estão sendo declaradas as informações nutricionais. No entanto, quando falamos de rotulagem nutricional, além do conhecimento que agora você já tem sobre a RDC 359 e a RDC 360, é importante que você também conheça a Portaria nº 27, de 13 de janeiro de 1998, também da Anvisa. Essa Portaria estabelece as regras para a declaração de informação nutricional complementar, ou seja, qualquer representação que afirme, sugira ou implique que um alimento possui uma ou mais propriedades nutricionais particulares, relativas ao seu valor energético e ao seu conteúdo de proteínas, gorduras, car- boidratos, fibras alimentares, vitaminas e ou minerais. Na prática, é a Portaria nº 27 (BRASIL, 1998) que define quando se pode decla- rar um alimento como sendo light, fonte, rico ou baixo conteúdo de um ou mais nutrientes. Ou ainda livre de adição ou conteúdo aumentado. Nesta aula, você viu as exigências do RIISPOA em relação à rotulagem de pro- dutos cárneos. Na próxima aula, você verá as exigências do RIISPOA em relação ao uso de matérias-primas, deingredientes, do emprego de aditivos e de coad- juvantes de tecnologia. 1123 Aula 3: Ingredientes, aditivos e coadjuvantes tecnológicos Nesta aula, você verá as exigências do RIISPOA em relação ao uso de matérias- primas, de ingredientes, do emprego de aditivos e de coadjuvantes de tecnologia. Para que se consiga alcançar os efeitos desejados nos produtos cárneos, bem como suas características sensoriais finais, além dos processos tecnológicos adequados, é de fundamental importância o uso de matérias-primas e ingre- dientes adequados, bem como o emprego de aditivos e até mesmo, em algu- mas situações, dos coadjuvantes de tecnologia. Assim, em 1952, o RIISPOA já regulamentava o uso de aditivos para alguns pro- dutos, trazendo algumas definições que, mais tarde, em 1997, seriam republica- das e complementadas pela Portaria nº 540, do Ministério da Saúde, abrangen- do quase que a totalidade dos produtos. Veja, a seguir, algumas definições dadas pelo RIISPOA: Ingrediente: é qualquer substância, incluídos os aditivos alimentares, emprega- da na fabricação ou preparação de um alimento e que permanece no produto final, ainda que de forma modificada. Aditivo alimentar: é qualquer ingrediente adicionado intencionalmente aos produtos, sem propósito de nutrir, com o objetivo de modificar as característi- cas físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante a fabricação, o proces- samento, a preparação, o tratamento, a embalagem, o acondicionamento, a armazenagem, o transporte ou a manipulação de um alimento. Ao agregar-se poderá resultar em que o próprio aditivo ou seus derivados se convertam em um componente de tal alimento. Esta definição não inclui os contaminantes ou as substâncias nutritivas que sejam incorporadas ao alimento para manter ou melhorar suas propriedades nutricionais. Coadjuvante de tecnologia de fabricação: é toda substância, excluindo os equipamentos e os utensílios utilizados na elaboração e/ou conservação de um produto, que não se consome por si só como ingrediente alimentar e que se emprega intencionalmente na elaboração de matérias-primas, alimentos ou seus ingredientes, para obter uma finalidade tecnológica durante o tratamento 113Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 112 ou fabricação, devendo ser eliminada do alimento ou inativada, podendo admi- tir-se no produto final a presença de traços de substância ou seus derivados. Além disso, a Portaria 540 (BRASIL, 1997) traz a definição de cada uma das prin- cipais categorias de aditivos adicionadas aos produtos cárneos, a saber: I – acidulante: substância que aumenta a acidez ou confere um sabor ácido aos alimentos; II – regulador de acidez: substância que altera ou controla a acidez ou alcalinidade dos alimentos; III – antioxidantes: substância que retarda o aparecimento de alteração oxidativa no alimento; IV – aromatizante/saborizante: substância ou mistura de substâncias com propriedades aromáticas e/ou sápidas, capazes de conferir ou reforçar o aroma e/ou sabor dos alimentos; V – corante: substância que confere, intensifica ou restaura a cor de um alimento; VI – conservador: substância que impede ou retarda a alteração dos alimentos provocada por microrganismos ou enzimas; VII – estabilizador de cor: substância que estabiliza, mantém ou intensifica a cor de um alimento; VIII – estabilizantes: substância que torna possível a manutenção de uma dispersão uniforme de duas ou mais substâncias imiscíveis em um alimento; IX – espessantes: substância que aumenta a viscosidade de um alimento; X – realçador de sabor: substância que ressalta ou realça o sabor/ aroma de um alimento; XI – emulsionantes: substância que torna possível a formação ou manutenção de uma mistura uniforme de duas ou mais fases imiscíveis no alimento; XII – umectantes: substância que protege os alimentos da perda de umidade em ambiente de baixa umidade relativa ou que facilita a dissolução de uma substância seca em meio aquoso. 1143 Ainda de acordo com a Portaria 540 (BRASIL, 1997), o uso dos aditivos deve ser limitado a alimentos específicos, em condições específicas e ao menor nível para alcançar que se alcance efeito desejado, sendo que a sua necessidade de uso deve ser justificada sempre que proporcionar vantagens de ordem tecno- lógica e não quando estas possam ser alcançadas por operações de fabricação mais adequadas ou por maiores precauções de ordem higiênica ou operacional. Pergunta Em que casos é proibido o uso de aditivos em alimentos? Quando houver evidências ou suspeitas de que o aditivo não é seguro para o consumo humano; Quando os aditivos interferirem sensível e desfavoravelmente no valor nutri- tivo do produto acabado; Quando o uso do aditivo servir para encobrir falhas no processamento e/ou nas técnicas de manipulação ou, ainda, para encobrir alteração ou adultera- ção da matéria-prima ou do produto já elaborado; Quando o seu uso possa induzir o consumidor a erro, engano ou confusão. Além disso, conforme você já estudou na aula sobre a rotulagem de produtos cárneos, todos os aditivos com uso permitido possuem um INS, ou seja, é como um Sistema Internacional de Numeração de Aditivos Alimentares, em que cada um é indicado por um número específico. Atenção O Sistema Internacional de Numeração de Aditivos Alimentares foi elaborado pelo Comitê do Codex sobre Aditivos Alimentares e Contaminantes de Alimentos para estabelecer um sistema numérico internacional de identificação dos aditivos alimentares nas listas de ingredientes como alternativa à declaração do nome específico do aditivo. Dica Considerando tudo que você já viu, com as normas e definições, como pode ser feito o uso dos aditivos nos produtos cárneos? Qualquer produto pode usar aditivos? E em que quantidades? 115Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 114 Você encontrará respostas a essas perguntas a seguir. Primeiramente, você vai estudar a Portaria nº 1.002, de 11 de dezembro de 1998, que lista os produtos cárneos comercializados no país, enquadrando-os nas subcategorias que fazem parte da Categoria 8 – Carnes e Produtos Cárneos. Veja essa classificação no Quadro 9. Subcategoria Produtos 8.1 Carne - 8.1.1 Carnes frescas Todas as carnes frescas. 8.1.2 Carnes congeladas Todas as carnes congeladas. 8.2 Produtos cárneos - 8.2.1 Produtos industrializados - 8.2.1.1 Produtos frescais embuti- dos ou não Almôndegas, quibes, linguiças, empanados, carne bovina, suína, ovina, e/ou de aves temperadas, carne e miúdos temperados e/ou recheados, hambúrgueres, dentre outros. 8.2.1.2 Produtos secos, curados e/ ou maturados embutidos ou não Linguiças, carnes desidratadas, peles desi- dratadas, presunto cru, presunto tipo par- ma, salames, copas, speck, brezaola, cortes maturados/curados, jerked beef, charque, pepperoni, paio tipo português, dentre outros. 8.2.1.3. Produtos cozidos embuti- dos ou não Mortadela, salsicha, pastas, salsichões, morcelas, chouriços, presunto cozido, pão de carne, fiambres, galantinas, lanches de carne, linguiças, cortes de carne, lombo tipo canadense, lombo de suínos, paios, lingui- ça defumada, almôndegas, pratos prontos, zampone, barriga defumada (Bacon), code- guino, empanados, apresuntados, queijo de porco, dentre outros. 8.2.2 Produtos salgados - 8.2.2.1 Produtos salgados crus Cortes de carne, miúdos, carne de sol, den- tre outros. 1163 8.2.2.2 Produtos salgados cozidos Mortadela, salsicha, pastas, salsichões, mor- celas, chouriços, presunto cozido, Pão de carne, fiambres, galantinas, lanches de carne, linguiças, cortes de carne, lombo tipo cana- dense, lombo de suínos, paios, linguiça de- fumada, almôndegas, pratos prontos, zam- pone, barriga defumada (bacon), codeguino, empanados, apresuntados,dentre outros. 8.3 Conservas e Semiconservas de Origem Animal - 8.3.1 Conservas Cárneas, Mistas e Semiconservas Cárneas Salsicha, mortadela, apresuntado, carne em conserva, picadinho de carne, pastas, almôndegas, feijoada, dobradinha, molhos de carne, carnes com vegetais, língua de bovino enlatada, paio em banha, extratos de carnes, fiambres, dentre outros. Quadro 9: Produtos cárneos enquadrados nas subcategorias que fazem parte da Categoria 8 – Carnes e Produtos Cárneos Fonte: Portaria nº 1.002 (BRASIL,1998) Essa classificação é fundamental, pois é a partir dela que você poderá entender a Portaria nº 1.004, de 11 de dezembro de 1998, que aprova o Regulamento Técnico: “Atribuição de Função de Aditivos, Aditivos e seus Limites Máximos de uso para a Categoria 8 – Carne e Produtos Cárneos”. Ou seja, é na Portaria nº 1.004 (BRASIL, 1998) que você encontrará a informação completa sobre a permissão do uso de aditivos em produtos cárneos. Lá, você verá, em cada subcategoria de produtos cárneos, que tipo de aditivos pode- rão ser aplicados. Além disso, é nessa Portaria que se tem o limite de adição estabelecido, de acordo com cada tipo de aditivo e categoria de produto no qual está sendo aplicado. Ou seja, os limites de adição, e até mesmo a permis- são para aplicação, poderão variar entre os diferentes subgrupos dos produtos cárneos. Aqueles aditivos que tiverem limitação de adição, terão especificada a quantidade máxima de aplicação, enquanto os demais virão seguidos da sigla q.s., que representa a expressão quantum satis, que significa a quantidade sufi- ciente, ou seja, permite-se o uso dos aditivos assim identificados em quantida- de suficiente para que se obtenha o efeito desejado. Nesta aula, você viu as exigências do RIISPOA em relação ao uso de matérias- primas, de ingredientes, do emprego de aditivos e de coadjuvantes de tecnologia. 117Unidade 3 Tecnologia de Carnes e Derivados 116 Colocando em Prática Parabéns! Você terminou a Unidade 3 deste curso. Para fixar o que você aprendeu até aqui, realize as atividades de aprendizagem que estão no ambiente virtual. Relembrando Nesta unidade, você estudou as principais exigências legais para a indústria cárnea, começando por aspectos relacionados a instalações e equipamentos, condições higiênicas, inspeção industrial e sanitária, padrões de identidade e qualidade, além de algumas definições impor- tantes vinculadas a registros de produtos, de acordo com o RIISPOA. Você viu também alguns detalhes da rotulagem nutricional obrigatória dos produtos, passando pela rotulagem nutricional complementar. E, para finalizar, estudou sobre ingredientes, aditivos e coadjuvantes de tecnologia, podendo entender a função específica de cada aditivo além de verificar como a legislação permite sua utilização. Saiba Mais A Portaria nº 27 (BRASIL, 1998) completa, bem como a RDC 359 e 360 (BRASIL, 2003), que você estudou nesta unidade, estão disponíveis no portal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no endereço eletrônico <www.anvisa.gov.br>. Clique no link legislação e, em seguida, no VISALEGIS. Alongue-se Aproveite o término desta unidade para se alongar um pouco. Isso é importante para que você continue seus estudos com disposição. Comece fazendo uma respiração profunda: inspire lentamente, pelo nariz, contan- do até cinco. Solte o ar, assoprando-o pela boca, também contando até cinco. Repita essa respiração dez vezes ou mais, se desejar. Agora, sentado na cadeira em que você está, com as pernas descruzadas e os pés tocando o chão, dobre seu corpo na direção de suas pernas, tocando o tronco nas coxas. Deixe a cabeça solta na direção dos joelhos, solte as mãos na dire- ção dos pés e permaneça um pouco nessa posição. Volte lentamente para a posição sentada, inspirando e expirando como no início do exercício. 119 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Objetivos de Aprendizagem Ao final desta unidade, você terá subsídios para compreender de maneira detalhada as etapas mais importantes, bem como as prin- cipais características dos processos de abate e desossa de bovinos, suínos, aves e pescado. Aulas Nesta unidade, seus estudos abordarão os seguintes temas: Aula 1: Bovinos Aula 2: Suínos Aula 3: Aves Aula 4: Pescado 4Obtenção, Abate e Desossa 1203 Para Iniciar Nesta unidade, trataremos dos principais aspectos envolvidos nos pro- cessos de abate e desossa de bovinos, suínos, aves e pescado, deta- lhando um pouco cada uma das principais etapas desses processos. Como você já viu anteriormente, a qualidade da carne obtida após o processo de abate e desossa, e que chegará até a mesa do consumidor, sofre influência direta de fatores que vão desde o manejo pré-abate, que inicia na propriedade rural, até o momento do abate, sendo tam- bém necessário garantir que o abate ocorra sem sofrimentos para que o animal não tenha seu nível de estresse aumentado, o que impacta de maneira negativa no produto final. Assim, como você poderá ver a partir de agora, o processo de abate e cada uma de suas etapas, são cercadas de parâmetros que devem ser controlados para garantir a qualidade da carne. Aula 1: Bovinos Nesta aula, você aprenderá como ocorre o abate de bovinos e estudará esse processo desde o transporte dos animais do criadouro ao abatedouro até a embalagem do produto cárneo. Quando se fala do abate de bovinos, devem ser tomados inúmeros cuidados, já que existem etapas nesse processo consideradas críticas e que podem le- var à contaminação das carcaças por microrganismos. Para a realização de um bom abate, devem ser realizados todos os procedimentos para impedir lesões, os animais não devem ser estressados desnecessariamente, a sangria realizada deve ser eficiente e todas as normas do RIISPOA (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária dos Produtos de Origem Animal) devem ser seguidas, realizando-se, assim, um abate que garanta a qualidade higiênico-sanitária e que seja seguro aos operadores. Na Figura 27, você pode observar um fluxograma que ilustra a sequência das principais operações envolvidas no processo de abate bovino. 121Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 120 Figura 27 - Fluxograma do processo de abate e desossa de bovinos Veja, a seguir, os detalhes das principais operações envolvidas no processo de abate bovino. 1223 Transporte dos animais O processo de comercialização inicia-se pelo deslocamento das boiadas dos seus locais de produção/criação. O estresse dos animais destinados ao abate começa com o abandono dos locais aos quais se habituaram e onde, por vezes, nasceram. Também o transporte é responsável – em algumas circunstâncias mais graves que em outras – por contusões que danificam a pele e a carne, refletindo no agravamento do estresse (PARDI et al., 2001). A extensão das contusões nas carcaças representa uma forma de avaliação da qualidade do transporte, afetando diretamente a qualidade da carcaça, consi- derando que as áreas afetadas são aparadas da carcaça, com auxílio de faca, resultando em perda econômica e sendo indicativo de problemas com o bem- estar animal (ROÇA, 2002). Além disso, as demais condições de transporte a que os animais são submeti- dos, como temperaturas extremas, muito altas ou excessivamente baixas, umi- dade demasiadamente baixa, densidade de carga inadequada (em média, os caminhões boiadeiros transportam em torno de 20 animais), falta de condições adequadas do caminhão, também são fatores que podem levar a um grande aumento do estresse dos animais. Uma das maiores influências do transporte nas características da carne e que afetam diretamente a sua qualidade é a redução dos níveis de glicogênio mus- cular, seja devido à atividade físicaou ao estresse físico intenso, que leva a uma redução do pH deficiente no período post mortem, originando um defeito que você já estudou anteriormente, a carne DFD. (dark, firm, dry). Segundo Roça (2002), essas condições estressantes podem ser causadas pelo transporte pro- longado. Transporte por tempo superior a 15 horas é inaceitável do ponto de vista de comportamento e bem-estar animal. Recepção Após o transporte, assim que os animais chegam ao abatedouro, são descar- regados dos caminhões por rampas e conduzidos aos currais de recepção nos quais se procede a inspeção ante mortem para posterior condução dos animais para os currais de matança, onde permanecerão até o momento do abate. 123Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 122 Atenção É de extrema importância que todos os cuidados sejam tomados nessas etapas que antecedem o abate para evitar ao máximo a ocorrência de lesões e causar o menor estresse no animal, já que estes são fatores que impactam diretamente na qualidade da carne. Durante a inspeção ante mortem, são verificados os certificados de vacinação e sanidade dos animais, suas condições higiênico-sanitárias para auxiliar, com os dados informativos, a tarefa de inspeção post mortem, identificação e isola- mento dos animais doentes ou com suspeita de alguma doença antes do abate, além das fêmeas com gestação adiantada e recém-paridas, bem como verificar as condições higiênicas dos currais e anexos. Em seguida, os animais são sepa- rados por lotes, de acordo com a procedência, sexo e idade. Aqueles animais em que foi identificada alguma alteração durante essa inspe- ção serão conduzidos aos currais de observação, que são locais destinados a receber, para observação e exame mais detalhado, aqueles bovinos que foram excluídos da matança normal por suspeita de alguma doença. Após essa inspeção, os animais que foram conduzidos aos currais de matança passam pelo período de descanso, jejum e dieta hídrica, que é o período des- tinado ao descanso do animal visando à recuperação do estresse sofrido no transporte e, consequentemente, ao restabelecimento dos níveis de glicogênio muscular. Além disso, nesta etapa, com o jejum e a dieta hídrica, tem-se o esva- ziamento do conteúdo gástrico do animal, o que reduz os riscos de contamina- ção nas etapas subsequentes do processo de abate, em especial a evisceração. De acordo com o artigo 110 do RIISPOA (BRASIL, 1952), os animais devem per- manecer em descanso, jejum e dieta hídrica nos currais por 24 horas, podendo este período ser reduzido em função de menor distância percorrida. Reflita Pense um pouco nos principais defeitos que se podem observar em carnes, após o processo de abate. Quais são as principais causas? Como você acha que eles podem ser evitados? 1243 Atordoamento, ou insensibilização O atordoamento, ou a insensibilização, pode ser considerado a primeira ope- ração do abate propriamente dito. Determinado pelo processo adequado, o atordoamento consiste em colocar o animal em um estado de inconsciência, que perdure até o fim da sangria, não causando sofrimento desnecessário e promovendo uma sangria o mais completa possível (ROÇA, 2002). Transcorrido o período de descanso, jejum e dieta hídrica, os animais são con- duzidos para a próxima etapa, a insensibilização, que ocorre em um corredor que antecede o box de insensibilização. Nesse corredor, os animais recebem um banho, chamado banho de aspersão, conforme você vê na Figura 28. Por isso, o local deve dispor de um sistema tubular de chuveiros dispostos transversal, longitudinal e lateralmente, orientando os jatos para o centro da rampa. A água deve ter a pressão não inferior a 3 atmosferas e recomenda-se hipercloração a 15ppm de cloro disponível (BRASIL, 1952). Figura 28 - Banho de aspersão em bovinos Atenção Essa etapa é importante, já que, além de auxiliar no relaxamento do animal, remove as sujidades aderidas ao couro, reduzindo o risco da presença desse tipo de contaminante durante o processo de abate. Após o banho de aspersão, os bovinos são conduzidos à seringa por uma rampa com piso antiderrapante, dividida por porteiras, de preferência do tipo guilhotina, para facilitar o manejo. Ao final, a rampa se afunila, dando origem à seringa, onde os animais recebem novo banho de aspersão com água sob pressão de 3 atm por meio de borrifadores, e daí têm acesso ao box de insensibilização (PARDI et al., 2001). 125Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 124 A insensibilização pode ser realizada por diversos meios. No caso de bovinos, os métodos mais utilizados são aqueles por meio mecânico, tendo como objeti- vo principal deixar o animal inconsciente até o fim da sangria, garantindo assim o bem-estar animal. Dica Existem inúmeras formas de fazer o atordoamento, como: marreta, martelo pneumático não penetrante, armas de fogo, pistola pneumática de penetração, sendo que nem todos vão garantir a premissa do bem-estar. Na Figura 29, você pode verificar um animal instantes antes do atordoamento. Figura 29 - Bovino em instantes que antecedem o atordoamento No Brasil, o equipamento de atordoamento normalmente usado é a marreta pneumática, com pino retrátil, que é aplicada na parte superior da cabeça dos animais. O pino perfura o osso do crânio e danifica parte do cérebro do animal, deixando-o inconsciente. Existe ainda o uso da pistola, sem dispositivos pene- trantes, que faz o atordoamento por concussão cerebral (SARCINELLI et al., 2007). Após a insensibilização, os animais são conduzidos, por meio do deslocamento do piso do box, para a área de vômito. Nessa área, os animais são suspensos em um trilho aéreo por um dos membros posteriores. Como existe a possibili- dade de regurgitação, devem ser colocadas grades metálicas no piso de modo a promover o escoamento mais rápido e intenso do refluxo ruminal e da água de lavagem, caso exista a necessidade de lavagem dos animais devido ao vômito, já que a área deve ser mantida em condições higiênicas satisfatórias. 1263 Sangria Após a passagem pela área de vômito, os animais são conduzidos até a calha de sangria. Em bovinos, a sangria é feita pelo corte das artérias carótidas e veias ju- gulares. Devem ser utilizadas duas facas, sendo uma para a incisão da barbela e a outra para a secção dos grandes vasos. Após o uso em um animal, o conjunto de facas deve ser esterilizado em equipamentos de esterilização com água, presen- tes na própria linha de abate, antes de serem utilizados no próximo animal. Como regra, para proporcionar uma sangria completa e eficiente, ela deve ser feita logo em seguida à insensibilização. A duração da sangria deve ser de aproximadamente três minutos, tempo que pode ser ajustado ao comprimento da canaleta, a ponto de permitir o extravasamento do sangue durante o curso normal da nórea transportadora (PARDI et al., 2001). De uma maneira geral, o sangue é recolhido pela canaleta e destinado à gra- xaria. Algumas vezes, entretanto, há necessidade de utilização do sangue para outros fins, como, por exemplo, comercialização. Neste caso, deve ser recolhido separadamente. Uma das maneiras é coletá-lo com o uso de facas especiais (tipo vampiro) conectadas diretamente nas artérias. Elas dispõem de um tubo conectado ao cabo da faca que, higienicamente, leva o sangue para recipientes esterilizados (ROÇA, 2002). O volume de sangue de bovinos é estimado em 6,4 a 8,2 litros/100kg de peso vivo. A quantidade de sangue obtida na sangria com o animal deitado é apro- ximadamente de 3,96 litros/100 kg de peso vivo, e, com a utilização do trilho aéreo, é de 4,42 litros/100 kg de peso vivo. Numa boa sangria, necessária para a obtenção de uma carne com adequada capacidade de conservação, remove-se cerca de 60% do volume total de sangue, sendo que o restante fica retido nosmúsculos (10%) e nas vísceras (20% a 25%) (ROÇA, 2002). A eficiência da sangria pode ser definida como o volume de sangue residual ou retido nos músculos após o abate. Considerando uma variação individual muito acentuada no teor de hemoglobina sanguínea, a relação entre a hemoglobina sanguínea e a hemoglobina residual no músculo é uma forma segura de avalia- ção da eficiência da sangria, cujos resultados são expressos em mL de sangue retido no músculo/100g de músculo (ROÇA, 2001). Dica Quanto mais rápida e maior for a remoção de sangue conseguida, mais eficiente será considerada a sangria, já que, dessa forma, têm-se reduzidas as chances de contaminação da carcaça nesta etapa. 127Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 126 Esfola A etapa da esfola representa um ponto crítico no processo de abate, tendo em vista que, caso não sejam tomados todos os cuidados necessários, pode haver contaminação da carcaça a partir dos microrganismos existentes no couro e nos pelos do animal. Esse risco é grande porque é nesta etapa que será removido o couro, que ocorrerá a desarticulação da cabeça e das patas, exposição e amar- ração do ânus, entre outros. No Brasil, realiza-se o procedimento de esfola aérea como regra. Isso ocorre devido às justificativas estabelecidas no Manual de Padronização de Técnicas, Instalações e Equipamentos (BRASIL, 1971), a saber: elimina completamente o contato do animal com o piso; propicia maior drenagem do sangue, pela posição vertical do bovino, duran- te mais tempo do que no sistema tradicionalmente usado antes da imple- mentação deste documento; evita a formação de coágulos na cavidade torácica, facilitando, assim, a pos- terior lavagem das meias-carcaças; favorece a higiene e a rapidez das operações; reduz a área de trabalho e economiza mão de obra especializada; reduz o gasto de água. Veja, na Figura 30, um animal submetido ao processo de esfola aérea. Figura 30 - Animal em processo de esfola aérea 1283 Segundo Sarcinelli (2007), na esfola aérea, antes da remoção do couro, para apro- veitamento dos mocotós, cortam-se as patas dianteiras. Amarram-se, para evitar a contaminação da carcaça, o ânus e a bexiga. O couro é retirado depois de ter sido cortado com facas em pontos específicos, para facilitar sua remoção. A re- moção do couro pode ser feita por máquinas ou de forma manual com auxílio de faca, cercada de cuidados para que não haja contaminação da carcaça por pelos ou algum resíduo fecal. Em seguida, corta-se com uma faca o rabo, o útero ou os testículos. Posteriormente, remove-se a cabeça, que é lavada, e retiram-se os re- síduos de vômito, para fins de inspeção e para certificar-se da higiene das partes comestíveis. A cabeça é limpa com água e a língua e os miolos são recuperados. Pardi et al. (2001) listaram uma sequência de cuidados de ordem higiênica e técnica que devem ser tomados por ocasião da esfola de bovino, a saber: evitar movimentos bruscos na esfola aérea, para impedir salpicamentos de mate- rial contaminante nas carcaças vizinhas e não prejudicar a qualidade das peles; tomar cuidados especiais para evitar a contaminação das carcaças por pele e pelos; esfolar cuidadosamente a região perianal, procedendo também à oclusão do reto; proceder à oclusão da porção cranial do esôfago; cuidar para que a serragem do esterno, feita com a chamada “serra de peito” em local que precede a evisceração, conte com esterilizador especialmente destinado a sua higienização sistemática; tomar cuidado especial para evitar a projeção da água do esterilizador sobre as carcaças; não arrastar as peles pelo piso para não contaminá-lo, devendo ser lança- das em chutes para serem trabalhadas em seção especial e nunca na sala de abate/matança; não permitir que a parte externa da pele toque a parte já esfolada; cuidar também para que os mocotós, depois de inspecionados, sejam traba- lhados em salas especiais, fora da área de abate, quando forem aproveitados para fins comestíveis; manter os tendões presos à carcaça para a necessária identificação e providen- ciar sua remoção somente após a passagem pelos demais pontos de inspeção; garantir que as cabeças, em seguida a sua inspeção sanitária, sejam transpor- tadas para seção especial para remoção da carne e retirada do cérebro e de glândulas de secreção interna, depois de lavadas nas partes internas e exter- nas em equipamento próprio para a retirada de sangue coagulado e resíduos de ingesta. Cuidado especial deve ser tomado durante a sua esfola, a fim de evitar a presença de fragmentos de pele, pelos, lábios e pavilhão auricular; 129Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 128 certificar-se de que, ao serem desarticulados a cabeça e os mocotós dian- teiros, com vistas à identificação das cabeças e línguas com as respectivas carcaças, a cabeça seja marcada sobre o côndilo occipital e idêntico número sobre a face articular dos ossos distais do corpo ou na asa do atlas; cuidar para que as línguas permaneçam presas às cabeças pelo freio lingual, após sua desarticulação para inspeção e identificação com a carcaça correspondente; obedecer as instruções constantes do Manual de Padronização de Técnicas do Ministério da Agricultura (BRASIL, 1971), no que diz respeito a canaletas e recipientes para coletar resíduos de sangue e outros resíduos durante o percurso nos trabalhos de esfola, bem como aos padrões dimensionais e disposição do trilhamento da matança e ainda as diversas alternativas para a retenção de cabeças para efeito de inspeção sanitária. Evisceração A etapa de evisceração é quando ocorre a abertura das cavidades pélvica, abdominal e torácica com consequente exposição das vísceras. Nessa etapa, também considerada como crítica, além dos cuidados higiênicos que deve ha- ver, assim como nas demais etapas do processo, também se deve atentar para o tempo transcorrido entre a morte do animal e a completa remoção das vísceras. Convencionou-se que esse tempo não deve ultrapassar os 30 minutos, devido ao grande risco de “invasão”, no restante da carcaça, de microrganismos pre- sentes na região intestinal (das vísceras). Nessa etapa, as vísceras são separadas, inspecionadas e recebem o destino cor- reto a cada uma, caso estejam em condições de aproveitamento. Atenção Nessa etapa, todo cuidado é pouco, já que o risco de contaminação é grande. Obtenção de meia-carcaça Após a passagem pela etapa de evisceração, as carcaças são, então, serradas para que se obtenham as meias-carcaças. Esse procedimento é realizado com o uso de serras, que devem ser submergidas em esterilizadores próprios após a serragem de cada carcaça. 1303 Dica Os esterilizadores são equipamentos que possuem água a temperatura de pelo menos 85 °C e visam a manter as condições de higiene dessa etapa do processo. Toalete final Segundo Pardi et al. (2001), para que restem, nas meias-carcaças, as porções que representam os cortes típicos de açougue, ao mesmo tempo em que para melhorar sua apresentação comercial e emprestar condições mais favoráveis de conservação, procede-se a retirada de músculos do pescoço comprometidos com hematomas e coágulos decorrentes da sangria, da gordura do peito, de gorduras em geral excedentes, além de remoção de contusões, sempre com o auxílio de ganchos e facas manuais ou pneumáticas sistematicamente higieniza- das. Também se removem o diafragma e seus pilares para inspeção com vistas a detectar a possível presença de cisticercose. Retira-se a rabada, as mamas ou os testículos, os rins, a gordura perirrenal e a medula espinhal. Dica Cisticercose é a mais frequente e grave das infecções parasitárias do sistema nervoso humano, que pode ser provocada pela Taenia sodium e Taenia saginatus, parasitas que têmcomo hospedeiros intermediários os suínos e os bovinos, respectivamente (PARDI et al., 2001). Após essa operação, as carcaças são lavadas com água potável (clorada com concentração de cloro residual de 5pmm), à temperatura de aproximadamente 40 °C, com o principal objetivo de se removerem resíduos de sangue, pequenos coágulos e resíduos de gordura que tenham ficado aderidos superficialmen- te nas meias-carcaças. Além disso, esse banho também ajuda a reduzir parte da contaminação presente na superfície da carcaça. A partir desse momento, recomenda-se não realizar mais o contato direto entre os manipuladores e as carcaças, sendo estas conduzidas por trilhamentos/nórea elétrica ou, na ausên- cia destes, por ganchos, visando à menor contaminação possível. 131Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 130 Resfriamento Após a toalete final, as meias-carcaças são conduzidas para a etapa de resfria- mento. Essa etapa se dá em câmaras frias, com temperatura variando de 0 °C a 4 °C, até que a temperatura das carcaças atinja 7 °C. Em geral, essa temperatura é atingida em um período em torno de 24 horas (ROÇA, 2002). No resfriamento, devem-se controlar a temperatura, a velocidade e a umidade do ar, de modo que as carcaças não fiquem ressecadas nem excessivamente úmidas na sua superfície. A primeira situação, além de uma perda econômica, já que resulta em perda de peso, pode também levar a uma alteração das características sensoriais do produ- to, dependendo da porcentagem de perda de umidade, devido à possibilidade de alteração das características de cor na superfície da carcaça. A segunda situação, por sua vez, pode favorecer o crescimento dos microrganismos presentes na su- perfície das carcaças, o que também pode gerar alterações indesejáveis, além dos riscos em relação à segurança alimentar que isso pode acarretar. Além disso, caso não seja garantida uma boa circulação de ar ao longo da câ- mara, não será verificada uma redução de temperatura uniforme entre as carca- ças distribuídas ao longo da câmara de resfriamento. Desossa Após a etapa de resfriamento, as carcaças podem ser comercializadas na for- ma de meias-carcaças ou, ainda, encaminhadas para a sala de cortes e para a realização da desossa. Nessa etapa, obtêm-se diversos cortes de valor comercial e alguns outros que, juntamente com retalhos e miúdos, podem ser utilizados para a industrialização. Na Figura 31, você pode entender os principais cortes obtidos de um bovino, bem como sua origem e localização nas diferentes peças. 1323 Figura 31 – Origem e localização dos cortes nas diferentes peças Fonte: Bressan e Perez (2000) Embalagem Após o processo de desossa, os cortes precisam ser embalados para posterior comercialização e/ou industrialização. As embalagens ocorrem de inúmeras formas, entre elas, em bandejas, sacos de polietileno, embalagem à vácuo. Além disso, os cortes podem ser mantidos resfriados ou congelados, de acordo com o fim a que se destinam. Portanto, após a colocação da embalagem primária e acomodação dos cortes em caixas – embalagens secundárias – os cortes serão estocados para, posteriormente, serem expedidos para a comercialização. Nesta aula, você aprendeu como ocorre o abate de bovinos e estudou esse proces- so desde o transporte dos animais do criadouro ao abatedouro até a embalagem do produto cárneo. Na próxima aula, você estudará o processo de abate de suínos. 133Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 132 Aula 2: Suínos Nesta aula, você verá que, da mesma maneira como ocorre no abate bovino, que você estudou na Aula 1 desta unidade, o abate suíno também é cercado de inúmeros controles e cuidados com o objetivo principal de garantir tanto a qualidade sensorial quanto sanitária do produto final que será obtido. Na Figura 32, você pode verificar as principais etapas envolvidas no processo de abate e desossa de suínos. Figura 32 – Fluxograma do processo de abate e desossa de suínos 1343 Carregamento e transporte De uma maneira geral, o transporte dos suínos é feito em caminhão com dois andares, uma vez que os suínos produzidos atualmente, mesmo os mais pesa- dos, são considerados ágeis para embarcar e desembarcar caminhando livre- mente, sem nenhum tipo de estímulo por instrumentos. Ocupam, em média, um espaço de 0,40 m² por animal de 100 kg (PARDI et al., 2001). Segundo Castillo (2006), deve-se ressaltar que os animais embarcam com maior facilidade no veículo de transporte quando a rampa de acesso e carroceria estão no mesmo nível. No caso de serem utilizadas rampas para o acesso dos animais, o ângulo de inclinação entre a plataforma de embarque e a carroceria não deve exceder os 20° (considera-se 15° o melhor ângulo). O piso deve ser antiderrapan- te e possuir faixas de 2 cm de altura, fixadas a cada 20 cm de distância. As rampas ou plataformas devem possuir proteção lateral (cerca) com altura mínima equi- valente a 75 cm. O desnível entre a pocilga e o corredor de condução não deve exceder 12 cm e o espaço entre a rampa de embarque e o corredor de condução deve ser menor que 1,5 cm. É recomendável que os portões de embarque sejam da largura do caminhão e possuam dispositivo de segurança para evitar que os animais caiam fora do veículo quando as portas são abertas. Após o carregamento, os animais são transportados para o frigorífico. No en- tanto, apesar de parecer uma tarefa simples, essa etapa, se não for bem condu- zida, pode afetar de maneira negativa o bem-estar animal e, consequentemen- te, a qualidade da carne. Pergunta Quais são os fatores que você acredita que podem impactar de maneira negativa durante o transporte dos animais? Além das condições estruturais do veículo, como tipo, piso e condições de ven- tilação, que devem apresentar-se em situação adequada para o transporte dos animais e a condução da viagem, que deve transcorrer de maneira tranquila, diversos outros fatores impactam no estresse dos animais. Entre eles, podemos citar as condições climáticas. As condições climáticas influenciam na intensidade do estresse a que o animal é submetido durante o transporte. Segundo Castillo (2006), temperaturas acima de 18 °C aumentam as perdas ocasionadas durante o transporte de suínos. Este fato torna-se agravante quando predomina o calor úmido, pois o animal apresenta maior dificuldade de eliminar o calor corporal, aumentando assim 135Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 134 sua temperatura interna e, consequentemente, prejudicando o seu bem-estar. Em situações mais drásticas, o incremento do batimento cardíaco pode levar o animal à morte. A qualidade da carne (incidência de PSE ou DFD) é prejudicada com a adição de fatores estressantes, como temperaturas mais elevadas predo- minantes durante períodos mais quentes do ano ou temperaturas muito baixas. Além das possíveis alterações na qualidade da carne, conforme já citado, como o surgimento de carnes PSE e DFD, em decorrência do estresse, outros defei- tos em carcaças estão associados às condições deficientes de transporte, como escoriações, fraturas e pontos hemorrágicos na carne. Por esses motivos, todo cuidado é fundamental nessa etapa envolvida no processo do abate de suínos. Recepção O estresse sofrido pelos animais durante o processo de desembarque é seme- lhante àquele sofrido durante o embarque. Por tais motivos, os animais devem ser conduzidos da maneira mais tranquila possível. Além disso, as condições ambientais devem ser adequadas, e as plataformas utilizadas para o desembar- que devem ser suficientemente firmes de modo a evitar “balanços” excessivos que podem ocasionar quedas e até mesmo lesões. Atenção Como o suíno é considerado um animal bastante “assustado” e “medroso”, qualquer situação diferente da sua rotina já eleva o seu nível de estresse. Assim, durantetodas as etapas que antecedem o abate, todo cuidado com ele é pouco. Da mesma forma como ocorre no abate bovino, no caso do abate suíno, os ani- mais também passam pela inspeção ante mortem, na qual se avaliam as condições higiênico-sanitárias dos animais. Separam-se do lote para exames mais minucio- sos aqueles que não se apresentarem em condições normais. Da mesma maneira, aqueles que chegam cansados, estressados, fraturados, sem condições de cami- nhar, fatores decorrentes do desgaste do carregamento e do transporte, também são separados. Aqueles animais que foram rejeitados na avaliação mais minuciosa – normalmente aqueles que apresentam alguma doença – serão encaminhados para o abate de emergência. Aqueles animais que, em decorrência do estresse, não resistem até o momento do abate, também receberão esse mesmo destino. 1363 Os animais considerados em boas condições são destinados às pocilgas para en- trarem no período de descanso, jejum e dieta hídrica, onde devem permanecer por um tempo que varia de cinco a oito horas, com o objetivo de reposição do glicogê- nio muscular, esvaziamento do trato gastrointestinal e hidratação dos animais. Antes de serem encaminhados à insensibilização, os animais recebem um banho que, além de remover as sujidades aderidas à sua pele, promove um relaxamento que auxilia na condutividade elétrica durante o processo de insensibilização. Esse banho deve ter duração de pelo menos três minutos com água à pressão de 1,5 atm. Atordoamento/Insensibilização A insensibilização consiste na instantânea e completa inconsciência do animal por meio de injúria mecânica, inalação de dióxido de carbono ou passagem de corrente elétrica pelo cérebro (BRESSAN; PEREZ, 2000). No caso de suínos, o tipo de insensibilização mais comum no país é a eletro- narcose, ou seja, o atordoamento pelo uso de choque elétrico. No entanto, as características da corrente elétrica devem ser cuidadosamente controladas já que, um “choque” insuficiente pode levar a uma insensibilização falha ou por tempo muito reduzido, fazendo com que o animal recobre a consciência na etapa da sangria. Por outro lado, quando o choque é excessivo, pode fazer com que a carne de alguns músculos, principalmente o pernil e a paleta, apresentem um defeito conhecido como salpicamento hemorrágico. O salpicamento pode ocorrer em decorrência do aumento excessivo da pressão sanguínea, o que leva ao rompimento de alguns vasos. O choque elétrico é realizado por um equipamento operado por funcionário do fri- gorífico, que o posiciona nas fossas temporais do animal (região atrás das orelhas) por período suficiente para insensibilizá-lo, normalmente de 6 a 10 segundos. Sangria Após a insensibilização, os animais devem ser conduzidos de imediato para a san- gria, que se realiza em um período máximo de 30 segundos após a insensibilização. Assim que chegam à zona de sangria, os animais são pendurados por umas das patas à nória e é efetuada a sangria. Outra possibilidade é realizá-la inicialmen- te em uma mesa para depois erguer o animal. Esta etapa é realizada seccionan- do os grandes vasos do pescoço, ou seja, a veia jugular e a artéria carótida. Na Figura 33, você pode ver como é a mesa onde normalmente se realiza a sec- ção dos grandes vasos. 137Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 136 Figura 33 - Mesa para realização da secção dos grandes vasos Fonte: R.G.O. Máquinas (2010) Depois, os animais são conduzidos ao túnel de sangria, onde devem permanecer para o escoamento do sangue por período de aproximadamente três minutos. Após esta etapa, o suíno passa por chuveiros, onde é realizado outro banho de as- persão para remoção de sangue que tenha ficado aderido à superfície da carcaça. Escaldagem Antes de passarem pela etapa de depilação, os suínos devem ser escaldados, operação que facilita a etapa seguinte. O processo de escaldagem ocorre em tanques com água a temperatura que pode variar entre 62 °C a 65 °C por um período de aproximadamente cinco minutos. Atenção Deve-se ter um grande cuidado nesta etapa no que se refere à temperatura da água, já que temperaturas muito baixas dificultam o posterior desprendimento do pelo do folículo. Por outro lado, caso a água esteja muito quente, pode ocorrer a coagulação da proteína do folículo causando a fixação do pelo, o que poderá dificultar a sua remoção. 1383 Depilação Ao contrário do que você estudou no abate bovino, no caso do abate suíno promove-se a remoção dos pelos e das cerdas por meio da depilação, já que uma parcela significativa dos cortes suínos é comercializada com pele. Além disso, a pele suína, que é separada da carcaça durante o processo de desossa, tem larga aplicação na fabricação de industrializados cárneos. Leia o que regulamenta o artigo 142 do RIISPOA: Deve ser obrigatória a pelagem e raspagem de toda a carcaça de suíno pelo prévio escaldamento em água quente, sempre que deva ser entregue ao consumo com o couro; a operação depilatória será completada à mão, e as carcaças serão lavadas convenientemente antes de eviscerados (BRASIL, 1952, p. 31). Na Figura 34, você pode visualizar um tanque de escaldagem para suínos. Figura 34 - Tanque contínuo de escaldagem para suínos Fonte: R.G.O.Máquinas (2010) Assim, após a prévia escaldagem, normalmente se realiza a depilação de forma mecâ- nica, com o uso de depiladeiras, que são equipamentos com cilindros rotatórios aco- plados com dedos de borracha que friccionam a superfície externa da carcaça retirando os pêlos. Então, após a passagem pelas depiladeiras, pode ser realizada a flambagem/ chamuscamento da carcaça com o intuito de remover os pelos que não tenham sido retirados com o equipamento anterior, além de auxiliar na redução da con- taminação superficial da carcaça. 139Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 138 Juntamente à etapa de depilação, ocorre a remoção dos cascos dos animais. Toalete Após a etapa de depilação, procede-se a toalete que é a retirada manual dos pelos que permaneceram aderidos à carcaça. Dica A remoção total dos pelos se faz necessária, já que eles contêm contaminantes que não podem estar presentes no produto para o consumo. Logo depois da toalete, as carcaças são submetidas a uma lavagem com água sob pressão (3 atm e 5 a 6 ppm de cloro residual) com objetivo de remover resíduos de pelos que tenham ficado aderidos à superfície externa da carcaça, além de ameni- zar o calor provocado pelas etapas de escaldagem e flambagem/chamuscamento. Evisceração A evisceração inicia-se com a desarticulação da cabeça, que fica presa à carcaça pela região da papada, e exposição da língua. Depois, realiza-se a abertura das cavidades torácica, abdominal e pélvica, a retirada do pênis do macho e do útero da fêmea. Atenção Durante a abertura das cavidades, deve-se ter um grande cuidado para que não ocorra a perfuração das vísceras, já que, em caso de perfuração, pode ocorrer a contaminação da carcaça. Também deve ser realizada a oclusão do reto, com o objetivo de diminuir as chances de ocorrência de contaminação fecal das carcaças durante a evisceração. Depois disso, procede-se a retirada manual das vísceras em duas etapas distintas: Inicialmente, retiram-se as vísceras brancas: estômago, intestinos, pâncreas e bexiga; Em seguida, efetua-se a retirada das vísceras vermelhas: fígado, coração, rins, baço, pulmão e língua. 1403 As vísceras vermelhas e brancas são separadas em bandejas rolantes, que ficam em correspondência com a nória da respectiva carcaça, facilitando a relação das vísceras com a carcaça correspondente. Isso facilitará sua identificação caso haja algum problema de ordem sanitária. Nessa fase, também se realiza a inspeção post mortem, que corresponde ao exame macroscópico feito em todos os animais abatidosno estabelecimento. Atenção Os exames da inspeção post mortem devem abranger as seguintes partes e órgãos: cabeça, vísceras abdominais e torácicas, língua, superfície interna e externa da carcaça, cérebro e nodos linfáticos das cadeias ganglionares mais facilmente atingíveis (PARDI et al., 2001). Em relação ao tempo transcorrido entre a morte do animal e sua completa evis- ceração, da mesma maneira que no caso dos bovinos, recomenda-se que este não supere os 30 minutos. Obtenção de meias-carcaças Após a evisceração, as carcaças são divididas por uma serragem, conforme você pode visualizar na Figura 35. Figura 35 - Serragem de carcaça suína para obtenção de meia-carcaça 141Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 140 Nessa etapa, deve-se ter o cuidado para que a divisão ocorra de maneira adequada para que não se tenha perda no valor de dois importantes cortes, que são o lombo e o carré. Depois da serragem, as carcaças recebem um banho com água tratada visando à eliminação de resíduos de sangue, coágulos e resíduos de ossos (provenientes da serragem). Além disso, essa operação permite identificar abscessos e anor- malidades ao longo da coluna vertebral. A seguir, realiza-se uma avaliação do aspecto geral da carcaça, verificando-se coloração, presença de anormalidades nas articulações e massas musculares, contusões e/ou hemorragias que não tenham sido identificadas anteriormente. Logo após, removem-se gânglios e linfonodos. Também se separam a banha interna, a gordura aderida internamente na região abdominal da carcaça, que é retirada manualmente com a carcaça em movimento, a cauda e o pé dianteiro. Com o final das operações de evisceração, tem-se a carcaça em condições ade- quadas para a realização da tipificação, caso a indústria utilize este método para avaliação da carcaça, e consequente pagamento ao produtor. Dica A tipificação tem como finalidade principal a verificação do percentual de carne magra da carcaça, e é utilizada por algumas empresas como maneira de quantificar o valor a ser pago ao produtor pelo lote entregue. A tipificação é feita com pistola automática de alta precisão, introduzida aci- ma da última costela a seis centímetros da linha média na carcaça à esquerda, realizando medidas de profundidade do toucinho e do lombo, para estimar o percentual de carne magra. A pistola faz a leitura, repassando os dados para um sistema informatizado. As carcaças são então pesadas em balança eletrônica, que repassa o peso para o sistema, armazenando os dados de peso e medidas que servem para efetuar os cálculos entre rendimento de carne magra e o teor de gordura (SILVA, 2001). Pergunta Você sabe quais são as vantagens da tipificação? 1423 Garantir ao produtor um preço justo, de acordo com a qualidade dos animais; Incentivar o direcionamento dos lucros para novos investimentos de me- lhoramento genético; Segurança ao produtor em prosseguir na atividade; Permitir um maior controle sanitário do plantel; Auxiliar na escolha de melhores reprodutores e matrizes; Permitir abate mais uniforme quanto ao tamanho e à qualidade; Permitir a indústria abater animais com maior rendimento de carne magra; Garantir ao consumidor produtos mais saudáveis e de melhor qualidade; Assegurar ao comércio pela disponibilidade de um produto apresentável, com padrão definido, obtenção de melhores preços e conquista do mercado consumidor. Reflita Você considera este procedimento justo para a empresa e para o produtor? Pense um pouco nas principais vantagens e desvantagens, tanto para o produtor quanto para a empresa consumidora. Resfriamento As meias-carcaças suínas podem ser resfriadas em duas etapas, visando a au- mentar a eficiência deste processo: Inicialmente, as carcaças são conduzidas para câmaras de choque térmico, com temperaturas de aproximadamente -22 °C, onde permanecem por um tempo em torno de uma hora. Passadas pela etapa do choque térmico, as carcaças são então conduzidas até as câmaras de equalização, onde permanecem por um período de 12 a 14 horas, até que seja atingida a temperatura de 7 °C. A verificação da tem- peratura é realizada no centro do pernil, já que, devido à sua espessura, é a região da carcaça que demora mais tempo até atingir a temperatura deseja- da (SILVA, 2001). 143Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 142 Desossa A Figura 36 apresenta um fluxograma com os possíveis destinos da carcaça suína após a desossa. Figura 36 - Fluxograma com os possíveis destinos da carcaça suína após a desossa Fonte: Bressan e Perez (2000) Assim como você já viu na desossa bovina, as meias-carcaças suínas podem ser direta- mente comercializadas após o resfriamento ou, então, ser direcionadas para a desossa, onde serão obtidos os cortes para comercialização ou posterior industrialização. Portanto, após a colocação da embalagem primária e acomodação dos cortes em caixas – embalagens secundárias – eles são encaminhados para estocagem e, então, expedidos para a comercialização. Nesta aula, você viu que o abate suíno é cercado de inúmeros controles e cui- dados, com o objetivo principal de garantir tanto a qualidade sensorial quanto sanitária do produto final, e estudou as etapas seguidas no abate de suínos. Na próxima aula, você aprenderá sobre o abate de aves. 1443 Aula 3: Aves Nesta aula, você vai estudar alguns aspectos importantes sobre o abate de aves. Apesar de algumas particularidades, você vai perceber que ele apresenta tam- bém algumas semelhanças com os abates de bovinos e suínos, principalmente no que se refere aos cuidados higiênicos no processo e outros em diversas etapas que visam a, além de garantir um bom produto final, ou seja, uma carne dentro das características higiênico-sanitárias aceitáveis, principalmente assegu- rar as demais características dentro do esperado. Para que você possa entender um pouco melhor o processo de abate de aves, analise a Figura 37, que apresenta o fluxograma do processo de abate para aves. Figura 37 - Fluxograma do processo de abate de aves 145Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 144 Transporte Atenção Assim como você já viu nos outros casos, os cuidados com as aves para se garantir uma ótima qualidade da carne após o abate começam no produtor, antes da chegada das aves ao abatedouro. Inicialmente, quando o carregamento das aves e o consequente transporte estiverem programados, deve-se, com aproximadamente seis horas de ante- cedência, começar a dieta hídrica nas aves. Ou seja, os comedouros devem ser retirados, deixando-se apenas água à disposição dos animais. Após esse período, tem-se outra etapa que pode ser considerada bastante crítica, que precede o transporte, que é a apanha e o carregamento das aves no caminhão, para que sejam conduzidas até o abatedouro. Práticas inadequadas no momento da apanha, como, por exemplo, erguer os animais pelas pernas, podem levar a um estresse excessivo na ave, o que fará com que ela bata as asas de maneira intensa, podendo ocasionar hematomas ou, até mesmo, lesões que, posteriormente, poderão levar a condenações par- ciais ou totais dessas aves. Além das lesões traumáticas, a apanha pode determinar o estresse e a excitação dos animais, o que pode levar a mudanças no seu comportamento e desenca- dear até mesmo elevados índices de mortalidade. Uma das formas de se tentar amenizar as consequências dessa excitação é realizar a apanha durante a noite, período com baixa luminosidade e temperaturas mais amenas. Também é importante destacar que, além da falta de técnicas adequadas no carregamento, densidade de carga excessiva (normalmente é indicado um car- regamento de 8 a 12 aves, no máximo, por gaiola), falta de cuidados durante o transporte, como condução do veículoem altas velocidades, realização de curvas de maneira brusca, estradas de rodagem em péssimas condições, horário do dia, que tem relação direta com a temperatura, podem levar os animais ao estresse e consequente redução dos níveis de glicogênio muscular que, se não repostos, com certeza resultarão em uma carne de péssima qualidade. Veja, na Figura 38, um caminhão para transporte de aves. 1463 Figura 38 - Caminhão para o transporte de aves Dica É fundamental que toda a equipe envolvida no processo, desde a apanha até o transporte ao abatedouro, seja treinada e orientada sobre a importância da sua função. Recepção Na chegada ao abatedouro, os animais serão descarregados para serem condu- zidos ao processo de abate. Neste curto período que antecede o abate, as aves devem ficar alojadas em locais com baixa luminosidade, umidade do ar adequa- da e boa ventilação. Além disso, é importante a manutenção de uma tempera- tura amena para as aves e, caso o dia seja de temperaturas elevadas, é comum a utilização de aspersores de água, que direcionam umidade sobre as aves, o que, além de reduzir a temperatura corporal, ainda auxilia no seu relaxamento. Insensibilização Atenção O uso da insensibilização no processo de abate é fundamental, já que visa a garantir um abate humanitário, ou seja, com a ave inconsciente, reduz-se ao máximo a dor e o sofrimento do animal no momento da sangria, facilitando- se também a realização desta etapa devido à imobilidade das aves. 147Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 146 O atordoamento das aves pode ser realizado por procedimentos mecânicos, elétricos ou químicos (uso de CO2). No entanto, o atordoamento elétrico com corrente contínua é, com certeza, o mais utilizado, pois atende plenamente a necessidade industrial. Nesse tipo de procedimento, as aves são insensibilizadas por meio de eletronarcose sob imersão em água, e esta não deve, de manei- ra alguma, levar à morte do animal, devendo ser seguida da sangria no prazo máximo de 12 segundos. Além disso, a ação da corrente elétrica sobre o animal não deve durar mais do que o tempo entre 2 a 6 segundos. Veja, na Figura 39, aves após o processo de insensibilização elétrica. Figura 39 - Aves após a passagem por tanque de insensibilização elétrica Nessa operação, as aves são penduradas em ganchos individuais, por meio de uma correia transportadora, e são conduzidas a um banho de água com corrente elétrica, de tal maneira que suas cabeças ficam submersas nesse banho, produ- zindo um circuito elétrico que circula por meio dos ganchos que estão conec- tados ao fio terra. Durante a insensibilização, a corrente elétrica flui pelas aves, sendo recebida pelo cérebro e coração. Esse procedimento requer uma correta fixação da ave na nórea e o ajuste delas ao equipamento, de tal maneira que se estabeleça um circuito elétrico. A manutenção do nível de água é imprescindível para evitar a ocorrência de um choque de pré-atordoamento, possibilitando des- ta forma que as aves elevem a cabeça e isso dificulte a insensibilização. Depen- dendo da voltagem utilizada, a ave sofre perda total da consciência e interrupção cardíaca ou, até mesmo, morte por colapso cardíaco (OLIVO, 2006). Segundo Olivo (2006), quando uma quantidade suficiente de corrente atinge o cérebro, induz uma condição epiléptica. Como resultado, a ave desenvolve um estado de inconsciência e ausência de resposta a estímulos sensoriais externos. Esse estado epiléptico é um processo que requer um mínimo de 20mA/ave, em- bora 45mA seja recomendado para a imobilização efetiva. Durante o estímulo elétrico, a corrente passa pelos caminhos de menor resistência, pele, músculos esqueléticos (peito), músculo cardíaco e perna. 1483 O objetivo da insensibilização é justamente o de garantir que as aves estejam inconscientes, mas ainda vivas. Essa condição leva a um estado no qual o animal não sente dor no momento da sangria, o que permite o perfeito escoamento do sangue na etapa subsequente, que é a sangria. No entanto, ao contrário disso, quando a amperagem não é adequada para a insensibilização, neste caso, muito baixa, pode-se observar os frangos emitindo ruídos, grunhidos e forte movimentação das asas. Além de levar a ave ao sofri- mento e ao estresse, esses movimentos bruscos podem levar ao aparecimento de lesões e hematomas. Por outro lado, inúmeros são os defeitos na qualidade da carne atribuídos ao uso de correntes de atordoamento muito elevadas, e que podem, até mesmo, ocasionar um ataque cardíaco nas aves, levando à sua morte antecipadamente. Veja o que Castillo (2006) lista como sendo os cinco efeitos adversos associados ao uso de voltagens elevadas: 1 Hemorragias nas asas; 2 Coloração roxa da pele; 3 Depenagem difícil; 4 Ossos quebrados; 5 Manchas de sangue ou coágulos no músculo do peito da ave. Sangria De acordo com a Portaria 210 (BRASIL, 1998), o tempo mínimo para que ocorra a sangria deve ser de três minutos, visando à garantia da máxima expulsão de sangue da ave. Portanto, com a sangria e a subsequente etapa de evisceração, consegue-se extrair do corpo da ave em torno de 50-60% do seu conteúdo total de sangue, sendo que a maior parte desse sangue flui nos primeiros 60-90 segundos após a abertura dos vasos sanguíneos (PRANDL et al., 1994). Escaldagem A etapa de escaldagem é considerada uma preparação para a depenagem. No entanto, além de “facilitar” a posterior remoção das penas, também desempe- nha importante papel higiênico e de consequente redução da carga microbiana superficial das aves. 149Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 148 Um fenômeno importante, que normalmente ocorre em linhas normais de abate de frangos e leva à palidez de filés, não está diretamente relacionado com a glicólise: é a popularmente chamada “queima” do peito. Isso ocorre durante a passagem da carcaça pela etapa de escalda. Em geral, a temperatura da água de escaldagem é regulada entre 50 °C e 60 °C, com velocidade de passagem que, nessa fase, varia entre um e dois minutos. Es- ses parâmetros variam de acordo com o tamanho das aves. Assim, com a eventu- al despadronização do tamanho em determinados lotes, os indivíduos pequenos são escaldados em excesso, sofrendo cozimento e desnaturação proteica na su- perfície dos peitos, mesmo quando ainda protegidos pelas penas. Contudo, essa “queima” ocorre apenas na superfície, provocando desnaturação em até alguns milímetros abaixo da superfície superior do filé; a sua região interna permanece com a cor normal. No caso da perda de cor induzida pela rápida glicólise, a cor do peito torna-se pálida inclusive em sua fase reversa (OLIVO; OLIVO, 2005). Depenagem De acordo com o artigo 141 do RIISPOA, as aves podem ser depenadas por qualquer dos seguintes processos: a seco ou após escaldagem em água previa- mente aquecida. No entanto, devido às vantagens verificadas no uso da escal- dagem, normalmente a depenagem é realizada pelo segundo método. Portanto, logo após a etapa da escalagem, realiza-se, então, a depenagem, que consiste na remoção da maior parte das penas das aves. De uma maneira geral, essa etapa é realizada com o auxílio de equipamentos, chamados depenadeiras, que são dispostos em série para a realização do processo. As depenadeiras são dotadas de “dedos de borracha” que, por ação direta de fricção sobre as aves, acabam por remover as penas (DELWING, 2007). Atenção Deve-se ter muito cuidado na padronização do tamanho dos lotes na linha e também na regulagem dos equipamentos para que não ocorram fraturas ou hematomas pela passagem dos animais de maneira excessivamente justa pelas depenadeiras, ou a situação contrária, em que a remoção de penas é baixa. 1503 Evisceração A evisceração é a etapa que começa na área limpa, após a depenagem, e seestende até a toalete final, antes do resfriamento. Atenção A evisceração é considerada uma etapa extremamente crítica, já que qualquer falha pode levar à contaminação da carcaça, gerando uma condenação parcial ou até mesmo total. Durante esse processo, a abertura da cavidade abdominal é considerada de especial importância em termos higiênicos, já que também é decisiva a realiza- ção de um corte na cloaca, que deve ser totalmente removida juntamente com a terminação do intestino (PRANDL, 1994). Após isso, as vísceras serão removidas, inspecionadas e separadas, sendo dado o destino adequado no processo a cada uma. Atualmente, o processo de eviscera- ção pode ocorrer de forma manual, semiautomática ou totalmente automatizada. Resfriamento O processo de resfriamento das carcaças de aves normalmente ocorre em duas eta- pas: pré-resfriamento e o pós-resfriamento. Em ambas, as aves são conduzidas por equipamentos chamados chillers, que são tanques abastecidos com água a baixas temperaturas e renovação constante. Essa água circula em contracorrente às aves. Assim, na primeira etapa, as aves são conduzidas pelo chiller de pré-resfriamen- to por um período que pode variar de 30 minutos a uma hora, até que se atinja uma temperatura na carcaça de aproximadamente 12 °C. Esse tempo pode variar de acordo com fatores como temperatura da água e tamanho das aves (SILVA, 2003). Um dos principais objetivos dessa etapa é remover boa parte das sujidades e das contaminações existentes na carcaça. 151Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 150 Depois, as aves são enviadas para o segundo chiller, com o objetivo de finalizar o resfriamento das carcaças. O tempo dessa operação dependerá dos mesmos fatores citados anteriormente, além da temperatura final que se deseja atingir na carcaça, 7 °C, quando for direcionada para mercado interno, e 4 °C para mer- cado externo (SILVA, 2003). Veja, na Figura 40, a imagem de um equipamento onde é feito o resfriamento das aves. Figura 40 - Chiller utilizado para resfriamento de aves Fonte: Böck do Brasil (2010) Cortes/Desossa Após o resfriamento, as aves podem ter dois destinos. O primeiro é a sala de embalagens, caso a ave seja direcionada para comercialização na forma inteira. Caso contrário, serão destinadas à sala de cortes. Atualmente, a obtenção dos cortes e a desossa podem ser realizados de duas maneiras: manual ou automática. 1523 Dica Independentemente do processo, quando falamos de aves, os cortes normalmente obtidos são: coxa, sobrecoxa e peito, com osso ou desossados, filezinho (sassami), asas inteiras ou fracionadas em ponta da asa, meio da asa e coxinha da asa. Caso o principal destino não seja a comercialização direta, os cortes com osso e sem osso, e também os retalhos oriundos do processo de corte e desossa, podem ser destinados à industrialização. Independentemente do destino, após sua separação, os cortes e/ou retalhos devem ser embalados em embalagens primárias e secundárias, encaminhados às câmaras de resfriamento e congelamento de acordo com seu destino final, estocados e, depois, expedidos para comercialização. Nesta aula, você estudou o processo de abate de aves e viu as semelhanças e diferenças em relação ao abate de outros animais. Na próxima aula, você estu- dará o abate de peixes e perceberá algumas particularidades desse processo. Aula 4: Pescado Nesta aula, você estudará o processo de abate de peixes. Você deve observar que, apesar de a sequência das operações do abate de peixes seguir a mesma lógica dos abates estudados anteriormente, este processo apresenta algumas particularidades. A Figura 41 apresenta o fluxograma das etapas envolvidas no abate de pescados. 153Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 152 Figura 41 - Fluxograma das etapas envolvidas no abate de pescados Fonte: Adaptado de Boscolo e Feidan (2007) 1543 Despesca A despesca é a captura dos peixes no viveiro. Mas antes dessa operação os peixes devem passar por um período de jejum e pré-despesca, que tem como objetivo principal reduzir o conteúdo gástrico e a carga microbiológica dos animais. Atenção O jejum e a pré-despesca são extremamente importantes, pois ajudam a reduzir a contaminação do pescado no momento da evisceração, já que o peixe é um animal extremamente susceptível a alterações. O período mínimo para esvaziamento completo do trato gástrico pode variar de acordo com vários fatores, podendo chegar, no caso de peixes maiores, a cinco dias. Além do tamanho do peixe, outros parâmetros que exercem influência no tempo do jejum são: temperatura da água, espécie e hábitos alimentares. Assim, a operação de despesca tem seu início com a preparação do viveiro para o jejum. Normalmente, 10 dias antes, devem ser suspensas a fertilização e/ou adubação do açude. Já a alimentação superficial, como você já viu, pode ser suspensa até cinco dias antes (dependendo das características avaliadas ante- riormente), com renovação constante de água do viveiro de cultivo. A despesca deve ocorrer sempre entre as 4 e as 9 horas da manhã, podendo ser realizada de forma parcial ou total. Na despesca parcial, são utilizadas redes para retirar parte dos peixes do viveiro. Na total, o viveiro é esvaziado completamente e os peixes capturados são estocados em tanques redes ou tanques lona, recebendo completa aeração. Veja uma operação de despesca na Figura 42. Figura 42 - Realização da operação de despesca em viveiro 155Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 154 A despesca tem uma influência muito grande no intervalo de tempo relativo à instalação do rigor mortis. Os peixes que sofrerem grande estresse durante a morte apresentarão um período de rigor mortis encurtado devido ao gasto excessivo de glicogênio. Os peixes de hábitos mais ativos podem se debater muito antes de sua morte quando capturados por rede, prejudicando a qualidade e seu tempo de estocagem em gelo (BRESSAN; PEREZ, 2000). Transporte Após a despesca, os peixes são transportados até a unidade frigorífica/abate- doura para passarem pelo processo de abate e serem, então, processados. Esse transporte ocorre em caixas isotérmicas especiais para o transporte de peixe vivo, equipadas com injeção de oxigênio, que permite que os peixes permaneçam vivos durante todo o período de transporte. Muitas vezes, essas caixas são tanques de alta capacidade, acoplados às carrocerias dos caminhões. Isso permite manter seu sistema de refrigeração, preservando a água em temperatura adequada. Na Figura 43, você pode visualizar um caminhão carregado com tanques con- tendo peixes vivos. Figura 43 - Transporte dos peixes vivos em caminhões com tanques de alta capacidade Dica Caso as caixas de transporte não possuam sistema de refrigeração para a manutenção da temperatura da água adequada para os peixes, para que não seja mais um fator agravante para o estresse, é conveniente que elas sejam colocadas sob camadas de gelo, visando a garantir essa condição. 1563 Recepção/pesagem Na chegada ao frigorífico, os peixes, ainda vivos, são rapidamente retirados das caixas, pesados, selecionados de acordo com seu peso e transferidos para outro tanque, onde será realizada a próxima etapa. Depuração A depuração é uma etapa fundamental, considerada uma das principais no pro- cessamento de pescado oriundo de criatórios de água doce. Segundo Bressan e Perez (2000), os peixes de água salgada, assim como os peixes de água doce, são muito suscetíveis à absorção de substâncias químicas presentes em seu ambiente. Porém, nota-se que essa absorção é mais acentu- ada em pescado de água doce, porque a água contendo as substâncias odorí- feras passa diretamente por meio das guelras, enquanto em pescado de água salgada a transmissão de odores é muito mais lenta,devido à menor permeabi- lidade das brânquias. Quando a operação de depuração não é realizada, pode-se observar a presen- ça de odor e sabor de barro ou de terra no produto processado. Assim, para a realização dessa etapa, os peixes são colocados em tanques, normalmente de concreto, contendo água corrente, onde permanecem no mínimo por dois dias para a eliminação de odores e sabores estranhos (off-flavor), originados pela deposição de geosmina na gordura nos músculos do peixe. Dica Geosmina é uma substância isolada de metabólitos produzidos por numerosos actinomicetos. Há evidências de que algumas espécies de algas azuis-verdes também produzem geosmina e, portanto, sua presença no ambiente aquático pode levar ao aparecimento do sabor de “terra” na carne dos peixes. Nesta etapa, pode ser também realizado o jejum e a dieta hídrica caso não tenha sido realizado anteriormente maneira completa. Além de promover a limpeza do trato digestivo, esta operação já auxilia na remoção de sujidades aderidas na superfície do peixe. A água do tanque de depuração deve ser corrente e em abundância para que os produtos fecais eliminados não se acumulem. Esse manejo evita a recontami- nação dos peixes e a queda dos níveis de oxigênio dissolvido na água devido à decomposição de matéria orgânica (BOSCOLO; FEIDEN, 2007). 157Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 156 Pré-lavagem Após a realização da operação de depuração, os peixes são removidos dos tan- ques e transferidos para estruturas onde receberão esguichos com água clorada (3,0 ppm) para a remoção de limo e sujidades superficiais que ainda tenham ficado aderidos após a etapa anterior. Classificação/seleção Os peixes podem ser classificados de acordo com a espécie e/ou o tamanho. Segundo Bressan e Perez (2000), a classificação dos peixes por tamanho é amplamente realizada, tomando-se como referência uma largura que se relaciona com a longitude das peças. Normalmente, essa classificação prévia já separa os animais em lotes que, posteriormente, serão destinados da maneira que segue: peixes com menos de 1 kg, normalmente são filetados e os maiores são somente eviscerados. Peixes que apresentarem parasitos e hematomas, dependendo da extensão deste últi- mo, são totalmente descartados. Insensibilização No caso dos peixes, a insensibilização é realizada em tanque contendo água e gelo, em temperaturas próximas a 0 °C (FERREIRA et al., 2002). Nessa etapa do processo utiliza- se gelo em escamas com uma concentração de 0,6% de ácido lático para a redução da flora microbiana superficial. Em seguida, os peixes são então retirados do tanque com o auxílio de uma puça, uma espécie de alicate, para serem conduzidos à próxima etapa. Sangria No caso dos pescados, a sangria é feita por um pequeno corte abaixo das guelras para a retirada da maior parte do sangue, com o objetivo de melho- rar a aparência do filé e reduzir as chances de deterioração por contaminação microbiológica posteriormente. O pescado é deixado em um tanque-grelha por alguns minutos, para o escoamento do sangue (BOSCOLO; FEIDEN, 2007). Quando são abatidos pescados menores, que apresentem baixa concentração sanguínea, a etapa de sangria não precisa ser realizada. Escamação e evisceração A escamação é a remoção das escamas do pescado por meio de uma raspagem. Depois, realiza-se uma lavagem para a remoção das sujidades superficiais e dos resíduos de escamas que possam ter ficado aderidos no couro do pescado. Os utensílios utilizados devem ser desinfetados com uma solução alcoólica de áci- do peracético a 0,2%, antes da utilização em outro animal. 1583 No entanto, esse processo também pode ser realizado de maneira mecanizada, com equipamentos constituídos por tambores de tela que giram lentamente, remo- vendo as escamas por atrito. Nessa fase do processo, realiza-se a aplicação de jatos de água que, além de auxiliar na remoção das escamas, ainda removem o muco superficial e os resíduos do conteúdo intestinal que por ventura tenham restado. Essa etapa deve ser realizada de maneira vagarosa para que não ocorram danos na estrutura do peixe, que é um animal bastante delicado. Caso a escamação seja realizada de maneira muito intensa, pode levar a rompimentos na estrutura, o que prejudica o aproveitamento dos filés. Na evisceração, primeiramente retira-se da cabeça e, posteriormente, as vísce- ras. Estas podem ser removidas pela abertura da remoção da cabeça ou pelo corte das brânquias. Dica Deve-se lembrar sempre, durante todo o processo, de manter o pescado a baixas temperaturas, já que ele é bastante susceptível à contaminação microbiológica e, consequentemente, sujeito às alterações causadas pelo crescimento dos microrganismos. Filetagem A primeira operação realizada na etapa de filetagem é a remoção do couro do pescado. Com o auxílio de um alicate, puxa-se o couro no sentido da cabeça para a cauda, também conhecido como ântero-posterior. Em seguida, remove-se o filé, por meio de um corte longitudinal lombar, entre a estrutura muscular e a estrutura óssea ou por meios mecânicos. Essas atividades são realizadas sempre na presença de água corrente clorada a 3,0 ppm, visando a manter os níveis de contaminação o mais baixo possível, devido à susceptibili- dade do animal a alterações microbiológicas. No caso do preparo de filés com ausência total de espinhas, intermusculares, o processo somente pode ser realizado manualmente, o que pode levar a perdas de rendimento acentuadas, girando em torno até mesmo de 25% (BRESSAN; PEREZ, 2000). Os filés podem ser depositados em caixas plásticas com gelo em escamas, observando-se que estes fique totalmente cobertos pelo gelo, de maneira que a temperatura interna do pescado seja inferior 2 °C. 159Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 158 Toalete/refile Nesta etapa, realiza-se a remoção dos pedaços de couro aderidos à carne, ao filé. Nesta operação, também se realiza a remoção da parte terminal do pescado, por meio de um corte transversal na extremidade posterior do filé, próximo à cauda. A parte removida normalmente é enviada para moagem para posterior industrialização. Cada filé que passa pela etapa de toalete e refile deve ser novamente enca- minhado para tanques contendo gelo em escamas visando à manutenção das características de qualidade do pescado. Seleção/classificação Após a etapa da toalete, realiza-se mais uma etapa de seleção e/ou classifi- cação. Nesse caso, o objetivo principal é selecionar os filés que não sofreram cortes profundos e destiná-los à embalagem. Já os filés rompidos e danificados devem ser destinados à moagem para posterior industrialização ou, até mes- mo, à venda em pedaços menores, levando-se em conta, é claro, o menor valor agregado do produto final quando comparado ao filé inteiro. Embalagem Nesta etapa, ocorre o contrário do que você observou nos demais processos de abate. Nesse caso, os produtos obtidos já podem ser enviados diretamente para embalagem, sem passar por um processo específico de resfriamento. Dica Durante o processo de abate do pescado, pela sua característica de fácil alteração e decomposição, já se tem um controle intenso da manutenção de sua temperatura durante todo o processo. Os filés obtidos podem ser embalados em bandejas de isopor e envolvidas em filme plástico transparente de baixa densidade (PVC), sacos de polietileno, ou até mesmo em embalagens a vácuo ou laminadas, que atendem as exigências legais e dos consumidores, além de garantir as características de qualidade do produto. 