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Instituto Multidisciplinar – IM/UFRRJ Direito Internacional Público Prof: Bernardo Campinho Aluna: Larissa de Jesus Santos 1) Considere a seguinte situação hipotética: Um diplomata brasileiro, lotado na Delegação do Brasil junto à Organização Internacional de Panos e Vinhos (OIPV), foi instruído pelo chefe do posto a depositar o instrumento de ratificação do Terceiro Protocolo Adicional à Convenção sobre Comércio de Vinhos. O instrumento contém declaração interpretativa aposta por decisão do Congresso Nacional ao ratificar o Protocolo Adicional. O secretariado da OIPV informou ao governo brasileiro que o instrumento de ratificação não poderia ser aceito, sob as seguintes alegações: i) a declaração interpretativa constitui reserva incompatível com o objeto e a finalidade do tratado; ii) o diretor-geral da OIPV, em seu papel de depositário das convenções concluídas sob a égide da OIPV, pode recusar-se a registrar, de ofício, uma ratificação. Essa competência tem como base uma prática reiterada desde o Tratado de Methuen (1703). A partir da situação anteriormente apresentada, redija um texto informativo para o chefe do posto, tendo como base as regras e princípios de direito internacional público. Em seu texto, atenda ao que se pede a seguir. 1) Discorra sobre as regras jurídicas relevantes para o caso. 2) Analise se as alegações do secretariado são procedentes. 3) Indique possíveis argumentos para sustentar a aceitação do instrumento de ratificação brasileiro. A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (1969) define as regras que regem a ratificação dos tratados internacionais, que codificam os costumes adotados. No caso concreto, o diplomata brasileiro lotado na delegação brasileira como a Organização Internacional de Panos e Vinhos (OIPV) foi impedido de ratificar o novo protocolo da Convenção sobre o Comércio de Vinhos com uma declaração interpretativa com o fundamento de que constituiria uma reserva. Conflito com o objeto e finalidade do tratado, e o chefe do escritório de supervisão como depositário recusou-se a registrá-lo. A secretaria do OIPV confundiu os conceitos de reservas e declarações interpretativas, enquanto o depositário foi além das funções autorizadas pelo CVDT, o que pode apoiar o argumento do Brasil a favor da ratificação. De acordo com a CVDT/1969, uma reserva é um instrumento utilizado para suspender a aplicação de um artigo, no todo ou em parte de determinado tratado, que será permitida (a menos que o tratado proíba reservas), desde que não seja incompatível com o objeto e a finalidade do tratado. Já a declaração interpretativa apenas informa a maneira pela qual um Estado interpreta determinado artigo. Dessa forma, é possível entender que não há suspensão da aplicação daquele artigo para o Estado em questão. Ele continua a ser aplicável, mas informa a maneira que essa aplicação ocorrerá no interior do Estado e nas suas relações com os demais. Não há que se falar em aprovação ou rejeição de declaração interpretativa. Se o Estado brasileiro tivesse aposto reserva, caberia aos demais Estados-parte aceitá-la ou rejeitá-la, e não ao Secretariado da Organização Internacional de Panos e Vinhos. No caso em questão, portanto, a alegação do secretariado é improcedente, pois reserva e declaração interpretativa não são instrumentos sinônimos. Com relação à alegação do diretor-geral da OIPV, ao exercer a função de depositário, as disposições da CVDT/69 também não sustentam a recusa da ratificação, pois o papel do depositário é o de conferir os procedimentos formais de ratificação de tratados, como a assinatura e os trâmites legais, podendo chamar a atenção do signatário acerca de questões pendentes ou impeditivas da ratificação, mas não pode fazê-lo de ofício, com análise do mérito e também pela alegação do diretor-geral da OIPV, de que essa competência é uma prática reiterada desde o Tratado de Methuen, não se sustenta, já que a Convenção de Viena de Direito dos Tratados, pelo critério da temporalidade e da especialidade, revogou esse costume ao positivar o direito dos tratados. Não havendo hierarquia entre as fontes de direito internacional público o tratado pode revogar costume e costume pode revogar tratado, mas pode-se argumentar que o direito positivado e codificado da CVDT prevalece no caso em tela. Em virtude das questões apresentadas, a delegação brasileira precisa se utilizar de argumentos que se baseie nas regras jurídicas relativas à declaração interpretativa, que não se confundem com as reservas; nas funções do depositário de tratados internacionais, segundo disposições da CVDT; e na aplicação do direito material disposto na CVDT/69, que se aplica a tratados entre Estados e Organizações Internacionais e, portanto, revogou o costume aplicado do Tratado de Methuen (1703).