Prévia do material em texto
Arquitetura Militar
Um panorama Histórico
a partir do Porto de Santos
Victor Hugo Mori
Carlos A. Cerqueira Lemos
Adler H. Fonseca de Castro
São Paulo
2018
ArquiteturA MilitAr:
uM pAnorAMA histórico
A pArtir do porto de sAntos
ArquiteturA MilitAr:
uM pAnorAMA histórico
A pArtir do porto de sAntos
Victor Hugo Mori
Carlos A. Cerqueira Lemos
Adler Homero F. de Castro
5
suMário
Nota à presente edição .......................................................................................11
Apresentação .......................................................................................................13
cApítulo i
ARQUITETURA MILITAR:
DA “CORTINA VERTICAL” À “CORTINA VIRTUAL” ................................15
A “cortina vertical” e a neurobalística .............................................................17
A “cortina Horizontal” e a Pirobalística ..........................................................20
Vauban e o sistema de defesa territorial: “a Cortina Rasante” ....................24
A “Cortina invisível” e a Artilharia Raiada ....................................................26
A “Cortina virtual” e o fim do capítulo
da história da arquitetura militar .....................................................................27
cApítulo ii
A EVOLUÇÃO DA ARTILHARIA ..................................................................29
Introdução ............................................................................................................31
A artilharia experimental e o início da colonização do Brasil .....................33
O progresso da artilharia lisa no período colonial .......................................39
O “Tratado de Artilharia” luso-brasileiro
do engenheiro Alpoim de 1744 .........................................................................43
A época da artilharia raiada ..............................................................................45
Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.1998.
É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, da editora.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Textos
Victor Hugo Mori
Projeto Gráfico, Capa e Editoração
Guen Yokoyama
2018
Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1825, de 20/12/1997)
7
ArquiteturA MilitAr
6
cApítulo vii
AS FORTIFICAÇÕES DA ENTRADA DO CANAL DA BARRA
GRANDE: FORTALEZA DE SANTO AMARO DA BARRA GRANDE
E FORTIM DO GÓES FORTE DO CRASTO OU DA ESTACADA .......125
Séculos xvi e xvii ...............................................................................................127
Séculos xviii e xix..............................................................................................140
“Último relatório do Comando da Fortaleza ................................................158
da Barra de Santos de 1º/01/1904” ...............................................................159
A História do Restauro nas obras
da Fortaleza da Barra Grande .........................................................................160
cApítulo viii
SISTEMA DE PROTEÇÃO DA VILA DE SANTOS: FORTE DE
MONSERRATE, FORTE DE ITAPEMA, CASA DO TREM BÉLICO
E O PLANO DE DEFESA DE JOÃO MASSÉ .............................................179
Séculos xvi e xvii ...............................................................................................181
Século xviii .........................................................................................................187
Séculos xix e xx ..................................................................................................196
cApítulo ix
AS NOVAS FORTIFICAÇÕES DA ENTRADA
DA BARRA DE SANTOS ...............................................................................201
Fortaleza de Itaipu e Forte dos Andradas .....................................................203
cApítulo iii
AS FORTIFICAÇÕES COLONIAIS NO BRASIL ...................................... 49
Introdução ............................................................................................................51
A primeira etapa .................................................................................................56
A segunda etapa ..................................................................................................62
A terceira etapa ....................................................................................................67
A quarta etapa .....................................................................................................72
cApítulo iv
MAPA DAS FORTIFICAÇÕES DA BAIXADA SANTISTA ........................77
cApítulo v
A ORGANIZAÇÃO MILITAR NA CAPITANIA
DE SÃO VICENTE NOS PRIMEIROS SÉCULOS
O Sistema de Ordenanças ..................................................................................85
Os Engenheiros Militares ...................................................................................93
cApítulo vi
AS FORTIFICAÇÕES DO CANAL DA BERTIOGA: FORTES DE SÃO
TIAGO OU SÃO JOÃO - SÃO FELIPE - SÃO LUIZ ..................................97
Séculos xvi e xvii .................................................................................................99
Séculos xviii e xix..............................................................................................108
Século xx .............................................................................................................117
9
ArquiteturA MilitAr
8
Esse trabalho é dedicado a duas pessoas especiais na história da preserva-
ção do patrimônio no Brasil, recentemente falecidas. Tive o privilégio de ter
sido amigo e aluno informal desses dois mestres, tão diferentes entre si. Um
muito jovem, arquiteto e professor da fau-usp, o outro, um velho militar dos
quadros da engenharia do Exército Nacional. O que os unia era a paixão
comum pela preservação da memória nacional.
O jovem Antonio Luiz Dias de Andrade, a quem o Dr. Lúcio Costa carinho-
samente acrescentava um pronome possessivo "o nosso Janjão", fez sua trin-
cheira de luta no iphan. O velho Coronel Reginaldo Moreira de Miranda,
fez seu baluarte dentro do Arquivo Histórico do Exército. Muito antes do
arquiteto Antonio Luiz iniciar seu aprendizado no iphan, o historiador
Miranda já era um colaborador assíduo de Luís Saia e o ajudou, inclusive,
nos momentos difíceis de sua vida particular como um amigo fraterno.
Parte dos documentos aqui reproduzi-
dos foram frutos de seu trabalho
durante os anos em que serviu no
Arquivo do Exército como Capitão.
O início dos estudos objetivando a res-
tauração das Fortificações da Baixada
Santista, em 1989, levou o jovem Anto-
nio Luiz, então diretor do iphan-sp, a
convocar o velho soldado Miranda
Antonio Luiz Dias de Andrade
cApítulo x
AS FORTIFICAÇÕES DESAPARECIDAS DO CANAL
DE SÃO SEBASTIÃO ......................................................................................213
A Proteção do Porto de São Sebastião ...........................................................215
linhA do teMpo
PANORAMA HISTÓRICO SÃO PAULO/BRASIL/GERAL ................... 221
11
ArquiteturA MilitAr
10
Victor Hugo Mori, com muita imaginação, sabedoria e simplicidade, trans-
fere ao público não especializado e aos estudantes em geral, conhecimentos
inestimáveis sobre a complexa evolução da Arquitetura Militar, desde os
primórdios da neurobalística até o advento da "guerra nas estrelas". Toma
como linha narrativa as fortificações do Porto de Santos, para nos conduzir
à formação histórica da nossa nacionalidade.
A pesquisa histórica estabelece um paralelo entre o troar dos canhões e os dife-
rentes sistemas defensivos arquitetados, ao longo dos últimos séculos, sob a
forma de fortalezas, fortes, fortins, redutos, baterias e baluartes. Para tanto, Vic-
tor Hugo contou com a colaboração do professor Carlos A. C. Lemos, um dos
mais importantes estudiosos da arquitetura brasileira,e do historiador Adler
Homero F. de Castro, renomado pesquisador da História Militar.
Até meados do século xx, a Arquitetura Militar oferecia um poderoso invó-
lucro de proteção contra os projéteis de artilharia que cruzavam os espaços
vazios entre forças antagônicas, num campo de batalha. Hoje, os projéteis
cruzam o espaço aéreo, lançados a partir de posições virtuais momentâneas
em perseguição a objetos também fugazes. A Artilharia libertou-se progres-
sivamente dos invólucros arquitetônicos construídos sob a forma de "corti-
nas fortificadas", verticais, rasantes, horizontais e invisíveis, submersas ou
aflorantes, deixando porém, de pé ou em ruínas, um acervo patrimonial de
inestimável valor cultural.
notA à presente edição
ULTIMA RATIO REGIS
para mais essa luta. Nessa batalha de dez anos, em que atuei como coadju-
vante e aluno, acumularam-se sobre as mesas centenas de anotações, docu-
mentos, fotografias e desenhos. O "nosso Janjão" queria que eu os transfor-
masse em uma Tese de Mestrado sob a sua orientação. O "nosso coronel
Miranda" sonhava com uma grande exposição sobre a engenharia militar
nos fortes restaurados da Baixada
Santista.
O resultado, porém, foi modesto.
Nem uma inovadora tese nem tam-
pouco, uma grande exposição. A
importância desse catálogo reside no
tênue lampejo dos ensinamentos
transmitidos pelo jovem arquiteto e
pelo velho coronel.
Victor Hugo Mori
Coronel Reginaldo Miranda
no Forte São Luiz
13
ArquiteturA MilitAr
12
Escolher a publicação de um livro demanda agilidade em avaliar o que de
fato ele oferece como divulgador de cultura, expansão de conhecimentos,
que lado de uma questão ele vem tornar claro ou reavaliar. Conteúdo bom
em história, ciência ou memória é o que muitas vezes se apresenta em textos
que pretendem tornar-se livros, mas é preciso pôr algo mais na escolha ou
aceitação de publicar. Que escolher, visto que, no geral, o autor se ampara
na confiança sem abalos de que seu trabalho é o melhor, talvez até um
achado literário ou científico?
Apenas para exemplificar a importância desta publicação, podemos afirmar
que o capítulo "A Organização Militar na Capitania de São Vicente nos Pri-
meiros Séculos", assinado por Victor Hugo Mori, é um substancial acréscimo
ao que até agora se escreveu sobre São Vicente, região fundamental na histó-
ria de São Paulo e na do Brasil, assim também o capítulo viii: "O Sistema de
Proteção da Vila de Santos: Forte de Monserrate, Forte de Itapema," e vários
outros cujo relato chega ao século xx.
Só me resta desejar que Arquitetura Militar cumpra a sua função como
livro, abrindo caminhos que levam o homem à consciência do que ele ver-
dadeiramente representa neste planeta.
Sérgio Kobayashi
ApresentAçãoA Artilharia, conhecida no mundo desde os primórdios da civilização, evoluiu
do arco e flecha à catapulta medieval, do canhão de alma lisa ao míssil conti-
nental, sideral, espacial, que transporta ogivas de poder atômico. Nos últimos
séculos, o canhão – último argumento dos reis – troava sob o controle das forças
em teatro de operações militares. No momento, o imaginário desloca-se para a
"guerra nas estrelas", onde vetores balísticos podem atingir qualquer lugar, dis-
parados sob a chancela do chefe de Estado. A Artilharia, torna-se assim, instru-
mento de um poder avassalador, libertando-se do invólucro da arquitetura
militar que a acompanhou até o século passado.
Algumas fortalezas centenárias ainda permanecem de pé, desafiando o
tempo, as intempéries e as agressões humanas. Muito se deve aos profissio-
nais do iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que
não medem esforços para preservá-las.
Victor Hugo Mori, como arquiteto do iphan, foi o responsável pelas obras de
restauração dos mais antigos e mais importantes monumentos arquitetônico-
militares do Estado de São Paulo: o Forte São João da Bertioga, erguido a partir
de 1553, e a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, edificada a partir de
1583. Atualmente, como voluntário, o arquiteto empenha-se na restauração do
complexo arquitetônico da Fortaleza de Itaipu, na Praia Grande – SP, que abri-
ga a última bateria "invisível" de artilharia construída no Brasil.
Ao amigo, que prossiga trilhando o seu caminho do dever.
Elcio Rogerio Secomandi - Coronel de Artilharia R/1
Fundação Cultural Exército Brasileiro
ArquiteturA MilitAr:
dA “cortinA verticAl”
à “cortinA virtuAl”
Victor Hugo Mori
ArquiteturA MilitAr: dA “CortinA VertiCAl” à “CortinA VirtuAl”
17
Combate de contato na Idade Média Viollet
Le Duc
A “CORTINA VERTICAL” E A NEUROBALÍSTICA
A fortificação é uma construção funcionalista por natureza. Sua
tipologia se transformou conforme o desenvolvimento tecnológico
da artilharia e das inovações da estratégia militar de ataque e defesa.
A té o fim da Idade Média, as guerras eram travadas com a utilização de arma-
mentos com pouco poder de des-
truição. As armas de arremesso
eram de alcance restrito e precisão
máxima de 50 metros. Os confron-
tos entre as tropas rivais eram,
portanto, à curta distância, e cha-
mados de “combates de contato”.
Foi a era da artilharia mecânica,
conforme veremos no capítulo
seguinte.
A época em que se utilizavam
essas armas primitivas, como o arco-
-e-flecha, a besta e a catapulta, foi
denominada na história militar de:
período da neurobalística (ciência
que estuda a impulsão de projéteis,
Castelo de São Miguel em Guimarães (Portugal). A torre central foi construída no século x
pela condessa Munadona. Foi residência de D, Afonso Henriques e considerado o “Berço da
Nacionalidade Portuguesa”.
ArquiteturA MilitAr: dA “CortinA VertiCAl” à “CortinA VirtuAl”
19
ArquiteturA MilitAr
18
através da força elástica, provocada
pelo tensionamento ou torção de
cordas).
A proteção de um território era,
então, assegurada pela presença de
castelos elevados, torres de mena-
gem e grandes muros defensivos,
concebidos para se distanciar do
alcance e precisão desses arma-
mentos. Este sistema defensivo foi
denominado de “cortina vertical”,
pois, quanto maior a altura dos
muros (cortinas) mais seguros e
inacessíveis eram os edifícios mili-
tares, freqüentemente construídos
nos penhascos para ampliar sua
verticalidade.
São exemplos históricos dessa
arquitetura militar, as Muralhas da
China, a Torre de Londres, os
muros medievais de Carcassone, o
Castelo de Santo Ângelo em Roma,
e até mesmo as paliçadas de madei-
ra das fortificações provisórias.
Castelo de
Chillon na Suiça
Catapulta medievalBombarda (esq.) e balestra (dir.)
Ilustração alemã
do século XV
mostrando
o uso de
canhões e
flechas
incendiárias no
cerco de uma
cidade medieval
ArquiteturA MilitAr: dA “CortinA VertiCAl” à “CortinA VirtuAl”
21
ArquiteturA MilitAr
20
riências dentro desses
novos princípios, na Itá-
lia. O mesmo Sangallo
em 1492 havia aplicado
os baluartes angulares
na modernização do
Castelo de Santo Ânge-
lo, em Roma.
A Torre de Belém, em Lisboa,
concluída em 1519 por Francisco
Arruda, pode ser vista como o para-
digma do “período de transição”
entre o sistema medieval e o siste-
ma renascentista, ao conjugar num
mesmo projeto a torre de menagem
e o baluarte de três faces provido de
guaritas nos ângulos, com a plata-
forma superior e canhoneiras no
piso inferior. O Castelo
da Mina, no Golfo da
Guiné, construído em
1482 ainda com influên-
cia da tradição medie-
val, é considerado a pri-
meira fortificação por-
tuguesa nos trópicos.
As plantas poligonais ou circula-
res das fortificações medievais
foram, paulatinamente, sendo subs-
tituídas pela forma de estrela de
múltiplas pontas – os baluartes
angulares. As estreitas passagens
dos arqueiros sobre os muros
medievais deram lugar às amplas
“plataformas de armas” para as
manobras da artilharia. As mura-
Castelo Farnese em Caprarola, de 1515. Surgimento de baluartes pentagonais nos vértices
da torre P.J. Mariette
Nau de Nicolau Coelho
Lisuarte de Abreu
A nova artilharia,composta de canhões e bombardas, era capaz de destruir um
sítio fortificado a distância.
Diante desta nova realidade, o
sistema da “cortina vertical” pas-
sou a ser estratégicamente inconve-
niente, pois no “combate à distân-
cia”, quanto mais alta a construção,
mais exposta estaria à mira dos
canhões. Por outro lado, a adapta-
ção das cortinas elevadas em plata-
formas de canhões diminuía a pre-
cisão da artilharia defensiva, for-
çando “os tiros de mergulhão”.
No reinado de D. João II (1481-
1495), consolidou-se o poderio béli-
co de Portugal, com a fabricação
intensiva de “bocas-de-fogo” e da
criação da “nau” com três mastros
equipada com artilharia de fogo –
uma verdadeira fortaleza móvel de
ataque e defesa1.
A época da pirobalística exigia
uma nova arquitetura militar, alon-
gada e de pouca altura: a “cortina
horizontal”.
Neste período de grande eferves-
cência cultural (Renascimento), os
arquitetos italianos, através dos estu-
dos da resistência dos materiais, da
balística e da geometria, criaram a
forma ideal desta nova arquitetura
militar: a “fortaleza abaluartada”.
O Castelo Farnese, em Caprarola,
de planta poligonal com baluartes
pentagonais nos vértices, desenha-
do em 1515 por Antônio Sangallo e
Peruzzi, e concluído por Jacopo Vig-
nola, revelava as primeiras expe-
A “CORTINA HORIZONTAL” E A PIROBALÍSTICA
A partir do século xv, com o desenvolvimento da pirobalística
(ciência que estuda a impulsão de projéteis através da explosão
da pólvora), a prática do “combate de contato” começava a perder
importância nas guerras.
Castelo da Mina no Golfo da Guiné (1482) – primeira fortificação portuguesa nos trópicos
Franz Post
ArquiteturA MilitAr: dA “CortinA VertiCAl” à “CortinA VirtuAl”
23
ArquiteturA MilitAr
22
Cortinas abaluartadas, segundo Vitruvius Edição Valentinus Rose, 1899
Segundo Rafael Moreira, “a base
do sistema abaluartado era a prote-
ção recíproca pelo cruzar de fogos
entre diferentes pontos do mesmo
perímetro”. Foi essa arquitetura o
primeiro “estilo internacional do
Renascimento”2, repetindo-se, do
oriente ao ocidente, numa seqüên-
cia inumerável de fortificações este-
lares, que vai do Forte da Aguada
em Goa ao Forte Príncipe da Beira
na Amazônia.
lhas mais grossas, ligeiramente
inclinadas e de pouca altura, espar-
ramavam-se horizontalmente pelo
relevo, reduzindo a precisão e o
poder de destruição da artilharia
adversária.
O projeto de fortificação de
Mazagão, no Marrocos, de autoria
do italiano Benedetto de Ravenna,
de 1541, é considerado a primeira
obra portuguesa integralmente
dentro do estilo abaluartado.
A difusão dos Tratados de Arqui-
tetura, como os de Alberti (1452),
Filarete (1464), di Giorgio (1500),
Serlio (1537), Dürer (1554), Palla-
dio (1556 e 1570), Serrão Pimentel
(1680) – o primeiro em língua por-
tuguesa, além da presença de inú-
meros engenheiros italianos requi-
sitados por Portugal e Espanha
para desenhar fortificações, contri-
buíram para firmar esse modelo
renascentista nas Américas, África
e Ásia.
Tour de la Guinette do século XII Viollet Le Duc
Torre de Belém: transição entre a torre de
Menagem e o sistema renascentista
ArquiteturA MilitAr: dA “CortinA VertiCAl” à “CortinA VirtuAl”
25
ArquiteturA MilitAr
24
Planta de Neuf-Brisach (acima)
Planta de Lille, cidade fortificada
por Vauban (dir.)
Os três sistemas de Vauban
um período em que a mobilidade
das tropas superou a formação geo-
métrica da guerra tradicional.
As idéias de Vauban se difundi-
ram com a publicação dos seus Tra-
tados em 1704 e 1706, e através das
atividades de seus seguidores. As
cidades de Toulon e de Neuf Brisa-
ch na França, fortificadas por
Vauban e Nardeen, na Holanda são,
exemplos desse sistema.
V auban considerava a “praça fortificada” apenas como um instrumento tático ele-
mentar, componente de uma estra-
tégia global de defesa.
Até mesmo o modesto baluar-
te angular renascentista, foi
transformado num complexo
projeto geométrico poligonal,
composto por múltiplos ele-
mentos defensivos: fossos,
tenalhas, revelins, hornarveques,
meias-luas, glacis, etc.
As formas distribuíam-se numa
seqüência de cortes e aterros, partes
enterradas e outras semi-aflorantes,
com distribuição rádio-concêntrica a
partir da praça-forte, configurando
uma “cortina rasante”, quase con-
fundindo-se visualmente com o per-
fil horizontal do terreno.
Esse novo sistema implicava a
necessidade de alto grau de
especialização, diversificação
e profissionalização do corpo
militar. A seqüência de ele-
mentos arquitetônicos de
defesa, permitia tanto o aban-
dono das posições fronteiras com o
recuo paulatino até a praça forte,
como o avanço das tropas a partir do
núcleo fortificado, conforme nos
ensinou o historiador militar cel.
Reginaldo Moreira de Miranda. Foi
VAUBAN E O SISTEMA DE DEFESA TERRITORIAL:
“A CORTINA RASANTE”
A partir do século xvii, o engenheiro militar Sébastien le Prestre
de Vauban, Marechal do Rei Luís xiv, transformou a tradicional
fortaleza abaluartada num complexo sistema de defesa territorial.
Marechal Sébastien le Prestre de Vauban (em cima)
Um dos métodos de Vauban de fortificar (em baixo)
ArquiteturA MilitAr: dA “CortinA VertiCAl” à “CortinA VirtuAl”
27
ArquiteturA MilitAr
26
O atual e moderno sistema de proteção da costa pau-lista com lançadores
móveis de foguetes “Astros II”, ao
dispensar a posição fixa das antigas
fortalezas e o invólucro da arquite-
tura, configura um novo sistema: a
“cortina virtual”.
As fortificações, que sempre se
caracterizaram como “construções
funcionalistas” por excelência, hoje
esvaziadas de suas funções milita-
res, buscam se adaptar a novos pro-
gramas sociais. São documentos da
história e da arte que as gerações
futuras têm o direito de conhecer e
se reconhecer.
A defesa do Porto de Santos
representa um retrato resumido
dessa história da arquitetura mili-
tar. Do primitivo Forte da Bertioga
construído para o “combate de con-
tato” contra os índios, ainda dentro
dos princípios medievais da neuro-
balística, passando pelo complexo
sistema de defesa projetado por
João Massé em Santos, até as arqui-
teturas subterrâneas e “invisíveis”
das fortificações de Itaipu e dos
Andradas, cinco séculos de história
subsistem.
A “CORTINA VIRTUAL” E O FIM DO CAPÍTULO
DA HISTÓRIA DA ARQUITETURA MILITAR
O fracasso da "Linha Maginot" em 1940, o surgimento dos
foguetes v-2 e a explosão da bomba atômica em Hiroshima em
1945, encerraram o capítulo da história das fortificações.
Lançador de foguetes Astros II
na Fortaleza de Itaipu
Imagem do lançador de
foguetes Astros II,
chamado de
“fortaleza móvel”
A “CORTINA INVISÍVEL”
E A ARTILHARIA RAIADA
A partir de meados do século xix, com o desenvolvimento
da “artilharia raiada” e da criação do torpedo “obus”,
o sistema de fortificações abaluartadas tornou-se obsoleto.
O alcance quilométrico dos projéteis explosivos, a preci-são dos disparos e o grande
poder de destruição desta artilharia,
permitiu concentrar em poucas bate-
rias todo o complexo de fortificações
criado pelo sistema Vauban.
As novas fortalezas foram proje-
tadas em subterrâneos ou protegi-
das por cortinas blindadas, camu-
fladas na paisagem. O uso do aero-
plano para fins bélicos acentuou a
necessidade de se procurar, cada
vez mais, a proteção do subsolo.
A arquitetura militar perdeu defi-
nitivamente seu caráter simbólico
de domínio e presença do poder na
paisagem ao se ocultar e se proteger
nos relevos naturais. O simbolismo
da “cortina vertical” da idade
média, reduzido a partir do Renas-
cimento na geometria acachapada
da “cortina horizontal”, desapare-
ceu nesta nova configuração arqui-
tetônica: a “cortina invisível”.
A construção da “Linha Maginot”
pela França entre 1930 e 1936 para
assegurar a proteção da fronteira
leste voltada para a Alemanha, foi a
maior obra subterrânea dentro
deste princípio militar. Ela de nada
serviu contra o ataque das tropas
alemãs em1940, que partiu pela
fronteira norte e ocupou a França.
A Fortaleza de Itaipu na Praia
Grande e o Forte dos Andradas
no Guarujá podem ser incluídos
nesse estilo.
Fortaleza de Itaipu na Praia Grande (SP) –
Bateria Duque de Caxias: rampa de acesso
ao subterrâneo (esq.).
Fortaleza de Itaipu – Bateria de Jurubatuba
(1919) com seu canhão raiado Schneider-
Canet (abaixo à esq.).
Cozinha subterrânea do Forte dos Andradas
no Guarujá – SP (abaixo)
ArquiteturA MilitAr
28
A evolução
dA ArtilhAriA
Victor Hugo Mori
Adler Homero Fonseca de Castro
Notas
1 Moreira, Rafael. "Caravelas e Baluartes" in "A Arquitetura Militar na Expansão Portuguesa".
Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Porto, 1994, p. 85.
2 Moreira Rafael. "Fortalezas do Renascimento". Op.cit., p. 129 – O autor neste texto cita Sir
John Hale: O "Estilo Internacional" por excelência do Renascimento foi o da arquitetura militar,
e o seu módulo o baluarte angular".
A Evolução dA ArtilhAriA
31
INTRODUÇÃO
Os primeiros armamentos criados para a defesa e a caça, eram
de madeira, ossos e pedras impulsionados pela força humana.
Uma grande inovação aconteceu ainda na pré-história, com a
invenção de engenhos de arremesso, como o arco-e-flecha e a
funda. Foi o início da história da artilharia.
Artilharia de assédio
protegida por
cortina de faxina
Guillaume Le Blond
A palavra artilharia, do fran-cês artillerie tem sua origem etimológica mais aceita
pelos especialistas, nos termos lati-
nos Ars Telorum (arte das armas) e
Artilum cujo radical significa “enge-
nho”, do francês engin. Aliás, a pala-
vra engin, era sinônimo de máquina
de guerra, e sua variante “enge-
nheiro”, significava quem construía
esses armamentos. Assim, desde as
suas origens, a arquitetura militar, a
tecnologia das armas e a ciência do
combate são interdependentes,
Fotomontagem sobre pintura de Debret com lançador de foguetes Astros II VHM
A Evolução dA ArtilhAriA
33
ArquiteturA MilitAr
32
A ARTILHARIA EXPERIMENTAL
E O INÍCIO DA COLONIZAÇÃO DO BRASIL
As primitivas bombardas eram construídas com barras de ferro
forjado longitudinais, presas por anéis metálicos à semelhança do
processo de tanoaria (construção de tonéis de madeira). Segundo
Portela F. Alves, “a precisão era deplorável e o alcance não
ultrapassava o da artilharia neurotona” (cerca de 400 m), e “era
considerada notável quando podia dar vinte tiros sem arrebentar”.2
D. Afonso V utilizou esses arma-mentos na Batalha de Alcácer Seguer (Marrocos) em 1458.
Porém, foi na Tomada de Arzila, em
1471, que algumas peças de bronze
começaram a surgir nas tropas por-
tuguesas, ainda convivendo com as
bombardas de anéis de ferro, espa-
das, lanças e balestras. As quatro
tapeçarias que retratam a Tomada
Detalhe de gravura italiana
do século XV: boca-de-fogo
primitiva
umas influenciando outras ao longo
dos séculos.
Como vimos no capítulo anterior,
a história da artilharia pode ser divi-
dida em três grandes partes:
1) Período da neurobalística ou
da artilharia mecânica (engenhos
que impulsionam os projéteis pela
força elástica produzida pela torção
ou flexão de cordas ou por outro sis-
tema mecânico como o de contra
peso), que vai da pré-história até o
fim da Idade Média.
2) Período da pirobalística ou
da artilharia de fogo (engenhos
que impulsionam os projéteis pela
explosão da pólvora), que vai do fim
da Idade Média até a Segunda Guer-
ra Mundial.
3) Período dos mísseis, que vai
da eclosão da Segunda Guerra até
os dias de hoje.
No caso do nosso estudo sobre a
arquitetura militar paulista, interes-
sa-nos, sobretudo, o período da piro-
balística, que, grosso modo, pode-
mos subdividi-lo em três épocas:
a) da artilharia experimental:
quando a precisão, o alcance, o
poder de destruição e a durabilida-
de das bocas-de-fogo de alma lisa,
são deficientes e imponderáveis, e o
“efeito moral” causado pelo estron-
do e pelas chamas, supera o real
poder de destruição. Esse período
vai do início das primeiras bocas-
de-fogo do século XIII até a primeira
metade do século XVI – tempo em
que as armas de pólvora ainda con-
viveram com as armas mecânicas.1
b) da artilharia de alma lisa:
quando as primitivas bombardas
evoluíram para os canhões de alma
lisa, de bronze ou ferro fundido, que
disparam projéteis metálicos esféri-
cos. Essa época, que vai da primeira
metade do século XVI até meados do
século XIX, coincide em parte com o
período da colonização do Brasil
pelos portugueses.
c) da artilharia raiada: quando o
raiamento das almas dos canhões, o
aperfeiçoamento do sistema de
retrocarga, e a criação do projétil
explosivo de forma ogival, propi-
ciam à artilharia, precisão, alcance
quilométrico e grande poder des-
trutivo. Esse período vai de meados
do século XIX até a Segunda Guerra
Mundial.
A Evolução dA ArtilhAriA
35
ArquiteturA MilitAr
34
O exemplO dO CastelO de edimburgO
A construção do Castelo de Edimburgo iniciou-se no século XII sobre uma
elevação vulcânica. Em 1449, o Duque de Burgundy mandou construir na
cidade de Mons a famosa “bombarda gigante” – Mons Meg – como presen-
te para o seu sobrinho Jaime II, rei da Escócia. No ano de 1497 esse canhão
foi levado para o Castelo de Edimburgo. A partir de 1570 começaram as
adaptações para modificar o velho sistema de defesa medieval do castelo. Foi
construído o baluarte renascentista em “meia-lua” no lado leste. Nos séculos
que se seguiram, o complexo medieval foi contornado por cortinas, baterias
de canhões e baluartes.
Artilharia do século XVIII
Bateria de canhões em
“meia lua”,
acrescentada
em 1570.
A Bombarda Gigante
“Mons Meg”, construída em
1449, em uma gravura de
1880. O canhão real encontra-
se, hoje, em exposição no
edifício que abrigava as
antigas prisões do Castelo.
Página anterior: “Tomada de Arzila” (1471).
Detalhe da tapeçaria existente na cidade
de Pastrana (Espanha), retratando os feitos
portugueses em Tânger, executada em
Flandres.
Fundição de balas
esféricas no século XVI
Canhão primitivo do livro de Charles Boutell de 1868
de Arzila, representam “um docu-
mento de excepcional importância para
a reconstituição do armamento de cam-
panha utilizado na época”.3
O efeito moral das bombardas
era proporcional ao calibre dessas
rudimentares artilharias. Houve
inúmeras tentativas de se construir
bombardas gigantes para atemori-
zar os inimigos. Das primeiras
fabricadas no século XV, podería-
mos citar as Michelettes que hoje se
encontram em Mont Saint-Michel,
a Dulle Griet, de fabricação holan-
desa, com um metro de diâmetro e
comprimento de cinco metros, e a
célebre Mons Meg (Monster-
Margherite), construída em 1449,
que serviu por anos à proteção do
Castelo Real de Edimburgo, onde
ainda permanece com seus 6.600
kg de anéis de ferro forjado, capaz
de disparar esferas de granito de
150 kg. Essa foi uma época de tran-
sição, quando os antigos castelos
construídos para resistir às armas
mecânicas tiveram de se adaptar à
nova artilharia que surgia.4
Foi, portanto, a partir do fim do
século XV, com o progresso da fundi-
ção, que se iniciou a fabricação das
primeiras peças maciças de bronze e
ferro fundido. Houve, também, expe-
riências no sentido de se construir
canhões com carregamento pela
culatra (retrocarga), aperfeiçoou-se a
fundição de projéteis esféricos, subs-
tituindo as pedras lavradas, e difun-
diu-se o uso dos “munhões” que
controlavam a pontaria.
Quando os primeiros portugueses
chegaram ao Brasil, os indígenas
A Evolução dA ArtilhAriA
37
ArquiteturA MilitAr
36
Desenho de 1611, reproduzido por C. Lechuga
Bombarda grossa, do livro de D. Ufano (1613)
nos ataques imprevisíveis naquele
inóspito território.
A artilharia de fogo dos portugue-
ses era ainda bastante ineficiente nos
primeiros anos de colonização. O
“efeito moral”, causado pela explo-
são das bombardas e arcabuzes, era
logo dissipado pela demora no
recarregamento das bocas-de-fogo.Martim Afonso de Souza, após a
dura recepção no Rio de Janeiro,
entendeu que a conquista da região
de São Vicente dependia muito mais
da “tática de guerra”, que do poder
da sua primitiva artilharia. Foi a
aliança com os tupiniquins que, de
fato, consolidou a colonização da
capitania. Uma “aliança de guerra”,
tal qual se fazia na Europa para
assegurar conquistas através de
matrimônios. O casamento de João
Ramalho com a filha do cacique
Tibiriçá foi o primeiro elo para a
aproximação. Seguiram-se inúme-
ros outros entre colonizadores e
indígenas aliados, que acabaram
por consolidar a conquista.
O Governador-Geral Thomé de
Souza em 1552, “respeitando a contí-
nua guerra que nas ditas capitanias
havia” mandou provê-las “de alguma
artilharia, e munições necessárias para a
segurança delas”. Para a Capitania de
São Vicente (Fortaleza da Bertioga)
“mandava para defensa dela a artilharia
e munições seguintes: um pedreiro de
metal e um reparo de rodas maciças, um
falcão também de metal, duas camaras, a
chave e o reparo dele, trinta pelouro para
o dito falcão, quatro berços também de
metal, doze camaras e quatro chaves
para eles, vinte pelouros, seis arcabuzes
Armas indígenas segundo desenho de Jean B. Debret
Arcabuzes utilizados pelos bandeirantes segundo desenho de Belmonte (abaixo)
encontravam-se ainda na idade cul-
tural da pedra polida. Seus arma-
mentos eram rudimentares, como o
arco-e-flecha, a borduna, o macha-
do e a lança. Considerando-se os
parâmetros históricos da evolução
dos engenhos de guerra, os nativos
encontravam-se nos primórdios do
período da neurobalística. Sequer
conheciam as balestras, as catapul-
tas e os onagros. O temor dos colo-
nizadores concentrava-se na dife-
rença numérica “dos contrários” e
A Evolução dA ArtilhAriA
39
ArquiteturA MilitAr
38
O PROGRESSO DA ARTILHARIA LISA
NO PERÍODO COLONIAL
A pirobalística ganhou impulso com o Imperador Carlos v,
depois da vitória em Pavia (1525) sobre Francisco i.
Carlos V também ordenou a normalização dos calibres, disciplinou
os tipos de artilharia e estabeleceu, inclusive, a composição do
bronze (92 partes de cobre para oito de estanho).
Carlos V,
retratado por Ticiano
A artilharia imperial foi com-posta pelas seguintes peças: o canhão (33 libras e 4
onças), a grande colubrina (15 libras
e 2 onças), a colubrina bastarda (7
libras e 2 onças), a colubrina média
(2 libras), o falcão (1 libra e 1 onça) e
o falconete (14 onças). A Ordenança
de Carlos V de 1554, prescrevia que
“ao introduzir a bala no tubo, o artilhei-
ro fará o sinal da cruz na boca da peça e
rogará a assistência de Santa Bárbara”.6
Com a abdicação de Carlos V em
1555, o vasto império dos Habsbur-
gos foi subdividido entre seu irmão
Fernando, que ficou com o título de
Imperador Germânico, e seu filho
Felipe II, que herdou o reino da
Tipos de canhões antigos
aparelhados, uma arroba de polvora de
espingarda, e vinte espadas com suas
bainhas”; tudo isso somado às armas
“que já estavam de Sua Alteza na dita
Capitania de São Vicente, a saber um
falcão outro de metal, duas camaras para
ele, vinte pelouros para ele, seis meio
berços de metal, dezoito camaras, vinte
pelouros, um quintal mais de polvora de
bombarda, trinta espadas guarnecidas,
tudo avaliado em duzentos, quarenta, e
seis mil, e oitenta, e oito reis”, a serem
pagos das rendas do donatário Mar-
tim Afonso de Souza.5
Não havia nessa época nenhuma
normalização das bocas-de-fogo.
Existiam grandes variedades de
calibres, tipos e formatos, com
denominações diversas, freqüente-
mente utilizando nomenclaturas
de animais. Os modelos mais
empregados em Portugal eram:
• Colubrina ou colubreta: peça
de bronze de grande comprimento e
grande alcance.
• Passavolante: pequena colu-
brina.
• Falcão: peça de bronze de ante-
carga equivalente ao calibre 3 (peso
do projétil em libra). A descrição do
documento de São Vicente sugere
ser aquele falcão de retrocarga.
• Falconete: semelhante e menor
que o falcão.
• Bombarda (grossa e miúda): o
termo bombarda foi inicialmente
empregado nas primeiras bocas-de-
fogo de ferro forjado semelhante ao
morteiro, posteriormente foi aplica-
do genericamente a inúmeros tipos
de canhões.
• Esmeril: peça pouco maior que o
falconete.
• Berço: art i lharia curta e de
pequeno calibre de retrocarga.
• Meio-berço: semelhante e menor
que o berço.
• Pedreiro: tipo de bombarda
destinado a lançar projéteis de
pedra, posteriormente essa deno-
minação foi empregada para o
canhão-pedreiro da artilharia de
D. Manuel I.
A Evolução dA ArtilhAriA
41
ArquiteturA MilitAr
40
Trinta Anos, suprimiu as pesadas
armaduras dos soldados e, utilizan-
do o binômio artilharia-infantaria
com canhões de pequeno calibre,
transformou o conceito de mobilida-
de em fator determinante nas guer-
ras. Foi o fim das formações geomé-
tricas das tropas, substituídas pelas
movimentações e combinações táti-
cas. A arquitetura militar teve que
acompanhar esse novo tipo de com-
bate, e foi o Marechal de Luís XIV,
Sébastien le Prestre de Vauban, quem
melhor sistematizou na arquitetura a
complexidade desse sistema.
Em 1732, Jean F. Vallière por
ordem de Luís XV estruturou a
fabricação da artilharia francesa.
Vallière estabeleceu proporções de
espessura e peso das peças, dimen-
sões dos projéteis e carga de pól-
vora, fixou os calibres e redese-
nhou os reparos (carretame) para
facilitar os deslocamentos. Com
pequenas variações, o “Sistema
Vallière” transformou-se em
norma internacional, difundido
em inúmeros países fabricantes de
boca-de-fogo. Na Inglaterra, a pri-
meira uniformização de material
bélico foi feita pelo Cel. Bogard, de
1716 à 1719, que foi posteriormen-
te reformulada por Armstrong a
partir de 1727.7
Outra inovação no século XVIII foi
o emprego regular do “obus”, um
canhão mais curto, de tiro curvo,
Artilharia de Vallière (1735)
Canhão francês Gribeauval com desenho simplificado sem ornamentações barrocas –
Tratado de Heinrich O. Schell’s de 1800
Espanha, grande
parte da atual Itália,
Borgonha, Países
Baixos e as posses-
sões nas Índias e no
Novo Mundo. A
partir de 1580, com a
morte de D. Henri-
que em Portugal,
que não deixou des-
cendentes diretos,
Felipe II, cuja mãe
Isabel era filha de D.
Manuel I, assumiu o trono português
com o título de Felipe I. Toda a Amé-
rica ficou unificada até 1640.
Grande parte da atual Itália tam-
bém pertencia à Espanha ou estava
sob protetorado do Império dos
Habsburgo. Daí, saíram inúmeros
arquitetos, engenheiros militares e
matemáticos para trabalhar na corte
de Felipe II, que havia sido governa-
dor da região milanesa antes da abdi-
cação de seu pai. Esses especialistas
“espano-italianos”, transformaram os
arcaicos sistemas defensivos existen-
tes no novo mundo, introduzindo os
modernos preceitos da arquitetura
militar renascentista, apropriados
para a nova artilharia que surgia.
Os armamentos de Carlos V e
Felipe II eram propícios para o “tiro
tenso” ou de trajetória rasante. O
morteiro de “tiro
curvo” utilizado
nessa época para
atingir alvos ocul-
tos por cortinas ou
afundar navios, não
possuía precisão e
funcionava em fun-
ção do acaso e das
tentativas. A balísti-
ca ainda desconhe-
cia a ação da gravi-
dade e a resistência
do ar, fundamentais para o cálculo
da trajetória curvilínea. Durante o
reinado de Felipe II, o mais impor-
tante engenheiro militar espano-ita-
liano na América era Giovanni Batis-
ta Antonelli, patriarca de uma famí-
lia que adotou o mesmo ofício. Os
Antonelli introduziram na arquite-
tura do novo mundo, o sistema de
plataformas de armas escalonadas,
que permitia à artilharia de defesa,
lançar tiros rasantes (trajetória
tensa) e mergulhantes (trajetória
inclinada) contra os navios inimi-
gos. Os projetos das Fortalezas de
El Morro em Havana, de San Felipe
del Morro em Porto Rico e da Barra
Grande no Guarujá, todos da lavra
dos Antonelli, seguem este estilo.
O rei da Suécia (1611-1632)Gusta-
vo Adolfo, durante a Guerra dos
Felipe II de Espanha –
Felipe I de Portugal,
retratado por Rubens
Artilharia de Gustavo
Adolfo: pequeno
canhão escocês
(1642)
do Museu do Castelo
de Edimburgo
A Evolução dA ArtilhAriA
43
ArquiteturA MilitAr
42
F oi seu padrinho q u e m o
iniciou nos estu-
dos da artilharia
na Academia de
Viana. Em 1738,
Alpoim foi desig-
nado a reger o
“ensino de enge-
nharia militar”
no Rio de Janeiro
com o posto de
sargento-mor. Sil-
va-Nigra atribuiu
ao Brigadeiro
Alpoim a intro-
dução, no Brasil,
da verga em
“arco abatido”
nas suas obras no
Rio de Janeiro,
como o Palácio
dos Vice-reis e o
Arco do Teles, e
no Palácio dos
G o v e r n a d o re s
em Ouro Preto.