1603 Congelamento/estocagem Os filés embalados são então conduzidos para a câmara, por um período de aproximadamente 24 horas. De acordo com as estruturas de câmaras e/ou túneis de congelamento da empresa, os filés podem ser congelados na emba-lagem primária ou até mesmo já acondicionados na embalagem secundária. Recomenda-se que a temperatura interna do filé ao entrar na câmara seja infe- rior a 4 °C. As câmaras de congelamento normalmente trabalham em regimes de temperatura de pelo menos -20 °C. Expedição Nesta etapa, os filés congelados são retirados da câmara de congelamento/es- tocagem e encaminhados ao veículo apropriado ao transporte do produto. Esta operação deve ser realizada no menor tempo possível, para evitar a elevação da temperatura do produto. Nesta aula, você estudou o processo de abate de peixes e viu as particularida- des desse processo em relação ao abate de outros animais. Colocando em Prática Parabéns! Você finalizou a Unidade 4 deste curso. Para fixar o que você aprendeu até aqui, realize as atividades de aprendizagem que estão no ambiente virtual. Relembrando Nesta unidade, você estudou os principais aspectos relacionados aos pro- cessos de obtenção, abate e desossa de bovinos, suínos, aves e pescado. Teve a oportunidade de conhecer de maneira mais detalhada as etapas mais importantes de cada processo com suas respectivas particularidades. Aprendeu também que devem ser tomados diversos cuidados em todas as etapas dos processos de modo a garantir a qualidade do produto final, já que qualquer desvio pode levar a uma perda na qualidade na matéria-prima, tanto do ponto de vista sensorial, no que diz respeito a cor, ao sabor etc., como nas características higiênico-sanitárias. 161Unidade 4 Tecnologia de Carnes e Derivados 160 Alongue-se Antes de seguir seus estudos, descanse um pouco para continuar com disposição. Levante-se da cadeira e posicione os braços ao longo do corpo. Inspire lentamente, pelo nariz, contando até cinco e, ao mesmo tempo, levante os braços abrindo-os lateralmente ao corpo, até suas mãos se encontrarem acima da cabeça. Junte as palmas, em posição de “amém”, e desça as mãos juntas, ao longo do tronco, expirando e con- tando até cinco. A respiração e o movimento dos braços devem ser feitos em sincronia. Repita esse movimento quantas vezes achar necessário até que se sinta mais tranquilo e relaxado, pronto para seguir os estudos. 163 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Objetivos de Aprendizagem Ao final desta unidade, você terá subsídios para conhecer os principais aspectos legais relacionados especificamente a cada uma das classes de produtos que você estudará e poderá compreender as principais etapas envolvidas no processo de industrialização de produtos cárneos. Aulas Nesta unidade, seus estudos abordarão os seguintes temas: Aula 1: Produtos cárneos frescais Aula 2: Produtos cárneos cozidos Aula 3: Produtos cárneos emulsionados Aula 4: Produtos cárneos formados Aula 5: Produtos cárneos defumados Aula 6: Produtos cárneos salgados Aula 7: Produtos cárneos curados Aula 8: Produtos cárneos fermentados Aula 9: Produtos cárneos empanados 5Industrialização de Produtos Cárneos 1643 Para Iniciar Você verá, nesta unidade, que a maioria dos produtos cárneos indus- trializados está submetida a um Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade, que tem como objetivo principal fixar a identidade e as características mínimas de qualidade a que cada um dos produtos cárneos deve obedecer. Como começaremos a falar agora de produtos industrializados, vamos primeiro a uma definição bastante importante. Produtos cárneos são denominados processados quando as propriedades originais da carne in natura são modificadas mediante o uso de uma ou mais técnicas, como a moagem, a adição de condimentos, de especiarias, de aditivos ou de coadjuvantes de tecnologia diversos, quando sofrem modificação da cor ou tratamento por calor (BRESSAN; PEREZ, 2000). Nesta unidade, o conteúdo será dividido de acordo com algumas clas- ses de produtos industrializados, sendo elas: produtos cárneos frescais, cozidos, emulsionados, formados, defumados, curados, fermentados e empanados. Dentro de cada uma destas, você poderá conhecer alguns produtos específicos e detalhes do seu processo de fabricação. Aula 1: Produtos cárneos frescais Nesta aula, você aprenderá o que são os produtos cárneos frescais e, a modo de exemplo, verá o processo de fabricação da linguiça frescal. Produtos cárneos frescais são aqueles em cuja matéria-prima se adicionou condimentos, especiarias, aditivos e/ou coadjuvantes de tecnologia, não sendo submetidos a tratamento térmico pelo calor, o que faz com que precisem ser conservados sob refrigeração. Para a produção desse tipo de produto, não é permitido o uso de carne mecanica- mente separada, miúdos e pele das diferentes espécies animais e seus derivados. 165Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 164 Dica Você aprenderá o que é carne mecanicamente quando estudar os produtos cárneos emulsionados. Mas você pode se antecipar e pesquisar um pouco sobre esse assunto. Para estudar essa classe de produtos, os conhecidos frescais, tomemos como exemplo as linguiças frescais. Linguiça frescal Um produto é chamado de frescal quando, durante o seu processamento, não é submetido a tratamentos térmicos com aquecimento. Dentre os industrializados de carne, as linguiças são os itens de maior produção e comercialização no Brasil. O seu consumo ocorre em situações diferenciadas, domésticas e em restaurantes, principalmente como parte de churrascos, lanches e outras refeições, devido à sua praticidade e versatilidade. É uma classe de produtos que pode ser considerada artesanal e de fácil tecnologia, mas que necessita parti- cularidades primordiais para a sua elaboração. As versões normalmente comerciali- zadas são: resfriada, congelada ou cozida, defumada ou não (OLIVO, 2006). Segundo a Instrução Normativa nº 4, anexo III (2000), entende-se por linguiça: [...] produto cárneo industrializado, obtido de carnes de animais de açougue, adicionados ou não de tecidos adiposos, ingredientes, embutido em envoltório natural ou artificial, e submetido ao processo tecnológico adequado. Podendo tratar-se de um produto fresco, produto seco, curado e/ou maturado, produto cozido, entre outros. No Quadro 10, você pode ver que essa mesma instrução normativa também define alguns parâmetros físico-químicos que devem ser verificados no produto frescal para manter suas características. 1663 Parâmetros Resultados Umidade Máx. 70% Gordura Máx. 30% Proteína Mín. 12% Cálcio Máx. 0,1% Quadro 10: Características físico-químicas para os produtos “linguiça frescal”, de acordo com a Instrução Normativa nº 4 Fonte: Instrução Normativa nº 4, anexo III (BRASIL, 2000) A denominação de venda do produto deve ser “linguiça”, seguida do nome da espécie animal que caracterize a matéria-prima usada na sua fabricação ou de alguma particularidade de condimentação, como: Linguiça de frango; Linguiça de carne suína; Linguiça mista; Linguiça toscana, entre outros. Processo de fabricação de linguiça frescal Na Figura 44, que apresenta um fluxograma de fabricação deste produto, você pode verificar como o processo de obtenção de linguiças frescais é relativamente simples. 167Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 166 Figura 44 - Fluxograma representativo do processo produtivo de linguiças frescais Seleção das matérias-primas: a primeira etapa do processo diz respeito à sele- ção de matérias-primas. Essa etapa representa grande importância na qualida- de do produto final, já que, como ele não vai passar por processos intensos de transformação, boa parte das características sensoriais do produto final vai ser definida aqui. Além disso, os ingredientes e aditivos, particularmente a condi- mentação, vão exercer também grande influência no resultado.O ideal é que sejam selecionadas as matérias-primas resfriadas, que não passa- ram por processo de congelamento, o que resulta em um produto com aparên- cia melhor e maior capacidade de retenção de umidade. Além disso, impede a liberação excessiva de líquidos durante o armazenamento e comercialização. 1683 Pesagem das matérias-primas e ingredientes: após a seleção e a pesagem das matérias-primas, deve-se realizar a pesagem dos ingredientes. Esta é uma tarefa que deve ser feita com bastante cuidado, já que qualquer desvio pode levar a alterações perceptíveis no produto final. Durante o processamento, deve-se ter atenção na execução de todas as etapas, já que qualquer desvio pode levar a fabricação de produtos com características totalmente distintas do padrão. Reflita Na etapa de pesagem, por exemplo, pode haver falhas que levem a desvios nas características sensoriais do produto. Que outros problemas pode haver? Do ponto de vista legal, há alguma implicação? Registre a sua opinião para discutir com os colegas no ambiente virtual. Moagem: para linguiças frescais, normalmente são utilizados discos um pouco maio- res, entre 8 e 12 mm, pois a característica do produto é justamente a “massa grossa”. Mistura das matérias-primas e ingredientes: a carne e a gordura moídas são então transferidas para uma misturadeira onde serão adicionados os ingredien- tes e aditivos. A mistura normalmente se dá por poucos minutos, pois não se deseja uma massa com excesso de liga. Os primeiros ingredientes a serem adicionados à carne, normalmente, são os sais, porque são eles os principais responsáveis pela extração das proteínas miofibrilares que vão auxiliar na obtenção da textura desejada na massa. Dica A mistura deve ser realizada por um curto período, apenas para garantir uma boa dispersão dos ingredientes. Uma agitação intensa e prolongada levará a uma extração proteica elevada, resultando em uma ampla extração proteica que, consequentemente, levará a um produto final com aspecto esbranquiçado, o que neste caso pode ser confundido com excesso de gordura e será considerado um defeito. 169Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 168 Dentre os ingredientes e aditivos adicionados, quando falamos de linguiças, normalmente são adicionados corantes naturais, já que é um hábito do brasileiro consumir produtos de cores mais intensas. Com isso, deve-se ter bastante cuida- do na escolha dos corantes a serem utilizados, de acordo com a coloração que fornecerão ao produto final, bem como com sua forma de apresentação, pó ou líquido, já que não haverá um período prolongado para sua dispersão na massa. Embutimento: após a finalização da mistura, a massa é destinada então para o embutimento, sendo, normalmente, embutida em tripas naturais. O compri- mento e calibre das peças pode ser bastante variável, de acordo com o tipo de linguiça que se está produzindo e da preferência do consumidor. Em indústrias menores, de produção mais artesanal, normalmente são utilizadas equipamen- tos para embutimento, como você pode ver na Figura 45. Já as indústrias que trabalham com maiores volumes de produção, costumam trabalhar com equipa- mentos de maior capacidade. Figura 45 - Equipamento que pode ser utilizado para o embutimento de linguiças frescais Embalagem primária: depois do embutimento, o produto será porcionado e acondicionado em embalagens primárias, que podem ser bandejas, embalagens de polietileno, embalagens termoencolhíveis, que muitas vezes conferem maior prote- ção ao produto, visando a assegurar prolongamento de sua vida de prateleira. Embalagem secundária: logo após, são acondicionadas nas embalagens se- cundárias, e então destinadas para resfriamento ou congelamento. Resfriamento/congelamento: as embalagens são destinadas ao resfriamento/con- gelamento de acordo com a forma de apresentação que se deseja no produto final. 1703 Estocagem e expedição: pela diferença nas temperaturas de armazenamento, o produto estocado sob temperaturas de resfriamento tem seu prazo de valida- de reduzido se comparado ao congelado, pois não passou por nenhuma etapa de tratamento térmico prévio e apresenta alta atividade de água, estando, des- sa forma, mais susceptível a alterações microbiológicas. Nesta aula, você aprendeu o que são os produtos cárneos frescais e viu como exemplo o processo de fabricação da linguiça frescal. Na próxima aula, você estudará os produtos cárneos que sofrem processo de cozimento. Aula 2: Produtos cárneos cozidos Nesta aula, você aprenderá que os produtos cárneos cozidos são aqueles em que a carne e os demais ingredientes/aditivos são submetidos a tratamento térmico, o que lhes confere uma maior estabilidade quando comparados aos produtos frescais, que você estudou na aula anterior. Para ilustrar a classe dos produtos cárneos cozidos, você verá o exemplo das linguiças cozidas. Linguiça cozida Neste tópico, você verá os itens que apresentam a mesma definição já mostrada anteriormente para o produto “Linguiça”. No entanto, você verá que, diferente- mente do produto frescal, agora você estudará um produto que necessariamen- te passa por uma etapa de tratamento térmico, recebendo, portanto, a denomi- nação de “linguiça cozida”. Por esse motivo, você pode ver no Quadro 11 que, além de diferenças no proces- so de fabricação, necessárias para caracterizar cada tipo de produto, a Instrução Normativa nº 4, anexo III (2000) também estabelece características físico-químicas diferenciadas para a linguiça cozida quando comparada à linguiça frecal. 171Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 170 Parâmetros Resultados Umidade Máx. 60% Gordura Máx. 35% Proteína Mín. 14% Cálcio Máx. 0,3% Quadro 11: Características físico-químicas para os produtos classificados dentro da categoria “linguiças cozidas” Fonte: Instrução Normativa nº 4, anexo III (BRASIL, 2000) Para a denominação de venda do produto, considere o que você viu anterior- mente para as linguiças frescais. Processo de fabricação de linguiça cozida As definições e o processo de fabricação de linguiças cozidas são muito seme- lhantes ao de linguiças frescais. De uma maneira geral, a grande diferença está na etapa de tratamento térmico. Para facilitar o seu entendimento, a Figura 46 apresenta o fluxograma do pro- cesso de fabricação de linguiças cozidas. 1723 Figura 46 - Fluxograma representativo do processo produtivo de linguiças cozidas Além do processo de cozimento, esse produto também pode sofrer processos adicionais, como a defumação, que lhe confere características diferenciadas. Até a etapa de embutimento, podem-se considerar as mesmas descrições e ob- servações feitas para o processo anterior, com a ressalva de que, muitas vezes, esse produto, ao contrário do frescal, é embutido em tripas artificiais. Da mes- ma maneira, o comprimento e o calibre de cada gomo/peça variam de acordo com o tipo de produto que se deseja fabricar. 173Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 172 Atenção A diferença entre os processos começa nesse momento, quando, após o embutimento, em vez de já se proceder ao porcionamento e a embalagem primária do produto, ele será encaminhado a estufas para que se realize o cozimento até que se atinja uma temperatura mínima de 72 °C no centro de cada gomo de linguiça. Por ser submetido ao processo de cozimento e, muitas vezes, defumação, esse produto apresenta maior estabilidade do que a sua versão frescal, podendo ser armazenado a temperatura ambiente, além de resfriado ou congelado. Após o processo de cozimento, o produto é retirado das estufas e encaminhado à etapa de resfriamento, para depois ser acondicionado em embalagem primá- ria, embalagem secundária e depois estocado de acordo com as características do produto e, enfim, expedido para comercialização.Nesta aula, você aprendeu que os produtos cárneos cozidos são aqueles em que a carne e os demais ingredientes/aditivos são submetidos a tratamento térmico e viu o processo de fabricação das linguiças cozidas. Na próxima aula, você aprenderá sobre os produtos cárneos emulsionados e verá, como exem- plos, os processos de fabricação da salsicha e da mortadela. Aula 3: Produtos cárneos emulsionados Nesta aula, você aprenderá que os produtos cárneos emulsionados são compostos de tecido muscular cru e tecido adiposo finamente picado, água, sais e condimentos que, mediante tra- tamento térmico adequado, adquirem consistência sólida (coagulação proteica), e se mantêm unidos mesmo quando submetidos a novo aquecimento. Você verá, como exemplo desses produtos, a salsicha e a mortadela, além de seus respectivos processos de fabricação. 1743 Nesse tipo de produto, a massa sólida não deve apresentar separação entre o tecido cárneo, gordura e tecido gelatinoso e deve mostrar coloração vermelho vivo estável, boa consistência, aspecto atrativo ao corte, aroma e sabor leve- mente condimentos (BRESSAN; PEREZ, 2002). Neste grupo de produtos cárneos, existem inúmeros exemplos. No entanto, dare- mos ênfase a dois produtos em especial: a salsicha e a mortadela, bastante popula- res no Brasil e largamente consumidos, entre outros motivos, pelo custo acessível. Porém, antes de estudar esses produtos, é importante compreender uma etapa básica do processo de fabricação desses dois itens: a formação da emulsão. As emulsões cárneas são consideradas por muitos autores como sendo uma emulsão óleo em água. Porém, por não possuírem as propriedades clássicas, não são consideradas emulsões verdadeiras (OLIVO; SHIMOKOMAKI, 2002). Uma emulsão cárnea pode ser considerada como um sistema bifásico composto por partículas de gordura (fase sólida) suspensas em uma matriz de proteínas solúveis em sais e água (fase líquida). Dispersas nessa fase líquida, encontram-se também algumas proteínas insolúveis, tecido conectivo, pedaços de carne, entre outros. A fase líquida, por sua vez, é realmente um líquido viscoso (PRICE; SCHWEIGERT, 1994). E durante o processamento de produtos emulsionados, o que se busca é justa- mente a obtenção de uma estrutura estável, por meio da utilização de equipa- mentos específicos, como cutters ou emulsificadores. Com esses equipamentos, é possível obter uma massa finamente moída, denominada emulsão cárnea, onde se observam as partículas de gordura e água envoltas pelas proteínas, estabili- zando a estrutura. As figuras 47 e 48 mostram imagens destes equipamentos. Figura 47 - Cutter: equipamento usado para o preparo de emulsões 175Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 174 Durante o preparo da emulsão, com o rompimento da estrutura fibrosa dos mús- culos, há o aumento da exposição das proteínas. Inicialmente, as proteínas miosi- na, actina ou actimiosina estão em estado insolúvel (estado gel). Com a presença de sal, água e alguns aditivos, ocorre a solubilização e seu consequente intumes- cimento, pela absorção de água, produzindo uma matriz viscosa (estado solúvel). As proteínas solubilizadas apresentam maior número de resíduos de aminoácidos disponíveis para formarem ligações químicas hidrofílicas e hidrofóbicas e, dessa forma, aptas a agirem como agentes emulsificantes (OLIVO, 2006). Os agentes emulsificantes atuam reduzindo a tensão superficial que surge quando a gordura entra em contato com a água, gerando uma grande tensão interfacial. Dessa forma, os emulsificantes diminuem a tensão e proporcionam estabilidade ao sistema (BRESSAN; PEREZ, 2002). Figura 48 - Emulsificador: equipamento para o preparo ou refino de emulsões Entre os fatores que afetam a formação e a estabilidade da emulsão cárnea, pode-se destacar a temperatura, durante a formação da matriz e a emulsifi- cação, o tamanho das partículas de gordura, o pH, a quantidade e o tipo de proteínas solúveis e a viscosidade da massa. Durante a cominuição, a tempera- tura da massa aumenta, ocasionando a fusão de algumas partículas de gordura e o início da desnaturação proteica, com a qual a estrutura da proteína se abre, permitindo encapsular a gordura. Dica Cominuição é a operação unitária em que o tamanho médio de pedaços sólidos do alimento é reduzido pela aplicação de forças de moagem, compressão ou impacto. 1763 Pode-se dizer, portanto, que o aquecimento é benéfico, uma vez que ajuda a solubilização das proteínas e acelera o processo de cura. Por outro lado, se a temperatura se torna muito alta durante o processo de cominuição, pode ocor- rer excessiva desnaturação proteica, diminuindo a viscosidade da massa devido ao rompimento da matriz proteica e a fusão da gordura (JUDGE et al., 1989). Atenção Para garantir uma boa estabilidade da emulsão, a etapa da extração proteica é fundamental. Para isso, as temperaturas devem ser superiores a 0 °C, girando em torno de 7 °C. Com temperaturas inferiores a 0 °C, a matriz proteica está tão firmemente liga- da que não se consegue realizar a extração, ou seja, as proteínas não se torna- rão disponíveis para auxiliar na estabilização da umidade e gordura na emulsão cárnea. Por isso, a temperatura é um dos parâmetros que deverá ser controlado sempre, principalmente na etapa de emulsificação, porque temperaturas mui- to baixas impedem a formação de uma emulsão estável, enquanto se as tem- peraturas forem muito elevadas durante seu preparo a emulsão acaba sendo desestabilizada. Isso acontece porque, em temperaturas elevadas, as proteínas solúveis são desnaturadas, ocorre a redução da viscosidade da massa e pode ocorrer também a fusão de gorduras. Segundo Olivo (2006), a temperatura ideal máxima que pode ser atingida no mo- mento da formação da emulsão depende do ponto de fusão das gorduras e do equipamento usado, sendo 10 a 12 °C para a gordura de frango, 15 a 18 °C para a gordura suína e 21 a 22 °C para a gordura bovina. Essas temperaturas podem ser alcançadas sem efeitos deletérios para a estabilidade, quando moinhos emul- sionadores de alta velocidade são usados. Temperaturas mais baixas devem ser mantidas quando as massas são formadas em cutters de baixa velocidade. Antes de descrever o processo de obtenção de embutidos emulsionados, con- vém definir o que é CMS. CMS é a Carne Mecanicamente Separada, definida como a carne obtida por processo mecânico de moagem e separação de ossos de animais de açougue, destinada à elaboração de produtos cárneos específicos, conforme Instrução Normativa nº 4 (BRASIL, 2000). 177Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 176 O grande volume disponível, o custo reduzido quando comparado com outras matérias-primas e o baixo poder aquisitivo de parte da população estimularam o expressivo desenvolvimento tecnológico ocorrido nos últimos anos na ob- tenção e no aproveitamento da CMS, que se tornou uma das mais importantes matérias-primas da indústria da carne no nosso país. Infelizmente, devido ao desconhecimento da evolução tecnológica do setor, ou pela facilidade com que é possível encontrar no mercado produtos de péssima qualidade, muitos ainda possuem uma ideia negativa dessa importante matéria-prima (OLIVO, 2006). A CMS é uma carne que pode ser obtida a partir da carne crua de aves, bovinos e suínos, ou ainda de ossos, carcaças ou partes de carcaças. A separação me- cânica é um processo relativamente simples. As carcaças, partes das carcaças, ossos inteiros ou previamente moídos são pressionados contra uma superfície perfurada. A carne e outros tecidos comestíveis passam através das fendas ou dos orifícios, enquanto as partículas ósseas, exceto aquelas muito pequenas, não passam. Os ossos resultantes desse processo podem ser destinados à ob- tenção de ração animal. A carne mecanicamente separada (CMS) sai da máqui- na moída finamente,com aparência pastosa. A Figura 49 mostra uma máquina utilizada no processo de obtenção de CMS. Figura 49 - Máquina para obtenção de Carne Mecanicamente Separada (CMS) No entanto, devido ao processo de obtenção que, pelas suas características, acaba por elevar um pouco a temperatura da matéria-prima no momento de sua obtenção, convencionou-se, por questões de segurança alimentar, a apli- cação desta apenas em produtos que passarão por algum tipo de tratamento térmico antes de serem vendidos ao consumidor, sendo que, nesse caso, consi- dera-se o tratamento térmico no qual o produto é submetido a altas tempera- turas: cozimento, fritura ou pasteurização. 1783 Além da preocupação em relação à contaminação microbiológica, assim como você verá para todos aqueles produtos que apresentam um Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade, a Instrução Normativa nº 04 (BRASIL, 2000) também estabelece alguns parâmetros físico-químicos que devem ser atendidos nos pro- cessos de obtenção destas matérias-primas, que você pode ver no Quadro 12. Parâmetros Resultados Proteína Mín. 12% Gordura Máx. 30% Teor de cálcio Máx. 1,5% Índice de peróxido Máx. 1 mEq de KOH por kg de gordura Diâmetro dos ossos 98% deverão ter tamanho máx. de 0,5 mm e largura máx. de 0,85mm Quadro 12: Parâmetros físico-químicos que devem ser controlados nos processos de obtenção de CMS Fonte: Instrução Normativa no 4 (BRASIL, 2000) Em relação à sua nomenclatura, o produto deve ser designado Carne Mecanica- mente Separada (CMS), seguido do nome da espécie animal que o caracterize. É permitida a sua utilização, de acordo com o RIISPOA, para elaboração de pro- dutos cárneos cozidos ou esterilizados, sendo eles, além das salsichas (exceto Frankfurt e Viena) e mortadelas (exceto Bologna e Italiana), linguiças cozidas (exceto Calabresa e Portuguesa), fiambres, hambúrguer cozido, almôndega co- zida e produtos cárneos reestruturados cozidos. No entanto, para os produtos que fizerem o uso de CMS na sua formulação, fica obrigatória a apresentação em seu rótulo, de forma clara ao consumidor, a expressão “Contém Carne Me- canicamente Separada de... (espécie animal)”, além da obrigatoriedade de estar declarado na lista de ingredientes. Bom, agora que você já compreendeu algumas definições importantes sobre esta matéria-prima de larga utilização, veja o processo de fabricação desses embutidos. 179Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 178 Salsicha De acordo com a Instrução Normativa nº 4 (BRASIL, 2000), anexo IV, entende-se por salsicha: [...] o produto cárneo industrializado, obtido da emulsão de carne de uma ou mais espécies de animais de açougue, adicionados de ingredientes, embutido em envoltório natural, ou artificial ou por processo de extrusão, e submetido a um processo térmico adequado. As salsichas poderão ter como processo alternativo o tingimento, depelação, defumação e a utilização de recheios e molhos, tratando- se em todos os casos de um produto cozido. A IN nº 4 (BRASIL, 2000) apresenta diversas classificações para o produto “salsi- cha”, todos de acordo com o tipo de matéria-prima utilizada, sendo considera- dos mais ou menos nobres, entre eles: Salsicha; Salsicha Tipo Viena; Salsicha Viena; Salsicha Tipo Frankfurt; Salsicha Frankfurt; Salsicha de carne de ave; entre outros. Veja, no Quadro 13, os parâmetros físico-químicos exigidos pela IN nº 4 (BRASIL, 2000) que devem ser atendidos no produto final para a fabricação de salsichas. Parâmetros Resultados Amido Máx. 2% Carboidratos Totais Máx. 7% Umidade Máx. 65% Gordura Máx. 30% Proteína Mín. 12% Quadro 13: Parâmetros físico-químicos que devem ser observados no produto final Fonte: Instrução Normativa nº 4 (BRASIL, 2000) 1803 Assim como a Instrução Normativa faz referência àqueles produtos que são elabora- dos com percentuais variados de matérias-primas mais ou menos nobres, também estabelece limites de cálcio no produto final, como você pode ver no Quadro 14. Produto Teor de cálcio em base seca Salsicha 0,9% Salsicha Viena 0,1% Salsicha Frankfurt 0,1% Salsicha Tipo Viena 0,6% Salsicha Tipo Frankfurt 0,6% Salsicha de Ave 0,6% Quadro 14: Teores de cálcio permitidos pela Instrução Normativa no 04 (BRASIL, 2000) Fonte: Instrução Normativa no 4 (BRASIL, 2000) Esses percentuais variados são influenciados diretamente pelo percentual de uso de CMS permitido em cada situação. Para que você possa comparar e pen- sar um pouco mais sobre o assunto, no produto “salsicha” tolera-se um uso de até 60% de CMS, enquanto em “salsicha de ave”, “Tipo Frankfurt” e “Tipo Vie- na”, o limite cai para 40%. Processo de fabricação de salsicha É necessário entender todo o passo a passo do processo de fabricação da sal- sicha, de modo a garantir que a formação da emulsão realmente ocorrerá da forma desejada. Para melhor conhecer este processo, veja, na Figura 50, o fluxograma de fabri- cação de salsicha, detalhando as principais etapas envolvidas. 181Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 180 Figura 50 - Fluxograma das etapas envolvidas no processo de fabricação de salsichas Da mesma maneira como você estudou anteriormente, as etapas de seleção de matérias-primas e pesagem de matérias-primas e ingredientes são fundamen- tais para a obtenção de um produto final de qualidade. No caso da salsicha, mesmo que haja várias etapas que alteram de maneira significativa as características iniciais da matéria-prima ao longo do processo, também é preciso que se avalie com critério as escolhas. 1823 Dica Caso não haja um equilíbrio entre a disponibilidade de proteínas solúveis, que auxiliam na estabilização da emulsão, e de quantidade de água e de gordura disponíveis para serem “aprisionados”, com certeza não se obtém um produto final de qualidade. Além disso, deve-se ter um cuidado bastante acentuado com a temperatura de formação da emulsão. Por isso, é preciso que se faça um balanço adequado entre as quantidades de matérias-primas resfriadas e/ou congeladas e as quan- tidades de água e/ou gelo, visando ao atingimento da temperatura desejada. Na verdade, não existe uma fórmula mágica para isso, pois cada processo tem suas particularidades. Esse balanço terá influência direta da composição do produto e principalmente das características da linha, do tipo e capacidade dos equipamentos utilizados. Após essa escolha, as matérias-primas devem ser moídas, no caso de estarem resfriadas, e/ou passadas através de quebradores de blocos e, depois, por moe- dores, no caso de estarem congeladas. Logo em seguida, podem ser transferidas para misturadores e adicionadas dos demais ingredientes, sendo enviada depois para um moinho emulsificador ou, quando forem utilizados equipamentos do tipo cutter, a cominuição, a mistura e a emulsificação já ocorrem no mesmo equipamento. Em ambos os casos, a ideia é a mesma, ou seja, controle de temperatura e adi- ção dos ingredientes na ordem adequada para se obter a melhor liga possível. E, como você viu anteriormente, os primeiros ingredientes a serem adicionados devem ser os sais, já que são eles que vão auxiliar na extração das proteínas para a estabilização da emulsão. Após a obtenção da massa estável, os produtos serão embutidos em embuti- deiras próprias para tal e, na maioria dos casos, já são torcidos na sequência da operação anterior, de maneira automática. Normalmente, esses produtos são embutidos em tripas permeáveis, porém artificiais. A Figura 51 apresenta um equipamento de embutimento de salsichas. 183Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 182 Figura 51 – Processo de embutimento de salsicha Depois do embutimento, os produtos são acomodados em varas, colocados em gaiolas, sendo transferidos para a estufa de cozimentopara o processo de co- zimento. Nessa etapa, o objetivo é o atingimento da temperatura interna de no mínimo 72 °C no centro do gomo. Opcionalmente, junto a essa etapa, pode-se realizar também a defumação do produto, visando a obtenção de uma caracte- rística sensorial diferenciada. Saindo do cozimento, o produto é resfriado até que atinja temperatura inter- na de 8 °C. Depois, segue para a próxima etapa, que é a depilação mecânica ou descasque. O descasque ocorre de forma automática, por descascadeiras, e logo em seguida o produto já segue para a próxima etapa, que pode ser a em- balagem ou o tingimento. Nas regiões em que o produto é apreciado com uma coloração mais clara, pode ser conduzido diretamente para a embalagem após a remoção da tripa. Já quando se deseja obter uma coloração mais intensa na superfície do produto, ele é conduzido para tanques, que podem ser semelhantes a chillers (estruturalmente), onde normalmente recebem um banho de urucum. Veja, na Figura 52, os tanques onde ocorrem os banhos de urucum. Dica 1843 Figura 52 - Tanques para tingimento de salsicha Caso o produto seja conduzido para a etapa do banho, após a passagem pelo tanque de corante, ele é direcionado para outro tanque, só que agora contendo solução ácida, o que auxiliará na fixação da cor, além de ajudar no controle de possíveis contaminações. Logo após a saída dos tanques, o produto pode, opcionalmente, ser conduzido através de um tanque de secagem, de acordo com a característica do processo. Essa etapa é interessante, pois auxilia na redução da umidade superficial do produto, que, como você já viu, se for elevada, poderá favorecer o crescimento microbiológico. Assim, terminada a secagem, o produto será encaminhado para a área de em- balagem, onde poderá ser fracionado em diferentes porções, sendo, no entanto, normalmente embalado à vácuo. De acordo com as características de cada pro- cesso, o produto poderá ou não passar pela etapa de pasteurização, para garantir ainda mais sua segurança microbiológica. Isso porque, mesmo tendo passado por uma etapa drástica de tratamento térmico, o produto volta a ser manipulado na embalagem, onde, se não forem tomados os devidos cuidados, poderão ocorrer contaminações cruzadas, levando, portanto, à recontaminação do produto. Dessa maneira, após essas etapas, o produto será acondicionado na embalagem secundária e destinado para armazenamento na forma resfriada e/ou congela- da, para que, então, possa ser expedido e comercializado. 185Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 184 Mortadela De acordo com a Instrução Normativa nº 4 (BRASIL, 2000), anexo II, entende- se por mortadela: [...], o produto cárneo industrializado, obtido de uma emulsão das carnes de animais de açougue, acrescido ou não de toucinho, adicionado de ingredientes, embutido em envoltório natural ou artificial, em diferentes formas, e submetido ao tratamento térmico adequado. Essa mesma Instrução Normativa também estabelece uma classificação para esse tipo de produto de acordo com as matérias-primas empregadas e as técnicas uti- lizadas para sua fabricação. Além disso, define, baseado nisso, alguns parâmetros que devem ser avaliados no produto final, conforme expressos no Quadro 15. Parâmetros Resultados Carboidratos Totais Máx. 10% Amido Máx. 5% Umidade Máx. 65% Gordura Máx. 30% Proteína Máx. 12% Quadro 15: Parâmetros físico-químicos e seus respectivos valores que devem ser observados no produto final Fonte: Instrução Normativa nº 4 (BRASIL, 2000) Para as mortadelas Bologna e Italiana, permite-se um máximo de carboidratos de apenas 3%, dadas as características de produto “mais nobre” que apresentam, não sendo permitida também a adição de amido. Além disso, para que sejam atingidas as suas características sensoriais, é permitido que o teor de gordura no produto final atinja 35%. No Quadro 16, você pode ver os valores em porcentagem de cálcio máximo permitidos pela legislação para os diferentes tipos de mortadela. No caso das mortadelas, a classificação é a seguinte: Dica 1863 Mortadela; Mortadela tipo Bologna; Mortadela Bologna; Mortadela Italiana; Mortadela de Ave. A lógica para essa variação nos valores de cálcio de acordo com a classificação dos produtos segue a mesma explicação que você já viu quando estudou as salsichas. Produto Teor de cálcio em base seca Mortadela 0,9% Mortadela de Ave 0,6% Mortadela Tipo Bologna 0,3% Mortadela Italiana 0,1% Mortadela Bologna 0,1% Quadro 16: Teores de cálcio permitidos pela Instrução Normativa no 4 (2000) Fonte: Instrução Normativa nº 4 (BRASIL, 2000) Processo de fabricação de mortadela O processo de fabricação de mortadelas apresenta inúmeras semelhanças com o de fabricação de salsichas, tendo também a emulsificação como uma das principais etapas. Para você conhecer o processo de fabricação como um todo, a Figura 53 apresenta o fluxograma de fabricação de mortadelas, detalhando as princi- pais etapas envolvidas. 187Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 186 Figura 53 - Fluxograma das etapas envolvidas no processo de fabricação de mortadelas Dica Assim como na fabricação de salsichas, as etapas iniciais têm fundamental importância na elaboração de mortadelas. Se você prestar atenção, perceberá também que, até a etapa de formação da emulsão, os dois fluxogramas, de fabricação de mortadelas e de fabricação de salsichas, são exatamente iguais. 1883 A partir da etapa de embutimento é que o processo se diferencia um pouco entre esses dois produtos, já que, para mortadelas, na maioria dos casos, o embutimen- to também é feito em tripa contínua, porém plástica, impermeável e grampeada nas extremidades, em vez de torcida. Além disso, apresenta calibre e comprimento maiores, devido ao seu peso mais elevado. Alguns produtos, de linhas consideradas “especiais”, normalmente produtos diferenciados, são embutidos em tripas natu- rais como, por exemplo, bexigas, ou artificiais permeáveis, o que lhes confere uma característica sensorial diferenciada e, normalmente, também agrega maior valor de mercado. A Figura 54 apresenta um modelo de embutideira que pode ser utilizada para o em- butimento de mortadelas. O ideal, para esse tipo de produto, é que sejam utilizados equipamentos de embutimento com vácuo, que reduz a presença de bolhas na massa. Figura 54 - Equipamento utilizado para o embutimento de mortadelas Após o embutimento, o produto é encaminhado à etapa de cozimento até atingir temperatura mínima de 72 °C no centro das peças. Saindo do cozimento, o produto é resfriado até que atinja temperatura interna de 8 °C. No caso de produto embutido em tripa plástica, pode seguir diretamente para a embala- gem secundária. No caso de o produto ter sido embutido em tripa permeável (natural ou artificial), deverá receber outra embalagem primária, que apresente barreira de proteção ao produto para possa ser comercializado. Após essas etapas, o produto será acondicionado na embalagem secundária e destinado para o armazenamento na forma resfriada ou, ainda, a temperatura ambiente, até ser expedido e comercializado. 189Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 188 Nesta aula, você aprendeu que os produtos cárneos emulsionados sofrem tratamento térmico lhes confere uma consistência sólida que se mantêm mes- mo quando submetidos a novo aquecimento. Você viu, como exemplo desses produtos, a salsicha e a mortadela, além de seus respectivos processos de fabri- cação. Na próxima aula, você aprenderá o que são os produtos cárneos “forma- dos” e verá como exemplos de fabricação o hambúrguer e o quibe. Aula 4: Produtos cárneos formados Nesta aula, você aprenderá que um produto formado é aquele obtido pelo pro- cesso de moldagem, dando origema peças nos mais variados formatos e tama- nhos, a partir de músculos inteiros, retalhos ou matérias-primas que, moídas e misturadas com outros ingredientes, dão origem a uma massa. Como exemplos de tais produtos, você verá o processo de fabricação do hambúrguer e do quibe. A busca mercadológica de praticidade, com porções pequenas e facilidade na pre- paração, foi uma das bases da criação dessa classe de produtos. Outra grande moti- vação foi o aproveitamento de pedaços de músculos disponíveis, visando a agregar maior valor comercial a eles. O uso dessas partes secundárias da carcaça em produ- tos formados lhes dá características similares ao músculo íntegro (OLIVO, 2006). A variedade de produtos desta classe no mercado é grande. Nesta aula, você estudará dois deles: o hambúrguer e a almôndega. Inicialmente, você verá as definições legais de cada um deles e em seguida, avaliará alguns aspectos en- volvidos nos seus processos de fabricação. 1903 Hambúrguer De acordo com a Instrução Normativa nº 20, Entende-se por Hambúrguer (Hamburger) o produto cárneo industrializado obtido da carne moída de animais de açougue, adicionado ou não de tecido adiposo e ingredientes, moldado e submetido a processo tecnológico adequado. Em relação a sua classificação, trata-se de um produto que pode ser cru, semifrito, cozido, frito, congelado ou resfriado. O produto será designado de Hambúrguer, ou Hamburger, seguido do nome da especial animal, acrescido ou não de recheio e seguido das expressões que couberem (BRASIL, 2000). No Quadro 17 estão apresentados os parâmetros físico-químicos que devem ser atendidos, de acordo com a IN nº 20 (BRASIL, 2000), para esse tipo de produto. Parâmetros Resultados Gordura Máx. 23 Proteína Mín. 15 Carboidratos totais Máx. 3 Teor de cálcio (base seca) 0,1 em hambúrguer cru 0,4 em hambúrguer cozido Quadro 17: Parâmetros físico-químicos exigidos pela Instrução Normativa nº 20 (2000) para hambúrgueres Fonte: Instrução Normativa nº 20 (BRASIL, 2000) Como você pôde observar no Quadro 17, no caso de hambúrgueres cozidos, verifica-se uma variação no parâmetro físico-químico cálcio em comparação ao hambúrguer cru. Pergunta Por que existe essa variação? Essa diferença existe porque, no caso de hambúrgueres cozidos, permite-se o uso de CMS como matéria-prima para sua fabricação em um limite de até 30%, ao contrário do cru, no qual é permitido o uso apenas de retalhos e recortes. Assim, como no processo de obtenção de CMS, pode-se ter a separação, junto com a carne, de pequenas partículas ósseas, isso será identificado como cálcio na análise, justificando o valor um pouco maior para o parâmetro de hambúr- gueres cozidos. 191Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 190 Dica Conta a história que, muito provavelmente, uma das origens dos hambúrgueres é datada do século XIII, quando os cavaleiros tártaros transportavam bifes embaixo de suas selas durante suas cavalgadas. Com o movimento, esses bifes acabavam moídos. Ao consumi-los crus, a carne se mostrava macia e de fácil matisgação, o que agradava a todos. Assim, ao longo do tempo, foram feitas algumas alterações, entre elas a adição de temperos até chegarmos ao produto que conhecemos hoje. Processo de fabricação de hambúrguer Para você entender melhor o processo de fabricação dos hambúrgueres, veja, na Figura 55, o detalhamento das principais etapas envolvidas. Figura 55 – Fluxograma de fabricação de hambúrgueres 1923 Da mesma maneira como para os demais processos, as etapas inicias de seleção de matérias-primas, pesagem de matérias-primas e ingredientes são fundamen- tais para a qualidade do produto final. Isso porque, caso não seja estabelecido um padrão que seja cumprido sempre, não se conseguirá padronizar as carac- terísticas dos produtos que estão sendo fabricados, ou seja, o consumidor final receberá, a cada dia, um produto diferente em relação às suas características. O processo de obtenção da massa, assim como para as linguiças, é um pro- cesso relativamente simples. Após as seleções e pesagens, as matérias-primas, na maioria congeladas, devem passar através de quebradores de blocos para que ocorra a redução inicial do tamanho. Essas matérias-primas são preferencialmente congeladas, devido às características que se deseja obter na massa: uma massa firme, compacta, porém sem excesso de liga. Isso se faz necessário, já que mas- sas com excesso de liga, ou um pouco “moles”, podem ocasionar dificuldades na moldagem das peças, como rebarbas, peso despadronizado etc. As características ideais de massa sofrem influência direta do tipo de matéria-prima utilizada e po- dem variar de acordo com o tipo de equipamento utilizado para a moldagem. No entanto, normalmente se trabalha com temperaturas de massa entre -2 °C e -3 °C. Assim, após essa redução inicial, a matéria-prima é transportada para a mistura- deira, onde receberá os demais ingredientes e aditivos. A etapa da mistura deve ser realizada em poucos minutos, apenas até se garantir a completa homoge- neização da massa, visando à menor extração proteica possível. Isso se deve ao fato de que, além de tornar a massa mais “liguenta” (com excesso de liga), o que provavelmente dificultará a moldagem, o excesso de extração proteica ainda poderá conferir um aspecto esbranquiçado ao produto, o que pode deixá-lo com uma coloração pálida, desagradável ao consumidor ou, ainda, fazer com que ele considere que essa aparência ocorre por um excesso de gordura na massa. Realizada a completa homogeneização, a massa será moída em discos que va- riam normalmente entre 3 a 5 mm, para então ser encaminhada à etapa de mol- dagem. Normalmente, a moldagem é realizada em sistemas nos quais a massa é conduzida para “embutideiras” que a enviam para o equipamento de formagem. Atualmente, existe uma variedade de opções para tal, sendo os mais utilizados aqueles sistemas com placas ou rolos formadores. A Figura 56 apresenta uma formadora de placas para hambúrguer. 193Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 192 Figura 56 - Equipamento para moldagem de hambúrgueres: formadora de placa Após a moldagem, as peças são enviadas para congelamento em túneis contínu- os, conhecidos como “girofrezzer”, onde são congelados individualmente. O tem- po aproximado dessa etapa normalmente fica em torno de 30 minutos, quando, após atingir a temperatura de pelo menos -12 °C, o produto sai do túnel. Em seguida, as peças são encaminhadas para a área de embalagem, onde rece- berão a embalagem primária (filme plástico) individualmente, em equipamen- tos conhecidos como envelopadoras (Figura 57). Logo, recebem a embalagem secundária e são encaminhados para as câmaras de congelamento. Atenção O tempo transcorrido entre a embalagem e a estocagem deve ser o mais curto possível. Essa etapa é realizada em área climatizada, mantida a baixas temperaturas, porque, devido à sua pequena espessura, o produto ganha temperatura bastante rápido, amolecendo e podendo, assim, ter suas características de qualidade alteradas, impactando inclusive na redução do seu tempo de conservação. Figura 57 - Equipamento para embalagem primária de hambúrguer – envelopadora 1943 É importante ter-se o controle do intervalo de tempo transcorrido entre a saída das peças do congelamento e seu envio para a câmara final, após acondiciona- mento na embalagem secundária, pois, pela característica do produto, normal- mente peças com pequena espessura, o produto descongela facilmente, o que pode levar a alterações nas suas características de qualidade. Por esse motivo, entre outros, é que a cadeia de frio no país ainda continua sendo um desafio para a indústria no que se refere à manutenção das características de produtos “supergelados”, como o hambúrguer. Quibe O quibe é um “produto cárneoindustrializado, obtido de carne bovina ou carne ovina, moída, adicionada com trigo integral, acrescido de ingredientes. Quando a carne utilizada não for bovina ou ovina, será denominado de quibe (kibe) seguido do nome da espécie animal de procedência, podendo se tratar de um produto cru, frito ou assado, sendo ou não adicionado de recheio (BRASIL, 2000 – IN20). No Quadro 18, você pode ver a Instrução Normativa nº 20 (BRASIL, 2000), que define os seguintes parâmetros de controle físico-químico no produto final: Parâmetros Resultados Proteína Mín. 11% Teor de cálcio Máx. 0,1% (base seca) Quadro 18: Características físico-químicas para o produto quibe Fonte: Instrução Normativa nº 20 (BRASIL, 2000) Processo de fabricação de quibe Para a produção de quibe, o fluxo do processo e os cuidados a serem toma- dos devem ser, em termos gerais, bastante semelhantes àqueles vistos para o hambúrguer, apresentando uma pequena diferença na etapa de preparo das matérias-primas e dos ingredientes. O quibe leva como base, além das matérias-primas cárneas e demais ingredientes, uma grande quantidade de trigo integral, que é um dos responsáveis por parte de suas características sensoriais, principalmente de textura. Na Figura 58, você pode ver as principais etapas envolvidas no processo de fabricação de quibes. 195Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 194 Figura 58 - Fluxograma do processo de fabricação de quibes No entanto, é importante que se tenha um grande cuidado na etapa que an- tecede a mistura da massa, que é justamente a “hidratação do trigo”, que tem uma boa capacidade de retenção de umidade. No entanto, é necessário que isso seja realizado com alguns minutos de antecedência, já que essa absorção não se realiza de forma imediata. Caso contrário, essa falha no processo poderá ocasionar defeitos no produto final. 1963 Um trigo mal hidratado pode ocasionar dois principais problemas: Caso o trigo não absorva toda umidade necessária, é provável que “so- bre” água livre na massa, o que deixará a massa mais mole, ocasionando dificuldades na moldagem; Em situações em que a quantidade de água for insuficiente para a hidra- tação completa, ao longo do armazenamento, o trigo terá a tendência a absorver toda a umidade do produto, fazendo o quibe ficar ressecado e com textura excessivamente firme. Nesta aula, você aprendeu que um produto formado é aquele obtido por moldagem, que confere os mais variados formatos e tamanhos às peças. Como exemplos de tais produtos, você viu o processo de fabricação do hambúrguer e do quibe. Na próxima aula, você verá como é o processo de defumação de produtos cárneos. Aula 5: Produtos cárneos defumados Nesta aula, você aprenderá como se dá o processo de defumação de produtos cárneos. Além disso, verá que existe a possibilidade do uso de fumaça líquida em vez da defumação tradicional e poderá analisar suas vantagens. Entende-se por defumação o processo de aplicação da fumaça aos produ- tos alimentícios, produzida pela combustão incompleta de algumas madeiras previamente selecionadas. O processo de defumação não é empregado apenas com o objetivo de conservar os alimentos, mas também como parte de uma tecnologia capaz de conferir aos produtos características sensoriais como cor, sabor e aromas agradáveis. Normalmente, é realizada em conjunto com ope- rações como salga, cura, dessecação, fermentação, entre outros. Em carnes, o contato com o calor e a fumaça provoca a perda de água. Além disso, a superfí- cie fica ressecada, e a coloração, estabilizada, adquirindo, assim, sabor e aroma de produtos cárneos defumados. A perda de água e a ação dos constituintes da fumaça conferem ao alimento barreiras físicas e químicas eficientes contra a penetração e a atividade dos microrganismos (SILVA, 2000). 197Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 196 De acordo com o artigo nº 403 do RIISPOA, produto cárneo defumado é aquele obtido da carne de diferentes espécies animais, desossadas ou não, que após o processo de cura são submetidos à defumação com o objetivo de proporcionar as características sensoriais desejadas, sendo permitida a defumação a quente ou a frio (BRASIL, 1952). A defumação tradicional deve ser feita em estufas construídas para essa finalidade e realizada com a queima de madeiras não resinosas, secas e duras, sendo admitidas como alternativas ao processo de defumação tradicional a queima de maravalhas ou serragens úmidas de madeiras não resinosas. Nos casos de aplicação de fumaça líquida, o processo deve ser associado ao cozimento do produto (SILVA, 2000). O processo de defumação tradicional pode ser dividido em até três etapas: a primeira é representada pela secagem, responsável pela obtenção da cor do produto; a segunda é a defumação propriamente dita; a terceira é quando se completa o cozimento do produto. Atenção A etapa de defumação é a considerada mais difícil de ser controlada, pois a velocidade e a quantidade de fumaça depositadas na superfície dos produtos são influenciadas por diversos fatores, entre os quais podemos citar a densidade da fumaça, a velocidade de circulação e a umidade relativa do ar, além da condição da superfície do produto que está sendo submetido ao processo de defumação. Segundo Pardi et al. (1996), a ação da fumaça sobre as carnes pode ser resumi- da nos seguintes aspectos mais relevantes: Ação secativa, sobretudo das superfícies, podendo atingir a profundidade de acordo com a técnica empregada; A dessecação superficial, a coagulação das proteínas pela condensação de formal- deído e de fenóis e a deposição de material resinoso, além do efeito químico e bac- teriológico, produzem uma verdadeira barreira contra a penetração microbiana; Nos produtos envolvidos em tripas naturais, o formaldeído enrijece o tecido conjuntivo devido à reação com as aminas; Em temperaturas mais elevadas, como ocorre na defumação a quente, é exercida ação desinfetante em relação a determinados microrganismos; 1983 A ação antioxidante em relação às gorduras é devida ao mono e dimetiléter do pirogalol. A fumaça retarda a rancificação oxidativa e hidrolítica da gordura; A cor castanho-dourada característica e atrativa do produto defumado se deve à hidroxicetona, ao ácido málico, ao pirol e seus derivados, às piracinas, que se mostram pela decomposição de pigmentos e resinas na superfície. Os carboni- los se reúnem com grupos NH originando a formação de melanoidinas; No aroma, muito dependente do tipo de madeira; Na atribuição e na conservação do aroma e da cor; No sabor característico, que é influenciado diretamente pela umidade, tem- peratura, tempo de defumação e tipo de madeira utilizada. Para complementar, segundo Evangelista (2005), o processo de defumação tem a seu favor pequenas desvantagens e grande número de vantagens: Transmite ao produto sabor agradável; Durante o processo, a camada superficial do produto fica impregnada dos com- ponentes da fumaça, que lhe darão certa proteção contra os microrganismos; Confere marcado poder conservador, devido ao calor alcançado e à pene- tração, no produto, dos componentes da fumaça; a combinação da fumaça e do elevado grau de calor pode diminuir em até dez mil vezes a população bacteriana da superfície; O sal presente e a desidratação resultante do processo de defumação aju- dam na conservação do alimento; Quase todas as bactérias não esporuladas são destruídas pela defumação; Pela ação residual dos constituintes bactericidas absorvidos durante a defu- mação, as contaminações posteriores são mais facilmente controladas; Retarda a oxidação das gorduras. 199Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 198 No entanto, conforme você viu, o RIISPOA apresentacomo possibilidade para defumação o uso de fumaça líquida em vez da defumação tradicional. Quando se adota esse procedimento como método de “defumação”, a fumaça líqui- da pode ser aplicada diretamente sobre a superfície do produto por meio de aspersão ou atomização sobre as peças dentro da própria estufa, associada ao processo de cozimento ou ainda antes desse por meio de imersão ou aplicação por chuveiro. A grande vantagem da utilização da fumaça líquida encontra-se na redução de tempo de realização do processo de limpeza da estufa, mais curto que o tradicional, já que essa fumaça não contém gomas nem resíduos, provo- cando menos sujeira no equipamento. Além disso, normalmente se consegue a realização do processo de aplicação de fumaça pelo uso de equipamentos mais compactos do que os tradicionais, além da possibilidade de maior controle sobre a cor e o sabor, garantindo uma maior padronização entre os produtos obtidos. Para ficar mais fácil de você entender o processo de fabricação de produtos defumados, podemos citar inúmeros produtos que se enquadram nessa cate- goria. Por exemplo, algumas linguiças podem também ser defumadas. Mas, sem dúvidas, um dos produtos mais populares dessa categoria é o bacon. De acordo com a Instrução Normativa nº 21 (BRASIL, 2001), o bacon pode ser definido como: [...] produto cárneo industrializado, obtido do corte da parede torácico-abdominal dos suínos, que vai desde o esterno ao púbis, com ou sem costela, com ou sem pele, adicionado de ingredientes e submetido ao processo térmico adequado, com defumação. Atualmente, sabe-se que uma parcela dos bacons oferecidos no mercado ainda é produzida com a utilização do processo tradicional de defumação. No entanto, inúmeras empresas vêm aderindo à utilização de fumaça líquida para um produto tão tradicional quanto este, devido às inúmeras vantagens por ela oferecidas. Reflita Para fixar o conteúdo que você já viu, monte um quadro comparativo entre as principais vantagens e desvantagens da utilização do processo de defumação tradicional e a aplicação de fumaça líquida. Nesta aula, você aprendeu como se dá o processo de defumação de produtos cárneos e viu que o RIISPOA indica a possibilidade do uso de fumaça líquida em vez da defumação tradicional. Na próxima aula, você estudará o processo de salga dos produtos cárneos. 2003 Aula 6: Produtos cárneos salgados Nesta aula, você estudará o processo de salga de produtos cárneos, que serve não só para conservar, mas também para conferir determinadas características ao produto. Como exemplo, você verá o processo de fabricação do charque. A salga é um processo de conservação de alimentos conhecido desde a antigui- dade, mas que ainda hoje é bastante utilizado, não mais apenas para preservar, mas também para conferir características sensoriais ao alimento (SILVA, 2006). Com o aparecimento de modernos métodos de conservação de alimentos, principalmente os que utilizam baixas temperaturas, a salga de alimentos per- deu muito de sua importância como processo de conservação; a aplicação do sal, porém, isoladamente ou em conjunto com outras substâncias, ainda se faz intensamente, em alguns casos pela simples razão de estabelecer modificações nas características sensoriais do alimento, o que é de grande agrado dos consu- midores (EVANGELISTA, 2005). Os produtos salgados são aqueles obtidos do processo de salga, no qual temos como agente principal o cloreto de sódio, comumente chamado sal. Devido à sua alta higroscopicidade, ou seja, sua capacidade de absorver umidade, o sal remove a umidade do produto, absorvendo-a. No Quadro 19, você pode visualizar as principais vantagens e desvantagens do uso do sal como conservante nesse tipo de processo. 201Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 200 Vantagens Desvantagens Por seu elevado poder higroscó- pico, diminui a atividade de água dos alimentos e, por osmose, inati- va microrganismos. Facilita a perda de alguns nutrientes solúveis em água. Impede o crescimento dos micror- ganismos aeróbios, por restringir a solubilidade do oxigênio na água. Não destrói toxinas. Em diferentes percentuais de concen- tração atua sobre microrganismos: a 26,5% elimina larvas de Cisticecos bovis e celulosae; acima de 13% extermina a Trichinella spiralis. Alguns microrganismos, entre os quais o Mycobacterium tubeculosis, são bastante resistentes ao sal. Proporciona aos alimentos agradável palatabilidade. Não impede, em produtos mal armaze- nados, o crescimento de microrganis- mos halofílicos. É de emprego favorável devido ao seu baixo custo. Quando contem impurezas, pode trans- mitir ao produto sabor desagradável. Quadro 19: Principais vantagens e desvantagens do cloreto de sódio como agente de conservação Fonte: Adaptado de Evangelista (2005) A ação preservativa do sal é devido à sua atuação sobre o estado coloidal das proteínas e pela redução da atividade de água livre por osmose. A água livre encontra-se na linfa, no sangue e nos espaços intercelulares. No processo de salga, essa água é facilmente perdida pelo processo osmótico. A água ligada, associada quimicamente aos grupos hidrofílicos das proteínas, apresentando maior dificuldade para sua retirada. No entanto, essa dificuldade também é enfrentada pelos microrganismos que necessitam de água para seu desenvolvi- mento. Porém, o sal é um eletrólito forte e consegue retirar parte da água liga- da das proteínas, tornando-as desnaturadas. Essa desnaturação também ocorre nas células dos microrganismos presentes nos produtos salgados, aumentando, assim, sua conservação (SILVA, 2000). 2023 No entanto, o processo de salga não é realizado apenas pela adição direta do sal na superfície do produto, que é o que chamamos de salga por via seca. Temos também processos de salga realizados por via úmida ou ainda processos mistos. Produtos conhecidos do nosso dia a dia, como o charque, o bacalhau e outros pescados, além de alguns ingredientes para feijoada, podem ser citados como exemplos de produtos cárneos concentrados por salga. O princípio envolvido nesse tipo de produto se baseia no fato de que, por ação osmótica do cloreto de sódio, durante a salga, formam-se duas correntes de migração de substâncias em sentidos opostos. Uma, de solução de cloreto de sódio, que penetra no alimento; e outra, que arrasta para fora do alimento a água e o sal. A salmoura que sai do alimento contém também substâncias solú- veis, inclusive proteínas de baixo peso molecular. A seguir, veja com detalhes os processos citados anteriormente. Salga a seco (por via seca): nesse tipo de processo, o sal é aplicado na superfície da carne, sendo que normalmente observam-se teores de remoção de umidade entre 20% e 30%, com aplicações de camadas uniformes de sal em percentuais de aproximadamente 4%. De uma maneira geral, esse processo é conduzido, sobre- pondo-se mantas de produto com camadas de sal, ou seja, coloca-se sobre uma plataforma uma camada de produto e uma camada de sal, e assim sucessivamen- te. A indicação para que este processo seja realizado sobre uma plataforma onde ocorra o escoamento da salmoura justifica-se pelo fato de que, durante a salga, forma-se uma salmoura saturada, pela remoção de água do produto. Caso a sal- moura não seja removida/drenada, esse processo é considerado como salga mista. Vantagem: verifica-se a proteção da carne contra a desidratação nesse processo de intensa desidratação, devido à elevada velocidade de penetração do sal no tecido. Desvantagem: como desvantagem desse método, há a penetração do sal de maneira desuniforme e a desidratação forte, que resulta em grande desnatura- ção das proteínas, podendo ocasionar, em alguns casos, aparência desagradável e baixo rendimento do produto, podendo ocorrer também a oxidação degor- duras (BRESSAN; PEREZ, 2000). Salga úmida (por via úmida): o produto é acondicionado em tanques, onde recebe uma salmoura saturada, ou seja, permanecerá imerso nesta durante o processo. A eficiência deste processo pode ser melhorada se, antes de ser adicionada a salmoura ao tanque, o produto for injetado. Esse processo é indicado principalmente para carnes com maiores percentuais de gordura, já que, por meio da redução do contato da gordura diretamente com o ar atmosférico, consegue-se garantir redução de sua oxidação. 203Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 202 Vantagens: a desidratação do músculo é moderada, o que aumenta o rendimen- to do produto quando comparado à salga seca; a oxidação das gorduras desen- cadeada pela presença do oxigênio do ar é evitada, uma vez que os músculos estão submersos e a distribuição do sal é homogênea, já que a concentração do sal na salmoura pode ser controlada (BRESSAN; PEREZ, 2000). Salga mista: normalmente, é realizada em tanques, como os da salga úmida, e inicia-se o processo como se fosse ser conduzida uma salga por via seca. No entanto, como não ocorre a drenagem da salmoura, esta é considera mista. Do ponto de vista legal, independentemente do processo ao qual sejam submetidos, de acordo com a Instrução Normativa nº 6 (BRASIL, 2001), entende-se por produtos cárneos salgados os produtos cárneos industrializados, obtidos de carnes de animais de açougue, desossados ou não, tratados com sal, adicionados ou não de sais de cura, condimentados ou não, cozidos ou não. Os processos tecnológicos de defumação e cozimento são considerados opcionais para este tipo de produto, sendo que a apresentação do mesmo pode ser feita de forma seca ou úmida. Entre os produtos salgados, podemos citar o charque, bastante conhecido. Processo de fabricação de charque Veja, na Figura 59, as principais etapas envolvidas no processo de fabricação de charque. Figura 59 - Fluxograma do processo de obtenção de charque Fonte: Adaptado de Bressan e Perez (2000) 2043 Assim como nos demais processos, para a elaboração de charque, a primeira etapa está diretamente ligada à seleção da matéria-prima, visando à condução do processo da melhor maneira possível, obtendo-se um produto de qualidade. Normalmente, selecionam-se matérias-primas com uma ampla superfície cárnea, visando a facilitar a eficiência da salga. Normalmente, a primeira etapa de salga no processo de fabricação de charque se dá pela realização de uma salga úmida. Nor- malmente, essas peças ficam em tanques com salmoura por um período de aproxi- madamente uma hora, sendo agitadas constantemente (BRESSAN; PEREZ, 2000). A seguir, as mantas são retiradas da salmoura e removidas para “bases”, onde ocor- rerá a drenagem do excesso de salmoura. Depois disso, as peças são dispostas sobre plataformas já cobertas com sal grosso, formando pilhas de 1,20 a 1,80 metros. Daí para frente, vão sendo intercaladas camadas de sal e camadas de carne. Caso a primeira peça apresente camada de gordura, esta deve ficar virada para cima, sendo colocada para baixo a partir da segunda camada da pilha (BRESSAN; PEREZ, 2000). As pilhas permanecem nessa posição, normalmente por períodos de aproxima- damente 24 horas, sendo realizada, em seguida, a operação de dessalga. Esta consiste em inverter a pilha, ressalgando as camadas, com o objetivo princi- pal de uniformizar a pressão exercida sobre as mantas, pelo peso da própria pilha. O tempo dessa etapa é também de aproximadamente 24 horas. Depois de transcorrido esse período, a pilha deve ser novamente invertida, voltando à posição original, com nova ressalga entre as camadas. Passadas 24 horas pode-se começar a etapa de tombamento. Esta consiste também na inversão da pilha, no entanto, sem adição de sal, e deve ser repetida pelo menos quatro vezes. Dica Os objetivos principais da etapa de tombamento são reduzir a chance de crescimento de bactérias halófilas (responsáveis pelo aparecimento de manchas vermelhas no produto), além de uniformizar a distribuição do sal ao longo da superfície do produto. Terminados os tombamentos, as peças são lavadas, para a remoção do excesso de sal, e, posteriormente, dispostas de modo a escoar o excesso de água. 205Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 204 Depois disso, as mantas são dispostas em varais, expostas ao sol para a realiza- ção da secagem (Figura 60). Deve-se ter cuidado, principalmente nas primeiras exposições, para que não ocorra uma secagem excessiva da superfície, o que pode levar à formação de uma camada bastante ressecada, que impedirá a perda de umidade do seu interior. Normalmente, as mantas são expostas ao sol e recolhi- das antes do anoitecer, sendo dispostas em plataformas pavimentadas. Essa opera- ção costuma ser realizada de quatro a seis vezes. Terminada a secagem, o produto é submetido à maturação até que seja atingido o teor de umidade desejado. Figura 60 - Peças de charque durante a etapa de secagem, dispostos em varais para exposição ao sol Alcançado o teor de umidade desejado, o produto pode ser então embalado para posterior comercialização. Nesta aula, você estudou três processos de salga de produtos cárneos (seca, úmi- da e mista), que servem não só para conservar, mas também para conferir deter- minadas características ao produto. Como exemplo, você viu o processo de fabri- cação do charque. Na próxima aula, você aprenderá o que é um produto curado e verá que ele não é o mesmo que um produto salgado, como muitos acreditam. 2063 Aula 7: Produtos cárneos curados Nesta aula, você vai aprender que os produtos cárneos curados são aqueles nos quais são utilizados sais de cura durante sua elaboração. Normalmente, esses sais são constituídos de uma mistura de cloreto de sódio, nitrato e nitrito. Como exemplos desses produtos, você verá o processo de fabricação da copa e do presunto tipo Parma. Atenção É importante destacar que, muitas vezes, os termos “salgado” e “curado”, popularmente, são utilizados como sinônimos, no entanto, não o são. Como você já viu, os produtos salgados são aqueles nos quais, por diversos métodos, adiciona-se sal, enquanto nos curados os principais agentes envolvidos no processo são os sais de cura. Assim, observa-se que na salga adiciona-se sal com objetivo, muitas vezes, de conservar a carne e outros produtos de origem animal. Nos produtos curados, por sua vez, além do sal, são adicionados agentes de cura para pro- longar a conservação dos produtos, além de conferirem coloração e aroma característicos de produto curado. A cor final do produto curado depende da mistura de quantidades convenientes dos sais de cura com a mioglobina existente na carne. A diminuição da quan- tidade de carne utilizada na fabricação do embutido, buscando redução dos custos de fabricação, significa falta de mioglobina. Assim, necessita-se de uma suplementação da cor final do produto com o uso de corantes (TERRA, 1998). Na fabricação de produtos cárneos curados pelos métodos tradicionais, a etapa de secagem é o processo mais demorado. No caso do presunto cru, o tempo necessário pode variar de três a 24 meses ou mais, dependendo das proprie- dades do produto. Durante a fase de secagem e cura/maturação, o alimento sofre um processo de desidratação, acompanhado por uma série de reações bioquímicas produzidas por enzimas endógenas e microbianas, que quebram os lipídeos e as proteínas, conferindo ao produto textura e sabor característicos. No entanto, é importante salientar que qualquer desvio nesse processo pode resultar em defeitos de textura, cor e sabor no produto final (YAMADA, 2009). 207Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 206 Como exemplos de produtos para caracterizar a classe de curados, vamos falar de dois bastante tradicionais, que são a “copa”e o “presunto tipo Parma”, tam- bém chamado “Jamón Serrano”. Copa De acordo com a Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000), a copa é o produto cárneo obtido do corte íntegro da carcaça suína, denominado de nuca ou so- brepaleta, adicionado de ingredientes, maturado, dessecado, defumado ou não, sendo que o produto deve atender as exigências apresentadas no Quadro 20. Características Resultados Atividade de água Máx. 0,90 Umidade Máx. 40% Gordura Máx. 35% Proteína Mín. 20% Quadro 20: Características físico-químicas obrigatórias para o produto “copa” Fonte: Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000) Processo de fabricação de copa Para compreender melhor o processo de fabricação de copa, veja na Figura 61 o fluxograma com o detalhamento das principais etapas desse processo. Figura 61 - Fluxograma com o detalhamento das principais etapas a serem realizadas no processo de fabricação de copa 2083 Após a seleção da matéria-prima, conforme o Regulamento técnico para sobrepale- ta, o produto é salgado. Essa etapa ocorre com a distribuição homogênea de sal ao longo da peça. Juntamente com o sal, são colocados o sal de cura e a condimenta- ção. Depois da adição dos sais, o produto deve permanecer armazenado em câma- ra fria, com controle de temperatura, por um período de pelo menos sete dias. Transcorrido esse tempo, as peças têm removido o excesso de sal e são prensa- das, visando a eliminar o excesso de líquido que possa estar contido no interior da peça. Para continuação do processo de cura, as peças são novamente envia- das à câmara, onde permanecerão por pelo menos mais 21 dias com controle de umidade e velocidade de circulação do ar. Terminada a cura, o produto pode passar por uma etapa chamada toalete, onde serão removidos excessos de gordura superficial e demais defeitos aparentes que o produto possa apresentar. Deve-se ter o cuidado para que essa remoção não seja excessiva, já que a gordura, além de desempenhar importante papel nas características sensoriais do produto, também ajuda a evitar a desidratação excessiva na etapa subsequente de maturação. Assim, após essas etapas, as peças salgadas e curadas são embutidas em envoltório natural, para posteriormente serem enviadas para a câmara de maturação, onde perma- necerão até que seja atingida a atividade de água desejada para o produto. Nas câma- ras de maturação, o produto é mantido em temperaturas em torno de 20 °C, sendo a umidade relativa do ambiente reduzida à medida que ocorre a secagem do produto. Atenção Esse controle de umidade é importante, já que, caso a umidade do ambiente seja excessivamente reduzida desde o início do processo, o produto secará apenas superficialmente, mantendo grande quantidade de umidade aprisionada no seu interior. Caso a umidade seja mantida excessivamente alta ao longo de todo o processo, não será atingida a atividade de água desejada, pois, logo em seguida, o produto entrará em equilíbrio com o ambiente úmido, não perdendo mais umidade. No entanto, com a realização do processo com todos os parâmetros controlados, o produto atinge a atividade de água desejada e pode, então, ser embalado para posterior comercialização. 209Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 208 Presunto tipo Parma De acordo com a Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000), entende-se por presunto tipo Parma o produto cárneo industrializado, obtido do pernil íntegro selecionado de suínos pesados, sem a pata, salgado e dessecado por um perío- do mínimo de 10 meses. Para melhor entendimento, entende-se por “suíno pe- sado” os animais com peso mínimo de 130 kg selecionados para tal finalidade. Além disso, após o processamento, o produto deve atender as características físico-químicas que você pode ver no Quadro 21. Características Resultados Atividade de água Máx. 0,92 Proteína Mín. 27% Quadro 21: Características físico-químicas obrigatórias para o produto “presunto Tipo Parma” Fonte: Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000) Processo de fabricação de presunto tipo Parma Para compreender melhor o processo de fabricação do presunto tipo Parma, veja na Figura 62 o fluxograma com o detalhamento das principais etapas desse processo. 2103 Figura 62 - Fluxograma com o detalhamento das etapas envolvidas no processo de fabricação do pro- duto presunto tipo Parma Fonte: Adaptado de Bressan e Perez (2000) Primeiramente, conforme definido na Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000), deve-se fazer a seleção do pernil. Depois, realiza-se o processo de salga a seco, fazendo-se, além da esfrega de sal, a esfrega de sal de cura e de condimentos na peça. Assim, juntamente com a salga, ocorrerá, durante a fabricação o processo de cura do produto. Após isso, as peças de pernil são empilhadas com a pele posicionada para baixo, permanecendo assim por aproximadamente 10 a 15 dias. Transcorrido esse período, realiza-se a ressalga e o tombamento das pilhas. Terminada a etapa de salga, que leva, normalmente, em torno de 30 dias, o produto é então submetido a um processo de lavagem com água morna (entre 35 °C a 40 °C), com o objetivo de retirar o excesso de sal e promover um amaciamento da pele. Em seguida, o produto é amarrado para que possa ser enviado à defumação. Assim, os pernis podem permanecer nessa etapa por até 48 horas. Como a ideia principal não é cozinhar o produto, nesta etapa, a temperatura nos defumado- res não se eleva acima dos 55 °C-60 °C. 211Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 210 Findada a defumação, as peças são encaminhadas para a câmara de maturação (Figura 63). Conforme prevê o Regulamente Técnico, a etapa de secagem é bas- tante longa, visando à redução da quantidade de umidade do produto de maneira aceitável, tendo em vista a necessidade de sua conservação à temperatura ambiente. Figura 63 - Câmara de maturação para presunto tipo Parma Atenção As câmaras de maturação devem ter temperatura e umidade controladas. As peças devem ser mantidas à temperatura de, aproximadamente, 20 °C, com umidade relativa ao redor de 90% no início do processo, sendo reduzida à medida que o produto seca. Transcorrido o tempo necessário, estando o produto dentro das condições de- sejadas, pode ser conduzido para a embalagem. Por ser um produto diferencia- do, normalmente recebe uma primeira embalagem, que pode ser um tecido ou uma malha de algodão cru, muitas vezes na forma de uma “rede”, para somente depois ser acondicionado em embalagem plástica. Nesta aula, você aprendeu que os produtos cárneos curados são aqueles nos quais são utilizados sais de cura durante sua elaboração. Como exemplos des- ses produtos, você conheceu o processo de fabricação da copa e do presunto tipo Parma. Na próxima aula, você estudará as particularidades dos produtos cárneos fermentados e verá como exemplo o processo de fabricação do salame. 2123 Aula 8: Produtos cárneos fermentados Nesta aula, você verá que os produtos cárneos fermentados apresentam parti- cularidades tanto no seu processo quanto nas suas características finais. Como exemplo, você estudará o processo de fabricação do salame. Os alimentos fermentados estão entre os mais antigos alimentos processados e, há milênios, têm formado uma parte da tradicional dieta na maioria dos países. Hoje, continuam sendo um dos principais setores da indústria de processamento de alimentos, sendo exemplos produtos de panificação, bebidas alcoólicas, quei- jos, produtos à base de soja, produtos cárneos, entre outros (FELLOWS, 2006). A fermentação pode ser definida como o processo bioquímico no qual os mi- crorganismos retiram do meio em que vivem (ou que estão instalados) o mate- rial nutritivo de que necessitam, ao mesmo tempo em que, sob a ação catalítica de enzimas, produzem substâncias úteis para a indústria (EVANGELISTA, 2005). DicaNo caso de produtos cárneos fermentados, essas substâncias produzidas, normalmente ácidos, acabam produzindo alterações positivas nas características sensoriais nos produtos, além de, normalmente, auxiliarem na sua preservação. Assim, em relação às características sensoriais, os produtos fermentados nor- malmente apresentam sabor ácido, forte e picante, resultado da associação entre a baixa quantidade de água e a presença de ácido lático, que conferem ao produto um sabor agradável. Normalmente, a textura desses produtos é bastan- te firme no produto final, entre 5,8 a 6,0, e com atividade de água que normal- mente varia entre 0,88 a 0,90 (BRESSAN; PEREZ, 2000). De acordo com Fellows (2006), as principais vantagens da fermentação como método de processamento de alimentos são: 213Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 212 O uso de condições brandas de pH e temperatura que mantém (e geralmente me- lhoram) as propriedades nutricionais e as características sensoriais dos alimentos; A produção de alimentos que possuem aroma e textura que não podem ser obtidos por outros métodos; O baixo consumo de energia devido às condições de operação brandas; Custo de investimento e operação relativamente baixos; Tecnologias relativamente simples. Historicamente, a inoculação das carnes era feita de forma casual, ou seja, a origem dos microrganismos que fermentavam a carne era a própria carne (aqueles que já estavam naturalmente presentes ali) ou no ambiente ao redor. Era uma prática perigosa e de resultados imprevisíveis. Quando um lote de produto alcançava uma qualidade aceitável, utilizavam-se porções deste para inocular lotes sucessivos. Essa técnica comumente apresentava defeitos já que, depois de algum tempo, os microrganismos podiam alterar-se simplesmente por mutação e, como resultado direto, modificar as características do produto final (PRICE; SCHWEIGERT, 1994). Atualmente, de maneira geral, para a fabricação de embutidos fermentados, empregam-se processos tecnológicos que compreendem uma moagem de carne e toucinho crus, com combinações variáveis de aditivos (especiarias, aro- matizantes, agentes de cura, sal, açúcar e culturas microbianas – starter), com granulometria de massa que pode variar de grossa a fina, submetido à matura- ção posterior em condições controladas de temperatura e umidade relativa do ar, que podem ou não sofrer defumação (BRESSAN; PEREZ, 2000). Dica Ao contrário do que ocorria antigamente, as culturas utilizadas na fermentação também são controladas: elas são selecionadas e intencionalmente adicionadas com o objetivo principal de promover as características desejadas no produto final. Dentre os produtos fermentados produzidos, conforme descrito no parágrafo anterior, pode-se citar uma gama de produtos. No entanto, vamos falar sobre um item específico para ilustrar esta categoria: Salame tipo Italiano. 