Mas foi no seu
livro “Exame de
A r t i l h e i r o s ”
publicado em 1744 em Lisboa, con-
siderado um dos primeiros e escri-
tos no Brasil, que o seu amplo
conhecimento sobre a engenharia
militar pode ser apreciado. Esse
Tratado permite-nos compreender
o que foi a artilharia luso-brasileira
no século XVIII.8
O “Exame de Artilheiros” abran-
ge a matemática, a geometria e a
artilharia, sempre acompanhadas
de elucidativos desenhos. Descreve
os canhões e seus apetrechos sem se
esquecer de preceitos religiosos.
Antes do tiro, recomendava que
O “TRATADO DE ARTILHARIA” LUSO-BRASILEIRO
DO ENGENHEIRO ALPOIM DE 1744
José Fernandes Pinto Alpoin foi um dos mais importantes engenheiros
militares que atuaram no Brasil colonial. Nascido em Viana do Castelo,
em 1700, teve como padrinho, outro célebre engenheiro militar, Manuel
Pinto Vila Lobos, que em 1712 elaborou um projeto para a Fortaleza do
Crasto em Santos posteriormente modificado por João Massé.
Santa Bárbara,
padroeira dos artilheiros
Seção de um obuseiro do século XVIII
segundo Rudyerd (1791-1793)
Canhão Paixhans de alma lisa, do
século XIX - Forte da Bertioga (SP)
que possibilitava o carregamento
com as mãos.
O “Sistema Vallière” foi aperfei-
çoado em 1765 pelo “Sistema Gri-
beauval”, cujo criador foi chamado
por Napoleão Bonaparte de “pai da
artilharia francesa”. O general Gri-
beauval introduziu o eixo de ferro
nos reparos, criou o carretame leve
de quatro rodas, e reorganizou a arti-
lharia de acordo com a função mili-
tar de Campanha, de Sítio, de Praça
e de Costa. O sistema Gribeauval foi
também responsável pela padroniza-
ção dos acessórios, a criação de peças
mais leves e ligeiras e a eliminação
de decorações supérfluas das peças,
que passaram a ter uma aparência
“limpa” – a influência do Barroco
diminuía na arte militar. Em Portu-
gal essas inovações chegaram apenas
no final do século XVIII.
O progresso da Física nos campos
da força gravitacional e da resistên-
cia do ar, permitiu ao estudioso da
balística Benjamin Robins (1707-
1751), estabelecer que a precisão do
tiro estava associada à velocidade,
que por sua vez dependia da carga e
da forma do projétil.
A Evolução dA ArtilhAriA
45
ArquiteturA MilitAr
44
O s franceses creditam a invenção do raiamento ao General Treville de Beau-
lieu em 1855, e os norte-americanos
a Daniel Treadwell.10
A Guerra da Criméia (1854-1855)
entre a Prússia de um lado e a Tur-
quia, França, Inglaterra e o Piemon-
te do outro, foi talvez o último
grande conflito internacional com a
utilização dos canhões de alma lisa.
Durante o governo de Napoleão
III na França, La Hitte, Temésier e
Beaulieu construíram canhões de
antecarga com raiamento em larga
escala. Na Inglaterra, Lancaster
construiu canhões de alma helicoi-
dal ovalada. Whitworth em 1855
introduziu o raiamento em espiral
com seção poligonal, e nesse mesmo
ano, George Armstrong fabricou a
primeira peça raiada de retrocarga
composta de várias partes.
O forte atrito dos projéteis nos sul-
cos do raiamento demonstrou que a
resistência do bronze ou do ferro
fundido eram inadequados. Alguns
autores atribuem ao inglês Blakely a
A ÉPOCA DA ARTILHARIA RAIADA
Giovanni Cavalli, em 1846, construiu um obuseiro de retrocarga de
150 mm de alma sulcada com dupla raia espiralada. O projétil, de
forma ogival de 30 kg, atingiu a distância de 5 km com relativa precisão.
Projétil Armstrong (esq.),
projétil Whitworth (dir.)
Canhão raiado Whitworth no
Morro do Castelo por volta de 1895
(abaixo)
“Ballas encadeadas, enramadas,
palanquetas, de pernos, diamante
e mensageira”. Desenho do “Exame
de Artilheiros” de Alpoim – 1744
“São panelas de barro, com suas asas, cheias
de pólvora fina, com uma granada carregada
dentro. Se cobre com pele de carneiro e nas
asas se colocam morrões acesos ou estopim”.
Desenho do “Exame de Artilheiros” de
Alpoim – 1744
“em nome de Deus e da senhora Santa
Bárbara, pegará o Artilheiro a lanada”,
para limpar a alma do canhão, “e
feito o sinal da Cruz com a dita bala na
boca da peça (…) meterá a bala em nome
da Senhora Santa Bárbara”.
Alpoim definia a Artilharia como
“toda a sorte de peças, toda a sorte
de armas, todas as ferramentas e
petrechos, que podem servir na
guerra, ou nos ataques das Praças e
sua defesa, ou nas batalhas do mar,
ou da terra”. Sobre a peça de artilha-
ria: “é um instrumento, ou boca-de-
fogo, comprido, e côncavo, por dentro,
em forma redonda, feito de ferro, ou de
bronze, com o qual por meio da pólvora,
se arrojarão balas, bombas, e granadas”.
Na segunda metade do século
XVIII em Portugal, Bartolomeu da
Costa (1731-1801) encarregado da
fundição de obuseiros de campa-
nha, foi o responsável pela normali-
zação dos calibres.9.
A Evolução dA ArtilhAriA
47
ArquiteturA MilitAr
46
Lançamento de foguete na Fortaleza de Itaipu
alguns para o Exército, inclusive um
de 11 polegadas. A maior parte da
artilharia de costa moderna era
composta de canhões Whitworth,
sendo que a partir de 1877, foram
comprados diversos de retrocarga.
Esses canhões (Armstrong e Whit-
worth), continuaram em serviço até
o final da década de 1920, assim
como alguns La Hitte, empregados
em fortes menores.
No fim do século XIX surgiram na
França o canhão de tiro rápido, de
trajetória tensa, com alcance de
11.000 metros, e na Alemanha o obus
105 mm de tiro curvo com alcance de
6.000 metros. A Primeira Guerra
Mundial foi o campo de teste, onde
se consagrou a artilharia pesada com
calibres variando de 155 à 280mm e
alcance de até 40 km.
No Brasil, a defesa da costa resu-
mia-se à artilharia de alma lisa
assentada nas velhas fortificações
coloniais. A modernização iniciou-
se no princípio do século XX com o
Ministro da Guerra Gal. João Nepo-
muceno Mallet, construindo as pri-
meiras fortalezas de concreto e
adquirindo canhões Krupp e Sch-
neider-Canet. Os fortes foram arma-
dos com canhões que iam de 150
mm (Krupp e Schneider) até 305
mm (Copacabana), sendo que a
defesa do Porto de Santos foi equi-
pada com seis peças de 150 mm Sch-
neider-Canet C/50 modelo 1902
Tiro Rápido e quatro obuseiros de
Krupp 280mm C/16 modelo 1912.
Durante a 2ª Guerra se pensou em
equipar o Porto de Santos com
canhões de 7 e 12 polegadas norte-a-
mericanos. Os canhões foram com-
prados e a construção de um forte
para eles chegou a começar, mas as
obras foram interrompidas.
O Forte dos Andradas, no Guaru-
já, é um excelente exemplo dos pro-
Obuseiro Krupp de 280 mm do Forte dos
Andradas, no Guarujá (SP)
Canhão Armstrong da Fortaleza de Itaipu no município de Praia Grande (SP).
Canhão Schneider-Canet
do Forte de Jurubatuba
construção do canhão de aço forjado.
A fábrica Krupp, na Alemanha, tam-
bém desenvolveu a fabricação de
canhões de aço. Era a consolidação
da artilharia raiada com a consagra-
ção do sistema de retrocarga, cujo
desenvolvimento levou ao canhão de
tiro rápido, que empregava cartu-
chos e disparadores elétricos.
O avanço tecnológico nas siderur-
gias, com o emprego do aço, cromo
e níquel, transformou as empresas
Krupp, Schneider, Armstrong,
Bethlehem, Firth, Holtzer, etc., nos
grandes fabricantes de armamentos
na virada do século.
A Guerra do Paraguai surgiu no
momento em queo País encontrava-
se com a artilharia obsoleta. Foram
fabricadas no Rio de Janeiro alguns
canhões de bronze no sistema La
Hitte, copiados de canhões franceses
e espanhóis adquiridos pouco antes
do conflito, somando aos existentes
Whitworth, além de inúmeras bocas-
de-fogo de alma lisa. A guerra civil
norte-americana também fomentou a
sua indústria bélica, que passou a
fabricar excelentes artilharias como
as de Rodman e Parrott.
O exército brasileiro se rearmou,
após 1872, com canhões Krupp de
campanha de 75mm. Na artilharia
de costa, a Marinha comprou um
certo número de canhões Arms-
trong para seus fortes e repassou
ArquiteturA MilitAr
48
As FortiFicAções
coloniAis no BrAsil
Carlos A. Cerqueira Lemos
CALIBRES E ALCANCES DA ARTILHARIA
Ano Peça Peso da bala (Kg) Calibre (mm) Alcance útil (m)
1620 Falcão 1,3 (sólida) 74 420
1730 Canhão/1730 11 (sólida) 148 2.000
1863 La Hitte 12 (explosiva) 121 4.100
1863 Whitworth 14,5(explosiva) 97 5.380
1895 Krupp 45,5(explosiva) 150 10.200
1914 Krupp 445 (explosiva) 305 23.000
Notas
1 Alves, J. V. Portella F. “Seis Séculos de Artilharia - A História da Arma dos Fogos Largos,
Poderosos e Profundos”. Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1959, p. 96.
2 Idem. Ibidem., p. 97.
3 Moreira, Rafael. “A Artilharia em Portugal na Segunda Metade do Século xv”, adaptado do
texto original “A Artilharia Portuguesa nas Tapeçarias de Arzila” de Nuno José V. Valentim, in “A
Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa”. Comissão Nacional para os Descobrimentos
Portugueses, Porto, 1994, pp. 16-26.
4 Lead, Peter. “Mons Meg: A Royal Cannon”. Mennock Publishing, Staffordshire, 1984.
5 “Documentos Históricos (mandados, alvarás, provisões, sesmarias) – 1549-1553”, vol. xxxviii.
Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, Biblioteca Nacional, 1937, pp. 214-217.
6 Alves, J. V. Portella F. Op. cit., pp. 104-107.
7 Caruana, Adrian B.. “The identification o British Muzzle Loading Artillery”. Part 1, the
Designers. In: “Canadian Journal of Arms Collecting”, vol. 21, nº 4, (nov. 1983), p. 132.
8 Alpoim, José Fernandes Pinto. “O Exame de Artilheiros” – 1744. Biblioteca Reprográfica
Xerox, Rio de Janeiro, 1987.
9 Alves, J. V. Portella F. Op. cit., p. 147.
10 Manucy, Albert. “Artillery Trough the Ages”. Division of Publications National Park,
Washington, dc, 1985, pp. 13-14.
blemas técnicos surgidos no Entre
Guerras. Quando foi decidido cons-
truir o Forte dos Andradas (o último
a ser construído no País), os obusei-
ros, ao invés de ficarem concentra-
dos em poços, como era o caso dos
dois fortes com armas semelhantes
do Rio de Janeiro (Duque de Caxias
e Pico), foram dispersos na mata.
Além disso, as instalações de apoio
foram “enterradas” dezenas de
metros abaixo do solo. Era a fortale-
za invisível dissimulada no relevo
da paisagem da Ponta do Monduba.
Na Segunda Guerra Mundial
decidiu-se modernizar a artilharia
de costa do País, adquirindo-se
material norte-americano composto
de 99 peças Vickers-Armstrong de 6
polegadas (152,4 mm), modelo 1917,
para os Grupos de Artilharia de
Costa Motorizada. Posteriormente
foram usados também canhões de
90 mm antiaéreos, em disparos de
tiro tenso, contra embarcações.
O surgimento dos foguetes V2 na
Segunda Guerra, marcou o início
de uma nova fase da história da
artilharia. Na costa paulista os
canhões Vickers-Armstrong foram
substituídos pelo Sistema de
Foguetes Astros-II.
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
51
ArquiteturA MilitAr
50
INTRODUÇÃO
Na costa brasileira, as primeiras feitorias portuguesas corriam o
risco permanente de assaltos de piratas ingleses, franceses e
holandeses. Nacionalidades variadas também tentaram a posse
efetiva de regiões ainda não ocupadas por gente de Portugal,
querendo estabelecer enclaves destinados a transformar-se em
colônias que romperiam a continuidade do litoral lusitano.
A França, por exemplo, soube aliar-se a alguns indígenas inimigos dos portugueses e
chegaram mesmo a fixar-se longa-
mente, pelo menos no Rio de Janei-
ro, em 1555, e no Maranhão, em
1612. Os holandeses, mais ambicio-
sos, organizados e financiados por
poderosas companhias de comércio,
trataram de conquistar núcleos já
estruturados e ricos produtores de
açúcar. Atacaram, no início do
segundo quartel do século XVII, a
Bahia e logo depois conquistaram
Pernambuco, lá ficando quase vinte
e cinco anos.
Os primeiros estabelecimentos
portugueses também se viram
ameaçados pelos índios, nem sem-
pre amigos porque, guerreando-se
entre si, muitas vezes atacavam as
povoações dos colonizadores onde
estivessem homiziados os seus
desafetos, ali bem relacionados.
Assim sendo, os portugueses eram
hostilizados tanto pelos seus inimi-
gos europeus como, muitas vezes,
pelos selvagens da terra conquista-
da. Inimigos, pois, possuidores de
diferentes logísticas e estratégias,
uns na Idade da Pedra Polida, usan-
do métodos primitivos, mas eficazes,
Forte de São Marcelo - S. Salvador (1698) BN
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
53
ArquiteturA MilitAr
52
Ataque do corsário Duguay-Trouin ao Rio de Janeiro em 1712 Le Brésil 1909
dada a diferença numérica entre os
opositores; outros providos de todos
os recursos que a modernidade ofe-
recia naqueles tempos do nascimen-
to da pirobalística. Contra os índios
havia a intimidação, até certo ponto
fácil. Tomé de Sousa dava o exemplo
matando-os às dezenas, a tiros de
canhão, os selvagens aprisionados e
amarrados uns aos outros com cor-
das. Para combater os invasores que
vinham pelo mar, providos dos mais
Tratado de Tordesilhas (1494): novos descobrimentos divididos entre
Espanha e Portugal
Forte de São Marcelo em Salvador (BA), também chamado Forte do Mar.
Obra de Frias de Mesquita (1622)
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
55
ArquiteturA MilitAr
54
mitindo o exame atento dos arredo-
res descampados; depois, os primei-
ros muros abaluartados. Vejamos,
porém, os que nos interessa: as for-
talezas defensoras, de norte a sul,
dos limites portugueses nas terras
da América do Sul.
Podemos estabelecer uma meto-
dologia de abordagem desse vasto
tema relativo à defesa do território
brasileiro, dividindo a história das
fortificações em algumas etapas
significativas do período colonial.
Salvo melhor juízo, uma primeira
etapa compreende os primeiros
anos a partir de 1500 até o ataque
holandês, aquele que verdadeira-
mente ameaçou a integridade do
litoral brasileiro; corresponde, a
grosso modo, ao tempo pioneiro
de tomada de conhecimento do
território somado ao período de
dominação espanhola sobre Portu-
gal, que vai de 1580 até 1640. Uma
segunda etapa, com ligeira sobre-
posição de datas em relação à ante-
rior, abrange o período de perma-
nência dos holandeses no litoral
pernambucano, aproximadamente
de 1630 a 1654, não havendo cons-
truções defensivas significativas
no resto da costa, fora da nordesti-
na. Uma terceira etapa, na bacia
amazônica, vai desde os últimos
anos do século XVII até pratica-
mente ao fim do século XVIII, refe-
rindo-se aos planos de fortificação
da área contra os franceses, ingle-
ses e holandeses, interessados em
estabelecer domínio ao longo da
margem esquerda do rio Amazo-
nas. A quarta etapa corresponde
ao período em que os espanhóis
da Argentina procuraram ocupar o
litoral ao sul de Cananéia, já que
ainda eram nebulosas as divisas
entre os domínios de Castela e
Portugal antes do Tratado de
Madrid, de I750, e do Tratado de
Santo Ildefonso, de 1777.
Artilheiros holandeses
na Batalha
de Guararapes.
Detalhe da pintura
“A Batalha de
Guararapes” no
forro da Igreja de
N. Senhora da
Conceição dos
Militares em Recife,
atribuída a João de
Deus Sepúlveda.
Ataque holandês aos Engenhos na Bahia de Todos os Santos protegidos
por paliçadas de madeira (1640), segundo Franz Post
recentes recursos em matéria de
armamento com base na pólvora, tra-
taram os Lusitanos de providenciar
fortalezas. Lembremo-nos, porém,de um aspecto: até 1580, o sistema
defensório português era incipiente
porque não havia, verdadeiramente,
valores a defender, a não ser meia
dúzia de povoações ainda não bem
estruturadas economicamente atra-
vés de atividades lucrativas de modo
efetivo.
Foi durante o domínio espanhol
sobre Portugal que realmente se
organizaram os primeiros sistemas
eruditos de fortificação, principal-
mente à vista do perigo holandês.
Assim, desde aquele ano até 1640 a
arquitetura das fortificações, no
Brasil, foi baseada nas ordens dos
arquitetos sob o comando espanhol
e a vigilância especial de Felipe II.
Os Italianos, na época os maiores
especialistas em fortificações
modernas apropriadas às novas
armas de fogo, foram os mentores
dos espanhóis, agora donos de toda
a América.
Podemos dizer que, de um modo
geral, as fortificações brasileiras
foram condicionadas à experiência
italiana de fortificações a partir do
século XVII, abandonando totalmente
as maneiras transitórias baseadas
ainda na tradição medieval das altas
muralhas e das ostensivas torres de
defesa. Agora havia que privilegiar
as fortificações baixas e de grande,
enorme, espessura. De pouca altura
para oferecer o menor alvo possível,
e grossas para absorver o impacto de
projéteis de força incrível.
Esses primeiros tempos de coloni-
zação, o primeiro século de posse,
foram realmente anos de muito
sacrifício e improvisação. Os docu-
mentos demonstram o heroísmo dos
colonizadores defendendo-se de
perigos de toda ordem. Esses papéis
dos arquivos falam-nos das fortifi-
cações iniciais, principalmente pali-
çadas, cercas pontiagudas de paus-
-a-pique protegendo as pequenas
povoações; trincheiras, atalaias, tor-
res, mesmo as de igrejas providas de
seteiras, como a de Cananéia, per-
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
57
ArquiteturA MilitAr
56
in encontrou desguar-
necida a Fortaleza de
Santa Cruz ao assaltar a
cidade. Mas não deve-
mos esquecer o primei-
ro desses aventureiros
do mar que saqueou o
litoral sul brasileiro,
que foi Thomas Caven-
dish, autor da proeza
de encurralar toda a
população de Santos,
no Natal de 1591, den-
tro das igrejas, nos
momentos das cerimô-
nias religiosas daquele dia e saquear
a cidade e os modestos engenhos de
açúcar no caminho de São Vicente.
Sabemos que o almirante Diogo
Flores Valdez, na sua viagem de
reconhecimento pela costa, anotou
os lugares que deveriam ser guarne-
cidos e que chegou mesmo a erigir
algumas fortificações até à altura de
Santos, local onde a sua esquadra
fora assaltada por ingleses. Ali fez
modesta fortificação que, aos pou-
cos, foi sendo aperfeiçoada até se
transformar na Fortaleza da Barra,
ou de Santo Amaro, que
hoje vemos na ponta da
Praia daquela cidade.
Do primeiro século, de
1532, também é a
pequena fortificação
levantada por Martim
Afonso para defender,
na barra da Bertioga, a
vila próxima de São
Vicente do ataque dos
índios tamoios, e parece
que nisso tal providên-
cia foi inoperante, pois
o local foi assaltado em
1551 pelos selvagens, que acabaram
por aprisionar o seu artilheiro, o ale-
mão Hans Staden, autor de célebre
livro de memórias. Essa pequena
Fortaleza da Bertioga foi aperfeiçoa-
da entre 1551 e 1560, e praticamente
reconstruída em 1750. São essas
duas fortalezas santistas, as únicas
ainda existentes, que podem perten-
cer ao primeiro século na nossa clas-
sificação. As primeiras trincheiras e
baterias do Rio de Janeiro foram tão
alteradas a partir da transferência
da capital do vice-reinado da Bahia,
Felipe II, rei de Portugal e
Espanha retratado por
Ticiano
Forte da Bertioga
localizado na
entrada da Barra
Pequena do Porto
de Santos (SP).
A PRIMEIRA ETAPA
Por motivos bastante compreensíveis a primeira etapa,
carece de ampla documentação escrita e é praticamente omissa
em iconografia referente às primeiras fortificações brasileiras.
Fortaleza de Santo
Amaro da Barra
Grande, construída
por Flores Valdez na
entrada do
Porto de Santos (SP)
O s construtores militares vin-dos nas comitivas dos pri-meiros donatários e gover-
nadores eram infatigáveis, e talvez o
pedreiro Luís Dias seja o modelo
deles. Luís Dias esteve na Bahia com
Tomé de Sousa por volta de 1549, lá
residindo alguns anos. Construiu os
primeiros baluartes e muros da
cidade, tudo obra de taipa de pilão.
Parece que a taipa de pilão foi, no
começo da pirobalística, um mate-
rial recomendável nas fortificações
porque amortecia o impacto dos
projéteis, evitando o sempre perigo-
so ricochetear de alcance imprevisí-
vel. Essa qualidade talvez fosse de
certo interesse, mas a precariedade
e conservação permanente, ligadas
à taipa, logo exigiram recobrimen-
tos de pedra aparelhada, fazendo a
pedra o papel do taipal.
Como sabemos, até o início do
século XVIII, os maiores rendimentos
de Portugal no Brasil provinham da
produção açucareira das áreas lito-
râneas do Nordeste. Da Bahia para o
sul, desde os primeiros anos até
aquela data, as povoações, eram
muito pobres, sem expressão algu-
ma que pudesse justificar um siste-
ma de defesa categorizado. Os
pequenos portos daquelas humildes
cidades eram unicamente assedia-
dos por corsários já conformados
com os irrisórios despojos que ante-
viam. Talvez ali aportassem mais
por desfastio ou diversão, porque
nada havia de importante a roubar.
E vinham de vez em quando, pas-
sando ao lado de fortalezas vazias e
de canhões abandonados, como
aconteceu no Rio de Janeiro em
1712, quando o pirata Duguay-Trou-
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
59
ArquiteturA MilitAr
58
Fortaleza dos Reis Magos em Natal. Em
1603, essa fortificação foi reconstruída com
novo projeto de Francisco Frias de
Mesquita, definida por uma tenalha em
cauda de andorinha na parte posterior e
uma obra coroa na frente. M.I.
governo de Matias de Albuquer-
que. A obra foi terminada em 1612
e elogiada, como é relatado por
Sousa Viterbo. Possuía nove lados,
ocupando praticamente toda a
superfície do parcel que lhe deu o
nome, medindo aproximadamente
dez braças de diâmetro, e a sua
muralha alamborada tinha mais
de quatro braças de altura. O pró-
prio Frias, em 1618, escreveu que o
povo espontaneamente havia con-
corrido com recursos para o fabri-
co desta fortaleza, auxílio também
ocorrido durante a construção da
matriz de Olinda, o que sugere
tenha sido aquele templo também
projetado por ele.
Em 1614, Francisco Frias de Mes-
quita estava às voltas com a Forta-
leza dos Reis Magos, em Natal, Rio
Grande do Norte, que fora iniciada
em 1598 pelo padre jesuíta Gaspar
Samperes. O arquiteto José Luís
Mota Meneses, no seu livro sobre
as fortificações do litoral nordesti-
no brasileiro, vê proximidade de
concepções entre este projeto de
Frias de Mesquita e o da Fortaleza
de Jesus em Mombaça, da segunda
metade do século XVI, onde espe-
cialistas italianos atuaram segundo
os mais recentes critérios de fortifi-
cação. Assim, a Fortaleza dos Reis
Magos não seria mais que um
exemplar feito segundo uma conti-
Forte do Picão em Recife em mapa de 1759 P.J. Caetano
em 1763, e a seguir à instalação da
corte de D. João VI e à independên-
cia, proclamada por D. Pedro I, que
mais nada de original existe, restan-
do delas somente vagas indicações
e velhas plantas e vistas em esmae-
cidas aquarelas e em algumas gra-
vuras já do século XVIII.
No alvorecer do século XVII,
sobressai Francisco Frias de Mes-
quita e sua obra, englobando,
inclusive, trabalhos de arquitetura
religiosa. Francisco Frias de Mes-
quita, engenheiro militar portu-
guês, nasceu em 1578, e aos 20
anos de idade conseguia ser pen-
sionista de Felipe II numa das três
vagas existentes no curso de
Arquitetura que o monarca manti-
nha em Lisboa. Com os estudos
concluídos em 1603, é remetido ao
Brasil com o importante título de
engenheiro-mor, permanecendo
na colônia por trinta e dois anos de
muito trabalho. Foi, além de enge-
nheiro militar, também soldado
valoroso. Por volta de 1608,estava
a construir a Fortaleza da Laje,
também conhecida por Castelo do
Mar, Forte de São Francisco ou
Forte do Picão, no Recife, desenho
de Tibúrcio Spanochi, no tempo do
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
61
ArquiteturA MilitAr
60
1622, projeta, com base nas orienta-
ções de Spanochi, o Forte do Mar,
em Salvador. Essa também é uma
fortificação brasileira importante,
imaginada para defender a capital
baiana dos holandeses. Construída
sobre uma laje que aflorava na maré
baixa, como no caso do Recife,
ainda ostenta a sua forma original
circular, com quase 90 m de diâme-
tro. Também foi chamada de São
Marcelo ou de Nossa Senhora do
Pópulo. Durante a frustrada inva-
são holandesa de 1624–1625 sofreu
agravos que depois foram repara-
dos pelo próprio Frias.
Vista do Forte dos Reis Magos, em Natal (RN).
Desenho da Casa de Pólvora, de autoria de Frias de Mesquita.
nuidade teórica norteadora das
novas defesas. A fortaleza em causa
não possui os já vigentes baluartes
triangulares agenciados às cortinas
pelos flancos de ângulos variados.
A sua muralha envolvente é quase
um retângulo de 50 m por 100 m
cujos lados são quebrados fazendo
ângulos reentrantes na maior
dimensão e um ângulo saliente na
face que olha para o mar. Na face
oposta, há a entrada defendida por
dois “orelhões”, espécie de baluar-
te provido de um só flanco, como
mostra com mais clareza a ilustra-
ção. Talvez seja a Fortaleza dos Reis
Magos o mais belo exemplar de
fortificação remanescente dos tem-
pos heróicos da posse portuguesa,
constituindo exemplo de fortifica-
ção única isolada na vastidão do
litoral abandonado, defendendo
tão- somente a humilde povoação
de Natal. O seu papel era mais polí-
tico, simbolizando a inamovível
presença luso-espanhola da costa.
Muitas vezes a fortaleza defendeu-
se bravamente, mas um dia, em
dezembro de 1631, a sua pequena
guarnição não resistiu ao poderio
de dois mil holandeses chegados
numa esquadra de 16 navios.
Então, passou a chamar-se Castelo
Ceulen. Foi recuperada em 1654.
Em 1617, na barra da lagoa de
Araruama, nas proximidades da
recém-fundada vila de Cabo Frio,
Frias localiza o Forte de São Mateus,
obra destinada a proteger aquela
área das incursões de ingleses e
holandeses que ali, com a conivên-
cia dos índios, furtavam pau-brasil.
Nesse ano, freqüenta o Rio de Janei-
ro, ali próximo, e elabora o seu mais
prestigiado projeto de edifício reli-
gioso: o Mosteiro de São Bento. Em
Forte de Jesus em Mombaça segundo desenho de João Teixeira Albernaz c. 1548. ONB
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
63
ArquiteturA MilitAr
62
Ataque dos holandeses à cidade do Recife em 1630 Le Brésil
estiveram relacionadas com a pre-
sença batava ali por volta de 1625.
São, evidentemente, obras que
devem estar situadas na primeira
etapa da classificação que estamos
seguindo, como muitas outras, tal
qual as do Recife, conforme vere-
mos, mas que somente agora estão
a ser tratadas devido precisamente
à já citada sobreposição no tempo
entre as duas primeiras divisões.
Salvador, situada numa baía de
grandes proporções, que possui
abertura para o “mar Oceano” com
mais de duas léguas de largura,
extensão muito grande para permi-
tir o cruzamento de fogos de armas
ainda incipientes naquele tempo,
na verdade nunca pôde ostentar
um racional sistema de defesa,
tanto que as principais escaramuças
entre baianos e holandeses, em
1624-1625 e depois em 1638, se
deram em terra, já que vários eram
os pontos envoltórios a Salvador
permitindo livre desembarque de
tropas. Ali, dentre as principais for-
talezas vindas ainda do tempo dos
portugueses, destacamos o Forte de
Santo Antônio da Barra, a Fortaleza
de Nossa Senhora de Monserrate
(ou de São Felipe) e o Forte do Mar,
de que já falamos quando tratamos
da obra de Francisco Frias de Mes-
quita. Depois das ameaças holande-
sas, o sistema defensivo baiano foi
aperfeiçoado dentro das possibili-
dades e acabou por possuir cerca de
vinte e quatro fortificações de varia-
dos tamanhos.
O citado Forte de Santo Antônio
da Barra data aproximadamente de
É verdade que esse sistema de apoio mútuo foi iniciado pelos espanhóis, inclusive na
Bahia, mas foram os holandeses que
o aperfeiçoaram, construindo forti-
ficações em pontos desguarnecidos
e fortalezas projetadas conforme
novas bases, próprias da chamada
“escola holandesa”. Na verda-
de, essa maneira batava
nada tem de muito dife-
rente da italiana, como
nos lembra Ulisses
Pernambucano de
Melo Neto no seu
trabalho “O Forte
das Cinco Pontas”,
pois foi um técnico
vindo da Itália, em 1559,
chamado Marchi, quem
introduziu nos Países Baixos
alterações nos critérios antigos de
agenciamento de defesas ali ainda
vigentes. O que caracteriza a siste-
mática holandesa é a maneira de
implantação no terreno, a escolha de
áreas planas, até mesmo alagadiças
e a introdução do chamado “sistema
bastionado”, isto é, a localização
fora dos muros principais de bas-
tiões ou trincheiras avançadas
fazendo linhas concêntricas de defe-
sa em volta da fortaleza propria-
mente dita. É claro que essa acomo-
dação às planícies nem sempre era
viável nas costas brasileiras, mas,
de um modo geral, ela foi aplicada
tendo sempre o cuidado de se evi-
tar padrastos próximos, providên-
cia que os portugueses nem sempre
tomavam, embora fosse justa-
mente da sua tradição a
fortificação dos pontos
altos. Enfim, de uma
maneira geral, os
portugueses privile-
giaram as elevações
do terreno na insta-
lação das suas forti-
ficações e os holande-
ses, ao contrário,
davam prioridade às pla-
nícies. Está claro também que
os holandeses, depois de se apossa-
rem do litoral nordestino, aprovei-
taram as fortalezas portuguesas ali
encontradas, reformando-as segun-
do as suas conveniências.
Antes de tratarmos das ativida-
des holandesas no Recife, é conve-
niente, porém, que sejam lembra-
das as instalações de defesa de Sal-
vador, na Bahia, porque, de um
modo ou de outro, elas também
A SEGUNDA ETAPA
A segunda etapa da história das fortificações brasileiras trata
primordialmente das obras relacionadas com o período holandês
em Pernambuco e áreas limítrofes, onde, pela primeira vez no Brasil, o
sistema defensivo é articulado, envolvendo variados redutos, cujos
alcances de tiro garantiam a defesa contínua de extensa faixa litorânea.
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
65
ArquiteturA MilitAr
64
gentil-homem florentino Baccio di
Filicaya, que certamente trouxe
para o Brasil as novidades arquite-
tônicas não só referentes às constru-
ções militares, mas também às
obras religiosas e particulares. Essa
Fortaleza de Nossa Senhora de
Monserrate tem como planta um
hexágono irregular mostrando nos
vértices seis torreões, ou guaritas
abobadadas, que lhe marcam incisi-
vamente a silhueta.
Na área de influência pernambu-
cana há a destacar, na região da
Paraíba, a célebre Fortaleza de
Santa Catarina de Cabedelo. O seu
primeiro projeto deveu-se ao zelo
do já citado Diogo Flores Valdez
nas suas vistorias nos pontos
importantes ainda falhos de defesas
eficazes. Na foz do rio Paraíba pro-
videncia ele a ereção de um forte
projetado pelo engenheiro alemão
Cristovan Lintz por volta de 1585.
Foi trabalho mal executado, no
entanto. As suas taipas não resisti-
ram aos anos e às intempéries. Isso
fez com que o próprio Felipe II orde-
nasse uma “reformação” de tal for-
taleza, altamente degradada. Cum-
prindo tais ordens, em 1618, D. Luís
de Sousa, o então governador-geral
da capitania, vai ao local, na com-
panhia de Francisco Frias de Mes-
quita, e planeia uma nova constru-
ção, aquela que hoje ombreia em
Forte de Nossa Senhora de Monserrate, Salvador (BA)
1534 e foi reconstruído em pedra e
cal pelo governador-general D.
Francisco de Sousa, e desde aquele
tempo a sua eficácia foi posta em
causa. Foi tomado pelos holandeses
e logo depois reconquistado. Em
1627, nas suas imediações, foram
levantados os Fortes deSanta Maria
e São Diogo, para que fossem evita-
dos novos desembarques nas
redondezas.
As três fortificações, no entanto,
estão à mercê de padrastos bem
próximos, o que as torna vulnerá-
veis. O de Santo Antônio da Barra
teve, ao longo do tempo, o seu perí-
metro aumentado, passando a mos-
trar a forma de um polígono irregu-
lar de dez lados e nenhum baluarte,
mas tão-somente guaritas nos vérti-
ces salientes.
A Fortaleza de Nossa Senhora de
Monserrate de Salvador tem inte-
resse arquitetônico e, ao mesmo
tempo, documental porque talvez
seja a última fortificação brasileira
projetada e construída por um
arquiteto italiano especialmente
trazido para tal mister. Antigamen-
te chamava-se Forte de São Felipe,
em homenagem ao rei espanhol,
tendo sido feita sobre uma primiti-
va fortificação, entre 1591 e 1602,
por ordem do mesmo D. Francisco
de Sousa, tendo como arquiteto o
Forte de Santo Antonio da Barra
em Salvador (BA), em desenho
do século XVIII AHE
Sistema bastionado segundo o “Método Luzitano de Desenhar Fortificações das Praças
Regulares e Irregulares”, de Serrão Pimentel (1680)
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
67
ArquiteturA MilitAr
66
Fortaleza de Santa Catarina de Cabedelo na Paraíba Barlaeus, 1647
A TERCEIRA ETAPA
Restaurada a soberania portuguesa na totalidade do litoral
brasileiro do Nordeste em 1654, ficaram ainda indecisas as
demarcações separando o Brasil das possessões espanholas.
conservação, até surgir a planta defi-
nitiva, que hoje vemos, caracterizada
pelo convencional quadrado provido
de quatro baluartes nos seus vértices.
A Fortaleza de Santa Cruz de Ita-
maracá, também denominada Forte
Orange pelos holandeses que a cons-
truíram, data de 1631 e, situada ao sul
da ilha daquele nome, defendia a
barra do Rio Igaraçu, que, mesmo na
maré baixa, dava calado aos navios
de grande porte. Possuía planta qua-
drada, com os sempre presentes qua-
tro baluartes de ângulo agudo.
T udo era muito nebuloso de Santa Catarina, ao sul de Cananéia, em direção a Bue-
nos Aires, e também nada estava
definido no que diz respeito às divi-
sas no âmago do continente, pois
todo aquele sertão, praticamente
desconhecido, aguardava uma deci-
são que indicasse o que pertencia a
Portugal e o que seria espanhol.
Contrariando o velhíssimo Tratado
de Tordesilhas, estavam os portu-
gueses fixados centenas de léguas a
oeste, quase nas faldas dos Andes, e
realmente aquele remoto labirinto
de rios envolvendo gigantescas flo-
restas que escondiam riquezas ini-
magináveis haveria que ser reparti-
do. Os bandeirantes paulistas, desde
os anos iniciais do século XVII, per-
correram, em busca de índios a
escravizar e de ouro, em viagens que
duravam anos, todas aquelas remo-
tas paragens e durante essas andan-
ças fixaram-se em pontos isolados,
que serviram de balizas lusitanas na
hora das confrontações territoriais.
Em 1750, ocorre o Tratado de
Madrid, que estabelece as divisas
entre as duas nações com base numa
Forte Orange na Ilha de Itamaracá (PE), em
gravura do século XVII do livro de Barlaeus.
Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá, na Barra do Rio Igaraçu, (PE). Antigo Forte Orange,
edificado pelos holandeses em 1631, foi tomado pelos portugueses em 1654, quando foi
rebatizado com o nome atual. AHU
importância arquitetônica com os
Reis Magos de Natal. Em 1634 é
tomada pelos holandeses, que ali
ficam por vinte anos fazendo obras
de ampliação e manutenção. Passou
a chamar-se Forte Margaret. A sua
planta irregular apresenta três
baluartes voltados para o oceano.
Da Paraíba para o sul começa o
grande sistema defensivo que carac-
terizou o período da dominação
holandesa. Só na costa pernambuca-
na podemos identificar vinte e oito
fortificações, fora as de Alagoas. Cita-
remos somente as duas principais,
que têm certo valor arquitetônico e
histórico e testemunham a obra forti-
ficatória dos subordinados do conde
Maurício de Nassau: a Fortaleza de
Santiago das Cinco Pontas e a Forta-
leza de Santa Cruz de Itamaracá (ou
Forte Orange).
Hoje, a Fortaleza das Cinco Pontas
está envolta pelo casario do Recife e
há muitos e muitos anos que já não
existem os cinco baluartes que lhe
deram o nome, apelido, aliás, vindo
dos tempos dos flamengos, que resis-
tiu a todas as modificações introduzi-
das no seu perímetro. Realmente,
essa fortaleza, levantada em 1630
p e l o e n g e n h e i ro h o l a n d ê s
Commersteyn, possuía um períme-
tro pentagonal que aos poucos pas-
sou a ser remodelado em obras de
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
69
ArquiteturA MilitAr
68
zuela os espanhóis desciam pelos
rios da cabeceira para atingir o mar
facilitador das comunicações com a
Europa. Havia que trancar o rio.
Coisa difícil, no entanto, porque só
da terra firme seria impossível o esta-
belecimento articulado de fortifica-
ções. A defesa dos canais necessaria-
mente haveria de ser comprometida
com o emprego de navios de guerra.
No entanto, em alguns pontos julga-
dos estratégicos foram levantadas
poucas fortalezas, que vêm a consti-
tuir as da terceira etapa da nossa clas-
sificação, e duas delas, pelo menos,
tiveram, e têm ainda, grande signifi-
cação arquitetônica: uma, a de
Macapá, no imenso delta amazônico,
e a outra bem no interior, nas mar-
gens do Guaporé, já para os lados da
remota capitania do Mato Grosso.
A Fortaleza de São José de Macapá
foi projetada em 1764 por Henrique
Antônio Galluzzi. Esse cidadão ita-
liano, parece que natural de Mânto-
va, foi contratado em 1750 como aju-
dante de infantaria, com o exercício
de engenheiro. São José de Macapá
foi, deve-se reconhecer, uma fortale-
za de pouca eficácia, dada a imensa
largura do rio à sua frente e também
por estar sempre malguarnecida de
soldados devido à pestilência do
local, naquela época caracterizado
por pântanos envolventes. Pois
Planta da Fortaleza de N. Sra.
de Nazareth no Rio Tocantins (PA) AHE
Projeto de fortificação da cidade de Belém do Pará, de Gaspar Gronsfeld MI
Portal do Forte
Príncipe da Beira,
em Rondônia CI
incipiente cartografia que simples-
mente apontava rumos ou direções,
sem a possibilidade de indicar com
exata precisão o percurso da raia
separadora das duas línguas. Há
necessidade, então, de profissionais
que viessem à América do Sul para
demarcar os limites imaginados
pelos diplomatas na corte espanhola.
Portugal arregimenta o que há de
melhor entre os seus profissionais,
principalmente cartógrafos e enge-
nheiros militares, e manda também
que sejam contratados especialistas
italianos que facilitem o intento de
balizar o território através de obser-
vações astronômicas e, inclusive,
localizar fortificações nos pontos-
chave. Dentre esses italianos distin-
guiram-se Antônio José Landi, Hen-
rique Antônio Galluzzi e Domingos
Sambuceti, todos chegados ao Norte
do Brasil poucos anos depois do refe-
rido tratado diplomático. Dentre os
três, Landi talvez tenha sido o mais
famoso no exercício da profissão,
pois revelou-se um arquiteto compe-
tente, tendo sido responsável pela
introdução de novas versões estilísti-
cas que poderíamos chamar de “tar-
do-maneirismo” a partir de suas
obras civis de Belém do Pará. No
entanto, como engenheiro fortifica-
dor, assumiu aspecto apagado. Os
seus patrícios, porém, na arquitetura
militar tiveram papel atuante.
O rio Amazonas era vulnerável
porta aberta para o interior do conti-
nente, e daí a extensão do problema
surgido aos portugueses: pela sua
quilométrica foz, ingleses, franceses e
holandeses, insatisfeitos só com a
posse das Guianas, voltadas para o
Atlântico, desejavam também fazer
frente para as águas amazônicas,
enquanto no Peru, Colômbia e Vene-
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
71
ArquiteturA MilitAr
70
Real Forte Príncipe da Beira em Guajará Mirim (RO).
Em baixo, detalhe do portal do forte CI
Projeto e construção da Guarita
do Forte Príncipe da Beira.
naquele deserto, longe de tudo e de
todos, o capitão-generalFernando
da Costa Ataíde ratificou a posse
portuguesa mandando o engenhei-
ro italiano levantar a mais vasta
praça de guerra do Brasil, que che-
gou a possuir 86 canhões. Toda
construída de pedra escura habil-
mente trabalhada, tem planta qua-
drada com quatro baluartes cujos
flancos fazem ângulos bastante
abertos com as cortinas. No recinto
da fortificação havia oito edifícios
apropriados para os diferentes mis-
teres de uma praça de guerra, como
o paiol de pólvora, o hospital, a
capela, os armazéns, os quartéis, a
casa do comandante, etc.
O Real Forte do Príncipe da Beira
teve a sua pedra fundamental lan-
çada em 20 de junho de 1776 nas
margens do Rio Guaporé, hoje
município do Guajará-Mirim (Ron-
dônia), pelo capitão-general Luís de
Albuquerque de Melo Pereira e
Cáceres, tendo a seu lado o ajudan-
te de infantaria e engenheiro
Domingos Sambuceti. Natural de
Gênova, este profissional italiano
também perambulou pelos sertões
amazônicos, não só fazendo demar-
cações, como refazendo fortifica-
ções à beira-rio deixadas pelos pri-
meiros portugueses na região. Essa
fortaleza de Sambuceti também é
de planta quadrangular com os
seus quatro baluartes à “moda
Vauban”, como dizem os cronistas
brasileiros quando tratam desses
redutos da floresta amazônica.
Planta da Fortaleza de S. José de Macapá, no Rio Amazonas, desenhado Galluzzi AHE
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
73
ArquiteturA MilitAr
72
são maneirista desaparecida duran-
te a guerra com os holandeses.
José da Silva Pais talvez tenha
sido melhor arquiteto do que forti-
ficador, porque imaginou, em 1739,
um sistema triangulado de fortale-
zas situando duas delas nas ilhas
Anhatomirim e Raton Grande e a
terceira na ponta Grossa da ilha de
Santa Catarina, onde se situava a
cidade do Desterro, a atual Floria-
nópolis, capital do estado de Santa
Catarina. Tais fortalezas foram ine-
ficazes, permitindo, por exemplo,
que em 1777 os espanhóis, sob o
comando de D. Pedro Ceballos,
ocupassem a ilha. Essas três fortale-
zas foram: Santa Cruz de Anhato-
mirim, São José da Ponta Grossa e
Santo Antônio de Raton Grande,
ou Fortaleza dos Ratones. As três
fortificações foram organicamente
adequadas às conformações topo-
gráficas de seus sítios de implanta-
ção, de modo que não apresentam
nas suas plantas nenhuma ordena-
ção geométrica. Os seus perímetros
são sinuosos e irregulares, permi-
tindo grandes terraplenos, onde o
arquiteto, ao longo de uns dez
anos, foi dispondo edifícios neces-
sários e normais às praças de guer-
ra assim fortificadas. Delas, a mais
importante (e hoje restaurada) é a
primeira, a de Santa Cruz, cujas
Anhatomirim segundo desenho de José
Custódio de Sá e Faria, ca. 1754 BMMA
“Prospecto da Fortaleza de S. Cruz da Ilha Anhatomirim”, 1760 BMMA
Em 1735 a colônia foi atacada duramente, iniciando-se a guerra entre os dois países,
que durou alguns anos. Acordaram
nessa hora os portugueses, vendo o
seu vasto litoral sul totalmente des-
guarnecido, e trataram de fortificá-
-lo rapidamente. A expedição ao sul
foi confiada ao brigadeiro José da
Silva Pais, engenheiro e arquiteto de
muita importância na história da
arquitetura brasileira porque foi o
primeiro a projetar na colônia, em
plena euforia barroca, ocorrida prin-
cipalmente no Nordeste, edifícios
contidos dentro da mais austera
composição classicizante. Acontece
que Silva Pais, como seus colegas
engenheiros militares portugueses,
ainda estava preso ao maneirismo
histórico que antecedeu ao barroco.
O Palácio do Governo, projetado
por Silva Pais, cujos desenhos origi-
nais estão em Lisboa, hoje totalmen-
te desfigurado, pode ser considera-
do a primeira construção clássica
brasileira do século XVIII, que reto-
mou, depois de cem anos, a conci-
A QUARTA ETAPA
As providências demarcatórias das divisas entre a Espanha
e Portugal na América do Sul, decorrentes do já citado Tratado
de Madrid, na parte da marinha sul, não chegaram a bom termo,
não impedindo as escaramuças entre gente de Buenos Aires e os
moradores da colônia do Sacramento, o ponto mais avançado ao sul,
nas margens do Prata, em que os portugueses se haviam fixado.
Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim em Florianópolis, SC
As FortiFicAções coloniAis no BrAsil
75
ArquiteturA MilitAr
74
“Plano para servir d’demonstração dos lugares fortificados
da Ilha de Santa Catarina”, desenhado por José Correia Rangel - 1786 AHML
construções internas possuem bas-
tante interesse arquitetônico.
Finalmente, ainda na quarta etapa
da nossa classificação, tem de se
mencionar a Fortaleza de Nossa
Senhora dos Prazeres da Ilha do
Mel, nas proximidades de Parana-
guá, no litoral paranaense. Tem
planta retangular, cujas cortinas são
de cantaria aparelhada, e foi cons-
truída em 1767 pelo tenente-coronel
Afonso Botelho de Sampaio, a
mando do morgado de Mateus, D.
Luís Antônio de Sousa Botelho Mou-
rão, seu primo, então governador-
general da capitania de São Paulo.
Essa providência fora decorrente de
recomendação do marquês de Pom-
bal, que ficara impressionado com a
quantidade de incursões de piratas
naquelas redondezas. Em 1800 foi
desarmada por ser considerada inú-
til, principalmente por estar situada
ao lado de um morro, seu padrasto.
Esse é o panorama geral relativo
à disposição, no tempo e no espaço,
do sistema de fortificações ocorrido
no Brasil colonial. A História está
repleta de exemplos de fortificações
invadidas por índios revoltados,
por corsários ousados e por milita-
res aos milhares, como aconteceu
com a Fortaleza dos Reis Magos, de
Natal. São muito raros os cercos
frustrados por resistências eficazes.
Heróicas, sim, foram sempre as
reconquistas, em que soldados e
povo irmanados, praticando princi-
palmente a guerrilha, venciam, com
os recursos mais incipientes, o inva-
sor poderoso. Reconquistando-se os
baluartes roubados, reassenhorea-
Fortaleza de Jesus Maria José, no Rio Grande do Sul, projetada por Manuel Vieira Leão AHU
ArquiteturA MilitAr
76
MApA dAs FortiFicAções
dA BAixAdA sAntistA
Victor Hugo Mori
Carlos A. Cerqueira Lemos
(*) Resumo do texto: “O Brasil” in “História das Fortificações Portuguesas no Mundo”,
direção de Rafael Moreira, Publicações Alfa, Lisboa, 1998, pp. 235/254.
D. João pintado por Debret.
A transferência da Corte
para o Rio de Janeiro encerrou
um capítulo da nossa história
militar.
va-se a posse política. Daí, por
exemplo, a nem sempre correta
escolha do sítio a ser fortificado,
demonstrando uma certa displicên-
cia ou, quem sabe, precaução. É que
até os próprios padrastros, um dia,
acabariam por favorecer os colonos
espoliados…
Somente depois dos tratados de
Madrid e de Santo Ildefonso é que
Portugal realmente se precaveu,
com estudada racionalidade na
defesa das suas terras, tanto no ser-
tão amazônico como no litoral sul.
Somente depois desses acordos. Na
verdade, nem o ouro de Minas, des-
pachado para a Corte através do
porto do Rio de Janeiro, chegou a
justificar o estabelecimento da
razoável articulação entre fortale-
zas, talvez porque os prováveis ata-
cantes da pirataria, institucionaliza-
da agora em meados do século XVIII,
preferissem agir em alto mar, inves-
tindo contra a frota rica. Assim, no
que diz respeito à arquitetura mili-
tar, o Brasil, devido a esses sucessos
todos, apresenta uma interessantís-
sima diversificação tipológica que, a
nosso ver, está à espera de um aten-
to pesquisador que venha a mostrar
como a teoria dos especialistas em
Portugal se manifestou despoliciada
na colônia.
Mapa das FortiFicações da Baixada santista
79
ArquiteturA MilitAr
78
Forte de São Luis da Bertioga
Legenda
Fortificações existentes
Fortificações destruídas
Forte da Villa ou de Monserrate
Fortim do Góes
Fortaleza de Itaipu
Praia Grande
São Vicente Santos
Forte de São João da Bertioga ou de São Tiago
Forte de Vera Cruz de Itapema
Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande
Guarujá
Forte de
São Felipe
Fortedos Andradas ou do Monduba
Forte da Estacada
fonte INPE
Bertioga
Mapa das FortiFicações da Baixada santista
81
ArquiteturA MilitAr
80
Fortaleza de Itaipu
A Ponta de Itaipu, no Município de Praia
Grande, possui três fortificações: a deno-
minada Duque de Caxias (1917), a de
Jurubatuba (1919) e a bateria inacabada
General Rego Barros. Está em andamento
um projeto prara transformar a área num
complexo turístico-cultural.
Forte dos Andradas
Situado na Ponta do Monduba, no Guaru-
já, foi concluído em 1942 – o último a ser
construído no Brasil. Edificado no subter-
râneo do morro, está armado com quatro
obuseiros de costa de 280 mm. Foi recente-
mente aberto à visitação pública.
Forte de Vera Cruz de Itapema
Nos mapas quinhentistas de São Vicente,
já aparece um pequeno fortim na Ponta de
Itapema, no Guarujá, com a denominação
de Forte da Cruz. O que resta hoje desse
reduto foi construído em 1738 com projeto
do Brigadeiro Silva Paes, porém a bateria
quinhentista semicircular parece que foi
em parte incorporada no projeto do século
XVIII.
Forte da Vila ou de Monserrate
Não se conhece a data da construção
dessa bateria, mas sabemos que no final
do século XVII foi reconstruída devido ao
seu arruinamento. Esse pequeno reduto
voltado para o Porto de Santos foi demoli-
do em 1876 para dar lugar ao prédio da
Alfândega. Possuía uma cortina curvilí-
nea e era armado com seis peças calibre 6
no século XVIII.
Forte do Crasto ou da Estacada
O Brigadeiro João Massé projetou essa for-
tificação em 1714, que seria construída por
João de Crasto na praia fronteira ao Forte
da Barra Grande. Devido a erros constru-
tivos, apenas a tenalha foi edificada em
pedra e cal, sendo o restante completado
precariamente com estacadas de madeira.
Foi demolido no início do século XX para a
construção do edifício que hoje abriga o
Museu de Pesca de Santos.
Fortim do Goes
Localizado na Praia do Goes, no Guarujá,
foi construído em 1767 pelo Morgado de
Matheus para impedir o desembarque por
terra à Fortaleza de Barra Grande. No
final do século XIX, encontrava-se desar-
mado. A ocupação irregular da área acen-
tuou sua degradação.
Forte de S. Tiago ou S. João da Bertioga
Situado na entrada do Canal da Bertioga,
foi construído por ordem de D. João III em
1551, para proteger a Capitania de S.
Vicente contra os tamoios do litoral norte.
Ampliado e reformado em 1751 pelo
governador Sá e Queiroga, foi restaurado
pelo IPHAN em 1942 e 2000.
Forte São Luiz da Bertioga
O maremoto de 1769 destruiu parte da
cortina do Forte da Bertioga. Em 1770, o
governador D. Luíz A.S.B. Mourão man-
dou edificar o Forte S. Luíz na outra mar-
gem do canal (Guarujá) para substituir a
bateria avariada. Esse novo forte nunca
chegou a ser completamente acabado.
Forte de São Felipe
No mesmo local fortificado por Martim
Afonso, onde morou Hans Staden, o
Capitão-mor Jorge Ferreira edificou uma
“casa de pedra” ou casa-forte, com a
denominação de Forte S. Felipe em 1557.
Abandonado no século XVII, o local foi
reocupado pela Armação de Baleia a
partir de 1745, cujas ruínas ainda
subsistem.
Fortaleza de S. Amaro da Barra Grande
Oficialmente a Fortaleza foi construída em
decorrência da presença do inglês
E. Fenton em Santos, pelo comandante
Andrés Igino, da Armada de Felipe II. A
obra foi projetada em 1583 por B. Antonel-
li, e ampliada no século XVIII pelos Briga-
deiros Massé e Silva Paes. Foi restaurada
pelo iphan com o apoio da Universidade
Católica de Santos.
A orgAnizAção MilitAr
nA cApitAniA de
são vicente
nos priMeiros séculos
Victor Hugo Mori
Entrada do Canal da Bertioga – primeiro ponto fortificado
na Capitania de São Vicente.
A OrgAnizAçãO MilitAr nA CApitAniA de SãO ViCente nOS priMeirOS SéCulOS
85
O SISTEMA DE ORDENANÇAS
O desmantelamento da estrutura feudal militar-aristocrática nos
séculos xiv e xv reflete em parte o poder da emergente classe dos
mercadores, que buscava através da centralização do poder
político nas monarquias, as condições para o desenvolvimento do
surto mercantil.
A época foi favorável a essas transformações: a passagem do artesanato para a manu-
fatura, a revolução urbana em opo-
sição ao enfraquecimento da econo-
mia rural, o desenvolvimento da
artilharia de fogo, que reduziu os
castelos feudais a símbolos arquite-
tônicos do passado e o progresso da
engenharia naval.
Portugal antecipou o processo de
unificação do poder, gerando assim
as condições políticas para desen-
volver o surto mercantil, segundo
Nélson Werneck Sodré. Essa nova
economia era desvinculada da pro-
dução de gêneros e manufaturas. O
lucro advinha da intermediação e
transporte de mercadorias. Era o
modelo adequado a uma nação
pequena e montanhosa voltada para
o mar. A expansão marítima de Por-
tugal foi, portanto, uma empresa de
caráter “puramente mercantil”.1
A manutenção do monopólio das
rotas de comércio implicava ocu-
par, produzir e defender a área con-
quistada, tarefa que a classe mer-
cantil não dispunha de capacitação
nem de meios para a sua execução.
O empreendimento tornou-se viá-
vel a partir da associação com a
casta de fidalgos, que ainda conser-
vava a tradição ancestral de con-
Gravuras de 1557 do livro Hans Staden representando
um engenho de açúcar idealizado como uma construção medieval
fortificada em São Vivente e uma paliçada de defesa com suas
bombardas em Igaraçu.
A OrgAnizAçãO MilitAr nA CApitAniA de SãO ViCente nOS priMeirOS SéCulOS
87
ArquiteturA MilitAr
86
Mapa do Brasil com a divisão em capitanias, c.1590.
Biblioteca da Ajuda, Lisboa, Portugal
tas almas, e de escravaria mais de três
mil e seis Engenhos e muita fazenda”.2
O Regimento de Tomé de Souza
de 17/12/1548 definiu o número
mínimo de artilharias para as capi-
tanias. Ordenava ainda, que “os
senhores de engenhos e fazendas que,
por este Regimento, hão de ter torres ou
casas-fortes, terão ao menos quatro ber-
ços e dez espingardas com pólvoras
necessárias, e dez bestas, e vinte espadas
e dez lanças ou chuças, e vinte corpos de
armas de algodão”.3
Os restos quinhentistas do Enge-
nho dos Erasmos, em Santos, uma
das pioneiras instalações de pro-
ducão de açúcar no Brasil, confi-
guram uma construção civil forti-
Folha do Tratado de Tordesilhas, 1494.
AGI, Sevilha, Espanha
quistar, ocupar, produzir e defen-
der um território.
A divisão em Capitanias Heredi-
tárias foi a estratégia política adotada
para a colonização do Brasil, enquan-
to o interesse da coroa portuguesa
estava voltado ao lucrativo comércio
das especiarias. O único sistema
encontrado para a ocupação de um
vasto território desconhecido, des-
provido de infra-estrutura, de meios
e de súditos foi o feudal-escravista,
centrado na produção de açúcar.
Catorze anos após a criação da
Capitania de São Vicente, o fidalgo
Luis de Góes em carta ao rei relatava
que “só nesta capitania entre homens,
mulheres e meninos há mais de seiscen-
A OrgAnizAçãO MilitAr nA CApitAniA de SãO ViCente nOS priMeirOS SéCulOS
89
ArquiteturA MilitAr
88
pelouros para ele”, “seis meio berços de
metal”, “dezoito câmaras”, “vinte
pelouros”, “um quintal mais de pólvora
de bombarda”, “trinta espadas guarne-
cidas”, tudo avaliado em “duzentos,
quarenta, e seis mil, e oitenta, e oito
reis”, a serem pagos das rendas do
donatário Martim Afonso de Souza.5
A conclusão do Forte de São Tiago
da Bertioga em 1560, a expulsão dos
franceses do Rio de Janeiro, o trata-
do de paz com os tamoios, e a trans-
formação de Santos como a princi-
pal vila da capitania, levaram a
barra pequena da Bertioga a perma-
necer pacífica e quase esquecida até
a época das descobertas auríferas.
A organização militar na Capita-
nia de São Vicente ainda conservou
sem grandes alterações até o fim do
século XVII o sistema implantado no
Foral de 04/09/1534 e no Regimento
de Tomé de Souza de 17/02/1548.
As tropas regulares (ou de linha)
profissionais pagas pela Coroa, eram
responsáveis pela defesa das rotasmercantis, e as forças não regulares,
denominadas Serviços de Ordenan-
ças, convocadas e mantidas em caso
de guerra pelos donatários e capi-
tães, garantiam a defesa da terra. A
expulsão dos franceses do Rio de
Janeiro demonstrou, que em casos
de invasões externas as duas forças
se conjugavam para a defesa do ter-
ritório colonial: a frota de Simão de
Vasconcelos enviada de Portugal, e
as Ordenanças compostas pelos
colonos da Capitania de São Vicente.
Mapa da Capitania de São Vicente com
suas quatro primeiras fortificações
Brasão
de Martim Afonso
de Souza
Paliçada indígena ou caiçara
ficada para se proteger dos “con-
trários” quatorze anos antes do
Regimento de Tomé de Souza.
Segundo Júlio Katinsky, “a forma
compacta e alongada das grossas pare-
des de “pedra canjica” (opus incer-
tum), de grande resistência e estabili-
dade, e as seteiras remanescentes indi-
cam construção com função também
defensiva, adequada àquele primeiro
período da conquista.” 4
Nos primeiros anos da coloniza-
ção vicentina os conflitos entre os
portugueses e os indígenas do lito-
ral norte, aconteciam na barra da
Bertioga, local onde foram cons-
truídas as duas primeiras fortifica-
ções da capitania: o Forte de San-
tiago e o Forte de São Felipe. Era o
ponto de divisa entre os territórios
das duas nações inimigas: os tupi-
niquins, aliados dos portugueses, e
os tamoios, aliados dos franceses.
No dia 13/02/1552 Thomé de
Souza, “respeitando a contínua guerra
que nas ditas capitanias havia” man-
dou provê-las “de alguma artilharia, e
munições necessárias para a segurança
delas”. Para a Capitania de São
Vicente (Fortaleza da Bertioga)
“mandava para defesa dela a artilharia e
munições seguintes”: “um pedreiro de
metal e um reparo de rodas maciças”,
“um falcão também de metal”, “o rabo e
pião dele”, “duas câmaras”, “a chave e o
reparo dele”, “trinta pelouros para o
dito falcão”, “quatro berços também de
metal”, “doze câmaras e quatro chaves
para eles”, “vinte pelouros”, “seis arca-
buzes aparelhados”, “uma arroba de pól-
vora de espingarda”, e “vinte espadas
com suas bainhas”; tudo isso somado
aos armamentos “que já estavam de
Sua Alteza na dita Capitania de São
Vicente, a saber um falcão outro de
metal”, “duas câmaras para ele”, “vinte
A OrgAnizAçãO MilitAr nA CApitAniA de SãO ViCente nOS priMeirOS SéCulOS
91
ArquiteturA MilitAr
90
Oficial do Corpo de Dragões de São Paulo em 1775 (esq.); soldado do Regimento
de Infantaria de Santos e soldado do Corpo da Marinha de Santos, segundo
desenho de W. Douchkine
moradores de S. Paulo os que vêm livrar
aos da Bahia, e este serviço S. Majestade
há de remunerar, e eu agradecer a todos
os que vierem fazê-lo.”6 O Regimento
com 19 parágrafos, dessa “Bandeira
Oficial” liderada pelo paulista
Domingos Barbosa Calheiro com 200
homens, além de 40 escravos e 40
cavalos cedidos pela coroa, reflete
ainda o modelo medieval de guer-
rear. Todos seriam recompensados
com “as utilidades que delas se lhe
seguir, assim dos cativos que aprisiona-
rem, como das terras que eles ocupam”.7
No final do século XVII o bandei-
rante Domingos Jorge Velho foi
designado pelo Rei “como mestre de
campo do terço que mandou se forme
dos ditos paulistas”, para a “guerra
dos Palmares de Pernambuco”.8
Com a descoberta do ouro, a
coroa portuguesa foi obrigada a
desfazer pouco a pouco esse Siste-
ma de Ordenanças de inspiração
feudal, criando milícias regulares
para controlar os acessos às minas.
Em 1745 o governador da capitania
de São Paulo solicitava autorização
do rei para serem concedidos 400
tapuias de aldeias do Rio de Janeiro,
à custa da Fazenda Real, para se
encarregarem da segurança dos
caminhos e passagens.
No último ano do século XVIII, as
forças de defesa da Capitania de São
Paulo eram compostas pela Legião
de Voluntários Reais e o Regimento
de Infantaria, criados em 1775, além
dos onze Regimentos Milicianos (3
de Cavalaria e 8 de Infantaria) e do
Corpo de Ordenanças. Na Fortaleza
da Barra o destacamento comanda-
do pelo Tenente Joaquim R. de Aze-
vedo Marques era composto por 2
oficiais inferiores, 2 cabos, 1 tambor,
48 soldados, além de outro oficial
No século XVII, com a atenção do
governo central voltada para as ten-
tativas de invasões da área da produ-
ção açucareira nordestina, o Sistema
de Ordenanças (tropas não regula-
res) na esquecida capitania de São
Vicente, deu origem a tropas particu-
lares à serviço de um senhor: as ban-
deiras. A conquista pelos holandeses
dos entrepostos africanos de escra-
vos, fomentou internamente a procu-
ra pela mão de obra indígena. As
bandeiras paulistas foram em princí-
pio toleradas pelo governo diante da
circunstância econômica do país, e
paulatinamente adquiriram uma
dimensão militar importante na polí-
tica de defesa, que acabaram sendo
consagradas pela metrópole. Após a
difícil retomada de Pernambuco e a
restauração do trono português, a
Fazenda Real encontrava-se descapi-
talizada e as tropas militares do nor-
deste enfraquecidas. Ocorreram inú-
meros ataques de tribos inimigas nas
áreas nordestinas, obrigando a coroa
a recorrer aos bandeirantes de São
Vicente.
Em 1657, o governo requisitava o
auxílio do Capitão-mor de São
Vicente para enviar “sertanistas” para
destruir índios que atacavam os por-
tugueses do Recôncavo, pois todas
as tentativas locais haviam fracassa-
do devido à “ligeireza” dos contrários
e à nossa “ignorância de campanha e
pouco vezo daquela guerra”. O gover-
nador-geral do Brasil Francisco Bar-
reto acrescentava que “só a experiên-
cia dos Sertanistas dessa Capitania pode-
rá vencer as dificuldades”. Em troca a
coroa permitiria aos bandeirantes
“servir deles como escravos sem o menor
escrúpulo de suas consciências”, além
do que “a matéria é da maior importân-
cia que se deixa ver: e maior a glória que
essa Capitania pode ter de serem os
Bandeirante idealizado por Belmonte
Soldados índios do século XIX em pintura
de Debret
A OrgAnizAçãO MilitAr nA CApitAniA de SãO ViCente nOS priMeirOS SéCulOS
93
ArquiteturA MilitAr
92
OS ENGENHEIROS MILITARES
Mario Mendonça de Oliveira escreveu com muita propriedade
sobre a impossibilidade de se estudar a Arquitetura e a
Urbanística de Portugal e do Brasil até o século xix, “sem
defrontar-se, obrigatoriamente, com a Engenharia Militar”.10
N os dois primeiros séculos o Corpo de Engenheiros não se constituiu numa casta de
elite dentro da organização militar
do reino. Chegou mesmo a ser um
quadro desprestigiado dentre os ofi-
ciais de infantaria e artilharia, prin-
cipalmente os nascidos em terras
brasileiras. Sequer havia distinção
de atribuições entre os construtores
civis e os engenheiros militares. Os
primeiros chegaram a construir for-
tificações enquanto os militares pro-
jetaram e construíram incontáveis
prédios religiosos, edifícios públi-
cos, além de obras urbanísticas. As
regras medievais das corporações
de ofício ainda prevaleciam. O pri-
meiro projeto enviado do reino para
São Vicente foi “a traça” do peque-
no forte da Bertioga em 1551, na
época em que o “Mestre das obras
da fortificação do Reino, Lugares-
-d’além e Índias” era ocupado pelo
famoso Miguel de Arruda.
A publicação em 1680 do livro
“Método Lusitânico de Desenhar
as Fortificações”, em Lisboa, de
autoria do engenheiro-mor do
Reino Luís Serrão Pimentel, busca-
va o estabelecimento de uma meto-
dologia nacional, a partir das expe-
riências portuguesas e das escolas
francesa e holandesa, além de
salientar a especificidade da fun-
ção da engenharia militar.Engenho dos Erasmos em Santos: parede quinhentista com seteiras de defesa.
inferior, 1 cabo e 8 soldados no For-
tim do Góes. O Forte da Estacada
comandado pelo tenente Francisco
Borja, possuía 1 oficial inferior, 1
cabo e 8 soldados. O Forte de Itape-
ma comandado pelo alferes Manoel
de Albuquerque possuía, 1 cabo e 2
soldados. O Forte de São Luiz e o de
São João da Bertioga (Registro) eram
comandados pelo tenenteFrancisco
de Carvalho, sendo o destacamento
do primeiro composto de 1 cabo e 8
soldados, e o do segundo, de 1 cabo
e 4 soldados. Na antiga Fazenda dos
Jesuítas situada na subida da Serra
de Paranapiacaba, existia um desta-
camento composto de 1 cabo e 6 sol-
dados sob o comando do encarrega-
do da Fazenda Real do Cubatão.
O sistema de defesa do Porto de
Santos foi bastante detalhado no ofí-
cio do governador Antonio de Mello
Castro e Mendonça, de 16/10/1800.
O reconhecimento dos navios era
atribuição da Fortaleza da Estaca-
da, que em caso de suspeita daria
“dois tiros de Pessa, com intervallo de
hum minuto” hasteando a “bandeira
encarnada”. A Fortaleza da Barra
Grande reconhecendo o sinal de
rebate, “firmará bandeira com outros
dois tiros de Pessa”, que seria repeti-
do pelo Forte de Itapema. Este
sinal, ao ser reconhecido pelas tro-
pas em Cubatão seria enviado ao
planalto, que providenciaria o des-
locamento de tropas para socorrer
o litoral, através da Calçada do
Lorena inaugurada em 1792, e pro-
teger a Serra de Cubatão.9
No século XIX, com a instalação da
Corte no Rio de Janeiro e principal-
mente, após a Independência, a
organização iria sofrer profundas
transformações condicionadas ao
novo momento histórico do país.
A OrgAnizAçãO MilitAr nA CApitAniA de SãO ViCente nOS priMeirOS SéCulOS
95
ArquiteturA MilitAr
94
memorie”, que havia deixado no Bra-
sil (Verzino) e que seriam posterior-
mente enviados, porém estes pre-
ciosos manuscritos são hoje desco-
nhecidos.12
O primeiro engenheiro militar a
trabalhar em São Vicente foi o espano-
-italiano Giovanni Battista Antonelli,
autor do projeto da Fortaleza da
Barra Grande em 1583. No Caribe,
onde exerceu a função de principal
engenheiro de Felipe II, além das
famosas fortificações de Cartagena,
Havana e Porto Rico, foi o autor do
traçado urbano de Antígua e do pro-
jeto da Capela dos Quatro Santos.
Sobre a extensa atividade desses
engenheiros em São Paulo, que extra-
polou em muito o ofício militar, dese-
nhando cidades, monumentos, igre-
jas, estradas, etc., Benedito Lima de
Toledo já a descreveu em seu livro “O
Real Corpo de Engenheiros na Capi-
tania de São Paulo, destacando-se a
obra do brigadeiro João da Costa Fer-
reira” (João Fortes Engenharia, São
Paulo, 1981). Aliás, o engenheiro
Costa Ferreira, foi o autor da primei-
ra estrada pavimentada ligando o
Porto de Santos ao Planalto (Calçada
do Lorena) inaugurada em 1792, do
chafariz da Misericódia na cidade de
S. Paulo, elaborou em 1801 o levanta-
mento métrico do Colégio de São
Miguel em Santos, projetado pelo
jesuíta Francisco Dias no século XVI e
executou as obras do cais do Porto de
Santos atrás desse Colégio em 1805.
Capela de Montserrat em Santos, projeto atribuído ao engenheiro militar Baccio
de Fillicaya no início do século XVII.
Chafariz da Misericórdia, construído por
Tebas e projetado pelo Real Corpo de
Engenheiros, em desenho de Edmund Pink,
1823
Foi no século XVIII que a carreira
de engenheiro militar começou a
destacar-se como uma instituição
profissional especial no quadro da
organização militar. A semente foi
plantada pelo engenheiro-mor bri-
gadeiro Manuel de Azevedo For-
tes, autor da obra “O Engenheiro
Portuguez” publicada em
1729. A proposta de Aze-
vedo Fortes tinha
como fonte de inspi-
ração a criação do
corpo dos “Enge-
nheiros do Rei” por
Luís XIV, segundo
Rafael Moreira e Rena-
ta M. de Araújo.11
O primeiro engenheiro-mor
do Brasil foi talvez o florentino Bac-
cio de Filicaya, que aqui chegou no
fim do século XVI. A carta-relatório
de Filicaya de 1608, endereçada ao
seu protetor Grão-duque da Tosca-
na Ferdinando I, relatava a plurali-
dade de suas atividades no novo
mundo na função de “Ingegnere
Maggiore di questo Stato” designado
pelo governador-geral Francisco de
Souza: “mi ocupò yn restaurare molte
di esse ( fortezze) et altri porti fortifica-
re di nuovo; discoprire cierte mine dè
oro e plata, faciendo una discrizione di
tutte quelle provincie, e facilitando el
benefitio di dette mine, dove
continuai cinque anni yn
detto servitio; scobrire e
conquistare le provinzie
de fiume Maragnone e
Amazone (por solici-
tação de Diogo Bote-
lho), (…) dove conquis-
tamo dugiento leghe di
terra, e sugietamo molte
nationi di gentili a questa Corona.”
Em outra carta, Filicaya acrescenta-
va que “yn basso del mio viaggio (ao
Brasil) vo rilatando tutti i costumi,
guerre, medicamenti, viveri e leggi; de
gentili e di molti sorte di animali di
dette parte (…)”. Afirmava também
que havia executado “molti disegni e
(página anterior) Capa do livro “Methodo Lusitânico de Desenhar as Fortificações das
Pracas Regulares & Irregulares” de Serrão Pimentel
(acima) Engenheiro Azevedo Fortes
Calçada do Lorena concluída em 1792 pelo Brigadeiro João da Costa Ferreira do Real Corpo
de Engenharia em desenho de Hércules Florence, c. 1825
ArquiteturA MilitAr
96
As FortiFicAções do
cAnAl dA BertiogA:
Fortes de são tiAgo
ou são João - são Felipe -
são luiz
Victor Hugo Mori
Em 1699 foi instalada a Aula de
Fortificação e Artilharia em Salvador,
onde lecionou o Sargento-mor José
Antonio Caldas, e em 1735 curso
semelhante foi criado no Rio de
Janeiro, onde se destacou o ensino de
artilharia ministrado pelo brigadeiro
José Fernandes Pinto Alpoim.
Os ideais iluministas defendidos
pelo marquês de Pombal fizeram
dos engenheiros militares os princi-
pais agentes da política de defesa
territorial no século XVIII. Em função
dos estudos que culminaram no
Tratado de Madri (1750) e Santo
Ildefonso (1777), inúmeros enge-
nheiros militares foram designados
para demarcar os limites desconhe-
cidos do Brasil, construir fortifica-
ções, levantar marcos e ocupar o
vazio territorial do interior do País.
Em 1787 foi criado o Real Corpo de
Engenheiros por ato de D. Maria I
conforme preconizava Azevedo
Fortes em 1729 – embrião da Arma
de Engenharia.13
Sistema bastionado
Notas
1 Sodré, Nélson Werneck. “História Militar do Brasil”. Civilização Brasileira, 2ª ed. Rio de
Janeiro, 1968, pp. 14-15.
2 Carta de Luis de Góes, de 12/05/1548, escrita da Villa de Santos a El-Rei D. João iii, pedin-
do-lhe que socorresse urgentemente as capitanias e o litoral do Brasil, para que a Coroa portugue-
sa não perdesse esta sua conquista americana. “Documentos Interessantes para a História e
Costumes de São Paulo”, vol. xlviii, Arquivo do Estado de S. Paulo, pp. 09-12.
3 “Corpo de arma de algodão” era o escupil, um tipo de dalmática estofada de algodão para a
proteção de flechas. Sodré, Nelson Werneck. Op. cit., pp. 20 -22.
4 Katinsky, Júlio Roberto – “Monumentos Quinhentistas da Baixada Santista” in Revista USP,
n° 41, S. Paulo, Universidade de S. Paulo, 1999, p. 80.
5 “Documentos Históricos (mandados, alvarás, provisões, sesmarias) – 1549-1553”, vol. xxxviii.
Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, Biblioteca Nacional, 1937, pp. 214-217.
6 “Annaes do Museu Paulista”, Documentação Brasileira Seiscentista, Tomo iii, São Paulo,
1927, pp. 286-288.
7 Idem, pp. 294-302.
8 Idem, pp. 307-308.
9 Correspondência do Governador de S. Paulo de 16/10/1800. Revista do Instituto Histórico e
Geográfico de S. Paulo, Vol. liii, 1956, pp. 443-449.
10 Mendonça de Oliveira, Mário. “Robert Smith e a Engenharia Militar Brasileira” in "Robert C.
Smith: “A Investigação na História de Arte”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2000, p. 260.
11 Moreira, Rafael e Araújo, Renata Malcher de. “A Engenharia Militar no Século xviii e a
Ocupação da Amazônia”, in “Amazônia Felsínea – Antônio José Landi, Itinerário Artístico e
Científico de um Arquitecto Bolonhês na Amazônia do Século xviii”, Comissão Nacional para as
Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1999, p. 177.
12 A Carta de Baccio de Filicaya foi publicada por Gorrini, Giacomo, “Un viaggiatore italiano
nel Brasile” in “Atti del Cong. Di Scienze Storiche”, Roma, 1904, x, p. 39, apud. “Gli Italiani nel
Brasile”, GraphicoPaquino Coloniale, S. Paulo, 1922, pp. 70-74.
13 Moreira, Rafael e Araújo, Renata Malcher de. Op. cit., p.181.
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
99
A existência de ouro e prata a oeste da Linha de Tordesi-lhas, provocou o interesse
imediato da Coroa espanhola nos
seus novos territórios. A costa brasi-
leira sem esses atrativos imediatos
de lucro, foi entregue à administra-
ção privada com a implantação do
Regime das Capitanias Hereditárias
a partir da terceira década.
Foram, portanto, incipientes os
investimentos na colonização do
Brasil neste período, daí o pouco
interesse em se construir “Fortale-
zas Reais” para proteger o territó-
rio. Sobre essa época de improvisos
e sacrifícios existem poucos regis-
tros. As primitivas fortificações
provavelmente reduziam-se às
“paliçadas, cercas pontiagudas de paus
a pique, atalaias e torres”. Até mesmo
os muros de proteção de Salvador
na Bahia, construídos por Luís
Dias, em 1549, “eram obras de taipa
de pilão”, segundo afirma Carlos A.
C. Lemos1.
O envio da Armada de Martim
Afonso de Souza, em 1531, tinha
como objetivo estratégico a conquis-
ta do Rio da Prata. A colonização de
São Vicente nos limites meridionais
das terras portuguesas era parte
importante desta geopolítica volta-
da ao domínio do Atlântico sul.
Martim Afonso teria chegado ao
Canal da Bertioga no dia 22 de janei-
ro de 1532, denominando o local de
“Rio de São Vicente” em homenagem
SÉCULOS XVI E XVII
Nas primeiras oito décadas após a chegada de Cabral na Bahia,
a política de investimento da Coroa Portuguesa estava
centralizada na rota lucrativa do comércio das Índias.
Representação esquemática do Forte da Bertioga, segundo Hans Staden
Foto montagem do Forte de São João da Bertioga depois da restauração de 1999
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
101
ArquiteturA MilitAr
100
Projéteis arremessados pelo tensionamento de cordas (neurobalística),
segundo imagem do Atlas de Diogo Homem, c.1558
Conflito entre tupiniquins (aliados dos portugueses) e tupinambás
(aliados dos franceses), segundo Hans Staden
desesperada datada de 1548: ”Mui
alto e mui poderoso Senhor, que se com
tempo e brevidade vossa Alteza não
socorrer a estas capitanias e Costa do
Brasil, que ainda que nós percamos as
vidas e fazendas vossa Alteza perderá a
terra”5. Os temores de Luis de Goes
eram os franceses aliados com os
tamoios, que passaram a atacar a
costa da capitania instalando-se
posteriormente no Rio de Janeiro.
O “Auto de Proclamação” de
18/01/1550 do Governador Geral
Tomé de Souza designou Antonio
Adorno como “alcaide-mór da Forta-
leza da Britroga” responsável pelos
“armazéns e artilharia dela” e orde-
nou: “que na dita Fortaleza haja mora-
dores, que a povoem, com que possa
estar segura”6.
Parece que nada adiantou a forma-
lização deste “Auto”, pois em 1551 a
paliçada foi destruída pelos tamoios
como descreveu o Pe. Diogo Jácome7
aos irmãos jesuítas de Coimbra: “tam-
bém levaram a artilharia que puderam, e
puseram fogo às casas de palha; só uma de
telha havia em que se salvaram os feridos
de os não levarem”8. Era a mesma “cai-
çara” descrita por Hans Staden e
ao santo do dia2. A seguir, edificou
“uma torre para a segurança e defensa
dos portuguezes no caso de serem ataca-
dos pelo gentio da terra. Deu-lhe princí-
pio na mencionada ilha em uma praia
estreita no lugar onde existe a Armação
de Balêas (…) de madeira e terrão”3.
Não obstante as inúmeras interpreta-
ções históricas sobre a data e o local
da chegada da armada portuguesa
em São Vicente, a escolha deste sítio
para se levantar uma fortificação,
não parece aleatória ou desprovida
de visão militar, pois durante os pró-
ximos 40 anos os grandes conflitos
entre os colonizadores e os indígenas
contrários tiveram como palco o
Canal da Bertioga.
A localidade de Buriquioca já era
um ponto de constantes conflitos ter-
ritoriais entre os indígenas do norte
(maramomis e tamoios) e os do sul
(guaianases e tupiniquins). A aliança
inicial firmada entre Martim Afonso
com os guaianases e tupiniquins com
intermediação de João Ramalho, um
português que já se encontrava na
terra casado com uma das filhas do
cacique Tibiriçá, – “senhor dos Campos
de Piratininga” – foi determinante
para se fixar o único ponto fortificado
nos primeiros anos.
As primeiras tentativas de se
defender o local foram sempre atra-
vés de obras provisórias, as chama-
das “caiçaras” ou paliçadas, confor-
me descreveu Hans Staden: “uma
espécie de fortificação, como os selva-
gens constroem para se defender dos
inimigos”4. Eram obras defensivas
com o fim exclusivo de proteção
dentro dos princípios da “neuroba-
lística”, afinal os indígenas encon-
travam-se na idade da pedra polida.
O fidalgo Luis de Goes, um dos
povoadores que aqui chegaram
com Martim Afonso, implorava
socorro ao Rei através de uma Carta
Mapa das tribos indígenas na Capitania de São Vicente,
segundo desenho de Benedito Calixto
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
103
ArquiteturA MilitAr
102
Esquema hipotético do Forte de São Tiago da Bertioga no século XVI.
Em vermelho, a projeção do Forte atual. VHM
por Tomé de Souza, seria que a
“traça” enviada de Portugal fora
concebida dentro dos novos con-
ceitos renascentistas determinados
pelo desenvolvimento da piroba-
lística. A realidade local vivenciada
pelo Governador Geral, onde os
indígenas ainda desconheciam a
balestra ou a catapulta, o teria leva-
do a construir um “forte de transi-
ção”, que defendesse tanto das
armas de fogo das naus francesas
Vista do canal do terrapleno do Forte da Bertioga, São Paulo
construída pelos irmãos mamelucos
filhos de Diogo de Braga.
O Alvará Régio de 25/06/1551 de
D. João III finalmente deferiu o
requerimento tantas vezes suplica-
do pelos súditos de São Vicente. O
Rei ordenou a execução das “obras
da fortaleza que a seu requerimento ora
mando fazer na terra da bertiogua da
dita capitania, até de todo acabada (…)
conforme a traça que de cá vai, (…)
além do que nela mando despender de
minhas rendas e do dito Martim Afon-
so”9. Seria a primeira “Fortaleza
Real” com projeto arquitetônico
enviado de Portugal nesta costa.