2143 Salame De acordo com a Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000), entende- se por Salame tipo Italiano o produto cárneo industrializado, elaborado de carnes suínas ou suínas e bovinas, toucinho, adicionado de ingredientes, moídos em granulometria entre 6 e 9 mm, embutido em envoltórios naturais ou artificiais, curado, defumado ou não, fermentado, maturado e dessecado. A presença de “mofos” característicos é decorrente do seu processo de fabricação. Em relação à classificação, trata-se de um produto cru, curado, fermentado, maturado e dessecado. Assim como os demais produtos que você estudou até agora, a legislação tam- bém estabelece para o salame tipo Italiano alguns parâmetros físico-químicos que devem ser controlados no produto final, de modo que seja garantido o padrão de qualidade e identidade do produto de acordo com o que você vê no Quadro 22. Parâmetros Resultados Atividade de água (aw) 0,90 Umidade 35% Gordura 32% Proteína 25% Carboidratos totais 4% Quadro 22: Parâmetros físico-químicos para o produto salame tipo Italiano, conforme a Instrução Nor- mativa nº 22 (2000) Fonte: Instrução Normativa nº 22 (BRASIL, 2000) Como você pode observar, de acordo com a definição da Instrução Normativa, o salame passa por uma etapa de cura além da fermentação. No entanto, nesse caso, daremos ênfase à sua característica de produto fermentado, para come- çarmos nossa conversa sobre o processo de fabricação. Processo de fabricação de salame Para compreender melhor o processo de fabricação do produto fermentado salame tipo Italiano, veja, na Figura 64, o fluxograma com o detalhamento das principais etapas desse processo. 215Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 214 Figura 64 - Fluxograma de fabricação do produto fermentado salame tipo Italiano Fonte: Adaptado de Terra (2004) As primeiras etapas envolvidas no processo de fabricação do salame são a seleção e a pesagem das matérias-primas e dos ingredientes. Depois, as maté- rias-primas selecionadas e pesadas anteriormente, que são carnes e a gordura, passam pelo processo de moagem, sendo então transferidas para a misturadei- ra onde será iniciada a adição dos ingredientes e aditivos. Essa etapa de mistura deve ser realizada de maneira intensa visando à extração das proteínas miofibri- lares, de forma a garantir a liga adequada da massa cárnea. Paralelamente à mistura da massa, pode-se realizar o “preparo” da cultura starter, adicionando-se água não clorada antes da mistura na massa. Isso porque, como as culturas são comercializadas na forma liofilizada, vão necessitar dessa umida- de para realizar o “crescimento inicial”, para começarem sua atividade.Depois, a cultura starter pode, então, ser adicionada à massa e homogeneizada com ela. 2163 Dica Os starters, cultivos iniciadores, são culturas puras de microrganismos que asseguram a qualidade e a segurança de produtos cárneos fermentados, possuindo propriedades que visam à inocuidade do produto final, tais como: não produzir toxinas, não serem patogênicos, serem competitivos frente a microrganismos indesejáveis e possuírem atividade enzimática condizente. A aplicação das culturas starters é essencial para que a garantia da fabricação de produtos com as características de qualidade desejadas e sempre padroni- zadas. Além disso, assegura o controle microbiológico, já que se trata de mi- crorganismos previamente selecionados que, além de conferir as características desejadas no produto final, normalmente auxiliam no controle de microrganis- mos deteriorantes e patogênicos. No Quadro 23, você pode ver os principais microrganismos utilizados como culturas iniciadoras na fermentação de salame. Grupo Microrganismo Bactérias ácido-láticas Pediocccus acidilactici Pediocccus pentosaceus Lactobacillus plantarum Lactobacillus sake Lactobacillus curvatus Lactobacillus pentosus Microccaceae Micrococcus varians Staphylococcus carnosus Staphylococcus xylosus Streptomycetes Streptomyces griséus Leveduras Debaromyces hansenii Cândida famata Mofos Penicillium nalgiovense Penicillium crysogenum Quadro 23: Componentes das culturas starter para a fermentação cárnea Fonte: Bressan e Perez (2000) 217Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 216 Entre as culturas citadas, sabe-se que cada grupo apresenta uma função espe- cífica. O primeiro grupo, formado pelas bactérias ácido-láticas, é responsável, principalmente, pelo processo de acidificação. A acidificação é fundamental por impedir o desenvolvimento dos microrganismos considerados indesejáveis, me- lhora a coloração, acelera a desidratação e confere o sabor ácido dos produtos cárneos fermentados. Já o segundo, formado pelos demais, é responsável por conferir as características flavorizantes do produto (TERRA, 1998). De uma forma simples, pode-se dizer que a fabricação do salame ocorre em duas etapas distintas: Em uma etapa inicial, ocorre a fermentação com o desenvolvimento das características sensoriais do salame; Em uma etapa final, ocorre a desidratação que, além de reforçar algumas propriedades sápidas, reduz a atividade de água a níveis insuportáveis aos microrganismos responsáveis pela deterioração do produto (TERRA, 1998). Assim, após a mistura das culturas iniciadoras a massa, o produto já pode ser embutido, em tripas naturais ou artificiais. Depois, é encaminhado para a etapa de defumação. É importante que as temperaturas no fumeiro não ultrapassem os 30 °C para não ocorrer a inativação de nenhum dos microrganismos respon- sáveis pela fermentação do produto, que está sendo realizada. Essa fermenta- ção se mantém durante a defumação e continua em parte da próxima etapa, quando os produtos são transferidos para as câmaras de maturação, onde será realizada a secagem do produto. A velocidade da fermentação é controlada essencialmente por temperatura, umidade relativa da câmara e disponibilidade de açucares fermentáveis. Como as bactérias necessitam de água para crescer, na etapa de fermentação, utili- zam-se alta umidade relativa (entre 90-95%) e temperaturas próximas às óti- mas de crescimento das bactérias inoculadas. Para diferentes tipos de salames, empregam-se ciclos distintos de temperaturas, geralmente na faixa de 18 °C a 24 °C, embora a mais usada seja entre 20 °C e 24 °C. O controle desses parâ- metros permite o controle da taxa de abaixamento do pH, que é crítica para a qualidade final dos embutidos fermentados. O abaixamento muito rápido de pH pode inibir a ação dos estafilococos, que só crescem a pHs acima de 5,4. Por outro lado, se o abaixamento do pH for muito lento, pode permitir o crescimen- to de microrganismos deteriorantes (BERAQUET, 2010). Nas câmaras de maturação, por sua vez, os produtos serão mantidos sob tem- peratura, umidade e velocidade do ar controladas, para que sequem lentamen- te, assegurando o desenvolvimento das características desejadas. Normalmente, os produtos podem permanecer nessa etapa de secagem por períodos de até 30 dias ou até que seja atingida a atividade de água desejada. 2183 No Quadro 24, você pode visualizar a evolução dos parâmetros de temperatura, umidade relativa e velocidade do ar recomendados ao longo do processo de secagem do salame. Tempo UR ( % ) Temperatura ( ºC ) Velocidade do ar (m/s) 1o dia 95 25 0,5 2o dia 93 24 0,5 3o dia 90 23 0,5 4o dia 85 22 0,5 5o dia 80 21 0,5 6o dia 75 20 0,5 7o dia 75 18 0,2 ... ... ... ... 30o dia 75 18 0,2 Quadro 24: Parâmetros de temperatura, umidade relativa e velocidade do ar, ao longo do processo de secagem de salame Fonte: Terra (1998) Atenção Um dos defeitos bem frequentes que pode ser observado em salames ocorre justamente na etapa de secagem, devido à falta de controle sobre os parâmetros mostrados no quadro. Por exemplo, caso a velocidade de circulação do ar no interior da sala seja mantida acima do recomendado, pode ocorrer uma excessiva desidratação da superfície da peça, o que acaba impedindo a saída de água do interior do produto, o que pode favorecer, até mesmo, o desenvolvimento de processos fermentativos indesejáveis no produto, devido à alta atividade de água verificada. No entanto, sendo verificada a finalização da etapa de secagem, atingida a atividade de água desejada, o processo é considerado finalizado. As peças de salame são, en- tão, lavadas, remove-se a tripa e embala-se o produto para posterior comercialização. 219Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 218 Nesta aula, você estudou as particularidades dos produtos cárneos fermenta- dos. Como exemplo, você viu o processo de fabricação do salame. Na próxima aula, você estudará o processo de fabricação de empanados. Aula 9: Produtos cárneos empanados Nesta aula, você estudará os processos e as exigências para a fabricação de produtos cárneos empanados. A cobertura de produtos vegetais, marinhos e animais com trigo, ovos, leite e farinha de pão antes da fritura é uma prática antiga e comum, realizada em casa ou em pequenos estabelecimentos comerciais. As receitas caseiras evoluíram para sistemas de cobertura industrial, impulsionadas, principalmente, pelo uso nos cardápios de grandes restaurantes. Atualmente, os produtos empanados tornaram-se um sucesso comercial, principalmente pela sua conveniência no preparo e a grande diversidade de novos sabores e texturas disponíveis que aumentam cada vez mais sua popularidade (OLIVO, 2006). De acordo com a Instrução Normativa nº 6, de 15 de fevereiro de 2001, entende-se por empanado o produto cárneo industrializado, obtido a partir de carnes de diferentes espécies de animais de açougue, acrescido de ingredientes, moldado ou não, e revestido de cobertura apropriada que o caracterize. Em relação a sua classificação, trata-se de um produto que pode ser cru, semicozido, semifrito, frito ou ainda submetido a outros processos térmicos. Também é permitida a utilização de recheios. No Quadro 25, você pode ver as exigências feitas pela Instrução Normativa nº 6 em relação às características físico-químicas dos produtos empanados. 2203 Parâmetros Resultados Carboidratos Totais Máx. 30% Proteína Mín. 10% Quadro 25: Características físico-químicas para os produtos classificados dentro da classe “empanados” Fonte: Brasil (2001) Processo de fabricação de empanados Para compreender melhor o processo de fabricação de produtos empanados, veja, na Figura 65, o fluxograma com o detalhamento das principais etapas desse processo. Figura 65 - Fluxograma de fabricação de produtos cárneos empanados Fonte: Adaptado de Olivo (2006) Antes da realização da primeira etapa do fluxograma, é preciso que se defina em que tipo de base cárnea será aplicada a cobertura de empanamento. Normalmente, utilizam-se músculos íntegros que tenham passado por uma etapa prévia de adição ou mistura de aditivos e condimentos, visando à sua conservação, por meio de processos de injeção e/ou massageamento; ou então produtos formados (aqueles que você estudou na Aula 4 desta unidade), que são os produtos empanados encontrados em maior quantidade no mercado. 221Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 220 Após definida e preparada a base cárnea, pode-se passar então para o processo de empanamento propriamente dito, com a aplicação da cobertura. Os sistemas de empanamento ou coberturas tradicionais são compostos de pré- enfarinhamento (pré-dust), líquido de empanamento (batido ou Batters®) e fari- nhas de cobertura (farinhas de pão ou rosca ou Breaders®). A ordem de adição e utilização dos componentes pode variar. Nem sempre ocorre nessa ordem e nem sempre utiliza todos esses componentes. Os sistemas podem ser combinados de diferentes formas, e cada composto confere determinada funcionalidade (OLIVO, 2006). No entanto, nesse caso, consideremos um sistema de cobertura que tenha a aplicação de pré-dust, Batter® e Breader®, seguindo esta sequência. Assim, a primeira etapa do empanamento começa com a passagem do produto pelo pré-enfarinhamento. Os sistemas de empanamento usados industrialmente são, normalmente, linhas contínuas, o que permite a realização de produções em larga escala. Dessa maneira, o substrato (base cárnea) é conduzido em uma esteira rolante por meio de um berço, que contém a farinha fina para a realização do pré- enfarinhamento. Esta é a primeira camada do sistema de cobertura e tem como principais funções: facilitar a ligação entre o substrato e a próxima etapa da cobertura, líquida, e absorver grande parte da umidade superficial do substrato. Assim, a fase seguinte do processo de empanamento consiste na aplicação de uma cobertura líquida, o Batter®. Essa aplicação pode ocorrer de forma ma- nual, mas, de uma maneira geral,conforme já falado, nas produções em larga escala, ocorre com o auxílio de equipamentos chamados aplicadores de cober- tura. Esses aplicadores são, normalmente, do tipo imersão, ou seja, o alimento “mergulha” no líquido, sendo conduzido por uma esteira transportadora de aço inoxidável, mantida abaixo da superfície por uma outra esteira de malha. O excesso de cobertura pode, opcionalmente, ser removido por lâminas de ar. Para que se consiga alcançar bons resultados nessa etapa, os Batters® devem apresentar as seguintes características: Miscibilidade, ou seja, capacidade dos sólidos se misturarem facilmente com a água; Homogeneidade, ou não separação, uma vez que o Batter® é misturado; Viscosidade apropriada para a aplicação; Capacidade de envolver completamente o produto alimentício; Capacidade de permitir que a camada externa de farinha se adéque e se ajuste ao Batter®, gerando um produto totalmente coberto. 2223 Após a aplicação dessa camada, o produto está pronto para receber a últi- ma camada do empanamento. Esses equipamentos consistem em um tanque alimentador que possui uma peneira na base, localizada sobre uma esteira transportadora. A peneira é trocada conforme os diferentes tipos de farinha, temperos, aromatizantes etc. No empanamento, os alimentos cobertos pela ca- mada líquida aplicada anteriormente passam sobre uma esteira transportadora de aço inoxidável, por meio de um leito de farinha para cobrir a base e, depois, por uma cortina de farinha para cobrir a parte superior. O excesso de cobertura é coletado e conduzido de volta para o alimentador por um helicoide ou um elevador (FELLOWS, 2006). A Figura 66 apresenta a imagem de uma empanadeira, ou seja, o equipamento no qual se faz a aplicação do sistema de cobertura. Figura 66 - Equipamento para aplicação do sistema de cobertura de produtos empanados – empana- deira A maior parte das coberturas pode ser recirculada, mas é necessário cuidado ao se manusear principalmente a farinha de granulometria maior, a fim de se evi- tarem danos e alterações no tamanho médio das partículas, já que isso afetará diretamente as características de qualidade do produto. Após receber o empanamento, o produto ainda pode ser pressionado entre rolos batedores para compactar a farinha de modo a formar uma forte liga. Também, de maneira opcional, pode-se remover o excesso de farinha com a aplicação de lâminas de ar e reutilizá-la. 223Unidade 5 Tecnologia de Carnes e Derivados 222 Após a aplicação do sistema de cobertura, os produtos podem, opcionalmente, passar pelas etapas de pré-fritura ou fritura e cozimento. Essas etapas, além de auxiliarem no desenvolvimento de cor e sabor mais atraentes ao consumidor, também garantem a fabricação de um produto mais seguro do ponto de vista microbiológico, devido à utilização de altas temperaturas. Em seguida, as peças empanadas devem passar por processo de congelamen- to individual, para então receberem embalagem primária e secundária e serem disponibilizadas para comercialização. Nesta aula, você estudou os processos e as exigências para a fabricação de pro- dutos cárneos empanados. Colocando em Prática Parabéns! Você finalizou a Unidade 5 deste curso. Para fixar o que você aprendeu até aqui, realize as atividades de aprendizagem que estão no ambiente virtual. Relembrando Nesta unidade, você estudou diversas classes de produtos cárneos in- dustrializados e seus respectivos processos de fabricação. Dentro de cada classe, você viu exemplos de alguns produtos e seus respectivos padrões de Identidade e Qualidade, que são aspectos legais que devem ser atendidos no processo de industrialização. Você viu também os fluxogramas de obtenção dos produtos, bem como os aspectos mais importantes envolvidos nesses processos. Saiba Mais Para ver a legislação completa sobre o Regulamento Técnico de Iden- tidade e Qualidade de CMS, salsicha, mortadelas e linguiças, acesse a Instrução Normativa nº 4 em <www.agricultura.gov.br>, nos links Legis- lação e Sistema de consulta a Legislação (SISLEGIS). 2243 Alongue-se Antes de você seguir para a próxima etapa de seus estudos, descanse um pouco. Mude de posição, caminhe um pouco, respire profundamen- te. Com os punhos fechados, faça movimentos rotatórios para ambos os lados. Depois, abra as mãos, movimente os dedos e solte um pouco os braços ao longo do corpo, relaxando os ombros. Quando se sentir pronto, concentre-se novamente e volte aos estudos. 225 2 2 2 22 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 44 4 44 4 4 Objetivos de Aprendizagem Ao final desta unidade, o aluno terá subsídios para: Conhecer os materiais utilizados para elabo- ração de embalagens para produtos cárneos; Analisar as interações que podem ocorrer entre embalagens e produtos cárneos. Aulas Acompanhe nesta unidade o estudo das aulas seguintes: Aula 1: Características gerais das embalagens Aula 2: Tipos de materiais e suas funções 6Embalagens e Envoltórios 2263 Para Iniciar Seja bem-vindo à Unidade 6 deste curso, que trata de embalagens e envoltórios. A embalagem proporciona uma barreira entre o alimento e o ambiente. Sua escolha deve considerar dois pontos importantes: o tecnológico e o de saúde pública. Vale salientar que a preferência do consumidor é um fator que se destaca na escolha da embalagem. Atualmente, existe uma grande variedade de materiais empregados na indústria de embalagens para alimentos, especialmente produtos cárneos frescos, processados e congelados. Contudo, as embalagens plásticas flexíveis são as mais utilizadas pelas indústrias frigoríficas para o envase e a conservação de produtos cárneos frescos e curados. As vantagens de sua aplicação estão na flexibilidade de adaptação às linhas de produção e aos diferentes tipos de produto, facilidade no manuseio, transporte e proteção do alimento, conservando as caracte- rísticas apreciadas pelo consumidor. A aula a seguir contempla características dos diversos tipos de embala- gens que podem ser utilizadas em produtos cárneos, para deixá-lo mais atrativo ao consumidor. Bom estudo! Aula 1: Características gerais das embalagens Nesta aula, você aprenderá sobre as funções das embalagens para produtos cárneos, os fatores que influenciam no êxito da embalagem, verá quais são os materiais utilizados e estudará métodos de fabricação de embalagens. A primeira e mais importante função de uma embalagem é proteger o produto e preservar sua qualidade. A embalagem pode ser definida em termos de seu papel protetor “como sendo o meio de se obter a distribuição segura de produtos em condições adequadas para o consumidor final com o menor custo” ou “como uma função técnica eco- 227Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 226 nômica para a otimização dos custos de distribuição de mercadorias enquanto maximiza vendas e lucros”. Veja, a seguir, as principais funções de uma embalagem: Contenção: conter os produtos e mantê-los seguros até serem consumidos. Proteção: contra riscos mecânicos e ambientais encontrados durante a distri- buição e o uso. Comunicação: para identificar os conteúdos e auxiliar na venda do produto. Algumas embalagens fornecem informações ao usuário sobre o modo de aber- tura e/ou uso dos conteúdos. Maquinabilidade: para alcançar um bom desempenho em linhas de produção de alta velocidade de enchimento, fechamento e verificação, sem muitas paradas de processo. Conveniência: ao longo de todo o sistema de produção, estocagem e distribui- ção, incluindo a abertura fácil, o descarte e/ou pós-uso de recipientes no varejo. Atenção A embalagem deve ser esteticamente agradável, ter tamanho e formas funcionais, reter o alimento de modo conveniente para o consumidor, sem vazamentos,abrir com facilidade e fechar com segurança, além de propiciar descarte, reciclagem ou reutilização fácil. O design de uma embalagem deve atender as exigências legais com relação à rotulagem dos alimentos. Os principais fatores que influenciam no sucesso de uma embalagem e na pro- paganda de um produto são: Destaque; Identificação do conteúdo; Identidade visual; Distinção; Adaptabilidade; Adequabilidade; Atendimento à legislação. 2283 Um requisito importante na seleção de embalagem para alimentos é a escolha da barreira do material. Para manter o alimento fresco e crocante, a embalagem deve prover barreira à umidade. A vida de prateleira de alimentos embalados, segundo Fellows (2006), é controlada pelas suas propriedades (incluindo a atividade de água, o pH, a suscetibilidade a enzimas ou microrganismos e os requerimentos de oxigênio, luz, dióxido de carbono e umidade ou sensibilidade a esses elementos) e pelas propriedades de barreira da embalagem. A rancificação dos produtos cárneos pode ser minimizada pelo uso de embala- gens que tenham uma boa barreira ao oxigênio e à luz. O sabor original do ali- mento pode ser mantido pelo uso de uma embalagem que ofereça boa barreira a aromas. Sistemas de embalagens, portanto, quando bem projetados podem estender a vida útil do alimento embalado (OLIVEIRA, 2006). Atualmente, as embalagens de vidro e metal utilizadas para alimentos e bebidas estão sendo substituídas por embalagens plásticas por diversas vantagens: o baixo custo; o menor peso; a maior dificuldade de quebrar ou de afetar o produto pelo próprio material; o menor custo energético (são favoráveis ao meio ambiente); a transparência, que permite a visualização do alimento; a flexibilidade; a aprovação para o contato direto com o alimento; a possibilidade de serem aquecidas em micro-ondas. Além dessas facilidades, as embalagens plásticas possuem métodos de fabricação cada vez mais difundidos e conhecidos que estão constantemente evoluindo em novos materiais, propriedades e aplicações, com custos cada vez menores: a extrusão plana ou em balão de filmes; a coextrusão; a injeção e a coinjeção em moldes; a termoformação; a selagem por ultrassom ou alta frequência; a rotomoldagem; etc. 229Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 228 A escolha da embalagem para alimentos deve levar em consideração dois fatores: Tecnológico: deve-se avaliar a embalagem em função de fatores como resistência mecânica ao empilhamento, ao transporte, ao manuseio e durante a estocagem. Saúde pública: o aspecto mais relevante da embalagem é o de proteção do alimento (contra insetos, roedores, microrganismos e fatores ambientais). De acordo com Camargo (1984), a preferência do consumidor é um fator que se destaca na escolha da embalagem. Ele prefere embalagens que proporcionem: Facilidade de abertura e refechamento (produto que não é utilizado de uma vez só); Facilidade do transporte do ponto de venda até o local de consumo (peso, presença de alças ou outros dispositivos para carregar); Possibilidade de reaproveitamento para uso doméstico e boa apresentação do produto. Hoje em dia, existe grande variedade de materiais empregados na indústria de embalagens para alimentos, especialmente produtos cárneos frescos, processa- dos e congelados. Contudo, as embalagens plásticas flexíveis são as mais uti- lizadas pelas indústrias frigoríficas para o envase e a conservação de produtos cárneos frescos e curados. As vantagens de sua aplicação estão na flexibilidade de adaptação às linhas de produção e aos diferentes tipos de produto, facilida- de no manuseio, transporte e proteção do alimento, conservando as caracte- rísticas apreciadas pelo consumidor. A embalagem imprime vida na relação do consumidor com o produto (OLIVEIRA, 2006). Nesta aula, você aprendeu as funções das embalagens para produtos cárneos, os fatores que influenciam no êxito da embalagem, os materiais utilizados e os métodos de fabricação de embalagens. Na próxima aula, você vai estudar os materiais que podem ser utilizados na elaboração de uma embalagem para pro- duto cárneo, aprenderá os processos de produção das embalagens e conhecerá os polímeros que podem ser usados na confecção de embalagens flexíveis. 