Oito meses após, o donatário
Martim Afonso por meio da “Provi-
são de 08/03/1552” enviava a sua
contrapartida para as obras: “Mando
a vós Braz Cubas, que ora tendes o
cargo de arrecadador minhas rendas,
que tenho na dita Capitania, ou a quem
tiver o cargo de arrecadar as ditas ren-
das, que delas deem, e entreguem mil
cruzados a pessoa a que se entregar o
dinheiro, que El-Rei nosso Senhor
manda dar para a Fortaleza, que se há
de fazer na Bertioga”10.
As obras foram iniciadas no ano
seguinte conforme relato do próprio
governador Tomé de Souza em carta
ao Rei D. João III em 1º/06/1553:
“Bertioga que V.ª Alteza mandou fazer,
que está cinco léguas de São Vicente, na
bôca do Rio por onde os índios lhe faziam
muito mal; eu a tinha já mandado fazer
da maneira que tinha escrito a V.ª Alteza.
A ordenei e acrescentei doutra maneira,
que pareceu a todos bem segundo V.ª
Alteza verá por este desenho”. Fica sub-
jacente nesta carta que a “traça” da
fortaleza enviada pelo Rei, em 1551,
foi adaptada e modificada para aten-
der às condições locais e ao novo
povoamento que se pretendia reedi-
ficar. Era um “baluarte de pedra” con-
forme descreveu Hans Staden.
A hipótese mais provável, sobre
a adaptação do projeto efetuado
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
105
ArquiteturA MilitAr
104
Planta da Fortaleza da Bertioga de Luís António de Sá Queiroga AHU
Esse projeto corresponde, grosso modo, ao forte que chegou aos nossos dias.
O retângulo menor em azul (80 x 25 palmos) dentro da plataforma de armas, indica o
“baluarte” quinhentista que seria demolido. O primitivo edifício dos quartéis, com seu
alpendre reentrante, seria apenas “reformado”
Capitão-mór de ambas as Capitanias,
reedificou a de S. Filipe em Janeiro e
Fevereiro de 1557”. No mês de julhodeste mesmo ano o condestável do
forte de S. Felipe, Paschoal Fernan-
des, assinou uma escritura de doa-
ção de terras “n’esta Casa de pedra,
Fortaleza d’ElRey Nosso Senhor, que
está da banda do Guaíbe defronte da
Bertioga”11.
A paliçada onde morou Staden
alguns anos após a sua partida, já
havia sido substituída por uma
“casa-forte” de pedra, enquanto a
fortaleza da Bertioga ainda perma-
necia inacabada.
A rapidez com que o Capitão-
-mór concluiu a obra de S. Felipe,
comparada à de São Tiago onde se
empregou recursos reais com
Mapa de São Vicente (1572-1573), mostrando as três primeiras fortificações: S. Thiago, S.
São Felipe e Forte Vera Cruz de Itapema. “Roteiro de Todos os Sinais na Costa do Brasil”.
Códice Quinhentista da Biblioteca da Ajuda, Lisboa
como das flechas dos tupinambás
(tamoios). Voltada para o canal, a
“torre” com suas canhoneiras e
guaritas, denunciava o projeto eru-
dito da “cortina horizontal” dentro
dos princípios da “pirobalística”. E
para o lado da terra firme, uma
“estacada dobrada” ou dupla paliça-
da cercando o alojamento e talvez
até mesmo as casas dos povoado-
res, para se defender do “combate
de contato” sempre freqüente dos
contrários, dentro dos ditames da
neurobalística.
Ainda no ano de 1553, o artilheiro
Hans Staden descreveu a execução
apenas do “baluarte de pedra” volta-
do para o canal. A construção ainda
inacabada obrigaria a permanência
de sua moradia na estacada existen-
te na Ilha de Santo Amaro (Guaibe),
onde residia antes da chegada do
Governador Geral à Bertioga.
Frei Gaspar em sua “memórias”
transcreveu um importante docu-
mento, hoje desaparecido, do Livro
de Vereações de São Vicente com
data de 13/02/1557: “Jorge Ferreira,
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
107
ArquiteturA MilitAr
106
Na foto à esquerda, proporção atual do Forte S. João da Bertioga conforme obra de Sá e
Queiroga em 1751. À direita, a proporção do Forte no séc. XVI
Em janeiro de 1585, o Pe. Fernão
Cardim passando pelo Canal da
Bertioga assim escreveu: “a fortaleza
é cousa formosa, parece-se ao longe com
a de Belém e tem outra mais pequena
defronte, e ambas se ajudavam uma á
outra no tempo das guerras”15. Essa
imagem do Forte de São Tiago vis-
lumbrada após 25 anos de sua con-
clusão, certamente não se referia a
uma paliçada de madeira improvisa-
da. A descrição comparativa, descon-
tada a distorção de escala que a dis-
tância exagera, parece revelar um
“baluarte de pedra” com suas guaritas
angulares direcionadas para as
águas, semelhante ao forte que ainda
hoje marca a paisagem do canal.
Durante o século XVII com a ocu-
pação holandesa em Pernambuco e
francesa no Maranhão, a atenção da
política de defesa foi voltada exclu-
sivamente para a região nordestina,
afinal os maiores rendimentos da
coroa até o início do século seguinte
provinha do açúcar ali produzido. A
incipiente economia paulista estava
centrada no planalto no comércio
escravo e aprisionamento de índios.
Nesse contexto a proteção do Porto
de Santos permaneceu quase inalte-
rada, com as mesmas fortificações
construídas no século anterior: os
fortes de São Tiago e São Felipe na
Bertioga, a Fortaleza de Santo
Amaro, a bateria de Vera Cruz no
canal da Barra Grande e o reduto da
“Praça” ou da Vila de Santos atrás
do Colégio dos Jesuítas.
A descoberta do ouro em Minas
pelos paulistas em 1698 e o ataque
dos espanhóis à colônia portuguesa
de Sacramento em 1735, levariam a
coroa a reforçar as defesas militares
das capitanias do sul no decorrer do
século XVIII.
acompanhamento direto do Gover-
nador Geral, demonstra que esta
“Casa de pedra” deveria ser um pro-
jeto modesto destinado a cruzar
fogos com a de Bertioga.
Durante anos o condestável Pas-
choal Fernandes, sua esposa e filhos
foram os únicos moradores da Ilha
do Guaibe. A “residência fortifica-
da” deveria estar localizada no
único sítio plano da ponta da Serra
do Guararu onde poderia abrigar
pomares e criações – “a praia estrei-
ta” onde existiu a paliçada de Mar-
tim Afonso e hoje abriga as ruínas
da Armação de baleias.
Em 18/03/1560, o Rei D. Sebas-
tião escreveu ao governador Mem
de Sá que “a fortaleza da bertioga que
está na dita capitania estava por acabar
e muito desapercebida assim de pólvora,
camaras de bombardas como de bombar-
deiros e outras coisas” e estava envian-
do por Antônio Adorno as peças de
artilharia e pólvora necessárias para
“armar” a Fortaleza Real12.
O Forte denominado de São Tiago,
em função do orago da capela da
vila anexa, foi portanto, concluído
neste ano de 1560. O “Traslado de
Nomeação” do Pe. Fernão Carapeto,
em 1555 para a “Vigairaria da Igreja
de Santiago na Vila da Bertioga”13 com-
prova o santo padroeiro da primiti-
va Bertioga.
O “Armistício de Iperoig” com
os tamoios intermediado pelos
jesuítas Nóbrega e Anchieta em
1563, a conversão dos maramomis,
e a expulsão dos franceses do Rio
de Janeiro em 1567, transformou
estas área de conflitos incessantes
em uma região de grande calmaria
nos anos que se seguiram. Até
mesmo a Vila da Bertioga criada
por Tomé de Souza em 1553, atra-
vés de um ato de força obrigando
compulsoriamente seu povoamen-
to, foi desaparecendo uma vez per-
dida a sua função estratégica de
defesa da Capitania contra os
tamoios e franceses do litoral norte.
O “milagre das luzes celestiais”
atribuído à Anchieta na década de
1970 deste primeiro século, presen-
ciado do terrapleno da fortaleza
por Afonso Gonçalves, genro do
comandante, retrata simbolica-
mente este período de calmaria,
independentemente da veracidade
da narrativa do padre jesuíta Simão
de Vasconcelos14.
A partir de 1580 com a incorpora-
ção de Portugal e suas colônias à
coroa espanhola, a costa brasileira
ficou exposta aos ataques dos ingle-
ses e holandeses, inimigos da Espa-
nha. A cena destes conflitos foi des-
locada para o Canal da Barra Gran-
de que era o principal acesso ao
Porto de Santos – principal núcleo
da Capitania neste período. A cons-
trução da Fortaleza da Barra Grande
pelo Almirante espanhol Diogo Flo-
res Valdez, iniciada imediatamente
após a expulsão do inglês Edward
Fenton do Porto de Santos em 1583,
demonstra bem essa mudança e o
relativo esquecimento do “Canal da
Barra Pequena”.
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
109
ArquiteturA MilitAr
108
Na imagem de cima, o Forte de São Tiago da Bertioga nos séculos xvi e
xvii. Provável configuração com o volume do terrapleno demolido em 1751.
O edifício dos quartéis ainda permanecia com duas águas e era protegido por
uma dupla estacada.
Na imagem de baixo, o Forte no século xviii. O governador da Praça de
Santos, Luís A. Sá e Queiroga, entre 1745 e 1751 substituiu o volume da
primitiva bateria por uma nova plataforma de armas, mais ampla que a
anterior. Provavelmente foram reaproveitadas as pedras e cantarias das
cortinas primitivas. O antigo edifício dos quartéis de planta regular alpen-
drada foi mantido nas obras do século xviii. Tratava-se de edificação com
apenas 2,20 metros de altura em duas águas, estruturada em pilastras qua-
drangulares distribuídas segundo uma retícula modulada. A tenalha de
pedra e cal foi construída pelo governador Rodrigo C. de Menezes em 1724
substituindo antiga estacada de madeira. O projeto de 1751 pretendia
aumentar sua altura, mas parece que nada foi feito.
SÉCULOS XVIII E XIX
O Governo português enviou o brigadeiro João Massé entre 1712
e 1714 a Santos, para projetar um sistema de defesa do porto e
reformar as instalações militares existentes.
N as primeiras décadas do século XVIII, considerando a cobiça das “nações estran-
geiras e de piratas, pelas boa esperan-
ças que nesta Capitania há de novos
descobrimentos” o Governador Ro-
drigo Cezar Menezes procurou
“por na última perfeição a fortaleza da
barra da Bertioga” conforme relatou
em carta de 20/05/1724. Foi substi-
tuída a antiga “estacaria dobrada” de
madeira na parte voltada para a
terra, por uma moderna tenalha:
“porquegastando-se com ela de três em
três anos muito perto de quinhentos
mil réis com madeira, ultimamente se
fez de pedra e cal, com muita regulari-
dade e tudo o mais necessário para a
sua boa defesa por um conto setecentos
e setenta mil réis”16.
O brigadeiro Silva Paes enviado
pelo Rei D. João V para fortificar o sul
do país, esteve na Barra da Bertioga
em 1738, e encontrou apenas “aquela
bateria, que tem na praia quase toda area-
da”. O pequeno forte de São Felipe na
ilha de Santo Amaro, erguido em
1557 por Jorge Fernandes defronte ao
de São Tiago, parece ter desaparecido
face ao abandono a que ficou relega-
do durante todo o século XVII. Até
mesmo as denominações dos santos
“Tiago e Felipe” ficaram perdidas
nas memórias do século XVI.
O Conselho Ultramarino do Rei
acatando as determinações de Silva
Paes, ordenava que “se devia fazer
defronte” ao Forte da Bertioga “na
encosta do monte que faz para aquela
parte” um fortim para oito peças,
conforme o “risco que também vos
remete”17. Este “fortim” estava distan-
te daquela “praia estreita” da ponta
da Armação, onde se situava a “Casa
de pedra” de São Felipe. O novo sítio
escolhido situava-se na encosta
íngreme do morro na ponta do canal.
Provavelmente por falta de recursos
este projeto só seria retomado na
segunda metade desse século. As
“oito peças” de artilharia devem ter
sido colocadas em uma “trincheira”
provisória que em um desenho
(1751/1769) aparece com a designa-
ção de “Estacada de Simão da Vega”.
Este precioso desenho mostra tam-
bém na praia da Fortaleza da Bertio-
ga uma capela alpendrada denomi-
nada de “São João”.
O governador da Praça de Santos,
Luís Antônio de Sá Queiroga, em
1751, praticamente reedificou a “torre
da Bertioga”. A diminuta plataforma
de armas quinhentista com cerca de
100 m2 (80 x 25 palmos) foi demolida
e substituída pela atual com cerca de
250 m2. A tenalha voltada para o
norte foi elevada para 9 palmos e
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
111
ArquiteturA MilitAr
110
Na imagem de cima, Planta da Fortaleza de São Luiz da Bertioga levantada
pelo engenheiro militar José Antonio Teixeira (1898) AHE
Embaixo, visualização aproximada do projeto do Forte no século XVIII VHM
complementada por uma estacada
paralela. O edifício do quartel foi
apenas reformado, mantendo-se a
estrutura modular quinhentista e sua
tipologia palladiana de planta retan-
gular e alpendre central.
Por volta de 1769 um maremoto
destruiu parte do terrapleno do Forte
da Bertioga construído em 1751. A
guarita e a cortina voltada para leste
foram deslocadas conforme aparece
em um desenho da época pertencen-
te a “Coleção Morgado de Mateus”
da Biblioteca Nacional. A “Capela de
São João” já não aparece neste dese-
nho. Situada na areia da praia deve
ter sido destruída pelo mar e o seu
orago transferido para o oratório do
forte. Ainda neste ano o governador
D. Luiz A. de Souza Botelho Mourão
(1766-1775), o Morgado de Mateus,
ordenou ao Capitão Fernando Leite
“ir á Bertioga eleger o terreno em que se
há de delinear a nova Fort.ª”18.
Em janeiro de 1770 o governador
escreve que, entre reformar o terra-
pleno “que o mar destruiu” e cons-
truir uma nova fortificação, esco-
lheu a segunda opção. Sua justifica-
tiva para esta atitude foi: “porque
sucedeu arrasar o mar a Fortª. da Ber-
tioga, e tenho dado principio a outra no
morro, que lhe fica fronteiro, com muita
grandeza, a qual desejava poder deixar
muito adiantada para poder suprir a
falta daquela que se demoliu, e possa
dar ocasião a que se dissessem, que se
no meu tempo, se acrescentaram umas
também se perderam outras, ainda que
esta foi sem culpa minha, porque Deus
assim o determinou”19. Alguns inter-
pretaram esta alternativa como vai-
dade pessoal do Capitão-General e
a denominação da nova fortificação
de “São Luiz” acentuou as suspei-
tas. Porém os detratores deveriam
levar em consideração três fatores
nessa escolha: o primeira seria a
proteção da “armação de baleias”
iniciada à partir de 1748 na “praia
estreita” do canal do lado de Santo
Amaro; o segundo era a melhor
localização do ponto escolhido pelo
Brigadeiro Silva Paes em 1738, cuja
encosta íngreme ao sul e a platafor-
ma natural de rochas sobre a água
impediam o desembarque e a toma-
da do forte pelos inimigos; e o ter-
ceiro era a constatação da inadequa-
ção do Forte de São João aos novos
conceitos de defesa militar “vauba-
niano”, pois esse não possuía arti-
lharia pelo flanco norte e o desem-
barque era facilitado pela extensa
praia onde se assentava.
O Forte São Luiz apresentava um
baluarte semicircular com guaritas
nos pontos de deflexão, flanqueado
por duas faces em ângulo. Este dese-
nho permitiria que os alinhamentos
das artilharias cobrissem “simulta-
neamente, a entrada do canal, a enseada
fronteira e o mar alto”, conforme des-
creveu o engenheiro e escritor Eucli-
des da Cunha20. O projeto de Silva
Paes poderia ter servido de base
para o novo “risco” executado por
D. Luiz A. de Souza Mourão, porém
as obras deste forte nunca chegaram
a se concluir.
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
113
ArquiteturA MilitAr
112
Restauração executada pelo IPHAN no Forte São João baseada na obra de Rufino Felizardo
e Costa incorporando as modificações ocorridas no século XIX. VHM
Vista atual das ruínas do Forte São Luiz
construído pelo Morgado de Matheus.
À esquerda, um detalhe do Forte em foto
tirada em 1960.
Forte da Bertioga na segunda metade do século XVIII. VHM
Na virada do século o Inspetor
das Milícias constatou que o quartel
do Forte São João estava “arruinado”
e as sete peças de artilharia estavam
“todas desmontadas”, enquanto “o
forte de São Luiz, que defende bem a
barra e não pode ser atacado por terra,
tem capacidade para se lhe fazer uma
Casa de Pólvora; os seus quartéis estão
principiados e não se fará grande despe-
sas em acabá-los, porém acha-se sem
uma só peça” 21.
Enviado pelo Conde de Palma,
em 1817, o engenheiro Rufino José
Felizardo e Costa projetou e execu-
tou a última grande obra de reforma
do Forte São João22.
O velho “baluarte da Bertioga”
esquecido durante o século XVII e des-
prezado pelo Morgado de Mateus no
século XVIII, na segunda década do
XIX tinha apenas para se aproveitar
“as paredes do quartel”, “as muralhas”
setecentistas e a tenalha construída
pelo governador Rodrigo C. Mene-
zes, “as quais necessitam tão somente de
serem emboçadas”. Segundo o enge-
nheiro Rufino: as portas, janelas, por-
tões, estacarias, “carretame das 9 bocas
de fogo”, telhado, “enfim tudo quanto é
de madeira nem uma serventia pode ter”.
Até mesmo o “oratório é o mais inde-
cente que tenho visto, os paramentos para
a celebração da Missa estão todos rotos e
miseráveis”.
As paredes do quartel foram
levantadas em “mais 4 palmos afim de
dar as janelas outra altura” e com esta
elevação o antigo sistema de cargas
pontuais distribuído nas pilastras
foi substituído pelas tradicionais
paredes portantes.
Alterou-se o antigo desenho do
telhado de duas águas “fazendo-se de
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
115
ArquiteturA MilitAr
114
Planta (1751-1769) da Coleção Morgado de Matheus. BN
A- Fortaleza da Bertioga; B- estacada dobrada; C- estacada simples;
E- Capela de São João; H- praia; M- estacada de Simão da Veiga; N- armação.
Planta do Forte da Bertioga, da Coleção Morgado de Matheus. BN
A- Planta da Fortaleza da Bertioga e terrapleno; B- cavidade; C- contraescarpa que o mar
destruiu; D- cortina que desceu de seu lugar por impulso do mar.
O Forte da Bertioga fotografado durante a ressaca em maio de 2001.
tacaniça” ou quatro águas. Acrescen-
tou ainda uma cozinha e uma des-
pensa onde “por cima do vigamento
deve ter uma parte assoalhada para
guardar as munições de guerra”. A
escarpa leste que o maremoto de
1769 havia deslocado deve ter rece-
bido uma leve reforma, pois apenas
em 1942 o SPHAN a recolocou no
prumo definitivamente.
Em 1860, o relatório doComan-
dante José Olinto de Carvalho
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
117
ArquiteturA MilitAr
116
V isitando o canal da Bertioga em 22/08/1904 o autor de “Os Sertões”, assim descre-
veu o quartel do Forte São João:
“acaçapada e em ruínas – cômodos mal
repartidos, sem soalhos e quase sem
abrigos sob o telhado levadio que desa-
bou”. Afirmou também que era
“aproveitado como um posto de linha
costeira do telégrafo nacional, e deve-se a
esta circunstância única não ter caído no
mais absoluto abandono”. Sobre o
Forte São Luiz acrescentou um
lamento: “o reduto secular de Hans
Staden está hoje em condições deplorá-
veis – invadido de mato, desguarnecido
e mal percebido (…) denunciado pelas
próprias figueiras-bravas que lhe nasce-
ram por toda a área da plataforma, e
sobre os parapeitos, espalhando as suas
longas e tortuosas raízes para toda
banda num trançado inextricável”.
Finalizou o relatório com o pensa-
mento típico do romantismo da vira-
da do século: “Mas pode-se prever que,
afinal com o decorrer dos tempos, cedam
as mais sólidas junturas, operando-se a
pouco e pouco a demolição inevitável.
Quaisquer melhoramentos ou retoques,
que se executem, serão contraproducen-
tes, desde que o principal encanto dos
dois notáveis monumentos esteja, como
de fato está, na mesma vetustez, no
aspecto característico que lhe imprimiu o
curso das idades”24.
As ruínas abandonadas recobertas
pela mata, quase sempre nos dão a
impressão de uma antigüidade
SÉCULO XX
No início do século xx, as fortificações da Barra da Bertioga
estavam esquecidas e arruinadas. O espírito desse abandono foi
retratado pelo escritor e jornalista Euclides da Cunha.
Cartão postal de Bertioga do início do século XX. IPHAN
Projeto de reforma do Forte de São João da Bertioga de autoria do Engenheiro Rufino
Felizardo e Costa de 1817 IPHAN
descrevia que a função do Forte da
Bertioga era apenas “de Registro”
com “um capitão de infantaria 2ª.
classe” e “um soldado de linha” e
estava desarmado. Quanto a “for-
taleza denominada S. Luis, que é a
melhor obra de fortificação que tem a
Provª, não está acabada, e por isso em
todo desarmada e serve de Casa de
pólvora”23.
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
119
ArquiteturA MilitAr
118
quinhentista de Santo Antonio do
Guaíbe, construída por José Ador-
no 26. O arco-cruzeiro de cantaria
com desenho barroco em curva aba-
tida de raios tricêntricos e os vãos
com vergas de arco abatido ainda
denunciam a igreja setecentista que
os documentos históricos atestam.
Muitos autores também imagina-
ram ser a plataforma de armas sete-
centista da Bertioga com suas
“vigias” angulares, os remanescen-
tes quinhentistas da fortaleza de D.
João III. Porém, é no edifício do
quartel, tantas vezes reformado,
que talvez subsista em parte a his-
tória do nosso primeiro século. A
sua estrutura modulada através de
pilastras de pedra e cal remanes-
centes, que configurava um sistema
inusitado de distribuição de cargas
pontuais, possui alguma semelhan-
ça técnica com o sistema construti-
vo empregado nas ruínas quinhen-
tistas do Engenho dos Erasmos, em
Santos.
Em 1937, o escritor Mário de
Andrade – assistente técnico do
recém, criado SPHAN em São Paulo –
esteve em Bertioga com o objetivo
Primeiro estudo para a recomposição do quartel do Forte São João de autoria de Luís Saia
em 1942. IPHAN
“Casa-Caiçara” de pau-à-pique incorporada
aos restos do quartel do Forte São João,
que foi demolida em 1942 e a construção
da residência do caseiro no mesmo local.
muito além do que a história regis-
tra. Inúmeros historiadores tiveram
a mesma interpretação de Euclides
da Cunha. Vislumbraram nos restos
da “inacabada fortaleza setecentis-
ta” do Morgado de Matheus, o
baluarte quinhentista de Hans Sta-
den – “a fortaleza de São Felipe”.
Nem mesmo as cortinas escarpadas
de pedra do tipo opus quase reticula-
tum existentes, contrariando as alve-
narias quinhentistas do tipo opus
incertum (pedras irregulares), ou o
desenho cônico em cantaria das
bases das guaritas com as bolas em
forma de gotas típicas das fortalezas
pombalinas, serviram para dissipar
o equívoco. O Forte São Luiz foi
“rebatizado” de São Felipe 25.
O mesmo engano ocorreu com as
ruínas monumentais da capela da
Armação de baleias do Canal da
Bertioga, cujas obras iniciais foram
embargadas pelo governador D.
Luiz A. de Botelho Mourão no dia
13/04/1766, sendo reiniciada e con-
cluída apenas no último quartel do
século XVIII. Incontáveis autores
atribuíram ser esta capela a ermida
Arco-cruzeiro setecentista da Ermida de
Santo Antônio da Armação.
Detalhe das pilastras do Engenho dos Erasmos em Santos.
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
121
ArquiteturA MilitAr
120
edificou uma residência com três
dormitórios para o zelador do forte,
permanecendo o restante das pare-
des antigas descobertas.
A administração da área ficou com
o Instituto Histórico e Geográfico
Guarujá-Bertioga a partir de 1960. A
residência do zelador foi então adap-
tada para abrigar o Museu João
Ramalho. Foram executadas algu-
mas “obras arcaizantes” à revelia do
IPHAN, como os balaústres bandeiris-
tas e um falso altar jesuítico na cape-
la, grades de ferro sugerindo uma
antiga prisão no quarto do oficial, a
“casa de farinha” e um padrão de
A restauração concluída em 2000 foi baseada na obra do Engenheiro Rufino Felizardo e
Costa de 1817. VHM
A imagem da pesquisa arqueológica por geo-radar demonstra que o “baluarte”
quinhentista foi demolido e suas pedras reaproveitadas na reconstrução de 1751.
Trabalho da arqueóloga Marizilda Campos para o IPHAN.
de estudar o tombamento e a res-
tauração do Forte de S. Tiago ou S.
João. No seu relatório assim o des-
creveu: “o forte de S. Tiago é de uma
expressão magnífica. No primeiro sécu-
lo defendeu Santos dos Tamoios que
vindos do mar, desejariam atacar a vila
pelas costas. Hoje é simplesmente gra-
cioso. As suas pedras enérgicas, a sua
plataforma de vasta perspectiva, as
suas vigias pueris, são duma elegância
arquitetônica impecável. O dedo do
tempo, que é o maior de todos os feiti-
ços, transformou Hércules na própria
Onfale”27.
O tombamento pelo SPHAN acon-
teceu em 1940, e dois anos após ini-
ciaram-se as obras de restauração
das cortinas do terrapleno dirigidas
pelo arquiteto Luís Saia. O estrago
do maremoto de 1769 foi enfim
solucionado. Ainda em 1942, o
Ministério da Guerra aproveitan-
do-se de parte do primitivo quartel
O Forte de São João da Bertioga antes das
obras de restauração iniciadas em 1997.
VHM
As FortiFicAções do cAnAl dA BertiogA
123
ArquiteturA MilitAr
122
Notas
1 Lemos, Carlos A. Cerqueira – capítulo “O Brasil”, in “História das Fortificações Portuguesas
no Mundo”. - Direção de Rafael Moreira, Publicações Alpha, Lisboa, 1989, pp. 235-254.
2 A versão mais aceita pelos historiadores baseada na Carta de Navegação de Pero Lopes, é que
o ano da chegada de M. Afonso à S. Vicente seria 1532. Frei Gaspar da Madre de Deus tinha como
hipótese mais provável a data de 22/01/1531. Alonso de Santa Cruz cosmógrafo da armada de
Caboto, em “Die Karten von Amerik in dem Islario General” descreve uma povoação já denomi-
nada “Sanct Bicente” em 1530, cuja localização no mapa é a mesma da atual São Vicente. Houve o
equívoco de dois anos na data ou existiria de fato uma feitoria de S. Vicente antes da fundação
oficial da Vila por Martim Afonso, comandada pelo Bacharel de Cananéia.
3 Madre de Deus, Frei Gaspar da - "Memórias para a História da Capitania de S. Vicente"- ori-
ginalmente publicada em 1797 - Lisboa. Ed. Weiszflog Irmãos, São Paulo / Rio, 1920, p. 131.
4 Staden, Hans – “A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens,
encontrados no novo mundo, a América… (1548-1555)” – publicado originalmente em Marburg,
1557. Ed. Atual/Dantes Editora, Rio de Janeiro, 1999, p. 49.
5 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”. Volume xlviii,
Arquivodo Estado, pp. 09-12.
6 “Documentos Históricos 1549-1559 Provimentos Seculares e Eclesiásticos”. Volume xxxv,
Ministério da Educação e Saúde, Bibliotheca Nacional, Rio de Janeiro, 1937, pp. 165-166.
7 Alguns autores atribuem a data de 1547 para a destruição da Paliçada dos Irmãos Braga,
tomando como referência a frase das memórias de H. Staden: “Cerca de dois anos antes de minha
chegada, os cinco irmãos…”. Porém, o termo “minha chegada” deve ser interpretada “a Bertioga”
(1553) e não “a São Vicente”. A Carta do Pe. Diogo Jácome relatando este mesmo conflito em 1551
confirma esta afirmação.
8 Leite, Pe. Serafim. “Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil” (1538-1553). Comissão do Quarto
Centenário de S. Paulo, 1954, pp. 238-247. O relato do Pe. Diogo Jácome de S. Vicente sobre a des-
truição das casas da Bertioga em 1551, citada por Staden, acrescenta a causa do ataque dos tamoios:
“há poucos dias que daqui fugirão duas moças, ambas irmãs e casadas com homens brancos, as
quaes ellas sam filhas de homem branco e de india, de maneira que estão ambas com os contrários:
as quaes dizem são tam maas, que ordenaram com que os indios vieram a dar aqui guerra a huma
fortaleza, que os brancos tem feita pera resguardo das povoações dos brancos, (…) ficaram muyto
mal feridos de frechadas, e também levarão a artelharia que puderam, e puseram foguo ás casas de
palha; só huma de telha avia em que se salvarão os feridos de os nam levarem. Assi que isto diz
que causaram estas molheres maiores diabolidades que nestas terras se fazem…"
9 Este Alvará real pode ser considerado a “certidão de nascimento” da Fortaleza da Bertioga –
“Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”. Volume xlviii, pp. 19-21.
10 Documento transcrito no livro de Madre de Deus, Frei Gaspar. Op. cit., p. 339-340.
11 Escritura transcrita no livro de Madre de Deus, Frei Gaspar. Op. cit., p. 285.
12 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”. Volume xlviii, pp.
33-34.
13 “Documentos Históricos 1549-1559 Provimentos Seculares e Eclesiásticos”. Volume xxxv,
Ministério da Educação e Saúde, Bibliotheca Nacional, Rio de Janeiro, 1937, pp. 312-317.
14 Vasconcelos, Pe. Simão de. “Vida do Venerável Padre José de Anchieta” (publicado original-
mente em 1672 / Porto), Imprensa Nacional Rio de Janeiro, 1943, pp. 194-195.
15 Cardim, Pe. Fernão. “Tratados da Terra e Gente do Brasil”. Cia. Editora Nacional, 2ª ed.,
1939, pp. 310-315.
16 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”. Volume xxxii, p. 71,
transcrito no livro de Muniz Jr. “Fortes e Fortificações do Litoral Santista”, Editado pelo autor,
1982, Santos, p. 22.
17 Carta régia de D. João V, de 27/09/1738 ao governador da Capitania de São Paulo em parte
reproduzindo o relatório do Brigadeiro José da Silva Paes sobre as fortificações da Praça de
Santos, e ordenando o cumprimento das determinações e projetos deixados pelo Brigadeiro –
cópia arquivo iphan – sp
18 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”, Volume 92, p. 77.
19 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”, Volume 92, p. 103.
20 Euclides da Cunha em 1904 passando férias em Indaiá, esteve nos dois fortes da Bertioga:
São João e São Luiz que imaginou tratar-se do São Felipe de Hans Staden. Escreveu um texto
denominado “Os Reparos nos Fortes de Bertioga”, publicado posteriormente em “Euclides da
Cunha, Obras Completas, Vol. i”, que incluía um diagrama esquemático da planta do Forte S.
Luiz.
21 Documento intitulado “Sobre as fortificações da costa marítima da Capitania de São Paulo”
publicado em “Doc. Inter. para a Hist. e Costumes de São Paulo”, Volume xliv, pp. 303-308.
22 Trata-se do documento de obras mais completo sobre o Forte S. João da Bertioga disponível
nos arquivos. Acompanhado dos desenhos da planta e da elevação, o relatório descreve com
Imagem do quartel do Forte São João após a restauração de 1997-2000.
Martim Afonso no lado externo, tan-
que de cimento imitando cantaria
lavrada, etc. A arquitetura residên-
cial construída em 1942 e adaptada
cenograficamente para parecer um
“verdadeiro” quartel militar, transfor-
mou-se inadvertidamente num falso
documento da história.
Quando se iniciou a restauração
do forte em 1997 com a demolição
do telhado da casa do zelador, mui-
tos protestaram imaginando ser a
destruição do “quartel militar colo-
nial”. Reaberto no dia 22/04/2000, o
quartel readquiriu a configuração
do projeto do engenheiro militar
Rufino Felizardo e Costa, incorpo-
rando todos os vestígios do edifício
primitivo.
“O dedo do tempo que é o maior de
todos os feitiços”, transformou a esposa
Onfale novamente em Hércules.
ArquiteturA MilitAr
124
As FortiFicAções
dA entrAdA do cAnAl
dA BArrA grAnde
FortAlezA de sAnto AMAro dA
BArrA grAnde e FortiM do góes
Forte do crAsto ou dA estAcAdA
Victor Hugo Mori
minúcia o estado anterior do forte (1817) e a proposta de alteração. Maço 20/pasta 2/doc. 6 do
Arquivo do Estado – cópia arquivo iphan.
23 Relatório escrito a lápis datado de 1860, assinado O Genal. Come. Mar. José Olinto de Carvº.
e Silva, do Arquivo Histórico do Exército (RJ) com reprodução no Arquivo do iphan-sp.
24 Ver nota 20 sobre este relatório de Euclides da Cunha. O “jornalista” E. da Cunha também se
manifestou sobre a artilharia inexistente no Forte S. João: “há pouco mais de dois anos, uma
comissão de engenheiros militares percorreu êste trecho da nossa costa, arrolando aquelas velhas
bôcas de fogo, que o governo federal parece ter cedido a um contratante pelo preço dos ferros
velhos imprestáveis…”
25 O tombamento deste forte pelo iphan em 31/10/65 utilizou a denominação “Forte de São
Felipe. Em recente trabalho “Monumentos Quinhentistas da Baixada Santista”, do Prof. Júlio
Katinsky, publicado na “Revista da usp” nº 41, 1999, pp. 74-97, o autor interpretou formalmente os
restos do Forte de São Luiz, como remanescente da construção quinhentista do Forte S. Felipe, ao
encontrar similaridade da sua cortina curva com um provável muro (“barbacã”) de defesa do
Engenho dos Erasmos. Segundo o autor seria este forte comparável aos exemplos do Livro de
Duarte das Armas (1516). Afonso de Taunay foi um dos poucos autores a afirmar que estas ruínas
pertenciam ao Forte de São Luiz: “O Morgado de Matheus (…) ordenara que no local do antigo
forte de São Felipe se erguesse novo baluarte que devia ter o nome de seu santo padroeiro: São
Luiz”. In “Uma Relíquia Notabilíssima a Conservar: O Forte de São Tiago da Bertioga”, Revista do
sphan nº 1, p. 6.
26 Tanto o tombamento do Condephaat como o do iphan reiteraram a denominação “Ermida
Santo Antonio do Guaibe” na Armação das baleias. A carta do gov. D. Luiz Antônio de Souza de
29/12/1766 ao Conde de Oeyras demonstra claramente que as ruínas atuais foram construídas
após o governo do Morgado de Matheus (1768) pelo administrador da Armação Francisco José
da Fonseca, pois o próprio governador proibiu a construção de uma nova capela, tendo em vista
a existência do oratório da Fortaleza da Bertioga: “…fui fazer visitas na Fabrica da Armação das
Baleas da Barra da Bertioga, no dia 10 de março deste ano…advertindo que se determinava fazer
huma Capella junto as cazas da dita Armação a prohibi por ser em prejuízo da Fazenda de S.
Mag.e…”.
27 Relatório do sphan de 28/11/1937. Onfale (esposa de Hércules). Mário de Andrade também
constatou “uma rachadura de alto à baixo” na cortina sul e a fachada nordeste “está cedendo”,
com a guarita “pendendo para terra ameaça ruir” – era o estrago do maremoto de 1769 que ainda
não fora de todo solucionado.
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
127
ArquiteturA MilitAr
126
SÉCULOS XVI E XVII
A partir de 1580 toda a América ficou sob domínio da coroa
espanhola. A Holanda e a Inglaterra, tradicionais parceiras de
Portugal, estavam em conflito com a Espanha. Passaram, então,
a ameaçar as suas novas colônias.
“F oi durante odomínio espa-nhol sobre Portugal que realmente se organizaram
os primeiros sistemas eruditos de forti-
ficação” aqui no Brasil, cujos
protagonistas foram os
engenheiros italianos a
serviço de Felipe II, “na
época os maiores especialis-
tas em fortificações moder-
nas apropriadas às novas
armas de fogo”1.
As mudanças desse período
tardaram a se refletir na longínqua
Capitania de São Vicente. Ainda em
1578, o inglês John Whithall, que
adotara o nome de João Leitão,
casado com a filha única do geno-
vês José Adorno, convidou seu
amigo na Inglaterra Richard Staper
a enviar um navio para S. Vicente
para “trazer mercadorias” e “carregar
de acúcar”. O navio Minion of
London chegou em Santos
em 03/02/1581, perma-
necendo pacificamente
por três meses e partin-
do em junho carregado
de açúcar.2
Edward Fenton partiu
da Inglaterra em 01/05/1582
com destino às Índias pelo Estreito
de Magalhães. O almirante espa-
nhol Diogo Flores Valdez, nomea-
do por Felipe II “Capitão General
das Costas do Brasil”, com uma
Imagem do “Trattato del Radio”, de Latino Orsini (1583)
Na página ao lado, águia bicéfala dos Habsburgos:
símbolo do poder de Felipe II nas Américas.
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
129
ArquiteturA MilitAr
128
Imagem provável da Fortaleza da Barra Grande nos dois primeiros séculos da colonização
em fotomontagem sobre foto de Carlos Marques (1998) VHM
prometido recompensar com “dinhei-
ro e depois lhe fora pago com vinho vina-
gre e ferro e lona podre”4.
Chegando a esquadra em Santa
Catarina, Valdez separou três
navios dados como impróprios
para prosseguir, “Almirante, Con-
cepción e Begónia, e mandou-os para o
Rio de Janeiro sob o comando de Andrés
Igino”, que partiu contrariado, no
dia 14/01/1583. A esquadra princi-
pal chegou à entrada do Estreito de
Magalhães no dia 07/02/1583, e
fracassou na tentativa de contorná-
-lo e fazer as fortificações, retor-
nando ao Brasil.5
No dia 19/01/1583, o inglês
Edward Fenton chegou ao porto de
Santos, que era um dos mais impor-
tantes entrepostos para o abasteci-
mento das naus com destino ao
Estreito de Magalhães. Ao contrá-
rio do Minion of London, desta vez
os ingleses foram recebidos com
reservas face às novas relações da
política internacional e principal-
mente devido a presença da esqua-
dra espanhola de Felipe II na região.
As negociações com Fenton esta-
vam sendo encaminhadas por José
Adorno, seu genro João Leitão
(John Whithall), Estêvão Raposo e
Paulo Bandeves, “quando na tarde de
24 entraram as naus espanholas e tra-
vou-se o combate”. A nau espanhola
Santa Maria de Begónia foi destruí-
da e os ingleses partiram com algu-
mas avarias, retornando à Inglater-
ra sem completar a missão nas
Índias.6
Detalhe da ilustração “St. Vicent” do livro de viagem de Joris van Spilbergen, ca. 1615.
À direita, na entrada do canal de acesso ao porto, aparece a isolada Fortaleza da
Barra edificada em 1583. A reprodução da gravura do livro “Capitanias Paulistas…”
de Benedito Calixto, apresenta a seguinte legenda: H- é um castelo na costa da terra perto do
rio; I- são quatro de nossas chalupas subindo o rio; K- é um dos nossos navios que protege as
nossas chalupas; P- como se incendiou um pequeno navio português.
armada de 16 navios, partiu de
Cádiz em 09/09/1581, para percor-
rer as costas do Brasil até o Estreito
de Magalhães onde deveria fortifi-
car as duas margens. Integravam a
esquadra espanhola, Pedro Sar-
miento Gamboa, designado gover-
nador do Estreito de Magalhães;
Alonso de Sotomayor, nomeado
governador do Chile; o engenheiro
militar Bautista Antonelli e o vedor
e contador da armada Andrés Egui-
no (Igino).
O tempo da estada no Brasil da
esquadra espanhola “passou-se em
resgate de pau brasil e outras mercado-
rias, rusgas entre os chefes. Os resgates,
verdadeiros peculatos, estenderam-se
também a São Vicente, onde foi tomada
carga de açúcar”3.
O Almirante Flores Valdes partiu
do Rio de Janeiro em novembro de
1582 em direção ao sul. A Câmara da
Vila de São Paulo, em 1583, se revol-
tou com a Provisão de Jerônimo Lei-
tão, Capitão de S. Vicente, ordenan-
do pela segunda vez ao moradores
“para que dessem duzentas rezes de gado
vacum para a armada de sua majestade
para seguir a viajem do estreito de maga-
lhães”. Responderam os vereadores
ao Capitão que os moradores “todos a
uma voz comum disseram que o gado que
ao presente havia nesta vila e seu termo
não era senão vacas femeas e não havia
boi macho nenhum por serem dados o
ano passado para a dita armada de sua
majestade”. A recusa tinha também
como justificativa que no ano ante-
rior (1582) o Almirante Valdez havia
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
131
ArquiteturA MilitAr
130
Antes da abdicação de Carlos v em
1555, seu filho Felipe (1527-1598) gover-
nava o Ducado de Milão, que se estendia
de Pavia até Mântova. Todo o sul abaixo de
Roma e a região do Piemonte também esta-
vam sob o domínio dos Habsburgos.
Em 1557 o engenheiro militar Giovanni
Battista Antonelli, acompanhando o Duque
Filiberto de Savoia e a família Gonzaga Col-
lona de Mântova, teria participado da bata-
lha de San Quintin, sob o comando do
Duque de Alba, na vitória dos "espano-ita-
lianos" sobre os franceses aliados do Papa
Paulo iv. O Tratado de Cateau-Cambrésis
no ano seguinte referendou como domínio
de Felipe ii da Espanha as áreas de Milão,
Nápoles, Sicília e Sardenha. Inúmeros
arquitetos e engenheiros da "península ita-
liana" sem o apoio do mecenato papal e dos
ducados independentes, buscaram amparo
na corte espanhola através do Duque de
Alba, vice-rei de Nápoles e Sicília, e do pró-
prio Felipe ii que fora governante da região
milanesa.
Battista Antonelli foi colega e protegido
do arquiteto aristocrata Vespasiano Gonza-
ga Collona (1531-1591), vice-rei da região
valenciana com quem trabalhou no sistema
de fortificação de Alicante a partir de 1562.
Gonzaga Collona, posteriormente Duque
de Mântova, projetou e construiu em 1588
a célebre cidade fortificada de Sabbioneta -
um marco do urbanismo renascentista.
Juan Bautista ou Battista era o chefe de
uma família de engenheiros militares,
composta pelo irmão Bautista Antonelli e
seus sobrinhos Francisco (Francesco),
Cristóbal (Cristóforo) de Roda, e Juan
Bautista (Giovan Battista, o jovem).
Todos adotaram o sobrenome famoso
"Antonelli".
Bautista, o irmão mais novo, estava em
1583 na esquadra de Flores Valdez na
Costa do Brasil para projetar fortificações
no Estreito de Magalhães. Devido a um
incidente no Porto de Santos com inglêses,
acabou permanecendo na Capitania de São
Vicente para projetar e construir a Fortale-
za da Barra Grande, conforme o relato de
Pedro Sarmiento Gamboa.
Em 1586, após o saque de Francis Drake
ao Caribe, Bautista foi designado engenhei-
ro militar para a região. Chegou acompa-
nhado dos parentes engenheiros, todos a
serviço de Felipe ii.
Devem-se à "família Antonelli" inúme-
ros projetos hoje declarados Patrimônio da
Humanidade pela Unesco: as muralhas
defensivas de Cartagenas de Índias, o sis-
tema de fortificação de Havana incluindo a
famosa Fortaleza de "El Morro", a Forta-
leza de "San Pedro de la Roca" em Santia-
go de Cuba, o forte de Portobelo no atual
Panamá, o traçado urbano de Antigua na
Guatemala, as fortificações de Campeche
no México, a Fortaleza de "San Felipe del
Morro" em San Juan de Porto Rico, etc.
São também atribuídos à lavra dos "Anto-
nellis" o Forte de Trujillo em Honduras, a
conclusão do Aqueduto "de la Zanja Real"
em Cuba, e o forte de San Juan Di Ulúa
em Vera Cruz no México.
A FAMÍLIA ANTONELLI :
CONSTRUTORES DE MONUMENTOS
Edward Fenton sentiu o gosto da
vingança cinco anos depois. Foi
designado pela coroa inglesa
comandante da nau Mary Rose na
batalha que destruiu a “Invencível
Armada” de Felipe II. Essa derrota
marcou o fim da hegemonia maríti-
ma da Espanha e Portugal. Nas pró-
ximas décadas as invasões de ingle-
ses,franceses e holandeses serão
constantes tanto na área caribenha
como no nordeste brasileiro.
Andrés Eguino (Higino ou Igino)
ordenou a construção de um forte
na entrada da Barra Grande de
Santos, aproveitando-se da artilha-
ria e materiais da nau destruída
Santa Maria de Begónia, e seguiu
para o Rio de Janeiro com as duas
naus restantes, deixando a tripula-
ção do Begónia guarnecendo o
forte. No mês de abril chegou a
Santos Pedro Sarmiento Gamboa, a
quem devemos os relatos históri-
cos destes acontecimentos. Em
seguida chegou o comandante
Diogo Flores Valdez, retornando
da mal sucedida empreitada no
Estreito de Magalhães.
Sarmiento Gamboa relatou que o
almirante Valdez desqualificou a
obra iniciada “de mala traça” por
Igino, transferindo para si o crédito
dessa iniciativa para ofuscar o seu
fracasso na missão no sul: “Y para del
todo descomponer las cosas del Estrecho,
quiso (Valdez), aprovechar-se de la oca-
sion del fortezuelo que halló comenzado,
y adjudicó aquello que habia hecho
Andrés de Aquino (Igino) para si, por-
que se dixiese que habia hecho algo y
cubriese lo que no tenia cubierta. Y por
esto dejó alli al ingenier que iba para uno
de los fuertes, y por alcaide á Domingo
de Garri”. Segundo Sarmiento, este
“ingenier” era Bautista Antonelli.7
Rafael Moreira acrescenta que esse
engenheiro militar era o italiano
Bauttista Antonelli, que “juntamente
com seu auxiliar o jesuíta Gaspar Sam-
pere” empreenderam obras em San-
tos e no Rio de Janeiro entre 1582 e
1584, e fora autor de “interessantes
estudos para ligar Abrantes ao Escorial e
Madri por via fluvial”.8
Antonelli permaneceu em Santos
por determinação de Valdez junta-
mente com a guarnição do Begónia,
projetando e dirigindo as obras da
Fortaleza da Barra Grande, e prova-
velmente, auxiliando os moradores
da capitania a melhorar as incipien-
tes fortificações da capitania. A
similaridade tipológica entre os edi-
fícios dos quartéis da Fortaleza de
Santo Amaro da Barra Grande e do
Forte da Bertioga (únicos existentes
nessa época), não obstante as altera-
ções externas que sofreram a partir
do século XVIII, tem como hipótese,
a influência de Antonelli em 1583
ou do florentino Baccio de Fillicaya,
que esteve em Santos no início do
século XVII.
A construção dessa fortaleza tinha
dois objetivos. O primeiro seria de
guarnecer o Porto de Santos, um
entreposto importante para a rota
ao Estreito de Magalhães, de nave-
gantes ingleses e holandeses; e o
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
133
ArquiteturA MilitAr
132
segundo, marcar simbolicamente a
presença do rei Felipe II da Espanha
(Felipe I de Portugal) nessas para-
gens perdidas do Atlântico Sul,
impondo aos vicentinos a obediên-
cia legal à dinastia dos Habsburgos.
A resistência e a indignação dos
moradores da Capitania às “expro-
priações de mercadorias” determi-
nadas por Valdez, o comércio ilegal
com navegadores ingleses, e o clima
ainda persistente tanto no Brasil
como em Portugal, do desejo da
restauração do trono português,
provavelmente levaram o Coman-
dante espanhol à construir essa for-
tificação e a manter uma guarnição
“espanhola” com cem soldados.
Além do relato de Pedro Sarmien-
to, temos também o testemunho do
Padre José de Anchieta no seu céle-
bre apontamento “Informações do
Brasil e de suas Capitanias” de 1584:
“Nela fez agora Diogo Flores Valdes,
general da armada que Sua Majestade
mandou ao estreito de Magalhães, um
forte com gente e artilharia, porque está
da outra banda do rio que é a barra de
São Vicente onde podem entrar naus
grossas. Nesta barra estiveram o ano
passado de 1583 dois galeões ingleses
que queriam contratar com os moradores
e, vindo de arribada três naus da dita
armada maltratada das tormentas, mete-
ram os ingleses uma delas no fundo com
morte de alguma gente e se foram aco-
lhendo”. Fica claro que Fenton não
estava em Santos fazendo pilhagens
mas simplesmente comerciando com
os moradores locais.
A armada de Flores Valdez retor-
nou a Espanha em maio de 1584,
após dar início a uma fortificação
denominada de São Felipe no
atual Estado da Paraíba. Em março
de 1585, ainda permanecia na For-
taleza da Barra Grande a guarni-
ção de soldados espanhóis chefia-
da por Domingo de Garri, confor-
me narrativa do padre Fernão Car-
dim: “O padre (visitador Christo-
vão Gouvêa) em S. Vicente visitou
os padres.(…) também visitou o forte
que deixou Diogo Flores, com cem sol-
dados”.9 Certamente muitos desses
soldados-construtores espanhóis
escolhidos eram artífices e deze-
nas deles aqui se radicaram. Como
é o caso do famoso Bartolomeu
Bueno, carpinteiro naval, que pos-
teriormente foi o inspetor das
obras da Matriz de São Paulo e pai
dos bandeirantes Jerônimo Bueno
e Amador Bueno.
Canhão primitivo, semelhante aos
utilizados na defesa da Capitania de São
Vicente no século XVI – Castelo de Santo
Ângelo, Roma
Implantação provável do projeto original da Fortaleza de Santo Amaro com suas baterias
escalonadas VHM
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
135
ArquiteturA MilitAr
134
Uma das hipóteses possíveis
aventada por Carlos C. Lemos seria
que “os modelos eruditos construídos à
beira do canal de Santos e de Bertioga
poderiam muito bem ter inspirado os
projetos de casas rurais, tanto nos pró-
prios engenhos litorâneos como serra
acima, nos esparsos complexos roceiros
bandeiristas”. O autor questiona
porém a possibilidade do Tratado
de Andrea Palladio publicado em
1570, pouco anos depois, estar
influenciando os construtores nas
longínquas colônias de Portugal e
Espanha.12 Esse modelo tipológico
aqui transplantado tem origem na
Vila Medici de Poggio a Caiano na
Toscana projetada em 1480 por Giu-
liano da Sangallo.
Assim, uma das alternativas viá-
veis seria a presença direta na Capi-
tania de S. Vicente de projetistas
“eruditos”, com amplos conheci-
mentos da arquitetura “mediterrâ-
nea”, das vilas da renascença na Itá-
lia, e dos textos dos tratadistas ita-
lianos. Giovanni Antonelli – o mais
importante engenheiro militar de
Felipe II para as Américas – foi o pri-
meiro desses “eruditos” a projetar
fortificação nessa capitania e inú-
meros de seus artífices aqui perma-
neceram. O engenheiro florentino
Baccio de Fillicaya foi o segundo
que passou por aqui nos primeiros
anos do século XVII, projetando o
Forte de Montserrate e a capela do
mesmo nome na Vila de Santos por
ordem de Francisco de Souza. Esses
primeiros engenheiros italianos
possuiam ampla formação erudita,
balizadas pelos seus mecenas e
protetores: Vespasiano Collona e
Ferdinando I.
Muitos autores minimizaram a
capacidade dos engenheiros milita-
res na elaboração de projetos arqui-
tetônicos eruditos. Mário Mendon-
ça de Oliveira desfaz esse precon-
ceito afirmando que bastaria con-
sultar “um tratado de engenharia mili-
tar português onde os grandes arquite-
tos italianos são citados com invulgar
intimidade, desde Vitrúvio, ao lado de
mestres de fortificações como Castriotto,
Sardi, Antoni, Dogen, Freitag, De Ville,
Pagan, Vauban, Maralois, Stevin,
Medrano, e assim por diante.”13
A impressão de quem avista a for-
taleza, com suas muralhas serpen-
teando pelas encostas, é que a topo-
grafia foi o elemento determinante
do projeto. Essa também foi a inter-
pretação de Júlio Katinsky e Fernan-
da Fernandes que não identificaram
nessa planta “a tipologia das fortifica-
ções onde a geometria é o elemento defi-
nidor da organização espacial”14. Des-
vinculado das obras dos tratadistas
do Renascimento pela “ausência de
bastiões, baluartes e tenalhas”, o proje-
to “sugere uma tradição técnica mais
facilmente identificável com as técnicas
registradas nos desenhos das fortalezas
às divisas com a Espanha, do livro de
Duarte das Armas (1516)”15.
Qual teria sido o motivo da esco-
lha desse sítio acidentado, quando
do lado oposto do canal a área
plana permitiria a construção de um
Teria restado alguma evidência da
fortalezaquinhentista edificada por
Antonelli após as grandes obras de
transformação promovidas no sécu-
lo XVIII? Se tomarmos como referên-
cia o relatório do Brigadeiro João
Massé de 1714, poderíamos aferir
que haviam permanecidos dos sécu-
los anteriores, as duas baterias
sobrepostas “a de dentro e a de fora”,“a
casa que serve de Armazem de polvora”
(atual capela), e o edifício dos “quar-
teiz”. Tanto esse relatório como o de
autoria do Brigadeiro Silva Paes de
1738, colocan em dúvida a afirma-
ção de Júlio Katinsky que esse edifí-
cio do alojamento dos soldados
seria “seguramente do século XVIII”.10
A planta do edifício dos quartéis,
dimensionada para abrigar “cem
soldados” de Flores Valdez, poderia
ter como matriz a tipologia das
vilas renascentistas. Seu partido
arquitetônica é similar ao que
encontramos na Bertioga, e nas
casas rurais do planalto dos séculos
XVII e XVIII, denominadas “casas
bandeiristas”. Segundo Luís Saia,
essas casas paulistas tinham nos
desenhos das plantas “além da ori-
gem mediterrânea tradicional” o “tra-
tamento palladiano erudito”.11
Fortaleza projetada na Barra da Vila de Santos em meados do século XVII – contra-bateria
da Fortaleza da Barra Grande – no local onde existiu o Forte do Crasto AHU
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
137
ArquiteturA MilitAr
136
Vila Mediceas de Poggio a Caiano (esq.)
Vila Medicea de Artimino (em cima)
Forte Belvedere ou de São Jorge (em baixo, à esq.)
Fortaleza da Barra Grande, na Capitania de
São Vicente (em baixo, à dir.)A Vila Medicea em Poggio a Caiano nas cercanias de Florença, é consi-
derada a primeira da renascença. A residência projetada em 1480 por Giuliano
da Sangallo para Lorenzo Medici, antecede em cerca de setenta anos a tipologia
das vilas com a loggia entalada no eixo da fachada principal ao gosto de Andrea
Palladio, cujo padrão foi disseminado nas terras paulistas.
A Vila Medicea de Artimino, inspirada na vizinha Vila de Poggio, foi
construída entre 1590 e 1595 por Bernardo Buontalenti (arquiteto e engenhei-
ro militar) para moradia de Ferdinando I. O Grão-duque da Toscana, era o pro-
tetor e responsável pela formação educacional do jovem Baccio di Filicaya – o
primeiro Engenheiro-mor do Brasil. O curto aprendizado profissional de Filica-
ya em Florença deve ter sido intenso. Além da construção da Vila Artimino,
Ferdinando I estava construindo o Forte Belvedere em Florença, também pro-
jetado por Buontalenti, onde o edifício do aquartelamento seguia a tipologia das
vilas residenciais como ocorreria em Santos.
Baccio di Filicaya foi o segundo engenheiro militar italiano a trabalhar em
Santos nos primeiros anos do século XVII. Assim como o seu compatriota Gio-
vanni Antonelli, o pioneiro na Capitania de São Vicente, deve ter trazido novi-
dades na arte de projetar e construir nestas paragens desconhecidas e distantes
de Florença – berço do Renascimento.
A INFLUÊNCIA DO RENASCIMENTO ITALIANO
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
139
ArquiteturA MilitAr
138
do século XVII para um sistema de
tropas irregulares particulares sob o
comando de um senhor. Surgiram
as Bandeiras, voltadas para a captu-
ra de indígenas para suprir a imen-
sa carência de escravos.
No litoral, a existência de uma
fortaleza isolada na entrada da
Barra Grande, desguarnecida pelo
lado oeste onde um “morro servia de
padrasto”, e sem o apoio de uma
contra-bateria para o cruzamento
de fogos, servia apenas como marco
simbólico do domínio luso-espa-
nhol. O ataque do corsário Caven-
dish ao porto de Santos e à Vila de
S. Vicente em 1591, apenas compro-
vou a ineficácia de uma fortaleza
isolada na Ilha de Santo Amaro.
Em meados do século XVII foi pro-
jetado um forte quadrangular com
quatro baluartes, fosso e revelins na
atual Ponta da Praia de Santos, em
frente à Fortaleza de Santo Amaro,
mas nada foi edificado por falta de
interesse da Coroa.
Com a restauração do trono por-
tuguês em 1640, a partida dos
holandeses de Pernambuco em
1654, e principalmente, a descoberta
de ouro na Capitania de S. Vicente
em 1698, a proteção ao Porto de
Santos voltou a ser uma prioridade
política da metrópole.
Aliás, os descobrimentos aurífe-
ros alteraram profundamente a
organização militar no Brasil no
século XVIII. Com o objetivo de con-
trolar todas as áreas de extração e
de circulação, a Coroa se viu obriga-
da a instalar milícias regulares no
território, desfazendo, paulatina-
mente, o sistema de defesa “feudal”
implantado em 1534.
baluarte estelar? O projeto da Forta-
leza abaluartada do Crasto projeta-
do por João Massé em 1714 do lado
de Santos, demonstrou ser factível
essa opção.
Ao observarmos os inúmeros
projetos da “família de Juan Bautis-
ta” na região do Caribe, a hipótese
do “estilo Antonelli” de fortificar
poderia ser a resposta para essa
indagação. Quase todas as fortifica-
ções tem como característica as
“baterias sobrepostas” escalonadas
sobre as escarpas naturais, que per-
mitem linhas de tiros “rasantes” e
de “mergulhão”. A Fortaleza de S.
Felipe de Porto Rico chegou a pos-
suir quatro níveis de patamares de
armas, interligados por uma rampa.
Considerando-se o reduzido alcan-
ce e precisão das primitivas artilha-
rias do século XVI, este “sistema
Antonelli” permitiria surpreender o
ataque das naus, desnorteando os
timoneiros diante das imprevisíveis
trajetórias dos projéteis disparados.
Nos anos que se seguiram, esse
rudimentar partido com reminis-
cências medievais, foi aperfeiçoado
e consagrado no projeto de Neuf-
-Brisach de Vauban.
No início do século XVII os maio-
res rendimentos da Coroa advi-
nham da produção açucareira do
nordeste e do monopólio da comer-
cialização de escravos africanos. A
perda da principal área brasileira
de produção de açúcar e dos entre-
postos de escravaria na África para
os holandeses levaram a metrópole
a concentrar os investimentos de
defesa na área nordestina.
A Capitania de S. Vicente perma-
neceu nesse período fora da aten-
ção e do controle do governo cen-
tral. No planalto paulista as orde-
nanças compostas por “regimentos
não regulares”, evoluíram a partir
O armazém de Pólvora foi
desativado por se encontrar em
lugar desprotegido
O edifício dos quartéis possuia
uma altura a†é o frechal de
apenas 2,30 m.
Fortaleza da Barra Grande antes da intervenção de João Massé em 1714 VHM
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
141
ArquiteturA MilitAr
140
de elaborar, em 1714, os projetos da
“Fortaleza do Crasto” e da moder-
nização da Fortaleza da Barra Gran-
de, introduziu na Baixada Santista
os modernos conceitos de Vauban,
procurando transformar as primiti-
vas fortificações de caráter pontual,
num complexo sistema de defesa
territorial. No próximo capítulo,
trataremos do projeto que visava a
transformar a vila de Santos em
recinto fortificado: “a praça forte
vaubaniana”. Segundo Mario Men-
donça, o brigadeiro João Massé “era
de origem inglesa (possivelmente bati-
zado John Massey) e não francesa, como
muitos historiadores dizem e, até
mesmo, antigos documentos infor-
mam”.17
A provisão régia de 27/01/1715,
considerando “a grande despesa, que
a fazenda Real não pode suprir”, man-
dou aceitar a proposta de João
(Manuel) de Crasto de Oliveira, na
forma da planta desenhada pelo
brigadeiro João Massé, e somente
após a conclusão das obras aprova-
das por um engenheiro real teria
“efeito as tais merçês”. O projeto do
brigadeiro possuía planta quadran-
gular com uma tenalha voltada
para o Canal da Barra, e dois
baluartes angulares no lado norte.
Estava protegido por um fosso e
uma linha externa de estacada.18
Para a Fortaleza de Santo Amaro,
o engenheiro Massé iria propor uma
grande obra de reforma. O precioso
relatório de obras que nos deixou,
demonstra que apenas o edifício
dos quartéis ou “casa forte” perma-
neceria na configuração primitiva.
Tudo mais seria alterado e amplia-
do para atender os novos preceitos
da arquiteturamilitar:
“Na Barra Grande deve-se acabar a
Fortaleza de Santo Amaro para o que
necessita das obras seguintes (…):
Planta da Fortaleza de Santo Amaro (1734): das obras projetadas em 1714 por Massé
apenas havia sido construído o reduto no alto do morro AHU
E sta tentativa também fracas-sou, porém, o interesse polí-tico de dar prioridade à
defesa da vila Santos estava cada
vez mais explícito: “ter nela o maior
cuidado por ser o único porto para as
minas”.
Finalmente, em 30/10/1710, João
de Crasto de Oliveira em petição ao
rei, se ofereceu para edificar a for-
taleza defronte à de Santo Amaro
às suas custas, incluindo os “quatro
quartéis para a Infantaria desta praça”,
“sem reparo no grandioso custo a que
há de chegar”, orçados em duzentos
e cinqüenta mil cruzados, tudo em
troca das seguintes “mercês”:
“1ª O Forro de Fidalgo da Casa de S.
Mag. na forma do Estilo.
2ª Dois hábitos de Cristo cada um com
Tença de oitenta mil reis cada ano por
três vidas para passar de Pai a Filho e
deste a Neto, pagas as ditas tenças
nesta provedoria de Santos.
3ª A propriedade de um ofício nas
minas que renda todos os anos duzen-
tos mil reis.
4ª A patente de Sargento Maior da
Dita Fortaleza para mim e meus des-
cendentes com vinte mil reis de soldo
cada mês”.
Em 1712, Manuel de Vila Lobos
elaborou um projeto para o novo
"Forte do Crasto", possivelmente,
aproveitando-se do desenho do
século XVII: planta quadrangular
com quatro baluartes. O governo
português, cauteloso diante do
vulto da obra, ordenou a ida do bri-
gadeiro João Massé e Manoel
Pimentel a Santos, para examinar o
local e fazer “a figura da fortificação
que paracer mais conveniente”, pois
sem o “conhecimento do terreno, se
não poderá fazer tão importante obra
como a esta que se pretende”.16
O brigadeiro João Massé foi o
mais importante personagem na
consolidação da defesa militar da
capitania no período colonial. Além
Petição de João de Crasto de Oliveira
solicitando “mercês” em troca da
construção do Forte do lado de Santos
(1710) AHU
SÉCULOS XVIII E XIX
Através da Carta régia de 02/12/1698, o rei ordenou “a arrecadação
dos impostos” na Capitania de São Vicente com objetivo de “pagar a
edificação da fortaleza da Barra naquela vila”, que serviria de apoio
à antiga Fortaleza de Santo Amaro.
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
143
ArquiteturA MilitAr
142
uma estacada paralela aos lados, na
forma que se tem explicado no papel
que toca a fortaleza nova (na praia
fronteira). João Massé”
A Carta régia de 22/03/1721 orde-
nava a alfândega do Rio de Janeiro
consignar 4.000 cruzados anuais ao
novo governo estabelecido em S.
Paulo, para as obras da Fortaleza de
Santo Amaro propostas pelo briga-
deiro Massé. Quase nada havia sido
executado, pois ainda faltavam os
“parapeitos, um recinto em toda a cir-
cunvalação do monte, cortadura, casa de
pólvora, e correr-se uma cortina pela
parte do Rio”.19
Enquanto em 1726 o Governo do
Rio de Janeiro continuava a explicar
os motivos que o impediam de
enviar os 4.000 cruzados anuais para
as fortificações de Santos, as obras
na Fortaleza de Santo Amaro per-
maneciam paralisadas. Do outro
lado do canal da Barra Grande, em
1733 estavam concluídos parte dos
“alicerces da muralha” da Fortaleza
do Crasto “que estavam feitos confor-
me a Planta do Brigadeiro João Macé”.20
O ataque dos espanhóis da Argen-
tina à colônia portuguesa de Sacra-
mento em 1735 e as constantes ten-
tativas de “ocupar o litoral ao sul de
Cananéia, já que ainda eram nebulosas
as divisas entre os domínios de Castela
e Portugal antes do Tratado de Madri,
de 1750, e do Tratado de Santo Ildefon-
so, de 1777”, determinaram a
implantação de uma política de
defesa da costa meridional do Brasil
e das “divisas entre a então capitania
de Mato Grosso e os territórios espa-
nhóis da vertente amazônica”. O prin-
cipal personagem na estruturação
da defesa do litoral sul foi o briga-
deiro José da Silva Paes, que no ano
de 1739 projetou “um sistema trian-
gulado de fortalezas” para a defesa de
Santa Catarina.21
A provisão real de 15/02/1736
ordenou a suspensão de todas as
obras de defesa da praça de Santos
até a vinda do brigadeiro Silva Paes.
Um dos fatores que motivaram a
presença do brigadeiro em Santos,
tinha sido a peritagem feita por
ordem do conde de Sarzedas Luís
Antônio de Távora, na “obra princi-
piada a custa de João de Crasto cujos
alicerces se acharam insuficientes, razão
por que vos parecera dar me conta pri-
meiro para novamente vos declarar se
aquela Fortaleza se deve principiar
sobre outros fundamentos que tenham a
suficiencia e segurança necessária a
proporção da obra que ali se requer para
defesa daquela barra”.22
O brigadeiro Silva Paes esteve em
Santos em 1738 para “examinar as
obras que naquele porto se achavam fei-
tas, e as que se deviam fazer”. Na For-
taleza de Santo Amaro “faltava só
cerrar-se pela parte de terra com um
muro, que a cerque de sorte que deixára
advertido ao Governador daquela Praça
lhe fechar na parte em que hoje se acha
a polvora, que é uma casinha de telha
vã, e que para Armazem da mesma pol-
vora elegêra o sítio mais capaz na
mesma Fortaleza, de que lhe deixára o
risco por donde se devia fazer: Que na
Projeto do Brigadeiro Massé para
a Fortaleza do Crasto em 1714 AHU (esq.)
Em 1714, apenas a tenalha projetada por
Massé foi executada. O restante das obras
foi embargado pelo Brigadeiro Silva Paes
em 1738 VHM (em cima)
Levantar se os parapeitos das Bate-
rias até nove palmos por dentro e seis
por de fora, deixando canhoneiras de
vinte e cinco, em vinte cinco palmos de
meio em meio.
Entre as canhoneiras deve-se fazer
banquetes.
Acabar de lajear a bateria de baixo.
Metida na Fortaleza toda a artilharia
necessária deve-se feixar a praça baixa.
Fazer-se no lugar assinalado pelo Sr.
Governador uma Casa de pólvora com
aquelas prevenções já explicadas no
outro papel.
Desmanchar-se a Casa de Pólvora
que lá está por ser mal construído e em
sitio muito arriscado.
Correr-se uma cortina pela parte de
dentro do Rio, e sobre ela fazer uma
bateria de oito ou dez peças de artilha-
ria, lajeada e com os parapeitos na
forma das outras.
Fazer uma porta pequena na paragem
para aonde se entra do Rio a fortaleza,
coberta adiante de uma travessa de alve-
naria entulhada pelo meio de 15 palmos
de largura. (atual portão espanhol)
Continuar se abrir a cortadura até
por baixo do nível da água do mar e
fazer cortar o mato que esta nas ladeiras
do Outeiro na Fortaleza para o fazer
inacessível em todas as partes. E porque
ambas as baterias da Fortaleza estão
descobertas de um alto que fica para
alem da cortadura a tiro de espingarda
delas, será necessário levantar um
Reduto em forma de Atalaia em cima do
dito alto capaz de conter 12 ou 15
homens para o que bastará uma torre
quadrada comprida por baixo de qua-
renta palmos em cada lado, alto de trin-
ta e cinco de sapato ao cordão com
escarpa de um palmo sobre seis e suas
abóbadas e parapelas ...
Ao redor da dita atalaia e a quarenta
palmos de distancia deve-se correr
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
145
ArquiteturA MilitAr
144
Parece-nos que Silva Paes pouco
acrescentou daquilo que fora deli-
neado por João Massé em 1714 na
Fortaleza da Barra Grande. Limi-
tou-se a projetar a nova casa de pól-
vora no alto do morro atrás da ata-
laia e mandou prosseguir a cortina
até o portão da cortadura projetada
por Massé. No velho edifício dos
quartéis apenas sugeriu reforçar as
vigas do telhado. Em 1742 o gover-
nador José Roiz de Oliveira trans-
formou a velha casa de pólvora
abandonada em uma capela alpen-
drada com frontão em volutas, e a
sineira sobre a parede que prosse-
gue do frontispício nunca chegou a
ser executada.
Silva Paes confirmou o parecer
anterior sobre a precariedade das
fundações executadas na Fortaleza
do Crasto, e ordenou a suspensão
definitiva da obra projetada porJoão Massé. Caso fosse concluída,
esta fortaleza seria a única do tipo
abaluartada em Santos. A resolução
do brigadeiro dá-nos a entender
que João de Crasto de Oliveira
nunca receberia a totalidade das
“mercês” prometidas na Provisão
real de 27/01/1715.
As iconografias da Fortaleza do
Crasto mostra-nos que a tenalha de
pedra que “já se achava fóra da terra
uma braça” fora mantida e o
restante do perímetro com-
plementado por uma
estacada de madeira.
A partir dessa oca-
sião passou a
d e n o m i n a r - s e
Forte da Estacada.
Perspectiva do Forte da Estacada VHMPlanta do Forte da Trincheira ou da
Estacada levantada por João da Costa
Ferreira (ca. 1815) AHE
Retrato de Dom Luís Antonio de
Botelho Mourão,
o “Morgado de Matheus”
“Fortaleza da Barra Grande: nesta fortaleza todas as baterias são à barbeta”. Planta
desenhada pelo Tenente Izaltino J.M. de Carvalho, no século XIX AHE
Fortaleza de Santo Amaro no final do século XVIII. Haviam sido concluídos: o reduto e a
casa de pólvora no alto do morro e a capela alpendrada VHM
casa forte necessitavam de ser reforça-
das as vigas, que a cobrem, para que não
suceda e romperem-na”. Na Fortaleza
de João de Crasto a tenalha voltada
para o canal “já se achava fóra da terra
uma braça de obra, porém como os ali-
cerces se fizeram com pouca precaução,
não estava em termos de se seguir, mas
como o dito João de Castro não queria
seguir aquela obra, e por agora não era
mui precisada, importando o seu calcu-
lo o melhor de sessenta mil cruzados, e
a fazenda real daquela repartição não
estava em termos de fazer a tal despesa;
a julgára o dito Brigadeiro por hora des-
necessária, e que só se podiam conservar
as cinco peças de sorete em que se
acham”.23
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
147
ArquiteturA MilitAr
146
“Obras Novas de Fortalezas na Barra de Santos”. Construção do Fortim do Góes junto à
Armação de Baleia. BN
Forno de cal de
sambaqui pertecente à
antiga Fazenda dos
Jesuítas em Cubatão
(atual Cosipa).
Ele foi reativado pelo
Morgado de Matheus
para as obras das
fortalezas
dos padres da Companhia de Jesus
em 1759, como mostra o ofício de
04/12/1767 ao tenente Antônio J. de
Carvalho, administrador da fazen-
da: “Sem embargo das justíssimas
razões como Vm.ce se explica que lhe
assistem, faça Vm.ce cal, e mais cal por-
que é necessária nesta ocasião para
reparos das Fortalezas de que depende a
defesa e segurança desse Porto”.26
Em 1768 o governador enviou o
sargento-mor Manoel C. Zuniga
para examinar a Fortaleza de Santo
Amaro que “estava principiada a arrui-
nar em um dos ângulos dela”. Parece
que nada foi feito nesta ocasião, pois,
Projeto geométrico para o Fortim do Góes (acima) AHU
O governador D. Luiz Antônio de
Souza Mourão, o morgado de
Mateus, iniciou a partir de 1765 , a
remodelação do sistema de defesa
do Porto de Santos. Na Fortaleza da
Barra Grande concluiu a cortina até a
porta da cortadura, e construiu a pri-
são no interior do quartel. Mandou
projetar um fortim na Praia do Goes
“para impedir os desembarques que
podem haver naquela praia, que tem
fundo, e podem chegar a ela as embarca-
ções sem serem vistas da Fortaleza de
Santo Amaro, e desembarcando gentes, e
ganhando o morro sem impedimento,
ficam enfiando do alto, sem nenhum obs-
taculo, com os mosquetes todos os que
andarem dentro da dita Fortaleza de
Santo Amaro que se descobre toda, e por
conseqüencia é logo tomada.”
A planta inicial do Fortim do Goes
“que se havia fazer de estacada”, possuía
a cortina de madeira em forma curvi-
línea voltada para o canal. Em 1766, o
governador resolveu alterar o projeto
para uma configuração trapezoidal
“feito de pedra e cal”. No ano seguinte,
faltava completar o parapeito e as
guaritas. “O Forte consta de uma corti-
na de dois angulos abertos de 2/3 palmos
de comprido, e de 20 de alto, a qual forma
tres faces, uma virada para a praia, que
defende o desembarque, e as duas para o
mar, da parte de tras é pegado no morro.
Levará dezoito peças, foi feito com muita
comodidade na despesa, parece-me que
andará por três mil cruzados, e faz gran-
de diferença ao que custou a cortina com
que se acrescentou a Fortaleza de Santo
Amaro, que sendo quase o mesmo impor-
tou muitos mil cruzados.”24
Nesta época, o morgado de
Mateus também estava edificando o
Forte São Luiz na Bertioga. Toda a
cal de sambaqui empregada nessas
obras provinha da caieira da fazen-
da dos jesuítas de Cubatão25, incor-
porada pela Coroa com a expulsão
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
149
ArquiteturA MilitAr
148
frente do quartel uma grande varanda,
onde se recolha a artilharia”.28
A invasão de Portugal pelas tro-
pas de Napoleão Bonaparte, em
1807, acarretou a transferência da
Corte portuguesa para o Rio de
Janeiro no ano seguinte. A transfor-
mação da colônia em metrópole vai
involuntariamente, criar as bases
para se desenvolver internamente
o conceito de “nação brasileira” e o
conseqüente sentimento de inde-
pendência.
Protegido das forças napoleôni-
cas pela distância, e apoiado pelas
demais nações, principalmente pela
Inglaterra, com a abertura dos por-
tos brasileiros, a Coroa desviou a
política de defesa litorânea para um
novo inimigo: a invasão dos ideais
da revolução francesa e da inde-
pendência americana. A Circular de
07/06/1810 aos comandantes das
vilas da marinha, ordenava o exame
das equipagens e passageiros,
podendo “submeter a quarentena” as
embarcações americanas, com o
objetivo de proibir a entrada dos
“franceses papéis incendiários contra o
felicíssimo governo de Nosso Amado
Soberano”.29
Vista do Fortim do Góes em 1960
Detalhe da cortina do Fortim do Góes
“Reduto que D. Luís mandou fazer na Barra de Santos” BN
apenas em 1793, o pedreiro Manoel
Lopes examinando as cortinas con-
cluiu: “que carece muito acudir os dois
cunhais das duas guaritas da Bateria de
baixo, pela parte exterior, por ter a conti-
nuação do mar, cavado a cantaria dos
sobreditos cunhais de sorte, que enfra-
quecidos o talude da muralha, (…) e que
se pode reparar com um betume feito de
borra de azeite e cal”.27
Em 1777, foi assinado o Tratado
de Santo Ildefonso entre Portugal e
Espanha, definindo os limites do
Brasil até o atual estado do Rio
Grande do Sul. Afastado o perigo
espanhol do sul, a atenção militar
da Coroa passou a se concentrar nas
revoltas internas, inspiradas nos
movimentos, que geraram a Inde-
pendência dos Estados Unidos e a
Revolução Francesa, a exemplo da
Inconfidência Mineira. Assim, no
fim do século XVIII, pouco se fez nas
obras das fortificações santistas. Os
recursos provenientes do açúcar
ituano foram canalizados para a
construção da primeira estrada
lajeada interligando o Porto de San-
tos ao planalto paulista - a Calçada
do Lorena.
Na virada do século, um relatório
assim descrevia o estado das fortifi-
cações: “Na barra grande achei as por-
tas podres e espedaçadas, o quartel
muito arruinado e parte dele a cair, a
casa da pólvora por acabar; na bateria
de baixo achei algumas peças montadas
em carretas podres e outras no chão,
muito mal tratadas, de sorte que toda
esta bateria está impossibilitada de fazer
fogo (…); No norte da praia do Goes se
acham oito peças, quatro montadas e
quatro desmontadas e muito mal trata-
das, de sorte que algumas já estão em
estado de não poder dar fogo; Na forta-
leza da Trincheira (Estacada) se acham
onze peças, todas desmontadas e algu-
mas já sem serventia. A estacada esta
toda podre e o quartel bastante arruina-
do. Com pouca despesa se pode fazer na
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
151
ArquiteturA MilitAr
150
Ruínas da Casa de Pólvora no alto do morro
Reduto: terceira bateria construída
no século XVIII para a proteção de
encostas defronte a Casa de Pólvora
Detalhe da “Planta da Vila de Santos” (século XVIII) AHE
Em 1809, o engenheiro João da
Costa Ferreira recebeu ordens para ir
aSantos substituir todos os reparos
das artilharias para carretames
navais, aqueles “de quatro rodas, como
he o carretame da marinha” pois eram
“mais comoda para se livrarem das chu-
vas”, pois facilmente se deslocavam
para os telheiros de proteção. Outra
recomendação dessa época para a
melhor proteção dos reparos e arti-
lharia, era no sentido de pintar com
“oleo de linhaça na falta deste com azeite
de amono, e uma terra que há em
Cananéia que é semelhante ao roxo-terra
da Italia” (óxido de ferro)30.
Exaurido o ouro das Minas Gerais,
que sustentou o esplendor do barro-
co brasileiro, a produção do café que
partiu do vale do Rio Paraíba flumi-
nense até São Paulo, iria dar suporte
para a transformação da feição colo-
nial das nossas cidades. Era o estilo
neoclássico que a “Missão Francesa”
trazia para a corte no Rio de Janeiro,
e serviu de referência para todo o
país no campo das artes e arquitetu-
ra. Porém na área mercantil e militar,
todo o controle estava nas mãos da
Inglaterra, que tinha o interesse em
dominar a zona platina do sul. Até
mesmo a Independência do Brasil,
contou com o apoio de Londres, que
liberou o primeiro empréstimo exter-
no no valor de 3 milhões de libras
esterlinas em 1824. A organização
militar colonial encerrou-se na práti-
ca, somente com a criação da Guarda
Nacional em 18/08/1831, após a
revolta que resultou na abdicação de
D. Pedro I, segundo Werneck Sodré.31
Os relatórios dos comandantes da
Barra Grande entre os anos da Inde-
pendência do Brasil e 1853, perten-
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
153
ArquiteturA MilitAr
152
Planta do “Estado actual dos diversos desméritos do Forte da Barra Grande”,
anterior a 1895. AHE
Em 1858, o quartel foi considerado
“em bom estado por se ter ultimado uma
obra em 1854”, porém ainda necessi-
tava da “mudança da cozinha para fora
do Corpo do Quartel por estar contígua
a sala de jantar em razão da fumaça”.
Faltava também a construção de
uma latrina que “em tempo algum
existiu”, e a “supressão dos alçapões de
cima das duas prisões por serem lugares
que são hoje ocupados em arrecadação
dos utensílios”, e “abrindo-se as compe-
tentes portas nos mesmos lugares em que
serviam em outros tempos” para as pri-
sões, uma “para correção e a outra para
maiores crimes”, ficariam todas com
“comunicação do ar”.
As muralhas foram rebocadas e
caiadas em 1860, mas no quartel o
relatório informava que a sala preci-
sava “ser assoalhada bem como forrar e
assoalhar dois quartos”. O edifício
religioso “necessitava ser "reentelha-
do, assualhado e caiado”, a casa de
pólvora no alto do morro continua-
va sem piso de tijolos.32
No ano seguinte a Forte da Esta-
cada, então denominado Augusto,
já encontrava-se desativado. O
General José Olinto de C. e Silva
relatava que o “defronte a fortaleza da
Barra Grande um Forte denominado
Augusto, o qual está de todo em aban-
dono, tem algumas bocas de fogo cal. 12
que pretendo emprega-las na fortaleza
da Bertioga”.33
Em 1878, desabou o alpendre da
capela em “conseqüência do mau esta-
do”. No ano de 1886 o fortim do
Góes estava desarmado e na Barra
Grande a “casa do comandante, quar-
tel e paiol da polvora estavam em estado
de ruina ameaçando os seus telhados
desabarem à todo momento devido estar
a maior parte da madeira estragada e
podre, (…) e as muralhas estavam todas
pretas, por não serem caiadas há mais
de trinta anos”.
A última obra aconteceu em 1894,
na reforma inacabada do quartel. O
telhado colonial arruinado, foi subs-
tituído por um novo, mais alto,
“Planta da fortaleza da Barra Grande da Vila de Santos” desenhada pelo
Tenente-Coronel J. Antonio Cabral AHE
centes ao Arquivo do Exército,
denunciavam invariavelmente o
estado de abandono das fortificações
da entrada da barra de Santos.
O alvo da poderosa Inglaterra era
controlar as rotas marítimas comer-
ciais brasileiras. A tutela inglesa per-
mitiu ao governo brasileiro descui-
dar-se da proteção física do porto de
Santos, concentrando os recursos de
defesa na organização do aparelho
militar central, para suprimir os dis-
túrbios internos e, externamente,
buscar o domínio da região cisplatina
atendendo aos interesses dos ingle-
ses. Aliás, as revoltas internas, que se
iniciaram como sequelas da separa-
ção de Portugal, tornaram-se fre-
qüentes a partir da Regência, contra-
pondo liberais e conservadores e,
depois, monarquistas e republicanos.
O relatório do Comandante da For-
taleza da Barra, de 1815, descrevia
que “o quartelamento esta avir abaixo,
sua ruína é considerável, a varanda dos
fundos do quartelamento esta a cair e a
casa do Deposito das munições da mesma
Fortaleza se acha em estado de não poder
ali guardar coisa alguma ainda de menor
risco por causa das águas que recebe
tanto por cima como por baixo”. No ano
de 1853, o comandante Tenente Coro-
nel Alexandre M. de Carvalho Oli-
veira reclamava que “o estado do
Quartel é tão ruinoso, tão incomodo, e
tão insalubre e pouco decente, que não
pode sofrer a menor demora na sua repa-
ração”. Enfim, no ano seguinte, acon-
teceram algumas obras de reforma
tão aguardadas, que foram executa-
das pelo tenente cel. Alexandre de
Carvalho Oliveira.