2303 Aula 2: Tipos de materiais e suas funções Nesta aula, você vai estudar os materiais que podem ser utilizados para elabora- ção de uma embalagem para produto cárneo: metais e filmes flexíveis. Além disso, aprenderá os processos de produção das embalagens e conhecerá os polímeros que podem ser usados na confecção de embalagens flexíveis. Depois, você ainda verá outros sistemas de embalagens e outros aspectos relevantes sobre embalagens. Os materiais que podem ser utilizados para a embalagem de produtos cárneos são o metal e filmes flexíveis. A seguir, veja detalhes de cada um deles. Metais Latas de metal hermeticamente fechadas podem suportar altas e baixas temperaturas de processamento. Elas são impermeáveis à luz, à umidade, aos odores e aos micror- ganismos, conferindo total proteção aos seus conteúdos. São inerentemente à prova de adulterações e o aço pode ser reciclado por extração de resíduos sólidos. Quando litografadas, as latas possuem excelente qualidade gráfica, que com- pensa a não visualização do produto. Entretanto, o alto custo do metal e os custos de fabricação as tornam relativamente caras. Elas são mais pesadas que outros materiais, exceto o vidro, gerando, portanto, custos mais altos de trans- porte (BOBBIO; BOBBIO, 1992). A lata é uma embalagem rígida, constituída tradicionalmente de uma folha de flandres, revestida por estanho, podendo ter uma camada de verniz par dar maior proteção ao conteúdo. O estanho pode ser coberto com diversos tipos de verniz para evitar interações com os alimentos. O verniz tem por finalidade, ainda, preservar a aparência do alimento, melhorar a aparência interna e externa da embalagem, aumentar o tempo de prateleira do produto e diminuir o custo da embalagem. 231Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 230 Veja alguns tipos verniz: Compostos epoxifenólicos; Vernizes fenólicos; Vernizes epóxi-amino; Vernizes oleorresinosos. O alumínio também é um metal bastante utilizado na fabricação de embala- gens. Uma desvantagem potencial deste é a incompatibilidade, amplamente divulgada, para o uso em micro-ondas. Filmes flexíveis As embalagens plásticas flexíveis descrevem qualquer material que não seja rí- gido. Elas são elaboradas com filmes plásticos que possuem menos de 0,25 mm de espessura e as seguintes características: custo relativamente baixo; podem ser produzidos com diversos tipos de barreira contra umidade e gases; são seláveis a quente para evitar o vazamento de conteúdo; são adequados para envase em alta velocidade; suportam tensão úmida e seca e possuem resistência a impactos; são fáceis de manusear e imprimir; adicionam pouco peso ao produto; moldam-se ao formato do alimento, economizando espaço durante a esto- cagem e a distribuição. Dica O plástico vem das resinas derivadas do petróleo e pode ser moldado de várias formas, sem se quebrar. Pertence ao grupo dos polímeros, moléculas muito grandes, com características especiais e variadas. Os tipos mais importantes de filmes para embalagens de carnes e seus deriva- dos estão descritos a seguir: Polietileno tereftalato (PET); Polietileno de alta densidade (PEAD); 2323 Cloreto de polivinila (PVC); Cloreto de polivinilideno; Resinas de alta nitrila. Os filmes podem ser revestidos com outros polímeros ou com alumínio para me- lhorar as propriedades de barreira ou para permitiro fechamento pelo calor. Clore- to de vinila ou acetato de vinila conferem um filme mais forte com permeabilidade intermediária. São resistentes, esticáveis, permeáveis ao ar, à fumaça e à umidade, por isso são usadas para embalar carnes antes da defumação e do cozimento. Segundo Roman (1997), as propriedades do filme são afetadas por fatores como: Tipo da resina: Peso molecular; Aditivos. Condições do processamento: Taxa de resfriamento ; Estiramento. Construção da estrutura do filme: Espessura das camadas; Posição da camada em estruturas multicamadas. Meio ambiente: Temperatura; Umidade. As embalagens plásticas flexíveis podem ser monocamadas ou multicamadas. 233Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 232 Veja a definição desses tipos de embalagem: Monocamadas: embalagens compostas por somente um tipo de material im- presso, desempenhando apenas uma função. Multicamadas: constituem embalagens compostas por dois ou mais tipos de materiais. Elas têm por objetivo a integração de propriedades de diferentes ma- teriais termoplásticos em uma única embalagem de modo a atender exigências visuais, de conservação, proteção e custo. As embalagens multicamadas têm encontrado excelente mercado na indústria de carnes e derivados em razão da sua potencialidade de conjugar proprieda- des como transparência ou opacidade, resistência mecânica, rigidez ou flexibili- dade, como também barreira contra gases e umidade (MERGEN, 2004). A composição das camadas varia de acordo com o tipo de produto a ser embalado, necessidade de barreira e custo de material, bem como das combinações de pro- priedades e do nível de eficiência desejados. A utilização dessas embalagens mul- ticamadas pela indústria alimentícia também é consequência da possibilidade de produzir embalagens eficientes com o mínimo de material e com menores pesos. Dica Todos os plásticos de embalagem podem ser reaproveitados para produção de utensílios como tubos, suportes de canetas, baldes, recipientes, contentores e outros, e podem ainda ser incinerados tendo em vista o aproveitamento do seu valor energético. É importante, no entanto, salientar que, devido às migrações, os produtos alimentares não devem ser embalados em plástico reciclado. Processos de produção das embalagens A seguir, você verá as etapas que compreendem o processo de elaboração de uma embalagem flexível. A cadeia produtiva de produtos plásticos tem início na utilização das matérias- primas nafta ou gás natural para a obtenção dos produtos petroquímicos bási- cos. Os produtos petroquímicos básicos, provenientes da primeira geração, são transferidos para as empresas da segunda geração, as quais irão transformá-los em resinas plásticas. Essas resinas são transformadas em plásticos, em geral, por processos de extrusão, coextrusão, injeção, sopro e outros, resultando em uma grande diversidade de produtos que atendem aos mais diversos setores da economia (PADILHA; BOMTEMPO, 1999). 2343 Veja, a seguir, os processos pelos quais as resinas passam para serem transformadas em plásticos: extrusão, coextrusão, termoformagem, calandragem, sopro e injeção. Extrusão Consiste no processo de transformar grãos e pós poliméricos em filmes. É emprega- do tanto na elaboração de filmes monocamadas como em estruturas multicamadas. A indústria que elabora filmes plásticos extrusados utiliza dois processos: extrusão por sistema balão e sistema de extrusão plana. Em ambos os sistemas, pellets do po- límero são fundidos e extrusados sob pressão como uma lâmina ou um tubo. Desta forma, a extrusão transforma termoplásticos a partir da fusão e homogeneiza- ção do material a uma dada vazão, pressão e temperatura (BRETAS; D’ÁVILA; 2000). O processo de transformação consiste em empurrar o material a ser moldado por meio de uma matriz de extrusão, onde serão misturados conforme o produto final a ser fabricado e colocados na extrusora que vai empurrá-los até a matriz de extru- são. A extrusora possui uma entrada de material chamada de funil de alimentação, vindo em seguida um corpo formado por um cilindro, dentro do qual gira um para- fuso sem fim e uma cabeça que serve de suporte para a matriz de extrusão. As resinas que constituirão a embalagem estão inicialmente na forma de grânulos sólidos, sendo transformadas em filme pela passagem em equipamento de extrusão. De acordo com Roman (1997), o polímero a ser moldado, ainda na forma de grãos ou pó, é alimentado por um funil para um barril aquecido, onde o mate- rial é fundido e bombeado para dentro de uma matriz pelo movimento de rota- ção de um parafuso ou rosca sem fim. A extrusora proporciona a energia tér- mica necessária para fundir o polímero por cisalhamento, e é responsável pela mistura e homogeneização do material fundido. Este processo é empregado não apenas na fabricação de filmes, mas também na cobertura de fios elétricos, na fiação de fibras, na produção de chapas, tubos, entre outros. A realização de aquecimento é feita pela extrusora por meio de resistências elétricas, e o controle da temperatura, por termopares ou termoelementos (ROMAN, 1997). A rosca ou o parafuso que transporta o material é constituído fundamental- mente por três zonas: 1 Alimentação, geralmente constituída de canais profundos; o material nesta região não estará totalmente fundido. 2 Compressão, transição ou plastificação: onde ocorre a maior parte da fusão do polímero; a menor profundidade dos canais provoca o cisalhamento da resina. 235Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 234 3 Dosagem, dosificação ou bombeamento: possui canais rasos para homogenei- zar e transportar o material fundido com pressão e vazão uniforme para a matriz. Na seção dianteira do cilindro, instala-se uma placa perfurada que sustenta um conjunto de telas de aço, impedindo a passagem de contaminantes da resina para a matriz e criando uma contrapressão no fluxo de material fundido, melho- rando a plastificação e a homogeneização da massa de polímero (ROMAN, 1997). Depois de passar pelas telas, a massa do fundido atravessa a matriz, solidificando- se. Ar é soprado para dentro do balão para, juntamente com os rolos puxadores, manter a pressão interna e o diâmetro que definem a espessura do filme. Nesses rolos puxadores, o filme recebe o tratamento corona, que consiste em uma descar- ga de alta frequência, na ordem de 3,0 Khz ou mais e alta voltagem sobre o filme. Essa descarga produz ozônio e óxidos de nitrogênio, oxidantes fortes com odor bem característico que, em contato com a superfície do filme, a torna polarizada pela formação de radicais orgânicos chamados carbonila e carboxila, bastante com- patíveis com as tintas de impressão e os adesivos (ROMAN, 1997). Em bobinas, os filmes são deixados em um depósito por no mínimo cinco dias até serem impressos e finalmente cortados e selados, dando forma à emba- lagem. Esse tempo em que as bobinas aguardam o acabamento é necessário, principalmente nesse tipo de material, para se obter a cura do filme, ou seja, a acomodação dimensional e o alívio das tensões adquiridas durante a fusão, o resfriamento e o estiramento no processo de extrusão. Finalmente, as bobinas passam pela fase de acabamento, na qual são cortadas e seladas nas dimensões projetadas para a embalagem. Coextrusão Nesse processo, cada material é plastificado em uma extrusora específica, a qual homoge- niza os materiais individualmente e os introduz em um único cabeçote que recebe todos os materiais, os quais sairão juntos da matriz em multicamadas. Esse processo possibilita a combinação de diversas propriedades de vários polímeros em uma mesma estrutura. Se irregularidades ocorrem nas camadas dos filmes multicamadas, fissuras podem ocorrer durante o ciclo de formação. Para garantir a uniãoentre as ca- madas do filme e a eficiência da força de colagem, uma excelente combinação de viscosidades entre a resina adesiva e as outras resinas que fazem parte da estrutura multicamada é recomendada (EVAL AMERICAS, 2000). 2363 A coextrusão permite otimizar as características dos polímeros mais caros, minimizando a quantidade necessária para desenvolver finalidades específicas de selagem, aderência, rigidez, resistência ao impacto, rasgo, perfuração, brilho, entre outras, em comparação com um filme monocamada onde os componen- tes estão misturados (MARTÍNEZ; ARROYO, 1998). No processo de coextrusão, a resina termoplástica é introduzida em um cilin- dro aquecido e o material plástico amolecido é forçado, por um veio roscado ou parafuso rotativo, a entrar por meio de uma abertura em uma matriz, para a obtenção de formas contínuas. Depois de sair do molde, a peça extrusada deve ser resfriada abaixo da temperatura de transição vítrea do material, de modo a assegurar a estabilidade dimensional requerida. O resfriamento é geralmente realizado com jato de ar ou com água (SMITH, 1998). Dica A temperatura de transição vítrea, cuja abreviação é Tg, é definida como a temperatura que separa o comportamento sólido do comportamento líquido em um sólido amorfo como o vidro. Uma maneira simples de se formar filmes poliméricos é pelo sistema cast de extrusão. Neste sistema, a resina fundida é expulsa por meio de uma matriz linear plana, formando uma folha polimérica larga e fina, a qual é então molda- da por rolos frios e altamente lustrados. A refrigeração é dada a partir dos centros dos rolos, conforme demonstrado na Figura 67 (a). Se múltiplas extru- soras são utilizadas, diversos extrusados de diversos tipos de materiais polimé- ricos podem ser simultaneamente alimentados por meio do bloco da matriz plana, formando assim uma coextrusão em sistema cast, cujo modelo pode ser ilustrado na Figura 67 (b) (PROGELHOF; THRONE, 1993). Figura 67 - Sistema de extrusão cast: (a): A: extrusora, B: matriz plana, C: resfriamento, D: acabamento final, (b): A, B, C: múltiplas camadas Fonte: Progelhof e Throne (1993) 237Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 236 Termoformagem Termoformagem é um método de formação de folhas ou filmes plásticos para utilização em embalagens por meio da utilização de um molde. O processo de termoformagem tem três etapas básicas: aquecimento, formação, e corte do filme (XU; KAZMER, 2001). O tipo de termoformagem deve ser considerado para a escolha dos materiais poliméricos a serem utilizados, sendo que existem basicamente dois tipos de termoformagem: a formação por pressão em fase sólida (Solid Phase Pressure Forming – SPPF), em que o material é formado em temperatura abaixo do seu ponto de amolecimento, resultando em alto grau de orientação, aumento de propriedades mecânicas e tendência de ocorrência de estiramento; e a forma- ção na fase de amolecimento (Melt Phase Forming – MPF), em que o material é formado em temperatura acima do seu ponto de amolecimento cristalino, resul- tando em baixa orientação e estiramento, possibilidade de queda da taxa de moldagem e dificuldade de formação (EVAL AMERICAS, 2000). Os filmes termoformados são utilizados para diversos tipos de produtos alimen- tícios, principalmente em função da relativa facilidade de utilização em linha de produção industrial (termoformagem, enchimento e selagem). O filme coextrusado pode ser fornecido diretamente da coextrusora ao equi- pamento de termoformagem, aumentando a capacidade da linha de produção (fluxo contínuo) e reduzindo custos, desde que os moldes possam ser trocados em curto espaço de tempo (PETTERSEN et al., 2004). A Figura 68 apresenta um desenho esquemático das etapas de termoformagem de um filme plástico em um equipamento de termoformagem (MULTIVAC Tra- demark Catalogue, 2004). 2383 1. Bobina de filme fundo 5. Bobina de filme tampa 2. Câmara de termoformagem 6. Câmara de extração de ar, injeção de gás e selagem 3. Filme termoformado 7. Corte transversal do filme 4. Inclusão manual ou automática do produto 8.Corte longitudinal do filme Figura 68 - Etapas de termoformação de um filme plástico (MULTIVAC Trademark Catalogue, 2004) Em (1) tem-se a bobina de filme plástico, chamada de “filme fundo”, que é de- senrolado até a câmara de termoformagem (2), onde o filme é moldado, sob determinadas condições de tempo, temperatura e vácuo, por meio de um molde “fêmea” que pode apresentar cavidades de diversas geometrias. O filme plástico está aquecido e preso em um quadro acima do molde. O molde sobe então até a posição de moldagem, quando o vácuo é acionado por um certo período de tempo para que o filme obtenha um formato final idêntico ao formato do molde. Ainda em (2), antes da descida do molde, há um tempo de resfriamento do filme, sendo que após esta etapa o filme continua o fluxo no equipamento de termoformagem em (3). Na etapa (4), o filme já termoformado recebe o produ- to a ser embalado, que pode ser alimentado de forma manual ou automática. A bobina, denominada de “filme tampa” (5), é desenrolada até o encontro do “filme fundo”, onde ocorre a selagem dos dois filmes na câmara de selagem (6), que é realizada com extração de ar (vácuo) ou onde é injetada alguma mistura gasosa para auxiliar na conservação do produto. Finalmente, em (7) e (8), as embalagens são separadas umas das outras por meio de cortes transversais e longitudinais, sendo que estes cortes podem ser realizados no próprio equipa- mento de termoformação ou em um processo posterior. 239Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 238 Existem alternativas de processos de termoformação que podem resultar em melhor desempenho do filme em termos de uniformidade de espessura, como por exemplo, os processos que sugerem a formação de uma espécie de “bolha” anterior à etapa de vácuo, possibilitando uma melhor distribuição do filme no molde e consequentemente um perfil de espessuras mais uniforme. Calandragem Nesse sistema, o polímero passa entre rolos aquecidos até atingir a espessura desejada. Sopro O processo de sopro é utilizado para fabricação de garrafas e recipientes plásti- cos. O polímero utilizado neste processo é o polietileno, que é fundido e expulso de uma fenda onde está o molde do recipiente a ser utilizado. Nesse momento, um fluxo de ar previamente dimensionado é “soprado” para dentro do molde her- meticamente fechado, fazendo com que o polímero assuma a forma do molde. Em contato com a parede fria do molde, o plástico se solidifica e se ajusta a todas às suas paredes. O molde, então, é aberto, e a garrafa moldada é retirada ou expulsa. Existem diversos tipos de máquinas de sopro, com diferenciações entre o tipo de recipiente e o volume de produção (GUERRINI et al. 2004). Injeção A injeção consiste no processo de moldagem de materiais plásticos (termo- plásticos e termofixos), nos quais o material é fluidificado por aquecimento e a seguir injetado em um molde de uma ou mais partes. Para elaboração deste processo, é muito utilizado o polímero polietileno. Na injetora, existe um conjunto denominado rosca-pistão, em que o plástico é fluidificado para ser injetado no molde. A cavidade do molde é essencialmente o negativo da peça a ser produzida. Ela se enche de plástico sob grande pressão e sofre um resfriamento, indo para o estado sólido quando, finalmente, a peça é expulsa da cavidade resultando no produto final. As pressões aplicadas neste processo podem variar de 5000 a 20.000 psi e, por esse motivo, o molde é seguro e fechado durante a injeção e o resfriamento, com forças medidas em toneladas. Este processo permite produzir peças com uma grande precisão, com tolerâncias de medidas muito pequenas. A precisão é alcançada com a elaboração de moldes específicos e utilizando-seo plástico adequado ao produto que se deseja produzir. 2403 Normalmente, os moldes são fabricados em aço endurecido, com um ciclo de produção alto, utilizando alumínio ou outros materiais. Devido à elaboração do molde, a injeção torna-se um processo caro se a quantidade de peças a serem produzidas for pequena. Conheça, a seguir, os polímeros que podem ser usados na confecção de emba- lagens flexíveis. Polímeros usados como materiais de embalagem A palavra polímero vem do grego poli (muitos) e mero (unidades de repetição). Os polímeros são macromoléculas compostas por muitas unidades de repetição denominadas meros, ligadas por ligações primárias fortes, chamadas intramoleculares, sendo do tipo covalente (CANEVAROLO JR, 2002). Quanto às propriedades mecânicas, os polímeros podem ser divididos em três gran- des classes: plásticos, borrachas e fibras. Com relação à estrutura molecular, as ca- deias poliméricas podem ser lineares, ramificadas, com ligações cruzadas e em rede. Nas regiões cristalinas do polímero, ocorre o alinhamento dos segmentos de cadeias em um arranjo tridimensionalmente perfeito. A cristalinidade é facilita- da no caso de polímeros que são quimicamente simples ou possuem estruturas de cadeias regulares e simétricas. A maioria das propriedades físicas, mecânicas e termodinâmicas dos polímeros semicristalinos depende do grau de cristali- nidade e da morfologia das regiões cristalinas. Quanto maior a cristalinidade, mais elevadas são as propriedades de densidade, rigidez, estabilidade dimen- sional, resistência química, resistência à abrasão, temperatura de fusão, tempe- ratura de transição vítrea, e menores são as suas propriedades de resistência ao impacto, e claridade óptica (FORTE; MIRANDA; DUPONT; 1996) Atenção Os plásticos degradam-se muito lentamente no ambiente, uma vez que estes materiais são bastante resistentes às radiações, ao calor, ao ar e à água. Os polímeros que podem ser usados como materiais de embalagem são: Po- lietileno, Polietileno de Alta Densidade (PEAD), Polietileno de Baixa Densidade (PEBD), Polietileno de Baixa Densidade Linear (PEBDL), Polipropileno (PP), Polipro- pileno orientado (PPO), Polietileno tereftalato (PET), Poliamida (PA) e Copolímero de etileno e acetato de vinila (EVA). A seguir, veja cada um deles em detalhes. 241Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 240 Polietileno O polietileno é o plástico mais popular do mundo, devido à sua alta produção mundial. Constitui um produto de baixo custo e quimicamente inerte. É obtido pela polimerização do etileno (de fórmula química CH2=CH2); sendo repre- sentado pela cadeia: (CH2-CH2)n. Dentre os plásticos, é o que tem a estrutura mais conhecida e a mais simples entre os polímeros comerciais. É caracterizado pela extrema regularidade e flexibilidade de sua cadeia molecular (ROMAN, 1997). É utilizado para elaboração de sacos e sacolas, garrafas, utensílios domésticos, brinquedos etc. No caso de embalagens, podem ser usados em contato dire- to com alimentos, pois possuem boa resistência química, são termosseláveis e provém uma excelente barreira à umidade. Normalmente, são usados sozinhos (monocamada) ou também como camada em estruturas coextrusadas ou lami- nadas com outros polímeros ou com papel-cartão. A densidade é o principal parâmetro desta resina, sendo possível classificá-la em: Polietileno de Alta Densidade (PEAD); 0,940 – 0,970 g/cm3; Polietileno de Média Densidade (PEMD); 0,926 – 0,939 g/ cm3; Polietileno de Baixa Densidade (PEBD); 0,915 – 0,940 g/ cm3; Polietileno de Baixa Densidade Linear (PEBDL); 0,915 – 0,926 g/ cm3; Polietileno de Muito Baixa Densidade; 0,890 – 0,915 g/ cm3 (FELLOWS, 2006). Polietileno de Alta Densidade (PEAD) De acordo com Fellows (2006), o Polietileno de Alta Densidade é um polímero que possui densidade igual ou maior que 0,941 g/cm³. Ele possui um baixo nível de ramificações, com alta densidade e altas forças inter moleculares. A produ- ção de um bom PEAD depende da seleção do catalisador sendo que alguns dos catalisadores modernos incluem: Resistência a altas temperaturas; Alta resistência à tensão, compressão e tração; Baixa densidade em comparação com metais e outros materiais; Impermeabilidade Inerte (ao conteúdo), baixa reatividade; Atóxico; Pouca estabilidade dimensional. 2423 Este polímero é mais resistente, mais grosso, menos flexível e mais quebradiço do que o polietileno de baixa densidade. O polietileno de alta densidade é, no momento, o material de uso mais comum para garrafas e frascos de vinagre, leite, xaropes e como bombonas de sal e sucos de frutas a granel. Polietileno de Baixa Densidade (PEBD) O Polietileno de Baixa Densidade é um polímero da família dos polímeros olefínicos. O polietileno de baixa densidade é obtido em condições de alta pressão e alta temperatura por um processo de polimerização por radicais livres. A polimeri- zação aleatória do polietileno nessas condições produz um polímero ramificado de longas moléculas com cadeia principal de diferentes tamanhos, ramificações de comprimentos variados e ramificações secundárias. Esses polietilenos ramifi- cados têm menor cristalinidade (entre 40 a 60 %) e densidade variando de 0,910 a 0,940 g/cm³ (COUTINHO; MELLO; SANTA MARIA, 2003). Esse polímero se caracteriza por: boa resistência térmica e química; boa resistência ao impacto; é translúcido; boa processabilidade (injeção e extrusão); apresenta dificuldades para imprimir, pintar ou colar sobre ele. Esse polímero confere uma boa barreira contra a umidade, mas tem permeabilidade a gases relativamente alta, sensibilidade a óleos e uma baixa resistência a odores. Polietileno de Baixa Densidade Linear (PEBDL) O polietileno de baixa densidade linear é similar ao PEBD, exceto pelas ramificações de cadeia que são mais curtas, conferindo maior linearidade às moléculas do polímero. Sua densidade é controlada pela adição de comonômeros, como buteno, hexe- no ou octeno, que regulam o tamanho das ramificações adicionadas às cadeias. De acordo com Coutinho, Mello e Santa Maria (2003), esse polímero se caracteriza por: Ser atóxico; Possuir boa flexibilidade; Ser leve; 243Unidade 6 Tecnologia de Carnes e Derivados 242 Ser transparente; Ser inerte ao conteúdo; Ser impermeável; Possuir pouca estabilidade dimensional; Possuir baixo custo. Polipropileno (PP) É um polímero olefínico obtido pela polimerização do propileno ou pela copoli- merização do propileno com o etileno. É quimicamente resistente a praticamen- te todas as substâncias por um período de tempo não muito longo, mas pode amolecer na presença de solventes não polares quando o tempo de contato é grande. Apresenta densidade específica da ordem de 0,9 g/cm3, barreira ao va- por de água, boa estabilidade térmica, estabilidade dimensional, transparência, translucidez e resistência (SARANTÓPOULOS, 2002). Constitui um material versátil que pode ser utilizado em aplicações que passam por tratamentos térmicos severos, como a esterilização por calor, e o congelamento, o que proporciona um aumento do tempo de vida de prateleira do produto embalado. As coextrusões do polipropileno são usadas para mostarda, maionese, geleias, catchupe e outros molhos, conferindo uma vida de prateleira de 18 meses. Es- sas embalagens são à prova de estilhaçamento, são resistentes ao oxigênio e à umidade, podendo ser comprimidas e adequadas para enchimento a quente. Polipropileno orientado (PPO) Consiste em um filme com permeabilidade moderada a umidade, gases e odo- res, que não é afetada por variações na umidade. É utilizado na fabricação de garrafas, frascos, pacotes de salgadinho, embalagens de biscoitos e filmes para cozimento na