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
155
ArquiteturA MilitAr
154
Postal da Fortaleza da Barra antes do encerramento das suas atividades militares
Góes foram invadidos por particulares
que apoderaram-se de terrenos e cons-
truíram sem licença casas habitações em
terrenos do Ministério da Guerra,(…);
acrescento que o Forte Augusto ficou por
isso reduzido de extensão que em nada
difere de um quintal comum”. Em pior
situação que os terrenos da época
colonial estava a antiquada artilharia
da Fortaleza da Barra Grande e do
Forte Augusto (Estacada).
“No forte Augusto.
A artilharia assentada no forte
Augusto não pode funcionar. São seis os
canhões aí existentes e eis os motivos
alegados: O canhão retro-carga Whit-
worth 70º está montado n’um reparo de
Gribeanval que não tem a compatível
solidez e fixidez. Um dos canhões Whit-
worth 70º está há anos encravado com
uma granada do seu mesmo calibre
(70). Um dos três canhões restantes está
montado n’um reparo de Praça e Costa
ao qual falta o respectivo caixilho e dis-
positivos inerentes a esta parte do repa-
ro (caixilho). Restam pois dois canhões:
Um d’estes dois ante-carga Whitworth
70º como os outros está montado n’um
reparo de Praça e Costa de caixilhos e
tudo assentado sobre o estrado de
madeira porém a testa do caixilho d’este
reparo está assentado sobre o estrado
que é de madeira, quando esta parte do
reparo devia assentar sobre trilho de
bronze ou ferro (aparafusado ao estra-
do) para a testa do caixilho poder com
eles (desviar).(…) O Canhão restante
tem a culatra quebrada. São estes os
pontos principais que acarretam a
impossibilidade de funcionar perfeita-
mente a artilharia citada. (…)
Na Fortaleza.
Um antecarga Whitworth 24º des-
montado por não existir aqui o respecti-
vo reparo. Um ante-carga Whitworth
12º que tem o pano da culatra quebrada
e além disso a carreta em que está mon-
tado não tem rodas, as quais apodrece-
ram (…). Quatro canhões ante-carga
Whitworth 4º que não prestam serviço
pela insignificância do calibre e dois
canhões de bronze raiados 12º. Estes
últimos, isto é estes dois canhões la Hite
12º fazem todo o serviço, taes como inti-
mações a navios delinquentes, salvas
continenciais a navios de guerra etc.” 34
Em 1897, a Comissão que estuda-
va o novo plano de defesa do Porto
Cartão postal colorizado da Fortaleza da Barra Grande do início do século XX
coberto com telhas francesas. As
fachadas norte e leste foram refeitas
segundo as formas ecléticas do
período. O alpendre fronteiro
ganhou arcadas de tijolos coroadas
por platibanda substituindo o beiral
primitivo. Nas demais faces do edi-
fício e no seu interior, permanece-
ram os vãos emoldurados pelas
cantarias tradicionais.
Os conflitosinternacionais contra
a Argentina (1851-1852), o Uruguai
(1864-1865) e principalmente o
Paraguai (1864-1870), fomentaram o
fortalecimento da armada militar
brasileira e a necessidade da moder-
nização do sistema defensivo nacio-
nal. Outro dos legados da Guerra
do Paraguai foi o surgimento de
lideranças nascidas fora da aristo-
cracia formada pelos senhores de
terra, que constituiriam o epicentro
do poder republicano, logo após a
deposição de D. Pedro II.
No final do século XIX, já estava
em elaboração o novo Plano de
Defesa do Porto de Santos, em fun-
ção da chegada da ferrovia inglesa e
da modernização do sistema por-
tuário de Santos. As modernas arti-
lharias como os canhões Krupp e
Schneider-Canet com alcance e pre-
cisão quilométrica, tornaram obso-
leto o sistema de defesa colonial da
Baixada Santista. Pouco depois,
começariam as desapropriações das
glebas de Itaipú para se implantar
as novas fortificações.
Em nome da modernização, nem
mesmo os terrenos militares de
posse imemoriais tiveram qualquer
preocupação pelo Ministério da
Guerra. No Relatório de 1889 o
comandante Francisco Álvaro de
Souza ainda pedia providências aos
superiores “porque consta-me que em
datas anteriores, os dominios da Fortale-
za, forte Augusto, e Paiol da Praia do
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
157
ArquiteturA MilitAr
156
Interior da Capela de Santo Amaro, antes da restauração
rar a velha fortificação: “Me parece
que nesta Fortaleza vão ser executadas
obras de adaptação a defesa do porto;
(…) Quaisquer que sejam as obras, não
deixa de ter cabimento o pedido de pro-
videncias contido no presente Relatório,
e que, datando de anos, assim vão conti-
nuando. (…) O fornecimento de peque-
nos canhões para salvas será fatalmente
necessário, porque a Fortaleza depois de
restaurada, não poderá fazer este serviço
com canhões de grosso calibre”.
Felizmente, o projeto da “segun-
da barreira” foi abandonado pela
Comissão de Defesa do Porto. Em
abril de 1905 a Fortaleza da Barra
foi desarmada após 312 anos de ati-
vidade militar defendendo a entra-
da do Porto de Santos substituída
pela Fortaleza de Itaipu.
A antiga Fortaleza do Crasto, da
Estacada posteriormente denomi-
nada Forte Augusto, foi demolida
no início do século XX para a cons-
trução da Escola de Aprendizes de
Marinheiro. Nesse novo edifício,
iniciado em 1906, funciona atual-
mente o Museu de Pesca de Santos.
Durante os anos que se seguiram,
a história da Fortaleza de Santo
Amaro foi permeada por ocupações
provisórias intercaladas por perío-
dos de abandono. Foi sede do Cír-
culo Militar e posteriormente da
Sociedade dos Amigos da Marinha.
Tombada como monumento nacio-
nal pelo IPHAN em 1964, somente
em 02/09/1993 deu-se início ao
processo de sua recuperação, com a
assinatura do “Protocolo de Inten-
ções” entre o Instituto do Patrimô-
nio Histórico e Artístico Nacional, a
Universidade Católica de Santos e a
Prefeitura de Guarujá.
de Santos trabalhava sigilosamente
com a hipótese de se criar duas
linhas de defesa. A primeira na
entrada da baía de Santos compos-
ta de três fortificações assentadas
na Ponta do Itaipu, na Ilha das Pal-
mas e um forte marítimo no meio
da baía. A segunda linha também
com três baterias situadas na Forta-
leza de Santo Amaro, que seria
demolida, na foz do Rio de Santo
Amaro junto ao Canal da Barra e a
outra na Ilha de Santos.
Segundo o relatório de Dezembro
de 1897, do Capitão Erico Augusto
de Oliveira, a antiga Fortaleza da
Barra seria demolida e substituída
por um forte retangular completa-
mente fechado e blindado de con-
creto para abrigar “uma bateria torpê-
dica submarina” protegida por “abó-
bodas a prova de bombas” com espes-
suras de 2,5 m. Seriam três tubos
lança-torpedos móveis com "campo
de tiro de 120º", baseado no sistema
“indicado pelo general Brialmont em
sua Defeuse des Côtes”.
O comandante da Fortaleza da
Barra em 1904, desconhecendo o
teor destes projetos secretos para a
defesa do Porto, ingenuamente pro-
testava por mais verbas para restau-
Interior do quartel destelhado da
Fortaleza da Barra Grande”
Canhão Withworth abandonado na
Fortaleza da Barra Grande (1969) IPHAN
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
159
ArquiteturA MilitAr
158
DA BARRA DE SANTOS DE 1º/01/1904”
Higiene.
Não é lisonjeiro o estado sanitário do pessoal. (…) não possuem os requisitos exi-
gidos pela higiene, tais como latrinas, drenagens de águas pluviais, ventilação (…)
Armamento.
A fortaleza tem para o serviço dois canhões Krupp 7,5 e 28 sendo que um deles
já está com uma das rodas estragada. A não ser este armamento possui mais qua-
tro canhões ante-carga Whitworth 4º, que não são aproveitados por pequenos, e
um canhão antecarga Whitworth 24 libras, desmontado e para o qual não existe
aqui o respectivo reparo.
Até há pouco existiam mais dois canhões de bronze, que auxiliava as sal-
vas de artilharia, porem foram retirados pelo arrematante de metais impres-
táveis no serviço.
Ficaram portanto para o serviço das salvas, apenas os dois canhões Krupp
acima mencionados, pelo que fiz pedido em 31 de Julho do ano findo, de mais dois
outros. Pelo ofício da Seção de Material do Senhor Comandante numero 1619 de
23 de outubro ainda de 1903, fui informado que o fornecimento deixara de ser
feito, porque a Chefia da Comissão de defesa do porto desta Cidade, em informa-
ção prestada, declarou não convir o fornecimento. (…)
Considerações Gerais.
Me parece que nesta Fortaleza vão ser executadas obras de adaptação a defesa
do porto; serviço este, a cargo da Comissão que há dois anos está trabalhando no
costão fronteiro na barra.
Quaisquer que sejam as obras, não deixa de ter cabimento o pedido de provi-
dencias contido no presente Relatório, para as faltas e inconvenientes atualmen-
te existentes, e que, datando de anos, assim vão continuando. (…) O fornecimen-
to de pequenos canhões para salvas será fatalmente necessário, porque a Fortale-
za depois de restaurada, não poderá fazer este serviço com canhões de grosso cali-
bre e isto no caso de serem eles aqui assentados; (…)
Fortaleza da Barra de Santos, 1º de Janeiro de 1904.
As. Francisco Alvaro de Sousa
Capitão Comandante”
Relatório do ano de 1903 da fortaleza da Barra de Santos, manuscrito de 01/01/1904
assinado pelo Capitão Comandante Francisco Alvaro de Souza – Arquivo Histórico do Exército
(RJ) – Cópia IPHAN-SP.
“ÚLTIMO RELATÓRIO DO COMANDO DA FORTALEZA
(…)
Edifícios
Acham-se sob a imediata dependência deste Comando, alem dos dois edifícios
existentes nesta fortaleza, mais os seguintes: deposito de Artigos Bélicos e paiol da
Praia do Goes.
Na Fortaleza, pode-se dizer que existe apenas uma casa aproveitável. É a que
subdividida internamente, abrange o quartel e casa do Comando. O outro edifício
a parte; foi construído em tempos coloniais para capela, acha-se em ruínas. Cons-
ta-me que a casa foi consertada em 1894; porém as obras então encetadas não foram
concluídas. Beneficiaram somente a frente e oitão direito, porem mais da metade da
casa; na parte dos fundos; ficou com alguns muros em ruínas, paredes por concluir,
ausência de soalho ou ladrilho nos compartimentos e falta de portas e janelas. Esta
parte do quartel, apesar de nociva, esta sendo aproveitada, por não haver outro
recurso; pois que a interrupção das obras, importou na supressão de acomodações
indispensáveis, que interiormente existiam. A parte da frente é ocupada pelo prin-
cipal alojamento e casa do Comando, e tem um porão comum, cuja altura varia de
um metro a alguns centímetros, conforme os acidentes do terreno. Este porão (cuja
área me parece não ser cimentada, de modo a torna-la estanque) não tem mezani-
nos nem comunicação para o exterior, para ser arejado ou asseado. Devido ao gran-
de numero de dezenas de anos que o local é habitado, é de presumir, que deve exis-
tir no porão corpos adequados à emanações de gases mephiticos. (…)
Depósito de Artigos Bélicos.Esta situado fora da Fortaleza e necessita pequenas obras de reboco nas pare-
des, pinturas e substituição de algumas telhas.
Paiol da Praia do Goes.
É constituído por um pequeno edifício, subdividido internamente em dois com-
partimentos, armazenando em um deles toda a munição. Para sua guarda, ali exis-
te um pequeno destacamento, que reside dentro mesmo do Paiol, no compartimento
contíguo ao da munição; por não haver outra qualquer dependência para esse fim.
Me parece que deve ser reparado a falta de uma pequena casa, para moradia do pes-
soal em guarda do Paiol. Este edifício precisa de ligeiros concertos, inclusive nos
batentes, que apodreceram de uma janela. (…)
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
161
ArquiteturA MilitAr
160
primeira proposta de restauro for-
mulado para a Fortaleza da Barra
Grande, de autoria do arquiteto
Lúcio Costa35, em 21/09/1950, que
assim se manifestava sobre esse
monumento “já indevidamente refor-
mado, cabendo agora, na eventualidade
de obras de adaptação beneficia-lo com
novo telhado (mais baixo e com telhas de
modelo antigo), recompondo-se ainda os
arcos e demais vãos modernizados”.
Para os técnicos do iphan, a polê-
mica sobre esse projetos fomentou
uma profunda reflexão e questiona-
mento sobre os conceitos formula-
dos nas cartas de restauro, cuja dis-
cussão é parte das preocupações
atuais de inúmeros congressos
internacionais.
Os diversos posicionamentos
assumidos por grupos ou pessoas ao
longo deste processo, quase que
refletem os mesmos argumentos que
deflagraram debates incessantes na
Europa, sobre os procedimentos de
restauro a partir do século XIX.
Alguns defendiam a idéia romântica
da simples manutenção do status
quo, ou seja, a preservação da Forta-
leza da Barra como ruínas, outros, a
restauração dos edifícios em suas
formas originais idealizadas por
Giovanni Battista Antonelli36 no
século XVI; haviam os partidários de
se recuar o monumento no tempo
até o século XVIII, conforme concebi-
do pelo brigadeiro João Massé 37, e
opositores que pregavam o retorno
dos edifícios às feições assumidas
recentemente quando abrigava o
Clube Militar. Imaginaram até
mesmo a possibilidade de se conti-
nuar as obras interrompidas em 1894
por falta de recursos, completando-
se as duas fachadas que faltaram
com modenaturas ecléticas.
Os partidários da manutenção do
aspecto de ruínas, conscientemente
ou inconscientemente, evocavam o
posicionamento romântico de John
Ruskin (1819-1900) e William Mor-
ris (1834-1896) no século XIX, ideolo-
gicamente firmado na crítica à revo-
lução industrial emergente. Sobre a
restauração, defendida por Viollet-
-Le-Duc (1814-1879) na França, Rus-
kin38 afirmava ser “impossível restau-
rar qualquer coisa que foi grande e bela
na arquitetura, como é impossível res-
suscitar dos mortos, (…), aquele espíri-
to que se comunica através da mão do
artífice não pode jamais voltar a vida.”
A seguir o autor justificava esta afir-
mação39: “nós não temos nenhum direi-
to de tocá-los, não são nossos, perten-
cem à aqueles que o construíram e em
parte a todas as gerações humanas que
os seguiram.”
É, porém, William Morris, segui-
dor do pensamento de Ruskin, o
autor de inúmeros enunciados que
ajudaram a definir o moderno con-
ceito de preservação cultural. Mor-
ris, foi o criador do “The Anti-Res-
toration Movement” em 1877 e da
“SPAB – Society for The Protection
of Ancient Buildings”, fundamenta-
do na crença que apenas a socieda-
de organizada e conscientizada
daria eficácia à uma política preser-
A HISTÓRIA DO RESTAURO NAS OBRAS
DA FORTALEZA DA BARRA GRANDE
Das últimas obras de restauração efetuadas pelo IPHAN em São Paulo,
os projetos da Fortaleza da Barra Grande na Ilha de Santo Amaro e o
do Forte São João da Bertioga, foram sem dúvida os mais polêmicos.
Fortaleza da Barra Grande em 1983
I ncitaram manifestações públi-cas de aprovação e repúdio. Estiveram presentes ininter-
ruptamente na mídia sob múltiplos
enfoques e críticas, devido à pro-
posta inovadora na concepção dos
projetos de arquitetura.
Passados oito anos do início do
movimento pró-Fortaleza coordena-
do pela unisantos, e da apresenta-
ção pública do anteprojeto de res-
tauro na Faculdade de Arquitetura
de Santos, pressente-se hoje uma
quase unanimidade, quanto à apro-
vação dos critérios arquitetônicos
adotados.
A visão dos monumentos paulati-
namente ressurgindo, brancos e
vigorosos, na paisagem dos Canais
da Barra Pequena e Grande, depois
de décadas de abandono, vandalis-
mo e arruinamento, arrefece as dife-
renças conceituais de opiniões,
sendo aos poucos substituídas pela
cumplicidade na ressurreição des-
ses monumentos.
O partido arquitetônico do projeto
para a Fortaleza da Barra Grande
coordenado pelo Professor Antonio
Luiz Dias de Andrade do iphan,
com a colaboração do arquiteto Vic-
tor Hugo Mori, tem sua origem na
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
163
ArquiteturA MilitAr
162
Proposta de restauração dos
arquitetos Antonio Luiz Dias
de Andrade
e Victor H. Mori IPHAN
naire raisonné de l'architecture
française du XI au XVI siècle” (1854):
“restaurar um monumento não é ape-
nas reconstituí-lo, repará-lo, ou refazê-
-lo, mas restabelecer um estado com-
pleto que pode jamais ter existido”.
Gallego Fernandez43 prefere tradu-
zir o termo “état complet”, por “estado
ideal”, por entender ser o objetivo do
restauro violletiano a edificação de
um modelo idealizado – um arquéti-
po formulado através dos “momentos
de privilegiada síntese” 44 da história da
arquitetura, desconsiderando-se o
que o precede (formação) e o que o
procede (decadência).
O pensamento de Viollet-Le-Duc
não pode ser dissociado, do pensa-
mento arquitetônico do século XIX,
expressa parcialmente nas restitui-
ções ideais que arquitetos e arqueó-
logos realizaram na Europa, e dos
ensinamentos nas escolas de arqui-
tetura, que motivaram uma séria
crítica de César Daly por ensinar “O
antigo e nada mais que o antigo. E entre
o antigo, nem o começo nem o fim, e sim
exclusivamente o apogeu.” 45
Também não podemos desconsi-
derar o confronto ideológico de
Viollet-Le-Duc com os partidários
da arquitetura clássica, que defen-
diam ser a cultura greco-romano, a
gênese da arquitetura nacional fran-
cesa, inclusive do românico. Para
Viollet-Le-Duc, era o gótico do sécu-
lo XIII idealizado, o arquétipo que
representava o espírito nacional.
Essa tese libertava a França da
influência e dependência cultural
Desenho feito pelo arquiteto
Antonio Luiz Dias de Andrade do
Quartel e Capela antes da
restauração IPHAN
vacionista. Liderou um movimento
internacional contra a restauração
da catedral de São Marcos em Vene-
za, defendendo o “conceito de patri-
mônio humanidade” em artigo inti-
tulado “The Restoration of St.
Mark's”, em 1879, quando afirmava:
“Os edifícios de uma nação não são
somente propriedade desta nação, mas
são do mundo todo”.40
Em outro artigo, datado de 1885,
“The Demolition of Churches in
York”, Morris41 defendeu a idéia da
preservação de conjuntos urbano,
das pequenas construções cujas
demolições “significaria arrancar da
cidade, a sua alma, torna-la um local
banal”, discutiu a preservação das
“pequenas e humildes igrejas paro-
quiais dignas de proteção como as gran-
des catedrais do país”, e afirmou a
necessidade do uso do edifício
como meio de preservação: “cada
arquitetura possui a sua particular fun-
ção (…), quando a função vem a faltar,
toda a construção se extingue. Por essa
razão é importante encontrar uma fun-
ção social inclusive para as velhas igre-
jas abandonadas (…)”.
O arquiteto Gustavo Pereira,
assim sintetizou o pensamento de
Morris sobre a intervenção em
monumentos: “reparar ao invés de
restaurar, prevenir para não ter que
remediar”.42
Em oposição aos princípios
defendidos por Morris e Ruskin,
Viollet-Le-Duc na França, propõe
os fundamentos do restauro
moderno, no seu clássico “Diction-
AsFortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
165
ArquiteturA MilitAr
164
Conclusão da estrutura metálica em aço corten no edifício do Quartel
A hipótese de retorno aos dois
primeiros séculos implicaria na prá-
tica, em destruir todo o conjunto
existente, mantendo-se apenas as
duas baterias, ainda assim dimi-
nuindo-se a altura acrescentada por
Massé e manter o quartel em sua
tipologia palladiana, espacialmente
semelhante às casas bandeiristas do
planalto, porém mais baixo que a
construção atual e sem as arcadas
acrescentadas no século XIX. A outra
hipótese de retorno às feições do
século XVIII, também implicaria a
demolição e reconstrução de 50%
do quartel, ainda assim calcado em
conjecturas, pois inexistem evidên-
cias materiais ou iconográficas con-
fiáveis para definir os elementos
como portas, janelas, detalhes técni-
cos, cobertura, etc.
A polêmica sobre a restauração no
século XIX, que criou as bases para o
restauro moderno, na verdade, não
se limitou aos personagens Ruskin,
Morris e Viollet-Le-Duc. O arqueó-
logo R. Bordeaux, em sua obra
“Traité de la reparation des eglises:
Principes d'Archèologie practique”, de
1862, insere na discussão um dos
postulado básico do restauro
moderno: “conservar respeitando o
antigo sem mutilar os agregados que o
tempo incorporou.” 48 A restauração
do Arco de Tito em Roma em 1821
por Valadier, apresentou o princípio
Mural de Manabu Mabe, em mosaico de vidro, para a Capela da Fortaleza
da Barra Grande (1997)
de Roma, afirmando sua gênese na
arte oriental trazida pelos cruzados.
Na restauração de Saint-Front de
Perigueux, com assessoria direta de
Viollet-Le-Duc, seu discípulo Paul
Abadie, materializou esta tese,
“construindo” uma igreja bizantina
tendo como modelo ideal a igreja
dos Santos Apóstolos em Constanti-
nopla, sobre uma igreja típica da
Aquitânia, que se comprovou pos-
teriomente ser suas cúpulas (demo-
lidas por Abadie) produtos de uma
cultura local que “seguiu adotando os
modos de construir romanos”.46
Idênticas posturas de restaura-
ção foram executadas em São
Paulo, conforme demonstrou o
Prof. Antônio Luiz Dias de Andra-
de, sob a égide do pensamento
violletiano, cujo paradigma pode
ser simbolizado na obra da Cadeia
de Atibaia.47
Os defensores da idéia de restitui-
ção da imagem da Fortaleza, tal qual
ela se configurava no século XVI ou
XVIII, enquadram-se na vertente de
pensamento denominado “Restauro
Estilístico”, originário dos postula-
dos de Viollet-Le-Duc.
Desconhe-se com precisão a confi-
guração primitiva da Barra Grande
entre o primeiro e o segundo século.
É a partir do projeto de restruturação
da Fortaleza, no início do século XVIII,
que podemos acompanhar a evolu-
ção arquitetônica deste complexo
militar até os dias de hoje. Do relató-
rio do brigadeiro Massé, podemos
concluir que já existiam as cortinas da
bateria de baixo, e da bateria de cima,
a casa de pólvora cujo arcabouço foi
transformado em capela em 1742 e o
edifício do quartel profundamente
alterado nos séculos XIX e XX, todos
remanescentes do século XVI ou XVII.
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
167
ArquiteturA MilitAr
166
Interior da Capela destelhada. Na parede do
fundo com “pixações” foi executado o mural
de Manabu Mabe
Imagem aérea da Fortaleza de 1983,
antes da restauração
Elevação principal do Quartel antes da
restauração. Observa-se que a primeira
pilastra de tijolos havia sido destruída por
ato de vandalismo e reforçada por um apoio
de concreto
Vista do interior do Quartel tomado
por vegetações. O telhado havia sido
destruído por ato de vandalismo.
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
169
ArquiteturA MilitAr
168
Vista da Fortaleza da Barra a partir de Santos
da como a recusa das posições
românticas antagônicas: “ruínas
total de um lado; reconstrução total de
outro.”49 Defende a conservação dos
acréscimos incorporados, à seme-
lhança de R. Bordeaux, ao afirmar
“que o monumento tem suas estratifi-
cações, como a crosta terrestre, e que
tudo, da profundeza à superfície, pos-
suem seus próprios valores e que devem
ser respeitados.”50 O princípio da
diferenciação entre a nova inter-
venção e a parte antiga, aplicado
por Valadier é parte dos oito pon-
tos proposto por Boito, no Con-
gresso de Engenheiros e Arquitetos
em Roma (1884). O critério conser-
vativo de Morris e Ruskin é reafir-
mado, principalmente no denomi-
nado Restauro arqueológico (Anti-
guidade) 51, admitindo-se apenas a
consolidação e a anastilose, e na
recomendação de conservar para
não restaurar.
A conceituação proposta por
Camilo Boito, ao invalidar o ruinismo
e a reconstrução (mimética, deduti-
va, analógica e arquetípica), elimi-
nou as propostas aventadas para a
restauração do Forte da Barra Gran-
de, referentes a sua conservação
como monumento arqueológico ou a
restituição de sua imagem perdida
irremediavelmente no passado.
Os restos remanescentes da forta-
leza, configuravam ainda a espacia-
lidade do complexo militar. A arti-
culação destas partes, compostas de
cortinas, guaritas, praças de armas,
paredes, oitões, envasaduras, pisos,
arcadas, etc., e a paisagem transfor-
mada, definiam volumetricamente
e espacialmente o monumento, por-
tanto, tratava-se de arquitetura e
não de ruínas arqueológicas.
A partir do pensamento de Boito,
Gustavo Giovannoni (1873-1948)
consolidou a “Teoria do Restauro
Elevação principal do Quartel. A restauração manteve a configuração dos acréscimos do
século XIX, como o desenho das arcadas, envasaduras e platibanda (acima).
O Quartel depois da restauração (abaixo)
da distinção do material e da técni-
ca, entre o antigo e o novo.
A sistematização deste conjunto de
idéias foi obra de Camilo Boito (1836-
1914), que perseguiu a conciliação
dos pensamentos divergentes tradu-
zindo-os num único corpo conceitual.
Boito reconhecia a validade do
restauro como ato excepcional,
contrapondo-se a corrente inglesa,
porém negando os princípios apre-
goado por Viollet-Le-Duc relativos
à unidade estilística. Essa “Teoria
Intermediária” pode ser sintetiza-
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
171
ArquiteturA MilitAr
170
Execução do mosaico de vidro no Atelier Sarasá. Abaixo, detalhe ampliado
Científico” em seu texto intitulado
“Restauri dei monumenti” de 1912.
Liliana Grassi assim sintetiza esta
teoria: “Por restauro científico se enten-
de a operação que se limita a consolidar,
recompor, valorizar os traços remanes-
centes de um monumento (…)”.52
A Conferência Internacional de
Atenas em 1931, normatizou os cri-
térios de Giovannoni, dividindo a
obra de restauro em trabalhos de:
consolidação; recomposição por
anastilose; liberação de acréscimos
privados de efetivo interesse; com-
plementação de partes acessórias
para evitar a substituição; inova-
ção53 ou acréscimo de partes indis-
pensáveis com concepção moderna.
Partidário da escola “giovanno-
niana”, o arquiteto Ambrogio
Annoni, autor do clássico “Scienza
ed arte del restauro” (1946), diver-Vista aérea da Fortaleza com a cidade de Guarujá e o mar aberto ao fundo
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
173
ArquiteturA MilitAr
172
1- Lajeado primitivo de pedra
2- Soleira de cantaria original
3- Lajota de cerâmica sob o piso atual
3
2
1
da. Nessa circunstância especial,
foram lançadas as bases da Teoria
do “Restauro Crítico”. Piero Gazzo-
la reedificou estilisticamente a ponte
do Castelvecchio em Verona, com-
pletamente destruída pelos alemães.
O próprio Giovannoni reconheceu,
conformado naquele momento:
“será melhor um restauro cientifica-
mente imperfeito, que represente uma
nota perdida na história da arquitetura,
que a renúncia completa (da carta de
restauro), a qual privaria as nossas cida-
des dos seus aspectos característicos nos
mais significativos monumentos.”55
Em 1964, reconsagram-se os prin-
cípios do Restauro Científico, duran-
te o Congresso realizado na cidadede Veneza, quando o pensamento de
Boito-Giovannoni são revistos e
ampliados. A partir desses conceitos
teoricamente reelaborados por Cesa-
re Brandi, foi redigida a Carta Italia-
na de Restauro de 1972.
Brandi, conceitua a restauração de
bens culturais como “o momento meto-
dológico do reconhecimento da obra de
arte, na sua consistência física e na sua
dupla polaridade, estética e histórica, ten-
do-se em vista a sua transmissão para o
futuro”. O segundo princípio de
Brandi é que “o restauro deve mirar o
restabelecimento da unidade potencial da
obra de arte, quanto seja possível, sem
cometer um falso artístico ou um falso
histórico, e sem cancelar os traços da pas-
sagem da obra de arte no tempo”.56
A partir dos anos oitenta, inicia-se
um intenso debate na Itália objeti-
vando a reformulação dos preceitos
normatizados na Carta de Veneza
de 1964 e na Carta Italiana de Res-
tauro de 1972.
A ampliação do conceito de bem
cultural nos últimos anos em con-
traposição aos mesmos princípios
de intervenção formulados no início
deste século, demonstrava um equí-
voco de origem na formulação das
Cartas.
Internacionalmente contesta-se
hoje, o conceito tradicional de
“autenticidade”, a partir do qual foi
construída a teoria do restauro con-
servativo. Paolo Marconi, adianta
que o termo “falso histórico é impreg-
nado de moralismo de sacristia”57 , cita
como exemplo de autenticidade as
reconstruções dos monumentos
japoneses, e a reconstrução no século
XVII da fachada gótica construída por
Configuração do projeto de restauração da Fortaleza VHM
Planta do Quartel IPHAN
gia quanto a necessidade de se
normatizar as operações de res-
tauro em um código de procedi-
mentos. Annoni defendia a tese de
que a circustância ditaria o crité-
rio, “il caso per caso”. Grassi, afir-
ma que esta postura de Annoni,
nasce a partir de um bom senso
formulado na prática das obras de
restauro, sendo “hoje particular-
mente atual”.54
A destruição provocada pelos
bombadeiros na segunda guerra, de
inúmeros centros históricos e edifí-
cios monumentais europeus, levou
ao questionamento dos conceitos do
“Restauro Científico”, que exigiam
uma postura de quase neutralidade
do arquiteto em relação ao monu-
mento. O momento dramático recla-
mava dos arquitetos, uma postura
ativa frente à destruição generaliza-
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
175
ArquiteturA MilitAr
174
A mudança da técnica construtiva mostra a posição do antigo prolongo do telhado
O conceito de restauro fixado em
Veneza em 1964, ao abolir o libera-
lismo do pós-guerra, valorizou a
importância absoluta do passado,
assegurando-lhe o direito exclusivo
de transmissão para o futuro. O
processo histórico de transforma-
ção deveria ser interrompido, de
modo a alijar a época presente do
direito de permanência. O espaço
da intervenção contemporânea
deveria ser sempre “fora” do espa-
ço histórico, afinal o tempo atual
seria privado de autenticidade –
“um falso histórico”.
Da Convenção do “Consiglio
Nazionale delle Ricerche”, em
Roma (1986), nascia a “Carta 1987
da Conservação e do Restauro de
objetos de arte e de cultura”59, cuja
alteração principal das Cartas ante-
riores, fundamenta-se na separação
metodológica e conceitual do res-
tauro das obras de arquitetura, dos
demais objetos de arte e cultura. O
coordenador dos trabalhos de reda-
ção dessa nova Carta60, Arq. Paolo
Marconi , sintetiza este documento
apropriando-se de uma frase do
Arq. Roberto Gambetti: “far rientrare
l'architettura nella sua storia”.
O projeto final de restauração da
Fortaleza da Barra Grande, tem
como compromisso, reintroduzir o
monumento à vida cotidiana da Bai-
xada Santista, devolvendo à vida
um espaço agonizante. Reincorpo-
rar sua arquitetura no processo his-
tórico interrompido, através de uma
proposta projetual contemporânea,
implica necessariamente em buscar
o respeito mútuo entre a nova arqui-
tetura e a estrutura antiga.
A “restauração prismática” ou
recomposição volumétrica do Casa
do Comandante, vislumbrada pelo
Evidência da posição do antigo telhado
Carlo Fontana no Pallazo Pubblico
di Siena, responsável pelo milagre
estético da Piazza del Campo.
A generalização das posturas do
restauro, independentemente das
diferenças dos objetos tratados, é
considerado impraticável. A impos-
sibilidade de se restaurar a cidade
histórica, a paisagem, o edifício, com
idêntico critério de intervenção da
pintura, escultura, objetos históri-
cos, obriga a uma ampla revisão nos
critérios de Brandi, já contestado no
passado por Roberto Pane. Busca-se
uma nova conciliação entre o libera-
lismo arquitetônico do “Restauro
Crítico” e o pensamento conservati-
vo do “Restauro Científico”.
A arquitetura (das cidades, dos
edifícios, das paisagens transforma-
das), denominada “monuments
vivents”, possue intrinsecamente o
caráter da mutabilidade, que consti-
tui o fator primordial de sua perma-
nência através dos tempos. Ao con-
trário das obras de pintura ou escul-
tura, está exposta aos cataclismos,
aos desgastes do uso, ao tráfego, às
intempéries, às variações climáticas,
etc. Constitui-se no espaço privile-
giado onde a sociedade se transfor-
ma, e sua sobrevivência depende da
sua capacidade de adaptar-se às
novas exigências sociais. Camilo
Boito, ao reconhecer os valores de
permanência das estratigrafias
sobrepostas nos monumentos arqui-
tetônicos, indiretamente reconhecia
o seu caráter de mutabilidade.
A exigência do respeito absoluto
às marcas do passado, tanto na
arquitetura como nas demais artes
segundo o pensamento de Brandi,
permite que “uma cidade se reduza à
cenografia” arqueológica, mero obje-
to de fruição visual.58
As FortiFicAções dA entrAdA do cAnAl dA BArrA GrAnde
177
ArquiteturA MilitAr
176
Notas
1 Lemos, Carlos A. Cerqueira – “O Brasil”, in “História das Fortificações Portuguesas no
Mundo” org. por Rafael Moreira, Lisboa, Publicaçõs Alfa S.A., 1989, p. 235.
2 Varnhagen, Francisco Adolfo (Visconde de Porto Seguro). “História Geral do Brasil” – Tomo
Primeiro (Notas de Rodolfo Garcia). 4ª ed. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1948, notas v, p. 446.
3 Varnhagen, Francisco Adolfo (Visconde de Porto Seguro). Op. cit., p. 447.
4 “Atas da Câmara da Cidade de São Paulo: 1562-1592” – Vol. i Século xvi. Divisão do Arquivo
Histórico, Prefeitura do Município de São Paulo, pp. 217/218.
5 Varnhagen, Francisco Adolfo (Visconde de Porto Seguro). Op. cit. Notas vii, p. 447.
6 (Idem, ibidem, notas vi, p. 447).
7 Sarmiento Gamboa, Pedro in “sumaria relación, in coleccion de Documentos inéditos del Archivo de
Indias”, 5. 338 – Apud: Varnhagen, Francisco Adolfo, op.cit., p. 440.
8 Moreira, Rafael. “A Arquitetura Militar”, in “Arte em Portugal”, Lisboa, Publicações Alfa.
9 Cardim, Fernão. “Tratados da Terra e Gente do Brasil”. 2ª ed. S. Paulo, Cia. Editora Nacional,
1939, p. 315.
10 Katinsky, Júlio Roberto. Op. cit., p. 87.
11 Saia, Luís. “Morada Paulista”. Editora Perspectiva S.A. 2ª ed. São Paulo, 1978, p. 32.
12 Lemos, Carlos A. Cerqueira. “Casa Paulista”. S. Paulo, Edusp – Editora da Universidade de
S. Paulo, 1999, pp. 66-68.
13 Mendonça de Oliveira, Mario: “Robert Smith e a Engenharia Militar Brasileira” in “Robert
Smith: A Investigação na História da Arte”; Coord. Manuel da Costa Cabral e Jorge Rodrigues,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, sd., p. 256.
14 Fernandes da Silva, Fernanda. “Fortificações Brasileiras. Máquinas de Guerra e de
Memória”. Tese de Doutorado, São Paulo, fflch-usp, 1991, p. 228.
15 Katinsky, Júlio Roberto. Op. cit., pp. 79/80.
16 Doc. Arquivo Histórico Ultramarino – do catálogo do IV Colóquio Internacional de Estudos
Luso-Brasileiros – cópia arq. iphan/sp.
17 Mendonça de Oliveira, Mario: “Robert Smith e a Engenharia Militar Brasileira” in “Robert
Smith: A Investigação na História da Arte”. Coord.: Manuel da Costa Cabral e Jorge Rodrigues,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, sd., p. 274 (nota 80) : "A prova da suanacionalidade pode ser
encontrada em: Chaby, Claudio. Synopse dos decretos remetidos ao extinto Conselho de Guerra. Lisboa:
Imprensa Nacional, 1872 (Maço 64) – Decreto de 23 de Janeiro de 1705, sobre oficiais ingleses indicados
para Portugal e também: Madureira dos Santos, Cel H, M. Decretos do extinto Conselho de Guerra. Lisboa:
Imprensa Nacional 1976 – Decreto de 4 de Novembro de 1720 (maço 79) sobre licença de Massé ir a
Inglaterra sua pátria."
18 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo” – vol. xlix. Arquivo
do Estado de S. Paulo, pp. 165/166.
19 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo” – vol. l . Arquivo do
Estado de S. Paulo, pp. 13/14.
20 Carta régia de 30/10/1733 ao Conde de Sarzedas – cópia arquivo iphan.
21 Lemos, Carlos A. Cerqueira. “O Brasil” in “História das Fortificações Portuguesas no
Mundo” org. por Rafael Moreira, Lisboa, Publicaçõs Alfa S.A., 1989, pp. 237 e 252.
22 Provisão real de 15/02/1736. “Cartas Régias, provisões, alvarás e avisos (1662-1821)” –
Cópia arquivo IPHAN.
23 Provisão real de 27/09/1738 ao Gov. da Cap. de S. Paulo, dando conta do relatório de maio
de 1738, do brigadeiro Silva Paes – cópia Arquivo iphan-sp.
24 Carta de D. Luiz Antônio de Souza de 02/01/1767 – cópia arquivo iphan-sp.
25 Lemos, Carlos A. Cerqueira in “Alvenaria Burguesa” – Ed. Nobel – São Paulo – 1985 – p. 44.
Os remanescentes desta caieira de Cubatão encontram-se hoje preservados dentro da área da
Cosipa no local denominado Casqueirinho.
26 Ofício de D. Luiz Antônio de S. B. Mourão, de 04/12/1767, ao Tenente Antonio Joze de
Carvalho, administrador das Fazendas do P.P. Jesuítas de Santos. Doc. Interessantes para a Hist. e
Costumes de S. Paulo Vol. lxviii – Arquivo do Estado de São Paulo, p. 37.
27 Ofício de D. Luiz Antônio S. B. Mourão, de 17/10/1768, ao Capitão Fernando Leite
Guimarães, Comandante da F. da Barra Grande de Santos: Doc. Interessantes para a Hist. e
Costumes de S. Paulo – vol. lxviii – Arquivo do Estado de S. Paulo, p. 105. Essa argamassa imper-
meável era o “tittin”, composto de pó de tijolo, cal e azeite de baleia “curtidas por muitos dias”,
recomendado para o assentamento das pedras das cortinas das fortalezas voltadas para o mar até
uma altura de “15 palmos”, conforme ensinava o Engenheiro Frias de Mesquita em 1619, nos
apontamentos sobre a Fortaleza do Rio Grande. Silva-Nigra, D. Clemente Maria da – “Francisco
Frias de Mesquita, engenheiro-mór do Brasil” in Revista do sphan, V. 9, 1945.
28 Manuscrito sem data ou assinatura encontrado entre os papéis do marechal Arouche sobre
as fortificações de Santos, provavelmente dos anos entre 1797 e 1815. Cópia arquivo iphan-sp.
29 Circular aos comandantes das villas da marinha, de 07/06/1810, mandando submeter a
mestre Lúcio Costa há quase cin-
quenta anos – centro focal do con-
junto, e hierarquicamente destacada
na organização do espaço militar –
foi possível com a execução de uma
delicada estrutura metálica, moder-
na e discreta, que parece quase tocar
nas superfícies antigas, porém afas-
ta-se respeitosamente, até cobrir um
vão protegido de quase 40 metros.
A contemporaneidade do desenho
espacial concebido em aço corten,
revela a obediência aos termos da
Carta de Veneza, quando prescreve:
“todo trabalho complementar reconheci-
do como indispensável por razões estéti-
cas ou técnicas, destacar-se-á da compo-
sição arquitetônica e deverá ostentar a
marca do nosso tempo”.
Não se buscou assim, a imitação
do passado recente ou remoto,
optou-se em assumir a arquitetura
contemporânea, como uma verdade
de nosso tempo, reversível tecnica-
mente mas com direito à permanên-
cia se o futuro assim determinar.
Todas as marcas do passado foram
mantidas conforme recomendava
Brandi, e a unidade potencial da
obra se assegurará através da pre-
sença da arquitetura de hoje, elo
necessário para transmitir o monu-
mento para o futuro, como assegura
a Carta de 1986. O mural de Manabu
Mabe, na Casa de Pólvora converti-
da em Capela, simboliza o direito da
arte de hoje de se integrar com aque-
las produzidas no passado. A conti-
nuidade entre passado, presente e
futuro não será interrompida.
O debate sobre esse projeto foi
um espelho da história da restaura-
ção, o que nos leva a creditar a
todos os que direta ou indiretamen-
te, participaram da luta pela preser-
vação da Fortaleza61, a co-autoria
das obras que ainda prosseguem.
Foi um projeto amadurecido por
quase cinqüenta anos, do mestre
Lúcio Costa à participação de todos.
Fortaleza da Barra Grande:
desenho impresso na
Alemanha por volta de 1900
“Lembrança de Santos”
ArquiteturA MilitAr
178
sisteMA de proteção
dA vilA de sAntos
Forte de MonserrAte,
Forte de itApeMA,
cAsA do treM Bélico
e o plAno de deFesA
de João MAssé
Victor Hugo Mori
quarentena os navios americanos e tomar providências a fim de evitar a propaganda da revolução
francesa. “Documentos Interessantes para a Hist. e Cost. de S. Paulo”, vol. lix. Arquivo do Estado
de S. Paulo, pp. 20-21.
30 Correspondência oficial do capitão general Antônio José da Franca e Horta ao cel. engen-
heiro João da Costa Ferreira em 17/04/1809. “Doc. Interessantes para a História e Costumes de
São Paulo”. Arquivo do Estado de S. Paulo, Vol. lviii, pp.129-130.
31 Sodré, Nélson Werneck. Op. cit., p. 58.
32 Arquivo Histórico do Exército, Rio de Janeiro. (Cópia iphan-sp)
33 Relatório a lápis assinado pelo gal. come. mar. José Olinto de Carvalho e Silva de
01/01/1861 – Arquivo Histórico do Exército – RJ (Cópia iphan-sp).
34 Relatório do ano de 1898 da Fortaleza da Barra de Santos, manuscrito de 02/04/1899 assina-
do pelo 1º tenente Comandante Francisco Alvaro de Souza – Arquivo Histórico do Exército (RJ) –
Cópia iphan-sp.
35 O arquiteto e urbanista Lúcio Costa era nesta ocasião Diretor de Estudos de Tombamento do iphan.
36 G. B. Antonelli, responsável pela primeira edificação de um ponto fortificado na Barra
Grande em 1583, ocasião em que acompanhava a esquadra de Flores de Valdez, era segundo
Rafael Moreira, em seu texto “A arquitetura militar”, in “Arte em Portugal” – Editora Alfa, engen-
heiro militar italiano que chegou a Portugal acompanhando o duque de Alba, e foi autor de “inter-
ressantes estudos para ligar Abrantes ao Escorial e Madri por via fluvial{, juntamente com o “seu auxiliar
o jesuíta Gaspar Sampere”, empreenderam inúmeras obras “no Rio de Janeiro e Santos (1582-1584) e no
Nordeste (1597)”.
37 O engenheiro militar brigadeiro João Massé é autor da reestruturação da Fortaleza da Barra
Grande em 1714, e também de interessante projeto de defesa para a Vila de Santos.
38 Ruskin, John. “Le sette Lampade dell' Architettura”, apresentação de Roberto Di Stefano,
Editorial Jaca Book, Milão, p. 227.
39 Idem. Ibidem, p. 228.
40 La Regina, Francesco. “William Morris e l'Anti Restoration Movement”, Revista Restauro,
n° 13/14, 1974, p. 130.
41 Idem. Ibidem, p. 135.
42 Pereira, Gustavo. “A questão da preservação segundo John Ruskin e William Morris e a
criação do anti-restoration movement em 1877”, trabalho para a disciplina Restauro i – fau-usp/
fupam.
43 Gallego Fernandez, Pedro Luis. “Viollet Le Duc: la restauracion arquitectonica y el racional-
ismo arqueologico fin de siglo”, in “Restauración Arquitectónica{, Universidad de Valladolid,
1992, p. 29.
44 Arrechea Miguel, Julio Ignacio. “De la Composicion a la arqueologia”, in “Restaración
Arquitectónica”, Universidade de Valladollid, 1992, p. 12.
45 Arreche Miguel, Julio Ignacio. Op. cit., p. 12.
46 Gallego Fernandez, Pedro Luis. Op. cit., p. 38.
47 Dias de Andrade, Antonio Luiz. “O Paradigma de Atibaia”, Trabalho programado para Tese
de Doutoramento – fau-usp.
48 Gallego Fernandez, Pedro Luis. Op. cit., p. 31.
49 Grassi, Liliana. “Storia e Cultura dei Monumenti”, Società Editrice Libraria, Milão, 1960, p. 434.
50 Boito, Camilo. “Questione Pratiche di Belle Arti”, capítolo “Restaurare o conservare{, Milão,
1893. Apud. Grassi, Liliana. Op. cit.,p. 434.
51 Boito distingue a arte do restauro em três partes: Restauro arqueológico (Antiguidade);
Restauro pictórico (Medieval) e Restauro arquitetônico (Renascimento).
52 Grassi, Liliana. Op. cit., p. 446.
53 Sobre a “inovação”, a autora Liliana Grassi acrescenta que Giovannoni não acreditava nesta
operação de restauro, pela impossibilidade de coexistência entre a arquitetura moderna e a antiga.
54 Grassi, Liliana. Op. cit. p. 448. Annoni é autor de inúmeras obras de restauro, com vasta
experiência no canteiro. Nessas obras nota-se “a aceitação dos princípios boitianos”.
55 Idem. Ibidem, p. 451.
56 Brandi, Cesare. "Teoria del Restauro", Piccola Biblioteca Einaudi, G. Einaudi Editore, Torino,
1977, pp. 6-8.
57 Marconi, Paolo. “Il restauro e l'architetto – teoria e pretica in due secoli di debattito”,
Marsilio Editore, Veneza, 1995, p. 10.
58 Idem. Ibidem, p. 5.
59 Reproduzida na obra de Marconi, Paolo, op. Cit, anexos A e B, pp. 207-228.
60 Participaram além de Marconi na redação final desta Carta, Umberto Baldini e Paolo Mora
(Instituto Centrale per il Restauro), Franca Manganelli (ICPL), Giovanni Di Geso (Ufficio
Centrale), Giorgio Tempesti (Accademia di Belle Arti), etc.
61 Vale ressaltar em especial o empenho de dois militares da reserva, o cel. Reginaldo Moreira de
Miranda e o prof. Élcio Rogério Secomandi, ambos profundos estudiosos da história militar no Brasil.
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
181
T anto a paliçada edificada por Martim Afonso em 1532, possivelmente na área onde
hoje se encontram as ruínas da
Armação de Baleias, como os Fortes
de São Tiago e São Felipe de mea-
dos do século XVI, todos se concen-
traram nesse mesmo local.
Com o desenvolvimento da Vila
de Santos em função de possuir o
melhor porto da Capitania, em
detrimento à decadência da Vila de
São Vicente, a defesa da Barra Gran-
de de Santos ganhou prioridade. No
último quartel do século XVI foram
construídos na entrada do Canal de
Santos, pelo lado da Ilha de Santo
Amaro (Guarujá), a Fortaleza da
Barra Grande e provavelmente tam-
bém a pequena bateria de Vera Cruz
de Itapema defronte ao Porto de
Santos. O já citado apontamento do
Padre José de Anchieta de 1584
denominado “Informação do Brasil
e de suas Capitanias” relata em
parte esse momento pioneiro: “Na
Capitania de S. Vicente dentro da ilha
que é a que primeiro se povoou há duas
vilas de portugueses, duas léguas uma
da outra, por terra, e há três ou quatro
engenhos de açúcar e muitas fazendas
pelo recôncavo daquela baía e três ou
quatro léguas por mar. Em frente tem a
ilha de Guaíbe, no cabo da qual, para o
norte, tem uma barra com as fortalezas
da Bertioga quatro e seis léguas das
SÉCULOS XVI E XVII
As primeiras fortificações da Capitania de São Vicente foram
construídas na entrada do Canal da Bertioga (Barra Pequena), ponto
de conflito entre os indígenas aliados dos portugueses e os tamoios
do litoral norte.
Forte de Itapema fotografado por Marques Pereira no início do século XX.
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
183
ArquiteturA MilitAr
182
No século XVII, como vimos em
capítulo anterior, quase todo os
recursos militares da coroa foram
canalizados para a defesa da costa
nordestina. A proteção direta da
Vila de Santos deveria contar ape-
nas com uma bateria rudimentar
junto ao Porto, que já estava arrui-
nada na metade do século. Nenhu-
ma grande “obra real” foi executada
na esquecida Capitania de São
Vicente. Apenas esse pequeno Forte
“Planta da Barra da Villa de S.tos“ (1765- 1775) BN
Bateria de Vera Cruz de Itapema no século xvi VHM
vilas, e da parte do sul, que é a outra
barra, tem o forte que agora se fêz por
Diogo Florez, general, com gente de
guarnição, e dentro da mesma ilha estão
moradores com igreja de S. Amaro”.
Sobre a pequena bateria de Itape-
ma quase nenhum registro docu-
mental existe desse primeiro sécu-
lo, a não ser algumas referências de
mapas imprecisos como o do Frei
João José de Santa Tereza e o Códi-
ce Quinhentista da Biblioteca da
Ajuda. Como o desaparecido Forte
de São Felipe, essa bateria deveria
ser apenas uma “casa forte” ou
reduto, armado com primitivas
bocas de fogo constituídas de bom-
bardas, falcões e falconetes.
A invasão de Cavendish em 1591,
que entrou pela Barra Grande de
Santos, mostrou a ineficiência des-
tes dois pontos fortificados isolados
na Ilha de Santo Amaro, sem as
necessárias contra-baterias para o
cruzamento de fogos pelo lado de
Santos. O saque à vila portuária e o
incêndio do núcleo de São Vicente,
devem ter mobilizado a população
santista no sentido de se reforçar a
defesa da cidade e do porto.
Planta do Forte
de Itapema no
séc XIX AHE
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
185
ArquiteturA MilitAr
184
que ora se faz”1. No ano seguinte o
representante do rei alertava ao
Capitão-mor de São Vicente: “diziam
algumas pessoas que o conserto que
agora se pretende fazer na fortaleza da
Vila será como alguns que se tem feito,
enquanto se dispendeu a Fazenda e ela
ficou com as mesmas ruínas. Vm. obre
de maneira que se não experimente o
mesmo”2.
O navegador holandês Joris van
Spilbergen em sua viagem de cir-
cunavegação através do Estreito de
Magalhães, passou em 1615 por
São Vicente quando ocorreram
conflitos com os moradores locais.
Segundo Nestor Goulart Reis, o
mapa esquemático “St. Vicent” que
ilustra o livro dessa viagem, serviu
de base para a execução do mapa
Mapa de São Vicente de “Reys-boeck van het rijcke Brasilien” (1624).
da Vila ou de Monserrate foi recons-
truído junto ao Porto, nos fundos do
Colégio Jesuítico. Foi o primeiro
ponto fortificado na Ilha de São
Vicente, onde se situavam a duas
principais cidades da Capitania do
primeiro século.
O Conde de Atouguia em Carta
de 05/10/1654 endereçada ao Pro-
vedor da Fazenda da Capitania,
destinava “trezentos cruzados na ree-
dificação do Forte de Monserrate e cem
mil réis do depósito de donativos para as
obras da Misericórdia com o hospital
Forte Monserrate: detalhe do mapa do século XVIII: “Praça de Santos”. BN
C - Edifício dos quartéis, D - Forte de Monserrate,
E - Igreja Matriz e F - Colégio dos Jesuítas.
Planta do Forte de Monserrate ou da Vila em 1808 AHE
(copiado pelo Cel. Reginaldo Moreira de Miranda)
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
187
ArquiteturA MilitAr
186
SÉCULO XVIII
Chegaram quase arruinadas até o início do século XVIII as seguintes
fortificações: a de São Tiago da Bertioga, a de Santo Amaro da Barra
Grande, o reduto de Itapema e a bateria da Vila ou de Monserrate. A
transformação dessas baterias isoladas em um complexo Sistema de
Defesa Militar do porto de Santos foi proposto em 1714 pelo
Brigadeiro João Massé. Por determinação do rei D. João, o
Governador da Capitania do Rio de Janeiro foi à Santos
acompanhado do Brigadeiro para “desenhar nela aquelas
fortificações que forem necessárias para a sua conservação”5.
Projeto do Brigadeiro João Massé (1714): “Planta da Vila de Santos e de seu Porto, com
suas Fortificações desenhadas de novo” AHU
C omo vimos anteriormente, Massé determinou a moder-nização da Fortaleza da
Barra Grande e projetou a sua con-
tra-bateria, o Forte do Crasto do
lado de Santos, do tipo abaluartada.
As profundas alterações na
arquitetura militar que ocorreram
no século XVII eram desconhecidas
nestas paragens. O sistema bastio-
nado utilizado pelos holandeses no
nordeste, era fruto das inovações
que ocorriam nas guerras euro-
péias. A sistematização dessas ino-
vações deve muito ao Marechal de
Luís XIV – Sébastien le Prestre de
do livro holandês Reys-boeck
(Livro de viagem ao reino Brasilei-
ro, Rio da Prata e Estreito de Maga-
lhães... ) publicado em 1624.
Desconsiderando-se alguns equí-
vocos geográficos e a representação
figurativa de caráter meramente
esquemática sem qualquer preocu-
pação com a escala real, os dese-
nhos mostram as vilas de Santos e
São Vicente protegidas por paliça-
das ou muros com o incipientesis-
tema de defesa dessa costa.
O mapa Reys-boeck4 (página ante-
rior) mostra no primeiro plano, a
baía de Santos com o forte de Santo
Amaro (letra H) na entrada do canal
da Barra disparando sua artilharia.
Ao fundo do Canal da Barra Gran-
de aparece o forte da Bertioga (letra
G) na junção desse canal com um
outro mais estreito que parece ser o
Canal da Barra Pequena ou da Ber-
tioga. A representação de uma bate-
ria em disparo (letra C), do lado
esquerdo da baía na parte continen-
tal, que parece nunca ter existido,
levou inúmeros autores a imaginar
a existência desse reduto de prote-
ção à vila de São Vicente, que desig-
naram de “fortalezinha”. Porém, a
povoação com sua igreja (letra B) ao
lado dessa bateria poderia ser a
representação da pequena vila de
Itanhaém. O outeiro representado
pela letra E, pode ser aquele que se
denominava Morro do Boturuá que
separava a vila de S. Vicente das
praias de Santos, com o córrego que
o margeava, cuja representação
exagerada parece definir um canal
dividindo a ilha em duas. O mapa
referência de Spilbergen mostra
apenas o Rio São Jorge dos Eras-
mos, sem dividir a ilha em duas
porções. As duas vilas estão separa-
das por um denso canavial que
representa a fazenda do Engenho
dos Erasmos, cuja sede parece ser o
edifício de maior destaque do mapa
(letra D) por motivos óbvios.
Assim, as fortificações existentes
até o fim do século XVII, foram sendo
construídas ao sabor das conveniên-
cias de cada época. Primeiro devido
aos ataques dos tamoios aliado dos
franceses na Bertioga, depois, em
função do incidente entre ingleses,
vicentinos e a Armada de Valdez na
Barra Grande.
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
189
ArquiteturA MilitAr
188
Crasto de Oliveira em troca de mer-
cês6. Ficariam fora do recinto amura-
lhado da vila os conventos dos fran-
ciscanos e dos beneditinos. Muito
pouco das obras projetadas pelo
Brigadeiro Massé em Santos foram
executadas nessa época. A reformu-
lação projetadas para a Fortaleza de
“Fortaleza de Itapema no rio defronte à Vila de Santos”, projeto de autoria do Brigadeiro
Silva Paes (1738) . AHU
Vauban. A proteção de um sítio
deveria ser projetada através de
um sistema estratégico de defesa
territorial.
O Brigadeiro Massé chegou a
projetar um complexo sistema de
defesa para o Porto de Santos.
Além das fortificações que protege-
riam a entrada da Barra Grande,
Massé pretendia transformar a Vila
de Santos em uma “praça-forte
vaubaniana”. Para o lado do porto
(norte), desenhou um cais retilíneo,
e à oeste e ao sul fechando o núcleo
da vila, uma muralha com ângulos
salientes e baluarte circular. Na
extremidade leste da vila, aprovei-
tando-se da elevação do Outeiro de
Santa Catarina, foi projetado a for-
taleza principal bastionada de pro-
teção à cidade, provida de dois
baluartes angulares pentagonais,
fosso, revelim ou meia-lua, baterias
reentrantes, etc. No projeto da for-
taleza principal a velha igreja de
Santa Catarina seria mantida,
sendo o outeiro incorporado ao
corpo da fortificação, de modo a
eliminar o padrasto que esse cons-
tituía. Nas duas grandes elevações
que limitam a cidade ao sul, o
morro de São Bento e o morro de
Nossa Sra. de Montserrate, foram
previstos dois “redutos em forma de
atalaia”. O antigo Forte da Vila tam-
bém seria mantido conjugado ao
edifício dos quartéis, que seria
construído com recursos de João de
Projeto da Fortaleza para a Vila de Santos
de João Massé AHU
Projeto de Massé para a
fortaleza que
protegeria a Vila de
Santos. Trata-se de um
dos mais interessantes
estudos de fortificações
do século XVIII, pois o
projeto eliminaria o
“padrasto” constituído
pelo Outeiro de Santa
Catarina, incorporando
a elevação rochosa
como um “cavaleiro”
dentro do sistema
bastionado proposto.
VHM
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
191
ArquiteturA MilitAr
190
dita vila de Santos, e nela deixe dispos-
to. e delineado tudo o que entender mais
conveniente para a defesa e segurança
daquela Praça”.8
O Governador José Rodrigues de
Oliveira em 1738 relatava ao rei que
o Brigadeiro Silva Paes reconheceu
“ser de muita utilidade uma casa de
pólvora nesta vila, e outra na fortaleza
de Santo Amaro para dividir as muni-
ções de um acidente”, e por isso tinha
“delineado duas destas casas”.9
O Alvará régio de 27/09/1738,
acatou a petição de Trocatto ou Tor-
quato Teixeira de Carvalho para
"reedificar e fazer de novo as obras que
são precisas na fortaleza de Itapema que
fica defronte da Vila de Santos, dando
lhe eu o Governo da dita fortaleza de
Itapema para um filho que tem capas
com o Posto e soldo de Capitão de Infan-
taria, e o hábito de Cristo (...) com
declaração que não teria efeito as mercês
que pedia sem que a dita Fortaleza esti-
vesse acabada da mesma forma do dese-
nho que a esta obra assistiria um dos
Engenheiros dessa Praça do Rio de
Janeiro que vós elegereis para ela (...)."10
O Brigadeiro Silva Paes foi incum-
bido de projetar essa nova fortifica-
ção no lugar do antigo reduto de
Itapema. Graças ao seu projeto para
o Forte de Itapema podemos verifi-
car pela legenda do desenho, o pri-
mitivo traçado do fortim quinhen-
tista com sua bateria semicircular
fechada por uma pequena constru-
ção, de idêntica tipologia ao Forte
da Vila ou da Praça. A planta semi-
circular primitiva, definida pela
“rocha arrendondada” natural que
servia de embasamento (itapema),
foi incorporada ao novo projeto de
Silva Paes, que procurou transfor-
mar o antigo reduto em um baluarte
circular único.
A proposta de Silva Paes para Ita-
pema, foi transcrita na Provisão real,
Representação da Casa do Trem Bélico (armazém de pólvora) no século XVIII. Detalhe da
planta “Villa e Praça de Stos.” BN
Santo Amaro somente foi concluída
na segunda metade do século XVIII.
Do interessante projeto da Fortaleza
abaluartada do Crasto, foi concluí-
do apenas a tenalha voltada para o
Canal da Barra Grande, sendo o res-
tante completado com outro dese-
nho por estacadas de madeira.
Em 1733 o Governador Luís Anto-
nio de Távora, o Conde de Sarzedas,
relatava ao rei sobre o Forte de Ita-
pema, localizado "em admirável sítio
para a defesa da barra, mas que este,
além de pequeno estava demolido, e
incapaz de poder servir sem um grande
reparo". Estava projetado o "Arma-
zém de pólvora e armas" e junto a essa
"se fabricar uma casa na qual se possa
recolher o Trem, e o que lhe pertencer, e
no sobrado de cima, se recolherão as
armas sendo as paredes forradas de
tabuões fortes advertindo-vos que a
extensão dessa casa chegue a cobrir o
armazém de pólvora no qual não se há
de por pregos de ferro, mas tornos de
pau (...)".7
No ano de 1736 o rei determinou
a suspensão das obras e fortifica-
ções da praça de Santos, ordenando
“ao Brigadeiro José da Silva Paes a cujo
cargo está o governo de Rio de Janeiro
que com a brevidade possível passe a
Perspectiva do projeto de Silva Paes para o Forte de Itapema em 1738. O formato de um
baluarte único com o encontro das faces em semicírculo, derivou do reaproveitamento da
bateria quinhentista. Na segunda metade do século, o edifício do quartel já aparece no
centro do terrapleno com duas guaritas nos encontros das faces com os flancos. VHM
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
193
ArquiteturA MilitAr
192
melhor perfeição e ainda para se fazer as
alpendradas do Trem místico do mesmo
Armazém e que também estava determi-
nado fazer-se um Armazém para a pol-
vora; porém o sítio que estava elegido e a
forma não era ao que deveria ser; assim
deixara o risco, e advertido o lugar, em
que devia executar esta obra.”11
O relatório deixa claro que o Bri-
gadeiro Silva Paes, foi o principal
responsável pela conclusão e acaba-
mento do edifício do Armazém do
Trem Bélico, cujas obras estavam
suspensas desde o ano de 1736. O
elegante alpendre que arremata a
escadaria externa de pedra lavrada
e o portal de cantaria com desenho
“tardo-maneirista”, parecemrefletir
o estilo conciso e conservador des-
ses engenheiros militares, dentre os
quais o Brigadeiro Silva Paes foi um
dos expoentes. A data marcada na
verga (1734) refere-se ao começo
das obras, que só foram concluídas
depois de 1738.
Não sabemos se o projeto do Bri-
gadeiro para o Forte de Itapema foi
integralmente obedecido por Tor-
quato Teixeira de Carvalho, mas
certamente seu “acabamento” foi
aprovado pelo Governo, pois as
mercês solicitadas foram atendi-
das. Nas plantas e iconografias
posteriores já aparecem as duas
guaritas angulares e o edifício do
quartel com a planta em forma de
“T” no centro do terrapleno. Os 2
alpendres laterais para abrigo da
A “Planta do Forte da
Itapema” de 1871,
conserva a forma do
terrapleno definida
pelo Brigadeiro Silva
Paes, mas com o
quartel em forma de
“T” no centro do
terrapleno e as
guaritas angulares AHE
de 27/09/1738 encaminhada ao
Governador José Rodrigues de Oli-
veira: “a Fortaleza de Itapema defronte
da Vila de Santos, e em paragem, que
enfia o canal por onde devem subir as
embarcações a qual se acha arruinada, e
sem artilharia sendo este sitio mais
importante, pois escapando os navios
que entrarem da barra, não temos no
porto outra defesa mais que esta fortaleza
e lhe parecia se devia reedificar, e fazer-se
a obra, de que mandou o desenho, o qual
com esta se vos envia, vendo-se nela o
que é de aguada de carmim, o que se
achava feito, e arruinado, e o da aguada
de cima, o que lhe parecia se devia fazer,
principalmente oferecendo-se a fazer
toda esta obra um Torquatro Teixeira
morador daquele sitio, dando lhe eu o
governo dela para um filho seu (...)”. Os
dois desenhos denominados “Planta
da Fortaleza de Itapema”, quase
idênticos, existentes no Arquivo His-
tórico Ultramarino referem-se a esse
projeto de Silva Paes, inclusive a ver-
são que alguns atribuem o ano de
1714 (época de Massé), é na verdade,
cópia dessa descrita pelo documen-
to, com “aguada em carmim, o que se
acha feito”. Silva Paes mandou tam-
bém reparar a “bateria antiga com oito
peças de artilharia junto ao Colégio da
Companhia” (Forte de Monserrate ou
da Vila). Sobre o “armazém para reco-
lher os armamentos da Praça”, que se
tinha “principiado fazer”, e “que está
quase acabado”, determinou ao Gover-
nador “o que lhe parecera para a sua
Portal tardo-
maneirista da Casa
do Trem.
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
195
ArquiteturA MilitAr
194
três distintos portos, que distam 7
léguas entre si, e são a Bertioga, a Barra
Grande e a Barra de S. Vicente, as quais
todas dão entrada para a Vila de Santos
que fica terra adentro. As fortificações
que há nestas partes nem são as neces-
sárias, nem tem a devida formalidade. A
melhor, que é a da Barra Grande chama-
da de Santo amaro, não tem mais do que
um baluarte e um cavaleiro, de que
nasce uma cortina que podem admitir
cem, ou cinquenta arcabuzeiros, e nada
mais; é comandada de um alto ao qual
se pode comodamente subir desembar-
cando por detrás do monte em uma
praia chamada do Góes, que não tem
defesa nenhuma. Defronte desta fortale-
za e da outra parte do estreito deram
princípio a um forte que está principia-
do de estacada; (...) No Porto da Bertio-
ga, que dista desta Vila 5 léguas, não há
mais do que uma bateria com 4 peças,
sem baluartes nem defesas; e também
mal situada, porque segundo entendo,
deveria estar da parte oposta, a não
haver duas, porque daquela banda
fariam os seus tiros muito melhor efeito
por passarem os navios muito mais
perto, como também teria a dita Praça
melhor defesa. Navegando pelo rio
acima para a Vila de Santos (...), há
outro pequeno forte chamado Itapema, e
na Vila outro junto ao Colégio, ambos
os quais são obras muito limitadas. Em
S. Vicente não há nada. Para isto se
reduzir à defesa necessária, seria preciso
fazer grandes gastos, e consumir muito
tempo (...) nestes termos eu me resolvo
somente a fazer um pequeno reduto com
uma estacada na Praia do Góes, para
segurar e defender a fortaleza de Santo
amaro, e juntamente a Barra. Como
pede o sítio e a segurança deste Porto, e
se eu achar cabedal para me alargar
mais, farei tal ou qual fortificação
defronte da Bateria da Bertioga; aonde
me parece que era mais precisa. Também
faço intenção de levantar uma bateria
na Barra de S. Vicente, por me dizerem
que a tinham entupido em outro tempo,
(...) eu a fui ver e achei que já podem
entrar por ela muito bem embarcações
mais pequenas.”13
D. Luís Antonio de S. Botelho
Mourão construiu o Forte de São
Luiz para servir de contra-bateria à
Fortaleza da Bertioga, mandou edi-
ficar o Fortim do Góes para reforçar
a proteção do Canal da Barra Gran-
de e proteger a Fortaleza de Santo
Amaro, além de reparar as outras
fortificações existentes. A pretendi-
da “bateria na Barra de S. Vicente”
nunca foi iniciada.
Guarita do Forte de Itapema
artilharia devem ter sido acrescen-
tados após o relatório do Mal.
Arouche na virada do século: “A
fortaleza de Itapema se acha com seis
peças, todas desmontadas, porém com
boa artilharia apesar de não ter tido
quem lhe preste o mínimo benefício.
Esta fortaleza, pela situação em que se
acha, tem grande vantagem pelo gran-
de dano que pode fazer aos navios, ape-
sar de lhe apresentar pouco fogo,
porém, como o canal é muito próximo a
fortaleza, pode esta pelo menos cortar
toda a enxárcia e fazê-lo desarvorar
com planquetas, balas fixas e encadea-
das pelo ângulo que forma o canal ofe-
recem os navios a pôpa ao flanco de
cuja vantagem se podem aproveitar os
da fortaleza, metendo-lhes ao mesmo
tempo grande mortandade. Nessa for-
taleza há lugar para se fazer um telhei-
ro em que se possam recolher quatro
peças, com seus reparos, e o quartel
precisa de grande conserto.”12
Já salientamos a importância da
política pombalina para a proteção
do território brasileiro. Sob o gover-
no do Morgado de Mateus (1765-
1775) a defesa da Capitania foi prio-
rizada, e consolidou-se o sistema de
defesa do Porto de Santos. Um siste-
ma ainda que precário, mas final-
mente um sistema. A primeira visita
à Santos do Capitão-General cau-
sou-lhe uma profunda impressão,
conforme o seu relato ao Conde de
Oeiras datado de 30/07/1765: “Nes-
tas Americas tudo é grande; as provín-
cias, os rios, os montes, as campinas, os
matos, as árvores; excedem extraordina-
riamente as que se costuma ver no
Reino. Sobretudo as baías e enseadas
são amplíssimas e por este motivo difí-
ceis de fortificar; Estas enseadas de San-
tos ainda que não são tão grandes, são
com tudo tão extensas que podem as
naus dar fundo no meio delas sem
nenhum receio de que lhe chegue a arti-
lharia das praias; somente aonde estrei-
ta mais a ria que se divide em três bocas
é que admite fortificação; a dita ria
dividida nas três diferentes bocas, faz
Forte da Vila desenhado por Landseer
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
197
ArquiteturA MilitAr
196
O relatório de 15/01/1877 do
Duque de Caxias, então Ministro
da Guerra do Império assim des-
crevia a Casa do Trem: “Edifício de
sobrado, de um só andar, construído
de pedra e cal, de sólida construção,
com janelas sobre todas as quatro fren-
tes, tendo o pavimento superior um
vasto salão com 13m96 de comprimen-
to sobre 7m92 de largura, com prate-
leiras e cabides, e mais três salas de
menores dimensões, e no pavimento
térreo três armazéns.” 17
No dia 02/08/1880 foi extinto o
Comando Militar de Santos e em
1891 foi iniciada a demolição dos
quartéis. O Forte da Praça, antigo
Forte de Monserrate foi demolido
para dar lugar às obras de moderni-
zação do Porto pela Companhia
Docas de Santos. O Forte de Itape-
ma passou para o domínio da Alfân-
dega em 1905. Uma torre com holo-
fotes foi instalada no lugar do
demolido edifício do quartel, e o
que restou do sítio passou a abrigar
um posto de fiscalização. As velhas
fortificações já estavam há muito
ultrapassadas. A artilharia raiada
que surgiu em meados do século XIX
exigiaa modernização do sistema
de defesa colonial do Porto. Um
novo Plano de Defesa do Porto de
Santos, já estava em andamento
desde 1896.
Em 1908 com a fundação do
“Tiro Brasileiro de Santos no 11”, o
edifício da Casa do Trem passou a
servir de sede provisória para a
nova corporação, sendo a sua
transferência definitiva ocorrida
em 191018. O Tiro Onze funcionou
até 1945 quando foi extinto. Esse
edifício serviu ainda como depósi-
to para a Infantaria. Tombado em
1937 a Casa do Trem foi entregue
ao iphan em 1965, reparada em
1977 pelo condephaat, e final-
mente restaurada nos anos noven-
ta através de uma parceria entre o
iphan e a Prefeitura de Santos.
Abriga hoje um Centro de Apoio
Social para atendimento da popu-
lação local.
Detalhe da “Planta Topográfica da Vila de
Santos”, mostrando a Casa do Trem, o
edifício dos quartéis e o Forte da Vila. IPHAN
“Planta do Colégio Jesuítico e Quartel
Militar na Vila de Santos no ano de 1801”
AHE
Desenho de Edmund Pink do Forte de Itapema em 1833. IPHAN
A ntes de 1860 o Forte de Ita-pema foi todo reformado. Possuía nessa ocasião “cinco
bocas de fogo, duas de calibre 9 monta-
das em reparo de sítio ou praça ao siste-
ma Onofre, e três de calibre 4 em reparo
de campanha, sendo elas todas de bron-
ze”. O edifício do quartel recém-re-
formado tinha “um dormitório, dois
quartos, uma prisão e uma cozinha”,
segundo o relatório do Alferes Anto-
nio Florindo Roiz de Vasconcelos.15
Curiosamente alguns meses
depois desse citado relatório, as
cinco bocas de fogo de bronze já não
estavam mais no Forte de Itapema.
Esse forte estava servindo apenas
de “casa de pólvora, onde mando reco-
lher o que vem pertencente ao Governo,
não só para essa Província como para as
de Goias e Mato Grosso”, segundo
relatava o General Comandante da
Praça de Santos em 01/01/1861. Os
canhões devem ter sido sido trans-
ladado para o Forte da Vila, nessa
época denominado Forte da Praça
“para corresponder aos cortejos que a
Praça fazem os navios de guerra estran-
geiros”. O relatório de 1861 também
descrevia o “Armazém de Artigos
Bélicos, o qual está em muito bom esta-
do, e tem bastante Armamento que vai
ficando inutilizado, por não ter quem o
limpe e azeite.”16
SÉCULOS XIX E XX
Em 1809 o Cel. João da Costa Ferreira do Real Corpo de Engenheiros
foi designado pelo Governador para substituir todos os reparos de
artilharia das fortalezas de Santos, de modo a "que ele seja feito de
quatro rodas, como é o carretame da marinha, já pela razão de se
achar assim mais facilmente a necessária madeira, já por serem estas
carretas as mais aprovadas, e até mais cômodas para se livrarem das
chuvas em um pais como Santos tão sujeito a elas."14
SiStema de Proteção da Vila de SantoS
199
ArquiteturA MilitAr
198
Vista atual do Forte de Itapema
Fotografia do Forte de Monserrate ou da Vila em 1860. (col. Arnaldo Aguiar Barbosa) IPHAN
Casa do Trem em 1962 colado à edifícios
construídos no seu terreno. IPHAN
Forte de Itapema nos anos quarenta com a torre de sinalização construída no lugar do
antigo Quartel. Os parapeitos já haviam sido substituídos por um guardacorpo metálico.
IPHAN
Casa do Trem depois da demolição dos
edifícios vizinhos efetuada pelo IPHAN.
ArquiteturA MilitAr
200
As novAs FortiFicAções
dA entrAdA
dA BArrA de sAntos
Victor Hugo Mori
Notas
1 Carta do Conde de Atouguia de 05/10/1654 ao Provedor da Fazenda da Capitania de São Vicente, in
“Annaes do Museu Paulista”, Documentação Brasileira Seiscentista, tomo iii, São Paulo, 1927, p. 253.
2 Carta do Conde de Atouguia de 27/04/1655 ao Capitão-mor de São Vicente, in “Annaes do Museu
Paulista”, Documentação Brasileira Seiscentista, tomo iii, São Paulo, 1927, p. 259.
3 Goulart Reis, Nestor. “Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial”. Edusp, São Paulo, 2000, p. 371.
4 Idem. ibidem., p.193.
5 Provisão régia de 04/02/1714. “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”,
Volume xlix, Archivo do Estado de S. Paulo, pp. 126-127.
6 “Fica também fazendo as minhas custas quatro quartéis para a Infantaria desta praça,e sem dispendio
da Fazenda de V. Mag.” – Petição de João de Crasto ao Rei, para fortificar a Barra de Santos e construir quar-
téis. Arquivo Histórico Ultramarino - catálogo do iv Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros.
7 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”. Volume xxiv, Archivo do Estado
de S. Paulo, p. 131.
8 Cópia da Provisão real de 15/02/1736 – arquivo iphan-sp.
9 Provisão de 27/09/1738 – cópia Arquivo iphan-sp.
10 Cópia do Alvará de 27/09/1738 no Arquivo do iphan.
11 Provisão de 27/09/1738 – cópia Arquivo iphan-sp.
12 “Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”. Volume xliv, Archivo do Esta-
do de S. Paulo, p. 305.
13 “Mapas e Planos Manuscritos relativos ao Brasil Colonial (1500-1822)”. Ministério das Relações Exte-
riores, Brasília, 1960, pp.484-485.
14 “Doc. Interessantes para a História e Costumes de São Paulo”, Vol. lviii, pp. 129-130.
15 “Relactorio do forte da Praça de Santos” de 16/10/1860, Arquivo Histórico do Exército, cópia iphan-sp.
16 “Relactório de 01/01/1861 do Comandante da Praça de Santos General. Com. Mar. José Olinto de
Carvalho e Silva”, Arquivo Histórico do Exército.
17 Arquivo Histórico do Exército, apud. Muniz Jr., “Fortes e Fortificações do Litoral Santista”, Edição
particular do autor. Santos, 1982, p. 63.
18 Muniz Jr.. “Fortes e Fortificações do Litoral Santista”. Edição particular do autor. Santos, 1982, pp. 63-64.
As NovAs FortiFicAções dA eNtrAdA dA BAíA de sANtos
203
A proibição do tráfico negrei-ro em 1850 abriu o caminho para a importação de mão
de obra assalariada européia. A
implantação da ferrovia São Paulo
Railway interligando Santos à Jun-
diaí deu impulso à produção do
café, abriu o mercado brasileiro às
novidades do mundo europeu e
criou as bases para a industrializa-
ção paulista. Até mesmo os estilos
artísticos do ecletismo europeu
aportaram em Santos e espalha-
ram-se pelo Estado através das
linhas férreas. As vilas coloniais do
planalto edificadas em taipa de
pilão e as do litoral em pedra e cal,
foram reconstruídas em tijolos em
conformidade ao novo gosto inter-
nacional.
A Guerra do Paraguai (1864-1870)
fortaleceu as instituições militares,
criou novas lideranças nascidas fora
da aristocracia senhorial fomentan-
do a modernização do sistema de
defesa nacional. A Proclamação da
República marcou a ascensão desta
casta militar oriunda da Guerra do
Paraguai, sob o comando do Mal.
Deodoro da Fonseca e Floriano
Peixoto. Divergências entre essas
duas lideranças militares na última
década do século XIX, contribuíram
para a ocorrência de inúmeros dis-
FORTALEZA DE ITAIPU
E FORTE DOS ANDRADAS
A segunda metade do século XIX foi marcado por profundas
transformações nas áreas científica, militar, política, social, cultural
e econômica. Sob o reinado de D. Pedro II as estruturas herdadas
do período colonial exigiam modernizações.
Forte Duque de Caxias, em Itaipu
As NovAs FortiFicAções dA eNtrAdA dA BAíA de sANtos
205
ArquiteturA MilitAr
204
“Projecto Defeza do Porto de Santos” organizado pelo Capitão Erico A. de Oliveira IPHAN
zado lançando as bases para a sua
transformação no maior porto da
América do Sul. Assim, em 1896 ini-
ciava-se o Projeto de Defesa do
Porto de Santos que iria substituir o
já ultrapassado sistema de fortifi-
cações herdado dos séculos anterio-
res. A moderna artilharia de alma
raiada com alcance e precisão de até
10 km exigia um novo sistema de
proteção em substituição ao modelo
concebido no período colonial.
O projeto inicial terminado em 1898,
criava duas linhas de defesa. A pri-
meira protegeria a entrada da Baía
de Santos de modo a evitar o blo-
queio marítimo e a segunda linha
ou barreira defenderia a barra de
acesso ao Porto.
A primeira linha defensiva seria
composta de 3 fortificações na entra-
da da baía:uma à oeste na Ponta do
Itaipu, outra à leste na Ilha das Pal-
mas, e ao centro um Forte marítimo,
contando ainda com um ponto de
vigia no alto do Morro de Icanhema.
túrbios internos, como o Levante
das fortalezas da Laje e Santa Cruz e
a Revolução Federalista.
A Revolta da Armada em 1895
demonstrou a ineficácia das antigas
fortificações coloniais diante dos
novos engenhos de guerra. Quando
o cruzador "República" esteve em
Santos armado com canhões raia-
dos de 152,4 mm os velhos baluar-
tes pouco puderam fazer.
A fotografia do Forte da Laje no
Rio de Janeiro logo após os bombar-
deios da esquadra rebelde na Revol-
ta da Armada, na opinião do histo-
riador Adler Homero F. de Castro,
retrata bem esse período: "mostra
como o material obsoleto, no caso, os
canhões fotografados são ainda do sécu-
lo xviii", ainda permaneciam em uso
nessas fortificações costeiras; a cor-
tina despedaçada e reforçada com
sacos de areia "mostra o efeito das
granadas explosivas contra as velhas
muralhas de pedra, assinalando a
"morte" dos fortes de cantaria".
O Porto de Santos sob o controle
da Companhia Docas foi moderni-
Estação Ferroviária de Santos no início do século XX
Forte da Laje foto de Juan Gutierrez, c. 1895m da coleção Adler Homero F. de Castro
As NovAs FortiFicAções dA eNtrAdA dA BAíA de sANtos
207
ArquiteturA MilitAr
206
Vista aérea do Forte Duque de Caxias em Itaipu (acima)
Planta do subterrâneo do Forte Duque de Caxias VHM
A segunda linha seria composta de
uma "bateria torpêdica submarina" em
substituição à Fortaleza de Santo
Amaro, outra bateria de canhões
onde existia o Forte Augusto na Ilha
de Santos, e a última, na junção do
Canal da Barra Grande com o Rio de
Santo Amaro na Ilha de Guarujá.
O projeto organizado pelo Capi-
tão do Estado Maior Erico Augusto
de Oliveira foi apresentado ao
Ministério da Guerra em
01/12/1897 acompanhado de 15
plantas. Era uma proposta cara e
sofisticada, como podemos obser-
var do projeto da nova bateria que
substituiria a Fortaleza de Santo
Amaro: "O que propomos, terá mais
ou menos a forma retangular e será
completamente fechado. A sua fren-
te,(...) anexamos uma bateria torpêdica
submarina. Na parte correspondente ao
primeiro terrapleno colocamos o paiol,
corpo de guarda, (...) e depósito de
munições das cúpulas aí instalados.
Um corredor geral põe em comunicação
esses diversos compartimentos e um
outro conduz às galerias submarinas da
bateria.(...) Os alojamentos, o local do
farol (em plano superior) e todas as
dependências necessárias ao serviço do
forte são à prova de bomba.(...) No flan-
co direito e junto a entrada colocamos a
cúpula para um canhão de tiro rápido
de 57 mm (...). A bateria torpêdica (...)
é armada por 3 tubos lança-torpedos
móveis em um setor circular de 60˚ que
dará um campo de tiro de 120˚ (...) As
frentes de saídas dos tubos são protegi-
das por couraças e munida de disposi-
ções que impedem a entrada d´agua".1
A Ponta do Itaipu foi considera-
da estratégica e prioritária nesse
projeto, pois essa localização per-
mitia a proteção geral da entrada
da baía de Santos. As obras inicia-
ram-se antes mesmo da conclusão
das desapropriações, sob a coorde-
nação do engenheiro militar
Augusto Ximeno Villeroy. Das obra
Planta do forte subterrâneo General Rego Barros, em Itaipu VHM
As NovAs FortiFicAções dA eNtrAdA dA BAíA de sANtos
209
ArquiteturA MilitAr
208
der-Canet de 150 mm, com o terra-
pleno voltado para o interior da
baía e dependências de apoio sub-
terrânea.
e) Forte General Rego Barros, inicia-
do durante a Segunda Guerra, total-
mente subterrâneo (proteção aérea)
com a planta em forma de "U" que
define os dois acessos. Seria equipa-
do com canhões americanos de 280
mm, porém nunca foi concluído.
Somente em 1912 o Governo efe-
tivou a desapropriação dessa área
composto pelos sítios de Itaipus, da
Prainha, do Suá e o de Itaquitandu-
va. Após a execução dos acessos e
viadutos, em 1904 iniciaram os ali-
cerces do Forte Duque de Caxias.
Em 1910 a bateria da vertente oeste
já estava concluída faltando apenas
a execução do quartel. O Forte
Duque de Caxias foi terminado em
1917 e no ano seguinte foi inaugura-
do o seu aquartelamento.
A obra mais difícil executada
nessa primeira fase foi a construção
do viaduto que recebeu o nome de
Marechal Deodoro. Tem um com-
primento de 144 metros sustentado
por arcadas de concreto, com o vão
central de 26 metros em arco elípti-
co, que segundo Annibal Amorim
em 1921, era o "seu arco central o de
maior vão que existe no país"3.
O Forte da Ponta do Jurubatuba
foi concluído em 1920, armado com
dois canhões Schneider-Canet. Edi-
ficado em concreto, seu projeto pro-
curava dissimular o volume arqui-
tetônico na paisagem acidentada da
estratégica entrada da baía de San-
tos. Os canhões franceses de Itaipu
foram comprados em 1903, e eram
de tiro rápido C/50 modelo 1902,
pesando cerca de 30 toneladas com
cadência de até 5 tiros por minuto e
alcance de até 10.000 metros. Foram
substituídos em 1942 pelos canhões
Vickers-Armstrong de 152,4 mm,
comprados dos Estados Unidos,
modelo de 1917 pesando cerca de 11
toneladas, com alcance de tiro de
até 18.000 metros e cadência de até 3
tiros por minuto.
As primeiras construções de
apoio, como os edifícios de aquarte-
lamento, depósitos, portões, etc.,
receberam ornamentações retiradas
do repertório medieval, como tor-
reões, ameias e ornatos românicos.
Forte do Jurubatuba antes do bombardeio de 1932, que destruiu o edifício que aparece na
frente da bateria
de defesa previstas no plano de
1897 apenas foi levado à cabo o da
Fortaleza de Itaipu, provavelmente
devido à falta de recursos diante de
um projeto tão ambicioso. Em
29/09/1907 o Tenente Cel. Villeroy
escrevia à Diretoria de Engenharia
sobre a proposta de adquirir o Sítio
Icanhema de 132 hectares, cujas
divisas partiam da antiga Fortaleza
da Barra Grande, com o objetivo se
construir nesse sítio a "estrada para
a Ponta Grossa" e cortar as madeiras
de lei que seriam necessárias "quan-
do tivermos de construir a bateria de
torpedos no canal“ 2. As dificuldades
eram de toda ordem.
Abandonado a proposta do "siste-
ma das duas linhas defensivas", Ville-
roy pragmaticamente procurou
transformar o que seria uma simples
bateria em Itaipu, num sistema de
defesa concentrado num mesmo
sítio. Podemos portanto definir a
Fortaleza de Itaipu como um sistema
complexo composto de múltiplas e
variadas baterias de artilharia:
a) Forte Duque de Caxias equipado
com 4 canhões Schneider-Canet de
150 mm de tiro tenso com o terra-
pleno voltado para o mar aberto
(contra o bloqueio marítimo), e as
dependências de apoio protegidas
no subterrâneo;
b) Bateria de obuseiros no alto do
morro que seria artilhado com obu-
ses alemães de trajetória curva con-
tra embarcações que adentrassem a
baía; essa obra foi paralisada e aban-
donada em 1911;
c) Bateria Gomes Carneiro armado
com canhões Krupp de 75 mm, para
a proteção terrestre da Fortaleza pelo
lado da vertente da Praia Grande;
d) Forte da Ponta de Jurubatuba
armado com dois canhões Schnei-
Vista da Ponta do Jurubatuba com a respectiva bateria
As NovAs FortiFicAções dA eNtrAdA dA BAíA de sANtos
211
ArquiteturA MilitAr
210
O Forte dos Andradas foi projeta-
do pelo Tenente Cel. de Engenharia
João Luiz Monteiro de Barros em
1934. A construção começou em
1938, e somente foi concluída em
1942. A fortificação é subterrânea
para a proteção da aviação e dos
canhões de carga explosiva. Possui
planta em forma de "T", e foi arma-
da com quatro obuseiros de costa de
280 mm equipados com escudo de
blindagem, camuflados na mata do
tipo "bateria mascarada". Segundo
Adler H. F. de Castro, os obuseiros
Vista das instalações subterrâneas do Forte dos Andradas
Desenho do canhão
obus 280mm
Os aquartelamentos de Guerra
encontram-se próximos às baterias,
e na planície voltada para a Praia
Grande localiza-se o Quartelde Paz.
Antes da II Guerra Mundial objeti-
vando reforçar a defesa do Porto de
Santos foram projetadas duas novas
fortificações: a bateria subterrânea
denominada General Rego Barros
em Itaipu, e outra na Ilha do Guaru-
já fazendo contraponto à Itaipú, o
Forte dos Andradas na Ponta do
Monduba. Enfim, completava-se a
tão sonhada "primeira linha de defesa"
imaginada no final do século XIX,
substituindo-se a bateria da Ilha das
Palmas e o Forte marítimo, pelo
Forte do Monduba (Andradas).
O Forte General Rego Barros de
Itaipú nunca chegou a ser armado e
o dos Andradas foi concluído em
1942 equipado com quatro obuseiro
Krupp de 280 mm. Foram esses os
últimos fortes construídos no Brasil
já incorporando o partido subterrâ-
neo da "cortina invisível".
Ponta do Monduba com o obuseiro 280 mm voltado para a Baía de Santos
Vista da Ponta do Monduba que abriga o Forte subterrâneo dos Andradas com as
respectivas “baterias mascaradas” de obuseiros. Na praia avistam-se as instalações do
Quartel de Paz.
ArquiteturA MilitAr
212
Victor Hugo Mori
As FortiFicAções
desApArecidAs do
cAnAl de são seBAstião
Krupp modelo 1912, foram enco-
mendados por Hermes da Fonseca
para o Forte do Campinho no Rio de
Janeiro, cujas obras nunca se concluí-
ram, "ficando em depósito até a década
de 30, quando foram usados para as defe-
sas de Santos". Esse canhão de tiro
curvo pesava cerca de 10 toneladas,
disparando um projétil de 345 kg
que alcançava a distância horizontal
de 9.000 metros.
O Forte dos Andradas possuía dois
edifícios de aquartelamento, um na
elevação do morro (Quartel de Guer-
ra) e o outro na praia do Monduba
(Quartel de Paz). Recentemente foi
construído um novo aquartelamento
inaugurado em 1997.
O aperfeiçoamento dos aviões
bombardeiros na Segunda Guerra, o
fracasso da Linha Maginot na França
em 1940 (o maior sistema subterrâ-
neo fortificado), a invenção alemã
dos foguetes v1 e v2, etc., tornaram
inviável a conclusão do Forte
General Rego Barros em Itaipú.
Iniciava-se a "era dos mísseis" na his-
tória da artilharia. As fortalezas fixas
de costa foram paulatinamente desa-
tivadas, sendo substituídas pelas
modernas baterias móveis, constituí-
das pelos lançadores de foguetes
Astros-II. O sistema móvel foi
implantado na defesa do Porto de
Santos em 1999, constituindo-se na
terceira geração de material de arti-
lharia da Fortaleza de Itaipu.
O Astros-ii é um "Sistema de Arti-
lharia para Saturação de Área" e pode
lançar quatro tipos de foguetes com
alcance variando entre 10 e 98km.
É composto pelas seguintes unida-
des móveis: controladora de fogo,
lançadora múltipla de foguetes,
viatura remuniciadora e viatura
meteorológica, que podem se deslo-
car em qualquer tipo de terreno,
inclusive serem transportados atra-
vés de aeronaves. É a "cortina de
defesa virtual".
A arquitetura militar perdeu
assim uma de suas funções que
vinha desde a antiguidade. Foi o
último capítulo da história das forti-
ficações de costa no Brasil.
notas:
1 "Forte que substituirá o atual da Barra Grande – Planta n∞ 9" do memorial do Capitão Erico
Augusto de Oliveira de 01/12/1897. Arquivo Histórico do Exército, cópia iphan-sp.
2 Ofício da "Comissão de Defesa de Santos" n∞ 125, datado de 29/09/1907 e assinado pelo
Ten. Cel. Augusto Villeroy, encaminhado ao Gal. Modestino Augusto de Assis Martins, Diretor de
Engenharia. Arquivo Histórico do Exército, cópia iphan-sp.
3 Amorim, Major Annibal. "História das fortificações do Brasil". Transcrito no Boletim do
Estado-maior do Exército, nº 4, ano xi, Outubro a Dezembro de 1921, Vol. xx, pp.417-427.
Vista das instalações subterrâneas do
Forte General Rego Barros que ficou
inacabado
As FortiFicAções DesApAreciDAs De são sebAstião
215
ArquiteturA MilitAr
214
A s atividades rurais estavam dispersas em engenhos ou fazendas auto-suficientes
ao longo da costa, assim, o Canal de
São Sebastião, situado no limite das
capitanias de São Vicente e Santo
Amaro, foi desconsiderado pela
política de defesa militar até o final
do século xviii.
A economia da região ganhou
impulso em meados do século xviii
com o Contrato de Baleias (monopó-
A PROTEÇÃO DO PORTO DE SÃO SEBASTIÃO
Após a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro e a pacificação
dos tamoios, o litoral norte do Estado começou a ser ocupado
por sesmeiros. A produção-de-cana de açúcar transplantada
de São Vicente fomentou a criação das povoações de São Sebastião
e Ubatuba na primeira metade do século XVII.
“Villa de S. Sebastião”, em 1815, de João da C. Ferreira – Soc. de Geografia de Lisboa
Postal da Ilha Bela de 1910.
A Vila Bela da Princesa, foi criada por Provisão Real de 24/11/1807, assinada pelo Príncipe
Regente D. João. A denominação da vila, foi dada pelo governador Antônio José da Franca
e Horta.
As FortiFicAções DesApAreciDAs De são sebAstião
217
ArquiteturA MilitAr
216
truiu um sistema de defesa ao longo
do canal com pequenas fortificações.
Todas as baterias eram de faxina
(madeira e terra), com planta semi-
circular semelhantes aos ultrapassa-
dos redutos de Monserrate, de Ita-
pema e do Goes no Porto de Santos.
A entrada norte do canal era pro-
tegida na parte continental pela
Bateria da Sapituba (dois canhões
calibre 12) e pelo Forte de Santa
Cruz (duas peças calibre 12 e uma
calibre 24) situado ao sul em uma
elevação próxima. No lado da Ilha
de São Sebastião, cruzando fogo
com essas duas baterias, localizava-
se o Forte do Rabo Azedo (três
peças calibre 12) ao norte da Vila
Bela, que, em 1826, lançou fogo con-
tra a corveta argentina Sarandy
comandada pelo Almirante Gui-
lherme Brown.
A proteção do porto, no meio do
canal, era assegurada pelo Forte
da Vila de São Sebastião (doze
peças de calibres variados) defron-
te à vila, que cruzava fogo com o
Forte da Vila Bela da Princesa (três
peças de calibre 12 e uma de cali-
bre 9) do outro lado do canal. Os
fogos dos fortes de Santa Cruz e
do Rabo Azedo formavam contra-
baterias complementares aos redu-
tos das vilas.
Planta do Forte do Rabo
Azedo desenhada pelo
ten. cel. Teixeira Cabral
AHE
Planta do Forte da Feiticeira desenhada
pelo ten. cel. Teixeira Cabral AHE
lio real), cuja Armação foi levantada
na Ilha de São Sebastião (Ilha Bela).
Em 1770, iniciaram-se as obras do
Forte da Ponta das Canas em pedra
e cal, no extremo norte da Ilha,
visando à proteção da fábrica de
óleo de baleia. Essa bateria nunca
chegou a ser concluída, provavel-
mente, em função da decadência das
“feitorias meridionais” como as de
São Sebastião e Bertioga. Dessa forti-
ficação, restaram poucos vestígios.
No início do século xix, aumentou
significativamente a produção de
açúcar e aguardente fortalecendo a
economia local. Em 1836, foram
arrolados na região de São Sebastião
dezessete engenhos de açúcar e
vinte alambiques, como o Engenho
Santana no continente e os Enge-
nhos d’Agua e o de São Matias na
Ilha Bela. O desenvolvimento da
produção cafeeira serra acima tam-
bém se refletiu na região. Surgiram
sobrados senhoriais e casas comer-
ciais nas vilas de São Sebastião,
Ubatuba e Bela da Princesa. A prote-
ção ao Porto de São Sebastião pas-
sou a ser então uma prioridade do
governo instalado no Rio de Janeiro.
Em 1820, o major Maximiliano
Augusto Penido projetou e cons-
Planta do Forte da Ponta das Canas desenhada pelo ten. cel. Teixeira Cabral. O Forte foi
projetado durante o governo do Morgado de Mateus. AHE
Reconstituição do Engenho São Matias, pelo arquiteto Antônio Luíz Dias de Andrade
As FortiFicAções DesApAreciDAs De são sebAstião
219
ArquiteturA MilitAr
218
O Sistema de Defesa do Canal de São Sebastião INPE
1) Forte da Ponta das Canas 5) Forte do Araçá
2) Forte do Rabo Azedo 6) Forte da Vila de São Sebastião
3) Forte da Vila Bela da Princesa 7) Forte de Santa Cruz
4) Forte da Feiticeira 8) Forte da Sapituba
1
2
3
4
8
7
6
5
Armação
de Baleia
Ilha Bela
São Sebastião
Ruínas do Forte da Ponta das Canas e umdos seis canhões que existiam no local do Forte
do Araçá fotografados pelo IPHAN em 1937
A entrada sul do canal era prote-
gida na parte continental pelo Forte
do Araçá (quatro peças calibre 12)
em um morro ao sul da vila (Ponta
do Araçá). Cruzando fogo com essa
bateria pelo lado da Ilha de São
Sebastião, situava-se o Forte da
Feiticeira com o seu quartel (duas
peças calibre 9) em uma elevação
junto a praia.
A chegada da ferrovia a Santos
monopolizou todo o escoamento da
produção agrícola do estado para
esse porto na segunda metade do
século xix. Os engenhos do litoral
norte também entraram em deca-
dência. O Porto de São Sebastião
perdeu sua relativa importância
nesse período. As pequenas fortifica-
ções construídas de terra e estacada
(faxina) não resistiram ao abandono.
Os desenhos do Tenente Coronel Tei-
xeira Cabral, do Imperial Corpo de
Engenheiros Militares (Arquivo His-
tórico do Exército), aqui reproduzi-
dos, demonstram a simplicidade e a
precariedade dessas construções.
Nada restou das únicas fortificações
projetadas e construídas no século
XIX em São Paulo.
Planta do Forte da Vila Bela da
Princesa desenhada pelo ten. cel. Teixeira
Cabral (esq.) AHE
O “Cartão Postal Colombo“, de 1950 da Ilha
Bela, sugere que a contrução do antigo pier
de atracação aproveitou o embasamento
do forte de Vila Bela da Princesa. (abaixo)
linhA do teMpo
pAnorAMA histórico
são pAulo/ BrAsil/ gerAl
Victor Hugo Mori
linhA do teMpo
pAnorAMA histórico
são pAulo/ BrAsil/ gerAl
1500 1510 1515 1520
Linha do Tempo
1480–1820
1490 1495
B
ra
si
l /
P
o
rt
u
g
al
Sã
o
P
au
lo
G
er
al
Logo após o Descobrimento do Brasil, começou a
ser explorado a madeira nobre: o pau-brasil.
João Ramalho, um dos
primeiros povoadores da
Capitania de São
Vicente.
1510 – Início do
império português na
Ásia, com a conquista
de Goa por Afonso
Albuquerque.
1512 – Michelangelo
termina os afrescos
do teto da Capela
Sistina. Diogo de
Arruda inicia a
construção das
fortalezas de Safim,
Azamor e Mazagão
no Marrocos.
1514/1519 – Torre de
Belém, construída por
Francisco Arruda em
estilo Manuelino,
assinala a transição
das torres medievais
para o sistema de
baluarte.
1516 – João de Castilho
projeta o portal do
Mosteiro dos Jerônimos
em Lisboa, em estilo
manuelino.
1520 – Copérnico
termina a obra
“Commentariolus”.
1521 – Assume o trono
português D. João III,
“o Piedoso”.
1519 – Conquista do
México por Hernan
Cortés.
1526 – Giulio Romano
inicia a construção do
Palácio Té em Mântua.
1519 – Fernão de
Magalhães inicia a
circunavegação do globo.
Em 1520 descobre o
“Estreito” que interliga o
Atlântico ao Pacífico.
1500 – Chega ao Brasil
a expedição de Pedro
Álvares Cabral.
1503 – De 1503 à 1505
Leonardo da Vinci pinta
a Mona Lisa.
1504 – Publicado o
“Novo Mundo” de
Américo Vespúcio.
Habitantes do Brasil antes do Descobrimento.
1492 – Cristóvão
Colombo descobre a
América. Queda de
Granada.
1494 – Tratado de
Tordesilhas divide
o Novo Mundo entre
Portugal e Espanha.
1480 – Construção da
Vila Medicea de Poggio
a Caiano, próximo a
Florença.
1495 –
Assume o
trono
português
D. Manuel I,
“o Venturoso”.
1498 – Vasco da Gama
descobre o caminho
marítimo para as Índias,
chegando a Calcutá.
1496 – Os judeus são
expulsos de Portugal ou
convertidos
compulsoriamente.
1495 – D. João II (1455-
1495)
1560 158015701530 1535 1540
1531 – Início da
Inquisição em Portugal.
1532 – Pizarro destrói
o Império Inca e
conquista o Peru.
Publicado, em
Florença, “O Príncipe”
de Machiavel.
1534 – Instalado o
Regime das Capitania
Hereditárias no Brasil.
B
ra
si
l /
P
o
rt
u
g
al
Sã
o
P
au
lo
G
er
al
1554 – Fundação do
Colégio Jesuítico São
Paulo de Piratininga.
1557 – D. Sebastião
assume o trono em
Portugal.
1568 – Vignola projeta
a Igreja de Gesù em
Roma, protótipo de
inúmeras igrejas em
Portugal e no Brasil.
1567– Expulsão
dos franceses
do Rio de Janeiro.
1563 – Felipe II inicia as
obras do Escorial.
1570 – Publicado,
em Veneza,
“I Quattro libri
dell’Architetura”
de Andrea Palladio.
1572 – Publicação, em
Portugal, de “Os
Lusíadas”, poema épico
de Luis Vaz de Camões.
1578 – Morte de D.
Sebastião, derrotado na
batalha de Alcácer-Quibir
no Marrocos. Assume o
trono português
D. Henrique.
1580 – Início da
construção da Igreja
Nossa Senhora da
Graça em Olinda pelo
jesuíta Francisco Dias.
1587 – Baptista
Antonelli projeta a
Fortaleza de San Felipe
del Morro em San Juan
de Porto Rico.
1588 – Derrota da
“Invencível Armada”
de Felipe II, destruída
na tentativa de invasão
à Inglaterra.
1580 – Por falta de
descendente direto de
D. Henrique, Felipe II da
Espanha é coroado rei de
Portugal como Felipe I,
estendendo o domínio
espanhol em Portugal e
suas colônias
até 1640.
1553 – Visita do
Governador Thomé de
Souza à Bertioga para
dar início às obras da
fortaleza e da vila. Hans
Staden é designado
responsável do forte na
Ilha de Santo Amaro.
1570 – Época
provável da
construção do Forte
Vera Cruz de
Itapema.
1583 – O arquiteto italiano
Baptista Antonelli,
integrante da frota
espanhola comandada por
Diogo Florez Valdez,
projeta e constrói a
Fortaleza da Barra Grande.
1585 – Descrição do Forte
da Bertioga pelo Pe.
Fernão Cardim: “ a
fortaleza é cousa formosa,
parece-se ao longe com a
de Belém e tem outra
mais pequena defronte”.
1557 – O Capitão-mor
Jorge Ferreira reedificou o
Forte de São Felipe do
lado de Santo Amaro em
janeiro e fevereiro de
1557. “Milagre da
baleia” atribuído a
Anchieta defronte à
Fortaleza da Bertioga na
véspera do padroeiro
Santiago.
1560 – “Carta Regia de
D. Sebastião” de 18 de
março de 1560 a Mem de
Sá, providenciando sobre o
acabamento e
aprovisionamento da
Fortaleza da Bertioga.
1536 – Morte do
dramaturgo português
Gil Vicente.
1537 – Fundação de
Olinda por Duarte
Coelho.
1536 – Dissolução
dos mosteiros na
Inglaterra por
Henrique VIII.
1537 – Sérlio publica
“De Arquitectura”.
1540 – Inácio de
Loyola funda a
Ordem dos Jesuítas
em Roma: a Companhia
de Jesus.
1541 – Projetos de defesa
para Ceuta e Mazagão, do
arquiteto Benedetto de
Ravenna (1485-1556),
“marcam a plena introdução
do sistema abaluartado em
Portugal”.
1545 – Inicia-se o Concílio
de Trento.
1546 – Fortaleza de São
Sebastião em Moçambique.
1549 – Chegada do
primeiro Governador-
Geral do Brasil,
Thomé de Sousa,
acompanhado
pelo jesuíta
Manuel da Nóbrega.
1550 – Palladio projeta a
Vila Rotonda e Giorgio
Vasari escreve o livro
“Vida dos Artistas”.
Nossa
Senhora da
Conceição da
Vila de São
Vicente –
imagem de
meados do
século XVI
1536 – Brás Cubas
inicia a povoação de
Santos. 1532 – Fundação da
Vila de São Vicente por
Martim Afonso marca
o início da colonização
do Brasil.
1532 – Chegada de
Martim Afonso de
Souza à Barra de
Bertioga, onde edificou
um forte provisório,
“em uma praia estreita
no lugar onde existe a
Armação de Baleias”.
1551 – “Alvará Regio de
D. João III” determinando
a construção de uma
fortaleza na Bertioga,
com rendas da coroa
(1.800 cruzados)
“conforme a traça que
de cá vay”. Destruição
da paliçada fortificada na
Bertioga pelos Tamoyos.
1550
1660 1680 172017001590 1600 1620 1640
B
ra
si
l /
P
o
rt
u
g
al
Sã
o
P
au
lo
G
er
al
1667 – Borromini
concluí a fachada da
Igreja de San Carlo alle
Quattro Fontane em
Roma, arquétipo das
plantas curvilíneas.
Bernini concluí as
colunatas da Praça de
São Pedro no Vaticano.
1667 – Afonso VI é
deposto por seu
irmão Pedro, que se
casa com a esposa
francesa de Afonso e
torna-se Regente.
1668 – Luís XIV, “o Rei
Sol” inicia as obras do
Palácio de Versalhes.
1694 – Andrea Pozzo
conclui o afresco
ilusionista do teto da
Igreja de Sant'Ignazio
em Roma. Obra que vai
influênciar a pintura
religiosa brasileira.
1680 – Impresso em
Lisboa o livro de LuísSerrão Pimentel
“Método Lusitânico de
Desenhar as
Fortificações das
Praças Regulares e
Irregulares”.
1681 – Construção da
Capela de Santo
Antônio
em São Roque.
1683 – Assume o trono
de Portugal D. Pedro II,
que era Regente desde
1668.
1695 – O paulista
Domingos Jorge Velho
elimina o Quilombo de
Zumbi dos Palmares.
1698 – Descoberta de
ouro em Minas Gerais.
O bandeirante Antônio
Dias, partindo de
Taubaté, descobre as
margens auríferas de
Tripuí, atual Ouro Preto.
1700 – Com a morte
de Carlos II de Espanha,
termina a dinastia
Habsburgo, assumindo
Felipe V, o primeiro
da dinastia Bourbon.
1704/1706 – Publicação
dos Tratados Militares
de Sébastien le Prestre
de Vauban.
1720 – O engenheiro
militar José Cardoso
Ramalho projeta a
Igreja de Nossa
Senhora da Glória no
Rio de Janeiro, com
planta poligonal.
1701 – Início da
construção do Convento
de Santo Antônio em
João Pessoa.
1706 – Inicia-se o
reinado de D. João V,
que vai até 1750,
deslumbrado com a
prosperidade do ouro e
diamante brasileiros,
inicia o “período de
extravagância” que
quase leva o país à
bancarrota.
1708 – Guerra dos
Emboabas: os paulistas
descobridores do ouro
de Minas são desalojados
das áreas de mineração.
1714 – O brigadeiro João
Massé projeta a
fortificação do porto de
Santos e executa a
reestruturação da
Fortaleza da Barra
Grande.
1738 – Conclusão da
Casa do Trem Bélico,
em Santos, pelo
Brigadeiro Silva Paes.
1732 – Luis XV implanta
o “Sistema Vallière” na
Artilharia Francesa.
1723 – Início da
construção da escadaria
barrôca de Bom Jesus
de Braga.
1730 – Consagração da
basílica do Mosteiro de
Mafra.
1737 – Iniciadas as obras
da Igreja de São Miguel
das Missões no
vR. Grande do Sul.
1605 – Publicação de
Dom Quixote na
Espanha.
1604 – Iniciada a
construção da Catedral
de Salvador, projetada
pelo jesuíta Francisco Dias.
Obra com influência da
Igreja de Gesú de Roma,
por sua vez, projetada por
Vignola.
1616 – Morte do maior
poeta e dramaturgo inglês,
William Shakespeare.
Na Espanha, morre Miguel
de Cervantes autor de
Dom Quixote.
1614 – O Engenheiro
Militar Francisco Frias de
Mesquita reedifica a
Fortaleza dos Reis Magos
de Natal.
1615 – Fundação do
Mosteiro de São Bento
em Santos.
1604 – Em Santos o
engenheiro militar Baccio
de Fillicaya projeta o
Forte da Vila.
1615 – Expulsão dos
Franceses do Maranhão.
1632 – Rembrandt pinta
Lição de Anatomia.
1622 – A construção da
Capela de São Miguel em
1622, a da Residência
Jesuítica do Embu e a
Capela de Santo Antônio
do bandeirante Fernão
Paes de Barros em São
Roque marcam a
arquitetura seiscentista
em São Paulo.
1633 – Julgamento do
astrônomo Galileu Galilei,
forçado a negar que a
Terra girava em torno do
Sol.
1622 – Frias de Mesquita
projeta o Forte do Mar
ou de São Marcelo em
Salvador segundo
orientação de Tibúrcio
Spanochi.
1630 – Invasão
Holandesa: até 1654
grande parte do
nordeste brasileiro, de
Sergipe ao Maranhão
ficou sob o domínio da
Companhia das Índias
Ocidentais.
1640 – Restauração
do trono Português
com a aclamação do
Duque de Bragança,
que assumiu com o
nome de D. João IV.
A Guerra da
Independência contra
a Espanha estendeu-
se até 1668.
1654 – Expulsão dos
holandeses de
Pernambuco.
1656 – D. Afonso VI,
sob a regência da
mãe, D. Luísa de
Guzmão, sucede D.
João IV.
1650 – Casa do
Bandeirante Paes
de Barros.
1593 – Término das
obras da cúpula de
Michelangelo na
basílica de São Pedro
no Vaticano.
1590 – Vila de
Artimino
em Florença
1594 – Felipe I cria
a “Aula do Risco”
no Paço da Ribeira.
1591 – O corsário
inglês Thomas
Cavendish invade a
Capitania. A Vila de
São Vicente é
incendiada.
18101780 1815 182017501740 1760 1770
B
ra
si
l /
P
o
rt
u
g
al
Sã
o
P
au
lo
G
er
al
1793 – Goya imprime
as gravuras “Os
Caprichos”.
1789 – Inconfidência
Mineira.
1789 – Queda da
Bastilha.
1792 – Execução de
Tiradentes.
1804 – Napoleão
Bonaparte é coroado
Imperador da França.
1805 – O Aleijadinho
termina o adro dos
profetas em
Congonhas do Campo.
1807 – Tropas de
Napoleão Bonaparte
invadem Portugal.
1808 – Fugindo de
Napoleão, a família
real portuguesa instala
a corte no Rio de
Janeiro.
1810 – Abertura das
Fábricas Krupp em
Essen na Alemanha.
1815 – Derrota final de
Napoleão em Waterloo.
1816 – Regente desde
1792, assume D. João
VI como rei de
Portugal até 1826.
Chegada da Missão
Artística Francesa ao
Rio de Janeiro,
chefiada por Lebreton.
É o início do
neoclassicismo na arte
brasileira.
1817 – O engenheiro
Rufino Felizardo da
Costa modifica o
quartel do Forte São
João da Bertioga.
1818 – Savannah é o
primeiro navio a vapor
a atravessar o
Atlântico.
1821 – Retorno
da Corte à Portugal.
D. Pedro é nomeado
Príncipe Regente no
Brasil. A Província
Cisplatina (Uruguai)
é anexada ao
território
luso-brasileiro.
1822 – Retornando de
Santos D. Pedro
proclama a
Independência do
Brasil, assumindo o
trono brasileiro.
1820 – Abolição da
Inquisição espanhola.
1821 – Peru e México
proclamam a
independência.
1824 – Beethoven
apresenta a “Nona
Sinfonia”.
1822 – D. Pedro I é
proclamado
Imperador do Brasil.
É o fim do período
colonial.
1792 – Conclusão
da Calçada do
Lorena.
Padre Jesuíno do
Monte Carmelo
pinta o teto da
Igreja do Carmo
em Itu.
1759 – Em Belém o
arquiteto italiano
Antonio Landi projeta
o Palácio dos
Governadores,
considerado o maior
edifício civil do período
colonial brasileiro.
1750 – D. José I
assume o trono de
Portugal até 1777,
tendo como ministro o
Marques de Pombal,
que aplica na reforma
da administração
pública os ideais do
Iluminismo.
1764 – Mozart
escreve sua primeira
sinfonia.
1766 – Antônio
Francisco Lisboa, o
Aleijadinho, projeta a
Igreja de São Francisco
de Assis em Ouro
Preto.
1766/1775 –
Governador da
Capitania de São
Paulo, D. Luiz Antônio
de Souza Mourão,
o Morgado de
Mateus: construção
do Fortim do Goes
(1767) e do Forte São
Luiz (1770).
1755 – Terremoto de
Lisboa. Começa a
reforma urbanística
Pombalina em Lisboa.
1751 – O Governador
da Praça de Santos, Sá
e Queiroga, reconstrói
as cortinas do Forte da
Bertioga.
1759 – O Marques de
Pombal expulsa os
Jesuítas de Portugal e
suas colônias.
1765 – Implantação
do “Sistema
Gribeauval” na
artilharia francesa.
1767 – Carlos III
expulsa os jesuítas da
Espanha e suas
colônias.
1769 – O escocês
James Watt
patenteou o motor à
vapor.
1773 – O Papa desfaz a
Ordem dos Jesuítas.
1776 – Declaração de
Independência dos
Estados Unidos da
América.
1776 – Principiadas as
obras do Real Forte
Príncipe da Beira no Rio
Guaporé, projetado pelo
genovês Domingos
Sambuceti.
1777 – Assinado o
“Tratado de Santo
Idelfonso”.
1773 – Na Bahia, José
Joaquim da Rocha
executa a pintura do
teto da Igreja de N.
Sra. da Conceição da
Praia, à moda de
Andrea Pozzo.
1740 – O engenheiro
José Fernandes Pinto
Alpoim projeta o
Palácio dos
Governadores em
Ouro Preto. Em 1744
publica, em Lisboa, o
“Exame de Artilheiro”.
1748 – Inaugurado o
monumental
Aqueduto das Águas
Livres em Lisboa.
1742 – Inaugurada a
Capela de Santo
Amaro da Barra
Grande pelo
Governador Joseph
Rodrigues de Oliveira
no lugar da Casa de
Pólvora.
1748 – Publicado
“L’Espirit des Lois”,
de Montesquieu.
231
ArquiteturA MilitAr
230
Desenhos e Iconografias
Alpoim, José Fernandes. "Exame de Artilheiros", Lisboa, 1744.
Barlaeus, Gaspar. "História dos feitos recentes praticados durante oito anos
no Brasil", 1647.
Boutell, Charles. "Arms and Armour in Antiquity and Middle Ages", Lon-
dres, 1868.
Hans Staden. "História Verídica de uma terra de selvagens, nus e cruéis
comedores de ...", Marburgo, 1557.
"Le Brésil: ses richesses naturelles, ses industries". Serviço de Expansão
Econômica do Brasil, Paris, 1909.
LeBlond, Guillaume. "Treatise of Artillery", Londres, 1746.
Serrão Pimentel."Método Lusitano de Desenhar Fortificações das Praças
Regulares e Irregulares", Lisboa, 1680.
Viollet Le Duc. "Dictionnaire raisonné de l´architecture française du XI au
XVI siècle", 1854.
AGI – Arquivo Geral das Índias, Sevilha, Espanha.
AHE – Arquivo Histórico do Exército, Rio de Janeiro, RJ.
AHML – Arquivo Histórico Militar de Lisboa, Lisboa, Portugal.
AHU – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal.
BMMA – Biblioteca Municipal Mário de Andrade, São Paulo, SP.
BN – Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.
CI - Casa da Ínsua, Penalva do Castelo, Portugal.
INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
MI – Mapoteca do Itamaraty, Rio de Janeiro, RJ.
OMB – Osterreichische National Bibliothek, Viena, Áustria.
VHM – Victor Hugo Mori
Fotografias:
André Vieira de Moura (Fortaleza de Itaipu). 202, 207, 208
Alexandre Luiz Rocha e Beatriz Tassinari Brandão. 65
Antonio Luís Sarasá Martin. 27(b), 57, 122, 157, 166 (a, b), 167, 168 (a), 171 (a, b)
Arquivo Fortaleza de Itaipu. 27 (a), 46 (a), 47 (b), 81 (d), 209
Arquivo Forte dos Andradas. 210 (a)
Carlos A. Cerqueira Lemos. 72
Carlos Marques (UniSantos). 56, 144, 151 (b), 160, 165, 167, 168 (b), 170
Clóvis Loureiro Jr. (IPHAN). 173, 174, 175
Eduardo Mello (IPHAN). 9
Eraldo Silva (UniSantos). 164
Germano Graeser (IPHAN). 80 (e), 107, 113 (b), 118 (a), 119 (a, b, c),
149 (a, b), 198 (b, c), 203 (a, b)
Guen Yokoyama. 22
Jayr Favero. 80 (a), 82, 98
José Saia Neto (IPHAN). 198 (d)
Juan Gutierrez (Acervo Adler H. F. Castro). 45, 204.
Lauro M. Candilas. 114
Marise Campos de Souza. 26 (a, b), 46 (b)
Marques Pereira. 180
Victor Hugo Mori. 10, 16, 26 (c), 35, 40, 42, 47 (a), 80 (c, d), 81 (c, e), 92, 95,
102, 109, 113 (a), 118 (b), 133, 136, 137, 147, 151 (a, c, d), 156, 169, 192, 195,
199, 210 (b), 211, 212
crédito dAs iMAgens
233
ArquiteturA MilitAr
232
soBre os colABorAdores
Carlos Alberto Cerqueira Lemos
Arquiteto, professor titular e livre docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP, chefiou o escritório de Oscar Niemeyer nos anos 50 em São Paulo. Foi Dire-
tor e Conselheiro do CONDEPHAAT e representante do IAB no Conselho do IPHAN.
É membro do ICOMOS, do Comitê Brasileiro de História da Arte, e vice-presidente do
CONPRESP. Possui inúmeros trabalhos publicados internacionalmente e livros como:
Cozinhas, etc. (Perspectiva, 1978), Arquitetura Brasileira (Melhoramentos, 1979),
O que é Patrimônio Histórico (Brasiliense, 1985), Dicionário da Arquitetura Brasi-
leira, com Eduardo Corona (EDART, 1972), Alvenaria Burguesa (Nobel, 1985), Casa
Paulista (Edusp, 1999), etc..
Adler Homero Fonseca de Castro
Mestre em História, Pesquisador do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, é Curador de armas portáteis do Museu Militar Conde de Linha-
res e Conselheiro do Museu de Armas Ferreira da Cunha no Rio de Janeiro. Foi res-
ponsável pelos trabalhos com a coleção de armas do Museu Histórico Nacional e
co-autor do Livro "Armas, Ferramentas da Paz e da Guerra" (BIBLIEX, 1990), com
publicações diversas sobre a história militar brasileira. Desenvolve pesquisas ligadas
à questão militar desde 1980.
Victor Hugo Mori
Arquiteto do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em
São Paulo, como tal, tendo participado das obras de restauração das Fortalezas da
Barra Grande, Bertioga e Itaipu. Foi Arquiteto, Diretor e Conselheiro do
CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artís-
tico e Turístico do Estado de São Paulo, Coordenador de Patrimônio Histórico do
IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil – São Paulo, Conselheiro do
CONPRESP (Patrimônio Histórico do Município de São Paulo) e do
CONDEPASA (Patrimônio Histórico do Município de Santos). É membro do ICOMOS
– International Council on Monuments and Sites.
soBre o Autor
Edição revista 2018
A execução deste livro-catálogo somente foi possível com o apoio e a colaboração do Ins-
tituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, da Fundação Cultural Exército Bra-
sileiro, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e, principalmente, dos inúmeros ami-
gos aqui citados e outros que involuntariamente esqueci.
Ao sempre professor Carlos Cerqueira Lemos, que se prontificou a escrever um capítulo
inteiro deste catálogo. Ao Adler Fonseca de Castro, principal orientador na sua área de
especialidade: a história militar. Aos colegas do iphan-sp, Mauro Bondi pelos desenhos
eletrônicos especialmente produzidos, Marise Campos de Souza e Rosemeire Castanha
pela organização dos documentos acumulados durante anos, Cecília Rodrigues dos San-
tos, pelo apoio e permissão do uso do arquivo institucional, José Saia pela cessão das foto-
grafias de sua autoria, Carlos Cerqueira e Jaelson Trindade pelas pesquisas documentais
produzidas. À Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, na pessoa do Sérgio Kobayashi,
pela generosidade na editoração e impressão deste livro. Aos incontáveis amigos da Uni-
versidade Católica de Santos. Ao companheiro Élcio Rogério Secomandi da Fundação
Cultural Exército Brasileiro pela apresentação deste catálogo. Aos comandantes militares
na Baixada Santista Gal. Hamilton Bonat, Cel. Oswaldo Oliva e Ten. Cel. Edison Lefone
por facilitar o acesso aos arquivos do Exército Nacional. Ao Antonio Luís Sarasá, Eraldo
Silva, Jayr Favero, Cláudio Marques, André de Moura e Eduardo Mello pelas belas ima-
gens fotográficas. Aos professores Nestor Goulart, Benedito Lima de Toledo e Júlio
Katinsky pelas aulas informais sobre a arquitetura militar. Ao Prof. Francisco Alves da
Silva pelos livros emprestados. Ao artista gráfico Guen Yokoyama auxiliado pela Danie-
la Nogueira Secondo, que transformou um simples catálogo em um livro de arte. E, por
fim, a minha esposa Alexandrina Mori (Nina) que, corrigiu, opinou, e, até alterou os
roteiros de nossas férias para visitar os indefectíveis castelos e fortificações.
Victor Hugo Mori
Nota à presente edição
Apresentação
Arquitetura Militar:
da “Cortina Vertical”
à “Cortina Virtual”
A “cortina vertical” e a neurobalística
A “cortina Horizontal” e a Pirobalística
Vauban e o sistema de defesa territorial:
“a Cortina Rasante”
A “Cortina invisível”
e a Artilharia Raiada
A “Cortina VIRTUAL” E O FIM DO CAPíTULO
DA HISTóRIA DA ARQUITETURA MILITAR
A Evolução
da Artilharia
Introdução
A artilharia experimental
e o início da colonização do Brasil
O progresso da artilharia lisa
no período colonial
O “Tratado de Artilharia” luso-brasileiro
do engenheiro Alpoim de 1744
A época da artilharia raiada
As Fortificações Coloniais no Brasil
Introdução
A primeira etapa
A segunda etapa
A terceira etapa
A quarta etapa
Mapa das Fortificações da Baixada Santista
A Organização Militar na Capitania de
São Vicente
nos Primeiros Séculos
O Sistema de Ordenanças
Os Engenheiros Militares
As Fortificações do Canal da Bertioga: Fortes de São Tiago
ou São João - São Felipe - São Luiz
SÉculos XVI e xvii
SÉculos XVIII e XIX
SÉCULO XX
As Fortificações
da entrada do Canal
da Barra Grande
Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande e Fortim do Góes
Forte do Crasto ou da Estacada
Séculos XVI e XVII
Séculos XVIII e XIX
“Último relatório do Comando da Fortaleza
da Barra de Santos de 1º/01/1904”
A História do Restauro nas obras
da Fortaleza da Barra Grande
Sistema de Proteção
da Vila de Santos
Forte de Monserrate,
Forte de Itapema,
Casa do Trem Bélico
e o Plano de Defesa
de João Massé
Séculos XVI e XVII
Século XVIII
Séculos XIX E XX
As Novas Fortificações da Entrada
da Barra de Santos
Fortaleza de Itaipu
e Forte dos Andradas
As Fortificações
desaparecidas do
Canal de São Sebastião
A Proteção do porto de são sebastião